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Prólogo

"I always thought this heart was made of steel and bulletproof..." Ouça: (Jack Daniels - Eric Church)


Tantas coisas acontecem em nossas vidas, e de repente nos vemos perdidos e incrédulos. Perdidos, por sentir as mãos atadas, sem noção do rumo a se tomar. Incrédulos, por olhar à nossa volta e enxergar turvo. Então surgem perguntas como: “Como isso foi acontecer?”, “Quando eu deixei que as coisas caminhassem para isso?”, “E agora, que decisão tomar?”.
É tão comum passar por essas pegadinhas da vida! Mais comum do que andar para frente, mas, nós nunca estamos verdadeiramente preparados para estes baques.
Para cada pessoa há um caso diferente que pesa o tamanho do problema. Mas, também é bem possível que as mesmas situações se repitam em pessoas distintas e tomem soluções iguais. Ou diferentes. Ou solução nenhuma.
Eu estava bastante confusa com os últimos acontecimentos. E pensava neles enquanto o ônibus seguia estrada à fora. Eu, , a inabalável. Aquela que todos olhavam com admiração por empenhar-se em tudo o que acreditava. Quem diria, que a delegada de vinte e cinco anos, tão nova para algumas pessoas, teria preocupações, como diria papai: “de gente grande”.
Eu morava sozinha no centro de São Paulo há algum tempo. Meu pai era delegado e, dele herdei o amor à profissão. Minha mãe foi professora, e ambos estão falecidos há um ano.
Tudo caminhava lentamente, porém de uma forma saudável, até recentemente. Para não dar muitos rodeios iniciemos do fato principal: o mundo caindo na minha cabeça.
Recebi na última semana uma carta de uma parenta distante. Uma tia de Minas Gerais, irmã de meu pai. Na carta ela avisava que estava vindo me visitar. E assim foi. Muitos abraços e beijinhos ao nos reencontrar e todos aqueles rituais de “vamos colocar as fofocas em dia”, porém minha tia não veio a passeio, somente. Conversas iam, conversas vinham e descobri que meus pais não eram biologicamente os meus pais, e consequentemente ela também não era minha tia. E notícia ou vestígio algum existia, sobre os meus pais biológicos.

Flashback

— Como assim, adotada?
— Desculpe querida, eu deveria tê-la dito isso antes. Afinal, fazem dois anos que eles faleceram.... Mas, eu não sabia como surgir depois de anos sem lhe ver e contar algo assim...
— Mas, por que eles nunca disseram nada, titia?
— Seus pais não te viam como uma filha adotada. Para eles, você sempre foi filha e ponto. Mas, eu compreendo que é importante que você saiba.
— Céus.... Não bastando as últimas confusões...
— O que está acontecendo, querida?
— Eu fui vítima de uma armação corrupta de colegas de trabalho e estou respondendo a um inquérito judicial. Minha carreira está praticamente morta. Minha casa também não é minha, titia. Desde que a loquei eu pago os impostos, e isso desde que papai faleceu.
— E a antiga casa de seus pais?
— Eu tive que vender, tia. Na época eu ainda estudava, e não tinha como pagar o tratamento da mamãe. Papai gastou muito com aquilo, e depois que ele faleceu, eu tive que me virar. Infelizmente, mamãe não resistiu e eu precisei pagar a conta do Instituto.
— Mas, não sobrou dinheiro algum daquela casa?
— Sobrou, claro. Mas, está guardado. Eu pretendia juntar um pouco mais, e comprar uma casa própria. Não mexo naquele dinheiro, e graças a Deus eu consegui poupar e tenho uma boa reserva, mas, não queria ter que mexer nela... Afinal, agora mais do que nunca, eu não sei mais quando e quanto vou poder repor do dinheiro que eu tirar.
— Céus ! Por que não me disse antes?
— Ah titia, nós não temos contato, não é?
— É verdade.... Eu deveria ter sido mais presente, me desculpe por isso.
— Não há o que desculpar.
— Mas, , por que está preocupada com o aluguel? Está atrasado? Você precisa de ajuda para pagá-lo?
— Não. É que terei de entregar a casa.

Fim do Flashback.

Se não fosse pela infelicidade do proprietário falecer, talvez eu ainda estivesse por lá lidando com todos os meus problemas, descontroladamente sim, porém em meu próprio teto.
Após a minha descoberta da ilegitimidade paterna, tia Laura mantinha contato frequente. Não sei se por culpa, por zelo, ou apenas por solidariedade, mas também, não fazia diferença. Eu não a culpava. Ela era apenas a tia e não tinha obrigações de sinceridade sobre um assunto que meus falecidos pais deveriam ter esclarecido. No entanto, seus desvelos foram acolhedores e nos tornamos mais próximas. Assim, como ela fazia questão, o parentesco entre nós continuava.
Ao saber de toda minha desolação ela me convidara para morar com ela no interior de Minas. Eu não poderia ir, mas também, não tinha como ficar. Eu “gozava” de ser uma sem-teto no momento. A única saída era apelar para a estadia de titia, e tomar providências e justificativas perante à lei para que o mais rápido possível, eu reconquistasse o controle da minha vida.
Então, lá estava eu, dentro do ônibus que acabara de pegar em Belo Horizonte, após desembarcar no aeroporto de Confins, e seguindo para uma fazenda inóspita. Não tenho nada contra fazendas, mas, nunca fui uma garota do campo. Eu sou um desastre com atividades de cultura rural.
A minha vida deu um nó. Virou de ponta cabeça e só me restavam fortes desafios. Eu me felicitava de uma única coisa: eu poderia estar completamente sozinha nos problemas e na vida, mas, a tia Laura generosamente fora solícita e embora eu não soubesse se havia motivos escondidos para isso, ou até quando seria assim, eu era muito grata a ela. Logicamente, meu “passeio” à casa dela seria provisório. Eu daria um jeito logo, nunca gostei de ser um incômodo para ninguém.


Capítulo 1 - A Chegada

"Maybe something new is what you're needing" Ouça: (For the First Time - Darius Rucker)


O ônibus chegou à rodoviária pacata de apenas quatro plataformas, ao fim da tarde. Ela já me esperava lá. Pareceu-me muito diferente e mais saudável do que quando fora à minha casa em São Paulo. Ares de interior fazem isso. Os cabelos presos em coque, com um vestido floral que batia à altura das canelas, despojado e confortável. Um casaco de lã grosso, pois fazia bastante frio. E nisso eu acabei pecando. Logo eu, uma paulista da garoa! Achei muito singelo o chinelinho “vovó” que titia usava, com meias pretas. Bem típico.
Peguei a minha bagagem, pouca, duas malas apenas. Caminhei em direção a ela que me estendia os braços cristãmente apoderando-se de um largo sorriso mineiro. Abraçou-me forte.
— Bem-vinda querida.
— Muito obrigada dona Laura.
— Dona? Não sou dona de nada! Me chame de tia, por favor. – ralhou comigo como se eu fosse uma criança.
— Certo. Tia.
— Você está tão abatida, !
Seus olhos exageradamente azuis denunciavam o reflexo de uma face sem cor, abatida e frustrada.
— Não tem sido muito fácil. – eu disse sem humor.
— As coisas vão se ajeitar. Confie em Deus. Quero que se sinta bem aqui. Agora vamos! Não repare o carro.
Eu sorri. O carro era uma picape Ford F-100, ano sessenta e cinco na cor preta. Conservada. Eu gostei. A tia, uma senhora de cinquenta e três anos dirige como uma tartaruguinha, mas, muito bem até. Fomos conversando e eu fiquei bem mais cansada pela vagareza e o trepidar da estrada de cascalhos. Ela falou-me: “Não é longe, eu que sou um pouquinho devagar, mas também, para quê pressa? ”; e riu complementando com: “Meu filho não gosta nada, que eu pegue um volante. Um bobo”.
Por não termos muito contato ao longo de nossas vidas, eu não sabia nada da titia. Se ela era viúva, casada, desquitada, se tinha ou não filhos e filhas, netos, bisnetos… Suas visitas em toda a minha vida foram três, e bem rápidas. A primeira quando eu tinha oito anos, a segunda quando eu era uma rebelde de quinze anos e a terceira, recentemente em minha casa.
De tudo o que conversávamos, ela me falava sobre a filha mais velha e a neta. Contava-me ardilosa, as aventuras da netinha de sete anos e vagamente, sobre os planos futuros da filha de trinta. Dizia que nos daríamos muito bem, mas, nada comentava sobre o tal filho.
Ao chegarmos ela pediu sorrindo para eu abrir a porteira.
“Cuidado com a lama”, ela advertiu assim que eu abri a porta. Meus tênis sofreriam com a visão que tive. Desci e fui andando sem perceber o lugar, não por desinteresse, mas, por possuir uma mente cheia de preocupações aleatórias e descompromissada com as novidades daquele lar.
Olhei à frente e a fachada do casarão antigo era bem bonita. Era bem simples também. “Puxe essa alavanquinha”, disse-me a tia ao perceber minha total falta de intimidade com a porteira. Eu ri discreta do sotaque que soava muito bonitinho. Empurrei a porteira rústica um pouco pesada e as galinhas que estavam soltas no quintal corriam loucas e desnorteadas, assim como outros animais pequenos. Um cachorro franzino com olhos preguiçosos de esguelha, eriçou as orelhas caídas, em pontudas, ao ver que a velhota adentrava com o carro.
Assim que tia Laura desceu, o canino correu espevitado até ela latindo alegre. Era mansinho, pois, nem mesmo se aproximou de mim. Fechei a porteira e já próxima ao carro peguei as malas. Avistei uma garotinha e uma mulher, ambas lindas, recém-chegadas à varanda nos esperando. Titia ao lado delas. Olhavam-me curiosas. Supus ser a neta com a mãe, a filha da titia.
— Rosa, , esta é a . – titia apresentou-nos.
Rosa, a filha, me abraçou muito simpática desejando-me boas-vindas. , a garotinha, me olhava tímida.
, não vai cumprimentar a ? Rosa disse sorrindo para a menininha. A pequena olhou-me, fez “sim” com a cabeça e veio até mim apertando a boneca em seus braços.
— Oi. – eu disse.
— Oi.
— Gostei muito do seu vestido. – falei abaixando-me para ela e sorrindo.
— Você é muito bonita. – ela falou com os olhinhos redondos de jabuticaba, brilhando.
— Ora, obrigada. Você é muito linda. Parece uma bonequinha! – eu sorri acariciando o rostinho dela.
Assim que mencionei levantar, ela me abraçou e me puxou pela mão para dentro da casa.
— Você está gelada! Lá dentro tem uma fogueirinha. Vamos!
Olhei para titia e para Rosa que sorriam satisfeitas nos seguindo. Tirei os sapatos sujos antes de entrar e titia mais do que rapidamente, quase como um vulto, pegou-os de minha mão entrando pelos cômodos.
A sala era tão aconchegante! Colchas de fuxico cobriam os sofás e poltronas. Havia cortinas longas e brancas nas janelas, um enorme tapete que cobria parte da sala onde se encontravam os sofás e no meio do tapete uma mesinha de centro rústica feita à mão. Pequenos artefatos artesanais e outras mobílias espalhavam-se na casa. Um pilão de madeira enfeitava o canto da sala próximo à janela.
Eu não pude deixar de rir quando vi sentada, com a boneca no colo, sorrindo para mim e batendo com a mãozinha no chão ao seu lado. A fogueirinha na qual ela se referia, era uma lareira.
— Vem, senta aqui comigo. Você vai acabar, ficando tossinha.
— Ficando tossinha? – eu perguntei.
— O pai dela a chama assim quando ela fica resfriada. – Rosa falou e nós duas rimos.
Titia retornou à sala com o café que Rosa tinha preparado antes de chegarmos e alguns biscoitos caseiros em uma tigelinha.
— Coma querida, depois você sobe, toma um banho, e descansa.
Ela colocou a bandeja perto da garotinha na lareira.
— Rosa chame o seu irmão, por favor.
E Rosa saiu. Titia ficou cheia de dedos após isso:
, gostaria de pedir desculpas a você por qualquer coisa que possa dizer. Eu gostaria de tê-la dito antes, mas talvez você não viesse…
— O que foi?
— Ele é um pouco difícil, sabe… Turrão, teimoso. E está um pouco desconfortável por recebermos uma nova moradora, desconhecida para ele. Mas, assim que vocês se conhecerem melhor vão se dar muito bem.
Ótimo, como se não bastasse todo o peso de me sentir como um estorvo, eu realmente era incômodo para alguém.
— Tudo bem, tia. Compreendo.
Eu não poderia dizer outra coisa, poderia?
A comia gostosamente os biscoitos e advertiu-me que, se eu não os comesse ficaria fraquinha. Fazia caretas dizendo também que estavam deliciosos. Eu sorri. Muito amável, a pequenina.
Assim que me levantei levando as xícaras à cozinha, titia me advertiu que não era para lavá-las, pois, eu estava muito cansada. Argumentei contra, mas, aquela senhora é muito boa com seus argumentos. Eu via que teria de praticar os meus.
Segui pelo corredor que ligava sala e cozinha avistando de relance, a correr até a porta de entrada. Ao chegar à sala avistei o homem, que supus ser . Ele também me viu e colocou a garotinha no chão desfazendo a cara feliz por uma feição desprezível. Rosa falou algo em tom baixo no ouvido dele, e passando por mim ela sorriu. Fiquei imóvel encarando-os.
, esta é a . – Rosa disse nos olhando, curiosa: — Vou até a cozinha chamar mamãe.
— Boa tarde. Ou melhor, boa noite.
Ele pronunciou sem olhar para mim, apenas colocando seu chapéu em um suporte atrás da imensa porta dupla do casarão.
— Boa noite. – respondi.
Titia chegou e sorriu para nós. Percebi o olhar apreensivo dela para o homem. brincava com seus brinquedos perto da lareira.
— Boa noite filho, já cumprimentou a ?
— Sim. – respondeu ele, me olhando de cima a baixo, indiferente.
— Ela é muito bonita. – dizia olhando para mim e sorrindo tímida.
— Você que é, boneca. – eu dei-lhe uma piscadela com um largo sorriso. — Tia, eu gostaria de me repousar e tomar um banho se for possível.
— Claro, minha querida. O penúltimo quarto à esquerda, no corredor superior é o seu. O banheiro fica na última porta de frente ao corredor.
— Obrigada. Se todos me dão licença…
Eu disse pegando minhas malas à beirada das escadas. olhava-me de soslaio.
ajude-a com as malas, por favor. – disse titia.
— Ah não precisa, obrigada.
Eu sorri para ele que me ignorou completamente. Tirou as bagagens das minhas mãos e subiu. Segui pelas escadas, calada e com olhos espantados.
Ele seguiu em silêncio abrindo a porta do “meu” quarto. Entrou e deixou as malas ao pé da cama. Eu não entrei.
— O banheiro é ali. – disse ele apontando a porta próxima à minha, porém de frente para o corredor.
— Obrigada, desculpe por incomodá-lo.
Minha frase soou um pouco arrogante. E entendo que a intrusa de fato, sou eu. Mas eu não tenho um gênio muito fácil e acho que não vai ser muito agradável conviver com . Se Deus quiser, será tudo provisório.
Ele saiu me encarando sobre os ombros. Tentei não dar tanta importância àquilo e fui descansar. Meu quarto era simples e agradável. Um guarda-roupa antigo com espelho, uma escrivaninha em um canto, tapete no meio, criado-mudo ao lado da cama, acima dela uma janela e ao lado uma sacadinha pequena e florida com longas cortinas em tom verde-claro e porta em esquadria de madeira com vidraças.
Rosa me chamou mais tarde para o jantar, porém eu dormia. Estava exausta dos problemas, da viagem e chateada por uma recepção grosseira de , mas, confortável por ter sido bem recebida pelas mulheres da casa. Afinal era só manter distância dele, que um não pisaria no calo do outro.


Capítulo 2 - Conhecendo o Novo Lar

"When you hear somebody say somebody hits like a girl. How does that hit you?" Ouça: (Female - Keith Urban)


O Sol incidia fraco pela janela. Abri os olhos calmamente e percebi quão cedo era. Levantei indo ao banheiro fazendo o mínimo de barulho e escovei os dentes, em seguida tomei um banho. Para meu espanto geladíssimo. Batia o queixo ao sair do chuveiro. Ao voltar para o meu quarto, puxei um agasalho e vesti meias.
Abri a janela e a portinha da sacada. Assisti ao nascer do sol ali, uma vista linda! Eu podia ver um casarão azul desbotado, algo parecido com um celeiro e um vasto campo verde. Montanhas ao fundo desenhavam o horizonte como um quadro. Não eram montanhas muito longínquas.
saía do celeiro naquele momento, e tentei não deixar aquela figura junto a lembrança da noite anterior estragarem o meu dia. Dei as costas para a sacada e desci. Ao chegar ao térreo, nenhum movimento. Fui timidamente andando até a cozinha e como o cômodo ainda dormia, eu resolvi preparar o café.
Procurei sem o menor vestígio de intimidade: o bule, o coador, o pó de café e outros utensílios. Um pedaço pequeno de bolo estava sobre a mesa. Bolo que sobrara. Havia biscoitos caseiros no pote, mas, da forma que vi a pequenina comê-los no dia anterior, supus não terem sobrado muito mais do que aqueles que estavam ali. Então procurei ingredientes para preparar outro bolo. Encontrei fubá, queijo e erva-doce. Então assim seria: bolo de fubá cremoso com queijo. Enquanto a água fervia e o forno a lenha aquecia, eu batia a mistura homogênea.
Acima da pia avistei um relógio engraçadinho. O rosto de uma vaquinha com os números e ponteiros que marcavam seis da manhã. Eu deveria ter acordado aproximadamente às cinco horas. Não é o meu horário habitual, mas também, nem tão mais cedo do que isso. Untei o tabuleiro que com muito vira e revira encontrei. O forno a lenha preaquecido já pegava brasa. Passei o café e, o tabuleiro já estava no forno. Aumentei a lenha a fim de que as chamas subissem e rapidamente o bolo assasse.
Com uma canequinha de barro – dessas dos tempos de vovó – servi meu café. Fui até a varanda da frente, e por um instante o meu mundo conturbado e de ponta-cabeça desaparecera. Que linda paisagem eu avistara! Um horizonte alaranjado, a enorme bola de fogo solar suspendendo no céu, as galinhas cacarejando pelo quintal como se louvassem aquele amanhecer. Canelinha, o cãozinho franzino da casa, era a imagem da preguiça. Deitado sobre as patinhas cruzadas, à beira da escada da varanda olhando o sol e o festejar das galinhas tão indiferente… Para ele deveria ser monótono passar todos os dias pela mesma cena, mas, para mim era novidade. Uma garota da selva de pedra, da grande cidade de São Paulo diante à vida aparente.
Fiquei absorta naqueles novelos de natureza e magia da vida até Rosa se aproximar me desejando “bom dia”. Conversamos um pouco e segui com ela para a cozinha. Ela tinha em seus braços alguns papéis e na mesa da cozinha apinhou-se a corrigi-los. Últimas provas de uma turminha do ensino fundamental para quem ela dava aulas. Servi a ela uma xícara de café e ao ver as xícaras que eu pegava ela riu dizendo: “Oras, as xícaras novas estão na prateleira superior do armário branco, ”. Então eu contei a ela que preferia as velhas e tradicionais xícaras de barro. “São as preferidas de também, só usa essas!”, ela disse sorrindo.
Ao terminar com as pouquinhas provas, Rosa subiu novamente para organizar suas coisas. Titia desceu feliz e sorridente me abraçando forte. Fazia frio e ela tinha os cabelos úmidos.
— Titia, a senhora não deveria molhar a cabeça tão cedo assim, ainda mais neste frio.
— Falou como eu ralhando, com o povo desta casa, . – e deu uma risada fina e estridente, mas, gostosa: — Está certa! Rosa tem um negócio que seca os cabelos. Não posso ser mau exemplo, não é?
— É como papai dizia: é melhor prevenir do que remediar!
Dito isso ela retornou aos cômodos superiores. Retornei ao meu bolo que já estava pronto. Retirei o tabuleiro e o parti nele mesmo, afinal, “bolo quente não se desenforma!”. Dizia mamãe quando eu ainda era uma mocinha. adentrou pela porta da frente da casa, após retirar as botinas cobertas de lama, e as deixando ao pé da varanda. Entrou pendurando o casaco grosso de lã no suporte atrás da porta. Vestia uma camisa xadrez, naquele estilo que julgamos, bem caipira. Veio até a cozinha me encarando aparentemente ainda mal-humorado.
Na noite anterior eu até me deixei amedrontar com as grosserias dele, mas, “pera lá”! Sou uma delegada! Soa até ridículo. Carreguei minhas ventas com a minha pólvora interior e caso ele agisse estupidamente, eu também lhe daria uns coices. Evitava me olhar enquanto lavava as mãos na pia, onde eu estava apoiada.
— Bom dia. – eu lhe disse.
— Bom dia.
Ele não sorria, mas, seu olhar demonstrou uma trégua. Ou talvez eu tenha interpretado errado. Independente disso decidi ser gentil, quem sabe ele fosse gentil também?
Peguei então uma canequinha de barro e antes de servi-lo perguntei:
— Com açúcar ou sem?
Ele me olhou surpreso e insistiu que eu não precisava me incomodar. Afirmei não ser incômodo algum.
— Sem.
— Também prefiro assim. – eu disse entregando-lhe a caneca. — O bolo está quentinho. Não deve ser tão bom quanto o de sua mãe, mas, garanto que é gostoso.
Ele sorriu irônico e comeu. Aproveitando a brecha resmungou um: “dá para comer”.
Ele realmente não estava disposto a ser gentil e, diante desse fato a saída era ignorá-lo. Titia e Rosa vieram à cozinha caladas. Eu poderia jurar que elas nos espionavam. chegou um pouco depois, bem faminta.

Após o café não vi mais o , ele havia saído da casa e não voltou. Rosa e titia começavam a pensar no almoço. Então puxou-me para dar uma volta na fazenda.
— Boneca, mas, eu tenho que ajudar com a casa.
Eu falei sem graça e ela mais do que prontamente olhou para a mãe, e a avó com olhos de piedade.
— Não , tudo bem. Mamãe e eu vamos adiantando as coisas aqui. Até porque, estuda à tarde. Ela quer te mostrar a fazenda.
— É querida! Aproveite e passe na horta! Traga-me umas folhas de couve!
Assim, seguimos a pequena e eu.
O dia parecia, não mais tão frio como ao amanhecer, porém nem quente. Apenas ameno. Brisas suaves das montanhas mineiras. Eu sentia o ventinho brincalhão cortando meu rosto e bagunçando meus cabelos. As preocupações, os fantasmas e tormentas minhas continuavam, porém quando eu me entregava àqueles ares sentia como se esses monstros hibernassem, se escondessem ou até mesmo me esquecessem.
— Vovó falou que você vai ficar para sempre! – de imediato a pequenina soltou.
— Bem… Sabe , eu ficarei apenas o tempo suficiente.
— Ela também disse que você acha isso.
— Ah é? E estou errada?
— Eu não sei. Mas, eu prefiro acreditar que sim. Papai me disse que quando a gente acredita com vontade, acontece.
— Ele está certo.
Eu sorria da inocência da pequenina que não sabia dos monstros da minha vida.
— Então a senhorita estuda à tarde?
— É! Na mesma escolinha que minha titia trabalha!
— Sua mãe também trabalha lá?
— Minha mamãe?
— É… Ela estava corrigindo algumas provinhas hoje bem cedo.
estrondou uma risada tão gostosa! Dessas de doer à barriga e tudo.
— Eu disse algo errado?
— Sim! Você acha que a titia Rosa é a minha mamãe!
Ela apontava o dedinho para mim gargalhando cada vez mais gostoso. Então dando conta do meu erro comecei a rir bem divertida junto a ela.
— Bem! Mas o que eu poderia pensar?
— Que ela é minha titia sua bobinha. – falou e continuou pulando, caminhando à frente.
— A horta é ali! Vem! – ela gritou apontando e correndo.
Abri a portinhola da horta, que por sinal tinha lindas e frondosas plantações. Enquanto eu colhia as couves, colocava-as em um cesto. Após sairmos de lá, nós continuamos com o passeio. me mostrou o chiqueiro, o celeiro, os pastos com o gado, os cavalos, as ovelhas e o galinheiro.
Um rio passava ao fundo da propriedade. Atravessando-o chegava-se ao outro lado da propriedade de titia, porém por lá, nada mais tinha a não ser as verdejantes campinas onde os bois e vacas pastavam. Voltamos para a casa e junto à titia preparamos o almoço tipicamente mineiro: arroz branco, feijão, torresmo pururuca, couve refogada e angu. Céus, eu já imaginava que engordaria!

Rosa ficou com a arrumação da casa, pois segundo ela, era melhor já que após o almoço ela teria que ir trabalhar. arrumou seu material escolar, assistiu os seus desenhos animados e almoçou. À metade das onze horas foi tomar banho. Pediu minha ajuda para arrumá-la. Na hora de pentear os cabelos a pequenina pediu que eu os arrumasse como os meus: em uma trança escama de peixe. E ao acabar com os cabelos, ela queria passar o mesmo batom que eu. Era de um tom rosado muito fraquinho, que se assemelhava ao tom de boca, porém brilhava. Então, ao finalizar, descemos as duas: eu e “minha cópia”.
é uma criança tão amável! Me tratou com tanto carinho desde que eu cheguei, que me senti muito acolhida. Ao aparecermos as duas no topo da escada, titia e Rosa a elogiaram, e a pequenina fazia pose de princesa. estava ao lado delas, recém-chegado ao cômodo e olhava para a criança, hipnotizado. Então ao perceber que eu a deixei dando seu pequeno show, subiu novamente alguns degraus e puxando minha mão descemos as duas, majestosas. Não pude deixar de rir com as caras e bocas da menina.
correu até pulando nele e o abraçando.
— O que achou papai? Estou bonita?
Papai? Pa-pai? Sim, a minha cabeça estava muito confusa! Ele tinha apenas vinte sete anos, certo que isso não significa nada, mas, como eu não percebi nenhum vínculo paterno entre ambos?
— Linda, minha filha.
— Igual à ?
— Mais bonita do que a .
Senti um prazer correr o rosto dele ao tentar me menosprezar com a frase.
— Não papai. Ela é muito mais bonita.
A menina disse e descendo do colo dele veio até mim abraçando-me.
— Obrigada !
Ela me agradecia e nos cumprimentávamos com beijinhos no ar sem tocar os rostos, para não tirar o batom, como eu acabara de ensinar a ela. Voltei à cozinha e a menina ficou na sala assistindo ao fim de seus desenhos. Todos fomos almoçar.
, hoje meu noivo vai vir aqui para tratarmos dos últimos preparativos do nosso casamento. Você vai adorar conhecê-lo!
— Ora, muitas felicidades. Eu não sabia!
— Ela iria te contar ontem no jantar.
falou ríspido como se aquilo fosse um absurdo.
— Bem, eu devo desculpas a todos por não ter vindo jantar ontem. Eu estava exausta e precisava mesmo descansar. Acreditem, eu não seria boa companhia no estado em que eu estava.
— E quando você é boa companhia? – novamente me alfinetou, desta vez sendo repreendido por titia.
Instaurou-se um clima desconfortável, até Rosa quebrá-lo:
— Então , logo eu irei me mudar.
— É uma pena. E ao mesmo tempo não é tão ruim, afinal, agora que somos amigas poderemos falar e nos ver, sempre, não é?
— Com certeza! E eu estarei tranquila sabendo que você estará aqui cuidando da mamãe, da e do mais difícil: o .
Ela e titia riram, mas, e eu nos olhamos rivais.
— Eu agradeço muito a consideração de vocês, mas, eu não pretendo ficar muito tempo.
— Isso é o que a senhorita pensa. – disse titia.
— Não tomem como uma desfeita, mas, eu realmente preciso organizar minha vida, titia. Hoje mesmo se possível eu gostaria de ir aos correios saber se tem algo para mim. É claro que, somente andando pela cidade é que eu saberei das oportunidades.
se levantou e colocando seu prato na pia saiu silencioso.
— Ele acha que não é saudável sua convivência com , pois, se você realmente sair, sabemos que ela vai se apegar muito a você. – disse Rosa.
— E ele não está errado. Hoje falou que eu ficaria para sempre aqui e eu conversei com ela, mas, ela é firme e acredita muito nessa minha permanência. Coisa que pelo que notei, titia colocou na cabeça da menina.
— Você não vai embora daqui querida. – titia disse convicta e sorrindo para mim. — Você pode não acreditar, mas, eu sei que não vai.
Depois de tudo aquilo eu resolvi não tocar no assunto para não contrariar a titia. Rosa saiu para trabalhar, para estudar e as levaria.
— Você não vai ao correio? – me perguntou.
— Sim.
— Vamos então. Não tem lotações por aqui.

Tocar na playlist: (Round Here Buzz - Eric Church)


A picape era cabine simples, mas fomos os quatro para a cidade. sentada no colo de Rosa, e eu no meio do banco. Chegando à cidade as duas foram para a escola que era bem no centro da pracinha e me levou até o correio me explicando onde eram os comércios da cidade. Não havia carta alguma para mim, nem telegrama, nem entregas, nem nada. Então voltamos silenciosos ao carro.
dirigiu até a delegacia da cidade. E parando em frente a ela me olhou.
— Não quer dar uma olhada por lá?
— Com certeza se houvesse alguma carta para mim na delegacia, seria de urgência tanta que o próprio delegado entregaria.
Fiquei desconcertada com aquela atitude, pois, ele não pretendia fazer favor algum, apenas me provocar.
— Certo. E não quer entrar lá? Você é delegada, não é?
— Sim…
Então ele interrompeu-me:
— Se bem que, se você entrar é capaz de não voltar.
Eu não acreditava que ele estava usando meus problemas pessoais para me afetar. Porém desci do carro e o deixei falando sozinho. Saí caminhando a esmo, e enfurecida na verdade. Cheguei até o centro da pracinha. Parei. Olhei em volta indignada comigo mesma. Eu estava me rendendo a uma provocação infantil? Que ridículo! Dei meia volta e caminhei novamente ao encontro do estúpido do , esse por sua vez vinha ao meu encontro.
— Escuta aqui cara, quem você pensa que é? Tudo bem você não gostar da ideia de ter uma estranha sob o mesmo teto que o seu. Você não gostar de mim sem me conhecer é injusto, mas, muito comum! Agora seja homem e deixe as coisas bem claras! Não venha utilizar os meus problemas pessoais para me afetar! Sinceramente, nem a sua filha teria atitude tão infantil! Eu juro : eu não pretendo ficar naquela casa por muito tempo, então tenha caridade, por favor! Eu sou uma sem-teto agora e jamais planejei essas mudanças todas na minha vida, tá? Então seja inteligente e me ajude a encontrar uma casa e um emprego, em vez de ficar me provocando! Eu não conheço nada por aqui e vou mesmo precisar de outras pessoas! Sem dúvidas seria melhor para nós dois!
— Eu sei exatamente o que você quer. E não estou de acordo com a sua presença. O que eu puder fazer para me livrar de você será feito. – ele disse entrando novamente no carro e olhando para mim pela janela concluiu: — Não pense que as ideias da minha mãe serão concretizadas.
Acelerou com o carro e foi embora.
Fiquei tão indignada com toda a frieza e estupidez da reação dele que me senti desnorteada. Àquela altura a pracinha em peso me olhava. Eu compus um concerto público do mais alto escalão. Um barraco, precisamente.
Pessoas na porta da delegacia que supus serem o delegado, o escrivão e um policial civil olhavam em minha direção estudando-me. Logicamente por parecer uma pessoa sem classe que fica gritando pela rua, e o principal: por nunca ter sido vista.
Cidade de interior, notícias corridas e o infeliz fato de todos saberem uns, das vidas dos outros. E o engraçado nisso tudo é que eu mesma espalhei a notícia para todos, mas, teria um lado bom nisso: eu não explicitei os meus problemas mais sérios e agora todos sabiam que eu procurava emprego e casa.
Se bem que… Alguém empregaria uma escandalosa? Começo até a rir em lembrar das ideias que tive! Pensei em fazer como alguns dos delinquentes que me deparei na minha curta carreira: começar um drama e chorar. Aquilo mudaria um pouco as coisas, não é? Pelo menos mudaria a figura de perante aqueles espectadores… Ou não.
Sorri sem graça aos oficiais à minha frente e dando-lhes as costas andei até uma vendinha típica de interior, uma mistura de mercearia e bar. Puxei uns trocadinhos e comprei um guaraná, que para a minha doce surpresa, ainda era daqueles refrigerantes antigos engarrafados em vasilhames de vidro, iguais aos vasilhames de cerveja. Isso me retomou lembranças da minha infância. Sem dúvidas os refrigerantes das garrafas de vidro sempre foram mais saborosos.
A vendinha estava vazia e aproveitei para “namorar” a arquitetura do minúsculo centro urbano e a decoração do botequim. Comecei por onde estava: o balcão onde eu me sentara tinha o tampão de ardósia e as paredes eram de tijolinho vermelho. As banquetas de madeira esculpidas à mão, muito rústico e bonito. Nada rústico chique como se costuma ver nas cidades grandes montados propositalmente, ali, o sol refletia o simplismo. As mesinhas tinham em sua base, grandes tocos de troncos, tampão também de madeira e as cadeiras, de madeira e palha forradas e trançadas. Humilde e aconchegante. Nas paredes decorações roceiras, típicas.
Partindo o olhar para fora do estabelecimento, os comércios circundavam a praça. A praça com banquinhos brancos, jardins e no centro dela uma igreja. Em volta: a delegacia, a escola de frente para a delegacia, o mercadinho onde eu estava, a farmácia, a sorveteria, uma padaria e uma casa. Sim, apenas uma casa de frente à praça. Morador privilegiado, pois, era tudo muito bonitinho de se dar de cara todos os dias. E claro, como toda praça de interior que se preze, carrinhos de pipoca e algodão-doce. Crianças corriam, soltavam pipas, brincavam, pulavam corda, amarelinha, elástico… Tudo isso, na pracinha que parecia um parque de diversões.
Um garotinho entrou na vendinha e voltando-se à senhora vendedora pediu: “Saquinho de um real, de bolinhas de gude dona Carlota!”. Olhou para mim como se me analisasse e enquanto eu sorria para ele, agradeceu à senhora. Sorriu para mim e voltou às brincadeiras.
Há quanto tempo eu não via bolinhas de gude! E ao lado do pote das bolinhas no balcão avistei um pote com piões e outro com ioiôs!
— Com licença, por favor, quanto custa o ioiô? – não pude me segurar.
— Dois reais. Quer um?
A senhora dizia-me sorrindo. Acredito que pelo meu espanto e maravilha diante àquelas coisas.
— Sim, por favor.
Não esperei nem ela conferir o troco e já fui amarrando a linha, colocando-o no dedo e brincando. Peguei o troco da mesma forma que o garotinho, que deu mais atenção às bolinhas do que à devolução do seu dinheiro. A senhora começou a rir de mim e eu gargalhava deliciosamente. A sensação de voltar anos atrás era tão… Inexplicável eu admito, e era um anestesiante de problemas incrível!
— Há anos eu não vejo um ioiô! – eu disse para a senhora.
— É delicioso… Chegaste à cidade há muito tempo?
Eu deveria mesmo demonstrar trejeitos de garota urbana.
— Ontem na verdade. Prazer, sou . – estendi a mão livre para cumprimentá-la, sem parar de brincar com o ioiô.
— Carlota. – ela respondeu-me seu nome. — Seja bem-vinda .
— Muito obrigada.
Eu sorri e retornei ao meu banquinho guardando o brinquedinho no bolso do moletom.
— E o que está achando?
— Estou maravilhada com os repuxos na memória. É tudo muito lindo. – eu sorri.
— Entendo. Eu também repenso na minha infância quando paro para admirar tudo em volta. Assim como esse garotinho eu corria até esse balcão e pedia ao meu avô, os piões e ioiôs.
Dona Carlota olhava para o nada como se relembrasse as próprias narrações. Conversamos bastante, ela me indicou alguns pouquíssimos empregos, mas, nada dentro da minha carreira. Eu não poderia falar-lhe sobre o fato, pois, isso levaria às explicações de “por que não olha na delegacia? ”. Agradeci a ajuda e despedi-me dela prometendo voltar. Fui até a praça, e o padre que caminhava até a igreja me cumprimentou. Respondi com um sorriso. De repente senti uma mão em meu ombro. Era o sacerdote que voltara para me fazer um convite:

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— Boa tarde. Por que não entra para conversar um pouco com Deus sobre sua vida?
Poderia ser que as fofocas tivessem corrido mais do que carro de fórmula um e chegado aos ouvidos do vigário, ou aquilo foi um sinal de Deus. Nunca fui religiosa do tipo que sempre ia à igreja. Tentei seguir dogmas cristãos algumas duas vezes, mas, o meu coração não se liberta de certos conceitos e minha cabeça procura razão para tudo. Sempre tive fé na existência de um Deus, mas, me prender à religiosidade não era possível.
Assustei-me com aquilo e muito sem graça aceitei. Como recusar uma conversa com Deus? Seja no parque, na praça, na escola, na delegacia, em casa ou na igreja, Deus nos ouve e sempre está do nosso lado. Não era preciso que eu entrasse naquele santuário para falar com Deus, mas, se Ele me convidara – pois eu preferi acreditar que o padre servira de instrumento divino para aquele apelo do que fofoqueiro – eu não recusaria.
— Sim. Claro.
Respondi e acompanhei o solícito sacerdote.
A igreja era muito bonita e antiga. Arquitetura renascentista com pinturas que nos dão vontade de chorar.
O padre me disse para ficar à vontade e que se eu precisasse conversar com ele, apontou-me a sacristia onde estaria. As minhas pernas naquele momento demonstraram a necessidade da minha fé. Pois sem perceber, eu me aproximei imediatamente do altar e quando dei por mim estava ajoelhada. Pausei todos os meus pensamentos. Esqueci tudo ao redor. A mente ficou escura. Vazia. Então as palavras saíam por minha boca, em sussurros como badalos do meu coração.
Coisas que pensei ter superado, como a descoberta da minha adoção, o fim do meu antigo relacionamento; vieram à tona naquele esboço de oração. E coisas que eu nem cogitaria partilhar com Deus no quesito “preocupações” também, entre elas, a complicação de abandonar titia e naquela casa e o medo que eu sentia de . Medo, exatamente isso. Este sentimento opressor que eu negava assumir sentir por ele.
Hoje percebo que meus medos surgiram após ter sido realmente traída pela verdade de quem eu era; traída por quem julgava serem os meus amigos e traída por meus próprios sentimentos. E quando eu fiz aquela recém-descoberta eu não a aceitava!
Medo? Que absurdo, eu sempre fui muito forte e decidida. Inadmissível um sentimento tão covarde em mim! Contudo, aprendi que para ser forte não se repele a covardia e que sentir medo não é sinal de fraqueza. É sinal de humanidade.
Senti-me renovada após aquela oração. Foi bom compartilhar meus incômodos, pois, ainda que titia, e Rosa fossem muito gentis e adoráveis comigo, transformava tudo em uma nuvem tempestuosa. E cá para nós, quem consegue sentir-se confortável com uma tempestade prestes a cair qualquer momento? Lamento, mas, eu não tenho este dom.
Despedi-me agradecida do padre e voltei para a praça. Perguntei as horas ao pipoqueiro e o tempo marcava uma e trinta da tarde. Eu já estava na cidade há uma hora e meia, e sem dúvidas, o bronco que me deixou por lá, já teria voltado para a fazenda.
Então avistando um senhor, aparentemente no auge de seus sessenta e poucos anos e sentado na calçada em frente à ilustre casinha privilegiada da praça, eu decidi perguntá-lo como poderia voltar à fazenda.
— Boa tarde.
— Tarde! – respondeu com sotaque forte mineiro.
Ele escutava um rádio de pilha antigo, tocando modas de viola muito boas, por sinal.
— Como vai o senhor?
— Eu estou bem, só tentando pegar um solzinho safado para esquentar e espantar um pouco desse frio besta. – ele disse e deu uma gargalhada muito simplória — E você “minha fia” ? – perguntou.
— Estou bem também, muito obrigada. Mas, estou também perdida por estas bandas.
Eu sorria suplicante, e ele endireitando a coluna corcunda e com as sobrancelhas arqueadas em dúvida, me perguntou:
— Uai! É?
Eu sorri sem graça e continuei.
— Estou morando com minha tia Laura, na fazenda dela. O senhor a conhece?
— Ô! Se, conheço! Coralina! Amiga minha das antigas. Mas, eu não sabia que ela tinha uma neta já marmanjona.
Gostei daquele senhor pelo bom humor e pela sinceridade nas palavras. Se aquela moça da cidade ficaria ofendida? O problema seria dela.
— Não senhor, sou sobrinha.
— Ah sim! Ela tem apenas a zinha de neta, né!
— Sim… – ele sorria divertido, e eu sorrindo de volta retornei a falar: — Pois bem, eu me perdi na cidade e não sei como voltar à fazenda. O senhor saberia me ajudar?
— Mas, ocê vêi sozinha?
— Não, o me trouxe, mas, nos separamos.
— Ele deve de ter visto um boi, não é? – não entendi a pergunta, mas logo ele foi explicando: — Pra esquecer ocê, deve ter avistado um boi gordo pra fazenda.
— Ah sim, pois é! Eu não tenho certeza, apenas nos perdemos.
— Ele deve estar te procurando.
— Não, eu disse a ele que resolveria algumas coisas, então ele deve ter pensado que eu dei no pé.
Utilizei do vocábulo regional. Estava até gostando daquelas “gírias”, ditados e sotaque. Rosa, , titia e não falam de modo caipira como algumas pessoas da cidade.
— Uai, eu hein. Esse minino tem umas ideias muito frouxas! Deixar uma moçona nova na cidade, perdida e solta assim? Na minha época nóis cuidava melhor das nossas mocinhas! – e novamente a risada simplória.
Eu não resistia àquela risada e gargalhava junto.
— Deve ter sido uma época boa, essa do senhor. – eu disse sorrindo.
— Aqui não tem lotação. Pelo menos não pras bandas da fazenda! Ocê tem que ir de a pé. Eu até ajudaria, mas, só se eu chamar o Carlinhos.
— Carlinhos?
— É meu afilhado. Ele trabalha lá na farmácia.
— Não precisa incomodar. Eu até vou gostar de ir andando!
Ocê conhece o caminho da estrada?
— Conheço sim, eu só não sei como chegar até lá.
Patavina que eu conhecia coisa alguma! Menti para que ele não incomodasse o afilhado e, depois seria melhor aprender a andar a pé até a fazenda. Sem dúvidas andar no carro com o , de novo, seria difícil, se não, no mínimo arriscado.
— Então faz assim: ocê vai andando até a rodoviária. Sabe donde é?
— Sim, sim.
— Pois é! É lá! Aí ocê caminha um pouquim mais pra frente, e vai ver uma escola estadual. Continua andando, que uns… – ele parou pra pensar — deiz metro à frente da escola ocê vai ver o cemitério. Aí continua andando, mas, cuidado com os mortos! – ele gargalhou me encarando, e eu sorri confusa.
— É piada moça! – rindo continuou: — Então mais ou menos outros deiz metro depois do cemitério ocê vai ver uma rua cheia de casebres, o povo lá é gente fina dimais da conta. Tenho até um conhecido lá que ficou de me visitar faz tempo! achando que ele até morreu. Ou enricou né!
Esses cortes de foco nas conversas de interior também são muito divertidos. É o que puxa um desencadeamento de assuntos que nos fazem até se perder.
Ocê entra nessa rua e vai toda a vida. No fim dela ocê vai ver uma placa assim “Entrada da Estrada Cascalhosa” e aí ocê já chega à estrada. Vai toda a vida tamém, depois do terceiro mata-burro tem duas entradas, aí eu não lembro qual que é, mas ocê disse que sabe né?
— Sei sim!
Eu apostava no uni-duni-tê mentalmente.
— Como é o nome do senhor?
— É Aguinaldo! Mas, todo mundo me conhece como, Guino! E a vossa graça?
.
— Ô ! Então faz isso que eu te falei minha fia. Mas ó, não demora não porque é muito chão pra andar e logo escurece. Quando a gente no mato, nem vê o tempo passando!
— Ah com certeza. Muito obrigada Senhor Aguinaldo. Foi de muita ajuda!
— Da onde. Carece de agradecer não. Depois ocê volta pra tomar um café e prosear mais!
— Voltarei. – eu sorri agradecida.
— Diga pra Cora vim aqui. Ela tá sumida e eu não gostando disso não.
— Pode deixar que eu mandarei o recado direitinho.
Novamente disse adeus e fui embora. Segui todo o caminho como o senhor Aguinaldo me ensinara. Porém ao chegar às duas outras entradas eu não sabia qual seguir. Em uma, a placa com seta dizia “Rancho das Flores” e na outra dizia “Rancho do Riacho Doce”. Lamentei não ter perguntado se tinha nome na fazenda, ou ter prestado mais atenção ao chegar de viagem. Optei pela primeira seta. E foi o meu martírio.
O sol se pôs e eu andava perdida no meio da estrada de floresta densa. O desespero também se apresentava, e eu resolvi voltar. A minha sorte foi ter utilizado de inteligência e ter marcado uma cerca com um galho grande de eucalipto que caiu na estrada. Trancei o galho naquela cerca, assim eu reconheceria o caminho certo caso decidisse voltar. Finalmente consegui voltar às duas placas e então ao ler de novo “Rancho do Riacho Doce” eu quis me matar. Riacho Doce. Riacho. Um riacho era o que dividia as terras da fazenda! Como não pensei nisso? Só poderia ser aquele caminho! Mas, e se a coincidência não fosse essa? Tentei repensar na porteira que eu abri, a fim de relembrar qualquer possível escrito nela. Recordei-me de uma miragem entre “oce” ou “ore” que poderia ser o fim de qualquer uma das duas palavras das placas. Olhei para o céu pedindo ajuda a alguém por lá e seguindo os meus instintos fui pela ideia do riacho mesmo.
Eu vestia um suéter preto e uma calça de moletom. A mesma roupa que coloquei após o banho de manhã. Eu precisava de um banho e ao me lembrar de que seria banho frio lamentei novamente por escurecer. Felicitei por ter calçado botas antes de sair, pois, a ideia de: mato, escuridão e chinelos à mercê de qualquer peçonha, me espantavam ainda mais!
Enquanto eu vagueava sempre à frente, eu rezava também. Não tinha lanterna, não conhecia o caminho e a escuridão me dava “olá”. Como fui burra e orgulhosa em não aceitar a ajuda do afilhado do senhor Aguinaldo! De repente uma luz surgiu atrás de mim, e ao olhar para trás percebi um jipe que diminuía a velocidade à medida que se aproximava.
— Boa noite. Vai para onde?
— Boa noite. Estou procurando a fazenda da dona Laura Coralina. – eu ainda não havia entendido essa história dos nomes diferentes de titia — Poderia me indicar o caminho?
— Entra aí, estou indo para lá! Você é a ?
— Sou sim. E você?
— Marcelo. O noivo da Rosa.
— Ai, graças aos céus!
Entrei no jipe menos assustada, mais calma e até feliz.
— Rosa disse que eu gostaria de conhecê-lo, mas, não imaginei que seria tanto! – eu dizia sorrindo com as mãos sobre o rosto.
— Acalme-se. Ela me ligou avisando que você sumiu, e para eu ficar de olho na estrada. Estão todos desesperados atrás de você. está desde cedo te procurando na cidade, voltou para cá e te procurou na floresta depois voltou para buscar as meninas na escola e já estão em casa, eu suponho.
— Idiota. Ele que me largou lá!
— Estou sabendo dos conflitos. Não dê importância . está com o orgulho ferido somente.
— E eu não? Depois dessa então…
Ao chegarmos à fazenda já tínhamos nos conhecido um pouco melhor. Eu pude perceber sombras das pessoas pela janela andando de um lado ao outro, nervosas. Canelinha latiu ao ver nosso carro entrando na fazenda. Descemos e fomos até a varanda. vinha rápido e desesperado para fora. Assim que me viu, ele ficou estático me encarando assustado. Olhando-me dos pés à cabeça. Marcelo deu-lhe boa noite e entrou. Ficamos ambos ali parados. Eu raivosa e ele desesperado.


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Entrei e o deixei sozinho na varanda. Titia estava sentada em uma poltrona visivelmente nervosa. correu e me abraçou chorosa. Rosa também veio até mim, abraçando-me e perguntando se eu estava bem. Preocupei-me com titia e fui até ela.
— Calma tia, está tudo bem. Eu estou bem.
— A encontrei andando na estrada, já a caminho de casa. – disse Marcelo, meu herói.
— O que aconteceu ? – titia perguntava, séria.
— Nada demais. Entrei em uma vendinha e fiquei por lá conversando com dona Carlota, depois fui à igreja e por último seu Aguinaldo me explicou como chegar aqui. A propósito ele pediu para cobrar-lhe uma visita tia. Não tive como avisá-los que eu estava bem. Me perdi voltando para casa. Peguei um outro caminho, mas, voltei e quando segui pelo caminho certo o Marcelo me encontrou.
! – titia estava furiosa, eu não sabia que era possível vê-la daquele jeito, pois, ela sempre esboçava tranquilidade.
Ele chegou até a sala e olhando culpado para ela, se aproximou de mim.
— Desculpa pelo modo como agi . Não devia tê-la deixado, sozinha. — Eu não sou mais criança . Sei me cuidar. Não se preocupe comigo porque eu não espero isso de você.
Todos nos olhavam, como se tentassem entender o que haviam perdido para a situação estar naquele pé. Ele abaixou a cabeça, visivelmente contrariado. Naquele momento eu queria poder dar uma surra nele, mandá-lo preso por desacato à autoridade! Quanta raiva eu sentia dele. é tão… Faltam-me palavras. Ele é um enigma sem respostas.
Tia Laura finalmente se levantou e me abraçou pedindo desculpas e dizendo o quanto se preocupara. Foi preparar um chá para acalmar os ânimos gerais. Marcelo e Rosa foram também com ela.
Meu ioiô caiu do meu bolso e ficou animada ao ver. Disse-me que tinha vários e como que, instantaneamente, o medo que percebi no rostinho dela quando me viu chegando, desaparecera. Deixei-a brincar com o ioiô e prontamente ela correu para mostrar a avó. ainda estava parado à minha frente. E eu subi para tomar um banho, deixando-o onde estava, mas, ele me seguiu. Entrei no quarto e quando percebi, ele já estava lá dentro, atrás de mim.
— O que você está fazendo aqui? Saia daqui !
— Nada justifica o que eu fiz. Você poderia ter… Algo poderia ter acontecido com você. Fui infantil em te deixar lá.
— Que bom que você reconhece isso. Agora saia.
— Espera! Você me deixou nervoso! Eu não podia ficar nem mais um minuto perto de você!
— Eu não quero suas justificativas , só quero distância.
— Escuta! Eu vou te ajudar a encontrar um lugar para morar e um emprego. Você precisa mesmo se afastar daqui o quanto antes. Viu o estado da minha filha? Minha mãe fica colocando ilusões na cabeça dela. E eu não quero você muito perto dela.
— Não vejo necessidade disso, e isso só vai magoá-la ainda mais. Eu não pretendo ignorar a sua filha. Eu pretendo ignorar você.
— Somos dois. Eu só não quero magoada por culpa sua. Eu vou vigiar você e qualquer coisa que você possa dizer a ela.
— Não vou magoá-la. Não sou um monstro como você pensa.
— Assim que eu tiver qualquer novidade eu te aviso. Você já trouxe muitas perturbações para essa família.
— Não! Eu não vou deixar você me transformar no problema! – eu disse me aproximando dele raivosa.
Encarando-o bem nos olhos continuei:
— Você é que tem perturbado a sua família! Caso não percebeu você é o único que me odeia e que tem me desprezado, desde antes mesmo, de eu chegar!
Ele me empurrou levemente afastando-me de perto dele e saiu batendo a porta. Bufei de raiva jogando meu suéter longe. Novamente a porta se abriu e era .
— Ei! Eu estou trocando de roupa!
— Desculpe. – saiu novamente.
Suspirei tentando me acalmar, e puxei roupas limpas do armário. Minha toalha, estava estendida sobre a cadeira do quarto, onde eu havia esquecido pela manhã. Joguei-a no ombro e fui ao banheiro tomar um banho surpreendentemente quente enquanto eu esperava gelo. Ao voltar para meu quarto, já vestida, estava sentado em minha cama com uma toalha nos ombros nus, descalço e com o habitual jeans surrado. Confesso que é um homem lindo. Insuportável e incomodativamente lindo.
— O que?! – me assustei ao deparar-me com ele ali.
— Eu só queria dizer que você não vai conseguir o que você quer. Você se faz de boba dizendo que vai embora, não é? Então vamos transformar seu drama em realidade. Você vai embora dessa casa o quanto antes. Eu já não suporto mais vê-la fazer cena.
Ele tinha mesmo a necessidade de ficar repetindo aquilo toda hora? Eu já havia entendido o ódio dele!
— Ah cala essa boca, seu estúpido! Eu que não suporto mais os seus surtos. Sai já daqui!
Assim que ele saiu, Rosa bateu à porta do meu quarto perguntando se estava tudo bem.
— O que ele veio fazer aqui no seu quarto? – ela perguntou.
— Me intimidar. Tudo bem Rosa, pode ir, eu já desço.
Ela desceu e eu me sentei na cama. As lágrimas desciam compulsivas e eu soluçava. Por que tudo estava dando errado? Por que desse jeito? O dia fora tão confortável longe dos meus problemas e de repente o pesadelo volta duas vezes pior!
Cansada de me lamentar maquiei levemente o rosto para esconder o cansaço e o choro. Fui ao encontro da parte feliz da família que me esperava para o jantar. Marcelo foi muito legal e Rosa estava animada para falar das coisas de seu casamento. era um recente raio de sol na minha atual escuridão. Tenho certeza de que aquela pequenina teria algo muito doce a me dizer. Sempre.


