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Última atualização: 24/09/2021

Epígrafe

Kára — Ou "a selvagem, tormentosa" (baseado no Nórdico Antigo afkárr, significando "selvagem") ou "ondulada" ou "a ondulada".



Prólogo

Odin sabia os riscos que estava correndo, e pior ainda, tinha consciência das leis que iria infringir só para proteger aquela que não era, mas considerava como sua filha. Ainda se lembrava daquele fatídico dia no mundo sombrio, onde encontrou aquele pequeno bebê, que mesmo com todo o poder e a linhagem que carregava, não seria capaz de se proteger, não até que fosse treinada para isso.
Ele encarou o caos que se instalava por Asgard e pegou sua lança, já seguindo para o fundo do salão. Precisava encontrá-lo, para poder salvar aquela que era tão importante para ele, só ele seria capaz de protegê-la de qualquer mal e mandá-la para bem longe de seu mundo, ao menos por um tempo.
Um longo tempo.
Passou por alguns elfos que o atacaram, mas conseguiu derrotá-los com facilidade. Fez sinal para que recebesse cobertura de seus bravos guerreiros asgardianos e logo avistou quem tanto procurava. Estava em batalha como todos os outros, mas, quando seus olhares se cruzaram, não foi preciso nenhuma palavra, ele sabia o que fazer.
O mais jovem puxou a jovem ao seu lado, seguiu Odin para um lugar isolado e com total proteção — ao menos pelo tempo que precisavam — e se virou para o mais velho, assim que a enorme porta foi fechada atrás deles.
— Preciso que faça agora! — Odin ordenou.
— Precisa do quê? — A mais jovem olhou, confusa. — O que está acontecendo, pai?
O rapaz o encarou com fúria nos olhos, não concordava com nada disso.
— Eu posso protegê-la — justificou. — Você pode, inclusive.
— Me proteger de quê? — indagou.
Odin bufou, ao menos uma vez, gostaria de não ser contrariado por ele.
— Eu estou pedindo que não contrarie minhas decisões, ao menos dessa vez. — Encarou o mais jovem, que andava de um lado para o outro.
— Se ela morrer... — começou a dizer, mas não teve forças para terminar a frase.
— Vocês estão me assustando — disse, interrompendo-os. — O que está acontecendo? É apenas um ataque.
— Escute, filho — Odin começou a dizer e segurou-o outro através da gola de sua veste. — Se ela ficar aqui, ela morrerá. E talvez todos nós morreremos.
O jovem encarou os olhos do mais velho e se deu por vencido, afastando-se para poder recuperar a sanidade.
— Tudo bem — concordou. — Contudo, só queria entender por que sempre fico com a parte mais difícil.
— Eu quero saber o que está acontecendo, agora! — ordenou. — Já fomos atacados muitas vezes, podemos ganhar esta batalha.
O rapaz riu fracamente, sentindo um pesar enorme e virou-se para , levando as mãos até o rosto dela.
— Tem coisas — ele disse e passou os dedos com leveza na bochecha rosada da garota — sobre seu passado que você não sabe.
— Odin, o que está acontecendo? — Ela se afastou do rapaz e andou até seu pai.
Odin a encarava com pesar nos olhos e este foi o único momento nos dezesseis anos que passou ao lado da garota que desejou nunca a ter salvado.
— Por favor... — pediu.
— Ouça, criança — o mais velho começou e pegou a mão da garota. — Se tens todo este amor por mim, peço que faça o que mando.
— Thor e Loki podem nos ajudar... — disse.
— Não, eles não podem protegê-la — falou e desviou o olhar para o rapaz. — Contudo, ele pode salvá-la, então faça o que mando, .
Os olhos dela marejaram, era a primeira vez que Odin a chamava pelo seu nome mundano, que tinha escolhido depois da primeira vez que visitou a Terra.
— Me chamou de — disse e o abraçou.
— Até que nos reencontremos, minha pequena — ele disse, afastou-se da garota e fez sinal para que fossem, o tempo estava acabando.
se virou para o rapaz e seguiu até a enorme porta, mas parou para olhar Odin mais uma vez e então dizer:
— Até que nos reencontremos.

Thor encarou o outro lado do campo de batalha e estreitou os olhos ao ver a garota que tinha tanto apresso com um dos guardas de Asgard. Ele sabia que tinha algo de errado, por isso, segurou seu martelo e atingiu o máximo de elfos negros que tentavam barrar seu caminho na tentativa de impedi-lo de chegar até .
Sorriu ao ver um sorriso se formar no rosto da garota, mas sabia que tinha algo de errado naquele gesto. Ela não era de baixar a guarda e muito menos sorrir em meio a uma batalha, tinha algo de muito estranho em tudo isso e, por isso, ele agarrou o martelo e saltou de forma que tomou impulso para voar e chegar mais rápido onde queria.
Tudo que aconteceu depois disso foi muito rápido e inexplicável. O corpo de se projetou para frente, como acontece quando alguém é atingido por trás, em seguida seu corpo caiu para frente totalmente sem força e, pior ainda, sem nenhum resquício de brilho ou vida.
estava morta.



Capítulo 1

Asgard — Dias Atuais.



O sentimento que pairava nos corações dos dois irmãos naquela pacata tarde em Asgard não era desconhecido, mas sim incomum nos últimos anos. A última vez em que tinham experienciado de tal sensação foi na primeira vez que seus olhos encontraram os da garota que um dia foi tão especial, mas que partiu de suas vidas de maneira repentina e trágica. Se não tivessem visto o corpo, até poderiam acreditar que ela se encontrava em algum lugar por aí onde poderiam resgatá-la.
Mas não passava de um desejo. estava morta e nem mesmo os dois — filhos de um deus poderoso — possuíam o poder de mudar isso. Depois da partida, Asgard precisou lutar muito, mas conseguiu vencer aquela batalha contra os elfos negros e tudo voltou a ser como era antes, ou talvez só parte do que costumava ser.
Sem ela, nada mais seria igual.
Thor encarou seu reflexo no espelho e apertou os olhos, mantendo-os fechados — de forma mais relaxada — depois de um certo tempo e transportou seus pensamentos para quando era apenas um jovem guerreiro em ascensão. O rosto da companheira de batalha foi a primeira coisa a aparecer em seu campo de visão, ao virar para encarar algo que estava atrás dela.
Os cabelos estavam bagunçados, alguns fios caídos sobre a testa e as maçãs do rosto rosadas. Todos esses detalhes lhe mostravam que ela estava em treinamento, com ele mesmo... só que mais novo, afinal, aquilo era uma lembrança. Uma que ele havia guardado na memória sempre que sentia saudades como essa.
Estranhamente, a falta que sentia dela também parecia maior.
— Se a nossa mãe descobrir que você andou pegando alguns ingredientes dela para fazer isso, você está ferrado, meu querido irmão. — Uma voz masculina soou do outro lado do quarto e arrancou de Thor uma reação brusca que o fez erguer uma das mãos e segurar o martelo em seguida.
O rapaz riu fracamente e permaneceu parado ao ver o objeto ser atirado contra ele e passar por seu corpo como uma folha.
— Loki — Thor rosnou, fuzilando o irmão com os olhos e puxou o martelo de volta para si. — O que você quer?
— Especialmente hoje, eu não quero nada — o mais velho afirmou com um sorriso de canto no rosto e se recostou na porta de entrada do quarto. — É aniversário da nossa mãe, não quero estragar tudo.
— Loki, corta essa — Thor respondeu de forma irônica. — O que você quer?
— Você não é o único que sente falta dela, Thor — Loki afirmou com um pouco de tristeza no olhar. — Ela também era importante para mim.
O loiro deu de ombros, não estava com paciência para discutir com ele hoje, que nem sequer tinha se dado o trabalho de estar realmente ali.
— Vou treinar antes da festa começar — ele disse enquanto pegava seus equipamentos.
— Você sabe que não tinha nada que eu poderia ter feito... — Loki insistiu.
Thor revirou os olhos e caminhou em direção à porta, saindo do quarto em seguida e deixando seu irmão completamente sozinho com suas lamúrias. Ele não tinha mais paciência e nem mesmo energia para isso, muito menos para discutir com ele o que aconteceu no dia em que uma das pessoas que ambos mais amavam morreu de forma tão inesperada.


Oslo, Noruega — Dias atuais.



sabia que andar de um lado para o outro não mudaria em nada o nervosismo que estava sentindo. Tinha esperado muito por esse dia e não poderia deixar nada estragar o brilho dele. Para ela, tudo precisava sair perfeito e exatamente como ela havia planejado que seria ao longo dos anos em que se preparou para isso. Apesar de só ter vinte e seis anos, a mulher já tinha passado por muita coisa e aprendido a batalhar desde cedo por tudo.
Depois de ter lançado dois livros que foram sucesso mundial e se tornar umas das autoras infanto juvenis mais famosas do mundo, ela achou que toda a tensão de um lançamento ou premiação se tornariam mais fáceis. Contudo, a verdade é que parecia que cada vez ficava mais difícil, porque vinha sempre acompanhado daquela sensação de que as pessoas estavam cada vez mais depositando expectativas sobre ela.
sempre odiou expectativas.
Amava o que fazia, não poderia negar. Depois de perder todas as suas memórias aos dezesseis anos e acordar em um hospital sem ter ideia de quem era, escrever suas estórias e colocar no papel todas aquelas coisas, que pareciam ser tão reais em seus pensamentos e sonhos, tinha lhe dado não só uma vida confortável e estável, mas também paz de espírito. E, talvez, a esperança de que um dia conseguiria se lembrar de tudo que era incapaz de lembrar há dez anos.
— Deus, preciso melhorar essa cara! — disse ao olhar-se no espelho e ver o tamanho das olheiras nas bolsas dos olhos. — Está às vésperas do melhor dia da sua vida, deveria estar ao menos apresentável.
Ela escutou uma risada que veio do andar debaixo da casa e bufou frustrada. Não tinha graça nenhuma naquela situação, longe disso...
— Qual é, , vamos logo! — a voz gritou, fazendo-a revirar os olhos.
— Não! — respondeu alto. — Você pode ir, eu tenho algumas coisas para resolver...
Sabia que era só uma desculpa para poder se lamentar mais um pouco, mas não se importou.
— Qual é! — Escutou a voz gritar e em seguida a porta da frente bater.
A dona daquela voz era Eillen Cortes, sua melhor amiga desde o colégio e que hoje em dia havia se tornado sua colega de quarto. As duas já se conheciam há 10 anos e tinham compartilhado muitas coisas, mas, definitivamente, não possuíam nada em comum.
Enquanto estava publicando seu terceiro livro e o transformando em uma série de televisão, Eillen era uma cientista incurável que estava procurando uma forma de provar que existiam muitos outros mundos além da Terra, ao mesmo tempo que dividia seu tempo para ser sua sócia e ajudá-la na editora.
Contudo, eram como irmãs, jamais se desgrudavam.
— Certo, um banho vai ajudar — disse para si mesma e abriu a torneira da banheira.
Enquanto a deixava encher, foi até o quarto e abriu seu notebook. Mais uma vez estava tendo uma de suas epifanias onde ideias surgiam em sua mente — quase como se pudesse vê-las diante de si —, e sempre que isso acontecia precisava escrever.
Seria a continuação de sua saga? Não saberia dizer, o que importava era anotar tudo que viesse à mente.
— “Loki colocou a mão no rosto da garota e a encarou como se aquela fosse a última vez que a veria” — disse enquanto digitava em seu notebook.
franziu o cenho por um instante. Uma sensação de conforto preencheu seu coração, como se fosse capaz de sentir exatamente o mesmo que sua personagem naquele momento.
— Que estranho — comentou rindo.
Escreveu mais algumas coisas e depois voltou ao banheiro, constatando que sua banheira já estava pronta. Entrou nela e fez o que sempre fazia, submergiu na água e fechou os olhos para imaginar cenas de seus livros — cenas essas que pareciam quase reais.
Naquele momento, algo aconteceu.
Não era nada desconhecido por , mas já não acontecia há muitos anos, desde que ela havia acordado naquele hospital sem memória alguma. Era como se algo fosse ser arrancado de seu peito e seus olhos sempre conseguiam visualizar coisas tão reais, mas que seria loucura acreditar que um dia aconteceram.
Estranhamente, sempre que imaginava a protagonista de seus livros era exatamente como ela. Mesmos cabelos, olhos, boca... personalidade e isso às vezes a fazia questionar muitas coisas, porque, quando se tratava de coragem e bravura, não se via nem um pouco daquela forma.
era uma guerreira. E , bem, apenas uma escritora.
— Uma escritora de muito sucesso — disse ao emergir. — Você precisa se dar mais crédito.
Ela terminou de tomar banho e saiu já indo para o quarto escolher uma roupa, afinal, ainda tinha um dia todo de trabalho pela frente. Passou uma maquiagem leve como sempre fazia, escolheu algo um pouco mais formal para vestir e depois saiu em disparada porque não queria chegar atrasada.
O dia em Oslo estava frio como sempre e essa era uma das coisas que a mulher mais amava sobre o lugar, todo aquele clima com neve era o que deixava as coisas tão lindas e reconfortantes — ao menos no seu posto de vida. Gastou exatamente trinta minutos até a editora e passou pela porta de entrar com a mesma pressa de sempre, mas cumprimentando cada um dos seus funcionários ali presentes.
poderia ter dúvidas sobre muitas coisas em sua vida, mas não sobre o que tinha escolhido seguir como carreira. Ser escritora e abrir uma editora sempre foi seu sonho, então sentia-se perfeitamente satisfeita em seu trabalho, mesmo que fosse um dia com muitas coisas para fazer ou que não estivesse se sentindo bem. Colocava o melhor sorriso que tinha no rosto e só o tirava de noite, quando já estivesse em sua cama prestes a dormir.
Assim que adentrou sua sala, seus olhos foram parar diretamente sobre a sua mesa, onde tinha um buque de orquídeas enorme. Olhou ao redor — como se estivesse procurando por alguém — e caminhou até lá, pegando-o para olhar mais de perto e respirou de forma profunda para poder sentir o cheiro agradável da flor, que era sua favorita.
— Não tem cartão... — Torceu o nariz ao analisar, enquanto tentava se perguntar quem poderia ter enviado aquilo.
Elas eram lindas e pareciam trazer algum tipo de dejavu para ela, mas não tinha tempo para ficar pensando naquilo.
! — A voz de Eillen reverberou na sala, fazendo com que a mulher virasse rapidamente. — Uau!
— É, são lindas — a mulher respondeu a amiga, ainda encantada com o buquê. — Você sabe quem deixou isso aqui?
— Com certeza algum admirador. — A melhor amiga riu de forma sugestiva, fazendo-a revirar os olhos. — Pera, deve ter um cartão.
riu fraco.
— Se tivesse, eu não estaria te perguntando quem deixou minhas flores preferidas aqui — respondeu em tom brincalhão.
— Ela está ríspida hoje... — Eillen comentou como se estivesse falando sério.
— Isso é estranho — disse, voltando para sua mesa e colocando o buquê sobre ela. — Você e meus pais são os únicos que sabem como eu amo orquídeas.
— Amiga, eu sei que você quer muito saber quem foi, mas nós temos muitas coisas importantes para resolver. Então vou pedir para alguém verificar isso, tudo bem? — sugeriu. — E eu preciso sair mais cedo hoje, porque tenho algumas coisas da pesquisa para revisar.
franziu o cenho primeiro, pensando como a amiga conseguia dar conta de tudo.
— O que eu faria sem você, Lenn? — perguntou de forma retórica.
— Provavelmente nada — a mulher respondeu dando de ombros.
— Engraçadinha. — foi para o outro lado da mesa, ainda com a atenção sobre as flores. — Bom, temos uma reunião em vinte minutos, pode me dar um momento sozinha?
— Claro, te vejo logo — Lenn disse e saiu da sala em seguida.
A mulher decidiu sentar-se em sua cadeira um pouco para que pudesse colocar algumas coisas no lugar, mas simplesmente não conseguia pensar em nada além daquele buquê diante dela. Não saberia dizer o que tinha de tão especial em algumas orquídeas, mas estranhamente elas estavam prendendo sua atenção de uma forma absurda, como se ela precisasse desesperadamente saber quem havia lhe enviado aquilo.
Estava sendo paranoica, sabia disso. Mas como não ser?
Riu de si mesma e voltou a pegá-lo nas mãos, repetindo a mesma respirada funda da primeira vez. Por um momento, sentiu sua visão ficar turva e até um pouco de cansaço, e pensou ser algo nas flores, ou apenas sua mente lhe pregando peças por estar tão obcecada com aquilo. Decidiu colocá-las em um vaso, por hora.
, esqueceu da reunião? — Era Eillen, mais uma vez.
olhou um pouco confusa, porque poderia jurar que tinham se passado apenas cinco minutos, mas ao olhar o relógio de pulso percebeu que já estava dez minutos atrasada.
— Meu deus... — disse, já se encaminhando para a saída. — Eu perdi completamente a noção da hora.
— Você está se sentindo bem? — a melhor amiga perguntou enquanto as duas caminhavam por entre os corredores até a sala de reunião.
— Sim... — mentiu, afinal, não queria preocupar a amiga.
A verdade é que estava sentindo-se estranhamente cansada e até um pouco sonolenta, mas sabia que poderia ser porque não havia dormindo muito bem na noite anterior devido à ansiedade. Então, resolveu espantar qualquer preocupação relacionada ao evento que só aconteceria amanhã e decidiu que iria se concentrar em sua reunião.
Isso era tudo que importava agora.


