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Capítulo 13 - Visitas Surpresas

Tocar na playlist: (Two Ghosts – Harry Styles)

“We're not who we used to be. We're just two ghosts standing in the place of you and me, trying to remember how it feels to have a heartbeat”.


Dois meses haviam se passado. As coisas entre Gabriel e eu caminhavam calmas. Como prometido fomos almoçar na casa de seu tio, e todos me receberam muito bem. Quanto à , levou Isabela outras duas vezes na fazenda, mas ainda era uma incógnita para nós o que de fato, acontecia entre eles. Depois da última visita de Belinha ele não comentara mais nada com ninguém, e das vezes que titia o abordou sobre o assunto publicamente, ele desconversara. E ninguém mais havia visto os dois juntos. Um mistério. E não poderíamos esperar menos de .
havia se lembrado do dia em que deixei ela trazer seus amiguinhos em algum fim de semana para a fazenda. Logicamente, e eu revezamos algumas vezes em levar a garotinha para a casa dos coleguinhas e buscá-la, mas até então não havia sido anfitriã de ninguém. Então naquele fim de semana, eu prometi preparar uma festa do pijama para ela. nunca tinha participado de uma festa do pijama, e não somente ela, mas titia e Rosa adoraram a ideia. não estava contrariado com a ideia, mas também não sabia como reagir com a casa cheia de menininhas correndo para todos os lados. Porém, de presenciar a felicidade da filha ele já se mostrava receptivo à comemoração. E até opinar nas decorações, ele opinou. Era a quinta-feira que antecedia os preparativos para a festa, e Rosa, e eu fomos à cidade comprar alguns enfeites. Tudo muito colorido. Eu decidi arcar com a surpresa, o tema: festa de pelúcia. Encomendei várias pantufas onde cada convidada ficaria com a sua, e pedi ao Gabriel para me levar na cidade grande mais próxima e comprei vários bichinhos de pelúcia, cada convidada também receberia o seu. Os demais pelúcias de enfeite da festa, ficariam para .
Quando Gabriel e eu chegamos com as caixas, decidimos esconder tudo na casa de Rosa e Marcelo. Havíamos combinado com que ele levaria ao cinema na sexta-feira de preparativos para que pudéssemos arrumar tudo. A única coisa que nós não esperávamos era uma surpresa de . Ao voltarmos da casa de meus compadres, e titia estavam na sala com uma ansiosa. Assim que nos viu, a menina correu em nossa direção e os dois outros adultos me olhavam um pouco apreensivos. O que teria aprontado?
— Eu esqueci de contar pra você que meus amiguinhos também vem!
— Quais e quantos amiguinhos?
— Só sete. Os outros meninos não podiam! – ela falou num misto de animação e desapontamento.
— Meninos? – perguntei espantada.
me olhou com travessura sorrindo da minha má sorte, então encarei Gabriel desesperada. Meu namorado sorriu e perguntou à :
— Princesa… Do que os seus coleguinhas gostam?
— De super-heróis tio Gabriel! Mas eu não quero isso na minha festa. – disse ela emburrada.
Ahn… Tudo bem , seus amiguinhos vão vir é lógico, não tem problema nenhum. – eu disse sorrindo eufórica para ela.
saiu correndo atrás da sua avó para conversar sobre as comidas da festa:
— Vovó, o que vamos fazer de cadárpio?
Nós gargalhávamos do erro gramatical de e assim que ela saiu da sala, me joguei no sofá ao lado de , coloquei as mãos sobre a cabeça encarando meu namorado que sorria tranquilo da situação.
— E agora amor? – perguntei.
— Olha, eu não sei o que você está aprontando, mas pega aqui para ajudar, se faltar você me fala.
estendeu duas notas de cem reais. Eu recusei alegando que não precisava, mas ele se fez teimoso e disse que como era a festa que eu inventei para a filha dele, ele queria ajudar mais. Então aceitei, peguei meu namorado pela mão e o arrastei de volta ao carro. Ele perguntava curioso onde iríamos.
— Onde mais? Vamos voltar às compras.
Chegamos em casa naquela quinta-feira muito tarde, exatamente ao fim das vinte três horas. Havíamos deixado as coisas na casa de Rosa e Marcelo que sorriam da nossa desventura por . Pedi desculpas de incomodá-los tão tarde. Sempre gentis, não se importaram. Gabriel antes de ir embora me perguntou como eu faria para arrumar dois ambientes tão diferentes. Eu apenas respondi:
— Vai sobrar para o quarto do pai dela.
vai te matar, amor.
— Pensei na sala, mas aí vai atrapalhar todo mundo. Então, o pai dela será o herói.
— Deixe eu beijar minha namorada antes de um possível homicídio.
Nos beijamos, despedimos, e agradeci ao Gabriel pela gentileza de me acompanhar naquela aventura o dia inteiro. Entrei em casa, todos dormiam. Tomei um banho e capotei em minha cama acordando no dia seguinte só após o despertador tocar. Estava atrasada para ajudar . Levantei descabelada e desci as escadas correndo, após escovar os dentes. Todos tomavam café à mesa da cozinha. Inclusive e todos riam da minha cara.
— Pode voltar para pentear o cabelo, já cuidei de tudo. – disse zombeteiro.
— Pelo amor de Deus gente, que dia é hoje?
— Dia da minha festa, ! – pulou em meu colo me dando um beijo de despedida.
Rosa e Marcelo já estavam a caminho da cidade e, como sempre levariam . teria trabalho na fazenda Nolasco. Antes dele sair, o lembrei:
pelo amor de Deus, você busca a e vá direto ao cinema! Na volta busque a criançada!
— Relaxa… – ele ria: — Tome seu café com calma, que seu dia de loucura está apenas começando.
Assim o fiz. Terminei de comer, subi, tomei banho, prendi meus cabelos e fui à casa de Rosa – que havia deixado a chave comigo – para buscar os enfeites. Titia me ajudou com a arrumação toda. E disse estar espantada com minha empolgação, e nem era aniversário da . Eu respondi que faria tudo o que pudesse para ver a pequena feliz. Continuamos a arrumação e titia estava maravilhada com a ideia da festa de pelúcia.
— Mas, e quanto aos meninos, filha? Não acho que vão gostar da ideia.
Puxei titia até o quarto de , empurrei a porta carregando as caixas lá para dentro.
— Aqui nós faremos o QG dos heróis.
Eu sorri e titia me olhou assustada, logo deu uma farta gargalhada prevendo a confusão que eu estava prestes a arrumar. Guardamos todos os itens pessoais de , afastamos os móveis. Titia e eu olhamos as gavetas pelo quarto procurando os materiais de trabalho, objetos cortantes, ou quaisquer outras coisas impróprias às crianças, e colocando tudo numa caixa. Titia achou uma cartela de preservativos no criado-mudo do filho.
Hunf. Não sei para quê, né? Não tem com quem usar! – chamou minha atenção mostrando o objeto.
Eu não pude deixar de rir da irritação de titia.
— Devem até ter vencido.
— Pior que não, filha. Parecem novas. Por acaso vocês…
Antes que titia – animada, vale ressaltar – terminasse a frase, eu fui respondendo:
— Não olha para mim, não tenho nada a ver com isso.
Continuamos a arrumação. Separamos uma muda de roupas que ele poderia utilizar naqueles dias, e titia levou para o seu quarto. Após, eu empurrei a cama dele lacrando o acesso às portas do guarda-roupas. A última coisa que ele quereria, seriam as crianças mexendo em suas coisas. Mesmo sendo uma ideia ótima para eu me vingar de todas as irritações que me provocara, eu lacrei o acesso às suas coisas. Eu não deveria ser tão vingativa, quanto imaginava que poderia chegar a ser. Subi na cama e guardei as caixas com itens pessoais sobre o armário.
Colei os painéis de isopor nas paredes, pendurei os enfeites no teto. Aproveitando a disposição da cama de criei uma cabaninha secreta com lençóis para os meninos. E ao chão espalhei os sacos de dormir. Em cima de cada um deixei as fantasias de presente dos convidados, com suas pantufas também temáticas.
Titia me abraçou após eu acabar a arrumação, e já estava quase na hora das crianças chegarem. Eu fui ajudar titia com o “cadárpio” como diria . Rosa chegou animada e foi nos ajudar para acabar mais rápido.
Assim que as comidinhas estavam prontas, eu subi com Rosa para que ela pudesse ver nossa arrumação nos quartos. Ela morreu de rir ao entrar no quarto do .
— Meu irmão vai te matar !
— Vai nada! Aposto que ele vai brincar também. – eu sorri animada.
Fui me arrumar. Mantive meu penteado de rabo de cavalo, coloquei o pijama macacão de pelúcia que comprei para mim, deixei outro idêntico ao meu, porém menor sobre a cama de e desci. Gabriel chegou e morreu de rir, assim como Rosa, titia e Marcelo ao me ver.
— Acho bom todos irem se arrumar! O já deve estar chegando com a criançada. – apontei meu dedo indicador para cada um deles, acusadoramente.
Todos pararam de rir e sem entender subiram me seguindo. Dentro do meu quarto, estendi os pijamas que havia comprado para todo mundo: pijama rosa de bolinhas para a titia, com direito à toquinha. Pijama da Barbie para Rosa. E para Gabriel, Marcelo e comprei os pijamas das tartarugas ninjas.
Não fazia ideia se os coleguinhas de conheciam as tartarugas ninjas, mas os três meninos que as usariam, eu sabia que reconheceriam. Todos riam divertidos da minha ideia maluca, sem ter a menor noção de que participariam da festa. Quando chegou com as crianças estávamos todos prontos.
Quando nos viram, não teve uma criança que não caiu na gargalhada. E também, e como eu nunca havia o visto gargalhar.
— Que ideia é essa, ? – ele perguntou ao meu lado.
— Suba e vista seu pijama. Aliás, todos vocês! – eu disse apontando às crianças que riam de cada gesto meu.
me abraçou agradecida e feliz.
— Obrigada, !
— Calma, você ainda não viu nada.
Levamos as crianças para seus quartos, primeiro o quarto das meninas. Foi uma confusão de gritos eufóricos, e até chorou me agradecendo e me abraçando, dizendo que estava muito feliz. Suas coleguinhas adoraram as pantufas.
— Meninas! – gritei chamando atenção delas: — Cada uma pode escolher um bichinho de pelúcia pra levar pra casa, e cada pantufinha é presente pra vocês também!
Todas elas riam e gritavam e pulavam animadas. As meninas correram para abraçar a , e logo se formou um bolinho de xuxinhas de cabelo e risadinhas no meio do quarto. Os meninos riam zombando da cara das meninas, e dizendo “não queremos ficar neste quarto de meninas!”.
— Mas todos vão brincar nos dois quartos! Não tem esta de quarto de menina, e quarto de menino. Para brincar todo mundo pode. – eu disse.
— Mas tia, vamos dormir aqui?
Eu olhei para os adultos que pareciam tão satisfeitos quanto eu com toda aquela farra.
— Todo mundo, vamos conhecer o quarto dos meninos! – eu disse e as crianças me seguiram.
Assim que chegamos à porta do quarto de eu olhei para ele e disse:
— Desculpe, não deu tempo de falar com você sobre isso.
Os adultos riam da cara de apavorado do . Abri a porta, as crianças entraram eufóricas e animadas. Os meninos adoraram e correram para abraçar à . Outro bolinho de crianças emboladas no meio do quarto.
— Ei meninos, as pantufas e as fantasias também são suas!
Eles adoraram e cada um correu para escolher a sua, e não teve briga porque como eu fui esperta pesquisei, qual era o herói preferido de cada um. O que tornou minhas compras ainda mais longas. Levei até meu quarto entregando o seu pijama:
— Michelangelo? Meu favorito.
— Não foi pensado, juro. Gabriel e Marcelo pegaram os favoritos deles.
— Da próxima vez que for invadir meu quarto me avise, sua folgada.
... Não começa...
— E me avise também que vou ter que pagar papel de ridículo. – ele disse sério apontando o meu pijama e o dele em sua mão.
— Você é o que? Um velho de 85 anos ranzinza e mal amado? – falei mais enérgica com ele.
— Não. Eu sou só o cara que gosta de irritar para não perder o costume. – ele sorriu.
Percebi que ele fazia hora com a minha cara e suspirei pesadamente, sorrindo contrariada em seguida, enquanto ele sorria zombeteiro da minha expressão.
— Não faça mais isso seu idiota. Eu realmente achei que você e eu íamos voltar a brigar.
— Mas, nós temos que brigar. É o que somos, não é? Dois brigões.
— Não.... Acho que já podemos dizer que somos um pouco mais que isso.
Falei sem maldade sorrindo, e então se aproximou cauteloso.
— Um pouco mais?
— Pessoas civilizadas?
— Pessoas civilizadas nós já éramos.
— Não parecia. Amigos? – ele estava mais próximo me encarando profundamente.
— Depende. Qual o bônus de ser seu amigo?
...
Sussurrei o nome dele dando um passo para trás, e ele sorriu fraco olhando para mim e bagunçando meus cabelos:
— Obrigada por ter feito tudo isso pela minha filha.
Ele saiu jogando o pijama sobre o ombro e cabisbaixo. E eu fiquei lá confusa mais alguns minutos. E sentindo um calor que deveria ser daquele pijama de pelúcia.
No final deu tudo certo. Havia joguinhos em todos os quartos, e bastante brincadeira para as crianças se entreterem. Os garotos foram para o quarto de brincar com os meninos. E Rosa, titia e eu fomos brincar com as meninas. Não demoramos muito, e deixamos as crianças à vontade para suas farras. Os adultos reunidos na sala, logo depois conversávamos. Todos queriam saber a opinião de sobre a festa, sobre principalmente a surpresa de seu quarto virar um QG. E então me abraçou. Bem forte. E agradeceu novamente, pacífico ao que fiz por sua filha. Gabriel não gostou muito do que viu, sentindo um pouco de ciúmes, mas logo corri para seus braços e ele ficou bem de novo. Rosa e eu fomos buscar as crianças para o lanche antes de dormir. Não que fossem dormir cedo, mas eu havia organizado horários e tarefas para o fim de semana que passariam ali.
Após lancharem, fizemos todos escovarem os dentes e os levamos para os quartos.
— Agora eles podem bagunçar à vontade os quartos. – eu disse descendo com Rosa.
Como eu havia pensado, não demorou para que eles se cansassem e dormissem logo.
, como conseguiu isso? – Marcelo perguntou descendo as escadas e se referindo à criançada.
Tomávamos chá e não deixava de rir a cada vez que reparava em meu pijama.
— Ora meu caro Marcelo, é elementar: as crianças estavam exaustas do dia na escola, foi fácil se cansarem. E quanto às próximas noites, eu preparei um longo e cansativo dia de atividades na fazenda que vão desde ajudar e eu nas tarefas mais simples, quanto às brincadeiras com os bichos e entre eles. Ou seja, ao anoitecer, estas crianças não terão fôlego para virar a noite.
— E nem nós. – respondeu .
— Isto faz parte Michelangelo, afinal somos os adultos. Nem tudo é diversão.
Gabriel, Marcelo e aquela noite dormiram na sala. Rosa dormiu em meu quarto, e titia em seus aposentos normalmente.
Na manhã seguinte, fizemos o café da manhã reforçado e seguimos com o plano de farra das crianças. Daquela segunda noite até o fim da festa do pijama, dormiu em meu quarto e não me importei em dividir minha cama com ele, e ele também não. Eu devia um pouco de conforto a ele, pois sem pedir permissão transformei o quarto dele num QG de pequenos invasores. Não era novidade também, já havíamos feito aquilo. E combinamos aquela “estadia” em meu quarto por baixo dos panos, a última coisa que queríamos era titia sabendo disso.
— Fique tranquila , eu não sou de me movimentar muito enquanto durmo.
Disse ele, a fim de esclarecer o pouco contato que teríamos.
— Tudo bem, eu também não. E depois, a cama é grande. Há espaço para nós dois.
— Suponho que, seu namorado não saiba disso.
— E não saberá. Não é como se fosse uma traição, nós já dividimos uma cama antes, sabemos como será.
e eu nos olhamos sérios. Ele segurava uma ponta do edredom, e eu a outra. Estávamos um, frente ao outro, em pé a nos encarar. Dei o primeiro passo, de deitar em minha cama enquanto os olhares de corriam sob minhas ações e corpo. Recostando minha cabeça ao travesseiro, ajeitei o cabelo para o lado oposto ao de e ainda encarando o teto, perguntei:
— Você dorme em pé? Era isso que queria dizer com “não se movimentar muito”?
Ele sorriu e seguiu para seu lado na cama. dormia sem camisa e apenas de boxer, mas em respeito a mim – como ele havia dito antes de deitarmos – dormiria de calças de moletom. Ao deitar, seu braço tocou a pele fria do meu braço, e pude sentir pequenos choques percorrerem meu corpo. Ele também fitava ao teto. E eu observava-o pelo canto de meu olho, quando notei que seu rosto se mantinha rígido. Seus lábios numa linha fina de dúvida, as sobrancelhas denunciando um desgosto pela situação. Fechei os olhos, e embora eu estivesse mais acordada do que nunca, orei mentalmente para o sono vir logo.
não pode nos ver assim, pela manhã.
disse interrompendo meus pensamentos.
— É. Por isso nós acordaremos mais cedo do que ela, como de costume.
Eu disse óbvia a fim de demonstrá-lo que as nossas rotinas continuariam as mesmas. Ou seja, não pegaria o pai comigo em meu quarto, ainda que não significasse nada.
Depois do que eu disse, olhou em minha direção desejando-me “boa noite”, respondi-o e ambos fechamos os olhos. Sem mover nenhum músculo a mais de nossos corpos.
Contei das ovelhas a todos os outros animais daquela fazenda, em sorte de que o sono chegaria logo.
O fim de semana cessou, organizamos a bagunça e aliviados levamos as crianças para suas casas. Chegaram empolgadas contando tudo para os pais que nos agradeciam não somente por cuidar bem delas, como por oportunizarmos um fim de semana de descanso para eles. Durante a semana a rotina voltou ao normal, e titia concordou quando Marcelo disse à mesa, na manhã seguinte da festa, que eu poderia abrir um acampamento infantil. Fiquei lisonjeada e até empolgada com a ideia para quem sabe, um futuro negócio.
me agradecia todos os dias daquela semana pelos presentes e pela diversão com os amigos, e disse que todos na escola falavam que ela era a menina mais legal, com uma tia fantástica. Fiquei feliz e radiante ao notar cada sorriso de ao contar sobre os comentários que duraram semanas.
Duas semanas depois, a temporada de chuvas havia chegado e estávamos , titia e eu sentados na sala assistindo à novela da tarde, quando ouvimos Tião, o caseiro da fazenda vizinha gritando:
— Seu ! Seu !
Levantamos rápido em direção à varanda, e logo surgiu entre as pernas da avó, tão assustada quanto nós.
— O que aconteceu Tião? – perguntou titia nervosa.
— Dona Cora, Seu ! Pelo amor de Deus! – o homem ofegava:— A vaca!
— Que vaca Tião? Fala logo! – impaciente perguntou.
Corri na cozinha e peguei um copo de água, e voltei entregando a bebida ao homem esbaforido. Ele agradeceu, e bebeu tudo em poucos goles. Peguei o copo e pedi para levar até a cozinha. A pequena obediente foi correndo para voltar e descobrir o que acontecia. Mais calmo, Tião explicava:
— Seu , uma vaca da sua fazenda tá presa no atoleiro da divisa! Nóis tamo lá tentando tirar, mas os patrão não tão no sítio. E não temo camionete, só o trator. Se nóis pegar a vaca de trator, capaiz dela num guentá!
— Calma Tião, vou chamar meu cunhado e nós já vamos lá com a camionete. Corre lá e segura a vaca o máximo que vocês puderem.
O peão saiu correndo de novo, entrou e calçou a botina e pegou a chave do carro.
— Mãe, vou lá na Rosa pedir ajuda ao Marcelo. Volto assim que acabar.
— Cuidado com a chuva filho.
— Eu vou com você. – eu disse para ele.
— Vai fazer o que lá? Pode ficar aí, não tem nada para você fazer lá.
— Eu posso ajudar!
— Você só vai atrapalhar , é para desatolar uma vaca, não um cachorro.
— Qual é, ? – entrei na frente dele nervosa — Tá achando que tá falando com quem? Te ajudo todo dia aqui na lida, posso muito bem ajudar nisso!
— Ô mulher teimosa! Anda logo então, entra no carro.
Saí calçando minhas botinas também, em seguida entrando no carro. Titia ligou para Rosa pedindo para Marcelo ajudar e se aprontar. Passamos no celeiro, buscamos cordas e apoios para prender no animal, em seguida buscamos Marcelo e seguimos. A chuva estava fraca, mas o suficiente para atrapalhar ainda mais o resgaste da vaca. Os homens faziam força para puxar o bicho, e como eu imaginei, foi necessário a minha ajuda. Entrei no carro e dei partida, o bovino estava amarrado ao carro, e assim facilitou o trabalho dos homens. Ao tirar a vaca do atoleiro, a coitadinha de assustada deu um pique para dentro da fazenda. e Marcelo subiram na caçamba da camionete e me pediram para arrancar atrás do bicho.
— Ô Tião, obrigadão pela ajuda! – gritou acenando para o peão e seu ajudante.
— Tem de quê não, seu ! – gritou de volta.
Enquanto eu seguia o bicho apavorado, e Marcelo davam laços nas cordas e ao aproximar do bicho emparelhei ao seu lado diminuindo a velocidade, e os dois homens na caçamba puderam laçar a vaca. Descemos do carro, acalmando o animal, em seguida colocamos ela amarrada à camionete e devagar guiamos a vaca até o curral. passou um spray que havia levado, para os machucados da vaca e logo ela estava presa no curral novamente.
Na volta Marcelo zombava de que queria dispensar a minha ajuda.
já é uma fazendeira, cunhado.
— Deixa ele Marcelo! tem que confiar mais em mim!
Deixamos Marcelo em casa e seguimos para o casarão. havia se sujado inteiro de lama. Desceu do carro e retirou o plástico que usara para cobrir o banco onde havia se sentado. Estendeu o plástico na chuva e seguimos em direção à entrada da casa. Tiramos as botinas e quando entrei, mal pude acreditar no que vi. Saí correndo e gritando em direção aos meus amigos e pulei sobre os dois os abraçando e os derrubando ao chão. Titia e se divertiam com a cena. entrou retirando a camisa suja e erguendo as barras da calça, também sujas, sem entender o que ocorria até ver as pessoas que estavam na sala.
— Ora, ora! Que bom revê-los.
Ele os cumprimentou com um aperto de mãos e pedindo licença se retirou para um banho.
— E aí querida, deu certo lá com a vaca?
— Sim titia, desatolamos ela sem muitos problemas.
Eu dizia abraçada à Verônica e Anjinho.
— Quem diria que eu veria a minha amiga desatolar uma vaca. – Verônica disse sorridente.
— Eu estou tão feliz por vocês estarem aqui!
Conversamos por horas, e os dois passariam o fim de semana comigo.
— Agora é sua festa do pijama, né ?
Sorrimos para . E a pequenina havia me dado uma ideia.
— Isso ! Titia, tudo bem se fizermos um churrasco com uns amigos este sábado?
— Acharei ótimo!
Bati palmas como fazia ao se animar. E falando na pequena, ela mal pôde esperar para mostrar aos meus amigos as fotos da sua festa do pijama. gostava de Anjinho e Verônica, e logo que Rosa e Marcelo se encontraram com eles, também os adoraram. Eu estava feliz, e meus amigos estavam felizes por duas coisas: matar as saudades de mim, e me ver bem após tanto tempo.
Em respeito à visita de meus amigos, deixei que eles dormissem em meu quarto e enquanto estivessem de estadia em nossa casa, eu dormiria com . Na manhã seguinte, coloquei os dois no carro e os levei à cidade comigo. Fomos até a delegacia para que pudessem rever Gabriel, meu então, namorado. E enquanto eu estava no expediente, meu casal de amigos fora conhecer a pacata cidade. Assim que saí do turno de trabalho, nós três fomos comprar as comidas e bebidas do fim de semana. Passei na casa do Guino, os apresentei e convidei ao senhor e seus afilhado-netos. Em seguida fui à casa de “seu” Tadeu fazendo o mesmo. Liguei para Lúcia convidando ela e quem mais ela quisesse levar de sua família. Também chamei os amigos da delegacia. O churrasco seria animado, e mais animados do que eu, estavam o pessoal da fazenda. Lúcia me dissera quando a telefonei:
Já é a segunda festa organizada por você que ouço falar, aí na fazenda. Você está mesmo mudando as coisas por aí, não é?
Conversamos um pouco sobre aquela observação, e ela aceitou o convite animada. No sábado pela manhã íamos preparando as carnes e comidas. alugou uma tina para colocar as bebidas e o gelo. A medida que o pessoal chegava, íamos colocando suas bebidas para gelar. Nosso churrasco acabou lá pelas oito horas da noite, e foi muito divertido. Com muita animação, conversas e danças. também chamou alguns coleguinhas e mal esteve conosco durante a festa, pois passou a maior parte do tempo comendo e brincando com as outras crianças.
Durante alguns momentos, depois de algumas cervejas a mais do que deveria, se aproximou de mim um pouco nervoso por eu ter convidado Belinha sem avisá-lo. Eu também já estava um pouco alterada:
— Olha, acho bom você cuidar da sua namorada, porque eu não quero ela perto do Gabriel!
— Se manca , ninguém quer o senhor Certinho não! Só você mesmo! Não sei o que você viu nele!
Depois de trocar estas pequenas farpas nos afastamos. Verônica e Rosa perceberam e vieram conversar comigo. Ambas alegavam que íamos acabar juntos, pois isso estava escrito em nossas testas desde que nos conhecemos. Eu repreendi as duas, e procurei Gabriel. Encontrei ele e Belinha conversando animados, e risonhos. Imediatamente procurei que ria enquanto conversava com outros convidados. Praguejei pela incompetência dele em conquistar aquela garota. Pensei em me aproximar dos dois e tirar Gabriel de lá, mas admitiria à Isabela uma insegurança. Então apenas observei de longe.
Verônica, Lúcia, Rosa e eu trocamos figurinhas o tempo todo, e encerramos a conversa falando de homens, junto à titia. Como era previsível quando mulheres levemente bêbadas se reuniam. Pegamos no pé de titia, insinuando que ela e o Guino deveriam namorar. Eu achava que ela fosse ficar brava, mas pelo contrário, ela curtiu as gozações e nos contou sobre sua história de adolescência com o Guino: eles foram apaixonados antes dela conhecer o pai de Rosa e ! E então fui às forras, me vingando de todas as piadas que ela lançou sobre e eu.
Lúcia se abriu um pouco mais sobre seus pensamentos relacionados a e eu, e entrou no fã clube junto à titia, Rosa e Verônica. Logo o assunto foi para o casamento de Verônica, em seguida Lúcia falou de seu noivado, Rosa foi interrogada por nós sobre os próximos netos de titia e respondendo que estavam “trabalhando no assunto”, ela desconversou rapidamente enfocando a conversa para mim. Dei um jeito rápido de mudar aquele papo de casamento, afinal, não queria me casar nem tão cedo. Na verdade, até queria, mas não tinha certeza sobre tal decisão com Gabriel.
Ao fim da festa, Gabriel veio se despedir de mim e eu fiquei furiosa, pois achava que ele fosse dormir na fazenda comigo. Tivemos uma pequena discussão. Observei Belinha ir embora com o avô e o irmão Carlinhos e fiquei mais aliviada, porém não menos chateada com meu namorado que mal me dera atenção aquele dia, e ainda assim estava apressado para ir embora. mal falou com Isabela, apenas abraçando-a na chegada e na saída. Não sabíamos o que havia acontecido, no entanto, todos percebemos que eles não estavam mais saindo. E aquilo me deixou extremamente curiosa, pois algo me dizia que tinha a ver com o Gabriel.
Depois de todos irem para suas casas, inclusive Marcelo e Rosa, nós nos preparamos para dormir. Titia foi a primeira a apagar. Verônica e Ângelo foram em seguida. e eu ainda estávamos meio bêbados. Meus amigos se despediram de nós na sala, animados e eufóricos para irem para o quarto. e eu ríamos da paixão indiscreta dos dois. Estávamos na sala olhando para a televisão, irritados um com o outro, e duvido que ele prestasse atenção em algo que passava ali. Eu não estava nada concentrada no programa de humor. Me levantei para ir ao meu quarto quando ele se pronunciou:
— Você a chamou de propósito, não é?
— Não. Eu sou amiga do Guino e do Carlinhos, e embora não tenha muito contato com ela, não poderia ser mal-educada e não a convidar.
— Confessa, você morre de ciúmes daquele seu namoradinho água com açúcar, e chamou a Belinha para tentar me empurrar para ela de novo!
estava parado em minha frente, acusando-me inquisitivamente.
— É, eu tenho ciúmes sim, mas não a chamei para empurrá-la a você. Foi você que se envolveu com ela, eu não te obriguei a isso.
— De certa forma obrigou!
— Ah, , me esquece. Vai dormir!
Eu disse dando as costas a ele e subindo. Ele veio logo em seguida. E ao passar pela porta do quarto dele, ele me empurrou para dentro e trancou a porta.
— O que você pensa que está fazendo, seu idiota?
Falei mais alto com ele, que logo se aproximou mandando eu falar baixo, segurando minha cintura e tampando minha boca.
— Eu estou com saudades. – respondeu.

Tocar na playlist: (Without a Fight – Brad Paisley ft. Demi Lovato)

Tradução:

“Na cama tem uma bagunça de lençóis. Falta de sono fazendo mal
para cabeça. Nós dois arrependemos de algumas coisas que dizemos,
mas amamos o jeito que como terminou”


Fiquei sem reação encarando seus olhos. Ele soltou a mão de minha boca aos poucos, e ficamos ali nos encarando por um tempo. Silenciosos. foi dando vagarosos passos me empurrando para trás, até que caí em sua cama.

“Às vezes acho que machucamos um ao outro, só para irmos até onde
isso leva. Às vezes estamos lutando só para sermos amantes. Você é
tão sem piedade, mas como somos, eu acerto.
Mas como pode ser não darmos certo? O jeito como amamos não
parece certo, o jeito que bagunçamos, como brigamos...
Tenho uma ideia louca. Venha hoje à noite, faremos as pazes sem
brigar”.


Fui chegando para trás em sua cama, enquanto ele avançava sobre mim. Não fazia ideia do que eu estava prestes a fazer, mas sabia que eu não conseguiria evitar. sentou-se sobre mim, acariciou meu rosto e lentamente uniu nossos lábios. Iniciamos um beijo calmo e pacífico. Levei minhas mãos à sua nuca massageando-a fortemente.

“Eles dizem para não irmos para cama com raiva, verdade.
Mas na verdade é só algo que fazemos. Te deixo com raiva, mas te
quero, garota. Eu admito”.


E enquanto o beijava recordei, de todos os nossos beijos. Ele passava as mãos em meus cabelos, segurando-os com força bruta. Aprofundamos cada vez mais o beijo calmo, que ia ganhando potência. Com delicadeza ele retirou minha blusa. Escorreguei minhas mãos por baixo de sua camisa e arranhei seu definido abdômen, em seguida cravei as unhas em suas costas largas. Ele gemeu baixinho, excitando-me como nunca antes. Intensificou os beijos em direção ao meu pescoço, e mordiscou o glóbulo de minha orelha. Arfei baixinho, e aquilo o excitou também. Puxou uma de minhas pernas sobre si, apertando forte a minha coxa e aproximando cada vez mais nossos corpos. Retirou sua camisa, e observou cuidadosamente meus seios, onde seguiu depositando beijos sobre o sutiã. Puxei seus cabelos o afastando e desci meus lábios sobre seu peitoral e barriga. num ato rápido e desesperado me puxou para cima de si. Continuamos os beijos e carícias até que nos separamos em um momento de lucidez e nos encaramos profundamente.

“Às vezes eu acho que não poderia ser melhor.
Não poderia te querer mais. Às vezes acho que não pertencemos
juntos. Confundindo amor e guerra, mas como somos, eu acerto.
Mas como pode ser não darmos certo? (...)”.


— Quer mesmo fazer isto? – ele perguntou.
— Não tenho certeza. – respondi.
Então, ele me puxou para deitar ao seu lado. Sorriu para mim, beijou minha testa e me aninhando em seus braços disse:
— Eu não quero confundir você… Vamos dormir.
Concordei e fechando os olhos, dormimos.

Ao amanhecer levantei assustada me lembrando da noite anterior. Ele estava acordado me observando.
— Calma… Bom dia.
— Bom dia . – respondi esfregando os olhos.
— Se lembra de ontem? – perguntou.
— Lembro. Obrigada por não continuar.
— Só quando você realmente quiser.
Assenti. Estava em dúvida sobre aquilo e se, por acaso, aconteceria novamente para ele afirmar com tanta exatidão. beijou minha testa, e dizendo para eu ficar à vontade se levantou, pegou uma camisa no armário e a vestiu descendo em seguida. Peguei minha blusa jogada no chão de seu quarto, vesti e saí para me preparar para o café.
Todos estavam acordados, menos . Até então titia não percebeu que eu não havia dormido com . Combinamos todos de pescar no riacho naquela manhã de ressaca. Titia não deixaria de ir à missa. Como estávamos com visitas, eu deixei que eles ficassem à vontade. Como também queriam conhecer a feirinha da cidade, fomos todos à missa. E não poderia ter ocasião mais oportuna, para eu confessar meus pecados e buscar alguma salvação dentro daquele absurdo que eu imergia cada dia mais. Não avistei Gabriel na igreja, e logo que acabou a cerimônia, telefonei para ele.
Ele atendeu com voz de sono, um pouco embargada. Disse que me veria mais tarde, e se desculpou pela noite anterior. Diante das minhas atitudes na noite anterior, eu o desculpei e disse que o aguardaria ansiosa. Seria uma falsidade e deslealdade absurda de minha parte não o desculpar pela nossa briguinha na noite anterior, depois do que eu havia quase feito.
Mostramos a feirinha para Verônica e Ângelo que compraram vários artesanatos e quitutes para levar de volta à São Paulo. Assim que voltamos para casa, fomos à pescaria, com exceção de titia, Marcelo e Rosa. mais divertia-se tomando banho no riacho e espantando nossos peixes, do que pescando.
Tivemos uma tarde muito tranquila, e meus amigos agradeceram a cada minuto de atenção, e por toda hospitalidade à e titia.
— Esta também é a casa da agora, venham quando quiser. Foi um prazer recebê-los. – disse titia.
— Ficamos muito felizes em saber que vocês cuidam dela. – disse Verônica.
Meus olhos já se enchiam de lágrimas pela despedida naquele fim de tarde. Ângelo me abraçou forte e olhando em meus olhos disse:
— Concentre-se em sua felicidade e seja forte. Falta pouco. Eu prometo que tudo acabará bem.
Abracei novamente Anjinho, e Verônica. Meus amigos partiram de volta à São Paulo. Passei um tempo ao anoitecer na sala com todos, após voltar das tarefas vespertinas com . Não demorei muito e subi ao meu quarto, mas antes que uma leve depressão pudesse surgir, apareceu em minha porta:
— Não, você não vai ficar aqui triste.
— Eu só preciso de um tempo.
— Diz isso ao seu namorado, ele a aguarda lá embaixo.
Assim que ouvi que Gabriel estava me esperando fiquei mais aliviada e desci junto ao . Estava chateada com a discussão da noite anterior que tive com Gabriel, e ansiosa para fazer as pazes. Queria conversar com ele sobre o que quase aconteceu também, mas não queria perdê-lo. Decidi estudar como estaríamos até o fim daquela noite, e saber que passos daria. Eu precisava ser sincera, embora essa fosse a última coisa que eu quisesse.
Beijei ele e o abracei. Ele correspondeu. nos olhava curioso, analítico como se pressentisse algo de errado. Titia também se mantinha atenta. Puxei Gabriel para se sentar conosco na sala, mas ele interveio:
— Podemos conversar lá fora?
Aquilo me preocupou e eu assenti o seguindo. Gabriel entrou no carro e eu o acompanhei. Seu semblante estava amargurado e eu ficava cada vez mais nervosa.

Tocar na playlist: (Try – Nelly Furtado)

Tradução:

“Tudo o que sei é que nada é como é vendido, mas quanto mais eu
cresço, menos eu sei. E eu vivi tantas vidas embora não seja velha. E
quanto mais eu vejo, menos eu cresço. Quanto menos sementes, mais
eu semeio.”


— O que houve amor?
— Eu te traí.
Disse e me olhou culpado:
— E você não merece isso. Então quero ser sincero e enfrentar as consequências.

“Então, vejo você parado aí querendo mais de mim, e tudo o que
posso fazer é tentar (...) Eu queria que eu não tivesse visto toda a
realidade e todas as pessoas reais. Na verdade, não são tão reais.
Quanto mais eu aprendo, mais eu choro. Enquanto digo adeus ao
estilo de vida que pensei que tinha projetado para mim...”


