Capítulo 1: Reconhecimento - Parte 1
À frente, o fim da linha. Thorpe Abbotts. O 100º Grupo de Bombardeio.
A base pertencia a RAF, Força Aérea Real da Inglaterra. Mas agora abrigava homens americanos e suas Fortalezas Voadoras, como eram chamados os B-17: enormes bombardeiros de quatro motores que cruzavam os céus da Europa. Esses homens corajosos e suas máquinas imponentes, tinham uma missão clara: destruir fábricas, ferrovias e a infraestrutura militar alemã. Mas entre eles e os alvos havia um obstáculo difícil de ignorar: a Luftwaffe.
O filho de um general influente, que agora conduzia missões no Mediterraneo, havia sido designado ao 100º Grupo de Bombardeio. O tenente Thomas Patton era um dos melhores atiradores de torre da base.
Três semanas depois da chegada de Thomas à Thorpe Abbotts, sua irmã mais nova também desembarcou ali, a contragosto do pai, e desencorajada pelas autoridades militares, que não viam com bons olhos dois membros da mesma família servindo juntos na mesma base. Por segurança. Ou superstição. Mas ela soube contornar, insistir e por fim usar o peso do próprio nome.
Oficialmente, ajudaria com relatórios. Uma função segura. Civil, técnica, invisível. Mas Patton nunca teve talento para a invisibilidade.
O jipe sacudiu quando saiu da estrada principal e entrou no perímetro da base. As rodas estalaram no cascalho, levantando uma poeira leve que o vento frio empurrava de volta sobre ela.
não pediu ajuda com a mala. Desceu sozinha, o casaco bem ajustado ao corpo e a pasta de couro segura junto ao peito. Olhou ao redor sem pressa.
Homens caminhavam em grupos, apressados entre os hangares e barracões. Alguns riam alto, alguns carregavam equipamentos, outros apenas fumavam. Uma enfermeira cruzou a pista com passos rápidos. Um mecânico limpava as mãos na camiseta manchada de óleo.
Ninguém parou para cumprimentá-la.
Mas todos notaram.
O nome dela já era um peso. O rosto, uma novidade. E o modo como ela olhava para tudo — devagar, como quem escutava o que o silêncio dizia — isso incomodava mais do que qualquer palavra.
O reencontro com Thomas aconteceu perto da torre. Ele descia de um caminhão quando a viu. A reação não foi imediata. Primeiro veio a surpresa, depois a expressão de quem sabia que não adiantava discutir.
— ?
Ela sorriu, discreta. — Você parece surpreso.
— Achei que papai tivesse conseguido te manter longe disso.
— Ele tentou… Todos tentaram. Mas você sabe como isso costuma funcionar comigo.
Thomas se aproximou de vez e a abraçou com força. O tipo de abraço que um irmão dá quando está aliviado, mas também preocupado.
— Isso não é um lugar pra você.
— Eu trouxe papel, não granada.
— Aqui tudo vira estilhaço, .
Ela assentiu. Depois olhou ao redor.
— Me mostra onde eu começo.
O setor administrativo era uma construção estreita, forrada de madeira escura, com teto baixo e cheiro de café requentado. Um lugar feito para funcionar, não para receber.
Thomas abriu a porta com a palma da mão.
— Você pode sentar aqui, por enquanto. Eles vão fingir que não notaram, mas notaram.
Um sargento entrou alguns minutos depois, cumprimentou Thomas, sentou-se, mexeu na gaveta e ignorou por mais alguns minutos.
— Quem é ela? — perguntou, sem se levantar.
— Patton. Veio ajudar com os relatórios.
— Sua irmã, Thomas?
O tentente, que ainda estava encostado na porta, cruzou os braços devagar. — É.
— Espero que você saiba onde está pisando — disse o sargento, agora diretamente para ela.
respondeu com a voz baixa e perfeitamente audível: — Sei onde homens erram, senhor. Lembro do que eles se esquecem.
Thomas pigarreou, talvez para disfarçar o início de um sorriso.
O sargento não achou graça. Mas também não respondeu. Entregou algumas fichas para preencher e depois os dispensou com um gesto de mão.
Thomas guiou a irmã mais uma vez. Os saltos de batiam suavemente no concreto do caminho que se formava entre os hangares. Um som pequeno, quase imperceptível, entre motores e ruídos metálicos. O tenente olhou por cima do ombro, apenas para se certificar de que ela o seguia. Ela seguia. Sempre.