Asgard — Dias atuais.



Loki passou os olhos pelo lugar e tentou ao máximo esconder o sorriso em seu rosto, porque não queria deixar transparecer a verdadeira razão pela qual sentia-se tão feliz e completo depois de tantos anos. O palácio estava mais cheio do que ele jamais havia visto, Asgardianos caminhavam de um lado para o outro com sorrisos em seus rostos e vozes reverberavam pelo local devido à empolgação do povo.
Ele estava quase gostando disso, exceto, é claro, que sempre surgia aquela falta.
Do outro lado do salão, Odin se encarregava para que tudo saísse perfeito em um dia tão especial para sua amada. Era a primeira vez após dez anos que ela havia concordado em comemorar seu aniversário e ele não poderia estar mais feliz com isso, já que, depois da morte daquela que sempre foi como uma filha para eles, ela jamais havia sido a mesma e ele odiava-se todos os dias por tê-la feito passar por isso.
A única coisa que confortava seu coração era saber que estava salva em um lugar onde jamais poderia ser alcançada pelas sombras que a condenavam. Mesmo que isso custasse a felicidade de outros que ele também amava, o fato de saber que ela teria uma vida longa e plena já lhe bastava. Para ele, ser rei era isso, saber fazer escolhas difíceis que poderiam custar a felicidade de outros, inclusive de si mesmo.
— Pai? — A voz de Thor ecoou ao lado dele, tirando-o dos pensamentos mais profundos.
Odin se virou para encarar o filho.
— Sim, meu filho — respondeu abrindo um sorriso, não queria deixar transparecer que tinha algo de errado com ele.
Thor encarou o pai por alguns segundos, seu poder de ler as pessoas era sempre impecável e logo se deu conta de que algo incomodava Odin.
— Você parece preocupado. — Sorriu em cumplicidade.
O mais velho riu fraco com o comentário.
— Eu tenho um reino inteiro para governar, Thor — falou ao começar a caminhar, seguido do filho, que o acompanhava. — Viver preocupado é um dos muitos fardos que preciso carregar.
— Sim, claro — o mais novo afirmou. — Mas você parece preocupado de uma forma diferente.
— É a primeira vez que sua mãe aceita comemorar o aniversário dela em dez anos — explicou e parou, virando-se para encarar o filho. — Só quero ter certeza de que tudo sairá como planejado.
Odin não era muito bom em mentir, mas precisava convencer o filho de que nada estava errado, tanto o quanto ele vinha tentando fazer isso consigo desde a hora que havia acordado.
— Além do mais, preocupe-se com o que é sua obrigação — continuou, dessa vez com um pouco de autoridade. — Que é proteger Asgard, junto ao seu irmão.
Thor ficou em silêncio e seus olhos pararam em Loki, o que o fez revirar levemente os olhos.
— Sim, senhor — respondeu, voltando a olhar para seu pai. — Sempre protegerei.
Odin sorriu, já virando-se para se afastar, mas parou e encarou o filho.
— Eu estou contando com isso — afirmou e então saiu de lá, deixando Thor com uma estranha sensação de que ele parecia estar falando como se isso fosse acontecer em algum futuro muito próximo.
Do outro lado do castelo, Loki sabia que o que estava fazendo ia contra todas as regras impostas por seu pai, mas não era como se pudesse controlar o que seu coração sentia naquele momento. Já tinha esperado tempo demais para que pudesse reencontrar de verdade aquela que foi a única capaz de fazê-lo encontrar algo de bom em si mesmo, e ele sentia falta de conseguir enxergar-se dessa forma.
Ver o sorriso dela ao receber um presente, que para ele não era nada comparado ao que a mulher merecia de fato, fez seu coração apertar, mas ao mesmo tempo lhe deu a esperança de que um dia as coisas no futuro poderiam ser como ele havia imaginado por tanto tempo. Com os três andando por entre as dependências do castelo, comandando exércitos, lutando por Asgard e mais unidos do que jamais estiveram.

Loki sabia dos poderes de , mas provocá-la era particularmente divertido para ele e gostava de testar os limites da garota. A viu trocar de posição com a lança na mão e rodá-la lentamente enquanto parecia tentar ler cada movimento de seu oponente — que no caso era ele mesmo — e observou a precisão e calma dela em cada gesto que executava.
A garota nunca tinha pressa e isso o frustrava de uma certa forma.
— Você sabe que isso é golpe baixo. — A voz de Thor reverberou no salão em que eles se encontravam e Loki revirou os olhos.
Sabia exatamente do que o irmão estava falando.
— Ele não é nem louco — se manifestou, mostrando que tinha entendido o que o loiro dizia.
Thor riu fracamente e cruzou os braços, na esperança de ver o irmão ser derrotado.
A guerreira aproveitou o momento de distração do moreno e se movimentou de forma furtiva, rodando sua lança três vezes no ar ao mesmo tempo em que rodopiou, caindo do outro lado ao lado de seu oponente, com o objeto pontudo quase colado ao rosto dele enquanto ela o encarava. tinha certeza de que por essa ele não esperava e viu um sorriso se formar nos lábios do rapaz, que permaneceu imóvel.
O outro irmão não pôde conter a salva de palmas diante dos movimentos precisos dela enquanto sorria.
— Parece que você está ficando lento com o passar dos anos — provocou.
Ela o encarou fixamente e sentiu perder o equilíbrio, sentindo em seguida mãos agarrarem-lhe a cintura enquanto viu sua lança cair no chão.
— Como pode ver, eu estou mesmo aqui — Loki disse, encarando-a nos olhos.
Thor engoliu em seco ao encarar a cena, sentindo-se profundamente desconfortável com a proximidade dos dois e vendo seu irmão por um momento desviar o olhar até ele, mas depois voltar a olhar a garota como fazia antes.
— Não duvidei que estava — a garota rebateu, ainda nos braços dele.
— Ótimo — Loki disse e a puxou, deixando-a em uma posição que ela fosse capaz de equilibrar-se sozinha. — Porque eu nunca quebraria uma promessa feita a você.


Parado naquele salão, tomado por aquela lembrança, ele quase conseguia sentir suas mãos sobre o corpo da garota e como suas palavras saíram ao prometer a ela que jamais usaria seus poderes em sua presença. era importante para ele de uma forma quem nem mesmo ela tinha conhecimento, e nem por uma vez foi capaz de estar ao lado dela sem ser em sua verdadeira essência.


Noruega, Oslo — Dias Atuais.



A reunião havia sido muito melhor do que esperava. Tudo tinha corrido exatamente como planejado, mas ela ainda se sentia extremamente cansada e com a sensação de que iria botar tudo que tinha em seu estômago para fora a qualquer momento. Soube que ir para casa foi a melhor decisão que poderia ter tomado naquela tarde quando Eillen disse que cuidaria de tudo para o evento de amanhã.
A mulher respirou profundamente quando finalmente entrou em casa e livrou-se do frio congelante que estava do lado de fora, onde a neve caía incessantemente. Foi diretamente para o andar de cima, onde tomou um banho quente por pelo menos trinta e cinco minutos e depois jogou-se na cama já com seu notebook, abrindo no Word para que começasse a escrever seu próximo livro. Sentiu-se aliviada por estar melhor do que quando havia saído da empresa mais cedo.
Respirou fundo, tomou um gole de sua água e começou o que fazia de melhor: escrever.
O início do processo de escrita não foi nada difícil, afinal, já tinha escrito uma cena mais cedo quando teve um momento de epifania enquanto preparava seu banho antes de sair para trabalhar. Então logo se viu digitando e completamente inserida dentro daquelas linhas que só aumentavam diante de seus olhos.

