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Última atualização: 14/04/2021

Capítulo 1

Setembro de 1960


- Lucius, querido, você precisa tomar mais cuidado com a sua irmã. - Emeline Malfoy disse ao filho que estava com pouco mais de três anos - Não deve assustá-la com caretas, meu bem.
- Mas o papai faz isso comigo! - o garotinho loiro se queixou, cruzando os bracinhos irritado enquanto olhava a mãe tentar acalmar o choro do bebê em seus braços - E eu não fico chorando assim.
- A ainda é muito pequena pra entender as brincadeiras e Abraxas é um irresponsável por ficar te assustando pela casa. - comentou Emeline - Venha comigo!
A mulher arrumou a menininha em seu braço e ofereceu a mão ao filho mais velho, saindo com eles do quarto e os levando para a parte de trás da grande propriedade dos Malfoy. Ela tinha pedido que Abraxas arrumasse um banco de praça para que ela pudesse sentar para observar as bromélias que cuidava com tanto afinco.
Lucius dispensou sua ajuda para subir no banco quando eles chegaram e Emeline se acomodou com em seu colo. A filha tinha pouco mais de seis meses, mas já era esperta. A mulher esperava que a pequena se tornasse uma bruxa esplendorosa, capaz de grandes feitos. Seu coração de mãe se enchia de orgulho ao olhar para a criança em seus braços que possuía a genética dos Malfoy dos pés à cabeça, onde os loiros e claros cabelos começavam a crescer.
- Você será um bom irmão mais velho para , certo, Lucius? - questionou o menininho que agora lhe encarava com os olhos azuis acinzentados atentos - Mesmo quando eu não estiver mais aqui.
- Para onde você vai, mamãe? - perguntou assustado.
- Sempre estarei com vocês, meu bem. - ela lhe acariciou o rosto e sorriu contida - Mas preciso que me prometa que você e sempre estarão juntos. Que serão um pelo outro.
- Eu vou cuidar da , mamãe! - disse o nome da irmã como pôde, com uma convicção anormal para uma criança daquela idade.
- Isso me deixa mais feliz, meu amor. - depositou um beijo na bochecha do filho - Sei que será um excelente irmão mais velho. - elogiou.
Como resposta, pequenos flocos de neve começaram a cair em cima dos três. Emeline olhou para o lado e Lucius estava alegre, assim como se agitava em seus braços, tentando pegar a neve que caía para levar a boca.
Emeline poderia ter saído dali com as crianças, mas não estava frio. Podia ter chamado Abraxas para ver a primeira manifestação de magia de Lucius, mas seria perda de tempo. O marido não ficaria contente, só diria que era o esperado para um Malfoy. Então, ela apenas se pôs a observar a interação dos filhos. Lucius pegava pequenos flocos e os colocava nas mãozinhas de , que estava animada.
Quem olhasse de fora, acharia aquela cena completamente normal. E como ela rogava a Merlin para que fosse mesmo. Só que a bruxa sabia que aquela felicidade e calmaria tinha prazo de validade. Ela não sabia quando aconteceria, mas tinha certeza de que o peso do sobrenome seria maior do que qualquer momento feliz. Emeline torcia, apenas, pra que seus filhos se mantivessem juntos.
Abril de 1966


não aguentava mais ficar com Lucius. O garoto lhe enchia porque ela lia algumas palavras de forma errada, trocando algumas letras. Mas o que ela podia fazer? Aprendera a ler há pouco tempo e ainda estava treinando. Todos os dias lia um pedaço do exemplar de Hogwarts: uma história que havia na biblioteca dos Malfoy. Uma frase, um parágrafo ou uma página. O que conseguisse. Só que ela tinha apenas seis anos e algumas palavras eram difíceis.
O problema era que Lucius não perdoava e ficava fazendo gozações. Por isso resolveu deixar o garoto brincar com sua vassoura no jardim e entrou na casa. Em pouco tempo não teria que se preocupar com a chatice do irmão. Ela torcia pra que a carta de Hogwarts dele não demorasse muito pra chegar e já estava agoniada por ter que esperar até os 11 anos de Lucius. Ele ainda ia fazer dez, mas queria férias do irmão mais velho.
A menina resolveu, então, ir novamente à biblioteca, mas antes que pudesse chegar, ouviu algumas vozes no cômodo e resolveu se esconder para tentar ouvir o que acontecia. Emeline sempre lhe repreendia, dizendo que parecia um elfo doméstico se esgueirando pelos cantos, mas a garota não dava atenção.
- Você não pode me dar uma previsão para isso? - viu quando seu pai, Abraxas, questionou o homem sentado à sua frente - 15 dias, um mês, um ano, eu preciso saber! - a menina viu quando sua mãe se colocou de pé ao lado dele e apoiou uma das mãos no ombro do marido.
- Senhor Malfoy, não é como se eu conseguisse precisar um dia para que a sua filha comece a manifestar magia! - o homem disse e reconheceu a voz como sendo do medibruxo que viera lhe examinar no dia anterior. Ele fizera uma série de testes com a menina que a deixaram mentalmente exausta - Ela ainda é muito nova.
- Mas crianças menores que ela já fazem magia, movem coisas, explodem copos! - Abraxas reclamou exasperado - nunca fez nada disso, não é possível que você não possa fazer algo, dr. Antoun. - aumentou o tom de voz e foi repreendido com um apertão por Emeline que seguia calada ao seu lado.
- Cada criança é diferente, senhor Malfoy! - o medibruxo argumentava - pode apenas estar estressada com algo, por isso sua magia não está fluindo como deveria.
- Não há nenhuma chance de ela ser um… - Emeline falou pela primeira vez, ainda muito incerta, mas a última palavra saiu quase como um sussurro e não conseguiu distinguir o que a mãe dissera.
- Acredito que não seja para tanto, senhora Malfoy. - Antoun tentou amenizar - Mas, caso ela seja, vocês só terão a confirmação após seu aniversário de 11 anos. - ele suspirou.
- Filha minha não será um aborto, Antoun! - Abraxas disse enfurecido e ficando vermelho - É bom que você pense e alguma maneira de arrumar isso e de forma discreta. Ou Tom terá o imenso prazer em lhe fazer uma visita. - ameaçou Malfoy e teve o gosto de ver o homem à sua frente estremecer.
- F-farei o meu melhor, senhor Malfoy. - gaguejou o medibruxo e se levantou para ir embora. Antes que ele o fizesse, saiu correndo para encontrar o irmão que ainda estava no jardim.
- Lucius, Lucius, desça aqui! - ela pediu gritando pelo irmão que seguia voando com a vassoura, sendo logo atendida.
- O que houve, ? Se machucou? - o garoto logo se preocupou e examinou a menina com os olhos, procurando algum ferimento.
- Preciso te perguntar uma coisa! - disse e ele revirou os olhos, mas seguiu em silêncio esperando que ela falasse - Você sabe o que é um aborto? - questionou baixinho, falando como se fosse um segredo.
- Onde ouviu isso? - sondou desconfiado.
- Eu li num livro lá da biblioteca, - ela inventou - mas não explicava bem o que era.
- Bem, - Lucius sentou no chão e fez o mesmo, ouvindo o irmão de forma atenta - papai disse uma vez que eles são uma das vergonhas do mundo bruxo. Ninguém sabe muito como eles acontecem, mas são filhos de pais bruxos que não podem fazer magia.
- Tipo, nunca?
- Aí eu não sei, mas acho que não.
- Mas isso acontece em qualquer família? - indagou curiosa.
- Papai diz que é mais fácil isso acontecer em famílias com sangues-ruins, mas eu não sei. Talvez aconteça com todas as famílias. - Lucius deu de ombros e olhou para a irmã que parecia assustada - Está tudo bem, ?
- Sim, sim! Eu só estou com fome. - mentiu mais uma vez - Vou ver se Vipper faz algo de bom pra comer. Você quer? - perguntou já se levantando
- Não, vou treinar mais! Tenho pouco tempo até receber a carta de Hogwarts! - comentou animado e deixou um beijo na bochecha da irmã antes de levantar voo em sua vassoura.
voltou andando pra casa, chamando logo por Vipper, o elfo doméstico dos Malfoy, quando entrou na mansão e pediu que ele lhe desse algumas tortinhas de abóbora. Quando ele lhe trouxe, foi logo embora, mas não sem antes fazer uma curta reverência à menina. Ela até gostava do elfo, sempre a tratava como se fosse uma princesa e lhe dava doces quando ela estava triste. Além disso, Vipper era o único que brincava de bonecas com ela, já que Lucius só queria saber de sua vassoura.
A menina, então, subiu para o seu quarto e deixando as tortinhas em cima da cama, se colocou de frente para o grande espelho que havia próximo ao seu guarda-roupas. Ela olhava cada detalhe de seu reflexo: desde os cabelos loiros bem claros que pendiam um pouco abaixo dos ombros, passando pelos olhos azuis-esverdeados, descendo pelo vestido rosado e acabando nos sapatos pretos lindamente lustrados.
Tudo o que via no espelho naquele momento era o que estava acostumada a encarar todos os dias. Mas a garotinha procurava, olhando pra si mesma, algo que nem sabia o que era. Ela tentava ver algum sinal de que pudesse ser um aborto, como Lucius havia lhe explicado, mas não havia nada visível.
- Por favor, Merlin! - ela rezava baixinho - Se eu não for um aborto, prometo que paro de esconder a sobremesa do Lucius e de bagunçar o armário dele. - ela prometeu de olhos fechados e assim permaneceu por alguns minutos, adicionando mais coisas a sua lista de promessas a Merlin.
não viu, mas Abraxas estava na porta de seu quarto, ouvindo e vendo a filha prometer aos céus o que faria se não fosse um aborto. Internamente, ele rogava pra que Merlin ouvisse o pedido de sua menina e o seu próprio.
Setembro de 1971


Lucius já tinha embarcado há alguns dias para Hogwarts e permanecia trancada em seu quarto na mansão dos Malfoy. A menina revezava seu tempo entre chorar e olhar fixamente para o copo que permanecia intacto em cima do banco no meio do aposento. No canto do quarto, uma nova pilha de cacos de vidro tinha se formado. Não porque ela tivesse explodido algo com a mente, mas por ter quebrado vários copos jogando-os contra a parede. Só assim ela conseguia rompê-los.
Ela não recebera, ainda, nenhuma carta de Hogwarts ou de qualquer uma das outras escolas de magia. Seu medo de ser um aborto ia se concretizando à medida que os dias passavam e não conseguia colocar nada pra fora. era uma vergonha para os Malfoy, sabia disso. E só confirmava quando não podia acompanhar os pais em nenhum evento de outras famílias bruxas ou por ter Vipper como sua única companhia. Lucius era basicamente filho único para o mundo e, mesmo que tivesse apenas 11 anos, já entendia bem que assim seria pelo resto da vida.
A garota já tinha pensado em fugir, mas sabia que não iria muito longe. Por isso, preferia ficar trancada no quarto, longe das vistas do pai, que lhe olhava num misto de expectativa e decepção. Emeline, por outro lado, olhava para a filha como se culpasse a si mesma e aos seus genes. Mesmo vinda de uma família puro sangue, a mulher se questionava internamente se ela era a culpada pelo que acometia os Malfoy.



- Você precisa fazer algo pela minha filha, Dumbledore! - Abraxas disse em desespero andando de um lado para o outro no escritório do diretor de Hogwarts - Não é possível que não possa aceitá-la nessa escola!
- Abraxas, você sabe o motivo pelo qual não está aqui. - o diretor disse olhando atentamente para o homem descomposto a sua frente - Vocês deveriam mandá-la para uma escola de trouxas, sabe disso. - sugeriu
- Não se atreva a dizer um absurdo desses novamente! - gritou - Uma Malfoy não vai se misturar com esses imundos trouxas!
- Você está privando sua filha de aprender e ter uma vida normal, Malfoy.
- Ela tem uma professora particular que lhe ensina tudo o que deve saber sobre como ser uma bruxa, Dumbledore. Já que esta escola não faz o seu trabalho direito! - disse com desdém.
- A magia dela não é o suficiente pra que possamos lhe arranjar uma vaga, Abraxas. - Dumbledore disse sem perder a calma - Você precisa começar a ver sua filha por quem ela realmente é.
- Não diga algo que não sabe, diretor! - retrucou o homem e se pôs a sair da sala do diretor, espumando de raiva para fora do castelo, onde já poderia aparatar de volta pra casa.
Quando viu que já estava seguro na mansão, caminhou rapidamente até o porão, onde mantinha uma espécie de esconderijo subterrâneo. Abriu a porta, trancando-a e foi a sua adega particular, pegando uma garrafa de Whisky de Fogo e bebendo logo do gargalo.
O que ele poderia fazer para que sua garotinha não fosse um aborto? já tinha sido examinada por mais medibruxos que ele poderia contar. Ela vinha tendo aulas de magia com Abgail Brown, uma das tutoras mais prestigiadas do mundo bruxo, que talvez tenha sido, ou não, ameaçada com uma visita de Riddle caso abrisse a boca.
Uma parte de Abraxas sabia que Dumbledore estava certo sobre , mas era uma parte tão pequena que ele não pensava em lhe dar ouvidos. Ainda havia a necessidade de preservar a glória do nome dos Malfoy e ter um aborto na família só tornaria as coisas mais difíceis. Tanto para ele, quanto para a própria .
Ele, então, suspirou e largou a garrafa da bebida como pode e aparatou para seu escritório. Ali, em uma das paredes perfeitamente bem adornado, estava a tapeçaria da família Malfoy. Logo abaixo de seu próprio nome, os de Lucius e brilhavam como os últimos descendentes até o momento.
Abraxas preferiu não ter muita consciência do que fazia, não queria pensar uma segunda vez antes de terminar com isso. Logo sacou a varinha de suas vestes apontando para o nome da filha, fazendo com que ele queimasse. Ele não precisou dizer o feitiço, mas as lágrimas que caiam sem controle de seus olhos foram o suficiente pra que ele soubesse que o que fizera não tinha mais volta. Ela estava queimada da família, assim como seus descendentes, e seria vista como escória. Ele não tinha escolha, mas esperava que a filha lhe perdoasse algum dia. Precisava dizer para a sociedade que fizera tudo o que esperavam dele.
- O que aconteceu, Abraxas? - Emeline entrou no escritório e viu o marido chorando como uma criança próximo a parede. Quando seus olhos encontraram os do esposo, ela percebeu que algo de muito errado ocorria, então se aproximou e agachou-se na frente dele. Sabia que apenas com ela, ele se permitia ser vulnerável.
Malfoy nada disse, apenas teve forças para apontar pra cima, vendo quando os olhos da esposa chegaram na tapeçaria e o choque que lhe tomou o rosto ao ver o nome da filha queimado da árvore genealógica deles.
- Você sabe as consequências do que acabou de fazer, Abraxas? - ela disse depois de recompor a expressão, seus olhos frios como o gelo, fazendo com que o homem se encolhesse levemente pelo tom de voz baixo da esposa.
- Eu precisava fazer alguma coisa, Em. - tentou se justificar - Eu não podia deixar o mundo saber que os Malfoy compactuam com essas coisas. - ele falava baixo e estava aflito, olhando o rosto da mulher que estava impassível.
- “Essa coisa” é a sua filha, Malfoy - ela cuspiu o sobrenome que carregava e viu o marido fechar os olhos atordoado - Mas essa é a sua escolha. Não a minha! - concluiu se levantando e andando para a saída do cômodo.
- O que quer dizer, Em? - ele tomou coragem pra perguntar quando viu a esposa alcançar a porta. Ela não se virou para respondê-lo, apenas segurou a maçaneta com mais força e engoliu em seco.
- Quero dizer que pode queimar o meu nome ao lado do seu também. - disse antes de abrir a porta e sair do escritório. Naquela mesma noite, Emeline juntou suas coisas com as da filha e tratou de sair também da vida de Abraxas.


Capítulo 2

Dezembro de 1974


Emeline e tinham ido embora da casa dos Malfoy há pouco mais de dois anos e se instalaram na antiga casa dos pais da mulher, que já estavam mortos. Nesse meio tempo, o contato das duas com Abraxas e Lucius era quase nulo, salvo por algumas cartas que o garoto mandava para a mãe a irmã quando estava em Hogwarts. Mesmo que não tivesse orgulho do fato de ter um aborto na família, Lucius ainda amava a irmã com todo o coração. E, se ninguém soubesse da existência dela, poderiam continuar próximos sem nenhum problema, ele pensava.
Mas, naquele meio de dezembro de seu último ano, Lucius quase viu tudo isso se perder ao receber o recado urgente de que era esperado na sala do diretor Dumbledore. O professor Slughorn lhe deu o recado antes que o jovem saísse para sua ronda do dia como Monitor-Chefe. O chamado parecia urgente, então ele correu para encontrá-lo.
- Professor Dumbledore, me disseram que o senhor gostaria de conversar c… - a voz de Lucius morreu em sua garganta ao ver sua irmã encolhida em um canto da sala do diretor, abraçando a si mesma como se pudesse se sustentar, enquanto chorava - , o que aconteceu? - perguntou desesperado indo diretamente até ela e abraçando-a com força. A menina não conseguia falar nada, apenas intensificou seu choro.
- Senhor Malfoy, acredito que sua irmã não consiga falar o que houve. - Dumbledore ponderou enquanto via os dois abraçados, a menina se acalmando aos poucos com o que Lucius sussurrava em seu ouvido - Mas, é preciso que saiba de um acontecimento, e sinto que seja eu quem lhe dê essa notícia.
- O que está acontecendo e por que minha irmã está aqui? Justo em Hogwarts! - Lucius tentava não gritar para não assustar a garota - Ela não pode fazer magia! - diminuiu ainda mais o tom de voz.
- O auror que a encontrou a trouxe para cá quando lhe perguntou se tinha alguém que pudesse contactar, senhor Malfoy. - o diretor explicou - E eu preciso que mantenha a calma, porque sua irmã está sozinha, à partir de agora. A menos que chamemos o pai de vocês. - e ele viu estremecer levemente a menção de Abraxas.
- Seja claro, diretor! - ele disse deixando um beijo na testa da irmã e se afastando levemente, caminhando para perto do bruxo mais velho - Sem rodeios.
- Emeline foi encontrada morta próxima a casa onde as duas moravam. - Dumbledore disse em um fôlego só e viu quando os olhos do jovem à sua frente lacrimejaram, mesmo que ele tentasse manter a expressão superior.
- E sabem algo sobre o assassino? - questionou com a voz fraca.
- Não, mas esse não é o mais estranho, senhor Malfoy. - o bruxo prosseguiu - O mais intrigante dessa situação é que sua irmã enviou uma carta via coruja um dia antes de sua mãe ser encontrada morta para o serviço de aurores, dizendo ter sonhado com a morte de Emeline.
- E por que isso é estranho? Foi apenas um sonho ou palpite que acabou sendo real.
- Porque não há muitos casos de bruxos abortados que tenham algum tipo de dom, senhor Malfoy. - o mais velho suspirou - E disse na carta o local exato onde o corpo de Emeline poderia ser encontrado. Sua irmã teve uma visão. Os aurores apenas não lhe deram crédito, por conta de suas condições.
- Está dizendo que poderia ter salvo a nossa mãe? - Lucius tinha se sentado na cadeira, como se não tivesse forças pra se manter de pé.
- Estou dizendo que sua irmã teve uma visão, Lucius. Não sei até que ponto esse destino poderia ser mutável.
- O que acontece agora? - perguntou olhando para que se concentrava nas chamas da lareira a sua frente - Ela ganha um vaga em Hogwarts? Ela volta a morar conosco? O assassino de minha mãe será encontrado?
- Temo não ter todas as respostas que gostaria de ouvir, meu jovem. Mas a manifestação de magia presente no sangue da sua irmã ainda é muito pequena para que ela se torne uma bruxa completa. Quanto às outras perguntas, terá de esperar por seu pai. Ele está a caminho.
O garoto apenas assentiu e voltou para o lado da irmã, tomando-a em seus braços, aliviado por ver que a garota não chorava mais, apenas permanecera em silêncio enquanto eles esperavam pelo pai. Abraxas não demorou a chegar, mas não demonstrou nenhuma reação ao ver os filhos abraçados. Conversou rapidamente com o diretor e acenou para que seus filhos o seguissem, fazendo com que Lucius fosse dispensado para as férias de final de ano antes dos outros alunos.
Os três utilizaram a lareira do escritório de Dumbledore para chegarem na mansão dos Malfoy e os pertences de Lucius seriam enviados depois. O silêncio era gritante dentro daquela casa e Abraxas ficou reunido na sala com os filhos, nenhum dos três sentiu vontade de comer algo naquela noite. Emeline estava morta, estava de volta ao lado do pai, ainda que seguisse queimada da tapeçaria da família. Eram muitas reviravoltas para um só dia para serem engolidas em uma noite.

Fevereiro de 1975


O recesso de final de ano estava se tornando, cada vez mais, uma lembrança apagada para Severus. Pelo menos era o que ele tentava fazer sua cabeça compreender. Tinha voltado para casa por pedido de sua mãe, Eileen, mas antes não o tivesse feito. Seu pai, Tobias, ficava cada vez mais raivoso ao olhar para o filho e ver traços da herança bruxa, que vinha da família Prince. Severus não sabia se era inveja por não ter magia nas veias ou desprezo ao diferente, mas sentia que seu pai não o amava.
O garoto de 15 anos levava nos braços e no peito a irritação de Tobias, com os arranhões agora já quase cicatrizados. Mas, Severus sabia que, por mais raiva que tivesse do pai - e dos trouxas, em geral, por não entenderem e aceitarem o mundo bruxo -, ele não poderia deixar de visitar a mãe. E aproveitar para passar um tempo, ainda que curto, com Lily Evans enquanto eles estavam fora de Hogwarts.
Severus já tinha notado o quanto sua amizade com Lily não era bem vista, assim como sabia que em pouco tempo a ruiva também se daria conta disso. Os encontros dos dois eram limitados à biblioteca, enquanto estudavam. Mas seus companheiros da Sonserina implicavam com qualquer aproximação que ele tivesse com a grifinória. Além disso, James maldito Potter vinha piorando as brincadeiras idiotas que fazia com ele junto ao seu clã de desocupados. A última tinha quase deixado Severus sem as calças junto ao Salgueiro Lutador!
- Sev, está tudo bem? - Lily perguntou trazendo o garoto de volta à realidade. Snape ainda estava um pouco confuso, mas se deixou olhar nos verdes olhos da garota a sua frente.
- N-não se preocupe. - gaguejou um pouco e logo se recompôs, retornando sua atenção aos livros - Temos que terminar de estudar para a prova de Poções! O professor Slughorn comentou sobre exigir mais da gente como um simulado para os N.O.M.S.
- Eles serão apenas no próximo ano. Temos tempo pra estudar! - disse sorrindo, mas continuou a ler suas anotações, complementando o seu material com o que Severus tinha da matéria - Severus, - Lily chamou atenção do garoto - como você está?
- Eu estou bem, oras! - ele deu de ombros.
- Falo sobre a última pegadinha de Potter e os garotos. - ela explicou hesitante - Fiquei preocupada contigo.
- Potter age assim porque é um sangue puro, Lily e da pior espécie! - disse com raiva - Mas ele se esquece de que a vingança é um prato que se come frio. - completou sombrio.
- Eu não gosto quando fala assim, Severus! - ralhou a ruiva - Não deveria deixar essas coisas te afetarem. Potter não sabe o quanto está sendo idiota por isso.
- Tente ser humilhada todos os dias e na frente de toda a escola primeiro antes de me julgar, Evans! - Snape disse de forma fria e se levantou, juntando suas coisas - E não se preocupe em continuar defendendo seu precioso Potter, porque não há nada que possa fazer ou dizer para que eu me importe com aquele sujeito. - completou em uma voz letal e deixou a amiga sozinha ainda meio aturdida com o que acontecera.
Severus saiu da Biblioteca como um furacão, quase esbarrando em duas garotas da Corvinal que entravam no lugar. Mas ele não se deteve e continuou seu caminho até as masmorras. Em seu dormitório poderia ficar em paz, sem precisar ouvir de Lily que não deveria se vingar ou, pior, que Potter apenas não sabia o que estava fazendo. Quanta estupidez!
Quando ele finalmente conseguiu chegar ao seu dormitório, estranhou ao ver que Lucius Malfoy estava sentado em sua cama de forma despreocupada, folheando um de seus livros de Transfiguração. Severus teve que pigarrear para atrair a atenção do garoto mais velho, que apenas se endireitou na cama e largou o livro pra lá.
- Justamente quem eu estava esperando! - Lucius saudou o mais novo sem se levantar - Podemos conversar por alguns minutos, Snape? - Severus largou os livros na cama mais próxima e manteve-se olhando para Malfoy, que interpretou como um sinal para continuar - Imagino que esteja querendo se vingar de Potter, estou certo?
- O que você tem a ver com isso? - Snape questionou ríspido.
- Só acho que pessoas com os mesmos ideais deveriam se unir, Snape! - o loiro deu de ombros - Apenas isso.
- E desde quando você se importa se quero ou não me vingar do Potter?
- Desde que Potter e seu clã são uma escória! Compactuando com traidores de sangue e sangues-ruins, pelo amor de Merlin! - Severus estremeceu levemente sabendo que Lucius se referia a Lily - Ele precisa receber o castigo que merece.
- E você tem algum plano?
- Meus planos são a longo prazo, Snape. - Lucius levantou e se aproximou do garoto - Gostaria de convidá-lo para passar alguns dias em minha casa durante as férias. Acredito que vai achar nossos planos muito interessantes.
- Nossos planos? - Severus questionou, ainda que tivesse alguma ideia do que se tratava pelos boatos que tinha escutado - Que tipo de planos tem em mente?
- Você ainda é muito novo para saber de tudo, mas tenho certeza de que irá se identificar. - Malfoy respondeu de forma evasiva e continuou - Receberá uma coruja com a sua chave de portal na segunda semana de férias. - o loiro saiu do quarto sem dar a oportunidade de Severus responder ao “convite”, que mais era uma intimação. Snape pegou seus livros e se jogou em sua cama, fechando os olhos com bastante força. Ele torcia para dar certo essa situação na qual estava se metendo. E se tudo desse certo, Lily Evans poderia ser, finalmente, sua.

Julho de 1975


Severus não demorou a convencer sua mãe de que ele tinha que passar duas semanas na mansão dos Malfoy. Eileen guardava boas recordações de Emeline Malfoy em sua época de Hogwarts e, ainda que a mulher tivesse morrido há pouco tempo, acreditava que seu filho seria bem recebido na casa da antiga companheira de quarto.
Como prometido, no começo da segunda semana do recesso, Snape recebera via coruja uma carta de Lucius com as instruções para usar a chave de portal que o levaria até a mansão dos Malfoy. O garoto estava nervoso com a ida até essa tal reunião, mas não podia se deixar levar por medos idiotas.
Se despediu da mãe, agradecendo pelo pai estar fora de casa trabalhando e rumou para o jardim traseiro da casa onde viviam com o botão que era sua chave de portal. Snape apoiou a mala que segurava no chão e olhou na direção da grande árvore que existia ali, com um balanço preso em um dos galhos. Lily Evans se balançava de olhos fechados, aproveitando o vento em seu rosto, deixando que os cabelos ruivos dançassem às suas costas. O coração de Severus deu um solavanco e sua respiração falhou levemente, ao mesmo tempo que o relógio em seu pulso apitava, indicando que já estava na hora da chave do portal. O garoto só teve o tempo de segurar sua mala novamente e fechar os olhos antes de ser transportado à mansão dos Malfoy.
Severus chegou um pouco desconcertado, caindo no chão como se tivesse sido jogado dos céus. Por sorte ninguém tinha reparado em sua aterrissagem ridícula no jardim dos Malfoy, ou assim ele pensava antes de ouvir uma risada às suas costas. Ele se virou, já com a varinha em punho, mas não encontrou ninguém. Intrigado, ele olhou para todos os lados, mas nada encontrou. Devo ter ouvido coisas, pensou enquanto recolhia sua bagagem e ia para a porta da casa, que logo fora aberta por um elfo doméstico.
Lucius não demorou a aparecer, seguido de perto por Amico e Alecto Carrow, os gêmeos sonserinos que pareciam ser a sombra de Malfoy, além de Stilimus Crabbe, que pertencia ao quarto ano assim como Severus.
- Que bom que conseguiu vir, Snape! - Lucius saudou com uma falsa alegria - Estamos muito satisfeitos com a sua companhia, certo, pessoal? - questionou os outros que apenas fizeram sons de concordância.
- Agora já pode me dizer que planos são esses que tem, Malfoy? - Snape questionou com toda a coragem que pode reunir e viu Lucius rir, sendo acompanhado pelos gêmeos. Crabbe parecia tão perdido quanto ele próprio, mas não parecia ter condições de perguntar nada.
- Tudo a seu tempo, criança. - o loiro disse e Severus odiou o tom de voz, mas engoliu em seco o xingamento - Deixe-me apresentar a casa a você primeiro. - disse, pedindo que todos o seguissem.
Malfoy lhes mostrou toda a casa, menos o subterrâneo, e disse que eles estavam livres para fazerem o que tivessem vontade, depois de se acomodarem nos quartos que tinham sido preparados. Nada seria feito ou dito até o dia seguinte, quando as outras pessoas chegariam. Severus não tinha ideia do que aconteceria ou de quem aquelas pessoas seriam, mas decidiu descansar um pouco no quarto que seria dele pelos próximos dias. Era até bem confortável, então o garoto acabou pegando no sono.
Algumas horas depois, Severus acordou e resolveu explorar a biblioteca dos Malfoy, como Lucius tinha sugerido, pelo menos até o horário do almoço. O garoto ouvia os demais jogando quadribol do lado de fora de casa, mas não tinha interesse em se juntar a eles. Ele cruzou com o elfo doméstico da família, que lhe perguntou se ele queria algo para comer, mas que foi recusado.
Quando entrou na biblioteca, Snape se deparou com uma cabeleira loira característica dos Malfoy. A mulher estava de costas para ele, procurando algo na estante e parecia apressada. Severus resolveu pigarrear para chamar a atenção e ela se virou assustada, deixando os livros caírem no chão, fazendo com que seus olhos se encontrassem. Era a garota mais bonita que ele tinha visto, pensou enquanto observava o rosto pálido se tingir de vermelho de vergonha.
- D-desculpe. - ela disse baixinho, pegando os livros no chão apressada e foi caminhando na direção de Severus que ainda parecia hipnotizado - Com licença. - pediu e o garoto só conseguiu se afastar minimamente para o lado, lhe dando passagem, e ela logo saiu em disparada pela casa. Ele não sabia quem era a menina, mas ia descobrir.


