Malavita

Última atualização: 30/01/2021

Prólogo

— Em uma outra vida, eu seria sua garota, se tivéssemos vidas comuns eu não precisaria te matar e meu irmão estaria vivo. Nós manteríamos todas as nossas promessas, seríamos nós contra o mundo. Em uma outra vida, eu não cumpriria a promessa feita à minha família.



Meu tronco elevou-se bruscamente do colchão; minhas últimas palavras dirigidas ao amor da minha vida, agora me assombravam. Minha face estava fria, banhada em lágrimas derramadas durante o sonho... Aquilo mal poderia ser chamado de sonho. Era uma penitência! As lembranças daquela noite me perseguiam. Era impossível esquecer! O som oco do tiro disparado contra o peito dele ainda me fazia ter pesadelos. Ainda me lembrava perfeitamente de cada detalhe ocorrido naquela noite, os sons de balas disparadas como plano de fundo da nossa discussão; o som do meu choro ao executar a sentença de morte a mim estabelecida...O brilho da vida extinguindo-se dos orbes castanhos dele e o sabor de seus lábios quando nos beijamos pela última vez...
Respirei fundo, buscando normalizar minha respiração. Conseguia ouvir meu coração em meus ouvidos, tal como o som da minha respiração. O quarto estava banhado em trevas, havia apenas as chamas da lareira trazendo um pouco de luz ao lugar. Era inverno, a Itália estava presa na temporada de nevascas. No entanto, o frio realmente não importava para mim. Estava igualmente fria por dentro, vazia, não passava de uma casca oca. Minhas mãos estavam banhadas em sangue, não me dei o trabalho de contar o número de minhas vítimas... Filha do mafioso Giuseppe Valença Espossito, assassina, ceifadora, Matrona! Havia ganhado alguns codinomes no submundo; embora não me importasse de fato com o que falassem sobre mim.
Resolvi me levantar da cama e sair daquela mansão; precisava sentir o ar gélido daquela madrugada, ao menos para sentir alguma coisa além da dor da perda. Não sentia nada além disso haviam três anos. Três longos anos passados sem retornar ao país em que iniciei minha vingança. Uma vingança vazia! Sem sentido! Como marionete, executei tudo o que a Famiglia ordenara. Segui fielmente à promessa feita ao meu papa... Para no fim ser traída!


Capítulo 1

O gosto amargo da traição, ainda banhava minha boca todas às vezes que encontrava meus familiares. Naquela maldita noite havia descoberto que Michèle estava vivo! Minha família havia me usado como um meio de expandir seu domínio. Tolamente usada para lhes dar mais poder. No final de tudo, quem havia perdido tudo fora eu: amigos, família, um amor e eu mesma. A gangue de Johnny Suh me acolhera como parte de sua família, eles não sabiam quem eu era e mesmo assim buscaram garantir que fosse bem recebida. Havia passado horas em missões ao lado de cada um, eu os conheci verdadeiramente e eles viram apenas a personagem que usei para alcançar Johnny. Eu os assassinei sem piedade, e os que havia deixado vivos, jamais me perdoariam! Suspirei vendo minha respiração sair como fumaça na escuridão de Florença. Estava caminhando havia horas pelas ruas de ladrilhos da cidade adormecida. Meu manto encobria minha figura, tornando-me irreconhecível. Haviam poucas almas andarilhas vagando pela cidade banhada na escuridão e neve. O frio da madrugada parecia não incomodá-las. Enquanto vagava sem rumo, ouvi um ruído quase inaudível, som esse provindo do beco a minha direita. Meus instintos me forçavam a recuar, no entanto minha curiosidade era maior. Balancei minha cabeça negativamente enquanto abria um meio sorriso.

“Era teimosa demais para seguir meus próprios instintos.”


Me aproximei lentamente, o som dos meus passos era abafado pela neve. Então, na escuridão surgiu o brilho de uma chama; era o isqueiro de alguém. A chama iluminou brevemente a face do indivíduo escondido nas sombras, fazendo então surgir uma vontade incomum de rir. Eu o conhecia bem! Como o conhecia! As nuvens deixaram a lua iluminar aquele beco, desse modo, obtive a visão de um corpo feminino imóvel aos pés da figura de preto, suas tatuagens em suas mãos estavam banhadas em sangue. Balancei a cabeça negativamente enquanto me aproximava dele.

— Você não devia estar aqui! — Sussurrei me abaixando para dar uma olhada em sua vítima.
— Negócios são negócios. — Ele comentou dando de ombros enquanto soltava a fumaça de seu cigarro.
— Me dê seu punhal, idiota! Se quer mandar um aviso, faça isso direito! — O repreendi. A vítima ainda possuía pulsação fraca, mas ainda sim permanecia viva.
— O que você vai fazer? — Ele comentou curioso, havia um fantasma de um sorriso em seus lábios carmesins.
— Salvar a sua pele! — Peguei o punhal dele e gravei a insígnia que raramente usava já que poucas eram às vezes que me envolvia nos negócios atualmente.

A lâmina deslizou pela pele da jovem, o grande M vertia o sangue manchando ainda mais a neve de escarlate. Empurrei o punhal contra o coração e então a retirei. Dos meus bolsos peguei um lenço, limpando despreocupadamente minhas mãos e o punhal, usado para ceifar de vez a vida daquela mulher. O entreguei a ele vendo ele rir baixo balançando negativamente a cabeça.

— Você é imprevisível, ! — Ele guardou o punhal em suas costas.
— Você deveria desaparecer, Giuseppe ainda quer sua cabeça. — Me recostei ao lado dele sentido um de seus braços me abraçar de lado.
— Não o chama mais de papa? — Ele soltou a sentença despreocupado.
— Ele perdeu esse direito ao meu usar como uma ferramenta para atingir seus objetivos pessoais. — Ergui minha cabeça encontrando o olhar dele sobre mim.
— Então a situação é mais séria do que eu imaginava. — Sua voz possuía pesar, embora buscasse escondê-lo.
— O porto estará sem vigilância durante o entardecer, use a rota que eu criei enquanto estava no comando. Martino te deixará passar. — Tombei minha cabeça em seus ombros após finalizar minha fala.
— Continuará inerte até quando, ? — Ele me questionou preocupado.
— Até o aniversário de morte dele. Após isso, todos pagarão pelo que me fizeram. — Minha voz saiu baixa e cuidadosa. Não queria que descobrissem meu plano.
— Será capaz de ir contra Michèle? — Ele me questionou com dúvida beirando sua fala.
— Ele não é mais meu irmão; deixou de ser ao me tornar um meio de conquistar seus objetivos aliado à Giuseppe. — Fechei os olhos por breves segundos, a dor da traição ainda me machucava.

Minha família era a base em que me mantinha; quando descobri o que foram capazes de fazer comigo para adquirirem poder... Tudo o que acreditei desmoronou, não passando de uma pilha de escombros; as velhas e doces lembranças, agora possuíam um gosto amargo. Atualmente vivia reclusa numa mansão em Florença, bem, assim eu os fazia pensar. Havia um novo plano traçado, uma nova motivação para minha vida vazia. Um novo objetivo.

— Seu coração não está preparado para isso, . — Ele pisou em seu cigarro o apagando com o solado de sua bota para então me abraçar, seu perfume era uma mistura de sândalo, algo amadeirado e nicotina. Suspirei apreciando o contato antes de o responder.
não está preparada, mas está!


Capítulo 2

Meu corpo não sentia arrepios, embora estivesse pisando novamente em território sul coreano. A Itália fora deixada mais uma vez para trás, usei a desculpa que seguiria por uma viagem sozinha com o objetivo de encontrar a mim mesma. Estava na hora de iniciar o plano. Meus homens de confiança sabiam o que precisavam fazer, havia os instruído durante esses três anos. Sem pressa, com cuidado fui montando minha armadilha; meu irmão até poderia estar de olho em mim, mas ele não sabia o que lhe aguardava! A dívida seria paga exatamente na mesma proporção em que fora criada. Seul dava indícios da primavera. Logo o calor reinaria e uma temperatura escaldante tomaria conta da cidade atualmente cinzenta. Respirei fundo ajeitando minhas madeixas ruivas; fora necessário realizar uma mudança no visual, em minha face estava uns óculos de descanso para completar. Minhas roupas habituais foram substituídas por um estilo mais fofo, a irritante boina azul clara era a prova disso. Quando olhei para o meu reflexo, fiquei perplexa; a mulher austera e inexpressiva dera lugar à uma jovem com um ar inocente e ingênuo.

havia chegado, Matrona tomaria seu lugar em breve! ”


Atravessei o saguão do aeroporto, após passar pelos seguranças fingindo estar perdida, os lacaios de meu irmão estavam por toda parte e pareciam vasculhar a multidão.

“ Previsível demais Michèle! ”


Adentrei o primeiro táxi que vi, tomando cuidado de tratar respeitosamente as pessoas ao meu redor. Somente usar aquela máscara de garota gentil me deixava com náuseas. Embora fosse realmente necessário! Meu irmão estaria atento a qualquer evento no submundo de Seul. Michèle não me conhecia! Eu o atacaria de surpresa. Seul era bela, no entanto precisava ir até Daegu. Agradeci ao motorista após ele me deixar em frente à propriedade Kwon. Me espreguicei e ajeitei os óculos tentando me acostumar com ele. Seria um acessório importante; busquei meu maço de cigarros dentro da bolsa enquanto seguia pela trilha que ligava o portão a entrada da casa. Ao adentrar o interior da casa, apaguei o cigarro. Deixei minhas malas ao lado dos meus sapatos; soltei o coque e segui diretamente para o porão. A entrada para o mesmo ficava abaixo da mesa de centro da sala. Tomei o cuidado com os degraus e coloquei minha mão sobre o leitor. Suspirei entediada enquanto a minha mão era escaneada; a porta de ferro fora aberta com um clique. Sorri ao avistar Bianco e Martino jogando cartas enquanto desfrutavam de uma garrafa de vinho, os charutos acesos, deixavam um perfume familiar no ar.

— Bona seratta, signora. — Martino levantou a taça em cumprimento.
— Bona seratta, mio caro. — Peguei sua taça me sentando em seu colo.
— Signora. — Bianco reconheceu minha presença mostrando suas cartas, ouvi Martino soltar palavrões enquanto Bianco tomava o maço de dinheiro sobre a mesa.
— Tudo está seguindo conforme solicitado, signora. — Martino se pronunciou tomando gentilmente a taça de minhas mãos após deixar as cartas de lado.
— Então pela manhã veremos os corpos sendo descobertos pela mídia. — Me levantei observando-os.
— Exatamente. — Bianco soltou a fumaça de seu charuto recostando-se em sua cadeira.
— Quantos sabem de minha chegada? — Indaguei sustentando o olhar de Martino; seus olhos exibiam um brilho curioso ao me avaliar.
— Ninguém além de nós dois, Matrona. — Martino deu de ombros tragando seu charuto tranquilamente.
. — O corrigi incisivamente. — Me chamem por , .
— Sí, signora . — Bianco piscou um olho antes de se levantar e deixar o recinto.
— Está bela, Dea mia. — Martino apagou seu charuto e se aproximou de mim.
— Está atrevido, Martino. — Segurei sua face deixando que ele me envolvesse em seus braços.

Martino era um homem de mais de 1,90 de altura; seus olhos eram de um verde-esmeralda e sua pele possuía um brilho oliva, seus cabelos eram de um tom profundo de castanho. O havia recrutado logo após a “morte” de Michèle. Ele vivia nas ruas de Los Angeles, lhe instrui em todos os estilos de lutas e como manusear todas as armas conhecidas. Martino era o subordinado mais fiel e leal que possuía; sua única signora era a minha pessoa. Por acaso o encontrei, no entanto, ele havia se tornado muito além do que esperava.
Os lábios de Martino me recepcionaram de modo sedutor, lentamente e gradativamente Martino progredia seus movimentos; testando-me até que tomasse o controle e o dominasse. Era assim que essa parte do nosso relacionamento funcionava. Era uma relação meramente carnal; seu ser me pertencia e ele sabia disso.

— Faça meu tempo valer a pena.
— Com todo prazer, Dea mia.


Capítulo 3

Os corpos estavam espalhados por todos os cantos do país; era uma lista de mortos dos membros de organizações criminosas. Não havia um padrão específico em suas mortes, porém em cada um dos corpos havia a letra escarlate gravada. Anos haviam se passado sem a presença dela; Matrona! Uma mulher única capaz de realizar atos insanos sem pensar duas vezes, tal como Jiyong.
Kwon Jiyong estava deitado preguiçosamente no sofá, jogando para o alto seu punhal, parecia estar perdido em pensamentos. Dong Young Bae estava irritado, seus olhos iam da tela de seu notebook para seu telefone; o qual não cessava um segundo de tocar. Meus olhos analisavam as imagens das vítimas de Matrona. Todos os mortos possuíam hematomas em seus pulsos e tornozelos; indicando que estavam em cárcere antes de morrerem. Algo me incomodava com a volta dessa mulher; não sabia dizer exatamente o que era, no entanto, meu instinto me fazia ficar inquieto.

— Choi Seunghyun, o que eu digo a esses velhos do departamento de polícia? — Young Bae se pronunciou quebrando o silêncio.
— Nada, deixe eles resolverem o caso. — Ergui meus olhos por breves segundos, apenas para voltá-los novamente para as imagens.
— Então é isso que você tinha em mente. — Jiyong sussurrou com os olhos desfocados.
— Ao que está se referindo, Jiyong ? — Indaguei levemente intrigado.
— Nada importante. — Ele então guardou seu punhal em suas costas se levantando. — Estava pensando alto apenas. — Jiyong retirou um baseado de seu bolso.
— Fique com o meu telefone. — Young Bae deixou o aparelho irritante ao lado das fotos em minha mesa. — Faça o que quiser com ele, mas mantenha essa merda longe de mim!

Com isso ele partiu, me fazendo rir de sua atitude; Taeyang era o meu braço direito, portanto tinha de lidar com a parte burocrática dos negócios. Seu trabalho envolvia em manter os acordos, com políticos e a polícia, intactos. Me espreguicei em minha cadeira desligando o aparelho irritante. Jiyong parecia estar aéreo. Ele era o cachorro louco da organização que eu comandava. Ele era completamente insano, frio e letal; seus instintos para matar eram os mais afiados que já havia visto.

— Você está assustadoramente quieto, GD. — Comentei após o analisá-lo por um tempo.
— A forma que esses caras foram encontrados, me deixou curioso. — Ele soltou a fumaça pelo nariz enquanto sustentava meu olhar.
— Isso não explica seu comportamento incomum, G-Dragon. — Retruquei o instigando.
— Estou há semanas sem fazer nada, bastardo, é claro que ficaria agitado ao ter tantas mortes realizadas por um fantasma do passado. — Ele me respondeu de forma sarcástica, seus olhos expressavam insaturação.
— Sua costela fora fraturada quando saltou de um prédio da última vez. — Rolei os olhos diante tal refutação.
— Nada fora do comum. — Ele deu de ombros.
— Se está tão agitado quanto a essas mortes, realize a limpeza da área oeste do nosso território. Aqueles vermes da China estão tentando ganhar algum espaço no meu território. — G-Dragon me olhou de forma animada, sua boca exibiu um sorriso relaxado enquanto vinha em minha direção.
— E é por isso que você é o melhor, Choi! — Ele me abraçou dramaticamente antes de me deixar sozinho na ampla sala.

Acabei por rir do ato exagerado dele, Jiyong e Young Bae eram os únicos em que confiava; haviam deixado há muito tempo de serem apenas meus subordinados, haviam passado a serem meus irmãos. Jiyong usava o codinome G-Dragon para enterrar seu antigo eu; já Young Bae usava Taeyeng para manter sua família em segurança. Ambos haviam enfrentado o pior lado da humanidade; conheciam a crueldade humana como ninguém e na Kytheng eles poderiam recomeçar. Ao contrário deles, havia nascido numa das mais importantes famílias do país. Porém, como toda a nata da sociedade, a minha escondia segredos sujos; o que me levou ao submundo de Seul. Inicialmente fui tratado como apenas um subordinado, ao longo do tempo, com esquemas e estratégias, consegui chegar ao cargo de líder.
Matrona não chegara a ser uma vilã em minha história, de alguma forma incomum me auxiliara nas sombras à tomar territórios; nunca chegara a vê-la pessoalmente, no entanto, havia encarado mais de uma vez seus lacaios. Ela era mais uma aliada do que inimiga; porém seu retorno me deixou agitado, visto que seu antigo território fora tomado por Michèle Espossito. Hoje em dia ele era o meu principal rival, seu pai era um mafioso conhecido e temido no mundo inteiro; porém havia algo que os impedia de buscar aniquilar a Kytheng.

— O que você deseja depois de tanto tempo, Matrona?


Capítulo 4

Havia acompanhado meu irmão tentar me encontrar. A mensagem havia sido clara, ele poderia ter me usado para conquistar o país sul coreano; porém eu não era sua aliada. Uma verdadeira família não faria o que eles fizeram comigo. Meus subordinados permaneciam camuflados entre os homens de Michèle. Meu pai estava atrás de mim também após causar uma comoção no país.
A mídia levava a notícia de um serial killer que assassinava homens, exibindo apenas o M gravado nas “vítimas”. Quando na verdade aquela era uma mensagem direta à minha Famiglia. Os homens assassinados eram exclusivamente peões de Michèle. A morte deles era para lembrá-lo que não se sai impune após trair sua família.

— O que te afliges, signora? — Bianco me questionou enquanto recolhia minha refeição intacta. Não havia conseguido comer coisa alguma.
— Estou apenas sendo cuidadosa, Bianco; estou apenas verificando se devo ou não colocar o próximo passo em ação. — Virei minha face para encará-lo.
— Devo preparar suas malas, signora ? — Martino surgiu de repente na sala de jantar.
— Quero que limpe o porão; vamos enterrar em cinzas esse lugar. — Me levantei seguindo para fora do recinto.
— Isso levará uma semana. — Martino me seguiu.
— Não tenho o luxo de perder tempo, Martino. — Parei abruptamente e me virei para ele o empurrando contra a parede. — Eu não vou perder mais nada. Capiche?
— Entendido. — Ele segurou gentilmente minhas mãos e as levou até seus lábios. — Você tem a minha palavra até o meu último suspiro.
— Assim eu espero. — Me afastei lhe dando as costas.

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O carro se movia de modo livre pelas ruas de Seul; o tráfego durante a madrugada era quase nulo. As luzes dos postes iluminavam o percurso, embora estar trafegando por aquelas ruas me trouxesse memórias do passado; buscava me manter presa no presente. Minha pele ansiava por um toque que não poderia ter, meu coração apertava-se diante a saudade. Estar de volta era sufocante. O pior era o motivo que me levara até ali.

Vingança


Suspirei, minha vida era vazia e realmente inútil. Havia desenvolvido minhas habilidades para aniquilar organizações inteiras; seduzir, enganar, trair... Eram inúteis! No final de tudo estava cercada por coisas supérfluas, porém meu interior estava morto.
Bianco dirigia o carro com um semblante calmo, depois de Martino, ele era o segundo homem em que mais confiava. Bem, eu os nomeava assim, embora os mantivesse sobre constante controle. No final de tudo, depois da traição vinda da minha família, não conseguia depositar minha confiança em mais ninguém.

— Algo de errado, signora ? — Bianco quebrou o silêncio.
— Pelo o que posso ver, se acostumou rapidamente ao meu novo nome. — Comentei com meu olhar fixo no horizonte.
— Ele combina com você, signora. — Sua sinceridade me pegou desprevenida.
— Não o vejo ser tão atencioso como agora, aconteceu alguma coisa? — Indaguei me virando para ele.
— Martino e eu temos visto todas as suas nuances durante os anos que trabalhamos para você, signora. Sabemos e entendemos as suas palavras não ditas. — Bianco estacionou o carro antes de prosseguir. — Esses últimos três anos foram os piores que tivemos de suportar; não havia nada que pudéssemos fazer para ajudá-la.
— Scusa. — Fechei os olhos por alguns minutos me permitindo sentir aquele cuidado vindo de um lugar inesperado. — É realmente maravilhoso ter subordinados tão atenciosos.
— Sei que somos apenas isso, mas ambos, Martino e eu, a amamos, signora e devotamos a nossa lealdade somente a você. — Bianco se pronunciou seriamente, cada palavra fora dita sem desviar por um momento os olhos dos meus.
— Não me decepcionem. — O respondi afagando gentilmente a face de Bianco.

Em uma fração de segundos, enquanto observava o semblante de Bianco suavizar-se e ele fechar os olhos, senti algo passar de raspão pelo meu antebraço, ao dirigir meu olhar para a fonte, encontrei um homem segurando um rifle de longo alcance. Puxei Bianco para baixo enquanto ligava o carro novamente. O motor soou alto naquela madrugada enquanto mais tiros atravessavam as janelas, Bianco tentava pilotar sem se colocar em risco. As doses de adrenalina em meu sangue me mantinham com a mente fria enquanto visualizava detalhes importantes da fonte dos disparos.

— Onde quer que esteja, quem quer que seja, eu o matarei com as minhas próprias mãos!


Capítulo 5

Havia tratado dos ferimentos de Bianco após chegarmos ao meu novo esconderijo. Mantinha minha casa no subsolo; era próxima das principais linhas de metrô e haviam lojas de conveniência por toda parte. O sistema de segurança do bairro era uma vantagem, já que conseguia monitorar toda a área dentro do meu novo lar. As instalações ficavam abaixo de escombros de uma casa, os cacos de vidro haviam apenas deixado alguns poucos arranhões em Bianco, enquanto a mim restara apenas a marca de raspão que a bala me deixara. Seria mais uma das inúmeras cicatrizes que haviam em meu corpo.

— Irei monitorar as câmeras. — Bianco se levantou com o semblante inexpressivo.
— O ocorrido não fora culpa sua. — Me levantei parando a frente de Bianco.
— Meu dever é garantir que nada lhe ocorra, signora. — Bianco me deu um olhar ferido.
— Toda a Famiglia está me caçando agora, Bianco, algo assim será parte da rotina. — Indiquei para ele se abaixar um pouco, tal como Martino, Bianco era estruturalmente alto e largo. Os dois eram rápidos e ágeis apesar da quantidade de músculos.— Não se culpe por algo que não consegue controlar. — Lhe dei um beijo em sua bochecha e o abracei sentindo ele me erguer.
— Não suporto vê-la sangrar. — A voz de Bianco soou extremamente frágil em meu ouvido, seus braços me cercavam com acalento e cuidado.
— Eu mal me machuquei, ragazzo. — Sussurrei depositando um beijo em seu maxilar.
— Martino irá me dar um gancho de esquerda quando ver seu braço. — Bianco riu enquanto me colocava no chão novamente.
— Eu não tenho dúvidas. — Acabei rindo enquanto o via balançar a cabeça negativamente.
— Por que eu faria isso? — Martino surgiu com a roupa com um odor forte de fumaça.
— Você precisa de um banho mio, amico. — Bianco esquivou-se da pergunta.
— A casa virou apenas uma pilha de cinzas, deixei apenas a carcaça do carro usado por vocês e mais um corpo perto dele. — Martino reportou estralando seu pescoço durante o processo.
— Você precisa de um banho e descanso, mio caro, já você, Bianco, monitorará as câmeras. — Ordenei indicando os afazeres.
— Minha pergunta não fora respondida. — Martino insistiu e acabou bocejando ao finalizar sua frase.
— Você ouviu a conversa toda, mio caro, quem está tentando enganar? — Revirei os olhos antes de passar por ele.
— Dea mia...— Martino segurou meu pulso com delicadeza enquanto me observava, com apenas um olhar o interrompi.
— Não esqueça a qual lugar você pertence, mio caro. — Minha voz adquiriu seriedade enquanto soltava o meu pulso das mãos dele. — Não esqueçam que embora os trate bem, eu sou a chefe de vocês.

Com isso parti tomando o caminho que me levaria até a superfície, o sol havia trilhado seu caminho até o amanhecer. Toda a vizinhança estava despertando, minhas roupas mal me aqueciam. Não entendia como muitas mulheres se submetiam ao usar trajes apenas para serem desejáveis. Suspirei e então tomei a direção da estação de metrô. Seria um dia longo, e precisava entrar em contato com uma pessoa específica. Ele odiaria me ver sem que o avisasse.