“A morte chega para todos. Eu sempre soube disso, mesmo assim sentia um medo inexplicável todas as vezes que pensava em quando a minha chegaria e como seria deixar para trás todas as pessoas que eu amava e tanto me preocupava. Contudo, o privilégio de ser quase um ser imortal me dava a vantagem de não ter que me preocupar com isso.
O meu poder era conhecido e temido por muitos, e talvez isso tenha me dado ao longo dos meus cem anos de vida confiança o suficiente para não temer nada. Acredito que esse foi um dos maiores erros que cometi ao longo da minha jornada. Me achar imbatível tinha me custado muitas coisas as quais eu não me importei em perder ao longo do caminho, preocupada demais com o império que poderia construir.
E, de fato, eu havia construído um império.
Porém, quando se ergue algo assim às custas de sangue, suor e lágrimas e inocentes nada de bom é capaz de sair dali. E como era de se esperar, eu havia criado muitos demônios e agora eles estavam me caçando, da mesma forma que eu havia feito com eles em busca dos meus próprios ganhos.
Eu estava reconhecendo meus erros... a questão era: Será que eu estaria pronta para minha redenção? Ou, pior ainda, para a morte iminente?”


encarou o que havia escrito e sorriu satisfeita. Sem dúvidas aquela era uma das coisas mais profundas que já tinha colocado em seus livros desde que havia iniciado a saga e a conexão que sentia com aquela personagem era quase tangível, como se ela e fossem a mesma pessoa. Exceto, é claro, que a garota descrita em seus livros era uma guerreira, dona de um império e poderes inimagináveis, enquanto era apenas uma escritora.
Escreveu mais algumas linhas e se deu por vencida quando seus olhos começaram a fechar involuntariamente, dando a ela o sinal de que o cansaço era evidente e forçando-a a aceitar que precisava descansar depois do dia cansativo que havia tido. Ela apenas fechou o notebook e o colocou de lado — já que não tinha nem forças para sair de onde estava — e virou-se, já desligando o abajur, caindo rapidamente no sono após deitar a cabeça no travesseiro.
Sentiu os olhos pesarem no meio da madrugada e a boca seca e praguejou-se por ter tomado toda a água que tinha no quarto. Levantou bufando da cama para ir em direção à cozinha, praticamente arrastando-se pelos cômodos que passava até chegar lá. Nunca foi fã de ter que sair da cama no meio da noite, mas mal conseguia engolir a própria saliva de tão seca que sua boca estava e a sensação era horrível, então pior do que ter que ir pegar algo para beber, era ficar se sentindo daquela forma até que caísse no sono mais uma vez.
Por um momento, sentiu uma estranha vontade de tomar chá, como se algo a fizesse ter uma pequena lembrança de qual era a sensação, caminhou até o armário onde sabia que eles ficavam e escolheu um de sabor hortelã. Estranhamente, enquanto pegava todas as coisas que precisava para fazer a bebida quente e tomava um copo de água — só para aliviar a secura da boca —, teve a sensação de estar sendo observada.
não era paranoica, longe disso. Sabia muito bem que Oslo era um dos lugares mais seguros que poderia viver, mas especialmente naquele momento tinha a sensação como se alguém estivesse ali tomando nota de cada passo dela sem que ela fosse capaz de vê-lo ou senti-lo por completo.
— Você só está com sono, — disse a si mesma, enquanto ligava o fogo.
A mulher passou a mão no rosto, deixando que um bocejo escapasse por entre os lábios, virou-se na direção da porta que dava para a sala de estar e, de forma embaçada, viu a estrutura de homem tomar forma conforme sua visão melhorava. Ela não teve reação alguma de correr, desesperar-se ou qualquer coisa normal que alguém faria se visse um estranho em sua cozinha no meio da madrugada.
Ela apenas permaneceu estática, encarando. Talvez porque, para ela, o homem encostado ao batente não era bem um estranho.
— Ainda é exatamente como eu me lembrava — o homem disse ainda imóvel e parado na entrada da cozinha.
o encarou por alguns instantes, tomando nota não só do que ele havia dito, mas também de cada detalhe nele. O terno preto, os cabelos tão escuros quanto sua roupa, o sorriso leve que se encontrava em seu rosto e, claro, a pele tão branca como nenhuma outra que ela já havia visto.
E naquele fragmento de segundos em que se encaravam, ela o reconheceu.
Porém reconhecê-lo lhe dava um atestado de loucura.
— Isso não pode ser real — disse finalmente, enquanto tocava-se para ter certeza de que estava mesmo acordada.
O homem riu fracamente.
Ela conhecia muito bem aquela risada, afinal, era responsável por dar vida a ela.
— Por que não? — indagou.
engoliu em seco e fechou os olhos, imaginando que, se os abrisse, acordaria em sua cama. Porém, não foi isso que aconteceu.
— Porque você é um personagem do meu livro — respondeu nervosa.

Capítulo 2

Oslo, Noruega — Dias Atuais.


encarou o estranho — ou não exatamente isso — diante dela ainda tentando compreender o que acontecia ali. Nem nos seus sonhos mais insanos achou que seria possível que aquilo estivesse mesmo acontecendo e em meio a uma risada nasalada, ela levou as mãos até os olhos, coçando-os, na convicção de que acordaria em sua cama segundos depois. O homem que a encarava, no entanto, deixou um sorriso ladino formar-se em seus lábios conforme acompanhava as reações da mulher, achando um tanto quanto engraçado. Usualmente ele teria feito algum comentário irônico ou alguma piada sem graça, mas o tempo que tinha ali era escasso e ele já havia o usado mais do que poderia, por isso, manteve-se apenas encarando-a. Sentiu o ar lhe faltar quando os olhos dela encontraram os seus e só então permitiu-se observá-la de forma mais precisa. O olhar dele correu daqueles olhos cheios de mistérios para a boca dela, permaneceu ali por alguns instantes, e então continuou fazendo seu percurso até chegar ao corpo de e dar-se conta de que ela se encontrava apenas de camisola.
Como se despertasse de uma espécie de transe, ele voltou a erguer seus olhos com um sobressalto que seu corpo deu e deixou escapar um muxoxo de seus lábios, totalmente frustrado com o que havia sentido ao vê-la daquela forma. A dona da casa ainda permanecia em silêncio, com os olhos tão fixos a ele que, se fosse possível, o teria queimado com tal ato. Então, ignorando qualquer autocontrole, Loki aproximou-se da mulher que permanecia encarando-o enquanto sua mente gritava que tinha um estranho em sua cozinha, mas não se moveu nem um centímetro. Porque, lá no fundo, sabia que o conhecia, e não só isso, também podia confiar nele. Manteve-se daquela forma e então sentiu um formigamento em sua pele quando a mão do homem tocou sua bochecha. Ele franziu o cenho com aquilo e fechou as pálpebras, ao passo que cerrou o maxilar, tamanha era a sensação que estar ali fazendo aquilo lhe causava.
Sua vontade era de poder contar a ela por que realmente estava em sua casa, mas não seria nem louco — ou talvez até seria — de fazer aquilo, porque protegê-la era tudo que importava. Então com a mesma rapidez que se aproximou, ele afastou-se da mulher que o encarava sem sequer piscar.
abriu a boca para dizer algo, e quando se deu o direito de fazer com que seus olhos se fechassem por uma fração de segundos e voltou a abri-los, se viu completamente só em sua cozinha.

A mulher acordou em um sobressalto na cama e sentiu o coração bater tão forte que achou que o órgão sairia de seu peito. Sua respiração estava descompassada, a pele molhada em suor e seu corpo tão cansado que parecia ter lutado com alguém a noite inteira. Piscou algumas vezes, tentando se recobrar de onde estava, então, gradualmente, conforme olhava à sua volta, constatou que o espaço era seu quarto. Riu daquilo, achando um tanto quanto sem sentido que estivesse se sentindo tão perdida ao acordar e levou as mãos até os cabelos. Estranhamente eles estavam pingando com o suor e aquilo a fez franzir o cenho em ainda mais confusão do que já estava. O sonho que havia tido pouco antes de acordar de forma tão incomum havia sido um tanto quanto bagunçado e confuso, mas aquilo não era motivo para que estivesse daquele jeito.
Um banho. Foi o que correu os pensamentos dela conforme empurrou as cobertas pesadas e começou a caminhar em direção ao banheiro. Onde logo abriu a torneira para que enchesse a banheira e depois foi em direção ao espelho. Suas pupilas estavam dilatadas, as bochechas vermelhas e por um momento levou um tempo para reconhecer a si mesma, como se, de alguma forma, fosse alguém completamente diferente do que conhecia. Correu os dedos levemente pelos lábios, olhos... maxilar, cabelos. Aquilo só podia ser algum delírio de sua mente, por isso, logo correu até a torneira, fechando-a, e livrou-se das roupas.
A água quente a ajudaria a colocar as ideias no lugar.
Estremeceu levemente ao sentir a temperatura alta bater contra sua pele, mas não se importou nem um pouco e entrou de uma só vez, sentando-se na banheira e deixou um suspiro de alívio escapar dos seus lábios. Não tinha se dado nem o trabalho de olhar o relógio para saber que horas eram, mas só de direcionar os olhos até a janela e ver como estava escuro, imaginou que ainda era madrugada e deixou-se relaxar. Como sempre fazia naqueles momentos, fechou as pálpebras e submergiu na água.
tentou abrir os olhos e sair de onde estava, mas estranhamente foi transportada para um lugar em que não foi preciso que o fizesse. A floresta à sua volta parecia familiar de alguma forma, mas não conseguiu se lembrar quando a tinha visitado, as roupas pesadas em seu corpo fizeram com que olhasse para baixo e pulou em sobressalto ao ver todo aquele tecido de couro preto contra seu corpo e seus olhos arregalaram-se ao sentir algo duro contra suas mãos.
Uma lança? Questionou ao olhar o objeto e o aproximou para que pudesse analisá-lo de alguma forma. Como uma escritora poderia portar aquilo? O que estava fazendo em uma floresta? Que roupas eram aquelas? Por que não sentia frio? Os questionamentos eram muitos e ao mesmo tempo que parecia ter a resposta na ponta da língua, elas também se esvaíam com muita facilidade. Sentiu o coração bater mais forte, e, apesar da hesitação — e medo —, deu alguns passos por entre as enormes árvores que a cercavam e projetou o corpo em modo de defesa.
Ataque. não era alguém que sabia lutar, então, por que raios se encontrava naquele posição? Parecia que nada daquilo importava, pois continuou seguindo seu caminho como se soubesse exatamente para onde ir. E após andar alguns metros, avistou um enorme castelo em cores douradas. Finalmente estava em casa.
. .
Escutou a voz chamar seu nome. Uma que conhecia, mas por alguma razão não conseguiu dar nome a ela.
Eu sabia que voltaria para nós. Venha até mim.
Sentiu um arrepio correr sua espinha. Medo e perigo a envolverem. Não deveria estar ali, aquela não era sua casa.
! — gritou ao emergir e ver-se sentada em sua banheira, com água espalhada por todo banheiro. A temperatura ali parecia estranhamente muito elevada e por um momento pensou em sair de onde estava, porém, de uma maneira estranha, não lhe causava qualquer resquício de dor.
A mesma sensação na espinha que tinha sentido com aquele episódio — que não saberia dizer se foi um sonho porque tinha dormido no banho — apareceu de novo, quando seus olhos foram em direção à janela e viu que o sol já raiava.
— O-q-uê — gaguejou baixinho, sentindo-se completamente perdida. — Você só perdeu a noção do tempo, — disse para convencer a si mesma, e então saiu daquela banheira e puxou uma toalha para que pudesse seguir para o quarto. Vestiu o primeiro pijama confortável que encontrou em sua gaveta e então ponderou que talvez tomar algo quente lhe ajudaria.
Um chá. E aquele pensamento lhe fez morder a parte interna da boca, ao lembrar-se do homem em sua cozinha. Aquele com quem havia supostamente — só poderia ser isso, ou deveria ter corrido — sonhado. O personagem de seu livro.
E, mais uma vez, , acordou suada em sua cama e em completa confusão mental.


Reino de Asgard — Antes do sombrio.




