Finalizada em: 07/01/2022

Bloco 1 — Eu vejo...

Provavelmente, tudo começou com uma mulher que não queria ser mãe.
O nome dela era Kang Jiyeon. Trabalhava como garçonete em algum restaurante de macarrão em Daegu, na província de Gyeongsang, na Coreia do Sul. O lugar era quente e pequeno, consistindo em clientes exclusivamente masculinos e dispostos apenas a beber até cair noite após noite, oferecendo quantias absurdas de gorjetas e finalizando o estoque da casa.
Foi ali que ela conheceu Son Hyunwoo. Isso foi há 45 anos.
Ele não era o tipo de pessoa que estava disposto a conseguir algo a mais do que uma noite. Jiyeon tampouco queria isso. Não ter pais ou históricos escolares perfeitos foi motivo de perturbação apenas nos primeiros anos de vida. Depois, ela tinha coisas mais importantes a se preocupar, como sobreviver, conseguir um emprego e sair do maldito orfanato.
E, claro, ainda tinham os terríveis fantasmas que apareciam vez ou outra.
Jiyeon os odiava. Sempre se lembrou disso. Talvez algo intenso e sufocante pairasse em sua mente, algo como uma lembrança dela mesma conversando com seres que ninguém mais via quando criança e gerando algum tipo de raiva irracional em seu pai bêbado, que descontava o fato de ter uma filha anormal na própria esposa. Isso foi há muito tempo. Mas a culpa ainda permanecia ali. Culpa dela; culpa deles; culpa dos mortos. Porque, apesar de tudo, ignorá-los não fazia nenhum sentido.
Até ela aprender que usá-los traria bem mais benefícios.
Ela viu o homem entrar e se sentar a uma mesa do canto, sozinho, diferente dos outros que chegavam em bandos e se mostravam indiferentes a qualquer depredação que pudessem causar em favor da bebedeira. Kim Nayun, a outra garota, apontou com a cabeça para o homem sem atendimento, entregando-lhe um cardápio engordurado e o bloco de comandas no bolso do avental.
O cabelo de Nayun flutuava acima da cabeça com eletricidade estática e estresse servil. Jiyeon imaginou que o seu estivesse do mesmo jeito, ainda que estivesse muito bem preso por dois coques atrás da cabeça.
Ela perguntou ao rapaz, displicentemente:
— Você quer a mesma coisa que eles? — Apontou para o grupo na mesa mais próxima, que ria e gritava enquanto olhavam para uma revista pornográfica exibida sem qualquer pudor.
O homem olhou com tédio, expressão muito parecida com a que ela já tinha. Uma risada sarcástica iluminou seus lábios; ele até que era bonito.
— Tá brincando? — Ele levantou uma sobrancelha e estendeu a mão para o cardápio. Ela o passou e pegou o papel da comanda. Era estranho atender daquela forma normal quando os demais clientes apenas gritavam seus pedidos sem sair do lugar. — Uma cerveja. Um cigarro. E um pouco de bibimbap.
— Não temos carne — respondeu ela, enquanto anotava.
— Não esperei que tivessem.
Ela ergueu os olhos de relance. Tendo finalmente terminado de anotar o pedido, escorreu o bloco para dentro do avental e andou de volta ao caixa.
Aquele foi o primeiro dia. Ele voltou no próximo, sozinho novamente, trazendo uma vela repousada em um recipiente de superfície metálica, pedindo um isqueiro — tanto para o cigarro, quanto para a vela. Ele pediu para que ela esperasse e visse o que aconteceria.
— É cheirosa — disse ela, constatando o cheiro adocicado e agradável que preencheu rapidamente a região da mesa redonda, em um lugar que só cheirava a carne de porco, cigarro e makgeolli.
— É o meu trabalho — informou ele. Não era apenas isso que fazia. Também fabricava luminárias de cristal e lapidava esculturas de gelo para festas de luxo em Gangnam. Jiyeon sabia que ele era um forasteiro só de olhar aquele sorriso sacana — e também um mentiroso.
— É bonito — ela se conteve em dizer, formal.
— É pra você — disse, generoso. — Pode pegar.
Uma tatuagem serpenteou para fora do casaco quando ele estendeu o braço para empurrar a vela acesa. Ele tinha algo de faminto. Todos os instintos de Jiyeon a disseram para agradecer, não receber e ficar longe. Porém, ao mesmo tempo, com o pano de fundo pacato e atormentado que era sua vida, também foi igualmente empolgante.
De qualquer forma, ela não tinha nada de importante a fazer depois do trabalho.

x


A aventura acabou cedo.
Jiyeon odiava aquele emprego. Mesmo com situações arrasadoras, ela só queria um trabalho que não sugasse todos os pensamentos de sua cabeça e os substituíssem por cantadas e assédio barato, misturados a gritos estridentes de palavrões e música repetitiva.
Às vezes, ela saía furtivamente para a rua de trás em um dos poucos intervalos e, enquanto recostava a cabeça contra a parede de tijolos do restaurante e se dava um pouco de alívio para fumar um cigarro vagabundo, ela sonhava preguiçosamente com o futuro. Não com o que ele tinha, mas o que ele representava. As pessoas morreriam pelo futuro. Gastariam fortunas por uma pequena palha dele, uma olhada rápida e discreta. Jiyeon não queria estudar prédios, nem nadar com baleias ou explorar a Costa Rica, como os grandes sonhadores que querem mudar o mundo dizem. Ela queria descobrir o futuro; prevê-lo. E, acima de tudo, vendê-lo.
Jiyeon não sabia se realmente queria ser uma médium. Ela simplesmente gostava do nome como isso soava. E, afinal de contas, para uma garota sem perspectivas de vida, sem pais ou amigos e que se comunicava com os mortos, médium soava como uma carreira. E estar, de fato, dentro do paranormal já a tornava mais legítima do que muitos.
Toda essa vida imaginada parecia bem distante do restaurante logo atrás. Ela tinha vontade, mas não tinha coragem. Não até precisar ter.
Quando os enjoos começaram, Hyunwoo já estava bem longe. Pensando bem, ele nunca esteve perto, não o suficiente. Também nunca trabalhou com luminárias e esculturas, nem com nada legal. Na verdade, com a ajuda de um desconhecido que ela encontrara perto da suposta pensão em que estava hospedado, Jiyeon descobriu que ele, de fato, trabalhava no contrabando de armas para os universitários e ativistas pela democracia durante os protestos pela abolição do sistema Yushin de 1975. Não demorou muito para que a polícia fosse chegando mais perto e ele, consequentemente, mais longe. E Hyunwoo? Esse nem era seu nome verdadeiro.
Jiyeon sabia que ele era um mentiroso, mas não imaginava que fosse um criminoso.
Alguns minutos depois da revelação, ela voltou para casa a pé, arrastando seu resto de dignidade até a ponte Ayanggyo, onde a verdade a atingiu em cheio: ela não tinha nada. Nem dinheiro, família ou até mesmo esperanças. Ela só tinha seu orgulho e um bebê crescendo desordenadamente em seu ventre. Um bebê que odiava mais do que tudo.
A imensidão negra do vazio era melhor do que aquilo. Era melhor do que suportar. Ela quis chorar, e conseguiu soltar umas lágrimas de ódio antes que colocasse o primeiro pé no parapeito. A morte não era nada, não significava a mesma coisa para ela, que a via todos os dias, mas era melhor do que a vida que estava fadada a levar.
Aish. Mais uma por aqui… — Ela ouviu a voz ao seu lado e se virou imediatamente. A garota tinha o olhar distante, com os braços apoiados na grade divisória, passando os dedos pelo ar como se estivesse massageando o vento, e não percebeu que a outra a encarava diretamente. Ela se chamava Joowon e estava morta há três anos. Jiyeon soube disso na mesma hora em que viu os pés descalços e a palidez cadavérica.
A garota suspirou e olhou para Jiyeon com um pouco mais de atenção. Quando entendeu que estava sendo vista, ela prontamente perdeu o sorriso e girou o corpo inteiro.
— Você está olhando pra mim? — perguntou, receosa.
Jiyeon secou uma lágrima, franzindo os lábios de desgosto. Ninguém nunca a viu chorar. Nem vivos nem mortos.
— O você acha? — disse ela, ríspida.
A garota soltou uma gargalhada alta, perplexa.
— Deus do céu, esse tipo de gente existe mesmo. — Ela passou uma língua nos lábios, se aproximando de Jiyeon — Você não parece assustada. Sabe que estou morta, não sabe?
— Fico feliz que você saiba. Nem sempre é assim. — Jiyeon fungou, afastando-se do parapeito. — Você deve ter o quê? 15 anos? Chegou a concluir o ensino médio?
A garota se espreguiçou, oferecendo uma mão para Jiyeon.
— Eu não me lembro. Consegue ver isso para mim?
Ela juntou as sobrancelhas, olhando-a com desprezo.
— Não consigo fazer esse tipo de coisa.
— Sério? Então você vê assombrações? — a garota zombou, mas não recolheu a mão. — Não tem nada de mais especial em você?
Jiyeon trincou os dentes, ignorando toda a queimação de raiva que a frase causava. Especial. Eram coisas que sua mãe mentalmente doente vivia repetindo, para então se contradizer um minuto depois, mandando-a ajoelhar e rezar a Buda para que tirasse todos os demônios de suas células. E, claro, quando estava fisicamente debilitada pelas surras e era forçada a tentar todos os rituais possíveis para que a filha melhorasse.
Era por isso que não se podia ignorar os mortos. Eles sempre voltavam, de uma forma ou de outra, mesmo que fosse apenas em sua cabeça, como foi o caso de sua mãe.
Jiyeon sabia que não tinha nada de especial, absolutamente nada. O que ver fantasmas tinha a ver com essa palavra? Ela não recebia nada em troca por isso.
A garota riu com o silêncio dela, em deboche velado. Começou a puxar os dedos de volta, mas Jiyeon os pegou com afinco, com raiva, os olhos destilando todos os sentimentos ruins que asfixiava dentro de si por tantos anos.
— Posso fazer isso também, cretina — ela sussurrou furiosamente, não dando a mínima para algumas buzinas que ouviu do tráfego logo atrás. A garota sem nome arregalou os olhos de susto, sentindo os dedos serem esmagados com fervor, com realidade. — E posso te jogar daqui de cima junto comigo, o que acha disso? Você vai boiar e flutuar até o próximo condado, e eu não terei mais uma maldita vida para me preocupar! Quer se lembrar do seu maldito nome? Pois então lembre! — Ela soltou os dedos bruscamente com um empurrão, engolindo todas as lágrimas que queriam sair novamente, desejando que a garota se calasse ou simplesmente saísse dali para que ela pudesse morrer em paz.
A reação da garota fantasma era inacreditável. Ela ficou parada, os olhos arregalados de terror, encarando o mesmo ponto que Jiyeon havia tocado, como se ainda não acreditasse. Jiyeon revirou os olhos, rezando para que ela não perguntasse como aquilo acontecia, como os outros malditos fantasmas perguntavam. Não havia necessidade de esclarecer, pois ela não sabia responder. Ela não sabia de nada, porque não era nada normal que uma pessoa visse coisas que outras não viam na Coreia da década de 80, o que restringia bruscamente os meios de pesquisa que não fossem velhos sozinhos e senis e um grande hospital caótico para loucos na saída da cidade que eram especialistas em lobotomia, então não, que essa garota morta guardasse a curiosidade para si e finalmente desaparecesse.
— Como… Como você fez isso? — ela sussurrou e Jiyeon já se sentia importunada. Ela não sabia ser elegante, mas queria se desviar dessa linha de conversa o mais rápido possível, então tentou respirar fundo e não gritar — também para que outras pessoas que passassem ali não a interrompesse ao chamarem a polícia ou a ambulância de loucos.
— Olha só, eu não…
— Joowon — interrompeu a garota, absorta, com voz embargada. Ela estava chorando. Jiyeon juntou as sobrancelhas. — Meu nome é Joowon. Eu me lembrei.
Tirando as mãos do parapeito, Jiyeon se virou para a garota, ainda séria como uma pedra, porém com a feição mais suavizada pela curiosidade.
— O que você disse?
— Lee Joowon. Esse é o meu nome — ela soluçou, pegando em uma mão de Jiyeon repentinamente. — Meus pais são Lee Ahin e Lee Minhyuk. Eles moram em Guryong e são professores. Meu irmão se chama Lee Kihyun e trabalha em uma concessionária. Morri em um atropelamento de carro e… e… — ela ficou com os olhos distantes, falando agora com a voz falha — o colega dele. O gerente. Ele me atropelou. Lembro do rosto dele quando foi ver o meu corpo. Ele me viu e fugiu, mesmo me conhecendo — ela soluçou, mais forte desta vez, tão alto que Jiyeon sentiu os pelos se arrepiarem. — Ele nem pediu ajuda. E trabalha com meu irmão todos os dias. Eles são amigos. Eu me lembrei.
Jiyeon permaneceu estável, sem nenhuma expressão significativa. É claro que ela pediria ajuda, todos eles faziam isso. E ela não se encontrava em nenhuma posição de querer ajudar, apenas em mandá-la embora dali o quanto antes. Ela ainda precisava morrer, precisava morrer esta noite.
— Foi bem aqui — Joowon continuou, apontando para o asfalto ao lado. — Foi aqui, nessa ponte. Ele me atropelou bem aqui, e fugiu. Foi ele, eu tenho certeza — ela soluçou mais uma vez, pegando nas mãos de Jiyeon com mais força. — Você precisa me ajudar. Ele tem que pagar por isso, tem que pagar pelo que fez. Ele frequenta a minha casa, sai com o meu irmão e com certeza foi ao meu enterro. Não é justo!
Jiyeon puxou suas mãos de volta com brutalidade, frustrada e confusa como detestava ficar. Joowon, ou seja lá quem fosse aquela assombração, não se lembrava do que ela estava pretendendo fazer quando pisou ali? Não a viu tentando se juntar ao outro lado ao se preparar para pular? Que raio de ajuda ela estava pedindo? Jiyeon precisava de ajuda! Ninguém mais importava naquele momento a não ser ela mesma.
Não havia nada de bom em ajudar almas perdidas. A única coisa que ganhou em troca fazendo tudo aquilo foi uma cozinha engordurada e uma pia de cuba grande, onde lavava as louças todas as madrugadas. Mesmo que tivesse cuidado, ela ainda era acotovelada de tempos em tempos, tendo que limpar pratos e comida do chão, e se esforçar para não ser atingida pelas garrafas de cerveja que voavam pelo teto quando os nervos ficavam mais altos, assim como a música. E dormir nos fundos de um quarto de 20m² não era lá grande coisa para se gabar.
— Você está vagando há tanto tempo e ainda não se tocou? — disse ela em voz baixa, carregando toneladas de amargura. — Não existe justiça. Muito menos arrependimentos. Esse é o trabalho dos vivos: correr contra a morte. Acha que alguém vai se dispor a fazer o bem quando isso os aproxima dela?
— Mas… Não deveria ser assim. — A garota colocou as mãos no rosto, chorando pesadamente. — Os meus pais… Deus do céu, eles pensam que o culpado está longe, perdido nessa cidade enorme quando ele está dividindo refeições na mesa deles! E minha mãe deve chorar todas as noites, vivendo com essa dúvida eterna, esse sentimento terrível. Você consegue entender, não consegue? Deve conseguir… Afinal, você também é mãe…
Jiyeon enrijeceu todos os músculos, transformando o semblante duro em algo surpreso e apavorado, abrindo e fechando a boca várias vezes antes de dizer:
— C-como você sabe uma coisa dessas?
— Suas mãos. Eu senti. — Joowon estendeu as mãos para pegar as de Jiyeon mais uma vez, mas a mulher as afastou para atrás das costas. — Tem dois batimentos. Você está grávida… — Ela fungou, dando um passo à frente, avaliando o rosto da mulher. — Não deveria desistir dele. Você é especial, então ele também será. Quando me tocou, eu me lembrei, eu pude…
— Não diga besteiras! — Jiyeon chiou, a palavra causando-lhe cólera intensa. — O que acha que vai ser de mim, criando um filho sozinha? Sem nem saber quem é o pai. Sem dinheiro, sem uma casa decente… Acha que todos tiveram uma família como a sua? — Ela trincou os dentes e, impulsivamente, puxou novamente uma das mãos de Jowoon e aproximou seu rosto raivoso do dela. — Acha que o que sofreu foi uma injustiça? Que as pessoas precisam ser castigadas? Pois então, garota, lembre-se de uma coisa: os mortos não deviam querer coisa alguma! Não importa o que digam, vocês são a escória da roleta russa do universo, que anda para a frente enquanto vocês só vão ficando para trás! Acha injusto? Pois então esqueça! Esqueça o que te aconteceu e volta a vagar nessa ponte miserável, se remoendo por coisas e pessoas que ainda vivem, eu não tô nem aí! Só me deixa em paz e desapareça de uma vez!
Ela se afastou de Jowoon mais uma vez, apoiando novamente as mãos no parapeito gelado de metal, apertando os dedos para se acalmar. A água escura continuava correndo, o vento zunindo em seus ouvidos, sussurrando o convite da morte ao fundo, mas Jiyeon se sentia menos corajosa a cada minuto que ainda passava na superfície. Sua concentração estava em absorver os sentimentos ruins e não deixar que eles a fizessem perder a cabeça. Ceder ao descontrole era coisa de gente fraca e estúpida. Ela tinha um pouco de orgulho e morreria com ele.
Uma risada drástica a acordou de seus pensamentos. Ela encarou Jowoon ao seu lado, na mesma posição, os dedos na barra de metal e os olhos na infinita escuridão, rindo da mesma forma que estava há alguns minutos.
— Não acredito, mais uma por aqui — a garota resmungou, abrindo mais uma gargalhada. Jiyeon juntou as sobrancelhas. — Todo mês é assim. Às vezes são dois na mesma semana, outras são três, puxa, as pessoas querem mesmo morrer…
O olhar inocente e perdido havia sumido. Ela era aquela mesma pessoa que Jiyeon encontrou quando chegou. Um fantasma vagante, uma alma perdida que não sabia que estava perdida.
E, desta vez, sem obter nenhuma resposta, ela apenas deu mais uma olhada em Jiyeon e desapareceu por completo.
A mulher apertou os dedos no parapeito novamente, fechando os olhos com força. “Não entre em pânico, não entre em pânico, foi uma coincidência…”
Mas não fazia sentido. Não existem coincidências e ela nem precisava ser uma estudiosa para acreditar nisso. Suas pernas falharam por um momento e ela se abaixou, encarando a parede de cimento com o peito transbordando de descobertas arrasadoras.
Jiyeon sempre foi considerada uma criança estranha. Estranha, não especial. Porque crianças que falam sozinhas em ambientes vazios, fazem movimentos estranhos ao vento e riem de piadas isoladas não poderiam ser consideradas normais. Tudo isso levou a um isolamento inevitável no velho orfanato onde dormia em um cobertor fino sob um chão gelado e sujo.
Apesar disso, ela esbanjava tranquilidade e um desprezo mútuo sobre a população em geral do lugar, que não era considerado o melhor orfanato da região, tendo repetidos relatos de maus tratos ano após ano, e a boa e velha dose de corrupção com as doações recebidas. Jiyeon não era como as outras crianças ao se fazer de cega para a maldade dos adultos. Ela a conhecia, direto na pele.
Mas não foi por nada disso que falou aquelas coisas para Geuroo, a garota do quarto ao lado. Na verdade, ela não percebeu quando disse na hora. Lee Geuroo era uma órfã barulhenta, que jurava ter pais que estavam ficando ricos do lado de fora e que apenas por isso a deixaram passar uma temporada naquele lugar horrendo. Era tão absurdo que Jiyeon sentia vergonha alheia apenas por se lembrar. Geuroo reunia um exército de crianças a seu favor, sempre demonstrando superioridade para abafar seu lado medroso e medo da realidade da rejeição, e tinha um alvo favorito em sua perturbação diária: Kang Jiyeon.
Por algum tempo, Jiyeon não entendia essa perseguição, visto que ela mesma não fazia questão de nenhum contato com as outras crianças. Porém, depois de um tempo, ela apenas aceitou que os opressores não têm realmente um motivo para agir; eles apenas descontam suas frustrações em quem não dá a mínima para isso.
Mas Jiyeon, afinal, conseguiu se livrar daquela garota tola. Pensando agora, naquela ponte, ela se deu conta e sentiu todo o peso da realidade sobre si. Jiyeon não tinha muitos brinquedos naquela idade; a única coisa que prezava o bastante para esconder consigo era um colar artesanal, feito de barbante e arroz, que sua mãe havia feito antes de enfiar um canivete na garganta. Não era nada bonito e nem muito trabalhado. Era apenas um recipiente com todos os sentimentos bons que Jiyeon já teve. Ela o olhava como se olha para um filme de comédia; apenas a visualização de um sentimento que ela não conseguia incorporar.
Quando Geuroo descobriu o esconderijo secreto do artefato e o desfez em pedaços no meio do pátio, Jiyeon se sentiu um pouco fraca. Ela não soube descrever exatamente o que foi aquilo que tomou seu peito. Aos 11 anos, a garota já não esperava bondade alheia das pessoas, mas tinha certa esperança de que conseguiria viver em paz se deixasse os outros em paz. Era o que estava fazendo, e ao ver o resquício de seus sentimentos bons se esvaindo e separando-se ao vento e risadas debochadas, viu que estava perdendo tempo com todos os humanos em geral. As pessoas eram mesquinhas e más, todas elas. Amor e respeito não existiam. Ela entendeu tudo isso muito cedo.
Naquela hora, ela se viu capaz apenas de abandonar aquele pátio e colocar os pensamentos no lugar. Não era hora de perder a cabeça. Mas também não era como se Geuroo fosse se safar dessa tão fácil.
Quando a noite caiu, Jiyeon invadiu o quarto vizinho e surpreendeu a garota com algum corpo apodrecido de um dos muitos ratos capturados no quintal de trás. Ela nem ao menos pôde gritar; Jiyeon abafou qualquer berro que pudesse sair com suas mãos, olhando-a com ódio e, acima de tudo, frieza.
— O que foi? Vai chamar os seus pais? — ela sussurrou, furiosa, os olhos arregalados em surto. — O que eles são mesmo? Médicos? Posso marcar uma consulta? — E então ela aproximou seu nariz do rosto de Geuroo e trincou os dentes. — Sua vadia louca. Você merece ter cada nervo desse cérebro de merda queimando em algum lugar do inferno. Acha que seus pais vêm te buscar? Idiota! Esqueça que tem pais, ou que exista alguma mínima possibilidade de que eles apareçam algum dia. Não está afim de fazer isso? Pois então esqueça seu próprio nome, porque assim você simplesmente some do mapa! Lixo! — Ela apertou a boca com mais força e sentiu a saliva de Geuroo em seus dedos. — Se mexer comigo de novo, juro que chamo meus amigos para se livrarem de você, e acredite, os mortos não têm mais nada a perder.
Jiyeon se afastou, deixando a garota desesperada e aos prantos no escuro total.
Ela não esperava que Geuroo fosse ouvi-la. Na verdade, Jiyeon já estava preparada para receber uma visita dos coordenadores do orfanato e um anúncio de transferência para algum reformatório da cidade, onde apanharia diariamente e trabalharia para poder comer duas refeições por dia. A atitude não tinha sido calculada, mesmo que ela não tivesse qualquer arrependimento. Mas, no dia seguinte, a agitação entre os adultos mostrou que alguma coisa de mais terrível tinha acontecido. E, curiosamente, não parecia ter a ver com ela.
“Amanhã à tarde, foi o horário mais próximo que consegui marcar.”
“Não tem como ser mais cedo? Ela está muito mal, se a assistência social vier…”
“É um estagiário, ele disse que tem aulas de manhã, o que eu posso fazer?”
“Diga que é urgente, é uma criança! E ela diz que não lembra do próprio nome!”

