Última atualização: 10/02/2021

Capítulo 1

Mamãe e titia estavam pela casa tirando as últimas luzes de natal. O ano novo tinha sido há dois dias e mamãe sempre dizia que era o limite dos pisca-piscas e da árvore, porque se não os vizinhos começavam a comentar. Com vizinhos, eu tinha certeza que era vovó na casa do lado espiando pela janela pronta pra fofocar e criticar tudo.
- ! Pega a caixa! – Ouvi a voz estridente e mandona de mamãe. Quando Dona Vivian dava uma ordem, era melhor obedecer na hora. Levantei da cama e olhei ao redor do quarto que eu dividia com meu primo. Nada ali.
- Ódio! – Resmunguei baixinho, porque provavelmente estava no sótão e eu odiava subir para lá, ainda mais num dia tão quente. – O que custava o negócio estar aqui?
Fechei os olhos frustrada e abri, sabendo que era melhor eu correr para pegar a caixa antes que viesse uma segunda ordem. Mas, na hora que eu abri os olhos, a caixa de papelão marcada com letras pretas “NATAL" estava ao pé da minha cama.
- Danadinha, nem vi você. – Eu ri, alegre que não ia subir, e rapidamente levei tudo para nossa pequena sala.
- Aqui, mamãe! – Levei a caixa até ela, que mal me esperou colocá-la no chão para já abri-la e despejar ali pisca-piscas e pedaços de uma velha árvore de natal, que já estava naquela casa muito antes de eu mesma estar.
- ! Pega o inseticida! Tem umas baratas aqui! – Ouvi minha tia gritar do quintal.
- Eu estou ocupada com a caixa! Pede para o Júnior! – Eu falei, já me tremendo com essa história de barata. Eu odiava bicho que não fosse fofinho e peludo. Tudo que voava me assustava. Tudo que rastejava me enojava.
- ! – Minha mãe me olhou feio, aquele tipo de olhar que você nunca quer receber. – Você já acabou aqui e sua tia tá chamando. Vai, menina!
- Por que o Júnior não pode ir? – Rebati, irritada e assustada. Eu não ia.
Pergunta errada. O olhar da minha mãe piorou.
- Você sabe muito bem que seu priminho tá ocupado estudando. Diferente de algumas pessoas da família, ele se esforça.
- Mãe, ele tem sete anos! Ele não está estudando! Ele tá jogando aquelas cartinhas idiotas de Yu-Gi-OH! E a gente está de férias! Ele nem tem dever. – Agora, eu estava bem magoada com a situação. – Sabe que que é isso? Eu aprendi na escola. Machismo. Homem nunca ajuda em casa, mas tem que ajudar sim!
Minha mãe parou tudo e se agachou, olhando bem no fundo dos meus olhos.
- . – Ela falou, bem devagar. – Sua tia pediu o inseticida pra você. Não para o Júnior. Não importa se ele é menino. Importa que ela te chamou. E se ela te chamar de novo, mocinha, quem vai ficar trancada no quarto estudando até janeiro do ano que vem é você.
Me arrepiei toda e corri para o armarinho de dispensa da cozinha pegar o inseticida numa velocidade impossível. Abri a porta que dava para a parte de trás do quintal e vi minha tia com uma vassoura afastando umas seis ou sete baratas. Minha mão ficou gelada e suada e eu derrubei o veneno, gritando.
- AAAAAAAA!
- AAAAAAAA! – Minha tia respondeu, igualmente apavorada, batendo a vassoura.
- Sabia que ia sobrar pra mim, suas covardes! – Mamãe apareceu, com seu olhar como um guerreiro em batalha. – Onde estão?
- Ali... – Eu apontei, sem coragem de olhar, na direção das baratas.
- Você jogou o veneno, ? – Minha mãe questionou.
- Desculpa, mamãe, eu não consegui. – Eu estava me tremendo inteira.
- Então como elas morreram?
Abri os olhos e vi titia abrindo também, nós duas olhando para as baratas. Antes rápidas e fujonas, agora todas estavam imóveis.
- Talvez... Quando eu derrubei... Pode ter acontecido algo. – Arrisquei dizer.
- Talvez. – Mamãe falou, mas não parecia acreditar.
- Bom, eu vou pegar uma pá pra gente jogar essas coisas no lixo. – Tia Alice disse, se recuperando do choque e saindo.
Mamãe olhou para mim, enquanto eu tentava parar de tremer.
- Vem cá, criança.
Ela me levou de volta para nossa sala e sentamos no único sofá, de frente para nossa pequena televisão, desligada.
- , quando a mamãe briga com você, não é porque a mamãe te odeia, tá? – Ela começou, me botando sentada no colo dela e fazendo carinho no meu cabelo. – Mas é que esse medo bobo tem que passar. No futuro, quando eu não tiver mais aqui pra te acudir, quando Júnior já tiver saído de casa, você que vai ter que ir atrás das baratas da vida, mesmo não gostando.
- Mas, mamãe, elas são nojentas. – Falei, choramingando.
- Posso te contar um segredo? – Ela se aproximou de mim. – As baratas têm mais medo de você do que você delas. Afinal, minha menina é muito grande e forte. As baratas ficam apavoradas! É por isso que elas ficam se mexendo daquele jeito esquisito. Elas tão tentando fugir.
Eu ri no colo de mamãe, abraçando mais ela.
- E, filha, já falamos do Júnior. Você sabe que ele anda tristinho porque ele tá percebendo que o tio Paulo não vai voltar. Nessa idade, você também ficou bem triste ao perceber a mesma coisa do seu pai. É claro que ele não tá estudando. Mas deixa ele ficar na dele.
Eu deitei no ombro dela.
- O vovô foi embora, o papai foi embora, o titio foi embora... Se eu arrumar alguém, ele também vai embora?
Mamãe ficou quieta por muito tempo, apenas fazendo um carinho automático.
- , eu queria poder virar pra você e dizer que qualquer homem que te deixar é burro. Mas é que todos eles são burros mesmo. Não conta com a sorte, pequena. Mas mamãe torce pra ser diferente pra você.
- Talvez nossa família seja amaldiçoada. – Comentei o que tanto passava na minha cabeça.
Mamãe olhou para a janela, para o nada.
- Talvez.
A gente ficou em silêncio por um tempo, ainda naquela posição, até que mamãe voltou a falar:
- E aí? Já pensou no que você quer de aniversário?
- Mamãe, falta um mês!
- E você acha que dinheiro nasce ali no quintal, ? Eu tenho que economizar pra fazer as coisas!
- Tá bom, tá bom! – Eu parei pra pensar. Quando , minha ex-melhor amiga, fez 11 anos, ela ganhou uma festa na casa dela. O problema é que a casa dela devia ser três vezes maior que a minha. Talvez eu pudesse ir ao cinema com alguns amigos meus, mamãe, titia e Júnior. Seria legal. – O que acha de cinema?
- Bom, vocês têm aula no dia, mas depois a gente pode almoçar e combinar de encontrar seus amiguinhos no cinema. Posso ver com as mães de cada um pagar o seu. E a gente pode fazer pipoca aqui em casa e levar nuns saquinhos escondidos pra não pagar de lá e não ficar feio não dar nada.
- Pra mim tá perfeito! – Eu abracei mamãe, feliz. – Nem acredito que eu vou pro sexto ano! E vou fazer 11 anos!
- Pois é, minha pimpolha tá crescendo! – Mamãe riu e me abraçou.
Naquele momento, a campainha tocou.
- Já vou! – Mamãe disse.
- Não, não! – Eu disse, já de pé. – Tenho que fazer as coisas, né?
Corri para a porta e a abri, levando um dos maiores sustos da minha vida.
Do outro lado do portal, estava uma mulher de uns 40 anos, com cabelos laranjas. Não ruivos, laranjas. Usava óculos escuros redondos cheios de pedrinhas que pareciam brilhar, mesmo sem estar refletindo nada. Usava um pano amarrado na cabeça, que parecia balançar sem vento. E suas roupas... Um vestido verde água até os joelhos com uma capa fina e transparente até a cintura. Usava chinelos de salto, com desenhos de asas na lateral. Tinha uma bolsa pequena no formato de um baiacu e segurava uma prancheta e um galho.
Ainda a olhava atônita, quando a mulher, sorrindo, começou a falar:
- Boa tarde! Aqui que mora ?


Capítulo 2

- Então você está me dizendo – Mamãe começou a repetir, cautelosa. – que a senhora é bruxa, minha filha é bruxa e tem uma escola pra gente como vocês lá no meio das árvores e que minha filha vai estudar lá?
- Bom, de certa forma, sim, é isso. – A mulher disse, batendo palminhas. - Ela não é obrigada a ir para lá, mas uma bruxa sem treinamento pode causar muita confusão. É o melhor para ela e para todos vocês.
- E por que seria uma bruxa? – Tia Alice, que chegara pouco depois na conversa, perguntava, parecendo dividida entre rir e chorar.
- , – A moça de cabelos laranjas virou para mim. – já aconteceram coisas com você que você nunca pôde explicar? Que você desejou e aconteceram?
Eu lembrei da caixa no meu quarto hoje de manhã. Nas baratas que apareceram mortas. No natal em que mamãe estava sem dinheiro para presentes, mas a boneca que eu tanto queria apareceu embaixo da árvore sem ela comprar. Da vez em que falou que não queria mais ser minha amiga e que eu era nojenta e ela só caiu dois metros para trás, sem explicação.
Acenei com a cabeça, confirmando. Não tinha tido coragem ainda de falar, aquilo tudo parecia tão louco, mas também algo no meu íntimo me dizia que era verdade, como a última peça de um quebra cabeça se encaixando.
Aquela mulher ali na frente, professora Jane Gomes, havia mexido aquele galho, que ela chamara de varinha, e feito coisas inacreditáveis na nossa frente. A sua bolsa em formato de baiacu mexia os olhos e abria e fechava a boca, além de às vezes parecer resmungar. Seus óculos escuros se tornaram óculos de grau com um toque de sua varinha. Ela explicara sobre guerras de milênios entre bruxos e trouxas (que ela disse que eram os não-bruxos, mas achei ofensivo) e porque que os bruxos ficavam escondidos do mundo. Sobre as escolas de magia espalhadas pelo mundo e que essa recebia alunos de toda a América Latina (embora houvessem boatos que o México pretendia fundar a sua própria) e que eu teria aulas tão diferentes das aulas de Geografia e Ciências que eu teria no sexto ano. Tudo parecia impossível, mas também inegável.
- . – Minha mãe virou para mim. – A vida que vai mudar é a sua. Então você escolhe. Eu e Alice vamos te apoiar no que você escolher. Escolha por você e por ninguém mais.
Eu olhei para ela, para tia Alice, para nossa casa e para aquela mulher de cabelos laranjas e olhos esbugalhados, que parecia olhar tudo como se fosse o lugar mais maravilhoso do mundo. Pensei em como eu nunca fui muito boa em nada. Sempre média. Notas boas até, mas nunca tive um grande interesse em tudo aquilo. Não parecia certo para mim. Talvez porque o certo fosse ser uma bruxa. Quase ri de mim mesma só de pensar nisso.
- Se eu for e não gostar, eu posso voltar para casa? – Perguntei para a professora Jane.
- Bom, a escola fica bem distante, então os alunos só voltam para casa durante o ano letivo nas férias e tem a opção de passar alguns feriados em casa se desejarem. Se a família também tiver alguma religião com algum feriado específico, é só informarem a escola. Ah, e é claro, em casos de acidentes e doenças com algum familiar.
- Pequenininha, já, já, teremos o Carnaval. Seria um mês e pouco na escola e depois feriado. Se você não gostar, a gente já te recebe no meio do bloco!
- E se gostar, na própria escola nós oferecemos bailes de carnaval apropriados para a idade dos alunos. – Jane completou, sorrindo largamente.
- O que você acha, pequenininha? – Tia Alice virou para mim, os olhos meio esbugalhados de choque.
- Você também pode decidir depois. – A professora Gomes falou. - As aulas só começam dia 31 de janeiro, daqui há um mês. Mas caso você decida que quer, você deve comprar os materiais na Rua da Amanhecer.
- Isso fica aqui no Rio? Eu não conheço. – Minha mãe comentou, preocupada.
- Ah, claro que você não ia saber, que estúpida eu sou! – A professora bateu a mão na própria cara, então seus olhos se iluminaram. – A Rua do Amanhecer fica na Rua do Ouvidor, no que eu acho que vocês chamam de Centro. Lá, vocês encontrarão o Arco do Teles. Os Teles eram bruxos famosos do século XVIII, e tentavam conciliar ali naquela rua o comércio trouxa e bruxo. Mas então, uma loja bruxa nomeada de “Os Caga Negócios” perdeu o controle sobre um feitiço muito perigoso, o Fogo Maldito, e a rua toda foi incendiada. A casa dos Teles também. Só os arcos resistiram. Os bruxos então perceberam que estavam muito expostos ali e criaram uma nova localização para eles, a Rua do Amanhecer, já que foi inaugurada no nascer do sol. Passando por baixo do Arco dos Teles, pensando no nome da Rua, vocês conseguem chegar lá. E aí devem comprar tudo o que está nessa lista. – A mulher de cabelos laranjas entregou uma lista para mamãe.
- Obrigada, eu acho. – Mamãe pegou os papéis.
- Ah! Querem ouvir outra história? – A mulher batia palminhas, empolgada.
- Temos escolha? – Tia Alice murmurou num muxoxo.
- Na mesma época da construção da Rua – Jane continuou, sem prestar atenção nos comentários. – uma mulher morava no local. Seu nome era Bárbara dos Prazeres. Ela veio da Portugal, uma famosa ex-aluna de Beauxbatons, a escola da França, e diziam que ela era uma Veela.
- Você pode falar nossa língua? – Mamãe perguntou.
- Perdão. Veelas são seres mágicos que aparentemente são extremamente atraentes e conseguem convencer uma pessoa a fazer o que elas quiserem com seu canto. Mas se você enxerga por trás do canto, tsc, tsc, não é uma imagem nada bonita. Mais monstros do que princesas. Continuando, ela enlouqueceu o primeiro marido com sua beleza, até ele se jogar do prédio. E nisso, ela logo arrumou um novo pretendente, o que a fez parecer uma assassina. Pouco depois, tendo visto a verdadeira forma da nova mulher, o seu segundo marido também se matou. Foi um escândalo. Todos achavam que ela era uma homicida. Logo depois, ela passou a viver no Arco dos Teles. Os trouxas achavam que ela tinha empregos ilegais ali, mas ela vivia pela Rua do Amanhecer vendendo antigas joias da família. No entanto, por ser uma Veela, ela mantinha sua beleza e não envelhecia, e os trouxas começaram a notar que, ao passar do Arco do Teles, várias crianças desapareciam. O que eles não sabiam era que as crianças estavam entrando na Rua do Amanhecer para comprar seu material escolar. No final, criaram uma lenda de que ela era uma bruxa que matava crianças para manter sua juventude. Bobinhos, chegam tão perto da verdade, mas colocam tantos detalhes esquisitos no meio.
- Claro que é esquisito ela matar crianças, mas não o fato de ela ser um bicho mitológico que enlouquece homens. – Tia Alice comentou, sarcástica.
- Exatamente! – A professora falou, sorrindo. Ela não devia conhecer ironia.
- Uma pergunta. – Mamãe logo disse. – Esse material... É muito caro?
- Bom, certamente vocês pagarão alguns bons galeões.
- O que é isso? – Perguntei. Eu podia só ter dez anos, mas eu sabia de dinheiro.
- Ah, sabe como é, o dinheiro bruxo. Nuques, sicles, galeões, são nossas moedas.
- Eu quase não tenho dinheiro, imagina esse dinheiro esquisito.
- Ora, claro que não tem, senhora . Mas na Rua do Amanhecer existem postos de troca de dinheiro trouxa por dinheiro bruxo. Acredito que um Galeão deve equivaler a uns 40 reais hoje em dia. O preço varia, e o real não anda muito valorizado.
- 40 reais uma moeda?! – Minha mãe exclamou, se levantando.
- Uma moeda bem valiosa. – A professora acrescentou, bem alheia a tudo. – Mas é claro, Castelobruxo tem fundos para alunos com baixa renda. Precisa apenas escrever para nossa diretora, senhora Alba Nkosi, relatando sua renda e seu caso será analisado. Também temos várias lojas que vendem artigos de segunda mão que saem bem mais baratos.
Olhei para mamãe, preocupada. Não queria ser um peso para ela. Não bastava estar descobrindo que eu era esquisita. Eu queria ser boa pra família e não mais um problema. Minha mãe parecia ler minha mente.
- , se for o que você quer, a gente vai conseguir. Seu material pra escola também não era de graça. Se você quiser, nós conseguimos. Mas e aí? Você quer?
- Pode responder depois sem problema, senhorita, eu já tenho que ir, deixarei meu endereço caso queiram mandar uma arara ou uma carta. Um último aviso: não é permitido que alunos menores de idade façam magia fora da escola, então, se comprar uma varinha, nem tente! Ah! E quase esqueci. Caso deseje ir para a escola, no dia 31 de Janeiro embarque no Cais da Gamboa, no Píer Mauá, no armazém nove, às 9:30 da manhã. Tolerância de no máximo até as 10 horas para entrar no navio. Pode chegar lá a partir das sete caso queira se adiantar.
A mulher cabelos laranjas se levantou e me entregou um cartão que, na mesma hora, revelou uma foto minha com meu nome e dados, além de um grande número nove no canto direito. Logo depois, ela estava já na porta.
- Espere! – Eu corri atrás dela, antes que ela, sem esperar ninguém, abrisse a porta e fosse embora.
- O que foi? Hoje ainda tenho que passar na casa de todos os outros nascidos trouxas da região Sul e Sudeste, seja rápida.
- Eu não preciso mais pensar. – Olhei para minha mãe e para titia. Pensei em todas as novas possibilidades. – Eu vou.