Capítulo 3

O dia seguinte não demorou muito para chegar e Snape não conseguiu parar de pensar em quem era a garota do dia anterior. Durante as refeições, ele tinha sido apresentado a Abraxas Malfoy, mas nenhuma menina se juntou à mesa, além de Alecto Carrow. Ele resolveu não perguntar nada, já que não tinha intimidade com nenhuma das pessoas dali, mas iria investigar por si mesmo.
Ele queria que a noite viesse logo, mas Lucius fizera questão de informar que haveria uma reunião em poucos minutos e ele estava sentado ao lado de um Stilimus Crabbe parecendo mais entediado do que se estivesse numa aula de História da Magia com o professor Binns. Os dois não conversavam entre si, mas pareciam igualmente atentos à movimentação da sala. Lucius estava em um canto com irmãos Carrow, que tinham se formado junto a Malfoy naquele ano, falando em voz baixa e vez ou outra olhando para os mais novos. Abraxas tinha saído pela manhã e ainda não voltara como prometera.
Mas não demorou até que eles ouvissem a porta da frente batendo e vários bruxos entrando na sala da mansão. Abraxas estava acompanhado por mais quatro casais que Severus nunca tinha visto, mas imaginava que fossem pertencentes a elite bruxa. Suas roupas eram tão extravagantes e sombrias, que se lhe dissessem que eram todos de um mesmo culto, ele acreditaria.
- O Lorde logo chegará. - Abraxas disse no meio da sala enquanto todos se acomodavam.
Severus se remexeu inquieto no sofá e começou a pensar onde tinha se metido. Ele já ouvira falar sobre os ideais de Lorde Voldemort, que eram bem parecidos com os de Gellert Grindelwald, mas não sabia que o conheceria pessoalmente tão cedo. O garoto estava até considerando sair sem ser visto quando ouviu um barulho de aparatação às suas costas. Ele não precisava se virar pra saber quem tinha aparecido. Lorde Voldemort não precisava ser anunciado para que os pelos dos braços de Severus arrepiassem e seu corpo estremecesse.
O Lorde das Trevas caminhou até o centro da sala e, ainda que ninguém se atrevesse a olhá-lo nos olhos, todos estavam atentos aos seus passos. As respirações pareciam em suspenso, mas Abraxas resolveu se aproximar lentamente de Tom Riddle para direcioná-lo a cadeira, que mais parecia um trono, no canto do salão. Malfoy era um dos servos mais fiéis a Voldemort, mas sua devoção se dava mais por medo do antigo companheiro de escola do que mera adesão aos seus ideais.
Depois de finalmente se sentar, o Lorde começou a observar os presentes. A maioria dos que estavam ali já eram comensais conhecidos e propagadores de seus ideais, no entanto o foco daquela reunião era outro. O Lorde das Trevas queria aumentar sua quantidade de seguidores e, nada melhor do que começar com estudantes. Eles eram mais maleáveis, fáceis de manipular. Perfeitos para seus planos.
Foi nesse momento que o Lorde fixou sua atenção nos garotos sentados no sofá. Um deles, ele sabia ser filho de um de seus comensais. Crabbe. O outro ainda era desconhecido, o que queria dizer que não pertencia a uma família de sangue puro. Riddle conhecia todas elas.
- Você! - disse Riddle apontando para Severus que faltava se fundir ao encosto do sofá - Venha até aqui.
Não foi preciso que Abraxas viesse até o garoto para buscá-lo, ele mesmo foi até o Lorde tentando esconder qualquer tipo de desconforto. Enquanto andava, Severus estava bem surpreso. Voldemort não era nem um pouco como ele imaginava. O homem que o olhava de forma superior não parecia passar dos 50 anos, tinha as feições bonitas e estava apenas começando a ter cabelos brancos. Mas, mesmo que tivesse uma aparência normal, olhar pro homem ainda era ruim. Ele exalava perigo.
- Milorde - Snape cumprimentou com uma leve reverência como ouvira outras pessoas falando baixinho minutos atrás.
- Qual o seu nome, garoto? - o Lorde questionou olhando o moreno de cima a baixo.
- Severus Prince Snape, Milorde. - respondeu sem hesitar.
- Esse último sobrenome é trouxa? - perguntou enojado e o garoto engoliu em seco. Também não se orgulhava.
- Infelizmente sim, Milorde! Mas apenas isso compartilho com a escória. - ele cuspiu enraivecido, evitando a todo o custo os olhos de Lily que teimavam em aparecer em sua mente - Nada me orgulharia mais do que levar apenas o sangue puro de minha mãe.
- Entendo! - o Lorde ponderou e apenas fez um sinal com a mão para que o garoto se afastasse. Não precisou pedir duas vezes e Snape se distanciou voltando ao sofá - Vamos aos assuntos importantes agora. Precisamos lidar com o aumento de sangues ruins em nosso mundo.
E a reunião durou longas duas horas, em que Voldemort também falou aos seus comensais e aos convidados sobre a importância de encontrar antigos seguidores de Grindelwald, já que o bruxo estava há anos em Azkaban.
Snape tinha ficado calado e apenas absorvia as intenções daquele grupo que tanto compartilhava com o que ele pensava. Realmente os trouxas eram inferiores, a começar pelo seu pai. Tobias Snape era a escória entre os trouxas. Talvez a vinda a essa reunião não tivesse sido tão ruim assim. Quem sabe se ele tivesse poder o suficiente nas mãos e prestígio, Lily conseguisse enxergar que seu futuro era junto a ele. Severus a defenderia de qualquer xingamento, claro.
Depois de mais um tempo, as pessoas foram dispersando até que apenas o Lorde tivesse ficado conversando junto a Abraxas. Os dois falavam em sussurros, mas os cinco adolescentes não tinham se atrevido a interromper. Eles mantinham-se nos lugares iniciais, esperando o que parecia ser uma permissão até mesmo para respirar.
- Iremos todos jantar agora! - Abraxas comunicou aos jovens e todos se dirigiram ao grande salão de jantar.
O Lorde das Trevas ainda os acompanhava e se juntou à mesa sentando na cabeceira que normalmente pertencia a Abraxas como Malfoy mais velho. Se ele se importou, não deixou transparecer, já que estava mais preocupado em atender aos pedidos do Lorde.
Mais uma vez, Snape notou que garota que vira biblioteca não tinha se juntado a eles. Se antes esse não era um bom momento, agora na presença de Voldemort se tornara pior ainda. O garoto estava começando a pensar que talvez tivesse imaginado a loira misteriosa. Afinal, se outra garota estivesse na casa, por que não comer junto a eles? Ela parecia uma Malfoy, então qual seria o problema?
- A cerimônia para que se juntem a nós acontecerá no próximo mês! - Voldemort comunicou entre uma colherada e outra na sopa de abóbora que todos comiam - Espero que os três estejam prontos até lá! - olhou de relance para Lucius e os irmãos Carrow que concordaram apressadamente - Queremos esperar tempo o suficiente para que o Ministério tenha esquecido de vocês, ainda que o rastreador pare de funcionar assim que completam 17.
- Claro, Milorde! - Alecto disse e parecia a mais corajosa e determinada entre os três - Será uma honra para nós!
- Os detalhes serão enviados a vocês quando nos aproximarmos da data. - completou ignorando a fala da garota, mais preocupado em terminar sua própria refeição.
O silêncio da mesa se fez por mais alguns minutos, até que todos já tivessem terminado de jantar. Severus não sabia o que fazer, mas tinha certeza de que não podia se levantar até que o Lorde das Trevas determinasse. Mesmo assim, não era como se fosse conseguir nesse exato momento. Estava se sentindo levemente tonto, com uma dor de cabeça que aparecera do nada, como se algo estivesse pressionando seu cérebro.
- Gostaria de ficar uns minutos a sós com o jovem Snape, se for possível. - pediu o Lorde em tom falsamente educado. Todos sabiam que se tratava de uma ordem, era apenas para manter as aparências.
Os Malfoy, Crabbe e os irmãos Carrow deixaram a sala rapidamente e em silêncio, restando apenas os dois na mesa. Severus não ousou se mexer ou olhar diretamente para o Lorde. Ele se manteve com os olhos baixos, esperando pelo que pudesse ser dito.
- Você sabe que deve se provar mais digno do que qualquer um nesta casa, certo? - Voldemort começou com a voz baixa - Para compensar a sujeira em seu sangue vinda de seu pai. - completou e Snape se atreveu a olhar para o homem - O que foi? Lhe incomoda que outra pessoa fale assim de seu pai? - perguntou em escárnio.
- O senhor não sabe nada sobre ele, Milorde! - respondeu firme e quase se arrependeu da grosseria, mas o Lorde apenas ria.
- Tem muito o que aprender ainda, criança! - disse de forma superior e Severus apertou as mãos com força embaixo da mesa - Mas soube que é um excelente bruxo para a sua idade. Malfoy elogiou sua capacidade para criar feitiços e poções.
- Sim, senhor! - o mais jovem assentiu e apenas esperou.
- Ainda que seu sangue me incomode, acredito que você pode ser uma boa adição ao meu grupo seleto de colaboradores. - convidou o Lorde - Depois de sua maioridade, claro.
- Será um prazer, Milorde! - Severus respondeu, sabendo que era apenas mera formalidade. O Lorde já tinha decidido que o queria em seu grupo.
- Você pode ir, Snape! - o Lorde dispensou o adolescente - Tenho assuntos a tratar com Abraxas que não lhe dizem respeito.
Severus se levantou e fez uma leve reverência antes de sair da mesa. A dor em sua cabeça tinha aliviado e agora ele não a sentia mais. O que mais lhe incomodava era saber que não teria escolhas a partir de agora. Tinha assinado sua entrada para o grupo do bruxo. Ele só desejava que tudo desse certo. E se fosse assim, Lily seria sua e Potter estaria finalmente fora de cenário.
[...]


Dois dias tinham se passado e Severus não tinha reencontrado a tal loira misteriosa. Ele saíra para algumas caminhadas noturnas pela mansão Malfoy, mas não encontrara nada além de Vipper, o elfo doméstico da família. O garoto podia ter perguntado a ele, ainda que fosse suspeito demais. Snape começava a trabalhar com a hipótese de ter sido alguma alucinação ou um contato repentino com espíritos. Alguns tinham assuntos inacabados, nunca se sabe.
No entanto, mesmo assim, Severus foi uma vez mais até a biblioteca dos Malfoy quando teve a certeza de que a casa estava mergulhada em silêncio e sono. Ele não sabia se Merlin estava apenas colaborando com ele, mas a mesma loira estava se esgueirando por entre os livros, parecendo apressada para sair dali.
- Boa noite. - ele arriscou dizer baixo e viu quando ela se sobressaltou, ainda que nada tivesse caído dessa vez. A loira se manteve de costas para ele, em silêncio, e guardava alguns livros que estavam em seus braços nas prateleiras - Você é criada dos Malfoy? - Severus perguntou hesitante, mas foi o suficiente para que a mulher, que não passava de uma garota, se voltasse irada para ele.
- Como você se atreve a dizer que eu sou uma criada? - a voz dela saiu baixa, mas letal, como se estivesse guardando toda a raiva do mundo a ponto de explodir. Seu rosto, que era extremamente pálido, estava consideravelmente vermelho, o que fez com que Severus desse um passo para trás.
- Quem é você, então? - o garoto tentou uma vez mais, mas ela lhe deu novamente as costas, prestando atenção nos livros - Vai me dizer ou terei que acordar Lucius e o senhor Malfoy?
- Não! - disse rápido, deixando o restante dos livros na mesinha ao lado da poltrona imponente - Por favor, não diga que me viu! - pediu com a voz falha.
- Então vai me dizer quem é?
- Não acho que isso seja da sua conta. - a loira comentou se recompondo e sentando na poltrona, tentando transparecer tranquilidade - Você é apenas um simples convidado de Lucius, não parece importante.
- Você é uma Malfoy, não é? - Severus arriscou e a loira apenas deu de ombros - Qual o seu nome?
- . - ela respondeu simplesmente - O seu é Severus Snape, não há necessidade de se apresentar.
- Como sabe?
- As paredes da casa têm ouvidos. Não é como se as coisas fossem se manter escondidas aqui. - ela disse se levantando - Não diga que me viu, as coisas vão ser piores se souberem que você sabe da minha existência.
- É uma ameaça?
- Claro que sim, Severus. - disse como se fosse óbvio e parou próxima a ele, apenas um palmo de distância os separava - Ou você não sabe ainda lidar com um Malfoy?
- Se você é um deles, como nunca lhe vi em Hogwarts? - o garoto perguntou quando ela se afastou e lhe deu as costas.
- Pureza de sangue não garante magia, Snape. - respondeu se virando para o garoto - Ma, discrição pode lhe tirar daqui com a mesma sanidade que chegou. Pense nisso. - finalizou antes de sair da vista de Severus, se perdendo na escuridão. Snape não sabia se deveria levar a sério o aviso que a garota lhe dera, mas certamente tinha muito o que digerir com aquela informação. Se estivesse realmente falando sério, os Malfoy escondiam muito mais do que a relação com o Lorde das Trevas. Abortos não eram tão comuns nas famílias de sangues puros, mas não deixavam de ser vergonhosos e indesejados. Ele entendia agora.


Capítulo 4

Severus não demorou pra sair da biblioteca e voltar aos seus aposentos, mas não parou de pensar em e no que tinha descoberto. Ele imaginava que se alguém soubesse da conversa dele com a garota, os dois estariam em belos problemas, por isso achou melhor seguir o conselho dela e se manter calado.
Mesmo assim, ele parou para observar melhor os Malfoy. Abraxas não aparecia tanto, ele era mais como um fantasma, andando silenciosamente pela mansão, sem deixar que sua figura sobressaísse. Só que isso não significava que ele não era assustador. Sua expressão de sempre que parecia impassível, ao mesmo tempo soava como ameaça.
Já Lucius era diferente do pai, sempre chamando a atenção para si mesmo ou se vangloriando por ser melhor em alguma coisa. Severus não sabia se era porque as pessoas convidadas tinham vindo graças a ele ou se era apenas uma falha de personalidade. Ainda assim, Lucius fez questão de contar a todos os “convidados” sobre como seria a sua vida no Ministério da Magia, agora que tinha se formado em Hogwarts. Ele se gabava sobre como tinha conseguido uma vaga no Departamento de Execução das Leis da Magia por suas ótimas notas nos N.I.E.M.S, mas todo mundo sabia que tinha um dedo - talvez uma mão inteira - de Abraxas nessa nova colocação.
Era estranho para Severus pensar que Abraxas e Lucius escondessem, com tanto êxito, um aborto dentro da própria casa. O discurso que tanto faziam, e que Snape estava muito de acordo, sobre superioridade dos bruxos frente aos trouxas não excluía a inferioridade de bruxos abortados. Muito pelo contrário, eles estavam no mesmo patamar de escória para o Lorde das Trevas que os nascidos-trouxas e os traidores de sangue. Não que o garoto imaginasse como agir se estivesse nessa situação, mas se nem um aborto na família tinha mudado os ideais dos Malfoy, nada mudaria. E, ele estava genuinamente curioso. Severus não queria, mas não tinha deixado de pensar na incógnita que conhecera na noite anterior e no quanto queria saber mais sobre a garota.
- Vai ficar lendo o tempo inteiro que estivermos aqui, Snape? - Alecto questionou sentado ao lado do garoto no banco que ficava próximo a um jardim. Todos estavam ao ar livre aproveitando o bom tempo para jogar uma partida de Quadribol, mas Severus tinha outros planos. Ele não era muito bom no esporte, preferia ficar estudando.
- Algum problema com isso? - retrucou sem afastar seus olhos de seu exemplar surrado do Livro de Poções de Zygmunt Budge.
- Nenhum, mas achei que pudesse finalmente apreciar as minhas qualidades no Quadribol. - ela disse como quem não queria nada - Já vi você reparando no meu jogo durante as partidas e, bem, eu sei que sou de longe a melhor artilheira da Sonserina. - Carrow se gabou enquanto arrumava o rabo de cavalo e olhou sugestiva para Snape que, finalmente, lhe deu atenção.
- Quadribol não me interessa, Carrow. - respondeu Snape em voz baixa - Mas seu jogo não é de todo ruim. - ele lhe olhou sacana.
- Quem sabe eu não te ensino algumas jogadas mais tarde? Você não deve ter aprendido tudo nesses livros que tanto lê.
- Você vai acabar descobrindo que a leitura ensina tanto quanto a prática, Carrow. - Severus respondeu antes que Amico gritasse pela irmã para que ela voltasse ao jogo. Alecto logo se levantou, mas não deixou de pedir que Snape lhe esperasse a meia noite em seu quarto.
Em algum momento, Snape se encheu das anotações e achou melhor dar atenção aos companheiros de casa, se tornando uma espécie de árbitro do jogo de Quadribol improvisado. Ele podia não admitir, mas estava se divertindo tendo que separar os roubos de Amico e Crabbe para que a partida improvisada saísse da melhor forma possível. Os sonserinos eram extremamente individualistas, mas sabiam deixar o ambiente animado. Isso ele sabia muito bem.
Levou mais ou menos umas duas horas até que todos estivessem cansados e resolvessem parar para almoçar. Abraxas não tinha se juntado aos jovens, mas Severus não poderia fazer menos questão de sua companhia. Sem o patriarca dos Malfoy, as refeições se tornavam mais leves e Lucius até que era bem suportável, ainda que fosse extremamente arrogante. Ao que parecia, a relação deles era semelhante a que o próprio Severus tinha com o pai, Tobias.
Após a refeição, todos acharam melhor descansar um pouco, já que haveria uma espécie de encontro da alta sociedade durante à noite no salão dos Malfoy. Algo pequeno, mais parecido a um jantar com alguns membros do Ministério da Magia e um ou outro convidado de uma família puro sangue. Snape até tinha escrito a sua mãe na noite anterior pedindo um traje mais a rigor para a ocasião e ela havia lhe enviado, via coruja, um pacote um pouco antes do café da manhã. Era um terno preto que combinava bastante com seus cabelos. Ele sabia que a roupa era de seu pai, mas a mãe tinha ajustado nas férias para que se moldasse às medidas do filho. Severus não gostava de ter que usar roupas de segunda mão, mas o traje serviria.
No entanto, contrariando o que tinha dito aos companheiros de casa, Severus não foi ao seu quarto dormir. Ele caminhou o mais silenciosamente possível para a biblioteca da mansão torcendo para que encontrasse por ali.
Nem ele sabia muito bem o motivo pelo qual queria tanto encontrá-la, já que a garota era um aborto e Snape não aceitava muito bem essa fraqueza de sangue. Abortos eram completamente diferentes de nascidos trouxas, como Evans. Na verdade, Lily para ele é que era diferente de todos os outros. Ele a manteria ao seu lado, os outros podiam ir para o inferno. Eu estou apenas curioso, ele reafirmava em pensamento enquanto descia as escadas e parava na porta fechada da biblioteca.
Levou poucos segundos para respirar fundo e ao abrir a porta, a garota estava confortavelmente sentada na poltrona perto das estantes. tinha um livro aberto em seu colo, mas não estava lendo. Ao contrário, ela olhava para a porta como se estivesse esperando por alguém. Severus não conseguiu controlar a ânsia, mesmo que mínima, de torcer para que a loira estivesse esperando por ele.
- Vejo que não se esconde mais. - ele disse enquanto fechava a porta e se direcionava a estante mais próxima da garota e fingia procurar entre os títulos.
- Vejo que levou a sério o meu conselho de não contar a ninguém sobre mim. - ela rebateu desinteressada e, finalmente, pregou seus olhos no livro que tinha em mãos.
- Sua ameaça, você quer dizer. - Severus corrigiu e deu de ombros - Mas achei por bem manter essa situação em segredo. - completou se sentando no chão encostado na estante e com um exemplar de As melhores previsões para o Século XX de Cassandra Trelawney nas mãos.
- Não é como se fosse o primeiro a esconder esse tipo de situação dos outros, Snape. - procurou os olhos de Severus - As pessoas tendem a esconder aquilo que lhes é menos conveniente, apenas isso.
- Eu não quero esconder por conta do seu segredo, Malfoy.
- Você pode dizer aborto, Snape. Não é como se fosse mudar alguma coisa na minha vida ou como se evocasse Voldemort ou Grindelwald.
- Se atreve a dizer o nome deles assim?!
- Não me importo o suficiente para ter medo de qualquer um deles. - ela deu de ombros - Se eu tivesse que enfrentá-los, não teria como me defender e estaria morta antes que pudesse soletrar Malfoy. Então, de que me adianta temer?
Severus estremeceu levemente com a cena que fora criada em sua cabeça: de joelhos na frente do Lorde das Trevas sendo morta por ser um aborto. Sua pureza de sangue não importava quando outros ideais tomavam a frente e ele sabia disso. Ela também sabia, por isso não imploraria por sua vida. Ele não gostou nenhum pouco do aperto que sentiu no peito por ela.
- Talvez você deva aprender a se defender. - ele sugeriu com a voz fraca e ela olhou pra ele desacreditada. Nem Severus sabia por que estava se preocupando a esse ponto.
- Eu tenho aulas de magia todas as manhãs com Abgail Brown desde que tenho oito anos, Snape. - contou - Provavelmente sei mais sobre ervas que um estudante do 7º ano. Consigo fazer as poções que ela me passa normalmente na primeira ou segunda tentativa. Sei sobre a teoria de quase todos os feitiços que são ensinados até o quarto ano, que é onde eu estaria se tivesse ido a Hogwarts. - suspirou - O problema não é e nunca foi não saber me defender. O único problema é não ter magia o suficiente nas veias pra isso.
- Você teria sido uma sonserina extraordinária, sabia? - ele disse baixo sem se conter, quase não reconhecendo a própria voz e ela agradeceu com um aceno de cabeça pela mudança de clima.
- Me fale mais sobre Hogwarts, Snape. Eu quero saber com quem estou me metendo. Até onde eu sei, você poderia ser um assassino.
- E por que eu seria um assassino? Melhor, por que eu te diria se fosse um?
- Bom, você está aqui a pedido de meu querido irmão para compactuar com o maior bruxo das trevas desde Grindelwald. Isso já não conta muitos pontos a seu favor. - ela sorriu divertida e Severus achou que ela ficava ainda mais bonita quando o fazia - E você me diria pelos meus belos olhos, obviamente. - a garota jogou os cabelos pra trás, o que fez com que Snape desse uma boa gargalhada. Ele até estranhou, há tempos não se ouvia rindo.
- Eu não me entregaria por um simples par de olhos, Malfoy. E eles não são tão bonitos assim. - desdenhou, mas a garota podia ver o sorriso fácil que ainda pendia em seus lábios. Nada comparado com a carranca que ela tinha visto enquanto o espionava pela mansão.
- Você ainda vai se arrepender de ter dito isso, Snape. - ela estreitou o olhar e cruzou os braços. Mal sabia ela que ele tinha se arrependido no momento em que disse aquelas palavras mentirosas. Severus não estava reconhecendo o próprio estado de espírito enquanto estava com ela.
Os dois se mantiveram conversando por mais algum tempo. Snape contava a sobre as aulas de Hogwarts e as partes que ele conhecia do castelo, esquecendo-se momentaneamente da condição de aborto da garota. Descrevia a ela como fora conhecer Hogsmeade e como havia se sentido ao ver o castelo de Hogwarts pela primeira vez aos 11 anos. Como o céu do salão principal era lindamente enfeitiçado para parecer com um dia ensolarado ou a mais estrelada das noites.
Ainda que ela já soubesse de todas aquelas coisas graças aos diversos livros que tinha lido e as conversas que tivera com sua tutora, quando Snape descrevia tudo parecia ser desenhado frente aos seus olhos. só tinha pisado em Hogwarts uma única vez, quando sua mãe fora assassinada, e o lugar não lhe trazia boas lembranças. Mas pelos olhos dele, ela dava uma nova chance à escola.
Não demorou muito para que os dois começassem a se tratar pelo primeiro nome. Podia parecer precipitado, visto que tiveram poucas interações, mas ambos gostaram da sensação de dizer e ouvir seus nomes ditos pelo outro, ainda que não fossem admitir.
O sol lá fora estava quase se pondo quando ouviram um barulho de aparatação vindo do lado de fora da biblioteca. olhou alarmada para Severus e foi rapidamente para perto da estante do outro lado da sala, movendo um dos livros a sua direita e abrindo uma passagem secreta. “Nos vemos em outro momento, Severus”, ela disse apenas movendo os lábios sem som e desapareceu na passagem, fechando-a logo atrás de si. O garoto aproveitou a situação e se colocou sentado na poltrona, fingindo que lia o livro que a garota tinha deixado para trás, Os Contos de Beedle, o Bardo.
- Snape? O que faz aqui? - perguntou Lucius entrando na biblioteca e encontrando o garoto concentrado - Achei que estivesse dormindo, como disse que faria. - disse desconfiado.
- Não consegui dormir. - disse sem tirar os olhos do livro - Fiquei pensando na reunião que aconteceu na presença do Lorde. - achou melhor justificar e, quando olhou para Lucius, viu que tinha ido pelo caminho certo.
- Ah, sobre isso! - Lucius se aproximou puxando uma cadeira para se sentar perto da poltrona - Ele é uma figura impactante, né? - disse baixo, quase como um segredo e Snape só concordou com a cabeça - Mas seus ideais são incríveis. Imagina que maravilhoso seria o mundo sem que nós bruxos precisássemos nos esconder daqueles trouxas imundos? - comentou com um olhar sonhador.
- Seria incrível se a comunidade bruxa fosse mais unida entre si, realmente! - ele concordou com o pensamento em Lily, mas, principalmente, em . Talvez, em um mundo bruxo, ela pudesse ter um lugar já que vinha de uma família puro sangue. Assim, não precisaria se esconder.
- Um dia seremos, Snape! E os trouxas, assim como os nascidos-trouxas e os traidores de sangue, finalmente compreenderão o seu lugar. Na base de tudo.
Eles conversaram por mais alguns minutos até que Lucius lembrou ao garoto que deveria ir se limpar para o evento da noite, o que Severus fez de bom grado. Quanto menos tempo passasse próximo a Lucius, mais poderia elaborar suas mentiras quando algo fosse questionado.
No entanto, Malfoy não foi fazer o mesmo. Lucius seguiu pelo mesmo caminho que tinha ido momentos antes, dando de cara com o quarto da irmã, que escrevia em sua mesa de estudos.
- Atrapalho, ? - chamou cauteloso, mas a loira não se dignou a levantar a cabeça para encarar o irmão. A relação entre os dois não era das melhores desde que ela voltara a viver na mansão.
- O que quer, Lucius? - perguntou seca, virando as páginas do livro com um falso interesse.
- Me desculpar, talvez. - disse baixo e os olhos de finalmente lhe encontraram - Não temos passado muito tempo juntos durante essas férias e a culpa é minha.
- Não passamos tempo juntos desde fui embora com a mamãe, Lucius. Não é como se as coisas tivessem mudado de lá pra cá apenas pela chegada dos seus companheiros. - desdenhou e voltou aos seus materiais.
- Eu sinto falta de quando éramos crianças, . - confidenciou se aproximando da mais nova e colocando uma mão em seu ombro. A garota pensou em se afastar, mas não conseguiu. Apenas suspirou.
- Quando não havia a comprovação de que eu era um aborto e você ainda podia ter orgulho de me chamar de irmã. - completou baixo, com a voz machucada e Lucius engoliu em seco. Ele não queria concordar com ela. Não podia.
- Eu vou te deixar sozinha pra terminar as suas tarefas. - ele disse com a voz rouca depois do que pareceu uma eternidade e foi se afastando.
- Você me deixar sozinha não é uma novidade. - comentou antes que ele pudesse sair e viu quando o irmão estancou na porta, segurando com força o portal. Ela não sabia se ele ia se virar. Ela não sabia se queria que ele se virasse.
Mas Lucius encolheu os ombros depois de alguns segundos e continuou seu caminho de volta à luz da mansão, fechando a porta atrás de si. Uma lágrima solitária caiu dos olhos de e fez mancha na tinta do pergaminho. Como ela havia dito: não era uma novidade.