Talvez eu merecesse. Eu estive com muito mais vezes do que ele pensava, e escondi isso dele. Na noite anterior estive há poucos passos de realmente o trair com . Talvez aquele fosse o castigo por meus pecados, mas mesmo estando errada, eu não poderia passar por cima daquilo. Assim como não aceitaria se, sendo o contrário, Gabriel passasse por cima de uma traição confessa minha. A verdade havia finalmente surgido: nosso relacionamento não tinha base suficiente para ser sólido.

“Todos os momentos que já passaram. Tentar voltar e fazê-los durar?
E todas as coisas que queremos que o outro seja, nós nunca seremos,
nós nunca seremos tão maravilhosos. Essa é a vida. Esse é você,
querido, essa sou eu, querido.
Nós somos, livres no nosso amor.”


— Foi com a Isabela? – perguntei.
— Sim. … Desculpe. Eu me sinto um ordinário pelo que fiz, mas… – interrompi sua fala.
— Não peças desculpas, eu não vou te julgar ou culpar. Eu já imaginava que era possível de acontecer. Eu disse que relacionamentos mal-acabados uma hora acabam se confrontando de novo. Não vou te cobrar nada Gabriel. E agradeço a sinceridade, eu não sei se eu seria capaz de fazer o mesmo.
— Você não merece isso. Eu te amo, de verdade. Não sei agora, se o amor que eu sinto por você é um amor suficiente para o que temos, mas depois de ter me deixado levar por uma paixão tão antiga e infantil… Por uma ação tão canalha, eu não acho que o meu amor… Droga, ...
Ele olhou para as mãos culpado, e em seguida olhou para mim:
— Seria capaz de me perdoar ?
— Eu já te perdoei, mas não temos porque continuar, não é mesmo?
— Eu acho que é melhor… Não por mim e Isabela, porque não acho que ficaremos juntos. Mas… Por você.
Ora Gabriel, não vem com esse papo… Por mim, por quê?
— Estou falando de você e . Não precisa ser um gênio para notar a atração entre vocês. E se eu estava no caminho de vocês, acho que é melhor jogarmos abertamente agora.
— Eu e nunca confessamos nenhum sentimento um pelo outro.
— E não negaram também.
— O que você está insinuando?
— Vocês são afinal, uma família perfeita.
Ele disse e me recordei da noite de jantar na fazenda Nolasco. Olhei para minhas mãos entrelaçadas e nos mantivemos em silêncio durante um longo tempo.
— Eu não fui sincera com você. E me sinto agora, a pior pessoa do mundo por isso. Você foi o primeiro a acreditar em mim em todas as esferas, desde que eu cheguei.
— O que quer dizer com isso? – ele me olhava com uma expressão que eu não sabia nomear.
— Uma vez você me perguntou se e eu já tínhamos nos beijado. E eu disse que sim, mas, menti. Aconteceram mais de uma vez e até quando nós estávamos saindo um com o outro.
— E você acha que eu não sabia? – ele sorriu triste, mas conformado. — Como?
— Desde o início eu sabia que estava me envolvendo com uma mulher que já estava envolvida por outro sem saber. Mas, eu queria tanto .... Assumi os riscos. Aliás, nós dois assumimos, não é?
— Eu ainda não acabei. Deixa de ser bonzinho comigo, porque ontem e eu discutimos e nós quase... Você sabe.
— Eu não posso dizer que não esperava ouvir isso de você um dia. E ontem, eu percebi vocês discutindo a festa toda. Eu não queria ficar perto, queria analisar tudo. Toda a situação. Sem falar que eu ainda posso ser bonzinho contigo. Porque você não foi até o fim, enquanto eu nem mesmo hesitei.
— Chega Gabriel, fomos os dois canalhas um com o outro.
Ele riu. E eu o acompanhei. Não pude acreditar que eu havia perdido o Gabriel. Olha o cara incrível que ele era! Como eu fui capaz de... Ódio do ! Se ele não tivesse atormentado a minha vida, eu poderia estar pronta a viver uma história com uma das pessoas mais lindas que eu já havia conhecido.
Suspirei e o encarei, estendendo minha mão perguntei:
— Amigos?
— Desde sempre. – ele respondeu me puxando para um abraço.
Desci do carro e me despedi dele. Fiquei um tempo na varanda refletindo na rede, antes de entrar. E fiquei feliz por ninguém notar, ou por mesmo notando não terem vindo atrás de mim.
De certa forma eu não poderia cobrar nada de Gabriel, eu estava mais suja do que pau de galinheiro em nossa relação. E vivi bons momentos com ele, todos com a base mais profunda de amizade. Talvez tenha me precipitado sobre nós. Subi silenciosa para meu quarto. Não estava arrasada pelo término, pelo contrário, estava aliviada. Havia apostado e perdido. Agora tinha uma resposta concreta para algumas indagações em aberto na minha vida. Contudo, não podia deixar de ficar triste por mais um relacionamento não dar certo. Titia bateu à porta e indiquei que ela podia entrar. Limpei minhas lágrimas e sorri fraco para ela.
— Quer conversar?
— Acabou titia. Terminamos.
— Eu lamento. De verdade querida, sei que você estava esperançosa.
— É… Mas não poderia ser diferente, eu tentei amá-lo e fazer dar certo. Só não foi como pensamos.
Titia me abraçou e passou um tempo fazendo cafuné até que peguei no sono.
Acordei na manhã seguinte, e na outra, e na outra, e assim por diante. A vida seguiu normalmente. Eu não toquei mais em assunto de término com ninguém, e toda a família respeitou. e eu estávamos bem. Sem discussões. Sem brigas sérias. Sem implicâncias. Sem beijos. Sem amasso. Sem qualquer relação mais íntima. Sem qualquer relação mais distante. Apenas como havia se tornado nossa rotina desde os esclarecimentos.
Um mês se passou, até que um dia, Rosa voltou para casa mais cedo que o habitual. havia ido buscar , quando soube que Marcelo voltara antes com a esposa. Rosa teve um mal-estar na escola, e Marcelo a trouxera de volta para casa. Titia e bronquearam com os dois por não terem ido ao médico. No entanto, algo se passou em minha mente, e antes de sair para buscar fui falar com .
No almoço, e ainda não haviam chegado, mas antecipamos Rosa a se alimentar. Tivemos um momento a sós, ela e eu, e pudemos conversar:
está sozinho de novo há um tempo. Sabe o que houve entre ele e Isabela? – perguntou ela.
— Não. Seu irmão não conversa comigo sobre essas coisas. Você sabe! — E você está indo para o mesmo caminho que ele… Por que não se acerta com o Gabriel?
— Não temos futuro Rosa.
— Então, se acerte com alguém.
— Eu sei o que você está insinuando. E não há chances.
— Vou te contar um segredo.
Ela disse debruçando-se sobre a mesa:
— Ele me contou que vocês quase dormiram juntos.
Ela ria da minha feição espantada. Olhei para os lados observando se alguém vinha.
— O que?
— Ele é meu irmão, e temos hábito de desabafar sobre algumas coisas. Ele ficou inseguro com você quando aconteceu, queria a minha opinião.
— Não acredito que ele te contou… Olha, foi só aquela vez e estávamos bêbados. E mesmo assim não rolou! – sussurrei.
— Ora vamos, vocês parecem crianças. Por que não assumem logo o que sentem?
A fim de desconversar, me debrucei sobre a mesa como Rosa havia feito e sussurrei de volta:
— E você, já sabia que está grávida e por isso não quis ir ao hospital?
— O quê? – ela disse espantada.
— Vai dizer que não desconfia?
— Não pode ser… Eu…
E como quem desperta de pensamentos ela sussurrou nervosa, para mim:
— AI MEU DEUS… Pode ser sim!
— Pedi ao seu irmão para trazer um teste, e pela demora dele acho que pedi para a pessoa errada.
Nós duas rimos. Assim que chegou, me entregou o teste ansioso. Levei para o meu quarto e ele perguntava se a irmã tinha falado algo, e quando ela faria o teste.
— Se acalma, tá? – eu disse segurando os ombros de : — Vamos todos almoçar. Rosa está lá comendo, e quando terminarmos eu chamo ela para fazer o teste.
E assim fizemos. Almoçamos todos. Ao acabar, Rosa e eu limpamos a cozinha. Titia foi para a varanda tricotar. Marcelo deitou na rede. foi para seu quarto fazer as lições de casa. não saiu do nosso encalço. Terminamos de limpar a cozinha e Rosa disse ao irmão:
, você quer conversar com a a sós? Ficou nos cercando o tempo todo.
Olhamos um para o outro e eu chamei Rosa até meu quarto. Entreguei a ela o teste, e a abraçou desejando boa sorte. Aguardamos Rosa no corredor, em frente à porta do banheiro. Assim que ela abriu, e eu não aguentávamos mais de curiosidade.
— E então Rosa? Vou ser tio?
Ela sorriu e nos mostrou a paleta com o resultado. Automaticamente comecei a chorar de emoção, e abraçou a irmã a rodopiando. Ele estava deslumbrante com a notícia. Ambos estavam. Abracei forte a nova mamãe, e rapidamente nos dirigimos à varanda. e eu paramos na porta abraçados de lado, enquanto observávamos Rosa colocar a paleta do exame sobre a mão de Marcelo. Titia olhou para e eu abraçados e emocionados, um pouco confusa e então deu sua atenção ao que acontecia com a filha. Marcelo olhou para a paleta, em seguida para esposa que chorava, depois para o cunhado e eu, também chorões. E soltou um grito de felicidade. chegou assustada com o grito do tio, e sem entender por que a vovó e todos nós chorávamos abraçando Rosa.
— O que aconteceu pessoal? – ela perguntava com as mãos na cintura como uma mini adulta.
pegou a filha no colo.
… – Rosa falou indo até a sobrinha: — Tia Rosa vai ter um bebê!
gritou e bateu as palmas, animada, e pulou no colo da tia muito feliz. Após passar toda aquela euforia, íamos em direção ao sofá da sala e então se pronunciou:
— Espera… Como o bebê foi parar na sua barriga? Você comeu ele, tia?
Todos olhamos para a pequena de bocas abertas assustados.
— Papai, de onde vem os bebês?
estava mais vermelho do que um dos nossos tomates orgânicos.
— Você engravidou, você conta. – ele disse empurrando a filha em direção à irmã.
! Você é o pai dela! Eu vou ter a minha vez! – Rosa rebateu rindo.
— Certo… – ele suspirou. — Vamos filha, está na hora de termos uma conversinha.
Deu a mão e levou à filha ao seu quartinho. sem entender nada perguntou de novo enquanto subiam as escadas:
— Eu vou levar bronca? O que eu fiz papai?
Os dois permaneceram um tempo longo lá em cima e eu já estava ansiosa. Todos nos entreolhávamos na sala, aflitos por imaginar como a pessoa mais sem noção, mais insensível daquela casa, como o ogro do explicaria aquilo para a pequena.
Eu sacudia meus pés, em claro nervosismo, até titia me encarar sobre os óculos e dizer:
— Vai lá . Você está ansiosa e aposto que está todo enrolado para explicar à . – titia me disse.
Como um alívio respirei fundo e subi rapidamente. Encontrei e no quarto da menina, deitados na cama. estava com uma cara muito confusa e parecia cansado de tentar explicar. Bati à porta.
— Posso entrar? – perguntei.
— Pelo amor de Deus, me ajuda? – ele disse suplicante.
— Talvez, seja uma conversa para meninas, . – eu disse, ele assentiu beijando a testa da filha e antes de sair recomendou:
— Estarei aqui fora se precisar, e cuidado com as palavras.
Rolei os olhos e ri das recomendações do pai preocupado.
— Okay, . Vamos lá…
Me acomodei junto à criança em sua cama:
— Antes de saber de onde vem os bebês, nós vamos ter uma conversa sobre amor. Mas você é muito pequena ainda para entender tudo de verdade, então, tia vai resumir, tá?
A pequena concordou, adentrou às cobertas e cobriu-se deixando apenas o rostinho atento e os grandes olhos de jabuticabas arregalados e curiosos sobre mim.
— Um dia , uma mulher encontra um homem e os dois se apaixonam como nas histórias de contos de fada! O amor é um sentimento muito mágico, e quando alguém o encontra é impossível viver sem ele. E graças a este sentimento tão forte, esta mulher decide se casar com aquele homem.
— A tia Rosa e o tio Marcelo encontraram o amor, não foi tia ?
— Isso mesmo querida. Agora... Você já percebeu que meninos e meninas são diferentes?
— Sim! Meninos gostam de coisas diferentes de meninas!
— E o que mais você já percebeu?
— Meninas tem cabelo grande, meninos não.
— É , mas meninos podem ter cabelos grandes e meninas cabelos curtos também, não é?
— É! Igual à Bia e o Marquinhos! O cabelo dele cai nos olhos e a mamãe dele briga com ele pra cortar as pontinhas, porque ele não vê as coisas direito – gargalhava: — E a Bia briga se não cortar o cabelo dela, ela não gosta de cabelo grande.
— Pois é , então vamos procurar mais diferenças entre meninos e meninas. Será que você encontra se pensar em meninos e meninas adultos?
— Ah tia , é fácil! Você tem peitinhos grandes. Papai não. Ele disse que um dia os meus também vão crescer, porque isso só acontece com as meninas. E ele disse que a maioria dos papais são fortes, e as mamães são delicadas como flor.
— Isso mesmo . E sabe por que nossos peitinhos crescem?
Ela fez cara de dúvida.
— Porque eles guardam o leite que a mamãe dá ao bebê, .
A menina fez uma cara espantada e perguntou se tinha leite nos meus seios, e se eu poderia mostrar a ela, eu ri divertida.
— Não , para ter leite primeiro é preciso ter o bebê na barriga, aí o nosso corpo descobre que tem um bebê dentro de nós e começa a produzir leite.
— Igual com as vaquinhas! Mas as vaquinhas dão leite mesmo sem os bebês!
— Nós somos um pouco diferentes das vaquinhas, não é mesmo?
— É sim! – gargalhava divertida.
— Então agora você sabe que homens e mulheres são diferentes por seus corpos. O corpo de cada um tem a sua função para a chegada de um bebê . O papai tem a sementinha, e a mamãe tem em sua barriga uma bolsa que vai carregar a sementinha de bebê. E ali dentro da barriga da mamãe o bebê cresce.
— Diferente do canguru né, tia ? A mamãe canguru carrega o filhotinho do lado de fora da barriga, e a mamãe pessoa na parte de dentro!
— Exatamente . – eu sorria.
Então timidamente sentou-se, e com as mãozinhas sobre as bochechas e apoiando os cotovelos nas coxas me perguntou:
— Mas tia , você não disse como o neném vai parar lá dentro da barriga da mamãe! Ela come ele?
— Não .
Eu ri pensando que se fosse assim seria muito mais fácil.
— Bem, nós sabemos que o papai carrega a sementinha. Voltando a falar de amor, quando um homem e uma mulher se apaixonam, eles casam. Certo? – ela assentiu — Então, tia Rosa e tio Marcelo, cheios de amor mágico se casaram. E o bebê?
deu de ombros e fez cara de dúvida estendendo as mãozinhas.
— Depois que se apaixonam e se casam , este homem e esta mulher namoram. Mas não é um namoro igual ao que eu tinha com o tio Gabriel. Depois que se casam, o namoro muda, é como se eles ganhassem poderes que só depois de casado se tem. E aí, quando papai do céu quer, ele amadurece aquela sementinha que o papai carrega, e o casal fica tão cheio de amor mágico, que antes de dormir trocam carinhos, que só os casais sabem e podem fazer, e através destes carinhos, o papai consegue passar a sementinha para a mamãe. E aí o bebê vai parar dentro da sua barriga.
me olhava confusa e ao mesmo tempo surpresa. Dentro da cabeça dela, a coisa toda deveria soar como mágica de verdade.
— Eu sei que é um pouco confuso, mas eu prometo que quando você estiver um pouco mais velha, na hora certa você vai aprender e entender tudo sobre o mundo dos bebês. Tudo bem?
— Obrigada tia !
Ela me abraçou.
— E quando você vai ter o seu amor mágico, ?
— Aí que está , nós nunca sabemos quando nosso amor mágico vai acontecer. A única coisa que sabemos é que só acontece depois que somos adultas.
— Eu mal vejo a hora de ser adulta pra ter o meu amor mágico e o meu bebê!
Morrendo de rir e abraçando a menina, fiz cócegas nela.
— Ah, mas você pode esperar e muito ainda! – eu ri — Pelo amor dos céus, seu pai teria um troço!
— Falando nele... – ela ria — Papaai! Pode sair de trás da porta! Assim que ela disse isso, saiu mais aliviado sorrindo para nós. Sentou-se conosco na cama. Olhou para mim agradecido e abraçou a filha.
— Você será uma excelente mãe, eu te disse.
— Obrigada .
— Papai! – pulou no colo do pai eufórica: — Eu quero um irmãozinho!
, quando papai se apaixonar por uma mulher e se casar com ela, eu prometo que você terá um irmãozinho.
— Mas eu quero agora!
, – chamei a pequena — o que a tia te explicou? Eu não te contei que precisa primeiro do amor mágico?
— Mas o papai nunca se apaixona, e nem se casa! Eu nunca vou ter um irmãozinho!
A criança se entristeceu, fez beicinho e cruzou os braços emburrada. e eu nos olhamos pensando em como reverter aquela situação.
— Porque vocês não têm amor mágico?
perguntou cheia de esperança.
— Vovó disse que ia acontecer, mas porque vocês não querem? Vocês podiam me dar um irmãozinho!
Fiquei extremamente envergonhada com o que a menina disse, e seu pai a pegando em seu colo tratou de retratar.
, sua avó e ninguém podem garantir que o amor mágico vai acontecer, entendeu? Lembre-se do que a explicou. O amor entre duas pessoas só acontece por vontade do papai do céu. Não somos e eu que decidimos quando e por quem vamos nos apaixonar.
A menina se entristecia cada vez mais.
— E veja, tia Rosa terá um bebê e o seu priminho, poderá também ser como o seu irmãozinho enquanto você espera por um irmão de verdade. O que você acha?
saiu emburrada do colo do pai, pisando fundo e pirracenta. Não falou nada, apenas saiu do seu quarto. e eu ficamos ali, preocupados com o que a menina sentia.
— Tenho certeza que logo ela esquece tudo isso. – ele disse.
… Eu não quero me intrometer, mas pode ser que ela não esqueça. Titia já havia alertado sobre estes desejos que demonstrava. E acho que ela realmente precise ver o pai formar uma nova família.
— E o que você quer que eu faça, ? Não posso comprar uma família no mercado.
sem drama, tá? Você é jovem, e é um homem maravilhoso, não é complicado encontrar uma boa mulher para se envolver. Vá ser feliz, dê os primeiros passos.
— Você acha que eu não tentei?
— Por que não deu certo com Isabela?
— Por que ela já é apaixonada.
Assim que ele disse aquilo eu desviei o olhar.
— E eu também estou me apaixonando por outra pessoa.
Oras! – eu disse animada — Então está fácil! Ela também está apaixonada por você?
— Não sei se está.
— Ela já sabe que você está apaixonado?
— Não.
— E o que te impede de dar o próximo passo?
— Coragem.
— Pois quanto mais você esperar para correr o risco, mais longe da felicidade você fica. E ainda por cima, mais longe deixa de realizar este sonho.
Assim que eu disse aquilo encostei minha mão no ombro de e, olhando para ele com certa compreensão por vê-lo sem saber o que fazer, me retirei do quarto de . Ao chegar na sala, todos estavam assistindo a novela da tarde. E estava lá também, emburrada no colo da avó. Aparentemente ninguém sabia o que havia acontecido, mas titia por sua experiência com a menina imaginava que a conversa sobre bebês, talvez houvesse despertado os desejos de , em ter um irmão ou irmã.
Rosa e Marcelo abraçavam-se, como se fosse a primeira vez. Era notório o quão radiante estavam. Eu não estava a fim de assistir à novela, e então, fui para o celeiro.
Canelinha, o cão franzino, surpreendeu-me ao me acompanhar até o celeiro. Ele não era de andar atrás dos moradores da casa. Não era de andar atrás das galinhas, e muito menos não era de proteger a casa. Era apenas, o cachorrinho tristonho de enfeite. Brinquei com ele no caminho e assim que chegamos, eu subi ao “esconderijo secreto” do telhado. O mesmo que me mostrara há muito tempo.
Lá de cima, fiquei observando os arredores da fazenda. Eu estava bem. Pensei em tudo o que havia me acontecido até ali. Pensei nas brigas que me trouxeram àquele lugar, e no quanto havia amadurecido com cada uma delas. Eu estava me autoconhecendo cada vez mais. Eu entendia cada vez mais os meus sentimentos em relação às pessoas, coisa que antes – na vida de São Paulo – era algo quase inexistente. Era muito comum que eu me preocupasse apenas com o meu mundinho. Não que eu fosse egocêntrica, mas o quão fácil era amar a quem me amava!
Ao chegar na fazenda, eu tive de aprender a me amar independente de outras pessoas. Gabriel me ensinou muito, quanto a isso. Era ele quem sempre dizia: “Como você não consegue amar a pessoa incrível que você é? Por que se culpar tanto?”. E foi a partir dele, que eu comecei a pegar leve comigo.
, titia, Rosa e Marcelo estavam sempre lá também, para me provar quão boa pessoa eu era. Isso ajudava quando as minhas torrenciais de autocrítica surgiam. E acima de tudo, tive que aprender a amar quem me odiava. E os méritos disso são do . Por alguma razão – ainda parcialmente desconhecida – eu relutei dia após dia, pela aceitação daquele homem. Como nunca antes havia acontecido. Eu não apenas desejava ser aceita por ele, como desejava provar que eu merecia aquilo. Eu merecia o mísero de atenção, respeito, e admiração dele. Afinal, quem ele se achava ser, para me julgar como julgava? Ele mal conhecia a minha história. Ele mal conhecia o meu sofrer. Eu fui compreensiva com do começo ao fim, eu o abdiquei de culpa pelos tratamentos egoístas, abusivos e desrespeitosos comigo do começo ao fim. E descobri que o homenzarrão bruto, rústico, sistemático, machista e insensível era apenas um covarde. Com medo de me amar, como diziam as fantasias de sua mãe, ele tornou-se a pior pessoa para mim. E o jogo se inverteu. Hoje quem o consolava, era eu. E afinal, quem diria! não é tão insensível assim!
Eu fiquei ali pensando também, em como eu queria que o meu relacionamento com Gabriel desse certo, apenas para comprovar que eu não sou um erro. Que eu não sou o dedo podre. E nem mesmo a mão desastrosa que a tudo que toca, destrói. Eu não me importei com os sentimentos dele. Eu fui infame. E com infâmia recebi o troco. Eu estava feliz por Gabriel ter se libertado de mim. Eu é quem era indigna dos sentimentos dele. Não fui capaz, momento sequer de ser sincera com ele antes, nem durante e nem depois de iniciar aquele romance. Só ao terminar aquele namoro, por peso. Não por querer o certo, mas para aliviar minha própria culpa. É como dizem: o que tem de ser nosso, nos encontra. Gabriel não era para ser meu, mas era para me encontrar por algum motivo que antes eu não sabia ao certo. Mas agora, o sei.
E … Quantas idas e vindas eu ainda teria que enfrentar nas minhas indagações até saná-las por completo? Ele estaria na minha vida, ou eu na dele? Quem representava o papel de professor na vida do outro? Era ele quem me ensinaria algo? Ou eu a ele? Ele já havia cumprido sua parte? Teria mais? Estaria então, o fim daquela minha jornada, mais próximo?
Balancei a cabeça de um lado ao outro levemente, para afastar aqueles pensamentos confusos que começavam a anuviar minha mente. Desci e ao pisar no térreo do celeiro, ouvi um relinchar. Os cavalos estavam em suas baias.
Eu nunca mais havia andado a cavalo, mas me lembrava da reação como se fosse ontem. Caminhei calmamente até a Lunia.
Ela não se importaria em me carregar de novo, se importaria? Acho que já tínhamos alcançado alguma intimidade.
Ao lado de seu coxo, estava pendurada a sua cela. Sorrindo para a égua, que calmamente me olhava com aqueles olhos grandes e indecifráveis, peguei sua cela e acariciei a cara do animal, dizendo com voz tranquila:
— Ei menina! Vamos dar uma volta?
O sol batia fraco em meu rosto. Eu me senti um pouco zonza, e ouvindo o latir desesperado de Canelinha, abri os olhos. Olhei para o lado, e sobre meu criado-mudo estavam alguns medicamentos abaixo do abajur.
Levantei fraca, e apoiando as mãos no colchão fui me familiarizando com a situação. Meus braços tinham marcas de agulhas. E todo o meu corpo doía como se houvesse levado uma surra. Aos poucos, a minha audição voltava ao normal e me permitia escutar burburinhos no andar debaixo. Retirei calmamente meus pés da cama, calçando minhas pantufas. Ainda zonza, levantei e caminhei devagar pelo corredor. Ao chegar à visão da sala, antes de me aproximar do topo da escada, que adentrava o cômodo apressado olhou para cima e se deparou com a minha imagem se arrastando devagar. A cada dois degraus ele subia, ainda apressado, e com olhos arregalados. Me pegou no colo contra a minha vontade. Eu queria brigar com ele, mas por motivos ainda desconhecidos, eu não conseguia formular palavras. Retornei ao meu quarto nos braços de . Ele deitou-me em minha cama, e se sentando ao meu lado iniciou as explicações:
— Primeiramente… Nunca mais faça isso de novo!
Olhou sério para mim, e ao perceber que eu o olhava confusa e lenta, perguntou:
— Ainda se sente zonza?
Fiz sinal afirmativo com a cabeça.
— Procure não falar. São efeitos dos remédios. Você vai se sentir meio grogue por um tempo. Sente dor?
— Sim. – sussurrei.
— Eu vou avisar à mamãe que você acordou.
— Não. – eu disse ainda fraca, segurando sua mão: — O que…
Percebendo que eu gostaria de saber o que aconteceu, apenas pegou minha mão e acariciando-a sorriu.
— Por alguma razão estúpida, devo afirmar, a senhorita decidiu andar a cavalo. Só que alguma coisinha aí dentro, – acariciou minha cabeça: — Não estava funcionando, porque a senhorita se esqueceu que não sabia montar a cavalo. Ou aquilo foi uma tentativa de suicídio?
— Juro que não foi. – sorri fraco.
— Menos mal… O que te deu ? E se acontecesse algo mais sério com você? E se eu não tivesse a oportunidade de estar com você agora? E ? O que eu diria para ela? E se…
Seu olhar desesperado sobre mim, o fez parar de falar para beijar meu rosto:
— Nunca mais faça algo estúpido assim.
Ele advertiu e eu apenas assenti.
— Então, eu caí do cavalo?
— Pois é, quem diria não é mesmo, amazona? – disse sarcástico.
— Mas, eu já peguei a Lunia confiando na nossa pouca intimidade…
Ele negou com a cabeça sorrindo, como se eu houvesse feito realmente a coisa mais idiota do mundo.
— Acho que sua égua é ciumenta… – eu disse sorrindo para ele, tentando soar melhor.
— Minhas fêmeas geralmente o são. – ele sorriu travesso e ao notar minha cara de reprovação se levantou rindo: — Eu tenho que ir. Vou trabalhar… Você promete ficar quietinha aqui?
— Prometo, pai…
Sorrimos.
— Vou chamar a mamãe.
beijou minha testa e saiu. Não demorou muito para titia surgir com uma bandeja de café da manhã. Ela sentou-se à beira da cama, me entregou as doses de medicação e começou a contar o que havia acontecido. Eu havia caído do cavalo. Canelinha latia forte e vinha correndo na direção da casa. Ninguém entendia nada, mas quando ela lembrou que eu havia saído há algum tempo, logo deduziu que Canelinha talvez estivesse avisando algo. Então, Marcelo e foram me procurar pela fazenda, e seguindo o cãozinho, me encontraram caída perto do pomar de acerolas.
Chamaram um médico e desacordada eu fui levada ao hospital. Exames foram feitos, e o médico havia dito que era comum estar desacordada. E que talvez me manteria algum tempo daquele jeito. A tomografia feita não acusava nenhum dano. Eu teria que refazer dentro de alguns dias. Perguntei à titia quando tudo havia acontecido, e quanto tempo eu estava desacordada. Ela afirmou que eu ficara 24 horas dormindo, e que não era para me preocupar, pois o médico havia dito ser comum de acontecer.
Durante meu “apagão” recebi algumas visitas, e só então percebi as flores pelo meu quarto. Eu detestava aquilo, mas não poderia ser grosseira e pedir à titia para jogar fora as flores.
— Não sei você, mas eu odiaria receber flores se estivesse acamada. – a senhora disse sorrindo para mim.
— Ai titia… A senhora pode plantá-las para mim? – eu disse enfim, afirmando o mesmo: — É que fazem com que eu me sinta, como se estivesse morrendo…
Sorrimos divertidas uma para a outra. Enquanto eu me alimentava devagar, titia se levantou indo em direção aos arranjos e pegando os cartões. Ela me entregou os cartões de Guino, Lúcia, Tadeu e Gabriel que logo eu comecei a abrir para ler, e com os arranjos sob seus braços e mãos disse que os desceria para aguar.
Eu estava terminando de ler o cartão de Gabriel quando titia voltou. Rosa, Marcelo e não estavam em casa. Ela aguardou eu terminar de ler o cartão para continuar a conversa. Apontou para o cartão em minha mão e disse:
— Ele ficou preocupado de verdade.
— Típico do Gabriel… Acho que nunca conheci alguém tão preocupado com as pessoas.
— Ele é um bom rapaz.
Ela sorriu amigavelmente mudando de assunto em seguida.
— Olha, não são todas as flores que eu poderei plantar porque algumas não vão pegar. Então apenas deixaremos seu arranjo a enfeitar a casa. Tudo bem?
— Claro! Titia, como ficou com isso tudo?
Eu estava preocupada com o que teria passado. Assim como era difícil me imaginar sem ela, eu fiquei pensando se para a menina também seria difícil se imaginar sem mim. Eu já desconfiava da resposta, mas, ainda assim, me sentia insegura sobre “como a vida de todos andaria se de repente eu já não estivesse mais aqui?”.
— O que você acha? Desolada! Aliás, minha filha, todos ficamos preocupados e tivemos muito medo de perder você! Nunca mais nos assuste assim!
Eu sorri abaixando a cabeça, com uma expressão de culpa. Como criança que fez besteira. E eu havia realmente feito. Nem mesmo teria uma atitude como a minha.
— E quando eu digo todos, eu quero dizer que inclusive ficou desolado.
Olhei para titia, curiosa.
— Ele realmente se importa com você . Você pode dizer que é viagem minha, ou que estou fantasiando, mas conheço suficientemente o meu filho para saber quando ele está preocupado com alguém importante para ele. E ele agiu como se fosse uma pessoa da família. E você é, mas sabemos o quão negava isso, não é?
— Ele ficou tão preocupado assim? Como se fosse , Rosa, ou a senhora? – eu perguntava tímida e ainda em dúvida.
— Como se fosse até mais… Olha , você pode achar o que quiser, mas meu filho está apaixonado por você. E isso não é de hoje.
Fiquei encarando a titia. E enquanto ela esperava alguma reação minha, eu sentia minha garganta seca. Bebi um gole de suco, e a garganta continuava seca. Aquela frase havia mexido comigo. Não entendia exatamente por quê, mas eu suava por fora e me sentia sedenta por dentro. Antes que titia fizesse menção de se levantar, eu contei a ela:
— Não sei se é amor titia… – e então ela me olhou atenta, me motivando a continuar — Mas acho que tem mesmo, alguma coisa acontecendo com ele.
Fiz uma pausa e titia se ajeitou melhor na cama, indicando que estaria ali de ouvidos e coração abertos a ouvir. Então continuei calmamente contando tudo para ela.
— Nós tivemos sim, vários beijos e amassos pela casa.
Olhei para ela como uma adolescente confessando suas rebeldias:
— E eu sei que a senhora já sabia disso. Mas eu achava que era tudo parte de algum jogo dele para me enlouquecer… Até que nós esclarecemos tudo com a senhora e eu achei que não aconteceria mais. E de fato, nós ficamos um longo tempo sem brigar, mas também sem ter nenhuma aproximação. Tudo estava normal e caminhando para a amizade que eu desejava desde que cheguei… No segundo dia da festa do pijama de , eu ofereci meu quarto para ele dormir. E nada aconteceu, mas, ao mesmo tempo, que foi estranho, foi bom… Cada um ficou de um lado e não nos tocamos em nenhum momento, mas havia um ar de intimidade aqui. E embora nós tenhamos dividido uma cama quando fomos para São Paulo, naquela época foi diferente. Estávamos mais distantes do que nunca, e dessa vez era como se nós já tivéssemos acostumados a dividir a cama um com o outro.
Eu parei e bebi o suco, enquanto a mulher à minha frente apenas sorria surpresa e eu afagava meus cabelos demonstrando as minhas confusões.
— E depois, no dia do churrasco ele e eu discutimos na festa por causa da presença da Isabela. Ele veio me acusar de convidar a garota de propósito, para ter motivos de alimentar o ciúme que eu tinha dela com o Gabriel. Novamente antes de dormir, estávamos os dois na sala, e quando todos foram deitar voltamos a discutir o assunto. Não dei importância e o deixei falando sozinho, subi e ao passar pela porta do quarto dele, ele me empurrou para dentro. Antes que eu pudesse bater, gritar ou fazer qualquer coisa ele disse que estava com saudades, e quando percebi, estávamos ambos na cama dele aos beijos… – olhei para titia um pouco envergonhada e mordi o lábio inferior: — Nós quase… Enfim, a senhora sabe.
Assisti o rosto de titia ir de sorriso compreensivo à felicidade surpresa. Eu massageava minhas têmporas como se nada do que eu falava, fizesse sentido algum. E realmente não fazia.
— E aí, o Gabriel me trai, e bem… Eu não estava muito digna também não é mesmo? O fim do namoro veio quando tinha que vir. Na verdade, aquele namoro nem deveria ter começado!
Eu estava um pouco irritada em tocar naquele assunto, mas não culpava titia.
— Bem, querida… Se eu dissesse você não iria me ouvir, não é?
Ela falou afirmando que a história com o Gabriel era previsível. Apenas concordei.
— É… Desde aquele dia não aconteceu mais nada entre o e eu. Mas hoje… – então titia sorriu curiosa me encorajando a falar: — Ele disse umas coisas, meio desesperado sobre “e se algo mais sério acontecesse comigo, e se ele não tivesse mais a oportunidade de estar comigo”… Enfim, ele estava bem desesperado. Eu achei muito esquisito.
Titia sorria abertamente encarando as nuvens atrás de mim, que podiam ser vistas através de minha janela. Cheguei a pensar que ela não houvesse prestado atenção ao que eu disse, mas aquela senhora não deixava passar nada despercebido.
— É como eu disse , eu conheço o meu filho. Mas, eu conversarei com ele, para saber se por acaso eu estaria errada.
— Não te contei estas coisas a fim de sondar o , titia. Foi só um desabafo.
— Tudo bem então… Mas, e o que você sente em relação a tudo isso?
— Medo, titia. É que antes era tão fácil por não saber o que ele sentia por mim, que a menor hipótese de conhecer a verdade agora, e de que a verdade seja esta história de “estar apaixonado”, me traz um medo que eu não consigo explicar.
— Vocês dois precisam parar de negar o que todo mundo nota, quando os vê. Parar de negar que sentem algo um pelo outro. E agora que estão próximos de descobrir o que é este sentimento, vocês agem como covardes… Do que vocês, tem medo? De amar e ser feliz?
— O eu não sei, mas eu tenho medo de amá-lo e estragar tudo.
— Pois não tenha! Eu tive medo de amar também . Me meti num casamento de acordo, sem amor, e por sorte o amor veio depois… Durante os anos casados. Eu fui perdidamente apaixonada pelo pai dos meninos, mas depois de tanto tempo viúva, eu entendi que não desrespeitaria a memória de meu marido em ser feliz de novo. E sabe… o amor que eu tinha medo, o coração que eu parti por medo de partir o meu, retornou…
— Porque tudo que é mal resolvido, um dia volta para se resolver.
Eu afirmei sorrindo para titia e curiosa em saber onde aquela conversa daria.
— É… Você tem razão. – ela sorriu envergonhada: — E por isso, Guino e eu estamos juntos depois de tanto tempo.
— Oras não me diga! – eu disse animada e feliz — Titia! Mas, mas… Desde quando?
— Bem, nós sempre cuidamos um do outro por todos estes anos de casamento e viuvez como bons amigos, mas digamos que este churrasco que a senhorita planejou esclareceu muita coisa, não é mesmo?
Sorrimos divertidas.
— Vejamos… Rosa engravidou, o término do meu namoro veio a cavalo…
— Não falemos em cavalo por um tempo, querida. – titia advertiu brincalhona.
— A senhora despertou para o seu amor…
Fui enumerando até titia me interromper:
— E você e para o seu.
Fizemos silêncio. Eu ainda estava em dúvida.
— É , nós podemos dizer que este seu churrasco foi um divisor de águas.
Nós duas continuamos a sorrir de toda aquela conversa. E eu que não aguentava mais ficar na cama, perguntei se teria que passar o dia inteiro ali. Titia apenas falou que eu devia repousar, mas se estivesse me sentindo melhor, nada impedia de tomar um banho e andar pela casa. E que a única regra, era manter distância dos equinos por um bom tempo. Depois de dadas as recomendações, fui tomar banho e ao sair do banheiro e retornar ao meu quarto, tudo estava arrumadinho lá dentro. Titia havia agido rápido. Passei o dia todo com ela, entre conversas e poucos afazeres que me eram permitidos.
Naquela semana eu não pude me esforçar, então fui proibida dos trabalhos braçais. até brincou comigo sobre ter aprontado de propósito para conseguir aquele recesso médico. Gabriel não aceitou que eu voltasse à delegacia, mesmo já tendo três dias que eu havia acordado e me sentia muito melhor. Decidi que não discutiria com ninguém sobre as recomendações.
Dois dias depois de eu ter acordado, trouxera-me uma rosa, e me entregou.
— Soube que você detesta buquês em seu quarto, porque afinal, não está morrendo. Então preferi entregar uma rosa em mãos. Bem vivas.
Disse e sorriu me arrancando um sorriso também.
— Melhoras, amazona. E volte logo às tarefas, porque está fazendo falta. – eu li o cartão em voz alta e sorri suspirando ao fim.
me encarava do outro lado da mesa da cozinha, em pé, bebendo seu café. Eu agradeci e com um sorriso amplo respondi:
— Voltarei logo, prometo.
Ele piscou sorrindo de volta. Um dos sorrisos que ele nunca havia me dado. E que eu havia desejado tantas vezes receber. Rosa e titia nos olhavam também alegres, e cúmplices. Notei, piscar para a irmã disfarçadamente.
No terceiro dia após eu ter acordado, eu deveria retornar ao médico para mais exames e fez questão de me acompanhar. Estava tudo bem, por graças de Deus e, os médicos disseram que depois de passado aquele susto, a primeira coisa que eu deveria fazer se por acaso, algum dia, quisesse voltar a cavalgar era me matricular num curso de equitação.
— Entendeu ? – advertiu o doutor rindo.
— Não se preocupe Dr. Rogério, essa mocinha agora só vai cavalgar comigo.
respondeu ao médico, enquanto estava de pé ao meu lado.
— Deixa de ser babaca, eu não sou uma coisinha frágil! – falei bravia para ele: — Eu volto aqui doutor, para convidá-lo a um passeio de cavalo logo mais!
— Vamos combinar o seguinte: eu vou, mas só após você ter certeza de que poderá fazer isso com total segurança, certo?
Sorrimos os três das brincadeiras, e afirmativamente me despedi do médico. e eu conversávamos sobre o excelente atendimento na volta para a casa, entre outras coisas.
— De verdade , eu só deixarei você montar novamente se eu estiver com você.
, não seja estúpido! Eu vou aprender!
— Claro que vai, mas só depois que eu tiver certeza de que você ficará bem. Afinal, podemos comprovar que você não tem muita competência em segurar umas rédeas…
— Eu posso garantir que posso me sair bem! Eu já estou acostumada a lidar com cavalos, eu tive um longo treinamento com você.
Eu disse rebatendo a provocação.
— É você tem razão! Inclusive, se quiser montar em mim… – ele rebateu malicioso: — Acho que pelo pouco que vi, você tem talento para cavalgar.
— Oh meu Deus, apenas cale a sua boquinha, ok? – respondi totalmente sem graça.
Eu confesso que senti falta daquelas provocações. Há muito tempo não nos irritávamos daquele jeito. Contudo, eu estava envergonhada demais por aquele comentário – e não entendia o motivo, afinal não era o primeiro tipo de provocação que ocorria entre nós – e logo tratei de mudar o assunto, sob os risos de um satisfeito pelas reações causadas.
já está em casa?
— Está na casa de Rosa, com mamãe. Elas estão fazendo sei lá o quê, do bebê.
— Não acredito! Eu queria participar dos preparativos do bebê.
A camionete adentrava ao sítio, e não parava de sorrir em momento algum. Ele estacionou o carro, eu desci entrando na casa para tomar um bom banho. Já passava das duas horas da tarde, e ainda não havíamos almoçado, mas eu detestava o cheiro de hospital. Fui para o banheiro, e avistei ainda risonho entrar em seu quarto, também com a toalha sobre seus ombros.
Eu não estava o entendendo e durante o banho pensava no que o teria feito tão feliz, e passado despercebido por mim. Saí do banheiro enrolada na toalha, e ao chegar no meu quarto fechei a porta. Indo em direção ao meu guarda-roupas, o abri. E então senti braços fortes envoltos à minha cintura.