Capítulo 3

- Mamãe, depressa! – Eu corria, carregando minha mala. Eu estava muito animada para viajar e conhecer esse lugar tão diferente, onde talvez eu fosse especial. Ao mesmo tempo, eu também sabia que sentiria falta de mamãe, titia e até de Junior, que acompanhava a gente, mas não sabia ainda dessa história de magia. Mamãe achou melhor contar quando ele fosse mais velho para não deixar escapulir sem querer para os amiguinhos. Júnior certamente tinha o sangue de vovó, era um fofoqueiro.
Estávamos passando pelo Píer Mauá, que era gigante. Era um lugar que estava meio abandonado. Até que enfim chegamos em uma sequência de várias casas largas e vermelhas que, segundo a moça que tiramos dúvidas, eram os armazéns. Passar por cada um deles era um sacrifício, porque eram lotados e gigantes. Até o nono, era um longo caminho pela frente.
Seguimos naquele amontoado de gente sempre indo em direção aos números maiores. Passamos o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto... Lá pelo sétimo, eu já estava com medo de não dar tempo.
Finalmente, depois de titia ter pegado Júnior no colo já que ele estava se arrastando e nos atrasando, chegamos no final do armazém oito. Mas, então, encontramos um espaço vazio. Seguimos em frente, até que chegamos no armazém 10.
- Ué. – Eu soltei sem querer.
- A gente deve ter passado sem perceber. – Titia falou e nós começamos a voltar, até que chegamos novamente no oito.
- Agora eu prestei atenção. A gente não passou! – Mamãe falou.
- Será que ele fica fora da numeração? Tipo, é o último? – Eu sugeri, ficando nervosa. E se tudo fosse mentira? Uma pegadinha? Mas eu estive na Rua do Amanhecer. Tudo fora tão real. As pessoas das lojas com aquelas varinhas, bichos estranhos, roupas esquisitas. Não podia dar errado agora.
- Ô, moça! – Chamei uma mulher que parecia trabalhar lá. – Licença, mas onde fica o armazém nove?
Ela me olhou por cima dos óculos, uma cara meio de pena e meio de irritação.
- Criança, o armazém nove foi destruído há muitos anos atrás.
- Mas então como eu vou pegar o navio?!
- Você deve ter confundido o número. Talvez seja seis e você olhou errado. – Ela me deu dois tapinhas no ombro e saiu dali.
- E aí? – Mamãe perguntou.
- Ela disse que o armazém nove não existe. Foi destruído! – Sem conseguir me conter, comecei a chorar.
- E realmente foi destruído!
Olhei na direção da voz desconhecida, até encontrar um casal e uma menina que parecia ter a minha idade. A voz parecia ter vindo da mulher loira, de braços dados com a mulher morena, que segurava um dos ombros da menina. Assim como nós, só a garota carregava uma mala (e era enorme!), e, além disso, as mulheres usavam capas transparentes nos ombros, como a Professora Jane estava usando naquela manhã. Numa sacola na mão da menina, eu vi vestes verde água leves, iguais às que eu carregava na minha bolsa de mão. O uniforme de Castelobruxo.
- Vocês também vão para o armazém nove? – Eu perguntei, meio fascinada.
- Sim, e não se preocupe, foi destruído porque precisava ser. Aos olhos trouxas, pelo menos. É apenas um feitiço de ocultamento. – Agora a mulher morena e baixinha falava. - Tiveram muitos casos de trouxas enxeridos. Agora, só sobrou as escadas. Mas se você subir até o último degrau segurando o seu bilhete e passar do portal, você vai encontrar o armazém.
- Então quer dizer que não passamos com ela? – Minha mãe perguntou, receosa.
- Não, apenas os que têm bilhetes. Mas tem alguns professores encarregados de ajudá-los lá dentro, não se preocupe. A propósito, eu sou Margarida e essa é minha esposa, Lhayla. E essa é nossa filha. Parece que vocês vão ser colegas!
- Prazer, eu sou . Mas pode me chamar de . – Ela estendeu a mão para mim, sorrindo simpática.
- Eu sou . , se preferir. – Eu falei, sorrindo de volta e a cumprimentando.
- Ah, . – Mamãe falou. – Que bom que já está fazendo amigas. Ah, minha pequenininha, vou sentir saudades! – No momento seguinte, eu já estava sufocada num super abraço mamãe ursa.
- Mãe! Está apertando!
- Desculpa! Mas custa dizer que vai sentir saudades também?
- É claro que eu vou. – Agora eu que abracei ela.
- Ai, , o que eu já te disse? Abraça pela cintura, pelo pescoço enforca!
- É revanche!
Depois, me despedi de titia e Júnior, que parecia estar mais dormindo do que tudo. Então, depois que se despediu de suas mães, nós subimos juntas as escadas com os bilhetes na mão, ainda acenando para nossas famílias. Quando chegamos no último degrau, olhei através do portal e vi que ele dava apenas para uma queda pequena de uns dois metros para um monte de tijolos e mato. “Espero que isso funcione, não quero morrer hoje!”. Fechei os olhos e fiquei na beirada do portal, andando, esperando a queda.
Mas, quando abri os olhos, eu já estava uns cinco passos longe do portal, em um chão sólido e não num monte de tijolos e numa grande estação com várias pessoas sentadas, muitos funcionários e crianças e adolescentes com malas como a minha. Logo, já estava do meu lado.
- Vamos logo, antes que a gente perca um bom lugar!
Passamos pelas cadeiras em direção a uma fila com uma mulher entediada que liberava os alunos lá para dentro. O relógio já marcava 9:45.
- Espero que isso não seja atraso.
- Eu já te disse, tolerância até as 10.
Quando olhei para trás, a professora Jane estava ali, agora com cabelo azul claro como o céu. Eu tinha quase certeza que algumas partes pareciam nuvens.
- Professora!
- Vejo que chegou bem, sim, sim, que bom, que bom!
- Quase bem. Se eu não tivesse conhecido , ainda estaria lá fora. Por que não nos disse que o armazém tinha um jeito especial de entrar também.
- Ah, eu esqueci? Que tolice minha! – Ela riu, se afastando.
- Que mulher maluca. – comentou.
- E ainda por cima vai ser nossa professora. – Respondi.
- Próximo! – Era a mulher entediada da fila chamando e, quando vi, já era nossa vez. – Bilhete, por favor.
Mostrei o meu e ela logo me passou para dentro. Logo depois, estava mais uma vez do meu lado.
- Isso não faz sentido, já que só quem tem o bilhete entra! – comentou.
- Pensando assim, não faz mesmo!
Caminhamos pela orla da Baía de Guanabara em direção a um navio enorme, todo verde água com o brasão de Castelobruxo verde escuro e amarelo. Um funcionário do navio ajudava os alunos a subirem pela rampa com suas malas. Uma figura em particular me chamou muito a atenção.
- ?!
Minha ex-melhor amiga virou na minha direção com os olhos arregalados, cheios de orgulho e superioridade.
- Ora, ora, então quer dizer que eles aceitam a escória nessa escola? Mamãe não vai ficar nada feliz com essa notícia.
Rangi os dentes para evitar avançar nela, aquela idiota!
- Ah, a está bravinha? Eu saí daquela escola trouxa pra evitar gente como você e eu descubro que você é pior que uma trouxa, é uma sangue ruim!
Depois de falar aquelas coisas que eu nem entendi o que eram, mas já senti raiva mesmo assim, entrou no navio.
- Clima pesado, hein? Quem é essa? – perguntou.
- Carson, é uma menina que mora perto de mim e é minha ex-melhor amiga. Você viu essa arrogância? Ainda bem que a gente não se fala mais.
- Espera, Carson?
- É, até onde eu sei e o sobrenome dela.
- Nossa, os Carson são uma família de bruxos puro sangue, uma das mais antigas do Brasil!
- O que isso quer dizer? – Eu perguntei, confusa com aquele termo. Desejei mentalmente que fosse ruim, só de birra.
- Quer dizer que eles nunca se misturaram com trouxas em relacionamentos, o que hoje em dia é absolutamente raro. Todo mundo é mestiço de alguma forma. Os Carson são uma das três únicas famílias da América do Sul que ainda se assumem assim.
- E aquele negócio que ela disse? Sangue alguma coisa? – Perguntei, curiosa. Era a cara dela usar algum xingamento que eu não conhecesse pra eu me sentir idiota.
- Significa que você não tem sangue bruxo. O que, na verdade, não indica problema algum. Mas é um termo ofensivo que essas pessoas preconceituosas costumam usar.
Se antes eu odiava Carson, agora era pra valer.
- Vamos, vamos entrar logo no navio! – , minha nova amiga, me puxou.


