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Última atualização: 07/06/2021

Prólogo

— Vou te esperar no carro. — Jesse pegou a última caixa e saiu do apartamento, me deixando sozinha.
Eu não sabia o que sentir. Na verdade, era um misto de alívio, tristeza e um resquício de felicidade lá no fundo. Eu não morava mais naquele lugar há exatos três anos, os três piores anos da minha vida. Mas agora, eu estava deixando tudo para trás, era por isso que eu tinha ido até ali buscar minhas últimas coisas. Eu sei que voltaria, ele havia conversado com o senhor Morris sobre isso. Porém, o velho era rabugento demais para me dar qualquer notícia de , ele nunca falava nada. Talvez fosse a única pessoa daquele prédio que não ficava cuidando da vida alheia. Você nunca veria o senhor Morris fazer qualquer fofoca sobre qualquer pessoa, mesmo quando havia motivos suficientes para a fofoca circular pelo prédio durante semanas, meses e até anos. Ele nunca comentava.
Mas a quem eu quero enganar, não é mesmo? Eu estava morrendo de saudade de . E aquele lugar trazia todas as lembranças e sentimentos bons que eu já tive. Me sentei no sofá, apenas aproveitando a brisa entrar pela janela, e relaxei meu corpo no estofado marrom. tinha péssimo gosto para móveis, mas sempre demos um jeito de deixar o lugar mais colorido; agora, já não estava tanto. Dei uma última olhada, enquanto Jesse não me mandasse uma mensagem pedindo para eu descer logo, eu ainda tinha tempo de guardar cada pedacinho daquele lugar na minha memória.
— Boris, não! — Eu conhecia aquela voz. Por um momento, achei que estivesse delirando, mas quando o cachorro preto e peludo - tão conhecido por mim - invadiu meu campo de visão, eu tive certeza de que era real.
— Ai, meu Deus, Boris! — o animal girava em torno de mim e esfregava a cabeça no meu corpo, como forma de carinho. — Meu Deus, eu não acredito.
— Boris! — Vi parado na porta, como uma estátua, provavelmente achando que aquilo não era real.
— Por favor, me diz que isso é real e eu não estou delirando? - Minha voz soou mais firme do que eu imaginava. Eu precisava ter certeza que tinha o controle do que restou da minha sanidade mental.
— Eu espero que isso seja real, porque eu quero muito que seja. — Senti os braços de me envolverem num abraço caloroso. O abraço que eu mais senti falta nos últimos anos. Na verdade, não havia nada sobre que eu não tivesse sentido falta ou que eu não lembrava. Não havia absolutamente nada.
— Eu queria muito te odiar agora, mas eu não consigo. Não é da minha natureza fazer isso, não quando é com você. Então, por favor, não vá embora nunca mais ou eu arranco suas bolas e dou pro Boris comer.
— Eu prefiro que você as jogue no lixo, o Boris não está acostumado a comer esse tipo de carne. — fechou os olhos enquanto ria, era típico dele. Os seus olhos castanhos encontraram com os meus, e eu me permiti me perder na imensidão e intensidade daquele olhar.
— Eu preciso ir embora, Jesse está me esperando. — Quase esqueci do meu irmão, ele provavelmente já estava uma fera me esperando no carro. — Eu comprei uma casa e vim buscar algumas coisas hoje, que ainda estavam aqui. Se for ficar na cidade, você sabe meu número. — Me despedi de com outro abraço, depois alisei a cabeça de Boris e caminhei até a porta, quando escutei meu nome ser chamado.
… — Parei na porta, esperando continuar. — Eu preciso te fazer uma pergunta, antes de qualquer coisa.
— Não. — Eu sabia o que ele ia perguntar, era justamente o motivo dele ter ido embora; por mais que ele tentasse negar e esconder de mim, eu sabia. — A resposta é não para a sua pergunta. Mas é uma longa história e não quero contá-la agora. — E dolorosa, dolorosa demais para ser contada em voz alta nesse momento. Eu não precisava lembrar daquilo e nem queria, sabia que ia respeitar minha vontade. E, então, quando eu estivesse a vontade para contar todos os detalhes, eu sei que ele estaria disponível para me ouvir sem julgar minhas escolhas. Pelo menos o do passado faria isso e, sinceramente, eu esperava que esse mesmo do presente também fizesse.



Capítulo 1

Dois anos depois

A música alta, as várias garrafas de cervejas, os shots de tequila e outras bebidas que não lembrava quais eram passavam feitos flashes por sua mente. Piscou várias vezes antes de tentar abrir os olhos, mas a cortina aberta da sala a impedia de fazer isso. A dor forte em sua cabeça indicava o início da sua ressaca, mas nada que uma xícara de café forte e uma aspirina não resolvesse.
Quando teve coragem o suficiente para abrir os olhos percebeu que passou a noite - ou madrugada - toda deitada no chão de sua sala, algumas peças de roupas jogadas no chão e uma figura masculina também estava ali. nem ao menos tentou se esforçar para lembrar o nome do rapaz, ele também não tentaria se fosse o contrário. Deu de ombros e partiu rumo ao seu quarto, pegou um top preto, uma calcinha e uma calça de moletom cinza e partiu para o seu banheiro. Um banho quente a faria bem.
Um pouco sem paciência deixou os cabelos curtos com mechas avermelhadas secarem naturalmente, apenas tirando o excesso de água com a toalha de banho. Voltou para a sala e o homem continuava desmaiado e apenas chegou perto o suficiente para se certificar de que ele estava respirando e estava. Ufa, respirou aliviada.
“Well it's cold, cold, cold, cold inside darker in the day than the dead of night. Cold, cold, cold, cold inside doctor, can you help me? Cause something don't feel right something don't feel right” Berrava de algum lugar da sala de , mas a mulher ignorou o aparelho que saía o som e foi em direção a cozinha. Sua ressaca era mais importante naquele momento.
Colocou o pó de café e água na cafeteira, esperando a pequena máquina fazer o seu trabalho. Enquanto o café não ficava pronto, a mulher pegou, de dentro do armário, uma caixa de primeiros socorros onde guardava os comprimidos para dor de cabeça e mais outros utensílios para pequenos acidentes domésticos e tomou o comprimido para dor que achou. A máquina apitou informando que já tinha passado todo o café e o mesmo já estava pronto para ser servido na jarra de vidro acoplado ao equipamento. Não demorou para que estivesse bebendo o líquido quente e acomodou-se nos bancos altos de sua ilha pensando sobre o que faria durante o dia.
Era domingo, o celular já havia tocado antes, mas ainda faltavam exatos quinze minutos para a segunda ligação de sua mãe acontecer perguntando onde a filha estava que ainda não tinha chegado. A verdade era que ela nem sequer iria aparecer para o almoço. Sua mãe já sabia, mas ainda insistia para a filha tentar manter uma relação amigável com o pai. Inventar uma desculpa parecia mais interessante naquele domingo, talvez uma gripe ou tarefas demais do trabalho serviriam para salvar sua pele daquele almoço.
— Ér… eu ‘tô indo, então. — Ouviu o rapaz dizer e virou-se para ter certeza que ele sairia da sua casa. A pior parte da ressaca e de sexo com desconhecidos. Eles sempre tentavam inventar uma desculpa qualquer, mal sabiam eles que odiava essa parte e ficaria muito feliz se eles apenas juntassem suas roupas e saísse dali em silêncio, como ela costumava fazer.
— Ok, caso queira uma xícara de café fique à vontade, mas nem tanto. — deu de ombros, tomando mais um gole do líquido. — Caso não queira, a porta está logo ali. — Certamente o rapaz não esperava aquela resposta, mas resolveu não questionar saindo pela porta de madeira em seguida.
— WOW! Parece que alguém ficou ofendido ao ser dispensado. — abriu a porta mal fechada e adentrou a casa da amiga sem cerimônias.
— Caralho, ! Que susto. — Segurou com mais força a caneca evitando a peça de cair no chão. — Masculinidade frágil o nome. — revirou os olhos e se acomodou no sofá e esperou o amigo fazer o mesmo, depois de pegar uma xícara de café.
— A que devo a honra da sua visita a essa hora da manhã num domingo nublado?
O rapaz deu um beijo no rosto da amiga já com sua xícara de café em mãos. Intimidade era uma merda mesmo, já dizia o ditado.
— Adoro como sou sempre bem-vindo na sua humilde residência.
— Se não fosse não estaria aqui. Anda, desembucha. — Dobrou as pernas em posição de índio e esperou que ele começasse a contar o que tanto lhe afligia.
— Rebecca e eu terminamos.
— E? Ainda bem, você estava só enrolando ela né, .
— Mas…
— Mas o quê? A menina queria construir uma família, queria filhos, uma casa grande e um cachorro. E você só quer farra, encher a cara e zero filhos. Não seja hipócrita e dizer que não.
— Eu sei, só não achava que fosse vir dela a iniciativa.
, nenhuma mulher merece um relacionamento meia boca e você estava dando isso a ela. Ela era apaixonada, mas você não. Deixe-a ir, vai ser o melhor. — O rapaz ficou em silêncio com as palavras da amiga. Não estava triste com o fim do relacionamento com Rebecca, sabia muito bem que estava sendo cretino com ela. Mas já estava acomodado em ter alguém e se esquecido totalmente das responsabilidades que manter um relacionamento trazia consigo.
— E a sua noite, como foi?
— Boa, nada demais. — Colocou a xícara na mesa de centro e pegou seu celular checando as mensagens de sua mãe. Dessa vez ela escolhera não ligar. — Quer ir num almoço comigo? Amanda e Jesse estão noivos. — perguntou de repente, digitando algumas coisas no celular sem prestar atenção em .
— Wow, mande meus parabéns a eles. Sim, aceito ir no almoço, preciso me distrair. — Ele falou carregando a xícara vazia junto da sua para a cozinha e as lavando em seguida.
trocou de roupa e optou por uma calça jeans de lavagem escura, um moletom preto e seu inseparável all star branco. Era apenas um almoço com a família, não precisaria se produzir toda para isso. Pegou seu celular e os óculos escuros na estante da sala e saiu da casa acompanhada de .

— Onde estamos indo? — apenas obedecia às coordenadas de e havia esquecido totalmente de questionar onde estava se metendo.
— Num almoço ué. — Prendeu o riso. — É ali ó, naquela casa azul. — estacionou o carro próximo da calçada e tirou o cinto já saindo do veículo.
— Espera, essa não é a casa da sua mãe? — olhou para a casa e depois para , vendo a mulher tirar os óculos escuros e concordar com a cabeça.
estava prestar a abrir a boca quando a porta da casa se abriu e Jesse saiu de lá com seu filho no colo. O garotinho loiro com os olhos cor de mel abriu o sorriso mais fofo mostrando o máximo de dentes que conseguia, tentando se livrar dos braços do homem e correr para o colo da tia. Jesse era o irmão mais velho de e o filho favorito também, mas o irmão não dava bola para as tentativas falhas dos pais de sempre deixarem os irmãos um contra o outro.
— Tia, ! — O garotinho pulou para o abraço de , que o tirou do chão e encheu-o de beijos.
— Marty!
— Hoje é o dia de sorte do Marty, já ganhou danone de chocolate da nossa mãe e agora está te vendo. Talvez até chova. — Ele disse limpando a boca do filho suja de chocolate e deu um abraço de lado na irmã.
— Diz pro papai quem é sua tia favorita, Marty? — A mulher fazia cócegas na barriga do sobrinho que não conseguia parar de rir para responder.
— ‘Tava com saudade, tia! — O menino disse agarrado no pescoço da irmã mais nova do pai após cessar o ataque de riso.
— Eu também estava, meu amor, morrendo de saudade. — Bagunçou seus cabelos e o beijou na bochecha. — Cadê Amanda?
— Lá dentro, ajudando a mamãe na cozinha. — Pegou o filho de volta no colo indo em direção ao seu carro. — Vamos no mercado rapidinho. Boa sorte. — Jesse acenou para ao passar por ele, já se conheciam dispensando qualquer tipo de apresentação.
e seguiram para dentro da casa da família . As vozes altas, concentradas na cozinha, se misturavam junto dos barulhos de panelas e copos de vidro. estava ao lado da amiga com as mãos no bolso da calça, já conhecia a mãe de , mas não conhecia seu pai e a mulher ao seu lado parecia ainda mais tensa a cada passo que dava. Por um momento se questionou se não era melhor estar fazendo isso sozinha ao invés de envolver o amigo nos seus problemas familiares. Conhecia o temperamento de seu pai e não importava se tinha visita, ele nunca perdia uma oportunidade de tentar menosprezar o seu trabalho. Aos olhos dele, a filha mais nova era a ovelha negra da família desde o momento em que recusou fazer medicina. Fato que a deixava mais irritada sempre que o pai tocava no assunto, pois quando Jesse fizera o mesmo ainda era tratado como o filho favorito.
— Se meu pai for inconveniente nós vamos embora na mesma hora, ok?
— Você é incrível, só lembre disso. — segurou a mulher pelos ombros, fazendo-a parar e respirar fundo por alguns segundos.
— Vamos lá. — Ele balançou a cabeça concordando, abriu a porta dando acesso a cozinha acabando com aquela tensão.
— Uau, quem é vivo sempre aparece. — Amanda foi a primeira a falar dando um abraço na cunhada.
— Marty estava morrendo de saudade da sua tia favorita. — Ela disse se gabando do trono que possuía — Gente, esse é o , vocês se lembram dele, né?! — Apresentou o amigo para os presentes no cômodo, mas eles já se conheciam.
— Sinta-se à vontade, , esquece da educação que dei a ela. — Jane abraçou a filha e sorriu terna para o rapaz.
— Será que Jesse vai demorar? Estou morrendo de fome.
— Mas continua folgada, hein.
— Você me conhece, Mandie.
— Como você aguenta, ?
me salva de umas poucas e boas, não posso reclamar. — Ele disse prendendo o riso.
— Mãe, o vovô me deu um chocolate. — Marty entrou na cozinha correndo com o chocolate em mãos e com um sorriso de orelha a orelha.
— Guarde para depois do almoço. Já está pronto, Marty. — A voz doce de Amanda falando com o filho só deixava com uma pontinha de felicidade com a certeza que ele cresceria da melhor forma possível, mesmo que ela não pudesse estar sempre por perto.
encarou o pai e tentou um sorriso, recebendo apenas um aceno de cabeça do mais velho. Seria um dia longo. A mesa foi posta para as oito pessoas da casa, isso incluía Marty que estava aprendendo a comer sozinho. Na mesa só se escutava o barulho dos talheres em contato com o prato, o silêncio e a tensão era sempre a mesma nos almoços em família aos domingos e nem Jesse e entendiam porque a mãe tentava reunir todos se o clima não era dos mais agradáveis.
— O que anda fazendo, ? — O silêncio foi cortado pela pergunta, de maneira ríspida, de George.
— Trabalhando, nada demais.
— E tem algum namorado? — revirou os olhos de forma discreta. Era sempre a mesma questão, qual o problema em não ter namorado ou não ter construído uma família ainda aos trinta anos?
— Não.
— Ainda bem que seu irmão nos deu um neto, se dependêssemos de você nem isso teríamos hoje.
— Confia em mim, não confia? — disse baixo o suficiente, apenas para escutá-lo. Encarou os olhos da amiga, esperando uma resposta.
— Infelizmente, sim. — Ela revirou os olhos. — Apenas lembre do kit de facas novas que eu tenho em casa. Seria uma pena estreá-las no seu lindo corpinho.
— Você pode fazer outras coisas com o meu corpo mais tarde. — Ele piscou para a mulher, entrelaçou seus dedos nos dela e, finalmente, voltou sua atenção para todos na mesa.
— Amanda e Jesse, desculpa atrapalhar esse momento de vocês. Mas eu e também temos um comunicado. — começou a falar, atraindo a atenção para eles dois. — Eu e a estamos namorando, oficialmente. E vamos morar juntos.
parecia triunfante, enquanto sorria mostrando todos os dentes da boca. Mas tinha vontade de quebrar todos aqueles dentes, incrivelmente, brancos. Embora, a boca dele fosse ainda mais irresistível de perto.
— Uau, é sério mesmo. Parabéns para o casal, que já era um casal antes de ser um casal. — A piada sem graça de Amanda ainda fez todos rirem no cômodo. soltou um suspiro discreto. Ok, ela só precisava encarar o resto de fim de tarde.
— Obrigada, Amanda. — pigarreou, recuperando o tom firme de voz, e sorriu em seguida.
— Na próxima semana, iremos para Leeds contar para minha família. — Então, ele tinha feito planos? Foi o que ela pensou.
— Nós vamos para Leeds, meu bem? — sorria, mas por dentro ela apenas queria fugir de toda essa situação.
— Vamos. Minha mãe está com saudade de você. — Antes que pudesse pensar em formular uma frase, selou seus lábios nos da mulher, como forma de parecer um casal feliz em frente a família dela. Mas eles nem, sequer, eram um casal.
Ela conhecia aquela sensação, aquele gosto e, principalmente, aquele homem que estava a beijando nesse exato momento. Não era um problema real isso tudo estar acontecendo, o problema é que tudo era mentira. Uma grande e bela mentira.
— Isso é verdade? — George desviou os olhos de para a filha, voltando a atenção no rapaz e o fuzilando com os olhos. sentiu a mão de apertar fortemente sua perna, imaginando a raiva que a amiga estava sentindo. Certamente estaria ferrado, para não dizer morto, se todas aquelas pessoas não estivessem ali.
— Sim. — Respirou fundo antes de responder.
— Eu sabia que vocês formavam um belo casal. — Jane disse sorrindo para o casal. parou de prestar atenção nas felicitações que recebeu, com exceção de seu pai, dos familiares. Sua cabeça girava e ela apenas sorria fingindo entender o que falavam. Ela só precisava sair dali o mais rápido possível e socar a si mesma e principalmente pela maldita ideia. Ainda que a ideia fosse para ajudá-la, já que o amigo definitivamente não tinha pretensão nenhuma de manter um relacionamento real e ela muito menos com ele, a ideia na prática de usar e/ou mentir para alguém era ainda mais horrível do que parecia ser na teoria. Nem ao menos se deu conta de quando sua mãe já recolhia os pratos da mesa e colocava os potinhos de sobremesa, servindo um delicioso pudim de leite para todos. já havia engatado uma conversa sobre futebol ou música ou talvez os dois com Jesse, mas não fazia questão de entender sobre o que era exatamente.

A brisa leve naquela tarde fez pensar e se questionar sobre os últimos acontecimentos, enquanto estava sentada no balanço do jardim de seus pais. Acontecimentos esses que demoraram apenas um pouco mais de meia hora depois que tinha pisado na antiga casa que morara, para acontecer e o quanto esse pseudo-relacionamento poderia afetar sua vida e relação com seu pai. Como se não bastasse tudo ser mentira, ainda era o tipo de cara que seu pai abominava: metido a rockstar, sem pretensão de ter filhos e sem carreira profissional estabilizada.
Entretanto, era seu amigo, seu primeiro parceiro de apartamento e mesmo sendo totalmente o oposto dela, eles se davam bem. Conseguiam manter uma amizade saudável e podiam contar um com o outro em todos os momentos. E, naquele momento, ele estava provando que ela podia sim contar com ele ao se meter nessa enrascada por livre e espontânea vontade. não tinha ideia do quão complicada era sua família, mas estava disposto a fazer qualquer sacrifício e se esse sacrifício fosse manter um relacionamento de mentira, ele faria.
— Então, você está mesmo namorando? — Escutou a voz de George ao seu lado em pé.
— Sim. — Tentou forçar um sorriso, mas não conseguiu.
— O que ele faz da vida? Tem como te sustentar? Construir uma família?
— Pai, eu não preciso que ninguém me sustente e construir uma família não está nos nossos planos agora. Um relacionamento é muito mais do que ter filhos. — soltou um suspiro cansado. Seu pai nunca ficaria feliz independente da sua escolha de vida.
— Só quero que você tenha uma vida diferente da minha.
— Diferente como? Você e mamãe viveram a minha infância e a do Jesse trabalhando feito doidos em hospitais, quase nunca conseguimos passar um feriado, aniversário ou festa juntos. Não estou reclamando da vida que vocês nos deram, sempre tivemos tudo e a melhor educação possível, mas foi justamente por isso que resolvemos não seguir o mesmo caminho. Se for isso, não precisa se preocupar, porque minha vida já está sendo bem diferente da sua.
, eu sou seu pai e só quero o melhor para você.
— O que exatamente você pensa que é melhor para mim? Eu amo a vida que eu levo, amo o meu trabalho, meus amigos, amo o Marty e estou feliz desse jeito. E se isso não é o melhor para mim, eu sinceramente não quero saber o que é. — caminhou em passos rápidos para dentro da casa, a procura do amigo para que eles fossem embora o mais rápido possível ou seria capaz de vomitar mais palavras em cima de seu pai e ninguém ia gostar de ouvir o que ela ainda tinha guardado.



Capítulo 2

— QUE PORRA VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO, ? — O rapaz tinha a feição suave e estava jogado de uma forma extremamente relaxada no sofá marrom da casa de . — EU. QUERO. QUE. VOCÊ. ME. EXPLIQUE. AGORA! — disse entredentes, visivelmente furiosa.
, senta e presta atenção. — Ele se ajeitou no sofá, apoiando os cotovelos nos joelhos e olhando fixamente para a mulher. Ela estreitou os olhos e permaneceu séria esperando uma explicação. — Seu pai não quer tanto que você tenha um namorado? Então, você vai desperdiçar tudo isso? — Apontou para o próprio corpo, fazendo revirar os olhos. — Eu tenho uma sobrinha também, não precisamos nos preocupar com filhos agora.
— Não vamos meter mais ninguém nessa loucura. Eu nem sei porque aceitei, tem tudo para isso dar errado e meu pai me odiar ainda mais. A gente não pode fingir para sempre, tá entendendo a gravidade da situação? — A mulher caminhava de um lado para o outro na sala pensando numa alternativa melhor para tirá-los daquela bagunça.
— Ele não te odeia, só não aceita te ver sendo independente longe dele.
— Você não entende. Ele me odeia e é capaz de odiar muito mais. — A conversa de mais cedo veio à tona e respirou fundo se acomodando no sofá. Talvez aquela ideia maluca desse certo a ponto de fazer seu pai um pouquinho feliz. Não havia chance de se envolver com e menos chances ainda da amizade deles acabarem por esse motivo.
— Então, vamos mostrar para ele o quão errado ele está a respeito de você. Aceita ser minha namorada de mentirinha? — Estendeu a mão a fim de selar o trato e começar a encenar seu personagem de namorado perfeito.
— Eu te odeio. — Apertou a mão selando o trato e desejando que no final desse tudo certo. — Só não se apaixone.
— Não prometo nada. Mas agora que o seu pinscher interior está calmo, eu ‘tô indo. Cheguei aqui solteiro e ‘tô saindo com uma namorada mais gostosa que a anterior. — Recebeu um soco no ombro da amiga e soltou uma gargalhada vendo a cara de desgosto da garota.
— Eu ainda estou com raiva de você. Ah, antes que eu esqueça, não podemos ir para Leeds na próxima semana. Eu preciso trabalhar.
— Eu sei, eu também não posso. Mas a parte sobre a minha mãe estar com saudade é verdade. — sorriu de lado. — Não se preocupe com isso agora, me avise quando conseguir um tempo e nós vamos.
amava a família e estava realmente com saudade deles, ela daria um jeito de ir visitá-los logo.
— Eu juro que tento ficar com raiva de você. Vai embora logo, vai. — chutou a bunda do rapaz com o pé e se deitou no sofá ao ouvir a porta sendo fechada. Respirou aliviada e deixou o cansaço dominar seu corpo, sendo levada para um sono profundo.

acordou novamente na sala de sua casa, mas dessa vez tinha sido no sofá pelo menos e agradeceu por isso ou suas costas não aguentariam. A campainha atrapalhou sua ideia inicial de ir dormir finalmente na sua cama, mas pelo visto a pessoa não pretendia ir embora tão cedo, já que o toque soou pela casa novamente.
— Você não acabou de sair daqui? — olhou com um semblante confuso, encarando o amigo.
— Eu não tenho mais casa para morar, lembra? Espero que o convite ainda esteja em pé. — Ele disse com as mãos no bolso, visivelmente envergonhado, foi quando desviou os olhos do rosto do amigo para as duas malas grandes ao seu lado sem saber exatamente o que falar.

Uma semana antes

: 31 anos, formado em administração, possui um emprego meia boca, o suficiente para sobreviver e satisfazer algumas mordomias. O sonho de ser um rockstar já havia sido deixado de lado quando resolveu entrar na universidade, mas ainda passava o tempo tocando alguns covers e quebrando um galho para os amigos quando conseguiam um show num dos bares da cidade. O humor sempre sarcástico do rapaz denunciava o quanto era desanimado com o que fazia da vida, mas acabava levando daquele jeito mesmo por comodidade. Entretanto, estava sempre disposto a ajudar os amigos em qualquer situação, mesmo estando em desvantagem em muitas delas. Pode se dizer que era o Chandler da vida real.
A xícara de café quente com o líquido amargo em suas mãos parecia satisfazer e tranquilizá-lo, ajudando a colocar os pensamentos conturbados no lugar. O final de domingo tinha tudo para acabar da mesma forma de sempre, cumprindo com os objetivos de curar a ressaca, comer um lanche e dormir tarde para acordar cedo na segunda-feira. Se não fosse pela campainha tocando e a ilustre presença do senhor Morris, o síndico do prédio. Boris levantou as orelhas ao ouvir o som soar pelo apartamento e saiu logo atrás de seu dono em direção a porta.
— Boa noite, senhor Morris. — Cumprimentou o senhor grisalho parado em sua porta.
— Boa noite, . — O rapaz mais jovem estranhou o comportamento do velho quando este tentou lhe lançar um sorriso - numa tentativa fracassada, é claro -, pois sabia muito bem que ele não costumava ser simpático com ninguém no prédio.
— Tem alguma coisa errada? Tenho certeza que já lhe paguei o aluguel desse mês.
— Não é nada com o aluguel. Na verdade é, mas não com o valor. — Ele começou e permaneceu em silêncio. — O proprietário pediu o apartamento, se conseguir desocupá-lo até o início ou meio da próxima semana. A imobiliária vai entrar em contato com o senhor, mas já estou lhe adiantando o que eles têm para lhe dizer.
Droga. Onde ele iria morar agora? Lembrava muito bem do sufoco que tinha sido conseguir aquele apartamento, ainda mais pelo preço acessível o qual ele foi ofertado. A localidade era ótima, próximo do centro, do seu local de trabalho e, por incrível que parece, próximo de . , então era ela quem o salvaria dessa vez.
— Ok, senhor Morris. Obrigado pela informação. Dou um jeito de sair até o final da semana.
— Desculpe pela notícia. Tenha uma boa noite. — se despediu com um aceno de cabeça e fechou a porta em seguida. O café já frio foi depositado na pia ao lado de outras louças, antes do rapaz se acomodar no pequeno sofá branco da sala. Passou as mãos pelo rosto num sinal claro de nervosismo. A semana mal havia começado e ele já estava sendo despejado de sua própria casa. Bem, não era sua, mas pagava por ela, então era sua de certo modo.

“Preciso de um lugar para ficar por um tempo.”

Quando percebeu a mensagem já tinha sido enviada para , o que fez o seu celular vibrar em seguida com a resposta.

“ Tenho um quarto pro Boris. Você pode ficar no jardim com a casinha dele hehe.”

— Nós vamos nos mudar, garotão. — Passou a mão por todo o pelo liso do animal e ele pareceu entender o desânimo de , lambendo a mão do dono como forma de carinho.

