Última atualização: 17/02/2021

1.

— E então o lobo assoprou, assoprou, assoprou e…
— GEEEOOORGEEEE!

O grito da senhora robusta imediatamente interrompeu a contação de história de . Tanto a mulher mais velha quanto as crianças que a ouviam soltaram um suspiro assustado ao ouvir o grito, e como um ratinho astuto, o pequeno George passou correndo e gargalhando pelo corredor. , a dedicada professora que se voluntariava ali no orfanato três vezes na semana para contar histórias às crianças, arregalou os olhos e correu à porta da sala que estava.

— George querido! Volte aqui! – gritou para o garotinho que veloz dobrou o corredor.
— GEORGEEE! VOCÊ VAI TER O MAIOR CASTIGO DA SUA VIDA!

A senhora Helga corria desajeitada em seus sapatinhos apertados, os cabelos despenteados e as gordas bochechas avermelhadas.

— Senhora Helga! – a chamou, mas a velhota ignorou e continuou sua perseguição ao pestinha.

voltou para a sala onde as crianças comportadas ainda encaravam a cena. A professora sorriu sem graça e logo tornou a atenção das crianças para si e para a história que contava.
Alguns minutos depois as crianças já sabiam o que o lobo mau havia feito, e quem havia se dado bem entre os porquinhos. dispensou as crianças para suas brincadeiras ao pátio, e então pôde observar a senhora Helga puxando George pelas orelhas ao longo do caminho até o interior do orfanato. O menino gritava pirracento e angustiava-se de vê-lo ser arrastado daquela forma.

— Sua velhota gorda e rabugenta! Me solta! Me solta!
— Eu farei a sopa da noite com a sua língua apimentada George!
— ARRRGH SOCORRO! – o garoto gritava enquanto tentava se livrar do aperto em sua orelha.
— Senhora Helga! Por favor! – aproximou-se segurando a mão da mais velha para que soltasse a orelha do menino e conseguiu.

George se aninhou atrás da professora e a mais velha encarou de frente à mulher jovem. Ela sabia que estava certa, mas George não podia ser educado apenas no amor.

! Este menino precisa de castigo! Todos os dias ele apronta algo terrível neste orfanato e é uma péssima influência para essas crianças! Sem falar no péssimo linguajar que eu nem mesmo sei como ele vem aprendendo!

A professorinha encarou ao menino de rabo de olho e uma expressão nada satisfeita.

— Senhora Helga, permita-me falar com ele!
— Hunf… Isso não o livrará do castigo George! Leve ele à minha sala depois! – a mais velha apontou um dedo na direção do menino e bufando saiu dali tentando se recompor.

George saiu de trás da professora dando língua à velha que não o veria. o encarou insatisfeita e ele abaixou a cabeça envergonhado. A professora abaixou-se abraçando aos próprios joelhos e encarou ao menino nos olhos, George sentou-se no chão de pernas cruzadas.

— George, assim fica difícil eu te defender! Você precisa se tornar um menino mais comportado!
— Ela é uma velha chata, tia !
— George! Já falamos sobre isso! Estou chateadíssima pelo seu comportamento! Xingando aos mais velhos, rabiscando paredes, brigando com os outros meninos, e… e… – a voz repreendida deu lugar a um suspiro e uma voz doce: — são tantas as reclamações sobre você George…. Por que faz isso?

O garoto olhou para os próprios pés. Havia revolta em todo seu gestual e seus olhos cintilavam raiva.

— Eu odeio este lugar… – respondeu baixinho o suficiente para ouvir.
— George, infelizmente não podemos dizer quando e se um dia você será adotado, mas certamente se comportar assim não é a melhor maneira de sobreviver a isso aqui.
— Por que eu não posso ir embora como você ?

A mulher suspirou. Compreendia as ansiedades e anseios do menino, mas não podia fazer nada que o fizesse sentir-se melhor, porque o que George queria ela também quis. O que aquele menino queria todas as outras crianças ali também queriam. E assim como não teve, eles também não poderiam saber se teriam. E por isso, a mulher que também foi órfã daquele orfanato compensava a carência das crianças como podia: dedicando tempo e amor a elas, mesmo que sua vida não fosse um mar de felicidade depois de sair dali.

— Porque eu só pude sair aos dezoito anos George, e não foi tão fácil como você pensa! Você também só poderá sair daqui a oito anos, se não for adotado, é claro.
— Eu vou embora antes disso!
— Ei! – tocou o rosto dele para encararem os olhos um do outro: — Você está pensando em fugir?

Ele se manteve em silêncio e levantou-se batendo as roupas para tirar a poeira e também se levantou o observando.

— George! – ela segurou a mão dele antes que ele saísse andando: — Fugir é pior, é perigoso! Eu já tentei e não quero que você faça isso!
— Relaxa tia , eu não vou fugir.

O menino murmurou e saiu cabisbaixo à frente. arqueou as sobrancelhas o observando e guiou-se com ele até a sala da senhora Helga. Lá, George recebeu o castigo: ajudar as freiras a lavar a louça da semana na cozinha.
pegou sua bolsa, sua bicicleta velha e depois de se despedir de todos saiu pelo portão. As crianças do pátio gritavam e acenavam para ela:

— Até depois, tia !

E ela sorria e acenava de volta. No caminho para sua casa, pensava em George e em como poderia ajudá-lo. Mas, não tendo condições de tirar o menino dali, ela precisava convencê-lo a ficar. Então se lembrou de um lugar, que há anos quando ainda tinha a idade de George e em sua primeira fuga, ela foi parar. Pedalou até o beco da ala oeste da cidade, e parando ali observou. Não havia ninguém.
Aquele beco era lugar onde alguns caras mal encarados "convenciam" as crianças a roubar para eles. quase caiu naquela falsa promessa de casa e família amorosa, que o homem mais velho de sua época ofereceu-a no orfanato. Temia que o mesmo tivesse acontecido com o George, mas o beco não tinha sinais de ser um covil há algum tempo. constatou na vizinhança próxima ali, que realmente há muito tempo aquele bando havia sido preso.

E mesmo assim, ainda havia um incômodo em seu coração.

Quando chegou em sua quitinete no prédio velho, e no último andar, viu a pilha de cartas abaixo da porta assim que a destrancou. Contas, contas e mais contas. Desempregada há três meses, o que ganhava não era suficiente para nada, nem quando tinha emprego, agora tudo piorava. Pegou todas as cartas no chão e deixou-as em cima de um mesinha em seguida pegou a bicicleta no corredor e entrou com ela deixando-a no canto de sempre. Retirou sua bolsa do corpo e jogou sobre a cama. A cesta de vime ao qual levava seus bolos para vender, ela retirou da bike e pegou o forro interno para lavar.
Tomou um banho, lavou o forro e o colocou no varalzinho de chão, e sentou-se à mesa para verificar as contas. Entre elas, uma ordem de despejo e um aviso de corte do serviço de água. Suspirou e jogou a cabeça para trás. Não iria chorar porque aquilo nada adiantava. Pegou sua bolsa para retirar o dinheiro de vendas do dia, contou e separou entre as despesas que teria. Não adiantava muito. Sem desanimar, voltou à sua cozinha e começou a pegar o material para fazer mais e mais bolos antes que a água fosse cortada de vez.

No dia seguinte iria vender tudo! E só voltaria à noite, após rodar a cidade atrás de trabalho, de novo.


Continua...



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