Kara caminhava vagarosamente como se não tivesse preocupações, apesar de ter algumas que assolavam sua mente naquele momento, contudo, tinha acordado decidida a focar nos treinos e — infelizmente — no baile que aconteceria aquela noite. Passou seu olhar através do reino, cumprimentando algumas pessoas conforme ia até o lugar que era de seu interesse e pegou-se pensando o quanto gostava dali. Apesar de saber que não era uma asgardiana de sangue, Asgard havia se tornado seu lar, e acreditava que não poderia ter nenhum melhor que pudesse nomear daquela forma. Era plenamente feliz ali. Tinha uma família que amava, e bem... duas pessoas muito especiais, com quem adorava dividir a maior parte dos seus dias.
Empurrou a porta pesada do salão sem dificuldade alguma e sorriu ao encontrá-lo completamente vazio. Não é que não gostasse que tivessem pessoas ali, mas suas habilidades de socializar eram um tanto quanto limitadas, principalmente quando se tratava de treinar seus movimentos e estratégias para batalhas. Precisava de total concentração naqueles momentos, não era do tipo que gostava de plateia. E, por razões óbvias, aquele pensamento se direcionou aos irmãos asgardianos que adoravam se exibir, mas que também eram uma ótima companhia naquela situação.
Sentiu um arrepio bem de leve e aquilo fez com que respirasse fundo, precisava de concentração. Então ignorando qualquer coisa que pudesse continuar distraindo-a, sacou a lança que se encontrava sempre no mesmo lugar, apoiada próxima a outros aparatos de luta e preparou-se para que começasse o que tinha ido fazer ali. Ficou em posição de ataque, flexionando os joelhos e curvando-se de uma forma que seu tronco ficou um pouco mais para frente e os glúteos levemente empinados para trás. Fechou os olhos, como sempre fazia, para que pudesse sentir as coisas à sua volta sem que precisasse vê-las e rodopiou o objeto em suas mãos. Uma, duas, três... até que já não tinha mais consciência de quantas vezes havia feito, tudo o que conseguia se dar conta era de que o movimento havia sido preciso e seus pés se moviam estrategicamente, percorrendo um caminho que ela soube estar mais próxima de uma das janelas grande da sala.
Ainda de olhos fechados, tombou a cabeça para o lado, ponderando se estava do lado certo — ou iria atravessar o vidro e cair do lado de fora —, pois não queria causar uma bagunça como já havia acontecido uma vez. Tendo certeza do que fazia, a garota projetou-se para frente, jogando o bastão na mesma direção e rodopiou, sentindo seu corpo fazer aquele movimento giratório ao menos três vezes no ar. Caiu exatamente como havia planejado, segurando a lança com ela apontada para algum alvo, mas uma respiração que não era a sua a fez abrir os olhos de imediato.
— Loki — soprou baixo, ao ver que o rapaz de olhos negros a encarava, com um leve sorriso de canto estampado nos lábios. — Eu poderia ter machucado você bem feio, sabe disso, né? — indagou, então retesou o objeto para longe dele e endireitou-se.
— Mas não o fez — disse convicto, com os olhos ainda fixos a ela. — Você é muito bem treinada, . Não cometeria um erro assim. — Ele abriu um sorriso mais largo ao falar aquilo e ela o viu levar os braços para trás do corpo, como sempre fazia, caminhando de forma vagarosa à sua volta. — Além disso, sei que pode sentir minha presença. — Sentiu um bafo quente contra sua orelha e pôde notar a presença do asgardiano atrás de si.
Ela podia mesmo, mas jamais havia dito aquilo a ele.
— Como você… — começou a dizer o que cruzava seus pensamentos, mas parou ao senti-lo ainda mais perto.
— Eu sei de muitas coisas, — respondeu firme, então percebeu um afastamento da parte dele, algo que a fez soltar um muxoxo quase involuntário. Virou-se para que pudesse encará-lo. Loki mantinha uma expressão neutra como sempre, mas que continha um fundo daquele jeito ousado dele que ela tanto gostava, por mais que nunca fosse admitir. — Parece que algo lhe incomoda — fez a observação, que gerou nela um leve franzir de cenho.
— Sabe mesmo, mas não me conta muitas delas — soltou, com um certo rancor na voz, mesmo que não fosse aquela a intenção. — Só esse baile, preferia estar em alguma batalha. — Deu de ombros, na tentativa de não levar aquele assunto adiante.
Loki então aproximou-se da garota, ficando com o corpo a poucos centímetros.
— Você pode esconder o quanto quiser — soprou baixo, com os olhos fixos aos da guerreira. — Mas eu sempre sei quando tem algo errado. Então, saiba que estarei aqui quando quiser contar.
Ela abriu a boca para responder, mas desistiu ao escutar a porta do salão ser aberta, desviando sua atenção para lá. Os olhos de Thor recaíram sobre os dois no instante que os notou ali e ela correspondeu ao olhar, abrindo um sorriso e o acompanhou até que estivesse mais perto.
— Acho que esqueceu do que combinamos ontem de noite — Thor disse calmamente, fazendo com que Loki franzisse o cenho. — Quando fui ao seu quarto — completou, fazendo com que as bochechas de corassem na hora.
— Eu mudei de ideia. — Deu de ombros. — Sabe que gosto de treinar sozinha, mas espero que seu machucado esteja melhor. — Afastou-se dos dois, de uma forma que pudesse encará-los ao mesmo tempo. — Odin não vai gostar de saber que andou nas florestas proibidas de noite, Thor.
— Muito menos de saber que depois disso foi ao quarto da — Loki se intrometeu, falando aquilo entredentes, sem se preocupar se transparecia que a ideia lhe incomodava.
A guerreira riu de forma exasperada, acompanhando uma risadinha do loiro, que encarava o moreno.
— Eu te convido da próxima vez, irmão — respondeu ironicamente e viu o outro lhe fuzilar com os olhos cerrados.
A garota revirou os olhos e caminhou até onde antes estava sua lança e colocou-a no lugar, já sabendo que sua concentração para retornar aos treinos tinha ido embora de vez, sendo acompanhada pelos dois irmãos. E, de qualquer forma, o sol estava se pondo, e isso significava que precisava ver os últimos detalhes do baile, sendo acompanhada pelo olhar dos irmãos.
— Os meninos eu não sei — começou a dizer, conforme caminhava até a porta para sair dali —, mas eu tenho um monte de coisas para fazer até a hora do baile — disse, fazendo menção de sair, mas ficou parada na saída.
— Podemos ir juntos! — os dois disseram em uníssono, fazendo com que a garota abrisse um sorriso largo e eles se entreolharam.
— Bom — disse calmamente, ainda sorrindo. — Como tenho dois braços, posso ter um de cada lado. — Lançou uma piscadela para eles, e então saiu do ambiente. Deixando-os completamente afetados com aquilo.


Kara encarou seu reflexo no espelho e tombou um pouco a cabeça, fazendo uma expressão de confusão. Ver a si mesma em um vestido era algo bastante incomum, por isso, além de sentir-se desconfortável, também existia aquele sentimento de que não era ela mesma. Bufou de um jeito frustrado, porque odiava aquelas festas asgardianas, mas decepcionar Odin era a última coisa que queria fazer e o homem estava tão animado com aquilo que o esforço valeria a pena. Ao menos era o que gostava de acreditar, na tentativa de tornar tudo um pouco menos difícil.
Após ajeitar seu cabelo pela milésima vez, saiu dos aposentos, caminhando por entre os enormes corredores e seguiu em direção ao enorme salão onde a celebração aconteceria.
Ao atravessar a enorme porta de entrada, seus olhos recaíram nos dois irmãos que pareciam esperar por ela. Abriu o melhor sorriso que conseguiu, mas antes de aproximar-se, fez uma reverência para eles. Ambos corresponderam ao gesto e aquela foi sua deixa para que se aproximasse, tomando nota do quanto estavam bonitos em suas roupas formais. Considerando aquilo, até que estava começando a gostar da ideia do rei.
— Meninos — disse sorridente, conforme passou os olhos um pouco pelo lugar para então voltar a encará-los. — Quem vai ser o primeiro a me conceder a honra de uma dança? — Arqueou uma de suas sobrancelhas, de um jeito quase sugestivo.
— Acho que eu diria o Loki — Odin respondeu, interrompendo a conversa e fazendo com que os três direcionassem os olhares a ele. — Preciso que o Thor venha comigo.
O loiro assentiu, mas antes de sair, virou-se para a garota.
— Guarda uma dança para mim — pediu, depositando um beijo no rosto dela e então acompanhou o mais velho.
— Nunca fiquei tão feliz por não ter sido chamado — Loki se manifestou, trazendo a atenção de para si, que sorria. — Me concede essa dança, então? — Estendeu a mão para ela, que pegou sem hesitar.
A garota limitou-se a ficar em silêncio e levou a mão que estava livre até os ombros do rapaz. Ele segurou a mão dela com firmeza e levou a outra até a cintura dela, que o encarava a todo instante, tomando nota de seus gestos. Outras pessoas dançavam a volta deles também, o que tornava aquilo mais normal para ambos e logo começaram a movimentar-se, dando passos em perfeita sincronia conforme o ritmo da música lenta que tocava no ambiente. Já fazia algum tempo que não tinham um contato como aquele, e ali, ambos estavam compartilhando de uma ansiedade que nenhum deles sabia explicar muito bem o que significava, mas a sensação era prazerosa e parecia se intensificar cada vez que se olhavam.
— Como estão os treinos? — perguntou baixinho, conforme movia-se com ele pelo salão.
— Você saberia se também me convidasse para eles — o rapaz respondeu calmamente, com um sorrisinho.
— A sua versão ciumenta não é das melhores, Loki — retrucou, rindo levemente, o que arrancou um riso dele. Porque aquilo não era bem verdade, até achava engraçado ver como ele reagia à sua proximidade com Thor. — Não que eu deva te dizer isso. Mas apenas o ajudei com um ferimento ontem, a ideia do treino foi dele — explicou-se, dando de ombros e foi puxada por ele.
Sem que ela esperasse, o rapaz a rodeou de uma forma que seus braços foram esticados, afastando-a dele, mas ainda conseguia segurar sua mão. Então a puxou com força o suficiente para seus corpos se colarem e seus rostos ficarem bem próximos, e ele a inclinou de um jeito que foi preciso segurá-la com firmeza pela cintura.
— Você parece entediada, — soprou baixo, sem se importar se alguém os olhava. — Como posso te ajudar com isso?
— Você sabe mesmo tudo sobre mim — respondeu prontamente, com os olhos fixos aos dele. — Pode começar me levando para um lugar em que eu não me sinta.
Pronto para atender ao seu pedido, Loki a impulsionou para que ambos voltassem à posição em que estavam inicialmente e a puxou pela mão, passando por entre as pessoas que pareciam se divertir conforme dançavam. Ela se viu ser puxada por ele conforme passou os olhos à sua volta, se perguntando se alguém estava reparando no que acontecia ali, dois jovens praticamente fugindo do baile dado pelo próprio rei. Riu um pouco com aquele pensamento e sentiu o coração acelerar quando atravessaram a enorme porta, adentrando o corredor gigantesco. Ele, obviamente, não se importou nem um pouco com tudo aquilo que atormentava a cabeça dela e continuou puxando-a.
Passaram por alguns guardas que pareceram não se importar muito com os dois e seguiram até a entrada principal, fazendo a garota concluir que ele a levaria para o lado de fora do castelo. Seu coração bateu em expectativa e ela sentiu até o ar mudar quando chegaram de fato à parte de fora, sendo tomada pela brisa leve do vento batendo contra sua pele. O moreno virou para olhá-la de soslaio rapidamente, então continuou puxando-a. Passaram por uma floresta, então ele reduziu a velocidade com que andava e de repente entrou em uma espécie de caverna, fazendo com que uma parte da garota ficasse em alerta, mas os olhos de se acenderam quando um lago com uma água de um azul que jamais havia visto antes apareceu em seu campo de visão.
— Como você encontrou isso? — questionou, conforme soltou a mão dele e caminhou vagarosamente, tentando tomar nota do espaço.
Era como se estivessem dentro de uma pedra gigante. Da água parecia raiar uma espécie de luz e era possível ver exatamente o fundo do que parecia ser um pequeno lago e ela sentiu uma certa vontade entrar ali.
— Você sabe que tenho meus métodos — falou de uma forma convencida conforme observava o olhar encantado de .
— Só me pergunto se eles são os mais corretos — disse e caminhou para perto da água, abaixando-se para que pudesse tocá-la. — É uma das coisas mais lindas que eu já vi.
Ele sorriu ao ouvir aquilo, porque a ideia era exatamente aquela. Vê-la encantada com a beleza daquilo, que ele acreditava lá no fundo que se tornaria um segredo entre eles. Um lugar que só os dois pudessem compartilhar. E antes de dizer algo, aproximou-se dela.
— Se não forem, você vai embora? — questionou, quase dando um duplo sentido àquela pergunta. — Exatamente como você — disse em resposta ao que ela havia dito por último.
ergueu o olhar em direção ao rapaz, com um sorriso estampado e levantou-se para que ficassem frente a frente.
— Você sabe a resposta, mas parece que sempre precisa me ouvir dizer — falou calma conforme seus olhos se fixaram aos dele. — Não, eu não vou — sua voz dessa vez saiu mais firme e seus olhos por uma fração de segundos foram até a água límpida para então voltar a atenção a ele. — Eu adoraria poder nadar aqui.
— Eu preciso, Kara — o rapaz respondeu, levando uma de suas mãos até o rosto da garota e levou uma mecha teimosa que caía sobre os olhos dela para trás da orelha. — Você pode, não tem nada te impedindo. — Deu de ombros, como se fosse algo extremamente simples. Fazendo com que os olhos dela se arregalassem um pouco diante daquilo. — Eu não vou ficar olhando, pode tirar o vestido.
De forma rápida, afastou-se, ficando de costas para que pudesse dar privacidade a ela. permaneceu encarando-o de costas, ponderando se aquilo era uma boa ideia, sabia que podia confiar em Loki porque ele jamais viraria ou tentaria espiá-la de alguma forma e estava realmente tentada a entrar na água. Respirou fundo, buscando a coragem que sabia existir dentro de si, e levou as mãos até as alças do vestido, empurrando-as pelos ombros e deixando que o tecido caísse sobre seus pés, ficando apenas de roupas íntimas. Então virou-se e mergulhou na água de uma só vez, fazendo com que o rapaz virasse para que pudesse vê-la e um sorriso formou-se em seus lábios quando a viu emergir.
Seus cabelos estavam para trás bem molhados e os olhos dela pareciam iluminados.
— Obrigada — ela disse, antes que ele pudesse falar algo. O que não foi um problema, pois estava entorpecido demais pela beleza dela.
— Você não deveria ter que me agradecer por isso — falou calmamente, voltando a se aproximar da borda. — Mas, claro, sempre que precisar. — Abriu um sorriso, que foi correspondido pela mulher.
submergiu, nadando naquela água que a deixava ainda mais encantadora e Loki a acompanhou com o olhar. Soube no momento em que tinha encontrado o lugar que ela gostaria, e vê-la daquela forma, tão feliz, o deixava verdadeiramente satisfeito. A viu sair parcialmente da água de novo, e continuou sorrindo.
— Você não vai entrar? — questionou, encarando-o. — Eu não vou ficar olhando, pode tirar a roupa — disse, virando-se antes que recebesse alguma resposta, arrancado dele um risinho.
Ao contrário dela, ele não hesitou em momento algum e retirou as roupas, pulando na água logo em seguida. Loki nadou rapidamente até a garota, emergindo na água bem atrás dela, que virou-se tomando um susto.
— Não tem graça — disse, conforme empurrou-o levemente pelo ombro, rindo levemente junto a ele.
— Minha intenção não foi te assustar — falou, com os olhos fixos nos dela. — Se sentindo menos entediada, agora?
— Sim — respondeu baixinho, porque a forma como ele encarava a intimidava em alguns momentos. E aquele era um deles.
— Então já pode me dizer o que há de errado — sua voz era firme, mas o olhar sobre ela não condizia com o jeito de falar. — Me refiro ao que disse mais cedo, o algo que te incomoda — explicou, ao ver a expressão confusa da garota.
o encarou por alguns instantes, ponderando se deveria compartilhar o que se passava dentro dela com ele. Confiava em Loki, então por que toda aquela apreensão?
— Pode confiar em mim, sempre — Loki disse, quase como se pudesse ler os pensamentos dela. — Seja lá o que for, vamos dar um jeito. — Deu de ombros, demonstrando uma despreocupação que a fez soltar um risinho.
— Precisa me prometer algo antes — finalmente se manifestou, aproximando-se um pouco do rapaz de cabelos negros, que se limitou às palavras e apenas assentiu positivamente. — Esse lugar será nosso. E tudo que acontecer ou for dito dentro dele, nunca sairá daqui. — As palavras dela eram muito calmas e ele sentiu o coração disparar com aquela proposta, ficando ainda mais próximo, quase que involuntariamente.
— Segredo, então — afirmou, com uma expressão brincalhona no olhar, mas logo a desfez para provar que falava sério.
— Eu não tenho conseguido dormir — falou baixinho, como se de alguma forma sentisse vergonha daquilo e seus olhos passearam pela caverna. Preferia olhar qualquer ponto que não fosse ele. — Meus sonhos parecem vívidos. E são coisas horríveis… — Fechou os olhos por alguns instantes, de forma que conseguia ver tudo aquilo passar rapidamente diante de seus olhos, e deu um pulo, voltando a abri-los e encontrando Loki a encarando. — Eu machuco as pessoas. Usando um poder que eu nem sequer sei que existe dentro de mim. Sinto uma escuridão terrível.
— Fecha os olhos — o rapaz pediu firme, mas mantendo o mesmo tom de voz de sempre. estreitou os olhos diante daquilo e permaneceu olhando para ele, que se aproximou ainda mais. — Você confia em mim? — perguntou, recebendo uma resposta imediata com aceno de cabeça positivo por parte dela, que os fechou.
Em um movimento lento, ele passou uma mão através da cintura da garota — que estremeceu com aquilo, um tanto quanto surpresa — e a puxou de forma lenta na água. Ele a encarava atentamente, com os olhos fechados, a boca que tremia levemente e os cabelos molhados que agora já caíam para frente, dando um ar ainda melhor ao rosto dela.
— Me diz o que você sente, — pediu calmamente, fazendo com que ela sentisse o bafo quente que saía de sua boca.
— Eu sinto a temperatura da água passando pelo meu corpo — respondeu, respirando fundo como se quisesse sentir cada odor presente no ambiente. — E o cheiro refrescante que ela exala.
— E o que mais? — questionou, enquanto ainda a segurava e levou a outra mão até a cintura da garota.
— A natureza passando por nós... a energia que ela é capaz de produzir. — Os olhos dela tremeram levemente, como se fosse abri-los, mas não o fez.
Ele abriu a boca para responder, mas parou quando um tremor forte percorreu o corpo dela, fazendo com que Loki a segurasse com ainda mais firmeza, puxando-a para tão perto que ela teve que entrelaçar as pernas na cintura dele.
— E agora? — continuou, com a mesma voz calma de sempre.
— Eu sinto você — respondeu firme, então abriu os olhos, encontrando o olhar negro dele, que a estudava calmamente. — Algo que não sei explicar o que é. Mas tem luz, nada de escuridão.
— Ah, — Loki soprou baixo, com a voz levemente afetada e apertou-a ainda mais contra sim. — Mesmo que tivesse, você ainda me sentiria.
A garota abriu a boca para responder, mas um barulho que pareceu ser os passos de alguém fez com que despertasse do que acontecia ali e desvencilhou-se dele, afastando-se rapidamente.
— Precisamos voltar para a festa — falou, já de costas. Ele encarou aquela atitude, mas não disse nada, como sempre.
— Claro — concordou, então saiu da água.
acabou virando na direção de Loki, mas logo olhou para o lado oposto.
Ela estava mentindo. Sabia exatamente o que sentia, mas admitir poderia levá-la a lugares desconhecidos, e, por isso, preferia sempre voltar atrás.
Esperou que ele colocasse a roupa para então virar-se e sair da água, já se vestindo rapidamente. Não sabia ao certo por que estavam fazendo aquilo, já que a água era tão límpida que foi possível ver o corpo um do outro, além de que tinham ficado mais próximos do que qualquer coisa. E sem falar absolutamente nada, retomaram o caminho para voltarem ao castelo, mais especificamente para o baile.