Uma semana depois

— Entra. — disse ajudando a pegar a outra mala e colocando próxima ao corredor. — Ei, garotão, que saudade. — pegou a caixa de transporte que o cachorro estava acomodado, abrindo para que o mesmo saísse e começasse a lamber o rosto da mulher. Mas o animal saiu correndo pela casa em seguida, a fim de conhecer seu novo território.
— Desculpa aparecer essa hora.
— Já dividimos uma casa antes e era menor que essa, pense pelo lado positivo. O que aconteceu exatamente?
— O dono pediu o apartamento e me deu uma semana para sair, mas eu acabei esquecendo e enfim, tive que sair hoje.
— Pode ficar o tempo que quiser, sabe que eu não me importo. Tem que arrumar o quarto que você vai ficar. — disse subindo as escadas, indo em direção ao antigo quarto de seu irmão.
— Achei que ia dormir junto com a minha namorada. — Ouviu os passos de acompanhando os seus. soltou uma gargalhada antes de abrir a porta do quarto.
— Tá doido, é? Fingir que somos namorados na frente dos outros não é o suficiente? Além de que vamos ter que nos beijar em algum momento sabe, minha família não é tão fácil de enganar assim. Principalmente o Jesse, você o conhece.
— Eu sei. Quem dormia aqui? — olhou o quarto um pouco bagunçado. Algumas caixas amontoadas uma por cima da outra ainda ocupavam espaço.
— O próprio. Antes do Marty nascer, as coisas entre ele e a Amanda não estavam muito boas, então ele passava mais tempo aqui do que na casa deles.
— E agora eles estão noivos, né? Quem diria.
— Pois é, mas isso ia acabar acontecendo de qualquer forma. Ele e a Amanda são inseparáveis e melhores amigos, não tinha como dar errado. — começou a tirar as caixas do caminho, caso contrário não conseguiria nem caminhar ali dentro.
— Isso é algum tipo de regra da família, ?
— O quê?
— Namorar, casar e ter filhos com melhores amigos? — riu e balançou a cabeça.
— Se for, é mais uma das coisas que eu vou decepcionar minha família. Não quero ter filhos, casar não está nos meus planos e, bem, não namoramos. Não de verdade.
— Eu sei.
— Toda família tem o seu patinho feio, ovelha negra, enfim, qualquer coisa. Eu sou o da minha. — Não se subestime, . - Ela deu de ombros, encerrando com o assunto.
— Coloca lá no meu quarto, por favor. Eu nem sei o que tem aí dentro. — Ela disse, entregando uma caixa para .
— Eu mal cheguei aqui e já tá me colocando para trabalhar.
— Meche logo essa bunda daqui.
e terminaram de arrumar tudo cerca de uma hora depois, tinham mais coisas guardadas dentro do cômodo do que a mulher lembrava de ter colocado ali. Tirou os lençóis da cama e deu uma muda nova para estender na cama, o fazendo rapidamente.
— Obrigado por deixar eu ficar aqui. — Ele agradeceu quando já estava tudo arrumado.
— Não posso deixar meu namorado no olho da rua. — parou próximo da porta, encostando a cabeça no batente. — Vai ser bom ter você aqui.
— Estava com saudade de morar comigo, fala a verdade. — Ela soltou um riso baixo.
— Você é um bom parceiro de apartamento, tenho que confessar.
— Você também é. A melhor que eu tive.
— Eu sei. — Piscou para ele. O silêncio estava prestes a predominar quando barulho de vasos sendo quebrados, seguidos de passos atrapalhados pisando na terra foram ouvidos.
— Boris! — Os dois falaram ao mesmo tempo, saiu correndo em direção ao cachorro, já imaginando a arte que ele havia feito. A área de serviço de estava completamente suja de terra, os cacos de vidro do vaso quebrados espalhados pelo local e Boris com terra por todo corpo e focinho, as folhas da flor de orquídea azul da mulher estavam presas entre os pelos do cachorro e era impossível não rir da cena.
Boris era o típico cachorro vira-lata que não perdia uma oportunidade de cheirar e futricar em tudo que via pela frente. Da sua maneira, obviamente, e isso muitas vezes causava alguns danos ao seu dono. Entretanto, quando eles encontravam o meliante com a sua verdadeira cara de cachorro que caiu da mudança era impossível resistir, desistindo de qualquer possível xingamento que estavam prestes a dizê-lo.
era completamente apaixonada pelo cachorro, ainda lembrava do dia em que tinha ido com a feira de adoções de animais. Boris era o único cachorro preto e um pouco maior dos outros que estavam no cercadinho, quando olhou o casal de amigos não resistiu e balançou o rabo, logo lambendo a mão de , quando ela a estendeu para lhe fazer um carinho. não pensou duas vezes antes de adotar o filhote.
— Boris! Você vai dormir na rua. — O cachorro baixou as orelhas e escondeu o rosto entre as patas, sabia que tinha feito algo errado. — Vem! — abriu a porta dos fundos, dando espaço para o filhote ir para o jardim. deixou uma tigela com água e ração na varanda junto de sua cama. O castigo teve efeito contrário do esperado, pois logo já era possível ver o cachorro correndo pelo jardim, aproveitando cada espaço daquele local.
— Ele vai ficar bem? — disse, enquanto observava o cachorro correndo.
— Sim, ele adora dormir no jardim. Mas eu morava em apartamento, então não rolava. — Deu de ombros e deixou o cachorro aproveitar o espaço. Ela balançou a cabeça concordando, estava prestes a voltar para dentro da casa, quando lembrou de falar sobre as regras.
— Ah, você lembra das regras do apartamento, né? Elas estão valendo a partir de agora.
— Não largar pertences jogados pela casa, isso inclui roupas, bolsas, sapatos, entre outros; dividir as tarefas da casa, ninguém é empregado de ninguém; e não trazer interesses românticos sem aviso prévio. — contava nos dedos as principais regras que eles mantinham de quando moravam juntos.
— No caso desse último, você não deve trazer nem com aviso prévio. Até onde eu lembro, você não é muito silencioso quando se trata de sexo e eu não quero ser corna dentro da minha própria casa. — soltou uma gargalhada alta, fazendo rir junto. Sim, ela lembrava.
— Está com ciúmes que alguém possa usufruir do meu corpo, é?
— Não, eu o tenho a hora que eu quiser. Vou ter ciúmes de alguém, por quê? — entrelaçou os braços no pescoço de , ficando próxima o suficiente para encostar o nariz um no outro, mas sem perder o contato visual. Enquanto apertava a cintura de .
— Então, isso quer dizer que nós vamos ter alguns benefícios? Estou começando a achar isso interessante. — A mulher arranhou a nuca dele, puxando alguns poucos fios de cabelo daquela região, sentindo-o se arrepiar. Sorriu em aprovação com a reação que ele teve. Não satisfeita, ainda fez uma trilha de beijos molhados da mandíbula, próximo da boca de , até a sua orelha.
— Não, mas é bom saber que eu ainda causo esse mesmo efeito em você. — Parou de provocá-lo, para a decepção de . — Boa noite, .
Ele estava duro, ela havia o deixado duro. E ela sabia disso.
— Boa noite, . — Ele respondeu, mesmo sabendo que a mulher já havia saído do cômodo. Respirou fundo, bagunçando os cabelos e rindo em seguida. É, não seria uma tarefa fácil conviver com e o namoro de mentirinha.

A noite fria começava a dar as caras e o vento entrava pela fresta da janela aberta, fechou o vidro, seguido da persiana de madeira, deixando o cômodo escuro, do jeito que ela gostava. Pegou o pijama mais confortável dentro do seu roupeiro e seguiu para o banheiro, seus músculos tensos mais uma vez no dia precisavam relaxar. O final de semana totalmente atípico, a conversa com o seu pai, a mudança de para a sua casa, tudo competia por um momento de atenção dentro da sua mente e tudo que queria era que nada daqueles pensamentos viessem à tona. Seria perfeito se ela pudesse apenas deitar na sua cama, sem pensar em nada, esvaziar a mente, acordando no outro dia para ir trabalhar, já com o corpo e mente relaxados.
Quando saiu do banho, se acomodou debaixo das cobertas, pegando seu celular pela primeira vez desde que havia chegado em casa após o almoço desastroso. O aparelho logo apitou com as várias notificações de mensagens de Cassie, o que fez sorrir imaginando o desespero da amiga. Não deu tempo nem de pensar quando enviou a primeira mensagem a ela, já que o aparelho começou a vibrar em seguida anunciando a chamada de vídeo solicitada por Cassie.
— Oi, gatinha. - Cassie falou com uma enorme xícara de café em suas mãos.
— Oi, meu amor. — respondeu, já deitada e devidamente tapada. — O que me conta de tão importante?
— Nada demais, só para saber se você está bem e viva. Sumiu o dia inteiro. — Cassie deu de ombros. ficou pensativa, sabia que se contasse sobre o namoro falso para Cassie a amiga surtaria. Contudo, era a pessoa que mais confiava depois de Jesse, mas também sabia que a amiga não aguentaria guardar segredo por muito tempo.
— Eu estou bem. Se não estivesse viva você saberia, notícia ruim corre rápido.
— Credo, vira essa boca para lá. — A amiga bateu na mesa de madeira, uma forma de espantar o que acabara de ouvir.
— Ér... eu acho que tenho uma novidade então. — O sorriso de Cassie aumentou fazendo rir da amiga. — Eu e estamos namorando. — O sorriso de Cassie se tornou em um “o”, seguido de um grito e pulos da amiga, assim que soltou a frase.
— O , aquele seu amigo gostoso? — Podia ver o sorriso de Cassie aumentar ainda mais.
— O , sim.
— COMO VOCÊ ESCONDE ISSO DE MIM, ?
— Calma, respira primeiro. Eu vou contar tudo. — Fez uma pausa. — Mas amanhã. Almoçamos juntas, ok? — Cassie sorria e balançava a cabeça freneticamente concordando.
— Ai, meu Deus, ‘tô tão ansiosa para saber de tudo. Não se atreva a esconder mais nada de mim.
— Eu sei, mas prometo contar tudo amanhã.
— Ok. Agora eu preciso dormir, porque infelizmente ainda sou uma mera proletária. — Cassie revirou os olhos e mandou beijos, encerrando a ligação após se despedir da amiga.
Nos últimos meses passava mais tempo fora do que em casa, o trabalho realmente a estava ocupando, mas toda vez que ficava em casa se sentia sozinha. A casa parecia grande demais apenas para ela, trazendo sempre à tona a ideia de adotar um cachorro ou gato para fazê-la companhia. Mas agora e Boris estariam com ela, morando sob o mesmo teto. Isso apavorava os dois de alguma forma, mesmo já tendo morado juntos por alguns anos, eram outros tempos e não estavam fingindo manter um namoro. Entretanto, eles podiam botar tudo a perder ou fazer tudo dar certo, mesmo que de mentira.
No quarto ao lado, encarava questões parecidas. Após tomar um banho quente, deitou-se na cama para finalmente descansar, mas a sua mente ainda trabalhava a todo vapor. O domingo totalmente atípico o fez pensar o que teria acontecido se não tivesse ido ao almoço com , será que ele estaria dormindo naquela cama agora? Provavelmente sim, mas com certeza não estaria envolvido num pseudo relacionamento amoroso, o qual ele mesmo se meteu. A sua vida parecia não ser a única que estava uma bagunça, além de ter levado um pé na bunda, também tinha perdido a sua casa. O misto de sentimentos dentro do peito parecia querer pular para fora a qualquer momento, mas o cansaço do dia falou mais alto e o fez pegar no sono rapidamente.



Capítulo 3

— Boris, devolve o meu chinelo! - corria atrás do cachorro, o qual achava que a mulher estava brincando com ele e corria cada vez mais pela casa. — Ok, eu desisto. Pode ficar para você. — Voltou para o seu escritório calçando apenas um pé do chinelo, o outro ficou na boca do cachorro. Se acomodou na cadeira novamente, dando a devida atenção para o computador.
Naquela semana havia se permitido ficar em casa e fazer seu trabalho dali. Aproveitando também que iria almoçar com Cassie e ainda tinha um pouco de tempo antes de encontrar com a amiga. Olhou mais uma vez para o logo da nova confeitaria e ficou satisfeita com o seu trabalho, enviou para a proprietária da loja e agora só restava aguardar a resposta.
Enquanto se arrumava para o almoço, repassou pela última vez a história que contaria para Cassie sobre o seu namoro com . Precisava ser convincente, pois sabia que a amiga não deixaria nenhum detalhe de fora e no primeiro furo ela descobriria toda a farsa.
Tomou um banho rápido, vestindo a roupa separada já em cima da cama. Deu uma última olhada no espelho e ficou feliz com a imagem que apareceu. estava usando uma calça jeans de lavagem escura, uma blusa preta com detalhes de renda na manga, o seu coturno preto nos pés e uma jaqueta de jeans claro completava o visual. Os cabelos ondulados caíram sobre os ombros, era o máximo que eles chegavam. As mechas vermelhas começavam a ficar desbotadas e percebeu que já estava na hora de mudar, mas deixaria para resolver mais tarde, agora ela tinha uma Cassie ansiosa para enfrentar.
Não pôde controlar o sorriso ao ver a loira sentada próxima da janela, no restaurante favorito das duas, enquanto digitava algo em seu celular. Cassandra era sem dúvida linda, sem tirar, nem pôr. Tudo na medida certa, a falta de filtro fazia parte da sua personalidade e quem visse somente o seu rosto angelical não imaginava o quanto determinada e segura de si ela era, muitas vezes ajudando a também ter aquela autoconfiança que tanto precisava em certos momentos. Ao contrário de , Cassie era alta, corpo bem definido valorizando todas as suas curvas. Os lábios bem definidos normalmente marcados por um batom nude ou marrom escuro, com ela era oito ou oitenta. Naquele dia, sentada na mesa mais afastada, Cassie estava vestindo um conjunto de moletom preto e um par de tênis branco, os cabelos presos num coque firme no alto da cabeça e o semblante irritado enquanto digitava algo no celular não indicava boa coisa. Cassandra Highmore nunca saía de moletom e tênis nem para ir na esquina.
— Cadê minha melhor amiga e o que você fez com ela? — disse quando chegou à mesa, atraindo a atenção de Cassie.
— Esse velho maldito vai me tirar do sério! — Ela respondeu ainda concentrada demais no celular. — Mas enfim, vamos falar de coisa boa. Minha amiga finalmente desencalhou! — Soltou um gritinho animado, após guardar o celular na bolsa, mudando totalmente de humor e atraindo olhares de algumas pessoas a sua volta. fez uma careta ao ouvir a frase, mas sabia que Cassie estava feliz por ela.
— O que o senhor Willis quer agora? — disse, tentando tirar o foco da conversa de cima de si.
— Nada demais, não vamos estragar nosso almoço falando dele. — Droga! pensou. — Me conta tudo logo.
— Ok. — Murchou os ombros pensando mais uma vez como contaria tudo. — Então, você conhece o , né? — Cassie balançou a cabeça concordando. — Nós fomos no almoço de domingo da minha família e ele me pediu em namoro lá, na frente de todo mundo. A gente já estava ficando há um tempo, então não era algo que nós dois fôssemos nos arrepender depois. Estamos juntos real oficial desde então. — As reações de Cassie variavam entre espanto e sorrisos apaixonados. Ao contrário do que esperava da amiga, Cass ficou quieta no primeiro instante, concentrada no seu macarrão. - Fala alguma coisa, por favor.
— E o sexo, como é? Porque ele é gostoso demais. — Se não estivesse com o guardanapo em mãos, teria feito um estrago e tanto na cara da amiga. Tomou um gole de água para a comida descer e poder respirar.
— O quê?
— Você sabe que eu sempre quis pegar aquele homem e até teria pego se vocês dois não estivessem juntos. Meu Deus, por favor, mata essa minha curiosidade. Em que nível você classificaria o sexo?
— Num nível…— pensou por alguns segundos, antes de responder. Tentou lembrar da última e única vez que tinha transado com . Alguns bons anos atrás, ainda quando dividiam o apartamento. — Num nível . — A boca de Cassie se transformava em um grande “o”, porque aquilo era sem dúvida uma confissão e tanto.
— Sua vadia! Ok, falando sério agora, se estiverem dispostos a fazer um ménage podem me chamar.— soltou uma gargalhada, um pouco mais alta do que deveria, ao ouvir a frase de Cassie, mas era impossível não rir do que estava ouvindo.
— Eu largo o agora mesmo para ficar com você, Cassandra Highmore.
O almoço seguiu calmo, ainda que tivesse seguido de mais algumas perguntas - constrangedoras - de Cass, as quais teve resposta na ponta da língua para todas elas. Quando o horário de almoço de Cassie teve fim, aproveitou para passar no mercado e depois ir para casa, ainda tinha mais alguns ajustes para fazer antes de mandar tudo para o seu chefe. Por incrível que pareça, era designer gráfica, uma das melhores na sua área. Trabalhava para uma editora pequena, além de ter montado sua própria agência. Muitas vezes, o trabalho acabava tomando muito tempo da sua vida, mas quando o fim do dia chegava e via o ótimo resultado, todo o esforço valia a pena.
O jardim bem cuidado da casa de tinha uma trilha de pedras até a sua porta, era uma das poucas coisas que ela gostava e fazia questão de cuidar quando se tratava de jardinagem. Podia ser um pouco antiquado ou esquisito, mas ela gostava da grama bem cuidada e baixinha, alguns ramos de flores tinham sidos plantados por ela mesma em frente à casa e ao fundo gostava de manter uma horta pequena. Horta essa que estava correndo perigo quando sabia da existência de um Boris devorador em sua casa. O vaso quebrado na noite anterior foi apenas o começo, ela sabia disso. A caixinha de correio estava um pouco cheia, o que fez deixar de preguiça e finalmente esvaziá-la. Algumas cartas eram de contas da casa, outros apenas panfletos, uma carta sem remetente e, por último, um convite. O convite atraiu sua atenção, o abrindo rapidamente. As letras chamativas e bem desenhadas foram reconhecidas por , visto que ela mesma havia feito aquela arte. Derek Wayland estava prestes a inaugurar seu novo restaurante na cidade. Alguns meses atrás ela havia trocado alguns e-mails com o homem, quando ele solicitou para que ela fizesse toda a arte de divulgação do local, assim como o letreiro e os novos cardápios. Ainda que ela fizesse muito bem o seu trabalho, raramente era convidada, principalmente, para inaugurações. Se sentiu feliz por poder participar daquele processo respondendo o e-mail do convite, confirmando sua presença. Na sexta-feira da próxima semana, às dezenove horas.
O restante da tarde tinha sido um pouco movimentada para , devido a quantidade de trabalho não previsto para o restante do dia. Mas ela conseguiu dar conta, mesmo ficando um pouquinho depois do seu horário normal. Às vezes os clientes conseguiam ser mais chatos e exigentes do que ela pensava, no fim conseguia dar conta de todo o trabalho deixando-os mais satisfeitos do que o esperado. Quando se espreguiçou na cadeira, após fechar o notebook, percebeu que a noite já estava chegando. O cheiro de barbecue invadiu suas narinas, fazendo sua barriga roncar lembrando-a que não havia comido nada depois do almoço. Deixou o cômodo que usava como escritório e caminhou em direção a cozinha, porém ela também estava vazia. Resolveu ir para o quarto e tomar um banho quente, colocar uma roupa mais confortável que a calça jeans. Ouviu uma música soar dentro do quarto de , no mesmo ritmo que ele cantarolava baixinho. balançou a cabeça, rindo do amigo, ainda tinha as mesmas manias.
O vento gelado da rua adentrou o quarto no momento em que a mulher saiu do banheiro, com a toalha em mãos, secando os cabelos. Fechou-a rapidamente, terminando de colocar um moletom por cima do top que estava usando junto do short do pijama. Não fazia muito sentido usar uma blusa de moletom por cima enquanto ficava com as pernas de fora, mas era assim que gostava e costumava ficar. De qualquer forma, não conseguia dormir de calças e se as colocasse antes, teria que trocá-las pelo short na hora de dormir, já vestir a peça economizava esforço depois. Desceu as escadas, indo para a cozinha novamente, dessa vez já se encontrava ali. O rapaz vestia apenas uma calça de moletom e deixava as poucas gotas d'água de seus cabelos curtos caírem por suas costas, terminando no cós da calça. “Quando tinha se tornado tão gostoso?” Foi o primeiro pensamento que passou pela cabeça de , se amaldiçoando em seguida. “Foda-se, nós somos amigos. É normal, não é?” Ela certamente estava fazendo algumas caretas enquanto os vários pensamentos - alguns impróprios - rondavam sua mente, mas não se importou.
— Ei, não te vi chegar.
— Você estava concentrada demais no telefone, não quis atrapalhar. — tirava a forma do forno, colocando-a em cima do fogão. — A janta tá pronta, tá com fome?
— Muita, o cheiro está ótimo. — pegou uma jarra na geladeira, preparando um suco de laranja para os dois. Colocou os pratos e talheres na mesa, enquanto pegava os copos no armário de cima.
— Eu não sei se você ainda come carne, mas eu fiz uma costela suína com barbecue e batatas assadas. Você amava isso.
— Eu ainda amo. E, sim, ainda como carne. — Serviu-se um pedaço de carne, batatas e salada em seu prato. Sentando-se na mesa, acompanhada de . — Jesse não conseguiu me converter para o veganismo.
— Marty não deveria passar muito tempo com você, caso contrário ele terá muito trabalho também.
— Ele é muito de boa com o Marty, deixa o filho experimentar bastante coisa. Mas sempre evita industrializados e essas coisas. - disse colocando um pedaço de carne na boca. — Hum, tá muito bom isso aqui. — Apontou para o prato.
— Eu que fiz né, baby.
— Modesto como sempre. — deu língua e revirou os olhos. Um mais adulto que o outro. — Ei, mudando de assunto rapidinho. Conversei com a Cassie hoje, contei sobre a gente sabe, para pelo menos parecer real.
— Aposto que ela surtou. — balançou a cabeça, concordando e rindo ao lembrar da conversa de mais cedo com a amiga.
— Sim, sabe como ela é, né. Sem filtro.
— Hum, já posso imaginar como foi a conversa. Tenho um convite para te fazer. — Foi a vez de mudar de assunto.
— Eu também. - Ele a olhou, risonho, esperando que ela falasse primeiro, mas fez o mesmo e foi a brecha para começar a falar.
— Hum... Interessante. — Ele terminou de comer e colocou o prato na pia, se escorando nela. — Meu amigo vai inaugurar o restaurante novo dele no próximo final de semana. Podíamos ir juntos.
— Seu amigo se chama Derek Wayland? — colocou o prato na pia, parando ao lado do amigo.
— Sim, como sabe? — começou a lavar a louça quando tudo já estava dentro da pia.
— Ele é meu cliente. Recebi o convite da inauguração do restaurante dele hoje. Vamos juntos então. — sorriu amigável, pegando um pano na bancada para começar secar o que era lavado.
— Sim, mas se algo acontecer eu não posso te pedir em casamento. É demais para mim.
— Idiota! - jogou um pedaço de guardanapo de papel em que ria da cara da amiga. — Eu ainda tenho vontade de te matar toda vez que lembro desse namoro.
— Eu precisava de uma casa para morar, nada mais justo você poder desfrutar desse corpinho.
— Seu interesseiro. Eu não seria capaz de deixar o Boris na rua. — Ela ria alto, tentando desviar dos pingos d'água que jogava em sua direção. — Falando sério, você é doido e se não fosse meu melhor amigo eu acharia mesmo que está fazendo isso por interesse.
— De todas as coisas que eu já fiz na minha vida, essa com certeza é a mais doida delas. Eu posso morrer, . — A cara de incrédulo fazia rir ainda mais do amigo.
— Sim, meu pai vai querer matar nós dois quando descobrir tudo.
— Ele não vai descobrir. — Terminou de lavar a louça e esperou a amiga guardar o último prato, secando suas mãos com o pano que ela usara. — Vou passear com o Boris. Vamos?
— Só deixa eu colocar um calça e já encontro vocês.
foi até o jardim da casa com a coleira em mãos. Quando Boris viu seu dono, saiu em disparada balançando freneticamente o rabo e pulando ao seu redor, já sabendo que iria passear. Estar naquele enorme espaço apenas para si estava sendo uma verdadeira festa, comparado ao pequeno espaço que tinha antes dentro do antigo apartamento de . O cachorro sempre fora calmo, mas como um velho e bom vira-lata ele gostava de espaço para fazer suas artes. O jardim ainda estava intacto, mas à medida que se aproximava do cachorro ele percebeu um pé do chinelo de . O mesmo que Boris havia roubado mais cedo, porém agora ele já se encontrava num estado deplorável e impossível de ser usado.
— Ei, amigão, pelo visto você já fez coisa errada de novo, não é? — O cachorro fez sua típica cara de cachorro sem dono, baixou as orelhas e enfiou o focinho no meio das patas. — Não adianta você fazer essa cara de coitado. A vai te colocar na rua qualquer dia. — terminou de colocar a coleira no cachorro e caminhou pela lateral da casa até a sua frente, encontrando com já vestida com uma calça de moletom e tênis.
A rua pouco movimentada, àquela hora da noite, foi o suficiente para um Boris correr feliz com o espaço das calçadas somente para ele. Enquanto e caminhavam lado a lado aproveitando a brisa batendo em seus rostos. O silêncio não era incômodo, muito pelo contrário, eles gostavam apenas de estar na presença um do outro e aproveitar aquilo. Sempre foram assim, desde quando se conheceram e já sabiam as manias e jeitos de cada um lidar com as coisas e situações.
— Então, quer dizer que eu estou te devendo um par de chinelos, além do vaso de planta? — soltou uma gargalhada alta, balançando a cabeça negativamente.
— Se eu começar a te cobrar tudo que o Boris fizer de errado, você vai a falência. Não se preocupe com isso, eu perdi a guerra do chinelo. Tentei recuperá-lo antes e não rolou. — Deu de ombros, como se realmente não se importasse com as travessuras de Boris, de fato ela não se importava. acendeu um cigarro soprando a fumaça para o lado oposto ao de . Ele sabia que a amiga odiava que ele fumava, mas era mais forte que ele mesmo. Depois de um dia de trabalho, dentro de um escritório, fumar era a única coisa capaz de fazê-lo relaxar.
— Ainda bem. — Soltou uma risada nasalada. Tragando mais uma vez o cigarro, sentindo a nicotina fazer efeito em seu corpo. — Acabei esquecendo, encontrei o seu vizinho hoje de manhã. Ele é um pouco…
— Enxerido? Sim, é mesmo. Para piorar ainda é amigo do meu pai. — revirou os olhos, ao lembrar do senhor de meia idade que morava em frente à sua casa. Todo dia pela manhã fingia molhar a grama do jardim de mangueira apenas para catar a vida de todos da redondeza. Ainda desperdiçava água, ele não pensava no meio ambiente, não?
— É, não existe outra palavra para defini-lo.
— Podemos levá-lo na praça que tem aqui perto amanhã. Não costuma ter muita gente no final do dia, mas vai ser ótimo para o Boris brincar lá. Por favor, por favor, por favorzinho. — parecia uma criança que acabara de encontrar seu brinquedo favorito dentro de uma loja infantil. Com as mãos juntas do rosto e fazendo um biquinho fofo com a boca foi impossível recusar o pedido da amiga.
— O que você não me pede sorrindo que eu não faço chorando. — Os pulinhos alegres de fez Boris latir em direção a mulher.
Boris já começava a ficar cansado quando resolveram voltar para a casa, se atirou na sua cama fofa quando ele adentrou o jardim novamente. O destino de e não foi muito diferente, ambos seguiram para os seus quartos e puderam, por fim, descansar em suas camas depois de um dia longo.

As taças cintilando, o barulho do saltos no piso e a música calma no pequeno salão deixava ainda mais desconfortável de estar no meio de todas aquelas pessoas que não conhecia e ao menos sabiam quem ele era. O álcool do espumante não era o suficiente para afastar todos os pensamentos e a sensação de desconforto que o local trazia a sua mente. Entretanto, estava tentando conversar amigavelmente com quem puxasse assunto, mesmo depois de um dia longo de trabalho, onde o único lugar em que ela gostaria de estar era em sua casa. De preferência com uma calça de moletom confortável e uma camiseta velha qualquer, mas a realidade o obrigava usar um vestido colado no corpo e saltos desconfortáveis.
Kurt insistira para a namorada comparecer ao evento, uma festa que nem lembrava qual o motivo de estar acontecendo, mas decidiu, por fim, aceitar ir. A maior parte do tempo estava sendo exibida como se fosse um troféu, odiava essa atitude do namorado. Mas para evitar mais brigas, do que já acontecia normalmente, acabava ficando calada.
— Estamos livres, podemos aproveitar nosso tempo em outro lugar. — Kurt abraçou a namorada de lado, cochichando de forma provocativa em seu ouvido. sentiu um arrepio por todo seu corpo, não era o típico arrepio que você gosta de sentir quando é apaixonado por alguém e quer passar mais tempo ao lado dessa pessoa. sabia que quando chegava em casa, Kurt se transformava em outra pessoa, se tornava mais agressivo e controlador.
— Eu vou para minha casa hoje, estou cansada. — Eles não dividiam a mesma casa, apesar de a mulher quase não aparecer mais na sua própria residência nos últimos meses.
— Não vai não. Te ver nesse vestido está sendo uma tortura. — os olhos de águia de Kurt podiam engolir se quisessem. Ela sabia que toda aquela situação era errada e sempre que tentava tomar alguma atitude ou terminar o relacionamento, como já havia passado milhares de vezes por sua cabeça, ele voltava feito um cachorrinho com o rabo no meio das pernas. Amolecia o coração de , fazendo-a se submeter a todas aquelas situações constrangedoras, iniciando mais uma vez esse ciclo viciante. Kurt gostava de estar sob controle de tudo, não importava o que ou quem, ele tinha que estar no controle. Entretanto, quando tentou sair de suas garras as coisas se tornaram mais graves.
O barulho do clique da chave sendo girada na porta fez engolir em seco, era só questão de segundos para o inferno começar. Sentia seus olhos úmidos e seu rosto esquentando, mas tentou esconder quando subiu as escadas rapidamente indo em direção ao quarto. “É só fazer o que ele quiser, vai ser rápido e ele vai dormir” falava para si mesma, como se assim fosse menos doloroso e humilhante. A garrafa de whisky tinha sido aberta, o barulho do gelo e do líquido sendo derramado no copo podia ser ouvido. Quase como um ritual, antes de Kurt soltar o monstro que existia dentro de si. A porta do quarto se fechando com um estrondo ecoou na cabeça de , enquanto trocava de roupa dentro do banheiro.
— Docinho!

sentou-se rapidamente no meio da cama. O coração acelerado e as mãos trêmulas fizeram a mulher perceber que havia sido apenas mais um dos pesadelos que há tanto tempo não estava tendo. O pesadelo em forma de lembrança, pois já tinha vivido muitas daquelas noites e todas elas tentava apagar de sua memória. Acendeu a luminária ao lado da cama e caminhou até o banheiro, lavou o rosto e passou um pouco de água na nuca. Não sabia de onde que aquela angústia tinha surgido novamente, mas parecia querer consumi-la dez vezes mais do que alguns anos atrás. Olhou no relógio e ele marcava quase quatro da manhã. Já era, dificilmente conseguiria voltar a dormir. Deixou a televisão ligada com o volume no mínimo, mesmo que não estivesse prestando atenção no que passava era melhor do que voltar a deitar com o quarto escuro novamente. Talvez fosse a hora de voltar para a terapia e tirar de vez aquele peso que carregava dentro do peito.