O quartel de comando ficava num prédio simples, com janelas estreitas e mapas da Europa grampeados nas paredes.
Thomas entrou primeiro, bateu continência. com a postura reta, sempre atrás do irmão, sem pressa.
Dois homens estavam à mesa, ambos em jaquetas de oficial.
Um deles se virou de imediato.
— Patton, certo? — disse com um meio sorriso, sem se levantar. — A família vai dominar a base inteira?
— Major Egan — disse Thomas. — Esta é minha irmã. .
Egan assentiu. O olhar passeou por ela com interesse difícil de classificar.
— Então é você o novo peso de papel.
— Pode se dizer que sim, senhor.
— Bom... — ele apoiou os cotovelos na mesa, os olhos azuis vivos — cuide-se, papel também corta.
O outro oficial apenas observava.
— Major Cleven — apresentou Thomas. — Comandante da 350ª.
Gale assentiu com a cabeça, sem levantar da cadeira. — Bem-vinda. — A voz era neutra, mas o olhar era firme.
sustentou o olhar por um segundo a mais que o necessário. — Obrigada, senhor.
— Fique longe dos mecânicos — disse Egan, já voltando aos papéis. — Eles têm a tendência de achar que qualquer mulher veio entregar carta ou pedir atenção.
— Obrigada pelo aviso… Senhor.
Egan sorriu.
Thomas pigarreou. — Podemos ir?
— Claro — disse Cleven. — Boa sorte, senhorita Patton.
apenas assentiu, e seguiu atrás do irmão. Quando a porta se fechou, Egan soltou o ar devagar e inclinou-se na cadeira.
— Filha de general. Aposto quanto tempo dura aqui.
Cleven não ergueu os olhos do mapa.
— Mais que você, se continuar apostando errado.
Egan soltou um riso curto, balançou a cabeça e voltou os olhos para o mapa.
A base pertencia a RAF, Força Aérea Real da Inglaterra. Mas agora abrigava homens americanos e suas Fortalezas Voadoras, como eram chamados os B-17: enormes bombardeiros de quatro motores que cruzavam os céus da Europa. Esses homens corajosos e suas máquinas imponentes, tinham uma missão clara: destruir fábricas, ferrovias e a infraestrutura militar alemã. Mas entre eles e os alvos havia um obstáculo difícil de ignorar: a Luftwaffe.
O filho de um general influente, que agora conduzia missões no Mediterraneo, havia sido designado ao 100º Grupo de Bombardeio. O tenente Thomas Patton era um dos melhores atiradores de torre da base.
Três semanas depois da chegada de Thomas à Thorpe Abbotts, sua irmã mais nova também desembarcou ali, a contragosto do pai, e desencorajada pelas autoridades militares, que não viam com bons olhos dois membros da mesma família servindo juntos na mesma base. Por segurança. Ou superstição. Mas ela soube contornar, insistir e por fim usar o peso do próprio nome.
Oficialmente, ajudaria com relatórios. Uma função segura. Civil, técnica, invisível. Mas Patton nunca teve talento para a invisibilidade.
O jipe sacudiu quando saiu da estrada principal e entrou no perímetro da base. As rodas estalaram no cascalho, levantando uma poeira leve que o vento frio empurrava de volta sobre ela.
não pediu ajuda com a mala. Desceu sozinha, o casaco bem ajustado ao corpo e a pasta de couro segura junto ao peito. Olhou ao redor sem pressa.
Homens caminhavam em grupos, apressados entre os hangares e barracões. Alguns riam alto, alguns carregavam equipamentos, outros apenas fumavam. Uma enfermeira cruzou a pista com passos rápidos. Um mecânico limpava as mãos na camiseta manchada de óleo.
Ninguém parou para cumprimentá-la.
Mas todos notaram.
O nome dela já era um peso. O rosto, uma novidade. E o modo como ela olhava para tudo — devagar, como quem escutava o que o silêncio dizia — isso incomodava mais do que qualquer palavra.
O reencontro com Thomas aconteceu perto da torre. Ele descia de um caminhão quando a viu. A reação não foi imediata. Primeiro veio a surpresa, depois a expressão de quem sabia que não adiantava discutir.
— ?
Ela sorriu, discreta. — Você parece surpreso.
— Achei que papai tivesse conseguido te manter longe disso.
— Ele tentou… Todos tentaram. Mas você sabe como isso costuma funcionar comigo.
