Kool-Aid

Última atualização: 14/04/2025

Prólogo


“O microfone dele está ajustado?” - ouvi a repórter perguntar, sua voz era suave e profissional, mas havia algo de curioso na maneira como ela a soltou. Seus olhos estavam fixos na tela do monitor à frente, mas seu corpo estava atento a cada detalhe ao redor, atento a cada detalhe em mim. Eu sabia que estava sendo observado.
Era a primeira entrevista. Exclusiva, sim, mas quem se importava? Depois de meses em silêncio, a ideia de voltar àquela realidade só me dava mais vontade de afundar de vez no abismo. A última vez que abrimos a boca para o público, a última vez que qualquer um de nós apareceu, foi quando tudo acabou.
E não foi uma ironia, mas sim um reflexo exato de quem éramos, quando o nosso gestor de crise – daquele momento – soltou uma nota no Instagram e essa mal passou pelas nossas mãos. Ninguém perguntou se estávamos de acordo, ninguém nos deu a chance de dizer algo, porque nós estávamos fodidos.
Ninguém falou nada.
O fim da banda, o fim do meu relacionamento conturbado com a guitarrista e o que mais pesava, o que eu tentava não pensar, o último show em Las Vegas. Aquele show… ironicamente, o ponto final na vida de Ruby.
Nada de bom sairia desse lugar. Eu sabia disso. Aquela entrevista não era uma tentativa de reconciliação, era apenas o fim do circo. Porque era isso que tínhamos virado: um espetáculo de miséria, onde todo o glamour e a fama eram apenas cortinas de fumaça, escondendo a pobre realidade que já tomava conta de nós.
Não nos falávamos mais, eu e o que sobrou de cada um da banda.
Peter Simmons ainda cuidava da carreira – ou do que restava dela – de cada um de nós, mas ele não comentava nada entre nós. Não éramos mais uma família. Cada um estava isolado, preso ao próprio colapso, sem querer olhar para o outro.
Não havia mais time, não havia mais "nós".
Os perfis nas redes sociais estavam mortos. Esqueletos de uma vida que não existia mais. Os flagras na rua? Poucos e distantes. E, claro, o silêncio. O silêncio era tudo o que restava. E parecia tão confortável, tão definitivo, que, no fundo, ninguém queria quebrá-lo.
Até agora…
Agora, ali estava eu, na frente das câmeras, depois de 365 dias.

Sentei-me na poltrona de couro preta, que rangia sob meu peso, e senti a temperatura da sala apertar ao redor de mim. O cheiro do couro, a luz suave que se filtrava pelas softboxes, tudo parecia carregar um peso extra. Eu, definitivamente, não estava mais acostumado com isso.
O rapaz – cujo nome eu já não conseguia lembrar – afastou-se rapidamente da repórter com passos apressados e eu poderia jurar que ele queria se livrar da responsabilidade de ajustar o microfone o mais rápido possível.
Ele se posicionou diante de mim, os olhos nunca em contato com os meus, enquanto suas mãos tocavam a minha camisa com um toque ligeiramente hesitante, o gesto rápido demais, como se tentasse esconder a própria insegurança.
Seus olhos buscaram os meus brevemente antes de ele murmura-lo, quase em segredo: “Eu sou muito seu fã…” A voz baixa, carregada de um tom que fazia o espaço entre nós parecer ainda menor. Ele se afastou de imediato, mas a tensão ficou, não na sua ausência, mas no jeito que ele se retirou.
A repórter me observava com intensidade, os olhos fixos em mim, medindo cada segundo da minha reação. “Podemos começar, , ou você precisa de mais tempo?” A questão era simples, mas a postura dela – relaxada, mas ao mesmo tempo implacável – dizia tudo. Eu sabia exatamente o que ela queria: um momento de fraqueza. E eu não estava disposto a ceder. Repórteres, não importava a década ou o contexto, sempre seriam abutres.
Ela cruzou as pernas com uma lentidão calculada, a caneta girando entre os dedos como se estivesse tocando uma melodia que só ela ouvia. O olhar que manteve em mim era firme, intransigente, estudando não só o que eu diria, mas cada sinal do meu corpo, tentando decifrar o que eu tentava desesperadamente esconder.
Mas eu também a observava. A ruiva, de cabelo curto, um tanto bagunçado, como se tivesse sido cuidadosamente desfeito para parecer casual. A maquiagem perfeita, mas com um toque que denunciava o esforço por trás da naturalidade. Ela achava que estava no controle, mas eu sabia que esse jogo era feito nos detalhes – e eu também sabia jogar.
Balancei a cabeça levemente, forçando um sorriso que não era exatamente amigável, mas sim um lembrete de que eu também estava ciente das regras. “Não, claro que não. Podemos começar.”
A voz saiu mais controlada do que eu imaginava, mas a verdade era que eu já sabia que estávamos em movimento.
Que o jogo já tinha começado.


