Última atualização: 19/04/2022

Capítulo 1

Mamãe e titia estavam pela casa tirando as últimas luzes de natal. O ano novo tinha sido há dois dias e mamãe sempre dizia que era o limite dos pisca-piscas e da árvore, porque se não os vizinhos começavam a comentar. Com vizinhos, eu tinha certeza que era vovó na casa do lado espiando pela janela pronta pra fofocar e criticar tudo.
- ! Pega a caixa! – Ouvi a voz estridente e mandona de mamãe. Quando Dona Vivian dava uma ordem, era melhor obedecer na hora. Levantei da cama e olhei ao redor do quarto que eu dividia com meu primo. Nada ali.
- Ódio! – Resmunguei baixinho, porque provavelmente estava no sótão e eu odiava subir para lá, ainda mais num dia tão quente. – O que custava o negócio estar aqui?
Fechei os olhos frustrada e abri, sabendo que era melhor eu correr para pegar a caixa antes que viesse uma segunda ordem. Mas, na hora que eu abri os olhos, a caixa de papelão marcada com letras pretas “NATAL" estava ao pé da minha cama.
- Danadinha, nem vi você. – Eu ri, alegre que não ia subir, e rapidamente levei tudo para nossa pequena sala.
- Aqui, mamãe! – Levei a caixa até ela, que mal me esperou colocá-la no chão para já abri-la e despejar ali pisca-piscas e pedaços de uma velha árvore de natal, que já estava naquela casa muito antes de eu mesma estar.
- ! Pega o inseticida! Tem umas baratas aqui! – Ouvi minha tia gritar do quintal.
- Eu estou ocupada com a caixa! Pede para o Júnior! – Eu falei, já me tremendo com essa história de barata. Eu odiava bicho que não fosse fofinho e peludo. Tudo que voava me assustava. Tudo que rastejava me enojava.
- ! – Minha mãe me olhou feio, aquele tipo de olhar que você nunca quer receber. – Você já acabou aqui e sua tia tá chamando. Vai, menina!
- Por que o Júnior não pode ir? – Rebati, irritada e assustada. Eu não ia.
Pergunta errada. O olhar da minha mãe piorou.
- Você sabe muito bem que seu priminho tá ocupado estudando. Diferente de algumas pessoas da família, ele se esforça.
- Mãe, ele tem sete anos! Ele não está estudando! Ele tá jogando aquelas cartinhas idiotas de Yu-Gi-OH! E a gente está de férias! Ele nem tem dever. – Agora, eu estava bem magoada com a situação. – Sabe que que é isso? Eu aprendi na escola. Machismo. Homem nunca ajuda em casa, mas tem que ajudar sim!
Minha mãe parou tudo e se agachou, olhando bem no fundo dos meus olhos.
- . – Ela falou, bem devagar. – Sua tia pediu o inseticida pra você. Não para o Júnior. Não importa se ele é menino. Importa que ela te chamou. E se ela te chamar de novo, mocinha, quem vai ficar trancada no quarto estudando até janeiro do ano que vem é você.
Me arrepiei toda e corri para o armarinho de dispensa da cozinha pegar o inseticida numa velocidade impossível. Abri a porta que dava para a parte de trás do quintal e vi minha tia com uma vassoura afastando umas seis ou sete baratas. Minha mão ficou gelada e suada e eu derrubei o veneno, gritando.
- AAAAAAAA!
- AAAAAAAA! – Minha tia respondeu, igualmente apavorada, batendo a vassoura.
- Sabia que ia sobrar pra mim, suas covardes! – Mamãe apareceu, com seu olhar como um guerreiro em batalha. – Onde estão?
- Ali... – Eu apontei, sem coragem de olhar, na direção das baratas.
- Você jogou o veneno, ? – Minha mãe questionou.
- Desculpa, mamãe, eu não consegui. – Eu estava me tremendo inteira.
- Então como elas morreram?
Abri os olhos e vi titia abrindo também, nós duas olhando para as baratas. Antes rápidas e fujonas, agora todas estavam imóveis.
- Talvez... Quando eu derrubei... Pode ter acontecido algo. – Arrisquei dizer.
- Talvez. – Mamãe falou, mas não parecia acreditar.
- Bom, eu vou pegar uma pá pra gente jogar essas coisas no lixo. – Tia Alice disse, se recuperando do choque e saindo.
Mamãe olhou para mim, enquanto eu tentava parar de tremer.
- Vem cá, criança.
Ela me levou de volta para nossa sala e sentamos no único sofá, de frente para nossa pequena televisão, desligada.
- , quando a mamãe briga com você, não é porque a mamãe te odeia, tá? – Ela começou, me botando sentada no colo dela e fazendo carinho no meu cabelo. – Mas é que esse medo bobo tem que passar. No futuro, quando eu não tiver mais aqui pra te acudir, quando Júnior já tiver saído de casa, você que vai ter que ir atrás das baratas da vida, mesmo não gostando.
- Mas, mamãe, elas são nojentas. – Falei, choramingando.
- Posso te contar um segredo? – Ela se aproximou de mim. – As baratas têm mais medo de você do que você delas. Afinal, minha menina é muito grande e forte. As baratas ficam apavoradas! É por isso que elas ficam se mexendo daquele jeito esquisito. Elas tão tentando fugir.
Eu ri no colo de mamãe, abraçando mais ela.
- E, filha, já falamos do Júnior. Você sabe que ele anda tristinho porque ele tá percebendo que o tio Paulo não vai voltar. Nessa idade, você também ficou bem triste ao perceber a mesma coisa do seu pai. É claro que ele não tá estudando. Mas deixa ele ficar na dele.
Eu deitei no ombro dela.
- O vovô foi embora, o papai foi embora, o titio foi embora... Se eu arrumar alguém, ele também vai embora?
Mamãe ficou quieta por muito tempo, apenas fazendo um carinho automático.
- , eu queria poder virar pra você e dizer que qualquer homem que te deixar é burro. Mas é que todos eles são burros mesmo. Não conta com a sorte, pequena. Mas mamãe torce pra ser diferente pra você.
- Talvez nossa família seja amaldiçoada. – Comentei o que tanto passava na minha cabeça.
Mamãe olhou para a janela, para o nada.
- Talvez.
A gente ficou em silêncio por um tempo, ainda naquela posição, até que mamãe voltou a falar:
- E aí? Já pensou no que você quer de aniversário?
- Mamãe, falta um mês!
- E você acha que dinheiro nasce ali no quintal, ? Eu tenho que economizar pra fazer as coisas!
- Tá bom, tá bom! – Eu parei pra pensar. Quando , minha ex-melhor amiga, fez 11 anos, ela ganhou uma festa na casa dela. O problema é que a casa dela devia ser três vezes maior que a minha. Talvez eu pudesse ir ao cinema com alguns amigos meus, mamãe, titia e Júnior. Seria legal. – O que acha de cinema?
- Bom, vocês têm aula no dia, mas depois a gente pode almoçar e combinar de encontrar seus amiguinhos no cinema. Posso ver com as mães de cada um pagar o seu. E a gente pode fazer pipoca aqui em casa e levar nuns saquinhos escondidos pra não pagar de lá e não ficar feio não dar nada.
- Pra mim tá perfeito! – Eu abracei mamãe, feliz. – Nem acredito que eu vou pro sexto ano! E vou fazer 11 anos!
- Pois é, minha pimpolha tá crescendo! – Mamãe riu e me abraçou.
Naquele momento, a campainha tocou.
- Já vou! – Mamãe disse.
- Não, não! – Eu disse, já de pé. – Tenho que fazer as coisas, né?
Corri para a porta e a abri, levando um dos maiores sustos da minha vida.
Do outro lado do portal, estava uma mulher de uns 40 anos, com cabelos laranjas. Não ruivos, laranjas. Usava óculos escuros redondos cheios de pedrinhas que pareciam brilhar, mesmo sem estar refletindo nada. Usava um pano amarrado na cabeça, que parecia balançar sem vento. E suas roupas... Um vestido verde água até os joelhos com uma capa fina e transparente até a cintura. Usava chinelos de salto, com desenhos de asas na lateral. Tinha uma bolsa pequena no formato de um baiacu e segurava uma prancheta e um galho.
Ainda a olhava atônita, quando a mulher, sorrindo, começou a falar:
- Boa tarde! Aqui que mora ?


Capítulo 2

- Então você está me dizendo – Mamãe começou a repetir, cautelosa. – que a senhora é bruxa, minha filha é bruxa e tem uma escola pra gente como vocês lá no meio das árvores e que minha filha vai estudar lá?
- Bom, de certa forma, sim, é isso. – A mulher disse, batendo palminhas. - Ela não é obrigada a ir para lá, mas uma bruxa sem treinamento pode causar muita confusão. É o melhor para ela e para todos vocês.
- E por que seria uma bruxa? – Tia Alice, que chegara pouco depois na conversa, perguntava, parecendo dividida entre rir e chorar.
- , – A moça de cabelos laranjas virou para mim. – já aconteceram coisas com você que você nunca pôde explicar? Que você desejou e aconteceram?
Eu lembrei da caixa no meu quarto hoje de manhã. Nas baratas que apareceram mortas. No natal em que mamãe estava sem dinheiro para presentes, mas a boneca que eu tanto queria apareceu embaixo da árvore sem ela comprar. Da vez em que falou que não queria mais ser minha amiga e que eu era nojenta e ela só caiu dois metros para trás, sem explicação.
Acenei com a cabeça, confirmando. Não tinha tido coragem ainda de falar, aquilo tudo parecia tão louco, mas também algo no meu íntimo me dizia que era verdade, como a última peça de um quebra cabeça se encaixando.
Aquela mulher ali na frente, professora Jane Gomes, havia mexido aquele galho, que ela chamara de varinha, e feito coisas inacreditáveis na nossa frente. A sua bolsa em formato de baiacu mexia os olhos e abria e fechava a boca, além de às vezes parecer resmungar. Seus óculos escuros se tornaram óculos de grau com um toque de sua varinha. Ela explicara sobre guerras de milênios entre bruxos e trouxas (que ela disse que eram os não-bruxos, mas achei ofensivo) e porque que os bruxos ficavam escondidos do mundo. Sobre as escolas de magia espalhadas pelo mundo e que essa recebia alunos de toda a América Latina (embora houvessem boatos que o México pretendia fundar a sua própria) e que eu teria aulas tão diferentes das aulas de Geografia e Ciências que eu teria no sexto ano. Tudo parecia impossível, mas também inegável.
- . – Minha mãe virou para mim. – A vida que vai mudar é a sua. Então você escolhe. Eu e Alice vamos te apoiar no que você escolher. Escolha por você e por ninguém mais.
Eu olhei para ela, para tia Alice, para nossa casa e para aquela mulher de cabelos laranjas e olhos esbugalhados, que parecia olhar tudo como se fosse o lugar mais maravilhoso do mundo. Pensei em como eu nunca fui muito boa em nada. Sempre média. Notas boas até, mas nunca tive um grande interesse em tudo aquilo. Não parecia certo para mim. Talvez porque o certo fosse ser uma bruxa. Quase ri de mim mesma só de pensar nisso.
- Se eu for e não gostar, eu posso voltar para casa? – Perguntei para a professora Jane.
- Bom, a escola fica bem distante, então os alunos só voltam para casa durante o ano letivo nas férias e tem a opção de passar alguns feriados em casa se desejarem. Se a família também tiver alguma religião com algum feriado específico, é só informarem a escola. Ah, e é claro, em casos de acidentes e doenças com algum familiar.
- Pequenininha, já, já, teremos o Carnaval. Seria um mês e pouco na escola e depois feriado. Se você não gostar, a gente já te recebe no meio do bloco!
- E se gostar, na própria escola nós oferecemos bailes de carnaval apropriados para a idade dos alunos. – Jane completou, sorrindo largamente.
- O que você acha, pequenininha? – Tia Alice virou para mim, os olhos meio esbugalhados de choque.
- Você também pode decidir depois. – A professora Gomes falou. - As aulas só começam dia 31 de janeiro, daqui há um mês. Mas caso você decida que quer, você deve comprar os materiais na Rua da Amanhecer.
- Isso fica aqui no Rio? Eu não conheço. – Minha mãe comentou, preocupada.
- Ah, claro que você não ia saber, que estúpida eu sou! – A professora bateu a mão na própria cara, então seus olhos se iluminaram. – A Rua do Amanhecer fica na Rua do Ouvidor, no que eu acho que vocês chamam de Centro. Lá, vocês encontrarão o Arco do Teles. Os Teles eram bruxos famosos do século XVIII, e tentavam conciliar ali naquela rua o comércio trouxa e bruxo. Mas então, uma loja bruxa nomeada de “Os Caga Negócios” perdeu o controle sobre um feitiço muito perigoso, o Fogo Maldito, e a rua toda foi incendiada. A casa dos Teles também. Só os arcos resistiram. Os bruxos então perceberam que estavam muito expostos ali e criaram uma nova localização para eles, a Rua do Amanhecer, já que foi inaugurada no nascer do sol. Passando por baixo do Arco dos Teles, pensando no nome da Rua, vocês conseguem chegar lá. E aí devem comprar tudo o que está nessa lista. – A mulher de cabelos laranjas entregou uma lista para mamãe.
- Obrigada, eu acho. – Mamãe pegou os papéis.
- Ah! Querem ouvir outra história? – A mulher batia palminhas, empolgada.
- Temos escolha? – Tia Alice murmurou num muxoxo.
- Na mesma época da construção da Rua – Jane continuou, sem prestar atenção nos comentários. – uma mulher morava no local. Seu nome era Bárbara dos Prazeres. Ela veio da Portugal, uma famosa ex-aluna de Beauxbatons, a escola da França, e diziam que ela era uma Veela.
- Você pode falar nossa língua? – Mamãe perguntou.
- Perdão. Veelas são seres mágicos que aparentemente são extremamente atraentes e conseguem convencer uma pessoa a fazer o que elas quiserem com seu canto. Mas se você enxerga por trás do canto, tsc, tsc, não é uma imagem nada bonita. Mais monstros do que princesas. Continuando, ela enlouqueceu o primeiro marido com sua beleza, até ele se jogar do prédio. E nisso, ela logo arrumou um novo pretendente, o que a fez parecer uma assassina. Pouco depois, tendo visto a verdadeira forma da nova mulher, o seu segundo marido também se matou. Foi um escândalo. Todos achavam que ela era uma homicida. Logo depois, ela passou a viver no Arco dos Teles. Os trouxas achavam que ela tinha empregos ilegais ali, mas ela vivia pela Rua do Amanhecer vendendo antigas joias da família. No entanto, por ser uma Veela, ela mantinha sua beleza e não envelhecia, e os trouxas começaram a notar que, ao passar do Arco do Teles, várias crianças desapareciam. O que eles não sabiam era que as crianças estavam entrando na Rua do Amanhecer para comprar seu material escolar. No final, criaram uma lenda de que ela era uma bruxa que matava crianças para manter sua juventude. Bobinhos, chegam tão perto da verdade, mas colocam tantos detalhes esquisitos no meio.
- Claro que é esquisito ela matar crianças, mas não o fato de ela ser um bicho mitológico que enlouquece homens. – Tia Alice comentou, sarcástica.
- Exatamente! – A professora falou, sorrindo. Ela não devia conhecer ironia.
- Uma pergunta. – Mamãe logo disse. – Esse material... É muito caro?
- Bom, certamente vocês pagarão alguns bons galeões.
- O que é isso? – Perguntei. Eu podia só ter dez anos, mas eu sabia de dinheiro.
- Ah, sabe como é, o dinheiro bruxo. Nuques, sicles, galeões, são nossas moedas.
- Eu quase não tenho dinheiro, imagina esse dinheiro esquisito.
- Ora, claro que não tem, senhora . Mas na Rua do Amanhecer existem postos de troca de dinheiro trouxa por dinheiro bruxo. Acredito que um Galeão deve equivaler a uns 40 reais hoje em dia. O preço varia, e o real não anda muito valorizado.
- 40 reais uma moeda?! – Minha mãe exclamou, se levantando.
- Uma moeda bem valiosa. – A professora acrescentou, bem alheia a tudo. – Mas é claro, Castelobruxo tem fundos para alunos com baixa renda. Precisa apenas escrever para nossa diretora, senhora Alba Nkosi, relatando sua renda e seu caso será analisado. Também temos várias lojas que vendem artigos de segunda mão que saem bem mais baratos.
Olhei para mamãe, preocupada. Não queria ser um peso para ela. Não bastava estar descobrindo que eu era esquisita. Eu queria ser boa pra família e não mais um problema. Minha mãe parecia ler minha mente.
- , se for o que você quer, a gente vai conseguir. Seu material pra escola também não era de graça. Se você quiser, nós conseguimos. Mas e aí? Você quer?
- Pode responder depois sem problema, senhorita, eu já tenho que ir, deixarei meu endereço caso queiram mandar uma arara ou uma carta. Um último aviso: não é permitido que alunos menores de idade façam magia fora da escola, então, se comprar uma varinha, nem tente! Ah! E quase esqueci. Caso deseje ir para a escola, no dia 31 de Janeiro embarque no Cais da Gamboa, no Píer Mauá, no armazém nove, às 9:30 da manhã. Tolerância de no máximo até as 10 horas para entrar no navio. Pode chegar lá a partir das sete caso queira se adiantar.
A mulher cabelos laranjas se levantou e me entregou um cartão que, na mesma hora, revelou uma foto minha com meu nome e dados, além de um grande número nove no canto direito. Logo depois, ela estava já na porta.
- Espere! – Eu corri atrás dela, antes que ela, sem esperar ninguém, abrisse a porta e fosse embora.
- O que foi? Hoje ainda tenho que passar na casa de todos os outros nascidos trouxas da região Sul e Sudeste, seja rápida.
- Eu não preciso mais pensar. – Olhei para minha mãe e para titia. Pensei em todas as novas possibilidades. – Eu vou.


Capítulo 3

- Mamãe, depressa! – Eu corria, carregando minha mala. Eu estava muito animada para viajar e conhecer esse lugar tão diferente, onde talvez eu fosse especial. Ao mesmo tempo, eu também sabia que sentiria falta de mamãe, titia e até de Junior, que acompanhava a gente, mas não sabia ainda dessa história de magia. Mamãe achou melhor contar quando ele fosse mais velho para não deixar escapulir sem querer para os amiguinhos. Júnior certamente tinha o sangue de vovó, era um fofoqueiro.
Estávamos passando pelo Píer Mauá, que era gigante. Era um lugar que estava meio abandonado. Até que enfim chegamos em uma sequência de várias casas largas e vermelhas que, segundo a moça que tiramos dúvidas, eram os armazéns. Passar por cada um deles era um sacrifício, porque eram lotados e gigantes. Até o nono, era um longo caminho pela frente.
Seguimos naquele amontoado de gente sempre indo em direção aos números maiores. Passamos o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto... Lá pelo sétimo, eu já estava com medo de não dar tempo.
Finalmente, depois de titia ter pegado Júnior no colo já que ele estava se arrastando e nos atrasando, chegamos no final do armazém oito. Mas, então, encontramos um espaço vazio. Seguimos em frente, até que chegamos no armazém 10.
- Ué. – Eu soltei sem querer.
- A gente deve ter passado sem perceber. – Titia falou e nós começamos a voltar, até que chegamos novamente no oito.
- Agora eu prestei atenção. A gente não passou! – Mamãe falou.
- Será que ele fica fora da numeração? Tipo, é o último? – Eu sugeri, ficando nervosa. E se tudo fosse mentira? Uma pegadinha? Mas eu estive na Rua do Amanhecer. Tudo fora tão real. As pessoas das lojas com aquelas varinhas, bichos estranhos, roupas esquisitas. Não podia dar errado agora.
- Ô, moça! – Chamei uma mulher que parecia trabalhar lá. – Licença, mas onde fica o armazém nove?
Ela me olhou por cima dos óculos, uma cara meio de pena e meio de irritação.
- Criança, o armazém nove foi destruído há muitos anos atrás.
- Mas então como eu vou pegar o navio?!
- Você deve ter confundido o número. Talvez seja seis e você olhou errado. – Ela me deu dois tapinhas no ombro e saiu dali.
- E aí? – Mamãe perguntou.
- Ela disse que o armazém nove não existe. Foi destruído! – Sem conseguir me conter, comecei a chorar.
- E realmente foi destruído!
Olhei na direção da voz desconhecida, até encontrar um casal e uma menina que parecia ter a minha idade. A voz parecia ter vindo da mulher loira, de braços dados com a mulher morena, que segurava um dos ombros da menina. Assim como nós, só a garota carregava uma mala (e era enorme!), e, além disso, as mulheres usavam capas transparentes nos ombros, como a Professora Jane estava usando naquela manhã. Numa sacola na mão da menina, eu vi vestes verde água leves, iguais às que eu carregava na minha bolsa de mão. O uniforme de Castelobruxo.
- Vocês também vão para o armazém nove? – Eu perguntei, meio fascinada.
- Sim, e não se preocupe, foi destruído porque precisava ser. Aos olhos trouxas, pelo menos. É apenas um feitiço de ocultamento. – Agora a mulher morena e baixinha falava. - Tiveram muitos casos de trouxas enxeridos. Agora, só sobrou as escadas. Mas se você subir até o último degrau segurando o seu bilhete e passar do portal, você vai encontrar o armazém.
- Então quer dizer que não passamos com ela? – Minha mãe perguntou, receosa.
- Não, apenas os que têm bilhetes. Mas tem alguns professores encarregados de ajudá-los lá dentro, não se preocupe. A propósito, eu sou Margarida e essa é minha esposa, Lhayla. E essa é nossa filha. Parece que vocês vão ser colegas!
- Prazer, eu sou . Mas pode me chamar de . – Ela estendeu a mão para mim, sorrindo simpática.
- Eu sou . , se preferir. – Eu falei, sorrindo de volta e a cumprimentando.
- Ah, . – Mamãe falou. – Que bom que já está fazendo amigas. Ah, minha pequenininha, vou sentir saudades! – No momento seguinte, eu já estava sufocada num super abraço mamãe ursa.
- Mãe! Está apertando!
- Desculpa! Mas custa dizer que vai sentir saudades também?
- É claro que eu vou. – Agora eu que abracei ela.
- Ai, , o que eu já te disse? Abraça pela cintura, pelo pescoço enforca!
- É revanche!
Depois, me despedi de titia e Júnior, que parecia estar mais dormindo do que tudo. Então, depois que se despediu de suas mães, nós subimos juntas as escadas com os bilhetes na mão, ainda acenando para nossas famílias. Quando chegamos no último degrau, olhei através do portal e vi que ele dava apenas para uma queda pequena de uns dois metros para um monte de tijolos e mato. “Espero que isso funcione, não quero morrer hoje!”. Fechei os olhos e fiquei na beirada do portal, andando, esperando a queda.
Mas, quando abri os olhos, eu já estava uns cinco passos longe do portal, em um chão sólido e não num monte de tijolos e numa grande estação com várias pessoas sentadas, muitos funcionários e crianças e adolescentes com malas como a minha. Logo, já estava do meu lado.
- Vamos logo, antes que a gente perca um bom lugar!
Passamos pelas cadeiras em direção a uma fila com uma mulher entediada que liberava os alunos lá para dentro. O relógio já marcava 9:45.
- Espero que isso não seja atraso.
- Eu já te disse, tolerância até as 10.
Quando olhei para trás, a professora Jane estava ali, agora com cabelo azul claro como o céu. Eu tinha quase certeza que algumas partes pareciam nuvens.
- Professora!
- Vejo que chegou bem, sim, sim, que bom, que bom!
- Quase bem. Se eu não tivesse conhecido , ainda estaria lá fora. Por que não nos disse que o armazém tinha um jeito especial de entrar também.
- Ah, eu esqueci? Que tolice minha! – Ela riu, se afastando.
- Que mulher maluca. – comentou.
- E ainda por cima vai ser nossa professora. – Respondi.
- Próximo! – Era a mulher entediada da fila chamando e, quando vi, já era nossa vez. – Bilhete, por favor.
Mostrei o meu e ela logo me passou para dentro. Logo depois, estava mais uma vez do meu lado.
- Isso não faz sentido, já que só quem tem o bilhete entra! – comentou.
- Pensando assim, não faz mesmo!
Caminhamos pela orla da Baía de Guanabara em direção a um navio enorme, todo verde água com o brasão de Castelobruxo verde escuro e amarelo. Um funcionário do navio ajudava os alunos a subirem pela rampa com suas malas. Uma figura em particular me chamou muito a atenção.
- ?!
Minha ex-melhor amiga virou na minha direção com os olhos arregalados, cheios de orgulho e superioridade.
- Ora, ora, então quer dizer que eles aceitam a escória nessa escola? Mamãe não vai ficar nada feliz com essa notícia.
Rangi os dentes para evitar avançar nela, aquela idiota!
- Ah, a está bravinha? Eu saí daquela escola trouxa pra evitar gente como você e eu descubro que você é pior que uma trouxa, é uma sangue ruim!
Depois de falar aquelas coisas que eu nem entendi o que eram, mas já senti raiva mesmo assim, entrou no navio.
- Clima pesado, hein? Quem é essa? – perguntou.
- Carson, é uma menina que mora perto de mim e é minha ex-melhor amiga. Você viu essa arrogância? Ainda bem que a gente não se fala mais.
- Espera, Carson?
- É, até onde eu sei e o sobrenome dela.
- Nossa, os Carson são uma família de bruxos puro sangue, uma das mais antigas do Brasil!
- O que isso quer dizer? – Eu perguntei, confusa com aquele termo. Desejei mentalmente que fosse ruim, só de birra.
- Quer dizer que eles nunca se misturaram com trouxas em relacionamentos, o que hoje em dia é absolutamente raro. Todo mundo é mestiço de alguma forma. Os Carson são uma das três únicas famílias da América do Sul que ainda se assumem assim.
- E aquele negócio que ela disse? Sangue alguma coisa? – Perguntei, curiosa. Era a cara dela usar algum xingamento que eu não conhecesse pra eu me sentir idiota.
- Significa que você não tem sangue bruxo. O que, na verdade, não indica problema algum. Mas é um termo ofensivo que essas pessoas preconceituosas costumam usar.
Se antes eu odiava Carson, agora era pra valer.
- Vamos, vamos entrar logo no navio! – , minha nova amiga, me puxou.


