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Última atualização: 03/07/2021

Ato 1 - Do I Know You?

Brilhante, Malfoy! Absolutamente esplêndido! A melhor ideia que você teve nos últimos anos.



Eu não sou uma pessoa impulsiva. Pelo menos não tenho sido, desde que a guerra acabou, cinco anos atrás. Então eu realmente não faço ideia do que me levou a largar tudo essa manhã e pegar um trem até as Terras Altas em pleno Halloween… Visitar as Terras Altas em outubro! A comunidade bruxa sabe bem que as Terras Altas não devem ser visitadas entre outubro e março. Não apenas pelo clima instável, apesar de esse ser o ponto mais forte para que eu evite o lugar. Enquanto olho pela janela do trem e vejo as árvores balançarem sob o vento forte, eu penso que provavelmente serei carregado por ele antes de conseguir aparatar até a hospedaria. Meu corpo vai ser encontrado na próxima primavera, definhando num lindo lago. Ou não vai ser encontrado de modo algum, porque eu terei sido devorado por um dos monstros dos lagos da Escócia.

Minha mãe não ficou nada feliz quando abandonei a mesa do café da manhã subitamente, totalmente decidido a fazer essa viagem de última hora. Seria nosso primeiro Halloween juntos, desde que voltei do exílio.

Eu não sei o que me motivou, mas eu sei que eu precisava vir até aqui. Hoje.

Nenhuma alma bruxa em sã consciência viaja durante o Halloween - o dia em que nossa magia parece assumir vontade própria e o submundo está mais próximo do nosso mundo - muito menos para um lugar tão sensível como as Terras Altas. Talvez por isso a plataforma estivesse quase totalmente vazia enquanto eu esperava pelo trem.

Apenas eu e uma mulher de cabelos castanhos revoltos.

Ela estava relativamente distante de mim quando seus olhos castanhos encontraram os meus e ela sorriu em minha direção, como se quisesse dizer oi, mas não certa o suficiente do quão informal ela poderia ser. Geralmente pessoas nascidas trouxas ou mestiças são mais… relapsas quanto às normas de etiqueta do mundo bruxo. Ela não parecia exatamente desconfortável com a minha presença, o que era, no mínimo, estranho.

Talvez ela tenha me reconhecido de alguma matéria do Profeta Diário ou do Pasquim. Talvez ela estivesse com medo de dividir o trem com um ex-Comensal da Morte por horas, em direção a um lugar remoto e praticamente inabitado, e achasse que seria mais seguro se ela fosse simpática.

Fazia muito tempo desde a minha última interação com qualquer mulher que não fosse minha mãe ou Pansy Parkinson, e eu não sou realmente acostumado com pessoas desconhecidas sendo simpáticas ou amigáveis comigo - pelo contrário.

Talvez ela não estivesse sendo simpática, mas apenas cordial.

Pansy era cordial o suficiente. Talvez eu devesse reatar nosso relacionamento. Era melhor que a idéia de casamento arranjado que minha mãe tinha para mim. E pelo menos assim eu não agiria por impulso e realizaria uma viagem estúpida novamente. Eu estaria, muito provavelmente, me preparando para o tradicional jantar de Halloween na Mansão. Embora ultimamente as comemorações dos Malfoy estivessem relativamente vazias e deprimentes, pelo menos eu estaria em um lugar aquecido e regado a Whiskey de Fogo de qualidade.

Chegando ao meu destino, um lugarejo nos arredores de Kilchrenan, o vento frio uivava e isso fazia com que a paisagem parecesse ainda mais macabra. Não que aquele não fosse um lugar bonito. Era. Durante a primavera e o verão, parecia um lugar digno de contos de fadas, realmente encantador. Infelizmente o mesmo não poderia ser dito sobre o outono e o inverno.
O relógio ainda não marcara o início da noite, mas o céu já estava quase completamente escuro.
Apertando minha capa contra meu corpo, com a intenção de me aquecer um pouco melhor, caminhei em passos largos e rápidos até a taberna do vilarejo. Um conhaque cairia bem nesse frio. E então eu poderia colocar meus pensamentos em ordem.

Kilchrenan Inn é uma taberna tradicional, fundada pela família Caimbeul por volta de 1250, por isso não foi um grande espanto quando, ao abrir a porta pesada de madeira, foi recepcionado por ninguém menos que Cailean Mór Caimbeul, o patriarca fundador, herói de guerra, homem de indubitável honra - que, além de todas essas características marcantes, havia sido morto em batalha em 1294.
Seu descendente distante, Abhain, parado atrás do balcão de madeira, polia cuidadosamente um copo de vidro com uma flanela surrada, e parecia não se importar com o fato de seu tatatatatatataravô - ou o que fosse - circular pelo ambiente como se fosse o gerente do lugar. A não ser pelo fantasma, Abhain e um outro cliente, o local estava vazio.

- Bem-vindo à Kilchrenan Inn - Abhain proclamou de modo robótico, sem desviar os olhos do copo em sua mão.
- Hey, Cailean! Belo uniforme! - Eu saudei o fantasma que se encontrava parado ao lado da porta, como se esperasse para me guiar até uma mesa, e fui respondido por um sorriso amigável. - Hey, Abhain! Feliz Halloween! Que os espíritos ruins permaneçam longe da taberna!
- Menino Malfoy - Abhain arregalou os olhos quando percebeu quem acabara de entrar no estabelecimento. Talvez minha família o tenha afetado diretamente durante a guerra, mas por algum motivo, eu não conseguia me lembrar - uma honra recebê-lo após tanto tempo.
- Sabe como é, eu tenho estado ocupado desde a guerra… Alguns anos ocupado entre Azkaban, exílio e tentativas frustradas de me estabelecer novamente na sociedade - eu falei sarcasticamente, com um riso seco. O dono da estalagem parecia extremamente desconfortável, e eu percebi quando seus olhos rapidamente se desviaram de mim para um canto a minha direita. Ele deixou o copo e a flanela em cima do balcão, secando as mãos em seu avental que provavelmente um dia fora branco, e se dirigiu até mim.
- Claro, claro! Tempos difíceis para todos nós, não é mesmo? - ele coçou a nuca e me levou até uma mesa à esquerda, insistindo que me sentasse de frente para a janela.
- Certamente. Mas nada que um conhaque não resolva, não é mesmo?
- Sem sombra de dúvidas, menino Malfoy - quando se certificou de que eu não sairia do local escolhido, Abhain exalou pesadamente e retornou ao balcão e começou a preparar minha bebida, que flutuou até minha mesa instantes depois.

***


O primeiro gole de conhaque desceu queimando por sua garganta e foi muito bem vindo. Ele sentiu seu corpo esquentar quase instantaneamente. Sacando seu velho diário de couro de dragão do compartimento interno de minha capa de viagem, juntamente com uma pena gasta, começou a folheá-lo. Aquele era o diário que havia lhe acompanhado por quase toda a vida escolar, Draco o encontrou por acaso, semanas atrás, quando separava as tralhas de seu antigo quarto na mansão Malfoy, e decidiu que seria interessante relembrar momentos de uma época mais simples.

Estranhamente, no entanto, várias páginas tinham sido arrancadas em diferentes anos e meses. Draco não se lembrava de ter feito aquilo. Ele não tinha nada a esconder - nem que ele quisesse. As piores atrocidades que cometera em sua vida foram registradas pelos principais jornais do mundo bruxo, não é como se lhe fosse permitido o luxo de esquecer. Por que a sensação de que havia algo fora do lugar - algo que fora retirado dele bruscamente - não deixava de assombrar o garoto? Seria isso apenas mais um dos sentimentos infligidos pelo Halloween das Terras Altas? Ele gostava de pensar que sim, que ele estava apenas mais sensível que o normal às forças do sobrenatural.

Ele preferiria enfrentar inúmeros fantasmas escoceses que os fantasmas do seu passado vergonhoso, de qualquer modo.

Seu copo estava quase seco quando foi substituído por um totalmente cheio, e no espaço a sua frente, outro copo tomou forma. Olhando para cima rapidamente, um pouco assustado com a presença inusitada em sua mesa, Draco arqueou uma de suas sobrancelhas para a mulher que o observava. Era a mesma mulher de cabelos revoltos que ele havia visto horas mais cedo, na estação de trem em Londres. Agora que ele estava inevitavelmente mais próximo dela, ele conseguiu reparar suas roupas. Sem a capa, ficava óbvio que ela era nascida Trouxa ou mestiça. Bruxas sangue-puro nunca usariam aquele tipo de calça reveladora ou uma blusa tão… mundana. A não ser que ela fosse uma Weasley - e ele sabia que isso ela não era. Ela retornou o olhar com um sorriso e, sem cerimônia, sentou-se na poltrona a frente do loiro.

- Oi! - ela falou repentinamente, o sorriso nunca deixando seu rosto.
- Desculpa? - ele foi pego de surpresa. Ela estava mesmo falando com ele?
- Eu só disse oi - ela sorriu simpaticamente.
- Ah, oi, olá! - situações como essa o deixavam desconfortável. Ele não gostava de se sentir desconfortável. - Oi.
- Você vem sempre aqui? - ele sempre pensou que as pessoas não usavam essa cantada de verdade, mas aparentemente estava enganado. Ou aquele era só o senso de humor extremamente estranho da mulher. Ele não conseguiu impedir quando seus lábios formaram um pequeno sorriso. Ele tinha um certo apreço por coisas estranhas.
- Desculpa, mas eu te conheço? - a pergunta escapou de seus lábios. Draco não conseguia deixar de pensar no quão familiar - ainda que totalmente desconhecida - ela lhe parecia. E o modo como ela se aproximara e não parecia se sentir intimidada por estar na companhia dele. Talvez eles se conhecessem de algum lugar.
- Hm, não… Quer dizer, talvez... - ela parecia estar levemente sem graça agora. Temia que houvesse sido ousada demais. Ele certamente sairia correndo para as montanhas a qualquer minuto se ela continuasse sendo tão pra frente. - Você costuma ir à Floreios e Borrões?
- Obviamente.
- Talvez você me conheça de lá! - ela abriu um sorriso ainda maior do que antes - Sabe como é, sou uma escrava dos livros há… Quase cinco anos agora.
- Cinco anos… - exatamente a quantidade de tempo que Draco passara entre Azkaban e o exílio. Cinco anos de reclusão, afastamento. Tempo demais para refletir. Ele continuou secamente, deixando claro em seu tom de voz que não queria dar continuidade àquela conversa - Eu não estive por Londres nos últimos cinco anos, devo ter me confundido. Além disso, eu me lembraria de você.
- Pode ser o cabelo…
- O que tem o seu cabelo?
- Ele muda bastante. É como se tivesse vida própria, sabe? Então às vezes eu tenho um feitiço ou outro para diversificar. - ela explicou animadamente - Talvez por isso você não me reconheça.

Ele permaneceu em silêncio, então ela continuou a falar disparadamente.

- Eu criei alguns feitiços para cabelos revoltos… É como se eu conseguisse colocar minha personalidade neles.
- Hm… Eu duvido que você consiga fazer isso.
- Bom, você não me conhece, não é mesmo?
- Desculpa, eu só estava tentando ser… Cordial. - Draco gostaria de aparatar naquele momento. Sumir dali.
- É, percebi - ela rolou os olhos e suspirou pesadamente - Desculpa, não era minha intenção te incomodar… É que… É que eu te vi sentado aqui, sozinho. E eu pensei que talvez você precisasse de companhia. - ela parecia estar sendo sincera, e Draco sentiu-se mal por ter sido grosso.
- Não, sem problemas… é só que eu estou tentando me concentrar em algumas coisas.
- Tudo bem, - ela acenou, pegando sua bolsa novamente e começando a se arrastar para fora da poltrona - bem… Então, é isso! Feliz Halloween!
- Para você também.
- Ah, que cabeça a minha, - ela parou rapidamente, já na metade do caminho para sua mesa, e girando os pés voltou até a mesa de Draco, estendendo-o uma mão - Meu nome é Granger… Hermione Granger. Prazer!
- Malfoy, - ele hesitou um pouco antes de aceitar o aperto de mão, um pouco desconfortável com aquele ato de intimidade - Draco Malfoy.
- Sem piadas sobre o Trio de Ouro ou coisa do tipo, por favor. - ela sorriu - Mas você não faria isso, não é mesmo? Você está tentando ser cordial.
- Trio de Ouro?
- É, você sabe, a menina dourada e tudo mais. - ela revirou os olhos - Eu realmente odeio esse tipo de brincadeira.
- Eu não faço ideia do que você esteja falando, mas eu não faria qualquer tipo de piada zombeteira com você. - até porque, eu não te conheço, foi o que Draco pensou ao dizer aquilo.
- Certo, - ela pareceu um pouco desconfortável com aquilo e resolveu que era, realmente, hora de deixá-lo em paz. Ele se sentiu aliviado. - A gente se vê.

De trás do velho balcão, Abhain e o fantasma de seu antepassado observavam aquele diálogo desenrolar com olhares preocupados em seus rostos.

***


Ele não se surpreendeu, na manhã seguinte, ao encontrar a tal da Granger na estação, esperando pelo trem para retornar à Londres. Mas se incomodou e tentou evitá-la o máximo possível. Alguma coisa nela o deixara desconfortável e pensativo por toda a noite, e não tinha ligação alguma com as roupas estranhas que ela usava ou com o cabelo revolto que ela mantinha com orgulho.

Ela acenou sorridente, à distância. Ele sorriu em resposta. Um sorriso fechado, apenas o necessário para ser cordial e simpático. Talvez a técnica da cordialidade estivesse indo longe demais. Talvez ele devesse apenas ignorá-la, ser frio e grosso como sempre fora. Mas ele sabia que fazia parte da sua readaptação em sociedade tentar ser amigável. Ridículo.

O trajeto de volta à Londres estava sendo tão longo e solitário quanto a ida até as Terras Altas, e Draco meio que gostava daquilo. Ele gostava de assistir a paisagem bucólica passar pela janela, gostava de refletir e estava aproveitando o tempo para colocar seu caderno diário em dia. Os curandeiros dos Estados Unidos tinham insistido que ele deveria tentar manter uma rotina e escrever o máximo que conseguisse sobre seus dias e seus sentimentos quanto a eventos e pessoas. De acordo com eles, isso o ajudaria a aceitar fatos e a evoluir em sua tentativa de ser mais sociável. A guerra deixara inúmeras feridas físicas, mas as feridas mentais eram de longe mais insuportáveis e difíceis de se superar. De qualquer modo, escrever sobre o seu dia e eventos já era um hábito antigo para ele, que se sentiu feliz em retomá-lo.

- Hey! - seus pensamentos foram interrompidos quando a porta de sua cabine se abriu em um baque, e lá estava Granger. Seu moletom laranja chegava a arder os olhos. - Malfoy, certo?

Ele apenas acenou com a cabeça, torcendo para que ela o deixasse em paz. Ele só queria um pouco de sossego, será que era tão difícil assim?