[...]


Ainda que fosse um evento mais íntimo, considerando a quantidade de pessoas que estavam ali - para além das que estavam hospedadas na mansão -, parecia que a nata da sociedade Bruxa estava presente. Os Carrow, os Flint e os Greengrass ocupavam o salão dos Malfoy junto a Abraxas, como se estivessem em uma reunião fechada dos Sagrados Vinte e Oito que tinham alguma relação com o Ministério da Magia.
Os adolescentes, então, com a adição de Teodora e Jacob Flint, ambos do 4º ano da Sonserina, e Leopold Greengrass, do 3º ano, haviam se reunido na outra extremidade. Quem olhasse de fora pensaria em um simples evento onde pais e filhos se dividem graças a afinidade. Mas, quando os mais velhos apenas combinavam aos sussurros sobre a próxima emboscada dos seguidores do Lorde das Trevas a um vilarejo trouxa, a normalidade ia embora.
- Você não me parece muito à vontade, Severus. - Teodora Flint se aproximou de Snape enquanto o garoto pegava um suco de abóbora na mesa de comidas.
- Essas reuniões de alta sociedade não são pra mim, Teo. Você sabe. - ele deu de ombros e olhou para a morena com um olhar sofrido. Eles tinham uma amizade desde o primeiro ano. Se ajudavam nos deveres, faziam dupla quando era necessário e conversavam quando se encontravam pelos corredores de Hogwarts e na sala comunal. Teodora Flint era uma das poucas sonserinas confiáveis, na opinião de Severus.
- Ainda estou surpresa por você ter aceito o convite de Malfoy. Vocês nunca foram exatamente próximos e ele é uns três anos mais velho que a gente. - ela abaixou o tom de voz e fingiu colocar algumas tortinhas em seu prato.
- Nunca foi um convite e você sabe disso. - ele suspirou - No momento em que ele pensou sobre a minha presença aqui, eu já estava. Ele só fez o favor de me comunicar quando eu deveria vir.
- Você não fala sobre Lucius, não é? - ela questionou com a voz trêmula e Severus apenas ficou em silêncio, se afastando sem se despedir e engatando uma conversa com Stilimus Crabbe sobre as matérias que viriam no próximo ano. Teodora não precisou de uma resposta.
Para a felicidade de Severus, o jantar não tardou a finalizar e logo tudo o que restava era protocolo para que as pessoas começassem a ir embora. Teodora fez questão de se aproximar discretamente de Severus mais uma vez para lhe passar um pedaço rasgado de guardanapo e lhe dedicar uma piscadela simples antes de se juntar aos pais e ao irmão gêmeo para que pudessem aparatar fora da mansão.
Lembre-se de me mandar uma coruja contando tudo assim que estiver em casa. Isso não é um pedido, o bilhete dizia simplesmente quando Severus se pôs a ler e logo as letras se embaralharam formando um pedaço de uma receita de Bolo de Caldeirão, que ele sabia ser a sobremesa favorita de Teodora. Ele não precisou de mais de um minuto para enfiar o papel nos bolsos e revirar os olhos. Claro que uma descendente dos Sagrados Vinte e Oito não teria medo de enfeitiçar um papel fora de Hogwarts. Teo era legal, mas um pouco avessa a algumas regras, ele bem sabia.
Por sorte, o restante dos convidados logo tomou o mesmo caminho dos Flint e se foram deixando Abraxas junto aos cinco adolescentes que ocupavam a sua casa. O mais velho dos Malfoy se retirou sem dizer nada e os jovens fizeram o mesmo, prometendo que no dia seguinte, jogariam outra partida de quadribol. Mesmo sem estar muito animado, Severus parecia bem disposto a ser o juiz do jogo novamente. Melhor isso do que ser importunado a subir em uma vassoura, ele pensava enquanto virava de um lado ao outro na cama sem conseguir dormir.
Era estranho, mas ele queria que tivesse sido uma presença durante o jantar. Com certeza, pelo pouco que conhecia da loira, a companhia dela ia deixar a situação menos superficial, ainda que a garota fosse uma Malfoy perfeita, com a altivez e sarcasmo na ponta da língua quando necessário. Severus também sabia que Teodora adoraria . Não sabia bem o motivo, mas achava que essa amizade delas, se existisse, daria certo.
Com esse pensamento, Snape levantou da cama, pegou a varinha e caminhou o mais silenciosamente para a porta do quarto. Ele torcia para encontrar a garota lendo na biblioteca, como tinha feito mais cedo, mas ofegou de susto com a figura de Alecto vestindo apenas uma camisola preta a sua porta.
- Indo me procurar, Snape? - a garota disse como um sussurro e Severus engoliu em seco. Tinha esquecido do que “combinara” com Carrow mais cedo.
- Claro, claro. - ele respondeu dando passagem para que a garota entrasse em seu quarto e ele logo fechou a porta, tendo o cuidado de passar a tranca - Não imaginei que viesse tão cedo, Carrow.
- Só achei que como é um excelente aluno, você detestasse atrasos, Snape. - Alecto comentou sentando na cama e propositalmente cruzando as pernas bem torneadas, sem perder o vacilo de Severus de olhar apenas para o seu rosto - Você pode ficar aí parado ou vir aprender uma coisa ou outra. - ela deu de ombros e sorriu ao ver o garoto se aproximando da cama numa postura mais firme. Ele chegou perto o suficiente para deixar a garota com a respiração acelerada.
- Acho que você deveria se preocupar com o que pode aprender, isso sim. - disse antes de começar a beijar o pescoço da garota que não teve muito tempo pra pensar e só conseguiu pegar a própria varinha para murmurar um Muffiato e se deixar levar pelas sensações que Snape lhe provocava por toda a noite.


Capítulo 5

- Vipper? - chamou uma noite quando já estava deitada em seu quarto e em poucos segundos viu o elfo se materializar a sua frente lhe dedicando uma leve referência, suas grandes orelhas tocando o chão. Os olhos grandes e castanhos do elfo brilhantes para a garota - Gostaria que pudéssemos conversar, sim?
- Claro, princesa Malfoy. - ele assentiu rapidamente e se sentou no chão - O que Vipper pode fazer pela senhorita?
- Eu imagino que saiba de tudo o que acontece dentro dessa casa, estou certa?
- Vipper sabe muito, senhorita, mas Vipper nunca diria nada que pudesse fazer mal aos seus senhores! Vipper prefere a morte a ferir a honra dos Malfoy, senhorita. - ele se justificou apressado, algumas lágrimas já se formando em seus olhos e resolveu levantar. Ela se sentou de frente para o elfo e pegou em suas pequenas mãozinhas. Vipper já estava acostumado com essa atitude dela, mas não deixou de se assustar pela proximidade.
- Fique tranquilo, Vipper. Eu confio muito em você. - ela lhe acalmou - Por isso, gostaria que me fizesse um favor, sim?
- O que a senhorita quiser, princesa Malfoy. Vipper ficará exultante em lhe servir!
- Apenas quero que mantenha em segredo o meu encontro com o senhor Snape. - ela pediu baixo e o elfo doméstico manteve seus olhos atentos na garota - Eu não acho que será bem visto por Abraxas ou qualquer outra pessoa, então prefiro manter assim. Pode ser?
- A senhorita continuará se encontrando com o garoto Snape? - o elfo questionou, mas logo se apressou em se desculpar - Não era a intenção de Vipper parecer intrometido, isso não interessa a Vipper. O que a senhorita pensará agora? - manteve-se segurando as mãos do elfo. Ela sabia que ele arrumaria algum modo de se castigar se ela o soltasse. Não queria ter que ver isso de novo.
- Vipper, não há o que temer, por favor! - ela suspirou - Acredito que aquela não foi e não será minha última conversa com Snape e conto com a sua discrição.
- Sempre terá a minha lealdade, princesa Malfoy. Se a senhorita precisa que Vipper fique calado sobre isso, Vipper nada dirá até que a senhorita mude de ideia. - ele prometeu e a loira sorriu para o elfo. Ainda que estivesse queimada da tapeçaria, Vipper não lhe tratava como se fosse diferente. Ela apreciava isso.
- Muito obrigada, Vipper. É muito bom saber disso.

[...]


- Vejo que não desistiu de manter contato comigo, Severus. - ponderou quando viu o garoto entrar na biblioteca sorrateiramente. Ela estava de costas para a janela do cômodo e antes observava as bromélias de Emeline.
- Deveria ser menos presunçosa, Malfoy. Eu estava apenas procurando algo novo para ler. - ele deu de ombros e se encaminhou para a grande estante de livros, dedilhando as obras sem realmente focar em nenhuma.
- Claro, claro. O jogo de quadribol não lhe pareceu satisfatório hoje? - a loira se direcionou a sua costumeira poltrona e se deixou observar o moreno por alguns instantes. Seus cabelos negros não eram tão longos quanto os de Lucius, mas lhe tampavam boa parte do rosto. Seus ombros eram largos e Snape era alto. Bem mais do que ela. Ela o achava bonito? Ainda não sabia bem, não tinha muito com o que comparar - Seus companheiros não vão ficar desapontados? - voltou a falar antes que ele lhe pegasse em seu momento de observação.
- Parece muito interessada no que os outros podem pensar sobre mim, não? - retrucou voltando-se para a loira e notando que hoje seu rosto parecia mais leve. Seus cabelos estavam presos e ela usava um vestido acinzentado. Um belo contraste, ele tinha que admitir.
- Quem está sendo presunçoso agora, Snape? - ele soltou uma risada, mas nada respondeu. Sentou-se no chão perto da garota e abriu seu livro. Sentia os olhos dela acompanhando todos os seus movimentos, mas não se atreveu a encará-la de volta - Você acha que ele realmente está certo? - perguntou alguns minutos depois sem conseguir segurar a língua.
- De quem está falando?
- Do Lorde das Trevas, claro. - ela retrucou e viu Severus contorcer seu rosto em uma pequena careta antes de ficar mais sério - Acha que quando ele chegar ao poder poderemos viver sem a interferência dos trouxas?
- Claro, você não? O sangue mágico que corre em nossas veias é uma prova e tanto de que não deveríamos ser os que devem se esconder. - comentou como se fosse óbvio e viu a garota assentir displicente - O que te preocupa? Você é uma Malfoy!
- Eu sou, mas isso não me impediu de ser um aborto, né?
- Mas seria diferente, não? O sangue que corre em você ainda é puro, ele não faria nada, faria? - Severus olhava para a loira, mas ela deu de ombros e lhe encarou esnobe.
- Sinceramente eu não sei, mas isso não me importa por agora. Quando chegar o momento de lidar com o Lorde das Trevas, eu não vou esquecer do sangue Malfoy.
- Poderá contar comigo quando esse momento chegar. - em um impulso ele tocou a mão da garota e lhe encarou os olhos azuis-esverdeados. encarava a imensidão negra de volta e, mesmo sem entender, se sentiu acolhida.
- De onde vem essa lealdade, Snape? Nos conhecemos há tão pouco e você está parecendo uma coruja com toda essa dedicação.
- Eu não sei, mas sempre ouvi dizer que corujas eram animais extremamente sábios.
- Eles são, assim como são misteriosos. A clandestinidade da noite lhes é acolhedora. - ela ponderou e Severus sorriu observando que a garota ainda não afastara a mão da dele.
- Terá de lidar comigo, Malfoy.
- Se os lírios não foram o bastante para mudar a sua cabeça, por que eu deveria achar que uma coruja seria o suficiente? - perguntou com o olhar vago, como se prestasse atenção em algo muito além de Severus e o garoto não conseguiu compreender, mesmo que os olhos de Evans tivessem passado rapidamente por sua cabeça. Ainda que não a conhecesse bem, sabia que não responderia se ele questionasse.
- As corujas possuem asas, Malfoy. - ele arriscou e a loira focou seu rosto lhe dando atenção - Elas podem trazer uma nova perspectiva, acredito.
- Ter asas não significa alçar voo, você deveria saber.
- Mas isso não as impede de pensar e conhecer. - ele disse simplesmente e apertou levemente a mão da garota antes de soltá-la e se levantar. Severus nada mais falou e saiu da biblioteca. seguiu olhando para a porta por mais alguns instantes, mas logo saiu por sua passagem até o quarto.
Em sua mesa de cabeceira, uma foto dela e de Emeline se destacava em um belo porta-retrato. A fotografia tinha sido tirada no aniversário de 13 anos da garota. Emeline queria que a filha comemorasse a data normalmente, ainda que soubesse que não seria possível.
As duas estavam sozinhas na grande sala dos Burke, a família de Em antes de se casar com Abraxas, junto a um bolo pequeno com algumas velas para que a garota pudesse apagar. “Faça um desejo, querida”, a mãe tinha lhe dito, mas não conseguiu pensar em nada que quisesse. Abraxas e Lucius não apareceram em seus pensamentos. Ser uma bruxa muito menos. Ela só assoprou as velas e nada mudou. Sabia que não mudaria. Quando sua mãe perguntou se tinha feito seu pedido, ela se limitou a assentir e viu um sorriso surgir em seu rosto. Uma mentirinha não faria mal.
Agora, olhando para a imagem daquele dia, se culpava. Ela tinha desperdiçado um desejo naquele aniversário e gostaria de tê-lo de volta. Passando os dedos pela figura de Emeline que se movia abraçando sua versão da foto, a loira queria pedir a mãe de volta. Mas, sabia que nem soprando todas as velas do mundo seria atendida. Emeline não voltaria para esclarecer suas dúvidas.

[...]


- Você tem certeza de que é capaz de criar um feitiço? - questionou descrente Severus já no quinto dia em que os dois se reuniam para ler na biblioteca. Snape agora dava a desculpa de estar aproveitando o tempo junto aos livros dos Malfoy e, como os demais estavam mais interessados em Quadribol, lhe deixavam em paz por algumas horas.
- Está duvidando das minhas capacidades, Malfoy? - ele retrucou sarcástico - Que eu saiba, entre nós dois, eu tenho mais condições de criar um feitiço. - concluiu superior e a garota apenas revirou os olhos antes de sorrir sem se importar com o insulto implícito.
- Só quero que me diga quando tudo explodir para que eu possa aparecer e ser a primeira a falar “eu te avisei”. - pediu com um sorriso animado que desconcertou Severus por alguns instantes.
- Se isso acontecer, prometo que será a primeira a ser informada.
- Eu não pediria mais do que isso! - ela suspirou - Mas sinto que seu tempo aqui na mansão esteja acabando. - admitiu num ímpeto.
- Assumindo que sentirá a minha falta? - ele sorriu de lado, mantendo a postura e enfiando as mãos nos bolsos discretamente já que elas começavam a tremer.
- Você é mais interessante do que Vipper. - disse apenas, mas Severus entendeu o significado por trás da frase.
- De fato, conversar com um elfo doméstico tem suas limitações. - ele riu.
- Vipper me trata como uma princesa e é ótimo fazendo tortinhas de abóbora. - ela defendeu - Você deveria se sentir lisonjeado se te comparo a ele.
- Princesa Malfoy? - ele debochou da garota que lhe olhava com raiva pela audácia - Vindo de alguém que é seu criado, não significa muito. - desdenhou.
- Com inveja, príncipe mestiço? - ela arqueou uma sobrancelha e Severus apenas riu do novo apelido.
- Príncipe mestiço? - ele repetiu ainda risonho - Acho que você está se aproveitando do que lhe contei sobre minha família para me insultar.
- Não posso dizer que não, mas eu gostei. Irei lhe chamar assim a partir de agora. - ela declarou.
- Acho que sigo preferindo Severus.
- Mas, se eu lhe chamar de Severus, todos saberão de quem se trata. Príncipe Mestiço soa como um ótimo disfarce aos meus ouvidos.
- E por que eu precisaria de um disfarce? Estou assumindo que vamos continuar em contato quando eu for embora, então?
- Isso é perigoso tanto pra você quanto pra mim, Severus. - parecia cabisbaixa - Não é como se Abraxas não fosse descobrir isso cedo ou tarde. - ela não conseguia chamá-lo de pai há um bom tempo.
- Você quer continuar mantendo contato comigo depois que eu for? - ele fingiu não ouvir as preocupações da garota.
- Não está mesmo preocupado com as possíveis consequências?
- Malfoy? - insistiu.
- Se formos pegos por ele ou pelo Lorde, a culpa será inteiramente sua.
- , eu quero ouvir você dizer. - ele pediu, grudando seus olhos nos dela e vendo a garota corar, enquanto bufava derrotada.
- Eu adoraria manter contato com você, Severus. - ela se rendeu - Satisfeito?
- Príncipe mestiço. - ele corrigiu e ela sorriu desacreditada.
- Se for assim, vamos precisar de um disfarce pra mim também.
- O seu nunca será tão legal quanto esse.
- Você que pensa.
Eles ainda se olhavam, mas estavam constrangidos. foi a primeira a retornar seus olhos ao livro para fugir do nervosismo que sentia ao encarar Severus. Ele lhe atraía de um modo desconhecido até então. Ela sentia seu coração dar leves saltos quando Severus sorria em sua direção e, por mais que ela não fosse admitir em voz alta, tinha sonhado com ele nas noites anteriores. Apenas liam e conversavam, como estavam acostumados a fazer, mas o importante é que estavam juntos.
- Está tudo bem, ? - Severus tocou delicadamente a mão da garota, despertando-a do transe que ela parecia presa nos últimos dez minutos - Você nunca demorou tanto para ler um par de páginas. - observou.
- E-eu estava apenas pensando. - respondeu em voz baixa, sem se mexer ou retirar a mão da dele. Era uma sensação gostosa.
- E pode me contar sobre o que pensava?
- Você já beijou alguém, Severus? - questionou sem pestanejar e, num ímpeto de coragem, olhou diretamente para os olhos do garoto.
- E-eu o quê?! - ele agora olhava pra ela como se a loira tivesse criado uma segunda cabeça. A pele de Severus se tingia de um vermelho que raramente aparecia.
- Se você já beijou alguém, Severus. - ela revirou os olhos impaciente. Era uma pergunta simples, oras.
- Já, claro! - Snape respondeu rápido, ainda desconcertado com o assunto que aparecera - Por quê? - ele não conseguiu conter a curiosidade.
- Porque eu gostaria de saber como sabemos que queremos beijar alguém. - ela deu de ombros - Não é como se eu tivesse uma fila de pretendentes do lado de fora da mansão.
- Ah, - ele pigarreou tentando encarar a conversa como algo normal - eu acho que quando você se sente atraído por alguém, você quer beijar essa pessoa.
- E como você sabe que está atraído por alguém? - ela escorregou da poltrona até o chão onde Severus também estava sentado e permaneceu olhando pra ele.
- Acho que quando você sente seu coração bater mais rápido perto da pessoa é um bom sinal de que está atraído por ela. - ele engoliu em seco, sem deixar de encará-la.
- Alguns livros de romance que li mencionaram borboletas no estômago, - ela comentou se aproximando dele - mas achei clichê demais para ser verdade.
- Nem todos os clichês são ruins, . Você apenas precisa se deixar levar para isso. - Severus falou bem próximo ao rosto dela, fazendo com que a garota pudesse sentir em seu hálito o café recém tomado por eles.
- Você me beijaria mesmo com tudo o que isso representa? - seus lábios roçavam um no outro levemente pela pouca distância e Severus, que já não estava conseguindo raciocinar muito bem, parou um segundo para refletir. Ele sabia o que ela estava perguntando. Sabia que seja-lá-o-que-havia entre eles, mesmo em pouco tempo, tinha ultrapassado o nível de amizade. Se ele estava disposto a sacrificar um pouco do que pensava por ela?
Severus olhou uma vez mais para os orbes azuis-esverdeados e soube que a sua resposta já existia. Sem pestanejar, o garoto acabou com o espaço entre eles e beijou os lábios da loira com a vontade que reprimia há dias.


Capítulo 6

Alecto não tinha dado descanso a Severus nos dias que faltavam para que os hóspedes fossem embora da mansão dos Malfoy. A garota tinha tentado entrar outra noite nos aposentos de Snape, mas ele não permitira. Foi uma pequena vitória quando ela entendeu que tudo não havia passado de uma noite casual e deixara de importunar. Ela era uma mulher crescida, sabia ouvir um não, foi o que Carrow lhe disse quando Snape teve uma conversa séria com a jovem.
Essa situação tinha resultado em pouco tempo com , já que Severus precisou passar mais horas junto aos seus companheiros de casa para que não suspeitassem de nada. Durante a noite, Snape lia alguns livros de feitiços da biblioteca dos Malfoy para arrumar uma forma de se comunicar com a garota quando eles estivessem distantes. Ele passou dias procurando até que se deparou com o feitiço de Proteu em um livro de feitiços avançados e achou que se concentrando o suficiente, daria conta.
Severus leu as instruções vezes o bastante para que pudesse memorizá-las e pegou seu relógio de pulso para duplicar os comandos. Em um dos poucos períodos que conseguiu ficar a sós com , lhe pedira um relógio que ela sempre usava e o tinha agora em mãos: cravejado em ouro, o objeto que Snape segurava provavelmente valia mais que vários itens que ele tinha em casa.
Demorou um pouco mais de uma hora para que o feitiço tivesse saído corretamente da varinha de Snape e ele estivesse satisfeito. Ele teve que tomar cuidado para que os dois relógios ficassem conectados. Se mudasse os ponteiros em seu relógio, Severus também saberia. Se ela o colocasse perto do fogo, ele sentiria esquentar e saberia que algo estava errado. Sem mudanças, eles apenas mostrariam a hora normalmente. Ele sabia ser um feitiço avançado para um aluno do 4º ano e adoraria se vangloriar para o professor Flitwick, mas a probabilidade de ganhar uma expulsão por fazer feitiços fora de Hogwarts era maior ainda. Só torcia pra que ninguém do Ministério batesse à sua porta com uma reprimenda.
- Tem certeza de que isso vai dar certo, Severus? - perguntou na última noite dos dois juntos na mansão. Snape partiria ao amanhecer junto aos outros e ele resolvera passar as últimas horas junto a ela na biblioteca.
- Nós já testamos os relógios, já anotei a localização que devo dar a coruja de minha mãe e ela sempre irá esperar até que você tenha uma resposta pra mim. - ele deu de ombros enquanto pegava distraidamente na mão da garota - Você quer cancelar tudo?
- Eu não quero te meter em problemas, Snape. Apenas isso. E se Lucius descobre sobre a coruja? Ou pior, Abraxas e o Lorde das Trevas? - ela suspirou tentando manter a calma - Eu ainda sou um aborto, Severus.
- Sei disso. - ele lhe olhou nos olhos - Mas também sei que você não é só isso e que vale a pena.
- E como isso me faz diferente do que prega o Lorde das Trevas? Do que você acredita?
- Eu não sei, Malfoy - Severus foi sincero - Mas sinto que é diferente por ser você. Aborto ou bruxa, você importa.
- Espero que não se arrependa do que estamos fazendo, Snape. De verdade.
- Eu me arrependeria de não ter tentado, . Seja lá o que isso for. - completou e deixou um beijo na testa da garota.
- . - ela disse depois de um tempo em silêncio e Snape lhe olhou sem entender - É assim que quero que me chame em suas cartas. É meu apelido desde que nasci e não vejo motivos pra você não me chamar assim.
- Não vai ficar muito na cara se as cartas forem interceptadas?
- Se elas forem interceptadas teremos problemas maiores que um simples apelido, príncipe mestiço. - a garota sorriu e Severus tentou gravar aquele momento em sua cabeça. Sentiria falta.
- , então. - ele disse se demorando no apelido e a loira alargou ainda mais o sorriso - Eu ainda não fui embora, mas estou ansioso para a próxima vez que nos veremos.
- Sabe que isso pode demorar até a sua formatura, certo?
- Dois anos de cartas. - ele sentiu o coração apertar - Você consegue esperar todo esse tempo?
- Eu não vou sair do lugar, Sev. - ela lhe chamou assim pela primeira vez e gostou de ver o tímido sorriso que apareceu nos lábios dele - A pergunta aqui é se você consegue esperar esse tempo todo?
- É bom você continuar fazendo valer a pena, . - disse antes de acabar com a distância entre eles e beijá-la como sabia que não poderia fazer por um bom tempo.
Os beijos dos dois eram intensos, os hormônios de dois adolescentes de 15 anos não eram os mais centrados quando suas peles se chocavam. Mas Severus fez seu melhor pra se mostrar respeitoso e não ultrapassou os limites da garota, ainda que ela estivesse tão ofegante quanto ele.
- Eu vou precisar subir agora. - o garoto disse entre beijos à loira e em um resmungo, ela continuou a beijá-lo - Falo sério, Malfoy. - completou rindo, diferente do que tentava passar - Tenho que subir ao meu quarto antes que alguém pense em acordar.
- Certo, você pode ir, mas só porque eu já estou cansada. - ela disse superior e foi se levantando, ao que Severus fez o mesmo.
- Você deveria aprender a mentir melhor, . - Snape desdenhou.
- Você só acha que eu não sei mentir porque eu quero que pense assim, Snape. Se e quando eu realmente precisar mentir pra você, não irá pensar desse jeito. - ela alertou e ele sentiu um arrepio involuntário em sua espinha ao olhar para o rosto impassível da garota. Foi apenas por um segundo, porque ela logo suavizou a expressão como se não soubesse o motivo anterior de ter ficado séria.
Os dois se despediram com um abraço apertado e outro beijo. Não se conheciam há muito tempo, mas sabia que havia algo de forte em sua relação com Severus. Ela não estava preocupada com os dois anos que eles passariam separados, porque sentia que a relação deles estava destinada a mais tempo do que isso. Algumas provas eram necessárias e essa era apenas uma dessas.

[...]



Snape estava sentado à mesa de café da manhã junto a Abraxas, Lucius e Crabbe. Os irmãos Carrow tinham aparatado há poucos minutos para casa, mas Severus usaria uma chave de portal para voltar e Stilimus iria via pó de flu. Os quatro comiam em silêncio, quando ouviram uma badalada mais forte do relógio da sala, avisando que a chave de Severus partiria em cinco minutos.
O garoto tratou, então, de se despedir de todos, agradecendo aos anfitriões e foi com sua bagagem para o lado de fora da casa esperar o momento exato.
- Snape! - Abraxas Malfoy veio apressado de encontro ao garoto - Não gostaria de perder a oportunidade de lhe falar duas palavrinhas.
- Claro, senhor Malfoy. O que posso fazer pelo senhor?
- O Lorde gostaria que eu lhe dissesse que ele tem planos gloriosos para você assim que terminar Hogwarts - ele começou solene - e pediu que mantivéssemos contatos mais estreitos durante seus últimos anos.
- Claro, senhor Malfoy! - disse sem pensar. Ele sabia que servir ao Lorde das Trevas era uma maneira de conseguir uma condição aceitável para . Pela primeira vez em muito tempo, Lily não passou nem perto de seus pensamentos - Será uma honra me juntar ao Lorde assim que Hogwarts tiver terminado.
- Bom, bom. - Abraxas lhe avaliou com os olhos sérios - A segunda coisa que queria lhe falar é por minha conta. - Severus assentiu - Algumas coisas, jovem Snape, são melhores se se mantiverem nas sombras. - Abraxas disse com a voz mais baixa, quase como um segredo, mas Snape não teve chances de responder, porque a chave de portal tinha sido ativada e logo ele estava caindo no gramado traseiro de seu jardim.
Ele agradeceu por mais uma vez ninguém ter visto sua queda e logo juntou sua mala que havia caído um pouco distante na aterrissagem. Enquanto andava para casa, Severus se perguntava o quanto Abraxas Malfoy sabia de sua relação com , já que ele claramente falara dela neste pequeno aviso. Mas, mais do que isso, ele se perguntava se essa consciência de Malfoy traria consequências para a garota.

