Última atualização: 13/09/2021

Prologue

Fevereiro de 2009

- Mãe, você tem certeza que eu preciso ir? - estava deitada em sua cama com um livro nas mãos.
- É claro que sim, . São seus padrinhos, você não fará uma desfeita dessas.
- Mãe, o aniversário nem é deles.
- Mas é do e eles são praticamente família, você sabe. - Mabelle respondeu, encarando os cabides no guarda-roupas, procurando uma roupa adequada para a filha.
- Ele nem vai saber se eu não for. - insistiu. - Ele, os irmãos, os amigos e vocês só tem um assunto quando se encontram. Corridas e autódromos. – falou, entediada.
- Vai que você arruma um namoradinho. – sugeriu, separando um vestido salmão.
- Pai, me salva! - a filha pediu em um tom sofrido. - Mamãe está querendo me arrumar um namorado de novo.
- Querida, você já está com quinze anos, em breve dezesseis. Nessa idade eu já tinha umas paqueras. - fez careta.
- Eu sou capaz de achar alguém sozinha e não vai ser no aniversário do . Sabe por quê? - Mabelle respirou fundo e a encarou. - Porque ele e os amigos têm treze anos! E zero maturidade.
- Yohan, venha convencer sua filha. - Mabelle gritou do corredor o marido apareceu pouco tempo depois.
- , você não vai ficar sozinha em casa. Se arrume para nós irmos.
- Posso, pelo menos, levar o meu livro?
- É uma festa, . - Mabelle vetou. - A ideia é socializar.
- Pode, filha. Leve o seu livro, mas dê uma chance à festa. - Yohan concordou e sua esposa rolou os olhos. - Se mesmo assim você não se enturmar, você pode ler.
sabia que aquilo era o máximo que conseguiria negociar, então pegou o cabide com o vestido e se trancou no banheiro em seguida.
- Você sempre cede aos caprichos dela, Yohan. - Mabelle reclamou com o marido, voltando ao próprio quarto para terminar de se arrumar.
- É só um livro, Mabelle. Deixe a menina se divertir como ela gosta.
- Preferir ler um livro do que aproveitar uma festa. - seu tom deixava claro o quanto ela desaprovava tal comportamento. - Às vezes me pergunto se ela é mesmo nossa filha. - o homem riu. - Nunca gosta de festas e não se interessa por nada das corridas, que são sua vida.
- As pessoas são diferentes e não tem nada de errado nisso, mon amour. Ela se interessa por ser inteligente e estudiosa.
- Poderia ter tido uma carreira maravilhosa como modelo. - Mabelle ainda resmungou, mas Yohan já estava descendo as escadas para esperá-las na sala.



Un

Maio de 2019

- , onde você está? - Mabelle questionou assim que a filha atendeu a ligação. - Não estou vendo seu carro aqui na rua.
- Eu estou no elevador, mamãe. Saí do trabalho mais tarde e estou atrasada, sei disso. - ajeitou a bolsa em seu ombro.
- Só queria conferir. Você tem nos evitado desde que… - rolou os olhos já sabendo o que viria a seguir. - Bem, desde que o Thierry terminou com você.
- Mãe, eu não tenho evitado vocês. Tanto que mesmo sem estar animada eu estou indo a esse jantar na casa da madrinha.
- Tudo bem. Dirija com cuidado.
- Pode deixar. - desligou, guardou o celular de volta na bolsa e entrou no carro.
No fundo ela sabia que estava sim evitando não só os pais, mas qualquer companhia desde o fim do namoro. Nos primeiros dias sentiu uma tristeza avassaladora, não tinha percebido nenhum indício de que o fim do relacionamento se aproximava e só conseguia se questionar sobre o que ela tinha feito de errado. Depois, com seus sentimentos em ordem, conseguiu enxergar toda a situação com racionalidade e percebeu que ela não tinha culpa alguma. Mesmo assim ainda doía e ela não queria encontrar com pessoas que a encheriam de perguntas sobre aquilo.
Não demorou muito a estacionar na rua da casa dos . Pelos outros carros estacionados, além do carro dos pais dela, imaginou que alguns dos filhos deveriam estar lá também. Desceu, ajeitando o cabelo e o macacão listrado. Caminhou até a entrada da casa e tocou a campainha.
- Oi, Marie. - sorriu para a criança que tinha aberto a porta.
- Filha, quantas vezes vou ter que te dizer para não abrir a porta sem saber quem é? - Paul repreendeu a filha.
- Mas é a . - ela se justificou, abraçando a mais velha.
- Mas você não sabia disso, espertinha. - ele bagunçou os cabelos dela.
- Zoe, a chegou! - saiu correndo pela casa.
- Como você está? - Paul perguntou abraçando a recém-chegada.
- Tudo ótimo e vocês?
- Estamos bem. - deu passagem e entrou, notando mais rostos do que ela esperava na sala de jantar.
- , querida! Que bom que chegou! Como você está? - Pascal abraçou a afilhada.
- Oi, madrinha. Tudo ótimo. - repetiu o que tinha dito ao primogênito dela, era mais fácil manter a pose de tudo ótimo.
- ! - Zoe apareceu a agarrando pelas pernas. - Você vai brincar de boneca com a gente hoje? Igual àquela vez? - abraçou a outra neta de Pascal.
- Se der tempo depois do jantar, que tal? - ela assentiu.
Seguiu a ordem da mesa, cumprimentando o padrinho, depois os próprios pais, Gabrielle, a esposa de Paul, , Philippe e a esposa dele, Cécile. Sentou-se ao lado da última que lhe contou sobre o pequeno Valentin, que estava dormindo no segundo andar e explicou porque Petrus e Paco não tinham ido.
Jean-Jaques e Pascal eram a típica família francesa rica, com diversos funcionários na enorme casa, mesmo que nenhum filho morasse lá permanentemente. foi servida com uma taça de vinho e pouco tempo depois o jantar foi servido. Paul e Gabrielle serviram a filha e a sobrinha e para o restante da mesa o assunto era o mesmo de todos os encontros. O kartódromo de Yohan e as corridas de na Fórmula 1.
- E você, ? Seu pai estava nos contando que você está num novo cargo na empresa. - o padrinho tentou incluí-la na conversa.
- Ah, sim. - sorriu, olhando em sua direção. - Eu assumi uma obra que está no fim, porque o engenheiro de lá mudou de seguimento. E quando acabar eu vou coordenar todo o departamento pós-obra.
- Um departamento todo para você? - Pascal estava admirada. A afilhada tinha seguido um caminho profissional do qual conheciam muito pouco. - Parabéns, querida!
- E aí? Já domou todos os peões de obra? - perguntou fazendo graça, sabia que era uma fala ridícula.
Imediatamente as falas de Thierry terminando com ela surgiram em sua mente e ela sentiu toda a dor novamente. Não choraria na frente deles. Se levantou de uma vez, fazendo um barulho alto ao arrastar a cadeira e saiu o mais rápido que conseguiu dali sem correr.
- Mas o quê? - perguntou sem entender o que tinha acontecido e ouviram o barulho da porta da frente fechando.
- Releve, querido. Eu sinto muito. - Mabelle pediu desculpas a todos pelo comportamento da filha. - Ela está tendo problemas para aceitar o término do namoro. - explicou.
- Parece que o Thierry usou coisas assim como argumento para terminar com ela. - Yohan acrescentou.
- Eu… não sabia. - se sentiu mal.
- Não tinha como saber. - Mabelle abanou a mão, mostrando que estava tudo bem.
- Eu vou lá falar com ela. - se levantou, precisava se desculpar.
- Era aquele namorado antigo? - Pascal perguntou se lembrando do rapaz.
- O próprio. - Mabelle respondeu a amiga. - E já falavam em casamento. Foi um choque.
abriu a porta e a fechou atrás de si novamente, vendo sentada na calçada. Ela não olhou para trás, mas sabia que alguém estava se aproximando e secou os olhos.
- Tenho a leve impressão que Mabelle faria um escândalo se a visse sentada com essa roupa no chão. - se sentou ao lado dela e ela riu fraco.
- Ela provavelmente já vai me dar o sermão pela falta de educação em ter saído da mesa daquela forma.
- Me desculpe. - ele falou, olhando para ela, que desviou o olhar da rua para ele. - Foi uma coisa idiota de se dizer, eu só fui fazer graça, eu não-
- Está tudo bem. Não é culpa sua de qualquer forma. - passou a mão no rosto novamente. - Minha mãe deve ter contado, não é? - ele assentiu.
- Algo sobre o seu ex ter falado isso. - resumiu bastante, não pretendia deixá-la mais desconfortável.
- Minha mãe acha que tudo é muito simples e que eu estou fazendo drama. - ela voltou a dizer, mas não o olhava. - Faz só uma semana que tudo aconteceu. Imagine você, esperar que seu namorado te leve para jantar para comemorar um ano e oito meses de namoro e ganhar o fim do relacionamento baseado em argumentos machistas sobre mulheres em obras.
- Que merda.
- Você não faz ideia. – respirou fundo. - Essa obra que eu assumi era dele, mas ele foi convidado para assumir a construção de um shopping e eu fiquei no lugar dele. Isso tem pouco mais de um mês. - não sabia de onde tinha vindo a vontade de contar tudo para alguém que nem era tão próximo ou íntimo dela, mas, naquele momento, sentia a necessidade de colocar tudo para fora. - E então, há exatos sete dias ele terminou comigo dizendo que não conseguia confiar em uma mulher que estava cercada de homens dia após dia. Que ele conhecia todos os trabalhadores de lá, que sabia que eu não conseguiria impor limites a eles e que eles se aproveitariam de mim.
- Você me desculpa, mas ele me parece um tremendo babaca. - foi pega de surpresa pelas palavras e voltou a olhá-lo. - Ele confiou em você durante um ano e oito meses e aí, do nada, ele não confia mais só porque você está trabalhando com outros caras? Isso é idiotice!
- Alguém que entende a minha indignação. Obrigada.
- Até eu que não entendo nada do seu trabalho sei que isso foi uma desculpa idiota. - ela concordou com um aceno.
- E sabe o que é pior? O que me dói realmente? - esperou que ela continuasse. - Foi a forma como ele colocou tudo isso. Eu entendo claramente que isso é ridículo, mas a forma como ele insinuou que eu cairia no papo de qualquer um deles, que seria presa fácil para homens como aqueles me fez me sentir um inútil pedaço de carne.
- Mas você sabe que é melhor do que isso, não sabe? Porque até eu que convivo o mínimo do mínimo com você sei que você é uma engenheira ótima. - sorriu, agradecida. Nunca tinha escutado algo assim sobre ela vindo dele. - Meus pais sempre amaram o quanto você era estudiosa e viviam dizendo aqui em casa como tinham orgulho de você e que nós podíamos nos inspirar em você e sermos mais estudiosos também.
- Obrigada. - mesmo que aquelas palavras não fossem verdadeiras, tinham sido reconfortantes. - Você pode entrar se quiser. - ela disse quando olhou para trás.
- Acho que prefiro aqui onde ninguém pergunta sobre a minha vida profissional a cada dois segundos. - ela colocou o cabelo atrás da orelha e sorriu.
- É, aqui isso não vai acontecer mesmo. - ele riu, lembrando da aversão dela com o esporte.
- O que é isso de pós-obra? - se lembrou do termo usado por ela mais cedo, do qual ele nunca tinha ouvido falar.
- É o acompanhamento da obra depois de entregue, porque o cliente tem garantia contra alguns defeitos por um tempo.
- É sério?
- Por que não seria?
- Não sei, eu nunca imaginei. - deu de ombros.
- É uma parte que eu gosto bastante. Apesar da dor de cabeça que alguns proprietários causam. - acrescentou.
- Do tipo meu ralo está entupido? - chutou a coisa mais boba que imaginou.
- Às vezes sim.
- E você tem que ir lá para isso?
- Se a reclamação for só um ralo entupido, eu não preciso vistoriar, posso só mandar o encanador. Ralo entupido é uma coisa que aparece logo, se for causada por detritos da obra que foram jogados lá. - explicou.
- E por que a obra faz isso se depois vai ter que ir arrumar?
- Também queria saber. A única coisa que consigo pensar é que quem joga não é quem precisa ir arrumar depois. Os trabalhadores de obras geralmente passam para outra quando uma é entregue e os funcionários do pós-obra precisam ter uma delicadeza maior, digamos assim. Como já tem pessoas morando e tudo mais, o trabalho precisa ser diferenciado e esses profissionais são treinados nisso também.
- Interessante, eu nunca ia imaginar.
- Quando eu estava na faculdade essa foi a parte que eu mais gostei de trabalhar. Foi onde mais aprendi. Vendo o que os erros de uma obra causam depois.
- Ah, então é como a revisão dos carros de corrida antes e depois da corrida. - tentou comparar com algo que conhecia.
- Não saberia dizer, mas acho que sim.
- E o que você faz agora?
- Não muito, porque a obra já está em fase de acabamento. A parte pesada já foi. A maior parte do trabalho é acompanhar as frentes de serviço para garantir se estão seguindo o cronograma para entregar no prazo. Você deveria ir conhecer um dia. – sugeriu, vendo que ele parecia interessado.
- Eu posso? - perguntou mais por curiosidade do que por vontade de ir, estava mais interessado na forma como ela falava sobre o trabalho do que no trabalho em si.
- Claro. Você só precisa ser liberado pelo responsável, que no caso sou eu, e colocar um capacete que nem de longe é estiloso como o de vocês.
- Se eu for conhecer seu trabalho, você vai conhecer o meu?
- Não. - respondeu prontamente e deu uma gargalhada alta.
- Poxa, . – ele ainda sorria.
- É você que está interessado no meu trabalho e não o contrário. - argumentou, mas também ria.
- Você não pode falar que não gosta sem nunca ter ido. A próxima é em Mônaco, não tem como não gostar de Mônaco. - ela o encarou, com a sobrancelha arqueada. - Se você for e realmente odiar, prometo nunca mais tocar no assunto, que tal?
- Quando é? - realmente não tinha o menor interesse em ir, mas a ideia de sair da sua rotina, mesmo que por um final de semana a agradava.
- Próximo domingo, no caso sem ser amanhã.
- Um pouco em cima, que pena! - fingiu tristeza e ele voltou a rir.
- Se você topar, eu organizo tudo e você só precisa ir. - propôs e estava cada vez mais próxima a ceder.
- Por que faria isso?
- Porque eu quero muito estar do seu lado quando você confessar que não odiou, porque é simplesmente impossível odiar corrida. - ela estreitou os olhos para ele enquanto pensava. Não tinha medo de pagar língua e acabar gostando, também não tinha problema em admitir as coisas, mas odiaria que todos ficassem no seu pé por isso.
- Com uma condição. - segurou o riso. - Não conte para ninguém, por favor. É provável que eles morram de tanta felicidade pelo seu feito e eu só quero sair daqui por uns dias.
- Fechado. - estendeu a mão para selar o trato e ela apertou. - Posso ir ao seu trabalho na terça?
- Combinado.
- Agora vem, vamos jantar. Metade da minha família está nos olhando pela janela.
- Será que não posso só ir para casa e você falar que eu estava passando mal?
- Não, já vou omitir a sua ida para Mônaco, não vou mentir hoje também. - limpou a calça ao se levantar e voltou a estender a mão para que ela se levantasse.
- Hora de encarar a senhora Mabelle.
- Não vai ser tão ruim assim. - abriu a porta e deu passagem a ela, entrando em seguida.

🔸🔹

estava animado para ir ao trabalho de pelo simples fato de conhecer algo diferente. A princípio ele só estava tentando confortá-la em relação as asneiras faladas pelo ex-namorado, mas vê-la contar sobre o trabalho com tanta propriedade de certa forma o tinha deixado curioso para conhecer uma realidade diferente.
A única outra pessoa de seu convívio mais próximo e que não era ligada à corrida era Paco, seu irmão do meio. O único que nunca teve interesse de correr, nem mesmo de kart e que era professor de literatura francesa na Universidade de Aix-Marselha. Mas nunca tinha sido fã de escola, menos ainda de literatura e nunca tinha se interessado pelo trabalho do irmão.
- Boa tarde, vim falar com a . - anunciou ao senhor na guarita.
- Seu nome? - perguntou, pegando o rádio em cima da mesa para chamar a engenheira.
- . – respondeu sem pensar.
- Você é mesmo o piloto? - ele perguntou admirado e sorriu, tímido. - Bem que vi que não parecia deste lugar vestido assim. Pode entrar. - disse entregando um capacete branco a ele. - É só seguir esse caminho e seguir as placas.
- Obrigado. - ajustou o capacete na cabeça e seguiu as instruções.
O lugar não era cheio de terra como ele havia imaginado, mas sim de concreto, de cima a baixo. Passou pela entrada e aquilo era estranho de ver. Grandes paredes cinzas, com grandes buracos que ele julgou serem os espaços para portas e janelas, vários buracos menores retangulares nas paredes, cheios de fios saindo e outras coisas parecidas com mangueiras amarelas.
Era estranho, mas o fazia lembrar do próprio carro sem a pintura e o acabamento. Para ele o carro era lindo de qualquer jeito, mas sabia que para outros seria estranho. Devia ser assim com a construção para os engenheiros. caminhou mais um pouco, parando em frente a uma sala com a identificação de escritório na porta.
- Você veio! - apareceu atrás dele quando ele estava prestes a bater na porta.
se virou e demorou alguns segundos para responder, pois nunca tinha visto sem roupas elegantes antes, e ali de jeans, camisa de uniforme, botas timberland e capacete, ela parecia chamar ainda mais atenção.
- É, sou praticamente outra pessoa. - confirmou como se lesse os seus pensamentos.
- E mesmo assim aposto que arrasa corações. - queria dizer que mesmo assim estava bonita, mas parecia estranho e ficou satisfeito por ter achado uma resposta alternativa. - Mas por que achou que eu não viria?
- Porque você disse que viria mais cedo. - respondeu destrancando a sala e dando passagem a ele.
- É, eu me atraso mais do que gostaria. - confessou e ela riu.
A sala tinha uma mesa com um computador simples, duas prateleiras lotadas com caixas de plástico vermelhas e uma mesa maior e retangular que cabiam umas seis pessoas.
- Glamuroso, hum? - ela brincou, atraindo a atenção dele que pairava nas caixas enquanto ela conferia alguns documentos no computador.
- Eu estou me sentindo uma criança naquelas visitas escolares. - confessou vendo que tudo chamava sua atenção.
- , esses engenheiros do escritório são todos burros! Não tem condições. - Olivier entrou na sala, resmungando, soltando um plástico cheio de projetos em cima da mesa maior.
- , esse é meu estagiário, Olivier. Olivier, esse é o . - só então o mais novo notou que tinha mais alguém ali.
- E ai? - cumprimentou e voltou a olhar para os projetos. percebeu que esperou ser reconhecido, mas não falou nada.
- O que o pessoal do escritório fez? – perguntou, fechando a planilha do Excel.
- A obra está acabando e eles ainda estão enviando versão plotada de projeto. Nem cabe mais nada nessas caixas e nem adianta mandar isso agora.
- Deve ser o as built, não? - puxou o plástico para perto, verificando a versão na tabela do primeiro. - É sim. - mostrou para ele.
- Nunca ouvi falar.
- Sério? - colocou o projeto de volta na embalagem e ele assentiu. - O que andam ensinando para vocês na faculdade?
- Não isso, porque eu nunca ouvi falar.
- As built é a versão ajustando o projeto a como foi construído de fato. - explicou.
- É um projeto que justifica os erros da obra?
- Também, mas não só erros. Algumas coisas às vezes são executadas de forma diferente, mas não por erro e esses projetos tem que estar aqui até a entrega da obra, então guarde todos. E se precisar de mim vou estar nos apartamentos do oitavo andar. - acenou para que a seguisse e Olivier apenas assentiu pegando uma das caixas vermelhas.
- O que tem no oitavo andar? - andava ao lado de , tentando ver os detalhes do lugar ainda sem pintura.
- São os que estão em acabamento, mas ainda não finalizados. Depois podemos ir em um que ainda não começaram a mexer e em um finalizado. - ele assentiu. - Aguenta subir tudo de escada? - o provocou e ele riu.
- Eu sou um atleta, é claro que consigo. Você não faz a menor ideia de como são os meus treinos, você se surpreenderia.
- Aposto que sim. - subiram em silêncio os oito andares, mantendo a respiração regular.
- Achei que acabamento eram as portas. - falou ao notar que já estavam dentro do apartamento.
- Elas fazem parte, mas são praticamente as últimas a serem colocadas. Os peões podem ser muito, mas muito descuidados. Você se surpreenderia. - repetiu as palavras dele.
A verdade é que ele estava se surpreendendo a cada instante desde que entrara ali. Era fácil ser surpreendido quando não sabia o que esperar.
- O acabamento começa com a instalação de pisos e revestimentos, depois passamos para a fase de pintura e instalação das portas principais, que são as únicas que ainda não foram instaladas. As outras esquadrias estão todas instaladas. - indicou as janelas e as portas dos quartos. - E por último as louças e metais, pia, vaso, torneiras. - exemplificou.
- É meio estranho ver o lugar sem essas coisas básicas. Você consegue imaginar um lugar pronto se olhasse apenas assim para comprar? - ela assentiu. - Ainda bem que consegui correr na Fórmula 1. - ela riu com ele.
- Isso é prática. É a primeira vez que você está vendo, eu trabalho com isso desde o estágio.
- Eu não consigo nem julgar se esse espaço para um quarto é grande ou pequeno, porque parece que meus móveis não vão caber aqui, mas se são dois por andar eu acredito que ele seja de um tamanho considerável.
- Eu não sei quantas coisas você tem no seu quarto, mas sim, são dois por andar e são de alto padrão, então o tamanho é ideal para mais coisas além do básico.
- , aconteceu um acidente! - Olivier apareceu, gritando no apartamento.
- Como assim? Acidente com quem? - a engenheira sentiu o coração acelerar e não sabia o que esperar.
- O Joseph estava com a makita cortando a cerâmica lá no décimo segundo e não sei como ele cortou a perna.
- E já chamou a Cindy?
- Ela não respondeu pelo rádio. - seguiu Olivier para o andar do acidente.
- Alguém já chamou uma ambulância? - o estagiário assentiu e ela ligou para a técnica de segurança do trabalho que deveria estar ali.
Chegaram ao andar e havia mais sangue do que engenheiros pretendiam ver em sua vida. Cindy tinha chegado antes deles e tomado as primeiras providências, tirando os outros funcionários do local, e comprimindo um pano na ferida. O barulho de ambulância foi ouvido e respirou aliviada, o socorro estava ali e ninguém morreria em sua obra sob sua supervisão.
acompanhou todo o processo de resgate de Joseph, que permanecia acordado e gemendo de dor, afinal responderia por isso perante a empresa e perante a justiça, caso o operário a acionasse. Mas um dos paramédicos disse que não era tão grave quanto parecia e ela se agarrou a essa ideia.
Acabou dispensando todos mais cedo e acionando a equipe de limpeza, pois seria impossível continuar qualquer trabalho enquanto houvesse sangue ali. E foi só quando estava descendo das escadas para a sua sala foi que se lembrou de .
Pegou o celular no bolso da calça e soltou o ar aliviada ao ler a mensagem dele dizendo que estaria na sala lá debaixo. Desceu mais rápido do que fazia normalmente e o encontrou sentado na mesma cadeira de antes, mexendo no próprio celular.
- Me desculpa, ! Eu te esqueci completamente. – confessou, extremamente sem graça.
- Você tinha uma emergência. Eu preferi vir para cá para não atrapalhar. - não lidava bem com sangue, mas ela não precisava saber disso.
- Achei que você teria ido embora. Não te culparia se tivesse ido.
- Sem saber o que é uma makita? Eu não iria a lugar nenhum. - ele brincou, aliviando parte da culpa que ela sentia.
- Você poderia ter procurado no Google.
- É verdade, mas fazia parte de conhecer seu trabalho, então você vai me contar. - ela se encostou na mesa, ficando de frente para ele.
- É como uma serra circular, ela corta quase tudo. Ele estava cortando as peças de porcelanato para assentar na sala. Ainda não entendi como conseguiu cortar a perna daquele jeito.
- Acidentes acontecem.
- Mas não precisava ser hoje que você estava aqui. Nem viu nada da obra direito.
- Eu posso voltar depois, se você ainda for à corrida. - ela sorriu.
- Eu vou, nós temos um trato. - pegou sua bolsa na gaveta. - Mas agora vamos sair daqui, estou começando a sentir uma dor de cabeça. Muita tensão para um dia só.
- Vamos, ainda preciso terminar de arrumar minhas coisas para viajar amanhã.

Se despediram do lado de fora da construção, desejou boa viagem e combinaram de conversar por mensagem sobre os detalhes da ida dela a Monte Carlo. foi para sua casa direto, precisava de um banho para tentar tirar o cheiro de sangue que parecia ter grudado em suas narinas.
seguiu para a casa dos pais e durante todo o caminho ele só conseguia imaginar o quão absurdo tinham sido os argumentos do ex de ao terminar o namoro com ela. Porque por aquele único dia ele podia afirmar, sem sombra de dúvidas, que era uma mulher forte e com estômago forte também. E que não importava quem fosse o homem, dobrar não era algo fácil, principalmente em seu trabalho.



Deux

nunca tinha achado tão bom o fato de as construções pararem mais cedo nas sextas-feiras, como naquele dia 24. Com sua pequena bagagem no carro, desde que saíra de casa naquela manhã, se sentia prestes a embarcar numa aventura como nunca tinha feito antes e essa adrenalina a deixava num ótimo humor.
Imaginou qual seria a reação de seu pai se a visse animada daquela forma para ir para Monte Carlo e se pegou rindo sozinha. No fundo o que a tinha deixado naquele estado era fazer algo inesperado e sem contar para ninguém. Em seus vinte e cinco anos de idade, não houve um dia sequer em que seus pais não soubessem aonde ela estava, mas sempre havia uma primeira vez para tudo.
Tinha dito aos pais que passaria o final de semana na casa de , ajudando com os últimos ajustes do casamento e pediu para que a melhor amiga sustentasse a mentira. não se sentia confortável em mentir sem saber onde de fato estaria, mas ela não podia negar que ver a engenheira empolgada com algo depois do término a deixava feliz e por isso aceitou encobri-la.
tinha enviado a localização exata do hotel em Mônaco onde ele já estava desde quarta-feira e ela colocou no gps, verificando um trajeto de quase três horas pela frente. Passou num drive-thru antes de seguir viagem e avisou-o quando estava saindo de Marselha.

Pouco depois das nove da noite ela havia chegado ao destino. Estava cansada depois de tanto tempo dentro do carro e de uma semana de trabalho, e dois dias de descanso pareceram ainda melhor. Monte Carlo continuava com a mesma beleza que ela admirara anos atrás em uma viagem com os pais e se pegou pensando em quantos lugares lindos tinha tido a oportunidade de conhecer como piloto, lugares que ela mesma nem imaginava conhecer.
Pegou sua mochila no carro e deixou que o manobrista o estacionasse. O hotel era muito chique e ela estava encantada com a construção de colunas altas e vãos grandes, tanto que nem mesmo percebeu que a esperava no saguão.
- Você chegou. - disse atraindo então a atenção dela.
- Você ficou me esperando aqui? - se cumprimentaram com um abraço rápido.
- Para ter certeza que você não estava só tirando uma com a minha cara.
- Eu sou uma mulher de palavra, . Algo que pelo visto você não está acostumado. - o provocou.
- Ei! - ele riu, sem ter o que dizer sobre aquilo. - Vem, seu check-in já está feito. - entregou um cartão magnético a ela. - Seu quarto é no quinto andar, eu estou no terceiro.
- Sabe que essa de te deixar organizar tudo saiu melhor do que o esperado. Vou te deixar planejar todas as minhas férias daqui para frente.
- Não tive tanto o que organizar. - o elevador parou no quinto andar e os dois desceram. - Você deve estar com fome.
- Você já comeu? - perguntou ao mesmo tempo em que ele tocou no assunto.
- Não, minha mãe me mataria se eu não te esperasse.
- E se eu não estivesse com fome?
- Eu pediria algo no quarto para mim. - deu de ombros e foi inevitável não lembrar de algumas situações em que Thierry nem a considerara em suas decisões. E ela e não eram nem mesmo grandes amigos.
- Podemos pedir algo aqui, se você quiser. - sugeriu, jantar com ele era o mínimo que ela podia fazer, embora soubesse que ele não esperava nada em troca. - Eu só preciso tomar um banho antes. Como pode ver, eu vim direto do trabalho. - apontou para as botas.
- Pode ser. Vou para o meu quarto e você me chama. - ela concordou com a cabeça e destravou a porta do quarto enquanto voltava para o elevador.

O quarto, assim como o hotel, era elegante e tinha espaço suficiente. Organizou as roupas no armário e foi logo para o banho. Com os cabelos penteados e uma roupa confortável, enviou uma mensagem a , avisando que podia subir quando quisesse. lia as opções do cardápio quando ele bateu na porta.
- Oi outra vez. - a cumprimentou tentando disfarçar o tempo que tinha reparado nela, de novo.
Se vê-la de jeans e camisa social no trabalho já o tinha surpreendido, vê-la de short jeans e camiseta foi mais inesperado ainda e ele não negaria que ela era realmente bonita independente do que usasse. Estava aliviado por ela estar concentrada demais nas opções de pratos para reparar que ele a tinha encarado.
- Já sabe o que vai pedir? - entregou o cardápio a ele.
- Já, não posso sair da dieta com a corrida amanhã. - conferiu as horas no relógio. - Na verdade já estou furando o horário de comer.
- ! - chamou a atenção dele. - Você não devia! Não é para se prejudicar por minha causa.
- Relaxa. - negou com a cabeça. - Me fala qual você quer para eu pedir. - tirou o telefone do gancho e ela apontou o prato na lista.
Ele se sentou em uma das cadeiras em volta da mesa circular e ela fez o mesmo.
- Então, me conta o que eu preciso saber para ir amanhã e não parecer uma idiota completa. – pediu, interessada no trabalho dele pela primeira vez.
- Você não vai parecer uma idiota. - ele riu. - Não é como se alguém fosse te encher de perguntas sobre a Fórmula 1.
- Não sobre a Fórmula 1, mas sobre você, sua equipe, sei lá. - deu de ombros, tentando pensar em coisas que seriam importantes. - Pelo menos me conta o que eu devo comemorar, vai que todo mundo grita e eu fico parada. - ele riu novamente da preocupação dela. - Para de rir! Eu estou falando sério.
- Bom, eu estou correndo pela Red Bull Racing esse ano. É uma equipe muito boa que está competindo com a Ferrari e a Mercedes. O outro piloto da equipe é o , não sei se você já ouviu falar. - negou com a cabeça. - E o chefe é o Christian Horner.
- Também nunca ouvi falar. - se levantou quando ouviram batidas na porta para pegar os pedidos e voltaram à mesa.
- E como você está na competição? - deu um sorriso fraco e olhou para o prato.
- Não estou tão mal, mas não estou tão bem como deveria. - confessou. - Tem sido difícil me adaptar ao carro e sempre vai muito bem.
- Entendi. E os seus amigos? Eles ainda correm com você? Aqueles que costumavam ir às suas festas de aniversário? - ela lembrava de alguns deles.
- A maioria não. Não sei se você se lembra do . Ele está correndo pela Ferrari agora.
- Não me lembro dele na sua casa, mas sei quem é. E aquele que usava óculos e estava sempre com você?
- O Tonio? - ela fez uma careta, em dúvida sobre o nome do garoto. - Deve ser. O Anthoine ainda corre, mas na Fórmula 2.
- Entendi. - colocou mais um pouco de macarrão na boca enquanto pensava se precisava de mais informações. - Ah, e por que você precisou chegar aqui na quarta se a corrida é só domingo?
- Por causa de reconhecimento da pista, que acontece na quinta.
- Isso não é algo que você faça em simulador ou algo do tipo?
- Sim, mas são os ajustes finais da estratégia da corrida.
- Você tem estratégia para correr? - ele achou engraçada a expressão no rosto dela. - Eu sempre achei que era só correr.
- Toda equipe tem estrategistas para analisar o melhor momento de fazer a parada para trocar pneus, qual tipo de pneu deve render mais, essas coisas.
- Entendi.
- Na sexta acontecem os treinos livres um e dois. Podemos dar quantas voltas quisermos na pista, durante determinado tempo e os pilotos tentam marcar o menor tempo em uma volta. E no sábado temos o terceiro treino livre e o treino classificatório, que é o que define as posições que cada piloto largará no domingo.
- E que horas vamos amanhã? - foi surpreendido pela pergunta.
- Você vai? Achei que só iria na corrida. - deu de ombros.
- Eu já estou aqui mesmo. Vamos ter a experiência completa. - ele sorriu, sentia que uma parte dela, mesmo que mínima, estava começando a se interessar pelas corridas.
- O treino livre de amanhã será ao meio dia e o classificatório às 15h. Nós ficamos por lá direto, mas você não precisa ficar se não quiser. - ela concordou, decidiria depois.

Terminaram de jantar e conversaram um pouco só o trabalho dela e o que tinha acontecido com o rapaz depois do acidente. Foi só quando bocejou que ambos perceberam que já estava tarde e que precisava descansar para o dia seguinte. Se despediram e antes de sair entregou a credencial que daria acesso ao paddock.
- Não vamos juntos? - pegou o que ele entregava.
- Eu não sei, corro o risco de ser fotografado, mesmo não sendo o maior interesse deles, você pode acabar aparecendo e você não queria que ninguém te visse.
- Posso ir no meu carro então e a gente entra mais ou menos juntos. - sugeriu. - Não quero estar completamente perdida lá.
- Tudo bem, nos falamos amanhã de manhã. - beijou o topo da cabeça dela.
- Boa noite, . Bom descanso. - desejou com um sorriso.
- Boa noite. - fechou a porta em seguida, pegando o pijama no armário.
Escovou os dentes, trocou de roupa, colocou o celular para carregar e se ajeitou na cama, sentindo o corpo agradecer por finalmente poder relaxar. Apagou as luzes e piscou até se acostumar com o escuro do quarto. Sem que se desse conta, seus pensamentos estavam em . Tinham estado um na vida do outro desde que ele nascera e ela nunca havia imaginado que poderiam compartilhar momentos divertidos como naquela semana ou que pudessem se tornar amigos. Enviou uma mensagem a , avisando que estava bem e logo adormeceu.

🔸🔹

estava no paddock¹ aguardando o início do treino classificatório naquela tarde. A manhã tinha sido exatamente como combinado, ela tinha ido em seu próprio carro e eles se encontraram na frente do circuito. A engenheira estava imensamente surpresa por descobrir que era um circuito de rua e não num autódromo. a havia acompanhado até a garagem da equipe, mostrado o lugar onde ela poderia ficar para assistir e ela tinha feito questão de chamar o mínimo de atenção para si.
Ela não tinha visto muita graça no treino livre, os carros saiam e voltavam quando queriam e ela achou confuso. Não entendeu porque as pessoas gostavam de assistir aquela parte, não tinha tido nada muito emocionante. Já a próxima etapa parecia ser mais emocionante, pois a quantidade de espectadores tinha aumentado consideravelmente.
Durante o intervalo entre as duas etapas, tinha dado uma volta com ela pelo paddock e os motorhomes², mas não tiveram muito tempo juntos, pois ele logo precisou voltar com a equipe. No tempo em que aguardava percebeu que a maioria das pessoas ali apostava e torcia por , o outro piloto da equipe, e ela se lembrou das palavras dele na noite anterior. Se ela que só estava torcendo por ele já sentia a pressão dos comentários, nem imaginava como era tudo aquilo para ele.

foi liberado para o Q1³ depois de , apesar do tráfego intenso característico da primeira parte, conseguiu pegar a pista limpa e marcar o menor tempo. voltou a sentir a pressão de ocupar um daqueles carros quando foi informado do tempo do companheiro.
Focado em dar a melhor volta possível, conseguiu encaixar uma ótima volta e marcar o terceiro tempo. deu um gritinho comemorando ao ver o sobrenome indo para o terceiro lugar, apesar de tentar reconhecer o carro dali de onde ela estava, era mais fácil acompanhar pela tela.
Estava feliz com o terceiro melhor tempo, mas inconformado que Magnussen tivesse um tempo melhor que o dele. Sabia também que seria questão de tempo até que as Mercedes marcassem tempos melhores, e não só eles como o alemão subiram na lista. Levou o carro de volta ao final dos dezoito minutos, confirmando que seu tempo o colocava em sexto lugar.
viu o nome dos cinco últimos pilotos saírem da tela e comemorou internamente o fato de ainda estar entre os dez primeiros. Bebeu um pouco da sua água se amaldiçoando por estar tão empolgada com algo que ela jurou que odiava em toda a sua vida. Ela nem sabia como, de repente, corridas pareciam tão interessantes e ainda nem era a corrida de verdade.
Depois de sete minutos os quinze pilotos restantes recomeçaram as voltas e bufou vendo os mesmos dois nomes de cara nos primeiros lugares e ficou ainda mais contrariada quando o tal ocupou o terceiro lugar, seguido de outros nomes que ela nunca tinha ouvido falar, a não ser Vettel.
O final tinha sido uma loucura, os nomes do final subindo e ela só soltou o ar quando viu que o nome de não estava entre os últimos cinco. O que significava que ele disputaria a próxima parte.
- Vamos, ! - ela murmurou para si mesma.
- Merda! - bateu com força no volante ao saber que poderia ser punido pela manobra que atrapalhou Grosjean. Precisaria dar ainda mais de si para ainda largar relativamente bem mesmo se fosse punido. - Foco, . Sinta o carro. Você consegue. - repetiu para si mesmo.
Deu tudo de si naqueles doze minutos, tentou esquecer de todos os outros pilotos e focar apenas em se melhorar. 1m11s041 havia sido o seu melhor tempo naquela pista até então e o colocava em quinto no grid. Era um bom resultado, ele estava satisfeito, mas antes mesmo de deixar o carro a punição foi definida e ele largaria em oitavo.

Com o final da classificação, as pessoas não demoraram a esvaziar o local, mas sabendo que não sairia imediatamente, esperou um pouco mais para encontrá-lo no local marcado por ele.
- Parabéns! - o abraçou com um sorriso. - Cinco de vinte na engenharia é muito bom. - comentou ao perceber que ele, de fato, não estava feliz como ela.
- Vou largar em oitavo.
- Por quê? - o olhou de lado enquanto caminhavam para fora do autódromo. - Eu vi seu nome na lista, estava em quinto.
- Fui punido com três posições por atrapalhar outro piloto no Q2³.
- Ah, não é sua culpa se ele foi ruim. - ela tentou melhorar o clima e acabou rindo, porque ela claramente não fazia ideia da fama de Grosjean. - De qualquer forma é amanhã que importa e você vai ser ótimo, sabe por quê?
- Por quê? - ele voltou a olhá-la.
- Porque eu estou aqui e isso tem que ser a maior sorte que um piloto pode ter. Eu em uma corrida.
- Pelo visto alguém vai pagar língua. - provocou e ela manteve o sorriso.
- Já estou pagando, fazer o quê? - deu de ombros. - Eu te disse que sou uma mulher de palavra. Só nunca ia imaginar que torcer para alguém correndo seria tão legal. Talvez essa fosse a diferença, eu não conheci nenhum outro piloto de Fórmula 1 antes.
- Pode ser. Mas se eu for bem amanhã e você for o amuleto da sorte, você terá que ir em todas as corridas.
- Aí já é demais. Eu tenho uma vida, sabia?
- Que está bem mais divertida depois que passou a me conhecer de verdade. Pode falar. - o tom dele era de brincadeira, mas ele não fazia ideia da verdade que as palavras continham.
- Nos seus sonhos. - devolveu no mesmo tom. - Vamos logo, estou com fome.

🔸🔹

havia dito que ela poderia ficar na garagem se quisesse, mas ela não se sentiu confortável em ficar ali, parecia íntimo demais para alguém que sabia tão pouco como ela, e preferiu assistir do mesmo lugar do dia anterior. Antes de a corrida começar todos os pilotos se juntaram em um círculo, todos com bonés vermelhos em homenagem a alguém importante que havia falecido. Niki Lauda, pelo que leu na tela, mas também não sabia quem ele era. Fizeram um minuto de silêncio em homenagem ao homem e até as buzinas das embarcações foram ouvidas.
Foram liberados para a volta de apresentação e parou o carro em P8. Ainda estava chateado pela punição, mas sabia que tinha condições de fazer uma boa corrida e ganhar algumas posições. Ele precisava confiar em si como confiava nela enquanto engenheira.
As luzes se apagaram e foi dada a largada. esperou que todos aqueles carros juntos se chocassem logo de cara, mas nenhuma batida aconteceu. Os quatro primeiros pilotos mantinham a mesma ordem e a primeira mudança que ela notou foi quando o sexto carro ultrapassou o quinto, Ricciardo agora estava atrás de Vettel e ameaçava o segundo colocado a todo instante.
Não entendeu o que tinha acontecido exatamente, mas a imagem era do carro de com rodando e com pneu furado. Era apenas a volta dezesseis, das setenta e oito do circuito, mas a corrida havia acabado para ele. Os três primeiros trocaram os pneus e conseguiu sair na frente de Bottas, ocupando a segunda posição. tinha gostado de ver, mas entendia que isso seria ainda mais pressão para .
- , venha para os boxes. - ouviu no rádio e confirmou.
Com a entrada do Safety Car na pista, era hora de alterar a estratégia e aproveitar para trocar os pneus, como praticamente todos os pilotos estavam fazendo. foi avisado que estava em segundo, mas que tinha uma punição de cinco segundos por saída perigosa dos boxes. Aquela era sua chance de se esforçar ainda mais e quem sabe terminar a corrida na frente do companheiro de equipe.
passou a ocupar o quinto lugar quando o piloto a sua frente fez sua parada. Era um bom resultado, mas ainda faltavam 49 voltas e nada estava garantido.
Se tinha achado o começo da corrida tranquilo, ela já havia mudado de opinião. Os primeiros pilotos mantinham o trabalho, mas entre os dez últimos a disputa era constante. Um piloto havia encostado em outro e tomado punição de dez segundos. Pouco depois dois outros pilotos se envolveram num incidente na saída do “Grande Hotel”.
Quando parecia que a corrida tinha se acalmado a disputa intensa entre os dois primeiros recomeçou. estava mais veloz que Hamilton, chegando até mesmo a tocar no carro dele. Mas ele se defendeu e manteve a liderança.
Com uma boa distância para o piloto que estava atrás dele, foi chamado aos boxes para uma nova troca de pneus, com a estratégia de tentar tirar o tempo mais rápido da prova. E foi o que ele fez, na volta sessenta e oito. Estava feliz por garantir pelo menos mais um ponto. Manteve um bom ritmo, mas não o suficiente para ganhar outra posição e cruzou a linha de chegada em quinto lugar, apenas um lugar atrás de após sua punição.
relaxou o corpo no assento ao final da competição. Estava exausta de torcer e nem imaginava como os pilotos estariam após mais de uma hora e quarenta de prova. Tinha achado o treino classificatório mais interessante do que a corrida no final das contas, mas a experiência toda tinha sido interessante. Estava ansiosa para encontrar depois da corrida, esperava que ele estivesse feliz com o resultado. Ela entendia que não era o ideal, mas cinco de vinte ainda era muito bom na cabeça dela.

🔸🔹

- Você tem certeza que vai encarar a viagem de volta hoje ainda? - estava deitado na cama dela, enquanto ela guardava as coisas de volta em sua mochila.
- Claro que sim, eu trabalho amanhã cedo. - o olhou e ele parecia prestes a dormir ali mesmo.
Tinham conversado um pouco sobre a corrida mais cedo. Apesar de não estar totalmente satisfeito com o resultado, tinha gostado de ouvir os comentários positivos e entusiasmados de . Ela tinha admitido que corridas não eram de todo ruim no final e não tinha descartado a possibilidade de ir a alguma outra no futuro.
- Anda, desce comigo antes que você durma aqui. - ela o cutucou na barriga e ele se levantou.
- Me avisa quando você chegar em casa. - estava um pouco preocupado.
- Você já vai estar capotado, nem vai ver minha mensagem.
- Mas eu vejo quando eu acordar e vou saber que você chegou bem.
- Eu não estou cansada como você, eu vou chegar bem. - garantiu, mas pela feição dele, ainda esperava que ela concordasse com ele.
- Sério, . Ninguém sabe que você estava aqui, se acontecer alguma coisa… - não sabia porque estava com aquele receio.
- Tudo bem, . Se vai te deixar tranquilo, eu te mando uma mensagem quando chegar. - negou com a cabeça, pensando que não tinha dado satisfação nem para os pais no final de semana e daria a ele.
- Aonde você está indo? - ele perguntou vendo-a ir em direção à recepção.
- Fazer o checkout. - ele correu até ela e pegou o cartão magnético da mão dela.
- Nada disso, eu ia organizar tudo. Lembra?
- Eu não preciso que você pague para mim, . - rebateu.
- Ah, eu tenho plena consciência disso. Mas de qualquer forma já está pago, então você pode desemburrar e deixar isso para lá. – pela expressão dela ele sabia que ela não concordava, mas ela sabia que não adiantaria brigar.
Seguiram para o lado de fora e o manobrista apareceu com o seu carro. abriu a porta de trás, colocando sua mochila lá.
- Obrigada pelo final de semana, . - enfatizou o nome dele e o abraçou com gratidão.
Ele pôde sentir isso. Talvez em todos aqueles anos aquele fosse o abraço mais verdadeiro trocado por eles.
- Não há de quê, Leblanc. - retribuiu da mesma forma.
- Do que você está rindo?
- Depois de um final de semana na companhia um do outro você me chama pelo meu nome completo. Achei que agora éramos amigos.
- Ah, para! - ela o empurrou de leve. - Foi com todo amor do mundo que falei seu nome completo.
Abriu a porta do motorista, pegou o celular no bolso da calça e estava colocando o destino no gps quando recebeu uma mensagem de . Pensou que podia ser algo relacionado aos pais estarem atrás dela, mas acabou fazendo uma careta quando viu que era sobre o par no casamento.
- Está tudo bem? - perguntou, preocupado pela feição de desagrado dela.
- Está sim. - respirou fundo, fechando o aplicativo de mensagens. - É só uma amiga querendo me apresentar possíveis homens para serem meu par no casamento dela, já que agora sou uma madrinha sem acompanhante. - explicou.
- Eu posso te acompanhar. - disse num impulso, pegando não só ela como ele mesmo de surpresa. - Se você quiser, é claro. - acrescentou.
- Você faria isso? - estava surpresa pela oferta dele, mas parte dela se sentia confortável se ele de fato a acompanhasse, pois eles se conheciam e tinham se dado bem durante aquela semana.
- Se eu não tiver corrida, sim. - confirmou. - Quando é?
- No próximo sábado. – respondeu, derrotada, sabia que estava em cima da hora.
- Estarei em Marselha então. - não acreditou no que ouvira.
- Mesmo? - confirmou com a cabeça e ela o abraçou novamente, por impulso. – Ai, meu Deus! Muito obrigada, ! De verdade! - estava aliviada, não queria ser apresentada para nenhum amigo de ou de Leon. - Fico te devendo essa.
- Talvez eu cobre algum dia. - deu uma piscadinha com o olho direito. - Agora vai logo ou vai chegar em casa só amanhã.
Ela entrou no carro, colocou o cinto de segurança e abriu a janela.
- Obrigada. - repetiu com um sorriso sincero.
- Boa viagem! - desejou e assim que o carro dela virou a esquina ele entrou de volta no hotel. Precisava de algumas horas de sono.
- Quem é a garota? - Grosjean puxou assunto ao cruzar com no lobby.
- Ahn? - não imaginou que Grosjean tivesse visto .
- A garota que você acabou de se despedir. - sorriu tímido.
- Uma amiga.
- Com esse sorriso no seu rosto, diria que não é só isso. - Grosjean deu um tapinha no ombro do mais novo e seguiu seu caminho.
entrou no elevador e ao olhar no espelho constatou que tinha mesmo um sorriso bobo no rosto. Sabia que tinha a ver com , mas seu cérebro estava cansado demais para analisar qualquer coisa naquele momento. E foi assim que ao entrar no quarto, tirou os tênis, se jogou na cama e dormiu instantaneamente.