- Eu estava pensando, - ela tomou a liberdade de entrar na cabine e sentar-se na poltrona de frente a ele, apoiando os cotovelos no joelho enquanto se inclinava um pouco mais para frente. - Parece que nós somos os únicos nesse trem, melhor mantermos a companhia um do outro… Os espíritos estão a solta hoje.
- Eu não… - Draco não sabia se deveria olhá-la nos olhos ou não, então fixou-se em seus sapatos. - Eu não me importo muito com isso….
- Você mora em que parte de Londres? - ela perguntou, animada.
- Beco Diagonal, - ele não queria realmente saber, mas continuou - e você?
- Que coincidência! Eu também! - como ela poderia estar tão à vontade naquela cabine, com ele? - Desde que comecei a trabalhar na Floreios, na verdade. Eu até cogitei morar na Londres Trouxa, mas o Beco é simplesmente tão conveniente, não é mesmo?
- Faz pouco tempo desde que me mudei para lá.
- O único problema é que está sempre lotado de pessoas nos fins de semana e feriados, e eu não gosto de multidões…
- Eu não pensaria isso sobre você. - de fato, ela parecia a pessoa mais sociável e frequentadora de multidões do mundo.
- Por que você não pensaria isso sobre mim? - ela ergueu uma sobrancelha, questionando.
- E-eu - ele gaguejou, tentou encontrar palavras. Ela era um pouco intimidante, não? - é só que… que você parece cordial… Sociável.
- Ow… - Hermione exclamou, brava. Ela parecia genuinamente ofendida por ter sido chamada de cordial - Agora eu sou cordial? Você não conhece nenhum outro adjetivo? - ela se levantou e, por um segundo, Draco teve esperanças de que ela o deixaria em paz na cabine. Ledo engano. Ela resolveu sentar-se ao seu lado. - Eu não preciso de "cordial"! Eu não preciso ser cordial e eu não preciso que ninguém seja cordial comigo.

Ele não entendia como uma pessoa tão pequena e sorridente poderia ter ficado tão brava com a simples menção da palavra "cordial", mas uma coisa ele tinha certeza: Hermione Granger era, de fato, intimidante. Então ele preferiu ficar calado e não questionar. Ela continuou sentada ao lado dele, o olhar fixo na poltrona da frente. Um silêncio desconfortável se instaurou até que ela finalmente disse:

- Me desculpe por ter gritado com você… - ele sentiu seu olhos nele - Eu estou me sentindo um pouco… Estranha. Desde ontem, na verdade. - ela bufou e, quando Draco moveu seu olhar para ela, ela olhava para as próprias mãos com grande interesse. Ele deu de ombros. Ela se aproximou. E agora estava muito mais próxima do que Draco gostaria, invadindo seu espaço pessoal. Ele tentou recuar, mas ela continuou. Merlin…
- Eu devo confessar - ela disse um pouco constrangida, mas a sinceridade em seus olhos fez com que a atenção de Malfoy se concentrasse inteiramente nela, mesmo que o desconforto ainda estivesse presente. Que pessoa... estranha. - que eu realmente gosto do fato de você estar sendo cordial. Quer dizer… Eu não sei se vou continuar gostando disso daqui alguns minutos ou horas, não sei. Mas no momento, eu estou realmente feliz por você estar sendo cordial.
- Eu tenho algumas coisas que… - Draco olhou para seu caderno com capa de couro de dragão, firmemente fechado em suas mãos - Eu provavelmente deveria terminar isto…
- Oh! Desculpa…
- Eu estou escrevendo e …
- Oh, certo, ok… Me desculpe, então - ela lhe deu um soquinho no braço, como se fosse um garoto adolescente. Doeu mais do que Draco esperava. - Se cuida, Draco! - e então ela saiu da cabine com um sorriso, como se nada tivesse acontecido, deixando um Draco Malfoy extremamente confuso para trás.

***


Era uma noite fria, como sempre, mas o vento não estava muito forte e o céu aparentemente estava limpo. Draco estava a caminho do ponto de aparatação de King's Cross quando avistou aquela jaqueta laranja novamente. Mais um vez agindo com uma impulsividade que lhe era estranha, ele apertou seus passos até chegar ao lado de Granger.
- Hey! - ele disse, chamando a atenção da garota - Por acaso você está indo para o Beco Diagonal?
Ela sorriu abertamente para ele - um sorriso que aquecia, de algum modo - e acenou positivamente.
- Quer ir caminhando? Não é todo dia que temos a oportunidade de desfrutar de um clima bom em Londres. - ele disse sinceramente, apesar de não saber o por quê, e levantou os ombros.
- Hm… Você não é um stalker, né? Só por via das dúvidas…
- Stalker? - ex-Comensal da Morte sim, stalker jamais! Draco pensou, rindo sozinho de seu humor mórbido - Não, eu não sou um stalker. Foi você quem veio falar comigo, lembra?
- Esse é o truque mais antigo no livro de stalkers! - ela riu, mas continuou andando lado a lado com ele, até que já estavam a alguns metros de distância da estação.
- Sério? Existe mesmo um livro de stalkers?
- Uhum!
- Certo, eu preciso ler isso. - ele caminhava olhando para os próprios pés, mas sentia o olhar da garota ainda nele. Ele sorriu levemente.
- Olha… Me desculpe se eu pareci meio doida… Eu não sou… Eu não sou mesmo doida.
- Tudo bem… Eu não pensei que você fosse...

Eles caminharam em silêncio por mais algum tempo e logo estavam no Beco Diagonal, onde pararam quando chegaram a Floreios e Borrões. Aparentemente, além de escrava dos livros, Hermione alugava um pequeno flat acima da livraria.

- Olha… - Hermione olhava para baixo, parecendo um pouco incerta sobre o que ia dizer em seguida - Por um acaso você gostaria tomar alguma coisa comigo? - seus olhares se encontraram e ela conseguia ver a feição confusa do homem a sua frente, então se apressou para explicar - Eu tenho, tipo… Muitas bebidas aqui em casa e… Quer saber… - seu rosto ardia de vergonha - Deixa pra lá... Que pergunta idiota… Boa noite, Draco.

Apesar do desconforto que tomara conta de Draco durante a viagem de trem, e até mesmo na estalagem, algo dentro dele ardia por estar perto dela, ou quando ela conversa coisas que não faziam sentido com ele. Um ardor bom, que ele não se lembrava de sentir em tempos, em anos. Era idiotice, ele mal a conhecia, mas ainda assim - e mais uma vez - ele decidiu agir por impulso.

- Não, espera! - ele disse um pouco alto demais, e quando deu por si, lá estava ele, sentado num sofá macio da sala de estar (que parecia também ser o quarto) de Hermione Granger, a mulher estranha que ele acabara de conhecer, enquanto ela os preparava drinks misteriosos.

Se as roupas de Hermione gritavam "TROUXA", sua casa gritava "MAGIA".

Draco tomou a oportunidade para passar os olhos pelo ambiente em que estava. Ele não achava que havia estado em um lugar tão bagunçado em sua vida, mas algo naquela bagunça deixava o espaço aconchegante. Ele se sentia em casa, embora nenhum lugar no mundo pudesse ser tão diferente da sua casa como aquele. A garota parecia gostar de colecionar coisas, especialmente livros (ela possuía montes deles. Alguns em prateleiras, outros em pilhas próximas ao sofá e a cama, alguns pareciam ter sido folheados a pouco tempo e alguns possuíam notas e penas saindo pelas bordas) e, perto do bar, vários origamis, nos mais diversos formatos e cores, pareciam tomar vida. Uma cristaleira com diversos objetos mágicos interessantes estava em uma das esquinas da sala e, ao lado dela, uma penseira. Interessante, ele pensou. Não era um objeto comum de se ter em casa e, principalmente, não era um objeto comum para bruxos comuns terem em casa.
Nas paredes, algumas fotos. Draco reparou que algumas das fotografias estavam com defeito, pois não se mexiam nunca. Geralmente essas eram as fotografias em que ela era vista com um casal de adultos sorridentes - ele pensava que provavelmente eram seus pais - e em que ela parecia ser bem nova. Numa fotografia recente, dois homens altos e sorridentes a abraçavam. O moreno, à esquerda da garota, ajeitava os próprios óculos no rosto enquanto olhava para Granger com admiração - Draco o reconheceria à quilômetros de distância, era ninguém menos que o Santo Potty. O homem à esquerda ria com um ar esnobe e vez ou outra dava tapinhas carinhosos no alto da cabeça da mulher, que tentava sem sucesso desviar. Os cabelos ruivos e o rosto irritante o lembraram rapidamente de quem ele era. Weasel.

Que porra era aquela? Era uma pegadinha ou o quê? Potter e Weasley apareciam em mais algumas fotografias na sala da garota, e eles pareciam ser desconfortavelmente próximos. Mas, como? Ele certamente a conheceria, se esse fosse o caso. Ele não era a pessoa mais amigável do mundo, mas ele não tem dúvidas de que ele saberia se ela tivesse frequentado Hogwarts ao mesmo tempo que ele e os dois patetas. Talvez ela fosse alguns anos mais nova, ou mais velha.

-
Duas ruínas azuis! - Granger exclamou da cozinha e dois copos cheios de um líquido azul suspeito flutuavam em sua direção. Draco alcançou um deles e tomou um gole, enquanto ela segurou o segundo copo, erguendo-o em um brinde, e numa tentativa engraçada de falar com uma voz sedutora, continuou - Beba, Malfoy! Isso tornará a parte da sedução menos repugnante.

Draco ergueu os olhos assustado e ela gargalhou alto.

- Eu to só brincando, qual é!

Ele suspirou e ela riu ainda mais. Ele ainda não conseguia parar de pensar em como o mundo era pequeno. E em quão pequena era a possibilidade deles nunca terem se encontrado anteriormente. Draco simplesmente não conseguia parar de pensar naquilo. A noite inteira. Seu olhar se desvia para as fotografias, vez ou outra, como que com medo de que uma delas gritasse: "GRANGER, ELE É UM COMENSAL DA MORTE, CORRA" e, sem que ele ao menos desse conta, era madrugada e ele se encontrava levemente bêbado e paranóico.

Além de vários drinks azuis, meia garrafa de Whiskey de Fogo já havia sido consumida entre os dois.

- Me conte algo interessante sobre você, Malfoy - Granger pediu, sentada confortavelmente no chão, em almofadas próximas aos pés de Draco.
- Hm… - por onde começar? Eu fui o Comensal mais jovem da nossa geração, também fui o Comensal que traiu Você-Sabe-Quem, eu fui preso, fui exilado… Ele acha que talvez aquela não fosse a melhor maneira de se apresentar a alguém. - Minha vida não é muito interessante… Eu acordo, vou trabalhar, volto para casa… Você deveria ver meu diário… - ele suspirou pesadamente, com um tom vazio em sua voz - Quer dizer… Não tem nada.
- Sério? - Hermione se aproximou - Isso te deixa triste? Ou ansioso? Quer dizer, eu estou sempre ansiosa pensando que não estou vivendo minha vida ao máximo, sabe? Aproveitando cada oportunidade e tendo a certeza de que não estou desperdiçando nenhum segundo que eu tenho! - ela pausou rapidamente, apenas para respirar fundo e continuar - Acho que é um sintoma da geração pós-guerra, não acha?
- É, eu já pensei sobre isso também. - eles sorriram sem motivo. O álcool realmente deixava a parte da sedução menos repugnante.
- Você é realmente cordial - ela gargalhou. - E eu preciso parar de falar isso.

A primeira garrafa de Whiskey de Fogo chegara ao fim, e agora eles começavam a segunda.

- Nós vamos nos casar - Hermione disse do nada, engatinhando até o lugar no sofá ao lado de Draco, rindo ao ver o olhar assustado do homem diante da fala dela - Eu tenho certeza.
- Hm… Ok? - ele realmente não sabia como responder àquilo e foi um susto bom quando Granger deitou a cabeça em seu ombro e segurou sua mão, entrelaçando seus dedos com delicadeza. Draco sentia algo se mover em seu peito de forma gostosa, seu corpo reagiu imediatamente ao toque inocente. De novo, ele precisava se lembrar que fazia muito tempo desde a última vez que tivera algum tipo de contato físico com uma mulher.
- Draco? Você deveria ir comigo para a Floresta de Dean um dia. - ela tinha um olhar sonhador - Em breve o rio vai estar totalmente congelado.
- Parece assustador.
- Exatamente! - ela brincava com seus dedos enquanto falava, tão próxima a ele que praticamente o abraçava - Eu posso preparar um piquenique. Um piquenique noturno! Piqueniques noturnos são diferentes, sabe?
- Combinado - ele ofegou. Ele precisava sair dali antes que ela percebesse que ele estava levemente animado com todo aquele contato e sedução repugnante. Seria humilhante. - Eu acho que eu preciso ir…
- Você devia ficar -
- Eu realmente preciso ir… - ele continuou, se levantando do sofá cuidadosamente, para que ela se afastasse de uma maneira não tão bruta. Pegando sua capa, tentando ser o mais rápido e objetivo possível em sua missão de sair dali sem beijar uma completa desconhecida.
- Eu gostaria que você me enviasse uma coruja… Ou talvez me ligasse no Flu… - ela exclamou, ainda sentada no sofá - Você faria isso?
- Sim. - ele respondeu, e para seu próprio espanto, ele sabia que estava sendo sincero.

Draco já se encontrava em segurança, novamente em frente a Floreios e Borrões, quando escutou a voz de Granger gritar pela janela:

- Me deseje "Feliz dia das Bruxas" quando escrever - ela lhe direcionou um daqueles grandes sorrisos sinceros que lhe aqueciam o coração - Seria realmente cordial da sua parte.

Draco sorriu consigo mesmo. Fazia tempos que ele não se sentia assim. Ele não conseguia explicar. Talvez a ruína azul estivesse batizada com Amortentia? Não, ele reconheceria o cheiro e os sintomas. Talvez… Talvez aquilo fosse algum tipo de amor à primeira vista? Ou simplesmente atração.

Ela era realmente bonita, ele não poderia negar. Mas era mais que isso. Alguma coisa naquela mulher definitivamente fazia com que ele sentisse que deveria estar por perto. Ele queria saber mais sobre ela. Queria escutar mais das suas teorias loucas sobre criaturas mágicas e efeitos desastrosos de viagens no tempo. Ele queria estar ao lado dela. Queria estar com ela por vários motivos, mas especialmente porque parecia… certo. Parecia como… estar em casa. Não a casa fria e assombrada de sua família, mas a casa que ele sonhara por anos. Aconchegante, carinhosa e amigável.

Seus pés davam passos largos em direção ao seu flat, duas ruas abaixo da rua de Granger. Seu cérebro processava tudo que acontecera de modo rápido e desorganizado. Quem era Hermione Granger?

Ao chegar em casa, Draco retirou suas botas de couro de dragão e sua capa, deixando-as no hall de entrada, e correu até seu quarto de estudo. Sem pensar duas vezes, sacou um pedaço de pergaminho da gaveta, ele molhou sua pena no tinteiro desastradamente e rabiscou:

"Feliz dia das Bruxas."

Em questão de segundos, sua lareira brilhou com chamas esverdeadas e ele sorriu - verdadeiramente contente - ao escutar a voz dela ralhando com de modo brincalhão.

- Você demorou!
- Eu acabei de chegar! - ele se defendeu e ela riu.
- Você sentiu saudade?

Ele refletiu. Ele sabia de uma coisa: ele não queria mentir para ela. Ela fora corajosa e tivera atitude durante todo o tempo que interagiram, esse era o modo dele de retribuir. Ele seria honesto com ela sempre que possível.

