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Última atualização: 31/12/2020

Epígrafe

Kára — Ou "a selvagem, tormentosa" (baseado no Nórdico Antigo afkárr, significando "selvagem") ou "ondulada" ou "a ondulada".



Prólogo

Odin sabia os riscos que estava correndo, e pior ainda, tinha consciência das leis que iria infringir só para proteger aquela que não era, mas considerava como sua filha. Ainda se lembrava daquele fatídico dia no mundo sombrio, onde encontrou aquele pequeno bebê, que mesmo com todo o poder e a linhagem que carregava, não seria capaz de se proteger, não até que fosse treinada para isso.
Ele encarou o caos que se instalava por Asgard e pegou sua lança, já seguindo para o fundo do salão. Precisava encontrá-lo, para poder salvar aquela que era tão importante para ele, só ele seria capaz de protegê-la de qualquer mal e mandá-la para bem longe de seu mundo, ao menos por um tempo.
Um longo tempo.
Passou por alguns elfos que o atacaram, mas conseguiu derrotá-los com facilidade. Fez sinal para que recebesse cobertura de seus bravos guerreiros asgardianos e logo avistou quem tanto procurava. Estava em batalha como todos os outros, mas, quando seus olhares se cruzaram, não foi preciso nenhuma palavra, ele sabia o que fazer.
O mais jovem puxou a jovem ao seu lado, seguiu Odin para um lugar isolado e com total proteção — ao menos pelo tempo que precisavam — e se virou para o mais velho, assim que a enorme porta foi fechada atrás deles.
— Preciso que faça agora! — Odin ordenou.
— Precisa do quê? — A mais jovem olhou, confusa. — O que está acontecendo, pai?
O rapaz o encarou com fúria nos olhos, não concordava com nada disso.
— Eu posso protegê-la — justificou. — Você pode, inclusive.
— Me proteger de quê? — indagou.
Odin bufou, ao menos uma vez, gostaria de não ser contrariado por ele.
— Eu estou pedindo que não contrarie minhas decisões, ao menos dessa vez. — Encarou o mais jovem, que andava de um lado para o outro.
— Se ela morrer... — começou a dizer, mas não teve forças para terminar a frase.
— Vocês estão me assustando — disse, interrompendo-os. — O que está acontecendo? É apenas um ataque.
— Escute, filho — Odin começou a dizer e segurou-o outro através da gola de sua veste. — Se ela ficar aqui, ela morrerá. E talvez todos nós morreremos.
O jovem encarou os olhos do mais velho e se deu por vencido, afastando-se para poder recuperar a sanidade.
— Tudo bem — concordou. — Contudo, só queria entender por que sempre fico com a parte mais difícil.
— Eu quero saber o que está acontecendo, agora! — ordenou. — Já fomos atacados muitas vezes, podemos ganhar esta batalha.
O rapaz riu fracamente, sentindo um pesar enorme e virou-se para , levando as mãos até o rosto dela.
— Tem coisas — ele disse e passou os dedos com leveza na bochecha rosada da garota — sobre seu passado que você não sabe.
— Odin, o que está acontecendo? — Ela se afastou do rapaz e andou até seu pai.
Odin a encarava com pesar nos olhos e este foi o único momento nos dezesseis anos que passou ao lado da garota que desejou nunca a ter salvado.
— Por favor... — pediu.
— Ouça, criança — o mais velho começou e pegou a mão da garota. — Se tens todo este amor por mim, peço que faça o que mando.
— Thor e Loki podem nos ajudar... — disse.
— Não, eles não podem protegê-la — falou e desviou o olhar para o rapaz. — Contudo, ele pode salvá-la, então faça o que mando, .
Os olhos dela marejaram, era a primeira vez que Odin a chamava pelo seu nome mundano, que tinha escolhido depois da primeira vez que visitou a Terra.
— Me chamou de — disse e o abraçou.
— Até que nos reencontremos, minha pequena — ele disse, afastou-se da garota e fez sinal para que fossem, o tempo estava acabando.
se virou para o rapaz e seguiu até a enorme porta, mas parou para olhar Odin mais uma vez e então dizer:
— Até que nos reencontremos.