Outubro de 1975



O quinto ano de Severus tinha começado há um mês e ele ainda estava se ajustando novamente aos horários. Ele voltava junto a Teodora Flint da Torre de Astronomia, depois da aula da professora Sinistra para as masmorras quando os dois esbarraram em Albus Dumbledore.
- Ah, jovem Severus. Justamente quem eu gostaria de encontrar! - o diretor cumprimentou e se virou para Teodora - Senhorita Flint, também é um prazer encontrá-la e parabéns pelo posto de monitora. - disse animado e a garota corou, mas agradeceu.
- Diretor, podemos ajudá-lo em alguma coisa? - Snape perguntou ao mesmo tempo que analisava a postura descontraída do homem.
- Precisamente! Gostaria que me acompanhasse ao encontro do professor Slughorn, senhor Snape. Ele tem planos para o seu melhor aluno de Poções e se encontra em meu escritório. Senhorita Flint, temo que a senhorita tenha de ir até as masmorras sozinha agora.
- Sem problemas, diretor! - Teodora se apressou - Quer que eu leve suas coisas, Severus? - perguntou ao amigo que agradeceu e passou a ela seu livro de Astronomia, seu caderno para anotações e um estojo pequeno - Nos vemos no Salão Comunal depois da minha ronda. - Teodora se despediu e logo saiu caminhando apressada sem olhar para trás.
- Podemos? - Dumbledore indicou o caminho para seu escritório e Snape apenas o seguiu de perto - Amizade interessante essa que o senhor tem com a senhorita Flint. - o diretor disse como se lhe falasse o tempo e Severus engasgou com a própria saliva - Relaxe, filho. Foi apenas um comentário. - Albus riu.
- Desculpe, senhor, mas não acho que seja da sua conta as minhas amizades dentro do castelo. - Snape respondeu quando conseguiu se recompor.
- Não é com suas amizades dentro do castelo que me preocupo, Severus. - Dumbledore disse parando para observar o jovem que arregalou um pouco os olhos, pensando no que o diretor poderia saber - Há algo que tenha acontecido nos últimos tempos que queira me contar?
Dumbledore sabia! Foi o primeiro pensamento que atravessou a mente do jovem e ele sentiu suas mãos começarem a gelar. Mas do que ele falava exatamente? Do encontro com o Lorde das Trevas? De ? Dos dois? Snape estava quase entrando em surto e Dumbledore continuava olhando para ele pacientemente, estudando-o por cima dos oclinhos meia-lua com seus olhos azuis.
- Não, senhor. - Severus disse depois do que lhe pareceu uma eternidade e o diretor ainda ficou uns segundos reparando na postura do aluno antes de simplesmente assentir e recomeçar a andar, com o garoto em seu encalço.
- Gosto de amoras explosivas. - o diretor disse baixo para a gárgula de pedra que guardava a entrada de seu escritório - Podemos? - ofereceu a Severus que fosse na frente pela escada e o aluno acatou.
- Ah, Severus, meu garoto! Que bom que pode vir! - Slughorn saudou se levantando da cadeira para cumprimentar o aluno.
- Professor! - Snape disse e ficou esperando pelo que viria.
- Como você sabe é meu melhor aluno de Poções desde os primeiros anos e gostaríamos que pudesse se tornar monitor da matéria, assumindo que tenha pensado em uma vida como mestre de poções, claro. - Horácio começou animado.
- Ainda não pensei muito no que fazer quando sair de Hogwarts, senhor. Mas com certeza trabalhar com Poções está nos meus planos. - Severus explicou - Só não é a única matéria que me interessa.
- E qual seria a outra? - Dumbledore questionou genuinamente curioso.
- Defesa Contra as Artes das Trevas, senhor. Mas isso dependerá dos meus resultados nos N.I.E.M.S no último ano também, claro.
- Entendo, entendo. - Slughorn pareceu meio decepcionado que seu aluno de ouro não estivesse inteiramente focado em poções - Mas ainda acho que seria de muito proveito se o senhor se tornasse meu monitor de Poções. Sempre que isso não atrapalhe seus estudos para os N.O.M.S, claro.
- Será uma honra, professor Slughorn. - Severus aceitou sabendo que nesse caso havia uma resposta certa a dar. Quanto mais ele soubesse se defender, melhor seria.
- Esplêndido, esplêndido! - Slughorn comemorou e começou a falar de alguns detalhes com Severus que fazia seu melhor para prestar atenção. Ele sentia o olhar analisador de Dumbledore queimar sua pele a cada segundo e não sabia como lidar com o diretor que parecia muito bem informado. Mais do que deveria até.

Novembro de 1975


Severus e tinham trocado até agora uma única carta. A garota não tinha muito o que compartilhar, já que seus dias na mansão eram mais do mesmo - a não ser com umas visitas inesperadas do Lorde das Trevas, mas essas ela preferia manter para si mesma. Snape, por outro lado, tentou fazer com que a garota se sentisse no 5º ano, comentando com a loira sobre o que aprendia, dividindo com ela um pouco do seu trabalho como monitor de Poções e falando brevemente sobre suas relações no castelo.
Ele contara a ela sobre como Teodora Flint era uma incrível ouvinte (ainda que não soubesse sobre eles) e deixara com uma pulga atrás da orelha. Ela sabia que não podia pedir muito de Severus por estarem distantes, mas não gostara de saber sobre essa tal amizade entre os dois.
- , querida? - Abgail Brown chamou a atenção da aluna que mais parecia estar em outro planeta - Aconteceu algo? - questionou genuinamente preocupada. Por mais que vivesse sob ameaça constante de Abraxas, tinha se afeiçoado a garota que de nada tinha culpa.
- Não, não, professora! Me desculpe, eu estava apenas divagando. - justificou voltando seu olhar para o livro de Herbologia - Estávamos falando sobre as propriedades da Baba de Cérbero, certo? - tentou
- Na verdade, eu estava lhe perguntando sobre o Pus de Papoula, querida. - corrigiu amável - Mas, podemos fazer uma pausa de alguns instantes, se você não estiver se sentindo bem.
- Obrigada, professora! - a jovem suspirou - Eu só estou um pouco cansada, sinto que estudar essas coisas não irá ser completamente útil sem que eu possa me defender com uma varinha.
- Uma poção bem preparada pode ser mais perigosa que um feitiço, . Lembre-se disso. - Brown começou a remexer em sua bolsa - De todo modo, eu concordo que exista um potencial maior em você e espero que não se ofenda com o que eu gostaria de lhe propor.
- Do que está falando?
- Bem, - Abgail não sabia muito por onde começar - eu sei sobre os pensamentos dos Malfoy quanto aos trouxas, querida. Gostaria de saber se você também pensa assim.
- Não é como se eu conhecesse algum trouxa, professora. - riu sem humor - Mas, também não é como se eu, como um aborto, fosse muito superior a eles.
- E você consideraria saber mais sobre eles?
- Quer dizer conviver com eles ou algo assim?
- Ou algo assim. - a senhora ponderou - Na verdade, estava pensando que pudesse estudá-los, querida. Essa é uma das matérias lecionadas nas escolas bruxas e você daria uma excelente professora.
- Realmente acredita que um aborto possa ensinar sobre os trouxas, professora?
- Você é mais do que um simples aborto, . Precisa começar a se enxergar pelo que realmente é. - Abgail suspirou e lhe passou um livro marrom. Ele não possuía capa ou qualquer letra que indicasse o assunto - Esse é um livro mágico, Iniciação ao Estudo dos Trouxas por August Palazios.
- Mas como a senhora espera que eu leia esse livro? - questionou folheando e vendo que as páginas estavam todas em branco.
- Tudo o que você precisa fazer é escrever o seu nome no canto da primeira página e ele se tornará seu. Assim, apenas quando você abrir o livro, as palavras se mostrarão. Do contrário, ninguém poderá ler. - explicou - É um encantamento antigo, muito usado durante as antigas guerras bruxas por território.
- Entendo. Bem, isso pode dar certo. - ela deu de ombros logo escrevendo o nome como a professora tinha instruído e vendo as palavras aparecerem.
- Quando terminar esse, se quiser, eu posso trazer mais alguns. Sempre com muita discrição, claro.
- Não se preocupe, professora. No que depender de mim, ninguém saberá. - e ali elas selaram um acordo que, se o arrepio que percorreu a espinha de estivesse certo, não seria por acaso.

[...]


não sabia bem em que momento tinha pego no sono, mas se lembrava de ter ido se deitar. Abraxas, naquele dia, viera lhe procurar por alguns minutos para saber como andavam as aulas com Abgail Brown e se algum progresso tinha acontecido. Ela viu a decepção nos olhos dele quando lhe disse que seguia sem conseguir fazer magia, mas não se importou. Muita coisa tinha mudado desde que sua mãe morrera e a relação deles era uma dessas coisas.
A garota, no entanto, tinha se recolhido pensando no pai e em como a existência, melhor dizendo, inexistência de magia em seu sangue parecia crucial para a manutenção de uma boa imagem. Infelizmente. O mais engraçado nisso tudo é que, enquanto pensava essas coisas, não percebeu que não estava bem em seu quarto. Ela só se deu conta quando uma pessoa lhe atravessou como se passasse por um fantasma.
- Temos que estar prontos, Minerva! Não podemos deixar que Tom ganhe tanto terreno como ele tem feito há anos. - um homem falou apressado para uma mulher que desconhecia, mas pelas vestes, ela parecia ser importante.
- Não é como se fôssemos juntar um exército para derrotar o Lorde das Trevas, Albus! - ela suspirou exasperada - Os meninos acabaram de se formar, alguns já possuem filhos. Não podemos pedir a eles que lutem conosco.
Nesse momento, resolveu olhar mais atentamente para o homem e o reconheceu, ainda que estivesse levemente mais velho desde a única vez que o vira. Albus Dumbledore estava parado a poucos metros dela e era como se não a visse. O que estava acontecendo?
- Acho que deixar de pedir é um problema ainda maior, Minerva! Justamente por já serem pais não vão querer seus filhos num mundo dominado pelas trevas! - ele se sentou e olhou rendido para a mulher - Sei que você esteve próxima a alguns deles, mas devemos dar a eles o direito de escolher o que fazer.
- Minha dúvida vai além de sentimentalismos, você sabe bem disso. - ela lhe olhou derrotada - Eu sei que eles são bruxos e bruxas magníficos, mas muitos ainda são crianças ao meu ver.
- Olhe para as últimas notícias do Profeta, Minerva e pergunte a si mesma se essas crianças não precisam lutar? - Dumbledore debochou pela primeira vez enquanto entregava o exemplar do jornal para a mulher que o pegou tremendo levemente.
também se aproximou para olhar e sentiu como se estivesse sendo sugada pelo papel para as fotos de destruição.
Logo, a garota não estava mais protegida pelas paredes do escritório e se encontrava na rua. As pessoas passavam por dentro dela com rapidez e ela pode ver que adultos e crianças corriam em desespero buscando um lugar pra se abrigar e, por mais que a garota quisesse correr também, seus pés pareciam presos ao chão.
Ela olhava para todos os lados esperando que alguém lhe visse, mas não conseguia sequer gritar. A rua estava escura, mas ela podia ver com clareza os ricochetes de feitiços passando de um ponto a outro e atingindo muitas das pessoas que corriam. As pessoas berravam por ajuda, crianças choravam e pediam clemência, mas os barulhos de explosões pareciam cada vez mais altos. Mais próximos.
Foi quando ela ouviu uma explosão às suas costas e se virou para ver, encontrando o lugar, que mais parecia uma casa, em chamas. As pessoas ao redor chamavam por nomes, mas ninguém saía de lá. Alguns corajosos até tentaram entrar, mas eram arremessados pra trás por uma espécie de muro invisível. sentia a angústia crescendo dentro de si, querendo sair daquela posição e fazer algo, mas nada adiantava. Ela estava acorrentada ao mesmo lugar em que aparecera.
Quando olhou pro céu, tudo o que ela conseguiu ver foi um crânio enorme desenhado com o que pareciam pequenas estrelas verdes. Assim que ele abriu a boca, uma cobra saiu dela como uma língua e foi se apossando do céu deixando a noite ainda mais gelada e, estranhamente mais escura do que já estava. ouviu claramente um Morsmordre antes de desmaiar e acordar ofegante em sua cama enquanto era segurada por Abraxas e Lucius.
- , você está bem? - Lucius foi o primeiro a perguntar a irmã que, mesmo estando de olhos abertos, não parecia estar vendo nada a sua frente.
- Ainda que a escuridão reine por um bom tempo, - a garota começou a falar com os olhos vidrados no vazio, enquanto suas mãos e seu corpo tremiam e Abraxas tentava manter a filha no lugar - a luz encontrará o seu caminho através das asas de uma fênix - ela continuou com a voz rouca e pai e filho se entreolharam tentando entender o que acontecia - no momento em que a ordem for instaurada. - concluiu se deixando desfalecer nos braços de Lucius que olhava pro pai ainda confuso.
- I-isso foi uma profecia? - Lucius perguntou incerto a Abraxas que agora olhava para a filha com um sorriso crescente no rosto.
- Eu acredito que sim.
- Mas como isso é possível se ela é um …? - o jovem não se atreveu a falar a palavra, mas o pai entendeu e estremeceu como se ele tivesse dito.
- Ela previu a morte de Emeline, não se lembra? - Abraxas comentou - Acho que ela pode ser formidável se tiver o treinamento correto.
- Acha que ela falava sobre o Lorde? - Lucius perguntou com um sussurro, ainda que só os três estivessem no quarto e já dormisse.
- Temo que sim e ele será avisado no momento certo, Lucius. - Abraxas decretou antes que o filho inventasse de sair contando o que acontecera para outros comensais - Por enquanto, eu sei exatamente quem procurar. - o mais velho comentou se levantando e caminhando para a saída do quarto - Nenhuma palavra disso com qualquer pessoa, Lucius! - ele reforçou antes de ir embora deixando os filhos sozinhos e caminhou para o seu escritório.
- Sinto muito, ! - Lucius disse baixinho enquanto arrumava a irmã de forma mais confortável na cama. Ele se deitou ao lado dela e deixou um beijo na testa da garota que estava levemente suada - Eu vou cumprir a minha promessa e fazer o possível pra te deixar segura. - falou antes de fechar os olhos e se deixar adormecer junto à irmã.


Capítulo 7

- Que bom que conseguiu um horário para nos encontrar, Madame Trelawney. - Abraxas fez questão de abrir a porta para a senhora que se encontrava ladeada por dois homens bem corpulentos e bem mais altos que ela: Apus Black e Baltazar Lestrange tinham as mãos apoiadas cada um em um dos ombros da mulher que claramente estava desconfortável com a situação e procurava uma forma de fugir - Por favor, entre! Vamos ao meu escritório. - ele lhes deu espaço e os três adentraram a mansão, sendo logo guiados para dentro da casa.
- Somos necessários nessa conversa, Malfoy? - Lestrange questionou antes que eles seguissem para o escritório e Abraxas apenas negou - Então, sabe onde nos encontrar quando quiser. - ele logo se afastou com Black para que os dois pudessem aparatar fora do terreno da família.
- Sinta-se à vontade, Madame. - Abraxas convidou lhe oferecendo uma cadeira em que ela se sentou obrigada e contornou a mesa para que pudesse ficar de frente para a mulher - Queira me desculpar pelo convite abrupto que meus amigos lhe fizeram hoje. - disse em uma voz leve que beirava o tédio.
- Não há necessidade de preâmbulos, Malfoy. Você pode ir direto ao assunto! - a senhora se armou de coragem e resolveu enfrentar o homem - Por que me trouxe aqui?
- Corajosa desse jeito, muito me admira que não tenha ido para a Grifinória em seus tempos de Hogwarts. - Abraxas riu e continuou a analisá-la.
- Covarde desse jeito, nada me surpreende que tenha ido para a Sonserina conseguir quem fizesse o trabalho sujo por você. - Trelawney arqueou uma sobrancelha e viu o loiro trincar o maxilar raivoso, procurando sua varinha entre suas vestes - Você não vai me atacar, Malfoy. - ela disse tranquilamente - Você precisa de mim viva e completamente dona das minhas capacidades mentais. Acha mesmo que eu não sei o que estou fazendo aqui, Abraxas? - ela sorriu esperta e o homem engoliu em seco.
Athenodora não era uma excelente clarividente à toa. Neta de Cassandra Trelawney, uma das maiores videntes desde Nostradamus, a mulher tinha herdado o dom da vidência de sua avó que pulava uma geração, sendo ligeiramente mais fraco nela por conta da mesclagem de sangue. E, ela sabia que estava ali por isso.
- Previu que eu lhe traria até aqui? - Abraxas questionou ainda um pouco descrente.
- Pra alguém que estudou com um descendente direto de Mopso em Hogwarts você parece bem esquecido de como funciona a arte da Adivinhação, Malfoy. - ela alfinetou. O homem não lhe metia medo estando sozinho, era apenas mais um pião no jogo, ela sabia.
- A senhora tem uma língua afiada! - ele observou - Seria uma pena cortá-la. - ameaçou baixo e a mulher estremeceu levemente, o que deu certa alegria ao loiro - Pra sua sorte, eu ainda preciso que a senhora fale. - sorriu falsamente - Gostaria que conhecesse uma pessoa. Um momento. - pediu se levantando meio cansado de tantos rodeios.
- Será um prazer conhecer sua filha. - Athenodora apontou esperta e Abraxas estancou no lugar - Ela é um dos únicos motivos pelos quais ainda estou aqui esperando. - deu de ombros.
- Como sabe sobre a minha filha, Trelawney? - perguntou baixo, mas a mulher conseguiu compreender.
- Espero que quando você aprender a respeitar os clarividentes não seja tarde para a sua própria família, Malfoy. - Athenodora respondeu com voz cansada e arrumou os óculos em seu rosto - Vá chamar que é mais importante! - ordenou e Abraxas não pode conter o impulso de fazer o que a mulher dizia.
Poucos minutos depois, Abraxas voltou ao cômodo trazendo uma extremamente fraca a tiracolo. A garota estava com um aspecto doente, sua pele já naturalmente pálida mais se assemelhava a uma vela. Por isso, ele a sentou com cuidado ao lado da mais velha que imediatamente olhou para a adolescente.
Quando os olhos de se encontraram com os de Athenodora, a loira sentiu uma corrente elétrica passar por todo o seu corpo. Sabia que já conhecia aquela mulher, ainda que não soubesse de onde.
- Eu sei como se sente, querida! - Trelawney disse baixo para que apenas a garota escutasse - Apenas tínhamos que nos encontrar.
- A senhora sabe o que está acontecendo comigo? - sua voz estava tão fraca como ela se sentia. O sonho, ou visão, como Abraxas insistia em chamar, tinha drenado boa parte de suas forças.
- Tenho uma ideia, mas vamos descobrir juntas. Apenas concentre-se. - a mulher aproveitou para sussurrar um “Legilimens” e entrelaçar seus dedos aos de . Ela fechou os olhos apenas depois que viu a garota fazer isso. Abraxas estava encolhido em um canto do escritório dividido entre lhes dar privacidade e ficar junto da filha.
Athenodora foi passando por diversas memórias de , como se todas elas fossem folhas rasgadas de livros voando em sua direção. Viu quando a pequena Malfoy deu seus primeiros passinhos, ainda que essas memórias mais infantis fossem borradas pela pouca idade. A mulher viu a relação com Emeline e Lucius, os diversos medibruxos aos quais a garota fora submetida até que aos seus 11 anos veio a confirmação. Era um aborto. Ou pelo menos, era isso o que todos pensavam.
Ela continuou vendo mais algumas memórias que passaram apressadas por seus olhos e ouviu um choro baixinho. Foi necessário um pouco de concentração, mas logo ela viu uma com uma aparência mais jovem, de talvez nove ou 10 anos, abraçando a si mesma com o rosto vermelho pelas lágrimas.
- Está tudo bem, querida. - Athenodora se abaixou na altura dela e tirou delicadamente o cabelo que lhe cobria o rosto.
- E-ele vai descobrir o que eu posso fazer, não vai? - ela perguntou trêmula e a mulher viu que a garota lhe encarava amedrontada - Vai fazer comigo o que fez com a minha mãe.
- Você estará segura em sua mente se souber se proteger, querida. E se souber se controlar.
- Foi por isso que ele a matou? Por que ela não sabia se controlar? - o choro dela aumentava e Athenodora a acolheu em seus braços, fazendo carinho em seus cabelos.
- Não, . - ela suspirou - Ele a matou porque ela não o deixou chegar até você, querida. Emeline se foi dando a vida dela pela sua.
- Ela sabia o que eu podia fazer?
- Apenas uma vaga ideia. Ela era uma descendente distante de Inigo Imago, um grande bruxo e vidente, mas nunca se interessou muito por essa parte da família. Não até que você nasceu e começou a demonstrar certa precisão para a adivinhação.
- Por que está me contando tudo isso aqui nesse lugar escuro? - a garota olhou ao redor e viu que estavam encostadas no que parecia ser uma estante, ainda que ela estivesse vazia.
- Porque estamos seguras dentro de sua cabecinha, . Aqui você é senhora de si e pode fazer o que tiver vontade.
- Até mesmo magia? - questionou inocente e Athenodora soltou uma risadinha que se transformou em um sorriso.
- O fato de não conseguir empunhar uma varinha não transforma seu sangue em menos puro. É apenas diferente. Uma magia diferente.
- É mais fraco?
- Força e fraqueza são determinadas por você e pelo seu subconsciente, não pelo seu sangue. Você diz se será mais forte ou mais fraca, isso vai depender da forma como resolver encarar a vida.
- E ele não vai me encontrar se eu decidir ser forte?
- Temo que você já saiba a resposta, querida. Lorde Voldemort sempre encontra aqueles que deseja ter ao seu lado. - Athenodora suspirou e deixou um beijo na testa da menina - Emeline apenas lhe deu um pouco mais de tempo para que você se preparasse para o que teria de enfrentar.

Dezembro de 1975


dividia seu tempo entre aulas com Abgail Brown, encontros semanais com Athenodora Trelawney, além de estudar o quanto podia sobre o mundo dos trouxas. Desde o primeiro livro que sua tutora lhe dera, ela já tinha devorado pelo menos sete e continuava se especializando às escondidas sobre aqueles que eram tão odiados por seu pai e irmão.
A jovem também se dedicava a ler e reler a última carta que tinha preparado para Severus focando em tentar acalmá-lo, de certa forma. Em sua carta, o garoto questionara mais de uma vez se ela realmente estava bem. Ao que parecia, os relógios de comunicação realmente funcionavam para além dos envios.
A coruja negra de Snape, que parecia mais impaciente a cada hora, estava esperando por essa correspondência que demorou um pouco mais de 15 dias para ficar pronta. Só quando ela se sentiu satisfeita, juntou a carta com o pequeno presente de natal que ela tinha resolvido dar a ele e amarrou na pata do animal que parecia genuinamente animado por finalmente ir embora.
- Sinto muito que tenha tido que esperar tanto. - ela acariciou as penas da coruja e levou uma bicada carinhosa no dedo - Prometo que não irei sempre demorar assim. Pode me cobrar por mais petiscos se isso acontecer uma próxima vez. - se comprometeu como se fosse entendida e, quando a coruja olhou em seus olhos, soube que tinha sido.
O animal voou para fora da mesinha onde estivera todo esse tempo e se esgueirou pela pequena janela do quarto de antes de alçar voo e ganhar o céu, se misturando com a escuridão. Ela se apressou em mudar os ponteiros do relógio para 18h, mesmo que já passasse de meia noite. Esse era o código dos dois para quando ela enviasse uma carta a ele.
A garota imaginava que Severus receberia sua carta próximo a noite de natal, o que lhe confortava minimamente, já que ele poderia lembrar-se dela em uma festividade. sabia que devia ter dito a ele muito mais do que falara naquela carta, mas não podia arriscar uma interceptação, muito menos a vida do garoto.
- Ainda acordada, ? - Lucius interrompeu os pensamentos da irmã e se encostou na soleira da porta do quarto - Não está muito tarde?
- Você também deveria estar dormindo, Lucius! - ela devolveu friamente - Seu dia começa cedo no Ministério.
- Não me importo de perder um minuto ou dois de sono - deu de ombros e, mesmo sem ser convidado, entrou no cômodo e se sentou perto da loira. Ela sentia o olhar do irmão esquadrinhar todos os seus movimentos, ainda que se mantivesse imóvel - Você ficou ligeiramente mais arredia depois de começar a se encontrar com a Trelawney. - comentou displicente.
- Não sou um testrálio pra ficar arredia, Lucius. - disse baixo - E não vejo por que algo assim seja da sua conta.
- Você é minha irmã mais nova, . Tudo o que lhe diz respeito é da minha conta!
- Não me lembro de ter visto essa mesma atitude em você há alguns anos quando Abraxas decidiu me queimar da tapeçaria da família, irmãozinho. - os olhos azuis-esverdeados de fitavam um Lucius desconfortável - Não foi você quem prometeu a Emeline que sempre cuidaria de mim?!
- E o que eu poderia fazer? - ele baixou o tom afetado - Deixar que ele queimasse nós dois por ter retrucado?
- Você já fez o que tinha que fazer, Lucius. Basta apenas lidar com as consequências. - a garota disse se deitando na cama, uma clara deixa para que o loiro fosse embora - As decisões que toma hoje serão um espelho da covardia que virá a seguir.
- O que quer dizer com isso, ? - o mais velho questionou com os olhos pregados na figura deitada da irmã. Ele não conseguia ver seu rosto, mas ela parecia relaxada.
- Que você deveria encontrar o seu verdadeiro lugar nessa bagunça toda, se não quiser delegar para o futuro o fardo de ter que se posicionar. - ela disse e enfiou a cabeça no travesseiro, caindo no sono em poucos minutos. Lucius permaneceu observando a irmã e não pode deixar de questionar se ela, de fato, tinha razão. Ele queria ter ficado contra o pai quando o homem queimou o nome dela e o de Emeline da tapeçaria. Mas ele deveria? Teria sido um preço que ele estava disposto a pagar?

[...]


- Tem certeza de que vai mesmo ficar em Hogwarts este ano, Teo? - Severus questionou a morena enquanto os dois tomavam café da manhã no Salão Principal. Os formulários dos alunos que desejavam ficar para as comemorações de final de ano tinham sido passados na semana anterior e naquele dia os que voltariam para casa partiriam - Ficar em casa deve ser muito melhor, não?
- Não quando preciso aguentar Jake o tempo inteiro ou quando a nossa casa foi a escolhida desse ano para as “festividades”. - ela fez aspas com as mãos na última palavra e pelo seu tom, Snape soube o que significava. A próxima reunião de Voldemort e seus comensais seria na residência dos Flint.
- Você deveria estar animada com isso, não? - disse tentando parecer entusiasmado, mas não sabia se enganava a ela ou a si próprio.
- Acho que você bebeu muito suco de abóbora hoje, Severus! - disse tirando o copo de perto do amigo e recebendo um olhar azedo em troca - Mas você deveria ficar feliz também: ouvi de uma fonte muito segura que sua adorada Evans pretende ficar no castelo para o natal deste ano. - ela disse num tom baixo para que apenas o amigo escutasse. Há algum tempo não pensava em Lily, mas não conseguiu deixar de sorrir minimamente por saber dessa informação.
- E quem lhe disse isso, posso saber? - ele olhou para a garota e a culpa estava estampada em sua cara - Andou fofocando com a Saint-Laurent de novo?
- Não seja um cretino! Não estávamos fofocando, apenas conversando.
- Você gosta de se relacionar com o inimigo, hein!
- Delilah não é nossa inimiga por ser grifinória, Snape. - retrucou para o amigo que bufou contrariado - O fato dela andar algumas vezes com aqueles garotos não faz dela uma má pessoa. - defendeu.
- As amiguinhas se chamam pelo primeiro nome, né? - ironizou.
- Não seja ciumento, Sev. Apenas é interessante estar perto de uma perspectiva que não seja tão relacionada a sangue e poder.
Severus ia responder dizendo que ciúmes era o que menos lhe importava, mas foi interrompido pelas corujas que chegaram trazendo o correio da manhã. Antes que ele pudesse notar, Nute, a coruja de sua mãe, lhe encarava com seus grandes olhos negros e lhe estendia a pata com uma carta e um pacote. Não demorou mais que um pequeno afago para que o animal voasse da mesa e deixasse Severus sozinho com a encomenda.
- Não vai abrir? - questionou a garota que se revezava entre sua edição do Profeta Diário e o amigo que parecia adorar o que quer que fosse que tinha recebido.
- Não é importante! - concluiu enfiando nos bolsos a correspondência e voltando seus olhos para Teodora - Como eu estava dizendo, não tenho ciúmes da Saint-Laurent, só acho que você merece melhores companhias.
- Claro, claro! Um sonserino é sempre uma melhor opção, né? - concordou espertamente observando Severus com seus olhos verdes atentos. Teodora sentia que o amigo estava apenas despistando, algo estava estranho.
- E você pensa diferente? - ele arqueou uma sobrancelha e a morena sorriu de lado.
- Não coloque palavras na minha boca! - riu, ainda que seu olhar teimasse em procurar a mesa da Grifinória. Ela podia não admitir em voz alta, mas de uns tempos pra cá, a companhia de um certo grifinório estava sendo muito bem-vinda em suas visitas à biblioteca.
- Fico feliz que concordemos com isso também. - Severus concluiu sem prestar muita atenção na atitude da amiga que seguia olhando o outro lado do salão. Ele estava mais preocupado em pensar na melhor maneira de adiantar suas tarefas para que pudesse ter uns momentos a sós com o que quer que tinha lhe mandado. Seu envelope sem identificação pesava no bolso interno de suas vestes.
Alguns minutos depois, usando a desculpa de que precisava entregar um relatório para o professor Slughorn, Severus conseguiu se desvencilhar de Teodora e se esgueirou para a primeira sala vazia que encontrou no terceiro andar. Murmurando um colloportus, o jovem se pôs a abrir a carta e não deixou de sorrir quando leu logo nas primeiras linhas um “Olá, príncipe mestiço” com a caligrafia impecável da loira.
Ela não falava muito da própria rotina, mas lhe assegurava que estava “muito bem, obrigada” e comentou trabalhar duro com Abgail Brown, quem Severus sabia ser sua tutora, em projetos que eram, ao mesmo tempo, animadores e assustadores. Ele tinha ficado curioso, claro, mas sabia que não diria tudo por carta. No entanto, isso não foi o que lhe chamou toda a atenção. A garota contava que agora também tinha a companhia de Athenodora Trelawney em seus estudos. Severus conhecia o sobrenome de seus livros de Adivinhação, só não entendia o motivo pelo qual ela, sendo um aborto, estar tomando lições desta matéria.
não tinha dado muitas dicas que pudessem esclarecer essa situação, apenas dizia que “um dia ele entenderia”. Assim mesmo, de forma vaga. Severus tentou não se ater a isso no momento e logo seus olhos chegaram ao último parágrafo da carta e ele não conseguiu impedir seu coração de disparar levemente enquanto lia cada palavra da garota:
“Sei que nossos corpos se conhecem muito pouco, mas não acho que nossos espíritos sejam tão novos assim um ao lado do outro. Acredito que ainda falte um bom tempo para que voltemos a nos ver, mas até o retorno, espero que aceite meu presente de bom grado, Príncipe. Feliz natal!”
E, como havia prometido, ela seguia assinando como . Ele pegou com cuidado o pequeno pacote e desembrulhou encontrando uma corrente que parecia de ouro puro. Sua inicial pendia com delicadas esmeraldas contornando a letra e Severus soube que aquele presente valia mais do que muitas das posses de sua família. Ele não queria aceitar, mas só de pensar em devolver, viu em sua cabeça o olhar irritado da loira e relaxou, colocado o cordão em seu pescoço e escondendo por baixo de sua camisa.
Ele não se demorou muito mais e com um alohomora saiu da sala, mas não foi rápido o suficiente, já que Lily Evans o interceptou no meio do corredor do terceiro andar.
- O que faz por aqui, Severus? - a ruiva perguntou curiosa, seu rosto levemente vermelho pela corrida que tivera que dar quando viu Snape se esgueirando. O brasão de Monitora brilhando em suas vestes quase tanto quanto seus olhos, o garoto notou e sentiu as mãos suarem. Ela estava tão linda.
- Estava procurando pelo professor Slughorn. - disse sem hesitar, sentindo o estômago se contorcer com a mentira e a ruiva lhe olhou descrente.
- A sala dele fica bem abaixo daqui!
- Me foi dito que ele estava com a professora Macintyre na sala de DCAT, por isso estava indo para lá. Se me dá licença! - comentou se afastando, mas ouviu Lily gritar para que ele esperasse.
- O que está acontecendo com você? - a grifinória perguntou baixo, mas não deixou de encarar o amigo - Desde que voltou da sua viagem de férias, você está estranho.
- O que quer dizer?
- Que quase não conversamos ou passamos tempo juntos na biblioteca como antes, Sev. - se queixou e Snape fraquejou com o tom de voz ressentido dela. Ele ainda amava quando ela lhe chamava pelo apelido tão pouco usado - Sempre que tento te encontrar você está com a Flint ou com Mulciber, Avery e Crabbe.
- E? - ele tentou se manter indiferente - Você tem passado mais tempo com Potter e sua trupe de palhaços também e não me vê reclamando.
- Mas as minhas amizades são bem menos perigosas do que as suas e você sabe disso. - ela justificou.
- Eu não vejo por que temer os meus amigos, Lily.
- Eles não são seus amigos, Sev. Eles são uma corja de… - ele a interrompeu.
- De? - instigou, mas a garota ficou vermelha e desviou o olhar - Você não sabe o que está falando, Evans.
- O que eu desconheço é você, Snape. - a ruiva disse com a voz cortante e o garoto quase desmontou toda a pose para se ajoelhar aos pés dela pedindo desculpas por estar sendo idiota - Se você quer continuar indo por esse caminho, eu só espero que não desista muito tarde. - completou antes de se virar, o cabelo dela, chicoteando Severus no rosto e deixando todo o cheiro de morangos que ela exalava no ar. Ele sabia que tinha magoado Lily e seu coração doía com esse pensamento, mas o cordão que agora pendia em seu pescoço o fazia lembrar do sorriso de e ele se sentia ligeiramente mais leve.