- Estranhamente, - ele soltou uma respiração pesada de seus pulmões - sim.
- Viu só? - ela riu - Acho que isso significa que nós estamos casados! Te espero aqui amanhã às sete da noite.

E com uma piscadela, Hermione desapareceu nas chamas, deixando a lareira novamente vazia e sem cor.



Ato 1, Parte 2 - I'm Just Exactly Where I Want to Be

Menos de cinco minutos após as sete da noite, Draco e Hermione aparataram juntos na Floresta de Dean, pousando pesadamente às margens do Rio Severn. O frio do outono, naquela parte do país, não era tão terrível quanto nas áreas mais ao norte, o céu estava limpo e estrelado. Como Draco já esperava, o rio ainda não estava congelado em outubro - provavelmente não estaria congelado até dezembro. Eles riram sobre o fato e caminharam por entre as árvores até uma pequena clareira, onde Hermione, após lançar alguns feitiços que secaram o chão úmido, estendeu a toalha de piquenique caprichosamente.

- Eu costumava vir aqui com meus pais quando era criança, - ela disse, deitando sobre a toalha xadrez. - E em algum momento durante a guerra, eu e meus amigos nos escondemos aqui. Mas minha memória mais querida aqui, foi durante um inverno. O rio estava congelado e eu me lembro de caminhar por ele… Mas talvez eu tenha sonhado.
- Sério? - Draco, que ainda estava de pé, estudava os arredores com cuidado. O lugar não lhe parecia estranho, até lhe trazia um sentimento bom, mas ele realmente não se lembrava de alguma vez ter estado em num lugar como aquele. Apesar de se sentir bem naquele ambiente, outra parte dele, a parte que ainda não superara a guerra, temia estar ali. Como se a qualquer momento Greyback fosse saltar de trás das árvores, ou ele fosse ver a Marca Negra no céu. Hermione fez um barulhinho confirmando o que ele perguntou, ganhando sua atenção novamente, e deu pequenos tapinhas no espaço ao lado, na toalha. - Esse lugar não é perigoso, Granger?
- Não, imagina! - ela riu debochada do medo dele, e ele se sentiu constrangido por ser tão covarde - Vem, eu quero te mostrar uma coisa! Vem!
- Talvez a gente devesse ir embora…
- Qual é, Draco. Não vai acontecer nada, sério. Vem, por favor! - ela lhe lançou um olhar de falsa súplica e sorriu. Draco suspirou pesadamente tentando armazenar seus medos em alguma parte obscura de sua mente.

Quando ele se deitou ao lado dela, ele finalmente pôde ver o que tanto a encantava naquele lugar. Longe das luzes e da poluição das cidades, o céu da Floresta de Dean era absurdamente estrelado. Ele não achava que havia visto tantas estrelas e poeira galáctica desde seus tempos de Hogwarts, durante as aulas de astronomia. Aquele realmente era um lugar especial. Draco sentiu quando os dedos enluvados da garota entrelaçaram os seus, do mesmo jeito que na noite anterior, e seu coração se apertou em uma felicidade estranha. Salazar, será que ele estava se tornando uma dessas pessoas patéticas e românticas que ele tanto criticara por sua vida? Quase um Lufano. Ele viu quando Hermione aproximou o corpo do seu, tentando se aquecer, e usou a mão que estava livre para apontar para o céu.

- Vai lá, me mostre as constelações que você conhece, Draco - ela gesticulava no ar, como se desenhasse sua própria constelação, ligando as estrelas numa linha imaginária. - Eu tenho expectativas altas por causa do seu nome.
- Ok, hm - Draco limpou a garganta e pensou um pouco, segurando o riso e tentando fazer sua melhor cara de homem sério e intelectual. Ele tinha algumas memórias antigas sobre a aula de astronomia, e devido às suas notas relativamente altas, acreditava que fosse bom nisso. Mas ao tentar identificar alguma constelação, se surpreendeu quando não conseguiu reconhecer nenhuma, por mais que se esforçasse. Aquilo feriu seu ego diretamente, que bela desculpa para um Black ele era. Não querendo arruinar o encontro com Granger, que demonstrava estar feliz ali, ele resolveu levar na brincadeira e pensar sobre isso mais tarde - Oh! Aqui, nessa direção!

Ele apontou para uma série aleatória de estrelas à sua direita, traçando uma linha imaginária, que em sua mente formavam um cachorro estranho.

- Ali está Sirius!
- Onde?
- Bem ali! - ele insistiu, tentando manter uma voz séria e gesticulando novamente as mesmas linhas que antes. Ele se aproximou um pouco mais de Hermione, para que ela visse com precisão o que ele não estava vendo - Viu? É meio que uma linha cruzando a outra, e ali, a orelha do cachorro.
- Você está inventando isso, né? - ela gargalhou.
- Não! - ele continuou, ainda sério. - É Sirius, bem ali. Praticamente saltitando nos seus olhos!
- Cala a boca! - ela gargalhou, tirando empurrando o braço do loiro.

Os dois riram juntos, porque aquele amontoado de estrelas definitivamente não era a constelação de Sírius.
Hermione rolou para o lado, ficando de frente para ele, que apenas virou o rosto em sua direção. Ela sorria, como sempre, largamente. Seu sorriso encontrava seus olhos castanhos que brilhavam. Apesar da sinceridade do seu sorriso, seus olhos eram conflituosos. Ele sentiu um calafrio passar por todo seu corpo, um calafrio que não tinha ligação alguma com o frio de outubro. As pontas de seus dedos formigavam de vontade de tocar o rosto da garota. De tocar seus cabelos.
Ela era tão bonita. Em cada detalhe. Seus dentes e seu sorriso. Cada marca que seu rosto formava quando sorria. Cada fio de cabelo castanho desgrenhado. Sua sobrancelha, seus cílios, formavam o contorno perfeito para seus olhos. Tudo tão perfeito e familiar.

Mas mais que isso. Alguma coisa nela o deixava em paz.

Eles passaram horas conversando sobre astronomia, sobre livros, sobre criaturas mágicas e até economia. Como se não quisessem permitir que o assunto acabasse e fosse hora de voltar para casa. Era fácil conversar com Hermione sobre qualquer assunto possível. Ela era inteligente e sagaz, e sempre tinha uma citação pronta nas mangas, para complementar suas teorias.

Ele estava exatamente onde ele gostaria de estar, mesmo que ele não fizesse ideia disso antes de chegar ali. Nunca se sentira tão feliz desde que toda a tragédia da guerra começara, quando ele era um adolescente. Ele poderia ficar ali para sempre ao lado dela.

Ele descobriu que ela, infelizmente e para sua surpresa, era Grifinória até o último fio de cabelo. Quem diria? Ele poderia jurar que ela era uma Corvinal. Ela fez careta quando ele orgulhosamente revelou que era Sonserino, mas assumiu que já suspeitava. Eles compartilharam memórias vagas sobre o tempo de escola, mas muito tempo havia se passado desde a última vez que ela frequentara alguma aula em Hogwarts, ela ressaltou, quase sete anos. Ele confessou que suas memórias do tempo de escola eram quase nulas e, na maioria das vezes, se resumiam às masmorras e aos jogos de quadribol. Ela ressaltou que detestava quadribol e provavelmente passara todo o tempo livre escondida na biblioteca, ele achava que essa era uma explicação boa o suficiente para o fato deles não se lembrarem um do outro nos tempos de escola - ele não se lembrava de alguma vez ter passado mais que alguns minutos na biblioteca.

O assunto da guerra foi, para o alívio de ambos, evitado a todo custo. Ainda era recente demais, ainda doía demais. Não é como se Draco não quisesse saber das dores e feridas de Granger, ou não quisesse compartilhar suas próprias - que ele sabia, seriam extremamente mais pesadas para ela suportar - mas era cedo demais. A única coisa dita e que poderia ser relacionada a tal assunto fora o fato de que ambos tinham uma dificuldade absurda para dormir bem.

O sol começava a nascer no horizonte quando Draco despertou de cochilo com um susto, e percebeu que Hermione dormia tranquilamente em seu ombro, ainda de mãos dadas com ele. Ele sorriu consigo mesmo. Nesses dois dias com ela, Draco se sentia uma pessoa completamente diferente de quem ele era. Em partes, isso não era ruim. Ela parecia ter despertado o que havia de melhor nele, o que ele achava não existir mais. Como ela conseguiu esse feito? Ele achava que só havia escuridão dentro dele, e que ele merecia isso, então por que ele permitiu que essa quase desconhecida trouxesse alguma luz para dentro dele? Balançando a cabeça com a intenção de afastar esses pensamentos, Draco, abraçou-a ternamente, sentindo sua essência tomar conta de seu sistema por alguns segundos. Seu cheiro era fresco e levemente adocicado, como flores do campo após a chuva, e com um toque de cheiro de livro… Parecia tão… Conhecido.

Draco estava oficialmente louco. Ele achava que a melhor saída era procurar um curandeiro assim que retornasse a Londres. Será que ele conseguiria focar em algo, por um minuto que fosse, sem que seus pensamentos voltassem para Hermione?

Forçando-se a pensar na livraria que tanto amava, Draco os aparatou para a entrada da Floreios e Borrões - sem estrunchamentos.

Hermione despertou um pouco assustada com o baque dos dois na calçada do Beco. Ainda parecendo um pouco perdida, ela soltou a mão de Draco rapidamente quando percebeu que ainda a segurava com força, e ela coçou os olhos, tentando se acostumar com a claridade e espreguiçou-se.

- Hey! Bom dia - ela sorriu preguiçosamente.
- Bom dia! Desculpa te acordar assim, mas aqui estamos nós - ele apontou para a casa da garota.
- Ah… Certo… - ela olhou ao seu redor, um pouco perdida, e então seus olhos encontraram os olhos cinzas de Draco novamente. Ela respirou pesadamente antes de continuar - Posso ir para a sua casa? Para dormir? Eu ando me sentindo tão… Cansada.
- Ok… É… Sim, claro. - ele definitivamente fora pego de surpresa com aquele pedido.
- Ok, vou buscar minha escova de dentes e já volto. - ela disse e se virou, desaparecendo pela portinha ao lado da livraria.


Enquanto esperava por Hermione, Draco se apoiou na parede entre a livraria e a portinha que levava para o conjunto de apartamentos nos andares superiores, tentando não cair no sono ali mesmo, de pé. A rua principal do Beco ainda estava relativamente vazia, por ser tão cedo. O comércio começava a abrir lentamente. Distraído, Malfoy quase não percebeu quando um homem passou por ele, encarando-o. Quase. Não é como se Draco não estivesse acostumado a receber olhares tortos e caretas pela rua. Mas o rapaz voltou, parecendo confuso com alguma coisa, e parou de frente a ele. Draco olhou para os lados procurando o que causara aquela reação, mas não havia nada fora do normal por ali e ele definitivamente não conhecia o homem em sua frente.

- Com licença, - o homem soltou com uma expressão de espanto. - eu posso te ajudar com alguma coisa?
- Não? - a voz de Draco soava tão sarcástica quanto ele esperava.
- O que você está fazendo aqui? - sua voz agora era tão carregada de confiança que Draco chegara a cogitar a possibilidade de estar mesmo fazendo algo errado.
- Eu acho que eu não estou entendendo onde você quer chegar… - ele respondeu com cuidado. Seria ele mais um integrante do fã clube do Potter, que achava que Draco deveria apodrecer em Azkaban?
- Oh… Ok, obrigado. - ele acenou, ainda parecendo confuso e espantado, e saiu. Se alguém deveria estar confuso, senhoras e senhores, esse alguém era Draco fucking Malfoy.




Ato 2

30 de Outubro de 2003 — Um dia antes do Halloween Ele ainda não conseguia acreditar no que acabara de ouvir. Quer dizer, de modo geral, aquilo fazia muito sentido. Mas era difícil aceitar. Doía de modos muito específicos e quase físicos. Era como se um pedaço dele tivesse sido arrancado a sangue frio. Um pedaço que ele vinha mantendo com cuidado e afeto, diferentemente de todos os seus outros fragmentos. Um pedaço que levava junto o resto de esperança que fora cultivada nos últimos cinco anos.
Suas mãos tremiam descontroladamente enquanto ele caminhava até o conjunto de lareiras ligadas à rede Flu no térreo do Hospital St. Mungus Para Doenças e Acidentes Mágicos. Flu não era seu método de transporte favorito, mas entre as poucas certezas que tinha no momento, a maior de todas é que ele não estava em condições para aparatar. Numa tentativa frustrada de se controlar e não causar uma cena em público, ele inspirou profundamente, prendeu o ar, contou até cinco e expirou. E então repetiu o processo mais um vez. Não era a melhor ideia do mundo causar confusão no hospital mágico apenas dias depois de retornar de seu exílio. Embora ele soubesse que o Profeta Diário rodopiaria de felicidade com a manchete. Seus olhos ardiam e ele sabia que atingiria o fundo do poço caso alguma lágrima fosse derramada em público. Ele não precisava daquilo. Não precisava de mais humilhação em um único dia. Ela não merecia aquela tristeza… Aquele luto.
Pisando nas cinzas da lareira com um pouco de pó de Flu em sua mão, ele exclamou "Beco Diagonal" de modo claro, sendo consumido pelas chamas verdes. A entrada principal do hospital desapareceu de vista.