Capítulo 4

Depois de um dia de viagem por mar, o navio começou a navegar pelo rio Amazonas, cada vez adentrando mais florestas da região. Nisso, eu e nos conhecemos melhor e ficamos muito amigas. Ela era de Campinas e me explicou que naquele navio estavam só os alunos do Sudeste, que tinha outro para o Norte, para o Nordeste e para o Sul, além de alguns países estrangeiros. O Centro Oeste ia de trem até certa parte de depois ia de navio pelo rio também, assim como outros países com conexão terrestre.
Tudo parecia muito fascinante e diferente. me deu uns doces mágicos. Alguns, ela me explicou, eram estrangeiros, como os sapos de chocolate e feijõezinhos de todos os sabores. Outros, eram brasileiros, como o chiclete explosivo, que borbulhava na boca e fazia pequenas explosões que iam mudando os sabores. Era muito divertido e a gente sempre acabava levando susto.
me emprestou o celular dela pra falar com a minha mãe e me explicou que a Escola tinha muitos feitiços protetores que interferiam nos aparelhos trouxas, então existiam alguns chips especiais, por exemplo, que permitiam que eles funcionassem sem sinal. Ouvir a voz de mamãe foi um alívio e também mais uma prova de que tudo era real. E de que eu certamente ia precisar de um chip assim.
Quando finalmente desembarcamos, já havíamos colocado as roupas da escola: um short verde água que ia um pouco além da metade da coxa, uma camiseta de manga curta branca e bem fresca e uma veste verde água também aberta que ia até os joelhos. Parecia quase um sobretudo, só que bem fresquinho. Além disso, estávamos usando botas e prendemos o cabelo, porque, como lá era muito úmido, conseguia ficar ainda mais quente que o Rio de Janeiro (e eu achava que isso era impossível).
- , vamos logo! – me chamava para seguirmos a fila de alunos que seguiam a professora Jane por dentro da mata. Eu estava tão encantada olhando tudo, que fiquei meio para trás.
Isso é, até umas abelhas surgirem e começarem a vir atrás de mim. Aí eu alcancei todo mundo rapidinho.
A caminhada parecia não acabar nunca, ainda mais com de vez em quando arrastando o pé para jogar lama em mim ou me fazer tropeçar. Eu já estava no meu limite.
Mas então nós chegamos. E eu perdi o fôlego, assim como vários alunos ao meu redor.
A mata fechada dava espaço para um grande campo aberto com uma vegetação mais baixa e um caminho marcado até uma grande construção dourada e enorme, com uma pirâmide com traços mais quadrados, com janelas grandiosas espalhadas pela construção. Atrás, tive uma visão rápida do que parecia ser um afluente do rio formando uma piscina natural. Era como um paraíso selvagem. Talvez fosse perfeito, se não tivessem muitos bichinhos.
- Alunos antigos, a professora Potira está esperando por vocês no portão de entrada. Alunos do primeiro ano, comigo!
Eu vi se dirigir com a grande maioria para mais perto da Escola. Ficamos só eu, e mais nove outros alunos. A professora Jane foi indo cada vez mais para perto do rio, atrás do grande prédio. Quando chegamos lá, levei um susto ao ver que já haviam muitos alunos esperando ali, com mais um único homem, alto e muito magro como um poste, e muito sério também, o que era bem esquisito, já que ele usava roupas muito coloridas.
- Alunos, esse é o professor Vicente Rojas. Ele ficará com vocês aguardando os outros alunos para vocês então passarem pela Seleç... Opa! O professor explicará mais depois. Beijinhos! – Jane saiu correndo logo depois, murmurando coisas sozinha.
- Que será que ela ia falar? – Perguntei para enquanto andávamos em direção aos outros alunos.
- Tenho certeza que é sobre a Seleção! – Ela falou, enquanto parávamos perto dos outros. - Não sei exatamente como funciona, mas mamães me falaram que é o que te divide entre as casas, não sei explicar muito bem, mas são cinco! Iara, Fada, Boitatá, Curupira e Boto. Minha mãe Margarida era da casa Fada e minha mãe Lhayla era da casa Boto. Mas todas parecem bem legais. E parece que esse negócio de Seleção existe há, tipo, muitos séculos!
- Na verdade, existe há apenas três séculos. – Disse uma voz desconhecida.
Olhei para trás e vi ali parado um menino de cabelos cacheados muito escuros, quase pretos, a pele morena avermelhada e os olhos cor de mel. Ele era um fofo, e estava com uma cara envergonhada e orgulhosa.
- Como assim? – Eu perguntei, curiosa, mas tentando disfarçar.
- Bom, Castelobruxo sofreu muitas modificações desde a Colonização. – Ele começou a falar, parecendo muito satisfeito consigo mesmo. – Durante muitos séculos, os bruxos europeus não encontraram a escola, mas, quando encontraram, mudaram um monte de coisa, tipo a Seleção, que é algo de uma outra escola bruxa e que não existia aqui.
- E como você sabe? – perguntou, desconfiada.
- Ahn... Minha mãe trabalha aqui, ela me conta algumas coisas. – O menino estava cada vez mais vermelho, mas continuava com a cabeça erguida.
- Então sua mãe também é bruxa? Ela é professora? Ela era de qual casa? – Perguntei tudo que veio na minha cabeça.
- Ela é enfermeira da escola e ela era Curupira, igual meu pai. Mas eu não sei qual eu gostaria de ser.
- Acho que não importa. – comentou. – Ouvi dizer que a gente não escolhe.
Ninguém mais comentou nada porque, naquele momento, outros grupos de alunos chegaram com mais professores e a gente tentava olhar tudo ao mesmo tempo. Eu consegui ver rapidamente uma professora bem nova, animada e avoada.
- Desculpa, Vicente, sabe que horário não é meu forte. Mas chegamos! Não fomos os últimos de novo, fomos? – A professora falava apressadamente, sorrindo para todos.
O professor ajeitou sua carranca, deixando ela mais carrancuda, se era possível.
- E me diga, professora Nicoletta, um único ano em que você não se atrasou.
- Ora, não seja tão duro, bobo. Vou entrando. Tchau, alunos! Até lá dentro!
Aquela bola de felicidade entrou rapidamente na escola, enquanto os seus alunos se juntavam a gente. Senti alguém pisando no meu pé e me virei, furiosa.
- Ai! Olha por onde anda!
O menino ruivo ficou muito pálido e começou a murmurar desculpas. Completamente deslocado. Assim como eu estaria, se não fosse . Senti pena dele.
- Ei, está tudo bem, desculpa, eu só não gosto que pisem no meu pé. E em nenhuma outra parte minha. Qual o seu nome?
- Eu sou . Mas eu prefiro . E vocês? – O menino agora sorria.
- Eu sou , ou melhor, . Essa é ou . E esse... Esera, qual o seu nome? – perguntou para o menino sabe tudo.
- . Mas eu prefiro que me chamem de .
- Você é da onde, ? – Eu perguntei, tentando ser simpática.
- Sou da Costa Rica, e vocês?
- Eu sou daqui do Brasil. – falou, mas eu nem estava escutando dessa vez.
- Nossa, mas você fala português tão bem! – Exclamei para , que franziu a sobrancelha.
- Mas eu não falo português. Falo espanhol, como vocês.
- Como assim? Eu só falo português. Sei só falar um “fuego" ou botar umas vogais a mais pra fingir que eu falo. – Repliquei com ele, nervosa com aquela brincadeira.
- Gente, isso é o feitiço de tradução. – começou a falar de novo, cheio de entusiasmo. – Todo mundo se escuta na própria língua.
- Então eu sou poliglota pros outros? – Eu perguntei, animada.
- Alunos, silêncio. – O professor Vicente finalmente falou, ainda sério. Cara, como deixam um homem desses pra lidar com crianças? – Bem-vindos. Agora que todos já estão aqui, vamos nos dirigir ao salão. Para os que não sabem, somos milhares de alunos de toda a América Latina dentro desse prédio, – Uau, isso explicaria o tamanho. – e, para melhor organização, nossos alunos são divididos em casas, que servem como o grupo com quem você dividirá dormitórios, aulas e professores responsáveis. Serão como uma comunidade. Durante o ano, ao ter um bom desempenho em aulas e comportamento, vocês conseguirão pontos para suas casas. No final do ano, a casa campeã recebe o troféu de Castelobruxo. Essas casas são: Boto, Iara, Curupira, Fada e Boitatá. Cada casa tem suas características e seus diretores. Lá dentro, vocês serão selecionados para elas e sentarão na sua mesa correspondente. Alguma dúvida? – Ele lançou um olhar como se fosse capaz de matar alguém que tivesse dúvidas. – Visto que não, vamos em frente.
Se eu fosse chutar, diria que éramos quase 100 crianças ali. Ou mais! Tudo aquilo era de uma proporção enorme. Eu e demos as mãos.
- Espero que a gente fique juntas. – Eu disse.
- Eu também!
e estavam atrás da gente. Até que eles pareciam gente boa.
Então, nós entramos na Escola. Diversos corredores largos e brancos com pilastras douradas decoradas com pedras verde água se estendiam pelo que pareciam quilômetros. Se por fora a escola parecia gigante, por dentro era como se fosse uma cidade inteira!
Chegamos então em um grande salão. As paredes laterais tinham árvores gigantes enfileiradas que se encontravam no teto, formando um túnel de folhas, que caíam, junto com pétalas, em direção ao chão, mas sumiam antes que tocassem em qualquer um. Cinco conjuntos de mesas extensas se encontravam espalhadas e enfileiradas no salão, sendo que de sete em sete elas mudavam de cor. No final, uma grande mesa verde água com vários adultos, inclusive a professora Jane e a professora Nicoletta, e, atrás, o escudo da escola e cinco estátuas grandes e meio esquisitas.
- Queridos alunos! – Uma mulher velha, de pele preta, com os cabelos presos em um coque e olhos gentis, mas também alertas, que estava na cadeira do meio falou. – Sejam bem-vindos! Eu sou a diretora Alba Tenores. Nossa escola está encantada em receber todos vocês! Começará agora o processo de Seleção. Não se assustem, nem se acanhem. Apenas deixem a escolha acontecer.
Deixar a escolha acontecer? Aquela parada estava esquisita.
- Ei, , você sabe como que é esse processo da Seleção aí? – Perguntei, mas então notei algo muito estranho.
Todos ao meu redor tinham os rostos desfocados e não se mexiam. , , ... Até o professor Vicente e a diretora Alba estavam congelados. Tudo também caiu num silêncio absoluto. Eu sei que esse negócio de magia é maneiro, mas também estava me assustando! Do canto do olho, eu vi algo se mexer. Eu olhei rápido e percebi que estava encarando as estátuas. Já ia me virar de volta, quando eu percebi que elas me encaravam também. Eu pensei estar imaginando, até que a primeira, em formato de uma grande cobra, abriu a boca e falou:
- Essa parece interessante para mim.
Eu gritei algo que nem eu entendi, já que misturei todos os palavrões que eu conhecia de uma vez. Eu quase voltei correndo, quando a estátua de fada virou para mim:
- Ei! Aonde vai? Você quer passar pela Seleção ou não?
- Então isso e a Seleção?! – Eu berrei de volta.
- E o que mais seria? – A estátua de boto me olhou, parecendo segurar o riso.
- Essa parece confiável demais para mim. Não sei se seria capaz de fazer algo errado por alguém que ama. Ou seria? – A estátua de sereia olhou na minha direção, com um sorriso debochado. Um sorriso que me lembrou o de .
- Vejo que ela tem características que me interessam, mas não são seu forte. Um pouco... Incontrolável demais para mim. – A fada falou novamente.
- Ei!
- Incontrolável? Isso me interessa. – A estátua de um menino de pés virados e cabelos arrepiados riu para mim, um sorriso que eu via na cara de Júnior antes de ele revelar uma meia suja no meio das minhas blusas limpas e cheirosas. – E vejo que também é muito leal a quem ama. E tem uma raiva incrível! Acho interessante.
- Você vê raiva, eu vejo força. – A cobra voltara a falar. – Coragem. E um orgulho próprio, com vontade de se provar. Diga, menina, o que você deseja?
O que eu desejava? Isso era a coisa mais idiota e ampla que eu já escutara. O que eu desejava? Um mundo sem baratas? Que sumisse? Que Júnior lavasse suas meias?
Ou eu desejava ser diferente? Me provar digna de ser bruxa? Ficar com meus amigos? Ver minha mãe feliz? Ser feliz?
Eu queria ser a melhor bruxa que eu pudesse e deixar minha mãe orgulhosa e feliz. Eu queria ficar com meus amigos e conhecer ainda mais gente legal. E eu queria arrastar a cara de deboche da numa daquelas árvores.
- Há! Impulsiva, geniosa, esperta, corajosa e orgulhosa. Você, criança, estará comigo! – A estátua de cobra mal terminara de dizer isso, quando, por meio das fissuras de sua estrutura um brilho laranja que parecia... Fogo! Eu tentava olhar, mas era tão intenso que doía os olhos. Fechei-os com força e, quando os abri novamente, as estátuas estavam imóveis e sem brilho, os murmúrios estavam de volta, assim como todos os rostos. E mais! Todos ao seu redor estavam com distintivos brilhantes e coloridos.
Olhei para minha roupa e vi que eu também tinha um! Um distintivo laranja brilhante com uma cobra de fogo como a da estátua.
Virei para trás e vi , e comparando seus distintivos e comentando, assombrados, as coisas que aconteceram:
- ... E a fada brigou com a cobra, até que eu falei para eles calarem a boca. Aí, a fada ficou chateada e a cobra brilhou! – contou.
- Olhem! Estamos todos na casa laranja! – Eu comentei.
- É a casa do Boitatá! – falou. – Que significa cobra de fogo!
Olhei ao redor e encontrei sete mesas com a toalha de mesa laranja brilhante e vários alunos olhando curiosos, com distintivos brilhantes e laranjas também. Havia apenas uma vazia com um número 1 brilhante flutuando em cima.
Do outro lado, eu vi uma mesa azul e identifiquei . Percebi que as mesas seguiam a ordem das estátuas: Boto (roxa), Iara (azul), Fada (amarelo), Boitatá (laranja) e Curupira (vermelho). Aleluia que eu não fiquei na casa daquela sereia de cara de deboche! Quanto menos , melhor!
- Vamos, vamos sentar na nossa mesa! – nos chamou e fomos correndo em direção às mesas laranjas, junto com outros vários alunos de primeiro ano que também tinham sido escolhidos pra essa casa.
Quando nos sentamos lá, eu só conseguia sorrir. Eu sentia que ali, sentados perto de mim, estavam os três amigos que eu sentia, lá no fundo, que ficariam comigo para sempre. E nada iria nos separar.


Capítulo 5

Cinco anos depois...

- Se aquele aparecer hoje à noite, eu vou matar ele, entendeu? – Eu falei para , enquanto me olhava no espelho, escolhendo minha roupa. - Ele ou aquela e companhia. Eu só deixo o entrar se ele for sem o ser abominável e ficar longe de mim. Hoje é minha festa de aniversario e eu só quero as pessoas que eu gosto.
- Tá bom, , eu já sei, você está falando disso a semana toda! – reclamou, enquanto ajeitava seu delineado. – Mas você já pensou em como vai impedir eles de entrar na festa?
- Eu encontrei um feitiço na biblioteca que, se feito corretamente, vai dar um jeito nisso. Eles só não podem dizer nomes falsos, mas ninguém inventa um nome falso para falar de primeira sem ser avisado, né?
- Bom... Acho que sim? – Minha amiga respondeu.
- Enfim! Vamos no que importa! As bebidas já estão no local?
- Sim, chegaram de Maba hoje à tarde. Tem suco, refri, vodca, iratambé, payaru e Tik-Tack.
- E o aparelho encantado para a caixa de som?
- Marcos emprestou, como imaginado. Ele nunca superou aquela vez que vocês ficaram no quarto ano.
- Eu deveria sentir pena, mas sou até meio grata. Se não, minha festa de 16 anos seria sem som!
- , você tem certeza que nenhum professor vai descobrir?
- , relaxa! A gente já fez festa lá ano passado e não deu em nada. Eu duvido que os professores saibam que existe. E a gente voltou às aulas ontem! Eles não esperam nada.
- Já deviam ter aprendido a sempre esperar algo de . Às vezes, eu imagino como que você não foi da casa Curupira.
- Acredite, aquela criança sinistra quase me quis.
Me olhei no espelho pela última vez. O cropped trançado branco e o short jeans realçavam minhas curvas e a bota branca de cano médio e salto alto de estavam fazendo minha autoestima ir às alturas. Combinado com uma maquiagem bem rebocada e as tranças boxeadoras, eu estava prontíssima.
- E aí? Como estou? – Perguntei para para alimentar o meu ego um pouquinho.
- A mais gata de todas! Eu pegava, hein. E Castelobruxo inteira também. Se já não pegou. – me zoou, enquanto alisava seu vestido larguinho preto preso com um cintinho bege, combinando com suas sandálias da mesma cor. Seu cabelo estava em um rabo de cavalo e usava um batom bem vermelho que eu insistira que ficaria lindo nela e, como eu sempre estou certa, ela realmente estava um arraso.
- Não seja boba. São milhares de alunos. Devo ter beijado no máximo 50.
- E eu fiquei com cinco! – protestou.
- O seu problema, queridinha, é sempre estar pensando num ruivinho e não se abrir para novas boquinhas! – Eu alfinetei. Desde o segundo ano, era bem obvio que estava gostando muito de . Pena que ele era lerdo como uma lesma e não percebia absolutamente nada. E ficou ainda mais difícil de perceber depois da grande briga. – Além disso, você conhece meu lema: figurinha repetida não completa álbum!
- Você é impossível! Vamos logo que você e aniversariante e não noiva pra ficar se atrasando. – Ela me puxou para fora de nosso dormitório.
Passamos pelo espaço coletivo dos alunos da casa Boitatá, que a gente chama de Fogão, por alguma piada interna que já existia quando a gente chegou lá. Depois, subimos para o sétimo andar (eu odiava o fato de não terem elevadores mágicos e os professores ainda ousavam afirmar que aquela escadaria toda era pela nossa saúde!) e, chegando lá, tratei de encontrar a rachadura na parede perto da terceira pilastra: uma passagem para um quarto secreto que eu descobri acidentalmente no quarto ano. Pouco antes da passagem se fechar, tratei de tomar os cuidados necessários:
- Abaffiato!
- Ainda bem que você lembra, eu sempre esqueço desse passo! – comentou.
Enquanto entrava e já encontrava umas 15 pessoas conversando, eu tentei lembrar o feitiço que eu vira na biblioteca. Como era mesmo? Nome Tato Tantos? Soava assim, mas não era exatamente...Ah!
- Nominatus Tantum!
Minha varinha brilhou por uns dois segundos e depois voltou a normal. Será que tinha funcionado?
- Ahn... , Carson, as víboras!
A passagem brilhou por alguns segundos e depois voltou ao normal. Eu fiz alguma coisa, né?
O ritmo conhecido de Vamos Pra Gaiola começou a tocar e eu sabia que Marcos e aquele negócio que ele tinha para fazer funcionar as tecnologias trouxas haviam chegado.
- AMIGA! – Saí gritando pela festa, indo para o meio da pista de dança já me preparando pra cantar e dançar. Óbvio que eu ia inaugurar a pista de dança da minha própria festa. – BIGODIN FININ, CABELIN NA RÉGUA, ELA OLHOU PRA MIM, EU OLHEI PRA ELA E FALEI ASSIM!
Quando percebi, além de , várias outras pessoas já estavam ali perto tão animadas quanto eu. Dançamos sem parar emendando uma música na outra. Já havia passado a primeira hora de festa e o local estava cada vez mais animado.
- ! Parabéns! – Uma menina do quinto ano, Anahí, me desejou. Ela era colombiana e uma fofinha, de vez em quando eu e sentávamos com ela no pátio.
- Obrigada, Anahí! Vem dançar! – Eu gritei por cima da música, sentindo toda a energia do momento.
- Daqui a pouco! Vou só pegar um suco antes!
- Então eu vou junto! Só tomei um copo de iratembé até agora!
Chegamos no canto das bebidas e eu peguei um pouco de Tik-Tack dessa vez, um licor que eu conheci graças a Júlio, um menino que eu peguei, que era de El Salvador. Desde então, eu sempre tentava incluir nas festinhas. Claro, se todo mundo fizesse o combinado e pagasse sua entrada antes.
Voltei para a pista de dança, mas não encontrei ali. Olhei em volta e a vi conversando com um garoto ruivo. Patético e previsível.
Continuei dançando enquanto as músicas rolavam. Só parava para beber água, vodca ou Tik-Tack. Às vezes parava junto a um grupo e conversava com todo mundo, recebia os parabéns, ria um pouco e ia pra outro grupo. Depois de um tempo, voltou a ficar comigo, mas vira e mexe e ela já estava rindo perto de de novo.
Quando peguei o celular, vi que já eram quase meia-noite. Ou seja, já eram quase quatro horas de festa. Eu sempre acabava tudo lá pelas uma da manhã por conta das aulas, que infelizmente continuavam acontecendo. O importante é que eu precisava aproveitar cada segundo restante.
Voltei para a pista de dança e fui logo jogada para o centro da rodinha que tinha sido formada. Eu ri, logo em seguida caprichando nos movimentos. Eu não era a melhor aluna. Mas eu certamente sabia dar uma festa e dançar pra valer nela.
Outra coisa que eu sabia era quando um garoto estava a fim (mamãe diz que eu herdei o dom dela.). Por isso, de canto de olho, quando eu vi Michael, um garoto do sétimo ano da casa Boto se aproximar, eu já sabia o que ia rolar.
Joguei meus cabelos para trás, olhando em seus olhos por alguns poucos segundos, antes de desviar, sorrindo, enquanto dançava para ele. Nisso, a rodinha já havia se dissipado. Eu vi o garoto loiro se aproximar cada vez mais e começar a dançar comigo.
- Feliz aniversário, ! – Ele gritou por cima da música.
Me inclinei para perto e falei perto de seu ouvido:
- Obrigada. Está se divertindo?
- Estou. – Ele falou, me segurando ainda perto. O truque do ouvindo nunca falhava. E a desculpa da música alta sempre servia. – E você? Está gostando da festa?
- Sim! Está sendo incrível, eu amo dançar! – Eu disse, encostando a mão em seu peito casualmente ao falar isso. Eu sabia que ele estava ficando cada vez mais a fim.
- Er... Sabe, eu aposto um beijo que você me dá um fora! – Ele falou, de repente.
Desmanchei toda a minha pose para rir.
- Fala sério, Michael! Isso é tão 2015!
- Mas sempre cola, né? E aí? – Ele me disse, sorrindo.
Botei a mão no rosto, fingindo estar pensando muito profundamente.
- Sabe, você me deixou tentada a te dar um fora. – Eu sorri e o vi se aproximar de mim. Nos beijamos devagar, mas ele foi acelerando. A mão grudou na minha bunda e ali ficou. Homens, acham que isso é pegada. Depois de um tempo, dei um selinho nele.
- Tenho que ir, uma festa me espera! – Eu ri para ele e mandei um beijinho no ar. Finalmente, encontrei sozinha.
- ! Você ficou com o Michael?! Ele é, tipo, um dos garotos mais gatos da escola inteira!
Eu ri dando de ombros para ela, fingindo que não era nada importante. Meu riso bobo foi embora quando olhei para o fundo da sala escura e vi duas figuras femininas.
- O que as víboras estão fazendo aqui?! – Que ódio? As duas melhores amigas de as duas mais nojentas depois dela mesma, estavam ali. Eram duas protótipo de Barbie, mas o ego e caráter tiravam toda a beleza delas.
- Você lançou o feitiço?! – me perguntou por cima da música.
- Claro que lancei! Falei explicitamente para não deixar , e as víboras entrarem!
- , - começou, receosa. – não me diga que você chamou elas de “víboras" no feitiço.
- Ué, e esse não é o nome delas? Não serve?
- ! Claro que não! E agora?
- Agora a festa já está acabando. Vamos torcer pra elas nem sequer respirarem perto de mim. E você?! – Virei para ela, curiosa. – Vi que você sumiu várias vezes pra ficar junto de um certo ruivo...
- , você sabe que não tem nada entre a gente!
- Só porque você não toma atitude!
- E vou continuar não tomando! Agora, vamos pegar água pra você! Não quer ter ressaca amanhã no meio da aula, né?
- Está bom! – Resmunguei, enquanto ela me carregava pela festa. Depois, dançamos mais até a caixa de som desligar.
- É nosso sinal, galera! Uma hora! Acabou a festa! Tchau! – Gritei para todos, pegando as minhas coisas e já voltando. Fui empurrando alguns folgados pelo caminho pra fazê-los sair. No dia seguinte, eu voltaria ali pra arrumar o lugar.
- Então, , gostou do seu aniversário? – me perguntou, baixinho, enquanto subíamos as escadas sem fazer barulho.
- Eu amei. – Sussurrei para ela. – Bom, claro que Michael podia beijar melhor e as víboras podiam não ter aparecido. Afinal, qual o nome delas?
- Sei lá. – respondeu. – São milhares de alunos nessa escola e todos só as chamam de víboras ou algo relacionado à .
- Vou ter que aprender o nome delas pra futuras festas. Mas acho que o feitiço funcionou. Não vi as duas pessoas mais insuportáveis no aniversário.
Abri a porta do quarto e desmontei lá dentro. O dia fora incrível e cansativo. Tudo valeu a pena, até mesmo meu lapso de memória com nomes. Pelo menos elas não me perturbaram.
Fui dormir, tranquila, sem nem imaginar o que o dia seguinte me reservava.