Capítulo 4

— Você está em Londres? Por que não me avisou antes, Joanna? — disse, nervoso, enquanto passava as mãos pelos cabelos. Ótimo, mais uma surpresa naquela semana. Estava sendo uma loucura mesmo.
— Joanna? Você pensa que está falando com quem, ? Eu sou a mais velha aqui.
— Eu sei, é com você mesmo que eu estou falando. Onde vai ficar? — O expediente já estava chegando ao fim, então ele não prestava mais atenção na tela do computador.
— Eu reservei um quarto de hotel, eu vim sozinha.
— Sozinha? E a Lola?
— Ela pode ficar com o pai dela, pelo menos por um dia.
— Aconteceu alguma coisa? Olha, eu ‘tô saindo do trabalho agora e podemos jantar juntos. Que hotel você está?
, relaxa. Eu vou descansar um pouco agora, mais tarde a gente se fala e aceito o convite para jantar sim.
— Jô, está tudo bem?
— Sim, , relaxa. Mais tarde a gente se fala, te amo.
— Também te amo, até depois. — encerrou a ligação, saindo do escritório logo após guardar o celular no bolso do casaco.
O caminho até a casa de não passava mais de quinze minutos, mas devido ao caos que Londres se tornava às dezoito horas, o percurso costumava demorar, no mínimo, meia hora no fim de tarde. Quando parou na sinaleira, resolveu ligar para e contar que Joanne estava na cidade.
— Bonne soirée, mon amour. — tentava falar com um leve sotaque em francês, o que tornava engraçado e sexy ao mesmo tempo.
— Bonne soirée, comment allez-vous?
— Desde quando você fala francês? — O sinal abriu e logo voltou a dirigir.
— Eu não falo, mas me arrisco em algumas coisas às vezes. O que está fazendo?
— Tentando aprender francês, aproveitei que tinha pouco trabalho hoje, por quê?
— Joanne está na cidade e ela me avisou isso agora, não me mate.
— Eu sei, falei com ela mais cedo, tua irmã ainda me ama, baby. — fazia alguns barulhos enquanto falava ao telefone, no fundo era possível ouvir os latidos do Boris.
— Acho que tem alguma coisa acontecendo e ela está escondendo de mim.
— Também pensei nisso quando falei com ela mais cedo. É estranho ela não ter vindo com a Lola.
— Sim, eu estou morrendo de saudade daquela pestinha.
— Vamos dar um jeito de ir pra Leeds logo. — também gostava de toda a família , já fazia alguns anos que ela não ia visitá-los. — Já está vindo para casa? Vou precisar da tua ajuda.
— Sim, estou quase chegando.
— Ótimo, eu preciso de um banho agora.
— Isso é um convite, é?
— Não! Nos falamos depois, até daqui a pouco.
— À tout à l'heure, mon amour.
A rua que morava costumava estar colorida com as várias flores das árvores, mas o início do outono não era possível proporcionar essa visão tão conhecida e vista pelos moradores do bairro. Logo, avistou a casa, a qual ele estava morando agora, e estacionou o carro na garagem. Boris, ao escutar seu dono chegar, começou a latir e pular para que ele fosse vê-lo logo.
— Ei, garotão, se comportou hoje? Espero que não tenha arrebentado nenhum chinelo mais. — fez carinho no pelo do animal, enquanto ele lambia sua mão.
— Ele se comportou hoje, pelo menos até a hora que eu fiquei em casa. — apareceu no jardim, após largar as compras na cozinha. — Acabei de chegar também.
— Podia ter ido te buscar no trabalho.
— Não fui no trabalho, fui no mercado. — largou as sandálias na sala, enquanto se servia de um copo d'água. — Convidei a Jo para jantar aqui.
— Ela estava esquisita quando me ligou, não achou isso quando falou com ela? — Ele sentou-se no sofá logo após.
— Sim. Ela parecia tensa, mas não me falou nada. O que ela te disse?
— Nada também, mas acho estranho ela ter aparecido sozinha aqui.
— Ela sabe que estamos “namorando”?
— Não, ia contar quando estivesse em Leeds, mas pelo jeito vamos ter que contar agora.
— Não tem problema, se quiser ela pode dormir aqui também. Não tem necessidade de ficar em hotel, quando ela pode aproveitar o final de semana com a gente.
— A Joanne é muito bagunceira, você sabe.
— Talvez isso seja de família.
— Onde ela vai dormir se aceitar o convite?
— No seu quarto, não vou fazer faxina no outro quarto essa hora da noite.
— Isso quer dizer que eu vou dormir com você? — sorriu, levantando do sofá também.
— Quer dormir com o Boris?
— Eu amo meu cachorro, mas dormir no jardim não é uma boa opção.
— Tira algumas coisas do seu quarto e coloca no meu, precisamos enganar um pouquinho.
— Já disse que eu amo quando você me dá ordens?
— Fiquei sabendo que você gosta de apanhar de mulher bonita, vou usar isso ao meu favor.
— Foi uma vez, e eu não gostei. — estava de costas para e teve que morder o lábio para não rir da cara dele.
— O quê? — Sua voz falha a denunciava.
— Pode rir, é constrangedor de qualquer forma.
— Isso é a sua cara e ao mesmo tempo não é, sabe?
— A minha?
— Sim. Gostar de uma aventura, principalmente sexual, e arriscar em algo novo.
— Mas depois bate aquele arrependimento, pelo menos eu aprendi.
— Ok, isso é constrangedor demais. — e estavam parados em frente a porta do quarto que tinha sido destinado a ele, mas o som da campainha os tiraram a atenção da conversa.
— Caralho, não era para ela chegar agora. Rápido, coloca algumas coisas no meu quarto.
— Não podemos fazer isso depois? — e corriam de um quarto para o outro, tentando pegar o máximo de objetos e roupas do rapaz, a fim de disfarçar o máximo possível.
— E ela vai acreditar no nosso namoro como? Você pode fazer qualquer pessoa acreditar nessa porcaria, mas não a que é quase uma versão feminina do Sherlock Holmes.
— As vezes eu esqueço que ela é igual ao meu pai.
— Você sempre esquece. Acho que está bom assim. — olhou em volta do quarto, o cômodo tornou-se pequeno com tantas coisas do enfiados ali de última hora.
A campainha soou novamente, visto que eles ficaram naquela guerra por, no mínimo, cinco minutos, enquanto Joanne continuava parada no frio e no lado de fora da casa.
— Espera. — puxou pelo braço, colando seus corpos.
, sua irmã está no frio esperando a gente.
— Ela pode esperar mais um pouco, precisamos parecer um casal antes.
E, assim como no almoço de domingo, a beijou novamente, fazendo o corpo de se arrepiar com o toque. Contudo, ela ainda retribuiu, lembrando da sensação que era sentir o gosto de e do quanto ele beijava bem. Mesmo o beijo tendo uma pontada de urgência, o rapaz mantinha um leve toque de carinho, massageando a bochecha esquerda de e apertando levemente sua cintura, mantendo seus corpos colados. Não tinha como aquele beijo ser ruim, ela lembrava muito bem daqueles lábios e o que eles sabiam fazer de melhor. O beijo foi perdendo a intensidade, mas já não sabia se queria realmente parar, agora que estava bom era até injusto acabar com aquele momento.
— Não podemos fazer isso sempre. — A voz falha de não demonstrava firmeza nenhuma.
— Você quer que eu pare de fazer isso?
— Acho que não.
— Então eu não vou parar. — encerrou o assunto com um selinho em , e desceu as escadas primeiro, enquanto dava passos cada vez mais devagar tentando acalmar sua respiração.
— Joanne!
— Ei, maninho, que saudade. — Joanne abraçou o irmão, sendo retribuída por ele, mas ao avistar logo atrás a morena soltou-se de . — !
— Jo! Como você está? — retribuiu o abraço.
— Bem e você? Estão todos morrendo de saudade de você em Leeds.
— Eu também sinto saudade de vocês. Mas, infelizmente, ainda não tive tempo de ir para lá.
— Nós temos uma novidade. — disse, atraindo a atenção para ele. Joanne o olhou desconfiada e mais ainda, ao ver o sorriso do amigo.
— Oba, o que é?
— Digamos que, agora, você tem a melhor cunhada do mundo. — abraçou a cintura de , colando, mais uma vez naquele dia, seus corpos. entrelaçou os dedos na mão de e sorriu, animada, por um lado era até divertido fazer parte de todo aquele teatro e mais ainda era ver a reação das pessoas.
— Ai, meu Deus, não acredito nisso. — Jô colocou a mão na boca, sem acreditar no que estava vendo e ouvindo. Ela amava e no fundo, acreditava que o irmão também amava a garota. — Eu sempre achei que vocês já se pegassem mesmo, mas agora é sério.
— É sério sim, a gente tá morando junto. Vem, vamos ali para sala. — puxou Jo pela mão, indo para sala de estar. A mais velha sentou-se na poltrona próxima da televisão, enquanto e dividiam o sofá menor. — Mas o que fez você aparecer em Londres em plena quinta-feira?
— Se eu contar vocês prometem não me julgar?
— Estamos em família, Jô, não estamos aqui para te julgar.
— A não ser que você esteja escondendo algo importante, Joanne , fala logo.
— Eu estou cansada. — Ela jogou o corpo na poltrona, e se encararam sem entender. — Cansada da minha vida em Leeds. Eu amo minha filha, Lola é tudo para mim, amo o Ethan e a família que construímos juntos. Mas as vezes eu só queria chegar em casa e ter um minuto de silêncio na minha cabeça ou até mesmo sair para uma festa, sabe? Eu não sei mais o que é me arrumar, sair e não tem hora para voltar. Eu trabalho o dia inteiro, volto pra casa e tenho que cuidar de tudo, é tão exaustivo.
— Está tudo bem, Jo. Você não é obrigada a gostar da rotina cem por cento do seu dia, acontece. Isso não te faz menos mãe, esposa ou amiga, você ainda os ama e faria de tudo para vê-los feliz, mas também precisa de um tempo para cuidar de si mesma.
— Está vendo a namorada incrível que eu tenho?
— Sim, o que você viu nele, ?
— Você nem pode imaginar, Joanne. — disse, sorrindo, enquanto olhava para com seu melhor olhar mortal. — Já sei o que vamos fazer no fim de semana e tenho uma amiga que pode nos ajudar melhor do que ninguém nisso.
— Cassandra? — perguntou.
— A própria. A Cassie sempre sabe as melhores festas, lugares com as melhores bebidas e tudo que você precisa para esquecer qualquer dia ruim.
— Até os bares de stripers? — Joanne perguntou e a olhou, incrédulo.
— Vocês vão se dar muito bem. — disse, rindo, se levantando logo em seguida. — Pede uma pizza para gente, amor?
— Claro, babe. — entrelaçou os braços no pescoço de , ficando um pouco na ponta dos pés e recebendo um selinho do garoto.
— Eu amo vocês, mas podem fazer isso no quarto, não?
— Você é a intrusa aqui. — a lembrou, mas recebeu apenas um revirar de olhos da irmã.
— Nós vamos pedir pizza. Não quer tomar um banho e descansar por enquanto? Você sabe onde fica tudo, o quarto já está arrumado para você. — levou Joanne até o quarto que era de , até minutos atrás, somente percebendo naquele momento que a mulher estava com a sua bolsa e uma pequena mala. Já havia a convidado mais cedo para ficar em sua casa, no telefone, mas não tivera uma resposta; agora era oficial que passaria o final de semana com dois juntos e amava isso.

— O que está fazendo? — prendia os cabelos num rabo de cavalo mais frouxo.
— Me arrumando para dormir. — disse, assim que entrou no quarto de novamente vestido somente com a sua cueca boxer preta.
— Cadê o resto da sua roupa?
, eu normalmente durmo pelado, já está sendo um sacrifício estar vestido assim.
— Eu também durmo pelada e não estou agora.
— E por que estamos usando roupas agora?
— Porque vamos dividir a cama agora, e de manhã você está pensando com a outra cabeça.
— Eu respondo com a cabeça que você quiser amanhã de manhã, se deixar eu dormir pelado.
— Vocês, homens, não são confiáveis. Mas se é para dormir com menos roupa possível, então, eu também vou. — tirou a blusa e o short do pijama, deixando a mostra a calcinha e o sutiã de cor preta. As peças não tinham nenhum detalhe específico, mas no corpo pequeno de elas pareciam se encaixar perfeitamente. Aquilo era goloe baixo para .
— Eu estou ferrado. — ficou de costas para , para que eles não se encostassem.
— Bonne nuit, mon amour. — disse próximo ao ouvido de , depositando um beijo molhado na curva do pescoço do rapaz.
— Bonne nuit, mon amour. — Foi a vez de ficar de frente para , então a voz rouca dele soou mais baixa do que o esperado por . Além dele ter a puxado para que seus corpos ficassem mais próximos um do outro. também sabia provocar e quando fazia, fazia muito bem. Os beijos molhados que ele fazia questão de distribuir no pescoço de , era a prova que ele sabia como usar seu poder de sedução da forma que bem entendesse.
— Se vai me provocar, saiba que eu vou devolver na mesma moeda. — Ele sussurrou, ainda com a boca colada no corpo da mulher.
— Vai se foder, . — se afastou de , virou de costas e tentou pegar no sono de qualquer forma, mas ela só queria que todo aquele formigamento correndo em seu corpo parasse.
Mas não deu muito certo, encarou o relógio na cômoda ao lado da cama e ele marcava quase uma hora da manhã. Ela nunca ficava acordada até tarde, principalmente depois de um dia longo de trabalho. Respirou fundo e fechou os olhos mais uma vez, torcendo para dar certo, como se fosse pegar no sono num passe de mágica.
?
?
— Não consigo dormir.
— Eu sei, faz mais de dez minutos que você está se virando para todos os lados. O que aconteceu?
— Perdi o sono...— suspirou, como se fosse somente isso o problema
— Vem aqui. — aproximou seu corpo de , o que a fez se aconchegar ainda mais no amigo.
— Voltei a ter os mesmos pesadelos. Uma parte de mim está com medo, enquanto outra grita que está tudo bem e é loucura da minha cabeça. — O ambiente escuro e calmo, fez quase sussurrar aquelas palavras, de tão baixa que a sua voz saiu. Mas ela sabia que não havia pessoa melhor para contar senão .
, eu sei que errei muito no passado, mas nada do que aconteceu vai se repetir. Eu prometo.
— Só preciso que você fique.
— Eu vou ficar.
a abraçou pela cintura de forma que seus corpos ficassem colados, esquecendo das provocações ocorridas de mais cedo, enquanto fazia uma carinho nas costas de . Ele sabia que isso a ajudava pegar no sono, ainda que o cheiro de baunilha vindo dos cabelos da mulher o deixasse arrepiado com o turbilhão de lembranças o pegando em cheio. sentiu quando o corpo de relaxou de vez, já que ela sentia pequenos espasmos sempre que pegava no sono profundo. A respiração calma de batia em seu pescoço, devido ao espaço, quase inexistente, entre eles. Entretanto, ignorou todos os arrepios em seu corpo e deixou o sono dominá-lo da mesma forma que havia feito com .



Capítulo 5

, você não tem nada dentro desse guarda-roupa? — Ironicamente, Cassie estava dentro - literalmente dentro - do guarda-roupa, cheio de roupas, de . A essa altura, todo o esforço que teve em arrumar as roupas nos lugares corretos foi jogado no lixo. Isso graças a uma Cassandra Highmore desesperada atrás de algumas peças curtas para irem ao pub mais próximo naquela noite. Joanne estava no quarto ao lado, terminando de fazer babyliss nos cabelos, já que havia combinado com Cassie que a deixaria maquiá-la mais tarde. Não foi preciso muitas trocas de palavras entre Jo e Cassie para as duas se darem bem, era uma mais louca que a outra, afinal de contas.
— Tenho ué, você não tá vendo o tanto de roupa que tem aí? Aliás, obrigada por bagunçar tudo de novo. — levantou quando escutou o barulho da porta principal bater. — Eu já volto. — Saiu do quarto, mesmo sem prestar atenção se Cassie tinha a escutado ou não.
Fill my heart with gladness, take away all my sadness. Ease my troubles, that's what you do. — abraçou , dançando com a mulher em seus braços na melodia da música.
— O que aconteceu com você hoje? — Ela disse girando e voltando a abraçar o amigo, mesmo sem entender o que estava acontecendo.
— Estou elétrico demais e achei que uma música calma me ajudaria. Mas não está funcionando. — Ele parou de dançar, mas permaneceu abraçado com .
— Cassie está aqui, tentando arranjar uma roupa para mim. Ela e a Jo se deram super bem, você sabe que isso significa trabalho dobrado para nós, não sabe?! — Ela revirou os olhos, descontente. — Vamos sair e você está incluso nessa loucura. Faz tempo que não saímos nós três juntos.
— Não me importo. Pare de se preocupar tanto, pelo menos, e se divirta um pouco. — conseguiu fazer esboçar um pequeno sorriso, por mais que toda aquela situação a deixasse um pouco estressada. — Ótimo, eu preciso gastar energia ou vou enlouquecer.
— Tem certeza que não está drogado?
— Drogado de café, só pode ser isso. — Num impulso passou um braço por baixo dos joelhos de e pegou-a no colo, subindo as escadas rapidamente.
, você tá maluco!
— Maluco pela minha namorada. — Entrou no quarto com ainda em seus braços, colocando-a no chão e sem pensar grudou seus lábios nos dela. Num selinho longo e demorado, o qual nenhum dos dois estavam esperando que acontecesse. Nem mesmo que tinha tomado a iniciativa.
— Por favor, arranjem um quarto. — A voz de Cassie se fez presente.
— Eles não têm limites! — Jo gritou do quarto ao lado.
— Já estamos em um, mas você está atrapalhando. — Cassie não se importou com a resposta de , abrindo um sorriso malicioso em seguida.
— Eu posso ajudar, se vocês toparem uma ménage.
— Eu topo. — respondeu rapidamente.
— Chega vocês dois. — não sabia se ria ou se tentava se manter séria perto dos dois, mesmo sabendo que a última opção seria um trabalho mais difícil.
— Cassie, sai do meu guarda-roupa. Deixa que eu mesma procuro uma roupa aí.
— Hum, parece que alguém não transa faz tempo hein.
— Eu ‘tô aqui ouvindo tudo. Jo, vem aqui rapidinho! — saiu com três peças de roupas em mãos, esperou a mulher sentar na cama junto dos dois amigos que já estavam ali. — A blusa e a calça ou o vestido.
— O vestido.
— A blusa e a calça. — Cassi escolheu o vestido, enquanto os irmãos escolheram pela blusa e a calça. Mas o olhar de reprovação de Cassie para os dois fez murchar os ombros, sabendo que logo começaria mais uma discussão.
— Ok, já sei. Os três fora. — Esperou que todos saíssem, aos cochichos, e fechou a porta podendo ficar sozinha no quarto. Decidiu tomar um banho primeiro, assim pensaria melhor no que fazer. Era só uma roupa, não era uma tarefa tão difícil. Quando voltou para o quarto, já sabia exatamente o que vestir. Decidiu por colocar um vestido curto preto de alças finas, o all star branco e a jaqueta jeans escura por cima. Deixou os cabelos soltos, caindo pelos seus ombros, já que as madeixas estavam mais longas do que ela lembrava. Encontrou com os três, já devidamente arrumados, na sala de estar.
— Até que enfim a margarida apareceu.
— Para de reclamar, vamos logo.
— Quem dirige hoje?
— Vamos de Uber, certo? — Todos concordaram, com certeza aquela era a melhor escolha da noite.

— Cassandra Highmore, pode tratando de tirar essa cara de bunda agora mesmo. Você não arrastou a gente para cá para ficar emburrada no meu lado.
— Mas só tem homem feio aqui, amiga, e justo hoje que eu estava disposta a beijar o primeiro que aparecesse. — Cassie se jogou na cadeira ficando no meio de e . A loira já tinha largado a garrafa de cerveja pelo copo com vodca, segundo ela teria que ter muita coragem para beijar qualquer boca daquele lugar.
— Acho que você está procurando errado, Cassie. Já viu o tanto de mulher bonita que tem aqui?
— E não é que você tem razão? — Cassie virou o copo de vodka se levantando. — Agora entendi por que tá com ele amiga. Além de gostoso pra caralho, ainda é inteligente. Joanne, vamos dançar, fiquei sabendo que você veio para se divertir. — Cassie piscou para e saiu deixando os dois rindo.
— A pior parte é ter que mentir para Cassie, sabe. Ela é sempre sincera e espontânea sobre tudo.
— Eu não ‘tô mentindo para Cassie. — tomou um gole da sua cerveja e piscou pra .
— Idiota. — deu um soco leve no braço de e pediu outra cerveja. — Está pronto para entrar no personagem? — olhou de relance quando Oliver e Scott entraram no pub. Ela os conhecia já de longa data devido a amizade que mantinham com e por serem colegas de trabalho.
— Sempre. — largou a garrafa de cerveja e puxou para a pista de dança, quando começou a tocar Valerie da Amy Winehouse. — A nossa música.
— Eu amo essa música. — disse, sorrindo.
— Eu sei disso. — passou um dos braços pela cintura de a puxando mais perto, ela envolveu os braços ao redor de seu pescoço. Os dois dançavam juntos no ritmo da música e cantavam a letra um para o outro, animados.
— Parece que estamos vivendo um déjà vu ou eu estou doida? — Talvez fosse o efeito do álcool no sangue começando a fazer efeito, mas talvez quisesse realmente viver um déjà vu daquele momento.
- Ainda falta uma coisa pra ser um déjà vu mesmo. - Os olhos de viajavam entre a boca e os olhos de , não sabendo onde se concentrar.
— Agora não falta mais. — E a iniciativa daquele beijo partiu justamente de . Nem ela acreditava que estava tendo coragem o suficiente para isso, mas a vontade de voltar a sentir aqueles lábios junto dos seus estava a consumindo desde o selinho de mais cedo.

A casa de show estava lotada aquela noite, o som alto da banda que se apresentava no palco levava as pessoas à loucura. e já haviam perdido a conta de quantos litros de cerveja tinham ingerido. Havia pelo menos umas dez garrafas na mesa, isso porque algumas já tinham sido retiradas pelos garçons, mesmo que já tivessem parado de contar depois da quinta. A garota, que chegou na cidade há pouco menos de um mês, aproveitava o seu primeiro final de semana livre para curtir um pouco do que Londres tinha a oferecer.
— Então, a garota do interior sabe beber, é?
— Você se escondia em Leeds, não tem direito de falar de mim. Sim, sei beber e fazer várias coisas. — Ela piscou em direção ao rapaz, que apenas riu e balançou a cabeça em negação. — Vamos dançar. Não aceito não como resposta e sem fazer essa cara de bunda. É Amy Winehouse, impossível não gostar. — Puxou pela mão e o arrastou até a pista de dança, quando Valerie da cantora começou a tocar. A coreografia fora do ritmo só fazia os dois rirem ainda mais de si mesmos. Contudo, eles queriam apenas aproveitar a noite e tudo que ela tinha para oferecer.
havia recém completado 22 anos, se mudado para a capital inglesa e encontrado alguém legal o suficiente para morar sob o mesmo teto. A ligação que tivera com foi instantânea, nem ela mesma sabia explicar. Mas gostava da presença do novo amigo. Entretanto, sabia que o amigo era festeiro, incrivelmente lindo e não gostava de compromissos. Ele era o combo que ela sempre saía correndo.
— É errado eu querer te beijar sabendo que vamos voltar para casa juntos?
— Não, porque eu ‘tô a noite toda querendo a mesma coisa. — Foi a deixa perfeita para finalmente saciar aquela vontade.
A maciez dos lábios de não disfarçava a vontade que ela tinha em devorar os tão tentadores lábios de . Por dias achou que seria capaz de resistir, mas vê-lo tão de perto e não poder senti-los era uma tarefa difícil de ser realizada. Deixou que suas línguas se encontrassem a fim de explorar o máximo de cada uma. A mistura do doce do Cosmopolitan e o amargo da cerveja, o arrepio percorrendo o corpo de ambos enquanto as famosas borboletas dançavam em seus estômagos e a vibração que passava por todo o corpo, proporcionando uma corrente elétrica para que eles permanecessem colados. Tudo isso era a combinação perfeita.
Terminaram o beijo um pouco ofegantes ainda com as testas coladas, se olharam por um tempo e caíram na risada logo em seguida.
— Isso foi muito bom. — disse, ainda rindo.
— Foi bom demais, me impressionou, . — disse dando um selinho em logo em seguida. — Quer sair daqui? — ele perguntou baixo, perto de seu ouvido, a fazendo se arrepiar.
— Por favor. — Ela sorriu sendo puxada pela mão por .
Logo estavam dentro de um táxi a caminho do apartamento. Entre conversas e provocações o que só fazia a vontade de juntar seus lábios aos de mais uma vez. Assim que chegaram em casa, a puxou pela cintura a encostando na porta recém fechada e a beijou com toda a vontade e tensão que havia reprimido todos esses dias. O beijo era intenso, como se precisasse do corpo de colado ao seu. pegou no colo a pressionando contra a porta, a garota imediatamente envolveu sua cintura com as pernas. desceu os beijos pelo pescoço de soltando a respiração pesada contra sua pele arrepiada, a fazendo soltar um gemido baixo.
, espera. — Ela o empurrou e respirou fundo. Aquilo estava sendo mais difícil do que ele podia imaginar.
— O que foi? Fiz algo errado?
— Não, mas acho que deveríamos fazer um trato. Amizade colorida e nada mais do que isso, um ajuda o outro quando… necessário. — ela disse, o fazendo rir.
— Tudo bem, acho justo.
— Tem que jurar solenemente que isso será apenas uma amizade colorida e isso jamais afetará nossa amizade ou nossa convivência como colegas de apartamento. — falava rápido demais e tentava mentalizar tudo, o que era difícil devido ao álcool.
— Eu juro solenemente fazer tudo isso aí que você falou, mesmo sabendo que não vou ser capaz de lembrar amanhã. — Ele disse com a mão no peito como se fizesse um juramento a bandeira e logo em seguida batendo continência o que fez cair na gargalhada em seguida.
— A gente é maluco, né? — Ela perguntou passando os braços pelo seu pescoço.
— Com certeza, e eu amo isso. — ele deu risada e a abraçou pela cintura depositando um beijo em seu rosto.
— Mas agora, onde a gente parou mesmo? — A mulher disse roçando seus lábios nos de , o provocando.
— Dessa parte eu lembro bem. — Com a mão na nuca de , voltou a grudar os lábios. Dessa vez num beijo mais urgente.

sabia que beijar novamente era um caminho sem volta, quase como um ciclo vicioso que ela estava prestes a se deixar levar. Entretanto, sabia também que aquilo aconteceria mais cedo ou mais tarde, apenas adiantou um pouquinho as coisas. Não queria admitir, mas estar nos braços de novamente a fazia voltar no tempo. Era como se tivesse 22 anos novamente, recém chegado na cidade e, principalmente, como se estivesse livre de todos os medos que carregava consigo dentro do peito. No fim do dia, era somente isso que queria. Estar livre.
— Ainda temos um acordo, não temos? — Com a respiração um pouco falha, permaneceu com os olhos fechados e com a testa colada sentindo o aroma do perfume de embriagá-la.
— Eu juro solenemente fazer tudo isso aí que você falou, mesmo sabendo que não vou ser capaz de lembrar amanhã. No caso eu disse isso há oito anos atrás, mas até hoje não lembro o que você disse e mesmo assim fiz o juramento. — repetiu a mesma frase fazendo rir ainda mais.
— Isso precisa de um brinde. — Eles voltaram ao bar, pedindo dois shots de tequila e tomaram num gole só, mas logo trocaram os pequenos copos por duas garrafas de cervejas.
— Como nos velhos tempos. — Bateram as garrafas uma na outra e voltaram a aproveitar a noite, como eles mereciam.



Capítulo 6

— Eu não acredito que você me deixou voltar para casa sem estar bêbada. — largou o tênis no meio da sala.
— Você já está bêbada, .
— Shhh! — Ela disse rindo. — Hum, tive uma ideia. — Foi até a cozinha separando uma garrafa de vodka, alguns morangos, açúcar e gelo. Esmagou alguns morangos dentro do copo, misturando junto com o líquido amargo e açúcar. Cortou mais uns pedaços de morango e misturou tudo dentro do copo, colocando um morango maior na borda de enfeite.
estava parado no batente da porta com uma mão no bolso da calça social, a camisa branca aberta até a metade dava um ar ainda mais sexy, ar esse que não fez questão de ignorar.
— Caipirinha? — balançou a cabeça confirmando, os olhos brilhando enquanto tomava a bebida preparada por ela mesma. — Obrigada, Catarine, por ter me apresentado essa bebida maravilhosa. — Ela disse lembrando da amiga brasileira que conheceu em seu emprego alguns anos atrás.
olhou bem no momento em que mordia um morango, os lábios molhados com o líquido e os olhos fechados da garota era uma visão e tanto para ele. Terminou de tomar sua cerveja, se levantando e seguindo para o seu quarto, se ficasse na sala ele sabia que não ia resistir.
— Onde você vai?
— Dormir.
— E a sua namorada não ganha um beijo de boa noite? — A malícia estampada na voz da mulher, estalou os lábios e balançou a cabeça em negação.
— Só um beijo? — tirou o copo da mão de , o deixando na mesa, enquanto puxava o corpo da mulher em direção ao seu. A mão na nuca de emaranhado seus dedos entre os cabelos soltos enquanto um sorriso brincava em seu rosto, os lábios com aquele maldito batom vermelho neles deixava tudo ainda mais tentador.
— Se resistir. — A resposta foi o suficiente para acabar toda a distância entre eles. Tirando todas as pegações na frente de amigos, aquela era a primeira vez em que ambos estavam fazendo porque queriam. Seus corpos imploravam por aquele contato. Suas bocas famintas não demoraram a explorar o máximo uma da outra, enquanto as mãos habilidosas de já terminava de abrir o restante dos botões da camisa de . Um gemido escapou entre o beijo quando apertou a bunda da mulher ainda por cima do vestido, seguindo até suas coxas e a levantando o suficiente para colocá-la sentada na mesa e se encaixar entre as pernas abertas dela, aumentando o contato entre seus corpos. Não demorou para que as pernas de estivessem em volta da cintura do rapaz e a camisa dele já estivesse no chão. A boca de já sugava o pescoço de , deixando algumas marcas por onde passava, as mãos da mulher bagunçavam o cabelo dele e puxava com força toda vez que sentia um chupão sendo depositado em seu corpo. Era difícil parar quando não havia mais tempo para isso, entretanto a razão falou mais alto. segurou com força, já que ela ainda estava com as pernas em volta da sua cintura, se concentrando ao máximo para subir as escadas sem derrubá-la, mesmo que ela nem estivesse se dando conta disso. Não sabia por quanto tempo mais conseguiria resistir, existia uma luta interna entre a razão e a luxúria para ver quem ganharia essa guerra.
— Acredite, está sendo mais difícil para mim do que você imagina. Mas amanhã vai me agradecer por isso. — Antes que pudesse piscar e se dar conta de toda a situação, ligou o chuveiro no gelado e deixou que a água escorresse pelo corpo de .
, EU TE ODEIO! — ignorou o grito de . Fechou a porta do banheiro e voltou para o quarto da mulher separando uma roupa quente para que ela pudesse vestir, colocando-as em cima da cama depois de escolhida.
percebeu que não teria como dormir no quarto ao lado, sua irmã chegaria a qualquer momento em casa. Na verdade, só agora percebeu como seria estranho se ele não estivesse dormindo no mesmo quarto que , quando a irmã chegasse, isso se ela estivesse sóbria o suficiente para perceber. Decidiu pegar uma roupa confortável e ir para o outro banheiro da casa, pois também precisava de um banho e esse teria que ser gelado, com toda certeza do mundo. Mais tarde, antes de se deitar para dormir - ou ao menos tentar -, voltou ao quarto de . O cômodo estava silencioso, indicando que, pelo menos, ela já tinha pego no sono. Abriu a porta e encontrou exatamente o que ele imaginava, estava jogada no meio da cama. O pijama vestido do lado contrário, os cabelos emaranhados e o edredom quase caindo para fora da cama. pegou o edredom tapando-a por completo, fechou a cortina e deixou um remédio para dor de cabeça ao lado da cama.
O sofá da sala teria que servir naquela noite.

não sabia que horas eram e nem como havia ido parar em sua casa, mas agradeceu aos deuses pela cortina estar fechada dessa vez. Sentiu sua cabeça girar rápido demais ao tentar sair da cama, fechou os olhos com força e segurou a cabeça com as mãos para tentar diminuir a dor que sentiu ao se movimentar. Na cômoda ao lado da cama havia um copo d'água e um comprimido para dor, embaixo estava um bilhete.