¹Paddock: edificação encontrada nos circuitos de automobilismo para abrigar o pessoal das equipes, veículos, oficiais de provas e convidados. (Foto)
²Motorhome: é como uma casa sobre rodas, uma estrutura completa que serve todos da equipe. (Foto)
³Q1, Q2 e Q3: são as três partes do treino classificatório, em que os pilotos tentam obter o melhor resultado possível e que define o grid de largada. (Vídeo)



Trois

— Está tudo bem, ? — questionou ao ser abraçada pela melhor amiga. — Fiquei preocupada com você, pela forma que falou ao telefone.
— Está tudo bem. — Garantiu se sentindo boba por ter se afetado tanto na sede da empresa mais cedo.
— Você já tinha me dado o bolo e voltou atrás. Me conta o que aconteceu. — a guiou para a mesa no jardim do fundo da casa, onde duas taças de vinho as esperavam.
— Você está bebendo em plena terça-feira, ?
— Eu estou muito ansiosa com o casamento, eu preciso beber para me acalmar. — Justificou, entregando uma taça para . — Mas pare de me enrolar e me conte o que foi que te abalou. — abriu a boca para negar, mas foi mais rápida. — Nem tente fingir que não, eu te conheço a tempo demais para saber pelo seu tom de voz que algo aconteceu.
— Por que é que eu vim para cá mesmo? — fez drama.
— Porque você me ama muito. Agora anda! — Falou, séria, bebendo um gole de sua taça.
— Me convocaram para uma reunião lá na empresa hoje. No escritório mesmo, na sede. — assentiu. — Eu já esperava que fosse uma reunião apenas para checar o andamento, afinal a data de entrega está chegando e no final de mês sempre temos que enviar os relatórios da obra. Mas adivinha. — Carregou a última frase com ironia.
— Amiga, você sabe que eu sou médica, não engenheira. Não faço ideia do que seu chefe poderia querer com você. — E então uma ideia a ocorreu. — Ele não deu em cima de você, não é? Por que se ele tiver feito isso eu juro que. — a interrompeu.
— Não, não. Não foi nada disso. — Garantiu. — Eu estava na sala de reuniões, esperando o Riquelme aparecer e o Thierry entrou na sala.
— E o que é que ele foi fazer lá? Ele não está cuidando da construção de um shopping em outra cidade? — assentiu.
— Eu não tive nem tempo de perguntar, provavelmente nem perguntaria, não queria nem ouvir a voz dele. Mas o Riquelme apareceu logo em seguida, confirmando que a reunião era para acompanhar a obra, comparando com o planejamento do Thierry! — Aimeé falou com raiva, como se fosse o maior absurdo do mundo, mas não entendeu o motivo. — Ele não precisava estar lá, eu podia muito bem mostrar por mim mesma, até porque em algumas frentes de serviço eu consegui estar à frente do planejado. Se eles não confiavam que eu ia conseguir, não precisavam ter me colocado nesse cargo.
— Ei, ei! — a cortou, ela estava falando sem parar. — Calma aí. De onde você tirou que eles não confiavam que você conseguiria?
— A forma como ele falou, ! Foi como se eu não conseguisse manter a obra em ordem! — Continuou usando seu tom de indignação. — Como se precisasse da supervisão do Thierry ou se não fosse capaz por ser mulher!
, você não acha que interpretou mal? — que lavava a taça à boca, parou com a mesma no meio do caminho.
— Não me diga que vai defendê-lo.
! Me escuta! — Pediu, segurando a mão da amiga que estava sobre a mesa. — Eu não estou defendendo ninguém, muito menos o Thierry. Ele foi ridículo com você e nada vai mudar minha opinião sobre isso. Eu só acho que talvez você tenha interpretado erroneamente o fato de Riquelme tê-lo chamado. — Ponderou. — Riquelme sempre te tratou lá dentro como uma filha, sempre que pode te deu um cargo melhor lá, não imagino ele duvidando da sua capacidade assim.
passou a mão livre da taça pelo rosto. Ouvindo as palavras da amiga, conseguia enxergar aquela reunião de outra perspectiva e poderia ter razão.
— Talvez a intenção dele fosse só se prevenir. Caso algo não estivesse saindo como o planejado, ter alguém que pudesse ajudar a resolver a situação, já que aquela era a obra do Thierry.
— Deve ser por isso que a maioria das empresas tem uma política que não permite relacionamento entre os funcionários. — Falou com a voz sofrida.
— Você não esperava o Thierry lá e isso te deixou na defensiva. Você ainda está magoada com ele e eu acho que pode ter assumido que tudo era contra você porque ele colocou essa questão no término de vocês. Ele usou essa obra e esse cargo como desculpa para o fim do namoro.
— É provável que você esteja certa. — Confessou. — Não queria admitir, mas vê-lo lá me desestabilizou.
— E está tudo bem, . Ainda é algo recente e você ainda está se adaptando. Com exceção da sua mãe, ninguém espera que você supere isso da noite para o dia. — achava incrível o talento da amiga com as palavras, se sentia tão reconfortada naquele momento que sabia que tinha feito a escolha certa em ir para lá.
O tempo começou a fechar e um vento frio fez com que as duas fossem para o lado de dentro da casa. Com as taças novamente cheias e abrigadas pelo sofá super aconchegante de , estava mais relaxada e a amiga achou propício para trazer um novo assunto à tona.
— E então? Vai me contar aonde se escondeu no final de semana ou vou continuar sem saber o porquê te acobertei?
— É segredo. — Disse, bebendo mais um pouco do vinho.
— Você nunca me deixou tão curiosa em toda a vida, . Pena que não posso te odiar. — As duas riram. — Eu vigiei seus stories o final de semana todo, esperando uma foto que fosse, qualquer coisa e nada.
, se fosse para você saber eu mesma teria contado. — não tinha motivos para não contar à amiga, mas tinha sido bom ter aquilo só para ela num momento de turbulência e ela queria guardar aquela sensação.
— Só não vou insistir nisso porque ainda precisamos falar sobre minha mensagem que você ignorou.
— Eu não ignorei. — Se defendeu, mas se lembrou em seguida da mensagem sobre o par para o casamento.
— Eu andei pensando em quais convidados seriam uma boa companhia para você, tem alguns amigos do Leon também que são bem legais e estão solteiros.
— Obrigada, mas não precisa.
— Você não vai entrar sozinha, amiga. E não tem a opção de você não ser minha madrinha! — cruzou os braços, deixando claro que aquilo não estava aberto para negociação.
— Claro que não vou deixar você, ficou louca? — a tranquilizou. — Eu arrumei um par, pode ficar tranquila e se preocupar com outras coisas para o seu grande dia.
— Arrumou? — A amiga a olhou, desconfiada. — Quem?
— É segredo. — repetiu apenas para deixá-la curiosa.
— Você sabe que preciso do nome dele para colocá-lo na lista de convidados.
— É o . — Contou.
— Quem é ? — vasculhou na memória.
— O , . — Explicou.
— O piloto? — Leon questionou assustando as duas que nem mesmo tinham percebido que ele tinha chegado do trabalho.
— O próprio. — confirmou.
— O filho da sua madrinha? — questionou confusa e voltou a confirmar. — Achei que vocês não se falavam. Pelo menos nos seus aniversários ele sempre estava com o grupo que você chamava de “chatos das corridas”. — riu por a amiga lembrar disso.
— Caramba, vai ter um piloto da Fórmula 1 no nosso casamento. — Beijou os lábios da noiva. — , você já tem um lugar especial no meu coração. — Falou e seguiu para o segundo andar, deixando as duas às sós novamente.
— Espera aí! — ligou os pontos. — Foi com ele que você passou o final de semana? — A empolgação tomando conta da expressão dela ao confirmar pela falta de resposta da engenheira. — Meu Deus, ! — Levou as mãos à boca, incrédula.
— Ah, para de exagero! Não foi nada do que você está pensando. — Se defendeu imaginando o que passava pela cabeça dela.
— Você foi a uma corrida com ele? — Perguntou, olhando algo no celular.
— Me dá isso aqui. — Tentou puxar o aparelho, com medo de ter postado alguma foto em que ela aparecia, mas era só ele na corrida.
Leblanc se rendeu e foi a uma corrida de Fórmula 1. Quem diria. — negava com a cabeça, mas estava sorrindo. — Vai me contar ou posso deixar minha imaginação fluir? Porque olha, ele é bem bonitinho. Está bem melhor do que eu me lembrava.
— Para com isso, ! — pediu, se sentindo um pouco envergonhada. — Não aconteceu nada, ok? Sim, eu fui a uma corrida, mas foi só isso.
Apesar de toda a curiosidade, sabia que a amiga tinha o próprio tempo e que pressioná-la não costumava levar a lugar nenhum.
— E ele simplesmente soube do meu casamento e quis vir?
— Acabei comentando com ele quando você mandou a mensagem sobre possíveis acompanhantes para mim e ele se ofereceu. — Deu de ombros, mostrando que não era nada demais.
— Então agora vocês são amigos. — afirmou.
— Algo assim.
— E existe alguma chance de serem mais do que isso? — Seus olhos transbordavam curiosidade.
— Não, . Acabei de sair de um relacionamento. Não tenho nem cabeça para isso agora.
— Tem razão. Mas fico feliz que ele tenha colocado um sorriso no seu rosto. — voltou a sorrir pelo simples fato de se lembrar do final de semana.
— Foi aquela coisa que você não sabia que precisava até fazer, sabe? Não imaginei que precisava da experiência de sair de tudo por uns dias até fazer isso.
— Isso é muito bom. Você vai ficar brava se eu shippar vocês no meu casamento? — arriscou.
! — A amiga a censurou, mas ria.
— Você tem que tirar mesmo a graça de tudo? — Reclamou.
— Você não vai fazer nada! Esqueceu que meus pais vão ao seu casamento? A última coisa que preciso é minha mãe acreditando que somos um casal. Você sabe como ela acha que eu já estou passando da idade de casar. — Lembrou que a mãe tinha um casamento todo montado em sua cabeça.
— Ah, é verdade. Prometo me controlar então. — Falou, séria e decidiram deixar o assunto de lado quando Leon voltou a se juntar a elas.

🔸🔹

Junho de 2019

— Me explica uma coisa, por que é que você vai para Marselha de novo esse fim de semana? — O preparador físico de questionou quando finalizaram o percurso de corrida nas ruas de Milão.
— Vou para um casamento. — Contou, respirando pesadamente por causa do cansaço e olhou no relógio. — Inclusive, já deveria estar me arrumando para ir.
— Casamento de quem?
— Na verdade eu não conheço.
— Você precisa ir num casamento em que você nem conhece quem está casando? — Pyry riu da careta de . — Você nem gosta de casamentos.
— Pois é, quando vi já tinha me oferecido para acompanhar uma pessoa.
— Uma pessoa… sei. — Ele falou em tom de zoeira e apenas negou, destravando o próprio carro.
— Te vejo segunda. — Se despediu e foi para seu apartamento. Tinha menos de duas horas para estar no aeroporto ou perderia seu voo e se atrasaria para o casamento.

🔸🔹

estava na entrada do espaço onde seria o casamento e conferia a as horas no celular a cada dez segundos. Não tinha conseguido falar com desde cedo e agora estava morrendo de medo de não ter com quem entrar ou de entrar com qualquer um. Pegou uma taça com água de um garçom que estava próximo a ela e respirou fundo algumas vezes. Estava muito nervosa, não queria estragar o grande dia da amiga.
dirigia o mais rápido que podia pelas ruas de Marselha, entrando enfim no caminho de terra que levava para a área entre duas grandes vinícolas em que aconteceria o casamento. Tinha levado o seu melhor terno preto, tinha avisado que era assim que todos os padrinhos deveriam ir, e tinha colocado uma gravata azul que tinham dito a ele uma vez que realçava seus olhos. Estacionou na primeira vaga que encontrou e seguiu para a entrada.
acenou para os pais que já estavam sentados na parte dos convidados. Mabelle adorava casamentos e tinha insistido em irem mais cedo para pegar um bom lugar. Para evitar o falatório dela, a filha tinha conseguido escapar de todas as vezes que em ela perguntara sobre quem seria seu par, mas sabia que ela estava morrendo de curiosidade.
— Vamos, . Não faça isso comigo. — Murmurou passando as mãos pelo vestido, tentando se acalmar e então ele cruzou a entrada. — Finalmente. — Disse aliviada e o abraçou. — Minha vontade é de te bater por só chegar agora.
— Eu já te contei que não me dou bem com horário. — Ele riu.
— É, mas eu não achei que fosse tão sério assim.
— Desculpa. — pediu quando ela mostrou as mãos que ainda tremiam um pouco.
A cerimonialista os chamou, organizando-os em ordem na fila com os demais padrinhos.
— O que temos que fazer? Só fui padrinho nos casamentos dos meus irmãos, mas não precisei entrar com ninguém. — Perguntou baixo quando os músicos começaram a tocar e as pessoas foram se sentando para o início da cerimônia.
— É que a mãe da é brasileira e desde que ela viu o vídeo de casamento da mãe ela quis um casamento parecido. Lá os padrinhos entram em casais e a mãe dela também casou de dia ao ar livre. Mas só temos que entrar pelo corredor e nos sentar do lado oposto que o casal a nossa frente for. — Ele assentiu.
— A propósito, você está muito bonita. — Elogiou e ela nem teve tempo de responder, pois seriam os próximos a entrar.
— Deem as mãos. — A cerimonialista pediu, fazendo o gesto com as próprias mãos e segurou a mão direita de com a sua esquerda.
O corredor não era longo e eles andavam mantendo a distância do casal à frente deles. Ambos com um sorriso no rosto. se segurando para não rir da expressão de Leon no altar ao ver que era mesmo em seu casamento e por ver a expressão no rosto de Mabelle.
— Espera! Aquele é o ? Mas o quê? — estava surpreso e virou-se para a namorada como se ela tivesse as respostas. — Eu nem sabia que ele estava namorando. Ah, mas ele vai ouvir muito! — o piloto riu com gosto. — Ele não me escapa.
, silêncio! — Eloise pediu, tentando fazer com que o namorado ficasse quieto, mas ela também ria. — Eu sei que ela é uma das melhores amigas de infância da , mas da última vez que a vi o namorado era outro. — Contou.
— Bom que pelo menos tenho um conhecido na festa. — A namorada o olhou de lado. — Além de você, schat.
— Yohan, você viu aquilo? — Mabelle balançava o marido pelos ombros. — É o ! A está acompanhada do ! — os olhos da mulher brilhavam de empolgação e o marido sorria.
— Eu estou vendo, mon amour.
— Ele é um pouco novo para ela, não é? — questionou, mas nem esperou uma resposta. — Não importa! Será que Pascal já sabe?
— Mabelle, ele só a está acompanhando. terminou o namoro esses dias. Se eles estivessem juntos nós saberíamos. — Yohan tentou controlar a esposa, que só parou quando ouviu a marcha nupcial.
e estavam nos assentos do lado direito, o lado da noiva e ao ouvirem a música os dois se viraram para o corredor. A engenheira já sentia a emoção tomar conta de si e as lágrimas surgiram assim que viu em seu vestido de noiva, acompanhada do pai. Ela estava deslumbrante e radiante. sabia que casar sempre fora um sonho dela e estava muito feliz por ela e por Leon. Olhou para cima, evitando que as lágrimas caíssem e a confortou com um afago no ombro. Há um mês não sabia o quanto era emotiva.
Se assentaram e a cerimônia começou. não saberia dizer se realmente tinha passado rápido ou se era o fato de ela estar tão envolvida pelas palavras que não percebeu o tempo passar. Os noivos se beijaram no exato momento em que o sol se punha e os convidados se levantaram e aplaudiram o casal. Na mesma sequência, os casais de padrinhos saíram e os fotógrafos pediram que não fossem ainda para o salão, pois os noivos queriam fotos com eles ao ar livre.
Várias fotos foram tiradas até que fossem liberados, só dos padrinhos com Leon, só as madrinhas com , o inverso, todos os casais com os noivos em diversas poses. aproveitou a oportunidade para abraçar Leon e em seguida sua amiga, antes que ela tivesse que dar atenção a todos os outros convidados.
— Parabéns, amiga! Eu estou tão feliz por você! — Falou, sentindo os olhos marejados novamente.
— Não me faça chorar, ! — A médica segurava as lágrimas e as duas riram. — E que belo casal vocês fazem, hein? — Indicou com a cabeça, um pouco mais atrás. — Até combinaram gravata com seu lindo vestido azul hortênsia.
— Acredite, foi só coincidência. — informou.
— Eu não acredito em coincidências. — Rebateu.
— Então você é padrinho. — surgiu ao lado de com uma taça de cerveja, assustando-o.
— Você aqui! — Se cumprimentaram.
— A Eloise fez faculdade com a . — explicou e assentiu, cumprimentando a namorada do amigo em seguida. — Você escondeu de todo mundo que está namorando? Espertinho… — riu alto. — Sua paz acabou.
— Schat, deixa ele em paz. — Eloise tentava ser séria com ele.
— Nós não somos namorados. Nossos pais são amigos e eu só vim acompanhá-la porque o antigo par foi desconvidado. — Contou da forma que achou apropriada.
— Amor, esse é o melhor casamento da minha vida! — Leon interrompeu a esposa com a amiga. — e estão mesmo aqui! — Ele estava em êxtase.
— Que bom saber que você pensa isso por causa de pilotos da Fórmula 1 e não porque está se casando comigo. — Ela foi irônica, mas ele nem se importou.
Depois de conversar com os dois e falar várias vezes como era uma honra ter os pilotos em seu casamento, finalmente conseguiu levar o marido para a recepção e apresentou ao e a Eloise.
— Você sabia que ele estaria aqui? — cochichou com .
— Não fazia ideia, levei um susto. — Confessou. — E sua mãe está acenando insistentemente, nos chamando para a mesa dela.
— Mal posso esperar pelos mil comentários que ela fará sobre nós. E sim, não lembrei que ela e meu pai viriam quando aceitei você como par.
— Relaxa e curte a festa da sua amiga, . Eu levo o para a mesa também e teremos assunto com seu pai por muito tempo.
— Que animador. — Ela disse totalmente irônica e ele riu alto, fazendo com que ela risse também.
, Eloise, venham se sentar com a gente. — os convidou e os quatro seguiram para a mesa de Mabelle e Yohan.

Pela primeira vez não se importou que o assunto na mesa por quase duas horas fosse corrida, pois isso impedia os comentários sobre ela e . , por sua vez, estava adorando contar toda a sua trajetória desde que começara a correr com quatro anos e meio e Yohan estava dando bastante corda a ele. Eloise estava conversando com outra médica e apesar de não estar incluída em nenhum assunto, a engenheira estava bem.
Somente quando a janta foi servida é que o assunto passou a ser o casamento, comentaram da cerimônia e da decoração e de como a comida estava deliciosa. E o temido momento enfim havia chegado.
— A minha parte favorita foi vocês entrando juntos. — Mabelle tinha um sorriso largo de satisfação no rosto. — Formam um casal tão lindo, não é, Yohan? — Cutucou o marido que pela expressão não queria responder aquilo.
— Eu concordo. — se intrometeu e Eloise o olhou séria. — Tirando nós dois e os noivos, eles foram o casal mais bonito daqui.
— Eu concordo. — Ela reforçou, como se sua opinião ainda não estivesse clara.
— Querida, eu acho que podíamos ir embora. Estou cansado. — Yohan sugeriu, dando uma piscada discreta para a filha.
— A não vai querer ir ainda. — Mabelle ponderou, mas Yohan se levantou, mostrando que realmente queria ir para casa.
— Eu a deixo em casa depois. — ofereceu, sem considerar que aquilo empolgaria ainda mais a mais velha. — Eu estou de carro.
— Você não vai beber?
— Eu não bebo quando estou dirigindo, Mabelle. Pode ficar tranquila.
— Ai! — colocou as mãos no peito. — É o genro que eu pedi a Deus! — fez uma careta de sofrimento enquanto gargalhava alto.
— Parabéns, cara. Já conquistou a sogra! — apertou o ombro do amigo, ainda com um sorriso enorme no rosto.
— Já chega, ! Deixe-os em paz! Vamos dançar. — Eloise o puxou para a pista de dança.
— Vocês vêm? — o piloto falou um pouco mais alto.
— Daqui a pouco. — gritou e quando estavam apenas os dois na mesa, escondeu o rosto nas mãos. — Me desculpe mesmo pela minha mãe.
— Relaxa, . Eu tenho um exemplar parecido lá em casa. Minha mãe já me colocou em tanta situação constrangedora…
— Deve ser por isso que elas são amigas. — se levantou. — Você falou sério sobre me deixar em casa? — ele assentiu. — Então eu vou beber. — Ela andou em direção ao quiosque de drinks e a acompanhou.
— Vodka? — Ele estranhou quando ela recebeu dois copos com bebidas cor de rosa.
— Com morango. — Sorriu ao beber um gole pelo canudinho e ofereceu a ele, que negou. — Não imaginou que eu bebesse outras coisas, né?
— Honestamente, não. — Confessou e riu.
— Uma dama só deve beber com classe, champanhe ou vinho. — Imitou o tom de voz da mãe e riu.
— Você é adulta, . Nem mora com eles mais. — Era estranho que ela desse satisfação a eles.
— Eu sei, mas algumas discussões não valem a dor de cabeça, sabe. — Ele concordou. — Agora vamos dançar, pois seu amigo tem cara de ser um péssimo dançarino e vai ser minha vez de zoar com a cara dele.

constatou que estava certa e tinha o corpo duro para dançar e pôde zoá-lo algumas vezes, o que se tornou ainda mais divertido porque ele não achava tanta graça quando ele era o alvo das brincadeiras.
Depois de uma série de músicas mais agitadas e divertidas, Perfect Symphony de Ed Sheeran com Andrea Bocelli começou a tocar e uma luz colocou o casal de noivos em foco no centro da pista de dança. Leon e dançaram apaixonadamente e foram aplaudidos. Quase no final da música outros casais se juntaram e começaram a dançar, incluindo e Eloise, e estendeu a mão, num convite mudo, que foi aceito por , embora um pouco receosa.
colocou os braços em volta do pescoço de , sentindo o toque firme e ao mesmo tempo cauteloso dele em sua cintura. Estarem tão próximos assim a deixava um pouco nervosa, nem mesmo se lembrava da última vez que dançara uma música lenta com alguém.
I’ll be do Edwin McCain começou em seguida e procurou a amiga com os olhos, ela era a única que sabia o quanto adorava aquela música e não acreditava em ser só coincidência, mas e Leon estavam tão conectados que ela deixou quieto e apenas aproveitou a dança.
nem mesmo era um bom dançarino e não entendia porque vinha agindo tanto por impulso na presença de . Com os braços dela em volta de seu pescoço, sentia ainda mais o perfume dela e a sensação de que aquilo era simplesmente certo o assustava um pouco.
conduzia Eloise até ter o olhar de em si e então juntou os lábios, indicando que o amigo deveria logo beijar , mas ele negou sutilmente coma cabeça e evitou olhar novamente na direção de . Assim que a música acabou os casais se separaram e então uma música animada e diferente começou a tocar.
— Vem, ! — apareceu, puxando a amiga e suas primas brasileiras.
— Não, ! — A engenheira negou, reconhecendo um dos funks que a noiva adorava dançar.
Mas não desistiu e logo as cinco garotas dançavam uma coreografia que ninguém, além delas, parecia conhecer. conseguiu escapar antes mesmo do primeiro refrão, era tímida demais para tanto público.
— Que música é essa? — perguntou, balançando a cabeça no ritmo da música.
— Não sei o nome, é um estilo brasileiro que a adora dançar e me ensinou uma vez.
— E mexe o bumbum desse tanto mesmo? — Ele parecia impressionado e Eloise deu um beliscão no braço dele.
— Daí para mais. — fez careta, arregalou os olhos e ria dos dois.
— Acho que é hora de irmos embora. — Eloise entrelaçou os dedos aos do namorado. — Daqui a pouco você vai querer dançar isso e é melhor evitarmos uma tragédia. — Ela zoou e os quatro riram.
e Eloise se despediram e e continuaram na pista de dança, o funk tinha acabado e os grupinhos voltaram a se juntar e dançar. estava com os olhos fechados e dançava com os braços para cima quando um rapaz um pouco bêbado tropeçou e a empurrou sem querer, fazendo-a se desequilibrar e ser segurada por .
levantou o rosto e seu olhar imediatamente se conectou ao dele e por alguns instantes era como se não houvesse ninguém ali além deles, como se pudessem ler um ao outro. sentia seu coração bater depressa, a respiração dela batendo em seu rosto, suas mãos ainda segurando os braços dela.
levou a mão direita até o rosto de , colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha. Desceu a mão até a nuca dela e então, mais uma vez por impulso, uniu seus lábios aos dela. E foi como se todo o seu interior se aquecesse e a sensação de que aquilo era simplesmente certo voltou a tomar conta dele.
fechou os olhos e retribuiu o beijo, ignorando completamente a parte do seu cérebro que gritava que aquilo não deveria acontecer. Assim como tudo que tinha acontecido com eles desde a recente aproximação, o beijo era leve e inesperado, mas trouxe consigo um misto de sensações que a deixou confusa.
— Eu… acho que já podemos ir embora. — Ela disse um pouco sem graça, ao finalizarem o beijo.
— Tudo bem. — Sorriu e a acompanhou até os noivos para se despedirem.

A maior parte do trajeto foi feito em silêncio, a não ser pela música que tocava no rádio. até havia tentado iniciar um assunto ou dois, mas não tinha dado continuidade. Ela ainda estava absorvendo o que tinha acontecido e tentava encontrar respostas para todas as perguntas que rondavam sua mente.

🔸🔹

tinha dormido até tarde e sem vontade para cozinhar algo novo, pegou um prato pronto no congelador e colocou-o no micro-ondas. Deitou-se no sofá e em menos de dois minutos todos os questionamentos sobre a noite anterior voltaram a ocupar sua cabeça. Ela precisava falar com alguém e sabia que a única pessoa com quem conseguiria se abrir era .

, eu sei que você está em sua lua de mel, mas quando não estiver ocupada com o Leon, me mande uma mensagem ou me ligue. Preciso de seus conselhos.”

Suspirou e rolou os contatos, abrindo a conversa com . Viu que ele estava online e resolveu mandar uma mensagem, deixando claro que estava tudo bem entre eles.


Online

Bom dia! Obrigada mais uma vez por ter me acompanhado ontem!

Bom dia!? Já são três da tarde! 😂

Foi um prazer.

Ainda não almocei, então é bom dia sim.

Acordou agora?

Deve ter uma meia hora…

O que está fazendo?

Arrumando minhas coisas, volto para Milão daqui a pouco.

E você?

Esperando o micro-ondas fazer meu almoço 😅

Ah, acho que você precisa saber de uma coisa…

Que coisa? 👀

Sua mãe ligou aqui e falou para minha mãe tudo o que ela falou ontem na festa.

Ai, não! 🤦🏻‍♀‍🤦🏻‍♀‍

Não se espante se sua mãe estiver planejando o seu casamento, porque a conversa entre elas foi desse nível. 😬

Ainda bem que você está indo para casa então! Haha

Tem corrida essa semana?‍

Tenho sim, em Montreal.

Já está com saudade das pistas?

Nos seus sonhos! Hahaha

Preciso terminar aqui ou vou perder meu voo!

Bom almoço!

Sempre atrasado… 🤦🏻‍♀‍

Obrigada!

Boa viagem!



estava indo para cozinha buscar o prato quando o telefone tocou e a imagem de apareceu na tela. Deslizou o dedo, desbloqueando o aparelho e ajeitando o cabelo, pois era uma chamada de vídeo.
— Eu disse para você me ligar quando não estivesse ocupada e você me liga no primeiro dia da lua de mel? — riu, mas a amiga deu de ombros.
— Primeiro, Leon está desmaiado na cama. — Alternou a câmera, mostrando o rapaz dormindo. — Segundo que se você quer ouvir algum conselho meu, quer dizer que alguma coisa aconteceu, então… — Fechou a porta da sacada e se sentou em uma das cadeiras dali. — Sou toda ouvidos. O que aconteceu?
— Eu beijei o . — Falou de uma só vez, escondendo parte do rosto com a mão livre.
— Você o quê? — quase engasgou com o suco que bebia. — Você beijou o ?
— Não eu! — Devolveu no mesmo tom. — Nos beijamos ontem na sua festa. Não sei quem beijou quem, só aconteceu.
— Não acredito que eu perdi isso!
! — A engenheira riu da falta de foco da outra.
— Ok, ok. E precisa de conselho para o quê? Vocês foram embora juntos, não foram? — arregalou os olhos e gemeu.
— Para de pensar besteira! Ele só me trouxe em casa. Foi literalmente só um beijo lá no seu casamento.
— E qual o problema, amiga?
— O problema é que eu não senti nada e eu nem sei se deveria sentir.
— O que você acha que deveria sentir?
— Culpa, talvez. — Suspirou novamente. — Eu nem lembrei que Thierry existia. Nós terminamos há menos de um mês e eu beijei outra pessoa e isso não me incomodou. Isso é… errado.
— Disse quem? — não estava mais brincando.
— Sei lá. Ninguém esquece alguém de um dia para o outro.
— Primeiro que já tem quase um mês e outra, tempo é relativo e não quer dizer nada. Você não tem que sentir culpa se fez algo que você estava com vontade. Até porque, se você fosse homem ninguém estava nem aí, então você também não tem motivos para estar. — assentiu. — E outra, isso é uma característica sua, quando você é magoada, essa mágoa apaga os sentimentos bons que você já teve por alguém. Não digo só pelo Thierry, mas te conheço há muito tempo e você é assim. Não me admiraria se você tivesse esquecido ele com uma semana. — As duas riram.
— E era por isso que eu precisava falar com você. — disse, aliviada.
— Mas me conta, não sentiu nadinha beijando o ?
— Talvez tenha sentido, mas a confusão tomou conta de tudo.
— Mas foi bom? Por favor, não me deixe curiosa! — riu do desespero da amiga e confirmou com um aceno. — E quando vão se ver de novo?
— Não tenho nem ideia. — Foi sincera.
— Espero que logo! — Piscou apaixonadamente, apenas para irritar. — Leon acordou, eu preciso ir. Me mantenha informada!
— Pode deixar! Aproveite a Grécia por mim!



Quatre

— P5, . P5. — O piloto foi informado pelo rádio com o encerramento do Q3 e imediatamente se lembrou de dizendo que cinco de vinte era bom.
Deixou o carro com um sorriso, largar em quinto lhe dava oportunidades de criar uma boa estratégia para o dia seguinte. Acreditava que não seria difícil uma ultrapassagem sobre Ricciardo, que largaria em quarto, e o peso em seus ombros também era menor com seu companheiro largando em décimo primeiro.
Tirou as luvas, capacete e a balaclava e foi se trocar. tinha dito que não conseguiria assistir a qualificação e ele tinha dito que contaria para ela como tinha sido quando acabasse. Estava deixando a motorhome da RBR quando esbarrou em , não esperava que ele ainda estivesse ali.
— Foi mal, não vi você. — balançou o celular na mão esquerda.
— Está conversando com a namorada, né? Eu te perdoo. — tinha um sorriso zombeteiro.
— Ela não é minha namorada. — rolou os olhos. — Você não tinha que… sei lá, estar grilado com a qualificação e nem querer olhar na minha cara?
— Ah, eu estou. — confirmou. — E isso faz eu me sentir bem melhor. Mas me diz, por que não quer assumir o namoro?
— Quem não quer assumir namoro? — estava passando em frente à motorhome naquele momento e parou entre os dois pilotos.
— O . — respondeu, como se achasse tal atitude deplorável.
— Você está namorando? — questionou o amigo, surpreso.
— Não! — voltou a dizer. — O que está me irritando para se sentir melhor depois da qualificação ruim dele.
— Foi culpa do Magnussen e todo mundo sabe. — Deu de ombros. — Olha aí, está trocando a gente para falar com ela, e não quer assumir o namoro. — Provocou por estar digitando uma mensagem.
— Quem é a garota? — perguntou interessado, quase não tinham tempo de conversar sobre outros assuntos.
— A , afilhada dos meus pais. — Explicou e se lembrou da garota que estava sempre presente na casa dos pais de .
— Achei que vocês não se falavam direito.
— Ah, mas se falam sim e fazem outras coisas também que eu vi. — voltou a falar, rindo quando ficou sério.
— O que você viu? — Perguntou, cauteloso, prevendo a resposta que não queria receber.
— Vocês dois se beijando na festa. — abriu a boca. — É, eu ainda demorei um pouco a ir embora e vi vocês na pista de dança. Já estava achando que a noite ia acabar no zero a zero.
— Nunca imaginei que vocês tinham coisas em comum. — tentava imaginar os dois juntos, embora não visse há alguns anos.
— Pois é. — Coçou a nuca em sinal de desconforto. — Mas o está exagerando.
— Continue se iludindo. — deu dois tapinhas nas costas do companheiro e de equipe e se despediu, deixando os dois.
— E então? Não está mesmo namorando? — soltou enquanto caminhavam para a saída.
— Não. Eu te contaria se estivesse. — sempre era totalmente honesto com o amigo. — Você se lembra como era, nunca tivemos muito em comum mesmo até que começamos a conversar e resolvemos conhecer melhor um ao outro. Digo, eu conheci o trabalho dela e ela assistiu o GP de Mônaco e então agora nós somos amigos.
— Amigos? Você tem certeza? — O monegasco podia estar enganado, mas pelas expressões de , ele arriscaria dizer que poderia ser algo a mais.
— Sim, amigos. — Confirmou.
— E não rolou nenhuma outra coisa?
— Só o beijo que o viu no casamento. Mas não foi algo planejado, só aconteceu.
— Que casamento foi esse que pelo visto só eu não fui convidado.
— Da melhor amiga da , que por acaso é médica e estudou com a Eloise.
— Ué, mas você não estava em Milão?
— Estava, fui para Marselha só para acompanhá-la no casamento mesmo, porque ela ia com o namorado que agora é ex. — tinha um sorriso discreto e o conhecia bem demais para saber que ele estava se segurando para dizer algo. — Fala.
— É que você fala dela de uma forma diferente, nunca vi você falar assim de uma amiga e menos ainda beijar uma amiga. — Pontuou e foi o suficiente para que se questionasse se ele não estava sendo honesto nem consigo mesmo.
— Não é como se eu tivesse muitas amigas. — Ele riu. — Geralmente eu fico, começo a namorar e vou ficando amigo depois.
— Pois é, e já tem um tempo que você não se envolve romanticamente com alguém.
— Com tudo que está acontecendo comigo na RBR meu foco precisa ser minha carreira.
— E ainda sim você arranjou tempo para voar até Marselha para ir a um casamento com ela. — pontuou, deixando o amigo mais pensativo ainda.

🔸🔹

podia sentir pelo tom das mensagens trocadas no dia anterior que estava mais feliz e mais confiante do que na corrida anterior, estava torcendo para que ele realmente se saísse bem, sabia que a vida dele era literalmente aquilo e assim como ela adorava ser uma engenheira bem sucedida, desejava o mesmo a ele.
Estava com o notebook aberto na mesa de jantar, precisava finalizar o projeto de um sobrado de um cliente para enviar no dia seguinte, mas da terceira vez que se desconcentrou por pensar na corrida, carregou o aparelho consigo para o sofá e ligou a televisão no canal esportivo. A largada seria em breve e ela esperou que depois do início a corrida ficasse monótona o suficiente para que ela conseguisse trabalhar.
se sentia bem dentro do carro durante a volta de apresentação, a estratégia clara em sua mente. Acompanhou as luzes vermelhas acendendo uma a uma e pisou fundo quando as mesmas se apagaram, dando início à corrida. Tinha sido uma largada normal e ao final da primeira volta, ele, assim como todos a sua frente, ocupavam exatamente as mesmas posições.
já estava feliz por ter outro piloto em primeiro lugar, se não fosse , que fosse pelo menos algum diferente do último grande prêmio. A ideia de voltar para o trabalho depois da largada foi abandonada, quando viu indo para os boxes na volta 9, no começo da corrida.
— Ah não! — Reclamou ao vê-lo voltar na décima terceira posição, mas voltou a relaxar ao ver que ele já havia ganhado uma posição e que já ameaçava mais um piloto.
Na décima sexta volta estava em nono lugar e estava sentada na beirada do sofá, como fazia assistindo as partidas de futebol, sempre nervosa demais para assistir como uma pessoa normal.
começava a ficar frustrado consigo mesmo por não conseguir tirar o máximo do carro. Estava a bastante tempo em oitavo e para completar, tinha retornado dos boxes na frente dele e pouco tempo depois já tinha ultrapassado Hulkenberg e sumido de sua vista.
— Isso é um absurdo! — reclamava novamente com a televisão. — Porque o Vettel está sendo penalizado? Ele não fez nada demais! Agora o Hamilton vai ganhar de novo! — Soltou o corpo no sofá. — Rá! Bem feito! — Riu quando o alemão carregou a placa de primeiro lugar em frente ao próprio carro.
Desligou a televisão antes da premiação, já tinha perdido tempo demais em que deveria estar trabalhando e nem era que estaria no pódio. Se pegou imaginando que ele deveria estar ainda mais frustrado do que na semana anterior, já que estava três posições abaixo em relação a ela.
— Por que você tem que ficar tão na frente dele, hein ? — Lembrou que a pressão adicional vinha disso. — Chega de enrolar.
Pegou o computador e levou-o de volta para mesa de jantar. Pegou um pacote de biscoitos no armário e um copo com água. Só se levantaria dali quando terminasse o projeto.
Ainda estava ajustando alguns detalhes no trabalho e só percebeu que quase três horas haviam se passado, pois o celular tinha vibrado e acendido a tela, mostrando uma notificação. Era uma mensagem de .


Online

Oi. O que está fazendo?

Oi.

E enviou uma foto do projeto ainda no Autocad.


Online

Oi. O que está fazendo?

Oi.

Trabalhando domingo?

Você não é o único.

Posso te ligar?



estava sentado na cama do hotel, emocionalmente exausto daquele dia. Tinha se esforçado tanto e não tinha sido suficiente, de novo. Seu cérebro ansiava por uma distração e foi a primeira a ocupar os pensamentos dele. Parte dele acreditava que era o fato de ela não estar inserida daquele universo, a outra parte considerava as palavras de do dia anterior.


Online

Oi. O que está fazendo?

Oi.

Trabalhando domingo?

Você não é o único.

Posso te ligar?

Pode.



se surpreendeu, no entanto, ao perceber que era uma chamada de vídeo. Passou as mãos pelo cabelo, pois não fazia ideia de como estava e atendeu a ligação.
— Hey! Está tudo bem? — A única pessoa que a ligava por vídeo era .
— Está sim. — Mas já tinha percebido, tanto pela expressão, quanto pelo tom de voz que não estava realmente bem. — Você viu a corrida? — A engenheira tentou disfarçar, mas acabou rindo e se entregando. — Achei que não veria.
— Não era realmente meu plano inicial, eu ia terminar o projeto, achei que conseguiria ver só a largada, mas só saí da frente da televisão quando acabou. — agora sorria, e para parecia verdadeiro.
— Eu tinha certeza que ia demorar mais para você passar a gostar de corridas. Acho que você tinha medo de gostar. — Brincou.
— Acredite, estou tão surpresa quanto você.
— Isso quer dizer que você vai na próxima? É em Le Castellet. — coçou a testa, mas ria.
— A sua família vai? — Ele confirmou. — Isso vai ser a confissão para o mundo que eu me rendi à F1. – Sorriu de lado. — Você vem para cá então?
— Ainda não decidi, estou bastante frustrado com tudo isso e preciso melhorar.
— Você não acha que está se cobrando demais? — Ela ponderou, lembrando que ele costumava ser uma pessoa mais relaxada, mesmo focado e agora parecia que estava sendo sufocado.
— Eu preciso ser melhor, . Eu preciso. — Disse, sério.
— E eu entendo, eu só acho que você precisa se dar um pouco mais de valor, porque eu sei que você está dando o seu melhor e isso é o que você pode oferecer. — As palavras dela causaram mais impacto do que ele esperava, mas ele não queria conversar sobre sua situação.
— Vamos mudar de assunto? A obra já está no final, que projeto é esse? — se ajeitou na cadeira.
— É para um trabalho por fora. Meu pai fez propaganda da filha engenheira e um filho de um amigo dele vai casar e me contratou para o projeto de um sobrado.
— Entendi. É muito errado eu achar que quem fazia isso eram os arquitetos? — Ele fez uma careta e negou.
explicou a diferença de trabalhos executados por arquitetos e engenheiros, acabou contando um pouco mais sobre o curso na faculdade e suas matérias preferidas e só desligaram porque alguém bateu na porta do quarto de .

🔸🔹

tinha evitado pensar sobre as palavras de , mas mesmo assim tinha decidido ir direto para Marselha. O que ele sabia e tinha admitido para si mesmo, com certo custo, era que os únicos momentos em que ele não se sentia pressionado eram os momentos em que ele estava com ela e era por isso que tinha dirigido até o trabalho dela, sem avisá-la. Precisava ocupar a mente com outra coisa.
O mesmo senhor do outro dia estava na guarita e abriu um sorriso logo que avistou o piloto indo em sua direção.
— Boa tarde, veio falar com a ? — assentiu.
— Isso. Ela está? Dessa vez não avisei que viria. — Coçou a nuca, como fazia quando ficava um pouco incomodado.
— Está sim. Vou descobrir onde ela está. — Fez um sinal com a mão para que ele esperasse enquanto falava com a engenheira pelo rádio. — Ela está no 202. Não falei que é você. — Sorriu cúmplice.
— Obrigado. — Pegou o capacete que o senhor o entregara e o colocou antes de entrar.
— Sabe, é uma menina muito especial. — Ele começou a falar e parou onde estava e se virou para ouvir. — Eu trabalhei com ela quando ela era apenas estagiária e eu nunca conheci alguma engenheira que se preocupasse tanto com as pessoas. — sorriu involuntariamente. — Quando tive um problema grave de saúde eles quiserem me demitir e ela insistiu no contrário e estou com ela desde então. Quando ela muda de cargo ela me leva junto e eu fico feliz que tenha outro tipo de pessoa na vida dela porque aquele engenheiro… — Negou com a cabeça. — Não a merecia.
ficou em silêncio por não saber o que falar. Sempre soube que tinha um coração enorme e talvez essa fosse outra coisa que os dois tinham em comum.
— Mas vai lá. Ela não costuma lidar bem com surpresas, mas acho que vai gostar de te ver. — assentiu e seguiu pelo caminho que agora ele conhecia um pouco melhor.
Subiu as escadas e ao chegar no segundo andar notou a diferença desde a última vez que estivera ali. Entrou no apartamento e foi seguindo pelo corredor, vendo que não só as portas estavam instaladas, mas tudo o que antes faltava. Era, na opinião dele, um lugar pronto para receber a mudança.
?! — estava esperando que alguém aparecesse depois do aviso no rádio, mas não esperava ele.
— Droga, minha camiseta me entregou, né? — Lembrou que vestia sua camiseta da seleção francesa de futebol com o número dez e seu nome nas costas. assentiu, mas era provável que o reconhecesse mesmo vestindo outra coisa.
— O que está fazendo aqui? Achei que tinha ido para Milão.
— É… acabei vindo para cá. Me lembrei que não conheci seu trabalho de verdade no outro dia e pensei que você poderia me mostrar hoje.
— É sério? — Ele assentiu.
— O que tem aqui? — puxou a prancheta da mão dela. — Checklist? — Passou as várias páginas ali.
— Essa é uma unidade finalizada, então é hora de passar um pente fino e procurar por defeitos que possam ser encontrados pelo cliente e arrumarmos antes de que o cliente de fato venha.
— E você vai fazer um desse para cada apartamento? — Fez uma expressão sofrida.
— Não, Olivier está no outro andar. Mas não é tão ruim quanto parece, pelo menos eu não acho.
— Você está literalmente procurando defeito no seu próprio trabalho.
— Você também não procura defeito no seu carro? Para melhorá-lo?
— Ok, você venceu. — Ele riu. — Mas o carro praticamente fala. Você sente nas mãos ou nos pés ou pelo som. Aqui você tem que literalmente sair procurando.
— Você também procuraria se viesse morar aqui. É só pensar nisso. Nós precisamos entregar com o mínimo de defeitos, assim o cliente fica satisfeito e faz uma avaliação positiva.
— Entendi. — Passou os olhos pela folha que já estava com alguns “x” marcados e algumas observações. — Falta trava na janela? — riu da expressão de incompreensão dele.
— Vem aqui. — Ela entrou em uma das suítes e ele a seguiu. — É essa trava aqui, para quando fechar a janela. — Mostrou.
— E na outra não tem? — Ela negou com a cabeça.
— Entendi. E fechaduras? — Leu outro item da lista.
— A mesma coisa da janela, só que com as portas. — fechou a porta do banheiro e forçou, a porta permaneceu fechada. — Essa está ok.
— Você tem que procurar rachaduras em todas as paredes? Isso vai levar uma vida.
— É mais fácil quando você pega o jeito.
— Veremos. — Voltou a procurar por algum item na lista que parecia fácil notar algum defeito.
não esperava que ele de fato quisesse fazer o trabalho dela durante aquela tarde, mas não podia negar que tinha sido bem mais divertido, mesmo que mais demorado, por estar explicando e mostrando os itens para ele. acabou percebendo que ela tinha razão, quando foi para um novo cômodo foi mais fácil por já saber o que procurar e ao final do expediente dela, eles tinham feito o checklist completo de três andares.
— Obrigada pela ajuda. — Foi sincera enquanto guardava os documentos preenchidos em uma pasta. — Vou ficar lembrando dos seus comentários quando estiver fazendo a vistoria das outras unidades.
— Foi legal, mas realmente não acho que conseguiria fazer isso em um prédio todo.
— Tudo bem, eu também não conseguiria correr. — Pegou sua mochila e trancou a sala antes de deixar a construção com ao seu lado.
— O que vai fazer agora? A gente pode ir em algum lugar comer alguma coisa… — Sugeriu de forma despretensiosa, preferindo não pensar no porquê de querer continuar na companhia dela.
— Eu adoraria, mas se importa se pedirmos algo no meu apartamento mesmo? Eu preciso tomar um banho, porque diferente de você que continua parecendo um modelo mesmo tendo passado uma tarde na obra, eu fico suja.
— Você não está suja, .
— Mas me sinto. — Confessou. — Sou assim desde sempre, entenda o sacrifício que foi ir direto do trabalho para Mônaco aquele dia.
— Tudo bem, eu te sigo até lá então. — Ela assentiu e cada um entrou no próprio carro.

— Fique à vontade! — disse ao destrancar a porta do apartamento. — Ali é a cozinha, se quiser água ou qualquer coisa, aqui tem um banheiro. — Indicou uma porta fechada. — Prometo que não demoro.
— Relaxa. Você gosta de comida chinesa? — Ela assentiu e ele pegou o celular no bolso para fazer o pedido.
Enquanto a esperava voltar, começou a andar pelo lugar. A sacada tinha uma vista bonita da cidade, com os barcos no cais. No móvel abaixo da tv ele viu alguns porta-retratos e se abaixou para ver melhor as fotos. Ela com a melhor amiga na praia, uma da formatura, com o diploma em mãos, com os pais no aniversário de casamento deles e uma dela num estádio de futebol, vestindo uma camiseta da seleção exatamente como a dele, com o mesmo número 10.
— E aí? O que tem de tão interessante para você estar agachado todo esse tempo? — Ele voltou a ficar de pé, com a foto nas mãos.
— Você realmente gosta de futebol? — A expressão de surpresa nítida no rosto dele.
— Uau, você é o primeiro cara que não me pergunta isso em tom de dúvida ou deboche.
— Tá brincando! — Ela negou.
— Aparentemente ser engenheira ainda é aceitável, mas gostar de futebol passa dos limites. Isso quando não acham que você fala que gosta só porque acha algum jogador bonito. — Rolou os olhos e se sentou no sofá.
— Bom, ainda bem que você está andando mais comigo, porque eu não sou babaca assim. — Se sentou ao lado dela.
— Ah tá, príncipe do cavalo branco. — Riu com o tom irônico.
— Ah, até que eu fui um príncipe sim no casamento. Sua mãe já estava quase implorando para a gente namorar e isso porque ela nem viu a gente se beijando. — arregalou os olhos, não esperava que ele tocasse no assunto e ele mesmo não pretendia ter falado aquilo. — Mas… Você não é torcedora do Lyon, é? — Perguntou, quebrando o silêncio constrangedor que tinha se instalado.
— Claro que não! Só precisei ver um jogo do PSG para saber que era aquele meu time. — Respondeu sem a menor intenção de tocar no assunto anterior.
— Que alívio! — Os dois riram, ainda um pouco sem graça. — Nós precisamos ir a um jogo então.
— Acho lindo como tudo é fácil para você, pode ser do outro lado do planeta e você acha tranquilo ir.
— Força do hábito. — Justificou e foram interrompidos pelo interfone. liberou a entrada do entregador e com a ajuda de levaram algumas coisas para a mesinha de centro da sala.
— Prefere comer na mesa de jantar? Estou tão acostumada a ficar aqui no sofá ou no tapete.
— E eu achando que sentar na calçada da minha casa tinha sido novidade. — Ela riu por lembrar daquele dia e quanta coisa tinha mudado. — Pode ser aqui mesmo, estava bem confortável.
A campainha tocou em seguida e ela levou as embalagens para a sala.
— Você chamou mais gente? Olha quanta comida, !
— Eu não sabia do que você gostava. — Deu de ombros. — Mas voltando a um assunto mais importante, você nunca pensou porque eu corro com o número dez?
, eu nem sabia que número você era até ir para Mônaco aquele dia. — Ela confessou, rindo sem nada de culpa. — Mas agora deduzo que seja por causa do futebol.
— Sim, por causa do Zidane. — Abriu uma das caixinhas com rolinhos primavera e pegou. — Eu nunca ia imaginar que a gente teria isso em comum. E você nem falou nada! — A acusou. — Eu passei o dia com essa camisa.
— Eu não achei que era importante. — Deu de ombros. — Ah, que camisa legal, eu tenho uma também. — Afinou a voz.
— Falando assim, realmente. — Riu da interpretação dela mesma. — Mas nós iremos a um jogo.
— Combinado.
— O que me lembra que eu queria te falar uma coisa. — Tocou no assunto que tinha enrolado o dia todo e ela passou o olho da caixinha de yakisoba para o rosto dele. — Vai ter uma festa da RBR na semana que vem, vai ser em Le Castellet mesmo. Estava pensando se você gostaria de ir comigo, já que você conheceu o pessoal, conhece o e ele vai levar a Eloise.
— Quando é? — Perguntou na intenção de enrolar para dar uma resposta.
— Na quarta.
— Festa em plena quarta-feira? — Ele assentiu. — Vocês são muito estranhos.
— Porque quinta recomeça tudo de novo, reconhecimento de pista, depois treinos… Mas eu volto para dormir aqui, e não precisamos ficar até tarde na festa. Eu sei que você precisa trabalhar. — sentia como se ele já tivesse pensado em tudo.
— Então acho que posso quebrar o seu galho, .
— E ela voltou com o sobrenome. — Respirou fundo, fingindo desgosto, o que só aumentou o sorriso dela.

Depois de comerem, a ajudou a tirar e limpar as coisas e aproveitou para se despedir e voltar para casa. Pyry provavelmente exigiria o dobro dele no treinamento do dia seguinte e ele precisava descansar, assim como ela também precisava. o acompanhou até a garagem do prédio, pois ele tinha estacionado na outra vaga dela. Se abraçaram antes de ele entrar no carro e sair.
realmente tinha feito o que ela sempre condenara nas amigas, ela tinha afastado as pessoas enquanto estava namorando Thierry. Apenas tinha permanecido em seu círculo de amigos e ela estava satisfeita por poder contar com também.



Cinq

— Oi, ! — Amélia abraçou a amiga.
— Nem acredito que vocês me ouviram, não marcaram compromisso e estão arrumados exatamente como eu pedi! Que orgulho! — Fingiu enxugar uma lágrima enquanto o casal a encarava ainda sem saber o que estava acontecendo.
— Você foi bem insistente nisso, então me diga logo o que é que você está aprontando porque sabe que eu sou curiosa.
— Eu vou levar vocês para a corrida deste final de semana! — Contou feliz, mostrando as três credenciais em suas mãos.
— Nós vamos para La Castellet? — Leon arregalou os olhos, pegando tudo da mão de e vendo que eram reais.
— Vamos sim, porque eu sou uma madrinha de casamento muito fantástica. — Se gabou e Leon a abraçou, tirando-a do chão.
— Eu te amo, . Você sabe disso, não é? — A soltou e ela concordou com a cabeça.
— Até agora não vi o que eu ganho com isso.
— A minha belíssima companhia e também precisa ir para controlar seu marido caso ele dê um ataque de fã. — Ela pontuou e ele fez uma careta.
— Você de bom humor e indo ver uma corrida, realmente o piloto opera milagres. — zoou a amiga.
— Vamos logo ou vamos nos atrasar. — Leon as chamou já com as chaves do carro na mão.
— Vamos no meu, você vai estar emocionado demais para voltar dirigindo. — balançou a própria chave na mão.
— Você está provavelmente certa.