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As ruas de Gangnam estavam abarrotadas de pessoas, nas calçadas haviam casais, grupos de jovens, senhores, as lojas possuíam vitrines atraentes e requintadas; a cada esquina havia uma cafeteria diferente e elegante que atendesse o gosto de qualquer cliente; em meio à essa confusão, meus olhos treinados, encontravam os lacaios de meu irmão. Como leões à espreita da caça vasculhavam as faces com a finalidade de me encontrar; no entanto quando seus olhos recaíam sobre mim, eles não demoravam mais que breves segundos, o novo visual estava tendo sua funcionalidade. Meus olhos tomavam o cuidado de permanecerem baixos enquanto fingia mexer em meu celular, de forma a não atrair qualquer atenção indesejada. Estava caminhando tranquilamente quando senti uma espécie de pancada, havia esbarrado em alguém; o breve encontrão havia roubado meu fôlego. O esbarrão havia feito os aparelhos eletrônicos de ambos caíram com um baque no chão. Automaticamente pedi desculpas em um tom de voz inocente, meus olhos captaram a proteção de tela do outro aparelho e tenho certeza que hesitei em erguer minha face tamanha a surpresa. A pessoa que havia esbarrado era o líder da organização que ajudara em segredo anos atrás. Com um sorriso forçado e com o olhar baixo reforcei meu pedido de desculpas. Choi Seunghyun. Seus olhos me avaliaram com cautela dos pés à cabeça, sua risada diante minha vergonha (minha atuação), me deixou com os nós dos dedos coçando para socar aquela boca. No entanto, permaneci com a face mascarada. Ele nunca havia visto a face de Matrona.

— Deveria ter mais atenção por onde anda, senhorita. — A voz de Taeyang fez com que eu recobrasse minha atenção para a realidade e esquecesse o impulso de socar Seunghyun.
— Scusa, eu estou apenas viajando e as coisas são um pouco confusas...— Ergui meus olhos para Taeyang. Seu semblante havia ficado mais severo desde a última vez que o vira. Zara, eu realmente tinha outra identidade quando o contatei.
— Não seja tão rude, Taeyang! — Seunghyun lhe direcionou um olhar pouco amigável antes de se dirigir a mim. — Vejo que está perdida, em que posso ajudá-la?

A situação era um pouco problemática, Martino e Bianco deveriam estar me procurando e Michèle não poderia descobrir minha aproximação repentina. Havia alguém que desejava ver e por conta do meu encontro com Choi, teria de adiar. Contive um suspiro e busquei uma saída provável que um turista estaria atrás.

— Uma cafeteria muito famosa...— Sustentei o olhar dele buscando transmitir confiança, Seunghyun possuía instintos afiados; não poderia deixar ele me ler facilmente. — Mas eu realmente não consigo entender direito a escrita...

Meus olhos se voltaram para baixo enquanto titubeava meus dedos em meus lábios de forma a aparentar que estava perdida. Eu sabia que era alvo dos olhares curiosos, me sentia exposta.

— Posso te acompanhar, se quiser. — Taeyang ofertou me testando.
— Sério? — Coloquei uma expressão surpresa em minha face. — Isso seria incrível!
— Eu faço isso. — Choi se pronunciou de modo a barrar qualquer recusa. — Encontre G-Dragon e limpem a área.

Embora estivesse acostumada com a realidade do submundo, o modo impassível das ordens sempre me deixava incomodada. Fazia exatamente uma semana que havia visitado o túmulo de Johnny... Andar por aquelas ruas e não encontrá-lo, despertar todas as manhãs e não vê-lo, estava me torturando. Minha mente por vezes me pregava peças ao ponto de ver sua figura. Estar perto de Choi apenas me recordava de Johnny...

— Eu terei de recusar a ajuda. — Me permiti falar com a voz um pouco embargada antes de me afastar as pressas.

O encontro repentino, com o líder de umas das maiores organizações da Coréia do Sul, forçava lembranças indesejadas à superfície. Estava em conflito; minha personagem não estava preparada para lembranças indesejadas, uma variável imprevista havia causado toda aquela intempérie, ao ponto de me fazer correr como nunca; meus pulmões lutavam por ar enquanto minhas pernas ardiam diante o esforço, corria como se toda Famiglia estivesse atrás de mim naquele momento.
A realidade parecia apenas um borrão enquanto me forçava a me afastar do passado, a ideia de estar de volta me parecia errada.

“Estar viva parecia um crime.”

Então, de repente, de modo abrupto, estaquei, minha corrida havia cessado e naquele momento estava exatamente no meio da rua. O sinal a minha frente indicava que o tempo para a passagem dos pedestres estava se esgotando, isso me parecia quase um sinal, algo que remetesse diretamente ao meu tempo de vida; fechei os olhos esperando o momento em que os carros acelerariam.
O que acabou por não acontecer pois meu corpo foi bruscamente lançado para frente. Abri os olhos lentamente, minha visão estava embaçada e minha mente parecia não acompanhar meu corpo.

— Eu não quero viver sem você...

Como um abraço, a inconsciência me envolveu, o frescor da primavera não fora sentido e tudo o que podia ver era o sorriso de meu amado.


Capítulo 6

A fragilidade daquelas palavras me envolvera como um feitiço; havia algo incomum na figura feminina adormecida em meus braços. Em um instante estava desnorteada, sem compreender qual caminho seguir para atingir o seu objetivo; em outro corria como se sua vida estivesse em risco, ela possuía passadas longas e era rápida me forçando muito mais que esperava para alcançá-la. Para então ela abruptamente parar de correr me forçando a parar de modo desajeitado; seu semblante exibia a confusão de sentimentos que a tomava, causando-me certa preocupação. Um sentimento tão incomum, porém, fora despertado por uma intrigante mulher; ela simplesmente desistira e ficara paralisada apenas esperando o sinal abrir...

Ela estava quebrada!


Embora sua aparência externa contradissesse minha análise, eu possuía a plena certeza desse fato, sua aparência era uma camuflagem para o que estava acontecendo dentro dela mesma; as cicatrizes internas daquela mulher eram mais profundas e inesperadas do que eu esperava. Taeyang dirigiu para a sede, embora me questionasse pelo olhar sobre a decisão que estava tomando. A mulher em meus braços era uma completa desconhecida, sua origem era incerta, ela sabia pronunciar o coreano tão bem quanto as poucas palavras italianas que deixaram escapar... Não era difícil de encontrar estrangeiros em Seul, ainda menos comum encontrar turistas, porém ela simplesmente evitara nossa ajuda e correra desesperadamente. A manteria sobre meus olhos até que tivesse a certeza que era apenas uma turista, meus instintos nunca falhavam e eles estavam em alerta somente de pôr os olhos sobre ela; aquela mulher era um enigma a ser decifrado!
O trajeto até minha base fora feito sem qualquer surpresa, a desconhecida ainda permanecia desacordada. Assim que chegamos no QG, Taeyang abriu a porta do carro me julgando com o olhar, seu olhar dizia que não estava de acordo com minha decisão, assim como eu, ele notara algo incomum nela. Ele estava certo em partes, não havia qualquer garantia que isso poderia ser uma armadilha ou poderia arranjar problemas com as gangues rivais... Ainda mais com a máfia italiana em solo sul-coreano. Os últimos andares do prédio serviam como minha residência. Era mais seguro e fácil de resolver qualquer problema desse modo; ao passar pelo hall de entrada, Kwon Jiyong se engasgou assim que nos viu, ele estava sentado sobre as banquetas da cozinha enquanto tomava whisky.

— Resolveram adotar uma mascote? — Ele questionou após se recuperar da crise de tosse gerada pela nossa convidada incomum.
— Ele parece não me ouvir. — Taeyang resolveu mostrar sua insatisfação no instante em que adentrou a residência.
— Ela tentou se matar. — Me pronunciei após repousar a desconhecida no sofá, a aparência dela me trazia certa familiaridade, a cobri com a colcha que estava dobrada aos pés do sofá.
— E desde quando você virou um maldito super-herói? — Taeyang questionou enquanto GD buscava esconder seu outro ataque de tosse.
— Vocês dois não deveriam estar aqui, bastardos inúteis! Aquelas moscas irritantes dos lacaios de Michèle estão tomando nosso território. Cuidem deles ou terei eu mesmo que me livrar sozinho deles? —Retruquei tomando a garrafa deles e acendendo um cigarro no processo.
— E você espera que deixemos vocês dois sozinhos? — GD me deu um olhar nada amigável, a seriedade dele fugia do comum.
— Eu não bancarei a babá, Daesung retornará hoje. — Dei de ombros enquanto seguia até a sacada. — Aniquilem aqueles ratos do Espossito.
— Sem restrições? — GD questionou sério.
— Sem qualquer restrição. — Reafirmei vendo um brilho doentio surgir nas lumes castanhas dele.
— Fique Dong Young-Bae. Eu posso resolver isso sozinho. — G-Dragon se portou de forma firme e resoluta, havia um toque sombrio em sua voz.
— Você não pode vencer todos, seu cachorro louco de merda! — Taeyang zombou enquanto empurrava de modo brincalhão GD.
— Esses bastardos, eu faço questão de matá-los sozinho! — G-Dragon me encarou de forma fria e seriamente me falou. — Não ouse abusar dela, temos algo desconhecido nessa sala, e você sabe muito bem que essa mulher não é uma das suas cadelas.
— Eu não faria isso, Kwon. — Me aproximei dele parando a poucos metros dele. — Você pode ser o cachorro louco, nosso exterminador, o homem designado para o trabalho sujo, mas não pense por um único segundo que não o executaria sem pensar duas vezes. Nada é insubstituível. — Soltei a fumaça de meu cigarro enquanto falava calmamente.
— Nada é insubstituível. — G-Dragon devolveu a sentença antes de sair, a mensagem que ele buscava transmitir era diferente da que eu lhe passava; eram as mesmas três palavras mas representavam algo completamente diferente para ambos.

Taeyang me encarou de modo suspeito, seus olhos iam da figura feminina desacordada para mim; sua postura estava rígida, como esperasse um ataque.

— Eu não farei nada a ela, Dong Young-Bae. — Revirei os olhos enquanto me servia de um pouco de whisky. — Embora Kwon tenha tocado nesse tópico, são apenas rumores; odeio abusadores mais que qualquer outra coisa. — Cuspi as palavras enquanto jogava o copo num canto qualquer.
— Seu pai era um bastardo de merda, Choi Seunghyun. — Taeyang deu de ombros seguindo em direção ao elevador. Provavelmente seguiria para seu escritório. — Não toque nela.
— Eu não o farei! — Revirei os olhos.

Me aproximei do sofá, me sentando no chão de modo a ficar frente a figura desacordada, havia uma distância considerável entre nós. Aquela mulher de fato despertava o instinto de protegê-la. Havia muitas perguntas sobre a origem dela embora desconfiasse que ela estivesse envolvida com algo incomum.

— Preciso que acorde, senhorita... Preciso de respostas e não sou nem um pouco paciente!


Capítulo 7

Era inverno, a paisagem estava imersa em um oceano branco, a neve recobria absolutamente tudo. O calor que emanava da lareira assemelhava-se ao calor do corpo de Johnny; horas atrás havíamos nos amado até que nossos corpos estivessem exaustos, do ato, havia nos restado apenas as marcas, em suas costas estavam gravadas as minhas unhas em tortuosos caminhos até o final delas. As imensas janelas permitiam que eu pudesse observar o espetáculo silencioso, a lenta dança dos flocos que caíam eram um espetáculo silencioso, muitos caíam sobre a janela e derretiam em seu percurso até o chão. Sob a luz das chamas tremulantes, Johnny dormia serenamente, seu peito subia e descia numa respiração calma e tranquila evidenciando seu sono profundo.
Aquela noite fora maravilhosa, ela possuía um teor mais sério e íntimo, palavras que não deveriam ser expressas em voz alta foram evidenciadas em ações, meu coração latejava como o final previsto dessa relação era trágico. Meu pai estava me cobrando em relação as ações efetivas de aniquilar todos os Suh; haviam semanas que me ligava para saber a respeito do que fazia para cumprir minha missão ali, até que simplesmente lhe mandei apenas uma mensagem: antes que o inverno chegasse ao fim ele teria a morte do último Suh.
No entanto, mesmo com a mensagem dada ao meu progenitor, eu não conseguia ceifar a vida de Johnny, não quando ele sabia me amar tão sinceramente, não enquanto eu permanecesse vendo seu olhar verdadeiro de afeto, carinho, amor... Havia caído em minha própria armadilha. De seduzir à seduzida! De caçadora à caça... Estava indefesa, rendida, completamente desarmada quando aqueles olhos castanhos me davam o mais sincero olhar...

— Por que eu tinha de amar você?

Minha voz soou incrivelmente frágil no silêncio daquela madrugada, grossas lágrimas deslizavam por minha face gélida. A temperatura do lado de fora parecia ser a mesma em meu interior. Como se me escutasse, Johnny despertou, ele me deu um olhar afetuoso e um sorriso mole devido ao sono; no entanto, conforme se aproximava, seu corpo e expressão pareciam mudar chegando ao ponto de aparentar estar em decomposição.

— Essa pergunta eu quem deveria a estar fazendo. Você foi minha ruína, !


Despertei sentindo minha face molhada, o horto causado pelo sonho reverberava por todas as células do meu corpo, meu coração estava descompassado assim como a minha respiração. Busquei me concentrar em identificar o local em que estava de modo a tranquilizar-me. Meus olhos sondaram o ambiente absorvendo o máximo de informações possíveis, a mobília que me cercava possuía um aspecto era impessoal, tons neutros e não havia qualquer adereço que desse indícios sobre a quem aquele quarto pertencesse ou se ele mesmo fosse usado.
Me sentei com dificuldades sobre o colchão, meus músculos estavam rígidos e meu coração ainda estava acelerado pelo pesadelo de horas atrás, o caráter realístico dele me desestabilizara muito além do que imaginava. Enquanto buscava me situar naquele ambiente, tal como ocorrera em Florença, o relampejo das chamas de um isqueiro iluminou uma figura encoberta pelas sombras do quarto.

— Você deveria ter cuidado com o seu retorno, ! — Kwon Jiyong surgiu sobre a fraca luz do luar que adentrava pelas frestas das cortinas enquanto se aproximava lentamente da cama.
! — O corrigi olhando a minha volta. — Me chame por . — Insisti enquanto me apoiava sobre o encosto da cabeceira.
— Como raios, dentre tantas pessoas que poderia encontrar na cidade, teve de encontrar logo Seunghyun? — Ele indagou se sentando-se ao meu lado, me envolvendo em um abraço lateral, suas longas pernas esticaram-se sobre os cobertores, suas botas pesadas lhe davam um ar de encrenqueiro.
— As piadas sem graça do destino, irmãozinho. — O respondi sem pensar muito a respeito do ocorrido, pousei minha cabeça em seu ombro me sentindo extremamente cansada.
— Tome cuidado com ele, ; TOP pode ser mais cruel que Giuseppe. — Kwon Jiyong se levantou após me dar um beijo no topo dos meus cabelos, ele não poderia abusar da sorte, qualquer um poderia adentrar o quarto revelando um de seus segredos mais secretos.
— Eu sei me cuidar, fratello. — Sorri de modo triste enquanto encarava-o de modo sincero.
— Eu sei que ainda não superou a morte de Johnny, então evite gritar o nome dele; e, por favor, tome cuidado. — Kwon reforçou antes de sair, indicando que esteve me vigiando durante todo o período em que estivera desacordada.

Concluí que deixara escapar o nome de Johnny enquanto estivera envolta do pesadelo; durante o período que Kwon deixara o quarto, consegui normalizar minha respiração, tornando-a mais calma assim como meus batimentos. Estava com mais de um problema pendente, mas isso não chegava a me incomodar de fato, o foco estava em como ludibriaria a mente afiada de Choi, ele possuía um senso afiado tendo poucas ou quase nenhuma situação fora do seu controle.
O incômodo se dava apenas pelo pesadelo unir a realidade de uma lembrança a algo macabro. O odor pungente de carne putrefata fora realista demais assim como a face de Johnny decompondo diante meus olhos; o horror que me tomava, ao concluir que aquela imagem dele em meu pesadelo deveria ser a qual ele possuía já que estava morto fazia três anos...

— Eu me sinto vazia, Johnny...

Sussurrei encarando o vazio, lágrimas banhavam minha face em um pedido mudo de socorro; não havia qualquer outra pessoa para culpar o crescente vazio dentro de mim. Fora usada como um mero peão num jogo controlado pelo meu papa? Sí! Sem sombra de dúvidas; porém eu tive a escolha de apertar ou não o gatilho da arma que ceifara a vida de Johnny. Os olhos dele até o último instante, permaneceram fixos em mim sem qualquer julgamento, não havia ódio, raiva... Havia apenas amor. Até seu último suspiro ele me amou.
Com pesar, deixei que o choro saísse sem qualquer restrição. A saudade era esmagadoramente sufocante, não havia superado a perda e dificilmente iria, com a morte dele havia perdido tudo o que acreditava, havia desmoronado e não havia restado nada além de cinzas... Valença Espossito era um fantasma, uma identidade tão fugaz como um desenho na areia... O tempo não aliviava ou curava as feridas; não quando as cicatrizes eram profundas demais para isso.

— Eu não sei quem sou mais...


Capítulo 8

Estava perdida em minhas próprias emoções, sendo tragada para o abismo de conflitos complexos e envolvida em lembranças agridoces do passado; ao ponto de não notar a maçaneta se mexer e a porta abrir.

— Ela está chorando, seus imbecis! — A voz de Choi reverberou pelo ambiente me causando surpresa, acabei pulando no colchão tamanho o susto pela invasão repentina.
— Eles não são a droga da babá dela! — A voz de Dong Young-Bae retrucou em um tom desgostoso seus olhos me analisavam em desconfiança e curiosidade.

Me sentei de forma ereta na cama enquanto secava minha face, meu turbilhão de emoções seria enterrado o mais profundo dentro de mim. Encarei de forma firme os homens que tomavam a entrada do recinto, após me deixar o máximo que conseguia de apresentável.
Daesung, Taeyang e TOP, me observavam receosos; logo atrás deles estavam um grupo de homens de preto, não estavam armados, mas tinha a certeza que eles eram os guardas daquele lugar. Jiyong havia partido há algum tempo, me perguntava se ele havia adentrado o recinto sem ser visto ou com a permissão de seu chefe; embora duvidasse que fosse esse o caso.

— Não precisa ter medo de nós. — Daesung resolveu se aproximar lentamente sentando-se na beirada do colchão.
— Mas parece que é vocês que estão com medo de mim. — Arqueei a sobrancelha após indicar os guardas logo atrás deles, meu tom havia saído mais ríspido do que previra.
— Mera formalidade! — Taeyang deu de ombros indicando para os homens se afastarem e nos deixarem sozinhos, embora tivesse captado o sinal lhes dado para que ficassem em alerta; Taeyang havia me visto uma vez como Matrona, no entanto aquela mulher diferia muito de mim em meu estado atual.
— Do que fugia? — TOP indagou de forma direta, sentando-se na poltrona em frente a cama, seu tom de voz estava livre de qualquer emoção enquanto buscava tirar quaisquer informações sobre mim com seus olhos afiados.
— Passado. — O respondi tranquilamente, minha voz ainda estava rouca devido ao choro de minutos atrás, não fugi de seu olhar, o sustentei de modo que ele tivesse de desviar seus olhos dos meus.
— Não se pode fugir do passado. — Ele revirou os olhos disfarçando o amargor de suas palavras, antes de retirar o maço de cigarros de seu paletó, TOP então acendeu seu cigarro ficando em silêncio, quase me desafiando a lhe contradizer.
— Não, não há como, mas concertar erros sim. — Acabei soando nostálgica, lhe dando uma abertura indesejada, minha mente ainda estava presa ao fatídico dia em que havia ceifado a vida de Johnny.
— Deve estar se perguntando quem somos... — Taeyang se pronunciou buscando interromper nosso embate silencioso.
— Não, estou me perguntando apenas porque estou sob a custódia de vocês. — Minha voz soava assustadoramente calma, assim como el,a minha postura revelava tranquilidade embora meus instintos estivessem em alerta.
— Você é demasiadamente suspeita, senhorita... — TOP levantou-se elegantemente da poltrona enquanto deixava a fumaça de seu cigarro escapar entre seus lábios, seus olhos estavam novamente fixos nos meus.
— Você não está exagerando TOP? — Daesung questionou se levantando por reflexo, era como ele estivesse em sintonia com ele.
— O sotaque dela desapareceu Dae. — Taeyang interrompeu o amigo segurando meu queixo num aperto mediano, seu movimento me pegou de surpresa. — Você é muito mais do que está deixando transparecer. — Seus olhos perscrutavam minha face como se pudesse ter as respostas que buscava.

Soltei-me de seu aperto enquanto ria, a surpresa causada pelo meu riso era exibida em seus orbes; me descobri enquanto me espreguiçava languidamente, a mudança drástica que meu humor havia sofrido me deixava animada e o clima havia ficado tenso após minha atitude. Quando havia os encontrado, estava deprimida pelo luto, então minha atitude fora ficar em alerta quando os três adentraram o recinto, então acabara me divertindo ao virar o alvo de desconfiança; não importava o quanto fugisse, era a filha de um mafioso e estava na hora de me portar como tal.
Os olhares intrigados dos três eram o que mais me divertia, me levantei pelo outro lado da cama tomando distância deles. TOP me observava esperando meu próximo movimento com um interesse assustador, enquanto Taeyang e Daesung permaneciam com as mãos descansando em suas armas; balancei a cabeça negativamente.

“Por quê tão previsíveis?!”


Parei diante as pesadas cortinas, as afastei com um único movimento me permitindo ter a visão da cidade, abri a janela me permitindo apreciar o frescor da primavera. O verão logo chegaria e com ele minha retaliação final. Esta noite seriam destruídos os armazéns nos portos e algumas casas que Michèle usava para realizar negociações. Os políticos aliados a ele morreriam em alguns dias, assim como alguns de seus clientes. Causaria a desordem gradativa e a desconfiança dentro da própria organização, destruiria a máfia de dentro para fora, alguns de seus cães leais seriam mortos.

— Vocês não me compreenderiam... — Me virei de frente para os três; seus olhares exibiam curiosidade, havia passado alguns minutos em silêncio o que os deixara confusos. — Não seria nem um pouco divertido acabar com a minha vida quando tudo está começando a ficar interessante... — Me sentei sobre o beiral da janela passando cuidadosamente uma perna de cada vez.
— Você é a droga de uma suicida? — TOP questionou enérgico, ele havia apagado seu cigarro no carpete do quarto. — A cada minuto que passo em sua presença menos a compreendo. — Ele admitiu em derrota embora seus olhos faiscassem em determinação.
— Suicida é uma palavra muito forte. — Sorri de modo divertido enquanto dirigia meu olhar para o horizonte, um sorriso sincero permeou meus lábios quando avistei algo realmente interessante.
— Se quer se jogar, vai em frente. — Taeyang exclamou impaciente, sua sentença enérgica revelava sua perturbação.
— Vocês dois são malucos? — Daesung os empurrou contra a parede. — Vão deixá-la se jogar só porque desconfiam dela? Que provas vocês têm de que ela pertence ao nosso mundo? — Daesung buscou apaziguar seus superiores enquanto os encarava como se eles fossem lunáticos, acabei rindo tal fora a comoção.
— Meus instintos. — TOP retrucou segurando o pulso de Daesung, retirando sua mão sobre o terno dele e então ele o jogou sobre a cama. — E meus instintos nunca erram. — TOP pronunciou sua sentença diante de mim, ele havia percorrido os poucos metros que nos separava após libertar-se de Daesung.
— Sempre há uma primeira vez. — Me joguei para trás no vácuo, eu saberia que não iria despencar porque quando me lancei pela janela Martino surgiu para me pegar no mesmo instante; ele estava disfarçado e pendurado num cabo de ferro do helicóptero que Bianco pilotava.
— Sua insana! — TOP gritou enquanto ria desacreditado, seus olhos estavam curvados em divertimento.
— Matrona mandou lembranças a vocês! — Gritei rindo ao ver a face deles ganharem uma expressão de choque, toda a diversão havia se esvaído naquele instante.


Capítulo 9

O helicóptero percorreu o céu da capital com um destino certo: o antigo prédio em que morei quando usei o nome Zara. Usei o cabo de metal para me esgueirar até meu antigo apartamento. Minha risada ecoava pelo cômodo; havia sido uma saída inesperada para a Kytheng. Quando me aproximei da janela enquanto Daesung, Taeyang e TOP discutiam, havia visto o helicóptero se aproximando; Kwon deveria estar envolvido nesse plano de fuga; aquilo era tão característico dele! Precisava mudar novamente minha aparência; o visual de garotinha inocente seria deixado de lado.
O apartamento permanecia o mesmo, ele estava completamente destruído como havia deixado ele há três anos; no chão da sala estava o bilhete que deixara para Johnny... Não importava para aonde olhasse, para onde fosse naquele país, tudo me lembrava o homem que assassinara sem hesitar, mesmo que tivesse me custado meu coração eu segui a ordem da FAMIGLIA e estava pagando o preço por segui-la fielmente!
Se apenas soubesse que estavam me usando não teria cumprido a promessa! Seria a primeira vez que quebraria a minha palavra e certamente não me arrependeria por isso, no entanto, como um peão, apenas fiz tudo o que me mandaram...