Capítulo 3 - Menos Um

Ao chegar à cozinha estavam todos aprontando a mesa e eu fui ajudá-los:
— Tia, a água do chuveiro estava quente. O que aconteceu?
Eles começaram a rir, inclusive que disse um: “A gente esqueceu de contar pra ela!”, entremeio suas risadinhas melodiosas.
— Sistema de serpentina , você tem que acender o fogo a lenha para aquecer a água. Desculpe pelo banho frio de ontem.
— Ah tudo bem Rosa! Eu só estava preparando-me psicologicamente para outro daqueles enquanto eu andava em busca da fazenda. – começamos a rir.
Então apareceu e eu não consegui sorrir mais. Eu não deveria deixar essa frustração me tomar, mas, eu teria que extravasar de alguma forma. Não sou de fazer a cínica. Tento esconder quando estou mal para não atingir aos outros com preocupações, mas, fingir que tudo está um “mar de rosas” também não é do meu feitio.
sentou-se na cadeira de sempre, Rosa ao lado de Marcelo. Na outra ponta da mesa em frente à , sentou-se titia. Ao perceber aquela organização eu poderia jurar que uma conspiração contra mim fora armada. Mas, não era uma ideia real. Olhei para a pequenina e como eu poderia pedir para ela trocar de lugar? Primeiramente seria muito infantil da minha parte e depois, alguma hora eu teria que aceitar o pouco espaço entre e eu. Afinal, morávamos na mesma casa, certo? Então me sentei sendo seguida por ele. Não olhávamos um para o outro.
Enquanto jantávamos, Rosa e Marcelo contavam seus preparativos, todos já na reta final. Estavam muito felizes. Então Rosa me contou a data e eu me espantei visivelmente.
— Já é neste final de semana próximo?
— Sim ! No sábado! Não é fantástico?
— Sim. Sim. É fantástico. Mas, eu não esperava chegar e encontrar alguém com malas prontas para sair.
bufou sarcástico. Seria por isso que ele me culpava? Talvez pensasse que eu estava tentando tomar o lugar de alguém. O lugar de Rosa. Mas, ele seria tão ridículo assim?
— E você será minha madrinha.
— Como? – nesse momento, tanto eu quanto o , olhamos para ela perplexos. — Rosa, não quero ser ingrata, pelo contrário! Fico radiante com o convite, mas, você deveria escolher para sua madrinha alguém mais apropriada, mais íntima, não acha?
— Sou obrigado a concordar com ela.
estava furioso. Titia sorriu discreta, brincava com a comida fingindo não prestar atenção em nada, muito marota. Rosa apenas sorriu para nós.
, eu não tenho amigas nas quais eu possa fazer esse convite. E você é da nossa família. Pelo menos eu te considero como tal.
— Rosa, me desculpa de novo, mas você mal me conhece… E como ser madrinha de um casal que eu mal conheço a história?
— Bem, você pode não se sentir da família, mas é. E se quiser um tempo para pensar não há problemas… Uma hora você vai perceber.
— Tempo para ela pensar? Que tempo? Daqui há quatro dias, vocês se casarão e logicamente não haverá madrinha se você não mudar logo! – bradava.
— Ele está certo…
Eu olhei-o com raiva recebendo o mesmo olhar em troca.
— Você não quer ser minha madrinha ?
Rosa chantageou-me com a pressão diante todos à mesa e com a expressão mais tristonha que já presenciei. Muito impróprio da parte dela jogar sujo daquele jeito.
— Não é isso, só não quero que você se arrependa depois.
— Essa mulher até agora, não disse nada mais sensato.
continuou comendo e fitando o próprio jantar sem escapar às alfinetadas para mim. Olhei para ele de canto, muito contrariada por não poder respondê-lo à altura.
— Não irei me arrepender. Você é da família. Posso considerar um sim?
— Pode.
Eu disse de muito contragosto, não por ser madrinha, mas, por achar uma atitude um tanto precipitada da parte de Rosa e Marcelo.
— Da família… Era só o que me faltava! – terminou seu jantar levantando-se rude, afastou a cadeira de modo bruto e largou sua louça na pia, em seguida indo recolher-se.

Titia fez uma careta depois que o filho saiu e o ambiente tornou-se mais descontraído. Não na minha mente. Após todos estarem devidamente saciados, titia pôs-se a arrumar a cozinha com a ajuda da pequenina . Rosa e Marcelo ainda queriam discutir na minha presença e na presença de sobre os preparativos. Aquilo exigiria um grande esforço e um ânimo surreal, para suportar a presença do homem mais insuportável que eu já havia conhecido. Coloquei uma água para ferver com ervas de camomila à vontade, enquanto titia e arrumavam a cozinha. Marcelo subiu para chamar o e, com um mau humor mil vezes maior, ele juntou-se a nós na sala.
Rosa falou sobre as decorações, o cardápio, tudo já muito bem esclarecido, mas, precisava tratar conosco sobre as roupas de padrinhos e o que nós preferíamos.
Nós?
— E então, vocês pretendem combinar seus trajes? – ela disse olhando para e eu.
— Nós? – eu disse prevendo o pior.
— Vocês serão juntos os padrinhos da Rosa.
Marcelo falava sorrindo por já saber o rebuliço que aquilo causaria. Somente ali, eu percebi porque revoltara-se tanto com o convite dado a mim. Eu suportaria aquela situação?
— Por mim acho apropriado você escolher a cor e cada um se vira com o traje separadamente. – falei enérgica.
— Certo… Amor, o que você acha? – perguntava Rosa ao noivo.
— As madrinhas poderiam escolher tons pastéis. A poderia escolher algum tom de nude. Ela tem uma pele linda, acho que cairia bem com a cor. O que acha ?
Ele não respondeu nada para Marcelo e nem sequer nos olhou, continuou lendo uma revista qualquer. Tão infantil!
— Eu acho apropriado. – Rosa dizia divertida com tudo aquilo. — ?
— Acho ótimo, assim ninguém ficará prestando atenção em mim.
— E os padrinhos irão com traje comum. Tom escuro. Alguma preferência ?
— Minha única preferência seria qualquer outra madrinha para minha irmã.
Eu decidi não dar importância a nada daquilo, afinal, teríamos ensaios a serem feitos durante as tardes por aquela semana e isso implicaria em suportá-lo por mais tempo do que eu previ.
Depois de tudo aquilo, os chás foram servidos. insistiu para que fosse dormir e tentou levá-la, mas, a pequena agarrou-se a mim e pediu para ficar mais um pouco. Ele já estava muito irritado e então se recolheu.
Eu também não demorei a me deitar levando para dormir. Acendi as luzes do quarto dela. Ela vestiu seu pijaminha e agarrou-se a uma pelúcia. Ficou paradinha em um cantinho apenas observando enquanto eu preparava a cama dela.
— Prontinha . Escovou os dentes?
— Sim.
— Hum… Posso conferir? – ela abriu um sorriso enorme já se sentando em sua cama e depois disse que seu pai sempre checava o hálito dela com uma “baforada”.
— Então , dê-me uma baforada caprichada! – ela fez e nós começamos a rir — Você escovou direitinho! Boa noite, boneca.
! – ela abraçou-me quando eu beijei sua testa.
— O que foi?
— Me conta uma história?
— Conto, mas, você terá que fechar os olhos e tentar dormir.
Tá. Ela virou-se abraçando seu cavalinho de pelúcia. Fechou os olhos e esperou a história.
Encontrei um livro de contos clássicos na cabeceira da cama dela e abrindo-o comecei a ler. Ela adormeceu brevemente.
Assim que percebi o sono profundo da pequenina ajeitei seu cobertor. Sentia-me sendo observada. Fui até a janela conferir o trinco e fechei as cortinas. Quando saí avistei a porta do quarto de sendo fechada. Direcionei-me ao meu quarto e adormeci logo.

Tocar na playlist: (Simple - Florida George)


De manhã fui acordada por uma garotinha sorridente e descabelada que abria meus olhos com os dedinhos pequenos. Muito marota.
? O que foi? – eu dizia sonolenta.
Ela deitou-se debaixo da minha coberta e ao meu lado.
— Você tem que acordar . Você dorme muito!
— Quantas horas?
— Cinco e meia.
— E o que você faz acordada há essa hora? – espantei com o horário.
— Eu fui dormir com meu papai, mas, ele acorda cedo. Eu fingi que estava dormindo quando ele saiu e vim pra cá! Bom dia! Acorda!
Ela balançava-me tentando impedir minhas pálpebras cansadas de se fechar. é muito esperta para a idade dela. Sempre à frente das outras crianças.
— Hã… Tudo bem, já estou indo.
Ela ficou sentada à cama aguardando-me. Descemos logo após eu ter me vestido. Titia já preparava o café, correu para as sessões de desenho animado na TV.
— Bom dia titia.
te acordou, não é?
— Sim, mas, tudo bem… Preciso mesmo habituar-me com os horários da fazenda. O que posso fazer hoje?
— Primeiramente sente-se e tome café.
Ela sorriu me esticando uma caneca de café, em seguida, levou o café de e ajeitou os cabelos desgrenhados dela.
— Titia, cadê o resto do pessoal? – eu perguntei quando ela voltou à cozinha.
— Rosa e Marcelo ainda dormem e já está te esperando.
— Me esperando? – comecei o dia com essa surpresa nada boa.
— Ele vai te ensinar como funciona a rotina da fazenda. Há pouco foi para o celeiro, pode ir para lá ao terminar o seu café. – ela falou simpática.
— Claro, estou indo.
— Calce as botinas.
Calcei as botinas próximas à porta de saída e fui até o celeiro. Percebi que titia ficou me observando furtivamente enquanto eu seguia o meu caminho. Lógico que eu deveria fazer alguma coisa para ajudar na fazenda e não contestei contra isso, pois, era o mínimo que eu poderia fazer. No entanto, uma dose dupla de logo ao amanhecer? Antes mesmo de rever o sol? Esbocei uma careta indiferente.
Ao entrar no celeiro ele recolhia o feno e colocava os feixes em um carrinho de mão.
— Bom dia. – eu disse.
Ele parou e me olhou sério. Não se esforçaria nem um pouco para tornar aquilo agradável. Tudo bem, eu aguentaria.
— Bom dia.
— O que devo fazer?
— Estou juntando os feixes de feno para os cavalos. Você consegue carregar o carrinho para as coxias?
Fui em direção ao carrinho de mão e suportando o peso peguei-o indo em direção às coxias dos equinos.
— Só os cavalos da direita! Eu ainda não prendi os outros. Se você abrir a porta eles podem sair. – ele alertou-me.
Distribuí o feno para os animais amigáveis. Eu estava com medo de irritá-los, mas, o que são aqueles cavalos diante o ?
— Venha aqui um instante , tenho que lhe mostrar como prendê-los.
Fui até o lado contrário, o da esquerda, onde ele encontrava-se e após aprender como agir, responsabilizou-se pelos animais daquele lado. Ele distribuiria o feno, a água e limparia o local. Eu terminaria limpando meu lado e dando água a eles.
Antes de colocar água nas baias deles, achei melhor limpar todo o esterco, do contrário faria uma bagunça pior. Procurei uma pá e comecei a limpar com um pouco de receio de tomar coices, mas, os animais comiam tranquilamente. olhava-me vez ou outra sem nada dizer. Eu nem mesmo falava com ele. Procurei tudo o que precisei sozinha. Orgulho meu, talvez? Que fosse!
Depois de todos os estercos recolhidos no carrinho de mão fui dá-los água. Estavam sedentos. Em um dos cochos, enquanto um dos cavalos bebia água eu acariciava-o. Então tomei um susto, pois, o animal repentinamente ergueu seu pescoço e deu-me uma bufada de nariz molhado em meu rosto. Limpei-me assustada e comecei a gargalhar fazendo carinho naquele ser tão inocente. olhou-me rabugento.
Ao sair daquela parte, eu teria que dar um fim naquele esterco. Mas, onde jogaria?
, onde coloco o esterco?
— Na horta, é adubo natural. Mas, primeiro ele tem que secar, junte com o outro monte que está lá.
Eu até cheguei a imaginar aquilo: adubo natural. Fui até a horta e com a pá fui distribuindo o monte de estrume fresco que secava ao sol. Logo chegou com a outra parte e continuamos trabalhando juntos e calados. Assim que terminei, puxei uma mangueira e lavei o carrinho e a pá, fez o mesmo e guardamos os materiais de volta no celeiro.
Após essa tarefa fomos até o curral. Ele me explicou como tirar leite das vacas, primeiro amarrando as patas traseiras delas e depois apertando as tetas. Conseguimos retirar dois galões de vinte litros de leite, manualmente. Trabalhoso, inclusive.
ainda me explicou que depois de retirado o leite, as vacas deveriam ser levadas até a outra margem do rio, onde pastavam durante o meio dia. Enquanto pastavam, o curral era limpo. Depois do almoço elas deviam ser trazidas de volta. E assim fizemos, depois de colocar os galões na camionete, ele montou em um cavalo e levou-as para o pasto. Eu fiquei lavando o curral até ele voltar.
Ao voltar ele deixou o cavalo na coxia, colocou os galões na carroceria e entrou na camionete.
— Pode recolher os ovos no galinheiro e dar milho às galinhas enquanto eu vou em casa buscar a comida dos porcos e levar o leite.
Fiz o que ele pediu e ele não demorou a voltar. colocou os ovos da cesta dentro da camionete. Jogamos milho misturado a farelo para os patos, que rondavam o galinheiro.
— Onde os patos ficam?
— Soltos. Ficam sempre no riacho. De manhã se aproximam do quintal e do galinheiro para comerem.
pediu para que eu o acompanhasse até o chiqueiro. Chegando lá, havia um balde de mistura composta por restos de verduras, legumes, frutas… Enfim, lavagem.
— Não é sempre que damos lavagem a eles, pois esperamos juntar bastante orgânicos. Normalmente eles só comem a ração.
— E com que frequência você prepara a lavagem?
— Há cada duas semanas. – abriu a porteira do chiqueiro, com o balde em mãos e advertiu: — Entre, e cuidado para eles não fugirem.
Entrei e estendeu-me o balde de comida que eu distribuía no cocho, porém, eu tomei uma rasteira de um dos porcos e caí no meio da sujeira. estava limpando o lugar e imediatamente parou o que fazia, me olhando assustado e começou a gargalhar. Nem mesmo estendeu-me sua mão para ajudar.
Fiquei furiosa e levantei-me sozinha. Saí do chiqueiro deixando-o gargalhar e limpar o lugar sozinho.
— Pode ir, já acabou por essa manhã… – ele disse em meio a gargalhadas altas. — Tome um bom banho, esse cheiro custa sair!
Petulante, ainda zombava de mim enquanto eu me distanciava nojenta. Quando apareci no quintal dos fundos da cozinha tirei as botas e lavei-as no tanque. Eu deveria tomar um banho na ducha que havia ali, mas, como tirar minhas roupas e lavar-me naquele quadrado de madeira exposto? De fato, o pessoal na fazenda, em ocasiões como essa tomavam banho ali. Todos iriam me enxergar, mas, pelo menos, não veriam mais pele nua do que o necessário.
— Titia! – gritei.
Todos estavam na mesa da cozinha e dava para ver perfeitamente onde eu estava.
! O que aconteceu? – titia perguntou. — exagerou dessa vez!
Rosa falou bravia para Marcelo ao seu lado, logo, também surgiu na varanda e começou a rir.
brincou com os porquinhos! – ela ria divertida. — Vovó não gosta que a gente brinque com os porquinhos ! – gritou para mim, tão inocente.
— Não foi o , Rosa. Eu caí no chiqueiro. Como faço titia?
— Entre nesse reservado da ducha e retire suas roupas. Vou te trazer toalhas e roupas limpas. Tem sabonete aí!
— Use esse sabão de gordura também, . Ele vai ajudar a limpar e tirar o cheiro. Depois se esfregue com o sabonete. Que azar você ter caído lá, antes que terminassem de lavar o chão! – dizia Rosa para mim.
— Estava correndo tudo, bem demais... – resmungei.
— Ele não tem culpa mesmo? – Rosa se apoiou na parede do quadrado, e me olhou incisiva a fim de descobrir a verdade.
— Não, desta vez não. – respondi abrindo a ducha e tremendo de frio pela água gelada que tocou minha pele.
Rosa, Marcelo e entraram assim que eu comecei a tomar banho. Depois titia trouxe minhas coisas e retirou-se. Enquanto eu tomava banho, chegou e descarregou a camionete com o que havíamos recolhido. Ele me olhou no banho e riu. Eu apenas o encarei com raiva.
— Vai levar as coisas para a cidade agora, filho?
— Sim mãe, só o tempo de eu tomar um banho. Não demorarei a levar as meninas à cidade.
— Tudo bem, sem pressa. Marcelo levará Rosa e .
entrou e titia aproximou-se de mim, ajudando a esfregar meus cabelos.
— Como foi ? Fora o tombo com os porcos...
— Tranquilo, muito trabalhoso, mas, tranquilo. Aprendo rápido.
não te irritou?
— Tudo nele me irrita, mas, deu para sair ilesa se não fosse o chiqueiro.
— Sei… - ela riu baixinho — Agora ele irá à feira da cidade vender os produtos que vocês recolheram.
— Interessante. – eu disse terminando de lavar os cabelos e começando a me secar.
— Saiu bem o cheiro?
— Sim titia, obrigada. Por sorte o estrago não foi tão grande! – eu já me vestia naquele pequeno quadrado de madeira.
— Mãe! As patas botaram também, eu tive que separá-las! - aproximou-se da varanda dos fundos conversando com a mãe.
Incrivelmente ele não estava emburrado. Era a primeira vez que eu o via, despreocupado, sem estar rabugento, sem rugas de raiva. E ele é realmente lindo. Depois de acabar passei por ele entrando à casa sem direcioná-lo palavra alguma.

A manhã correu e não demorou na cidade, antes do almoço estava em casa. Voltou com o dinheiro e sem nenhum ovo, leite, galinha ou verdura que havia levado para a feira.
Eu, finalmente cheirosa, desci para a cozinha e titia preparava o almoço.
— Quer ajuda?
— Não querida. Muito obrigada. Marcelo já recolheu as verduras na horta para mim e está quase tudo pronto.
— E o que posso fazer?
— O que você quiser.
— Então eu limparei a casa. Onde estão as coisas?
— No quartinho dos fundos. Mas não se preocupe em limpar tudo de uma só vez. Aqui, Rosa e eu fazemos as coisas devagar e com calma, há muito serviço e a casa é muito grande, não precisa se desesperar.
— Certo… E por onde começo?
— Limpe só a parte de cima. Os quartos. A parte debaixo arrumamos depois.
Seguindo os conselhos de tia Cora, eu limparia apenas o segundo andar: os quartos, o banheiro e o corredor. Rosa tomava seu banho para ir ao trabalho e se arrumava para sair. Na verdade, arrumava-a.
Passei pelo quarto dela, e ambos estavam de costas à porta. Fiquei observando-os, escondida. Achei aquela cena muito singela, ele não refletia o ogro de sempre.
— Tranças com lacinhos papai! – pedia para ele.
saberia mesmo, arrumar uma menininha com tranças e lacinhos?
— Já entendi filha… De que cor?
— Azul!
— Azul? Mas, você não gosta de azul. Verde não é a sua cor preferida?
— É… Mas a gosta de azul!
— Ela te disse isso? – era perceptível que ele não gostara nada do que acabara de ouvir.
— Não. Eu vi nas coisas dela que ela tem muita coisa azul… Eu tenho muita coisa verde, então ela gosta de azul né, papai?
— Sim filha, ela deve gostar. Mas, por que não usa a sua cor favorita?
— Porque eu quero ficar igual à , né papai! Dã! – ela dizia rindo e batendo na testa dele.
Saí dali antes que eles me vissem. mudou até a postura quando a pequena pronunciou meu nome. Ele realmente me detestava, e odiava ainda mais, o fato da filha gostar de mim. Pensei até que ele estivesse certo, afinal, eu pretendia ir embora e a pequena boneca cada dia se apegava mais a mim. Comecei a limpeza pelo banheiro, depois fui para o meu quarto. Assim que comecei a limpá-lo, veio me chamar para almoçar, mas, não parei a faxina. Ela despediu-se de mim com um longo e estalado beijo. A menina estava linda.
— Olha ! Papai passou batom em mim. – ela fez um biquinho me mostrando.
— Você ensinou direitinho para ele! Está linda!
— Não ensinei ! Papai sabe passar batom!
Foi muito engraçado ouvi-la dizer aquilo que soou tão ao contrário do pretendido.
— Então me dê um beijinho daqueles que eu te ensinei para não borrar!
Adverti, mas, a menina agarrou-me pelo pescoço e apertou tanto a minha bochecha que saiu quase sem fôlego.
— Pode ficar com o meu batom! – ela disse apontando com seus dedinhos pequenos para minha bochecha marcada e saiu correndo.
— Cuidado com a escada! – eu gritei.
Assim que acabei a faxina no meu quarto e no quarto de , segui para o quarto de . Eu fiquei receosa de entrar ali, porém, eu estava fazendo um favor e ai dele se reclamasse!
Para minha surpresa o quarto de era muito bem organizado. Limpei tudo direitinho, mas, em um momento específico, uma pulga instalou-se atrás da minha orelha. No criado-mudo dele estavam expostos alguns papéis com anotações, uma caneta, um relógio e o ioiô da . Tirei tudo e abrindo a primeira gaveta, coloquei-os lá dentro, porém avistei alguns papéis picados.
“Até que ele não é tão organizado”, pensei.
Ao pegar o montinho de papéis picadinhos fui montando-os e descobri uma fotografia. A fotografia de uma linda mulher grávida. Por que aquilo estaria ali daquela forma? Uma foto como aquela deveria estar em um belo porta-retratos. E quem seria aquela mulher bela? Virei às pecinhas ao contrário montando o verso dela, que apresentava a frase “nove meses da . Aquela bela mulher era a mãe da .
Percebi que nada sabia sobre a história da pequena e decidi que alguém iria me contar! Antes de guardar a foto fui pega em flagrante por titia. Ainda bem que fora ela!
— Desculpe tia, eu vi os papéis picados e iria jogá-los no lixo.
— Tudo bem. – ela sorriu simpática observando a fotografia montada em cima do criado-mudo. — O nome dela é Bruna. Linda, não?
— Muito linda. Eu… Posso perguntar o que aconteceu?
— Ela e foram namorados de infância. Quando estavam no último ano do ensino médio, queria fazer faculdade de engenharia agronômica e ela, sempre sonhando muito alto queria ser modelo. Iria para a capital investir nisso. Mas aí ela engravidou. Apareceu aqui e nos pegou de surpresa logo no início da gravidez. Ela queria abortar e seguir a carreira. Em nenhum momento foi uma mãe ligada à gravidez. Meu filho ficou tão feliz e com tanto medo dela tirar a criança, que imediatamente convidamos Bruna a morar aqui conosco até o fim da gestação. amadureceu muito com a vinda de . Você não imaginaria o rapazote sem juízo que ele era! Bruna insistia na ideia de não ter , porque segundo ela, o corpo não seria o mesmo e a sua carreira estaria destruída.
— Que absurdo!
— Sim. Rosa e eu nos mexemos muito para encontrar o tal agente que queria lançar ela e convencer o homem a esperar a gestação. Por sorte, ela é realmente linda e ele se interessava muito na carreira da Bruna, não queria perdê-la. Questões de lucro… Esse mundo é tão supérfluo…
— Eu sei bem como é titia. Em um repente as pessoas deixam de ser o ponto importante. – eu falei recordando-me da minha situação.
— Você tinha que ver o modo como ela se comportava diante da gravidez… Sem nenhum interesse, nenhum amor! Com isso, a gestação foi arriscada, sempre na vigília de médicos e lógico, com os olhares afiados de para que ela não fizesse nada contra o bebê.
Nós ficamos um tempo em silêncio, eu estava abismada. Titia guardou os restos da foto e pegou-me pela mão e nos sentamos na cama de para continuar a conversa.
— Ela foi o único amor do . Essa fotografia estava escondida… Mas, tenho pegado ele a observá-la algumas noites antes de dormir… Alguma coisa trouxe as lembranças dela. Quando nasceu, a casa inteira ficou radiante, com exceção é claro da Bruna, que não via a hora de se recuperar e ir embora. Ela nem mesmo amamentou, a .
— Esta mulher é um monstro! Céus… A é o ser mais amável, mais perfeito que eu já conheci. Uma criança como ela merece tanto amor!
— Você está certa. Mas, a Bruna não é como você. Desde o primeiro instante que você veio para cá eu sabia que se apegaria a você e você a ela!
— Sim tia, mas, eu preciso conversar com ela. Quando eu for embora não quero que ela sofra.
— Você não vai embora. Nem adianta retrucar! Eu sei do que estou falando. — Certo… – eu não discutiria com titia, pois nunca funcionava. – Mas, o que sabe sobre a mãe?
— Nada. decidiu dizer-lhe que a mãe morreu. Pelo menos até ela ter maturidade de entender o abandono materno. Entender… Ela nunca entenderá, mas, quando for maior poderemos ter essa conversa abertamente.
— Entendo.
— Por enquanto, essa fotografia deve ficar escondida.
— Ela nunca viu uma fotografia da mãe?
— Viu sim… Na escola costumam pedir essas coisas. Mas, não nutrimos isso até porque, da última vez, quando viu que a mãe nunca sorria, ela perguntou por que a mãe sempre estava triste.
— Deve ser tão confuso para ela...
— Agora ela não se importa tanto. Ou melhor, não demonstra. Ela se importa na verdade! Ela precisa de uma mãe, toda criança precisa.
— E ela merece muito, muito, carinho e amor.
— Pois é. Ai, ai… – ela disse se levantando. — Vou esconder essa fotografia.
Titia se levantou juntando os pedacinhos e os colocando dentro de uma caixinha, e de volta à gaveta. Permaneci sentada e pensativa, até titia se virar para mim percebendo o silêncio:
— Não vai almoçar?
— Prefiro terminar aqui primeiro.

Titia desceu e eu continuei meus afazeres. Assim que acabei fui almoçar. Já na mesa do almoço, não avistei . Supus que pela hora ele já teria almoçado e estaria recolhendo as vacas do pasto. Titia tricotava na varanda.
Ao acabar de comer, escovei os dentes e limpei a cozinha. Juntei-me à titia na varanda me deitando em uma das redes. surgiu tempo depois, distante montado em um cavalo. Eu estava certa, ele recolhera as vacas. Deixou o cavalo em que havia montado solto, e soltou o restante.
— É bom para eles sair um pouco das coxias. Toda a tarde ele faz isso. – disse titia que me observava por cima dos óculos enquanto tricotava.
De longe observei, guardando a cela no celeiro e saindo de lá vindo para a casa. As galinhas ciscavam próximas à varanda onde titia e eu estávamos. Eu balançava-me na rede observando-as na incansável tarefa de riscar as unhas e meter o bico no chão. Canelinha, como sempre, não dava importância a elas. continuava vindo com a cabeça baixa e chapéu vaqueiro na cabeça. Naquele sol da tarde, sem dúvidas o chapéu era adorável.
Levantei e enchendo a vasilha de água do cachorrinho com o líquido mais fresquinho chamei-o, e abanando o rabinho, alegre, matou sua sede. Eu sorri e voltei à varanda deitando-me novamente na rede. já se aproximava.
— Canelinha tem preguiça até de beber água. – disse titia para mim, assim que voltei.
Bença mãe. – disse beijando a cabeça da senhora.
— Deus te abençoe, meu filho. – titia respondeu-lhe enquanto ele entrava casa adentro e continuou a falar do cachorro: — Canelinha tem preguiça de tudo . É um cãozinho de enfeite.
De fato, se dependêssemos da proteção canina dele, mais poderíamos contar com os latidos de . Comecei a rir discreta com esse pensamento. Olhei para a porta da sala e deixava o chapéu no lugar de sempre, depois com as botinas sujas nas mãos seguiu aos fundos da casa. Voltei a admirar a fazenda e as galinhas.
Naquele instante todas as minhas preocupações surgiram imediatas. Eu estava vivendo um sonho. Uma fazenda bonita, afastada de tudo, pessoas legais, ou quase isso. Enfim, novos ares. Entretanto eu não poderia apenas desfazer-me dos problemas antigos como em um passe de mágica. Acordei de meus pensamentos com um susto.
jogou sobre minha barriga um bolo de jornal e uma caneta. Titia nos observava séria ainda tricotando. Olhei para ele sem nada entender.
— Te trouxe o jornal da cidade. É para você ver os classificados. Você é delegada, não é? Leia a segunda página, abriu concurso para o posto na capital.
Disse e dando-me as costas saiu. Como ele conseguia? Toda vez que eu pensava nos meus problemas ele surgia para me massacrar ainda mais! Era como se ele reconhecesse quando eu estava sofrendo e surgisse para piorar a situação.
— Ah! Mas, eu vou arrancar as orelhas desse moleque! – titia fez menção de se levantar e eu a impedi antes.
— Não tia! – falei mais alto, me sentando na rede fazendo-a se acalmar: — Ele está certo.
— É muito atrevimento, querida! – ela levantaria quando eu intervi novamente.
— Ele me fez um favor! Eu pedi para ele… – então ela olhou para mim surpresa. — Eu preciso arrumar um emprego.
— Ora… – ela esboçou um sorriso satisfeito voltando a tricotar mais contente:— Fico muito feliz que vocês estejam se entendendo.
Eu sorri sem graça apenas.
— Eu vou subir e analisar isso melhor.
Assim o fiz. Fui para o meu quarto e sentando-me na cama folheei o jornal. Interessei-me pelo concurso para a capital, mas, eu não poderia exercer minha profissão até o fim do julgamento. E nenhuma carta chegava! Eu estava cada vez mais desesperada, Lucas conseguira não só acabar com o meu coração, mas também, com a minha carreira. Comecei a chorar fracamente. Folheando os classificados da cidade fui marcando as poucas vagas possíveis.
surgiu na porta do meu quarto com um sorriso muito perverso no rosto. Eu limpei minhas lágrimas ao percebê-lo e ele retirou o sorriso do rosto ao perceber que eu chorava. Rapidamente de sarcástico ele fora para ranzinza.
— E então? Conseguiu alguma coisa?
— Eu marquei alguns anúncios.
— E quando você vai para a capital fazer este concurso e nos deixar livres da sua presença?
Ele disse entrando no meu quarto e parando à minha frente. Eu novamente estava furiosa com ele e a sua capacidade de espezinhar os sentimentos alheios.
— Lamento , mas, eu não posso fazer este concurso.
Eu me levantei indo em direção ao guarda-roupa separando alguma roupa, já marcava três horas da tarde e às cinco após pegar Rosa e na escola, ele e eu teríamos o infeliz ensaio de padrinhos.
— O que?
O incômodo era visível demais, ele realmente contava com o concurso para se ver livre de mim:
— E por que não?
— Eu não devo explicações a você. É pessoal. Não posso e pronto.
— Eu sabia que você inventaria uma desculpa! Está vendo como você é hipócrita?
— Ah, por favor! Me poupe!
— Fica choramingando por aí dizendo que vai embora e quando arrumo a oportunidade perfeita você inventa moda!
— Caramba! Eu vou sair daqui, tá? Eu vou aos lugares que marquei no jornal essa tarde!
— Mas, você ainda estará na cidade!
— Ah! A cidade é sua agora?
— Não, mas, quanto distante melhor! – ele gritou comigo saindo do quarto.
Eu massageava minha cabeça com as mãos quando ele voltou:
— E arrume-se por que…
— EU SEI!
Gritei com ele indo até a porta e batendo-a na cara dele. Fiz uma pirraça ridícula no quarto. Separei as roupas e fui ao banho.
Saindo do banheiro enrolada na toalha encontrei com ele novamente no corredor. Não nos olhamos e entramos em nossos quartos batendo as portas juntos.

Vesti uma calça social escura, uma camisa social branca e um saltinho baixo. Deixei os cabelos soltos com um feixe da franja presa para trás e pegando minha bolsa desci.
— Você está adorável!
— Obrigada tia. Nada demais.
— Vai somente ao ensaio?
— Não, vou tentar um emprego.
— Boa sorte.
— Obrigada.
já está te esperando na camionete. Boa sorte com ele também.
— Ai tia, muito obrigada! Sei que ele é seu filho, mas… – sem saber como me expressar sem ofendê-la, apenas sorri e fui em direção ao carro.
Entrei na camionete com os olhares de titia da varanda. deu a partida e meu celular tocou. Depois de tanto tempo, quem estaria me ligando?
— Alô?
meu amor… Como você está?
Ao ouvir aquela voz eu gelei. E imediatamente fechei a cara. , calado, ficou observando curioso.
— Lucas! Por que está me ligando seu filho de uma… O que você quer?
Ora , nós podemos superar tudo aquilo, não é?
— Não, não podemos! Eu vou te colocar na cadeia! Pode ter certeza disto seu bandido! – àquela altura eu gritava e já estava incomodado.
Pare com isso! Você sabe que não tem mais jeito para você… Inclusive, eu até poderia depor a seu favor! Eu te amo , não quero ver a minha garota sofrer! – à cada palavra que eu escutava mais raiva eu sentia.
Eu já estava vendo a cena: Lucas com cara de cínico rindo de mim. Cretino!
— Porque me ligou? Fale logo!
Convido você a vir ao meu iate para um passeio amanhã. Tenho novidades sobre o seu processo… Pode ser de grande ajuda a você! Está em suas mãos.
— Iate? Como você subiu rápido, não? Eu nunca confraternizarei nada com você! Mantenha-se fora do meu caminho! Eu vou provar que você é o bandido dessa história e…
Poupe esforços. Sua carreira está acabada. Amanhã às 16 horas. Se você não vier, enfim… Será um desperdício de talento… Você sempre foi tão justa delegada.
Ele encerrou o telefonema e eu estava aos cacos! Quando pensei que toda a trama havia sido revelada, ele ainda preparava mais. Eu precisava urgentemente ter notícias do meu processo.
Disquei os números de Ângelo, meu amigo advogado que me ajudava com o julgamento.
— Ângelo? É a , assim que chegar em sua casa me ligue, por favor! É urgente. Lucas me ligou com ameaças… Bem, aguardo seu contato.
Deixei o recado na secretária eletrônica. Recostei a cabeça para trás e fechando os olhos eu imaginava coisas positivas a meu favor. Senti um incômodo grande e quando virei meu rosto, encarava-me como se exigisse explicações. O carro estava parado.
— O que foi agora? – me ajeitei virando para ele, bravia.
— Pode começar a explicar tudo!
— Então titia não te contou nada?
— Não entrou em detalhes.
— Então pronto! Não te interessa!
— É lógico que interessa! Ainda mais, depois de presenciar este diálogo! Você está metida com o quê?
— Ai , por favor! Eu estou cansada de você, cansada da sua irritação, cansada de ter que olhar para a sua cara! Então pise neste acelerador para que eu resolva a minha vida e me afaste de você o quanto antes!
— Ainda temos o ensaio!
— Pois é! Vai ficar me enchendo ou vamos logo à cidade?
— Você me explicará tudo mais tarde! – ele concluiu enérgico dando a marcha.
Continuamos o percurso calados. Eu pensava no que Lucas estaria, por fim tramando. E … Bem obviamente ele me detestava ainda mais após presenciar aquilo tudo. Se, ainda sem saber de nada ele já me odiava, me assimilando a mil crimes como imagino que faria, é que ele desejaria meu desaparecimento o mais rápido possível.

Ao chegar à cidade, ainda eram quatro e meia da tarde, horário de saída da escola. Ele me deixou em frente a um escritório de contabilidade e foi à escola. Deixei meu currículo com o homem responsável, respondi a um questionário e preenchi um formulário. Cidades pequenas… Eu juro que esperava uma entrevista, mas, pelo visto o escritório não tinha tanto movimento assim. Torci para que desse certo.
Como não tinha tempo de ir a outros lugares me apressei à igreja. Chegando lá todos estavam a postos, menos eu.
estava ajoelhada no altar rezando. Muito fofa. Assim que entrei, resmungou qualquer coisa. O outro casal de padrinhos e os noivos viraram sua atenção para mim.
— Boa tarde, lamento o atraso.
— Boa tarde. – responderam todos, menos o ogro.
— A benção padre. – peguei a mão do sacerdote em respeito.
— Deus te abençoe minha filha. Como está?
— Bem. Eu acho.
Eu me segurei para que minha expressão não atrapalhasse na entrevista, mas, no caminho de volta à igreja eu recomecei o martírio de preocupações e todos devem ter percebido.
terminando sua oração veio correndo até mim deslizando pelo chão da igreja como uma molequinha bagunceira e me abraçou.
— Pronta para se casar? – ela me perguntou.
— Não! Quem te disse isso? – eu perguntei a ela surpresa.
colocou a mão na testa, um pouco constrangido e sussurrou para ele mesmo: “Aí vem!”, quem percebeu sorriu com aquilo.
— Uai! todo mundo aqui! Eu que vou levar os aneizinhos, o padre e os três casais! Só falta a vovó!
— Ah… – eu estava muito sem graça, mas, o restante que já conhecia a pequena gargalhava diante da inocência dela, inclusive o padre.
Antes que eu terminasse de falar, escondendo seu sorriso pela molecagem da filha, interveio:
, o que o papai conversou com você ontem?
— Que hoje você ia ensaiar com a o casamento! – ela disse confusa, porém óbvia, colocando as mãozinhas ao lado dos ombros.
— Sim , o casamento da sua tia Rosa com o tio Marcelo. Eles é que vão se casar. Seu pai, tia Margarida, tio João e eu somos os padrinhos. – eu disse acariciando o rostinho dela.
— Ah… Então eu só vou levar um anelzinho? – ela murchou como flor fora da água.
— Eu deixo você levar dois! – Marcelo disse abraçando-a como se fosse novidade.
Ela arregalou os olhos e sorrindo muito feliz o abraçou.
— Bom, então vamos iniciar. – disse o padre.
Nós, padrinhos, começamos atravessando até o altar e nos colocando nos nossos lugares. atravessou a igreja, depois deu a volta por trás do público, discretamente e entrou novamente levando a irmã ao altar. Tudo certo, e eu que achava não precisar repetir aquilo, sofri. O padre pediu que voltássemos mais duas vezes, na última já vestidos. Após sair dali um policial aguardava-nos na porta da igreja.
— Senhorita Andrade?
— Eu mesma.
— Queira acompanhar-me, por favor.
Rosa, Marcelo e olhavam-me preocupados. brincava com alguns passarinhos que voavam na praça da igreja.
— Tudo bem. Podem ir. – eu disse para eles.
— Marcelo, você pode levar Rosa e para mim? – perguntou .
— Claro. Até mais. – eles distanciaram-se, despedindo de nós.
Cadê o papai e a ?
— Eles vão passear . – disse Rosa para a pequena.
— Por que está indo comigo? – perguntei para o ogro ao meu lado.
— Porque eu vou descobrir o que está acontecendo de um jeito ou de outro!
Um grosso. Ao chegar à delegacia, o delegado veio conversar comigo sobre o meu processo. Documentos tinham chegado e por ordem do juiz, a delegacia da cidade deveria saber sobre o que acontecia, inclusive sobre minha presença. Primeiramente, por eu ser suspeita e depois, porque eu teria de prestar novos esclarecimentos na cidade onde eu estivesse, se necessário. não poderia ouvir a minha conversa com o delegado, mas sondou todos os policiais possíveis para saber o que ocorria. Percebendo que eu era uma pessoa tranquila o escrivão e até mesmo o delegado apostaram na minha sinceridade.
— Apesar de achar que você é inocente, você sabe… Nós não podemos achar, nós precisamos provar. E as provas estão contra você .
— Entendo perfeitamente delegado Moura.
— É lamentável ver uma colega de profissão passando por isso. Bem, qualquer novidade nós entraremos em contato, nós estaremos atentos a você. Desculpe por isso, mas, faz parte do protocolo.
— Não deve se desculpar. É a nossa profissão. Meus bons antecedentes falarão por mim ao fim de tudo isso. – eu disse levantando-me e cumprimentando-o. — Até mais e muito obrigada.
Saí daquela sala e o delegado logo veio cumprimentar que mais parecia uma barata louca. Ele o encheu de perguntas afastando-se de mim, mas, o policial se manteve calado. Discrição do ofício.
se remexia agitado ao meu lado. Coçava o nariz, a boca, a cabeça. Estava inquieto.
— Ora acalme-se! Que irritante! Eu não sou uma bandida, tá legal? Não viu que até o delegado acredita em mim?
— Gabriel é tão inexperiente quanto você!
— Não sou tão inexperiente quanto pensa.
— E confia demais nas pessoas!
— Eu não sou criminosa, !
— Não posso me acalmar até escutar a sua versão da história.
— Ainda bem que o delegado não é você!
— É de fato uma pena! – entrou no carro emburrado.
— Escuta... – eu disse chamando-lhe a atenção.
O automóvel já andava.
— Por que diz que o chefe da delegacia é tão inexperiente quanto eu?
— Gabriel pegou o posto na delegacia há um ano e meio. Em uma cidade pequena como essa, dá impressão que ele ainda está estagiando.
— Você parece conhecê-lo bem.
— Não vem com essa de querer sondar do cara só para jogar sujo!
— Ai! Como você é impossível! Eu te odeio, sabia?
— É recíproco. – virei o rosto e ele continuou sério.
— Mas te respondendo… Estudamos na mesma faculdade. Nos conhecemos desde moleques.
— Você ainda é um moleque.
— Cala a boca ou eu te jogo deste carro em movimento.
Ele falou sério, mas, eu sorria de canto olhando pela janela. Como ele era idiota! Que tipo de ameaça foi aquela?

Em casa eu li os papéis que tinham chegado e consistiam de novas datas dos julgamentos. Ângelo ligara e disse que as coisas estavam difíceis para o meu lado, mas, que conseguira um trunfo. Uma testemunha que ajudaria muito.


Capítulo 4 - O Casamento de Rosa

Tocar na playlist: (Woman, Amen – Dierkys Bentley)


Durante a semana, não insistiu mais em saber dos meus problemas. Em contrapartida estava superprotegendo de mim. A pequenina nada entendia com as atitudes do pai. Quando eu me aproximava, ele a afastava. E não adiantava Rosa ou titia insistirem nas discussões, ele era o pai e tinha o direito de não querer a filha perto de uma suspeita.
Acha mesmo que eu colocaria uma pessoa perigosa dentro da nossa casa? – dizia titia em uma das discussões que furtivamente flagrei.
Não mamãe, mas, quem disse à senhora que está certa sobre o caráter dela?
Eu estava colocando aquela família uns contra os outros. E nada de emprego. Eu perdia a fome, o ânimo e nem mesmo o ar mágico da fazenda me satisfaziam mais.
Por falar em fazenda, cada dia era uma nova cicatriz, um novo tombo e novos desastres. Entre alguns deles: alguns cavalos fugiram do estábulo e tivemos, e eu, que os perseguir.
Eu juro! Juro que se eu não conseguir me livrar de você, eu morro!
— Então somos dois, seu idiota!
— A culpa foi sua, como você deixa a droga da porteira aberta? Será que não pensa, garota?
— Seu estúpido! A culpa também foi sua! Se tivesse disposto a trabalhar em equipe, eu saberia que era para deixar a droga da porteira fechada!

Novas discussões.
Num outro dia, me esqueci de amarrar os pés de uma das vacas e quase morri se não fosse por que acalmou a vaca e afastou-a de mim.
Não se meta se for para me atrapalhar!
— Ah pode deixar! Eu não vou me meter mais, senhor fazendeiro! Faça tudo sozinho!
— Eu fazia antes e estava tudo ótimo!