Em pouco tempo, Lee Geuroo não estava mais entre eles. Ela não se lembrava mais de se chamar Lee Geuroo, mas também não parecia aceitar outros nomes. Também parece ter enlouquecido de vez ao notar que estava em um orfanato, sem pais, sem nenhuma lembrança deles. Ela não tinha mais esperanças, muito menos a preciosa espera. Ela não tinha mais nada.
As pessoas precisavam de algo a que se agarrar para continuarem vivendo, mesmo que fosse em uma mentira.
Jiyeon não percebeu nada no início. Ela transbordava por dentro de algum tipo de felicidade ácida, uma que se alegrava com a vingança, com o desespero de quem te fez mal. Ela não lamentava o suicídio de Geuroo, mesmo que toda a região tenha ficado plenamente em choque com a morte de uma menina de 13 anos. Funcionários mudaram seus turnos, outros se demitiram e por todo o lugar corria o boato de que aquilo era um mau presságio. Que a casa agora ficaria mal-assombrada.
Jiyeon continuou comendo e dormindo muito bem, obrigada.
Mas quando disse as palavras para Jowoon, não parecia ser essa Jiyeon, que estava agora abaixada contra o parapeito, relembrando do episódio de Geuroo. Aquela Jiyeon não sabia o que estava fazendo, assim como esta, mas tudo parecia terrivelmente ligado. Se quisesse apagar a mente de alguém, ela poderia. Se usasse as palavras certas, o resultado poderia ser funcional.
Então, afinal, Kang Jiyeon tinha algo de especial?
Ela se levantou, não sabendo o que pensar de imediato. Olhou novamente para a água escura corrente, encarando a morte agora com pesar, com cansaço. Uma ideia descabida e sem garantias encheu sua mente, e ela de repente tinha algo a tentar antes de findar com tudo.
Uma última chance. A vida teria uma última oportunidade para mostrar que merecia ter Kang Jiyeon de pé, e com o coração batendo.
Com seus dois corações.

x


Foi fácil achar Guryeong e toda a família de Lee Joowon.
Ela viu o homem mais velho se despedir de sua esposa para ir trabalhar, dando-lhe um beijo amoroso no rosto. O filho repetiu o mesmo gesto, retirando um maço de cigarros escondido do bolso de trás da calça social e acendendo um deles ao chegar à calçada.
Ela o seguiu, desligando a mente da negatividade que a situação poderia se transformar. Seu coração palpitava no peito. Ela estava nervosa, mas isso era fraqueza. E nada se conseguia com covardia.
O emprego na concessionária era real. O gerente era real. Jiyeon o reconheceu quase imediatamente, mesmo nunca tendo visto o sujeito. Alto e de pose descontraída, sem um pingo de autoridade. Foi gentil com absolutamente todos os funcionários e clientes desde o primeiro ao último segundo do expediente. Pagou um almoço para os estagiários. Limpou os vidros do para-brisa por conta própria. Era com certeza o tipo de pessoa da qual não se espera um mísero levantar da voz.
Mas Jiyeon sabia da verdade, e tinha uma solução bastante específica.
Ao fim do dia, quando o céu já não estava mais bonito e o trânsito caótico, Jiyeon esperou que o homem trancasse as portas e caminhasse serenamente até seu carro. Por um instante, parecia uma bobagem estar ali, naquele momento, olhando para um rapaz trabalhador por horas a fio, que não fez nada além de atender clientes e servir cafés esporádicos para funcionários e estranhos, sempre com um sorriso no rosto. Ela queria estar em casa, recostada na parede fria do cubículo onde dormia sob um lençol, sonhando em cavar uma cova funda o suficiente para se enterrar, tentando decidir apenas a melhor hora para fazê-lo, a melhor hora para findar sua vida de vez.
Mas ela havia dito que tentaria. Que alguma coisa extraordinária aconteceu no ano de seu nascimento, e que todo o sofrimento que passou desde então precisava servir de alguma coisa.
Aquele era o ano da mudança.
Aproximando-se rapidamente da calçada, ela prostrou-se bem em frente à porta do rapaz, que levou alguns segundos para notar que uma outra pessoa estava parada ao seu lado. Ele era jovem e bonito. Parecia não ter muito mais que sua idade. Se ela tivesse uma vida diferente, poderia conhecê-lo e se apaixonar por ele, mesmo que fosse matá-lo caso descobrisse seu grande segredo.
Ela também deveria morrer naquele ano, com todos aqueles segredos, mas era tarde demais. O assassino à sua frente era sua última cartada.
— Posso ajudar, moça? — perguntou ele, com um belo sorriso gentil.
Jiyeon baixou os olhos até a fita metálica presa no uniforme. Chae Hyungwon. Quais eram as chances? Até seu nome soava plácido e cavalheiro, muito diferente de um verdadeiro assassino.
Ela coçou a garganta, juntando toda a firmeza restante na voz:
— Eu sei o que você fez.
Hyungwon piscou os olhos por um instante, avaliando o rosto cansado e pálido de Jiyeon.
— Como? — Franziu o cenho. Ela parecia uma mulher louca em busca de dinheiro fácil na venda de mentiras como as cartomantes dos becos de Yongsan-gu. Uma perfeita ironia começando a traçar a sua história.
— Sei quem você matou.
O belo sorriso desapareceu do rosto do rapaz. Tudo em que conseguia pensar era continuar seu caminho até o carro e dirigir para casa como se nada tivesse acontecido. Como se aquela mulher não fosse real, apesar de ser.
Hyungwon manteve a compostura, apesar de tudo. Seu nariz tremeu com uma risada fraca e curta, e ele voltou a dizer:
— Acho que você se enganou, moça — disse ele, sem disfarçar o tom trêmulo de forma eficiente. — Não existe a menor possibilidade de eu matar alguém.
— Então é assim que vai ser? — Os olhos de Jiyeon se estreitaram. — Então vamos botar as cartas na mesa: Lee Joowon. Filha de Lee Ahin e Lee Minhyuk. Irmã de Lee Kihyun. Morreu na ponte Ayanggyo, em um trágico acidente de carro. Mas a negligência do motorista em prestar socorro a matou primeiro do que isso. O nome desse sujeito? — Ela nivelou seus olhos para o crachá. — Chae Hyungwon.
A palidez expressa pelo rosto do homem o deixava repentinamente doente. Os passos trôpegos para trás mostraram a dimensão de seu choque. Uma das mãos apoiou o restante do corpo no capô do Ford enquanto sentimentos desconhecidos de medo e pavor enroscavam-se em seu peito, retendo o fluxo de ar aos pulmões e impedindo que qualquer som saísse por sua boca.
Quando finalmente voltou a si, Hyungwon ficou ereto, fechando os dedos trêmulos em punho.
— C-como… Como você…
— Talvez seja melhor não saber, querido. — Jiyeon foi propositalmente informal. O rapaz fez uma careta pelo tom, e ainda mais quando a mulher fez nascer um sorriso singelo nos lábios. — O fato é que você é um criminoso, que consegue desfrutar muito bem de bulgogi todos os dias no café da manhã, mesmo sabendo que…
Algo tocou seu ombro.
Tocá-la era estritamente contra a política de Jiyeon. Ninguém deveria tocá-la enquanto ela estivesse naquele restaurante sujo, e especialmente ninguém deveria tocá-la naquele momento, quando ela estava tentando ser corajosa. Hyungwon apertou os dedos em torno de seu ombro, aproximando-me com um olhar raivoso. Ela viu as duas carreiras de dentes trincarem bem perto de seu rosto.
— Quem é você? Onde estava naquele dia? — Sua voz era baixa e intimidadora. Era o bastante para que Jiyeon se sentisse amedrontada e tentada a dar um rodopio e sair dali imediatamente. — Como se atreve…
A ponta da lâmina roçou no tecido de seu casaco esportivo. Hyungwon olhou para baixo, vendo sua posição perigosa, afrouxando o aperto nos ombros da mulher. Ele não viu o quanto ela se controlava para não deixar que suas mãos trêmulas soltassem a faca. Seu olhar não se desviava do dele nem por um segundo.
— Tire. As mãos. De mim — disse pausadamente, com os dentes trincados em um aviso implícito: ela também podia ser perigosa. — Acredite, senhor Chae, estou tentando ajudar.
Diante dela agora estava o gerente de uma grande concessionária, funcionário competente e bem-querido por todos, sempre arrumado e presidencial com as pernas bambas e olhos aterrorizados à medida que a verdade o atingia na forma de um escape metálico dos bolsos do sobretudo da mulher desconhecida. Hyungwon sentiu vontade de correr, mas, pensando bem, ele esteve correndo até agora. Aquele parecia ser um momento decisivo de alguma coisa que ainda não sabia identificar qual era.
— V-você… Você não tem provas — balbuciou, arrastando os pés para trás.
Jiyeon forçou uma risada sarcástica a sair, mesmo que ainda tivesse o coração martelando pesado no peito e todos os instintos em alerta máximo.
— Acha mesmo que quando uma pessoa desconhecida te ameaça, ela não tem nada? — blefou, mantendo os olhos em linha reta na direção do rosto assustado do sujeito.
Um silêncio pesado pairou sobre a ameaça de forma sufocante. Um mísero fio de ar passava pela glote do rapaz, e sangue começava a escapar das gengivas de Jiyeon pela pressão que colocava nos dentes. Ambos assustados, e ambos pensando em um jeito de escapar.
Com um pigarro, ele se aproximou da mulher, agora certificando-se de não a tocar, e sussurrou furiosamente:
— O que você quer? — O veneno escorreu junto com a saliva que pulou para fora, os olhos esbugalhados demonstrando as vertentes de um homem desesperado. — Quanto você quer?
Ao se corrigir, Jiyeon baixou os olhos pelo corpo do rapaz. Seu relógio parecia ser mais caro que seu carro, e este já fazia parte de um modelo moderno e ocidental, revendido apenas em sua própria concessionária. Ele tinha o tom de pele pálido e encantador, muito diferente de trabalhadores braçais que perdiam sua vida e saúde sob o sol. As mãos, quando a tocou, eram macias e sem atrito. O aveludado de sua voz no cumprimento inicial mostrava boa educação. Jiyeon nunca soube como conseguia julgar a fortuna de alguém pelos mínimos detalhes, mas aquele cara não fazia muita questão de escondê-la.
— 30 milhões — respondeu, por fim.
O homem a encarou incrédulo. Tanto pelo valor, quanto pelo fato de que aquilo realmente seria resolvido com dinheiro. E então ele sentiu raiva. E Jiyeon não moveu um músculo sequer.
Diferente do que sua voz entregou, ela não tinha um valor em mente. Talvez, na hora do medo e dos pensamentos embaralhados, ela tenha pensado em algo como férias de primavera e lugares como a Costa Rica e a costa espanhola. Lugares onde ela conseguiria um bronzeamento de verdade. Lugares onde poderia fugir e se tornar outra pessoa.
Mas na hora de dizer os números, ela apenas fitou aquele rosto bem cuidado e as roupas odiosamente engomadas e sentiu nojo pelo assassino. Sentiu nojo dos jantares que ainda frequentava na casa da vítima. Sentiu nojo de toda aquela aura confiante que o transformaram no último suspeito.
Jiyeon provavelmente estava mais próxima de uma ínfima expressão de ira de Chae Hyungwon mais do que qualquer outra pessoa já esteve.
— Você está brincando, não está? Eu espero que esteja — disse ele, de maneira que indicava menos esperança e mais certeza.
Ela pensou em rir e falar mais alto, mas provocar aquele homem não seria a ideia mais inteligente, portanto, inclinou a cabeça para cima para mirar em seus olhos sem um pingo de divertimento.
— 30 milhões de wons ou a central de polícia de Busan. O que parece melhor?
— Maldita… — O rapaz trincou os dentes, enraivecido. Inesperadamente, aproximou os passos rapidamente até Jiyeon, que ainda mantinha as mãos em prontidão no casaco. Ele notou antes de tomar qualquer atitude que se arrependesse. Havia algo irritantemente impressionante nele, uma impressão de que ele era muito alto e muito forte, o estereótipo de um homem protetor, apesar de não ser mais alto e mais forte do que a maioria dos homens da Coreia — Acha que é fácil conseguir 30 milhões de wons?
— Não ligo se é fácil ou não, senhor Chae. Você não parece um ser humano inibido e tem uma beleza acima das demais, então creio que pode tomar uma atitude. Sem sujar as mãos.
Ele a encarou mal-humorado. Uma mão se enfiou em um dos bolsos da frente, onde remexeu no bolo de chaves enquanto mordia o lábio inferior e puxou-a para fora, apontando a superfície metálica para o rosto dela.
— Você vai desaparecer depois?
A contragosto, Jiyeon encarou a ponta da chave, desejando girá-la direto em seus olhos.
— Você nunca mais vai me ver, senhor Chae — disse ela com simplicidade. — Mesmo se acontecer, não se lembrará de mim.
As palavras foram ditas com confiança, porque só assim o poder emanaria dela com fidelidade. Ela estendeu a mão formalmente, esperando a retribuição do gesto para o selamento de sua habilidade imaginária. Até aquele momento, quando tudo ainda não passava de um teste.
Hyungwon olhou para a mão oferecida com os músculos faciais retesados em uma rejeição explícita. Se Jiyeon pareceu bonita à primeira vez, agora ela parecia um ser sujo, de aparência amarfanhada e puída, com um sobretudo que provavelmente havia sido lavado vezes demais. Tudo nela o desagradava, principalmente o olhar confiante e ameaçador.
Ele apertou as mãos da desconhecida, e a magia aconteceu.
Por precaução, ela repetiu as palavras, com mais destreza desta vez:
— Me entregue o dinheiro e eu vou desaparecer, senhor Chae. O senhor nunca se lembrará de mim, mesmo que eu volte pra cá. Estamos entendidos?
Sua voz era suave e arrepiante, ao mesmo tempo. Foi o bastante para causar calafrios no homem. Ela parecia bonita outra vez, um tipo de beleza perigosa. Seus interesses egoístas a tornavam um soldado em uma guerra em que os inimigos eram todas as outras pessoas.
O rapaz puxou a mão rapidamente ao sentir a energia diferente que rondava aqueles poucos centímetros entre ele e ela. Os pensamentos se dissiparam como um jato. O que ele estava indo fazer mesmo? Ah. Claro.
— Venha sem fazer barulho — murmurou ele, fazendo o caminho de volta para a concessionária. Jiyeon esperou um pouco antes de segui-lo. Seu jeito de andar era extremamente elegante. Ela deixou a faca em prontidão.
A loja era ampla e impecável. Um pequeno lance de escadas e já estavam dentro do escritório individual e majestoso. O homem abriu uma gaveta e tirou de lá um talão de cheques. Jiyeon cravou os olhos na caneta que deslizava pelo papel. 30 milhões de wons.
Seu coração acelerou com a constatação do que estava acontecendo. Inesperado não era bem a palavra certa para descrever a situação, mas era próxima.
O homem lhe entregou o cheque. Ela o verificou de novo. Então, sorriu e disse:
— Foi um prazer fazer negócios com você.
E deixou a loja sem emitir uma única expiração.

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Kang Jooheon nasceu 8 meses depois.
O apartamento para onde foi levado da maternidade era maior que os 20m² onde sua mãe costumava dormir, e a casa onde cresceu a partir dos três anos de idade, quando entrou em um trem para Seul, era espaçosa e agradável, com quintais vastos e uma macieira velha e retorcida no meio do gramado baixo, onde ele mesmo tinha pendurado um pneu velho em um dos troncos para servir de balanço. Uma casa grande demais com brinquedos demais para uma criança que passava seus dias sozinha.
O menino tinha traços delicados e uma aparência um tanto frágil, com olhos grandes e redondos e belos cabelos escuros que se mantinham baixos com algum esforço, aplicado por ele mesmo. Ele parecia com o pai, mesmo que nunca o tivesse visto ou tido qualquer referência sobre sua existência em algum lugar. Toda vez que sentia o impulso de perguntar, seu cérebro o levava a repensar dezenas de vezes. Sua mãe não emitia uma única vibração de interesse em respondê-lo.
Aos 11 anos, sua mãe não era mais Kang Jiyeon. Kang Jooheon era filho da Madame Kang, a maior cartomante e médium de Seul e uma das mulheres mais ricas da região de Yongsan-gu. O negócio não tinha nada de legítimo, mas nenhum órgão oficial estava preocupado em lidar com bruxas pelo bairro enquanto o regime militar de pós-guerra das Coreias ainda estourava em rebeliões no centro e discussões na câmara sobre como lidar com o problema da separação.
Nem por isso, ela deixava de ganhar rios e rios de dinheiro enquanto vendia um futuro que não podia ver — mas podia mentir enquanto via outra coisa.
Os fantasmas sempre revelavam informações interessantes sobre seus clientes.
Com a veracidade das informações sendo repassadas com rapidez, ela logo tinha uma lista cheia de consultas e cada vez menos tempo em casa. Pensar em Jooheon era algo recorrente no começo, mas depois se tornou cada vez menos necessário. O garoto se descobriu independente antes dos 10 anos. Era perfeitamente capaz de comer e se limpar sozinho, assim como estudar e se dedicar às demais tarefas. A casa era limpa e organizada 3 dias por semana por uma senhora de meia idade que tampouco falava muito — seja pelo motivo de não querer perder tempo com crianças ou por pressa de finalizar o serviço naquela casa, que a dava arrepios constantes.
A mulher fazia questão de limpar o quintal dos fundos primeiro do que todos os outros cômodos, desde que fez a besteira de deixá-lo para o fim do dia e pegou o garotinho rindo e se divertindo aos ventos, sendo empurrado em seu grande pneu de balanço por uma força aparentemente invisível, visto que seus pés não tocavam o chão e seu corpo estava relaxado demais para fazer algum esforço.
Esta havia sido apenas uma das vezes. Em outras, ela o pegava sussurrando sozinho em cômodos diversas vezes, em frente ao espelho, ao lado de sua cama ou até mesmo enquanto fazia suas refeições. Era aterrorizante, e um pensamento tão maluco que ela não se via capaz de contar a alguém. Aquela casa precisava de, pelo menos, 40 talismãs de Buda e todas as religiões que quisessem ajudar.
Infelizmente, a Madame Kang pagava muito bem.
Em uma manhã, Jiyeon havia conseguido um horário livre para tomar o café da manhã em casa. Ela tinha uma visita agendada no Hospital Municipal e pilhas de cartas a responder no escritório mais tarde, o que era mais cansativo do que se imaginava, mas nada importava quando a quantia de zeros que fechava o dia era o suficiente para que saísse e voltasse do país 30 vezes no ano.
Quando chegou à cozinha, o cheiro de arroz e sopa de algas invadiu suas narinas. Os acompanhamentos estavam sendo postos organizadamente na mesa principal por um garotinho de uniforme escolar, que desligava a panela elétrica cuidadosamente e pegava um talher a mais na gaveta.
Quando se virou para a entrada, um sorriso aberto e brilhante demonstrou a mais pura felicidade. Ainda segurando os talheres, ele correu até a mulher, olhando para cima com adoração.
— Mamãe! Vai tomar o café da manhã?
Jiyeon engoliu em seco, encarando rapidamente o garoto, desconcertada e caminhando até a mesa, limpando a garganta antes de falar.
— Não posso demorar — ela não tardou a avisar. Ao se sentar, notou que seus pratos já estavam devidamente separados e organizados. Jooheon pousou os hashis ao lado de seu cotovelo, tomando seu lugar do outro lado da mesa. — Você fez tudo isso?
O garoto assentiu, em felicidade explícita. Aquele seria o melhor dia da semana, senão do mês inteiro. A alegria de tomar um café da manhã com sua mãe só seria substituída pelo dia em que ele comesse algo preparado por ela.
Jiyeon olhou para o filho e desviou os olhos rapidamente.
— Já falei para não perder tempo com essas coisas. Você precisa estudar — ela resmungou enquanto pegava o hashi, puxando uma pequena quantidade de arroz. — É pra isso que Dabin é paga.
— A senhora Lee não gosta muito daqui — Jooheon respondeu tristonho, concentrando-se em começar a comer. — E fui o melhor da classe de novo depois da semana de provas. A professora me perguntou mais uma vez se eu queria pular o ano.
O olhar de Jiyeon continuou focado no mesmo lugar. Ela já tinha conhecimento do rendimento invejável de seu filho. Sabia que ele era mais inteligente do que os demais, e que não necessitava de nenhuma pressão para ser assim. Mas parabenizá-lo por aquilo não era algo que estava disposta a fazer. Nem isso e nem qualquer atitude que poderiam rotulá-la como mãe.
Os dois comeram em silêncio por alguns minutos. A refeição preparada por Jooheon era melhor do que esperava, o que a deixou tentada a fazer um elogio. Quando ergueu os olhos para isso, viu que o menino fitava algo atrás de suas costas. Devagar, ela se virou na direção da janela atrás, que mostrava o quintal dos fundos e a macieira velha com o brinquedo simples. O pneu estava ocupado por um adolescente pálido e de camisa amarrotada, debilmente combinada com uma calça de flanela e suspensório preto e desgastado. Seus pés estavam descalços, mas isso pouco importava. Ele não estava vivo para sentir o frio terrível do inverno que se instalava com mais força a cada dia.
Jiyeon olhou para o garoto na mesa, que havia pausado a alimentação para acenar de volta para o menino lá fora. Ela estreitou os olhos, descendo os hashis com certa força sobre o tampo, chamando a atenção do filho com um breve susto.
— Eu já não disse para se livrar dele?
Jooheon engoliu em seco, baixando os olhos para a comida.
— Mas ele…
— Você me fez o favor e falou com ele? — Suas sobrancelhas se ergueram. O menino continuou calado. — Enquanto Dabin estava aqui? Não me admira que ela não goste de ficar. O que tínhamos conversado, Kang Jooheon?
Jooheon usou um milésimo de segundo de seu tempo para imaginar como seria se jogar em uma conversa incômoda e vagamente autoritária com “Dave” mais uma vez, perguntando-lhe o porquê ainda vagava em seu quintal e se ele e a mãe poderiam ajudá-lo de alguma forma. Apesar de gostar da ideia de ser útil, não foi um milésimo de segundo agradável.
— Ele não se lembra, mãe. Ele só quer brincar. — Os ombros dele se levantaram em uma resposta simples. Jiyeon franziu os lábios. — Talvez esta fosse a casa dele. Talvez ele só sinta falta…
— O quanto exatamente você acha que eu me importo com isso? — a resposta saiu entredentes. Jooheon abriu um pouco mais os olhos. — Eu já te disse, sua preocupação deve ser única e exclusivamente com a escola, e quando os mortos aparecem, você simplesmente se livra deles. Faça-os ir embora para longe, lembra?
— Não consigo fazer isso — sua voz saiu baixa, envergonhada. — Não do jeito que a senhora faz. Não quero ignorar os problemas, quero contribuir. Quero que tenham uma passagem agradável.
— Você… — a mulher começou, mas tratou de fechar os olhos e segurar a língua. A repetição do mesmo assunto nunca foi o forte de Jiyeon. A insistência em algo já fadado ao destino não era algo que pudesse se intrometer. Desde a primeira vez que viu Jooheon dormindo serenamente na pequena incubadora do Hospital de Busan, ela sabia que ele seria igualmente perseguido pela morte, assim como dizia aquele livro velho e antigo que leu quando não sabia o que fazer com 30 milhões de wons e um filho indesejado na barriga. Hereditário. Um fio contínuo. Uma habilidade amaldiçoada, persistente, geração a geração.
Certamente, a parte da mediação foi ignorada. Mediar transformava a prática em dom, e ela não se deixaria levar por essas mentiras, muito menos com aquela criança.
Entretanto, com o passar dos anos, ela se via cada vez mais frustrada ao notar que Jooheon, o filho o qual ela se recusou avidamente a dar qualquer tipo de amor e, mesmo assim, o recebia de forma constante, mantinha apenas aquela característica parecida com a dela: a capacidade de ver. Nada de poderes ocultos e vantajosos. Nada que pudesse torná-lo especial, assim como ela.
A única coisa que aquele menino parecia se preocupar era com o bem-estar dos mortos vagantes. E isso deixava a cartomante cada vez mais desapontada.
— Não se preocupe, mamãe. — Ele estendeu a mão sobre a mesa, tocando no dedo indicador da mulher. — Vamos pensar em algo para ajudá-lo. Somos pessoas interessantes, você e eu. Temos um propósito.
Jiyeon riu em escárnio, desviando-se do toque como se sentisse um choque incômodo. Antigamente, ela duvidava que Jooheon tivesse o mesmo humor ácido e irônico que a mãe quando dizia aqueles absurdos, mas a continuidade do assunto a diziam que ele realmente acreditava naquilo. O garoto ingênuo era realmente ingênuo. E sempre parecia genuinamente horrorizado quando a mãe tentava mostrá-lo o contrário de tudo isso, o que era ligeiramente cativante.
Às vezes, era verdadeiramente questionável como aquela criança tinha saído dela.
Por um breve momento, brevíssimo, que mais tarde a deixou desconcertada e envergonhada, Jiyeon considerou dar um abraço no filho e contar que ele tinha um bom coração, mesmo que isso não significasse nada no mundo real. Mas então, o telefone grudado na parede tocou e ela se lembrou das regras que ela mesma impôs sobre o tratamento que concederia àquela criança, e nenhum deles abriria brechas para expectativas de uma mãe amorosa.
A ligação era um lembrete desesperado de sua clientela no hospital, que esperava impaciente pelo serviço de comunicação extracorpórea. Ela desligou e olhou para a mesa, onde Jooheon ainda tomava calmamente seu café da manhã e fitava a janela à frente. Uma sensação de acalento quis invadir o seu peito, mas foi rapidamente identificada e jogada para escanteio. Todo o seu apetite foi embora com o sentimento intrometido.
— Preciso ir — ela limpou a garganta, fechando botões já fechados nas mangas do pulso. — Junte suas coisas. Vou te deixar na escola.
Jooheon não precisou de uma ordem. Com entusiasmo, ele saltitou até o quarto no segundo andar, voltando com todos os seus pertences e correndo até o Fiat moderno e caro que se preparava para sair.
Ao tirar o carro da garagem, Jiyeon olhou para o garoto morto no quintal, e prometeu a si mesma que se livraria dele antes da hora do jantar.