Thomas se aproximou de vez e a abraçou com força. O tipo de abraço que um irmão dá quando está aliviado, mas também preocupado.
— Isso não é um lugar pra você.
— Eu trouxe papel, não granada.
— Aqui tudo vira estilhaço, .
Ela assentiu. Depois olhou ao redor.
— Me mostra onde eu começo.
O setor administrativo era uma construção estreita, forrada de madeira escura, com teto baixo e cheiro de café requentado. Um lugar feito para funcionar, não para receber.
Thomas abriu a porta com a palma da mão.
— Você pode sentar aqui, por enquanto. Eles vão fingir que não notaram, mas notaram.
Um sargento entrou alguns minutos depois, cumprimentou Thomas, sentou-se, mexeu na gaveta e ignorou por mais alguns minutos.
— Quem é ela? — perguntou, sem se levantar.
— Patton. Veio ajudar com os relatórios.
— Sua irmã, Thomas?
O tentente, que ainda estava encostado na porta, cruzou os braços devagar. — É.
— Espero que você saiba onde está pisando — disse o sargento, agora diretamente para ela.
respondeu com a voz baixa e perfeitamente audível: — Sei onde homens erram, senhor. Lembro do que eles se esquecem.
Thomas pigarreou, talvez para disfarçar o início de um sorriso.
O sargento não achou graça. Mas também não respondeu. Entregou algumas fichas para preencher e depois os dispensou com um gesto de mão.
Thomas guiou a irmã mais uma vez. Os saltos de batiam suavemente no concreto do caminho que se formava entre os hangares. Um som pequeno, quase imperceptível, entre motores e ruídos metálicos. O tenente olhou por cima do ombro, apenas para se certificar de que ela o seguia. Ela seguia. Sempre.
O quartel de comando ficava num prédio simples, com janelas estreitas e mapas da Europa grampeados nas paredes.
Thomas entrou primeiro, bateu continência. com a postura reta, sempre atrás do irmão, sem pressa.
Dois homens estavam à mesa, ambos em jaquetas de oficial.
Um deles se virou de imediato.
— Patton, certo? — disse com um meio sorriso, sem se levantar. — A família vai dominar a base inteira?
— Major Egan — disse Thomas. — Esta é minha irmã. .
Egan assentiu. O olhar passeou por ela com interesse difícil de classificar.
— Então é você o novo peso de papel.
— Pode se dizer que sim, senhor.
— Bom... — ele apoiou os cotovelos na mesa, os olhos azuis vivos — cuide-se, papel também corta.
O outro oficial apenas observava.
— Major Cleven — apresentou Thomas. — Comandante da 350ª.
Gale assentiu com a cabeça, sem levantar da cadeira. — Bem-vinda. — A voz era neutra, mas o olhar era firme.
sustentou o olhar por um segundo a mais que o necessário. — Obrigada, senhor.
— Fique longe dos mecânicos — disse Egan, já voltando aos papéis. — Eles têm a tendência de achar que qualquer mulher veio entregar carta ou pedir atenção.
— Obrigada pelo aviso… Senhor.
Egan sorriu.
Thomas pigarreou. — Podemos ir?
— Claro — disse Cleven. — Boa sorte, senhorita Patton.
apenas assentiu, e seguiu atrás do irmão. Quando a porta se fechou, Egan soltou o ar devagar e inclinou-se na cadeira.
— Filha de general. Aposto quanto tempo dura aqui.
Cleven não ergueu os olhos do mapa.
— Mais que você, se continuar apostando errado.
Egan soltou um riso curto, balançou a cabeça e voltou os olhos para o mapa.
Capítulo 1: Reconhecimento - Parte 2
O refeitório era um salão comprido cheio de mesas, mas estava meio vazio quando entrou atrás de Thomas. Não era horário oficial de refeições. Ainda assim, havia cheiro de café forte. O olhar silencioso percorreu os rostos cansados dos homens que estavam ali. Alguns conversavam, outros bebericavam em silêncio, e toda vez que afastavam a caneca da boca para engolir, franziam o nariz. Não demorou muito para que eles também erguessem os olhos e a percebessem. E já sabiam quem ela era. Por nome.
Thomas se dirigiu ao balcão da cozinha, e o rapaz do outro lado lhe entregou duas canecas de metal esmaltado.
— Se reclamar do gosto, é considerado traição. — Entregou uma à irmã.