Tocar na playlist: (Lights On – Shawn Mendes)

Uma respiração calma em meu pescoço, distribuindo pequenos beijos. Deixei minha cabeça tombar para trás, apoiando-se no ombro daquela figura maior. Lentamente, me virou de frente a ele, distribuiu beijos pelo meu colo. E me abraçou apertado cheirando meus cabelos. Retribuí o abraço. Com passos calmos, mas trôpegos, fomos em direção à minha cama. deitou-me sobre ela, e acariciando o meu rosto com delicadeza ímpar se pôs sobre mim, e me beijou profundamente.
Tornava-se um hábito particular, toda vez que nos beijávamos, eu me recordar de todos os nossos outros beijos. E a julgar pela voracidade que depositava em determinados toques, posso imaginar que ele se recordava de nossas brigas às vezes.
Ele passava suas mãos grandes e fortes pela lateral de minha perna, e puxando minha coxa de encontro aos seus quadris, pude notar os efeitos de nossa aproximação quando nossas intimidades se tocaram sob as nossas toalhas. Arfei entre beijos. E também. Ele se afastou, e com suas pernas, lado a lado de meu corpo, sentou-se delicadamente. Pude notá-lo sobre mim, sem camisa, com o tórax pouco molhado, denunciando o banho recente.
Aquele abdômen perfeito e atraente, que eu tanto gostava e tantas vezes tive que evitar o contato visual. Ele ainda encarava as minhas reações, desde os sorrisos fracos observando até o meu olhar duvidoso. Fechei os olhos e mordi o lábio inferior, num ato consciente de pensar sobre o que estava acontecendo, e ao abrir os olhos enxerguei a íris de num tom de azul voraz e incomum. Ele já havia voltado a se debruçar sobre mim, depositando beijos e carícias pelo meu corpo. Levantei meu corpo em encontro ao dele, e sentei-me em seu colo. Passei os braços por trás de sua nuca e intensifiquei aquele beijo, ao mesmo tempo impetuoso e delicado. As mãos de em minhas costas afrouxaram o laço de minha toalha permitindo-a deslizar. Então ao percebê-los, pela primeira vez, encarava meus seios nus. E da mesma forma que devorava o glóbulo de minha orelha, ele desceu sua boca até um dos meus seios. Gemi baixo com alguns de seus gestos e carinhos, provocando a reação instintiva de em continuar cada vez mais eufórico explorando nossos corpos. Enquanto a boca dele invadia meu peito, minhas mãos dançavam em uma coreografia frenética entre puxar os seus cabelos e acariciar suas costas. De súbito empurrei-o ao colchão, e avancei sobre ele meus beijos. Retirei a toalha – que ainda se encontrava sobre sua cintura – revelando o homem nu, igualmente como eu. Desci meus lábios quentes por todo o seu corpo. E após arrancar alguns suspiros extasiantes de , ele enlaçou a minha cintura, numa força brutal me puxando para seu corpo e deitou-me novamente invertendo as posições.
Um pássaro pousou na janela do meu quarto e assobiou sua canção tão pura, em meio à nossa dança carnal que embora não fosse, nos soava tão proibida. Logo alçou voo de volta aos céus. deitado ao meu lado, ofegante tanto quanto eu, uniu nossos lábios num beijo romântico:
— Desculpe se não perguntei se você queria… – ele disse.
— Acho que deixei claro o suficiente, não se preocupe. – respondi abraçada ao seu corpo: — O que está havendo entre nós?
— Eu não sei, mas não quero perder tempo com mais brigas.
— Eu também não…
Ficamos em silêncio.
— Isso significa que cedemos à minha mãe? – ele disse.
— Não sei qual o significado disso
— Eu não sei o que fazer a partir de agora… E você?
Me soltei de seus braços e em dúvida o encarei:
— Eu só sei que não é saudável mantermos uma relação casual, os riscos de sofrer e fazer outras pessoas sofrerem no nosso caso são grandes. Não é como se fôssemos estranhos que antes do Sol nascer vão pegar suas roupas, voltar para suas casas e suas vidas… Então a menos que você saiba o que sinta, e o que espera de tudo isso, é melhor não agirmos se não tivermos certeza.
Eu estava irritada. Não acreditava que ele tentaria agir, de fato, como uma transa ocasional. E a menor ideia de ter sido usada, já fazia eu sentir raiva dele. Quando dei por mim, me encarava sorrindo.
— Do que você está rindo? E sim, eu estou furiosa por permitir você me usar deste jeito!
Eu cuspi as palavras sem noção de qual sentido aquilo tudo faria.
E mantinha o mesmo sorriso de antes, o mesmo cujo qual, eu não tinha ideia do motivo em estampar aqueles lábios convidativos.

Tocar na playlist: (When I Look At You – Miley Cyrus)

— E você sabe o que sente, e o que espera de nós ?
Ele perguntou sério, entre um sorriso de canto e o olhar fulguroso.
— Sei… Você sabe?
— O que você sente?
Me perguntou surpreso, como se esperasse que a minha resposta fosse contrária àquela.
E talvez ele esperasse esconder-se nas minhas razões. Mas eu já sabia o que sentia, e se ele não soubesse, quem teria problemas não seria eu. A pergunta dele soou aflita. Como alguém esperando o resultado de uma loteria. E eu, ali, aflita igualmente, não sabia como interpretar as reações do .
— Eu perguntei primeiro.
Apenas disse teimosa, eu não deixaria fácil para ele.
— Vamos iniciar uma discussão aqui, sem nem ao menos ter uma razão clara para isso, ? Por favor! – ele respondeu impaciente.
— E quando foi que nossas discussões foram coerentes?
— Você pode responder a minha simples pergunta?
— Eu não vou responder ! Eu não vou te dar chance de cair fora de qualquer resposta primeiro, eu não vou mais uma vez ser compreensiva com você…
Eu já misturava todas as angústias e confusões em cima de um acontecimento, e antes mesmo que o meu discurso ficasse cada vez mais sem nexo, e que as minhas mãos gesticulando desesperadas acertassem o rosto de , ou propositalmente lhes deferissem os tapas inúteis sobre seu forte corpo, ele me prendeu em seus braços novamente.
Me beijou profundamente no ímpeto de me calar, e quando nos afastamos brandos, mansos e íntimos, de olhos fechados ele sussurrou em meu ouvido:
— Eu estou apaixonado por você. Há muito, muito tempo…
Ficamos em silêncio e eu mal pude notar quando um sorriso bobo se formou no meu rosto.
— Pronto , tive a coragem que tenho tentado tomar há tanto tempo… E você? É tão corajosa assim quanto o diz?
Agora aqueles olhos azuis e invasivos desafiavam os meus sedutores.
— Não sei desde quando… Mas acho que eu também me apaixonei por você.
Perguntas respondidas, voltamos aos beijos e nos embolamos um pouco mais nos lençóis. Já era quase hora de tratar os animais. Direcionamo-nos para um banho calmante, pois nossos hormônios ainda estavam mais agitados do que deveriam. Ele beijou longamente meu rosto. Sorrimos no corredor. Perguntei como ficaria a nossa situação diante de todos, e ele disse que era melhor esperarmos o momento certo de contar.
— Tem certeza que não vai ir correndo para sua irmã, contar sobre nós? – perguntei desafiadora.
— Droga, ela comentou com você, é? – sorriu envergonhado: — Ela é também minha confidente, sempre foi assim. Desculpe.
— Estou só provocando . Acho bonita a parceria de vocês, e você pode falar da sua vida para quem você quiser.
— Vou cuidar dos bichos, você não inventa moda de fazer esforço, ouviu?
— Mais do que já fiz? Acho que se fosse acontecer algo, já teria acontecido não é mesmo? – comentei piadista.
— Engraçadinha! – puxou meu queixo para o seu, me beijou de novo, e sussurrou: — Obrigada.
— Não agradeça. Vai logo, já está atrasado!
Ele se virou apressando os passos, enquanto eu seguia-o lentamente pelo corredor. Antes de descer as escadas correndo, virou-se para mim:
— E , sério, não apronte. Não permitirei perder você.
— Não vai. – respondi num misto de alegria e timidez.
Indo em direção à cozinha, avistei-o se afastar pela janela, montado em seu cavalo. Com aquele seu jeito de cowboy, fazendeiro displicente e ao mesmo tempo tão certo de si.
É não havia mais dúvidas de que eu havia me metido numa grande enrascada: eu me apaixonei pelo coração da fazenda.
Titia, e chegaram um pouco depois de ter cuidado dos animais. E estávamos os dois sentados na sala assistindo televisão, abraçados. Quando ouvimos os passos de alguém chegando, nos afastamos rapidamente. Nenhuma das duas desconfiaram de nada. correu alegre sentando-se entre ele e eu, e passou um longo tempo conosco contando sobre os tricôs feitos com tia Rosa e a avó, como presentes para o futuro bebê.
Antes de irmos cada um para o seu quarto, e eu, nos despedimos de e sorrindo cúmplices, direcionamos cada um para o seu cômodo. Eu estava extasiada com tudo o que havia acontecido aquela tarde, e não havia conversado concretamente com sobre como ficaríamos perante os outros, mas também, não me preocupava com aquilo no momento.
Eu apenas queria curtir cada uma das lembranças.


Capítulo 14 - Um Passado Conturbado Cruza a Porteira

Tocar na playlist: (You and I – One Direction)


O dia seguinte amanheceu com uma penumbra de chuva fina que durara a noite toda. Me espreguicei longamente com um sorriso de orelha a orelha. Encontrei descendo pelo corredor e juntas fomos em direção à cozinha. Como de costume, lá estava a família reunida em volta da mesa, mas faltava uma pessoa. Faltava aquele que me provocara o sorriso mais extenso, após tanto tempo sendo o opressor mais odiável de minha vida.
— Bom dia família! – eu disse mais feliz que o habitual.
Todos responderam animados, e brincou comentando: , sonhou com um príncipe encantado?”. Respondi que sim, e logo a menina fez uma cara de entendida alegando saber como é a sensação. Todos sorríamos e a conversa da manhã ainda era o nascimento do novo neto de titia, pelo que pude notar. chegou alguns minutos depois e eu já estava sentada, no entanto a cadeira costumeira ao meu lado o aguardava. Sorrimos um para o outro, diferentes de como fazíamos habitualmente. Não fizemos questão de esconder aqueles sorrisos amigos, e até mais do que amigos. Por baixo da mesa a sua mão se entrelaçou à minha. E aquele jogo de “romance adolescente proibido” estava me satisfazendo. Rosa e Marcelo olharam para nós dois com indagações iminentes. Dei-lhes um meio sorriso a fim de fazê-los pensar qualquer coisa.
Porém, pegou a faca do queijo, sua caneca de alumínio e bateu uma contra a outra chamando a atenção de todos nós que o olhávamos curiosos. Embora tivesse ideia do que ele faria, eu preferi não me antecipar.
— Família! Eu tenho algo para dizer a todos. Eu tenho tentado ser prudente há muito tempo, e não adiantou. Então, se acidentou – ele disse ainda me olhando repreensivo pelo acidente — E este pequeno ocorrido me mostrou o quão estúpido eu estava sendo todo este tempo, e por isso, eu quero me redimir com todos vocês. Mas principalmente com a .
Ele disse e todos sorriam satisfeitos. Titia parabenizou-o pelo gesto. Eu sorri em resposta, mas me encontrava um pouco decepcionada. Na verdade, eu não sabia se queria escancarar para toda a família sobre nós dois ou apenas deixar rolar, mas eu realmente achei que ele faria “o pronunciamento”.
Baixei meu olhar para minha caneca de café, ainda um pouco desapontada, não por tempo suficiente. pegou minha mão ao seu lado, e me fazendo levantar – eu ainda imaginando que tudo faria parte de um pedido de desculpas – fiquei de frente a ele, quando travesso encarou seus familiares e me puxou pela cintura e me beijou.
Ouvi desde os gritos de que eram altos e claros: “Hoje é o dia mais feliz da minha vida!”, até os gritos de felicidade de titia, Rosa e o “Finalmente, hein cunhado!”, de Marcelo. Depois que nos separamos do beijo, sorrindo alegres um para o outro, eu olhei envergonhada para todos àquela mesa.
— Eu sabia que haviam uns dentes a mais no seu sorriso esta manhã, cunhada!
Rosa disse alegre enfatizando o: “cunhada”.
— Finalmente, a minha família está completa! – disse titia com os olhos marejados.
Consolamos a senhora, até que mal podendo esconder a sua satisfação ela bradou:
— Nós temos que comemorar! Os dois cabeças-duras decidiram ceder à felicidade!
— Já não era sem tempo. – disse Marcelo tão alegre quanto todos.
— Titia… Não vamos transformar isso num evento, ok? Nós decidimos ceder aos próximos passos sim, mas por favor, se tem algo que e eu não queremos é que todos criem expectativas. Não é? – o olhei com insegurança por ter falado por ele.
— Exato. – ele disse concentrado em seu café da manhã, sorridente para mim: — Sem expectativas!
Todos fizeram sinal positivo e , muito calada brincando com seu café da manhã, me preocupou. Eu achei que ela estaria mais surpresa.
?
Passei a mão sobre a mão dela chamando sua atenção para mim:
— Você não quer falar nada? Seu papai e eu estamos… Bem…
Olhei para ao meu lado que logo foi continuando:
— Ei filha, tudo bem? Achei que era isso o que você queria. Não ficou feliz? e o papai são namorados agora.
Aquela palavra “namorados” fez a minha espinha gelar. Não éramos namorados. Ou éramos? Ainda era cabível a nós aquele ritual inicial de “se conhecer”, ou nosso relacionamento era sólido e claro o suficiente para começar em algo sério de cara? Mas o que eu estava dizendo? É óbvio que e eu já estávamos em um relacionamento sério! Será que ele pensava assim também?
— Eu feliz! Muito feliz! Mas eu com dúvida papai!
— Dúvida de que minha joaninha? – assim como o pai, todos olhávamos compreensivos para .
— Esse é o amor mágico, ? Agora eu posso ter o meu irmãozinho?
Enquanto a mesa soava em gargalhadas, e eu nos encarávamos buscando sair daquela confusão.
— Ainda não temos certeza se é amor mágico, . – eu disse.
— Mas prometemos te contar assim que descobrirmos, e aí o papai poderá te dizer se você terá o seu irmãozinho ou não… Mas lembre-se, o seu priminho vem aí!
sorriu para menina, e pediu um pouquinho mais de paciência a ela.
— Agora ele vai ficar jogando as desculpas em cima do sobrinho que mal nasceu... – Rosa disse sarcástica.
estava feliz. E aquilo bastava para suas inseguranças. Ela sabia que o pai e eu seríamos sinceros com ela, então assentiu com a cabeça sorrindo. Terminando seu café da manhã, a pequenina soltou o seu copinho do Pooh e veio em nossa direção nos abraçando forte. Correu para sala e ligou a tevê, a fim de assistir aos desenhos animados antes de ir para a escola. Naquela manhã, haveria uma festinha comemorativa na escola e ficaria lá os dois turnos.
Rosa e Marcelo não poderiam levar , então eu decidi que faria isso. E aproveitei para passar nos estabelecimentos a pedido de para anotar as novas encomendas.
Eram dez horas da manhã quando retornei à fazenda. Estacionei a camionete no lugar de sempre. voltava a cavalo de algum lugar próximo ao riacho.
— Ei, algum problema? Achei que estaria em trabalho… – perguntei quando ele se aproximou.
— Não namorada, só fui soltar as ovelhas.
Ele disse me abraçando de lado e beijando calmamente minha boca.
Namorada… – sussurrei sem graça e olhando nos olhos duvidosos dele eu disse: — Eu ainda estou estranhando. — É, eu também… Mas só vamos nos acostumar depois de repetir muitas vezes. Namorada. — Tem razão. Namorado. Rimos daquilo tudo e para não perder o hábito, cortou o clima dizendo que parecíamos dois idiotas. Concordei e reparando no carro parado exatamente à frente do casarão perguntei:
— De quem é o carro?
— Não faço ideia.
Nós dois encaramos a BMW surpresos e curiosos enquanto entrávamos em casa. Na sala, titia com uma cara nada feliz, extremamente preocupada aguardava-nos em pé. Uma mulher sentada ao sofá com uma xícara de café em mãos, ao nos notar no ambiente olhou em nossa direção com um meio sorriso. Senti cada músculo do corpo de enrijecer. Sua feição de ódio, por outro lado, não precisava de muita proximidade para ser notada.
— Bruna. – ele disse seco, claro, alto e sem rodeios.
Encarei a mulher à minha frente que me observava minunciosamente tão curiosa quanto eu. O que aquela mulher faria ali?
— Olá . Não vai me apresentar à sua… parceira?
Levantou-se deixando a xícara nas mãos de titia, que furiosa levou de volta à cozinha, e andando a passos lentos até nós, Bruna estendeu uma mão em cumprimento ao enquanto pausava os olhares em mim a fim de compreender o que eu representava.
— Esta é , minha namorada. – ele disse seco pegando a mão da mulher em educação.
a tratava da mesma maneira que me tratou quando eu cheguei, porém, ainda mais grosseiro.
— Prazer em conhecê-la. – ela disse sorrindo abertamente para mim e me estendendo a mão.
Apenas peguei sua mão acenando positivamente com a cabeça. Sem sorrisos. Eu não sou hipócrita e deixaria claro para Bruna que eu não estava nada feliz com sua presença. Não pelo , porque eu realmente não enxergava uma ameaça naquele momento, mas por . Odiava aquela mulher sem conhecê-la por tudo o que ela fez à .
— Eu sou a mãe da .
Ela disse ainda segurando minha mão em cumprimento.
— Eu sei quem você é. – eu disse me soltando.
— Sete anos se passaram, e você decidiu aparecer por quê? Posso saber?
me soltou, e coçando a barba por fazer, andou até o cabideiro e deixou seu chapéu.
Me retirei para a cozinha. Eu não tinha o direito de me meter a menos que consentisse. E eu precisava de um gole de água para passar o susto. Titia estava sentada à mesa de cabeça baixa, visivelmente estressada.
— Titia? – me abaixei ao seu lado tocando em seus ombros: — A senhora está bem?
— Quero este demônio fora de minha casa ! Eu não vou deixar esta mulher se aproximar de ! – disse enfática e furiosa.
— Acalme-se titia…
Peguei meu copo de água bebendo-o rapidamente e puxando com cuidado titia da cadeira terminei:
— Vamos dar apoio ao , não teremos controle de nenhuma situação escondidas na cozinha.
Fomos em direção aos dois na sala e Bruna falava para :
— Sei que há um contrato de guarda. E não quero tirar a nossa filha de você, mas tenho direitos como mãe de vê-la.
— E por que agora?
, eu sou uma mulher muito ocupada! Eu vim da Espanha para um trabalho no Brasil, e como há muito tempo não volto à esta terra tupiniquim, eu decidi vir ver como a garota está.
— Ela está ótima. Sem você. Ótima, depois de eu ter cortado um doze para fazer com que entendesse o mínimo do seu abandono. Eu não vou deixar você reaparecer agora e estragar tudo!
— Eu só quero ver a menina. Não precisa nem dizer que sou a mãe dela ! Eu não a quis antes, e não a quero agora!
— Como pode dizer isso!? – eu gritei indo de frente à Bruna.
Eu não deveria me meter daquele jeito, mas aquela mulher estava dando nos nervos.
— Olha só, não acho que seja direito seu… – ela respondia calmamente a mim, até que a interrompi.
— Eu pertenço a esta família e defenderei com unhas e dentes se preciso for, e pode ter certeza que tenho mais direitos na vida dela e nesta casa do que você!
Cuspi as palavras raivosas encarando olho no olho aquela mulher.
, não é?
Assenti me afastando um pouco dela.
— Talvez você esteja certa em dizer que tem mais direitos do que eu nesta casa. Mas a menina é minha filha. E por mais que vocês nunca compreendam que uma mulher tem todo o direito de não desejar ser mãe sem que isto a torne um monstro, como vocês fazem questão de me fazer parecer, eu posso afirmar com coração aberto que eu não sou uma vilã. Eu não vim até aqui para tirar de sua casa, de sua família, e nem pretendo me incluir nisto tudo. Não pretendo me incluir na vida dela. Mas eu quero ver a garota. Quero poder dizer que, pelo menos, um dia da minha vida eu olhei nos olhos da criança que coloquei no mundo.
— Contra a sua vontade! Você queria abortar a minha neta e é por este e muitos outros motivos Bruna, que eu te afirmo que você nunca verá a !
— Então senhora Cora, vocês me obrigam a entrar com a medida de visitação. Isso está escrito no acordo de tutela, ou se esqueceram?
Pensando no que Bruna disse, eu sabia que reabrir um acordo de tutela e entrar com medida de visitas poderia invalidar o antigo acordo, fazendo com que um novo fosse redigido e se necessário sob novos termos. A fim de evitar que aquela ideia dela fosse à frente, eu acalmei aos ânimos de titia, e dirigindo a palavra ao e à Bruna, propus:
— Bruna tem razão! Não tem porque sermos tão infantis e fazer disso tudo uma nova briga.
Eu disse, e a mulher fez sinal de acordo para mim.
— Uma pessoa sensata. – ela disse apontando em minha direção e voltou a sentar-se no sofá.
, Bruna, eu acho que vocês devem conversar com calma sobre tudo, mas principalmente deixando suas mágoas ou interesses de lado. A é o foco, e o bem-estar dela. Bruna, você tem que entender que a menina aprendeu a viver sem uma mãe e pode ser traumático que você retorne assim exigindo uma visita de uma hora para outra.
— Como eu disse eu só quero vê-la, conversar um pouco com ela, e não preciso ser apresentada como mãe da garota.
— Entendo… Mas, e eu precisaremos de um tempo para prepará-la, você entende? Você seria uma estranha vinda do nada para conhecer uma garotinha? é esperta o suficiente para saber que algo está estranho. Então, nós pautamos as relações com a sinceridade aqui nesta casa, e não seria diferente só porque ela é uma criança. Se você for paciente, conversaremos com , explicar o que acontece e será decisão exclusivamente dela, e de mais ninguém – eu disse olhando para e titia — Se ela verá você ou não. O que acha?
— Acho que finalmente uma pessoa sensata e não egoísta entrou nesta casa.
Ela disse se levantando com um meio sorriso encarando titia, e me entregou um cartão:
— Não ficarei muito tempo no país, e tenho horários cheios então peço que me ligue para combinarmos tudo. E se possível, , como vejo que quem manda aqui agora é você, me dê uma resposta rápida para eu saber o que eu devo fazer.
— Eu mesma entrarei em contato com você, Bruna.
Ela e eu demos as mãos nos encarando superiores. A mulher disse um “até logo” para e olhando titia de canto de olho, se retirou da casa. Entrou em seu carro e saiu o mais rápido que pôde.
Desabei no sofá ao lado de titia e , logo que ela saiu.
— Como vocês estão? – perguntei dando as mãos aos dois.
— Querida… Obrigada.
Foi a única coisa que titia conseguiu me dizer antes de sair pesarosa em direção ao seu quarto.
Assim que subiu as escadas, que olhava para o lustre central da sala, me encarou profundamente nos olhos e de forma ágil me colocou sentada em seu colo. Me beijou longamente.
— Muito, muito obrigada por isso tudo… Eu não sei como teria sido se você não estivesse aqui.
— Eu estou aqui agora. E se me permitir, eu mesma tratarei deste assunto. – eu disse e ele apenas concordou: — Ela é realmente uma linda mulher.
— Sim, mas mudou muito. Não a reconheceria facilmente na rua.
— Ela não é mais uma menina e não acho que você a encontraria nestas ruas “tupiniquins”.
Eu falei imitando seu sotaque falso e arrastado.
riu e disse que conversaria com sua mãe. Eu fui para a cozinha, adiantar as coisas para o almoço, se bem sabia, titia não teria cabeça para nada.
A manhã daquele dia fora conturbada. Enquanto eu adiantava o almoço, Rosa apareceu ansiosa, pois titia havia telefonado para a filha contando tudo. Conversei com Rosa na cozinha e ela disse que eu agi muito bem, e que estaria comigo para o que fosse preciso. Assim como eu, ela não deixaria que o irmão e a mãe sofressem novamente com aquela história. Titia desceu para terminar o almoço, após – nas palavras dela - “estar sob efeito de seu calmante etílico”. Segundo ela, tudo estava sob controle.
Combinamos que conversaria com para explicar o que aconteceu. Ele havia falado à filha, todo aquele tempo que a mãe dela havia morrido, então agora teria como missão explicar o abandono. E diria à filha as exatas palavras de Bruna: “quero conhecê-la, mas não quero ser sua mãe”. Advertimos ele, a ter cuidado com as palavras, pois por mais madura que fosse, ainda era uma criança de sete anos. Ele decidiu ser sincero com a filha sobre o desprezo da mãe, e que achava realmente necessário que as perguntas da filha sobre este abandono fossem feitas diretamente à mãe, mas sob a sua supervisão.
Então era isso: decidiria se iria ver Bruna ou não. E assim que tivéssemos a resposta eu entraria em contato com a mulher.
Fui buscar aquele dia, estava nervoso e ansioso para falar com a filha então achei melhor que ele ficasse em casa.
Enquanto aguardava o sinal da escola bater, indicando a liberação das turmas, me encaminhei até uma banca de jornal e para minha surpresa dei de cara com uma capa de revista estampando o rosto de Bruna.
— É ela. – ouvi uma voz feminina ao meu lado. Era Lúcia.
— É eu sei. Acabei de conhecê-la esta manhã. – disse enquanto cumprimentava-a.
— Ela voltou? – Lúcia disse pasmada: — Não acredito.
— Disse estar de passagem e resolveu conhecer a criança que ela mesmo abandonou.
já sabe disso?
— Não… vai conversar com ela nesta tarde.
Contei tudo à Lúcia, e desejando-me sorte disse também que estava ao nosso dispor para o que fosse preciso.
— Obrigada Lúcia.
— Imagine, você faz bem àquela família. E eu tenho um carinho especial por e por você, realmente torço para que deem certo.
Ela esperava o meu olhar reprovador de sempre, mas eu apenas sorri de canto baixando a cabeça e confessando que já estávamos juntos. Pedi segredo a ela, e Lúcia mais do que prontamente me abraçou dizendo que o segredo estaria seguro.
— Bruna é terrível! Ela sentiu o cheiro da felicidade alheia e logo voltou para tentar destruir… – brincou minha nova amiga.
— Ela não vai conseguir.
Eu disse sorrindo confiante, e logo me gritava do portão da escola. Descobri com Lúcia, ao final da tarde e através de um telefonema, que Bruna não estava hospedada em lugar nenhum da cidade. Ela apenas tinha vindo à fazenda e voltado para São Paulo. Todos ficamos mais tranquilos em saber que não daríamos de cara com ela, andando por aí. Principalmente , que só se preocupava com a filha.
Não foi uma conversa fácil. chorava após conversar com o pai. E todos rodeamos a menina durante o restante dos dias com muita atenção, mimo e amor, mas algo em havia amadurecido ou mudado nos últimos dias. E a criança, dando claros sinais de que estava crescendo rápido demais, disse a todos nós enquanto assistíamos ao noticiário na tevê após o jantar:
— Eu não fico triste de não ter uma mamãe, eu fico com raiva de ter e ela voltar para nada. Eu não quero ver ela.
E após dizer isto, a menina subiu. Fui atrás de um tempo depois e a distraí antes de dormir com mais um dos meus vídeos caseiros. Dormimos juntas, com nossos pijamas de pelúcia e pantufas. Um pouco depois da meia-noite, apareceu na porta de meu quarto observando a filha aninhada em meus braços, andou até nós e beijou suas duas mulheres. Nos cobriu e retirou-se.
Fiz questão em ligar para Bruna na manhã seguinte. Logo depois de ir para a escola. Contei tudo à mulher, inclusive a frase de . Bruna insistente, me perguntou se poderia ao menos falar com ela por telefone. Eu pedi que ela ligasse à tarde para meu número e eu perguntaria à se ela desejaria falar com a mãe.
E assim foi feito.
atendeu ao telefonema, sob os olhares atentos de , titia, Rosa, Marcelo e eu. A própria menina colocou a chamada em viva voz para todos ouvirmos. Bruna perguntou se a menina queria saber o motivo de não ter ficado com ela. E dizendo que sim, escutou atentamente toda a explicação da mulher:

— Eu não desgosto de você. Não podemos dizer que não gostamos de quem não conhecemos, não é? Assim como você não pode dizer que não gosta de mim. Sei que para você, e para seu papai, vovó e toda a família, eu deveria ser sua mamãe bondosa. Preparar seu leite com biscoitos e cuidar de você com todo carinho e amor. Não é que eu não te ame, . Mas eu nunca quis ter um bebê. Nunca achei que fosse obrigada a isso. Mas você aconteceu por vontade de Deus, e eu posso te garantir que a melhor coisa que fiz a você foi deixá-la com seu pai. Eu não poderia cuidar tão bem de você. Não quero que pense que eu te odeio, pois não é verdade. E não te abandonei por ser você. Eu não queria bebê nenhum, e ainda não quero. Se não fosse você, mas sim um Joãozinho qualquer eu ainda não quereria. Talvez agora você não possa me entender , mas eu não poderia deixar de tentar te explicar o meu ponto de vista. Eu não te amo como seu papai, pois não te conheço. E não te odeio também, meu amor por você é diferente. É um amor por tudo o que você representa: o amor que vivi com o seu pai. Mas se você aceitar, eu gostaria de ser sua amiga um dia. Você quer ser minha amiga?
— Não.
— E você pode me perdoar pelo mal que eu fiz a você?
— Posso.
— Pode? De verdade?
— Eu amo muito as pessoas. Papai diz que quando conhecemos o amor somos pessoas melhores. Eu espero que um dia você conheça.

Bruna passou um longo tempo em silêncio na chamada, e até nós estávamos assustados com o discurso de .

— Obrigada . Seu pai fez um bom trabalho. E se algum dia você mudar de ideia, eu estarei aqui para ser sua amiga.
— Tchau.

As duas se despediram. Ao decorrer daquele anoitecer ficou pensativa, mas logo mais, no jantar, ela estava animada novamente. Eu ousaria dizer, que a menina estaria de alma lavada. E aquele capítulo havia sido finalizado. Todos torcíamos para isto. avisou que ficaria de olho em por um tempo, e pediu que todos nós também vigiássemos as reações futuras da menina. Propus uma noite de cinema, a fim de nos divertirmos um pouco e distrair ainda mais , e como imaginado a noite de cinema durou até os primeiros vinte minutos de filme, onde já havia apagado de sono.