Oslo, Noruega — Dias Atuais.


atravessou a porta do prédio desejando que o dia passasse com a mesma velocidade que havia acontecido com a sua noite, em uma lentidão quase torturante, pois tinha incontáveis coisas para fazer antes do evento. Acenou para algumas pessoas — como sempre fazia — e pôde perceber os olhares confusos por vê-la de óculos escuros naquele ambiente fechado. Ela também estava achando aquilo incomum, mas de um jeito estranho, como tudo vinha sendo desde a noite anterior, seus olhos estavam mais sensíveis que o normal e a ideia de que poderia cair no sono lhe assustava.
Parecia não ter certeza de qual era a realidade.
Jogou suas coisas sobre a mesa e sentou-se em sua cadeira determinada a focar somente em trabalho, afinal naquilo era realmente boa. Puxou o primeiro manuscrito que precisava revisar e ativou o som para que uma música baixa e calma tocasse no ambiente, pois aquilo sempre lhe ajudava de algum jeito. Começou lendo, uma, duas, três...algumas páginas, mas sua atenção parecia ser desviada a todo momento por sons que ela antes jurava nunca ter escutado. Era como se pudesse ouvir as pessoas falando ao longe, passos batendo no concreto, respirações de desconhecidos e…
— O que… — Abriu a boca para falar, mas seus olhos foram desviados até o vaso com orquídeas em sua mesa. As pétalas balançavam levemente, apesar de não ter vento algum, e ela teve a sensação, por um momento, de que conseguia escutar o barulho delas quando aquilo acontecia. Então, aproximou-se um pouco mais, tocando-as de uma forma delicada e foi como se um choque percorresse sua mão, fazendo com que a afastasse de forma brusca.
Sua atenção só foi desviada daquela flor, pois seu celular começou a tocar de forma quase ensurdecedora em sua sala.
— Sim? — respondeu, ao perceber que não tinha checado quem ligava. De repente, pareceu voltar a ouvir tudo como era antes.
! — a voz de Eileen soou estranhamente preocupante do outro lado da linha.
— O que aconteceu? — perguntou prontamente conforme levantou-se da cadeira, já preparando-se para sair dali.
— Eu encontrei — a mulher respondeu, porém a ligação estava falha.
— O quê? — indagou, com uma expressão confusa. — Do que você está falando?
— Eu achei a passagem para outros… — Não terminou o que iria dizer, pois a ligação foi encerrada no meio da sentença.
— Eileen? — a escritora chamou pela amiga, porém não obteve resposta.
O evento de coisas que vieram a seguir fez a cabeça de quase explodir. Sua secretária entrou na sala como sempre fazia, porém logo um homem adentrou o ambiente, fazendo com que a mulher franzisse o cenho em confusão.
— Desculpa, ele não me deixou anunciá-lo — a secretária disse de forma nervosa.
piscou algumas vezes, então reparou nas roupas daquele estranho — mas nem tanto assim — diante dela. Ele usava roupas pretas com tons verdes, os cabelos pretos puxados para trás... e, bem, eram exatamente as vestes que ela havia desenhado algumas semanas antes junto de sua equipe para a capa de seu próximo livro. Ele era seu personagem encarnado.
— Não temos tempo para isso — o homem se manifestou, dando um passo à frente.
A escritora permanecia em silêncio, porque encontrava-se em estado de choque. Piscou mais algumas vezes e viu o homem fazer sinal para que Angela, sua secretária, saísse, que a obedeceu de imediato. Tudo parecia rodar à sua volta, a cabeça doía e seu estômago lhe avisava que colocaria tudo para fora se ela não voltasse ao normal.
, olha para mim — ele disse, agora bem na frente dela, que apenas elevou o olhar. — Você precisa vir comigo — falou, pegando-a pela mão.
Tudo rodou ainda mais à sua volta.
.
— O que você disse? — foi a única coisa que conseguiu perguntar, antes que tudo ficasse preto.


Capítulo 3

Oslo, Noruega — Dias atuais.