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Aquele foi, de longe, um dos dias mais marcantes de Kang Jiyeon.
No futuro, ela diria com toda certeza que as coisas começaram a desandar a partir do momento em que ultrapassou as portas do Hospital Municipal.
O elevador se encontrava na cobertura. Enquanto esperava, um dos seguranças do corredor espichou o olhar pela mulher por mais tempo que o necessário, vasculhando suas roupas de cima a baixo e não fazendo o menor esforço para esconder a expressão de desdém. Jiyeon suspirou, balançando os pulsos repletos de pulseiras ornamentais e cristais oceânicos, combinando com seus brincos grandes e o batom escuro que marcavam presença. Pequenas mechas arroxeadas brilhavam nas pontas de seu cabelo, o que finalizava o look extremamente grotesco pela visão da sociedade coreana, mas também vendia seu trabalho como nenhum outro. A bruxa de Gangnam. Você vê o que eu sou, mas não vê quem.
O ruído de palavras inaudíveis veio do homem de pé, mais uma vez. Não precisava ter superpoderes para saber as palavras desagradáveis que estavam saindo por aquela boca. Ela viu os números do elevador diminuírem e deu um passo à frente, limpando a garganta para se livrar do ar seco do ambiente.
— Eu deveria estar usando um avental, querido? — disse ela, encarando a linha vertical da porta dupla, começando a ouvir a locomotiva se aproximando. O segurança parado há alguns metros primeiro olhou para os lados, confuso, sentindo um nervosismo latente com a possibilidade daquela mulher estranha estar falando sozinha, como gente dessa laia fazia.
Quando finalmente o encarou, ele retribuiu o olhar com desprezo.
— Pois eu estou trabalhando. Pra pagar minhas contas. Assim como essa pobre enfermeira também estava. — As portas se abriram. Jiyeon lhe lançou uma leve piscadinha antes de entrar e apertou o botão da Ala Vip.
O homem deixado para trás sentiu um arrepio na nuca ao notar que não havia ninguém ao seu lado.

A expressão despreocupada de Jiyeon foi a primeira coisa que Kim Taeha notou. Mesmo encarando o garoto entubado, que não devia ter mais de 24 anos, parecendo genuinamente morto e sem esperanças, a cartomante apenas suspirou e disse:
— Acho que posso cuidar disso.
A mulher soltou um suspiro de alívio. Em sua companhia, estavam apenas outras duas mulheres, que se mostraram tão aliviadas quanto, e a falta de participantes do sexo oposto só demonstrava como ela devia estar fazendo aquilo às escondidas dos homens céticos e acomodados.
No chão ao lado da maca, um tapete médio havia sido desenrolado, estampado com pequenos pontos brancos no tecido negro. Taeha automaticamente pensou na decoração extravagante que viria, como nos filmes e livros de mistério ocidentais que teve contato, mas nada disso veio. Jiyeon apenas se ajoelhou, indicou para as outras mulheres fazerem o mesmo e puxou uma vela grossa e branca da bolsa, pousando-a no centro.
— Você pode mesmo cuidar disso? — uma das companheiras de Taeha não segurou a língua. As mulheres da elite do país estavam preparadas para algo mais notável; sangue de galinha, pentagramas e velas escuras. Aquilo parecia simples demais para que as almas perdidas escutassem o chamado.
A Madame Kang olhou a mulher com paciência. Taeha trincou os dentes para a amiga em repreensão. Ela encarou Jiyeon em um pedido de desculpas.
— Ganhar por hora me qualifica especialmente para cuidar disso — respondeu a médium, reposicionando a vela até que ela atingisse o centro absoluto do tapete. — Você trouxe o item? No mundo dos mortos, ser específico é essencial para que não tenhamos visitas indesejadas.
Um arrepio atravessou a espinha das 3 mulheres. Taeha, a mãe desesperada, puxou logo uma pequena medalha de ouro branco, gravada com o nome de Changkyun, o garoto acamado logo ao lado. Jiyeon tirou uma caixa de fósforo do bolso e acendeu a vela com precisão, enrolando a medalha nas mãos.
Um soluço sufocado escapou da garganta de Taeha. Jiyeon quis revirar os olhos, mas fazer isso em um ambiente tão pequeno para ser reparado seria uma tremenda falta de educação. Com cuidado, ela suspirou e fechou os olhos.
— Changkyun. Onde você está, querido?
Nada aconteceu no primeiro momento. Taeha tinha a garganta tão apertada que precisava manter a boca entreaberta. Jiyeon manteve-se na postura, agora acariciando a joia com leveza.
— Changkyun, não me faça levantar. Sua mãe está bem aqui e gostaria muito de falar com você. Vamos, apareça.
Por um segundo, tudo continuou na mesma. Até mesmo o ar parecia parado. E então, aconteceu.
A chama da vela tremeu com o vento produzido pelas cortinas, que se fecharam magicamente sozinhas, mergulhando o quarto no escuro absoluto. A mesma companheira cética levou as mãos à boca após soltar um grito de susto. Taeha prendeu ainda mais a respiração, sem fazer movimentos bruscos, como se já esperasse tal coisa. Os olhos da outra mulher quieta estavam marejados e assustadoramente focados no fogo. Jiyeon permaneceu estática no mesmo lugar.
Ela foi abrindo os olhos devagar, vasculhando o ambiente em busca de uma nova sombra, uma nova presença proveniente da invocação. Não havia sinal do garoto. As correntes em suas mãos eram comprimidas uma na outra, funcionando como um sino estridente no outro lado, chamando o nome específico de Kim Changkyun, mas ele não parecia disposto a aparecer.
— M-madame Kang… E-ele… — Taeha gaguejou, apertando os dedos um no outro no colo, mostrando-se mais controlada do que as outras.
— Ele não está exatamente morto, como deve saber, sra. Kim. — O tom arrogante da médium não era proposital. Ele era usado constantemente quando estava concentrada. — O processo é um pouco diferente. Pessoas em coma estão partidas ao meio. Uma parte da alma conhece o além, e a outra permanece…
Ela parou de falar. Algo se rastejava atrás das sombras das 3 mulheres.
Uma massa sombria e disforme que se locomovia pelas paredes.
Taeha notou o olhar focado da mulher e se virou para trás, mas seus olhos comuns não eram capazes de ver o que Jiyeon estava vendo. Mas nenhum coração que batia naquele cômodo deixou de sentir o frio intenso e a aura obscura cair sobre cada metro quadrado.
A imagem se deslocou até o chão, macabramente como uma aranha em movimento, com braços e pernas alinhados até que se ergueu em forma bípede. Então, ela se materializou. E Jiyeon deixou que as mãos trêmulas quase derrubassem o pequeno objeto.
Um homem estava parado há alguns metros da maca. Não era alguém que ela conhecia, não era alguém que tinha chamado. Seu rosto era tomado de veias saltadas e negras, e seus olhos eram sórdidos e tenebrosos, exalando o mais puro terror. Uma redoma escapava de si como correntes pesadas, serpenteando sobre o chão e paredes, tomando o ambiente por completo. Jiyeon sentiu o corpo todo tremer, sentindo-o ser tomado pelo horror. O comportamento não parecia ser voluntário, mas sim, automático. Ela sentiu medo, como não sentia desde os olhos furiosos do pai.
— Q-quem… — Ela comprimiu os lábios, odiando-se pela voz vacilante. Quem era isso? Como ele se atrevia a deixá-la amedrontada? — Quem é você?
A aparição não respondeu. Por um momento, Jiyeon ficou realmente sem saber o que dizer. Ela nunca acreditara em pessoas que se diziam sem palavras, mas era assim que ela estava. Quando abriu a boca para repetir a pergunta, tudo que saiu foi ar. Então ouviu algo como o início de uma risada, não partindo dela. Quando deu por si, a sombra mortal estava em sua frente, apavorante como a reunião de todas as barbaridades do mundo.
Ele se aproximou rápido demais. Jiyeon raramente era pega de surpresa, mas o terror inicial a deixava com os nervos sensíveis. Um gemido a fez apoiar as mãos no chão, enquanto fitava os olhos negros acima de sua cabeça com um medo irracional. A chama se apagou e acendeu de novo. Ela se sentia totalmente sem o controle da situação.
— Madame Kang, o que está acontecendo? — Taeha agora se despia de todo o controle emocional ao ver a paranormal olhar um ponto fixo invisível e o frio no quarto piorar. Uma das amigas não pareceu ter aguentado e estava desacordada ao lado. A outra parecia que estava prestes a vomitar.
Jiyeon não sabia o que responder. Seus ouvidos estavam vedados pelo tímpano estourando em um pânico crescente. Ao mesmo tempo, ela se sentia frustrada pela aparição estranha e horrível. Lentamente, ele ergueu o dedo indicador e foi descendo-o em direção a ela, começando a abrir um sorriso lascivo e demoníaco, os dentes podres e marcantes como um esqueleto vivo, o sorriso de um cadáver.
— Não… — Ela arrastou o corpo para trás, inconscientemente.
— Madame Kang… — chorou Taeha.
— Não! — Jiyeon gritou mais uma vez. O dedo a tocou. Seu corpo paralisou.
— Você é um pouco inconveniente… prostituta.
E então, tudo foi mostrado a ela.
Kim Changkyun era um filho chaebol de uma grande empresa muito bem estabilizada no país. As riquezas e prosperidade o rondavam desde o nascimento, assim como algo mais terrível e pesado. Em uma regressão veloz e instantânea, ela viu a presença negra e marcante parada ao lado do garoto em diversas situações diferentes, todas esperando, aguardando o momento certo. E então ela se apossou do que era dela por direito, em uma ocasião banal como um jantar de família, onde ele comemorava a aprovação dos estudos no exterior. Um garoto genuinamente saudável que de repente sofre uma convulsão catatônica e cai bruscamente sobre o próprio prato de comida.
Mas a cena veio a Jiyeon de forma mais completa. A aparição tocou no garoto — tocar, algo que ela jamais vira — da mesma forma que tocou nela há pouco, e suas pupilas desapareceram, assim como toda a cor de seu rosto. Ela viu claramente o momento em que seu corpo pendeu mole sobre a mesa e seu espírito pairou ao lado, olhando confuso por um longo momento para a confusão, como era de se esperar de fantasmas que morriam repentinamente.
Mas ele não olhou por muito tempo. Desfrutar da própria morte era um processo difícil e, para quem tinha pendências, duradouro. Mas a alma do garoto estava ali e, então, não estava mais. Um segundo ataque surgiu de suas costas, tão terrível quanto o primeiro, e seu corpo se agitou por inteiro ao tentar se afastar do que o estivesse segurando, mas ele não parecia nada mais que uma mera criança assustada enfrentando um gigante. A assombração assassina virou a cabeça e passou uma língua nos lábios. “Destino”, foi o que repetiu antes de desaparecer com a alma do garoto.
Um arfar furioso escapou de Jiyeon quando ela abriu os olhos novamente, deparando-se com a desesperada Taeha, que chorava como a morte e a fumaça da vela que se apagava pouco a pouco. Seus olhos estavam assustadoramente arregalados e se viraram automaticamente para o garoto deitado na maca. Ela se levantou, apoiou as mãos na cama e esperou alguns minutos. Aceitar aquilo parecia demais. Um terrível pressentimento de tudo ser verdade a tomou por completo.
Ao puxar as pálpebras para cima, Jiyeon soltou um grito inesperado, afastando-se para trás. Um tremor absoluto percorreu cada centímetro de seu corpo. Os lábios ficaram brancos à medida que a ficha ia caindo.
Kim Changkyun não estava morto, pois sua alma não havia passado para nenhuma dimensão conhecida. Ele também não estava vivo, porque o corpo não sobrevive sem o espírito. Sua alma havia sido devorada, raptada.
Como aquilo era possível?
— Madame Kang… Madame, por favor… — Ela mal sentiu quando seus pulsos foram agarrados pelas mãos duras de Taeha. A mulher soluçava sem descanso. — Madame, o meu filho… Cadê o meu filho…
— Seu filho não está aqui — respondeu Jiyeon, ainda paralisada. De repente, ela sentiu uma imensa e urgente vontade de sair correndo, uma necessidade de escapar dali o mais rápido possível. Em um impulso, ela se soltou bruscamente das mãos da mulher e começou a pegar sua bolsa e a enrolar o tapete novamente.
— O-o que você quer dizer? Ei…
— Foi o que eu disse. Não precisa me pagar por essa conversa, agora preciso ir.
— Mas… Não…
— Por favor. — Jiyeon trincou os dentes, fitando a mulher. — Seu filho está morto, senhora Kim. Esses aparelhos não irão trazê-lo de volta.
E então, ela partiu para a porta, ignorando a tentativa da cliente desesperada de chamá-la de volta. Respirar ar puro do lado de fora pareceu trazer de volta o resto de seu lado racional, e Jiyeon sentiu de repente uma vontade maluca de sair correndo, de chorar, de gritar de pavor.
O que tinha acabado de acontecer ultrapassava o desconhecido, mas de uma coisa ela tinha certeza: jamais queria lidar com almas predestinadas novamente.

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Kang Jooheon foi embora aos 21 anos.
Não era para sempre, ainda que Jiyeon esperasse que sim. Um futuro brilhante estava destinado ao seu filho antes que ele se entendesse por gente. Jooheon era bom tanto com os números quanto com as pessoas — vivas e mortas. Aos 21, seu nome foi citado com honorários na formatura dos novos engenheiros graduados pela Universidade de Seul, a mais prestigiada e tradicional universidade de toda a Coreia. As propostas de emprego vinham de todos os cantos, e um garoto recém-formado já tinha colhão o suficiente para se tornar independente e andar com as próprias pernas.
A oportunidade perfeita dessa nova vida começar veio com a aprovação do mestrado no exterior. Mais especificamente em Los Angeles, nos Estados Unidos. A carta de aceitação da Universidade de Stanford era basicamente um convite. Eles precisavam de Kang Jooheon, um gênio que tinha um claro interesse específico em Geotecnia e em reformas descartadas. O lugar dele estava mais do que guardado.
Mesmo antes de entrar no avião, Jiyeon sentiu aquilo que sabia que as mães normais sentiam ao ver um filho partir, mesmo que soubesse claramente de sua posição na vida de Jooheon: a mulher que lhe deu à luz. A mulher que esteve disposta a lhe colocar em uma boa escola, de educá-lo o suficiente na vida sobrenatural para que não fosse pego ou desse motivos para ser humilhado por seus sentidos mais aguçados e a mulher que não o deixava passar fome. Não uma mulher para ceder abraços calorosos, canções de ninar ou conversas prolongadas sobre a vida. A palavra mãe ainda tinha o mesmo peso incômodo inicial para a mulher, e tentar esconder isso de seu filho e agir como uma perfeita dama estava fora de cogitação. Aquele era o mínimo que poderia oferecer aquela criança que não tinha culpa de nada: honestidade. Por mais cruel que ela parecesse.
Para seu crédito, o garoto paranormal tinha adquirido um autoconhecimento muito preciso para alguém que não tinha muitos amigos. Nada parecia abalar as verdadeiras convicções que Jooheon tinha cultivado desde que passou a ficar mais tempo sozinho; ele amava sua mãe, independentemente de suas dificuldades afetuosas. Tinha uma rasa curiosidade acerca de seu pai, mas nada que não fosse facilmente esquecido depois de focar a mente em alguma lição de casa. Tinha uma determinação incontestável de exercer o propósito no qual acreditava desde que viu seu primeiro fantasma: ajudar os mortos. Levar luz à escuridão.
E, claro, trabalhar com construções. O sonho não veio por acaso. Qualquer relação com libertar fantasmas sem memórias de velhos escombros para erguer um novo monumento “limpo” e sem luzes defeituosas e quedas de temperatura não era mera coincidência.
Jooheon provavelmente cresceu como uma das únicas crianças a montar o seu próprio futuro. Ele era filho de uma médium famosa, mesmo que fama não significasse exatamente acolhimento. Entre os adultos, o nome de Madame Kang significava algo perverso, demoníaco, ainda mais porque, para todos os efeitos, não poderiam chamá-la de charlatã. No entanto, entre as crianças de sua idade, prevalecia o julgamento pela aparência, carregados de conceitos arcaicos trazidos diretamente de casa. Afinal, que mulher decente teria o cabelo daquela cor? Como ela pagava aquela escola com aquele trabalho horrendo, vinculado com o Diabo? Sem contar que era solteira, que absurdo…
A discriminação infundada de pessoas alheias nunca foi o bastante para incomodar Jooheon. Ele sabia perfeitamente o que a mãe fazia. Ele era parte do mesmo meio, possuindo os mesmos poderes inexplicáveis. E, por mais esquiva que Jiyeon fosse, o garoto passou a entender muito cedo todos os avisos que recebeu desde que nasceu: eles não entendem — e jamais vão entender. Se preocupar com pessoas ignorantes só o faria perder tempo.
Essas coisas acalmavam Jooheon. Saber que sua mãe estava apenas trabalhando para pagar as contas tornava o pensamento mais maternal. Pensar nela voltando para casa todas as noites parecia ser seu jeito de dizer que o amava.
Ele levou essa ideia em consideração quando voltou à Coreia, 4 anos depois. E não estava sozinho.

O solo americano foi palco do encontro de Kang Jooheon e Mary Finch.
Primeiro, ele a achava arrogante — e um tanto ácida. O trabalho com artes plásticas exigia de Mary uma visão mais profunda do mundo, enquanto Jooheon era prático e simplista. No seu exterior, Mary enxergou um gênio da matemática carregado de estereótipos machistas orientais, aparecendo por mais vezes do que gostaria na biblioteca municipal onde tentava ganhar a vida até que conseguisse vender algum quadro. Ele, por sua vez, não sabia identificar pessoas dotadas de pré-conceitos até pisar em solo estrangeiro. Ao fundo, as duas pessoas se olhavam de relance entre uma prateleira e outra, buscando entender a origem do atrito ou, até mesmo, a origem da curiosidade que movia seus olhos automaticamente.
O rapaz estava para descobrir que aprenderia muitas coisas novas ao entrar naquele avião, e uma delas era Mary Finch.
Em pouco tempo, de forma surpreendente, o coração de Jooheon batia descontroladamente quando seu olhar virava na direção da garota de cabelos escuros que transitava pela cidade em vários bicos diferentes, colhendo gorjetas aqui e ali. Era sensato reprimir esse sentimento, ainda mais porque Mary não parecia ser o tipo de garota que gostaria de ser levada para a casa dos pais — amante de cigarros baratos, calças apertadas e decotes ousados, ela era um chamado para uma tremenda dor de cabeça, mas também para algum tipo maluco de libertação.
Em contrapartida, a visão que partia dela era a de um garoto elegante e bonito demais para seu gosto. O tipo de homem que a teria facilmente na palma da mão se se aproximasse demais. Com o tempo, um horror exagerado tomou conta de seu ser quando notava, pouco a pouco, que Kang Jooheon estava caminhando a passos largos para dentro de seu coração, um lugar escuro e fechado, cheio de defesas ancoradas e arames farpados. Mary era o traço do sarcasmo, muito diferente do rapaz alto e inocente, de certo modo. A transparência dele acendia algo dentro de si. Uma folha em branco onde ela pudesse reescrever sua história, se livrar do lixo que vinha acumulando de anos e anos de tragédias e derrotas contínuas.
Mas Mary se surpreenderia ainda mais à medida que ia percebendo que a vida de Kang Jooheon, talvez, não fosse tão simples assim.
E então, um ano depois, ela descobriu os fantasmas.
A verdade sempre soa como uma brincadeira no início. Todas as palavras do mundo somem da mente e dizer algo não parece ser o correto, sendo mais provável que uma gargalhada ou coisa relativa aconteça primeiro. Mary não era uma pessoa crédula, assim como a maioria da população relativamente renegada pelo mundo, mas duvidar da honestidade de Jooheon era, no mínimo, inconcebível, e essa ficha caiu como uma piano em sua cabeça quando notou que ele estava falando sério.
Ela não pediu desculpas quando se afastou, no sentido mais cruel da palavra. Isso fez Jooheon se sentir um miserável, assim como os conselhos de sua mãe diziam que ficaria se contasse a verdade para alguém, mas o que mais poderia fazer? Ele estava apaixonado. E era extremamente recomendável que dissesse toda a verdade para a pessoa que se amava.
Sabendo disso, a constatação de que ela também o amava veio de um jeito brusco, acompanhado de um impulso intenso de acreditar no que ele dizia, por mais absurdo que fosse. Se coisas tão infundadas quanto fantasmas poderiam existir no mundo, o amor que ela desconfiava sentir também era real, e isso era apavorante. Dizer em voz alta foi ainda mais.
Sendo assim, aqui estava Mary Finch: apaixonada por um cara que se comunica com os mortos.
Apesar disso, não foi preciso muita consideração para aceitar seu pedido de casamento dois anos depois. A vida de Jooheon andava depressa, e nos dias mais felizes era fácil se esquecer de que, alguma hora, ele precisaria se despedir e voltar para casa. A ideia deixava Mary em uma agitação disfarçada. Perdê-lo não era mais uma opção; muito menos ficar longe dele.
Por isso, em um gesto sarcasticamente cavalheiresco, ela aceitou as alianças em seu dedo sob o teto de uma velha igreja na costa oeste, enquanto dizia palavras bregas e apaixonadas em resposta ao texto introdutório de um velho amigo em comum, uma das únicas testemunhas dessa união oficial.
Levou mais 3 meses para que ela arrumasse as malas e se preparasse para pegar um voo de 22 horas para o outro lado do oceano. Foi o tempo necessário para que Jooheon se formasse antes do previsto, se apossasse de suas várias cartas de recomendação e rejeitasse educadamente as propostas de emprego na América, alegando que não abriria mão de começar a sua família em casa.