Capítulo 15 - As Namoradas

Eu estava bastante suada daquela manhã de afazeres domésticos. Depois de muito insistir com eu havia conseguido voltar às atividades normais na fazenda. Há muito tempo eu não via as ovelhas bebês e era dia da segunda dose de vacinação das irmãzinhas.
— Tanta coisa foi acontecendo tão rápido, e são tantos bichos que eu já até havia me esquecido das nossas bebês.
— Nossas bebês? Não acho que você pareça uma cabritinha, mas se quiser ser chamada assim…
, cale a boquinha. Vai me ensinar a aplicar a vacina ou não?
— Sabe… Desde o início, eu não dava o braço a torcer, mas sempre admirei este seu interesse em aprender nossa forma de vida.
— Oras, eu sou uma hóspede aqui, o que eu poderia fazer para ser grata a não ser ajudar sempre mais?
parou de preparar as ampolas, e prendeu os animais no corredor de vacinação olhando para mim pensativo. Sua cara duvidosa deixava claro, que não era sobre como proceder com os animais que ele tinha alguma dúvida. Continuei sorrindo com a mesma expressão indagativa a ele. Eu não sabia o que eu teria feito.
— Primeiro nós encurralamos elas, para ter segurança na aplicação. Como são pequenas, este caixote funcionará. E aí, após desinfetar a área da vacina com álcool posicionamos a agulha no quadrante superior da traseira do animal e então é só aplicar.
Ele executou o passo a passo sobre meus atentos olhos.
— Claro que, se elas fossem adultas, você teria que retirar a lã dessa área. Mas, como a lã ainda está crescendo não há necessidade.
Eu fiz sinal afirmativo para ele, demonstrando que havia entendido como fazer e ele me estendeu a outra seringa. Com sucesso apliquei a vacina na outra ovelha. Ao terminar eu sorri satisfeita comigo e acariciei o animalzinho.
— Muito bem Farofa, mais tarde e eu visitaremos você. – eu sussurrei para a ovelha, sob os olhares risonhos de .
— Certo… – ele disse guardando as coisas — Farofa e Nuvem já estão vacinadas. Pode soltá-las, amor.
Antes de qualquer ação seguinte, um sorriso idiota surgiu em meu rosto e fiquei parada encarando – que não notou meus gestos – enquanto o eco daquela palavra em sua voz, vagueava em minha mente. Meu coração batia mais rápido e eu não fazia ideia de por que tantas reações novas. Uma palavrinha. Amor. E aquilo nem deveria significar tanto assim. Para pronunciar palavras carinhosas como “amor”, “namorada” não significavam muito. Eram só palavras ditas soltas. E me espantava ele conseguir ser tão contraditório daquele jeito! Enquanto o “amor”, “namorada” dele eram equivalentes a um “” ou “”, eu não conseguiria repetir o mesmo gesto. Não mesmo! Aquela coisa de alguém dizer que te ama e você não conseguir corresponder, sabe?
Despertei de meus pensamentos, e notando preso nos seus ainda desconhecidos pensamentos, tratei de liberar as ovelhas e ajudá-lo a organizar o local.
Foi a nossa última tarefa da manhã e então voltamos de camionete para a fazenda, pois ambos trabalharíamos. Ele não havia dito mais nada desde que saímos do pasto das ovelhas. Em outros tempos aquele silêncio constrangedor seria um alívio, no entanto, eu me preocupava em tê-lo feito algo que me passara despercebido.
— Eu disse alguma coisa errada ?
— Ãn? Não, não , está tudo bem.
— Então por que você está tão pensativo?
Ele fez silêncio e eu começava a me irritar. Não com ele, mas com a situação. De repente uma insegurança antiga ressurgiu:
— Tem a ver com a Bruna?
— Ah pelo amor de Deus, ! – bufou baixo — Esta mulher é assunto encerrado nesta casa, entendidos?
Acenei positivamente ainda incomodada com a reação dele. Por que ficar tão bravo por eu citar o nome dela?
— Ela trouxe de volta algum sentimento antigo para você?
, podemos esquecer a Bruna? – dizia enfático.
— Não! Não podemos! Eu quero saber a verdade! Por que você está assim? Se eu não disse nada de errado, o que você espera que eu pense para você estar tão distante?
— AH! Eu estou distante?
Freou bruscamente o carro e aquele era o impetuoso que eu conhecia:
— Você vai mesmo dizer que eu é quem estou distante?
— Do que você está me acusando senhor “eu não sei conversar abertamente”?
— O quê? – ele, assim como eu já estava irritadíssimo.
encarou o volante do carro, após bater estupidamente no mesmo. Eu olhava a paisagem pela minha janela, evitando encará-lo. E mal podia acreditar que estava revivendo uma cena infantil daquelas. Pensei em falar, mas ele se pronunciou primeiro:
— Não, olha… Há muito tempo nós não discutimos assim, é idiota e não vamos fazer de novo, tudo bem?
Olhei em sua direção assentindo. Abri a boca para perguntar o motivo de tudo aquilo, mas ele foi mais ágil:
— Eu não sinto mais nada por Bruna. A única pessoa que trouxe sentimentos antigos à tona foi você. E não foram os sentimentos que eu tive pela mãe de . São próprios do que eu sinto por você, e são genuínos. Acredite em mim.
— Então, o que aconteceu? Não dá para nós deixarmos o avanço que tivemos se perder só porque não falamos abertamente sobre as coisas. Eu não quero voltar à estaca zero, .
— Eu sei. E prometo tentar mudar a minha forma de comunicação, entendo que guardar as coisas não funciona. Mas sabe , quem está querendo se distanciar não sou eu.
— E por que você está me acusando disso? Ainda mais agora!
— Você pretende ir embora ainda?
— Bem… Não ir embora da cidade, mas…
— Você ainda acha que é uma hóspede?
— Escuta, você mesmo fez questão de deixar isso claro!
, mas isso foi antes!
— Antes do quê? Da gente transar? Por acaso agora eu não posso ter o meu canto? Eu por acaso entrei em algum acordo oculto? Eu sou a sua concubina agora?
— Antes de me apaixonar por você. Você pode ir para onde quiser, eu só achei que você queria estar aqui. Não tem acordo nenhum.
Dito isso, arrancou com o carro e eu fiquei em silêncio. Quando chegamos em casa ele subiu para o seu quarto sem falar nada com titia. Ela perguntou se acontecia algo, e eu apenas respondi “vai passar”. Segui em direção ao meu quarto, e fui tomar banho para meu trabalho. me levaria, como sempre, e depois seguiria para um trabalho na fazenda Alvorada.
Assim que saí do banho, vesti o jeans escuro e calcei meu salto vermelho. Peguei uma camiseta branca e um suéter fino. Prendi meus cabelos em rabo de cavalo alto e com minha bolsa em mãos, bati à porta do quarto de . “Entre”, ele disse em tom abafado e ao abri-la o observei terminando de abotoar a camisa. A passos pequenos entrei ao cômodo. Coloquei minha bolsa na cadeira à sua mesa de planejamentos. virou-se para me olhar, sério, e foi ao guarda-roupa passar sua colônia. Segui seus passos e quando perto, peguei em sua mão e o puxei para um beijo rápido.
— Desculpe. – eu disse o puxando para sentar em sua cama.
Ele sentou-se e abaixou o olhar, evitando me encarar, como um menino pirracento faria. Puxei seu queixo para que ele me encarasse, sorrindo sentei em seu colo e suas mãos abraçaram minhas costas. Ele suspirou fundo. Ainda estávamos aprendendo a lidar com as invasões e toques ao corpo um do outro.
— Eu não disse antes, mas foi a melhor transa da minha vida. – eu disse.
— A minha também. – ele me abraçou apoiando seu rosto na curvatura do meu pescoço.
— Eu não quero me afastar de você, e da . Eu nunca quis sair daqui. Mas eu entendo que esta é a casa da titia, a sua casa. Eu preciso ter a minha casa. Não é porque estamos juntos que as coisas vão mudar a ponto de eu não precisar ter o meu próprio teto.
— Não quero que você vá. Eu nunca quis.
Sorrimos um para o outro. E notei que aquela conversa ainda renderia muitas outras vezes, por hora, apenas declarei:
— Depois nós conversaremos melhor sobre isso, agora estamos atrasados.
me beijou como fazia quando queria demonstrar suas emoções escondidas. Mordi sua orelha devagar e ele me abraçou apertado dizendo:
— Achei que tinha dito que estávamos atrasados. – beijou meu pescoço.
— E estamos. Foi apenas para você não se esquecer de mim ao longo do dia.
— Não irei.
Nos levantamos e saímos de mãos dadas. Titia toda vez que nos via próximos daquele jeito, esboçava seu sorriso de orgulho. Despedindo-nos dela e entrando na camionete seguimos para o nosso dia.
A delegacia se encontrava como sempre: Queirós, o escrivão, se entupindo das guloseimas que Matilde, a faxineira, sempre nos trazia como bom agrado. Ela tinha sua barraquinha nas feiras de domingo, e era ela quem fazia os biscoitinhos de nata que tanto amava comer após as missas.
— Bom dia Queirós, quer um cafezinho para acompanhar aí? – perguntei sorrindo apontando para o bolo.
— Opa! Bom dia ! Olha... te dizer que eu até quero, mas estou esperando o delegado chegar para redigir um relatório então ainda não posso sair do posto.
— Sair do posto? O que houve com a cafeteira? – perguntei assim que olhei o aparelho desligado.
— Queimou ontem, após o pique de luz. Só percebemos pela manhã, quando fomos preparar o café.
— Eu vou lá na dona Carlota pedir um cafezinho para nós.
— Bom dia , tem uma garrafa térmica antiga guardada aqui, vou lavar procê. – disse Matilde adentrando nossa sala e indo até o armário antigo atrás da garrafa.
— Bom dia Tilde, e obrigada. – sorri para ela.
Enquanto aguardava Matilde voltar com a garrafa, sentei-me na cadeira de Gabriel iniciando o computador e organizando alguns papéis.
— Queirós, aconteceu alguma coisa?
Me referia ao relatório que ele disse que necessitava redigir.
— Não, só outra queixa da fazenda Nolasco.
— Meu faro me diz, que tem algo mais errado do que o que o coronel Abreu anda nos contando.
Eu disse pensativa analisando uns papéis.
— Bom dia!
Gabriel surgiu pela porta apressado.
— Não temos café? Puxa, eu vim esperançoso. – ele disse olhando a cafeteira.
— Bom dia Gabriel, Matilde foi lavar uma garrafa térmica antiga para eu buscar um café na dona Carlota. – eu o cumprimentei com dois beijos no rosto sorrindo — Vou ver se ela já lavou.
Me retirei atrás de Matilde, e ela já vinha a meu encontro. Encomendei para o fim do expediente alguns de seus biscoitinhos, para levar à . Com a garrafa em mãos caminhei até o bar.
— Bom dia dona Carlota!
— Moça , quanto tempo! Como vão as coisas? Soube que se acidentou!
— É dona Carlota, sabe como é quando uma moça da cidade grande se aventura no que não sabe… Mas eu já estou melhor, muito obrigada.
— Ah que bom! Olha, diga à Cora que a espero aqui amanhã pela tarde para o tricô do bebê! Estou tão feliz pela menina Rosa!
— Nós também, dona Carlota! Todos muito animados!
— E o que você vai querer hoje?
— Quanto a senhora cobra para me preparar uma garrafa de café? – coloquei a garrafa sobre o balcão: — A cafeteira da delegacia queimou.
— Cobrar por uma gentileza dessas? De onde ‘cê vem tudo é no níquel né?
— É, eu não estou habituada a encontrar pessoas de boa vontade assim.
Sorrimos, e enquanto eu aguardava Carlota preparar o café, eu fui até o mercadinho e comprei um pó de café novo. Ao pegar a garrafa de volta, entreguei o café em agradecimento.
— De forma alguma menina. Até parece que gastei um quilo de pó!
— Gentileza gera gentileza dona Carlota. – eu disse enfática e ela aceitou o pacote.
— Tudo bem, mas este vai ficar pra vocês. Até arranjarem uma cafeteira nova eu faço o café!
Voltei com a garrafa cheia abaixo dos braços e assim que avisei que o café estava pronto, os poucos policiais do local se direcionaram a se servirem.
— É… Acho que vamos sofrer de abstinência por hoje. – comentei mastigando uma rosquinha e me sentando à mesa de Gabriel com ele.
— Trarei uma cafeteira nova amanhã.
— Vai ao outro município?
— Sim, sim, e precisarei que você fique no meu lugar. Queirós vai ficar por aqui, mas o Alberto e o Antônio irão à fazenda Nolasco para mim. Pode ser delegada por um dia, ?
brincando, né? – eu disse com sorriso de orelha a orelha.
— Certo… Queirós! – ele gritou o escrivão que estava na recepção: — Amanhã a delegacia ficará nas competentes mãos de .
— Sim senhor. – ele assentiu e se retirou sorrindo.
— E como você está? Que ideia foi aquela ?
Gabriel censurou fingindo estar bravo sobre o meu acidente e eu apenas sorri travessa.
— Ei, eu achei que era fácil, tá?
— E a sua recuperação?
— Cem por cento. Obrigada pelas flores.
— E como estão as coisas na fazenda? – ele digitava algo enquanto conversávamos.
— Rosa está grávida!
— Não! – parou de digitar me olhando risonho — Eu tenho que levar uns charutos para o meu amigo!
— Estamos todos muito felizes e animados!
— É… Notei um brilho diferente nos seus olhos.
Sorri sem graça. Gabriel deveria saber por mim a novidade de e eu, mas tive medo de contar.
— E o bobão do tomou coragem de se declarar? – Gabriel perguntou e eu o olhei em dúvida.
— O que você sabe? – perguntei.
— Sei que um certo turrão morreu de medo de te perder, e enquanto eu te visitava no hospital andei o aconselhando.
— O que você fez?
— Nada de mais, apenas alertei de que se ele fosse esperar cair do céu o momento certo para ser feliz ele poderia perder esta chance bem debaixo do nariz dele. Aconselhei que quando você acordasse, ele fosse sincero com você e principalmente com ele.
— Uau… Você sempre cuidando de mim, não é? – olhei admirada.
— Ele teve iniciativa ou eu desperdicei motivação?
— Ele teve.
— Então o brilho nos seus olhos não são coisa do bebê de Rosa. Pelo menos, não somente.
— Obrigada.
Agradeci de coração aos cuidados e apoios de Gabriel pegando sua mão e acariciando-a. Ele beijou minha mão e voltou a desejar a minha felicidade.
— A propósito, enquanto você estava de licença médica chegou uma intimação para a senhorita.
— Oh céus, onde está?
— Deixei em seu escaninho.
Rapidamente me levantei e indo à minha pasta do escaninho peguei a carta. Voltei à mesa, me sentei e abri atenciosamente lendo cada palavra. Ao terminar, olhei para Gabriel e a minha ansiedade perceptível o contagiara.
— Nova data do julgamento. Daqui há dois meses.
— Ângelo disse que tudo acabaria bem, lembre-se que no último o jogo virou para nós. Não se aflija, é uma boa notícia, o fim de tudo isso está próximo.
— É eu sei, mas o Lucas é esperto. Me preocupa não saber quais as armas dele.
— Você confia no seu advogado?
— De olhos fechados.
— Então daqui há dois meses, eu pago o barril de chope da comemoração.
Rimos animados e certos de que tudo ficaria bem.
Marcelo fora buscar na escola, e voltei de carona com ele. Havia me esquecido totalmente de combinar com de me buscar, mas talvez ele ainda estivesse em reunião na fazenda Alvorada. Passamos na casa de Matilde e peguei o pote de biscoitos encomendados. sorriu como se fosse um pote de jujubas. não era muito chegada às balas ou chicletes, mas, às guloseimas de interior não havia quem segurasse sua boquinha nervosa.
Após o almoço, ajudei com seu dever de casa. Rosa e titia tricotavam na varanda, e eu prometi que me reuniria a elas assim que terminasse de explicar o para casa da menina. Logicamente, eu teria que aprender a tricotar, o que demandaria certo tempo.
— Por que não vi ainda? – perguntei pegando agulhas, linha, e sentando no chão de frente às duas mulheres.
— Ele almoçou fora e quando chegou foi direto para o galpão.
Estranhei a informação dada por titia. Por que ele não teria vindo falar comigo?
— Ele continua trabalhando, ou aconteceu algo no trabalho?
— Bem , pela cara dele, meu irmão deve estar esculpindo.
— Como assim?
— Tem tempo que ele não esculpe, não é Rosa? – titia falava para a filha.
— Gente, como assim? Por que ele está fazendo isso?
Perguntei chamando atenção delas para aquela notícia que era nova a mim. Elas se entreolharam confusas e Rosa me explicou:
— Ele faz isso quando quer relaxar ou está preocupado com alguma coisa. Mas a última vez que ele fez isso foi, no dia seguinte que mamãe e ele levaram você à sua primeira missa na cidade.
— É… Agora me lembro. Eu deveria ir atrás dele?
— Vocês brigaram? – titia perguntou.
— Não exatamente. Adiamos uma conversa.
— Então tricote, assim você encontra um hobby e acaba dando o tempo que ele precisa também. – a senhora mais velha falou sorrindo.
Aprendi os pontos básicos, e depois de um tempo pude ver a carcaça – bem malfeita, diga-se de passagem – de um sapatinho sendo criado. Sorri satisfeita e titia e Rosa me parabenizaram por aprender rápido.
— Titia eu sempre tive uma dúvida. A senhora tricota o tempo todo, desde que eu cheguei, mas tirando as toalhinhas de mesa que a senhora troca com frequência nunca vi mais nada pronto. Afinal, o que a senhora tanto tricota e esconde? – eu ri curiosa.
— Eu sabia que em breve esta casa se encheria de crianças, e como uma boa mulher preparada, as coleções outono inverno e, primavera verão de todos meus novos netinhos estão guardadas. – ela dizia sorrindo e Rosa gargalhava das viagens da mãe.
— Acho que ainda está muito cedo para dizer que Rosa está esperando quadrigêmeos não, titia?
— Até onde eu sei, as mulheres férteis desta casa são duas. – me olhou por cima dos óculos.
— Ah não! Olha aqui Rosa, acho bom você esconder estas linhas! Porque se houver alguma simpatia nisso aí – apontei para titia tricotando com habilidade: — Você nunca mais para de parir!
Rosa gargalhava e resmungou um: “você não está fora disso, ouviu a mamãe!”. Apenas guardei as coisas.
— Titia, por favor, vá com calma. Pobre Rosa.
Beijei a testa da senhorinha tricoteira.
— Onde fica o galpão do artista?
— Perto da minha casa, você vai ver quando estiver chegando. – Rosa me respondeu.
Dei as costas e assenti sorrindo. Calcei minhas botinas, ainda estava com a roupa do trabalho, mas jamais iria caminhando até lá de chinelos ou saltos altos. Terminei de calçar e dei um até longo caminhando apressada em direção ao galpão. Antes que me afastasse demais das duas mulheres, titia gritou para mim de sua cadeira de balanço:
— Capricha na sua parte querida! Vou começar um suéter de poá, aqui.
— Titia!
Gritei sorrindo para ela e negando a frase com a cabeça enquanto a senhora gargalhava divertida.
Os vinte minutos que levei caminhando até a casa de Rosa passaram rápidos. Algumas galinhas corriam em volta de mim, desesperadas por – aparentemente – motivo algum. Eu ri da cena. Avistei o galpão e entrei. estava sem camisa, suado, cheio de lascas e serragem. Havia uma bagunça considerável de madeira pelo lugar. Seus cabelos bagunçados de um jeito que eu gostava. Mordi o lábio inferior ao ver os movimentos dos músculos de suas costas a cada força bruta que ele empregava do formão à madeira. Sua calça caía e pude ver a borda azul-marinho de sua cueca, que mais me convidava a descer o restante de suas calças. O suor escorria por seu corpo, e ele largou o formão de lado, pegou uma garrafa de água e ainda de costas para mim, bebeu-a. Me aproximei lenta e silenciosa e desci as unhas sobre suas costas largas, de uma maneira delicada. Ouvi seu gemido baixo de susto e satisfação, e ele virou-se para mim segurando minha cintura. Sorriu de forma sexy. E então iniciei um beijo tão sexy quanto o sorriso.
— Eu vou te jogar sobre estas serragens… – sussurrou em meu ouvido.
— Eu não vim atrapalhar. – respondi mordendo sua orelha.
Ele me puxou sobre si, e me sujando com a madeira de seu corpo, aprofundou nosso beijo. Continuei correspondendo, até que ele mesmo cessou fogo.
— Como descobriu o galpão?
— Rosa me disse como chegar. O que está fazendo?
— Há muito tempo não venho aqui, e da última vez eu construía uma cadeira. Resolvi terminá-la, mas desta vez será uma cadeira de mãe.
— Cadeira de mãe?
— Sim, uma cadeira de balanço, própria para a mamãe Rosa ninar seu bebê. Uma vez ela contou que mamãe tinha uma dessas quando eu era bebê, me amamentava e ninava no seu “descanso de mãe” e Rosa tinha ciúmes porque ela já era grande demais para aquilo. Prometi que quando ela fosse mãe, eu daria uma daquelas para ela.
— É uma história bonita.
— E o que acha? – ele perguntou me mostrando a cadeira ainda com detalhes a finalizar.
— Me parece que será bastante confortável.
Sorrimos um para o outro, passei a mão sobre seu rosto, e ele beijou minha mão.
— Rosa me contou que você vem para cá quando está chateado… Quer falar sobre isso?
— De certa forma. Eu só lembrei de vir para cá porque não consegui parar de pensar na nossa conversa mais cedo.
— Isso ainda está te incomodando tanto assim?
me guiou até dois tocos ao chão e nos sentamos para conversar.
— Porque eu tenho medo de que um dia você não esteja mais aqui. Eu torci tanto para eu esquecer de você, para não me apaixonar e para que você fosse embora, que agora que eu resolvi aceitar a possibilidade de viver um “nós”, eu tenho medo de que tudo isso se realize.
, eu não vou sair da sua vida a menos que você queira. Eu posso mudar o caminho, e as coisas podem nos levar a outras circunstâncias, mas eu não pretendo dar as costas a vocês.
— Então, por que não aceita apenas ficar? Por que insistir em “ter o seu canto”? O seu canto é aqui.
— Olha, eu volto a dizer que o fato de estarmos juntos não significa que eu já tenho tudo o que eu quero. Eu estou há muito tempo batalhando para ter a minha casa, o meu trabalho e eu perdi tudo quando cheguei aqui, eu quero reconquistar o que eu tive e mais.
— Em São Paulo?
— Eu não pensei nisso ainda, mas nós sabíamos desde o início que eu poderia não ficar para sempre aqui na fazenda.
— Então você considera mesmo ir embora?
— Não, não é isso! Mas era lá que a minha vida estava e se eu quiser recomeçar aqui ou lá, eu precisarei começar a batalhar por isso, não é?
— Entendi, a vida aqui não é o suficiente pra você, não é? – ele disse com olhar amargurado: — Eu não dou sorte com mulheres.
Disse e se levantou pegando sua blusa e saindo.
! Espera! – ele parou sem olhar para mim — Não me dê as costas e nem busque comparações entre nós e seu antigo relacionamento. Eu amo a vida na fazenda. Mas não é uma vida que eu conquistei.
Então ele se virou para me encarar.
— Caramba como você é confuso, hein?! Tudo o que eu quero é ter a casa que eu comprei com meu trabalho, fazê-la do meu jeitinho, voltar a fazer o que eu amo e construir uma família por meus próprios méritos. E não ter tudo prontinho e mastigado. É tão difícil assim, entender?
— Não, não é difícil de entender. Você é uma mulher moderna, né? – ele sorriu e veio me abraçar.
Por hora chegou ao fim aquela discussão. No caminho de volta à casa ele contou ter adotado uma cadelinha na fazenda onde havia estado de manhã, e que o bichinho seria entregue pelo capataz logo mais.
Assim que chegamos no casarão, a cadelinha já estava nos braços de e o capataz que se despedia, ao ver chegando o cumprimentou não se demorando muito a ir embora.
— E aí , qual o nome dela?
— Ela vai se chamar… – a menina fazia suspense — Pancinha!
Pancinha, filha? De onde você tirou isso?
Pancinha sim! Porque eu quero esta pancinha dela cheia de filhotinhos! – a menina ria enquanto acariciava a barriga da cachorra — Canelinha e Pancinha!
— Eu adoraria saber de onde ela inventa essas coisas. – dizia a minha cunhada.
— Vamos todos entrar, e deixar que os novos namorados se conheçam! – eu disse chamando , e pronunciando: — Comprei uns biscoitinhos que caem muito bem com o café fresquinho que eu vou preparar!
Após tomarmos o café da tarde, um pouco antes de tratar dos animais, eu levei às ovelhinhas. Ela brincava com Farofa e Nuvem, que já estavam maiores do que quando a menina conseguia embalá-los nos braços. ajudou seu pai e eu, a tratar dos bichos na fazenda e ao terminar voltamos os três para o casarão apostando corrida.
arfava junto à , ambos cansados do pique. Eles olharam para mim, – que apenas respirei fundo me recompondo rápido para entrar – e indagaram como eu conseguia ter aquele condicionamento.
— Eu sou treinada para correr…
olhou-me óbvio revirando os olhos pela forma como eu falei.
— Ei! Eu vou querer ser delegada também! – disse .
— Se for o que você realmente gostar, eu vou adorar . – eu disse afagando os cabelos da menina sapeca, já na sala do casarão.
— Céus… Esta menina está se transformado numa mini . – falou zombeteiro.
Fiquei observando as reações dele, há um tempo se dissesse aquilo ele bufaria, ia fechar a cara para mim ou me ofender por transformar a filha dele numa mini eu. E como o mundo dá voltas, hoje ele conseguia sorrir. E sorrir para mim.
Ao falar de condicionamento físico, eu recordei do dia a dia na academia do antigo bairro, em São Paulo. Eu andei treinando nas horas vagas, – bem poucas – no meu quarto, ou no celeiro. Apenas para não pesar na consciência, mas sentia falta de verdade de descarregar o estresse na musculação. Contudo, o trabalho braçal na fazenda também vinha sendo suficiente para manter minha forma e descarregar os sentimentos.
Levei para o seu banho e depois de tomar o meu, telefonei ao Ângelo. Conversamos sobre a nova data do julgamento e ele chegou a aconselhar que até lá seria interessante eu voltar para São Paulo. Ele inclusive, não apenas me aconselhava a fazer aquilo como demonstrava ser importante. Meu coração ficou cheio de angústia. Eu não queria voltar para São Paulo. Eu não queria deixar , e ninguém mais por dois ou três meses. Eu já havia me habituado à nova vida e não me agradava a ideia de me afastar dali. Porém, eu sabia da importância de voltar. Embora eu tenha chegado ali, num estado provisório de moradia, eu havia desfeito o plano de retomar minha vida em São Paulo há muito tempo. Pelo menos era a minha vontade, eu também não poderia ser ingênua de descartar aquilo no futuro, pois como bem disse ao mais cedo: não sabemos como as coisas vão ocorrer. não reagiria nada bem àquela notícia. Eu disse ao meu advogado e amigo, que resolveria aquelas questões e tornaria a telefoná-lo.
Durante a preparação do jantar eu estava quieta e pensativa. Titia havia ido à casa de Rosa pela tarde – ela paparicava a filha grávida como nunca antes – e ainda não havia voltado. Então eu pude preparar tudo sozinha. O ciúme que titia tinha de sua cozinha, nos impedia de tomar as rédeas.
desceu logo, com no colo. Os dois conversavam alegres sobre qualquer assunto despercebido por mim, e sentou-se à sala após vir até a cozinha sondar o que eu fazia. O pai dela veio logo depois, me envolveu em um abraço enquanto eu picava os legumes. Ficamos um tempo, calados, apenas aproveitando o calor um do outro e eu não me distraí das minhas funções. pegou utensílios pela cozinha e me ajudou a preparar o jantar.
— Você está pensativa demais, e eu diria um pouco preocupada também.
Olhei para ele com ternura e meio sorriso. Eu não queria falar sobre o que estava martelando em minha cabeça com ele, àquela hora. Então mudei de assunto:
— Sabe quando foi a primeira vez que o vi com o semblante tranquilo, leve, e sem a cara emburrada de sempre?
Ele apenas riu envergonhado, abaixando a cabeça e virando-se para mim, me encarou para que eu continuasse a falar.
— No dia em que eu caí no chiqueiro. Eu estava tomando banho lá fora quando você voltou rindo de mim. Titia surgiu para me ajudar, e ao sair você a encontrou na varanda dos fundos, falou alguma coisa sobre os patos. Estava tão tranquilo, distraído e carinhoso com a sua mãe que eu não havia imaginado até então, que seria capaz de vê-lo daquele jeito algum dia. E eu o odiei ainda mais por me provar naquele instante, que você sabia ser um homem decente, mas não o seria comigo.
Relembrei cada momento daquele dia enquanto encarava o olhar de . A expressão serena de culpa na minha frente, revestia o rosto tão bonito e bruto do homem por quem eu havia me apaixonado. E ele depositou lentamente um beijo em meu rosto.
— Desculpe por fazê-la sofrer .
— Não tem que pedir mais desculpas, hoje eu sei que você sofreu também.
— Eu me irritava facilmente com a sua presença porque desde o instante que a vi na sala, ao lado de suas bagagens, eu detestei aquela ideia de mamãe em te trazer para cá. Quando coloquei os olhos em você, eu sabia que meus dias de desamor estariam contados.
Abracei com um sorriso bobo no rosto.
— E a cada dia que você ficava mais perto de mim, mais íntima da minha vida, eu temia me apaixonar perdidamente por você. Até o dia da chuva, onde eu te beijei e descobri que não havia mais caminho de volta, eu estava tão atolado em você quanto a camionete na lama.
Olhou profundamente em meus olhos e nada mais senti além da pressão de suas mãos em minha nuca, os carinhos de conseguiam me tirar do chão. Eu nem me recordava onde estava e o que fazia, apenas assistia ao olhar dele acender-se num brilho especial.
— E quando eu a vi dormindo de sutiã aquela noite, minha vontade era de te tomar em meus braços – sarrou seu nariz gelado em minha face rubra — e nunca mais sair dali. Eu já te amava , e aprendi a te amar, odiando-a.
Sorri acariciando o rosto de , nossas respirações próximas, a pele áspera – provocada pela barba que crescia – sob minhas mãos, que já não eram tão finas quanto antes. Seus lábios quentes, delicados e carnudos, mordiscando os meus. Todos os toques, despertavam os nossos instintos selvagens. me puxou para cima da mesa, e nosso beijo intensificou-se numa confusão de peles, mãos e cabelos bagunçados.
— No dia que a ouvi falando do seu ex, para o Gabriel na delegacia, achei que você falava de mim. Odiei-a ainda mais por saber que você não correspondia aos meus desejos. E o Gabriel… Argh… Como eu o odiei. Odiei vê-lo tocando em você todo aquele tempo, odiei não estar no lugar dele.
Enquanto se declarava, eu ouvia a tudo em êxtase de felicidade e distribuía beijos por seus ombros e pescoço.
— Eu pedia dia e noite, para que qualquer coisa, me fizesse não te desejar mais. Mas era cada dia mais impossível… Tão arrebatadora você entrou nesta casa, tomou nossas vidas e me seduziu até quando não queria. Cada resposta que o seu corpo dava quando nos beijávamos comprovava o quanto você também não era imune aos meus toques. E em pequenos momentos como este – passou as mãos abaixo da minha blusa acariciando meu abdômen, arrancando tremores do meu corpo — eu me sentia o único capaz de te provocar assim.
lentamente segurou um dos meus seios, massageando-os e eu ataquei sua boca enlaçando minhas pernas à tua cintura. Só paramos quando titia pigarreou na porta da cozinha com . Ela tapava os olhos de , que rapidamente pronunciou:
— O que foi vovó? Deixa eu ver!
riu divertido se recompondo e eu, mais envergonhada do que nunca, olhei para titia. Ela esboçava um sorriso divertido de flagrante, e piscou para mim. Retornei ao jantar e soltando ela disse:
— Pronto , pode olhar.
— Ei! O que estava acontecendo aqui? – a menina nos perguntou emburrada por notar que o ambiente estava normal.
— Papai estava beijando a , princesa. – disse risonho pegando a filha no colo.
— E qual o problema? – ela perguntou óbvia com as mãos ao lado dos ombros— Tia Rosa também beija o tio Marcelo. Você é tão boba vovó!
!
Titia ralhou com a menina por seu modo de falar, que saiu correndo para a sala.
— É, sou eu que sou boba sim… – sussurrou titia, ao meu lado.
estava retirando a panela que havia colocado sobre o fogão a lenha antes de começar a me beijar, e que – mesmo vazia – já havia queimado. Prometemos à titia que iríamos terminar o jantar, dando um jeito de não permitir que ela metesse o bedelho no jantar daquela noite.
Finalizamos tudo, e na hora de comer, ouvimos os elogios. “Você está pronta para casar ”, “Vocês formam uma boa equipe até mesmo no fogão”, “, você se deu muito bem” e coisas do tipo, eram proferidas. Eu estava atenta a tudo, mas também seguia pensando no meu retorno para São Paulo. Antes de dormir, decidi que falaria sobre aquilo no jantar da noite seguinte.
Ao amanhecer e a manhã seguir como de costume, estava eu no lugar de Gabriel como delegada. Eu me aprontei rapidamente, ansiosa para ir ao trabalho naquele dia. Havia pegado minha arma, que estava guardada em um cofre portátil no meu guarda-roupa, e a coloquei novamente na parte de trás da minha cintura. entrou em meu quarto, enquanto eu prendia a cinta com a pistola. Num repente deu um passo para trás, e nervoso me perguntou o que eu faria. Ri da cena, e expliquei que iria ser investigadora e não a secretária. Ele ficou contente por me ver animada a ocupar o posto de delegada depois de tanto tempo e tantos traumas. Fizemos piada em relação a, eu ser uma mulher armada e seria bom ele andar na linha. “Você guardava sua arma aqui, este tempo todo, e olha o risco que eu corri!”, disse me abraçando e descemos alegres.
Estava quase no fim do expediente – aquele dia eu trabalhei dois turnos – quando, Queirós surgiu em minha sala.
— Delegada? – sorriu me fazendo sorrir de volta — Tem uma moça aqui que quer lhe falar em particular.
— Pode deixá-la entrar.
Àquela altura eu estava muito curiosa, não era hábito na cidade que procurassem o delegado naqueles termos tão formais. Imaginei que algo, muito sério, teria acontecido. E então quando a mulher adentrou a sala, eu tive certeza de que algo muito mais sério aconteceria.
— Bruna?
— Delegada ! – disse enfática e se aproximou sentando na cadeira à minha frente.
— Esta é realmente uma surpresa. O que faz na cidade? Você ouviu , ela não quer ver você.
— Eu vim pela sim, mas não foi para vê-la. Acaso o sabe que você é uma criminosa? – perguntou agressiva para mim.
— Como é?
— Eu andei levantando a sua fichinha! Eu sei que está sendo acusada de envolvimento com narcotráfico e foi afastada do seu trabalho por isso!
— Você não sabe nada do meu inquérito – eu respondi calma — Eu não estou envolvida com narcotráfico, existem muitos meios de uma pessoa ser acusada por algo que não fez. Eu posso te garantir Bruna, que sou uma delegada competente, sem culpa e sim, todos na família sabem do processo.
— Então você está dizendo que o e a puritana senhora Laura Coralina aceitaram uma criminosa dentro de casa, convivendo com a minha filha?
— Eu já disse que não sou criminosa. E você não tem filha alguma, não é mesmo? Por que esta mudança tão repentina Bruna?
— Não devo satisfações a você, mas não é porque eu não quero a garota que eu não me preocupe com ela!
— Ora me poupe! – bati as mãos na mesa levantando-me e encarando a petulância daquela mulher — O que você quer de mim?
— Avise ao que eu estou na cidade, e o aguardo para uma conversa muito séria do interesse dele.
Ela deu-me as costas e saiu pisando fundo com nariz em pé.
Mulher sem educação, sem escrúpulos, sem dignidade!
Ela conseguiu me irritar tanto, que me despedi seca dos companheiros de trabalho e , ao me buscar na delegacia notou que havia algo errado.
, o que aconteceu? – ele perguntou notando minha irritação.
— Em casa nós conversamos, após o jantar.
— Eu fiz alguma coisa? – perguntou preocupado.
Eu não respondi. Não estava brava com , não havia motivos para aquilo. Mas eu estava irritada pela forma como Bruna se dirigiu a mim, primeiramente porque ela não tinha moral alguma para apontar dedos em minha face. Depois porque ela não tinha o direito de me acusar. E terceiro, porque eu não sou menininha de recados e eu sabia muito bem – pelo que ouvi falar sobre ela – que não fazia o tipo de Bruna ir até alguém para mandar recados. Se ela tinha um assunto com “do interesse dele”, que o procurasse. Eu sei bem, que ela foi até mim para tentar uma intimidação. E não engoli a história dela, nunca se preocupou com , e quando ressurgiu até imaginei que o arrependimento houvesse chegado. Mas, depois do telefonema com , ela vir cobrar por era muita, cara de pau.
Cheguei em casa, cumprimentei todos e fui tomar banho.
Adentrei o meu quarto, joguei minha toalha sobre a cadeira da escrivaninha. Vesti um conjunto de lingerie e caminhando mais calma, abri a porta da sacada e sentei na cadeira de balanço. Encarei o luar acima. A noite estava estrelada, e me acalmava. Não ouvi me chamarem em momento algum, mas enquanto balançava e encarava o céu, ouvi a voz preocupada de .
— Você não vai me contar o que aconteceu?
— Vou, mas só depois do jantar. Preciso falar com a família toda.
— Eu sei que não temos o hábito de confidenciar um ao outro – ele se aproximou à minha frente, sentando-se no chão entre as minhas pernas e segurou minhas coxas olhando-me com amizade — Mas, acho que devemos incluir hábitos novos nessa relação, não é mesmo?
— Desculpe – sorri menos agressiva — Não queria descontar nada em você. Só estou, estressada.
— Já que não quer falar, eu vou te ajudar a relaxar.
Sorriu malicioso, e aproximando sua língua de meu umbigo, lambeu-o com delicadeza. Ri involuntária ao ato. Ele iniciou seus carinhos e beijos em minha barriga, subindo por meus seios e pescoço, parando enfim em meus lábios. Ficamos curtindo as carícias um do outro, até o estômago dele roncar. Recordei que deveria me vestir para jantar.
— Ei, posso te pedir uma coisa? – ele falou chamando minha atenção enquanto eu me vestia, assenti positiva e ele perguntou ao pé do meu ouvido de um modo sussurrado: — Dorme comigo?
— Será um prazer. – sorri.
— Será mesmo.
Descemos, e jantamos. E depois, todos conversamos um pouco, com suas barrigas estufadas fazendo “hora” à mesa. estava ansiosa para assistir a sua novelinha após o jantar, e como sempre, ao terminar de comer se retirou da cozinha.
— Preciso falar com todos vocês.
Eu olhei em direção a sala para me assegurar que estava ocupada. Marcelo, Rosa e titia se entreolharam curiosos, me olhava ansioso e aflito.
— Bem, eu vou começar pelo assunto que diz mais respeito à família… Hoje pela tarde fui procurada por Bruna na delegacia. Ela me acusou de ser uma criminosa e foi perguntar se vocês sabiam sobre a minha situação. Eu rebati às ofensas, mas ela falou que estaria na cidade e que tem um assunto do seu interesse – apontei para – para tratar. Falou que era para você procurá-la, ela ficará na cidade até que vocês conversem.
— Aquela maldita!
Titia esbravejou sendo amparada por Rosa que sussurrou: “calma, mamãe”.
— Quem ela pensa que é para ofender você ? E o que ela quer?
— Ela não me disse exatamente o que queria titia, mas utilizou a preocupação por como desculpa.
Todos estavam irritados com o que eu dissera, mas ninguém mais do que . Dava para notar de longe o quão bravo ele ficara.
— Ela não quer falar sobre … – Rosa deduziu um pouco pensativa.
E levantou-se da mesa, rigoroso e falou:
— Eu sei exatamente o que ela veio fazer aqui.
— Onde você vai meu filho? – titia se levantou preocupada.
— Falar com a Bruna.
— Mas agora? – Rosa estranhou.
— Quanto antes, mais cedo ela some.
— Quer que eu vá com você? – perguntei.
— Não. – beijou minha testa e olhando para Marcelo completou: — Não é preciso ninguém vir atrás de mim.
Ele saiu tempestivo pela porta da cozinha, em direção à sala e não demorou muito para ouvirmos o ranger do motor da camionete. Eu não gostei nada de vê-lo sair daquele jeito. Principalmente sem ouvir o que eu ainda tinha a falar. Titia sentou-se novamente à mesa, e me perguntou o que mais eu teria a dizer.
— A data do meu julgamento foi marcada para daqui há dois meses. E eu tenho que ir embora.