O trajeto de quarenta e cinco minutos até o Circuito de Paul Ricard não teve um minuto de silêncio. O casal tinha bastante coisa para contar sobre a Grécia e a lua de mel e preferiu não os interromper, preferia não ser o centro da conversa, pelo menos na presença de Leon.
Entraram no autódromo e Leon parecia uma criança fascinada, pois as duas vezes que tinha ido a um Grande Prêmio tinha sido como uma pessoa pagante comum que fica longe e precisa de binóculos para enxergar, de acordo com as palavras dele.
— Olha só quem temos por aqui. — os cumprimentou da garagem da RBR.
— Isso é mesmo real. — Leon parecia estar sonhando vendo cada canto do lugar e os três acabaram rindo.
— Apreciem o show. — deu uma piscadinha convencida e pegou o capacete que estava na bancada. — Ah, . — A engenheira o olhou. — Bem legal você ter vindo, quase nenhuma namorada costuma assistir à qualificação presencialmente. — O sorriso zombeteiro no rosto dele a fez negar.
— É por isso mesmo que estou aqui, não sou namorada de ninguém. — Ele riu alto e deu as costas aos três, indo se concentrar nos minutos finais antes de começar o Q1.
— Seu namorado está vindo aí. — sussurrou e estava prestes a dar uma má resposta quando seus olhos pararam em , que ainda não as tinha visto, e vinha na direção de seu carro com o macacão vestido só até a cintura. — Quer um babador? — voltou a sussurrar e fechou a boca, engolindo em seco e causando uma risada na amiga.
— Que bom que vieram, não tinha visto vocês aí! — as cumprimentou, notando Leon em seguida mais afastado. — Já preciso ir. — Apontou para o carro.
— Obrigada pelas credenciais. — agradeceu.
— Boa sorte! — desejou e ele sorriu para ela, colocando a balaclava e o capacete em seguida e entrando no carro.
Deixaram que Leon escolhesse de onde veriam a qualificação e se sentiu aliviada por terem saído da garagem. Ele logo começou a conversar com outros homens que estavam por perto e aproveitou para conversar sobre o que ela estava se segurando, o que realmente estava rolando entre a amiga e o piloto.
— Não tem nada para me contar? — a encarou esperando uma pista do que ela estava se referindo. — Sobre vocês dois. — Esclareceu.
— Não tem nós dois, !
— Amiga, eu não sou cega, você estava secando o ali na frente de todo mundo e eu achei realmente que você ia babar.
— Palhaça! — a empurrou com o ombro. — Eu só não estava preparada, eu nunca imaginei que um macacão na cintura seria sexy, ok? — Se defendeu.
— Então você acha o sexy? — voltou a abrir a boca, mas de incredulidade.
— Para de tirar palavras não ditas da minha boca, ! Você entendeu o que eu quis dizer.
— Sim, que você o achou sexy. Sabe, não tem nada demais em assumir que você está achando-o interessante.
— Não preciso assumir nada se você já tem suas próprias conclusões.
— Eu tenho que tirar minhas conclusões porque você não me conta as coisas, ! Eu soube que você ia com ele a uma festa? Não! Tive que saber pela internet com fotos lindíssimas de vocês dois juntos.
— Ah, não! Você também com isso? — Suspirou e fez uma cara derrotada. — Eu não aguento mais minha mãe falando sobre essas fotos.
— Não posso tirar a razão dela. E olha que eu achei vocês dois maravilhosos no meu casamento, mas aquelas fotos estão fantásticas e vocês se portaram como um casal nelas. Não podem esperar que quem viu pense diferente.
— Eu sei. — Respondeu, contrariada. — Mas não aconteceu nada, eu teria contado se tivesse.
— Nem um beijinho? — negou.
— Não, ! — Riu da insistência dela. — Nós fomos e voltamos como amigos. E foi divertido assim, por favor, aceite e pare de criar teorias. E vamos prestar atenção que já começou.

🔸🔹

fechou a porta de casa com mais força do que era necessário e atraiu todos os olhares para si. Quando a última coisa que queria era público, sua família inteira estava reunida na sala de estar. Balançou a cabeça e subiu as escadas de dois em dois degraus, sem proferir uma palavra sequer. Fechou a porta do quarto com força também, estava extremamente frustrado e seria capaz de socar alguma coisa se não precisasse de sua mão para pilotar.
Entrou no chuveiro e deixou a água cair, na esperança de aliviar parte daqueles sentimentos negativos que o consumiam. Mas, assim como tinha sido durante todo o caminho de Le Castellet até a sua casa, ele só conseguia repassar a qualificação e a reunião com a equipe depois. Estava cansado de não conseguir melhores resultados mesmo treinando tanto e dando o seu melhor dia após dia. Estava cansado de não conseguir ter um bom desempenho no carro da RBR e principalmente de ser comparado com a cada cinco minutos.
Tinha chegado a ficar em oitavo, mas terminou o Q1 em décimo primeiro. Apesar de melhorar o seu tempo na segunda parte do treino classificatório, terminou em décimo, com a diferença para Albon de apenas quatro centésimos de segundo. Na última parte só tinha superado Giovinazzi, que no fundo não significava nada. Largaria em nono enquanto tinha alcançado o quarto melhor tempo.
A reunião com a equipe depois não tinha ajudado em nada a melhorar seu humor. Queriam saber o que não estava funcionando para ele, mas ele não sabia, se soubesse ele mesmo solucionaria o problema. Mas no momento ele não tinha confiança na estratégia adotada, não tinha confiança que seria capaz de terminar em uma posição melhor e aquela corrida era justamente na França, ele queria ser motivo de orgulho para o país, mas tudo só parecia se distanciar cada vez mais de suas mãos.

Ouviu batidas na porta e colocou um dos travesseiros no rosto, não queria conversar com ninguém naquele momento. Mesmo assim ouviu a porta se abrindo e pouco tempo depois o colchão afundando.
— Foi tão ruim assim? — Philippe começou o assunto.
— Foi horrível, vocês não viram? — O travesseiro abafou a resposta e o irmão mais velho o puxou do rosto do mais novo.
— Nós vimos, mas para nós nunca é horrível, . Todos nós temos muito orgulho de você e ver você entrando assim em casa parte o coração de todos nós.
— Eu não achei que todos vocês estariam aqui. — Confessou puxando o travesseiro de volta.
— Esse não é o foco. Parece que você não lembra mais porque corre, . Há quanto tempo não vemos um sorriso sincero seu em relação a isso? — Sentia um peso ainda maior nos ombros ao ouvir aquilo.
— É muito frustrante tudo isso, toda essa expectativa que não consigo atingir. — Sentou-se ao lado de Philippe e apoiou a cabeça nas mãos.
— Então crie expectativas que você possa alcançar. Até porque a expectativa mais próxima de se concretizar no andar de baixo é o seu casamento com . — O mais velho riu enquanto resmungou um “ah, não!”.
— Por que raios a dona Pascal resolveu usar o Instagram justamente depois da festa? — Fez a pergunta retórica.
— Acho que a pergunta mais prudente seria o que estava fazendo com você num evento da RBR. Vocês não estão realmente juntos, estão? — Naquele momento Philippe considerou que talvez a mãe não estivesse tão errada sobre os dois.
— Não, Phil. Eu a acompanhei em um casamento e ela me acompanhou nesse evento, só isso.
— Mas o pai disse que ela vai na corrida amanhã e todo mundo sabe que a odeia F1.
— O casal de amigos dela gosta bastante e ela vai acompanhá-los. — Mentiu.
— Sei… — Philippe riu fraco.
— Ah, já me basta o insinuando que eu talvez goste dela de uma forma diferente e me deixando com a pulga atrás da orelha, você não precisa falar isso também. — O empurrou para fora da cama.
— Você viu as fotos, não viu? — confirmou com a cabeça. — Deixou todos nós com a pulga atrás da orelha. Não dava para olhar aquelas fotos e não pensar que tem algo entre vocês, mas se você diz que não tem nada rolando.
— Não tem, é sério. Nos tornamos amigos, apenas isso. A sociedade precisa aceitar que amizade entre homem e mulher existe.
— Aham. Agora levanta daí e vai falar com as suas sobrinhas porque elas só falavam de você até você chegar.
— Tá bom, mas não deixa a mãe falar de novo sobre essas fotos, por favor.
— Meio difícil, o assunto dela com Cécile foi esse o dia todo. — coçou a cabeça.
— Pelo menos ela não vai amanhã, seria realmente bastante constrangedor.
— Nunca subestime o poder de constrangimento de uma mãe, . Ou de um pai. O pai vai amanhã, não vai?
— O nosso e o dela. — confirmou enquanto deixavam o quarto.
— Boa sorte, então! — Philippe riu e desceu as escadas na frente.

🔸🔹

— Olha só, a minha norinha chegou. — Jean-Jaques acenou com a mão e arregalou os olhos, desviando o olhar para o pai.
— Eu não tenho nada a ver com isso, querida. — Yohan levantou as mãos.
— Realmente adoraria se vocês fossem um casal. — O mais velho continuou a sorriu sem graça enquanto os cumprimentava.
— Pai, para com isso. — Foi Philippe quem cortou o homem e ela sorriu agradecida.
— Esses são meus amigos, e Leon. — Apresentou mudando o assunto e todos se cumprimentaram.
— Não sabia que o pai do estava nessa torcida também. — falou baixo, apenas para a amiga ouvir.
— Estou dando graças a Deus por ter vindo de carona com vocês e não com eles. — Devolveu no mesmo tom.
queria ter visto para desejar uma boa corrida, mas a garagem da RBR estava cheia demais e sabendo que ela não seria ela mesma com tanta plateia, seguiu Leon e para outro lugar como no dia anterior.
A corrida havia durado quase uma hora e meia e tinha sido bem chata para . Se aquela fosse a sua primeira, provavelmente não teria existido uma segunda. Praticamente a mesma ordem desde a primeira volta até o final, nada emocionante. Hamilton, seguido de Bottas, seguido de formavam o pódio daquele domingo.
tinha se mantido em quarto, mesmo reclamando que o carro não entregava potência imediatamente após a aceleração nas saídas das curvas. Vettel tinha ultrapassado os dois carros laranja sem muita dificuldade e ocupado o quinto lugar por quase toda a prova. E continuava em nono, exatamente como no dia anterior.
Ouvir que ele não tinha ritmo a deixara angustiada, principalmente com o carro de trás cada vez mais perto do dele. Uma volta depois de o carro amarelo parar nos boxes, também fez sua parada, e apesar de voltar em nono, logo foi ultrapassado. Com outros dois carros fazendo suas paradas, houve a esperança de que conseguisse melhorar a posição, mas ambos voltaram na frente dele e ele caíra para décimo primeiro.
— Não quero mais ver. — declarou, derrotada, tapando os olhos com as mãos.
— Se você está achando isso, imagina ele. — comentou e sentiu o coração apertar.
— A situação não está mesmo boa para ele. — Leon entrou no assunto. — Enquanto o está fora do pódio por pouco ele nem está pontuando.
— Posso voltar a dizer que odeio corridas? — Perguntou fazendo o casal rir.
— Se o estivesse ganhando aposto que não estaria odiando. — pontuou.
— Claro que não! — A engenheira concordou.

— P11, . P11. — Foi informado pelo rádio, mas não respondeu. — Ricciardo vai ser investigado pelo que fez nessa última volta, dependendo da punição você ainda pode pontuar.
— Obrigado, pessoal.

A punição tinha se concretizado para o australiano e com duas punições de cinco segundos, ele foi para o décimo primeiro lugar, empurrando para décimo e marcando um ponto por aquela corrida.

não sabia nem mesmo se gostaria de falar com ela, mas tinha decidido que ficaria ali e esperaria por ele. Disse a que ela podia seguir com Leon e que ela voltaria com o pai e o padrinho, mas fez o mesmo com eles, ficando para trás em La Castellet.
Viu alguns pilotos aproximando para a área de entrevistas e ficou por perto, na intenção que ele a visse ali. Estava distraída com a fala de Vettel quando reconheceu a voz de com outra repórter.
— Foi um dia longo e difícil. Estou decepcionado, principalmente porque foi aqui na França. Desde a classificação sofri com a aderência e foi o mesmo na corrida. Ainda não tenho resposta, mas estou certo de que analisaremos tudo para compreender exatamente porque nos faltou ritmo. Realmente nunca me senti assim com o carro e como a Áustria já vem na próxima semana temos que trabalhar rapidamente para arrumar tudo. — Finalizou a declaração e saiu cabisbaixo.

não sabia quanto tempo tinha esperado ali no estacionamento até que apareceu e dessa vez ele a viu.
? — Sua feição até então séria se alterou para surpresa. — O que está fazendo aí? Achei que tinha ido embora. — Ela deu um meio sorriso, estava triste por ele.
— Algo me disse que você estaria com raiva e achei que não deveria te deixar dirigir nessas condições. — Disse estendendo a mão para ele, mas ele não entregou a chave.
— Acho que deveria sim. — Riu irônico. — dirige com raiva o tempo todo e funciona perfeitamente bem. — negou com a cabeça, não tinha achado graça realmente.
— Você nem percebe o que está fazendo, não é mesmo? — endireitou a postura. — Você se compara a ele a cada segundo, até quando não está lá dentro. — Apontou para o autódromo. — Deixa o para lá, . Ele é ele e você é você. Dirigir com raiva não vai te fazer um piloto melhor. É se comparar tanto e o tempo todo que está te puxando para baixo e você nem percebe. — Ele desviou o olhar do dela. — Não estou falando isso para te magoar. Essa é a terceira corrida que estou assistindo e posso estar completamente errada, mas para mim você precisa apenas ser melhor que você mesmo a cada dia. — Ele assentiu fraco.
— Podemos… não falar disso agora. — O tom de voz dele era baixo e foi a vez de assentir.
— Mas você ainda não vai voltar dirigindo. — Voltou a estender a mão, esperando pelas chaves. — Ou vai me dizer que tem ciúme demais do carro para deixar uma mulher dirigir? Ou acha que eu vou estragá-lo? — Cruzou os braços o desafiando e ele negou.
— Meu medo é que você dirija melhor, aí sim vou me sentir totalmente fracassado. — riu alto.
— Agradeço a fé que você tem em mim como motorista, mas pode ficar tranquilo, tenho plena consciência de que não dirijo tão bem quanto você, quem dirá melhor. — Falou convicta. — Agora me dê as chaves.
as entregou e rapidamente se ajeitou no lugar do motorista enquanto ele dava a volta no carro e entrava no lugar do passageiro no Honda NSX. Era acostumada com câmbio automático, mas nunca tinha dirigido um carro esportivo antes. Começou com cautela, não queria causar nenhum acidente, um conserto em um carro daqueles devia custar um ano inteiro do seu salário.
À medida que ia acostumando com o carro, curtia ainda mais a sensação de dirigi-lo. estava se divertindo com as reações dela e aos poucos sentiu a negatividade diminuir, até respirar parecia mais fácil. Não sabia quais os motivos reais de ter ficado para trás, mas era grato por tê-lo feito ocupar a cabeça com outras coisas mais uma vez.

🔸🔹

Uma semana depois tinha ido almoçar na casa dos pais, já tinha um tempo desde que ela passava um dia todo com eles, apenas os três. Tinha passado no restaurante preferido de Mabelle e tinha sido uma refeição agradável, em que Yohan contou de como o kartódromo estava com uma nova e promissora geração de pilotos e contou como as coisas estavam fluindo em seu trabalho e que a festa de entrega já tinha sido previamente marcada para agosto.
Mabelle se mantinha por fora desses assuntos e vez ou outra os interrompia para contar alguma notícia ou fofoca dos vizinhos ou de suas amigas nos seus encontros semanais. tinha até se surpreendido por Mabelle não ter tocado no nome de Pascal ou de até então, mas ter sua vida amorosa de fora da conversa era bastante agradável.
obrigou os pais a irem para a sala descansar enquanto ela retirava a mesa e cuidava da louça, já que não tinha muita coisa. Quando terminou foi para a sala, encontrou seu pai com um livro e Mabelle não estava no sofá.
— Onde a mamãe está? — Perguntou, se sentando ao lado do pai e alcançando o controle da televisão.
— Foi deitar um pouco, ela tem se cansado com muita facilidade. — Yohan fechou o livro. — Já tentei fazer com que ela vá ao médico, mas ela insiste que não tem nada acontecendo. — Respirou fundo.
— Vou conversar com ela depois, nem que tenha que levá-la até o consultório. — O pai riu. — Ela está sentindo alguma coisa?
— Que eu saiba, só tem reclamado de cansaço. — Ela assentiu, sabia que sua mãe esconderia qualquer problema com si mesma até o último segundo.
— E o que você vai fazer agora? — Pegou o livro que o pai lia. — Quer assistir à corrida comigo? — Ofereceu com um sorriso e o sorriso no rosto do pai se alargou.
— Precisei esperar vinte e cinco anos para esse momento. Acho que estou emocionado. — Levou a mão ao coração teatralmente e riu, ligando a televisão em seguida.
— Não vai se acostumando, pode ser a última se for o mesmo fiasco da semana passada. — Fez uma careta.
— Isso acontece até com o seu futebol e você sabe. — Ela concordou vendo o grid de largada na tela.
— Uau, que milagre é esse que outra pessoa vai largar em primeiro e não o Hamilton? — Yohan a olhou com um sorriso de canto.
— Há quanto tempo você está assistindo corridas? Não me venha com semana passada. — mordeu o lado interno da boca, tinha se entregado.
— Há pouco tempo, pai. — Ela o olhou, mas ele continuava com a expressão de quem não acreditava totalmente nela. — vai largar em oitavo? — era uma pergunta retórica.
— Ele realmente não está fazendo uma boa temporada com a RBR.
— Mas ele é realmente um bom piloto, pai? — Ela cruzou as pernas em cima do sofá e se virou para ele. — Digo, você o acompanhou desde criança no kart.
, ninguém chega a ocupar um dos únicos vinte assentos da Fórmula 1 sem ser realmente um bom piloto. — Ela continuou olhando esperando a resposta da pergunta dela. — Ele é sim um bom piloto, mas às vezes isso não basta. Tem uma infinidade de variáveis.
— Esse é realmente melhor que ele? — Ela continuou com as perguntas e Yohan estava verdadeiramente feliz em ter aquele momento com a filha.
— Nesse carro sim. — Percebendo que não era o que a filha queria ouvir, continuou. — Mas ele ainda vai ter muitas oportunidades, pelo menos mais dez anos pela frente e ele pode conquistar muita coisa.
— Espero que sim. — Voltou a olhar para a televisão, esperando a largada.
— Já começou melhor que a passada. — Yohan comentou ao ver Norris ultrapassando Hamilton na largada.
— Durou dois segundos. — Ela riu, vendo Hamilton recuperar a posição. — Mas isso sim é bom! caiu para sétimo! — comemorou. — Eu sei que ele provavelmente vai subir de novo. — Completou ao olhar para o pai.

Na volta sete as posições já eram outras, ocupava a sexta posição e Vettel que tinha largado em nono assumia a quarta posição. continuava liderando e estava secretamente torcendo para que ele segurasse até o final, já que não acreditava numa melhora significativa de .

— Ai, eu fico toda confusa com essas paradas, sempre me iludo que vai melhorar e parece que sempre voltam pior. — não gostava de ver os nomes descendo na lista e agora Vettel estava em oitavo e em terceiro.
— É que você precisa considerar que o e o Hamilton ainda não pararam. — Explicou o que ela sabia. — Então deve assumir a liderança novamente quando eles pararem.
— Pai, é sofrimento demais assistir. Está na metade da prova e o conseguiu cair ainda mais. Isso é frustrante demais.
— Em trinta voltas pode acontecer tanta coisa, filha. — Nesse instante tanto Hamilton quanto fizeram as suas paradas e com a troca da asa dianteira do primeiro, retornaram, respectivamente em quinto e quarto. — Viu só.
— Não o deixa passar, Vettel! Segura ele aí! — riu do próprio desespero com se aproximando de Vettel, que estava em terceiro.
— Vai passar na próxima. — Yohan constatou e foi o que aconteceu.
— Pai! — o empurrou fraco.
— Não tinha nada que o alemão pudesse fazer. — Se justificou.
— Ah, mas não é possível! Deixou-o passar de graça! — voltou a reclamar seis voltas depois, quando ultrapassava Bottas. — , se você não segurar esse carro eu juro que nunca mais torço para você. — Falou séria para a televisão e Yohan voltou a rir.
— Meus domingos teriam sido mais divertidos se você assistisse corridas desde antes.
— Pai, foco aqui! Olha isso! — estava em pé, inconformada de que poderia mesmo levar o primeiro lugar.

ultrapassou , devolveu. Faltando apenas três voltas para o final os carros seguiam lado a lado, chegando a se tocar. acabou levando a melhor e ocupando o lugar mais alto no pódio, seguido por e Bottas. foi apenas o sétimo.

— Acho que isso significa que você vai assistir mais corridas comigo. — Yohan sorriu, mas estava visivelmente chateada. — Você disse que tinha que ser melhor que a passada e isso foi.
— Eu sei. — Voltou a se sentar ao lado do pai e encostou a cabeça no ombro dele. — Eu só queria que o conseguisse resultados melhores, parece que ele não confia mais nele, sabe.
— Todo mundo tem fases, . O tem a cabeça no lugar, se ele está numa fase ruim ele vai encontrar um jeito de melhorar.
— Espero que tenha razão. — Yohan sorriu e fez um carinho na cabeça da filha.
— E quando vai me contar o que está acontecendo entre vocês? — endireitou a postura e arregalou os olhos.
— Até você, pai! — Exagerou no drama. — Não tem nada acontecendo, a gente só tem se conhecido melhor e feito favores um para o outro.
— Eu te conheço o suficiente para saber que quando as pessoas falam demais sobre você, você exclui todas as possibilidades de se tornar verdade. — ficou em silêncio. — Só não quero que deixe de viver algo que pode ser bom com ele porque sua mãe e sua madrinha não param de falar sobre isso.
voltou a encostar a cabeça no ombro dele. Amava o fato de ele nunca esperar uma resposta se ela não quisesse falar. Ela nunca havia sido aberta em relação aos seus sentimentos com os pais, até com a melhor amiga não era algo muito fácil. Mesmo assim, se surpreendia com a capacidade do pai em conhece-la tão bem.



Six

Julho de 2019.

Depois do Grande Prêmio da Áustria, tinha decidido voltar para Marselha. Desde a corrida em La Castellet, ele e não tinham conversado mais, a não ser por mensagens esporádicas. O fato de continuar pensando nela mesmo sem se falarem o levava a crer cada vez mais que estava mesmo gostando dela de outra forma. Estava feliz pela amizade que vinham construindo nos últimos meses, mas ao mesmo tempo isso o incomodava um pouco.
Todos os seus relacionamentos até ali tinham começado pela atração que ambos sentiam. Começavam a ficar até passar para algo mais sério e assumirem um namoro e só depois de algumas semanas passava a se sentir da forma como ele já estava se sentindo com . Ela era inteligente, interessante, fazia o máximo para ver as pessoas ao redor dela bem e o instigava a ser cada vez melhor. E ele gostava do fato de poder ser ele mesmo ao lado dela.
A volta para Marselha depois do GP da França tinha feito-o pensar e assumir para si mesmo todo o efeito que ela vinha causando desde a corrida em Mônaco. Mesmo com resultados ruins e toda a frustração, ao receber os abraços dela ele sentia que tudo ficaria bem. Ela se preocupava de uma forma diferente e isso mexia com ele. Mas eles eram amigos e não sabia como poderia passar disso para algo a mais. Não sabia se valia a pena arriscar o que tinham criado até ali e menos ainda se ela se sentia da mesma forma, pois mesmo com outras oportunidades, eles só tinham se beijado no casamento.

tinha mandado uma mensagem mais cedo, chamando para correrem online com George e Lando. Quando começavam no início da noite não tinham hora para parar e preferiu comer alguma coisa antes de correr com eles. Estava começando a descer as escadas quando ouviu o nome de sendo falado pela mãe e parou ali mesmo. Sabia bem que não deveria ouvir a conversa dos outros, mas perguntar sobre a ligação para a mãe não era uma opção.
— Pobre . — Ouviu Pascal repetir. — Aparecer no trabalho dela assim. — Deduziu que Mabelle estivesse contando o acontecido. — Pois é, ele parecia um namorado tão bom, mas com essas atitudes, ainda bem que não estão mais juntos.
não se considerava um cara ciumento, mas o ex-namorado dela já tinha se mostrado um babaca e a última coisa que precisava era aborrecer ainda mais . Sabia que eles trabalhavam para a mesma empresa, mas pelo tom da conversa de sua mãe, a aparição dele tinha sido desnecessária.
— Sabe, Mabelle, eu realmente acreditei que ela e estivessem juntos e escondendo isso de nós, mas acho que eu estava errada. — Ouviu a mãe suspirar e riu fraco.
— Bem que eu queria, mãe. — Murmurou para si mesmo e desceu as escadas como se não tivesse ouvido nada.
— Claro, claro. Estarei aí sábado. — deixou de prestar atenção na conversa e pensou o que acharia se ele a convidasse para fazer alguma coisa.

🔸🔹

— Pai, está tudo bem? — disparou ao telefone quando Yohan atendeu.
— Está, filha.
— Ah, eu nunca vi tanta ligação perdida sua. Fiquei preocupada. — Respirou aliviada.
— É que a sua mãe marcou um encontro com sua madrinha hoje à tarde, mas está com outra crise e eu preciso ir ao kartódromo para aquela reunião que tinha te falado.
— Sim, a reunião das propostas de reforma, eu me lembro.
— Sua mãe não quer desmarcar a visita, disse que está muito em cima e que é deselegante e bem, você conhece sua mãe. — Respirou fundo e ouviu do outro lado da linha.
— Ela está tomando o remédio que o médico passou? — coçou a testa, odiava quando Mabelle tentava escapar dos tratamentos.
— Ela disse que sim.
— Certo. Confere com ela se ela tomou e a obrigue a ficar deitada no escuro e no silêncio e pode ir para a sua reunião que eu cuido do resto. Eu vou só me arrumar, compro um lanche e não vou demorar a chegar aí. — Fechou a tela do notebook e foi até o quarto.
— Obrigado, . Desculpa por atrapalhar seus planos.
— Sem problemas, pai. Não tinha nenhum plano inadiável. — O tranquilizou, escolhendo uma roupa. — Boa reunião! — Desejou antes de desligar.

Passou em sua padaria preferida e comprou pães, croissants, madeleines e um suco natural e com pouco mais de dez minutos tinha estacionado em frente a garagem da casa dos pais. Desceu com as sacolas e destrancou a porta, sem fazer barulho. A casa estava totalmente silenciosa. deixou as sacolas na bancada da cozinha e subiu as escadas para ver como sua mãe estava. Ao encontrá-la dormindo, sorriu e fez o caminho inverso.
Sabia o quanto a mãe amava tomar chá no jardim, enquanto colocou a água para ferver, levou um forro e as louças para a mesa de fora. Colocou tudo que havia comprado em cestas e tinha acabado de colocar o chá no bule quando a campainha tocou. Secou as mãos no pano de prato antes de atender à porta.
— Oi, madri... ? — Sua expressão mudou para surpresa.
! — Ele sorriu e eles se cumprimentaram com um abraço.
— Eu não sabia que você viria. — Deu passagem para que ele entrasse.
— Não eram meus planos mesmo, mas quando Pascal quer alguma coisa… — Deixou no ar com a mãe voltando a se aproximar, depois de buscar um pacote para Mabelle que ela tinha esquecido no carro.
, querida! Que surpresa! Não sabia que você estaria aqui. — As duas se abraçaram e Pascal beijou o rosto da afilhada.
— Eu não deveria mesmo, mas sua amiga foi teimosa demais para desmarcar o encontro de vocês mesmo se sentindo mal. — dedurou a mãe.
— Eu não estou me sentindo mal. — Mabelle falou descendo as escadas e cumprimentando os três. — Foi só um mal estar de nada, estou ótima. — Garantiu com um sorriso e concordou com a cabeça, visivelmente irônica.
— Eu montei a mesa no jardim. — avisou. — Já vou levar o restante das coisas.
— Precisa de ajuda? — apareceu na cozinha enquanto ela pegava mais um jogo de xícaras para ele.
— Pode levar essas cestas, por favor. — Entregou duas para ele, levando ela mesma a terceira e o bule com o chá.
— O que sua mãe tem? — perguntou, notando que Mabelle e Pascal já estavam no jardim.
— Migrânea. — Ele parou de andar e a olhou.
— Nunca ouvi, o que é?
— Eu também não tinha ouvido até essa semana. É uma dor de cabeça crônica, que não tem duração definida e que piora com esforço. Ela deveria ter ficado de repouso, se tivesse escutado o médico.
— Já entendi a quem você puxou. — Disse para provocá-la.
— Não sou nada teimosa perto dela. — Revidou e voltou a andar, colocando as coisas na mesa.
— O tratamento é só repouso? — Perguntou de volta na cozinha e ela nem tinha percebido que ele a seguia.
— Não, está tomando um remédio também. — Entregou o suco para ele, enquanto levava o que faltava. — Passei quase a semana toda levando-a ao médico e para fazer exames e ela me retribui assim.
— Ela parece bem. — Ele comentou, vendo Mabelle pelo vão da porta aberta.
— Espero que esteja certo.
Depois de conferir mais uma vez se tudo estava na mesa, se sentou para lanchar com eles. Como de costume, Mabelle e Pascal monopolizaram a conversa, sendo a maior parte sobre pessoas que nem e nem sabiam quem eram. A vida da alta sociedade que elas frequentavam parecia um mundo à parte do deles. O único momento em que a conversa mudou para foi quando Mabelle o perguntou se não teria corrida naquele final de semana, o que era bem óbvio para , já que ele estava ali no sábado.

Com o pôr do sol a temperatura havia baixado um pouco e Mabelle os convidou para entrar e conversarem na sala de estar. ficou para guardar as coisas, e também porque não aguentava mais ouvir sobre a próxima festa de debutantes da cidade ou as indiretas de que ela e deveriam ir como inspiração para as meninas que não pensam em se casar. Mesmo sem pedir, a tinha ajudado a levar tudo de volta para a cozinha e continuou lá enquanto ela colocava as coisas na lava-louças.
— Não precisa ficar aqui. — disse, colocando os talheres no local indicado. — Só vai fazê-las acreditar ainda mais na ideia de sermos um casal.
— Vai por mim, elas vão continuar falando disso independentemente de onde eu estiver. Prefiro não ouvi-las falando de mim como se eu não estivesse presente. — riu.
— Às vezes me pergunto de onde vem essa obsessão delas com isso. — Negou com a cabeça. — Só fomos juntos a algumas festas, não é para tanto. Minha mãe me faz parecer uma encalhada. — Reclamou e ele riu da escolha de palavras dela.
— Talvez a culpa seja da minha mãe. — Ele ponderou, baseando-se na quantidade de vezes que a tinha ouvido mencionar o assunto.
— Ela era tão empolgada assim com a sua ex-namorada também ou é só comigo? — perguntou e pegou de surpresa, não se lembrava nem mesmo de ter apresentado Heidi para alguma vez.
— Acho que é só com você mesmo. Minha mãe não conviveu muito com a Heidi, ela não veio para cá muitas vezes e minha mãe também não é fã de Milão. — Deu de ombros.
— E por que vocês terminaram? — coçou a nuca, desconfortável, mesmo estando de costas para ele.
havia sido pego de surpresa. Não tinha passado pela sua cabeça que pudesse se interessar sobre seus namoros anteriores, principalmente levando em consideração o tempo que fazia que ele estava solteiro.
— Não é muito fácil namorar um piloto de Fórmula 1. — Ele declarou, só então percebendo que essa afirmação poderia mudar a cabeça de , caso ela também sentisse outra coisa em relação a ele.
— Explique. — Ela pediu vendo que ele não pretendia acrescentar mais nenhuma informação.
— Bom, para começar nós passamos cerca de 260 dias fora de casa. — Ela tinha ligado a lava-louças e estava com as costas apoiadas no balcão, de frente para ele. — Mesmo dormindo em casa, não existe muito o acordar juntos porque saímos muito cedo para treinar. Além disso não podemos sair sempre, a alimentação é restrita, como você mesma viu em Mônaco ou no casamento.
— Em teoria, se a pessoa te ama, tudo isso não significa nada, não acha? — Por mais que muitas vezes a chamassem de brega, era defensora de que o amor verdadeiro supera tudo.
— Talvez… — Ele não sabia a resposta para isso. — Talvez amor não seja o suficiente, porque para funcionar, a pessoa precisa, de certa forma, ser sua fã número um. Ela precisa entender e aceitar o estilo de vida de um piloto e sinceramente, não existem tantas mulheres interessadas assim.
— Jura? — atraiu a atenção dele com uma simples palavra. — Porque no paddock ouvi mais de uma comentando que adorariam namorar você ou o . — sorriu, tímido.
— Falar é fácil quando você não conhece. Sendo bem sincero, eu tenho quase certeza de que eu mesmo não aguentaria ser a namorada de um piloto. — Ela riu.
— Fala sério, ! É claro que você conseguiria. — Balançou a cabeça. — Você é uma das pessoas mais determinadas que eu conheço. Se você quisesse, você conseguiria.
— É engraçado ver a confiança que você coloca em mim. — Ele sorriu.
— A gente pode não ter sido próximos durante a vida, mas eu sou observadora. Não é questão de confiança, são fatos. — Cruzou os braços como fazia quando queria mostrar que não era algo passível de discussão. — De qualquer forma você ainda não me contou porque seu namoro acabou.
— Contei sim. — negou.
Quando o assunto surgiu, tinha sido apenas curiosidade da parte dela, mas depois que ele havia começado a contar, algo dentro dela a fazia querer saber o que deu errado. queria saber que não era como a ex de .
— Não, você me contou motivos que, em teoria, dificultam namorar um piloto. — mordeu o interior da boca, vendo que ela não ia desistir. — Qual é, não pode ter sido pior que o meu.
— Nossos estilos de vida deixaram de ser compatíveis. Ela foi fazendo mais sucesso como influencer, eram cada vez mais festas, mais eventos, até quando eu estava em casa ela não conseguia estar e aos poucos foi deixando de fazer sentido.
— Entendi.
— E o seu ex? — Aproveitou para passar a bola para ela, queria saber o que tinha ouvido da conversa de sua mãe.
— Você sabe porque terminamos. — concordou. — O que quer saber então? — Mal terminara a pergunta e sentiu como se uma lâmpada se acendesse em sua cabeça. — Ai, não me diga que o assunto chegou na sua casa! — negou com a cabeça, levando uma das mãos ao rosto.
— Que assunto? — Tentou se fazer de desentendido, mas o riso de canto mostrava a que ela estava certa.
— Que Thierry apareceu no meu trabalho. — Ela o olhou, mostrando que não acreditava que ele não soubesse. — Não acredito que minha mãe contou para todo mundo.
— E o que ele foi fazer lá? — tentou perguntar da forma mais despretensiosa que conseguiu.
— Ele ficou sabendo que eu tenho férias atrasadas para tirar e que tenho que tirar pelo menos dez dias antes de julho acabar e queria saber quem ia ficar no meu lugar e como eu ia fazer para não atrasar o cronograma. — Rolou os olhos e, pelo tom de voz dela, percebeu que ela tinha achado desnecessário.
— Férias? Parece bom. Quais os planos? — Preferiu mudar de assunto.
— Por enquanto nenhum. — Confessou.
— Já sabe quais os dias? — Ela o olhou com desconfiança.
— Provavelmente os últimos do mês. Por quê?
— Porque eu tive uma ideia. — Sorriu de lado e ela sorriu junto.
, não vai inventar nada.
— Você não tem planos, eu tenho uma ideia, parece fechar bem, até porque eu não vou poder passar seu aniversário com você.
— Você se lembra quando é meu aniversário? — A surpresa agora estampada no rosto dela.
— Claro que sim, catorze de julho. — Ela o olhou maravilhada e ele riu.
— Não achei que soubesse.
— Posso não ser observador como você, mas sei algumas coisas a seu respeito. — Ela concordou com a cabeça.
— Estou percebendo.
— A não ser que você queira passar o seu aniversário em Silverstone. — Acrescentou fingindo esperança.
— Hum… tentador, mas não. — Ele voltou a rir dela.
— Imaginei. — Ela deu de ombros.
amava aniversários, principalmente o dela. Ela nunca deixava passar em branco e ano após ano sua mãe organizava um jantar em comemoração. Era uma tradição da família que ela não tinha interesse em quebrar.
— Sua mãe vai fazer alguma coisa aqui?
— Acredito que sim, mas ainda não conversamos sobre. Estava esperando que essas crises dela passassem antes de decidir. Não quero incomodá-la.
— Eu não a vejo desistindo do seu aniversário por uma dor de cabeça. — Ela concordou.
— É segredo? — Yohan apareceu na porta da cozinha, atraindo a atenção de ambos.
— Claro que não, pai. — O abraçou, depois que ele trocou um aperto de mãos com . — E como foi a reunião?
— Depois conversamos, vou precisar de sua consultoria.
— Vai mesmo reformar o kartódromo? — puxou assunto e Yohan olhou para a filha. — Meu pai me contou. — Explicou.
— Ah sim, surgiram umas propostas para modernizá-lo, mas ainda não sei se estou satisfeito com o que estão propondo.
serviu suco para o pai enquanto ouvia, junto a , as propostas oferecidas na reunião. Pela primeira vez estava adorando ouvir uma conversa sobre o que costumava ser assunto somente deles, muito provavelmente porque envolvia a reforma, que era algo que ela entendia.



Sept

— Você não está pronta? — tirou os óculos de sol vendo que tinha atendido a porta de pijama.
— Eu te disse que não tinha interesse de ir a lugar nenhum. — A engenheira deu passagem para ela entrar.
— E eu te disse que não ligava, nós vamos sair para almoçar e escolher seu presente.
— Você não precisa me dar nada, .
— Todo ano com o mesmo discurso… achei que já tinha aprendido que eu sempre vou te dar presentes, principalmente no seu aniversário. — se sentou no sofá e se sentou ao lado dela. — O que você está fazendo? Vai logo trocar de roupa, !
— Precisamos mesmo sair? Não podemos comer algo aqui e não fazer nada como antigamente? — fechou os olhos e tombou a cabeça no encosto do sofá.
— O que está acontecendo? — sentou-se de lado, ficando de frente para a amiga. — A que eu conheço ama o próprio aniversário e estaria comemorando durante toda a semana.
— Ah, nem sei. — Deu de ombros, evitando ter que respondê-la. — Acho que só queria descansar já que amanhã vou ter bastante coisa para fazer.
— Achei que você ia encomendar tudo.
— Era a intenção, mas você conhece Mabelle Leblanc.
— Sim, e conheço Leblanc tentando me enrolar. — Empurrou a amiga para fora do sofá. — Vá se arrumar, eu realmente preciso almoçar.

Almoçar no restaurante preferido de tinha a deixado um pouco mais animada e mais alegre e ela nem mesmo se opôs quando dirigiu até o shopping, insistindo que só iriam embora quando a aniversariante escolhesse um presente.
Durante quase uma hora elas andaram sem rumo pelo lugar, adorava ouvir sobre os casos engraçados que recebia quando estava de plantão no hospital e acabou ouvindo sobre a vida de casada dela também. Quem convivia com a médica sabia que seu sonho era ser mãe e os próprios pais dela apostaram que ela engravidaria no primeiro ano de casada, mas Leon estava disposto a adiar por tempo indeterminado e isso mexia com ela.
era sempre uma boa ouvinte, mas raramente se sentia confortável em dar conselhos. Entendia o fato de Leon querer adiar, achava os dois novos ainda e se colocando no lugar da amiga, gostaria de aproveitar sem crianças por alguns anos antes de ser mãe. Mas nem precisou falar nada, pois a própria interrompeu o assunto ao entrar em uma loja de roupas finas, tinha amado um vestido disposto na vitrine.
, o que achou desse vestido? — apontou para o manequim no centro da loja.
— Combina com você. — fez uma careta. — O que foi?
— Tinha pensado nele em você, mas se você achou a minha cara então não é esse.
— Boa tarde, procuram algum modelo específico? — A vendedora se aproximou, simpática.
— Boa tarde. — Ambas responderam.
— Não, mas você poderia nos mostrar alguns vestidos não tão básicos e também não elegantes demais? — continuou.
— Claro, podem vir por aqui. — A mulher caminhou para um lado da loja e a seguiram. — Preferência de cor?
— Qualquer uma, menos vermelho e rosa.
— E qual o tamanho?
— É para ela. — Passou o braço pelos ombros de .
— Para mim? — A olhou surpresa. — Eu achei que você tinha gostado.
— Gostei para você. A não ser que você já tenha algo novo para usar amanhã, esse vai ser seu presente.
— É uma ocasião especial? — A vendedora puxou assunto.
— É o aniversário dela, vai ser um jantar. — se apressou em responder. — Família e amigos.
— Certo, vocês podem me esperar no primeiro provador que vou levar os modelos. — Indicou o lado oposto da loja.
Se existia algo que nunca retrucava era sobre comer chocolate e comprar vestidos. Segundo Mabelle, o gosto por vestidos era uma das poucas coisas que a filha havia herdado dela. Além do que ela realmente gostava de usar coisas novas em seus aniversários, e sabia.
Alguns minutos depois a vendedora apareceu com muitos cabides e olhou espantada para a amiga, não pretendia experimentar tantos modelos, mas não se importou. Pegou a bolsa e o celular das mãos dela e fechou a cortina do provador.
— Você disse que não gostava de vermelho, mas eu acho que esse ficaria lindo em você. Ele é bem justinho. — negou com a cabeça antes mesmo de ela terminar de falar.
— Ela não gosta de roupas coladas. — explicou.
— Trouxe esse verde escuro, saia balonê, lembra um pouco vestidos de época. — estava prestes a recusar novamente, mas pegou o vestido mesmo assim. Vestiu e a vendedora a ajudou com o zíper.
— E então? — fez um sinal para que ela desse uma volta.
— Não gostei, te deixou uns dez anos mais velha. — A engenheira respirou aliviada, voltando ao provador e pegando a peça do próximo cabide.
Apesar de também ser justo para o gosto dela, a saia tinha um detalhe diferente que deixava o modelo mais elegante, era branco e tanto nas bordas das mangas quanto da saia tinha uma faixa preta.
— Você ficou linda! — A vendedora se mostrou entusiasmada.
— É realmente muito bonito. — concordou. — Posso tirar uma foto? — a vendedora concordou. — Assim se ela ficar na dúvida não precisa vestir todos de novo. — explicou e tirou a foto. — Você gostou?
— Não sei, é bonito, mas não parece comigo. — Explicou.
— Então vamos para o próximo.
experimentou um lilás, um estampado florido e um preto. Os três tinham ficado muito bonitos e eram confortáveis também, mas ela odiava comprar sem realmente olhar no espelho e se sentir linda. E com nenhum daqueles ela tinha se sentido assim ainda. Estava prestes a colocar sua roupa novamente quando a vendedora retornou com mais um modelo.
— Experimente só mais esse, é a última peça, aposto que vai ficar ótimo. — Ela tinha dito isso para praticamente todos e assentiu.
Olhou para o espelho e sorriu, estava se sentindo exatamente como gostava, quando uma roupa se encaixava perfeitamente bem. Era azul royal, sua cor preferida. O vestido era de mangas compridas e rendado, com a parte das costas, colo e braços em tule. A saia não era rodada, mas também não era justa. Aquele era o presente.
— Acho que encontrei. — disse ao abrir a cortina e dar alguns passos à frente.
— Também acho, até sua expressão mudou. — Tirou foto daquele também, mesmo sabendo que não restava dúvida. — E eu amo você de azul, além do que… — Fez um suspense atraindo o olhar de . — Combina com os olhos do .
Desviou o olhar novamente para o espelho e sorriu sem graça. Instantaneamente pensou qual seria a reação dele se a visse com aquele vestido. Ele a tinha elogiado tanto no casamento quanto na festa da RBR e embora tivesse disfarçado, ela notava as olhadas que ele dava para ela quando se encontravam. Mas na mesma velocidade que o sorriso veio ele foi embora quando ela se lembrou que ele não a veria no dia seguinte.
— O que foi? — perguntou, preocupada, notando a feição da outra mudar pelo reflexo do espelho.
— Ahn, nada. — tentou disfarçar, ajeitando a saia do vestido de frente ao espelho.
— Ai, meu Deus, você está assim por causa do , não é? — arregalou os olhos, como se tivesse descoberto a cura do câncer.
— O quê? — Devolveu com os olhos também arregalados.
— Acabei de me lembrar que ele tem corrida esse final de semana e não vai estar aqui amanhã. Você fez essa cara agora e foi exatamente como sua expressão de manhã. — abriu e fechou a boca duas vezes, queria responder, mas não conseguiria mentir. — “Nada” e “nem sei” são sinônimos de .
— Ah, cale a boca! — Reclamou voltando ao provador.
— Isso é que é sintonia, ele acabou de te mandar uma mensagem. — contou vendo o nome do piloto surgir na barra de notificações.
— Mandou? — Voltou correndo para o lado da amiga, ainda com o vestindo, pegando o celular para ler.
— Meu Deus, . Você está apaixonadinha por ele. — Falou com um sorriso enorme no rosto.
— Não estou nada. — Negou, mas precisou segurar o sorriso do próprio rosto. — Eu estou, no máximo, começando a gostar.
— Você está sim. E troque logo de roupa, que além de saber o que tinha na mensagem você vai me explicar isso aí.

— Feliz aniversário, ! — entregou a sacola com o vestido e a abraçou. — Você vai estar linda amanhã com meu presente, combinando ou não com os olhos do .
— Para com isso, ! — Ela riu e balançou a cabeça.
— Você vai me contar ou posso começar com o interrogatório? Porque até nossa última conversa sobre um certo piloto, na corrida em Le Castellet, você me garantiu que eram apenas amigos e que só tinham se beijado uma vez.
— E continua sendo verdade.
— Então o que mudou?
— Eu não sei, . De verdade, não sei. — Apesar de parecer uma resposta para cortar o assunto, sentia que ela estava sendo sincera. — Eu nem tinha percebido de fato até você falar isso na loja.
— É sério? — Ela concordou.
— Tipo, eu percebi que tenho gostado de passar tempo com ele, conversar e tudo mais. — Seu tom era de obviedade. — Mas não tinha pensado em de fato estar gostando dele.
— Eu sinto que meu coração vai explodir e nem sou eu quem está apaixonada. — riu.
— Você é muito exagerada.
— E ele está afim de você? — Perguntou baixo, como se fosse um segredo.
— Eu não sei, . Não sei nem como eu gosto dele exatamente. Porque me sinto tão diferente do que me sentia com o Thierry. — fez uma careta expressando sua descrença. — Não agora, né! Antes.
— Você não tem que se sentir idêntica, até porque os dois são bem diferentes também.
— É como se com o fosse tudo leve, sabe?
— E inesperado, né? Vocês se conhecem a vida toda e demorou mais de vinte anos para se interessarem um pelo outro. Imagina seus pais quando souberem!
— Você não vai falar nada. — A interrompeu.
— Nem para o Leon?
— Nem para ele. — Reforçou.

🔸🔹

ouvia um barulho irritante, parecia distante e ela não tinha certeza se era parte do sonho ou não. Devia estar bem cedo, já que seu celular não tinha despertado ainda. Demorou mais um pouco para reconhecer o barulho do interfone e quando identificou, levantou-se depressa da cama e correu até a cozinha.
— Bom dia, senhorita Leblanc. Tenho uma encomenda aqui para você, pode subir? — piscou algumas vezes focalizando as horas no micro-ondas, não era nem oito da manhã e ela com certeza não tinha feito pedido algum.
— Tem certeza de que é para mim? — Perguntou com a voz rouca.
— Sim, Leblanc.
— Então pode deixar subir. — Agradeceu e foi para o banheiro escovar os dentes.
Abriu a porta no exato instante em que o elevador parou no andar. O entregador se identificou e o pedido era de uma padaria que ela não conhecia. Assinou o recibo, agradeceu e voltou à cozinha, colocando a caixa de papelão em cima da bancada. Estava lacrada e não tinha nenhuma identificação. Abriu com a ajuda de uma faca e tirou uma embalagem transparente de dentro da caixa. Eram quatro cupcakes perfeitamente decorados com glacê e glitter e com os dizeres “Feliz Aniversário”. Procurou por um envelope ou cartão, mas não havia mais nada.
Voltou para o quarto para pegar o celular, estava considerando as possíveis pessoas que poderiam ter mandado, mas o mistério acabou quando ela desbloqueou o aparelho. Já tinha recebido algumas mensagens de parabéns logo com a virada do dia e a mais recente era de .


Bom dia! Só agora lembrei que aqui é uma hora mais cedo então eu talvez você já tenha tomado café da manhã. Feliz aniversário, !

Espero que goste da lembrança e que sejam gostosos. Sei o quanto seu aniversário significa para você, por isso espero que tenha um ótimo dia.”



riu sozinha, agradecendo aos céus por ler a mensagem sozinha e pela mensagem do dia anterior ser somente contando sobre a qualificação. Sabia que tinha um sorriso bobo no rosto e que pegaria no seu pé por dias caso a flagrasse naquele instante.


Bom dia! Só agora lembrei que aqui é uma hora mais cedo então eu talvez você já tenha tomado café da manhã. Feliz aniversário, !

Espero que goste da lembrança e que sejam gostosos. Sei o quanto seu aniversário significa para você, por isso espero que tenha um ótimo dia.”

Bom dia!

Ainda não tomei café.

Na verdade, você me acordou. kkkkkk Mas vou te perdoar porque os cupcakes são lindos e parecem deliciosos.

Muito obrigada, !

Tenho certeza de que vai ser um bom dia.

Muito obrigada, !

Espero que você faça uma excelente corrida para compensar faltar meu jantar.



Bloqueou a tela novamente e se ajeitou na cama. Estava cedo demais para um domingo e a temperatura estava ótima para ficar embaixo da coberta por mais algumas horas.