[...]


estava terminando de se arrumar frente ao espelho de seu quarto para o jantar de ano novo. Abraxas fizera questão da garota, como não tinha feito desde que ela voltara a morar com ele. Ao que parecia, apenas ela, Lucius e ele jantariam juntos essa noite e, o homem ansiava por uma refeição como antigamente.
- Está linda, querida. - Abraxas elogiou vendo a filha arrumar os longos cabelos loiros em um coque, assim como Emeline costumava fazer para eventos mais especiais - Sua mãe ficaria orgulhosa. - ele comentou, mas não viu mudanças no rosto da garota que seguia encarando meticulosamente o próprio reflexo - Podemos conversar por alguns minutos? - pediu enquanto se sentava na cama e observava a jovem - Acredito que seja do seu interesse.
- Não é como se eu tivesse escolhas. - respondeu suspirando impaciente e foi se sentar em sua penteadeira, mantendo uma distância segura do homem - O que quer conversar?
- Sinto que tenhamos nos distanciado com os anos, . - ele disse com pesar, ainda que sem olhar para a filha - Talvez eu não tenha tomado as melhores decisões, mas minhas ações sempre visaram te proteger.
- Você deveria agir com mais coragem, Abraxas. - comentou e o homem finalmente a olhou, vendo mais uma cópia de Emeline do que a própria filha - Suas decisões foram tomadas para que o seu nome não afundasse, não para me safar de algo. Sua preocupação nunca girou em torno de mim ou da minha mãe, muito menos do Lucius. Só do seu ego. - completou com a voz branda, mas para o homem parecia que ela tinha lhe cortado com mil adagas.
- Sua idade não é o suficiente para que entenda, . Só tem 15 anos, não sabe nada da vida.
- A idade não é um problema pra que eu saiba que perdi a minha mãe porque meu pai foi um tremendo covarde. - respondeu com desprezo e voltou seus olhos para o espelho, retocando imperfeições inexistentes em seu penteado.
- Eu dei meu melhor para proteger Emeline mesmo de longe, . - afirmou com a voz incerta. Por Merlin, ele também se culpava pela morte da mulher!
- Se fosse assim, seu precioso mestre não teria colocado as mãos nela tão fácil. - acusou olhando para o homem através do espelho e viu uma ponta de choque passar por seus olhos - O quê?! Não sabia que ele a tinha matado com as próprias mãos? - ela riu sem humor e Abraxas não conseguiu arrumar voz para que pudesse lhe responder - O quanto você não sabe sobre o que acontece ao seu redor, Abraxas? Enquanto continuar acreditando que é uma torre, não vai conseguir se dar conta de que é apenas mais um pião pronto pra ser sacrificado no jogo do Lorde das Trevas. - finalizou se levantando e saindo do quarto para se juntar a Lucius no salão de jantar da mansão. Abraxas ainda ficou por mais uns minutos absorvendo o que a filha dissera, se perguntando o quanto sabia do que estava acontecendo.
Antes de sair do quarto, porém, ele viu uma corrente brilhando junto aos travesseiros de . Ao chegar perto, um pingente negro com a letra S fazia contraste com os lençóis extremamente claros. Talvez nem tudo fosse tão bem escondido, ele pensou recolocando tudo em seu devido lugar e foi para o andar de cima acompanhar os filhos.


Capítulo 8

Janeiro de 1976


Abraxas estava nervoso, para dizer o mínimo. Ele tinha requisitado uma reunião com Tom Riddle há alguns dias e o Lorde das Trevas estava para chegar. Malfoy sentia sua marca negra queimando pela proximidade de Voldemort.
A cada movimento do ponteiro no relógio de parede, no entanto, ele sentia vontade de desistir. Claro que ele poderia considerar que tivesse mentido no que falara. Conhecia a filha bem o suficiente para saber que ela adoraria provocá-lo com informações falsas, mas em seu interior sabia que não era esse o caso. A probabilidade de Voldemort ter assassinado Emeline era enorme. E isso partia o coração de Abraxas.
- Ande logo com o que quer falar comigo, Malfoy. Não tenho o dia todo. - anunciou Riddle assim que desaparatou no escritório da mansão. Ele era um dos únicos que tinha permissão, já que Abraxas era um de seus mais antigos comensais.
- Milorde. - Abraxas fez uma leve referência após se recuperar do leve susto pela chegada abrupta - Gostaria de perguntar ao senhor sobre Emeline, Milorde. - disse incerto e com a voz baixa, mas Riddle escutou com perfeição e não conseguiu segurar uma gargalhada sombria.
- Ainda Emeline, Malfoy?! - questionou escarnecendo - Ela já está morta há anos e agora quer falar sobre ela?
- Apenas gostaria de saber como ela morreu, Milorde. - engoliu em seco - Na época não soube de muitos detalhes, apenas que ela estava no lugar errado e na hora errada, durante uma das missões contra os trouxas. - ele desviou o olhar, mas mantinha a atenção fixa em Riddle, que agora caminhava em direção de uma poltrona do escritório.
- Você quer mesmo saber como sua querida esposa morreu, Malfoy? Pois bem! Invada minha mente e descubra. - o Lorde ofereceu e encarou Abraxas em sinal de desafio. O loiro estava ligeiramente mais pálido, mas assentiu e, antes que perdesse a coragem, pegou a varinha e pensando Legilimens, invadiu a mente de Voldemort.
Abraxas sabia aonde estava. Já tinha passado muitas tardes da sua juventude com Emeline em seus braços por aquelas ruas. Antes que houvesse a preocupação séria de se afirmar uma posição. Quando ele virou, Tom Riddle apenas passou por ele como se não o visse e, realmente não via, era apenas uma memória.
Riddle andou mais alguns metros, Malfoy sendo impelido a segui-lo e foi quando a viu. Os cabelos tão loiros quanto ele se lembrava, o rosto ligeiramente mais magro, mais preocupado. Emeline empunhava a varinha firmemente, sem nunca tirar os olhos do homem à sua frente, atenta a todos os seus movimentos.
- Sabe que eu não vou deixá-lo passar tão fácil, não é, Milorde? - disse em desafio e Riddle apenas riu, se divertindo com a audácia da mulher que conhecia tão bem.
- Você sempre foi a minha preferida, Em. - ele disse divertido - Sempre lhe disse ter sido uma pena quando se casou com Malfoy. Um desperdício de sangue, obviamente.
- Como se você se importasse com isso, Tom. - o chamou pelo nome e o sorriso de Riddle se alargou - É apenas despeito por nunca ter me marcado como gado.
- Nunca precisei que você fosse uma comensal para te marcar como minha, Burke. - chamou-a pelo sobrenome de solteira e viu a mulher estremecer levemente - Se as paredes de Hogwarts falassem, Dippet teria nos expulsado lá pelo quarto ou quinto ano - ele apontou e Emeline deu um passo pra trás.
- O que você veio fazer aqui?!
- Você ter ido embora da casa de Malfoy só instiga a minha curiosidade sobre a sua filhinha, Em. - comentou e começou a rodear a mulher lentamente - Afinal, sua árvore genealógica é boa demais, mesmo que tenha se misturado com a de Abraxas. - enojou-se.
- Ela é um aborto, Riddle. Não há nada de curioso nisso.
- Se fosse só isso, você não estaria tão bem protegida por aqui. Deveria ter tentado um Fidelius, querida. Quem sabe assim tivesse mais sorte. - zombou
- O que quer para deixar minha filha em paz, Riddle?
- Ah, minha adorada Emeline, - Riddle suspirou e Abraxas, sem conseguir focar em nada que não fosse os dois, estremeceu de medo pela mulher - o que você poderia me dar, não viria de bom grado. Não quando eu sei que o seu pequeno aborto pode ter mais utilidade pra mim do que o capacho do seu marido. Expelliarmus! - soltou desarmando a mulher que não conseguiu se proteger - Apenas seja boazinha - ele sorriu - Legilimens - e invadiu a mente de Emeline que tentou resistir o máximo que pode. A mulher estava já de joelhos, suas mãos apertavam as têmporas, mas Lorde Voldemort não desistiria.
Ele viu sobre os pensamentos da mulher que tinha em sua árvore o grande Inigo Imago e como Emeline sempre se surpreendia com os acertos de . Sua filha era indiscutivelmente um aborto, mas seus dons para adivinhação, mesmo que fossem descontrolados, existiam. E agora Voldemort sabia, não tinha mais como esconder.
- Muito esperto de sua parte não ter contado a Abraxas sobre isso, Em. Seu maridinho teria vindo até mim no momento em que descobrisse, apenas para se provar útil. - ele riu, saindo da cabeça da mulher que agora estava com o corpo parcialmente deitado no chão, ofegante e cansada pela invasão.
- Se minha filha é tão útil pra você, irá deixá-la viva, não é? - questionou com a voz fraca e se atreveu a olhar para Riddle que lhe encarava sereno.
- Você já foi melhor, Emeline. - ele se abaixou ao lado da mulher e lhe acariciou os cabelos delicadamente antes de lhe segurar firmemente pelo rosto, forçando-a a olhar em seus olhos - Essa baboseira maternal só transformará a garota em mais fraca do que já é. Não me serve mais junto a ela.
- Eu não sou fraca, mestiço imundo! - Emeline cuspiu no rosto de Riddle e os olhos dele saltaram pela surpresa e raiva. Ele a soltou com brutalidade e a mulher riu sem humor.
- Quem pensa que é, Burke?! - apontou a varinha pra ela, mas o sorriso divertido não saiu dos lábios de Emeline.
- Você pode me matar, Riddle. Pode matar Abraxas. Pode matar o mundo inteiro, mas nos meus filhos você não toca. Isso vale tanto para quanto para Lucius, querido. - disse sarcástica e os dedos de Lorde Voldemort se fecharam com mais firmeza na varinha apontada.
- Alguma última consideração, Emeline Burke?
- Nos vemos no inferno, Voldemort! - a loira olhou bem nos olhos de Riddle, ao mesmo tempo em que ele lhe lançava a maldição da morte.
Abraxas encarou o corpo da mulher tombar para trás, sem que o sorriso irônico - agora apagado - saísse de seu rosto. O baque foi surdo, mas Malfoy acompanhou quase em câmera lenta do momento em que o feitiço saiu da varinha do Lorde até o impacto em Emeline. tinha razão, ele realmente a tinha matado com as próprias mãos!
Como se fosse sugado para fora, Abraxas agora estava olhando para o Lorde mais uma vez em seu escritório. O homem à sua frente lhe encarava entediado, ainda que seus olhos tivessem um brilho mínimo de desafio. Seria Abraxas capaz de se rebelar contra ele?
- Satisfeito? - o Lorde perguntou com a voz tranquila e Malfoy apenas acenou com a cabeça - Tem algo a me dizer ou ainda está impactado por saber que não foi o único na cama de Emeline? - alfinetou e viu quando o loiro cerrou o maxilar e fechou os punhos, tentando se controlar. Tudo tão divertido!
- Gostaria que poupasse a vida de minha filha, Milorde. - Abraxas pediu baixo, com a voz apática, mas não era preciso invadir sua mente para saber o que ele estava pensando.
- Eu não a matei aquela noite por ser um senhor muito misericordioso, Abraxas. Mas a vida dela depende exclusivamente de sua utilidade pra mim, nada além disso. - explicou como se estivesse falando com uma criança e o loiro mordeu a língua antes que pudesse revidar.
- Imagino que vá achar esse um bom motivo então. - e Malfoy passou os próximos minutos contando sobre a visão e profecia de , além de afirmar que a garota estava passando pela tutoria de Athenodora Trelawney.
O Lorde das Trevas ouviu a todo o relato de forma impassível, quase sem se mover. Quem olhasse de fora não saberia se ele seguia respirando. Foi apenas quando Abraxas terminou, que Voldemort lhe lançou uma Cruciatus que foi o bastante para que o homem se contorcesse no chão, gritando enquanto era torturado. Os gritos de Malfoy eram altos o suficiente para acordar toda a casa, senão o bairro. Mas, o Lorde das Trevas não se importou. Crucio.
Abraxas não conseguia respirar e seus ossos pareciam querer partir a carne de tanta dor que ele sentia. Sua cabeça ardia como se estivesse em plena fogueira. Seus olhos, que há muito não conseguiam se manter abertos, estavam quase saltando do rosto. E ele começou a implorar. Implorava para que ele parasse. Implorava para que a dor cessasse. Para que o matasse. Apenas implorava.
Foi nesse momento em que a dor duplicou. Aumentou mais um pouco e, depois, parou abruptamente. Abraxas não sentia mais os próprios membros, seu corpo parecia gelatina. Ele só conseguia entender que não havia mais dor, mesmo que não soubesse o que isso significava. Estava morto, afinal?
- Eu estava certo quando disse a Emeline que se casar com você tinha sido um desperdício de sangue, Malfoy - o Lorde disse próximo do loiro e logo se afastou. Abraxas ouviu um barulho de aparatação e só assim abriu os olhos com dificuldade. Estava sozinho. Por enquanto.

Fevereiro de 1976


Severus estava na biblioteca há várias horas aproveitando seu dia livre, esperando esbarrar com Lily Evans. Teo tinha sumido desde o café da manhã e ele tinha a ligeira impressão de ter visto a amiga encontrar com a Saint-Laurent, mas não estava interessado. Ele estava mais preocupado em terminar seu exemplar de Mentis Imperium. Sabia que as dores de cabeça que tinha sentido durante o encontro com o Lorde das Trevas não tinham sido por um acaso, então precisava se proteger.
Claro que teria sido mais fácil se tivesse um parceiro para praticar os feitiços, mas não queria ter que explicar para Flint os motivos pelos quais estava se preocupando com Oclumência agora, quando só veriam esse tópico nos próximos anos. Ele teria que se virar com Mulciber, Avery e Crabbe mais tarde, já que eles tinham lhe pedido ajuda com duelos para além de seus encontros ocasionais. Por mais desmiolados que os três fossem, Severus sabia que não queriam dar motivos para a irritação do Lorde. Eram lentos, mas inteligentes o bastante para prezar a própria vida e não fazer muitas perguntas.
- Snape? - uma voz desconhecida chamou baixinho por ele e, quando levantou o olhar, deu de cara com Delilah Saint-Laurent lhe encarando - Você viu a Flint?
- Ela não estava com você? - devolveu, voltando seu olhar para o livro, sem se preocupar em cumprimentar a garota.
- Nós ficamos juntas por uns minutos depois do café, mas ela disse que tinha que te ajudar com uns relatórios de Poções, não entendi muito bem. E então ela sumiu.
- Está vendo a Flint aqui, por acaso, Saint-Laurent? Então pode ir embora.
- Babaca. - a garota xingou baixinho, mas Severus levantou a cabeça em desafio.
- O que foi que disse?!
- Disse que você está sendo um babaca, Snape! Está com problemas ou esse cabelo impede que você escute?! - revidou arqueando uma sobrancelha. Era demais ter que levar desaforo uma hora dessas.
- Por que não dá o fora e vai procurar seus amiguinhos marotos por aí? - sugeriu com nojo.
- Você não precisa tratar todas as pessoas da Grifinória assim, Snape. Deveria ser menos idiota com quem pode te ajudar um dia.
- Do que você está falando, garota? Nem me conhece!
- Não preciso! - rebateu - Você está fazendo seus poucos amigos sofrerem com essa atitude imbecil de superioridade. Ou não se importa mais com a Evans? - jogou e Severus agradeceu por estar sentado, do contrário teria caído.
- Tenho mais o que fazer do que falar com você, Saint-Laurent. A Flint não está, já pode ir embora. - reclamou em voz baixa e deu graças a Merlin por ver que seus companheiros da Sonserina estavam entrando na biblioteca à sua procura. Juntou suas coisas e saiu rapidamente ao encontro deles, antes que a garota ameaçasse falar mais alguma coisa.
Os quatro foram para uma sala vazia e ficaram treinando até o jantar. Snape testou mais uma vez e mostrou aos garotos o Abaffiato, feitiço que estava trabalhando nas últimas semanas, como uma opção ao Muffiato. Ele era melhor aplicado em áreas fechadas, diferente do Muffiato que funcionava mais ao ar livre.
Apenas quando se deu satisfeito, Severus os liberou e os quatro foram ao Salão Principal para que pudessem jantar. Quando chegou a mesa da Sonserina, Snape deu de cara com Flint que brincava com a comida, sem que um sorriso bobo lhe saísse dos lábios.
- Achou a pedra filosofal, Flint? - Severus questionou a alegria da amiga quando se sentou ao seu lado e viu a garota se assustar com a presença inesperada. Ela corou e olhou pra baixo envergonhada, sem falar nada. Aquilo estava bem estranho, Teodora não era quieta assim - O que aconteceu?
- Nada. - ela desconversou e deu de ombros. Olhou para os lados e depois fixou seu olhar para frente. Quando Severus se deu conta, a garota olhava para a mesa da Grifinória.
- Sua amiguinha veio perguntar sobre você hoje. - comentou começando a se servir e sentiu um beliscão no braço. Teodora agora lhe olhava feio enquanto ele massageava a própria pele.
- Você deveria ter sido mais educado com ela, Snape! - ralhou a morena, estreitando os olhos.
- Ela já foi fazer fofoquinha pra você?
- Deli não precisou me falar nada, eu sei que você é um trasgo quando quer! Por isso, tenha modos!
- Vai me contar por que está sorrindo feito idiota? - ele trocou de assunto rapidamente.
- Vai me contar quem lhe deu essa correntinha que você usa pra cima e pra baixo? - ela rebateu e olhou pra ele em desafio. Severus apenas desviou o olhar - Imaginei que não. - ela sorriu vitoriosa.
- Eu posso perguntar ao Jacob o que aconteceu com você, com certeza ele sabe.
- Você não se atreveria a meter meu irmão nessa conversa, Snape. - ela encerrou o assunto tranquilamente e voltou a comer, sorrindo e levantando o olhar vez ou outra para a mesa do outro lado do salão. Ela tinha razão, Severus não a comprometeria desse jeito. Ela era uma das poucas pessoas que tinha a sua lealdade.

[...]


- Eu deveria ter usado o Cabeça de Bolha pra ficar um pouco mais pelo Salão e ver a cara do Potter e do Black. - disse Snape rindo junto a Crabbe e Avery depois deles terem azarado James e Sirius com um Fetidus. Remus e Peter tinham escapado, porque não estavam presentes - Quem sabe assim eles aprendem a não me incomodar durante as minhas poções.
A implicância entre Snape e os garotos, conhecidos como Marotos, vinha desde o primeiro ano. Eles não se bicavam e, eram arrogantes o suficiente pra levar uma disputa entre as casas ao extremo. A amizade de Severus com Evans também não era muito bem vista por eles, mas agora que andava abalada, eles deveriam estar soltando fogos.
A última dos Marotos tinha sido uma explosão da poção que Severus estava fazendo. Sua poção do Morto Vivo tinha quase lhe arrancado um olho graças aos grifinórios e, nada mais justo do que revidar no que mais lhes doía, sua popularidade.
Horas mais tarde, Severus estava no Corujal despachando uma carta para a mãe e outra para , mas começou a ouvir alguns barulhos de passos apressados vindos do corredor do quarto andar. A curiosidade bateu mais forte e logo ele estava andando e se escondendo entre as estátuas para ver o que acontecia.
Qual não foi a sua surpresa quando viu Sirius, James e Peter se esgueirando pelos cantos, enquanto Potter segurava um pergaminho. Os garotos olhavam para trás assustados, talvez estivessem fugindo de Filch ou Madame Norra. E, bem, Severus não perderia a oportunidade de ferrá-los, certo?
Ele aproveitou que o trio ainda não tinha se dado conta de sua presença e entrou na primeira porta que encontrou, mas sempre deixando uma fresta aberta para que pudesse ver o que acontecia. Olhando para uma das armaduras próximas a eles, Snape apontou a varinha e sussurrou bombarda.
O estrondo da explosão foi o bastante para assustar a todos. Os quadros ao redor gritavam de desespero e Pirraça, o poltergeist, chegou fazendo escândalo, trazendo Filch consigo, sem dar tempo dos garotos se esconderem e evitarem uma boa detenção.
Severus viu Filch empurrando os três para o que devia ser o caminho da sala da Professora McGonagall e não conseguiu segurar a risada. Era tão gratificante ver aqueles garotos se ferrando, quase um prazer. No entanto, Snape não percebeu que seus risos, ainda com a porta entreaberta, tinham captado a atenção de Sirius que fechava as mãos duramente para se controlar.


Capítulo 9

Os cabelos negros de Snape encobriam boa parte do rosto, agindo meio que como uma camuflagem. Entre suas madeixas e livros, o garoto seguia com suas anotações, escrevendo rapidamente em seu antigo exemplar de Estudos Avançados no Preparo de Poções para não esquecer o que tinha aprendido em seus experimentos solitários. Ele estava realmente torcendo para que pudesse esbarrar com Lily pela biblioteca. Seria uma forma de se redimir por ser um babaca em outros momentos.
- Eu sinceramente não sei como você continua amiga do Ranhoso, Lily. Se você quer procurar alguém da Sonserina para se relacionar, tudo bem, mas não precisava ser aquele idiota do Snape. Jacob Flint com certeza parece ser uma opção melhor. - o garoto ouviu atrás de si uma garota falar e, se esgueirando na prateleira, encontrou Marlene McKinnon conversando com Lily Evans e uma outra garota que ele não conhecia de nome.
- Snape é apenas uma pessoa difícil, Marlene. - Lily comentou e deu de ombros - Nós nos conhecemos desde antes de Hogwarts. Ele me ajudou a entender que eu era uma bruxa.
- Então é por isso que continua se relacionando com ele? Por pena? - a outra garota que Severus não conhecia questionou a ruiva que negou com a cabeça.
- Eu apenas quero acreditar que ele é um bom garoto, Mary. Mas as coisas andam complicadas. Ele anda pra cima e pra baixo com aquela Flint. Boa coisa não deve estar fazendo. Principalmente com Mulciber, Avery e Crabbe no meio.
- Delilah também começou a andar com ela há alguns anos, será que ela os enfeitiçou? - Marlene sugeriu e Lily riu desacreditada.
- Eu não acho que seja isso, é só que Severus mudou muito do que eu conhecia dele. Mas ainda é meu amigo, não quero me desfazer dessa amizade.
- Deveria, Lily. O Ranhoso só te atrapalha e, se você quer ter uma vida bem sucedida pós-Hogwarts, deveria cortar o Snape dos seus relacionamentos. - Marlene aconselhou enquanto folheava um livro novo.
- Vocês devem estar exagerando, só pode. - Lily disse encerrando o assunto e foi andando para outra parte da biblioteca. Severus soltou o ar que nem sabia que prendia, um bolo estranho estava em sua garganta. Lily sequer o tinha defendido quando o chamaram de Ranhoso. Será que ele era tão detestável assim?

[...]


Teodora estava conversando com Severus nos jardins enquanto os dois esperavam pelo irmão de Flint, Jacob. O garoto tinha pedido ajuda a Snape com Poções já que os N.O.M.S. não demorariam a chegar.
No entanto, antes que um dos dois pudesse se mexer, Severus começou a levitar e foi posto de cabeça para baixo pelo calcanhar, sua varinha caindo de suas vestes e Teodora olhando para os lados, a própria varinha em punho para encontrar quem os estava atacando. Ela tinha tentado lançar em Snape um Finite, mas não parecia adiantar. A sonserina só teve algum tipo de sorte quando considerou o Liberacorpus, mas Severus voltava a ser posto em uma altura ligeiramente maior. As pessoas já começavam a se aglomerar aos risos para ver o que acontecia.
- Pare com essa idiotice! - ela gritou quando conseguiu visualizar James apontando a varinha para Severus e lançou nele um expelliarmus que foi logo rebatido por Sirius.
- Você deveria sair do caminho, Flint! - Sirius riu e a garota só ficou mais enraivecida - Isso é assunto nosso com o Ranhoso!
- Então, me deixe descer pra que isso seja justo, idiota! - Severus gritou tentando não ficar enjoado com as piruetas que Potter ordenava que seu corpo fizesse.
- Isso só mostra como você é covarde, Potter! - Teodora avançou, mas Sirius lhe mandou um estupefaça que foi logo combatido por um protego da garota - Vai continuar a me atacar, Black? Seja homem! - gritou e as pessoas em volta apenas instigaram mais a briga.
Potter finalmente largou Snape no chão aos risos e Teodora logo correu para ajudar o amigo, lhe entregando sua varinha e sussurrando “estamos juntos nessa” em seu ouvido, antes que ele a mandasse embora. Ele apenas assentiu levemente e os dois se postaram lado a lado, encarando Sirius e James que também estavam prontos para atacar. Peter estava junto aos incitadores e Remus estava um pouco mais atrás dos amigos. Lupin não tirava os olhos de Teodora, estava se controlando para não apartar a briga desde que Sirius atacara a sonserina pela primeira vez. Mas ela gritaria com ele se lutasse por ela suas batalhas, já tinha lhe dito isso.
- Vai se esconder atrás da namorada, Snape? Só assim você consegue fazer algo, né? - James zombou e desviou de um feitiço que Severus tinha mandado em sua direção. As pessoas próximas se abaixaram para fugir também e deram mais espaço aos quatro que se rodeavam.
- Como se você não fizesse isso ficando atrás de seus preciosos amiguinhos, Potter. - Severus cuspiu e foi a vez de ele desviar de uma azaração de James. Teodora tinha desarmado Black que corria para recuperar a varinha.
- Eu não saio por aí explodindo armaduras para culpar outras pessoas, Ranhoso. É isso que ensinam na Sonserina? Como ser um babaca? - Potter se aproximou ainda mais raivoso e Severus somente riu deixando o grifinório possesso. Teodora olhou de relance para o amigo, mas nada disse. Era a cara de Snape fazer algo assim para ferrar os garotos. Ela apenas se manteve vigilante pro caso de Black agir de novo. Seu olhar vez ou outra recaía em um Remus ansioso. Ela sabia que Lupin queria acabar com tudo, mas um olhar dela foi o suficiente pra que ele desse um passo pra trás.
- Chateadinho porque perdeu o jogo da Grifinória, Potter querido? - Severus debochou e se abaixou para escapar da azaração - Achou que ia se tornar intocado porque seu amigo virou monitor? - ele riu e Potter aproveitou para lhe atingir com um Pimentatus forte e Snape começou a se avermelhar. Teodora correu para o amigo e o garoto segurou a barriga com muita força, como se tivesse acabado de levar um soco. Algo parecia lhe subir e queimar a garganta e, quando viu, estava soltando bolas de fogo como dragões.
- Vocês só podem estar de brincadeira! - todos ouviram antes que Teodora pudesse fazer alguma coisa e Delilah Saint-Laurent apareceu correndo na direção dos sonserinos - São idiotas ou o que? - ralhou olhando para Potter e Black que viam chocados a grifinória convocar os pertences de Flint e Snape antes de se juntar aos dois para ajudar a amiga a levar Severus para a enfermaria - E você, Remus, muito me admira que tenha ficado calado sendo monitor. Achei que era o mais inteligente entre esses projetos de diabretes! - reclamou deixando Lupin vermelho, vendo que Teodora lhe olhava de esguelha.
Flint e Saint-Laurent amparavam um Severus que seguia curvado, soltando bolas de fogo pela boca e suando como um porco. Ele mal conseguia falar, mas estava agradecido que nenhum professor tivesse aparecido durante o duelo. As pessoas simplesmente abriam espaço para os três que logo chegaram a uma Madame Pomfrey assustada com o estado do sonserino.
Ela evitou fazer muitas perguntas, mas seu olhar dizia que nenhum deles escaparia dali sem lhe dar boas explicações sobre o que acontecia.