“Ir embora? ”
“Como assim?”
“Do que você está falando?”
“Quando é o julgamento?”


Todos perguntavam ao mesmo tempo, causando um pequeno burburinho.
— Eu tenho que voltar a São Paulo, e ficarei por lá até o julgamento sair.
— E você volta, não é cunhada?
— Rosa, eu não sei… As decisões não estão totalmente em minhas mãos.
— Mas por que você não pode esperar aqui, como da outra vez?
— Titia, é um pouco mais complicado desta vez. Eu realmente tenho que ir.
Eu começava a lacrimejar, então Marcelo se pronunciou em nosso silêncio:
— Não é uma despedida, é um até breve. está sofrendo com tudo isso, e o que ela precisa agora mais do que nunca é do nosso apoio. – ele segurava minha mão de forma amigável — Estaremos aqui, te esperando voltar. Vá tranquila.
Ele levantou para me abraçar e logo, titia e Rosa faziam o mesmo.
— Já conversou com sobre isso? – titia perguntou.
— Eu não esperava que ele fosse sair antes que eu terminasse de falar. Quando ele voltar, eu falo com ele. Vocês acham que eu devo preparar a agora?
— Quando você pretende ir? – Rosa perguntou me abraçando de forma fraterna.
— Eu não sei ainda. Falei com meu advogado hoje, mas vou esperar o chegar para decidir o dia. Eu acho melhor ir o quanto antes.
— Então acho que devemos preparar a sim.
Sorri para Rosa, que se dispôs a conversar com a junto a mim. Aguardamos a novelinha dela acabar e chamei para subir comigo ao meu quarto. Rosa foi junto, e ficou a maior parte do tempo quieta na cama.
— Eu vou levar bronca, ?
— Não , eu quero conversar com você…
Encarei os grandes olhos brilhantes, cor de jabuticaba, da minha pequena menina e já sentia o meu coração apertado.
, você lembra que quando eu vim para cá, eu disse que não poderia ficar por muito tempo?
— Você vai embora? – a menina pulou em meu pescoço assustada e nervosa.
— Calma, calma minha bonequinha. – abracei apertado a pequena consolando-a: — Eu não vou embora. Eu vim para cá muito de repente, lembra? E alguns assuntos ficaram pendentes em São Paulo.
Afastei de meus braços, para que ela pudesse me olhar nos olhos.
— E se eu quiser ficar por aqui, eu preciso terminar umas coisas que comecei lá.
— Entendo, . – afirmou tristonha, olhando para baixo.
— Não quero que fique triste. Eu vou precisar viajar esta semana, e ainda não sei o dia. Mas, eu vou para São Paulo e ficarei um tempinho por lá. Depois que acabar de resolver meus probleminhas, eu volto para você.
— Você vai ficar lá quanto tempo?
— Pelo menos uns três meses .
— Isso é muito tempo, ! – falou manhosa batendo as mãozinhas na testa.
— Eu sei princesa, cada minutinho longe de você é muito tempo… Mas é como eu te disse, eu preciso resolver umas coisinhas lá, para voltar e ficar.
— Você e o papai brigaram?
— Não! – eu sorri confiante para ela — Seu papai e eu não brigamos mais!
— Eu sei – ela sorriu esfregando as mãozinhas com risinhos sapecas — Agora vocês dão beijinhos! Igual a vovó falou que seria!
Rosa e eu nos olhamos cúmplices e sorridentes, e eu agarrei e ficamos um bom tempo abraçadas. Nós três conversamos até pegar no sono. E ainda não havia voltado.
Eu estava preocupada. E Rosa, e titia, e Marcelo. já dormia há algum tempo. não mandava notícias. Marcelo cogitou ir até a cidade atrás dele, mas titia o disse para levar Rosa para casa e descansarem. Combinei de telefonar para eles, assim que chegasse.
Titia e eu ficamos acordadas até meia-noite, ainda sentadas à sala, preocupadas com a demora do nosso homem. Quando vi que titia havia cochilado na poltrona, a acordei e disse para deitar-se que, eu a acordaria assim que ele chegasse. E embora relutante ela aceitou. O relógio não parava de tiquetaquear e nenhuma notícia.
Minha mente vagueava em mil e uma besteiras.
Em nenhum momento pensei que algo ruim teria acontecido a ele, mas eu lembrava da fotografia picotada de Bruna na cabeceira da cama de e que eu havia encontrado, nas minhas primeiras semanas morando na fazenda. Ele dizia não sentir nada por ela, e que eu trouxera os sentimentos à tona, sentimentos – segundo ele – genuínos, mas eu já estava encucada. Imaginei desde uma briga intensa seguida de uma reconciliação amorosa até, uma discussão pacífica seguida de uma reconciliação intensa. Naquele momento, tratando-se de Bruna, eu estava muito insegura.
Não percebi quando adormeci.
Acordei com dores por todo o corpo. E ninguém havia acordado ainda, o sol mal nascera. Levantei, ajeitei o sofá, subi para escovar os dentes e retornei para a cozinha. Titia levantou assim que eu acabara de coar o café.
— Bom dia querida, nada dele ainda?
— Não titia… – abracei ela, e olhei pela janela da cozinha.
com a roupa da noite anterior, vinha da direção do celeiro com a camionete para o casarão. Corremos para a entrada da casa e assim que surgiu em nossa frente, ele se desculpou por não dar notícias.
Alegou não pensar direito com suas ações da noite anterior, e aquilo me preocupou. Perguntei o que havia acontecido, e ele tranquilo, disse que discutiu com Bruna e voltou para casa, mas dirigiu até o celeiro, pois precisava se acalmar. Ficou por lá um tempo, e acabou pegando no sono.
— Então você passou a noite no celeiro? – perguntei duvidosa.
— Desculpe amor… – beijou meu rosto — Eu vou subir para tomar banho.
Deu as costas a mim e à sua mãe. Titia me olhou duvidosa e eu estava furiosa com as ações dele. Mas fiquei calada. Voltei para a cozinha, e pude ver titia subindo para falar com o filho. Não pude aguentar, e sorrateira fui atrás.
Ouvi contando-a que Bruna voltou por causa dele, e entre tantas coisas ditas, ela falou que sempre o amou e queria que as coisas fossem diferentes. Que os planos deles tivessem dado certo. Contou que ela se desculpou e tentou beijá-lo. E ele a acusou de voltar só porque o viu feliz ao meu lado e queria destruir aquilo, como tudo que fez na vida dele. Titia abordou ao filho, sobre seus sentimentos. E respondeu que percebeu não amar mais Bruna, ele amava a garota da adolescência que morreu quando nasceu, e disse estar furioso por Bruna ter voltado para destruir tudo de novo. Então titia, disse não entender o que ela poderia destruir já que ele não mais a amava, resmungando com raiva respondeu:

— Ela vai lutar pela guarda de se continuar por aqui, mamãe.
— Ela não pode fazer isso! E por acaso você não está pensando em se afastar de por causa disso, não né?
— Eu não sei como reagir nesta situação mãe, eu preciso de um advogado. Eu não vou perder para a Bruna.
— E vai perder a ?


Assim que titia o perguntou eu saí apressada, e cautelosa retornando à cozinha. Não queria ouvir a resposta. Tive medo da resposta. Saí para tratar dos animais, mas ao chegar lá, já havia feito tudo.
Voltei para o casarão quando todos tomavam café. Ele levantou-se da mesa e me abraçou cheirando o meu pescoço.
— Desculpe por ontem, desculpe! Eu perdi a cabeça.
— Não precisa se desculpar.
Eu estava chateada com a situação, não com ele, até porque não ouvi a resposta final dele. Me sentei à mesa com os outros e fui comer. Eu estava chateada com a situação porque eu havia chegado depois, e mesmo tentando evitar eu acabei fazendo mal a eles. Se Bruna tomasse a guarda de , eu não me perdoaria jamais. Em todo caso, eu confiava que pelo histórico, qualquer juiz sensato não daria a guarda a ela. Mas como eu havia dito para Bruna: existem muitas formas de incriminar um inocente; e neste país corrompível o dinheiro pode se sobressair.
Eu não sabia quais armas ela teria para agir, ou se tudo não passou de um blefe desesperado para conter .
Ele e eu seguimos para a rede após o café da manhã. Estávamos os dois de folga e estava bastante ansioso para falar comigo.
— Mamãe contou sobre o seu julgamento.
— Pois é… Daqui dois meses.
— E você pretende ir embora, não é?
— Não é ir embora, mas adiantar minha ida.
— Você não está mentindo para mim não né? Você vai voltar?
— Me diz você, você quer que eu volte?
— Que papo é esse ?
— Desculpa, eu ouvi você falando com a titia sobre as condições de Bruna.
— E você me ouviu dizer, que vou abrir mão de nós dois?
— Não, eu saí antes de ouvir mais alguma outra coisa.
— Então não cogite ir para não voltar, pois eu te busco até no inferno. Ouviu bem, ?
Abracei e o beijei.
— Quando pretende ir?
— Amanhã.
— Já?
— Depois dessa confusão com a Bruna, acho que será uma boa eu ir logo. Assim, eu limpo a sua barra com ela.
— Para com isso! Bruna não vai fazer nada contra nós, e se ela tentar eu mostro a ela o homem que eu me tornei.
— Não, eu sei . Mas, eu tenho que ir logo e uma coisa ajuda a outra.
— Eu vou com você.
— De forma alguma. Ficou louco?
— Você vai ficar bem sozinha?
— Eu não estarei sozinha, Anjinho e Verônica estarão comigo.
— Vamos nos falar todos os dias?
— Com certeza.


Capítulo 16 - Paulistana, da Garoa

Tocar na playlist: (Hold On – Alabama Shakes)


Havia amanhecido o dia de voltar a São Paulo. O clima entre todos nós na casa, era fúnebre. Por fora demonstrávamos à que aquele tempo passaria rápido, e que tudo acabaria bem. No meu interior – e no de todos – a dúvida sobre o meu futuro naquela família permeava.
Acordei cedo como sempre, auxiliei nos afazeres, me arrumei para o trabalho e tomamos café reunidos como uma família. Eu não saberia dizer quando retornaria a ter agradáveis manhãs. Me despedi de todos firme, mas querendo chorar. me buscaria no trabalho ao meio-dia e em seguida iríamos para a rodoviária. Não havia tido tempo de falar ao Gabriel sobre a minha viagem, portanto cumpriria meu ponto naquela manhã. Ao chegar na delegacia, o ambiente estava um pouco mais agitado do que o normal. Perguntei a Gabriel que estava atarefado, logo que eu cheguei:
— Bom dia, o que houve?
— Bom dia , um tumulto da fazenda Nolasco. O coronel Abreu andou enfiando os pés pelas mãos.
Um homem baleado, porém, já atendido por médicos adentrava à sala de depoimentos. E o coronel saía dela.
— Senhora ! Quanto tempo! E o seu esposo como vai?
Coronel Abreu, se aproximou de mim falando alto como de seu costume, e ajeitando seu cinto a passos largos. Eu estava alerta com o movimento recente e agitado, e ainda mais surpresa pelo envolvimento do coronel naquela confusão. E não bastando a confusão que ele armara – a qual eu ainda não sabia o motivo –, ele insistia em mencionar meu “esposo”. Graças aos céus, Gabriel não me olhou com julgo limitando-se a sorrir com travessura, e os demais profissionais estavam ocupados demais para se atentarem às gritarias do coronel.
— Coronel Abreu. – eu disse lhe depositando um aperto de mãos recíproco: — está bem. E sua família?
— Tudo no lugar. Não fosse estes infortúnios roubos de gado. Do meu gado!
Bradou e seguidamente mais calmo ele continuou:
— Eu havia me esquecido que a senhora é destas mulheres que trabalham no lugar dos homens.
— Oras Coronel, as mulheres têm sido melhores não apenas nas funções tradicionais, como tem se empenhado com louvor em campos antes não táteis. Assim como o senhor se refere: “o lugar dos homens”.
— Não tenho dúvida. Pelo contrário, acredito! Quem sabe a senhora não vista calças melhor do que o nosso amigo delegado e resolva o meu problema?
O coronel fora descaradamente abusivo ao mencionar Gabriel.
— Devo lhe lembrar que suas condições atuais não estão favoráveis senhor Abreu, portanto peço que se controle. Eu não gostaria de ter que detê-lo por desacato. – respondeu Gabriel sendo paciente.
— Afinal, qual a ocorrência? – perguntei.
— O senhor Abreu Nolasco deferiu um tiro de espingarda no senhor Lauzério Silva, alegando defesa de propriedade.
— Alegando não, senhor delegado! Afirmando! Veja bem se eu sou homem de dar tiro em inocente e de deixar “tirarem farinha” com o que é meu! Ele é responsável por me roubar!
— Calma senhor Abreu, temos certeza do seu depoimento, no entanto, o senhor não pode acusar sem uma prova concreta. O senhor tem provas? – eu me meti no assunto.
Talvez eu estivesse sendo abusada com Gabriel em tomar à frente daquela situação, mas depois de ficar como delegada em serviço novamente o bichinho da investigação me picou. Eu já vinha sendo hospedeira de uma pulga atrás da orelha com aquela história. E não poderia deixar passar sem me intrometer.
— Eu vi. Esta é a prova que tenho: meus olhos, que a terra há de comer um dia! Onde é que fica a valia da palavra de um homem de bem?
— Infelizmente coronel, ao se tratar de lei nem toda palavra basta. O senhor está liberado para ir para casa. Estamos colhendo o depoimento do senhor Lauzério e necessitando de mais alguma coisa, o procurarei.
Abreu cumprimentou Gabriel em despedida. E acenou com a cabeça para mim retirando-se visivelmente contrariado da sala.
— E então? – encarei Gabriel curiosa.
— Está interessada no caso?
— Desculpe se atropelei sua autoridade. É que estou com uma intuição sobre este caso.
— Aceitaria investigá-lo?
— Muito! Mas, não sei se posso. Inclusive me esqueci de avisá-lo que acabando aqui voltarei para São Paulo.
— Mas já?
— Preciso ir o quanto antes, não sei o que me aguarda. Desculpe avisar em cima da hora assim…
— Não tudo bem, nós já sabíamos que isso aconteceria logo. Darei andamento com este processo, mas se chegar por lá e ver que pode me ajudar é só telefonar.
— Eu sou tão grata por tudo o que você fez e faz por mim!
Sorrimos amigos um para o outro e puxando Gabriel para perto de mim o abracei apertado. Queirós e outros policiais que observaram a cena sorriam entre si. E conhecendo Gabriel, como acho que conheço, ele os teria repreendido em silêncio enquanto me abraçava.
— Você vai voltar, não precisa ficar nervosa.
— Eu sei, o problema não é não voltar. É não saber quando voltarei.
— Isso você vai saber assim que estiver lá e ouvir a manobra de Ângelo.
— Você sempre tão confiante…
— E por qual motivo não estaria?
— Tem razão. – ri abafado.
— Ainda temos um barril de chope para beber em comemoração. Não esqueça.
Durante aquela manhã inteira li os relatórios de ocorrência da fazenda Nolasco. Caso eu realmente pudesse acompanhar aquele caso à distância gostaria de já adiantar tudo o que fosse necessário. Estava lendo o depoimento de Vitório, o filho mais velho do coronel, e algo ali cheirava à mentira.
— Muito esquisito o depoimento do Vitório. Porque ele nega estar diante dos ocorridos, mas o coronel alega que o filho foi testemunha ocular do terceiro furto na quinta-feira à noite.
— Como? – perguntou Gabriel com cenho franzido.
— Você não havia notado a contradição nos depoimentos?
— Não, me passou batido.
Levantei de minha cadeira e fui em direção a cadeira de Gabriel à minha frente. Com os papéis sobre a mesa, apontei-o o trecho do depoimento. Ele lia tudo com maior atenção. E eu estava pasmada por uma informação tão importante e tão notória ter passado despercebida pelo delegado. Não querendo julgar a competência do meu amigo, mas talvez o coronel tivesse razão, e aquele caso pudesse já ter sido resolvido.
Olhei o relógio que marcava onze e quarenta e cinco da manhã.
— Você pode ir se quiser, . Não tem por que ficar te prendendo aqui. – disse Gabriel fechando a pasta de depoimentos.
— Eu estou nervosa.
— Se acalme – ele se levantou — Você sabe que acabará tudo bem porque você é inocente.
— Eu não sei… Não diria que o medo é ser presa, porque por mais manobras que Lucas fizesse, Anjinho não deixaria isso acontecer.
— E então?
— Medo de demorar a voltar e quando voltar, as coisas…
— Não estarem do mesmo jeito?
Assenti cabisbaixa com um sorriso fraco. Gabriel abraçou-me carinhosamente apertado.
— Tudo estará do jeitinho que você deixou. Eu farei questão de cuidar pessoalmente disto.
— Obrigada, você é um anjo no meu caminho.
— Bem, na verdade espero que nem tudo esteja do jeito que você deixou. Este caso da fazenda e alguns outros se Deus quiser, já terão sido resolvidos.
— Se precisar de qualquer coisa, é só me telefonar. Eu falo sério.
Nos abraçamos mais uma vez e eu beijei seu rosto. Dei outra espiada no relógio, e pegando minha bolsa e mala, me despedi de Queirós e outros amigos. Ao aparecer na porta da delegacia, descia da camionete vindo até mim. Beijou minha boca sem pudor algum. Sorrimos um para o outro, e entramos no carro. Até a rodoviária ficamos em silêncio, o rádio tocando uma moda de viola baixinho, e o sol do meio-dia refletindo luz do painel do carro diretamente em meus óculos escuros.
Eu queria dizer muitas coisas ao naquele momento, mas não sei por qual razão, emudeci. E ele também me parecia bastante distante em seus pensamentos. Chegando à rodoviária simplória retirei as passagens e caminhamos até a plataforma. Sentados num dos bancos, abraçados de lado aguardamos meu ônibus.
— Sabe... – quebrou o silêncio — Eu fiquei pensando nas palavras certas durante todo o caminho, mas eu não sei quais são elas.
Beijou minha testa, e eu o abracei um pouco mais forte, com meu meio sorriso tentando disfarçar algumas lágrimas. Uma delas escorreu em meu rosto e pousou na camisa dele. Na tentativa ainda, de não o fazer notar o choro, limpei discretamente as maçãs de meu rosto, no entanto, falhei. levantou meu olhar ao seu, e beijou-me calmo e carinhoso.
— A verdade é que não consigo imaginar a fazenda sem você. Passei a noite tentando prever como serão os dias com e eu, novamente só nós dois. Mamãe está preocupada com você, não por nós ou pelo julgamento, mas, por seu bem-estar. E isso tudo você sabe, pelo clima totalmente vazio que há em toda a situação. Eu só quero que você saiba que eu estarei te esperando… E que quando você voltar, eu te receberei da melhor forma que você merece. Como eu fui incapaz de fazer antes.
Chorei sem vergonha alguma deixando à mostra a fragilidade de uma mulher que embora forte, ama e quer ser amada, e que tem passado por um turbilhão de sensações difíceis. Cujo as quais têm a enfraquecido lentamente.
— Eu não gosto de chorar na frente de ninguém, muito menos na sua frente , mas, eu preciso que você saiba que nas últimas semanas você tem me feito forte de novo. Após tanto tempo. O mesmo homem que causou um forte abalo na minha autoconfiança, foi quem me deu um motivo para não desistir. E eu odeio admitir que também não sei mais como serão meus dias sem você. Não gosto de não ter o controle das situações, e por este meu jeito os meus problemas recentes se tornaram um martírio maior, mas você, , titia, Rosa e Marcelo… Vocês se tornaram a família que eu sonhei ter um dia. Vocês se tornaram o meu lar. E pode ter certeza que eu voltarei. Eu voltarei para você.
Ficamos um tempo ali, nos beijando e aconchegando a saudade precoce e cruel um do outro. Quando meu ônibus chegou, eu o adentrei me sentindo vazia. Deixava um pedaço de uma nova eu, ali. E ao observar o carro partir devagar, restando apenas a sombra do homem que eu amava, eu tive a certeza de que aquela não seria uma despedida definitiva. Tive a certeza de que aquela partida estava sim, sob o meu total controle.

1º Dia – São Paulo, 29 de novembro de 2018.


Anjinho e Verônica me aguardavam no desembarque da rodoviária do Tietê. Ambos com um sorriso largo e animados. Eu corri até eles abraçando-os fortemente.
— Porque não veio de avião? – perguntou Ângelo.
— Economia de grana.
— Está passando alguma dificuldade, amiga? Sabe que há qualquer momento, pode contar conosco!
— Não Vera, está tudo bem. Eu apenas não achei prudente gastar com conforto agora… Foram apenas algumas horas a mais. De resto foi uma boa viagem.
— Ei, eu sei que você está preocupada e triste de ter que voltar, mas eu tenho boas notícias, viu?
Anjinho arrancou-me o suspiro e o sorriso de alívio tão aguardados. Após aquela revelação, fiquei mais leve e tranquila, pois, o retorno provavelmente seria mais rápido do que eu imaginava.
— Vamos para casa, assim tomamos café e colocamos a conversa em dia! Eu estava morrendo de saudades da minha madrinha!
Verônica exclamou, e é impossível não se animar ou sorrir perto dela.
Ângelo e Verônica são as pessoas especiais que eu tive em São Paulo, e me faziam muita falta. Amigos como eles, não são todos que encontram, e ali revivendo a delícia que era ter o trio reunido novamente foi que me dei conta. Naquele momento, eu percebi que não havia perdido nada. Na verdade, eu havia ganhado muito, se não tudo.
Ganhei um amor, uma filha emprestada, uma tia sogra, uma prima cunhada, um cunhado, um sobrinho a caminho e tudo isto somado a dois irmãos paulistanos que já pertenciam à minha história.
Então toda aquela aura de peso, de tristeza, de sufoco, e aquela sensação parecida com a que tive meses atrás na primeira volta à cidade não mais existiam. Eu não tinha motivos para ficar cabisbaixa, preocupada ou abatida! Oras, eu era inocente! Eu estava a ponto de me livrar das calúnias! E eu havia ganhado muito mais do que achava que tinha. Fomos para a casa da Vera, e eu prometi que não faria daquela viagem uma extensão de um sofrimento injusto.
Eu mal pude acreditar, quando entrei no apartamento da Vera, por toda aquela decoração nova. Antes de eu ir embora de São Paulo ela já discursava sobre o quanto estava cansada das cores e móveis que todos os dias, ela era obrigada a olhar. Recordo-me que na época, nós chegamos à conclusão que o seu desejo por mudanças provavelmente fosse influência do desejo de avançar seu relacionamento com Ângelo.
Verônica… Negou o quanto pôde a mim afirmando que “seu julgamento à lá psicóloga falida é um tremendo conceito de dependência unilateral”. E, até entender o que exatamente, ela queria dizer com aquilo, eu já havia desistido de convencê-la. Tão turrona! Bem, eu não estava errada. Agora estavam ambos noivos, e o seu apartamento redecorado desde as paredes às lâmpadas.
Verônica – com um sorriso maior do que o habitual – abriu a porta de seu apartamento. Ainda segurando a maçaneta com a porta escancarada e ela recostada à mesma, encarava as minhas reações ao adentrar pé por pé.
Logo após a porta, eu desci o sobre piso com dois degraus observando seu sofá em formato “C” na cor vermelha. Ao lado de cada ponta do sofá, um conjunto de abajures, em cor carmim. A mesa de centro retangular estampava Romero Britto e sobre ela o controle remoto, e o cinzeiro de vidro também vermelho. A parede em que se dispunha a televisão, apresentava sob o aparelho uma estante em mogno branco. Eletrônicos e outras bugigangas pequenas, como bibelôs e estatuetas, sem falar nos arranjos de suculentas espalhados pelos mínimos ângulos do ambiente. Ao olhar em direção à porta da sala, pelo qual eu havia acabado de passar, samambaias choronas emolduravam aquele sobre piso da entrada.
Eu não sei definir como seria a minha expressão naquele momento, mas, Vera personificava uma corujinha-do-mato com aqueles olhos tão abertos e a cara de expectativa enquanto se camuflava com o ambiente. Ali, eu dera a reparar que minha amiga se vestia com saia justa de babados na barra, e uma leve blusa de alça fina. Ambas as peças em seu corpo: vermelhas. E os pés, contornados de uma sandália anabela em cor branca.
Uma total falta de bom gosto. Assim eu definia a decoração daquele ambiente, onde a única peça que me agradava eram os sapatos de Verônica.
Ângelo e eu trocamos olhares. Ele ria discretamente e balançava a cabeça em negação. Impaciente, Verônica bufou antes de reclamar:
— E então ?
— Você não gostava de azul?
Perguntei-a desconversando e olhando de volta a decoração, só então percebendo que as cortinas da sala também eram vermelhas carmim. Apontei para elas com um cara de espanto deixando escapar um discreto: “Ó!”. Ângelo gargalhou enquanto Verônica adentrava largando a bolsa sobre o sofá, e com as mãos na cintura me encarou afirmando:
— Você detestou!
— Bem… Eu não decoraria a minha casa assim. Não é o meu estilo, você sabe.
— Sei, sei, você é a senhorita “bom gosto” não é mesmo?
— Não fica com raiva de mim não, Vera!
— Não ligo para a sua opinião. – virou o rosto sacudindo a cabeça contrariada, e me puxando pela mão continuou: — Mas, você bem que poderia aprender que há momentos onde a mentira é uma regra. Exatamente em momentos, onde a sua melhor amiga gasta um dinheirão redecorando o apartamento dela para ao procurar a sua opinião, a senhorita empinar o nariz e fazer o “Ronaldo Ésper”!
— Nah… Não temos isso entre nós.
Ângelo e eu não contínhamos as nossas risadas, enquanto seguíamos Verônica pelo apartamento até os próximos cômodos redecorados. Então chegamos ao quarto do casal.
A parede atrás da cama, adivinhem só: vermelha e com textura. Céus, como aquilo era cafona. A cama king size, impecavelmente estendida em colchas brancas discretamente bordadas. Cabeceira branca, de design minimalista. Dois criados-mudos que, a meu ver faziam par com a cama e sobre eles abajures igualmente brancos. O banheiro da suíte do casal, também todo branco. Voltando ao dormitório, as cortinas eram as mesmas da sala, em costura e cor. O enorme guarda-roupa ocupava uma parede inteira e também branco, sem detalhes. Eu já estava pronta a falar que, fora a parede cafona, a decoração simples tinha salvado o seu quarto, quando olhei para cima. Um espelho no teto.
— Sério Vera? – apontei para cima a olhando sem acreditar.
— Qual o problema?
— Ângelo, vocês vão morar aqui depois do casamento, não é? Você não teve direito à voz? Por que não conteve o espírito de cafona que se apossou desta mulher?
— Você sabe … É o apartamento dela. Prometo levá-la ao meu apartamento para equilibrar. – ele dizia em meio a risos.
— Isso! Fica lá no apartamento dele, sua chata!
— Verônica, desculpe, mas você deveria ter pedido a minha ajuda! E qual é a dessa onda de “vermelho carmim”?
, vai à merda. Eu desisto de você, e estarei na cozinha preparando a mesa do café.
Ela retrucou com as mãos para o alto e saindo deixou-nos a sós.
— Sério, Anjinho por que você não interveio?
— Eu não ligo para qual cor ela vai pintar a casa, desde que ela esteja feliz ao meu lado.
— Ah por favor, – bati levemente em seu ombro – esqueceu que te conheço? E sei muito bem que você deve ter transformado o antigo closet dela num escritório onde vai se trancar, ou numa extensão do seu refúgio. Ops, apartamento.
— Certo, eu realmente peguei o closet, mas não é um escritório.
Me puxou sorrindo e levando-me até a porta do cômodo. E como eu imaginava, Ângelo havia o transformado num refúgio. Um ambiente masculino com seus equipamentos esportivos – discretamente distribuídos de forma a não comprometer o espaço – alguns troféus, uma TV, videogame, uma pequena caixa de som moderna, uma estante com alguns livros, um frigobar e almofadas jogadas sobre o tapete. Era um espaço pequeno, num tamanho padrão considerável. No entanto, a organização do local o deixou funcional.
— Sabe que ela vai utilizar isto aqui até mais do que você, né?
— É eu sei… Mas temos acordos. O restante da casa é dela, desde que não me impeça de usufruir do meu ambiente.
— Pago para ver.
— Vocês, não vem tomar café? – gritou Verônica.
Saímos abraçados e ainda rindo baixo de tudo aquilo. A cozinha mantinha-se como antes, por exceção de um detalhe ou outro.
Na mesa de café, Verônica falava animada o quanto estava feliz pela minha volta, e Anjinho concordando com ela afirmava ter preparado um fim de semana especial para nós dois. “Como nos velhos tempos”, ele dizia sorrindo. Vera iniciou os assuntos de seu casamento. “Nós vamos atrás do seu vestido de madrinha e iremos fazê-lo no mesmo estilista que o meu! Já até olhei!”; “Ah, nós também precisamos provar os doces! ”; “Os convites! , não me deixe esquecer dos convites!”. Enquanto ela tagarelava tudo aquilo, eu segurava minha caneca no ar, um pouco assombrada com todo aquele desespero e Anjinho me olhava tranquilo e sorridente.
— Vocês já marcaram a data? Disseram que aguardariam o fim do meu processo.
— Estamos no fim disso, .
Anjinho novamente me passou confiança e calmaria ao dizer aquilo. Eu estava ansiosa para saber tudo, mas não roubaria o foco da Vera. Dei continuidade à sua euforia:
— E então amiga, o que você já olhou?
— Nada! Eu estava te esperando, óbvio! Ai. Meu. Deus. Será que vai dar tempo? Amor…
Ela desviou o olhar aflito e choramingou para Ângelo, que a fez respirar com ele a fim de acalmar-se.
— Vai dar tudo certo Vera, só tente não explodir.
...
Vera aliviou a tensão deixando os ombros caírem e pegou minha mão:
— Quando você se casar vai entender como é a sensação mais desesperadora do mundo.
Ângelo beijou-a no rosto e em seguida revirou os olhos.
Estar com meus melhores amigos estava sendo tão aprazível. E os minutos passavam lentamente, pela primeira vez como uma sensação boa de eternidade.
— E falando em casamento… – sai a Verônica desesperada, e retorna a arrojada indiscreta: — Você já se resolveu com algum daqueles dois gostosões lá da fazenda?
— Como? – Ângelo a encarou fingindo ciúmes.
— Nem vem môr, você também está curioso!
— Vocês dois são inacreditáveis. – murmurei baixo.
— Por favor, me diz que ficou com o ! Ele pode ser turrão e tal, mas… Nossa mãe de misericórdia , que homem é aquele?
— Como? – pigarreou novamente Anjinho.
E ela ignorou o pigarro do noivo:
— Ângelo apostou que você ficaria com o Gabriel, porque segundo ele: e são muita pólvora para pouca bala”.
— Eu repito: vocês dois são inacreditáveis. E já que tocaram no assunto, eu vou telefonar e avisar que cheguei bem.
Enquanto eu me levantava sorridente, Verônica reclamava por eu sair e Ângelo sorria apontando para mim e dizendo entre eles:
— Retirada estratégica para pensar numa argumentação, viu só amor?! , você sabe que não vai escapar dessa!
Deixei-os com suas apostas e piadinhas, e fui até a janela da sala. Disquei o número da casa e já estava ansiosa para ouvir a voz de alguém.

— Alô?
— Titia?
! Minha filha, que saudades estamos todos! Eu sei que você foi embora ontem, mas como você faz falta! Ai minha Nossa Senhora! Como estão as coisas?


Sorri de leve ao ouvir a voz ansiosa de titia.

— Tudo bem. Estão melhores do que eu imaginava, mas ainda não esclareci o assunto com Anjinho. Estamos na casa da Vera, e acabamos de tomar café. Cheguei por esta manhã.
— Fez boa viagem?
— Um pouco cansativa, mas muito tranquila.
— Fico feliz de estar bem com as coisas do seu processo aí. Significa que você voltará logo, não é?
— Sim titia, assim que eu puder dar mais informações ligarei. Mas… Tem mais alguém aí com a senhora?

Ela deu uma risada sonora e malandra.

— Você quer saber se ele está aqui, não é?
— Não só ele, mas a minha pequena e Rosa, enfim… Sinto falta de vocês.
— Ele me contou como foi a despedida de vocês na rodoviária.
— Ah… Foi intenso, como nós dois sempre somos.
Seu homem está trabalhando, minha querida. Está muxoxo desde ontem, você conhece o quando está contrariado…
— Se conheço!
e Rosa na escola, Marcelo no trabalho… Enfim, apenas eu e o Guino por aqui.
Guino? – minha vez de rir malandramente.
— Sim, ele está na varanda. Quer falar com ele?
— Não precisa titia, apenas mande um beijo a ele. Diga a todos que liguei e cheguei bem, eu retornarei mais tarde para falar com a família.
— Aviso sim, mas pediu para lhe dizer, caso ligasse, que ele aguarda o seu telefonema no celular. Acho bom não contrariar o seu homem, senão sobra para mim. Já viu né?!
— Ok titia! – sorri — Pode deixar, eu vou ligar para ele. Amo vocês, se cuidem.
— Também te amamos, minha filha.

Assim que desliguei a chamada, um casal atrevido me aguardava no sofá da sala com risinhos cúmplices.
— O que foi “intenso como vocês são”? Quem são “vocês”? E para qual “ele” a senhorita vai ligar, hein?
Verônica me fuzilava com o olhar e não parava com as perguntas, então eu apenas abanei o ar com as mãos como se não fosse nada demais e pedi para terem um pouco de paciência:
— Eu vou contar, mas antes deixem eu terminar as minhas ligações!
Eu discava a chamada para torcendo para que houvesse sinal onde ele estivesse. Roía uma das minhas unhas, nervosa. E Vera me olhava confusa por aquele hábito, há tanto tempo abandonado e que, apenas significava uma coisa: aflição. Anjinho me observava atento também, e sorria. Ângelo me conhecia bem, e sempre fora mais observador do que Verônica.

! – atendeu em tom de alívio.
— Oi meu homem… – ele riu do outro lado.
— Vejo que falou com mamãe…
— É, acabei de ligar para casa.

Ele se manteve mudo por um tempo.

— Alô?
— Desculpe, eu fiquei um pouco aflito com a sua ida, mas você dizendo que aqui é sua casa me deixa muito mais tranquilo.

Sorri com a forma como ele falou.

— Está tudo bem?
— Sim, eu cheguei cansada, mas Vera e Anjinho me animaram muito com algumas notícias. Eu ainda não sei tudo, mas devo voltar logo para casa.