***


A chuva lavava as ruas do Beco Diagonal, que nunca parecera tão cinzento quanto aquele dia, aos olhos de Draco. Lançando um feitiço para manter suas roupas impermeáveis, ele ajeitou sua postura e caminhou de cabeça erguida, feições fechadas, até seu recém alugado apartamento, estrategicamente localizado ao final do Beco, apenas alguns metros antes da Travessa do Tranco.
Ele ainda estava se sentindo mal e confuso, mas a caminhada na chuva ajudara a acalmar seus pensamentos mais sombrios e a lavar o ódio que sentira horas antes. Ele não gostaria de ter uma recaída, estava lidando bem com o tratamento prescrito por seu psiquibruxo dos Estados Unidos e pretendia continuar, mesmo depois que passasse pelo processo de apagar memórias seletivas. Na verdade, agora que parara para pensar sobre isso com calma, talvez o LACUNA fosse realmente ser útil e agilizasse a cura. Ou a aceitação dos fatos, pelo menos.
Já passara da hora de Draco crescer e se desvincular daquele relacionamento conturbado e juvenil, de qualquer modo. Toda a ideia deles juntos, de um final feliz. Aquilo nunca daria certo, estava destinado ao fracasso. Era hora de deixar o passado onde o passado pertencia e, por mais dolorido que pudesse ser agora, amanhã ele não se lembraria. E aquilo que não é lembrado definitivamente não machuca.
Subindo as escadas, Draco entrou em seu apartamento e foi até a janela checar o correio. Nada muito importante: uma nota de sua mãe intimando-o a comparecer ao café da manhã no dia seguinte. A edição do Profeta Diário de dois dias antes — que, como de costume, ostentava uma bela manchete em sua homenagem — jazia em sua escrivaninha como uma piada de mau gosto: a foto de Draco Malfoy deixando a Floreios e Borrões parecendo levemente desestruturado se repetia incansavelmente:
"HERDEIRO MALFOY RETORNA AO REINO UNIDO". Após cumprir pena de um ano em Azkaban e quatro anos em exílio, o único herdeiro da família Malfoy, Draco, 22, por fim retorna ao Reino Unido. Boatos voam entre as famílias mais abastadas da sociedade bruxa de que em breve Draco Malfoy estará atando laços com ninguém menos que Astoria Greengrass. Reportagem completa com entrevistas exclusivas: página 7."
Maldito Profeta Diário. Maldita tradição estúpida de famílias de sangue-puro. Aquilo seria o fim de Draco. Após sobreviver a uma guerra, à Azkaban e ao exílio, o fim trágico do garoto-sem-escolha seria, mais uma vez, não ter escolha quanto a com quem passaria o resto de sua vida miserável.
Enquanto estivera em exílio, ele chegara a acreditar que ser considerado um pária pela maioria da sociedade o tornaria praticamente o pior candidato de sangue-puro para qualquer dama de respeito. Até Weasel seria uma opção mais digna que ele. E ele estava feliz com relação a isso. Significava que, finalmente, após anos de sigilo e desentendimentos, ele seria capaz de consolidar seu relacionamento, ir a público, gritar aos sete ventos que sim, ele amava uma nascida-trouxa e, quem sabe, em alguns anos, até mesmo se casar com ela. Esse foi o pensamento que o manteve são durante o inferno que sua vida se tornara, foi aquele pensamento que lhe deu forças para continuar, ser uma pessoa melhor, curar-se internamente. Agora esse pensamento o fazia rir sem humor. Ele podia ser tão infantil, às vezes.
Mas então… Como num piscar de olhos… Ela não existiria mais no mundo dele.
Trocando sua roupa por um conjunto de pijamas de flanela confortável, ele continuou sua saga. Estava quase na hora e ele precisava ter tudo preparado o mais rápido possível. Em seu banheiro, Draco abriu bruscamente o armário acima da pia e sacou um de seus muitos frascos de poção do sono. Bufou pesadamente. Idiota. Maldita Granger.
De volta a seu quarto, sentando-se em sua cama, ele esvaziou o conteúdo do frasco em um shot. O gosto não era tão bom, mas ele estava ligeiramente acostumado a tomar poções desagradáveis. Sentindo seus pálpebras pesarem e sua visão embaçar, ele alcançou sua varinha na mesa de cabeceira e pacientemente apagou todas as luzes que ainda estavam acesas. Deitou-se confortavelmente, tentando afastar todos aqueles pensamentos e parar de lutar contra os efeitos soníferos da poção. Ele não podia se arrepender agora. Era isso.

***


Draco sabia que ainda estava em sua cama, em seu quarto. Sabia que, logicamente, estava dormindo. Mas de uma hora para outra ele era um mero espectador, assistindo a si mesmo. Lá estava ele. Chegando em casa após voltar do St. Mungus. Lendo a carta de sua mãe e em seguida a manchete do Profeta Diário. Maldita Granger.
E então um baque esfumado. A cena era meio embaçada, mas definitivamente estava acontecendo e foi, aos poucos, tornando-se mais nítida.
Ele estava de volta ao dia em que retornara a Londres. No apartamento que Pansy e Luna moravam. As duas estavam sentadas em suas poltronas, tomando chá e tentando o melhor que podiam em parecer surpresas.
— Menos de quatro dias para o Halloween, eu quero resultados! — Draco exclamou exasperado, passando os dedos pelo cabelo. — Eu estive do outro lado do mundo durante muito tempo, sabia que as coisas estariam diferentes. Mas eu pensei que nós pudéssemos resolver isso.
As duas garotas a sua frente, agora de mãos dadas, entreolharam-se compreensivamente e voltaram sua atenção para o loiro, que andava de um lado para o outro em passos firmes.
— Todas as minhas corujas retornaram sem respostas. Eu descobri que ela me desconectou de sua rede Flu. Então eu fui até aquela maldita loja de antiguidades trouxas que ela tanto gosta, sabe? Pensei que eu poderia passar rapidamente pela Floreios durante o horário de trabalho dela e.... — Ele ofegou e olhou diretamente para Pansy. — Você não vai acreditar… Ela estava lá com esse… cara… grifinório… Um ano acima da nossa turma. Córmaco, acho que esse era o nome. E ela olha para mim como se nem soubesse quem eu sou.
E então, Draco começou a reviver a cena que descrevera para suas amigas.
A Floreios não estava tão cheia como de costume. Draco estava ansioso para reencontrá-la depois de tanto tempo. Ele sentia tanta saudade. Ele só queria abraçá-la forte e resolver todos os mal-entendidos de uma vez. Não queria se afastar nunca mais. Mas ao avistá-la, algo parecia… fora de lugar. Ela não pareceu notar quando ele se aproximou, o que era estranho. Hermione Granger SEMPRE notava quando Draco Malfoy estava no ambiente, para bem ou para mal. Um garoto que Draco lembrava vagamente da época do colégio, estava encostado no balcão. Conversando intimamente com Hermione. Muito intimamente. — Posso te ajudar, senhor? Os olhos da garota encontraram os seus, mas não demonstraram qualquer tipo de reconhecimento, por menor que fosse. Draco riu nervosamente e o que quer que fosse dizer, foi cortado pelo garoto no balcão, que não parecia contente com a interrupção causada por Draco. — Mione! — Córmaco! — Ela sorriu, sua atenção novamente concentrada no jovem de cabelos escuros e então de volta a Draco. Avise-me se precisar de algo, senhor. Draco tentava colocar seus pensamentos no lugar, mas nada fazia sentido. Simplesmente nada. Sentindo seu coração se apertar e sua respiração pesar, Draco saiu em passos largos da livraria, sentindo um flash em seu rosto ao chegar na calçada. Lá estava ele, novamente na sala de estar de suas amigas.
Pansy parecia evitar seus olhos desconfortavelmente.
— Por que ela faria isso comigo? Isso é tão NÃO-Granger.
— Hey — Luna o interrompeu e, fazendo seu melhor para deixar o clima mais leve, continuou: — Alguém a fim de tomar uma cervejinha amanteigada bem gelada?
Algo clicou na mente de Draco. As duas sabiam de alguma coisa. Sabiam de algo e estavam fazendo o melhor que podiam para ocultar a informação que tinham.
— Luna, meu bem. — Pansy suspirou enquanto se levantava. — Acho que agora não é o momento para isso…
— Ela está me punindo. — Draco se sentou no chão perto da poltrona de Pansy e afundou o rosto entre as mãos, parecendo ainda mais desesperado. Punindo-me por algo que eu não fiz!
— Pois é… que horrível. — A voz de Pansy não parecia muito honesta. Ela se levantou, indo em direção a cozinha.
— Eu deveria ir até a casa dela e…
— NÃO! — Luna exclamou, também se levantando e, ao perceber que sua voz saíra pelo menos dois tons mais altos que o normal, se recompôs. — Não, não, não… Você não devia ir até ela, Draco. Não…
— Você está certa… Eu não quero parecer desesperado…
— Draco. — Pansy voltou para a sala de estar, recolhendo as xícaras de chá agora vazias. — Por que você não vê isso como um sinal? Faça disso um término tranquilo. Certo, Luna? — Ela procurou o apoio de sua parceira.
Draco gemeu com algo que beirava dor. Era isso. Seu coração partido estava lhe causando uma dor física insuportável. Talvez realmente fosse possível morrer de desilusão amorosa, quem diria…
— Ok, chega! Olha, Draco… sinceramente, eu não posso mais ficar apenas vendo tudo isso acontecer. — Luna respirou fundo e abriu a gaveta pequena do aparador ao seu lado.
— Luna Lovegood! — Pansy lançou um olhar severo em direção a garota que agora abria um envelope e retirava dele um pergaminho cortado com cuidado. Parecia um documento oficial. — Não faça isso, Lun! O que você está fazendo?
— Você tem alguma merda de sugestão melhor, Pansy? — Draco percebeu que Luna estava realmente alterada naquele momento. Ele não se lembrava de ter presenciado nenhuma briga entre as duas, desde o início do relacionamento, sete anos atrás. Por mais que Pansy, vez ou outra, perdesse a cabeça, Luna era praticamente uma hippie cheia de amor e calma. — Qual é a sua solução brilhante, hein?
— Você quer mesmo fazer isso ser sobre nós duas? Isso não é sobre nós duas!
— Eu concordo! Isso não é sobre nós! É sobre Draco! E ele é um adulto, ok? Não um filhinho da mamãe, Pansy!
As duas se encararam, suas respirações ofegantes. A tensão no ambiente era tão forte que Draco poderia jurar que era possível cortá-la com uma faca. Pansy saiu da sala rapidamente, desaparecendo pelo corredor que levava até os quartos da casa. Luna respirou fundo, ainda abalada, e estendeu o pedaço de pergaminho na direção de Draco. Ao alcançar o papel, ele percebeu que a garota estava trêmula. Seus olhos percorriam o retângulo amarelado em suas mãos. Ele sabia que estava ali e que continha uma mensagem escrita em sua língua nativa, totalmente compreensível, em letras bem desenhadas e legíveis. Mas seu cérebro não conseguia processar o que lia.
"Srta. Lovegood e Srta. Parkinson,
Hermione Granger apagou Draco Malfoy de sua memória.
Por favor, nunca mencione a relação dos dois em qualquer tipo de interação com ela.
Atenciosamente,
LACUNA
Ala de Neurologia - St. Mungus"

Num piscar de olhos, o nome Hermione Granger desapareceu do pergaminho, deixando um pequeno espaço em branco na mensagem em suas mãos.

***


Claro que Draco ouvira falar sobre o projeto LACUNA durante seu exílio. Quem não ouvira? O Ministério da Magia investira em peso na divulgação do mais novo plano para a melhoria de vida e bem-estar dos ex-combatentes de guerra. Era, de acordo com o próprio Ministro Shacklebolt, o projeto social mais revolucionário do Reino Unido desde a fundação de Hogwarts! Praticamente uma anistia pessoal, cem por cento elaborada para apagar situações ou pessoas que foram especialmente traumáticos.
A própria equipe LACUNA se certificaria de que não houvesse conflito entre as memórias apagadas e eventos futuros, entrando em contato com todos que pudessem, de algum modo, relembrar o paciente do que ele tanto queria esquecer, extinguindo qualquer objeto que pudesse reacender a memória de algum modo: desde cartas inocentemente trocadas que mencionassem um nome indesejável, até livros, roupas e presentes. Tudo seria cuidadosamente destruído.
Embora ele estivesse consciente de que esse projeto fora inaugurado e que muitas pessoas de sua geração já haviam recorrido a ele como uma maneira rápida de superar traumas, ele ainda não conseguia acreditar que Hermione, dentre todas as pessoas, se submeteria a isso. Ele precisava se certificar.
Com isso em mente, Draco encontrava-se sentado, impacientemente batendo os pés de modo rítmico no chão de madeira, na recepção do projeto LACUNA. A secretária, que lhe parecia um pouco fora da caixinha, o instruiu a preencher um formulário de paciente, muito embora ele estivesse ali apenas para conversar com o tal Dr. Miroswag.
— Sr. Malfoy? — A secretária se levantou minutos depois, indicando a porta lateral. — Por aqui, por favor. Tudo bem com o senhor?
Draco não perdeu tempo respondendo, ele achava que era óbvio que não estava tudo bem. E que a culpa era daquele projeto estúpido.
Os dois entraram no escritório bem organizado do Dr. Miroswag, que se encontrava sentado numa confortável cadeira giratória, e a secretária depositou o formulário com suas informações e o pequeno cartão amarelado à frente dele, saindo da sala em seguida, dando-lhes alguma privacidade. Suas mãos foram diretamente ao pergaminho. Seu rosto se fechou em preocupação e ele ofegou pesarosamente.
— Você não deveria ter visto isso.
— Isso é uma brincadeira de mau gosto, certo? — Draco passou as mãos pelo rosto nervosamente. — Isso tem que ser uma merda de uma brincadeira de mau gosto.
— Eu te asseguro, não é. — Seu olhar era sério e não deixava espaço para dúvidas.
— Hermione nunca faria isso.
— Olha, nossos arquivos são confidenciais, Sr. Malfoy, então eu não posso te mostrar as evidências. — Ele suspirou. — Mas eu posso te garantir que a Srta. Granger não estava feliz. E ela queria seguir em frente. Nós lhe oferecemos essa possibilidade.

***


— Ela não estava feliz e queria seguir em frente — Draco repetiu as palavras do Dr. Miroswag para Pansy e Luna, que se ocupavam preparando o almoço do dia.
— Sabe, Draco — Pansy foi a primeira a se manifestar. Ela geralmente tendia a ser mais empática com Draco que sua namorada. — O que eu posso dizer? Você sabe como Granger pode ser cabeça dura às vezes. Tanto quanto você! Não é como se ela não tivesse motivos… Ela te esperou fielmente por cinco anos! E o que ela ganhou com isso? Descobrir através do Profeta Diário que sua família havia seguido em frente com os arranjos para seu casamento com Astória!? Sinceramente, apagar você da vida e das memórias dela como vingança foi provavelmente a opção mais gentil que ela conseguiu considerar.
— Gentil…

***


Por mais que Draco tentasse absorver as palavras de sua amiga, aquilo era difícil. Por mais que ele tentasse ser um adulto racional e entender tudo aquilo, era impossível. Ele simplesmente dedicara tempo demais à possibilidade de ficar junto dela. Mas quando percebeu o que deveria fazer, tudo se tornou relativamente mais claro. Como ele não pensara nisso antes? Hermione o apagara de vez de sua mente, seguira em frente. Por que demônios ele seria a pessoa de luto por um relacionamento que ela decidira matar? Qual a melhor maneira de se curar que apagá-la de seus próprios pensamentos?
Com isso em mente, Draco se dirigiu novamente à Ala de Neurologia do St. Mungus. Sem perder tempo, adentrou o departamento LACUNA e seguiu diretamente até a sala do Dr. Miroswag. Droga, ele já odiava aquele homem profundamente. A secretária meio estranha correu atrás dele, tentando impedi-lo, mas Draco foi mais rápido e adentrou a sala almejada.
— Ok, eu quero… — Draco ofegava. — Eu quero passar pelo procedimento…
— Eu tentei avisá-lo que a véspera de Halloween é uma época muito cheia, doutor.
Secretária intrometida, Draco pensou.
— Tudo bem, Matilda, está tudo bem. — Miroswag parecia tão calmo e sério quanto antes.
— Mas e as pessoas na lista de espera? — Matilda parecia positivamente estressada com a possibilidade de Draco furar a fila que ela tão preciosamente organizara.
— Por favor, Sr Malfoy. — O médico sinalizou em direção ao escritório e Draco prontamente obedeceu. — E Matilda, se você puder tomar conta de nossa última paciente, ela se encontra na sala de observação.
— Agora, Sr. Malfoy. — Miroswag sentou-se na poltrona de frente para Draco. — O que nós precisamos que o senhor faça é ir para casa e coletar tudo o que possa ser associado à Hermione Granger. Qualquer coisa. Nós usaremos esses itens para criar um mapa da presença da Srta. Granger em seu cérebro. Então nós precisaremos de fotos, roupas, presentes… livros que talvez ela te presenteou ou que vocês dois leram juntos. Você esvaziará sua casa e sua vida… de Hermione Granger. — Ele pausou por um momento, apenas para ofegar e continuar sua linha de pensamento. — Depois que mapearmos seu cérebro, nossos curandeiros apagarão as memórias específicas com um Obliviate quase inofensivo. Você tomará uma poção do sono e eles executarão o processo no conforto do seu lar. Desse modo, quando o senhor acordar pela manhã, o senhor estará em sua própria cama, como se nada houvesse acontecido. Uma vida nova espera por você!