Capítulo 6

O sinal do fim da aula tocou e todos os alunos suspiraram de alívio. Fala sério, as duas primeiras horas do dia com aula de Poções? É o que? Tortura?
- Alunos, deixem uma amostra da Poção Wiggenweld e estão dispensados. - O professor Roberto, que era um homem grandalhão e meio velhote, mas gente boa também, falou. - Menos .
- Eu? Que que tem eu? - Perguntei, vendo todos os outros alunos correrem para fora de sala.
- A diretora quer falar com você.
- Comigo?! Por quê?!
- Isso aí é assunto seu com a diretora. - Ele disse, me empurrando para fora da sala. Acho que ele tentou ser delicado, mas com a força dele, aquilo não aconteceu.
- E aí?! O que você acha que é sobre? - estava roendo as unhas de nervoso. Tadinha, e nem era que tinha sido chamada.
- Eu sei lá. Vou tentar resolver isso rápido. Já te vejo nas aulas de Feitiços. - Tranquilizei ela e segui para a sala da diretora. As fotos de antigos alunos me seguiam com o olhar. Eu não podia ter um segundo de paz ali?
Desci para o terceiro andar e fui em direção a maior pilastra do corredor, então dei duas batidinhas nela. Se eu fizesse isso em casa, minha mãe iria medir minha febre na hora. Mas, ali, numa escola de magia, só fez que uma porta se abrisse e revelasse um grande escritório com uma senhora lá dentro.
- Entre. - A voz firme e gentil chamou.
Calma, , é só manter a postura e a tranquilidade.
- Bom dia, dona Alba. Me chamou? Foi engano, né? - Falei, forçando um sorriso.
- Bom dia, senhorita . Precisamente, você foi chamada. Merlin sabe que faz anos que não cometo erros de confundir alunos. A última vez foi desastrosa demais! Creio que o antigo ministro ainda se recorde... - Ela ria sozinha. - Mas, muito bem, não é disso que queremos falar, certo?
- Por mim, pode falar disso a vontade, dona Alba. - Sorri bem abertamente, fingindo curiosidade na história. Às vezes, os idosos só querem alguém pra conversar. Isso funcionava sempre que vovó me via roubando os ovos de Páscoa de Júnior.
- Muito gentil da sua parte querer ouvir minhas histórias bobas, mas hoje o assunto é sobre você. Creio que devo dar-lhe os parabéns pelos seus 16 anos, certo? Um dia atrasado, mas espere que considere.
- Ah, obrigada! Não precisava me chamar aqui só pra isso! Que bom que tudo foi esclarecido, fico feliz, agora, licença, tenho aula de Feitiç...
- Um minuto. - Ela me interrompeu na hora que eu ia levantar da cadeira. Porcaria. – Por que a pressa? Estamos apenas começando. Quer um chá?
- Ahn... - Será que aceitar ia deixá-la mais legalzinha? - Por que não? Obrigada, dona Alba.
- Não há de quê. - Ela disse, me servindo um chá de azul muito brilhante. - Espero que, apesar de ter dormido tarde, não tenha deixado de descansar.
Cuspi metade do chá que estava na minha boca.
- Ora, creio que finalmente consegui impressioná-la. Se queria deixar suas festas secretas, teria tido o cuidado de não deixar 200 alunos rondando os corredores depois de uma hora da manhã ou pelo menos acabar mais cedo, correto? Entenda, não sou contra celebrações, sabe o quanto eu adoro as que fazemos na escola, tanto que por isso deixei passar das outras vezes. Mas hoje diversos professores já reclamaram comigo de seus alunos sonolentos que, por acaso, correspondem exatamente aos seus convidados!
- Que coincidência.
- Coincidência extrema. Não acredito que nenhuma providência grave seja tomada, apenas uma detenção na sexta-feira. Alertarei sua diretora da casa para providenciar isso. E, da próxima vez, não termine tarde ou faça no seu próprio espaço comum. - Ela me lançava um olhar profundo e levemente ameaçador que me lembrava às vezes em que mamãe me dava últimos alertas.
- Tá bom, dona Alba.
- Muito bem! - Ela falou, de repente animada. - Então pode ir. Essa velha aqui tem muito trabalho para começar a fazer. Tchau, , querida.
- Tchau, dona Alba.
Fechei a porta do escritório meio irritada. Eu gostava muito da dona Alba, mas agora eu estava bolada com toda essa situação. Primeira semana de aula e já ia ter detenção? Tomara que não avisassem mamãe.
Entrei na aula de Feitiços e já recebi o olhar carrancudo do professor Vicente.
- Atrasada na sua primeira aula? Que decepção, .
Engoli o ódio por aquele homem e tentei falar da forma mais clara e paciente do mundo.
- Foi mal, professor, a dona Alba me chamou pro escritório dela.
- Diretora Alba, . Mas fico feliz que ela esteja tomando as providências necessárias quanto a alunos desordeiros e descompromissados.
Eu senti meu rosto esquentar de raiva. Quem aquele babaca achava que era? Ah, é, um maldito professor que nem sequer parecia gostar do que fazia. E cada segundo eu tinha que me lembrar daquilo para não mandá-lo enfiar aquela varinha em outros lugares.
- O que houve, ? Tem algo mais a dizer? - Ele questionou, o olhar curiosamente animado.
Respirei fundo e forcei novamente a voz educada.
- Não, professor Vicente.
- Então você pode deixar de ficar igual uma petrificada na minha frente e ir logo se sentar? Ou é difícil pra você fazer esse básico?
A sala se encheu de risadas e até o professor conseguiu esboçar um sorriso perante a situação. Forcei minha unha contra a minha palma para poder me concentrar e não me deixar abalar. Porra, a maioria daquelas pessoas ali estava me idolatrando ontem, agora estavam rindo de mim? Não por muito tempo.
Balancei meus cabelos para trás e forcei uma risada para acompanhar a dos meus colegas enquanto me dirigia de cabeça erguida e sorridente até a minha mesa. Pouco depois, eles foram achando tudo meio sem graça e pararam de rir. É um truque eu descobri aos 14 anos. A piada está em te constranger. Se isso não acontecer, perde a graça. Sempre saia por cima.
E eu nunca deixava de sair por cima.
A aula continuou e eu percebi que estava morrendo de curiosidade pra me perguntar o que acontecera na sala da diretora, mas ela tinha ainda mais medo de Vicente. E ele não ficava um segundo sem falar com aquela voz de tédio. Sério, que saco!
Quando finalmente o sinal do fim da aula tocou, antes mesmo de Vicente nos liberar, já perguntou:
- E aí? O que ela queria?!
- Bom, primeiro, ela me deu parabéns pelo meu aniversário. E olha que gentil! De presente, ela me deu uma sexta-feira de detenção. - Praticamente vomitei sarcasmo em cada palavra. Meu primeiro dia com dezesseis anos não podia estar melhor.
- Detenção?! - esganiçou, por sorte o barulho de todo mundo saindo da sala a encobriu. - Por quê?
- Digamos que as festinhas secretas... Não eram tão secretas. E os professores reclamaram. - Bufei.
- Ai, meu Merlin. Eu sabia. Eu sabia! Já era. Meu futuro já era. Meus pais vão me matar!
- Calma, garota! Aquieta aí! - Segurei pelos ombros. - A detenção é pra mim, você está livre.
- Mas, , eu também sou culpada.
- A dona Alba não parece brava de verdade. Acho que só quer atender a vontade dos professores. Óbvio que eu estou puta. Mas não venha com peninha de que você também tinha que pegar detenção. Muitos alunos daquela festa mereciam muito mais detenção do que você.
- E do que você.
- É verdade, mas a culpa não é minha se os professores conhecem meu maravilhoso talento para festas. Nunca decepcionei ninguém até hoje, né? Então eles jogaram a culpa de uma festa brilhante em mim. Não que tenham errado.
- Ei, ! - Ouvi alguém chamar.
Quando virei pra trás, uma cena muito esquisita se encontrava na minha frente: Michael estava de frente pra mim, com seu grupinho: Julio, Henry, e, o pior de todos, . Ignorei esse último e fixei meus olhos no que tinha me chamado.
- Que foi, Michael?
- Então quer dizer que as aulas mal voltaram e você já se encontrou com a diretora? E ganhou uma bronca do Vicente? Parece que a doce finalmente foi descoberta pelo que realmente é.
- O que, Michael? - Botei a mão na cintura, impaciente com aquela provocação. - Sou o quê?
- Uma problemática. Talvez seja por isso que ninguém que te conhece aguenta ficar com você. - Quem respondeu foi Henry, fazendo todo o grupinho arregalar os olhos e rir baixinho. - Não concorda, ?
Encarei aqueles olhos cor de mel, preenchidos por indiferença e rancor, e vi um sorrisinho sarcástico se abrir em sua boca.
- Não poderia ter dito melhor.
Eu estava muito puta. Não havia palavras pra expressar. Mano, meu dia já estava péssimo e eles estavam fazendo aquilo de graça? Mas era assim que adolescentes funcionavam. E, por mais cansativo que fosse, eu voltei a fazer aquilo que eu sabia: rir da minha própria situação.
- Vocês são patéticos. Adoram falar mal de mim, mas sempre acabam me procurando. Não lembro do fato de eu ser um problema ter te impedido de ficar atrás de mim ontem, Michael. Ou o problema só existe quando você não tá segurando minha bunda?
Michael ficou vermelho. O grupo todo começou a zombar dele e eu vi como fechou a cara. Porém, o que foi impossível não ver foi a explosão de Michael.
- Óbvio que todos procuram você. Você é uma piranha fácil!
Piranha. Fácil. Eu não sei dizer quantas vezes eu escutei isso pelas minhas costas, na minha cara. De pessoas que eu nem sabia quem eram, de pessoas com quem eu me importava. E tudo porque, quando eu estava a fim de beijar, eu beijava. Aquele dia estava realmente acabando comigo, mas, de novo, eu sorri.
- Michael, você tem ideia de que sua vida é tão patética que o que você e todos seus amigos têm pra fazer é dar pitaco na minha? Vai para cozinha lavar louça, os elfos agradecem, e eu também.
Antes que ele pudesse responder qualquer coisa, peguei comigo, que estava paralisada de raiva e medo, e avancei rapidamente para a sala de História da Magia. A professora Jane deu um bom dia rápido para nós enquanto entrávamos, totalmente imersa no livro que estava lendo.
- Como eles ousam? - estava furiosa e desesperada e começou a falar antes de sequer sentar na mesa. - Como eles ousam falar isso pra você? E eu fiquei quieta. Me desculpa, eu sou péssima pra enfrentar os outros! Ainda mais que o estava lá. Eu percebi que ele estava incomodado, eu sei que ele não gosta quando o Michael faz essas coisas. Ah, , eles são tão babacas e! - se interrompeu. – ?
Eu estava acordada há quatro horas. E tinham sido quatro horas péssimas. Não foi nenhuma surpresa pra mim quando as lágrimas começaram a jorrar dos meus olhos como uma torneira aberta. Engoli cada soluço pra tentar fazer aquilo se passar despercebido. Mas é claro que viu.
- Ah, ! Impervious! - Ela lançou o feitiço de impermeabilidade no meu material antes que eles fossem inundados também. - Eu sinto tanto, amiga. Você não merecia isso. Eu realmente não sei que que passa na cabeça de gente assim. Aqui, olha pra mim.
Com dificuldade, levantei a cabeça que eu tinha enfiado entre os braços, me escondendo. lançou um feitiço que logo fez todas as lágrimas sumirem.
- Como eu estou? - Perguntei baixo, com medo de falar muito e acabar caindo no choro de novo.
- Como sempre, deslumbrante. - sorriu para mim. Ela era a melhor amiga que eu podia ter.
Os garotos tinham razão. Eu afastava todo mundo. Afastei meus amigos da antiga escola, meus amigos de Castelobruxo, todo garoto que eu ficava. Minha família não se afastava por obrigação.
Mas tinha . Ela nunca precisou ficar. Mas ela ficava. E, por isso, eu nunca seria grata o suficiente por ter ela na minha vida.
- Eu te amo, sabia? - Soltei para ela, sentindo a gratidão de tudo.
- Vixi, talvez eu tenha que te levar pra enfermaria, normalmente essa carência só acontece na madrugada ou quando tem álcool junto. - zombou.
- Ai, sua idiota! - Eu ri baixinho, dando um tapa falso nela.
- Ah, agora sim voltou!
- Tá me chamando de grossa? - Questionei ela, fingindo indignação.
- Eu nunca falei isso, mas se você interpreta assim...
Não pude deixar de rir com ela. Não, o ano não seria uma merda. Seria bom. Porque eu tinha junto comigo uma boa amiga.


Capítulo 7

Era sexta feira. O único dia que não tinha aula a tarde para os alunos aproveitarem. E, no meio daquele calor infernal, os alunos podiam se refrescar nadando no rio. Era onde eu com certeza iria estar.
Mas não. Eu tinha que estar sentada na frente de uma idosa esquisita esperando minha detenção.
Não me entenda a mal. Eu adoro a velhota Potira, a diretora do Boitatá. Ela era nossa professora de Herbologia e era como uma vovó fofinha, mas a velha era meio caduca. Todo final de aula, ela conversava com todas as plantas do jardim. Além disso, a saia vermelha longa junto com o colar de palha que cobria todo o seu tronco não era exatamente o visual que eu estava acostumada. Não querendo julgar. Só era diferente.
Mas, às vezes, eu queria que ela não fosse tão diferente a ponto de conversar com uma samambaia roxa pendurada no teto de sua sala.
- Você tem razão, minha querida, ela parece rabugenta. Espíritos maus, espíritos maus. - Potira falava para sua planta, olhando de canto de olho pra mim. Eu tinha que gostar muito da velhota pra manter a calma.
- Profe, será que você podia adiantar logo qual vai ser a detenção? - Tentei apressar a situação, antes que eu acabasse com uma detenção extra: participar de diálogos com seres não racionais.
- Tenha calma, , tudo se resolverá. Tudo tem seu tempo. Ou talvez o tempo tenha todos nós. - Ela disse, muito séria, me fazendo engolir em seco. E então, de repente, soltou uma risadinha. - Estamos só esperando o seu amiguinho!
Espera... Quê?
- Não, profe, sou só eu. - Eu reforcei. Ela não podia estar alucinando mais ainda agora, podia?
- Ah, não, queridinha, a diretora Alba me falou de dois alunos. Seus danadinhos, já quebrando as regras em menos de uma semana! Eu já esperava de você e, bom, ele sempre está te seguindo, então imagino que se encrencaram juntos. - Ela soltou uma risadinha, como se fôssemos dois bebês bobinhos.
- E quem é o outro, professora? - Eu perguntei, nervosa.
Naquela hora, a porta rangeu e alguém entrou na sala. Por algum motivo, eu pareci reconhecer os passos e um cheiro fraco de perfume me confirmou isso. Senti meu sangue gelar.
- Desculpa a demora, professora Potira. - A voz de preencheu o ambiente.
- Sem problema! Eu e sua amiguinha estávamos esperando por você. - E então ela se virou para se despedir da samambaia roxa.
Realmente, eu e já estivemos ali naquela sala juntos várias outras vezes. Vezes em que eu o arrastara até ali. A profe Potira teria razão se a gente tivesse no passado. Agora, era claro que ela estava errada. Aquela velha era maluca? Ela não percebia o óbvio olhar de ódio que nós mandávamos um para o outro? Para alguém que fala tanto de energia, ela não pareceu notar a tensão que se instalou. Minha mão se fechou automaticamente quando ele pigarreou, irritante como sempre.
- Acredito que a senhora tenha se confundido, professora Potira, não somos amigos. - Ele disse, naquele som sabe tudo. Eu tive que me segurar muito para não revirar os olhos em respeito à profe.
- Oh, sim! Claro que não. Como pude ser tão tola? Vejo que agora ele é sua paquera. - Ela disse, piscando pra mim, dando uma risadinha.
- Tá maluca, profe? - Eu soltei, sem nem pensar se aquilo poderia virar outra detenção. - Olha, por que você não fala o que eu tenho que fazer e pronto? Detenção, lembra? E aí depois vocês conversam sobre sei lá o quê.
- Ah, a detenção, verdade! Sim, sim. Bom, Amélia tem reclamado muito do estado da biblioteca, ainda mais agora com os livros novos que chegaram. E prometi que os dois pombinhos iam ajudá-la! Agora, vamos andando, ela nos espera! - Potira dizia e, pra uma senhorinha, ela até que caminhava rapidamente.
Num instante, eu já fui pro seu lado. Deus me livre ficar sozinha com aquele garoto.
- Profe, acho que você entendeu errado. A detenção era pra mim. Deve ter alguma forma de fazermos isso separados, não acha?
- Você é burra ou o quê? Acha que eu estou aqui dentro pro opção? - revirou os olhos.
- Você pegou detenção? - Eu ri. – Ah tá, né?!
- Muito bem, pombinhos, chegamos na biblioteca. É só seguirem as regras de Amélia e depois ela me passará tudo. Tentem não ficar nos beijinhos! - Potira riu como uma garotinha. - Ah, olá para você também! - Ela engatou numa conversa com uma muda de alcaçuz.
Reunindo minha coragem, entrei na biblioteca, mas deixando a porta fechar na cara de , afinal, eu não era obrigada a ser mordomo de ninguém.
Segui até um balcão onde estava uma velha, Amélia, e um Duende que eu nunca sabia o nome. Dizem que ele morava na floresta até que a bibliotecária o viu e o confundiu com um aluno, o arrastando para a escola. Ele reclama a cada segundo, mas nunca mais foi embora, ficando na biblioteca o tempo todo. Maluco.
- Boa tarde, dona Amélia. Boa tarde, Miúdo. - falou, aparecendo atrás de mim. Argh, ele sempre tinha que pagar de menino educado e estudioso?
- É sr. Miúdo pra você. - O duende reclamou, carrancudo, mas abriu um mínimo sorriso para ele. Já pra mim, só ergueu as unhas compridas de forma ameaçadora. Quase lhe ofereci pagar a manicure.
- , é você? - Amélia se inclinou, aproximando os óculos, até arregalar os olhos miúdos. - Ah, claro que é você! Então, o que vai ler hoje?
- Estamos aqui pra cumprir a detenção. - Eu falei, fazendo a velha me notar finalmente. - Pode mostrar o lugar que é pra limpar?
A velha olhou pra mim com uma cara de desgosto e o duende começou a... Rosnar? Não sei dizer, mas eu estava sem paciência.
- , querido, essa é aquela sua amiga que vivia danificando os livros e derrubando as estantes? - Amelia disse, com um desprezo carregado na palavra “amiga".
- Não somos mais amigos, dona Amélia, mas é ela sim. - tinha um desprezo quase no mesmo nível.
- Última prateleira da última seção. Comece retirando todos os livros, passe um pano e recoloque-os. - A velha falou grosseira comigo.
- Você quis dizer usar um feitiço, né?
- Não, panos úmidos são melhores que varinha. - Ela ralhou, antes de se voltar docemente para o idiota ao meu lado. - Agora, , querido, me conte como se meteu em problemas! Eu e o sr. Miúdo estamos com saudades!
Larguei aqueles três esquisitos para conversarem e caminhei pela biblioteca gigante até chegar ao final, um canto meio mal iluminado, completamente empoeirado, com teias de aranha e, por Deus, até algumas raízes de plantas.
Eu nunca fui fã da biblioteca. Não me leve a mal, mas com um rio dentro da escola, campos enormes pra jogar várias coisas, espaços para fazer festas e cozinhas cheias de petiscos, quem em sã consciência iria para uma biblioteca?
. Ele iria. E por isso era o queridinho da bibliotecária.
Antigamente, antes de ele revelar quem realmente era e nos afastarmos, ele às vezes me trazia aqui pra me ajudar com os deveres. Eu nunca fui lá a mais estudiosa. Acho que a única coisa que eu me virava bem era nos duelos. Então, vivia me ajudando a recuperar minhas notas. Passávamos muito tempo juntos. Tempo suficiente para as coisas irem mudando...
Mas não importava mais. Eu tinha me livrado daquele garoto e de ter que ir na biblioteca.
Exceto por essa merda de detenção.
Tirei o primeiro livro. E o segundo. Tira e coloca na pilha. Era só isso que eu fiquei fazendo pelos primeiros 15 minutos (que pareciam 15 dias), com minha mente pensando nas 37 melhores maneiras de passar esse tempo e com o idiota ainda conversando com a bibliotecária, me deixando fazer sozinha o trabalho.
Ele estava achando que eu era empregada de quem?
Mas, igual a loira do banheiro que ao falar três vezes o nome aparecia, como um monstro puxado pelo meu pensamento, finalmente apareceu.
- Achei que ia estar dormindo. - Ele falou, sarcástico.
- Diferente de alguns, eu faço o que me pedem. - Respondi, atirando um livro na sua direção. - É melhor preparar seu pano.
Pensando melhor, era mais agradável trabalhar o dobro do tempo sozinha do que ter que dividir o mesmo espaço que ele. Nossas memórias juntos pareciam de outras pessoas. Mas eu sabia que ainda era eu porque, de um modo muito infeliz, mesmo depois de três anos, meu corpo parecia ainda lembrar de como era ter sua presença comigo. Como se fosse natural.
Mas agora, ainda mais natural que isso, era a facilidade que eu podia lançar alguma azaração se ele me irritasse.
- Você tá tirando os livros muito devagar. - reclamou, bocejando.
- Cala a boca.
- Se você pegasse dois de uma vez pela lateral, seria muito mais rápido.
- Eu mandei você calar a boca. - Eu rosnei.
- Quer parar de ser besta e fazer direito? É só tirar assim. - Ele começou a se aproximar e puxar o mesmo livro que eu.
- Me devolve isso e volta a fazer sua parte. Você não consegue passar um pano idiota sem querer se amostrar?
- É “mostrar" e não “amostrar”.
- Aí! Se acha superior porque pronuncia diferente. Vê se me erra e me devolve o livro.
- Me deixa limpar. - disse, puxando com mais força e irritação o livro para si.
- Qual o problema de simplesmente deixar outras pessoas fazerem o trabalho delas?!
- O problema é que elas não fazem direito!
- Nem tudo está errado só porque não é do seu jeito! Estava tudo dando certo!
- Chama aquela lerdeza de certo? Não vamos sair daqui nunca se você não fizer mais rápido!
- Eu vou te chutar se você não largar!
- Tenta, ! Você nunca conseguiu me superar mesmo!
Não havia uma célula do meu corpo que não estivesse pegando fogo de tanto ódio. Eu odiava e sua superioridade. Eu o odiava mais do que tudo. E foi na base desse ódio que eu saquei a varinha mais rápido do que ele.
- Bombarda!
conjurou um escudo protetor na hora, mas não foi forte o suficiente, o que o fez se desequilibrar para trás e vários livros caírem da prateleira. Ele podia fingir que não, ele podia esquecer, mas eu era mais forte que ele. Nisso eu era.
O garoto me encarou com raiva e falou, irônico:
- Parece que você só sabe fazer isso, né? Destruir as coisas.
- E parece que você só sabe entrar no meu caminho pra ser destruído junto. - Eu rebati, tentando fingir que o comentário não doeu.
- Acredite, já aprendi há muito tempo que de você nunca sai coisa boa.
- E eu vi na cara dura o quanto você na verdade é um dissimulado. Me enganou direitinho, né?
Nos encaramos, o ódio palpável entre nós. Eu nunca ia me perdoar por ter acreditado que ele era uma boa pessoa e ter deixado ele se aproximar. Ter deixado ele me magoar. Mais do que raiva dele, eu tinha raiva de mim por não ter reparado quem ele realmente era antes.
quebrou o contato visual, ajeitando a blusa e se agachando para recolher os livros caídos para limpar.
- Viu? No final, eu até que fui bem rápida. - Repliquei, soando meio infantil até para mim mesma.
No entanto, antes que ele pudesse responder, a luz fraca em cima de nós começou a piscar e as estantes começaram a sacudir. Um por um, os livros foram caindo.
- Para com isso. - Ele falou, irritado.
- Está de sacanagem? Não tenta me assustar que não adianta, para com essa porra. - Eu repliquei, mas, por dentro, eu tava meio cagada de medo.
Porém, nada parava. As estantes só se sacudiam cada vez mais forte, até uma voz baixa e forte proclamar:
- VÃO EMBORA!
Larguei tudo para trás e saí correndo na mesma hora. Que mané coragem de Boitatá o quê. Eu queria era sair viva. Passei pela bibliotecária que nem reparou em mim e disparei em direção ao meu dormitório.
Puta merda, se aquilo fosse uma pegadinha, eu ia matar aquele garoto. Mas, por enquanto, eu só tentava respirar fundo e parar de tremer.