Capítulo 4

Depois de um dia de viagem por mar, o navio começou a navegar pelo rio Amazonas, cada vez adentrando mais florestas da região. Nisso, eu e nos conhecemos melhor e ficamos muito amigas. Ela era de Campinas e me explicou que naquele navio estavam só os alunos do Sudeste, que tinha outro para o Norte, para o Nordeste e para o Sul, além de alguns países estrangeiros. O Centro Oeste ia de trem até certa parte de depois ia de navio pelo rio também, assim como outros países com conexão terrestre.
Tudo parecia muito fascinante e diferente. me deu uns doces mágicos. Alguns, ela me explicou, eram estrangeiros, como os sapos de chocolate e feijõezinhos de todos os sabores. Outros, eram brasileiros, como o chiclete explosivo, que borbulhava na boca e fazia pequenas explosões que iam mudando os sabores. Era muito divertido e a gente sempre acabava levando susto.
me emprestou o celular dela pra falar com a minha mãe e me explicou que a Escola tinha muitos feitiços protetores que interferiam nos aparelhos trouxas, então existiam alguns chips especiais, por exemplo, que permitiam que eles funcionassem sem sinal. Ouvir a voz de mamãe foi um alívio e também mais uma prova de que tudo era real. E de que eu certamente ia precisar de um chip assim.
Quando finalmente desembarcamos, já havíamos colocado as roupas da escola: um short verde água que ia um pouco além da metade da coxa, uma camiseta de manga curta branca e bem fresca e uma veste verde água também aberta que ia até os joelhos. Parecia quase um sobretudo, só que bem fresquinho. Além disso, estávamos usando botas e prendemos o cabelo, porque, como lá era muito úmido, conseguia ficar ainda mais quente que o Rio de Janeiro (e eu achava que isso era impossível).
- , vamos logo! – me chamava para seguirmos a fila de alunos que seguiam a professora Jane por dentro da mata. Eu estava tão encantada olhando tudo, que fiquei meio para trás.
Isso é, até umas abelhas surgirem e começarem a vir atrás de mim. Aí eu alcancei todo mundo rapidinho.
A caminhada parecia não acabar nunca, ainda mais com de vez em quando arrastando o pé para jogar lama em mim ou me fazer tropeçar. Eu já estava no meu limite.
Mas então nós chegamos. E eu perdi o fôlego, assim como vários alunos ao meu redor.
A mata fechada dava espaço para um grande campo aberto com uma vegetação mais baixa e um caminho marcado até uma grande construção dourada e enorme, com uma pirâmide com traços mais quadrados, com janelas grandiosas espalhadas pela construção. Atrás, tive uma visão rápida do que parecia ser um afluente do rio formando uma piscina natural. Era como um paraíso selvagem. Talvez fosse perfeito, se não tivessem muitos bichinhos.
- Alunos antigos, a professora Potira está esperando por vocês no portão de entrada. Alunos do primeiro ano, comigo!
Eu vi se dirigir com a grande maioria para mais perto da Escola. Ficamos só eu, e mais nove outros alunos. A professora Jane foi indo cada vez mais para perto do rio, atrás do grande prédio. Quando chegamos lá, levei um susto ao ver que já haviam muitos alunos esperando ali, com mais um único homem, alto e muito magro como um poste, e muito sério também, o que era bem esquisito, já que ele usava roupas muito coloridas.
- Alunos, esse é o professor Vicente Rojas. Ele ficará com vocês aguardando os outros alunos para vocês então passarem pela Seleç... Opa! O professor explicará mais depois. Beijinhos! – Jane saiu correndo logo depois, murmurando coisas sozinha.
- Que será que ela ia falar? – Perguntei para enquanto andávamos em direção aos outros alunos.
- Tenho certeza que é sobre a Seleção! – Ela falou, enquanto parávamos perto dos outros. - Não sei exatamente como funciona, mas mamães me falaram que é o que te divide entre as casas, não sei explicar muito bem, mas são cinco! Iara, Fada, Boitatá, Curupira e Boto. Minha mãe Margarida era da casa Fada e minha mãe Lhayla era da casa Boto. Mas todas parecem bem legais. E parece que esse negócio de Seleção existe há, tipo, muitos séculos!
- Na verdade, existe há apenas três séculos. – Disse uma voz desconhecida.
Olhei para trás e vi ali parado um menino de cabelos cacheados muito escuros, quase pretos, a pele morena avermelhada e os olhos cor de mel. Ele era um fofo, e estava com uma cara envergonhada e orgulhosa.
- Como assim? – Eu perguntei, curiosa, mas tentando disfarçar.
- Bom, Castelobruxo sofreu muitas modificações desde a Colonização. – Ele começou a falar, parecendo muito satisfeito consigo mesmo. – Durante muitos séculos, os bruxos europeus não encontraram a escola, mas, quando encontraram, mudaram um monte de coisa, tipo a Seleção, que é algo de uma outra escola bruxa e que não existia aqui.
- E como você sabe? – perguntou, desconfiada.
- Ahn... Minha mãe trabalha aqui, ela me conta algumas coisas. – O menino estava cada vez mais vermelho, mas continuava com a cabeça erguida.
- Então sua mãe também é bruxa? Ela é professora? Ela era de qual casa? – Perguntei tudo que veio na minha cabeça.
- Ela é enfermeira da escola e ela era Curupira, igual meu pai. Mas eu não sei qual eu gostaria de ser.
- Acho que não importa. – comentou. – Ouvi dizer que a gente não escolhe.
Ninguém mais comentou nada porque, naquele momento, outros grupos de alunos chegaram com mais professores e a gente tentava olhar tudo ao mesmo tempo. Eu consegui ver rapidamente uma professora bem nova, animada e avoada.
- Desculpa, Vicente, sabe que horário não é meu forte. Mas chegamos! Não fomos os últimos de novo, fomos? – A professora falava apressadamente, sorrindo para todos.
O professor ajeitou sua carranca, deixando ela mais carrancuda, se era possível.
- E me diga, professora Nicoletta, um único ano em que você não se atrasou.
- Ora, não seja tão duro, bobo. Vou entrando. Tchau, alunos! Até lá dentro!
Aquela bola de felicidade entrou rapidamente na escola, enquanto os seus alunos se juntavam a gente. Senti alguém pisando no meu pé e me virei, furiosa.
- Ai! Olha por onde anda!
O menino ruivo ficou muito pálido e começou a murmurar desculpas. Completamente deslocado. Assim como eu estaria, se não fosse . Senti pena dele.
- Ei, está tudo bem, desculpa, eu só não gosto que pisem no meu pé. E em nenhuma outra parte minha. Qual o seu nome?
- Eu sou . Mas eu prefiro . E vocês? – O menino agora sorria.
- Eu sou , ou melhor, . Essa é ou . E esse... Esera, qual o seu nome? – perguntou para o menino sabe tudo.
- . Mas eu prefiro que me chamem de .
- Você é da onde, ? – Eu perguntei, tentando ser simpática.
- Sou da Costa Rica, e vocês?
- Eu sou daqui do Brasil. – falou, mas eu nem estava escutando dessa vez.
- Nossa, mas você fala português tão bem! – Exclamei para , que franziu a sobrancelha.
- Mas eu não falo português. Falo espanhol, como vocês.
- Como assim? Eu só falo português. Sei só falar um “fuego" ou botar umas vogais a mais pra fingir que eu falo. – Repliquei com ele, nervosa com aquela brincadeira.
- Gente, isso é o feitiço de tradução. – começou a falar de novo, cheio de entusiasmo. – Todo mundo se escuta na própria língua.
- Então eu sou poliglota pros outros? – Eu perguntei, animada.
- Alunos, silêncio. – O professor Vicente finalmente falou, ainda sério. Cara, como deixam um homem desses pra lidar com crianças? – Bem-vindos. Agora que todos já estão aqui, vamos nos dirigir ao salão. Para os que não sabem, somos milhares de alunos de toda a América Latina dentro desse prédio, – Uau, isso explicaria o tamanho. – e, para melhor organização, nossos alunos são divididos em casas, que servem como o grupo com quem você dividirá dormitórios, aulas e professores responsáveis. Serão como uma comunidade. Durante o ano, ao ter um bom desempenho em aulas e comportamento, vocês conseguirão pontos para suas casas. No final do ano, a casa campeã recebe o troféu de Castelobruxo. Essas casas são: Boto, Iara, Curupira, Fada e Boitatá. Cada casa tem suas características e seus diretores. Lá dentro, vocês serão selecionados para elas e sentarão na sua mesa correspondente. Alguma dúvida? – Ele lançou um olhar como se fosse capaz de matar alguém que tivesse dúvidas. – Visto que não, vamos em frente.
Se eu fosse chutar, diria que éramos quase 100 crianças ali. Ou mais! Tudo aquilo era de uma proporção enorme. Eu e demos as mãos.
- Espero que a gente fique juntas. – Eu disse.
- Eu também!
e estavam atrás da gente. Até que eles pareciam gente boa.
Então, nós entramos na Escola. Diversos corredores largos e brancos com pilastras douradas decoradas com pedras verde água se estendiam pelo que pareciam quilômetros. Se por fora a escola parecia gigante, por dentro era como se fosse uma cidade inteira!
Chegamos então em um grande salão. As paredes laterais tinham árvores gigantes enfileiradas que se encontravam no teto, formando um túnel de folhas, que caíam, junto com pétalas, em direção ao chão, mas sumiam antes que tocassem em qualquer um. Cinco conjuntos de mesas extensas se encontravam espalhadas e enfileiradas no salão, sendo que de sete em sete elas mudavam de cor. No final, uma grande mesa verde água com vários adultos, inclusive a professora Jane e a professora Nicoletta, e, atrás, o escudo da escola e cinco estátuas grandes e meio esquisitas.
- Queridos alunos! – Uma mulher velha, de pele preta, com os cabelos presos em um coque e olhos gentis, mas também alertas, que estava na cadeira do meio falou. – Sejam bem-vindos! Eu sou a diretora Alba Tenores. Nossa escola está encantada em receber todos vocês! Começará agora o processo de Seleção. Não se assustem, nem se acanhem. Apenas deixem a escolha acontecer.
Deixar a escolha acontecer? Aquela parada estava esquisita.
- Ei, , você sabe como que é esse processo da Seleção aí? – Perguntei, mas então notei algo muito estranho.
Todos ao meu redor tinham os rostos desfocados e não se mexiam. , , ... Até o professor Vicente e a diretora Alba estavam congelados. Tudo também caiu num silêncio absoluto. Eu sei que esse negócio de magia é maneiro, mas também estava me assustando! Do canto do olho, eu vi algo se mexer. Eu olhei rápido e percebi que estava encarando as estátuas. Já ia me virar de volta, quando eu percebi que elas me encaravam também. Eu pensei estar imaginando, até que a primeira, em formato de uma grande cobra, abriu a boca e falou:
- Essa parece interessante para mim.
Eu gritei algo que nem eu entendi, já que misturei todos os palavrões que eu conhecia de uma vez. Eu quase voltei correndo, quando a estátua de fada virou para mim:
- Ei! Aonde vai? Você quer passar pela Seleção ou não?
- Então isso e a Seleção?! – Eu berrei de volta.
- E o que mais seria? – A estátua de boto me olhou, parecendo segurar o riso.
- Essa parece confiável demais para mim. Não sei se seria capaz de fazer algo errado por alguém que ama. Ou seria? – A estátua de sereia olhou na minha direção, com um sorriso debochado. Um sorriso que me lembrou o de .
- Vejo que ela tem características que me interessam, mas não são seu forte. Um pouco... Incontrolável demais para mim. – A fada falou novamente.
- Ei!
- Incontrolável? Isso me interessa. – A estátua de um menino de pés virados e cabelos arrepiados riu para mim, um sorriso que eu via na cara de Júnior antes de ele revelar uma meia suja no meio das minhas blusas limpas e cheirosas. – E vejo que também é muito leal a quem ama. E tem uma raiva incrível! Acho interessante.
- Você vê raiva, eu vejo força. – A cobra voltara a falar. – Coragem. E um orgulho próprio, com vontade de se provar. Diga, menina, o que você deseja?
O que eu desejava? Isso era a coisa mais idiota e ampla que eu já escutara. O que eu desejava? Um mundo sem baratas? Que sumisse? Que Júnior lavasse suas meias?
Ou eu desejava ser diferente? Me provar digna de ser bruxa? Ficar com meus amigos? Ver minha mãe feliz? Ser feliz?
Eu queria ser a melhor bruxa que eu pudesse e deixar minha mãe orgulhosa e feliz. Eu queria ficar com meus amigos e conhecer ainda mais gente legal. E eu queria arrastar a cara de deboche da numa daquelas árvores.
- Há! Impulsiva, geniosa, esperta, corajosa e orgulhosa. Você, criança, estará comigo! – A estátua de cobra mal terminara de dizer isso, quando, por meio das fissuras de sua estrutura um brilho laranja que parecia... Fogo! Eu tentava olhar, mas era tão intenso que doía os olhos. Fechei-os com força e, quando os abri novamente, as estátuas estavam imóveis e sem brilho, os murmúrios estavam de volta, assim como todos os rostos. E mais! Todos ao seu redor estavam com distintivos brilhantes e coloridos.
Olhei para minha roupa e vi que eu também tinha um! Um distintivo laranja brilhante com uma cobra de fogo como a da estátua.
Virei para trás e vi , e comparando seus distintivos e comentando, assombrados, as coisas que aconteceram:
- ... E a fada brigou com a cobra, até que eu falei para eles calarem a boca. Aí, a fada ficou chateada e a cobra brilhou! – contou.
- Olhem! Estamos todos na casa laranja! – Eu comentei.
- É a casa do Boitatá! – falou. – Que significa cobra de fogo!
Olhei ao redor e encontrei sete mesas com a toalha de mesa laranja brilhante e vários alunos olhando curiosos, com distintivos brilhantes e laranjas também. Havia apenas uma vazia com um número 1 brilhante flutuando em cima.
Do outro lado, eu vi uma mesa azul e identifiquei . Percebi que as mesas seguiam a ordem das estátuas: Boto (roxa), Iara (azul), Fada (amarelo), Boitatá (laranja) e Curupira (vermelho). Aleluia que eu não fiquei na casa daquela sereia de cara de deboche! Quanto menos , melhor!
- Vamos, vamos sentar na nossa mesa! – nos chamou e fomos correndo em direção às mesas laranjas, junto com outros vários alunos de primeiro ano que também tinham sido escolhidos pra essa casa.
Quando nos sentamos lá, eu só conseguia sorrir. Eu sentia que ali, sentados perto de mim, estavam os três amigos que eu sentia, lá no fundo, que ficariam comigo para sempre. E nada iria nos separar.


Capítulo 5

Cinco anos depois...