[...]


- Severus? - Snape ouviu baixinho uma voz lhe chamando, mas ele se recusou a abrir os olhos. Se já não bastasse a detenção que tinha que cumprir e os pontos perdidos para a Sonserina, ele só queria descansar na cama confortável da enfermaria - Severus, acorde. - sentiu que uma mão lhe balançava levemente e abriu os olhos irritado, focalizando a figura de Lily Evans que lhe olhava com pesar - Vim assim que soube o que aconteceu, mas Madame Pomfrey só me deixou entrar agora.
- Por que se deu ao trabalho, Evans? - perguntou irritado com a ruiva e a garota deu um passo involuntário para trás. Severus fingiu não perceber.
- Porque somos amigos, Severus. E os amigos estão sempre ao lado um do outro. - a ruiva disse em voz baixa, mas sustentou o olhar do sonserino.
- Você não precisa continuar fingindo ser minha amiga, Evans. - ele riu sem humor - Não preciso mais ser um fardo pra você.
- Do que está falando?
- Que eu te vi conversando com as suas amigas sobre mim, Evans. Que eu vi quando elas me chamaram de Ranhoso e você não fez nada. Que você não precisa mais esconder a sua preferência pelo glorioso-Potter. - disse entredentes e Lily tentou chegar mais perto, mas ele levantou uma mão lhe impedindo.
- Severus, não é nada disso, você está entendendo as coisas de forma errada. Provavelmente esses seus abutres estão enchendo a sua cabeça de coisas ruins sobre mim, mas eu só quero te ajudar! - Lily ficou nervosa e Snape apenas negou com a cabeça. As mãos dele se agarrando fortemente ao lençol para tentar se controlar.
- Você não sabe nada dos meus amigos, Evans. Deveria lavar a boca pra falar sobre eles! - ele falava baixo, mantendo o tom para não chamar a atenção de Madame Pomfrey.
- Eles mexem com artes das trevas, Severus. Como você pode continuar ao lado deles assim? Quer acabar com a sua vida?
- Você não se importa, Lily. Nunca se importou realmente, acha que eu não sei que ficava comigo por mera pena?
- Quem te disse isso? Seus projetos de Comensais da Morte? - ela aumentou o tom de voz - É isso que eles querem que você pense, eles e o seu precioso Lorde das Trevas! - soltou irritada sem conseguir mais se conter, o rosto quase da cor dos próprios cabelos.
- Sua sangue-ruim, como se atreve a dizer o nome do Lorde das Trevas? - brigou, mas se calou no mesmo instante. Os olhos verdes da garota se arregalaram com a ofensa e ela ofegou - Lily, eu … - o garoto ainda tentou, mas Evans lhe deu as costas e saiu correndo da enfermaria. Severus Snape era um imbecil!

Março de 1976


- Se a senhora não falar por bem o que eu quero saber, falará da pior forma. - o Lorde das Trevas apertou o rosto da mulher a sua frente, sem tirar os olhos dos dela, mas Athenodora Trelawney permanecia calada, se recusando a falar - Sua escolha: crucio!
A mulher fechou os olhos e começou a se contorcer, mas não emitiu nenhum som. Mesmo quando Voldemort aumentou a intensidade da maldição, ela se manteve sem gritar. Ele só saberia que a tinha atingido se olhasse para o seu corpo, mas o orgulho a impedia de implorar que parasse. Uma pena para o Lorde que queria lhe ouvir gritar, mas ele tinha que admitir: a velhota era mais corajosa do que muitos dos seus comensais. Uma pena que só estivesse ali obrigada e ameaçada.
Ele, no entanto, parou de lhe torturar e aproveitou quando a senhora abriu a boca para respirar e pingou algumas gotas de veritaserum em seus lábios. A mulher abriu os olhos imediatamente quando engoliu e o Lorde sentou à sua frente, um sorriso satisfeito em seu rosto.
- Podemos finalmente conversar sem que a senhora tente me esconder algo?
- Sim. - respondeu rápido e arregalou os olhos pela facilidade com que aquelas palavras lhe saíram.
- Ótimo, agora por que a senhora não me conta um pouco sobre a garota Malfoy?
- Ela e o irmão são descendentes distantes de Inigo Imago, graças à mãe, mas a inclinação para previsões parece ter se manifestado apenas nela. - contou com a voz clara ao mesmo tempo em que suas mãos agarravam os braços da cadeira com força. Os nós de seus dedos ficando ainda mais brancos pela força que estava fazendo para não contar.
- E com a sua experiência em previsões, acredita que ela pode ser controlada e treinada?
- Apenas para manter a própria atenção durante suas visões, já que as previsões são imprevisíveis. - ela ofegou tentando lutar contra os efeitos da poção - Ela é muito sábia e sempre deve ser ouvida, mas não há periodicidade em sua clarividência.
- Entendo! - Voldemort disse e olhou nos olhos da mulher antes de lhe oferecer um sorriso falso - Fico feliz que esteja tão disposta a nos ajudar, Madame Trelawney ou a jovem Sibila sofrerá as consequências pela desobediência de sua querida avó. - e ele riu quando viu a mulher estremecer, mas assentir levemente.

Abril de 1976


estava aproveitando os poucos dias em que a Mansão Malfoy não estava infestada de comensais para apreciar as bromélias de sua mãe que permaneciam intactas, como se ela nunca tivesse partido.
Ela não se assustou quando Lucius sentou ao seu lado e passou a olhar para as flores. A garota desviou os olhos do canteiro e os prendeu no antebraço esquerdo do loiro. A marca negra contrastava muito com sua pele extremamente clara.
aproximou a mão sem falar nada e correu os dedos delicadamente pelo desenho que tão bem conhecia. Lucius manteve a respiração suspensa por todos os segundos que os dedos da irmã estiveram em contato com a sua pele e, somente quando ela lhe mirou nos olhos, ele voltou a inspirar.
- Não havia alternativas? - ela questionou baixo e Lucius segurou a mão delicada entre as dele - Nunca houve pra nós, não é? - suspirou e viu o irmão concordar com a cabeça.
- Você ainda terá escolhas, . Mamãe não se foi em vão. - ele engoliu em seco. A morte de Emeline lhe doía as entranhas.
- Não será a mesma coisa. Sabe disso.
- Mas não estaremos sozinhos. - ele disse pegando delicadamente o cordão que a garota usava. O pingente com um S pendendo entre seus dedos, o olhar dele revezando entre o objeto e o rosto corado da irmã - Por quanto tempo achou que fosse esconder?
- Tempo o suficiente pra ele se cansar da ideia e desistir. - ela deu de ombros.
- Ele não desistiu. - afirmou e a irmã concordou - Severus seria um idiota se desistisse de uma Malfoy, .
- Ainda que eu seja um aborto? - ela atiçou, mas Lucius sorriu e apertou a mão da irmã.
- Uma tapeçaria queimada não faz o sangue dos Malfoy deixar as suas veias. - disse e assentiu. Os irmãos ficaram um tempo se encarando em silêncio.
- Talvez ainda exista algum tipo de rendição pra você, Lucius. - os olhos de desfocaram por alguns instantes e o loiro ficou ainda mais atento.
- O que quer dizer?
- Que entre narcisos e dragões, você pode conseguir a sua felicidade se souber se aproveitar das chances que lhe são ofertadas. - falou em voz firme antes de balançar a cabeça e encarar Lucius com um sorriso leve, que há muito ele não via na irmã. Não direcionado a ele.
O loiro apenas assentiu e mais nada disse, deixando-se ficar quieto com a irmã. As palavras dela fazendo eco em seus ouvidos e o rosto delicado de Narcisa Black aparecendo em seus pensamentos.


Capítulo 10

Quando viu Severus, ele parecia alguns poucos anos mais velho. O corpo mais esguio e as feições mais duras, as vestes mais negras do que ela estava acostumada. Ainda assim, ele sorria para algo que estava a sua frente, mesmo que a garota não conseguisse ver o que era. Ela tentou chamar o nome dele, mas ele não deu sinais de que ouvia. Ela gritou. Nada mudou. soube que estava tendo uma visão.
Severus agora tinha se agachado e tirava do bolso um colar semelhante ao que ele tinha dado a ela e ia entregando ao borrão que ela não conseguia distinguir. Uma névoa estranha encobria seus olhos quando se fixava ali.
Ele se aproximou um pouco mais do chão e sussurrou alguma coisa que não pode entender. A névoa que estava limitada a aquele ponto foi aumentando e engoliu o quarto inteiro, expulsando-a do espaço e fazendo-a acordar ofegante.

olhava para os lados e tudo o que via era o próprio quarto, ainda que seu coração batesse acelerado como as asas de um pássaro. Levou sua mão a corrente em seu pescoço e ela continuava no mesmo lugar. O relógio em seu pulso indicava 3h30 da manhã. Ela resolveu escrever para Severus, talvez acalmasse os nervos.

Maio de 1976


Assim que Delilah abriu a porta do Salão Comunal deu de cara com um Severus Snape que discutia ferrenhamente com o quadro da Mulher Gorda.
- Está bem longe das masmorras, Snape. - comentou ácida e cruzou os braços para o garoto. Ela ficara sabendo da forma como Lily Evans tinha sido tratada e não tinha gostado nada.
- Saint-Laurent, você precisa chamar a Lily. Eu estou há tempos tentando falar com ela. Por favor! - ele suplicou sem se importar em parecer patético para a garota.
- Não acho que ela queira te ver. Tem te evitado por todo o castelo nas últimas semanas. - alfinetou.
- Delilah, - ele a chamou pelo nome com a voz cansada e a garota retrocedeu um pouco - eu fui um estúpido por ter xingado a Lily, eu não deveria ter feito isso.
- E o que me garante que você está mesmo arrependido? Que não vai voltar a ser esse trasgo novamente com ela ou com qualquer pessoa?
- Eu não posso prometer não ser um idiota, mas eu nunca me arrependi tanto de algo do que de ter xingado a Lily. - ele baixou os olhos envergonhado e a grifinória suspirou - Eu não me importo de dormir nas escadas até que ela apareça. Por favor, Delilah! - suplicou e a garota bufou.
- Vou falar com ela, Snape. - ela revirou os olhos e o sonserino sorriu minimamente - Mas não se acostume, minhas boas ações pra você estão me testando muito a paciência. - reclamou.
- Eu te devo uma, Saint-Laurent! Uma não, duas! - a garota, talvez, não fosse tão ruim assim, ele pensava.
- Apenas melhore e encontre algo positivo pelo que lutar, Severus. - disse olhando fundo nos olhos negros do garoto - Aí quem sabe fiquemos quites. - completou antes de se virar e voltar a entrar no Salão Comunal procurando por Evans.
*– Me desculpe. - Snape disse assim que viu Lily Evans passando pelo quadro.
– Não estou interessada.
– Me desculpe!
– Poupe seu fôlego. - a ruiva, de robe, estava parada de braços cruzados olhando seriamente para o garoto. Não parecia nem um pouco afetada – Eu só saí porque Delilah me disse que você estava ameaçando dormir aqui fora.
– Estava. Teria feito isso. Nunca quis chamar você de sangue-ruim, simplesmente me…
– Escapou? – não havia piedade na voz de Lily – É tarde demais. Há anos dou desculpas para o que você faz. Nenhum dos meus amigos consegue entender sequer por que falo com você. Você e seus preciosos amiguinhos Comensais da Morte: está vendo, você nem nega! Nem nega que é isso que vocês pretendem ser! Você mal pode esperar para se reunir a Você-Sabe-Quem, não é?
Ele abriu a boca, mas tornou a fechá-la sem falar.
– Não posso mais fingir. Você escolheu o seu caminho, eu escolhi o meu.
– Não… Escute, eu não quis…
– …Me chamar de sangue-ruim? Mas você chama de sangue ruim todos que nasceram como eu, Severus. Por que eu seria diferente?
Ele se debateu, prestes a responder, mas, com um olhar de desprezo, Lily lhe deu as costas e atravessou o buraco do retrato.* Severus ficou encarando a Mulher Gorda por mais alguns minutos antes de deixar algumas lágrimas caírem por seus olhos. Ele limpou logo antes que alguém visse e tocou o colar de , apertando-o entre seus dedos enquanto descia as escadas em direção às masmorras.
*Trecho entre asteriscos retirado de Harry Potter e as Relíquias da Morte (p.491-492)


Junho de 1976


Alguns dias depois, Severus estava junto a Teodora finalizando os estudos para os N.O.M.S que seriam no final do mês. A correspondência de tinha chegado naquela manhã e o garoto ainda não tinha lido, mas a ânsia por notícias era enorme. Se ele fechasse os olhos, conseguia ver o rosto da loira com perfeição.
- Severus? - Teo chamou pela terceira vez e, ele finalmente lhe deu atenção - Pensando nos problemas com a Evans? - perguntou hesitante e viu o rosto do amigo se transformar em uma careta - Não precisamos falar sobre isso se não quiser.
- Não é esse o problema, Teo. - ele suspirou - Só acho que há muito no meu prato ultimamente.
- Fala sobre os treinos com os garotos? - ela diminuiu o tom e Snape estremeceu. Ele sabia que ela se referia aos encontros que alguns alunos da Sonserina faziam para que estivessem mais aptos para quando precisassem se juntar ao Lorde das Trevas oficialmente. Teodora participara algumas vezes, mesmo a contragosto. Ela sabia que precisava manter o nome da família Flint.
- Não é apenas isso. Eu só fico me perguntando como vai ser o futuro. - ele deu de ombros e a morena lhe encarou esperta.
- Tem a ver com esse colar no seu pescoço e essas correspondências misteriosas. - Teodora comentou como quem fala sobre tipos de pergaminho e Severus arregalou minimamente os olhos - Não precisa dizer mais nada.
- O que quer dizer?
- Quero dizer que você deveria esconder melhor essa tal garota ou garoto, não posso descartar a possibilidade - ela riu baixo e Severus revirou os olhos - Esse colar é muito parecido com um que minha mãe me deu, Sev. Apenas isso.
- Como assim? - questionou interessado.
- Era uma tradição que as mulheres de uma família ganhassem um cordão muito semelhante a esse para que lembrassem de sua origem. Já que a mulher costuma assumir o sobrenome do marido no casamento. - ela deu de ombros - Eu tenho um F cravejado com pequenas safiras, mas não costumo usar muito. O que me diz que o motivo dos seus pensamentos é uma pessoa pertencente aos Sagrados 28. Estou certa? - ela perguntou com um sorriso que se alargou ainda mais ao ver Severus desconfortável - Você não precisa me responder, mas vou adorar conhecê-la quando estiver pronto.
- Como sabe que não a conhece?
- Você não tem andado com garotas por Hogwarts desde o ano passado, quando ficava se esgueirando com algumas pelas salas vazias do quinto andar. - Flint comentou e Severus engasgou fazendo a garota rir - Acha que eu não sei das suas escapadas por aí, Snape? Me poupe!
- Flint… - ele ameaçou e a garota revirou os olhos, mas manteve o sorriso.
- Não precisa surtar, Sev. Sua adorada misteriosa não vai precisar saber de nada disso. - ele lhe encarou aliviado - Sempre e quando você me emprestar essas anotações que faz no livro de Poções - sugeriu esperta.
- Vamos te conseguir um Ótimo nos N.O.M.S, Flint! - prometeu e os dois sorriram um pro outro. Severus teria que deixar a carta de para outro momento.
Depois de algumas horas de estudo, os dois jantaram e logo se dirigiram às masmorras. No entanto, antes que pudessem entrar no Salão Comunal, Teodora lhe deu uma péssima desculpa e disse que precisava voltar até a biblioteca. Ele olhou descrente pra garota, mas ela apenas sorriu e fez o caminho de volta. Se ele tinha seus segredos, ela podia esconder uma coisa ou duas.
Severus, então, foi direto para o dormitório e, sentado na cama, abriu a carta de . Não conseguiu evitar o sorriso ao ver que mesmo depois de algumas correspondências, ela não tinha abandonado o Príncipe Mestiço, ainda que lhe xingasse logo depois. Ele tinha comentado sobre Lily em sua última carta.
“Príncipe Mestiço, você é mais chorão que uma mandrágora e mais burro que um trasgo. Será muito bem feito se essa tal Evans não falar mais com você, como se atreve? Estou pessoalmente ofendida! Espero que peça desculpas para ela, faça a coisa certa.
Mas não foi exatamente para brigar que lhe envio essa carta. Talvez seja necessário que saiba de algumas coisas para não ser pego de surpresa, já que nossos caminhos se cruzam por muito tempo, pelo menos é o que parece pra mim. Ainda estou aprendendo a lidar com isso. Athenodora Trelawney tem ajudado, mas ter o sangue de Inigo Imago sempre torna as coisas mais difíceis.
Estou contando com a sua sede por leitura para não precisar ser ainda mais óbvia. Nos falamos depois.
P.s: Seja menos babaca, Príncipe. Por Salazar!”
O garoto releu a carta duas, três, dez vezes e se crucificou por não ter feito isso na biblioteca. Ele sabia quem era a Madame Trelawney, mas o nome de Inigo Imago não acendia nenhuma luz para o sonserino. Alguma coisa não estava certa. O que quis dizer com ser pego de surpresa?
Severus tentava focar em todos os detalhes que precisava desvendar da carta para esquecer que seu coração batia mais forte com o “já que nossos caminhos se cruzam por muito tempo” da garota. Ele gostava de saber que não era o único a se sentir assim.

Agosto de 1976


Cokeworth estava bastante fria, mas Abraxas e Lucius estavam bem agasalhados. Na verdade, isso não fazia muita diferença, já que os dois tinham acabado de aparatar na frente da última casa da Rua da Fiação e desfizeram o feitiço de desilusão que os ocultava.
Abraxas tomou a frente e bateu à porta, mas logo desejou não ter feito. Resmungos extremamente altos e xingamentos a Eileen por não estar em casa para atender preenchiam o ambiente. Logo a porta foi aberta abruptamente e um homem muito mal encarado os olhou de cima pra baixo com desdém. Quase como se fosse um infortúnio estar na presença de um Malfoy. Trouxa imundo, Abraxas pensou.
- O que querem? - questionou grosseiro e Lucius teve que segurar o braço do pai para que não se expusessem. Já era muito estarem na Londres trouxa, não queriam chamar atenção.
- Queremos falar com Severus. - Lucius informou mantendo a voz firme e viu quando o homem à sua frente revirou os olhos logo depois que um lampejo de compreensão se apossou dele.
- Eu não quero ninguém da sua laia na minha casa, entendeu bem?! - ameaçou chegando perto dos dois de forma ameaçadora e Lucius segurou o riso de escárnio. Aquele trouxa, que de fato era extremamente parecido com Severus, estava perdendo a noção do perigo. Será que ninguém tinha informado a ele sobre respeito aos bruxos? Por essas e outras, os trouxas deveriam permanecer na base da sociedade. O loiro revirou os olhos e viu o pai apontar a varinha para o homem, lançando nele um Imperio.
- Esse trouxa estava me cansando. - Abraxas bufou e apenas mandou o homem se sentar em silêncio na sala da pequena casa. Ele podia ter torturado o pai de Snape, mas já devia coisas demais ao garoto pra adicionar mais essa em sua lista.
Os Malfoy entraram na casa e olharam ao redor. Não era um espaço muito grande, estava muito mal iluminado e longe de ser acolhedor. Lucius podia entender porque viu Severus passar tantos feriados em Hogwarts sem retornar muito pra casa. De modo algum, sua realidade em casa era maravilhosa, mas agora o loiro compreendia e se identificava. Família nunca é fácil.
Abraxas andou um pouco mais e logo encontrou o cômodo onde o adolescente se encontrava, abrindo com um alohomora a porta e assustando Severus que estava fazendo anotações em seu livro de Poções antigo. Nem durante as férias ele gostava de deixar de estudar.
- O que está acontecendo aqui? - o garoto perguntou rápido, catando a varinha de dentro do casaco e empunhando firmemente contra os Malfoy. Um aceno de varinha de Abraxas foi o suficiente para desarmar Severus e sentá-lo na cama, enquanto pai e filho se acomodavam no pequeno quarto.
- Deveria ser menos afetado e receber melhor suas visitas, Snape! - Lucius disse entediado olhando pra varinha do sonserino que jazia no chão - Não precisa se estressar, vai acabar ficando rabugento como aquele trouxa que nos recebeu.
- Meu pai?! - ele se assustou - O que vocês fizeram a ele?!
- Acalme-se, o velho Tobias está muito bem, obrigado. - Abraxas comunicou - Ainda me custa aceitar que a bela Eileen se casou com ele. - disse com pesar - Mas estamos aqui para falar sobre , Severus.
- Quem?!
- Você vai mesmo tentar negar que a conhece, Snape? - Lucius se levantou e olhou pra ele descrente - Nem se você tivesse sido atingido por um balaço. Não quer que usemos veritaserum, quer? - ameaçou, mas Abraxas o advertiu levemente. O mais novo apenas se deixou cair novamente na cadeira.
- Eu apenas…
- Não é preciso que nos diga nada, Snape. - Abraxas interrompeu - O que um não sabe não pode ser cobrado. - deu de ombros e fixou seu olhar no jovem - Apenas viemos aqui para lhe contar coisas que talvez desconheça sobre minha filha. - Severus sentiu a emoção do homem ao falar daquela forma, ao mesmo tempo em que um arrepio gelado lhe percorria a espinha.
Pelos próximos minutos, Severus prendeu a respiração diversas vezes e pensou estar sonhando outras tantas. Lucius e Abraxas não pouparam detalhes para descrever o que acontecia a e suas habilidades tão bem vistas pelo Lorde das Trevas. Ambos estavam preocupados que não fossem o suficiente para proteger a garota que, mesmo sendo ainda uma aprendiz de clarividente, não conseguia garantir a própria vida sozinha.
Ainda sendo um aborto queimado da tapeçaria, ela seguia sendo responsabilidade deles, principalmente depois da morte fria que Emeline recebera. Não que isso mudasse algo sobre o pensamento dos dois no que dizia respeito aos trouxas e aos outros abortos. Estar ali era uma simples situação de necessidade. importava por carregar o sangue dos Malfoy, assim como sua devoção. A mesma cortesia não seria nunca estendida a outros casos semelhantes, Severus sabia bem.
Ali naquele quarto, na casa da Rua da Fiação, Severus contou como andavam seus estudos em Oclumência e recebeu elogios dos Malfoy pela evolução em tão pouco tempo. Ele foi testado sem preparação prévia por Abraxas e se saiu melhor do que um simples adolescente poderia. Teve mais êxito do que muitos bruxos experientes. Isso era o suficiente, por enquanto, mas existia a necessidade de redobrar a preparação. O Lorde das Trevas não aplicava meros testes.
Antes de se despedirem, Lucius fez questão de perguntar a Severus o quanto ele estava disposto a se sacrificar. O rosto de Lily Evans passou pela sua cabeça no mesmo instante. Ele sabia que nada tinha a ver com as escolhas que ele tinha tomado até o momento. Snape sabia que a loira valia a pena, ainda que o relacionamento deles se baseasse a cartas e aos beijos trocados nas férias anteriores. Mas foi pensando nos olhos verdes de Lily que Severus viu que já tinha sacrificado muito. E talvez agora não tivesse mais volta.

[...]


, prometer confiança é muito mais fácil quando se sabe exatamente o que significa e, mesmo entendendo os motivos que levaram a me esconder tudo o que acontece, ainda me sinto traído. Bem, sei que as coisas teriam sido diferentes caso a realidade fosse outra. Pelo menos gosto de pensar que não me enganaria se não fosse necessário.
Me faz lembrar ter te ouvido dizer ser uma boa mentirosa. Eu não tinha acreditado. Não até agora. Mesmo tendo a ciência de você desconhecia verdadeiramente o que acontecia.
P.s.: não se atreva a esconder coisas de mim novamente.
leu a carta de Severus e não sabia se a explodia em uma poção ou mandava essa cortesia a ele na próxima correspondência. Quem ele pensava que era pra falar assim? Por mais que os sentimentos dos dois estivessem cada vez mais presentes nas cartas, eles não tinham um compromisso firmado para que ela agora fosse obrigada a lhe contar toda a verdade.
Snape maldito e arrogante! Ela berrou contra o travesseiro e teria continuado o acesso de raiva se Lucius não tivesse batido à sua porta.
- Aconteceu alguma coisa, ? - questionou vendo a irmã espremendo o travesseiro com as mãos, o rosto vermelho e os cabelos em completo desalinho.
- Foi uma péssima ideia terem ido na Rua da Fiação! - bufou irritada enquanto ia até o espelho pra tentar organizar o furacão loiro em sua cabeça - O que quer, Lucius? - focou no irmão através do espelho e quando seus olhos se encontraram, um arrepio passou por seu corpo - Quanto tempo tenho? - perguntou baixo, virando-se para ele.
- Ele quer vê-la agora. - murmurou no mesmo tom e a garota assentiu, voltando a se encarar no espelho. Ela arrumou rapidamente as madeixas e seguiu o irmão para fora do quarto.
Os dois subiram em silêncio até a sala principal da mansão e logo viram Abraxas conversando com outro homem. Ele podia passar por um professor, logo associou. No entanto, não precisava de apresentações para saber quem era.
Quando teve a atenção do homem para si, a garota fez uma pequena reverência para cumprimentá-lo. O sorriso logo apareceu no rosto do Lorde e ele dispensou Lucius e Abraxas do cômodo com um aceno. Os homens se olharam, mas nada disseram e deixaram a garota junto a Voldemort. Ela só esperava que pudesse sobreviver a esse encontro sem muitos arranhões.