Sentaram-se numa das pontas. de frente pra sala. Thomas do outro lado. Bloqueando parte dos olhares. Até inconscientemente ele tentava protegê-la. Mas não conseguia impedir que ela ouvisse.
O zunido das vozes abafadas preenchia o ambiente. O cheiro do café, misturado com cigarro e madeira, trazia memórias deslocadas: a casa onde cresceu, a voz do pai, o som de botas no corredor, o jornal dobrado sobre a mesa. Ali, tudo cheirava igual. Por um momento, ela se perguntou se cada passo que daria ali seria observado, como se estivesse sempre prestes a errar. Como sempre foi.
Finalmente uma voz se dirigiu a de forma clara.
— Você é real mesmo — um tenente havia parado ao lado da mesa, era baixo e parecia muito vivo para aquele lugar. Tinha um sorriso meio torto, mas sincero. E balançava o corpo para frente e para trás. — Achei que viesse armada de caneta e espada.
O ar lhe escapou pelo nariz. E sem pensar muito ela respondeu:
— Caneta eu sei usar, e muito bem.
O rapaz riu e se sentou sem convite. Passou as mãos no cabelo castanho, alinhando os fios.
— Curtis Biddick. Copiloto.
apenas assentiu, um sorriso leve nos lábios. As maçãs do rosto bem redondas lhe conferiam um ar simpático.
— Achei que você tivesse inventado a irmã. — Curtis agora olhava para Thomas.
— Inventar me daria menos dor de cabeça.
— É mesmo? Então acho melhor buscar um analgésico para você na enfermaria, meu amigo. Pois parece que sua dor de cabeça vai ficar.
levantou os olhos. Encontrou os dele. Havia algo genuíno nele. Uma energia menos quebrada do que a dos outros. Um tipo raro de leveza que não pedia licença, mas também não invadia.
— Bom… E você… — ele pausou, apoiou o cotovelo na mesa. — Veio nos salvar da burocracia?
— Eu farei o que puder. — Respondeu simples.
— Agradeço, senhorita Patton. — Curtis sorriu com um brilho mais vivo nos olhos. Coçou a nuca e continuou: — Mas claro, não fique tanto em cima dos papéis. Você parece que gosta de ficar... na sua.
— De dia, talvez. De noite eu danço com os relatórios em mãos.
O rapaz cobriu a boca com as costas das mãos quando a risada escapou.
— Bom... vamos a eles — ela arregalou os olhos para Curtis, se levantou e alisou o tecido da saia com as duas mãos.
Thomas terminou o café em um gole. A caneca da irmã já estava há muito tempo esquecida em cima da mesa.
O copiloto bateu continência, sem se levantar, e observou os dois se afastando. Depois balançou a cabeça, meio rindo, meio impressionado.
caminhava ao lado do irmão, em silêncio e sem pressa, entre as sombras dos galpões.
— Ele fala muito — disse Thomas, sem alterar o tom.
Ela assentiu, os olhos presos ao chão, os cantos da boca curvados.
— Às vezes, falar é só... existir um pouco.
Dobrando o hangar, encontraram John e Gale novamente. Agora estavam fora do quartel de comando, sentados em pilhas de caixas, os ombros mais relaxados conferindo uma postura quase despreocupada. Egan tinha o cap de oficial mal encaixado na cabeça. Cleven mantinha um cigarro apagado entre os lábios sem apertar, como se não tivesse pressa de acendê-lo.
— Majores. — disse , quando passou em frente a pilha de caixas, a cabeça inclinou levemente como uma reverência sutil.
— Tá fazendo reconhecimento da base ainda ou só dando voltas? — John ergueu a cabeça, um sorriso preguiçoso complementava o ar de descontração.
parou de vez, os dois pés firmes no chão.
— Um pouco dos dois, Major.
— Aproveite o primeiro dia, senhorita Patton. As missões de reconhecimento nem sempre são as mais fáceis, mas são cruciais ao êxito da missão. — Gale tinha a voz abafada pelos lábios que não queriam deixar o cigarro cair.
— Certamente, Major. — assentiu.
O silêncio se estendeu por alguns segundos. Thomas, que até então estava parado ali ao lado como se cumprisse uma obrigação, por fim olhou o relógio.
— Bom, se continuarmos parados, o comandante vai achar que virei guia turístico. Vamos? — ele já estava retomando a caminhada.
partiu junto do irmão sem olhar para trás. Mas John girou o pescoço acompanhando o movimento dela, sem disfarçar.