— Eu prometi nunca me voltar contra meu próprio sangue, mas você não me deixa escolha, fratello.

Segurei a marreta, a mesma utilizada para destruir o local anos atrás, e então destruí cada parede para ter acesso ao armamento pesado que mantinha escondido ali; haviam projéteis usados apenas por armas do exército. Cada canto daquele apartamento escondia algo restrito e difícil de se conseguir na clandestinidade, destravei meu fuzil após montá-lo.

— Estou indo ao seu encontro irmãozinho.

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— Isso é impossível! — Daesung exclamou se apoiando no peitoril da janela observando a figura desconhecida sumir no céu de Seul.

Acabei me sentando na poltrona após o choque, fazia tempos que não era surpreendido, a vontade de rir era gigantesca diante uma figura tão misteriosa quanto a misteriosa mulher; ela havia cativado. Ela conseguira minha atenção, aqueles olhos guardavam segredos banhados em sangue, aqueles olhos eram como fortalezas insondáveis e aquela boca era capaz de ludibriar quem desejasse, conforme ela desejasse; apenas uma pequena fresta ruira o disfarce montado sobre a imagem frágil de uma turista.
Conseguia identificar alguém como eu a quilômetros de distância, no entanto, aquela mulher teria facilmente me enganado se não tivesse cometido um deslize, ela era ágil, esperta e com instintos tão afiados quanto os meus, porém sua falha fora detectada não apenas por mim, mas por Taeyang também; ele estava tão perturbado quanto eu, seus punhos estavam cerrados enquanto cuspia palavrões aos quatro ventos.

— Estamos lidando com uma ameaça inesperada. — Taeyang abriu seu telefone pronto para iniciar uma linha de comando, sua irritação o estava fazendo ficar cego; as próximas ações deveriam ser tomadas com cautela.
— Não seja imprudente, Dong Young-Bae. — Comentei em um tom frio enquanto me sentava relaxado na poltrona acendendo outro cigarro. — Se aquela mulher estivesse interessada em nos matar ela assim o teria feito.
— O que você está dizendo? Enlouqueceu? — Ele segurou-me pelo colarinho, seus olhos esboçavam uma perturbação maior do que havia julgado.

Daesung, vendo que a situação estava ficando cada vez mais tensa, nos separou. Taeyang andava de um lado para o outro enquanto buscava esfriar a cabeça, ambos não haviam entendido a situação.

— O que deu em vocês dois? — Daesung exclamou enquanto nos olhava com raiva, ele levava seu olhar de um lado para o outro buscando compreender o que estava acontecendo.
— O que está acontecendo por aqui? — Kwon Jiyong surgiu com as vestes ensanguentadas, estava óbvio que aquele sangue não era dele; ele estava de bom humor o que levava a conclusão: GD havia matado um número considerável de homens de Michèle para deixá-lo nesse estado.
— Estou farto de suas ações imprudentes, TOP. — Taeyang saiu tempestivamente do recinto, o deixei seguir sem lhe dar qualquer resposta, ele não entenderia meu ponto até que esfriasse a cabeça.

Fiz um aceno para Daesung o seguir, Taeyang estava apenas seguindo a linha errada de pensamento. Deixei que a fumaça escapasse lentamente pelos meus lábios antes de responder Jiyong. Ele havia fechado a porta do quarto após a saída de Daesung, ele estava deitado de modo relaxado na cama, seus olhos estavam fechados enquanto cantarolava uma música desconhecida pouco se importando com a mancha que provavelmente deixaria naqueles cobertores.

— Quantos foram? — Indaguei quebrando o silêncio, havia o mandado investigar os infiltrados de Michèle em meu território, GD torceu seus lábios em desgosto antes de me responder.
— Não perco meu tempo com essa bobagem. — Ele falou sem abrir os olhos, um bocejo escapou enquanto me respondia revelando seu cansaço.
— Quando foi a última vez que dormiu? — Indaguei curioso, GD costumava ter insônia, era imprevisível em seu modo de agir e a não ser que tivesse algo para fazer, saía pelas ruas sem rumo.

Jiyong poderia parecer não se preocupar com nada, sua inconstância levava todos a acreditar nessa imagem que criara; quando na verdade ele se preocupava com cada membro daquele lugar. Ele era quem cuidava de todos nas sombras, eu apenas dirigia a organização porque, caso contrário, a Kytheng teria afundado. Jiyong era o guardião e eu era o cérebro, uníamos isso a favor de todos. Estava preocupado com ele, Kwon tendia a ser despreocupado demais com a sua saúde, passava incontáveis noites desperto, incapaz de desligar sua mente marcada por cicatrizes profundas; GD possuía mais segredos que qualquer um ali. Havia o conhecido quando estava recrutando pessoas para se juntar ao meu pequeno negócio, muito antes de ter o apoio de Matrona. Com ele ao meu lado, construímos um negócio sólido, Taeyang e Daesung se juntaram pouco tempo depois. Embora fosse próximo dos três, Jiyong era meu melhor amigo e o único que conseguia ler as nuances que deixava subentendido.

— Quem era a mulher que deixou escapar? — Ele evitou minha pergunta, seu interesse desperto pela perturbação causada naquele recinto; o caos era sempre seu alvo de atenção.
— Ainda não pude descobrir. — Comentei esticando minhas pernas enquanto meus olhos se perdiam no horizonte.
— Ela te cativou. — Ele afirmou, seu tom deixava claro que achava o fato engraçado. — Faz quantos anos desde Mina? — Sua pergunta dizia mais do que proferia.
— Mina já está morta, Jiyong. — Voltei meu olhar para ele, Kwon agora jogava seu punhal para cima, o pegando um pouco antes de acertá-lo, num ritmo constante e comum.
— Isso não o impediu de visitar seu túmulo esse ano. — Ele jogou o punhal acertando a parede atrás de mim, seus olhos me lançavam um olhar sério.
— A visitei para ter certeza que o homem que a amou morrera junto com ela. — Revirei os olhos enquanto tragava um pouco mais de nicotina para o meu sistema.
— Você ainda permanece preso ao passado, Choi Seunghyun. — Jiyong mais uma vez afirmou sem deixar margem para discussão; a seriedade incomum revelava a preocupação não dita.
— Fora eu o responsável por matá-la, bastardo. — Acabei rindo, embora a ferida não estivesse cicatrizada. — Eu a amei até o seu último suspiro, eu sabia que ela faria a mesma coisa... No fim éramos o mesmo tipo de pessoas e mataríamos um ao outro embora nos amassemos. — Meus olhos estavam distantes, visualizavam o passado, fora matar ou morrer, uma ferida como aquela nunca seria cicatrizada.
— Você ainda permanece o mesmo que sempre fora. — Jiyong se levantou calmamente da cama parando a minha frente, ele então amassou o cigarro entre seus dedos, me erguendo pelo colarinho; sua expressão revelava sua irritação. — Admita que tem medo da morte, covarde! — Ele então me arrastou até a janela.
— Seria capaz de me matar? — Questionei com um sorriso desdenhoso, havia algo que o estava perturbando embora não negasse suas palavras. De certa forma ele tinha razão.
— Por um bom motivo...— Ele me respondeu com sinceridade. — Sim, eu seria capaz de matá-lo assim como você fizera com Mina. — Ele me soltou me dando as costas em seguida.
— Estarei aguardando esse dia. — Gritei antes de vê-lo partir.

Que o passado não fora superado, era um fato! Havia trilhado meu caminhado até ali baseado em assassinatos e torturas; o medo era uma ferramenta que fazia uso sem qualquer escrúpulo. Eu sabia o que era e do que era capaz de realizar para atingir meus objetivos; havia matado mais pessoas do que poderia lembrar, entre tantos nomes e rostos apenas um havia se sobressaído; esse nome fora gravado para sempre em minha mente e coração: Feng Mina. Ela se infiltrou na Kytheng com o objetivo de me matar, sua missão era bem simples: se infiltrar, ganhar minha confiança e no momento certo, me matar. Era um clichê em nosso mundo; se apaixonar era como assinar um atestado de óbito. Não havia como confiar em ninguém; era necessário sempre a cinco passos adiante de seus inimigos. Desse modo, Mina e eu nos deixamos envolver e quando nossa relação chegou num ponto crítico, fora necessário matar ou morrer. Os chineses até tentaram retaliar, mas um elemento inesperado surgiu: Matrona. Ela aniquilou toda a organização para a qual Mina trabalhava; essa figura misteriosa os executara sem qualquer justificativa; eu não fazia ideia do porquê ter sido alvo deles, porém havia perdido algo importante para eles: minha humanidade. GD poderia afirmar que eu ainda permanecia o mesmo, no entanto havia mudado após a morte de Mina.
De modo obsessivo, buscava compreender esse fantasma que voltara dos mortos. Todos acreditavam que Matrona havia morrido devido ao surgimento de Michèle Espossito, comandando o território que lhe pertencia anteriormente, seu desaparecimento era tão misterioso quanto a sua personalidade; ninguém havia visto sua face, ela era uma figura completamente enigmática e cativante, os mistérios que a cercavam serviam apenas como combustível alimentando a curiosidade de todos; suas ações sempre eram dramáticas e brutais. Matrona era cruel, seus avisos sempre vinham acompanhados de cadáveres, nem mesmo policiais se envolviam com casos ligados à ela. Seu último ato antes de seu desaparecimento: fora dizimar a cadeia de comando no mundo do crime; ela destruiu os grandes polos de poder e expandiu seu território em cima de cadáveres como o de Johnny Suh; seu nome era usado para assustar os desavisados.

— Por quanto tempo alguém pode esconder sua identidade?

A dúvida central escapou pelos meus lábios enquanto a única resposta que tive fora o silêncio, balançando a cabeça negativamente, me levantei arrumando meu terno para então ser surpreendido por explosões. Pontos de toda a cidade estavam em chamas...


Capítulo 10

— Malledeta!

Um copo fora jogado contra a parede carmesim do escritório de Michèle Espossito. A figura do filho mais velho de Giuseppe encontrava-se transtornado, sua face exibia uma expressão dividida entre horror e fúria; seus cabelos estavam desalinhados assim como sua aparência comumente controlada. Michèle exalava o ar pelas narinas, enquanto cerrava os pulsos furiosamente, seu semblante conturbado mantinha seus subordinados longe de sua vista.

— Signore, ela não vai parar até obter o que deseja. — Me pronunciei tranquilamente enquanto tomava mais uma dose de whisky.
— Era sua função tê-la mantido distante deste país, porco dio! — Michèle se aproximou tempestivamente me segurando pela gola da minha camisa, seus guardas costas foram assassinados assim como uma boa parcela de seus melhores homens.
— Val a diavolo, Michèle! — O empurrei para longe e destravei minha arma apontando para ele. — Não me culpe por algo que você mesmo pediu. — Lhe dei um sorriso satisfeito, ele e seu pai pagariam pelo o que haviam feito durante todos esses anos!
não compreende os propósitos da Famiglia. — Michèle exclamou enquanto buscava um charuto em sua gaveta, ele retirou-o de um estojo de madeira antes de prepará-lo e acendê-lo.
— Vocês a traíram. — Engatilhei a arma antes de guardá-la novamente em minhas costas. — Era a última coisa que ela esperava vindo das pessoas que ela mais amava.
, embora tenha entrado nesse mundo, permanece a mesma de sempre. — Michèle lançou seu olhar para mim analisando-me guardar a arma. — Desistiu de me matar? — Michele arqueou a sobrancelha em desafio.
— Não cabe a mim matá-lo. — O respondi sem qualquer emoção aparente.
— És mesmo um finocchio, mas tendo a mãe que teve... — Não permiti Michèle terminar sua fala.

Assim que aquele maldito usou pronunciar tal ofensa, empurrei sem cerimônia sua face contra o tampo de sua mesa, os documentos sobre ela tomaram um tom carmesim provindo do sangue das narinas de Michèle. O ergui pelos fios de seu cabelo o jogando no chão, e então desferi pontapés acertando seu abdômen inúmeras vezes. Sem lhe dar qualquer chance de revidar, o ergui pelos cabelos chocando-o contra a parede, minha mão esquerda apertava sua traqueia enquanto a direita abria um pequeno corte em seu ombro gravando o M de Matrona.

— Não pense que só porque não posso matá-lo que te deixarei impune ao ofender aquela quem me deu à luz. — O soltei vendo-o cair diante os meus pés, sua respiração estava ofegante.
— Sua mãe era uma meretriz, bastardo imundo. — Michèle comentou me encarando com o mais puro ódio.
— Giuseppe se orgulharia de ver seu amado primogênito nesse estado. — Minha voz destilava sarcasmo e enojo enquanto o analisava com um olhar desgostoso.
— O que nossa amada irmãzinha pensaria ao vê-lo aqui? — Michèle cuspiu as palavras com um sorriso sádico em sua face.
— Você acha que se importa? — Me sentei em sua cadeira rindo da estupidez de Michèle. — Entenda uma coisa imbecil: está vindo te matar e todos quem traíram-na. Não há nada nesse mundo que possa pará-la; portanto, eu estar aqui não é grande coisa; vocês foram os responsáveis por criar o monstro que os destruirá! — Peguei um de seus charutos o acendendo após cortar a ponta.
— Ela não seria capaz de matar a própria família! — Michèle tomou o charuto da minha boca o jogando no chão esmigalhando-o com seu sapato social.
— Vocês criaram um monstro, Michèle. — Me levantei tranquilamente. — Ela fora capaz de matar o homem que amava à queima roupa; você realmente acredita que só porque vocês têm o mesmo sangue isso a impedirá de realizar sua vingança? — Arqueei uma sobrancelha com um sorriso sádico despontando em meus lábios, ele me deu um irritado embora buscasse esconder o quão afetado estava pelas minhas palavras.
— Você não conhece quem é de verdade. — Michèle limpou o sangue de sua face com um lenço tirado de seu paletó.
— Acorde Michèle, Valença Espossito está morta. — Segui em direção a porta do escritório dele e o encarei uma última vez. — Você realmente acha que ela está realizando a vingança dela somente contra você? Ligue para Giuseppe e pergunte como estão as coisas ao redor do mundo. — Sugeri rindo de sua face espantada.

Saí do recinto ainda rindo, não só havia mandado um recado através da Coréia Sul, ela era ardilosa como um Espossito, crescera cercada por assassinos e teve sua iniciação de forma profana e repugnante. era uma sobrevivente, mas mais que isso, ela era vingativa!
Ela se encarregou de realizar todos os atos de sua vingança ao mesmo tempo e em todos os lugares do mundo tornando difícil de obter sua localização. Ela havia planejado sua vingança por três longos anos, tinha tudo o que precisava à sua disposição... E ela não era nem um pouco piedosa com seus inimigos; especialmente aqueles que ousavam trair ela.

— Os Espossito assinaram sua sentença de morte, ao transformá-la numa máquina de matar.


Capítulo 11

— Não acelere!
— Zara, não acelere!
— Nós vamos morrer!

Johnny me encarava com horror enquanto acelerava sua moto, diante de nós havia os trilhos do trem e o próprio trem seguindo em nossa direção. Em uma fração de segundos, quando parecia impossível acontecer, consegui atingir o outro lado da rua após quase ser esmagada pelo trem. O maquinista permanecia “buzinando” furioso. Os braços de Johnny apertavam a minha cintura enquanto eu ria me divertindo às custas dele.

— Não foi impossível. — Me virei para ele após estacionar em frente ao meu prédio.
— Foi imprudente, foi arriscado e suicida! — Johnny saiu de cima da moto parando ao meu lado enquanto me dava um olhar irritado.
— Admita, foi divertido! — Retirei as chaves da ignição o puxando para mais perto, abraçando sua cintura.
— Não, não foi! — Ele ergueu minha face me fazendo encará-lo. — O que me preocupou não foi a minha morte, mas você não sobreviver. — Johnny soou sério demais enquanto afagava minha face carinhosamente.
— Você sabe que se o trem tivesse nos pegado ambos teríamos morrido?! — Afirmei abrindo um sorriso sarcástico.
— Você é insana, Zara. — Johnny riu e então me ergueu em seus braços. — A insana que eu amo. — Ele completou antes de me beijar.


ו×


Despertei sentindo um gosto amargo em minha boca; o sonho que tive fora mais uma lembrança. Minha mente estava me torturando com os momentos passados ao lado de Johnny. Aquele país havia desenterrado tudo o que havia deixado para trás.
Acendi o abajur na mesa de cabeceira notando meus dois fiéis lacaios, Martino dormia de bruços enquanto Bianco estava agarrado à minha cintura. Ambos estavam com o tronco desnudo, revelando as bandagens e escoriações do que fizemos noite passada. Invadimos as principais instalações destruindo tudo o que víamos pela frente. Vários armazéns explodiram, e não fora somente no território sul coreano! Havia feito questão de executar isso ao redor do globo. Homens sob o meu comando realizaram o trabalho em outros países e continentes. Meu corpo ainda estava dolorido, possuía poucos ferimentos graças aos dois armários que me protegeram durante toda a ação.
Desatei o braço de Bianco de minha cintura e saí da cama tomando cuidado para não acordar nenhum dos dois. Me alonguei e parti em direção à cozinha, meu estômago dava sinais de vida. O chão de madeira estava em uma temperatura agradável devido ao sistema de aquecimento abaixo dele. Usei um dos hashi como prendedor temporário para os fios rebeldes, o que era o estado atual do meu cabelo, e me submeti a procurar algo comestível e rápido para saciar a fome que havia me atingido. O grande problema era que não havia nada dentro dos armários. Investiguei a geladeira encontrando apenas bebidas e mais nada.

— Okay que eu vivo com dois esfomeados! Mas deixar a comida acabar já é sacanagem! — Praguejei enquanto xingava em um tom irritado.

Olhei a minha volta, não encontrando nem mesmo uma mísera fruta! Resignada retornei ao cômodo em que estava dormindo anteriormente; vesti um jeans, regatas, um casaco mais leve e dei um jeito em meus cabelos rebeldes optando por prendê-los em um rabo de cavalo, de acessório fora apenas os óculos de sol, boné e a carteira. Antes de seguir escada acima, coloquei um par de tênis nos pés. Caso precisasse correr seria prudente estar com eles no pé. Segui em direção à estação de metrô após subir os lances de escada que me levavam ao subsolo; o dia estava chegando ao fim, e ao que parecia havia dormido por dois dias seguidos, o que em partes explicava a ausência de alimentos naquela casa. O indicador de temperatura da estação confirmava minha análise, não sabia como as coisas haviam seguido após o meu atentado contra a Famiglia por isso andava de modo discreto procurando um restaurante comum após desembarcar no centro de Seul, não procurava nada excêntrico para sanar a minha fome, apenas queria comer, e rápido! No entanto o que eu não esperava era encontrar com Choi Seunghyun. Ele me avistou antes que pudesse tomar a direção contrária.

— Eu falo com você assim que eu matar a minha fome! — Declarei assim que ele se aproximou, não adiantaria nada fugir, seus homens haviam cercado o perímetro.
— Eu a acompanharei então! — Ele riu se divertindo com o meu comentário malcriado.
— Não ouse me fazer perguntas enquanto como. — Reforcei.
— Eu sou paciente. — Ele me respondeu com tranquilidade enquanto sinalizava discretamente para seus homens dispersarem.


Capítulo 12

Buscava ignorá-lo ao máximo enquanto me alimentava, a atenção excessiva sobre cada movimento que executava era realmente irritante. Terminei de mastigar e limpei minha boca antes de me pronunciar.

— Você não precisa acompanhar cada mísero movimento que eu executo! — Me empertiguei na cadeira enquanto exibia meu desagrado.
— Eu sei disso! — Choi Seunghyun limpou os cantos de sua boca de modo refinado. — Mas é interessante observá-la.
— O que têm de agradável nisso? — Questionei desacreditada, arqueando minhas sobrancelhas no processo.
— O modo como se porta em uma mesa diz muito sobre sua origem. — Ele inclinou-se levemente em minha direção sussurrando em minha orelha. — Antes de iniciar a refeição, optou por cobrir sua perna e manteve o tempo inteiro os cotovelos distantes da mesa, apoiando parte do seu antebraço. Seu modo de servir-se é refinado; você com toda certeza teve aulas de etiqueta. — Ele completou com um sorriso ladino em seus lábios enquanto confirmava sua análise ao indicar o modo como optei por pegar a taça.
— Velhos hábitos são difíceis de se perder. — Dei de ombros enquanto me servia de uma dose de vinho.
— O que uma mulher como você faz envolvida com a dama fantasma? — Choi Seunghyun me questionou sem rodeios, seus olhos permaneciam fixos em mim, completamente focado.
— Interessante pergunta, poderia lhe questionar o motivo por de trás dela? — Sorri cordialmente pousando a taça sobre a mesa.
— Curiosidade apenas. — Ele me respondeu antes de levar a taça aos lábios, Choi havia optado por um vinho tinto ao invés do vinho branco que havia lhe sugerido.
— Matrona me proporcionou uma chance de viver ao invés de permanecer sobrevivendo. Afinal, não estamos todos atrás de uma boa vida? — Concluí com uma expressão neutra, minhas palavras haviam sido evasivas e evitei o responder diretamente.
— Como sabia que não cairia após se lançar pela janela? — Ele me questionou logo após o responder. Segurei minha risada, Choi parecia uma criança sedenta por respostas.
— Não me parece tão paciente como prometera. — Lhe dei um olhar acusatório antes de acenar para um garçom se aproximar da mesa. — Como não cumprira seu acordo, ficarei lhe devendo respostas. — Entreguei uma quantia de dinheiro excedente ao que consumira deixando o lugar com calma.

Mal passei pela entrada do restaurante, quando TOP surgiu novamente ao meu lado. Revirei discretamente meus olhos, antes de tomar a direção contrária à estação de metrô que me levaria de volta ao meu lar temporário. As passadas dele eram firmes e me acompanhavam de modo insistente; e então, de modo abrupto, segurei a mão de Choi o levando para dentro de um beco; o empurrei contra a parede nos escondendo atrás de uma lixeira. Minha movimentação repentina o pegou desprevenido, sua respiração estava calma enquanto seus batimentos cardíacos exibiam o oposto, nossas faces estavam há alguns milímetros de distância. Sorri de modo sarcástico antes de cobrir sua boca com a palma da minha mão; então o fiz se ajoelhar me abaixando junto com ele. Aproximei meus lábios de seu ouvido.

— Não pense que te trouxe aqui com segundas intenções. — Mantinha meu olhar fixo nos olhos dele mantendo meu tom de voz baixo. — Os lacaios de Michèle quase nos viram, sugiro que seja mais atento, mio caro Seunghyun. — O avisei enquanto lançava um olhar cuidadoso ao meu redor, precisava evitar novas confusões, porém o destino adorava me pregar peças!

Minha ação tinha pego ele desprevenido, eu sabia que se ele empregasse força conseguiria se libertar; não estava o segurando ali atrás de respostas, caso contrário, usaria o cinto de suas calcas e o torturaria de modo criativo após silenciá-lo com a gravata.
Por algum motivo ele optou por permanecer naquela mesma posição, meu corpo roçava o dele enquanto permanecíamos encobertos pelas sombras. Sua respiração encontrava a minha enquanto a situação ganhava um caráter completamente diferente do inicial. O perfume que Choi usava era agradável, embora a situação em que nos encontrávamos não fosse esperada, estava apreciando o teste que o submetia. Em nenhum momento ele havia me tocado, e isso por si mesmo me, dizia muito sobre ele.

“No fim das contas Choi Seunghyun era um cavalheiro.”


O calor que seu corpo emanava era possível sentir através de suas roupas, seu olhar havia adquirido um tom mais sério enquanto de modo inconsciente lambia seus lábios após baixar seus olhos para a minha boca, não estava muito distante do que ele sentia. Estava há semanas sem sexo e não parecia uma boa ideia misturar as coisas quando a situação exigia o foco total de Bianco e Martino. Por conta disso, usei essa desculpa em retribuir o olhar cheio de significados enquanto me demorava em analisá-lo. Estava presa na onda magnética de TOP que quase não notei os lacaios de meu irmão passarem pelo beco enquanto conversavam a respeito do incidente causado por mim. Me afastei de TOP evitando seus olhos enquanto espanava a poeira de meus jeans; minha face deveria estar corada e meu ritmo cardíaco estava um “pouco” distante do normal.

