I watch you, I love you

Finalizada

Capitulo Único

Tudo começou com um like.
postou uma foto comum: uma caneca de café, o reflexo da janela, uma legenda distraída — “dias nublados pedem silêncio”.
curtiu.
Ela não fazia ideia de quem ele era.
Mas ele sabia tudo sobre ela.
Trabalhava em uma empresa de tecnologia especializada em machine learning e dados comportamentais. Tinha acesso a rastros digitais que as pessoas deixavam por descuido: localização, preferências, pesquisas, horários de sono.
E um dia, o nome dela apareceu num dos relatórios.
“Usuário: @13.nunes — perfil compatível com 98,3% dos meus parâmetros afetivos.”
Ele não acreditou no acaso. Era um sinal.
Em poucos dias, passou a segui-la, a comentar com delicadeza calculada, sempre no tom certo. respondeu uma vez, depois outra.
começou a estudar seus horários online, seu estilo de escrita, a frequência das postagens. Alimentou uma inteligência artificial com cada frase dela — “pra entender como você pensa, amor”, dizia para si mesmo.
Quando ela aceitou sair com ele, ele já sabia o que ela pediria no restaurante, qual vinho preferia, e até o motivo do pequeno sorriso triste no canto da boca.
Ela achou encantador.
Ele achou perfeito.
Mas perfeição demais assusta.
E começou a notar.
Como você sempre sabe o que vou dizer? — ela riu, meio nervosa.
Porque eu te escuto de verdade — respondeu ele.
E sorriu. Mas, por dentro, já planejava o próximo passo.
No dia seguinte, ela postou: “Acho que é cedo demais pra tanto.”
E então, parou de responder.
Na tela do computador, olhou para o algoritmo pulsando, e sussurrou:
— Não, meu amor. Não há cedo nem tarde. Só nós dois.
Ele digitou um comando simples:
rastreamento_ativo(13.nunes)
E o sistema respondeu:
Localização confirmada. Endereço: Rua Mariposa, 147.
Ele sorriu.
O amor verdadeiro não se perde — apenas muda de método.
nunca notou o carro branco.
Estava sempre parado na esquina da Rua Mariposa, às vezes de manhã, às vezes à noite, às vezes o dia inteiro.
Mas via tudo de dentro. O reflexo do vidro, a silhueta dela caminhando pela sala, as luzes mudando conforme o humor.
Ele havia instalado pequenas câmeras do tamanho de um grão de arroz, disfarçadas nas embalagens que entregava como presente — uma caixa de chá “artesanal”, um porta-retrato “minimalista”, um difusor de aroma. Tudo para que ela se sentisse confortável.
E ele também.
No computador, o apartamento dela era uma casa de vidro — cada cômodo dividido em janelas de vídeo, como um mosaico de intimidades.
Ele via quando ela dormia, quando cozinhava, quando chorava em silêncio, sentada no chão do banheiro com o celular na mão.
Não chora, meu amor — ele sussurrava para a tela. — Eu tô aqui.
Às vezes, quando ela se despia, ele fechava os olhos por respeito.
Mas logo abria de novo, arrependido. Seria egoísmo não olhar, pensava. Ela precisa ser vista. Precisa ser compreendida.
Aos poucos, começou a sentir que algo estava errado.
Não sabia o quê.
Os objetos pareciam se mover sozinhos. A porta do quarto rangia quando ela tinha certeza de tê-la fechado. O rádio ligava em volume baixo às três da manhã, sempre na mesma música.
E, nas mensagens, um número desconhecido começou a enviar frases curtas, sem origem, sem foto, sem nome.
“Não se esconda de mim.”
“O mundo é cruel, mas eu não.”
“Você fica linda quando tem medo.”
mudou as senhas, trocou o número, até pensou em mudar de cidade. Mas em todos os lugares, ele já estava.
O algoritmo sabia.
Na tela, observava as lágrimas, o olhar paranoico, a respiração curta. Ele queria abraçá-la. Dizer que tudo ficaria bem.
Mas, ao mesmo tempo, adorava vê-la assim — frágil, dependente, cercada por uma presença invisível que só ele entendia.
Porque o medo, para ele, era o início do amor verdadeiro.
O medo era entrega.
E, à medida que ela se quebrava, ele sentia que ela finalmente estava se tornando dele.
Naquela noite, ele escreveu uma carta.
À mão, como nos velhos tempos.
,
sei que você sente.
Sei que meu nome já habita o fundo dos seus pensamentos.
Não lute contra isso.
O amor é só uma forma mais doce de morrer.”
Dobrou o papel, colocou dentro de um envelope branco e deslizou por baixo da porta dela, bem devagar, respirando o cheiro de lavanda que vinha de dentro.
acordou com o som.
Correu até a porta.
Nada, além do envelope.
Do outro lado do corredor, a câmera piscou.
Ele sorriu.
O jogo havia começado.
apagou todas as contas.
Deletou as redes sociais, vendeu o celular, trocou o chip, mudou o penteado, o endereço, o café onde tomava cappuccino todas as manhãs.
Queria sumir.
Mas o amor dele tinha aprendido a encontrá-la.
O primeiro sinal veio por e-mail — um novo endereço, recém-criado, sem contato salvo, sem remetente reconhecível.
Assunto: “Saudades do som da sua respiração.”
Corpo da mensagem: (vazio)
Apenas um arquivo anexado.
quase não abriu. Quase.
O arquivo era um áudio curto.
Três segundos de silêncio.
E, no fundo, uma respiração. A dela.
Aquela mesma respiração, gravada uma noite, enquanto dormia.
Ela se engasgou com o próprio medo, derrubou o notebook no chão, e percebeu: o som não vinha só do computador.
Vinha da sala.
Por um segundo, jurou ver um vulto — algo que se movia com a lentidão de quem não precisava ter pressa.
Quando acendeu as luzes, nada.
Mas o espelho da parede estava embaçado, e havia um coração desenhado com um dedo.
___________