Capítulo 1

You take the man out of the city, not the city out the man.


Lily Miller (repórter, pág. 5, edição 50 da revista Pulse):

No coração do deserto californiano, a cidade de Brightwood se destaca, mas não pelo que seu nome sugere. Embora o nome remeta a uma paisagem de campos verdejantes e árvores frondosas, a realidade é bem diferente: o clima é árido e o ambiente, em sua maioria, seco.
Essa é a cidade onde Coldwell nasceu e cresceu. Filho de James Coldwell, prefeito local e Susan Bennett, dona de casa que trocou sua carreira de enfermeira para se dedicar integralmente à família
Não havia nada de extraordinário em até ele se tornar o icônico baixista e líder da banda Kool-Aid. Certamente, ele sempre foi atraente — desde criança, era o destaque nas fotos de família — às quais a revista teve acesso — com seus olhos que pareciam desafiar a luz e o cabelo liso e escuro, que contrastava com o resto de sua fisionomia.
Na adolescência, a transformação foi inevitável: a voz engrossou, a puberdade chegou e , que até então era visto como o "filhinho da mamãe", tornou-se o verdadeiro sonho das garotas.
não tinha esforço algum para o centro das atenções. Sua presença e charme natural o tornavam irresistível. Mesmo com uma voz impressionante — algo que seu pai, sempre orgulhoso, fazia questão de destacar, obrigando-o a cantar nos jantares familiares —, a verdadeira paixão de estava em outro tipo de corda: violões, guitarras e baixos. O piano e a música clássica, no entanto, nunca lhe atraíram.
De qualquer maneira, ele tinha uma aversão profunda ao piano e desprezava música clássica.
Por isso, talvez fosse inevitável que a rebeldia do rock encontrasse espaço em sua vida, mesmo que prematuramente. Algo que o levaria à transformação de garoto comum a líder da famosa banda Kool-Aid.
Aos quinze anos, começou a frequentar o único lugar que o aceitava, a usar coisas que os mais velhos ofereciam e a enxergar de perto o mundo que só existia nas revistas.

Coldwell (baixista e líder da Kool-Aid)

Brightwood sempre foi uma cidade pequena, mas, no final da segunda avenida, tinha um fliperama que era onde a galera costumava se encontrar. Eu não precisava do meu pai para me levar, então, era onde eu passava a maioria dos meus finais de semana.
Quando se passa mais tempo em outro lugar do que em casa, você faz amizades, conhece pessoas mais velhas e começa a descobrir coisas. Foi assim que eu descobri que um dos atendentes do fliperama, o Foguete, fazia identidades falsas. Ele não estava interessado em você ou de onde você vinha, ele só queria o seu dinheiro.
Então, no final dos meus quatorze anos, eu tinha uma identidade falsa, um pouco de coragem e disposição suficiente para fugir à noite e ir na única boate da cidade: Electric Avenue. Era um risco que eu corria. Não só porque minha mãe podia entrar no meu quarto de madrugada e perceber que tinha travesseiro no lugar onde eu deveria estar, mas também porque, na Electric, você podia acabar trombando com qualquer pessoa.
Mas era isso que eu queria, né? Saber o que rolava, de verdade, em Brightwood.
No dia que o Foguete me encontrou para receber o pagamento, ele me deu uma olhada boa e eu devia estar nervoso pra caralho, mas ele não me disse nada. Muito pelo contrário, ele tirou o cigarro aceso da boca e me estendeu.
Eu não sabia fumar. Nunca tinha colocado um cigarro na minha boca. Mas Foguete era descolado e parecia saber das coisas e eu queria ser descolado e saber das coisas.
Hoje, olhando para trás, eu percebo que o Foguete não sabia de porra nenhuma. Mas mesmo assim, duas noites depois, eu entrei na Electric Avenue.