— Não precisa iniciar o discurso: de que não me impediu, porque estava de acordo em nos manter longe da vista dos trogloditas de Michèle, Choi Seunghyun. — Iniciei minha fala em um tom neutro enquanto quebrava o silêncio escondendo meu real estado. — Seu nome não é um segredo. — Respondi a pergunta que seus olhos me faziam.
— Sua análise é irritante ao mesmo tempo em que me cativa. — Ele optou por se aproximar, ainda sem me tocar, ele parecia não querer ignorar o que havia ocorrido de modo subjetivo quando nossos olhares se encontraram.
— Não seja tolo em ter essa conclusão sobre mim. — Balancei minha cabeça em negativa, ainda buscando clarear minha mente e não me deixar levar pela atração momentânea. — Sentimentos são a última coisa que você precisa. Afinal presidia uma organização inteira. — O lembrei buscando ser racional.
— Não estou interessado romanticamente em você, seria uma péssima escolha minha. — Ele riu enquanto tirava um cigarro de dentro de seu paletó, ele havia me encurralado contra a parede do beco, ele estava perto o bastante, mas distante o suficiente para não invadir o meu espaço.
— Decisão horrorosa. — Concordei enquanto lhe dava as costas seguindo para o outro lado, criando uma distância entre nós. — Mas você não pode controlar decisões controladas pelas emoções. — Conclui erguendo meu semblante para o céu.
— Suponho que me deva algumas explicações. — Ele atravessou a distância que impus entre nós se colocando ao meu lado enquanto deixava a fumaça escapar de forma sedutora por seus lábios.

Minha boca abriu para lhe dar uma resposta atrevida, no entanto o olhar na face dele me calou. Era como estar encarando uma serpente. Os olhos de Choi estavam completamente focados em mim, ao ponto de parecer ler a minha alma. Seu semblante era transparente em revelar o que sentia naquele instante; e ele estava maldosamente sexy naquele terno preto com os primeiros botões fora de suas casas, de sua camisa branca que delineava cada músculo perfeitamente trabalhado.

— O gato comeu a sua língua ? — Ele brincou num tom provocativo sorrindo de lado, enquanto me observava de cima a baixo.
— Quando pretende dar o bote? — Questionei entrando em seu joguinho não recuando nenhum centímetro.

Saí do lado dele, apenas para ficar em sua frente; TOP arqueou sua sobrancelha como se me perguntasse: “ É só isso que fará?”. Levei minhas mãos até sua gravata, para então desatá-la. Tomei o cigarro dos lábios dele tragando-o tranquilamente enquanto colocava a gravata em seus olhos como uma venda. Ele parecia se divertir em antecipação, esperando meu próximo ato.

— Respostas não serão lhe concedidas nesta noite. — Soltei a fumaça apagando o cigarro em seguida. Retirei o cinto dele atando ambos os pulsos dele. — Mas posso lhe conceder outra coisa no lugar.
— E você pretende fazer isso neste local? — A voz de Choi soou calma e tranquila embora seus lábios me dessem a aprovação desejada.
— Homens como você desejam ser controlados por mulheres como eu. — Sussurrei em seu ouvido enquanto forçava ele cair de joelhos.
— Assim como Matrona? — Ele ergueu sua face como se pudesse ler a expressão de espanto em minha face.

Deixei uma risada tranquila escapar, enquanto omitia a surpresa. De fato, havia deixado ele me ler facilmente. Porém assim como ele, estava curiosa em descobrir o que viria a seguir.

— Matrona é a mulher que todos desejam conhecer. — Puxei o cinto para cima obrigando os braços dele ficarem erguidos, com a outra mão segurei o maxilar dele. — Mas posso afirmar que desejaria ser como ela. — Confessei com um sorriso sádico em meus lábios. — Mas ainda assim posso ter alguma diversão graças à minha signora. — Enganchei o cinto em uma ponta metálica antes me posicionar de modo que eu pudesse ficar na mesma altura que ele.
— Você fala muito e ao mesmo tempo nada. — Choi soprou a afirmação em um tom curioso. — Ainda está procurando por objeções? — Ele provocou enquanto sorria sem pudores.
— Estava dando-lhe uma chance de escapar.
— Eu não quero...
... Me chame por .


Capítulo 13

Sem que eu pudesse controlar, acabamos os dois enrolados nos lençóis de uma cama em um quarto de hotel qualquer. Nossa pequena aventura naquele beco havia sido insuficiente para saciar a curiosidade diante a atração inesperada; dessa forma não paramos até que pudéssemos saciar essa estranha necessidade por mais contato. Ainda assim, sem que eu pudesse ter qualquer controle, havia perdido mais um dia. Ao fim, haviam se passado quatro dias desde meu ataque à FAMIGLIA. Não sabia exatamente em que estava me envolvendo ao me permitir passar pela linha invisível que indicava perigo, embora não houvesse afastado TOP quando pude, a estranheza dessa sensação em minha mente não me permitia sequer cogitar tal ideia. Meu problema era o quanto me permitiria explorar isso e até aonde iria, a última vez que havia permitido isso acontecer, fora desastroso.
Choi Seunghyun dormia profundamente ao meu lado, ele estava deitado de bruços enquanto permanecia afastada do calor de seu corpo; ainda não havia conseguido cair no sono, minha mente estava agitada e repleta de questionamentos vazios e sem sentido. A estranha presença de TOP não me incomodava, muito menos o fato de estarmos desnudos; o que por si só dizia muito!
Suspirei balançando minha cabeça negativamente. Não conseguiria sair da cama até que tivesse repousado, o cansaço devido aos últimos dias me deixava sonolenta, porém como não conseguia adormecer devido a minha desconfiança, estava presa nesse impasse. Estava confortável ao lado dele, mas isso era exatamente o porquê da minha desconfiança se elevar. Contendo um impulso de me aninhar aos travesseiros, alcancei meu celular mandando uma mensagem para a única pessoa que confiava no momento.

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— Você não deveria ter dormido com ele.

Encarei meu irmão rindo de sua face desgostosa, Kwon Ji Yong. Meu meio irmão, e o único em que confiava até o momento. Assim que adentramos o seu apartamento, essas foram as primeiras sete palavras que ele me dera após me “socorrer” no quarto de hotel. Quando ele chegou, havia conseguido pelo menos vestir as roupas que trajava antes de TOP me despir. Não seria uma cena confortável ter meu irmão me vendo nua ao lado de seu chefe!
A surpresa que Kwon expressou por me ver no mesmo ambiente que TOP fora realmente engraçado. Ele conteve o impulso de me xingar por receio de despertar Choi; então Jiyong me pegou no colo cobrindo minha cabeça com um gorro com cabelos falsos enquanto ele mesmo usava um semelhante. Desse modo tomamos as escadas de emergência saindo pela entrada de funcionários ao invés da de hóspedes; ele havia pego um carro “emprestado” para me buscar. Dessa forma chegamos em seu apartamento, acabei por dormir durante todo o percurso.

— Em minha defesa ,ele me encontrou primeiro, já que se não tivéssemos nos esbarrado talvez não dormiria com ele. — Me joguei em seu sofá bocejando.
! — Ele ralhou quando enfatizei o talvez. — Você não está neste país para se divertir. — Kwon fora enfático.
— Não, não estou. — Cobri meus olhos com meu braço enquanto sentia o sono chegar. — Eu não vou brincar com o TOP, se está se preocupando com isso.
— Você sabe que estou preocupado com você, idiota! — Ele ergueu minha cabeça se sentando no sofá e fazendo de sua perna o meu travesseiro. — Você é a última família que me resta.
— Você é a única família que eu tenho. — Resmunguei sonolenta. — Então não seria imprudente ao ponto de te colocar em maus lençóis.
— Você já se colocou, . — Ele riu enquanto esticava suas pernas na mesa de centro. — Você o faz lembrar de Feng Mina.
— A espiã chinesa? — Questionei piscando meus olhos para me manter acordada.
— Sim. — Ele virou sua face de modo a me observar. — Agora durma de uma vez e fique longe de Choi, você precisa decidir qual a prioridade na sua vida. — Ele me repreendeu enquanto afagava meus cabelos.
— Eu não tenho prioridades...— Acabei rindo abraçando a cintura de meu irmão. — Não tenho nenhum plano após executar minha vingança. — Expliquei melhor o que estava dizendo.
— A vingança é um veneno, irmã, o qual você ingere esperando que o outro morra. — Jiyong suspirou pesadamente enquanto me lançava um olhar melancólico.
— Me prometa que se tornará minha consciência. — Me sentei abraçando meus joelhos.
— Não sirvo de consciência para mim, imagina te dar algum conselho? — Ele riu me abraçando lateralmente.
— Nossa família fodeu com o nosso psicológico. — Ergui meus olhos encontrando os dele me observando com afeto.
— Giuseppe criou monstros no lugar de filhos. — Rimos juntos.
— Você alertou Michèle ? — Indaguei fechando meus olhos novamente.
— Não há motivos para isso, ele não me escutaria de qualquer modo. — A voz de Jiyong soava calma embora escondesse o nervosismo.
— Você não pode mentir para mim, fratello. — Lhe dei uma cotovelada de brincadeira. — Matar Michèle vai ser a segunda coisa mais difícil que terei de fazer.
— A primeira fora matar Johnny. — Jiyong concluiu.
— Às vezes... Controlada pelo delírio de tê-lo ao meu lado, imagino que tenha errado o coração e ele tenha sobrevivido. — Comentei sentindo lágrimas descerem por minha face.

Senti então Jiyong se levantar e em seguida seus braços me içarem logo em seguida. Suas passadas calmas indicavam que me levava para o quarto; às vezes era uma bênção Giuseppe ter tido um filho bastardo, o qual eu pudesse verdadeiramente chamar de irmão.

— Você precisa descansar, não vamos falar disso agora.

Concordei com um aceno, enquanto me permitia ser cuidada por ele. Jiyong me levou até o seu quarto e me deitou cuidadosamente em sua cama, ele deu a volta e se deitou ao meu lado cobrindo a nós dois com seus cobertores, enquanto me abrigava em seu abraço de urso.

— Velarei seu sono então descanse tranquilamente, quando despertar, ainda estarei ao seu lado, irmãzinha. — Jiyong beijou o topo dos meus cabelos me acolhendo em seus braços.
— Obrigado por ser o único em que posso confiar. — Sussurrei antes de cair no sono.
— Obrigada por não me rejeitar quando perdi minha mãe. — Ouvi Jiyong sussurrar antes que a névoa do sono me tragasse para a inconsciência.


Capítulo 14

— Sorella não!

Me virei rindo da repreensão de Michéle. Meu irmão me perseguia enquanto corria em direção à chuva. Havíamos passado o dia todo presos no hotel devido ao casamento de nosso primo, me sentia enclausurada por passar tanto tempo dentro daquele lugar. Pude respirar de modo aliviado quando atingi o lado externo do hotel; a chuva me deixou ensopada em questão de segundos... Acabei rindo pela sensação de liberdade que tomava conta de cada célula do meu corpo.

! Mama vai ficar uma fera! — Meu irmão gritou debaixo do mezanino, protegendo-se da chuva.
— Você está perdendo toda diversão... — Gritei enquanto rodava de olhos fechados... A chuva caia suavemente sobre minha face em uma espécie de carícia.
— Saia da chuva, ! — Michèle retrucou entre me repreender e conter a risada perante a minha aparência. — Vai acabar pegando um resfriado, sorella...
— Só se pode viver uma vez, fratello... — Me aproximei dele e então o puxei para a chuva. — Passamos o dia todo presos dentro do hotel, se permita ter um pouco de diversão. — Tirei minhas sandálias pulando nas poças de água.
— Você não pode ser controlada, mia cara. — Michèle retirou o cabelo de seus olhos rindo enquanto me puxava para dançarmos.
— Não tem música... As pessoas vão nos achar loucos... — Arqueei minhas sobrancelhas enquanto me permitia ser conduzida por uma música que somente Michèle parecia ouvir.
— Já nos acham por estarmos debaixo dessa chuva...—Ele deu de ombros enquanto me rodopiava.

Meu irmão exibia um semblante tranquilo enquanto se divertia, naquele instante Michèle parecia ser a criança de 10 anos que era e não o herdeiro da Famiglia. Estando apenas nós dois, Michèle transformava-se na criança que era e não havia toda a pressão sobre seus ombros... Garantir um pouco de felicidade em meio a tantas responsabilidades havia sido minha missão pessoal...

! Michèle!

Ambos erguemos nossas faces encontrando nossa mama furiosa na sacada. Papa apenas ria de nosso estado enquanto tentava acalma-la. Nossos tios e tias surgiram nas outras sacadas achando nosso estado curioso.

— Qual será o castigo da vez? — Abri um sorriso esperto nos lábios enquanto corríamos para dentro do hotel.
— Algo que você dará um jeito de escapar, como todas as vezes. — Michèle riu enquanto apertava o botão do elevador.
— O segredo é olhá-la dentro dos olhos dizendo que a ama muito prometendo que a amará para sempre. — Pisquei um olho entrando no elevador. — Sempre funciona.
— Isso porque ninguém resiste aos seus pedidos, boboca! — Michèle tentou apertar o número 20.
— Olha quem fala, não consegue alcançar o botão do nosso andar. — Empurrei ele com os ombros rindo.
— Você é mesmo irritante! — Ele bufou fingindo que estava irritado.
— Eu sou a alegria na nossa família.
— Você é quem causa mais confusão.


Despertei sentindo a melancolia me atingir; as lembranças de Michèle me causavam dor. Ele havia ido de um irmão maravilhoso a um canalha completo; depois de fingir sua morte, todo o encanto sobre ele havia se quebrado. Não conseguia aceitar como ele e toda minha família me permitiram passar por aquele inferno de anos atrás. Toda a Famiglia estava envolvida no que passara há 15 anos atrás, desde o falso sequestro à minha venda como escrava dos magnatas estadunidenses... Havia sobrevivido a pior face da humanidade, não seria meu próprio sangue um obstáculo intransponível depois de tudo!
Nunca me interessara pelo trabalho de meu pai; aceitava que a fortuna que possuía era devido à ilegalidade, no entanto, ser jogada aos lobos para transformar-me em um peão para os interesses da FAMIGLIA... Era inaceitável! Passara de uma jovem despreocupada e gentil para a assassina, manipuladora, etc... Eu sabia que não era bem vista e de longe possuía uma boa reputação; porém era extremamente doloroso aceitar que todos aqueles que diziam me amar haviam cravado uma faca em minhas costas, arrancado meu coração sem qualquer piedade...
Não conseguia os compreender, o sangue pouco lhes importava quando o próprio interesse falava mais alto; evitava a qualquer custo meus progenitores, somente de ouvir o nome deles me causava repulsa e enojo.
Passei os últimos três anos isolada na imensa mansão em Florença. Isso ocorreu logo após a morte de Johnny, havia descoberto toda a farsa que me cercava, Michèle havia se encarregado de me levar de volta para a Itália naquela fatídica noite. Não conseguia compreender em que ponto o amor se perdera... Ou melhor, se de fato houvera amor naquela família. Os Espossito não eram conhecidos atoa por terem sangue frio.

“Nem seu próprio sangue escapava!”


Todas as boas lembranças possuíam o gosto amargo da mentira. Não havia algo que eu pudesse me basear com veracidade quando o assunto era aqueles que chamei por família durante toda minha vida, todos eram dignos da minha desconfiança, pais, tios, primos, avós... De um lar amoroso, passou a ser um ninho de cobras.
Respirei fundo, buscando enterrar as lembranças despertadas pelo sono, junto as tantas outras... Não precisava de mais obstáculos para cumprir o que havia iniciado. Peguei meu telefone digitando pouco mais que 3 palavras em uma mensagem que encaminhei para todos os meus homens infiltrados.

Ordem: iniciar operação cobra.


Havia me preparado durante três anos após descobrir a real face da Famiglia. Omiti minha raiva, meus sentimentos conflituosos e principalmente a dor. Permaneci usando o disfarce de um coração quebrado enquanto traçava o plano que os levaria à ruína. Tive três anos para criar, traçar, e escolher meios efetivos para destruí-los. Caso o plano falhasse, usaria as informações que possuía para dificultar os negócios... Caçaria um a um para dar como concluída minha vingança.

— Olho por olho, dente por dente!


Capítulo 15

As notícias corriam pela mídia global, as manchetes traziam meus atos sangrentos contra meu sangue. Embora estivesse seguindo adiante com o plano de vingança, não havia qualquer satisfação em ceifar um a um de meus parentes... O rubro intenso manchava minhas mãos enquanto desfrutava de um velho e precioso vinho de meu tio, era como estar observando uma estranha. A sala estava entulhada em estilhaços; meu reflexo era visto através do tampo da mesa. Meus olhos exibiam um olhar distante, a expressão neutra quase enojada me dava um ar de arrogância.
Mama e papa foram os únicos que se mantiveram em nossa casa em Veneza; o Alto Conselho da Famiglia ocorrera em nossas terras em Verona. A propriedade estivera muito bem protegida durante anos, no entanto os mesmos homens que os serviam também me eram leais, portanto entrar pelo umbral da mansão fora tão fácil como roubar doce de criança. Não importava o preço oferecido pela minha cabeça, no final de tudo era um jogo de lealdade. Meu pai sabia disso tão bem quanto qualquer um que participara dessa estúpida reunião. Fora como um convite! A estupidez de montar uma estratégia, justamente no lugar em que cresci, fora a sentença de morte deles. Observei as pesadas cortinas perfuradas por balas, as paredes estavam marcadas pelo o que havia ocorrido ali... O atentado na igreja fora apenas o meu recado, matar meus avós não me afetara como imaginei que seria; provavelmente a morte de Johnny fora mais difícil que executar a minha própria família.

— O preço da traição é a morte!

Ergui o galão vazio de vinho da mesa enquanto me levantava da majestosa poltrona usada por meu avô, arremessei ele contra a parede em um ato impulsivo assustando meus homens. Bianco e Martino haviam sido encarregados de destruir o prédio que Michèle usava como fortaleza na capital sul coreana; eles haviam sido orientados a não matar meu irmão, a vida dele me pertencia; portanto havia retornado a Itália sozinha, escoltada por meus fiéis lacaios.

— Famiglia, há! No final de tudo sua ruína viera de seu próprio sangue!

Cuspi as palavras enquanto passava pelos corpos, as expressões variavam gravadas em seus últimos instantes de vida; os cadáveres pertenciam aos meus tios, primos, crianças... Não poderia poupar nenhum Espossito. O ciclo nunca chegaria ao fim caso não eliminasse o mal pela raiz!
Os aliados de minha família estavam tendo de enfrentar as organizações rivais e a própria Interpol. Havia me encarregado eu mesma em negociar termos e medidas que seriam tomados contra essas pessoas. Quando encerrasse minha vingança assumiria outra identidade e desapareceria como já havia planejado. Sinalizei aos meus homens para prosseguirem com a etapa final; incendiar a mansão. Todos seriam reduzidos ao pó, os Espossito estavam pagando o preço por trair seu próprio sangue.

— A vendeta!


Capítulo 16

Estava em um jantar de negócios com políticos, quando o noticiário exibiu uma propriedade reduzida às cinzas. A matéria tinha como título: Incêndio misterioso causa a morte de poderosa família italiana.
O que estava prestes a falar para os homens à minha frente, é bruscamente esquecido diante de tal notícia. Dias atrás, os rigorosos e conservadores anciões Espossitos haviam sido mortos em um ataque no domingo, quando estavam indo ao culto dominical. Estava claro para mim que havia sido uma declaração de guerra contra eles.
O que estava me incomodando era o fato de não haver qualquer suspeito por trás desses atos. O mistério sobre o responsável por esses atos colocava-me em alerta total; se essa pessoa havia ousado desafiar os gigantes Espossitos, executar qualquer outra organização seria como tirar doce de criança. Não foram apenas os Espossito atacados nessa semana, grandes e poderosas organizações criminosas estavam sendo bruscamente retaliadas ao redor do globo. A mídia exibia com alarme o número de ataques que aparentemente não tinham qualquer ligação.
Suspeitava que havia um ponto em comum entre todos os atos brutais... E ao que tudo indicava, Michèle parecia conhecer a face do responsável por trás desses ataques.

— Queiram me perdoar, mas terei de me ausentar. — Me levantei calmamente enquanto G-Dragon atravessava o salão com a face séria.
— Entraremos em contato, isso pode ser adiado diante ao que está ocorrendo no mundo. — Park Miyung comentou enquanto se servia de mais uma dose de soju, os presentes concordaram.

Tomei a mesma direção que GD, após seu pedido silencioso para que o seguisse, havíamos seguido para os fundos do restaurante. Era um fato que o restaurante era comandado pela minha organização, no entanto o local não me parecia nem um pouco seguro devido aos últimos acontecimentos. Todo o submundo estava agitado diante à ameaça desconhecida; GD parou de andar quando atingimos o escritório no segundo andar, em questão de segundos ele estava com um cigarro dançando em sua boca enquanto murmurava.

— O que você tem a me dizer, G-Dragon? — Indaguei seguindo para a minha cadeira, meus olhos analisavam seus movimentos repetitivos.
— A organização de Michèle caiu... — Ele iniciou deixando a fumaça de seu cigarro escapar por seu nariz enquanto apoiava-se nas portas da varanda.
— O que isso tem de importante? — Questionei acendendo o meu próprio cigarro enquanto esticava minhas pernas sob o tampo da mesa de carvalho.
— Matrona é a responsável por toda essa confusão. — GD me deu um olhar enigmático enquanto pisava em seu cigarro, ele aparentava estar impaciente com algo.
— Esse é motivo por trás de sua agitação? — Questionei tranquilamente deixando a fumaça de meu cigarro escapar de modo lânguido.
— Não, ele está agitado porque você nos deve algo, Choi Seunghyun. — Giuseppe adentrou minha sala com seus homens, eles carregavam um Michèle desacordado.
— Mas que porra! O que? — Me levantei num rompante sacando a arma que estava debaixo do tampo da mesa.
— Não há necessidade para isso. — Giuseppe falou de modo calmo enquanto seus homens depositavam Michèle no sofá.

GD observava tudo com suas mãos dentro dos bolsos, os quais estavam suas armas. Seu semblante revelava o mais puro desgosto direcionado ao homem que estava sendo perseguido por Matrona. Michèle estava em um estado deplorável, mostrando que havia sofrido um ataque. Coloquei a arma sob o tampo da mesa enquanto sustentava o olhar do mafioso; a tensão naquela sala poderia ser cortada por uma faca.