Novas discussões.
Ainda tiveram os porcos que me derrubaram mais vezes. Também fugiram e tive que tentar pegá-los sozinha, enquanto o me humilhava com comentários e risadas. Acho que nada é pior do que perseguir porcos. Muitas discussões se deram.
Naquela semana a bruxa estava à solta na fazenda. Nos ensaios tudo ocorreu bem. No dia do casamento de Rosa, a fazenda estava toda enfeitada para a festa. Arrumação simples, mas, linda.
Na varanda, flores espalhadas e balões pendurados no telhado. Uma mesa de comida fora colocada ali. Pouquíssimas pessoas foram chamadas à festa.
Antes de ir para a igreja, eu estava no topo da escada, escondida ao corredor flagrando chorando no colo de titia:
A senhora disse que seria como nos filmes das princesas… – ela dizia abraçada a avó.
E será querida! Mas, estas coisas demoram um pouquinho. – a avó consolava carinhosamente a neta.
surgiu pela porta da frente fazendo titia e , que estavam sentadas ao sofá, prestarem atenção nele e eu que me escondia no corredor também. Ele entrou na sala, apressado.
Você está lindo papai! correu para abraçá-lo.
Obrigado, filha…
Ele retribuiu o abraço e deu-lhe um beijo. E sorriu.
sorriu. E como era lindo o sorriso dele. Eu nunca o vira sorrir e fiquei assustada com todo o brilho de seu rosto. Ele estava feliz pela irmã. Vestido com uma camisa branca social, colete prata por cima. Calça preta e sapatos a caráter, só faltaria o terno. Os cabelos penteados de um jeito jogado, mas elegante. Como se houvesse uma franja no estilo, Tom Cruise na frente. Lindo. Os olhos azuis dele refletiam uma alma que ele deveria ter. Talvez uma alma que se apoderara do corpo dele. Eu não conseguia humanizar o . Por mais que eu tentasse, ele não passava de uma escultura de pedra.
Estão todas prontas?
— Sim filho! Vou chamar a .
— Mande ela se apressar! Rosa já deve estar na porta na igreja aguardando!
– o rosto tão perfeito se desfez na mesma imagem de sempre. — Mulher insuportável.
A cada dia odiava-me mais e eu, compreendia menos. Não compreendia de onde vinha tanto ódio. Assim que tia Cora me gritou eu desci as escadas.
deu um grito espantada, ao me ver. Colocou suas mãozinhas sobre as bochechas como se não acreditasse no que estava vendo. Tia Cora e viraram-se então para mim.
Eu vestia um longo vestido em tom nude, de seda ao modelo grego. A saia esvoaçante e o corpete comportado em seda brilhante com trançado no desenho da cintura a simbolizar um cinto. Sem decote atrevido. Faixas de seda fina pendiam caídas em meus braços. Simples e lindo.
— É uma princesa vovó!
subiu as escadas gritando e parou alguns degraus à frente para me observar de perto. Estava assustada.
— É a , . – tia Cora sorria para mim admirada.
? Você é uma princesa!
Eu ria divertida com a garota.
— Não, você é que é!
— Você é uma princesa da Disney! Não é, papai?
ainda estava sério e austero me observando dos pés à cabeça. Virou-se sem dizer nada e saiu pela varanda.
— Vamos . – eu dei a mão para ela.
— Papai não vai brigar?
— Se ele brigar, eu brigo com ele.
— Não quero que vocês briguem.
— Tudo bem! Ele disse que hoje não vai brigar comigo.
A menina sorriu e fomos até o carro. Na igreja a cerimônia foi emocionante. A decoração estava perfeita, ao estilo campestre: arranjos de flores do campo, enfeitavam os bancos da igreja, e o altar, de maneira majestosa. E no caminho para a festa fui obrigada a voltar com o ogro. Calados.
Viemos para casa, junto à titia e antes de todos os convidados para recebê-los.
Ao chegarmos, com exceção de , nós fomos preparar os últimos retoques. Aos poucos todos foram chegando. Logo após, os noivos. e eu teríamos que fazer pose de “bons padrinhos”, isto é, fingir que nos dávamos bem e nos apresentar juntos diante os convidados. Enquanto conversávamos, de muito contragosto próximos à varanda, algumas pessoas foram aproximando-se de nós.
Eita, mas, a festança no agrado hein?
— Senhor Aguinaldo! Como é bom revê-lo! – sorri largo o cumprimentando:
— Como o senhor está?
— Melhor agora, moça bonita perto é sempre uma alegria!
Senhor Aguinaldo deu sua risada tão gostosa, que eu admirava. Sempre com tanto bom humor e galanteios.
— Ah, obrigada. O senhor é muito gentil.
um galantão, né rapaiz? – ele disse batendo nos braços de ao meu lado.
— Ora senhor Aguinaldo, com tanto serviço uma hora eu deixaria de ser um moleque magricelo, não?
Ele riu junto com o velhote e parecia que nós não estávamos incomodados um com o outro.
— E espevitado! – o velhinho concluiu risonho: — Agora… Cê, num é nada bobo, né não?
O velhinho piscava gargalhando para ele e batia em seus braços com os cotovelos.
— Uai, por quê seu Aguinaldo?
— Já arrumou uma moçoila bonitona de novo! Essa, aí tamém parece modele-te de revista, iguais às de minha época! – o velho sorria inocente.
Fiquei totalmente sem graça e de olhos arregalados após aquele comentário. Só não sei dizer se por ele ter tocado no assunto da mãe de ou por ter pensado que nós dois estávamos realmente juntos. Que horror. e eu? Impossível.
— Nós não estamos namorando, seu Aguinaldo. – respondeu gentilmente e de forma descontraída.
— Uai! Não? – o velho tornou-se incrédulo: — Cê tá marcano essa bobeira?
Nós rimos tentando ser corteses, particularmente, eu procurava um buraco para enfiar minha cabeça.
— Pois é… Eu não faço o tipo da . – o respondeu e me olhou sorrindo.
Quase acreditei na farsa dele.
— Que dó! – ele me olhou espantado: — Óia mocinha, o Zé Pirraça é um dos mió partido da cidade. É o mais bonito! Dá uma checada nos zóiões azul dele!
E o velhote, ria inflamando o ego do ogro ao nível máximo.
Ele realmente estava fazendo campanha para o ? Que vergonhoso!
— Eu acabei não te apresentando o meu afilhado! Ô Carlinhos! – o senhor chamou um rapaz simpático e bonito para perto de nós: — Carlinhos, essa aqui é a . A moça bonita que eu te falei!
— É um prazer conhecê-la. – o rapaz cumprimentou-me muito simpático.
— Ora, o prazer é meu. – respondi gentil: — E muito obrigada pelos elogios senhor Aguinaldo.
— Meu padrinho é um galanteador. – disse Carlinhos e nós rimos.
Passamos um pouco mais conversando e divertindo-nos com os comentários do velhinho. parecia não se importar com a minha presença. Então eu pedi licença aos senhores e fui até titia cumprimentar alguns conhecidos dela. Após isso, avistei a senhora Carlota, proprietária da vendinha onde passei o primeiro dia brincando de ioiô. Ela falou comigo, mas, brevemente se despediu, pois segundo a própria, não poderia demorar. Despediu-se e eu fiquei onde estava. Em pé bebericando meu suco e observando todas as pessoas festivas. Eu não conseguia pensar na minha face com sorrisos como aqueles que ali planavam.
— No que está pensando, senhorita? – um rapaz se aproximou ao meu lado e eu virei para olhá-lo.
— Ora… Como vai?
— Muito bem! Mas diga-me: o que lhe incomoda?
— Por que acha que algo está me incomodando?
— Porque rostos bonitos como o seu devem nos passar, serenidade e não preocupação.
Fiquei sem palavras.
— Está certo senhor Moura…
— Ah não! Eu não sou muito mais velho do que você! Gabriel, apenas.
— Gabriel… – eu sorri. — Eu pensava em... quando eu conseguirei experimentar esta felicidade toda.
— Casamento?
— Não. Não que eu não queira me casar, mas, eu gostaria de ter um punhadinho de felicidade ultimamente, independente do que a trouxesse.
— Me acompanha? – ele me olhou sorridente indicando os bancos afastados espalhados no meio do quintal.
Eram bancos de praça, pintados de preto e enfeitados com flores brancas. Lírios brancos. Sentei-me e Gabriel repetiu o gesto. Ficamos um de frente ao outro.
— Sabe … Posso chamá-la assim?
— Claro!
— Sei que aqueles problemas devem estar te incomodando bastante. Depois que vocês saíram, eu fiquei pensando sobre o seu caso na delegacia. Estudei as cópias que recebi dos seus processos e você tem antecedentes bons. É uma delegada séria. Coloquei-me no seu lugar e cheguei à conclusão de que, se fosse comigo eu já teria surtado. Você é muito forte e corajosa. Eu não deveria ter um veredito pessoal sobre o seu caráter, mas… Já sentiu quando você olha nos olhos de alguém e enxerga toda a alma daquela pessoa?
— Já. Intuição. Eu sempre sigo a minha. Nem sempre, na verdade. Se eu tivesse a escutado não passaria por nada disso agora.
— Que bom que não escutou então!
— Como?
— Sem nada disso você não estaria aqui com sua tia e primos. E nós não teríamos, nos conhecido. – ele ficou um pouco corado e abaixou a cabeça sorrindo.
— É… Por esse lado… Mas sabe, não somos parentes. Não de sangue. Contudo, titia, Rosa e me recebem como se há anos eu frequentasse a família.
— E ?
— Digamos que se nada disso tivesse ocorrido, não ter o conhecido seria meu maior presente.
Eu disse indiferente correndo os olhos pelas pessoas procurando aquele que era a pedra no meu sapato. Não o vi. Gabriel sorriu e continuamos prestando atenção um no outro e conversando.
— Como eu dizia… Eu sei que você é uma boa pessoa e está sofrendo uma injustiça. Colocando-me no seu lugar eu não teria a mesma força de disfarçar o sofrimento, como você tem feito. Pensei muito em você aquele dia e desde então, não consigo parar de ler seus papéis. Pode contar comigo, certo?
— Você não sabe o quanto é bom ouvir isso.
— Nem imagino. Sei disso. Mas, se aceita um conselho, Deus nos coloca nas situações certas por mais que pensamos serem erradas. Isso aconteceria com você algum dia, porque Ele te colocou no caminho da sua felicidade. Caberá a você escolher a estrada certa.
Lágrimas fraquinhas escorreram por meu rosto. Eu nunca havia pensado daquele modo. Foi tão reconfortante. Gabriel enxugou minhas lágrimas e naquele momento titia se aproximava de nós.
— Não estrague a maquiagem. Por mais que você não precise dela. – ele disse e riu enquanto seus dedos enxugavam minhas lágrimas. Não pude deixar de sorrir.
— Você está certo. Alegria, por mais difícil que possa ser!
— E sabe… Meus investigadores também acreditaram em você.
— Obrigada. – eu disse apertando a mão dele e titia parou em nossa frente encarando nossas mãos com um sorriso muito sem graça.
— Gabriel. Olá. Como vão as coisas?
— Tudo muito bem dona Laura. Parabéns pela festividade.
— Ah sim, muito obrigada. Sai uma filha e entra outra. – ela sorria para mim — … Rosa e Marcelo vão dançar com os padrinhos agora.
— Está bem, tia Cora.
está te procurando. Vamos?
— Já vou. Peça a ele para me esperar na varanda, por favor.
Eu disse e ela sorriu para Gabriel de uma forma que julguei estranha, nos dando licença.
— Você também a chama de Coralina? – me perguntou Gabriel.
— Não chamava, mas, o senhor Aguinaldo disse assim uma vez e eu acabei me acostumando. Sabe o porquê, de Coralina?
— Meu avô dizia que quando eram crianças, Dona Laura tinha uma boneca com nome de Coralina que era a sua preferida, e ela queria se chamar Coralina. Então as outras crianças a chamavam assim.
— Legal. – eu disse sorrindo para ele.
Gabriel desviou o olhar brilhante, de mim para algo, atrás de mim. Olhei também e era em sua figura rabugenta de sempre.
— Como vai, ? – perguntou-lhe o amigo.
— Bem. , temos que ir.
É um bruto!
— Nos vemos Gabriel. Foi um prazer. – eu disse o abraçando e levantando-me. Ele, cordialmente se levantou também.
— Concede-me uma dança mais tarde?
— Claro. – eu sorri sem graça, com me puxando pelas mãos.
— Qual o seu problema? – ralhei séria com diante àquela situação.
— Quero me livrar logo disto. – ele disse me olhando dos pés à cabeça muito, mas, muito grosseiro.
Dançávamos os padrinhos e noivos. Era terrível ter que dançar com ele, e até pensei em pisar-lhe os pés algumas vezes, mas, tive medo de que ele fizesse um escândalo. Muito próprio dele. Depois passei para os braços do outro padrinho. A dança seguiu tranquila e por último dancei com o noivo.
— Como está se sentindo “senhor mais novo marido sortudo”? – perguntei risonha, ao Marcelo.
— Nas nuvens. É o dia mais feliz da minha vida. Como se eu despertasse hoje para a razão de eu viver.
— É uma honra presenciar esse amor entre você e a Rosa. Vocês merecem ser muito felizes e eu lhes desejo tudo de melhor.
— Obrigada . E você?
— Eu o quê?
— Quando vai nos dar a honra de presenciar o seu casamento?
— Ah não mesmo! Eu não quero saber de romances tão cedo.
— Não sei… Acho que alguém pensa diferente de você.
Marcelo disse apontando-me a figura de Gabriel em pé no meio de todos a nos observar. Acenei para ele.
— Não viaje, Marcelo. – eu sorria sem graça.
— Ele está interessado. Eu percebo estas coisas. – Marcelo brincava comigo.
— Bem… Ele tem sido um cavalheiro.
— Já é um progresso. – ele sorria divertido. — E ?
— Não estrague a conversa, por favor.
— Vocês precisam parar com isso.
— Ele me odeia. Não tenho culpa.
— Está disposta a reverter esta situação?
— Estive no início, mas, agora o melhor é que, um não pise no calo do outro. – eu disse e Marcelo sorria maroto.
— Falando em pisar nos calos dele…
— O que?
Neste momento os casais trocaram novamente para suas formações originais e lá estávamos: o ogro e eu dançando insatisfeitos.
Assim que a dança terminou demos uma última encarada desprezível um para o outro e uma voz atrás de mim salvou-me. Vi a mão esticada ao meu lado e me virei.
— Me concede uma dança?
Gabriel perguntou e conseguiu arrancar um sorriso que a figura de conseguia sufocar.
— Mas é claro! – peguei na mão dele e o segui.
Antes, como um bom gentil que ele é, Gabriel pediu licença e agradeceu ao pelo “empréstimo” da dama. Detestei o comentário.
— Não quero parecer um galanteador barato, mas, adorei vê-la dançar. – disse-me o delegado.
Passamos o restante da festa, juntos. Dançamos, conversamos e rimos. Rimos como há muito tempo eu não fazia. E com “muito tempo” eu falo de mesmo antes de toda a minha vida desabar.
Eu não conseguia pensar em uma companhia tão boa que estivera em minha vida como a de Gabriel, talvez porque de fato nunca houve. Seria até injusto com meus amigos, dizer algo assim, mas realmente, o Gabriel era diferente. Ele tinha uma mansidão e trazia um aconchego que na euforia de São Paulo, não havia entre eu e meus poucos amigos.
Titia ficava nos mapeando furtivamente. Embora ela achasse que não percebíamos, nós somos delegados e temos naturalmente o “complexo da vigilância” e sempre sentimos quando nos observam. A partir disso fomos buscando os olhares e entre um disfarce e outro avistamos a senhora Laura Coralina a nos espiar.
Fiquei preocupada com a atitude dela. Estaria ela desgostosa pela minha proximidade com Gabriel ou estaria feliz?
Em certo momento estávamos sentados no banco e ríamos harmonicamente quando fomos interrompidos pela sombra de , outra vez.
— Mamãe pediu para te chamar, Rosa já vai jogar o buquê.
— Eu agradeço, mas, não vou participar da brincadeira. – ele ficou em pé ao meu lado olhando confuso e de repente algo pesado caiu em meu colo.
Assustada, eu olhei para minhas pernas e lá estava aquele magnífico buquê. Todas as mulheres me olhavam, desanimadas. Rosa sorria e pulava alegre, com a e a titia maravilhadas.

“Parabéns ! Você é a próxima! ”.


Ela gritou da varanda de onde jogou as flores. ainda me encarava atarantado e Gabriel ria divertido com toda a cena, e acredito que com a minha careta espantada.
Por quê? Por que logo eu que estava sentada? Eu tinha que me sentar de frente para a varanda? Também, como eu adivinharia!?
— Para quem não queria o buquê hein… – Gabriel dizia rindo, divertido: — Acho que o destino está brincando com você!
— Só pode! – eu disse meio zonza.
Levantei ainda assustada e fui até a noiva dar o abraço nela. sentou-se no meu lugar enquanto eu ia até Rosa. Ela me abraçou cheia de pulos e eu não conseguia mover nenhum músculo. Apenas um, que me possibilitou dizer-lhe:
— Você fez de propósito?
— Não! A vida é que está pregando umas peças em você! – ela respondeu de volta.
Abracei Marcelo e logo todos começamos a nos despedir dos noivos. estava agarrada à minha perna e à medida que os noivos foram embora, as pessoas também começavam a ir.
, foi bão dimais da conta vê ocê! Cê ainda me deveno aquele cafezinho com prosa! O coador é velho, mas o café é bão! – e a risada mais singela veio à tona novamente.
— Até mais , foi um prazer. – achei o afilhado farmacêutico, muito simpático!
— Senhor Aguinaldo pode me esperar! Eu não vou demorar muito a bater por lá não! Foi um prazer conhecê-lo também Carlos!
— Até mais zinha! – disseram o velhote e o afilhado.
A boneca às minhas pernas, e eu, nos despedimos de todos e enfim, meu novo amigo surgiu.
— Bem, foi ótimo estar com você e poder conhecê-la melhor .
— É recíproco Gabriel.
Ficamos sorrindo um para o outro até pigarrear e me cutucar.
— Bom! Até mais então! – ele me abraçou e beijou-me o rosto. Retribuí o ato— Eu te ligarei assim que tiver mais notícias, inclusive sobre o trabalho. — Ah, por favor, eu preciso mesmo trabalhar!
apareceu ao nosso lado, arqueando uma sobrancelha para mim ao ouvir o que eu dissera. Ele deu a mão à filha chamando-a para entrar e se preparar para descansar.
— Até mais . – disse Gabriel simpático e sorridente.
Para que desperdiçar simpatia com o ? Como ele consegue ser amigo dele?
— Até mais. – ele disse e se afastou.
Fiquei muito sem graça com a atitude dele.
— Ele deve estar cansado. – eu disse ao jovem delegado.
— Nada. Sei bem por que ele está assim. Conheço de longe, o garotão aí.
Gabriel disse rindo, com as mãos nos bolsos e balançando a cabeça de um lado para o outro sorridente.
Despediu-se novamente e entrando em seu carro foi embora. Logo todos haviam feito o mesmo e eu comecei a limpar as coisas, mas, titia surgiu e impediu-me:
! Por favor! Deixe isso aí menina! Já guardei as comidas e agora vamos todos descansar.
— Tudo bem titia, eu arrumo rapidinho.
— Não! Vá tirar seu belo vestido, tomar um banho e descansar. Amanhã arrumamos aqui fora!

Entrei e fiz o que ela disse. Logo titia foi se deitar e ficamos apenas , e eu acordados. Eu estava em meu quarto lendo novos classificados que não obtinham novidades, quando a pequenina surgiu toda cheirosa ao lado de minha cama.
— Ei, por que não está dormindo?
— Estou com medo
A abracei puxando-a para se deitar ao meu lado. Cobri . Confortei-a em meu corpo e pousei as leituras no criado-mudo.
— Medo do quê?
— Tia Rosa foi embora e papai fica falando que você também vai. Eu não quero ficar sozinha…
Um infeliz! Ele precisava dizer aquilo a uma criança?
— Você nunca estará sozinha. Tem seu pai e sua avó que moram aqui com você. A tia Rosa também não está te deixando sozinha, ela só mudou de casa! Agora, ela e o tio Marcelo se casaram!
— E como nos filmes vão ter filhinhos!
Daí eu me recordei daquela manhã em que a garota comentava algo com a avó sobre filmes:
A senhora disse que seria como nos filmes das princesas…
— E será querida! Mas essas coisas demoram um pouquinho.

— Sim. Mas isso pode demorar um pouquinho. Onde está seu pai?
— No banho. Você vai me deixar sozinha, ?
A pequena tinha os olhos marejados e me encarava como se daquela resposta dependesse a sua vida.
— Não. Nunca! Seu pai não gosta muito de mim , mas, eu já disse para ele que, nada vai me impedir de estar sempre perto de você. Eu sempre estarei contigo, mesmo que eu não more no mesmo lugar. Lembre-se sempre disso, tá?
Tá. Por que o papai não gosta de você?
— Eu acho que ele tem ciúmes de você comigo.
Inventei uma resposta porque nem mesmo eu, conhecia a verdadeira resposta.
— Eu te amo ! – ela disse e me abraçou forte.
Tão forte como eu nunca pensei que aqueles bracinhos poderiam abraçar. Retribuí o gesto com lágrimas nos olhos.
Só então percebi estático. Parado, com a toalha enrolada na cintura, em frente à porta do meu quarto, nos olhando. Não sei quanto tempo ele estava ali, mas, o olhei de uma forma tão vazia e dolorosa que ouso dizer que a expressão dele provinha disso. Como ele poderia falar aquelas coisas para ? Sei que para ele, provavelmente, a verdade é que eu estava ali apenas para desestruturar a família e que logo eu iria embora friamente, mas, ele não deveria compartilhar aquilo com a pequena. Ela estava sofrendo e eu ainda mais.
Ele saiu antes que e eu, desfizéssemos aquele carinho. Então logo, voltou a se deitar abraçada ao seu cavalinho de pelúcia. De repente a menina se ergueu sorridente.
! Pentia meus cabelos?
— Claro. Mas, você não está com sono?
— Não, mas, quando tia Rosa pentia eu fico.
— Está bem, boneca. Eu penteio! – falei com ênfase a palavra que ela dissera errado, a fim de fazê-la notar o erro. Mas, era apenas uma menininha de sete anos.
— Eu vou buscar a minha escova de cavalinhos lá no meu quarto. – ela desceu toda desengonçadinha da minha cama. Era um pouco alta e ela tinha que dar um pulinho muito fofo.
— Cuidado, pequena. – eu disse e ela sorriu.
Saiu pela porta e depois apareceu de volta com uma mãozinha na cintura e na outra, seu dedinho indicador apontava para mim. Com uma cara brava ela disse:
— Não dorme hein! Me espera!
— Não vou dormir. – eu prometi e ela saiu correndo.
Não levou nem três minutos que ela saiu, para aparecer como uma ventania no meu quarto, ainda apenas de toalha na cintura. Como se estivesse nos espionando, escondido.
— O que você pensa que está fazendo?
Ele disse todo estufado na beira da minha cama. Eu desci me sentando na ponta dela, o encarando fria.
— Eu quem pergunto! Sua filha está sofrendo com as coisas absurdas que você está dizendo a ela!
— Eu estou apenas dizendo a verdade! É melhor do que a iludir!
— Você não sabe de nada! Eu amo a e nunca a faria sofrer! Você não enxerga que é você quem está causando problemas para sua família? Por que você tem que fazer eu me sentir tão mal? O que você ganha com isso?
Assim que terminei de falar vi a parada na porta nos observando com olhos arregalados. olhou para trás e a viu também.
— Não diga nada que… – ele dizia em tom mais baixo dando passos à frente, mas, tropeçou no meu chinelo e acabou caindo em cima de mim em minha cama.
Assustados com aquilo apenas ouvíamos a risada divertida de . Ele se levantou um pouco, ainda se apoiando na cama e sobre mim.
— Nada que a iluda! – concluiu a fala e saiu sério.
Fiquei desconcertada com a situação e não me levantei. disse ao pai antes dele sair:
— Vovó disse que você não pode ficar só de toalha, papai! Tem mocinhas aqui.
Ela falava para o corredor e entrou rindo alegre e saltitante. Fechou a porta do meu quarto e subiu na minha cama. Eu ainda estava deitada atônita olhando o teto até que a carinha de apareceu sobre o meu rosto mostrando as canjiquinhas brancas. Sentei-me e ela ainda ria. Eu deveria estar como um tomate. Estendeu-me a escova dos cabelos e se virou. Endireitei-me e comecei a pentear os cabelos dela.
— Você acha o meu papai bonito, ?
Crianças…
— Ah… O seu pai é bonito sim, . – ela colocou as mãozinhas no rosto de um jeito nervoso, como se aquilo tudo fosse uma pegadinha.
— Mas você é muito mais! – eu respondi descontraindo as ideiazinhas frouxas que deviam pairar na pequena cabecinha de .
— Você também é! – ela disse virando e sorrindo.
Penteei os cabelos dela enquanto ela cantava algumas cantigas de criança. Em meio a um acorde e outro ela bocejava. Logo estava com sono e eu parei. Deitei-a ao meu lado em minha cama e logo ela adormeceu.
Não consegui dormir. Fiquei pensando e repensando em todo aquele dia. Relembrava freneticamente as palavras de Gabriel sobre “tudo acontecer como deve ser”, depois Marcelo e eu conversando sobre Gabriel. Ponderei que Marcelo até tivesse razão sobre tentar uma trégua com , mas, o problema nunca fora eu. Ao pensar nas coisas que ele disse à e depois dentro do meu quarto, eu ficava irritada. Como ele podia? Será que eu conseguiria uma trégua pela ? E o que me guardaria, aquela nova vida?
Fiquei pensando nessas coisas até o relógio marcar uma hora da madrugada. Decidi então fechar os olhos e tentar dormir. Parei de acariciar os cabelos da pequena. Ajeitei-me na cama e a abracei. Ela abraçava a pelúcia. Cochilei. De relance ouvi algo como a porta abrindo fraca e não dei importância, mas, a sensação de ser observada não passava. Abri os olhos e tomei um grande susto. estava parado ao pé da minha cama, sem camisa e apenas de bermuda olhando singelo para a filha. Quando me notou acordada ele ficou estático, sem expressão, sem palavras e até diria, sereno.
— Está aí há muito tempo? – eu perguntei.
— Um pouco. Estava observando vocês dormindo.
O que teria acontecido com ele?
— O que você quer?
— Só buscar a . É mais confortável para vocês duas. – ele disse se aproximando de nós e quando se abaixou para pegá-la eu segurei sua mão o impedindo.
— Não. Se não se importa eu prefiro que ela fique… – olhamos nos olhos um do outro sem nos reconhecer. — Custou dormir e agora está tão bem… E depois ela vai ficar chateada. Vai achar que fui eu que…
— Tudo bem. – ele disse interrompendo e se levantando. — Boa noite.
— Boa noite.
Ele saiu do quarto e eu ainda fiquei pasme.
Nenhum olhar opressor?
Talvez fosse apenas um sonho e eu acordasse logo.


Capítulo 5 - Cavalgada

Na manhã seguinte acordei cedo, embora tenha ido dormir tarde. Nem mesmo titia havia se levantado. Ela estava realmente exausta no dia anterior. O relógio marcava cinco horas da manhã. Passei um café, e preparei rapidamente um bolo e o coloquei para assar.
O dia estava frio, como um típico dia mineiro. Como eu estava apenas com a minha camisola eu me aquecia no fogareiro a lenha. Não demorei muito na cozinha, e subi silenciosamente. Ainda mais cautelosa em meu quarto, para não acordar a minha pequena boneca, eu peguei uma calça de moletom e um suéter fino.
Desci já vestida. Com a caneca de barro que eu tanto gostava servi-me de café forte. Bebendo um pouco e diminuindo a intensidade do fogo para que o bolo não queimasse calcei as botinas indo a pé tratar dos animais. Canelinha ainda dormia, mas troquei sua água e servi sua ração matutina. Recolhi os ovos do galinheiro. As criaturinhas já estavam acordadas há tempos e os galos empoleirados no telhado do galinheiro bradavam o cacarejar do novo dia. Joguei milho a eles. Meu relógio marcava cinco e trinta e cinco. já deveria ter acordado. Enquanto eu jogava o milho das galinhas, os patinhos aproximavam-se do lado de fora do galinheiro e eu os alimentei também. Após as galinhas terem diminuído o desespero da fome, eu abri a porta do galinheiro para elas saírem.
O ranger da camionete aproximou-se e parou. desceu do carro vindo até mim.
— Bom dia. – ele disse.
— Bom dia. Eu passei um café.
— É eu já bebi. – ele estava ríspido de novo.
Eu sabia que não demoraria muito com aquela serenidade da noite anterior. Porém, ele não me ignorou como sempre fazia, ao sair logo trabalhando. Estava parado olhando as galinhas se espalharem no quintal.
— Vou colocar os ovos na camionete. Importa-se se fizer tudo sozinho hoje? Eu quero arrumar a varanda e a frente da casa e estou com um bolo no forno.
— Pode ir. – ele concordou e seguiu para seus afazeres.
Deixei os ovos no carro e voltei para o casarão. Tirei as botinas na porta dos fundos. Voltei ao fogão aumentando levemente o fogaréu das lenhas. Enxuguei as louças que eu havia acabado de lavar naquela manhã. Varri a cozinha e a sala. Deixei para limpar melhor depois. O bolo assou e o retirei colocando para esfriar.
Dirigi-me à frente da casa, calçando novamente as botinas. Organizei os bancos de “praça” em seus lugares – e eram um pouco pesados – e retirei as flores já murchas. Das mesas de comidas retirei os forros colocando-os no tanque de molho e lavando um pouco depois. Limpei-as. Uma das mesas ficava na varanda dos fundos da casa, mas eu não conseguiria retirá-la, a outra era emprestada.
Limpei toda a varanda, rasteei e varri o quintal da frente. Logo o sol nascia. Assim que admirei o nascer do sol fui tomar banho. Àquela altura o relógio marcava sete horas. Titia acordara e nos esbarramos no corredor.
— Bom dia tia!
— Mas, já está de pé?
— Há muito tempo!
— Que horas são?
— Deve passar um pouco mais das sete.
— O que?! Perdi a hora!
— Relaxa, a senhora pode. Estava exausta, não?
— Um pouco, querida.
— Vamos tomar café! Assei um bolo.
— Há que horas levantou?
— Cinco. – eu ri.
— Por quê?
—Não sei, apenas acordei. Preparei o bolo e o café. Fui tratar dos animais, aí apareceu e eu o deixei por lá. Vim arrumar a varanda e agora só falta limpar a parte debaixo da casa e fazer o almoço. – descíamos a escada.
— Animada! E ?
— Ainda dorme.
— Não a vi no quarto dela!
— Ela dormiu comigo. Ei titia! Eu queria lhe perguntar já há algum tempo… Por que, Coralina?
— Quando eu era criança, eu tive uma boneca com esse nome e eu sempre gostei do nome. Eu queria me chamar assim. A se chama por causa disso, mas, Rosa e preferiram em vez de Coralina. Ao me casar com o pai deles acrescentei o nome “Coralina” também.
— A mãe dela não optou no nome?
— Ela nem mesmo olhou a bebê. Assim que nasceu ela disse um “finalmente” e virou o rosto.
Assim que chegamos à cozinha, surgiu. Pediu benção a mãe, beijou-a e subiu para tomar um banho. desceu com ele. Todos nós tomamos café juntos. Nada de alfinetadas e maus olhares. Até então, nenhum olhar.
— Vovó! Papai ontem caiu de toalha em cima da !
lembrou-se gargalhando. engasgou-se com o café e olhou para a mãe, nervoso.
— Como foi isso, ? – ela me perguntou olhando o filho por cima dos óculos.
— Ah nada demais, ele foi ao quarto saber da e tropeçou no meu chinelo.
— Ah sim… E se machucaram com o contato, ? - senti um tom de ironia na voz da titia, e não entendi ao certo o que ela queria dizer.
Mas parecia entender muito bem.
— Não. Não foi nada, mãe.
Continuamos conversando e continuou contando da noite que tivera comigo. Graças aos céus ela não tocou no assunto da discussão entre o pai dela e eu.
, se arrume. Hoje, já que nos atrasamos iremos à missa das dez horas da manhã.
— Será que ela tem o costume de rezar, mãe? – a primeira alfinetada do dia!
É como dizem: alegria de pobre dura pouco!
— Eu não tenho o costume de ir à igreja, mas, eu irei titia. Foi a primeira coisa que fiz ao chegar à cidade, e já que a vida é nova, os hábitos também devem ser.
— Eu vou te mostrar meus coleguinhas, !
— Ah, com certeza eu vou querer conhecê-los .
Todos nos arrumamos e seguimos à igreja. No carro – que não é cabine dupla – tivemos que ir os três na frente, com em um dos colos. e titia discutiram para ver quem dirigiria o carro. Ele não gosta dela junto a um volante e particularmente prefiro que ela não dirija mesmo. Titia é daquelas “devagar e sempre”. Então o ogro dirigiu, eu estava no meio e titia ao meu lado com em seu colo.
Na missa encontrei Gabriel, mas, ele não me viu. Sentei-me com a minha “família” e enquanto eu escutava as palavras do padre, tudo o que Gabriel disse para mim na festa de casamento, sobre novas perspectivas e outras maneiras de interagir positivamente com os problemas, martelavam em minha mente. Sem dúvidas fora uma ótima homilia. Eu renovei minhas esperanças e decidi confiar mais nas providências divinas.
Na hora da comunhão, bem… Há muito tempo eu não comungava!
— Você não vai recebê-Lo querida?
— Ah tia… Eu não faço isso há tanto tempo…
— Mas vá! Não fique sem receber Jesus. Ele é a cura de tudo. Após a missa você se confessa com o padre.
E assim o fiz. Meus pés falhavam. Ao contrário do primeiro dia onde em um piscar de olhos eu estava ajoelhada em frente ao altar, aquela peregrinação até o encontro de Deus demorou. Eu ponderei voltar, mas, já que estava ali eu iria em frente. Eu precisava de Deus. Precisava estar ali. Voltar não era opção!
À medida que eu ia me aproximando, meu coração começava a explodir tudo o que eu sentia. Medo. Ódio. Frustração. Desconfiança. Tristeza. Vergonha. Desesperança. Derrota. Tudo o que me incomodava veio até a minha garganta como se eu fosse vomitar tudo ali. Eu rezava no caminho até o altar da igreja: “Senhor, te entrego tudo o que venho sentindo. Me faça mais forte. Me faça nova. E me faça aceitar as suas vontades”. Assim que comunguei, eu desabei em lágrimas.
Desde que chegara ali aquele fora o segundo grande passo daquela nova vida. Coincidentemente os dois tinham sido para Deus. Coincidentemente? Após o fim da celebração conversei com o padre e saí da igreja com uma coisa em mente: fazer tudo novo.
Dependeria apenas de mim.
A minha “família” aguardava na porta da igreja e conversavam com alguns conhecidos. Gabriel estava sentado no último banco da igreja que já estava vazia. Eu segui até ele e o padre vinha andando atrás de mim em direção à porta.
— Bom dia. – eu cumprimentei o delegado.
— Bom dia. Que bom vê-la aqui!
— Sim… Como está?
— Estou bem e você?
— Também. – sorríamos. — Por que está aqui atrás?
— Eu estava apenas refletindo. Um costume, após todas as missas.
— Refletindo sobre o que escutou hoje?
— Também. Há muito a se refletir.
— Sem dúvidas há.
— E você?
— Entreguei tudo a Deus. Você foi de grande ajuda e carinho, obrigada de novo, Gabriel.
— Não precisa me agradecer. Agradeça a Deus.
— Sim. Fiz e estou disposta a fazer isso de agora em diante.
— É bom... Hoje eu tive algo a mais a agradecê-lo. E também pedi, por quem eu agradeci.
Gabriel me olhou com extrema ternura. O padre nos fitava de um jeito que ele deveria julgar discreto, mas, nós percebemos. O sacerdote sorria, e seguiu para fora da igreja. Gabriel e eu fizemos o mesmo.
olhou para nós ao nos ver chegar, e o padre repetiu o gesto. Titia também. O padre, alternava esmiuçador seus olhares entre titia, Gabriel e eu, , e eu novamente. O que ele estaria pensando ao nos analisar daquela forma?
— Bom dia Gabriel. – disse titia.
— Bom dia a todos, como vão?
— Bem! – respondeu sorrindo.
— Que ótimo! Peço desculpas e lamento, mas, eu preciso ir agora… – Gabriel nos disse e olhou para mim.
— Tudo bem, nos falamos depois. – eu sorri para ele.
Ele pegou minha mão, a beijou e eu em contrapartida o abracei. Só fui pensar no que fiz, depois. Se ele não me abraçara, talvez fosse por estarmos em público. Afinal, ele era o delegado da cidade e poderia pegar mal… Cidades pequenas. Contudo, analisando melhor, também estivemos expostos a algumas pessoas da cidade na festa de casamento e não nos comedimos.
Ele foi se distanciando e nós, “a família”, seguimos à feira de rua que havia ao lado da igreja. Na feira vendia-se de tudo o que fosse alimento, animais de fazenda e comidas típicas, mas, já estava no final e segundo titia, as mercadorias já não eram as melhores.
estaria lá vendendo, se tivesse acordado mais cedo. me apresentou seus coleguinhas da igreja. Enquanto caminhávamos, a matriarca e a neta seguiram para uma barraquinha de biscoitos “da roça”.
sempre comprava alguns suspiros, marias-moles e biscoitos ali.
, leve a para provar o caldo de costela! – pediu titia.
Ele então foi andando e eu, o segui. Chegando lá fizemos os pedidos e o dono da barraquinha começou a puxar assunto. O que já era esperado, pois, eu era a atração.
— Quem é a moça, ?
— É uma sobrinha da minha mãe. – ele disse indiferente e eu sorri simpática.
— Não sabia que Cora tinha uma sobrinha tão bonita!
Os velhinhos da cidade são assanhados.
— Ah, muito obrigada. – agradeci.
Cê também num fala nada de ter uma prima bonitona, né Zé pirraça?
O senhor falou para , e pela segunda vez eu ouvira aquele curioso apelido.
— Ela não é minha prima, seu Tadeu. A minha mãe, que considera ela como parte da família.
Minha cara foi ao chão.
— E ela num é, uai?
Ele olhou para já conhecendo a atitude dele. nada respondeu e o velho rindo concluiu:
— Esse Zé Pirraça! Não muda!
Era a hora de eu devolver na mesma moeda e ainda matar a minha curiosidade!
— Senhor Tadeu, por que Zé Pirraça? Pouparam-me desta história! – eu olhei atrevida para que se limitou apenas a bufar.
— Desde muito novo, o era de pirraçar dimais da conta! Ele chutava pedrinha e tudo. Tomou uma vez, uma coça do pai e parou com isso, mas, continuava pirraçando com implicância! Se ele pirraçar muito com você, é porque tá de implicância.
Então era isso? Pirraça?
— Isso era nos tempos de moleque seu Tadeu. Eu já sou homem.
— Ah! Eu te conheço moleque. Eu num aposto dois réis nocê. – o velho gargalhou e nossos caldos chegaram quentinhos, e com um cheiro maravilhoso.
Enquanto comíamos em pé, em frente à barraca, nada falávamos um com o outro. Eu procurava titia e que de repente desapareceram. parecia um cão de guarda bravo, com aquela carranca.
Uma mulher loira de rosto redondo, lábios rosados e olhos de profundo verde se aproximou de nós sorridente. Ela parou em frente ao que ficou a encarando sem falar nada. Ele é muito estranho. Então ela desfez o sorriso para ele e olhou para o lado se dando conta da minha presença. Ficou visivelmente assustada.
— Bom… Dia. – ela me disse.
— Bom dia. – eu disse e olhei para o .
Ele continuava comendo o caldo indiferente a nós.
Não seria muita burrice minha perder a chance de “pirraçá-lo” um pouco?
— Não vai me apresentar a sua amiga, ?
Olhou-me furioso.
— Esta é a Lúcia. – disse sem o menor interesse.
— Prazer Lúcia. Sou a . – cumprimentei a mulher, sorrindo.
Ela ficou parada assustada me olhando da cabeça aos pés de boca aberta.
— Prazer… Você… É… Quem é ela, ? – ela olhou assustada para ele, mas, sendo simpática comigo.
— É a . – ele continuou frio.
— Eu sou sobrinha de consideração da dona Laura. – eu disse me deliciando com o caldo gostoso.
— Ah . E você morando aqui?
— Sim. Por enquanto, pelo menos.
olhou-me de viés e sorriu.
— Uai. Então bem-vinda, né?
— Obrigada, é muito gentil.
— Nada. – ela disse já mais calma. — Cadê e dona Laura? – falou o olhando.
— Sei lá. Elas estavam na barraca dos biscoitos.
— Então tá. – ela sorriu para ele. — Ôu, aqui , foi um prazer viu? – a moça me disse simpática.
— Ah obrigada! Também gostei de conhecê-la. Espero poder lhe ver de novo.
— É, pois é. – despediu-se e saiu sem olhar para trás.
Eu gostaria de conhecer as pessoas envolvidas com , como a Lúcia por exemplo, isso poderia me ajudar a conhecê-lo.
revirou os olhos depois que a mulher se afastou e terminando de comer, devolveu a tigela ao dono. Olhei para o senhor Tadeu que sorria com a situação.
— Eu fiz alguma coisa errada? – perguntei para ele.
— Nada, a Lúcia é tímida mesmo, sô! – o senhor respondeu.
Devolvi a tigela para ele e foi pagar, mas, eu fui mais rápida e paguei o meu. Ele tirou a nota da mão do senhor e devolveu me dizendo: “deve economizar para a sua mudança”. Fiquei calada e chateada. Guardei a nota em meu bolso e ele me observando contrariado, ajeitava o chapéu em sua cabeça.
— Seu rosto está sujo. – ele me disse indiferente.
— Onde? – comecei a passar a mão na testa e ele me olhou como se eu fosse uma idiota.
— Na sua boca, sua lerda!
— Ah, você disse o rosto, seu burro! – devolvi na mesma ignorância.
Passei a mão de um lado da boca.
— Do outro lado, lerda! – ele continuou olhando para mim, como se eu fosse idiota.
— Cale a boca! – eu falei e tentei limpar o outro lado, mas, perdeu a paciência e pegando outro guardanapo segurou meu rosto e limpou.
O senhor Tadeu ria e eu repreendia :
— Seu bronco! Está me machucando!
— Parece criança! – ele brigou ainda mais irritado.
Titia e chegaram sem entender nada do que viam e se entreolharam confusas. Eu estava irritada pela vergonha que ele me fazia passar, pelas grosserias e principalmente por não estar acostumada com aquela proximidade com ele.
— Pronto.
deu as costas e saiu. Nós três o seguimos. Eu acenei em despedida para o vendedor ainda massageando meu rosto dolorido e sorrindo ao mesmo tempo. Aquele imbecil do deixou meu rosto marcado e avermelhado com aquela mão pesada. Eu poderia denunciá-lo por agressão, mas, não deveria. Deveria? Titia e vinham atrás de nós, sem nada entender. A pequenina, na verdade, estava mais preocupada em comer. Entramos no carro e voltamos para casa.
Enquanto seguíamos o percurso da estrada, ligou o rádio e canções típicas das modinhas sertanejas tocaram. Eu fiquei observando a menina e recordando da fotografia de Bruna. é tão bonita quanto à mãe, mas, não tem os mesmos traços finos. Traços de “senhorita europeia”. O rostinho de embora delicado recorda-se muito à face do pai. Os olhos são os da mãe, castanhos escuros como jabuticabas. Até mais escuros que os meus. Eu, no lugar dela, ficaria triste por não ter ganhado a herança das irises azuladas de .
Olhei para ele, para a pequena e internamente para a imagem de Bruna. Uma família que em outra ocasião, seria linda como em “vida de margarina”. Bruna e , além da linda coincidência dos nomes formavam um lindo casal. Uma pena não ter sido como nos contos de fada. Estes contos que muitas garotas como pensam existir, mas, que na vida de garotas como eu, não passam de contos utópicos. Não existe “felizes para sempre” e se existisse, eu aposto o máximo de que a vida seria totalmente desinteressante. Imagine só: um momento em que você olha para os lados e vê tudo como você sonhou, vê que tudo está pronto. Eu não conseguiria conviver com esta comodidade toda. O que fazer depois que já se tem tudo o que se sonha?
Pensando assim comecei a compreender melhor os caminhos tortos do meu destino. Eu iria mesmo me conformar apenas à realização do meu sonho profissional, ao namoro “perfeito” com Lucas e fim? É ... porque eu tinha tudo o que eu queria! O resto seria consequência de muito trabalho. A partir desse momento eu vi o quão próxima do meu “feliz para sempre” eu estive e me alegrei por ele não acontecer. Seria tedioso passar a vida inteira apenas em prol da continuação de capítulos vazios de um livro com tão pouca história. Ainda mais agora, que eu sei o quão pouco eu tinha.
A vida estava me desafiando e eu como boa competidora iria ganhá-la. E depois da vitória trilharia novas metas a se conquistar. Quem sabe, essas metas não estavam ali ao meu lado? , como eu a amo! Eu não me imaginava sem aquele sorriso branco de pequenos dentes afiados se formando para mim desde que ela se tornou a minha maior alegria.
Uma filha como … Eu não sei se eu seria capaz de formar um ser naturalmente tão cheio de amor assim, mas, sem dúvidas eu amaria um filho meu como eu amava . Como pode? Uma mãe sem escrúpulos e um pai tão detestável como aquele, terem formado uma coisinha pequena tão cheia de ardil, inteligência, solidariedade e amor? Tanto amor! Eu poderia estar precipitando o meu julgamento sobre os pais dela, mas, aquele era o julgamento que eu era capaz de fazer, visto os fatos que eu conhecia de ambos.
Como pode uma mãe abandonar uma criança? Seja ela como ou não, e apenas por algumas capas de revistas? Algumas mulheres, tem o dom desmedido da maternidade, mas, não o merecem.
me cravava um olhar esguelho, de maneira curiosa. Talvez, estivesse se indagando por que eu olhava para ele e para tantas vezes. Eu apenas buscava as comparações.
Naquela tarde, depois de almoçarmos titia foi cozinhar alguns biscoitos de polvilho. Como ela se divertia na sua cozinha! quis brincar em seu quarto, e posteriormente quando o pai desceu, ela também desceu. A criança dava pulinhos e com as mãozinhas apertadas pedia-lhe: “Por favor, papai!”.
Os dois conversaram na sala, a menina o abraçou e o beijou e saiu correndo saltitante e cheia de risadinhas eufóricas, até a avó. Eu ainda procurava anúncios de casa e emprego, nos jornais sem nada encontrar. Estava desanimando com aquela frustração toda, mas, não me deixaria abater.
Eu estava sentada na varanda em frente à porta, à beira da escada. Encostava as costas na coluna da entrada e com as pernas cruzadas esticadas, eu me encontrava no meio das duas belas paisagens. À minha esquerda o casarão antigo e belo, à minha direita o quintal com as galinhas soltas, flores, um pouco mais à frente, campinas verdejantes e finalmente o horizonte de céu azul, com nuvens discretas e tímidos raios solares.
passou por mim, pulando minhas pernas sem pronunciar palavra alguma. Me fiz de indiferente e continuei lendo. Dei uma espiada nele, que sumia no horizonte em direção aos cavalos.
surgiu enfarinhada, com os cabelos grudados de massa. Parou na porta dando risadinhas sapecas com os braços estendidos para os lados, também cheios de farinha.
— O que você aprontou? – olhei assustada para o lindo monstrinho de farinha.
— Eu ajudei a vovó a fazer biscoitinhos de vento! – ela veio até mim, se sentando sorridente ao meu lado.
— Biscoitinhos de vento?
— Quando você morde, voa farelinho. – eu ri da comparação. — O que está lendo?
— Os classificados do jornal.
— E quem ganhou?
— Ganhou o quê, ?
— Clatisficado não é aquela palavrinha que tia Rosa ensinou que é quando alguém ganha alguma coisa?
A menina era tão inocente! E inteligente! Não pude deixar de rir.
— Sim , mas, classificados – dei ênfase à palavra – também é o nome de uma das partes do jornal.
— Ah tá! E o que tem neles?
— É a parte do jornal em que as pessoas dizem onde tem emprego e onde se tem casas, carros e coisas para comprar e alugar.
— Por que você tá lendo isso? Você vai embora? – a garotinha tinha um pensamento sagaz e prestou mais atenção na parte em que eu citei “casas”.
— Não por enquanto. Lembra que a falou, que tem que achar uma casinha para não incomodar mais vocês?
— Você não incomoda! Tia Rosa foi embora e agora tem mais espaço!
— Não se preocupe com isso . Eu estou procurando, mas, não vou embora por enquanto porque primeiro eu tenho que trabalhar.
— Então vou rezar para que você não trabalhe nunca. – ela escancarou os dentes deitando sua cabecinha no meu colo. Arregalei os olhos.
— Ora , eu tenho que trabalhar para ajudar nas despesas.
— Ah… , você quer ir embora por causa do meu papai?
— Ah. Não. Não é isso.
— Ele diz que não gosta de você, mas, você disse que é porque ele tem ciúme da gente, então eu vou abraçar muito, muito, muito ele e beijar muito, muito, muito, ele. Pra ele não ficar triste com você tá? – ela falou pra mim sussurrando como se me contasse um segredo.
… – eu disse sorrindo com os olhos marejados.
— O quê?
Suspirei fundo e sorri para ela, falando:
— Você tem que tomar um banho. Antes que vire um bolinho de .
Ela gargalhou lindamente e levantou me puxando. Quando entramos em casa titia gritou: “— , já esquentei a água!” e ela respondeu em outro grito: “— Já vou, vovó!”. A pequenina pediu para eu separar uma roupa bonita e esperar no quarto dela para arrumá-la. Assim aconteceu. Penteei os cabelos dela em rabo de cavalo, passei protetor solar nela e pegando seu chapeuzinho a princesinha falou para mim: “— Vamos passear!”.
Saímos pelas campinas e a garotinha pulava à minha frente cantando a música da história “chapeuzinho vermelho”.
— Aonde estamos indo? – eu perguntei vendo que já havíamos andado longe.
— Lá! – ela gritou apontando, para as campinas, depois do riacho.
— O que? Por quê?
— Vamos andar de cavalinhos!
, eu não sei montar. E depois, como chegaremos lá?
— Atravessando o rio!
A correnteza era um pouco forte e eu não me arriscaria a atravessá-la.
— Seu pai não vai gostar! E pode ser perigoso.
— Ele deixou! Ele tá esperando a gente!
— Como? – ela me olhava suplicante e eu tentava de uma forma delicada desfazer as ideias dela.
— Ele falou que eu podia vir andar de cavalinho às três horas! A vovó disse que já eram três horas!
— Tudo bem! Como ele vai saber que você está aqui sem nós atravessarmos o riacho?
— PAPAAII! – a pequenina gritou e olhou para mim, sorrindo. Ele não apareceu.
— BERNAARDO! – eu gritei mais alto para ajudá-la — Eu não vou com vocês, ? – eu disse enquanto ela olhava para o outro lado do rio.
— Por quê?
— Porque eu não ando de cavalinhos e titia está sozinha em casa.
Assim que terminei de falar surgia já atravessando o rio a cavalo.
— Então eu não vou!
… Vai com seu papai. – eu falei para ela já o olhando.
ficaria fulo se iniciasse uma pirraça por minha causa. Tristonha, ela me deixou pegá-la no colo e entregá-la para o pai. Ele sentou à sua frente e atravessaram o rio. Quando eles chegaram ao outro lado eu acenei para ela. desceu e virando, eu fui embora.
Ouvi barulhos vindos do riacho, mas, não olhei para trás para não ver com aquele rostinho triste. Até que apareceu montado à minha frente, me assustando.
— Que susto! O que você está fazendo? Deixou a boneca sozinha?! – olhei para trás e a vi, sentadinha sorrindo e acenando.
— Sobe. – ordenou.
— Não. Eu não vou! – eu teimei e ele desceu do cavalo. — Eu não sei montar ! – continuei teimando antes que ele retrucasse.
O ogro num ato rápido me pegou no colo, me colocando sobre o cavalo. ria e pulava batendo as mãozinhas do outro lado do rio.
— O que está fazendo? Eu quero descer! – eu brigava e ele ainda sério, montou.
— Fica quieta! Segure firme na rédea. Não balance muitos os pés.
Ele montou às minhas costas. Segurei as rédeas como ele pediu, eu ainda muito nervosa, o encarando. Ele passou os braços em volta dos meus para pegar a rédea. Eu estava sentada de lado e não parava de olhá-lo bravia.
— O que foi? Ela é minha filha! – ele reclamou.
Bufei e atravessamos o rio naquela situação incômoda. estava feliz e não parava de pular quando chegamos. desceu, me pegou no colo e me colocou no chão. Estávamos muito próximos, parados, ainda nos encarando revoltados.
— Eu vou embora. Vovó diz que é feio atrapalhar. – sussurrou para um patinho em seu colo nos acordando de nossa rincha por olhares.
colocou a menina no lombo do animal e foi guiando-o devagar pelo campo. Eu permaneci em pé, sorridente com as atitudes e gestos meigos de . Alguma coisa havia naquela criança que me hipnotizava e encantava cada vez mais. Assim que ela se cansou cochichou qualquer coisa com o pai que me olhou insatisfeito. Ela desceu, com a ajuda do pai e veio correndo até mim, enquanto vinha logo atrás, puxando o animal mais inteligente do que ele.
— Sua vez, !
, eu não vou montar. – eu sorria para ela de braços cruzados.
— Papai vai te ajudar! – olhei para ele. Ele revirou os olhos.
— Melhor não. Já está ficando tarde.
— Por que você não gosta do meu papai?
sorriu vitorioso para mim ao ouvir as palavras da filha. Ridículo.
— É o seu papai que não gosta de mim, . – eu respondi tão sedenta de virar o jogo que mal pensei na impressão que aquilo causaria à garotinha.
— Você tem ciúme papai? – ela perguntou inocente e sem ver alternativa concordou. — Mas, eu amo os dois, igual! – ela brigou com ele e comigo.
— Ai… Tudo bem . Eu monto.
Dei-me por vencida e me aproximei dos dois animais: o cavalo e . pulava e sorria. me pegou novamente no colo e me ajudou a subir. Desta vez ele disse para eu sentar de frente. Montou às minhas costas e “abraçando-me” segurou as rédeas novamente.
— Não saia daqui, escutou ? – ele ordenou para a filha que fez sim com a cabeça. — Não podemos demorar, não quero que ela fique muito tempo, afastada. – ele falou ao meu ouvido causando arrepios involuntários.
— Acho ótimo. – eu disse nada amigável.
Meu corpo estava rijo. Eu não movia nenhum músculo de tão incomodada com a proximidade entre nós dois. fez com que o animal corresse e à medida que a brisa chicoteava meus cabelos, eu ia me acalmando. Sensação de êxtase e anestesia.
Nunca imaginei o quão delicioso era, andar a cavalo. Apesar dos muitos balanços a sensação era ótima. me apertava em seus braços como forma de segurança, eu acredito. Meu nariz sentia sua respiração que batia em meu rosto de tamanha que era, a nossa proximidade. Em um momento fechei os olhos e esqueci tudo. Esqueci até mesmo de ali. Tive a impressão de que ele observava se eu estava bem, pois seu rosto se aproximou mais e eu senti sua barba “por fazer” roçando a lateral da minha face. Abri os olhos e como imaginei, ele espiava. Intercalando os olhares sobre mim e a sua frente ele perguntou:
— Está se sentindo bem? – de desprezível, sua feição se tornou curiosa.
— Sim, eu só relaxei. – eu disse sem graça ao perceber que na sintonia da brisa e do cavalgar, deixei meu corpo se abandonar nos braços fortes de .
— Tá. – ele disse estranho. — Vamos voltar, tudo bem?
— Claro. É melhor. – eu respondi e ele sorriu para mim.
Sorriu?
Para mim?
Ele poderia fazer aquilo, digo, sorrir daquele jeito como se fosse algo que ele sempre fizesse? E que sorriso! Apesar do meu ódio evidente, não posso mentir, ele é lindo. Um homem muito belo e sedutor. Eu não me incomodaria se sorrisse daquela forma, mais vezes para mim. Fiquei pensando naquela hora, como seria bom se tivéssemos sido amigos. Se ele desse uma chance de me conhecer. Mas, por alguma razão da qual eu ainda desconhecia, nós nunca seríamos amigos. Devia existir um motivo! Não poderia ser apenas pirraça dele!
Amigos… Aí está algo que e eu não seríamos. Amigos? Não!
dançava com os patinhos quando chegamos. O pai dela desceu e novamente me pegou no colo e me pôs ao chão. Sua mão escorregou para debaixo da minha blusa na hora de me descer do cavalo e tomamos um choque de peles. Quando eu estava ao chão frente a ele, ficamos nos encarando de olhos arregalados. Minhas mãos ainda em seus ombros e as dele ainda em minha cintura. Fomos acordados por uma garotinha travessa.
— Como foi ? – ela perguntou e eu imediatamente me recompus sorrindo e olhando para ela.
— Foi muito legal! Andar nos cavalinhos é ótimo. Você estava certa !
— Eu falei! – ela zombou indo até seu pai.
Novamente ele montou levando para a outra margem do rio. Daí eu me lembrei de que novamente repetiríamos aquilo. Olhei para o riacho e a correnteza já estava mais branda, me atrevi a atravessar o riacho a fim de evitar passar pelas mesmas sensações. , que já estava em terra do outro lado gritou para o pai dela que olhando para trás veio montado ao cavalo até mim o mais rápido possível.
— Fique aí! – ele pediu e eu parei de andar no riacho. Havia molhado um pouco mais do que os joelhos.
— Mas dá para passar.
Eu disse e ele já estava à minha frente, zangado.
— O riacho fica mais forte nessa época e quando você acha que dá para atravessar você é levado pela correnteza. Sem falar nos buracos. Os animais sabem onde pisam, nós não.
Montados no cavalo, nós fomos à outra margem. estava sério e eu me senti péssima.
— Desculpe. – eu disse.
— Nunca mais faça isso! – ele sussurrou bravo em meu ouvido.
Me soou também, um pouco preocupado. Descemos da montaria e seguimos de mãos dadas: , e eu. Exatamente nesta ordem, óbvio. Ele foi para as coxias se desfazendo da mão da filha com um beijo e nem olhou para mim. e eu fomos de volta ao casarão.
De repente tudo me soou confuso. O que tinha afinal acontecido naquela cavalgada?