Capítulo 8

- , eu te juro, tem alguma coisa assombrando a biblioteca. - Eu repeti, enfaticamente.
Já havia passado uma semana desde o fatídico acontecimento e, embora tenha ficado assustada no início com o que eu contei, depois se encheu de explicações lógicas.
- Pode ter sido um Caipora. Até parece que não os conhece. Ou mesmo os amigos de . Ou um aluno mais novo. Você sabe que mexer livros e piscar luzes é um dos truques mais básicos na magia.
Mas algo me convencia que não era nada daquilo. Era algo diferente.
- E se for um fantasma? - Perguntei, apreensiva.
Eu esperava várias reações, mas um ataque de risos não era uma delas.
- Fantasmas? Em Castelobruxo? Você anda lendo muitos livros das escolas europeias. Esquece isso, . Sério. Não vai deixar de ir na biblioteca por um sustinho, né?
- Eu já não gostava muito de lá. Agora que eu não vou mesmo.
nunca ia entender. Ela não tinha estado lá. Não sabia como tinha sido a tensão das luzes piscando e os livros caindo. E aquela voz... Sei lá, por mais óbvio que fosse de poder se reproduzir aquilo com um balançar da varinha, algo despertava um medo profundo em mim, como se fosse algo poderoso demais para se ter dimensão.
E a única pessoa que tinha vivido a mesma cena que eu era a última pessoa no mundo que eu falaria por vontade própria. Antes eu morresse amaldiçoada do que ter que olhar na cara daquele... Daquele... Me faltam palavrões para descrevê-lo.
- Bom, se você não vai mesmo na biblioteca, então espera aqui porque eu quero levar um livro pra Maba caso a gente fique sem ter o que fazer.
Maba era o apelido carinhoso que a gente dava para o vilarejo bruxo Manauara Baquara. Com a gente, eu digo a escola inteira. Era um apelido muito mais antigo do que meus anos estudando em Castelobruxo. Mas, naquele fim de semana, poderíamos visitar o local.
Eu amava esses fins de semana. Adorava comprar acessórios novos nas lojinhas e depois ir para os bares locais. O meu preferido era o Coco Duro. Eu atormentava o dono desde os meus 12 anos, quando mamãe finalmente deixou eu ir no passeio, e agora ele sempre deixava eu escolher uma ou outra música. Quando estava de bom humor, fazia até noite do karaokê.
Mas ficava mais na dela. Depois de alguns minutos de música, ela preferia sentar e ler um livro. E isso nos leva à parada na biblioteca.
- Prontinho! - apareceu já com seu livro escolhido em mãos. - Sabe, por curiosidade, eu decidi ir lá no seu cantinho e eu admito, eu vi algo de esquisito.
Um arrepio nervoso e ao mesmo tempo um orgulho de finalmente provar que estava certa subiram pelo meu corpo.
- Rá! Viu? Eu disse! O que você viu?
- Eu vi que continua exatamente igual. Sua detenção não era arrumar aquilo? Vai acabar tendo que voltar.
Fiz cara feia sem esconder a decepção que sentia com o que ela tinha falado. Eu queria tanto que ela levasse aquilo a sério também! Mas já estava desistindo. Ela nunca ia acreditar em mim. Honestamente, por que acreditaria?
Descemos até o pátio amplo normalmente vazio, mas que estava lotado de alunos e tinha sete ônibus verde água estacionados na frente da escola. Os poucos cujos pais não haviam permitido suas idas estavam no rio que, apesar de ser incrível, sempre parecia perder a graça quando era a opção que sobrava.
Eu sabia como era. Lembrava de , e entrando no ônibus no nosso primeiro ano da escola e eu ficando para trás, sem amigos pra aproveitar a cachoeira comigo.
Agora, eu tinha vontade de me gabar na frente de todos os pirralhos irritantes que não iam.
- Muito bem, meus queridos, prestem atenção! - A velhota Potira começou a falar. Agora que eu não estava mais de detenção, conseguia lembrar o quão legal que ela era. - Cada um deve entrar no ônibus de acordo com a sua série e não tentem burlar isso se não quiserem deixar de viajar. - Potira olhou com muita atenção para uma planta ao seu lado e começou a murmurar para ela. - Tem razão... É duro com os coitados, mas o Vicente quer tudo organizado...
- Professora? - Um aluno do segundo ano chamou e ela voltou a olhar para nós.
- Ainda estão aqui? Ahn, bem, o que estão esperando? Vão, vão, aproveitem e só voltem quando estiverem tão cansados que vão direto para cama. Não, espera, voltem hoje ainda! Ouvi que teremos cuscuz para o jantar.
Os alunos comemoraram e cada um de nós foi em direção ao seu ônibus. Os 200 alunos do sexto ano se encontravam em frente ao que deveria ser o nosso junto com a professora Jane e seus chamativos cabelos laranjas.
- Muito bem, vamos ver. Ah, é, a chamada! Quem eu for chamando, pode ir entrando no ônibus.
- Qual é, profe, deixa gente entrar logo no busão! Vai atrasar tudo!
- , cala a boca antes que atrase mais! - Priscila, uma garota do nosso ano da casa Curupira, brigou.
Se não fosse , eu tinha começado uma briga ali mesmo.
- Deixa ela fazer chamada, a gente vai ter que esperar mesmo. Você sabe que o ônibus do primeiro ano sempre atrasa.
Bufei e esperei o que pareceu uma eternidade até poder entrar no transporte mágico. O que por fora parecia um ônibus normal, por dentro devia caber mais de cinco. Além disso, ainda tinha dois banheiros, uma geladeira com água e picolé, junto com saquinhos para caso alguém passasse mal. Eu e , como sempre, sentamos juntas. Essa era a parte boa de só ter uma melhor amiga, não tinha briga de quem ia sentar com quem.
Logo, quando todos já estavam dentro do ônibus, ouviu-se a voz projetada da professora Jane:
- Ok, ok, antes de sairmos, todos estão com tudo aí? Mesmo se não estiverem, não tem mais jeito agora. Não é pra levantar durante a viagem e, caso se levantem, vou transformar esse piso em areia movediça! E não, isso não é legal! - Ela falou para vários garotos que comemoraram. - Lembrem que as regras da escola permanecem, então aproveitem os fins pedagógicos! Manauara Baquara é uma cidade muito rica em sua história, fiquem com isso na cabeça no passeio.
- Professora, mas eu conheço outro passeio muito melhor! - gritou lá dos fundos.
- Que passeio, sr. ? - Jane, mais curiosa do que sensata, perguntou. Pior erro possível.
- Passei o p...
- PROFESSORA, QUE HORAS O ÔNIBUS SAI? - gritou por cima das várias gargalhadas e da piada constrangedora que iria acontecer. Mas eu daria de tudo pra ver a reação de Jane e a detenção que ele ia ganhar.
- Qual é, , estragou as coisas! - gritou e vários meninos fizeram coro, enquanto ia afundando na cadeira.
- Fica quieto que ela salvou essa sua bunda mole! - Eu rebati, defendendo minha amiga.
- Ok... - Jane olhava tudo confusa. - Bom, motorista, pode partir! Crianças, botem o cinto de segurança. Estou de olho em vocês, hein!
Cinco minutos depois, Jane estava apagada e os alunos já ligavam caixas de som, passavam pelos corredores só por passar, sentavam cinco em cada banco, gargalhavam e berravam. Não precisava ser muito amigo de ninguém para entrar em um jogo ou em uma conversa e logo eu e já estávamos envolvidas.
O ônibus parou e finalmente Jane acordou com o solavanco, olhando para trás assustada.
- O que é que vocês estão fazendo em pé?! Sentem, sentem!
- Mas, professora, a gente chegou! - Uma garota da casa Boitatá exclamou.
- Ah... Ah, é. Então... Podem sair. Mas sem empurrar!
Todo mundo saiu se empurrando até conseguirem respirar o cheiro de calor, árvores, mel e álcool que Maba trazia. Os melhores cheiros do mundo! e eu fomos direto visitar as barracas que já estavam montadas, cheias de petiscos maravilhosos, artesanatos lindos e objetos mágicos muito duvidosos. Aquele lugar era incrível.
Depois de comprarmos algumas coisas, fomos direto para o Coco Gelado. As sombras das árvores não nos protegiam do calor abafado do lugar, mas aquele bar era encantado para ser fresco e tinha o melhor Payaru da região.
Chegando lá, eu e nos sentamos no balcão e pedimos cada uma a mágica bebida fermentada com mandioca: o Payaru. Quando o garçom nos entregou e eu senti a bebida gelada descer na minha garganta, pude relaxar e reparar uma pessoa no local.
- Ei! Seu Jairo!
O velho homem que ria com seus clientes, mas parou quando me ouviu chamá-lo.
- ! Minha cliente favorita! - Ele disse, apertando minha mão, entusiasmado.
- Tenho certeza que diz isso para todos!
- Mas é uma mentira para a maioria. - Ele piscou, nos fazendo rir. - O Payaru está decente?
- Está maravilhoso como sempre! Vai ter noite do karaokê hoje?
- Para você espantar os meus clientes? Não, não.
- Ei, a minha voz é única!
- Unicamente deplorável. - se juntou a brincadeira.
- Por isso que eu gosto dessa aqui! - Seu Jairo riu e deu tapinhas nas costas de . - Mas não é nada pessoal. Hoje é o dia da roda de histórias, as melhores lendas locais! Daqui a cinco minutos começaremos! A minha é a última e a melhor de todas.
- E qual é? - Perguntei animada.
- Espere e ouça. - Ele disse, antes de sair gargalhando para falar com outros.
- Ele é meio doidinho. - falou, rindo.
- Ele é incrível!
A roda de histórias começou e logo todos formaram um círculo e se envolveram nas histórias dramáticas contadas no centro do salão, sempre gerando aplausos muito altos. Obviamente, os meus eram os mais barulhentos. Até que não é muito fã de bares estava se divertindo para valer. Infelizmente, só não se divertia mais do que , que havia aparecido com . Por que esse tipo de evento tinha que ser a cara dele? Pelo menos e os amiguinhos chatos deles não estavam ali.
Depois de horas e horas que passaram voando com as histórias incríveis (e uma leve influência da mandioca fermentada), Seu Jairo foi para o meio da roda começar a sua dramática apresentação que todos esperaram a tarde (e agora a noite) toda.
- Muito bem, muito bem, cheguem perto, porque a história de Irupé não pode ser repetida se não quiserem acordar seu espírito!
- Viu? Ele também acredita em espírito. - Sussurrei para .
- Cala a boca. - Ela replicou.
Todos os olhos estavam arregalados e fixos em Seu Jairo. A luz ficou fraca até restar apenas o brilho da varinha dele.
- Irupé era uma linda bruxa da tribo dos Kambebas. - Bufei ouvindo a menção da aldeia da mãe de . Não tinha como ser qualquer uma das dezenas de outras da região? - Poucos eram os bruxos em sua aldeia e ela fazia com que todos os mágicos e não mágicos convivessem em paz. Sua professora era a mais antiga das feiticeiras: a Lua!
Nessa hora, ele acenou com a varinha e criou a imagem de uma jovem índia sentada à noite à beira do rio observando a lua.
- Toda noite, ela observava os feitiços que a Lua lançava sobre a água, movimentando pequenas ondas, causando altas e baixas na água doce. Mais tarde, os trouxas diriam que era a gravidade. Bobagem! A feiticeira Lua usava magia! E Irupé era sua melhor aprendiz.
A cena agora mostrava a indígena movimentando as águas igual a lua. E sem varinha! Arfei diante do que seria aquele poder.
- A aldeia não compreendia Irupé, mas a respeitava. Ela ajudava os mais novos de sua tribo a ingressarem em Castelobruxo e participava de sua proteção. No entanto, tudo mudou quando o homem branco chegou aqui.
A imagem se tornou turva. Grandes navios apareceram, assim como armas de fogo, homens vestidos que ameaçavam os nativos, desmatando, escravizando e muitas outras cenas horrendas. Era difícil de olhar, mas eu sabia que devia. Não podia fingir esquecer a mancha de dor e sangue que a história do meu país tinha.
- Dentre aqueles homens, existiam alguns portugueses que vieram àquela terra à procura de poder. Magia. Eram bruxos que haviam escutado as lendas de Castelobruxo, a escola mais bem escondida no meio da maravilhosa floresta. Percebendo que Irupé era muito respeitada entre seu povo, observavam-na constantemente, sentindo que havia algo de diferente nela. Usava os truques que tinha aprendido para despistá-los e confundi-los até que eles a deixassem em paz. Porém, a deixaram apenas para procurar os bruxos de sua tribo.
O feitiço mostrava homens espreitavam entre as moitas, vendo as crianças que tinham manifestação de magia.
- Irupé percebeu isso e notou que algumas das crianças bruxas de sua aldeia estavam desaparecendo. A perseguição aos índios estava aumentando e, além de se livrar dos trouxas bandeirantes, tinha que se livrar dos bruxos também. Ela entendera o plano. Queriam encontram Castelobruxo. Queriam a escola para si. Mas ela não iria deixar.
Arfei quando a imagem da escola apareceu. Parecia ainda mais majestosa no meio da pouca iluminação e com a tensão da história sendo contada.
- Irupé começou a evacuar as crianças para dentro da escola, mas percebeu tarde demais que alguém a seguia. Ela havia revelado o local para seus inimigos. Ela havia estragado tudo. No seu desespero, avançou para uma das salas da escola e a enfeitiçou. Sua entrada passou a ser imperceptível e amaldiçoava qualquer um que não era de sua tribo que tentasse entrar. Os portugueses tomaram Castelobruxo. E os nativos começaram a sofrer.
Uma grande mancha vermelha cobria a escola e eu não precisava ser boa em interpretação para entender o que aqueles monstros estavam fazendo.
- O poder não era suficiente. Eles viam cada criança como uma ameaça de sua soberania. Começaram a implantar todos os métodos europeus e castigar as crianças que não cooperavam. Irupé não aguentava isso. Começou a esconder cada vez mais alunos e ensiná-los, junto com a Lua. Mas uma noite, ela foi seguida.
A cena mostrava a jovem índia de antes escoltando algumas crianças quando feitiços foram disparados. Ela protegeu a si mesma e aos alunos enquanto corria, mas eles eram muito pequenos para avançar muito rápido. Iam ser pegos.
- Ela teve que tomar uma decisão. A sua vida ou a de seus alunos. Instruiu os menores sobre como chegarem na sala secreta, enquanto ela mesma disparou para outro lado, sendo perseguida pelos homens brancos. Chegou até a beira do rio e subiu na árvore mais próxima, fugindo de seus captores. Mas estes não precisavam escalar para a alcançarem, suas varinhas conheciam feitiços sombrios.
Na imagem, Irupé desviava dos clarões, mas um de coloração verde a acertou e ela caiu da árvore direto no rio. Não precisei olhar muito para saber que estava morta.
- A Lua, com piedade de sua aluna favorita e desolada pela perda, transformou seu corpo em uma linda planta e flor aquática que recebeu o seu nome.
A cena revelou o corpo da jovem tremeluzindo e se transfigurando em uma linda Vitória Régia. Não podia acreditar que a lenda trouxa pudesse ser tão distinta da realidade.
- Irupé decidiu não fazer a passagem e permanecer na Terra como espírito. Reza a lenda que sua sala secreta permanece em Hogwarts e seu fantasma zela pela sala e todos os alunos que precisarem dela, encontrarão auxílio. Mas cuidado. Um coração ruim pode provocar a fúria de Irupé, especialmente se for de sangue do homem branco, e ela voltará para assombrar todos como a protetora dos Kambebas e guerreira da Lua!
Os aplausos prorromperam pela sala, muitos de pé, mas tudo o que eu sentia era um estranho arrepio como se estivesse sendo observada. Olhei para o lado e vi me encarando com um olhar enigmático. Ele não aplaudia também. Por que aquela história me fazia ter uma sensação esquisita?
E por que parecia que sentia o mesmo?