A dor lambendo seu corpo era insuportável e seus olhos estavam pesados como rocha. Tentou se mover e sentiu mãos apertarem seu corpo, fazendo-a entrar em alerta. Onde se encontrava relativamente deitada não era estável e não se parecia em nada com uma cama, mas achou, ainda assim, agradável. Fez um esforço descomunal para abrir os olhos, mas eles pareciam simplesmente não querer responder aos seus comandos.
Os forçou um pouco mais e deixou a respiração sair ruidosamente. O nó em sua garganta se fazia presente e ela queria desesperadamente desabar ali mesmo, chorar feito uma criança, para entender, de fato, o que estava acontecendo. Sua vida tinha se tornado uma bagunça, ela não sabia mais distinguir realidade de sonho.
se encontrava a ponto de enlouquecer.
Passos a colocaram em alerta, mais uma vez, e ela percebeu estar em movimento. De repente rápido demais. Então se deu conta de algo, alguém a carregava nos braços e o desespero que antes pairava seu peito só aumentou. Contudo, sentia-se confortável ali, como se nada no mundo fosse capaz de feri-la, simplesmente porque aquela pessoa jamais deixaria acontecer.
Suas pálpebras finalmente cederam e conseguiu abri-las, encontrando, então, o homem que havia visto em sua casa. O mesmo cara que apareceu em sua fala e a fez perder a consciência, mas a mulher ainda não tinha se dado conta daquilo, porque de repente se perdeu ao olhar para ele.
Quando seu olhar ganhou foco, conseguiu vê-lo melhor. Não sabia explicar exatamente o que tinha de tão intrigante nele, exceto, é claro, o fato de ser a encarnação do personagem de seu livro. Mas parecia que tinha algo mais, trazendo a sensação de a conhecer. Dando a sensação à mulher de que nutria algo por ela.
Que talvez ela nutrisse algo por ele.
.
O nome se fez presente em sua mente e sentiu o peito arfar. Ele a tinha chamado daquela forma. Então se lembrou do jeito que todo seu corpo pareceu perder qualquer controle e desabou em sua sala.
A sala.
A ligação.
Eilen.
Aquelas três coisas a fizeram se mover, tentando se livrar do estranho que a carregava, mas só conseguiu chamar sua atenção. O homem a encarou diminuindo o ritmo de andar, saindo de um lugar para outro com uma rapidez bizarra e então parou. Sem dizer nada, a colocou no chão e permaneceu em silêncio, encarando-a como se esperasse por algo.
Loki não estava exatamente confuso como a mulher diante dele, apesar de suas feições demonstrarem o oposto. Sua confusão era outra. Tinha um bilhão de coisas se passando em sua mente naquele momento, mas a mais importante delas era que não deixaria nada acontecer a ela.
Ao notar um certo medo por parte dela, iniciou o que fazia de melhor, esperar, por mais que sua vontade fosse chegar mais perto e a tomar em seus braços.
o encarou por alguns instantes, e como se não fosse capaz de ter controle sobre o próprio corpo, deu alguns passos na direção do homem. Seus olhos o analisaram com a precisão que gostaria de ter feito na primeira vez que o viu. Os passou primeiro pelo rosto dele, abrindo um sorriso que não soube explicar por que estava ali, tombando levemente a cabeça conforme reparou em suas vestes e seu tamanho.
Tudo nele era convidativo e intimidador.
Nem se deu conta quando ficou praticamente colada a ele e sua mão foi até seu rosto. Laufeyson quase franziu o cenho diante daquele toque, sentindo uma vontade inexplicável de fechar os olhos, mas não podia se deixar levar pelas emoções, então permaneceu com eles fixados a ela. Um gritinho ecoou da boca de , reverberando em conjunto ao som de sua mão no rosto dele.
Loki levou a mão à bochecha, fazendo-a se retrair com choque estampado em suas feições.
— Vejo que você não esqueceu o que tanto praticou em mim — Loki disse, virando para encará-la e tinha um sorriso ladino estampado em seus lábios, demonstrando achar graça na atitude da mulher.
franziu o cenho com as palavras dele, mas não se afastou, sustentando aquele olhar.
— Eu não sei que tipo de maluco você é — falou pela primeira vez desde que tinha recobrado a consciência. — Mas eu nunca te vi na minha vida. Então seja lá qual festa a fantasia você esteja indo, não me interessa. Só quero voltar para casa!
Laufeyson desfez a expressão brincalhona e franziu o cenho, um tanto confuso com as palavras dela.
— Ou se é um fã, tudo bem, posso te dar autógrafos. Mas alguém já te disse que sequestro é crime? — indagou, deixando-o com um semblante de incerteza.
O homem abriu a boca para responder algo, mas desistiu ao ver uma expressão de susto tomar conta da mulher quando direcionou os olhos à volta deles. Encontravam-se em um local deserto, com pouca luminosidade e aquilo não parecia nada familiar para ela.
Estavam sequer na Noruega?
O correto seria dar um soco nele e sair dali. Foi o pensamento de , mas, ao invés disso, permaneceu encarando-o, esperando por uma resposta.
— Se prefere de outra forma — ele respondeu despretensiosamente, então, como se não fosse absolutamente nada, o homem utilizou uma espécie de “magia” para se transformar.
Em um piscar de olhos, não usava mais aquelas roupas que ela nomeou como fantasia. Agora vestia um terno todo preto, que, na visão da mulher, que detestava admitir, caía muito bem nele.
— O que está acontecendo? — indagou. Sua cabeça estava uma bagunça e ela só queria acordar daquele sonho bizarro que tinha se enfiado para variar. — Me diz que estou sonhando!
— Acredite, poderíamos nos divertir bem mais se estivesse, sweetie. — Sorriu simpático, estendendo a mão para que ela a segurasse, algo que a mulher recusou silenciosamente, com uma expressão de irritação. — Considerando todas as cenas muito interessantes presentes em seu livro, . — A voz dele falhou ao final da frase, quando disse o nome da mulher, levando-a a franzir o cenho conforme o encarava.
queria muito discutir, mas a dor em seu corpo ainda se fazia presente, além do frio e cansaço que começavam a varrer seu corpo a cada minuto que passava.
— Você... Leu meus livros? — Sentiu a garganta travar, estreitando os olhos.
Por que alguém como ele leria seus livros?
— Sim, , eu li. A prisão não é lá muito divertida — afirmou, mantendo os olhos fixos nos dela. A escuridão deles deveria assustá-la, ainda mais acompanhada daquela informação, mas algo em seu coração insistia em dizer que estava segura como nunca esteve. — É assim que devo lhe chamar, agora? Aliás, vejo que está surpresa.
Respirou fundo ao ouvir o conteúdo da última pergunta. Era evidente para ela que o homem se sentia levemente desconfortável sempre que pronunciava seu nome.
— Qual o problema com meu nome? — questionou, tentando manter a calma. Não queria ser rude, não mais do que já havia sido, sabe-se lá o que ele era capaz.
Além de toda aquela mágica bizarra, é claro.
— Não há problema algum. Cai perfeitamente em você, como eu sempre disse — explicou, dando um passo à frente, conforme seus olhos demonstravam emoção ao falar sobre aquilo.
Aquela foi a gota d'água para . Porque ouvi-lo falar como se a conhecesse lhe gerava uma porção de sentimentos desconhecidos e ela sentiu a respiração falhar por um momento, levando as mãos até o rosto como se fosse ajudar a diminuir a tempestade interna.
— Que tal começarmos com as formalidades? — A voz dele saiu mais leve e, mais uma vez, se afastou, como se pudesse ler os pensamentos dela.
soltou a respiração, demonstrando gostar da atitude dele e o encarou novamente.
— Bom, bater na sua cara não foi lá muito formal. — Riu levemente, negando com a cabeça. — — apresentou-se, mas não fez questão alguma de estender-lhe a mão, por hora, queria evitar mais contatos físicos.
— Loki Laufeyson — disse naturalmente, curvando-se em reverência.
Ela tentou, mas não conseguiu conter a sequência de risadas e gargalhadas tomando seu corpo. Aquilo só poderia ser uma piada e daquelas de muito mal gosto, onde só o outro se diverte e você se sente completamente idiota e impotente.
Aquele homem estava testando sua paciência, e ela odiava aquilo.
— Certo — afirmou retórica. — Agora vamos lá. Me diga seu real nome.
O homem franziu o cenho. Fechou os olhos brevemente, como se aquilo realmente o irritasse, então voltou a abri-los.
— Bom, é meu único nome, do que sei. — Riu sem humor. — Me chamam de irmão do mau também, mas isso não vem ao caso agora.
— Imagino o porquê — respondeu, tentando se manter sã.
Loki permaneceu em silêncio, parecendo compreender que ela precisava de um momento. No fundo, sua vontade era de bombardeá-la com uma porção de informações, dizer o que tinha ido fazer ali e também a questionar sobre muitas coisas que simplesmente pareciam não se encaixar em sua visão.
Mais silêncio se fez presente.
estava a ponto de surtar, perdida no tumulto que era sua cabeça enquanto tentava compreender que maluquice era aquela. Porque raios um personagem de seu livro tinha cruzado seu caminho.
Droga. O que ela estava pensando? Obviamente ele era apenas um maluco querendo visibilidade às custas dela.
Tinha que se concentrar no que era real.
Loki Laufeyson era um personagem fictício que ela havia criado, vindo de todos os sonhos insanos que ela já havia tido ao longo dos anos, desde aquela noite em que acordou no hospital sem memória alguma. Aquele homem não era real e provavelmente estava, novamente, em mais um pesadelo longo e cansativo.
… — a voz soprou baixo, em conjunto a uma brisa gélida que fez sua pele arrepiar.
Sentiu o coração bater mais forte ao ser chamada por aquele nome de novo. Seu estômago embrulhou, a cabeça pareceu pesar de repente e tudo à sua volta com certeza girava.
— Eu sinto muito, força do hábito. — Sentiu a mão de Loki sobre seu braço e tudo pareceu se movimentar muito rápido à sua volta.
Ela ia desmaiar, ou acordar... Não importava, nada mais parecia fazer sentido.
Se preparou para dizer que estava perdendo a consciência, mas antes de o fazer, tudo ficou escuro.


Asgard — Antes do sombrio.


Asgard tinha nascido com o sol raiando, trazendo mais um dia esplêndido para seu povo. Homens, mulheres e crianças caminhavam por entre as ruas da cidade sorridentes, contemplando o quanto era agradável viver ali, como todos eram felizes e realizados com todas as coisas que haviam conquistado ao longo dos anos. O reino enfrentava um momento de paz e alegria e nada poderia deixar o coração de Odinson mais repleto de alegria.
Mesmo com algumas coisas que o preocupavam vez ou outra, as quais seriam consideradas por seu pai e mentor, banais, ele não se deixava abalar nunca. Thor era aquele tipo de pessoa que vivia sempre de bom humor, sorrindo e sendo gentil com todos ao seu redor. Afinal, não tinha do que reclamar, sua vida era exatamente — ou até muito mais — como havia desejado para si e aqueles que amava.
Apressou um pouco mais o passo quando algo cruzou seu pensamento e sentiu uma empolgação aflorar em cada célula de seu corpo, quase como se fosse capaz de lhe causar um formigamento, tamanha era a ansiedade que sentia sempre que aquela possibilidade acontecia. Encontrá-la era uma rotina, algo que fazia todos os dias, mas, mesmo assim, a adrenalina de vê-la mais uma vez e apreciar de sua companhia vinha acompanhada.
Gostava daquela sensação, não podia negar.
Cumprimentou mais algumas pessoas pelo caminho conforme fazia algumas anotações mentais e respirava fundo em busca do ar que sempre lhe faltava na presença dela. Um sorriso largo foi estampado em seus lábios, assim que adentrou o enorme salão de treinamento, onde a garota se encontrava com sua lança em mãos bem ao centro.
O rapaz não tinha pressa, por isso recostou-se na parede próxima à entrada, fazendo o mínimo de barulho que conseguiu e cruzou os braços. Seus olhos acompanharam cada um dos passos dela, como se fosse capaz de calcular exatamente o que ela fazia, prestando atenção a cada decisão tomada e parecendo até ser possível escutar o jeito que sua respiração saía baixa e ritmada.
Aquela era outra coisa a qual gostava de fazer, e se pudesse enumerar seus passatempos favoritos, sem dúvidas, estar ali entraria no topo deles. A destreza com que a garota tomava conta do que estava à sua volta, mesmo com os olhos fechados, só usando seus sentidos, era encantador e ele até invejava um pouquinho aquela capacidade.
Outro sorriso, dessa vez um pouco mais sutil, formou-se nos lábios dele quando a viu virar o rosto em sua direção, com as pálpebras ainda fechadas. Havia uma grande possibilidade de ela ter notado sua presença, mas ele não se importou nem um pouco, continuou ali, analisando-a.
Estava apenas esperando para o show de verdade.
Demonstrando que nada poderia distrai-la, moveu primeiro o pé direito, mantendo o esquerdo atrás para que pudesse equilibrar-se e apontou a lança como se existisse algo à sua frente. Dois passos foram dados, ela parou, puxou o ar, virou o rosto e rodou o objeto algumas vezes como se fizesse desenhos no ar, andando furtivamente.
Os olhos dele acompanharam cada detalhe. Podia sentir uma tensão maior no ar por parte dela e foi como se uma espécie de energia se formasse, arrepiando sua pele e fazendo-o puxar o ar com força.
A guerreira vinha sempre acompanhada de uma adrenalina inexplicável.
Foi pego completamente de surpresa quando ela abruptamente virou-se na direção em que se encontrava, lançando o objeto pontudo, passando a poucos centímetros de sua cabeça, prendendo-se à parede atrás dele.
Thor sequer moveu um músculo, abrindo um sorriso tendencioso e se virando para olhar a lança acima dele.
— Odinson — ela soprou baixo, abrindo um sorriso conforme seus olhos o encontraram.
O rapaz riu descontraído e virou para encará-la.
. — Sorriu ao proferir seu nome, dando alguns passos para quebrar aquela distância enorme entre eles. — Não gosta de ser observada, eu sei.
— E, mesmo assim, insiste em fazer isso — o repreendeu, abrindo um sorriso em seguida. — Não achei que você estava inclinado a ocupar o posto desobediente.
Thor riu daquele comentário, sabia muito bem ao que se referia. A encarou por alguns instantes, questionando como era possível que estivesse tão bonita mesmo com o suor presente em sua face e os cabelos levemente bagunçados.
A quem queria enganar? Aos seus olhos, era encantadora de qualquer forma.
— Veio aqui para treinar ou ficar me olhando? — brincou, conforme caminhava, passando por ele para então pegar sua lança.
Outra risada ecoou no ambiente.
— Treinar, claro — Thor afirmou, virando-se para manter os olhos fixos a ela.
A garota abriu outro sorriso largo, o encarando.
— Que tal nada de lança? — ele sugeriu apressado.
— Com medo de que eu fure você? — perguntou, rindo levemente.
Ele tentou, mas não conseguiu conter a gargalhada que escapou de seus lábios, ecoando todo o salão.
— Engraçadinha — comentou, parando de rir conforme retomava o ar. — Só acho importante manter em dia a luta corporal… Sem armas.
A garota nada disse, apenas aproximou-se dele, deixando que a lança caísse no chão, causando um estrondo. Sorriu ao encarar o rapaz e ele a acompanhou, atento a cada um dos movimentos dela e não conseguindo evitar segurar sua mão, puxando-a levemente para si.
— Você conhece esse, já fizemos antes — Odinson soprou baixo, ao passo que segurou o pulso de , vendo-a manter os olhos em sua mão tocando seu peito.
Sem dar muito tempo para que ela pudesse processar as coisas, Thor a segurou com um pouco mais de firmeza, puxando-a e levando os pés aos dela na intenção de derrubá-la. Contudo, a mulher foi mais rápida, impulsionando o peso do corpo para cima, fazendo suas pernas se erguerem, abrindo-as graciosamente e prendendo-as ao pescoço dele. Não precisou de muito esforço para que soltasse o próprio pulso.
Agora ela estava sentada nos ombros dele, mas não ficou muito tempo ali, pois rodou, fazendo com que ele precisasse de toda força para não cair, viu a mulher saltar para trás, escutando o barulho do corpo dela chocar-se com o chão e a viu em posição de ataque quando virou ainda atordoado.
— Vamos lá, Odinson — ela provocou. — Me mostre que tem algo para me vencer além do seu charme — zombou.
O rapaz arqueou uma sobrancelha com tamanha audácia da garota e se preparou para o ataque, se ela queria uma luta de verdade, era isso que teria. Forçou os pés no concreto, ficando em posição de ataque conforme estudava cada uma das reações de sua oponente, que sequer piscava. Era inegável, adorava aqueles momentos com ela, tinham paixão pela luta e batalha em comum e aquilo parecia os aproximar a cada dia.
Deu dois passos para frente, vendo-a se mover para poder ganhar campo e continuou seu caminho. Parou no exato momento em que a mulher deu a volta, demonstrando que iria atacá-lo e a viu impulsionar o corpo, dando chance para ele ir em direção a ela com precisão.
jogou o corpo para frente, dando uma pirueta na intenção de cair bem atrás de Thor, contudo, ele foi mais rápido, diminuindo o ritmo de sua corrida e jogou o corpo para baixo, deslizando no concreto e fazendo a garota cair em cima dele na intenção de segurá-la pelos braços. Ela foi mais rápida, levando as mãos ao pescoço dele.
— Charme, hum? — brincou, rindo fraco conforme encarava, até o sorriso aparecer no rosto da garota. Ele nem tinha se dado conta de que a guerreira se encontrava perfeitamente encaixada em seu colo.
— Você é quem está imobilizado aqui, loirinho. — Piscou para ele, vendo-o cair na gargalhada e fazendo o mesmo acontecer a ela. — Idiota — soltou, rindo, conforme tirou suas mãos do pescoço dele e deu-lhe alguns tapinhas no tronco.
— Idiota mais divertido que você poderia conhecer — respondeu, sorrindo.
Antes mesmo de calcular uma resposta, ele a segurou pela cintura, impulsionando seu corpo e ficou em pé em uma facilidade que fez a mulher revirar os olhos e soltar um gritinho de surpresa.
— Thor, o que… — tentou questionar, sentindo o coração bater mais forte quando viu que ele não a soltou e tentou se desvencilhar.
— Hora de banho na cachoeira — ele disse, aproveitando que ela havia soltado as pernas para jogá-la sobre seus ombros.
soltou um grito, debatendo-se para que ele a soltasse conforme escutava o loiro rir cada vez mais.
— Thor, não! — gritou, entre risadas. — Eu estou falando sério!
— Eu também — respondeu simplesmente, conforme andava, a essa altura já nos corredores do reino, vendo todos olharem para eles.
A garota sentiu as bochechas queimarem, mas se deu por vencida conforme ria e observava todos que os encaravam.
Sabia que ele não a soltaria.