🔸🔹

O céu estava cinza em Silverstone, a ameaça de chuva durante a corrida existia, mas se chovesse não seria no começo de acordo com a previsão. A temperatura estava baixa e isso refletia na pista e consequentemente nos pneus que usaria. Largaria de pneus médios, os pneus que ele se classificou do Q2 para o Q3 no dia anterior e a estratégia era apenas uma parada nos boxes trocando por duros.
Saíram para a volta de apresentação e era o quinto no grid de largada, entre e Vettel. Ouviu a voz de em sua cabeça sobre cinco de vinte e sorriu, ele estava ansioso para correr, estava confiante e otimista sobre a corrida. E, como sempre, preparado para dar o seu melhor. Se concentrou, vendo as luzes vermelhas se acenderem uma a uma e então se apagarem.
Pisou fundo no acelerador, mas não foi o suficiente para se manter na posição. Vettel o havia ultrapassado na largada e isso não seria visto com bons olhos. Mas ele sabia que poderia recuperar, era só manter o foco no carro e na pista. Era informado pelo rádio da distância ao longo das voltas e na décima segunda ele ultrapassou a Ferrari e voltou a ocupar a posição perdida.
Apesar de recém recuperar a posição, a equipe o chamou para os boxes na volta treze, seguindo a estratégia e colocando o jogo de pneus duros. Retornou na décima posição, mas não estava preocupado, os outros pilotos não haviam parado ainda e quando o fizessem, ele ganharia algumas posições.
Ao final de três voltas ele havia subido três posições no grid e encarava o carro laranja de Sainz em sua frente, mas foi na volta de número vinte que as coisas mudaram com a entrada do Safety Car. Giovinazzi tinha saído e parado na caixa de brita, trazendo bandeira amarela no setor 3.
Hamilton aproveitou a entrada do carro de segurança e fez o seu pit stop, conseguindo se manter na primeira posição, já que Bottas tinha voltado apenas em terceiro quando fez a parada. Vettel parou na volta seguinte, e também conseguiu se manter, voltando na terceira posição. No entanto, as paradas de Sainz e colocavam em quinto, atrás de , que parou na volta seguinte e retornou no sexto lugar. ocupava a quarta posição, estava a um pé do pódio e se sentia eufórico, mesmo sabendo que conseguir superar Vettel seria muito difícil.
O Safety Car foi para os boxes três voltas depois do acidente e pelo retrovisor via cada vez mais próximo. A equipe o avisou dos tempos cada vez menores do companheiro e na volta vinte e sete ele foi ultrapassado pelo holandês. Sabia que não podia se abalar, mas não conseguia manter um ritmo ideal e poucas voltas depois era o monegasco quem ameaçava ultrapassá-lo.
Tinha dado o seu máximo para segurar , mas depois da sétima volta, tinha sido ultrapassado também por ele, voltando a ocupar o sexto lugar. Tentava diminuir a distância para e então viu e Vettel fora da pista, conseguiu passar antes de ambos voltarem à pista.
— O que aconteceu? — perguntou no rádio.
— Vettel e se tocaram durante a ultrapassagem.
— Foco em você, . — Murmurou para si, se concentrando em manter-se na quarta posição até o final.
Daquele momento até o final ele via no retrovisor. Mesmo assim conseguiu terminar a corrida na frente do companheiro de equipe pela primeira vez na temporada e sentia muitas emoções ao cruzar a linha de chegada. Uma mistura de felicidade, com alívio e orgulho de si mesmo.
— P4, . Muito bom. — Sorriu, satisfeito.
— Obrigado, pessoal.
tinha acabado de marcar doze pontos e enquanto levava o carro de volta, pensou que aquele momento merecia uma comemoração e ele sabia bem onde queria estar.
— Vai ficar de macacão até que horas? — implicou vendo ainda vestido quase uma hora depois da corrida.
— Estava resolvendo umas coisas aqui. — Respondeu, finalizando a compra da passagem pelo celular.
— Vai viajar? — Estranhou ver o site da companhia aérea.
— Privacidade para que, né? — reclamou, puxando o aparelho para longe de . — Eu vou para casa. — Contou, esperando que fosse informação suficiente para ficar sozinho novamente.
— Que bom que estão juntos. — Christian apareceu e os pilotos o olharam. — Como não vamos viajar hoje, a Geri convidou vocês para jantar lá em casa.
— Conte comigo, mas não vai. — respondeu. — Vai para casa ver a namoradinha dele.
— Você está namorando?
— Ela não é minha namorada. — respondeu ao mesmo tempo em que Horner perguntara.
— Então por que comprou a passagem? — sorriu, desafiando-o a falar a verdade.
— Porque hoje é aniversário dela.
— Bom, então vocês dois podem convidar as namoradas para o show da Geri no final do mês. — Lembrou do outro convite que pretendia fazer.
não é minha namorada. — repetiu, mas só provocou a risada alta de .
— Christian, uma amiga que você beija é namorada ou não? — O holandês passou o braço pelos ombros do chefe de equipe, o impedindo de sair do quarto.
— Cala a boca. — riu e empurrou os dois para fora. — Vão me fazer perder meu voo.



Huit

juntou suas coisas o mais rápido possível, sabia que o trajeto do circuito de Silverstone até o Heathrow levava pouco mais de uma hora, se o trânsito estivesse livre e a decolagem do seu voo estava prevista para às 18:45.
O avião pousou em Marselha pontualmente às dez horas da noite. O fuso horário não tinha agido em seu favor. Pegou um táxi direto para a casa de seus pais, o presente de estava em seu armário e ele não iria para o jantar dela sem tomar um banho decente.

— Faça um pedido, ! — falou quando finalizaram os parabéns.
sorriu e fechou os olhos por breves segundos, voltando a abri-los e soprando as velas com os números dois e seis em cima de sua torta. Não tinha feito nenhum pedido específico, queria que a vida a surpreendesse com o inesperado.
, a gente pode soprar agora? — Marie e Zoé pediram, sendo as únicas crianças ali.
A aniversariante voltou a acender as velas e depois de cantarem parabéns para você novamente, sopraram as velas juntas.
estava posicionada em frente à mesa e acenou para que Mabelle e Yohan se aproximassem da filha. Tirou algumas fotos de com os pais, depois com a avó, com os tios e primos, com os padrinhos e por último com ela mesma e Leon.
— Para quem vai ser o primeiro pedaço? — Marie perguntou quando partiu a torta.
— Os dois primeiros vão para os meus pais. — Entregou para os mais velhos. — Mas os próximos podem ser de vocês.
— Eba! — As duas comemoraram batendo palmas e riu, entregando ao mesmo tempo para elas que foram correndo para o quintal.
À medida que os convidados pegavam o doce, iam se dispersando pela casa. tinha deixado mais pedaços cortados e espalhados e estava prestes a começar a comer o seu quando a campainha tocou. Ela não esperava mais ninguém, principalmente àquela hora.
, querida, você me ajuda a levantar? — Sua avó pediu.
— Pode deixar que eu atendo. — foi em direção à porta enquanto acompanhou a avó até o lavabo. — , tenho uma surpresa para você! — A amiga falou empolgada demais, o que deixou a engenheira em alerta.
, você sabe que não gosto de surpresas! — Falou do corredor, voltando para a sala. — Se você tiver contratado um stripper eu juro que não olho na sua cara pelo próximo ano! — riu e congelou, não acreditou no que seus olhos viam.
estava lá, quando deveria estar na Inglaterra. Se não fosse a quantidade de olhos nos dois, ela provavelmente teria ido até ele e o abraçado, mas estava sem graça e deu um sorriso tímido, mesmo que o sorriso dele merecesse mais dela.
— É, você definitivamente tem problema com horário. — Fez graça, tentando aliviar a tensão e ele riu, encurtando a distância entre eles e então se abraçaram.
— Feliz aniversário, ! — Desejou baixo. — Que todos os seus sonhos se realizem!
— Muito obrigada! — Respondeu também baixo.
— Falei que era a voz do padrinho! — Zoé gritou e correu para que a pegou no colo.
— Filho, não sabíamos que você viria. — Pascal abraçou o filho em seguida e aproveitou para pegar um copo de água.
Embora não tivesse demonstrado, tinha ficado muito feliz em vê-lo ali. Era como se seu aniversário estivesse completo e ela imaginava que não tinha sido a coisa mais simples do mundo ele ter voltado para casa depois da corrida. Esperava que tivessem um tempo a sós mais tarde para que ela pudesse agradecer realmente.
— Isso é o que eu chamo de pedido de aniversário realizado com sucesso. — falou atrás dela, a assustando.
— Eu não pedi isso, ! — negou com a cabeça e riu.
— Mas que ficou toda sem gracinha quando o viu, isso ficou. — Sentiu o rosto esquentando novamente.
— Você sabe que não lido bem com surpresas. — Se defendeu. — Estava todo mundo olhando.
— Sei sim, mas achei legal ele fazer o esforço de vir te ver. — concordou. — E ele fica bonito quando não está de azul também.
— Tchau, . — Deu as costas para a amiga e voltou para a sala.
Não admitiria em voz alta, mas estava mesmo muito bonito com aquela blusa cinza de mangas compridas, puxadas até metade do antebraço e jeans pretos. A família dele já tinha se encarregado de acompanhá-lo até a mesa onde estava o jantar e ela aproveitou para dar atenção aos outros convidados.

Duas horas depois, quase todos os convidados já tinham ido embora e depois de se despedir e acompanhar os tios até a porta, sentou-se ao lado de no sofá.
— Ainda bem que você surgiu, não aguento mais os dois falando de corridas. — lançou um olhar para o marido. — Não sei como você mudou de ideia. Quer dizer, sei.
— Cala a boca, ! — Reclamou, mas nada parecia tirar o sorriso do rosto dela.
— Estou errada? — Desafiou e riu alto vendo que essas simples palavras a tinham deixado sem graça novamente. — Inclusive acho que você deveria chamar o para sua casa.
— Eu não vou fazer nada disso. — disse baixo.
— Ele veio da Inglaterra para cá por você e você mal deu atenção a ele, amiga.
— Não é como se eu pudesse ignorar todo mundo.
— Então vou facilitar para você. — Sorriu e sabia que aquilo não era bom. — Amor, vamos embora? Já está tarde, Mabelle e Yohan provavelmente querem descansar.
— Imagine, querida! Nós já vamos dormir, mas vocês podem ficar à vontade. — O casal mais velho se despediu dos quatro e foi para o segundo andar.
— Leon, eu falei sério.
! — resmungou.
— Tem razão, me empolguei e nem notei que só nós estávamos aqui. — Se levantou do sofá. — Foi um prazer, cara. — Cumprimentou .
— Vamos marcar algum dia para correr de kart. — convidou e Leon parecia uma criança cujo sonho seria realizado.
— Claro. Só avisar quando estiver na cidade. — Passou o braço por cima dos ombros da esposa. — Amor, a não está de carona conosco?
— O pode deixá-la em casa, não é? — Ofereceu de bandeja e ela abriu a boca, mas voltou a fechar, não iria expulsar o piloto de sua casa.
— Claro, sem problemas. — Confirmou e retribuiu o abraço da médica.
— Eu te odeio. — sibilou ao se despedir da amiga.
— Não odeia. — Beijou a bochecha dela e seguiu Leon até o carro.
fechou a porta e voltou para a sala, mas não estava lá. A ideia de estar só com ele estava deixando-a nervosa e ela nem entendia bem o porquê.
— Onde posso colocar? — Perguntou com a travessa de tiramisu nas mãos.
— Você não precisava trazer, eu ia guardar. — Sabia que os pais já tinham guardado quase tudo antes de subirem.
— Quem disse que quero guardar? Eu quero um pedaço.
— Você vai comer doce? — Não disfarçou a surpresa. — Seu preparador físico vai me matar. — Serviu um pedaço para ele.
— Não vai se não souber. E outra, não é um doce, é a melhor sobremesa do mundo. — Ele colocou um pouco na boca e viu que ela estava rindo. — O que foi?
— Estava pensando quais as chances de nossa sobremesa preferida ser a mesma.
— Não é tão estranho assim, nós temos bom gosto. — Ela concordou e voltou a organizar o que faltava para irem embora. — Isso está tão gostoso que valeu minha vinda para cá.
— E eu achando que me ver tinha valido a pena. — Fez um drama e foi pega de surpresa ao ganhar um beijo dele em sua bochecha. Não tinha percebido que ele tinha se aproximado.
— Claro que te ver valeu a pena. Principalmente a cara de pastel que você ficou quando me viu.
— Eu não gosto de surpresas, . — Se justificou.
— Confessa, você gostou de me ver. — A provocou e ela continuou encarando os olhos dele, mordendo o interior da própria boca para não responder.
— Bom, foi você que voou de Londres a Marselha para me ver, acho que isso diz quem queria ver quem. — Inverteu o jogo, evitando confirmar que tinha gostado de vê-lo.
ponderou sobre dizer que realmente queria vê-la e que tinha valido a pena, pois ela estava linda, sempre que ela usava azul parecia que chamava mais ainda a sua atenção, mas não disse nada e apenas concordou com a cabeça.
— Anda, vamos embora. — Chamou.
fechou algumas das janelas que estavam abertas e passou de cômodo em cômodo desligando as luzes. Trancou a porta da frente e logo estavam a caminho do apartamento dela.
— Ai, meu Deus! — levou as mãos ao rosto.
— O que foi?
— Eu esqueci totalmente de te perguntar como foi a corrida. — Ele riu. — Nossa, estou me sentindo uma péssima amiga agora. Além de não ver o resultado, nem lembrei de te perguntar.
— Não tem problema, você estava cuidando de outras coisas.
— Mas você está feliz, então quer dizer que foi boa! Me conta! — Pediu, sacudindo o braço dele de leve.
— Foi boa, cheguei em quarto. — Contou com um sorriso largo.
— Isso é maravilhoso, ! Sabia que hoje ia ser um dia ótimo.
— Foi mesmo. Não me sentia aliviado depois de uma corrida em muito tempo.
— Em que lugar o ficou? — Perguntou com uma careta.
— Quinto. — Parou em frente ao prédio dela.
— Pode entrar. — Tirou o controle do portão da garagem da bolsa, o abriu. — Você não vai embora sem me contar pelo menos alguns detalhes e sem comemorar o seu quarto lugar.
tinha plena consciência do convite que estava fazendo e sabia que adoraria dizer que tinha tido razão, mas estava ignorando tudo. Aquele dia em especial ela estava se sentindo muito bem na companhia dele e sabia que era assim que queria terminar o dia.
entrou na garagem já contando alguns detalhes, tanto da qualificação quanto da corrida e ela percebeu que ele estava realmente feliz com aquele resultado. Destrancou o apartamento e acendeu as luzes. A única diferença da outra vez que ele estivera ali eram dois buquês de flores enfeitando a mesa de centro e a bancada que dividia a cozinha com a sala.
pegou duas taças no armário e serviu vinho em ambas. Entregou uma a que a olhou confuso.
— O dia de hoje merece ser comemorado. — Explicou o óbvio.
— Merece, mas eu não bebo quando estou dirigindo.
— Dorme aqui. — Só percebeu o quanto aquilo soara como um pedido pela expressão divertida no rosto dele. — No quarto de hóspedes, ! — Deu um tapa no braço dele.
— Você tem noção do que sua madrinha vai fazer quando constatar que eu fiquei para te deixar em casa e não dormi na minha? — Ela riu alto.
— Só por hoje eu não ligo. — sabia que não tinha maldade nem segundas intenções nas palavras dela, mesmo assim a vontade de beijá-la havia surgido do nada e ele respirou fundo, controlando-a.
— Ao seu aniversário. — Ele pegou uma das taças da mão dela.
— Ao seu quarto lugar. — Encostaram as taças uma na outra e beberam ao mesmo tempo.
sentiu certo alívio quando a bebida gelada desceu por sua garganta. Lembrou-se de que o presente de tinha ficado no carro. Deixou sua taça no balcão e saiu pela porta, dizendo que precisava buscar algo no carro.
Dentro do elevador, passou as mãos pelo cabelo, bagunçando-o. realmente mexia com ele de uma forma inesperada e aparentemente sem intenção. Seria tortura passar a noite lá sentindo-se como estava naquele momento, mas ele não conseguiria negar o pedido dela, não naquele dia em que ela estava tão feliz.
Pegou o presente dela e sua mochila que sempre deixava no carro para quando precisasse e subiu novamente até o andar dela, encontrando-a de camiseta e short no sofá. Sorriu, admitindo para si que talvez estivesse apaixonado. Não importava o que usava, ele sempre a achava linda.
— Em teoria não é mais seu aniversário, mas feliz aniversário! — Entregou o pacote nas mãos dela, que abriu sem demora.
— Eu não acredito! — Disse dando um abraço de lado nele. — E tem meu sobrenome. — Constatou ao ver as costas do uniforme do Paris Saint-Germain.
— Sim, seremos e Leblanc no próximo jogo.
— Mas o próximo jogo não é na Alemanha? — Tinha lembrança de ter conferido os próximos jogos do time.
— Sim. Olha seu presente direito. — Implicou e ela virou a embalagem de cabeça para baixo, fazendo cair um papel retangular.
! Você não tem juízo? — Ela riu e o abraçou novamente. — Você comprou ingressos para um jogo em Nuremberg?
— Bom, você vai ter dez dias de férias no final do mês e se não me engano você disse “vou te deixar planejar todas as minhas férias daqui para frente”. — Repetiu as palavras exatas ditas por ela no hotel em Mônaco.
— Não era algo para ser levado a sério, seu louco! Eu nem me planejei para uma viagem assim.
— A viagem já está planejada, você só precisa estar no aeroporto com antecedência de uma hora do horário do voo.
— Você comprou passagens também? — Ele assentiu. — Você definitivamente precisa de limites, .
— Eu não sabia o que te dar de presente. — Deu de ombros. — Nada melhor que criar memórias.
— Você nem precisava ter me dado nada. Além disso, você me deu os cupcakes de manhã, esqueceu?
— Aquilo não conta. — Se levantou, pegando as duas taças na mesa de centro.
— Como não?! Aquilo é maravilhoso. — o seguiu até a cozinha e deu impulso para se sentar no balcão enquanto ele servia o vinho. — Você precisa provar. — Ela se esticou e pegou a caixinha que estava próxima aos potes de biscoitos.
— Mas a gente está bebendo. — Deu outro gole na sua bebida.
— E? — continuou olhando para ela. — Não me diga que nunca comeu doce enquanto bebia vinho! — Ele negou e ela riu.
— Em minha defesa, comer doce e beber vinho são coisas muito raras na minha vida.
— Credo, falando assim parece que estou te levando para o mau caminho. — Abriu a caixa e tirou um cupcake de lá. — Vamos, só um pedaço. — Estendeu o bolinho na direção dele.
pegou-o e deu uma mordida e tinha razão, não era doce demais e por isso não era enjoativo. Ele poderia comer um inteiro, mas já tinha saído demais da sua alimentação habitual. Entregou o restante para ela, que estava com um sorriso discreto.
— O que foi?
— Vem cá. — O chamou com a mão. — Tem um pouco de cobertura na sua barba.
se esticou novamente, alcançando um guardanapo no suporte e se aproximou, ficando entre as pernas dela, apoiando as mãos ao lado de cada uma das pernas dela. Ela segurou o rosto dele com a mão esquerda e passou o papel duas vezes com a outra, tirando o glacê. Sentiu o perfume dele e só então percebeu o quanto estavam próximos.
a olhava de uma forma tão intensa que ela se arrepiou e sentiu o coração bater mais depressa. Soltou o guardanapo de qualquer jeito ao lado de si e levou novamente as mãos ao rosto dele, o trazendo para mais perto.
fechou os olhos, sentindo os lábios macios de em contato com os seus em seguida e aquele simples toque tinha sido o suficiente para aquecer todo o seu corpo. Rapidamente levou as mãos para a cintura dela, o toque firme trazendo o corpo dela para mais perto ao mesmo tempo em que aprofundavam o beijo.
arranhou de leve a nuca dele, fazendo-o sorrir entre o beijo. A sincronia deles naquele momento fazia com que nenhum dos dois quisessem se separar. O gosto do doce com o vinho se misturava cada vez mais e depois dessa noite seria impossível para ambos esquecer essa combinação.
Romperam o beijo com alguns selinhos e ao abrirem os olhos, notaram o sorriso um do outro. permaneceu com os braços em volta do pescoço dele, e ele com as mãos na cintura dela. Ela amava a intensidade do olhar dele e naquele momento ambos sabiam que sentiam algo, mesmo que não soubessem exatamente o quê.
— Vem, vamos assistir alguma coisa. — estendeu a mão para ajudá-la a descer.
Sentaram-se lado a lado e ligou a televisão, passou pelos canais e deixou em um filme que parecia estar no começo. Um avião já estava no ar e havia uma ameaça terrorista, mas isso foi tudo que absorveu, pois sua mente insistia em reviver a cena da cozinha de minutos atrás.
não estava muito diferente, a sensação dos lábios de parecia impregnada nele. Sentia que todo o calor que surgira no seu corpo tinha desaparecido no instante em que pararam de se tocar. Olhou para a tv, mas não fazia ideia da história do filme que passava.
sentiu os olhos do piloto em si e quando o olhou, ele havia voltado a encarar a tv. Sentiu novamente que era observada, mas dessa vez ele não desviou o olhar.
— O que foi? — Ela sorriu.
— Nada. — Respondeu relaxado, mas ainda a olhando.
— Me fala, .
— Sou estou pensando.
— Em quê? — Insistiu e ele se aproximou dela, causando outro arrepio.
— Nisso. — Respondeu baixo no ouvido dela e ela fechou os olhos assim que sentiu os lábios dele em seu pescoço.
Segurou o rosto dela com delicadeza, dando início a um beijo que ambos queriam e que foi seguido por outros tantos beijos ao longo daquela noite.



Neuf

rolou os olhos ao se ver pelo espelho do elevador. Aquele sorriso parecia que nunca deixaria o seu rosto. Não tinha dormido muito, dormir não era algo necessário quando tinha os lábios de colados aos seus. Mesmo que não tenha passado de beijos, tinha deixado uma impressão e tanto e foi inevitável para ela não pensar quando poderiam ficar novamente.
Ainda estava na garagem quando o celular vibrou no banco do passageiro. Ler o nome de nas notificações a fez sorrir mais uma vez, e abriu a mensagem de imediato, sem se preocupar com o que ele pensaria sobre ela.


Online

Acho que estamos a salvo.

Cheguei e todos ainda estavam dormindo.

Um dia de sorte!

Meu aniversário é maravilhoso mesmo.

Mais do que eu imaginava.



foi pega de surpresa por aquela mensagem. Ele claramente estava dizendo que a noite passada tinha sido maravilhosa e ela não sabia como responder. Tinha sido melhor do que ela esperava também, mas não diria isso a ele.


Online

Acho que estamos a salvo.

Cheguei e todos ainda estavam dormindo.

Um dia de sorte!

Meu aniversário é maravilhoso mesmo.

Mais do que eu imaginava.

Estou indo treinar.

Bom trabalho!

Te vejo no sábado.



Bloqueou o celular e deixou a garagem. O responderia depois, com calma e talvez até engatando um novo assunto. Mas tinha menos de quinze minutos para chegar no trabalho e não pretendia se atrasar.
— Bom dia, François! — Cumprimentou o senhor que tanto gostava.
— Bom dia, ! — Respondeu, levantando-se da guarita assim que ela cruzou a entrada. — Parece feliz hoje. Aproveitou o seu dia?
— Claro que sim, eu amo comemorar meu aniversário.
— Eu sei, mas algo me diz que esse sorriso não tem a ver só com seu aniversário. — parou de andar e o encarou com os olhos arregalados.
— Como assim, François? — Tentou disfarçar.
— Esse sorriso é de moça apaixonada. — A engenharia forçou um riso.
— Acho que dessa vez o senhor se enganou. — Voltou a andar a caminho de sua sala, sendo acompanhada por ele o caminho todo.
— Pode ser que sim. Mas eu criei três filhas, já vi esse olhar e esse sorriso nos rostos delas várias vezes ao longo desses anos. — não conseguiu negar uma terceira vez. — E se eu fosse apostar, diria que tem a ver com o rapaz que veio te visitar.
— Pode ser que sim. — Ela repetiu as palavras dele, com outra entonação, fazendo-o sorrir.
François sempre a tratara como uma filha, ela sabia disso e sentia isso em pequenos atos durante todos esses anos em que trabalharam juntos. Estava pensando nisso quando abriu a porta de sua sala e levou um susto ao ouvir os gritos dos funcionários lhe desejando feliz aniversário.
Os olhos de ficaram úmidos, ela estava emocionada pela surpresa e por constatar que aquela equipe nunca fora o que Thierry pintara para ela. Cindy foi a primeira pessoa a abraçá-la e sabia que aquela organização pertencia a uma mulher. Depois dela, outros funcionários a abraçaram e todos tomaram café juntos, antes de seguirem para suas funções.
O dia tinha passado depressa, com os seus dez dias de férias e pouco mais de um mês para a entrega da obra, queria ter certeza de que tudo estaria encaminhado e garantir que permaneceria em ordem até o seu retorno. Olivier, seu estagiário, seria o responsável por tocar o trabalho e a engenheira faria uma chamada com ele todos os dias para checar as tarefas.
estava passando pela área comum do prédio para voltar a sua sala e o pôr do sol chamou a sua atenção. Uma mistura de tons de azul com laranja, rosa e amarelo. Estava lindo. Naquele instante ela sentiu que sua vida estava de volta nos trilhos, os dias nebulosos haviam ficado para trás.

— Finalmente. — falou assim que a engenheira destravou o carro.
— Precisa me matar do coração, ? — Levou a mão ao peito.
— Se você olhasse seu telefone e lesse suas mensagens… — Soltou, sentando-se no banco do passageiro.
— Cadê o seu carro? — perguntou, dando partida e seguindo para a casa da amiga.
— Não fui para o hospital hoje, participei de um projeto na universidade e como você não me mandou uma mísera mensagem para me atualizar dos acontecimentos recentes, resolvi vir pessoalmente.
— Quanto tempo você tem? — a surpreendeu com a resposta e abriu a boca sem emitir nenhum som.
— Depois dessa? Todo o tempo do mundo! Pode estacionar no McDonald's da próxima quadra, claramente esse assunto merece um lanche calórico.
— O que tem a ver uma coisa com a outra?
— Nada, mas eu não quero que você me conte enquanto dirige, quero olhar na sua cara as suas reações.
— Larga de besteira, .
— Então admite que eu estava certa.
— Sobre? — perguntou, conferindo o carro no espaço da vaga e puxando o freio-de-mão em seguida.
— Levá-lo para o seu apartamento ontem.
— Você estava certa, . Foi uma ótima ideia levá-lo para o meu apartamento ontem. — Disse num tom mecânico e forçado.
— Você está doente? — A médica levou a mão até o rosto dela.
— Ridícula. — riu e tirou a mão da amiga de seu rosto.
— Você nunca admite o que eu peço, nem em tom irônico assim. — Ela apenas deu de ombros e as duas seguiram para dentro do estabelecimento.
Com suas bandejas em mãos, subiram as escadas para o primeiro andar e escolheram uma mesa mais ao fundo, com maior privacidade, mesmo que ninguém ali as conhecesse. odiava correr o risco de que escutassem ela quando falava de sua vida.
— Pronto, não me mate mais de curiosidade, por favor.
— Não irei. — garantiu, colocando uma batata frita na boca.
— E não me poupe dos detalhes sórdidos. — A engenheira ignorou o comentário e começou a contar sobre a noite anterior.
— Estávamos na metade do caminho para o meu apartamento quando eu percebi que nem tinha perguntado sobre a corrida dele. Então acabei convidando-o para subir para comemorar a boa colocação dele e o meu aniversário.
— Hum. — mastigava suas batatinhas como se fossem pipoca ouvindo a amiga.
— Ele disse que não ia beber porque estava dirigindo. — fez uma cara triste e abriu a boca, incrédula. — E aí ele foi embora.
— Não! Não pode ser. — queria dar uns tapas em , ela tinha certeza de que o piloto estava a fim da amiga, tinha notado os olhares dele para ela em vários momentos na noite passada.
— Estou brincando. — Declarou depois de um tempo e a médica estreitou os olhos. — Quando dei por mim já tinha convidado para dormir lá.
— Mentira! — Ela deu um gritinho animado. — Me diz que ele ficou e que meu sonho se realizou.
— Se seu sonho era nós dois nos beijando no meu sofá, então aconteceu sim. — Contou, sentindo-se um pouco envergonhada. — Mas não passou disso. — Acrescentou.
— Eu sabia! — Comemorou, vitoriosa. — Você está esquecendo só de uma coisa.
— O quê?
— Detalhes sórdidos. — Repetiu, fazendo negar com a cabeça. — Ah, não é possível que não vou saber como foi o beijo que estou esperando há meses.
— Que diferença isso faz? — a ignorou.
— Foi bom?
— Sim.
— Melhor que o beijo do meu casamento?
— Muito melhor.
— Ele beija bem?
— Muito. — Riu sozinha com sua resposta.
— Está pensando em beijá-lo novamente? — sentiu suas bochechas corando. — Não precisa responder, já está na sua cara. Literalmente.
— Eu não me lembrava dessa sensação de nervosismo e ansiedade por estar com alguém. Foi só vocês irem embora e já comecei a me sentir assim.
, sinto em te dizer, mas você está muito apaixonada pelo piloto. — Seu coração deu um salto ao ouvir essas palavras. — E se não estou enganada, ele se sente da mesma forma.
— E você nem ouviu tudo ainda.
— Tem mais? — disse um pouco mais alto.
— Sim, ele me deu presentes.
— Presentes? No plural? — confirmou.
— Uma camisa do PSG personalizada, com um ingresso para o próximo jogo.
— Não sei se gostei desse presente.
— O jogo é na Alemanha. — Acrescentou, tendo toda a atenção de em si novamente.
Contou a ela sobre as passagens, sobre suas férias e alguns dos planos de . Enquanto isso, tentava arrancar mais detalhes sobre a noite da amiga, sem sucesso.

🔸🔹

O voo de sairia de Marselha somente ao meio-dia de sábado, mas na sexta-feira à noite, todas as suas coisas já estavam arrumadas. Estava deitada, embora ainda fosse cedo para dormir. Estava se sentindo estranha novamente. Ao mesmo tempo que queria encontrá-lo, estava receosa. Como se cumprimentariam? Como se comportariam na presença um do outro?
— Deve ser por isso que amigos não devem ficar. — Resmungou para si mesma no escuro e em menos de cinco segundos o celular vibrou na cama.
Riu ao ler o nome do piloto na tela e deslizou o dedo pela tela, desbloqueando-a.


Online

Malas prontas?

Sim.😊

Contou para os seus pais que vai viajar?

Contei.

Comigo?



riu, ele deveria estar se lembrando de quando ela pediu segredo sobre Mônaco.


Online

😂😂😂

Claro que sim.

Pretendo tirar várias fotos nas minhas férias e era melhor eles saberem antes.

Contei hoje à tarde, por quê?

Só para não acabar fazendo algo que você não gostaria.

Relaxa.

Nessa altura do campeonato não tem nada novo que eles ainda não pensaram sobre nós.

Mas tem algo estranho…

O quê? 👀

Não recebi nenhuma mensagem da minha mãe surtando sobre isso.

😂😂😂



achava que isso tinha dedo de seu pai. Quando contou, por chamada de vídeo, que iria viajar para Alemanha com , ouviu-o dizer para sua mãe respeitar o espaço da filha.
Lembrou-se das palavras dele sobre ela se fechar quando falam demais sobre ela e prometeu a si mesma que se daria uma chance, que deixaria as coisas fluírem naturalmente.


Online

Nessa altura do campeonato não tem nada novo que eles ainda não pensaram sobre nós.

Mas tem algo estranho…

O quê? 👀

Não recebi nenhuma mensagem da minha mãe surtando sobre isso.

😂😂😂

Não comemore tão cedo.

Ainda temos dez dias pela frente.



— Dez dias. — repetiu ao ler a mensagem.
Ele sabia que não poderia sair muito de sua rotina, estava no meio de uma temporada em que ele não atendia às expectativas dos chefes. Mas faria o máximo para fazer alguns programas com .
Ele estaria mentindo se dissesse que a noite no apartamento dela não tinha significado nada, ou que não estava ansioso para esses dias a sós. Ele tinha percebido como ela era mais solta, descontraída e despreocupada quando estavam só os dois e parecia calcular todos os movimentos na presença de outras pessoas. Mas independente do que acontecesse, ele sabia que seria divertido, como havia sido em todas as últimas vezes que estiveram juntos.

🔸🔹

tinha conseguido ser pontual e chegou ao aeroporto de Mannheim quando o avião de estava pousando. Sentou-se na área de desembarque e estava curtindo algumas fotos no Instagram quando ela passou pela porta. Guardou o celular e foi de encontro a ela.
— Oi! — Disseram ao mesmo tempo e a abraçou de lado, dando um beijo no topo de sua cabeça. — Como foi o voo? — Pegou a mala de rodinhas da mão dela e puxou-a até a saída do aeroporto.
— Foi tranquilo. Como foi sua semana aqui?
— Foi pesada. — Ele confessou. — Pyry me forçou bastante quando soube que eu ia dar umas escapadas para fazer alguns programas com você.
! — Falou, séria. — Eu já te falei, a última coisa que eu quero é que você se prejudique por minha causa. — Ele sorriu, para ele era exatamente o contrário.
— Relaxa, . Está tudo sobre controle. — Garantiu, colocando as coisas dela no porta-malas do seu carro.
Assim que ele deu partida no carro a música que ele ouvia antes voltou a tocar e fez uma careta.
— O que é isso? — Apontou para o painel do carro. riu alto da cara de desgosto que ela fazia.
— Y2K. — Ela continuou olhando com as sobrancelhas arqueadas. — É um rapper, nunca ouviu? — negou com a cabeça.
— Nem irei. — Encostou o dedo no display, passando para a próxima música. — Kid Cudi? — Ele riu novamente.
— Outro rapper.
— Esse eu conheço, mas não fazia ideia de que era esse o tipo de música que você ouvia. — Confessou, mudando de música novamente e lendo XXXTENTACION na tela. — Outro rapper? — Ele concordou. — Não tem nenhum rock nessa lista?
— Talvez um ou dois. Rock não é muito meu estilo.
— Como assim, ? — não conseguia acreditar que ele preferia ouvir rap.
— Essa é uma das poucas. — Confirmou quando começou a tocar Can’t Stop do Red Hot Chilli Peppers.
O trajeto até o hotel Hockenheim-Ring durou dezenove minutos e o único assunto no carro era o gosto musical duvidoso de . havia passado quase a playlist toda e só três músicas não eram rap. Combinaram que se fossem ouvindo as músicas dele na ida para o estádio, ouviriam as dela na volta.
— Nós vamos ficar aqui? — Ela notou que a construção do hotel era parte do circuito.
— Sim, é onde sempre ficamos.
— Adorei. — Saiu do carro. — Quer dizer que se eu estiver com preguiça de ir ver você correr, eu posso simplesmente olhar pela janela.
— Engraçadinha. — Cutucou-a nas costelas, fazendo-a rir.
Os dois andaram juntos até a entrada do hotel. O hotel era todo vermelho do lado de fora, a construção era simples assim como a recepção. insistiu que dessa vez ela faria o seu próprio check-in e pagaria pelas suas coisas e não se opôs. O quarto dela era em frente ao dele e o de Pyry ficava ao final do corredor, todos no segundo andar.
— Nos vemos em trinta minutos. — acenou um tchau, entrando no seu próprio quarto.
Diferente das áreas comuns do hotel, que eram simples, o quarto era aconchegante. Um carpete cinza forrava o chão, os móveis eram de madeira clara e a cama de casal centralizada. Havia duas janelas amplas, mas ao contrário do que ela imaginara, a vista era da paisagem que contornava o circuito e não da pista.
desfez sua mala rapidamente, levando os produtos e maquiagem para o banheiro e guardando suas roupas no armário. O clima estava agradável, até um pouco quente naquele momento, e ela pegou um short jeans branco para usar com a sua nova camiseta do time.
Tomou um banho rápido e fez uma maquiagem básica. Em sua pequena bolsa colocou apenas o essencial, calçou o tênis branco, pegou os óculos de sol e deixou o quarto, encontrando e Pyry conversando no corredor.
, esse é Pyry, o meu preparador físico. Pyry, essa é a . — Apontou de um para o outros e os dois se cumprimentaram.
— Tenho ouvido muito sobre você. — Pyry comentou, fazendo rolar os olhos e sorrir de canto.
— Espero que coisas boas.
— Talvez eu te conte um dia. — Pyry continuou e interveio.
— Depois vocês colocam a fofoca em dia, se não sairmos agora nós vamos chegar atrasados.
— Olha quem resolveu ser pontual. — brincou com ele. — Você vai com a gente, Pyry?
— Não, vou encontrar uns amigos mais tarde. Mas a gente se vê amanhã. — Ela assentiu.
— Até mais então. — Estavam caminhando para o elevador quando segurou pelo braço. — Ah, espera aí. — Pyry, você pode tirar uma foto nossa mostrando nossos uniformes? — a olhou, desconfiado. — O que foi? Eu te disse que queria fotos das minhas férias.
Entregou o aparelho para Pyry e ficou de costas ao lado de , também de costas. Sabia que ele já tinha tirado algumas e por impulso pegou o boné que usava e colocou em sua própria cabeça, fazendo um rabo de cavalo improvisado e mostrando melhor o sobrenome na camiseta.
— Pronto. — Devolveu o celular a ela. — Bom jogo! Vejo vocês às seis e meia amanhã.



Dix

Duas horas e trinta minutos depois, tinha estacionado o seu Honda no estacionamento do estádio -Morlock. estava meio desanimada por passarem tanta parte do dia dentro do carro, mas conversaram sobre tantas coisas que ela nem viu o tempo passar. Para , dirigir era pura diversão, independente do carro em que estivesse.
Foi só na hora de entrar no estádio que percebeu que os ingressos eram diferenciados. Não tinha preço, nem localização, como eram os que ela normalmente comprava.
. — Ela o chamou, desconfiada. — De onde são esses ingressos? Não tem o setor aqui.
— Ah, a gente pode entrar por qualquer uma e depois chega na área vip reservada para o PSG.
— Área vip? — Ele concordou com a cabeça.
— Eu tenho alguns contatos e pedi os ingressos.
— Caramba! — sempre que podia ia ao estádio, mas sempre ficava na arquibancada, poucas vezes chegou a ficar na cadeira e agora veria o seu time da área vip. — Deve ser boa a vida desse tal , sabe?
— Não vou mentir, tem sim suas vantagens.
O piloto estava certo. Com aqueles ingressos eles tinham um passe livre pelo estádio, poderiam ir para onde quisessem, mas foram direto para a área reservada e sentaram-se lado a lado. Os times já estavam em campo e de maneira geral o estádio estava vazio, por ser apenas um amistoso. logo identificou seus jogadores preferidos em campo e seu sorriso se ampliou.

— Obrigada pelo meu presente de aniversário! — Disse, sincera, olhando-o nos olhos. — Talvez eu grite e te passe vergonha. — Acrescentou e riu alto.
— Essa eu quero ver.
Quarenta minutos de jogo já tinham se passado e nada muito interessante tinha acontecido. se expressava a cada passe e estava adorando.
— É agora! Vai! Vai! — Ela estava de pé novamente, os olhos fixos em Mbappé que conduzia a bola pelo campo adversário.
também se levantou ao perceber que aquela era uma real possibilidade de gol para o seu time.
Mbappé fez um passe para Pablo Sarabia, que marcou o gol.
— Gol! Gol! — Os dois gritaram ao mesmo tempo e fizeram um hi-five.
O Nuremberg reiniciou a partida rapidamente, mas logo o juiz apitou, finalizando o primeiro tempo de jogo.
— Vou pegar água para gente. Quer comer alguma coisa? — Perguntou, mantendo-se de pé, enquanto se sentava novamente.
— Vai pegar algo para você?
— Acho que sim, vamos demorar até chegar em Hockenheim de novo.
— Vou querer um hot dog então. Quer que eu vá com você? — Ofereceu, preparando para se levantar.
— Não precisa. Já volto.
Enquanto esperava, pegou seu celular encontrando mensagens curiosas de sobre os dois. Ignorou. Conversaria com ela mais tarde.
Lembrou-se das fotos que pediu para Pyry tirar no corredor do hotel. Tinham saído com tanta pressa que ela esquecera de ver como tinham ficado. Ele havia tirado quatro fotos: duas com os dois de costas, uma em que os dois se olhavam quando ela pegou o boné da cabeça dele, e a última com o boné na cabeça dela. Deslizou o dedo na tela, alternando entre a que se olhavam e a última, tinham sido suas preferidas.
— Adorei essa. — disse surgindo ao lado dela e a assustando. Era a foto em que ela estava com o boné.
— Acho que fica melhor em mim. — Voltou a tirá-lo da cabeça dele e colocou na dela e ele passou a mão livre no cabelo, bagunçando-o para tirar a marca.
— Quero essas fotos depois. — Ela assentiu, enquanto tirava as coisas da sacola.
Aproveitaram para comer e, antes que o intervalo acabasse, disse que iria ao banheiro e aproveitaria para levar o lixo deles. Pensou em enviar alguma das fotos para , mas sabia que ia apenas dar corda para a imaginação dela e ela lotaria seu celular com mais mensagens. Enquanto voltava para o seu lugar, postou a que tinha gostado no seu perfil com a legenda “Presente de aniversário.” Meio segundo depois tinha enviado uma mensagem.


Online

Não acredito que você não me mandou essa foto e postou no seu Instagram.

O segundo-tempo vai começar, nos falamos depois, ok?

Prometo que te conto tudo!

bloqueou o aparelho, guardando-o de volta na bolsa e se sentou, o segundo tempo já tinha começado.
Achou que o PSG tentaria marcar novamente, mas o jogo estava frio para os dois lados. De poucos em poucos minutos jogadores eram substituídos em ambos os times. Quinze minutos tinham se passado e percebeu que não prestava atenção na partida e sim em seu telefone, seu semblante era sério.
— Aconteceu alguma coisa? — Perguntou, preocupada.
— Você postou alguma foto nossa?
— Por quê? O que aconteceu? — Se aproximou dele, tentando ver o que tinha acontecido.
— Vazaram a foto e me marcaram em várias coisas no Twitter. — Contou.
— Ai, ! Me desculpa! — Tirou o telefone rapidamente da bolsa. — Meu perfil é fechado, eu nem te marquei na foto…
.
— Eu não imaginei… eu vou apagar…
. — Chamou-a novamente, pegando em seu queixo e a fazendo olhar para ele. — Está tudo bem.
— Não está, . Eu…
— Não é a primeira vez que fazem isso. Apagar não vai adiantar e não tem nada que a gente possa fazer a não ser esperar passar. E se te encontrarem, você ignora.
estava arrasada, queria olhar todos os seguidores que tinham curtido a sua foto e descobrir quem fora o mau caráter que fizera aquilo. Ela estava tendo um dia ótimo e agora sentia que tinha estragado tudo.
Sua atenção voltou ao jogo ao ouvir torcedores gritando. Era pênalti a favor do Nuremberg e o zagueiro do time estava se preparando para cobrar. Assim que autorizado pelo árbitro, o número 22 chutou e Trapp não conseguiu pegar. Agora o jogo estava empatado e faltavam apenas dezenove minutos para o final da partida.
percebeu que mesmo garantindo a que não era nada demais, ela estava chateada. Toda a empolgação que ela mostrara no primeiro tempo tinha desaparecido completamente e ele entendia o lado dela. Ela não convivia com a mídia e com os fãs, provavelmente nem sabia do que eram capazes.
Passou o braço direito pelos ombros dela e a puxou para mais perto de si, tentando confortá-la de alguma forma. Ela apoiou a cabeça em seu ombro. Olhava para o campo, mas sua mente estava em outro lugar.
Conseguia ouvir a voz de seu pai repetindo o que dissera na primeira corrida que assistiram juntos na tv sobre ela se fechar quando se tornava o centro das atenções e também que não queria que ela deixasse de viver algo que poderia ser bom por causa dos outros. Ela só queria que fosse mais fácil ignorar essas coisas.
Faltando um minuto para o fim do jogo, Bakker, um dos zagueiros do PSG ganhou um cartão amarelo e riu fraco.
— Esse jogo não valeu, vamos ter que ir em outro. — Ele declarou quando o apito final soou no estádio.
Os torcedores não demoraram a se dispersar, mas não se mexeu e continuou na mesma posição, fazendo um carinho de leve no braço dela, que permanecia com a cabeça apoiada nele.
— Você não está com raiva? — Perguntou depois de um tempo, olhando-o nos olhos.
— É claro que não, . — Sorriu. — Eu estou chateado por você ter ficado assim. Nós estamos acostumados com esse tipo de coisa. Se você está namorando, especulam sobre, se você não está, tentam fazer com que você esteja. E depois de dois dias ninguém se lembra mais.
— Hum. — Murmurou ainda contrariada.
— Vamos. — se levantou e estendeu a mão para que se levantasse também. — Deixa isso para lá. Ainda temos nove dias incríveis pela frente e se você não tivesse postado eu mesmo postaria alguma foto nossa até o fim das suas férias. — Passou a mão pela cintura dela, fazendo com o que os dois andassem juntos.
— Querendo atiçar suas fãs, ? — Perguntou com a sobrancelha arqueada e um sorriso discreto.
— Querendo registrar um momento com uma pessoa especial, Leblanc.
não sabia se eram as palavras ditas por ele, a proximidade dos corpos, a mão dele em sua cintura ou a combinação de tudo que tinha feito seu coração bater mais forte. Entrelaçou os dedos aos dele e caminharam assim até o estacionamento.
Como haviam combinado, conectou o seu telefone no carro e voltaram para Hockenheim ouvindo as músicas preferidas dela. Foi uma bela revanche. colocava defeito em quase todas as músicas, que eram chicletes ou clichês ou dramáticas ou velhas demais para alguém nascido em 1996, quando, por exemplo, tocou Higher do Creed.
O clima da viagem tinha sido totalmente diferente do anterior no estádio, deram bastante risada quando leu a mensagem que sua mãe tinha enviado dizendo que tinha visto a foto e que precisava parar de brincar com os sentimentos dela assim. E entre gracinhas e indiretas, chegaram ao hotel.
— Te vejo amanhã quando voltar da corrida. — falou em frente à porta do quarto dela.
— Te vejo amanhã às seis e meia. — Repetiu o horário que Pyry tinha dito.
— Vai correr com a gente? — Ele tentou segurar o sorriso que brotou em seu rosto.
— Bom, não sou tão atlética assim, mas acho que consigo acompanhar um pouco. A paisagem é linda, prefiro sair por aí do que ficar no quarto. — Deu de ombros, mostrando que não era grande coisa. Ela realmente odiava ficar enfiada em um quarto quando estava de férias ou em um lugar totalmente novo.
— Então te vejo às seis e meia. — Ele repetiu, se aproximando dela.
— Boa noite, . — Desejou, tirando o boné de sua cabeça para devolver a ele.
— Pode ficar. Ficou melhor em você mesmo. — Disse baixo, próximo ao ouvido dela e deu um beijo em seu rosto, encostando sua boca no canto da boca dela. engoliu em seco. — Boa noite, . — Desejou com a voz baixa como antes e foi para seu próprio quarto.
destravou a porta e entrou no quarto, fechando-a atrás de si. Respirou fundo. Nem tinha percebido que segurava o ar em seus pulmões até que isso acontecesse. conseguia deixá-la confusa em questão de segundos e o autocontrole dela estava deixando a desejar.
Pegou o celular na bolsa. Estava tentada a ver o que tinham falado sobre depois da foto, mas o receio de voltar a se sentir mal falou mais alto. Por isso, vendo mais notificações de mensagens de , fez uma chamada de vídeo com a amiga.
, você está bem? — disparou assim que viu o rosto da engenheira na tela.
— Estou, . — Respondeu com um sorriso fraco.
O Leon me mostrou umas coisas no twitter, fiquei preocupada com você.
— Eu nem tive coragem de olhar. — estava sem jeito de perguntar se Leon estava no quarto com ela, não queria falar de na frente dele. — Você está sozinha?
Leon está vendo filme na sala, pode falar. sorriu.
— Foram muito ruins as coisas que falaram? Eu me senti péssima. Eu nunca ia imaginar que isso ia acontecer, que alguém ia postar uma foto da minha conta privada para o mundo.
Seres humanos, né? Sempre surpreendendo… Mas Leon não me mostrou nada tão ruim assim. — Afirmou. — A maioria eram comentários de que ele estaria namorando mesmo, outros discutindo se era a mesma pessoa que estava na festa lá da equipe que você foi.
— Outra coisa que não entendo. Eu postei foto com ele no seu casamento. Tem as nossas fotos no evento da RBR com a minha cara. E essa foto que nem dá para me ver causa isso tudo?
Criar teorias sobre o mistério movimenta muito mais a internet. Ou talvez tenha saído sim antes, mas ele não te falou e nenhuma de nós viu. E vamos combinar, vocês dois são uma gracinha. Eu adorei a foto, principalmente por estar usando o boné dele.
— Como sabe? — questionou, surpresa.
Leon me mostrou a logo dele. assentiu. — falou alguma coisa sobre isso?
— Não. Segundo ele, ele ficou mais chateado por eu estar chateada do que pelo que aconteceu.
Então meu conselho é deixar isso para lá, . Aproveite suas férias, faça o que quiser fazer. Ninguém tem nada a ver com a sua vida. Ou com a dele.
— Você tem razão.
Eu sei. — As duas riram.
Conversaram mais um pouco e então se despediram. ainda precisava tomar um banho e precisava dormir logo ou desistiria de levantar cedo para correr com e Pyry.

🔸🔹

desligou o despertador depois de alguns segundos tocando. A cama era tão confortável que seu corpo e sua mente queriam coisas opostas. Sentia-se empolgada e animada para sair ao ar livre com , mas adoraria dormir por mais uma hora.
Quando o segundo alarme tocou, ela se levantou. Vinte minutos depois ela estava pronta. Vestia um short branco soltinho, top e regata pretos. Pegou seu celular e estava prestes a enviar uma mensagem a quando achou ter ouvido a voz dele no corredor. Apressou-se para calçar o tênis branco, pegou o cartão do quarto e saiu em direção ao elevador, vendo ele e Pyry aguardando.
— Bom dia! — Disse, atraindo a atenção dos dois que não a tinham visto ainda.
— Bom dia! — sorriu e ela o invejou por não ter um resquício de sono aparente em sua expressão.
— Você vai com a gente? — Pyry estava visivelmente surpreso, não de uma forma negativa. — Digo, correr?
— Vou tentar, não sou muito sedentária, talvez eu consiga acompanhar um pouco. — Entraram no elevador.
— Gostei dela. — Pyry declarou e ela sorriu. — Melhor que a outra. — Acrescentou baixo, mesmo assim escutou e segurou um sorriso. — Sabia que a ex-namorada do nunca apareceu em nenhuma corrida? — Contou e pigarreou, num sinal claro de que não queria tocar naquele assunto. Acordar cedo para treinar então…
— Nós não somos… — começou a dizer e o preparador físico a interrompeu.
— Namorados, eu sei. já repetiu isso várias vezes. — Disse saindo do elevador e caminhando para o restaurante.
Ninguém disse mais nada desse assunto, mas naquele momento percebeu que Pyry devia ser a pessoa que mais sabia da vida de . Ele sabia de praticamente todo passo do piloto, o que indicava que ele também devia saber de tudo o que acontecia entre os dois e ela não tinha certeza de como se sentia com isso.
O restaurante tinha uma decoração parecida com a dos quartos. Os forros das mesas eram no mesmo tom de vinho das cortinas e as mesas e cadeiras eram do mesmo tipo dos móveis. O cheiro da comida fez o estômago de dar sinal e os três não demoraram a servir.
O assunto durante toda a refeição foi sobre o percurso que fariam e qual era a meta de e os planos para os demais treinos daquela semana. Quando terminaram, retornaram aos seus quartos para pegar algumas coisas antes de saírem. pegou uma garrafinha de água, óculos de sol e seus fones de ouvido. Caso não conseguisse acompanhar, aproveitaria do seu jeito.
Já com a porta aberta, olhou para trás para se certificar de que não esquecera nada importante e viu o boné de na mesinha de cabeceira. Pensou por alguns segundos e decidiu usá-lo ao invés de levar seus óculos de sol.
tinha saído de seu quarto naquele momento e ao olhar para frente viu ajeitando o cabelo com o boné. Tentou disfarçar o sorriso ao ver Pyry vindo na direção deles, mas foi inevitável se perguntar se ele frequentava tanto os pensamentos de quanto ela frequentava os dele.