Capítulo 9

As aulas de segunda-feira, como sempre, passaram muito arrastadas. Eu ainda estava incomodada com tudo o que havia acontecido, mas eu percebi que aquilo estava começando a irritar , então decidi tirar da minha cabeça.
Depois de um torturante tempo de Herbologia (que você pode pensar que é incrível porque “poxa, , mas Castelobruxo é tão conhecido por suas aulas!”, mas isso não significa que todo mundo é fanático por plantas mágicas esquisitas que podem matar bichos), finalmente fomos liberados para o almoço. O dia, como todos os outros, estava quente, ensolarado e abafado, perfeito para nadar no rio. Mas não. Temos que assistir aulas.
Pelo menos o ambiente era climatizado. Eu queria muito um dia aprender aquele feitiço. Imagina, ar condicionado mágico e sem precisar pagar as contas. Era perfeito!
Saí dos meus pensamentos quando ouvi murmurar um ritmo conhecido. Sorri orgulhosa ao ver que minha lavagem cerebral estava fazendo certo, já que ela cantava distraída uma das músicas trouxas que tocavam nas nossas festas de sempre. Tentando disfarçar meu orgulho, comentei a primeira coisa que veio na minha cabeça:
- Sabe, essa música não é das melhores.
- Por quê? – Minha amiga perguntou.
- Incentiva a rivalidade feminina, o que é tudo que os homens querem, porque assim brigamos muito entre nós mesmas, enquanto eles ficam cheios de privilégios que a gente nem contesta.
- Profundo, ! Então você é contra rivalidade feminina?
- É claro!
- Entendi... E a ?
- O quê? A não conta. Meu ódio por ela não é por homem, nem por competição, nem pra atacar sem motivo. Ela é maluca e me persegue!
- Ah, mas isso tem a ver com homem também!
Antes que eu pudesse replicar, a sineta tocou e eu levantei, apressada, desviando do assunto. Lá em Castelobruxo, havia uma imensa vantagem: eu não precisava lavar a minha própria louça. Claro que, pra compensar, sempre que eu voltava para casa, o serviço ficava inteiro pra mim. Junior fazia questão de sujar tudo e me ver lavar. De acordo com ele, era retaliação por ele lavar o ano inteiro. Aquela peste pré-adolescente dos infernos.
Saímos do Grande Salão e começamos a voltar para as aulas. Mais uma rodada de desgaste mental.
- Ei! – Ouvimos uma voz e nos viramos, encontrando Anahí logo atrás da gente, correndo agitada, o broche rosa refletindo nas suas vestes.
- E aí, Anahí! – Cumprimentei.
- Aonde vocês estão indo?
- Para a aula, ué. – falou, confusa.
- Mas a diretora pediu para todos ficarem para ouvir um anúncio! Ela tá terminando de comer. Vocês foram as únicas que saíram! Foi um climão, sorte que ela não percebeu.
- Ai, que mico! – parecia assombrada.
- Vamos voltar antes que vire um mico de verdade. – Eu disse, arrastando cada uma por um braço e logo já estávamos de volta no salão. – Valeu, Anahí. – Eu sussurrei agradecida, antes de nos separarmos, eu e para as cores laranjas e a mais nova na mesa de cores rosas.
Segundos depois, a diretora terminou de comer.
- Bom, obrigada por me esperarem. – Dona Alba riu, se levantando da mesa. Me fiz de sonsa para não acabar rindo. – É difícil encontrar todos vocês juntos e temos que aproveitar as ocasiões!
O salão riu por educação, curiosos para o que ela tinha para falar.
- Bom, um dos nossos costumes mais antigos vai sofrer algumas modificações. Estou falando dos Jogos Bruxos.
O salão se encheu de murmurinhos. Os Jogos Bruxos eram competições entre as casas de todos os tipos de esportes do mundo mágico, como as Olimpíadas trouxas. Na verdade, quando eu descobri que não tinha queimado para jogar eu fiquei muito decepcionada. Mas depois eu aprendi o que eles chamam de bola de fogo (muito mais emocionante porque se você segurar a bola por muito tempo ela realmente pode queimar, o que deixa o jogo rápido, intenso, perigoso e incrível).
Então, por isso, não era à toa que todos estavam curiosos. Sempre que os Jogos Bruxos estavam perto, Castelobruxo inteira parecia mudar a energia. Afinal, depois de várias semanas de aulas puxadas, nada como um bom jogo, certo? Até para os que não eram fãs de ação, tinham suas opções. Campeonatos de xadrez bruxo, questionários de todas as áreas, nado com obstáculos no rio, duelos “amigáveis” (os professores que criaram isso claramente não entendem muito de pedagogia). Tudo isso e muito mais acontecia nesse evento. Era a melhor parte da escola, na minha opinião.
- Bom – Dona Alba continuou -, para os novos alunos que devem estar perdidos com essa informação, os Jogos Bruxos são competições amistosas entre os seus colegas de outras casas em diversas atividades divertidas e desafiadoras!
- Do jeito que ela fala, nem parece que as pessoas quase morrem só para poder ganhar. – sussurrou e não pude deixar de rir.
- Mas esses são os extremos. Quem faria isso? – Perguntei, debochada.
- Você. – respondeu prontamente.
- Exatamente, querida amiga. Eu mesma. E nós com certeza iremos ganhar.
- As competições acontecem entre os alunos de cada série! – A diretora continuou. – Um aluno de primeiro ano apenas competirá com os de primeiro ano e assim por diante! Cada série terá seu campeão e, no final, a casa que acumular mais pontos, conseguirá o título de campeão geral!
Os alunos novos pareciam extremamente animados, eram tão bonitinhos. Fiquei pensando se eu era tão miúda e agitada na idade deles. É, provavelmente até pior.
- Fico feliz que estejam se empolgando! Os diretores de suas casas devem estar bem satisfeitos, pois eles também gostam de vencer!
Olhei de relance para a mesa do corpo docente. A prof. Potira estava sussurrando algo para baixo de sua mesa, com certeza estava com uma planta escondida, sem nem se importar com competição nenhuma. O professor Parantes dava sorrisos tímidos para sua mesa, acho que ele nem acreditava na vitória da casa das Fadas. Já a professora Jane olhava intensamente para seus alunos, não sei se para incentivá-los ou para repreendê-los, pois a casa Curupira era famosa por trapacear nos jogos o que, de acordo com eles, era um improviso criativo. O fofo do professor Juan, de Trato de Criaturas, fazia joinhas com a mão para a mesa dos Botos, que sorriam confiantes. E o professor Vicente sorria com deboche para a casa Iara. Convencido, só porque venceram no ano passado.
- Pois bem, pois bem, aos avisos! Muitos professores reclamaram que o início dos jogos em julho é prejudicial, porque acabam se prolongando até a época das provas. Por conta disso, decidimos que os Jogos Bruxos vão começar mais cedo esse ano! Então, a partir de semana que vem, todas as suas tardes serão preenchidas por jogos aos quais vocês poderão torcer ou participar! Também ajudará que os Caiporas estão em fase de reprodução e acreditamos que eles nos deixarão em paz no primeiro mês de jogos.
Ninguém sequer ouviu o final da frase, animados demais. Semana que vem!
- Ei, , esse ano não vou aguentar ouvir um “ai” saindo da boca dos Iara. É melhor destruir todos eles! – João Henrico, do nosso ano, falou animado.
- E já me viu deixar de destruí-los? O problema são os outros anos. – Resmunguei.
- Ah, preciso começar a preparar os cartazes de torcida! – Rosália, uma aluna do quinto ano, comentou.
- É nosso último ano, se a gente perder, eu amaldiçoo todos vocês! – Henry, do grupinho dos babacas do sétimo ano, falou, recebendo acenos em concordância de Julio e Michael.
Esse era o poder dos Jogos Bruxos. Todas as casas passavam a se odiar mutuamente, mas todos os integrantes delas se uniam mais do que nunca. Eu poderia até esquecer que aqueles garotos me chamaram de piranha desde que eles vencessem todas as provas. E aí, no final das competições, tudo voltava ao normal.
Nada como um pouco de ódio saudável.
- Bom, já prendi vocês por muito tempo, podem ir! – Dona Alba bateu palmas animadas e todos dispararam para fora do salão.
- Caramba, Jogos Bruxos desde fevereiro, é o melhor ano de todos!
- Desde que não atrapalhe os estudos. – , que passava ali perto, comentou.
- Ah, cala a boca! – Eu retruquei e muita gente fez coro. O time amante dos Jogos Bruxos era muito maior que o grupo de fanáticos pelos estudos.
- Acha que esse ano temos chance? – perguntou para mim.
- O sexto ano vai ganhar, com certeza. Ainda mais que esse ano eu mato esses meninos se eles não ganharem. – Olhei de relance para que parecia bolar vários planos e que nem o escutava. Mais tarde eu trocaria algumas ideias com . Pelo bem da vitória. – Mas dependemos dos outros anos. O sétimo ano do ano passado era péssimo, então é um peso a menos. Espero que os nossos primeiranistas sejam bons.
- Ah, , espero que não esteja fazendo planos para a competição, não quero que você se decepcione. – Um voz aguda e irritante falou.
Trinquei os dentes e me virei na direção de . Só ela conseguia me tirar do sério desse jeito. Bom, ela e .
- Sabe, Carson, é uma pena que você seja um ano mais velha. Seria uma maravilha poder esmagar esse seu rostinho bonito com uma bolada. – Retruquei.
- Ah, me acha bonita, ? Obrigada! Não que seja novidade, afinal, não há uma pessoa que não ache. Não concorda, ?
corou e fechou a cara, enquanto a raiva crescia dentro de mim. Odiava ser tão fraca e que, mesmo depois de anos, eu ainda me afetasse com aquilo.
- , querida, eu nunca disse que você não era bonita. Uma qualidade você precisa ter para compensar o resto, né?
Ela olhou para mim com algo entre pena e sarcasmo.
- Desculpa, bonitinha, mas não vou descer pro seu nível. Meninas, vamos! Essazinha já tomou muito do meu tempo.
As víboras seguiram para longe enquanto eu me revirava de ódio. Por que ela sempre conseguia fazer eu me sair como errada? Todos me encaravam com desgosto, mas não sabiam nem metade. Não sabiam como ela me tratava com ninguém olhando e nem tudo que ela tinha feito para mim.
- Sabe, até que estou achando a esse ano mais... Simpática. Não achei que ela pudesse. – comentou.
- Nem ouse, , nem ouse! Se Carson é simpática, uma quimera é um gatinho.
- Esquece ela, a gente vai fazer papel de idiota se tentar alguma coisa. Vamos pra biblioteca fazer nossos deveres. Eu não esqueci do trabalho de três folhas para entregar.
- Hum, pode ir na frente, eu vou arrumar uma desculpa já, já para não te seguir. – Eu comentei, fugindo de .
- Já chega, ! Você tem que superar essa pegadinha que fizeram com você!
- Não é pela pegadinha! Me diga um dia que eu fui para a biblioteca por vontade própria!
- Mas agora vai. A gente precisa escolher uns livros para pegar de referência.
- Não sei porque a gente só não joga na internet.
- Porque a WikiBruxa é muito fraca e não confiável. Ouvi dizer que os professores encantaram para descobrir se a gente copiou algo de lá.
- Às vezes, eu odeio a magia. – Bufei, rendida.
Entramos na biblioteca e fomos logo recebidas por Amelia e o duende esquisito.
- Boa tarde, o que desejam? – A bibliotecária perguntou com a cara fechada, me olhando de relance. Eu mandei um tchauzinho, irritada.
- Exemplares sobre a fauna local, por favor. – respondeu, simpática.
- Terceira prateleira da esquerda para a direita. Não tirem da ordem alfabética. Eu vou saber se tirarem.
- Destruidora de livros. – O duende sibilou e eu mandei um dedo do meio discretamente para ele, saindo dali antes que ele pudesse reagir.
foi em direção à prateleira, mas não parou nela quando chegou. Pelo contrário. Continuou seguindo até o final.
- Eu sei o que você quer fazer, mas eu não vou fazer. – Eu reclamei.
- Shhh! – Eu ouvi Amelia dizer e tive que respirar muito fundo para não replicar.
- Que bom que sabe. Vamos logo. – Ela sussurrou e me arrastou para o local terrível que havia me assombrado.
Meu coração batia acelerado no peito e eu me sentia completamente idiota e infantil. Qual é, é só um canto de uma sala! Não custa nada olhar, né? Foi só uma pegadinha.
Chegamos, por fim, na última estante, com as luzes estragadas, uma única que deixava tudo com um ar fantasmagórico, e com todos os livros bagunçados, porém completamente parado.
Nós esperamos e esperamos. Mas nada aconteceu.
- Viu? Só coisa da sua cabeça. – falou.
Por mais que não fosse admitir, um alívio se instalou no meu peito. Se um dia eu achasse o caipora que tinha zoado com a minha cara... Mas era isso. Só brincadeira. Nada demais.
- Agora vamos. Eu realmente preciso dos livros de plantas mágicas. E aí? Já escolheu o tema do seu trabalho?
- Não, ainda não... – Murmurei, percebendo um brilho na última parede, atrás da estante.
Me aproximei e afastei alguns livros que tampavam minha visão.
- ? – perguntou.
- Estou indo! – Falei, devolvendo os livros para o lugar e a seguindo, associando o que eu tinha enxergado.
Dois círculos brilhantes. Um verde maior com um rosa no seu centro.
Algo me dizia que não eram só rabiscos infantis.


Capítulo 10

- Psiu, !
Eu olhei para trás, confusa. Tinha acabado de sair da prova de feitiços e, como sempre depois de uma prova, eu estava triste e irritada. Não queria falar com ninguém. Mas não fiquei surpresa ao ver quem era.
- O que foi, ?
O garoto correu até me alcançar. Não podia negar o quão feliz eu ficava ao perceber que eu ainda era mais alta que ele. Eu gostava de me sentir superior, nem que fosse só na altura. Quando ele finalmente estava do meu lado, parou para recuperar o fôlego.
- Eu... Eu só queria te fazer companhia.
Não pude deixar de sorrir. Afinal, como eu podia negar ficar perto do meu melhor amigo?
- Tá bom, mas se você comentar qualquer coisa da prova, eu te mato!
- Combinado! Mas eu achei muito estranho como eles cobraram
Alohomora para alunos que estão apenas no segundo ano!
- ! Eu falei sem comentários.
- Ok, ok! Eu só estava mexendo com você!
Seguimos lado a lado pelo corredor. Até mesmo o silêncio era confortável para nós. Apesar de ser um nerd quietinho, totalmente oposto de mim, em menos de dois anos, formamos uma amizade inexplicável. Ele tinha calma para entender meu lado impulsivo e escandaloso, assim como eu conseguia ler seus sentimentos muito bem. Só não tão bem quanto eu aprendera a ler .
E, justamente por isso, eu entendi aonde ele queria ir no momento em que ele virou no corredor.
- Ah não, , a gente acabou de sair de uma prova ferrada! Você não pode ser tão idiota pra ir pra biblioteca!
O menino nem ficou surpreso, mas sua voz aguda saiu toda esganiçada.
- , confia em mim, por favor!
- Por que você insiste tanto em me levar lá? Você sabe que eu odeio!
- Poxa, , eu te juro que a gente não vai ficar lá. Eu só vou pegar um negócio que eu esqueci! É legal, sério! Você nem precisa entrar.
Considerei a proposta, pensando se era confiável. Ele insistia em me fazer estudar, tendo apoio de e de (que preferia que ele focasse em mim e esquecesse de forçá-lo a estudar também) e estava cada vez mais criativo em maneiras de me levar até lá. Mas, em compensação, ele teve que cumprir detenção por três dias seguidos na semana passada por minha causa, já que ele topou meu plano de invadir o rio durante a noite. Parte de mim me lembrava que ele que quis assumir o risco, mas... Outra parte sabia que ele não queria me deixar correr o risco sozinha.
- Tá bom, seu bobo! Mas se você aprontar alguma, eu estou com uma varinha e irritada o suficiente para não ligar nem pra uma suspensão!
arregalou os olhos.
- Não me ataca, juro que não precisa!
Ele segurou minha mão e me puxou pelo corredor dourado, até pararmos na frente da porta da biblioteca. Não pude deixar de ficar irritada com a visão. Meu nariz se franziu antes que eu me contivesse.
- O que foi, ? Tá sentindo alguma coisa?
- Estou sim... Cheiro de... Neurônios torrando lendo livros. – Imitei uma ânsia de vômito.
- Você é impossível, ! Já volto, tenta não destruir a entrada até eu voltar.
Acenei para ele enquanto ele entrava naquele lugar horroroso. Não bastasse aqueles livros velhos e poeirentos, ainda tinha a dona Amélia, a bibliotecária mais chata do mundo. Eu tinha certeza que devia ser.
Eu estava louca pra sair dali e nada do voltar. Comecei a me irritar e pensei em procurar para ao menos aproveitar o sol que estava fazendo. No último segundo de paciência, voltou correndo com as bochechas coradas e uma mão atrás das costas.
- Voltei!
- E demorou muito! Foi fazer o quê? Plantar uma mandrágora lá dentro? - Um clique surgiu na minha cabeça. – Se bem que um grito de mandrágora no meio do silêncio da biblioteca não seria nada mal... Dona Amélia ia ficar doidinha!
- Claro que não, , tá maluca? E eu peguei o que precisava, vamos logo.
- O que você pegou? – Não consegui conter a curiosidade.
- Bom... – Ele abriu um sorriso enorme e tirou a mão de trás das costas. – Tcharam!
abriu a mão e mostrou uma chave dourada e antiga.
- Sério? Uma chave? Não era você que estava falando de
Alohomora hoje mesmo?
- Mas é uma chave de um lugar que não abre com simples feitiços! Você quer ver o que abre ou não?
Mordi a parte interior da bochecha, nervosa. Nicholas sabia como me tentar. Invadir algum lugar mágico e protegido? Ah, quem eu quero enganar, era como o dia das crianças!
- Tá legal, mas se for chato, eu vou ficar muito brava.
- Eu sei, vamos!
Nós dois percorremos a escola juntos, rindo com o que aquela aventura secreta poderia trazer. A maioria dos alunos estava do lado de fora ou fazendo prova, mas nós estávamos fazendo um caminho contrário: em direção aos fundos.
Quando alcançamos o portal de trás, eu só conseguia enxergar as estufas, a floresta e um canto escuro de onde eu podia jurar ter visto um caipora – ou algo pior.
- Sério? A floresta? Não tinha nada mais criativo? – Eu disse, forçando uma risada, tentando fingir estar bem.
- Está com medinho, ? – Ele retrucou, sorrindo?
- Medo, eu? Rá! Até parece, seu molenga. O medroso aqui é você.
- Eu não sou medroso! Eu não estou com medo. – Ele afirmou e cruzou os braços, mas, logo em seguida, um sibilar tomou conta do ambiente.
Quando me dei conta, estávamos apavorados e nos abraçando.
- Que barulho foi esse?! – perguntou.
- Tá bom, você já provou que eu tenho medo! Vamos embora! Não sei qual é o seu senso distorcido de diversão.
- Eu juro que não fui eu! E nem foi isso que eu vim te mostrar! Espera... A chave! É isso!
- Que que você está falando? – Eu perguntei, confusa.
- Corre, por aqui!
me puxou pela mão e eu corri atrás dele, sem nem ver o que estava acontecendo. Eu continuava encarando a floresta, apavorada, quando ouvi um
click, senti me puxando e ouvi algo se fechar atrás de mim.
- , está tudo bem, a gente tá seguro agora. Quer dizer, dos monstros, mas nem um pouco seguros de uma detenção.
- O que você quer dizer, cabeça oca?
Então eu olhei para onde estávamos. E o ar ficou preso dentro de mim. Ele havia me trazido para as estufas. É claro, elas ficavam perto da floresta. E a chave...
- Como conseguiu a chave? – Perguntei, curiosa.
O rosto de foi tomado por uma vermelhidão.
- Eu... Bom... A professora Potira deixou a chave no Fogão e... achou que era uma boa oportunidade... Eu escondi na biblioteca, já que ninguém nunca pensaria em olhar lá procurando alguém que quebrou as regras... E er... Achei que você ia gostar, sabe, depois da prova.
- Ah, , você é genial! - Puxei-o para perto, beijando-o na bochecha, o que fez seu rosto ficar ainda mais ardente. - Mais tarde vou agradecer ao também. Estou tão orgulhosa de você, indo para o mau caminho!
- Ah, não fale assim, vou me sentir mal!
Eu ri e me afastei, olhando ao redor. A estufa sempre havia me encantado. Apesar de ser tão ruim nessa matéria como nas outras, era impossível ignorar o espaço do tamanho de um enorme jardim preenchido por plantas estranhas de todas as cores e características. Muitas estavam fora do alcance do meu metro e meio, mas talvez fosse melhor assim. Elas eram perigosas, estranhas, fascinantes...
- Espero que isso compense aquela prova boboca. – falou, se aproximando.
Não pude deixar de rir. Era engraçado ouvi-lo falar “boboca" como se fosse uma grande ofensa, quando minha mãe falava cinco palavrões apenas no café da manhã, isso quando estava de bom humor.
- Compensa muito, , obrigada. – Eu sorri para ele.
- Toma. Isso é pra você. – Ele disse, me estendendo uma flor amarela do tamanho da sua palma e ficando vermelho novamente.
- , é linda! Mas, foi mal, não vou pegar. E se ela matar?!
- Ah, não se preocupe com isso! É uma Flor das Intenções. Ela não te fará mal algum se eu não te desejar mal algum. Ela reage com os sentimentos.
Peguei a flor com cuidado na minha mão e ela desabrochou lindamente, soltando pequenos brilhos. Bom, nada de veneno.
- Então você não me odeia. Ufa, agradeço por isso nesse momento.
- Claro que eu não te odeio, . Você é minha melhor amiga! – Ele sorriu, adorável.
- E você é meu melhor amigo, . E sempre vai ser.
Nós sorrimos um para o outro. Mas, naquele momento, algo perturbou a cena.
- Me encontre. – Um sussurro, baixo, se estendeu pelo ambiente. Mas aquilo não parecia certo. Não parecia pertencer ao resto.
continuou inalterável.
- Ei, vamos jogar Uno Bruxo? Eu estou com umas cartas novinhas que minha mãe me deu. Vem, vamos encontrar o e a e jogar!
Eu estava prestes a dar a mão para ele quando algo invisível me empurrou para trás.
- ME ENCONTRE!
seguiu para fora, correndo e rindo como se tudo estivesse normal. Mas não estava. Aquela força continuou me arrastando em direção ao rio que passava pela estufa.
- , me ajuda!
Eu gritei, mas em vão. Ele logo trancou a porta e eu fiquei. Mas a força não parava. Puta merda, ela ia me afogar no rio!
Eu mal pensei nisso quando minha cabeça foi afundada. Eu me debati o máximo que pude, mas nada adiantava. Eu gritava, mas tudo o que saía eram bolhas. Meu precioso ar se esvaindo. Comecei a escutar um apito agudo no ouvido e meus olhos começaram a ficar turvos. Nesse momento, algo brilhou no fundo do rio. Um círculo verde com um círculo menor rosa em seu interior.
- Me encontre. – A voz disse, antes que eu apagasse.
🌼

Eu pulei da cama, suando frio, o que era completamente estranho para um dia tão quente de meados de fevereiro. Mas, honestamente, isso era o menos pior.
Por que eu havia relembrado todos os acontecimentos do segundo ano após aquela prova de feitiços? O que meu subconsciente queria com isso? Me atormentar com o fato que eu era amiga de e fora enganada por seus gestos bondosos e presentes gentis?
Ou pior? Por que o final da lembrança fora alterado? Eu me lembrava do que acontecia depois. Jogamos Uno Bruxo o resto da tarde inteira, rindo com e , que perdeu feio, levando vários “+ quatro azarações” e depois ficou irritado com o grupo.
Eu nem sequer me lembrava com tantos detalhes de tudo aquilo. Quem era aquela voz? Tinha sido apenas o meu subconsciente? Ou algo a mais? Eu não lembrava de ter visto aquele símbolo da biblioteca no rio da estufa. E se meu subconsciente criara aquilo?
Ou... E se realmente estivesse lá?
Eu comecei a rir.
- Pelo amor de Deus, né, , para de ser tão impressionável. Você não é assim! – Ralhei comigo mesma, grata por estar sozinha no quarto. Eu já me sentia louca, não queria que as outras me achassem também.
Era isso. Eu só estava mexida com aquelas lembranças do , mais o pânico revivido da floresta e o nervoso de ter sentido a sensação de me afogar. Era apenas isso. Eu estava com um pouco de medo causado por um sonho bobo e levemente assustador.
Me espreguicei e levantei da cama. Diferente do sonho, eu tinha preocupações reais. O trabalho de Herbologia. Os Jogos Bruxos chegando. Evitar e . Tentar fazer Potira esquecer do resto da minha detenção. Planejar minha próxima festa.
Levantei em um pulo antes que eu desistisse e me virei para arrumar a cama. Na hora, um grito ficou contido na minha garganta e posso jurar que minha pressão caiu.
O colchão estava encharcado.
E, ali em cima, estava uma Flor da Intenção, amarela e enorme.
Xingando todos os palavrões que aprendi na vida, troquei de roupa correndo e perguntei para uma colega se ela lembrava o feitiço de secagem, afirmando que tinha molhado meu pijama ao escovar os dentes. A garota, Rosália, me olhou como se eu fosse uma idiota, mas me ajudou a lembrar.
Com a cama seca, o único vestígio que ainda me trazia arrepios era a estranha flor amarela, que continuava se abrindo mais e mais.
Segurei-a com a mão trêmula e desci para encontrar . Avistei minha amiga já na porta do Grande Salão.
- Finalmente, ! Achei que você estava doente. Suando frio, resmungando e... Ei, aonde você pegou essa flor?
Minha mão ainda tremia, mas a voz de foi como uma volta ao mundo real. Suspirei e olhei para ela.
- Preciso de um favor.
- O que você tem em mente, ? Eu te ajudo desde que eu não vá para a detenção.
- Não se preocupe, se alguém se ferrar, serei eu.
me olhou com uma expressão preocupada.
- , o que você vai fazer?
Olhei para a flor em minha mão novamente. Respirando fundo, eu a esmaguei com toda a força que eu tinha. Eu sabia para onde ir. E sabia que nada podia me atrapalhar porque isso já seria encrenca o suficiente. Eu podia estar louca. Ou não. Eu tinha que descobrir isso.
- Preciso invadir a sala da profe Potira.