“Para curar a ressaca.
Estou te esperando com café da manhã, talvez um almoço, dependendo da hora que você acordar.
P.S: não esqueça que Jesse vai aparecer aqui hoje.
Dev”

O sorriso em seu rosto foi substituído por uma careta ao olhar o relógio que marcava quase uma hora da tarde e logo lembrou de seu irmão. Péssimo dia para ele visitá-la. Tomou o remédio a fim de que a dor passasse logo, separou uma roupa confortável, mas que desse para ela sair também, provavelmente ir ao parque com Marty, indo para o banho em seguida. Assim que a água quente bateu em seu corpo, os flashes da noite passada começaram a rondar a sua mente, a culpa era da caipirinha. Droga, por que raios tinha que ficar tão gostoso dentro de uma roupa social e ela se deixar levar pelo corpo gostoso do homem? Caramba, ninguém era de ferro, não é? Agora já era tarde demais, mesmo que não estivesse arrependida do que haviam feito, agora eles tinham que fingir ser um casal feliz na frente do irmão. Sabia que o amigo e “namorado” não iria se importar de continuar com o plano, mas eles não podiam transar - ou quase transar - toda vez que ficassem bêbados e com tesão, ou será que podiam? Não! Não podiam.
Saiu do banho, vestiu a calça jeans escura, uma blusa de manga curta do Oasis e o seu all star vermelho favorito. Secou rapidamente os cabelos curtos com o secador, o suficiente para não ficar pingando e saiu do quarto. No corredor era possível escutar as risadinhas de Marty assistindo desenho, as vozes de Jesse e Amanda se misturavam com a risada de na cozinha da casa. Antes de descer as escadas, ainda passou no quarto ao lado do seu, vendo Joanne jogada na cama. Não iria acordá-la, nem sabia que horas a mulher havia chegado em casa, então a deixaria descansar o tempo que fosse necessário.
— Tia ! — O menino foi correndo ao seu encontro. o pegou no colo, o enchendo de beijos. Marty pediu para que ela ficasse assistindo ao desenho com ele e como ainda não tinha coragem o suficiente para encarar , preferiu ficar na sala.
— Vamos no parque depois, meu amor? — Os olhinhos do menino brilharam com as palavras da tia. bagunçou os cabelos do menino e se levantou indo até a cozinha.
— Boa tarde, bela adormecida. — Jesse foi o primeiro a falar e a mulher revirou os olhos para o irmão.
— Como você ainda aguenta, Mandie? — Amanda e Jesse tinham o olhar sempre apaixonado um pelo outro, o que fazia ter a certeza que eles eram feitos um para o outro. — Às vezes eu esqueço que vocês eram amigos antes de tudo. Bom dia, seu mala. — Ela deu um beijo no rosto da cunhada e abraçou o seu irmão mais velho.
— Está com fome? — tirou a forma do forno. Uma lasanha com muito queijo já estava pronta e exalava o cheiro pelo ambiente. A boca de salivava só de sentir o cheiro.
— É muito bom ter um namorado que faz comidinhas gostosas para mim. — Enroscou os braços no pescoço de , sendo abraçada pela cintura.
— Preciso alimentar a minha namorada gostosa. — Ele disse apenas para ela escutar.
— Você não presta.
— Não reclamou ontem.
— Você nem terminou o serviço, cala a boca.
— Vocês precisam de um quarto. — Escutou Mandie falar. Deus, ela era tão parecida com o marido.
— Vamos almoçar. — pigarreou, soltando-se dos braços do rapaz e colocou os pratos que faltavam na mesa.
— Temos um convite. — Jesse quebrou o silêncio. ajudava Marty a comer, então estava de costas para o irmão, mas ainda escutava o que ele falava.
— Diga, estou ouvindo.
— Queremos vocês como madrinha e padrinho de casamento. — Mandie fez o convite.
— Cara, eu ‘tô muito feliz por vocês e por esse convite. — disse, contente.
— Eu queria ser a daminha de honra, mas tudo bem, fico feliz com o convite. — fingiu fazer um beiço, mas sorriu em seguida. — Finalmente esse casamento sai, hein?
— Acredite, é mais insistência do seu irmão do que minha.
— Eu imagino, ele é insuportável quando quer. — piscou para Mandie.
— Ei, eu ainda estou aqui.
— Ah, é mesmo. — fingiu surpresa.
— Você vai ao almoço de domingo? — A voz de Jesse soou calma, com medo da reação da irmã.
— Nem pensar, eu preciso descansar.
— Eu sei que não deveria me meter, mas você me conhece há mais anos do que eu posso contar. George não é uma pessoa ruim, é apenas superprotetor.
— Uma pessoa superprotetora é a última coisa que eu preciso. Nos encontrarmos no Natal, se tiver sorte. — voltou a atenção para o sobrinho em seu colo. — Joanne está aqui, mas acho que a Cassie a deixou em coma.
— Joanne está aqui? — Amanda perguntou sem acreditar. Viu e concordarem com um aceno de cabeça, e olhou para a escada, como se a amiga fosse descer por ali magicamente.
Amanda conhecia Joanne desde a faculdade, na mesma época que conheceu Jesse. Ela era muito amiga de Jo, mas a situação dela com os era quase igual a de . A maldita distância. Se não tivesse conhecido antes, em algum momento conheceria Joanne e, consequentemente, conheceria mais tarde.
— Minha amiga é uma grande va-
— Amor, o Marty. — Jesse interrompeu a mulher antes que fosse tarde demais. Por fim, e tentavam controlar o riso, mas foi impossível ao ver o rosto de Amanda vermelho devido a situação.
— Eu ia dizer vagal, vocês nem me deixaram terminar. — Amanda se justificou, mas após alguns segundos de silêncio todos acabaram caindo na gargalhada. Nem Amanda conseguia acreditar na sua própria desculpa.
— Vou dizer que você mandou lembranças. — disse, rindo.
— Mas o que ela está fazendo aqui? E a Lola? E o Ethan? — Uma enxurrada de perguntas foi jogada na cara de , afinal ele era o irmão de Joanne.
— Engraçado que nunca fui recebido com esse entusiasmo todo. — colocou a mão no peito, fingindo-se ofendido.
— Todo mundo prefere os irmãos mais velhos, nós somos injustiçados. Bem-vindo ao clube, bebê.
passou as mãos nos ombros de , num falso consolo. — Agora eu e o Marty vamos descansar um pouquinho, porque a titia aqui tá cansada e com um pouquinho de ressaca ainda. — Em seguida pegou o sobrinho no colo e foi para a sala.
— A gente limpa aqui, você já fez o almoço, . — Amanda recolheu os pratos, enquanto Jesse já estava lavando os copos.
— Se você insiste, quem sou para contestar.
se acomodou ao lado de , a noite mal dormida o fez jogar o corpo no sofá e fechar os olhos por alguns minutos.
— Não quer subir e descansar no quarto? — Escutou perguntar baixo, ainda de olhos fechados.
— Não, quando eles forem embora eu deito lá. Ei, mate, deita aqui com o tio . — colocou uma almofada na guarda do sofá, onde o menino colocou a cabeça e deitou com o resto do corpo nas pernas de . — E tu deita aqui, vem, é hora da soneca.
se aconchegou mais próximo de , deitando a cabeça em seu ombro. Com sorte, Marty pegou no sono rapidamente, a preguiça pós almoço começava a fazer efeito nos dois adultos que estavam ali. Mas, por alguma razão, não conseguia dormir.
— Onde você dormiu ontem? - Ela levantou a cabeça e voltou o olhar para o amigo.
— Nesse mesmo sofá.
— Por quê? — tentou não elevar o tom de voz para não acordar o sobrinho, mas sua voz saiu um pouco esganiçada do que o esperado. — Aconteceu algo entre nós?
— Depende. Conversamos sobre isso depois.
— Tudo bem.
— Eu disse que levaria o Marty no parque, aproveitamos e levamos o Boris para passear também. O que acha? — voltou a deitar a cabeça no ombro de .
— Acho ótimo. Essa semana quase não saímos com ele, mas você sabe como ele fica quando vê crianças, talvez dê uma canseira no Marty.
— Vai ser bom, assim ele chega em casa e dorme. Amanda e o Jesse vão agradecer. — riu baixo, fechando os olhos novamente no encosto do sofá.
— Ele é uma ótima criança, né?
— Sim, puxou a mim. — mordeu o lábio inferior tentando segurar a risada, e encarou logo em seguida. — Eu sou suspeita para falar dele, porque eu sou a tia favorita dele, afinal de contas. Mas eu amo o Marty mais que tudo, me culpo um pouco ter perdido o primeiro ano de vida dele, sabe? Mas eu não sabia nem o que estava fazendo da minha vida, não ia ser uma boa influência naquela época como eu posso ser agora.
— Tenho certeza que ele te ama de qualquer forma.
— Espero que sim.
— Não se preocupe com isso, crianças têm o poder de nos surpreender sempre. — fez um carinho nos cabelos de , depositando um beijo no topo da sua cabeça em seguida. — Vamos dormir agora, eu preciso disso.
— Preguiçoso.
Devido ao cansaço da noite anterior, não demorou muito para que estivesse dormindo, mais uma vez, no sofá. Mas ele não se importava, sabia que não estava sóbria na madrugada e achou melhor dar espaço para ela descansar, mesmo que tivesse que abrir mão do conforto. De qualquer modo, a ideia de que estava ali por favor ainda rondava sua cabeça, por mais que a amiga tivesse pedido para ele ficar, sabia que precisava procurar uma casa. Deixou o sono dominar seu corpo, esquecendo das preocupações que a vida adulta trazia consigo. , deitada ao seu lado, também dormia tranquilamente. A respiração calma e o rosto sereno indicava que ela estava bem, que não havia nenhum sonho a perturbando.
Em passos silenciosos, Joanne desceu as escadas, dando de cara com Jesse e Amanda conversando baixinho na cozinha.
— Ai. Meu. Deus. — A foi a primeira a falar, quase em sussurros.
— Eu não acredito que você apareceu e nem me avisou, sua desnaturada. — Amanda abraçou a amiga, ao mesmo tempo que a xingava.
— Desculpe, mas eu precisava de um tempo para mim e somente a saberia o que fazer.
— Assim você me ofende, .
— Vamos para o jardim, eles estão dormindo ali na sala. — Joanne apontou para os três dormindo no sofá. Era impossível não pensar que eles formavam uma família. — Mas, me conta, como vocês estão?
Joanne caminhou até o jardim com Amanda e Jessie logo atrás, assim que a mulher abriu a porta um Boris eufórico pulou em seu colo. Ela fez carinho em sua cabeça, fazendo-o deitar ao seu lado, mas quando Jesse pegou a coleira, o animal começou a pular a sua volta, sabendo que ia passear.
— Sei que vão conversar bastante, eu vou passear com o Boris um pouco pelo bairro. — Jesse já estava pronto com o animal ao seu lado.
— A gente precisa colocar a fofoca em dia, sabe como é, quem manda ela não ir me visitar em Leeds. — Jo apontou para Amanda como se ela fosse a culpada de não conversarem tanto, mas a amiga sabia que ela estava falando em tom de brincadeira. Jesse riu e balançou a cabeça, saindo da casa logo em seguida com o cachorro ao seu lado.
— Então, vai me contar o que está fazendo em Londres sozinha? — Amanda foi a primeira a falar.
— Precisava de um tempo, mas vejo que o meu lugar é em Leeds, por mais que eu quase enlouqueça lá, às vezes. — Joanne se sentou no banco da varanda, mas Amanda preferiu ficar em pé, próxima da escada que dava acesso ao jardim, enquanto fumava.
— Eu te entendo, família é complicado, né? Filhos, casamento, pai e mãe. As vezes dá vontade de sair correndo e sumir por um dia.
— Foi isso que eu fiz, não me orgulho.
— Tá tudo bem, eles vão sobreviver por um dia ou dois, talvez, até uma semana; mas não mais que isso, acredite. — Amanda riu fraco, ela sabia como era difícil manter uma família erguida, havia mais empecilhos do que recompensas, mas no final do dia valia a pena todo o esforço realizado. — Mudando de assunto, você viu como aqueles dois estão felizes?
— Céus, era só questão de tempo para eles ficarem juntos. Não acredito que demorou tudo isso para assumirem que eles se amam. — Jô sorriu, ao lembrar de quando recebeu a notícia.
— Não é? Eu só fico pensando, se eles tivessem ficado juntos antes, sabe? As coisas seriam melhores para a . — Amanda disse, pensativa. Era difícil tocar naquele assunto. Joanne sabia muito bem o que a amiga estava falando.
sempre foi apaixonado pela . — Joanne suspirou, cansada. — Lembro de quando ele voltou para Leeds, disse que tinha voltado a trabalho, mas eu conheço meu irmão melhor do que ninguém, e sabia que tinha algo de errado. Foi difícil, mas, alguns meses depois, ele me contou o real motivo de ter voltado. Ter visto a naquele estado e não poder fazer nada, porque ele havia prometido a ela que não faria, o destruiu. Eu nunca vi meu irmão naquele estado, Mandie, você não sabe como foi difícil.
— Eu te entendo, a é como uma irmã para mim e não foi nada fácil. Principalmente depois que o foi embora, no fundo, ele era tudo que ela precisava. É maravilhoso vê-los juntos agora.
O silêncio que se instalou no jardim foi o suficiente para encerrar o assunto. Amanda apagou o cigarro e sentou-se ao lado de Jo, abraçando a amiga pelos ombros.
— Sinto sua falta. — Mandie foi a primeira a falar.
— Eu também. Aliás, quando vou ser convidada para o seu casamento? — Joanne colocou a mão no queixo, fingindo estar pensando.
— Você já foi convidada, não finja que não conversamos semana passada. E nem se atreva a não comparecer, você é uma das madrinhas. — Amanda bateu no braço, fazendo a amiga rir. — Vamos tomar um café, você está precisando. — As duas se levantaram, entrando na casa novamente, ficando pela cozinha. Amanda colocou água na chaleira para ferver, era do tipo que gostava de passar o café e não, simplesmente, colocar tudo na cafeteira.
— Droga, por que Londres é tão longe de Leeds? Isso me faz lembrar dos tempos da faculdade.
— Sim, dos tempos que você chegava bêbada no nosso apartamento e eu te esperava com uma xícara de café. Agora, estamos aqui, cada uma com uma família linda.
— Isso, com certeza, é coisa dos s. — apareceu na cozinha, se metendo no assunto e sentando-se ao lado de Joanne e sendo abraçada por ela. — Em breve estaremos em Leeds, nem que seja para um fim de semana. É só questão de conseguir uma folga.
Amanda serviu três xícaras de café, sentando-se em frente as duas mulheres bebericando a bebida que acabara de fazer.
— Eu sei que você consegue, já aquele ali.— Jo apontou para o irmão dormindo ainda. — É difícil, vou torcer para você conseguir arrancar algum tempo livre dele.
— Deixa comigo, logo estarei batendo na sua porta em busca de abrigo. — disse, rindo. — Vem aqui você também, eu tenho cunhadas muito ciumentas. — chamou Amanda e logo elas deram um abraço em grupo, como nos velhos tempos.



Capítulo 7

— A gente pode fingir que não tá em casa e ficar off hoje? Eu não vou aguentar ter que fazer sala para nenhum parente, nem que esse parente seja o meu irmão. — disse sonolenta, aparecendo na porta do quarto de .
— Era exatamente esse o meu plano, já desliguei meu celular por hoje. — estava deitado de barriga para cima na cama, mas ainda de olhos fechados, já que seu plano era voltar a dormir.
— Que ótimo, porque eu também. Chega para lá. — se acomodou ao lado de , quando ele deu espaço para ela deitar.
— Vai dormir aqui, é?
— Uhum. — Ele puxou o corpo de , ficando mais próximo do seu, deixando que ela fosse a conchinha menor. Rapidamente os dois pegaram no sono de novo, conforme o esperado.
Era domingo, e só queriam um dia de folga depois daquele final de semana turbulento e cheios de visitas.

? — gritou pelo apartamento em busca do amigo.
— Oi, ‘tô aqui no quarto. — Ele gritou de volta.
— E se a gente adotar um cachorro ou um gato? — Ela parou na porta do quarto, com o corpo apoiado no batente dela. — Esse apartamento é tão silencioso.
— Gosto da ideia do cachorro, se adotarmos um gato o apartamento vai continuar silencioso. — respondeu.
— Tem razão. — Ela mordeu o lábio tentando se controlar. — Então, tá tendo uma feirinha de adoção e eu vi uns cachorrinhos tão bonitinhos, seria uma pena a gente não ir lá olhar.
— Eu sabia que você estava tramando algo, quando vem com essa cara de cachorro que caiu na mudança. — catou uma camiseta dentro do roupeiro e saiu junto de .
— Não é minha culpa se eles têm aquela carinha irresistível.
arrastava pelas ruas de Londres até a feira de adoção de cachorros, normalmente aqueles filhotes que ninguém mais quis e, de acordo com , esses eram os melhores. ficou encantado com a quantidade de cachorros que viu por ali, eles eram todos brincalhões e cada vez mais apaixonantes, principalmente, quando balançavam o rabo freneticamente.
— Ai, meu Deus, eu vou explodir. Eles são tão fofos, por que não podemos levar todos? — Ela perguntou ao , mas o amigo apenas balançou a cabeça.
— Vamos tentar escolher um, mas apenas um. — Quando terminou de falar, já estava agachada em um dos cercadinhos com cachorros, fazendo carinho em todos, enquanto os pequenos filhotes lambiam sua mão.
— Eu não sou capaz de escolher apenas um. — Ela disse quando se agachou ao seu lado.
— E aquele pretinho ali no fundo. — apontou para um cachorrinho maior, mas que estava acuado no meio dos outros filhotes. — Ei, amigo, vem cá.
Devagar, começou a fazer carinho no cachorro, logo ele começou a balançar o rabo e a lamber a mão de e . Os dois adultos se olharam, tendo a certeza que era aquele que eles levariam.
— Vamos ter que forrar todo o apartamento com jornal. — O cachorro olhava curioso para todos os cômodos. — E precisamos de um nome.
— Boris! — gritou da cozinha. — Por favor, sempre quis ter um cachorro com esse nome.
— O que você não pede sorrindo que eu não faço chorando? — bateu palminhas, sorrindo, sabendo que tinha conseguido o que queria. Ela ajudou a colocar jornal por onde o cachorro, supostamente, poderia sujar. No fim, quase todo o apartamento estava forrado com jornal, conforme havia dito mais cedo.
— Ok, agora só falta levá-lo no veterinário, comprar uma caminha e alguns brinquedos. Essa semana eu tenho folga e consigo fazer isso. — falava mais para si mesma do que para o amigo. achava engraçado todo aquele jeito organizado da mulher, e agradecia por ela ser assim, pois se dependesse dele, iam ser dois desorganizados morando com um cachorro embaixo do mesmo teto.
, respira. Amanhã nós levamos ele ao veterinário, é sábado, lembra?
— Ah, é mesmo. — Ela largou a caneta em cima da agenda e se acomodou no sofá ao lado de , já que antes estava sentada no tapete do chão da sala. Boris xeretava todos os cômodos, mas não se atreveu a fazer xixi fora do lugar, porém, quando voltou para a sala já estava com um pedaço de borracha laranja em sua boca. conhecia aquela cor e sabia de onde era, só tinha um calçado daquela cor: o chinelo.
— Boris, meu chinelo, não acredito! — Ela choramingou, mas no mesmo momento o cachorro largou o pedaço de borracha no chão e fez uma cara de pidão; ela não resistiu e começou a rir. — Seu pestinha, pode ficar com isso agora. — Alisou o pelo preto e bem liso do animal, ele voltou a sua atenção no minuto seguinte para a borracha.
— Ei, vem cá, somos pais de pet agora, e isso precisa de uma foto. — puxou pela cintura para de volta ao sofá ao seu lado. — Boris, vem aqui. — Ele assobiou e bateu em sua perna, o animal logo entendeu e pulou em seu colo. sacou o celular do bolso, já abrindo na câmera. estava sorrindo ao lado dos dois, mas Boris pareceu se divertir e na hora lambeu o rosto de , o que causou uma careta no homem e a foto saiu um tanto engraçada.

olhou a fotografia ao lado da cama de , assim que acordou, as lembranças tão vivas em sua memória que a fez sorrir. Não podia negar que viveu os melhores momentos de sua vida naquele apartamento ao lado de e Boris, agora ela tinha os dois de novo ao seu lado. Quando revelou aquela foto, ele também tinha feito uma cópia para e a mulher mantinha a mesma fotografia ao lado de sua cama também.
— ‘Tô ficando com fome, o que você quer comer hoje? — sussurrou em seu ouvido, o que só aumentou a vontade de de continuar na cama.
— Qualquer coisa desde que você cozinhe, porque se depender de mim nós dois vamos passar fome. — Ela respondeu, estremecendo ao ouvir a risada rouca de próxima demais.
— É óbvio que eu vou cozinhar, a última vez você quase colocou fogo na cozinha. Aliás, como você sobreviveu sozinha nessa casa? — Ele apoiou o cotovelo na cama, virou-se de frente para o amigo e se não estivesse deitada suas pernas teriam ficado bambas. estava com o cabelo bagunçado, sorrindo e sem camisa.
— Você já viu a quantidade de congelados que tem na minha geladeira?
— Isso explica muita coisa. — Ele balançou a cabeça concordando. — O que foi? Você tá com uma cara esquisita.
— ‘Tô pensando como você consegue ficar bonito quando acorda, ninguém é bonito quando acorda. Que saco. — gargalhou ao ouvir o comentário de . — Eu ‘tô falando sério, sai daqui, , tá me deixando triste.
tentou chutar o amigo para fora da cama, mas foi totalmente sem sucesso já que ele conseguia fazer esforço o suficiente para não se mover de onde estava e foi exatamente o que fez.
— Que inveja é essa, ? Eu sei que sou irresistível. — segurou os braços de , ficando por cima do corpo da mulher. — Deve ser difícil mesmo acordar ao meu lado e não poder usufruir do meu corpo, né? — Ele disse próximo do ouvido de , o que fez o corpo da mulher estremecer por inteiro.
— Não é o que o nosso acordo diz. — Ela falou, ainda que estivesse sendo prensada pelo corpo de , o rosto dele estava bem próximo ao seu e ela pôde sussurrar da mesma forma que ele fez anteriormente.
— Então, por que não usa? — A boca de começou a passear pelo pescoço da mulher, ela automaticamente jogou o pescoço para trás na medida do possível, deixando-o explorar aquela área. — Você tem tudo isso à sua disposição.
— Não me provoca, . — disse firme, ou tentou. Fechou os olhos tentando ao máximo se concentrar em não cair no joguinho de .
— Você não merece essa consideração, o motivo de eu ter ido dormir no sofá ontem foi você. Está na hora de sofrer um pouco também.
Os beijos em seu pescoço foram ficando cada vez mais molhados, aproveitou para descer ainda mais e sua boca estava quase chegando a pele exposta do colo de . A blusa de alcinha fina que ela usava deixava saliente os bicos rígidos de seus seios, não hesitou antes de mordê-los mesmo por cima da blusa; o que custou um gemido da boca de . Aos poucos, afrouxou as mãos dos braços de , para deslizar pelo corpo da mulher e aproveitar para tirar aquela peça que só atrapalhava.
— Me beija. — praticamente implorou. soltou um riso baixo.
— Não vai ser tão fácil assim.
voltou a trilhar os beijos pela barriga de , dessa vez fazendo o caminho inverso. Ele distribuía beijos e chupões no corpo de à medida que ia subindo até parar em seus seios, fazendo-a se contorcer em sua boca. não sabia onde deixava suas mãos, elas passeavam entre os fios de cabelos de e suas costas, ora puxando, ora arranhando-o. Suas pernas automaticamente fecharam-se na cintura do amigo, implorando por mais contato; ela não sabia nem o porquê daquelas peças ainda estarem no corpo de ambos. Quando o homem parou de sugar os seios de , ele subiu de encontro ao pescoço, à mandíbula e finalmente aos lábios da mulher; suas bocas famintas não demoraram a explorar o máximo uma da outra.
— Acaba com isso logo. — suplicou, o corpo de ambos pediam por mais. E tinha que ser agora. O que ela não esperava era que ele introduzisse um dedo em sua intimidade, sem ao menos um aviso prévio e sem tirar o seu short do pijama e a calcinha, apenas colocou sua calcinha para o lado e começou a massagear seu clitóris. se contorcia cada vez mais, implorando por mais.
— É isso que você queria, ? — Os dedos de não saíram da intimidade da mulher, ainda a masturbando, fazendo-a gemer mais alto. A mão livre do homem segurava a cintura da mulher, com certeza ficariam marcas em sua pele, mas o calor e o tesão era tanto que nem percebia o tamanho da força aplicada no local.
— Eu quero mais. — Ela gemeu.
Quando sentiu que estava próximo de gozar, os movimentos de seus dedos foram diminuindo e os gemidos aumentando. o olhou incrédula, esperando que ele voltasse a fazer o que estava fazendo antes ou então que desse um fim logo naquilo. Mas ele não podia parar, não agora. sabia que não podia, mas o jogo de provocações entre eles estava começando a ficar interessante e ele adorava um desafio. Seu membro dentro da bermuda estava quase explodindo, implorando para sair dali e saciar sua vontade, mas resistiu e ignorou a sua excitação. Tirou os dedos dentro da intimidade de , lambendo-os enquanto olhava nos olhos da mulher à sua frente.
— Eu disse que não seria tão fácil. — Foi então que saiu de cima de , a deixando sozinha no quarto com uma cara de incrédula, sem acreditar que havia a deixado, literalmente, na mão.
grunhiu alto, insatisfeita com a interrupção de mais cedo. Não se deu ao trabalho de procurar a sua blusa, ela precisava de um banho gelado e tinha que ser agora. Quando desceu as escadas, depois de ter ficado, no mínimo, uma hora no seu quarto tentando acalmar todos os seus hormônios, já estava com o almoço pronto, apenas esperando-a para almoçar. Se era guerra que ele queria, então era guerra que ele ia ter.



Capítulo 8

O despertador tocou às sete da manhã em ponto, fazendo um sonolento caminhar até o banheiro ainda cambaleando. Tinha um pouco mais de quarenta minutos até o horário de sair de casa. Tomou um banho rápido, vestiu a típica roupa social para ir trabalhar, deixando os fios de cabelos bagunçados e desceu para preparar seu café. Deixou o café passando na cafeteira enquanto colocava um pouco mais de ração para Boris e trocava a água dele. O barulho do pacote de ração em suas mãos fez o animal se alarmar e logo levantar de sua cama. fez um carinho na cabeça do cachorro e atrás das orelhas, voltando para a cozinha logo em seguida. Ao contrário do que pensara, Boris se acostumou muito rápido na casa de . Ela já conhecia o animal desde que ele era filhote, então ele estava acostumado com a presença da mulher. Com o tempo, Boris estava se mostrando ser o melhor animal do mundo para e o homem jamais poderia ter escolhido um cachorro melhor que aquele. Chegar em casa, independente de qual fosse, e receber aquele olhar contente, balançando o rabo de felicidade enquanto corria em sua direção era ainda melhor. Um gato com certeza nunca faria isso, no máximo ganharia uns miados pedindo por carinho e comida.
Antes que o café esfriasse, colocou o líquido amargo em sua xícara e o tomou. O relógio já marcava sete e meia indicando que estava na hora de ir para o trabalho, caso não quisesse pegar trânsito logo pela manhã. A sexta-feira finalmente havia chegado e esse era o único motivo para chegar animado no trabalho, pois nada melhor que um final de semana de descanso depois de uma semana longa. O escritório não era longe da casa de , mas ir e voltar de carro era a maneira mais rápida e prática para chegar no horário. Se não trabalhasse dentro de um escritório, com certeza iria de bicicleta, já que pedalar era uma das coisas favoritas de . Mas chegar suado não era uma boa ideia, principalmente quando tinha que encarar reuniões importantes.
— E aí, cara, fiquei sabendo que tá namorando. — Oliver adentrou a sala de , sem nem ao menos bater na porta. e Oliver eram antigos colegas de trabalho, eram bons amigos também fora do escritório e isso às vezes fazia Oliver achar que tinha liberdade demais com o amigo, mesmo quando não tinha.
— Bom dia, Oliver. — Disse olhando concentrado para a tela de seu computador. Oliver entrou na sala e se sentou na cadeira disponível em frente ao amigo.
— Pessoal tá combinando de ir para o bar encher a cara hoje. Tá afim?
— Não, já tenho compromisso com a hoje. — A inauguração do restaurante de Derek era naquela sexta.
— Então é sério mesmo hein, nunca achei que fosse te ver desse jeito. — Oliver parecia ter o dia todo livre, já que se acomodou ainda mais no encosto da cadeira. Ao contrário do loiro a sua frente, estava ainda mais concentrado em seu computador lidando com as diversas planilhas e pastas de clientes abertas.
— Não tem nada para fazer, não, Oliver? Posso até te passar alguns trabalhos, tenho de sobra. — disse um pouco grosseiro, mas se deixasse Oliver passaria a tarde em sua sala batendo papo.
— Tá bom, cara, não tá mais aqui quem falou — levantou os braços na altura dos ombros, se levantando da cadeira. — Já vi que não tá de bom humor hoje. — Do mesmo jeito que ele chegou, saiu da sala. — tirou os óculos de grau que usava para o trabalho e esfregou o rosto com certa força, jogando o corpo na cadeira estofada, do mesmo jeito que Oliver fizera minutos atrás, respirando fundo. O dia seria longo.
Todo mundo sabia que estava longe de ser o cara que no fim do dia recusaria qualquer bar para ficar em casa ao lado de sua namorada, esposa ou o que fosse. Ele estava mais para o cara que iria para o bar em plena segunda-feira, por exemplo, e nem ele fazia questão de negar isso. A notícia do namoro de se espalhou rápido quando ele contou a Scott, também colega de trabalho, e ele fez o favor de espalhar a notícia pelo prédio. Totalmente desnecessário, mas não podia fazer nada quando sabia que o homem desenvolvia bem o seu papel de rádio corredor. Ele precisava lembrar de agradecer o amigo pelo feito, não é todo dia que você se torna a fofoca principal dentro do seu trabalho e as pessoas, nem ao menos, tentavam ser discretas quanto a isso.