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Não era como se Jiyeon não soubesse de Mary.
No início, os relatórios de Jooheon vinham diariamente, falando sobre todo e qualquer mísero acontecimento de sua nova estadia na Califórnia. Claro que eles eram cuidadosamente passados para a mãe, já que esta nunca estava em casa para atender seu telefonema. Ela soube da recepção dos grandes nomes de Stanford, das construções magníficas e históricas que o filho visitara — e das pessoas que ainda moravam ali —, dos livros que andava lendo e da comida ocidental que ainda empurrava forçadamente para dentro. Não era preciso pensar muito para saber que Jooheon provavelmente preenchia linhas e mais linhas do diário de couro volumoso, escrevendo e recortando, enchendo-o com memórias tanto físicas quanto emocionais até que o objeto se parecesse incompatível com o resto dele.
As cartas com pequenas lembranças também continuavam chegando aos montes. Jiyeon respondia uma a cada cinco delas, sempre com um tom zombeteiro que dizia que o rapaz não estava aproveitando o suficiente, já que tinha tanto tempo para escrever. Todas acompanhavam um postal, uma pequena foto de aulas de campo e algo pequeno e elegante que pudesse ser carregado por aí. Pelo menos essa era a esperança de Jooheon: que sua mãe o levasse por aí, de alguma forma.
A primeira vez que falou explicitamente de Mary foi em uma das correspondências que haviam se acumulado durante alguns meses. O nome era novo e sutil, facilmente esquecível se mencionado apenas uma vez, mas Jiyeon prestava mais atenção do que gostaria nas palavras de Jooheon. Mary Finch era a garota da biblioteca, a detestável estudante que insinuava pré-conceitos irracionais sobre seu filho, impulsivamente e agressivamente. Suas orelhas adquiriram um tom de rosa-claro. Foram as palavras frustradas de Jooheon que a contaram o ocorrido uma vez, mas serviu perfeitamente para que ganhasse a desaprovação imediata de Jiyeon. Ela facilmente mandaria a garota para o inferno, mas apenas dobrou a carta e passou para outra.
Nem por cem dólares, pensou Jiyeon. Nem por duzentos.
Não é como se fosse durar para sempre. Jooheon era adulto e certamente poderia se relacionar com quem quisesse, inclusive, era totalmente recomendável que vivesse todas as aventuras dispostas a si em outro lugar bem longe, mas no final de tudo, ele voltaria para casa. Ela sabia, queria isso, mesmo que nunca fosse admitir. Kang Jooheon voltaria para Seul e se casaria com uma mulher coreana, formaria sua perfeita família — ou o mais perto disso — enquanto trabalhava em um bom cargo no governo restaurando patrimônios históricos — e limpando-os, de certo modo, de fantasmas desgarrados que não encontravam o caminho de casa.
Mas ela tinha de confessar que estava um pouco desconcertada pela repetição daquele nome nas cartas posteriores. Ele aparecia com mais frequência, e com menos reclamações. Até que chegou ao ponto de ser elogiado. E apresentado a ela através das palavras, como se fosse uma pessoa física, gentil, palpável. Isso não parecia muito… Agradável.
Jooheon não devia estar falando sério sobre se envolver com essa estrangeira, certo?
Porém quando viu o garoto se aproximando ao longe no aeroporto acompanhado de uma mulher alta, de cabelos escuros e escorridos e pequenas sardas no nariz, ela quase se esqueceu da saudade que sentia do garoto. Antes que eles se aproximassem por completo, a feição da cartomante já estava à beira do desgosto.
Jooheon a puxou para um longo abraço que a fez sentir o peito quente. Foi um momento raro e bom, onde absolutamente tudo no mundo entrou em equilíbrio; seu filho estava de volta. A Terra ainda girava, e o dinheiro das vendas de futuros ainda era abundante.
— Mãe, essa é a Mary! Lembra das cartas? — O rapaz abriu um grande sorriso ao mesmo tempo em que esticava um braço para passá-lo pelo ombro da garota. Esta também sorriu e arriscou um “olá” em coreano, que saiu melhor do que a maioria dos turistas, denunciando o tempo em que esteve treinando com nativos.
Jiyeon a encarou por um momento longo demais. Mary ergueu o olhar, que cruzou com o dela, e algo pesado e forte passeou por entre as duas mulheres, sentido por ambas em diferentes intensidades. Jiyeon deu um passo leve para trás, com o cenho franzido, enquanto Mary apenas desviou os olhos rapidamente, franzindo as sobrancelhas em arrependimento em vez de crueldade, muito diferente de Jiyeon. Ela parecia ter levado um choque leve, que, apesar de tudo, ainda era um choque.
Ali, Madame Kang soube que havia algo de errado com aquela garota. E que seu filho precisava se afastar imediatamente.
No entanto, antes que dissesse qualquer coisa que faria Mary duvidar de si mesma, Jooheon deslocou seu braço do ombro para a mão da garota, puxando-as para cima e revelando o brilho dourado que cintilava em conjunto das mãos unidas.
Mary corou, e ouviu a voz de Jooheon dizer: estamos casados!

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— Grávida?
Foi como Jiyeon reagiu, menos de dois anos depois da volta de Jooheon para casa. Ironicamente, aquele era o mesmo tempo em que ela não o via, desde que descobriu que tinha se casado no exterior com uma mulher qualquer. Ele tinha feito tudo sozinho sem comunicá-la, o que era incomum em todas as facetas, inclusive de aceitar um emprego em Sokcho e de arrumar uma casa no campo, grande e espaçosa para sua nova família. Jiyeon nunca visitou aquela casa. A recusa era veemente.
Por isso, para saber que Mary tinha engravidado, ela precisou receber a notícia pessoalmente do garoto, que explodia de felicidade sem limites. Jiyeon ficou muda, a única reação possível que conseguia esboçar diante do comunicado.
Primeiramente, surgiu o sentimento terrível de ser avó, o que provavelmente sabia que ia acontecer, mas não imaginava que seria tão depressa. Segundamente, o filho daquele casal nunca poderia ser coisa boa. Tirando o fato de toda a estranheza e energia pesada que sentia emanando da nora, a miscigenação não fazia parte dos planos que ela tinha para Jooheon. Seu pensamento egoísta a fazia crer com todas as forças que ele terminaria exatamente onde ela quisesse. Aquela criança não era parte do roteiro, ela era um acidente.
E há quem diga que a cartomante se manteve calada diante de tudo que a desagradava até o presente momento, mas naquele dia específico a alegria de Jooheon incendiou até a mais profunda raiva de seu ser. Família feliz? Casamento feliz? Que se dane. Aquilo era contra tudo de melhor que ela tinha planejado. Jooheon estava andando com as próprias pernas de uma forma detestável: casado com uma estrangeira, pai de uma criança que provavelmente nasceria com as mesmas habilidades e, quem sabe, parecido com ela. Absurdo. Não era pra ser assim…
As palavras foram duras de propósito, acompanhadas de um olhar maldoso. Jooheon raramente perdia o sorriso, mas foi inevitável. Ele achou que conhecia todos os problemas da mãe, e tinha paciência com todas as suas dificuldades afetivas, mas daquela vez era diferente. Ele tinha alguém para defender. Pessoas para se posicionar. Coisas além daquela casa grande com quintal e um passado solitário para se apegar. Tudo pareceu mais simples e direto. Ele amava Jiyeon, verdadeiramente, mas também amava sua nova família, que agora eram sua nova prioridade.
Jiyeon estava errada. Ele nunca se arrependeria de nada que o levou até Mary e, por mais que fosse grato, concederia ao seu filho todo o amor que lhe foi negado desde o nascimento.
E então ele foi embora, e aquela foi a última vez que Jiyeon viu seu filho vivo.


Bloco 2 — ... A tragédia iminente...

Quando Mary estava no sexto mês de gravidez, Jooheon o viu pela primeira vez.
Foi numa fila de banco abarrotada, quando ele tentava abrir uma poupança para a faculdade do filho que ainda não havia nascido. Ele insistiu para que Mary ficasse em casa, que seus pés poderiam doer se ficasse mais de 40 minutos de pé e todas essas coisas superprotetoras que Jooheon costumava dizer, mas que quase sempre começavam uma discussão. Se ela não estava cansada, então não estava cansada. E queria participar de cada processo que envolvesse o futuro do garotinho ainda sem nome.
Sendo assim, ele a deixou, pelo menos, no banco mais próximo e ficou de pé, esperando. O lugar estava mais desorganizado do que cheio, e ele desejou reencontrar um antigo colega de turma que tinha uma família inteira de bancários que não hesitaria em passá-lo na frente. Pelo menos, ele era um dos únicos amigos a quem Jooheon se lembrava de poder ligar a qualquer hora; uma das únicas pessoas que não se importaram de Kang Jooheon ser filho de uma bruxa.
Logo à sua frente, uma senhora idosa resmungava enquanto contava notas soltas nas mãos, alegando que as coisas naquele país ficavam cada vez mais caras. Em outro ponto, um homem tragava um cigarro serenamente enquanto se sentava há duas cadeiras de distância de Mary. Não havia nada de incomum no gesto. Ele puxava a fumaça e a soltava logo em seguida. A redoma de vapor tomava o redor de sua cabeça e, então, se esvaía pelo vento para a primeira saída de ar, bem ao lado de Mary.
Não que ela se importasse realmente com o cheiro da nicotina. Mary tinha parado de fumar apenas alguns meses antes de se casar, um pouco depois do “sim” dito em alto e bom som, porque casar significava ter filhos, e ela não adiaria sua reabilitação só para quando os enjoos começassem.
Mas Jooheon se importava. A fumaça poderia fazer mal ao bebê e outras tantas coisas que andava lendo sobre maternidade nos últimos meses, mas o homem não chegou nem perto de tomar uma atitude. Porque viu algo horrendo o bastante para paralisar seus braços e pernas.
O fumo queimou mais uma vez e se propagou ao redor, porém a fumaça não se distanciou até que sumisse do lado de fora. Ela pousou ao lado de Mary, condensando-se devagar até que assumisse uma forma nebulosa e fina, transformando-se lentamente em um braço e uma perna, em seguida um tronco avantajado, dedos compridos, nariz pontudo, uma pessoa inteira. Uma pessoa feita de fumaça.
Jooheon franziu o cenho e olhou ao redor, mesmo que no fundo soubesse que coisas daquele tipo não seriam visíveis para outros olhos além dos seus. O vapor continuava se condensando e formando a pessoa como uma peça de argila. À medida que o homem liberava mais gás, mais partes do corpo eram reveladas. Agora ele via pernas longas em calças pretas, botas da mesma cor e o princípio de um sobretudo. De cima para baixo, tudo era um manto negro e atenuante. Até que, por fim, quando chegou aos olhos, as pálpebras fechadas se abriram bruscamente, revelando algo que foi sentido por todo o quadrado, mas que atingiu o peito de Jooheon em um golpe sufocante.
Os olhos da aparição eram completamente negros, como os de um demônio. A fumaça, antes branca e invisível, agora se transformou em pedaços flutuantes em preto, rondando o rosto maléfico e sem foco, diminuindo a temperatura geral e abalando toda a lógica da mente de Jooheon. Suas mãos tremeram e, por um segundo, ele não conseguiu se mexer. Balançou a cabeça, tentando focar nos resmungos da senhora à sua frente novamente, desejando que o que fosse aquilo sumisse tão rápido quanto apareceu, mas nenhum terror foi tão gritante e expressivo quanto o que sentiu ao ver a cabeça do fantasma virar na direção de Mary.
Ela encarava o marido com a sobrancelha franzida. Jooheon parecia estar passando por uma silenciosa sessão de tortura. Sua boca estava travada em uma linha fina, e os músculos estavam tão retesados que as veias saltavam para fora. Em poucos segundos, o rosto de “estou-vendo-alguém” disse a ela tudo que precisava saber, mas, ainda assim, fantasmas eram parte do cotidiano de Jooheon. Ele não tinha medo deles. E parecia mais apavorado do que Mary jamais viu.
A manifestação horrenda continuava em seu processo de olhar e encarar a mulher com veemência, destilando uma aura perceptível de ódio. Jooheon acordou depressa e caminhou até ela, pegando-a nas mãos e comunicando-se pelo olhar da melhor forma que conseguiu, apontando com a cabeça para o lado de fora, desculpando-se ao mesmo tempo por dissolver o descanso aos seus pés.
— Jooheon! O que houve? — Mary tentou dizer, mas já estava sendo conduzida para fora. O homem não parecia ter um destino certo. Só caminhava para o mais longe possível do que quer que fosse aquilo.

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O café ia ficando mais frio à medida que Jooheon andava com ele de um lado a outro.
Seu nervosismo era amplificado a cada toque não completado da ligação. A assombração repentina era tudo em que conseguia pensar, somado ao jeito como olhava para Mary, com reconhecimento, com ódio escancarado.
Quando a linha finalmente foi completada, a voz de Jiyeon soou ruidosa do outro lado e Jooheon ignorou a iminência de uma conversa difícil.
— Achei que falar comigo era uma ideia ruim, Kang Jooheon — atendeu bruscamente. O homem revirou os olhos.
— Não temos vítimas por aqui. E eu não estou te entrevistando ou coisa parecida, então pode só guardar essas pedras, por favor?
Um silêncio do outro lado. Um raio cruzou o céu no intervalo das palavras, avisando o início das tempestades de outono.
— Problemas no seu paraíso?
— Eu vi uma coisa.
— Que coisa?
— Uma… — Um suspiro escapou forte de sua boca. Ele mordeu os lábios e pensou. Por um instante, acreditou no fato de que, não importava o quanto sua mãe estava inserida no paranormal, até mesmo ela poderia achá-lo maluco.
— Uma o quê? — A voz dela parecia entediada. Não era fácil prever muita coisa apenas pelo ruído do rapaz. Jiyeon nunca foi boa nessas coisas. — Olha só, estou um pouco atrasada para uma consultoria de um garotinho que jura ter visto a irmã mais velha morta em cima de um quadriciclo na frente de um estábulo, então se puder…
— Parecia um demônio, mãe. — Jooheon largou a xícara de café. Seus dentes trincaram quando olharam para trás, procurando baixar o tom de voz para que Mary não o escutasse. — Eu não sei. Eu vi. Tinha olhos negros e assassinos, surgiu no meio da fumaça, era um lugar fechado… E senti um medo inexplicável. Não sei se você acredita, mas eu juro...
Silêncio. Jiyeon tinha uma capacidade extraordinária de prestar atenção em várias coisas ao mesmo tempo, absorvendo conversas e sons ao redor, preparada para qualquer tipo de intervenção. Mas quando ouviu sobre os olhos negros, a linha de raciocínio foi bruscamente interrompida e sua mente entrou em pane. A lembrança do hospital voltou com tudo e o telefone quase escorregou de suas mãos quando sentiu os músculos paralisarem.
Por dois dias após o ocorrido, Jiyeon desmarcou todos os compromissos, seja de trabalho ou não, e ficou trancada no quarto com todas as luzes acesas. Alguma coisa se revirava em sua mente, algum sonho perturbador, como se tal espectro fosse aparecer novamente em sua frente, mesmo ela não tendo feito nada para chamá-lo. Ela desejou que pudesse usar seus poderes em si mesma, qualquer coisa que tirasse aquela imagem de sua cabeça e a deixasse minimamente mais leve.
Depois disso, a cartomante avançou por alguns campos entalhados por geleiras no inverno e foi parar em uma alta biblioteca budista no Templo Naritasan Shinshoji, no Japão, e ficou lá por pelo menos duas semanas. A facilidade que esperou encontrar para descobrir do que aquilo se tratava em um lugar espiritualizado e ritualístico foi duramente frustrada. Os budistas entendiam de demônios e seres sombrios que habitavam em florestas, monstros escondidos em fontes ocultas de água, pequenas cavernas, cepos queimados por raios e divindades que estranhamente deixavam marcas em pedras. O mundo dos mortos era algo insanamente raso e desprezível comparado com todas as maravilhas místicas que vagavam sobre a Terra.
Contudo, antes que voltasse para a Coreia com a carga de alguns livros grossos sobre ocultismo debaixo dos braços e várias histórias de terror para contar, um dos monges fez a seguinte pergunta a Jiyeon:
— Você acredita no inferno?
Como esperado, ela balançou os ombros.
— Isso importa?
— Mas acredita no diabo — continuou ele — ou em um ser que seja a origem de todos os monstros, não é? Tudo que ouviu aqui pode parecer um grande circo dos horrores, mas todas as bestas vieram de algum lugar. De um único lugar. Se as divindades nasceram da luz, os monstros vieram do contrário e todos os lados são regidos por um mandante. Não concorda? — Sua voz era aveludada e romântica. Ele dizia tudo calmamente enquanto servia uma xícara de chá. — O mais engraçado, senhorita Kang, é que não importa o tipo de conto que ouviu por esses corredores, ninguém aqui jamais viu nenhuma dessas criaturas. Nem mesmo o nosso chefe, que passa metade de um dia em meditação plena e possui uma sabedoria acima do normal. As pessoas gostam de ouvir sobre milagres, mas não sabem como vê-lo. Nunca viram um. Mas hoje nós vimos a senhorita, e, acredite, agora sim podemos ter uma história de verdade.
Jiyeon cruzou as sobrancelhas. O homem continuava com seu sorriso singelo.
— De que adianta ouvir sobre bestas fantásticas se não as vemos? Mas a senhorita os viu. Vê desde criança. A senhorita é o verdadeiro milagre. O maior que já pisou aqui. — Então se aproximou, levando a xícara até o nariz. — Porque todos os monstros nascem do próprio ser humano. A vida e a morte são as duas vertentes da luz e da escuridão, e você é participante dos dois lados. Monstros nada mais são do que humanos renegados, injustiçados, tristes e desalmados. Pobres almas em busca de uma ressignificação para o que deixaram para trás através da vingança.
A mulher parou por um momento e engoliu em seco. Os olhos do homem fitavam-na com firmeza, confiante na informação que dava. Jiyeon não saía por aí anunciando o que podia e não podia fazer, mas não era sempre que encontrava alguém com deduções tão certeiras.
— O senhor acredita na vingança? — perguntou em um tom calmo e curioso. Ele estalou a língua, mexendo os músculos faciais em uma expressão divertida.
— A vingança é uma patologia venenosa. Mas torna as pessoas mais fortes. Essa é a questão, senhorita Kang. Entre os mortos, ela pode durar para sempre. Mas o ódio atrelado à vingança deixa marcas por gerações. A ira se transforma em destino. E quem está marcado por ela não tem como ser salvo.
Um leve fio de vento roçou a nuca de Jiyeon, arrepiando seu tronco por completo. Ela sentiu a boca ficar seca repentinamente.
— Como uma criança pode se tornar um alvo? — a pergunta foi dita mais para si mesma, em um tom de voz baixo. Changkyung veio à sua mente imediatamente e a imagem horrenda da criatura que fazia a vistoria de seu corpo meio-vivo-meio-morto. De repente, por um milésimo de segundo, ela pensou em Jooheon, seu filho de 11 anos que estava nesse momento estudando para alguma prova e brincando com fantasmas em vez de se livrar deles. E se ele visse uma coisa daquelas algum dia? E se estivesse perto deles e tentasse…
A ideia a deixou surpreendentemente apavorada.
— Já ouviu falar que as crianças herdam os pecados de seus pais? — A resposta a tirou de seu devaneio. — Destino, senhorita Kang. Um erro que perdura por sucessões de descendência. Um pouco menos, um pouco mais. É muito incerto. A única coisa que sabemos com certeza é a da morte prematura e inevitável de quem carrega esse fardo.
Jiyeon começou a se levantar. Era uma longa caminhada até onde pudesse pegar um táxi, e mais ainda para chegar ao aeroporto. O dia estava bonito, ainda que gelado, mas uma brisa estranha engolia o ar ao redor, algo que comunicava desespero e mistério. Como se todos os segredos do mundo estivessem observando-a por trás daquelas árvores amontoadas do jardim.
— Eu preciso ir. Foi um prazer…
— Você precisa ter cuidado com eles, senhorita Kang — ele disse nas costas da mulher. Ela parou, mas não se virou. — Monstros desse tipo adoram se alimentar de almas especiais. Eles são incapazes de tomar seus corpos em vida, mas não há nada que os impeça na morte.
Ele bebeu o chá com serenidade. Jiyeon balançou a cabeça e apertou o passo para fora, sentindo a outra grande necessidade de sair daquele lugar cheio de verdades misteriosas e incompreensíveis.
Mesmo assim, ir até ali não foi um exercício inútil. As informações em código recebidas pelo monge não foram totalmente captadas por ela até os dias atuais, mas o fato principal estava ali: fantasmas malignos existiam — e tinham um objetivo. Eram os maiores responsáveis pelas possessões e massacres de famílias inteiras, o que era uma prova a mais da teoria amorfa que Jiyeon passou a criar havia pouco: uma pessoa precisava morrer, e quase sempre estava à mercê de receber ajuda, o que estendia a fatalidade para quem se envolvesse. No fim, amor e morte andavam juntos, e uma coisa levava à outra.
Por isso, quando sua mente foi engolfada por lembranças e a voz de Jooheon se perdeu, ela rapidamente achou o caminho de volta para a conversa e todo o desespero anterior foi acionado quando ouviu as palavras:
— … e estava olhando para Mary…
— O que você disse? — ela interrompeu com angústia latente. Jooheon suspirou fundo antes de continuar.
— O fantasma olhava pra ela. Não parecia nada perdido, e a olhava como se… Como se a conhecesse, como se estivesse esperando…
— Kang Jooheon, não diga mais uma palavra! — Jiyeon havia encontrado energia para gritar. Energia e desespero, tudo combinado. — Você vai juntar as suas coisas e voltar para casa imediatamente, e não estou te dando uma escolha. Essa garota é amaldiçoada, eu já deveria saber, eu senti desde o primeiro momento…
— Espera, do que está falando? — Enquanto se movia, Jooheon olhou novamente para trás, tentando buscar o equilíbrio no tom de voz. — Amaldiçoada? Ir embora? Mãe, o que você…
— Tem um espírito maligno seguindo essa garota e ela vai morrer, Jooheon. Não há nada que você possa fazer sobre isso. Ele vai tomar o corpo dela e fazê-la se enterrar por conta própria em alguma vala da beira do rio Han, eu não me importo! Mas você não precisa ter o mesmo destino, então sugiro que arrume suas malas e venha já pra casa.
Um silêncio anormal perdurou por um minuto inteiro. Depois, a voz de Jooheon ecoou de um jeito atípico, diferente, parecendo tenso e urgente:
— Você ficou maluca? — O trincar de seus dentes pôde ser ouvido do outro lado da linha. Jiyeon parou, sabendo que aquele tom não era um traço típico do filho, de maneira que ela imediatamente se sentiu incomodada. — Estamos falando de algum moribundo aqui? Estamos falando da minha esposa, mãe! Do meu filho, o seu neto! Você consegue se ouvir?
— Essa criança é um erro, Jooheon! Uma coisa é nascer com sentidos especiais, mas nascer de uma mulher amaldiçoada? Acha que ele vai longe? Acha que ele não vai ser capaz de matar toda a sua família perfeita?
— O que você sabe sobre isso? — A voz dele começou a falhar. — O que são esses espíritos? O que eles querem com a Mary?
— Eles querem matá-la e nada mais do que isso! E deixá-la pairar do seu lado vai te levar pro mesmo destino.
— Isso é crueldade. Isso é… — A garganta de Jooheon ia se fechando pouco a pouco. Ele parecia prestes a colocar as mãos nos bolsos, sentir o metal sólido das chaves do carro, buscando algo presente do momento para que mantivesse sua consciência lógica no lugar e pensasse. Porém, quando se tratava do mundo dos mortos, era fácil se perder em suposições. Ele queria acreditar que era exatamente o que sua mãe estava fazendo: supondo. Mas a clareza em sua voz não o deixava acreditar nessa parte.
Jooheon sempre pertenceu a menos lugares do que as outras pessoas. A certeza de que o seu espaço perfeito estaria guardado em algum canto por aí serviu como motivação para continuar sendo plenamente quem era. O lugar certo estava reservado ao lado de Mary, com a família que formariam com os olhos focados apenas no futuro, sem trazer o passado imutável à tona. Não havia espaço em sua mente para que refletisse sobre qualquer vingança sendo apontada para a garota sorridente pela qual se apaixonou na América. O que importava era seu desespero por tirá-la desse alvo e impedir seja lá o que estivesse tentando se meter em sua família, o lugar onde ele finalmente pertencia.
Suas mãos penderam ao lado do corpo quando sua mente finalmente encontrou um eixo. Jiyeon tremia do outro lado, imaginando coisas terríveis com o silêncio, concentrando-se em ouvir a respiração do garoto.
— Se você não quer ajudar, tudo bem. Mas desistir e sair correndo não é uma opção. Não sei como foi capaz de pensar que eu faria uma coisa dessas.
A afirmação não oferecia nenhum tipo de negociação. Jiyeon sentiu uma queimação no nariz, descendo para o peito, formando uma tremenda vontade de berrar e enlouquecer. Algumas palavras se atropelavam em sua garganta, indícios de uma mudança de ideia e um orgulho sendo asfixiado, mas ela era mais forte do que os sentimentos desesperados de uma mãe. Jooheon perceberia, mais cedo ou mais tarde, o perigo que estava correndo sem motivo e logo estaria de volta em casa.
— Na sua caixa de correio — disse, após disfarçar uma fungada.
— Onde?
— Vou te enviar uma coisa. — Seus olhos se fecharam com força. Os nós de seus dedos se tornaram brancos enquanto apertavam o telefone. — Uma coisa que vai te explicar tudo e você vai entender! Se não a abandonar agora, você e aquela criança vão morrer, Jooheon. E não vou fazer nada para impedir isso.
— Mãe…
Sem esperar o fim da frase, Jiyeon bateu o telefone no gancho apressadamente, soltando todo o ar preso na garganta. O estacionamento do outro lado da janela estava banhado pelo sol do fim da tarde e seu punho tremia em necessidade de desferir um soco no vidro, um soco raivoso até que a divisória desaparecesse e o ar entrasse de forma correta naquele cômodo pequeno no alto da antiga casa.
No fim, foi o que acabou fazendo. O golpe no vidro foi infinito. O berro saiu sem nenhum pudor e o sangue escorreu até o pulso. Ela quis fazer coisas inimagináveis, coisas que jurou que jamais faria, como usar seus poderes no próprio filho, ainda que nunca tenha precisado. Jooheon sempre fora o menino perfeito e obediente, dotado de uma adoração incompreensível pela mãe e fazendo-a pensar que, independente do que quisesse na vida, a vontade dela prevaleceria sobre suas escolhas.
Mas, desde Mary, essas expectativas foram gradativamente frustradas. Jooheon amava sua mãe, mas também amava sua esposa e sua nova vida. As tentativas de juntar os dois lados foram muitas e cansativas e, naquela conversa ao telefone, pareceu um ultimato. E ele tinha feito sua escolha.