Capítulo 11

Levou uma semana até que tudo estivesse muito bem planejado. Afinal, não era todo dia e nem de qualquer jeito que se invadia a sala da sua diretora de casa. Ainda mais se eu não quisesse ser expulsa, ou seja, ninguém podia descobrir.
fora a grande responsável estratégica. Digamos que minha abordagem sempre foi mais “agir e lidar com a sujeira depois”. Por isso, eu precisava de uma pessoa equilibrada comigo.
Era manhã de segunda-feira, exatamente uma semana depois do incidente do sonho e da Flor da Intenção. Quer dizer, o primeiro sonho. Desde então, eu estava a semana inteira sonhando com aquele rio e aquele símbolo. Aquele maldito símbolo dos dois malditos círculos. Nos sonhos, a voz ordenava que eu a encontrasse e eu sentia que aquele seria o único jeito de ser deixada em paz.
Naquela manhã, o Grande Salão estava mais agitado que o normal. Afinal, era para ser o melhor dia de todos: o dia da abertura dos Jogos Bruxos. Cara, eu esperava por aquele dia o resto do ano inteiro! O início de meses de competição, ódio, exercícios e feitiços que geralmente não seriam permitidos... Era o paraíso!
Quando eu encontrasse a maldita voz, acabaria com sua garganta pelo que o plano me faria perder porque, infelizmente, enquanto discutia com , percebemos que a nossa melhor chance de quebrar as regras era no dia da abertura, com todos distraídos e afastados.
Para isso, distraiu o professor Roberto enquanto eu peguei o roteiro da abertura que todos os professores receberam sem que ele percebesse. Sabendo todo o cronograma, o plano começou a tomar forma. Então, preparou, com minhas lindas colaborações, um instrucional de um passo a passo do que fazer para conseguir roubar a chave e chegar ao meu objetivo: a estufa. Eu chamei aquele instrucional de “Breaking Free”, em homenagem à música do filme High School Musical. achou que não era um bom momento para piadas, mas, de qualquer forma, ela preparou dois documentos intitulados “Breaking Free” para que cada uma de nós tivesse os passos do plano para estudarmos.
De volta ao Salão, eu não sentia a menor fome, mas sabia que as pessoas estranhariam se eu não comesse, por isso, me forcei a engolir pelo menos três brioches com requeijão e mais dois pães de queijo. Ao meu lado, estava enfiada em mais um livro que não largava desde o dia anterior e eu sabia que era sua forma de se distrair do nervosismo.
– Então... – Tentei puxar assunto para me distrair. –, você se lembra de todo o plano, né?
nem sequer levantou os olhos daquelas páginas amarelas e entediantes. Eu realmente não sabia como aquilo era calmante. Só de olhá-la, eu me sentia mais ansiosa.
– Você se lembra de tudo, certo? – Eu reforcei, baixinho, temendo que alguém escutasse.
– Aham, aham. – Minha amiga respondeu, não largando o livro nem sequer para comer suas torradas.
– E treinou bastante para que eu não seja expulsa logo no primeiro passo, né?
– Aham, aham.
Bufei, sem paciência. Esqueça o plano de atacar a voz do além que não tem mais o que fazer. Eu ia matar .
– E eu posso falar com o sobre sua paixão por ele, né? – Falei, entredentes.
– Aham, aham... – Sua cabeça se ergueu um milímetro no momento em que levantei da cadeira. – Aonde você vai?
– Fazer o que você me deixou fazer.
– O quê? – Ela perguntou e eu vi que suas sobrancelhas se franziram, mesmo que ainda olhasse para o livro.
– Revelar o seu crush secreto, ué.
Seus olhos saíram das páginas dos livros rapidinho.
! É sacanagem, né?
– Você que concordou.
– Não, me desculpa, eu... Eu não estava prestando atenção. Me perdoa, eu sou uma péssima amiga, mas, por favor, não faz isso comigo.
Eu me sentei de volta no banco, a testa tão franzida que eu via uma leve sombra na parte superior da minha vista.
– Sorte sua que eu sou uma amiga maravilhosa.
– Que vive me botando no meio de situações que quebram as regras.
– E sempre levo a culpa toda! Isso não é ótimo? É bom você dizer que é ótimo.
– Sim, é ótimo. – respondeu, revirando os olhos, mas sem conseguir suprimir um sorriso, que logo sumiu. – Puxa, ainda nem acredito que você vai faltar a abertura. Eu jurava que até se você estivesse com as duas pernas quebradas, você nunca faltaria esse dia.
– Nem eu. É tudo culpa dessa aparição dos infernos. ‘Pera, os bruxos acreditam no inferno?
– A crença bruxa é tão extensa quanto a trouxa. – replicou, suspirando. – , tem certeza de que você vai fazer isso?
– Namoral, , eu não vejo outra opção. – Admiti, frustrada.
– Se você realmente está disposta a fazer isso, então eu sei que é sério.
Ela suspirou e tirou um papel que eu estava bem familiarizada naquela semana: o roteiro da abertura. Nosso plano foi totalmente baseado nele e tínhamos que acreditar que nada mudaria. Pelo menos, caso o cronograma dessa noite mudasse, o próprio roteiro mostraria as novas adaptações e poderíamos replanejar. olhou bem para o papel e depois se voltou para mim novamente:
– Bom, o roteiro está inalterado. Se houvesse qualquer mudança, nós saberíamos. Então o plano está de pé. Você precisa sumir quando... Oi, June! – falou muito mais alto e sorridente para alguém atrás de mim.
Meu coração gelou. Alguém poderia ter escutado tudo?
– Oi, ! Oi, ! – June estava bem atrás de mim. Era uma garota baixinha e muito agitada do nosso ano e da nossa casa. Seu olhar estava fixo em mim. – Então, queria que você desse uma olhada na nossa bandeira. A diretora falou que a melhor torcida hoje na abertura já pode ganhar alguns pontos extras...
– ‘Vambora ver isso agora que a gente precisa ganhar! – Falei, agitada, sentindo algo entre o alívio de ela parecer alheia a tudo e animação verdadeira com os Jogos Bruxos. Me levantei e arrastei comigo. Ela fechou seu livro, tentando fingir entusiasmo, e começou a nos seguir.
– Ei, ! – Uma voz familiar chamou, atrapalhando nossa saída. – Posso falar com você rapidinho?
Olhei rapidamente na direção da cabeça ruiva de e soube que eu tinha perdido minha companhia.
– Ah, sim, claro! – disse de forma levemente esganiçada. Depois, mandou um tchau rápido na minha direção, me deixando ali. Não pude deixar de bufar.
– Bom, vamos ver essa bandeira. – Eu falei para June.
O resultado estava ficando muito bom graças a ajuda de Rosália e de Pablo, mas aproveitei para acrescentar alguns feitiços que deixariam as bandeiras e faixas com um toque especial (qual foi, eu sei os feitiços úteis). Uma imagem de boitatá se mexia fervorosamente e, às vezes, soltava pequenas chamas inofensivas, mas muito maneiras. Era quase uma tortura ver tudo aquilo e ter que me lembrar de que eu não poderia participar do desfile, mas, como ninguém poderia saber, eu não poderia parecer triste. Meu maior álibi seria a dispersão da multidão. se certificaria de dizer para qualquer um que perguntasse por mim que eu estava um pouco mais na frente ou um pouco mais atrás. Então, eu tinha que agir como se fosse realmente aproveitar a abertura.
O sinal da escola tocou indicando o início das aulas e nunca o som pareceu tanto de uma penitenciária. Nós, pobres alunos torturados, tivemos que seguir para nossas aulas e aguentar até o fim de todas as aulas pelo evento que todos esperávamos. Ninguém prestava atenção e os professores fingiam não perceber isso.
Eu, por exemplo, passei cada segundo precioso dividida entre reler as etapas do plano de e mandar olhares para a mesma que perguntavam “Algo no roteiro de abertura mudou?” ao que ela, pela sua cara de pouca paciência, parecia responder “Se tivesse mudado, eu te avisava!” Mas isso supunha que ela havia entendido meu olhar. Era provável também que ela pensasse que eu estava pedindo cola.
Ao fim de todas as aulas, eu achava que tinha decorado o plano do nosso instrucional. Mas eu sempre achava que tinha decorado os nomes dos feitiços antes das provas e minhas notas não pareciam concordar. Bom, agora estava na mão de Deus ou dos bruxos superiores, qualquer um que pudesse mexer no destino.
Que eles me abençoassem. Ou me enfeitiçassem com algo positivo.
– Boitatá, em 20 minutos, todos irão para as quadras esportivas. – Profe. Potira falou com todos os alunos que estavam reunidos no Fogão, nosso salão comunitário. As aulas já haviam chegado ao fim, a noite caía e mais de duzentos alunos esperavam ali para seguirem para a abertura. A voz da Profe. era doce e levemente rouca pela idade, mas os olhos refletindo um fogo que eu conhecia muito bem: competitividade. – Não se esqueçam de usar os uniformes esportivos e de levar as bandeiras. Pinturas no rosto são permitidas, mas não usem transfiguração para isso. Não queremos que ninguém perca um dente de novo. Cantos de torcida são permitidos, mas sem ofender o adversário. Sem violência e essas coisinhas ruins, sim? Sigam as regras e mostrem que somos a melhor casa!
Do fundo, alguém começou a gritar:
– OLÊÊ, OLÊ, OLÊ, OLÁÁÁ! É BOITATÁ! É BOITATÁ!
E logo todos os outros alunos também gritavam, gerando uma energia inigualável. Naquele momento, eu não me importava com o quanto eu odiava , que estava próximo de mim, ou que Matheus já tivesse falado mal do meu cabelo no terceiro ano, ou que Julio fosse um babaca. Estávamos unidos por um único objetivo: vencer e esfregar aquilo na cara da escola inteira. Ficamos repetindo aquela música de torcida até a Profe. Potira anunciar:
– Nossa vez! Vamos, vamos!
Então a música da nossa torcida triplicou de altura e os alunos andavam rápido para fora, a Profe. conduzindo todos. Eu estava gritando a plenos pulmões quando senti um pequeno cutucão nas minhas costas, embora não fosse um dedo e sim uma varinha. Quando olhei para baixo, meu corpo estava meio difuso, como se não estivesse ali. Era o sinal. acabara de me enfeitiçar com o feitiço da desilusão.
O plano havia começado.
Até aquele momento, não percebi que parte de mim queria que algo no roteiro tivesse sido mudado para que eu não fizesse o plano. Apesar de ter sido minha ideia, eu não queria aquilo nem um pouco. Sim, eu, com certeza, mataria o dono daquela voz do além.
Mas, para isso, primeiro eu tinha que fazer algumas coisas.
Me esgueirei para fora da multidão dos alunos da casa Boitatá e esperei até que eles estivessem longe com suas vozes distantes. Então, comecei a andar alerta pelos corredores, mas, como esperado, não havia ninguém lá. Todos estavam na abertura porque ninguém deixaria de aproveitar aquela oportunidade. Só uma idiota assombrada.
Senti meu estômago levemente embrulhado e percebi que nunca tinha ficado tão ansiosa na vida. Aquilo poderia dar muito errado, mas já estava decidido, eu ia fazer.
Tentei me lembrar do nosso instrucional e, apesar do nervosismo, parecia que encarar aquele papel por horas tinha funcionado, porque ali estava, na minha cabeça:
Passo 1: Feitiço da desilusão e saída disfarçada;
Passo 2: Chegar até a sala da Professora Potira;
A minha sorte era ser tão irritantemente organizada. Eu só precisava lembrar das instruções bonitinhas. Ok, o primeiro passo havia sido concluído com sucesso. E, depois de uma escadaria e três corredores dourados, o segundo também. Eu estava diante de uma porta formada pelo que pareciam plantas trepadeiras roxas, sem nenhuma maçaneta.
Nunca poderia me esquecer da primeira vez que eu fui chamada para aquela sala por ter brigado com Priscilla, da casa Curupira, ainda em nosso primeiro ano. Sem a professora à vista, tentei entrar sozinha. Aquelas trepadeiras malucas haviam me agarrado e, cada vez que eu tentava me livrar, elas se enrolavam mais em meu pescoço. Quando a Profe. Potira chegou, eu já estava tão roxa quanto as trepadeiras.
– Não, não, não! – Me lembro de escutá-la dizer. – Não machuque a plantinha.
Eu queria ter gritado “machucar a plantinha?! É sua planta que quer me matar!”, mas eu estava sem fôlego e não disse nada. Logo depois, vi um clarão e me percebi livre, com o caminho aberto para a sala.
– Nunca tente entrar nessa sala sozinha, viu, queridinha? – Profe. Potira praticamente cantarolou, como se sua planta maligna não tivesse tentado me matar. Se virando para a trepadeira do mal, ela falou: – Sandra, querida, me desculpa, foram emergências. Você está bem?
Na época, eu tive que aguentar 20 minutos de conversa com a trepadeira Sandra (e até mesmo tive que pedir desculpas, o que foi muito estranho). Mas, agora, novamente de frente para a porta, eu me lembrava do que me contara: Sandra não era nenhuma trepadeira e sim uma praga chamada Visgo do Diabo. E ela era a chave para minha entrada na sala, o que me levava ao roteiro novamente.
Passo 3: Lance o feitiço Lumus Solem;
Aparentemente, a diabólica Sandra odiava luz e calor. Naquela parte do plano, eu me deparara com três opções: ficar imóvel e ser levada para dentro pelo visgo (o que eu descartei imediatamente, eu não queria nem um tentaculozinho de Sandra encostando em mim de novo), lançar Incendio e destruir as plantas (minha opção favorita, mas que vetou por deixar muitas evidências) e, por último, simular a luz do sol com um feitiço e fazer o Visgo do Diabo se afastar. Uma opção chata, mas eficiente.
– Muito bem, vamos ver se você funciona. – Murmurei, sacando a varinha. Aquela parte me deixava ainda mais nervosa já que meus talentos nessa área não eram os melhores, mas era a única opção. Por isso, sussurrei: – Lumus Solem.
Uma luz cegante preencheu o corredor, assim como sons que pareciam ser de agonia vindos da planta. Podia ver por entre o clarão que elas estavam se afastando, como se tentassem escapar.
– Toma essa, Sandra. – Resmunguei antes de entrar na sala. Imediatamente, a luz se apagou e aos poucos minha visão voltou ao normal.
O local estava exatamente como quando eu estivera ali há mais de duas semanas atrás, antes de tudo começar. Nem parecia que o que tinha se iniciado como apenas um dia normal odiando acabou virando um pesadelo contínuo. Tudo por causa daquela briga na detenção. E até hoje eu não tinha ideia de como o menininho perfeito da escola tinha ido parar ali.
“Foco, , senão, fodeu”, pensei, tentando me concentrar no roteiro.
Passo 4: Pegar a chave com a samambaia roxa;
Até aquele momento, eu não tinha me tocado, mas, caraca, que fixação por planta roxa era aquela que a professora tinha? Pelo menos metade das suas plantas tinham essa cor, porém fui até a mesa da professora onde sua samambaia preferida roncava pesadamente na ponta esquerda. Respirei fundo e fui fazendo carinho em suas folhas para não a acordar enquanto minha mão ia chegando mais próxima da sua base. Finalmente, encostei em metal frio. Lentamente, puxei as chaves. Aquilo era uma tortura, ainda mais que eu não podia depender do tempo, mas era a única maneira de dar tudo certo.
– Dorme, dorme, sua plantinha, para acordar só quando eu estiver na estufazinha. – Cantarolei enquanto eu tirava a chave. A planta continuou dormindo para minha sorte. insistira que eu não cantasse de jeito nenhum.
– Sua voz de gralha vai acordar a planta. – Ela reclamara quando eu sugeri essa parte.
– Não acordou, viu? – Sussurrei para mim mesma, minhas pernas levemente bambas de nervoso. – Qual é, , quebrou regras a vida inteira para vacilar agora?
Depois de repetir aquilo para mim mesma, saí da sala. Por sorte, a parte de dentro era apenas uma porta comum, sem nenhum Visgo do Diabo chamado Sandra para me incomodar. Saí discretamente, percebendo que o Feitiço da Desilusão começava a ficar mais fraco. tinha falado sobre essa possibilidade.
– Não sai, não. – Implorei baixinho para o feitiço. – Ok, por enquanto, tudo certo. Próximo passo?
Passo 5: Ir para a saída da escola;
Todos os alunos e professores estavam agora no subterrâneo, onde ficava todo o enorme complexo esportivo da escola. Por isso, chegar até as portas douradas foi moleza. O problema era que, depois dos horários das aulas, elas ficavam trancadas. Mas tudo bem, aquele foi o passo que eu gravei mais facilmente.
Passo 6: Deixar doces e fumaças do riso para os caiporas;
A barganha tinha sido minha ideia. Por mais que os diabinhos não estivessem à vista, todos sabíamos que eles estavam sempre lá. E, apesar de serem pestes, eles cumpriam bem a missão de manter todos dentro da escola. Mesmo que, com isso, os alunos acabassem encharcados, incendiados, apavorados, entre várias alternativas.
Tirei dos bolsos já quase visíveis os frascos de fumaças do riso, uma substância que gerava gargalhadas compulsórias a quem inalava, junto com um pacote de chocolates cujo gosto me lembrava aqueles chocolates mixurucas de lembrancinha de festa infantil, em forma de guarda-chuvas ou bolas de futebol em miniatura. Por algum motivo muito estranho, os caiporas adoravam aquilo. Deixando minhas barganhas bem visíveis, comecei a falar, parecendo uma idiota:
– Caramba, o que tenho aqui? Fumaças de riso e chocolates? Produtos que os professores proíbem que os caiporas, tão leais a nossa escola, tenham? Sabe, eu perdi a fome e estou com fumaças demais. Os professores não iam gostar disso. Eu gostaria tanto de entregar para alguém. – Percebi uma mínima sombra se mexer, embora nada mais pudesse ser visto. Estava dando certo! Pelo menos, eu achava, mas eles podiam também estar se preparando para me atacar. Levemente preocupada, continuei: – Caramba, seria tão incrível poder dar esses produtos que geram prazer e confusão aos nossos mais geniais e engraçados companheiros caiporas. Eu teria um prazer enorme de entregar isso para quem quer que abrisse essas portas para mim. Bem rapidinho, ninguém vai perceber.
O ar pareceu esquentar ainda mais, se é que isso era possível em pleno final de fevereiro, mas nada mais aconteceu. Meu corpo estava ficando cada vez mais visível e exposto. O tempo parecia estar passando muito mais rápido do que eu gostaria. Peguei o roteiro da abertura e percebi que a parte do juramento estava em tinta vermelha, ou seja, era o que estava acontecendo. A essa altura, eu já deveria estar lá fora.
“Abram a porcaria da porta”, pensei, embora tudo o que eu pudesse fazer era sorrir e mostrar mais ângulos da minha oferta.
Então, quando eu tive certeza de que a oferta tinha sido recusada e eles iam avisar aos professores da minha fuga me mandando de volta com o cabelo pegando fogo, a porta se abriu, permitindo a passagem de exatamente uma pessoa. Aliviada para cacete, eu falei vários obrigadas e deixei os produtos no chão, antes de correr para fora. Segundos depois, as portas se fecharam e a paisagem rapidamente mudou das paredes douradas para o início de noite azulado.
Eu estava fora da Escola. Tomara que aquilo valesse a pena.
No lado direito da minha visão, estavam as estufas, iluminadas pela lua que estava nascendo. Elas pareciam convidativas, porém um pouco distantes demais. Do lado esquerdo, a floresta se estendia escura e praticamente gritando “PERIGO”.
Diversos sons esquisitos vinham de entre as árvores e eu podia jurar que não eram como os das antas de três rabos das aulas de Trato de Criaturas Mágicas. Não, parecia um parente mais feroz e mágico da onça pintada e isso não parecia em nada um bom sinal.
Há quatro anos, a primeira vez que eu estive ali sem um professor, eu achei que tinha estado apavorada. Mas agora aquilo parecia uma tarde agradável e feliz perto do cenário que eu estava vivenciando.
Assim como da primeira vez, corri sem olhar para trás até alcançar as portas da estufa. Demorei um pouco mais do que gostaria e senti a força nas minhas pernas falhar um pouco. Maldito nervosismo. Porém, finalmente, consegui alcançar a belíssima e milagrosa porta da primeira estuda.
Ok, era só lembrar do passo sete. Passo 7... Branco.
Agora, com o barulho dos animais parecendo cada vez mais próximos, minha memória decidiu me abandonar.
Qual era a porcaria do passo sete?!
Alcancei o bolso e encontrei as chaves. Na minha frente, tinha um cadeado do mesmo material de uma chave pequena. Ela se encaixou perfeitamente.
Bom, o passo sete tem que ser simplesmente entrar na estufa, né? Foi o que eu e fizemos na outra vez. Mas algo martelava na minha cabeça, como se tivesse uma diferença muito importante entre aquela situação e essa que eu estava esquecendo.
Um uivo alto pareceu vir da floresta. Foda-se o roteiro. Eu queria ficar viva. No movimento mais rápido da minha vida, eu destranquei o cadeado, abri a porta, corri para dentro e fechei. Senti meu coração acelerado bater contra o peito, mas não pude deixar de suspirar.
– Deu tudo certo. – Sussurrei para mim mesma. Sem conseguir me controlar, ainda totalmente incrédula e apavorada, eu soltei uma gargalhada.
Mas, como não se pode comemorar nada no mundo, um barulho ensurdecedor reverberou por toda a estufa e fez minha cabeça parecer prestes a explodir. Caceta, como eu fui burra!
No entanto, antes que eu pudesse agoniar mais, tão súbito quanto começou, o barulho parou. Aquilo poderia parecer algo bom, mas eu tinha um péssimo pressentimento com aquela sorte. Engatinhei pelo local e me escondi muito mal atrás de um arbusto que tentava agarrar meu cabelo. Naquele momento, a porta se abriu e alguma coisa entrou. Meu coração parecia prestes a sofrer um infarto. Tentei respirar silenciosamente e suprimi um grito de susto quando a luz se acendeu do nada. Se meu esconderijo no escuro já não era bom, eu tinha minhas suspeitas de que o invasor logo me notaria.
Escutei passos que se aproximaram cada vez mais até a coisa ou a pessoa parar no que parecia ser bem na minha frente.
– Você nunca foi boa em seguir regras ou instruções, não é, ? – Uma voz humana e infelizmente familiar preencheu o espaço.
Me levantei do meu esconderijo, ficando cara a cara com a pessoa que entrara segurando um papel muito familiar no qual podia se ler “Breaking Free” no título. Me forcei a desviar os olhos do papel e levantar o rosto para encarar a pessoa, tentando manter alguma dignidade. Não pude deixar de sentir um arrepio e uma sensação de déjà vu com aquele sorriso de sabe tudo.
– Passo 7 – recitou, os olhos cravados nos meus. –, desligar os alarmes noturnos.