— Eu juro, você me paga, Thor. — o fuzilou com o olhar ao sair do lago com as roupas ensopadas.
— Por fazer você se divertir? — o rapaz perguntou, já ao lado de fora, onde torcia a camiseta.
— O seu conceito de diversão anda bem distorcido, Odinson. — Riu fracamente, zombando dele e foi acompanhada.
Nada tirava o humor dele? Por Deus!
Riu com aquele pensamento, conforme o observou sem camisa.
— Você anda passando muito tempo com o Loki — Thor debochou, sabendo estar cutucando onça com vara curta, mas não conseguia evitar.
estreitou o olhar ao ouvir aquilo, revirando os olhos logo em seguida.
— Muito engraçadinho. — Deu de ombros. — Saiba que seu irmão é uma ótima companhia.
Ela não tinha intenção alguma de torturá-lo com aquele comentário, mas dizer aquilo foi certeiro no coração do guerreiro, que apenas assentiu, rindo. Antes que pudesse dar qualquer resposta, no entanto, seus olhos focaram em outro ponto, bem atrás da garota, onde seu irmão encontrava-se com um sorriso estampado no rosto.
— Eu adoraria discutir as qualidades da minha companhia agora, Svartálfar, ou até mesmo dar algumas dicas ao meu irmão — anunciou, com um sorriso perverso no rosto, chamando atenção da garota e fazendo o irmão bufar. — Mas os dois estão sendo convocados com extrema urgência.
até teria dado risada, se não tivesse se atentado à forma como ele passou a informação.
— Nós estamos indo agora mesmo, Laufeyson. — Sorriu para ele, já caminhando para se afastar dos dois.
Se algo importante estava acontecendo, precisava sair o mais rápido possível.
— Pode pelo menos dizer quem? — escutou Thor questionar, conforme era seguida pelos dois por entre a trilha na floresta que os levariam rapidamente de volta ao castelo.
— Heimdall — Loki respondeu simplesmente.
franziu o cenho ao ouvir aquilo, pois não era comum que o homem os chamasse fora dos horários de treino. Apressou ainda mais o passo, sem importar-se muito se os dois irmãos estavam logo atrás dela ou não, algo em seu coração dizia que era de extrema importância e não queria se atrasar nem mais um minuto. Estava tão tensa e apreensiva que nem sequer se lembrava das roupas ensopadas, até entrar no salão, com as pessoas a encarando como se tivesse algo de errado.
Não tinha nada a ser feito, então apenas deu de ombros e continuou seu caminho. A constatação de que algo estava acontecendo veio ao notar pessoas caminhando com pressa, mães puxando a mão dos filhos, homens falando com suas mulheres sobre ficarem em segurança e não saírem de seus aposentos sob circunstância alguma.
Nunca achou aquele reino tão grande como naquele momento, parecia que quanto mais aumentava o passo, mais distante ficava e sentiu o coração bater cada vez mais forte. Não tinha sequer perguntado a Loki onde estaria seu mentor, mas não precisava que lhe informasse, sabia, ela sempre sentia a energia dele por entre as paredes de Asgard.
Tentou o máximo que podia ajustar as vestes enquanto atravessava a porta do salão, na intenção de parecer mais apresentável, mas aquilo perdeu completamente a importância quando seus olhos recaíram sobre o exército preenchendo todo o espaço.
— Agora o atraso faz mais sentido — Heimdall se manifestou, assim que ela ficou próxima o suficiente e sentiu o rosto queimar.
— Me desculpa, não é dia de…. — tentou falar, mas não sabia exatamente como explicar.
Não estava fazendo nada de errado, certo?
— Não quero explicações, Svartálfar. Um guerreiro sempre deve estar pronto para a batalha — disse, mas seus olhos dessa vez se focaram atrás da garota.
Loki e Thor haviam parado a poucos centímetros.
— Batalha? — Thor soltou de maneira retórica.
— Sim, vocês irão para a primeira batalha de suas vidas — falou, como se aquilo fosse rotineiro e desviou a atenção dos três jovens. Fez menção de se afastar, mas não sem antes virar sua atenção para brevemente. — Eu usaria a lança, princesa.
Antes que ela pudesse rebater a forma como o homem a tinha nomeado, ele se afastou de fato, passando a dar ordens para todos ali presentes.


🏹 🏹 🏹


O lugar em que estavam não era nada que já havia presenciado antes. O ar era rarefeito e tudo parecia sem vida, como se as únicas coisas capazes de nascerem dali fossem dor, sofrimento e angústia. Não queria se deixar abalar, mas era inegável a sensação de dor a cada passo dado quando via corpos mutilados ao chão, entre eles crianças, mulheres… Famílias que tinham perdido suas vidas pagando o preço da vingança e do poder.
Respirou fundo, puxando o ar o máximo possível, determinada a recobrar sua postura como guerreira. Seus passos se tornaram ainda mais precisos conforme escutava os comandos serem repassados, ela e Thor estavam na mesma base, enquanto Loki havia sido escalado para outra. Era inegável que o ter de longe em sua primeira batalha não lhe agradava, mas nada poderia ser feito sobre aquilo, apenas aceitar e torcer para que tudo desse certo.
Retomou sua concentração e postura, então segurou a lança que se encontrava em sua mão esquerda com ainda mais força. Pressionou tanto que os nós dos dedos ficaram doloridos, mas o fato não a incomodou.
Tudo aconteceu muito rápido, antes mesmo de se dar conta ou ter sequer a oportunidade de tomar nota de mais algumas coisas, a luta já havia começado. Sua lança movia-se em seu domínio com uma destreza desconhecida até por ela, dando passos com a mesma agilidade, como se fizesse uma dança a cada inimigo atingido pelo aço asgardiano.
Havia se imaginado em muitas batalhas e esperado por aquele momento, mas ali, olhando para toda aquela brutalidade e agressão, a mulher sentiu um arrependimento a corroer. Contudo, não tinha mais volta, Asgard estava sendo ameaçada e seu dever era protegê-la.
Vez ou outra, seus olhos ainda o procuravam, e sempre que recaíam sobre ele, era inevitável disfarçar o alívio. Sua atenção foi questionada quando sentiu algo lhe rasgar a pele, fazendo-a virar em direção ao responsável pelo golpe. preparou a lança para atacá-lo, mas parou por um instante.
Algo parecia familiar…
Ao contrário do esperado, ele não a atacou, permaneceu analisando a garota tanto quanto ela fazia com ele. Era como se o tempo simplesmente tivesse parado e ninguém pudesse vê-los. O ar ficou rarefeito e por um momento ela achou que não fosse mais capaz de respirar.
Mais uma vez, aquela escuridão que sentia emanar de seu corpo estava ali, presente, quase palpável, e teria deixado os sentimentos falarem mais alto se não estivesse tão apavorada. Fechou os olhos por um breve instante, na intenção de recuperar os sentidos, e uma voz reverberou em sua mente.
Você é tudo que eu sinto.
Seus pés se moveram sem muita consciência de sua parte. Decidida a seguir seus instintos, a mulher continuou presa em seus pensamentos.
Sinto você e a natureza.
, agora! — a voz de Thor irrompeu a bolha que havia se formado, chamando a atenção dela.
Sabia ao que ele se referia.
Sem pensar muito, porque não havia tempo, Svartálfar moveu a lança como já pretendia fazer, ganhando impulso nos pés e girou o corpo, passando por cima de seu inimigo.
Tinha treinado aquilo com Thor diversas vezes, nada poderia dar errado, exceto pelo fato de que o outro era muito bem treinado.
Antes de sequer pousar do outro lado, como havia planejado, para atacá-lo, ele contra-atacou. O corpo do homem moveu-se para cima, atingindo as pernas da garota, levando-a a perder o equilíbrio.
— Não! — gritou, ao visualizar que Odinson seria atingido e ao invés de soltar a lança, a segurou, girando-a mais uma vez e projetou seu corpo na mesma direção.
Tudo que sentiu foi o aço cortando a pele de seu abdômen e uma dor dilacerante, conforme a voz de Thor e todos ali presentes foram desaparecendo.
Tentou abrir os olhos, mas não conseguiu. Sequer sabia se ainda estava viva, tamanha era a dor sentida.