E Gale, que também observava, mas de um jeito quase desinteressado, voltou os olhos para John quando ouviu a pergunta:
— O que você acha dela, Buck?
Houve uma pausa por um momento, e depois veio a resposta.
— Parece inteligente. Correta.
Egan soltou o ar pelo nariz. — Não foi o que eu perguntei.
— Eu sei, Bucky. — Gale finalmente tirou o cigarro dos lábios e pegou o isqueiro do bolso, sem pressa. Não havia necessidade de explicação.
Thomas se dirigiu ao balcão da cozinha, e o rapaz do outro lado lhe entregou duas canecas de metal esmaltado.
— Se reclamar do gosto, é considerado traição. — Entregou uma à irmã.
Sentaram-se numa das pontas. de frente pra sala. Thomas do outro lado. Bloqueando parte dos olhares. Até inconscientemente ele tentava protegê-la. Mas não conseguia impedir que ela ouvisse.
O zunido das vozes abafadas preenchia o ambiente. O cheiro do café, misturado com cigarro e madeira, trazia memórias deslocadas: a casa onde cresceu, a voz do pai, o som de botas no corredor, o jornal dobrado sobre a mesa. Ali, tudo cheirava igual. Por um momento, ela se perguntou se cada passo que daria ali seria observado, como se estivesse sempre prestes a errar. Como sempre foi.
Finalmente uma voz se dirigiu a de forma clara.
— Você é real mesmo — um tenente havia parado ao lado da mesa, era baixo e parecia muito vivo para aquele lugar. Tinha um sorriso meio torto, mas sincero. E balançava o corpo para frente e para trás. — Achei que viesse armada de caneta e espada.
O ar lhe escapou pelo nariz. E sem pensar muito ela respondeu:
— Caneta eu sei usar, e muito bem.
O rapaz riu e se sentou sem convite. Passou as mãos no cabelo castanho, alinhando os fios.
— Curtis Biddick. Copiloto.
apenas assentiu, um sorriso leve nos lábios. As maçãs do rosto bem redondas lhe conferiam um ar simpático.
— Achei que você tivesse inventado a irmã. — Curtis agora olhava para Thomas.
— Inventar me daria menos dor de cabeça.
— É mesmo? Então acho melhor buscar um analgésico para você na enfermaria, meu amigo. Pois parece que sua dor de cabeça vai ficar.
levantou os olhos. Encontrou os dele. Havia algo genuíno nele. Uma energia menos quebrada do que a dos outros. Um tipo raro de leveza que não pedia licença, mas também não invadia.
— Bom… E você… — ele pausou, apoiou o cotovelo na mesa. — Veio nos salvar da burocracia?
— Eu farei o que puder. — Respondeu simples.
— Agradeço, senhorita Patton. — Curtis sorriu com um brilho mais vivo nos olhos. Coçou a nuca e continuou: — Mas claro, não fique tanto em cima dos papéis. Você parece que gosta de ficar... na sua.
— De dia, talvez. De noite eu danço com os relatórios em mãos.
O rapaz cobriu a boca com as costas das mãos quando a risada escapou.
— Bom... vamos a eles — ela arregalou os olhos para Curtis, se levantou e alisou o tecido da saia com as duas mãos.
Thomas terminou o café em um gole. A caneca da irmã já estava há muito tempo esquecida em cima da mesa.
O copiloto bateu continência, sem se levantar, e observou os dois se afastando. Depois balançou a cabeça, meio rindo, meio impressionado.
caminhava ao lado do irmão, em silêncio e sem pressa, entre as sombras dos galpões.
— Ele fala muito — disse Thomas, sem alterar o tom.
Ela assentiu, os olhos presos ao chão, os cantos da boca curvados.
— Às vezes, falar é só... existir um pouco.
Dobrando o hangar, encontraram John e Gale novamente. Agora estavam fora do quartel de comando, sentados em pilhas de caixas, os ombros mais relaxados conferindo uma postura quase despreocupada. Egan tinha o cap de oficial mal encaixado na cabeça. Cleven mantinha um cigarro apagado entre os lábios sem apertar, como se não tivesse pressa de acendê-lo.
— Majores. — disse , quando passou em frente a pilha de caixas, a cabeça inclinou levemente como uma reverência sutil.
— Tá fazendo reconhecimento da base ainda ou só dando voltas? — John ergueu a cabeça, um sorriso preguiçoso complementava o ar de descontração.
parou de vez, os dois pés firmes no chão.