***


Coletar as tralhas que o lembravam de Hermione não foi tão difícil. Cinco anos em um relacionamento hipotético à distância o deixaram com um punhado de cartas e algumas fotos. As lembranças dos anos anteriores, por outro lado, eram tão doloridas. Presentes, livros com marcações feitas à lápis — uma invenção trouxa que, apesar de Draco detestar assumir, era sensacional —, origamis das mais diversas formas que Hermione dobrara com tanto carinho, uma caneca com o emblema da Grifinória, entre outros pequenos objetos. Ele precisava ser forte. De certo modo era mais fácil passar por aquele momento se ele odiasse — não sentisse falta — de Hermione e do que eles viveram juntos.

De volta ao escritório do doutor Miroswag, Draco entregou as duas sacolas com os itens necessários para um dos técnicos curandeiros que estariam em sua casa naquela noite e seguiu para começar o relato oral sobre quem ele apagaria. O médico usava uma pena de repetição rápida para anotar tudo o que lhe era dito.

— Meu nome é Draco Malfoy e estou aqui para apagar Hermione Granger.
— Certo, então, fale-me um pouco mais sobre Hermione.
— Nós nos conhecemos desde os onze anos de idade, sabe? Fomos para Hogwarts no mesmo ano. Ela não me chamava realmente a atenção. Quer dizer, pelo menos não romanticamente. Ela era uma criança desajeitada, despenteada, nascida-trouxa. Ela era tudo que eu odiava. — Draco suspirou, tentando conter suas emoções. Era a primeira vez em que ele falava tão abertamente sobre Hermione e aquilo pesava seu coração. — Com o passar do tempo, percebi que eu também era tudo o que ela odiava. Mas quando percebi isso, de algum modo, eu já estava interessado demais nela para voltar atrás. Ela era a garota mais inteligente do colégio. Ela era astuta, corajosa, independente. E bonita! Seus cachos, seu sorriso, seus olhos. Se milagres existem, um deles foi o fato de eu nunca ter reprovado nas matérias que cursamos junto com a Grifinória, porque eu não conseguia desviar meus olhos dela…
Após o relato de Draco, o médico seguiu para os cuidados básicos pré-procedimento e tentou fazer um breve resumo do que aconteceria.
— Os feitiços serão lançados em sua mente de maneira retrógrada. Isso significa que começaremos com as memórias mais recentes, até chegarmos ao momento em que se conheceram. Quando o senhor acordar pela manhã, será como acordar de um sonho vívido, mas do qual não consegue se lembrar.
— Existe algum risco de dano cerebral?
— Bem… Tecnicamente falando, o processo é um dano cerebral, mas, inovadoramente, essa técnica é uma versão suave e quase inofensiva do feitiço original. Enquanto o original apagaria as memórias como uma massa completa, essa versão faz isso de forma pontilhada, utilizando o design que melhor se encaixa ao seu cérebro e focando apenas nas memórias que devem ir embora.
Um por um, os itens relacionados a Hermione foram posicionados a sua frente e, enquanto as memórias invadiam seu cérebro de modo quase esmagador, Draco se desesperava, como se estivesse se afogando em seus próprios pensamentos. Ele estava consciente de que o médico e o técnico curandeiro estavam por perto, mapeando sua mente de maneira profissional e tranquila. Isso porque ele já não estava apenas sentado enquanto as emoções o atingiam como ondas. Ele estava assistindo a repetição daquele momento que vivera antes.
Subitamente, percebeu o que aquilo significava: ele não estava realmente no consultório do doutor Miroswag. Ele estava em sua casa, sendo submetido ao procedimento naquele exato momento. Aquelas eram as primeiras memórias a serem apagadas.



Ato 3 — I AM Erasing You, And I'm Happy

— Hey, Córmaco, você pode me fazer um favor? - Draco escutou o técnico conversando com seu assistente.
Ele não deveria estar acordado. Talvez esse fora o resultado de sua dependência em poções do sono: criara resistência. Merda.
— Sim, claro.
— Você pode checar se o mapa está mostrando corretamente as áreas que estamos percorrendo? Parece que ele saiu um pouco da rota.
— Parece que está tudo certo aqui. — Córmaco respondeu.
Córmaco… Draco ouvira esse nome em algum lugar… Onde?
— Sério? Bom, vamos em frente então.
Draco agora se encontrava extremamente consciente do que estava acontecendo. Ele estava de pé, ao lado de Miroswag, enquanto observava a si mesmo na cadeira de exames do consultório, tendo a mente mapeada.
Estava claro para ele que o processo começara. Ele não imaginava que seria assim o sentimento, tão… real e, ao mesmo tempo, tão obviamente imaginativo. Aquilo tudo já acontecera. Ele reviveria como um espectador. Draco se perguntava qual seria a próxima memória a ser visitada quando foi transportado para seu antigo apartamento em Nova York, no Brooklyn, onde passara quatro anos em exílio.
Essa foi a última vez em que eu te vi… — Draco sussurrou ao ver Hermione entrar em sua casa, seus olhos vermelhos e inchados.
Ela havia chorado. Muito. Ela nunca demonstrava fraqueza em frente a ele. Provavelmente passara horas em algum parque da cidade, remoendo a própria tristeza. Draco se odiava por ter que vê-la assim, sabendo que era culpa dele. O remorso percorreu suas veias enquanto ele observava aquela memória. Ele estava sentado em sua poltrona, na sala, com um livro na mão — ele não estava realmente lendo, não conseguiria focar — quando ela se dirigiu até o cômodo e se sentou na poltrona ao lado. Ele reparou que ela usava seu moletom surrado da Sonserina.
— São três da manhã, Granger — ele disse por cima do livro.
— Eu precisava de ar.
— E de Whiskey de Fogo? — ele disse sarcasticamente ao sentir o cheiro de álcool que a garota exalava.
Ela não bebia frequentemente, apenas quando se sentia emocionalmente vulnerável. Ele estava realmente aliviado por tê-la ali. Após a discussão que tiveram, ele meio que esperava que ela pegasse a chave de portal mais acessível e fosse correndo para os braços do maldito Weasel.
— Em homenagem ao seu noivado, Draco! — Ela lhe lançou um sorriso sem humor algum. Ela era aterrorizante quando estava brava.
— Isso é patético…
— Patético? Não sou eu a pessoa que estará se casando dentro de alguns meses com uma… desconhecida. Não sou eu a pessoa que está aceitando costumes ultrapassados. Não sou eu a pessoa que NÃO informou a outra parte envolvida sobre o que estava acontecendo… Então não me diga que é patético!
— Mas é! — Draco rosnou baixo. — Mas é! Você sabe que enquanto eu estiver em exílio, não há nada que eu possa fazer! Mas sair por Nova York as três da manhã, SOZINHA, como forma de protesto… E ainda por cima alcoolizada. — A raiva começava a tomar conta de si e ele sentia vontade de provocá-la. Ele queria que ela se sentisse tão mal quanto ele se sentia. — Talvez seja uma boa coisa, no fim das contas, esse casamento arranjado.
— Olha, Malfoy — ela enterrou o rosto entre as mãos, impaciente —, você sabe como eu sou.
— Como você é?
— Eu sou tudo ou nada. Você sabia disso desde o início. Tem sido uma merda, sabe? Esses cinco anos. Antes disso, esconder o que eu sentia, agir como se nada estivesse acontecendo. — Ela bufou. — Você sabe o quanto eu esperei pelo fim de sua pena. Pacientemente. E agora que está prestes a acabar, você me vem com essa de que o noivado foi inevitável? Por Merlin, Malfoy. Uma lesma teria uma atitude mais drástica quanto a isso que você.
— Granger, eu pretendo reverter isso. Mas eu preciso estar de volta ao Reino Unido primeiro. Só mais alguns meses e...
Hermione se levantou, lançando um último olhar ferido na direção de Draco.
Era ali, ele se lembrava, era ali que ela sairia de sua vida.
— Hermione! — ele exclamou, largando o livro bruscamente na mesinha de centro e praticamente correndo até ela, que calçava seus sapatos, segurando a pequena bolsa de contas como se sua vida dependesse daquilo. — Eu sinto muito, Granger… Eu tentarei… Hermione?
Ela não estava mais ali. Ele correu por entre os cômodos, gritando seu nome. Mas ela não estava em lugar algum daquela casa.

***
Pronto! — Draco ouviu uma das vozes em sua casa, fora de sua cabeça, exclamar.
Timóteo, você acha que posso convidar a garota que eu estou pegando?
Para quê?
Para vir aqui, enquanto fazemos isso.
Faz o que você quiser, eu só quero acabar com isso e ir para casa, cara. Me passa uma cerveja amanteigada, por favor.
Claro. — Alguns barulhos de vidro colidindo. — Mas eu já te falei sobre minha ficante?
Eu preciso me concentrar nisso, Córmaco.
É que… nossa situação é um pouco complicada. — A outra voz, do tal do Córmaco continuou, apesar da advertência de Timóteo.

***


Draco correu pela rua até avistá-la. Hermione caminhava em passos rápidos e largos em direção à conexão mais próxima de Flu que levava ao MACUSA.
— Granger, volte aqui! Por favor!
— Não, Draco! — ela gritou furiosa, sem olhar para ele.
Em torno dos dois, os prédios começaram a desmoronar, as placas começaram a desaparecer. Toda a paisagem começara a ficar meio… manchada.
— Você não está vendo o que está acontecendo aqui? — Draco disse ofegante enquanto corria na direção da garota. — Está tudo desmoronando! — Ele riu sarcasticamente, o rancor dominando seu peito ao se lembrar do que estava acontecendo. — Eu estou te apagando de mim e eu estou feliz com isso!
Não, ele realmente não estava. Além de não estar feliz com aquilo, ele estava sofrendo. Sua voz não conseguia ao menos disfarçar. Ele esperava que fosse encontrar tranquilidade ao se vingar daquela maneira, mas pelo contrário, ele se sentia cada vez mais agoniado.
— Você fez isso comigo primeiro! — ele gritou, sentindo seus olhos arderem perigosamente. — Eu não acredito que você fez isso comigo, Granger.
Hermione continuava andando firmemente, sem mostrar nenhuma intenção de parar. Sem demonstrar nenhuma reação às palavras de Draco.
— Granger! Você está me escutando? — Ele correu ainda mais rápido, agora que a garota conseguira certa vantagem na distância entre eles. — PELA MANHÃ VOCÊ NÃO EXISTIRÁ MAIS NA MINHA VIDA! O final perfeito para essa história de merda!

***


Tem algo errado em uma garota estar atraída por mim? — A voz de Córmaco parecia vir dos céus e invadia a memória de Draco. Que merda era aquela? — Quem você acha mais atraente? Eu ou esse cara?
— Córmaco, eu realmente preciso me concentrar nisso aqui.
— Lembra-se da paciente de dias atrás? Aquela com os origamis enfeitiçados?
— A garota de ouro? AQUELA garota? Ela é a garota que estamos apagando desse cara.
— É… Bem, eu meio que tinha um crush por ela na época do colégio… Naquela noite, eu… eu não sei, achei que poderia ser uma boa oportunidade para tentar algo novamente.
— Que merda é essa, cara?
— Quê?
— Ela era nossa paciente, cara!
— É que ela é tão bonita e… eu meio que roubei uma de suas calcinhas…
— Merlin…
— Quê? Não é como se… quero dizer, elas estavam limpas e tudo mais.
— Não! Isso é doentio, cara! Eu não quero escutar essa merda! Para!
— Ok, tudo bem. Mas… tem mais…. Depois do que fizemos, eu meio que…


***


Eles estavam sentados no sofá de sua sala, assistindo televisão enquanto jantavam. Comida chinesa. Era praticamente a única coisa que Hermione conseguia aceitar comer nos Estados Unidos, então sempre que ela conseguia uma oportunidade de visitá-lo, Draco fazia o possível para deixá-la feliz e bem alimentada, comprando aquela comida nos melhores restaurantes. A televisão fora uma aquisição também pensada para o bem-estar da garota, que gostava de estar informada das notícias trouxas e assistir filmes — algo que Draco aprendera a gostar com o tempo.
Ele olhou para ela. Ela já estava de pijamas. Os cabelos presos em pequenos coques, quase de maneira cômica. Ela dizia que dormir assim fazia com que seus cachos ficassem definidos, ele se lembrava. Aos olhos dele, ela estava adoravelmente bonita. Ele poderia ficar admirando-a por horas, especialmente agora que não tinha o privilégio de passar mais tempo em sua companhia. Ele se sentia sortudo por tê-la ali, apesar de tudo. Mas então ele sentiu uma presença estranha na casa. Alguém estava ali, além dos dois. Talvez fosse paranoia de guerra. Ele sabia que tendia a ter momentos assim, esse fora um dos motivos de procurar ajuda dos psiquibruxos. Mas ele achava que não era aquele o caso.
— Alguém roubou sua calcinha… — ele falou baixinho, meio desconfiado.
— Eu não vejo ninguém aqui. — A atenção de Granger nunca deixou a TV.
Draco se foi até a janela, procurando por mais sinais de que alguém estava por ali. Alguém que roubara a calcinha de sua namorada! Ele estava furioso! Mas não havia nada perto da janela. Apenas penumbra e solidão. A caixinha de comida chinesa em sua mão desapareceu, como em um passe de mágica.
Ele estava sentado no sofá, novamente. Na TV, um filme antigo, Família Adams, era exibido pela milésima vez. Draco realmente gostava daquele filme. Hermione andava de um lado para o outro pela sala, irritada. Ela vestia uma saia preta e um sutiã azul celeste, parecendo não conseguir encontrar sua camisa de modo algum. Esse era o motivo da irritação?
— Você viu meu moletom? — Pelo seu tom de voz, ele meio que percebeu que aquele não era o motivo da irritação, de fato.
— Hm… Aquele vinho? Com o emblema da Grifinória? — Draco respondeu, ainda olhando para a TV.
— O próprio. — Ela levantou uma sobrancelha, com um ar suspeito. Draco suspirou.
— Eu tentei transfigurá-lo hoje mais cedo, Granger. — Ele tentou esconder o tom de culpa em sua voz. — Mas você sabe que eu ando tendo… dificuldades com magia sem varinha…
— Malfoy… — Draco apontou para a mesa de centro. Um pato de borracha vinho olhava bobamente para Hermione, que fulminava em ódio. — Em uma situação normal, eu acharia isso minimamente engraçado. Na situação atual, eu prefiro sair e pegar um pouco de ar fresco antes que eu te mate.
Ela desapareceu por alguns minutos e passou por ele novamente, agora vestindo seu antigo moletom da Sonserina. Sem dizer uma palavra, saiu de casa.
Ele se lembrava bem, agora… Talvez não tivesse sido a melhor ideia do mundo esperar tanto tempo para contar a ela que sua mãe havia dado continuação aos acordos de seu casamento com a Greengrass mais nova. Como ele podia ser tão passivo com a sua própria vida? Como ele podia ter sido tão estúpido?