Logan Blake (baterista, Kool-Aid)

Quando começou a frequentar a Electric, eu tocava algumas vezes na semana em uma outra banda. Talvez ele se achasse muito bacana por estar em uma boate, furando a hora de dormir, mas a verdade é que ninguém ligava para ninguém lá dentro. Os seguranças, os donos, estavam pouco se fudendo para menores de idade, desde que consumissem, trouxessem novas pessoas e os negócios prosperassem.
O que eles faziam na Electric não era da conta de ninguém.
Quero dizer, eu não sei quem o achou que estava enganando com aquela carinha de quatorze anos e uma carteira dizendo que ele tinha dezoito. As meninas tinham maquiagem para parecerem mais velhas, truques para preencherem o sutiã, mas nós? Homens? Não importava se seu pau fosse o maior dentro da calça, se seu rosto não tem um pelo e a sua voz ainda parece de uma garotinha, você é uma criança.
De qualquer maneira, sabia se virar. Ele era esperto e não demorou para fazer parte da Electric.
Em uma noite, ele sentou com a gente. Acho que a nossa vocalista estava ficando com ele. Eu não sei. Mas lá estava aquele moleque, pagando uma garrafa de whisky para o grupo e, em troca, Lyla ofereceu uma carreira de pó.
Ele era divertido, tinha umas piadas boas e éramos quase da mesma idade. Se tornar amigo dele foi a parte mais fácil de toda nossa história.

Coldwell

Cheirar pó naquela época era normal, tá ligado? Se alguém te oferecesse, você aceitava. Não era nada demais. Nem parecia que a gente estava se drogando e se você quisesse ficar acordado a noite toda, você precisava de algo…
Eu não curtia os remédios, faziam a minha garganta doer e os efeitos eram uma merda. Então, quando Lyla chegava com a cocaína, eu sabia que ia ser uma noite boa.

Logan Blake

Eu nunca usei essas merdas.
Nunca.
Nem álcool.
Minha parada era outra.
Sempre que eu chegava em casa, meu bolso estava cheio de documentos que não serviam pra nada, relógios falsificados e várias carteiras com grana. O cartão de crédito já estava na moda, mas a galera ainda preferia carregar umas notas por precaução.
A gente frequentava a Electric há quase dois anos quando descobriu o que eu andava fazendo. Ele sempre foi muito observador, mas naquele dia eu descobri que ele não era o tipo de cara que ia sair por aí entregando ninguém.
— Seus pais ainda não descobriram? - ele me perguntou.
— Os seus já? - eu respondi, rindo e entendeu.
Naquela altura do campeonato, e eu éramos amigos. Eu não tocava mais na banda e Lyla não ficava mais com ele.
Nós íamos para Electric porque tínhamos vícios para alimentar, mas no meio disso tudo, acabamos descobrindo que tínhamos outras coisas em comum.
Ele curtia histórias de super-heróis e eu também.
Ele curtia bandas de rock e eu também.
Ele curtia as meninas do terceiro ano e eu também.
Ele curtia Kool-Aid de morango e eu também.
Ele queria ter uma banda e eu também.

Coldwell

No começo, a gente era muito ruim juntos.
Muito ruim mesmo.
Eu sabia tocar algumas notas no baixo e Logan batucava outras na bateria. — Você está tocando como se ainda tivesse naquela banda de merda - eu dizia. — Vai a merda, - ele respondia e a gente voltava a tentar ser o próximo Nirvana.
Era tudo uma bagunça. Não sabíamos direito o que estávamos fazendo, mas a gente tentava. Era mais sobre estar junto e fazer barulho do que realmente tocar alguma coisa.
Mas, de repente, a parada ficou séria. Não sei quando isso aconteceu, mas tocar na garagem já não fazia sentido. A gente precisava de mais.
, cara, por que a gente não vai atrás de um vocal…? Um guitarrista, tá ligado? Você viu a apresentação do Jon Lord semana passada? Caralho, a gente precisa de um teclado também!
— Vai com calma, Logan, Brightwood tem cinco pessoas além da gente. Não é como se o próximo Nicky Hopkins fosse nascer nesse fim de mundo. - eu lembro que respondi, enquanto enrolava uma nota de 1 dólar para dar um teco.
— E se nascer? - ele perguntou, esperançoso, enquanto eu cobria uma narina e aspirava com a outra.
Eu estava acelerado.
— Bora, então, caralho. - disse, levantando.
Eufórico.
Eu ia ter a porra de uma banda e a gente ia ser famoso pra cacete.