— Um pouco dos dois, Major.
— Aproveite o primeiro dia, senhorita Patton. As missões de reconhecimento nem sempre são as mais fáceis, mas são cruciais ao êxito da missão. — Gale tinha a voz abafada pelos lábios que não queriam deixar o cigarro cair.
— Certamente, Major. — assentiu.
O silêncio se estendeu por alguns segundos. Thomas, que até então estava parado ali ao lado como se cumprisse uma obrigação, por fim olhou o relógio.
— Bom, se continuarmos parados, o comandante vai achar que virei guia turístico. Vamos? — ele já estava retomando a caminhada.
partiu junto do irmão sem olhar para trás. Mas John girou o pescoço acompanhando o movimento dela, sem disfarçar.
E Gale, que também observava, mas de um jeito quase desinteressado, voltou os olhos para John quando ouviu a pergunta:
— O que você acha dela, Buck?
Houve uma pausa por um momento, e depois veio a resposta.
— Parece inteligente. Correta.
Egan soltou o ar pelo nariz. — Não foi o que eu perguntei.
— Eu sei, Bucky. — Gale finalmente tirou o cigarro dos lábios e pegou o isqueiro do bolso, sem pressa. Não havia necessidade de explicação.
Capítulo 2: Área Hostil
A primeira semana de trabalho corria sem grandes emoções. Patton observou pela porta entreaberta do alojamento mais uma manhã em que o céu parecia tocar o chão, antes de caminhar sozinha até o setor administrativo, a pasta preta colada ao corpo. O frio mordia os dedos, e o vento, sem força suficiente para dissipar a neblina, carregava vozes que vinham de lugar nenhum. Era parte da experiência de estar em Thorpe Abbotts.
O caminho principal do alojamento ao administrativo passava pelo refeitório, mas não houve parada. O compasso dos sapatos seguia constante e firme, ainda assim sujeito ao acaso. No meio da pista, uma figura emergia através da bruma densa: primeiro uma sombra baixa, depois o contorno de patas ágeis. As orelhas apontavam para cima. A língua pendia para o lado na boca aberta. Não latia, apenas corria.
assobiou para chamar a atenção do animal, que desacelerou o passo. Depois abaixou o corpo, estendendo a mão pálida.
— Você também não parece daqui.
O cão farejou um instante e tocou com o focinho molhado a pele gelada dos dedos, que deslizaram gentilmente para o topo da sua cabeça. Já estava entregue, deixou-se acariciar.
— Alguém andou fazendo amizade com o mascote. — A voz já havia se tornado tão familiar, mesmo que em poucos dias, que não precisou virar-se de imediato. Curtis Biddick, não era do tipo misterioso, era simples, com as mãos enfiadas nos bolsos e o sorriso torto. Tão carismático quanto o próprio cão.
— Ele tem nome? — perguntou a jovem, sem se levantar.
— Chamam de Almôndega.
— Almôndega? — Ela ergueu uma sobrancelha.
A resposta veio com um dar de ombros, que dizia algo como “não me pergunte o porquê”. O copiloto curvou a coluna, mas não se abaixou completamente. Passou a mão rápida no pescoço do bicho.
— Você vai pro administrativo?
A senhorita Patton ergueu lentamente o corpo, ajeitou a pasta em uma mão, a outra batia na lateral da saia, em um vem e vai, o que fez com que o tecido ficasse com alguns pêlos claros grudados. A afirmativa veio por fim com um aceno de cabeça.
— E você?
— Tô só circulando. Dizem que o café desce melhor se caminhar depois.
— Dizem muita coisa por aqui.
O sorriso veio fácil, tanto para um quanto para o outro. E em seguida a despedida também. seguiu pela pista. Almôndega a acompanhou até metade do caminho, depois desviou para o lado do hangar, farejando um novo cheiro.
Ao entrar, ninguém a cumprimentou. Já havia papéis sobre a mesa curta. Os relatórios estavam classificados da seguinte maneira: controle de medicações, suprimentos, voos de reconhecimento, interrogatórios de missões e por fim, as baixas. deslizou rapidamente os dedos sobre aquele último documento, sem coragem de realmente lê-lo, e o enfiou para baixo da pilha. Dedicou-se primeiro ao que era simples e mecânico. Corrigiu algumas datas, números de protocolo e funções.