Capítulo 6 - Acostumando-se

Encontrei titia e novamente discutindo por causa da picape. Tia Cora pretendia ir à cidade fazer compras e visitar o seu velho amigo, Senhor Aguinaldo. Decidi ir com ela e naquela tarde. Nós buscaríamos a pequena , porém, reclamava sem parar. Titia ralhou com ele vencendo a disputa, por hora.
Enquanto ela ia se arrumar eu observava o filho dela insatisfeito com o fato dela dirigir. Ele fazia algumas anotações na mesa da varanda dos fundos.
… Tem alguma razão para você se preocupar tanto, com o fato da sua mãe dirigir? — Ela sofre de labirintite e com o passar desses últimos anos, a visão dela, também não anda muito boa.
Não perguntei mais nada, talvez ele estivesse certo. Deixei ele trabalhando. No caminho à cidade titia ligou o rádio e cantarolava as modinhas da rádio da cidade. Uma rádio pequena com apenas três locutores que se dividiam por turnos. Conhecidos por todos na cidade.
Enquanto o som de Zé Ramalho embalava o sacolejar da camionete, nos cascalhos da estrada, eu viajava na música. Eu sempre gostei de Zé Ramalho, mas, quando eu ouvia suas canções na cidade tumultuosa de São Paulo, elas nunca me trouxeram a mesma paz do que no cenário atual. Bois das fazendas vizinhas pastavam à visão da estrada, sendo limitados pelas cercas de arames trançados. Que bela vista!
O sol daquela manhã que aparecera com mais safadeza e tocava minha pele levemente morena, uma pele de moça da cidade, com o bronzeado saudável e proposital. De olhos fechados eu sentia aquele esquentar dos raios solares que me traziam uma sonolência branda, e o cheiro de mato trazido pela brisa aprofundou-se no meu subconsciente me fazendo recordar de lugares dos quais não sei se algum dia eu habitei.
Estranha essa sensação de lembrar-se de um lugar pelo cheiro. Ainda mais estranho quando você não sabe se já esteve naquele lugar.
— No que está pensando?
— Sentindo o cheiro dessa brisa, eu me lembrei de um lugar, mas, não sei se já estive lá…
— Ah, isso é comum. Como era o lugar?
— São lembranças turvas, mas, vi um casebre em construção, sem pintura com telhado colonial… Em volta havia muito verde e parece que eu estava sendo carregada.
— Pode ser a fazenda! Logo no início que seu tio e eu a compramos e começamos a construí-la, seu pai e sua mãe foram conhecê-la. Você era muito pequenina.
— Sério? Titia.... Será por isso, que eu me sinto tão bem lá? Digo, os ares da fazenda me trazem ótimos sentimentos.
— É bem possível. – a velhinha sorria. — O que você quer dizer com “ares da fazenda”, querida?
— Você, , os animais, a paisagem…
— E ? – titia perguntou na intenção de saber quais os sentimentos que eu nutria por ele.
— Bem, agora acho que já estamos conseguindo conviver no mesmo espaço sem esbarrar tanto um no outro.
— Nenhum progresso entre vocês? – ela ficou preocupada.
E eu recordei da cavalgada, dos gestos, das sensações, do sorriso dele para mim e depois de ter voltado a me ignorar.
— Não.
Titia acenou afirmativo com a cabeça, sorriu e concentrou-se novamente em cantarolar. Eu continuei olhando para fora da janela sem pensar em nada. Meus olhos eram filmadoras daquele cenário. — Você conheceu Lúcia ontem, não é?
— Sim. Quem é ela? Achei que ela ficou tão assustada comigo, que ficava olhando para o como se eu fosse uma aberração. – ao me recordar, sorri.
— Ela é amiga de infância dele. Morava em uma fazenda vizinha à nossa. Quando ficou mais mocinha, o pai a levou para a capital. Não demoraram muito por lá, eu até sabia que não iriam se acostumar! Eles não voltaram a morar na fazenda antiga, mas, e ela continuaram amigos e sempre se viam por causa da escola, e de Bruna também. – titia fazia cara feia toda vez que citava o nome da mãe de .
— Ela também era amiga da Bruna?
— Nada! Ela nunca a suportou! – e titia gargalhava. — A Lúcia sempre foi doidinha pelo meu filho. Bamba das pernas mesmo! O pai dele e eu, até fazíamos gosto dos dois. Foi por causa dessa paixãozinha platônica de criança que o pai de Lúcia a levou para longe. Minha filha, isso rendeu uma briga entre Fabiano e o pai dela que você tinha que ver!
— Nossa! Mas eles nunca namoraram?
— Não, e Fabiano faleceu antes mesmo de ela voltar. O pai dela ficou num remorso danado! Nessas horas o já tinha se revoltado por causa da morte do pai e se não fosse Rosa me ajudando a cuidar dele, eu nem sei o que seria desse menino. Danou a aprontar. Ele já gostava desde criança da outra lá – pronunciou sobre Bruna com desgosto — e Lúcia, coitadinha, corria atrás de até lamber as feridas dele!
— Lamber as feridas?
— É… Puxar saco! Inventava umas desculpas bobas para ir à fazenda ver ele. Nunca mais fora lá depois que voltou da capital. Eles estudavam na mesma escola, mas, não na mesma sala. A infeliz da outra, estudou grudada com ele o tempo todo. Aí começaram a namorar, mas, foi por causa dela que ele desembestou a perder o juízo!
— Sim, mas, também graças a ela, uma estrelinha brilhante enche a sua casa de alegrias. – eu disse tentando mostrá-la que Bruna trouxe algo bom.
— É, isso é! — E Lúcia?
— Ela ficou muito triste. mal falava com ela, não por maldade, mas, porque o mundo dele girava em seguir as pegadas da namoradinha. Ele se afastou de muitos amigos por causa dela. é muito romântico, !
E ao ouvir aquilo, eu não consegui! Não consegui conter a gargalhada que subiu à minha garganta. Fiquei muito sem graça e me desculpei com titia sem parar. Ela apenas sorriu zombeteira da minha cara.
— Desculpe titia… Eu não consegui segurar. Para mim, soa impossível juntar ao romantismo.
— Ai, ai menina! Você não sabe de nada! Você vai ver! Você vai ver! – ela gargalhava da minha cara e eu fiquei sem entender.
— Como eu dizia, ele só se lembrava de Lúcia quando Bruna não estava perto, que era como se ele acordasse de uma hipnose. Quando ele ia encontrar Bruna na cidade até passava um tempo conversando com Lúcia, que já morava lá. Às vezes ele ia à casa da Bruna namorar e depois encontrava Lúcia pela cidade e eles conversavam. nunca se interessou por ela, e sabia dos sentimentos dela até a época da mudança. Depois que ela voltou ele achava que Lúcia já havia se “desiludido”. Ele nunca levou a sério os sentimentos dela.
— Ela deve ter sofrido um bocado. O primeiro amor a gente nunca esquece, não é?
— É… – titia sorriu nostálgica — Com o tempo, já no segundo ano do ensino médio ela decidiu se afastar. Eu mesma disse a ela! Eu tentei ajudá-la, mas, o sempre foi cego pela outra. Então eu falei: “Olha Lúcia, você é uma moça muito bonita. Com certeza tem meninos encantados por você, não fique se contentando com as migalhas do . É melhor você esquecer”. Chorava como uma bezerra, coitada. E acabou fazendo o que eu falei, mas, toda vez que ela
o vê é como se os sentimentos da menininha se aflorassem.
— Ela não namorou ninguém?
— Namorou sim! Acho que até está de romance com um rapaz da capital, mas, como você disse: o primeiro amor a gente nunca esquece.
— Pela forma como vi se comportar, ele realmente não dá a mínima para ela.
— Ela deve ter ficado com ciúmes, ou no mínimo receio de ver vocês dois.
— Ah, nada a ver tia!
— Tudo a ver! nunca se interessou por garota alguma aqui da cidade por mais que elas corram atrás dele, aí, de repente ela vê uma moçona bonita como você do lado dele!
— Por esse lado ela pode ter se confundido mesmo.
— Será que ela fez mesmo confusão? – titia me olhou duvidosa.
— Do que está falando? – arregalei os olhos.
— Vocês dois. Aquela história da toalha… Eu não engoli! E voltou muito saltitante do passeio a cavalo com uns olhares atrevidos pra mim!
— Tia! Por favor! Não. A história da toalha foi exatamente como te contei! – ela olhou duvidosa — . Não contei exatamente. Ele não foi lá só buscar a , ele foi para brigar comigo também. Nós discutimos e quando ele avançou para cima de mim, tropeçou. Mas, foi só isso.
— Hum… Sei… E os cavalos?
tem uma cabecinha de criança tia. Vê mais do que acontece.
— E o que aconteceu?
— Nada de mais, eu não sei montar e como ela insistiu muito, ele cavalgou comigo. E foi a pior experiência de todas. Desculpe, sei que é o seu filho, mas, não dá. Nós nos odiamos.
Titia gargalhou e sem eu perceber já estávamos na cidade. Distraí-me com a conversa. Batemos à porta da casa do senhor Aguinaldo e o velhinho ficou todo alegre ao nos ver pela janela. Correu para abrir a porta e entramos em sua casa. Uma varanda bonita e organizada. A casa cheia de minúsculos adereços e inteiramente organizada denunciava uma presença feminina.
— Guino, a Isabela ainda está te ajudando na casa? – titia perguntou-o adentrando a sala.
sim, Cora! – ele sorriu todo alegre nos dando espaço para entrar.
Era um senhor que carecia de visitas. Imagino como deve ser horrível a solidão.
— Isabela é minha afiada também, irmã do Carlinhos. – ele disse dando-me explicações.
— Eu vou passar um café pra nós! – titia saiu entrando na casa.
— Você já sabe onde fica tudo, né Cora? – ele perguntou.
— Senta aí, Guino. Conversa com a .
Achei estranha a liberdade de titia, mas, se eles eram bons e velhos amigos como se dizia, aquilo era natural.
— Eita, ! O que tá achano da nossa roça?
— Estou adorando senhor Aguinaldo!
— Ah nem! Eu num gosto desse trem não! Me chama de Guino. Guino! – eu ri da bronca do velhinho.
— Tudo bem! Guino. Aprendi! – nós riamos.
Titia voltou se sentando conosco à sala.
— Pronto, a água já está esquentando. Diga lá, Guino! Como você está?
— Uai Cora, eu aqui nessa casquinha. – ele gargalhou. Ai que risada! Que risada!
— E a saúde?
— Vai bem e vai longe graças a Deus! Esses dias aí que eu andei numa tussição só! Carlinhos insistiu pr’eu ir no médico, mas eu num gosto de médico! Eles são uns enganadores! Na nossa época, cê lembra Cora? Era o boticário, que papai e mamãe chamava pra dar xarope!
A presença simplória e roceira do senhor Aguinaldo, ou melhor, do Guino, trazia uma paz e um conforto absurdos. Aquele velho espírito estava à Terra, para justamente fazer com que as pessoas se sentissem bem, humoradas, em paz e serenas.
— Ah, mas hoje em dia é diferente, Guino! Tem que ir ao médico sim. O Carlinhos está certo!
— Mas ô Cora, ele é boticário. Podia dar o xarope!
— É farmacêutico agora, Guino, e ele não pode mais dar remédio sem passar antes no médico, não!
Procê vê! Num adiantou patavina! O médico acabou passando um xarope! Ele teve que dar o xarope do meis’ jeito. O médico disse que eu tava com resfriado.
Titia e eu ríamos a cada frase dele.
— E então , o que cê conta? – ele sorria-me gentil.
— Bem… Eu tenho aprendido muita coisa na fazenda, estou gostando muito. Estou cada vez mais apaixonada por . Titia é um amor comigo, já estou morrendo de saudades de Rosa e não posso mais ficar sem o caldinho de costela que tomei na feira ontem. – nós rimos.
— Uai, cê gostô então do caldo do Tadeu? Ê caldim gostoso de bão, né não? Aquele infeliz, num dá, num vende, num empresta, num passa a receita de jeito nenhum! Eu sei lá o que ele coloca naquele trem! É bão, por dimais!
— Sim, é delicioso! – eu e titia ríamos.
Guino parou de rir e ficou estático observando o teto com as sobrancelhas arqueadas. Achei que ele estivesse passando mal e olhei assustada para titia. Ela apenas sorriu.
— Então! – ele disse de repente me assustando. — O Gabrielzinho já tá arrastano asa pro seu lado, né? – piscou para mim.
— Ah! Que isso Guino, imagina. – titia ficou bastante interessada. — Ele é só um bom amigo. Muito gentil, educado, atencioso e cavalheiro.
— Xi… Nhé-nhé-nhé!tá encheno ele de elogios, Cora! Vai dá casório! – ele ria e titia riu tímida também.
Pediu licença e voltou à cozinha para passar o café.
Observei a atitude dela um pouco curiosa.
— Acho que ela num gostou!
— Não é isso… Ela só foi olhar o café!
— Hunf! Eu conheço Cora! Ela e o antidonte ficaram oiando torto procê e pro seu namorado.
Ai céus! Ele já arrumou um namorado para mim!
Sorri sem graça, mas, não deixei de validar o comentário dele. Titia voltou com o café, e ficamos a tarde toda ali conversando e nos divertindo com o Guino, que ficou felicíssimo com nossa visita. Ele nos acompanhou até a porta e despedindo-nos fomos à escola buscar . A pequena estava bem cansada de tanto correr e brincar, e dormiu no caminho para casa.
Ao chegar a peguei no colo e a coloquei em sua cama. Tirei as roupas do uniforme dela e saí do quarto. Eu ia em direção às escadas, e subia-as, ambos estávamos de cabeça baixa e não vimos um ao outro e por causa disso, trombamos. Ele tinha o peitoral cheio de lascas de madeira e serragem, e na trombada, me apoiei com as mãos em seus ombros e ele me segurou pela cintura no susto.
— Desculpe. – eu disse ofegante.
Ele me soltou e saiu. Titia estava parada na sala com olhos arregalados. Ela viu a cena.
— Onde ele estava? – perguntei fingindo naturalidade.
— Esculpindo. No tempo livre, quando ele não está cavalgando está fazendo marcenaria.
Ela me mostrou os móveis na casa feitos por ele.
— Ah... – assenti observando os móveis, e logo mudei de assunto: —Tia, eu devo esquentar a água para tomar banho agora?
— Mas, ela não está dormindo?
— Sim, mas, é melhor ela tomar banho logo enquanto está cedo. — É, tem razão. Pode esquentar. – titia ficou me observando sorrindo e concluiu: — Você dará uma ótima mãe.
— Obrigada tia.
Fiquei feliz em ouvir aquilo, era a primeira vez que me diziam que eu daria uma boa mãe. A água aquecia na serpentina e eu continuei conversando com titia que passava outro café.
— Tia, eu tenho uma dúvida: o é formado?
— Sim. Ele é engenheiro agrônomo, e tem uns cursos aí de pecuarista. Sabe… Quando Bruna surgiu grávida, eles tinham acabado de sair da escola, e ele já tinha esse sonho de profissão, mas, queria sair adoidado na vida antes de fazer faculdade. Era um moleque né! Só tinha dezoito anos. Tudo o que ele passou, e toda a decepção que Bruna foi para ele forçaram-no a, abandonar seus sonhos de viajar mundo afora e realizar sua profissão pela filha que ele teria que criar.
— Deve ter sido difícil para ele. Aliás, para todos, não é?
— Sim. Muito.
— Mas, ele trabalha com isso?
— Sim! Hoje de manhã ele estava fazendo aqueles rabiscos dele.
— Ah, então era isso!
— Sim, ele sempre faz trabalhos para fazendas vizinhas. Recentemente, antes de você chegar, ele fechou contrato com um grande fazendeiro pecuarista e dono de terras, produtor de milho. — Interessante.
… E o seu trabalho?
— Ah titia… Estou tão triste com tudo isso. Se Ângelo não conseguir provas suficientes da minha inocência eu creio não poder mais exercer a minha profissão. – nessa hora surgiu na cozinha de banho tomado. Ele havia escutado o que eu disse.
— Tudo irá se resolver querida! – ela me abraçou e voltou sua atenção a ele: — Meu filho, eu acabei de passar um cafezinho! – ela sorria para ele.
— Ainda tem aqueles biscoitos? – ele abraçou a mãe apertadamente e beijou seu rosto.
Eu começava a me acostumar com aquela parte amável de . Amável com a família, lógico. Ele não precisava ser daquela forma comigo, mas, se ele simplesmente desfizesse as caras ruins para mim e não fizesse cara alguma… Espera, não! Não seria suficientemente melhor, ele já agia indiferente comigo e eu continuava incomodada.
— Tem sim. Coma também .
— Agora não tia, obrigada. A água já está quente, eu vou acordar minha bonequinha para ela tomar banho.
— Tudo bem, eu vou preparar uma bandeja de café para levar para ela comer.
— Sim. você precisa de ajuda com os animais?
— Já são seis horas. Já cuidei de tudo.
Titia olhou para ele repreensiva.
— Pode deixar, obrigado.
Ele já conseguia utilizar a palavra “obrigado” comigo, sem doer como antes parecia. Acredito que agora, não surtia mais efeito algum.
— Tudo bem. Vou ver a pequena. – subi com a toalha dela nos ombros.
— Parece até a mãe. – titia disse sorrindo para mim.
Imediatamente bateu a caneca na mesa com seus olhos arregalados. Visivelmente contrariado em ter escutado aquilo. Titia percebeu que foi um pouco longe.
— Quero dizer… Você dará uma ótima mãe, . – ela disse sorrindo para mim e olhando culposa para o filho.
Quando acordou eu percebi, o quão exausta ela estava. Não falou muito, tomou banho rápido e enquanto eu a arrumava, surgiu com a bandeja de café em mãos. Ele também notou a quietude da filha.
— Você está se sentindo bem, filha?
— Só estou cansada papai. Corri muito hoje! O Juca é muito bom no pique-pega. – eu sorri ao ouvir aquilo.
Eu penteava os cabelos castanho-claros longos de e alimentava sua filha. Ela não comeu muito. Logo, estava sonolenta como antes, devido ao mexer que a escova fazia nos cabelos dela. Deitamos a pequenina na cama, retirou a bandeja e sorrindo beijou seu rostinho angelical. Eu também beijei a testa dela.
— Tchau papai… Obrigada mamãe. – ela disse meio sonâmbula.
Assustamo-nos e me olhou furioso. Eu fiquei feliz, mas, ao mesmo tempo, culpada. Ele estava certo em ficar com raiva. Se minha filha se apegasse a um homem, quase desconhecido ao ponto de chamá-lo de “pai”, e que não fosse o pai dela, e eu soubesse que ele iria embora.... Eu também ficaria brava. Ela vai sofrer quando eu me mudar. saiu tempestivo do quarto e eu o segui.
! ! – eu o chamava pelo corredor. Ele seguia apressado com a bandeja. Já na sala ele parou e olhou para mim transformado em ira.
— Eu te avisei! Vê o que você está fazendo?!
— Desculpa! Eu amo a sua filha! E… E ela precisa de uma mãe!
— O que está acontecendo? – titia aproximou-se espantada com a gritaria.
Ninguém deu atenção a ela.
— AH! E você quer ser a mãe da minha filha?!
— Não! Quero dizer… Por que não?
— O quê? – ele estava ainda mais revoltado.
Titia tampava a boca com as mãos chocada.
— Eu posso ser uma mãe para a ! Eu realmente amo a sua filha … – eu disse suplicante e confusa me aproximando dele.
— Eu não quero que você seja a mãe dela! – ele me segurou pelos meus pulsos e eu já chorava!
— Você não tem que querer! A quer!
— Você é louca!
! ! – ele saiu da casa e eu corri na direção dele, mas, titia me segurou.
— Deixa ele se acalmar, querida… – ela me abraçou aos prantos. — O que aconteceu?
… Me chamou de “mamãe”.
Titia também ficou espantada. Ela disse que sabia que isso aconteceria, mas, não achou que fosse tão rápido.
Eu estava disposta a não perder a , mesmo que eu saísse daquela casa. Eu precisava dela e ela de mim! E essa descoberta interna me fixou à ideia de que, eu não poderia mais me afastar daquela cidade.
Por dois dias olhava para mim, como se eu fosse a pior pessoa do mundo, e até entendo. Ele deveria pensar que eu queria “roubar” dele, mas, eu jamais faria isso. Apenas queria poder ser a mãe que ela não teve. Devolver todo o amor que a pequena tinha por mim e eu por ela, mas ele não se dispôs a conversar. E aquele assunto não fora mais tocado, principalmente quando estava perto.


Capítulo 7 - Descobrindo a Nova Vida

(Ouvir: Cafuné – Pedro Salomão)


Alguns dias se passaram, semanas talvez. Já estávamos acostumados um com o humor do outro. O assunto da minha maternidade adotiva com não se desfez dentro do meu coração, mas, parecia ter esquecido. Ou fingia. Titia me observava de um jeito diferente quando a princesinha e eu estávamos juntas. A pequena não me chamara mais de mamãe. Talvez, aquele dia ela tivesse tido um delírio.
entrou na sala, em uma das tardes pacatas que tínhamos, arrastando dificilmente uma lata de tinta. Titia sorria com a cena. E eu nada entendia.
Apesar de morar ali, há quase dois meses, eu não era colocada a par dos assuntos da fazenda até eles serem postos em prática. Titia até falava coisa ou outra, mas, como tomava a frente de tudo, ele nunca me dizia nada. Na verdade, ele nunca falava comigo, nem mesmo direcionava seus olhares a mim. Apenas quando era algo do qual ele não podia evitar.
— Olha ! As tintas novas para pintar o celeiro!
— Deixa que eu pego isso, pequena.
Quando me inclinei para pegar a tinta que ela arrastava, abaixou e pegou a lata de minha mão. Ele levou-as para os fundos da casa. percebeu o que ele havia feito, mas, não disse nada. Apenas olhou para a avó que fez um sinal de “não ligue” para ela. A pequenina abaixou a cabeça tristonha.
Chovia e tentando reconfortá-la, das inúmeras cenas intimidadoras que ela presenciava o pai fazer comigo, convidei a criança para me ajudar com os bolinhos de chuva.
Pedi para esperar na cozinha enquanto eu subia para pegar um avental limpo no quarto de titia. Flagrei titia conversando com enquanto eu passava no corredor.
Você está magoando muito a nossa . Hoje eu fiquei com o coração na mão, ao vê-la se entristecer por você magoar a ! Não percebe o quanto elas se gostam?
— Vou conversar com , mãe. Mas, eu não queria que ela e essa mulher se aproximassem assim. Eu tentei evitar. Você também não ajuda né?
— Você não tem que tentar afastá-las!

Saí de trás da porta vendo que a discussão se engrossava, para não ouvir mais. Tantas vezes pensei em fazer as minhas malas e sumir dali sem me despedir de ninguém.... Buscar uma vida nova em outro lugar. Contudo, eu seria ingrata com titia ao fazer isso. Seria monstruosa com . Indelicada com Gabriel, que também estava sendo um grande amigo.
Gabriel fora a fazenda me convidar para passear umas duas vezes e eu fui. Ele era divertido e sempre cavalheiro. não gostava de nos ver juntos e chegou a fazer pirraças. Puxou ao pai. Depois de conversar com ela algumas vezes, as pirraças foram diminuindo, mas, ela sempre deixou claro que não queria que eu namorasse o Gabriel.
As pessoas daquele lugar levavam muito a sério, esta história de namorar. Eu não podia ter um amigo? Era só me verem com ele e eu já estava namorando? Eu não dei importâncias aos comentários, na verdade, eu evitava ouvi-los e Gabriel também era tão mente aberta quanto eu e não ligou para as más-línguas do interior.
A cada dia que passava, a cada hora, minuto e segundo, sem informações do meu processo, a cada dia mais distante dos resquícios da minha vida de São Paulo, eu ansiava por novos ventos. Não bastava estar ali na fazenda, eu não sentia que a minha vida tinha tomado um rumo. Eu ainda me encontrava, em um estado de respiração com ajuda de aparelhos. Não me sentia pronta para respirar fundo, aliviada.
Meus antigos amigos, onde estavam? Ângelo, Marcos, Verônica e Samuel eram os únicos amigos que eu ainda tinha algum contato. Eles eram meus amigos de faculdade e trabalhamos juntos coincidentemente. Eles estavam ajudando no meu processo, mas fora isso…
Onde estavam os vizinhos que sorriam para mim todas as manhãs ao sair do prédio? Onde estavam aquelas amigas do barzinho? Onde estavam os antigos colegas de escola? Onde estava o colega de andar, do número 306 que sempre me pedia emprestado um pouco de açúcar? E o carteiro que sempre foi tão simpático? O dono da mercearia, do horto fruta, o farmacêutico, o dono da pizzaria, o entregador de pizza e todos aqueles amigos que eu havia feito na minha trajetória? Onde estavam todos?
Só sobraram Ângelo, Marcos, Samuel e Verônica? Onde eu errei? Eu tive outros amigos?
Convivendo naquela cidadezinha onde todos se conheciam desde as fraldas percebi o quanto eu sempre estive só. Até mesmo ali, naquele ovo chocado em um só ninho, as pessoas não eram tão amigas quanto deveriam.
E os meus namoradinhos de infância? E os meus namoradinhos de adolescência? E o meu primeiro amor? E meu ex-namorado, aquele que eu abandonei por causa de Lucas?
Lucas… A vida se vingaria dele por mim? Ou não adiantaria nada eu me poupar de sujar minhas mãos?
Chorei. Chorei tantas noites e dias! Amanheci muitas vezes diante àquele paraíso artificial à minha janela chorando, que, por muitas vezes chorar se tornou um ato involuntário. Meus olhos o faziam por si só. Sem comandar ao meu coração. Eu chorava até mesmo quando me sentia feliz. Chorava por compulsão. Chorava automaticamente.
Nada ali me arrancava um sorriso, com exceção de . E quando eu finalmente percebi que Gabriel também conseguia me tirar um sorriso ou dois, sinceros, foi que descobri a nova vida que eu tanto esperava. A chance existia. O Gabriel existia. A existia. Era hora de abandonar todas as feridas e cuidar daquelas duas sementes para que elas florescessem.
e eu fizemos os bolinhos de chuva, comemos com leite quentinho debaixo de cobertas assistindo os filmes infantis que ela adorava. Não vi mais , não porque ele não estava lá, mas, porque eu não quis.
No dia seguinte, a chuva já havia se distanciado e o sol secou a umidade de uma forma que não ficaram vestígios nenhum de lágrimas das nuvens. quando acordou, me vendo sentada à cozinha pegou sua caneca de café e saiu. Dessa vez nada do cordial “bom dia”. Arrumou-se socialmente saindo logo após cuidarmos da fazenda, sem nada falar comigo. Fora mais uma das muitas noites mal dormidas que eu tivera. Titia acordou um pouco depois dele ter saído.
— Bom dia, querida.
— Bom dia tia. – eu estava sentada na varanda observando o meu horizonte matutino.
Eu perguntava àquele horizonte se ele sabia algo sobre o meu destino, mas, ele sabe guardar segredos.
— Sabe onde está ? A cama dele está feita.
— Levantou-se cedo, vestiu uma roupa social e saiu sem nada dizer.
Era um dos meus dias tristes. Eu não sorri nenhuma vez para titia e não desgrudava meus olhos do horizonte. Ela conversou comigo muitas vezes tentando reconfortar-me, mas, sabia que as proporções estavam gigantescas demais para mim. Ela disse uma vez: “ — Você aguenta, acredite”. Numa outra vez eu a perguntei se ela não se arrependera de me trazer para a casa dela e titia, sempre muito certa do que diz respondeu-me: “— Está demorando mais do que eu previ para você perceber o seu destino aqui, mas eu não achei que seria fácil. Estou mais certa do que nunca estive!”.
— Ah claro, a reunião! Ele tem uma reunião importante hoje… Ele tratou dos animais?
— Sim. Eu ajudei.
— Hum… Sabe, talvez uma terapia hoje pudesse afastar estes seus pensamentos confusos.
— Talvez um pouco do seu tricô pudesse desemaranhar os nós…
— Fique à vontade!
— Estou brincando tia, eu não sei tricotar. – fiz uma cara indiferente e avistei as latas de tinta ao lado da entrada da casa. — Essas tintas estão ali por…?
deve pintar o celeiro hoje.
— Posso?
— Tem certeza?
— Absoluta! Se há algo que eu amo fazer é pintar, e… Bem, celeiros não são como as telas, mas, seria uma boa distração!
— Está certo então. O material está todo lá.
Peguei as latas e as coloquei no carrinho. Vesti uma roupa velha e surrada e fui até o celeiro pôr as mãos na massa.

(Ouvir: Luz dos Olhos – Nando Reis)


Comecei pintando o topo do celeiro. Mas as telhas precisavam ser trocadas, então deixei o telhado para depois. O Sol subia tímido enquanto eu pintava, lá de cima pude observar ele descolando-se do horizonte devagar. Não percebi as horas passando enquanto pintava. Eu escutava meu mp3 que encontrei perdido na mala. Naquele momento, o Sol queimava minha pele e eu cantava altíssima a música “Luz nos olhos”, eu amava esta canção, embora, Lucas tenha-a dedicado para mim no dia que me pediu em namoro. Quando eu escutava as minhas músicas favoritas eu me desligava de tudo. Desliguei mesmo. Pincelava e cantava gritando. Até que eu tive a impressão de ouvir alguém me chamar. Pausei a música. Era , quando olhei para baixo ele olhava espantado e curioso.
— O que foi? – eu gritei.
— Desça daí!
— Não! Eu estou pintando, não está vendo?
— Estou! Mas, não precisa continuar!
— Mas eu quero continuar!
Ele saiu dando de ombros esbaforido. Continuei a música e cantei bem alto quando ele deu as costas. Ele olhou para trás e eu virando a cabeça sorri travessa para mim mesma. Do alto eu avistava a varanda da casa e percebi que ali no topo do celeiro, o lugar era perfeito para passar meus tempos solitários. Titia me acenava da varanda, ela e tinham me visto dançar, pintar e acho que também me ouviram cantar. Por isso , que tinha acabado de chegar foi até lá me mandar descer, no mínimo pensou que eu estava louca.
Um pouco depois ele surgiu malvestido, com outra escada e outros materiais. Estávamos lado a lado do outro. Eu continuei fingindo que ele não estava ali e cantava. Em uma olhada furtiva que eu dei a ele, o peguei sorrindo da minha atitude de cantar e dançar pintando, em uma escada há metros de altura. Ele sorriu? Sorriu de novo? Sorriu de mim? Sorriu para mim? Desequilibrei-me um pouco e quase caí.
— Cuidado! – ele gritou assustado.
Segurei na escada e passado o susto continuamos em silêncio.
Ouvi em silêncio a música que tocava, porém, uma parte da canção me trouxe lembranças tristes, e eu a cantei bem alto, como se eu quisesse libertar as dores:

“Mudaram as estações, nada mudou. Mas, eu sei que alguma coisa
aconteceu. Está tudo assim tão diferente. Se lembra de quando a gente
chegou um dia a acreditar que tudo era para sempre? Sem saber que o pra
sempre, sempre acaba”. (Por Enquanto, Cássia Éller)


Esse trecho também tocou alguma ferida de , pois, rapidamente ele fechou a cara. Assim que o raiar alto e forte do Sol surgiu, nós descemos para almoçar. Descansamos após o almoço e depois voltamos ao trabalho. levou um rádio de pilha desta vez. Tomei a atitude dele como amigável. Afinal, eu cantava e ouvia músicas e aí ele leva um rádio na volta… Era um favor, não era? Ou eu realmente tinha uma voz insuportável.
Acabamos de pintar toda a parte da frente e de trás do celeiro em um dia. Fazíamos bons trabalhos juntos. Ele parou um pouco às quatro horas para buscar as vacas no pasto e alimentar as galinhas. Mas, acabando o meu lado eu fui ajudá-lo na parte de trás.

(Ouvir: Segundo Sol - Cássia Eller)


Enquanto finalizávamos a pintura lado a lado indiferentes, calados e sem nos olharmos tocou no rádio, a música “Segundo Sol” na voz de Cássia Eller, e eu conseguia assimilar a letra como uma referência daquela nova vida para qual eu havia despertado. Ali refletindo a música, e pintando o celeiro calada, eu pensava que quando o verdadeiro brilho da minha vida chegasse se organizariam as linhas tortas do meu mundo atual. Eu não poderia dizer que não havia me surpreendido com tudo o que vinha me ocorrendo, porque eu realmente me surpreendi com o que acontecia comigo. E eu só queria que todos soubessem que eu descobri um mundo novo, naquela fazenda, com alguns sóis que fazem a minha vida mais feliz e que a vida ali arde, vive, e desperta como nunca antes eu havia despertado.
— Ei… Você está bem? – perguntou diante a minha paralisia reflexiva.
— Hein? Estou.
Eu acordei de novo, com a certeza dessa vez, que aquela fazenda, aquelas pessoas e tudo o que viria era a minha nova vida. Independente de eu levar na bagagem a vitória imposta da minha antiga vida ou não. Não importava tanto quanto antes, se eu perdesse tudo o que eu tive em São Paulo um dia, porque agora, eu tinha esperança no novo. 


Capítulo 8 - Beijos de Chuva Culpada

No fim daquele dia do celeiro tudo continuou na mesma. Exceto pela visita de Gabriel que foi me levar um novo convite de passeio para o fim de semana. Marcamos outra saída de amigos e ele não demorou muito a ficar por lá. Ele queria conversar com , mas, ele também passou a evitar Gabriel.
— Acho melhor você conversar com ele em outra hora. – titia sempre dizia a mesma coisa para Gabriel.
Já no portão da fazenda nós conversamos, a sós antes dele ir embora.
— Ele está muito incomodado comigo . E acho que sei por quê.
— Se você sabe, então já é um passo a menos… Mas, não ligue para o seu amigo, ele tem agido assim desde que eu entrei nesta casa. O problema não é você, sou eu. Ele não gosta quando eu me envolvo com as pessoas da vida dele.
— De qualquer forma eu vou abordá-lo! precisa parar de ser infantil comigo, com você e com tudo.
Nos despedimos e entrando em seu carro Gabriel seguiu seu caminho. Voltei para o casarão pensando no que ele dissera: precisa parar de ser infantil comigo, com você e com tudo”. Com tudo? Então eu poderia não ser o problema já que ele era infantil com tudo… Droga! Por que além de tudo o que eu estava passando, ainda ganhei de bônus o ?
Nos dias seguintes ele e eu trocamos as telhas do celeiro e terminamos as pinturas. Até fomos rápidos. Tia Cora sempre dizia que estávamos fazendo ótimos trabalhos juntos na fazenda. Ela deveria querer muito que nos entendêssemos e que fôssemos amigos. E amizade entre nós era algo que a cada dia que se passava ia ficando mais longe. Deveria ser o contrário, mas, essa era a realidade.
Numa das manhãs em que cuidávamos dos animais da fazenda ele me chamou a acompanhá-lo até as montanhas que ficavam nas campinas após o riacho. As montanhas também pertenciam à fazenda, mas, eu nunca estivera lá até então.
— Você sabe dirigir?
— Sei.
— Toma. – me jogou as chaves da camionete. — Vou a cavalo, me siga.
— Aonde vamos?
— Ao pasto das ovelhas.
Ovelhas? Eram até aquele momento, os únicos animais que eu não sabia existir na fazenda. Por que eu nunca as vi?
— Por que nunca as vi?
— Elas ficam lá para eu não ter que trazê-las de volta todos os dias. Construí uma manjedoura para elas por lá.
— E exatamente por que vai trazê-las hoje?
— Vou vendê-las.
— Mas, vai trazê-las na caçamba? – ele me olhou como se eu fosse idiota.
— Não. Uma delas está prestes a parir.
Ele colocou uma balsa improvisada, mas, muito bem-feita, na caçamba da camionete. E seguiu para dentro da água montado em seu cavalo.
! Você consegue atravessar com a camionete?
— Acho que sim! – eu gritei e ele ficou parado com o cavalo observando. Acelerei aos poucos, riacho a dentro. sabia muito bem o que estava fazendo, ele aguardou a hora que a correnteza corria devagar e baixa para podermos atravessar. O carro parecia agarrar e não seguir em frente.
! Ele não avança!
— Dê a ré!
Dei a ré e de volta para fora da água ele pediu para eu descer. Se aproximou de mim. Pegou-me no colo e me colocou montada no cavalo.
— Segure firme a rédea, e fique calma. Pode deixar que a Lunia segue o caminho sozinha, apenas segure as rédeas para ela sentir que você está a controlando.
Lunia? Era uma égua! O equino de estimação dele era uma égua, e eu nunca havia percebido. Também, para que eu perceberia o animal dele se a única vez que eu estive com Lunia foi à minha primeira montaria, da qual eu tentava não relembrar?
— Tem certeza? Mas, e se ela pegar um pique? – eu disse assustada.
— Ela não vai. Ela vai atravessar e eu vou atrás com a camionete. Lunia não vai pisar por onde tiver areia.
Assim foi feito e o carro atravessou direitinho. logo me tirou do lombo da égua. Ele desembarcou a balsa com a minha ajuda. Montou novamente e continuou pedindo para eu segui-lo.
Enquanto eu dirigia por aquela campina, me recordava do dia da nossa cavalgada. Não ficava muito distante o pasto das ovelhas. Passamos por um espaço entre as montanhas e quando chegamos ao outro lado desci do carro. Na minha frente estavam, a manjedoura e algumas ovelhinhas, eram cinco. “Só isso?”, eu pensei. prevendo meu pensamento apontou para trás: na montanha e em cima dela haviam outras várias. Era uma das mais belas cenas que eu havia visto ali, desde então. Ele subiu até lá as fazendo descer.
e eu ficamos parados observando aquele lugar incrível. Eu, perplexa. Ao longe surgiu um arco-íris que ele me mostrou.
— É lindo. Você tem sorte de morar aqui. – eu disse.
nada me respondeu sobre isso, apenas disse que devíamos nos apressar porque arco-íris era sinal de chuva. Novamente aquela cena de filme se desfez na face dele, voltando à nossa realidade agressiva. Eu teria dito algo errado?
Instigou a ovelha prenha que estava dentro da manjedoura, a subir na caçamba e voltamos o percurso, com ele pastoreando as outras. Não seguiram todas conosco, mas, algumas que ele vaia marcado. Quando nós chegamos ao riacho eu desci do carro e fiquei cuidando para que elas não dispersassem enquanto ele atravessava pequenos lotes dos animais em cima da balsa. Ele me ensinou como pastoreá-las. Após atravessar com todas ele guiou o carro, me seguindo montada em Lunia novamente. Prendeu as ovelhas no celeiro separando um espaço especial para a ovelha prenha com já quatro meses de gestação. E ficamos eu e ele ali, naquele celeiro, namorando as ovelhinhas que já estavam presas. A chuva começou a cair enquanto ainda estávamos lá dentro. E caiu feroz.

(Ouvir: Life Changes – Thomas Rhett)


Olhamos para a porta do celeiro e o carro estava aberto. Ele saiu correndo e eu atrás dele. Até chegar ao lugar onde deixamos o carro nos molhamos bem. Minha camiseta branca ficou transparente me deixando envergonhada diante dele. Entramos no carro e assim que fechamos a porta subimos os vidros das janelas.
A chuva era uma tempestade passageira. Assim, como eu também esperava, que fosse a situação atual da minha vida. avançou o carro com um pouco de dificuldade, pois, a visibilidade era péssima de tamanha a quantidade de chuva que batia no vidro. Os limpadores do para-brisa mal davam conta. Um pouco à frente nós caímos em uma grande poça de lama que havia se formado no caminho. O carro atolou.
— Droga! – bradava descendo do carro.
Eu desci atrás dele e a chuva estava forte e gelada.
— Entra no carro, !
— Eu te ajudo!
Ele brigou comigo e eu entrei emburrada. Logo ele entrou também.
— Vamos esperar aqui. O casarão não está longe, mas, não podemos sair debaixo dessa chuva.
— Tudo bem. E o que houve com o carro?
— Atolou toda a frente. – ele fez uma cara brava.
— Tudo bem, a gente tira depois. Você não poderia fazer o milagre de enxergar o caminho com esse aguaceiro todo.
Ele não gostou do que eu disse.
— Preferia ficar no celeiro, madame?
— De qualquer forma estamos parados aqui.
— Você… É impressionante a sua capacidade de me irritar!
— Idem. – olhávamos um para o outro, de forma intimidadora, eu batia o queixo de frio e num ato imprevisível, tocou meu braço.
— Você está gelada.
Ele tirou a mão do meu braço e virou o corpo para a parte de trás do meu banco. Ficamos muito próximos. Ele olhava nos meus olhos, sério.
— Toma. – ele me entregou um casaco dele.
— Obrigada.
Enquanto eu o vestia flagrei olhando para minha blusa molhada com uma cara muito atrevida.
— Perdeu alguma coisa?
— Sabe que você não é de se jogar fora? – ele ria atrevido e quando eu ia respondê-lo à altura ele foi mais rápido: — Poupe suas reclamações. Eu estou tirando uma com a sua cara. Eu jamais tocaria em você.
Petulante. Inútil. Ridículo. Grosseiro.
— Se depender de mim, nunca mesmo. – ele me olhou curioso como se não esperasse a minha resposta.
— Já que estamos aqui… Fala. Conte agora qual é o seu problema com a polícia, senhora delegada.
— Eu não vou falar nada a você. Apenas para que você fique um pouco mais tranquilo: saiba que eu sou inocente.
— Eu nunca estarei tranquilo enquanto você estiver perto de mim e da minha família.

(Ouvir: Burn Out – Midland)


Não suportando toda aquela rejeição gratuita o empurrei.
— Está louca? – ele segurou meus punhos, mas, eu me soltei.
Virei-me de frente para ele.
— Por que, ? O que faz você me odiar tanto assim? Eu nunca te fiz nada!
— Cínica.
— O quê? Por quê? Eu não entendo!
— Fica na sua, aí garota! Já falamos um com o outro demais por um dia.
— Covarde! Você é um covarde.
— O que? – ele virou de frente para mim também e puxou meu braço me fazendo encará-lo olho a olho — Você é uma golpista!
— Você é um covarde por não falar na minha cara o que você tanto odeia! Não fala porque me odeia, e fica fugindo de tudo! Covarde e idiota!
— Você sabe muito bem, sua cínica!
— Então me relembre!
— Você quer me convencer de que, não está nos planos da minha mãe fazer você se aproximar de mim? — Do que você está falando? De que jeito…? – eu não entendia nada do que ele dizia.
Mas aí um trovão estalou e com o susto eu agarrei os braços dele que estavam segurando ainda os meus. E então, não sei como aconteceu, mas, estávamos grudados um no corpo molhado do outro. Nos beijando. E que beijo! Mas, que beijo? Não era para nada disso, estar acontecendo! De repente, já estava sobre mim no banco daquele carro, os dois deitados. Eu o puxava ainda mais para perto e ele puxava os meus cabelos. Até que recobrando a sanidade afastei ele de mim e ficamos nos encarando assustados. Nenhum de nós sabia o que estava fazendo.
— Desculpe. – eu disse.
— Não, me desculpe você. Sei lá o que deu em mim… Eu só estava vendo você assustada e…
Estávamos cada um no seu canto, separados. Mas se antes já era insuportável aquela atmosfera entre nós, depois disso é que ficaria cada vez pior. Eu precisava sair dali. Eu fui à maçaneta da porta e quando desceria do carro ele me puxou.
— Não ficamos parados aqui nos suportando à toa. Você não vai pegar essa chuva! – ele bateu a porta e eu o olhei sem entender. — Eu estou me sentindo tão péssimo quanto você. Fica na sua e eu fico na minha, a chuva já vai passar.
E assim ficamos parados cada um na sua até a chuva parar. Quando o tempo abriu, o céu aparecia com aquele visual mais sacana, ao estilo “não aconteceu nada”. Eu e não nos olhamos mais. Descemos da camionete e fomos andando até o casarão. Titia estava espiando pela varanda, para ver se nos via. Quando ela percebeu já estávamos chegando. Ela sorria de longe por nos ver bem.
nem cumprimentou a mãe, apenas entrou direto e eu, parando à frente dela sem olhar para ele e nervosa, tive que lidar com os olhares atônitos dela. Tia Cora me analisava da cabeça aos pés e se assustou com o meu estado, a blusa toda encharcada e a jaqueta de vestida em mim.
— Que chuva louca! Fiquei preocupada com vocês! O que aconteceu?
— A picape atolou e tivemos que esperar a chuva.
— E estes trajes?
— Pegamos chuva. Ele me ofereceu uma jaqueta que estava no carro.
— Ah… E as ovelhas?
— Tudo certo. – eu não a olhava nos olhos.
— Foi só isso mesmo, querida?
— Sim. Eu vou subir tia. – eu disse beijando a face dela e indo em direção ao meu quarto.
Para chegar ao meu quarto eu passaria pelo dele. estava em pé na frente da cama sem camisa e com o jeans molhado. Bati à porta, e ele olhou para trás.
— Posso?
— Entre.
— Sua jaqueta… Vim devolver.
Na verdade, eu não acho que fui até lá por causa de jaqueta nenhuma. Ele se aproximou pegando a jaqueta da minha mão e fechou a porta atrás de mim. Olhei para trás sem entender. Novamente ele me puxou e me jogando na cama dele nos beijamos novamente. Céus, por que aquilo estava acontecendo? era cada vez mais feroz e o pior… Eu estava gostando daquilo. O empurrei com as pernas. Ele me olhou sem entender nada, mas, não me impediu de sair de lá sem falar nada. Ele queria me beijar, mas, também estava arrependido. Nós não sabíamos o que acontecia… Deixamos os corpos falarem e quando voltávamos à razão, nos envergonhávamos.
Entrei ofegante no meu quarto e tirei a minha roupa molhada. Deitei na cama apenas com as roupas íntimas a fim de aliviar meus pensamentos e adormeci sem perceber.
havia trocado de roupa e ido buscar na fazenda vizinha, alguém para puxar a camionete do atoleiro. Por sorte nada foi danificado. Eu ainda dormia quando bateram à porta do meu quarto. Eu até ouvi, mas, ainda cochilava e não consegui discernir se era sonho ou realidade. Até que senti um toque quente nas minhas costas frias.
— Acorda .
Olhei para trás e era ele. Visivelmente sem graça.
— O que foi? – eu disse fechando novamente os olhos e me virando de bruços.
— Minha mãe pediu para te chamar para o jantar.
— Ah…
— Não vai se vestir? – ele falou em meio a algumas risadas.
Então me dei conta de como eu estava e pulei da cama em um susto, mas, caí no chão.
— Você está bem? – ele perguntava tranquilo.
— Por que entrou aqui se viu que eu estava assim? – eu gritava furiosa com ele procurando algum lençol ou toalha para me cobrir.
— Quando eu abri a porta eu pensei mesmo em não te chamar, mas, aí repensei: “Ela vai tomar um bom susto”.
— Rá-rá! Sai daqui!
— Estou indo. – ele disse rindo.
Bateu a porta e eu peguei roupas limpas. Olhei para um lado e para o outro na hora que abri novamente a porta do meu quarto e vendo o corredor vazio fui para o banheiro daquele jeito mesmo. Minha toalha estava no quintal. Quando coloquei a mão na maçaneta, a porta se abriu.
?
? – a pequena me olhava assustada. – Por que está vestida assim?
— Eu dormi assim e minha toalha… você pode pegar a minha toalha lá em baixo para mim?
— Tá. – ela começou a rir. — Você não pode andar assim ! E se o papai te vê?
— É… Não posso. … Vai lá e pega a minha toalha, por favor, eu vou deixar a porta entreaberta, 'tá?
— 'Tá.
Ela subiu um pouco depois me entregando a toalha.
Durante o jantar, e eu não nos olhamos, não falamos nada e nos limitamos apenas a responder o que titia e nos falavam. Tia Cora me olhava desconfiada. Quando acabei o jantar eu fui para a pia lavar a louça, com titia no meu encalço.
— Achei você tão calada no jantar.
— Não, impressão sua titia.
também estava muito calado.
— Bem, ele nunca fala, não é?
— Não, vocês dois estavam estranhos. Tem certeza de que não aconteceu nada?
— Só o de sempre. Brigas. – eu sorri para ela.
— Hum… – ela parou o que fazia e olhou pela janela. — Barulho de carro. Ficou observando e surgiu na soleira da cozinha com uma cara muito irritada.
— Visita para você . – ele me disse bravo e subiu.
Gabriel tinha chegado e eu fui até a varanda recebê-lo. Ele não quis entrar. Titia o convidou para um café, mas, ele recusou. Ele não se sentia mais tão bem recebido quando ia lá, não por titia, mas, por .
— Podemos conversar?
— Claro.
Fomos até o carro dele e nos encostamos à lataria do SUV preto.
— Como você está?
— Estou bem Gabriel, e você?
— Ótimo. Principalmente pelas notícias que tenho.
— E quais são?
— Primeiramente, ainda está de pé nosso passeio final de semana?
— Mas é lógico! – eu disse batendo o meu ombro no dele sorrindo.
— Ótimo! , você conseguiu algum emprego?
— Nada. Estou ficando muito mais preocupada.
— Não fique! Você não pode trabalhar na delegacia como investigadora e policial, porque não fez concurso e por ordem judicial não pode exercer sua profissão até segunda ordem, mas, ninguém disse nada em ser assessora do delegado, ou disse?
— Gabriel! – eu estava maravilhada com ele — É sério? Tipo, sua secretária?
— É. Secretária pessoal.
Eu gritei. Dei um pulo no pescoço dele e o abracei muito forte. Eu nunca teria como agradecê-lo.
— Obrigada! – beijei um lado do rosto.
— Obrigada! – beijei o outro lado do rosto.
— Obrigada! – beijei a testa. — E obrigada!
Parei antes que fizesse o que não devia e só o abracei.
— Não precisa agradecer.
Ele beijou meu rosto e afastando-se entrou no carro sorridente:
— Pode começar amanhã mesmo! – ele disse de dentro do carro. — Manda um abraço à dona Laura e minhas desculpas pelo horário.
— Pode deixar!
Ele deu partida no carro e eu circulei o automóvel até o lado do motorista e me encostando à janela sorri para ele agradecida e o beijei a face novamente.
Assim que ele saiu eu fiquei rodopiando sorridente e de braços abertos no quintal, como uma criança. De olhos fechados para o céu eu parei. Abri os olhos e avistei a silhueta de na janela do quarto dele, no alto da casa.
Tirei o sorriso do rosto e entrei. Aquele idiota nos espiava. Mais tarde fui dormir e fiquei pensando nas palavras dele: “Você quer me convencer de que não está nos planos da minha mãe fazer você se aproximar de mim?”. O que ele quis dizer com isso? Adormeci depois de muito pensar sem obter respostas. Mas naquela noite, dormi muito feliz. Só não sei se posso assimilar toda a minha felicidade apenas ao meu novo emprego ou se existiria algo além me alegrando.


Capítulo 9 - Primeiro Julgamento

Tocar na playlist: (The Weight – The Band)


Na manhã seguinte acordei leve. O Sol subia fraco na minha janela, mas eu o sentia tão ardente como nunca antes. Acredito que não fosse o sol, mas sim, eu. Eu estava ardente com a vida. Finalmente algo bom acontecia.
Desci para tomar café, já arrumada para o trabalho. Eu havia comprado roupas novas aos poucos desde que chegara ali. Rosa também traria algumas roupas após a volta da lua de mel que pedi para ela comprar na capital. Eu não havia levado muitas malas e nada da minha vida anterior eu queria por perto, senão os verdadeiros amigos e a verdade. Me arrumei caprichosamente. Como nos velhos tempos de manhãs precoces e idas ao expediente.
Titia já estava acordada às seis horas e estava novamente arrumado para alguma reunião, suponho.
! Bom dia! – titia sorria maravilhada.
— Bom dia tia! Bom dia ! – eu tinha um sorriso extenso no rosto e me encarou espantado com a minha alegria e com meu animado cumprimento a ele.
— Aconteceu alguma coisa? – titia serviu-me o café. — Aonde vai?
— Trabalhar!
— Querida! Parabéns! Que ótima notícia!
ficou pálido.
— Finalmente titia! Gabriel veio dar essa notícia ontem! – titia me abraçou carinhosa desejando boas coisas.
— E vai trabalhar onde por acaso? – o tom rude e costumeiro se fez ouvir.
estava contra? Ele é louco ou o quê?
— Com o Gabriel. Como assessora pessoal.
— Claro! – bufou o irritante.
Tomamos café e me deu uma carona até a cidade. Não pronunciamos nada no percurso e nem na saída. Entrei na delegacia sendo muito bem recebida. O primeiro dia foi ótimo e Gabriel insistiu em me deixar em casa após o expediente.
Em uma sexta-feira, eu estava na delegacia organizando alguns papéis quando Ângelo me ligou avisando do processo:

Ângelo, que excelente notícia! Então o Lucas também será acusado?
— Exatamente ! Eu apresentarei as provas no julgamento!
— Eu te falei que nós conseguiríamos.
— Sim, mas não se precipite ! Sabemos que provar a culpa dele é mais difícil do que provar a sua inocência!
— Eu sei, mas só de saber que o Lucas começará a ser investigado já é uma alegria. Obrigada meu amigo. Muito obrigada.
— Não por isso, minha pequena! Qualquer nova informação eu te aviso, agora eu preciso ir. Abraços!
— Obrigada Ângelo! Um beijo!