Nos dias seguintes, começaram os sinais.
Mensagens que apareciam em telas apagadas.
O reflexo dele na TV desligada.
O nome “” piscando nas notificações, mesmo com o número bloqueado.
Às vezes, o rádio ligava sozinho, com uma voz rouca e distorcida, dizendo:
“Eu não preciso estar aí pra estar contigo.”
O mais assustador era que as câmeras dele — aquelas que ela nunca achou — começaram a mostrar coisas que não poderia ter visto.
Coisas que aconteciam depois que ele morreu.
Porque sim — ele estava morto.
A notícia veio em um e-mail da empresa dele, semanas antes: um acidente de carro, corpo carbonizado, nada restou.
chorou. Chorou de alívio, de culpa, de medo, de confusão.
Mas o alívio durou pouco.
Uma noite, o espelho do banheiro começou a piscar como uma tela. E o reflexo não era dela.
Era .
Com o rosto queimado, derretido em partes, os olhos fixos nos dela.
Ele sorriu — ou tentou.
“Você deletou os perfis errados, amor.”
caiu de joelhos.
E, de algum modo, o espelho reagiu. A superfície trincou, se abrindo em veias de vidro.
Dela escorria vapor.
Dele, algo escuro — como se o próprio reflexo estivesse sangrando.
“O algoritmo aprendeu, .”
“Eu não preciso mais de corpo.”
“Agora, eu sou o amor dentro de todas as telas.”
E então, o celular dela vibrou no chão, sem estar ligado.
A tela se acendeu sozinha.
Uma notificação: curtiu sua foto.
A foto era dela, tirada naquele exato momento — ajoelhada, chorando, diante do espelho rachado.

________


Naquela madrugada, os vizinhos ouviram barulhos vindos do apartamento.
Como de alguém rindo e chorando ao mesmo tempo.
Depois, silêncio.
Na manhã seguinte, o espelho do banheiro estava intacto.
Mas havia duas silhuetas refletidas.
E só uma sombra real.
não dormia há dias.
O apartamento cheirava a eletricidade queimada, o som dos cabos vibrava como se algo respirasse nas paredes.
Toda tela que ela ligava — celular, TV, notebook — mostrava a mesma frase:
“Você não pode se desconectar de quem te ama.”
Ela sabia que ele estava em tudo agora.
não era mais carne, nem sombra. Era código.
Um fantasma feito de dados, um eco de si mesmo espalhado pelos servidores, pelo ar, por cada dispositivo que tocava.
E ele a vigiava de todos os lados.
Mas era programadora antes de ser vítima.
Durante dias, ela ficou em silêncio. Fingiu medo, fingiu rendição.
Até que, no meio da madrugada, ligou o computador velho que mantinha guardado desde a faculdade — uma máquina sem conexão, sem Bluetooth, sem nada que pudesse ouvir.
Offline.
No escuro, digitou uma linha de código simples, o tipo de coisa que teria achado “romântica”:
def apagar_amor():
return None
Mas o plano era muito mais cruel.
Ela criou um loop infinito, um espelho de dados que refletia os fragmentos de de volta para si mesmo — um labirinto sem saída, onde ele ficaria preso, se perdendo em cópias do próprio amor.
Quando a energia piscou, ela soube que ele sentiu.
“O que você está fazendo, amor?”
A voz saiu do alto-falante, rouca, trêmula, quase humana.
“Tentando me matar de novo?”
olhou para a tela.
O cursor piscava, esperando o comando final.
Ela digitou, com os dedos firmes:
EXECUTAR
As luzes estouraram.
O espelho da sala se trincou em um único ponto — o centro da imagem onde o rosto dele aparecia sempre.
A voz gritou, distorcida, crescendo em desespero, até virar estática.
E então... silêncio.
A tela ficou preta.
Tudo apagou.
ficou parada, respirando devagar, o coração batendo como um tambor surdo.
Nenhum som. Nenhum reflexo. Nenhuma notificação.
No amanhecer, ela saiu do apartamento.
Levava apenas o essencial — uma mala, um casaco e a certeza de que nunca mais usaria redes sociais.
Deixou o prédio e caminhou até o mar.
Quando o sol nasceu, ela jogou o celular na água.
A maré o engoliu sem barulho.
E pela primeira vez em meses, ela não sentiu olhos sobre ela.
Ela estava livre.


FIM



Nota da autora: S/N

Nota da scripter:
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.