— Não me lembro de ficar lhe devendo favores, Espossito. — Apaguei o cigarro no cinzeiro ao meu lado.
— Não a mim! — Ele sentou-se de modo confortável enquanto dispensava seus homens.
— Você não deveria estar aqui, maldito! — GD se pronunciou pela primeira vez desde que Giuseppe adentrara o recinto.
escondera muito bem seu paradeiro, figlio mio. — Giuseppe respondeu GD com um sorriso macabro e um olhar frio.
— O que ele está dizendo, Kwon? — Indaguei destravando a arma enquanto observava-os atentamente.
— Seu cão de estimação não revelou quem é o seu verdadeiro pai?! — Giuseppe respondeu rindo como um lunático, ele parecia encontrar uma diversão macabra mesmo na sua atual situação.
— Você não é digno do título só por eu ter seu sangue em minhas veias. — GD cuspiu as palavras de modo ríspido enquanto lançava um olhar de ódio para os italianos naquela sala.
— Isso não importa Giuseppe, que lhe faz pensar que te deixarei sair com vida deste lugar? — Dei de ombros enquanto apontava a arma para ele.
— Oito letras mio caro, Malavita. — Giuseppe sorriu ao pronunciar cada palavra rindo no final.
— Qual a importância dessa merda de palavra? — GD indagou.
Matrona. — O respondi de forma sucinta, me abstendo de lhe dar uma explicação.
— Ele não pode nos tocar devido ao acordo feito com sua irmã, mio caro. — Giuseppe exibia um brilho de satisfação em seu olhar. — Seu amico, caro mio, tem a obrigação de nos oferecer auxílio ou ela o dizimara assim como está fazendo com o próprio sangue.
— Sua irmã é a Matrona? — Questionei pego de surpresa, GD concordou com um aceno enquanto desviava seu olhar do meu para agarrar a gola da camisa de Giuseppe.
— Velho maldito! — GD ergueu Giuseppe pelo pescoço o jogando do outro lado do recinto fazendo-o que ele caísse de encontro à lareira. — Sua filha vai matá-lo por último e estarei lá para assistir ao espetáculo que esse ato se tornará!
terá piedade de Michèle... — Giuseppe fora interrompido pela gargalhada de GD que o interrompera sem qualquer cerimônia, o olhar que ele direcionava à Giuseppe carregava desprezo.
— Você a fez odiar cada membro de sua preciosa família; você acha mesmo que existe algum resquício de lealdade para com o próprio sangue? — GD apontou a arma para as pernas de Giuseppe disparando muito próximo de suas partes baixas. — Ela não poupará nenhum traidor.
— Kwon, já chega. — Retirei a arma das mãos dele, o arrastando à força para fora daquela sala.
— Você pode ser o meu melhor amigo, o homem que eu sirvo nessa organização, Seunghyun. — GD me encarava sério. — Mas a minha lealdade pertence à minha irmã mais nova, ela não tem ninguém para protegê-la... — Ele respirou fundo enquanto andava de um lado para o outro perturbado. — Ela precisa de alguém para proteger ela de si mesma. — Ele completou me mostrando seu real estado em apenas um olhar, aquilo me tranquilizou, no final das contas, GD possuía um motivo concreto para esconder um segredo como aquele; ele estava apenas cuidando da sua irmã mais nova.
— Você alguma vez trabalhou para eles? — Não precisei expor quem me referia, já que ele sabia sobre quem estava falando.
— Não, tudo o que sinto pelos Espossito é o mais puro desprezo. — GD seguia pelo corredor com os punhos cerrados enquanto cuspia as palavras com raiva.
— O seu grande segredo fora revelado, então. — Soltei as palavras com cautela, analisando os possíveis cenários que poderiam ocorrer.
— Ser o filho bastardo de Giuseppe Espossito não é algo do qual eu possa me orgulhar. — Ele soltou uma risada amarga enquanto tentava acender seu cigarro.
— Não estava me referindo a isso, seu idiota! — Acendi o cigarro dele com o meu isqueiro. — Estava me referindo à Matrona.
— Bem, minha irmã é uma figura peculiar. — Ele sorriu de forma calma baixando a guarda por uns instantes, isso por si só me dizia o quanto ele a protegia.
— Peculiar está longe de descrevê-la. — Acabei rindo enquanto me apoiava nos tijolos do beco, havíamos saído do restaurante pelos fundos.
— Ela é a única família que me resta, não tem apreço nenhum por sua própria vida. — Ele soltou a fumaça de seu cigarro pelo nariz novamente enquanto balançava a cabeça de modo negativo. — Por que fez um acordo que o prejudicaria no futuro?
— Quando Matrona lhe deixa viver, você faz tudo o que estiver ao seu alcance. Mesmo que seja um acordo que possa te prejudicar no futuro. — O respondi deixando meus olhos alcançarem o céu.
— Você está ferrado, meu amigo. — GD riu enquanto me encarava com um semblante engraçado.
— Do que você está achando graça, idiota? — Questionei apagando meu cigarro chutando sua perna.
— Acho bom você colocar a maior distancia que puder entre você e aqueles dois; Matrona está vindo matá-los em pessoa! Nada e ninguém será capaz de impedi-la. — GD concluiu antes de seguir para fora do beco. — Cumpra o acordo colocando-os sob proteção vinte e quatro horas, forneça homens, armamento, mas não se meta no meio desse conflito; estou te avisando pelo seu próprio bem.
— Ela está assim sedenta por vingança? — Arqueei uma sobrancelha me preparando para voltar para o restaurante.
— A vingança é tudo o que ela tem. — GD finalizou antes de seguir para longe dali.

Observei a entrada do beco mais uma vez, os recentes acontecimentos haviam me impedido de divagar sobre o que ocorrera dias atrás, em um beco qualquer, com uma mulher extraordinária. Minha situação estava ainda mais complicada do que normalmente era. Conflitos inesperados, um acordo a ser cumprido, guerras entre potências e uma distração nada bem-vinda!

— Uma coisa de cada vez, Choi. — Sussurrei para mim mesmo. — Foque em um problema de cada vez.


Capítulo 17

A notícia sobre a morte de meus leais homens, não fora o suficiente para me abalar. Meu pai abandonara a Itália se esgueirando como uma serpente; pronto para dar o bote. Ele tivera a coragem de matar minha mãe, deixando o seu corpo gravado com a insígnia que utilizava como Matrona.

— Quem você está tentando enganar, Giuseppe?

Acabei rindo com o meu questionamento, meus planos eram diferentes para minha mãe. Eu a torturaria primeiro, faria ela admitir todas as crueldades planejadas antecipadamente para que chegasse aonde estava... E só então, depois disso, a mataria. Mama não era capaz de sustentar mentiras por tanto tempo, ela cederia facilmente. Me estiquei no colchão, ouvindo minhas articulações estralarem. Havia passado as últimas dez horas adormecida, após retornar para a capital sul coreana. O meu refúgio estava estranhamente limpo e alinhado quando chegara, as dispensas e geladeira foram reabastecidas e tinha ciência de que não fora meus leais homens... O fato era que ainda não havia dado importância ao atirador desconhecido, o qual havia tentado me matar quando retornava para o centro urbano da capital. Eu ainda não tinha ido investigar o sujeito, estava ocupada demais com o meu próprio sangue; ao ponto de não me forçar a investigar o atirador e o desconhecido que havia descoberto a minha base.

— Talvez eu tenha um oponente a altura?

Ri ao pronunciar isso calmamente, as instalações estavam lotadas do meu próprio exército; havia reunido homens em um número significativo para além de me proteger, dizimar qualquer oponente que ousasse cruzar o nosso caminho. Embora houvesse algo me perturbando no momento, uma carta, a qual ficava trancafiada no cofre de nossa casa em Verona. Ela estava nas mãos da minha mãe quando encontrei seu cadáver. Havia segredos entre meus progenitores, segredos estes que levaram a morte de minha mãe. Giuseppe deixara aquela carta com a clara mensagem:
Mesmo que seja minha filha, você nunca poderá me derrotar.
Passara tempo demais ao lado dele, eu o conhecia tão bem quanto a mim mesma. Eu o acompanhei em negociações, uma pequena e ingênua criança observando o mundo que se escondia atrás de roupas caras, joias imponentes, e um exército silencioso. Ali, Giuseppe me mostrava parte do meu futuro; ele não pouparia a própria filha, se fosse para conseguir o que desejava nenhum meio era demais para ele. Impiedoso, estrategista, frio, eram os principais adjetivos usados para descrevê-lo.

“Quem diria que aquele que me prometeu proteger de tudo era a fonte do meu maior sofrimento!”

A vaga lembrança de Giuseppe me acolhendo em seus braços, após eu ter tido um pesadelo, surgiu em minha mente. Aquela não imaginava o futuro que lhe esperava.


Capítulo 18

O céu estava cinzento, haviam se passado dez dias desde minha chegada da Itália, as nuvens carregadas davam indícios de que uma tempestade se aproximava. O ar estava úmido e denso, o odor de flores apodrecendo permeava o cemitério. Estava sentada diante da lápide de Johnny Suh, havia prometido a mim mesma que nunca mais retornaria àquele lugar, como uma covarde, encarava a fotografia de sua lápide enquanto meu interior encontrava-se frio e morto; ao encarar a figura séria de Johnny, me sentia pressa num loop de culpa e aceitação, havia o matado friamente embora pranteasse sobre seu corpo após puxar o gatilho. Isso estava me levando a loucura, uma dose extra da qual já vivia. Estava presa nas lembranças que tive ao lado dele quando senti a primeira gota de água me atingir. E então, como a primeira gota, a chuva enfim caiu, de modo torrencial encharcando-me em poucos segundos. Fechei os olhos, me permitindo sentir as gotas da chuva provando a mim mesma que estava viva e não era um cadáver ambulante. Se era capaz de apreciar a chuva poderia recomeçar depois de tudo, merecia? Eu não fazia ideia!
Porém tentaria me refazer após concluir o que havia iniciado. Me levantei languidamente, beijei a ponta de meus dedos os levando em seguida até a fotografia.

— Adeus, meu amor...

— Você não tem o direito de estar aqui!

Uma voz bradou as minhas costas interrompendo minha despedida, abaixei a cabeça rindo desacreditada dentre tantas pessoas a quem poderia encontrar naquele lugar, tinha de ser um membro da gangue de Johnny. Me virei para Jaemin rindo, o ódio em seu olhar seria capaz de intimidar qualquer um... Não a mim, no entanto.
Me aproximei calmamente dele observando-o no processo, Jaemin sacou sua pistola em uma fração de segundos, o tórax dele subia e descia num ritmo acelerado denunciando seu real estado.

— Você ficou mais alto. — Proferi de modo calmo e com certo gracejo evitando seguir diretamente ao ponto.
— Era você quem deveria estar no lugar dele. — A voz de Jaemin parecia ecoar pelo local.
— Eu sei. — Abri meu característico sorriso animalesco enquanto segurava o cano da pistola contra o meu tórax. — Por que então não resolve essa questão?
— Você é a porra de uma psicótica! — Jaemin gritou exasperado enquanto eu sentia a arma tremer em seu aperto.
— Você não tem ideia do quanto!

Puxei a arma de suas mãos a girando em meus dedos antes de disparar contra a cabeça dele, foram uma sequência de movimentos rápidos, algo mais instintivo do que calculado. Balancei minha cabeça negativamente observando a chuva espalhar o sangue dele a sua volta. Jaemin não tivera qualquer oportunidade de reagir, tudo ocorrera em questão de segundos e quando enfim percebi, possuía mais um nome na longa lista de mortos deixados por mim.

— A regra número um para sobreviver no nosso mundo, criança, é: nunca encare um inimigo se não estiver preparado. — Deixei a arma ao lado de seu corpo, não precisaria dela de todo modo.

Andei entre as lápides com cuidado redobrado, checando se havia mais alguém por ali. Após verificar todo o perímetro, segui para o estacionamento do cemitério encontrando um carro estacionado ao lado da minha moto. Os nossos automóveis eram os únicos estacionados naquele lugar, abri a porta do carro do lado do passageiro me sentando sobre o estofado de couro do banco quase instantaneamente. Ofereci um sorriso amigável a Renjun antes ao segurar suas duas mãos. Ele esboçava choque e horror ao me reconhecer, seus olhos iam da minha face ao portão do cemitério.

— Você tem duas opções: me matar ou recuperar o corpo de Jaemin. — Me pronunciei calmamente quebrando o silêncio.
— Assassina! Louca! Traidora! — Renjun cuspia as palavras enquanto se debatia.
— Já fui chamada de coisa pior, acredite! — Sorri enquanto soltava uma de suas mãos pegando o isqueiro e cigarro no porta-luvas, desviando de uma faca no processo. — Eu estou tentando ser legal com você, me deixe apenas acender a porra do cigarro.
— Você acabou de matar o Jaemin, acha mesmo que merece qualquer coisa?! — Renjun expressou sua revolta diante meu pedido.
— Olha, eu fui muito boa ao não matar o que sobrara da organização de Johnny. — Coloquei o cigarro sobre os lábios o acendendo em seguida.
— O que pretende fazer comigo? — Renjun prosseguiu expressando sua desconfiança.
— Mio caro Renjun, ao adentrar este automóvel, lhe ofereci duas opções, não preciso ser repetitiva, correto? — Rolei os olhos enquanto soltava o outro pulso dele.
— Você me matará de toda forma. — Ele abriu a porta saindo do carro.
— Uma das alternativas prolonga a sua vida, no entanto. — Ofereci arqueando uma sobrancelha; ainda permanecia dentro do automóvel para que meu cigarro não apagasse.
— É impossível matá-la. — Renjun levou suas mãos até o alto da cabeça tentando se acalmar, ele parecia estar em uma batalha interna, não o julgava; em seu lugar estaria tão ou ainda mais afetada.
— Siga até Jaemin então, ele veio ver Johnny, assim como eu. — Ofereci uma solução razoável para ele enquanto tragava mais uma dose de nicotina para o meu sistema.
— Porquê veio até aqui? — Ele questionou transtornado.
— Eu o amava, isso não era mentira. — Dei de ombros soltando a fumaça preguiçosamente pelos meus lábios.
— Como saberei que não está mentindo? — Renjun me questionou encarando-me de forma séria.
— Você não tem como saber, vai ter de acreditar em minhas palavras. — Comentei de modo displicente enquanto me sentava confortavelmente sobre o banco do carro.
— Eu deveria ter atirado assim que surgiu, não é mesmo? — Ele me encarou de modo a expressar sua derrota.

Por milésimos de segundos, me deixei voltar no tempo, nas lembranças em que Johnny ainda estava vivo e toda sua gangue me considerava parte de sua família. Aqueles breves segundos foram capazes de trazerem lágrimas aos meus olhos, sem hesitar, no entanto, atirei contra Renjun. Minha mão esquerda estava algum tempo segurando minha pistola. Ele deveria ter percebido quando lhe dei tempo para escapar. Havia segurado fracamente os pulsos dele, Renjun teve duas oportunidades: de me matar ou fugir; minha moto estava com a chave na ignição, era só ele trancar o carro e dar o fora dali ou ter atirado em mim quando adentrei o carro.

Regra número dois: se estiver sozinho busque fugir após incapacitar o inimigo no processo.


Capítulo 19

— Eu vou enlouquecer ao ter que ouvir mais uma exigência de Michèle!

Dong Young-Bae adentrou meu escritório furioso, havia perdido a conta de quantos cigarros havia fumado até aquela hora, meu humor estava tão intragável quanto ao de meu subordinado, lhe lancei um olhar pouco amigável sinalizando para que ele me deixasse sozinho.

— Não me dê esse olhar, porra! — Taeyang exclamou emputecido se sentando na cadeira em frente à minha mesa.
— O que há dessa vez? — Exclamei revirando os olhos, aquilo havia se repetido a semana inteira, Michèle estava em um complexo a duas quadras de distância. No entanto seus pedidos estavam acabando com a pouca paciência que meus subordinados possuíam. Havia lhe dado uma fortaleza, separei um grupo de homens treinados para enfrentar qualquer ameaça e lhe dei uma guarnição considerável de armamentos; havia separado um jato e um helicóptero para emergência, se caso fosse necessário, embora tudo isso ainda parecesse pouco para aquele bastardo!
— A mesma merda de sempre! — Taeyang levantou-se irado. — Até quando vai permitir que essa corja de vermes permaneça sob nossa proteção? — Taeyang bradou segurando a gola da minha camisa enquanto seus olhos me pediam para aniquilar aqueles vermes dos Espossitos.
— Até que Matrona queira! — Suspirei cansado de repetir a mesma coisa; havia explicado isso inúmeras vezes aos imbecis que trabalhavam para mim, retirei suas mãos do meu terno o alinhando em seguida, me levantei seguindo em direção a sacada. O ar fresco da noite não parecia capaz de esfriar meus pensamentos. — Fora um acordo sem cláusulas que pudessem ser burladas, meu caro Dong Young-Bae.
— Sequer sabemos a aparência dela, Choi Seunghyun! Quem se importa com o que essa mulher deseja? — Taeyang questionou furioso cego pela sua raiva.
— Ela é o motivo de você ainda respirar, Dong Young-Bae. — Kwon Jiyong adentrou a sala arrastando um Michèle inconsciente. — Ele estava ouvindo atrás da porta. — GD largou Michèle de qualquer jeito no centro da sala.
— O que há com essa espécie de adoração que vocês dois tem por Matrona? — Taeyang revidou num tom ácido.
— Ela salvou a sua vida, seja no mínimo grato por isso! — GD repetiu se sentando no sofá no centro da sala.
— Eu não me lembro dessa merda toda! — Taeyang afirmou revidou acendendo seu cigarro enquanto revirava os olhos.
— Uma pessoa quase morta não pode lembrar de seu herói, ainda mais um que se esconde atrás de um pseudônimo. — Comentei observando-os, isso havia ocorrido anos atrás, em dias não tão gloriosos para minha organização.
— Se ela fosse essa heroína que vocês pintam, Matrona não seria esse fantasma tão temível pelo qual é conhecida. —Taeyang reforçou teimosamente. — Vejam só, o errante acaba de acordar! — Taeyang comentou dando de ombros indicando Michèle.

Michèle se levantava vagarosamente resmungando a cada movimento feito, seu semblante torcia-se em uma careta apenas ele se sentar. GD devia ter lhe dado uma surra por pegá-lo ouvindo atrás da porta. Taeyang observava Michèle com claro desgosto enquanto GD permanecia inexpressivo ao encarar seu meio irmão. Seu olhar estava fixo na figura de Michèle de modo a vigiá-lo; nada mais além disso.

— Teve uma boa soneca, bela adormecida? — Questionei provocando-o enquanto apagava meu cigarro apenas para acender outro.
— Você deveria agradecer que era eu quem estava os ouvindo! — Michèle respondeu de modo orgulhoso levando todos ali presentes rirem sem piedade.
— Você acha que teria sido diferente se fosse seu pai? — Me levantei caminhando até ele. — Minha obrigação é apenas de os manter vivos, só isso.
— Não é bem esse o acordo que fizera com minha irmã. — Michèle retrucou com altivez, seu ego ferido rebatendo a sentença que eu havia proferido.
— Ela me dissera apenas uma coisa: dar proteção as pessoas que viessem até mim dizendo Malavita. Nada mais além que isso. — O ergui segurando a gola da sua camisa. — Ela está vindo o matar, não é mesmo?
não seria capaz de matar seu próprio irmão. — Michèle rebateu me empurrando, chutei seu estômago alinhando minhas vestes em seguida.
— Quem lhe deu autorização para me tocar, bastardo! — O respondi contendo a fúria que ameaçava escapar de dentro de mim. — Você realmente acredita nessa palhaçada?
é o nome de Matrona? — Taeyang interrompeu curioso e confuso ao mesmo tempo.
— Isso não importa, no momento tudo o que temos de fazer é ficar longe dessa corja de vermes. — Voltei a me sentar em minha cadeira esticando minhas pernas sob o tampo da mesa.

Estava pronto para continuar meu discurso quando a sala fora banhada em trevas, meus olhos encontraram os de Kwon no mesmo instante que um som ensurdecedor varreu o lugar, estilhaços de vidro caíram sobre nós como uma chuva. Era impossível se levantar devido ao som ensurdecedor; num rompante, uma luz nos cegou iluminando uma silhueta feminina na sacada. Devido a luz, era impossível discernir sua face, no entanto era possível ouvir o grito horrorizado de Michèle, sua face exibia o mais puro pavor enquanto a figura se aproximava à passos firmes do local em que ele se encontrava caído; ele tentava se mexer desesperadamente no entanto não conseguia sair do lugar. Em suas mãos havia um machado intrinsecamente detalhado, ela arrastava-o atrás de si mesma. A figura passou por mim sem ao menos direcionar seu olhar, ela parecia estar focada apenas no Espossito. Taeyang buscava alcançar sua arma que havia caído alguns metros dele enquanto GD assistia tudo fascinado, ele não parecia saber o que se sucederia. Era como se a cena estivesse em câmera lenta, pela minha visão periférica, conseguia ver Taeyang se esticar na direção da arma, Jiyong estava imóvel como se, assim como eu, sentisse que não deveria desviar os olhos da mulher misteriosa...
Ela ergueu o machado acima da sua cabeça e então o abaixou de forma a decepar a cabeça de Michèle, uma névoa de sangue atingiu a parede e os móveis...
A figura parecia ter proferido algo antes de abaixar o machado sem hesitação, algo que fizera os olhos de Michèle Espossito banharem-se em lágrimas que jamais seriam derramadas, havia um sorriso morbidamente triste cravado na face dele. A cabeça de Michèle Espossito rolou pela sala parando a poucos metros da minha. A desconhecida então soltou o machado e segurou a mão de Jiyong o içando do chão, as cortinas e alguns papéis se moviam de acordo com o vento produzido pelas hélices do helicóptero próximo da sacada. Uma escada de cordas surgiu fazendo com que a figura daquela misteriosa mulher segurasse nela enquanto amarrava uma corda na cintura de GD.
Assim como havia surgido, ela desapareceu levando o som ensurdecedor com ela. A sala então fora banhada pela luz, o ambiente estava em um estado caótico. O corpo de Michèle estava em uma posição estranha. Chutei a cabeça dele para longe. O que havia acabado de acontecer era obra de uma única pessoa: Matrona!


Capítulo 20

Taeyang fora o primeiro a se pronunciar após o ocorrido, assim como eu, ele encarava a sacada por onde Matrona havia desaparecido com GD.

— Um já era, agora falta mais um! — Taeyang estralou seu pescoço enquanto desviava o olhar da cena macabra que era o corpo ao lado do machado que decepara a cabeça de Michèle.
— O que ela pretende ao levar G-Dragon? — Questionei seguindo até a sacada meio zonzo pelo efeito daquela bomba sonora.

Sem que eu precisasse perguntar outra vez, a sala fora invadida por Giuseppe Espossito; seus olhos encararam o corpo sem cabeça de Michèle com nojo, seu olhar demorou-se no machado deixando escapar algo em italiano enquanto sacava seu telefone, seu olhar possuía um brilho doentio enquanto caçava seu filho bastardo com a arma em punho.

“Matrona protegera seu irmão ao tirá-lo dali antes que Giuseppe aparecesse!”


Com uma frieza fora do normal, ele mandou seus homens retirarem o corpo de seu filho, um de seus subordinados pegou a cabeça de Michèle buscando esconder o horror. Minhas mãos estavam segurando minhas armas destravadas enquanto meus olhos avaliavam Giuseppe com cuidado; seu temperamento volúvel era bem conhecido.

— Ela de fato é uma verdadeira Espossito, apesar do erro de sua genitora. — Giuseppe sorriu sadicamente enquanto entregava sua arma à um de seus homens.
— O acordo está desfeito, Espossito, leve sua guerra familiar para longe dos meus homens. — O avisei em um ultimato cuidadoso.
— Cale a boca, criança insolente. — Giuseppe me lançou um olhar sombrio enquanto se aproximava a passos rápidos parando a poucos metros de onde eu estava. — Eu sou o único a dar o veredicto final! — A lâmina de uma adaga reluziu sob sua mão em um movimento rápido. — Não ouse pensar que pode vencer a mim, sequer pode considerar-se uma ameaça!

Giuseppe riu de modo sombrio, seu corpo dobrou-se enquanto sua voz macabra preenchia o ambiente. Como se não fosse nada, ele lançou sua adaga em Taeyang em um movimento rápido demais para que ele pudesse se defender. A adaga acabou acertando o abdômen de Taeyang, enquanto Giuseppe se afastava em direção a porta.

— Seu território... — Giuseppe riu enquanto balançava a cabeça em negação. — No momento em que coloquei meus pés nessa merda, isso passou a me pertencer. Malavita significa família e o que está prestes a ocorrer é uma guerra, mio caro Seunghyun; portanto os seus homens passaram a ser os meus subordinados agora! Seus aliados são os meus aliados, até que eu tenha em meu poder tudo o que lhe pertence é meu agora!


Capítulo 21

Com isso, Giuseppe partiu após dar ordens a um de seus lacaios, me ajoelhei ao lado de Taeyang avaliando o dano que Giuseppe havia lhe causado. Os olhos do meu amigo estavam turvos enquanto ele cerrava os dentes em dor.

— Bastardo maldito! Eu avisei que tínhamos de ter matado esses vermes quando tivemos a chance. — Taeyang resmungou entre seus dentes.
— Aquele maldito já está morto, você viu o que a filha dele fora capaz de realizar? — O questionei com meus olhos fixos em seu abdômen, com cuidado rasguei o local do ferimento avaliando o dano. — Seria mais animador se tivesse sido atingido por uma bala, Taeyang. — Ergui os meus olhos com seriedade.
— Está tão ruim assim? — Ele indagou receoso, sua voz tremia levemente enquanto buscava suportar a dor.
— Preciso levá-lo imediatamente a um hospital! — Me levantei seguindo em direção a porta, apenas para encontrar um dos lacaios de Giuseppe guardando o local do outro lado.

Soltei alguns xingamentos enquanto tentava pensar em algo, o prédio havia sido construído segundo as minhas ordens, portanto em algum lugar daquela sala havia um meio para escapar dali. Olhei com atenção à minha volta ignorando o machado e as manchas de sangue sob piso de madeira.

— O chão, seu imbecil! — Taeyang indicou o machado, então abri um sorriso achando engraçado o fato dele ter se lembrado de algo que havia me esquecido.

Empurrei o sofá até a porta e então encontrei o alçapão que dava para o elevador de emergência; ergui cuidadosamente meu amigo o levando até o elevador, enquanto isso, buscava o distrair brincando que ela parecia uma donzela ao ser carregado daquela forma. Obviamente ele me xingou, embora seus olhos me agradecessem por distraí-lo. O elevador nos levou até a garagem no subsolo, apoiei Taeyang em um carro enquanto o destravava até que o som de uma arma sendo engatilhada quebrou o silêncio daquele lugar.