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Aquele era apenas o primeiro ato de Jiyeon na busca de seu afastamento total de Jooheon e toda a bagunça sombria em que estava se metendo. O rapaz voltou a procurá-la mais vezes e era duramente recebido com silêncio e indiferença. As palavras nos livros se tornavam cada vez mais confusas, enquanto uma angústia sem tamanho o dizia que o tempo estava se esgotando. Assim como a aparição em seus sonhos.
Jiyeon acreditava severamente que sua nora carregava uma terrível maldição. Uma marca, como disse o monge de anos atrás. Aquelas que, com toda certeza, foram adquiridas de forma inconsciente e que colocavam fantasmas malignos em sua cola, igualmente ao garoto do hospital, preso entre duas dimensões. Aquele era o destino de Mary — a herança maldita de seus pais.
Era noite de Natal quando a cartomante se encontrava parada sob a luminosidade fraca do poste no meio fio, mantendo a postura firme e uma expressão dura como granito. A hesitação percorria cada nervo de seu corpo; a dúvida martelava em seus ouvidos. Se fizesse aquilo, haveria consequências — mais perguntas de Jooheon, passar uma impressão errada de que se preocupava com ele e aquela família, limites antes nunca ultrapassados… Ela precisava aceitá-las antes de ir em frente.
Por fim, a mulher suspirou e esfregou as duas mãos dentro de luvas grossas de couro para aquecê-las antes de entrar no carro e dirigir para a casinha no campo.
A ligação anterior de Jooheon continuava soando como se ainda estivesse acontecendo. Toda a insistência pela defesa de Mary a deixava genuinamente enojada. A bondade do garoto — que claramente não veio dela, e, considerando toda a situação do pai, dificilmente foi herdado daquele lado — era algo distante da realidade que construiu. Por alguns segundos, Jiyeon se arrependeu por não ter abominado esse lado naquela criança desde que notou a primeira vez. Por não a ter ensinado direito que pessoas boas eram fracas, e quem não tinha capacidade de salvar a própria pele primeiro estava fadado à morte e ao fracasso.
Era tudo por Mary…
Com alguns minutos de pesquisa e algum dinheiro, ela descobriu, algumas semanas atrás, que a mulher não tinha família viva — o que se tornou autoexplicativo por si só. Mary Finch não era uma pessoa ruim, mas vinha de um lar massacrado por demônios e isso era algo que Jooheon se recusava a enxergar.
Pobre garoto. Do pai, Jooheon provavelmente recebera esse instinto audacioso, fugaz e uma terrível síndrome de herói. O gosto pela pesquisa e os estudos foram herdados de ninguém exatamente. Alguma parte das duas gerações tinha deixado aquele garoto tão burro e tão inteligente na mesma proporção.
Lembrar disso vinha junto a sentimentos de desgosto que eram brutalmente afogados. Aquela devia ser a parte dela em Jooheon, além de toda a aptidão com fantasmas: o ego incansável, o que ela tinha de sobra e que o garoto se recusou a pegar, nem que seja um pouco. Ele tinha feito tudo que lhe foi mandado, até mesmo uma década de aulas de instrumentos musicais clássicos e aulas de taekwondo de verdade, mas quando mais ela desejou sua submissão, quando sua vida estava em risco, ele escolheu o outro lado.
Um sinal vermelho obrigou Jiyeon a parar. A cada minuto que se aproximava mais do cruzamento que iria em direção a Sokcho e todo o seu campo com odor marítimo, uma nova arritmia acontecia em seu peito. Um desespero urgente de alcançar seu destino, um sentimento estranho.
Em essência, ela sairia de casa bem antes disso e buscaria o próprio filho daquele lugar distante, colocando-o sob sua proteção até que a hora chegasse, independente de sua vontade. Porém, sem saber, Jooheon já estava buscando meios de parar seja lá o que fosse aquela coisa. A assombração voltou a aparecer em momentos esporádicos depois do banco. Uma vez no mercado, em casa, no banco de trás do carro. Situações em que ele paralisava de medo e não sabia como reagir. Não sabia como falar com tal coisa. Ele só sentia a imensa vontade de matar que emanava daquele ser, e toda essa vontade voltada para Mary.
E então nasceu em setembro. E tudo de ruim que poderia ter existido até ali desapareceu por um tempo.
Um tempo curto demais.
Jiyeon não estivera por perto por muito tempo, mas, enquanto estivera, fora uma excelente professora. Ela sempre fazia questão de dizer que se Deus existisse, não poderia distribuir coisas boas por tanto tempo. Ele sempre as tomava de volta para uma melhor disposição entre seus filhos; ninguém, jamais, experimentaria felicidade para sempre. Jooheon sentiu isso na pele quando tudo ruiu naquela noite de Natal.
O papel de pai não era tão simples quanto se pensava — nem todos tinham o colhão de aguentar e seguir em frente. Seu próprio pai não teve a coragem suficiente para tal coisa. Mesmo assim, cuidar de uma criança fazia parte dos planos do rapaz, ainda que sem pressa. Mas quando chegou, ele sabia que aquele garotinho esteve esperando por ele como uma recompensa por todas as boas ações que teve durante a vida.
Em um momento tão feliz, ele queria que sua mãe o conhecesse. Jooheon estava em um estado atípico, catatônico, um tanto cansado demais e esgotado demais pelas recentes preocupações exageradas e todas as leituras que contava brevemente a Mary. Ela podia saber dos fantasmas, mas não precisava necessariamente saber que estava sendo um alvo de um. No entanto, a mulher era observadora e não era como se não desconfiasse que Jooheon escondia alguma coisa. Os livros de ocultismo e possessões demoníacas espalhados pela mesa do escritório diziam isso. Alguma coisa estava acontecendo e ela o confrontaria se a bolsa não tivesse estourado poucas horas depois.
Depois disso, nada mais importava. Apenas e seu novo sorriso que iluminava o cômodo inteiro da casa. O momento de paz e felicidade antes da tragédia.
Na noite de Natal, Jooheon ligou para sua mãe pela última vez para convidá-la para a ceia. Jiyeon foi abrupta e concisa ao arranhar a voz:
— Agora você até mesmo participa de confraternizações ocidentais? Por causa dela? Não, obrigada.
— Você não quer conhecer o…
— Não quero saber dessa criança condenada, achei que tinha deixado isso bem claro, Jooheon — foi o que ela disse, com amargura. Ela ainda estava esperando; um pedido de desculpas, um aviso de desistência, um Natal tedioso e comum a dois, como sempre tinha sido.
Em vez disso, uma respiração pesada e ruidosa gritou em seus ouvidos através da ligação.
— Estou tentando, mãe, juro que estou — as palavras saíram fracas, em cansaço. — As coisas estão mais tranquilas agora. Eu não o vejo há semanas… Desde que nasceu. Ainda leio aqueles livros, mas com menos frequência… — mentiu. Jiyeon não estava lá para ver seu lábio tremer. — Não é como se ele tivesse muitos parentes para visitar. Só não quero que depois seja tarde demais.
Rir foi a reação imediata da cartomante, mas o peso das palavras seriam capazes de levá-la ao chão se seu inconsciente já não pensasse imediatamente em um plano de ação para colocá-la de pé. Seu punho quis acertar a janela de vidro novamente. O sangue implorou para sair, junto à raiva.
— Adeus, Jooheon. — E se preparou para desligar primeiro, como de praxe.
— Feliz Natal, Madame Kang — a voz do rapaz foi alta o suficiente para que ela ouvisse longe dos ouvidos. Quando aproximou o objeto novamente, a voz de Jooheon era baixa e aveludada, em um alívio conclusivo. — Eu te amo, mãe.
Aquele “eu te amo” passeou por todos os pontos do cérebro de Jiyeon até que ela soltasse o telefone de volta no gancho com força. Ela quis soltar uma série de impropérios tão variados e afiados que impressionaria Jooheon. Aquelas palavras acabariam com ele mais do que qualquer golpe. Mas, no fim, a única coisa que saiu dela foi um resmungo atravessado entre os dentes trincados. Uma injúria de frustração que pesou em seu peito como uma bigorna. Um incômodo sentimento de culpa revelava o que ela realmente queria gritar: me ama? Como você ainda pode dizer isso? Depois de tudo que eu disse? Depois de tudo que fiz? Depois de todas as vezes que deixei bem claro o quanto você foi um acidente…
Como você ainda pode me amar?
Eu não mereço ser amada.
Eu não quero ser amada.
Eu não quero amar ninguém.
Nem mesmo você.

Ela acendeu o quinto cigarro da noite. Girou os braços como moinhos para afastar a fumaça e encheu uma taça de vinho. Olhou para a neve que caía lá fora e sentiu o peso incômodo que a acompanharia no caminho inteiro até Sokcho mais tarde.
Quando estacionou na frente do jardim, as luzes amareladas estavam acesas. Ela ouviu um grito e um choro estridente. Todo o terror se estilhaçou e derramou dentro de si. Joelhos encontravam peitos à medida que a cartomante correu em luta contra a neve, prendendo a respiração e o medo, afastando os piores pensamentos.
Ela não precisou bater na porta. A entrada estava aberta, pavimentada com sangue pelo piso de madeira, adiantando o último suspiro que Kang Jooheon dava metros adentro.