Thor encarou o outro lado do campo de batalha e estreitou os olhos ao ver a garota que tinha tanto apresso com um dos guardas de Asgard. Ele sabia que tinha algo de errado, por isso, segurou seu martelo e atingiu o máximo de elfos negros que tentavam barrar seu caminho na tentativa de impedi-lo de chegar até .
Sorriu ao ver um sorriso se formar no rosto da garota, mas sabia que tinha algo de errado naquele gesto. Ela não era de baixar a guarda e muito menos sorrir em meio a uma batalha, tinha algo de muito estranho em tudo isso e, por isso, ele agarrou o martelo e saltou de forma que tomou impulso para voar e chegar mais rápido onde queria.
Tudo que aconteceu depois disso foi muito rápido e inexplicável. O corpo de se projetou para frente, como acontece quando alguém é atingido por trás, em seguida seu corpo caiu para frente totalmente sem força e, pior ainda, sem nenhum resquício de brilho ou vida.
estava morta.



Capítulo 1

Asgard — Dias Atuais.



O sentimento que pairava nos corações dos dois irmãos naquela pacata tarde em Asgard não era desconhecido, mas sim incomum nos últimos anos. A última vez em que tinham experienciado de tal sensação foi na primeira vez que seus olhos encontraram os da garota que um dia foi tão especial, mas que partiu de suas vidas de maneira repentina e trágica. Se não tivessem visto o corpo, até poderiam acreditar que ela se encontrava em algum lugar por aí onde poderiam resgatá-la.
Mas não passava de um desejo. estava morta e nem mesmo os dois — filhos de um deus poderoso — possuíam o poder de mudar isso. Depois da partida, Asgard precisou lutar muito, mas conseguiu vencer aquela batalha contra os elfos negros e tudo voltou a ser como era antes, ou talvez só parte do que costumava ser.
Sem ela, nada mais seria igual.
Thor encarou seu reflexo no espelho e apertou os olhos, mantendo-os fechados — de forma mais relaxada — depois de um certo tempo e transportou seus pensamentos para quando era apenas um jovem guerreiro em ascensão. O rosto da companheira de batalha foi a primeira coisa a aparecer em seu campo de visão, ao virar para encarar algo que estava atrás dela.
Os cabelos estavam bagunçados, alguns fios caídos sobre a testa e as maçãs do rosto rosadas. Todos esses detalhes lhe mostravam que ela estava em treinamento, com ele mesmo... só que mais novo, afinal, aquilo era uma lembrança. Uma que ele havia guardado na memória sempre que sentia saudades como essa.
Estranhamente, a falta que sentia dela também parecia maior.
— Se a nossa mãe descobrir que você andou pegando alguns ingredientes dela para fazer isso, você está ferrado, meu querido irmão. — Uma voz masculina soou do outro lado do quarto e arrancou de Thor uma reação brusca que o fez erguer uma das mãos e segurar o martelo em seguida.
O rapaz riu fracamente e permaneceu parado ao ver o objeto ser atirado contra ele e passar por seu corpo como uma folha.
— Loki — Thor rosnou, fuzilando o irmão com os olhos e puxou o martelo de volta para si. — O que você quer?
— Especialmente hoje, eu não quero nada — o mais velho afirmou com um sorriso de canto no rosto e se recostou na porta de entrada do quarto. — É aniversário da nossa mãe, não quero estragar tudo.
— Loki, corta essa — Thor respondeu de forma irônica. — O que você quer?
— Você não é o único que sente falta dela, Thor — Loki afirmou com um pouco de tristeza no olhar. — Ela também era importante para mim.
O loiro deu de ombros, não estava com paciência para discutir com ele hoje, que nem sequer tinha se dado o trabalho de estar realmente ali.
— Vou treinar antes da festa começar — ele disse enquanto pegava seus equipamentos.
— Você sabe que não tinha nada que eu poderia ter feito... — Loki insistiu.
Thor revirou os olhos e caminhou em direção à porta, saindo do quarto em seguida e deixando seu irmão completamente sozinho com suas lamúrias. Ele não tinha mais paciência e nem mesmo energia para isso, muito menos para discutir com ele o que aconteceu no dia em que uma das pessoas que ambos mais amavam morreu de forma tão inesperada.