— Como dois ratos como vocês escaparam de Frederick?! — O sotaque proeminente indicava que a voz pertencia à um dos lacaios de Giuseppe.

Estava pronto para me virar e atirar contra aquele imbecil quando ouvi o som de um corpo cair aos meus pés; no reflexo do vidro do carro a figura de um fantasma me encarava com um sorriso debochado. Minha face tomou um tom lívido diante o choque.

— Os mortos não podem reviver...
— A palavra correta seria obrigado, meu caro Choi!


Capítulo 22

O ar fresco inundava meus pulmões conforme inspirava, de modo lento e vagaroso soltava o ar para fora dos meus pulmões buscando controlar meu possível choro. Matar Michèle fora uma tarefa difícil, embora necessária, restava apenas Giuseppe... E assim sobraria apenas Jiyong ao meu lado. Meu meio irmão me dissera onde e como atacar para eliminar Michèle; inicialmente havia planejado matá-lo por último, questionaria os propósitos por trás das ações da FAMIGLIA e só então o indagaria sobre o porquê ter aceito tudo! No entanto, desisti da ideia, aceitando apenas dar à Michèle uma morte rápida. Minhas últimas palavras foram que eu o amava, apesar de tudo, ele ainda era o meu irmão! As memórias da nossa infância jamais seriam apagadas e embora soubesse que houvesse uma parcela de mentira, o sentimento de irmandade era real, em partes...
Enxuguei uma lágrima teimosa enquanto observava Jiyong adormecido, sua face serena exibia a tranquilidade que há muito não o via exibir. Kwon era irresponsável quando tratava-se cuidar de sua saúde, portanto sempre estava atenta ao estado dele. Afaguei o cabelo dele enquanto meus olhos perdiam-se no horizonte, a madrugada logo daria lugar a um dia ensolarado típico do verão sul coreano. O último dia de primavera fora banhado em sangue. Eu sabia que teria de enfrentar uma face que jamais havia visto de Giuseppe Espossito. Levar Kwon Jiyong comigo fora apenas uma medida de precaução; ele fora a única família que me restara e o ódio de Giuseppe por ele dava-se ao fato de que a mãe de Kwon fora a única mulher rejeitar o grande Patrono de la Famiglia. A rejeição ferira o ego de meu pai ao ponto de rejeitar a criança que ela carregava no ventre. Giuseppe fizera da vida dos dois o inferno por causa da rejeição; ela se envolvera com meu pai sem saber que ele era casado, porém quando descobriu tudo, ficou horrorizada e fugiu para a Coréia do Sul, país no qual teve seu filho e buscou fazer de tudo para sobreviver.
Eu só soube que tinha um meio irmão quando o próprio Kwon Jiyong esbarrou em mim no centro movimentado de Milão. Estava fazendo compras para as festividades de fim de ano quando ele trombou comigo; sua face exibiu uma expressão de enojo quando identificou os meus guarda-costas. Eu tinha exatamente 9 anos e ele três anos a mais que eu; ele vagava sozinho pelas ruas sem se importar para aonde iria. Giuseppe nunca soube como começamos a nos falar, eu só me lembro de perseguir a figura irritada de um GD desgostoso enquanto me escondia dos meus próprios guarda-costas. Michèle ficava louco atrás de mim, ele era mais velho do que Jiyong apenas por alguns meses. Fugir de Michèle e insistir em saber mais sobre Kwon, era uma tarefa difícil, visto que Jiyong era um garoto arisco e desconfiado. Fora a primeira e última vez que o vira na Itália quando criança, para manter contato, tive de ser criativa, usava o celular do meu guarda-costas (celular este que havia “pego emprestado”) e trocava mensagens de texto e raramente, quando havia uma oportunidade, ligava para ele. Meu meio irmão não era alguém que se abria facilmente, ele era arisco feito um felino, selvagem, independente, mas incrivelmente protetor com aqueles que ele se importa. Suspirei, no final das contas havia redenção para alguém como eu?
Estava refletindo, enquanto observava a longa e bela caminhada do amanhecer quando enfim o helicóptero pousou no terreno em que havia matado o amor da minha vida; a construção estava apenas alguns metros de onde o helicóptero havia pousado. Me sentia invadida pelos mais diversos sentimentos, era algo que precisava ser finalizado exatamente no mesmo local em que havia iniciado minha persona: Matrona! Após meu ato final, essa figura tão temível seria enterrada com o seu criador Giuseppe Espossito. Eu não me importava suficientemente com o dinheiro, a fortuna dos Espossito nunca fora algo que eu realmente quis, fazia uso? Com toda certeza! No entanto, Espossito seria esquecida também e então poderia recomeçar. Não me importava o local em que recomeçaria, o importante era tentar!

— Fratello, está na hora de acordar. — Chacoalhei gentilmente Jiyong vendo as pálpebras dele tremularem indicando que ainda estava preso na névoa do sono. — Não temos tempo a perder, mio caro, vamos, acorde! — Jiyong abriu os olhos lentamente enquanto abria a boca bocejando, ele se sentou espreguiçando-se dramaticamente.
— O espetáculo dessa madrugada valeu cada segundo de espera! — Ele sorriu demonstrando animosidade.
— Ele fora o prelúdio do que ainda está para ocorrer! — Completei descendo do helicóptero.


Capítulo 23

Dizem que no instante em que estamos entre a vida e a morte, ou ainda quando encaramos a morte face a face, vemos a nossa vida passar diante os nossos olhos. E achava isso uma completa bobagem! Não temia a morte, em muitas das vezes ansiava por ela. Era uma ideia fantasiosa para confortar aqueles que estavam em situações desesperadoras. Tudo o que via diante aqueles olhos ameaçadores eram o meu próprio reflexo enquanto ouvia os sons de disparos como plano de fundo, a arma destravada e a adaga tinham um único alvo: eu. A mira de Giuseppe era certeira e precisa! Nunca o vira em circunstância alguma errar o alvo! Ele era preciso e mortal por isso seus inimigos evitavam o conflito direto. Abri um largo sorriso sibilando para ele atirar. Seus homens logo seriam reduzidos a nada, seu plano falhara em controlar a Kytheng; aquela organização era parte do que eu fundara e a lealdade não tinha um preço pela qual pudesse ser comprada! Giuseppe estava sozinho e sabia disso, no entanto, por conta desta mesma condição era que o tornava ainda mais perigoso...

Algumas horas antes...


Eu realmente apreciava saber como histórias chegavam ao fim, ao invés de saber como elas começavam. Saber como tudo termina lhe dá certo controle, porque independente de como as coisas se desenvolvam, elas terminaram de uma forma que eu já sabia! Era por isso que toda vez que pegava um livro, lia sempre o final antes do começo. Era um hábito estranho, mas havia se tornado parte de mim; no entanto, a situação atual, era o completo oposto... Eu não sabia como acabaria, mas havia duas possíveis possibilidades: meu pai morto (o que havia planejado), ou tudo acabaria com a morte de ambos. Não eram finais ruins, embora dessa vez realmente não quisesse morrer. Queria poder recomeçar e assim o faria caso sobrevivesse ao embate. Os sons das minas explodindo fora o primeiro sinal de que meu pai havia chegado ao terreno em que tudo começara, no alto do galpão em que me encontrava, GD fumava tranquilamente seu cigarro enquanto buscava me garantir que tudo transcorreria segundo o que havia planejado; porém eu conhecia o quão imprevisível Giuseppe poderia ser! E como a tempestade que era a entrada fora reduzida a nada mais que uma pilha de tijolos. Como um anúncio não verbalizado a troca de tiros iniciou, a Kytheng estava lutando ao lado de Giuseppe, algo havia ocorrido com TOP para permitir isso acontecer.

“ Se não estão do meu lado, estão contra mim! ”


Sem esperar por qualquer sinal, desci pela mesma corda usada três anos atrás; meu dramático e memorável chapéu ainda permanecia intacto. O coloquei em minha cabeça enquanto seguia atirando contra aqueles que eu conhecia serem os capangas mais fiéis de meu pai. Eram rostos familiares e fáceis de achar, a Kytheng era montada por homens que eu mesma havia recrutado. Alguns eu apenas incapacitava sem os matá-lo. Minha batalha ali era contra meu pai, meu olho sob a lente de mira buscando o melhor ângulo para atingi-lo, quando ele atingiu o meu chapéu. Havia um sorriso doentio em sua face.

— Seu irmão acreditava fielmente que o pouparia!

A voz dele cortou o ar silenciando por pouco segundos os tiros. Giuseppe ria enquanto derrubava os homens ao meu lado.

, provou que é uma verdadeira Espossito, embora não possua o meu DNA.

Ele prosseguiu atingindo o muro que usava como proteção, ele recarregou seu fuzil antes de prosseguir a falar; não conseguia acreditar em uma só palavra que ele dizia. Giuseppe era uma serpente perspicaz, sabia como e o que falar para ludibriar seus oponentes. Permaneci em silêncio, lhe responder era como cair em seu truque.

— Não me lembro de ser tão quieta, figlia mia; aprendeu algo com o bastardo do Kwon?

Eu realmente não queria ter reagido a sua provocação baixa, porém a raiva se alastrou pelo meu sistema em questões de segundos, fazendo com que eu mirasse em seus dedos os atingindo vendo o rubro do sangue banhar as palmas das mãos dele.

— Seja apenas uma vez homem de verdade e abandone a porra do seu orgulho, Espossito!

Uma voz grave e alta irrompeu o som dos disparos, os mais propensos a distração viraram suas cabeças para o local em que a voz surgiu. Aproveitei a distração e acertei a cabeça dos homens de meu pai. Meus olhos não ousavam abandonar o culpado pelo o que havia me transformado.

— Vai me ignorar agora, signore...

O modo como aquela frase fora pronunciada me distraiu. Era um tom de voz que jurava nunca mais poder ouvir novamente. Recarreguei a arma saindo de trás da proteção atirando em que ousasse mirar em minha direção; soquei a face de meu pai assim que fiquei próxima o suficiente escapando de um golpe de sua poderosa mão esquerda. Meu pai então aproveitara o terreno irregular para me fazer cair com uma rasteira; tive o tempo de virar para o outro lado, me escorando com cuidado para evitar outra facada. Giuseppe era um homem rápido para sua idade.

— Essa verdade ninguém lhe contou, não é mesmo?

Giuseppe riu ao ver meu olhar cair sobre a figura de Johnny. Tive tempo apenas de segurar a mão de meu pai o chutando para longe de mim. Meus olhos custavam em acreditar no que via; exatamente como já vira inúmeras vezes, Johnny atirava contra os homens de meu pai. Havia um meio sorriso no enquanto sua respiração calma indicava o momento exato que ele dispararia.

— Seu nome não é , pelo o que posso ver.

O timbre grave de Choi Seunghyun surgiu às minhas costas, pega de surpresa, quase caí, se não fosse por ele me amparando. Estava chocada demais até mesmo para lutar. TOP indicou para seus homens abaixarem as armas enquanto eu apenas sinalizava para que os meus subordinados dessem um fim apenas nos capangas de Giuseppe.

— Como um camaleão, Valença Espossito, esconde-se atrás de nomes e personagens para se adaptar ao cenário; nem , Zara ou até mesmo a temível Matrona. — Johnny jogou sua arma aos meus pés enquanto ouvia o clique de uma arma sendo apontada.

Momentos atuais...


Me afastei de Choi sabendo que quem era o alvo da impiedosa mira de Giuseppe. Abri um sorriso enquanto me aproximava do local em que ele se encontrava, seus olhos eram como duas navalhas, afiados e perigosos. Seu semblante era livre de qualquer apontada

— O que está esperando? — Indaguei parando a poucos metros dele.
— Você se tornou a mulher que eu esperava que fosse, figlia mia. — O olhar de Giuseppe suavizou exibindo algo próximo de afeto. — Seu irmão jamais conseguiria dirigir a organização; você sempre fora minha herdeira, .
— Desde o início... — Pausei a fala para absorver o que ele falava, desde o início ele estivera controlando tudo! Com a morte da minha família, não havia quem pudesse questionar as ações de Giuseppe ou até mesmo a minha! No final das contas, permanecia sendo o seu peão no jogo doentio dele.
— Mais inteligente que Francesca. — Giuseppe riu se divertindo do meu choque. — Eu soube no instante em que a peguei em meus braços após o seu nascimento, que não era minha filha. — Giuseppe girou sua arma em seus dedos. — Francesca sempre amara Valentino Escorcese, nosso casamento nunca passara de um mero acordo, ela já havia me dado Michèle como herdeiro, então não se importou quando eu tive um caso com uma estrangeira.... —Ele prosseguiu andando ao meu redor, seus olhos jamais me abandonavam. — Eu vi em você um potencial que Michèle jamais possuiu.
— Manipulação e insubordinação. — Concluí vendo os olhos de Giuseppe reluzirem quando lhe respondi exatamente o que pensava.
— Perspicácia, inteligência e frieza. Você não tinha medo de conseguir o que queria, mesmo que envolvesse usar seu irmão no processo...

Tentei negar o que ele dizia, porém de fato havia feito isso quando éramos jovens e Michèle possuía acesso ao escritório no qual Giuseppe deixava a nossa mesada guardada, quando precisava sair ou de algo novo, pedia a Michèle pegar o dinheiro usando histórias fajutas... A vilã nunca fora Michèle! Como uma cobra ele me cercava, no entanto, algo surgiu como um zunido cortando o ar atingindo o ombro de Giuseppe.


Capítulo 24

A lâmina era de Jiyong, que sairá de dentro do galpão, seus olhos estavam obscurecidos pela fúria. Como uma medida de protegê-lo, pedi para que permanecesse longe do olhar de Giuseppe. Matar Jiyong seria a única coisa que me atingiria com a eficácia que ele esperava conseguir. Giuseppe me teria em suas mãos caso tivesse Jiyong. De modo inconsciente, revelara a ele minha fraqueza; e Giuseppe era o melhor quando o assunto era esse.

— Não dê ouvidos a ele, ! — O braço de Jiyong estava protetoramente em meus ombros. — Você não conhece sua filha, Giuseppe.
— Nem irmão de sangue você é! — Giuseppe buscou ser o mais discreto ao levantar lentamente a arma, ele havia conseguido atrair Kwon para fora.
— Como você salvou Johnny? — Tentei o distrair enquanto movia lentamente Jiyong para atrás de mim.
— Eu não o salvei, foi você, , que o fizera! — O sorriso mordaz inundou a face de Giuseppe levando qualquer traço de humanidade.

Ninguém ao nosso redor ousava nos interromper; era como se os três tivessem cativado a atenção de todos. Meus olhos seguiam de face a face buscando um jeito de evitar que Giuseppe mirasse em Jiyong, Johnny e até mesmo em Seunghyun. Este último havia despertado um sentimento que apenas Johnny fora capaz. Olhei para os três antes de empurrar Jiyong para baixo me virando atirando em Giuseppe; por conta da mão machucada, ele não conseguira reagir a tempo. Meu tiro havia o acertado exatamente entre as sobrancelhas, o ar que expeli de uma vez me fez engasgar.
Não havia notado que estava segurando a respiração até aquele momento. De meus olhos vertiam lágrimas enquanto caia de joelhos; minha face era ocultada pelos meus fios de cabelo, ao longe ouvia o som do corpo de Giuseppe cair com um baque; minhas mãos estavam apoiadas contra o chão enquanto um choro alto era expelido para fora do meu corpo. Eu realmente não fazia ideia do que estava sentindo. Era como se a morte de Giuseppe simbolizasse algo novo, a lua iluminava tudo com o brilho prateado naquela noite de verão. O alívio inundava minhas veias assim como o pesar... As cicatrizes deixadas por aquela família foram cravadas para sempre em meu ser. Estava uma bagunça, eu sabia disso. No entanto minha aparência não impediu que Kwon Ji Yong me abraçasse enquanto eu vertia lágrimas e meu choro parecia inundar a noite.

— Shh, de agora em diante tudo ficará bem! — GD usava um tom calmo e baixo enquanto afagava meus cabelos beijando o topo de meus cabelos.

Se houve qualquer movimentação ao meu redor, eu realmente não notei, os minutos passados nos braços de Jiyong pareciam infinitos. O abraço de meu irmão possuía um efeito terapêutico, fazendo com que pouco a pouco meu choro cessasse e minha respiração tranquilizasse. Haviam muito o que enfrentar pela frente, porém, ali nos braços do que restara da minha família, me permiti deixar para depois.

— Me leve para casa, per piace, fratello. — Fechei os olhos ao sentir ele me pegar no colo com cuidado.
— Signora? — Ouvi um dos meus subordinados indagar com receio.
— Por esta noite, deixem ela em paz. — A voz de GD soou em um tom protetor e agressivo, conseguia visualizar seu olhar mortal para quem ousasse se colocar em seu caminho. — Queimem o corpo de Giuseppe e limpem essa bagunça, façam o que desejarem, mas não ousem incomodar !

Desse modo, senti GD se afastar do local comigo em seus braços. Não tinha ideia para onde ele estava seguindo, mas confiava fielmente nele.

— Nada mais irá te ferir, . — GD sussurrou com carinho antes que eu fosse tragada para o conforto da inconsciência.


Capítulo 25

O som baixo da melodia de um piano me despertou, o ambiente em que estava se encontrava banhado em trevas, porém isso não me causou qualquer desconforto. Bocejei enquanto me espreguiçava ainda deitada, deixei escapar alguns resmungos ao sentir partes de meu corpo doloridas. Me sentei esfregando os olhos para só então sair de debaixo dos cobertores. A primeira coisa que notei ao abrir a porta do quarto era que não estava no apartamento de Jiyong. A luz solar iluminava o longo corredor, estava usando uma camisola de cetim branca, havia um robe pendurado em um cabideiro ao meu lado, o vesti por cima da camisola enquanto seguia pelo corredor. Não fazia a menor ideia de quanto tempo estava desacordada ou onde estava, no entanto de modo curioso seguia o som do piano. Meus pés descalços eram silenciados pelo suntuosos tapetes que revestiam o chão em detalhes exóticos e belos. A maciez deles omitia minha presença. Desci as escadas após identificar que estava em uma imensa mansão. Em uma sala ao leste do hall de entrada, uma figura masculina estava inclinada sob as teclas do piano carmim. O piano era o único ponto colorido naquela sala branca, haviam imensas estantes repletas de livros, a lareira branca no canto oeste estava apagada enquanto as imensas portas de vidro estavam abertas assim como todas as janelas, a vista do jardim era hipnotizante. O calor do verão banhava o ambiente de modo agradável. O homem que tocava o piano era ninguém menos que Choi Seunghyun; seu semblante exibia uma expressão de serenidade enquanto iniciava uma sonata de Bach. Ele estava vestido em uma camisa branca e calças social azul celeste, algo leve e elegante. Seus movimentos eram refinados e elegantes ao tocar uma sonata tão complicada, porém a maestria que ele exibia me fascinava, tornando quase impossível desviar meu olhar dele. Me apoiei contra o umbral da porta o admirando em silêncio. Não sentia a necessidade de evitá-lo; eu sabia que havia causado uma confusão pelo pouco tempo em que permaneci no país sul coreano, porém naquele instante não sentia a urgência de me proteger ou fugir. Pela primeira vez em muito tempo conseguia respirar tranquilamente sem qualquer preocupação rondando meus pensamentos.
Seunghyun permaneceu por instantes a fio perdido em seus próprios pensamentos enquanto um sorriso calmo tomava seus lábios. Estava distraída com TOP ao ponto de não notar alguém parado ao meu lado.

— Ele é impressionante, não é mesmo? — A voz de Taeyang soou próxima me levando a conter um grito de susto.
— Pessoas normais anunciariam sua presença ao invés de assustar! — O repreendi levemente com um sorriso divertido em minha face.
— Ambos sabemos que a normalidade não faz parte do nosso dicionário! — Taeyang empurrou meu ombro de brincadeira.
— De fato. — Acabei rindo, o que atraiu a atenção de Seunghyun interrompendo então seus movimentos. — Não pare! Estava tocando tão bem! — Lamentei ao ouvir o som ser interrompido.
— Seu irmão e eu estávamos nos perguntando quando despertaria. — Choi se levantou do banco em que estava sentado tomando seu caminho até onde estávamos.
— Ela já está o observando tocar faz algum tempo, TOP. — Taeyang usou um tom jocoso, como se passasse uma mensagem que apenas os dois compreendiam.
— Encontre GD, ele estava enlouquecendo com o estado em que se encontrava. — Choi Seunghyun respondeu em um tom sério e direto rebatendo algo implícito entre ele e Taeyang. Os encarei confusa enquanto ambos trocavam uma série de olhares.
— Cuida bem da irmãzinha do nosso cachorro louco! — Taeyang riu enquanto se afastava. — Fico feliz que tenha enfim despertado, você não faz ideia da expectativa que seu irmão, TOP e Johnny estavam para que acordasse logo!

O olhar sombrio que Choi direcionou a Taeyang fora o suficiente para fazê-lo desparecer pelos corredores da mansão gargalhando. Me voltei para Seunghyun encontrando seu olhar em mim, seus olhos desceram de modo lento e tortuosamente por meu corpo, seu olhar havia adquirido um significado diferente quando encontrou meu olhar.

— Seu irmão vai querer me matar quando a ver nesses trajes. — Ele interrompeu o silêncio olhando subitamente em outra direção.
— Ele é apenas super protetor. — Acabei rindo do tom rosado que as maçãs do rosto de Choi adquiriram.
— Ele possui boas razões para isso! — Choi comentou enquanto se aproximava lentamente de mim.
— Está querendo me dizer alguma coisa, Seunghyun? — Arqueei minhas sobrancelhas sem recuar um passo.
— Eu não preciso ser tão minucioso em explicar algo implícito. — Ele me prendeu contra a parede passando um de seus braços pela minha cintura. — Você é uma mulher inteligente, , sabe ler sinais como ninguém. — Ele piscou um olho enquanto inclinava-se em minha direção.

O interrompi pousando meu dedo indicador sobre os lábios dele enquanto o observava com certa diversão. Os olhos de TOP adquiriram um brilho quase infantil de insatisfação por ter sido impedido de executar o que desejava.

— Eu acabei de acordar e não escovei os dentes, o que por si só é razão o suficiente para impedir de obter o que deseja, mio caro. — Iniciei minha frase com um tom de voz tranquilo. — E não podemos esquecer que tenho assuntos pendentes ainda.

TOP estava pronto para responder-me quando ouvimos um pigarrear quebrando as suas costas. Ele então me soltou a contragosto colocando uma distância respeitável entre nós. — Eu deixo você sozinho por menos de cinco minutos e está agarrando a irmãzinha de GD. — Taeyang comentou rindo da situação, ao seu lado estava GD que encarava Choi em um olhar mortal.

— Basta eu sair por alguns minutos para que você enfim desperte, ! — O tom de voz de GD estava livre de emoções embora seu olhar houvesse suavizado ao recair sobre mim.
— São as surpresas da vida. — Dei de ombros me aproximando dele com um sorriso arteiro. — Vamos Jiyong oppa! Você não está realmente bravo comigo. — O cutuquei de modo a lhe causar cócegas.

Inicialmente ele esquivou-se mantendo em sua face uma expressão séria, porém quando o alcancei, mal o toquei para que ele começasse a rir de modo desenfreado. Ele tentava me parar fugindo de mim, porém eu o perseguia sem deixar que GD escapasse. Taeyang e TOP observavam a cena com diversão enquanto riam de nós dois.

— Do estão rindo, bastardos? — GD exclamou irritado enquanto estava do outro lado do piano.
— Quem imaginaria que o temível GD estaria fugindo de sua irmã mais nova? — Choi estava rindo do desagrado dele.


Capítulo 26

Estava a poucos metros de GD quando o ouvi. Johnny adentrara a sala sem anunciar a sua entrada, ele apenas invadira o recinto questionando o que estava acontecendo ali. Meus olhos foram atraídos por sua figura enquanto ele acompanhava GD segurar meus pulsos com ar de vitória. Meu irmão parecia alheio a tensão instaurada com a chegada de Johnny. Eu sentia os olhos de Choi sobre mim, no entanto, eu conseguia prestar atenção apenas no homem que jurava estar morto, meus olhos encaravam o movimento quase imperceptível que o tórax dele executava ao respirar.
— Enfim desperta! — A voz de Johnny cortou o silêncio instaurado após a sua chegada, seus olhos castanhos varriam minha figura averiguando meu estado.
— Como...? — Minha voz esmoreceu enquanto a confusão tomava o meu semblante.
— Estou vivo?! — Ele completou minha pergunta identificando exatamente o que gostaria de lhe indagar. — É uma longa história, .
— Eu não entendo...— Murmurei enquanto me soltava de GD seguindo de modo inconsciente até Johnny, tocando sua face e sentido o calor de sua pele ao ter sua mão tocando a minha face com cuidado.
, temos de conversar antes de você se ocupar com isso. — GD surgiu ao meu lado conduzindo-me para fora do recinto, seu braço ao redor de mim era um aviso claro para que TOP e Johnny mantivessem distância.