— BEIJO ! – Vera gritou para ele próxima ao meu telefone, me assustando, e voltou a sentar ao lado do noivo que ria divertido.

— Vera?
— É a Verônica sim. – eu disse fingindo estar irritada.
— Mande outro beijo a ela, e um abraço forte ao Anjinho.
— Ele mandou outro, e um abraço pro Ângelo. – respondi aos dois.
E assim que eu disse, minha amiga começou a pular no sofá festejando e gritando. Seu noivo, ria ao observá-la apontando para ele e bradando: “Eu sabia! Eu não te falei?!”

— O que está havendo aí?
— É só a Vera pagando de adolescente em seu fã clube “ fique com o ”.
— Nós temos um fã clube? – ele ria.
— Há tempos que temos, só não descobri ainda desde quando se fundou um fã clube aqui em São Paulo.
— Bem, coloque no, viva voz.

Chamei a atenção do meu casal de amigos indicando que queria falar-lhes. Ambos pararam de rir e brincar um com o outro e ouviram atentos a voz dele:

— Cuidem bem da minha fazendeira, por favor. Cuidem do meu amor como eu cuidaria. E obrigada, por tudo o que fazem não por ela, porque, vocês a amam antes do que eu. Mas, obrigada por tudo o que fazem por nós.

Verônica sorria de olhos brilhantes e Ângelo não entendia aquela emoção estranha de sua noiva sempre tão durona. Eles gritaram para o frases como: “Nós cuidaremos” e “Venha nos ver!”.
Em seguida retomei a ligação, me afastando novamente para a janela.

— Foi lindo o que você disse, quem diria... Eu sinto a sua falta.
— Eu também estou morrendo de saudades. Estamos e eu, num desânimo absurdo.
— Não fiquem, eu vou voltar e não quero ninguém desanimado quando chegar em casa!
— Eu sei amor, nós ficaremos bem.
— Eu disse à titia que não tenho notícias concretas ainda sobre o processo, mas, já sei que são positivas…
— Eu fico muito feliz em saber disso.
— Eu vou desligar querido, nos falamos mais tarde.
— Se pudesse ficaria com você neste telefone até você voltar, mas OK. Nos falamos depois. Te amo.
— Eu também te amo.

Como era de se esperar, a garrafa de café estava sobre a mesa de centro da sala e ambos os amigos curiosos. Ângelo já me servia uma xícara, ansioso batendo no sofá ao seu lado, para que eu me acomodasse.
— É, nós estamos juntos. – revelei o que já não era um segredo.
— Eu realmente achei que você ficaria com o delegado. – disse Anjinho incrédulo.
— Amor, você não entende de química! – Verônica iniciou um diálogo entre eles.
— Ah não? E por que será que eu vou te levar ao altar, hein?
— Simpatia. Tenho certeza que você fez alguma coisa com as minhas calcinhas!
Em resposta, Anjinho puxou-a para um beijo e disse:
— Foi esta a simpatia, sua boba.
Rimos os três, e voltamos a falar sobre mim.
— Gabriel é excelente, Anjinho, mas nossa amizade flui muito melhor do que qualquer outra coisa. E depois, eu me apaixonei pelo ogro. Não havia como dar certo.
— Lógico que se apaixonou. Eu sabia que ia dar nisso, amiga. Desde aquela vez que você o trouxe à tira colo para cá. – Vera dizia óbvia revirando os olhos.
— Vera… Eu não sei explicar, de verdade. Eu o odiava. Desde o primeiro contato, mas com o tempo me peguei desejando a aceitação dele em tudo… E bem, ele diz que já estava apaixonado desde o primeiro momento.
— Claro que estava! Vocês mulheres quando não querem ver as coisas… – Anjinho repetiu a expressão óbvia de Vera e riu baixo.
— Nem vem, môr, eu saquei desde o início! Você que ficou apostando no delegado.
— Mas, é porque ele era o tipo de homem que a sempre sonhou!
— Como sabe disso? – Vera o perguntou de imediato.
— AH…
Meu amigo olhou para mim como se pedisse ajuda, por deixar notar à sua noiva que me conhecia muito mais do que ela imaginava:
e eu já havíamos conversado sobre isso.
— Quando?
— Uma vez há muito tempo, amiga. Antes mesmo de vocês pensarem em se beijar. – olhei para Ângelo calmamente sorrindo — E realmente, o Gabriel era o tipo, se eu não tivesse o colocado na friendzone…
— Você e esta sua friendzone… – Ângelo riu me encarando.
— Por que eu tenho a sensação de que perdi alguma coisa? – Verônica nos olhava confusa.
— Amor, eu conheci a antes mesmo de você conhecê-la. Não tem que se sentir excluída.
Instaurou-se um breve silêncio enquanto Vera nos encarava pensativa.
— Ai. Meu. Deus. Vocês já se pegaram? – Verônica alarmada nos olhava curiosa.
Anjinho e eu a olhávamos mantendo o silêncio e pensando em como explicaríamos que, ainda na época da faculdade Ângelo desenvolveu uma paixonite por mim, e que até conhecê-la ainda era um pouco frustrado com o fato de não termos dado certo. Confesso que eu tinha medo do que a Verônica sentiria ao saber aquilo, e por isso, olhei para meu amigo indicando que eu falaria.
— Eu dei um fora no Anjinho na época da faculdade.
— E nós nunca ficamos. – ele completou.
Verônica nos olhava desconfiada, mas logo compreendeu o motivo de nunca termos dito nada. Ela se conhecia o suficiente para saber que se soubesse disso anos atrás, o início do namoro não seria tão bom quanto foi e nós duas não seríamos amigas. Agora, depois de anos e fora de risco, tendo total confiança em nós dois, ela notava que o trio era impecável e que aquela novidade não afetava em nada.
— Tudo bem, mas você sabe que o Gabriel e o Ângelo têm a mesma personalidade, né?
— O que você quer dizer com isso, amiga?
— Que você chutou “o seu tipo dos sonhos” para escanteio duas vezes na sua vida, então… Acho que não são bem, estes os seus tipos, amiga.
Rimos aliviados por ela levar a conversa de outra forma.
— Sério , o Lucas: um arrogante. O , embora eu ache que não, você mesma diz: um ogro… Seu dedo é tão podre quanto o seu tipo de homem.
— Para de agourar Verônica! E eu… Estou descobrindo o lado romântico do que a titia tanto falava. O é o meu tipo dos sonhos.
— Um gravador! Espera um minuto, eu preciso gravar isso.
Ângelo disse e levantou correndo para pegar seu celular na cozinha, enquanto minha amiga e eu ríamos divertidamente.
Verônica e eu fomos em direção à cozinha organizar a bagunça pós-café. Não demorou muito para acabarmos e ela foi logo dizendo: “Vamos assistir a um filme no refúgio dos meninos!”. Olhei para o meu amigo como alguém que diz “eu avisei”, e segui com Vera. Acabamos por pegar no sono, jogadas ao chão sobre as almofadas.
Ao acordar havia um bilhete de Anjinho dizendo que havia ido ao escritório trabalhar, mas voltaria ao fim da tarde. Preparei o almoço para Vera e eu, e quando ela acordou almoçamos. Nos ocupamos com assuntos do casamento até a chegada de Ângelo.
Telefonei novamente para casa ao início da noite, onde pude conversar com todos. explodia felicidade ao telefone e eu também, por ouvirmos uma à outra.
Antes de dormir, Ângelo e Vera conversaram – finalmente – comigo sobre o processo. E à medida que os escutava, atenta e sem dar um pio, eu entendia que não iria para casa tão cedo quanto imaginei. E embora estivesse apreensiva com isso, também estava animada para encerrar tudo.
Vera, meu amigo policial Souza – que esteve em meu primeiro julgamento – e eu, teríamos que participar de uma investigação particular sobre o Lucas.
Ângelo contou que após a primeira seção no tribunal, o desfecho fora de que Lucas havia sido indiciado a ser investigado e se necessário julgado. Logo, Ângelo deu procedimento ao pedido de autorização à busca preventiva, e o juiz aprovou diante as circunstâncias complexas, duvidosas e aos bons argumentos do meu advogado. Desde que não atrapalhasse o processo poderíamos por nossa conta reunir mais provas num dossiê exclusivamente particular e sigiloso, ao qual todos procederes e autos, o próprio juiz teria acesso. A prestação de contas à Excelência corroboraria na transparência de nossos atos. Uma vez que Lucas é promotor e acusado de envolvimento ilícito no caso, ele também fora afastado de seu cargo. E toda a informação proveniente de ambas ações judiciais não seriam compartilhadas entre os réus, advogados ou promotores. Isso porque, enquanto eu era a acusada Lucas detinha poderes e informações do passo a passo do meu inquérito, bem como por trás dos panos, seus colegas promotores envolvidos ao caso comentavam com ele como se dariam algumas manobras da defesa de Ângelo, e da promotoria de acusação.
Fora extremamente importante o afastamento dele, e até aquele momento na sala do casal, eu não entendia porque Ângelo ficara tão feliz ao final daquele julgamento. Mais atenta, e mais calma, agora eu compreendia que Lucas perdera totalmente seus trunfos para sair ileso. Anjinho ainda afirmava que não poderíamos contar totalmente com isso, portanto, o pedido de autorização para investigarmos. Ele solicitara ao juiz, profissionais de confiança para participarem do processo e embora, contra o fato de serem indicados policiais e agentes que foram companheiros ou amigos meus de trabalho, também foi inegável por parte do juiz a compreensão de que o caso é delicado. Não há como dizer em plenitude quem está ligado à quadrilha onde supostamente Lucas também agiria. E abrir mão da “confiança aos profissionais mais próximos”, no momento comprometeria ambos os lados. Poderia favorecer a ele ou a mim, e com esta conclusão o juiz aprovou desde que ele estivesse a par de cada passo nosso. Então era isso: tínhamos um dossiê, uma equipe, e tudo às claras para o juiz.
Eu não compreendi o motivo pelo qual o juiz fora condescendente com tudo aquilo, mas Anjinho garantiu que por ser uma causa grande envolta a um processo complexo e importante, é mais do que necessário esclarecer da forma mais segura. A fim de punir todos os envolvidos, e quebrar um esquema de corrupção que impede a justiça de ser cumprida.
Tanto tempo convivendo com Lucas, seus amigos promotores, e juízes negligentes com o real dever ao qual eram submetidos, eu me acostumara a assistir ações judiciais que “seguiam seu curso” sem muita interação dos superiores, sendo de exclusiva atenção das defesas e acusações o trabalho de levar o processo ao fim de uma sentença. Encontrar uma Excelência ávida a esclarecer tudo e fazer justiça não importando o tempo, e participando ativamente dos métodos… Era um pouco fora do comum. Principalmente para mim, uma delegada ainda em início de carreira.
Após ouvir tudo, eu começava a respirar muito mais calma. Entretanto, Anjinho advertiu ser de total importância que Lucas não descobrisse que eu havia retornado muito antes da data do julgamento, pois poderia levantar suspeita. E disse ainda que eu estava proibida de contar a mais alguém nossa manobra, por questões de cautela.
— Entende que nem mesmo ao você deverá contar o motivo da sua vinda?
— Entendo Anjinho, relaxa. Não é como se eu não soubesse como podem se dar as ações investigativas de uma delegada.
— Tem razão, me desculpe.
— Por que eu preciso atuar na investigação? Isso é tão contraditório, afinal, eu sou a ré.
— Mas também é a isca para pegarmos o Lucas, a pessoa que sabe muito sobre ele. Assim como é quem iniciou a descoberta dos demais réus, é a delegada responsável pelo caso que te levou a ser acusada, tem interesse árduo em se provar inocente, e também como eu já disse é uma excelente profissional. E livre de suspeita. Lucas ou sejam lá quais forem seus comparsas, jamais desconfiarão que o juiz permitiu o envolvimento ativo da ré na busca por provas. Enquanto isso estarão ocupados em vigiar a mim, Verônica e outras pessoas próximas a você.
— E por que é que eu estou achando tudo muito fácil, e esse juiz bonzinho demais?
— Não está fácil, a teoria que é impecável. E não foi fácil chegar até aqui, eu tive que manobrar muito para colocar o Lucas na sua frente, e depois para conseguir prosseguir. Quanto ao juiz… De fato ele está sendo muito tolerante.
— E você não desconfia disso? E se ele estiver envolvido com Lucas? A esta hora ele pode saber de todo o plano.
— Posso garantir que não, o juiz é totalmente alheio ao caso. Eu mexi meus pauzinhos quando ele fora nomeado para o seu caso. Eu desconfio de outra coisa.
— Você quer que eu implore para me contar?
— Lucas provavelmente está mais sujo do que imaginamos, eu acredito que a sua inocência já fora provada e o juiz esteja apenas dando corda para o culpado se enforcar.
— Uma investigação paralela? Mas sobre o quê?
— Não acredito que o narcotráfico tenha sido o meio por onde o lucro principal de Lucas provém.
— É claro… – concluí pensativa — Lucas Castro não é burro. A sonegação fiscal levou a investigação a outro rumo, e por mais que ele tenha escorregado em esbanjar aqueles bens todos, ele não é o cabeça da quadrilha envolvida com narcotráfico, e muito menos o cabeça do assassinato do Dr. Rubens. Por algum motivo o meu inquérito foi respingar nele, mas o controle dele está em outra falcatrua.
— Exatamente.
— Como você…? – encarei Ângelo com os olhos mais orgulhosos que eu poderia expressar.
— Além das noites de estudo nos casos? Eu tenho os meus informantes. Você não se lembra?
— Claro que eu lembro: “a chave para o sucesso de uma investigação é a quantidade de águias que você tem sob controle”.
Aquele fora o lema que nós desenvolvemos em nossos estudos de faculdade, e por um breve tempo que trabalhamos lado a lado, Anjinho e eu, sabíamos da importância daquela filosofia.
— E não só eu, afinal eu sou apenas advogado, mas você! É uma colecionadora de rapinas, e as suas águias estão sempre a postos. Não é porque você foi afastada e todos tiveram o máximo de discrição, que você tenha perdido o seu pessoal, .
— Certo, certo.
Eu sorria abertamente, pois aquela era a confirmação do meu brio profissional:
— E você vai me dizer qual é o esquema do meu querido ex-namorado?
— Tráfico internacional de mulheres. Está bom para você?
Assim que Ângelo terminou de falar, uma revoltada e excitada para iniciar o quanto antes a caça ao ex, se colocava pronta para qualquer novo embate.


Capítulo 17 - Brigas de noivos, Caso Nolasco e Fórmula Um.

Tocar na playlist: (John Wayne – Lady Gaga)


2º Dia – São Paulo, 30 de novembro de 2018.


Na manhã do dia seguinte, levantei cedo e antes que desse o horário de todos saírem da fazenda os telefonei, para começar o meu dia. Falei com Rosa, e antes de irem à escola. quase não deixou titia falar comigo, de tanto que ocupou a ligação. Entre muitas declarações carinhosas daquele ogro – e até então desconhecido romântico –, me contava como procederia seu dia. Iria à fazenda Nolasco, e segundo ele as coisas por lá andavam quentes. O que me recordou da pasta de documentos que imprimi, no fundo de minha mala e que aguardava a minha leitura. Eu havia pedido ao Gabriel por mensagem para me enviar os documentos do dossiê escaneados.
também contou que Bruna o havia procurado e que ele deixou claro que não afastaria de mim, muito menos agora que tudo estava se resolvendo em nossas vidas. Foi necessário que Gabriel intervisse na “conversa”. Eles estavam na praça quando a conversa se estendeu para uma discussão, e logo, o exaltado se colocara à espetacularização de todos no local, e foi aí que Gabriel surgiu para apaziguar. Bruna ameaçou dar queixa de agressão contra ele. E embora ele não tivesse tocado nem um dedo nela, resolveu sair de perto antes mesmo que se esquecesse de que lidava com uma mulher e não com um dos seus “mano a manos” de adolescência.
É verdade que ele jamais bateria em uma mulher, muito menos na mãe de sua filha por pior que ela fosse, mas quando se exaltava colocava medo. Eu, em diversas de nossas discussões, se não fosse dada a falar mais alto que muito homem não teria coragem de rebater suas agressões verbais. E por isso nossas discussões eram tão ruins: era quase uma “briga de manos” entre ele e eu. Segundo titia, ele sempre tivera o pavio muito curto e quando jovem até antes da morte do pai arrumava briga constantemente. Mas, logo que o pai dele faleceu, abraçou a responsabilidade da fazenda e não demorando, a responsabilidade da paternidade.
O que fazia as nossas discussões serem sempre muito calorosas era não somente o meu enfrentamento a um homem habituado a mulheres que falam baixo, como também, o meu hábito de mandar. E comandar. Bruna não estava acostumada àquele homem que fala alto, que grita, aponta o dedo e se impõe. O dela, era manso e amoroso. No máximo, heroico, quando a mocinha apreciava seu namorado brigão nas saídas da escola. E tenho certeza que todas as brigas deviam ser por causa dela. Tão típico do . Mas, aquele bad boy dos campos, o qual a modelo internacional conhecera, havia crescido, amadurecido, e considero que ser o único homem de uma casa o amansou. O ensinou também, a importância do respeito a uma mulher. Não que eu duvidasse da criação de titia, mas não há como negar o patriarcado em que a cidade de interior fora educada. E não poderia negar também, que tinha impressa em sua personalidade um machismo por vezes, destrutivo.
E justamente por Bruna não conhecer o meu homem, eu me aliviava. E justamente por Bruna não estar habituada a enfrentá-lo “como homem”, eu me preocupava. E justamente por saber que fora a minha fragilidade regada a um rio de discussões; justamente a minha posição de mulher afável e forte que conquistara novamente o coração de , que eu temia.
Eu não sabia das razões de Bruna, eu não sabia das artimanhas dela, eu não sabia o quanto aquilo tudo mexia com ele. Me restava apenas confiar no amor que ele declarava a mim, confiar que não era apenas paixão e aventura. Confiar que a revolta pelo passado com Bruna fosse mais forte do que o sonho de formar família ao lado dela. Porque, se em algum momento a balança entre nós duas se equilibrasse, eu poderia aceitar que não seria nada fácil ganhar a batalha.
Antes de passar o telefone à titia, também me perguntou o que eu estaria achando da aproximação de titia com, Guino. Ao notar o ciúme velado de preocupação, eu decidi me fazer desentendida quanto ao assunto. Nos despedimos, e após falar com titia fui tomar café com meus amigos.
Ambos trabalhariam, então me encarreguei de ir às lojas escolhidas por Verônica e Ângelo – bem mais por Verônica – atrás dos modelos de convites, cardápios de buffet, amostras de decoração entre outras coisas. E ao chegar em casa, às cinco e meia, Verônica mal comera de tão ansiosa para dar uma espiadela no que eu havia trazido, mas apenas no jantar que mostrei ao casal tudo o que havia coletado. Era sexta-feira, e Vera tinha marcado uma prova de vestido no sábado pela manhã. E Anjinho havia marcado também um compromisso comigo no sábado de manhã. Aquilo rendeu uma discussão:
— Eu preciso que ela vá, môr! Não apenas por ser madrinha, mas também, porque temos que resolver o vestido dela!
— Tudo bem, tudo bem… – Anjinho estava contrariado: — Até que horas vocês provarão os vestidos?
Ai, que saco Ângelo… Fala logo que horas você precisa da ?
— Não briguem por minha causa.
Eu disse voltando da cozinha para a sala, com duas taças de vinho a mais em mãos.
— Será que vocês conseguem adiantar isso até umas nove e meia? – ele perguntou à noiva.
— Nove e meia? Nós estamos marcadas para as oito!
— Então esquece. Vão resolver isso e eu passo o meu tempo com a minha amiga depois.
O clima entre eles estava carregado de ciúme e contrariedade.
“Isso” ao qual você se refere, Ângelo Vaz, é o nosso casamento!
— Você acha que eu não sei? Tudo agora é o casamento!
O clima estava piorando.
— O que você está querendo dizer?
— Você está muito mais preocupada com esta cerimônia do que já esteve antes. Eu apoiei você redecorar o apartamento inteiro para se sentir mais calma. Nossa melhor amiga chegou em nossa casa depois de tanto tempo distante, e você não só derramou uma chuva de ansiedade sobre o casamento em cima dela, quando ela estava exclusivamente preocupada e curiosa para saber se eu havia conseguido inocentá-la ou não, como também, ocupa o tempo dela com o casamento.
Antes que eu pudesse retrucá-lo em defesa dos propósitos de Vera, ele continuou falando.
— Ela é madrinha e está ajudando de boa vontade... – apontou para mim e continuou sua fala: — É, eu sei . Mas, Verônica, você não fala de outra coisa. Eu quero poder fazer outras coisas entre nós três, que não seja falar do casamento e por isso marquei uma reunião amanhã à noite entre amigos, aqui em casa. Eu quero sair com a , me divertir com ela como fazíamos! Você decidiu não querer ir conosco e quando eu acho que faremos um programa juntos, e eu, você marca a prova de vestido no mesmo dia?
Verônica estava calada e eu poderia jurar que acabaria com o problema do casamento a qualquer momento.
— Eu tentei remarcar para outro dia, tá? Mas, na semana que vem estaremos ocupados com a investigação, e o quanto antes a decidir o vestido dela melhor, porque aí ela fica livre. Foi justamente por isso que eu optei por deixar vocês dois curtirem os programas de vocês sozinhos, porque enquanto você se diverte Ângelo, eu estarei ocupada com o resto.
— Você fala como se eu não pudesse fazer nada! Estou aguardando você me pedir, ou apenas deixar eu fazer alguma coisa além de me responsabilizar por meu terno, mas você é uma controladora!
Verônica tinha o olhar magoado. E Ângelo, percebia que havia aberto uma ferida. Tudo acontecia, enquanto eu observava aflita. Será que era aflitivo também para os outros que assistiam as minhas discussões com o , como estava sendo para mim assistir aos meus melhores amigos?
— Certo. Tem mais alguma coisa a dizer, Ângelo? Quer desistir? A hora é agora.
— Não quero desistir. Estou tentando te dizer que eu estou lidando com um turbilhão de emoções suas ao mesmo tempo, você está tão desesperada com esse casamento que parece até que…
Anjinho parou de falar, àquela altura estava de pé com uma mão apontado para Vera e a outra na cintura. Estava contrariado em ter que enfrentá-la e dizer todas aquelas coisas no momento. Ficou encarando a noiva com olhos indecifráveis e a boca aberta. Nós também o encarávamos sem entender o que se passava na mente do advogado.
— Parece o quê Ângelo? – Vera falou com a voz exaltada de quem jogaria a aliança sobre ele.
— Você está grávida?
— O quê? – dissemos uníssonas.
— É! As mudanças de humor, a pressa para resolver tudo, o desespero de casar… Você está grávida?
Anjinho já não estava mais com raiva. Ele sorria, e andou até Verônica carinhoso, segurou o rosto dela com as duas mãos e a beijou. Verônica por outro lado, o olhava confusa e dando passos para trás se afastou. Achava que estava sendo discreta quando atravessou a sala por trás do sofá vindo parar ao meu lado, mas era perceptível que ela andou depressa demais para longe de Ângelo. Agora nós dois a encarávamos. E minha taça de vinho havia esvaziado. Droga. Para não perder os detalhes peguei a taça de um deles sobre a mesa “Romero” – mesa de centro que eu decidi apelidar – e, bebi o vinho esquecido. Atenta! Saber como findaria uma discussão de casal como aquela, era de fato instigante. E novamente eu pensei no que se passava à cabeça do pessoal quando e eu estávamos à beira de um colapso.
— Você está louco? Acha mesmo que se eu engravidasse ficaria desesperada para casar? Foda-se se você quisesse ou não casar comigo se eu estivesse grávida.
, eu sei que você é desprendida dessas concepções tradicionais, mas Vera, amor… Você está grávida?
— Não Ângelo! Eu não estou grávida! Eu estava animada para casar com o homem que eu amo, apenas isso!
Ficaram em silêncio se olhando, então ele sentou-se ao meu lado e pegou a outra taça cheia na mesa, provavelmente de um dos dois. Ela sentou-se ao meu outro lado e pegou a taça meio cheia em minha mão, que eu havia “furtado”. Olhei separadamente para os dois.
— Enfim, eu busco vocês duas na prova de vestido amanhã. Não vai dar mesmo para chegar a tempo na corrida.
— Corrida? A gente ia para a F1? – eu disse animada, até perceber que não era momento.
Ângelo virou a bebida num só gole, beijou minha testa e levantando-se puxou a mão da noiva a beijando calorosamente. Ainda agarrada ao noivo ela me estendeu a taça e eu matei o restante do vinho enquanto assistia à romântica cena. Era um alívio ver quando o casal terminava bem. E lá estava mais uma vez, o intrometido do nos meus pensamentos. Eles se separaram e Verônica virou o rosto contra ele com os braços cruzados. E Ângelo a olhava com culpa e contrariedade.
— Desculpe por tudo, eu não deveria ter sido tão estúpido.
— Desculpe você, por minha histeria…
— Eu te amo.
— Eu também.
Não sorriram, não beijaram, não abraçaram. Apenas proferiram aquele diálogo minúsculo e ela sentou-se novamente ao meu lado. Ele, beijou meu rosto dando-me boa noite e saiu em direção ao quarto. Assim que Ângelo saiu eu perguntei à minha amiga, aproveitando nosso momento a sós:
— Vocês estão bem?
— Sim.
— Hum… E você não está grávida mesmo, ou só quis esconder a verdade?
— Não amiga. Não estou.
Outro silêncio se instaurou enquanto Verônica olhava para as mãos, pensativa.
— É o sonho dele ser pai. – ela disse.
— É. Eu sei.
Peguei mais duas taças de vinho para nós, e ao terminá-las cada uma de nós seguiu: ela para o quarto onde o noivo já havia ido dormir, e eu para meu quarto de hóspedes.
Antes de dormir peguei a pasta do caso “Nolasco” no fundo da minha mala, e li os autos fazendo as anotações necessárias.

Primeiro relatório:

Relato de Ocorrência: 12 de agosto de 2018. 22 horas e quinze minutos.
Parte queixante: Abreu Nolasco Ittiori.
Ao dia doze de agosto do ano de dois mil e dezoito (12/08/2018), às vinte e duas horas e quinze minutos (22hrs15min), o senhor delegado Gabriel Moura responsável e atuante na Décima Segunda Delegacia de Polícia Civil (12ª DPC) da cidade de Mato Alto, em Minas Gerais recebeu o depoimento oral do senhor Cel. Abreu Nolasco, residente do mesmo município por queixa de furto de bens vivos. Relata o senhor Nolasco que às seis e meia da manhã do referente dia, fora notada a falta de quinze cabeças de gado de corte, da raça Nelore do seu plantel particular pertencente à Fazenda Nolasco. O empregado da fazenda, Matoso Lopes, ao manejar a tarefa matutina com os animais, notou pela contagem a falta dos animais. A queixa foi prestada sob a suspeita de furto, tendo ocorrido pela madrugada do dia doze de agosto.
Sem mais prestações, o relatório de ocorrência findou-se às vinte e duas horas e quarenta minutos (22horas40min), do referido dia.
Processo: 0133

Segundo relatório:

Processo: 0133
Depoimento oficial: 20 de agosto de 2018. 10 horas e 00 minutos.
Depoente: Vitório Nolasco Ittiori.
Às dez horas e zero minutos (10horas00min), do dia vinte de agosto de dois mil e dezoito (20/08/2018), compareceu em chamado oficial da justiça, à décima segunda Delegacia de Polícia Civil (12ª DPC) o senhor Vitório Nolasco Ittiori residente no município de Mato Alto – MG, inscrito sob o RG: MG-4322.X e CPF: 14y.900.221-22, nascido em 04/07/1974.

Dr. Delegado Moura: “Vitório me conte o que você fez no dia doze de agosto”.
Vitório Nolasco: “Meu pai pediu para que no dia do furto, ou melhor, no dia que percebemos o furto, que eu averiguasse enquanto ele estava fora da fazenda com outros funcionários se algum acontecimento fora do normal teria sido percebido. Nenhum funcionário declarou nada de estranho. Tudo normal”.
Dr. Delegado Moura: “E o senhor esteve presente aos locais do suposto furto?”.
Vitório Nolasco: “Sim, mas só na ocasião que meu pai pediu para que eu averiguasse. Eu mesmo fui até o curral pra observar se eu não percebia nada de diferente”.
Dr. Delegado Moura: “Então antes do furto, no dia anterior ou em outros dias o senhor não esteve no curral?”.
Vitório Nolasco: “Não, não. Na verdade, eu não participo das atividades rurais da Fazenda não. Eu ajudo o pai no que posso, administrativamente”.
Dr. Delegado Moura: “Entendo. O senhor sabe me dizer se foi a primeira vez que o gado sumiu?”.
Vitório Nolasco: “Foi sim, isso nunca aconteceu na fazenda. Não enquanto eu passei a morar com meu pai”.
Dr. Delegado Moura: “E o senhor teria alguma suspeita em mente?”.
Vitório Nolasco: “Sinceramente, delegado, eu não posso indicar nada. Primeiro porque o pai é um homem poderoso, de muitas posses. Podem existir muitos interessados em usurpar o que é dele, naturalmente. E em segundo, porque há muitas pessoas que entram e saem da Fazenda devido aos negócios dele. Eu não posso dizer que suspeito de alguém”.

Sem mais prestações, o depoimento foi dado por encerrado às dez horas e trinta minutos (10horas30min), do referido dia.
Escrivão: José Marcondes de Arrais.
Interrogador: Gabriel Moura Tavares.
Responsável 12ª DPC: Gabriel Moura Tavares.


Terceiro relatório:

Processo: 0133
Depoimento oficial: 20 de agosto de 2018. 10 horas e 35 minutos.
Depoente: Abreu Nolasco Ittiori.
Às dez horas e trinta e cinco minutos (10horas35min), do dia vinte de agosto de dois mil e dezoito (20/08/2018), compareceu em chamado oficial da justiça, à décima segunda Delegacia de Polícia Civil (12ª DPC) o senhor coronel Abreu Nolasco Ittiori residente no município de Mato Alto – MG, inscrito sob o RG: MG-0233.X e CPF: 00x.236.222-00, nascido em 21/03/1951.

Dr. Delegado Moura: “Senhor Nolasco, poderia repetir por favor, o depoimento prestado a mim nos autos de relatório de ocorrência datado de doze de agosto de dois mil e dezoito, ou seja, o dia em que o senhor prestou queixa pelo furto do seu gado?”.
Abreu Nolasco: “Pois bem! Na ocasião, eu acordei cedo e me preparava para fazer inspeção nas minhas outras fazendas quando Matoso apareceu no casarão da fazenda, e pediu pra Clemência minha empregada me chamar. Ele disse que estava cuidando do gado como de costume, e na hora de fazer a contagem quinze cabeças dos Nelore estavam sumidas. Ele fez a contagem três vezes antes de me chamar. Eu fui até o curral, não vi nada de anormal. Nem sinal de arrombamento. O salafrário que fez isso sabia muito bem como não deixar sujeira! Eu tinha que ir na minha outra fazenda, a Ittiori, lá para os lados das Alterosas. Então só pude prestar queixa, mesmo, à noite. O doutor delegado, como bem se lembra chegou lá em casa depois do jantar e registrou minha ocorrência”.
Dr. Delegado Moura: “O senhor esteve no local do furto quantas vezes?”.
Abreu Nolasco: “Naquela manhã, uma só vez. Mas quando cheguei da Ittiori eu voltei lá por volta das seis da tarde. Eu não fiquei muito tempo não, porque eu estava para receber um futuro parceiro de negócios... O senhor sabe, o filho do falecido Fabiano! ! . Então como eu não tinha muito tempo pra averiguar eu bisbilhotei o curral, mas não vi nada de diferente”.
Dr. Delegado Moura: “O senhor pediu a alguém para ir até o local do furto na sua ausência, ou sabe de algum funcionário... Alguma pessoa que possa ter estado lá depois que o senhor saiu para a fazenda Ittiori?”.
Abreu Nolasco: “O Vitório, meu mais velho, esteve lá sim. Como eu disse, eu não podia ficar pra resolver o assunto, então pedi a ele pra verificar entre os empregados, o que poderia ter acontecido. Mas fora ele, ao que eu tenho conhecimento e ordenança das coisas... Quem esteve lá no curral foi o Matoso, meu empregado responsável pelo ordenamento das atividades... Ele é o capataz, se assim posso dizer. E o Lauzério que é outro empregado, ele trata das alimentações dos animais”.
Dr. Delegado Moura: “É a primeira vez que um furto assim acontece?”.
Abreu Nolasco: “Não, essa foi a terceira. Só aí que eu comecei a desconfiar que é roubo e não gado se perdendo na pastagem”.
Dr. Delegado Moura: “Nas outras vezes, o senhor achou que fosse gado perdido... Então com quem ficou a responsabilidade de achar e resolver o caso?”.
Abreu Nolasco: “Pedi Lauzério pra procurar. Ele não achou, aí eu falei pro Vitório passar a ir lá no curral, conversar com os empregados na minha ausência, falar com o Matoso sempre, averiguar mesmo. Afinal eu não dou conta não! Ele também tem que passar a se interessar pela fazenda!”.
Dr. Delegado Moura: “O senhor tem algum inimigo, ou pessoa que possa indicar como suspeito pelo furto?”.
Abreu Nolasco: “Ah delegado... O senhor não sabe o que é ser um homem de posses nessa terra! Eu tenho é muita gente que inveja tudo o que eu construí, e não posso dizer um nome só de inimizades. Posso passar é uma lista! Só que, veja bem... Delegado! Eu, modéstia à parte, não sou pouca bala. Mas aqueles que me rodeiam também não são! Eu sou um homem de posses, e mantenho negócios com outros como eu. Então, se me permite... Quinze cabeças de Nelore para nós é mixaria. Mas, em todo caso eu faço questão de saber o que houve! Agora.... Se tem alguém que fez isso, fez sendo muito conhecedor das minhas terras porque não tem como quinze bois sumirem e não deixar rastro! E essa pessoa que fez isso, é um fanfarrão desgraçado, porque quem fez só fez para me aporrinhar o sossego. Em números, eu tive um prejuízo sim, mas não é muita coisa se nós compararmos todas as minhas posses, não! E tem mais! Entra e sai gente demais na fazenda, eu não tenho nem como controlar isso. Só se eu solicitar aqui, uma guarita de proteção na porteira da fazenda!”.
Dr. Delegado Moura: “Certo. Então, Vitório, Matoso e Lauzério, fora o senhor seriam as únicas pessoas com autorização para estar no curral após o acontecimento?”.
Abreu Nolasco: “Exatamente”.
Dr.Delegado Moura: “Coronel... Geralmente os fazendeiros e latifundiários locais tem seguro de suas posses... O senhor diria que um possível seguro poderia ser a motivação do furto?”.
Abreu Nolasco: “Dificilmente! Meus Nelore são marcados com meu brasão... O senhor não entende de gado, mas com a marcação é fácil achar e difícil vender. Inclusive pra pegar o seguro o meliante que fez isso, vai denunciar o furto. Por que a seguradora só pode ser acionada por mim. E do jeito que foi a coisa, o ladrão não é burro a esse ponto”.

Sem mais prestações, o depoimento foi dado por encerrado às dez horas e trinta e cinco minutos (10horas35min), do referido dia.
Escrivão: José Marcondes de Arrais.
Interrogador: Gabriel Moura Tavares.
Responsável 12ª DPC: Gabriel Moura Tavares.

Quarto relatório:

Processo: 0133
Depoimento oficial: 22 de agosto de 2018. 08 horas e 00 minutos.
Depoente: Matoso Lopes Santos.
Às oito horas e zero minutos (08horas00min), do dia vinte e dois de agosto de dois mil e dezoito (22/08/2018), compareceu em chamado oficial da justiça, à décima segunda Delegacia de Polícia Civil (12ª DPC) o senhor Matoso Lopes Santos residente em Mato Alto – MG, inscrito sob o RG: MG-5002 e CPF: 763.08x.004-33, nascido em 09/02/1973.