O sargento não erguia os olhos para a nova auxiliar, apenas estendia com a mão, que segurava o cigarro, mais e mais papéis. Sem explicação. Ela sentiu-se aliviada, no meio da tarde, quando precisou ir a enfermaria para conferir os frascos de penicilina. Fora isso, o dia passava entre caneta e máquina de escrever.
A luz já entrava mais fraca pela janela quando a porta do administrativo abriu de súbito. Não foi um rompante, era mais uma pressa desajeitada, de quem já vive correndo contra o tempo.
— Tô procurando os mapas de altitude. Acho que vieram parar aqui por engano.
ergueu os olhos. Viu um homem magro, nariz ligeiramente torto, costas curvadas e a mão nervosa segurando a maçaneta.
— Harry Crosby — disse ele, antes que ela perguntasse. — Navegador.
— Os mapas estão aqui — respondeu, levantando parcialmente da cadeira. — Mas estavam com marcações incorretas. Corrigi as áreas de flak. Cuidado com o norte de Frankfurt. A concentração mudou desde o último reconhecimento.
Ele se aproximou, pegou os papéis. De início, o cenho franzido. Leu devagar, analisou os mapas e os novos pontos. Depois levantou os olhos, a testa suavizou, a voz veio simples:
— Isso... ajuda. Muito. — O navegador não tinha nenhum espanto no olhar, nem julgamento. Ele apenas aceitou a ajuda. — Obrigado. — Disse por pura educação. E saiu.
Aquele simples “obrigado” pela primeira vez, após um dia inteiro de trabalho silencioso e olhares que a evitavam, soou como reconhecimento.
Mas a hostilidade ainda permanecia ali. No alojamento masculino, naquela noite, a conversa corria entre vozes abafadas e risos baixos. Não diziam seu nome. Preferiam chamá-la de: “a filha do general”, “a irmã de Thomas”. Comentavam da postura, do modo como ela andava e dos lábios que haviam visto sorrir vez ou outra.
— Ela se acha importante demais. — Bufou um rapaz. — “Olhem para mim, eu sou a senhorita filha do General” — Imitava uma voz feminina, fina, como todo homem pouco inteligente faz quando tenta tornar o sexo oposto uma chacota.
Outro respondeu que não importava - pelo menos era algo bonito para se olhar em meio a tudo aquilo. E teve apoio imediato, de homens que seguiram falando sobre lábios e pernas.
Gale Cleven havia entrado há alguns segundos, sem ser notado, como de costume. Em silêncio e sem pressa, largou o casaco dobrado sobre a cama. Ouviu um pouco e já foi o bastante.
— Algum de vocês fez os relatórios de suprimento da base? — O Major surgiu por detrás de uma cortina que separava as camas.
Os cochichos e os sorrisinhos se dissiparam no ar. Silêncio por um instante.
— Não? — O olhar firme percorreu os rostos: alguns com claro incômodo, outros com medo puro. — Então talvez o mais inteligente seja agradecer quem fez.
Não houve resposta. Os olhos desviaram de Gale. Evitavam até mesmo os próprios colegas, e vagavam pelo chão ou teto, como se buscassem alguma rachadura que lhes escondesse a vergonha.
O caminho principal do alojamento ao administrativo passava pelo refeitório, mas não houve parada. O compasso dos sapatos seguia constante e firme, ainda assim sujeito ao acaso. No meio da pista, uma figura emergia através da bruma densa: primeiro uma sombra baixa, depois o contorno de patas ágeis. As orelhas apontavam para cima. A língua pendia para o lado na boca aberta. Não latia, apenas corria.
assobiou para chamar a atenção do animal, que desacelerou o passo. Depois abaixou o corpo, estendendo a mão pálida.
— Você também não parece daqui.
O cão farejou um instante e tocou com o focinho molhado a pele gelada dos dedos, que deslizaram gentilmente para o topo da sua cabeça. Já estava entregue, deixou-se acariciar.
— Alguém andou fazendo amizade com o mascote. — A voz já havia se tornado tão familiar, mesmo que em poucos dias, que não precisou virar-se de imediato. Curtis Biddick, não era do tipo misterioso, era simples, com as mãos enfiadas nos bolsos e o sorriso torto. Tão carismático quanto o próprio cão.
— Ele tem nome? — perguntou a jovem, sem se levantar.
— Chamam de Almôndega.
— Almôndega? — Ela ergueu uma sobrancelha.
A resposta veio com um dar de ombros, que dizia algo como “não me pergunte o porquê”. O copiloto curvou a coluna, mas não se abaixou completamente. Passou a mão rápida no pescoço do bicho.