Bloco 3 — ... Em um futuro sombrio

Mary Finch ria muito. Grandes risadas descuidadas, nem sempre em momentos propícios.
Até os 7 anos de idade, tudo que sabia fazer era dançar aleatoriamente os sucesso do disco music, em especial Village People e Bee Gees, mesmo que a maioria das outras pessoas preferisse Jimmy Bo Horne. Mary não achava graça nenhuma em nada que dizia respeito a Jimmy Bo Horne. Ela também arriscava alguns trabalhos manuais que, segundo sua mãe, a tornariam a verdadeira chefe de sua família no futuro. Besteira. Mary conseguia passar na escola com um B, o que abria portas para coisas mais interessantes e intensas do que liderar uma família — o que, claramente, não aconteceria de qualquer forma. As garotas Finch frequentavam a escola para fins utilitários que poderiam compor o currículo apresentado aos maridos em potencial. Não importava se fossem inteligentes ou não, o importante era que soubessem ler, escrever, contar e, claro, o básico de História.
Ela se casaria com um tenente britânico, neto de um companheiro muito estimado de seu avô durante a guerra, e os dois viveriam felizes em Londres enquanto construiriam a bela linhagem Finch na Europa.
O irmão mais velho, James, passou a ser visado como um dos pupilos favoritos do exército americano após um retorno precoce da guerra do Vietnã como resultado de uma grande boa ação. Ele desfilou de farda na grande comemoração de 4 de julho, bem atrás do carro onde Kennedy acenava da janela do banco de trás. No decorrer dos dias, enquanto o presidente discursava sobre a honra e méritos que existiam em matar vietcongs inocentes, James se livrava da verdadeira batalha em campanhas para jovens garotos, que acreditavam cruelmente que entrariam num avião cargueiro para lutar por justiça e liberdade.
James, na verdade, parecia bastante idiota quando ninguém estava olhando ou quando estava na presença do alto escalão. Parecia justo que, talvez naquelas ocasiões, ele fosse o manipulado.
Existia algo a respeito de James e todo o seu oportunismo a respeito da guerra: os ensinamentos do velho vovô Richard, que transviavam o verdadeiro sentido de força e orgulho. James, primogênito e homem, era apegado ao avô mais do que com qualquer um de sua família. E essa relação se tornou a perfeita receita do fim.
No pico da guerra, era muito difícil enxergar algo de errado no discurso militar patriótico.
Havia muitos planos para Mary. Ela era sorridente e enérgica, feliz com pouco e portadora da doce inocência infantil. Até ter tudo isso desmanchado brutalmente pelo assassinato de sua mãe.
Tudo aconteceu de forma rápida e, pensando bem, confusa. Até hoje, quando se recordava, ela podia sentir a orelha latejando quando sua mente reproduzia o barulho e sua pulsação acelerada ao ponto de causar uma leve sensação sufocante.
Em uma noite de primavera, seus pais assistiam ao Million Show na sala enquanto Mary tentava bordar um urso gorducho em uma toalha de banho. Era uma noite de domingo e não havia absolutamente nada fora do lugar. Um homem na TV soltou um palavrão ao errar a pergunta e seu pai estalou a língua no sofá. O participante prometeu considerar suas próximas palavras com mais cuidado.
Naquela madrugada, gritos estridentes inundaram a casa e, duas horas depois, a perícia enfiava o corpo de sua mãe em um saco preto e seu pai em uma viatura policial, repleto de sangue da cabeça aos pés, gritando palavras emboladas e desconexas com um olhar de puro pânico que dizia “Não fui eu! Foi ele! O homem de preto, foi o homem de preto!”.
Derek Finch foi acusado de ter assassinado a esposa depois de ser pego em flagrante com todo o sangue da vítima e uma faca de cozinha ao lado do corpo, que tinha sido aberto como um pedaço de gado. As frases estruturadas dos tabloides expostos em seguida o pintavam como um homem louco que tinha se infiltrado na família Finch, que passou a ser constantemente vinculada com esse tipo de incidente.
Talvez Derek Finch saísse da cadeia em menos de vinte anos, ou então cresceria muito mais rápido no conceito do sistema penitenciário para ganhar algum tratamento especial se admitisse o crime de uma vez por todas. No entanto, tudo que sabia soltar em julgamentos e entrevistas era uma constante negação ao crime, repetindo incontáveis vezes sobre um homem de preto misterioso e que não fazia ideia de como aquela faca tinha ido parar em sua mão.
Mary e James não tiveram uma única pronúncia. O nome do pai deles foi transformado em um feitiço, algo maligno, proibido. Era terminantemente proibido repeti-lo em casa.
Quando anunciaram o suicídio de Derek, os dois traziam a mesma expressão dura no rosto. Ferimentos diferentes infligidos pela mesma arma. Mary sentiria falta do pai amoroso e gentil que ainda povoava suas lembranças, enquanto James agradecia internamente pelo mundo ter se livrado de um homem fraco e sem colhões, que acreditava que a guerra era injusta e um caminho desnecessário.
Derrotado, Derek sangrou até morrer pelos dois pulsos em uma cama maltrapilha da solitária.
O garoto James Finch ficou mais transtornado do que imaginava depois do incidente. Obrigado a assumir a tutela da irmã mais nova, seu psicológico piorava a cada dia, enquanto Mary ia dando os primeiros passos para uma nova realidade, onde tinha que cuidar de si mesma. Houve uma época, alguns meses atrás, em que isso era inimaginável. Crianças nunca pensam que, um dia, darão adeus aos pais. Contudo, ela abraçou a desgraça e prometeu a si mesma que ficaria ao lado de James. Ela o amava, amava seus pais e internalizou a positividade que nascera com ela. Mary continuou a sorrir.
Até que seu sorriso foi bruscamente arrancado.
James passou a beber muito. Às vezes, quando extrapolava, pessoas aleatórias eram agredidas. Por muitas vezes, o garoto Finch se deleitava em violência — explicitamente disfarçada por autoridades — e exibia algo remoto e ausente em seus olhos, como se seu corpo pertencesse a outra pessoa. Porém, quando ele mesmo apanhava, acontecia o contrário; ele se tornava tão presente que era como se estivesse dormindo antes. E aconteceu algumas vezes naquela última semana depois da notícia por telefone.
Richard Finch havia morrido de câncer. Seus bens nada mais eram do que subornos e honrarias doados pelo governo, os quais foram ligeiramente confiscados com sua morte, sob um aparente contrato onde dizia que tais coisas pertenceriam a Richard e somente Richard, invalidando qualquer transferência posterior. James viu o momento exato em que os “presentes” de seu avô começaram a sair de sua casa. Em um momento de bebedeira, ele teve a destreza de dirigir até sua lápide e cuspir sobre o concreto com os dizeres: “Eu nunca vou te perdoar.” Repetiu as mesmas palavras no túmulo do pai.
O dinheiro da família ia cada vez mais para o ralo e, depois do fiasco da guerra, os jovens que voltaram vivos com todos ou com alguns membros do corpo intactos passaram a vivenciar o descaso do governo e de toda uma população que não estava nem aí para heróis de batalhas. O prestígio do alto escalão para com James já não fazia mais sentido — era algo que funcionava apenas para as fotos de honorários. Nada mais. Nesta época, a porta da casa dos Finch abria e fechava constantemente, recebendo visitas aqui e acolá de várias pessoas que diziam “não poder ajudá-los, sinto muito” e Mary se retirava para seu quarto assim que James começava a gritar e debater, dando-se conta de que aquela era uma conversa que ela não deveria ouvir.
Mary tinha 10 anos quando viu o irmão entrar aos tropeços pela porta da frente, sugando um lábio que sangrava, gritando palavras incompreensíveis enquanto mandava a garota se levantar de seu lugar na velha poltrona do pai. Obedecendo, ela se sentou no chão em frente à TV. James se endireitou e ajeitou a gravata, estendendo as mãos para mudar de canal.
— Essas porcarias não servem de nada, Mary-Anne — bufou, ao ver os Thunderbirds.
— Eles são divertidos.
James desistiu no último minuto e a mandou lhe trazer uma cerveja.
Quando voltou, ela escorregou a bebida para suas mãos e encarou o lábio ferido do rapaz. Ele revirou os olhos e disse:
— Não quero falar sobre isso.
Mary tomou seu lugar bem na hora da mudança da programação. James engolia o líquido com a mente aérea, perdendo-se em seus resmungos mentais. A estranha luz difusa que surgiu da TV o chamou a atenção por um instante. O barulho de uma granada, forte, verdadeiro, e o clarão repentino.
Parecia um som que James ouviria a 1 quadra de distância. Um som traumático.
Mary deu risada quando o personagem do Pernalonga se escondia com amigos atrás de trincheiras enquanto seguravam metralhadoras e explodiam os inimigos do outro lado com granadas. Em uma cena, o coelho usou o amigo para se defender dos tiros. A bala atingiu seu capacete de metal e ricocheteou de volta, atingindo novamente os inimigos, que terminavam com uma mera sujeira nas bochechas e um calombo nas sobrancelhas.
O abismo de lembranças na mente de James fez com que ele soltasse um urro raivoso e lançasse a garrafa de vidro dentro do televisor. Mary soltou um grito assustado, protegendo-se da explosão. James puxou os braços da garota para cima, os olhos esbugalhados de raiva e perplexidade, dor e tristeza, sentimentos demais para serem expressos.
— Acha isso engraçado, Mary? Me diz, a guerra é algo engraçado? — Seus dentes trincavam em fúria. Mary tremeu da cabeça aos pés, confusa e sem qualquer ideia de como consertar a situação. — Acha que é assim que as coisas acontecem? Hein? Acha que atiramos para todos os lados e as pessoas não morrem? Acha que as pessoas não morrem, Mary-Anne? — Ele a balançou bruscamente pelos ombros, e a garota soltou um soluço. — Pois saiba de uma coisa, as pessoas morrem, Mary! Das formas mais horríveis possíveis! E você só pode ficar ali, paralisado, esperando que não seja o próximo! E quando chega perto de ser, você faz de tudo pra sobreviver. Entendeu? De tudo! Até mesmo usar seus amigos de escudo… — A voz falhou. Uma sombra escura passou por seus olhos, acompanhada de um tremor inigualável. — Pra conseguir sair desse inferno, somos capazes de tudo. Eu fui capaz… Entregar baderneiros e desertores era o meu trabalho… Eles não acreditavam, Mary, não acreditavam no propósito… Eu não sabia que eles os matariam, não daquele jeito, eu não… — Uma careta de choro se formou em seu rosto. Mary engoliu em seco, tentando segurar sua expressão amedrontada. — Eu não sabia, Mary. Não sabia. Eu só queria sair de lá… Queria voltar pra casa, queria voltar pra você e mamãe, eu só queria isso… Eu não me importava com mais nada… E agora… Agora, acho que eles estão atrás de mim, Mary. Me observando, vigiando através dos espelhos, no escuro… Tenho medo do escuro, Mary… Mas eu não sabia!
James chorou por pelo menos três minutos até finalmente soltar a garotinha e arrastar os pés para dentro do quarto. Mary estremeceu em seu lugar com a respiração em um fio. As palavras de James eram incertas e intensas. Ela não estava inteiramente certa de que qualquer coisa que ele tivesse feito, ou deixado de fazer, pudesse ser corrigida com facilidade, mas lhe soou como algo que precisava ser corrigido.
Mary já imaginava que, se os mortos voltassem de algum jeito, não voltariam levando em consideração as intenções dos vivos.
No dia seguinte, os jornais anunciavam o suicídio de mais um membro da família Finch, decretando assim o fim do título de prestígio. A morte de James foi lenta e silenciosa. Não houve sangue ou gritos. A escuridão o matou silenciosamente, materializada como uma das várias almas que ressignificaram sua morte através da vingança de seres humanos inescrupulosos.
Sem saber, Mary Finch era visada como a cereja do bolo do último show da temporada de extermínio à família Finch, que reunía Richard e James Finch, um dos vários carniceiros de guerra; Richard, com todo o seu patriotismo exacerbado e personalidade genocida e James, com sua covardia mascarada de mau-caratismo, que tiraram a vida de vários inocentes no decorrer de suas funções.
Não existia qualquer possibilidade de Mary Finch ser poupada.
E então, em um belo dia de Natal, quando a felicidade transbordava pelas janelas na pequena casa em Sokcho e Mary acreditava que, talvez, ela não fosse tão azarada assim e que, sim, ela poderia finalmente voltar a sorrir de novo definitivamente, tudo desmoronou.
Jooheon ainda lia calmamente um dos livros no escritório quando o sol começou a se pôr. A leitura recomendada por sua mãe era densa e complexa, fazendo-o perder noites e mais noites avaliando cada palavra, andando de um lado a outro na casa, pensando, pensando, pensando, pensando…
Ele estava cansado de pensar. Ele queria agir.
Existiam coisas engraçadas e extremamente mágicas no mundo dos mortos. Começando pelo fato de que os mortos estavam mais atrelados ao divino e ao maligno do que jamais se pensou. Fantasmas tinham direito à comunicação, à paz. A única exigência para que os mortos pudessem vagar pela Terra era a existência de mediadores, e a única exigência para seguirem em frente também eram os mediadores. Contava-se que, há muito tempo, quando só existia Deus liderando o benigno e o Diabo liderando o maligno, quando os humanos foram criados, esses seres eram uma mistura de anjos e demônios, da morte com a vida, fincados entre os dois mundos. Seres humanos especiais, dotados de habilidades extrassensoriais, que carregavam a missão inerente de guiá-los e ajudá-los com suas pendências até que sumissem desse plano.
Jooheon deu uma risada de alívio em uma dessas madrugadas. Era isso que estava fazendo o tempo todo, pensou. Algo simples e inerente — ou o que quer que seja. Algo que estava atrelado ao seu instinto natural, o que tirava toda a razão de sua mãe. Aquela tendência inata sempre foi negada pela cartomante; firmemente afastada.
Também estava escrito sobre famílias e dons passados por gerações. Sua mãe era uma mediadora, então ele também era. provavelmente também seria. Os primogênitos eram os escolhidos e não existia exceção à regra. O fardo carregado era uma questão de ponto de vista. Jooheon faria questão de deixar isso claro para o seu bebê, que descansava em uma pequena cadeira reclinável na sala.
Mas nenhuma outra informação o tirou tanto do eixo quanto o tópico possessão de mediadores. Algo extremamente pequeno e sucinto. Cabia em um único parágrafo das folhas amareladas. O tipo de coisa que o fez querer largar tudo e fingir que nunca lera nenhuma daquelas palavras.
Era simples e direto: mediadores não podem ser possuídos em vida.
Mediadores possuem um terceiro caminho após a morte.
Mediadores estão vulneráveis às possessões post-mortem.
Terceiro caminho…
Faltando poucas palavras para o fim do relato, o terceiro caminho continuava uma incógnita.
Sua mente estava presa nesse assunto quando o barulho da louça se espatifando no chão veio da cozinha. Um arrepio irracional atravessou a espinha de Jooheon, fazendo-o não querer seguir com aquilo por mais tempo.
— Mary? — chamou, distraído. Nenhuma resposta. O jantar estava pronto em cima da mesa, encarava os desenhos desconexos da TV no volume mínimo e Mary ajeitava os últimos detalhes na cozinha.
Foi então que a escuridão recaiu pela casa inteira, afogando-a no breu. A noite havia chegado do lado de fora e Jooheon não percebeu. Um arrepio de aviso invadiu todas as células de seu corpo. O bebê na sala fungou e começou um pequeno choro.
— Mary? — Jooheon chamou mais uma vez, andando até o cômodo vizinho. Ele olhou em volta, o silêncio, cortado apenas pelo barulho do bebê, com uma crescente onda de pressentimento ruim enchendo todo o seu ser.
Shhh”, disse ele, ao acariciar a cabeça do filho, que se remexia com desconforto pelo escuro. Jooheon gritou Mary novamente, agora sabendo que algo estava errado. Ele chutou um pequeno polvo de pelúcia para baixo do sofá. Seus passos se apressaram para a cozinha modulada na outra extremidade, com medo, com o coração batendo forte, e então a energia voltou em um estouro.
Mary estava parada no meio da cozinha, imóvel e pálida. Seus olhos estavam desfocados e sem vida. Um cutelo grande estava pousado na mão direita, ainda manchada da água dos vegetais que cortava na bancada.
Jooheon sentiu o coração acelerar. Tudo e nada passava por sua mente no momento. Ela não esboçava nenhuma reação.
— Mary? — perguntou, cauteloso. agora era apenas um nariz fungando tristonho. O desenho na TV havia voltado.
Ele começou a dar passos para a frente, muito devagar. Então sua voz se elevou pela falta de reações da mulher, apenas em ferocidade, não em volume.
— Mary, o que você está fazendo? — Lentamente, ele estendeu as mãos para a faca, umedecendo os lábios, apreensivo. — Já é quase hora do jantar. Podemos…
— Mais um passo e perderá a garganta, Kang Jooheon.
A voz tinha saído da boca de Mary, mas não era a voz de Mary. Era outra voz. Diferente. Profana. Assim como os olhos focados e avermelhados subitamente o olharam.
Algo ruiu dentro de Jooheon. Um medo e uma necessidade de pensar se apoderaram do homem. Pensar rápido era uma de suas qualidades, mas nem sempre no caso dos mortos. Ele não era um maldito político para ser bom com as palavras — ou um banqueiro. Suas mãos tremeram. Mary deu um sorriso sinistro.
— Saia da minha frente.
E então, com um movimento brusco e rápido, aquilo esbarrou em seu ombro imóvel e começou a caminhar em direção ao outro cômodo. À sala. Ao garotinho descansando na cadeira e fungando em frente à imagem de pequenas frutas falantes. A faca foi apontada para a frente, em prontidão.
Todo o calor ia abandonando o corpo de Jooheon à medida que ele entendia tudo muito rápido.
Ele não pensou, apenas agiu. Com uma mísera corrida, Jooheon ultrapassou Mary, posicionando-se no batente da porta entre os dois cômodos, ignorando a lâmina fria estendida para a frente, quase tocando em sua pele, e os grunhidos estranhos que vinham da mulher. Manchas pretas começavam a tomar a área abaixo dos olhos. Ela parecia um retrato doente e demoníaco.
— Mary! Mary, olha pra mim. — Sua voz era carregada de dor e urgência. Ele colocou a mão em seu ombro, totalmente gelado. O cheiro dela mudava a cada segundo que passava. Podre, fétido. Um cheiro que denunciava o mal. — Sou eu, Jooheon. Lembra? Só larga essa faca e podemos conversar, tudo bem? Lá fora. Pode me falar o que quiser. Você pode...
Ele se calou quando teve o corpo jogado para o lado pela força sobre-humana da criatura que habitava Mary. Suas costas bateram contra o armário de vidrarias, espalhando o conteúdo pelo chão e um belo barulho ensurdecedor. Sua cabeça girou e um corte no ombro o fez soltar um grunhido. Quando voltou ao eixo, Mary não estava mais ali.
— Não! Mary!
Levantou-se aos tropeços, correndo em direção à sala, chegando a tempo de ver as mãos de Mary erguidas com a faca sobre a cabeça do pequeno bebê, que já fazia uma nova careta de choro pelo susto. Tomado de horror, Jooheon correu a tempo de pegar pelos braços da mulher sem qualquer cerimônia e a afastar do garoto. Mary grasnou de susto, as luzes piscaram freneticamente até que boa parte delas se apagassem.
— Mary, não, por favor… — ele tentou dizer, ignorando o sangue e a dor no braço, pondo-se na frente de . Todos os instintos dele gritavam por perigo, para ganhar tempo enquanto tentava se lembrar de palavras em latim, torcendo para que Mary não o obrigasse a isso, que ela conseguisse lutar contra o que quer que fosse aquela coisa. — Você precisa lutar contra isso. Você, quem está…
— Desgraçado — a voz sussurrou sinistramente. Uma gargalhada alta e forte pareceu balançar as paredes, saída da garganta da mulher. — Já te falei: saia-da-frente…
— Não!
A mão que segurava a faca afundou dentro do televisor com violência. O aparelho grasnou e morreu em fumaça. Os dentes de Mary se chocaram entre si, grunhindo, rosnando, como um animal raivoso pronto para o ataque. Estava chegando, estava chegando rápido. Ela o mataria.
Morrer não era a preocupação principal. Esse fato recaía de forma neutra para Jooheon. Ele tinha outra pessoa para salvar, a maior prioridade de todas.
Em um piscar de olhos, Mary rugiu e se jogou para cima de Jooheon. Mais rápido do que ela, ele deu um jeito de agarrar seus braços, sentindo a exaustão e a força da criatura, que o pressionava contra o sofá. O choro de já era alto o suficiente para ser ouvido do lado de fora. Uma raiva tomada por desespero alastrou Jooheon, e esses dois sentimentos jamais se juntaram dentro de si, não importava o que estivesse acontecendo.
— Larga ela — o homem pediu, em meio ao aperto da lâmina. — Eu não sei que merda você é, mas estou te dizendo, larga ela agora mesmo!
— Isso não diz respeito a você, mediador de merda.
E tentou se soltar novamente, enterrando a lâmina no ar. Jooheon a afastou a tempo.
— Você não vai tocar no meu filho…
— Sai da frente…
— Não!
— Você vai morrer… — Gargalhou, a boca se abrindo como um monstro.
— Não vou deixar…
— SAI. DA. FRENTE.
Com uma força inimaginável, guiado puramente pela adrenalina do momento, Jooheon jogou a criatura do outro lado da sala com um grande empurrão, fazendo-a embolar-se nas cortinas e distrair-se por meio segundo. Antes que ela se levantasse num salto, ele passou os braços sobre o bebê que chorava e correu com toda a velocidade para a porta da frente, segurando as lágrimas quentes que tomavam seus olhos, achando alguma força restante para dizer palavras de calmaria sutis para o garotinho. “Vai ficar tudo bem, eu prometo, prometo prometo prometo prometo”.
O escuro boicotava qualquer chance de uma visão digna. Ele ouviu as vidrarias quebrando juntamente aos passos afoitos e rápidos da aparição atrás de si, uma aparição com o rosto de Mary, algo que havia tomado seu corpo sem permissão. Ele se recusava a olhá-la. Os pés descalços da mulher pisavam violentamente nos cacos, absorvendo as vidrarias, sangrando terrivelmente por todos os lados, mas Mary não era mais Mary. Seu corpo estava sendo habitado por um demônio e demônios não sentiam dor, apenas conheciam o poder de a infligir.
Jooheon também ouvia os rugidos. A porta se aproximava, ela estava perto, ela chegava perto, e estava tão perto, mas tão perto. Ele correria para o carro com , dirigiria até a casa de sua mãe e depois voltaria para salvar sua esposa. Eu sei o que estou fazendo.
Não vou me esquecer dela.
Ele chegou a virar a chave, ofegante, chegou a destrancá-la, chegou a abrir uma fresta e sentir o vento gelado do lado de fora.
Quando a lâmina afundou em suas costas, seu grito ecoou pela casa como ecoam os sons na escuridão. Uma dor lancinante e totalmente perversa freou seus passos. Os olhos arregalaram-se em choque e seu corpo pendeu para o lado, sem cair. Quando o cutelo foi retirado e, novamente, afundado em um segundo golpe, ele apertou com mais força contra seu peito. Agora a porta parecia seguramente distante. O bebê já não tinha mais forças para berrar. Os olhos de Jooheon perderam o foco e seu corpo desabou no chão, assim como bebê que escapou de seus braços. Um zumbido descontrolado chiou em seus ouvidos, desacelerando todo o cenário.
Um futuro imaginário passou voando na cabeça de Jooheon naquele momento. Uma praia, alguma casa de madeira e brincando com uma bola de borracha com o logotipo do Bob Esponja impresso. Uma imagem irreal, fruto de uma expectativa, um desejo. E então a imagem de ia desaparecendo a cada segundo mais. A visão da realidade mostrava o rosto do bebê parado junto ao seu, chorando com o desespero atípico, buscando os braços de Jooheon novamente. Uma lágrima caiu de seus olhos. Ele jurou que o filho virou a cabeça para olhá-lo, agora com o rostinho manchado de sangue, o sangue que jorrava do corpo de Jooheon e englobava os dois corpos. Uma criança que se afogava no sangue do próprio pai. Uma vida que terminava diante de seus olhos, ainda tão imaturos. O fenômeno da morte sendo marcado para sempre em sua pele.
As lágrimas de se misturaram ao sangue de Jooheon. E então seus olhos se fecharam.
jamais se lembraria dessa cena. Nenhuma regressão no mundo seria capaz de trazer o acontecimento de volta. Ainda assim, aquele momento ficaria tão marcado em seu inconsciente que um enorme vazio não se conteria em aparecer sempre nas noites de Natal posteriores.
Quando seu corpo foi erguido novamente, seu choro foi parando aos poucos.
A criatura-Mary vasculhou todo o rosto do garotinho. Dentro daqueles olhos, Mary se remexia, gritava, berrava dentro do próprio corpo. Um sorriso maligno pintou seus lábios e apenas piscava os olhos, suspirando, sentindo a falsa calmaria que aquela presença proporcionava. Os braços de sua mãe eram considerados um porto seguro e seu rosto era como uma divindade, o significado de Deus. Mas sua mãe não estava mais ali. O que sobrara era uma casca controlada por um espírito vingativo, segurando seu corpo em um braço enquanto puxava um dos pés de Jooheon de volta para o outro cômodo, conduzindo seu rastro de sangue até a cozinha.
Ela pretendia fatiá-lo em mil pedaços. E ainda existiria energia para fazer o mesmo com o garoto de 3 meses.
No entanto, algo aconteceu antes que completasse o caminho.
Os pés de Jooheon se mexeram minimamente, o bastante para que se soltasse. A criatura não esboçou grandes reações. Ainda com no colo, ela virou-se lentamente, em um movimento robótico, sem vida. O homem lutava para abrir os olhos, lutava contra a dor, lutava contra toda a morte que queria consumi-lo. Palavras trôpegas tentavam sair de sua boca inutilmente. Ele só queria fazer a coisa certa, dizer o que veio à sua mente, aquela única coisa…
— Seu… Nome… — Um jato de sangue escapou para fora da boca, manchando os dentes em vermelho vivo. Ele tinha mais dois minutos de consciência, no máximo, antes de reencontrar o velho Dave na outra dimensão. — Qual… É… Nome…
A expressão da criatura se tornou divertida. Ela não se mexia. Por um instante, era prazeroso assistir Kang Jooheon arruinando a si mesmo em seus últimos momentos, sobrecarregando seus pulmões sem necessidade.
— Você é... James… Finch…
teve o corpo apertado com mais força. Agora as sobrancelhas de Mary se juntavam. Um pico de ódio se espalhou na expressão da coisa.
Jooheon teve conhecimento sobre o histórico peculiar de Mary Finch antes mesmo de ter qualquer sentimento por ela. Era fácil ter a vida sob os holofotes de fofoca transviada quando se tinha um estilo nada agradável ao padrão. Em uma das brigas, quando mencionou que a garota deveria tomar cuidado com espelhos e casas assombradas de parque de diversões, ela fez o discurso mais raivoso que ele poderia se recordar. No fim, Jooheon disse que Mary precisava aprender a limpar a própria sujeira. Ela ficou sem palavras e ele se sentiu um cretino assim que as pronunciou.
Nomes. Um pequeno parágrafo em toda a enciclopédia que ganhou de Jiyeon. Os espíritos tinham identidades. Singularidades perdidas, arrancadas. Antes de se esquecerem de tudo, os mortos que sentiam raiva temiam aprender a viver daquela forma — na sujeira do ódio. Medo de iniciar um ciclo vicioso de furtos de almas, mas, no fim, nada disso dependia deles. A ira era um sentimento forte e resistente, egoísta e manipulador.
O olhar daquele corpo crepitou em fogo vivo. não via mais a mãe. Uma estranha aura medonha ao redor dela era de outra coisa.
Onde está Mary Finch?
Ironicamente, Jooheon conseguiu esboçar um riso fraco que doeu por toda a extensão de seus ossos ao ter sua teoria confirmada. Tudo fazia sentido.
Todas as coisas tinham uma origem, todas as criaturas maléficas descendiam de uma única. Ninguém nascia mal, a não ser o próprio Mal — uma força superior que se alastrava por corações inquietos, alimentando-se do desespero e da angústia, deixando a morte como gorjeta. Fazia um banquete de almas arrependidas e colocava-as sob seu controle para se alimentarem de todos até o último suspiro. Perdendo a identificação, a humanidade, aquilo que um dia os fez bons. Era uma reação automática. Para existir luz, precisava haver escuridão, e vice-versa.
Nomes remetiam à luz de identidade. De ser. Reconhecimento. Atributos dados por amor, seja de quem for. Ganhar um nome significava ser amado. Amor significava luz. E o mal detestava a luz mais do que qualquer coisa.
A menção do nome fez a criatura ficar raivosa. Perdida, desesperada. Ele tinha um jeito quase mecânico de se mover, mas o nome dava força à Mary interior. chorou mais uma vez e Jooheon desejou mais alguns minutos de fôlego. Mais alguns segundos. Mas, em seguida, não quis nada disso.
Dentro do corpo da criatura, Mary habitava em alguma porcentagem. Perdendo seu poder, ela se debateu, grunhiu, gritou. Seu braço perdeu a força quando se ajoelhou em agonia, deixando novamente que o bebê caísse e chorasse. Ela parecia sofrer em desespero. Jooheon tentou se mexer, mas o sangue escapava em jatos constantes. tinha seu sangue da cabeça aos pés. Jooheon sentiu os olhos pesando em definitivo.
O corpo de Mary se contorcia em uma luta interna. “Saia de mim”, ela gritou em latim. Antes de saber do segredo de Jooheon, ela achou seu caderno escrito em palavras em latim, frases desconexas e vazias da língua morta, para descobrir seu hobby em exorcismos esporádicos. Não era comum. Os fantasmas não gostavam, não sabiam possuir pessoas. Apenas os especiais… As lendas.
Mas quando ela viu suas mãos agarrarem o pescoço do garotinho que chorava e percebeu o que aconteceria, não existia mais escolha. Não havia mais o que fazer, ou que pudesse pensar. Não havia a menor necessidade, a possibilidade de que ela refletisse duas vezes. Ele não o pegaria, de jeito nenhum.
Os dedos podres agarravam o pescoço do recém-nascido quando Mary, assumindo o controle por segundos, puxava a faca descartada ao lado do corpo de Jooheon e a afundava direto em seu coração.
Um berro escapou de sua garganta. Uma lágrima correu. Ela olhou para o bebê e respirou o ar da liberdade. Ela sentia o corpo voltar a si e a morte se acomodar ao seu lado. Seu coração ainda aguentava alguns segundos até perceber o golpe. O corpo caiu para a frente, pesado, gelado, e ela morreu com os olhos abertos, olhando para o filho.
Foi quando Kang Jiyeon entrou pela porta da frente e se deparou com o rastro de sangue.




encarava máquinas gigantes se explodindo na TV enquanto ria abertamente. Sua risada era alta, enérgica. Uma criança que sorriria para qualquer um que passasse. Uma criança alheia a qualquer desgraça ou preocupações. Uma mente que já havia apagado todo o horror que havia se passado na casa onde perdera seus pais para sempre, e fim do assunto.
Jiyeon não suportava olhar pra ele.
Talvez, se fosse menos parecido com Jooheon, se não tivesse aqueles olhos, as coisas fossem mais fáceis.
Mas agora, toda vez que pensava no filho, com sua imagem banhada em sangue, o rastro vermelho e a expressão pacata e pálida, a fazia ter pesadelos por todas as noites. Quando não estava acordando pelo choro do garoto, estava pelo suor frio e, então ela fazia algo que não fazia desde os 6 anos: chorar.
Jiyeon chorava até de manhã. E sentia raiva, culpa, arrependimento, e todos os malditos sentimentos enxeridos que não ajudavam ninguém a nada.
Quando entrou na casa naquele dia, ela já pressentia o fim. Ao pisar no batente da porta, ela ainda visualizou a última sombra do espírito negro se esvaindo ao lado do corpo de Mary. Sumindo, em fumaça. O medo paralisou suas pernas, paralisou sua mente. Nenhuma lógica funcionava. Nenhuma maldita palavra explicaria o que Jiyeon sentiu no momento em que viu o sangue e o corpo logo mais à frente.
É curioso como pessoas em choque agem de formas diferentes. A cabeça de Jiyeon apagou de tal forma que ela ficou parada no batente por um bom tempo até dar as costas e sair de volta para fora, andando devagar, os olhos baixos e o maxilar tão trincado que arrancava sangue de sua gengiva. Era a forma como seu corpo rejeitava a informação, como ela mesma rejeitava o que tinha visto: parando de ver. Era uma atitude racional que ela voltasse para o carro, acendesse um cigarro e retornasse para casa. Amanhã ela ligaria para Jooheon e poderia até mesmo lhe pedir desculpas por não ter ido ao jantar. Poderia, quem sabe, até mesmo falar com Mary. Poderia visitar aquela criança, o filho…
Mas o choro de foi mais forte do que qualquer parede que ela tentasse levantar.
Os pés frearam no meio fio e o choro reverberou por todas as partes do seu corpo, como algo físico. Seus sentidos estavam absolutamente nulos. Ela não percebia o corpo inteiro tremendo, não percebia os dentes batendo entre si, não percebia os olhos arregalados em pânico, as lágrimas grossas que desciam devagar. Lágrimas. Não é isso, não foi isso, não foi…
O choro se intensificou. Ela fungou. Uma parte de seu inconsciente lançou força o suficiente para suas pernas e elas retrocederam para dentro da casa. A realidade ia abrindo as portas em sua mente. O sangue gritava, esperneava, demonstrava tudo que precisava saber. O corpo do homem estava virado de costas para a porta, as duas aberturas jorrando sangue de suas costas.
Talvez não seja ele. Talvez não seja. Claro que não é…
Ela se aproximou devagar, tentando ordenar ao coração que se acalmasse, que não tirasse conclusões precipitadas, mesmo que todos os instintos de seu corpo apontassem para a verdade. Quando se ajoelhou e, contidamente, puxou os ombros do homem, o rosto de Jooheon entrou em sua panorâmica, e foi aí que todas as compotas de seu corpo se abriram.
O berro veio sem ela ver. Tudo veio sem perceber. Jiyeon não controlava mais o próprio corpo. Seus joelhos cederam ao mesmo tempo em que uma onda absurda de lágrimas tomavam conta de seus olhos. Era Kang Jooheon. Sem dúvidas, o homem no chão era seu filho, e estava morto.
Morto.
Jooheon está morto.
Um estado desolador de desespero tomou o semblante de Jiyeon. Ela não tinha movimentos, não tinha ação, atitude ou qualquer coisa que a afastasse do corpo. Seus joelhos e mãos já estavam lotados de sangue, pois ela fazia questão de atravessá-las por todo o tronco do rapaz, balançando-o de forma inútil, chamando a vida para um corpo que experimentava os últimos momentos de calor. A morte de repente se tornou pavorosa. A morte parecia o fim. Mesmo para uma pessoa como Jiyeon, que a via constantemente.
Não havia palavras para explicar o quanto seu coração estava quebrado.
Ela olhou em volta, gritou seu nome, rezou, chamou por seu espírito, mas nada veio. E se odiou eternamente por saber que, de algum jeito, sempre esperou isso. Jooheon não seria o tipo de pessoa a morrer com pendências. Ele viveu uma boa vida, a vida que queria, a vida que acreditava. Ele presenciou o último ato de Mary. Sabia que havia derrotado o demônio. Sabia que ficaria bem. Se pudesse, partiria com um sorriso no rosto.
No fim, depois de perder o fôlego e sentir como se seu coração estivesse literalmente sendo arrancado do peito, ela olhou para . O recém-nascido ainda chorava, imerso no vermelho, com a expressão amedrontada e inquieta. Jiyeon estacionou os olhos nele por um momento, engolindo em seco, limpando as lágrimas, vendo a semelhança, ainda que pequena. Um garoto que seria assombrado. Como ele presenciara tudo aquilo…
Ela viu a pulseira em seu braço e soube de seu nome. Quando se inclinou para tocá-la, sua mãozinha agarrou um dedo de Jiyeon. Lentamente, seu choro foi cessando. Ela viu o garoto fungar e arfar. E então seus olhos se levantaram em um meio sorriso, os cílios e sobrancelhas salpicados de sangue.
Foi ali que Jiyeon, mesmo apavorada, mesmo quebrada e transtornada, soube que, por mais que não tivesse qualquer coisa a ver com aquele garoto, não podia deixá-lo ali.
Por mais que quisesse. E pensou duas, três vezes antes de pegá-lo no colo e sair para o lado de fora.
Depois de 1 mês de noites mal dormidas, regadas a pesadelos, vinho e cigarros, Jiyeon se sentia mais perdida e sem vida do que jamais se sentiu.
Fazia tempo que ela havia enterrado Jooheon e Mary. Fazia tempo que resolvera burocracias sobre os bens de Jooheon, que estavam começando a ser contabilizados. Uma vida tão jovem tirada de forma tão cruel. Um exímio cidadão coreano, transformado em mais um número da estatística de violência sem pudor.
Porque, afinal, essa foi a explicação: um assassinato. Sem sentido. Onde o culpado não existia.
Era sufocante. Ela jogava os velhos livros na lareira toda vez que os relia, encontrando as anotações de Jooheon por toda parte. E chorava mais uma vez. Não tinha por que não chorar; ninguém a veria, a não ser sua consciência, que sinceramente perdera qualquer credibilidade depois daquele dia. Se eu tivesse chegado um pouco mais cedo, alguns minutos mais cedo, apenas alguns…
Jiyeon nunca se prendeu a propósitos e sentido da vida. Seu lema era sobreviver a qualquer custo. Mas quando perdeu Jooheon, a pessoa que emanava amor e gentileza, nascido de seu ventre, ela percebeu que seu propósito, inconscientemente, sempre foi aquele garoto. Aquele bebê que ela tanto não desejou. O bebê que surgiu da mentira, da desordem, que a levou à beira de uma ponte para tirar a própria vida. Um bebê que não traria nada além da desgraça.
Um bebê que a fez se sentir humana. A fez se sentir mãe, ter vontade de ser amada. Um ser tão pequeno, que cresceu sob seus olhos, que nunca levantou a voz, que doava muito e recebia pouco, muito pouco. Seu filho. Foi tudo por ele; a profissão, o dinheiro, a preocupação disfarçada se ele comeria bem naquele dia. A saudade que apertava quando estava longe, em outro país, a qual ela afogava. Saudade. Uma saudade que jamais acabaria, que jamais seria saciada.
Era incompreensível para ela a forma como ele se dedicava em um processo falido de derrotar aquela coisa. Na primeira semana, Jiyeon pensou que o fantasma voltaria, imaginou que o garotinho no berço estava condenado, mas nunca apareceu. Nenhuma sombra se achegava ao garoto, que crescia a cada dia e também parecia ficar mais esperto a cada dia.
Quando engatinhou pela primeira vez no fim do inverno, indo em direção a Jiyeon sentada à mesa enquanto fumava um cigarro e olhava para o antigo balanço de pneu, ela viu seu sorriso alegre e confiante enquanto ele se segurava em suas pernas. Com orgulho, com amor. Ele a amava e nem a conhecia direito, assim como Jooheon. Ele cresceria amando-a, estaria lá por ela, assim como seu pai, e isso a enojou de tal maneira que ela se levantou com ódio da cadeira, olhando o garoto com raiva, aquele maldito garoto parecido com Jooheon, que seria parecido com ele, que dali há alguns anos veria seu primeiro fantasma, que se encarregaria de sua paz, que cresceria gentil, estupidamente gentil.
E ali ela soube que não poderia ficar com ele. Não existia razão para ficar.
Jiyeon sempre fora focada e racional, mas naquele momento soube reconhecer imediatamente que não tinha nenhum futuro ao lado dela.
Ela estava fodida e não tinha nada a oferecer a essa criança.
Ela não tinha mais nada a oferecer ao mundo. A morte havia voltado a assolar suas ideias há alguns dias e ela pensava sinceramente em acatar aos seus instintos.
No entanto, um pensamento grotesco a fazia sentir nojo de deixar seu corpo apodrecer naquela terra, naquele país. Qualquer lugar que morresse, mesmo em Busan, mesmo do outro lado da capital, seria perto de onde seu filho derramou seu sangue, de onde Mary havia se sacrificado por causa de malditos demônios. Qualquer lugar seria perto demais. Novamente, não existia razão. E , aquele garoto, andaria sobre o solo do sangue de seus pais, que nunca sairia de seu rosto, jamais sairia de seu corpo, mesmo que saísse de sua memória. Ele poderia voltar a Sokcho quando crescesse, quando descobrisse a verdade de algum jeito, mas, pela primeira vez na vida, Jiyeon sentiu empatia. Empatia por uma pobre criança que não entendia e que sofreria ao entender. Uma pequena criança com muita vida pela frente, uma vida que merecia ser vivida. Por Jooheon.
Ela fez as malas, retirou toda a sua fortuna do banco, vendeu a casa e pegou o primeiro voo para a América, para a antiga estadia de Jooheon, carregando um bebê em seus braços.