Oslo, Noruega — Dias atuais.



sabia que andar de um lado para o outro não mudaria em nada o nervosismo que estava sentindo. Tinha esperado muito por esse dia e não poderia deixar nada estragar o brilho dele. Para ela, tudo precisava sair perfeito e exatamente como ela havia planejado que seria ao longo dos anos em que se preparou para isso. Apesar de só ter vinte e seis anos, a mulher já tinha passado por muita coisa e aprendido a batalhar desde cedo por tudo.
Depois de ter lançado dois livros que foram sucesso mundial e se tornar umas das autoras infanto juvenis mais famosas do mundo, ela achou que toda a tensão de um lançamento ou premiação se tornariam mais fáceis. Contudo, a verdade é que parecia que cada vez ficava mais difícil, porque vinha sempre acompanhado daquela sensação de que as pessoas estavam cada vez mais depositando expectativas sobre ela.
sempre odiou expectativas.
Amava o que fazia, não poderia negar. Depois de perder todas as suas memórias aos dezesseis anos e acordar em um hospital sem ter ideia de quem era, escrever suas estórias e colocar no papel todas aquelas coisas, que pareciam ser tão reais em seus pensamentos e sonhos, tinha lhe dado não só uma vida confortável e estável, mas também paz de espírito. E, talvez, a esperança de que um dia conseguiria se lembrar de tudo que era incapaz de lembrar há dez anos.
— Deus, preciso melhorar essa cara! — disse ao olhar-se no espelho e ver o tamanho das olheiras nas bolsas dos olhos. — Está às vésperas do melhor dia da sua vida, deveria estar ao menos apresentável.
Ela escutou uma risada que veio do andar debaixo da casa e bufou frustrada. Não tinha graça nenhuma naquela situação, longe disso...
— Qual é, , vamos logo! — a voz gritou, fazendo-a revirar os olhos.
— Não! — respondeu alto. — Você pode ir, eu tenho algumas coisas para resolver...
Sabia que era só uma desculpa para poder se lamentar mais um pouco, mas não se importou.
— Qual é! — Escutou a voz gritar e em seguida a porta da frente bater.
A dona daquela voz era Eillen Cortes, sua melhor amiga desde o colégio e que hoje em dia havia se tornado sua colega de quarto. As duas já se conheciam há 10 anos e tinham compartilhado muitas coisas, mas, definitivamente, não possuíam nada em comum.
Enquanto estava publicando seu terceiro livro e o transformando em uma série de televisão, Eillen era uma cientista incurável que estava procurando uma forma de provar que existiam muitos outros mundos além da Terra, ao mesmo tempo que dividia seu tempo para ser sua sócia e ajudá-la na editora.
Contudo, eram como irmãs, jamais se desgrudavam.
— Certo, um banho vai ajudar — disse para si mesma e abriu a torneira da banheira.
Enquanto a deixava encher, foi até o quarto e abriu seu notebook. Mais uma vez estava tendo uma de suas epifanias onde ideias surgiam em sua mente — quase como se pudesse vê-las diante de si —, e sempre que isso acontecia precisava escrever.
Seria a continuação de sua saga? Não saberia dizer, o que importava era anotar tudo que viesse à mente.
— “Loki colocou a mão no rosto da garota e a encarou como se aquela fosse a última vez que a veria” — disse enquanto digitava em seu notebook.
franziu o cenho por um instante. Uma sensação de conforto preencheu seu coração, como se fosse capaz de sentir exatamente o mesmo que sua personagem naquele momento.
— Que estranho — comentou rindo.
Escreveu mais algumas coisas e depois voltou ao banheiro, constatando que sua banheira já estava pronta. Entrou nela e fez o que sempre fazia, submergiu na água e fechou os olhos para imaginar cenas de seus livros — cenas essas que pareciam quase reais.
Naquele momento, algo aconteceu.
Não era nada desconhecido por , mas já não acontecia há muitos anos, desde que ela havia acordado naquele hospital sem memória alguma. Era como se algo fosse ser arrancado de seu peito e seus olhos sempre conseguiam visualizar coisas tão reais, mas que seria loucura acreditar que um dia aconteceram.
Estranhamente, sempre que imaginava a protagonista de seus livros era exatamente como ela. Mesmos cabelos, olhos, boca... personalidade e isso às vezes a fazia questionar muitas coisas, porque, quando se tratava de coragem e bravura, não se via nem um pouco daquela forma.
era uma guerreira. E , bem, apenas uma escritora.
— Uma escritora de muito sucesso — disse ao emergir. — Você precisa se dar mais crédito.
Ela terminou de tomar banho e saiu já indo para o quarto escolher uma roupa, afinal, ainda tinha um dia todo de trabalho pela frente. Passou uma maquiagem leve como sempre fazia, escolheu algo um pouco mais formal para vestir e depois saiu em disparada porque não queria chegar atrasada.