🏹 🏹 🏹


Loki atravessou o lugar sem dar importância aos olhares direcionados a ele. Seu coração batia insistentemente, fazendo-o jurar que todos à sua volta eram capazes de sentir a apreensão que sentia e o som das batidas.
Ela precisava estar viva.
Nem pediu para o guarda abrir a porta, diante daquela situação, não tinha tempo para formalidades. Precisava encontrá-la o quanto antes. Não importavam as notícias dadas a ele, precisava ver com seus próprios olhos qual era a gravidade. Contudo, ao chegar de frente para a tenda, pertencente a , foi como se seu corpo congelasse e nada mais fizesse sentido dentro de sua cabeça e coração, simplesmente tinha perdido qualquer controle sobre o próprio copo.
Pela primeira vez, Loki Laufeyson sentiu medo.
— Princesa, nós precisamos ir — escutou uma voz desconhecida sussurrar.
, por favor — dessa vez, foi Thor quem se manifestou, o fazendo cerrar os punhos.
— Só mais um pouco — A voz dela ecoou baixa e fraca.
Aquilo foi a deixa para o rapaz empurrar a cortina de pano usada como porta e anunciar sua presença. Os olhos de seu irmão e de um dos oficiais do rei recaíram sobre ele, que não deu a mínima importância. Caminhou rapidamente até a maca em que a garota se encontrava deitada, sentindo os ombros curvarem quando ela o encarou.
Mais uma vez perdeu a fala, algo recorrente na presença dela. O rosto de estava coberto de sangue, os cabelos molhados de suor e a mão sobre o abdômen lhe chamou atenção.
Ela tinha se ferido.
Tudo porque ele não estava ao lado dela.
— Escuta, Loki — Thor se manifestou, antes de todos.
O rapaz de olhos negros bufou, sentindo o sangue borbulhar em cada veia presente no corpo e bastou uma olhada dele para que o irmão desistisse de dar explicações.
— Laufeyson — sussurrou, então sentiu a mão dela tocar a ponta de seus dedos, chamando sua atenção para ela.
Sua feição se transformou ao olhar para a garota daquela forma, tão ferida e fraca. O coração disparou, fazendo um arrepio percorrer a espinha, mas não hesitou em segurar a mão dela, aproximando-se ainda mais e ficando de joelhos ao lado da maca.
— Você veio. — Ela sorriu, fechando os olhos por um momento.
Ele não sabia disso, mas seus corações batiam no mesmo ritmo.
— Onde mais eu poderia estar, Svartálfar? — indagou, abrindo um breve sorriso, sendo correspondido por ela.
— Nós realmente precisamos ir, princesa — o oficial se fez ouvir, mais uma vez.
Ele sabia que ela precisava de cuidados médicos, mas a ideia de deixá-la era aterrorizante.
— Tudo bem — soprou baixinho, levando sua mão até os cabelos dela, onde fez um carinho. Curvou-se mais um pouco e então depositou um beijo na testa da garota. — Até nos reencontrarmos, sweetie.
Não deu abertura para ela responder nada, porque aquilo não era uma despedida, não podia ser.
Saiu da tenda sem dizer nada, sentindo a presença de alguém atrás de si e não precisava de muita inteligência para notar ser Thor. Ele tentaria se explicar, mas Loki não estava disposto a ouvir.
Andou ainda mais rápido, estava borbulhando de ódio e não queria tocar no assunto até ver a garota bem de novo. Não importava o que tinha de fato acontecido, havia se machucado e aquilo o atingia muito mais do que gostava de admitir.
— Loki! — Thor gritou, entrando na sua frente logo em seguida.
— Seja lá qual desculpa você vai arrumar, não me interessa — disse ríspido, sentindo ainda mais ódio ao olhar para ele.
— Não vou arrumar nenhuma desculpa — respondeu prontamente. Estava tão nervoso quanto o irmão, mas não queria demonstrar. — Nós estávamos na luta e eu calculei errado.
Loki levou a mão até a testa, coçando-a com a ponta dos dedos, demonstrando ainda mais nervosismo.
— Agora vai me dizer que não teve a brilhante ideia de usar aquele movimento irresponsável? — indagou, vendo o outro assentir positivamente à sua pergunta. — Quantas vezes eu precisei repetir que era uma má ideia? Que ela se machucaria?
— Eu tinha tudo sob controle, mas…
— Tanto controle que ela está naquela maca com um buraco na barriga, irmão? — rosnou entre dentes, cerrando os punhos pela milésima vez.
— Eu fiz o possível para poder evitar que acontecesse. — Thor mantinha os olhos fixos nos dele, mas não podia negar que também estava começando a ficar irritado com aquela situação toda.
Ele não era o único que prezava pela vida da garota.
— Ah, fez tanto que olha só no que deu. — Riu sem humor.
— Loki, será que dá pra parar de achar que você é o único que se importa com a ? — esbravejou, finalmente colocando para fora o que realmente o incomodava.
Laufeyson nada disse, apenas revirou os olhos diante daquilo. Mais um pouco e começaria uma briga bem feia com o irmão ali mesmo, na frente de todos, que àquela altura já encaravam a discussão acalorada.
Ele sabia que não era culpa de Thor, mas jogar a responsabilidade em cima dele parecia diminuir sua dor.
Quando seria capaz de entender que não poderia salvá-la?
— Eu sei como você se sente, irmão. — O loiro se aproximou, na tentativa de amenizar aquela briga sem sentido.
— Não ouse comparar seus sentimentos por aos meus. — Riu sarcástico.
— Só estou dizendo que você não é o único. — O encarou nos olhos, e mesmo que não terminasse aquela frase, de fato, Loki sabia ao que se referia.
— Só me avise quando ela acordar — pediu, saindo dali, evitando que as coisas saíssem de seu controle.
Talvez seria mais fácil, se ele fosse.
Único.

Asgard — Dias atuais.


— Thor, o que faz aqui? — Loki perguntou, conforme caminhava de um lado para o outro, mantendo a postura de sempre, mãos para trás e olhar baixo.
O guerreiro encarou seu irmão, mesmo do outro lado do vidro, ele sentia-se tenso e intimidado em sua presença. Não que não o amasse, mas não podia negar a natureza do rapaz.
Loki nunca mudaria. Trapaça estava no sangue dele e, preso ali, sabia que não poderia fazer nada.
— Onde estava? — indagou. A curiosidade era inegável, pois o encarava há uns bons minutos com os olhos fechados, concentrado.
— Estou preso, caro irmão. — Riu sem humor. — Aonde mais eu poderia ir, se não meus pensamentos?
Thor franziu o cenho, questionando se deveria acreditar nele. Só queria poder confiar em Loki.
— Então, ao que devo a honra de sua visita, majestade? — questionou sarcástico.
— Você sabe que eu recusei o trono, Loki! — devolveu um pouco ríspido.
Aquele de fato não era seu melhor dia.
— Como se isso não te fizesse dono de todo o reino. — Sorriu sem mostrar os dentes.
O loiro poderia ficar ali discutindo com ele pelo resto do dia, exceto, claro, que não dispunha de todo aquele tempo.
Ele sabia que o irmão não era a pessoa mais confiável para entrar naquele assunto, mas quando se tratava de paranoias, o homem era bom em captar coisas. Além de que, Loki era ótimo em guardar segredos, logo, para ele, fazia sentido saber quando alguém escondia um.
— Estou preocupado com nosso pai — informou, mesmo sentindo algo gritar dentro dele que não era uma boa ideia compartilhar aquilo com ele.
Loki cruzou os braços, revirando os olhos em seguida.
— Não finja que não se importa — Thor soltou ríspido.
— Não me importo — Laufeyson rebateu. — Mas, me diga, qual seria o motivo de tanta preocupação?
— Na festa de nossa mãe… — Ele caminhou um pouco de frente para a jaula, observando o local e vendo como ali era bem diferente de todo o restante do reino. Não era exatamente sombrio, mas existia um vazio e sentiu-se desconfortável de ver seu irmão ali. — Aquela em que você esteve, apesar dos apesares…
— Thor, corta a enrolação — pediu, sem alterar o tom de sua voz. — O que exatamente você quer perguntar?
— Nosso pai parecia estranho, parece que algo o preocupa — Thor finalmente desembuchou o que cruzava seus pensamentos e, apesar de não ter notado, Loki franziu o cenho ao ouvir aquilo. — Quando o questionei, ele disse que meu dever era proteger Asgard.
— Qual a novidade nisso, Thor? — o outro soltou sarcástico.
— Loki, eu acho que Asgard corre perigo. — Demonstrou em seu olhar o quanto aquilo o desesperava.
Um silêncio foi travado entre os dois irmãos. De repente, foi como se aquele vidro tivesse desaparecido e uma batalha se formasse entre eles, como jamais havia acontecido antes. Loki permaneceu encarando-o com sua expressão de sempre estar escondendo algo, mas que nada seria revelado, enquanto Thor tentava ler ao menos uma mísera informação.
— Você não vai dizer nada, Loki? — Odinson foi o primeiro a se manifestar.
Laufeyson arqueou uma sobrancelha, antes de fazer uma expressão dividida entre preocupação e tristeza.
— Não — respondeu, retomando sua postura impassível logo em seguida.
— Loki, Asgard corre perigo! — Thor alterou o tom de voz, sentindo como se fosse capaz de explodir aquela porcaria de vidro.
— Não me importo, irmão. — Sorriu minimamente, sem dar chance ao irmão de questioná-lo e retornou para um fundo de seu espaço.


🏹 🏹 🏹


Odin havia repetido centenas de vezes estar tudo bem, mas nada o convencia. Thor não conseguia deixar de pensar nas palavras dele sobre suas obrigações, a forma como parecia referir a um futuro próximo o agoniava. Só de pensar na possibilidade de Asgard sendo quase levado às cinzas de novo o fazia perder o sono por noites a fio.
Mais do que nunca, seus pensamentos pareciam não desviar dela. Svartálfar se fazia presente cada vez mais, como se aquilo fosse um sinal para algo impossível de achar uma resposta. A saudade avassaladora que sentia dela não era segredo algum, mas a imagem da garota sorrindo, correndo com ele pelo castelo e travando batalhas vinha se tornando mais recorrente.
Não queria render-se à nostalgia dos momentos, mas era difícil. Cada vez que seus olhos pesavam, em uma tentativa de o recordar do cansaço, a imagem daquele dia terrível lhe assombrava. Era como se a vida gritasse bem diante de sua face não ter feito o suficiente para salvá-la.
Rodou na cama pela milésima vez. Mesmo estando no quarto um dia pertencente a ela, ele não conseguia descansar. Era como se o tempo fosse lento e insólito desde que ela havia partido, talvez fosse porque tudo tinha perdido o sentido.
Estava finalmente quase fechando os olhos, quando um estrondo irrompeu o ambiente.
O que era aquilo? Batidas na porta… Ou talvez uma explosão. Ninguém sabia que estava ali, então era difícil acreditar ser alguém.
Se permitiu fechar os olhos mais uma vez e um estrondo ainda maior se fez presente, clareando todo o ambiente.
Algo estava errado.
Thor deu um salto e correu até a janela do aposento. Seus olhos demoraram para acreditar no que viam, o reino estava sendo atacado. Mulheres, homens e crianças corriam para todos os lados conforme o fogo parecia se alastrar e os guerreiros do reino tentavam tomar controle da situação.
Não pensou muito, de repente se viu esticando os braços e usando daquela força conhecida apenas por ele para o martelo vir em sua direção. Em questão de segundos, Odinson atravessou a janela sem importar-se com o vidro sendo estilhaçado, seu corpo foi lançado em direção aos seus inimigos e ele não se refreou em começar a golpeá-los.
Tudo parecia acontecer muito rápido à sua volta e era como se cada vez mais inimigos aparecessem em seu caminho, atacando-os de todos os lados. Sua prioridade era matar o maior número que conseguisse, mas também estava focado em salvar todas aquelas pessoas que se encontravam em meio àquela batalha.
— Thor! — A voz de Heimdall ecoou atrás dele.
— O que está acontecendo, Heimdall? — questionou alto, girando o martelo e atingindo outros em seu caminho.
Tinha algo ali que ninguém havia contado a ele.
— Não temos tempo para isso! — gritou, conforme jogou seu corpo para o lado do loiro, ajudando-o a se livrar de alguns alvos.
Mais guerreiros apareceram à volta deles, tentando ao máximo proteger as pessoas ali.
— Thor, preciso que vá atrás de Odin. — Dessa vez, Heimdall virou-se para encará-lo, parando bem à sua frente.
Ele franziu o cenho diante daquelas palavras, parando brevemente conforme atirou o martelo, atingindo uma centena de inimigos e o puxou para o segurar novamente.
— Agora! — seu mentor disse, virando a espada para atingir um alvo atrás de Thor.
Ele não o questionou, apenas segurou seu martelo com mais firmeza e o girou em suas mãos conforme viu mais daqueles estranhos se aproximarem.
Estava no ar em uma fração de segundos, indo em direção aonde sabia que o rei estaria. Mais vidros foram quebrados, mas aquilo não tinha importância alguma no momento e o encontrou lutando, como já se esperava.
Aquelas coisas que ele não soube nomear pareciam se multiplicar cada vez mais e ele não parou de atirar e pegar seu martelo de volta. O salão principal encontrava-se parcialmente destruído, com estátuas quebradas e muitas outras coisas desfeitas.
Não. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo de novo.
Asgard não merecia ver seu lar ser destroçado de novo.
Girou o martelo mais uma vez e atingiu o maior número que conseguiu conforme se movimentou atingindo-os com socos e pontapés. Enquanto fazia aquilo, viu flashes do último acontecimento passarem bem diante de seus olhos e por um momento sentiu uma dor enorme atingi-lo.
Mas não podia deixar os sentimentos falarem mais alto. Asgard precisava dele e tinha jurado que não perderia mais ninguém.
— Thor, meu filho! — Teve sua atenção chamada pela voz de seu pai, presente bem ao seu lado.
Conhecia aquele olhar e o medo das palavras seguintes o fez quase congelar.
— Você precisa ir — o rei disse, girando o corpo em sincronia ao dele e atingindo mais inimigos, assim como o filho, protegendo as pessoas presentes ali.
Thor franziu o cenho, confuso, nada ali parecia mais fazer sentido.
Foi pego de surpresa por seu pai, que o segurou nos ombros, encarando-o bem nos olhos.
— Você precisa encontrá-la!


Continua...



Nota da autora: Sem nota.





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Nota da beta: Mano, eu ri tanto da interação da Liza com o Loki, mas ao mesmo tempo tô morrendo de pena dela, tadinha. Imagina só um cara aparecer se apresentando como o personagem do seu livro? Eu acho que surtaria hahahaha.
Eu queria dizer que Kára e Loki já é um shipp supremo, porém fico bobinha com o carinho que o Thor tem por ela, aff.
Loki sendo Loki e falando que não se importa quando a gente sabe que no fundo ele se importa sim hehehehe.
E como você para o capítulo logo aí, Vanessa? Pode escrever mais, viu? Tô esperando! ♥

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