não chorou no hotel. Também não chorava quando ficava sozinho por horas durante o dia em um quarto estranho, ou até mesmo quando Jiyeon parecia inquieta, ou até mesmo quando não o olhava nos olhos.
O lugar não havia sido escolhido aleatoriamente. Jiyeon já havia aceitado a morte de bom grado, mas, ainda assim, recusava-se a não cumprir o último pedido implícito daquele casal: que crescesse bem. Que vivesse. Então ela foi ao local de encontro de Mary e Jooheon, com a esperança de que ele pudesse ser acolhido por alguma família remanescente de sua nora.
Nada. Os registros sobre Mary Finch eram mais precisos do que se pensava: mãe, pai e irmão mortos. De um jeito totalmente autoexplicativo para Jiyeon. Assassinato e suicídio. Nenhuma tia ou tio, avós ou primos. A linhagem perdida pelo vento.
Ela não gostava de pensar que aquele garoto literalmente tinha apenas ela no mundo.
Em um dos dias, quando pisou na antiga biblioteca de Stanford em busca de mais informações sobre Mary, ela viu algo que a deixou ainda mais desolada. Um armário de troféus, bem ao lado da sala de congressos, algo que certamente passaria despercebido a qualquer visitante, mas não era fácil achar um coreano com tantos méritos assim na América. Ela parou por vários minutos até voltar-se para o mural de fotos, enxergando Jooheon com medalhas e diplomas, trajado com capacete protetor e um grande sorriso no rosto. O sorriso o qual ela se lembrava. O sorriso que terminava de quebrar seu coração.
Sua mente entrou em um complexo estado de desnorteamento. Ela não soube como voltou ao hotel, não soube como chegou ao quarto, não soube em que momento exato começou a chorar e abriu as janelas do décimo andar, apoiou um pé no parapeito e olhou para baixo decidida, desejando a morte mais do que tudo, certa de que só ela poderia apagar toda a dor e a culpa, todo o sofrimento ao qual estava sendo acometida desde aquele dia.
Mais uma vez, quebrou as barreiras de sua mente. Um grasnido e uma risada vieram de seu lado, e, quando olhou para baixo, o garotinho estava sentado, erguendo os dois bracinhos em um pedido de colo. Jiyeon não soube o que fazer. As lágrimas não eram a solução. Os olhos daquele garotinho pareciam gritar para ela constantemente que tudo daria certo, que ela precisava lutar, mas ela não queria acreditar. Não queria passar a vida sentindo saudade, sentindo impotência, olhando para aquele garoto e sentindo que, na verdade, seus pais morreram por causa dela.
Era tudo culpa dela.
Com um suspiro, Jiyeon secou as lágrimas e desceu do parapeito. Pegou em seu colo e, pela primeira vez, permitiu-se rodopiar com ele pelo quarto por alguns minutos. As pequenas mãos agarravam seu pescoço, o ronronar de um sono chegando, o amor exalando da pureza infantil, uma pureza que se esvaiu dela muito cedo.
Ela sentiu o coração se aquecer um pouco. Um fogo quente que queria desesperadamente derreter todo o gelo e sofrimento apoderado nela, mas que não era mais forte do que sua decisão. Nada seria. Ela deixou que o fogo queimasse, pois seria a última vez que se permitiria sentir alguma coisa. Porque, afinal, aquilo era uma despedida. Da vida, de , de Jooheon.
— Sabe, garoto… — ela balbuciou, olhando para nada exatamente, vendo já fechar os olhos. — Sei que é incapaz de perceber, mas não vou ficar com você. Não posso… — um soluço escapou de sua garganta. Um delírio a fez jurar ter sentido o cheiro de Jooheon em . Ela nunca havia segurado o filho daquele jeito e isso a doeu ainda mais — Não posso fazer isso. Não sou forte o suficiente. Não sou… Então espero que, no futuro, entenda o que eu vou fazer.
E chorou até dormir ao lado da criança.
Na aurora do dia seguinte, ela dirigiu até Sacramento, até uma pequena ruazinha onde existia o maior orfanato da cidade. Naquela época, o Melbourne ainda tinha a fachada azul, que começava lentamente a desbotar. Jiyeon não precisava pensar; já havia feito isso a noite toda. Ela encarou o bebê enrolado na pequena manta e seus pertences devidamente separados: a pulseira e um caderno. Um pequeno amontoado de anotações onde contava o básico, que futuramente seria adicionado a uma caixa preta e entregue nas mãos de Dolores Dundy, perfeitamente designada a esquecer de receber tal coisa e escondê-lo no sótão empoeirado do Melbourne.
Sem pensar muito, ela agarrou o garotinho e saiu do carro alugado. Os passos que dava até a entrada pareciam ser feitos em cima de areia movediça. Ela seria capaz de desabar a qualquer momento. A voz de Jooheon pareceu ter soado desesperada em seus ouvidos: o que está fazendo?
Ei, o que você pensa que está fazendo?
Ele é seu neto, Kang Jiyeon! Seu neto! Volte agora mesmo…

Não. Pouco importava.
Jooheon, me perdoe.
Mary, me perdoe.
, me perdoe.

E então, com um último olhar e uma última lágrima, ela deixou o garoto no topo das escadas geladas, que sorriu para ela mesmo enquanto se afastava.




Jiyeon voltou ao hotel desnorteada, juntando suas coisas desesperadamente, sem saber para onde ir. A ideia de se jogar daquele andar pareceu brilhante quando estava desesperada, mas agora era uma escolha burra e sem sentido. Ela não queria um espetáculo em sua morte; queria morrer em silêncio, sem deixar rastros, sem nada que a entregasse futuramente caso o garoto resolvesse fazer alguma coisa.
Quando fez o check-out e entrou novamente no carro, ela pensou em dirigir sem rumo até que a gasolina acabasse ou até uma praia. Praias eram bonitas, a fariam pensar que flutuaria. Bater com a cabeça numa rocha parecia simbólico e rápido. A água a levaria rapidamente e ela desapareceria.
Mas, antes disso, uma ideia descabida passou por sua cabeça. Uma despedida sem sentido, mas automática. Jiyeon se viu dirigindo até a Stanford novamente, ultrapassando estudantes até a sala de congressos, olhando para a fotografia de Jooheon.
A única fotografia que tinha dele era uma que ganhou do próprio, dele e Mary. Ali, Jooheon estava sozinho, feliz, alegre. Corajoso, conquistador. Apaixonado pela vida.
Porém, quando chegou, Jiyeon levou um tempo até perceber que outra pessoa também encarava a foto. Uma garota, com os cabelos curtos em castanho claro, encarava explicitamente a imagem de Jooheon em uma expressão serena. Jiyeon desviou os olhos quando esta a encarou, seguindo seu mesmo olhar.
— Ele tem um sorriso legal, não é? — A garota riu. Jiyeon a olhou de soslaio. — Ele sempre sorriu desse jeito, meio bobão, era engraçado. Acho que nunca vi ele sério na vida.
Em vez de responder, Jiyeon curvou um pouco o corpo, olhando diretamente para a garota. Ela levou um tempo para entender e se virar.
— Ah, que grosseria a minha. Sou Meredith. Meredith Cooper. — Estendeu as mãos e Jiyeon encarou-as com seriedade antes de pegá-las. — Você também o conhecia?
Jiyeon limpou a garganta. A garota falava naturalmente e não parecia se preocupar se ela falava inglês ou não.
— Não — respondeu, com o sotaque carregado e a voz baixa. — Não muito.
— Ele teve uma trajetória incrível. Viu as homenagens? Muita gente era louca pra trabalhar com ele. Ele era um ótimo veterano. Sunbae, é como ele dizia. Você também é coreana?
Ela apenas assentiu em resposta, desviando os olhos novamente para a foto.
Jiyeon precisava ir embora. O tempo corria. Àquela hora já haviam encontrado .
— Ele era muito inteligente, sabe. Minha amiga o detestava no início, mas acabaram namorando. Ela o derrubou no asfalto sujo uma vez. Ela acertou o Camaro dele com um arco de cabelo, você acredita? Aquela coisa toda de ódio para amor. — Ela riu. Jiyeon a fitou fixamente. — Mas todas essas coisas desapareceram no escuro, os dois formaram um casal tão lin…
— O que disse antes? — Ela se viu perguntando de repente. — Sua amiga… O que sua amiga tem a ver com ele?
— Ah, Jooheon conheceu minha melhor amiga, Mary. Mary Finch, na verdade. Ela simplesmente gritou que se casaria com ele e foram embora pra Coreia. Eles estavam apaixonados — suspirou. — Foi um grande passo, pelo menos para ela. Ele apenas bateu na palma da minha mão e seguiram viagem. Ainda brinquei com o fato de não ter pedido minha permissão. — Ela riu alegremente. — Espero que estejam vivendo felizes e bem.
Um nó se formou na garganta de Jiyeon. A garota era bonita e alegre. Mary não tinha muitos amigos, então, para considerá-la uma, aquela deveria ser diferente. Quando viu, uma fagulha de ideia maluca brilhou em Jiyeon. Ela fez um ruído de aprovação e emendou:
— Você também vive bem… e feliz?
Meredith não achou a pergunta estranha. Um sorriso sincero brotou em seus lábios.
— Ah, é claro. Pretendo me formar futuramente em Administração e… — Ela olhou para os lados. — Pretendo me casar também. Com um cara bem bonito do curso de Direito.
— Ainda vai se casar?
— Bem, é o que eu quero. O nome dele é Ryan. Ryan .
— E Ryan quer se casar com você?
— Claro que sim. Sempre quis me casar, mas não saio falando sobre isso para as pessoas. E acho que ele gosta de mim… Apesar da minha condição.
Meredith passou uma mão triste e involuntária na barriga antes de se tocar e voltar a sorrir. De imediato, Jiyeon pensou que estivesse grávida, mas não. Aquela garota não faria aquela expressão triste por carregar um filho. Em poucos segundos, ela entendeu tudo.
— Entendo… — Jiyeon coçou a garganta. — Mas, me diga, o que pretende fazer sobre isso?
— Existem diversos tratamentos hoje em dia. Meu problema não é um segredo, então tenho certeza de que a família de Ryan vai tentar ajudar. Se, mesmo assim, as coisas não darem certo, ainda posso adotar. O amaria como se fosse meu próprio filho.
Jiyeon baixou os olhos. A alegria de Meredith a causava uma intensa sensação de inferioridade. Algo parecido com uma aura bondosa que ela jamais viu ou teve.
— Talvez devesse fazer isso — ela disse em um sussurro, e Meredith juntou as sobrancelhas. — Nem todo mundo pode ser mãe. Mas há diversas crianças precisando de uma.
E então Jiyeon deu um pequeno sorriso apreensivo, que era contagioso para todas as pessoas. Mas, logicamente, Meredith era gentil demais para expressar qualquer atitude negativa. Ela viu a mulher se afastar e lhe lançou um aceno. Jiyeon engoliu em seco enquanto saía para a luz do dia, pensando em uma ideia maluca, medonha, algo que a dizia que deveria voltar agora mesmo àquele orfanato e deixar na porta daquela garota, deixá-lo com alguém que cuidaria dele, que tivesse ligação com seus pais, alguém que o amaria por uma conexão invisível.
Inconscientemente, essa pessoa era Meredith Cooper, futuramente Meredith .
Porém, depois de desenterrar a cabeça do volante e abrir os olhos para a estrada, ela percebeu que decisões precipitadas mais matavam do que ajudavam. Como ela poderia ter essa impressão rápida sobre uma garota que conheceu há 10 minutos? Uma que lhe passava uma aura sobrenaturalmente boa, mas que não lhe dizia nada mais que isso. Uma garota sonhadora, uma mãe. Muito diferente dela, muito diferente até mesmo de Mary.
Mas, no fim, Jiyeon sabia que era ela. Mas também sabia que não poderia ser agora. Não existia a menor possibilidade de Meredith rejeitar uma criança em sua porta, mas existiam horas certas. Horas perfeitas e com cenários perfeitos. Esse cenário seria quando Meredith se formasse, quando se casasse com Ryan e quando os dois estivessem bem estabelecidos, em uma bela casa e ótimas condições para receberem uma criança. Não importava se os tratamentos que ela tentasse dessem certo. Ainda assim, Jiyeon sabia que ela aceitaria .
E foi assim que ela descobriu que ainda não poderia morrer.
Por quatro anos, Jiyeon estivera se encontrando com Meredith. Uma relação de mentiras, onde Jiyeon não revelava nada que lhe entregasse o bastante. Ela ouvia bastante os relatos de Meredith sobre a saudade que sentia da amiga, com a qual perdeu o contato de forma esquisita. Também a contava sobre o andamento dos tratamentos, os quais eram sempre a parte mais melancólica das conversas, onde se lamentava sobre os fracassos constantes e reiterava sua enorme vontade de ter um bebê. Era algo que a garota admitia livremente para qualquer um que demonstrasse interesse.
Jiyeon tentava não demonstrar que não compartilhava precisamente desse afeto. Entretanto, suas noites ainda eram regadas ao álcool e à nicotina e a escrever mais no diário, e seus dias se alternavam entre espiar as crianças do Melbourne brincando no jardim da frente e a foto de Jooheon ao lado da sala de congressos.
cresceu rápido e saudável. No início, era normal vê-lo afastado, brincando sozinho com modelos anatômicos de brinquedo que nenhuma outra criança se interessava em pegar, e, gradativamente, começando a correr e sorrir com as outras. Ela viu o momento em que a garotinha loira se aproximou. Ela viu aquela amizade crescer e se desenvolver. Mas não viu quando olhou para o lado e ficou imóvel, ao pé das escadas, quando viu seu primeiro fantasma.
Ela tinha de admitir que perder isso lhe provocava um sentimento peculiarmente desagradável.
Um dia, quando não o viu brincar do lado de fora como era de praxe, algo se remexeu em seu peito. Ela esperou por mais 1 hora do lado de fora, mas ele não vinha. Certamente nada tinha acontecido, mas, no dia seguinte, ele também não apareceu. E nem no outro depois desse.
Jiyeon tomaria outra atitude impulsiva.
Prendendo a respiração, ela bateu na porta do orfanato ao quarto dia. Uma senhora baixinha e com indícios de cabelos brancos a atendeu, ao mesmo tempo em que gritava em suas costas para que Matt não subisse na mesa novamente.
— Em que posso ajudá-la? — perguntou em tom gentil. Jiyeon abriu a boca e voltou a fechá-la. O arrependimento misturado com desespero tomou seu peito. O que ela fazia aqui? O que deu em sua cabeça?
Mas o assunto a tiraria o sono mais tarde e ela precisava encontrar Meredith.
— Você… A senhorita… Tem um garotinho, ele… — Sua voz falhou. Dolores franziu o cenho, esperando o resto. — Tem um garotinho nessa casa, ele costuma brincar perto da árvore junto com uma garotinha loira…
— Ah! Você fala do ? — A mulher sorriu abertamente. Jiyeon sentiu o peito afundar ao ouvir o nome dele dito em voz alta. Um nome que não foi mudado. — Sim, sim, pobre menino…
— Como ele está? — ela perguntou rápido demais. Dolores encarou a mulher em análise. Só existia um motivo para uma pessoa desconhecida bater em sua porta buscando uma criança específica, e isso a alegrava ao mesmo tempo que a apreendia.
— Ele está bem, o coitadinho pegou uma virose há alguns dias e só temos como tratá-lo em casa. Ontem ele…
— Posso vê-lo? — Outra pergunta rápida, desta vez mais firme. Seu coração batia em compassos fortes. Dolores juntou as sobrancelhas novamente.
— A senhora quer vê-lo?
— Sim, por favor. — Ela a encarou, retirando os óculos escuros. E então sussurrou mais uma vez: — Por favor.
Depois de um tempo encarando aqueles olhos terrivelmente tristes e frios, Dolores assentiu, dando espaço para que Jiyeon entrasse, tornando a soltar uma risada divertida.
— Entre e fique à vontade, aqui não temos segredos, senhorita…
— Hall — respondeu Jiyeon na frente, desviando os olhos. — Joyce Hall.
— Claro, Hall. Bem, pode me acompanhar, ele está no quarto que separei como enfermaria, mesmo que seja eu mesma que cuido de tudo. Tudo que faço é de conhecimento público e são várias coisas, sabe, senhorita Hall, desse jeito nada atinge a perfeição…
Ela tagarelou até terminarem de subir um lance de escadas. Quando abriu uma porta maltrapilha que rangia até os ossos, Jiyeon viu o garotinho deitado numa cama, com os olhos fracos, meio fechados e meio abertos, com um pano molhado na testa e um cobertor grosso puxado até o queixo.
Jiyeon sentiu o estômago descer. O nariz queimar. Tudo que não deveria demonstrar.
— Aqui está nosso — Dolores murmurou, caminhando até a cama, tirando o pano e sentindo sua temperatura, afogando-o em uma bacia de água ao lado e tornando a colocá-lo na testa do garoto, que resmungou algumas palavras inaudíveis. — Você tem uma visita, meu pobrezinho. Sabe o que acontece quando recebemos visitas, não é? — ela sussurrou a última parte apenas para ele, e Jiyeon desviou os olhos para baixo em constrangimento. Ela pensa que vou adotá-lo? Ah, Deus, ela pensa mesmo isso…
Ela deu pequenos passos para observar seu rosto direito, coberto pelo suor e pelos panos. O cômodo era banhado apenas pela luz tênue de um abajur que lutava para se manter aceso.
— Ele gosta de carrinhos, então Jane trouxe alguns para fazê-lo companhia. Isso quando ela mesma não sai daqui e eu sou obrigada a tirá-la à força… — Dolores dizia, enquanto ajeitava os cobertores do garoto. Jiyeon trocou o peso de uma perna a outra. Algo se agitava dentro de si.
— Posso conversar com ele? — interrompeu distraidamente. Dolores ergueu as costas e olhou para a mulher. — Só um pouquinho.
Desta vez, a governanta não exibiu nenhum sorriso. Havia algo na postura de Jiyeon que falava demais, gritava aos quatro ventos que não era a primeira vez que via aquele menino. E certamente não estava certa sobre estar ali ou não.
No entanto, por fim, ela assentiu e olhou apreensivamente para Jiyeon.
— Vou preparar um suco para as crianças. Volto em 10 minutos.
Pareceu um alerta. Jiyeon balançou a cabeça aérea. Dolores andou devagar até fechar a porta. Foi quando Jiyeon se aproximou do garoto acamado, olhou bem em seu rosto e sentiu o que já estava prestes a transbordar: as lágrimas sorrateiras que saíram em cachoeira por todo o rosto.
Não era para agir assim. Era para ser um segredo. Ela não podia agir como se o conhecesse. Mas ali, olhando para o rosto abatido e os cabelos caindo sobre a testa molhada pelo suor, já era tarde demais para ser um segredo. Já era tarde demais anos atrás.
Ela se deixou desabar ao lado da cadeira de metal ao lado da cama, que era pequena demais para ela. Afundou o rosto entre as mãos, aos soluços, tentando parar, tentando pensar que não podia gastar aquele tempo se derramando. Ela chorou como não chorava há mais de quatro anos.
— Fala sério, moça — a voz fraca do garotinho surgiu meio grogue. Jiyeon tomou um susto e levantou a cabeça. — Você está sentindo a mesma coisa que eu? Também quer vomitar o café da manhã e dormir o tempo inteiro? — ele soava um pouco irritado. Jiyeon não respondeu, e bufou. — Então por que está chorando desse jeito?
Ela fungou, limpando as lágrimas devagar, tentando esconder o efeito paralisante que sua voz causou dentro dela.
— Você… Como você se sente? — perguntou, gentilmente.
— Me sinto o quê? Não acabei de dizer? — respondeu, sonolento. Ele torceu a boca em uma careta e Jiyeon quis rir. Um mísero sorriso escapou de seus lábios. Se Jooheon a respondesse dessa forma quando pequeno, ela certamente brigaria com ele.
Jiyeon lutou sem sucesso para colocar os pensamentos em palavras. Por fim, respondeu:
— Como você acabou ficando assim?
tentou olhá-la de canto. A feição da mulher era serena e extremamente focada. Interessada. Ele suspirou e fechou os olhos.
— Corri até o bosque e me perdi. Fiquei duas horas dentro de uma gruta que passava esgoto até Jane me achar.
— Você gosta de brincar no bosque?
— Não muito, para ser sincero. Tanto que me perdi.
— Então por que correu pra lá?
— Sei lá, eu só quis correr pra longe.
— E por que quis correr pra longe?
abriu os olhos e a encarou com os lábios franzidos. Jiyeon o olhou como um pedido de desculpas, mas ainda interessada. A última coisa que queria era que ele a expulsasse dali.
Ele abriu a boca para responder e tornou a fechá-la. Seus olhos se fecharam de novo e ele estalou a língua.
— Não, esquece. Não quero contar essa história pra nenhum adulto.
— Por que não? Eu gosto de histórias.
— Mas essa é esquisita. É o tipo de coisa que a sra. Dundy só aceita que contemos como história, mas não é bem uma história, sabe… Aconteceu de verdade.
— O que aconteceu?
— Olha, moça, eu realmente não…
— É algo esquisito? Anormal? Eu adoro coisas assim. Sei bastante coisa sobre isso. — Ela engoliu em seco, recebendo seu olhar mais uma vez. Seu coração batia desordenadamente no peito. Algo a dizia que ele se inclinaria a confiar em suas intenções, mesmo que nem ela mesmo confiasse.
umedeceu os lábios, respirou fundo e encarou o teto.
— Acho que eu vi, bem… Aquilo… Ah, que seja, eu acho que vi um fantasma — ele falou rápido, prendendo a respiração. — Na verdade, tenho certeza de que vi um. Duas vezes.
Sob a luz, era possível ver o perfil de Jiyeon estático. Ela engoliu em seco. Tinha acontecido.
— E como foi isso?
— Ah, sabe… Foi estranho. Da primeira vez, o vi de longe, eu tinha uns dois anos, então pode ter sido coisa da minha cabeça. Mas no outro dia acordei um pouco tarde e senti, bem… Algo no meu rosto, nas minhas pernas… Ele simplesmente puxou meu pé e caí da cama. Quando abri os olhos, ele estava rindo da minha cara. Ele usava umas roupas velhas marrons que já vi nos livros de história, alguma coisa dos filmes de guerra. E o jeito que ele ria era tão assustador e bizarro que eu simplesmente saí correndo.
O nariz de Jiyeon queimou mais uma vez e ela encarou o chão. Uma dor inimaginável ainda queimava em seu peito ao imaginar sozinho nessa situação. Sozinho.
— Você ficou doente porque viu o fantasma?
— É, de certa forma, sim. Mas não conta pra mais ninguém, tá bom? A sra. Dundy já me disse que essas desculpas não vão me tirar do castigo quando eu melhorar. E era a primeira vez que eu via uma coisa dessas desse jeito, sabe? Eu não sabia como lidar… Ainda não sei.
Jiyeon sentiu o peito afundar novamente. Novas imagens de no futuro correndo, se sentindo sozinho e perdido sobre sua habilidade a deixaram em um estado de alerta. Ela quis chorar novamente, pela frustração, pela culpa. Seu silêncio perdurou por tempo suficiente até abrir os olhos novamente e se virar para ela.
— Ei… A senhora não vai contar pra Dundy, não é? Ela vai ficar uma fera se souber que te contei essa história.
— Não, não. Eu não vou. — Ela limpou o nariz, levantando-se imediatamente. — Seu segredo está seguro comigo.
— Como vou confiar na senhora? — Ele deu uma risada fraca, dando uma tossida, franzindo o cenho logo em seguida. — Aliás, quem é a senhora?
Jiyeon travou o maxilar. Todos os músculos de seu corpo se retesaram.
— Sou só uma visita, ninguém importante. — Ela riu, colocando os óculos escuros novamente. — Acho que preciso ir, espero que você melhore. — Ela deu as costas e começou a caminhar para a porta.
— A senhora me conhece, não é? — ele perguntou, quando ela botava as mãos na maçaneta. Um frio sobrenatural pairou sobre Jiyeon. Ela virou o rosto em perfil lentamente, petrificada. tentava sentar-se na cama. — Veio me visitar para contar aos meus pais? Eles virão me buscar? — Ele engoliu em seco. Jiyeon não respondeu. — A senhora veio me buscar? — sussurrou.
Jiyeon voltou a olhar a porta, sentindo o sangue atravessar rápido por suas veias. Um milhão de pensamentos e lembranças explodiram em sua mente. Malditos orfanatos. Ela já havia sentido a solidão e a espera, antes de perceber que era inútil. Antes de ver a crueldade implícita de visitas esporádicas e sem sentido, como se crianças órfãs fossem peças de uma exposição. Ela não tinha pensado nisso quando bateu na porta, não pensou nisso na hora do desespero em vê-lo, não pensou em nada.
Ela não podia lhe dar esperanças. Ela já tinha escolhido seu destino.
Jiyeon fechou os olhos com força, apertando a maçaneta com fervor, pensando na solução que surgiu em sua mente, uma que abafava constantemente, uma que tinha prometido não pensar.
Você prometeu que não faria isso com ele. Não faria nele, de todas as pessoas, não nele…
— Senhora?
Ela abriu os olhos e caminhou até o garoto. Em um movimento rápido, ela pegou em uma de suas mãos quentes e murmurou bem perto de seu nariz.
— Gostei muito do nosso papo, garotinho, mas infelizmente ele nunca aconteceu. Você nunca me viu e nunca me contou seus problemas. Nada disso aconteceu e você vai voltar a dormir profundamente depois que eu te soltar. Estamos entendidos?
Ela prendeu a respiração e soltou suas mãos. ficou imóvel, os olhos aéreos. Jiyeon olhou seu rosto uma última vez antes de sair pela porta.
Dolores só percebeu que a mulher tinha desaparecido quando ouviu os pneus cantarem do lado de fora. Jiyeon deixava as lágrimas caírem livremente, sentindo um peso inimaginável de não poder voltar e pegar o garoto nos braços, não poder mudar sua decisão, não poder ajudá-lo a passar por aquela fase importante.
Quando estacionou em frente ao apartamento caído em que vivia nos últimos anos, ela ficou parada por muito tempo antes de levantar os olhos e finalmente parar as lágrimas. Havia um jeito de ajudá-lo. Um que ela não sabia se daria certo, ou se aqueles livros eram apenas palavras ao vento escritas por um bando de velhos. Mas, essencialmente, era o único jeito. Ela não deixaria de fazer o que tinha que fazer. E faria imediatamente. Deixaria tudo pronto para isso.
Ela não podia ajudar em vida, mas isso não significava que não podia fazê-lo na morte.