Me deixei ser conduzida por Jiyong enquanto o choque do encontro com Johnny fosse momentaneamente deixado para outra hora. Minha mente buscava uma explicação racional para que Johnny ainda respirasse. Meu irmão parou em frente ao cômodo em que despertara, seu semblante era enigmático e seu olhar exibia preocupação. Não era somente eu que possuía pensamentos demais me mantendo fora da realidade.

— Preciso que vista algo que não cause tanta comoção. — Ele indicou meu robe aberto revelando minha camisola. — Enquanto se troca, irei lhe preparar algo. — Com isso ele me empurrou gentilmente para dentro do quarto fechando a porta em seguida sem me dar qualquer chance para questionar.

Suspirando pesadamente seguindo em direção ao banheiro enquanto me despia durante o trajeto, havia assuntos inacabados apesar de tudo.


Capítulo 27

Durante o banho, as memórias do passado invadiam minha mente. Eram banhadas em sentimentos ambíguos, o amargor dos horrores que passara quando pensei que Michèle havia sido morto pelo clã Suh, a experiência em ser usada como uma escrava para satisfazer os desejos perversos de magnatas, a satisfação de assassinar “meus donos”, as doces e falsas memórias a respeito da minha infância; minha vingança traçada contra os Suh, sendo usada apenas como uma peça de Giuseppe Valença Espossito, o doce sabor de ser amada verdadeiramente por um homem, os conflitos internos que passara ao permanecer entre matar Johnny ou descumprir a promessa feita à Famiglia. A dor da traição ao descobrir a verdadeira face daqueles que eu chamava de família, o ato final traçado contra os criadores de Matrona, os sentimentos confusos a respeito de Choi Seunghyun... A bagunça de meus pensamentos me fizera demorar mais tempo debaixo da água quente enquanto o passado e o presente se misturavam em lembranças.

? — Alguém havia batido contra a porta do banheiro me despertando de meus devaneios. — Está tudo bem com você?

Meu irmão indagou com um tom preocupado, desliguei o chuveiro me enrolando no roupão de banho em seguida. Destranquei a porta encontrando-o com uma expressão preocupada, tal sentimento me trouxe acalento, o abracei enquanto me permitia que seu perfume familiar tranquilizasse o mar revolto de emoções que havia dentro da minha cabeça.

— Eu preciso que você assuma o controle. — Iniciei minha fala buscando ser o mais clara possível a respeito do que dizia. — Meus atos não deixaram qualquer rastro que ligue os fatos à Espossito. — Me sentei sobre o colchão mantendo meu olhar no de Jiyong. — As autoridades italianas, assim como a Interpol, acusaram a família Escorcese como a responsável pela morte dos Espossito... — Olhei para a pequena cicatriz em meu pulso, ela era fruto dos meus piores momentos. — O que estou querendo dizer é: Espossito deixará de existir, mas para isso preciso que fique com tudo o que lhe pertence por direito. Giuseppe falhou com você e sua mãe.
— Você não precisa fazer isso, sorella. — Jiyong me abraçou com força. — Você era a única que não nos rejeitou mesmo que inicialmente eu a tratasse com hostilidade.
— Eu nunca te julguei por causa disso. — Sorri retribuindo o abraço. — Se você não quiser ficar no poder, poderá passar essa função à TOP.
— A quem seu errante coração escolherá? — Ele esquivou-se com uma pergunta delicada.
— Eu não tenho a menor ideia... — Soltei a sentença com sinceridade enquanto meu olhar se perdia em nenhum ponto específico do quarto. — Eu amo Johnny, isso é um fato! — Continuei sem olhar para GD. — Porém duvido que ele possa me perdoar depois de tudo que lhe fiz, eu assassinei as pessoas mais próximas dele sem hesitação... Talvez haja cicatrizes que nunca fecharam. — Suspirei enquanto me levantava um pouco agitada.
— O que sente em relação à Seunghyun? — Sua pergunta exibia a mesma preocupação genuína que ele exibirá ao me indagar se estava bem há poucos minutos atrás.
— Eu não quero ser a vilã na história dele, incomumente Matrona fora uma aliada e não uma inimiga para ele. — Levantei meu olhar encontrando o dele fixo em minha face. — Reencontrar TOP fora como experimentar a vivacidade da primavera, Choi, assim como eu, possui cicatrizes profundas ligada ao amor, na história de Johnny, eu fora Feng Mina. — Abracei meu corpo enquanto refletia cuidadosamente sobre o que dizia. — Ele desperta em mim algo que somente Johnny conseguira... — Afastei o fio molhado de meus cabelos de meu pescoço. — Estou presa num dilema e pela primeira vez em muito tempo eu não desejo machucar alguém.
— Está com medo de se ferir ao tomar a decisão errada. — Ele me ofereceu um sorriso tranquilizante enquanto se levantava.
— Estou apavorada, Kwon! Agora que tudo chegou ao fim, eu não sei qual o melhor caminho a seguir... — Admiti num sussurro enquanto sentia uma lágrima solitária escorrer por minha face.
— Não fique, independente da escolha que faça, permanecerei ao seu lado até o fim; mesmo que não sejamos irmãos, você será para sempre minha irmã mais nova. — Ele me abraçou beijando minha testa com carinho, Jiyong levantou minha face após secar o rastro que a lágrima deixara. — Eu a protegerei de tudo, até mesmo de você mesma.
— Obrigada por ser um irmão tão incrível! — O abracei enterrando minha cabeça em seu peito deixando que meu irmão tranquilizasse.
— Você me estendeu a mão quando todos me deram as costas. — GD sussurrou de modo afetuoso.


Capítulo 28

Evitei Johnny e Seunghyun durante todo o dia, após o momento terapêutico com GD, resolvi dar um fim aos assuntos que precisavam da minha atenção. Havia reunido todos os meus subordinados que estavam na Coréia em uma reunião séria. Expliquei que deixaria de ser a chefe deles; embora fosse manter contato, eles não seriam mais meus subordinados e passariam a estar sob o comando de Kwon Jiyong. Eu os via como uma família após de me servirem com tanto zelo. Respondi cada pergunta sem qualquer indício de irritação, rindo de algumas perguntas um tanto indiscretas. Após a reunião que durara longas horas, repassei a eles uma última tarefa: informar meus aliados que Matrona estava se aposentando, e em seu lugar G Dragon assumiria seu lugar. A fama de GD o precedia, estava tranquila, pois duvidava que eles se voltariam contra ele. Assim como minha persona criada, Matrona, GD era cruel quanto se tratava de seus inimigos
Por vídeo conferência, reuni os meus subordinados em uma reunião online, a qual repassava todos os assuntos que havia tratado com aqueles que estavam na Coréia. Assim como a reunião anterior, esta também durara horas e busquei manter meu bom humor. Tranquilizei meus leais servos que estava bem e apenas estava me “aposentando”. Lhes repassei a mesma tarefa que havia dado aos que estavam em território sul coreano; para não dizer todos, a maioria ficou surpreso pela figura que assumiria o meu lugar. Após a reunião se encerrar, destruí o abrigo que usei durante minha estadia na capital. Quando havia resolvido todos os assuntos pendentes, o dia já havia amanhecido. O calor que a luz solar me trazia, me dava a esperança de um futuro otimista. Com o ânimo renovado, segui até a mansão de Choi. Daesung havia retornado novamente a Coréia, deveria resolver os assuntos do passado com aquelas três figuras únicas tendo o apoio de meu irmão. A carta de minha mãe encontrava-se reduzida a cinzas. O vento carregara sua mensagem destruída para o passado, o qual era o seu devido lugar.


Capítulo 29

Quando cheguei a mansão, logo após meu desjejum em Gangnam, encontrei Daesung, Taeyang, meu irmão e TOP na sala de jogos. Entre eles haviam garrafas de soju enquanto seus semblantes carregavam uma vermelhidão tipicamente de bêbados. O riso frouxo nos lábios, me mostrava que conversar seria inútil. Me sentei em um canto afastado, assumindo o papel de espectador. Eram raras as oportunidades que possuía para observar as pessoas a minha volta; sempre havia algo para resolver, alguém para matar... Ali, naquela sala preenchida por risos, poderia observar GD relaxado ao lado de seus melhores amigos. Daesung tentava ridiculamente ganhar de Choi no pebolim enquanto Taeyang e GD jogavam sinuca. Em algum momento, sem que notasse, acabei por adormecer no sofá, dessa vez não tive qualquer pesadelo.

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Antes de abrir meus olhos, eu tinha duas certezas; a primeira era que não estava no mesmo local em que havia adormecido, a segunda era que havia alguém me observando. Meus olhos abriram lentamente se adaptando a iluminação do ambiente em que estava, o quarto em que estava era um diferente do que havia acordado no dia anterior. Me sentei sentindo a névoa do sono ainda me envolver, pisquei os olhos tentando afastá-la enquanto olhava em volta. O cômodo possuía tons escuros, mas não assustador; a requintada mobília proporcionava o conforto que geralmente se via em hotéis suntuosos. Meus olhos percorreram cada canto daquele quarto parando sob a figura de Choi, ele estava sentado próximo as portas da sacada. O quarto estava envolto em uma meia luz enquanto os raios do pôr do sol davam um tom alaranjado ao lugar. As costas de Choi estavam confortavelmente amparadas pelo encosto de sua poltrona, em seu colo havia um livro que ele fingia ler. Sob a ponte de seu nariz havia uns óculos descansando de modo elegante, os trajes que ele vestia eram mais informais do que ele geralmente usava, mas não menos refinado. Aquele homem parecia exalar elegância e poder, uma áurea completamente magnética que me atraía com uma força cada vez mais forte. Acompanhei seus dedos passarem a página como se realmente a tivesse lido, causando um riso espontâneo; o qual escapara de meus lábios antes que pudesse pará-lo. O som fizera Choi me olhar diretamente curvando seus lábios num sorriso sem dentes, seus olhos exibiam algo ilegível embora entendesse que estivesse ligado aos complicados sentimentos daquele homem.

— Parece que alguém despertou de bom humor. — A voz grave dele reverberou pelo meu corpo, fazendo com que uma corrente elétrica percorresse meu corpo.
— Você não está nada mal para quem bebeu até o sol nascer. — Comentei bocejando em seguida, me espreguicei ouvindo as articulações do meu corpo estalarem.
— Possuo uma boa resistência ao álcool, então a ressaca não me afeta com tanta intensidade. — Ele me respondeu fechando o livro e o deixando de lado, sua atenção estava toda voltada para mim. Mesmo estando do outro lado do quarto, o sentia como estivesse ao meu lado.
— Entendi. — Me descobri ficando de pé, aos poucos me encaminhei para onde Choi Seunghyun estava, parando em sua frente. Segurei uma de suas mãos experimentando o calor dela contra a minha. — O que deseja saber? Seus olhos possuem perguntas silenciosas. — Toquei sua face com gentileza, com a mão que não segurava a dele.
— Eu estou me perguntando qual será sua próxima ação, você é imprevisível, . — A mão que estava livre tocou minha cintura, causando uma onda de calor no ponto que me tocava.
— Eu não tenho nada preparado. — Ri ao entender o que ele me indagava. — Não explodirei mais nada por um longo tempo.
— Pretende ficar? — Quando ele me indagou aquilo com seus olhos sinceros; TOP me transmitia uma mensagem silenciosa. Segurei sua face com ambas mãos me permitindo provar o sabor de seus lábios, precisava entender mais aquele sentimento que me tomava toda vez que pensava nele.

Choi Seunghyun me moveu para o seu colo, suas mãos se mantinham em minha cintura enquanto seus lábios se moviam de modo intenso contra os meus. Seu perfume o tornava ainda mais desejoso, era como estar presa numa névoa deliciosamente envolvente. Sua presença excluía o mundo exterior enquanto sentia seu corpo contra o meu, seus lábios desceram para o meu pescoço enquanto minha respiração ofegante era ouvida. Meus dedos se moveram contra a camisa dele desabotoando cada botão de sua casa. Minhas unhas o arranhavam a cada pedaço de pele exposta. O gemido rouco que escapara da garganta de Choi ao meu movimento involuntário sobre o colo dele, me trouxe a realidade. Ergui sua face segurando-a com carinho fechando meus olhos ao pousar minha testa contra a dele.


Capítulo 30

Minha respiração irregular encontrava a dele em uma mistura de sentimentos, seu coração estava acelerado assim como o meu. Em minha mente o olhar dele me fazia querer ser o mais honesta e sincera que podia.

— Eu não sei se posso lhe dar o que deseja, Seunghyun. — Meus lábios encostavam nos dele enquanto pronunciava cada palavra. — Eu sempre soube quem você era; eu o observei por tantos anos que posso numerar o que gosta e o que odeia sem qualquer dificuldade... — Abri meus olhos encontrando os dele sem qualquer defesa. — Eu fui a Feng Mina, a diferença foi que isso ocorreu na vida de Johnny.
— Como sabe de tantas coisas? — Ele me questionou inquieto.
— Eu possuo uma reputação que me procede, Seunghyun; Matrona sempre será uma parte de quem eu sou. — O respondi suavemente enquanto lhe dava um olhar sincero.
— O que pretende fazer a respeito de Johnny? — Ele se sentou de modo ereto enquanto seus braços envolviam minha cintura. — Deve ter sido doloroso viver sob a ideia de que ele estava morto.
— Eu não sei até que ponto as feridas dele foram cicatrizadas; ele vira minha face mais vil, a experimentando em sua própria pele. — Minhas mãos estavam apoiadas em seu pescoço, a posição não era desconfortável e havia alívio em compartilhar algo que estava sufocado por tanto tempo.
— Há assuntos inacabados que você precisa resolver. — Ele abriu um sorriso embora ele não alcançasse seus olhos.
— Eu tenho sentimentos reais por você, Choi Seunghyun; você não fora um brinquedo em minhas mãos. — Depósitos um beijo suave antes de me afastar contra a minha vontade. — Não se esqueça disso.
— Como se fosse possível esquecer qualquer coisa sobre você. — A voz dele carregava um adeus não dito.

Sentindo que não deveria deixá-lo naquele estado, me aproximei novamente buscando passar através de um beijo toda a intensidade dos sentimentos que ele provocava em mim; era algo muito maior que desejo e muito mais complicado do que a paixão. Ele me erguera me pressionando contra o colchão após me carregar até a cama, sua mão esquerda estava firmemente presa em meus cabelos enquanto a direita mantinha minha perna envolta de sua cintura.

— Você é a droga de uma tempestade. — Seunghyun falou em um tom mais grave enquanto seus olhos exibiam a mesma intensidade que sabia que meus olhos lhe mostravam. — Imprevisível como uma tempestade marítima.
— Faz parte do meu encanto. — Abri um sorriso verdadeiro enquanto invertia nossas posições. — Não me diga adeus sem considerar o que eu sinto.
— Você está indo até Johnny, é natural que eu pense que isto é o encerramento de algo. — Choi revelou sem qualquer receio de aparentar fraqueza.
— Eu não sou tão cruel assim! — Balancei minha cabeça negativamente antes me inclinar de modo que meus lábios estavam a pouquíssimos centímetros de distância dos dele. — Eu estou sendo honesta com você porque me importo. Você nunca fora um brinquedo Choi!
— Você já me disse isso. — Ele teimosamente me lembrou.
— Eu não fiz minha escolha ainda, portanto não aja como se tivesse perdido. — Beijei sua fronte antes de sair de cima dele, deixei o quarto ouvindo ele rir de algo que provavelmente murmurara ao meu respeito.

Segui em direção ao quarto em que havia despertado no dia anterior me preparando para encontrar Johnny. Sentia meus nervos à flor da pele enquanto tomava um banho. Meus olhos exibiam uma ambiguidade de sentimentos enquanto escovava meus dentes. Antes de sair daquela mansão, peguei as chaves de uma moto.
Enviei uma mensagem a GD avisando quem iria encontrar, por precaução, e só depois disso ousei sair daquela propriedade. Sem saber exatamente em que local Johnny estava, pilotei a moto para o centro da capital. A viseira do capacete impedia que o vento ferisse meus olhos, embora fosse verão, era desconfortável andar de moto sem uma jaqueta. Estacionei a moto diante um café, o adentrei enquanto ousava discar o número que um dia pertencera a Johnny. Enquanto a ligação completava, fiz o meu pedido, optando por um café mais elaborado ao invés de pedir um simples expresso.

— Estava aguardando a sua ligação, .

A voz de Johnny do outro lado da linha quase me fizera engasgar enquanto pagava a bebida que havia pedido. Meus pés me levaram rapidamente até a moto enquanto antes de respondê-lo.

— Como sabia que era eu quem estava te ligando? — Questionei enquanto usava a moto como apoio.
— Esperava que fosse realmente você, afinal, quem mais usaria meu antigo número para me contatar? — Ele me respondeu em um tom cortante, aquela hostilidade me afetara mais do que ousei admitir.
— Onde você está? — Questionei sem me preocupar em parecer hostil.
— Naquela ponte em que atirei contra o seu carro. — Ele murmurou soando distante momentaneamente.
— Chego em pouco minutos. — Desliguei sem esperar por respostas, embora soubesse que caso não tivesse desligado ele seria quem o faria.

Observei as pessoas ao meu redor, presas em seus próprios pensamentos. Jovens, em grupos ou sozinhos, passavam pela entrada do café com roupas leves devido a estação. Tomei minha bebida em segundos jogando o copo na lata de lixo antes de subir sobre a moto recolocando o capacete; no fim era Johnny o misterioso atirador. Isso me levava a questionar se havia sido ele quem abastecera o abrigo que hoje não passava de uma pilha de cinzas.
O tráfego de carros havia reduzido após tomar o trajeto para aquela ponte. Meus olhos estavam fixos na estrada, embora minha mente era bombardeada pelos momentos que passamos juntos. Meu coração parecia querer explodir em meu peito ao estacionar atrás de um carro que julgava pertencer a Johnny. Meus pés me levaram até sua figura ereta, a qual estava de costas para mim. Sua postura não revelava nada, e seu olhar parecia preso no horizonte. A noite havia se instaurado e o silêncio era cortado pelos carros que passavam pela ponte. Me apoiei sobre a mureta me sentando sobre ela enquanto sem olhar o questionei:

— Como sobreviveu? —Meu tom de voz implorava por explicações precisas.
— Seu subordinado me salvou, aquele que dirigia o seu carro naquela noite em que atirei contra vocês dois. — Ele me respondeu vagamente, sem me dar os detalhes que buscava desesperadamente.
— Eu atirei contra o seu coração Johnny, como raios você está vivo? — Perdi a compostura virando minha face irritada para ele.
— Eu me lembro vividamente dessa noite. — Ele se virou de forma a me encarar também. O nível em que estava não me deixava tão baixa embora a altura dele nos deixasse em níveis diferentes.
— Apenas me responda, por favor...— Ergui meu olhar cansada, aquela havia sido uma das piores noites da minha vida.
Matrona está implorando? — O tom ácido dele me machucou, embora soubesse que merecesse toda reação hostil provinda dele. As coisas que havia realizado contra ele foram desumanas.
— Não, eu estou implorando por respostas. — Desci o empurrando conforme dizia cada palavra. — A mulher que está a sua frente passou os últimos três anos lamentando a sua morte.
— Continue assim e quem sabe eu possa acreditar em suas palavras mentirosas? — Ele reagiu em um tom severo e furioso.

Cansada de lutar, o empurrei contra o carro dele o prendendo entre a lataria do carro e o meu corpo. O modo que o havia empurrado o fizera ficar numa posição em que nossas faces se encontravam no mesmo nível.

— Me odeie se quiser. Me acuse corretamente pelas atrocidades que cometi contra você. Eu não me importo! — Gritei de volta enquanto deixava verter furiosamente meus sentimentos. — Eu realmente o amei durante todos esses anos! — Meus olhos não ousavam desviar dos dele. — Aquela maldita noite me assombrou até a morte de Giuseppe.
— Quantas mentiras você pode contar para si mesma, ? — O sorriso debochado que ele exibia me tirou do sério, me levando a estalar a palma da minha mão contra a sua face.
— Val al diavolo, finocchio! — O xinguei em italiano enquanto estapeava seus braços furiosa. — Você não passa de um babaca de merda!
— E você de uma assassina! — Ele inverteu nossas posições furioso enquanto segurava meus pulsos impedindo que eu prosseguisse a bater nele.
— Sim, eu fui a droga de uma assassina; porém prefiro ser uma assassina do que um covarde. — Cuspi as palavras de modo ácido.
— Covarde? — Ele riu desacreditado. — Eu a amei sem esconder porra nenhuma! Me permiti amá-la sem medo para no fim ser quase morto pela droga das suas mãos, ! — Ele exclamou soando quase sem fôlego ao terminar sua fala.

Ele me soltou bruscamente se afastando, ele apoiou suas mãos sobre a mureta que estive sentada alguns minutos atrás. Ele respirava com dificuldade tamanha era a intensidade do que sentia.

— Bianco me levou até o hospital mais próximo; assim que chegamos, fui levado para a mesa de cirurgia. Tudo o que me lembro fora sua última frase antes de apertar o gatilho e então acordar numa cama de hospital sozinho. — Ele falava sem me direcionar seu olhar. — Os médicos me disseram que tive sorte pois a bala ficou presa num dos ossos da minha costela e parou a centímetros do coração. — Ele riu ao pronunciar sorte.
— Eu não queria matá-lo. — Me pronunciei após ele ficar em silêncio. — A ordem era para atirar entre seus olhos garantindo uma morte instantânea. — Me aproximei receosa.
— Eu não consigo odiá-la, . — Ele riu sem humor enquanto mantinha seu olhar fixo no horizonte. — Por mais que eu tenha tentado te odiar, eu não consigo!

Permaneci em silêncio apenas o observando, seu peito subia e descia conforme ele respirava. Acompanhava o movimento quase hipnotizada por poder estar tão perto novamente dele.

— O vazio que se instalou em meu coração após acordar naquele hospital, ficou claro que é um lugar que só você pode ocupar. — Johnny tirou um maço de cigarros de seus bolsos acendendo um em seguida. — Me odeio por não conseguir te odiar, eu a amo demais para isso!

Meus olhos até aquele momento estavam cheios de lágrimas, o que ele dissera fora o suficiente para me fazer derramar as lágrimas que teimosamente buscava impedir de caírem. Meus lábios tremiam enquanto desviava meu olhar ao ser notada por ele; ali estava o homem que jurei ter assassinado três anos atrás me observando com uma ternura reprimida enquanto o cigarro dançava sensualmente sobre seus lábios, após expelir a fumaça. Suas palavras haviam me acalentado, me dando a mesma sensação de ser abraçada por ele.

— Você conseguiria me perdoar? — O questionei enquanto secava minhas lágrimas.
— Não sei como lhe responder, . Tudo o que tenho são meus sentimentos. — Ele parou em minha frente após apagar seu cigarro; suas mãos tocaram minha face com gentileza enquanto seus lábios pousavam sob o topo dos meus cabelos depositando um beijo carinhoso. — Eu senti falta de seu perfume.

O abracei colocando meu ouvido em seu peito ouvindo assim seu coração bater, meus braços o apertaram ainda mais forte enquanto um choro silencioso escapava pelos meus lábios. Johnny buscava me acalmar enquanto suas mãos afagavam meus cabelos.

— Há muitas feridas para serem cicatrizadas ainda. — Ele iniciou sua fala erguendo minha face, beijando minha fronte. — Eu só iria te ferir enquanto essas cicatrizes não estão curadas, você seria capaz de me esperar? Ou já tomou uma decisão?
— Jiyong te contou sobre Seunghyun, eu suponho. — Ri desacreditada enquanto imaginava GD sendo hostil com Johnny.
— Seunghyun, Jiyong e eu conversamos sobre você. — Johnny pousou sua cabeça sobre a minha. — Jiyong tomou a frente como mediador, ficou estabelecido que a escolha deveria partir de você após conversar claramente com ambos.
— Isso ocorreu durante todo o tempo em que estive desacordada. — O olhei com surpresa.
— Você ficou inconsciente por dois longos dias. — Johnny suspirou exibindo cansaço. — Choi Seunghyun solicitou um médico para vê-la; ele dissera que você havia sofrido uma exaustão emocional, as orientações era não colocá-la sobre uma situação desgastante. — Ele comentou enquanto mexia distraidamente em meu cabelo.
— Era por isso que meu irmão estava ainda mais protetor do que o normal. — Acabei rindo enquanto erguia minha face para encará-lo.
— Você ainda não respondeu a minha pergunta. — Ele me lançou um olhar insatisfeito.
— Não cheguei a tomar uma decisão, Johnny. — Ao pronunciar o seu nome em seus lábios surgiu um tímido sorriso fazendo com que eu o imitasse, ele ficava ainda mais belo sorrindo.
— Tome uma semana para pensar sobre o que deseja para o futuro. Estarei partindo para o Canadá no primeiro voo no final da próxima semana. — Ele colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. — Se for eu quem você escolher, me procure um dia antes, mas se escolher Choi, não precisa vir; irei respeitar a sua escolha.