— Quem é Lucas? – Gabriel sorria por perceber que as notícias eram boas.
— Lucas é quem armou toda esta sujeira para mim.
— E como ele entrou na história?
— Ele é meu ex-namorado. Promotor de justiça. Nós estudamos juntos na faculdade de direito e namorávamos.
Nós não sabíamos naquela hora, mas chegou no momento seguinte e ficou ouvindo nossa conversa atrás da porta da sala de Gabriel.
— Achei que o conhecia até ele me decepcionar. Ele só vem me decepcionando cada vez mais. Eu achava que o amava, mas depois de tudo isso, como eu poderia amá-lo?
— Ainda bem que vocês não estão juntos. Sabe-se lá o que ele poderia fazer você passar. – Gabriel me disse.
— Tem razão. – eu disse.
O horário do expediente havia terminado e surgiu batendo à porta para me buscar.
— Boa noite .
— Boa noite Gabriel.
— Será que poderíamos conversar, ? – Gabriel perguntou levantando-se da própria mesa onde estava apoiado.
olhou para mim e depois para o Gabriel, de modo desconfiado e respondeu seco:
— Claro.
— Eu vou esperá-lo lá fora ... Até amanhã Gabriel. – beijei seu rosto e o abracei sendo retribuída.
Não sei o que eles conversaram naquela ocasião, mas dias depois quando o perguntei, Gabriel disse apenas que o assunto era sobre o comportamento agressivo de com ele.
Quando saí não avistei a camionete. veio na frente e entrou em outra camionete melhor, maior, mais bonita e cabine dupla. Entrei naquele carro observando esguio, e Gabriel surgiu na janela ao meu lado.
— Amanhã às oito eu passo lá para te buscar . – piscou para mim.
— Estarei te esperando. – pisquei de volta e mandei um beijo no ar para ele.
arrancou, como sempre, irritado. Aliás, quando ele não estava irritado?
— A conversa foi tão ruim assim? – eu perguntei irônica e assustada com a arrancada.
Ele nada me respondeu. E ao notar que a rispidez estava além do habitual, me ocorreu que não fora a conversa dele com o delegado que o deixara daquela forma.
— Escuta… O que você ouviu?
— O suficiente. – me respondeu seco.
— Jura? Então acho que não preciso te explicar mais nada sobre o processo, não é? – respondi desafiadora.
— Como?
— Já que você disse que ouviu o suficiente.
— Não, eu não ouvi nada sobre processo algum. – ele respondeu incomodado, mas sem perder a marra.
— E o que ouviu?
— Sobre… Você… Amar alguém que não merece. – ele respondia constrangido.
— Sobre o Lucas. Meu ex-namorado.
arregalou os olhos me olhando surpreso.
— Achou que fosse sobre quem? – perguntei.
— Ninguém. Só não acredito que alguém fosse capaz de namorar você. – ele dizia insolente tentando desfazer a surpresa evidente.
— Jura? Você acha? – falei zombeteira e desafiadora.
— Limite-se a falar apenas deste processo.
— Certo ... Está na hora de eu esclarecer algumas coisas, quem sabe assim você me dá uma chance.
— Eu nunca te darei chance alguma.
— Pois bem, ! Vamos ao que interessa! Eu sou delegada e estive trabalhando há um ano. O Lucas, este ex-namorado de quem eu falava estudou comigo na faculdade de direito. Ele já era formado, mas fazia uma pós-graduação. Ele trabalhava na mesma delegacia onde consegui meu emprego, mas ficou por lá pouquíssimo tempo, pois logo passou no concurso de promotor de justiça. Cerca de uns cinco meses antes de eu vir para cá, peguei um caso investigativo do antigo delegado da minha DP. O Dr. Rubens Paiva havia sido assassinado e o processo dele ainda corria em investigação quando foi arquivado sem mais, nem menos. Algumas pessoas estavam sendo investigadas pelo desaparecimento das provas do homicídio. O assassinato do delegado foi então, arquivado por falta de provas.
— Rubens Paiva era o delegado do batalhão que você assumiu?
— Sim. Mas o caso que eu pegara não era sobre o homicídio dele, e sim sobre um esquema corrupto envolvendo o narcotráfico no qual ele estava quase descobrindo tudo. Antes de fundamentar as provas e depoimentos, ele foi assassinado. Eu tive que continuar de onde ele parou e isso me remeteu buscar antigos depoimentos e testemunhas, mas todos os depoimentos haviam desaparecido dos arquivos policiais e as principais testemunhas mortas. Posteriormente eu tive que desvendar o assassinato dele para tentar entender e ligar os fatos. Trabalhei dia e noite nisso tudo, incansavelmente. Então eu descobri que três pessoas ligadas ao poder judiciário estavam envolvidas nisso. Duas eu consegui identificar e prender. Um juiz e um delegado de São Paulo. A terceira pessoa ainda era um mistério. Com esses dois cúmplices descobertos e o depoimento deles eu teria as provas necessárias para fechar ambos os casos. Mas faltava o terceiro nome e quando eu consegui uma bússola para onde apontar fui afastada do caso por uma calúnia ridícula.
— E o que você já havia descoberto?
— Quem assassinou o delegado Rubens e o motivo. Trata-se de uma quadrilha formada pelo juiz preso, um delegado e mais essa terceira pessoa.
— E porque eles assassinaram o homem?
— A quadrilha lucrava com a exploração do narcotráfico apreendido. Eles apreendiam as drogas e as distribuíam para o tráfico de outras capitais. Um ciclo que nunca acabaria se alguém não intervisse. Rubens Paiva interviu, mas não chegou ao fim. Eles ficariam cada vez mais ricos. Então eu assumi o caso e descobri tudo, mas o mandante da quadrilha, o terceiro nome que era essencial eu não consegui descobrir. Então quando minha mente apostou em um nome, eu fui acusada de estar envolvida e ser a mandante e que tudo não passava de um plano para despistar as investigações. Acusada pela mesma quadrilha, suponho. Provas contra mim foram implantadas e agora estou sendo investigada. Só não fui presa porque as provas iniciais foram descartadas, mas, ainda assim, o juiz decidiu me afastar até segunda ordem e o processo inicial foi paralisado. O terceiro nome agora deve estar muito bem… Em seu iate de luxo rindo às minhas custas!
— Quem é o terceiro nome que você desconfia?
— Lucas. Meu ex-namorado. E não desconfio, eu tenho certeza. Só preciso das provas.
— Isso tudo é muito louco e muito sério. Pessoas morreram por se envolver nisso e você também pode morrer, ou pior, podem atingir quem estiver perto de você!
— Sim. Mas fique tranquilo quanto a isso. Ninguém vai fazer nada contra a sua família, ninguém sabe que estou aqui.
, deixa de ser burra! Se forem pessoas de dentro da lei, as envolvidas, saber onde você está é o de menos. Você não deve satisfações à lei?
— Sim.
agora parecia muito mais preocupado ao volante e muito mais irritado comigo.
! Escuta! Relaxa, tá? Tem gente da minha confiança rastreando todos aqueles que eu apontei. Dois estão sobre custódia e o Lucas… Se for ele, ele não poderá fazer nada! Olha para mim! – eu encostei minhas mãos nos braços dele e ele parou o carro me olhando — Eu não vou deixar nada acontecer à sua família! Eu prometo.
— É bom mesmo.
— Você acredita em mim?
— Não vou dizer que não ou sim. Eu ainda me mantenho afastado e irritado por sua presença, agora muito mais por causa de tudo isso.
— Como é?
Ele me ignorou e voltou a dirigir. Se não era pela desconfiança da minha relação com a polícia, por que tinha um pé atrás comigo? Eu precisaria descobrir tudo imediatamente. Pela minha paz interior!
Naquela noite Ângelo ligou avisando que na segunda-feira seguinte às oito horas da manhã iniciaria o primeiro julgamento do meu caso. Eu estava nervosa e apreensiva, mas me mantive firme psicologicamente por todo o fim de semana. Liguei para Gabriel o avisando e ele prontificou-se a ir comigo.
No jantar, após sair da mesa eu chamei e titia para conversar.
— Preciso informar vocês de uma coisa.
— O que aconteceu querida? Está tão séria!
— Tia, há pouco recebi um telefonema do meu advogado avisando a data do meu julgamento.
Titia me encarou assustada e olhou para o em seguida.
— Tudo bem mãe, ela me contou.
— Será segunda-feira às oito horas da manhã.
— Vou com você!
— Não , não precisa ir.
— Eu vou e ponto. Assim saberei toda a verdade desta história!
— Espera aí! Depois de tudo o que eu te contei você ainda desconfia de mim?
— Eu não confio ou desconfio, mas eu devo acompanhar tudo de perto, afinal você está na minha casa.
! – tia Cora que só nos observava ao ouvir aquilo, o repreendeu, mas ele não deu importância.
— Mãe. Por favor! – ele disse sério a olhando — Eu vou ! Está acabado.
Ele subiu as escadas, me dando às costas. Eu estava com raiva por, mesmo após ter me exposto a ele, o babaca continuar agindo daquela forma. Eu o segui, e explodi:
— Você é louco! Sabe por que eu quis falar na sua presença? Para que você e sua mãe soubessem sem a ouvir, mas eu não me importo absolutamente nem um pouco com o que você pensa! Eu me preocupo com a que é muito nova para entender e com a titia! À titia sim, eu devo explicações! Porque ela sim, me abrigou na casa dela! Vá se ferrar ! Eu te odeio! Seu estúpido!
— Grite o quanto quiser! Esperneie! Faça as suas cenas! Eu vou! Assim eu posso garantir exatamente quando você vai embora desta casa!
— Eu te odeio!
— Esteja pronta bem cedo na segunda! Sairemos de madrugada!
— Eu não vou com você! Eu vou com o Gabriel! Ele disse que me acompanharia para me apoiar!
— Claro! O Gabriel! Mas isso não impedirá que eu vá. – ele terminava de subir e titia o olhou, de maneira séria.
— Conversamos logo mais! – ela advertiu ao filho arrogante.
Eu chorava. Não pude acreditar naquela humilhação. Como ele poderia agir daquele jeito? Logo depois de tudo o que eu contei? Após ter exposto a calúnia a que fui submetida? Ele é um crápula. Titia me abraçou confortando-me.
— Tudo bem . Não dê ouvidos ao ! Ele não merece estas lágrimas… Olha… Que ótimo que marcaram a data! Agora tudo irá se resolver, querida! Falta pouco!
— Obrigada tia.
— Eu vou subir e ter uma conversa com ele. Descanse.
Assim que ela saiu recebi outro telefonema de Ângelo:

. As notícias não são muito boas. Lucas foi escalado para promotor de acusação do seu julgamento.
— Mas assim de repente?
— Um dos promotores sofreu um acidente, e faltando um na bancada o julgamento não poderia acontecer.
— Que estranho! Céus! E agora Ângelo?
— Mantenha a calma, isso não vai atrapalhar a minha estratégia. O juiz seria negligente de não o afastar. Verônica e eu estamos investigando tudo cautelosamente. A última coisa que você deve fazer é perder a calma.
— Tudo bem anjinho. Obrigada.
— Ei, pequena! Acredite em nós! Vai dar tudo certo. Se cuide. Boa noite.


Desliguei o celular um pouco depois de titia ter subido e fui atrás dela. Fiquei ouvindo a conversa atrás da porta e escutei uma pequena parte:

— Pare de agir assim com ela!
— Eu não vou mudar de ideia a respeito de tudo isso, independente dela ser inocente ou não!
— Ela não merece isso, filho!
— Não me importo mãe! Acha justo me fazer passar por tudo isso de novo?
— Não é como você pensa!
— Mãe! Não! Não é por causa deste processo! Eu não vou aceitá-la por aqui nunca!
! Abre os olhos! Olha a !
— Não mãe! Para com isso! Você está errada!
— Tenta conviver em paz com ela, pelo menos! Você nem deu uma chance de conhecê-la!
— Para que? Sem precisar disso eu já estou passando por todas essas coisas! Mãe… Não força, ou então… Não será ela a sair! Serei eu!


? – se aproximou de onde eu estava, e pegou a minha mão.
? Ei! Está fazendo o quê acordada? Achei que estivesse dormindo. – eu falei guiando a pequenina de volta ao quarto dela.
— Por que eles estão brigando?
— Porque… Seu papai fez besteira. Eles não estão brigando. A vovó só está dando bronca nele. Igual quando você faz bagunça.
— O que o papai fez?
— Ele quebrou uma pilha de pratos e quase se machucou, mas foi sem querer. Só que… A vovó está dando bronca para ele prestar mais atenção.
— Não gosto dessas broncas, .
— Não. Também não gosto. Ei, não chora tá? Vai ficar tudo bem.
Ninei e dormimos juntas no quarto dela novamente. Depois de um tempo, de repente acordei e fui para o meu aposento. Passando pela porta do quarto de , o vi com o rosto afundado nas mãos, ele chorava muito. Eu queria entrar e perguntar se ele estava bem, mas achei melhor ignorar e passar direto.
Já no meu quarto me despi e adormeci, mas não por muito tempo. Lá para as três horas da manhã eu acordei assustada com o pesadelo que começava a ter, e fui sonolenta até a cozinha beber água. Assim que subi, pela porta do quarto que ainda estava aberta avistei ainda acordado e deitado olhando fixamente o teto de seu quarto. Ele teria me visto passar para descer à cozinha? Ele estava bem? Bati levemente na porta, ele se assustou e quando me viu sentou-se na cama.
— Você está bem? Eu... ouvi você e sua mãe gritarem.
Ele me olhava fixamente sem nada pronunciar. Dei as costas e saí dizendo:
— Enfim, boa noite!
Fui para o meu quarto e só então me dei conta de que estava andando novamente pela casa, somente de lingerie. Recordei de dizendo “Você não pode andar assim ! E se o papai te vê?”.
Se o me vir assim? Seria por isso que ele não falava nada? Bem, certamente eu o assustei.
Deitada em minha cama fechei os olhos para dormir, e enquanto eu pegava no sono senti um beijo em minha testa. Um beijo de anjo. Sonhei com anjos lindos naquela noite. E eles me diziam enquanto tocavam suas harpas: “seja forte e confie em Deus, as respostas estão próximas”.

Tocar na playlist: (Who Do You Love? – George Thorogood and the Destroyers)


Acordei naquele sábado renovada. estava acordado desde muito cedo e quando eu cheguei à varanda com minha caneca de café recém-coado por mim, também levei uma caneca para ele. Eu era gentil com ele. Eu não sei por que, mas eu sempre era gentil apesar de tudo. Talvez aquele cântico angelical de meu sonho quisesse dizer exatamente isso: não se importe e siga em frente.
quebrava lenhas na entrada da casa. Uma camisa branca de algodão fino com mangas compridas colava em seu corpo desenhando-o perfeitamente. O suor a fazia grudar ainda mais. Na varanda ainda enrolada no meu cobertor estendi uma caneca para ele, que se aproximou brando.
— Bom dia. – eu disse.
— Bom dia. Obrigado. – ele disse pegando a caneca de barro.
— Está do seu jeito?
— Está.
— Madrugou… Não poderia cortar as lenhas mais tarde? – eu tentei puxar algum diálogo, sem gritos, embora ele continuasse arisco comigo.
— Me acalma acordar cedo e trabalhar.
— Olha… Sobre ontem de madrugada… Me desculpe. Eu ouvi a discussão com sua mãe.
— Estava espiando?
— Não vou mentir, até porque eu não tenho razões para isso. Estava sim.
— Isto é típico da .
— Ela também ouviu.
— E você a deixou escutar tudo aquilo? – ele ficou bravo comigo.
— Não! Quando ela chegou no corredor eu a levei de volta para o quarto… Ela ficou assustada.
— O que você disse?
— Que você levou bronca por quebrar pratos. Por fazer besteira, o que não deixa de ser verdade.
— Obrigado. E me desculpe por ontem… Eu não desconfio da sua inocência neste processo. – ele olhou profundamente em meus olhos e subiu um degrau à minha altura. — Não mesmo
— E por que disse tudo aquilo? – nos encarávamos olho no olho, admirados, próximos.
— Você… – ele pegou no meu rosto com uma das mãos pousando a caneca no cercado da varanda com a outra mão — Você… Me causa um mal tão grande, um desconforto imenso e me irrita simplesmente por existir.
Eu já não respondia por mim diante aquele toque, passava os dedos em meus lábios os analisando: — E é tudo tão vicioso , eu não consigo… Resistir.
Ele disse e nos beijamos novamente. Pela terceira vez. Abracei pela nuca e meu cobertor caiu ao chão, eu estava vestida, mas fazia frio. Ele me apertava deliciosamente pertencendo o meu corpo livremente aos seus braços. O cheiro de lenha e orvalho na sua roupa, pele... a umidade da pele pelo suor frio que secara com o vento da manhã…. Os toques gelados e a barba roçando na minha pele fina e fria…. O dançar das línguas e as correntes energéticas de nossos corpos. Choques por todo o corpo. Ele puxava os meus cabelos, e apertava a minha nuca. E eu não conseguindo conter nada daquilo, o pertencia. Eu arranhava suas costas por debaixo da blusa e de mansinho o sol surgia cúmplice daquele momento, desvelando aquela cena. me puxou ainda mais para perto e empurrou-me até a parede da varanda na frente da casa. Ergueu meu corpo me colocando como uma flor delicada em sua cintura. Eu sentia que a qualquer momento, eu perderia as forças restantes que ainda se mantinham dentro de mim para lutar contra tudo aquilo. Em um repente, reuni o pouco de sanidade em mim e desgrudei nossos lábios o encarando assustada.
— Pare… – sussurrei ofegante o olhando nos olhos.
Como em uma hipnose ele despertou. Eu despertei e nos soltamos.
— Desculpe.
— Não peça… – eu olhei para ele me afastando e pegando meu cobertor no chão à frente, entrei.
pôs as mãos na cabeça e sacudiu os cabelos, escorou um braço livre estendido na coluna de sustentação do telhado da varanda. Um pouco depois ele voltou às suas lenhas.
Já na cozinha eu bebi um pouco mais de café, em seguida água gelada por senti meu corpo aquecer. Não era culpa do café. Eu estava em êxtase. Na saída da cozinha esbarrei em titia, mas eu não disse nada. Nem respondi ao “bom dia” dela, de tão zonza que eu estava. No banheiro arranquei as roupas quentes do meu corpo e uma ducha era o suficiente. Minha pele estava fria, mas por dentro a sensação era de muito calor. E eu detestava sentir esses sintomas provenientes dos toques de . Após me refrescar de toda a loucura que se colocava entre e eu, agora com mais frequência, eu desci e encontrei titia na cozinha.
— Bom dia tia.
— Bom dia, querida. Está tudo bem?
— Sim, me desculpe por passar direto tia… Eu fiquei meio zonza.
— Está melhor?
— Sim, foi só... uma tontura boba.
— É, mas fique atenta à sua saúde, querida. Pode ser o estresse pré-julgamento.... Venha, vamos tomar café.
Sentei lateralmente para a titia e de frente à porta dos fundos da cozinha, onde tomava uma ducha no “Box” improvisado do quintal. Eu passei o café inteiro o olhando e titia percebeu. Peguei-a três vezes olhando para onde eu tanto fitava e eu disfarçava encarando meu café, como quem não quer nada.
passou por nós na cozinha sem falar nada e sem camisa também. Ato infeliz. As marcas avermelhadas das minhas unhas estavam em suas costas.
— O que foi isso nas suas costas meu filho? – titia perguntou e eu abaixei a cabeça, pois se ele fosse burro a ponto de me olhar antes de respondê-la, ela perceberia.
— Não sei. Acho que é alergia a algum matagal.
— Está coçando? – ela perguntou.
— Sim. Um pouco.
Talvez ele já tivesse passado por aquilo, e por isso a resposta tão pronta.
— Passe pomada. – titia disse e subiu calado, ela aguardou um pouco e direcionou a palavra a mim: — … Aconteceu alguma coisa esta manhã?
— Tipo o que titia?
— Você e brigaram?
— Não.
Burrice. Se eu dissesse que sim, teria tirado todas as desconfianças dela.
— É porque percebi que você o encarava muito, há pouco. – a titia me observava de maneira amistosa e eu me mantive calada e indiferente.
Sempre menti muito bem embora eu não goste, e por não gostar às vezes era fácil perceber quando eu o fazia. A titia levantou-se recolhendo sua xícara e pratos e antes de levá-las para a pia parou dando-me um olhar de ternura e desafio apoiando-se na mesa.
— Saiba que pode conversar comigo sobre qualquer coisa! Tudo bem?
— Obrigada tia Cora. Irei sempre me lembrar disso.
Um pouco depois de tudo aquilo acordou. Ela estava serelepe e alegre, dizia ter sonhado com uma fada bonita que se parecia comigo.
— É a minha fada madrinha!
— Será? Parecida comigo? Acho que não, hein! A sua fada madrinha deve ser perfeitamente linda.
— É por isso que ela parecia com você né, !
Titia e eu nos olhamos sorridentes. era um anjo enviado para mim. Ela sempre dizia coisas que eu adorava escutar. Não se parecia nem um pouco com o pai, porém relembrando a história de sua mãe cheguei à conclusão que talvez, somente eu, não conhecesse o lado humano do pai dela.
me convidou a cavalgar naquela manhã, mas eu evitava todo contato que pudesse ter com o pai da menina. Me limitei aos afazeres domésticos com a titia. Rosa e Marcelo telefonaram avisando que chegariam à terça-feira pela manhã. Estavam felizes e saudosos. Me senti muito feliz por eles, pelo pouco que convivi com ambos, não havia presenciado casal mais apaixonado desde então.
Às sete da noite me arrumei para o meu passeio com Gabriel. Vesti um florido diferente, do tipo que eu nunca usaria em São Paulo. Os ares interioranos faziam eu mudar não apenas as minhas perspectivas de vida, mas também a minha moda crítica. Trancei os cabelos para o lado, minha maquiagem era leve e o vestido médio até os joelhos com alças finas, de um verde florido discreto, porém campestre. Botas cano curto marrom, uma bolsa de mão e um suéter branco. Simples, confortável e a cara da cidade.
estava na sala assistindo televisão. Uma das raras coisas que o vi fazer. deitada ao colo dele. Titia se esbarrou comigo ao corredor, ela carregava uma cesta de novelos para o seu costumeiro tricô.
— Como está bela! Aonde vai?
— Sair com o Gabriel. Não sei para onde ele vai me levar. – eu sorri indiferente.
— Vocês têm saído muito ultimamente. – titia nem completou a frase, já dando indício do que pretendia.
— Não estamos juntos, tia. Pelo menos, por enquanto temos saído sem compromisso algum, apenas como amigos. – eu sorri passando a ela, ou tentando passar, confiança.
Ela sorriu e já descíamos as escadas quando vi me encarando com raiva. Mas o que eu havia feito daquela vez? Não sei. Existir é uma boa justificativa?
correu até mim beijando meu rosto.
— Parece uma boneca que eu tenho! Não é vovó? – ela dizia animada rodando na barra do meu vestido.
— É sim. Ela é uma boneca . – titia sentou em sua cadeira de balanço entre um riso e outro.
— Aonde você vai ?
— Eu não sei . O Gabriel me levará para passear. – eu acariciava os cabelos da pequenina abraçada a mim. Tão carinhosa!
— De novo? – ela não parecia contente.
Levantou a cabeça e me olhou contrariada. Ela nunca gostava da ideia de me ver junta ao Gabriel.
— Sim . E eu só não te chamei, porque a senhorita está de castigo.
A pequenina havia levado uma das galinhas para brincar com ela no quarto e fez a maior bagunça no cômodo. O chão do local era uma mesa posta de milho, farelos, biscoitos, bolo e ela ainda encharcou o lugar de “chá”, segundo a sua imaginação. Levou uma bronca dupla com um mantra já conhecido de “eu já te falei…”.
— Eu arrumava um jeitinho de ir também. O papai ia deixar, quando soubesse para quê, eu ia. – ela falou de braços cruzados e fazendo bico correu pro colo do pai.
— E posso saber para o quê a senhorita iria? – eu perguntei curiosa.
— Para atrapalhar tudo! – ela falou emburrada.
! Deixe de ser malcriada! Peça desculpa à !
bronqueou, mas a menina tinha o gênio do pai e mesmo pedindo desculpas, continuou emburrada comigo.
— Desculpa.
— Está desculpada . – eu falei assustada, confesso, com aquela reação de comigo até então inédita.
— Você namorando ele? – de repente a criança me perguntou séria e todos me olharam interessados.
— Não . – limitei a não dar muitas explicações.
Não demorou muito, e o Gabriel chegou buzinando. Convidei ele a entrar e logo nos despedimos. continuou chateada, fazendo companhia ao . A birra em forma humana.
No caminho, Gabriel e eu conversávamos sobre o processo.
— Estou nervosa, mas acredito no trabalho do Ângelo. Porém, Lucas é um ótimo promotor de acusação e eu tenho medo. Não por Ângelo, mas pelos argumentos que o Lucas possa usar.
— Não pense assim , você tem provas e estava no caminho certo! O juiz vai sentenciá-la inocente.
— Esse não é o problema. Como o Ângelo disse é mais fácil provar a minha inocência do que a culpa de Lucas. Eu sei que não serei julgada culpada, mas temo pela impunidade.
— Vamos manter o pensamento positivo e a fé na justiça divina. – Gabriel disse segurando minha mão sorrindo.
— Que horas pretendemos sair daqui na segunda-feira?
— Comprei nossas passagens para às quatro e meia, chegaremos ao aeroporto da capital para o primeiro voo às seis horas.
— Não precisava se incomodar com as minhas passagens, Gabriel.
— Não se preocupe com isso você. Por favor.
— Faço questão de pagá-lo.
— Faço questão de não aceitar. Até porque você terá que comprar sua passagem de volta. Lamento , mas eu terei que voltar na segunda-feira mesmo.
— Gabriel, não precisa ir se não quiser. Vai ser cansativo para você.
— Faço absoluta questão de ir, até porque eu prometi. Sempre cumpro minhas promessas. Há algum problema em voltar sozinha?
— Não, de forma alguma. E depois, o cismou em ir.
Meu bom humor, toda vez que eu falava nele, viajava léguas de distância de mim.
— Sério?!
— Me aporrinhou a paciência com um discurso medíocre. Típico dele. – Gabriel analisava-me atenciosamente e eu perguntei: — Por que me olha assim?
— Já percebeu como o mexe com você? – falou sério e sorriu desanimado.
— O que você quer dizer?
— Ele consegue te tirar do sério como nada mais que eu tenha visto. Como se somente a ele você dedicasse a sua irritação.
— Não tenho culpa se ele me irrita. Nada mais me irrita, além é claro, de mentiras e injustiças. É por isso que ele me irrita: ele é injusto comigo.
Gabriel segurou minha mão acariciando-a e sorrindo de uma forma indecifrável, mas eu diria meio tristonha.
Assim que chegamos ao “local surpresa”, meu queixo caiu-se em um nostálgico espanto infantil. Ele me levou a um parque. Um parque! Há quantos anos eu não via nada como aquilo? Provavelmente desde a minha infância. Jogamos nas barracas de jogos, típicas de parque, dessas que você gasta o seu dinheiro e não consegue ganhar nada que valha a pena, como brinquedo de bolhas de sabão. Avistei Lúcia nas barracas de maçã do amor. Acenei e cumprimentei, mas ela ainda parecia tímida comigo. Fomos à roda-gigante, ao carrinho de bate-bate e acabando os brinquedos que nos interessavam saímos em direção à praça da igreja.
Sentamos risonhos em um daqueles banquinhos. Gabriel me proporcionava alegrias. Eu me esquecia dos motivos que eu tinha para chorar com ele por perto. Ele comprou um algodão-doce que compartilhamos. Enquanto saboreávamos, sorridentes como adolescentes, aquela delícia de açúcar que simplesmente desaparece na ponta da língua um bebê corria divertido em nossa frente. Não devia passar de um ano e alguns meses. Os pais, o vigiavam zelosos e felizes. Contemplei aquela cena tão pura, que na minha vida antiga em meio ao tumulto de São Paulo, eu jamais perceberia com o mesmo olhar.
— Ainda vai passar por tantas coisas. – Gabriel dizia fazendo referência ao bebê que eu olhava admirada.
— Como a … – olhei para ele, distraída.
— Ela é bem singular. – Gabriel disse.
— Sim. Você me julgaria louca se eu lhe dissesse que amo aquela pequena como…? Enfim eu não sei explicar! Eu tenho um vínculo tão forte com ela!
— É compreensível. Vocês duas são parecidas.
— Jura?
— Sim, você não sabe o quanto.
— Eu posso estar, sendo precipitada e extremista, mas sinto pela um carinho maternal… Não sei se posso dizer isso, porque nunca fui mãe também.
— Você com certeza será uma ótima mãe. – Gabriel ajeitava os cabelos ao meu rosto, enquanto conversávamos.
— Será mesmo?
— Pelo jeito como fala de , e da forma como a ama e cuida dela…
— Só não cuido mais por causa do que sempre está disposto a me afastar dela.
— Talvez ele também tenha percebido a semelhança entre vocês e por isso tem medo. Quer afastá-la.
— Eu… – olhei desconcertada para Gabriel — Já propus adotar a
— O quê?
— Achei que pudesse ser uma boa mãe para ela, mas a mãe dela está viva, e mesmo que não a procure eu não tenho este direito. E depois… e eu não conseguimos conviver. Não estão sendo saudáveis para ela as nossas desavenças sem motivos, e obrigá-la a presenciar isso com mais frequência é errado e cruel.
concordou com isso? – ele perguntou-me, contrariado.
— Não. Foi apenas um lapso meu.
— Sei que de alguma forma o vínculo que você tem com a é forte demais, mas… Vá com calma . Ela acha que a mãe morreu e a menina também tem um vínculo forte com você. Qualquer distanciamento entre vocês, por menor que seja, será doloroso.
— Eu sei. Mas… ela tem me feito pensar na maternidade. Dá para acreditar?
— Dá. Quase toda mulher pensa nisso alguma hora. Acho que sua mudança radical de vida engloba também isso. Talvez seja hora de você pensar no seu futuro. Em uma família.
— Não Gabriel. Eu só tenho vinte cinco anos.
— Pensar nisso não significa prontamente acontecer. Você já planejou alguma vez ter uma estrutura familiar?
— Não! Eu, não.
— Eu já. Eu sei exatamente o que devo fazer se a pessoa certa aparecer.
— E quanto ou o quê, falta para encontrá-la?
— Não sei. Eu deixo as coisas acontecerem.
— Tenho seguido isso ultimamente. Deixar acontecer.
— E tem dado certo?
— Têm acontecido coisas… – pensei na aproximação louca com — Que não fazem nexo algum. E que não importam agora.
E encarei os olhos carinhosos de Gabriel.
— Entendo. – ele acariciou meu rosto. As mãos sempre macias e convidativas — Vamos, está ficando tarde.
Achei que ele fosse me beijar, mas desde que nos sentamos ali, ele se tornou tristonho. Teria sido algo que falei? Foi uma das percepções que tive, a outra... Era que Gabriel sempre agia conforme um tempo, e um limite que eu não entedia. Eu realmente achei que havia um clima ali para um beijo, por parte dele, e como em outras situações anteriores, ele não o fez. Só sei que nos levantamos e fomos embora. Já dentro da fazenda, após um caminho de conversas descontraídas, mas sem qualquer ligação com a noite que tivemos, avistei que todos dormiam. Descemos do carro e percebi a luz do quarto de acesa. Eu estava de frente para a janela dele, mas por sorte não havia sinal daquele ser rabugento. Gabriel me abraçou em despedida.
— Obrigada pela noite maravilhosa! – eu disse.
— Foi assim tão boa?
— Claro.
— Será que eu posso tentar fazê-la melhor? – eu sorri sem graça e o encarei divertida.
— Tentar? Você pode.
E finalmente nos beijamos. Estranho, é palavra que eu uso para definir aquele beijo. Acho que eu não estava preparada. Ou talvez esperasse mais, porque não foi como com o . Ou pior: eu devia estar louca por pensar em enquanto beijava o Gabriel. Foi bom, mas faltava algo. E com certeza faltava algo em mim, e não nele.
Nos despedimos e em seguida eu entrei. Fui direto ao banho e depois apaguei em meu quarto.
No domingo à tarde, me chamou para conversar.
— O que houve? – perguntei, arisca entrando em seu quarto e fechei a porta.
.
— Eu queria mesmo conversar com ela… Ela ainda está chateada comigo ou é só impressão minha?
— Ela está chateada. E eu juro , eu tentei falar com ela, mas, sobre este assunto ela está firme.
— Que assunto?
— Você e Gabriel.
— E você tentou falar com ela, para melhorar ou piorar a situação?
— Que interesse eu teria em ver a minha filha descontente com isso? E depois, eu deixei claro para ela que você tem o direito de escolher quem quiser para namorar e ela não deve se meter nisso. Mas é melhor você conversar com ela depois. Ela está… Muito confusa.
— Conversarei. E obrigada.
Fui ao quarto da , cautelosa e a encontrei triste na janela do quarto.
?
— O que foi?
— Será que nós podemos conversar?
— Sobre o quê? – ela ainda não havia me olhado.
— Sente-se aqui comigo na cama, e vamos conversar como duas mocinhas. Está bem? – ela veio com a boneca debaixo dos braços e a cabeça baixa.
— O que foi? – ela perguntou triste.
Cortava o meu coração vê-la daquele jeito e, em saber que eu era a culpada por aquilo seria justo que me castigasse. Peguei as mãos dela e levantei seu rosto para que ela pudesse me olhar.
— O que está te incomodando? Eu fiz algo errado?
— Fez.
— E o que seria?
— Você gosta mais do Gabriel.
— Gosto mais dele? Comparado a quem?
— Eu.
— Que bobagem! Você é a minha boneca! Nada é mais importante do que você. – beijei a testa dela, mas ela continuou triste — Ainda tem alguma coisa te incomodando?
— Você namora com ele?
— Eu já falei que não.
— Mas o papai disse que vocês podem namorar e que nós não podemos fazer nada.
— Se eu namorasse o Gabriel, por que você não gostaria? Ele é tão legal!
Àquela altura a minha bonequinha, a minha criança, chorava. E eu a abracei forte.
— Eu não quero que você namore com ele.
— Mas… Por que ?
— Eu quero que você seja minha mamãe.
Aquilo foi um choque. Eu jamais imaginei ouvir aquilo.
— Mas eu posso ser como a sua mamãe, só que não é certo…
— O papai me disse isso. – ela me interrompeu.
— Somos amigas, não somos? Eu nunca vou te abandonar pequena! E mesmo se eu namorasse alguém, isso não mudaria o tamanho do amor que eu tenho por você!
— Mas você tem que casar com o meu papai!
— O quê?
— É! Eu perguntei para ele se assim era certo e ele falou que é!
— Seu pai disse isso? Seu pai disse que quer casar comigo?
— Não. Ele disse que assim você seria minha mamãe, mas que isso não vai acontecer porque vocês não se amam… Como nos filmes. – ela ficou triste de novo e eu recuperava o fôlego.
— É . Pessoas se casam porque se amam… Igual à sua tia Rosa, lembra?
— Ama o meu papai ! – ela me olhava com olhinhos suplicantes e marejados.
— Ah pequena… Não é assim que acontece… É… Tão complicado.
— O que o papai tem que fazer para você amar ele?
, o amor… É uma coisinha que Deus coloca no coração da gente, não adianta forçar. Entende?
— Ah! A vovó estava certa então! Eu entendi! – ela me abraçou e mesmo sem entender nada eu fiquei mais tranquila.
Era a primeira vez que eu falava de Deus a alguém e acho que me saí bem. Ai, se Deus fosse a resposta de todas as perguntas que não se consegue responder! Mas… Talvez Ele seja.
Saí dali com as coisas “resolvidas” entre minha pequena e eu. À noite, eu estava em meu quarto com uma pequena mala pronta ao pé da porta e ansiosa pela manhã. Eu estava, sinceramente, muito nervosa. E acordada em minha cama quando bateram à porta. Imaginei ser .
— Entre.
— Com licença? – surgiu com o rosto à porta e eu me cobri com o lençol.
— Olá, pode entrar.
Ele entrou. Fechou a porta e se virou para mim. Sorria tímido e estava sem camisa. Uma tortura.
— Posso me sentar? – perguntou referindo-se a minha cama.
— Pode.
— Como você está?
— Apreensiva.
— Relaxa… Deus sabe o que faz.
Era a primeira vez que falava de Deus para mim.
— Deve saber.
— Quem não sabe somos nós. – olhou sincero e chacoalhou os cabelos de um jeito encantador — Como foi com a ?
e eu quase não nos falávamos desde o beijo na varanda. Titia ficava nos rondando tentando colher alguma pista que explicasse todo o nosso silêncio em moldura falsa de paz. E nesse domingo, a única vez em que nos falamos foi pela tarde, antes de eu ir falar à pequena.
— Não foi fácil. – eu o respondi.
— Imaginei que não seria.
— Ela pediu minha mão em casamento, por você. – eu disse e ele arregalou os olhos, ambos caímos no riso.
— Ela é tão inocente. Acredita em coisas bobas como o amor.
— Acredita porque você a ensina.
— Não é porque eu não acredito que exista amor sincero entre um homem e uma mulher que signifique que eu vá matar os sonhos da minha filha.
— Sim, mas isso demonstra que você espera que exista, do contrário não a deixaria se iludir.
— Você fala como se acreditasse nisso também.
— Não desacredito . Apenas não aconteceu comigo.
— E o Lucas?
— Eu achei que fosse, na época, mas.... Aquilo não poderia ser amor. Por favor! Se o amor for aquilo faço questão de alertar a ! – nós rimos.
— E o Gabriel? – ele perguntou e, nos entreolhamos duvidosos.
— Não é amor, eu acho. Pelo menos ainda.
Eu fiquei sem graça com a pergunta, e um silêncio breve se fez ali.
— E você ? Por que não acredita no amor?
Ele ficou contrariado e me respondeu em poucas linhas.
— Eu acredito no amor, só não existe amor entre homem e mulher, da maneira que nos fazem acreditar que exista. – ele levantou resistente e ia em direção à porta: — Que horas você vai amanhã?
— Sairemos às três para a rodoviária, o ônibus sairá três e meia.
Nos olhávamos inertes e eu estava sem ação com a reação resistente anterior de . Do nada sua figura se transformou por uma simples pergunta.
— Ele vem buscá-la?
— Gabriel? – ele fez que sim com a cabeça — Vem. Só que voltará amanhã mesmo. Você ainda vai?
— Vou. Comprei passagens no mesmo horário. Voo das seis horas. E reservei um quarto em um hotel próximo ao aeroporto de São Paulo. Onde você vai ficar?
— DROGA! – praguejei levantando rápida e procurando o meu celular — Eu nem me lembrei das reservas!
— O que está procurando? – ele olhava fixamente para mim e eu estava estranhando aquilo.
— Meu celular.
me ajudou a procurá-lo e quando encontrei liguei para Verônica, uma amiga, mas a chamada não completava.
— Não consigo falar com ela! – joguei o aparelho no criado-mudo, estava nervosa.
Fui à janela, abaixei a cabeça e percebi que me estressar não era a saída.
— Vamos manter a calma. – falei para mim e virando-me para — Amanhã eu resolvo isso por lá mesmo!
ainda me olhava estranho.
— O que foi? – eu perguntei receosa.
— Nada… – ele se aproximou um pouco olhando fixamente — Eu… Posso ver isso no mesmo hotel em que estou.
— Não, tudo bem. – eu disse saindo de perto dele e passando furtiva ao seu lado, mas ele segurou meu braço fortemente.
Ficamos encarando-nos silenciosos. Ele me olhou de cima a baixo analisando minhas vestes de dormir. Eu estava nervosa com aquela aproximação estranha e quando eu falaria qualquer coisa, ele olhou para baixo como se acordasse de um delírio e soltando meu braço, falou:
— Fique tranquila com isso. Nós podemos voltar juntos, não vai fazer diferença mesmo… – eu sorri sem graça — Boa noite.
— Boa noite .
Ele saiu confuso, mexendo em seus cabelos e eu fiquei parada e trêmula analisando as costas perfeitamente esculpidas de . Mas o que estava acontecendo? Eu estava ficando louca?
Na madrugada de segunda-feira saímos Gabriel, e eu no mesmo horário. Quando Gabriel chegou, me abraçou e tentou selar nossos lábios, mas eu disfarcei e virei o rosto. Não queria que titia ou soubessem.
— Tudo vai dar certo. Confie em Deus, querida.
— Obrigada titia.
— Se cuide filho. Cuide de também, e tentem não brigar.
— Fica com Deus, mãe. Olho na .
Após a nossa despedida partimos. “Tentem não brigar”, seria possível? resolveu não ficar muito próximo de Gabriel e eu, na viagem. Foi como se ele não estivesse ali.
— Desculpe por mais cedo. Não quero que titia nos veja ainda… – eu dizia a ele envergonhada, mas ele me interrompeu.
— Eu entendo. Eu que peço desculpas.
— Tudo bem. Não é para tanto... – respondi, e sorrimos.
Ao chegarmos em São Paulo, um terror invadiu a minha alma. Aquele não era mais o mesmo lugar. O cheiro de lá me causava arrepios. Me senti sufocada. Dá para acreditar? O lugar onde eu nasci e cresci. O lugar onde minha vida deu um nó, que cada dia parecia ser mais irreparável. O lugar de onde meus sonhos fugiram, de onde a minha alma foi expulsa.
Pessoas correndo apressadas por todos os lados, o aeroporto apinhado, e eu parada ali como se as imagens congelassem. e Gabriel perguntavam se eu estava bem e as minhas pernas queriam falhar. Meu estômago estava embrulhado e então meu celular tocou me despertando daquele horror. Eram ainda sete horas e quarenta minutos.

, já está em São Paulo?
— Sim Ângelo. Acabei de descer do avião. Estou a caminho do táxi.
— Vai vir direto ao fórum?
— Não sei. Deixe eu resolver aqui. Eu te ligo em cinco minutos.


Desliguei. já estava com as nossas malas em mãos e Gabriel não trouxera bagagem alguma.
— O que vocês acham, vamos direto ao fórum ou passamos no hotel primeiro?
— Há tempo de fazer o check in no hotel? – perguntou.
— Temos exatamente uma hora, mas o trânsito é um caos.
— Vão vocês dois. Eu deixo as malas no hotel e vou em seguida.
— Você não vai saber chegar lá, . Já sei! Diga ao motorista para nos deixar no hotel em que você fez a sua reserva. – eu disse enquanto discava no meu celular.
Liguei novamente para Ângelo e estávamos entrando em um táxi:

— Ângelo, nós deixaremos as bagagens no hotel. Verônica poderia passar lá para nos buscar?
— Eu já estou de saída e passo aí. Ela ainda vai demorar a se arrumar. Me manda a localização do hotel?
— Ok, obrigada anjinho.


Chegamos ao lugar e caminhou à recepção. Tentaria ver a possibilidade de um segundo quarto, então eu me aproximei da fila do balcão quando o vi conversando com a recepcionista.
… – ele olhou receoso.
— O que foi?
— Eu tentei conseguir um quarto para você ontem, mas o hotel está lotado. A recepcionista disse que hoje à tarde deve desocupar.
— Ah. Tudo bem, a culpa foi minha. Mas você pode guardar minha mala?
— Você pode ficar no meu quarto, se quiser.
Olhei para ele surpresa. e eu em um espaço tão curto? Ele não dava a mínima para minha presença naquela hora. Dirigiu-se ao elevador após pegar as chaves e subimos. Até que descêssemos, Gabriel nos aguardava no saguão.
Eu não me importava de ter que ficar ali com ele. Coisas realmente preocupantes estavam me rondando. O quarto era bonito, mas havia apenas uma cama de casal. Eu conseguiria superar aquilo. Depois de tudo o que tenho passado o que seria dormir na mesma cama que o ?
Descemos rápido e fomos os três, comer alguma coisa. Um pouco depois Ângelo chegou.
— Este é Gabriel, o meu amigo delegado e este é o … – o olhei sem saber o que dizer — Filho da minha tia.
— Seu primo?
— Não somos primos! – e eu dissemos uníssonos.
Nós nos olhamos e Ângelo sorriu com a situação.
— É um prazer conhecê-los, rapazes.
Todos nós entramos no carro e fomos direto ao fórum. Chegamos lá faltando cinco minutos do horário marcado, mas o próprio juiz ainda não conseguira chegar, por causa do trânsito. Verônica também chegou em seguida a nós.
! – ela veio me abraçar sempre muito sorridente — Quanta falta você faz!
— Ah Verônica! Eu digo o mesmo!
— Como você está?
— Estou nervosa… Sabe como é o Lucas… Não acredito que ele é promotor no meu caso!
— É fomos pegos de surpresa. E acho isso muito estranho. Mas tente ficar calma.
— Qual a sua desconfiança?
— Por hora, é melhor nós focarmos no dia de hoje. Ah… E seria muito bom se você trocasse o número do seu celular.
— Eu já pensei nisso. Não fiz ainda, porque queria saber com o Ângelo.
Ela concordou silenciosa e caminhamos até onde meus acompanhantes estavam, e eu apresentei Verônica, noiva de Ângelo para eles.
— Qual dos dois é? – ela me perguntou como sempre, arteira.
— Nenhum. E nem comece!
Às nove e dez o juiz havia chegado e a sessão foi iniciada às nove e meia. Lucas foi articulado e fez suas manobras sempre muito ariscas. Ainda assim eu tinha uma testemunha essencial.
No momento de chamar a testemunha, fomos avisados de que ela não se apresentara. A minha testemunha estava desaparecida. O juiz parou a sessão, para um intervalo. Saímos do tribunal e em uma das salas Ângelo e Verônica conversaram comigo a respeito daquela situação atípica.
— Verônica vai procurá-lo. Há três lugares que nós achamos que ele pode estar. Eu não posso sair daqui e nem você.
— Eu vou conseguir .
Verônica, minha amiga e investigadora muito eficiente que fez parte da minha corporação, disse convincente e decisiva.
— Eu posso ir também. – Gabriel prontificou-se.
— Ótimo Gabriel, muito obrigada.
— Como eu posso ajudar? – disse para Ângelo.
— Lucas certamente é o responsável por isso, nosso trunfo é que ele não desconfia que saibamos onde procurar. , você vai com a Verônica e o Gabriel irá com o Samuel.
— Ele já está nos esperando no lugar marcado, Ângelo.
— Vocês já desconfiavam disso? – perguntei.
— Somos eficazes. Aprendemos com uma delegada muito profissional. – disse Verônica nos abraçando.
— Eu vou convencer o juiz a esperar uma hora. Sejam rápidos. – disse Ângelo saindo.
— O vai com você, Verônica. – ela o olhou, apertou a mão dele e saiu. Gabriel foi seguindo-os.
Era proibido ficar com o celular no tribunal e nossos aparelhos foram recolhidos na entrada, mas Verônica era sagaz. Escondeu um aparelho extra, muito bem escondido. Contra a lei, eu sei! Mas naquele caso, burlar uma regrinha tão simples não deveria ser tão grave, na verdade poderia salvar a vida da testemunha e fazer justiça. E depois, regras, muito piores estavam sendo ignoradas desde muito tempo antes de o julgamento existir. Não é o pensamento honesto para uma delegada: “olho por olho e dente por dente”, mas era a verdade contra a mentira ali, e eu era inocente enquanto o culpado estava sentado junto aos promotores.
Ângelo e eu aguardávamos na sala, ansiosos. O juiz concedeu intervalo de no máximo meia hora e não havia como avisarmos a nossa “equipe”. Por sorte, Souza e Gabriel encontraram o meu álibi a tempo. A sessão se reiniciou, mas Verônica e ficaram ao lado de fora.
A testemunha estava com medo. Lucas o olhava intimidador e Ângelo prevendo isso, fez o depoimento dele cair em contradição. Finalmente, o bandido que eu havia prendido e que testemunhava a meu favor falou. Ângelo havia negociado uma redução de pena caso ele entregasse o terceiro nome que limparia o meu, mas o homem não revelou o nome. As pistas dadas já eram necessárias por enquanto, para fundamentar as desconfianças acerca de Lucas.
O juiz fez outro intervalo, de apenas cinco minutos. e Verônica entraram dessa vez. A sessão foi retomada e Ângelo apresentou ao juiz as provas que apontavam a suspeita para o nome de Lucas. Horários coincidentes, pessoas envolvidas que Lucas também conhecia e tinha contato, e a rapidez na qual ele conseguiu se promover. A chave trunfo foi, a apresentação dos bens recém-adquiridos de Lucas, que demonstravam um valor muito alto, no qual as condições financeiras declaradas na receita dele não poderiam coincidir.
O juiz o afastou da promotoria do caso e declarou aberta a investigação sobre ele. A sessão daquele dia foi encerrada. Na falta de quem o substituísse o julgamento ficou com data em aberto para a continuação.
Saímos dali, Ângelo, Verônica, Samuel, alguns outros amigos e eu, vitoriosos. Gabriel me abraçou fortemente e me parabenizou com um aperto de mãos.
Meus amigos e eu sairíamos à noite para comemorar e conversar. Matar as saudades. Gabriel pegou o voo de uma hora da tarde e eu fiquei então a sós com .
No hotel nos preparávamos para o almoço.
— Ainda desconfia da minha culpa? – eu o perguntei no quarto. — Eu achei que havia lhe dito há algum tempo… – ele se aproximou de mim, sério — Em uma manhã, em uma varanda com você enrolada em um cobertor… – ele dizia aproximando ainda mais — Que eu não desconfio da sua inocência neste processo.
Eu o olhava, desconfiada. era um enigma. E brincava com isso. Provocava. Ele me olhava nos olhos, invasivo. Então o respondi e me afastei.
— Tem razão. Desculpe.
Depois disso não falamos nada mais. Descemos para almoçar. Já no restaurante do hotel achei gentil perguntá-lo:
— Quer conhecer alguma coisa aqui em São Paulo?
— O que há de interessante neste trânsito todo para eu conhecer?
— Muitas coisas.
— Acho melhor você descansar. A manhã foi exaustiva.
— Se você quiser…
— Não quero. Obrigado.
O que eu havia feito para ele desta vez? Por quê da arrogância?
E então ao terminarmos eu fui ao caixa cadastrar na comanda o número do quarto e subi. Com raiva. Como sempre, quando se tratava de .
Escovei os dentes e dormi. Não o vi chegar do almoço e ao acordar, não o encontrei e me preocupei. Ele não conhecia a cidade, então liguei para ele:

— Onde você está?
— Por aí. O que aconteceu?
— Nada. Eu vou sair com o pessoal… Você vem?
— Tudo bem.
— Vou me arrumar.