Capítulo 11

O Lorde ofereceu um lugar à garota que prontamente foi aceito.
- Acredito que tenha lhe visto apenas uma ou duas vezes. Emeline era muito reservada, claro. - comentou e a garota engoliu em seco, concordando com a cabeça - Vejo muito de sua mãe em você.
- Fico lisonjeada. - agradeceu estranhando a voz segura com que falava. Se pudesse, a loira já teria corrido - Imagino que tenha conhecido muito bem a minha mãe. - se atreveu a dizer.
- Emeline e eu éramos ótimos amigos. - o sorriso dele cresceu - Companheiros de casa, você imagina. - deu de ombros - Mas não vim aqui para falar exatamente sobre ela, .
- Sim?
- Há algum tempo venho reprimindo minha ânsia em conhecê-la de fato. Minha curiosidade sobre você só aumenta, criança. Mesmo quando a mediocridade lhe envolve, você consegue se destacar. Não há como negar que é filha de Emeline - ele a estudou com os olhos espertos.
- Se refere ao fato de eu ser um aborto.
- Precisamente. No entanto, diferente de outras escórias, você pode ser bastante útil aos meus planos.
- E se outras pessoas descobrirem sobre mim? - ela tomou coragem pra olhar dentro dos olhos dele - O Lorde das Trevas compactuando com abortos não é algo que deva aparecer por aí. - ironizou, mas o homem parecia estar se divertindo.
- Voldemort pode fazer o que quiser, minha jovem. E não é como se eu estivesse preocupado com minha reputação.
- Está mentindo. - disse e viu o sorriso dele vacilar - Tudo se baseia no medo que os outros sentem da sua figura.
- E você não tem medo?
- Não.
- Por que não?
- Porque eu estaria morta no momento em que o senhor quisesse, Milorde. - zombou, mas um brilho estranho passou pelos olhos do Lorde.
- Ah, minha jovem. Mas quem falou em te matar? Não, não. Você pode não temer o que acontece a você, mas certamente se preocupa com o que acontece aos outros. - Lucius. Abraxas. Abgail Brown. Athenodora Trelawney. - ela estremeceu - Severus Snape. - contorceu os dedos na barra do vestido, mas manteve-se encarando o homem sem fraquejar - Nada pode ficar escondido de mim, pequena Malfoy.
- Não precisa ser enganado por um aborto para que muitas coisas não cheguem aos seus ouvidos, Milorde. - comentou e o olhou com altivez - O poder que emana não passa de mera conveniência para muitos.
- Achei que os Malfoy deveriam agir sempre com cortesia para com seus convidados.
- Não quando esse convidado em questão decide me ameaçar para mostrar uma força que está longe de ser sólida. - rebateu, mas não teve muito tempo pra elaborar o que diria a seguir.
Assim que terminou a frase, já estava no chão se contorcendo de dor. Parecia estar sendo repetidamente furada por facas em chamas. Sua cabeça girava, ela sentia que estava prestes a ser descolada de seu corpo. Queria que fosse.
A loira mantinha os olhos fechados, apertava-os com força e torcia para que a dor parasse, mas só crescia. Ela já não conseguia controlar os gritos ou os espasmos do próprio corpo e isso instigou Voldemort a continuar por mais alguns minutos. Ele viu quando Lucius e Abraxas surgiram na soleira da porta e encararam o corpo da menina se revirando no chão. Ele viu os rostos dos dois se avermelharem em fúria pelo que estava fazendo a mais nova dos Malfoy.
Foi com tristeza que Voldemort percebeu Abraxas conter Lucius e arrastar o filho pra fora. Uma lástima, nem se divertir ele podia mais? De fato, Emeline poderia ter escolhido muito melhor, pensou com pesar e continuou torturando a garota por mais alguns minutos. Os gritos dela iam diminuindo à medida que o tempo passava, seu corpo parecia ir amolecendo enquanto se abrigava na inconsciência.
Apenas quando ela desmaiou, Lorde Voldemort se deu por satisfeito. Ter a garota ao seu lado era uma boa vantagem. Principalmente considerando que Dumbledore não a tinha e ele poderia estar sempre um passo à frente. No entanto, ela ainda era um aborto. Uma escória. E seria castigada quantas vezes fossem necessárias para aprender a ser menos insolente.

[...]


Snape tinha demorado para pegar no sono, principalmente porque o rosto de Lily Evans não lhe saía da cabeça. A ruiva seguia lhe ignorando e trocando de caminho sempre que eles se esbarravam pela rua. Hoje, mesmo que por um período curto, ele tinha visto a garota entrar correndo em casa quando passara pela árvore onde eles costumavam ficar. O coração de Severus ficou pequeno ao reparar que ela preferia ficar escutando os resmungos e xingamentos de Petúnia a conversar com ele.
Mas o sono custoso e amargo do sonserino foi interrompido por sentir seu pulso tremer e queimar levemente. O garoto encarava o relógio com tanto afinco que, talvez, esperasse ver ali e bem. Só que não era bem assim. Principalmente depois de descobrir sobre a clarividência da garota e como os Malfoy temiam o Lorde das Trevas.
Ele olhou ao seu redor, seu quarto estava tão escuro como sempre, seus livros espalhados pelo chão junto ao pequeno caldeirão que usava para experimentar novas poções. Nada estava diferente do que vira antes de se deitar. Os roncos de Tobias ainda passavam pelas paredes finas da casa e ele, vez ou outra, escutava os suspiros de sua mãe. Por estarem de férias, Severus não podia bater na porta de Teodora pra lhe contar o que o afligia. Não que ele fosse fazer algo parecido, lhe faltava coragem pra esse tipo de ajuda, mas Teo, mesmo sem muitos detalhes, seria um excelente ombro amigo.
Sem muita alternativa e morrendo de preocupação, Snape caçou em seu malão um pedaço de pergaminho e, contrariando todas as regras sobre não se comunicar com os Malfoy, o garoto rabiscou um bilhete para Lucius. Ele saiu do quarto e pé ante pé, foi até a gaiola de Nute que a mãe guardava no sótão para enviar a ave na direção da mansão. Ele precisava saber se estava bem.
[...]


Assim que o Lorde saiu da mansão, Lucius foi correndo até o corpo desacordado de e, com cuidado, levou a irmã até o quarto. Abraxas tinha chamado minutos antes, pela lareira, o dr. Antoun, o medibruxo de confiança que examinara a garota quando pequena. Depois de uma visita às pressas do homem, tinha sido medicada com algumas poções para regeneração interna. Lucius tinha ficado responsável por pingar algumas gotas na boca da irmã de hora em hora. Abraxas, depois que Antoun foi embora, tinha se sentado em uma poltrona e não tirava os olhos da filha.
- O senhor deveria ter me deixado fazer alguma coisa, pai. - Lucius reclamou em voz baixa enquanto também observava a irmã. Agora ela parecia tão serena, nada semelhante à tortura que foram obrigados a presenciar.
- E dar a Tom a oportunidade de matar vocês dois? - Abraxas riu sem humor - Claro, por que não oferecer logo vocês em uma bandeja pra que ele faça o mesmo que com Emeline?
- Vamos simplesmente deixar que ele a torture de novo? Ela sequer pode se defender. - o mais novo olhava indignado para o pai - Madame Trelawney disse algo sobre ela desenvolver magia de verdade?
- Ela não é uma bruxa completa, Lucius. Tom apenas está interessado nas visões dela, só precisa ser esperta o bastante para que, no futuro, permaneça útil a ele.
- Só isso? Não vamos fazer nada? E se, em algum momento, ela deixar de ser útil ao Lorde?
- Você sabe dessa resposta tão bem quanto eu, garoto. Não há necessidade de falar em voz alta.
Abraxas se calou depois disso e permaneceu olhando para a filha que, diferente dos dois ali, parecia serena. Lucius não tinha voltado a conversar, mas uma pequena olhada era o suficiente pra saber que sua cabeça permanecia pensando e arquitetando. No entanto, aquele silêncio incômodo foi quebrado por bicadas na pequena janela do quarto da garota. Uma coruja negra com os olhos pretos como a noite estava se equilibrando no parapeito e Lucius deixou o lado da irmã para abrir e ver o que o animal queria. se remexeu inquieta na cama, quase como se estivesse acordando.
Assim que o jovem abriu a janela, a ave lhe esticou a pata para que pudesse retirar o bilhete que ali estava preso. Tão logo ele fez isso, a coruja voou quarto adentro e foi se postar ao lado da cabeça de que, agora, resmungava meio sonolenta. A coruja tinha seus olhos vidrados nela, quase como se velasse seu sono.
Abraxas, vendo isso, se levantou e foi para perto do filho que lia o pedaço de pergaminho com curiosidade.
- Snape me mandou um recado querendo saber sobre ela. - Lucius contou e o pai ficou cabreiro - A coruja chegou aqui com um pouco de atraso, mas me dá a impressão de que ele enviou no momento em que ela estava sendo torturada.
- Não diga sandices, Lucius. Como ele saberia sobre o Lorde? O garoto sequer tem a marca para ter algum tipo de relação com isso.
- Não estou falando sobre Snape e o Lorde, mas sim sobre ele e . Talvez a conexão deles seja maior do que pensamos. - ele suspirou vendo a coruja do garoto colocar a cabecinha na testa da loira e como ela tinha se acalmado e voltado ao estágio de total inconsciência. Lucius pegou uma pena da mesa de estudos de e se pôs a responder o bilhete para acalmar Severus.

[...]


- Filho, você dormiu essa noite? - Eileen perguntou enquanto os dois tomavam café da manhã. Tobias tinha acabado de sair para o trabalho, deixando o clima na casa um pouco mais leve. Severus se limitou a assentir com a cabeça - Então, vai dizer que Nute arrombou a própria gaiola e saiu pra dar um passeio e voltou lá pelas três da manhã? - a mulher continuou tomando seu café e tentou a todo custo segurar a risada quando viu o filho engasgando.
- Você viu isso? - ele disse depois de um tempo e a mãe deu de ombros.
- Eu tenho o sono leve. - ela sorriu - Agora me diga, com quem estava conversando? Era com a garota Flint? Porque percebi que você e Lily não tem se falado como antes.
- Sim! - ele respondeu rápido - Eu tive que mandar uma carta para Teodora, precisava de ajuda com uma redação.
- Sei e ela te respondeu?
- Ela me mandou uma chave de portal para daqui a duas horas, você se importa? Não vou ficar muito tempo fora.
- Claro que não, filho. Vá e se distraia. Você passa tanto tempo com seus livros e poções. Merece se divertir um pouco com seus amigos. - Eileen sorriu e acariciou a mão de Severus por cima da mesa. O jovem parecia meio desconfortável, mas tentou sorrir.
Severus preferiu deixar a mãe pensar que ele iria até a casa dos Flint para evitar questionamentos sobre uma nova visita aos Malfoy. Seu pai já tinha sido obliviado por Abraxas há alguns dias e ele não queria dar nenhuma ajuda a memória de Tobias caso Eileen comentasse com ele.
O garoto terminou o café e se desculpou com a mãe, saindo da mesa para se arrumar. Lucius não tinha sido muito claro em sua resposta. Apenas um “Ela está viva, mas é bom que venha até a mansão” junto com uma chave de portal não acalmaram os ânimos de Snape que ia para o banheiro apressado tomar um banho.
Algum tempo depois, quando deu a hora, Severus se despediu da mãe e segurou com força a rolha de vinho. Em alguns segundos estava caindo no gramado dos Malfoy e Lucius estava à sua espera.
- Uma queda e tanto, Snape. - o loiro disse superior enquanto mordia o lábio tentando não rir.
- Nada como sair com o cabelo rosa de Hogwarts, não é? - Severus devolveu se lembrando da pegadinha que os odiosos marotos tinham feito ao outro em seus últimos dias de escola.
- Viraram amiguinhos nesse meio tempo em que não estive por lá?
- Preferia ser comido por uma acromântula, Malfoy. - Snape encrespou os lábios e Lucius assentiu - Você vai me dizer como ela está realmente? Sua resposta foi muito vaga.
- Talvez seja melhor que você a veja. Vamos.
Lucius seguiu para dentro da mansão com Snape em seu encalço. O loiro não falava nada, apenas chamou Vipper e pediu que recolhesse o casaco de Severus. O elfo estava com uma cara preocupada, mas como não o conhecia o suficiente, o garoto resolveu deixar para lá.
Algumas escadas depois para a parte debaixo da mansão, os dois entravam no quarto de . Severus não tinha estado ali, mas não conseguiu nem reparar na decoração quando viu a loira deitada na cama, pálida como um fantasma. Lucius lhe indicou a poltrona que deixara ao lado da cama da irmã e Snape sentou sem saber bem o que fazer ou falar. Ela parecia tão pequena e frágil.
O garoto não percebeu quando Lucius deixou o quarto, já que estava mais preocupado em olhar para . Seu rosto estava ligeiramente diferente, afinal pouco mais de um ano tinha passado desde que se conheceram. Sem conter o impulso, ele tomou uma das mãos dela entre as suas. O rosto da loira não se alterou, mas ele ouviu um suspiro sair por entre seus lábios. Quase como se ela soubesse que ele estava ali. Até dormindo, conseguia surpreendê-lo.
- Você veio de tão longe só pra ter a certeza de que eu estava viva? - ela disse com a voz fraca abrindo os olhos depois de uns 40 minutos que ele tinha ficado velando seu sono. Snape não conteve o sorriso de alívio - Não vai me ouvir falando muito isso, mas gosto de quando você sorri.
- Está delirando, . - ele negou com a cabeça e afastou um pouco do cabelo dela que insistia em cobrir a testa. Snape aproveitou para checar sua temperatura. Estava normal - O que aconteceu?
- Lucius não te disse? - ela tentou se sentar direito, mas ainda estava fraca. Severus percebendo o esforço, se apressou em lhe ajudar a se recostar.
- Ele me recebeu há algum tempo, mas me deixou aqui com você. Só senti que você estava em perigo, mas tudo o que ganhei dele foi um “ela está viva” e uma chave de portal para vir aqui.
- Seus feitiços funcionam e você não foi expulso de Hogwarts. É um feito e tanto. - ela sorriu, mas ele fechou o rosto. revirou os olhos e os desviou dele - Ele me torturou.
- Você esteve na presença do Lorde? - Snape arregalou os olhos, mas conseguiu forças para tapar a boca dele com a mão. Seus olhos estavam semicerrados e seu corpo dolorido, mas ela não deixou de transparecer raiva. Severus estremeceu com a expressão da loira. - Desculpe. - ele murmurou por entre os dedos dela e retirou a mão, mas sem soltá-la - Como você está?
- Sinceramente? Com medo. - ela fechou os olhos por alguns instantes e tornou a abrir - Sinto que ele ainda vai usar as minhas visões para coisas horríveis. E não há o que eu possa fazer para recusar.
- Ele não vai te machucar, . - Severus disse como se estivesse seguro do que falava - Não enquanto eu estiver por perto.
- É curioso como você quer me proteger mesmo sem me conhecer tanto assim. - a loira sorriu levemente e passou os dedos pelo rosto de Severus - Ele sabe sobre a nossa conexão, Sev. - ela suspirou - Não é como se eu pudesse esconder algo dele.
- Não preciso ou quero que esconda algo dele, . Nós nos conhecemos o bastante para que eu me importe com você, para que... - ele se interrompeu sem saber se deveria continuar “para que meu coração se alegre sempre que recebo uma correspondência sua”.
- Eu sei o que quer dizer. - assentiu e puxou debaixo do travesseiro o cordão com um S que Snape tinha lhe dado - Escondi isso ontem numa falha tentativa de não chamar a atenção. - ele assentiu enquanto tirava de dentro da camisa o colar com um M que não tinha deixado seu pescoço.
- O que você acha que é isso? - Severus tinha sentado no pequeno espaço que tinha deixado para ele na cama. Seus olhos não deixavam os dela e ele sentia seu coração bater mais depressa. Nem quando olhava para Lily a sensação era gostosa daquela forma.
- Você se importa se eu soar clichê? - quis saber e Snape negou com a cabeça. Ele sentia seu estômago revirar em expectativa - Acho que estou me apaixonando por você, mesmo com toda a distância e sem saber direito como o amor funciona. - ela disse ainda com a voz fraca de cansaço.
- Acho que contra coisas assim, não há o que fazer, certo? Eu não costumo me deixar levar por sentimentalismos, mas não há lugar no mundo em que eu queira estar sem você ao meu lado. - Snape disse baixo e beijou uma das mãos de . A loira sorriu de lado.
- É a sua forma indireta de falar que também está apaixonado, Príncipe Mestiço?
- Se você precisa ouvir com todas as palavras, então sim. É a minha forma indireta de dizer que eu estou apaixonado por você, Malfoy. Quem sabe um dia, Snape? - Severus soltou de forma natural e a loira lhe puxou de leve pela camisa para que ele se aproximasse. Ela não podia fazer isso. Seus rostos agora estavam bem próximos.
- Mal nos conhecemos e já está me pedindo em casamento, Snape? - ela disse baixo, seus lábios roçando nos de Severus enquanto falava. Seu corpo ainda doía pela tortura, mas estar com ele era uma forma de recarregar as energias. Nem todas as poções que tomara foram tão eficazes do que ter Severus Snape ali tão perto.
- Posso reformular para um pedido de namoro, então? - ele quis saber e assentiu - Namora comigo, Malfoy? - Severus sussurrou com a voz arrastada, mas a proximidade era tanta que ela ouviu com claridade. A garota estremeceu e ele sentiu.
- Sim para todas as vezes em que me pedir. - não conteve o sorriso e deixou um selinho nos lábios de Snape.
- Eu vou te pedir outras vezes em namoro?
- Nunca se sabe, o futuro é incerto. - ela deu de ombros.
- Mas você vê o futuro, . - Severus acusou em tom de brincadeira.
- As minhas visões não funcionam assim. - ela negou com a cabeça e, para evitar que ele fizesse outras perguntas, colou suas bocas. Nenhum dos dois conteve um suspiro de satisfação quando o beijo foi aprofundado. Eles estavam com tanta saudade que seus corações batiam em um ritmo parecido. Suas bocas se descobriam novamente enquanto suas mãos se mantinham unidas. e Severus não precisavam se completar, estavam se transbordando juntos.


Capítulo 12

- O que você disse para sua mãe? - quis saber dois dias depois quando já se sentia levemente recuperada. Snape não tinha saído de seu lado por quase 48 horas e a garota estava curiosa.
- Só que Teodora tinha me chamado para passar o restante das férias na casa dela. - ele deu de ombros enquanto continuava a sua leitura - Vipper foi pegar a minha bagagem como se fosse um favor dos Malfoy aos Flint e eu vou para a plataforma de lá. Seu pai vai aparatar comigo para a casa deles.
- Você fala bastante sobre a garota Flint nas cartas. - ponderou ao mesmo tempo em que achava suas unhas a coisa mais interessante do mundo - São tão amigos assim?
- Teo é uma das poucas pessoas em quem eu posso confiar, dentro e fora de Hogwarts.
- Ah, bem. Ela parece ser uma boa garota. - a loira deu de ombros e pegou em sua mesinha de cabeceira um livro para começar a ler - Muito bonita pelo que consegui ver na coluna do Profeta Diário.
- Sim, ela é. - Severus concordou ainda meio desatento e não viu revirar os olhos. Ela não estava gostando muito do rumo da conversa.
- Vocês já tiveram alguma coisa além de amizade? - a Malfoy perguntou diretamente e Snape arregalou os olhos surpreso. Ele não tinha percebido que esse era o foco.
- Somos apenas amigos, . - o garoto assegurou e fez questão de olhar bem fundo nos olhos da loira. Ela precisava entender que ele falava a verdade - Teo está mais para uma irmã do que interesse amoroso. - ele não precisava dizer agora que boa parte da escola pensava o contrário. Nada pior do que uma Malfoy raivosa.
só assentiu e voltou sua atenção para o livro que seguia aberto em seu colo. Ela não estava realmente lendo, Snape percebeu e resolveu se sentar ao seu lado na cama. Severus segurou a mão da loira e, mesmo que ela se recusasse a olhá-lo diretamente, ele sabia que tinha sua atenção completa.
- No dia em que você conhecer a Teo, vai saber que qualquer suspeita que possa ter é infundada. - ele disse sereno e deixou um beijo em sua palma - Acho que desde que você apareceu, não há outra que me faça sentir assim.
- Assim como?
- Correspondido.
- Está se tornando um romântico barato, Severus Snape. - entrelaçou os dedos aos dele e sorriu pequeno - Além de um mentiroso, já que estou longe de ser a única que mora no seu coração.
- Do que está falando?
- Eu não sou tola a ponto de não saber sobre a Evans, Snape. - a loira piscou um olho espertamente e o sonserino engoliu em seco - Não espero brigar por um espaço com ela dentro de você, sei que são sentimentos diferentes.
- Como assim?
- Lily sempre estará presente de um jeito ou de outro em sua vida, Severus. Seja pelo amor que lhe tem ou pelo remorso que carrega pelo que lhe disse, fez e fará. E tudo bem, eu posso entender. - ela disse com a voz serena e o olhar distante. Severus se sentiu estremecer pelas palavras.
- Por que não parece ter ciúmes de Lily como estava tendo da Teo? - ele quis saber meio confuso.
- Porque eu tinha certeza dos seus sentimentos para com a Evans, coisa que não tinha com a Flint. - deu de ombros e lhe acariciou o rosto, tirando um pouco do cabelo de Snape da frente dos olhos - Eu não espero que me escolha ao invés da Evans. Não é e nem nunca foi uma questão entre nós duas, Sev.
- O que é, então?
- Estar comigo ou estar com a Evans é uma escolha sua, que diz respeito ao seu futuro. Você pode entender como uma opção entre um Snape que vai para a direita ou um que vai para a esquerda. E, mesmo que esses caminhos se cruzem - porque eles se cruzam, não pense que não - o começo e o fim dessa estrada vão depender exclusivamente de quem você deseja ser.
- Visões te dizem isso?
- Não preciso de visões pra saber que estarmos juntos ou não depende de uma série de fatores. - sorriu e Snape acompanhou, mesmo que ainda meio atordoado com tanta informação - Uma dessas variáveis é a sua escolha por quem você quer ser no futuro. E isso não depende de mim. Bem, pelo menos não completamente.
- Mas... - ele começou, mas ela interrompeu.
- O nosso futuro também depende das minhas escolhas, Sev. Duas pessoas são necessárias para fazer uma relação funcionar, então, as minhas ações têm o mesmo peso das suas.
- Você não precisa resolver quem você quer ser no futuro também?
- Eu tenho o meu posicionamento muito claro. Eu sei bem como eu quero estar no futuro, não preciso de tempo pra pensar.
- E como você quer estar?
- Viva. - ela disse simplesmente sem deixar de manter a expressão leve. Severus, no entanto, sentiu como se tivesse levado um soco no estômago.
- Estaremos vivos no futuro, . - ele abraçou a loira e afundou seu rosto nos cabelos dela enquanto fechava os olhos. apenas se aconchegou em seus braços e não falou mais nada. Snape só pensava no que poderia fazer para garantir que eles estariam bem e vivos em alguns anos.

[...]


- É curioso pensar que todos estão em um casamento agora, né? Toda a alta sociedade reunida para ver Bellatrix e Rodolfo Lestrange se casando. - comentou enquanto observava as bromélias de Emeline sentada ao lado de Snape. Vipper tinha estendido para os dois uma toalha com algumas guloseimas e eles puderam aproveitar o repentino sol ao ar livre.
- Você gostaria de estar presente?
- Comparecer ao casamento de uma Black significa que toda a alta sociedade sabe sobre mim. Significa que ou eu sou uma bruxa completa ou os Malfoy vão cair em desgraça por terem um aborto na família.
- Você nunca pensou em fugir? - Snape perguntou enquanto se servia de uma tortinha de abóbora. suspirou.
- Pra onde eu iria? Sem saber me defender sozinha, ia acabar morta antes que pudesse provar ser uma Malfoy. O Ministério não tem registros sobre os abortos, então eu seria considerada trouxa.
- Isso não parece te incomodar. - ele reparou e ela lhe encarou confusa - Ser considerada uma trouxa não parece te incomodar, você não fala deles com o desprezo que costumo ouvir dos outros.
- Ah, não me incomoda ser comparada a eles. - a loira sorriu e Severus agora não sabia o que dizer - Que Abraxas não me escute, mas os trouxas são fascinantes, assim como os bruxos. Fica mais fácil compreendê-los quando consigo vê-los pelo que eles são.
- Eu não sei se consigo ver dessa forma. Se não fosse por eles, não teríamos que nos esconder. - Severus deitou a cabeça no colo de que seguia sentada. A garota se pôs a fazer carinho em seus cabelos pretos.
- Seus problemas com seu pai não resumem todos os trouxas, Sev. - ela comentou serena e o garoto preferiu fechar os olhos para não lhe encarar - Espero que você consiga enxergar as coisas para além das feridas que o seu pai deixou. Para além de todos esses preconceitos.
- No dia em que ele morrer, talvez eu e a minha mãe possamos respirar aliviados. - ele deixou uma lágrima escorrer, mas logo secou. Sabia que Snape não gostava de fraquejar.
- Ele morre, vocês ficam. Você fica. É assim que quer lidar com tudo isso? Com esses pensamentos envoltos pelas trevas?
- Como você não tem os pensamentos cheios de coisas ruins, ? - ele questionou abrindo os olhos e a garota pôde vê-los marejados. Severus não choraria, mas estava sendo o mais vulnerável que conseguia ser com outras pessoas.
- Quem disse que eu não tenho? - ela sorriu de lado para logo deixar um beijo na testa do garoto e voltar a encontrar seus olhos - Ninguém é cem por cento bom ou ruim, Príncipe Mestiço.
- Todo mundo diz que me vê do lado das trevas. Talvez eu sempre tenha querido esse lado. Meus motivos parecem tão idiotas agora quando eu sei que você foi torturada por algo que eu quero.
- O que você quer?
- Agora? Um mundo em que não precisemos mais nos esconder. Em que eu possa me casar com você sem preocupações, que sejamos respeitados e que nossos filhos não sejam vistos de uma forma preconceituosa.
- E você acha que isso vai acontecer quando ele chegar ao poder?
- Você parece ser importante para os planos dele, . - Severus brincou com os dedos da loira - Isso pode nos garantir algum tipo de status e uma vida tranquila. Eu não deixaria ele te machucar outra vez, mas se existe a possibilidade dele precisar de você ao invés de te ameaçar, devemos confiar nisso.
- Você não quer se transformar em um comensal da morte apenas pela minha segurança. - ela riu divertida ainda que seus olhos permanecessem sérios - Está claro como água que você realmente acredita que teremos um mundo melhor se ele chegar ao poder. Mas a pergunta é: quanto você está disposto a sacrificar para isso?
- Eu não estou disposto a sacrificar você, . Posso ter diversos motivos, mas te manter viva é um deles e forte.
- Eu não falava apenas sobre mim. - a Malfoy suspirou - Há muito mais em jogo do que só a minha vida e segurança.
- Do que você está falando?
- É como eu lhe disse há alguns dias: o futuro depende de quem você vai escolher ser. Talvez algumas escolhas sejam necessárias ao mesmo tempo em que outras são evitáveis.
- Vai me dizer que escolhas são essas ou elas serão mais um enigma que você joga no meu colo?
- O que acha?
- Enigma? - ele mordeu o lábio contendo um sorriso. Era fácil estar com , mas ela parecia estar sempre um passo à frente. Snape bebia suas palavras e guardava o que podia na memória para analisar depois.
- Pelo menos por enquanto. - a garota deu de ombros e aproximou o rosto do de Severus - Acho que precisamos aproveitar o pouco tempo ao ar livre que temos. - sugeriu marota enquanto beijava a bochecha do namorado. Não demorou muito para que os dois estivessem aos beijos e carícias. Eles ainda tinham algum tempo para pensar sobre o futuro.
Algumas horas depois, os dois estavam juntos no pequeno laboratório que Abraxas tinha montado para nos últimos anos. Uma parte dele esperava que a filha se tornasse uma mestra em poções, mesmo que a garota não tivesse a mesma ideia.
Snape estava passando por alguns caldeirões de estudo e observava curioso a poção perolada no canto direito da mesa. Quando destampou, não conseguiu evitar o sorriso quando identificou o vapor subindo em espirais características.
- Desde quando está interessada na amortentia? - Snape quis saber enquanto aspirava com cuidado a poção. Páginas de livros antigos, tinta e um cheiro floral bem parecido às bromélias do jardim.
- A senhora Brown estava me ensinando algumas poções mais avançadas e trouxe um pouco na última aula. - ela deu de ombros - Nada que você não conheça, Príncipe Mestiço.
- E que cheiro sentiu? - ele olhou diretamente para a garota que sorriu cínica e prendeu seus cabelos loiros em um coque no alto da cabeça. se aproximou de Severus que seguia com a tampa do caldeirão na mão e cheirou a amortentia enquanto fechava os olhos.
- Ervas, caldeirão antigo e pólvora. - ela voltou a encarar o garoto que não tinha desviado o olhar de suas ações - Não preciso de uma poção para saber que você me atrai, Sev. Mas se quiser saber se estou falando a verdade, tem um frasco de veritaserum na segunda gaveta da direita. - sorriu e Snape negou com a cabeça fechando de vez o caldeirão com a amortentia.
- Adoraria que você estivesse em Hogwarts. - ele deu de ombros e os dois se sentaram próximos a pequena janela do laboratório - Certamente te levaria a Hogsmeade.
- Quem sabe em um futuro mais distante. Não sabemos o que acontecerá em dez anos ou mais.
- Como você se vê no futuro?
- A senhora Brown sempre diz que eu tenho talento para lecionar, então, isso pode se tornar uma possibilidade. Também sei que a Madame Trelawney gostaria de ter uma ajudante. São muitas as opções.
- Conheço a neta dela, uma garotinha bem estranha da Corvinal. Está sempre com uma porção de livros por aí e bolas de cristal. Teo disse que já pegou a garota no banheiro jogando tarot com um dos fantasmas. Como se fosse possível ver o futuro de alguém que já morreu. - ele desdenhou.
- Mortos não tem futuro, mas os fantasmas ainda podem influenciar nas decisões dos vivos. - negou com a cabeça e entrelaçou os dedos aos do moreno - Trelawney me contou sobre Sibila. O poder de sangue dela é definitivamente menor, mas ela tem uma boa intuição.
- Acha que um dia ela pode ser uma vidente conhecida como a avó ou as outras?
- Não sei, não a conheço de fato. Mas eu não costumo subestimar as pessoas, elas podem nos surpreender.
- Assim como você?
- Eu te surpreendo?
- Todos os dias um pouco mais. - ele deixou um beijo na testa da loira que sorriu com o carinho. Eles estavam demonstrando tanto carinho nesse pouco tempo juntos que quase não se assemelhavam ao que eram ou deveriam ser. não disse mais nada, apenas aproveitou o contato e essa bolha de felicidade em que estavam. Não tinha certeza de por quanto tempo ela duraria.