- Se aquele aparecer hoje à noite, eu vou matar ele, entendeu? – Eu falei para , enquanto me olhava no espelho, escolhendo minha roupa. - Ele ou aquela e companhia. Eu só deixo o entrar se ele for sem o ser abominável e ficar longe de mim. Hoje é minha festa de aniversario e eu só quero as pessoas que eu gosto.
- Tá bom, , eu já sei, você está falando disso a semana toda! – reclamou, enquanto ajeitava seu delineado. – Mas você já pensou em como vai impedir eles de entrar na festa?
- Eu encontrei um feitiço na biblioteca que, se feito corretamente, vai dar um jeito nisso. Eles só não podem dizer nomes falsos, mas ninguém inventa um nome falso para falar de primeira sem ser avisado, né?
- Bom... Acho que sim? – Minha amiga respondeu.
- Enfim! Vamos no que importa! As bebidas já estão no local?
- Sim, chegaram de Maba hoje à tarde. Tem suco, refri, vodca, iratambé, payaru e Tik-Tack.
- E o aparelho encantado para a caixa de som?
- Marcos emprestou, como imaginado. Ele nunca superou aquela vez que vocês ficaram no quarto ano.
- Eu deveria sentir pena, mas sou até meio grata. Se não, minha festa de 16 anos seria sem som!
- , você tem certeza que nenhum professor vai descobrir?
- , relaxa! A gente já fez festa lá ano passado e não deu em nada. Eu duvido que os professores saibam que existe. E a gente voltou às aulas ontem! Eles não esperam nada.
- Já deviam ter aprendido a sempre esperar algo de . Às vezes, eu imagino como que você não foi da casa Curupira.
- Acredite, aquela criança sinistra quase me quis.
Me olhei no espelho pela última vez. O cropped trançado branco e o short jeans realçavam minhas curvas e a bota branca de cano médio e salto alto de estavam fazendo minha autoestima ir às alturas. Combinado com uma maquiagem bem rebocada e as tranças boxeadoras, eu estava prontíssima.
- E aí? Como estou? – Perguntei para para alimentar o meu ego um pouquinho.
- A mais gata de todas! Eu pegava, hein. E Castelobruxo inteira também. Se já não pegou. – me zoou, enquanto alisava seu vestido larguinho preto preso com um cintinho bege, combinando com suas sandálias da mesma cor. Seu cabelo estava em um rabo de cavalo e usava um batom bem vermelho que eu insistira que ficaria lindo nela e, como eu sempre estou certa, ela realmente estava um arraso.
- Não seja boba. São milhares de alunos. Devo ter beijado no máximo 50.
- E eu fiquei com cinco! – protestou.
- O seu problema, queridinha, é sempre estar pensando num ruivinho e não se abrir para novas boquinhas! – Eu alfinetei. Desde o segundo ano, era bem obvio que estava gostando muito de . Pena que ele era lerdo como uma lesma e não percebia absolutamente nada. E ficou ainda mais difícil de perceber depois da grande briga. – Além disso, você conhece meu lema: figurinha repetida não completa álbum!
- Você é impossível! Vamos logo que você e aniversariante e não noiva pra ficar se atrasando. – Ela me puxou para fora de nosso dormitório.
Passamos pelo espaço coletivo dos alunos da casa Boitatá, que a gente chama de Fogão, por alguma piada interna que já existia quando a gente chegou lá. Depois, subimos para o sétimo andar (eu odiava o fato de não terem elevadores mágicos e os professores ainda ousavam afirmar que aquela escadaria toda era pela nossa saúde!) e, chegando lá, tratei de encontrar a rachadura na parede perto da terceira pilastra: uma passagem para um quarto secreto que eu descobri acidentalmente no quarto ano. Pouco antes da passagem se fechar, tratei de tomar os cuidados necessários:
- Abaffiato!
- Ainda bem que você lembra, eu sempre esqueço desse passo! – comentou.
Enquanto entrava e já encontrava umas 15 pessoas conversando, eu tentei lembrar o feitiço que eu vira na biblioteca. Como era mesmo? Nome Tato Tantos? Soava assim, mas não era exatamente...Ah!
- Nominatus Tantum!
Minha varinha brilhou por uns dois segundos e depois voltou a normal. Será que tinha funcionado?
- Ahn... , Carson, as víboras!
A passagem brilhou por alguns segundos e depois voltou ao normal. Eu fiz alguma coisa, né?
O ritmo conhecido de Vamos Pra Gaiola começou a tocar e eu sabia que Marcos e aquele negócio que ele tinha para fazer funcionar as tecnologias trouxas haviam chegado.
- AMIGA! – Saí gritando pela festa, indo para o meio da pista de dança já me preparando pra cantar e dançar. Óbvio que eu ia inaugurar a pista de dança da minha própria festa. – BIGODIN FININ, CABELIN NA RÉGUA, ELA OLHOU PRA MIM, EU OLHEI PRA ELA E FALEI ASSIM!
Quando percebi, além de , várias outras pessoas já estavam ali perto tão animadas quanto eu. Dançamos sem parar emendando uma música na outra. Já havia passado a primeira hora de festa e o local estava cada vez mais animado.
- ! Parabéns! – Uma menina do quinto ano, Anahí, me desejou. Ela era colombiana e uma fofinha, de vez em quando eu e sentávamos com ela no pátio.
- Obrigada, Anahí! Vem dançar! – Eu gritei por cima da música, sentindo toda a energia do momento.
- Daqui a pouco! Vou só pegar um suco antes!
- Então eu vou junto! Só tomei um copo de iratembé até agora!
Chegamos no canto das bebidas e eu peguei um pouco de Tik-Tack dessa vez, um licor que eu conheci graças a Júlio, um menino que eu peguei, que era de El Salvador. Desde então, eu sempre tentava incluir nas festinhas. Claro, se todo mundo fizesse o combinado e pagasse sua entrada antes.
Voltei para a pista de dança, mas não encontrei ali. Olhei em volta e a vi conversando com um garoto ruivo. Patético e previsível.
Continuei dançando enquanto as músicas rolavam. Só parava para beber água, vodca ou Tik-Tack. Às vezes parava junto a um grupo e conversava com todo mundo, recebia os parabéns, ria um pouco e ia pra outro grupo. Depois de um tempo, voltou a ficar comigo, mas vira e mexe e ela já estava rindo perto de de novo.
Quando peguei o celular, vi que já eram quase meia-noite. Ou seja, já eram quase quatro horas de festa. Eu sempre acabava tudo lá pelas uma da manhã por conta das aulas, que infelizmente continuavam acontecendo. O importante é que eu precisava aproveitar cada segundo restante.
Voltei para a pista de dança e fui logo jogada para o centro da rodinha que tinha sido formada. Eu ri, logo em seguida caprichando nos movimentos. Eu não era a melhor aluna. Mas eu certamente sabia dar uma festa e dançar pra valer nela.
Outra coisa que eu sabia era quando um garoto estava a fim (mamãe diz que eu herdei o dom dela.). Por isso, de canto de olho, quando eu vi Michael, um garoto do sétimo ano da casa Boto se aproximar, eu já sabia o que ia rolar.
Joguei meus cabelos para trás, olhando em seus olhos por alguns poucos segundos, antes de desviar, sorrindo, enquanto dançava para ele. Nisso, a rodinha já havia se dissipado. Eu vi o garoto loiro se aproximar cada vez mais e começar a dançar comigo.
- Feliz aniversário, ! – Ele gritou por cima da música.
Me inclinei para perto e falei perto de seu ouvido:
- Obrigada. Está se divertindo?
- Estou. – Ele falou, me segurando ainda perto. O truque do ouvindo nunca falhava. E a desculpa da música alta sempre servia. – E você? Está gostando da festa?
- Sim! Está sendo incrível, eu amo dançar! – Eu disse, encostando a mão em seu peito casualmente ao falar isso. Eu sabia que ele estava ficando cada vez mais a fim.
- Er... Sabe, eu aposto um beijo que você me dá um fora! – Ele falou, de repente.
Desmanchei toda a minha pose para rir.
- Fala sério, Michael! Isso é tão 2015!
- Mas sempre cola, né? E aí? – Ele me disse, sorrindo.
Botei a mão no rosto, fingindo estar pensando muito profundamente.
- Sabe, você me deixou tentada a te dar um fora. – Eu sorri e o vi se aproximar de mim. Nos beijamos devagar, mas ele foi acelerando. A mão grudou na minha bunda e ali ficou. Homens, acham que isso é pegada. Depois de um tempo, dei um selinho nele.
- Tenho que ir, uma festa me espera! – Eu ri para ele e mandei um beijinho no ar. Finalmente, encontrei sozinha.
- ! Você ficou com o Michael?! Ele é, tipo, um dos garotos mais gatos da escola inteira!
Eu ri dando de ombros para ela, fingindo que não era nada importante. Meu riso bobo foi embora quando olhei para o fundo da sala escura e vi duas figuras femininas.
- O que as víboras estão fazendo aqui?! – Que ódio? As duas melhores amigas de as duas mais nojentas depois dela mesma, estavam ali. Eram duas protótipo de Barbie, mas o ego e caráter tiravam toda a beleza delas.
- Você lançou o feitiço?! – me perguntou por cima da música.
- Claro que lancei! Falei explicitamente para não deixar , e as víboras entrarem!
- , - começou, receosa. – não me diga que você chamou elas de “víboras" no feitiço.
- Ué, e esse não é o nome delas? Não serve?
- ! Claro que não! E agora?
- Agora a festa já está acabando. Vamos torcer pra elas nem sequer respirarem perto de mim. E você?! – Virei para ela, curiosa. – Vi que você sumiu várias vezes pra ficar junto de um certo ruivo...
- , você sabe que não tem nada entre a gente!
- Só porque você não toma atitude!
- E vou continuar não tomando! Agora, vamos pegar água pra você! Não quer ter ressaca amanhã no meio da aula, né?
- Está bom! – Resmunguei, enquanto ela me carregava pela festa. Depois, dançamos mais até a caixa de som desligar.
- É nosso sinal, galera! Uma hora! Acabou a festa! Tchau! – Gritei para todos, pegando as minhas coisas e já voltando. Fui empurrando alguns folgados pelo caminho pra fazê-los sair. No dia seguinte, eu voltaria ali pra arrumar o lugar.
- Então, , gostou do seu aniversário? – me perguntou, baixinho, enquanto subíamos as escadas sem fazer barulho.
- Eu amei. – Sussurrei para ela. – Bom, claro que Michael podia beijar melhor e as víboras podiam não ter aparecido. Afinal, qual o nome delas?
- Sei lá. – respondeu. – São milhares de alunos nessa escola e todos só as chamam de víboras ou algo relacionado à .
- Vou ter que aprender o nome delas pra futuras festas. Mas acho que o feitiço funcionou. Não vi as duas pessoas mais insuportáveis no aniversário.
Abri a porta do quarto e desmontei lá dentro. O dia fora incrível e cansativo. Tudo valeu a pena, até mesmo meu lapso de memória com nomes. Pelo menos elas não me perturbaram.
Fui dormir, tranquila, sem nem imaginar o que o dia seguinte me reservava.


Capítulo 6

O sinal do fim da aula tocou e todos os alunos suspiraram de alívio. Fala sério, as duas primeiras horas do dia com aula de Poções? É o que? Tortura?
- Alunos, deixem uma amostra da Poção Wiggenweld e estão dispensados. - O professor Roberto, que era um homem grandalhão e meio velhote, mas gente boa também, falou. - Menos .
- Eu? Que que tem eu? - Perguntei, vendo todos os outros alunos correrem para fora de sala.
- A diretora quer falar com você.
- Comigo?! Por quê?!
- Isso aí é assunto seu com a diretora. - Ele disse, me empurrando para fora da sala. Acho que ele tentou ser delicado, mas com a força dele, aquilo não aconteceu.
- E aí?! O que você acha que é sobre? - estava roendo as unhas de nervoso. Tadinha, e nem era que tinha sido chamada.
- Eu sei lá. Vou tentar resolver isso rápido. Já te vejo nas aulas de Feitiços. - Tranquilizei ela e segui para a sala da diretora. As fotos de antigos alunos me seguiam com o olhar. Eu não podia ter um segundo de paz ali?
Desci para o terceiro andar e fui em direção a maior pilastra do corredor, então dei duas batidinhas nela. Se eu fizesse isso em casa, minha mãe iria medir minha febre na hora. Mas, ali, numa escola de magia, só fez que uma porta se abrisse e revelasse um grande escritório com uma senhora lá dentro.
- Entre. - A voz firme e gentil chamou.
Calma, , é só manter a postura e a tranquilidade.
- Bom dia, dona Alba. Me chamou? Foi engano, né? - Falei, forçando um sorriso.
- Bom dia, senhorita . Precisamente, você foi chamada. Merlin sabe que faz anos que não cometo erros de confundir alunos. A última vez foi desastrosa demais! Creio que o antigo ministro ainda se recorde... - Ela ria sozinha. - Mas, muito bem, não é disso que queremos falar, certo?
- Por mim, pode falar disso a vontade, dona Alba. - Sorri bem abertamente, fingindo curiosidade na história. Às vezes, os idosos só querem alguém pra conversar. Isso funcionava sempre que vovó me via roubando os ovos de Páscoa de Júnior.
- Muito gentil da sua parte querer ouvir minhas histórias bobas, mas hoje o assunto é sobre você. Creio que devo dar-lhe os parabéns pelos seus 16 anos, certo? Um dia atrasado, mas espere que considere.
- Ah, obrigada! Não precisava me chamar aqui só pra isso! Que bom que tudo foi esclarecido, fico feliz, agora, licença, tenho aula de Feitiç...
- Um minuto. - Ela me interrompeu na hora que eu ia levantar da cadeira. Porcaria. – Por que a pressa? Estamos apenas começando. Quer um chá?
- Ahn... - Será que aceitar ia deixá-la mais legalzinha? - Por que não? Obrigada, dona Alba.
- Não há de quê. - Ela disse, me servindo um chá de azul muito brilhante. - Espero que, apesar de ter dormido tarde, não tenha deixado de descansar.
Cuspi metade do chá que estava na minha boca.
- Ora, creio que finalmente consegui impressioná-la. Se queria deixar suas festas secretas, teria tido o cuidado de não deixar 200 alunos rondando os corredores depois de uma hora da manhã ou pelo menos acabar mais cedo, correto? Entenda, não sou contra celebrações, sabe o quanto eu adoro as que fazemos na escola, tanto que por isso deixei passar das outras vezes. Mas hoje diversos professores já reclamaram comigo de seus alunos sonolentos que, por acaso, correspondem exatamente aos seus convidados!
- Que coincidência.
- Coincidência extrema. Não acredito que nenhuma providência grave seja tomada, apenas uma detenção na sexta-feira. Alertarei sua diretora da casa para providenciar isso. E, da próxima vez, não termine tarde ou faça no seu próprio espaço comum. - Ela me lançava um olhar profundo e levemente ameaçador que me lembrava às vezes em que mamãe me dava últimos alertas.
- Tá bom, dona Alba.
- Muito bem! - Ela falou, de repente animada. - Então pode ir. Essa velha aqui tem muito trabalho para começar a fazer. Tchau, , querida.
- Tchau, dona Alba.
Fechei a porta do escritório meio irritada. Eu gostava muito da dona Alba, mas agora eu estava bolada com toda essa situação. Primeira semana de aula e já ia ter detenção? Tomara que não avisassem mamãe.
Entrei na aula de Feitiços e já recebi o olhar carrancudo do professor Vicente.
- Atrasada na sua primeira aula? Que decepção, .
Engoli o ódio por aquele homem e tentei falar da forma mais clara e paciente do mundo.
- Foi mal, professor, a dona Alba me chamou pro escritório dela.
- Diretora Alba, . Mas fico feliz que ela esteja tomando as providências necessárias quanto a alunos desordeiros e descompromissados.
Eu senti meu rosto esquentar de raiva. Quem aquele babaca achava que era? Ah, é, um maldito professor que nem sequer parecia gostar do que fazia. E cada segundo eu tinha que me lembrar daquilo para não mandá-lo enfiar aquela varinha em outros lugares.
- O que houve, ? Tem algo mais a dizer? - Ele questionou, o olhar curiosamente animado.
Respirei fundo e forcei novamente a voz educada.
- Não, professor Vicente.
- Então você pode deixar de ficar igual uma petrificada na minha frente e ir logo se sentar? Ou é difícil pra você fazer esse básico?
A sala se encheu de risadas e até o professor conseguiu esboçar um sorriso perante a situação. Forcei minha unha contra a minha palma para poder me concentrar e não me deixar abalar. Porra, a maioria daquelas pessoas ali estava me idolatrando ontem, agora estavam rindo de mim? Não por muito tempo.
Balancei meus cabelos para trás e forcei uma risada para acompanhar a dos meus colegas enquanto me dirigia de cabeça erguida e sorridente até a minha mesa. Pouco depois, eles foram achando tudo meio sem graça e pararam de rir. É um truque eu descobri aos 14 anos. A piada está em te constranger. Se isso não acontecer, perde a graça. Sempre saia por cima.
E eu nunca deixava de sair por cima.
A aula continuou e eu percebi que estava morrendo de curiosidade pra me perguntar o que acontecera na sala da diretora, mas ela tinha ainda mais medo de Vicente. E ele não ficava um segundo sem falar com aquela voz de tédio. Sério, que saco!
Quando finalmente o sinal do fim da aula tocou, antes mesmo de Vicente nos liberar, já perguntou:
- E aí? O que ela queria?!
- Bom, primeiro, ela me deu parabéns pelo meu aniversário. E olha que gentil! De presente, ela me deu uma sexta-feira de detenção. - Praticamente vomitei sarcasmo em cada palavra. Meu primeiro dia com dezesseis anos não podia estar melhor.
- Detenção?! - esganiçou, por sorte o barulho de todo mundo saindo da sala a encobriu. - Por quê?
- Digamos que as festinhas secretas... Não eram tão secretas. E os professores reclamaram. - Bufei.
- Ai, meu Merlin. Eu sabia. Eu sabia! Já era. Meu futuro já era. Meus pais vão me matar!
- Calma, garota! Aquieta aí! - Segurei pelos ombros. - A detenção é pra mim, você está livre.
- Mas, , eu também sou culpada.
- A dona Alba não parece brava de verdade. Acho que só quer atender a vontade dos professores. Óbvio que eu estou puta. Mas não venha com peninha de que você também tinha que pegar detenção. Muitos alunos daquela festa mereciam muito mais detenção do que você.
- E do que você.
- É verdade, mas a culpa não é minha se os professores conhecem meu maravilhoso talento para festas. Nunca decepcionei ninguém até hoje, né? Então eles jogaram a culpa de uma festa brilhante em mim. Não que tenham errado.
- Ei, ! - Ouvi alguém chamar.
Quando virei pra trás, uma cena muito esquisita se encontrava na minha frente: Michael estava de frente pra mim, com seu grupinho: Julio, Henry, e, o pior de todos, . Ignorei esse último e fixei meus olhos no que tinha me chamado.
- Que foi, Michael?
- Então quer dizer que as aulas mal voltaram e você já se encontrou com a diretora? E ganhou uma bronca do Vicente? Parece que a doce finalmente foi descoberta pelo que realmente é.
- O que, Michael? - Botei a mão na cintura, impaciente com aquela provocação. - Sou o quê?
- Uma problemática. Talvez seja por isso que ninguém que te conhece aguenta ficar com você. - Quem respondeu foi Henry, fazendo todo o grupinho arregalar os olhos e rir baixinho. - Não concorda, ?
Encarei aqueles olhos cor de mel, preenchidos por indiferença e rancor, e vi um sorrisinho sarcástico se abrir em sua boca.
- Não poderia ter dito melhor.
Eu estava muito puta. Não havia palavras pra expressar. Mano, meu dia já estava péssimo e eles estavam fazendo aquilo de graça? Mas era assim que adolescentes funcionavam. E, por mais cansativo que fosse, eu voltei a fazer aquilo que eu sabia: rir da minha própria situação.
- Vocês são patéticos. Adoram falar mal de mim, mas sempre acabam me procurando. Não lembro do fato de eu ser um problema ter te impedido de ficar atrás de mim ontem, Michael. Ou o problema só existe quando você não tá segurando minha bunda?
Michael ficou vermelho. O grupo todo começou a zombar dele e eu vi como fechou a cara. Porém, o que foi impossível não ver foi a explosão de Michael.
- Óbvio que todos procuram você. Você é uma piranha fácil!
Piranha. Fácil. Eu não sei dizer quantas vezes eu escutei isso pelas minhas costas, na minha cara. De pessoas que eu nem sabia quem eram, de pessoas com quem eu me importava. E tudo porque, quando eu estava a fim de beijar, eu beijava. Aquele dia estava realmente acabando comigo, mas, de novo, eu sorri.
- Michael, você tem ideia de que sua vida é tão patética que o que você e todos seus amigos têm pra fazer é dar pitaco na minha? Vai para cozinha lavar louça, os elfos agradecem, e eu também.
Antes que ele pudesse responder qualquer coisa, peguei comigo, que estava paralisada de raiva e medo, e avancei rapidamente para a sala de História da Magia. A professora Jane deu um bom dia rápido para nós enquanto entrávamos, totalmente imersa no livro que estava lendo.
- Como eles ousam? - estava furiosa e desesperada e começou a falar antes de sequer sentar na mesa. - Como eles ousam falar isso pra você? E eu fiquei quieta. Me desculpa, eu sou péssima pra enfrentar os outros! Ainda mais que o estava lá. Eu percebi que ele estava incomodado, eu sei que ele não gosta quando o Michael faz essas coisas. Ah, , eles são tão babacas e! - se interrompeu. – ?
Eu estava acordada há quatro horas. E tinham sido quatro horas péssimas. Não foi nenhuma surpresa pra mim quando as lágrimas começaram a jorrar dos meus olhos como uma torneira aberta. Engoli cada soluço pra tentar fazer aquilo se passar despercebido. Mas é claro que viu.
- Ah, ! Impervious! - Ela lançou o feitiço de impermeabilidade no meu material antes que eles fossem inundados também. - Eu sinto tanto, amiga. Você não merecia isso. Eu realmente não sei que que passa na cabeça de gente assim. Aqui, olha pra mim.
Com dificuldade, levantei a cabeça que eu tinha enfiado entre os braços, me escondendo. lançou um feitiço que logo fez todas as lágrimas sumirem.
- Como eu estou? - Perguntei baixo, com medo de falar muito e acabar caindo no choro de novo.
- Como sempre, deslumbrante. - sorriu para mim. Ela era a melhor amiga que eu podia ter.
Os garotos tinham razão. Eu afastava todo mundo. Afastei meus amigos da antiga escola, meus amigos de Castelobruxo, todo garoto que eu ficava. Minha família não se afastava por obrigação.
Mas tinha . Ela nunca precisou ficar. Mas ela ficava. E, por isso, eu nunca seria grata o suficiente por ter ela na minha vida.
- Eu te amo, sabia? - Soltei para ela, sentindo a gratidão de tudo.
- Vixi, talvez eu tenha que te levar pra enfermaria, normalmente essa carência só acontece na madrugada ou quando tem álcool junto. - zombou.
- Ai, sua idiota! - Eu ri baixinho, dando um tapa falso nela.
- Ah, agora sim voltou!
- Tá me chamando de grossa? - Questionei ela, fingindo indignação.
- Eu nunca falei isso, mas se você interpreta assim...
Não pude deixar de rir com ela. Não, o ano não seria uma merda. Seria bom. Porque eu tinha junto comigo uma boa amiga.