Ele depositou um beijo em minhas têmporas e em seguida a ponta do meu nariz, parando a centímetros dos meus lábios, sua respiração encontrava a minha, suas mãos estavam em minha cintura enquanto as minhas agarravam o material de sua jaqueta. Johnny inclinou-se em minha direção enquanto seus lábios tomavam os meus em um beijo saudoso, a boca dele me recebeu com avidez enquanto suas mãos me içavam do chão me colocando sobre a moto. Aquilo me trouxe um sorriso nos lábios, quando assumira a identidade Zara, isso ocorria muito entre nós. De um jeito ou de outro acabava em cima de sua moto; no entanto, aquele beijo tinha uma mistura de saudade e adeus. Nos afastamos quando fora necessário respirar, ele riu ao pensar sobre a situação em que nos encontrávamos.

— Exatamente como antes. — Johnny riu, me roubando mais um beijo antes de me entregar o capacete.
— Eu ainda não tomei uma decisão, Johnny. — O lembrei antes de ligar a moto. — Antes que a próxima semana se encerre, tomarei minha decisão.

Com isso, parti observando a figura de Johnny ficar cada vez menor no espelho retrovisor. Eu possuía exatamente dez dias para tomar uma decisão. Em dez dias eu escolheria Choi Seunghyun ou Johnny Suh. A noite se estendia como um tapete estrelado no horizonte enquanto minha moto tomava velocidade nas ruas da capital sul coreana. Aquele país havia visto a minha ruína e o meu renascimento, o meu sofrimento e parte da minha alegria.

Em dez dias tudo poderia mudar




Epílogo



Final alternativo Choi Seunghyun

(TOP BIGBANG)

br> O amor que sentia por Johnny nunca passaria, ele era parte da minha vida e sempre seria. No entanto, as feridas eram grandes demais para serem superadas. A dor que havia lhe infringido não poderia ser esquecida; no final das contas, haviam obstáculos que não poderiam ser ultrapassados facilmente. O cobalto que anunciava o fim do crepúsculo precedia o azul profundo que tomaria o céu. A lua já estava em seu posto juntamente com as estrelas, Johnny partiria amanhã para a América do Norte. No entanto, eu não me sentia mal quanto a isso; estava lhe dando uma chance de se curar e encontrar a felicidade em outra pessoa. O veneno que a mágoa causava seria tirado de seu organismo com o passar do tempo. Não iria me despedir dele, não traria nenhum bem a nenhum de nós dois. Assim como ele, eu possuía minhas próprias feridas para cicatrizar. Fechei os olhos por alguns segundos permitindo o frescor da noite me envolver, com uma nova estação que iniciava assim uma nova fase começava em minha vida. O táxi que tomara até a mansão havia partido havia algumas horas, não fazia ideia de quanto tempo estava encarando a suntuosa fachada daquela mansão. Mesmo do lado de fora, conseguia ouvir a doce melodia de um piano. Sorri tranquilizando-me, havia passado os últimos nove dias refletindo sobre o que seria melhor para os três; Seunghyun não merecia ser tratado como segunda opção, com isso, refleti seriamente sobre como me sentia a respeito dele. Levei em consideração todas as sensações que ele despertava, o que sabia a respeito dele, como uma relação poderia ser construída entre nós e principalmente o papel que exerceria em sua vida. Deixaria para trás o sobrenome Espossito e adotaria uma nova identidade para enterrar de vez o passado. O tempo fora um aliado importante nessa difícil tarefa, tive de explorar pensamentos embaraçosos e encarar meus medos de frente. Concluir que Johnny e eu não iríamos ser felizes juntos, não colocava Seunghyun como uma segunda opção. Apenas revelava que existia mais de um tipo de amor em nossas vidas; porque era exatamente assim como eu me sentia, amava Choi Seunghyun! Quando os olhos dele pousavam sobre mim, me sentia uma jovem inexperiente, experimentando embarcar no desconhecido. Johnny era o amor da minha vida, mas Seunghyun... Ele era o amor para a minha vida! Adentrei a casa sentindo meu coração acelerar conforme seguia o som do piano, tinha a certeza que era ele quem estava tocando. O som dos meus passos atraiu a atenção de Seunghyun, durante o trajeto até aquela sala, havia passado por seus homens que circulavam a mansão como se estivessem esperando algo de ruim ocorrer. Imaginei que deveria ser por minha causa, Matrona tornara-se uma ameaça bastante conhecida naquele país; evitando que pensamentos negativos tomassem minha mente, entrei na mesma sala que o vira tocar pela primeira vez. Choi permanecia pacientemente sentado no banco do piano, suas mãos estavam sobre a tampa que cobriam os teclados. Ele parecia aguardar uma notícia ruim, sua postura rígida deixava explícito seu desconforto. Ele estava esperando que eu fosse o rejeitar. Me aproximei dele me sentando ao seu lado, de costas para o piano. Seus olhos encontraram os meus, em seu olhar não havia algo que pudesse concluir. Seunghyun havia levantado muros ao seu redor. Suspirei antes de me pronunciar primeiro.

— Soube por Johnny do acordo que fizeram. — Interrompi minha fala ao perceber o que estava dizendo.
— Então você o encontrou. — Ele soou evasivo enquanto seus olhos desviavam dos meus.
— O encontrei logo após a nossa conversa, Seunghyun...— O chamei por seu nome em um tom sério, atraindo seu olhar novamente. — Não estou aqui para rejeitá-lo. — Prossegui buscando passar a veracidade do que estava sentindo através do meu olhar.
— Você quer dizer que... — Ele se interrompeu tentando não soar ansioso. Acabei por abrir um sorriso enquanto me levantava, ficando de pé em sua frente. Minhas mãos tocaram sua face a segurando de ambos os lados.
— Passei os últimos dias refletindo seriamente sobre cada aspecto dos meus sentimentos, não o considerei em momento algum como uma segunda opção. — Minha voz soava séria e firme enquanto repassava a natureza de meus sentimentos a ele. — Estava apenas lhe mostrando o quão séria estava levando a situação; minha escolha fora tomada após eu refletir seriamente sobre tudo. — Me inclinei em sua direção deixando que minha testa encostasse na dele, uma de minhas mãos acariciava o cabelo em sua nuca. — Eu o escolhi, Choi Seunghyun. — Minha voz não vacilou em nenhum momento, estava firme em minha decisão.
— Sinto como num sonho... — Ele se levantou erguendo gentilmente meu queixo com seu indicador enquanto inclinava-se em minha direção. — Me sinto mais confiante ao ter a certeza de seus sentimentos. — A voz de Seunghyun estava grave e baixa fazendo com que uma onda de calor espalhasse por todo o meu corpo.
— Poderei passar o resto da minha vida lhe afirmando a veracidade deles. — Dedilhei os músculos aparentes em sua camisa enquanto o olhava com um sorriso genuíno em meus lábios.
— Você é mesmo cheia de surpresas, . — Ele sussurrou antes de tomar meus lábios nos seus em um beijo apaixonado, seus braços me envolviam em um abraço carinhoso enquanto sua boca encaixava-se perfeitamente na minha.

A gentileza e intensidade com a qual Seunghyun me beijava, mostrava o quanto ele me amava. Seus braços me ergueram deixando-nos no mesmo nível, sua respiração estava irregular após nossos lábios se separarem. O olhar que ele me lançou, me tirou o ar, estava irremediavelmente apaixonada por aquele homem! Sem lhe dar oportunidade de dizer algo, tomei os lábios dele novamente nos meus em um beijo completamente diferente do anterior. Possuía um desejo aparente e era mais intenso, minhas unhas arranhavam sua nuca enquanto as mãos dele apertavam minhas coxas ao redor de sua cintura; Choi me levou até o seu piano, me deitando sobre o tampo carmesim. Ele se afastou brevemente apenas para me observar antes de retomar o que havíamos iniciado. Nos amamos naquela sala antes de seguirmos até o seu quarto no andar superior, o que ocorrera naquela sala fora apenas o início das longas horas que provamos um ao outro nossos mais profundos sentimentos, sem qualquer restrição.

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Ao abrir meus olhos, sorri ao encontrar um Seunghyun adormecido ao meu lado, seu braço estava me mantendo firmemente próximo a ele, minha cabeça estava repousada em seu peito nu, dessa forma conseguia ouvir seu coração bater tranquilamente. A felicidade parecia explodir em um show de fogos de artifício em meu peito enquanto o observava bobamente dormir. Estar nos braços de Choi me dava a sensação de pertencimento. Não a ele, mas a mim mesma, a autonomia para decidir o que desejava de verdade, com Seunghyun, eu me descobria pouco a pouco. Em dado momento, ele abriu preguiçosamente seus olhos, seus lábios curvaram-se em um hipnotizante sorriso.

— Há quanto tempo está acordada? — Ele questionou um pouco grogue de sono, sua voz estava mais grave do que o normal por ele ter acabado de acordar.
— Não tenho a menor ideia, mas agora entendi o porquê você ficava me observando dormir. — Meus olhos o observavam em mais pura adoração. — Há algo de encantador em observar aqueles que amamos dormir.
— Exatamente. — Ele se pôs sobre mim apoiando seu peso em seu braço enquanto seus olhos me davam um olhar de tirar o fôlego. — Adorarei ter a sua face como a primeira coisa que verei todas as manhãs.
— Que clichê! — Acabei rindo rolando os olhos diante de tanto romantismo, embora tivesse gostado de suas palavras. — Imagine a bagunça que estarei, eu possuo uma péssima aparência ao acordar!
— Eu não me importo. — Ele riu diante minha provocação. — Se estiver bagunçada por minha causa, não seria algo ruim de aturar. — Ele sussurrou contra meu ouvido enquanto seus lábios deixava um caminho de fogo por onde percorria.
— Você está confiante demais, deve ter esquecido de um único detalhe. — Atraí sua atenção com um sorriso provocante em meus lábios. — Meu irmão não vai permitir que sua amada irmãzinha durma todas as noites com o seu chefe.
— GD superará isso. — Seunghyun riu antes de calar-me com um beijo apaixonado. — Ele aceitará com o tempo.
— Quero ver só!

Ele me silenciou com suas provocações. O futuro era algo incerto embora tivesse certeza de que poderia enfrentar o que fosse; não havia mais nada o que temer. Estava enfim em paz comigo mesma e estava exatamente onde deveria estar:

Ao lado de quem me amava!

Final alternativo Johnny Suh
(Johnny NCT)


Deixar Johnny para trás roubara todas minhas forças, estava sentada havia algumas horas em frente a imensa janela da sala do apartamento de Jiyong. Meu irmão havia saído para resolver as últimas questões pendentes após tudo o que realizara naquele país. Seunghyun havia solicitado uma reunião com toda a sua organização; desse modo, estava sozinha naquele apartamento. Refletir sobre o como sentia a respeito de duas pessoas tão diferentes me levava a questionar muitos aspectos. Principalmente se não estava usando Choi como uma segunda opção; ele não era um brinquedo e jamais o trataria dessa forma. Somente de lembrar as emoções que seu toque me provocava, comprovava que não estava enganada em afirmar que estava apaixonada por ele. No entanto, eu possuía toda uma história com Johnny, a natureza dos meus sentimentos por ambos, se diferenciava até mesmo no grau de intensidade. TOP havia me lembrado que ainda poderia amar mesmo quebrada. A vingança havia me cegado, ocultando todas as partes boas que restavam em mim.
Choi Seunghyun fora capaz de me fazer enxergar isso de modo inconsciente, era grata a ele por isso. Suspirei apoiando minha cabeça em minhas mãos enquanto deixava minha mente refletir sobre Johnny. Se eu o escolhesse teria de ser paciente e assim como ele, buscar cicatrizar as feridas que ainda não haviam se fechado. Os obstáculos que teríamos de enfrentar seriam muitos, para o nosso bem, teríamos que nos afastar para nos dar a chance de conseguir superar o passado antes de focar no futuro. Com os olhos marejados, disquei o número dele enquanto ouvia o som irregular da minha respiração. Ele atendeu no segundo toque, o som de carros ao fundo me fazia questionar se ele ainda estava naquela ponte. Fechei meus olhos apoiando minha cabeça contra a parede atrás de mim.

— Já tomou uma decisão? — Ele me questionou num tom naturalmente preocupado, ousei abrir um fraco sorriso enquanto sentia lágrimas quentes percorrerem um caminho até meus lábios.
— Por que você continua a me amar? — O respondi com outra pergunta enquanto deixava minha confusão aparente em meu tom de voz.
— Porque você é como o meu espelho, olhando diretamente para mim. — Ele me respondeu sem qualquer hesitação, sua voz soava como se ele pudesse me ver. — Eu não posso amar ninguém mais como a amo, sei que temos inúmeros desafios pela frente mas acredite em mim, , eu não me importaria de morrer por suas mãos; eu consigo entender os motivos pelo qual você fez tudo, eu a entendo melhor do que a mim mesmo.
— Dois reflexos em um só. — Concluí enquanto ria baixinho. — Eu estou cansada de machucar as pessoas.
— E eu estou cansado de te culpar por tudo. — Ele admitiu com certo humor em sua voz.
— Eu te ligarei assim que tomar minha decisão; não sei se serei capaz de te deixar partir mesmo que seja para o seu bem. — Admiti em um tom baixo envergonhada pelo meu egoísmo.

Ouvi ele rir após me ouvir, Johnny ainda me afetava e não havia como negar, minha decisão havia sido tomada no instante em que disquei o número dele, ao invés de o responder no final da próxima semana como ele havia me proposto. Acabei rindo com ele enquanto lhe desejava uma boa noite. Após ele me responder, a ligação se encerrou; eu não o ligaria e não iria ao aeroporto. Ele já tinha a minha resposta; precisava apenas refletir em como explicaria isso a Seunghyun. Eu o estimava, precisaria ser cuidadosa e honesta. Segui até o quarto após retirar minha jaqueta deixando sob a mesa de centro meu celular. Deixaria minhas preocupações para o dia seguinte; cansada depois das emoções intensas do dia, adormeci em pouco tempo. O futuro não me parecia mais tão assustador.

Alguns anos depois...

As flores de cerejeira perfumavam o ar com um aroma doce; estava visitando o Japão. O festival estava repleto de casais em quimonos e yukatas; havia viajado com meu irmão. Jiyong havia me deixado sozinha apenas para pegar algo para comermos, como o festival estava chei,o ele não achava coerente me fazer esperar ao lado dele, desse modo me mandou explorar as barracas e tentar descobrir algo novo. Não podia reclamar da personalidade mandona de GD; havia me acostumado a ela após passar os últimos anos morando com ele.
Embora houvesse resolvido todos os meus assuntos na Coréia do Sul, acabei me habituando a cultura local. Naquele país eu poderia ao menos ter meu irmão ao meu lado, as coisas entre Seunghyun e eu havia melhorado com o passar dos anos. Embora o houvesse rejeitado, acabamos nos tornando amigos. GD me ajudara a lidar com minhas feridas do passado. A morte de Michèle fora sentida um mês depois, havia matado todos os Espossito sem deixar qualquer rastro, era óbvio que embora tivesse me vingado, não estava completamente imune ao sofrimento. A vingança é como um veneno, o qual ingerimos esperando que os outros morressem.
Caminhei pelo longo corredor de Sakuras, admirava a beleza da natureza em silêncio. Haviam famílias, grupos de amigos e casais que paravam para tirar foto. Vê-los sorrindo me fazia lembrar de Johnny. Ele havia me enviado uma mensagem antes de embarcar em seu avião. A mensagem trazia uma promessa, buscava confiar nas palavras dele. Até aquele momento não havíamos entrado em contato um com o outro.
Dizem que o tempo é capaz de curar todas as feridas, eu buscava acreditar nisso com todas as minhas forças. Meu coração se apertava de saudades; após descobrir que ele estava vivo, senti que poderia ser feliz novamente, mesmo estando apaixonada por TOP na época. Quando tivemos a conversa naquela ponte, essa esperança quase fora despedaçada, embora o fator determinante ocorrera em nosso último telefonema. Aquela conversa havia sido a mais sincera e reveladora; o meu processo de cura iniciou exatamente naquela noite. Não estava mais envolvida nos negócios ilegais, possuía dinheiro o suficiente para sustentar um pequeno país durante anos, devido aos lucros com meus antigos negócios. Atualmente usava outra identidade, possuía uma empresa que ganhava mais espaço no mercado e morava com GD. Meu irmão era uma ótima companhia apesar do mal humor matinal. A Kytheng havia assumido meus antigos negócios, o que era algo bom de certa forma. Pois possuía todos os meus antigos subordinados por perto.
Enquanto refletia sobre isso, caminhava distraidamente, GD havia tido a brilhante ideia de irmos com trajes parecidos, estava me sentindo estranha usando algo tão diferente do meu estilo habitual. Porém algo mais a frente me chamou atenção, quase que em sincronia, meu celular vibrou. A figura que usava o quimono idêntico ao de GD, me lançou um olhar divertido devido a expressão que provavelmente estava fazendo. Retirei o celular do bolso da manga na Yukata rindo da mensagem no visor.

Se ele ousar te fazer chorar, eu certamente o matarei.


Era meu irmão, GD estava sendo protetor e eu o amava ainda mais por ter feito parte dessa armação. Johnny se aproximava com um olhar saudoso. Em seus lábios havia um sorriso amoroso. Enquanto se aproximava, ele atraía os olhares das jovens mulheres desacompanhadas, o acompanhei sem perdê-lo de vista. Meu coração parecia ser ouvido de tão alto que soava em meus ouvidos, havia um leve formigamento em minhas mãos que sentiam o impulso de tocá-lo, o frio na barriga era o mesmo que senti quando me dei conta dos meus sentimentos por ele. Em minha mente passava tudo o que havia enfrentado para chegar até ali; havia visto a face da morte inúmeras vezes; e havia assumido o papel de ceifadora incontáveis vezes. De vilã a mocinha, havia encontrado meu caminho até a redenção, fora uma tarefa árdua, mas valera cada segundo.

— Estive esperando ansiosamente por esse dia. — Sussurrei assim que ele parou em minha frente, seus braços me envolviam em um abraço, seu calor comprovava que não estava sonhando.
— Você não era a única. — O tom sério de Johnny contrastava com o brilho intenso em seus olhos.
— Como me encontrou? — Questionei confusa.
— Essa foi a parte mais fácil, Seunghyun prezou pela sua felicidade e me fez enxergar que você esteve o tempo todo ao meu lado. — Ele ergueu gentilmente minha face enquanto afagava minha bochecha. — Mostre-me como lutar pelo hoje, eu nunca mais a deixarei.
— Eu não poderia desejar outra coisa. — O beijei suavemente já que estávamos em uma área pública.

A felicidade tomava cada micro célula do meu corpo, a surpresa agradável de Seunghyun e meu irmão, me fazia enxergar que não estava sozinha. Havia ganhado uma nova família, a qual me protegia e colocava minha felicidade em questão. Eu realmente não esperava nada do que havia ganhado nos últimos anos. Foram tempos confusos onde o apoio de cada membro da Kytheng me auxiliara demais. Johnny nos separou gentilmente enquanto mantinha um de seus braços em minha cintura, as árvores de cerejeira davam um ar mágico àquele lugar. Sua face trazia um sorriso largo e satisfeito, seus lábios estavam ainda mais tentadores após o nosso rápido encostar de lábios.

— Eu definitivamente posso me acostumar com isso. —J ohnny nos encaminhava até as barraquinhas do festival. — Ver seu rosto se iluminar ao despertar todas as manhãs, dormir todas as noites ao seu lado, ter uma vida inteira de surpresas pois você é imprevisível e isso é o que a torna única!
— Está me chamando para morar com você? — Me virei para ele o impedindo de continuar a caminhar.
— Eu irei aonde for, , contanto que você esteja ao meu lado, não preciso de qualquer outra coisa para me fazer feliz. — A confissão dele me fez pular nele rindo de felicidade, ele me pegou desajeitado rindo também.
— Eu te amo, Johnny Suh. — Falei sem qualquer hesitação vendo os orbes castanhos dele adquirirem uma suavidade que vira apenas uma vez.
— Você é o amor da minha vida, ! — Ele se pronunciou me girando no ar com um sorriso largo em sua face.

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Mal adentramos o quarto de hotel, quando os lábios de Johnny esmagaram os meus em um beijo avassalador, suas mãos se ocupavam em me despir enquanto as minhas imitavam as suas, só que em seu quimono; havíamos desfrutado do festival antes de seguirmos para o hotel. Nossa felicidade parecia irradiar ao ponto de não conseguir esconder meu sorriso, ver o mesmo sentimento que sentia refletido nos olhos dele, valera cada minuto da longa espera. Naquele quarto de hotel uma nova fase se iniciava em minha vida; não havia o que temer e me sentia capaz de enfrentar qualquer coisa pois tinha a certeza que enfim tudo estava bem. Havia conseguido montar um negócio dentro da legalidade, havia enterrado a Espossito no passado, o local em que deveria ficar. Desfrutava do presente que era literalmente um presente precioso. Valorizava cada membro da minha nova e incomum família, e buscava ser uma pessoa melhor do que fora no passado. Assim fui amada por Johnny e todo o tempo que havíamos passado longe um do outro não tinha importância diante o futuro cheio de possibilidades que nos aguardava.


Extra

>
Conteúdo da carta da deixada para :


Querida ,


Figlio mia, há um segredo que venho guardando desde muito antes de você nascer. Espero que um dia possa me perdoar por esconder tantos segredos e não poder te proteger como assim gostaria. Seu pai nunca fora o homem que teve o meu coração; nosso casamento fora um acordo entre nossas famílias. Os Espossito sempre possuíram um status de imponência na Itália; aceitar o matrimônio fora o ato mais difícil que tive de realizar. Carregar um herdeiro de Giuseppe me custara toda a bondade que poderia oferecer a vocês dois.
Giuseppe usava uma fachada de mocinho para esconder a sua verdadeira face: um psicopata maldito! Os horrores que tive de suportar ,não se comparou ao ato horrendo que ele teve a ousadia de lhe causar! Me senti impotente e chorei por noites a fio enquanto suportava o peso da culpa por não conseguir proteger minha doce criança. Você nascera de um momento de fraqueza entre mim e o grande amor da minha vida. Infelizmente nosso destino fora decidido por nossas famílias, por conta disso, nunca deixe que essa família a controle, minha pequena bambina. Busquei criá-la de forma a ser o mais forte que qualquer um; até mesmo que Michèle! Giuseppe sempre a vira como nada mais que uma ferramenta para conseguir o que desejava.
Quando soube que estava mantendo contato com o figlio bastardo dele senti raiva, porém aprendi algo valioso sobre você: como uma alma verdadeiramente boa, nada poderá te corromper.
Espero que me perdoe um dia por não poder te proteger dos absurdos de Giuseppe. Desejo que encontre a redenção longe do mal que é os Espossito.

Com amor,

Mama.





Palavras em italiano usadas na história:
• Signora: pronome de tratamento de respeito, significa senhora.
• Sorella: irmã.
• Fratello: irmão.
• Dea mia: Minha deusa, minha senhora.
• Mio caro: meu caro.
• Genitores: o equivalente de pais em português.
• Famiglia: família.
• Figlia/Figlio: Filha/Filho.
• Bambina/Bambino: garotinha,garotinho, criança pode ser usada como expressão carinhosa entre pais e filhos.





Fim.



Nota da autora: Assim chega ao fim a saga de Matrona; inicialmente a história não passaria de uma oneshot (a história que leva o mesmo título pelo qual a pp é chamada: Matrona); no entanto acabei caindo nas armadilhas das meninas do especial (Daph me perdoe kkkk) e com isso através de muitas noites sem dormir, conversas “amigáveis” com Daph, e muitas músicas para me ajudar Malavita chegou ao fim.Quero agradecer a Gih e a Bia e a Daph por todo o incentivo e ideias para desenvolver a long. Quero agradecer a minha irmã pela paciência em suportar meus surtos e crises como autora.
Nos encontramos por aí, até o próximo especial ❤.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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