Naquele mesmo dia, a gente colou alguns papéis, entregou outros e enfiou debaixo da porta dos vizinhos.
As audições eram no dia seguinte, à tarde, e, sinceramente, não tínhamos nenhum plano traçado. Não esperávamos muito de ninguém. Aliás, eu diria até que não esperávamos nada. A única exigência era simples: a pessoa só tinha que saber tocar rock.
Depois do almoço, fomos para a casa do Logan e abrimos a garagem. Colocamos os instrumentos no lugar, ajustamos os cabos, e nos jogamos em duas cadeiras de praia. Ficamos lá, bebendo Kool-Aid de morango e jogando salgadinho um no outro enquanto esperávamos.
Na frente da casa, uma faixa pendurada anunciava: TESTES PARA A BANDA AQUI, escrito com tinta vermelha.
Blake, como sempre, não estava satisfeito. Ele insistiu que deveríamos ter escolhido o nome da banda antes de abrir as inscrições. Segundo ele, ninguém em sã consciência faria um teste para um grupo que nem nome tinha, ainda mais sabendo que os únicos dois integrantes eram dois moleques de 17 anos. Mas foda-se. Eu queria uma banda. O nome a gente resolveria depois.
O primeiro a aparecer era... inesperado. Devia ter pelo menos o dobro da nossa idade e, pra piorar, carregava um teclado. Eu já estava meio desconfiado, mas deixei o cara tocar. Quando ele começou, reconheci as primeiras notas na hora. Não era possível.
Ária BWV 1068, de Johann Sebastian Bach.
Logan olhou pra mim com um sorriso idiota, achando que era piada. Mas o jeito sério com que o cara tocava dizia o contrário.
Não me entenda mal, eu não sou um babaca insensível. Se ele queria tocar, que tocasse. Só que tinha três problemas muito claros:
1. Eu odiava música clássica.
2. Eu odiava Johann Sebastian Bach.
3. E isso era, supostamente, uma banda de rock.
Porra.
Quando ele terminou, Blake não se aguentou. Deixou uma das baquetas cair e se escondeu atrás da bateria, segurando o riso. Filho da puta.
Eu mantive a compostura. Sorri e disse:
— A gente entra em contato.
E foi isso.
Essa foi a primeira e última vez que eu falei com ele.
— Você colocou que isso são audições para uma banda de rock, porra? - perguntei, me levantando da cadeira, pegando a bandeja metálica e colocando no balcão atrás de mim, de costas para a porta.
— Eu posso ter colocado.
— Colocou ou não, Logan? — Alinhei o pó em fileiras perfeitas, abaixei e cheirei tudo de uma vez. O mundo girou por um segundo, e eu segurei firme na bancada, sentindo a droga correr pela minha corrente sanguínea. Poucas coisas no mundo eram tão boas quanto aquilo. — Hein, porra? — falei mais alto. — Se aparecer um cantor de ópera por aqui, eu juro que quebro essa tu-...
— Com licença. — Fui interrompido.
A voz me fez virar imediatamente, e naquele instante tudo parou.
A verdade? Eu deveria ter continuado de costas. Ou melhor, nunca deveria ter deixado ela fazer o teste.
Nunca deveria ter aberto as vagas.
Nunca deveria nem ter feito uma banda, pra começo de conversa.
Mas lá estava ela: Whitmore.
Mesmo chapado, lembro de cada detalhe.
As roupas curtas. O esmalte vermelho. O cabelo preso. E, claro, a guitarra: uma Kramer American Pacer branca que ela abraçava como se fosse parte do corpo dela.

Logan Blake

Ela era minha colega na aula de biologia e capitã do time de cheerleaders.
Quando ela apareceu, eu soube que era zoação.. Sinceramente, o que diabos uma garota — que balançava pompons e namorava idiotas — estava fazendo ali?
Por mim, ela podia ter dado meia-volta e caído fora. Só que o jeito que Coldwell olhou pra ela... Eu sabia que ele ia fazer questão de ouvir.
Meu único medo era de que ela fosse uma verdadeira merda tocando e, mesmo assim, o quisesse ela na banda só pra tentar levar pra cama.
— Então, você vai tocar alguma coisa ou veio só para torcer? - perguntei, arqueando a sobrancelha, balançando as mãos, carregado de sarcasmo. Eu sei que fui escroto, mas, porra...
Rock era coisa de garoto.
— Engraçadinho. — nem olhou pra mim. Deu mais alguns passos, entrando na garagem com aquela postura que parecia não dar a mínima, mas sabendo exatamente que estávamos olhando pra ela.
Foi direto para o amplificador e os cabos, sem hesitar. Passou a alça da guitarra pelo corpo, posicionou o instrumento e conectou o cabo com uma precisão irritante.
— Vocês têm preferência por alguma música ou eu posso tocar o que eu quiser? — perguntou. Embora tivesse falado no plural, eu sabia que ela não estava nem um pouco interessada no que eu tinha a dizer.
— Pode tocar qualquer coisa. Você só tem que saber o que tá fazendo. — Foi o que respondeu, limpando o nariz antes de se jogar na cadeira, com os braços apoiados nas pernas.
E foi isso que ela fez.
Nos primeiros acordes, Whitmore tinha feito eu morder a língua.
Ela não servia para ser cheerleader. Aquela garota nasceu para ser uma estrela do rock.