— Você vai pro administrativo?
A senhorita Patton ergueu lentamente o corpo, ajeitou a pasta em uma mão, a outra batia na lateral da saia, em um vem e vai, o que fez com que o tecido ficasse com alguns pêlos claros grudados. A afirmativa veio por fim com um aceno de cabeça.
— E você?
— Tô só circulando. Dizem que o café desce melhor se caminhar depois.
— Dizem muita coisa por aqui.
O sorriso veio fácil, tanto para um quanto para o outro. E em seguida a despedida também. seguiu pela pista. Almôndega a acompanhou até metade do caminho, depois desviou para o lado do hangar, farejando um novo cheiro.
Ao entrar, ninguém a cumprimentou. Já havia papéis sobre a mesa curta. Os relatórios estavam classificados da seguinte maneira: controle de medicações, suprimentos, voos de reconhecimento, interrogatórios de missões e por fim, as baixas. deslizou rapidamente os dedos sobre aquele último documento, sem coragem de realmente lê-lo, e o enfiou para baixo da pilha. Dedicou-se primeiro ao que era simples e mecânico. Corrigiu algumas datas, números de protocolo e funções.
O sargento não erguia os olhos para a nova auxiliar, apenas estendia com a mão, que segurava o cigarro, mais e mais papéis. Sem explicação. Ela sentiu-se aliviada, no meio da tarde, quando precisou ir a enfermaria para conferir os frascos de penicilina. Fora isso, o dia passava entre caneta e máquina de escrever.
A luz já entrava mais fraca pela janela quando a porta do administrativo abriu de súbito. Não foi um rompante, era mais uma pressa desajeitada, de quem já vive correndo contra o tempo.
— Tô procurando os mapas de altitude. Acho que vieram parar aqui por engano.
ergueu os olhos. Viu um homem magro, nariz ligeiramente torto, costas curvadas e a mão nervosa segurando a maçaneta.
— Harry Crosby — disse ele, antes que ela perguntasse. — Navegador.
— Os mapas estão aqui — respondeu, levantando parcialmente da cadeira. — Mas estavam com marcações incorretas. Corrigi as áreas de flak. Cuidado com o norte de Frankfurt. A concentração mudou desde o último reconhecimento.
Ele se aproximou, pegou os papéis. De início, o cenho franzido. Leu devagar, analisou os mapas e os novos pontos. Depois levantou os olhos, a testa suavizou, a voz veio simples:
— Isso... ajuda. Muito. — O navegador não tinha nenhum espanto no olhar, nem julgamento. Ele apenas aceitou a ajuda. — Obrigado. — Disse por pura educação. E saiu.
Aquele simples “obrigado” pela primeira vez, após um dia inteiro de trabalho silencioso e olhares que a evitavam, soou como reconhecimento.
Mas a hostilidade ainda permanecia ali. No alojamento masculino, naquela noite, a conversa corria entre vozes abafadas e risos baixos. Não diziam seu nome. Preferiam chamá-la de: “a filha do general”, “a irmã de Thomas”. Comentavam da postura, do modo como ela andava e dos lábios que haviam visto sorrir vez ou outra.
— Ela se acha importante demais. — Bufou um rapaz. — “Olhem para mim, eu sou a senhorita filha do General” — Imitava uma voz feminina, fina, como todo homem pouco inteligente faz quando tenta tornar o sexo oposto uma chacota.
Outro respondeu que não importava - pelo menos era algo bonito para se olhar em meio a tudo aquilo. E teve apoio imediato, de homens que seguiram falando sobre lábios e pernas.
Gale Cleven havia entrado há alguns segundos, sem ser notado, como de costume. Em silêncio e sem pressa, largou o casaco dobrado sobre a cama. Ouviu um pouco e já foi o bastante.
— Algum de vocês fez os relatórios de suprimento da base? — O Major surgiu por detrás de uma cortina que separava as camas.
Os cochichos e os sorrisinhos se dissiparam no ar. Silêncio por um instante.
— Não? — O olhar firme percorreu os rostos: alguns com claro incômodo, outros com medo puro. — Então talvez o mais inteligente seja agradecer quem fez.
Não houve resposta. Os olhos desviaram de Gale. Evitavam até mesmo os próprios colegas, e vagavam pelo chão ou teto, como se buscassem alguma rachadura que lhes escondesse a vergonha.
Continua...
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