Dr. Delegado Moura: “Senhor Matoso, conte-me por favor como foi a sua rotina e o que viu quando chegou ao curral pela manhã?”.
Matoso Lopes: “Eu sempre acordo por volta das quatro da manhã, e após saio pelas cinco para fiscalizar a fazenda. Exatamente no curral, a minha função é fazer a contagem do gado de corte e do gado leiteiro, bem como as instalações da retirada de leite. Então eu fiz o de sempre: fui até o curral dos Nelores de corte e realizei a contagem. Aí que eu percebi a falta de quinze bois, então contei três vezes pra tirar a prova. Quando vi que era definitivo eu fui informar o coronel”.
Dr. Delegado Moura: “O que o coronel lhe disse naquela manhã, após saber o ocorrido?”.
Matoso Lopes: “Uai delegado, ele ficou bastante exaltado. Me perguntou o que aconteceu, eu expliquei de novo e aí pediu para eu dar uma conferida sobre o assunto enquanto terminava minhas tarefas fiscais. Mas, o assunto ficou mesmo sobre responsabilidade do Vitório, o filho mais velho do coronel”.
Dr. Delegado Moura: “E o Vitório, o que fez e o que lhe disse?”.
Matoso Lopes: “Ele assuntou entre os funcionários da fazenda, e comigo ele só pediu para ficar atento. Seu Vitório não é de se meter nos assuntos da fazenda e nem conhece a nossa rotina”.
Dr. Delegado Moura: “Você sabe me dizer quem seria um homem de confiança do coronel ali na Fazenda? Alguém que, fora o Vitório, em momentos que o coronel falte seja responsável por lá?”.
Matoso Lopes: “Olha delegado, no que diz respeito os trabalhos braçais da fazenda, eu posso dizer que o capataz. E o capataz sou eu. Mas, a mandança de tudo e o controle administrativo da fazenda, as coisas mais importantes como os negócios do coronel, isso aí não é comigo não”.

Sem mais prestações, o depoimento foi dado por encerrado às oito horas e vinte minutos (08horas20min), do referido dia.
Escrivão: José Marcondes de Arrais.
Interrogador: Gabriel Moura Tavares.
Responsável 12ª DPC: Gabriel Moura Tavares.

Quinto relatório:

Processo: 0133
Depoimento oficial: 22 de agosto de 2018. 08 horas e 25 minutos.
Depoente: Lauzério da Silva.
Às oito horas e vinte e cinco minutos (08horas25min), do dia vinte e dois de agosto de dois mil e dezoito (22/08/2018), compareceu em chamado oficial da justiça, à décima segunda Delegacia de Polícia Civil (12ª DPC) o senhor Lauzério da Silva residente em Mato Alto – MG, inscrito sob o RG: MG-6533 e CPF: 734.867.0x3-90, nascido em 17/10/1974.
Dr. Delegado Moura: “Senhor Lauzério, quais suas funções na fazenda Nolasco?”.
Lauzério da Silva: “Ah, eu sou responsável por cuidar dos bichos. Dar comida, remédio, seguir as ordens dos veterinários, limpar o lugar que a criação fica”.
Dr. Delegado Moura: “E tudo isso é função exclusiva do senhor?
”. Lauzério da Silva: “Não, não, a fazenda é grande. Nós temos ajuda. No geral, todo mundo faz isso em dia de escala. Mas, cada um tem responsabilidade numa determinada criação. Eu fico responsável mesmo, todo dia, independente de escala e horário pelos gados”.
Dr. Delegado Moura: “Como foi sua rotina nos dias onze, e doze de agosto?”.
Lauzério da Silva: “Eu dei comida para os bois de manhã, limpei o curral, e de tarde repeti a função, isso no dia onze. No dia doze, eu cheguei no curral pra cuidar dos bichos, o Matoso estava fazendo a contagem e fiscalização. Aí ele saiu, eu não percebi o momento não, porque eu estava concentrado nas minhas tarefas, aí quando o Matoso estava voltando com o coronel, eu já tinha acabado. Cumprimentei o coronel de longe, e segui para o meu dia. Agora, de tarde, o senhor Vitório pediu pra eu não limpar o curral. Eu perguntei o motivo, ele disse que era pra só dar o milho pros bois, porque com o curral sujo ficava mais fácil de deixarem rastro”.
Dr. Delegado Moura: “O Vitório é presente nos cuidados com a fazenda?”.
Lauzério da Silva: “Né nada! Ele só faz o que o patrão manda ele fazer, vez ou outra. O Matoso é mais presente. Os problemas que a gente tem, a gente fala é pra ele”.
Dr. Delegado Moura: “Você percebeu se o Vitório esteve no curral outras vezes depois do ocorrido?”.
Lauzério da Silva: “Teve sim. Dia desses, ele pediu pra eu limpar o curral mais cedo”.

Sem mais prestações, o depoimento foi dado por encerrado às oito horas e quarenta minutos (08horas40min), do referido dia.
Escrivão: José Marcondes de Arrais.
Interrogador: Gabriel Moura Tavares.
Responsável 12ª DPC: Gabriel Moura Tavares.

Sexto relatório:

Processo: 0133
Depoimento oficial: 28 de novembro de 2018. 09 horas e 45 minutos.
Depoente: Abreu Nolasco Ittiori.
Às nove horas e quarenta e cinco minutos (09horas45min), do dia vinte e oito de novembro de dois mil e dezoito (28/11/2018), compareceu em chamado oficial da justiça, à décima segunda Delegacia de Polícia Civil (12ª DPC) o senhor coronel Abreu Nolasco Ittiori residente em Mato Alto – MG, inscrito sob o RG: MG-0233.X e CPF: 00x.236.222-00, nascido em 21/03/1951.

Policial Queirós: “Coronel Abreu Nolasco... O que motivou o senhor a deferir um tiro de espingarda em seu empregado, o senhor Lauzério da Silva?”.
Abreu Nolasco: “Ele roubou o gado! Ele é culpado!”.
Policial Queirós: “Conte-me o que fez o senhor ter esta certeza”.
Abreu Nolasco: “Três vezes aconteceu o roubo. Das três vezes não teve nenhuma prova. Eu pedi pro Vitório ficar atento nisso, porque nem sempre eu estou na fazenda. E o Matoso, é meu empregado de confiança, mas eu não queria pedir para nenhum funcionário ficar atento nesse problema. Ainda mais o Matoso que sabe como a fazenda funciona. O Vitório pediu pro Lauzério não limpar o curral de tarde, mas o safado limpou! Era uma maneira de achar as provas. Eu fiquei de tocaia no dia cedo! Lauzério limpou o curral de manhã e toda a sujeira do dia anterior!”.
Policial Queirós: “O senhor acha que ele quis apagar as provas do furto?”.
Abreu Nolasco: “Exatamente! Ele nunca foi de desobedecer às ordens! Pra que faria aquilo?”.
Policial Queirós: “O Vitório é quem está tomando conta desses assuntos, agora?”.
Abreu Nolasco: “Não é sempre não, mas nas três vezes ele esteve lá. Eu já falei pro delegado que eu pedi pro meu filho tomar conta disso. E ele tem feito”.
Policial Queirós: “Por favor, coronel repita o depoimento dado na primeira vez. Conte o ocorrido no dia doze de agosto”.
Abreu Nolasco: “Eu acordei cedo quando Matoso apareceu no casarão da fazenda. Ele disse que estava cuidando do gado, como de costume, e na hora de fazer a contagem quinze cabeças dos Nelore estavam sumidas. Eu fui até o curral, não vi nada diferente. Segui pra minha outra fazenda e só prestei queixa à noite. Mas, deixei Vitório encarregado de assuntar o ocorrido”.

Sem mais prestações, o depoimento foi dado por encerrado às dez horas (10horas), do referido dia.
Escrivão: José Marcondes de Arrais.
Interrogador: Rogério Soares de Queirós.
Responsável 12ª DPC: Gabriel Moura Tavares.

Sétimo relatório:

Processo: 0133
Depoimento Oficial: 28 de novembro de 2018. 10 horas e 12 minutos.
Depoente: Lauzério da Silva.
Às dez horas e doze minutos (10horas12min), do dia vinte e oito de novembro de dois mil e dezoito (29/11/2018), compareceu em chamado oficial da justiça, à décima segunda Delegacia de Polícia Civil (12ª DPC) o senhor Lauzério da Silva residente em Mato Alto – MG, inscrito sob o RG: MG-6533 e CPF: 734.867.0x3-90, nascido em 17/10/1974.

Policial Queirós: “Senhor Lauzério, conte os fatos ocorridos antes do coronel atirar contra o senhor”.
Lauzério da Silva: “Eu acordei cedo pra fazer minhas coisas, e fui alimentar os bichos, limpar o curral, tudo normal. O coronel estava de tocaia contra mim, e eu nem sei porque! Daí ele atirou, e eu saí correndo. A bala pegou de raspão. Ele ficou me xingando, dizendo que eu roubei o gado dele, mas eu não fiz nada contra as ordens de sempre”.
Policial Queirós: “Lauzério, quais as ordens recebidas para o dia de hoje e quem as fez?”.
Lauzério da Silva: “O seu Vitório que tem mandado eu limpar ou não o curral. Tem dias que ele fala pra não, mas ontem antes de dar o horário da tarde em que eu tenho que fazer o trato dos bichos, ele me pediu pra limpar de manhã bem cedinho o curral. Antes até da hora que eu costumo fazer. E eu fui lá e fiz! Mas, eu não sei porque o coronel agiu assim comigo. Eu trabalho pra ele tem mais de anos, policial!

Sem mais prestações, o depoimento foi dado por encerrado às dez horas e vinte minutos (10horas20min), do referido dia.
Escrivão: José Marcondes de Arrais.
Interrogador: Rogério Soares de Queirós.
Responsável 12ª DPC: Gabriel Moura Tavares.

Li todos aqueles relatórios e alguns pontos permeavam minha cabeça, até que adormeci sem me recordar quando.

3º Dia – São Paulo, 1 de dezembro de 2018.


Ao amanhecer, Verônica estava ao lado de minha cama reunindo os papéis caídos no chão e depositando-os no criado-mudo. Ela me acordou lentamente:
— Bom dia amiga, dormiu bem?
— Bom dia, amiga. Apaguei e nem vi. E você?
— Também. São sete horas. Vamos nos arrumar para sair logo, assim olhamos seu vestido primeiro para dar tempo do Anjinho te buscar.
— Ah ótimo, mas está tudo bem para você fazer a prova sozinha?
— Ainda faltam muitas provas, e semana que vem terá outra então nela você está obrigada a comparecer!
Sorrimos e após a rotina da manhã fomos em direção à loja de vestidos. Um recado carinhoso ao lado da garrafa de café fora deixado por Verônica, a fim de continuar se desculpando pela briga anterior com o noivo.
Não demorei a escolher o vestido. Por mim, usaria o mesmo vestido que utilizei no casamento de Rosa, afinal, estava novo e não o usava desde então. Contudo, minha amiga merecia uma madrinha original. O casal optou por cerimônia tradicional na igreja e para poucos convidados, e eu seria a única madrinha do casal. E eu ainda não sabia quem era o padrinho. Verônica disse que a cerimônia seria íntima, para familiares e amigos próximos já que nem ela e nem Ângelo eram dados a esbanjar com festas. Sem restrição de cores, Verônica tentava me empurrar um vestido roxo muito bonito, mas tão extravagante quanto a decoração de sua casa. Optei por um clássico vestido de madrinha, com renda pelas mangas compridas, e decote retangular. Seguia justo até os joelhos e abria levemente do joelho para baixo, na cor rosa claro.
Naquela manhã, propositalmente fiz as minhas escolhas de modo rápido para dar tempo de ao menos, participar um pouco da prova de vestidos da minha amiga. Eu já tinha noção do que procurar a fim de que desse tempo de acompanhar a euforia de Verônica. Acompanhei a prova inicial de vestido dela e embora nos mostrasse nervosa nos dias anteriores, ela já tinha em mente o seu vestido, também não demorando muito para selecionar entre cinco, os dois mais favoritos.
Quando Ângelo surgiu pela porta do estabelecimento eu fui correndo até ele para evitar que adentrasse à nossa salinha. Queria falar com a noiva, que saiu na surdina deixando-o apenas um bilhete romântico. E após convencê-lo de que poderia vê-la depois, voltei à sala de vestidos dando minha opinião sobre qual dos dois ficara melhor. Em seguida me despedi de Vera seguindo com ele para o carro.
Dentro do carro, a caminho de Interlagos perguntei ao meu amigo e advogado como se procederia uma disputa de tutela. Contei toda a história de e Bruna para Anjinho, e ao chegar na parte das ameaças de retirar a tutela de , ele me tranquilizou dizendo que por mais que o processo seja possível, é muito pouco provável que o juiz vá ceder a guarda definitiva para ela. Por todo o histórico anterior. Disse também que, de qualquer forma já tem idade para opinar com quem deseja ficar, e que a decisão dela será avaliada pelo juiz se poderá ser válida ou não ao processo. Pedi para que Ângelo tranquilizasse por telefone, e então ele aconselhou que eu o chamasse para vir a São Paulo, uma vez que eu teria muito tempo ali ainda. E seria uma boa oportunidade de conversar com ele, e tirar quaisquer dúvidas que pudesse ter.
Ao chegarmos no autódromo abraçamos um ao outro extremamente sorridentes, como quando fazíamos na época da faculdade ao sair para nos divertir. Um homem se aproximava de nós igualmente sorrindo. Eu imaginava que não era para nós que ele sorria, até Anjinho o sorrir também e acenar. Observei aquele rosto desconhecido, de olhos tão azuis quanto os de , cabelos castanho agrisalhados, rosto quadrado, lábios finos e pele tão alva quanto pudesse descrever. Ele me olhava curioso como eu, no entanto sorria extrovertido e quanto mais perto, encarava-me de forma predadora.
David Albuquerque. Trinta anos. Agente da polícia federal. Amigo de Anjinho. Ambos conversavam enquanto eu, após cumprimentá-lo com um simpático, porém discreto “olá”, buscava duas cervejas com um vendedor local. Ao voltar para perto deles estendi a David uma das duas cervejas, ele a pegou agradecido e me encarava surpreso.
— O que foi? Você não bebe? – perguntei ao notar sua surpresa.
— É que eu quem deveria lhe oferecer uma bebida. Você é deste tipo moderna?
Olhei para Ângelo de maneira acusativa. Não poderia suportar uma companhia desagradável e culparia Ângelo pelo restante da minha viagem se, aquele seu amigo estragasse o nosso passeio. Já Anjinho me olhava sorrindo, do mesmo jeito que fazia quando queria dizer para eu não julgar algo ou alguém precipitadamente.
— Sou do tipo mulher independente. – respondi deixando claro para David que eu não aceitaria as cordialidades machistas dele.
— Como toda delegada. – ele respondeu sorrindo irônico.
— Andou passando a minha ficha para o seu amiguinho, Ângelo?
— Dá um desconto . Foi o David que arranjou as entradas para nós.
— Eu só queria saber por que o meu amigo queria trazer uma garota que não fosse a sua noiva para a corrida, e quem era essa garota.
Sorri mais tranquila e estendi a mão em cumprimento apaziguando a primeira impressão.
, prazer.
— David Albuquerque, o prazer é todo meu.
Ele sorriu para mim saindo até um grupo de pessoas que falavam alto e se mostravam muito animadas, mas manteve contato visual em nossa direção.
— Quem é a figura Anjinho?
— David, agente federal da polícia. Conheci em Brasília quando fui naquele congresso de segurança pública, pouco tempo depois que você tentou o concurso.
— E o cara mora aqui em São Paulo?
— Tem pouco tempo. Ele gostou de você.
Olhei de soslaio para Ângelo que não conteve nem a risada e nem a piada:
— Cadê o telefone? Preciso conversar com o .
— Eu também, morrendo de saudades do meu ogro fazendeiro.
— Quem diria… – Anjinho zombava de mim me arrancando cócegas.
— Para com isso!
— Lembra de quando éramos solteiros e você dizia que se apaixonar era para otários?
— Lembro, lembro também que nós sempre fomos otários.
Sorríamos com as lembranças e um rapaz com capacete em mãos passou próximo de onde estávamos, e me encarando piscou.
Anjinho olhou para mim reprovando a atitude do rapaz, e eu dei de ombros. À nossa frente David continuava furtando olhares em nossa direção e sempre que nossos olhares se cruzavam, ele sorria para mim. E eu continuava a ignorar o flerte. Ângelo observou aquilo, e bufou.
— O quê? – indaguei.
— Quando o vai colocar um anel no seu dedo?
— Está maluco Anjinho? Que isso!
— Qual o problema? Vocês não estão namorando?
— Não.
— Como?
— Não oficialmente.
— Não tem essa de oficialmente entre vocês dois. Qual é!? Você mora com ele! Aposto que antes mesmo de começarem a ficar vocês já se pegavam escondido. Vocês já transaram?
— Ângelo. Para de ser babaca.
— O quê? Desde quando você tem pudores comigo?
— Já! bom?
— E aí, como foi? – perguntou rindo.
— Chega. – adverti apontando o dedo em seu peitoral.
— Só acho que você deveria usar um anel de compromisso. É extremamente desconfortável para mim ver estes caras te paquerando e eu sabendo que você já é comprometida.
— Sim, homens encarando desse jeito é desconfortável a maior parte do tempo.
— E o David não para de flertar com você.
— O amigo é seu, eu não tenho culpa de nada disso.
— Não são os meus olhos castanhos que estão o atraindo, também não tenho culpa. E ele está vindo aí…
Olhei na direção onde estava o amigo de Ângelo e ele se aproximava de nós, com duas garrafas de cerveja em mãos. Disse que me devia uma, e ao me entregar brindamos. Ficou ali conversando um pouco com nós dois, mas foi discreto e não aporrinhou a paciência. Limitou-se aos olhares e sorrisos entre uma fala ou outra. Talvez tivesse entendido que eu não estava interessada em prolongar o “nice to meet you” dele. Desviou algumas encaradas às minhas mãos. E era provável que Anjinho estivesse certo ao dizer que eu precisava utilizar um anel de compromisso, mas eu poderia? Eu achava precipitado demais, entretanto, não era como se e eu não nos conhecêssemos ou não tivéssemos uma relação. Nós tínhamos algo. Não havia tido um primeiro, segundo, ou terceiro encontro tradicional. Mas, tivemos os nossos encontros não tradicionais, afinal, era de que estávamos falando. O ogro. Contudo, ele também era um romântico recém-descoberto. Nós deveríamos voltar a fita e fazer as coisas direito? Isso consolidaria mais as coisas?
O grito das pessoas ao redor, após ser dada a largada me fez afastar os pensamentos, e lá estava a saudade massacrando de novo.
Chegamos em casa um pouco depois do horário de almoço. Verônica não estava. Preocupado, Anjinho telefonou a ela. Eu saía do banho quando o encontrei aquecendo nosso almoço.
— E aí, onde ela está?
— Na academia, na aula de muay-thai.
— Nossa que saudade disso!
— Por que você não aproveita este tempo que vai ficar aqui, e se matricula?
— É… É uma boa ideia.
Peguei meu prato do micro-ondas, e servi nossos copos de suco. Fomos para a sala e escolhíamos a série ou filme que iríamos assistir.
— Anjinho, sobre ontem… Desculpa por gerar aquela discussão entre vocês.
, não foi você. Deixa de ser ridícula. É só que… Eu estou estressado com tudo isso. Nós prometemos um para o outro que não surtaríamos com os preparativos iguais a estes casais bobões e desesperados.
— Mas Anjinho, vocês são um casal bobão.
— Cala essa boca.
Ele disse gargalhando comigo.
— Optamos por cerimônia simples, íntima, para ser tudo marcante e tranquilo. Se tornar leve, e não uma experiência de tensão pré-nupcial.
— Entendo. Mas, Ângelo… É a Verônica! A mulher que dizia que nunca iria se casar, que não precisava de homem nenhum para fazê-la feliz, e que levantava uma bandeira escrita: “Casamento, uma instituição falida”.
— É verdade… E eu me apaixonei por ela. – ficou pensativo com um cara confusa: — Como pode?
— Não tem explicação. O amor é tóxico, nos faz perder os sentidos. É uma morte lenta e nos enganamos que isso faz bem.
— Quem te escuta até pensa que você é esta gótica toda, faça-me o favor. Estava chorando no autódromo... Mi-mi-mi eu quero o meu ogro! Ah, sai daí mulher!
O olhei risonha, mas envergonhada.
— Para não foi assim… O fato é que a Vera se apaixonou e foi fisgada pelo tradicional sonho do casamento. Deixe ela viver este momento. Aguenta mais um pouquinho. Desconta tudo na lua de mel depois.
— Que horrível ! – ele assentiu rindo sacana.
— Eu não falei nada absurdo.
Ficamos nos entreolhando culpando um ao outro, e então Anjinho sorriu desanimado. Começou a descrever a sensação de êxtase e alegria que teve ao cogitar que Vera estivesse grávida. Me contou – e eu já havia perdido a conta de quantas vezes ele já teria feito isso – o seu sonho de família. Declarou que ainda não haviam conversado sobre quando teriam filhos, mas já haviam decidido tê-los. E ele queria que fosse logo. Recostei minha cabeça em seu ombro, e após terminarmos de comer, nós encostamos os pratos no Romero, a mesa. O filme estava começando a ficar interessante para perder qualquer cena ou pausar por causa de pratos sujos.
Verônica chegou e nos encontrou na sala, e eu dormia no sofá. Quando acordei, tanto ela quanto Anjinho organizavam o ambiente para receber os amigos. Reclamei por não terem me chamado para ajudar, Anjinho reclamou por eu ter dormido durante o filme, e eu culpei Verônica.

Na hora da festa...


Souza e a namorada Flávia. Marcos, nosso amigo agente que trabalhava no tribunal acompanhado de um rapaz que não conhecíamos e parecia ser o seu novo paquera, muito simpático, Cauã. Cláudia, amiga de Verônica que conheci há alguns anos na festa de aniversário dela, também acompanhada por sua namorada Larissa. E David, desacompanhado.
Esses eram os amigos para a “reuniãozinha” que Ângelo havia falado. Eu estava no quarto terminando de me arrumar. Abotoava minha blusa quando Verônica entrou ao lado das meninas. Abracei com saudade, Flávia e Cláudia e cumprimentei simpática à Larissa que eu ainda não conhecia. Flávia foi a primeira a me aconselhar a trocar de roupa, pois, tinha um “homem perfeito, que Souza não me ouça” na sala.
— A está namorando, gente!
Verônica alarmou fazendo com que eu explicasse que tinha alguém em Minas Gerais. Vera me olhou com uma cara de dúvida pela classificação que eu dei. E saindo do quarto com as meninas disse que me esperariam na sala. Antes de fechar a porta, voltou e indagou:
— Você e ainda não arranjaram uma classificação para o que vocês têm?
E antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela saiu. Não demorei a me aprontar e logo estava com os outros, reunida em volta de Romero.
David e eu conversamos bastante, ele era simpático no fim das contas. Prepotente e um pouco metido, mas se mostrava uma boa pessoa. Eu tinha impressão de conhecê-lo de algum lugar. E pouco a pouco tive certeza de já ter escutado sua voz, e conversado com alguém com os mesmos trejeitos. Não demorei a esclarecê-lo que eu era comprometida e então foi muito mais confortável conversar com ele que, se lamentando muito por eu ter alguém perguntou se eu me importava que ele parasse de flertar comigo para apenas me conhecer. Eu ri de sua altivez.
Todos nos divertimos muito aquela noite, e bebemos. Bebemos não apenas o que tínhamos comprado, como compramos mais.
Ao final daquela noite, eu só pensava em . Não havia falado mais com ele durante todo o dia, e nem ele me ligara. Pensei no que ele estaria a fazer. Pensei no nosso “relacionamento”.
Recordei nossos primeiros beijos. O primeiro no dia em que atolamos a camionete na chuva, e discutimos dentro do carro. Aquele beijo... tão “full gás” e inexplicável como aquela discussão. O segundo, dentro do seu quarto no mesmo dia. E por mais que eu, houvesse fugido daquele beijo na varanda, não demorou muito para que ele conseguisse o que queria. Outro beijo totalmente sem nexo: na estrada voltando para a fazenda! Discutíamos um com outro pelo aparente ciúme que demonstrou à minha relação com Gabriel, e ainda odiávamos um ao outro. Eu havia dado um soco no rosto dele, e ele me beijava? Que tipo de casal estranho é esse? O beijo na fazenda Nolasco, quando fingíamos ser casados… Oras, que loucura. Vários beijos escondidos pelos cantos da fazenda, sempre enluvados de brigas até finalmente a nossa transa. Por mais estranhas que fossem as situações, ou inusitados os momentos, nós tivemos algo genuíno. Do ódio fomos ao amor em um ápice. Ou talvez nunca houvera ódio. Eu não desejava nenhum primeiro encontro. Eu não desejava mudar nada. E não precisava de nenhum acordo, contrato ou pedido adolescente. Eu era a namorada de , e estava muito feliz com isso.
Pensando nele, adormeci.


Capítulo 18 - Rachaduras e Mentiras

4º Dia – São Paulo, 2 de dezembro de 2018.


Era domingo e na semana seguinte, a investigação se iniciaria. A minha matrícula na academia também. Assim como os preparativos do casamento continuariam. Ângelo e Verônica mesmo após terem conversado e na festa do de sábado feito as pazes, permaneciam estranhos. Anjinho afirmava ser preocupação por achar que algo acontecia à Verônica e ela não contava. Vera, apenas desconversou quando eu perguntei.
Recordei que domingo era dia de missas lá em Mato Alto e imaginei como estaria a minha família. O relógio marcava dezoito horas da noite, e eu peguei o celular atrás de informações cristãs. Havia uma igreja próxima ao apartamento de Verônica, e uma missa se realizaria às vinte horas. Não pensei duas vezes antes de me arrumar.
Vera estava sentada lendo um livro na sala, e Anjinho em seu “refúgio” jogava videogame. Passei pelos dois pensativa sobre chamá-los ou não. E em meu coração algo novo surgiu.
— Vera, eu não quero que se sinta obrigada a isso, mas...
Anjinho passou por nós na sala indo em direção à cozinha. Direcionei-me a ele também:
— Ah! Anjinho, escute, por favor. Vera, Anjinho, não quero que se sintam obrigados a isso, mas eu criei um hábito na fazenda... A família toda vai à missa, vocês sabem! E eu estou indo me arrumar para ir à Igreja de Santo Antônio, é aqui perto... Vocês gostariam de ir?
Eu sentia uma vergonha absurda daquilo. Por que? Eu não sei! Talvez pela super poderosa de antigamente, a autossuficiente, perfeitinha e com a vida ganha, nunca ter precisado antes acreditar em divindades. A vergonha que eu sentia não era de Deus, não era da fé, ou de convidá-los a ir lá, mas sim vergonha de mim. De no auge dos meus 27 anos de idade começar a me preocupar – na minha cabeça, tão velha – com espiritualidade. Céus, como Deus foi bom para mim! Eu não acreditava Nele, eu nem mesmo ouvira falar decentemente de Deus. As poucas idas à igreja eram por conta de meus pais, mas a verdade é que eu não me importava. E Ele me deu tanto! TANTO. Eu tive pais maravilhosos, apesar de ter sido abandonada bebê. Eu tive uma educação impecável. Eu estudei. Eu fiz faculdade. Eu me formei advogada. Passei no concurso de agente Federal, cujo fui agente por um ano. Logo veio o concurso para delegada e lá estava eu assumindo uma delegacia! E mesmo o arrogante, imbecil e canalha do Lucas sendo quem é, eu viajei para lugares incríveis ao lado dele como “a namorada modelo”. Enfim... Dentro das superficialidades da minha vida, eu tive tudo o que queria. Eu tive o que desejava. E eu nem sei se mereci aquilo. Quem mais, além do meu esforço é claro, estaria conspirando para as coisas darem certo? Porque antes eu pensava “eu que conquistei, eu mereci, eu me esforcei” para justificar tudo o que dava certo. E às vezes eu julgava os outros com esse ideal: “Se fulano não tem, é porque não trabalhou o bastante”. Mas, hoje, depois de tudo o que eu vivi essas ideias caíram por terra, totalmente. Só pode ter algo além do natural conspirando por nós, porque se a merecedora de toda a conquista que eu achava ser, de repente perdeu tudo... A minha teoria estava incompleta.
Desde a fazenda eu já havia criado uma intimidade mínima com Deus, e hoje percebo que as muitas idas à igreja dos meus pais e com eles, provavelmente os dois faziam as orações necessárias para que “o universo” conspirasse ao meu favor. E quando eles se foram.... Quem iria orar por mim senão eu mesma? Por causa disso, eu assumi essa responsabilidade na minha vida.
Ângelo e Verônica estavam me olhando de modo indecifrável. Com um sorriso tímido em seu lábio, Anjinho correu até mim me abraçando e beijou meu rosto carinhosamente.
— Você me surpreende a cada dia, . E eu sinto cada vez mais orgulho de você.
— Obrigada Anjinho... – sorri sem jeito.
— Eu vou! – ele disse animado.
Olhamos ambos para Verônica que parecia estar em Nárnia, e após despertar de seus pensamentos ela sacudiu a cabeça para os lados e sorriu-nos:
— Eu vou precisar de ajuda para escolher uma roupa, amiga.
Saímos de casa a pé. A igreja era mesmo perto. Entramos e eu repeti os rituais aprendidos com a titia. Meus amigos imitaram meus gestos e sentamo-nos atentos para ouvir e viver aquilo tudo. Vera e Anjinho estavam de mãos dadas durante toda a cerimônia. E na hora da palavra do padre, a chamada “Homilia”, o Evangelho do dia falava de família. Foi tão lindo ouvi-lo! O padre dizia que era dentro da família que Deus nos educava e se mostrava para nós, e nos fazia escutar e praticar suas palavras. Pois, na família era mais difícil praticar o amor.

“É fácil amar o mendigo na rua dando um prato de sopa a ele, mas ame a
tua mãe ou pai que lhe dizem duras palavras de correção. Ame o teu filho
que lhe desaponta. Ame os parentes, a quem os defeitos tornam a
convivência difícil. Ame o teu marido ou esposa, que nas discordâncias e
dificuldades de um matrimônio podem minar o sonho de família”...


Aquelas palavras nos colocaram a pensar. Refletir. E o casal ao meu lado estava pensativo, trocava olhares de perdão e conciliação. Talvez eu tenha sido objeto para algo bom acontecer naquela noite. E eu estava feliz por aquilo. Na hora da comunhão, recordei da minha catequese na infância. Como eu pude deixar-me esquecer da fé ensinada e cultivada pelos meus pais? Lembrei de titia, no primeiro dia que fui à missa com eles, me falando para receber a comunhão, que aquele Sacramento curaria as dores e mágoas. E que bênção foi tê-la em minha vida, a titia. Olha quanta confusão aquela senhorinha fez, mas também, quantas certezas ela me ajudou a enxergar. Não só ela, mas todos os outros. Todo aquele processo necessário pelo qual passei.
Ângelo e Verônica me olharam confusos ao me ver caminhar para o altar. Eles sabiam o que aquilo significava, só não sabiam que eu tinha aquele direito e o abdiquei por tanto tempo. Voltei pouco depois e perguntei:
— Vocês não vão? Vocês são sacramentados, não são?
— Sim. – eles disseram juntos.
— Mas, há anos não faço isso . – disse Ângelo.
— E eu, na verdade fiz há pouco tempo, para casar. – respondeu Vera.
— Aproveitem este momento, e vão. Se entreguem, e depois em oração reflitam como foi. – eu os disse.
Sem esperar eu pedir de novo, os dois seguiram. Eu sorri e fechei meus olhos para orar. Agradecimentos, era tudo o que eu conseguia pensar em fazer. E lá no finalzinho das preces pessoais eu pedi. Pedi pelo meu homem, pela e todos os outros. E só não pedi por mim. Não por falta de tempo, ou de propósito. A verdade é que só percebi aquilo, quando fui dormir.
Ao final da missa, Anjinho, Vera e eu tivemos vontade de tomar sorvete. No caminho para casa havia uma sorveteria e caminhamos animados até lá.
— Anjinho... Lembra que eu te falei do caso da Bruna?
— Quem é Bruna, amiga?
— A mãe da . Ex do . Ela reapareceu com uma história de rever a filha que abandonou, e só para ver mesmo como a menina é. Rejeitou a garota de novo, e foi rejeitada por . E antes de eu vir para cá, essa.... Abençoada, para não pecar logo após sair da igreja... me procurou me intimidando. Ela ameaçou tirar a menina de se eu não me afastasse dele.
— O quê? QUE VAD...
Anjinho tampou a boca de Verônica como um pai corrigindo uma criança e sorriu, depois soltou a mão e ela apenas bufou pelo que tinha escutado.
— Eu já falei para a que as possibilidades são poucas dela tirar a guarda de do .
— Ainda bem! Que surtada!
— Então Anjinho... não tem o nome dela registrado. Só o sobrenome do pai. A Bruna pode exigir reconhecimento de maternidade?
— Olha .... Isso é um tanto quanto incomum. Ao registrar as crianças o nome da mãe é algo quase obrigatório, padrão. Mas... Devido às circunstâncias, pode ser que ela tenha o registro do nome da mãe, mas optou não colocar o sobrenome. Nesse caso, a Bruna não tem o que exigir. Mas, se a menina não tiver nem mesmo a indicação materna, o juiz muito provavelmente vai solicitar sim a averbação da certidão de .
— Isso pode ser um trunfo para ela?
— Não numa disputa de guarda no caso deles. Ela abdicou da menina, e há testemunhas disso.
Abocanhei a colher de sorvete concordando com o que Anjinho havia dito.
— A pergunta é... O que essa mulher quer voltando agora? Onde ela estava? O que ela faz da vida?
Vera perguntou chamando nossa atenção e Ângelo brincou:
— Hoje, no Globo Repórter...
Os três rimos, não tão animados porque o assunto era sério.
— Ela é uma modelo internacional super bem sucedida. Acreditam?
Eles arregalaram os olhos em minha direção.
— Abandonou porque quando ficou grávida tinha um caça talentos muito interessado nela, e parece que aceitaram esperar a gravidez dela passar para levarem ela para fora do país. E sem pensar duas vezes ela deixou a criança com o pai. Mas, até abortar ela cogitou. que não deixou. Ela disse que não tem e nunca teve vontade de ser mãe. Só queria ver a garota. Mas, semanas depois de falar com ela me procurou na delegacia. Estava aqui em São Paulo e disse ter vasculhado a minha vida, descoberto sobre o processo e até ameaçou contar tudo à família. Como todos sabem, ela ficou sem argumentos e partiu para o jogo sujo: ameaçar .
Ângelo pegou seu celular com o cenho franzido e desbloqueou a tela, parando a colher de seu sorvete em sua boca.
— Qual o nome dela? – ele perguntou.
— Bruna Barroso.
Verônica e Ângelo buscavam fotos dela na internet. Anjinho mantinha a expressão de dúvida, e Vera a de nojo. Logo ela voltou sua atenção a mim, que ainda estava calada.
— Que história estranha.... Mas relaxa amiga, você é muito mais gostosa do que ela, o sabe disso.
Eu não pude evitar o riso. De certa forma ela tinha razão. O corpo esguio e elegante de Bruna não tinha a mesma proporção de massa muscular que o meu.
— E por falar nisso, amanhã eu retomo a academia.
— Você ficou esse tempo todo lá, com aquelas comidas deliciosas da titia, sem malhar? Como conseguiu ficar com esse corpo?
coloca ela para malhar pesado. – Ângelo sussurrou enquanto ainda vasculhava seu telefone.
Eu pigarreei me fazendo ofendida, e ele me olhou se avermelhando:
— Não! Não! Eu estava falando dos trabalhos braçais na fazenda!
Verônica riu e eu revirei os olhos para ele. Anjinho sorriu tímido pedindo desculpas.

5º Dia – São Paulo, 3 de dezembro de 2018.


Naquele dia, eu almocei em um restaurante onde combinamos Souza, Vera e eu de nos encontrarmos já que era protocolo de precaução eu não aparecer na delegacia. Revemos os detalhes da operação, pois, ainda naquela semana invadiríamos uma casa onde suspeitávamos de haver provas.
Eu voltaria a me preparar como antigamente, não apenas com o treino na academia, como também voltaria a passar horas no treinamento de tiros, do campo de treinamento federal onde David trabalhava. Em uma conversa com Anjinho, ele indicou que eu falasse com David. Então eu procurei o agente, pela manhã daquela segunda-feira, e ao telefone eu havia dito a ele que não poderia ser vista por companheiros de trabalho, devido a uma operação atual. Entendendo a situação, ele ofereceu-se em ajudar. Marcamos um encontro quarteirões antes do campo de tiro.
Eu terminava de falar com pelo celular quando David aproximou-se com um copo de café, sussurrando um cumprimento. Entramos em seu carro e fomos. Já era noite, horário pós expediente.
David explicou-me que era necessário que eu assinasse os papéis de utilização do espaço e material, mas devido à minha “sigilosa operação” cuja qual eu não poderia correr risco de alguém reconhecer, ele faria vista grossa. Perguntei por que ele aceitaria me ajudar, se mal sabia no que eu estava envolvida e comentei o quão negligente e imprudente ele estava sendo, além de transgressor. Foi aí que David comentou que já havia puxado meus antecedentes e sabia de tudo o que ocorria, e que eu deveria ficar tranquila, pois, se Ângelo me defende eu não sou culpada. Ele nunca pegara uma causa onde o acusado tivesse realmente alguma culpa, o fazendo ser o melhor advogado. Conhecido como o “anjinho dos injustiçados”. Afirmou também que conhecia a minha carreira e o procurou o meu advogado para ouvir o que ele tinha a dizer sobre aquilo.
Achando tudo muito estranho, eu caminhei devagar até ele. David estava de costas pegando alguns papéis e preenchendo. Certamente, documentos que eu deveria assinar e ele assinaria por mim, o fazendo se passar por mim. Como se quem treinasse fosse ele. E quando o peguei desprevenido, lhe dei uma rasteira. David caiu com as costas ao chão, e num gesto rápido eu o virei de lado. Apoiando meu corpo em suas costas – até porque virá-lo e dominá-lo não seria tão fácil pelo seu tamanho – coloquei minhas pernas em cada lado de seu tronco, prendi suas mãos nas costas imobilizando-o, sacando minha arma e apontando para sua cabeça.
— Fala! Quem você realmente é, e o que você está sabendo?
— Está louca ?
— Responde! – gritei.
— Nós estudamos juntos na academia de preparação militar, em Brasília, garota! – ele falou calmamente.
Pensei um pouco e me recordei do motivo pelo qual eu já achava tê-lo conhecido antes. Realmente, em abril de 2014 havíamos feito o preparatório juntos, em Brasília. Eu tentava passar no concurso para Agente Federal de Brasília, e ele também passou para agente.
— Desculpe.
Levantei respirando mais calma e com a arma em mãos, observei-o se recompor. Ergueu-se calmo, limpou suas roupas e sorrindo me falou:
— Fiquei até excitado.
Revirei os olhos ainda séria.
— Vamos, já vi que você está ansiosa para dar alguns tiros.
E assim vinha sendo durante aquela semana, David ficava pós expediente para me acompanhar enquanto eu usava as dependências do campo de tiro.