A corrida pelas ruas da cidade tinha sido exaustiva para , já que eles corriam mais que o dobro do que ela fazia na esteira da academia, mas a parte da trilha tinha feito tudo valer a pena. As árvores faziam com que a temperatura ficasse mais amena e fosse mais fácil respirar. A vista era perfeita e o ritmo do exercício era menor, fazendo com que os três completassem o percurso juntos.
— Esse lugar é tão bonito. — comentou, enquanto bebia água.
— Deixa eu tirar uma foto de vocês. — Pyry ofereceu e ela negou prontamente.
— Depois do que aconteceu ontem, não tiro foto nenhuma mais. — Declarou, séria.
— Para com isso, . — balançou a cabeça, puxando-a para mais perto de si. — Eu falei ontem que iria postar uma foto nossa, e vai ser justamente essa.
passou o braço pela cintura de e foi quando ela percebeu que tinha tirado a sua regata durante a corrida por causa do calor e não tinha vestido novamente, mas Pyry já caminhava de volta para onde eles estavam e ela não teve coragem de pedir para ele tirar outras.
— Você pode tirar uma foto nossa, por favor? — pediu para um casal que fazia o percurso de bicicleta, mas que, assim como eles, tinham parado para admirar o local. — Obrigada! — Pegou o aparelho de volta.
— Eu vou querer essas fotos. — disse, guardando a sua água e os dois enviaram antes de saírem da trilha.
Para a surpresa de , a próxima parada não era o hotel e sim um espaço de treino bastante parecido com uma academia.
— Preparada para o terceiro round? — Pyry perguntou, tirando algumas anilhas do suporte e riu.
— Esse eu vou deixar para os profissionais. Não quero passar o resto das minhas férias toda dolorida.
— Agora é a melhor parte. — fingiu que tentaria convencê-la.
— Então vou garantir que eu não perca nenhum minuto. — Deu uma piscadela e deixou-os entre os aparelhos, sentando-se no primeiro degrau da escada que levava para o segundo andar.
estava com os fones de ouvido e totalmente concentrada em mexer em seu celular. Curtiu algumas coisas no Instagram e logo uma notificação de mensagem de apareceu na tela.


Online

Vocês dois só podem estar de sacanagem!



riu e abriu a mensagem, vendo que a amiga tinha enviado um print e um link.
O print mostrava que estava sendo bastante comentado no Twitter de novo e ela sentiu as mãos suarem de nervoso. Clicou no link em seguida e sorriu, surpresa. Eram as fotos que tinham tirado na trilha e ela nem mesmo tinha visto ele usando o telefone.

“Curtindo um dia especial com minha amiga de infância.” era a legenda da foto. Voltou para a conversa com .


Online

Vocês dois só podem estar de sacanagem!

Amiga de infância. 🙄

HAHAHAHA

Você surta com qualquer um que acha que é namoro.

Não pode achar ruim não. 😂

E o que estão falando no Twitter?

Que a mão dele na sua cintura não engana ninguém.



voltou para a foto e foi obrigada a concordar. A forma como ele a segurava pela cintura não dizia exatamente melhores amigos de infância.
fazia uma sequência de exercícios de braço e a engenheira se perdeu em pensamentos, olhando atentamente o movimento de seus músculos, as veias saltadas que ela amava. Foi transportada para a noite de seu aniversário, os braços dele em volta de si e as mãos dela passeando pelos braços dele…
Piscou repetidamente e engoliu em seco, desviou o olhar, pegando sua garrafa de água e bebendo um longo gole. Definitivamente treinando não fazia bem para sua sanidade.



Onze

— Eu não acredito! — disse e a empolgação na sua voz era perceptível. — Vamos patinar no gelo? — concordou com a cabeça, estacionando praticamente na entrada do ringue. — Por isso você insistiu tanto para que eu trouxesse uma roupa mais quente.
— Exatamente. Você sabe patinar no gelo, não sabe? — Foi a vez de ela concordar com um aceno. — Eu tinha uma leve lembrança de quando nossas famílias viajaram para os alpes.
— Nossa! Eu nem lembrava disso, ! Mas sabe que isso me deu uma ideia.
— Qual?
— Nós podíamos organizar uma viagem para os nossos pais, tipo um presente surpresa para o Natal. — Falou a primeira coisa que veio à sua mente.
— Isso seria bom. Vamos pensar melhor nisso depois.
— Vai ser ótimo.
O ringue não estava muito cheio. Tinham calçado os patins e colocado luvas, joelheiras, cotoveleiras e capacete e estavam apenas esperando duas crianças saírem para que eles pudessem entrar.
tinha patinado frequentemente quando era mais nova, mas já tinha um tempo que não calçava um patins e o mesmo servia para . As exigências sobre um piloto de Fórmula 1 não davam tempo para a prática de outro esporte e quando ele tinha a oportunidade ele jogava futebol. Mas quando viu o ringue de patinação na semana anterior, ele sabia que seria um bom programa para ele e .
Com algumas voltas, ambos já sentiam que não estavam tão enferrujados e começaram a colocar mais velocidade e até mesmo a fazer algumas manobras mais ousadas, não sem escorregar. Quase caíram mais de uma vez e algumas crianças estavam adorando.
À medida que o tempo passava, patinadores mais experientes surgiam ali, executando manobras realmente difíceis e algumas até perigosas. Isso pareceu inspirar , que decidiu tentar dar uma volta inteira no ringue de costas.
Um casal ensaiava em um lado da pista e já tinha reparado neles, achava incrível a patinação artística desde que era criança. Estava olhando para eles novamente e viu que o rapaz vinha também de costas e rápido e estava prestes a se chocar com .
, cuidado! — gritou, puxando-o por impulso para que ele não se machucasse, mas ao fazer isso ela tinha se desequilibrado e caído no gelo.
, se machucou? — perguntou sem saber o que fazer ao ver a expressão de dor no rosto dela.
— Me desculpe, eu não prestei atenção em vocês. — O patinador se desculpou.
— Está tudo bem. — Ela tentou sorrir, mas ao apoiar a mão no chão para tentar se levantar, sentiu uma dor forte que a fez fechar os olhos.
— Onde dói, ? — perguntou, preocupado.
— Meu punho. — Ela segurou o lugar com a outra mão. — Acho que tentei amenizar o impacto com as mãos. — ajudou-a a se levantar e só de pé ela viu que algumas pessoas tinham se aproximado deles para ver o que tinha acontecido, mas se dispersaram assim que ela se levantou.
tirou a luva dela, tirando as próprias em seguida. Apertou o punho dela em vários lugares.
— Dói?
— Dói, mas é suportável.
— Por que você fez isso, ? — Ele balançou a cabeça.
— Porque o cara ia te derrubar. Imagina se fosse você agora com o punho assim? Você tem um carro para pilotar essa semana, . — Ele queria rebater, mas não tinha argumentos. Ele não podia sonhar em se machucar, não na situação que ele se encontrava.
— Vamos embora. Vou pedir para o Pyry dar uma olhada, acho que não precisa ir ao hospital. — Devolveu ambos os patins e equipamentos e deixaram o local.

🔸🔹

— Foi só uma torção leve. — Pyry disse depois de testar os movimentos e o nível da dor. — Como está inchado é melhor colocar gelo.
— Vou pegar na recepção. — se prontificou, deixando apenas os dois no quarto de .
Pyry pegou uma pomada anti-inflamatória e uma faixa dentro da sua mochila e colocou em cima da mesa de cabeceira.
— Depois que o gelo fizer efeito, é só passar e enfaixar. — Fechou a mochila. — Se precisarem de algo é só me mandar mensagem.
percebeu que ele estava com certa pressa para sair de lá, tinha dito algo sobre um compromisso. Ela o acompanhou até a porta do quarto, e quando estava prestes a sair, parou de andar e se virou.
— Eu não sei exatamente o que está rolando entre vocês, mas você realmente faz bem para ele. — Pyry falou e ficou sem reação. — É enorme a diferença de humor do depois que ele passa um tempo com você. — Sorriu brevemente e saiu do quarto.
não esperava ouvir algo assim de Pyry e não sabia ao certo o motivo de ter dito a ela, mas sabia que ele havia sido sincero.
não demorou muito a voltar. Ela ajeitou o braço sobre um dos travesseiros e colocou o saco de gelo, de forma que cobrisse a maior parte possível. Por algum motivo, achou que o compromisso de Pyry envolvia e só percebeu que não quando viu o quão confortável ele parecia estar na cama dela.
— Tudo certo? — Perguntou, quando ela se ajeitou melhor. — Então vamos começar nossa maratona.
— Você já escolheu? Bem cavalheiro mesmo. — O provocou.
— Eu queria discordar, mas dessa vez você tem razão. Eu ainda não vi a última temporada e não sei quando terei outra oportunidade, então espero muito que você goste de Stranger Things.
— Nunca vi. Mas não tem problema. Se eu achar legal, eu vejo do começou outro dia.
— Tem certeza? — Ela confirmou.
As séries preferidas de eram sobre investigação criminal, então nunca tinha dado chance a essa, mas não estava sendo ruim, embora ela se sentisse um pouco perdida por não conhecer a história e nem os personagens. Procurou algumas informações no Google e, depois de ter uma noção geral, conseguiu prestar mais atenção ao que assistia.
Ao final do primeiro episódio o gelo já tinha derretido completamente e o braço estava menos inchado, porém avermelhado. Passou a pomada que Pyry tinha deixado e com a ajuda de colocou a faixa, garantindo uma certa imobilização.
Sem o gelo, se deitou na cama, era seu jeito preferido de assistir televisão. deu início ao segundo episódio e quase na metade do terceiro pediu para ele pausar.
— O que foi? Sua mão está doendo? — Perguntou ao vê-la se mexer na cama.
— Não, estou com frio. Vou pegar um cobertor. — Respondeu, deitada de frente para ele.
— Frio? — Tinha levado as mãos até a cintura dela e tinha um sorriso divertido no rosto.
— A temperatura deve ter caído uns dez graus de hoje de manhã para agora.
— Exagerada. — Provocou e ela encostou os pés na perna dele. — Que pé gelado! — Reclamou.
— Eu avisei. — Ela riu e sentiu as pontas dos dedos dele fazendo um carinho leve em suas costas. — Agora é a hora que você se oferece para ir buscar para mim. — Ela sussurrou como se fosse um segredo.
— Conheço um jeito mais eficaz de resolver isso. — Ele sussurrou de volta, próximo ao seu ouvido, e ela sentiu um arrepio, que não era de frio, passar pelo seu corpo.
— Ah, é? Qual? — Desafiou e mordeu o lábio inferior.
rolou, ficando em cima dela, mas apoiando seu peso no colchão. tinha provocado esperando uma reação, mas sua expressão mostrava a que ele a tinha surpreendido. Sorriu por um breve instante, sentindo a respiração pesada dela em seu rosto e então uniu seus lábios aos dela.
rapidamente levou as mãos ao rosto dele e, ignorando a dor em seu punho, o puxou para mais perto, aprofundando o beijo. Diferente da outra vez em que estavam se descobrindo, desta vez ambos sabiam exatamente o que buscavam. A sincronia entre eles deixava o beijo cada vez mais intenso e buscando um contato ainda maior, girou novamente na cama, trazendo-a para cima dele, sem romperem o beijo.
diminuiu a intensidade do beijo e depois de alguns selinhos desceu os beijos para o pescoço dele. Sorriu ao senti-lo se arrepiar sob o toque dela.
— Me beija. — Sussurrou próximo ao ouvido dele e a sensação era de que seu interior estava em chamas.
virou o rosto, colando suas bocas mais uma vez. Ele estava no comando agora e o beijo intenso tinha dado lugar a um beijo profundo. Levou as mãos para dentro da blusa dela, acariciando suas costas e a lateral de seu tronco e ela se entregou ainda mais ao momento e às sensações.
estava adorando ter as mãos dele em si, mas queria retribuir. Deram alguns selinhos e ela mordeu o lábio inferior dele, fazendo-o sorrir. Ela se apoiou nos joelhos, um de cada lado do tronco dele, sentando-se em seu quadril e começou a subir a camiseta dele vagarosamente, revelando o abdômen levemente definido.
Notando a dificuldade dela usando uma mão só, ele mesmo tirou a camiseta, jogando-a para o lado. não disfarçou o sorriso enquanto o arranhava de leve e, sentindo seu corpo reagir involuntariamente, se sentou. Com ainda em seu colo, distribuiu beijos pelo pescoço dela, que jogou a cabeça para trás, deixando a área mais exposta. Sabia que estava no caminho certo à medida em que sentia as unhas dela arranhando mais e mais as suas costas.
. — Chamou sem parar o que estava fazendo.
— Hum. — Murmurou.
— Acho melhor parar agora. Meu autocontrole não é tão bom assim. — Mordiscou o lóbulo da orelha dela.
— Quem disse que eu quero parar? — Disse, olhando-o nos olhos.
As bocas voltaram a se encontrar, e só se separaram quando tirou a blusa dela. Aos poucos as outras peças de roupa tiveram o mesmo destino e se entregaram, criando uma conexão ainda mais forte, sabendo que aquela noite ficaria marcada na memória dos dois.

🔸🔹

O celular de tocou e mesmo deslizando o dedo na tela após o primeiro toque do despertador, tinha acordado. Piscou lentamente, adorando que ele fosse a primeira coisa no dia que ela visse e sorriu.
— Bom dia.
— Bom dia. Achei que conseguiria não te acordar.
— Não tem problema. — Disse, enquanto vestia a camiseta. — Você treina cedo demais. — Ele sorriu.
— Te vejo mais tarde. — Depositou um beijo em sua testa e saiu em seguida.
puxou o travesseiro em que ele havia dormido para mais perto de si. O perfume dele estava ali e ela sorriu. Lembranças da noite anterior ocuparam a sua mente e pouco tempo depois ela voltou a dormir.
tomou um banho rápido para despertar, desembaçou o espelho e, ao ver seu reflexo, notou alguns arranhões, sendo imediatamente transportado para a noite anterior em seus pensamentos. Estaria mentindo se dissesse que essa possibilidade não havia surgido em sua cabeça em mais de uma oportunidade, mas ele sabia que ela tinha saído de um relacionamento e estava disposto a esperar o tempo dela. Estaria mentindo também se dissesse que não se surpreendeu. Quando começou com a provocação, ele não esperava mais do que alguns beijos e carícias. Ela tinha mostrado mais uma vez que sabia e fazia o que queria, e isso era mais uma coisa que ele adorava nela.

🔸🔹

— Ei! — se assustou ao ver a porta do seu quarto se abrindo.
— Sou eu. — entrou com as mãos para cima.
— Como você entra assim? E se eu estivesse sem roupa? — Ela cruzou os braços, falando sério e ele manteve uma expressão pensativa antes de responder.
— Acho que depois de ontem isso não é mais um problema. — A expressão dele deixava claro os seus pensamentos e sentiu o rosto esquentar.
— Palhaço! — Reclamou.
— Eu sabia que você não estaria sem roupa. — Sentou-se ao lado dela na cama. — Nós combinamos de almoçar e, diferente de mim, você sempre é pontual.
— Vou acreditar em você dessa vez. — Ela se fez de difícil e ele olhou para o celular nas mãos dela.
— O que está fazendo?
— Estava vendo as curtidas na nossa foto e pensando quem poderia ter jogado na internet.
— Você ainda está pensando nisso, ? — Pelo tom de voz dele era algo que o chateava.
— Sim, mas só por curiosidade mesmo, afinal de contas você postou outra foto ontem e não existe mais o mistério de quem é a garota com . — gesticulou como se lesse o nome de uma matéria.
.
— É sério, . É a minha vida e a sua vida e ninguém tem nada a ver com isso. E eu vou seguir seu conselho e ignorar o fato de parar nos tópicos mais comentados no Twitter.
— Você entrou no Twitter?
— Não, a me contou por alto o que achou que eu precisava saber.
— Eu tenho medo do que a deve saber sobre a gente. — Ele confessou, imaginando se ela teria contado para a melhor amiga sobre a noite anterior.
— Então estamos quites. — Ele a olhou, confuso. — Eu tenho medo do que Pyry deve saber sobre a gente. — segurou um sorriso e arregalou os olhos. — Ai, não me diga que contou a ele da noite passada.
— Eu não contei, mas estou com alguns arranhões… — levantou parte da camiseta mostrando algumas marcas.
— Ai, não! — gemeu, escondendo o rosto com as mãos e riu alto.
— Eu estou brincando. — Tirou as mãos dela do rosto. — A única coisa que ele notou foi meu bom humor.
— Eu te odeio. — Tentou parecer brava, mas o sorriso a entregava.
— Pela noite passada eu diria que é bem o oposto. — Falou convencido e ela o empurrou, se levantando da cama, mas ele a puxou de volta, fazendo com que ela se sentasse no colo dele.
— Vai usar a noite passada de argumento até quando?
— Até essa noite. — Falou baixo próximo ao ouvido dela e depositou um beijo em seu pescoço, fazendo-a se arrepiar.
! — Ela reclamou, mas ele já tinha descoberto o ponto fraco dela e era chamado de ponto fraco por um motivo.
levou as mãos à nuca dele, arranhando de leve enquanto seguia com a sua trilha de beijos até a boca dela. Era apenas mais um beijo, mas antes mesmo das bocas se encontrarem já sentia as famosas borboletas no estômago e ela sabia muito bem o que aquilo significava.
Era um beijo carinhoso, estavam apenas curtindo um ao outro, mas quando sentiu as mãos de por dentro de sua blusa, cortou o beijo.

— Anda, vamos almoçar. — Se levantou, indo até ao espelho e arrumando o cabelo e o batom.
— Tem certeza? Acho que perdi a fome. — Ele afastou o cabelo dela, depositando mais um beijo em seu pescoço e notando a mesma reação.
— Eu sei que você descobriu o que acontece se beijar meu pescoço, . — Ela se virou de frente para ele e deu um selinho. — Mas nós vamos almoçar porque eu achei um passeio para fazermos mais tarde.
— Sério? — Ela concordou com a cabeça.
— Você não tem compromisso, tem? — Ele negou. — Ótimo. Vamos almoçar antes que Pyry venha saber o que está acontecendo.
— Vamos. — abriu a porta do quarto, estava realmente com fome.

— Você falou que já ia descer, cara. — Pyry negou com a cabeça. — Tem pelo menos uns vinte minutos que estou te esperando. Onde você estava? Por que demorou tanto?
— Então, é que eu… hm…
— Oi, Pyry. — o cumprimentou e ele não tinha visto que ela saiu do elevador atrás de .
— Ah, entendi. — Pyry disse com um sorriso discreto.
— Não é nada disso. — soltou.
— Nós demoramos porque o foi me chamar, mas eu estava numa ligação com a minha mãe. — Mentiu.
— Isso. — confirmou. — Uma ligação.
— É claro. — O preparador assentiu e os dois se sentaram lado a lado, de frente a ele. — Só para constar, vocês são péssimos mentirosos. — Pyry comentou sem desviar os olhos do cardápio.
e se olharam rapidamente e seguraram o riso. Por mais que quisesse mesmo não ligar para os comentários e repercussão que estar com pudesse causar, ela se sentia nervosa.
O clima durante o almoço foi leve e descontraído e tirou tais pensamentos da cabeça de rapidamente. tentou a todo custo saber aonde eles iriam mais tarde, mas a engenheira não contou. Era legal ela poder fazer uma surpresa para variar. E aproveitando que conversavam sobre os planos da semana, Pyry os convidou para jantarem em um restaurante diferente no dia seguinte, como uma despedida das férias para , que, com a equipe, voltaria a ter uma rotina mais restrita.



Douze

— Nossa, não acredito que estamos aqui há quase duas horas. — comentou, guardando o celular na bolsa, depois de postar mais alguns stories do aquário.
— Realmente, o tempo passou rápido. — Ele concordou com ela e os dois se sentaram numa espécie de arquibancada que tinha visão para o maior tanque do Sea Life Speyer. — Mas em partes acho que você não viu o tempo passar porque estava fascinada demais com tudo.
— Ficou tão claro assim? — se virou para ele quando ele guardou o celular e sentiu o dela vibrar na bolsa.
— Primeiro eu achei que era a arquitetura que tinha te chamado a atenção, mas acho que depois do terceiro tanque ficou claro que você gosta bastante do universo marinho.
— Gosto muito mesmo, tem algo no mar que sempre me deu uma sensação de tranquilidade e eu amo ver os peixes, arraias, tubarões… — Parou de falar vendo que a notificação era de ter sido marcada nos stories de alguém. — Você perdeu a noção, ? — Olhou brevemente para ele, voltando a ver a foto que ele tinha tirado dela admirando um dos tanques.
— Já tem um tempo. — Ele respondeu, colocando uma mecha de cabelo dela de volta atrás de sua orelha e sentiu o coração acelerar à medida em que ele se aproximava.
, tem gente aqui. — sussurrou, virando o rosto e ele se ajeitou. — Desculpa. — Disse um pouco sem graça. — Eu… — Tentou achar as palavras para explicar, mas balançou a cabeça, já mudando de assunto.
Ele não era do tipo que gostava de ficar escondido com alguém, não ficava calculando seus atos quando estava gostando de alguém como era o caso com . Mas ele entendia que ela precisava do tempo dela e não queria que isso fosse algo para pressioná-la.
— Eu também gosto muito de mar. Acho que as Maldivas e a Grécia são os meus lugares preferidos.
— Não posso falar das Maldivas, mas amei a Grécia nas duas vezes que fui. Será que nossos pais gostariam de ir para as Maldivas? — perguntou e sua expressão tinha mudado.
— Com certeza! O lugar é lindo, . Não tem como não gostar.
— Esse podia ser o nosso presente de Natal para eles, então. — Ela concluiu satisfeita.
— Ainda estamos em julho, . — Ele negou com a cabeça.
— Eu gosto de planejar com antecedência. — Deu de ombros e notou que ele sorria. — O que foi?
— Preferia levar você comigo para as Maldivas. — Confessou e mordeu o lábio inferior.
— Você não facilita mesmo para mim, hein ? Desse jeito fica cada vez mais difícil não me apaixonar por você.
— Acho ótimo, não quero ser o único. — Ele voltou a se aproximar, e dessa vez não impediu o beijo. Ela já estava apaixonada e tinha consciência disso. Estava amando passar esse tempo com , amava a forma como ela se sentia quando estava com ele e não queria se privar disso.
— Sabia que antes de entrar na faculdade eu estava em dúvida entre fazer engenharia ou biologia marinha? — Contou, voltando a olhar os peixes no grande tanque.
— Não mesmo. É sério isso? — Ela confirmou.
— Eu sempre amei o trabalho que eles fazem de resgatar e cuidar dos animais que não sobreviveriam no mar e de devolver para o mar os que têm condições. Achava incrível como cuidavam das tartarugas.
— E o que te fez escolher engenharia?
— Uma visita em uma obra. — Ele a olhou como se duvidasse e ela concordou com a cabeça. — Além de sempre ter gostado muito de números e também do fato de poder continuar em Marselha. Com dezessete anos a ideia de me mudar não me agradava muito.
— Entendi. É engraçado porque isso aconteceu com meus amigos também, ter que decidir o futuro entrando na faculdade e às vezes eu fico pensando entre quais cursos eu teria ficado em dúvida se já não estivesse no automobilismo.
— Do que mais você gostava?
— Futebol. — Soltou a resposta imediata. — Acho que eu amava tanto quanto kart quando era criança, mas chegou num ponto em que precisei escolher e foi uma escolha tão fácil que é difícil me imaginar em outra coisa.
— É exatamente assim que me lembro de você e seus amigos nos seus aniversários. Eu odiava ir porque eu nunca tinha companhia, minha mãe implicava com meus livros e vocês sempre estavam falando de corridas ou jogando futebol.
— Eu lembro disso, você passava a noite toda na poltrona lendo se deixassem. — Ela concordou e ouviram no alto-falante que o aquário estava prestes a fechar. — Uma pizza antes de voltarmos para o hotel?
— Uma ótima ideia.

não conseguia dormir. Já tinha mudado de lado na cama, trocado de travesseiro, trocado de posição, mas nada parecia funcionar. Estava um pouco frustrada, depois do que falara antes do almoço, ela tinha achado que eles passariam a noite juntos novamente. Mas, depois que cada um havia ido para o próprio quarto, nada aconteceu.
Ela sabia que poderia muito bem ir até o quarto dele, não tinha problema com isso, mas além de Pyry, algumas pessoas das equipes já estavam hospedadas lá também e ela não correria o risco de colocar tudo a perder.
Tateou o celular na cama, quase uma da manhã, abriu o Instagram na esperança de que ver posts trouxesse seu sono de volta.

encarava o teto enquanto as lembranças dos momentos com visitavam sua mente. Ele não fazia ideia de quando teriam um tempo assim novamente e queria aproveitar cada oportunidade enquanto podia, por isso ele preferia estar com ela ao invés de estar sozinho em sua cama. No entanto, ele tinha esperado por algum sinal da parte dela. Ela havia dito que precisava falar com o pessoal do trabalho, retornaria a ligação dos pais e que precisava de um banho e nada disso o incluía.
Abriu novamente o Instagram, como sempre, várias notificações que ele ignorou. Arrastou para a parte de mensagens e ficou surpreso ao constatar que ela estava online naquele momento. Encarou aquilo como o sinal que ele esperava e, vestindo uma camiseta, pegou suas coisas e deixou o quarto.

ouviu batidas na porta e ficou em dúvida se eram realmente batidas e se eram em sua porta ou se estava sonhando acordada. As batidas se repetiram e ela ajeitou a camisola antes de abri-la. estava encostado no batente com o cabelo despenteado e mesmo assim era uma visão que ela tinha descoberto que amava.
— Até que enfim! — disse baixo, fechando a porta quando ele passou e a risada alta dele ecoou pelo quarto.
— Você não se cansa de me surpreender. — falou e ela fingiu pensar um pouco antes de responder.
— Não mesmo.

🔸🔹

A quarta-feira tinha chegado e com ela a chuva e aos poucos os outros pilotos e equipes. e estavam cobertos na cama do quarto dela, mas para infelicidade dela, Olivier havia ligado sobre um problema na obra e ela estava em seu notebook tentando resolver a distância enquanto ele terminava de ver Stranger Things.
— Ainda vai longe aí? — perguntou quando o último episódio da temporada acabou.
— Acho que sim. — Respondeu, concentrada em um projeto.
— Então eu vou encontrar com o enquanto você termina. — Desligou a televisão e deu um beijo na bochecha dela, fazendo com o que ela finalmente tirasse os olhos da tela e o olhasse. — Me manda mensagem quando acabar. — Ela concordou com um aceno e ele se despediu com um selinho.
Ainda não tinha conseguido a resposta que precisava quando o seu celular voltou a tocar. Deslizou o dedo na tela, aceitando a chamada.
— Olivier, eu ainda não tenho uma resposta.
Que Olivier? Sou eu. — A voz de soou pelo quarto e se assustou. — Pega esse telefone que só estou vendo o teto do quarto.
— Espera aí. — conectou os fones de ouvido ao celular e fechou o notebook. — Pronto. Está tudo bem?
Eu que te pergunto, tem dois dias que eu não tenho notícias suas, o que me faz acreditar que está tudo ótimo e então quero detalhes. — riu alto. — Vocês se assumiram?
— Não, amiga. Para falar a verdade nós não conversamos sobre a gente.
— E o que são aquelas fotos que saíram ontem à noite? Porque vocês estão se olhando tão apaixonados que deu para sentir daqui.
— Exagerada! Acredite se quiser, foi uma foto espontânea. Estávamos saindo do restaurante ontem com o Pyry, o preparador físico do , e só vi o flash.
Foi um paparazzi?
— Não, me contou que ele é fotógrafo de Fórmula 1 mesmo e foi pura coincidência. Ele foi falar com a gente, mostrou a foto e perguntou se poderia postar. Aproveitamos para tirar uma com o Pyry também.
Eu vi as duas, mas só acredito que foi espontânea porque você está me contando.
— A saída do restaurante é linda, né? — confirmou com a cabeça.
Vi também que ele postou você nos stories.
— Você está stalkeando o , ?
Não me arrependo. — Deu de ombros, fazendo rir. — Mas como estão as férias? Aliás, me conte logo sobre vocês dois. Não aguento mais só imaginar.
— A gente se beijou domingo e… as coisas saíram um pouco de controle.
Isso quer dizer o que eu acho que quer dizer? perguntou com a voz um pouco mais aguda.
— Sim, e se repetiu na noite seguinte e na passada.
Sua safada! E você nem me contou! Mas eu te perdoo, devia estar ocupada. gargalhou. — Ia perguntar se foi bom, mas se aconteceu três dias seguidos…
— Foi… incrível. — Ela riu por estar confessando aquilo. — Tanto que realmente saiu de controle, não era minha intenção. Mas também tínhamos que aproveitar o tempo porque agora a equipe dele já chegou e todo o foco vai para a corrida e nem sei quando teremos essa chance de novo.
Você parece tão feliz, eu estou super feliz por você! Eu tinha certeza de que o estava super afim de você também.
— É amiga, tudo tem sido muito bom e eu nem consigo disfarçar mais que estou apaixonada por ele.
Acho bom não conseguir, sentimento foi feito para sentir e não para esconder. E está claro que é recíproco.
— Ainda bem! — riu vendo outra chamada entrando. — , eu estou com uns problemas no trabalho e finalmente recebi uma ligação. Te ligo depois.
— Vai lá. Até mais.
E deslizando o dedo novamente aceitou a ligação que tanto aguardava.

🔸🔹

— Meu Deus, que demora! — reclamou quando finalmente chegou ao seu quarto.
— Foi mal, eu estava com a . — contou da forma mais natural possível.
— Ah, sim. — Ligou o videogame já instalado. — Espera aí, a está aqui? — assentiu. — Com você? Vocês estão juntos?
— Não falamos sobre, mas de certa forma sim. — se sentou, estava boquiaberto. — Você não viu as fotos? O Kym postou ontem, inclusive.
— É real aquela foto? — concordou com a cabeça. — Eu jurava que era montagem. — Ele riu alto com a lerdeza do melhor amigo.
— Bem que eu estranhei você não ter me mandado nada ainda.
— Eu achei real que eram montagens, cara. mudou muito, eu nem a reconheci e também achei que me contaria se estivesse com alguém.
— Os dias foram muito agitados. — se limitou, não entraria em detalhes.
— Esse é o meu garoto. — fez graça e os dois riram. — Ela vai ficar aqui até a corrida?
— Vai sim, depois da corrida vamos com a equipe para o show da Geri. O Horner deu ingressos para todos nós.
— Você tinha mesmo comentado. — Respondeu, mexendo no próprio celular. — Agora que estou vendo as fotos sabendo que são verdadeiras, vocês são muito casal já. — riu.
— As coisas saem de controle muito fácil com ela, eu fico chocado. É como se ela tivesse uma bolha e quando estou com ela todo o restante é bloqueado.
— Ah, o amor é lindo! — o zoou. — Sua família sabe? — negou.
— Imagino que devem ter deduzido com as fotos.
— Deve ser o George. — voltou a se levantar ao ouvir as batidas na porta e o assunto estava encerrado.

🔸🔹

estava certa, quase não passou tempo com depois que a Red Bull havia chegado, mas ela aproveitou para fazer passeios pela cidade e também para comprar alguns presentes para os pais e para . Ela amava levar lembranças das viagens e não seria diferente com essa.
Apesar de tê-la convidado para acompanhar os treinos livres na sexta-feira, ela tinha preferido acompanhar da televisão, ainda se sentia estranha estando na garagem sozinha, mas tinha prometido que iria no sábado e estava terminando de se arrumar quando ouviu batidas na porta.
— Bom dia! — desejou, juntando os lábios num beijo rápido.
— Preparado para arrasar hoje? — Perguntou, fechando a porta do quarto.
— Estou confiante, acho que consigo me classificar bem para a corrida amanhã.
— Isso é ótimo. — Ela sorriu. — Estarei torcendo por você. — Disse o óbvio e foi pega de surpresa quando ele entrelaçou os dedos aos dela e seguiram de mãos dadas pelo paddock.
se sentia ao mesmo tempo feliz e nervosa. Nervosa pela quantidade de olhares que recebiam à medida que andavam entre os motorhomes, mas feliz por sentir que mesmo sem terem conversado sobre o que eles eram, eles estavam na mesma página.
percebeu uma movimentação diferente na garagem e desviou o olhar do celular, vendo Eloise sendo acompanhada por .
, não sabia que você estaria aqui! — Eloise a cumprimentou com um abraço e ela retribuiu.
— Eu também não imaginava que você viria, mas me sinto melhor que esteja aqui! — confessou. — Me sinto muito intrusa ficando aqui.
— Relaxa, você se acostuma.
— Até mais. — se despediu e eles trocaram um beijo apaixonado.
— Arrasa! — Eloise disse um pouco mais alto enquanto ele se afastava. — Animada para o show amanhã?
— O quê?
— O show das Spice Girls amanhã. — Eloise repetiu e vendo que continuava com uma expressão confusa, percebeu que ela ainda não deveria saber. — Ai, droga! Você não sabia, né?
— Não… — respondeu, incerta.
— Eu não sabia que era surpresa, mas o Horner é casado com a Geri e eles deram ingressos para quase toda a equipe ver o show das Spice Girls amanhã à noite.
— Eu realmente não sabia. não falou nada.
— O tinha me falado que o ia te levar, então eu deduzi que você sabia. Desculpa!
— Não tem problema, eu finjo surpresa quando ele decidir me contar. — Ela garantiu.
A classificação estava quase começando e cada uma delas colocou os fones. Apesar da alta previsão de chuva para o dia seguinte, o clima estava o oposto naquela tarde. E assim que o Q1 começou sentiu o nervosismo aparecer.
Logo na primeira volta, antes de conseguir abrir uma volta rápida, o carro de Sebastian Vettel apresentou perda de potência e ele voltou para os boxes, largaria da 20ª posição. Enquanto isso fazia o melhor tempo do final de semana e ocupava a pole, sendo seguido por .
O cronômetro já estava zerado e ocupava o décimo-terceiro lugar. Se nada mudasse, ele passaria para o Q2, mas tinha aprendido que era muito arriscado, já que os pilotos costumavam fazer voltas bem melhores no final. A sua esperança era que fizesse como os outros e marcasse um tempo muito melhor.
Giovinazzi passou e melhorou o tempo, subindo para o oitavo lugar, empurrando para décimo-quarto e sentia as mãos cada vez mais suadas. Pérez subiu cinco posições e agora era o piloto na zona de risco de eliminação. Ela balançava a perna sem parar no assento e então soltou o ar que estava prendendo ao ver o nome dele subindo para a quarta posição no grid.
Aceitou a garrafa de água que Eloise estendeu na direção dela e deu um longo gole. O Q2 estava prestes a começar. Diferente do Q1, tinha andado bem desde o início e quando o cronômetro zerou, ele estava na terceira posição, atrás apenas de Hamilton e . havia tido problemas com o motor e demorou a ir para a pista, ainda assim tinha ido bem e estava logo atrás de .
Com a certeza de que o tempo da equipe era o suficiente para Q3, os dois carros da Red Bull nem saíram novamente dos boxes, mas Valtteri Bottas conseguiu encaixar uma volta melhor e ocupou a quarta posição, colocando em quinto.
— Se o carro do der problema de novo no motor ele vai ficar tão bravo. — Eloise comentou.
— Acontece muito? — não acompanhava a tempo suficiente e também não acompanhava sobre .
— Infelizmente o motor Honda tem deixado na mão quando ele mais precisa. A RBR tem muita chance de voltar ao topo, tem condições de ser o mais novo campeão mundial, mas o motor não colabora. — Explicou.
— Entendi. Mas os carros são iguais, certo? — Eloise confirmou com a cabeça.
— São, mas infelizmente o ainda não conseguiu controlar tão bem o carro e outras coisas acabam atrapalhando-o. — Disse ao deduzir que ela falava sobre não ter reclamado de problema no motor.
— Isso tudo é muito novo para mim. Espero que ele consiga ficar numa posição mais confortável com o carro e a equipe. — comentou e logo voltaram a prestar atenção quando viram os carros saindo para a última parte da classificação.
— A Ferrari não está com sorte hoje. — Eloise comentou ao ver a imagem de fora do carro.
— Melhor para a gente. — sorriu, estava nervosa novamente, adoraria que largasse na frente de .
Mas o sonho dela não durou muito, havia feito o segundo melhor tempo, atrás apenas de Hamilton e separando as duas Mercedes. tinha conseguido o quarto tempo, a diferença não era tão grande na opinião dela e torcia para que no dia seguinte ele conseguisse um lugar no pódio.



Treize

A previsão do tempo não havia mentido e além da baixa temperatura a chuva caia desde cedo em Hockenheim. Era a primeira vez que veria uma corrida na chuva e seu nervosismo parecia ser o dobro do que era normalmente. Ela sabia que vários acidentes tinham acontecido em corridas com chuvas e de nada ajudou quando viu agachado, um pouco à frente de seu carro, fazendo o sinal da cruz e olhando para o céu.
já tinha notado a correntinha dourada com o pequeno crucifixo no pescoço dele, também sabia que a família dele, assim como a dela, era religiosa, afinal os pais de tinham-na batizado quando era bebê. Mas ver essa cena tinha mostrado mais um lado que ela não conhecia dele e ela esperava que fosse apenas um ritual de todas as corridas e não um pressentimento de que aquela seria perigosa.
Eloise parecia bem mais tranquila do que ela, estava também bem focada. colocou os fones e se ajeitou no banco, desejando que fizesse uma boa corrida e que fosse uma corrida segura.
não sentia a mesma confiança do dia anterior. Amava correr com chuva, mas com as dificuldades que vinha tendo, sabia que não seria fácil. A chuva continuava forte e precisaram fazer quatro voltas de formação até que a condição da pista fosse boa e o safety car saísse da pista para a largada parada.
As luzes se apagaram e acelerou, mas o carro não correspondeu. Ele não tinha aderência nenhuma e acabou sendo ultrapassado por quatro carros só na primeira volta. Aquilo não era nada bom, mas era só o começo e muita coisa podia mudar.
Logo na segunda volta, Pérez rodou e saiu da pista, batendo na proteção. Era fim de corrida para ele, mas ainda tinha sessenta e duas voltas pela frente.
— Bandeira amarela, . Pérez está fora. Mudança na estratégia, box na próxima. — O engenheiro falou.
— Certo. — Confirmou e tinha gostado de poder ouvi-lo durante a corrida.
Praticamente todas as equipes tinham aproveitado da bandeira amarela para fazer a primeira parada de seus carros e na sexta volta, estava na décima-oitava posição. Era uma corrida igualmente difícil, vários carros sofrendo com a falta de aderência, mesmo assim, tinha conseguido subir quatro posições em oito voltas.
— Daniel está com problemas. — comunicou. — Muita fumaça em mim.
— Bom trabalho, . — O engenheiro respondeu quando além de Riccardo ele ultrapassou Kvyat.
sentia que estava fazendo um bom trabalho, estava quase na zona de pontuação novamente e na volta dezenove foi a vez de Sainz escapar da pista. achou que novamente teriam bandeira amarela, mas ele conseguiu voltar para a pista e continuar a corrida.
— Vettel nos boxes. Você está em P9.
— Ok.
— Box em duas voltas, Vettel e já deixaram os pneus de chuva.
— Ok.
acompanhou da garagem a equipe trocando rapidamente os pneus do carro de , ao mesmo tempo viu na tela mais um carro abandonando, dessa vez por problemas técnicos, e a prova e ainda nem tinha chegado a trinta voltas.
, P10.
A engenheira estava um pouco mais tranquila agora que ele estava pontuando novamente. estava muito bem na segunda posição e marcava também a volta mais rápida e a parada de Hamilton tinha sido de 5.6 segundos, o que foi motivo de comemoração dela com Eloise. E então, na volta vinte e nove, escapou na penúltima curva e bateu na barreira de proteção.
— Ah, não! — fez uma careta vendo a decepção clara de com o que tinha acabado de acontecer.
Tinham jantado juntos na noite anterior e ela tinha adorado ver os dois amigos juntos. era muito importante para , ela sabia disso, sabia que eles compartilhavam a vida no esporte desde crianças e imaginava que mesmo ganhando uma posição com a batida do monegasco, aquilo não era algo que deixava feliz.
Na mesma volta e na mesma posição, Hamilton também escapou, mesmo com a asa dianteira danificada, conseguiu retornar para a pista e para os boxes, perdendo, no entanto, a primeira posição para o companheiro de equipe.
Quase dez voltas depois, o segundo carro da Renault escapou e bateu na barreira de proteção. Restavam apenas quinze carros no circuito e passou a ocupar a sétima posição. Na opinião de , considerando tudo que tinha acontecido até ali, ele estava muito bem. Mas com liderando a prova e tendo o ponto extra de volta mais rápida, ela sabia que a pressão continuava existindo.
— Isso! — comemorou quando ele ultrapassou Albon e passou a ocupar a quinta posição na volta 46.
Riu fraco ao vê-lo parando novamente nos boxes, assim como vários outros pilotos. Parecia que sempre que ele estava em uma boa posição ele precisava parar e voltava mais atrás.
Quando Hamilton rodou novamente, na volta cinquenta e três, foi impossível não rir ouvindo o público. Mais uma vez ele tinha conseguido retornar para a pista, mas juntamente com a punição de cinco segundos ele estava em décimo-terceiro e não era uma ameaça. E então, na volta seguinte, faltando sete voltas para o final da prova, Bottas também perdeu o controle do carro, levando-o de encontro à barreira de proteção.
agora era o sétimo a apenas duas voltas para o fim e estava aliviada por ele não ter terminado a prova mais cedo. Mas pensara isso cedo demais. No instante seguinte viu na tela o carro de seguindo para a área de escape da pista, ouvindo em seguida o grito frustrado dele pelo rádio.
— Não! — Ela sentiu o coração apertar. Não conseguia acreditar que ele estava fora faltando tão pouco.
— O que aconteceu? — Ela perguntou para si mesma, olhando então o replay na tela.
Tinha sido erro dele ao tentar ultrapassar Albon. Os dois carros foram para o mesmo lado da pista e se tocaram, a asa dianteira havia quebrado e ficado presa embaixo do carro. podia não entender tão bem, mas sabia que aquele era um erro que poderia ter sido evitado, ele tinha sido imaturo e ela sentiu o coração apertar novamente ao vê-lo chegando a pé na garagem.
Viu os chefes conversando e se sentiu ainda mais apreensiva com o que viria a seguir. Ele estava pontuando e agora terminaria sem nenhum ponto enquanto vencia a corrida e tinha a volta mais rápida.
estava com muita raiva de si mesmo, sabia que era culpa dele e haveria consequência, principalmente com Helmut Marko estando presente. Ele nunca tinha nada de bom para falar, nem mesmo quando ele não fazia nada errado. Pesou-se assim que entrou na garagem e sem tirar o capacete atravessou o lugar, olhando apenas para o chão.
não sabia o que fazer, não sabia se queria a companhia dela naquele momento. Eloise tirou os fones, a corrida tinha acabado e ela correu para se juntar a Horner e ir cumprimentar o namorado pelo pódio, então ela também guardou os fones e caminhou até o quarto com o nome de na porta.
Bateu duas vezes, mas não esperou resposta para entrar. estava sentado, sem o capacete e a balaclava, e apoiava o rosto nas duas mãos.
— Eu sinto muito. — Ela disse, sem saber o que dizer.
— Eu fui idiota, cometi um erro infantil. — Disse com a voz carregada de raiva.
— Acontece, a gente ganha ou aprende, não é mesmo? — Tentou aliviar vendo a frase escrita na bandeira francesa logo atrás dele.
Sentou-se ao lado dele e entrelaçou os dedos aos dele, fazendo um carinho em sua mão.
— A reunião com a equipe vai ser dura. — Ele se levantou pouco tempo depois.
Desceu o zíper do macacão, e tirou a parte de cima, deixando-o pendurado e negou, segurando um sorriso enquanto ele pegava a blusa de frio da equipe.
— O que foi? — perguntou, notando a expressão dela.
— Você faz de propósito. — Ele riu e ela teve a certeza de que estava certa.
— Vamos, a premiação deve estar quase começando e vai ficar ainda pior se eu não estiver lá para apoiar a equipe. — Abriu a porta e os dois saíram juntos. Andaram lado a lado até se juntarem à equipe.
— Que corrida o Vettel fez, hein? — sorriu verdadeiramente vendo-o no pódio. — Largou em vigésimo, em casa, e conseguiu chegar em segundo.
Com os três já em seus lugares, os troféus foram entregues. Primeiro para Kvyat que ocupara a terceira posição, depois para Vettel e por último para . E então o hino holandês começou, seguido pelo hino austríaco e depois por uma salva de palmas e gritos da torcida alemã. Estouraram as champagnes e a festejaram no pódio.
— Hey. — chamou, vendo que ele encarava o chão novamente e ele a olhou tentando disfarçar a tristeza que sentia. — O seu dia vai chegar. Ouviremos o hino da França vendo você lá em cima. — sorriu fraco, ela falava com uma certeza que o fazia querer acreditar até mesmo em momentos como aquele em que sentia ter perdido toda a confiança em si mesmo. E foi pego de surpresa quando ela beijou o rosto dele. — Boa sorte com as entrevistas e a reunião. Vou te esperar no hotel. — Avisou e ele concordou com um aceno.

🔸🔹

Três horas depois enviou uma mensagem para avisando que estava pronto para o check-out e ela pegou suas coisas, seguindo para o saguão do hotel. Ele apareceu pouco tempo depois atrás dela.
— Você também vai para o show? — perguntou vendo Pyry sentando no banco do motorista.
— Não, vou pegar um voo para Milão. — Ele contou, enquanto ela se ajeitava no banco de trás.
— E o carro? — Ela tinha certeza de que era o carro que ela dirigira na França.
— A Honda fornece um carro em cada lugar que estou quando não posso ir com o meu mesmo. — explicou e logo viu a placa sinalizando aeroporto.
— Você está mais sério do que antes. Foi tão ruim assim? — Ela perguntou e Pyry a olhou, olhando para ele em seguida e voltando a olhar para o trânsito.
— Foi bem ruim, segundo Marko eu não honro estar em uma equipe como a RBR. — Ele respirou fundo e Pyry já estava estacionando para devolver o carro.
Seguiram juntos para dentro do aeroporto, mas logo se separaram, pois iriam para Londres no jato da Red Bull e o embarque ficava em outra área. Se despediram de Pyry, que lamentou o fato de não ir à próxima corrida na Hungria e seguiram para o outro lado. havia enviado uma mensagem que já estava chegando com Eloise e achou bom, não queria ser o último a chegar e dar mais motivos para implicarem com ele.
… — chamou enquanto esperavam as outras pessoas da equipe. — Você tem certeza de que quer ir a esse show? — Ela perguntou baixinho e ele a olhou. — A gente pode pegar um voo para casa ou ir para Londres e não ir ao show.
— Eu adoraria, mas acho que isso só pioraria ainda mais a minha situação. — Ela assentiu, entendia o lado dele. — Mas com você e a Eloise estando lá eu acho que nenhum assunto vai voltar à tona.
— Eu não acredito que chegou antes de mim de verdade. — soou incrédulo e riu, percebendo que o problema com horários era muito mais real do que ela pensava.
— Existe uma primeira vez para tudo. — Ele deu de ombros e percebeu que ele estava se esforçando para não deixar os outros acontecimentos pesarem o clima ali.
, me desculpe por ter estragado a surpresa para a . — Eloise pediu, sincera.
— Imagina, eu que acabei me esquecendo de falar mesmo.
, você também é fã das Spice Girls? — perguntou e a engenheira ficou com pé atrás, esperando por alguma piadinha que viria dele. — Me fala que sim, assim você pode curtir com a Eloise e eu não preciso passar essa vergonha. — A namorada dele o olhou feio.
— Eu não peguei muito a fase delas, mas conheço bastante música sim. Não tem como não conhecer. — Contou, sendo a mais velha dos quatro ela era provavelmente a que mais escutara a girlband. — Mas você vai passar vergonha sim e eu vou fazer questão de gravar. — Ela riu da cara dele e Eloise fez um hi-five com ela.
— Vamos? — Horner apareceu na sala e todos o seguiram até a aeronave.