Capítulo 7

Era sexta feira. O único dia que não tinha aula a tarde para os alunos aproveitarem. E, no meio daquele calor infernal, os alunos podiam se refrescar nadando no rio. Era onde eu com certeza iria estar.
Mas não. Eu tinha que estar sentada na frente de uma idosa esquisita esperando minha detenção.
Não me entenda a mal. Eu adoro a velhota Potira, a diretora do Boitatá. Ela era nossa professora de Herbologia e era como uma vovó fofinha, mas a velha era meio caduca. Todo final de aula, ela conversava com todas as plantas do jardim. Além disso, a saia vermelha longa junto com o colar de palha que cobria todo o seu tronco não era exatamente o visual que eu estava acostumada. Não querendo julgar. Só era diferente.
Mas, às vezes, eu queria que ela não fosse tão diferente a ponto de conversar com uma samambaia roxa pendurada no teto de sua sala.
- Você tem razão, minha querida, ela parece rabugenta. Espíritos maus, espíritos maus. - Potira falava para sua planta, olhando de canto de olho pra mim. Eu tinha que gostar muito da velhota pra manter a calma.
- Profe, será que você podia adiantar logo qual vai ser a detenção? - Tentei apressar a situação, antes que eu acabasse com uma detenção extra: participar de diálogos com seres não racionais.
- Tenha calma, , tudo se resolverá. Tudo tem seu tempo. Ou talvez o tempo tenha todos nós. - Ela disse, muito séria, me fazendo engolir em seco. E então, de repente, soltou uma risadinha. - Estamos só esperando o seu amiguinho!
Espera... Quê?
- Não, profe, sou só eu. - Eu reforcei. Ela não podia estar alucinando mais ainda agora, podia?
- Ah, não, queridinha, a diretora Alba me falou de dois alunos. Seus danadinhos, já quebrando as regras em menos de uma semana! Eu já esperava de você e, bom, ele sempre está te seguindo, então imagino que se encrencaram juntos. - Ela soltou uma risadinha, como se fôssemos dois bebês bobinhos.
- E quem é o outro, professora? - Eu perguntei, nervosa.
Naquela hora, a porta rangeu e alguém entrou na sala. Por algum motivo, eu pareci reconhecer os passos e um cheiro fraco de perfume me confirmou isso. Senti meu sangue gelar.
- Desculpa a demora, professora Potira. - A voz de preencheu o ambiente.
- Sem problema! Eu e sua amiguinha estávamos esperando por você. - E então ela se virou para se despedir da samambaia roxa.
Realmente, eu e já estivemos ali naquela sala juntos várias outras vezes. Vezes em que eu o arrastara até ali. A profe Potira teria razão se a gente tivesse no passado. Agora, era claro que ela estava errada. Aquela velha era maluca? Ela não percebia o óbvio olhar de ódio que nós mandávamos um para o outro? Para alguém que fala tanto de energia, ela não pareceu notar a tensão que se instalou. Minha mão se fechou automaticamente quando ele pigarreou, irritante como sempre.
- Acredito que a senhora tenha se confundido, professora Potira, não somos amigos. - Ele disse, naquele som sabe tudo. Eu tive que me segurar muito para não revirar os olhos em respeito à profe.
- Oh, sim! Claro que não. Como pude ser tão tola? Vejo que agora ele é sua paquera. - Ela disse, piscando pra mim, dando uma risadinha.
- Tá maluca, profe? - Eu soltei, sem nem pensar se aquilo poderia virar outra detenção. - Olha, por que você não fala o que eu tenho que fazer e pronto? Detenção, lembra? E aí depois vocês conversam sobre sei lá o quê.
- Ah, a detenção, verdade! Sim, sim. Bom, Amélia tem reclamado muito do estado da biblioteca, ainda mais agora com os livros novos que chegaram. E prometi que os dois pombinhos iam ajudá-la! Agora, vamos andando, ela nos espera! - Potira dizia e, pra uma senhorinha, ela até que caminhava rapidamente.
Num instante, eu já fui pro seu lado. Deus me livre ficar sozinha com aquele garoto.
- Profe, acho que você entendeu errado. A detenção era pra mim. Deve ter alguma forma de fazermos isso separados, não acha?
- Você é burra ou o quê? Acha que eu estou aqui dentro pro opção? - revirou os olhos.
- Você pegou detenção? - Eu ri. – Ah tá, né?!
- Muito bem, pombinhos, chegamos na biblioteca. É só seguirem as regras de Amélia e depois ela me passará tudo. Tentem não ficar nos beijinhos! - Potira riu como uma garotinha. - Ah, olá para você também! - Ela engatou numa conversa com uma muda de alcaçuz.
Reunindo minha coragem, entrei na biblioteca, mas deixando a porta fechar na cara de , afinal, eu não era obrigada a ser mordomo de ninguém.
Segui até um balcão onde estava uma velha, Amélia, e um Duende que eu nunca sabia o nome. Dizem que ele morava na floresta até que a bibliotecária o viu e o confundiu com um aluno, o arrastando para a escola. Ele reclama a cada segundo, mas nunca mais foi embora, ficando na biblioteca o tempo todo. Maluco.
- Boa tarde, dona Amélia. Boa tarde, Miúdo. - falou, aparecendo atrás de mim. Argh, ele sempre tinha que pagar de menino educado e estudioso?
- É sr. Miúdo pra você. - O duende reclamou, carrancudo, mas abriu um mínimo sorriso para ele. Já pra mim, só ergueu as unhas compridas de forma ameaçadora. Quase lhe ofereci pagar a manicure.
- , é você? - Amélia se inclinou, aproximando os óculos, até arregalar os olhos miúdos. - Ah, claro que é você! Então, o que vai ler hoje?
- Estamos aqui pra cumprir a detenção. - Eu falei, fazendo a velha me notar finalmente. - Pode mostrar o lugar que é pra limpar?
A velha olhou pra mim com uma cara de desgosto e o duende começou a... Rosnar? Não sei dizer, mas eu estava sem paciência.
- , querido, essa é aquela sua amiga que vivia danificando os livros e derrubando as estantes? - Amelia disse, com um desprezo carregado na palavra “amiga".
- Não somos mais amigos, dona Amélia, mas é ela sim. - tinha um desprezo quase no mesmo nível.
- Última prateleira da última seção. Comece retirando todos os livros, passe um pano e recoloque-os. - A velha falou grosseira comigo.
- Você quis dizer usar um feitiço, né?
- Não, panos úmidos são melhores que varinha. - Ela ralhou, antes de se voltar docemente para o idiota ao meu lado. - Agora, , querido, me conte como se meteu em problemas! Eu e o sr. Miúdo estamos com saudades!
Larguei aqueles três esquisitos para conversarem e caminhei pela biblioteca gigante até chegar ao final, um canto meio mal iluminado, completamente empoeirado, com teias de aranha e, por Deus, até algumas raízes de plantas.
Eu nunca fui fã da biblioteca. Não me leve a mal, mas com um rio dentro da escola, campos enormes pra jogar várias coisas, espaços para fazer festas e cozinhas cheias de petiscos, quem em sã consciência iria para uma biblioteca?
. Ele iria. E por isso era o queridinho da bibliotecária.
Antigamente, antes de ele revelar quem realmente era e nos afastarmos, ele às vezes me trazia aqui pra me ajudar com os deveres. Eu nunca fui lá a mais estudiosa. Acho que a única coisa que eu me virava bem era nos duelos. Então, vivia me ajudando a recuperar minhas notas. Passávamos muito tempo juntos. Tempo suficiente para as coisas irem mudando...
Mas não importava mais. Eu tinha me livrado daquele garoto e de ter que ir na biblioteca.
Exceto por essa merda de detenção.
Tirei o primeiro livro. E o segundo. Tira e coloca na pilha. Era só isso que eu fiquei fazendo pelos primeiros 15 minutos (que pareciam 15 dias), com minha mente pensando nas 37 melhores maneiras de passar esse tempo e com o idiota ainda conversando com a bibliotecária, me deixando fazer sozinha o trabalho.
Ele estava achando que eu era empregada de quem?
Mas, igual a loira do banheiro que ao falar três vezes o nome aparecia, como um monstro puxado pelo meu pensamento, finalmente apareceu.
- Achei que ia estar dormindo. - Ele falou, sarcástico.
- Diferente de alguns, eu faço o que me pedem. - Respondi, atirando um livro na sua direção. - É melhor preparar seu pano.
Pensando melhor, era mais agradável trabalhar o dobro do tempo sozinha do que ter que dividir o mesmo espaço que ele. Nossas memórias juntos pareciam de outras pessoas. Mas eu sabia que ainda era eu porque, de um modo muito infeliz, mesmo depois de três anos, meu corpo parecia ainda lembrar de como era ter sua presença comigo. Como se fosse natural.
Mas agora, ainda mais natural que isso, era a facilidade que eu podia lançar alguma azaração se ele me irritasse.
- Você tá tirando os livros muito devagar. - reclamou, bocejando.
- Cala a boca.
- Se você pegasse dois de uma vez pela lateral, seria muito mais rápido.
- Eu mandei você calar a boca. - Eu rosnei.
- Quer parar de ser besta e fazer direito? É só tirar assim. - Ele começou a se aproximar e puxar o mesmo livro que eu.
- Me devolve isso e volta a fazer sua parte. Você não consegue passar um pano idiota sem querer se amostrar?
- É “mostrar" e não “amostrar”.
- Aí! Se acha superior porque pronuncia diferente. Vê se me erra e me devolve o livro.
- Me deixa limpar. - disse, puxando com mais força e irritação o livro para si.
- Qual o problema de simplesmente deixar outras pessoas fazerem o trabalho delas?!
- O problema é que elas não fazem direito!
- Nem tudo está errado só porque não é do seu jeito! Estava tudo dando certo!
- Chama aquela lerdeza de certo? Não vamos sair daqui nunca se você não fizer mais rápido!
- Eu vou te chutar se você não largar!
- Tenta, ! Você nunca conseguiu me superar mesmo!
Não havia uma célula do meu corpo que não estivesse pegando fogo de tanto ódio. Eu odiava e sua superioridade. Eu o odiava mais do que tudo. E foi na base desse ódio que eu saquei a varinha mais rápido do que ele.
- Bombarda!
conjurou um escudo protetor na hora, mas não foi forte o suficiente, o que o fez se desequilibrar para trás e vários livros caírem da prateleira. Ele podia fingir que não, ele podia esquecer, mas eu era mais forte que ele. Nisso eu era.
O garoto me encarou com raiva e falou, irônico:
- Parece que você só sabe fazer isso, né? Destruir as coisas.
- E parece que você só sabe entrar no meu caminho pra ser destruído junto. - Eu rebati, tentando fingir que o comentário não doeu.
- Acredite, já aprendi há muito tempo que de você nunca sai coisa boa.
- E eu vi na cara dura o quanto você na verdade é um dissimulado. Me enganou direitinho, né?
Nos encaramos, o ódio palpável entre nós. Eu nunca ia me perdoar por ter acreditado que ele era uma boa pessoa e ter deixado ele se aproximar. Ter deixado ele me magoar. Mais do que raiva dele, eu tinha raiva de mim por não ter reparado quem ele realmente era antes.
quebrou o contato visual, ajeitando a blusa e se agachando para recolher os livros caídos para limpar.
- Viu? No final, eu até que fui bem rápida. - Repliquei, soando meio infantil até para mim mesma.
No entanto, antes que ele pudesse responder, a luz fraca em cima de nós começou a piscar e as estantes começaram a sacudir. Um por um, os livros foram caindo.
- Para com isso. - Ele falou, irritado.
- Está de sacanagem? Não tenta me assustar que não adianta, para com essa porra. - Eu repliquei, mas, por dentro, eu tava meio cagada de medo.
Porém, nada parava. As estantes só se sacudiam cada vez mais forte, até uma voz baixa e forte proclamar:
- VÃO EMBORA!
Larguei tudo para trás e saí correndo na mesma hora. Que mané coragem de Boitatá o quê. Eu queria era sair viva. Passei pela bibliotecária que nem reparou em mim e disparei em direção ao meu dormitório.
Puta merda, se aquilo fosse uma pegadinha, eu ia matar aquele garoto. Mas, por enquanto, eu só tentava respirar fundo e parar de tremer.