O dia em Oslo estava frio como sempre e essa era uma das coisas que a mulher mais amava sobre o lugar, todo aquele clima com neve era o que deixava as coisas tão lindas e reconfortantes — ao menos no seu posto de vida. Gastou exatamente trinta minutos até a editora e passou pela porta de entrar com a mesma pressa de sempre, mas cumprimentando cada um dos seus funcionários ali presentes.
poderia ter dúvidas sobre muitas coisas em sua vida, mas não sobre o que tinha escolhido seguir como carreira. Ser escritora e abrir uma editora sempre foi seu sonho, então sentia-se perfeitamente satisfeita em seu trabalho, mesmo que fosse um dia com muitas coisas para fazer ou que não estivesse se sentindo bem. Colocava o melhor sorriso que tinha no rosto e só o tirava de noite, quando já estivesse em sua cama prestes a dormir.
Assim que adentrou sua sala, seus olhos foram parar diretamente sobre a sua mesa, onde tinha um buque de orquídeas enorme. Olhou ao redor — como se estivesse procurando por alguém — e caminhou até lá, pegando-o para olhar mais de perto e respirou de forma profunda para poder sentir o cheiro agradável da flor, que era sua favorita.
— Não tem cartão... — Torceu o nariz ao analisar, enquanto tentava se perguntar quem poderia ter enviado aquilo.
Elas eram lindas e pareciam trazer algum tipo de dejavu para ela, mas não tinha tempo para ficar pensando naquilo.
! — A voz de Eillen reverberou na sala, fazendo com que a mulher virasse rapidamente. — Uau!
— É, são lindas — a mulher respondeu a amiga, ainda encantada com o buquê. — Você sabe quem deixou isso aqui?
— Com certeza algum admirador. — A melhor amiga riu de forma sugestiva, fazendo-a revirar os olhos. — Pera, deve ter um cartão.
riu fraco.
— Se tivesse, eu não estaria te perguntando quem deixou minhas flores preferidas aqui — respondeu em tom brincalhão.
— Ela está ríspida hoje... — Eillen comentou como se estivesse falando sério.
— Isso é estranho — disse, voltando para sua mesa e colocando o buquê sobre ela. — Você e meus pais são os únicos que sabem como eu amo orquídeas.
— Amiga, eu sei que você quer muito saber quem foi, mas nós temos muitas coisas importantes para resolver. Então vou pedir para alguém verificar isso, tudo bem? — sugeriu. — E eu preciso sair mais cedo hoje, porque tenho algumas coisas da pesquisa para revisar.
franziu o cenho primeiro, pensando como a amiga conseguia dar conta de tudo.
— O que eu faria sem você, Lenn? — perguntou de forma retórica.
— Provavelmente nada — a mulher respondeu dando de ombros.
— Engraçadinha. — foi para o outro lado da mesa, ainda com a atenção sobre as flores. — Bom, temos uma reunião em vinte minutos, pode me dar um momento sozinha?
— Claro, te vejo logo — Lenn disse e saiu da sala em seguida.
A mulher decidiu sentar-se em sua cadeira um pouco para que pudesse colocar algumas coisas no lugar, mas simplesmente não conseguia pensar em nada além daquele buquê diante dela. Não saberia dizer o que tinha de tão especial em algumas orquídeas, mas estranhamente elas estavam prendendo sua atenção de uma forma absurda, como se ela precisasse desesperadamente saber quem havia lhe enviado aquilo.
Estava sendo paranoica, sabia disso. Mas como não ser?
Riu de si mesma e voltou a pegá-lo nas mãos, repetindo a mesma respirada funda da primeira vez. Por um momento, sentiu sua visão ficar turva e até um pouco de cansaço, e pensou ser algo nas flores, ou apenas sua mente lhe pregando peças por estar tão obcecada com aquilo. Decidiu colocá-las em um vaso, por hora.
, esqueceu da reunião? — Era Eillen, mais uma vez.
olhou um pouco confusa, porque poderia jurar que tinham se passado apenas cinco minutos, mas ao olhar o relógio de pulso percebeu que já estava dez minutos atrasada.
— Meu deus... — disse, já se encaminhando para a saída. — Eu perdi completamente a noção da hora.
— Você está se sentindo bem? — a melhor amiga perguntou enquanto as duas caminhavam por entre os corredores até a sala de reunião.
— Sim... — mentiu, afinal, não queria preocupar a amiga.
A verdade é que estava sentindo-se estranhamente cansada e até um pouco sonolenta, mas sabia que poderia ser porque não havia dormindo muito bem na noite anterior devido à ansiedade. Então, resolveu espantar qualquer preocupação relacionada ao evento que só aconteceria amanhã e decidiu que iria se concentrar em sua reunião.
Isso era tudo que importava agora.