Capítulo 12

Um dia, eu ainda seria presa pelo homicídio de , e não seria culposo.
— Onde você conseguiu isso? — Eu perguntei, apontando para o papel. Eu podia sentir meu sangue fervendo lentamente, ao mesmo tempo que a sensação de estar ferrada me dominava.
— Para algo que parece tão importante, você nem ligou de largar em cima da sua mesa da aula de Transfiguração. — Ele falou, balançando o papel em uma pose, convencido. Eu sabia que, para ele, aquele seria seu momento de vitória.
Merda, xinguei na minha cabeça. Como eu pude ser tão desleixada? As noites mal dormidas estavam cobrando o seu preço.
— Me dá meu roteiro. — Ordenei, os dentes rangendo.
— O “Breaking Free”? — perguntou, fingindo inocência. — Hum, acho que não. Vou ficar com ele, obrigada. Sabe, eu adoro High School Musical.
— High School Musical não merece um fã como você. — O fuzilei, tentando pular para pegar o roteiro. — E isso é meu. Me devolve, agora.
— Achado não é roubado, quem perdeu é relaxado. — Ele replicou, quase cantarolando.
— Ah, para de ser assim tão crianção!
— Como se você não fizesse isso, não é, ? Tenho certeza de que só esse ano você já atormentou alguma alma com esses dizeres. — debochou, o roteiro cada vez mais alto e inalcançável.
— Mentira! — Repliquei, por mais que ele tivesse acertado em cheio. Eu falava isso direto toda vez que via um doce de Junior dando mole.
— É melhor se despedir da escola porque, depois disso, é provável que você seja expulsa. — Ele sorriu, maléfico.
Naquele momento, a raiva sumiu para abrir espaço para o desespero. Expulsa? Será que eu realmente deixaria Castelobruxo? Eu não era uma aluna excepcional como , mas a escola se tornou o meu segundo lar. Será que eu seria capaz de perder minha varinha, voltar para casa e retomar a vida que eu tinha há mais de cinco anos? E pior, além de tudo, sem ter estudado na escola trouxa por todo esse tempo. Eu seria mais um peso para mamãe, mais uma decepção.
Não, eu sabia que seria impossível viver sem as aulas chatas, sem os duelos bobos, sem as festas mágicas. Sem . Eu podia sentir as lágrimas querendo se formar em meus olhos, mas eu nunca, em nenhuma hipótese, me permitiria chorar na frente de . Ele, que estava ali comemorando que estava arruinando a minha vida.
Olhei para , deixando a raiva voltar a fluir pelo meu corpo. Antes que eu pudesse raciocinar, minha mão já estava na varinha. Encarei seu rosto, furiosa.
— Se eu vou me ferrar por sua causa, você vem comigo.
Sem pensar duas vezes, lancei um feitiço em direção ao alarme, que voltou a tocar, ainda mais chato e alto do que antes. Ao longe, ouvi os barulhos dos animais que pareciam estar reagindo ao alarme insuportável, mas que serviria como minha última realização. me olhou, completamente em choque.
— Ficou maluca, ?! — Ele exclamou, mas ficou parado no mesmo lugar, parecendo sem reação.
Aproveitando seu choque, tomei dele o meu roteiro e enfiei por dentro da minha blusa. Ele nem teve tempo de reagir.
Ao longe, dos sons animalescos, um em particular começou a se destacar. Um latido cada vez mais alto que parecia estar vindo em direção à estufa. Eu conhecia aquele latido. Olhei para , que ficou branco. Ele conhecia aquele latido ainda melhor do que eu.
Percebi quando , no impulso, foi se esconder atrás das plantas onde antes eu estava quando ele me pegou no flagra. Eu não me importava em me esconder. Não mais. Eu já tinha arriscado tudo por causa dos malditos sonhos e não ia sair dali antes de olhar aquele rio.
— O que você está fazendo? — sussurrou, mas eu apenas o ignorei. Corri até o fundo da estufa e encontrei o rio que passava ali por dentro. Devia ter um metro de largura, mas parecia bem profundo. Estava totalmente coberto por plantas esquisitas que se mexiam sozinhas. Um bolo se formou na minha garganta.
— Que fique registrado que eu deixo todos os meus bens para mamãezinha e que Junior não pode tocar em nada. — Murmurei, agarrando a varinha com força. — Deus, me aceite no céu, por piedade.
E pulei. O impacto da água fria me deixou desnorteada por uns segundos e eu só conseguia pensar “PUTA MERDA, ISSO AQUI TÁ MUITO FRIO, CACETA”, enquanto meu corpo ia afundando. Eu não conseguia enxergar absolutamente nada, assim como no sonho. Mas, para meu horror, alguma coisa estava se mexendo ali embaixo. Eu sentia o que pareciam dedos magros e compridos se enrolando no meu cabelo. Soltei um grito, mas apenas perdi mais ar e quase engasguei. Eu não era lá muito boa prendendo a respiração, sempre perdia naquelas brincadeiras de quem ficava mais tempo embaixo d’água, e começava a sentir os efeitos disso. E o que quer que fosse que estivesse encostando em mim, simplesmente não me largava, e eu só me arrependia mais do que tudo de ter pulado naquela água.
Quando pensei em nadar para a superfície novamente, no entanto, exatamente como no sonho, lá no fundo, talvez a uns dois metros mais profundo do que onde eu estava, um círculo verde com um círculo rosa por dentro brilhou intensamente. Eu podia ver agora que o que puxava meus cachos eram plantas do rio, mas, honestamente, eu nem estava ligando. Eu não era maluca, aquele símbolo realmente estava ali!
Ou eu já havia perdido o ar, tinha morrido e estava alucinando pós-morte. Era possível.
Já estava pensando no quanto eu queria que as pessoas chorassem no meu funeral, quando avistei, bem ao lado do círculo, mais alguma coisa brilhar. Arregalei os olhos, tentando ver melhor, mas a água ainda distorcia tudo. Nadei para o fundo, o que foi fácil com as plantas me puxando, e agarrei o pequeno objeto de brilho dourado. Porém, antes que pudesse pensar muito sobre ele, senti uma pressão extrema no pulmão e soltei todo o pouco ar que havia sobrado. Bom, morta eu não devia estar, porque morto não deve sofrer tanto. Desesperada e tomada pelo ímpeto de respirar, nadei o mais rápido possível para a superfície, as plantas ainda me puxando pra baixo. Puta merda!
Bati os braços desesperada como se eu estivesse tentando imitar um pato voador e, de alguma forma, por algum milagre, quando eu pensei que nunca chegaria, a superfície ainda muito longe, o ar alcançou meus pulmões. Eu estava viva!
Naquele momento de renascer respirando aquele ar tão perfeito e maravilhoso, muitas informações foram assimiladas pela minha lerda cabeça cheia de algas mágicas presas. A primeira é que o alarme não estava mais tocando. O que levava à segunda informação assimilada: alguém, ou algo, estava ali. Guardei o que quer que eu tenha achado no fundo do rio no meu bolso de trás encharcado. Assim que guardei o objeto brilhante, torcendo para que tivesse parado de brilhar para que eu não parecesse um vagalume com a bunda brilhante, eu percebi quem é que havia entrado na estufa. Exatamente quem eu sabia que havia escutado.
Recebi como uma confirmação de que ele também me via uma grande lambida na cara.
— Também estava com saudade, Chico.
O vira lata caramelo enorme sacudia o rabo empolgado, a língua caindo para fora da boca. Seus latidos eram animados, como alguém que parecia doido para brincar. O fofo não parava de me lamber, parecia ter gostado bastante daquela água bem duvidosa.
Porém, se o Chico estava ali, mais alguém estava.
— Por que não me surpreendo que você também esteja aqui, ? — Eu ouvi sua voz ressoar pela estufa.
Saí da água e me sentei no chão, sendo logo derrubada pelo Chico. Depois de fazer muito carinho no cachorro, me recompus e sorri amarelo para a mulher de pele vermelha e cabelos pretos parada ao lado de . Muito parecida com ele, exceto pelos olhos e pelos cachos do garoto.
— Oi, dona Nadi. — Eu acenei, sem graça.
Ela, no entanto, não sorriu e nem acenou de volta. Na verdade, parecia muito chateada.
— O que eu farei? — Ela massageou a própria testa franzida.
— Por favor, deixa a gente ir. — A voz de saiu fraca.
Membira, você tem noção do que fez? — Nadi falou triste para .
Há cinco anos, quando eu a ouvi pela primeira vez chamá-lo por esse termo, eu descobri o que significava. Filho, na língua nativa deles.
Até hoje eu não sabia como aquele garoto idiota havia sido gerado pela gentil enfermeira da escola que estava na minha frente.
— Sim, mãe, eu sei o que eu fiz. — Ele replicou, parecendo ganhar coragem. — Eu encontrei essa aqui fugindo da abertura dos Jogos Bruxos. Invadindo as estufas. Desrespeitando as regras e a escola!
Minha cara se fechou, mas antes que eu pudesse avançar no garoto, dona Nadi começou a falar:
Membira, você também não está na abertura dos Jogos Bruxos. — Dona Nadi pontou.
— Sim, mas...
— E, também, estava na estufa sem permissão.
tentava achar justificativa, mas o semblante sério da sua mãe foi deixando-o cada vez mais nervoso, até que ele se calou, resignado.
— Rá, toma essa! Bem-feito por tentar me expulsar da escola! — Gritei para .
— Mas... Ela precisa ser expulsa! — falou, irritado.
— Chega, os dois! — Dona Nadi gritou. Pessoas calmas irritadas eram mais assustadoras do que pessoas naturalmente irritadas. — Não me importa o porquê vocês estão assim sem serem mais amigos hoje em dia, o que importa é que ambos estavam desrespeitando às regras! — Ela, então, se virou para o filho. — , você não podia ter ido atrás dela, deveria ter chamado um professor. Agora, não sei o que fazer!
Dona Nadi parecia desolada e eu me senti mal. Eu sei que ela estava preocupada de ver o próprio filho ser expulso, aquela escola significava tudo para ela, e, mesmo que eu fosse amar ver longe de Castelobruxo, aquilo significava a minha própria expulsão. Por isso, eu precisava agir e bem rápido.
Ergui minha mão com a chave das estufas.
— Aqui está a chave. Eu encontrei perto da sala da dona Potira e decidi vir para cá buscar mais um pouco de pó de ipê dourado para a bandeira da nossa casa. Eu... Eu só... Queria que a gente ganhasse ponto extra para os Jogos Bruxos. Foi mal.
E comecei a chorar. Não foi tão difícil, na verdade, porque eu ainda estava sentindo toda a sobrecarga do medo de quase ser expulsa, de quase ter me afogado e de estar agora mentindo para uma das poucas pessoas boas dessa escola.
— É mentira! — bocó começou a falar. — Ela tinha todo um plano, eu estava com... — Ele procurou o papel, só parecendo se dar conta agora de que estava sem ele. — Estava aqui, agora mesmo!
, por que você quer tanto mentir? — Eu o questionei, ainda chorando. — Eu sei que você me odeia, mas isso é mesmo necessário?
O garoto parecia chocado e dona Nadi olhava de um para o outro, desconfiada.
— Por favor, dona Nadi, eu nem peguei nada porque o alarme começou a tocar e eu me joguei no rio com medo de ser expulsa. Você sabe que eu não posso ser expulsa. Eu vou ferrar toda a minha família e a minha vida! — Eu chorei, ainda mais. Puxa, eu podia investir na carreira de atriz. Juliana Paes que se cuidasse.
Dona Nadi olhava de para mim, parecendo dividida do que fazer, enquanto Chico balançava o rabo, alheio à toda tensão. Por fim, parecendo tomar sua decisão, dona Nadi tirou sua varinha de suas vestes e apontou para mim.
Ah, não, a mãe do meu ex melhor amigo ia me matar para se livrar de testemunhas e limpar a barra de !
Fechei os olhos com força, pela segunda vez naquele dia jurando que eu iria morrer, mas tudo o que eu senti foi minha pele seca e supreendentemente aquecida por um jato quente.
Abri os olhos, sem entender nada.
— Vocês não ficarão impunes. — Ela disse, guardando a varinha. — Mas não serão expulsos hoje. Vão ganhar detenção. E como eu vou explicar isso pra Potira, ainda não sei... Mas eu vou!
Eu suspirei aliviada e percebi que minhas lágrimas de crocodilo tinham se extinguido. Tudo bem, elas cumpriram um bom papel. Dona Nadi ergueu a varinha e organizou toda a estufa, consertando especialmente o alarme que eu havia feito disparar duas vezes naquela noite. Olhei em volta, surpresa com o estado impecável da estufa (melhor do que estava antes) e olhei rápido para o rio. Nenhuma luz verde estranha saindo dele.
Isso me lembrou do que eu havia pegado no fundo daquela água escura. Ainda não tinha conseguido descobrir o que era e ali era muito arriscado para tirar o objeto do bolso e finalmente matar minha curiosidade. Aquilo teria que ficar para depois. Percebi que estava me encarando com aqueles olhos bobalhões dele e apenas o encarei de volta, querendo que ele se mancasse. Ele, no entanto, só me ignorou e se virou para a própria mãe.
— Muito obrigado. — Ele resmungou. — E... Desculpa por te dar problemas. Não vou fazer isso de novo. — Ele sussurrou, tão baixo que eu quase não ouvi, e com a voz tão triste que eu quase senti pena. Quase. — Agora, vou voltar para o Fogão. Pode levar a delinquente embora.
A mãe do garoto correu para me segurar.
— Vou te mostrar quem é delinquente! — Gritei para ele.
— Chega! — Dona Nadi exclamou. — Vocês não aprendem nunca? E pode ficar, , todos vocês vão voltar para a abertura dos Jogos Bruxos.
— Uhul! Bora, Boitatá! — Eu gritei. Pelo menos, não ia perder toda a abertura.
— Não porque vocês merecem. — Dona Nadi falou, olhando diretamente para mim, e pude ver o sorriso presunçoso no rosto de . — E sim porque vou entregá-los diretamente à professora Potira. Agora, vamos andando.
Depois de soltar um muxoxo, eu, , dona Nadi e Chico saímos das estufas, que foram devidamente trancadas pela mais velha. Seguimos então da floresta escura para dentro da escola segura e brilhante, fugindo dos barulhos assustadores que vinham de fora. Cruzamos os portões e entramos na escola. Depois, percorremos todos os corredores e escadas até alcançarmos a entrada das quadras esportivas. O caminho foi percorrido em total silêncio (para minha enorme agonia, porque o nervosismo só me fazia ter vontade de tagarelar ainda mais). Ninguém se olhava e nem abria a boca, só Chico de vez em quando pedia carinho.
Enfim, entramos nas quadras e o silêncio absoluto foi substituído por uma gritaria imensa. A cena aqueceu meu coração. Diversos grupos com as cores das casas, gritando sobre serem as melhores, bandeiras para todos os lados, alguns com mascotes improvisados, todos pulando e tentando mostrar que eram os maiores. Aquele sim era meu lugar. Eu pertencia àquele caos e por isso eu amava tanto os Jogos Bruxos.
Dona Nadi agarrou meu braço com uma mão e, com a outra, fez o mesmo com , como para garantir que não iríamos fugir, e nos escoltou pelo que pareciam quilômetros até chegarmos perto dos professores, deixando Chico para trás, provavelmente pelo barulho ser desagradável para ele. Então, se virou para nós dois.
— Eu ainda estou pensando no que direi. Independente do que eu falar, apenas concordem, entenderam? Vocês têm muito em risco aqui.
Depois de tanto eu quanto confirmarmos com a cabeça, dona Nadi voltou a nos escoltar até os professores, alcançando a profe Potira.
— Boa noite, Potira! — Dona Nadi cumprimentou, gritando, para tentar se sobrepor a todo o barulho.
— Nadi, querida, boa noite! Tudo bem? Veio me perguntar do estoque de mandrágoras? Receberemos um novo na semana que vem e aí até o fim do semestre elas devem estar maduras e bem crescidas! — A profe falou como se estivesse falando das próprias filhas, e era quase isso mesmo.
— Potira, por mais que essa notícia me deixe muito contente, infelizmente, não é por isso que estou aqui. — Dona Nadi nos puxou para a frente e a profe pareceu finalmente nos notar.
— Ah, nossa atleta brilhante e seu filhotinho! — Tive que segurar o riso da cara feia que fez ao ser chamado de filhotinho. Porra, eu queria uma foto daquela cena para rir sempre que eu me sentisse no fundo do poço. — Algum problema com os dois pombinhos, Nadi?
Quando a profe falou a palavra “pombinhos”, os olhos da dona Nadi pareciam ter sido iluminados, o que era bem estranho, considerando que a profe estava falando do filho dela comigo e a gente não se suportava.
— Sinto informar que, sim, Potira, tive problema com os pombinhos. — A ênfase que a dona Nadi botou naquela palavra fez um arrepio subir pela minha espinha. Estava com um mal pressentimento. — Encontrei os dois nos corredores, quando todos estavam aqui na abertura.
Tentei abrir meu melhor sorriso culpado para profe Potira. Não tinha mais lágrimas falsas para gastar hoje e estava torcendo muito que a dona Nadi tivesse tido uma boa ideia para livrar a gente do problema.
— A segunda vez que os dois estão encrencados e mal tivemos um mês de aula! — A profe falou e não pude deixar de perceber que era provavelmente um novo recorde, ser pega duas vezes em um mês. Eu estava perdendo o jeito. — E o que os dois estavam fazendo no corredor sozinhos quando deveriam estar aqui?
Antes que eu ou começássemos a falar qualquer desculpa esfarrapada, a dona Nadi retomou a palavra, parecendo meio afobada:
— O que você acha que dois adolescentes estavam fazendo sozinhos no corredor, Potira?
Puta merda. Meu queixo foi para o chão, eu tinha certeza. Aquela mulher estava insinuando que eu tinha beijado a boca nojenta e capenga do ? Ela queria simplesmente arruinar minha reputação?!
Antes que eu pudesse contrariar qualquer coisa, porém, eu vi a cara da dona Nadi de quem ia me matar se eu abrisse a boca. Até porque eu tinha concordado em concordar com qualquer porcaria que ela inventasse. Droga!
A cara de repulsa que estava fazendo mostrava que aquilo era uma realidade tão terrível para ele quanto para mim. Como se ele pudesse reclamar! Se fosse verdade, ele ia estar se dando bem de pegar uma grande gostosa como eu! A minha reputação é que ia cair, vai que acham que agora eu pego qualquer lixo? Torci que aquela mentira só ficasse entre a gente e abri um sorriso culpado, engolindo o nojo para falar:
— Desculpa, a gente não conseguiu evitar, mas não vai se repetir.
Eu já não sabia se meu sorriso não tinha virado uma careta. me encarava, incrédulo.
A profe Potira, no entanto, abriu um sorriso que eu poderia interpretar como malandro.
— Ah, eu já tive a idade de vocês. As plantas sabem o quanto eu aprontei... — Ela riu de leve, mas só tive mais vontade ainda de vomitar. Eu não queria imaginar minha professora velha dando uns pegas por aí. — Mas, infelizmente, não posso deixar barato. Poderíamos ser muito prejudicados nos Jogos Bruxos se não fosse a doce Nadi que tivesse visto vocês, sabiam? — A profe me olhou e me senti culpada, ela nem sabia o quanto aquilo era verdade... A profe Potira suspirou. — Bom, hoje é dia de alegria, então vou deixar passar, mas na sexta feira, sem falta, vocês vão voltar para limpar a biblioteca. Amélia reclamou várias vezes que o trabalho de vocês ficou malfeito. Então, dessa vez, esfreguem bem os panos, sim?
Demorei para entender que ela queria alguma resposta, então só escutei a voz irritante do bobalhão falar:
— Claro, professora Potira.
— Excelente! — A senhora bateu palmas. — Agora vão para lá com os alunos do sexto ano do Boitatá, precisamos de vozes extras para ganharmos os pontos de melhor torcida. — A professora piscou, apontando para um canto bem longe da esquerda. — E nem tentem fugir de novo, pombinhos!
Fingimos rir e saímos da zona dos professores, deixando dona Nadi para trás. Caminhamos emburrados para a parte esquerda (nem mesmo a energia incrível dos Jogos Buxos poderia me descontaminar da proximidade de ), mas, por alguma razão, não nos separamos. Talvez tenha sido porque, no fundo, sabíamos que iríamos encontrar o que encontramos.
estava nas costas de , segurando algumas bandeirinhas e cantando junto com a torcida. Quando chegamos perto dos dois, eles nem pareciam estar surpresos.
! — gritou. — Você está bem? Que bom que você está aqui e não teve tempo de fazer nenhuma loucura.
— Ah, ela teve sim! — rebateu e eu juro que faltava muito pouco para eu avançar nele.
— Ei, , a está precisando de ajuda lá em cima com as bandeirinhas, pega a nas costas para ela ajudar! — debochou do garoto.
— Mais fácil eu levantar o fracote. — Eu rebati, fazendo rir. Eu sentia falta de seu jeito bobo, sempre fazendo piadas e nunca levando nada a sério. Como ele podia se dar bem com alguém como ?
— Vão à merda, vocês dois! — gritou, fazendo a risada de aumentar e me tirando um sorriso sarcástico. Ele podia estar zoando com , mas não duvido que ele desejasse aquilo para mim.
As torcidas gritavam juntas e aquilo tornou um pouco menos estranho o fato de estarmos todos juntos de novo. Aquilo parecia como um sonho meio confuso e antigo.
Pensar em sonhos me despertou para o objeto em meu bolso. O objeto que eu nem sabia o que era. Coloquei minha mão no bolso de trás e o senti ali, um pouco gelado. Parecia de metal. Com medo de alguém roubar o negócio do meu bolso, peguei-o e trouxe para a frente dos meus olhos.
Era uma chave. Uma chave que parecia tão dourada e tão antiga quanto a estrutura de Castelobruxo. Que merda aquela chave tinha a ver com tudo para que eu tivesse sonhado sem parar com as estufas até conseguir pegá-la?
Com medo de perder a chave ou chamar muita atenção, a coloquei no local mais seguro que eu conhecia: dentro do meu sutiã. Naquela noite, ninguém ali poderia terminar com as mãos no meu peito. Era a melhor opção.
Olhei em volta, percebendo muito feliz e distraída por estar nos ombros de , enquanto esse discutia com . Seria muito fácil fingir que estava tudo bem e éramos todos amigos, mas não era bem assim.
Desculpa, , mas, depois dessa noite, tudo iria voltar ao normal.