Capítulo 8

- , eu te juro, tem alguma coisa assombrando a biblioteca. - Eu repeti, enfaticamente.
Já havia passado uma semana desde o fatídico acontecimento e, embora tenha ficado assustada no início com o que eu contei, depois se encheu de explicações lógicas.
- Pode ter sido um Caipora. Até parece que não os conhece. Ou mesmo os amigos de . Ou um aluno mais novo. Você sabe que mexer livros e piscar luzes é um dos truques mais básicos na magia.
Mas algo me convencia que não era nada daquilo. Era algo diferente.
- E se for um fantasma? - Perguntei, apreensiva.
Eu esperava várias reações, mas um ataque de risos não era uma delas.
- Fantasmas? Em Castelobruxo? Você anda lendo muitos livros das escolas europeias. Esquece isso, . Sério. Não vai deixar de ir na biblioteca por um sustinho, né?
- Eu já não gostava muito de lá. Agora que eu não vou mesmo.
nunca ia entender. Ela não tinha estado lá. Não sabia como tinha sido a tensão das luzes piscando e os livros caindo. E aquela voz... Sei lá, por mais óbvio que fosse de poder se reproduzir aquilo com um balançar da varinha, algo despertava um medo profundo em mim, como se fosse algo poderoso demais para se ter dimensão.
E a única pessoa que tinha vivido a mesma cena que eu era a última pessoa no mundo que eu falaria por vontade própria. Antes eu morresse amaldiçoada do que ter que olhar na cara daquele... Daquele... Me faltam palavrões para descrevê-lo.
- Bom, se você não vai mesmo na biblioteca, então espera aqui porque eu quero levar um livro pra Maba caso a gente fique sem ter o que fazer.
Maba era o apelido carinhoso que a gente dava para o vilarejo bruxo Manauara Baquara. Com a gente, eu digo a escola inteira. Era um apelido muito mais antigo do que meus anos estudando em Castelobruxo. Mas, naquele fim de semana, poderíamos visitar o local.
Eu amava esses fins de semana. Adorava comprar acessórios novos nas lojinhas e depois ir para os bares locais. O meu preferido era o Coco Duro. Eu atormentava o dono desde os meus 12 anos, quando mamãe finalmente deixou eu ir no passeio, e agora ele sempre deixava eu escolher uma ou outra música. Quando estava de bom humor, fazia até noite do karaokê.
Mas ficava mais na dela. Depois de alguns minutos de música, ela preferia sentar e ler um livro. E isso nos leva à parada na biblioteca.
- Prontinho! - apareceu já com seu livro escolhido em mãos. - Sabe, por curiosidade, eu decidi ir lá no seu cantinho e eu admito, eu vi algo de esquisito.
Um arrepio nervoso e ao mesmo tempo um orgulho de finalmente provar que estava certa subiram pelo meu corpo.
- Rá! Viu? Eu disse! O que você viu?
- Eu vi que continua exatamente igual. Sua detenção não era arrumar aquilo? Vai acabar tendo que voltar.
Fiz cara feia sem esconder a decepção que sentia com o que ela tinha falado. Eu queria tanto que ela levasse aquilo a sério também! Mas já estava desistindo. Ela nunca ia acreditar em mim. Honestamente, por que acreditaria?
Descemos até o pátio amplo normalmente vazio, mas que estava lotado de alunos e tinha sete ônibus verde água estacionados na frente da escola. Os poucos cujos pais não haviam permitido suas idas estavam no rio que, apesar de ser incrível, sempre parecia perder a graça quando era a opção que sobrava.
Eu sabia como era. Lembrava de , e andro) entrando no ônibus no nosso primeiro ano da escola e eu ficando para trás, sem amigos pra aproveitar a cachoeira comigo.
Agora, eu tinha vontade de me gabar na frente de todos os pirralhos irritantes que não iam.
- Muito bem, meus queridos, prestem atenção! - A velhota Potira começou a falar. Agora que eu não estava mais de detenção, conseguia lembrar o quão legal que ela era. - Cada um deve entrar no ônibus de acordo com a sua série e não tentem burlar isso se não quiserem deixar de viajar. - Potira olhou com muita atenção para uma planta ao seu lado e começou a murmurar para ela. - Tem razão... É duro com os coitados, mas o Vicente quer tudo organizado...
- Professora? - Um aluno do segundo ano chamou e ela voltou a olhar para nós.
- Ainda estão aqui? Ahn, bem, o que estão esperando? Vão, vão, aproveitem e só voltem quando estiverem tão cansados que vão direto para cama. Não, espera, voltem hoje ainda! Ouvi que teremos cuscuz para o jantar.
Os alunos comemoraram e cada um de nós foi em direção ao seu ônibus. Os 200 alunos do sexto ano se encontravam em frente ao que deveria ser o nosso junto com a professora Jane e seus chamativos cabelos laranjas.
- Muito bem, vamos ver. Ah, é, a chamada! Quem eu for chamando, pode ir entrando no ônibus.
- Qual é, profe, deixa gente entrar logo no busão! Vai atrasar tudo!
- , cala a boca antes que atrase mais! - Priscila, uma garota do nosso ano da casa Curupira, brigou.
Se não fosse , eu tinha começado uma briga ali mesmo.
- Deixa ela fazer chamada, a gente vai ter que esperar mesmo. Você sabe que o ônibus do primeiro ano sempre atrasa.
Bufei e esperei o que pareceu uma eternidade até poder entrar no transporte mágico. O que por fora parecia um ônibus normal, por dentro devia caber mais de cinco. Além disso, ainda tinha dois banheiros, uma geladeira com água e picolé, junto com saquinhos para caso alguém passasse mal. Eu e , como sempre, sentamos juntas. Essa era a parte boa de só ter uma melhor amiga, não tinha briga de quem ia sentar com quem.
Logo, quando todos já estavam dentro do ônibus, ouviu-se a voz projetada da professora Jane:
- Ok, ok, antes de sairmos, todos estão com tudo aí? Mesmo se não estiverem, não tem mais jeito agora. Não é pra levantar durante a viagem e, caso se levantem, vou transformar esse piso em areia movediça! E não, isso não é legal! - Ela falou para vários garotos que comemoraram. - Lembrem que as regras da escola permanecem, então aproveitem os fins pedagógicos! Manauara Baquara é uma cidade muito rica em sua história, fiquem com isso na cabeça no passeio.
- Professora, mas eu conheço outro passeio muito melhor! - andro) gritou lá dos fundos.
- Que passeio, sr. ? - Jane, mais curiosa do que sensata, perguntou. Pior erro possível.
- Passei o p...
- PROFESSORA, QUE HORAS O ÔNIBUS SAI? - gritou por cima das várias gargalhadas e da piada constrangedora que iria acontecer. Mas eu daria de tudo pra ver a reação de Jane e a detenção que ele ia ganhar.
- Qual é, , estragou as coisas! - gritou e vários meninos fizeram coro, enquanto ia afundando na cadeira.
- Fica quieto que ela salvou essa sua bunda mole! - Eu rebati, defendendo minha amiga.
- Ok... - Jane olhava tudo confusa. - Bom, motorista, pode partir! Crianças, botem o cinto de segurança. Estou de olho em vocês, hein!
Cinco minutos depois, Jane estava apagada e os alunos já ligavam caixas de som, passavam pelos corredores só por passar, sentavam cinco em cada banco, gargalhavam e berravam. Não precisava ser muito amigo de ninguém para entrar em um jogo ou em uma conversa e logo eu e já estávamos envolvidas.
O ônibus parou e finalmente Jane acordou com o solavanco, olhando para trás assustada.
- O que é que vocês estão fazendo em pé?! Sentem, sentem!
- Mas, professora, a gente chegou! - Uma garota da casa Boitatá exclamou.
- Ah... Ah, é. Então... Podem sair. Mas sem empurrar!
Todo mundo saiu se empurrando até conseguirem respirar o cheiro de calor, árvores, mel e álcool que Maba trazia. Os melhores cheiros do mundo! e eu fomos direto visitar as barracas que já estavam montadas, cheias de petiscos maravilhosos, artesanatos lindos e objetos mágicos muito duvidosos. Aquele lugar era incrível.
Depois de comprarmos algumas coisas, fomos direto para o Coco Gelado. As sombras das árvores não nos protegiam do calor abafado do lugar, mas aquele bar era encantado para ser fresco e tinha o melhor Payaru da região.
Chegando lá, eu e nos sentamos no balcão e pedimos cada uma a mágica bebida fermentada com mandioca: o Payaru. Quando o garçom nos entregou e eu senti a bebida gelada descer na minha garganta, pude relaxar e reparar uma pessoa no local.
- Ei! Seu Jairo!
O velho homem que ria com seus clientes, mas parou quando me ouviu chamá-lo.
- ! Minha cliente favorita! - Ele disse, apertando minha mão, entusiasmado.
- Tenho certeza que diz isso para todos!
- Mas é uma mentira para a maioria. - Ele piscou, nos fazendo rir. - O Payaru está decente?
- Está maravilhoso como sempre! Vai ter noite do karaokê hoje?
- Para você espantar os meus clientes? Não, não.
- Ei, a minha voz é única!
- Unicamente deplorável. - se juntou a brincadeira.
- Por isso que eu gosto dessa aqui! - Seu Jairo riu e deu tapinhas nas costas de . - Mas não é nada pessoal. Hoje é o dia da roda de histórias, as melhores lendas locais! Daqui a cinco minutos começaremos! A minha é a última e a melhor de todas.
- E qual é? - Perguntei animada.
- Espere e ouça. - Ele disse, antes de sair gargalhando para falar com outros.
- Ele é meio doidinho. - falou, rindo.
- Ele é incrível!
A roda de histórias começou e logo todos formaram um círculo e se envolveram nas histórias dramáticas contadas no centro do salão, sempre gerando aplausos muito altos. Obviamente, os meus eram os mais barulhentos. Até que não é muito fã de bares estava se divertindo para valer. Infelizmente, só não se divertia mais do que , que havia aparecido com andro). Por que esse tipo de evento tinha que ser a cara dele? Pelo menos e os amiguinhos chatos deles não estavam ali.
Depois de horas e horas que passaram voando com as histórias incríveis (e uma leve influência da mandioca fermentada), Seu Jairo foi para o meio da roda começar a sua dramática apresentação que todos esperaram a tarde (e agora a noite) toda.
- Muito bem, muito bem, cheguem perto, porque a história de Irupé não pode ser repetida se não quiserem acordar seu espírito!
- Viu? Ele também acredita em espírito. - Sussurrei para .
- Cala a boca. - Ela replicou.
Todos os olhos estavam arregalados e fixos em Seu Jairo. A luz ficou fraca até restar apenas o brilho da varinha dele.
- Irupé era uma linda bruxa da tribo dos Kambebas. - Bufei ouvindo a menção da aldeia da mãe de . Não tinha como ser qualquer uma das dezenas de outras da região? - Poucos eram os bruxos em sua aldeia e ela fazia com que todos os mágicos e não mágicos convivessem em paz. Sua professora era a mais antiga das feiticeiras: a Lua!
Nessa hora, ele acenou com a varinha e criou a imagem de uma jovem índia sentada à noite à beira do rio observando a lua.
- Toda noite, ela observava os feitiços que a Lua lançava sobre a água, movimentando pequenas ondas, causando altas e baixas na água doce. Mais tarde, os trouxas diriam que era a gravidade. Bobagem! A feiticeira Lua usava magia! E Irupé era sua melhor aprendiz.
A cena agora mostrava a indígena movimentando as águas igual a lua. E sem varinha! Arfei diante do que seria aquele poder.
- A aldeia não compreendia Irupé, mas a respeitava. Ela ajudava os mais novos de sua tribo a ingressarem em Castelobruxo e participava de sua proteção. No entanto, tudo mudou quando o homem branco chegou aqui.
A imagem se tornou turva. Grandes navios apareceram, assim como armas de fogo, homens vestidos que ameaçavam os nativos, desmatando, escravizando e muitas outras cenas horrendas. Era difícil de olhar, mas eu sabia que devia. Não podia fingir esquecer a mancha de dor e sangue que a história do meu país tinha.
- Dentre aqueles homens, existiam alguns portugueses que vieram àquela terra à procura de poder. Magia. Eram bruxos que haviam escutado as lendas de Castelobruxo, a escola mais bem escondida no meio da maravilhosa floresta. Percebendo que Irupé era muito respeitada entre seu povo, observavam-na constantemente, sentindo que havia algo de diferente nela. Usava os truques que tinha aprendido para despistá-los e confundi-los até que eles a deixassem em paz. Porém, a deixaram apenas para procurar os bruxos de sua tribo.
O feitiço mostrava homens espreitavam entre as moitas, vendo as crianças que tinham manifestação de magia.
- Irupé percebeu isso e notou que algumas das crianças bruxas de sua aldeia estavam desaparecendo. A perseguição aos índios estava aumentando e, além de se livrar dos trouxas bandeirantes, tinha que se livrar dos bruxos também. Ela entendera o plano. Queriam encontram Castelobruxo. Queriam a escola para si. Mas ela não iria deixar.
Arfei quando a imagem da escola apareceu. Parecia ainda mais majestosa no meio da pouca iluminação e com a tensão da história sendo contada.
- Irupé começou a evacuar as crianças para dentro da escola, mas percebeu tarde demais que alguém a seguia. Ela havia revelado o local para seus inimigos. Ela havia estragado tudo. No seu desespero, avançou para uma das salas da escola e a enfeitiçou. Sua entrada passou a ser imperceptível e amaldiçoava qualquer um que não era de sua tribo que tentasse entrar. Os portugueses tomaram Castelobruxo. E os nativos começaram a sofrer.
Uma grande mancha vermelha cobria a escola e eu não precisava ser boa em interpretação para entender o que aqueles monstros estavam fazendo.
- O poder não era suficiente. Eles viam cada criança como uma ameaça de sua soberania. Começaram a implantar todos os métodos europeus e castigar as crianças que não cooperavam. Irupé não aguentava isso. Começou a esconder cada vez mais alunos e ensiná-los, junto com a Lua. Mas uma noite, ela foi seguida.
A cena mostrava a jovem índia de antes escoltando algumas crianças quando feitiços foram disparados. Ela protegeu a si mesma e aos alunos enquanto corria, mas eles eram muito pequenos para avançar muito rápido. Iam ser pegos.
- Ela teve que tomar uma decisão. A sua vida ou a de seus alunos. Instruiu os menores sobre como chegarem na sala secreta, enquanto ela mesma disparou para outro lado, sendo perseguida pelos homens brancos. Chegou até a beira do rio e subiu na árvore mais próxima, fugindo de seus captores. Mas estes não precisavam escalar para a alcançarem, suas varinhas conheciam feitiços sombrios.
Na imagem, Irupé desviava dos clarões, mas um de coloração verde a acertou e ela caiu da árvore direto no rio. Não precisei olhar muito para saber que estava morta.
- A Lua, com piedade de sua aluna favorita e desolada pela perda, transformou seu corpo em uma linda planta e flor aquática que recebeu o seu nome.
A cena revelou o corpo da jovem tremeluzindo e se transfigurando em uma linda Vitória Régia. Não podia acreditar que a lenda trouxa pudesse ser tão distinta da realidade.
- Irupé decidiu não fazer a passagem e permanecer na Terra como espírito. Reza a lenda que sua sala secreta permanece em Hogwarts e seu fantasma zela pela sala e todos os alunos que precisarem dela, encontrarão auxílio. Mas cuidado. Um coração ruim pode provocar a fúria de Irupé, especialmente se for de sangue do homem branco, e ela voltará para assombrar todos como a protetora dos Kambebas e guerreira da Lua!
Os aplausos prorromperam pela sala, muitos de pé, mas tudo o que eu sentia era um estranho arrepio como se estivesse sendo observada. Olhei para o lado e vi me encarando com um olhar enigmático. Ele não aplaudia também. Por que aquela história me fazia ter uma sensação esquisita?
E por que parecia que sentia o mesmo?