Asgard — Dias atuais.



Loki passou os olhos pelo lugar e tentou ao máximo esconder o sorriso em seu rosto, porque não queria deixar transparecer a verdadeira razão pela qual sentia-se tão feliz e completo depois de tantos anos. O palácio estava mais cheio do que ele jamais havia visto, Asgardianos caminhavam de um lado para o outro com sorrisos em seus rostos e vozes reverberavam pelo local devido à empolgação do povo.
Ele estava quase gostando disso, exceto, é claro, que sempre surgia aquela falta.
Do outro lado do salão, Odin se encarregava para que tudo saísse perfeito em um dia tão especial para sua amada. Era a primeira vez após dez anos que ela havia concordado em comemorar seu aniversário e ele não poderia estar mais feliz com isso, já que, depois da morte daquela que sempre foi como uma filha para eles, ela jamais havia sido a mesma e ele odiava-se todos os dias por tê-la feito passar por isso.
A única coisa que confortava seu coração era saber que estava salva em um lugar onde jamais poderia ser alcançada pelas sombras que a condenavam. Mesmo que isso custasse a felicidade de outros que ele também amava, o fato de saber que ela teria uma vida longa e plena já lhe bastava. Para ele, ser rei era isso, saber fazer escolhas difíceis que poderiam custar a felicidade de outros, inclusive de si mesmo.
— Pai? — A voz de Thor ecoou ao lado dele, tirando-o dos pensamentos mais profundos.
Odin se virou para encarar o filho.
— Sim, meu filho — respondeu abrindo um sorriso, não queria deixar transparecer que tinha algo de errado com ele.
Thor encarou o pai por alguns segundos, seu poder de ler as pessoas era sempre impecável e logo se deu conta de que algo incomodava Odin.
— Você parece preocupado. — Sorriu em cumplicidade.
O mais velho riu fraco com o comentário.
— Eu tenho um reino inteiro para governar, Thor — falou ao começar a caminhar, seguido do filho, que o acompanhava. — Viver preocupado é um dos muitos fardos que preciso carregar.
— Sim, claro — o mais novo afirmou. — Mas você parece preocupado de uma forma diferente.
— É a primeira vez que sua mãe aceita comemorar o aniversário dela em dez anos — explicou e parou, virando-se para encarar o filho. — Só quero ter certeza de que tudo sairá como planejado.
Odin não era muito bom em mentir, mas precisava convencer o filho de que nada estava errado, tanto o quanto ele vinha tentando fazer isso consigo desde a hora que havia acordado.
— Além do mais, preocupe-se com o que é sua obrigação — continuou, dessa vez com um pouco de autoridade. — Que é proteger Asgard, junto ao seu irmão.
Thor ficou em silêncio e seus olhos pararam em Loki, o que o fez revirar levemente os olhos.
— Sim, senhor — respondeu, voltando a olhar para seu pai. — Sempre protegerei.
Odin sorriu, já virando-se para se afastar, mas parou e encarou o filho.