Eu disse e desliguei. Implicância gera implicância. Tomei meu banho e ao sair enrolada na toalha ele já estava no quarto. Não devia estar longe. Ele entrou ao banheiro e eu me troquei. Coloquei um vestido, frente única, azul-escuro. E sequei os cabelos amassando-os com mousse. Enquanto eu me maquiava, saiu do banheiro com calça jeans, sem camisa e cabelos molhados. Era uma tortura olhar aquele corpo e pensar no quanto eu o detestava. Ele poderia ser horroroso, pelo menos, apenas para amenizar a minha revolta em odiar alguém tão lindo.
Depois que estávamos prontos saímos. No corredor encontramos um casal com uma menininha que devia ter mais ou menos uns três anos.
… – falamos ao mesmo tempo ao ver aquela criança.
Nos encaramos curiosos e entramos no elevador junto àquela família. A garotinha brincava conosco sorridente. Eu e a mãe dela iniciamos um breve diálogo e sorrindo para a criança, como nunca o vi sorrir, discava o número de casa.
— Parabéns. A filha de vocês é linda. – eu disse.
— Obrigada. Você tem filhos? – a mulher perguntou.
Quando eu ia responder, estendeu-me o telefone:
quer falar com você.
Eu falei brevemente com ela e ele sorria, brincando com a outra garotinha.
Um beijo minha pequena. Eu te amo. – eu me despedi de e passei o telefone para ele.
Um beijo filha. Papai te ama. – ele falou desligando o telefone.
A mulher sorriu para mim e perguntou:
— Quantos anos têm a filha de vocês?
e eu nos olhamos envergonhados e o elevador chegara ao térreo. A mulher, esposo e filha saíram apressados se despedindo:
— Tchau! Vocês fazem um lindo casal. – ela disse sorridente, acenando apressada.
Eu não respondi nada a ela e a única coisa que ela conseguira foi deixar e eu ainda mais encabulados.
Fomos ao jantar com meus amigos e, pelo menos eu, me diverti. Ele eu não sei. Ao tardar da noite o número de pessoas foi diminuindo. Ficamos apenas Ângelo, Verônica, e eu.
— Quando sai este casamento? – eu perguntei divertida.
— Estamos pensando em iniciar os preparativos assim que acabarmos o seu processo. – eles se olharam sorridentes: — Queremos a nossa madrinha bem tranquila.
— Jura? Seria uma honra para mim! – eu falei muito feliz.
— E então… Vocês estão juntos? – Verônica perguntou olhando fixamente para e eu.
— Verônica! – Ângelo a repreendeu.
— Tudo bem Anjinho… Eu achei até que ela demorou a perguntar! – eu respondi arrancando risadas dos meus amigos, e parecia desconfortável.
— Não fuja do assunto … – ela me repreendeu.
— Não, não estamos juntos. – eu respondi e ela olhou para que sorriu sem graça.
— E aquele outro bonitão que estava com vocês, mais cedo?
Assim que Verônica falou, se ajeitou na cadeira e o humor dele diminuiu. Ele foi discreto, mas eu sempre percebo. E Verônica também notou, eu acho.
— Não. Gabriel e eu somos apenas amigos.
— Qual o seu problema, amiga?
— Para com isso! – eu sorri sem graça.
Ângelo pediu licença e saiu da mesa. Decidi mudar o teor do assunto.
— E como estão as coisas na delegacia? – perguntei.
— Não é a mesma sem você. – ela sorriu e depois olhou para o puxando conversa: — Dá para acreditar que a está passando por isso tudo? Logo ela! Eu não conheço ninguém mais íntegra!
Eu fiquei sem graça, principalmente por saber que aquilo era exatamente o contrário do que pensava. Ele me olhou e sorriu discreto. Evitei contato visual.
— Não exagera Verônica. – eu falei encarando meu copo e girando-o na mesa. Ela sabia que eu só fazia isso se estava incomodada, mas continuou. De propósito, eu suponho.
— É verdade ! é incapaz de enganar alguém, por mais que seja necessário. E ela acaba se ferrando por isso algumas vezes. – olhei séria para minha amiga, mas ela não parou — não é de falar o que sente, mas demonstra. Ela prefere sorrir para não mostrar fraqueza, mesmo que por dentro ela esteja em cacos. Com o tempo você vai perceber isso.
— É… Eu já estou percebendo. – ele respondeu simpático.
Eu continuava na mesma.
— Vocês são o quê mesmo? Primos? – ela perguntou serelepe.
— Nada. – respondemos ao mesmo tempo.
— Nada? Isto é triste. Vocês precisam encontrar uma classificação.
— Vizinhos de teto. – eu disse olhando-a de um jeito que significava que ela deveria parar. E parou.
… Então você aceita ser minha madrinha? – Verônica disse após um pequeno silêncio torturante.
— Será o segundo casamento em que eu estarei radiante por ser madrinha! – eu falei segurando a mão dela — Há quem não acredite no amor, mas esse é o segundo casamento que me prova o contrário.
— Qual foi o primeiro? – ela perguntou.
— O de Rosa. Irmã do . Fomos padrinhos. – eu respondi indiferente.
— Ah! Eu queria ser a primeira a convidá-la. – Verônica reclamou.
— Eu não me importo com isso. O que importa é que você e Ângelo se casem e me deem sobrinhos logo.
, por favor! – ela disse envergonhada.
O restante da noite foi ótimo. Conversamos, rimos, estava comportado e conversou bastante com Ângelo. Em um momento, o barzinho onde estávamos tocou uma música romântica e Ângelo e Verônica foram dançar. e eu os observávamos.
— Eles são perfeitos juntos. – eu disse feliz.
— Já vi um casal assim uma vez.
— Quem?
— Não deu certo. Isso que interessa. – ele falou desviando a resposta.
— Eles vão dar certo.
— Eu sei. Não foi o que eu quis dizer, me…
— Eu entendi .
Depois que voltaram à mesa, me despedi dos meus amigos que prometeram me visitar assim que possível. e eu voltamos ao hotel, arrumamos as coisas, e nos preparamos para dormir. Deitamos na cama lado a lado e, nos viramos de costas um para o outro. Não sei quanto tempo levei para dormir, mas sei que eu media cada movimento meu, para tentar manter-me o mais longe possível de algum contato pele a pele, perigoso.


Capítulo 10 - Voltando Para Casa

No dia seguinte o despertador de nosso quarto tocou. Eu me sentia sufocada, e ouvi o braço de bater no despertador o silenciando. Abri os olhos e olhei para cima assustada, e eu estávamos dormindo abraçados. Os braços fortes dele envolviam a minha cintura e minhas mãos apoiavam-se em seu tórax. Meu nariz se embriagava pelo cheiro que, na curvatura do pescoço dele, eu inspirava. Fui desvencilhando, cautelosa, do corpo dele e com sucesso não o acordei. Ou ele fingia dormir. Fui ao banho e ao sair de lá, encontrei ele sentado na cama.
— Bom dia. – eu disse.
— Você ronca. – ele falou levantando e indo para o banheiro. Depois reapareceu na porta e disse: — Bom dia.
Ah! Aquilo era implicância! Eu não ronco! E pela forma como ele me agarrava nenhum ronco estava o incomodando. Nos arrumamos para a viagem de volta e após o café da manhã encerramos as contas do hotel. No aeroporto não conversamos. Nem uma palavra. Nenhum pio. Nem mesmo, olhares. De certo eu também não tinha o que falá-lo. Dentro do avião nós sentamos lado a lado, eu na janela.
— Como você está? – ele perguntou.
— Não sei, sobre o que você está falando?
— É que percebi quando chegamos, que você ficou estranha ao se deparar com sua cidade.
— Foi por uma junção de fatores. Julgamento, lembranças ruins e boas… um pouco de medo.
— E como está agora saindo daqui?
— Da mesma forma como cheguei. – olhei para ele — Perdida.
E virei novamente o rosto para a paisagem abaixo de mim.
O motivo pelo qual eu me sentia perdida, talvez a esta altura, já esteja claro. Claro como uma taça de cristal. Eu não conseguia mais me encaixar a lugar algum. Não me sentia parte de nada. Não enxergava “o meu lugar no mundo”. A fazenda me fazia bem e algumas coisas naquela pacata cidade também, mas eu sentia-me intrusa, turista. Num status ainda provisório.
e eu agimos o tempo todo como se não nos conhecêssemos, mas isso é natural. O que foi espantoso era que, as nossas atitudes aos nossos olhos ou não, demonstravam duas pessoas cegas. Cegas um do outro. Como se não estivéssemos viajando acompanhados um pelo outro. Como se não fôssemos ao mesmo destino. Ninguém que nos visse denunciaria que ambos habitam o mesmo teto.
Ao chegar ao aeroporto de Confins, andávamos lado a lado, acompanhados e calados. Ele pegou nossas bagagens e seguimos ainda distantes um do outro. Pegamos outro táxi e fomos em direção à rodoviária. Ao entrarmos no nosso ônibus, o cheiro daquela terra nova, mudou as coisas para mim. Então resolvi acreditar que, tudo o que acontecia entre e eu, era resultado do controle de ventos comediantes. Pois nós dois éramos isto: uma piada. Uma comédia. O cheiro de Minas Gerais, as mo
ntanhas, o sotaque, tudo ali surtia uma mudança de espírito em mim. Entretanto o mais incompreensível e incontrolável era a forma como a minha vida se tornava selvagem. Eu não era dona de mim. Eu não mandava na minha mente, na minha alma, nos sentimentos e ultimamente nem em meu corpo. Eles que mandavam em mim. Era como se alguma coisa dentro de mim que vivia trancada, ao entrar em contato com aquele novo mundo soubesse que poderia se revelar.
A piada que e eu somos é tão engraçada que naquele ônibus decidimos falar. Depois de horas lado a lado, silenciosos e indiferentes, somente no ônibus demos importância à nossa presença. Que comédia! E me pergunto, do que fugíamos?
— Rosa já deve estar em casa. – ele disse.
— Estou com saudades dela.
— É. – ele me olhou e eu o observei pelo canto do olho — Por que você finge tanto ? Por que não joga limpo comigo?
— Ah não... começou! Você tinha mesmo, que esperar chegar em casa para começar seus surtos?
Fugíamos talvez das discussões descabidas e das dúvidas entre nós.
— Eu só acho que seria mais fácil.
— Céus, mas do que você está falando ?
— Verônica disse aquilo tudo sobre você, mas não faz sentido! Você só tem me mostrado o contrário! – eu sabia que ele não concordaria com ela.
— Quantas vezes eu terei que dizer que não faço ideia do que você fala? Eu juro , eu nunca sei por que você me odeia tanto!
— Ódio é um sentimento muito forte. Não nutro sentimentos fortes por você.
Virei meu corpo para ele e o olhei com raiva. Passou um homem pelo corredor do ônibus e eu me contive.
— Seja direto! O que você quer saber?
— Por que você finge que não sabe de nada?
— Meu Deus! De nada, o quê?
— Do motivo pelo qual você veio para cá!
— Eu vim para cá, para fugir dos meus problemas, tentar recomeçar, me fortalecer…
— Por que você não joga limpo?
— Não jogo limpo com o que?
— Eu só não entendo… Por que usar o Gabriel com tudo isso? Ele gosta de você! O que você está fazendo com ele, não é justo.
… – peguei as mãos dele, num impulso desesperado de compreendê-lo: — Me conta… O que tanto te aflige desde que eu cheguei?
— É incrível.... Você não admite! Encena o tempo todo! Quer saber? Esquece, ! – ele se soltou de mim virando o rosto para frente e sem me olhar pronunciou: — O que me aflige é a demora que está levando para ter você longe.
Eu já estava em um estado de morfina com estas nossas brigas. Entorpecida. Não conseguia mais me enfurecer ao ouvir as loucuras, as conversas sem nexo dele. Mas uma coisa ele fazia muito bem: magoar. Eu não sabia por que, mas as palavras dele tinham um peso muito grande para mim. E à medida que o tempo passava, a repulsa dele só me machucava. As discussões não machucavam. As discussões já faziam parte. Só as feridas que elas deixavam que não se cicatrizavam.
E eu fico pensando qual o pecado eu cometi para ter um castigo com tanto sofrimento inacabado. A minha vida se tornara uma penitência. Cheguei até pensar que a minha vida era um purgatório, onde o meu ser esperava alguma salvação.
Ao chegarmos na cidade, chamou um taxista amigo seu para nos levar de volta à fazenda. Quando chegamos na fazenda, eu peguei minha mala e fui em direção à casa deixando para trás, me olhando desentendido. Vai entender! Por que ele ficou surpreso com as minhas reações? Ele me diz aquilo tudo, e não pensa que eu posso me magoar? correu até a varanda quando me viu. Abraçou-me como se não nos víssemos há anos. E ali eu expelia ao horizonte a minha energia negativa e me reabastecia da boa energia daquela pequena. Depois ela correu para o pai. Na sala nos aguardavam titia, Marcelo e Rosa.
Joguei a mala em um canto e abracei o casal como se eu fosse da família.
— Nossa! Você fez tanta falta! – eu disse à Rosa.
Ela apenas sorriu e foi até o irmão. Abracei titia que, sempre astuta, me olhou repreensiva.
— Está abatida! – ela disse — Está tudo bem?
— Está sim, titia.
Rosa veio até mim parando em minha frente. Às costas dela, estava de frente para mim conversando com Marcelo na frente dele. e titia estavam na cozinha.
— Como tem sido com ele? – Rosa se referia ao irmão.
— Eu não entendo o seu irmão.
— Por quê?
— Ele… – olhei para ele e percebi que os dois rapazes talvez falassem de mim, pois ele também me olhou — Depois falamos disso.
entrou à sala com uma bandeja de bolo e pães de queijo em suas pequeninas mãos. A bandeja era maior do que ela. Eu sorri maravilhada com a cena.
— Mãe! Como você entrega essa bandeja para minha borboletinha carregar?
disse sorrindo para a filha e pegando a bandeja das mãos dela. Como ele pode sorrir daquele jeito? Como ele pode ser outra pessoa tão diferente quando está com quem ama? E por que ele deixa tão claro que eu nunca serei digna de um sorriso daqueles? Nem sequer por piedade ele sorriria tão humanamente para mim. Aquilo fazia eu me sentir a pior das criaturas.
— Você conhece sua filha. – titia disse balançando a cabeça negativamente.
— Não papai! Eu sou uma joaninha agora!
— Joaninha? – ele a pegou em seu colo, se jogando sentado no sofá com ela:— Que história é esta?
Todos nós olhávamos pai e filha, com sorrisos largos. Tínhamos um encantamento no olhar que era impossível de não existir.
— Eu vi uma borboleta, linda, linda, com o tio Marcelo lá fora! Aí perguntei pra ele quantos anos ela tinha e ele disse que borboletas vivem quase dois dias. Eu não posso ser uma borboleta porque eu ainda vou viver um tantão assim! – ela abriu os braços para mostrar o tamanho.
E no meio da risada de todos, eu fui tomada de tristeza. Uma tristeza forte. Algo diferente. E tão destrutivo que eu subi sem que percebessem. Enquanto ninguém prestava atenção em ninguém mais do que, a .
Peguei toalha, roupas e corri para o banheiro. Trancada lá dentro, eu só senti a parede fria às minhas costas. Chorando compulsivamente escorri como chuva da parede ao chão. Eu não sabia por que chorava. Eu não sabia de onde vinha aquele surto. Já no banho, eu relembrei da imagem da e , no sofá, sorridentes, minutos atrás. E ao rever mentalmente a cena, o choro veio desesperador deixando um nó na garganta. E nem mesmo a água fria do chuveiro, conseguia esfriar o calor do meu rosto provocado pelo choro.
Eu chorei porque era um sonho. Era a criança mais perfeita. Era o meu anjo, mas eu não poderia amá-la o suficiente, nem o tempo todo. Eu chorei porque aquele do sofá, não existia para mim. Aquele homem escondia de mim, a única coisa que poderia me separar da pequena. Aquele estava muito longe. Percebi então, que eu começava a me importar demais com aquele cara. Ele estava destruindo-me internamente como nunca antes. Como nada. Nem mesmo o julgamento, porque o processo teria fim, bom ou ruim, e a dor por ele criada acabaria um dia. Já seria sempre o problema irresoluto, e a dor que ele me causava não teria fim porque ela seria justamente a limitação que ele sempre impõe entre e eu. Ou talvez nada do que estou dizendo fizesse sentido. Talvez eu estivesse apenas buscando uma resposta de consolo para o nível insano ao qual eu chegara.
Ao sair do banho, meus olhos estavam inchados e minha aparência deplorável. Até o meu caminhar era lânguido. Eu fui possuída de uma depressão diabólica. Entrei no quarto, sentei ao pé da cama de frente para a porta. Não tive forças para levantar e fechá-la. E sem esboçar nenhuma expressão, as lágrimas desceram pela minha face como um balde que está cheio e a água transborda por si só. Sem força atuante.
Eu fitava o nada no corredor, e o excesso de choro descia como cachoeira. andava de cabeça baixa no corredor e olhou devagar para o meu quarto. Quando me viu parou. Eu não dei à mínima. Continuei imóvel e jorrando lágrimas.
— Você está bem? – ele disse na soleira.
Continuei calada. Um holograma.
— Eu notei a forma como você saiu da sala… – ele adentrou caminhando até mim: — Está passando mal?
Eu continuei inativa. Eu ainda não havia o olhado. A parede do corredor era um vazio como eu. Era um retrato meu. abaixou à minha frente para me encarar de perto.
… Por tudo o que eu te disse… – ele falou e então eu o olhei.
— Sai.
Eu disse encarando os olhos dele, mas nada enxerguei a não ser o brilho das minhas lágrimas.
— Por favor. – completei.
Levantei e dei as costas a ele. Um pouco depois escutei seus passos distanciando.
E chorei ainda mais olhando pela janela do meu quarto e encarando o dia à minha frente. Um dia ensolarado e verde.
Eu havia me jurado tempos atrás que confiaria no destino. Que confiaria em Deus. Que aquela era uma nova vida, cheia de bons presságios. Mas tudo desabou quando me mostrou a longa distância entre a família dele e eu. Eu era uma hóspede. Somente isso. E por mais que titia, ou qualquer outra pessoa dissesse o contrário, não passaria de gentileza. Eu não pertencia a nada daquilo. Eu não pertencia a lugar algum. Eu ainda era uma folha de outono que à brisa pertence. Algumas vezes a brisa acalma e pousa a folha no solo, mas logo ela vem e a leva de novo.
Uma folha de outono que começava a secar. Aos poucos começava a desistir.
Depois de tentar me recompor, eu desci. Todos juntos na sala, conversavam. E tinha razão sobre mim: eu atuo muito bem. Pois consegui fingir que nada acontecia. Por dentro eu sentia a minha alma despedaçando como seda roída por traças, mas por fora eu era uma marionete. Controlada pelos momentos e pelo teor da alegria dos outros. deitou em meu colo e adormeceu agarrada a mim enquanto eu acariciava os cabelos dela, encantada por aquela minha pequena fada.
— Como foi o processo ? – titia perguntou.
— Adiado. Novas investigações, e creio que desta vez tende a ser bom para mim. – não entrei em detalhes.
— E como foi a viagem de vocês? – perguntou Marcelo.
— Revi alguns amigos e saímos. Foi bom.
Eu ainda me detive às poucas palavras e terminando de falar, volvia o meu olhar novamente à .
— E você ? Passeou por lá? – Rosa perguntou.
Ele me olhou antes de responder.
foi gentil e se ofereceu para me mostrar a cidade, mas, eu não estava animado. Acompanhei ela em um jantar com os amigos. Foi bom.
Não o olhei. Fingi que não ouvi.
— E a lua de mel de vocês? – perguntei.
Lancei a deixa e Rosa iniciou um extenso tagarelar feliz, que em outra ocasião eu escutaria com muito gosto, mas naquele momento eu apenas incitei o assunto para fugir das palavras.
De repente levantou e só o percebi já à minha frente.
— Com licença … Vou levá-la para a cama. – pegou em meu colo e subiu.
Rosa e Marcelo não estavam mais lá e titia me olhava amigável. Como alguém pronta a ouvir. Eu não queria falar nada e nem tinha o que falar.
— Eu vou dar uma volta. – eu disse me levantando e dando a ela um sorriso pobre.
— Lembre-se de que se precisar…
— Tudo bem tia, obrigada. – eu disse e saí.
— Volte logo para o almoço. – ela avisou.
Fui até o riacho e sentei sobre algumas pedras. Molhei os pés na água e brincava com algumas pedrinhas. Não pensei em nada. Sinceramente, nada! A minha mente pela primeira vez estava vaga. O sol do meio-dia me obrigou a voltar para casa.
Passei por , deitado na rede e não o olhei. Almoçamos todos e lavei a louça com titia no meu encalço.
, o que aconteceu? O que o fez? – ele já havia se tornado o culpado para tudo de ruim que me acontecia.
— Tia… Eu só não estou me sentindo muito bem… Sei lá.
— Pode falar querida. Seja o que… – e antes de terminar de falar titia se desequilibrou e quase caiu.
— Tia! – eu exclamei a segurando.
— Foi só uma tonteira.
A verdade é que ela estava tendo tonteiras frequentes há algum tempo.
— Melhor a senhora ir se deitar um pouco. – a guiei pelas escadas.
Desci e acabando de arrumar a cozinha fui até o quintal dos fundos e recolhi as roupas do varal. As nuvens se tornaram numerosas, mas não aparentava que choveria tão cedo. Subi para o meu quarto e peguei um casaco. Saí varanda à fora e ainda estava na rede.
! – ele chamou.
Parei de andar e não me virei para ele.
— A minha mãe. Sabe onde ela está?
Então eu me virei com as mãos nos bolsos.
— Levei ela para o quarto e disse para descansar. Teve outra tonteira agora há pouco.
— O que? – ele se levantou preocupado indo em direção à sala.
— Ela já dormiu! – eu gritei antes dele entrar.
— Ah!
Acalmou-se e retornou à rede me olhando como se medisse palavras:
— E você está bem?
— Estou ótima. – eu disse dando as costas.
— Aonde vai?
— Tchau, ! – gritei me distanciando.
Fui andando sem olhar para trás. Cheguei ao celeiro e peguei a escada que havia usado para pintá-lo e subi até o telhado. Fiquei ali até o pôr do sol. Muito tempo. E pensei no que eu poderia fazer para recomeçar a minha vida. Dar uma chance ao Gabriel, que tanto me fazia bem, pareceu um bom começo.
O sol se pôs e logo escureceria. Desci as escadas e quando eu cheguei ao chão, estava ao meu lado.
— Você gosta de ficar lá em cima?
Ele perguntou guardando os baldes de ração que tinha em mãos. Certamente havia acabado de cuidar dos animais.
— Sim. – eu disse, e pegaria a escada se não a tivesse tomado de minhas mãos e colocado em um canto.
Virei para ir embora, mas ele foi mais rápido e segurando meu braço falou:
— Vem aqui. Quero te mostrar uma coisa! – me puxou para dentro do celeiro.
— O que…
— Sobe aí. – me interrompeu e apontou uma escada ao lado da entrada.
— O que…
— Anda. Sobe logo! – interrompeu novamente.
Eu subi e ele veio logo atrás. A escada dava para um segundo andar no celeiro. Nunca havia reparado aquilo. Abriu uma portinhola de madeira, acima de nossas cabeças na escada e em um espaço pequeno demais para nós dois.
— Entra.
Eu segui e ele veio atrás. Subi mais três degraus e havia outra portinhola que ele me mandou abrir e ao fazê-lo, eu estava no topo do celeiro, no meio do telhado. Era melhor do que subir na escada e sentar na ponta do telhado correndo o risco de cair.
— E aí, gostou? – perguntou amigavelmente.
— Sim. – eu disse o olhando séria.

Estávamos apertados de frente um para o outro naquela portinhola. Ele me olhava curioso e invasivo.
— Preciso descer. – eu falei para que ele se afastasse me dando passagem.
Ele desceu e eu fui em seguida. Já no chão do celeiro ele foi ver a ovelha prenha no lugar onde a deixamos. Eu também quis vê-la.
— Titia cuidou dos animais da fazenda sozinha enquanto não estávamos? – eu perguntei e ele olhava estranho para a ovelha.
— Não, pedi ao caseiro do vizinho para vir. … – me chamou entrando rápido no cercadinho onde a ovelha estava — Ela entrou em trabalho de parto!
— O que? – eu disse assustada.
— Encha um balde com água!
Fiz o que ele pediu e coloquei o balde perto dele.
— Droga!
— O que foi, ?
— Ela está morrendo! Sozinha não vai conseguir!
— O QUE EU FAÇO? – gritei apavorada.
— Parar de gritar e se acalmar são um bom começo! Agora corra até lá em casa, peça a mamãe para ligar para o veterinário urgente e me traga álcool e alguns panos. Rápido!
Saí correndo o mais rápido que eu pude. havia deixado Lunia celada, próxima ao celeiro, mas eu não sabia montar. Em casa, titia dormia e só encontrei Rosa. Ela ligou para o veterinário e me disse onde encontrar os panos que poderia utilizar. Peguei tudo e voltei correndo para o celeiro. Não sei por que eu não pensei no carro. Corri bastante. Meus pulmões ardiam e começou a chover.
— Aqui! – eu disse ao lado de .
— Deixe aí no canto! Preciso que me ajude! Vou ter que virá-la de barriga para cima.
Tá! – respondi e ele virava a ovelha de barriga para cima.
— Você coloque suas pernas entre as pernas dela segurando as patas para que ela não te machuque e controle a saída do filhote. Eu vou fazer força em cima dela.
Fiz o que ele pediu e a ovelha estava agonizando.
— Está vindo! – eu disse.
— Agora cuidado ao puxar a cabeça! Puxe-o na posição que ele vier!
Fui fazendo o que ele disse e logo o filhote saiu.
— Enfie seu dedo indicador nas narinas dele e puxe a placenta. E me dê ele.
Após ter feito, entreguei o filhote ao . Ele puxou o resto de placenta do focinho do animal e de todo o corpo. O cordão umbilical era expelido inteiro junto à placenta.
! Tem outro! – voltei à minha posição.
— Ela não vai aguentar. Vou forçar de novo – ele deixou o filhote em um monte de feno ao lado da ovelha e voltamos ao parto.
A ovelha morreu antes do outro filhote sair. Foi difícil. chorava por não ter conseguido salvá-la – então notei o lado humano dele novamente – e eu chorava também. Ele fez o que pode para tirar o outro filhote rápido. E conseguimos trazer o animalzinho à vida. A chuva àquela hora já caía forte. Tiramos o cordão e placenta do focinho, como feito com o primeiro. pegou o álcool jogando um pouco em nossas mãos e nos panos, e embalou os filhotes. Ele segurava o primeiro filhote no colo e eu segurava o último. ajoelhou à minha frente, apertando o filhote a fim de aquecê-lo e pedindo para eu fazer o mesmo. Estava abatido pelo animal morrer.
— Você fez o que pode. – eu falei.
— É.
— Eles são tão bonitinhos.
Eu disse sorrindo e admirando os bichinhos. também os admirava em nossos colos.
— Demos à luz. – eu disse e ele me olhou engraçado.
— Coisa mais estranha de se dizer. – ele falou e riu ainda admirado com os filhotes.
— Na verdade… Você quem deu à luz a eles... – eu disse e não controlei o riso. também riu.
— Temos dois filhotes! Gêmeos! – então, sua face entristecida pela ovelha perdida, mostrava uma alegria maior e ele me olhou sorrindo: — Como se sente após seu primeiro parto, ?
— Não sei como descrever. – eu ainda sorria.
— Você foi ótima. Parabéns.
— Só fiz o que você mandou.
Nos olhávamos naquele instante como se nunca houvéssemos tido sequer uma briga. Um de frente ao outro, exauridos e emocionados.
— E o veterinário?
— Rosa ligou, mas eu saí sem falar com ela. Eles devem estar chegando.
Terminei de falar e eles chegaram com a camionete. Chovia muito forte.
— Rosa ficou com a . Ela acordou e queria vir. – Marcelo disse.
O veterinário examinou os filhotes, tomou os primeiros cuidados e receitou os remédios. Marcelo e empacotavam a mãe ovelha enquanto eu ajudava ao veterinário. Fizemos dois berços de feno em caixotes que encontramos no celeiro e colocamos alguns panos velhos para que os animais ficassem quentes.
— Vou levar o Dr. Vocês vêm?
— Agora não posso, tenho que limpar aqui. pode ir se quiser. – disse.
— Eu fico para ajudar. Pode ir Marcelo.
— Certo. Pegue aqui as capas de chuva, .
Peguei as capas com ele.
— Obrigado Doutor. – e eu agradecemos.
— Precisando é só chamar. – ele respondeu sorridente.
— Eu volto com o carro. – disse Marcelo.
— Não precisa. – respondeu a ele: — Leve a ovelha para perto do lamaçal. Coloca na caçamba velha que amanhã peço para o Tião pegar. E vai com os filhotes para casa. Mornem leite e alimente-os.
— Certo. Como preferir, cunhado.
Marcelo saiu com o veterinário e com os bichos. e eu ajeitávamos a sujeira do lugar onde fizemos o parto.
vai adorar ver os filhotes. – eu disse.
— Com certeza! Ela vai querer amamentá-los. – sacudiu a cabeça rindo.
— Acabou a nossa por alguns dias. – contatei e nós rimos.
— Ainda bem que ela não viu. Ela ficaria muito chateada pela mãe dos filhotes.
— É verdade. – eu disse lavando as mãos e também.
A chuva ainda caia, porém aos poucos enfraquecia.
— Coloque sua capa. Vamos para casa. – ele disse e subiu em um trator estacionado próximo a porta gigante do celeiro.
— Não é melhor esperar mais?
— E correr o risco de ficarmos ilhados, igual da outra vez?
— Bem, só ficamos atolados naquele dia, porque você teimou em sair com o carro.
— Sobe logo neste trator!
! E se ficarmos no tempo, com este trator atolado?
— É um trator! Não atola . Anda!
Subi e saímos de lá. Ele “estacionou” o trator na frente da casa. Tomamos banho. Separados, é óbvio! Jantamos e logo todos foram dormir.
insistente em ficar acordada para cuidar dos bichinhos:
— Papai! Então coloca, eles no meu quarto!
. Não! Vamos dormir!
, e eu subimos. Ele levou a pequena para o quarto dela e eu fui escovar os dentes. Ele saía do quarto da menina quando eu entrei para dar um beijo de boa noite nela.
Ele esperou que eu saísse para fechar a porta.
— Boa noite. – eu disse indo para o meu quarto.
— Boa noite. – ele falou parado na porta do quarto dele, ao lado.
Eu já estava em minha cama me concentrando para dormir quando bateram à minha porta. Abri preocupada em ter acontecido algo com as ovelhinhas, ou com a própria titia que não passara bem naquele dia.
? O que foi? – perguntei assustada enquanto ele entrava e fechava a porta.
— Eu quero pedir desculpas.
— O que?
— Pelo que eu te disse no ônibus. – ele parou na minha frente me olhando fixamente.
— Por que você fica agindo assim? – perguntei indignada.
— Assim como?
— Uma hora quer guerra em outra quer paz!
— Por que com você tem que ser assim. – quando eu ia retrucar ele continuou falando: — Não vamos discutir agora. Eu realmente quero que você me desculpe. Eu fui muito grosseiro.
— Tudo bem. – eu disse o encarando indiferente.
Ele me abraçou. Me pegou de surpresa, mas eu retribuí.
? – chamei estranhando a demora daquele abraço.
— Obrigada por me ajudar com os filhotes. – ele disse se soltando do abraço.
— Não tem o que agradecer.
— Fique bem . – acariciou meu rosto e saiu do quarto.
Eu já não sabia como agir, o que falar ou o que pensar. Eu me sentia de mãos atadas. O que o pretendia, afinal? O que eu deveria fazer?
Ao amanhecer acordei cedo para exercer as tarefas da fazenda. Eu senti falta daquilo, ainda que, poucos dias fora. Tudo na fazenda me fazia bem e o contato com os animais, principalmente.
Peguei a tão querida caneca de barro e me servi do delicioso café mineiro, que eu mesma havia passado. Ainda era madrugada. Titia não estava por perto. Eu procurava alguém acordado pela casa e encontrei sentado nos degraus da varanda, então levei uma caneca de café para ele também.
— Bom dia. – eu disse e sentei ao lado dele lhe estendendo o café.
— Bom dia. Obrigada.
Ele parecia muito cansado.
— Parece que você não dormiu bem. – eu disse.
— Sim. Acordei várias vezes para ver os filhotes. – ele disse.
— Algum problema com eles?
— Não, mas são bebês. – ele respondeu fazendo cara de óbvio.
— Ah tá. Podemos revezar. – eu disse.
— Não tudo bem. Eu já tenho prática.
Ele olhava o horizonte e eu fitei o meu café. Sem dúvidas, eu não tinha prática.
— Eu gostaria de cuidar deles… – ele me olhou e eu resolvi encará-lo convencida — Assim eu poderia treinar para quando eu tiver meus filhos.
Coisa mais idiota de se dizer. começou a rir descontroladamente.
, eles são ovelhas!
— Sim, mas são, bebês. – retruquei tímida.
— Você não precisa praticar. – disse de uma forma tenra: — Você tem extinto para essas coisas.
— Será? – perguntei mais para mim do que para ele enquanto admirava o horizonte ainda escuro.
— Tem sim. Toda mãe tem.
— Toda não. – eu disse pensando em Bruna.
E aí percebi a besteira que falei e o olhei com culpa.
— É. Nem toda. – ele respondeu tranquilo e voltou a me olhar: — Mas você tem.
— Como pode ter tanta certeza?
— Observando você ontem… Seu olhar brilhante com os filhotes. Sua confiança em trazê-los vivos para fora da mãe… Percebi… Na verdade, compreendi algumas coisas em você.
— Como o quê?
— Seu extinto para maternidade. Você será uma excelente mãe, .
Ficamos nos encarando silenciosos. Não sei expressar o que eu senti. Havia uma paz naquela conversa. Uma brisa boa.
— Dá para perceber pela forma como você cuida da .
Aquilo foi outro susto. estava admitindo que cuido bem da ? E toda aquela história de que eu só faria mal a ela?
Enquanto eu olhava para aquele mar azul nos olhos dele, meditativa e surpresa com o que eu escutara, se aproximava de mim. E somente quando senti a mão dele na minha nuca que despertei afastando-nos.
Outro beijo não. Não daquele jeito. Não sem saber qual o sentido daqueles “encontros”.
Levantei atrapalhada e ele, contrariado eu diria, voltou os olhos para frente.
… – o chamei de pé ao lado dele e ele olhou para mim chateado— Você é um excelente pai.
Eu disse e saí. Não vi nem mesmo se ele sorriu para mim. Eu não compreendia o que acontecia entre nós. Ele iria me beijar de novo. Mas por que ele me beijava? E ele ficou chateado por eu não o beijar! O que se passa com este homem? O que ele espera de mim? Como ele poderia esperar alguma outra atitude minha senão a de me afastar?
Eu pensava nisso tudo parada, de pé, em um canto na sala e quando me acalmei e olhei para frente, lá estava titia me olhando sorridente e curiosa. Ela tinha visto nós dois.
— Quer conversar? – perguntou estendendo as mãos.
— Titia…
— Vamos tomar café! – me puxou para cozinha.
E agora? O que eu diria àquela mulher, que fosse capaz de desfazer o sentido da cena que ela presenciou? Caramba! Titia viu que ele me beijaria! Sentei na cadeira da mesa sem ação ou reação. Meu corpo ali e minha mente correndo bem longe, fujona das vozes e gritos internos da minha alma.
?
— Oi. – despertei observando à minha frente uma senhora muito sorridente.
— Quer conversar?
— O que exatamente a senhora viu?
— Uma jovem confusa e surpresa saindo dos braços de um belo rapaz. Sem um delicioso beijo.
Ótimo. Ela queria me constranger? Conseguiu!
— Titia… – eu tentaria explicar, mas ela fez sinal para que eu me calasse.
chegou à cozinha, tão atarantado quanto eu.
— Bom dia mãe. – beijou a mão dela e pediu-lhe benção.
— Deus te abençoe. – titia respondeu sem olhá-lo.
Certamente ela sabia que qualquer contato visual com ele, entregaria a confissão do que ela vira. Eu disfarçava o meu torpor mastigando qualquer coisa da qual eu não atinei o sabor ao meu paladar.
… Poderia me fazer um favor? – ele perguntou.
Droga! Eu teria que olhá-lo? Não foi o que eu fiz.
— Qual? – eu disse encarando fixamente a outra dose de café que eu havia me servido.
— Tenho que ir à fazenda vizinha a trabalho, mas preciso também entregar as verduras que minha mãe colheu ontem, no armazém da cidade. Pode fazer isso para mim?
Ele falava parado ao meu lado, suponho que me observando.
— Posso, claro.
Respondi o olhando. Não sorri. Notei o cenho franzido dele, na certa, desconfiado da minha reação robótica.
— Ótimo. Vou pegar a chave da camionete para você.
Ele saiu e eu olhei para titia que começou a rir da minha cara.
— Bom dia! – disseram Rosa e Marcelo se unindo a nós no café da manhã.
Logo voltou e entregou a chave. Puxou uma cadeira ao meu lado e se sentou. Ele não sabia do perigoso questionário que me submetia com aquela atitude.
— Mas, esta é a chave da camionete nova. – eu disse duvidosa.
— Sim. – ele respondeu partindo uma fatia de bolo.
— Você quer que eu vá com a camionete nova?
Eu parecia uma tola repetitiva e ninguém entendia nada, exceto titia que em sua cabeça cheia de rolinhos estaria tendo suas suposições apaixonadas.
— Qual o problema? – ele disse para mim mais interessado em comer.
— Nenhum. Só achei que você sairia com ela.
Eu estava assustada. Ele nunca me deixou dirigir. Nem mesmo vi algum tipo de liberdade para poder pegar a camionete velha e sair se eu quisesse. E do nada ele pede para eu fazer uma entrega e ainda sair com o carro novo dele? E por que não pedir que Marcelo fizesse isso?
— Não. Depois da chuva de ontem há muito barro aonde eu irei. – disse terminando de beber o gole do café e se levantando.
— Meu filho! Coma direito, para quê tanta pressa?
— Depois eu como melhor mãe. Estou indo tratar dos animais. Você vem? – disse para mim.
Olhei para titia de soslaio.
— Se importa se eu ficar? Eu vou me arrumar para as entregas…
— Tudo bem. – disse virando-se e saindo.
— Eu te ajudo ! – Marcelo se levantou, apressando-se para acabar de comer e foi atrás.
Ainda eram cinco horas da manhã. Titia me olhava feliz, mas não como sempre. Naquela manhã ela parecia bem mais feliz. Eu diria até satisfeita. Rosa não entendia o meu comportamento estranho. Evitando questionamentos, eu levantei da mesa.
— Eu vou me arrumar.
Subi e tomei banho. Eu teria que entregar as verduras logo, pois demorava para chegar à cidade e o armazém abria às sete. E eu teria que chegar lá, antes do armazém abrir.
Desci após um tempo em meu quarto me arrumando, e titia estava na sala com Rosa e Marcelo. Eles já estavam indo para a nova casa deles. Não era longe, na verdade, era dentro da fazenda. Titia deu um dos muitos terrenos da fazenda, para que a filha e o noivo construíssem sua casa. Levava de quinze a vinte minutos para chegar à casa a pé. Cavalgando era mais fácil.
— Até mais ! – Rosa, e Marcelo diziam felizes me abraçando.
Assim que eles saíram titia se sentou no banco da varanda e pôs-se a tricotar. Eu não sei o que é que ela tanto tricotava. Nunca acabava, ou ela apenas não os mostrava prontos. Penso que talvez ela não conseguisse terminar, porque outro dia ela dissera que quando se erra um ponto tem que começar de novo e isso atrasa o serviço. A visão da titia não andava boa e as tonteiras também não a ajudavam.
Peguei minha bolsa, as chaves do carro e parei na frente dela, na varanda. Se eu pudesse, teria saído correndo.
— Titia, eu já vou. – eu disse sorrindo sem graça.
— Está bem, querida. Vai com Deus e tenha cuidado. – ela não me olhou.
Ainda bem que o “assunto” não foi tocado. Beijei-lhe a testa e saí para o carro. parou ao lado da minha porta e escorou na janela.
— Toma cuidado. Ainda há um pouco de neblina na estrada.
— Pode deixar. Quanto é para receber?
— Cento e cinquenta reais das hortaliças, cento e oitenta dos tomates e noventa das batatas e mandiocas.
Anotei tudo em um papel e coloquei no bolso.
— Talvez te paguem só a metade. Se pagarem diz que depois eu passo para buscar o resto.
— É… Você não dá mole. – eu disse rindo e ele riu também.
Depois disso segui o meu caminho.
Na cidade, fiz tudo como deveria e os donos do armazém pagaram os quatrocentos e vinte reais inteiros. Encontrei o Guino conversando com o senhor Tadeu em frente à barraca dele. Como não os avistava já há algum tempo fui até eles.
— Bom dia senhores! – sorri.
— Dia, ! – respondeu o senhor Tadeu com um cumprimento de mãos.
Óia! ! – Guino sorriu largamente e veio me abraçar — Dia, moça! Cê tá sumida! Tá pegano a doença da Cora, é?
— Que nada, Guino! Eu estou muito ocupada, isso sim!
Vixe! Tão tirano seu coro lá na fazenda, é? – disse e soltou a gargalhada tão admirável.
— Não… Eu é que não estava acostumada com trabalho de fazenda! Mas já estou pegando o jeito. – eu sorri piscando para ele.
— E como todo mundo?
— Estão bem seu Tadeu. Tia Cora que vem tendo algumas tonteiras, mas nada grave. Cansaço eu acho.
— Ih minina! Essas tonteiras da Coralina são antigas! – disse Tadeu.
— Mas tão muito frequentes, é? – perguntou Guino de olhos arregalados.
— Estão Guino. Mas Deus queira que não seja nada.
— É verdade! – comentou Guino preocupado.
Qué um caldinho ? Minha mulhé preparou agorinha!
— Uai, aceito! Bom que aproveito a viagem.
Rimos todos e enquanto o senhor Tadeu foi servir o caldo, Guino e eu, esperamos do lado de fora.
— Que veio fazer aqui, minina?
— Vim fazer uma entrega. O está muito ocupado hoje.
— Ah… E ele já parou de pirraçar ocê?
Xi Guino! O é um pirracento de marca maior! – rimos.
— Liga não! Garanto que ele gosta docê. Se num gostasse, aí é que ocê ia vê pirraça! Já tinha saído de lá da fazenda! – Tadeu disse me entregando o caldo— Molequim difícil!
— Já passei por essa fase dele, seu Tadeu. – eu disse brincalhona.
Nós rimos e eu adorava ouvir aquelas coisas que o senhor Tadeu dizia a respeito do .
— E o jovem Gabrielzinho? Ainda arrastano asa pro seu lado? – perguntou, Guino.
— Ah, somos apenas amigos, Guino. – sorri sem graça.
— Não da parte dele. – disse Tadeu.
— Por que o senhor diz isso?
— Meu sobrinho fala nocê que nem vitrola agarrada e os olhim até brilha!
— Ah! Gabriel é seu sobrinho? – eu disse pasmada.
— Tem sido desde que nasceu. – ele respondeu e nós rimos.
— Bem… Digamos que ele é… Um excelente pretendente. – respondi piscando e pagando o caldo ao senhor Tadeu.
Os senhores riam divertidos.
— Eu já vou. Foi um prazer revê-los. – cumprimentei os senhores em despedida.
— Vai não ! Bora lá em casa tomá um café da Belinha! É bão que cê conhece ela.
— Tudo bem. Eu dou um pulinho lá para conhecê-la. – fomos andando para a casa de Guino — Até mais senhor Tadeu! Diga a senhora sua esposa que o caldo está delicioso!
Podexá! Vê se ocê volta para almoçar com nóis qualquer hora!
— Olha que eu venho hein!
— É pra, vim mesmo!
Segui com o Guino até a casa dele e no caminho avistamos Carlinhos na farmácia. Acenamos para ele e o avô-padrinho do rapaz, sorridente ao meu lado ia me puxando esbaforido para a casa. Adentrou ao portão da casa aos gritos. E o alpendre da casa dele sempre impecável e cheio de plantas.
— Belinha! Belinha! Chega aqui minina!
A moça veio correndo assustada e gritando.
— O que foi vô? O que aconteceu?
Ao me ver, ela se ajeitou discreta.
Eita! Acalma essa cachola! Parece inté que viu uma cobra!
— O senhor me assustou com estes gritos.
— Essa aqui é a . A sobrinha da Cora! A namorada do Gabrielzinho!
A jovem me cumprimentou acanhada, mas simpática.
— Prazer. – eu disse estendendo-lhe a mão — E não sou namorada do Gabriel.
Eu falei baixo enquanto o avô da jovem foi à cozinha.
— Ah…
Ela afirmou aliviada, acho que ela ficou satisfeita em saber que eu não namorava o delegado.
— Sente-se, por favor. Fique à vontade, só não repare.
Guino juntou-se a nós trazendo o café. Conversei um pouco, apenas para a cortesia, e despedi-me logo.
— Queiram me desculpar, mas eu ainda tenho que ir ao trabalho hoje…
Ao sair, Isabela e Guino acenavam para mim. Entrei na camionete e ao dobrar a esquina com o carro, avistei Lúcia do outro lado da calçada e a gritei.
— Lúcia! Lúcia!
Ela me olhou curiosa e se espantou em ver que era eu, quem a gritava, e veio até o carro.
— Bom dia Lúcia. Tudo bem?
— Bom dia. Tudo sim, e com você?
— Também, obrigada. Desculpe te incomodar, mas eu gostaria de fazê-la um convite.
— Sim? – me olhou duvidosa.
— É que eu queria conhecer você melhor. E gostaria que você me conhecesse também. Tudo bem de conversarmos hoje, mais tarde?
— Ah… É que… – ela procurava fugir.
— Por favor! Acho que você não teve uma boa primeira impressão minha. Hoje às seis e meia, pode ser?
.
— Na praça então. – eu sorri: — Muito obrigada. Desculpe mais uma vez.
— Tudo bem.
— Até mais! Cuide-se.
Eu me despedi sorrindo e ela se afastou acenando, ainda acanhada.
Dei partida no carro e acelerei na estrada de cascalho. talvez me matasse pela velocidade. Mas qual a graça de uma camionete inteira e novinha se não for para estrear seu velocímetro? Tudo bem, não pisei tão fundo assim. Mas com certeza desaprovaria cada gesto meu com aquele carro. Ao me aproximar da fazenda, dirigi mais devagar. Estacionei e entrei correndo.
?
— Oi tia! Desculpa, mas tenho que me arrumar correndo, eu tenho trabalho hoje.
— Pensei que você não fosse trabalhar!
— É… Desculpa! É que eu me esqueci! Cadê o chefe? Digo… O !
Fiquei extremamente sem graça com aquilo. Eu o chamei de chefe?!
— Está no quarto dele. – arqueou uma sobrancelha, atrevida, e minha pobre cara foi ao chão.
Subi rápido e antes de chegar ao meu quarto, entrei no dele. A porta estava aberta e eu o vi guardando uns papéis. Acabara de chegar, suponho.
— Aqui ! – chamei, pegando o dinheiro e o entregando.
— Obrigado. – ele conferiu — Te pagaram tudo? Acho que alguém vai passar a fazer entregas constantemente.
Ele sorriu, eu correspondi sorrindo e saí rápida.
!
— O que foi?
— Que pressa é essa?
— Tenho que trabalhar.
— Vai trabalhar hoje? – perguntou insatisfeito.
— É! Eu me esqueci! Você pode me levar, ou me emprestar o carro?
Gritei no corredor entrando no meu quarto e deixando observando parado na porta do quarto dele.
Quando eu achava que tudo já estava ruim com meu atraso, ele piora as coisas. Entrou no meu quarto sem pedir licença, com as mãos na cintura e andando de um lado ao outro coçando a barba.
— Ai céus. O que foi? Fale logo! – eu disse prevendo briga.
— Essa pressa toda é para ir para a delegacia por causa do trabalho ou por causa do Gabriel? – e continuava a andar de um lado a outro, incomodado.
— Ih! Vitrola agarrada!
Eu repeti a frase do senhor Tadeu sem nem perceber.
— Eu já estou cansando destas suas conversas, sabia? – falei, nervosa, o encarando com a mão nas cinturas.
— Era de se imaginar! – ele disse e saiu.
— Louco... – sussurrei.
— Não! – ele gritou voltando e fechando a porta: — Não era de imaginar! Onde o Gabriel entra no plano? É para me convencer?
— Lá vem você com as suas alucinações! Cara procura um psicólogo, pelo amor de Deus!
— Você vai ver ! Mais dia, menos dia, eu faço você confessar!
Disse e saiu batendo a porta. Não dei importância. Apaguei a cena da memória. Do contrário eu enlouqueceria. Depois me arrumei o mais rápido que pude e na sala me despedi de titia.
— Ei moça! – ela me chamou — Poderíamos conversar depois?
É! O “assunto” não tinha morrido!
— Claro tia!
já está te esperando lá fora.
Seria tão menos desgastante para ele, ou melhor, para nós, que ele me emprestasse a camionete velha para eu ir ao trabalho em vez de me levar e buscar todo dia...
Cheguei ao trabalho, pedi mil desculpas pelo atraso, expliquei tudo e contei ao Gabriel como foi minha volta de São Paulo.
O dia seguiu calmo. Eu não tinha visto , mas supus que Rosa e Marcelo a trouxeram para a escola.
Meu expediente acabava às seis horas e, às cinco me ligou.
— Fala.
— Daqui a pouco estou saindo para te buscar.
— Pode vir umas sete e meia? Hoje eu vou ficar um pouco mais.
— Ah é? Por quê?
— Pode ou não?
— Eu chego às sete!
Disse e desligou. Quem ele pensa que é? Meu pai?
Seis e meia eu já estava na praça aguardando Lúcia e ela não demorou.
— Boa noite.
— Oi Lúcia. Boa noite.
— E então? – ela disse indo direto ao ponto.
— Vamos ao bar da dona Carlota?
— Pode ser.
No caminho fomos conversando.
— Lúcia… Eu queria poder te conhecer e tirar a má impressão que você tem de mim. Não sei se eu fiz algo que pudesse te chatear, mas…
— Olha … Me desculpe. Eu não tenho nada contra você. – já estávamos nos sentando em uma das mesas do bar — Só que quando vi que, você e estavam juntos eu fiquei assustada.
— Por quê?
— Não é que eu sinta algo pelo seu namorado, mas…
— Espera. – interrompi — Não somos namorados.
— Não foi o que pareceu.
— Ele mesmo te disse.
— E a forma como ele limpou seu rosto ao irem embora? Eu vi.
— O que é que tem? Ele só fez um favor.
— O que vocês são então?
— Nem amigos, nem parentes. Só… Convivemos na mesma casa.
Lúcia me parecia confusa.
— É por isso que você vem me evitando? – perguntei.
— Não exatamente… Quando vi vocês dois… Eu me lembrei dele com a Bruna.
— A mãe da ?! Vi fotos dela e não temos nada em comum! – detestei ser comparada a ela.
— Tem sim. Mais do que imagina. Ela tinha o mesmo jeito de se vestir e você é uma garota da cidade grande. A Bruna vivia tentando parecer uma garota urbana.
— Ah, mas isso não faz com que nos pareçamos tanto assim.
— O que você quer ? Porque eu tenho a impressão de que você não me procurou apenas para ser minha amiga.
— Tudo bem! Eu quero ser sua amiga sim, mas também sei que você e foram muito amigos e que você o conhece bem. E… Ele tem sido muito hostil desde que cheguei.
— Ele é hostil desde que a Bruna deixou de ser a princesa do mundo dele. Eles foram muito apaixonados…
sabendo!
— Eu fui apaixonada por ele também.
— É eu também tô sabendo! – ela olhou surpresa — Titia me contou.
— Ah… Pois é. Podemos pular uma parte então. , eu não sei se posso ajudá-la, nunca me deu muito espaço desde o fim com a Bruna e não acho que ele esteja tão disposto a te evitar como faz com todas as outras.
— Como assim?
Eu não entendia nada do que Lúcia estava tentando dizer. Ou insinuando.
nunca mais se envolveu com ninguém depois da mãe da . — Ah, fala sério!
— Estou falando sério!
— É… Com aquele humor dele fica um pouco difícil alguém suportar também.
– Lúcia riu de mim e da minha expressão.
— O que não falta são mulheres atrás do . Ele é inteligente, charmoso, bonito e digamos que esse humor sombrio que ele tem é excitante.
Eu ri do que Lúcia dizia, porque não deixava de ser verdade.
— Mas desde que a nasceu ele nunca mais teve ninguém. Nunca mais deu espaço para alguém. Confesso que eu até tentei… Mas, ele fez um juramento de castidade.
— O quê? Não brinca!
— Não! É modo de falar, porque ele nunca mais esteve com mulher alguma.
— Ah meu, dá um tempo! Ele é homem, Lúcia!
— Um homem desiludido, muito romântico, frustrado e amargurado… Você não faz ideia da dimensão disso tudo ! Você não viu como ele ficou nos primeiros anos da … Depois foi uma questão de tempo para ele se acomodar com a solidão.
— Eu não posso imaginar mesmo. Ele não se mostra sabe? Nunca sei como agir.
— Aquele dia na feira, você não tem ideia do passo que ele deu! Jamais imaginaram vê-lo acompanhado novamente, principalmente por uma mulher como você. Moderna.
— Isso explica a cara do povo para nós. – rimos.
— E quando ele limpou seu rosto, com aquele jeito grosseirão dele... Pode até ter sido um favor, mas ele nunca, nunca demonstrou alguma aproximação em público daquele jeito desde a Bruna.
— Ih! Eu hein! Você está interpretando coisas demais!
— Você está apaixonada por ele, não é?
— Ih Lúcia! Eu hein… Nada a ver! Eu não me apaixonaria pelo , nem que ele fosse o último homem na Terra.
— Ah claro…
— E você? Foi por ciúme que não gostou de mim?
— Não, não. Já me conformei. A verdade é que correm boatos de você e Gabriel e como eu achava que você e o estavam juntos achei que você…
— Não, não! Nem um, nem outro. – eu disse a interrompendo — Porque você não tenta amolecer o coração do de novo?
— Ele nunca se interessou por mulheres comuns.
Lúcia disse aquilo olhando tão fundo em meus olhos que fiquei sem graça.
— Ele é complicado, hein? – eu disse sorrindo.
Lúcia sorriu e virou o rosto para a porta. entrava.
— Falando nele… – ela sussurrou.
— Boa noite Lúcia. – disse .
— Boa noite. Como vai ?
— Bem. E você?
— Também.
Eu bebia meu suco de canudo, tranquila. Um silêncio entre nós três se instaurou e fui obrigada a olhá-los para saber o que acontecia. Lúcia olhava para mim, tímida, e também me encarava. Ele estava irritado. Revirei os olhos.
— Senta aí. – falei para ele.
— Temos que ir. – ele disse seco.
Olhei para Lúcia como se dissesse: “Viu? Eu não falei?”.
— Lúcia, passa lá na fazenda qualquer dia para nós conversarmos mais. Foi muito bacana. Obrigada pela oportunidade.
Eu disse me levantando e ela levantou-se também.
— Eu também gostei. E desculpe por ter evitado você… Foi um engano. Você é bem diferente do que eu pensava. – me abraçou despedindo-se e olhando para o disse: — Você não é nada fútil, .
— E você é uma pessoa adorável. Quer o meu número?
Perguntei animada e continuava carrancudo e de braços cruzados. Trocamos os números de celular, Lúcia e eu.
— Vamos, estressado! – eu disse para e quando eu ia andando ele puxou o meu braço.
— Cadê o Gabriel? – falou muito sério apertando meu braço.
— Está me machucando! Me solte! – falei baixo, mas enérgica o suficiente para ele saber que não aturo abusos como aquele.
Lúcia olhava para aquela cena de um jeito assustada e surpresa. As pessoas no bar também nos olhavam discretas.
— Cadê ele? – insistia.
— Não te devo satisfações da minha vida! – falei no mesmo tom que ele e saí irritada.
— Até mais Lúcia. Se cuida. – o ouvi dizer para ela despedindo-se.
Caminhei até o carro pisando fundo e ele veio atrás. Quando eu ia abrir a porta ele surgiu atrás de mim a fechando, e me virando de frente para ele, prendeu-me entre a porta do carro e ele.
— O que vocês fizeram? – ele perguntava irritado.
— Cale esta boca e entre no carro! – eu gritei e antes que ele contestasse falei em tom baixo, decisiva, o olhando: — Estão todos olhando para nós!
Os clientes do bar, todos estavam nas portas olhando a nossa briga. Lúcia estava na calçada assustada. deu meia-volta, envergonhado, e entrou no carro. Olhei Lúcia de longe e sorri. Todos olhavam pasmes.
Entrei no carro e esperei ele se afastar do centro da pequena cidade para soltar os cães farejadores em cima dele!
— Você está louco?
— O que você estava fazendo? Por que ficou até mais tarde com o Gabriel na delegacia?
— Eu não te devo satisfações!
Gritávamos um com o outro e ambos estavam muito bravos. Eu queria chorar e socá-lo.
— Você… Eu só espero que você tenha consciência e não apareça…
— Cale-se ! Não termine a frase! – gritei interrompendo-o.
Eu contei até dez e realmente esperava que ele não estivesse insinuando o que eu estava pensando!
— Para esse carro! – eu falei alterada.
— Não.
— PARA AGORA ESTE CARRO! – eu gritei.
Ele parou o carro e eu desci. A estrada estava escura. Eu fiquei andando de um lado para o outro na frente dos faróis, raivosa. Ele me olhava assustado. Eu andava, sacudia os cabelos, olhava a cara de idiota dele dentro do carro e gritava para ele.
Acho que ele pensou que eu havia surtado, porque desceu assustado e veio até mim. Eu estava somente me extravasando, para não o matar. Ele chegou por trás de mim e quando ia me segurar eu dei um soco no rosto dele.
Ele não acreditava no que eu fiz, e eu me sentia muito melhor. me segurou pelos braços, com sangue nos olhos. Mais do que descontrolado. Pensei que ele revidaria, mas ele apertou meus braços e gritou:
— QUAL O SEU PROBLEMA, SUA LOUCA?
— VOCÊ! – gritei de volta.
Os olhos dele eram olhos de leão faminto, pronto a estraçalhar a presa.
— E o meu problema é você! – disse e me beijou.
Jogou meu corpo na frente do carro e pressionou o corpo dele contra o meu. Segurava minha nuca com uma pressão tão forte que fiquei tonta. Enquanto a outra mão passava por baixo da minha blusa, apertando forte minha cintura. Outro beijo. Outro beijo avassalador. Outro beijo que não deveria acontecer.
Quando nos separamos, estávamos sem fôlego. Arfávamos e de olhos fechados eu recuperava o ar. Ao abrir meus olhos avistei um descontrolado à minha frente. Demos as costas um para o outro entrando cada um por uma porta e retornando aos nossos lugares.
Ele deu partida. Seguimos uma grande parte do trajeto, calados. Eu olhava para a floresta escura que passava rápida e desfocada pela janela. Às vezes nos olhávamos e eu fazia questão de demonstrar que ainda queria matá-lo. Quando estávamos quase chegando ele decidiu quebrar o silêncio.
— Minha mãe nos viu hoje de manhã.
— Eu sei.
— Isso explica o seu comportamento estranho.
— Quando ela te disse?
— Agora à tarde. Depois que eu te liguei.
— Provavelmente depois de ter dado um chilique quando desligou na minha cara.
— Sim. – ele respondeu sem dar-se conta que afirmava ter dado um chilique.
— O que ela te disse?
— Nada que seja verdade.
— E o que você disse a ela?
— Não é da sua conta.
— Preciso saber. Para não cair em contradição, seu babaca!
— Ela quer conversar com você?
— Lógico! Ela deve estar pensando que eu sou uma depravada que tentou atacar o filho estúpido.
— Não acho que ela pense isso.
— Nada do que você acha é certo. – eu disse e ele me olhou contrariado.
— Eu disse que foi um colapso meu. E que era a primeira vez que isso acontecia.
.
— O que vai dizer a ela?
— Não é da sua conta.
Ele me olhou bravo e já entrávamos na fazenda. Desci do carro, fui para casa e ele foi em direção à porteira fechá-la.
— Olá querida! Demorou hoje! – ela disse.
— Olá tia! Fiquei conversando com a Lúcia depois do expediente. – surgiu atrás de mim assim que eu disse.
— Ah que maravilha, Lúcia é uma boa moça!
— Vou tomar um banho, titia.
— E desça para jantar!
— Não tia, obrigada. Estou sem fome.
Ela me olhou curiosa e depois olhou para o filho.
Quando cheguei ao corredor, vi deitada em sua cama brincando com as bonecas.
— Ei. Joaninha? – eu falei sorrindo na porta do quarto dela.
A pequena veio correndo para mim e me abraçou forte. Disse que sentiu minha falta no dia anterior porque eu estava triste e fiquei sozinha. Ela me perguntou o que eu tinha. Não expliquei exatamente. Dei uma desculpa qualquer. Ficamos conversando um tempo, até que o jantar ficou pronto e ela desceu. Só então eu fui tomar banho.
Depois do banho eu lia um livro na minha cama. subiu pouco depois do jantar e veio me dar boa noite. Ela chamou o pai para niná-la e titia veio até o meu quarto.
— Olá querida. – ela disse sorridente com um prato de sanduíche e suco em mãos: — Trouxe para você. Não é bom ficar sem comer.
— Ah tia obrigada. Não precisava se incomodar, eu mesmo descia e comia se tivesse fome.
— O que está acontecendo entre você e ele? – titia foi direto ao assunto.
— Foi a primeira vez que isso aconteceu. E eu não sei o que deu nele… Nem em mim.
Eu contaria toda a verdade para titia se ela não tivesse conversado com o filho sobre aquilo. Eu não queria contradizer o que ele havia dito. Era melhor assim, para não piorar as coisas.
— Estranho… Eu desconfiava que já viesse acontecendo há algum tempo.
— Como?
— Vocês oscilam muito. Uma hora brigam como cão e gato. Noutra apenas se ignoram e às vezes se dão bem. Eu achei que já tinha acontecido algum acidente como aquele, antes.
— Não tia. Foi só hoje e não vai acontecer mais.
— E como você está se sentindo com isso?
— Assustada.
— O que sentiu quando ele ia beijá-la?
— Medo.
— Hum… Bem, vou deixá-la comer. Descanse querida. E se acontecer de novo , deixe rolar, novas experiências podem ser boas. Assim vocês saem da rotina. – ela disse sorrindo e piscou.
Coitada da titia! Me senti mal. Mal sabe ela! Ou talvez saiba. Ela é tão esperta.
Ela saiu e eu comi o lanche. Voltei ao meu livro e acabei adormecendo. Acordei um pouco depois sentindo alguém me cobrir. Era .
— Só estava lhe cobrindo. – ele respondeu prontamente diante do meu flagrante.
— Obrigada. – eu disse sentando na cama.
— Como foi com mamãe?
— Falei o mesmo que você, mas sua mãe é esperta.
— E como.
Ficamos nos olhando e então eu suspirei fundo.
— Boa noite. – eu disse.
me desculpe!
— Estou cansando de ter que ouvir suas ofensas e te desculpar depois!
Ele se sentou ao meu lado, na minha cama e fiquei desconfortável com aquilo. Apoiou os braços nos joelhos e o rosto nas mãos.
— Eu sei. – recompôs-se ao me olhar — Mas é difícil controlar. Você… Depois de tanto tempo sozinho você surge para me irritar.
Lembrei então, da conversa com Lúcia.
— Não surgi para te irritar.
— Também sei disso.
— Eu nem sabia que você existia quando cheguei aqui.
— Como é?
Ele pareceu se encher de curiosidade e esperança.
— Titia não me contou que tinha um filho. Deixou para contar quando eu cheguei. Certamente porque sabia que eu não viria se soubesse do chato que você é!
— Você me garante que isso é verdade?
— Por que eu mentiria sobre algo tão desimportante?
— Talvez, eu comece a acreditar em você agora.
— Tanto faz. Já não faz a menor diferença.
— Faz sim! Muita diferença! – ele sorria acanhado — Eu ouvi você dizer que estava com a Lúcia.
— Você viu isso.
— Mas achei que havia ficado com o Gabriel depois do expediente.
— E se tivesse ficado, o que você tem com isso?
— Por que você não fica logo com ele? Ele gosta de você.
— Não sei se gosto o suficiente dele.
— Mas vocês têm saído juntos. E eu sei que vocês têm se beijado! – ele já estava alterado.
— Eu moro com você e temos nos beijado e nem por isso vamos ficar juntos.
— Você é impossível... Desculpe pelo modo como eu agi.
— Vai ser sempre assim ?
Eu disse me levantando da cama e o olhando já nervosa.
— Não. É que é difícil te aceitar.
— Por quê?
— O que você quer que eu faça?
— Pare de oscilar. Escolha uma personalidade só! Eu estou cansada de chorar por sua causa para depois você vir todo arrependido e eu dizer “tudo bem”!
— Chorar por minha causa? – ele disse se aproximando e sorrindo sacana.
— Acha que eu gosto de ser maltratada? – falei séria.
— Eu posso recompensá-la… – ele dizia com outra tentativa de me beijar.
Soltei-me dos braços dele.
— Não sou assim! Você não vai mais encostar em mim com o propósito de tirar sua culpa! Jogue limpo!
— Jogar limpo? Então tá! Comece você!
— Tenho feito isso desde que cheguei aqui!
— É mesmo? Então me fale o que sente pelo Gabriel!
— Não o amo. Não estou apaixonada por ele, mas ele é incrível. Tem me apoiado, me ajudado e como você mesmo diz, ele gosta de mim! Estou conhecendo a cada dia e gostando da pessoa digna que ele é. Por isso, tenho pensado em dar uma chance a ele.
Ficamos em silêncio nos encarando.
— Não vejo onde isso seja da sua conta, mas é isso! E você? Me diz agora porque me odeia tanto!
— Eu já disse que não nutro…
— Sentimentos fortes por mim! Eu sei! Diz então porque eu o incomodo tanto!
— Porque você finge que não sabe dos planos da minha mãe. Acho impossível isso! Quer dizer… – ele se sentou em minha cama, mais calmo:
— Até você dizer que só soube de mim quando chegou…
, sua mãe não falou nada sobre a fazenda e sua família quando esteve comigo. Só fiquei sabendo de vocês quando cheguei.
Eu disse sentando-me ao lado dele, e aos poucos acalmando os nervos.
— Que planos são esses?
— Mamãe nos contou que o irmão dela morreu e que ele tinha uma filha adotiva. Falou de você. Depois de um tempo ela nos disse que você viria para cá. Eu não me importei, porque ela falava muito da consideração que tem por você, até começar a tramar ideias descabidas.
— Que ideias? – comecei a prever o assunto, mas não queria acreditar.
— Ela me disse que você poderia ser a mulher que me faria feliz de novo...
Ele começava a deixar algumas lágrimas caírem:
— Você já deve saber da Bruna, não é?
— Ela me contou.
— Nunca mais tive relacionamento algum. E ela cismou que iríamos nos apaixonar. Enfiou ideias na cabeça de e… Por isso eu resisti tanto.
… – eu não sabia o que dizer — Eu nunca soube de nada disso e não quero ocupar o espaço que foi da Bruna. Eu…
— E aquela história de ser mãe da ?
— Amo a sua filha! É impossível não a amar e criei um laço forte com ela. me faz pensar em que tipo de mãe eu seria… E imaginei que eu poderia ser a mãe dela, assim você não teria como me afastar dela. Você sempre disse que faria isso. Não quero ficar longe da sua filha. Eu nunca quis.
— Quer dizer que só não quer que eu te afaste da ? E você seria a mãe dela?
— Mas também nunca quis ser a mãe dela, no modo literal. Eu só queria poder ficar perto, como uma figura feminina. precisa de alguém para sentir o que uma mãe faria. Eu preciso dela. E ela de mim.
— Infelizmente ela tem mãe viva , não confunda as coisas.
— Eu sei. E já desconsiderei a hipótese… Me contento em ser a fada madrinha de , toda menina precisa de uma.
— Tudo isso… Só pela ? Mesmo?
— Por quem mais eu suportaria tudo isso que você tem me feito passar? Ele se silenciou e novamente estávamos ambos calados nos encarando.
— Valeu para você me evitar todo este tempo para que o plano da sua mãe não se cumprisse? – perguntei curiosa.
— Acho melhor dormirmos. Amanhã conversamos mais. Boa noite.
se levantou beijando minha testa e saiu.