***


Hermione viera visitá-lo em Nova York pela primeira vez desde que ele fora enviado para a cidade em exílio. As pessoas próximas achavam que ela estava visitando os pais na Austrália. Embora o incomodasse o fato de serem dois adultos e ainda precisarem manter o relacionamento em segredo, ele sabia que aquela era a melhor opção. Afinal de contas, ele era um ex-Comensal da Morte e ela era a menina de ouro. Por mais romantizado pela literatura que fosse o relacionamento entre rivais, na vida real era uma história completamente diferente. Ele não queria que ela se machucasse por ser associada a ele. Mas, em Nova York, eles podiam ser quem quisessem. Os norte-americanos não os conheciam e tampouco se importavam com o casal que andava de mãos dadas pelo Central Park naquela manhã fria. Eles eram apenas um casal entre tantos outros e não mereciam a atenção daquelas pessoas ocupadas.
Era um sentimento libertador.
— Quer voltar? — Draco perguntou, seu olhar direcionado a garota. — Está um pouco frio aqui.
— Eu quero… — Hermione abraçou seu braço e sorriu meigamente. — Ficar com você para sempre, Draco.
— Granger, Granger… — Draco riu sem graça. — Tenha paciência. Só mais quatro anos e talvez…
— Talvez?
— Você sabe como as coisas são para nós no Reino Unido…
— Não, eu não sei. — Ela agora parecia um pouco mais séria do que ele gostaria. — Como são as coisas para nós?
— Eu não acho que as pessoas aceitariam tão facilmente…
— Sua família não aceitaria tão facilmente, você quer dizer.
— Você acha que está pronta para assumir as responsabilidades como Senhora Malfoy?
— Quê? Draco, — Hermione bufou — Nós já estamos no ano 2000. As coisas não são mais como eram antes. Eu te amo, você sabe disso. Mas talvez esteja na hora de você ter um pouco mais de atitude em relação a sua família!
— Não vamos falar sobre isso aqui, Hermione. — Ele balançou a cabeça, guiando-a em direção a saída do parque.
— Olha, Malfoy… Você sabe que eu vou esperar por você — ela continuou, ignorando o fato dele estar desconfortável com aquela conversa. — Eu vou mesmo. Apenas mais quatro anos e você estará de volta ao Reino Unido. Eu realmente vou esperar por você. Mas eu não posso ser a única a investir nesse relacionamento. Eu te amo e te quero comigo, mas eu preciso saber que você também vai estar nesse barco.
— Granger, sinceramente… — Draco passou uma mão por seu rosto, tentando se controlar. — ...você sabe que estar com você é tudo que eu quero, mas certas coisas estão ainda mais fora do meu controle que antes. Eu não tenho nem a porra da autonomia para usar uma varinha ou tomar decisões, até que a pena chegue ao fim! — Draco estava ofegante e fez o possível para manter seu tom de voz baixo, o que o tornava quase assustador. Hermione manteve seu olhar desafiador fixado no dele.
— Essa discussão não é sobre não ter uma varinha ou não poder tomar decisões sob o nome dos Malfoy, Draco. E você sabe disso.
Draco tentara responder. Merlin, tudo o que queria agora era que ele tivesse abraçado a garota ali, naquele momento. Ele gostaria de ter lhe garantido que faria o que ela quisesse, que abriria mão dos seus direitos como herdeiro, se necessário, caso isso significasse ficar com ela para sempre. Mas sua voz não saía de sua garganta, a voz dela não chegava mais aos seus ouvidos. Aquela memória também estava sendo apagada. Uma fumaça escura corria em direção a eles. Em questão de segundos, tudo era escuridão de novo.

***


Ele sentiu os lábios macios da garota tocarem sua têmpora levemente. Descerem por sua bochecha, percorrendo todo o caminho de modo tão suave que quase não estava ali, até chegarem em seu pescoço, onde depositaram um beijo carinhoso e voltaram, subindo até o lóbulo de sua orelha e depositando mordidinhas delicadas.
Draco abriu um sorriso preguiçoso, despertando de seu sono, mas mantendo seus olhos fechados. A essência de flores do campo após a chuva invadiu suas narinas. Ele amava o cheiro fresquinho da garota. A luz do sol entrava pela janela e os aquecia confortavelmente. Ele sentiu a garota se deitar em seu peito e o abraçar. Seus braços se fecharam em torno dela, trazendo-a para perto de si.
Aquele era seu último dia no Reino Unido, antes do exílio. Como sempre, os dois se encontravam no quarto de hóspedes da casa de Luna e Pansy. As duas eram as únicas pessoas próximas que tinham conhecimento do relacionamento dos dois e os apoiavam independente do que acontecera; e aquele lugar acabara se tornando um dos refúgios preferidos do casal-que-não-deveria-ser, mas foi. Porque afinal de contas, entre tantas coisas, os dois tinham a teimosia em comum.
O ano em que ele passara em Azkaban se provara difícil, mas não impossível. Pelo menos ele e Granger conseguiram se adaptar de alguma maneira. Com a ajuda de suas amigas para inventar desculpas por ela, Hermione o visitara pelo menos uma vez por mês e lhe escrevera inúmeras cartas. Não era nem de longe o suficiente para suprir a necessidade que ele tinha dela, mas era melhor que nada. Agora, prestes a se mudar para o outro lado do oceano, em exílio, ele sabia que as coisas não seriam tão fáceis, mas estava disposto a tentar, se isso significasse que eles teriam uma chance de ficar juntos em um futuro próximo.
Ele acariciava os cachos macios da garota e esperava que aquele ato em si pudesse lhe dizer tudo o que gostaria. Draco sabia que não era a melhor pessoa do mundo com palavras, tendo se tornado ligeiramente pior desde o início da guerra. Hermione, por outro lado, sempre parecia encontrar as palavras certas para os momentos certos. Eles sabiam, no entanto, que falar constantemente não significava necessariamente se comunicar bem. Weasel era a prova viva disso. Mas Draco e Hermione conseguiam se entender em algum ponto entre os silêncio e as palavras; e ele gostava disso. Era quase aconchegante. Especialmente porque, dentro de sua cabeça, os barulhos da batalha ainda eram vívidos: os gemidos de dor, os gritos de desespero, os feitiços exclamados… Barulhos que ainda o assombravam quando ele estava sem ela. Em contraste, os barulhos de Hermione eram como uma música calma e feliz.
Draco depositou um beijo carinhoso no topo de sua cabeça. Ah, Granger…
— Eu vou sentir tanto a sua falta, Draco…
— Eu já sinto a sua, Granger… Todos os dias.
— Quando você voltar… — ela sussurrou, levantando-se um pouco e ajeitando sua posição, acabando por cima do corpo de Draco. Seus lábios tão próximos que quase se tocavam, apenas quase. Draco corou com a possibilidade dela conseguir escutar o quão forte seu coração batia contra o peito. Seus olhos castanhos corriam pelo rosto dele, como se quisessem guardar aquela memória para sempre — ...eu vou gritar aos ventos o que sinto por você. Eu vou enviar um berrador para cada um dos meus amigos, dizendo o quanto você significa para mim. Eu não me importo com o que quer que eles tenham a dizer em relação a isso.
— Algumas coisas são melhores mantidas em segredo. — Ele sorriu de lado, roçando seus narizes levemente. — Mas devo confessar, Granger, a ideia é tentadora.
Hermione abriu um de seus grandes sorrisos sinceros antes de finalmente tocar os lábios nos dele, iniciando um beijo lento e intenso. Draco queria que ela soubesse tudo o que ele sentia por ela, tudo o que desejava para os dois, tudo o que não conseguia traduzir em palavras. Draco queria que aquele beijo durasse para sempre. Mas então, tudo era escuridão novamente.

***


"05 de Junho de 1999 - Londres.
Querido Draco, feliz aniversário!
Eu sei que existem maneiras melhores de desejar isto, mas eu sei que sua mãe provavelmente estará por aí hoje. Seria apenas muito complicado explicar minha presença para ela. Pretendo compensar isso durante algum dia das próximas duas semanas.
Passei a noite de ontem pensando em você. Choveu à noite, então eu tomei a liberdade de abrir uma garrafa de vinho e a beber sozinha, escutando nossa música tocar. Você arruinou The Smiths para mim e agora é impossível escutá-los e não pensar em você. Eu espero que você nunca me magoe, porque eu realmente gosto dessa banda e não estou preparada para odiá-la por sua culpa (brincadeira, você sabe)!
Enfim, o vinho e a música me transportaram diretamente para nossas noites de refúgio na Escócia. Você se lembra? Em meio a guerra, a única coisa que realmente importava era que estávamos ali, nas Terras Altas. Essas são memórias que vou carregar com carinho para o resto de minha vida.
Peço desculpas se essa carta está mais melancólica do que deveria, é só que eu sinto sua falta a cada segundo. Sinto falta de seus olhos nos meus, do seu toque em minha pele e do jeito como você fala meu nome quando estamos a sós.
Eu sei que estou sendo egoísta, é seu aniversário, mas tudo o que desejo é ter você comigo, de novo.
There is a light that never goes out,
Com amor, H.
Ps: Espero que você goste da minha antiga caneca do consultório dos meus pais! Ela foi minha companheira durante a noite passada e escutou todos meus lamentos." Draco sorriu ao terminar de ler aquela carta, cantarolando a música da banda trouxa que Hermione o apresentara anos antes e encarando o emblema do consultório odontológico Granger. Ele amava o humor distorcido dela. Sentia tanto a falta dela, que chegava a doer.

***


Ela estava sentada no aparador de pedra abaixo da janela quando ele chegou. A luz da lua refletia em seus cabelos castanhos e seu moletom laranja era praticamente neon em meio a penumbra do quarto. Ela estava concentrada demais na tarefa dobrar seus queridos origamis para notá-lo rapidamente, mas quando percebeu sua presença, ela se virou com um sorriso no rosto e se adiantou até ele, de braços abertos. Ele a recebeu em seus braços e a girou em um abraço apertado, inspirando o cheiro de seus cachos. A guerra não estava sendo generosa com eles. Ambos estavam mais pálidos, mais magros, mais abatidos. Apesar de tudo isso, ele achava que ela era a garota mais bonita que conhecia.
— Que alívio de te ver de novo, parece que fazem anos desde a última vez! — A voz dela soava abafada de encontro ao seu peito.
— É bom saber que você está bem… Eu estava ficando doente de preocupação… Literalmente.
— Abhain ficou feliz em me ver, ele até conseguiu algumas tangerinas para mim. — Ela sorria com os olhos. — Eu guardei algumas para você.
— Ele realmente deve ver algo bom em nós. — Draco franziu a testa. — Não é todo mundo que sai por aí hospedando um comensal de merda e a Menina de Ouro hoje em dia. É arriscado. Quase suicídio.
— Ele nos conhece, Draco. Ele sabe que nós nunca lhe faríamos mal. — Eu não acho que nós sejamos a maior ameaça nesse caso, Hermione. — Ele suspirou pesarosamente. — O lado bom disso tudo é que, aparentemente, vocês estão bem próximos da vitória.
Ele viu os olhos da garota se arregalarem de curiosidade. Tirando um pequeno frasco de dentro de sua capa, Draco o colocou sobre a palma da mão da garota e fechou seus dedos em torno do vidro, com carinho.
— Escute com atenção, Granger. — Ela revirou os olhos, como se ele estivesse falando algo redundante. — O que vocês procuram se encontra no cofre da minha tia querida em Gringotes. E esse frasco contém um fio do cabelo dela. Eu não preciso saber o que você fará com essa informação. — Ele pausou, respirando fundo, o rosto da garota agora entre suas mãos. — Só… fique viva, por favor.
Seus olhos se encontraram em um sinal mútuo de entendimento: eles não tinham tempo a perder, logo precisariam retornar a suas devidas bases e agir como se nada houvesse acontecido, mas ali, naquele momento, a única coisa que os importava era aproveitar cada segundo um com o outro. Talvez aquele fosse, de fato, o último encontro dos dois. Dependendo do resultado das próximas ações da Ordem ou dos Comensais, suas vidas poderiam tomar rumos inesperados… Isso se sobrevivessem.
Seus lábios se chocaram contra os da garota com certa força e ela correspondeu com urgência, aprofundando um beijo que continha toda a saudade e preocupação que guardavam um pelo outro. Seus dedos se embaraçaram entre os cachos castanhos com suavidade. As mãos da garota se apressaram em desabotoar a capa que ele vestia, deixando-a cair pesadamente aos seus pés, enquanto uma das mãos de Draco desceu pelo tronco de Hermione, encontrando a barra de seu moletom. Eles estavam ofegantes com a ferocidade do beijo. Draco separou seus lábios, depositando pequenos mordiscos no lábio inferior dela. Ele sussurrava “por favor” repetidamente, num tom baixo e quase suplicante.
Aventurando-se por dentro do moletom laranja, a palma de sua mão foi de encontro ao seio esquerdo dela que, para sua surpresa, já estava sem sutiã. Ela sorriu de lado quando percebeu sua reação. Ele nunca deixava de admirar como os seios dela pareciam ter sido feitos sob medida para suas mãos ou como os mamilos dela se endureciam sob o toque leve de seu polegar.
— Eu sinto tanto, Granger. — Seus lábios deixavam rastros de beijos pelo pescoço dela, sentindo sua pele se arrepiar ao encontro de sua boca. — Eu sinto muito por ser tão covarde. Perdoe-me por tudo isso…
— Draco… — ela suspirou seu nome, as mãos brincando perigosamente com o botão da calça dele. — Está tudo bem agora… — Ela tentava fazer algum sentido, mas sua cabeça estava ocupada demais processando todas as sensações que ele causava nela. — Vai ficar tudo bem…
Quando seus corpos colidiram contra a cama da velha estalagem, o moletom laranja foi a primeira peça se perder no chão de pedra, seguido pelo casaco e a blusa de Draco. Sob a luz da lua, ela era realmente a coisa mais preciosa da vida dele. Ele não queria... não podia... perdê-la. Tomando um momento para admirá-la, ele sentiu o ar fugir de seus pulmões e algo descer frio por suas entranhas ao observar os hematomas e feridas causados pela fatídica visita à Mansão dos Malfoy. Ele nunca se perdoaria pelo que ela passara. Nunca. Talvez nem mesmo em outras vidas. Ele tinha total consciência de que não estava ao nível dela, ele não era bom o suficiente. Ele não era bom. E o impressionava todos os dias o fato de que ela ainda não havia desistido dele, apesar de tudo. Ele era egoísta demais para abrir mão dela por vontade própria.
Ele sentiu as mãos da garota tocarem delicadamente seu rosto. Seus olhos se conectaram novamente e ela sorriu antes de trazê-lo para perto de si outra vez.
Enquanto se beijavam, Draco desabotoou a calça dela de modo um tanto quanto desesperado — um reflexo do quanto a desejava. Com a ajuda de Hermione, que parecia corresponder ao desespero no mesmo nível, logo trajavam apenas suas roupas íntimas. Draco desceu seus beijos por todo o tronco da garota preguiçosamente, desfrutando cada centímetro do corpo que lhe fazia tanta falta, mas que o mantinha firme em seus propósitos mesmo em tempos obscuros, sentindo a pele da garota se eriçar sob o seu toque. Seus lábios estavam novamente sobre os lábios dela, enquanto sua mão refazia o caminho que eles haviam percorrido momentos antes, desta vez continuando até pousarem no interior quente das coxas da morena, separando-as com cuidado.
Seus dedos, numa carícia leve, roçaram a pele dela, causando arrepios por onde passavam, até alcançarem o centro da calcinha de algodão que ela vestia e que já estava úmida por antecipação. Por cima do tecido, seus dedos subiam e desciam com uma paciência e com uma leveza descomunal; e ele sabia que Hermione logo pediria por mais. Ele conseguia sentir pelo jeito como ela gemia baixinho entre seus beijos e como seu quadril se movimentava de encontro aos dedos que a provocavam, pedindo por mais pressão, por mais presença.
Draco sorriu de lado ao perceber aquilo e, lentamente, moveu o tecido para o lado. Seu dedo indicador agora provocando-a, subindo e descendo o modo como havia feito sobre o tecido, mas nunca realmente tocando onde ela mais precisava. Quase uma tortura. O corpo do garoto respondia a cada gemido dela, então a demora também era uma tortura para ele. Mas ele queria desfrutá-la ao máximo, então seus lábios partiram o beijo e se uniram a sua mão na tarefa de trazer Hermione ao seu limite.
— Eu senti tanto sua falta — ele sussurrou, perto demais de sua área mais sensível.
Sem conseguir encontrar mais paciência dentro de si, ele a abriu com dois dedos, cuidadosamente, e sua língua a percorreu por toda sua extensão de modo leve. Hermione gemeu ainda mais alto que anteriormente e seus dedos entrelaçaram os cabelos do loiro, como se pedissem por mais. Ela precisava dele. Ele nunca lhe negaria aquilo e, como resposta, sua língua agora circulava o clitóris da garota com um pouco mais de pressão, mas sem diretamente tocá-lo. Ao sentir o quadril da garota se movimentar de novo, impacientemente, em sua direção, Draco a penetrou lentamente com um dedo, sem parar em momento algum as carícias com a língua em torno de seu ponto mais sensível.
Merlin, ela era tão quente. Ela estava tão pronta, tão molhada. E ele precisava daquilo tanto quanto ela.
Agora com dois dedos, ele aumentou o ritmo e pressão em cada investida de sua mão e sua língua finalmente a pressionou onde ela mais queria. Seus dedos se curvaram dentro dela, entrando e saindo com rapidez, enquanto sua língua pincelava o clitóris com dedicação, em movimentos que se repetiram até que ele começara a sentir o interior da garota se contrair.
— Draco, por favor.... — Hermione choramingou entre gemidos, puxando-o para si com fervor. Ela sabia que estava próxima, mas queria chegar lá tendo-o por completo nela.
Draco se desfez rapidamente de sua última peça de roupa e se posicionou por entre as coxas dela. Ele a queria tanto, naquele momento, que chegava a doer. Ele a olhou nos olhos e ela manteve o olhar fixo nele, enquanto o sentia provocá-la em sua entrada, ambos prontos.
— Draco…
— Hermione…
Embora ele tentasse formular uma frase, embora quisesse lhe dizer o quanto aquele momento significava para ele, era em vão. Ele esperava que ela conseguisse perceber através de seus toques e suas carícias. Ele empurrou um pouco seu quadril em direção a ela, quase nada, mas ela arfou ao perceber a presença dele ali. A sensação de tê-lo novamente em si, de estar completa novamente, era quase um alívio. Ela moveu seus quadris novamente, impaciente.
Ele sorriu ao perceber a reação dela e se aprofundou um pouco mais. Merlin, aquilo realmente era uma tortura. Desistindo de tentar se controlar, ele se deixou afundar totalmente nela, recebendo um gemido alto como recompensa. Ele poderia escutar os sons de prazer dela por horas a fio, sem se cansar. Repetindo o movimento de entrar e sair totalmente dela com lentidão por mais algum tempo, aproveitando cada segundo daquele ato, sentindo-a em torno de si, impossivelmente molhada e quente. Ele se surpreendeu quando as pernas dela o circularam na altura da cintura e o prenderam dentro dela.
Ele não sabia se aquilo era fisicamente possível, mas naquela posição eles estavam ainda mais próximos um do outro e Draco estava ainda mais profundamente enterrado nela. Um rosnado involuntário deixou sua garganta. Era a vez dela sorrir de lado. Draco deixou outro gemido escapar de seus lábios ao senti-la rebolar contra seu corpo, vez ou outra contraindo-se em torno dele. Ele investiu com mais força, seus lábios no pescoço dela, gemendo, arfando, chamando-a, enquanto ele investia contra ela com força e rapidez, perdendo o ritmo que tentara estipular, rendendo-se ao prazer, enquanto ela pedia por mais, gritava por ele e gemia em resposta a ele.
Quando ele percebeu que não conseguiria mais se segurar, dois de seus dedos foram ao encontro do ponto mais sensível dela e o massagearam em círculos constantes. Ele sentiu a garota se contrair ainda mais, seus dedos apertarem seus ombros com tanta força, que chegava a doer, sua boca formava sons desconexos e inebriantes, seus olhos se fecharam por um momento, mas Draco a pediu para abri-los de novo e ela obedeceu prontamente. Ela pulsava em torno dele quando ele também alcançou seu ápice, jorrando dentro dela e enterrando novamente seus lábios em seu pescoço, tentando abafar seus próprios sons desconexos.
Ele não sabia se o paraíso existia ou não, mas achava que estar assim, com ela, como se fossem um, era o mais próximo que estaria disso.
Seus olhos se encontraram uma última vez antes que a fumaça escura dominasse toda a cena e ela desaparecesse de vez.
Não...