— Eu estou contando com isso — afirmou e então saiu de lá, deixando Thor com uma estranha sensação de que ele parecia estar falando como se isso fosse acontecer em algum futuro muito próximo.
Do outro lado do castelo, Loki sabia que o que estava fazendo ia contra todas as regras impostas por seu pai, mas não era como se pudesse controlar o que seu coração sentia naquele momento. Já tinha esperado tempo demais para que pudesse reencontrar de verdade aquela que foi a única capaz de fazê-lo encontrar algo de bom em si mesmo, e ele sentia falta de conseguir enxergar-se dessa forma.
Ver o sorriso dela ao receber um presente, que para ele não era nada comparado ao que a mulher merecia de fato, fez seu coração apertar, mas ao mesmo tempo lhe deu a esperança de que um dia as coisas no futuro poderiam ser como ele havia imaginado por tanto tempo. Com os três andando por entre as dependências do castelo, comandando exércitos, lutando por Asgard e mais unidos do que jamais estiveram.

Loki sabia dos poderes de , mas provocá-la era particularmente divertido para ele e gostava de testar os limites da garota. A viu trocar de posição com a lança na mão e rodá-la lentamente enquanto parecia tentar ler cada movimento de seu oponente — que no caso era ele mesmo — e observou a precisão e calma dela em cada gesto que executava.
A garota nunca tinha pressa e isso o frustrava de uma certa forma.
— Você sabe que isso é golpe baixo. — A voz de Thor reverberou no salão em que eles se encontravam e Loki revirou os olhos.
Sabia exatamente do que o irmão estava falando.
— Ele não é nem louco — se manifestou, mostrando que tinha entendido o que o loiro dizia.
Thor riu fracamente e cruzou os braços, na esperança de ver o irmão ser derrotado.
A guerreira aproveitou o momento de distração do moreno e se movimentou de forma furtiva, rodando sua lança três vezes no ar ao mesmo tempo em que rodopiou, caindo do outro lado ao lado de seu oponente, com o objeto pontudo quase colado ao rosto dele enquanto ela o encarava. tinha certeza de que por essa ele não esperava e viu um sorriso se formar nos lábios do rapaz, que permaneceu imóvel.
O outro irmão não pôde conter a salva de palmas diante dos movimentos precisos dela enquanto sorria.
— Parece que você está ficando lento com o passar dos anos — provocou.
Ela o encarou fixamente e sentiu perder o equilíbrio, sentindo em seguida mãos agarrarem-lhe a cintura enquanto viu sua lança cair no chão.
— Como pode ver, eu estou mesmo aqui — Loki disse, encarando-a nos olhos.
Thor engoliu em seco ao encarar a cena, sentindo-se profundamente desconfortável com a proximidade dos dois e vendo seu irmão por um momento desviar o olhar até ele, mas depois voltar a olhar a garota como fazia antes.
— Não duvidei que estava — a garota rebateu, ainda nos braços dele.
— Ótimo — Loki disse e a puxou, deixando-a em uma posição que ela fosse capaz de equilibrar-se sozinha. — Porque eu nunca quebraria uma promessa feita a você.