🔸🔹

— E lá se vai minha tentativa de não passar vergonha. — resmungou vestindo a camiseta das Spice Girls que Horner tinha entregado a cada um deles. — A de vocês é mais legal. — Apontou para Eloise e .
— É para combinar com a gente. — falou, tirando , o que fez e Eloise rirem.
— Se você acha que está passando vergonha, olhe para trás. — indicou discretamente e se virou, explodindo em gargalhadas depois. — Meu Deus, eu não acredito que o Helmut e os outros estão todos com camisetas também.
Wembley estava bem cheio, era o terceiro show seguido ali e também seria o último da Spice World Tour 2019. estava feliz pelos lugares reservados a eles serem nas cadeiras e não na pista ou alguma área vip. Esperava até mesmo que Christian fosse ficar em outro lugar, mas tinha voltado ao estádio com as filhas e os assentos eram todos próximos em duas filas da lateral direita do palco.
Bluebell, a filha mais velha de Geri, tinha cumprimentado a todos quando chegou, apesar de ter apenas treze anos, se comportava como uma adolescente e estava sentada em seu lugar, ao lado de Christian. Já Olivia estava maravilhada com o lugar, já que com cinco anos era a primeira vez que ia a um show, e não parava quieta, ainda mais depois de ver que Eloise também estava lá.
— Se vocês tivessem ido ao jantar, Olivia estaria obcecada com você também. — Christian falou para , vendo a filha dançar mesmo sem música.
— Foi no dia do seu aniversário. — explicou ao vê-la perdida no assunto.
— Ah, sim. — sorriu.
— Oi, ! — A criança foi até ele, que bagunçou os cabelos dela e ela riu. — E quem é você? — Ela perguntou, olhando para o próprio pai.
— Essa é a , filha.
— Você também vai dançar comigo quando a mamãe começar a cantar? — Ela encarou com os olhos castanhos brilhando.
— Claro que sim. — entrou na brincadeira e ela deu pulinhos no lugar.
— Sabia que a mamãe vai sair do chão? — Ela contou baixinho como se fosse um segredo.
— É mesmo? — fingiu surpresa e a pequena balançou a cabeça confirmando.
— Não acredito que você contou um segredo para a e não contou para mim. — Eloise fingiu estar triste e Olivia logo correu para contar para ela também.
— Você tem algum ímã para crianças, né? — a abraçou pela cintura e sorriu ao perceber que aos poucos o humor dele tinha mudado e eles poderiam curtir a última noite juntos.
— Por que diz isso? — Ela o encarou.
— A Olivia já te considera a melhor amiga e minhas sobrinhas te adoram também.
— Não me diga que está com ciúme das crianças. — o provocou e ele riu.
— Não mesmo. — E ela sabia que realmente não tinha soado como ciúmes.
— Eu acho que é só porque vocês são todos homens na sua casa. — Ela disse e então uma contagem regressiva começou e os gritos dos fãs preencheram o estádio.
— É agora! — Olivia gritou, indo para o colo do pai para enxergar melhor.
Quatro grupos de dançarinos, cada um com um estilo de roupas, dançavam em uma parte da passarela do palco. Pouco tempo depois o telão passou a apresentar cada uma das integrantes, começando pela Sporty.
— Essa é a tia Mel C. — Olivia falou cutucando . — E essa é a tia Emma. — Apresentou quando no telão apareceu Baby Spice. — A Mel B. — Ela continuou apontando e agora era Scary Spice que aparecia no telão. — E agora vai ser a mamãe. — Ela bateu palmas quando apareceu Ginger Spice.
Assim como ela tinha dito que seria, as quatro surgiram de um círculo no centro do palco. As roupas de cada uma delas combinando com cada um dos grupos de dançarinos que ocuparam o palco anteriormente. e Eloise gritavam e aplaudiam juntamente com os outros fãs e olhou para como se fosse a coisa mais absurda, o que o fez rir.
Os primeiros acordes de Spice up your life ecoaram no lugar e Olivia, que descera do colo do pai, juntou-se a Bluebell, que tinha abandonado a pose de adolescente anti-social, deram as mãos e começaram a dançar. E quando o refrão começou as duas se aproximaram de Eloise e , fazendo com que elas dançassem também.
ainda estava incrédulo, com uma mão no rosto e tinha vontade de rir toda vez que olhava para o amigo.
— Relaxa, cara. Curte o show. Vai ser isso a noite toda. — deu um tapinha no ombro de .
— Eu nem era nascido quando elas fizeram sucesso.
— E você acha que eu fui a quantos shows delas? — devolveu e riu. — Curte com a Eloise. Essas coisas são tão raras enquanto estamos na temporada. — Era inevitável não lembrar que depois dessa noite ele e não se veriam por algum tempo.
— Caramba, você está mesmo muito apaixonado. — apenas deu de ombros, não tinha o que falar.
Ao final da primeira música elas conversaram um pouco com o público e então a segunda música começou e apenas as Bluebell e Olivia continuavam cantando já que nem nem Eloise conheciam.
Algumas músicas depois elas deixaram o palco e apenas os bailarinos se apresentaram. Quando retornaram estavam com outras roupas. concordou com uma Olivia deslumbrada dizendo que a mãe tinha se tornado uma princesa como a Elsa e reconheceu Viva Forever, era uma das músicas que ela gostava.
A mão de a envolvia pela cintura e ele balançava com ela no ritmo da música. Algumas pessoas haviam ligado o flash do celular, inclusive , e começava a dar um efeito diferenciado. Apesar de a música ser lenta, todos pareciam estar completamente envoltos na atmosfera e quando o refrão começou, borboletas de papel voaram como confete em frente ao palco, sendo espalhadas com o vento e dando um efeito incrível à medida que as diferentes luzes iluminavam o palco.
também não conhecia a música, mas estava satisfeito em ver que estava gostando. Ele não fazia ideia se ela gostava ou não do grupo quando decidiu confirmar com Horner que ela iria e tinha sido uma boa escolha afinal.
Emendaram outras músicas, conversaram mais um pouco e trocaram de roupa mais uma vez. Quando retornaram ao palco pela terceira vez, contaram que não era uma música que tinham cantado nos outros shows, mas que cantariam por ser uma das músicas favoritas de uma pessoa especial que estava ali naquela noite.
A princípio achou que não conhecia a música, mas se lembrou de qual era quando chegou no refrão.
— Você conhece todas. — estava incrédulo ao vê-la cantando uma música que poucas pessoas na plateia cantavam. — E isso porque você tinha três anos quando essas músicas foram lançadas.
— Música não tem data de validade, . — Ela riu e virando-se para ele cantou o trecho da música. — You’re always on my mind and I wonder all the time, do you think about me like I think about you? (Você está sempre em minha mente e eu me pergunto o tempo todo, você pensa em mim como eu penso em você?)
— Você não faz ideia. — Ele respondeu baixo, mas ela não ouviu, pois Olivia tinha puxado a mão dela e apontava algo no telão.
pegou o celular e se assustou ao ver as horas, o show deveria estar quase no fim e tinha passado super rápido. Imaginava que sua música favorita seria uma das últimas e estava ansiosa para ouvi-la ao vivo. No instante seguinte, Emma e Geri conversaram novamente com o público, dizendo que iriam dar uma dica sobre a próxima música e gritou juntamente com os outros ao entender que tinha chegado a hora de Two become one.
estava maravilhada e sorriu ao ver que a expressão dela e de Olivia eram super parecidas naquele momento. pegou o celular e gravou a primeira parte da música, mesmo sabendo que encontraria depois na internet, ela queria ter aquela lembrança para si.

(N/a: coloque essa música para tocar em 2:18)

— Essa é minha música preferida. — contou a e ele percebeu que a expressão dela estava diferente, era como se ela estivesse emocionada. — Ela me faz lembrar de algumas coisas do começo da minha adolescência. — Explicou e ele percebeu que não sabia muito da vida dela naquela época.
Passou os braços por cima dos ombros de , entrelaçando as mãos em sua nuca. As mãos dele não demoraram a ir para a cintura dela. Ela sorria e então seus olhares se conectaram. Naquele instante ambos sentiam como se não houvesse mais ninguém ali, era um momento apenas deles e eles estavam apreciando verdadeiramente.
cantava baixinho, se aproximando ainda mais dele, sem quebrar a conexão e passou os dedos vagarosamente, fazendo um carinho em sua nuca e vendo-o sorrir com tantos flashes atrás dele iluminando todo o local.
Ambos foram pegos de surpresa quando Emma segurou a nota e as luzes se apagaram. não entendia por que seu coração batia tão rápido daquela forma, eles já tinham compartilhado tantos outros momentos naquela viagem. Inexplicavelmente aquele parecia até mais íntimo que os outros, o que era igualmente empolgante e assustador.
sabia que se sentia da mesma forma e aproximou ainda mais o seu rosto do dela. Estava prestes a beijá-la quando Olivia apareceu entre eles gritando e aplaudindo como os demais espectadores, quebrando totalmente o clima em que estavam. fez uma careta, mas riu, não conseguia ficar brava com uma criança.
Com o recomeço da música, voltou a abraçar e com aquele simples gesto, naquela música que ele nem conhecia, ele estava se sentindo muito sortudo por tê-la em seus braços.
— I had a little love, now I'm back for more. — voltou a cantar e tinha certeza de que ela estava colocando todas as cartas na mesa, não deixando nenhuma dúvida sobre seus sentimentos.
a puxou mais para perto, abraçando-a por trás e depois de depositar um beijo em seu pescoço, apoiou seu queixo no ombro dela, aproveitando aquela sensação que fazia ambos se sentirem completos e conseguindo finalmente beijá-la quando a música acabou.
Com a última troca de roupa o público já sabia o que esperar, eram os mesmos looks do clipe de Wannabe. Geri falou que cantariam o sucesso de 1996 e continuava achando engraçado a música ser do ano em que ele nascera.
e Eloise já estavam empolgadas junto com os outros fãs e quando a música começou, cantaram os primeiros versos uma para a outra, o que divertia bastante e , principalmente quando ambas fizeram a dancinha do refrão exatamente igual às quatro integrantes no palco.
Para a surpresa de todos, Eloise cantou a segunda parte da música toda para como se fosse uma declaração, e não demorou a gravar a cena. Não perderia por nada aquela cara de assustado dele, mas pegou todos de surpresa cantando uma parte de volta para Eloise.
pegou o celular das mãos de e fez com que ele cantasse o último refrão com ela e com a última frase fogos de artifício estouraram pelo estádio. Elas se abraçaram e despediram do público e só quando saíram foi que eles voltaram a se sentar. e compraram água para eles e Christian se despediu com as meninas, seguiria para o camarim para encontrar a esposa. Pouco tempo depois Eloise e também se despediram.
— Vamos tirar uma foto? — pediu quando o estádio já estava mais vazio.
— Agora? — estranhou, tinham tirado ótimas fotos no início.
— Sim. — Ela respondeu entregando o aparelho para ele e se posicionando em sua frente, ambos de costas para a estrutura do palco. — Tire mais uma. — Ela pediu, agora beijando o rosto dele e ele percebeu o tamanho do sorriso no próprio rosto. — Essas férias foram incríveis e não tinha forma melhor de terminar. — sorriu e ele entrelaçou os dedos aos dela, caminhando juntos para fora do estádio.



Quatorze

Agosto de 2019.

Uma semana havia se passado desde o último dia de com e ela estaria mentindo se dissesse que não estava sentindo falta dele, mesmo que tivessem trocado mensagens e até conversado por ligação algumas vezes desde que se despediram no aeroporto de Heathrow.
— Não posso dizer que ele não me avisou. — deu de ombros. — Porque ele me contou os pontos negativos de se namorar um piloto antes mesmo de a gente começar a ficar.
— Você vai aprender a lidar com isso, . — confortou a amiga. — Não deve ser fácil para ele também. Para ele falar isso é porque ele já viveu essa situação, mas você não é a ex dele e ele não é o mesmo de antes também.
O telefone de tocou em cima da mesa, interrompendo .
— E falando nele… — Ela riu, empurrando o celular para a amiga.
— Oi. — o cumprimentou com um sorriso depois de deslizar, aceitando a chamada de vídeo.
Ainda na ? — Perguntou ao ver que aquela cozinha ao fundo não era a da casa dela e nem a de Mabelle.
— Sim, ela e Leon amaram tanto a minha companhia para assistir à corrida que me convenceram a ficar para jantar. — Ela brincou, virando a tela do aparelho para que ele visse o casal e eles acenaram.
O que achou da corrida?
— Chata. — Ela foi direta e tanto ele quanto Leon riram. — Como foi com a equipe depois?
A mesma coisa de sempre, acho que eles nunca vão me tratar da mesma forma que trataram os outros que passaram aqui antes de mim. Continuo sem ser ouvido. — O sorriso dele não era feliz. — Mas eu vou conversar com o Horner antes de voltar, quero que ele me diga exatamente o que ainda esperam de mim e que eu não estou fazendo. assentiu.
— Vai dar certo. — Ela foi positiva e ele concordou com um aceno.
Sim, vou aproveitar essa pausa de verão para correr atrás do que precisar. O Leon ainda está aí? entregou o telefone para ele. — Eu não esqueci do nosso combinado. Chego aí no próximo sábado, te vejo no kartódromo?
— Só falar a hora. — A empolgação era notável na voz dele e sorriu. Significava muito para ela o fato de considerar também os amigos dela.
— Você bem que podia vir antes, né? — se colocou em foco na chamada. — Tem alguém aqui sentindo a sua falta. — Contou para e sentiu o rosto esquentar.
Também estou sentindo falta dela. — Diferente de , comentários assim não o deixavam sem graça. — Mas infelizmente só consigo ir daqui uma semana.
— Nos vemos no kartódromo então. — Ela e Leon se despediram, devolvendo o aparelho para a amiga, que foi para o quintal da casa, buscando um pouco de privacidade.
Eu só liguei porque queria te ver um pouco, mas preciso ir. Combinei de ir jantar com o Anthoine. Já tem um tempo desde a última vez que pudemos passar um tempo juntos.
— Bom jantar para vocês. — Desejou.
Quero ver se ele consegue ir para Marselha na outra semana, adoraria que vocês se conhecessem.
— A gente já se conhece, .
Se conhecessem de verdade, não de vista.
— Espero que ele venha, vai ser ótimo. Adorei o jantar com o aquele dia. Gosto quando você está com seus amigos.
Nos falamos mais tarde? confirmou com a cabeça e mandou beijos antes de encerrar a chamada.

🔸🔹

Dentre as coisas que sentiria falta quando assumisse o pós-obra, uma delas era, sem dúvidas, o fato de o expediente acabar mais cedo na obra na sexta-feira. Tinha aproveitado para fazer as unhas e hidratar o cabelo, e tinha acabado de secá-lo quando o interfone do apartamento tocou.
Desbloqueou a tela do celular, conferindo se era a pizza que ela havia pedido. O porteiro informou que era uma entrega e ela liberou a entrada, estranhando o fato de que no aplicativo ainda constava que estava em preparo. Fechou-o e abriu novamente, na esperança de atualizá-lo, mas estava da mesma forma. Deixou o aparelho na bancada ao ouvir o barulho indicando que o elevador estava no andar e abriu a porta.
— Você foi rápi- ? — Apesar de surpresa, ela sorria e ele logo a puxou para um abraço.
— Oi, . — Juntou os lábios aos dela, matando um pouco da saudade que havia sentido.
— E eu jurando que era o entregador. — Ela riu e o abraçou novamente. — O que você está fazendo aqui? — O guiou para dentro, fechando a porta atrás de si. — Achei que só viria amanhã.
— Era o plano, mas eu pensei e achei que ia ser tortura demais ficar o dia todo ao seu lado sem te beijar e adiantei as coisas. — Com as mãos na cintura dela, a guiou para a mesma bancada em que eles haviam se beijado na última vez em que ele estivera ali.
— Como assim? Ficar o dia todo sem me beijar? — não via sentido nas palavras dele, ainda mais com o corpo dele tão próximo ao dela.
— Você não gosta muito de me beijar nem entre desconhecidos, imagino que com seus amigos e seu pai não seria diferente. — explicou passando o cabelo dela para o lado, deixando o pescoço livre e distribuindo alguns beijos.
— Então você veio um dia antes literalmente para me beijar? — disfarçou um sorriso, dando impulso e sentando-se na bancada.
— Na verdade consigo pensar em algumas outras coisas que a gente poderia fazer. — Ele murmurou e se arrepiou. — Mas infelizmente não temos tempo para isso. Anthoine conseguiu vir para Marselha e eu combinei de jantarmos com ele daqui a pouco.
— Então preciso me arrumar. — Ela tentou descer, mas permaneceu com as mãos na cintura dela, impedindo que ela saísse dali.
— Hum… — olhou as horas em seu relógio. — Eu acho que a gente pode se atrasar um pouquinho. — Ele falou, aproximando os rostos novamente e levou as mãos ao rosto dele, acabando com a distância entre eles.
O encontro das bocas deixou claro o quanto havia sentido falta um do outro e sem dúvidas poderiam passar a noite ali, explorando as sensações que causavam e sentiam. Mas tinham compromisso e partiu o beijo, indo se trocar para que não se atrasassem tanto.
— Sua pizza chegou. — avisou entrando no quarto dela, era a primeira vez que entrava ali.
— Pode deixar em cima do fogão mesmo e aproveitando que está aqui, me ajuda com o zíper? — Pediu por charme, já que ela estava acostumada a fechar o vestido preto sozinha.
— Você faz de propósito, não é? — Ele negou com a cabeça, tentando ignorar os pensamentos que surgiram ao estar tão próximo, vendo a lingerie que ela usava e ela riu.
— Não é só você que sabe brincar. — Piscou para ele pelo espelho e se virou quando ele terminou de fechar. — Guarde suas ideias para mais tarde. — Ela sussurrou contra os lábios dele, dando um selinho em seguida.
— Seria ótimo, se eu não fosse dormir em casa. — parou de andar e o olhou para ver se era brincadeira, tinha deduzido que ele voltaria com ela para o apartamento depois do jantar. — Meus pais estão desconfiados, mas como não conversamos sobre isso ainda, achei melhor voltar para casa.
— Tudo bem, acho melhor assim por enquanto. — Sorriu e entrelaçou os dedos aos dele, seguindo para fora do apartamento.
Quando chegaram ao restaurante, Anthoine já estava lá e para ele não havia mudado tanto, era o garoto de óculos de quem ela se lembrava de ver na casa de quando eram adolescentes, que tinha se tornado um belo e simpático rapaz.
— Como foi que aconteceu essa conversão? — Ele perguntou. — me disse que você não gostava de corridas.
— Ela foi fugir da vida dela e se apaixonou pelo GP de Mônaco. — respondeu primeiro.
— Se você vai contar, pelo menos conta direito. — riu, bebendo um gole do suco.
— Foi uma troca, eu iria conhecer a obra em que ela trabalha e ela iria a uma corrida. Coincidentemente a próxima corrida era em Mônaco e ela percebeu que estava enganada a vida toda achando que automobilismo era chato. — Ela rolou os olhos.
— Não foi exatamente assim. — falou diretamente para Anthoine. — Mas foi quase.
— Entendi. Eu sempre achei que você seria professora de universidade.
— Sério? — não ouvia muito isso e ele confirmou balançando a cabeça.
— Você sempre pareceu muito inteligente. — Ela sorriu com ele.
— Obrigada.
— Olha quem está falando… — rolou os olhos. — Tonio era, de longe, o garoto mais inteligente do castelo.
— Castelo? — perguntou, confusa.
Naquele instante o garçom se aproximou com os pedidos, um carbonara para Anthoine, um parisiense para e uma lasanha à bolonhesa para . E antes de comer, brindaram à agradável noite.
— Me contem, que castelo? — perguntou antes de começar a comer.
— Você não sabe que eu estudei em um? — estranhou e ela negou com a cabeça. — Não é possível que você nunca tenha ouvido seus pais ou os meus comentarem que eu saí de casa com treze anos.
— Disso me lembro, mas nada além. — Ela deu de ombros.
— Quando a gente tinha essa idade, o governo francês resolveu apostar nos jovens atletas que poderiam ser grandes e representar o país no futuro e transformaram um velho castelo em uma escola. — Anthoine começou a contar. — A gente já se conhecia das competições de kart.
— E Anthoine era muito rápido desde sempre. Ele era meu exemplo, antes mesmo de conhecê-lo melhor. — sorriu, era visível o quanto a amizade deles era real.
— Eu sinto que a gente era como um experimento. — Anthoine comentou, rindo. — Por causa das competições e viagens, a gente acabava perdendo muitos dias de aula numa escola comum. Então lá era a oportunidade perfeita e nós nos mudamos.
— Nossa, vocês foram muito corajosos. Eu só tive coragem de me mudar quando terminei a faculdade.
— Acho que queríamos tanto isso que nada parecia difícil, quando comparado com a possibilidade de realizar nossos sonhos. — Anthoine falou.
— Mas não foi fácil. — emendou.
odiava os banhos frios. — Anthoine riu do amigo.
— Banhos frios no inverno. — Ele reforçou e riu.
— Não tinha água quente lá?
— Tinha, mas não era o suficiente para todos os alunos. Então era sorte de quem conseguia tomar banho primeiro.
— Entendi. E vocês estudavam matérias normais?
— Sim, e idiomas. Mas a maior parte do dia era dedicada ao treino físico mesmo. Treinávamos até a exaustão.
— E mesmo assim esse cara continuava me incentivando. — falou sobre o amigo e era possível notar a gratidão em sua voz.
fazia o mesmo por mim. — Ele garantiu.
— Nós estávamos tão exaustos, com vontade de parar um pouco e então nos olhávamos e eu perguntava se ele estava cansado.
— Eu estava, mas dizia que não e perguntava se ele estava.
— Em resumo, estávamos mortos, fingíamos que não e continuávamos apoiando o outro até o limite.
— Nossa, eu não ia imaginar nunca. Mas realmente foi incrível, vocês conseguiram realizar os sonhos de vocês e eu acho que isso faz tudo valer a pena, né?
— Com certeza! — Os dois responderam ao mesmo tempo.
— Mal posso esperar para ele subir para a F1. — disse. — Aí sim, de uma vez por todas, provaremos a todos que duvidaram de nós. — o olhou, sentindo como se perdesse parte da conversa.
— Grande parte dos alunos do castelo não acreditavam no nosso potencial. — Anthoine explicou. — Viviam falando que eram só vinte assentos e que nós nunca conseguiríamos.
— Que grandes babacas. Aposto que eles é que não viraram grandes atletas.
— Alguns viraram. — Anthoine contou. — Mas realmente fico feliz por nós, cada vitória, cada passo.
— Amo ainda mais a amizade de vocês agora. — comentou e os dois riram.
— Agora eu fiquei curioso. — soltou, atraindo a atenção dos dois. — O que você estava fazendo nessa época? — Olhou para que quase se engasgou com o suco.
— Perto de vocês, qualquer resposta vai ser sem graça. — Pensou um pouco e riu fraco. — Estava no ensino médio sofrendo com minha primeira desilusão amorosa e um coração partido. — Lembrou-se do fim do seu primeiro namoro.
— Como esquecer o primeiro coração partido. — Anthoine riu, lembrando-se do fora que levou.
— Eu não sei o que é isso. — falou com uma expressão de superioridade, fazendo os outros dois rirem. — Ninguém resiste a .
— Pelo que eu me lembro… — Anthoine começou como se fosse contar algo do passado dele.
— Não se lembra de nada. — Cortou o amigo. — Vamos mudar de assunto. — Ele não queria estragar a ótima noite que estavam tendo para falar de relacionamentos que não deram certo.
— Ok, qual a diferença da sua corrida para a dele. — realmente não sabia a diferença entre a Fórmula 1 e a 2 e os dois se empolgaram contando sobre as diferenças e sobre a época de competindo na categoria, que tinha outro nome na época.
Os assuntos fluíram tranquilamente pelo resto da noite e se despediram com a promessa de repetirem o jantar quando tivessem oportunidade.

🔸🔹

sorriu ao estacionar no kartódromo. Fazia um bom tempo desde a última vez que ele estivera ali. Tinha sido ali que ele vira seus irmãos mais velhos correndo quando ainda era muito pequeno, e tinha sido ali que Yohan deixou ele correr de kart pela primeira vez, sem os seus pais saberem.
Cruzou a entrada do lugar, vendo logo à frente. Ela sorriu assim que o viu e ele olhou as horas no próprio relógio, voltando a olhá-la com a expressão de confusão no rosto.
— Eu não estou atrasado, estou? — Perguntou, olhando ao redor, e procurando ou Leon.
— Não, meu pai me deu uma carona, eu que cheguei mais cedo.
— E ele está aqui? — perguntou mais baixo, se aproximando dela e negou com a cabeça, já abrindo um sorriso.
— Ótimo. — Ele sussurrou antes de unir os lábios aos dela num beijo rápido. — Trouxe uma coisa para você.
— O que você está aprontando, ? — Ela o olhou, desconfiada, enquanto caminhava ao seu lado até o estacionamento.
destravou o carro e abriu o porta-malas, revelando dois capacetes.
— Trouxe esse para você. — Pegou um deles e a ajudou a colocar. — Pensei que você não deveria ter um e… melhor usar um meu que temos certeza de que está limpo e cheiroso do que os daqui. — Ele deu de ombros e ela sorriu, tirando-o em seguida.
— Você queria era que eu ficasse sentindo o seu perfume a tarde toda. — Ela o acusou, colocando o capacete de volta no porta-malas e ele riu alto. — Mas não vou reclamar, não tinha lembrado dos capacetes suados. — Fez uma careta. — Obrigada!
— De nada. — levou as mãos à cintura dela e entrelaçou os dedos atrás do pescoço dele.
— Agora vou ser obrigada a correr de kart. Não acredito. — Disse, olhando nos olhos dele.
— Até parece que você ia ficar só olhando.
Leon e chegaram naquele momento e fingiram que iam bater no carro de , assustando os dois e fazendo com que colasse ainda mais seu corpo ao dele pelo susto.
Yohan tinha voltado ao kartódromo para buscar uns documentos que ele tinha esquecido em sua sala e tinha presenciado o momento da filha com . Mesmo de longe ele conseguia perceber o quanto ela estava feliz e sorriu, aproveitando a distração dos amigos dela para entrar no próprio carro e sair de lá.
— Desculpa, eu não achei que você ia se assustar tanto. — disse assim que desceu do carro.
— Ridícula. — rolou os olhos, mas a cumprimentou.
— Eu juro que não queria fazer isso, . — Leon, diferentemente da esposa, parecia verdadeiramente arrependido.
— Está tudo bem, Leon. Vai ter volta. — Ela olhou diretamente para a melhor amiga que cumprimentava e Leon fez o mesmo. — Na pista. — indicou o kartódromo.
— A gente vai correr também? — perguntou, fazendo uma careta.
— Mas é claro que sim. — respondeu, tirando os dois capacetes do carro. — Quero todos nessa pista.
— Vamos, o tempo das crianças já está quase acabando. — disse ao conferir as horas. — Depois delas é a nossa vez.
Entraram e foram logo pegar os equipamentos de proteção que Yohan tinha deixado separado para eles. Protetores de costela, luvas, balaclavas e capacetes.
— Pai, aquele é o ? — Um garoto de uns sete anos perguntou.
— Por que você não vai até lá e pergunta? — Ouviram o pai falar e deixou as coisas, virando-se para o garoto.
— É o sim, pai! — Ele disse, maravilhado.
— Como você se chama? — se aproximou dele.
— Louis.
— Muito prazer, Louis. — Ele estendeu a mão e a criança retribuiu o aperto.
— Eu quero ser um piloto de Fórmula 1 igual a você um dia. Você autografa meu boné? — Pediu tirando-o de sua cabeça e ele tirou uma caneta do bolso.
— Treine bastante e nunca desista, não importa o que você ouvir, ok? — falou, olhando-o nos olhos e o garoto assentiu.
— Não vou desistir. — sorriu e entregou o boné a ele.
— É assim que se fala. — Fez um hi-five com ele e cumprimentou o pai em seguida.
— Até mais. — Se despediu, voltando para a sala de equipamentos.
Leon ajudava a colocar os equipamentos e já tinha colocado tudo quando voltou. Ele conferiu se o capacete dela estava bem preso e percebeu que ela o olhava de uma forma diferente.
— O que foi? — Perguntou, curioso.
— Isso foi fofo. — Ela disse, com o som abafado por causa da balaclava e capacete e negou com a cabeça. — Foi sim. — Insistiu.
— Meu capacete ficou bom em você. — Ele elogiou baixo, antes de colocar o próprio capacete.
— Parem de fofocar e vamos logo antes que eu desista. — falou mais alto, se aproximando deles.
— Vamos nessa. — seguiu até os karts, sendo seguidos por todos os outros.
A única realmente nova naquilo era , mesmo que nunca tenha contado para ninguém, ela tinha corrido de kart quando era mais nova, antes de tirar a licença de motorista. Leon já tinha corrido várias vezes e ele e iam bem mais rápido do que elas. A cada volta elas ficavam mais à vontade e não podiam negar que realmente estava divertido, principalmente quando alguém era fechado ou acabava batendo em uma das proteções de pneus.
Leon estava fazendo o máximo para ajudar a esposa, já fazia de tudo para atrapalhar e quando ele percebeu que ela estava fazendo de propósito, começou a atrapalhá-la também, o que rendeu crise de risos para ambos.
Depois de um bom tempo, começou a ficar para trás até que parou o kart e saiu dele. sabia que ela não iria voltar e fez o mesmo, confirmando que ambos podiam continuar correndo caso quisessem.
seguiu a amiga até a sala dos equipamentos e se assustou com o grito que ela deu quando tirou a balaclava.
— Que marca é essa na sua nuca, ? — perguntou, com expressão divertida.
— Vamos pegar uma água. Temos que conversar. — Respondeu, rindo e soltando o cabelo em seguida.



Quinze

Depois de pegarem água, e Amelie foram para a arquibancada, assim podiam ver quando os dois decidissem parar de correr. O vento estava leve e agradável e voltou a prender o cabelo, por causa do calor.
— Desembucha. — deu um tapinha na coxa da amiga. — Isso é… — Deu uma olhada na nuca da amiga que começou a rir.
— É só uma mordida, relaxa.
— Bem normal. — A médica foi irônica.
— Depois do jantar ontem a gente meio que se provocou no carro e eu o mordi de leve, brincando, e ele revidou… — Deu de ombros. — Com mais força. — Acrescentou.
— Meu Deus, dois adolescentes. Com seu apartamento à disposição. — coçou a testa, sentindo-se um pouco desconfortável em tocar no fato em que ela, de fato, precisava de conselhos.
— Ele dormiu na casa dele. — a olhou, desconfiada. — Foi exatamente a cara que eu fiz quando ele me disse que voltaria para casa depois do jantar.
— Mas por quê?
— Os pais dele estão muito desconfiados e como não conversamos sobre nós, ele preferiu isso. — Repetiu o que tinha dito a ela na noite anterior.
— E quando vão conversar? — mordeu o lado interno da boca, uma mania que tinha quando estava desconfortável ou nervosa.
— Eu não sei. — Disse depois de um tempo. — Eu não me sinto pronta para contar para os nossos pais e não sei como ele encararia se eu falasse isso para ele.
— Ainda tem a ver com a insegurança por ele estar na mídia e ser, de certa forma, famoso?
— Não. — riu com a velocidade da resposta. — Ok, isso não é totalmente verdade porque as pessoas podem ser muito cruéis na internet. Mas quem tem que querer estar comigo é ele e o restante eu consigo ignorar.
— Então qual é o problema em assumirem que estão juntos?
— Eu acho que todos eles estão colocando expectativa demais nisso e isso me deixa ansiosa. Nós estamos juntos há tão pouco tempo, nossas famílias são amigas e, por Deus, eu sou afilhada dos pais dele! — fechou os olhos e cobriu o rosto com as duas mãos. — Se nós dois pararmos de nos falar por algum motivo, seria apenas voltar ao que era antes. É só… mais fácil.
— Entendi. Eles colocaram tanta expectativa que você está com medo do que acontecerá se não der certo. — Pelo silêncio ela sabia que estava no caminho certo. — Você só está esquecendo que isso não é uma paixão adolescente, . Vocês são dois adultos que estão construindo algo muito legal e real. — sorriu de lado.
Aquela frase tinha deixado o coração de mais leve, afinal era exatamente assim que ela se sentia. Sentia que eles estavam construindo algo verdadeiro em todos os aspectos e aquilo a deixava feliz.
— Seria mais fácil se eu não tivesse recebido uma mensagem da minha mãe quando estava a caminho avisando que nossas famílias vão jantar juntas hoje em um restaurante que a mãe do escolheu. — começou a rir.
— Caramba! Eu tento ajudar, mas essas duas não colaboram mesmo! — acabou rindo também.
— Eu só consigo pensar que elas vão deixar tudo extremamente embaraçoso tentando fazer com que confessemos estar juntos.
— É realmente muito provável. — concordou com a cabeça. — O vai?
— Não sei. Ele não comentou nada comigo.
— E o que aconteceria se vocês não fossem? Porque se vai ser algo desconfortável, é só você não ir. Conversa com ele. Façam algo só vocês. — gostou daquela ideia e se questionou como não havia considerado a possibilidade de simplesmente não ir. — O máximo que pode acontecer é eles criarem mais teorias.
— Acho que elas já esgotaram todas. — riu. — Obrigada! — Respirou realmente aliviada. Ela sabia que precisava conversar com , mas podiam fazer as coisas no tempo deles.
— Eu preciso dizer que estou amando essa possível amizade entre os dois. — indicou o marido e saindo dos karts.
— Por quê?
— Leon foi à academia todos os dias desde que falou disso no seu aniversário e estou amando o resultado. — Ela riu. — Está com um corpinho…
! Eu não quero imaginar o que acontece entre vocês. — reclamou apenas para zoar com a amiga.
— Claro que não, quer imaginar só o corpo do . Que também é bem interessante. Com todo respeito. — Acrescentou, fazendo a engenheira rir. — Mas sério, minha vez de desabafar.
— Sou toda ouvidos.
— Eu acho que o Leon está me evitando. — contou e a amiga procurou um sinal de pegadinha.
— Como assim? Vocês estão sempre tão juntinhos.
— Na cama, amiga. — arregalou os olhos. Sabia que a vida sexual dos dois não era classificada como monótona.
— E por que você acha isso?
— Porque de um tempo para cá é só “hoje não estou no clima” ou “estou com dor de cabeça.” E essas são as coisas que eu falo quando não estou com vontade, o que é raro, como você sabe.
— Ok, isso é definitivamente estranho.
— Uma vez ou outra eu até acreditaria, mas vem sendo tão frequente. Eu cheguei a comprar lingerie nova e ele virou para o lado e dormiu. — abriu a boca em choque.
— E você tentou conversar com ele?
— Sim, mas não tive muito sucesso. Eu acho que ele está com medo de eu engravidar. — Confessou.
— Isso não faz sentido. Vocês estão casados e ele sabe que sempre foi seu sonho ser mãe. Ele vai fugir até querer ser pai também? — deu de ombros, mostrando que não tinha a resposta. — Eu acho que vocês podiam tentar estipular uma época que fique bom para os dois. Nem tão longe, mas não tão perto também. Assim vocês podem aproveitar todos os aspectos como ambos querem.
— Eu não quero brigar com ele por causa disso.
— Vocês não vão brigar, . O Leon sempre é compreensivo com você. Talvez ele só esteja com medo dessa conversa também. — Ponderou. — Conversa com ele.
— Só se você prometer que vai conversar com o . — Jogou para o lado dela.
— Ok. — Estendeu a mão, oficializando o compromisso e retribuiu o aperto.
— Cara, eu nem vi o tempo passar! — Leon falou, empolgado, assim que tirou o capacete e a balaclava.
— Eu perco totalmente a noção do tempo também. Ainda mais que tinha um bom tempo que não corria de kart.
— Finalmente cansaram? — perguntou, chegando com ao seu lado.
— Na verdade, não. — respondeu. — Mas tem mais gente para correr. — Elas olharam para trás vendo um grupo de crianças vestidas, prontas para correrem. — Eu odiava quando tinha que esperar muito tempo.
— Então vamos aproveitar e tirar mais fotos. — esticou o braço para tirar uma selfie.
— Mas nós tiramos antes. — não entendia como a amiga gostava tanto de fotos.
— Mas agora temos a prova de que eu não só vim como também corri. Estou suada e descabelada.
— Exagerada. — Leon e disseram ao mesmo tempo e riu.
— Posso postar? — Leon perguntou diretamente para .
— Claro. — O piloto sorriu.
— Amor, os caras do futebol vão ficar de cara quando virem essas fotos.
— Você joga? — perguntou, surpreso, vendo Leon confirmar. — Na próxima vez que eu vier vamos marcar então. Já tem um tempo que eu não jogo.
, quer parar com isso? — perguntou, com a mão na cintura e o piloto a encarou, confuso. — Desse jeito meu marido vai trocar minha foto na mesinha de cabeceira por uma foto sua! — Explicou e todos começaram a rir.
— Por favor, não faça isso. — falou sério para Leon, voltando a rir em seguida.
— Obrigada pelo fim de tarde, mas nós precisamos ir. — entrelaçou os dedos aos de Leon. — Se chegarmos tarde no aniversário, minha mãe vai reclamar o resto da noite. — Ela comentou e Leon concordou com a cabeça.
— Ela não esqueceu nosso último atraso até hoje. — Ele confirmou.
— Bom aniversário. — desejou aos dois, ao se despedir e quando o casal seguiu para o estacionamento, terminou de guardar seus equipamentos.
— Precisa ir embora agora? — negou. — Quero te mostrar uma coisa então.
— O quê?
— Calma. Vem comigo. — Ele caminhou para a arquibancada do outro lado da pista e ela o seguiu.
Subiram todos os degraus e ele se sentou no canto mais afastado, indicando que ela deveria fazer o mesmo. Não era tão alto e dava para ver a pista completa.
— Quando eu perdia uma corrida ou campeonato e ficava muito chateado eu sempre vinha para esse lugar. — Contou e passou a mão no concreto, fazendo com que notasse as iniciais dele ali.
— Veio tanto que reivindicou como seu? — Brincou.
— Na verdade eu fiz isso num dia que fiquei realmente frustrado. Eu fui jogado para fora da pista por má conduta do outro corredor, mas ninguém fez nada a respeito. — Contou, enquanto revivia a cena em sua própria mente. — Então eu vim aqui e coloquei minhas iniciais. Eu disse que ninguém mais faria isso com .
— É tipo o seu lugar seguro do mundo, quando era criança. — Ele confirmou. — Eu também tinha um.
— Sério?
— Talvez eu te leve lá um dia. — Fez graça.
— Combinado.
O barulho dos karts rodando na pista ficou mais alto e por algum tempo os dois ficaram em silêncio, apenas observando. O sol já estava se pondo e nuvens mais escuras começavam a tomar conta do céu, junto com um vento mais frio.
, eu preciso te falar uma coisa.
— Você vai ao restaurante hoje? — Os dois falaram exatamente ao mesmo tempo. — Você primeiro. — Falou, percebendo que ela estava séria e respirou fundo.
— Eu não estou pronta para envolver nossas famílias no que nós temos. — Disse, olhando nos olhos dele, sentindo seu coração bater rápido esperando pela reação dele.
— Por isso você ficou estranha ontem. — Ele concluiu.
— Eu não fiquei estranha ontem. — Se defendeu.
— Ficou sim. — riu alto e a abraçou de lado. — Quando eu falei que ia dormir em casa por causa dos meus pais.
— Ah… — tinha se surpreendido, não esperava que ele tivesse percebido.
— Você entendeu que eu estava te pressionando a alguma coisa, não foi? — Ela não disse nada. — Deixando claro, eu não estava te pressionando a nada antes e eu não estou agora. — virou o rosto, vendo a verdade nos olhos dele.
— Que bom. Porque eu realmente estou adorando a gente. Só não estou pronta para… isso. — Concluiu.
— E está tudo bem, porque todo mundo sabe que o que é escondido é mais gostoso. — Deu um sorriso malicioso e o empurrou de leve.
— O que acha de jantarmos no meu apartamento ao invés de encontrarmos nossos pais? — Falou, aproximando seu rosto aos poucos do rosto dele.
— Perfeito. — E encerrando a distância, a beijou, sem se importar com mais nada além dos dois.
retribuiu instantaneamente. O beijo era tranquilo e refletia como eles estavam naquele momento. Estavam tão envoltos nas sensações que os lábios e toques os proporcionavam que não perceberam que nuvens cada vez mais escuras tomavam conta do céu e só se separaram quando uma chuva forte e fria começou a cair de repente.
Os dois se levantaram e desceram as escadas correndo, tentando chegar logo a uma parte coberta, mas eles estavam no ponto mais afastado do kartódromo e quando enfim chegaram já estavam bem molhados.
— Acho que agora não vamos mesmo ao restaurante. — disse ao notar a camiseta preta completamente molhada colada em seu corpo.
— Eu acho melhor irmos embora logo, eu acho que a chuva não vai passar tão cedo. — disse, olhando para o céu e vendo tudo completamente cinza.
— Mas vamos molhar o seu carro.
— Melhor ele do que nós dois ficando doentes. — Respondeu, tirando a chave do bolso.
O carro dele estava em uma das vagas mais próximas da entrada do local e assim que ele destravou os dois correram até lá. deu partida no carro, alterando o ar-condicionado para aquecedor. colocou as mãos na saída de ar para esquentá-las um pouco.
— De onde saiu essa chuva tão fria? — Ela olhou para o céu pelo para-brisa, sentindo um arrepio passar pelo corpo.
— Também não sei. Estava sol o dia todo. — Comentou, prestando atenção no trânsito que estava ficando caótico à medida que a chuva aumentava.
— Não gosto de dirigir quando chove assim. Tenho medo de acidentes. — contou e viu que ele sorriu, mesmo olhando para frente. — Ok, foi ridículo falar isso para você que corre a 300 km/h com a chuva diretamente em você.
— Não é ridículo. Todo mundo tem medo, só que de coisas diferentes. — Ela o encarou por alguns instantes e ele a olhou de volta rapidamente. — O que foi?
— Estou tentando pensar do que você tem medo.
— De muitas coisas. Por exemplo, de algo acontecer com meus pais e eu não estar por perto.
— É diferente. — Ela negou.
— Não deixa de ser um medo. — Se defendeu.
— Ei, nós não íamos para o meu apartamento? — Perguntou ao perceber que o caminho que ele estava fazendo levaria à casa dele.
— Eu preciso pegar pelo menos uma roupa seca.
— E o que vai dizer aos seus pais?
— Pela hora que era a reserva eles já devem ter saído de casa.
E estava certo. Assim que abriu o portão viram a garagem sem o carro de Jean-Jaques. Toda a casa estava fechada e ele estacionou ao lado do carro de sua mãe.
— Viu. Ninguém em casa.
— Vai logo pegar suas coisas. — o empurrou de leve no corredor.
— Vem. — Ela a seguiu para o segundo andar. Nunca tinha estado no quarto dele antes.
— Eu prometo que vou tomar um banho rápido. — Roubou um selinho vendo que ela estava distraída com o quarto. — Aqui. — Abriu o guarda-roupas e entregou uma toalha a ela. — Não seja teimosa. — Soltou quando notou, pela expressão dela, que ela seria do contra. — Tire essa roupa molhada, pode pegar qualquer coisa. — Voltou a indicar o armário e estava a caminho do banheiro quando parou e olhou para ela.
— O quê?
— A não ser que prefira vir tomar banho comigo. — Ele tinha uma expressão sugestiva e a ideia de tomarem um banho quente juntos naquele momento a fez sentir um arrepio.
— Você tem uma carinha de anjo, mas não vale nada. — riu alto.
— Se mudar de ideia… — Falou indo para o banheiro.
— Vai logo. — Deu as costas para ele.
tirou a camiseta molhada e se secou. Enrolou a toalha no cabelo e abriu a porta do guarda-roupas. Estava realmente com frio e não precisou pensar muito para pegar um moletom branco e se vestir. Olhou no espelho, vendo que a peça tinha ficado grande para ela, mas não se importou. Tirou a toalha e tentou desembaraçar o cabelo com os dedos.
— Eu adoro esse moletom, mas vou ser obrigado a dizer que adorei você nele. — disse, saindo do banheiro apenas com a toalha na cintura.
tentou focar nos olhos dele, mas as gotas que desciam pelo tronco dele chamaram mais atenção. Balançou a cabeça, tentando disfarçar que o tinha encarado.
— Não sei por que homens sempre falam que as mulheres ficam melhores nas roupas deles. — Declarou, olhando-se no espelho. — Claramente não é verdade.
— Você não vai entender, mas é verdade. — Repetiu.
— Na verdade, a gente só gosta de colocar as roupas de vocês para ficar sentindo o perfume. — deu de ombros, puxando a peça de roupa para mais perto do nariz.
— Me abraçar terá o mesmo efeito então. — Falou, convencido, chegando mais perto dela.
aproximou seu rosto do pescoço dele, passou a ponta do nariz sutilmente na região, notando-o se arrepiar. fechou os olhos sentindo seu corpo reagir ao mínimo toque dela e então sentiu os lábios dela beijando seu pescoço delicadamente.
— O que vocês estão fazendo? — Marie perguntou da porta do quarto, trazendo-os de volta à realidade e fazendo dar um pulo para trás com o susto.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou, ignorando-a.
— Eu vou dormir aqui, esqueceu? — Marie o olhou como se ele tivesse algum problema mental.
— Eu quis dizer aqui em casa. Vocês iam jantar no restaurante.
— O restaurante estava sem energia por causa da chuva, então o vovô comprou pizzas e voltamos. Vi o seu carro e vim te chamar para comer com a gente. — Completou com um sorriso enorme.
— Vamos deixar o tio terminar de se vestir e vamos comer? — interrompeu, querendo sair dali o mais breve possível.
— Vamos! Estou morrendo de fome. — Marie passou a mão pela barriga, mas deu a mão para para descer as escadas. — Qual é o seu sabor preferido de pizza, ? — Ela perguntou, pulando de um degrau para outro.
— Hum… — fingiu pensar. — Frango! E o seu?
— Todos! — Ela riu alto. — Mas a tia Mabelle pediu de frango também. — parou ainda na escada, não tinha considerado a hipótese de seus pais estarem ali também.
querida, que surpresa! — Pascal falou com um sorriso.
, que roupas são essas?! — A voz de Mabelle soou mais alta e mais aguda. — Me diga que você não ia ao restaurante assim.
— Oi, madrinha. — abraçou Pascal.
— É claro que não, mãe. — Abraçou a mãe. — Nós tomamos chuva lá no kart e me emprestou uma roupa seca.
— E onde ele está? — As duas se entreolharam, olhando para em seguida.
— Ele está- — Marie começou a responder mais falou mais alto.
— Tomando banho. — Sorriu sem mostrar os dentes. — Marie, eu acho que você me enganou. Não estou vendo pizza nenhuma aqui. — Brincou com a mais nova, atraindo a atenção dela para outro assunto.



Seize

passou a mão pelo cabelo, bagunçando-o. Chegava a ser ridículo todo o efeito que tinha sobre ele. Sentou-se na cama, os pensamentos do que poderia ter acontecido ainda rondavam sua cabeça. Estava frustrado por terem sido interrompidos, mas de certa forma grato por ter sido por sua sobrinha.
— Oi, filho. Está tudo bem? — Jean-Jaques parou na porta do quarto ao vê-lo sentado na cama, apoiando a cabeça nas mãos.
— Oi, pai. Está sim. — Respondeu com um sorriso. — A Marie te dobra mesmo, hein? — Brincou, evitando que ele fosse o foco da conversa. — Comprando pizzas num sábado à noite.
— Fazia o mesmo com você quando era criança. — Sorriu. — E só entre nós, estou louco para tirar essa roupa sufocante. — Contou, tirando o paletó.
— Faça isso. Vou só me vestir e já desço também. — Se levantou da cama e logo seu pai não estava mais ali.
O fato de sua família estar ali significava o fim dos planos de ir para a casa de , então escolheu uma camiseta de mangas compridas e uma bermuda no armário, voltando ao banheiro para se vestir.
! — Ouviu Yohan dizer o seu nome ao pisar no último degrau.
— Oi, Yohan! Como está? — Perguntou, cumprimentando-o.
— Bem. Me conte, o que achou da reforma no kartódromo?
— Eu achei ótimo, de verdade. — Confirmou com um aceno. — Modernizou o que precisava sem perder a essência de lá.
— É, a conseguiu negociar para ficar exatamente como eu queria. — Yohan falou com orgulho da filha e os olhos de buscaram , inconscientemente. Ela estava cortando um pedaço de pizza para Marie e ele sorriu.
— Sempre que vou lá muitas memórias surgem. — Voltou a dizer depois de ouvir um pigarro baixo de Yohan. — Foi uma tarde incrível. — Garantiu.
— Que bom. — Yohan deu dois tapinhas no ombro de . — A propósito, adorei os capacetes. — Acrescentou com um sorriso discreto e seguiu para a mesa de jantar.
continuou parado ao final da escada, pensando o que exatamente Yohan poderia ter visto. Mas tudo estava em paz, então o que quer que ele tivesse visto, tinha mantido em segredo.
— Está muito pensativo hoje. — Seu pai disse ao encontrá-lo parado.
— Realmente. — sorriu e seguiu ao lado dele até a mesa de jantar.
— Não, vovô! — Marie gritou de repente, fazendo todos se assustarem. — Você não pode se sentar aí. O tio tem que se sentar ao lado da . — Explicou como se fosse óbvio e continuou cortando a fatia de pizza, evitando possíveis olhares. — E ela vai se sentar do meu lado.
— Viu, até ela já notou. — Pascal falou num tom baixo, mas não baixo o suficiente já que todos ouviram.
aproveitou que estava em pé e serviu a todos antes de se sentar ao lado de Marie, como ela pedira.
— Passaram por muitos lugares sem energia? — puxou assunto antes que sua mãe o fizesse.
— Passamos. A chuva estava forte demais. Fiquei com medo do seu pai dirigindo.
— Ela esquece que eu fui piloto também. — Jean-Jaques falou como se ela não estivesse ali.
— Eu também tenho medo. — concordou com a madrinha.
— Mas vamos falar de coisas mais interessantes. — Mabelle disse. — não me contou nada da viagem deles. — Fez drama.
também não me contou nada. — Pascal concordou. — Matem nossa curiosidade, o que vocês fizeram lá além de ir ver futebol?
— Eles fizeram trilha também. — Mabelle falou, deixando claro que tinha stalkeado as contas de ambos no Instagram.
— Vocês são impossíveis. — comentou, segurando um sorriso. — Nós fomos ao aquário e ao show. — Deu de ombros.
— Ah, nós fomos patinar no gelo também. — lembrou. — Ainda bem que meu punho voltou ao normal. — Fez drama, movimentando o braço.
— Você não precisava ter feito aquilo. — Devolveu com um toque de ironia e ela riu.
— Você tinha que correr no final de semana. — Justificou mais uma vez.
— De qualquer forma eu cuidei muito bem de você depois. — falou com um sorriso que deixava claro no que ele pensava e viu nos olhos dele o duplo sentido da frase.
desviou o olhar rapidamente e colocou um pedaço de pizza na boca, evitando se entregar.
— Não entendi nada, mas estou adorando isso. — Pascal apontou de um para outro. — É ótimo ver o mais vezes em casa.
— Eu acho que vocês estão escondendo alguma coisa. — Mabelle falou, olhando diretamente para a filha.
— Tipo o quê? — respondeu com uma expressão de que não fazia ideia do que sua mãe estava querendo insinuar.
— Tipo um namoro. — Respondeu, tentando fazer confessar algo, mas ela sabia muito bem como enganar a mãe.
— Você e o tio estão namorando? — Marie virou-se de uma vez na cadeira.
— Não, Marie. — Sorriu para a mais nova. — Olha o que você fez. — sibilou para a mãe que deu de ombros, voltando a comer.
Graças à pergunta de Marie, Mabelle e Pascal não tinham feito mais perguntas ou comentários sobre os dois durante o jantar. E Jean-Jaques aproveitou para saber quais os planos do filho para as próximas semanas sem corrida.
só ficou mais aliviada de fato quando Marie a levou até o quarto para que ela visse suas bonecas e passaram um bom tempo por lá. Marie tinha ganhado vários vestidos de baile para as suas Barbies e enquanto ela trocava as roupas, fingia fazer penteados e maquiagens nas mesmas.
— E essa é a minha preferida. — Marie colocou por último no chão. — Ela é a princesa que vai encontrar o príncipe no baile. — Tirou o boneco de dentro da mochila e foram interrompidas por batidas na porta que estava aberta.
— Ei, seus pais já estão querendo ir embora e pediram para eu te chamar. — avisou, entrando e se sentando na cama.
— Mas já? Agora que ia começar o baile! — Marie olhou triste para seu tio, na esperança de que ele fizesse algo.
— Eu prometo que eu volto para continuar esse baile com você. — sorriu, ajudando a colocar as bonecas de volta na mochila. — Ou o tio pode continuar brincando com você. — Sugeriu.
— Ele não sabe brincar. — Ela falou baixo, mas ouviu.
— Ei! — Ele reclamou. — Eu sei brincar sim. — Se defendeu e puxou Marie para cima da cama, fazendo cócegas nela, que ria sem parar.
— Eu vou pegar minhas coisas no seu quarto. — Avisou, depois de colocar os brinquedos no lugar.
— Marie, eu acho que o vovô tem uma surpresa para você. Vai lá pedir para ele. — a incentivou a ir para o andar de baixo e ela não demorou a correr para fora do quarto.
— Ele não tem uma surpresa para ela, né? — riu, sentindo as mãos de em sua cintura, puxando-a para mais perto dele, que continuava sentado na cama.
— Deve ter algum chocolate guardado, com certeza. — Deu de ombros e , apoiou os braços nos ombros dele.
— Obrigada por hoje. — disse, sincera e olhou para cima, encontrando os olhos dela. — Não terminamos a noite como eu esperava, mas eu me diverti.
— Eu também. — passou os dedos entre os fios de cabelo dele. — Podemos nos encontrar no seu apartamento amanhã, se você não tiver planos.
— Eu vou adorar. — E com as mãos nas laterais do rosto dele, encurtou a distância entre os rostos e o beijou brevemente. — Vem, vamos pegar minhas coisas antes que alguém suba.
— Ah, eu não tive como te contar antes, mas acho que o seu pai nos viu.
— O quê? Quando? — O olhou, curiosa, já pronta para descer as escadas.
— Não sei bem, ele só comentou que gostou dos nossos capacetes, então ele deve ter voltado para o kartódromo em algum momento.
— É, acho que meu pai está do seu lado nessa. — Sorriu para ele.
— Como assim?
— Ele teve a chance de falar isso no jantar e não falou, então de certa forma ele te aprova para estar com a filha dele.
— Então nesse caso eu acho que ele está do nosso lado. — devolveu e desceram as escadas.
Yohan e Mabelle já estavam se despedindo enquanto Marie terminava de comer um bombom. se despediu dela e dos padrinhos, sendo abraçada por último por .
— Te vejo amanhã. — Sussurrou e beijou a bochecha dela.
— Te espero. — Sussurrou de volta e seguiu os pais em direção ao carro deles.