Ato 4 - Let Me Keep This One

A sala precisa. Draco se lembrava perfeitamente daquele lugar repleto de memórias agridoces.
Aquele era seu sexto ano em Hogwarts e parte dele queria simplesmente desaparecer. Ele estava sendo corroído pelo medo, pela pressão, pela sensação de estar encurralado em um beco sem saída. Fora difícil respirar tranquilamente durante todo o ano, mas agora que o momento de completar sua missão estava tão próximo, era como viver em um pesadelo constante. E ele sentia tanto a falta dela. Muito mais do que gostaria de admitir a si mesmo.
Evitá-la havia se provado quase impossível. Quase. Draco era muito bom em se esgueirar e desaparecer entre as passagens secretas de Hogwarts. Claro que o fato dela ser monitora complicava ligeiramente suas escapadas, mas ainda assim. Durante as aulas, por outro lado, ele não tinha outra opção além de aceitar o fato de que eles teriam que dividir o mesmo espaço por, pelo menos, uma hora. Uma hora que parecia durar um dia inteiro. Uma hora de pura tortura.
Ele conseguia ler nos olhos dela, nas feições dela, tudo o que não havia sido dito com palavras. Ela estava preocupada com ele, isso era óbvio. Porém, além da preocupação, havia algo como descrença e decepção. Ela estava realmente profundamente magoada com ele. Ele odiava ser a causa de todos aqueles sentimentos ruins… Mas também sabia que o melhor a se fazer era manter a distância. Ele fazia aquilo pelo bem da garota, entende? Ele também estava machucado.
Nos primeiros meses letivos, ela tentara se aproximar dele inúmeras vezes. Enviara corujas, deixara notas em sua mochila, tentara estabelecer contato visual, ele até foi perseguido pelo antigo elfo-doméstico de sua família, Dobby, por semanas a fio. Pouco a pouco, as tentativas de estabelecer algum tipo de comunicação começaram a diminuir, até que pararam por completo. A única indicação de que ela ainda, de alguma maneira, pensava nele — mesmo que de modo pejorativo — eram as olhadas de relance que ele conseguia perceber ocasionalmente em situações cotidianas, como por exemplo, nos horários de refeição no Salão Principal.
E era por esse motivo que ele se encontrava na Sala Precisa naquele dia.
Sentado na velha poltrona carmesim puída, em meio a torres de objetos velhos, descartados por gerações de alunos e funcionários da escola, seu pé batia contra a tábua de madeira do chão numa frequência quase compulsiva e até mesmo a maçã em sua mão parecia difícil de digerir. Ele estava completamente tomado pela ansiedade. Cada milímetro de seu corpo. Seus olhos fixos no velho armário de madeira escuro. Draco não sabia que era possível odiar tanto um simples objeto inanimado, mas lá estava ele, transbordando de ódio pelo armário sumidouro.
Como era costume, sua fixação em alguma coisa o desligara dos arredores. Ele estava totalmente alheio ao fato de que não estava sozinho naquele quarto. Mas ao se levantar e virar em direção a porta, na intenção de se dirigir às masmorras antes do toque de recolher, viu que Hermione Granger o encarava com um olhar que — ele podia jurar! De verdade! — certamente o mataria mais rápido e dolorosamente que o olhar de um basilisco faminto. O ar pareceu fugir de seus pulmões. Que diabos!?
— Você não acha que já passou da hora de parar de fugir de mim, Malfoy? — seu tom era seco.
— Granger, se você pretende me matar, existem maneiras mais práticas e discretas que de susto. — Apesar de se dirigir a ela, seus olhos a evitavam a todo custo.
— Eu realmente não acho que esse é o melhor momento para piadas, Malfoy. Agora, — ela respirou fundo e passou os dedos entre os cabelos castanhos volumosos que ele tanto gostava — eu preciso que você me conte, em detalhes, o que realmente está acontecendo. Eu não tenho mais recursos para tentar dissuadir Harry das ideias absurdas que ele tem quanto a você…
— E o que te faz acreditar que essas ideias são tão absurdas, Granger? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha de modo desafiador. Ela pareceu, provavelmente pela primeira vez desde que se conheceram, estar sem palavras.
— V-você não... — ela gaguejou e ele pode perceber que a confiança com que ela se aproximara dele mais cedo parecia se esvair aos poucos. — Draco… Você não faria isso…
— Não faria o quê, Granger? — Ele manteve seus olhos nos dela, ainda com a postura desafiadora, mas seu tom de voz era baixo e quase ameaçador. — Você acha que me conhece, não é mesmo? Você acha que eu conseguiria abrir mão de tudo e seguir o seu querido Santo Potty? Sinto te decepcionar. Talvez você não me conheça tão bem assim, no fim das contas.
— Talvez, Malfoy. — Ela respirou fundo antes de continuar e se aproximou um pouco mais. — Mas eu te conheço bem o suficiente para saber que no que quer que você esteja metido, está te fazendo mal. O que quer que seja isso, eu sei que você não teve escolha. E eu posso te ajudar. Você sabe disso.
A irritação invadiu seu peito e ele instintivamente deu um passo atrás quando a garota começou a se aproximar. Ele não estava irritado com ela, não. Pelo contrário, havia uma parte dentro dele que ainda se mantinha sã e queria muito se aproximar, abraçá-la forte, sentir sua fragrância fresca inundar seus sentidos e acreditar que tudo ficaria bem. A outra parte sabia que ele não era digno de se aproximar dela, de querer estar com ela, nem ao menos de conversar com ela. Não agora que ele estava marcado para sempre com aquela tinta tão abominável que parecia corromper tudo em que encostava.
— Você não pode me ajudar, Hermione… — Ele suspirou, dando-se por vencido. — Não nisso. É algo que eu preciso fazer sozinho e, sinceramente, eu não quero você envolvida com nada disso.
Finalmente quebrando o contato visual, Draco encarou seus sapatos de couro de dragão enquanto deixava toda a humilhação e derrota tomarem conta de seu corpo e mente, quando sentiu os braços da garota o envolverem. O cheiro de flores do campo, a maciez de seu corpo, a respiração quente em seu pescoço. Como conseguira passar tanto tempo sem todas aquelas sensações, ele não sabia explicar. Porque agora que as sentia novamente, tinha certeza de que não seria forte o suficiente para deixá-la ir.
— Você não precisa me envolver nisso ou me deixar ajudar, se não quiser — ela murmurou e o contato de sua voz baixinha, o toque leve dos seus lábios, quase imperceptível, na pele de seu pescoço, o fizeram se arrepiar. — Mas, Draco, por favor… Não saia assim da minha vida…
— Você não merece isso, Granger — Seus dedos entrelaçaram carinhosamente os cachos da garota e seus lábios roçaram a pele de sua bochecha. — Você é a pessoa mais brilhante que eu conheço… E eu não posso te deixar perto disso… Do que eu me tornei.
Isso ainda é você, Draco. — As mãos de Hermione agora seguravam o rosto dele com delicadeza, forçando-o a manter o contato visual, por mais difícil que fosse. — Eu sei que, eventualmente, você vai encontrar forças para me explicar. E que eventualmente nós teremos que enfrentar monstros muito maiores do que estamos preparados. Mas por hoje, ter você por perto é o suficiente.
Hermione colou suas testas e olhou em seus olhos, com um sorriso fraco no rosto. Draco retribuiu o sorriso e fechou seus olhos, suspirando. Ele sabia que nunca se perdoaria pelo que vinha acontecendo, mas tê-la consigo, em seus braços, era a melhor coisa que lhe acontecera desde o início do ano letivo. Agora que ela estava ali de novo, ele sabia que não teria força de vontade o suficiente para se afastar. Ele precisava dela.
Seus narizes se roçaram e Draco sentiu os dentes da garota mordiscarem seu lábio inferior. Seus dedos se fecharam nos cachos com um pouco mais de força, trazendo-a para si e iniciando um beijo calmo e carregado de sentimentos.
Mas segundos depois disso, Hermione não estava mais ali. Draco estava sozinho e a Sala Precisa começava a ser tomada pela escuridão característica do processo LACUNA. E foi quando ele percebeu um detalhe muito importante: ele ainda não estava pronto para deixá-la sair de sua vida. Ele não estava pronto aos dezesseis anos e não estava pronto agora, aos vinte e dois. Ele não sabia se um dia estaria pronto.
Decidido a lutar contra a própria ideia imbecil, Draco deu passos largos na direção da escuridão, tentando fugir do próprio esquecimento.
— Por favor, me deixem ficar com esse momento… — As palavras saíram de sua boca quase que contra sua vontade.
Mas era tarde demais. Aquela memória fora apagada com sucesso.

***


— Se você está se perguntando que cheiro é esse, mãe, a sangue-ruim acabou de entrar pela porta — disse Draco Malfoy, tentando manter suas feições o mais sérias possível, mas ainda sentindo seu rosto corar e se amaldiçoando por isso, ao ver a porta de Madame Malkin se abrir e o trio de ouro entrar por ela.
Seu coração se apertou ao notar que Hermione estava realmente machucada. Weasel e Potty não conseguiam manter a garota segura nem ao menos durante as férias de verão? A Toca era um lugar cheio de perigos, especialmente agora que os gêmeos produziam os mais diversos objetos mágicos. Ele sabia que a linha entre a ideia deles de diversão e perigo era muito tênue. Ele sentiu a raiva começar a tomar conta de seu corpo, mas rapidamente a dispersou porque, parando para pensar, ele não tinha direito nenhum de se irritar com nada daquilo.
Hermione lhe escrevera pelo menos três cartas por semana desde que deixaram Hogwarts, e ele não sabia como responder…. As possibilidades não eram muito boas:
"Querida Hermione,
Que belo dia de verão! Hoje eu recebi a Marca Negra numa cerimônia macabra, cercado por adultos doentios. Encantador, não é mesmo?
Como tem sido o seu verão?
Com amor,
Draco."