— Querida, cheguei! — gritou assim que entrou em casa, colocando o blazer em cima do sofá e afrouxando a gravata no meio do caminho.
— Aqui no jardim. Rápido! — Seguiu a voz de a passos rápidos. A cena que viu foi uma um pouco descabelada correndo atrás de um Boris eufórico com o seu brinquedo novo de borracha. — Olha aqui. — Ela apontou para a nova casinha de madeira do cachorro.
— Não acredito. — Ele ria quando o cachorro largou o brinquedo no chão e foi ao seu encontro, sem se importar se estava o sujando ou não. — Você quebra um vaso de flor, destrói o chinelo dela e ela ainda te mima com uma casa nova, tá vendo só? — Sentou nos degraus da escada que dava acesso para o jardim, ainda fazendo um carinho no cachorro. — Boris, agradece a . — No momento em que a mulher sentou ao lado de , o cachorro foi ao seu encontro a lambendo no rosto como forma de agradecimento.
— Eu te amo demais, Boris. — abraçou-o de uma forma desengonçada, enquanto ele continuava a lambendo.
— Ok, vou ficar com ciúmes. Boris, vá pegar. — Jogou o brinquedo para o jardim, o cachorro obediente foi buscar imediatamente. Balançava o brinquedo na boca, voltando a se entreter, como se os dois adultos nem estivesse mais ali. — Espera aqui, tenho uma coisa para você. — Antes que pudesse fazer qualquer pergunta, saiu da casa novamente com um vaso em mãos.
— Não acredito! Eu amo girassóis. — Pegou o pequeno vaso de flor que lhe foi entregue, ainda admirando o presente.
— Eu não sabia que tipo de flor o Boris quebrou naquele dia. Mas acho que essa é a sua cara. — tinha um sorriso de orelha a orelha, encantada demais para conseguir esconder sua felicidade.
— Não precisava me dar outra flor, é sério. Vamos, vou deixar num lugar onde o Boris não alcance. — Entraram na casa, dessa vez seguiu para o seu quarto, com logo atrás. — Essa aqui é especial.
— Por quê? — parou na porta do quarto de , enquanto a mulher caminhava rapidamente pelo cômodo. Observou-a colocar o vaso na escrivaninha próxima da janela, de uma forma que a flor recebesse raios de sol também. Obviamente, àquela hora do dia não entraria nenhum já que estava anoitecendo, mas assim que amanhecesse ele sabia que entraria sol ali, evitando que a planta morresse.
— Porque foi você que me deu. — Ela virou-se para o amigo ainda sorrindo, sendo retribuída.
— Não esqueceu do nosso jantar, né? — olhou no relógio, certificando que ainda tinha um tempinho de sobra, mas não muito.
— Jantar? — A cara de interrogação foi o suficiente para saber que a amiga havia esquecido. não conseguia lidar com datas e isso era uma coisa que não havia mudado.
. — Ele chegou mais perto da mulher, segurando delicadamente seu rosto com as duas mãos. — Vamos sair para jantar hoje, tá bom?! Te espero lá embaixo. — Os olhos penetrantes de pareciam brilhar ainda mais devido a intensidade com que eles encontraram os de . Antes de largar o rosto da amiga novamente, um beijo calmo e quente foi depositado em sua bochecha. Próximo demais de sua boca. No instante em que os olhos de piscaram, não estava mais em seu quarto. Como num estalo, lembrou da conversa de segunda-feira, do convite de Derek Wayland e da inauguração do restaurante. Havia combinado mesmo de ir com o , já que o dono do local era seu amigo. Entretanto, lembrou-se também do pesadelo que tivera naquele mesmo dia e um arrepio passou pelo seu corpo. Para afastar aquele último pensamento começou a revirar o guarda-roupa em busca de alguma roupa que não fosse calça jeans ou calça de moletom cinza. Por fim, um vestido preto foi o mais próximo de algo chique que conseguiu achar no fundo do roupeiro.
terminou de colocar o último brinco, deu mais uma olhada no espelho sentindo-se contente com o resultado que estava vendo. Naquela noite fria de Londres, optou por colocar um vestido preto de manga longa, o comprimento do vestido ia até um pouco abaixo dos joelhos, mas com uma abertura na lateral de sua coxa. Nos pés um scarpin preto, para combinar com o seu cabelo preso num coque alto, mas com alguns fios mais soltos, deixando a atenção ser focada totalmente para o seu rosto e corpo. O batom não era vermelho, naquela noite, optara por um nude assim como uma maquiagem mais simples nos olhos marcados apenas por um delineador preto. Desceu as escadas de sua casa, se encontrando com sentado no sofá da sala. O rapaz também estava simples, diferente do que costumava ver, ele vestia uma calça jeans preta, um blusão e coturnos da mesma cor da calça. Porém, o sobretudo num tom de laranja escuro por cima dava um charme a mais para .
—'Tô pronta. Só espero que não seja muito chique, foi o máximo que eu consegui.
— Nossa... — a encarava dos pés à cabeça. — Meu Deus, , você tá linda... tá incrível. — deu um sorriso largo para que retribuiu da mesma forma com o rosto corado.
— Obrigada. Você também está.
— Se o seu vizinho vai catar da nossa vida, então, vamos fazer isso direito e decepcioná-lo toda vez que abrirmos essa porta. — estendeu o braço para , encaixando o seu no dele e deixou-se ser guiada até o carro estacionado já na calçada em frente à casa. O cavalheirismo de surpreendia ainda mais, principalmente quando ele abriu a porta do carro esperando que ela entrasse primeiro, para depois fazer a volta e sentar no lugar do motorista.
— Quando nos tornamos esses adultos chiques? — colocou o cinto e ligou o rádio, deixando uma música soar baixinho, quando deu partida no veículo.
— Não sei, mas gosto do que nos tornamos. — deu uma piscada rápida para , aumentando o volume quando Mr. Brightside começava a tocar.
Coming out of my cage and I've been doing just fine. Gotta, gotta be down, because I want it all. It started out with a kiss. How did it end up like this? It was only a kiss, It was only a kiss — As vozes dos dois se misturavam entre risadas e gritos tentando cantar a plenos pulmões a música do The Killers, exatamente como antigamente. O caminho foi percorrido exatamente desse jeito, toda e qualquer música que tocava era cantada pelo casal dentro do carro, sem se importar se estavam cantando a letra do jeito certo ou no ritmo da música. Aqueles eram e sendo melhores amigos, como sempre foram.
O carro foi perdendo velocidade parando, por fim, em frente ao restaurante. Haviam alguns fotógrafos e jornalistas em frente ao local. Um cenário novo e excitante para ambos. olhou em volta, observando cada detalhe do lugar e ficava encantada ainda mais. O restaurante era lindo, agora tudo fazia sentido em sua cabeça sobre as exigências de Derek em relação ao serviço solicitado. Era pequeno, charmoso e aconchegante, a parede de pedra junto das mesas a luz de velas dava um clima ainda mais romântico. E para quem quisesse, ainda tinha uma área a céu aberto e era ótimo para aproveitar a noite com a vista iluminada da cidade. Aos poucos as pessoas foram se acomodando em suas mesas, fazendo o restaurante lotar logo na sua primeira noite de estreia. Quando e pararam em frente à recepcionista lhe entregando o convite com seus nomes, a mulher abriu um sorriso colgate para eles. Não de uma maneira forçada, mas de uma maneira que parecia estar contente em vê-los, porém ambos nem imaginavam o motivo.
— Por favor, me acompanhem. — Valerie era o nome da recepcionista, e assim como , ela também estava muito bem vestida. — O Chef Wayland fez questão de arrumar uma mesa especial para vocês. — A mesa reservada para o casal era justamente a do lado de fora, a visão que mais gostou de ter do lugar. Ambos sorriram em agradecimento assim que Valerie os acomodou em seus devidos lugares. O vinho suave foi posto na mesa e decidiram escolher o menu selecionado pelo chef naquela noite, com direito a entrada, prato principal e sobremesa.
— Por acaso, você tem alguma coisa com isso aqui? — apontou para a mesa em que estavam sentados.
— Não. É coisa do Derek mesmo. — tomou mais um gole de seu vinho.
— Parece que estamos num encontro estilo Joey e Rachel.
— Concordo. A diferença é que você não está grávida.
— Ainda bem que não. E você não é um ator famoso. — Foi a vez de ingerir o líquido. — Às vezes é bom sair assim, sabe. Sem se preocupar com todo aquele lance de primeiro encontro, se beija ou não beija, se espera um segundo encontro para transar. Confesso que não tenho paciência para isso mais.
— Então, não vai haver sexo? E nem um mísero beijinho? Todo esforço foi em vão.
— Para de ser idiota. — bateu no braço de ainda rindo.
— É brincadeira, é brincadeira. Mas se você quiser, eu quero.
! — estava pronta para bater outra vez em , quando seu nome foi chamado um pouco mais alto naquela área em que estavam.
— Dereck, parabéns, cara. — Ele se levantou cumprimentando o amigo num abraço com direito a tapinhas nas costas. — O lugar é incrível e a comida é maravilhosa.
— Obrigado, fico feliz que tenha vindo. — Dereck se soltou do amigo, agora olhando para que permanecia sentada observando os dois homens ali na sua frente. — Você deve ser a , certo? — Perguntou em dúvida.
— Sim, muito prazer Dereck.
— O prazer é meu. E eu tenho que te agradecer pelo trabalho impecável que você fez. Muito obrigada, de verdade.
— Não por isso, eu só fiz o meu trabalho. Parabéns pelo restaurante, tá tudo muito lindo e a comida é maravilhosa mesmo. — Agora os três se encontravam em pé conversando. e Derek engataram uma conversa animada, relembrando os velhos tempos de quando o chef ainda cursava administração e era colega de faculdade de . Sempre deixando a par de todos os acontecimentos, a fim de que ela não ficasse perdida e excluída da conversa.
— Ainda bem que você largou a administração, porque esse lugar é a sua cara. — disse, entusiasmado.
— Os únicos números que eu tenho que saber agora é o quanto de comida eu vou precisar e então a mágica acontece. — Derek disse, estalando os dedos. — Vocês estão com pressa? Quero que conheçam uma pessoa. Ele é meu sócio e me ajudou a realizar esse sonho. — Derek falava rápido demais, às vezes deixava os dois amigos um pouco zonzos. Sem nem dar a chance de resposta, saiu em disparada para dentro do restaurante novamente.
— Eu fico imaginando vocês dois na faculdade e nada faz sentido na minha cabeça. Principalmente porque tu vivia chapado e o Derek é rápido demais pro teu cérebro.
— Exatamente por isso eu apenas balançava a cabeça e concordava com tudo que ele falava.
— Que péssimo amigo você era.
— Funcionou quando ele perguntou se deveria largar a administração para cursar gastronomia. Eu só me dei conta que o incentivei no outro dia, mas olha onde ele está hoje.
— E se fosse algo grave?
— Ele não perguntaria para mim, acredite. — Os dois estavam abraçados, exatamente como um casal que pareciam ser, quando Derek se aproximou. Porém, dessa vez, ele estava acompanhado.
O sorriso estampado no rosto de naquele momento, sumiu imediatamente de seu rosto quando encontrou aquele par de olhos tão conhecidos e, que por algum momento de sua vida, ela achou que nunca mais encontraria. No fundo, torcia para nunca mais encontrar. Um calafrio passou pelo seu corpo, suas pernas ficaram bambas e suas mãos começaram a tremer à medida que seu coração acelerava cada vez mais. A angústia da última semana estava fazendo todo o sentido agora. Não lembrava da última vez que se sentira assim, já que estava seguindo com a sua vida de uma forma melhor do que o esperado e agora todo o esforço para esquecer aqueles dois malditos anos tinha ido parar no lixo. Não sabia se conseguiria manter seu autocontrole por muito tempo, estava torcendo para que Derek tivesse confundido a pessoa e que sairia da sua frente o mais rápido possível. Ela não queria fingir manter uma conversa amigável com uma pessoa que quase a destruiu de todas as formas, que quase acabou com toda sua sanidade mental. Uma pessoa que quase destruiu a sua vida, se não fosse por e Jesse terem ficado ao seu lado nos piores momentos, nas piores crises e recaídas. não estaria ali hoje se não fosse por eles e ela sabia muito bem disso, era eternamente grata por todo apoio que tinha recebido desde então. Antes que seu cérebro pudesse raciocinar qualquer frase para ser dita, olhou mais uma vez o rosto à sua frente, dessa vez observando todos os detalhes atentamente, principalmente a cicatriz no lado direito de sua cabeça, onde o cabelo não conseguia esconder, e que tinha sido causada por ela. Certificando-se de que era sim quem ela abominava com todas as suas forças a encarando de uma forma prazerosa. Como se estivesse feliz em revê-la, algo impossível de voltar a sentir ao estar no mesmo ambiente que ele ou de somente vê-lo.
— Kurt? — Num fio de voz, foi o máximo que saiu da boca de .



Capítulo 9

ainda estava petrificada no mesmo lugar, como se não conseguisse mover os seus pés do chão. Ao contrário dela, Kurt mantinha um semblante calmo, quase como irônico ao ver a ex-namorada com traumas do relacionamento que tiveram. Sem nem ao menos conseguir elaborar uma frase que seja na sua presença. Não o bastante, fez menção de abraçá-la, se não fosse por um furioso se meter no meio dos dois, empurrando Kurt para longe de .
— Tente encostar na de novo, um dedo que seja e eu te mato. Não se aproxime dela nunca mais e se eu soubesse que você estaria aqui hoje, com certeza, não teríamos gasto nosso tempo vindo. — O dedo apontado no peito de Kurt e a fala cheia de raiva de não o intimidava. Ouvir aquelas ameaças era como música para seus ouvidos, sentia o prazer correr pelo seu corpo saber que as mesmas pessoas ainda defendiam e protegiam . O julgando sempre como louco, apelido que ele adorava ouvir. No fundo, talvez ele até fosse um pouco louco realmente.
puxou , a abraçando pelo ombro de forma que seus corpos ficassem colados. Saiu do restaurante sem se despedir de Derek, mas falaria com o amigo em outro momento, quando estivessem sozinhos. era mais importante naquele momento e ver a amiga em estado de choque ainda, era o combustível para querer mantê-la sempre por perto e segura. Querer protegê-la de todo mal que Kurt era capaz de fazê-la passar. Entretanto, não deixaria aquilo se repetir novamente, não a abandonaria de novo. Pagou a conta do jantar e saiu dali o mais rápido possível, arrancando com o carro daquele lugar. O caminho de volta foi um pouco mais longo, já que eles não estavam indo para casa num primeiro momento.
— Não é o caminho de casa.
— Eu sei que não, vamos passar num lugar antes.
— Eu estou cansada.
— Eu sei, vai ser rápido. —O silêncio voltou a reinar no ambiente. soltou um suspiro preso, soando um pouco mais alto, quando se sentiu realmente aliviada de estar com e de não ter sido preciso lidar com Kurt. parou o carro em frente a uma sorveteria 24 horas, a preferida de . Saiu do carro e voltou logo em seguida com um pote de sorvete de chocolate e outro de creme com cookies dentro de uma sacola, os sabores favoritos dela.
— Na sexta nós fazemos maratonas de filmes e séries, lembra? Acho que devemos continuar assim. — pegou a sacola olhando os dois potes de dois litros de sorvete cada. Sentia o seu nariz arder e, consequentemente, os seus olhos também. Estava se sentindo tão grata por ter consigo que não conseguia expressar de outra forma além de abraçá-lo com toda força que tinha, deixando suas lágrimas serem derramadas. retribuiu o abraço, a apertando ainda mais enquanto fazia um carinho leve em seus cabelos.
— Tá tudo bem, . Eu estou aqui, ok? Nada de ruim vai te acontecer. — Beijou o topo de sua cabeça, esperando a amiga se acalmar para poder voltar a dirigir.
A cabeça de estava um turbilhão de pensamentos e o máximo que conseguiu exibir de um sorriso, foi quando chegou em casa e se deparou com um Boris eufórico indo ao seu encontro. Fez um carinho leve na cabeça do animal, não mais que isso, seguindo direto para o seu quarto.
deixou os sapatos no meio do quarto, seguiu para o banheiro já tirando todas as peças de roupas as jogando pelo chão no meio do caminho. Ligou o chuveiro no forte, deixando com que a água caísse de forma violenta em seu corpo, quase como se quisesse limpar todos os rastros de Kurt ainda em si. A verdade é que ela queria exatamente isso, tirar tudo que Kurt a provocou, tudo que ainda restava dele nela, tudo o que ele a fez passar. Se fosse possível, queria que todas as lembranças, que ainda restavam e voltavam sempre para torturá-la, descessem pelo ralo junto da água escorrendo pelo seu corpo. Assim como a sujeira impregnada, a qual não sabia se um dia seria capaz de se desfazer, escorresse junto. Esfregava seu corpo com a esponja com tanta força fazendo sua pele arder, ficando num tom avermelhado. Nem havia se dado conta, mas sua pele poderia começar a sangrar se esfregasse com mais força. As lágrimas salgadas já se misturavam com a água em seu rosto, tornando tudo borrões na sua frente. Seus dedos já começavam a ficar murchos de tanto tempo debaixo daquele chuveiro, tentando se livrar de uma sujeira que pensava em possuir. Assim como os soluços já não eram mais tão silenciosos, ecoando por todo o cômodo. Queria conseguir colocar tudo para fora o que estava sentindo. Infelizmente naquele momento só conseguia se sentir suja, não importava o quanto ficasse ali ou o quanto esfregasse seu corpo, não conseguia se sentir livre de toda aquela sujeira. De toda a sujeira de Kurt.
? — A voz de ecoava baixa do lado de fora, quase inaudível se não tivesse a certeza que não estava sozinha em casa. — , você tá aí ainda? — Mais uma vez ela o ignorou.
— Fala comigo, por favor. Não faz isso com você mesma. — Já era tarde, não conseguia mais sair daquela bolha de pensamentos ruins que se enfiara desde que saiu do restaurante. Como, mais uma vez, não obteve resposta, adentrou o banheiro. Sabendo que a amiga ainda estava sofrendo pelas lembranças, pelos fantasmas do passado e, principalmente, por sua própria mente sempre lhe trair. Levando-a de volta para os lugares mais obscuros e sombrios ainda existentes dentro de sua mente. Sem hesitar abriu a porta do box e puxou a amiga dali, ainda com delicadeza, enrolando-a no roupão pendurado atrás da porta. Naquele momento parecia uma criança indefesa a procura de um colo que lhe desse conforto e carinho. Que a protegesse de tudo que pudesse ser lhe feito de mal.
— Sai daqui, . Eu só quero ficar sozinha. — A voz chorosa de começava a soar mais baixa, mas ainda continha certa raiva nela. — Sai daqui! — Enrolou o roupão no corpo com força, dando um passo para trás ficando longe das mãos de . passou a mão pelo rosto, a fim de apagar todos os resquícios do choro, o que fez sua maquiagem borrar ainda mais.
, olha para mim, por favor.
— Eu não quero. — Ela balançava a cabeça em sinal de negação, apoiando o corpo na pia do banheiro mantendo o olhar no chão. Sem coragem de encarar o amigo à sua frente, voltou a chorar mais uma vez. Não sabia que era capaz de ter uma recaída daquelas novamente. E, dessa vez, parecia ser ainda mais doloroso. A vergonha começava a dominar o seu corpo, assim como o medo da rejeição e do abandono a cercava outra vez.
— Eu não vou a lugar nenhum, . Estou aqui para e por você, mas preciso que confie em mim de novo.
— Para você ir embora de novo? — A voz amargurada de se fez presente no cômodo.
— Eu prometo que não vou nunca mais. Não vou cometer o mesmo erro de novo. —
deu uma passo em direção a amiga, ficando dessa vez mais próximo de seu corpo, quase colando. A lágrima solitária foi impedida de chegar ao final da bochecha de quando limpou-a com o polegar. O soluço alto que saiu da boca de ecoou pelo banheiro já silencioso e úmido. Ainda que tentasse se manter forte na frente de todos, os seus medos voltavam para assombrá-la quando ela menos esperava. Ter uma base para que pudesse ajudá-la a sair do fundo do poço era essencial. O problema aconteceu exatamente alguns anos atrás, quando essa base era e Jesse, porém se viu sem seu melhor amigo no momento mais difícil de sua vida. Sem um dos seus pilares, fazendo com que tivesse medo da história se repetir.
Num impulso, abraçou com força, deixando sua cabeça descansar no ombro do amigo, ele não pensou duas vezes antes de retribuir o gesto. Caminhou em passos lentos de volta para o quarto de , ainda abraçado na amiga enquanto ela colocava para fora todas as lágrimas e mágoas, molhando sua camiseta. Sentou-se no meio da cama com ao lado, agarrada em seu pescoço e sem pretensão de sair dali tão cedo. A mulher encolheu as pernas junto ao corpo, permitindo-se sentir o carinho que recebia de . O primeiro carinho que recebia em anos, um carinho tão puro e sincero que ela nem lembrava mais como era ter essa sensação.
Um pouco mais de uma hora, os dedos de ainda deslizavam pelas costas e cabelos de , já que a mulher se encontrava na mesma posição. Sem forças para sair dali, mas com a respiração já calma e os pensamentos nos seus devidos lugares, deitou na cama ficando de frente para o amigo e o encarando pela primeira vez desde que ele entrara no quarto naquela noite. Os olhos tristes de ambos diziam tudo que estava preso e que eles ainda não estavam prontos para dizer um para o outro em voz alta.
A partida de , quase cinco anos atrás, pesava dentro de , mas quando ele voltara deixou que ele entrasse novamente em sua vida de forma que permanecesse nela. Do mesmo jeito que estava fazendo, estava se mostrando ser mais amigo de do que jamais fora de qualquer outra pessoa. Sabia dos seus erros e, principalmente, sabia que não podia cometê-los novamente. Ainda havia muitos sentimentos nublados entre eles, contudo, não conseguiam mais viver um sem a presença do outro.
Não sabiam mais quanto tempo estavam deitados naquela posição, apenas ouvindo a respiração calma um do outro. se moveu lentamente, caminhou até o roupeiro de e tirou dali um pijama confortável, de modo que ela não dormisse no roupão molhado.
Sem dizer nada, deu um beijo na testa de , acendeu a luz do abajur ao lado da cama e deixou a porta do quarto entreaberta, saindo do cômodo em seguida.
Então tinha acontecido, depois de anos estável, a primeira recaída tinha acontecido. não sabia ainda como analisar toda aquela situação, também não queria pensar naquilo àquela hora da madrugada. Sentia-se insegura com muitas questões ainda, isso era inquestionável, mas sabia que tudo se resolveria. Torcia para isso acontecer o mais rápido possível, também torcia para Kurt nunca mais cruzar o seu caminho.
O sono já começava a dominar seu corpo, livrando-a de todos os sentimentos ruins. Vestiu as peças de roupas deixadas pelo amigo na beirada da cama, secou os cabelos com a toalha e voltou para cama. Os músculos tensos pareciam se encaixar nos seus devidos lugares quando relaxou o corpo sobre o colchão, podendo se dar ao luxo pela primeira vez na noite de não se preocupar com mais nada e finalmente pegar no sono.
Naquela mesma noite, no quarto ao lado, se questionava se estava fazendo tudo certo dessa vez. Àquela noite sem dúvida tinha colocado tudo à prova de fogo, considerando que o mesmo motivo que o fez ir embora da cidade na primeira vez estava de volta. Sua cabeça girava e girava, mas nada parecia fazer sentido a não ser a raiva que estava sentindo escorrer em suas veias ainda. O sono não chegaria tão cedo, o que tornava a carteira de cigarro ao lado da cama ainda mais atraente. Não pensou duas vezes antes de descer as escadas da casa, indo em direção ao jardim. Ar puro era o que precisava. Mais do que isso, ele também precisava colocar todos os seus pensamentos, sentimentos e frustrações vividas nas últimas horas em seus devidos lugares. Caso contrário, enlouquecer começava a se tornar uma possibilidade.
Tragou mais uma vez o cigarro deixando a fumaça se misturar com a leve brisa do jardim. Boris já se encontrava deitado na sua cama, sem dar muita atenção ao dono. O que fez começar a futricar no seu celular, sem saber exatamente o que estava procurando no aparelho, foi então que ele vibrou em suas mãos anunciando uma mensagem de sua irmã.

Jo: Espero que lembre que ainda tem uma irmã. Lola está morrendo de saudade. Dê notícias.

riu sincero ao ver a mensagem da irmã brilhar na tela de seu celular.

: Ei, não era para você estar dormindo essa hora? Estou morrendo de saudades de vocês. Até do insuportável do Ethan, com a mesma piada ruim de sempre. Mas não conte a ele.

Respondeu rapidamente. O cigarro já estava no fim, mas o sono ainda estava longe de chegar em seu corpo, o que facilitou ao acender mais um deixando a nicotina tranquilizá-lo ainda mais.

Jo: Quando você é mãe, a última coisa que você faz é dormir. Tarde demais, ele está ao meu lado. Mas e você, o que tem feito?

: Nada demais, apenas ocupado com o trabalho. Você me pergunta como se não tivesse saído daqui há uma semana.

Ele sabia que sua irmã reviraria os olhos quando lesse a mensagem, por esse motivo então mandou.

Jo: É verdade, mas estou com saudades de vocês de qualquer forma.
Agora eu vou tentar dormir. Se cuida, amo vocês.

Sem perceber, acabou pegando no sono no banco de madeira que tinha na varanda da casa de . Como ele mesmo já estava sentado ali há algumas horas, não se deu conta quando o sono começou a dominar seu corpo, depois de algumas mensagens trocadas com a sua irmã naquela noite. Porém, os raios de sol e a língua de Boris em seu rosto, o lambendo, foi o suficiente para ele acordar no susto e cair de cara no chão. Ironicamente o pote da água do cachorro estava bem ao lado do banco e com a queda, foi impossível desviar do pote, o que fez seu rosto ir de encontro a ele.
— Que ótimo. — Resmungou baixinho. Secou seu rosto com a camiseta e finalmente entrou na casa. O que ele já deveria ter feito algumas horas atrás.
A imagem que encontrou ao pisar na sala, foi de uma totalmente alegre ao som de uma música qualquer. Música que ele fez questão de ignorar ao perceber que a mulher rebolava pela sala, sem prestar atenção na sua presença. Deu alguns passos para trás e se escondeu atrás do balcão da cozinha, pelo menos que ficasse escondido da cintura para baixo já estava ótimo. Maldita ereção matinal.
— Bom dia, flor do dia! — largou o controle da televisão em cima do sofá, já que usava o objeto como microfone para a música que tocava. — O que aconteceu? — Apontou para a camiseta de molhada.
— Caí de cara no pote de água do Boris, porque dormi no banco do jardim. — Encheu um copo de água da bancada e o tomou. Tentando afastar todos os pensamentos impuros o mais rápido possível de sua mente.
— O dia que eu disse que ia te colocar para dormir com o Boris era brincadeira, tá?! Só para deixar claro, tem um quarto lá em cima só para você. — No mesmo momento em que terminou de falar tirou a camiseta que estava vestindo ficando apenas de top preto e short. — Hoje é dia de faxina! — Ela disse, animada, indo para a área de serviço da casa. A deixa perfeita para subir as escadas quase como o flash, pulando alguns degraus. Se sentiu um adolescente na puberdade, ao se trancar no quarto, ainda excitado. Mas nada tirava a visão que acabara de ter de sua cabeça. Se aquilo estava sendo um teste, então ele estava completamente ferrado.
— Preciso de um banho gelado. — Falou para si mesmo partindo para o banheiro.



Capítulo 10

abriu a porta do apartamento em que havia alugado em Leeds, diferente do que ele estava acostumado em Londres, esse era menor, mas era mobiliado e dava menos trabalho para ele. Entretanto, um vazio começou a dominar seu corpo, assim que percebeu que seria apenas ele e Boris na nova residência. O cachorro estava tão desanimado quanto seu dono, mesmo que logo ele já se distraísse com um dos seus brinquedos. Por fim, resolveu guardar suas coisas na nova casa e descansar, era o que restava.
Leeds era o seu lar novamente, mas não estava sendo do jeito que ele gostaria, estar de volta à cidade natal sem era a pior parte. Mas ele tinha feito uma promessa, e por mais que estivesse doendo cumprir — pelo menos uma parte da promessa —, ele estava mantendo sua palavra. Ao contrário de , sua mãe, Mary estava feliz por ter o filho por perto novamente, mas ela sabia que aquele lugar não pertencia mais a ele.
Assim que o expediente de trabalho chegou ao fim, estava pronto para ir para casa, quando encontrou com Joanne na calçada em frente ao prédio novo que trabalhava.
— Hey, que bom te ver. — Ela o abraçou apertado, sendo retribuída da mesma forma.
— É bom te ver também. — falou baixo, apertando a irmã ainda mais.
— Como você está?
— Quer a verdade ou apenas que eu diga que estou bem? — Ele acendeu um cigarro, aliviando a tensão do dia com o efeito da nicotina.
— Sempre a verdade, .
— Ok, vamos para minha casa e eu faço a janta para nós. — Joanne confirmou com a cabeça, aproveitando o clima não muito frio, ainda, da cidade. Eles foram caminhando até o apartamento de .
Como de costume, Boris fez festa ao ver o seu dono, mas correu até o tapete da sala logo em seguida se atirando de barriga para cima. sabia que o espaço não era muito grande para o animal, mas tentava deixar o máximo de espaço livre para que ele conseguisse circular livremente. Joanne colocou a água para ferver, enquanto correu para tomar um banho rápido, tirando a roupa apertada do dia de trabalho; quando voltou para a sala, uma taça de vinho tinto o esperava, do jeito que ele gostava. Tomou um pouco da bebida, mas logo preparou um macarrão à carbonara para a janta. sabia que não precisava esconder nada de sua irmã, ela entendia que ele começaria a contar quando se sentisse à vontade. Porém, um turbilhão de pensamentos passava pela sua cabeça, um misto de sentimentos confusos e uma vontade terrível de chorar começava a dominar seu corpo. Desde que chegara na cidade, fez de tudo para manter a cabeça ocupada, e agora que estava disposto a contar tudo para sua irmã, o sentimento real de ter feito a coisa errada começava a assombrá-lo.
— Acho que fiz a pior escolha da minha vida. — disse, pensativo. Mordeu o lábio e fechou os olhos, deitou com a cabeça no colo de Jo, deixando que a irmã fizesse um carinho em seus cabelos. — Eu fiz uma promessa e falhei com a única pessoa que não podia.
— Você a ama, não é? Digo, nunca te vi assim por ninguém, só pode ser amor.
— Mais do que eu achei que era capaz. — As lágrimas rolavam por seu rosto lentamente. — Eu sei que ela não vai me perdoar, mesmo se eu voltar agora, mas todo dia minha cabeça me leva de volta para Londres. Eu não sei o que fazer, porque sinto falta dela.
— Você fez a coisa certa, por mais que doa em vocês dois. Imagino o quanto está sendo difícil para você ter tomado essa decisão, mas vai passar. Você quer contar o que aconteceu? — Jo perguntou, cautelosa.
— Agora não, dói demais. — A sala voltou a ficar em silêncio, sendo preenchida apenas pelo som da televisão.

(...)

— Você está feliz de ter voltado, não é? — Joanne disse ao sentar ao lado do irmão no sofá.
— Muita coisa aconteceu desde que eu voltei, mas tomei a decisão certa. — mantinha um sorriso tímido, mas estava contente com suas escolhas.
— Estou feliz por você, mas tome cuidado, tá bom? Não quero que você apareça em Leeds com o Boris de novo, não apenas vocês dois. — Joanne bagunçou os cabelos de .
— Pode deixar. E você não apareça mais aqui sem minha sobrinha, estou realmente morrendo de saudade daquela pestinha.
— Tire férias e vá visitá-la. — Joanne disse, rindo.
— Nos vemos no natal, eu prometo. — Ele lançou um sorriso para a irmã.
— Promessa é coisa séria. — Ela apontou o dedo indicador em sua direção.
— E você sabe que eu cumpro.
— Eu sei. — Ela sorriu, concordando com um aceno de cabeça. — Te amo, cabeçudo.
— Também te amo, chata. — Ele puxou a irmã pelos ombros, deixando que ela descansasse a cabeça em seu ombro enquanto terminava de assistir televisão.