Capítulo 11 - Descobertos os Planos de Titia

No dia seguinte acordei para auxiliar nas tarefas, antes de ir ao trabalho. A conversa que tivemos na noite anterior fora um alívio para ambos, mas não havia acabado. Levantei-me decidida a conversar com titia e esclarecer de uma vez por todas, aquele engano. Conversaria com também, obviamente as informações que ele me passara poderiam mudar totalmente o rumo de tudo. Desci com a minha roupinha surrada de trabalhos na fazenda, e titia já estava de pé frente ao fogão coando o café. sentado à mesa. Apoiei a mão em seu ombro desejando-lhe bom dia sem notar o que eu havia feito. Ele olhou para mim sorrindo e retribuindo o cumprimento. Titia não havia visto nossa ação surpreendente, e eu me sentei ao lado dele. Foi automático! Até porque aquele lugar cativo à mesa, já se tornara um costume.
— Bom dia, tia. Dormiu bem?
— Sim querida, e você? Deve estar faminta, já que não jantaste ontem, não é mesmo?
— Até que não.
Ela sorriu, serviu a mesa e ao se unir a nós dois no café da manhã, apenas nos observava calada.
, me passe o queijo, por favor. – pronunciara sem encarar qualquer uma de nós duas.
Passei para ele a queijeira o olhando, na expectativa de que o mesmo notasse o silêncio de sua mãe. Titia apenas nos encarava com um meio sorriso. Eu bebia meu café a observando. E faminto continuava a atacar os quitutes da mesa. Pigarreei e cutucando seu braço por baixo da mesa o olhei de lado, a fim de que notasse que algo estava fora do lugar. Ele me encarou e em seguida olhou para sua mãe:
— Mãe, algum problema?
— Bem meninos, aproveitando que estamos sós no café, é hora de uma conversa.
— Mamãe, por favor, não é melhor deixar isto para depois? Não queremos perder o apetite. Temos muito o que trabalhar não é, ? – ele disse para mim, tranquilo.
fugiria daquele assunto o máximo que pudesse. Eu já sabia disso. Sorri para ele e encarei titia sem saber o que dizer.
A senhora mais do que prontamente foi falando:
— Ninguém perderá apetite nenhum! Esta casa está sempre movimentada e depois que o dia de vocês começa, não consigo conversar com os dois. Eu tenho coisas a serem ditas, e espero que ambos ouçam e falem também!
me encarou um pouco duvidoso pela atitude da mãe.
— Tudo bem… Não temos alternativa! Depois que ela cisma, , só há que aguentar.
— Eu não vejo problema algum. Sobre o que quer conversar, titia?
— Sobre vocês dois.
— Nós dois? – resmungou indiferente como se não soubesse o que a mãe teria a dizer.
— Desde quando vocês estão se agarrando pelos cantos da casa?
Ambos engasgamos. Olhei para titia surpresa e chocada, enquanto estava envergonhado. Parecíamos dois adolescentes. Eu não imaginava que titia seria tão direta.
— Olha só! Parecem dois adolescentes! – titia ralhava como se tivéssemos cometido o maior pecado do mundo: — Até quando ficarão nesta brincadeirinha de crianças?
— Mãe… e eu não temos nada.
— Eu já havia dito isto à senhora, titia.
— Os fatos são, que outro dia peguei os dois quase se beijando na varanda. E ao perguntar ouvi as mesmas palavras dos dois lados, como se houvessem combinado um discurso. Meus queridos, eu tenho cinquenta e três anos. Não sou nenhuma moçoila, eu sei muito bem identificar quando alguma coisa do tipo está ocorrendo.
pareceu irritado com aquela conversa.
— Tudo bem mãe, é para falar, não é? Para jogar limpo! Então, me explique por que a senhora disse que seria a mulher ideal para mim, encheu a cabeça de de baboseiras, insistiu em plantar uma relação fantasiosa entre nós, se nem mesmo a sabia dos teus planos?
olhava sério para a mãe, e havia largado seu café de lado. Na verdade, todos deixamos de comer em virtude da conversa. Eu me mantive calada.
passava por momentos difíceis quando a convidei para vir para cá. E ainda passa! Eu vi a solidão dela, assim como a sua e imediatamente soube que vocês seriam perfeitos um para o outro! Mas não posso forçar ninguém a se apaixonar. Conversei com você meu filho, pois cabia a mim falar com você sobre isto. Para que você se abrisse à oportunidade, acolhesse ela e tentasse adotar um recomeço para os dois. Eu não poderia despejar estas esperanças na , que acabava de chegar em terra estrangeira, sem conhecer ninguém e passando por tudo o que passou.
— Mãe, sei que a senhora quer que eu fique bem, mas não se meta em minhas relações.
— Que relações?! Desde que aquela maldita mulher saiu desta casa que a sua vida se foi junto a ela! não merece isso! E nem você meu filho!
Titia dizia alterada. , vermelho de ódio, abaixou a cabeça em respeito à mãe.
— Titia… Entendo que a senhora quis ajudar. Mas, causou um mal-entendido enorme entre nós. Toda a hostilidade que obtive de era fruto deste seu plano, o qual eu não fazia ideia! Apenas ontem, que ele e eu tivemos a oportunidade de falar sobre isso.
— Não entendo! Eu achei que gostasse de você pela forma que ele tentava te afastar. Por medo.
— Eu gosto da , mãe!
Ele disse um pouco mais alterado, e em seguida não somente a mãe o encarava confusa como eu também.
— Olha só… ... Eu não tenho mais nada contra a sua pessoa, pelo contrário! Agora que sei que você não é uma aproveitadora, eu até devo desculpas. Eu gosto de você, e as pessoas comprovam cada vez mais que você é realmente uma boa mulher. E após nossas últimas conversas e experiências, eu pude notar isso. Mas, por causa deste seu plano incabível, mamãe...
Ele agora olhava para titia:
— Eu acabei criando uma barreira para que e eu desenvolvêssemos qualquer relação de amizade que fosse. Eu me importo com , e o jeito como a senhora levou as coisas, não é saudável à minha filha, não é correto para nós. Mamãe, a senhora forçou uma situação que não era responsabilidade sua.
Titia abaixou a cabeça contrariada assim como o filho fazia constantemente.
— Tia Cora, eu entendo que a senhora quer ver o seu filho feliz, que ele encontre alguém e eu realmente acho que deva encontrar. é um cara incrível, quando não está sendo um ogro.... – eu sorri o olhando de lado: — É bonito, inteligente e excelente pai. Mas, ele está certo. A senhora não pode controlar por quem ele se apaixona ou não. Sei que a Bruna nunca foi o tipo de nora que a senhora desejou e que tem medo de que um dia ele se apaixone pela pessoa errada de novo.
olhou para mim com dúvida, como se descobrisse que eu sabia mais da história dele e de Bruna, do que o mesmo imaginava. E era real.
— Mas titia, só cabe a ele decidir o momento em que deve se abrir para novas paixões ou não. Eu entendo as preocupações dele com também.
Eu o encarei amigável a fim de deixar claro, que eu achava pertinente suas preocupações com a filha.
, olha como você é ótima! te ama, foi instantâneo e eu sabia que seria assim! Rosa, Marcelo, todos adoram você! E , meu filho não adianta esconder, pois te conheço e já conversamos sobre isso: mexe com você! Vocês podem negar isto o quanto for, mas a verdade é que ambos são atraídos um pelo outro. E também é verdade que o vai se manter escondido no celeiro e afundado nesta fazenda até casar e nunca mais será feliz! Eu fui praticamente obrigada a trazer uma mulher para esta casa!
Ambos ríamos do desespero de titia.
— Mãe… – riu demonstrando-se um pouco mais calmo — Eu vou encontrar alguém. Tudo tem o seu tempo. Eu não desisti de um dia me envolver com alguém e não é minha prioridade caçar mulheres por aí agora! também é muito nova para eu trazer uma namorada e expor minha filha a isto.
— Se o problema é este então saiba que você está errado meu filho! está perdendo os seus melhores anos de infância e desenvolvimento sem uma mãe! Isto é notório pela forma como ela recebeu ! E quanto mais você evitar “expor” a menina a isso, mais ela se acostumará a um pai solitário. E quando encontrar alguém, pode ser que ela não aceite.
— Neste caso, , sua mãe está certa. Com todo respeito, mas eu te disse que precisa de uma mãe. Toda criança precisa, e uma menina, tem necessidades específicas entende? Não que eu seja contra a família moderna, pai e pai, mãe e mãe, se este for o caso. Acredito que toda criança pode ser educada a qualquer forma de amor.
— Não tenho nada contra, mas somos uma família tradicional, . Eu não sou gay, se é o que você pensa.
disse com um sorriso sacana. Um sorriso zombeteiro que dizia “você sabe que eu gosto de mulher”.
— Eu sei disso, idiota. – sussurrei envergonhada.
— Nunca achei que a falta de uma mulher seria um problema. Você e Rosa sempre estiveram presentes, mamãe.
— Não somos mães da . E por mais que o demônio da mãe dela esteja vivo, é como se não estivesse! Ela precisa de uma figura maternal de verdade. Assim como inúmeras vezes ela já demonstrou a nós que isto a incomoda.
— Certo… Entendi. Irei me abrir a novos sentimentos e novas pessoas, pela . Não é isso o que você quer?
— Não meu filho! Por você também! Você merece ser feliz com outra pessoa, pelo amor de Deus.
— Mamãe isto não me incomoda!
— Sabemos que não é bem assim!
— Mamãe, quando foi que eu…
Titia o interrompeu enérgica:
! Eu sinto falta de ver uma linda mulher andando pela casa de toalha, enrolada nas suas camisas, sinto falta de saber que debaixo deste teto há um jovem e viril homem quebrando tudo naquele quarto!
Titia exclamou alterada. Até mais do que esperávamos. Eu não pude conter minha gargalhada, e assustado com a mãe, me acompanhou gerando um efeito dominó. Após nos acalmarmos ele disse:
— Então problema resolvido. andará de toalha pela casa, deixarei umas camisas minhas com ela e a senhora ficará satisfeita.
Continuamos rindo, e titia maleficamente fez piada com o comentário:
— Se isto ajudar a fazer com que vocês dois quebrem a sua cama, eu não me importo.
Exclamamos juntos, e eu:
— Mãe!
— Titia!
Ela sorriu sacana, enquanto estávamos envergonhados.
— Ora vamos! Eu sei que vocês dois já andaram se agarrando, eu não nasci ontem!
— Mãe, a senhora está mais incomodada com nossa a situação amorosa do que nós mesmos.
— Então tem uma situação amorosa?
— Não. O que eu quis dizer é a vida de e a minha, separados.
, filha, você não acha que está na hora de se abrir para uma nova relação também?
— Acho titia, e é por isto que eu decidi conversar sobre isso com o Gabriel.
— Gabriel? Como assim? Eu achei que isso não daria em nada! ?
— Mãe, eu não tenho nada a ver com os romances dela. E a senhora está passando dos limites, não é mesmo?
— Desculpe querida.
— Tudo bem titia, sei do seu fã clube pelo seu filho. Mas, o que a senhora tem contra o Gabriel?
— Nada. Ele é um bom rapaz. Se é ele quem você escolheu, então…
Titia disse contrariada e levantando-se da mesa com cara de choro pegou sua caneca de café e pediu licença retirando-se:
— Bom, meninos, me desculpem a invasão à vida pessoal de vocês. Eu vou me concentrar em resolver a minha vida.
Ficamos em silêncio observando titia se retirar da cozinha, ria e eu estava um pouco preocupada com a reação dela.
— Relaxe… Isto é drama da minha mãe, não caia nessa.
me olhou sorrindo.
— Vamos terminar logo este café, porque já estamos atrasados.
— Como você consegue comer após esta conversa?
— Estou com fome. E se eu fosse você comeria também, não jantou ontem, e vai encarar um longo dia. – dizia partindo uma fatia de bolo, servindo café com leite na minha caneca e me entregando: — Vamos, digere a conversa junto com o café.
O olhei ainda confusa com tudo aquilo, e comi. Logo saímos para tratar dos animais. Enquanto seguíamos pela porta da frente, o telefone tocou, e foi atendê-lo:

Alô? Bom dia… Tudo bem e com você? Ela está aqui sim, só um momento. Não, tudo bem, não foi incômodo não. Até mais.

Estendeu-me o aparelho. Não pude imaginar quem estaria me telefonando às seis da manhã, ainda mais ouvindo falar tão cordialmente e bem-humorado com a pessoa.

— Sim?
? Bom dia, é o Gabriel. Tudo bem?
— Oi Gabriel! –
aí mesmo que não entendi o modo como o tratou.
— Estou a caminho da cidade vizinha e não precisa vir à delegacia hoje, tudo bem? Aliás, gostaria de conversar depois sobre seus horários. Haverá umas modificações, não no seu salário, mas apenas nos dias de semana. Tudo bem?
— Tudo bem, mas aconteceu alguma coisa?
— Te explicarei melhor depois querida, e assim que eu voltar podemos almoçar juntos? Estou com saudades desde a viagem.
— Mas é claro! Boa viagem, tenha cuidado.

Coloquei o aparelho ao gancho e olhei para que calçava suas botinas à porta, um pouco confusa.
— O que houve?
— Fui dispensada do trabalho hoje.
— Fez besteira, é? – ele disse sorrindo, enquanto seguíamos casarão afora.
— Não, idiota. Ele está trabalhando em outro município.
— Hum…
— Mas escute, o que foi este diálogo?
— Achei que tinha entendido a minha mãe. – ele me olhou confuso.
— Estou falando de você ao telefone com Gabriel, tem sido tão hostil com ele.
— Bem… Esta história toda da minha mãe estava me deixando um pouco, ranzinza demais. Desculpe por ter sido desaforado com o seu namorado também.
— Ele não é meu namorado, e você sabe disso.
— Por enquanto, pelo que parece. Não é mesmo?
Ele me encarou desafiador.
— Bem, acho que deveríamos ter nos confrontado os três, há mais tempo. Sinto um muito mais agradável a caminho.
— Pode ser que sim, mas não se acostume delegadinha.
— Babaca… – sussurrei e sorri — Escute, algo me diz que esta história com tia Cora, ainda não acabou.
— Pode ter certeza disto! Ela não vai parar enquanto não tiver certeza que há alguma chance.
— Então precisamos deixar claro para ela, que não há mesmo.
parou à minha frente me encarando sorrindo e disse próximo a mim:
— E será que podemos garantir isso? – sorriu próximo ao meu rosto, deu as costas e seguiu à frente: — Já que não vai trabalhar hoje, nós podemos fazer tudo com calma.
Seguiu andando em minha frente, com uma reação e postura muito diferente do habitual. Eu não entendia o que estava acontecendo, mas algo dizia que aquele diálogo despertou um homem que eu não conhecia, tão imprevisível quanto o outro. Ousaria dizer inclusive que aceitaria as ideias da titia, apenas para atrapalhar qualquer relação entre Gabriel e eu. Ou talvez fosse apenas meu subconsciente torcendo por aquilo. Previ que ficaria ainda mais confusa. Novas situações surgiriam a caminho, e eu não sabia se estaria preparada para aquilo.
Após tratarmos de todos os animais na fazenda, deixando as vacas por último saíamos do curral e nos direcionamos ao tanque na área externa. Lavamos as mãos, e aproveitei para lavar o rosto. Eu me secava com a larga blusa velha, olhava para mim enquanto ainda se refrescava no tanque. Só após notar que ele olhava demais em minha direção, percebi que ao levantar a blusa para secar o rosto, minha barriga e parte do sutiã ficavam à mostra. retirou sua camisa pendurando-a no ombro.
— Vamos. – eu disse me virando e abaixando a blusa novamente.
Enquanto andávamos de volta para casa, escutei um relinchar muito diferente do relinchar comum dos cavalos.
— Tem algo errado com algum cavalo. – eu disse olhando para trás, a fim de avisar .
Ele já havia notado também, e olhando em direção à cerca que se aproxima do riacho saiu me chamando para acompanhá-lo. Corremos até lá e ao chegar, nos deparamos com um dos potros preso pelo arame da cerca, quase atolando em um buraco. Nos aproximamos do animal nervoso, e a mãe do outro lado da margem também tentava se aproximar do filhote.
, solte a crina dele do arame enquanto eu o seguro para ele não cair no buraco e nem nos dar nenhum coice. E fique alerta com a égua, se ela vier em nossa direção me avise.
Fiz o que pedia, e ao soltar a crina embaraçada do animal no arame, pode segurá-lo e o empurrar ajudando a atravessar o riacho. A égua descia em nossa direção e ao chegar de encontro ao filhote, parou de relinchar empurrando-o como se indicasse o caminho.
— Que lindo. – disse admirado com os animais que saíam: — Não é impressionante como a mãe protege o animal e…
Antes de terminar de falar, olhou para mim confuso com a cena que via: eu tentando me desprender da cerca.
— Que diabos você está fazendo aí?
— Minha blusa prendeu quando passei por baixo do arame para soltar o potro, estou tentando sair sem me machucar.
— Como você consegue… – e gargalhava — Fique quieta, eu te tiro daí.
Ele já ia saindo de dentro do riacho para vir ao meu lado me ajudar, mas eu gritei grosseiramente antes dele se aproximar:
— Não precisa! Você rasgará minha blusa ou vai acabar, me machucando! Eu me viro.
— Tudo bem então!
Ele riu aparentemente irritado, saindo do riacho pegou sua blusa ao chão e jogando-a pelo ombro voltou a me espionar. Perdendo a paciência com aquela situação, e confesso, envergonhada de tirando um sarro da minha cara, eu simplesmente desisti e saí debaixo da cerca de qualquer jeito. Ouviu-se o rasgar do algodão e a camiseta ficou presa no arame. não pronunciou a gargalhada que eu esperava, apenas balançou a cabeça negativamente. E eu que não queria me machucar, lá estava cheia de arranhões que ardiam.
— Eu não teria rasgado a blusa, e ainda teria tirado você de lá vestida.
Pronunciou enquanto caminhávamos de volta para o casarão e eu irritada remexia a blusa picotada em minhas mãos.
— E ainda se arranhou inteira!
Fomos andando um longo tempo sem falar muito. Decidi deixar a blusa de lado, e voltar da forma como estava: de sutiã. Enquanto voltávamos, encarava-me de cima a baixo, e aquilo já estava me incomodando. Eu tinha uma vontade louca de ficar lá encarando aquele abdômen perfeito dele, e nem por isso eu o estava fazendo.
— Perdeu alguma coisa em mim, ? – perguntei seca.
— Estava pensando aqui, que você vai precisar de um novo uniforme.
— E daí?
— Este modelo que está usando é perfeito. Excitante para o trabalho.
Falou seco também, e eu o olhei enojada pela piada machista.
— Ah, cala essa boca. Era só o que me faltava!
— A culpa é sua. Quem manda ficar andado sem camisa?
— Não estou te obrigando a olhar nada, seu machista idiota.
Continuamos o caminho e sorria vez ou outra, disfarçadamente afastando seus pensamentos. Quais, eu não gostaria de saber. Antes de chegar ao casarão me recordei de algo:
— Merda, ! Se nós chegarmos assim na casa o que a sua mãe vai pensar?
— Que eu estava quebrando o celeiro. – ele disse rindo.
— Estou falando sério. Toma. Joga fora minha camisa e dê a sua para eu vestir.
Estendi meu trapo de blusa a ele, e puxei a sua em seu ombro. Parei em sua frente para vestir e enquanto ele me observava, o mesmo pronunciou:
— Não acho que vai ser melhor eu dar fim à sua roupa e você chegar dentro das minhas. Vai realmente parecer que eu arranquei tua roupa. Inclusive seu sutiã. – ele riu e mordeu os lábios numa tentativa de me provocar.
— Dá aqui minha blusa, é mais fácil explicar o contrário mesmo!
Peguei minha blusa de suas mãos, e assim que tirei a camisa dele o devolvi:
— Trate de se vestir, é mais fácil ela acreditar em mim se apenas um de nós chegar descamisado.
Ele pendurou a blusa em seu ombro alegando que quando estivéssemos chegando à varanda ele a vestiria. E eu deveria desconfiar que não dava para acreditar nele.
— O que vocês estavam fazendo por este matagal? – titia perguntou no instante em que nos viu chegar daquele jeito.
— Cuidando dos animais. – ele disse.
— Que animais? – titia falou rindo para nós: — Claro, vocês vão me dizer agora que a se acidentou e perdeu a roupa no caminho e você por solidariedade tirou sua camisa também. E só estão suados assim, pelo calor enorme desta manhã nublada.
— Não vai adiantar contar a verdade titia, a senhora pelo visto não vai acreditar.
Eu disse encarando extremamente irritada por ele não ter ajudado.
— Vamos para o banho . Nossa manhã ainda não acabou, você vai trabalhar comigo hoje.
Titia estava cada vez mais curiosa, e esperançosa de nós dois. Eu também estava curiosa com aquela nova história de “vai trabalhar comigo hoje”.
— Cuidado para não os ver saindo do banheiro, porque ela ainda está lá em cima e esta conversa com ela ainda pode esperar! – disse titia, me deixando mais vermelha do que um tomate.
embora impaciente parecia se divertir com aquilo tudo.
— Tudo bem mãe, vamos utilizar o banheiro do meu quarto. E qualquer coisa é só contar para a que os bebês vem do repolho.
— Deixa de ser babaca, . Pare de gracinhas!
— Concordo com a filho, quando perguntar temos que arrumar uma forma de contar a verdade para ela! – titia olhou o filho que subia as escadas, piscou e sorriu.
balançou negativamente a cabeça sorrindo, e eu saí a passos fundos subindo as escadas à sua frente, irritada com a brincadeira de ambos. Pelo que eu podia notar, tia Cora manteria aquele tipo de comentário dali por diante. E pior, sem pudor e limites. Eu teria que tomar o dobro de cuidado, já que o próprio não fazia questão de repreender a mãe. Eu estava realmente indômita com a forma como estava lidando com tudo. Entrei em meu quarto, agitada. E voltando a recordar a fala de , me encaminhei ao seu quarto.
?
— Olha, o lance do meu banheiro era brincadeira, . – ele estava surpreso.
— Jura? Poxa que pena… – fiz cara triste.
— O que? – disse ele de olhos arregalados.
— Babaca. Eu vim para saber que tipo de roupa eu tenho que vestir. Como assim irei ao seu trabalho?
— Pode ir arrumadinha. É uma reunião numa fazenda importante. Vou te levar para você conhecer e por que… Eu preciso de uma secretária para causar boa impressão.
— Lógico, é óbvio que teriam interesses ocultos na sua boa vontade. Eu não vou.
— Deixa de ser boba. É uma forma de você aproveitar o seu dia de folga.
Me virei indo em direção ao meu quarto e encontrando titia envergonhada. Ela pediu desculpas por seu comportamento e procurou entender o que havia acontecido com a minha rotina.
— Por que não vai ao trabalho hoje?
— Gabriel telefonou pela manhã, me avisando de uma folga de última hora.
— Em todo caso você vai gostar desta fazenda onde vai! É uma das mais lindas da região, e está deslumbrante pela chance de fechar um contrato! Tomara que dê certo, o dono é muito tradicionalista! Não tem uma boa fama, e depois de muito tempo só conseguiu chegar até ele, por causa de seu excelente trabalho nas redondezas que tem sido repassado. O Coronel Abreu Nolasco é um pouco descrente do potencial de um engenheiro jovem.
— Vai dar tudo certo. Ele disse para eu ir arrumadinha. O que é arrumadinha para o seu filho?
— Bem, eu não sei.
Titia falou pensativa, e enquanto eu pegava uma roupa provável, e colocava sobre a cama, titia gritou o filho pelo corredor:
! Venha ao quarto de , por favor.
Obviamente ele entrou em meu quarto precocemente nervoso pelo chamado de sua mãe até ali. Mostrei a ele a roupa que havia separado.
— Isto é arrumadinha para você?
— Calça jeans e blusa social? – olhou crítico — Você tem algum vestido mais formal?
— Tenho. – peguei meu vestido preto com decote discreto, mas sensual, cintura bem marcada e justo ao corpo.
— Vista e depois vemos como ficará.
— Desde quando você é estilista de moda? – zombei sorrindo.
— Não quero uma mulher de sutiã, ou camiseta rasgada chegando ao meu lado, só isso.
Assim que terminou de falar, deu-nos as costas e saiu. Titia sorria das nossas rinchas. Ela também se afastou e eu fui ao banheiro para me arrumar. Após estar pronta, saí pela porta de meu quarto encontrando . Ele me olhou analisando e confirmou:
— Sim, está bom para uma secretária.
— Você realmente falava sério? É para fingir que sou a sua secretária?
— Não. Mas o coronel Abreu é um homem difícil, então se precisar te apresentar como tal, eu o farei.
— Posso saber por que você está me levando a uma reunião de trabalho tão delicada?
— Eu confio no meu trabalho. Realmente, apenas pensei em te dar uma chance de conhecer a rotina de outras fazendas… Mais um passeio mesmo… Não é como se eu precisasse de você, sinta-se à vontade para negar.
— Não, tudo bem. Eu vou. – sorri, embora ele parecesse indiferente.
— Papai? ? Onde vocês vão bonitos assim?
Nós sorrimos para a pequena , e explicou que eu trabalharia com ele naquele dia. Avisou-a que a pequena iria para a escola com sua tia Rosa. acatou e desceu as escadas. Fomos logo atrás dela, em direção à sala, onde titia parou o que fazia para nos observar calada.
— Mãe, nós já estamos indo. – beijou a testa da mãe.
— Vão com Deus. Dará tudo certo! – respondeu a ele confiante.
Titia abraçou-me e que já havia se encaminhado para fora da casa, deu um grito me chamando:
— Vamos secretária!
— Secretária? – disse em dúvida acompanhando a avó e eu, para a varanda do casarão.
será minha secretária hoje.
Assim que respondeu, deu pulinhos animada como se aquilo fosse a melhor notícia do mundo, todos três ríamos com a reação da pequena que mal sabia o que era uma secretária. E embora ríssemos de , logo após o comentário de titia, olhou sério para sua mãe direcionando-se ao carro:
— Então hoje você fará o papel de secretária?
Percebi a malícia na voz de titia e, envergonhada e surpresa por conhecer aquele lado sugestivo dela, eu dei um beijo em ignorando a fala da senhora assim como seu filho havia feito. Entramos no carro, girou a chave na ignição e observou sério à mãe e a filha de cochichos animados na varanda. Eu já fazia uma certa ideia do que elas comentavam, assim como também fazia ideia do motivo pelo qual ele estaria com o cenho franzido daquela forma. Ele deu partida com o carro e logo saímos da fazenda.
— Tudo bem? – perguntei.
— Viu a cara da minha filha ao sairmos?
— Sim. Estive pensando… Se você quiser, nós podemos conversar com . Esclarecer nosso ponto de vista assim como fizemos com a sua mãe.
— Não sei, às vezes acho melhor não tocar no assunto com ela. Mamãe é quem tem que parar de enfiar estas coisas na cabeça dela.
— Entendo. Confesso que também tenho medo pela confusão que informações demais podem causar na cabecinha dela.
— É! Afinal, ela logo vai perceber que as coisas que a avó diz não são reais.
Assim que terminou de dizer aquilo, ele olhou para mim sorrindo amigável.
— Bem… Fica muito longe esta tal fazenda? Sabe… Só para eu calcular quanto tempo levará até minha morte lenta.
— Uns quarenta minutos. Não é muito longe, fica na divisa dos municípios.
— Vou preparando meu psicológico.
— Você vai gostar! – disse animado — Esta é uma das fazendas de referência em tecnologia leiteira da região. E eu estou empolgado para conseguir o contrato! Além de uma excelente oportunidade de mostrar meu trabalho de aprimoramento agropecuário, também vou aprender muita coisa nova!
— Você ama o que faz, não é?
Perguntei olhando admirada para aquele apaixonado pelo que faz, e tão sincero em compartilhar sua empolgação. Comecei a pensar, inclusive, o quanto nós perdemos com as nossas brigas bobocas e encarei como uma trégua o fato dele estar ali, naquele momento, compartilhando comigo suas experiências. Ainda era um pouco difícil lidar com aquele convite. Eu ainda esperava alguma surpresa não tão agradável naquilo tudo. Todavia, ele não teria tido tempo de articular nenhuma ideia descabida para aprontar comigo. Suas atitudes se demonstraram espontâneas. Após ouvir as minhas palavras, ele sorriu como quem vagueia em recordações.
— Eu cresci aqui, . Passei minha infância trabalhando com meu pai e observando ele fazer nosso pequeno paraíso prosperar. Desde moleque eu sabia que aquela era a vida que eu sonhava.
— Você ainda é um moleque.
Ele me olhou sério, e até cheguei a me arrepender. Não queria perder aquele contato novo que surgia.
— E… Como foi quando seu pai faleceu?
— Não foi nada fácil. A fazenda viveu um momento ruim, e eu tive que amadurecer em muitos aspectos. E embora fosse imaturo com muita coisa, a fazenda sempre foi a minha menina dos olhos. É o reflexo do suor do meu pai, e em cada canto tem um pouco dele. Quando Bruna sonhava e dizia que ia embora daqui para ser modelo internacional, que seria muito famosa, e que eu poderia fazer sucesso como modelo junto a ela… – ele parou sua fala, ficou pensativo e brevemente silencioso — Era quando mais brigávamos. Eu não queria perder nem a ela, e nem a minha vida aqui. Tentei fazer Bruna abrir mão dos seus sonhos, mas não fui o suficiente para isso. Quando terminamos não foi nada fácil, mas pior ainda foi a descoberta da sua gravidez precoce.
— Como assim? Quando titia me contou… – dando conta do que eu estava a confessar, parei para pensar nas palavras.
— Eu já sei que minha mãe contou toda a história para você.
apenas me olhou como se consentisse que eu falasse qualquer coisa.
— Enfim… Deu a entender que você ficou radiante com a notícia, não imaginei que você também rejeitou a gravidez de Bruna.
— E não rejeitei. Fiquei feliz por saber que seria pai, e ainda mais feliz com a hipótese de Bruna ficar, mas ela foi muito enfática com a própria insatisfação e desprezo ao bebê. Então eu soube que aquela não era a mulher ideal para ficar ao meu lado. E por isto, a gravidez de Bruna não foi o momento de paternidade dos meus sonhos.
Depois de um tempo ouvindo os desabafos de , eu sorria involuntária enquanto olhava pela janela.
— Sabe… Se eu soubesse que seria gostoso assim ter uma amizade contigo, já teria colocado titia na berlinda.
Ele me olhou um pouco confuso, sorrindo de canto.
— Obrigada por compartilhar isso tudo. – agradeci.
— Ei! Não começa. Não é porque descobrimos que a culpa de tudo isso é da mamãe que vamos ser amiguinhos agora.
— Claro que não! – jocosa, sorri abertamente: — Outro dia andando de carro com titia tive uma sensação de reconhecimento antigo daqui, e sabe o que ela me contou?
— Óbvio que não.
— Ela disse que meus pais estiveram na fazenda logo que ela e seu pai se casaram, éramos apenas bebês.
— E você acha que se lembraria de algo que aconteceu quando você ainda usava fraldas?
— Lógico.
Nos entreolhamos desafiadores e após sorrimos discretos. Eu desviando o olhar para a paisagem, focando na estrada à sua frente, continuamos a pequena viagem. Estávamos bastante calados, mas aquele silêncio era diferente de qualquer outro. Um silêncio como aquele teria me feito feliz desde o momento em que cheguei na fazenda.


Capítulo 12 - A Mentira do Casamento

Tocar na playlist: (My Mind Is For Sale – Jack Johnson)


“Now, I heard the blinker's on. I heard we're changing lanes.
I heard we need more space. I heard that six or seven words are in
bad taste”.