Primeiro de tudo, ela apagou as lembranças de Meredith.
Não foram apenas as conversas que sumiram, mas também o rosto de Mary e Jooheon, e o fato de algum dia ter tido qualquer contato com os dois. Uma parte de Jiyeon doía imensamente ao saber que, quando se fosse, todas as memórias sobre seu filho e a esposa se perderiam para sempre, morrendo junto a ela.
Em seguida, ela dirigiu pela última vez ao Melbourne e encontrou Dolores sozinha. Entregou-lhe o caderno e um cheque farto de suas últimas economias, junto a uma última questão: que ela escondesse a origem de seu nome, junto à lembrancinha barata que representava toda uma história de terror. E então se apossou de mais lembranças alheias e Dolores nunca a encontrou.
Perto dali, Kang Jiyeon conseguia sentir cheiro de rosas e de grama cortada pela primeira vez aquele ano e, mais distante, a terra úmida retornando à vida por baixo das folhas caídas, assim como água correndo sobre pedras em curvas montanhosas onde seres humanos nunca caminhavam. Talvez ela estivesse certa. Havia algo sugestivo naquele dia, ela pensou, algo fora de vista que indicava que aquele era o dia certo.
Ela estacionou na costa do Balneario Artilleros, há alguns quilômetros de Sacramento. Desta vez, se sentia plenamente certa e não apenas plenamente assustada. Com um suspiro, fechou a porta do carro e andou com os pés descalços até o topo das pedras, onde as ondas batiam com violência. O céu alaranjado já tomava a cor azul noturna e o verão se aproximava, estendendo-se pela brisa morna e o cheiro da maresia.
Jiyeon fechou os olhos e respirou essa brisa. Ela passeou pela sua pele como um abraço. E então deixou seu corpo cair para a imensidão.




Ela se sentia observada.
Espionada em meio à imensidão do nada.
Jiyeon não sabia explicar o que sentia. Parecia que não era mais dona de um corpo. Que todas as suas partes tinham sido transformadas em uma, condensadas como um grão de poeira, e que este vagava pelo escuro completo, sozinho. Apesar disso, existia um cansaço, uma exaustão que extinguia sua ansiedade, fazendo-a apenas pairar na vastidão.
Ela sentia, havia alguém — ou algo — olhando, esperando. Não havia luz, não havia ar. Só havia o vazio. Parecia-lhe como o ar frio das noites de Busan, mas a lembrança da sensação já não lhe parecia tão concreta.
Um vento quente soprou de algum lugar. Uma substância diferente do mundo real.
— Kang Jiyeon.
Ela sentiu-se em modo de alerta. Parecia mais como um pensar que sentiu, apesar de se questionar se seu cérebro estava intacto. Tudo era uma enorme sucessão de câmera lenta, uma imagem distorcida e sonolenta, como se estivesse debaixo d’água.
Ela era um grão de poeira afundando no mar da Califórnia.
— Por que findar sua vida desse jeito, Kang Jiyeon? — a Voz ecoou mais uma vez. Ela vinha de lugar nenhum, bem distante, nas estrelas. Não era autoritária ou dócil. Parecia ser um eco da própria voz dela.
Assim era a morte? Uma bancada de interrogatório sobre a moral?
— Não, essa é a sua morte — a Voz respondeu aos seus pensamentos. — O seu tipo de morte. A morte de mediadores.
Uma sombra escura passou pelos seus ouvidos — que parecia ser os seus ouvidos. Tudo agora se alternava entre cinza e preto, alguns pontos de luz que eram logo obliterados pelo escuro, balançando-se como em uma proa, tranquilo e ao mesmo tempo macabro.
Era assim a morte? Navegar em meia consciência pelo infinito deserto de trevas, com imitações da Ursa Maior, Leão e Cefeu?
— Eu só quero…
— Paz — completou a Voz. — Tirou sua vida pela paz. Sua própria paz.
Ela não respondeu. Mais uma constelação familiar brilhou e apagou. A Voz pareceu soltar uma risada.
— Fez um bom trabalho em deixar o mundo sem largar para trás pessoas que sentiriam sua falta. Mas sinto dizê-la que… Você não veio para cá exatamente com tudo resolvido, não é?
Ela sentiu algo se apertar em algum lugar do que quer que fosse aquele estado de consciência. Uma corrente fria, destrancando intuições. Depois de alguns minutos, respondeu:
— Posso escolher, não é? — perguntou ela. A Voz continuou muda. — Há um terceiro caminho… Eu posso escolher, sei que posso.
— Claro, você pode. — A Voz era suave e abafada. Parecia mecânica, arrogante. Ela vinha e desaparecia, como se estivesse em constante movimento. Jiyeon jamais conseguiria agarrá-la. — Mas na sua situação…
Como minha situação?
— Interromper a vida por conta própria muda os termos — respondeu por fim. — Interromper sua vida significa interromper a missão. Seres como você não nascem por acaso, e não vivem por acaso. Deixar de viver o dom é como sacrilégio. Tomar as rédeas da situação não foi uma escolha inteligente.
Jiyeon sentiu algo pesado. A Voz era como passos se arrastando pelo asfalto em algum lugar próximo. Perto e longe ao mesmo tempo. Silenciosa e barulhenta. Suas palavras soavam como sentenças a uma pessoa que era egoísta demais para aceitá-las.
— Quem é você?
A Voz não respondeu. Jiyeon perguntou novamente, mais firme:
— Quem é você?
— Quem você acha? — Uma risada escapou do vácuo. — Eu sou o Destino.
Se aquele estado inerte de consciência de Jiyeon ainda era capaz de sentir medo, então ela o sentia em uma capacidade astronômica. Um medo que não seria suportado por seu corpo humano. Aquele tom se aproximou gelado, insosso, um aroma de vazio gélido misturado com vapor perigoso e mortal de atmosferas quentes. O detentor da vida e da morte.
— Por favor — pediu ela ao vazio, implorando internamente para que voltasse a ver as estrelas, e que aquele ecoar da Voz não aparecesse mais daquela forma. — Por favor. Não quero vagar sem propósito. Não quero sumir para todo o sempre, não ainda. Quero ajudar, eu quero…
— Ah, você quer ajudar? — a Voz destilou ironia. — Vejamos, estamos falando do garotinho acamado que compartilha o dom de sua família?
Ela murmurou uma confirmação. A Voz soltou mais uma risada.
— Há algo de interessante sobre aquele garoto. Muito interessante — quando falava, os pontos de estrelas voltavam. Jiyeon se concentrava nelas, ou pensava que se concentrava para não desmanchar e se esvair de vez. — Me encontrei com seu pai há alguns anos. Era seu filho, certo?
Jiyeon tremeu. A frase parecia incitá-la a ver algo além, provocando seu lado racional. Mas ali não parecia existir a necessidade de suas barreiras de proteção.
— Sei, era seu amado filho. Muito diligente com a missão. Uma pena que tenha acontecido o que aconteceu — a Voz suspirou. — Mas não posso interferir quando vocês fazem suas próprias escolhas. Você entende? Já estava avisado.
A raiva novamente. Um firmamento caótico que se apossava de todas as partes conscientes da mulher. Ela obteve uma imagem de ódio.
— Foi você que permitiu? Você matou o meu filho? E a Mary… Por que você…
— Isso não faz sentido, Kang Jiyeon. O mundo é regido pelo bem e o mal. Não seja tão ingênua. — O tom da Voz era tedioso. — Nenhuma bonança dura para sempre, assim como nenhuma desgraça. O mundo precisa estar nessa balança constante em um estado de equilíbrio. Os que não sofrem as consequências desafiam o Destino e as leis naturais, e coisas assim não existem. — A Voz se achegou em Jiyeon e ela viu as constelações novamente. Leão, Cefeu, Escorpião e Dragão. — Seu filho escolheu o próprio fim. Mas deixei que decidisse seu destino final.
Jiyeon encarou o horizonte. Era um caos escuro. Agora ela sentia pressa.
— O-o quê? Jooheon? Para onde ele foi? O que você fez…
— O processo de outros é confidencial, Madame Kang. Aqui do outro lado não existem famílias, amores ou qualquer laço formado no mundo. Cada um é um conceito singular. Mas Kang Jooheon era uma pessoa peculiar, carregada de um coração bondoso e que me deixou extremamente fatigado ao morrer daquela forma. E como conhecedor do coração humano, em especial do seu coração, já imaginava que o futuro que ele esperava para aquela criança não fosse se concretizar. Não pelas suas mãos. — Agora a Voz gargalhou. Gelaria toda a espinha de Jiyeon em circunstâncias normais. — Seu filho tem um lado parecido com você. Ele escolheu a mesma coisa que você está tentando escolher agora, o que é um pouco engraçado. Cedi ao seu pedido, mas fiz do meu jeito. Um jeito minimamente divertido, se posso dizê-lo assim.
As palavras se perdiam. O talento de enganação usado em sessões de previsões do futuro fraudulentas não estava sendo útil. Ela ouviu claramente que Jooheon esteve ali. Ali, com o Destino. E lhe fez um pedido, concedido no final. Ele usou o terceiro caminho.
O caminho alternativo, sem céu, sem inferno. A fronteira entre as duas dimensões.
— Eu posso…
— Não, Madame Kang. Você não pode vê-lo de novo — respondeu duramente. Implicitamente, ela entendeu ser mais uma lei natural. Algo que ninguém pudesse ver. — Sua atual função não permite ser visto por ninguém. Nem mesmo por mediadores.
Outra vez, algo pesado desabou sobre onde quer que estivesse. Parecia como ser atingida por um caminhão. Durante toda a vida, Jiyeon teve certeza de que ela e Jooheon jamais poderiam ir para o mesmo lugar depois de partirem. No entanto, toda uma vida pareceu ter mudado quando viu o corpo morto na pequena casa de Sokcho. Talvez a morte fosse diferente do que ela imaginara. Mas a Voz a indicava que era pior, rígida e inflexível. E agora, ver Jooheon pareceu pedir por muito mais magia do que havia no mundo.
— Eu errei. Eu poderia tê-lo salvado, eu poderia...
— Com licença, senhorita, isso é algo que jamais saberemos. Mas Kang Jooheon fez um bom trabalho, por mais que apenas tenha dissipado aquele espírito. — A Voz era suave novamente; suave e local. As vogais tinham todas as beiradas polidas. — Existem vários daqueles andando por aí. Diversas vinganças a serem cumpridas por aqueles que escolheram a tormenta ao invés da paz. E sabe do que essas criaturas mais gostam? O cheiro de sangue. — Sua risada parecia desinteressada, como algo sério demais para parecer ligeiramente engraçado. — Mas não qualquer sangue, Madame Kang. O sangue do horror, da atrocidade marcada nas pessoas. O rastro de toque de um de seus iguais. O mesmo cheiro de sangue impregnado na pele daquele garoto que você abandonou.
Para sua surpresa, Jiyeon sentiu um tremor. Como se uma pena afiada rasgasse suas costas com violência. O medo pavoroso se tornou físico.
— Não… Não! Não! Você não pode fazer isso, você não pode tocá-lo! Acabou naquele dia, tudo acabou...
— Essas coisas não acabam, Madame Kang, elas apenas se dispersam. Se destroçam por um momento e, então, se concentram em outras coisas, outros lugares, até que tornam a encontrar sua presa perfeita. E acredite, aquele garoto tiraria a atenção de qualquer um deles de seu alvo. Um sobrevivente é algo extremamente curioso, ainda mais sendo quem ele é. — Ela riu e a Voz pareceu se dobrar em duas, espalhando-se ainda mais, como se não estivesse mais sozinha. — Os demônios adoram mediadores. É o tipo de gente que anda pelas terras deles segurando um cartaz de campanha para Jesus. O bem andando pelo território do mal. É de irritar qualquer um, não acha?
— Então, ele… — ela tentou dizer, mas sua voz falhou. Ela se segurava para não dizer nada hostil, mesmo que a Voz tenha se mostrado totalmente blindada de emoções. — Por favor, não! Ele não! Por favor, me deixa cuidar dele, me deixe...
— Essa é a sua escolha? O seu terceiro caminho? — a Voz perguntou firme. Jiyeon assentiu, ou qualquer coisa que mostrasse sua afirmação. — Hum. Posso permitir isso, Madame Kang. Pode vagar pela Terra com propósito, usar suas habilidades para formar um campo poderoso ao redor desse garoto e, de quebra, instruí-lo na missão. Porém, existe uma condição. — Agora a Voz pareceu se achegar de tal modo que poderia estar enfiada em um bolso de seu jeans. — Pela sua negligência com o que lhe foi dado ao passar da vida, por todo o oportunismo humano que deixou crescer em seu coração e sua constante vantagem nojenta de usar suas habilidades extras em prol desse egoísmo crescente, a cada vez que decidir usá-lo daqui pra frente, vai perder cada vez mais sua força. E sabe o que acontece quando perde sua força? — Ela parecia sorrir. Jiyeon sentiu a insegurança desabar sobre si. — Talvez você não o escute chamando. Ou escute, mas perde o poder de se materializar. Você vira uma ouvinte da rádio da vida dele. Não pode ver nada até se recuperar. E garanto que só piora, até que você desapareça. — A Voz lhe mostrou uma imagem de relance. As constelações agora crepitavam como fogo. — É uma forma de dizer que você, provavelmente, não vai ficar do seu lado para sempre.
Jiyeon sentiu frio. À medida que as imposições eram apresentadas, mais sensações eram possíveis. Ela se sentia como uma mancha puída no universo. Uma insegurança a fez crer, por alguns segundos, que não poderia ajudar de uma forma eficiente. Que ela merecia o lugar para onde iam os charlatões de mau-caráter. Que nada apagaria isso.
Mas outra voz suave, delirantemente fantasiada como a de Jooheon, dizia que era possível. Que o Destino escondia coisas e que, acima de tudo, falava em entrelinhas. precisava dela. E ela estava tendo uma última chance de consertar as coisas.
— Eu aceito. Faço qualquer coisa para protegê-lo.
— Eu não duvido disso. Pode tirar um tempo para fazê-lo se acostumar com sua habilidade antes que seu pré-morte tenha êxito. Posso lhe adiantar que, daqui a 2 anos, Meredith estará entrando por aquela porta do Melbourne e aquele garoto nunca mais vai usar blusões de segunda mão. A conexão que você previu acontecerá de fato. — A Voz parecia satisfeita. — Ah. E todas as lembranças que você roubou até o dia de sua morte serão devidamente descartadas no mar do esquecimento. Não posso dizer a mesma coisa das que roubará daqui pra frente. Se o pior te acontecer, todas elas retornarão aos seus devidos donos.
Ela anuiu, brusca e focada, agora sentindo a curvatura de seu pescoço. Agora todas as estrelas pareciam se juntar, formando pontos brancos gigantescos que cresciam a cada segundo.
— Sim… Eu aceito.
A Voz riu mais uma vez, satisfeita. Ela não sabia que tipo de divindade se alegrava tanto no sofrimento e na prosperidade na mesma proporção.
— Muito bem, Madame. Isto será divertido?
O branco tomava conta do escuro. Ela arfou, lembrando-se da última questão com urgência.
— Espera! — Ela se ouviu gritar. A Voz não respondeu. — Jooheon… Escolheu o mesmo caminho?
Silêncio. Jiyeon trincou os dentes — ela sentia os dentes agora — e queria dizer que não pretendia ultrapassar o limite de perguntas. Não queria perguntar qual era a nova casa — a nova realidade — de Jooheon e nem se poderia reconhecê-lo se o visse por acaso. Algo a dizia que todas as respostas seriam não e que ela jamais o perceberia novamente.
— Posso dizer que sim — respondeu a Voz, antes que ela pedisse desculpas. — Mas designei-o para outra pessoa. Você a conhecerá algum dia.
Jiyeon perdeu o fôlego. Agora a imensidão era branca e opaca. Ela enxergava suas mãos e seus dedos. Parecia que o vazio de antes nunca aconteceu. Mas o medo e a apreensão ainda existiam; o livre arbítrio a tornava totalmente desconfiada, até mesmo do Destino. Principalmente do Destino. E queria que ele soubesse disso.
— Tenha uma boa morte, Kang Jiyeon.
E então sua consciência se estilhaçou em mil pedaços de volta para o plano terrestre. E, ao abrir os olhos, ela viu a luz da lua refletida no rosto de um , que dormia profundamente sob a cama remendada.


Epílogo

“Querido…
Eu te amo.
Sei que já me ouviu dizer isso algumas vezes, mas não sabe como foi difícil conseguir dizer as palavras de um jeito tão livre. Seu pai nunca as escutou de mim.
Espero que saiba que eu tentei. Que eu juntei cada partícula de força para que você vivesse. Para que eles não te sentissem. No decorrer da sua vida, alguns já cruzaram com você e fui obrigada a usar da melhor arma que conhecia: o esquecimento. O roubo das suas memórias. Voltar ao passado era perigoso e eu tentei tirá-lo de você o tanto que pude porque acreditei ser o certo. Ao mesmo tempo, não queria que você se sentisse completamente sozinho no universo. Hoje eu te peço perdão e deposito toda a minha confiança em você e em sua intuição.
Sinto que meu tempo está acabando. Sei que nem sempre vou quando você me chama, ou falhei miseravelmente com minha palavra ao não comparecer nas horas em que mais precisou, mas fui vítima da força maior por muitas vezes. Mas acredite, jamais deixaria alguma coisa séria te acontecer. Você é tudo que eu tenho, . Espero ter te ensinado coisas boas no tempo em que estive por aqui.
O Destino insiste que o Mal não pode ser destruído. Bem, eu nunca pretendi destruí-lo por inteiro. Mas tentei destruir uma parte, a parte que te queria, a parte que levou seus pais e toda a minha sanidade junto. Sei que existem segredos nesse mundo, segredos sombrios e mágicos que desestabilizariam todo o universo, e sei que você vai desvendá-los. Existem entidades, estudiosos, praticantes e pessoas rotuladas de loucas que possuem as respostas que você procura. Tenho certeza de que você os encontrará e colocará o inferno de ponta cabeça. Tudo depende de você.
Sei que o Destino compõe caminhos atribulados e incertos, e demorei a entender isso na prática. Hoje digo pra que você siga seus instintos e seus sentimentos. Sei que a garota é importante pra você e, sendo franca, fazê-la esquecer dos fatos me exauriu mais do que qualquer outra pessoa. Algo me diz que ela é a pessoa que eu estava destinada a encontrar, revelado a mim anos atrás. A pessoa designada para seu pai.
Queria poder compreender mais para dizer. Mas acho que você entende mais do que eu.
Obrigada por tudo que você me proporcionou. Toda a mudança e transformação de um interior já morto. Percebi, finalmente, que o amor existe e ele reside dentro dos seus olhos. Você nunca mais vai precisar se esconder atrás de seus sentimentos fantasmas.
Sobreviva, . É tudo que posso pedir.
Com amor,
Kang Jiyeon.”


FIM



Nota da autora: Muito obrigada se você leu até aqui! Muito obrigada por dar uma chance pro passado de GF! Muito obrigada por embarcar nessa fantasia louca e que Deus me ajude pra escrever o final HUAHSU. Tem muita água pra rolar e é isso! Obrigada por sempre! Até mais, te vejo em Ghost Feelings ❤
Qualquer coisa me chama no insta: @autorasial ❤



Nota da beta: Minha nossa, eu tô abalada demais com esse interlúdio. Sério! Foram tantas emoções durante a leitura e eu não canso de elogiar a sua escrita. Você arrasa demais e isso aqui ficou sensacional.
Agora aguenta coração para o final de GF. ♥

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