Dezembro era o mês oficial em que a cidade ficava ainda mais bonita e o frio em Londres já não se escondia mais, do mesmo jeito que a neve. A cama de Boris já não era mais utilizada na varanda, mas o cachorro gostava de sair para rua nem que fosse para ficar dez minutos e aproveitar o espaço livre, era o máximo que conseguia deixá-lo lá fora.
— Ei, tá tudo bem? — apareceu na varanda que dava acesso ao jardim. já estava acordado há algum tempo, com uma xícara de café em mãos e o cigarro entre os dedos, ele olhava Boris brincar no jardim.
— Tá tudo bem sim. — Ele terminou de tomar a bebida, agora já não tão quente quanto gostaria. — Tenho duas notícias, uma boa e outra nem tanto.
— Então conte logo. — sentou-se ao lado de no banco de madeira.
— Podemos ir para Leeds no Natal e ano novo, não vou trabalhar por causa do recesso; mas depois, tenho que ir para Manchester trabalhar por uma semana, já está programado na empresa. O que acha? — balançou a cabeça concordando, ainda pensativa.
— Isso quer dizer que vamos ficar duas semanas em Leeds? — disse, sorrindo. — Sua mãe vai te matar se formos apenas na semana do Natal sabendo que você vai estar livre. — deu a ideia, ela sabia o quanto significava ir para Leeds com , e o quanto a família dele ficaria feliz em vê-lo novamente.
— Isso é verdade. — Ele deu de ombros. — Combinado. Arrume suas malas e se prepare para conviver com a família mais doida que você já viu.
— Você já convive com a minha, nada mais justo do que eu conviver com a sua um pouco. — Ela riu.
— Como você está? — Ele voltou a ficar sério, olhando nos olhos de .
— Bem, eu acho. — Ela desviou o olhar, voltando a atenção para o cachorro no meio do jardim. — Quando vamos pegar estrada?
— Segunda, chegamos de surpresa lá.
— Ela vai surtar, já ‘tô até vendo.
— É esse o objetivo. — já imaginava a reação de sua mãe, estava morrendo de saudade de toda aquela loucura, e ter conseguido um tempo para ir visitá-la o deixava animado.
— Como quer aproveitar o fim de semana?
— Uma maratona de filme antigo e uma garrafa de vinho tá bom. — O cigarro já tinha acabado e a xícara já se encontrava vazia quando respondeu, prendendo sua atenção no rosto de .
— Só se eu puder incluir Uma linda mulher nessa sua lista de filmes antigos. — pediu sorrindo, balançou a cabeça ainda rindo.
— Acho que posso aceitar isso e meu coração continua aberto. — Ele respondeu do mesmo jeito dramático que costumava fazer.

A clássica cena de Edward indo atrás de Vivian no subúrbio de Los Angeles, espantando pombos com um buquê de rosas numa limusine começava a passar na televisão, mas já estava dormindo há algum tempo ali. Mesmo reclamando de todos os filmes água com açúcar que gostava de assistir, ele ainda deixou o filme rolar, sabendo que apenas ele estava assistindo. Os créditos começaram a subir na tela, então levou os copos e o balde de pipoca para a cozinha, deixando-os limpos novamente, desligou a televisão e pegou no colo, levando-a para o seu quarto. Se tinha adormecido assistindo Uma linda mulher, isso era sinal que ela estava realmente cansada.
— Dorme aqui. — resmungou baixo, quando a colocou na cama.
— Eu já volto. — Ele respondeu no mesmo tom de voz.
saiu do quarto de e foi até o seu, escovou os dentes e colocou uma roupa confortável para dormir. Assim que voltou, deitou ao lado de , abraçando-a pela cintura, de modo que seus corpos ficassem colados.
— Obrigada por estar aqui, de novo. Não sei o que teria acontecido se você não estivesse comigo. — Desde o dia do restaurante eles não tinham tocado no assunto, mas ela sabia que era necessário.
— Não precisa agradecer, você sabe que eu vou estar sempre aqui.
— Tenho medo de acordar algum dia e descobrir que você foi embora de novo. — respondeu tão baixo que quase não escutou o som da voz da mulher, era como se ela tivesse medo de falar aquilo em um tom mais alto e o seu medo se tornar real.
— Ter ido embora alguns anos atrás foi meu último, e pior erro. — fez um carinho pela bochecha de , enquanto ela aproveitava o toque, foi relaxando os músculos até pegar no sono de vez.
Dormir no mesmo quarto que estava quase se tornando um hábito, já tinham perdido as contas de quantas vezes ele havia dormido no quarto dela ou ela no seu. No fundo, eles sabiam que as coisas estavam ficando sérias demais.



Capítulo 11

— Será que consigo comprar presentes ainda? — olhava a cidade decorada para o Natal, quase com a cabeça para fora do carro, encantada com a decoração de Leeds.
— Minha família não se importa com presentes, você sabe. — diminuiu a velocidade, isso era o preço por chegar em Leeds um dia antes da véspera de Natal.
— É a primeira vez que piso em Leeds, nunca conheci sua mãe pessoalmente, só nos falamos pelo computador. É até injusto, e feio, chegar de mão abanando. — respondeu sem desviar os olhos das ruas.
— Eles não vão se importar mesmo. — conseguiu estacionar em frente ao hotel que ficariam hospedados. Tirou as duas malas do porta-malas do carro e entraram no prédio, tentando ao máximo escapar do frio o quanto antes.
Após o check-in, o casal seguiu para o quarto do hotel, estava pronto para descansar na cama confortável e tirar uma bela hora de sono, mas estava eufórica demais para pensar em dormir.
— Você vai mesmo dormir? — Ela perguntou, tirando as roupas da mala. Tentava decidir qual blusão de lã usaria, estava frio demais lá fora para continuar com a blusa de malha fina e o casaco grosso, por mais que ele esquentasse, ainda não era o suficiente.
— Sim, foram três horas dirigindo até aqui. Você não está cansada, não? — Ele já resmungava de olhos fechados, deixando o cansaço dominar seu corpo.
— Claro que não, é a primeira vez que eu estou aqui desde que nos conhecemos. Eu quero conhecer tudo nessa cidade, e você vai ser meu guia turístico. — Por fim, pegou o blusão verde de dentro da mala, vestindo a peça em seguida. — Coloca um moletom e vamos, não viemos aqui para ficar presos dentro de um quarto de hotel.
— Tá bom, onde você quer ir primeiro? — Ele desistiu de dormir, se levantando da cama e vestindo um blusão de lã, assim como tinha feito minutos atrás.
— Na sua casa, quero conhecer onde você morava aqui.
— Está mesmo preparada para lidar com parentes que nem eu vejo há anos e eles ainda vão te encher de perguntas? — colocou o tênis novamente, quando perguntou, rindo. Pegou o celular e a carteira, seguido da jaqueta preta e a touca.
— Eu esperei tempo demais por esse momento, vamos logo. — Ela saiu do quarto, já pedindo o elevador no corredor do hotel.
— São todos loucos, não diga que eu não avisei.
fez um pequeno tour pela cidade, relembrando os velhos tempos que passou ali, onde passou sua infância e adolescência, já que no início da vida adulta ele acabou se mudando para Londres. Mas estava tão ansiosa para conhecer a famosa casa em que viveu, que quase não prestou atenção no que ele falava pelo caminho. Quando entrou no bairro residencial conhecido por ele, sentiu um leve frio na barriga e suas mãos começaram a suar; não tinha motivos para se sentir nervosa, mas estava com medo de decepcioná-los, sem mesmo saber o porquê.
— Acha que eles vão gostar de mim? — olhou pela janela, a charmosa casa de tijolinhos marrons parecia tão aconchegante por fora, era o tipo de casa que gostaria de morar quando envelhecesse.
— Eles vão te amar, tenho certeza. — entrelaçou os dedos nos de , apertando a campainha em seguida.
— AH, NÃO ACREDITO! VOCÊS VIERAM MESMO. — A porta foi aberta por Joanne, que deu um grito e pulou no colo do irmão, abraçando-o. — MÃE, VEM VER QUEM ESTÁ AQUI.
Mary apareceu minutos depois, com um pano de pratos em mãos e um pouco assustada com o grito da filha; porém, assim que viu parado na porta rindo da reação de Joanne, os olhos da mulher lacrimejaram.
, nunca mais se atreva a sumir desse jeito. — A mulher abraçou o filho, que retribuiu num abraço apertado, depositando um beijo em seu rosto logo em seguida.
— Não vou. — Mary sorria, ainda extasiada pela surpresa.
— Oh, meu Deus, , você finalmente apareceu. — Mary puxou-a para outro abraço. se sentiu tão bem nos braços da mulher, que todo o nervosismo de minutos atrás se dissipou em segundos. — Meu filho só esqueceu de dizer que você é ainda mais bonita pessoalmente. Venham, estamos fazendo biscoitos. — Ela piscou para antes de seguir para a cozinha.
e penduraram os casacos atrás da porta, a lareira da sala estava acesa e dava um ar ainda mais aconchegante ao local. A casa da mãe de não era tão diferente da casa dos pais de , mas tudo ali parecia ter um toque especial. A sala de estar tinha várias fotos sobre a lareira, alguns desenhos pendurados próximo da árvore de Natal, provavelmente eram de Lucy; várias almofadas coloridas pelo sofá e uma estante com miniaturas de carrinhos, guitarras e astros do rock. Aquilo só podia ser coisa do , foi o que pensou.
— Daqui a pouco a Lucy vai chegar e ela gosta de biscoito e cookies quentinhos. — Mary tirou uma forma de biscoitos do forno, já prontos, colocou-os num prato e deixou em cima da mesa. e se acomodaram na mesa.
— Temos uma vovó babona aqui. — Joanne pegou as xícaras dentro do armário, pegou o leite e as serviu.
— Cadê meu neto de quatro patas? Não me diga que deixaram o coitado em Londres. — Ela olhou para , com um olhar que o faria se arrepender se respondesse que sim.
— Está na casa da Joanne, vamos ficar num hotel enquanto estivermos aqui. — respondeu, comendo um biscoito do prato.
— Cancele essa reserva agora e traga as coisas de vocês para cá, não quero desculpas. Seu quarto tá desocupado, o da Joanne também e ainda tem o quarto de hóspedes, eu não aguento mais essa casa vazia. — Mary disse firme, não tinha como argumentar contra ela. — Ah, , se o ainda não te disse, somos todos um pouco loucos por aqui. — encarou , ainda com um biscoito na boca, olhando-a como se dissesse “eu avisei”.
— Mamãe! — Um grito fino soou pela casa e uma miniatura de Joanne apareceu na cozinha. A menina tinha os cabelos curtos, num tom de castanho escuro e levemente cacheados, os olhos castanhos também eram típicos de Joanne, as bochechas e a ponta do nariz vermelho provavelmente era o efeito do frio lá fora. Assim que Lucy percebeu que haviam mais pessoas no cômodo e ela conseguiu focar o olhar em quem estava ali, seus olhos se arregalaram, parecendo duas bolinhas de gude.
— Tio, ! Tia, ! — Lucy ficou tão eufórica que não sabia quem abraçava primeiro, escolhendo , por fim. Abraçou a mulher pelo pescoço, esticando seus bracinhos pequenos e ficando na ponta dos pés. a pegou no colo, retribuindo o carinho.
— Princesa, como você está linda. — A mais velha colocou Lucy em seu colo, enquanto a menina ainda abraçava o pescoço de .
— Tia , você sabia que o papai Noel vai vim amanhã? — Ela cochichou como se fosse um segredo. olhava admirado por Lucy gostar tanto de , já que a menina ficava tímida na presença de outros adultos.
— Ah, é? E o que você pediu para o papai Noel? — perguntou no mesmo tom de voz, Lucy cochichou no ouvido de e fez um sinal para ela não contar para ninguém. — Então, pode deixar, é o nosso segredo.
— Eu apareço para visitar essa pestinha e ela nem me dá bola. — resmungou para Joanne que apenas deu ombros.
— Tio , eu estava morrendo de saudade. — Lucy deixou à mostra seu sorriso banguela e se derreteu pela sobrinha.
— É impossível resistir a você, Lucy. Eu também estava morrendo de saudade.
Lucy saiu do colo de e se acomodou no colo de , o mais velho colocou o prato de biscoito próximo da menina e entregou a xícara com leite morno para ela. A menina contava animada como estava sendo o ano na escola, apesar de ter quatros anos, Lucy era muito esperta.
— Tio , vai passar Trolls na televisão hoje. Vamos, você precisa assistir comigo. — Ela deu um pulo tão rápido, que até se assustou um pouco. Quando se levantou, sem ter outra escolha senão assistir o desenho junto da sobrinha, ele então percebeu que Ethan estava na cozinha; mas Lucy tinha prendido a atenção de todos que nem havia reparado antes.
— É difícil dizer não a ela. — Ethan deu dois tapinhas nas costas do cunhado, entendendo que aquela era uma batalha perdida.
— Mãe, vou passar em casa, enquanto Lucy assiste desenho com o , daqui a pouco eu volto. — Joanne se levantou da mesa, deu um beijo no rosto de Mary e de e saiu, deixando as duas mulheres sozinhas no cômodo.
— Então, , o que está achando de Leeds? — Mary não queria deixar que o clima ficasse tenso.
— É tudo tão lindo, limpo e lembra um pouco Londres. Não vi muitos lugares ainda, porque chegamos hoje e os lugares que me mostrou nós passamos de carro. Mas pretendo conhecer tudo enquanto estivermos aqui. — estava realmente encantada com a cidade, principalmente porque estava enfeitada para a sua época do ano favorita.
— Como você está, ? — Mary sentou ao lado de , segurando sua mão como um gesto de carinho. ficou sem reação, de todas as pessoas do mundo, ela não esperava que aquele gesto fosse vir justo da mãe de ; porém, sabendo como era, sabia que tinha muita influência de sua mãe no modo como ele era cavalheiro, gentil, educado e outras infinidades de adjetivos que poderiam ser atribuídos a ele.
— Eu estou bem, Mary, obrigada por perguntar. — sorriu. — De verdade, ter ao meu lado de novo fez toda diferença. As últimas semanas não foram tão fáceis, mas ele tem me ajudado muito.
— Meu filho não é o tipo de pessoa que sabe expressar seus sentimentos, mas quando ele está com você, ele não consegue esconder nada. Você é realmente muito especial para o .
— Ele também é especial para mim. — se sentia extremamente grata por ter sido muito bem recebida na família , principalmente depois dos últimos anos.
— Tia , vamos fazer boneco de neve? Por favor, por favorzinho. — Lucy sabia como conquistar alguém, e aquele sorriso com o dente do meio faltando a deixava ainda mais fofa.
— Você venceu, eu não consigo negar nada a você, pequena Lucy. — A menina deu pulinhos de felicidade, logo saiu correndo para os fundos da casa. O que antes era o jardim, agora já estava tomado pela neve para a felicidade de Lucy.
Não importava o que fosse acontecer, aquele Natal estava sendo surpreendente para . Estar num ambiente onde as pessoas não se importavam com o que ela fazia da vida, se tinha uma conta bancária farta ou se teria filhos no futuro, era tudo que sempre quis. Estar na presença dos tinha tornado tudo ainda mais especial, havia avisado que eram todos malucos, mas estava gostando do jeito maluco de ser deles. No fundo, aquilo tudo era o que sempre quis.

— Meu Deus, eu estou morta. — se atirou na cama, fechou os olhos e deixou o corpo relaxar.
— Eu acho que agora eu quero sair e aproveitar a cidade. — provocou.
— Vá sozinho, porque daqui eu não movo um músculo. — mal tinha forças para levantar o braço.
— Vá tomar banho, sua fedorenta, vou preparar um lanche para gente enquanto isso. — mostrou o dedo do meio para , mas ele já tinha saído do quarto.
No tempo em que ficou brincando na neve com Lucy, foi até o hotel para buscar suas coisas, cancelando a reserva já feita. Ele sabia que não tinha outro jeito senão cancelar, já que sua mãe insistira para que eles ficassem na casa. Como o quarto de hóspedes era basicamente uma suíte, Mary fez questão que o casal dormisse nesse quarto, pois, segundo ela, o quarto antigo de não passava de um amontoado de lixo.
pegou seu pijama e partiu para o banheiro, deixando a água quente cair sobre seu corpo e relaxar os músculos; porém, o frio que estava fazendo não permitia que ela ficasse muito tempo embaixo d'água. Assim que desligou o chuveiro, se vestiu rápido e voltou para debaixo das cobertas, ligou a televisão para assistir algum programa que estivesse passando enquanto não voltava.
descia as escadas em silêncio, tomando cuidado para não fazer barulho e acordar sua mãe, mas a luz da varanda estava acesa e ele sabia que a mulher estava lá fora. Pegou a jaqueta pendurada atrás da porta e caminhou até lá, desde que chegara não tinha conseguido ter um momento a sós com a mãe, talvez ali estivesse a oportunidade.
— Ei, já está tarde, o que está fazendo aqui? — Mary terminava de tragar seu cigarro, apertando o casaco ainda mais no corpo.
— Fumando, não gosto que fique o cheiro dentro de casa. — Ela respondeu, dando de ombros. — Ela é especial, não é? — Mary se referiu a .
— Muito. — enfiou as mãos no bolso do casaco, balançando o corpo de leve ainda na porta da varanda.
— Ela é uma boa pessoa, mas está com medo e, talvez, confusa. É difícil reconhecer que você pode ser amada sem precisar dar algo em troca.
— Não tem sido fácil para nós dois, mas… — pensou se deveria falar em voz alta ou não, se ele falasse, então seria real e assumiria de uma vez por todas seus sentimentos.
— Mas? — Sua mãe incentivou.
— Quero que ela confie em mim de novo, porque não estou disposto a perdê-la dessa vez.
— Acha que ela estaria aqui se não confiasse? — Mary encarou os olhos do filho, observando o quanto ele havia mudado nesses últimos três anos em Londres, mas sempre que voltava para casa, o brilho no olhar permanecia.
— Não. — Ele soltou um suspiro, cansado. — Ela com certeza não estaria.
— Então você não precisa esconder seus sentimentos dela. Apenas seja feliz, , se permita. — Ela puxou-o pela mão, entrando na casa novamente. — Vocês dois merecem ser felizes, e se mesmo depois de tudo o que aconteceu, vocês estão aqui em Leeds para celebrar o Natal, isso só pode significar algo. Acredite no milagre de Natal pelo menos uma vez, . — Mary passou a mão pela bochecha do filho, fazendo um carinho em seu rosto. Entretanto, deixou-o logo após com os seus pensamentos na cozinha.
respirou fundo, tentando esvaziar sua mente, mas talvez sua mãe estivesse certa.
— Acredito no milagre de Natal, . — Estava na hora de se dar uma chance e faria isso.



Capítulo 12

, acorda, é quase meio dia. — cutucou a mulher ao seu lado, mas ela não movia um músculo sequer.
— Só mais cinco minutinhos. — Ela resmungou, tapando a cabeça com o travesseiro. desistiu de tentar acordá-la, sabendo que seria totalmente em vão. Pegou uma roupa quente e partiu para o banheiro. Ele tinha planos para aquele dia e pretendia cumprir tudo antes da meia-noite.
— Ei, mãe, vou sair rapidinho. A ainda tá dormindo, mas não vou demorar. — colocou a cabeça para dentro da cozinha, a mulher terminava de passar café.
— Não vai tomar café? — Ela perguntou servindo uma xícara de café preto.
— Não, preciso ir. Até mais. — Ele mandou um beijo no ar para a mulher e saiu de casa.
conhecia Leeds como a palma da mão, e ir de carro até o centro da cidade na véspera de Natal seria uma verdadeira tortura. Dessa forma, ele preferiu ir caminhando, já que o lugar que ele pretendia não era tão longe da casa da sua mãe.
acordou um pouco depois do meio-dia, a casa tinha um barulho de vozes um tanto alto e, com certeza, tinham mais vozes lá do que no dia anterior. Tomou um banho rápido e colocou uma roupa quente, imaginou que já tinha desistido de acordá-la, já que o lado da cama estava vazio assim que ela acordou. Quando desceu as escadas, as vozes e gritos aumentaram, olhou algumas crianças correndo pela casa, assim como tinham mais pessoas espalhadas pela sala conversando, mas Mary e Joanne estavam sempre na cozinha, e foi para lá que ela correu.
— Bom dia. — disse assim que entrou no cômodo.
— Bom dia. — Elas sorriram, mal deu tempo de mover um músculo e Mary lhe entregou uma xícara de chocolate quente. — Fique à vontade, daqui a pouco está chegando.
— Ah, tudo bem. Obrigada. — Ela sorriu, tomando um gole da bebida em seguida. — Isso tá uma delícia.
— Vem, , vou te apresentar para algumas primas. — Joanne puxou a mulher para os fundos da casa. — Mamãe gosta da família reunida, e essa é única época do ano em que todos conseguem aparecer em Leeds.
A casa de Mary parecia ainda menor com todas aquelas pessoas ali dentro, mas ninguém se importava, pelo contrário, eles davam um jeito e se acomodavam da melhor forma possível. A sala de estar estava tomada por alguns homens mais velhos assistindo futebol — provavelmente alguma reprise, já que não era época de campeonato — e algumas crianças brincavam pelo chão, mas Lucy não estava ali, já havia visto a menina sair correndo para o jardim. Aquilo era completamente diferente do que estava acostumada, era algo novo, mas estava sendo bom.
Assim que chegou ao jardim, encontrou com mais três mulheres, todas primas de e Joanne. No momento em que apareceu na varanda, ela foi tomada por lambidas de Boris, o cachorro estava um pouco sujo da neve, mas parecia se divertir junto com as crianças.
— Ei, mamãe tá de volta. — fez um carinho na cabeça do cachorro, enquanto ele se esfregava ainda mais nela.
— Ele gosta mesmo de você. — Uma das mulheres disse, descobriu depois que foi Colbie quem fez o comentário.
— Eu e o o adotamos juntos, pegamos ainda filhote. — explicou.
— Gente, essa é a , minha cunhada e uma grande amiga também. — Joanne apresentou e a feição das três mulheres mudaram.
— Espera, você é a ?
— Susan, não assuste a . — Joanne ralhou com a mulher, mas ela apenas deu de ombros.
— Prazer, . Seja bem-vinda a essa loucura, sou a Colbie, mãe daquela miniatura chamada Emma, brincando com a Lucy. — olhou para a garotinha de cabelos claros brincando com Lucy, as duas meninas tentavam montar um boneco de neve, mas suas mãozinhas pequenas impediam de formar grandes bolas de neve.
— Eu sou a Alessia, prazer. Ah, essa aqui do meu lado mau humorada é a Susan, mas não dá bola, não.
— Então, , é a sua hora de contar os podres do para nós. — Joanne sentou-se no banco de madeira ao lado de Susan.
— Na verdade, eu esperava que vocês me contassem. — Ela riu, terminando de tomar o chocolate quente. — É sério, ele não fez nada fora do normal em Londres.
— Faz tempo que não aparecia em Leeds, ele era mais novo quando morava aqui, então imagina um adolescente aspirante a rock star. Ele vivia rodeado de garotas, e ainda era privilegiado por não ter sido um adolescente com o rosto cheio de espinhas. — Joanne comentou, sorrindo, provavelmente lembrando do irmão quando era mais novo.
— Um astro do rock. — Alessia disse, rindo.
— Verdade, ele ficava para lá e para cá com aquele violão. — Foi a vez de Colbie.
— Ele ainda tem o violão, fica pendurado na parede do quarto. — comentou, sorrindo.
— Vocês moram juntos? — Susan perguntou, franzindo a testa.
— Sim, de novo. — respondeu.
— Tia , vem brincar com a gente. — olhou para trás, estava de costas para o jardim, vendo Lucy e Emma pulando e acenando para a mulher.
— Você é a tia favorita da Lucy, ela não vai te largar enquanto você não for embora, .
— Então eu não posso decepcioná-la. — colocou a xícara na mesa pequena ao lado do banco de madeira. Desceu a pequena escada, pisando na neve e caminhando com certa dificuldade até onde a menina estava. — Está pronta para mais uma guerra, pequena Lucy?
Enquanto corria tentando desviar das bolinhas de neve que Emma e Lucy jogavam eu sua direção, a mulher não conseguia parar de rir, e bem, isso fazia com que ela corresse ainda mais devagar. Quando caiu no chão, com o rosto na neve gelada, seu corpo foi invadido por dois pares de mãozinhas pequenas, o que fez desistir totalmente de se esquivar e rir ainda mais.
— Cócegas na tia ! — Emma gritou, o que fez a mulher achar uma fofura da parte da menina chamá-la de tia também, sem nunca ter visto antes.
— Cócegas na tia ! — gritou, imitando Emma. A garotinha saiu correndo em direção ao , que pegou-a no colo e a girou no ar. arfava de tanto rir, quase sem fôlego com a brincadeira das duas meninas, mas quando se juntou a elas, se contorcia de tanto rir; sua roupa já estava quase toda branca pela neve e ela começava a ficar com frio sentindo o gelo na sua roupa.
, não é justo. Eu vou morrer! — tentou tirar pelo menos as mãos do namorado, o que foi totalmente em vão.
— Tá, meninas, vamos deixar a respirar um pouquinho.
— Tio , ‘tô com fome. — Lucy se jogou no chão ao lado de , esticando os braços e as pernas para formar desenhos na neve.
— Eu também ‘tô com fome, tio . — fez bico, imitando Lucy.
— Vovó fez biscoitos para você e para Emma, ela tá esperando vocês na cozinha. — falou, carinhoso com a menina. Lucy levantou e deu a mão para ajudar Emma a se levantar também. e ficaram jogados no chão, observando as duas meninas entrarem na casa. — Está quase na hora do jantar, quer esperar ou comer biscoitos? — olhou para a .
— Eu posso esperar o jantar. — respondeu, ainda deitada no chão. Fechou os olhos, descansando o corpo, por mais que estivesse ficando com frio, não queria sair dali e perder todo aquele momento. — Você não sente saudade da sua família, ? De viver tudo isso todos os dias. — perguntou baixo. A família de era tão tranquila que até ela gostaria de viver aquilo todos os dias.
— Bastante. — Ele deu um sorriso fraco.
— Já pensou em voltar para Leeds, para morar de vez? — Sim, várias vezes, havia pensando nessa possibilidade; mas seus pensamentos sempre voltavam para Londres.
So that you'd leave me alone in Leeds again.
encarou os olhos de , depositando um beijo calmo em seus lábios. O beijo já começava a ganhar certa intensidade, mas nenhum dos dois queria desgrudar, mesmo sabendo que precisavam respirar. Para ambos, Leeds trazia toda a calmaria que suas vidas não estavam tendo no último mês; além de tudo que acontecia ali ter um significado especial para eles. A família de estava aceitando depois de todos os problemas, depois de tê-lo feito voltar para a cidade natal por causa dela, depois de toda sua dor, eles estavam a recebendo com todo o carinho que ela precisava. Para , estar ali era tornar todo aquele sentimento real, sem conseguir esconder por mais tempo que a queria de verdade.
Quando passou o braço pela nuca de , enrolando alguns fios de cabelo da mulher em sua mão e arranhando de leve aquela região, o frio na barriga de foi instantâneo. Ela já vinha sentido aquelas sensações e tentava ignorar toda vez que aparecia, mas era impossível quando quem causava era justamente .
— Ei, casal, venham jantar! — Colbie gritou da porta.
A mesa da sala de jantar estava completa, quase faltando lugar para tanta gente que estava ali reunida. Mary estava feliz por ter a família reunida, isso era evidente em seu rosto, já que não conseguia esconder o sorriso. As crianças ficaram numa mesa improvisada na sala de estar, assistindo televisão e, por incrível que pareça, elas pareciam bem comportadas para jantar. A família era totalmente diferente da família , e estava amando tudo aquilo; por mais que tentasse não pensar no depois, o medo de voltar para Londres e perder toda aquela magia lhe assolava. Mas, pelo menos, por aquela noite ela varreu todos os seus medos para debaixo do tapete e se permitiu aproveitar o que estava bem à sua frente. Se permitiu acreditar na magia do Natal.

— Eu tenho um presente para você lá em cima. — disse para , após abraçar todos e desejar um feliz Natal.
— Espera, meu presente tá aqui. — entregou uma caixa quadrada, não muito grande.
— Não precisava. — Ela sorriu, aceitando o presente. A embalagem vermelha com um laço enfeitado era tão delicada que tinha até dó de desfazer. Abriu com cuidado a pequena caixa, tirando de dentro um globo de neve. — Não acredito!
olhou com cuidado, lembrando da sua pequena coleção de globos de neve que costumava fazer, agora ela já não tinha nem metade. Talvez fosse hora de começar uma nova. A pequena peça tinha sido feita com tanto cuidado, mas era diferente das que costumava ter.
— Você tinha uma coleção no apartamento, e eu não vi mais na sua casa. Achei que seria importante você ganhar um novo. — comentou apenas para que pudesse ouvir, ela concordou com a cabeça ainda sorrindo enquanto admirava a peça em suas mãos.
— É a gente, meu Deus. — Ela sorriu ainda mais. — Eu, você e o Boris. , é lindo.
agarrou o pequeno globo com mais força, com medo de deixar cair e a peça se desfazer em mil pedacinhos. Aquele era o melhor presente que já tinha recebido, cheio de significados, lembrando-a mais uma vez que estava no lugar certo e com a pessoa certa. Puxou para um abraço apertado, ainda sem conseguir parar de sorrir.
— Vem, o seu presente está lá em cima. — puxou pela mão, subindo as escadas e parando em frente a porta do seu antigo quarto. Tirou a chave do bolso, destrancando a porta. — Fecha os olhos.
— Você não vai se enrolar num laço, não, né?. — perguntou, rindo.
— Cala a boca, fecha os olhos logo, . — segurava a maçaneta da porta, impaciente. — Vamos, não vale espiar.
abriu a porta do quarto, cuidando para não abrir os olhos antes da hora, posicionou-o ao lado da cama, onde tinha uma escrivaninha antiga. Com cuidado, colocou o disco de vinil para tocar e logo Don’t Look Back in Anger do Oasis começou a tocar baixinho pelo quarto.
— Pode abrir.
abriu os olhos lentamente, ainda tentando decifrar a música que começou a tocar. Quando viu a vitrola tocando o disco, ficou boquiaberto, ele não tinha uma vitrola antes, mas aquela era especial. Ele sabia que já tinha visto antes na casa da sua mãe, mas ela não funcionava.
— É igual a vitrola do meu vô, mas a dele não funcionava mais. — se agachou um pouco, observando cada detalhe do objeto.
— Bem, ela funciona agora. — respondeu, encarou os olhos de que brilhavam.
— Não, … — Ele desviava o olhar do objeto para a mulher sem saber o que dizer. — Não acredito nisso.
— Antes da Joanne aparecer em Londres, eu tinha comentado com ela sobre a vitrola. Ela me contou que tinha uma do avô de vocês, mas que não funcionava mais, sei que ele era importante para você e, bem, música também é. — balançou a cabeça concordando, ainda sem acreditar no que estava vendo.
— Obrigado, eu nem sei o que dizer na verdade. — respondeu, sentando na cama e entrelaçando seus dedos aos de . A mulher apoiou a cabeça em seu ombro, aproveitando a música e todo aquele clima; algo em seu peito implorava para que ela botasse para fora o que estava sentindo, e se não fosse agora, talvez nunca mais teria coragem de dizer.
— Não quero que isso tudo acabe quando voltarmos para Londres. E, se um dia você quiser voltar, não vai estar sozinho em Leeds, porque eu posso facilmente viver isso tudo todos os dias desde que eu esteja com você. — passava os olhos por todo o rosto de , esperando por qualquer tipo de reação. Seu coração estava acelerado e suas mãos suavam de nervosismo. Estava se permitindo viver o que sempre quis, pela primeira vez depois de tanto tempo, estava se entregando para a única pessoa que nunca a machucaria.
— Não importa se eu tiver que ficar em Londres ou Leeds ou em qualquer outro lugar, desde que você esteja comigo, eu vou estar feliz.
O alívio percorreu o corpo de ambos, eles esperavam por aquele momento há muito tempo e finalmente estava acontecendo. Se soubessem que Leeds traria toda aquela magia, eles já tinham ido para lá alguns anos atrás, evitando que todo aquele desastre tivesse acontecido. Contudo, sabiam que não tinha momento mais ideal do que aquele.
— Feliz Natal, .
— Feliz Natal, .