A fazenda do coronel Abreu era realmente muito linda. Havia uma grande placa na entrada que dizia: “Fazenda Nolasco” e ao lado o brasão daquela família. E o casarão, majestoso. Estávamos na sala enorme, de frente ao coronel e sua esposa. A mulher muito sorridente e elegante, embora simples. E o coronel, típico fazendeiro de chapéu, botinas e paletó.
O coronel me olhou de cima a baixo e apontando sua esposa à nossa direção apresentou-a:
— Marta Nolasco, minha digníssima senhora!
Macedo, e é uma satisfação conhecê-la.
— A satisfação é toda nossa. – ela respondeu cortês, o cumprimentando.
Então repetindo o gesto do coronel, pousou a mão em minhas costas empurrando-me devagar na direção de ambos e nos apresentando.
— Esta é minha parceira... – me olhou confuso por não saber como me definir: — .
— Adorável senhora. – disse o coronel beijando minha mão: — Oras! Então vamos rapaz, temos muito a ver! As senhoras nos acompanharão?
— Eu adoraria poder conhecer a fazenda. – eu disse.
Senti que a educação daquela gente desfalcava, a presença feminina nos negócios, portanto, antes que o coronel ou sua esposa me convidasse à colher frutas no pomar, os adiantei sobre meu interesse em acompanhar .
— Será um prazer. – disse a esposa, dona Marta.
Seguimos os anfitriões porta afora do casarão. Antes de sairmos a senhora nos ofereceu alguma bebida. No entanto, tanto quanto eu estávamos ansiosos para ir direto aos objetivos daquela reunião, mesmo eu não tendo ainda a menor noção do porquê eu estava ali.
e o coronel tagarelavam animados sobre os projetos a cada parada que era feita nas locações de interesse. Andávamos juntos, lado a lado, porém, Marta tagarelava outros assuntos comigo referentes à história da fazenda e de como o casal havia conseguido chegar onde estavam.
Ao terminar o “passeio”, retornamos todos à casa e desta vez aceitamos a limonada oferecida. e Abreu adentraram ao escritório, e Marta e eu continuamos uma conversa de interesses pessoais logo após ela pedir a sua auxiliar doméstica que nos servisse um café.
Alguns minutos depois, os homens se uniram a nós. E não demorou muito para eu descobrir que estava me metendo num grande problema estando ali.
— Marta! Este rapaz me passou confiança!
Dizia o coronel, batendo no ombro de . Eles sentaram-se no sofá, cada um ao lado da respectiva acompanhante, e eu não pude deixar de sorrir abertamente para após ouvir aquela aprovação do coronel. Em agradecimento ele segurou minha mão, como se a minha presença tivesse dado ainda mais credibilidade a ele.
— Vocês dois são tão jovens! Tem filhos? – perguntou Marta.
— Tenho , uma garotinha de sete anos adorável!
— A idade do meu neto! – bradou o coronel: — Amanhã, aguardamos vocês para um jantar formal para oficializarmos nossa parceria !
— Será um prazer. – ele respondeu.
— Traga sua filha ! Nosso neto vai adorar brincar com ela, não temos muitas crianças por aqui.
e eu nos olhamos assustados com a pequena confusão que parecia surgir. E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa o coronel Abreu, interrompeu-me:
— Com todo respeito, está de parabéns pela sua esposa!
— Sim querido! E vocês dois são tão jovens, casados, com uma filha de sete anos e tão bonitos! Formam um belo casal! , você teve a bem novinha, não é?
— Eu posso garantir que este rapaz é precoce só por ver a carreira promissora que ele já apresenta! – gargalhou o coronel para nós.
e eu não sabíamos por onde começar a explicar. Os pares de olhos verdes a nos encarar, afoitos e curiosos para saber mais sobre a nossa vida eram um tanto quanto intimidadores. Me sentindo perdida naquela conversa toda, eu olhei para como quem pede socorro. Apertei sua mão para que ele tomasse alguma iniciativa, só então percebendo que estávamos de mãos dadas aquele tempo todo. Tentei soltá-las, mas segurou minha mão ainda mais firme, como se dissesse para eu não tirá-la dali.
— Oh, bem… – comecei a responder à senhora Marta — Eu não sou a mãe de .
— Ah, me desculpe. – ela respondeu sem graça.
— Tudo bem, mas é como se eu fosse. Eu a amo como tal.
— Isto é maravilhoso, encontrou a mulher certa então ! Antes de nos amarem devem amar nossos filhos! Eu também já fui casado antes de me unir à Marta.
Olhei indignada para pelo rumo que aquela conversa seguia cada vez mais. E não sei se aquilo tudo era estratégia dele, ou se ele realmente estava tão perdido e assustado quanto eu, mas não dizia nada que pudesse desmentir toda aquela confusão.
— Sim, se não fosse pela minha filha eu poderia dizer com toda a certeza que meu relacionamento com a mãe de foi um grande erro.
— É normal meu rapaz! Não são todos os homens que tem a sorte de encontrarem uma boa mulher de primeira!
— Bem, eu sempre fui apaixonada pelo Abreu, mas ele era casado e tinha filhos. Eu estava prometida para outro homem quando Abreu ficou viúvo e com duas crianças pequenas. – Marta nos contava animada.
— Era a minha chance de conquistar esta senhora maravilhosa. E acreditem, eu não poderia ter casamento melhor! Marta criou Vitório e Tomas como seus filhos, e logo depois tivemos o prazer de receber Marieta, nossa caçula.
e eu assentíamos à história que o casal nos contava e íamos ficando cada vez mais chafurdados na mentira de sermos um casal.
— Na verdade, e eu nos conhecemos há pouco tempo. E nós não… — Não pudemos deixar de nos apaixonar assim que nos vimos!
interrompera minha fala, e lógico eu estava irritada com aquela atitude de continuar mentindo!
— Mas antes mesmo que eu me apaixonasse por , minha mãe e minha filha fizeram isto. Depois de conquistar minha família, ela me conquistou.
— Esperta, ! – sorria o coronel para mim.
Eu apenas sorria para o casal, pois se eu olhasse para o eu teria dado outro soco em sua face. Que diabos aquele estúpido estava fazendo? As mãos dele suavam demonstrando que ele estava tão nervoso quanto eu com todas as mentiras.
— E , você tem profissão?
— Tenho sim Marta, eu sou delegada. Mas estou afastada do meu cargo temporariamente…
Sem saber que desculpa dar para meu afastamento acabei resolvendo abraçar àquela farsa. estava visivelmente ansioso por minha resposta, então eu o sorri e continuei a mentir:
— Eu exercia em São Paulo, mas decidi que era melhor me fazer um pouco mais presente para meu esposo e sua… Nossa filha. Atualmente tenho trabalhado na fazenda com , no que se faz necessário e também exerço função de assistente na delegacia da cidade.
— Oras, vejo que é uma mulher de personalidade!
Disse o coronel um pouco contrariado por descobrir meu cargo.
— Eu fico admirada ao ver mulheres jovens como você, ganhando o espaço que antes era apenas masculino. Nós devemos, mesmo, ser respeitadas e nada melhor para nossa classe que uma mulher na lei!
Marta disse animada recebendo um olhar repreensivo do esposo, e logo ela disfarçou sua empolgação.
— E a senhora, Marta? Tem profissão? – perguntei.
— Tenho sim. Eu sou datilógrafa, mas não trabalho há anos. Nem sei mais se existe essa profissão...
Eu pude notar o descontentamento em sua voz.
— Deveria voltar a trabalhar, Marta. Seus filhos já estão adultos, não é? Uma mulher inteligente não deve ficar apenas em casa.
Fora a vez de encorajá-la e aquilo me espantou. Por que não condizia com os discursos machistas que eu já ouvira ele dizer sobre “uma mulher saber o seu lugar”.
— Bem! Marta é feliz cuidando da casa! E o sucesso de um lar depende da administração eficaz de uma boa esposa! – o coronel bradou abraçando a esposa de lado: — Você faz bem em largar seu cargo para cuidar da família , e é bom que ajude seu marido também. Por trás de todo grande homem, estão os cuidados de uma atenciosa mulher.
Dito aquilo, e eu apenas sorrimos solidários à Marta que estava visivelmente sufocada pelas falas do marido. Nos despedimos dos anfitriões em seguida, tendo combinado a ida ao jantar na noite seguinte.
Assim que nosso carro se distanciou da fazenda, silenciosos, olhamos um para o outro completamente envergonhados.
— Eu não acredito no que fizemos.
— E eu não sei o que me deu para não esclarecer tudo! Desculpe te meter nisto , mas acho que fiquei com medo de perder o negócio se contasse a ele que você não é nem minha prima, nem namorada, nem coisa alguma.
— Bom… – eu disse óbvia: — Se dissesse que eu era tua prima, já seria uma meia mentira melhor!
— Tem razão, mas eu não pensei direito. O que ele pensaria de você, se eu dissesse que você é uma meia prima que mora comigo e que sou pai solteiro de uma menina de sete anos? Percebeu que homem estúpido e preconceituoso ele é?
— Calma . Isso vai acabar logo. Vamos ao jantar amanhã, fingimos ser uma família feliz, e nunca mais precisarei voltar naquela fazenda. Se as coisas complicarem, a gente inventa depois um divórcio e fim da história.
— Eu deveria ter dito a verdade!
— Deveria sim, mas não o fez.
— Ah, e você fez muito né? Porque não falou a verdade também?
— Eu tentei!! Mas, um certo ogro estava massacrando a minha mão com olhos esbugalhados de socorro!
— Queria o quê garota? Eu já falei que tive medo de perder o negócio!
— Você me trouxe pensando nisso já, não é? Aquele papo de passeio era tudo mentira né?
— Não! Eu nem mesmo pensei nisso! Mas, é evidente que sua presença me trouxe mais confiança.
— O quê?
— Aos olhos do coronel, eu quis dizer.
Argh, ! Você é impossível! Então não resta mais nada a não ser levar o barco. Se desmentirmos tudo agora ficará parecendo que você fez tudo isso para conseguir o contrato.
— Tem razão. E sabe o que é pior?
— Colocar a na farsa, ou ter que fingir que sou sua esposa? — A , óbvio. Fingir algo com você não será o fim do mundo.
Fiquei refletindo sobre as palavras dele. Não percebi se ele estava sendo irônico comigo, ou se aquela história o divertia.
Chegamos na fazenda bem na hora do almoço, Rosa e Marcelo estavam em casa. Assim que adentramos a cozinha, um tagarelar feliz cessou e todos nos olharam. batia as mãos alegre, e correu para os braços do pai. Titia continuou seus afazeres no fogão enquanto Marcelo e Rosa observavam e eu, com um sorriso enigmático.
— O que aconteceu? – perguntou para a irmã.
— Nós estávamos falando sobre vocês.
— E podemos saber o que a patota andou tramando sobre nós?
— Nada demais . Só refletíamos sobre vocês trabalharem juntos.
— Titia andou dizendo algo que não sabemos para vocês, compadre? – perguntei ao Marcelo.
— Digamos que ela nos deixou a par de alguns acontecimentos.
— Fofoqueira. – sussurrou para a mãe beijando-lhe a testa.
Titia sorriu animada como a quando fazia suas travessuras. Eu beijei a senhora em seguida, e subi para tomar um banho e trocar de roupa.
— Não estamos juntos. – esclareci para todos apontando e eu: — E se me dão licença, vou me agasalhar antes de almoçar, porque me aprontou uma das boas quando me arrastou para este trabalho e além de tudo morri de frio naquele lugar.
Todos riram, ele lavava as mãos quando eu disse, e vindo em minha direção respingou água em mim. Briguei com ele e sorrimos um para o outro em seguida. Todos olharam surpresos para nós, afinal o clima de amizade era notório.
Dentro do meu quarto separei uma roupa confortável de ficar em casa. Fui em direção ao banheiro, e com a água quentinha do chuveiro caindo sobre mim sorri aliviada ao perceber que as coisas estavam realmente mudando de uma maneira positiva. Aquele sentimento de não pertencer àquela família parecia se dissipar à medida que e eu íamos nos aproximando.
Descobrir o homem gentil, apaixonado pelo trabalho, dedicado à família e aos projetos inacabados do pai me deixava confortável. despia-se aos poucos para mim, e a sua pessoa se tornava mais bonita diante dos meus olhos.
Me peguei lembrando de nossos beijos algumas vezes enquanto tomava banho, e logo afastei os pensamentos. Não queria acabar em uma zona perigosa com tudo aquilo. Precisava ver logo o Gabriel, esclarecer as coisas com ele, engatar naquele relacionamento de uma vez. Não sabia onde poderia parar toda aquela aproximação com , mas certamente não seria em um caminho fácil e agradável.
Ao sair, sequei os cabelos e liguei meu computador. Há muito tempo não verificava meus e-mails. Estava ansiosa por notícias do processo, mal via a hora de receber notícias boas e chegar ao fim daquele problema. Telefonei para Ângelo, e após um tempo de conversa descontraída, meu advogado e amigo me alertou a ficar tranquila, pois o processo caminhava bem e logo ele me traria alguma notícia concreta.
Desliguei o notebook, calcei os chinelos, e desci com a toalha nos ombros, ao passar pela cozinha todos falavam animados sobre várias coisas. contava ao pai como havia sido seu dia na escola. Estranhei o fato dela já ter ido ao colégio, pois, estudava no período vespertino. Estendi a toalha no varal, e Canelinha pela primeira vez pulou em meu colo.
— Que susto menino! Você tem andado tão sozinho, não é? Podíamos arrumar uma namorada para você.
Assim que terminei de conversar com o cachorrinho e de acariciá-lo, lavei as mãos no tanque e voltei para a cozinha. Canelinha latia animado.
— O que houve com este cachorro? – titia me perguntou.
— Ele anda muito sozinho e carente, estava lá fora fazendo carinho nele. Olha, eu não sei vocês, mas acho que podíamos arrumar uma namorada para o Canelinha!
— Isso, ! – pulou em meu colo animada.
— Pronto. Agora é moda nesta casa. – resmungou .
— Ah irmão, acho que tem razão. Você podia arrumar uma namorada para você e para o Canelinha também. O que acha ?
— Acho que o Canelinha precisa de uma namorada!
— E o seu pai? – perguntou Marcelo.
— O papai?
perguntou e olhou para mim em seguida.
— Eu sei quem pode namorar com ele, mas eu não sei se posso falar. Eu não quero ficar de castigo.
Todos rimos, pois era óbvio do que a falava. E lógico, bufou com a suposição discreta da filha, e olhou para titia repreendendo-a.
— E você Joaninha, pode me dizer porque foi à escola de manhã? – perguntei.
— Eu mudei de turno porque sou muito avançada para minha idade.
— É mesmo? – olhei confusa para Rosa: — Há quanto tempo?
— Transferiram ela nesta semana. E eu também, para minha sorte consegui finalmente transferência para a turma de alunos mais aplicados.
— Mas agora, não posso mais ver meus coleguinhas. – disse tristonha.
— Mas agora você vai ter outra porção de coleguinhas, vai ter mais amigos e você pode combinar de brincar com seus novos e antigos coleguinhas quando quiser aos fins de semana!
— Jura, juradinho, ? Nossa que legal! Pode ser em dia de aula também? Deixa, tia ! Por favorzinho!?
pulava animada em meu colo, juntou as mãozinhas em clemência enquanto pedia a minha permissão. Depois de rir daquela cena, olhei para os donos da casa e para o pai da menina. Era estranho que me pedisse permissão de algo. nos observava sem a costumeira expressão repreensiva. Então, balancei a cabeça em sua direção para que a última palavra fosse dele. E ao notar que eu não queria passar por cima de sua autoridade de pai, ele apenas me disse:
— E então tia , o que você acha disso?
Fiquei feliz pela consideração dele comigo. E me senti incluída na família como nunca antes.
— Durante a semana não pode , porque você tem que estudar e seus coleguinhas também, e agora com turnos diferentes nem daria para vocês se encontrarem, não é? – a menina assentiu — Mas, aos sábados e domingos você pode vê-los na catequese, após as missas, e até pode combinar deles virem para cá passar o dia com você! Eu levo eles para casa depois, ou você pode ir na casa deles se o seu pai concordar. Nós te buscamos depois.
— Nossa! Que fantástisto!
Fantástico, . – o pai dela a corrigiu.
beijou meu rosto e saiu correndo para o colo do pai na outra ponta da mesa. Beijou o rosto dele e perguntou se ele deixaria. disse que sim, mas que conversaria com ela sobre aquilo numa outra hora para acertarem os detalhes. se sentiu importante com a expressão do pai, e falou que pensaria nos detalhes para eles discutirem mais tarde. Era adorável cada momento ao lado daquela criança. Rosa e eu ajudamos titia a colocar a mesa. Todos almoçamos e depois Rosa e eu organizamos a cozinha, enquanto titia procurava seu livro de receitas para fazer o bolinho de chuva tão pedido pela neta.
O tempo estava mesmo propício para aquilo. A tarde foi muito gostosa, com todos reunidos na sala em frente a lareira. e Marcelo brincavam com no tapete da sala. Titia andava de um lado para o outro, ocupada com os bolinhos de chuva e os biscoitinhos de polvilho que decidira fazer também, e Rosa e eu ajudávamos. Passamos um café fresco e enquanto fazíamos nossas tarefas, minha comadre decidiu saber o que estava acontecendo entre seu irmão e eu.
— Meninas, terminem as receitas para mim, eu vou subir para tomar banho e já desço para fritar os bolinhos e assar os biscoitos.
— Vai descansar mãe, nós terminamos tudo.
Titia assentiu se retirando e logo Rosa foi espiar se estávamos a sós na cozinha, e quando voltou parou sorridente ao meu lado.
— Então me conte! Você e estão…?
— Não Rosa.
Eu sorri da atitude de adolescente da minha comadre.
— Seu irmão e eu andamos confundindo as coisas, mas agora acho que estamos bem.
— Que coisas?
— Conversamos com sua mãe, e ela contou a verdade sobre os planos dela em me trazer para cá.
— É ela me disse sobre a conversa. Mas, disse também que vocês andaram se agarrando por aí, e que depois de esclarecerem tudo estavam cada vez mais juntos.
— Titia está fantasiando de novo. Ele e eu paramos de brigar um pouco depois de conversar com ela, mas nós não estamos juntos. É verdade que nos beijamos algumas vezes, e não admitimos isto para sua mãe ok?
Apontei para Rosa indicando que era segredo.
— Deixamos ela pensar o que quisesse, porque sem contar a verdade já tem sido difícil…
— Mamãe é insistente. – Rosa ria.
— E como! Mas das poucas vezes que nos beijamos, não sabemos o que aconteceu. Foram no meio de discussões, ou as discussões vinham depois… Sei lá Rosa, é intenso sabe, mas não é certo. Nós sempre nos arrependemos. E depois de conversar com sua mãe, não aconteceu de novo. Acho que esclarecer as coisas deixou ambos mais tranquilos sobre as atitudes um do outro. Ele até mudou as atitudes ranzinzas dele com o Gabriel. Ele achava que eu estava usando o delegado em algum tipo de plano maluco.
— E essa história de você e Gabriel é verdadeira?
— Sim. Estou mesmo pensando em conversar com ele. Mas depois de hoje estou bem insegura se é o momento para isso.
— Por quê? Aconteceu algo entre você e meu irmão de novo? – falou animada.
— Não exatamente. Nos enfiamos numa enrascada. Mas depois, eu explico melhor essa história.
Assim que terminei de falar, Rosa colocou os biscoitos no forno, bateu as duas mãos limpando-as, e foi terminar de limpar a louça rindo para mim. Enquanto eu a encarava meio tímida e fritando os bolinhos de chuva.
Estavam todos reunidos à sala, então fui servir o café da tarde na mesinha de centro. deitada de bruços no tapete da sala dentro de um saco de dormir, mal piscava a assistir ao filme da Lessie na televisão. Ela adorava quando chovia e seu pai acendia à lareira da sala, ou como ela mesma referia-se: “a fogueirinha”.
Enquanto eu colocava os biscoitos, quentinhos, numa tigela sobre a mesa, as cortinas da porta da sala sacudiram com o vento forte que entrou. com frio pediu ansiosa: “fecha, fecha!”. levantou-se e fechou as portas de vidro da sala e puxou a cortina para escurecer. Titia desceu abarrotada de cobertores. Entregou o cobertor felpudo rosa de .
— Agora sim vovó! Biscoitinhos com meu pelucinha e o filme da Lessie! Ai que gostoso!
A menina voltando ao seu saco de dormir com uma tigelinha de biscoitos e bolinhos disse feliz.
Titia entregou outro cobertor para Rosa e Marcelo que dividiam o sofá menor, colocou o seu cobertor em sua poltrona grande, e entregou ao outro cobertor maior para nós dois que dividíamos o sofá maior. Peguei a canequinha do ursinho Pooh, coloquei o leite quente com achocolatado da pequena e a entreguei. Ela abriu um sorriso ainda maior e me mandou um beijo logo voltando a atenção para o filme. Sentei-me no sofá ao lado de e me cobri rapidamente. Por baixo das cobertas, o pé de esbarrou no meu.
— Ai ! Que pé gelado!
Todos nos olharam confusos e ele apenas riu enrolando os pés no cobertor e disse que estava com preguiça de subir para pegar meias. Eu já estava de meias. Todos sorrimos por notar a expressão de travessuras de , nítida na face de . Ao que pude perceber aquela era uma expressão bem característica da família. Parecia uma tarde em família daquelas de filme. E titia voltou ao seu tricô.
— É compadre, acho que você deveria arrumar um pé quente para aquecer o seu mesmo. – Marcelo brincou.
— Eu nem falo mais nada.
Titia resmungou fazendo revirar os olhos, e eu me atentar a TV fingindo que não ouvia.
— Eu já sei… Vocês já podem parar porque eu já disse que irei me abrir às novas oportunidades.
— Falando em oportunidade, como foi a reunião irmão? Estamos ansiosos com este mistério todo.
Entreolhamo-nos, fechamos a cara um para o outro. Abrimos a boca e iniciaríamos uma discussão, mas ao encarar a família curiosa começamos a rir.
— Do que estão rindo?
Titia nos olhou curiosa parando o seu tricô. Ninguém entendia nada.
— É que o arrumou uma confusão enorme com esta reunião! – eu disse.
— Eu? Só eu, né? Você poderia ter ajudado um pouco!
— Oras, você que inventou de me carregar para aquela fazenda, como eu abriria a boca para falar alguma coisa se eu mal sabia o motivo real de estar ali?
— O quê? Você ainda acha que eu te levei pensando em armar aquilo tudo?
— Você há de convir que foi bem esquisito!
Já havíamos iniciado uma discussão que chamou atenção da , e a mesma nos fez parar.
— Vocês estão brigando? – perguntou a menina.
— Não … Só estamos conversando um pouco alto.
— Então falem mais baixo por favor, eu não consigo ouvir a Lessie.
— Desculpe filhota, vamos conversar, baixinho.
Ela agradeceu e retornou ao filme. Titia, Marcelo e Rosa aguardavam as explicações calados e surpresos.
— Então, você conta ou eu? – perguntei ao .
— Eu consegui o trabalho. Assinarei o contrato num jantar amanhã.
Todos o parabenizaram felizes. Eu observava a alegria da família com o feito de muito satisfeita e contente por ele. Aquela reação de todos me fez pensar que mesmo tendo embarcado naquela mentira, se fosse para ajudar eu não importaria de fingir um pouquinho.
— E então, que enrascada é essa que vocês se meteram? – Rosa me perguntou.
— O coronel e a sua esposa pensam que e eu somos casados. E o seu irmão não conseguiu desmentir.
— Não me julguem, eu ainda acho que a impressão que causamos foi muito responsável por eu ter conseguido o trabalho. Passou mais credibilidade ao coronel.
— Ficamos tão assustados e nervosos que o coronel e sua esposa falavam, falavam, e nós dois, mal conseguimos abrir a boca. A dona Marta até achou que eu fosse mãe da .
— O coronel exigiu que eu levasse minha esposa – disse rindo sarcástico apontando para mim — E minha filha ao jantar de amanhã, para que possamos assinar o contrato. E a que me desculpe, mas vamos fingir que somos casados até eu ter aquele papel assinado. Não quero correr riscos.
Os três que nos ouviam, olharam para mim curiosos.
— E eu tenho escolha? Se isto não der certo eu que não quero o senhor mentiroso aqui, colocando a culpa em mim.
A família ria alegre e divertidamente. Titia voltou ao seu tricô pensativa.
— Tem um problema. – falou e Rosa o olhou desentendida.
. – disse o Marcelo.
— Exatamente.
— Bem, deixemos ela terminar o seu filme e conversaremos todos com ela. Assim ela não fica confusa. Mas só depois do filme, do contrário ela vai brigar com todos nós.

Assim como Marcelo sugeriu aguardamos o filme acabar e explicamos para que, na noite seguinte o pai dela e eu iríamos a um jantar importante do trabalho dele, e que nós três brincaríamos de fingir que éramos uma família. A garota ficou super animada, e perguntou várias coisas que entre verdades e mentirinhas o pai dela e eu, íamos contando e preparando a menina para a noite seguinte. Ela perguntou se poderia me chamar de mamãe, e embora fosse uma farsa eu adorei aquilo. Assim que terminamos, Rosa levou para tomar banho.
— Eu odeio ter que mentir desse jeito para ela. – eu disse.
— Eu também! Não consigo aceitar a burrada que fiz em colocá-la nisso.
— Tive uma ideia!
Eu disse e titia, Marcelo e estavam curiosos.
— Você pode ir amanhã e dizer que teve muita febre esta noite e, portanto, eu lamentava muito não poder acompanhá-lo.
— Seria ótimo, se vocês já não tivessem incluído nisso. Ela vai ficar decepcionada. – disse titia.
e eu tivemos que concordar e continuamos chateados.
— Levem pelo lado bom, aceitou tudo como uma brincadeira de verdade. Ela não está sendo enganada.
— Marcelo tem razão.
Assim que meu compadre e titia falaram, eu subi para ajudar Rosa a arrumar . Queria conversar melhor com a pequena. Já estava quase anoitecendo. e Marcelo seguiram ao celeiro para cuidar dos animais já que a chuva havia parado. Deixaram uma quantidade maior de comida para todos devido ao frio.
Assim que entrei ao quarto de , ela gritou:
— Mamãe!
Pulava na cama e ria divertida mostrando seus dentinhos de leite.
— Acho que alguém já está brincando .
— Pois é Rosa… Será que eu posso terminar de arrumar a minha filhotinha?
Rosa me entregou a escova de cabelos, abraçou e beijou a testa da sobrinha e desceu ao encontro de titia.
— Vamos pentear estes cabelos! – eu disse me sentando na cama dela.
Ficamos horas ali. Depois de pentear os cabelos de , ela perguntou se eu tinha fotos de São Paulo. Levei ela ao meu quarto, deitamos em minha cama e nos cobrimos com o cobertor. Peguei meu notebook e abri a galeria de fotos. Ela perguntava sobre cada uma das pessoas nas fotos. E sobre cada um daqueles dias. Causou uma nostalgia e até certa tristeza de rever a minha antiga vida, ao lado de . Eu mal me lembrava de muitos daqueles momentos, e lamentava a falta daquelas pessoas. Sentia saudades de Ângelo e Verônica, verdadeiros amigos.
— Você sente muita falta dos seus coleguinhas, ?
— Sinto sim .
Então tive uma ideia. Liguei para Ângelo no Skype, e como imaginei Verônica estava com ele.
— Olá Anjinho! – eu disse animada.
, meu amor! – ele virou o rosto e gritou a Verônica — Como você está?
— Estou bem Anjinho, estava olhando algumas fotos antigas aqui e senti saudades de vocês.
— Nós também estamos com muitas saudades, ! – disse Verônica sorridente e feliz em me ver.
— E quem é esta pequena? – perguntou Ângelo.
tímida, estava abraçada a mim.
— Esta é a ! Diz oi .
Não demorou muito para a pequena perder a timidez e iniciar uma longa conversa com Verônica e Ângelo. Ela perguntou várias coisas sobre mim, e meus amigos adoraram a pequena. Antes de nos despedirmos, os convidou para vir à fazenda e eu reforcei o convite. Quando desligamos a chamada, perguntou se havia mais alguma coisa minha para mostrar a ela. Me fiz de pensativa até lembrar dos vídeos caseiros da minha família. Eu havia trazido todos para a fazenda. Fui em direção ao meu guarda-roupas e peguei os DVDs.
— Aqui tem vários vídeos da minha infância .
— Le-e-gal! A gente vai assistir?
— Sim.
Eu ainda não havia me recuperado totalmente das lembranças de meus pais. Desde minha mudança não havia tocado mais naquelas lembranças. Somente as fotos mexeram bastante comigo, imagine então aqueles vídeos. Mas, me passava uma segurança de que era necessário enfrentar aquilo tudo novamente.
Eu lia os rótulos dos DVDs fazendo ela escolher qual iria ver. surgiu então na porta do meu quarto.
— Estão todos curiosos lá em baixo para saber o que vocês duas estão aprontando.
— Vem cá papai! – ela estendeu as mãozinhas chamando-o para se juntar a nós.
em passos tímidos me olhou sorrindo e sentou-se ao lado de abraçando a filha.
— Eu falei com os coleguinhas da ! – disse animada, ainda mexendo nos DVDs.
— Ângelo e Verônica lhe mandaram um abraço. – respondi a ele que sorriu.
— E o que são estas coisas que você está fuxicando?
Ele perguntou à filha após observar o interesse demasiado da garotinha.
— São a infância da ! A gente vai assistir!
Nós dois rimos.
— Bem, podemos colocar no DVD da sala, para todos assistirem o que vocês acham? – ele perguntou e bateu palmas, animada.
A garotinha desceu da cama rapidamente, pulando do colo do pai, abraçou os inúmeros DVDs e saiu correndo do quarto a fim de descer à sala. “Não corra!”, gritou. Nós dois continuamos ali em minha cama, sentados e rindo da garota. Quando fiz menção de levantar, segurou minha mão fazendo-me olhar para ele.
— Está tudo bem para você? Se quiser eu converso com ela para assistir uma outra hora.
— Tudo bem … São lembranças que uma hora eu terei de enfrentar, afinal não quero as esquecer. Será melhor assistir com vocês do que sozinha.
Soltei a mão dele, e desci sendo seguida por ele.
— Então vamos assistir aos primeiros passos da ! – Rosa gritou assim que nos viu descer as escadas.
A família parecia animada com aquilo e titia parou seu tricô, também ansiosa pelos vídeos. Sentei-me no mesmo sofá de antes, abraçada à , e ao lado de . Dividíamos as cobertas e estava atenta a cada detalhe. Assim que viu o bebê na tela, perguntou quem era um pouco confusa.
— É a , . São os primeiros passinhos dela. – disse Rosa. — Puxa! Que bebezinho fofo você era, . – ela disse apertando minha bochecha.
Todos ríamos. Então eu vi meus pais no vídeo. Todos estavam concentrados no vídeo, e mal perceberam minhas reações. Com exceção de que ocultamente, por baixo das cobertas segurou minha mão solidário a acariciando. Eu não olhei para ele, para não demonstrar aos outros o que estava acontecendo, mas grata ao gesto, acariciei sua mão de volta. Titia ao ver o irmão, também se emocionou e me lançou um olhar lacrimejado. Nós duas sentíamos falta dele. E ao contrário do que eu pensava, rever a minha infância, os momentos com meus pais que até falecerem eu não sabia serem adotivos, não foi cruel ou doloroso. Mas me deixou com muitas saudades. E um pequeno vazio que eu não pude preencher.
, por que você está vestida assim?
Já estávamos em um vídeo da minha formatura no colegial e referia-se à beca de formando.
— Esta é a minha formatura de quando acabei a escola .
— Ah… – ela disse esclarecida e voltou-se ao pai perguntando: — Papai, você não tem fotos da sua formatura?
— Não Joaninha… – ele acariciou os cabelos da filha: — Papai estava trabalhando porque você ia nascer.
— Eu deixo você colocar aquele chapeuzinho de cordinha, quando eu formar, tá?
deu um beijo e um abraço no pai, pulando meu colo para chegar até ele e voltando apressadinha ao meu lado em seguida. Todos encarávamos a cena com ternura. Eu não sabia daquele sacrifício que fizera. E como nossas mãos ainda estavam entrelaçadas abaixo das cobertas – e eu só me dei conta disso naquela hora – eu apertei novamente sua mão, em solidariedade como ele fizera comigo. Ele sorriu para mim, e senti meu estômago gelar. Logo me concentrei, ou tentei, novamente aos vídeos.
Antes mesmo dos vídeos acabarem, eu adormeci e também. Quando acordei estava sendo carregada por escada acima.
— Calma… Só estou te levando para sua cama. – ele sussurrou.
Recostei-me novamente em seu peito e fechando meus olhos cansados, o deixei terminar. As luzes da casa estavam apagadas, e aparentemente todos haviam ido dormir. Apenas as luzes do meu quarto e corredor estavam acesas. Ele me colocou em minha cama, e me cobriu. Abri os olhos despertando de fato, ao que acontecia. Agradeci aninhada em meu travesseiro. Ele agachou-se ao meu lado e sem jeito, acariciou meu cabelo sorrindo amigável.
— Você e dormiram. Levei a pequena para cama e disse para todos irem dormir que eu mesmo te acordava, mas você dormia tão pesado que fiquei com pena. Desculpe.
— Não tem que se desculpar, obrigada.
— Você está bem?
— Já era de esperar que eu ficasse emotiva, não é? – perguntei e meus olhos lacrimejaram.
sorriu com pena. Limpou minhas lágrimas e me encarou de um modo invasivo, mas diferente.
— Chega pra lá.
— O quê?
— Anda logo, .
— Larga mão de ser um ogro!
Ele saiu me empurrando na minha própria cama e pedindo licença deitou ao meu lado. Dei espaço não por vontade, mas por espanto. Que montanha-russa de humores era ele! , bruto como só se ajeitou e logo me abraçou aninhando-me em seu peito. Nada delicado. Parecia alguém que não sabia como deitar-se de novo com uma mulher abraçada e recostada a si. Fiquei tão surpresa que sorri irônica.
— Sei que eu sou a última pessoa, com quem você gostaria de se abrir, mas… Poxa , eu sou tão idiota. Eu tenho tanto, e você… Perdeu tanto. Se quiser conversar, desabafar eu prometo tentar ouvir e tentar cuidar de você sem ser o idiota de sempre.
Após ele dizer aquilo, minha lágrima molhou sua camisa e eu chorava baixinho. A medida que meu choro aumentava, me abraçava mais forte. Pela primeira vez me senti confortável em compartilhar algo com ele.
— Eu os amava tanto! Não tive a oportunidade de me despedir, ou de dizer a eles o quanto os amava, ou até mesmo que, se eles tivessem me contado que me adotaram nada mudaria. Eu continuaria os amando. E eu nem quero saber de onde eu vim, eu só queria ter meus pais aqui comigo. Seria mais fácil suportar tudo isso.
— Nada que eu disser poderá estancar sua dor. É tão horrível perder quem amamos nos momentos em que mais precisamos deles. Mas o tempo vai te ensinar a conviver com isto, e se aceita o meu conselho… Siga a sua vida como se fizesse tudo para agradá-los, para deixar seus pais orgulhosos onde quer que estejam. Eu sei que você já os orgulha muito.
Agradeci ao pela gentileza e carinho. Continuamos abraçados até que eu peguei em sono profundo. Ao amanhecer senti o cheiro dele, e abrindo os olhos o procurei. já não estava em minha cama. Acordei cheia das palavras dele ecoando em meus ouvidos. E novamente a sensação de que nos aproximávamos perigosamente cada vez mais. Não poderia mais dormir. Meu sono havia sido roubado por meus pensamentos.
Escovei os dentes e troquei de roupa. Coloquei uma camiseta antiga, menos surrada que a habitual camisa que eu utilizava para a lida da fazenda, e que recentemente fora rasgada. Calcei as botinas, e ainda não era hora de cuidar dos bichos, mas peguei uma lanterna, um agasalho e fui a pé até o celeiro adiantar tudo.
Por fim, acabei cuidando dos animais sozinha, por algum motivo não apareceu para me ajudar. E até achei melhor, pois eu necessitava daquele tempo com meus pensamentos. Quando voltei para o casarão já estava faminta.
Titia, Rosa, Marcelo e estavam acordados tomando café. Estranharam a falta de e me perguntaram sobre ele. Contei que ele não havia aparecido.
— Estranho, nunca perde a hora. – disse a irmã.

Subi para tomar banho e ir ao trabalho. Marcelo e Rosa levariam à escola. Assim que desci para tomar café, eles despediram-se e me abraçou apertado.
— Hoje é o grande dia! – ela disse animada enquanto me abraçava.
Os três saíram, titia foi à horta e antes que ela saísse eu me despedi.
— Titia, posso pegar a camionete velha para ir ao trabalho? ainda dorme.
— O que será que aconteceu com ele, será que está doente?
— Eu não sei, até ontem à noite antes que eu dormisse ele estava bem.
— Hum… – ela resmungou séria e pensativa sobre o filho: — Pode ir com a camionete nova, hoje ele vai trabalhar em casa.
— Não, tudo bem, eu prefiro pegar a velha.
Eu disse a abraçando, ela me entregou as chaves da camionete e segui para a cidade.
Cheguei na delegacia e Gabriel ainda não havia voltado do outro município. Um dos policiais da delegacia me informara que ele chegaria na hora do almoço. Liguei para ele, enquanto organizava os documentos que chegaram e aguardava o aval do delegado da cidade. Combinamos de almoçar juntos, e assim aconteceu.
— Estava com tanta saudade! – ele disse me abraçando.
— Eu também. – dei um selinho nele.
— Opa… Então agora podemos nos beijar em público?
— A cidade inteira já comenta de nós dois. – dei de ombros.
— Isso quer dizer que?
— Vamos procurar uma mesa, e conversamos.
Sentamos, pedimos nossas refeições e enquanto aguardávamos perguntei ao Gabriel, se ele aceitava ser meu namorado. Ele brincou com a história de papéis invertidos. Aceitou, mas disse que eu não precisava chegar àquela decisão por pressão da cultura social da região. Ele não se importava de continuar saindo comigo sem compromisso, se isso fosse me deixar mais confortável.
— Não é esta a questão. Eu tenho passado por tanta coisa que decidi ser hora de começar algo realmente concreto. Decidi apostar em nós. A menos que você ache cedo para isso…
— Eu devo ir à fazenda pedir permissão para namorar contigo? – disse e sorriu feliz.
— Não acho que seja necessário, mas podemos combinar um jantar para eu te apresentar formalmente.
— Quando você quiser.
Nos beijamos sorrindo. Ele contou sobre a ida ao outro município, sobre meus novos horários, pois segundo ele, agora iria ter que assumir a delegacia do distrito vizinho por um tempo, então ficaria entre uma cidade e outra. E como confiava em meu trabalho, pediu para que eu ajudasse os investigadores locais na falta dele. Conversamos sobre a volta da minha viagem, sobre o parto das ovelhas, sobre a descoberta de que ele era sobrinho de Tadeu, e ainda contei que seu tio me convidou para almoçar em sua casa e poderíamos ir juntos como namorados.
— Sabe Gabriel, no dia em que seu tio me fez o convite, eu fui tomar café com o Guino e conheci sua afilhada que me pareceu muito interessada em você.
— Belinha? – ele riu: — Namoramos na adolescência.
— E o que aconteceu?
— Eu fui estudar em outra cidade. Não tivemos motivos reais para terminar o namoro, mas concordamos que não daria certo ela me esperar todo aquele tempo.
Aquilo me preocupou. Eles não brigaram, não teve traição, não havia motivos para acabar o namoro.
— E você ainda sente algo por ela?
— Eu sinto algo por você. É o que importa. – ele disse me arrancando sorrisos.
— Sabe, tudo bem em falar a verdade… Porque eu sei que ela ainda gosta de você.
— Pode ser, nós não ficamos amigos depois que voltei, na verdade também não sei por quê, mas as nossas vidas só foram acontecendo sabe… Em todo caso eu estou sendo sincero quando digo que eu gosto de você .
— Eu sei, é só que, pode ser que vocês ainda tenham alguma chance. Pelo que você está me dizendo vocês nem mesmo conversaram depois que você voltou.
— Não se preocupe . Belinha e eu não teremos chance enquanto eu estiver interessado em você.
Embora me passasse confiança, eu ainda me sentia receosa sobre aquilo. Gabriel gostava mais de mim, do que eu, dele, e isso não era segredo. Nós ainda não nos amávamos, mas decidimos tentar ficar juntos. E mesmo ele dizendo que não teria motivos para me preocupar, eu sabia que histórias mal-acabadas sempre se cruzam de novo. Experiência própria pela maioria dos meus antigos relacionamentos.
Também contei ao Gabriel que e eu descobrimos os planos de titia, e assim que contei tudo a ele, Gabriel não ficou nem um pouco tranquilo. Até entendo a insegurança, pois mesmo ele não sabendo dos meus beijos com , aquela mistura de fogo e pólvora entre nós antecipava uma intensidade que Gabriel e eu não tínhamos. Ele ficou feliz em saber que a convivência entre e eu estava mais tranquila e parceira, mas confessou estar um pouco enciumado. Segundo ele, enquanto nos odiávamos ele poderia dormir tranquilo já que sabia que não perderia a minha atenção para o amigo. Quando o indaguei dos motivos que o faziam pensar aquilo, ele repetiu algumas frases ditas tempos atrás para mim, enquanto ainda amigos conversávamos sobre minha relação com o primo postiço. Entendeu também, após eu contar tudo isso, a reação gentil que demonstrou ao atender seu telefonema no dia anterior. Eu disse que se desculpara com ele, através de mim.
Depois de toda aquela conversa com Gabriel, eu não sabia se deveria contar sobre a farsa com para a família Nolasco. E decidi que era melhor não falar nada, logo aquilo tudo acabaria. Eu não queria atrapalhar uma possível relação que mal havia começado. Após o almoço, me despedi de Gabriel. Ele seguiu para a delegacia e eu havia cumprido meu turno. Dirigi até a escola e busquei e Rosa.
— Vamos meninas! – eu disse acenando dentro do carro.
— Mamãe! – gritou correndo em direção ao carro.
Algumas crianças e professoras olharam para mim, cumprimentei com um sorriso e todos confusos responderam simpáticos acenando para . Talvez eu devesse ter pedido para só fingir na hora do jantar, mas ela estava tão animada que eu não pude repreendê-la. Rosa abriu a porta do carro para entrar. A pequena subiu animada sentando-se no meio e olhando curiosa para a tia que não havia entrado na camionete.
— Oras! Eu não sabia que você viria . Marcelo acabou de telefonar dizendo que está chegando.
— Ah me desculpe, vocês saíram primeiro e eu nem me recordei de telefonar avisando que eu poderia passar aqui.
— Tudo bem, leve a para casa, eu volto com Marcelo. Nós vamos para nossa casinha mesmo.
— Tudo bem. Te espero à noite para me ajudar a me arrumar para o…
— Grande jantar! – gritou me interrompendo.
Rosa chamou a atenção de sobre a falta de educação e riu discreta. Acenamos e fomos embora.
Chegamos em casa e encontramos no escritório. Ela correu em direção ao pai abraçando-o. Logo a levei para tomar banho, lavei minhas mãos e fui ajudar titia com o almoço. Avisei que já havia almoçado e subi para tomar banho enquanto os outros se alimentavam.
Naquela tarde após o descanso do almoço, e eu chamamos para outra conversa a fim de combinar as mentiras e evitar que a pequena falasse o que não deveria.
— E então , viu o Gabriel hoje? – titia me perguntou enquanto tricotava na varanda.
— Estamos namorando. – respondi indiferente às reações dela.
Titia ficou um tempo em silêncio. Fez algumas perguntas sobre “desde quando”, sobre o que eu realmente sentia por ele, e outras curiosidades. Fui sincera em tudo, e titia pareceu aliviada como se não desse muito crédito ao meu romance. Ela perguntou se eu havia dito sobre o jantar. Confessei que não sabia o que fazer e optei por manter segredo.
Na hora de nos arrumarmos para o jantar Rosa estava lá, preparando e me auxiliando a escolher uma roupa que demonstrasse que eu era uma excelente mãe e esposa. Achei exagerado o vestido decotado que ela escolheu.
— Não acho que vou parecer uma boa mãe aos olhos daquele coronel preconceituoso. Ele vai é perguntar ao como ele deixa a esposa sair vestida com este decote!
— Não está exagerado. Você prefere abotoaduras?
— Pensei em me vestir como a dona Marta se vestiria.
— Ela já é uma senhora. E você uma esposa jovem. Relaxa, o que todos vão pensar é que tem uma esposa linda e gostosa ao lado dele, com uma filha maravilhosa. E se vocês forem carinhosos um com o outro, vão até acreditar que são um casal fogoso e apaixonado.
— Rosa, não força a barra! – eu ri divertida.
Para não dar impressão de que eu era uma esposa safada, prendi o cabelo em um coque canudo, coloquei brincos pequenos, maquiagem leve, um colar simples, e vesti um sobretudo sobre o vestido vermelho justo e decotado. Assim que desci, titia e Rosa me encheram de elogios. parecia uma princesinha, e estava muito animada. Marcelo me elogiou dizendo que era bem capaz de realmente eu sair noiva de alguém naquele jantar. Apenas rimos descontraídos. e eu aguardávamos sentadas no sofá. Ele desceu as escadas ajeitando seu paletó e passando as mãos no cabelo.
Estava lindo. Controlei meus olhares para não demonstrar o quão perfeito ele estava. Da última vez que eu o vira tão bonito daquele jeito, havia sido no casamento de Rosa. Titia o cobriu de elogios, coruja como ela era. Rosa e Marcelo também concordaram que estávamos arrumados e bonitos demais.
— Vocês vão me desculpar, mas estão parecendo uma família de novela! – disse Rosa.
— Exatamente isso, tudo é um perfeito teatro. – eu disse.

Nos despedimos de todos e seguimos com a camionete nova de à fazenda Nolasco.
arrancou sorrisos e encantamento de todos na casa. O filho mais velho, Vitório, estava desacompanhado da esposa e me lançou olhares maliciosos ao sermos apresentados. Aquilo me incomodou bastante. fora parabenizado pela maravilhosa esposa do começo ao fim do jantar. O neto do coronel e não se desgrudaram em momento algum, exceto pela hora de jantarmos. Estávamos à mesa , e eu. No outro lado, frente a mim, Vitório com seu filho e ao seu lado, sua irmã caçula Marieta Nolasco. Nas pontas da mesa estavam o coronel e sua esposa. Nós conversávamos displicentes, e só então Vitório se desculpara por sua esposa não poder comparecer ao jantar já que viajava à casa da sogra.
Tudo corria calmo, não havia dito nada que não devesse. E as conversas seguiam bastante agradáveis. Ao fim do jantar, a empregada surgira ao lado do coronel anunciando a visita de alguém.
— Mande-o entrar Clemência! – ele disse à empregada já levantando-se da mesa.
Todos nos levantamos também, ajudei a descer da cadeira e ajeitei seu vestido, e ao olhar para cima pude ver corado ao meu lado. Antes que eu entendesse o que acontecia, o coronel se pronunciou:
— Delegado Gabriel, obrigada por vir tão prontamente!
O cumprimentou num aperto de mãos, e Gabriel surpreso olhava para , e eu.
— Acabamos de jantar, mas se o senhor quiser comer, colocaremos um prato a mais e o faremos companhia!
— Não coronel, obrigada… Não é preciso.
Gabriel nos encarava confuso.
— Deixe que eu os apresento. Este é meu novo sócio nos negócios, Macedo Aguiar, sua esposa e filha.
— Ah! Esposa?
Gabriel nos indagou de olhos arregalados, totalmente surpreso, confuso e irritado. Eu o encarava culpada e envergonhado.
— Mamãe, pode ir comigo ao banheiro? – disse .
Marta nos indicou o caminho e eu acompanhei a garota deixando sozinho naquela situação extremamente desconfortável. Ainda no banheiro, eu andava de um lado ao outro e notando que eu estava nervosa perguntou o que tinha acontecido. Desconversei aliviando a pressão sobre a criança. Saímos do banheiro e encontramos no corredor, vindo em nossa direção.
— Mas o que ele faz aqui? – perguntei ao me referindo ao meu namorado.
— O coronel o chamou, algumas cabeças de gado desapareceram de ontem para hoje. Ele desconfia de roubo. Olha… Eu dei um jeito de fugir da sala de estar para vir te avisar, que os dois estão na varanda conversando. Eu levo de volta para a sala e você vai até lá conversar com ele.
— Certo. Obrigada.
Fomos em direção à sala de estar. Vitório saiu com seu filho para cômodos da casa que não nos haviam sido mostrados. Marta e distraiam-se com , e quando o coronel atravessou para o escritório eu consegui escapar para a varanda. Gabriel já estava a caminho de seu carro quando o chamei. Ele não quis parar, então fui até ele o alcançando.
— Espera Gabriel, deixe eu te explicar!
— Então é à base de mentiras que você quer iniciar uma relação?
— Não é isso, eu não sabia como te contar sobre a enrascada que e eu nos metemos depois de você me contar sobre a sua insegurança. Como eu te diria que ele e eu, teríamos de fingir ser casados?
— Você deveria ter dito. Não quero conversar com você agora, . Tenha uma, boa noite, mande os meus cumprimentos ao seu marido.
Gabriel deu-me as costas e entrou em seu carro batendo a porta forte. Voltei em direção à casa antes que desconfiassem da minha ausência. Fingi voltar do banheiro para evitar perguntas. se aproximou de mim, enquanto o neto do coronel era a atração musical com sua viola. dançava perto do menino que tocava modinhas animadas. Ninguém percebeu quando eu entrei.
— Ei, como foi? – perguntou preocupado.
— Não foi. Ele está furioso comigo… Droga eu deveria ter contado.
— Desculpe , eu não tinha que meter você nisso.
— Esqueça, não precisa se desculpar. Você não tem culpa de nada. Eu é quem deveria ter contado.
— Vocês vão se acertar, se quiser eu posso conversar com ele.
— Não! Eu conversarei com ele, isto é entre ele e eu. – sorri agradecida ao .
— Bem… Vitório parece não ter tirado os olhos de você.
— Por que diz isto?
— Ele viu você conversando com Gabriel e veio me alertar. Disse que eu deveria ter cuidado, em quem eu deixava conversar com a minha esposa. Dá para acreditar neste cara?
— Eu não vou mentir , estou louca para voltar para casa desde que chegamos. Agora então…
Enquanto nós mantínhamos nosso diálogo distanciado, todos aplaudiam o jovem menino prodígio com a viola, e sua amiguinha dançarina. Nos reunimos de volta à presença dos demais, e assim que chegamos ao lado de todos, nos surpreendeu negativamente.
— Hoje é aniversário de casamento dos meus papais!
e eu estávamos totalmente corados e nervosos. Tanto ele, quanto eu, olhamos repreensivos para . Ela logo notou que fez besteira, e ficou imediatamente quieta e cabisbaixa. O coronel e sua esposa nos parabenizaram, e disseram que deveríamos ter dito. inventou uma, bodas, qualquer de poucos anos ao nos perguntarem quanto tempo estávamos casados. Quando notamos, Vitório trazia uma garrafa de vinho, e Clemência – a empregada – trouxera as taças. O coronel abriu a garrafa e nos fez participar de um falso brinde. Todos animados por nós, enquanto e eu, apenas queríamos sair voando dali.
— E o beijo do apaixonado casal? Não vamos ver? – perguntou Vitório.
— Exatamente! Vamos lá rapaz, mostre o homem viril e apaixonado por sua esposa! – concordou o coronel.
Não podíamos acreditar no que estávamos passando. sorriu sem graça, pegou minha mão e nos encaramos confusos.
— Tudo bem… – sussurrei para ele entre dentes.
Ele me puxou para mais perto, aos olhares de todos segurou meu queixo e enlaçou minha cintura e me beijou. Pousei as mãos sobre seu peitoral e correspondi. Eu imaginava que conseguiria falsificar também o beijo, como tudo naquela noite. No entanto, nenhum dos beijos que e eu havíamos tido desde então, fora como aquele: calmo, harmonioso, agradável e sensível. Ao nos separarmos, encaramos o olhar perdido um do outro e todos aplaudiram e bradavam. Despertamos do momento, e pudemos dar de cara com uma feliz e de olhos brilhantes, marejados. Aquilo seria um problema e ambos nos demos conta disso, no mesmo instante.

Não demorou muito para que voltássemos para casa. No caminho bronqueava por sua atitude. Eu não quis intrometer, mas levei a pequena até seu quarto e conversei mais calma com ela. A garotinha chorava bastante chateada. Em seguida, desci à sala e conversei com :
— Suba, e vá conversar com sua filha! Ela é uma criança dentro de uma fantasia que nós dois fizemos questão de alimentar esta noite. Você foi muito duro com ela.
já estava arrependido no momento em que entrou em casa. Contei para titia, que até então estava curiosa com os acontecimentos, sobre como havia sido a nossa noite. Ela me abraçou solidária à minha situação com Gabriel. Depois subimos, ela foi ao quarto da neta, depois ao quarto do filho e eu me preparava para dormir, após um banho relaxante. Até que bateu à porta do meu quarto.
— Entre.
Eu estava deitada em minha cama, olhando para o teto. Senti um peso ao lado da minha cama. havia se sentado de frente para mim.
— É idiota perguntar, mas… Como você está?
— Chateada.
— Me desculpe, mesmo!
— Não. Eu estou chateada comigo. Relaxa… E estou um pouco confusa também.
— Entendo… Eu também estou um pouco confuso.
Ficamos nos olhando um tempo, sem dizer nada um ao outro. se inclinou beijando minha testa, desejou-me boa noite e saiu.

Na manhã seguinte eu não tinha trabalho, mas apareci na delegacia logo que ela abriu. Gabriel, relutante, não queria me ver. Ele estava de saída para o outro município, apenas tinha aparecido na delegacia para buscar alguns documentos. Insisti, até que ele aceitou conversar comigo.
Ele me perdoou por não contar a verdade. No entanto, deixou claro que estava muito desapontado, mas aceitou meu convite para jantar aquela noite em minha casa. Decidimos deixar passar aquela história. Antes de entrar no carro, Gabriel me perguntou:
— Preciso saber uma coisa . E espero somente a verdade.
— Tudo bem.
— Você e , já se beijaram?
Relutei em responder, mas seria estupidez continuar mentindo. A verdade sempre vem à tona.
— Sim.
Gabriel encarou o volante, tristonho.
— Quando?
— Muito antes de nós dois começarmos a ficar. – respondi.
— Quantas vezes isto aconteceu?
E embora a verdade sempre viesse à tona, eu não poderia destruir um relacionamento que mal começara.
— Apenas uma vez. Eu e você não estávamos juntos.
— Você sente algo por ele?
— Não.
Eu não mentira sobre sentir algo por , até porque eu mesma não sabia definir “algo”. Gabriel balançou a cabeça em sinal positivo, e disse que me encontrava na fazenda mais tarde e não mencionou mais nada. Tínhamos nos acertado, mas agora havia aquela maldita rachadura. E eu já não tinha tanta certeza de que daríamos certo. Voltei para casa e o dia correu como qualquer dia normal. Evitei pensar em tudo o que tinha se passado. Ao anoitecer, esperávamos Gabriel para o jantar. Quando ele chegou fui recebê-lo, e seu humor estava normal novamente.
— Me desculpe pela forma como agi mais cedo, eu precisava de um tempo.
— Imagina Gabriel, quem errou fui eu.
Entramos e após cumprimentar todos, surgiu acompanhado à porta da sala. Ninguém entendia nada, afinal ele não havia dito a nenhum de nós que Belinha jantaria conosco. Confesso que detestei ver a ex-namorada do meu namorado ali.
Todos cumprimentamos a garota, e seguimos com o jantar. era a maior insatisfeita da mesa, e sabíamos o motivo. Titia levou a pequena para seu quarto logo após o jantar e demorou um tempo com ela no quarto. Rosa e Marcelo, Gabriel e eu, e Belinha conversávamos na sala. E os únicos que demonstravam abertamente serem um casal, eram Rosa, Marcelo, Gabriel e eu. Rosa, ao ir na cozinha comigo, disse estar espantada com o irmão.
— Ele disse que iria se abrir às novas experiências. – respondi.
— Sim, mas assim de surpresa? E dá para notar que meu irmão está perdido. – ela riu.
— Compreensível, se tem algo que eu posso afirmar é que seu irmão não sabe mais como agir com uma mulher.
— Ah , eu não ficaria tão certa disto. O é um galanteador nato. É porque ele não mostrou este lado a você.
Depois que Rosa falou, eu me recordei de alguns momentos que me forçaram a concordar com ela. Mas obviamente eu não externei isso.
— Ele poderia pelo menos ter arrumado outra mulher, né?
— Qual o problema com Belinha? – Rosa perguntou em dúvida.
— Ela é ex-namorada do Gabriel.
Voltei à sala com as xícaras de café e deixei Rosa boquiaberta na cozinha. Não demorou para ela se reunir a nós. Então Rosa e Marcelo se despediram, titia desceu, e Gabriel também disse que iria embora. Estávamos na varanda: titia, Gabriel, , Belinha e eu. Abracei Gabriel e lhe dei um selinho de despedida. Ele cumprimentou titia e .
— Vamos Belinha? – perguntou à moça.
— Se quiser eu a deixo em casa , já estou indo embora mesmo.
Gabriel disse simpático.
— Querido, não precisa. Talvez e Isabela queiram passar mais algum tempo, juntos.
Eu disse para Gabriel tentando evitar aquela carona.
— Eu não me importo. Tudo bem para você, ? Acho até melhor, eu já o aluguei muito por uma noite.
Após Isabela se pronunciar, apenas concordou. Aquela maldita fama de homem inalcançável parecia amedrontar Belinha. Ela aceitou a carona de Gabriel.
— Tudo bem para você? – ele perguntou em sussurros, me abraçando.
O que eu poderia dizer após ele oferecer a carona e ela ainda aceitar? Ele não notou como eu me sentiria, ou queria se vingar? De qualquer modo, os dois entraram no carro de Gabriel. Titia, e eu observávamos pela varanda. Titia notou minha irritação.
— Algum problema, querida?
— Sim. Não curti esta carona.
— Por quê? – perguntou.
— Você sabia que ela é ex-namorada do Gabriel? – perguntei.
— Sim. Mas ela está comigo agora.
— Não, ela está no carro dele agora.
Titia ria do meu ciúme, e se irritava comigo por aquela discussão e por meu ciúme de Gabriel.
— Não se preocupe, não acho que seu namorado certinho vá trair você. – zombou ele de mim, como se insinuasse algo: — E encare como um favor que estou te fazendo, conquistando a ex que sairá do seu caminho.
Falou bravo, deu as costas e subiu para seu quarto.
— O que deu nele? – perguntei confusa com tanta rispidez.
Titia apenas ria se divertindo com toda a situação. Ela e eu entramos e nos sentamos na sala para ver TV antes do sono chegar.


Continua...



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Nota da autora: Esta fanfic na verdade é o projeto de um livro antigo que não terminei. Então decidi postá-la aqui. Espero que vocês gostem da história, e comentem muito! O feedback que você traz, pelos comentários, é muito importante para as autoras.

Capítulo louco, babado, muita confusão, muita travessura de todo lado e ai, ai, ai! UM CASAL FORMADO!! Não me matem, não morram. Segura no cinto de segurança e só vai! Comenta aí, por favor, que eu estou ansiosa pela tua mensagem! <3

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