Capítulo 13

A chave encontrada na quinta-feira da abertura dos Jogos Bruxos estava bem guardada em uma caixa mágica que só podia ser aberta por mim, presente dos meus 12 anos que foi dado por meus melhores amigos da época que, além de , não merecem ser comentados. Mesmo com ela guardada ali, porém, aquela coisinha dourada havia alugado um triplex na minha cabeça.
Onde caralhos, numa escola com milhares de portas e maior que o Maracanã, eu ia achar o local específico que a chave encaixava?
Passei sexta, sábado e domingo com isso na cabeça. Menos quando eu estava fazendo uns cartazes para o Boitatá, fugindo para uma pequena festinha dada por uns alunos do último ano e pensando nas melhores estratégias para os Jogos Bruxos. Ou seja, quase o tempo todo.
Mas, na segunda feira, só naquela linda segunda feira, eu iria fingir que nada disso estava acontecendo. Porque o evento mais importante de todos aconteceria: o primeiro jogo de bola de fogo.
— Mas eu te juro, , se a June soltar a bola duas vezes de novo, eu mato ela...
— Shh! — me repreendeu, embora eu pudesse ver que ela estava a um suspiro de uma gargalhada. — , eu preciso prestar atenção, para de brincadeira.
— Mas não é brincadeira! Eu mato ela! — sussurrei.
Como, eu digo, COMO os professores podiam seguir uma aula normalmente num dia em que teríamos o primeiro jogo de bola de fogo? A aula normalmente já era tortura, aquilo era um crime, um ultraje!
Mas é claro que , sendo a aluna perfeitinha que era, não poderia se deixar perder uma palavra da professora de Herbologia, que disse que aquela matéria era essencial para depois aplicarmos o que aprendemos na estufa. Eu, honestamente, já tinha lidado com aquele lugar o suficiente na quinta passada. Por isso, não me preocupei em ignorá-la e pensar na formação do nosso time: nossos elos fracos, nossas melhores arremessadoras, nossas principais agarradoras, aquelas que conseguiam se desviar de qualquer bola e seriam essenciais na contagem final e eu: capitã e campeã, devo dizer de forma humilde.
Sorri para o papel enquanto pensava no jogo que se desenrolaria naquela tarde. A primeira casa que enfrentaríamos era a casa das Fadas: não eram extremamente fortes, mas trabalhavam muito bem em grupo e sabiam explorar seus pontos fortes, além de que Marynna podia ser uma boa arremessadora. Mas a sorte ainda estava do nosso lado.
Ainda rabiscava o papel, pensando em mais estratégias, quando a Prof. Potira se virou para nós, com sua voz de gente velha gentil:
— Por hoje é só. Lembrem-se de finalizar o trabalho de vocês sobre a planta de sua escolha e suas propriedades mágicas. Deixem de preguiça antes que criem raízes! — A prof. riu sozinha da sua piada de plantas, mas nem se importou.
— Eu já fiz esse trabalho, ?! — perguntei, enquanto guardava tudo com pressa. Agora só o almoço me separava de acabar com o time das Fadas do sexto ano com a melhor versão de queimado já inventada.
— Não, você não fez. E eu não sou sua agenda!
— Mas é minha melhor amiga. — Mandei um beijinho para ela, que revirou os olhos, mas sem conseguir conter um sorriso.
!
O chamado da prof. Potira me fez arregalar os olhos. O que eu tinha feito agora?
— Oi, prof., me chamou?
— Chamei sim, . Queria dizer que eu estou muito orgulhosa de você.
Arregalei os olhos, em choque.
— Mas que p... — Engoli o palavrão, transformando-o em um pigarro. — Quero dizer, mas que surpresa, prof. Sabe, não é algo que eu ouço muito, né? O que eu fiz?
— Passou uma aula inteira aqui mesmo querendo correr para a quadra imediatamente. Devo dizer que foi a vez que você melhor se segurou!
Eu realmente não sabia se era uma piada comigo ou um verdadeiro elogio. Como a Potira era maluca, mas gente boa, escolhi pensar que era a segunda opção.
— Valeu, prof., eu estou me esforçando.
— Eu sei que sim. E se esforçará melhor ainda na detenção dessa sexta, eu espero que você e seu paquerinha não larguem tudo sujo dessa vez.
— Ele não é... — Segurei minha língua, de novo, me lembrando da mentira que tinha me salvado de algo pior que uma detenção. — Claro, prof.
Ela me olhava, claramente divertida com o fato de eu ter que me segurar na frente dela, mas nada mais disse. Para mim, pelo menos, porque ela conversou horrores com uma muda rosa berrante que ela tirou do próprio bolso.
me alcançou na porta e nós duas observamos a Potira se afastar.
— Ela é meio maluca, mas acho que ela realmente gosta de você. Você devia se esforçar mais na aula dela.
Suspirei. sempre dizia coisas como essa, mas ela realmente não entendia. Ela era uma menina que gostava de ler e estudar, além de ser boa nessas coisas de ser inteligente e tal. Eu era a , a garota que nunca era boa em nada. Era engraçada, talvez agressiva, mas nunca inteligente. Eu falhava como uma criança trouxa e falhava como bruxa também. Estudar e não entender nada só fazia eu me sentir mais estúpida então, em algum momento, eu só parei de tentar. Era melhor levar nota ruim por não tentar do que tentar e não ser suficiente.
Mas eu não iria falar isso para ela. Não eu, a amiga engraçada e descontraída. Por isso, eu só fiz cara de tédio.
— Tá bom, eu prometo fazer hoje do jogo. Depois de ganhar!
— O que você definitivamente vai conseguir. — ela disse, tão verdadeiramente animada por mim que eu prometi para mim mesma tentar escrever alguma bobagem qualquer sobre uma planta mágica.
Chegamos no Grande Salão e eu já estava pronta para devorar o almoço do dia: estrogonofe. Mesmo com a barriga meio se revirando de ansiedade, eu não ia deixar de comer uma das melhores refeições existentes. O local estava mais barulhento que o normal, tanto pelo início dos Jogos Bruxos, quanto pelo prato que era um dos preferidos. Mesmo que algumas pessoas cometessem o crime de misturar com feijão.
Quando a sobremesa estava sendo servida, bolo de aipim, a diretora Alba se levantou e todo mundo ficou na expectativa. Aquilo era mais emocionante que plantão do Jornal Nacional ou final de Novela. Ok, talvez só não tanto quanto o final de Avenida Brasil.
— Boa tarde, queridos alunos! — Todos gritaram “boa tarde” de volta, as casas disputando quem responderia mais alto. — Eu sei, eu sei, estamos todos ansiosos para a primeira partida dos Jogos Bruxos. Quero apenas relembrá-los que a partida começará daqui a uma hora e meia, com tolerância de cinco minutos de atraso, senão os times fora do horário serão desclassificados. Os times que não foram escalados para jogar hoje são muito bem-vindos nas arquibancadas. Por todos os corredores, vocês irão encontrar cartazes com os indicadores das quadras em que cada jogo ocorrerá e a programação do próximo dia de Jogos Bruxos, que será na sexta feira.
Quando a diretora falou sobre os cartazes, eu dei um pulo no banco e, no final da sua frase, eu já estava estapeando algumas crianças pelo corredor para conseguir alcançar o cartaz, arrastando junto. Quando finalmente encontrei, li primeiro sobre a programação de sexta feira.
— Merda, eu sei que nunca botam os mesmos times do primeiro dia para jogar no segundo, mas toda vez que eu vejo, eu me irrito de novo. — Bufei, olhando que o próximo jogo feminino do sexto ano de bola de fogo seria entre Curupira e Iara.
— Mas pelo menos os meninos vão jogar, podemos torcer para eles. — apontou para a linha que indicava a partida entre os times masculinos do sexto ano do Boitatá e Boto. Eu sabia que ela não queria ir para torcer para o nosso time, e sim para um jogador específico, mas eu estava muito agitada com o jogo para comentar algo.
Meu olhar desceu pelo cartaz até encontrar a quadra do nosso jogo de hoje.
— Quadra 2B. Podia ser pior — comentei.
— É aquela das goteiras?
— Sim, mas não tá chovendo, então tudo bem.
Eu e nos afastamos do cartaz, deixando os aluninhos baixinhos do primeiro ano se aproximarem naquela maré. Agora, eu tinha um novo desafio para enfrentar: o que fazer até o jogo das três da tarde.
No passar daquela uma hora e meia que foram sentidas como dolorosos cinco anos, eu troquei meu uniforme tradicional para o meu uniforme esportivo: um short de ginástica de cintura alta branco com listras verdes com comprimento até o meio da coxa e um top igualmente branco que mais parecia uma camiseta. Nele, um desenho laranja vibrante do boitatá ficava se mexendo magicamente no lado esquerdo. Coloquei também um presente que as mães de haviam me dado de Natal no ano passado, uma das coisas que eu mais amava no mundo: um tênis vermelho que, conforme a pessoa ia usando, acumulava energia e permitia que ela fosse ficando mais rápida. Um modelo que qualquer atleta grande tinha, e agora eu também.
Também pintei meu rosto junto com as minhas outras nove companheiras de equipe, mais as nossas três reservas. Mesmo com o estômago embrulhado, estar em equipe sempre me alegrava. e eu nos separamos nesse momento, já que ela se juntou com o grupo responsável pela torcida organizada. Por mais que ela não ligasse muito para esportes, sempre estava lá para torcer por mim, e isso me deixava muito feliz.
Com o tempo restante, eu e as meninas combinamos nossas táticas (as anotações da aula de Herbologia foram bem mais úteis que qualquer matéria que a prof. Potira possa ter dado). Com tudo certo, chegamos na quadra com meia hora de antecedência para alongarmos e aquecermos. O que eu atrasava em aula, compensava com minha pontualidade no que realmente importava: os esportes.
O jogo aconteceria na segunda quadra do segundo complexo esportivo da escola. A abertura havia acontecido no primeiro complexo, o ginásio do primeiro andar do subsolo, e nós estávamos ainda mais abaixo. O segundo ginásio era tão grande quando o primeiro: algo necessário para uma escola com tantos alunos. Sete quadras se espalhavam pelo complexo, mas a torcida do sexto ano estava dividida entre as duas primeiras: na quadra 2A, aconteceria o jogo masculino, enquanto na 2B seria o nosso.
A arquibancada começava a encher e eram tantos pontinhos de gente que eu não conseguia imaginar onde estava . Provavelmente já havia conseguido encontrar andro) e o amiguinho insuportável. Mas, só hoje, eu não ia me incomodar que ela estivesse com eles: eu tinha algo mais importante acontecendo.
O time das Fadas chegou e começou a se aquecer na quadra. Faltando dez minutos, a professora Nicoletta apareceu: ela apitaria o jogo, o que, para mim, tudo bem. Ela tinha a sua pose de boazinha e distraída, mas não privilegiava ninguém, e isso que importava para mim.
O jogo nem tinha começado e a gritaria nas arquibancadas já era ensurdecedora. Eu adorava assistir jogos, por mais que às vezes me envolvesse um pouco mais do que devia, mas jogar era diferente, era uma das melhores coisas que existiam, que me fazia sentir viva e útil. Nosso time se reuniu pela última vez e esperou a professora dar início à partida.
Quando o relógio marcou três horas em ponto, como os dois times já estavam em quadra, a professora enfeitiçou a própria voz e o próprio apito e falou para todos:
— Boa tarde! Como é o procedimento padrão, revisaremos as regras do jogo agora: cada time só pode ter dez jogadoras em quadra por vez e as substituições são livres na área das não queimadas. Se uma estudante estiver queimada, exceto se estiver machucada, ela permanecerá no jogo. Participantes queimadas são aquelas acertadas pelas bolas ou cujos arremessos foram segurados pelo outro time. Teremos dois tempos de 30 minutos e prorrogação com apenas uma bola e eliminação imediata, se necessário. Ganha o time que conseguir fazer com que todas as oponentes vão para a área das queimadas. O jogo acaba nesse instante, independente se os dois tempos foram concluídos. — A professora continuou enumerando as regras. — Uma queimada só volta para quadra se queimar alguém do outro time. Todas começarão no fundo da quadra e cinco bolas serão dispostas no meio. Quando o apito soar, vocês devem correr para pegar as bolas. Se alguém largar antes ou invadir o campo adversário, será considerada queimada. Se alguém soltar a bola por queimar a própria mão duas vezes, será considerada uma queimada. Luvas de couro de dragão não são permitidas, assim como varinhas e objetos mágicos que não estejam aceitos no regulamento padrão. Feitiços de invulnerabilidade ou que causem qualquer confusão para o adversário não são válidos. A quebra de qualquer uma dessas regras levará à expulsão. Estamos entendidas?
— Sim, professora Nicoletta — as meninas responderam, em coro.
Eu odiava as explicações de sala de aula, mas estava devorando aquelas instruções, por mais que já a tivesse escutado. Afinal, eram elas que precediam o mágico som do apito que dava início ao jogo.
E, do fundo da quadra, aquele som mais melodioso que qualquer violino soou.
Corri imediatamente para a quarta bola e uma menina das fadas, que vinha na minha direção, simplesmente deu meia volta quando viu o quão rápido que eu me aproximava.
Sorri para mim mesma. O jogo seria excelente.
De início, pegamos três bolas e elas duas, o que deixava tudo muito equilibrado. Arremessamos as bolas ao mesmo tempo que elas. Conseguimos queimar uma das arremessadoras e uma das que estavam no fundo, enquanto elas queimaram Paola do nosso time. Pelo menos Paola era excelente nas jogadas de bola da área das queimadas para nós.
Estávamos com duas bolas do nosso lado e elas tinham três. Com a estratégia pensada mais cedo, ficamos passando as nossas bolas entre nós para ninguém segurar por muito tempo e se queimar, ao mesmo tempo em que esperávamos que elas lançassem as bolas delas. Eu, María Florencia e Yelitza nos dividimos e, quando as meninas da casa Fada arremessaram suas bolas, nós três as agarramos. Agora, tínhamos as cinco bolas em nossa possa e tínhamos que aproveitar bem.
Passamos uma para Paola e nos preparamos para arremessar. Encurraladas no meio da quadra, conseguimos queimar três delas, mas as outras duas foram agarradas, e María foi queimada junto com Catalina. Paola, em compensação, voltou para o grupo inteiro.
Eu não ouvia os gritos, mal ouvia ninguém além das minhas colegas, completamente focada no que eu tinha que fazer no momento. Quatro das cinco bolas agora estavam com elas e nós tínhamos que pensar em como nos proteger do próximo ataque, ainda mais quando elas tentavam copiar nossa estratégia.
Os primeiro 30 minutos se passaram e tivemos uma pausa. Sete das jogadoras delas estavam queimadas, enquanto só tínhamos três nossas do outro lado. Algumas meninas estavam pensando em substituição por estarem cansadas e, também, bebiam água (além de jogar em alguns machucados na mão). Mas, na hora do intervalo, eu só consegui gritar.
— JUNE, VOCÊ SOLTOU A BOLA DUAS VEZES! DE NOVO!
A menina começou a soluçar de tanto chorar na minha frente e as outras meninas começaram a me olhar como se eu fosse um monstro. Pelo amor de Deus, a garota erra, é dramática e a culpa é minha?!
, não precisa ser tão grosseira...
— Preciso, María! Pelo jeito, eu preciso, já que não fui o suficiente ano passado para ela cometeu o mesmo erro agora! Foi assim que perdemos da casa Iara da última vez, ou já esqueceram?
— Então é melhor eu não jogar. — June disse, no meio de um soluço.
As meninas arfaram e começaram a tentar convencer June a jogar, mas eu não ia cair naquele afago de ego. Se tivesse jogado bem, não precisaria choramingar atenção de ninguém, conseguiria isso sozinha.
, venha cá.
Catalina me puxou para um canto, um pouco afastada das outras meninas. A menina, apesar de super alta e musculosa, tinha um rosto muito delicado que condizia com sua personalidade doce. Sempre chorava se machucava alguém em um dos jogos e não se sentia bem até saber que estava desculpada e a outra pessoa estava curada. Não me surpreendeu que ela me chamasse.
— Eu sei que você não vai ouvir sua sensibilidade, então pense no seu benefício — Catalina disse, me deixando intrigada. — June é excelente em arremessar as bolas para nós de forma rápida estando na quadra das queimadas. Se ela sair, uma das meninas reservas e não aquecidas já vão entrar lá, não vão conseguir acertar ninguém e nem vai nos ajudar. É melhor a Merlía sair e a Joanna entrar no lugar dela já que ela ficou um pouco machucada depois que bateu o joelho, e a Jo se vira melhor na quadra do que no campo das queimadas.
Eu sabia que era pura estratégia para eu aceitar o erro horroroso da June e o dama insuportável. Mas, que merda, ela tinha razão.
Bufando, fiz o meu melhor para engolir o orgulho e a raiva e me virei para a June que, por mais irritante que fosse, era do time agora. E o time precisa sempre estar unido.
— June, me desculpa. — Minha voz estava saindo quase estrangulada e robótica. — Eu estou nervosa e descontei em você. Você pode jogar com a gente ainda?
June enxugou uma lágrima generosa e, com um biquinho, me olhou de cima a baixo. Se não fossem os jogos, ah, eu tinha bem catado ela para um duelo, ou talvez só dar o bom e velho pescotapa.
Mas, como aquilo eram sobre os Jogos Bruxos, eu abri o sorriso mais forçado que eu já havia dado.
Em resposta, June fungou e se virou de costas.
— Tá.
Naquele momento, a professora Nicoletta apitou, indicando o fim dos nossos cinco minutos, e meu sangue ferveu. Não mais pela raiva (ok, talvez um pouquinho pela raiva), mas pela adrenalina de voltar para a quadra. De voltar para a vitória.
Nós trocamos de lado para que depois nenhuma alegação de vantagem de luz, buraco ou qualquer coisa fosse feita, e cada jogadora se posicionou de acordo com sua posição: em quadra ou queimada. Pelo menos, a cara irritante e inchada de choro da June foi para longe de mim.
As cinco bolas foram distribuídas de acordo com onde estavam quando o primeiro tempo terminou. Três estavam com as Fadas e duas com a gente. Quase o oposto do início. Mesmo sem a vantagem numérica, ainda tínhamos a vantagem de habilidade.
Quando o apito indicando o início do segundo tempo soou, eu mirei em Marynnah, mas errei por pouco. Por sorte, ninguém segurou a bola e eu desviei a tempo de três contra-ataques direcionados. Assim como Marynnah era a melhor jogadora delas, eu era a nossa melhor jogadora. Cinco das sete queimadas estavam nessa posição por minha causa. Eu era o maior alvo no momento.
Quinze minutos depois, eu estava exausta. Em toda oportunidade, elas estavam mirando em mim. Queimei uma delas, mas elas não queimaram ninguém do nosso time com arremesso, apenas Marynnah agarrou duas bolas que botaram Joanna e Karlita na área das queimadas. Eu mal tinha tempo de desviar de todas as bolas vindas de frente e de trás, então nem conseguia contra-atacar. Catalina não queria que eu o fizesse mesmo, porque tinha medo de que Marynnah agarrasse a bola, mas o que eu podia fazer? Esperar até só sobrarmos nós duas?
A atleta das Fadas exigia um plano elaborado para ser eliminada, então as meninas começaram a focar em eliminar Samara, a outra participante restante do lado das Fadas, e impedir a volta de qualquer queimada.
Com um pouco de esforço, fomos bem-sucedidas nessa parte, restando agora o trabalho mais complicado. Ela estava jogando melhor que no ano passado, o que era extremamente irritante, ao mesmo tempo que era animador. Nenhum jogo fácil é legal de ser jogado.
E aí eu percebi o erro de Marynnah. Por mais excelente jogadora que ela fosse, seu reflexo sempre fazia com que ela se assustasse quando uma bola ia para a zona das queimadas e corresse para o meio sem olhar para o chão. Ela só não chegava tão perto da linha porque percebia que nós estávamos perto e tinha medo também das nossas bolas. Mas e se...?
— María... — sussurrei para ela. — Fale para as meninas começarem a chegar discretamente para trás. Vão mandando as bolas para o lado das queimadas e não deixe que elas devolvam.
— Isso não faz muito sentido, não é melhor atacarmos dos dois lados? — ela sussurrou de volta e eu me abaixei rapidamente de uma bola jogada por Marynnah que foi para a área das queimadas do time das Fadas.
— Ela não vai cair nesse truque. Mas olhe como ela chega para trás. Cabeça erguida.
— Perto da linha. — María completou, seus olhos se iluminando. — Vou passar o recado.
O time todo rapidamente estava sabendo do plano e quando Yelitza se jogou na minha frente para ser queimada por Marynnah, foi para a zona das queimadas com a única bola que não estava no nosso domínio e levando o plano para as meninas queimadas.
Sem risco de sermos queimadas pelas adversárias, fomos discretamente chegando para trás enquanto Marynnah se distraía com a ida de Yelitza para o outro lado. Quando nossa companheira de equipe chegou na zona das queimadas, lançamos as duas bolas que estavam conosco para lá. Era agora ou nunca.
A menina da casa das Fadas imediatamente começou a correr para trás. Olhou rapidamente para trás para ver onde nós estávamos e ganhou certa confiança na corrida ao ver que tinha distância entre nós, sem perceber que não era a mesma distância em relação à linha. Faltava muito pouco. Ela continuava correndo. Ela começou a desacelerar, ao contrário do meu coração, que disparou de medo. Não ia dar certo, não ia dar certo...
Mas ela não desacelerou o suficiente. A ponta do pé de Marynnah ultrapassou a linha que, antes branca, magicamente ficou vermelha para indicar a falta. A professora Nicoletta tocou o apito.
— Invasão do campo adversário. Vitória da casa Boitatá!
Berrei tão alto que perdi o fôlego e sabia que ia ficar rouca depois. Com a tensão encerrada junto com o jogo, senti como se meus ouvidos tivessem desentupido e eu pudesse escutar toda a plateia novamente. Todo o resto do sexto ano do Boitatá, algumas pessoas de outros anos da casa e ainda alguns de outras casas desceram para comemorar a vitória. Todo o time se abraçou e saiu gritando em comemoração com a plateia. Abracei June como se ela fosse minha melhor amiga.
! !
E, falando de melhor amiga, chegou perto de mim, o rosto pintado com uma bandeira laranja delicada que ficava adorável em seu rosto. Nós nos abraçamos e, pulando, giramos pela quadra, gargalhando de felicidade.
— Você ganhou! Você ganhou o primeiro jogo!
— É claro que ganhei, eu te disse que ia ganhar!
— E não matou a June! Ah, , estou tão orgulhosa!
Nem me importei em corrigi-la sobre eu quase ter matado a June sim, apenas ri ainda mais e berrei junto com todos a torcida da nossa casa.
Até eu perceber a presença de e andro) . Revirei os olhos, mas nem eles eram capazes de estragar meu bom humor.
— Parabéns, ! Você detonou com elas! — me parabenizou e, por um segundo, até esqueci que ele tinha decidido ficar do lado do amigo babaca dele.
— Valeu, andro). Espero que você ganhe e não passe vergonha na sexta!
continuou quieto, arrogante demais para falar comigo, e, no meu bom humor, não resisti a tentação de provocá-lo.
— Não vai me parabenizar?
— Não te vi vencendo nada. Vi uma garota perdendo por idiotice. — ele respondeu, todo pomposo. Sério, ele era insuportável, mas eu continuei sorrindo, pois sabia muito bem como responder aquilo e tirar o deboche de seu rosto.
— Não foi idiotice. Foi estratégia da senhorita aqui. Ela não estava olhando para a linha e se baseava na distância só olhando para nós, então...
— Vocês chegaram para trás para confundi-la. — completou, parecendo verdadeiramente impressionado. Meu sorriso triplicou e talvez tenha sido isso que tenha feito com que ele voltasse para sua habitual careta. — Bom saber que dois dos seus trilhões de neurônios funcionam, .
andro) e , sabiamente, se colocaram entre a gente, porque eu estava prestes a avançar naquele garoto ridículo e imundo com síndrome de superioridade.
— Já ia partir para a violência? É só isso que sabe fazer? — ele continuou.
... — andro) o repreendeu.
— Tudo bem, . Deixa ele continuar com essa arrogância. — eu disse, respirando fundo. — É tudo inveja. E a soberba do vai estragar a vida dele sem eu precisar interferir.
Sem nenhuma paciência para ouvir a resposta dele, eu peguei pela mão e a guiei na direção que a multidão seguia, tentando voltar a ficar imersa no clima da minha vitória merecida e esquecer aquele estúpido.
Para minha sorte, eu consegui quase completamente.

☄️


No saldo do dia, ganhamos três dos cinco jogos que jogamos, então é claro que todos (exceto os dois times perdedores) estavam de bom humor: começamos bem os jogos. É claro que ainda tínhamos que melhorar, mas a gente tinha bastante chance.
Naquele momento, porém, eu estava sentada em uma cadeira com a coluna mais torta possível e sentindo muito tédio.
— Qual é, , eu acabei de ganhar um jogo e ser uma heroína, eu preciso mesmo fazer o dever de casa?
O livro de Herbologia estava na minha frente, mas eu só conseguia brincar com as folhas, juntando duas encurvadas no meio para formar um coração. Ou uma bunda. O formato não estava muito definido.
, você prometeu que faria o dever hoje depois do jogo. — minha amiga falou.
— Prometi? Você tem provas disse? Se não tem registro, não aconteceu.
! — O grito de fez com que eu soltasse as páginas que formavam o coração/bunda. Bufei, frustrada que não os tinha analisado o suficiente. — O ano está começando. Daqui a dois meses, teremos os primeiros testes. Você quer já se ferrar desse jeito?
— Eu não quero me ferrar, . Mas é insuportável.
— Talvez, se você tentasse, não achasse insuportável. Você sequer tentou ler o livro para tentar escolher uma planta bem fácil de escrever sobre?
— Não.
— Então é bom começar. — Respirei fundo, jogando minha cabeça para trás e encarando o teto. Escutei suspirar. — Posso até te ajudar a selecionar algumas mais fáceis, mas você precisa ler sobre elas e escolher, ok?
— Ah, , obrigada! Só de não ler as piores, você já vai estar me salvando! — eu disse, a abraçando bem apertado.
— Não considere uma ajuda de fato. Você vai precisar ler tudo para o teste.
— Claro, claro. — eu concordei, como se eu sequer fosse estudar para o tal teste. Mas assenti só para não desistir das coisas.
— Acho que você pode gostar das plantas que estão no capítulo dois. Elas são interessantes, mas simples. Nada muito complexo.
Deixei um beijo na bochecha de e abri o livro no capítulo dois, folheando-o só para olhar as imagens, todas coloridas, mas nenhuma me chamando atenção em particular. Até que uma me fez travar no meio do caminho.
Um círculo verde com um círculo rosa no meio.
Voltei para o início do tópico e li do que se tratava: Irupé. Para o português, vitória régia. O livro contava uma lenda familiar de uma menina que fora transformada pela lua na primeira planta da espécie, e dizia que sua flor era muito conhecida pela propriedade de intensificar qualquer poção.
Eu identifiquei aquela flor como uma das plantas esquisitas que estavam em cima do rio da estufa.
Cheguei na parte do desenho e percebi que estava com uma legenda:
Representação da flor pelo povo Kambeba.
Por que aquela representação, que parecia só um rabisco infantil, era tão importante para estar num livro de escola?
Então eu lembrei. Kambeba. A tribo de . A tribo daquela garota da lenda que o seu Jairo contou no passeio de Maba.
A garota da lenda se chamava Irupé e se transformou em uma vitória régia. Mas o que a história do seu Jairo dizia mesmo? Que ela enfeitiçou uma sala de Castelobruxo para proteger seus alunos. Uma sala secreta, escondida, a não ser para aqueles de seu povo.
Que merda, como eu era burra! Eu sabia exatamente o lugar que eu tinha que testar aquela maldita chave. O lugar onde tudo tinha começado e onde eu tinha que estar naquela sexta-feira. Eu só precisava distrair meu parceiro de detenção para conseguir testar minha teoria. Engoli em seco, pensando no final da lenda. Eu queria estar errada e certa ao mesmo tempo. E eu definitivamente esperava que a parte de só se revelar para o seu povo não me forçasse a ter que envolver .




Continua...



Nota da autora: Oi, lindonas! Olha quem chegou com atualização nova??
Escrever a é sempre superdivertido e desafiador. Mas com certeza o melhor nessa história é a criatividade de pensar em Castelobruxo e a magia no Brasil. É sempre tão interessante! E logo nós teremos alguns mistérios da história e do passado dos personagens sendo revelados. Queria não ter que estudar para escrever vários capítulos seguidos HAHAHAH tenham paciência comigo!!!
Obrigada por lerem, não esqueçam de comentar o que acharam e me seguir no Instagram @elena.n.stuff para acompanhar minhas histórias e atualizações! Obrigada por chegarem até aqui, beijos e até a próxima <3

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Nota da beta: Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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