[...]


- Promete que vai continuar me escrevendo? - Severus perguntou na noite anterior a sua partida. No dia seguinte, ele tinha que acordar cedo para que Abraxas pudesse aparatar com ele para a casa dos Flint e, só assim, ele chegaria até a estação King's Cross.
- Agora que ele meio que já sabe da nossa relação, sinto que te deixo em um maior perigo com o nosso contato. - revirou os olhos enquanto escondia o rosto no pescoço de Snape. Os dois estavam deitados no quarto dela aproveitando o pouco tempo que lhes restava.
- Se você não me der notícias, eu vou ter que recorrer ao seu irmão e não tenho muita simpatia por Lucius.
- Ninguém tem. - ela riu baixo, mas afirmou com a cabeça - É como eu disse da outra vez: por sua conta e risco.
- Eu estou aprendendo a me defender melhor, . Logo vou poder duelar de igual pra igual com ele, se for o caso. Não vou mais deixar ninguém te machucar.
- Evite prometer o que não pode cumprir, Príncipe Mestiço. - disse com a voz abafada pela camisa de Snape - Há muito mais dentro do jogo do Lorde das Trevas e nós somos simples peças.
- Você tem razão.
- Eu tenho? - ela se afastou um pouco para poder olhar diretamente para o garoto.
- Eu não quero me unir ao Lorde das Trevas só por conta da sua segurança. - ele suspirou - Realmente acho que o mundo bruxo vai ser melhor quando ele chegar ao poder. Não vamos mais ter divisões ou precisaremos nos esconder dos trouxas.
- Se você acha que bruxos e trouxas vão conviver em harmonia, está muito enganado, Sev. - a loira negou com a cabeça - É mais fácil um extermínio de criaturas não-mágicas do que um cenário de alegria e festejo.
- Ele não...
- Snape, eu não estou querendo mudar a sua cabeça - interrompeu antes que o moreno falasse mais alguma coisa. Sua voz era serena, mas seus olhos estavam frios. Severus congelou quando ela lhe chamou pelo sobrenome - Só preciso que entenda que há mais nas artes das trevas do que poder. Você está disposto a sacrificar alguém para se tornar o braço direito do Lorde? Não precisa pensar só em mim e esquecer aqueles que ama: seus pais, a garota Flint, a Evans. Se você quer seguir o lado das trevas, tudo bem. Estaremos juntos nessa, não porque eu queira o mesmo, mas porque eu, infelizmente, só tenho um caminho. A minha escolha foi não sacrificar as pessoas que amo. E vou pagar por ela em algum momento.
- Você abandonaria tudo se tivesse a oportunidade?
- Eu tenho essa oportunidade, Severus. Mas sou covarde demais para seguir por ela, então, eu fico apenas com um caminho pra seguir. - ela deu de ombros - Espero que quando a hora chegar, eu não me arrependa.
- Que hora?
- Sinceramente, eu não sei. Sinto que teremos grandes decisões pra tomar nos próximos anos, sabe. Talvez isso signifique que ele chegou ao poder ou talvez não. Acho que vamos ter que pagar para ver.
- Não importa o caminho, estarei sempre com você. - Severus tocou o colar que levava no pescoço e sorriu pequeno para a loira. Ela assentiu e cobriu a mão dele com a sua.
- Algo me diz que estaremos entrelaçados até o fim dos dias, Sev. - se aproximou e deixou um beijo na ponta do nariz dele.
- Espero que a sua previsão não falhe.
- De um jeito ou de outro, elas acabam se realizando. - deu de ombros - Vamos esperar que seja da melhor forma possível. - ela disse enigmática e aproveitou para romper a pouca distância que tinha entre os dois. Se Severus iria embora no dia seguinte, ela queria aproveitar o pouco tempo que lhes restava.
Os dois se beijaram em um misto de urgência e saudade que já sentiam. embrenhou seus dedos nos cabelos lisos de Snape e ele não controlou um suspiro quando as unhas dela arranharam de leve sua nuca. As sensações que Severus lhe causava ainda eram muito novas, mas a Malfoy se jogava de cabeça enquanto sentia as mãos do jovem apertando firme sua cintura.
- , - Severus chamou com a voz baixa enquanto se afastava um pouquinho. Suas respirações já estavam misturadas - eu não posso fazer isso com você. Não assim, tendo que ir embora no dia seguinte.
- Talvez você tenha razão. - ela suspirou e juntou sua testa com a dele - Principalmente considerando que nunca ficaremos completamente sozinhos. Não aqui.
- Definitivamente não aqui. - Snape concordou e deixou um beijo nos lábios da loira - Talvez isso importe menos com o passar dos anos, mas eu ainda quero que seja especial pra nós. Que possamos ficar juntos pelo restante do dia seguinte.
- É o que mais te preocupa? O dia seguinte?
- Na verdade, o que mais me importa é deixar claro que estarei com você todos os outros dias depois. Independente do que aconteça. - soltou uma risadinha e o garoto arqueou uma sobrancelha - O que foi?
- Quem diria que seríamos melosos dessa forma, meu Merlin? Acho que uma sessão de tortura faz a gente pensar, né?
- Eu não fiquei apenas por isso, você sabe. - ele disse e viu a garota confirmar com a cabeça - Mas admito que nunca me imaginei falando essas coisas para alguém. Não é nem de perto o que eu ouvi dos meus pais em casa.
- Que bom que nosso relacionamento é diferente do deles então. - ela ponderou - Adoraria conhecer a sua mãe um dia.
- E com certeza irá, acho que ela vai gostar bastante de você. Minha mãe conheceu a sua enquanto estava em Hogwarts. Algo sobre terem sido companheiras de quarto.
- Vou contar com esse saudosismo na hora de me apresentar. - sorriu e resolveu se aconchegar mais ao peito de Severus, trazendo o cobertor para cima dos dois - Boa noite, Príncipe Mestiço.
- Bons sonhos, Princesa Malfoy. - ele desejou enquanto se acomodava melhor e mantinha a loira em seus braços para uma noite de sono. Talvez uma das melhores que ele já tivera em anos.


Capítulo 13

Setembro de 1976

Abraxas tinha aparatado há pouco tempo com Severus na casa dos Flint e agora conversava com o patriarca da família a alguns metros de distância enquanto o garoto se recuperava da terrível sensação.
- Cada dia fica mais intrigante tentar descobrir o que tanto esconde, Snape. - Teodora surgiu já arrumada para ir até a plataforma com um sorriso enigmático no rosto. Severus fez questão de ignorar a amiga para se sentar em uma das mesas no jardim da família, mas logo foi acompanhado - O que estava fazendo com o Malfoy? Sequer te vi no casamento da Black.
- Eu não fui.
- Isso eu sei, teria me ajudado a passar pelas seis horas mais longas da minha vida. - ela bufou - Sabia que Bellatrix ficou me rodeando querendo saber sobre as minhas concepções bruxas? - a garota completou baixo e indignada - Ela poderia somente aproveitar o próprio casamento e deixar os outros comerem em paz, sabe.
- Fico feliz que não tive que passar por isso. - o garoto soltou uma risadinha - Como foram as férias?
- Tediosas. Jacob ficou o tempo inteiro se desdobrando entre as “aulas secretas” do meu pai - que nada mais era do que nos ensinar magia das trevas enquanto a minha mãe finge não estar olhando -, o quadribol e me tirar do sério. Mas você não me disse o que está fazendo com o Malfoy. Vai dizer que foi adotado por ele?
- Por Merlin, não! - Snape disse apressado e Teo riu - Podemos falar sobre isso no castelo? De preferência usando o seu quarto de monitora?
- Seus movimentos de sedução já foram melhores, Sev. - a morena negou com a cabeça vendo o amigo revirar os olhos - É bom você me contar tudo o que está escondendo.
- Sempre que eu possa ensinar você a como controlar sua própria mente, Flint.
- Oclumência? - ela perguntou contente - Sabia que ser sua amiga me traria bons frutos, Snape. - a garota apertou de leve a mão do amigo antes de se levantar apressada e puxá-lo consigo - Vamos tomar café, minha mãe detesta atrasos e logo temos que sair para a plataforma.
Os dois entraram na casa e se juntaram à família de Teodora para o café da manhã e Margareth Flint fez questão de incluir Severus na conversa, o que deixou o garoto insatisfeito. Ele só queria passar despercebido e conseguir uma carona. Mas ganhou um bando de insinuações sobre a amizade dele com Teodora que deixaram os dois extremamente desconcertados.
Não tardou muito para que os gêmeos Flint e Snape estivessem acomodados no trem que partiria a Hogwarts. Jacob deixou os outros dois e foi logo procurar os amigos. Teodora aproveitou o tempo que tinha antes de seguir para a cabine dos monitores para tentar arrancar algo de Severus, mas ele parecia irredutível.
- Por Merlin, garota, você não consegue deixar de ser curiosa? - ele bufou depois de dispensar a bruxa que vinha com os doces. Teodora tinha comprado um bolo de caldeirão e até tentou barganhar uma ou outra informação quando deu ao amigo dois sapos de chocolate.
- A culpa não é minha se a sua vida não era interessante e agora eu preciso ter a certeza de que você tem uma namorada secreta. - a morena brigou em voz baixa mesmo depois de ter lançado um abaffiato na cabine - Eu não me lembro de Lucius ter uma prima, então esse tal cordão deve ser de outra pessoa, porque não tem como ser... - Teo ponderou e precisou desviar da caixinha vazia do chocolate que Snape lhe jogara - Ei, Nicolau Flamel está nessa figurinha. Tenha mais respeito com um senhor de idade. - ela resmungou.
- Já disse que só vamos conversar no castelo, Flint. - Severus bufou - Você não tem que ir para o vagão dos monitores? Já deve estar atrasada. - ele disse claramente expulsando a amiga da cabine e a garota lhe encarou ultrajada.
- Você sabe ser um trasgo, Snape. - ela revirou os olhos, mas abriu um sorriso cheio de segundas intenções - Espero você no meu quarto tão logo o jantar termine, hein?! - Teodora disse e saiu da cabine levando sua bolsa consigo e impedindo o amigo de responder qualquer coisa. Ele apenas soltou uma risada e desfez o feitiço do lugar para começar a ler o seu livro.
Meia hora tinha se passado e uma batida na porta sobressaltou Snape que discretamente manteve sua varinha empunhada. Se fosse algum daqueles marotos idiotas, ele estaria preparado. Porém, Regulus Black colocou a cabeça para dentro da cabine como se pedindo permissão.
- Posso entrar? - ele verbalizou e Severus confirmou ainda meio desconfiado. O garoto do quinto ano já estava devidamente trajado com o uniforme de Hogwarts e fechou a porta atrás de si - Será que podemos conversar, Snape?
- O que está acontecendo? - Severus estranhou. Se em todos aqueles anos falara com Regulus três vezes tinha sido muito. Eles eram apenas companheiros de casa e se esbarravam algumas vezes pelo Salão Comunal. Nada além disso. Sem contar que, mesmo com o irmão em outra casa, Regulus era muito parecido com Sirius e Severus preferia manter distância de qualquer coisa que o relacionasse a um maroto.
- Pode parecer estranho, mas minha mãe me pediu para vir falar com você. - ele contou baixo - Seu nome anda bem popular lá em casa.
- Do que está falando, garoto? - ele disse ao mesmo tempo em que recolocava o abaffiato na cabine - Eu nunca conheci a sua mãe.
- Mas ela conhece alguém que sabe bastante sobre você, Snape. - ele confidenciou e seus pensamentos voaram até Marjorie. Não podia ser - E quando ele conhece alguém e tem vontade, essa pessoa acaba ao seu lado. - Ah! O coração de Severus deu um salto. O Lorde estava tão interessado nele?
- O que você quer, Black?
- Minha mãe disse que ele tem você em alta estima e que pode ser útil para mim. Que posso aprender contigo uma coisa ou outra.
- Você é uma criança. - Severus foi categórico - Não há nada que deva aprender que já não esteja aprendendo nas aulas.
- Foi um pedido do Lorde, Snape. - Regulus estreitou os olhos e mordeu a própria língua - Vai mesmo negar isso?
- Suas mentiras precisam melhorar, Black. - o jovem riu e os ombros do mais novo caíram derrotados - Por que não se preocupa em estudar para os N.O.M.S.? Acho que vai ganhar mais assim.
- É sua última palavra?
- Claro que não. Eu não sou maluco de negar um pedido do Lorde se ele realmente vier, Black. Mas, por enquanto, você pode se virar bem sozinho.
- Nada que eu já não esteja acostumado. - ele suspirou e se levantou saindo da cabine e deixando Snape pensativo. Regulus não teria vindo a ele por nada. O quanto será que o Lorde das Trevas tinha falado sobre ele? Com certeza a tortura de Marjorie estava relacionada. Ele precisava avisar a loira sobre isso.
O restante do caminho até Hogwarts demorou menos do que Snape gostaria. Crabbe chegou para dividir a cabine com ele assim que o garoto terminou de se trocar e os dois foram conversando durante o caminho de carruagem até o castelo. Claro que eles precisaram se proteger de uma bomba de bosta jogada por Sirius Black, mas nada do que já não estivessem acostumados.
- Sabemos que os tempos estão cada vez mais difíceis, senhores. Basta uma rápida olhada para as manchetes do Profeta Diário para nos dar conta disso. - Dumbledore começou seu discurso assim que a seleção das casas terminou e todos os alunos já estavam bem acomodados em suas mesas - Provavelmente muitos de vocês sofreram ou sofrerão perdas inestimáveis e eu sinto muito não poder remediar tal fato. Gostaria de mantê-los seguros dentro das paredes deste castelo por toda a vida. Mas, infelizmente, só posso fazer isso durante os sete anos de estudos. Aos que chegam, compreendam que Hogwarts será sempre um lugar de acolhimento aos seus, podem ficar despreocupados quanto a isso. Aos que estão caminhando para o final de sua educação, sinto que o mundo se mostrará um pouco menos brilhante do que era quando chegaram aqui. Mas nunca se esqueçam da sensação de quando se sentaram neste velho banco e o Chapéu Seletor lhes tampou os olhos. Muitos dos senhores não conseguiram alcançar o chão naquela época, agora estão se preparando para alcançar o mundo. Mas a que custo? - o diretor suspirou. Um silêncio ensurdecedor se fez presente - Por sorte ainda temos algumas boas refeições pela frente. - ele sorriu cansado e bateu palmas duas vezes fazendo com que o banquete fosse servido - Bom apetite!
- Como ele espera que a gente coma depois desse discurso? - Teodora cochichou para Severus e o garoto deu de ombros enquanto pegava um pouco de purê para o próprio prato - Como você está conseguindo pensar em comida?! - perguntou chocada.
- Não sou só eu. - ele indicou para a garota o restante da mesa da Sonserina e realmente todos estavam comendo e conversando normalmente. As outras mesas ainda estavam mais impactadas, mas não demorou muito para algumas conversas tímidas preencherem o silêncio do Salão Principal.
- Algumas vezes eu acho que caí na casa errada. - ela bufou enquanto revirava os olhos. Snape lhe encarou cético - Ok, não acho. - resmungou pegando um pedaço da torta de frango para si ao mesmo tempo em que ouvia o amigo dar uma risadinha - Calado.
- Não existe casa melhor para você do que a Sonserina, Teo. - ele disse bem humorado e continuou a comer. Claro que o discurso de Dumbledore tinha sido impactante, mas ele podia pensar nisso depois. De preferência quando tivesse tempo para analisar cada pequena parte dele.
O banquete de boas-vindas não demorou muito mais para terminar e, tão rápido quanto pôde, Severus estava se encaminhando para as masmorras. Ele bem que tentou, mas não conseguiu escapar de Teodora quando a garota pôs seus olhos nele e o chamou discretamente para que lhe seguisse até seu quarto ao lado do Salão Comunal.
- Já disse que odeio você hoje? - Severus bufou enquanto se largou na cama da garota e viu a amiga revirar os olhos pela audácia.
- Para a enrolação e me conta logo quem é a dona do colar misterioso, porque eu fiquei um tempinho quebrando a cabeça para tentar descobrir e nada aconteceu.
- Você sabe que as paredes têm ouvidos, né? - ele disse e viu Flint pegar a varinha das vestes e apenas acenar com ela - Feitiços não-verbais? Estou impressionado, Teo.
- Uma das vantagens de morar em um covil das trevas, Sev. - ela piscou convencida e se sentou perto do amigo - Agora você tem apenas os meus ouvidos.
- Você sabia que Lucius tinha uma irmã? - ele começou, mas Teodora não alterou a própria expressão - Você sabia?!
- Bem, eu desconfiava. Não lembro de ter ido até a casa dos Malfoy quando pequena, mas já ouvi meus pais falarem sobre eles não serem tão puros quanto pregavam. Algo sobre abortos. Sem contar que eu sei que a mãe do Lucius foi queimada da tapeçaria, então faz bastante sentido que essa tal irmã também tenha sido.
- Marjorie é esse tal aborto. - Severus abaixou a voz e Teo assentiu - Mas não é só isso.
- Acho que se fosse, as coisas seriam mais fáceis, mas a sua cara me diz que nada é simples. - a morena suspirou - Quando as nossas aulas de Oclumência começam?
- Assim que eu terminar de te contar toda a história.
- Então vamos que a madrugada será longa. Espero que você me ajude a repor meu estoque de poção revigorante depois de hoje.

[...]


As aulas tinham começado há alguns dias e Severus tinha feito questão de mandar uma carta a Marjorie contando sobre a investida de Regulus e, também, deixando claro, mesmo por linhas tortas, que mais pessoas sabiam da sua existência. Obviamente, quando Marjorie recebeu a carta entregue por Nute e leu essa parte, seus pensamentos voaram até a garota Flint. Era estranho ser obrigada a confiar em alguém que sequer conhecia, mas, por hora, teria que se virar com a confiança que tinha em Severus.
- Princesa Malfoy? - Vipper chamou a garota que estava concentrada na carta que tinha em seu colo - Vipper está atrapalhando a senhorita? - o elfo perguntou meio assustado, mas a loira logo se preocupou em colocar um sorriso no rosto e deixar a carta de lado. Não queria que ele se machucasse.
- Claro que não, Vipper. Me diga, Abraxas não está me chamando, está?
- Não, o senhor Malfoy pediu para avisar que foi até a casa dos Black com o senhor Lucius. Vipper queria mesmo apresentar a senhorita a um elfo que estou treinando. Ele servirá a casa do senhor Lucius depois do casamento.
- E quem é o pobre coitado designado para essa tarefa? - Marjorie riu enquanto negava com a cabeça. Um pequeno elfo, de pouco mais de um metro, entrou timidamente em seu quarto. Ele parecia bastante com Vipper, mas tinha um ar bem mais jovem. Ele vestia uma fronha velha e encardida como roupa - Qual o seu nome?
- Eu sou Dobby, senhorita Malfoy. - ele respondeu fazendo uma reverência tão exagerada que seu nariz pontudo tocou o chão - Dobby está aprendendo com Vipper tudo o que pode para poder servir bem aos Malfoy, senhorita.
- É um prazer, Dobby. - a loira se aproximou dos elfos, mas se manteve sentada na cama - Não acho que vá gostar muito de trabalhar para Lucius, mas espero que a sua patroa seja um pouco mais tolerável.
- Dobby vai fazer um excelente serviço para os Malfoy, senhorita. Tudo sairá na mais perfeita ordem.
- Caso algo dê errado, você sempre será bem-vindo ao meu lado. - Marjorie sorriu enquanto olhava profundamente nas orbes verdes do elfo - Qualquer amigo de Vipper é meu amigo também.
- Vipper bem disse que a senhorita é muito bondosa. Dobby espera visitá-la mesmo depois da mudança.
- Vou adorar a visita. Sinto que seremos bem próximos ao longo dos anos. - ela completou meio dispersa.

Outubro de 1976


- Diretor Dumbledore, o senhor queria me ver? - Teodora entrou no escritório do diretor hesitante. O rabo de cavalo preso milimetricamente no alto de sua cabeça, o brasão de monitora perfeitamente lustrado e grudado em suas vestes.
- Sim, senhorita Flint. Fico feliz que tenha arrumado um tempinho para me encontrar. - ele sorriu e apontou para a cadeira na frente de sua mesa e a garota logo se sentou - Com o início do seu sexto ano, gostaria de saber quais os seus planos para quando finalizar os estudos?
- Ainda não pensei muito sobre isso, senhor. - respondeu rápido e logo limpou as mãos discretamente na saia. Tinha começado a suar - Talvez algum estágio no Ministério, não sei.
- Pensando em seguir os passos de Josephina Flint?
- Não, não. Eu não tenho a menor inclinação para ser Ministra da Magia. Não me atreveria. - ela deu de ombros. Os olhos azuis de Dumbledore lhe estudavam cuidadosamente por cima dos oclinhos meia-lua.
- Se eu pudesse lhe dar uma sugestão, a senhorita seria uma excelente auror ou profissão parecida. O professor Flitwick elogiou muito as suas habilidades e sei que a senhorita conseguiu alguns bons N.O.M.S.
- Sete. - confirmou
- Excelente! De toda forma, gostaria também de lhe passar um recado, senhorita Flint. - ele começou cuidadoso e a garota olhou em expectativa - Madame Pince veio comentar sobre suas horas extras na biblioteca, principalmente na seção restrita. - Teodora corou - Fico me perguntando o motivo de seu interesse.
- Apenas estou querendo me dedicar mais aos N.I.E.M.S do ano que vem, professor. - justificou com o olhar firme em Dumbledore, pensando que mataria Remus assim que o visse. Claro que Snape também tinha culpa nisso, mas por hora preferia culpar o grifinório.
- Compreendo. - o homem disse resignado - Espero que a senhorita tenha encontrado o que procurava, senhorita Flint.
- Posso me retirar, diretor?
- Claro, claro. Acredito que ainda tenha a sua ronda para fazer. - ela assentiu concordando e se levantou. Antes que chegasse à porta, Dumbledore lhe chamou novamente - Espero que saiba que pode contar com a minha ajuda se precisar. - ele ofereceu e a morena parou por alguns minutos para só depois sair do escritório. Se ela precisava de ajuda? Com certeza! Se ela pediria, eram outros quinhentos.
Assim que a garota saiu, deu de cara com Severus que lhe esperava junto a Mulciber, Avery e Crabbe. Os quatro estavam conversando aos sussurros, mas logo se deram conta da presença da morena e lhe encararam em expectativa. Ela se aproximou revirando os olhos e cruzou os braços para o quarteto, negando levemente com a cabeça. Os garotos apenas assentiram e dispersaram, apenas Snape permaneceu ao seu lado, acompanhando a amiga até que ela encontrasse o outro monitor sonserino, Evan Rosier, para a ronda da noite.
- Acha mesmo que Dumbledore não sabe sobre nossos encontros? - Severus perguntou baixo sem olhar para a amiga, mas sabia que ela tinha escutado. Avery, Crabbe e Mulciber não estavam tão atentos a ponto de perceber o desconforto de Teodora quando saíra do escritório do diretor, mas Snape a conhecia.
- Ele sempre sabe de tudo, Severus. - a morena deu de ombros mantendo o tom de voz do garoto - Apenas não vai fazer nada até que seja necessário.
- Ele disse isso?
- E precisa? - ela riu sem humor - Dumbledore é um dos maiores bruxos do mundo e comanda uma das maiores escolas de magia da Europa. Eu ficaria surpresa se ele não soubesse de absolutamente tudo o que acontece nesses corredores.
- Andar com o tal Lupin está te afetando mais do que deveria, Teo. - Snape disse em repreensão e Flint estancou. O garoto ainda deu alguns passos antes de perceber que a garota não estava ao seu lado e quando se virou, a amiga lhe olhava em choque - O que foi? - perguntou tranquilo retrocedendo.
- O que quis dizer, Severus? - ela sussurrou engasgada e Snape teve que segurar o riso. Teodora era transparente demais em alguns momentos.
- Que se você quer se envolver com o grifinório, deveria ser mais discreta em suas escapadas pelo castelo. - ele deu de ombros e enlaçou o braço da garota, como ela costumava fazer com ele, forçando-a a recomeçar a andar - Eu ainda acho que existem opções melhores do que aquela escória, mas se você não consegue ver, quem sou eu pra dizer alguma coisa? - comentou, mas Teodora permanecia em choque e isso começava a lhe irritar - Por Merlin, Flint, mude essa cara, não vou espalhar pelo castelo inteiro! - assegurou e ouviu a garota pigarrear, mas assumir uma postura mais normal.
- Alguém mais sabe? - ela perguntou olhando urgente para Severus assim que encontraram Rosier parado próximo a entrada do quarto andar.
- Todo mundo acha que estamos juntos, Flint. Se controle. - ele riu e a garota ficou mais tranquila - E eu tenho a certeza de que sou um partido muito melhor do que aquele idiota. - ele se aprumou e a garota soltou uma risada, se sentindo mais leve.
- Você não teria tanta sorte, Snape. - disse e deixou um beijo na bochecha do amigo antes de ir falar com Rosier para que começassem a ronda. Ele não diria nada. Teodora estava agradecida.

[...]


- O que te aconteceu durante a festa, Teo? - Severus veio ao encontro da amiga que saía meio às escondidas da enfermaria. Ela levava um curativo na testa e parecia culpada - O que houve? Eu bati no seu quarto assim que acordei e depois do café da manhã, mas ninguém atendeu. Estava a ponto de perguntar às suas amiguinhas grifinórias sobre você.
- Você ia falar com a Deli e a Hestia por minha causa? - Teodora sorriu para o garoto achando isso adorável - Me sinto extremamente especial por isso.
- Não muda de assunto, Flint. - ele revirou os olhos e fez pouco caso - O que aconteceu? Eu tive que inventar algumas desculpas de que você não estava se sentindo bem, mas te vi voltar escondida para a festa algumas vezes para depois sumir de vez. Aquele idiota do Lupin te fez alguma coisa? Ele encostou em você? - Severus baixou o tom de voz enquanto focava na testa machucada da garota e, pela primeira vez, Teodora olhou assustada para o amigo. Ela nunca tinha lhe visto falar assim.
- Se acalme, Sev. - a morena engoliu o receio e tocou o ombro tenso de Snape. Ele não tinha abandonado a postura ameaçadora - Isso foi apenas uma tentativa estúpida da Deli de me ajudar a trocar de roupa enquanto eu estava meio bêbada. Talvez eu tenha exagerado no Whisky de fogo ontem com o Remus. Só isso.
- Ele não fez nada do que você não queria, não é? - o garoto insistiu e viu Teo revirar os olhos enquanto negava com a cabeça.
- Você está pior do que Jacob agindo assim, Snape. Se controle, sim?
- Se aquele idiota não sabe agir como irmão com você, alguém precisa fazer o papel, Flint. - Severus disse, mas se arrependeu rapidamente porque a garota tinha se jogado em seus braços para um abraço apertado.
- Você me deixa emocionada assim, Sev. - ela disse assim que lhe soltou. O desconforto de Snape era palpável - De namorado falso a irmão postiço. Severus Snape faz tudo, senhoras e senhores. - ela brincou enquanto viu o sonserino lhe dar às costas e voltar a andar. Teo apressou o passo para alcançá-lo e enganchou o braço no dele - Obrigada por isso, Sev. - ela agradeceu, mas ele nada disse, só assentiu. Não era preciso.

Quer saber o que aconteceu na festa? Corre lá em Nas Garras do Lobo pra descobrir ;)




Continua...



Nota da autora: Como prometido, atualização chegando rápido pra vocês :) Eu amo a amizade da Teo e do Sev, esse capítulo sendo quase um tributo ao companheirismo dos dois ♥️ E o Dobby aparecendo? Fiquei tão feliz com ele presente na história! Me contem o que estão achando nos comentários e nos vemos na próxima att. Beijos.

Ei, leitoras, vem cá! O Disqus está um pouco instável ultimamente e, às vezes, a caixinha de comentários pode não aparecer. Então, caso para você deixar a autora feliz com um comentário, é só clicar AQUI.




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  • Stars Above Us (LOLA)
  • Nas Garras do Lobo (LOLA e Mayra B)

    Outras:
  • Entre Sonhos (Harry Potter - Shortfic - Finalizada)
  • Pura Magia (Harry Potter - Em andamento)
  • Like a Virgin (Oneshot - Restrita)
  • Amor em Dobro (Shawn Mendes - Em andamento)
  • Make 'em Laugh (Originais - Em andamento)
  • Blood, Love and Death (Crepúsculo - Em andamento)
  • I'm not your fan (Kpop - Kard - Restrita)


    Nota da beta: Pausa para derramar umas lágrimas de emoção ao ver o Dobby! <3 Ah, gente! Que vontade de apertar esse elfinho e a Marjorie por ser educada com ele. Sou meio Hermione quando se trata de elfos! Curiosa por mais sempre, May!
    Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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