Capítulo 13

O telefone de não parava de tocar, e tudo que ela queria era dormir mais cinco minutos. Tateou o lado da cama, mas já havia levantado algumas horas atrás, ele sabia que não acordaria tão cedo. Quando pensou que o aparelho pararia de vibrar e tocar alto, o mesmo voltou a fazer os mesmos barulhos de antes, ela bufou irritada, mas acabou atendendo sem nem ao menos ver quem era.
— Alô? — Atendeu, ainda de olhos fechados e deitada na cama.
? — Ela reconheceu aquela voz, e sinceramente, não esperava ouvi-la tão cedo.
— Pai? Tá tudo bem? — Por um instante, pensou que algo grave tivesse acontecido, seu pai não era de ligar e muito menos de ligar para ela.
— Tá tudo bem sim, liguei só para desejar feliz Natal. — Uma onda de alívio percorreu todo o corpo de , e junto dela, uma faísca de felicidade foi acesa. não lembrava mais há quanto tempo não tinha contato com seu pai, daquela forma íntima que ela gostaria de ter. Depois do último encontro, no qual toda aquela mentira começou — e ela não se arrependia por isso —, ela evitava estar no mesmo ambiente que sua família.
— Pai...— respirou fundo, por um lado estava feliz e por outro triste por ter chegado àquela situação. — Feliz Natal, estou feliz que tenha ligado.
— Eu também. — Ele voltou a ficar em silêncio. — Você está em Leeds, certo?
“O senhor Jeffrey estava fazendo o trabalho de fofoqueiro dele direitinho” foi o que pensou, mas aproveitou a trégua que o pai estava dando e decidiu não alfinetar. Esses momentos eram raros, ela deveria apenas aproveitar.
— Sim, é bom estar fora um pouco, e a família do é incrível. — Ela disse, animada.
— Que bom que está feliz. — George parecia sincero, o que animava ainda mais . — Podemos marcar um jantar quando você voltar?
— Jantares não são o seu forte, George . — respondeu, mas ouviu uma risada fraca do outro lado da linha. Aquela ligação estava surpreendendo a cada segundo.
— Eu prometo me comportar. — Ele disse, calmo.
— Eu vou pensar no seu caso. — sorriu, mesmo sabendo que o pai não estava vendo. — Eu preciso desligar, vou aproveitar para conhecer a cidade.
— Ok, aproveite e nos falamos quando voltar.
— Tudo bem. Tchau, pai.
— Tchau, .
O telefone foi desligado, mas permaneceu sentada na cama por mais alguns minutos, pensando no que tinha acabado de acontecer. Estava feliz por seu pai ter ligado? Sim, estava, demais. Aquilo acendeu uma pequena chama de que pudesse voltar a ter uma relação saudável com seu pai algum dia, porque sentia muita falta dele. Entretanto, enquanto estivesse em Leeds prometeu a si mesma que aproveitaria cada segundo naquele lugar, principalmente agora que ela e tinham exposto seus sentimentos em relação ao outro. Sua prioridade era ser feliz e ela faria isso dar certo.
Quando percebeu que já estava tempo demais enfiada naquele quarto, tomou um banho rápido e colocou uma roupa quente. Seria falta de educação da sua parte não aproveitar o dia com a família de . desceu as escadas rapidamente, apesar da casa estar mais vazia, Emma e Lucy estavam sentadas na sala assistindo desenho, o maior volume de vozes vinham da casa, e entendeu que aquele era o lugar oficial dos adultos se reunirem.
— Bom dia, ou boa tarde, desculpe. — sentou na mesa, ao lado de . Mary que estava no fogão lançou um sorriso e entregou uma xícara de café e um prato com biscoitos natalinos.
— Consegui guardar alguns para você, antes que Lucy e o acabassem com a última fornada. — A mulher comentou, fazendo rir e se sentir grata pelo gesto.
— Obrigada, eles são uma delícia. — Ela enfiou mais um biscoito na boca.
— Que bom que você já acordou, , agora o fica menos chato. — Joanne comentou, rindo, mas apenas recebeu o dedo do meio como resposta de . — Eu vou indo, mais tarde eu apareço.
— Traga a Lucy, nós combinamos de fazer as unhas. — comentou, rindo, lembrando da menina mostrando as unhas pintadas de um tom de rosa pastel.
— Você não sabe onde está se metendo, , ela vai te enlouquecer.
— Juro que não me importo. — deu de ombros, voltando a tomar o café. Joanne apenas lançou um sorriso para a amiga e saiu da cozinha, gritando pela casa um até mais, sendo acompanhada por Mary até a porta. — O que foi? Por que está me olhando assim?
sorriu, e esticou o braço para acariciar o rosto de .
— Nada. - Ela aproveitou o toque carinhoso para se esticar na mesa e ficar próxima de .
— Vem cá, então. - O puxou pelo pescoço e conseguiu grudar seus lábios. O que antes eram momentos raros, agora acontecia com bastante frequência e nenhum dos dois reclamaria daquilo. Afinal, era algo que ambos queriam há muito tempo.
— O que quer fazer hoje? — perguntou, depositando alguns selinhos ainda em .
— Fazer nada me parece uma boa ideia hoje, eu ‘tô com preguiça. — Ela fez uma careta e ele uma cara de espantado, visto que implorou para conhecer toda a cidade logo no primeiro dia que pisou ali.
— Ok, então hoje é o dia que ficamos na cama o dia inteiro? — abraçou pela cintura, quando ela levantou para colocar a louça na pia.
— Sim, até a Lucy chegar e nós vamos pintar as unhas. — balançou os dedos, respingando água em de propósito, mas saiu correndo quando viu cerrar os olhos em sua direção.
— Falando sério agora, você quer fazer nada mesmo? — perguntou, fechando a porta do quarto.
— Sim, tá tudo fechado hoje, não está? — Ela disse, tirando o tênis de novo, vendo balançar a cabeça concordando. — Então, amanhã podemos passear, sabe, você me mostra a cidade, de verdade.
— Como assim de verdade? O dia que nós chegamos não conta?
— Claro que não! — Ela revirou os olhos. — Nós chegamos e viemos para cá, mas não conheci a cidade. Ei, já passeou com Boris hoje?
— Eu nem consigo mais passear com ele. Quando eu acordo, minha mãe já está voltando com ele, e quando eu vou ver, o cachorro passa o dia dormindo.
— Ele vai ficar mal acostumado desse jeito, na verdade, nós todos vamos. Os biscoitos dela são divinos, aquele jantar ontem, então? Meu Deus, estava tudo tão bom.
sentou na cama com ao seu lado, enquanto passava de canal e falava distraidamente. As palavras saiam de sua boca sem perceber, a família era realmente diferente da sua, por causa do trabalho em hospitais, os pais de nunca ficaram muito tempo na cozinha, nem quando eles estavam de folga. Então, ver que ali todos iam para a cozinha e faziam tudo bem feito, além de adorarem aquele cômodo da casa, era outra realidade para .
— Isso porque você ainda não tomou o chocolate quente que ela faz. — sorriu.
— Sua mãe me ganhou pelo estômago, sério. Você pode voltar para Londres sozinho, eu não volto mais. — disse, mas estava prestando atenção em mais episódio de Friends que passava na tv.
— Se ela escutar você falando isso, ela acha que é sério e não te deixa voltar mesmo. — disse, substituindo a calça jeans que usava por uma calça de moletom mais confortável. Foi impossível para não dar uma boa olhada nas pernas de , não lembrava de ter reparado antes, mas tinha pernas bem definidas e uma bunda, bom, uma bunda para início de conversa. Fingiu voltar a assistir a série, mesmo não se concentrando em mais nada, antes que fosse flagrada; não que fosse um real problema, porque, certamente, para não haveria nenhum.
— Que episódio é esse? — se deitou na cama, já puxando a coberta para si. se acomodou ao seu lado, também deitando por baixo das cobertas.
— Aquele que a Rachel vai fazer a receita da torta, mas não vê que a página está rasgada. Acho que se eu fosse cozinhar algum dia, seria assim.
— Eu seria um péssimo namorado se deixasse você cometer uma atrocidade culinária dessas. — abraçou pela cintura, mas não prestava atenção na televisão, preferiu fechar os olhos e deixar o sono dominar seu corpo.
— Sei que nossos filhos vão ser saudáveis por sua causa. — O comentário saiu mais rápido do que imaginara, e quando se deu conta do que tinha acabado de dizer, preferiu voltar a ficar quieta.
— Com certeza eles vão gostar de brócolis, diferente da mãe que só de ouvir essa palavra faz uma careta de desgosto. — tinha mesmo feito uma careta ao ouvir o nome do vegetal. Ela odiava brócolis com todas as suas forças, e não havia nada no mundo que a fizesse comer. Entretanto, ao ouvir a resposta de , não sabia se ficava aliviada ou surpresa. Bem, nem tão surpresa assim, ele sempre quisera ter filhos, ela que ia contra essa ideia. Talvez, só não quisesse ter filhos antes por saber que não tinha a pessoa certa ao seu lado, agora com , ela sabia que tudo seria diferente.
— É, acho que eles não vão ter como escapar do péssimo gosto do pai. — Apesar de estar com sono, ele ainda conseguia manter uma conversa com , mesmo de olhos fechados. O cansaço da manhã não o impediu de ficar por mais alguns minutos conversando com a mulher. Eles estavam elevando a conversa para outro nível, sem nem ao menos se darem conta, estavam planejando uma família.

— Tia . — conseguia ouvir uma voz delicada e fina, mas não conseguia abrir os olhos para saber da onde vinha. — Tia , acorda. Vamos pintar as unhas. — Lucy sacudiu , então ela foi abrindo os olhos aos poucos. Estava cansada, ou apenas com preguiça mesmo, que quando pegou no sono, ela acabou adormecendo junto.
— Oi, Lucy, já estou acordando. — disse, soltando um bocejo.
— Vamos pintar as unhas! — A menina disse, animada, sacudindo a sacola com os esmaltes na frente de .
odiava ser acordada, não importava a circunstância, mas quando sabia que o motivo por ter interrompido o seu sono era para deixar Marty ou Lucy felizes, então todo o seu mau humor sumia. Ela amava aquelas crianças mais que a si mesma, mesmo mantendo pouco contato com Lucy, a garotinha era especial para ela.
— Vamos, meu amor. — pegou Lucy no colo. Olhou para a cama e ainda estava adormecido. — Vamos deixar o tio dormir mais um pouquinho.
— O tio Dev ‘tava falando de você pra vovó. — Lucy cochichou no ouvido de , como se contasse um segredo para ela.
— Ah, é? E o que ele estava falando? — perguntou, curiosa, mesmo sabendo que era errado perguntar isso a uma criança inocente.
— Eu não posso contar. — Ela deu de ombros. — Prometi segredo. — Ela sorriu, sapeca, fazendo rir também. Lucy era mais esperta que todos ali naquela casa.
decidiu sentar na cozinha, assim não corria o risco de derramar esmalte no sofá de Mary e ela ser mandada embora mais cedo do que o previsto. Lucy colocou todos os esmaltes em cima da mesa, na sacolinha também continha um algodão e acetona, com certeza, Joanne havia deixado tudo separado para a filha levar mais tarde até a casa da vó. Os seus dedos pequenos começaram a separar os esmaltes em cima da mesa, deixando-os em pé para que ela pudesse escolher uma cor. Depois de feito, esticou as mãozinhas na mesa e bateu com os dedos na madeira, olhando para , esperando que ela começasse o momento manicure
— Então, qual cor você quer, Lucy? — perguntou, tirando o esmalte rosa pastel das unhas da menina.
— Não sei, tia , podemos pintar uma de cada cor? — Ela colocou a outra mão sobre o queixo, batendo com o dedo indicador de leve no rosto.
— Claro, vai ficar bem bonito. — terminou de tirar o esmalte rosa das unhas de Lucy, e percebeu que os esmaltes que ela trouxe eram todos em tons pastéis. Na verdade, eles eram muito fofos e combinariam perfeitamente com Lucy e sua delicadeza. já tinha pintado uma mão de Lucy, cada dedo com uma cor, rosa, azul, amarelo, verde e roxo, todos bem clarinhos, quando escutou seu celular vibrar em cima da mesa. Era uma chamada de vídeo de Cassie, então não hesitou em atender.
— Oi, meu amor. — disse, assim que viu o rosto de Cassie na tela do aparelho.
— Achei que tinha esquecido de mim. — Cassie e seu drama habitual. — O que está fazendo?
— Pintando as unhas com a Lucy.
— Quem é essa pi…
— Lucy, vem aqui para amiga da tia te conhecer também. — interrompeu antes que fosse tarde demais. A menina fez a volta na mesa, ficando ao lado da mais velha. colocou-a sentada em seu colo para que ela aparecesse na tela do celular.
— Ah, essa Lucy. — Cassie falou baixo e fez uma cara de culpada. — Oi, Lucy, como você é linda. — Ela falou mais alto e sorriu, Lucy deu um de seus sorrisos fofos e Cassie amoleceu.
— Oi, Cassie. A tia pintou minhas unhas. — Ela mostrou a mão pintada para Cassie.
— Ai, meu Deus, você é tão fofa. E suas unhas estão lindas. — Highmore sorriu ainda mais. O efeito de Lucy nas pessoas era imediato, não tinha quem não se apaixonasse pela garotinha de cabelos esvoaçantes e sorriso banguela. Lucy era encantadora. No fim, Cassie acabou esquecendo tudo que tinha para contar a , e ficou conversando com Lucy. O que era bem engraçado, já que Cassie vivia fugindo de crianças.
— Lucy, eu preciso desligar, mas adorei conhecer você. — Cassie fez um bico triste com a boca.
— Tchau, tia Cass. — Lucy acenou para o aparelho e voltou a sentar na frente de , para que a mesma terminasse de pintar as unhas da outra mão.
— Amiga, desculpa, eu esqueci o que ia te contar. — Ela riu. — Mas, por favor, traga a Lucy junto. Eu preciso abraçar, beijar e apertar essa fofurinha. — Ela tinha realmente gostado da criança, uma das poucas que havia conquistado o coração de pedra de Cassandra Highmore.
— Amiga, eu também te amo. — respondeu e deu tchau para Cassie.
— Tchau, te amo. — A chamada foi encerrada e voltou a olhar para Lucy.
— Tia , você ama o tio também? — ficou totalmente surpresa com a pergunta da garota, Lucy era realmente esperta para a sua idade.
— Ahn, amo, Lucy. — respondeu um pouco desnorteada por ter sido pega de surpresa.
— Do mesmo jeito que ama a Tia Cass? — Ela se apegou mesmo a Cassie, ainda que tivesse tido um contato rápido com a sua amiga.
— Não, Lucy, são formas de amar diferentes.
— Então você ama menos o tio ? — ela voltou a perguntar.
— Não, Lucy, eu amo muito o tio . — Ela sorriu para a menina. — Agora chega de perguntinhas, você é muito espertinha. — A mirim soltou uma risadinha e deixou que terminasse de pintar suas unhas.

estava terminando de colocar seu pijama, depois de ter pintado as unhas de Lucy, a garotinha ainda tinha pedido para que brincasse um pouco na neve com ela e Boris, o que acabou gastando toda a energia de , tudo culpa do seu sedentarismo. Mais tarde, Mary preparou um dos seus melhores chocolates quentes, tinha também uma infinidade de pãezinhos, torta de pêssego e mais alguns doces que sobraram da noite anterior, tudo para o café. Era um verdadeiro banquete para os olhos de . Então, quando chegou à noite, e Lucy havia ido embora, não demorou para que subisse e descansasse um pouco.
— Ei, tá com sono? — perguntou, após escovar os dentes, saindo do banheiro.
— Não, mas sinto que Lucy acabou com toda minha energia, de um jeito positivo. — terminou de fazer uma trança no seu cabelo.
— Sim, ela faz isso mesmo, é normal. — sorriu. — Quero te mostrar um lugar.
— Eu preciso trocar de roupa? — Ela torcia para que não, estava confortável e quente dentro do pijama.
— Não, só pega uma touca e o casaco, está frio lá fora. — pegou um edredom de dentro do roupeiro, vestiu seu casaco grosso e colocou a touca também. Saíram do quarto em silêncio, afinal, todos já estavam em seus quartos. No final do corredor, subiram mais um lance de escada, ele dava para o sótão e, consequentemente, para o telhado da casa.
Quando entraram naquele cômodo, foi como se estivesse revivendo seus últimos anos da adolescência, ele tinha usado muito aquele quarto antes de ir para a faculdade. Ele tinha até mesmo escrito algumas músicas ali, os papéis amarelados em cima da cômoda eram a prova que sua mãe não entrava muito naquele espaço. abriu uma janela um pouco maior que o normal, tinha três degraus abaixo do vidro e eles davam acesso para o telhado, ele subiu primeiro e ajudou a subir e sentar ao seu lado. O local era quase uma espécie de terraço, mas não ninguém usava, então não tinha perigo de cair dali e acabar se machucando.
— Uau, a vista daqui é linda. — se acomodou ao lado de , abraçando-o pela cintura, enquanto ele puxava-a pelos ombros e enrolava os dois no edredom.
— Eu vinha muito aqui antes de ir para a faculdade. É um dos meus lugares favoritos, de todos eles, aqui é onde eu me sinto bem. — comentou, apertando ainda mais para si. — E a vista vale muito a pena, é um fator que ajuda bastante, tenho que confessar.
— Acho que é o mais influenciável, nesse caso. — conseguia olhar grande parte do bairro, iluminado pelas casas enfeitadas, e o céu estrelado era mais que convidativo para estar ali. — Meu pai me ligou, hoje cedo.
— Ah, é?
— Uhum. Ele estava diferente. — Ela comentou, lembrando da conversa. — Mas um diferente bom, até convidou a gente para um jantar quando voltássemos.
— Eu não sei se isso é exatamente bom, você lembra do último e único almoço que fomos?
— Eu sei, mas você inventou uma mentira, é diferente agora, não é?
— Sim, mas ele pode ainda querer me matar. — se defendeu, afinal George tinha sido nada receptível.
— Eu acho que ele já aceitou, sabe? Ele prometeu se comportar, isso é um grande avanço vindo do meu pai.
— Você quer ir nesse jantar? — encarou o rosto de , esperando por uma resposta.
— Acho que sim, não custa nada dar uma chance a ele. Deve ter sido difícil para ele me ligar e ainda dar essa ideia do jantar, então acho que não custa nada mesmo. — Ela respondeu.
— Tudo bem, então nós vamos.
— Obrigada. — deitou a cabeça em seu ombro, aproveitando o momento, mesmo com o frio, aquilo tudo estava sendo agradável. Parecia certo.
Por alguns minutos, eles ficaram em silêncio, apenas aproveitando o momento e o som da cidade, enquanto observavam as estrelas. Mas lembrou porque havia levado até ali, e um arrepio passou por sua espinha, as famosas borboletas faziam a festa em seu estômago e ele sentia que seria capaz de vomitar a qualquer momento, exatamente como um adolescente pronto para dar o seu primeiro beijo.
— Eu preciso contar uma coisa. — Ele começou a falar, um pouco nervoso. — Eu escutei sua conversa com Lucy na cozinha, hoje mais cedo.
— Ela é bem espertinha, né? — repassou a conversa em sua mente, tentando disfarçar o nervosismo ao lembrar das palavras que saíram de sua boca.

, não precisa falar só porque você ouviu eu falando para Lucy, você não é obrigado a fazer isso. — Ela interrompeu, com medo do que iria ouvir. colou suas testas, acariciando a bochecha de .
— Eu quero fazer isso desde o momento em que te conheci, porque foi lá que eu me apaixonei por você e esse sentimento nunca foi embora. , eu te amo.
Dessa vez, não teve tempo de interromper, a frase já havia sido solta. Os olhos de deslizaram por todo o rosto de , e seu peito parecia que iria explodir. Tanto tempo esperando para ouvir essas três palavrinhas que mudariam tudo.
— Você lembra quando fomos ao Hampstead Heath? — Ela começou a falar baixo, concordou com um aceno leve de cabeça.

— Kurt me destruiu, não há nada bom aqui — ela apontou para o seu corpo, deixando que algumas lágrimas escorressem pelo seu rosto. — Não há nada inteiro, e aquela de 22 anos não existe mais. Não sei se algum dia vai existir de novo. É muito difícil e doloroso juntar os cacos e tentar consertar, principalmente quando você não está aqui. A que você tá vendo hoje só carrega traumas e feridas abertas.
— Nós vamos juntar todos esses cacos e fechar todas as feridas, . Vamos fazer isso juntos. Você nunca mais vai ser machucada.

Quase automaticamente, a conversa foi repassando em suas memórias, ambos lembravam daquele dia. Eles estavam se permitindo uma nova chance, e ser sincero um com outro foi essencial naquele momento.
— A gente já juntou quase todos os cacos e as feridas estão cicatrizando mais rápido com você aqui.
— Eu disse que faríamos isso juntos, eu não vou sair do seu lado, . — balançou a cabeça concordando.
— Eu te amo, . — Ela grudou seus lábios, sentindo o calor de suas línguas assim que as duas se encontraram. Enquanto bagunçava o cabelo de , arrepiando-o na região da nuca; ele a puxava pela cintura, fazendo-a sentar em seu colo, o que a fez soltar um gemido abafado. Os lábios que se encontravam gelados, por causa da temperatura, no inicio do beijo, agora já estavam avermelhados e inchados devido a intensidade. E o beijo só foi interrompido, porque ambos precisavam respirar.
— É muito bom falar isso em voz alta. — encostou a testa de novo em . — Eu te amo, .
— Eu esperei muito tempo para ouvir e falar isso. Eu te amo, .
sorriu ao ouvir aquelas palavras, era como se estivesse flutuando, e nada poderia estragar aquele momento. Encostou de novo seus lábios nos de , dessa vez, num beijo mais calmo, mas ainda intenso. Um beijo cheio de amor.



Capítulo 14

— Ei, , tá ocupada? — terminava de tomar uma xícara de chá, enquanto fazia carinho no cabelo de Lucy, quando Mary apareceu no cômodo.
— Depende. — Ela desviou o olhar para Lucy, mas a menina já dormia em seu colo. — Acho que alguém dormiu, então estou livre agora. — sorriu.
— Acho que você vai gostar do que eu tenho para te mostrar.
seguiu a mulher até o andar de cima, uma caixa estava em cima da cama quando entrou no quarto de Mary. Ela só percebeu que eram objetos de infância de assim que Mary retirou da caixa um leãozinho de pelúcia com uma guitarra atravessada no corpo.
— Isso é tão a cara do . — As duas sorriram quando pegou o bicho de pelúcia em mãos.
— Aqui tem mais coisas constrangedoras. — Mary entregou um álbum de fotos para .
Conforme olhava as fotos, era impossível conter as risadas. As fotos variavam desde o nascimento de até a sua adolescência, fases em que ela ainda não tinha o conhecido. Fotos com Mary, Joanne, algumas dele na escola com os amigos, entre tantas outras que destacavam a personalidade de . Mas o que chamou a atenção foram as várias fotos de mais novo com o seu pai, Michael. não tinha o conhecido, e quase não falava sobre o homem, depois de um tempo ela também parou de perguntar, vendo que não era um assunto que agradava o amigo. Na fase adulta, época em que conheceu , já não tinha tantas fotos, nessa época eram fotografias de feriados comemorativos basicamente.
— Mary, o que aconteceu com o pai do e da Jo? — perguntou, ainda olhando as fotografias.
— É um pouco complicado, . — Mary começou a falar no mesmo tom de voz que . — Michael era um pouco parecido com Kurt, então não deu certo. — Ela resumiu a situação, entendia e tudo que ela havia passado. Agora entendia ainda mais ter tomado a decisão de voltar para Leeds anos atrás.
— Sinto muito. — Foi o que conseguiu dizer.
— Nos separamos um pouco antes do ir para Londres, foi um dos motivos para ele ter ido para a capital.
— E também um dos motivos para ele ter voltado, não foi? Digo, quando Kurt apareceu e deu tudo errado. — completou.
— Não foi sua culpa, . — Mary tirou o álbum de fotos da mão de , segurando as mãos da mulher a sua frente. — Lembro até hoje quando me ligou contando que tinha conhecido uma amiga da Joanne, que essa amiga apareceu na porta da casa dele e ele pensou que fosse o entregador de pizza.
soltou uma risada baixa ao lembrar do ocorrido, ela realmente tinha aparecido no apartamento de tamanho era seu desespero para sair da casa dos pais. E de todas as coisas que já tinha feito na sua vida, aquela era uma das coisas que ela nunca se arrependeu de ter feito sem pensar. Entretanto, depois que Kurt sumiu da sua vida, depois de toda a merda que ele causou, aquela já não existia mais, ela não conseguia ser tão espontânea e livre como era antes.

8 anos atrás

saiu batendo a porta de casa, ainda morando com os pais, mesmo após terminar a faculdade, a garota prestes a completar 22 anos já estava de saco cheio daquele controle e pressão em cima de si. Parecia que quanto mais coisas conseguia conquistar na sua vida, tanto pessoal quanto profissional, ainda não era o bastante para agradar seus pais, e continuar na mesma casa que eles já estava ficando insuportável. Agradeceu por Jesse não morar tão longe e conseguiu chegar em vinte minutos até a casa do irmão, depois de caminhar algumas quadras até o local.
— Ei, tem um tempinho para mim? — Ela sorriu, assim que o irmão abriu a porta.
— Sempre. — Ele deu espaço para entrar na casa, mas quando viu as duas mulheres sentadas no sofá, ela voltou o olhar para o irmão.
— Duas, uh? Uau.
— Ridícula. — Ele puxou a irmã para a sala, onde Amanda e Joanne estavam conversando. — Joanne, essa é minha irmã caçula.
é o meu nome, meu irmão não sabe apresentar as pessoas direito. Prazer, Joanne.
— Ouvi falar muito de você, . — Jo sorriu, simpática.
— O que te traz aqui? — Amanda encarou , quando a mais nova sentou na poltrona de frente para ela.
— Preciso de um lugar para morar.
— Você pode ficar aqui. — Amanda e Jesse falaram ao mesmo tempo.
— Não, sério. Eu não quero tirar a privacidade de vocês, e preciso ter meu canto. — Ela disse, séria.
— Meu irmão tá procurando alguém para dividir o apartamento, por que não tenta? Eu juro que ele é uma pessoa legal e sabe cozinhar, mas é um pouco preguiçoso com tarefas da casa. — Joanne se meteu na conversa, os três pares de olhos sobrando no cômodo olharam para ela ao mesmo tempo.
— Seu irmão é bonito? — Foi a primeira pergunta que saiu da boca de .
! — Jesse repreendeu a irmã.
— Ué, eu não quero morar com um velho barrigudo, careca, que soa o dia inteiro. Desculpe, Joanne, caso seu irmão seja assim, eu dispenso.
— Fica tranquila, . O é totalmente o oposto disso, ele é bem festeiro, faz umas comidinhas gostosas, acho que você vai gostar.
— Então eu aceito. — Ela disse, animada.
— Eu posso pedir para ele entrar em contato com você…
— Você se importa se eu for até lá? Eu começo a trabalhar na segunda, então o quanto antes eu resolver isso, melhor.
— Sem problemas. Me dá seu telefone que eu vou anotar aí. — entregou o aparelho e esperou a mulher colocar as informações no mesmo.
— Então eu vou indo. Jesse, qualquer coisa eu te ligo para me ajudar com a mudança. — gritou já na porta. — Jo, foi um prazer te conhecer.
— Eu também te amo, . — Amanda gritou vendo a cunhada sair pela porta sem se despedir direito, mas a tempo de ouvir um “eu também, chuchuzinho” como resposta.
seguiu até o endereço indicado por Joanne, mas dessa vez foi obrigada a pegar um táxi. Não era tão longe, mas ir até o centro da cidade a pé não estava nos seus planos, principalmente no inverno. Com sorte, não demorou mais de quinze minutos para o táxi parar em frente a sua futura morada, era um prédio simples, mas organizado e isso chamou a atenção de . Ela apertou o interfone do apartamento e esperou que alguém atendesse, mas a enorme porta de ferro apenas abriu e ela pôde entrar no prédio. Torcia para não ser nenhum tipo de maluco, afinal, ele nem quis saber quem estava tocando no seu apartamento. Antes que pudesse perceber, parou em frente a porta com o número 3B e apertou a campainha. Logo, um rapaz tão novo quanto ela atendeu a porta, ele estava com uma toalha branca envolta do pescoço, sem camisa e com uma calça de moletom. Joanne tinha razão, ele não tinha nada a ver com um velho, barrigudo e careca que vivia suado.
— Você não é o entregador de pizza. — Ele disse assim que viu a garota parada na sua frente.
— Não, mas você apenas abriu o portão. — Ela respondeu como se fosse óbvio. — Desculpe, sou a . Sua irmã me disse que você está procurando alguém para dividir o apartamento, e eu preciso de um lugar para ficar.
— Você falou com a minha irmã? Quando? — enrugou a testa.
— Hoje.
— Onde?
— Na casa do meu irmão.
— Quem é seu irmão?
— Você não acha que já sabe coisas demais sobre mim e eu não sei nem o seu nome? — Ela retrucou. Deus, só precisava de um lugar para morar.
— Desculpe, minha irmã não me avisou que estava em Londres. Enfim, sim, estou procurando alguém para dividir o apartamento.
— Então eu topo.
— Tem certeza?
— Você é quem parece indeciso. — Foi a vez de enrugar a testa para o homem.
estava prestes a retrucar o comentário quando o seu interfone voltou a tocar. Ele apenas destravou o portão, como havia feito para entrar, e torcendo para ser o entregador de pizza dessa vez.
— Olha, eu vou indo então. Se você ainda estiver procurando alguém, peça para Joanne meu número. — Ela se despediu, sabendo que precisaria procurar outros lugares.
— Você quer ficar e comer uma pizza? — gritou, estava parada em frente ao elevador. Então, aquilo era um sim? — Eu tenho cerveja, e me chamo . .

(...)