Às vezes o silêncio é o melhor amigo do homem.
Ele sabia que Potter e Weasley ainda estavam alheios ao fato de que ele e Granger tinham… algo. Sua mãe, por outro lado, talvez desconfiasse de seus sentimentos pela colega de classe. Na verdade, Draco achava que havia grandes chances de que sua mãe desconfiasse disso antes mesmo que ele estivesse consciente de seus sentimentos pela garota. Obviamente ele não acreditava naquela baboseira de sangue-ruim fazia anos e o incomodava ter que agir assim em público, mas as aparências precisavam ser mantidas pelo bem de todos. Agora, ainda mais que antes. Se a informação de que Draco Malfoy estava apaixonado por Hermione Granger caísse em mãos erradas, ele sabia que ela estaria em grande perigo.
Sinceramente, Draco estivera tão ocupado durante as férias de verão que não tivera muito tempo para se decidir quanto ao que fazer com seu relacionamento agora que havia sido — quase forçosamente — recrutado para o time do Lorde das Trevas.
As coisas se complicariam substancialmente. Mas não é como se ele tivesse escolha. Afinal de contas, "ele era o único herdeiro Malfoy e a honra de sua família estava em suas costas", o que seu pai não deixava de repetir desde o fim do último ano letivo. Draco não poderia estar menos preocupado com a honra da família. Ele sabia que aquilo era o de menos. Coisas muito maiores estavam em jogo. Coisas como a sua vida, a vida de seus pais, a vida da garota que ele provavelmente amava e que acabara de entrar pela porta do estabelecimento de Madame Malkin acompanhada dos dois idiotas que ela chamava de amigos. Dois idiotas que não perderiam tempo antes de lançar uma maldição em Draco se viessem a descobrir que ele e a doce princesa da Grifinória vinham se pegando com certa frequência em todos os cantos de Hogwarts.
— Quem te deixou com o olho roxo, Granger? Eu quero enviar flores — ele disse, esperando que ela entendesse que ele não pensava isso de fato, que na verdade o que pretendia dizer — mas não podia — eram coisas tão diferentes. Merda. Eu quero estar perto de você, cuidar de você, te proteger. Mas eu sou a última pessoa no mundo a merecer isso.
O resto da memória se passou como que em um filme sendo adiantado. Ele e Potter discutiram. Sua mãe dissera alguma coisa desconexa. Ele fazendo o possível para manter o braço encoberto, a fim de evitar o constrangimento de ter a Marca exposta. Não se importava tanto com o que as outras pessoas pensavam, mas Hermione não deveria ter que ver aquilo. E então ele e Narcisa Malfoy deixaram a loja, que se tornou mais uma mancha escura em sua memória.

***


"Draco,
Eu sei que já te enviei pelo menos 10 cartas nesse verão e que seu silêncio deveria ser mais que o suficiente para entender que algo está errado.
Eu não sei se foi algo que eu fiz, ou disse, ou se algo está acontecendo com você.
Recebi meus N.O.M.s e confesso que estou um pouco desapontada com os resultados… Mas podemos falar sobre isso pessoalmente. Tenho certeza que você se saiu muito bem e conseguiu todos os Os que desejava.
Como te disse anteriormente, estou passando os últimos dias de férias na casa dos W. (espero que esse não seja o motivo pelo qual você tem me ignorado). Os gêmeos estão se saindo bem com a nova loja, muito embora eu não aprove toda a mercadoria deles. Ontem mesmo, por exemplo, eu levei um soco no olho enquanto me distraía com um telescópio. Foi inesperado, para dizer o mínimo. Acho que você vai rir ao saber que, desde então, meu olho está roxo berrante!
Eu, os W. e H. vamos ao Beco Diagonal neste sábado comprar os últimos itens da lista de material escolar para o ano letivo. Seria legal te ver. Caso esteja por lá e venhamos a nos encontrar, tente não ser cordial conosco.
Sinto sua falta,
G.
"

***


— Segure a minha mão! — Hermione gritou, rindo, enquanto tentava se equilibrar apesar de estar pisando em uma superfície congelada. O nariz e as bochechas vermelhos pelo frio de janeiro… Merlin, ela não fazia ideia de quão adorável parecia.
— Granger, eu tenho quase certeza de que não é seguro correr sobre um rio congelado… — Draco respondeu, pisando com cuidado sobre o gelo.
— Eu te prometo que não vai acontecer nada, Draco! — Ela lançou um olhar suplicante ao garoto. — Além disso, eu e meus pais sempre vínhamos acampar aqui na Floresta de Dean quando eu era mais nova, eu sei que o gelo do Rio Severn não se quebra tão facilmente assim!
Ele deu alguns passos na direção de Hermione, ainda um pouco desconfiado, tentando se manter de pé. Aquilo era ridículo, mas ela parecia tão feliz. E os momentos que tinham juntos eram tão raros, cada dia que passava estavam se tornando mais escassos. Com Umbridge respirando em seu cangote, toda a merda da Inquisição e da Armada… Enfim, Draco estava apenas grato que ninguém houvesse suspeitado — ainda — do fato dele não estar passando o natal na Mansão dos Malfoy.
Hermione conseguira distrair seus amigos muito mais facilmente, não é como se eles fossem checar se ela estava mesmo na Londres Trouxa ou não. Eles nunca suspeitariam dela.
Ele sentiu os dedos enluvados se entrelaçarem aos seus e voltou sua atenção a ela quando ela o puxou para perto, fazendo ambos se desequilibrarem e caírem em um baque forte sobre o gelo. Draco pediu silenciosamente a Salazar que não permitisse que aquele gelo trincasse. O riso da garota o fez relaxar um pouco. Deitando-se de lado para que pudesse observá-la melhor, Draco encontrou-a com os olhos nele, sorrindo.
— Eu senti sua falta, Draco. — Ela sorriu. — Às vezes, eu odeio ter que fingir que te odeio. Eu nunca imaginei que as coisas fossem se complicar tanto…
— Você não sabe o quanto é difícil me manter longe de você. — Ele olhava no fundo dos olhos da grifinória e esperava que, de verdade, ela conseguisse entender toda a sinceridade daquelas palavras. — O quanto é difícil te ver pelos corredores com aquele Weasel e o Potter… Nunca pensei que fosse ter inveja de um Weasley, que fosse querer algo que um Weasley tem e que, por algum motivo, eu não tenho… Mas toda vez que eu te vejo na companhia dele, penso que eu daria o que fosse preciso para ser ele, Hermione…
Levando uma de suas mãos até a bochecha de Granger, Draco deixou seu polegar passear pela pele gelada, tentando aquecê-la um pouco. Ela sorriu com os olhos e sua mão cobriu a de dele, colocando um pouco mais de pressão no toque. Ele continuou, num sussurro:
— Eu poderia morrer agora, Hermione… Eu estou tão… Feliz. — Ele suspirou pesadamente, fechando os olhos como se os sentimentos fossem pesados demais para serem ditos de qualquer outro modo e ela se aproximou um pouco mais. — Eu nunca me senti assim antes de te conhecer. E eu não me sinto assim quando não estou com você… Como se nada de ruim esperasse por mim, por nós. Eu estou exatamente onde eu gostaria de estar.
Abrindo os olhos lentamente, sentindo o peso da confissão sair de seus ombros, Draco percebeu que não estavam mais no Rio Severn, mas sim deitados na grama do campo de quadribol de Hogwarts. Hermione desaparecia lentamente de seu campo de vista. Olhando a sua volta, Draco percebeu que estava sozinho e que a neblina escura começava a encobrir os arredores. Ajoelhando-se, tentou gritar para quem quer que pudesse escutá-lo, embora parte dele soubesse que era em vão:
— Hey! Eu quero interromper o procedimento! — Suas mãos juntas estalavam os dedos em um ato nervoso enquanto ele gritava suas palavras sem muita esperança. — Tem alguém aí? POR FAVOR. ALGUÉM PODE ME ESCUTAR? EU NÃO QUERO CONTINUAR!
A frustração o dominou quando não houve resposta. Ele não conseguia despertar daquele sono terrível e aparentemente ninguém se importava com isso. Ele precisava encontrar outra solução. Tentando manter sua consciência, Draco se levantou, respirou fundo e decidiu procurar Hermione. Ela sempre tinha uma solução para os problemas mais difíceis, com certeza a memória dela não seria diferente.
— HERMIONE???? GRANGER, VOCÊ CONSEGUE ME OUVIR?
— Draco? — Ela falou baixinho, deitada na grama do mesmo jeito que estava momentos antes, como se nada tivesse acontecido.
— Hermione, nós precisamos sair daqui o mais rápido possível. Nós temos que parar isso!
Ele segurou a mão da garota e a levantou num impulso. Ela parecia positivamente confusa, mas não o contrariou quando começaram a correr para longe daquela memória.
— Parar o quê? Draco?
— Vem! Concentre-se!
Enquanto eles corriam pela escuridão de pensamentos de Draco, outras memórias tentavam se sobrepor. Ele sabia que precisava mantê-las longe, pois no momento em que uma delas conseguisse se posicionar, ela começaria a ser destruída.
Memórias de cartas escritas para Hermione, memórias de Hermione dobrando e enfeitiçando origamis na Sala Precisa, memórias de Hermione tomando café em sua xícara da Sonserina, memórias de Hermione caminhando pela casa dele, em Nova York, com seu moletom da Sonserina. Memórias felizes, a risada dela caía tão bem com a sua, quase o fez querer parar de correr e se deixar levar por aquele som que ele gostava tanto. Memórias dos beijos escondidos em passagens secretas da escola. Trocas de olhares durante as aulas. A primeira vez em que foram ao cinema, na Londres Trouxa. Os passeios bizarros em lugares onde não seriam descobertos. A Floresta de Dean. As Terras Altas.
A estação de King's Cross. Essa memória se concretizou. Ele e Hermione estavam com suas mochilas de viagem, prontos para pegar o trem para as Terras Altas, onde passariam parte do recesso de natal.
Ele precisava sair dali.
— Vem, Hermione! Mais rápido! — ele a puxava pela mão enquanto deixava as mochilas para trás, tentando pegar mais velocidade, correndo na direção oposta a da plataforma.
— Por que a gente tá correndo, Draco? Eu estou cansada! — Hermione reclamou em vão.
Mais memórias.
Pansy e Luna tentavam montar um castelinho de cartas de snap explosivo na Sala Precisa enquanto Hermione observava atentamente.
— Granger, não podemos parar agora! — Draco olhava para o teto enquanto gritava. — ME ACORDEM! PAREM ESSA MERDA! Vocês estão apagando-a de mim….
Eles caminhavam em passos largos pelos corredores escuros do castelo.
— Eu não sei o que fazer, Granger…
— Eu não posso te ajudar, Draco… Eu também estou dentro da sua cabeça… — Hermione disse com uma voz de derrota e aquele olhar de empatia que ela sempre lançava quando não conseguia ajudar.
Eles atravessavam o pátio em frente ao salão principal agora, desvencilhando-se dos estudantes que se agrupavam despreocupadamente. Um garoto familiar passou por eles com os olhos fixos em Hermione. Pelas vestes, ele pertencia a Grifinória.
— Quem é esse, Hermione? — Ele arqueou uma sobrancelha.
— É o Córmaco… Ele é um ano mais velho que a gente… — As bochechas de Hermione estavam vermelhas. — Talvez você se lembre dele… No sexto ano ele me chamou para sair…
— Hermione… Tem algo muito, muito errado aqui. A gente precisa continuar, mas eu não sei mais para onde ir… Eu tenho memórias suas em todos os cantos do castelo! — O pátio do castelo se desfigurava enquanto Draco tentava conjurar alguma outra memória. Longe dali. O castelo e os estudantes se derreteram em sua memória e foram rapidamente substituídos pela Floresta Proibida. As folhas estavam secas no chão e alaranjadas nas árvores. O sol brilhava no céu, mas o vento estava relativamente frio. Era outono. Provavelmente Draco estava de detenção mais uma vez! Droga!
Não, ele precisava se concentrar! Não era pela detenção que ele estava ali, era por alguma outra coisa… Mas o quê?
Ah, sim!
— Granger! HERMIONE? Você está aí? — Ele andou por entre as árvores, procurando a garota que, em menos de um minuto, materializou-se sentada sobre o chão de folhas secas da floresta com seu antigo uniforme de Hogwarts, olhando ao seu redor como se não entendesse o que estava fazendo ali.
— Malfoy?
— Hermione, eles estão te apagando! A gente precisa focar nisso, tá? — ele falou exasperadamente. — Eu os contratei, ok? Eu os contratei para que apagassem você de mim e eu sinto muito! Eu sou um imbecil!
— Draco, relaxa… — Hermione parecia tranquila demais com aquilo, como se estivesse alheia a tudo o que ele acabara de falar e deu de ombros ao continuar. — Por que a gente não aproveita o dia? Aparentemente já estamos matando aula mesmo.
— A gente precisa fazer alguma coisa para interromper o processo ou então, quando eu acordar, não vou mais me lembrar de você, Granger… — Ele se ajoelhou ao lado dela e segurou seu rosto entre suas mãos.
— Fala para eles pararem, então? — Ela o olhou com aqueles olhos de súplica que sempre conseguiam qualquer coisa com ele.
— Do que você está falando? Não… Eles não podem simplesmente parar porque eu pedi... Eu estou dormindo!
— ACORDE! — Hermione gritou tentando assustá-lo e ele riu sem graça, soltando o rosto dela e passando o dedo entre os cabelos.
— Acho que isso não vai funcionar… Sério, vamos pensar.
— Para começar, por que você está me apagando, Draco?
— Você me apagou primeiro! Nós não estaríamos aqui se você não tivesse decidido me apagar da sua vida antes de termos uma conversa decente!
— Aposto que você me deu um bom motivo… — ela disse baixinho, levantando os ombros e, quando ele a encarou com um olhar de censura, ela continuou: — Tá bem… Me desculpa… Mas você sabe como eu sou… O conflito entre a coragem da Grifinória e racionalidade da Corvinal às vezes é demais para mim e eu acabo fazendo más escolhas…
Os dois suspiraram pesadamente quando a verdade do comentário caiu sobre eles; e seus olhos se encontraram.
— Eu sei… E é isso que eu amo em você, Hermione.


Continua...



Nota da autora: Olá! Como estão? O que acharam do capítulo? Aqui vai algumas notinhas que eu acho que podem ajudar a entender um pouco a história (porque eu sei que é um pouco confuso a linha do tempo de memórias).
Eu já expliquei antes, mas caso alguém esteja começando agora a ler essa fic, ela foi inspirada e totalmente baseada no filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças para o Especial "História de Cinema" de um grupo de escritoras Dramione.
Dito isto, este capítulo é o começo do procedimento do Draco para apagar Hermione de suas memórias. O procedimento começa com a última memória dos dois juntos e vai continuar até a primeira memória dos dois como um casal. A partir das memórias, vamos ter uma ideia de como é o relacionamento dos dois.
Eu sei que Dramione tem uma PÉSSIMA fama, mas gente, não desistam. Meu intuito aqui não é romantizar abusos ou preconceitos. Eu basicamente mudei vários eventos do livro E do filme (porque, sim, o casal do filme definitivamente não está num relacionamento saudável).

Nota da beta:
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Outras Fanfics:
  • Celebrating With Malfoy: Feliz Aniversário
  • Celebrating With Malfoy: Pumpkin Spice
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  • Where The Wild Things Are

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