Capítulo 9

As aulas de segunda-feira, como sempre, passaram muito arrastadas. Eu ainda estava incomodada com tudo o que havia acontecido, mas eu percebi que aquilo estava começando a irritar , então decidi tirar da minha cabeça.
Depois de um torturante tempo de Herbologia (que você pode pensar que é incrível porque “poxa, , mas Castelobruxo é tão conhecido por suas aulas!”, mas isso não significa que todo mundo é fanático por plantas mágicas esquisitas que podem matar bichos), finalmente fomos liberados para o almoço. O dia, como todos os outros, estava quente, ensolarado e abafado, perfeito para nadar no rio. Mas não. Temos que assistir aulas.
Pelo menos o ambiente era climatizado. Eu queria muito um dia aprender aquele feitiço. Imagina, ar condicionado mágico e sem precisar pagar as contas. Era perfeito!
Saí dos meus pensamentos quando ouvi murmurar um ritmo conhecido. Sorri orgulhosa ao ver que minha lavagem cerebral estava fazendo certo, já que ela cantava distraída uma das músicas trouxas que tocavam nas nossas festas de sempre. Tentando disfarçar meu orgulho, comentei a primeira coisa que veio na minha cabeça:
- Sabe, essa música não é das melhores.
- Por quê? – Minha amiga perguntou.
- Incentiva a rivalidade feminina, o que é tudo que os homens querem, porque assim brigamos muito entre nós mesmas, enquanto eles ficam cheios de privilégios que a gente nem contesta.
- Profundo, ! Então você é contra rivalidade feminina?
- É claro!
- Entendi... E a ?
- O quê? A não conta. Meu ódio por ela não é por homem, nem por competição, nem pra atacar sem motivo. Ela é maluca e me persegue!
- Ah, mas isso tem a ver com homem também!
Antes que eu pudesse replicar, a sineta tocou e eu levantei, apressada, desviando do assunto. Lá em Castelobruxo, havia uma imensa vantagem: eu não precisava lavar a minha própria louça. Claro que, pra compensar, sempre que eu voltava para casa, o serviço ficava inteiro pra mim. Junior fazia questão de sujar tudo e me ver lavar. De acordo com ele, era retaliação por ele lavar o ano inteiro. Aquela peste pré-adolescente dos infernos.
Saímos do Grande Salão e começamos a voltar para as aulas. Mais uma rodada de desgaste mental.
- Ei! – Ouvimos uma voz e nos viramos, encontrando Anahí logo atrás da gente, correndo agitada, o broche rosa refletindo nas suas vestes.
- E aí, Anahí! – Cumprimentei.
- Aonde vocês estão indo?
- Para a aula, ué. – falou, confusa.
- Mas a diretora pediu para todos ficarem para ouvir um anúncio! Ela tá terminando de comer. Vocês foram as únicas que saíram! Foi um climão, sorte que ela não percebeu.
- Ai, que mico! – parecia assombrada.
- Vamos voltar antes que vire um mico de verdade. – Eu disse, arrastando cada uma por um braço e logo já estávamos de volta no salão. – Valeu, Anahí. – Eu sussurrei agradecida, antes de nos separarmos, eu e para as cores laranjas e a mais nova na mesa de cores rosas.
Segundos depois, a diretora terminou de comer.
- Bom, obrigada por me esperarem. – Dona Alba riu, se levantando da mesa. Me fiz de sonsa para não acabar rindo. – É difícil encontrar todos vocês juntos e temos que aproveitar as ocasiões!
O salão riu por educação, curiosos para o que ela tinha para falar.
- Bom, um dos nossos costumes mais antigos vai sofrer algumas modificações. Estou falando dos Jogos Bruxos.
O salão se encheu de murmurinhos. Os Jogos Bruxos eram competições entre as casas de todos os tipos de esportes do mundo mágico, como as Olimpíadas trouxas. Na verdade, quando eu descobri que não tinha queimado para jogar eu fiquei muito decepcionada. Mas depois eu aprendi o que eles chamam de bola de fogo (muito mais emocionante porque se você segurar a bola por muito tempo ela realmente pode queimar, o que deixa o jogo rápido, intenso, perigoso e incrível).
Então, por isso, não era à toa que todos estavam curiosos. Sempre que os Jogos Bruxos estavam perto, Castelobruxo inteira parecia mudar a energia. Afinal, depois de várias semanas de aulas puxadas, nada como um bom jogo, certo? Até para os que não eram fãs de ação, tinham suas opções. Campeonatos de xadrez bruxo, questionários de todas as áreas, nado com obstáculos no rio, duelos “amigáveis” (os professores que criaram isso claramente não entendem muito de pedagogia). Tudo isso e muito mais acontecia nesse evento. Era a melhor parte da escola, na minha opinião.
- Bom – Dona Alba continuou -, para os novos alunos que devem estar perdidos com essa informação, os Jogos Bruxos são competições amistosas entre os seus colegas de outras casas em diversas atividades divertidas e desafiadoras!
- Do jeito que ela fala, nem parece que as pessoas quase morrem só para poder ganhar. – sussurrou e não pude deixar de rir.
- Mas esses são os extremos. Quem faria isso? – Perguntei, debochada.
- Você. – respondeu prontamente.
- Exatamente, querida amiga. Eu mesma. E nós com certeza iremos ganhar.
- As competições acontecem entre os alunos de cada série! – A diretora continuou. – Um aluno de primeiro ano apenas competirá com os de primeiro ano e assim por diante! Cada série terá seu campeão e, no final, a casa que acumular mais pontos, conseguirá o título de campeão geral!
Os alunos novos pareciam extremamente animados, eram tão bonitinhos. Fiquei pensando se eu era tão miúda e agitada na idade deles. É, provavelmente até pior.
- Fico feliz que estejam se empolgando! Os diretores de suas casas devem estar bem satisfeitos, pois eles também gostam de vencer!
Olhei de relance para a mesa do corpo docente. A prof. Potira estava sussurrando algo para baixo de sua mesa, com certeza estava com uma planta escondida, sem nem se importar com competição nenhuma. O professor Parantes dava sorrisos tímidos para sua mesa, acho que ele nem acreditava na vitória da casa das Fadas. Já a professora Jane olhava intensamente para seus alunos, não sei se para incentivá-los ou para repreendê-los, pois a casa Curupira era famosa por trapacear nos jogos o que, de acordo com eles, era um improviso criativo. O fofo do professor Juan, de Trato de Criaturas, fazia joinhas com a mão para a mesa dos Botos, que sorriam confiantes. E o professor Vicente sorria com deboche para a casa Iara. Convencido, só porque venceram no ano passado.
- Pois bem, pois bem, aos avisos! Muitos professores reclamaram que o início dos jogos em julho é prejudicial, porque acabam se prolongando até a época das provas. Por conta disso, decidimos que os Jogos Bruxos vão começar mais cedo esse ano! Então, a partir de semana que vem, todas as suas tardes serão preenchidas por jogos aos quais vocês poderão torcer ou participar! Também ajudará que os Caiporas estão em fase de reprodução e acreditamos que eles nos deixarão em paz no primeiro mês de jogos.
Ninguém sequer ouviu o final da frase, animados demais. Semana que vem!
- Ei, , esse ano não vou aguentar ouvir um “ai” saindo da boca dos Iara. É melhor destruir todos eles! – João Henrico, do nosso ano, falou animado.
- E já me viu deixar de destruí-los? O problema são os outros anos. – Resmunguei.
- Ah, preciso começar a preparar os cartazes de torcida! – Rosália, uma aluna do quinto ano, comentou.
- É nosso último ano, se a gente perder, eu amaldiçoo todos vocês! – Henry, do grupinho dos babacas do sétimo ano, falou, recebendo acenos em concordância de Julio e Michael.
Esse era o poder dos Jogos Bruxos. Todas as casas passavam a se odiar mutuamente, mas todos os integrantes delas se uniam mais do que nunca. Eu poderia até esquecer que aqueles garotos me chamaram de piranha desde que eles vencessem todas as provas. E aí, no final das competições, tudo voltava ao normal.
Nada como um pouco de ódio saudável.
- Bom, já prendi vocês por muito tempo, podem ir! – Dona Alba bateu palmas animadas e todos dispararam para fora do salão.
- Caramba, Jogos Bruxos desde fevereiro, é o melhor ano de todos!
- Desde que não atrapalhe os estudos. – , que passava ali perto, comentou.
- Ah, cala a boca! – Eu retruquei e muita gente fez coro. O time amante dos Jogos Bruxos era muito maior que o grupo de fanáticos pelos estudos.
- Acha que esse ano temos chance? – perguntou para mim.
- O sexto ano vai ganhar, com certeza. Ainda mais que esse ano eu mato esses meninos se eles não ganharem. – Olhei de relance para andro) que parecia bolar vários planos e que nem o escutava. Mais tarde eu trocaria algumas ideias com . Pelo bem da vitória. – Mas dependemos dos outros anos. O sétimo ano do ano passado era péssimo, então é um peso a menos. Espero que os nossos primeiranistas sejam bons.
- Ah, , espero que não esteja fazendo planos para a competição, não quero que você se decepcione. – Um voz aguda e irritante falou.
Trinquei os dentes e me virei na direção de . Só ela conseguia me tirar do sério desse jeito. Bom, ela e .
- Sabe, Carson, é uma pena que você seja um ano mais velha. Seria uma maravilha poder esmagar esse seu rostinho bonito com uma bolada. – Retruquei.
- Ah, me acha bonita, ? Obrigada! Não que seja novidade, afinal, não há uma pessoa que não ache. Não concorda, ?
corou e fechou a cara, enquanto a raiva crescia dentro de mim. Odiava ser tão fraca e que, mesmo depois de anos, eu ainda me afetasse com aquilo.
- , querida, eu nunca disse que você não era bonita. Uma qualidade você precisa ter para compensar o resto, né?
Ela olhou para mim com algo entre pena e sarcasmo.
- Desculpa, bonitinha, mas não vou descer pro seu nível. Meninas, vamos! Essazinha já tomou muito do meu tempo.
As víboras seguiram para longe enquanto eu me revirava de ódio. Por que ela sempre conseguia fazer eu me sair como errada? Todos me encaravam com desgosto, mas não sabiam nem metade. Não sabiam como ela me tratava com ninguém olhando e nem tudo que ela tinha feito para mim.
- Sabe, até que estou achando a esse ano mais... Simpática. Não achei que ela pudesse. – comentou.
- Nem ouse, , nem ouse! Se Carson é simpática, uma quimera é um gatinho.
- Esquece ela, a gente vai fazer papel de idiota se tentar alguma coisa. Vamos pra biblioteca fazer nossos deveres. Eu não esqueci do trabalho de três folhas para entregar.
- Hum, pode ir na frente, eu vou arrumar uma desculpa já, já para não te seguir. – Eu comentei, fugindo de .
- Já chega, ! Você tem que superar essa pegadinha que fizeram com você!
- Não é pela pegadinha! Me diga um dia que eu fui para a biblioteca por vontade própria!
- Mas agora vai. A gente precisa escolher uns livros para pegar de referência.
- Não sei porque a gente só não joga na internet.
- Porque a WikiBruxa é muito fraca e não confiável. Ouvi dizer que os professores encantaram para descobrir se a gente copiou algo de lá.
- Às vezes, eu odeio a magia. – Bufei, rendida.
Entramos na biblioteca e fomos logo recebidas por Amelia e o duende esquisito.
- Boa tarde, o que desejam? – A bibliotecária perguntou com a cara fechada, me olhando de relance. Eu mandei um tchauzinho, irritada.
- Exemplares sobre a fauna local, por favor. – respondeu, simpática.
- Terceira prateleira da esquerda para a direita. Não tirem da ordem alfabética. Eu vou saber se tirarem.
- Destruidora de livros. – O duende sibilou e eu mandei um dedo do meio discretamente para ele, saindo dali antes que ele pudesse reagir.
foi em direção à prateleira, mas não parou nela quando chegou. Pelo contrário. Continuou seguindo até o final.
- Eu sei o que você quer fazer, mas eu não vou fazer. – Eu reclamei.
- Shhh! – Eu ouvi Amelia dizer e tive que respirar muito fundo para não replicar.
- Que bom que sabe. Vamos logo. – Ela sussurrou e me arrastou para o local terrível que havia me assombrado.
Meu coração batia acelerado no peito e eu me sentia completamente idiota e infantil. Qual é, é só um canto de uma sala! Não custa nada olhar, né? Foi só uma pegadinha.
Chegamos, por fim, na última estante, com as luzes estragadas, uma única que deixava tudo com um ar fantasmagórico, e com todos os livros bagunçados, porém completamente parado.
Nós esperamos e esperamos. Mas nada aconteceu.
- Viu? Só coisa da sua cabeça. – falou.
Por mais que não fosse admitir, um alívio se instalou no meu peito. Se um dia eu achasse o caipora que tinha zoado com a minha cara... Mas era isso. Só brincadeira. Nada demais.
- Agora vamos. Eu realmente preciso dos livros de plantas mágicas. E aí? Já escolheu o tema do seu trabalho?
- Não, ainda não... – Murmurei, percebendo um brilho na última parede, atrás da estante.
Me aproximei e afastei alguns livros que tampavam minha visão.
- ? – perguntou.
- Estou indo! – Falei, devolvendo os livros para o lugar e a seguindo, associando o que eu tinha enxergado.
Dois círculos brilhantes. Um verde maior com um rosa no seu centro.
Algo me dizia que não eram só rabiscos infantis.