🔸🔹

— Você chegou cedo. — disse, recebendo um selinho de assim que ele entrou no apartamento dela.
— Por que ficar na minha casa quando eu posso passar mais tempo com você? — Ele devolveu como se fosse óbvio. — Além disso, eu tive uma ideia e como você trabalha amanhã mais cedo é melhor.
— Ideia? — o olhou, com as sobrancelhas arqueadas, vendo-o colocar sua mochila na poltrona lateral e indo se sentar ao lado dela no sofá.
— Ontem eu percebi que apesar de termos feito muita coisa juntos, nós nunca tivemos um encontro. Então, aceita sair comigo hoje, senhorita Leblanc? — Convidou, olhando no fundo dos olhos dela.
— Não sei, eu já tinha feito planos, sabe? — brincou. — É claro que sim.
— Teremos tempo para os seus planos quando voltarmos. — deu um sorriso cheio de segundas intenções e virou o rosto.
— Larga de ser pervertido. Meus planos não eram esses. — Fingiu ultraje.
— Vai me dizer que não quer? — a desafiou e riu, deixando-o sem resposta.
adorava essas provocações que tinham crescido entre eles, assim como a intimidade. Brincadeira ou não, era sempre o suficiente para seu coração bater mais rápido e fazê-la prender a respiração. E a admiração e desejo que ele não fazia questão de esconder a deixava mais segura para expressar os próprios sentimentos em relação a ele.
— Posso saber aonde vamos? — perguntou, tentando mudar o rumo da conversa.
— Não. Se eu contar perde a graça.
— Mas como eu vou saber o que vestir? — Jogou verde, na esperança de que ele acabasse cedendo.
— Vista algo fácil de eu tirar depois. — arregalou os olhos.
— O que foi que aconteceu com você? — riu alto.
— Desculpa, eu amo quando você fica sem graça, mas tenta disfarçar que não ficou. — Deu um selinho nela.
— Palhaço. — Tentou empurrá-lo para longe, mas isso foi incentivo para que ele a puxasse para o colo dele. — Me fala pelo menos o tipo de lugar. — Insistiu, passando uma perna de cada lado do corpo dele. — É um restaurante? — negou.
— Nós já fomos em restaurantes com , Pyry e Anthoine. Nosso primeiro encontro precisava ser um pouco diferente.
, têm séculos que você não sai em Marselha. Quem te ajudou nisso? — Perguntou, desconfiada. — Se foi a eu não confio. — Declarou.
— Relaxa, não foi a . E pare de fazer perguntas. — Beijou o queixo dela.
— Você contou para o Philippe, não contou? — não conseguiu mentir.
— Eu pedi indicação de lugares e ele acabou achando que era para nós sairmos juntos. Tive que contar que era com você. — Ele percebeu a postura diferente dela. — Mas foi só isso, ele sabe menos do que o Pyry ou a . — Garantiu.
— Ah, aproveitando que você está aqui... — Levantou-se do colo dele e seguiu para o seu quarto, retornando pouco tempo depois com um envelope em mãos. — Também tenho um convite para você.
abriu o envelope sem demora, vendo o convite da festa de entrega da obra.
— Chateau du Parc. — Leu o nome do prédio. — Acho que já temos mais um encontro marcado.
— Vou me arrumar. — avisou, voltando para o quarto.
Uma hora e quarenta minutos depois, e desceram do táxi em frente ao Elephant & Castle. vestia jeans preto e uma camisa azul marinho dobrada até o antebraço. tinha escolhido um vestido vinho, midi, com uma fenda acima da metade da coxa esquerda, acinturado e com alças largas e decote quadrado.
— Philippe está por dentro das coisas, para um pai de dois filhos. — brincou, entrando no pub de mãos dadas com .
— Eu acho que ele nunca veio, mas ele disse que era novo e muito bom.
— Ouvi isso também. Acho que nosso encontro começou bem. — Sorriu para ele, assim que se sentaram em uma das mesinhas.
Como um típico pub, o local era todo de madeira, com várias mesinhas circulares para, no máximo, quatro pessoas e um bar enorme com várias cadeiras altas ao longo dele. O local era agradável e não estava muito cheio no final do domingo.
— Boa tarde, posso trazer algo para vocês? — Um garçom perguntou ao se aproximar da mesa.
— Eu vou querer um moscow mule, por favor. — pediu primeiro.
— Eu vou querer um whisky. Obrigado. — O garçom acenou, deixando-os a sós novamente.
— E então? Ansiosa para assumir o novo departamento? — perguntou e abriu um sorriso. Já tinha um tempo que não conversavam sobre o trabalho dela.
— Estou. — Confirmou com a cabeça. — Tem muita gente que não conheço na equipe e é um trabalho diferente.
— Mas você já trabalhou com isso, não? — Ele se lembrava de ela ter comentado algo a respeito.
— Sim, mas as responsabilidades de uma estagiária nem se comparam com as de chefe de departamento. As outras áreas, tipo projeto ou obras, não tem indicadores para alcançar, e o pós-obra tem.
— Que tipo de indicadores? — se mostrou interessado e o garçom voltou com as bebidas. — Obrigado.
— Obrigada. — foi simpática com o rapaz. — Ao nosso primeiro encontro. — Brincou levantando seu copo.
— Gostei disso. — Ele encostou o copo no dela e ambos beberam.
— Te respondendo… — Bebeu mais um gole. — A empresa trabalha com uma certificação de qualidade nacional. Então todos os anos uma equipe vem e faz uma auditoria em todos os setores, rh, planejamento, orçamento, suprimentos… E o pós-obra é um desses, está diretamente ligado a satisfação do cliente.
— Entendi, eu acho. — Ele riu. Na teoria até fazia sentido, mas não era fácil de imaginar.
— Por exemplo, um dos índices é sobre o prazo para solucionar o problema. — deu um gole no seu whisky, sem tirar os olhos dela. — O índice ideal é que problemas hidráulicos sejam resolvidos, sei lá, em 5 dias úteis. — Inventou um número qualquer, já que não sabia de cor. — Então eu tenho que controlar todos os chamados dessa área e organizar para que a equipe os resolva nesse tempo.
— Você realmente gosta disso, você fala com uma satisfação tão grande. — Ela confirmou com a cabeça.
— Gosto bastante.
O garçom retornou com uma cestinha com batatas chips, que eram cortesia e deixou um cardápio, caso quisessem pedir mais alguma coisa.
— Mudando de assunto. — falou, atraindo a atenção de para si. — Já sabe qual será a sua próxima corrida?
— Não pensei ainda. Onde serão as próximas?
— A próxima é na Bélgica, uma das minhas pistas favoritas. É no final do mês.
— Eu não sei se consigo ir nessa. — Ela falou, conferindo o calendário no celular. — Vou ter só duas semanas no novo departamento e é mais longe.
— Tudo bem. Depois é na Itália e eu até prefiro que você vá nessa, para conhecer meu apartamento.
— Assim que eu souber as possibilidades de viagem eu te aviso.
— Combinado.
— Você disse que Bélgica é uma das suas pistas preferidas, você já deve ter conhecido cada lugar lindo! — imaginou, já que nunca tinha saído da Europa.
— Muitos. Isso, com certeza, é um privilégio do esporte. — confirmou. — E acho que essa parte compensa as outras coisas que perdi.
— Como assim? — sorriu, agradecendo ao garçom por trazer a terceira rodada de bebidas.
— Ah, experiências normais, como conversamos com o Anthoine aquele dia. — Ele deu de ombros. — Fazer amigos, ir a festas, beber, se apaixonar. — Explicou. — Claro que eu tive isso, mas em outros momentos da minha vida e de uma forma completamente diferente da maioria das pessoas.
— Entendi.
— Mas por outro lado eu conheci muitos lugares, lugares incríveis, pessoas incríveis. E também vi coisas muito diferentes da minha realidade. Vi a desigualdade, o preconceito e isso me fez valorizar muito mais o que eu tinha e o que eu conquistei.
— Eu consigo ver isso em você. — Ela sorriu, pegando na mão dele em cima da mesa. — Eu amo isso em você, como você tem a cabeça no lugar. — sorriu de volta.
— É sempre bom ter as coisas em perspectiva e não viver dentro da minha bolha.
— Ah, não sei, eu até gosto quando estou na sua bolha. — Brincou e trocou de lugar, sentando-se na cadeira ao lado de .
— Se você conseguir ir para Milão, quero te levar para conhecer um lugar especial. — tentou segurar o riso.
— Por favor, não me diga que o lugar especial é a sua cama. — gargalhou.
— Olha o que você está pensando de mim.
— Em minha defesa, você já fez vários comentários do tipo hoje.
— Apesar de você ter destruído todo o romantismo da situação, é um lugar realmente especial.
— Daqueles em que você leva todas as mulheres que quer conquistar? — lançou um olhar acusador e voltou a rir.
— Sabe, nem o álcool te transforma numa boa ciumenta.
— Não, né? — Ela fez uma careta e ficou pensativa. — Eu não consigo ser ciumenta. — negou com a cabeça.
— E eu amo isso em você. — virou o rosto totalmente e olhou-o nos olhos. Sentia a intensidade deles em si e era surreal para ela a forma que sentia a verdade nas palavras dele.
levou sua mão direita ao rosto dela, colocando a mecha de cabelo atrás da orelha e fazendo um carinho com o polegar em sua bochecha. fechou os olhos, sentindo as borboletas, que tinham se tornado frequentes, em seu estômago.
Ele não demorou a unir seus lábios aos dela. Diferente dos beijos breves trocados no apartamento ou na casa dele no dia anterior, estava completamente entregue naquele momento. Uma conexão e sintonia que não cansava de surpreendê-lo.



Dix-Sept

Mesmo com a janela e cortina fechadas, a claridade do dia deixava o quarto um pouco mais claro. Acostumado a acordar cedo, abriu os olhos antes mesmo que o despertador de tocasse. Levou o braço para trás da cabeça e sorriu ao notar que o braço de , que dormia de bruços, permanecia apoiado em seu abdômen.
Fechou os olhos novamente e respirou fundo, sentindo o aroma do perfume dela no travesseiro e se lembrando detalhadamente da noite anterior. Depois de mais algumas bebidas, as conversas sérias deram lugar a indiretas e provocações e também a beijos mais quentes e intensos. esperava que as coisas continuassem na mesma intensidade quando chegassem ao apartamento de , mas havia sido surpreendido.
parecia não ter mais uma gota sequer de álcool no sangue, segurou as mãos dele, impedindo que ele acendesse as luzes do apartamento. Olhando nos olhos dele, ela o guiou até o próprio quarto. sentia seu corpo formigar, ansiando por tê-la novamente em seus braços pelo resto da noite.
tirou as sandálias de salto e, virando-se de costas para ele, passou o cabelo para o lado, deixando a nuca e pescoço livres. desceu o zíper do vestido e distribuiu beijos de sua nuca até o ombro, ao mesmo tempo em que afastava as alças, deixando por fim que o vestido caísse aos pés dela, revelando a lingerie preta.
Voltou a ficar de frente para ele e notou o olhar de desejo dele, causando uma onda de calor no corpo dela. E então acabou com a distância torturante entre os dois, num beijo que carregava exatamente o que vira em seus olhos instantes antes.
— Não me diga que estava me vendo dormir porque isso é muito estranho. — voltou à realidade ao ouvir a voz dela e nem mesmo percebeu que a encarava enquanto lembrava da noite anterior.
— Claro que não, eu estava contando quanto tempo você ia demorar para acordar com o próprio ronco. — Inventou e ela riu.
— Eu sei que não ronco, engraçadinho.
— Eu estava pensando se você teria tempo para tomar café comigo antes de ir trabalhar. — passou propositalmente por cima dele para pegar o celular na mesinha de cabeceira e conferir as horas. — Você falou de mim, mas também só tem a cara de inocente. — a segurou, com o corpo colado ao dele.
— O que eu fiz? — se fez de desentendida, sentindo seu coração bater mais rápido apenas pelo contato do corpo dele ao dela, apenas de lingerie.
— Chegue atrasada no trabalho e eu te ajudo a lembrar. — Sentou-se na cama com ela em seu colo e passou a ponta dos dedos na lateral do corpo dela, que se encolheu.
— Ou podemos tomar um banho e ir tomar o café da manhã. — Sugeriu com um sorriso e esperou pela pegadinha. — O que foi? — Fez-se de inocente novamente. — Se tomarmos banho juntos… — Beijou o ombro dele. — Economizamos água. — Beijou o pescoço. — E tempo. — Beijou a mandíbula dele.
— E não teria nenhuma outra intenção por trás, não é mesmo? — Levou as mãos ao fecho do sutiã, ameaçando soltá-lo.
— Claro que não.

🔸🔹

— Philippe? — atendeu a ligação, surpresa.
— Oi, . Por acaso o estaria com você? — Perguntou de uma vez e o tom preocupado deixou a engenheira em alerta.
— Não, eu ainda estou no trabalho. Por quê? Aconteceu alguma coisa? — Ela sentiu as mãos geladas, Philippe não ligaria para ela se estivesse tudo bem.
— O foi rebaixado, . — Philippe contou e ela engoliu em seco. — Ligaram para ele hoje de manhã avisando que ele vai voltar a correr pela Toro Rosso a partir da próxima corrida e o novato vai ocupar o lugar dele na Red Bull. — estava em choque, tinha entendido que ele não estava em uma boa temporada como era esperado, mas não esperava que ele perdesse seu lugar na metade do ano.
— Eu não acredito. — Conseguiu dizer depois de processar a informação. — Como ele está?
— Ele sumiu.
— Como assim? — A voz de saiu mais aguda.
— Na hora nós estávamos na academia e ele ficou com muita raiva e descontou treinando. Mas não veio para casa depois e nenhum de nós sabe onde ele está.
— Nem o Pyry? — Arriscou.
— Nem ele. E como eu sei que ele estava com você, pensei que… — Deixou a frase no ar, não pretendia violar a privacidade deles.
— A última vez que nos falamos foi no café da manhã. Depois eu vim para o trabalho e só tive tempo de pegar o telefone agora que o expediente acabou.
— Bom, se por acaso conseguir falar com ele, me mande uma mensagem. Estamos preocupados.
— Claro! — Garantiu. — Se eu conseguir eu te aviso.
Assim que encerrou a chamada abriu o navegador no celular e pesquisou pelo nome do piloto na aba de notícias. Vários sites traziam manchetes parecidas, mas todas confirmavam o que Philippe havia contado na ligação. seria substituído pelo novato promissor, da mesma forma que o outro piloto da equipe havia sido substituído por .
só conseguia pensar no quanto deveria estar devastado, afinal de contas a equipe parecia ter tomado essa decisão há algum tempo.
— Isso é muito injusto.
As palavras mal saíram de sua boca e ela se lembrou da história que ele havia contado para ela no kartódromo. O lugar que ia quando ficava chateado por alguma corrida.
Deu partida no carro, colocou o endereço no GPS e dirigiu até lá. Estacionou na primeira vaga que encontrou. Pelo horário e quantidade de carros no estacionamento um grupo deveria estar terminando de treinar e outro começaria em seguida. Cruzou a entrada, desviando de algumas crianças e então olhou para o topo da arquibancada oposta e sorriu ao vê-lo ali. era mesmo muito transparente. Digitou uma mensagem curta, avisando para Philippe que o havia encontrado e guardou o celular novamente.
Atravessou o espaço e subiu a arquibancada, chegando ao último degrau, onde ele estava sentado e sentou-se ao lado dele. tinha observado enquanto ela subia, pensando no que diria para , já que na verdade a última coisa que ele queria era conversar. No entanto, parecendo ler seus pensamentos, ela não emitiu nenhuma palavra. Ela apenas queria que ele soubesse que ela estava ali para ele, independente da situação.
sentia tantas coisas ao mesmo tempo que parecia não conseguir organizar os pensamentos. Sentia raiva da situação como um todo. Estava magoado, frustrado e chateado. Mas principalmente, se sentia injustiçado. Tinha sido levado a crer que ele estava no caminho certo e que ele poderia reverter a situação que não estava a seu favor, e agora sentia como se tivesse sido esfaqueado pelas costas.
Ele sabia que aquela situação poderia ser reversível, mas não pelo resto do ano. Então se até ali ele estava dando cem por cento de si, a partir de agora ele daria cento e dez por cento. Era esse o pensamento que o havia deixado na academia por quatro horas seguidas. Pensando com um pouco mais de clareza depois, ele percebeu que seu foco tinha que ser um só, correr. E por mais que lhe doesse pensar na hipótese de não ter mais ao seu lado, parecia também o certo a se fazer.
A última turma de treinamento tinha acabado de sair dos karts e sabia que estavam prestes a fechar. Não tinha sido fácil ficar quase duas horas ali em silêncio com . Ela queria poder ajudar, queria saber como consolá-lo, mas ela não fazia ideia do que ele estava passando.
— Eu acho que eles já vão fechar. Você quer… ir para algum lugar? — Ofereceu, incerta.
— Obrigado, mas eu preciso ficar sozinho. — não sabia se era o tom de voz frio ou a ambiguidade da frase, mas tinha sido difícil de ouvir.
— Me avise se precisar de alguma coisa. — Apertou a mão dele e desceu as escadas, seu coração batia de uma forma estranha. As coisas entre eles não tinham acabado, tinham?

🔸🔹

Cinco dias tinham se passado. Cinco dias desde a notícia do rebaixamento de . Cinco dias que ele não atendia ou retornava as ligações de . Cinco dias que mal respondia as mensagens que ela enviava.
entendia que ele precisava de um tempo, que precisava pensar e se reorganizar. Para evitar pensar nisso, se ocupou ainda mais com o trabalho durante a semana e estava na casa de seus pais naquele domingo por ter aceitado ir com sua mãe em um café.
— Ela disse que já está quase vindo. — Yohan falou para a filha, voltando do segundo andar.
— Tudo bem, eu não tenho compromisso. — Sorriu, mas ele percebeu que era um sorriso triste.
— Quer conversar? — Ofereceu sutilmente.
— Sobre? — Desviou o olhar da janela para ele.
— Como você está.
— Como você faz isso? — Perguntou, cruzando os braços, na defensiva.
— Faço o quê?
— Saber quando algo não está certo. — Desviou o olhar dele novamente.
— Eu sou seu pai, . — Respondeu, com um sorriso bondoso.
— Minha mãe é minha mãe e nem por isso. — Yohan riu e ela também.
— Não sei. — Yohan deu de ombros. — Eu só sei quando tem algo acontecendo com você. — respirou fundo, considerando conversar ou não com seu pai. Não tinha conversado nem mesmo com .
— Eu… — Respirou fundo mais uma vez. — Eu sinto que o está me afastando. — Mordeu o lado interno da boca, na tentativa de reprimir os sentimentos que vinham à tona ao pensar nisso.
— O que exatamente aconteceu?
— Nada. Digo, não é nada comigo. Estava tudo bem até ele ser rebaixado e eu entendo que ele deve estar confuso e tudo mais...
— Mas vocês não eram só amigos. — olhou para o pai e sorriu.
— Não. — Ela confirmou, mesmo não sendo uma pergunta. — E eu sei que você viu a gente no kartódromo. — Acrescentou. — Obrigada por não ter dito nada, inclusive.
— Eu só quero que você seja feliz, . E eu jamais faria algo para prejudicar isso. — olhou para cima, evitando que as lágrimas se formassem. — E eu vi como você estava feliz aquele dia com ele.
— Eu não devia era ter dado uma chance. — Devolveu, se fechando novamente ao ouvir os passos de sua mãe na escada.
— Filha, na vida a gente só deve se arrepender de não tentar. — Sorriu. — As coisas vão se ajeitar. — Falou com segurança e ela se sentiu um pouco melhor.
— Podemos ir. — Mabelle disse, guardando seu celular na bolsa. — Ou vamos nos atrasar.
— Atrasar? — a olhou, desconfiada. — Você vai se encontrar com alguém? Porque você me disse que queria sair comigo.
— Marquei com você, vamos nos atrasar para a reserva. — Explicou e não sentia que podia confiar totalmente naquelas palavras.
— Tchau, pai. Obrigada! — se despediu com um abraço.
— Divirtam-se!
dirigiu pelas ruas de Marselha até o café preferido de sua mãe, Le Café des Thés. O café ficava em uma esquina, e como os tradicionais, tinha mesas de madeira e cadeiras de vime do lado de dentro, no ar-condicionado e também do lado de fora na calçada. Estacionou do outro lado da rua e atravessou ao lado de sua mãe.
estava entretido olhando os livros na parede lateral do café enquanto esperava sua mãe finalizar uma ligação. Eram muitos títulos, variando tanto de autores renomados a autores que ele nunca tinha ouvido falar e de vários gêneros também. Ouviu o sininho da porta mais uma vez, indicando que outros clientes haviam chegado e com o vento que entrara ele sentiu um aroma muito parecido com o perfume de e sentiu um calafrio com a possibilidade de ela estar ali.
Virou-se só o suficiente para constatar que ela e Mabelle tinham chegado ao café. Fechou os olhos sentindo raiva por sua mãe ter se intrometido em sua vida daquela forma. Ele não estava com a menor vontade de sair para lugar nenhum que não envolvesse treinar ou focar em correr, mas depois de ela insistir tanto que não aguentava mais vê-lo de mau humor na casa, que ele estava muito estressado e que precisava sair um pouco, ele aceitou que fossem ao café. Não queria acreditar que ela tinha feito de propósito. Ele vinha evitando ao máximo desde segunda-feira e sentiu-se ainda pior por não ter como fugir dali.
— Olha só quem está aqui. — Mabelle falou quando Pascal acenou de sua mesa.
— Você é impossível, mãe! — reclamou.
— É a sua madrinha, . Pare de frescuras. — A engenheira fechou os olhos e respirou fundo. Não estava bem o suficiente para ouvi-las falando dela e de .
E foi como se o fato de pensar nele o tivesse feito se materializar ao lado da mesa.
— Que surpresa! — Pascal falou num tom que deixava claro para ambos que não havia surpresa alguma.
— Pois é! — Mabelle completou no mesmo tom, como se os enganassem.
— Oi, madrinha. — sorriu quando se cumprimentaram, evitando mostrar o desconforto que sentia em estarem na mesma mesa naquele momento. — . — Repetiu o cumprimento, com o mínimo de contato possível.
, Mabelle. — As cumprimentou, sentando-se à mesa. Puxou o celular para fora do bolso e abriu o Instagram, evitando interagir.
— Vamos lá escolher nossos cafés? — Pascal convidou Mabelle que se colocou de pé rapidamente.
— Vamos sim, o que vai pedir? — Fingiu dar continuidade ao assunto enquanto se afastavam da mesa.
Pararam próximas ao balcão e ao invés de fazerem os pedidos, olharam para trás, vendo que os dois estavam exatamente como antes de elas se levantarem.
— Você tem razão. — Mabelle confirmou com a cabeça. — Tem alguma coisa acontecendo ali.
não está nada bem, passou a semana toda estressado. Achei que encontrar com a poderia ajudá-lo. Ele sempre volta tão feliz para casa depois de passar um tempo com ela. — Contou com um sorriso triste. — Acho que dessa vez me enganei. O que quer que seja o problema vai além da troca de equipes na Fórmula 1.
é sempre fechada comigo, hoje é o primeiro dia que nos encontramos depois daquele dia na sua casa.
— Vamos pedir, talvez eles conversem. — Pascal olhou para os dois mais uma vez e então pegou um dos cardápios no balcão.
— Eu… não sabia que vocês viriam. — sentiu que precisava quebrar o silêncio entre eles. — Se eu soubesse-
— Teria me evitado fisicamente também? — soltou mais ácida do que pretendia.
— Eu não estou. — Olhou nos olhos dela e não teve coragem de terminar a frase, não conseguiria mentir para ela. — Eu só… estou com muita coisa na cabeça.
— E tem deixado claro que eu não sou uma dessas coisas. — queria muito entender o lado dele, mas os próprios sentimentos estavam falando mais alto.
, não faça isso. — Pediu e ela voltou a relaxar na cadeira ao ver sua mãe e madrinha voltando para a mesa.
— Quem está fazendo é você. — Respondeu, se levantando para fazer o próprio pedido.
não achava que seria possível se sentir pior do que ele vinha se sentindo a semana toda, mas tinha acabado de descobrir que era sim. estava magoada com ele e ele não tirava a razão dela. Tinha esperança de que ao se afastar, ela também passasse a pensar que os dois juntos não era para ser, mas nem ele acreditava realmente nisso. Porém, ele precisava sacrificar isso para garantir que alcançaria o seu sucesso como piloto. Esse era o seu maior sonho desde que conseguia se lembrar.
Esperou que voltasse com seu chocolate quente e croissant para que ele fosse fazer o próprio pedido, mesmo que não tivesse fome alguma naquele momento. Evitou ao máximo ser incluído no assunto, o que não foi difícil já que Mabelle e Pascal nem mesmo pareciam perceber que monopolizavam a conversa.
tinha buscado um livro na primeira oportunidade que teve. Os livros eram seus refúgios, sempre tinham sido. No entanto, sentada ali, aquele era apenas fachada. Ela já tinha tentado ler o mesmo parágrafo umas dez vezes e ainda não fazia ideia sobre o que era o livro. Passou a página apenas para disfarçar e continuou encarando o exemplar em suas mãos.
Encontrar com nessa situação tinha a deixado na defensiva. Ela não queria acreditar que ele era aquele tipo de cara. Não queria acreditar que o que eles tinham, tinha acabado antes mesmo de começar. Mas se fosse este o caso, ela esperava que ele fosse homem para assumir e colocar um ponto final.
O restante do tempo no café não foi diferente e o único contato entre os dois foi na hora de se despedirem.



Dix-Huit

— Acho que seu celular está tocando. — Pyry avisou, ajudando a colocar a barra de volta no suporte antes de começar mais uma série.
Se sentou, pegando o aparelho no chão, ao lado de sua garrafa de água, e deslizou o dedo na tela, colocando-o no chão novamente.
— Quem era? — Pyry perguntou, estranhando o fato de ele não ter atendido.
— Não era uma ligação. — Se deitou novamente, preparando para mais uma série de supino. — Era só um lembrete de que hoje é a festa do trabalho da .
— Que horas é? — O preparador olhou o próprio relógio no pulso.
— Às oito, mas eu não vou. — Respondeu, pegando sua garrafa de água e bebendo.
— Por que não? — Era a primeira vez que ele reparava que não falava de em muitos dias.
— Nós meio que… nos afastamos. — Pyry estava com ele há muito tempo para saber que tinha mais do que ele estava dizendo.
— O que você fez? — Foi direto.
— Por que eu tenho que ter feito algo?
te convidou para a festa, não me parece algo a se fazer se está se afastando. — negou com a cabeça, pegando suas coisas e caminhando até o próximo aparelho.
— Que seja, sou eu que estou dando meio que um gelo nela há duas semanas. — Deu de ombros como se não fosse importante.
— Dando um gelo? — Pyry o olhou com descrença e puxou o aparelho da mão dele, desbloqueando e indo diretamente à conversa com .
— Ei, me devolve. — reclamou.
— Você literalmente ignorou as mensagens dela? — Perguntou, virando a tela do aparelho para ele. — Por quê? — Pyry estava realmente confuso. — Achei que gostasse dela.
— Gosto e é justamente por isso que preciso me afastar dela. — Seu treinador continuava com o olhar de descrença em sua direção. — Pyry, eu já perdi a chance de correr por uma equipe de ponta, uma equipe que já foi campeã mundial, eu não posso correr o risco de sair da F1.
— E como é que a entra nisso? — Ele não era idiota, sabia muito bem qual era a conexão absurda que o piloto tinha feito na cabeça dele, mas faria questão de expor em voz alta para que ele percebesse o quanto era sem sentido.
— Tirando o meu foco, cara. Se uma coisa ficou clara para mim nessas duas semanas é de que meu foco não pode nunca mudar e tem que ser totalmente a Fórmula 1.
— E como ela tira o seu foco? — Pyry insistiu. — Você não deixou de treinar nenhuma vez desde que vocês ficaram mais próximos. Ela inclusive foi treinar com você. — Pontuou, lembrando-se do treino na Alemanha. — E eu sei que quando você abaixa a viseira do capacete toda a sua concentração está na pista e em nada além disso.
queria responder, mas sabia que não tinha como argumentar. nunca tinha o atrapalhado, ela inclusive tinha deixado claro em mais de uma oportunidade que não queria que ele se prejudicasse por causa dela.
— Você não está pedindo minha opinião, mas a apoia muito mais sua carreira do que a Heidi apoiava.
— São situações diferentes. — Rebateu.
— Eu não sei se você quer se colocar numa situação pior do que a que você acha que está agora, se quer que as pessoas tenham dó de você ou se você quer realmente acabar o que quer que exista entre vocês. Mas a merece que você haja como um homem e não um adolescente ignorando mensagens.
— Eu tentei explicar na semana passada quando a gente se encontrou, mas ela não me deu chances.
— E não podemos culpá-la por isso, certo? — Pyry voltou a mostrar as mensagens sem respostas. — Eu não estou dizendo que você tem que ficar com ela, mas você precisa se decidir e ser honesto com ela.
— Vamos terminar esse treino, depois eu penso nisso.
Após o treino, tinha ido direto para a casa de seus pais. Deitado em sua cama depois de ter tomado banho, rolava o feed do Instagram, curtindo alguns posts, até se deparar com uma foto postada por . Ela estava diferente. Seus cabelos estavam cacheados, mas soltos, diferente do que ela fizera para o casamento de . Ela usava um cropped branco com alças largas e um blazer da mesma cor por cima, pantalonas rosé e scarpins bege.
Tocou na foto, vendo surgirem os nomes marcados nas outras pessoas. Riquelme e Thierry. sabia que aquele era o ex-namorado dela e não gostou de ver como o braço dele estava em volta da cintura de . Ela tinha dado a ele o convite de acompanhante dela para a festa e ela não merecia passar a noite ao lado daquele cara.
Conferiu as horas, a festa já tinha começado há quase uma hora e ele demoraria pelo menos mais meia hora para chegar lá. poderia nem olhar na cara dele, mas ela merecia que ele estivesse lá por ela. E além disso, todos sabiam que ele sempre se atrasava.
Vestiu uma calça jeans preta, e um suéter azul claro. Calçou os tênis brancos, colocou seu relógio, passou seu perfume preferido e ajeitou seu cabelo. Pegou a carteira, chaves do carro, celular e desceu as escadas rapidamente.
— Vai sair? — Sua mãe perguntou da sala de televisão ao vê-lo passar.
— Vou. Preciso fazer uma coisa. — Disse com um sorriso e logo saiu de casa.

🔸🔹

— Nós só temos a agradecer aos nossos engenheiros, e Thierry. — Riquelme concluiu seu discurso. — Aproveitem a festa.
Os três se juntaram para as fotos oficiais da entrega do Chateau du Parc e mal podia esperar para poder descer daquele palco e se afastar de Thierry. Ela estava em ambiente de trabalho e sabia ser profissional o suficiente, mas não pretendia passar o resto da noite na companhia dele, ainda que aquela parecesse ser a ideia dele.
— Para você. — Thierry entregou uma das taças de champagne que tinha pegado da bandeja do garçom.
— Obrigada. — Sorriu minimamente, precisaria de várias taças daquela se ele insistisse em ficar ao lado dela.
— Você quer comer alguma coisa? Quer se sentar? — reprimiu a vontade de rolar os olhos.
— Eu estou bem assim. — Respondeu firme. — Você pode curtir a festa.
— Eu já estou curtindo. Estou na companhia mais agradável daqui e a mais bonita também. — Foi galanteador e respirou fundo. — Eu senti sua falta nesses meses, nunca mais conversamos. Como anda a sua vida?
— Ótima. — Bebeu um longo gole da taça. — Não que seja da sua conta, é claro. — Acrescentou.
— Qual é, , eu só estou tentando manter uma conversa agradável aqui. Vamos lá, me pergunte qualquer coisa. O que quer saber? — sorriu com gosto, não acreditando na cara de pau do seu ex-namorado.
sabia que estava no lugar certo, mas estava surpreso com a entrada do prédio. Completamente diferente do que ele tinha visto nas vezes que ele estava ali, agora a entrada estava com uma iluminação que valorizava a construção. As árvores, flores e outras plantas tornavam tudo mais harmônico e ele imaginava que estivesse orgulhosa do trabalho.
Não precisou andar muito para reconhecê-la em meio às outras pessoas, ela estava linda e parecia feliz pelo sorriso que ele acabara de ver, e então sentiu o estômago afundar ao ver que era com o ex-namorado que ela conversava. não o tinha visto ainda e embora estivesse receoso em se aproximar, o fez sem chamar atenção.
— Eu não quero saber nada, Thierry.
— Qual é, . Nosso relacionamento terminou, mas não quer dizer que não podemos saber da vida um do outro. Eu sei que você não está com ninguém. — e ajeitaram a postura ao ouvir aquilo.
— E sabe disso como? — fingiu interesse, aceitando mais uma taça do garçom que passava por ali.
— Pelo seu Instagram, é claro. — Ela concordou com um aceno. — Eu sei que você teve um rolo com o piloto filho de sua madrinha, mas é passado.
— É mesmo? — Continuou instigando e não segurou o sorriso, podia estar chateada com ele, mas ela ainda gostava dele de alguma forma.
— É claro que sim, eu sei como você odeia ser o centro das atenções, então sabia que jogar sua foto no Twitter numa conta anônima seria o suficiente para vocês se separarem. — abriu a boca em choque. Tinha procurado entre as pessoas que curtiram a sua foto e nem tinha considerado que fosse ele.
— Foi você? — Ela estava incrédula.
— Só te ajudei a ver o que você veria mais cedo ou mais tarde, você não gosta de estar nos holofotes.
— Me atrasei. Desculpa! — falou se aproximando dos dois e dando um beijo no rosto de . — Você está linda. — Falou com admiração.
ficou ainda mais chocada. Não esperava que fosse na festa, não esperava que ele estivesse ouvindo a conversa dela com Thierry e menos ainda que fosse interromper dando a entender que eles estavam juntos. Para a sua sorte, Thierry tinha ficado tão mais surpreso em ver ali com ela que não reparou na expressão de surpresa dela.
— Você deve ser um colega do trabalho. — Falou falsamente e segurou a vontade de rir da expressão de Thierry. — Sou . — Estendeu sua mão para cumprimentá-lo.
— Thierry. — Retribuiu o aperto de mão. — Eu… — Olhou de para e de volta para , ele tinha tanta certeza de que ela não estava com ninguém. — Vou pegar algo para comer. — Se afastou, desconcertado.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou, cruzando os braços, vendo que Thierry estava conversando com outras pessoas. — Eu consigo me virar sozinha e me livraria dele sem a sua ajuda.
— Eu tenho certeza disso e não foi por isso que eu vim. — começou a explicar, mas pessoas que antes conversavam com Thierry tinham se aproximado deles.
! Cara, eu sou muito seu fã! Podemos tirar uma foto? — Um rapaz se aproximou e o piloto sorriu, concordando.
— Foi muita sacanagem o que fizeram com você. Mas você vai dar a volta por cima. — Um outro rapaz falou, tirando uma selfie com em seguida.
se afastou, sentando-se em um dos bancos ao ar livre. De longe viu o sorriso no rosto de Thierry, e deduziu que ele tinha contado para os convidados que estava ali. Ele era inacreditável.
Esvaziou a sua taça e deixou-a no canto do banco. Pegou o celular na bolsa, fingindo estar ocupada e torcendo para que ninguém a incomodasse. Ela só queria um tempo sozinha para pensar, se sentia tão confusa com a aparição de na festa. Eles não se falavam direito há praticamente duas semanas, o clima entre eles tinha sido super estranho no café e agora ele estava ali, na festa do trabalho dela dando a entender que eles estavam juntos. Ela estava com raiva dele e daquele comportamento, mas estava com mais raiva de si mesma por gostar tanto dele.
Guardou o aparelho de volta na bolsa no mesmo instante em que se aproximava com uma taça para ela.
— Podemos conversar? — Pediu, sentando-se ao lado dela que apenas assentiu. — Eu sei que agi mal. — Confessou de uma vez. — Que tenho agido mal. — Se corrigiu. — Eu estava com tanta coisa na cabeça que não parecia certo te arrastar para a minha confusão.
— E está um pouco menos confuso agora? — negou com a cabeça.
— Estou completamente inseguro sobre o meu futuro e com o que vou fazer. — continuou olhando nos olhos dele. — Mas por hoje eu te proponho ignorarmos tudo isso. Esse lugar está maravilhoso e é mérito seu, nada mais justo que você aproveitar a noite. E de quebra podemos irritar o seu ex, que parece extremamente incomodado com a minha presença. — Ela riu fraco.
— Você tem sorte que eu tenho mais raiva dele do que tenho de você. — Bebeu mais um gole e se levantou. — Vamos comer alguma coisa.

🔸🔹

— Ué, cadê o ? — perguntou ao abrir a porta.
— Não foi convidado. — respondeu com um sorriso falso.
— Por que não?
— Porque nós… sei lá. — Deu de ombros, colocando sua bolsa em uma das poltronas da sala. — Oi, Leon. — O cumprimentou.
— O que aconteceu? — perguntou, seguindo-a para a cozinha.
— Quer que eu saia? — Leon ofereceu e negou.
— Talvez você possa me ajudar a entender a mente masculina, porque eu sinceramente não entendo.
— O que aconteceu? — voltou a perguntar enquanto Leon conferia a lasanha no forno.
— Não estávamos nos falando até ele aparecer na festa ontem. — Falou, aceitando o copo de suco que serviu.
— Não estavam se falando desde quando? Detalhes, . — Pediu.
— Desde que ele recebeu a notícia do rebaixamento.
— Mas isso não tem quase duas semanas? — Leon a olhou e ela assentiu.
— E por quê? — deu de ombros.
— Sei lá, ele só parou de me responder, de me atender.
— E você não pensou em me contar isso antes por…
— Porque achei que poderia ser o meu lado dramático falando mais alto e que eu estivesse apenas surtando sem necessidade. E então a minha mãe armou um encontro com a mãe dele e foi muito estranho. Tipo muito estranho mesmo o clima.
— Quando?
— No final de semana passado.
— E depois disso continuaram sem se falar?
— Sim. Até ele aparecer na festa da obra ontem à noite.
— Mas você tinha convidado ele, certo?
— Tinha, mas foi antes disso tudo, e como não estava falando comigo, não esperava isso. — Contou enquanto mexia no saleiro em cima da mesa.
— A lasanha está pronta. — Leon avisou quando o forno apitou e ajudou a colocar os pratos e talheres na mesa. — Bom apetite! — Sorriu, entregando um prato servido para a engenheira.
— Ok, e o que aconteceu ontem? Como foi?
— Estranho e reconfortante? — Respondeu em dúvida e riu.
— Agora até eu preciso dos detalhes para tentar entender. — Leon tinha a testa franzida e riu.
— Até agora tudo fez sentido para você? — Olhou para Leon.
— Não estou dizendo que concordo com nada. — Se livrou da culpa antes mesmo de dar algum palpite. — Mas eu acho que ele não te ignorou por mal. Se você tem o sonho da sua vida sendo destruído, é meio que um mecanismo de defesa se afastar de tudo.
— Concordo, em parte. — soprou um pedaço antes de colocar na boca.
— Sim, eu tentei pensar por aí. Mas ele podia ter me dito isso com palavras ao invés de me deixar no vácuo.
— Concordo. — Leon sorriu.
— Sobre ontem. — colocou um pedaço na boca, enrolando para falar apenas para provocar a melhor amiga.
— Estranho e reconfortante. — Leon repetiu, fazendo as duas rirem.
— Foi estranho porque foi quase como se essas duas semanas não tivessem acontecido. Ele agiu como se fosse o dia seguinte do nosso último encontro. — Explicou. — Foi estranho também porque o Thierry estava lá, obviamente.
— Não me diga que os dois brigaram por você. — fez uma careta e negou.
— Thierry acabou se entregando sobre ter vazado a foto no Twitter justamente para me separar do . Disse que só estava me ajudando a perceber que não ia dar certo porque eu odeio atenção. — gargalhou alto.
— Ele não cansa de ser patético?
— E o escolheu justamente essa hora para aparecer? — Leon perguntou com um sorriso.
— Exatamente. Eu não precisava do para me livrar do Thierry, mas não vou mentir. Eu adorei como ele ficou incomodado pela presença do .
— E isso foi reconfortante? — A médica repetiu a palavra usada por ela.
— Não. Foi reconfortante ele ter me tratando da mesma forma de antes. Mas voltamos ao estranho porque ele deixou claro que seria apenas pela noite passada, porque ele ainda está confuso com tudo o que está acontecendo.
— Mas o que vocês fizeram? Se beijaram e tudo mais?
— Não! É claro que não! — negou prontamente. — Ele só foi minha companhia mesmo. Comemos, conversamos sobre o resultado do prédio. E ele tirou várias selfies e distribuiu autógrafos. — Leon riu.
— Deus do céu, para que complicar algo tão simples? — deu de ombros. — Eu vou dizer o que eu acho e depois o Leon dá a visão masculina dele sobre isso. — A engenheira assentiu. — Para mim ele está sendo um tremendo ridículo.
— Amor…
— Deixa eu terminar. — Falou para o marido. — Mas eu realmente entendo sobre ele estar com a cabeça confusa e nós sabemos bem que a cabeça do homem não é tão boa quanto a da mulher. Eu acho que ele acaba fazendo as coisas sem pensar. Está muito na cara que ele é apaixonado por você. Muito.
— Ele só está sendo muito burro no momento. — Leon completou e as duas riram.
— Tirou as palavras da minha boca. — fez um hi-five com Leon.
— Eu acho que é exatamente isso, . — Leon falou, atraindo a atenção dela. — Ele ter ido lá ontem me mostra que ele sente sua falta também, mas como ele mesmo te disse ele está confuso e sendo burro em te afastar.
— E eu faço o quê? Não nasci para ficar em cima do muro assim.
— Eu acho que você tem que jogar a real para ele, . — Leon concordou com a cabeça. — Eu acho que ele precisa saber que do jeito que as coisas estão não funciona para você. E eu não acho que ele vai abrir mão de você fácil assim.
— Eu também acho. Se ele quisesse mesmo se afastar, ele teria voltado para Milão ao invés de ficar aqui em Marselha.
— Vou tentar conversar com ele antes de ele viajar. Tem corrida no próximo final de semana, não tem?
— Tem sim, na Bélgica. — Leon respondeu, animado. — É uma pista incrível.
— Incrível está essa lasanha. Por favor, me convidem para almoçar mais vezes.
— Não me diga que é o sr. . — riu ao ver o celular da amiga vibrar em cima da mesa.
— É a mãe dele. — abriu a mensagem.
— O que sua madrinha quer? — Perguntou, curiosa.
— Pediu para eu ligar para ela mais tarde, que ela quer me pedir um favor.
— Ligue agora. Eu quero saber qual é o favor.
— Vamos terminar de almoçar. — bloqueou o aparelho e colocou-o no bolso. — Leon não merece essa desfeita.



Dix-Neuf

, querida! — Pascal cumprimentou a afilhada ao abrir a porta. — Muito obrigada por ter vindo!
— Não tem problema, madrinha. — Sorriu, retribuindo o abraço.
— Nós estamos com esses ingressos da ópera comprados há meses e ontem a babá avisou que não poderia ficar com as crianças hoje. Só consegui pensar em você e te mandei a mensagem.
— Zoe, a chegou! — Marie gritou, terminando de descer as escadas e correndo para abraçá-la.
— Oi, Marie! — se abaixou e estendeu os braços para receber o abraço dela.
— A gente pode terminar o baile das bonecas hoje?
— É claro que sim.
— Eba! — Ela deu pulinhos no lugar.
Jean-Jaques terminou de descer as escadas, conferindo as horas no relógio. Philippe e Cécile vinham logo atrás dele e os três cumprimentaram já seguindo para fora da casa.
— Muito obrigada, . De verdade. — Cécile a abraçou forte e ela ficou um pouco confusa com aquilo. Ela ficaria com as crianças por uma noite, não era um sacrifício.
! — Zoe correu, abraçando a mais velha como Marie tinha feito. — Eu estava com saudade de você. — Ela fez um biquinho.
— Eu também estava.
— Tchau, mamãe. Tchau, papai. — Zoe acenou para os pais que entravam no carro e logo deixaram a garagem da casa.
— Preparadas para uma noite super divertida? — perguntou depois de trancar a porta e se assustou ao se virar e dar de cara com e o pequeno Valentin em seu colo.
— Oi. — disse, notando que ela não esperava vê-lo.
— Eu… — Engoliu em seco. — Eu não sabia que você estaria aqui. Eu posso ir. — Indicou a porta atrás de si.
— Não! — Marie e Zoe gritaram ao mesmo tempo.
— O nosso baile, . — Marie voltou a lembrar.
— Vem, vamos brincar. — Zoe pegou na mão dela, levando-a para sala onde todas as bonecas estavam.
se sentia em desvantagem. não estava nem um pouco surpreso com a presença dela ali e pela forma como Pascal tinha conversado com ela ao telefone, dera a entender que não tinha ninguém para olhar as crianças. Tinha caído no plano de sua madrinha mais uma vez, e não duvidava que sua mãe pudesse estar envolvida nisso.
— Seus pais foram à ópera também, Marie? — perguntou, ajeitando a roupa da Barbie que Zoe tinha entregado a ela.
— Não… A mamãe está passando muito mal agora que está perto da minha irmã nascer, aí eu fico aqui com a vovó. — Seu tom era um pouco triste e sendo filha única, não sabia como ela se sentia.
, você sabia que a Marie escolheu o nome da irmã dela? — Zoe perguntou e vendo negar, continuou. — Eu não escolhi o nome do Valentin.
— E que nome você escolheu? — olhou para Marie.
— Claire.
— Eu adorei. E eu acho que ela vai adorar também. E vocês três serão muito amigas.
brincava com Valentin e seus blocos de montar no tapete, do outro lado da sala. Prestava atenção na conversa das sobrinhas com e sorriu, lembrando-se do show e como tinha se dado bem com a filha de Horner. Ela era mesmo um ímã para crianças.
— Carro não. — Valentin balançou a cabeça de um lado para o outro, vendo que tinha feito mais um carro com seus blocos de montar.
— Acho que só sei fazer isso, Valentin. — colocou o carrinho na frente do sobrinho.
— E o castelo? — Ele perguntou, mostrando o desenho na caixa.
abriu a caixa, mas sem o manual, ele demoraria demais para transformar aquelas pecinhas em um castelo medieval.
— Acho que sei quem pode resolver nosso problema. — falou e instruiu Valentin a pedir ajuda de .
. — Valentin a chamou. — Constrói um castelo pra mim? — Pediu mostrando algumas peças em sua mão.
— Não, Valentin! — Zoe reclamou. — A está brincando com a gente agora. — Tentou virar o irmão para o lado de . — O padrinho faz pra você.
— Ele não consegue. — Valentin tinha uma expressão tão fofa que se pegou sorrindo para ele.
— Que tal nós três ajudarmos o Valentin com o castelo dele e depois continuamos o baile?
— Se for um castelo bem grande o baile pode ser lá. — Marie falou puxando o primo pela mão até o tapete.
— Baile, não. É guerra. — Voltou a apontar para a caixa do castelo medieval.
— Baile. — Zoe falou mais alto, pegando a caixa e escondendo atrás de si.
— Zoe, não. — a olhou, sério e ela devolveu a caixa para o irmão.
Para manter todos ocupados, dividiu os tipos de peças entre eles, para que eles separassem e pegou um tipo para ele, atrapalhando os sobrinhos propositalmente algumas vezes, fazendo-os rir.
Aos poucos o castelo foi tomando forma e ficando mais parecido com a imagem que Valentin segurava em suas mãos. As crianças estavam empolgadas por estarem ajudando a montar e quando finalmente ficou pronto, Valentin bateu palmas.
— Obrigado, . — Falou doce e beijou a bochecha dela.
— Por nada, lindinho.
— Tio , a gente pode jantar batata frita? — Marie perguntou, agarrando-se às costas dele.
— Batata frita não é janta, espertinha. Quer que seu pai brigue comigo depois? — Mexeu o corpo tentando derrubá-la.
— Ele não precisa ficar sabendo.
— Eu acho que a sua avó deixou algo mais gostoso ainda preparado. — atraiu a atenção dos quatro.
— Deixou? — soou mais surpreso do que as crianças.
— Sim, ela me falou ao telefone.
— E o que é? — Zoe pegou nas mãos dela, querendo que ela se levantasse.
— Tem que ir lavar as mãos e me encontrar na cozinha para saber. — manteve o mistério e as duas correram para o lavabo, sendo seguidas por Valentin.
— Você pode até discordar, mas eu tinha razão. — se virou ao ouvir a voz de mais perto do que esperava. — Você leva jeito com crianças e meus sobrinhos te adoram. — Ela deu um sorriso discreto e foi atrás das crianças, evitando pensar em como estava agindo naquela noite e no quão confusa ela estava.