Whitmore (guitarrista do Kool-Aid)

Logan e não eram exatamente os dois garotos mais populares da escola. Naquele lugar, popularidade tinha nome e uniforme: o time de futebol. Se você não fazia parte daquilo, bem, você simplesmente não era ninguém.
No dia anterior às audições, rolou a festa do Mike Campbell. E quando eu digo “todos estavam lá”, quero dizer o time de futebol inteiro, as garotas da torcida e até uma galera mais velha que era amiga do irmão do Mike. Ele era o tipo de cara que sabia reunir uma multidão.
Mike e eu namorávamos desde os quinze anos. Em tudo, ele tinha sido meu primeiro. Era um namoro bom, na maior parte do tempo, mas, como qualquer outro garoto idiota, ele sabia muito bem como ser insuportável.
Naquela noite, com a festa já em alta, Mike pegou um dos papéis das audições que alguém tinha deixado por aí. Só pra debochar. Esse era o passatempo favorito dele: tirar sarro de quem não era como ele ou a galera do time.
— Testes pra banda! — ele leu alto, mal conseguindo segurar a gargalhada enquanto balançava o papel. O resto do grupo já estava no clima, rindo antes mesmo de saber do que ele ia falar.
— Porra, os caras juram que alguém vai aparecer pra essa merda. — Ele levantou o papel, balançando como se fosse um troféu ridículo. — Por isso, eu… Vem cá, amor.
Antes que eu pudesse reagir, Mike me puxou para perto e me beijou, bem ali, na frente de todo mundo. Um beijo cheio de espetáculo, do tipo que ele sabia que a galera adorava assistir.
— A sabe tocar guitarra, vocês sabiam disso? — Ele soltou a pergunta no ar, com um sorriso bêbado e aquele tom de provocação que só piorava quando ele estava nessa condição.
As risadas ficaram mais altas. O time achou hilário. Algumas das garotas da torcida começaram a cochichar, e eu senti o rosto esquentar.
— Por isso, meu amor... — Ele fez uma pausa dramática, olhando ao redor para ter certeza de que era o centro das atenções. — Você vai lá… Vai tocar…
Eu sabia que aquilo não era só brincadeira. Mike estava me colocando no meio da zoeira dele, e, naquele momento, ele tinha decidido que eu faria parte da piada da vez.
— Você vai lá, vai tocar, vai entrar naquela banda e, quando for a hora de se apresentar… - ele fez uma pausa dramática, olhando ao redor com aquele brilho de malícia nos olhos. — A gente vai fazer eles terem uma surpresa.
A galera ao redor explodiu em risadas e meu estômago revirou.
Eu sabia que ele estava planejando alguma coisa e mesmo assim, apareci na garagem de Logan Blake no dia seguinte.

Coldwell

O vocalista não poderia ter vergonha. Ele tinha que cantar como Vince e se mexer no palco como Freddie Mercury.
Não era só sobre ter uma boa voz, era sobre ter presença.
O cara tinha que dominar o palco, fazer a plateia sentir a música no estômago. E eu sabia que isso não era pra qualquer um.
Tinha que ser alguém que não tivesse medo de se perder na performance, alguém que fosse capaz de virar o show de cabeça pra baixo, sem pensar nas consequências.
Tinha que ser alguém que não só cantava, mas que fazia você sentir cada palavra, cada nota. E porra, não é todo mundo que tem essa capacidade.
Mas lá estava ele: Ruby Haynes.
Logan era meu amigo, mas Ruby se tornou um irmão. Foi algo que eu soube de cara.
Não era o tipo de amizade que nasce com o tempo, foi uma conexão instantânea. No momento em que Ruby entrou naquela garagem pela primeira vez, tudo ficou claro.
Ele não era só o cara que poderia ser o vocalista da banda; ele era a energia que faltava.
Eu nunca precisei questionar se ele tinha o que era necessário. Ruby tinha uma presença. e Logan concordaram.
Não era só talento, era um tipo de confiança selvagem, daquelas que você só vê em quem nasceu para estar no palco.
— Eu conheço um cara - disse ele. A gente já estava tocando na garagem de Logan há uma semana. — Ele é mais novo, estuda na cidade vizinha, mas ele é bom. Avery Sinclair. Posso falar com ele. - Disse Ruby.
Eu o olhei, esperando mais e Haynes deu de ombros, como se fosse óbvio.
Não precisava de mais explicação.
A confiança no cara era nítida e a última coisa que eu ia fazer era duvidar da escolha dele.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.