Parado naquele salão, tomado por aquela lembrança, ele quase conseguia sentir suas mãos sobre o corpo da garota e como suas palavras saíram ao prometer a ela que jamais usaria seus poderes em sua presença. era importante para ele de uma forma quem nem mesmo ela tinha conhecimento, e nem por uma vez foi capaz de estar ao lado dela sem ser em sua verdadeira essência.


Noruega, Oslo — Dias Atuais.



A reunião havia sido muito melhor do que esperava. Tudo tinha corrido exatamente como planejado, mas ela ainda se sentia extremamente cansada e com a sensação de que iria botar tudo que tinha em seu estômago para fora a qualquer momento. Soube que ir para casa foi a melhor decisão que poderia ter tomado naquela tarde quando Eillen disse que cuidaria de tudo para o evento de amanhã.
A mulher respirou profundamente quando finalmente entrou em casa e livrou-se do frio congelante que estava do lado de fora, onde a neve caía incessantemente. Foi diretamente para o andar de cima, onde tomou um banho quente por pelo menos trinta e cinco minutos e depois jogou-se na cama já com seu notebook, abrindo no Word para que começasse a escrever seu próximo livro. Sentiu-se aliviada por estar melhor do que quando havia saído da empresa mais cedo.
Respirou fundo, tomou um gole de sua água e começou o que fazia de melhor: escrever.
O início do processo de escrita não foi nada difícil, afinal, já tinha escrito uma cena mais cedo quando teve um momento de epifania enquanto preparava seu banho antes de sair para trabalhar. Então logo se viu digitando e completamente inserida dentro daquelas linhas que só aumentavam diante de seus olhos.

“A morte chega para todos. Eu sempre soube disso, mesmo assim sentia um medo inexplicável todas as vezes que pensava em quando a minha chegaria e como seria deixar para trás todas as pessoas que eu amava e tanto me preocupava. Contudo, o privilégio de ser quase um ser imortal me dava a vantagem de não ter que me preocupar com isso.
O meu poder era conhecido e temido por muitos, e talvez isso tenha me dado ao longo dos meus cem anos de vida confiança o suficiente para não temer nada. Acredito que esse foi um dos maiores erros que cometi ao longo da minha jornada. Me achar imbatível tinha me custado muitas coisas as quais eu não me importei em perder ao longo do caminho, preocupada demais com o império que poderia construir.
E, de fato, eu havia construído um império.
Porém, quando se ergue algo assim às custas de sangue, suor e lágrimas e inocentes nada de bom é capaz de sair dali. E como era de se esperar, eu havia criado muitos demônios e agora eles estavam me caçando, da mesma forma que eu havia feito com eles em busca dos meus próprios ganhos.
Eu estava reconhecendo meus erros... a questão era: Será que eu estaria pronta para minha redenção? Ou, pior ainda, para a morte iminente?”