— O que acha de a gente fazer um jogo de perguntas e respostas para nos conhecermos melhor? — deu a ideia, mas ela já estava deitada no sofá de como se estivesse na sua casa.
— Ok. — Ele bebeu mais um gole da cerveja. — Quantos anos você tem? Só para ter certeza que não é menor de idade, eu não quero ser preso.
— 21, mas meu aniversário é mês que vem. — Ela disse sorrindo. — E você?
— 23, e eu já fiz aniversário. — respondeu.
— Que dia?
— 12 de março. E o seu?
— Pisciano, vocês são bem sem vergonhas, né?! — falou mais para si mesma, mas escutou e começou a rir. — O meu é sete de julho.
— Eu não entendo nada de signo, mas se você diz. — Ele deu de ombros, desviando seu olhar da mulher para a televisão. — Filme favorito?
— Uma linda mulher. Mas eu amo todos os filmes da Sandra Bullock e Julia Roberts.
— O Poderoso Chefão, e não troco por nada nesse mundo.
— Hum, gosto um pouco. — ajeitou sua postura no sofá. — Banda?
— Oasis. — Os dois falaram ao mesmo tempo. — Ok, eu achei que a gente ia discordar em tudo. — respirou aliviado.
— Estou aliviada que encontramos algo em comum. — Ela olhou no relógio de novo. — Eu preciso ir.
— Então, quando vai se mudar para cá? — colocou as garrafas na cozinha e tirou a caixa vazia de pizza.
— Quando você falar que eu posso me mudar e eu trago minhas coisas imediatamente. — Ela respondeu.
— Vem, deixa eu te mostrar o apartamento e aí você decide quando quer vir.
O apartamento tinha dois quartos, um banheiro, cozinha, sala e uma área de serviço. Não era nada extraordinário, mas também não era uma caixa de fósforo, e o local era perfeito para duas pessoas — e, futuramente, um animal de estimação também caberia ali dentro — morar tranquilamente. explicou tudo que precisava saber sobre o apartamento, o que não era muito, e ela teve certeza que era ali que ela gostaria de morar.
— Então, o que achou? — Pela primeira vez, encarou os olhos do rapaz à sua frente. — Vai querer mesmo?
— Sim! — Ela disse sorrindo, e avaliou todo o rosto da garota, da mesma forma que ela havia feito com ele. — Eu não vejo a hora, na verdade.
— Fique com a chave reserva e pode trazer suas coisas a hora que quiser. — entregou duas chaves para , uma do portão de entrada e outra do apartamento, e ela logo guardou em sua bolsa.
— Eu posso fazer o depósito desse mês já.
— Não esquenta com isso, a gente resolve depois. — Ela balançou a cabeça concordando, mas não moveu um músculo sequer do seu lugar.
— Tudo bem, então, eu vou indo. Até logo, .
— Até logo, roomate. — Ele quebrou o clima e ela sorriu.
— É melhor que entregador de pizza. — O rosto de começou a ficar vermelho com o comentário, não conseguiu ficar por muito tempo séria. — Relaxa, eu prometo trazer pizza e cerveja quando voltar aqui. Tchauzinho, .
balançou a mão e logo entrou no elevador. Não esperou nem ao menos que ele respondesse. não fazia ideia do quanto sua vida estava prestes a mudar, e nem o quanto seria importante nela. Mas estava ansiosa para aquilo, para essa nova etapa que estava prestes a iniciar.
Saiu do prédio mil vezes mais leve, sabia que aquele era o lugar certo com a pessoa certa, mesmo que fosse um desafio dividir o apartamento com alguém que acabara de conhecer, sentia que podia confiar em .

(...)

, corre aqui na sala, rápido! — saiu correndo do quarto, com a toalha na cabeça ainda terminando de se arrumar. De início, achou que fosse algo importante, mas assim que viu com o controle da televisão na mão, ela sabia que era besteira.
— You're insecure, don't know what for. You're turning heads when you walk through the door. — começou a cantar, olhando para a televisão, fazendo uma dancinha no ritmo da música.
— Don't need make up, To cover up. Being the way that you are is enough. — Foi a vez de pegar a escova de cabelo e fazer sua encenação.
— Everyone else in the room can see it, Everyone else but you. — continuou.
O refrão foi cantado aos berros pelos dois, mas mais ria das caretas que fazia do que cantava. Principalmente porque ela tentava imitar o jeito que cada integrante do grupo cantava, o que não deu nada certo pela percepção da mulher, mas foi muito engraçado.
— You don't know, oh oh. You don't know you're beautiful! — Eles terminaram de cantar a primeira parte da música juntos.
— Ai, minha barriga. Eu vou morrer! — se atirou no sofá, ainda rindo do amigo. Soltou a toalha da cabeça e penteou os cabelos com a escova que usava de microfone minutos atrás. — Você é ridículo, .
— Ah, qual é, você não se divertiu por acaso?
— Ok, você venceu. Foi muito divertido, mas tenho certeza que os vizinhos vão nos denunciar se escutarem a gente cantar de novo.
— Vão denunciar você, eu canto bem.
— Ah, é? Canta qualquer coisa aí então, rockstar.
— Quer ouvir mesmo? — respondeu com um aceno de cabeça, e foi até o quarto buscar o violão. Voltou a sentar na poltrona com o violão no colo, dedilhando algumas notas. observava o amigo atentamente, curiosa para saber se ele realmente era bom, apesar de já ter escutado algumas vezes cantar no banho e outras vezes no seu quarto. Ele começou a tocar e reconheceu a melodia de Girl Crush.

I got a girl crush
I hate to admit it, but
I got a heart rush
It ain't slowing down
I got it real bad
Want everything she has
That smile and that midnight laugh
She's giving you now

cantava sem muito esforço, sua voz saía calma junto com a melodia e soube que o amigo era ainda mais apaixonado pela música do que ela imaginava. Não sabia se ele já tinha tentado esse ramo e não deu certo, apesar de ter talento. Mas naquele momento ela estava conhecendo um pouquinho mais sobre o seu roomate.

I want to taste her lips
Yeah, 'cause they taste like you
I want to drown myself
In a bottle of her perfume
I want her long blonde hair
I want her magic touch
Yeah, 'cause maybe then
You'd want me just as much
And I've got a girl crush
Oh, I got a girl crush

Quando chegou no refrão, fechou os olhos ao cantar, o que fez esboçar um sorriso sem perceber. Ele realmente levava jeito para coisa, ela no máximo conseguia se concentrar para não errar a letra, mas não. Ele tinha o dom e paixão por aquilo. Assim que abriu os olhos e foi flagrado por , não conseguiu evitar uma careta.

I don't get no sleep
I don't get no peace
Thinking about her
Under your bed sheets
The way that she's whispering
The way that she's pulling you in
Lord knows I've tried
I can't get her off my mind

cantou cada parte da música olhando para , e ela sentiu um arrepio passar por seu corpo. Podia estar enlouquecendo, mas desde o momento que conheceu sabia que ele seria muito importante na sua vida, ela só não sabia ainda o porquê. Além de que, quando estava na presença do amigo, tudo parecia ficar mais leve. Ele sempre tinha um bom conselho — ou não — para dar, uma boa festa para ir, e, às vezes, ele até fazia um certo sacrifício quando ela pedia comida chinesa.

I got a girl crush
Hate to admit it, but
I got a heart rush
It ain't slowing down

Naquela canção, expôs uma parte dos seus sentimentos, e ele torcia para que entendesse. Nunca tinha sido bom com as palavras, mas a música vinha sendo sua fiel escudeira, e mesmo que ela não entendesse, no fim das contas ele podia usar a desculpa que tinha sido uma música qualquer apenas. Assim como dizia a letra da música, seu coração estava acelerado e ele não se acalmava, isso sempre acontecia quando estava perto de .
Quando terminou a canção, colocou o violão ao lado da poltrona, ansioso para saber o que tinha achado, mesmo ele sabendo que cantava bem. A experiência cantando em alguns bares londrinos à noite já havia lhe mostrado isso muito bem. Entretanto, o silêncio que se seguiu, parecia uma eternidade, mas nenhum dos dois tinha coragem de quebrá-lo. Com certo esforço, conseguiu se pronunciar.
— O que achou? — sorriu ainda mais, ainda que na sua cabeça passasse várias coisas ao mesmo tempo, e seu corpo quisesse lhe entregar a cada segundo.
— Uau! — balançou a cabeça, ainda sem acreditar no que acabara de ver. — Quando ia me contar que você também é músico?
— Mas eu não sou. — Ele respondeu rápido, se levantando e indo até a varanda do apartamento para fumar. foi logo atrás, ficando bem próxima de .
— Não foi o que eu acabei de ver. — Ela tirou o cigarro da mão dele, dando uma tragada e devolvendo logo em seguida.
— O que quer fazer agora? — Ele mudou de assunto. encarou os olhos brilhantes de , mas não conseguiu disfarçar quando desviou dos olhos para a sua boca.
— I want to taste your lips.

As lembranças passaram como flashback na mente de , o que a fez sorrir. Ela lembrava de todas aquelas sensações, de todos os momentos felizes que sempre teve ao lado de , e de como ela voltara a sentir tudo aquilo desde que ele retornou para Londres e para a sua vida.
— Ter conhecido foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.



Capítulo 15

Aviso de gatilho: Relato de violência doméstica. Se for sensível ao tema, não leia!
Qualquer sinal de violência, denuncie: Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180!

The world is ours
But for a flash
And you are not allowed to be anybody else
Control what you can
Confront what you can't
And always remember how lucky you are to have yourself
(Un)Lost - The Maine



Alguma vez você já se perguntou até que ponto uma pessoa é capaz de cometer loucuras em nome do amor? Essa pergunta rondava minha cabeça, mais do que eu gostaria, nas últimas semanas. Porque só agora eu entendia que aquilo era tudo, menos amor.
Kurt era um conjunto de pequenos explosivos, aqueles dos mais inofensivos, mas no menor sinal de faísca, eles faziam um verdadeiro estrago em quem quer que fosse. E eu, bem, eu era sempre o seu alvo.
Meus pés deslizaram silenciosamente pelo assoalho de madeira, tentando fazer o mínimo de barulho, e eu consegui. Meu único plano era dar o fora dali o mais rápido possível. Eu não aguentava mais viver debaixo do mesmo teto com uma pessoa que estava sempre disposta a me humilhar, intimidar, me desrespeitar.
Não sei em que momento Kurt parou de ser aquela pessoa que o conheci, ou talvez, ele nunca tenha sido mesmo. Talvez, tudo que ele dizia ser, era apenas uma máscara que ele usava a luz do dia para ninguém desconfiar das monstruosidades que ele era capaz de cometer. Mas meu corpo sabia, ele sentia, ele tinha marcas de tudo que Kurt era capaz de fazer. Era por isso que eu estava indo embora, na verdade, estava fugindo. Cansada de viver um show de horrores dia e noite, porque alguém não era capaz de amar sem machucar.
Quando avistei o carro ainda na garagem, uma onda de alívio me dominou. Então era isso, era o fim de todo o terror que eu estava vivendo. Era o começo de uma nova chance, de uma nova vida. Mas, percebi que comemorei cedo demais. Antes que eu pudesse ligar o veículo, o pânico reapareceu.
— Onde você vai, docinho?
Os olhos verdes de Kurt brilhavam com uma intensidade que eu nunca tinha visto antes, e acredite, isso não era um bom sinal. Antes que eu pudesse me mover, minha cabeça se chocou contra o volante do carro. Uma, duas, três, quatro vezes. Sentia meu nariz sangrando, provavelmente quebrado, a dor começando a se espalhar assim como as lágrimas que escorriam e se misturavam com o sangue no meu rosto. Era por esse e tantos outros motivos que eu estava prestes a fugir, era para não ter que passar por mais nada disso.
— Para! — Eu sei que minha voz saiu fraca, mas ele tinha que me ouvir. Eu precisava tentar, mesmo que fosse em vão.
— Você ia sair sozinha, meu docinho? — Eu odiava com todas as minhas forças esse tom de voz. O deboche estampado, gritando bem na minha cara.
— ‘Tô cansada dessa vida, de tudo isso. — Eu respirava com dificuldade, e com muita dor, mas eu precisava colocar para fora tudo aquilo. Eu precisava dar um basta em tudo aquilo, nem que para isso, eu saísse dali morta.
De repente, ele me puxou para fora do carro. Meu corpo arrastando pelo chão, enquanto ele me puxava pelos cabelos para dentro de casa. Mesmo não sendo a pessoa mais religiosa naquele momento, me peguei rezando. Pedindo para quem quer que estivesse me ouvindo, que tirasse aquele homem da minha vida, que me livrasse de toda aquela dor e sofrimento. Implorando para que tudo aquilo parasse, porque eu não aguentava mais tanta dor. Não aguentava mais ter nojo de mim mesma toda vez que ele passava as mãos em meu corpo, não aguentava mais me sentir imunda por sempre aceitar aquilo; me sentir fraca por aceitá-lo de volta depois de cada pedido de desculpa fajuto, porque suas lágrimas de crocodilo não me enganavam mais.
— E para onde você ia, eu posso saber? Ah, deixa eu pensar um pouquinho. Aposto que para aquele apartamentinho de merda onde o seu amiguinho não mora mais. — Minha visão começava a ficar turva devido as pancadas, mas se eu desmaiasse, algo pior poderia acontecer. — Sabe por quê? Porque ele foi embora, talvez eu tenha ajudado na sua mudança, mas talvez isso sirva para você entender que a maior prioridade da vida dele, não é você.
Kurt parecia feliz com cada palavra que falava, eu não duvidava que ele estivesse, mas saber que havia ido embora foi como se eu tivesse levado outra pancada. Dessa vez, o seu sorriso foi se desmanchando, vendo que eu não reagia com o que ele me falava, e eu sabia que o pior ainda estava por vir. Por fim, comecei a rezar para que ele me matasse de vez, não havia mais nada inteiro dentro de mim, então, a morte seria minha melhor amiga a partir de agora. E eu apenas torcia para ela chegar logo.
— Me mata logo, por favor. — Consegui falar, antes de cuspir um pouco de sangue.
— Eu não vou fazer isso, . Você é minha, e eu a quero viva! — Ele passou a mão pela minha bochecha. Seus olhos passeavam pelo meu rosto, agora deformado, e mesmo assim, para ele não fazia nenhuma diferença. Sádico. — Como você foi capaz de fazer isso comigo, querida ? Olha no monstro que você me transformou.
Ele sempre dizia isso, sempre jogava a culpa para cima de mim, e eu sempre voltava e pedia desculpas. Mas eu não era a culpada, Kurt é um maluco, maníaco, psicopata, sei lá qual a palavra que o definiria melhor. Mas ele é tudo, menos vítima.
— Você não consegue lembrar das nossas noites juntos? Noites em que fizemos amor.
Sua voz calma me assustava. As piores noites da minha vida, tudo com Kurt era um pesadelo, principalmente, quando ele mostrou a sua verdadeira faceta. Um soluço escapou entre meus lábios e sua mão foi de encontro ao meu rosto, os punhos fechados, acertaram meu olho e eu caí. Eu não tinha forças para me levantar, a dor na minha cabeça era insuportável, a dor no meu nariz, o rosto ardendo, o gosto de sangue, as lágrimas, tudo doía demais para eu sequer tentar me mover.
Então, apenas esperei pela morte.

A claridade que me atingiu, me fez fechar os olhos novamente. Aos poucos, o bip que eu estava escutando começou a fazer todo o sentido, e por isso me mexi lentamente para ter certeza que estava deitada numa cama de hospital. Não fazia ideia de como havia ido parar ali, mas quando Jesse surgiu na minha frente, a única coisa que consegui fazer foi chorar. Chorar de alívio por saber que meu irmão estava comigo, por saber que ele não deixaria que nada de ruim acontecesse (de novo).
Não sei por quanto tempo fiquei chorando, enquanto ele se ajeitou desconfortável ao meu lado, me abraçando e afagando os meus cabelos na medida do possível. Mas o toque de carinho e a certeza de ter alguém que me amava e estava ali para me proteger, fez eu me sentir acolhida novamente. Jesse segurou minha mão, fazendo movimentos circulares, o que me acalmou depois de um tempo. Porém, meu corpo todo ainda doía, o que tornava as lembranças da noite passada ainda mais reais.
— Como eu vim parar aqui? — Tomei a coragem necessária para perguntar.
— Não vamos falar disso agora, por favor. Só quero que você fique bem, está doendo em mim te ver assim. — Meu irmão falou baixou, aproximando sua testa da minha, e eu vi quando ele deixou uma lágrima cair. — Eu sei que sua dor é maior, mas te ver assim... , eu vou mata-lo.
— Jesse...— Voltei a chorar, porque eu também queria matá-lo.
— Vou chamar o médico. — Meu irmão saiu da sala por alguns minutos, voltando acompanhado logo em seguida, do que eu descobri depois ser o Doutor Brown.
Como o esperado, eu havia quebrado o nariz, alguns dentes, e ganhado vários hematomas. Além das cicatrizes invisíveis, que apenas eu podia sentir. Eu teria que ficar de repouso, e ficaria o resto da semana no hospital em observação. Então, lembrei dos meus pais e o nervosismo voltou. Eu não queria vê-los, não queria contar o que tinha acontecido, e, muito menos, queria que eles me vissem daquele estado. Ver a decepção estampada em seus rostos seria pior do que qualquer tapa que eu levei em todo o tempo que estive com Kurt.
Eu queria fazer tantas perguntas, falar tantas coisas para o meu irmão, mas a dor começou a voltar. Então o sedativo fez o seu efeito no meu corpo, me levando novamente para um sono profundo.



acordou no meio da noite, o corpo suado e o coração acelerado, tornando aquelas lembranças reais demais, como se ela estivesse vivendo tudo novamente. Olhou para o lado, mas continuava dormindo tranquilamente, então aproveitou para levantar e sair do quarto. O objetivo era descer para tomar um chá, mas a varanda vazia pareceu uma boa escolha. Quando sentou no banco de madeira da varanda, automaticamente, abraçou as pernas; uma parte por tentar se esquentar do frio, e a outra por tentar se acalmar um pouco. Suas mãos ainda tremiam, seu coração acelerava a cada segundo e, apesar de estar na rua, o ar parecia não chegar até seus pulmões. Quando percebeu o que estava prestes a acontecer, o máximo que conseguiu fazer foi correr até o lavabo e despejar o líquido amargo no vaso.
— Droga! — lavou a boca na pia e se encarou no espelho. Os últimos dias tinham sido tão tranquilos que ela quase esquecera como era ter uma crise de ansiedade. Mas quando se pensava em Kurt tudo machucava e voltava com uma intensidade ainda maior do que antes.
Ao invés de voltar para a varanda, preferiu ficar na sala. Ela só não tinha coragem para voltar para o quarto ainda. Ficou encolhida no sofá, até que o cansaço começou a dominar seu corpo.
— Ei, quer voltar pro quarto? — estava quase pegando no sono novamente quando escutou a voz rouca de . Ela respondeu com um “uhum” baixo e ele a pegou no colo, o que a fez entrelaçar os braços no pescoço dele. — Quer me contar o que aconteceu?
voltou a deitar na cama ao lado de , dessa vez, permanecendo acordada. Ela sabia que precisava contar ou aquilo a mataria por dentro. Apesar de todos esses anos, e das muitas conversas que já teve com , ainda restavam algumas coisas que ela não conseguia admitir nem para si mesma em voz alta. Mas, independente de estarem num relacionamento ou não, seria para sempre seu melhor amigo, a pessoa que mais confiava no mundo.
— Às vezes, alguns dias são mais difíceis que outros. — Ela começou a falar baixo, sabendo que estava a escutando. — E tenho a sensação que não vou conseguir suportá-los, então, apenas torço para que o dia acabe logo. Mas quando isso acontece ainda de madrugada, aqueles pensamentos negativos voltam com mais força. A vontade de acabar com tudo isso de uma vez só aumenta, porque não acho justo com vocês. Desculpa por ser essa bagunça.
— Deixa eu te falar uma coisa, . — a puxou para perto, sentindo o corpo de estremecer. — Nunca se desculpe por ser quem você é. Ninguém é perfeito, . Todos nós vivemos com esses monstros e, às vezes, eles também aparecem assim como os seus. Com o tempo nós aprendemos a conviver com eles e a domá-los, não é uma tarefa fácil, mas é necessário um passo de cada vez.
— Você acha que eu sou um caso perdido? — fazia um carinho na bochecha de quando ouviu a pergunta ser feita. Aquilo fez seu coração apertar. Só ele sabia o quanto queria tirar toda aquela dor de seu peito, porque não merecia aquilo.
— Não, não acho que você é um caso perdido. — depositou um selinho calmo nos lábios de . — Você é a mulher mais incrível que eu conheço.
— Você é um bobo mesmo. — Ela se aconchegou mais próxima do namorado. — Te amo.
— Também te amo. Tá melhor?
— Não, mas se você me der um beijinho eu vou ficar.
— Quantos você quiser.



Capítulo 16

— Eu exijo que vocês voltem para o Leeds Festival, é tipo um Coachella, só que inglês. E aí nós vamos poder aproveitar ao som de muita música boa, cerveja e, talvez, um pouco de maconha. — Joanne falava, animada, tagarelando de uma forma que convencesse a voltar na cidade, mas não era preciso, ela já tinha aceitado que voltaria para aquela cidade.
— Não precisa nem falar duas vezes, eu já estava querendo voltar antes mesmo de você mencionar o festival. Agora eu tenho cem por cento de certeza que irei voltar. — respondeu, mas olhava em direção a uma livraria. — Podemos?
— Vou ficar aqui fora. — Susan apontou para a carteira de cigarro que retirou da bolsa, fazendo questão de se afastar logo em seguida.
Joanne e entraram na livraria assim que Susan se afastou. Aquele passeio estava sendo um pouco atípico, já que Susan tinha concordado de bom grado e surpreendido até mesmo Joanne. No entanto, ela não era de falar muito e soltava alguns comentários quando achava necessário, deixando evidente que aquele passeio não estava lhe agradando. Para tentar descontrair, Joanne não deixava o assunto morrer e ficar um silêncio constrangedor, mesmo sabendo que em alguns momentos, seus comentários não tinham recebido nenhuma atenção por parte de e Susan.
— Ela não gosta de mim, não é? — perguntou, enquanto olhava os livros de fantasia. Era uma temática que ela gostava bastante, mas com a demanda gigantesca do trabalho, ela acabou deixando de lado as leituras.
— Não é isso. — Joanne apertou os lábios, e soube que ela estava mentindo. fazia igual.
— É sim.
— Ela acha que… — Joanne soltou um suspiro, mais alto do que pretendia. — Ai, que saco. Não conte nada a Susan, mas ela acha que você não merece o .
— O quê? — recebeu alguns olhares atravessados quando suas palavras saíram altas demais. — Como assim? Que história é essa, ?
— Quando voltou para Leeds, todo mundo sabia que tinha algo de errado, mas ninguém pressionou para ele contar. Ele não contou nem para mim o que aconteceu em Londres, mas ele ficou bem mal.
Ouvir aquilo da boca de Joanne foi como se tivesse levado um soco na boca do estômago. sabia que ela tinha sido o motivo principal para ter voltado para sua cidade, mas eles nunca chegaram a conversar sério sobre o assunto.
nunca me contou nada, muita coisa aconteceu. Muita merda aconteceu na minha vida, e nós ficamos três anos separados.
— Eu sei, , e você não precisa contar nada. Isso não é da conta da Susan, de qualquer forma, não é da conta de ninguém. — Joanne a tranquilizou, mas a verdade é que estava cansada de receber tantos julgamentos por algo que já era ruim só por ter acontecido.
— Olha, sinto muito se ela não gosta de mim. Mas ninguém sabe o que aconteceu comigo, e é muito fácil julgar antes de saber da história toda. De qualquer forma, eu e estamos aqui para aproveitar as festas. — encerrou o assunto. Se Susan não tinha ido com a cara de e quisesse ficar de birra, bom, então ela ficaria de birra sozinha. Voltar para aquela história era sempre tão exaustivo, que pensou que em Leeds não precisaria lidar com aquilo, mas estava enganada. Enquanto tentava afastar todos aqueles pensamentos, seu celular começou a vibrar no bolso do casaco. Era .


visto por último hoje às 15:37

Parece que hoje é o meu dia de pintar as unhas.

Lucy disse que você pinta melhor que eu.

Aliás, o que acha dessa cor?


abriu a foto que recebeu seguida da mensagem e não conseguiu segurar o riso. tinha conseguido tirar uma foto sem Lucy ver — coisa rara — enquanto pintava as unhas dele com o mesmo esmalte rosa pastel que usou há alguns dias atrás.
WHATSAPP

visto por último hoje às 15:39

Parece que hoje é o meu dia de pintar as unhas.

Lucy disse que você pinta melhor que eu.

Aliás, o que acha dessa cor?

Lucy é uma ótima manicure.

Aliás, adorei a cor. Combina com você.

Se tinha algum tipo de poder ou não, nunca saberia, mas estava grata por ter recebido aquela mensagem. Aquele simples gesto tinha acalmado a confusão que estava prestes a se formar em seu peito.

WHATSAPP

visto por último hoje às 15:40

Parece que hoje é o meu dia de pintar as unhas.

Lucy disse que você pinta melhor que eu.

Aliás, o que acha dessa cor?

Lucy é uma ótima manicure.

Aliás, adorei a cor. Combina com você.

Lucy está brigando comigo, porque não paro de mexer no celular.

Ela é muito brava para alguém de cinco anos.

Joanne fez um sinal para indicando que iria até o caixa para pagar os livros que pegou, enquanto terminava de escrever no celular.

WHATSAPP

visto por último hoje às 15:41

Parece que hoje é o meu dia de pintar as unhas.

Lucy disse que você pinta melhor que eu.

Aliás, o que acha dessa cor?

Lucy é uma ótima manicure.

Aliás, adorei a cor. Combina com você.

Lucy está brigando comigo, porque não paro de mexer no celular.

Ela é muito brava para alguém de cinco anos.

Na verdade, ela tem quatro.

Meu Deus, é pior ainda.

Estamos com saudade.


A foto seguinte era mais fofa que a primeira. e Lucy faziam beicinhos tristes para a câmera. Quase impossível resistir aqueles dois.

WHATSAPP

visto por último hoje às 15:42

Parece que hoje é o meu dia de pintar as unhas.

Lucy disse que você pinta melhor que eu.

Aliás, o que acha dessa cor?

Lucy é uma ótima manicure.

Aliás, adorei a cor. Combina com você.

Lucy está brigando comigo, porque não paro de mexer no celular.

Ela é muito brava para alguém de cinco anos.

Na verdade, ela tem quatro.

Meu Deus, é pior ainda.

Estamos com saudade.

Também estou com saudades.

O roteiro da Jo não está nem na metade.

Aproveite o dia com a Lucy e o Boris.

Te amo.


guardou o celular no bolso novamente, pegando dois livros que tinha gostado e seguindo para o caixa. Não demorou para que elas estivessem na calçada da livraria, onde encontraram com Susan. Dessa vez, Joanne conseguiu seguir o seu roteiro muito mais leve. Não sabia se era porque resolveu ignorar totalmente os comentários maldosos de Susan e fingir que ela não estava ali ou se Susan tinha realmente dado uma trégua, já que falava bem menos coisas que sabia que afetaria .
Quando as três mulheres pisaram novamente na casa de Mary , o relógio marcava pouco mais de cinco da tarde. Apesar de estar morrendo de dor nos pés, o passeio tinha sido agradável. Além de ter conhecido bastante sobre o que Leeds tem para oferecer. No entanto, naquele momento tudo que queria era um banho quente e aproveitar o resto do dia com .
— Oi, mamãe! — Lucy levantou a cabeça do ombro de , mas não moveu um músculo do lugar de onde estava.
— Meu amor. — Joanne foi até a filha, a pegando no colo e deixando uma marca de batom na sua bochecha. — Aproveitou bastante com o tio ?
— Uhum. — Lucy apoiou a cabeça no ombro da mãe e já fechava os olhos, deixando o cansaço tomar conta de seu pequeno corpo.
— Hum, pelo jeito vocês aproveitaram mesmo o dia, né? — Joanne disse baixo para não acordar a filha.
— Fizemos a unha, brincamos com o Boris e assistimos desenhos enquanto participamos de um racha. O dia foi produtivo para nós também.
— Eu já disse que não é para você ensinar essas brincadeiras para Lucy, . — deu de ombros, sem prestar muita atenção na irmã.
— Ela vai ser uma ótima motorista, se é essa a sua preocupação.
— Eu desisto! — Joanne pegou o casaco de Lucy e os brinquedos que já estavam separados. — Mamãe não está aí?
— Não. Ela disse que ia sair com uma amiga, mas não foi bem uma amiga que apareceu aqui na porta. — olhou sério para Joanne, a mais nova apenas balançou a cabeça, rindo.
— Ah, ela fica escondendo aquele namorado, mas todo mundo sabe que ela tá de rolo há meses com ele.
— Essa fofoca tu não me contas. — Ele fez uma cara emburrada. e Susan olhavam a cena dos dois sem entender nada.
— Devo ter esquecido. — Foi a vez de Joanne sacudir os ombros. — Bom, estou indo. Obrigada por ter ficado com a Lucy.
— Foi muito divertido. Querem carona?
— Eu não, ‘tô de carro.
— Eu preciso. — Susan respondeu, olhando para . e Joanne sabiam o motivo daquele comportamento, mas prometeu para si mesma que não deixaria as atitudes de Susan lhe afetar. E, por isso, ignorou aquele entusiasmo na voz da mulher.
— Quer ir junto? — olhou para , enquanto calçava os tênis e pegava as chaves do carro.
— Não, vou tomar um banho quente. ‘Tô cansada.
— Tudo bem, não vou demorar.
deu um beijo rápido em , saindo da casa com Susan e Joanne ao seu lado. Enquanto isso, seguiu para o andar de cima, deixando a bolsa e as sacolas em cima da poltrona no canto do quarto. Tirou as botas, a calça jeans e a blusa de lã que vestia, despejando as roupas no cesto de roupas sujas. Aproveitou o silêncio da casa e tomou um banho demorado. Parecia que toda sua energia tinha sido sugada com aquele passeio, mas o banho a revigorava e fazia se sentir viva de novo. Assim que desligou o chuveiro, vestiu as peças de roupas que havia deixado em cima da pia, assim não precisava voltar para o quarto molhada. Quando saiu do cômodo, entrou no quarto e já não tinha um semblante tão alegre quanto ao que estava quando chegou em casa.
— Aconteceu alguma coisa? — disse, passando a toalha nos cabelos, secando alguns fios que ainda estavam pingando.
— Não. — Ele encarou por alguns segundos, mas desviou o olhar em seguida.
— Não é o que parece.
— Susan disse…
— Sinceramente, não quero saber da Susan. Sei que ela não gosta de mim e acha que não deveríamos estar juntos, mas isso não me importa. Passei a minha vida inteira tentando agradar as pessoas, a prova disso tudo foi o namoro falso que você inventou para a minha família. Se ela não gosta de mim, bom, isso é um problema que ela vai ter que lidar sozinha. — largou a toalha no banheiro, desistindo de secar o cabelo, e voltou para o quarto se aproximando de . — Você é a única certeza que eu quero na minha vida, e não vou desistir porque Susan acha que não sou boa o suficiente.
Os olhos de brilharam de luxúria, fazendo quase perder o fôlego, então ele acabou com a pequena distância que ainda existia entre eles, prensando o corpo de contra a parede. Suas bocas se chocaram, e enfiou uma mão entre os cabelos de . Sem saber se era para ter mais controle sobre o beijo ou para achar um ângulo melhor, deixou que a língua de fizesse seu corpo inteiro formigar. No entanto, para a infelicidade de , buscou todas as forças dentro de si para parar aquele beijo.
— Tem certeza que você quer isso?



Continua...



Nota da autora: Eu vou morrer por ter feito essa escolha, mas eu espero que vocês estejam muito preparadas para o próximo capítulo!
Não esqueçam dos comentários, eles são muito importantes para a continuação da história.
Bjs <3

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» We’ll All Be [Bandas - McFFLY - Shortfic]

Nota da beta: Fernandaaaaa, você trate de voltar aqui, não dá para você me acabar essa atualização desse jeito não, tá? Chocada com a cara de pau da notinha ainda hhahaha! Enfim, já odeio a Susan e estou ansiosa para o próximo capítulo! <3



Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.


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