— São crepes? — Marie perguntou quando tirou as massas pré-prontas da geladeira.
— Pizza! — Valentin falou mais alto, preso à sua cadeirinha.
— Acho que a Marie acertou. — Zoe falou. — Qual vai ser o recheio? — Perguntou, tentando ver o que tirava da geladeira.
— Eu achei que seria muito legal se a gente pudesse criar os recheios. Então eu falei com a avó de vocês e a Nancy deixou tudo preparado para nós.
— Acho que essas são nossas opções. — concluiu depois de destampar todos os potes.
— Eu quero de chocolate! — Valentin voltou a dizer com os braços para cima.
— Eu também! — Zoe abriu um sorriso enorme.
— Chocolate também não é janta, espertinha! — estreitou os olhos para a afilhada.
— De sobremesa, ué. — Emendou rapidamente, deixando-o sem resposta e segurou o riso.
esquentou as massas na frigideira, Marie e Zoe não demoraram a rechear os seus crepes, de sal e também de doce. Fizeram também para , enquanto fazia uma e ajudava Valentin com a dele.
— Tio , a gente pode fazer uma cabana? — Marie perguntou depois de terminar de comer e ele coçou a cabeça e fez uma careta.
— Não me diga que nunca montou uma cabana para eles. — o olhou, surpresa.
— Eu não sou engenheiro, sabe. — Deu uma desculpa que a fez sorrir, era muito difícil ter raiva de quando ele agia assim.
— Não tem nada a ver. — Ela devolveu.
— As minhas sempre caem. — Confessou.
— É verdade. — Zoe assentiu. — Da última vez caiu uma vassoura na minha cabeça. — Colocou a mão no local.
— Viu. — levou a mão à boca, escondendo o sorriso incrédulo. — Mas se a senhorita é tão expert em cabanas…
— Eu não disse isso.
, faz uma cabana para gente! — Marie pediu. — Meu pai nunca mais fez. — Ela comentou e teve a certeza de que precisaria conversar com Paul sobre a falta que estavam fazendo para ela.
— Tudo bem, nós podemos montar uma cabana. — A engenheira concordou.
— Bem grande? — Valentin abriu os bracinhos para demonstrar.
— Bem grande. — Ela confirmou.
— Vai caber todos nós lá? — Zoe arregalou os olhos, surpresa.
— Se vocês me ajudarem…
— Eu ajudo! — Marie respondeu rapidamente.
— Eu também. — Os irmãos disseram ao mesmo tempo.
— Ótimo! — Ela se levantou, juntando os pratos na mesa.
— Pode ir com eles. — pegou as coisas da mão dela. — Eu arrumo aqui. — Ela continuou parada, a forma como ele a olhava naquela noite tinha algo de diferente. — É sério, pode ir.
Enquanto lavava a louça só conseguia pensar nas palavras de Pyry no último treino e em como ele estava ferrado. Ele sabia que precisava se manter afastado de , para não comprometer o seu foco na Fórmula 1. Mas a realidade era que mesmo tendo evitado por praticamente duas semanas não tinha alterado em nada a forma como ele se sentia em relação a ela. Bastou estar com ela ali por duas horas para constatar isso.
Terminou de guardar tudo e pelo silêncio imaginou que estavam no segundo andar. Subiu as escadas indo para o quarto em que os sobrinhos costumavam ficar e se surpreendeu ao ver uma cabana já montada. Ele não tinha ficado tanto tempo assim na cozinha.
— Vem, padrinho. — Zoe afastou um dos lençóis, colocando a cabeça para fora e o chamando com a mão.
se abaixou, entrando com cuidado para não correr o risco de derrubar nada. A cabana tinha sido montada em cima de dois colchões na horizontal, o que era confortável pelo tamanho das crianças, mas deixava as pernas dele quase totalmente de fora.
foi ao banheiro. — Marie falou como se lesse os pensamentos dele e ele viu Valentin bocejando.
voltou para o quarto e riu vendo as pernas de de fora, as dela também ficariam, mas ela não passaria a noite ali. Tirou as sapatilhas, deixando-as perto da cama e se abaixou, afastando um dos lençóis para poder entrar.
— Valentin, chega para cá. — Marie puxou o mais novo para mais perto dela, criando um espaço entre ele e para .
também se afastou um pouco e a engenheira logo se ajeitou entre eles. Com mais um bocejo, Valentin se aconchegou no corpo de e ela sorriu, vendo seus olhos piscando cada vez mais lentos.
— Padrinho, conta uma história para gente? — Zoe pediu, do outro lado dele. — Sem ser história de corrida. — Ela acrescentou, se lembrando que ele quase sempre contava história com carros de corrida.
— Eu não sei outro tipo de história. — a olhou e ela rolou os olhos. — Mas aposto que sabe. — Falou para a afilhada e mais uma vez se sentiu confusa pelo comportamento dele.
— Sabe? — Zoe perguntou, se apoiando na barriga de para olhá-la.
— Com certeza, é a pessoa que eu conheço que mais gosta de ler. — Ele falou como um elogio e ela respirou fundo.
— Conta uma história para gente, . — Marie pediu e depois de pensar um pouco ela começou a contar uma de suas histórias preferidas de quando era criança.
Valentin dormiu logo no começo. Aos poucos o sono também chegou para Zoe e Marie, mas estavam atentas a história e vez ou outra a interrompiam com alguma pergunta ou comentário. Com o silêncio depois da história, as duas não seguraram o sono por muito mais tempo.
olhava para o teto de sua cabana, e pelo canto de olho sabia que também olhava para cima. Ela ouvia a respiração dele, prestando atenção pela primeira vez no contato de seu braço com o dele. Sentiu a ansiedade crescendo dentro de si, o coração batendo um pouco mais depressa. Como ela sentia falta dele!
percebeu quando a respiração de mudou. Estava em uma batalha interna entre acabar com aquela distância ridícula entre eles ou seguir com seu plano. Mas era muito difícil ser racional sentindo o perfume dela e a pele macia em contato com a dele. Respirou fundo uma única vez e, se desvencilhando de Zoe, virou-se de lado, olhando para o rosto dela.
Sentindo o olhar dele fixamente em si, virou o rosto. Estavam mais próximos do que ela pensou que estariam. A respiração pesada dele fez com que os olhos dela fossem diretamente para os lábios rosados dele e ela se obrigou a desviar o olhar para os olhos dele. Os olhos azuis estavam mais intensos do que tinham estado a noite toda.
O corpo dele implorava por contato, e mesmo que não houvesse nenhuma mecha de cabelo fora do lugar, ele levou a mão como se fosse colocá-lo atrás de sua orelha. fechou os olhos instantaneamente, e ele fez um carinho com o polegar em sua bochecha.
A expectativa do que estava para acontecer afetava a ambos. aproximou o rosto vagarosamente e quando os lábios estavam prestes a se tocar abriu os olhos e virou o rosto de uma vez para o lado oposto.
piscou algumas vezes, tentando entender o que tinha acabado de acontecer e balançou a cabeça, tentando tirar os pensamentos do que quase havia acontecido.
— Você não pode fazer isso. — falou com firmeza e piscou mais algumas vezes, notando a mudança repentina de comportamento dela. — Não pode agir assim comigo e me beijar quando sentir vontade e depois me ignorar por mais duas semanas. — Falou reunindo toda a coragem dentro de si. Sentia as mãos tremendo de nervosismo. — Eu não sou essa pessoa, . — Falou com a voz um pouco mais branda assim como sua expressão. — Eu não consigo ser. Isso não funciona para mim.
abriu a boca, mas voltou a fechá-la por não saber exatamente o que dizer. Ela estava certa. Ele sabia disso. Havia sentimentos em jogo, sentimentos dos dois. No fundo não era justo nem com ele mesmo.
sentiu o celular vibrando no bolso de sua calça jeans e seu coração voltou a bater mais rápido ao ver o nome de seu pai na tela. Ele nunca ligava tarde da noite. Ela sabia que alguma coisa tinha acontecido. Aceitou a chamada, saindo da cabana o mais rápido que conseguiu, não queria acordar as crianças.
— Pai!? Está tudo bem? — O tom de voz alarmado dela fez com que saísse logo em seguida. — Meu Deus! — passou a mão no rosto e ele continuou um pouco afastado. — Em qual hospital vocês estão? Eu estou indo até aí. — Falou, calçando os sapatos. — Até daqui a pouco. — Desligou a chamada.
— O que aconteceu? — perguntou com cautela.
— Não entendi direito. Parece que minha mãe caiu na escada e bateu a cabeça. — Contou enquanto desciam as escadas. — Você consegue cuidar deles, certo? — Indicou o andar de cima.
— Claro que sim, eles estão dormindo. — já estava do lado de fora quando sentiu segurando a sua mão. — Vai dar tudo certo. — Ela tentou sorrir e quando ele soltou sua mão, entrou no carro, dirigindo o mais rápido que podia até o hospital.
Quase vinte minutos depois a família de tinha voltado para a casa e sem dar explicação, ele entrou no próprio carro. Foi só quando pensou qual caminho faria é que percebeu que ele não sabia em qual hospital Mabelle estava. Pensou em mandar uma mensagem, mas não queria perturbar ou Yohan.
Eles provavelmente teriam ido para um hospital próximo à casa dela, e ele sabia que existiam três, mas que um deles não atendia emergências, o que o deixava com duas opções.
Dirigiu até o primeiro, e mesmo sem ver o carro de no estacionamento, estacionou e foi até a recepção. Ninguém com aquele nome havia dado entrada naquele hospital. Voltou rapidamente para o carro e seguiu em direção ao outro. Poucos minutos depois voltou a estacionar. Não perdeu tempo procurando o carro dela, caminhou até a entrada de emergências e reconheceu Yohan assim que passou pelas portas automáticas.
— Como ela está? — perguntou, trazendo Yohan de volta de seus pensamentos.
Yohan estava surpreso com a presença do piloto ali. não tinha comentado nada sobre ele.
— Tudo bem. Precisou de cinco pontos na cabeça e agora está fazendo uma tomografia, porque ela ficou um tempo desacordada depois que caiu.
— Ah, sim… — assentiu, mas Yohan percebeu que os olhos dele estavam em , que mexia no celular e não percebeu que ele estava ali.
— Eu ia pegar um chocolate quente. — Falou com um sorriso discreto, caminhando para a cafeteria do local.
procurava na internet se a migrânea poderia ser a causa do desmaio de sua mãe ao descer as escadas. Tinha medo de que a mãe não tivesse sido completamente honesta com os médicos e enfermeiras sobre o que tinha acontecido e o que ela tinha sentido. Ela era tão teimosa! nem mesmo tinha como garantir que ela estava tomando os remédios corretamente.
andou até onde a engenheira estava sentada, o local estava silencioso e com poucas pessoas. desviou os olhos minimamente da tela do celular, reconhecendo imediatamente aqueles tênis brancos que se aproximavam.
— O que você está fazendo aqui? — O olhou num misto de surpresa e desconfiança.
— O mesmo que você faria por mim. — Respondeu, sentando-se ao lado dela e sorriu minimamente.
— E como sabia que estávamos aqui? — Procurou o próprio pai pelo local.
— Procurei nos hospitais perto da casa dos seus pais. — tentou disfarçar a surpresa e não fazia ideia do quanto aquele gesto tinha significado para ela.



Vingt

Eram dez horas da manhã quando saiu da frente do computador pela primeira vez para buscar um copo de água. Aquela era a segunda semana dela no departamento pós-obra, mas era seu primeiro dia sozinha como chefe. Tinha chegado antes do horário, queria garantir um bom relacionamento com a nova equipe e também garantir que a programação do dia seria seguida.
Era estranho não ter François ali, ela tinha se acostumado com a presença dele ao longo dos anos, mas ele tinha optado pela aposentadoria. Olivier também tinha preferido ser transferido para outra obra que estava no início e ela teria uma nova estagiária, Louise, que ficaria com ela no período vespertino.
Voltou para sua mesa, e viu a notificação com o número três na lateral. Três chamados haviam sido abertos. Clicou em cada um deles, abrindo guias separadas do navegador e riu sozinha ao ler o conteúdo do primeiro, era exatamente o que tinha perguntado quando conversaram na calçada da casa dos pais dele meses atrás. Quando ela nem imaginava que eles poderiam se relacionar de alguma forma.
O morador do apartamento reclamava de entupimento do ralo da área de serviço, dizendo que quando usava a máquina de lavar estava saindo muita espuma do ralo. E sem pensar muito, escaneou a tela e enviou a imagem para .
Ela não sabia exatamente como eles estavam naquele momento, tinha seguido o conselho de e Leon e tinha dito a ele a verdade na noite anterior e embora ele não tivesse dito nada com clareza, tinha aparecido no hospital alguns minutos mais tarde. Tinha ficado lá até que Mabelle recebesse alta e isso tinha bagunçado ainda mais os pensamentos dela.
Estava lendo o último chamado aberto quando o celular vibrou com uma notificação com o nome dele.


Online

😂😂😂

Eu não acredito!



sorriu, ela conseguia escutar a risada alta dele, como se ele estivesse ali com ela, lendo o chamado.


Online

😂😂😂

Eu não acredito!

Pois é, o primeiro chamado que recebi foi em homenagem a você.

Assim você continua pensando em mim…



respirou fundo.
— Como se eu conseguisse não pensar… — Murmurou, sozinha.
— Está falando sozinha? — Joseph, um dos encanadores, havia retornado e ela nem tinha percebido.
— Pensando alto. — Sorriu para ele. — Você está tranquilo por agora? — Ele confirmou com um aceno. — Ótimo. Recebemos mais um chamado, vou ligar para o proprietário agora e se estiver liberado você já pode ir lá. — Ele assentiu mais uma vez.
A ligação tinha sido rápida. O proprietário da unidade tinha elogiado a velocidade de resposta do chamado e poderiam receber o funcionário a qualquer horário.
imprimiu o chamado e entregou para Joseph. E aproveitou para agendar as outras visitas, relacionadas aos outros chamados, que infelizmente não eram tão simples assim e ela mesma precisaria fazer a vistoria.
Depois de anotar tudo em sua própria agenda, viu que tinha recebido outra mensagem de .


Online

Como sua mãe está?

Está bem.

Meu pai encontrou as caixas de remédio dela e estavam praticamente cheias.

Ela confessou que não estava tomando e por isso o acidente de ontem.

Que bom!

Pelo menos não é algo mais grave!

Pois é.

Agora meu pai pegou essa função para ele.

Vai controlar os remédios e garantir que ela tome todas as doses.

Conhecendo Mabelle, ela não deve ter gostado disso.

Ela perdeu o direito de opinar.



sorriu, sabia que estava séria naquele momento. Ela sempre ficava assim quando os assuntos envolviam a teimosia de sua mãe.
Tirou uma foto do carro praticamente desmontado em sua frente e enviou a ela.


Online

Meu primeiro chamado de hoje.

Ajuste de assento.

Vai só ficar sentado e chama isso de trabalho?



brincou, sabia que ele não estava feliz com aquela situação.


Online

Meu primeiro chamado de hoje.

Ajuste de assento.

Vai só ficar sentado e chama isso de trabalho?

Só por agora, a partir de amanhã tudo fica mais intenso.

Tenho certeza de que você vai ser ótimo!



Ali estava a confiança que sempre tinha em relação a ele, assim como sua família. Mas naquele momento ele sentia que ela estava certa. Ele estava em um ambiente que ele conhecia muito bem, cercado de pessoas conhecidas e com quem ele tinha um ótimo relacionamento, que o escutavam e gostavam de trabalhar junto. Além disso, ele daria o seu melhor a todo instante.


Online

Só por agora, a partir de amanhã tudo fica mais intenso.

Tenho certeza de que você vai ser ótimo!

Obrigado.

Tudo tranquilo por aí?

Não exatamente.

O gesso do teto de uma sacada trincou inteiro depois de uma ventania hoje de manhã.

Já estamos com quatro chamados idênticos.

Isso vai ser um problema. 😬

Boa sorte!

Vou precisar!



bloqueou o celular e anotou todas as tarefas no quadro branco do galpão. Pegou todas as suas coisas em cima da mesa e logo seguiu para o prédio em questão. Se os tetos estivessem mesmo trincando por causa de ventos, eles teriam um grande problema e precisariam refazer todas as unidades.

🔸🔹

— Oi, . — sorriu ao ver o rosto da amiga na tela. — Como você está? E o trabalho? — Disparou.
— Oi, . Estou bem e você?
— Tudo bem.
— O trabalho já está uma loucura. — contou. — Estou exausta.
— Mas você não começou ontem? — A médica perguntou, confusa.
— Sim, mas foram dois dias muito intensos. A bomba explodiu na minha mão, vamos ter um retrabalho absurdo e é claro que isso não agradou o departamento financeiro. — A engenheira fez uma careta.
— Retrabalhos nunca são bons, mas pelo menos não foi sua culpa.
— É… Já até demitiram o engenheiro responsável. — Ela contou. — Mas não foi por isso que te liguei. Eu preciso te pedir um conselho e um favor, dependendo do seu conselho.
— Pode falar. — sorriu.
— Estou pensando em ir para a Bélgica no final de semana. — Mordeu a boca em apreensão pela resposta da amiga. — É uma ideia ruim?
— Eu não tenho essa resposta, . Aconteceu alguma coisa entre vocês que eu não fiquei sabendo? — negou com a cabeça.
— Nós trocamos algumas mensagens ontem, mas nada demais. É só que eu fiquei sabendo que ninguém vai para a corrida.
— Nem os pais dele? — A engenheira negou novamente.
— A Gabrielle, cunhada do , deve dar à luz até o final de semana e eles decidiram ficar. Minha mãe comentou ontem à noite quando nos falamos.
— Eu acho que você deve fazer o que o seu coração está te pedindo, mas mantendo os pés no chão, sem expectativas. — aconselhou.
— Eu realmente sinto que eu preciso ir.
— Então pronto. — sorriu. — Já ouviu meu conselho, qual é o favor?
— Preciso do número da Eloise. Ela e o ainda estão namorando, né?
— Estão sim, mas por que não fala direto com o ? Ele não mudou de equipe? — não entendeu porque a amiga parecia buscar o caminho mais difícil.
— Ele mudou, mas eu não conheço ninguém.
— Eu não sei se fazer uma surpresa para ele é a melhor opção, . — ponderou.
— Não é fazer surpresa, mas eu não quero que ele entenda como pressão da minha parte. Eu só quero estar lá por ele. — deu de ombros.
— Você quem sabe. Se acha que assim é melhor, já te enviei o contato dela.
— Obrigada.
— Me confirma se você for, ok?
— Pode deixar. Vou conversar com a Eloise e te digo o que eu decidir.
Se despediram pouco tempo depois e não demorou a mandar mensagem para Eloise, que se dispôs a ajudá-la. Conseguiria uma credencial com para o grande prêmio e também a ajudaria em relação à reserva de um quarto no mesmo hotel em que eles ficariam.
Depois disso, a semana de passou voando. Com duas obras recentemente entregues e outras três ainda em garantia, dezenas de chamados foram abertos dia após dia. Mas a equipe era excelente, assim como Louise, a estagiária, e embora estivessem cheios de trabalho, tinham encerrado a semana deixando tudo em ordem.
tinha avisado aos pais e também a sobre a viagem. Tinha feito o check-in e arrumado uma pequena mala para o final de semana. Sentia-se ansiosa pela viagem no dia seguinte, não sabia como reagiria ao vê-la lá, mas o fato de ter dado tudo certo até ali a deixava confiante de que ir era a decisão certa.

🔸🔹

, bandeira vermelha. — O engenheiro comunicou pelo rádio.
— O que houve agora? — Era a segunda bandeira vermelha apenas no Q1.
— Algo com o Giovinazzi.
— Ele está bem?
— Sim.
O rádio ficou em silêncio por alguns segundos, e então ouviu a voz do engenheiro novamente.
, infelizmente a sessão não será reiniciada. P15. P15.
— Essa não. — O piloto reclamou pelo rádio, tinha ritmo e tinha certeza que conseguiria ir pelo menos para o Q2.
guiou o carro de volta para os boxes e saiu sem demora de lá. Conferiu na tela e seu companheiro de equipe também tinha sido eliminado na primeira sessão, não era o ideal para a equipe, mas eles teriam a livre escolha de pneus e de estratégia para a corrida no dia seguinte.
Acompanhou de dentro da garagem o restante da classificação, tinha sido pole e ele estava feliz pelo amigo. Por quinze centésimos, Vettel tinha garantido a segunda posição e deixado Hamilton em terceiro. ocupava a quinta posição e Albon largaria em décimo quarto.
A equipe se dirigia para a sala de reuniões e sempre dava um jeito de enrolar para ver a largada da F2. Aquele era um dos finais de semana em que as duas categorias corriam no mesmo lugar e sua assessora esperou apenas a largada para arrastá-lo para o motorhome.
Ouviram o barulho forte e sentiu um arrepio na coluna. Olhou para trás, buscando nas telas ou até mesmo enxergar a pista, sabia que tinha sido um acidente e a falta de imagens só dava a ele a certeza de que era algo sério.
— Quem foi? — sentiu um gosto amargo em sua boca.
— Eu não sei, . — Sua assessora respondeu. — Prometo que vou descobrir, mas você precisa ir, eles estão esperando por você.
assentiu, engolindo com dificuldade. Caminhou até a sala e se sentou no mesmo lugar que sempre se sentava antes da promoção para a Red Bull. Estava com os fones no ouvido e ouvia as vozes, mas não entendia de fato o que eles falavam. Gráficos e mais gráficos em sua tela, mas ele não conseguia se concentrar em nada. Suas mãos estavam suando frio, seu estômago estava embrulhado e até respirar parecia difícil. Ele sabia que algo muito sério tinha acontecido. E ele só conseguia pensar em Anthoine.
Fez comentários vagos, torcendo apenas para que acabasse logo. Ele precisava sair daquela sala, ele precisava ver um dos seus melhores amigos, ele precisava saber que ele estava bem. E então, bem próximo do fim, ouviram batidas na porta e todos os olhos se viraram para Jane, a assessora de .
, eu sinto muito…
Depois daquelas palavras, ele não ouviu mais nada, as vozes eram apenas barulhos, as pessoas, apenas vultos se movendo à sua volta. Sentiu seu coração apertar e era como se tivesse uma bola enfiada na garganta. Naquele momento ele soube que seu melhor amigo tinha partido.

🔸🔹

estava chateada por perder o treino classificatório, já que ela achava mais emocionante do que a corrida na maioria das vezes, mas não podia fazer nada a respeito. Tinha saído cedo de Marselha e chegado a Toulon com folga para o voo, mas o voo tinha atrasado uma hora e quarenta minutos e depois de desembarcar em Liège, ela ainda demoraria pelo menos quarenta minutos para chegar ao Circuito de Spa-Francorchamps.
Tinha acabado de entrar no carro que a levaria ao hotel, quando diversas notificações chegaram de uma só vez. Mensagens de Leon, , de seu pai, e notificações do aplicativo de F1 que ela tinha instalado. Foi direto para as mensagens e precisou piscar repetidas vezes para acreditar no que ela lia. Anthoine tinha se envolvido em um acidente fatal.
abriu todas as mensagens e eram todas sobre isso. Ela não queria ver vídeos, não queria ler detalhes. Ela não conseguia acreditar que alguém tão novo tinha perdido a vida. Alguém que ela tinha encontrado há pouco tempo… Com . Ele deveria estar devastado. Ela nunca tinha perdido alguém próximo assim e de forma inesperada. Ela não fazia ideia da dor que ele deveria estar sentindo naquele momento.
Mais uma mensagem, dessa vez de Philippe.

Philippe
Online

Oi, . Seu pai nos contou que você viajou para o GP.

Meus pais estão se organizando para ir, devem chegar amanhã pela manhã.

disse que está bem, mas isso está longe de ser verdade.

Cuide dele por nós e nos dê notícias, por favor.



Respondeu que manteria contato, mas que ainda estava no caminho. Olhou para o gps do carro, apenas para se certificar de que ainda estavam na metade do caminho até o hotel.
Realizou o check-in sem demora e conferiu na mensagem que Eloise havia enviado mais cedo qual era o quarto em que estava hospedado. Entrou no elevador e apertou o botão do andar dele. Ele poderia não querer a companhia dela, mas ela precisava vê-lo.
Sentiu as mãos um pouco trêmulas ao sair do elevador e as lágrimas que até então não tinham aparecido, começaram a se formar e secou os olhos. Era o momento de ela ser forte por ele, porque ela sabia que ele precisaria de alguém.
Parou em frente a porta e bateu duas vezes. Nenhuma resposta, nenhum som, nada. Bateu novamente.
— Eu já falei que estou bem e não quero conversar, Pyry. — falou andando da cama até a porta.
Estranhou não ouvir uma resposta do preparador físico, já que ele tinha insistido nas duas outras vezes que fora até o quarto dele e abriu a porta em seguida. Não conseguiu disfarçar a expressão surpresa ao ver no corredor. Piscou algumas vezes, tentando se certificar de não estar sonhando ou delirando. Ele imaginaria várias outras pessoas batendo à sua porta, mas não ela.
— Oi. — disse baixo e deu um sorriso triste.
Vendo que ele permanecia parado no mesmo lugar, ela entrou com sua mala no quarto e assim que fechou a porta foi pega de surpresa por um abraço dele. Retribuiu o abraço e o apertou ainda mais ao sentir o tremor no corpo dele indicando o choro que aos poucos foi ficando mais alto. sentia as lágrimas molharem sua blusa e quando um soluço alto escapou da boca dele, ela sentiu o coração apertar ainda mais.
— Meu melhor amigo se foi. — falou quase num sussurro, ainda abraçado a ela.
— Eu sinto muito. — sussurrou de volta, subindo e descendo uma das mãos pelas costas dele, tentando, de alguma forma, confortá-lo.
— Isso não é justo. Por que ele? — Ele se afastou um pouco e ela passou os polegares no rosto dele, secando as lágrimas.
— Eu não sei, . Nem sempre entendemos os planos de Deus. — Ele levou a mão até a correntinha em seu pescoço.
— Eu sei. — respirou fundo duas vezes e pegou uma garrafa de água no frigobar.
aproveitou para ir ao banheiro e trocar de roupa e quando saiu estava deitado na cama, a televisão estava ligada, mas ele encarava o teto. Ela se sentou ao lado dele e ele apoiou a cabeça no colo dela. Ficaram em silêncio por um tempo e o único barulho no quarto era o som baixo de uma série que estava passando.
Ela levou uma das mãos à cabeça dele e passou os dedos pelo cabelo dele repetidas vezes. Notou quando a respiração dele se regularizou e imaginou que ele tivesse dormido, mas ele se deitou de barriga para cima em seguida, atraindo o olhar dela.
— Não foi por isso que você veio. — Ele afirmou e foi trazida de volta de seus pensamentos.
— O quê?
— Não foi por isso que você veio, não daria tempo de vir de Marselha para cá. — explicou sua linha de raciocínio.
— Não, eu vim por você. — foi sincera, como sempre era com ele. — Porque é isso que a gente faz, a gente está um com o outro quando um de nós precisa de apoio. E eu queria ver você correndo pela equipe nova.
— Não é equipe nova.
— Para mim é. — Ela rebateu.
— Obrigado. — agradeceu, entrelaçando seus dedos aos dela e virando-se de lado novamente, beijou as costas da mão dela.
— Você faria o mesmo por mim. — disse com um sorriso, lembrando-se da fala dele no hospital.
Era exatamente isso que ambos sentiam. Podiam não saber em que pé estavam em relação ao relacionamento amoroso, mas a amizade que tinha crescido entre eles os dava a certeza de que poderiam sempre contar um com o outro.



Vingt et un

se mexeu na cama e ao perceber que o dia já estava nascendo, desistiu de tentar dormir novamente. Na verdade, ela tinha dormido muito pouco, estava preocupada com , principalmente depois que ele pediu a ela que passasse a noite lá com ele. Imaginava que ele tinha sido vencido pelo cansaço depois de tanto mexer na cama e ela achou tê-lo ouvido chorar novamente no meio da noite.
No final, tinha achado bom ficar ali. Graças a ela, ele tinha aceitado jantar mesmo insistindo que não sentia fome. Ela sabia que ele não abriria mão da corrida, aquilo era o que o deixava mais feliz na vida e ela tinha certeza de que ele correria em homenagem ao amigo.
abriu os olhos pouco tempo depois.

— Oi. — disse baixinho e ele deu um sorriso triste. — Eu sei que é uma péssima pergunta para se fazer, mas como você está? — deu um longo suspiro.
— Acho que o melhor que alguém poderia estar nessa situação. — Ela assentiu.
continuou olhando nos olhos dela e notou como os olhos dele estavam fundos, comprovando seu pensamento de que ele quase não tinha dormido. Quis fazer um carinho em seu rosto, mas preferiu evitar o contato.
— Seus pais devem chegar daqui a meia hora. — Ela avisou depois de ler a mensagem de Pascal e assentiu.
— Vou tomar um banho e nos encontramos com eles para um café.
— Eu vou para o meu quarto, tudo bem? — Ele voltou a assentir e trocou de roupa, indo para o quarto reservado com suas coisas.
Não fez questão de organizar as coisas da mala, afinal iria embora naquele dia. Levou os produtos de higiene e maquiagem e uma roupa. Tinha tomado um banho rápido na noite anterior para não deixar sozinho por muito tempo, mas um tempo para ela seria bem-vindo.
A maioria das reflexões de aconteciam quando ela estava no banho e assim que entrou na água quente, todos os pensamentos e sentimentos vieram à tona de uma só vez. Quando ela sentiu que precisava estar ali naquele final de semana, ela jamais imaginaria que enfrentaria aquela situação. Por que ele? A pergunta que havia feito no dia anterior ecoou em sua mente seguida das lembranças do jantar com Anthoine.
Naquele momento ela permitiu suas lágrimas. Mesmo que ela não fosse amiga e nem mesmo tivesse convivido com ele, ela sentia a perda. não lidava bem com as perdas. Tinha descoberto isso com a morte de seu avô dez anos atrás. Era algo que mexia com ela e que ficava em sua mente por semanas, como se todo e qualquer assunto a lembrasse constantemente da perda.
Devidamente vestida e com uma maquiagem feita apenas para tentar disfarçar as olheiras, deixou o seu quarto. Passou no quarto de , que já estava pronto e desceram juntos. Chegaram na recepção no mesmo momento em que os pais dele cruzaram a entrada do hotel e ficou parada onde estava, já tinha dado seu apoio como podia e não queria interferir no momento com a família.
Pascal enxugou os olhos enquanto caminhava na direção da afilhada, acompanhada do marido de um lado e do outro.
— Obrigada! — Disse quando se abraçaram e não tinha lembrança de ter ganhado um abraço tão forte de sua madrinha antes.
O caminho até o restaurante assim como toda a refeição tinha sido em silêncio. Todos perdidos nos próprios pensamentos. Por mais que fizesse sol do lado de fora, continuaria sendo um dia nublado.

🔸🔹

Os pilotos, assim como o irmão e a mãe de Anthoine fechavam um círculo em volta do capacete dele. O local estava todo em silêncio, em homenagem a ele. Ao final do momento, caminhou até o capacete e o tocou por alguns instantes, cumprimentando a família dele em seguida, que em muitos momentos tinha sido uma família para ele também.
De volta na garagem da Toro Rosso, ele passou a mão sobre o adesivo recém colado no carro com o nome do amigo. Aquela corrida e provavelmente todas as outras, seriam por ele. Ele correria pelos dois, honrando os sonhos que ambos nutriram durante tantos anos.
Pascal e Jean-Jaques foram recebidos na garagem da equipe e embora não fosse a preferência de , ela se juntou a eles, colocando o fone que lhe havia sido entregue.
Foi dada a largada e os carros aceleraram, vários deles se espalhando pela pista, buscando ganhar posições e logo na primeira curva dois deles se tocaram. Antes do final da primeira volta Hamilton e Vettel ultrapassavam um ao outro, disputando o segundo lugar e tinha tido algum problema no carro e tinha saído da pista até se chocar com a barreira.
tinha feito uma boa largada e na quarta volta já ocupava a nona posição. não conseguia parar de sorrir, tanto por estar fazendo uma boa corrida mesmo com um carro inferior, quanto pela felicidade dos pais dele ao seu lado, que era contagiante.
Com a parada nos boxes, ele perdera as posições ganhadas e passou a ocupar a décima sexta posição, mas logo que se aproximava de um carro conseguia ultrapassar e foi escalando o grid, recuperando seu lugar. Na maior parte das voltas, estava na zona de pontuação, mas próximo do fim ele tinha sido ultrapassado e caído para P11.
Independentemente do resultado, todos estavam orgulhosos da ótima corrida que ele tinha feito. Mas a sorte pareceu estar do lado dele, na última volta Giovinazzi perdeu o controle do carro e se chocou contra a barreira e Norris perdeu potência e precisou encostar o carro. Com isso, ele voltou à zona de pontuação e conseguiu marcar dois pontos.
— Fantástico trabalho, ! — Ouviram o engenheiro no rádio. — P9.
— Obrigado, pessoal. Essa foi para o Anthoine.
já havia ido para a área de entrevistas e estava andando com os padrinhos pelo paddock quando avistou Eloise. Avisou a eles que conversaria brevemente com ela, queria agradecer pessoalmente por toda ajuda. Se despediram poucos minutos depois, seguindo cada uma um lado, mas não via mais o casal por ali.
Com medo de acabar se perdendo, pegou o celular na bolsa para enviar uma mensagem a ele e foi surpreendida pela voz de logo atrás dela.
— Achei você. — se virou imediatamente ao ouvi-lo e sua primeira reação foi abraçá-lo, o que o fez sorrir verdadeiramente pela primeira vez no dia.
— Você foi incrível. — Ela o elogiou, olhando em seus olhos e sorrindo ao ver o sorriso dele se alargar. — Tenho certeza de que o Anthoine está orgulhoso de você onde quer que ele esteja.
— Ele fez o que ele amava até o último segundo e ele não abriria mão disso. Eu sei que ele estava comigo hoje. — não sabia se tinham sido as palavras ou a forma tranquila que ele falara, refletindo como ele parecia estar naquele momento, mas ela sentiu o próprio coração mais leve. — Vem. — a chamou, começando a andar.
— Para onde?
— Conhecer o motorhome da Toro Rosso. — Ele indicou a porta.
, você sabe que eu não me sinto à vontade.
— Relaxa, o pessoal aqui é muito mais tranquilo e nós não vamos demorar. Vou trocar de roupa e pegar minhas coisas.
— E seus pais? — conferiu o celular, mas não havia nenhuma mensagem deles.
— O que tem eles?
— Eu me perdi deles.
— Depois a gente os encontra. — Ela subiu as escadas atrás dele. — Como foi assistir à corrida com eles?
— Foi divertido. Seu pai comemorava cada manobra que você fazia. Eles são, com certeza, os seus maiores fãs.

🔸🔹

A segunda semana de trabalho seguia tão intensa quanto a primeira e estava realmente surpresa por isso. Geralmente o pós-obra tinha uma fama de ser um trabalho e ela se lembrava que realmente era quando tinha estagiado lá por seis meses. Muitas visitas técnicas, muitas ligações com fornecedores e muitas reuniões com seus chefes.
Sentia-se tão cansada ao final do dia, que novamente tinha adiado a visita que deveria fazer aos pais. Em partes porque sabia que perguntariam do final de semana e ela não queria realmente falar sobre isso, mas também porque quando ela deixava o galpão tudo que ela queria era um banho quente, uma comida gostosa e sua cama.
Sem ânimo para preparar algo mais elaborado, tinha recorrido ao macarrão para o jantar naquela terça-feira e estava quase terminando quando ouviu o toque do celular. Foi até a bancada e se surpreendeu por ser uma chamada de vídeo de . Eles não tinham se falado desde o domingo, quando ela voltara para Marselha. Deslizou o dedo na tela, vendo o rosto dele ali em seguida.
— Oi. — Ele disse assim que a imagem dela apareceu.
percebeu que ele estava deitado pelos travesseiros e parecia bastante cansado.
— Oi. Está tudo bem? — Perguntou, tentando descobrir o motivo da ligação.
— Sim. Estou atrapalhando? — notou que ela estava desviando os olhos da chamada.
— Claro que não. — negou com um aceno. — Estava cozinhando, mas já desliguei o fogo.
— Posso te ligar depois. — Ele sugeriu, pensando que deveria ter mandado uma mensagem antes de ligar.
— Está tudo bem, . — Ela se encostou na bancada.
— Eu fui ao funeral. — Contou e ela assentiu. — Foi bom ter ido. , Esteban e George também foram. Na verdade, bastante gente do automobilismo.
— E como você está?
— Bem. Foi uma cerimônia bonita. A família dele encontrou conforto pelo fato de ele ter feito o que mais amava na vida até o último minuto e acho que tem sido assim para mim também.
não soube o que dizer e ficaram em silêncio por um tempo.
— Mas ainda é muito estranho perceber que nunca mais receberei uma mensagem dele, que ele não teve tempo de chegar à Fórmula 1, que não vamos mais nos ver… Que eu não vou ouvir mais a risada dele. — sentiu os olhos úmidos e olhou para cima, evitando as lágrimas. — Ei, não chora. — Ele se surpreendeu com a cena já que não a tinha visto derramar uma lágrima no final de semana.
— Queria que todos fossem eternos. — respondeu, enxugando as poucas lágrimas em seu rosto.
— Não é fácil lidar com a saudade, mas tenho lembranças de uma vida toda, dos melhores momentos dele e vão estar sempre comigo.
— Eu tenho certeza de que ele gostaria de ser lembrado assim.
— Sim. Foi uma honra o ter ao meu lado todos esses anos.
, me dá só um minutinho. — pediu, sentindo-se culpada por interromper. — está me ligando e é a quarta chamada seguida, estou ficando preocupada.
— Claro.
A engenheira colocou a chamada dele em espera e atendeu a chamada da amiga.
— Ai, meu Deus, você está com cara de choro! — soou, alarmada. — O que foi que aconteceu? É a sua mãe? — Disparou.
— Não, . Minha mãe está bem. Estava falando com o .
— Ai, meu Deus, vocês terminaram? — levou a mão ao rosto e riu.
— Não, . — Repetiu. — Nós nem começamos, como podemos ter terminado? — Tentou descontrair, mas a médica sabia que no fundo ela não estava tão desencanada sobre o assunto.
— Então por que você estava chorando?
estava me falando do funeral. Você sabe como tenho dificuldade em lidar com isso. — assentiu, já eram amigas desde a morte do avô dela.
— Entendi. Então pode terminar de falar com ele e me ligue depois. Não é urgente.
— Você me ligou quatro vezes. — negou, se não era urgente não entendia a insistência.
— Achei que você só estava me ignorando. — A engenheira rolou os olhos.
— Eu nunca te ignoro.
— Até depois. — encerrou a chamada e o rosto de voltou a ocupar a tela.

— Voltei. — Anunciou, atraindo a atenção dele de volta.
— Está tudo bem?
— Sim, coisas de . — Riu fraco. — Mas eu realmente fico feliz e aliviada que você esteja melhor.
— Confesso que com tudo o que aconteceu, eu nem me lembro se te agradeci.
— Não tem o que agradecer. — sorriu, mas sentia-se nervosa.
Não sabia por que estava se sentindo daquela forma, eles estavam tendo uma conversa comum e agora ela sentia o estômago torcer e as mãos suarem. Ela não tinha cogitado a ideia de que terminaria o que quer que tinham por chamada de vídeo, mas depois da fala de , era tudo em que sua cabeça conseguia pensar.
— Tenho sim. Eu não sabia que precisava tanto do apoio de alguém até ver você no corredor. Ter você e meus pais lá foi… enfim, obrigado, .
— Não precisa agradecer.
— Mas não era só sobre isso que queria falar com você. — engoliu em seco. — Eu sei que não foi justo o que eu fiz com você, a forma que eu tentei lidar com as coisas que aconteceram, e que a gente precisa conversar. — Ela assentiu. — Mas eu não queria fazer isso por chamada. No final de semana é a corrida em Monza e meu convite ainda está de pé, pensei que você poderia vir e nós conversamos pessoalmente.
— Eu… eu não sei. — Pela forma que ele falava, ela não conseguia deduzir se eles iam retomar o que tinham ou encerrar tudo de vez e ela não queria ir até Milão para receber um pé na bunda.
— Eu entendo se você não quiser ou não puder. — continuou. — De qualquer forma eu pedi ao Philippe que deixasse a chave do meu apartamento com você, caso você decida vir, não precisa depender de eu estar aqui e vou deixar um passe para paddock.
— Certo. — Respondeu meio no automático. — Eu vou pensar e te aviso.
— Tudo bem. Já atrapalhei demais o seu jantar. Nos falamos depois.
— Até. — E com um aceno ela encerrou a chamada e respirou fundo, não imaginava que se sentiria ainda mais confusa do que tinha estado até então.
Esquentou seu macarrão novamente e com seu prato na mesa de jantar retornou a chamada de . Precisava comer, estava faminta, e sabia que a amiga não se importaria que ela estivesse jantando enquanto se falassem.
— Olá. — sorriu, começando a comer em seguida.
— Como o está?
— Está bem, ainda processando, mas realmente parece bem. — Deu de ombros. — E vocês?
— Tudo certo. Você estava certa. Depois de ter aquela conversa com o Leon tudo está incrível entre nós novamente.
— Fico feliz por vocês.
— E é por isso que te liguei. Estou querendo comprar umas lingeries novas e outras coisas. — ergueu as sobrancelhas, sugestiva. — É nosso aniversário de namoro na semana que vem e eu queria a sua companhia. Para as compras. — Acrescentou quando percebeu que a zoaria.
— Não sei se consigo. — Mordeu o lábio inferior, pensando no convite de .
— Por quê?
me chamou para ir para Milão no final de semana. Disse que sabe que precisamos conversar, mas que quer fazer isso pessoalmente. — Contou.
— E por que você não parece animada com isso?
— Porque não estou. — Confessou. — Não consegui saber qual será o rumo da conversa e não sei se quero ir até lá para correr o risco de ele terminar.
— Terminar o que vocês nem começaram? — devolveu as palavras ditas por ela mais cedo.
— Exatamente. — fez uma expressão sofrida.
— Amiga, eu não acredito que ele te faria viajar até lá se não fosse para vocês se acertarem.
— Não sei, . Estou receosa.
— Em todo caso podemos ir antes, se você decidir ir. É bom que você já leva uma lingerie nova para quando vocês fizerem as pazes.
! — A engenheira quase se engasgou.
— Ah, vai por mim, sexo de reconciliação é um dos melhores. — Ela sorriu e negou com a cabeça.
— Então você acha que eu devo ir? — sabia que a decisão cabia unicamente a ela, mas estava acostumada a ouvir a opinião dela.
— Não só ir como levar várias lingeries novas. — Repetiu apenas para ver a amiga sem graça.
— Independente disso, se quiser ir algum dia depois do trabalho, eu posso te fazer companhia.
— Ótimo, podemos ir na quinta-feira então. — sorriu, vitoriosa.
— Te confirmo amanhã.
— Combinado. — A médica mandou beijos na tela e fez o mesmo, encerrando a chamada.
terminou de jantar e sua cabeça estava lotada dos mais diversos pensamentos, mas ela deixaria para analisar cada um deles no dia seguinte, precisava dormir e descansar.

Sabia que precisava visitar seus pais, e por isso aceitou o convite de Mabelle para jantar com eles na quarta-feira. Sua mãe tinha feito um de seus pratos preferidos, Boeuf Bourguignon, e ela estava verdadeiramente feliz em saber que desde que Yohan começou a controlar a medicação Mabelle quase não tinha mais dores de cabeça.
— Talvez eu vá para Milão no final de semana. — contou durante o jantar.
— Vai viajar de novo? — Mabelle soou um pouco incomodada.
— Talvez. — Ela repetiu. — Ainda não me decidi.
— E vai fazer o que lá? — Continuou, encarando a filha e Yohan segurou o riso.
me convidou.
— Sinceramente, , eu acho que você deveria se dar o valor. — abriu a boca, completamente surpresa.
— Não foi você que tentou nos juntar tantas vezes que eu perdi as contas? — Sua voz ficou um pouco mais aguda e ela recebeu um olhar sério do pai.
— Sim, eu queria vocês juntos, mas como namorados. Eu não criei filha para ficar de casinho por aí. — Disse, voltando a comer.
— Ai, mãe… — negou com a cabeça. — Olha as coisas que você fala. Eu e o nos tornamos amigos e ele acabou de perder um dos melhores amigos.
Pela expressão no rosto de Mabelle, ela não tinha gostado da resposta de , mas não insistiu no assunto e terminaram de comer em silêncio. A mais nova retirou os pratos e começou a lavar a louça. Seus pais guardaram o restante da comida e foram para a sala como era de costume.
estava secando as mãos quando seu pai voltou para o cômodo.
— Foi um choque para o automobilismo. Como o está? — Yohan perguntou, verdadeiramente preocupado.
— Agora ele parece bem, parece ter encontrado uma forma saudável de lidar com tudo. Mas ele ficou muito mal no dia. — Acrescentou, lembrando-se da reação dele assim que ela entrou no quarto.
— Eu imagino. Eles participaram de algumas competições juntos no kartódromo. Ele era um bom garoto. — assentiu, em momento algum tinha ouvido algo ruim sobre Anthoine. — E você, filha? Como você está?
— Estou bem. — Ela deu de ombros.
— Se resolveram? — Tocou no assunto e ela o olhou por cima do ombro, procurando por Mabelle. — Sua mãe está cochilando no sofá.
— Não exatamente. É meio por isso que estou pensando em ir a Milão. — Contou a verdade. — Ele me chamou para conversarmos pessoalmente. Nós meio que ignoramos o que aconteceu e estamos sendo amigos, mas acho que realmente precisamos esclarecer tudo.
— Com certeza, coisas não ditas costumam dar trabalho no futuro. — Ele fez uma careta e riu. — Aproveite Monza por mim.
— Pode deixar, pai. — Ela o abraçou. — Se eu gostar de lá, iremos juntos no ano que vem. — Prometeu.
— Você vai adorar, Monza é velocidade pura.

🔸🔹

— Boa noite, posso ajudá-las? — Uma atendente se aproximou assim que entraram na loja escolhida por .
— Por enquanto vamos dar uma olhada e quando escolhermos nós te chamamos. — A vendedora assentiu e seguiu a amiga pelo lugar. — Já sabe o que vai levar? — perguntou.
— Provavelmente algo básico. — deu de ombros.
— Básico é chato, . — A médica fez uma careta.
— Eu sou básica. — riu.
— Mas não precisa ser. — Ela apontou para um manequim com uma lingerie vermelha. — Essa aqui está maravilhosa.
— Você sabe que não gosto de vermelho. — rolou os olhos. — Leve para você.
— Vou levar mesmo. Estou pensando em duas vermelhas, com bojo e sem… — Comentou, sozinha.
— Quantas você está pensando em levar? — a olhou quando ela fez um sinal para a vendedora se aproximar.
— Umas seis. — Deu de ombros. — Estamos planejando tirar o atraso e todo dia é dia. — riu e a vendedora tentou segurar o riso. — Estou errada? — Ela olhou para a vendedora, que negou prontamente.
— Ver você e o Leon assim de novo me traz uma paz de espírito. — exagerou.
— É ótimo mesmo. Combinamos de esperar um ano e meio e até nascer teremos dois anos só para nós. Cada um cedeu um pouquinho e eu amo ter meu marido de volta. E é por isso que vou experimentar essa preta aqui também. — Ela indicou mais uma e a vendedora pegou o modelo.
— E você? Não vai escolher nada? — A vendedora falou diretamente para que não tinha mostrado interesse por nenhuma peça.
— Vai sim. — respondeu por ela. — Por você, . Não precisa escolher para ele. — Considerou que ter pressionado a comprar algo para usar com tinha causado efeito oposto do que ela pretendia.
— Mas pode ser para os dois. — A vendedora disse, tentando se tornar próxima das duas. — Do que ele gosta? — Ela perguntou e segurou o riso, vendo ficando sem graça.
— Você fez a pergunta que eu tento descobrir há tempos! — A médica falou. — Mas ela é muito reservada e nunca fala sobre.
— Bobagem. — A vendedora abanou a mão. — Compartilhar experiências sempre torna tudo melhor. Pode acreditar em mim, trabalho aqui há anos.
— Sim, é a melhor coisa. Eu e meu marido somos super sinceros, acho que por isso fica cada vez melhor. Ele sabe que não adianta chegar com coisas com gosto, porque eu odeio o gosto que fica na língua depois e eu sei que ele fica louco quando estamos em algum lugar e do nada eu coloco minha calcinha no bolso dele.
— Nossa, é fácil enlouquecer um homem, não é? Meu marido nega até a morte, mas ele ama alguns brinquedos, algemas… — A vendedora apontou para a outra parte da loja, onde ficavam os outros produtos.
— Adoro. Não fica chato nunca. — concordou. — gosta de algemas, ? — A engenheira negou.
— Nem um brinquedinho? Nada? — A vendedora perguntou, desconfiada.
— As mãos dele são suficientes. — se deu por vencida, entrando no assunto. — Ágeis, fortes, precisas… — Um flash da primeira noite deles passou por sua cabeça, as mãos dele tinham causado uma impressão e tanto. — Ele sabe o que está fazendo. Sabe muito bem.
— Aquela marca no seu pescoço… — se lembrou do dia em que foram ao kartódromo e riu alto.
— Ele gosta, mas aquele dia foi realmente uma mordida. — Contou, ainda sorrindo. — Desde que ele descobriu que meu pescoço é um ponto fraco ele não perde oportunidade. E não é como se eu achasse ruim.
— Então ele é mais tradicional mesmo. — A vendedora opinou e concordou com um aceno.
— É, ele não parece gostar de experimentar coisas muito diferentes.
— Meu Deus, vocês são muito compatíveis até nisso. — estava surpresa.
— Eu te disse que não tinha nada demais.
— Ok, mas pelo menos uma lingerie nova esse moço merece. — A vendedora voltou a mostrar mais alguns modelos e acabou convencendo a experimentar.
Quase uma hora depois elas deixaram a loja, seguindo para a praça de alimentação do shopping. As duas rindo do quanto seus gostos eram diferentes. tinha comprado duas peças vermelhas, uma preta e outra rosa, e alguns outros itens que a vendedora tinha incentivado. E com muita insistência tinha convencido a levar três, preta, vinho e azul marinho, uma para cada dia que ela passasse em Milão.
não diria isso em voz alta, mas ela já tinha visto o olhar de desejo de outras vezes e imaginar como ele a olharia quando ela estivesse usando as lingeries recém compradas a deixou mais ansiosa ainda pelo final de semana.





Continua...



Nota da autora: Oi! Voltamos e com atualização dupla!
Espero que tenham gostado da forma que eu retratei essa perda para o . Deixando claro que é tudo fruto da minha imaginação, baseado no texto que o próprio escreveu sobre. (Caso alguém se interesse, só me pedir o link.)
Desde que pensei nessa história eu sabia que esse seria o capítulo mais difícil de escrever, porque queria honrar a história do Anthoine. Por isso eu optei por não focar no acidente em si, mas nos efeitos de sua partida.
E depois de cenas tristes precisamos de risos. Mabelle surpreendeu a vocês? Porque a mim, sim! Hahaha Talvez sejam os remédios...
Por último quero dedicar a cena com a para a Isis e a Belle (vocês sabem o motivo)!
Beijos e até o capítulo 22! 💙





Nota da beta: Vou separar minha notinha em duas partes kkkk.
Vamos aos acontecimentos do 20, nossa que aflição, meu Deus, foi tão linda essa cena dela encontrando-o, ai, Lari, você arrasa na delicadeza desse tipo de cena, estou aqui emocionadíssima! Quase chorei junto aqui com essa cena! Triste demais, você honrou muito bem, saiba disso!
Ahhhh, Lari, esse capítulo foi tudo, primeiro que a conversa do e da foi incrível, a forma como ele falou do amigo, deu um quentinho no coração, aliás, a aproximação deles foi maravilhosa também, estão muito conectados! E esse final? Gente, eu amo a e é isso hahahah!
Ansiosa pelo próximo!💙💙

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