encarou o que havia escrito e sorriu satisfeita. Sem dúvidas aquela era uma das coisas mais profundas que já tinha colocado em seus livros desde que havia iniciado a saga e a conexão que sentia com aquela personagem era quase tangível, como se ela e fossem a mesma pessoa. Exceto, é claro, que a garota descrita em seus livros era uma guerreira, dona de um império e poderes inimagináveis, enquanto era apenas uma escritora.
Escreveu mais algumas linhas e se deu por vencida quando seus olhos começaram a fechar involuntariamente, dando a ela o sinal de que o cansaço era evidente e forçando-a a aceitar que precisava descansar depois do dia cansativo que havia tido. Ela apenas fechou o notebook e o colocou de lado — já que não tinha nem forças para sair de onde estava — e virou-se, já desligando o abajur, caindo rapidamente no sono após deitar a cabeça no travesseiro.
Sentiu os olhos pesarem no meio da madrugada e a boca seca e praguejou-se por ter tomado toda a água que tinha no quarto. Levantou bufando da cama para ir em direção à cozinha, praticamente arrastando-se pelos cômodos que passava até chegar lá. Nunca foi fã de ter que sair da cama no meio da noite, mas mal conseguia engolir a própria saliva de tão seca que sua boca estava e a sensação era horrível, então pior do que ter que ir pegar algo para beber, era ficar se sentindo daquela forma até que caísse no sono mais uma vez.
Por um momento, sentiu uma estranha vontade de tomar chá, como se algo a fizesse ter uma pequena lembrança de qual era a sensação, caminhou até o armário onde sabia que eles ficavam e escolheu um de sabor hortelã. Estranhamente, enquanto pegava todas as coisas que precisava para fazer a bebida quente e tomava um copo de água — só para aliviar a secura da boca —, teve a sensação de estar sendo observada.
não era paranoica, longe disso. Sabia muito bem que Oslo era um dos lugares mais seguros que poderia viver, mas especialmente naquele momento tinha a sensação como se alguém estivesse ali tomando nota de cada passo dela sem que ela fosse capaz de vê-lo ou senti-lo por completo.
— Você só está com sono, — disse a si mesma, enquanto ligava o fogo.
A mulher passou a mão no rosto, deixando que um bocejo escapasse por entre os lábios, virou-se na direção da porta que dava para a sala de estar e, de forma embaçada, viu a estrutura de homem tomar forma conforme sua visão melhorava. Ela não teve reação alguma de correr, desesperar-se ou qualquer coisa normal que alguém faria se visse um estranho em sua cozinha no meio da madrugada.
Ela apenas permaneceu estática, encarando. Talvez porque, para ela, o homem encostado ao batente não era bem um estranho.
— Ainda é exatamente como eu me lembrava — o homem disse ainda imóvel e parado na entrada da cozinha.
o encarou por alguns instantes, tomando nota não só do que ele havia dito, mas também de cada detalhe nele. O terno preto, os cabelos tão escuros quanto sua roupa, o sorriso leve que se encontrava em seu rosto e, claro, a pele tão branca como nenhuma outra que ela já havia visto.
E naquele fragmento de segundos em que se encaravam, ela o reconheceu.
Porém reconhecê-lo lhe dava um atestado de loucura.
— Isso não pode ser real — disse finalmente, enquanto tocava-se para ter certeza de que estava mesmo acordada.
O homem riu fracamente.
Ela conhecia muito bem aquela risada, afinal, era responsável por dar vida a ela.
— Por que não? — indagou.
engoliu em seco e fechou os olhos, imaginando que, se os abrisse, acordaria em sua cama. Porém, não foi isso que aconteceu.
— Porque você é um personagem do meu livro — respondeu nervosa.


Continua...



Nota da autora: Oi, meus amores, tudo bem?
Primeiro, vamos às teorias: E aí, o que vocês acham que nosso querido Loki está aprontando? O que foi esse encontro no final? Me digam nos comentários as expectativas de vocês para as próximas atualizações.
E, bem, eu demorei, mas cheguei com uma atualização bem fresquinha para vocês. Bom, essa att ela tem um teor especial, porque está fazendo parte do All Stars do FFOBS, que é uma atualização onde autoras que tiveram alguma fic em destaque durante o ano são convocadas a enviar atualizações de suas fics ou mandar estórias novas. E bem, ESTOU NESSA ESSE ANO!
Cara, eu confesso que fiquei muito sem palavras quando recebi o e-mail do site e com todos os destaques que tive esse ano. E eu só queria agradecer cada um de vocês por isso, porque são tão parte disso quanto eu. Muito obrigada por lerem minhas estórias, comentarem e me darem todo dia a chance de continuar aqui fazendo algo que eu TANTO AMO.
E mais do que tudo, me permitiram manter a sanidade nesse ano que foi tão conturbado.
Desejo a todos vocês um ótimo ano novo e que esse próximo ano seja muito melhor do que foi esse. E espero vê-los no ano que vem, com muitas novas fanfics hahahahahaha.
Com muito amor e carinho,
Vane! <3



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