Capítulo 10

- Psiu, !
Eu olhei para trás, confusa. Tinha acabado de sair da prova de feitiços e, como sempre depois de uma prova, eu estava triste e irritada. Não queria falar com ninguém. Mas não fiquei surpresa ao ver quem era.
- O que foi, ?
O garoto correu até me alcançar. Não podia negar o quão feliz eu ficava ao perceber que eu ainda era mais alta que ele. Eu gostava de me sentir superior, nem que fosse só na altura. Quando ele finalmente estava do meu lado, parou para recuperar o fôlego.
- Eu... Eu só queria te fazer companhia.
Não pude deixar de sorrir. Afinal, como eu podia negar ficar perto do meu melhor amigo?
- Tá bom, mas se você comentar qualquer coisa da prova, eu te mato!
- Combinado! Mas eu achei muito estranho como eles cobraram
Alohomora para alunos que estão apenas no segundo ano!
- ! Eu falei sem comentários.
- Ok, ok! Eu só estava mexendo com você!
Seguimos lado a lado pelo corredor. Até mesmo o silêncio era confortável para nós. Apesar de ser um nerd quietinho, totalmente oposto de mim, em menos de dois anos, formamos uma amizade inexplicável. Ele tinha calma para entender meu lado impulsivo e escandaloso, assim como eu conseguia ler seus sentimentos muito bem. Só não tão bem quanto eu aprendera a ler .
E, justamente por isso, eu entendi aonde ele queria ir no momento em que ele virou no corredor.
- Ah não, , a gente acabou de sair de uma prova ferrada! Você não pode ser tão idiota pra ir pra biblioteca!
O menino nem ficou surpreso, mas sua voz aguda saiu toda esganiçada.
- , confia em mim, por favor!
- Por que você insiste tanto em me levar lá? Você sabe que eu odeio!
- Poxa, , eu te juro que a gente não vai ficar lá. Eu só vou pegar um negócio que eu esqueci! É legal, sério! Você nem precisa entrar.
Considerei a proposta, pensando se era confiável. Ele insistia em me fazer estudar, tendo apoio de e de (que preferia que ele focasse em mim e esquecesse de forçá-lo a estudar também) e estava cada vez mais criativo em maneiras de me levar até lá. Mas, em compensação, ele teve que cumprir detenção por três dias seguidos na semana passada por minha causa, já que ele topou meu plano de invadir o rio durante a noite. Parte de mim me lembrava que ele que quis assumir o risco, mas... Outra parte sabia que ele não queria me deixar correr o risco sozinha.
- Tá bom, seu bobo! Mas se você aprontar alguma, eu estou com uma varinha e irritada o suficiente para não ligar nem pra uma suspensão!
arregalou os olhos.
- Não me ataca, juro que não precisa!
Ele segurou minha mão e me puxou pelo corredor dourado, até pararmos na frente da porta da biblioteca. Não pude deixar de ficar irritada com a visão. Meu nariz se franziu antes que eu me contivesse.
- O que foi, ? Tá sentindo alguma coisa?
- Estou sim... Cheiro de... Neurônios torrando lendo livros. – Imitei uma ânsia de vômito.
- Você é impossível, ! Já volto, tenta não destruir a entrada até eu voltar.
Acenei para ele enquanto ele entrava naquele lugar horroroso. Não bastasse aqueles livros velhos e poeirentos, ainda tinha a dona Amélia, a bibliotecária mais chata do mundo. Eu tinha certeza que devia ser.
Eu estava louca pra sair dali e nada do voltar. Comecei a me irritar e pensei em procurar para ao menos aproveitar o sol que estava fazendo. No último segundo de paciência, voltou correndo com as bochechas coradas e uma mão atrás das costas.
- Voltei!
- E demorou muito! Foi fazer o quê? Plantar uma mandrágora lá dentro? - Um clique surgiu na minha cabeça. – Se bem que um grito de mandrágora no meio do silêncio da biblioteca não seria nada mal... Dona Amélia ia ficar doidinha!
- Claro que não, , tá maluca? E eu peguei o que precisava, vamos logo.
- O que você pegou? – Não consegui conter a curiosidade.
- Bom... – Ele abriu um sorriso enorme e tirou a mão de trás das costas. – Tcharam!
abriu a mão e mostrou uma chave dourada e antiga.
- Sério? Uma chave? Não era você que estava falando de
Alohomora hoje mesmo?
- Mas é uma chave de um lugar que não abre com simples feitiços! Você quer ver o que abre ou não?
Mordi a parte interior da bochecha, nervosa. Nicholas sabia como me tentar. Invadir algum lugar mágico e protegido? Ah, quem eu quero enganar, era como o dia das crianças!
- Tá legal, mas se for chato, eu vou ficar muito brava.
- Eu sei, vamos!
Nós dois percorremos a escola juntos, rindo com o que aquela aventura secreta poderia trazer. A maioria dos alunos estava do lado de fora ou fazendo prova, mas nós estávamos fazendo um caminho contrário: em direção aos fundos.
Quando alcançamos o portal de trás, eu só conseguia enxergar as estufas, a floresta e um canto escuro de onde eu podia jurar ter visto um caipora – ou algo pior.
- Sério? A floresta? Não tinha nada mais criativo? – Eu disse, forçando uma risada, tentando fingir estar bem.
- Está com medinho, ? – Ele retrucou, sorrindo?
- Medo, eu? Rá! Até parece, seu molenga. O medroso aqui é você.
- Eu não sou medroso! Eu não estou com medo. – Ele afirmou e cruzou os braços, mas, logo em seguida, um sibilar tomou conta do ambiente.
Quando me dei conta, estávamos apavorados e nos abraçando.
- Que barulho foi esse?! – perguntou.
- Tá bom, você já provou que eu tenho medo! Vamos embora! Não sei qual é o seu senso distorcido de diversão.
- Eu juro que não fui eu! E nem foi isso que eu vim te mostrar! Espera... A chave! É isso!
- Que que você está falando? – Eu perguntei, confusa.
- Corre, por aqui!
me puxou pela mão e eu corri atrás dele, sem nem ver o que estava acontecendo. Eu continuava encarando a floresta, apavorada, quando ouvi um
click, senti me puxando e ouvi algo se fechar atrás de mim.
- , está tudo bem, a gente tá seguro agora. Quer dizer, dos monstros, mas nem um pouco seguros de uma detenção.
- O que você quer dizer, cabeça oca?
Então eu olhei para onde estávamos. E o ar ficou preso dentro de mim. Ele havia me trazido para as estufas. É claro, elas ficavam perto da floresta. E a chave...
- Como conseguiu a chave? – Perguntei, curiosa.
O rosto de foi tomado por uma vermelhidão.
- Eu... Bom... A professora Potira deixou a chave no Fogão e... achou que era uma boa oportunidade... Eu escondi na biblioteca, já que ninguém nunca pensaria em olhar lá procurando alguém que quebrou as regras... E er... Achei que você ia gostar, sabe, depois da prova.
- Ah, , você é genial! - Puxei-o para perto, beijando-o na bochecha, o que fez seu rosto ficar ainda mais ardente. - Mais tarde vou agradecer ao também. Estou tão orgulhosa de você, indo para o mau caminho!
- Ah, não fale assim, vou me sentir mal!
Eu ri e me afastei, olhando ao redor. A estufa sempre havia me encantado. Apesar de ser tão ruim nessa matéria como nas outras, era impossível ignorar o espaço do tamanho de um enorme jardim preenchido por plantas estranhas de todas as cores e características. Muitas estavam fora do alcance do meu metro e meio, mas talvez fosse melhor assim. Elas eram perigosas, estranhas, fascinantes...
- Espero que isso compense aquela prova boboca. – falou, se aproximando.
Não pude deixar de rir. Era engraçado ouvi-lo falar “boboca" como se fosse uma grande ofensa, quando minha mãe falava cinco palavrões apenas no café da manhã, isso quando estava de bom humor.
- Compensa muito, , obrigada. – Eu sorri para ele.
- Toma. Isso é pra você. – Ele disse, me estendendo uma flor amarela do tamanho da sua palma e ficando vermelho novamente.
- , é linda! Mas, foi mal, não vou pegar. E se ela matar?!
- Ah, não se preocupe com isso! É uma Flor das Intenções. Ela não te fará mal algum se eu não te desejar mal algum. Ela reage com os sentimentos.
Peguei a flor com cuidado na minha mão e ela desabrochou lindamente, soltando pequenos brilhos. Bom, nada de veneno.
- Então você não me odeia. Ufa, agradeço por isso nesse momento.
- Claro que eu não te odeio, . Você é minha melhor amiga! – Ele sorriu, adorável.
- E você é meu melhor amigo, . E sempre vai ser.
Nós sorrimos um para o outro. Mas, naquele momento, algo perturbou a cena.
- Me encontre. – Um sussurro, baixo, se estendeu pelo ambiente. Mas aquilo não parecia certo. Não parecia pertencer ao resto.
continuou inalterável.
- Ei, vamos jogar Uno Bruxo? Eu estou com umas cartas novinhas que minha mãe me deu. Vem, vamos encontrar o e a e jogar!
Eu estava prestes a dar a mão para ele quando algo invisível me empurrou para trás.
- ME ENCONTRE!
seguiu para fora, correndo e rindo como se tudo estivesse normal. Mas não estava. Aquela força continuou me arrastando em direção ao rio que passava pela estufa.
- , me ajuda!
Eu gritei, mas em vão. Ele logo trancou a porta e eu fiquei. Mas a força não parava. Puta merda, ela ia me afogar no rio!
Eu mal pensei nisso quando minha cabeça foi afundada. Eu me debati o máximo que pude, mas nada adiantava. Eu gritava, mas tudo o que saía eram bolhas. Meu precioso ar se esvaindo. Comecei a escutar um apito agudo no ouvido e meus olhos começaram a ficar turvos. Nesse momento, algo brilhou no fundo do rio. Um círculo verde com um círculo menor rosa em seu interior.
- Me encontre. – A voz disse, antes que eu apagasse.
🌼

Eu pulei da cama, suando frio, o que era completamente estranho para um dia tão quente de meados de fevereiro. Mas, honestamente, isso era o menos pior.
Por que eu havia relembrado todos os acontecimentos do segundo ano após aquela prova de feitiços? O que meu subconsciente queria com isso? Me atormentar com o fato que eu era amiga de e fora enganada por seus gestos bondosos e presentes gentis?
Ou pior? Por que o final da lembrança fora alterado? Eu me lembrava do que acontecia depois. Jogamos Uno Bruxo o resto da tarde inteira, rindo com e , que perdeu feio, levando vários “+ quatro azarações” e depois ficou irritado com o grupo.
Eu nem sequer me lembrava com tantos detalhes de tudo aquilo. Quem era aquela voz? Tinha sido apenas o meu subconsciente? Ou algo a mais? Eu não lembrava de ter visto aquele símbolo da biblioteca no rio da estufa. E se meu subconsciente criara aquilo?
Ou... E se realmente estivesse lá?
Eu comecei a rir.
- Pelo amor de Deus, né, , para de ser tão impressionável. Você não é assim! – Ralhei comigo mesma, grata por estar sozinha no quarto. Eu já me sentia louca, não queria que as outras me achassem também.
Era isso. Eu só estava mexida com aquelas lembranças do , mais o pânico revivido da floresta e o nervoso de ter sentido a sensação de me afogar. Era apenas isso. Eu estava com um pouco de medo causado por um sonho bobo e levemente assustador.
Me espreguicei e levantei da cama. Diferente do sonho, eu tinha preocupações reais. O trabalho de Herbologia. Os Jogos Bruxos chegando. Evitar e . Tentar fazer Potira esquecer do resto da minha detenção. Planejar minha próxima festa.
Levantei em um pulo antes que eu desistisse e me virei para arrumar a cama. Na hora, um grito ficou contido na minha garganta e posso jurar que minha pressão caiu.
O colchão estava encharcado.
E, ali em cima, estava uma Flor da Intenção, amarela e enorme.
Xingando todos os palavrões que aprendi na vida, troquei de roupa correndo e perguntei para uma colega se ela lembrava o feitiço de secagem, afirmando que tinha molhado meu pijama ao escovar os dentes. A garota, Rosália, me olhou como se eu fosse uma idiota, mas me ajudou a lembrar.
Com a cama seca, o único vestígio que ainda me trazia arrepios era a estranha flor amarela, que continuava se abrindo mais e mais.
Segurei-a com a mão trêmula e desci para encontrar . Avistei minha amiga já na porta do Grande Salão.
- Finalmente, ! Achei que você estava doente. Suando frio, resmungando e... Ei, aonde você pegou essa flor?
Minha mão ainda tremia, mas a voz de foi como uma volta ao mundo real. Suspirei e olhei para ela.
- Preciso de um favor.
- O que você tem em mente, ? Eu te ajudo desde que eu não vá para a detenção.
- Não se preocupe, se alguém se ferrar, serei eu.
me olhou com uma expressão preocupada.
- , o que você vai fazer?
Olhei para a flor em minha mão novamente. Respirando fundo, eu a esmaguei com toda a força que eu tinha. Eu sabia para onde ir. E sabia que nada podia me atrapalhar porque isso já seria encrenca o suficiente. Eu podia estar louca. Ou não. Eu tinha que descobrir isso.
- Preciso invadir a sala da profe Potira.




Continua...



Nota da autora: Demorei aqui, mas voltei! Precisei de um tempinho de folga e pra organizar na minha cabeça todos os próximos acontecimentos!
Eu amei escrever esse capítulo, até porque eu quero muito que vocês vejam como foi a vida da depois de entrar na escola, mas antes de chegar no ponto em que está. Adoro escrever sobre meus piticos hahahah e a melhor parte, como sempre, é poder imaginar esse mundo tão mágico e tão brasileiro! O easter egg da vez foi o Uno Bruxo hahahah
Não esqueçam de comentar o que estão achando e sempre que quiserem falar comigo, se informar das atts e descobrir minhas outras histórias, vocês podem ir no meu Instagram @elena.n.stuff e falar comigo! Às vezes eu dou umas sumidas, mas juro que não abandono ninguém hahahahahha
Beijinhos! Ansiosa pra ver o que vocês acharam! ❤




Nota da beta: Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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