9º Dia – São Paulo, 7 de dezembro de 2018.


Naquele dia após outro encontro com Souza e Vera eu fui à academia e ao sair de lá, avisei ao David que não treinaria naquela noite. Antes de Anjinho chegar, eu e Vera estávamos na cozinha preparando o jantar, então decidi perguntar o que estava acontecendo. Havia notado que durante a semana ela estava mais calada e pensativa. Conversei com Ângelo sobre aquilo, e ele desconfiava de algo.
— O que você está escondendo do Anjinho?
— O que ele reclamou com você? – falou preocupada e desanimada.
— Que você está escondendo alguma coisa.
Ela ficou em silêncio, apagou as chamas do fogão, serviu um copo com água. E eu a observava. Sem dúvidas ela escondia algo, e era sério. Então Verônica se sentou, bebeu sua água e após me olhar tristonha por alguns minutos esclareceu:
— Fiz um exame uns meses atrás, e descobri que… Eu não posso ter filhos, sou estéril.
Durante aquele momento eu não sabia o que dizer, mas sentei ao lado dela e disse que estava pronta para ouvir tudo o que ela quisesse desabafar. E como uma válvula de escape, ela despejou todo o choro escondido. Ela sentia medo de destruir os planos de Ângelo. Sentia medo do casamento não dar certo. Sentia medo de contar a verdade. Sentia medo de nenhum tratamento funcionar e principalmente começava a pensar que se aquilo a acontecera é porque ela não era boa o suficiente para ser mãe.
Aconselhei minha amiga a tirar aqueles pensamentos da cabeça, a ser honesta com Ângelo e contar a verdade para ele o quanto antes. Eu sabia que não mudaria nada no amor entre eles, e que mesmo se ele tivesse expectativas reais de uma paternidade tradicional, com o tempo ele aceitaria e tudo iria ser planejado em outras opções. Estimulei-a a acreditar que maternidade vai além de parir dando o exemplo de e eu.
E ao lembrar de , me recordei de Bruna com ainda mais ódio por ela ter abandonado a filha. Minha melhor amiga queria e não podia gerar um filho. Bruna não queria e podia. Era muito injusto. Terminando de consolar Verônica, ela foi ao quarto lavar o rosto e Ângelo adentrava à sala. Cumprimentamo-nos. Eles ficaram um tempo no quarto e eu acreditei que ela teria contado. Ao voltarem para a sala, Anjinho foi até a cozinha. Verônica olhou-me e fez sinal de negação e seguiu o noivo. Ela não havia contado.
Após o jantar, desejei-lhes boa noite e fui para o quarto. Continuava estudando algumas linhas de pensamento em relação à fazenda Nolasco, e estava muito cansada. Telefonei para casa, mas, não estava e titia não sabia dizer onde ele havia ido. Preocupada telefonei para o celular dele que só dava “fora da área de cobertura”. Em seguida liguei para Gabriel, a fim de discutir minhas teorias investigativas.

— Oi amigo... – eu falei sorrindo quando ele atendeu à chamada.
— Ei linda. Como vão as coisas?
— Ao seu tempo, eu diria. E por aí?
— O mesmo de sempre quanto à pacata cidade.
— Você, como está?
— Bem, e você?
Também! – nós rimos. — Queria falar um pouco sobre trabalho, mas se quiser te ligo para isso noutra hora, e nós ficamos aqui batendo papo.
— Imagine! Podemos fazer os dois. O que tem pensado sobre o caso?
— Não acho que seja complexo. Creio que o Vitório é a ponta dessa dinamite. Temos que descobrir por que tanta contrariedade nos depoimentos que o cercam.
— Avancei alguns depoimentos neste caso. Lauzério e Matoso estão fora de suspeitas, e eu estou confrontando os depoimentos do coronel e do filho agora. Certamente, há algo nisso. Mas, ainda é cedo para apontar o que é.
— Certo. Se precisar de mais ajuda, me avisa.
— Sem dúvidas! E o processo?
— Anjinho disse que está tranquilo quanto ao caso. Mas não esclareceu nada ainda.
— Entendo... É bom que você saiba pouco mesmo. E todos à sua volta também.
— E Belinha... Vocês se acertaram?


Gabriel riu fraco, e tímido. Eu tinha certeza que suas bochechas haviam corado.

— Nós não... Não falamos mais obre o que aconteceu. Eu andei ocupado com os dois distritos e Isabela... Ela, também não parece querer falar comigo.
— Gabriel! Eu não conheci homem mais sensível aos pensamentos femininos do que você. Por favor! Dê um jeito nessa história logo, viu? Afinal, quem ensinou e eu que “devemos ser felizes e viver os nossos sentimentos”?
— Tem razão.
– ele riu — E como você está lidando com a distância?
— Não é fácil. Mas, eu tenho pensado que é por pouco tempo, logo eu voltarei, tudo vai estar do mesmo jeito...
– fui ficando apreensiva conforme falava: — Eu estou tentando me convencer disso agora.

Nós dois rimos ao telefone. E quando eu perguntei se ele havia visto ele respondeu que o avistara passando ao lado de Bruna pela cidade. Fiquei muda alguns segundos, e notando minha reação Gabriel tentou me tranquilizar.

— Não se preocupe. Todas as vezes que os vejo tenho que acionar viaturas.
— O que ela faz aí ainda?
— Não sei , mas veja.... É natural, ela tem amigos e parentes por aqui.
— Não, você sabe que não é. Ela não é alguém ligada à família.
— O que eu posso te garantir é que mais tem discutido com ela do que conversado. E hoje quando os vi, ele não estava diferente.
— Certo. Obrigada Gabriel. Certamente assim que falar com ele ao telefone, vai me explicar o que houve. Estou preocupada com essa mulher desestabilizando a família, , titia... enfim...
— Não fique preocupada. Estamos todos nós, amigos de vocês de olho na Bruna.
— Por favor, continuem assim. Não deixem que ela faça mal à minha família.
— Se cuida, linda. Até mais.
– Gabriel despediu-se em tom de consolo.

Ao fim da ligação, passados dez minutos eu olhava para o teto pensativa. Um milhão de besteiras percorriam meus pensamentos e eu já estava com raiva. Eu não teria um momento de tranquilidade? Toda hora alguma coisa iria se desequilibrar em minha vida? Meu celular tocou, e o nome dele apareceu no visor. Atendi com urgência e raiva.

— Meu amor…
— Oi .
— O que aconteceu?
– ele disse já suspirando pesado, pois, sabia que pelo meu tom de voz eu estava o culpando.
— Onde você estava? Eu telefonei e titia não sabia do seu paradeiro, e seu telefone só dava fora de área.
— Certo, se acalme.
— Eu estou calma, não me mande ficar calma.


Uns segundos em silêncio e me respondeu:

— Eu estava resolvendo uns problemas no trabalho.
— Demorou muito para responder. Estava pensando numa desculpa?
— O que deu em você?
— Eu quero um anel de compromisso, você está entendendo? Para os dois!


Respondi acreditando que um anel iria nos proteger de quaisquer aproximações indevidas. riu ao ouvir aquilo e logo se desculpou por saber que eu detestava quando ele zombava dos meus momentos de fúria.

— Tudo bem, um anel de compromisso. Entendido. Isso vai te deixar mais tranquila?
— Não, não vai não seu cínico!
— Mas o que eu fiz?
— Como foi seu dia?
— Exaustivo e acinzentado sem você.
— Hum… Sei. E a Bruna, o importunou de novo?
— Não, não a vejo desde aquele dia.


Uma mentira. Ele acabara de me contar uma mentira. Fiquei imóvel, muda e silenciei por uns instantes. Sem querer levantar alarde para a minha reação àquela resposta, desconversei.

— E ? Tem visto a mãe?
— Não, não quer vê-la.
— E a Bruna, quer?
— Eu acredito que não, mas não sei amor. Não sei o que a Bruna pode querer. Não a vejo desde aquele dia e ela não disse nada além de tirar a tutela de quando a encontrei.
— Odeio esta mulher.

soltou um riso abafado e concordou comigo.

— Como foi seu dia?
— Tranquilo, fui à academia e depois tive uma conversa importante com a Vera, e reli o caso da fazenda Nolasco.
— Hum… E descobriu algo?
— Preciso que você analise, de perto o Vitório. Eu sei que não é a sua função, mas quero detalhes sobre ele.
— Vai ser um prazer cumprir suas ordens, senhora delegada.
— Eu ainda nem comecei a ordenar para você.

Ríamos com a malícia sob nossas vozes.

— E o que vai fazer amanhã?
— Provavelmente malhar e treinar à noite com o David.
— Treinar o quê com quem, pelo amor de Deus? – sua voz soou apavorada.
— Esqueceu do treinamento de tiros?
— É, eu preciso mesmo providenciar um anel de compromisso. Você tem passado tempo demais com esse tal de David!
— Não pense que estou tranquila com você solto por aí também.
— Ah é? Mas não deveria se preocupar, porque eu não tenho olhos para mais ninguém.
— E por acaso você acha que eu teria interesse em outra pessoa depois de você? O David pode aparecer nu na minha frente, que eu não teria o menor desejo. E olha que ele é um gato!
— Eu vou realmente fingir que não ouvi as palavras “nu, na minha frente” e “gato” na mesma frase, relacionadas a um cara que você encontra toda noite.
— Você duvida do que eu sinto por você?
– perguntei curiosa.
— Não, mas tenho medo de não ser o suficiente para você.
— Eu te amo, não tem outra pessoa que faça eu me sentir como quando estou com você.
— E você, duvida dos meus sentimentos?
— Não, mas eu tenho medo do seu amor por mim não ser maior do que… O que você teve pela Bruna.
— Eu já disse e repito quantas vezes você precisar ouvir: eu não sou o mesmo de anos atrás, o que eu senti por ela era uma paixão de moleque. Eu não sinto nada por ela. É você a mulher que eu amo, desejo e admiro. E acho bom que nenhum outro homem ouse tocar em você enquanto estiver aí, porque é muito capaz de você me dar voz de prisão por homicídio, senhora delegada.
— É… Eu vou te prender sim…
– sorri novamente maliciosa — Estou com tanta saudade de você.
— Eu também, muita.
— Já chegou em casa?
— Sim, eu estou indo jantar.
— Então nos falamos de novo amanhã.
— Não…
— Sim, eu preciso descansar e você também.
— Te amo, delegada.
— Te amo, fazendeiro.

Desliguei a chamada feliz, e ao mesmo tempo preocupada. Por que mentiu? Ele disse que não havia visto Bruna, mas o Gabriel falou o contrário. Eu deveria acreditar que Gabriel teria se enganado? Ou feito de propósito?
Não, ele não faria algo assim…
Fui interrompida por leves batidas na porta do meu quarto.
Verônica entrou se desculpando por ter escutado meu telefonema, e ao mesmo tempo dissera que ouvir minha conversa com , um alguém que até pouco tempo eu não entendia, a fez perceber que Ângelo a amava o suficiente para aceitar suas limitações. Vera decidiu que contaria para Ângelo sobre a condição de não poder ter um filho de maneiras naturais.
Abracei minha amiga, encorajando-a novamente e me dispondo ao que ela precisasse. Em seguida, ela saiu agradecida do quarto, e eu tentei adormecer. Lentamente, o sono ocupou o espaço que fora tomado pelas perturbações recentes. Aquela suposta mentira de não tirou o meu sono aquela noite, mas eu temia pelas noites seguintes.


Capítulo 19 - Desafios da Distância

11º Dia – São Paulo, 9 de dezembro de 2018.


Dois dias se passaram e lá estávamos o esquadrão “Quebra Corrente”, nome dado ao nosso dossiê, se preparando para invadir um esconderijo. A investigação nos levou até aquele local, onde agora operávamos a descoberta de onde partia os comandos de distribuição do tráfico, bem como a contabilidade.
— Eu amei o seu vestido amiga! Você vai ser a madrinha mais linda do meu casamento, mal posso esperar pela hora de ver o acabamento de pedrarias!
Vera tagarelava animada com minha prova de vestido, e eu sorria também animada por ela. Eu saía da loja de vestidos com Verônica quando Souza telefonara a ela nos repassando o endereço do esconderijo, localizado num barraco suspeito na Vila Matilde.
Souza estava à espreita do local aguardando a nossa chegada. Quatro suspeitos, sendo dois aparentemente menores de idade saíam da casa em direção a um Fiat preto e deixavam o casebre. Souza contou o tempo de uma hora desde que eles tinham abandonado o espaço, e como ele já vinha espionando durante alguns dias, aquela era uma rotina. Os suspeitos só voltavam ao meio da noite. Tínhamos tempo e assim que Verônica e eu chegamos, invadimos.
O barraco tinha o muro da frente alto, e um portão metálico que não passava carros, igualmente alto e sem nenhuma visão para dentro do lugar. Ao lado do barraco havia uma casa aparentemente abandonada. Eu estava sentada no banco do carona e Vera atrás.
— É o seguinte, este é um mapa por via satélite. Eu andei espreitando o local, a casa ao lado está abandonada. E o acesso que teremos ao barraco será por ela. Passaremos por este corredor até o final, onde já deixei há alguns dias, uma escada escondida para pularmos para dentro.
Souza nos mostrava o mapa da casa vizinha, via satélite impresso, e nos explicava o percurso pelo qual ele já havia planejado dias antes. Pulamos o muro frontal da casa vizinha, fazendo o percurso previamente estudado por nosso companheiro. Checamos o local espreitando se não havia ninguém escondido ali até os fundos da casa, e pulamos novamente os fundos da casa vizinha para ter acesso ao barraco. O muro dos fundos da casa vizinha dava para um corredor estreito, ao qual caminhamos até encontrar uma portinhola lateral, que nos pareceu uma rota de fuga dos suspeitos. Ao adentrar, além de carreiras de droga dispostas sobre mesas, alguns pacotes já embalados e outros preparados à distribuição, nós encontramos listas telefônicas, anotações de contabilidade e para a minha felicidade um nome: Adenor Martins, entre parênteses: “Árabe”. Ao lado do nome, os códigos “CCN 10, MCN 5 PST; ALICE 45 AMP”. Tiramos fotografias de todas as provas, sempre tendo o cuidado de não deixar vestígios.
Voltamos ao nosso carro, e eu estava extremamente feliz no banco traseiro quando Vera me encarando perguntou:
— Fala , alguma das provas é especificamente ligada ao Castro?
— Um nome. Um maldito nome que nós tanto buscávamos! Caramba, o Anjinho vai dar pulos!
— Tem certeza? – perguntou Souza me olhando pelo retrovisor.
— Quase! Antes de explodir de satisfação eu preciso checar meu banco de dados. Eu tenho quase certeza que o nome que eu li na caderneta de encomendas é de alguém que o próprio Lucas me apresentou.
— É um indício muito bom então, principalmente se conseguirmos trilhar uma linha investigativa desta quadrilha com o tráfico ao qual já sabemos que o Castro está metido. – Vera falou se animando como eu.
— Eu arrisco que essa encomenda ao lado do nome Adenor Martins, é justamente para fins da outra quadrilha... Pensem comigo... As mulheres traficadas certamente vivem em cárcere no exterior, como toda grande quadrilha de prostituição internacional. Mas, Lucas é inteligente o suficiente para não ser óbvio demais, então, se buscarmos por mulheres presas num quartinho de fundos nós vamos perder as pistas. A droga traficada aqui, também me soa como moeda de pagamento para estas mulheres.
— Acha que elas estão lá por escolha? – Vera me perguntou indignada com minha fala.
— Claro que não! Mas conheço Lucas o suficiente para pensar que ele tenha métodos persuasivos diferentes das torturas...
— Eu acho que a pode ter na própria memória mais pistas. – Souza falou me encarando como se entendesse o que eu dissesse.
— Posso até não ter as respostas nas minhas lembranças, mas minha intuição é forte.
— Então podemos tomar uma gelada em comemoração? – Souza descontraiu.
Vera e eu rimos para Souza e acenamos afirmativas. Liguei para Anjinho contando que a primeira operação havia dado certo. Passamos no mercado, compramos bebidas e comidas. Ao caminho do caixa uma mulher muito bonita passou por nós, e se virando para Souza falou baixo: “Que negro é este!”, piscou para ele e continuou andando. Vera e eu o encaramos, ele pediu licença e saiu atrás da mulher. Ao voltar para nos encontrar na saída do mercado, o olhamos acusadoras:
— Primeiramente, que porra de cantada foi aquela?
Verônica não estava apenas indignada, mas prestes a espancar Souza por ter dado ideia àquela mulher.
— Qual foi Souza, maior baixaria… – afirmei sorrindo.
— Seu traidor duas caras, filho da mãe! Você está fodi… Enfim, espera eu encontrar a Flavinha!
Entrei no carro gargalhando da atitude de Verônica.
— Ei Vera, eu não fico contando para o Ângelo dos policiais que ficam arrastando asas para você. – rebateu Souza.
— Acontece que eu não correspondo às investidas deles!
— Não é o que Paiva andou me dizendo.
— O quê? – ambas perguntamos o encarando.
— Carnaval de 2015, Vera. Eu sei de tudo.
— Putz… – murmurei risonha, zombando de Vera.
— Ei, este assunto foi encerrado. E o Ângelo soube disso, então não tem porque desenterrar nada.
— Duvido. – ele rebateu de novo — E você , vai falar alguma coisa pra Flávia também?
— Você tem algum podre meu?
— Até tenho um segredo seu…
— Que tipo de policial é você? O patrulheiro da fofoca?
— O que é que você sabe sobre ela? – Vera perguntou tão curiosa quanto eu.
— Muitos crimes aconteceram no carnaval de 2015, não é?
— Fala Souza, que merda eu fiz no carnaval de 2015?
— Você já se esqueceu? Ah para de fingir, eu sei que você não esqueceu!
E como um flash em minha memória, eu arregalei os olhos na direção do olhar de Souza. Sorri de canto, afirmando:
— Não tem porque eu falar nada para a Flavinha, quem deve contar a ela é você.
Verônica indignada o olhou e repreendeu a atitude dele, iniciou um discurso sobre o quanto ele estava sendo um canalha com a Flávia e com nós duas, e após despejar seu latim sobre Souza tornou sua atenção para mim. Questionava implicante, o que é que ele tinha na manga contra mim que ela não soubesse. Eu desconversava e ele, gargalhava vitorioso.
Na casa dos meus amigos, nós três bebemos, e conversamos com Ângelo quando ele chegara se unindo a nós na “bebemoração”, e fizemos o que fazemos de melhor: falar bobagens.
Aquela noite, me telefonou e eu me senti ansiosa para contar a ele sobre a operação, mas não poderia fazer aquilo. Então apenas mantivemos o nosso diálogo padrão: como havia sido os nossos dias, e os quão saudosos nós estávamos.

12º Dia – São Paulo, 10 de dezembro de 2018.


Diante dos resultados da invasão no dia anterior, Anjinho trabalhava concentrado no envolvimento do nome descoberto.
! Pode vir à sala, por favor?
Anjinho me gritou, e nem precisaria, eu já estava a caminho com minhas anotações em mãos. Eu havia descoberto coisas importantes.
— Será que você pode traduzir pra mim, o que está escrito nessa caderneta? – Anjinho perguntou com a foto que tiramos aberta em seu notebook.
— Claro. Tenho alguns anos de prática em linguagem de tráfico. Cadê a Vera? – perguntei me sentando ao lado dele.
— Teve que encontrar a florista da cerimônia. Algum BO de última hora, lá...
— Por que não foi com ela? Ou, por que ela não me chamou?
— O David foi.
— O David? – perguntei confusa, mas abanei o ar com as mãos me concentrando após perceber a cara ansiosa de Ângelo para a imagem no computador: — Tudo bem vamos lá, qual a dúvida?
— O que significam as siglas?
— “CCN10”, dez quilos de cocaína. “MCN 5 PST”, cinco pastas de maconha. E “ALICE 45 AMP”, quarenta e cinco ampolas de Alice. Alice é uma droga injetável, um combo de LSD, Heroína e Êxtase.
— É uma droga nova?
— Não tão nova, eu já apreendi alguns jovens com esta droga em festas rave de Sampa.
— Deve ser um coice de cavalo essa porra, né?
Não consegui evitar o riso.
— É responsável por uma overdose rápida. Agora, deixa eu te contar! Descobri de onde conheço o nome Adenor Martins.
Ângelo passou as mãos em seu cabelo, de um jeito ansioso e sorrindo ajeitou-se no sofá para me escutar.
Eu havia checado a procedência de reconhecer aquele nome e me recordei de, Adenor Martins ter sido apresentado a mim através de Lucas.
— Foi o Lucas que me apresentou ele em uma viagem que fizemos em comemoração ao nosso primeiro ano de namoro. Fomos para Bahamas. Lucas era fascinado por aquele lugar. Eu voltava da piscina do hotel onde estávamos hospedados, e avistei Lucas conversando com um homem alto e barrigudo. Ao me verem, lembro que pararam de falar e sorriram, e logo fomos apresentados. Assim que o tal Adenor se distanciou, Lucas me explicou que ele era um representante comercial importante e que os dois vinham tratando de negócios futuros. Não disse mais nada, mesmo eu tendo o cobrindo de perguntas. “Ele é apenas trabalho, meu amor. E não deixaremos trabalho atrapalhar nossa viagem, não é mesmo?”, Lucas disse me fazendo esquecer por hora aquele homem. Em algumas noites, nós jantamos com ele, mas nada sobre o tal trabalho era citado. E na época eu relevei, eu não desconfiei principalmente pela esposa de Adenor se mostrar uma mulher amável de princípios firmes.

20º Dia – São Paulo, 18 de dezembro de 2018.


Tocar na playlist: (Ciúmes – Edu Chociay)


Durante a última semana, eu havia concentrado parte de minhas investigações a sanar o motivo pelo qual teria mentido para mim, ou Gabriel. Eu ainda não sabia qual dos dois falou a verdade. E embora eu soubesse que Gabriel não era o tipo de homem que mentia para causar discórdia, eu desejava piamente que daquela vez ele tivesse sim, mentido para mim.

— Ei meu homem... – falei ao ouvir atender à minha ligação.
— Nossa, está ficando difícil só ouvir sua voz por telefone... Já tem o quê, um mês que você está aí?
— Quase. 20 dias. E como estão as coisas?
— Bem corridas, amor. Eu estou conseguindo um ótimo resultado com o trabalho para a fazenda Nolasco e nas outras, fora alguns interesses de fora que estiveram aqui na fazenda a fim de buscar investir nas nossas terras.
— Uau, quanta coisa em pouco tempo que eu não estou aí.
— É... Em breve quando eu tiver uma resposta mais concreta, eu te explico melhor as mudanças.
— Hm... E a ?
— AH... –
suspirou pesadamente.

Eu podia ver aquela cena: ele passando uma das mãos aos cabelos, de um jeito sexy como fazia quando estava cansado.

— O que houve? – perguntei já preocupada.
— Eu não sei! Para uma menina de quase oito anos, me traz preocupações de adolescente.
— Uma menina de quase oito anos? –
ri ao repetir o modo como ele fez a frase parecer importante demais.
— Agora ela está assim, tudo rebate com “pai, eu já tenho quase oito anos”. Como se fosse dona do próprio nariz... A cada dia que cresce está mais geniosa.
— Puxou ao pai. –
respondi rindo — Sinto tanta falta de vocês... Mas, o que tem acontecido com a ?
— Ela... Não anda muito... Ah... Não sei, algumas coisas na escola.
— Não mente para mim, .
— É só arte da , relaxa amor.
— Tem alguma coisa a ver com a Bruna?
— Lá vem você... –
bufou.
— Entendi. É, eu estou entendendo você ! Escondendo-me coisas, mentindo... Muitas mudanças em vinte dias...
— O que quer dizer?
— Titia como está?
— Não muda de assunto, !
— Ué, não é o que você faz de melhor? –
alterei meu tom de voz.
— É sério isso? Nós vamos brigar por telefone agora? Logo agora?
— Logo agora por quê? O que está acontecendo ?!
— Distância! Saudade! Cansaço! Porra, você foi embora quando eu mais queria você perto! Eu preciso de você aqui, eu quero você comigo, e tudo aconteceu do nada! Você teve meses para se afastar antes de eu me apaixonar perdidamente por você, mas...
— Sabe que eu queria estar aí com vocês. Sabe também que eu não queria ter vindo, mas precisava! Sabe que eu estou passando pelo mesmo que você: saudade, cansaço, distância! Sabe que eu te amo e estou muito insegura, principalmente pela Bruna estar aí, tão perto! E foda-se! Eu já sei que você disse que não sente nada por ela, mas pô ! Eu estou sim insegura!
— Eu também! Ou acha que saber que você e este tal David estão andando juntos, não me deixa paranóico?

Respirei pausadamente de olhos fechados, e só ouvíamos a respiração um do outro. Abaixei o tom da minha voz.

— Você sabe que não é a mesma coisa.
— Não é pra você. Mas para mim, ficar longe enquanto esse policial não desgruda de você é tão doloroso quanto você se sente.
— Eu te amo, Bê. Não vamos brigar... Vamos deixar as pendências para quando estivermos cara a cara.
— Eu também te amo, ... E embora eu não queira ter nenhuma “DR” quando estiver perto de você, se for preciso conversar, conversaremos.
— Desculpa. Eu vou evitar falar nela. Mas, por favor, não me esconde nada?
— Prometo.


Fiquei em silêncio aguardando ele me contar algo. Eu sabia que tinha alguma coisa para ser dita, mas ele não falou nada. Neguei com a cabeça sentindo uma lágrima nervosa cair do meu olho e mudei de assunto:

— Como estão às coisas com o Guino?
— Não tenho nada contra ele, mas não consigo aceitar muito bem a ideia da mamãe namorando.
— Ela é vivida o suficiente para saber o que deve ou não fazer, . E depois, sua mãe esperou praticamente a vida inteira por isso.
— Como assim? O que você sabe?
— Pelo visto, mais do que você pensa.

Outro silêncio.

— Ainda estamos falando da mamãe?
— Eu estou. Ou tem alguma coisa a mais?
— Você vem passar o Natal aqui?
— Eu quero ir, mas não sei como vão ficar as investigações no final do ano.
— Sei... Bem... Eu tenho que desligar.
— Está onde?
— No celeiro. Estava voltando pro casarão, depois de cuidar dos bichos.
— Certo... Se der, quando eu chegar eu ligo para casa, quero falar com a titia.
— Você vai aonde?
— Tenho treino.
— Ah tá. O treino! Claro.


estava com a voz novamente ríspida, e eu impaciente.

— Boa noite. A gente se fala depois.
— Se cuida, boa noite.
?
— Hm?
— Eu te amo, apesar de tudo.
— Eu também te amo, apesar de tudo.
— Chato.
— Implicante.
— Grosseiro.
— Ciumenta.
— Possessivo.
— Possessivo?
— Teimoso.
— Teimosa.
— Meu.
— Possessiva, hein?

Sorri, e antes que eu o rebatesse, ele me surpreendeu:

— Linda.
— Me recuso a dizer que você é lindo.
— Gostosa.
— Ok, vou desligar.
— Minha. Só minha.
— Ai droga, eu quero te beijar.

Ouvi a risada sonora dele do outro lado da chamada e suspirei de olhos fechados.

— Ganhei. – ele disse. — Não ganhou não, seu competitivo! Ganha quem desligar primeiro, eu te amo!

Falei tudo de uma vez e desliguei. Sorri com o clima mais ameno entre nós, mas logo minha testa franziu em preocupação. Eu sabia que e eu teríamos coisas a resolver. Saí do quarto e fui até a sala. Vera estava na cozinha, em silêncio preparando algo para comer. Anjinho, em seu notebook sentado ao sofá, como sempre, trabalhando.
Após eu ter recordado o fato de Adenor e Lucas, Ângelo passou aqueles dias concentrado na nova evidência. Enquanto metia as caras no trabalho, Vera e ele ainda estavam um pouco estranhos. Ao perguntá-la novamente se havia contado a verdade para Anjinho, ela dissera não ter tido coragem quando tentou. Bebi o resto da água em meu copo, jurando-lhe que ao voltar do meu treino noturno com David – que àquela altura havia se transformado em uma atividade de lazer entre amigos e não mais um treino – nós iríamos dar um ponto final naquela novela, e me despedindo rapidamente dos dois, eu saí ao encontro do agente metido a bonzão.
Embora combinados de nos encontrar no mesmo ponto de sempre, ao sair do prédio de Vera deparei-me com David em seu carro me aguardando. Bati no vidro de sua janela com uma cara espantosa alegando que aquele não era o ponto onde havíamos combinado. Sorrindo de canto, ele perguntou se eu devia algo a alguém e por que ele não poderia me buscar em casa.
— Eu não devo nada a ninguém. – respondi depois de ter entrado ao carro dele.
— Só quis ser gentil. Relaxe mulher… – focou o olhar para a avenida, e ao parar no sinal voltou sua atenção a mim: — E então, por que eu não vi nenhuma foto ou ao menos, me deparei com o seu pretendente ainda?
— Porque a minha vida particular não lhe diz respeito.
Outch! – deu uma leve gargalhada — Sabe… Temos andado muito juntos. Se eu fosse o seu namorado não gostaria disso, e tiraria a limpo esta história o quanto antes.
— É? Mas você não é o meu namorado.
— Que mulher durona.
— Vou te dar um refresco. Ele não é do nosso meio, é engenheiro e tem seu trabalho em Minas. E depois, não é como se nós dois precisássemos de babá.
— Me admira muito.
— O quê?
— Uma mulher como você, que não venha negar tem ciúmes de tudo o que lhe pertence, estar tranquila com o namorado distante.
— Confiança. Sabe o que é isso?
— Sei. E sei também que não é do feitio de policiais confiarem de olhos fechados em algo ou alguém.
— Eu não vou sair com você. Aceite isso.
— Estamos saindo há um mês querida, deste carro para a minha cama não levará muito tempo.
— Nossa como você é machista. Cala a boca, por favor, para o seu bem...
— Talvez nem precisemos sair do carro…
— Você acha que me atinge com este seu flerte de quinta… Mas para dormir com você David, não bastaria apenas não ter o , mas você teria que ser reformulado por completo. Eu sou mulher demais para você.
— Bem, um passo de cada vez. Primeiro o sai. Depois a reforma pode ser iniciada. Eu sou paciente.
— É... Você é... Como uma cobra preparando o bote.
Ele riu divertido ao notar que eu me irritava com as investidas dele. Continuamos o percurso falando de outras coisas. Ao acabar o nosso treino, mais para brincadeira, David se dispôs me levar de volta.
— Podemos parar e comer alguma coisa antes de eu te deixar em casa? Estou faminto!
Encarei-o com a sobrancelha arqueada e sorri irônica.
— Como você é baixo! Essa é a sua tentativa de me fazer passar mais tempo contigo?
— Não era, mas pode ser. – ele riu.
— Só me deixa em casa, e vá comer quando estiver indo para sua casa.
— Qual é ? Eu pago! Vai me fazer essa desfeita?
— Verônica preparou um jantar, e eu não farei essa desfeita a ela.
— Ah! Ótimo! Vamos jantar com a Vera então!
— Eu não te convidei! – falei pasma — Meu Deus, David como você é folgado!
— A casa de Ângelo é como a minha casa.
— Ah é? Bom você falar nisso... Eu nunca soube dessa amizade próxima de vocês três, e outro dia você até acompanhou a Vera na florista... O que está rolando?
— Você não sabe? – ele me olhou com um sorriso debochado e expressão de dúvida.
— Anda, David. Comece a me explicar por que você surgiu repentinamente entre nós.
— Não é repentino. E nada é por acaso delegada, você deveria saber disso.
— É eu sei. O que eu ainda não sei, é em qual parte a sua peça se encaixa no meu tabuleiro.
Davi gargalhou e passou a língua sobre os lábios, me encarando sugestivo:
— Nesse papo de peça encaixando no seu tabuleiro, eu posso te explicar melhor...
— Se não vai falar o que eu quero apenas se cale e dirija.
E foi o que ele fez. Ficou calado e dirigiu. Ao chegarmos a casa, Anjinho e Vera haviam acabado de jantar.
— Eu não o convidei! Só para deixar claro!
Falei assim que entrei no apartamento e vi meus amigos abraçados no sofá.
— Ela acha que eu preciso ser convidado!
Caminhei até meu quarto deixando minha bolsa lá, e quando voltei à sala, David estava sentado no sofá, os pés sobre a mesa de centro apenas com meias, e o sapato num canto da sala. Observei aquela cena boquiaberta. David sorria de canto, atrevido e meus amigos sorriam entre si. Certamente zombavam de mim.
— Vamos comer? – David se levantou indo à cozinha.
Revirei os olhos ao reparar que Anjinho e Vera, realmente, davam confiança demais para ele.
— Nós já jantamos. Mas, comam vocês.
— A louça é sua, folgado. – falei lavando minhas mãos enquanto David servia-se.
— Não é novidade. Verinha adora deixar a louça suja pra mim. – respondeu indo para a sala.
— Verinha? – indaguei.
— Vocês não contaram nada para ela?
Não ouvi e nem vi a reação de ninguém, já que eu estava de costas me servindo. Peguei meu prato e fui até o sofá. David arredou para o lado do casal, e bateu a mão ao seu lado para eu me sentar.
— Prefere comer em pé? – perguntou ao notar que eu o encarava insatisfeita.
Sentei-me ao chão, recostada ao sofá, e vi as pernas de David indo em direção à mesa de centro ao meu lado, e bufei irritada.
— Anjinho! Vamos assistir Cold Case! – ele falou.
— Boa! – Ângelo respondeu, e em silêncio eu ouvi Vera rebater:
— Ah não! De novo? Vocês não podem assistir outra coisa?
— Tipo o quê? CSI: Miami? Você também não é nenhuma inovadora, Verinha.
— Vamos deixar a escolher! – ela sugeriu.
— Ah não, não quero assistir Babe, o porquinho atrapalhado.
David zombou fazendo uma referência ao tema de campo, ao qual o filme acontecia.
— Assistam ao que quiserem, eu tenho que dar uns telefonemas. – falei indo à cozinha deixar meu prato.
Acabei comendo rápido demais, embora tivesse me servido bem pouco, para sair logo da sala. Vera e David discutiam sobre o que iriam assistir e Anjinho me observava, o que facilitou para mim quando fiz sinal com a cabeça para ele me acompanhar.
Segui para o meu quarto e deixei a porta aberta para ele entrar.
— Está tudo bem ?
Uhum. Eu quero saber quais nossos próximos passos com o dossiê. E até quando vamos investigar.
— Refere-se ao recesso de final de ano?
— Exatamente.
— Está louca para voltar, né?
— Louca não é bem a palavra. Mas, eu quero sim passar o Natal em casa.
— Casa... Já reparou que você não se encaixa mais aqui?
— Não é questão de não me encaixar, é que agora eu tenho outros horizontes. Outros planos, talvez... Na verdade eu nem sei direito. Eu só quero dar um passo de cada vez, mas sem deixar brechas para cair num buraco de novo.
— Depois que tudo isso aqui acabar, já sabe o que fazer?
— Não. Não sei. E até tudo acabar, eu estou pensando em alugar algum lugar para mim. Dar espaço para você e Vera.
— Não precisa fazer isso! Por favor, , sem cerimônia! Você está em casa também.
— Eu sei, mas... Quando isso vai acabar? E se demorar muito?
— Vamos deixar para pensar nisso depois do final do ano. E te respondendo, nós não vamos agir mais até o final do mês. Não ativamente. As investigações continuam, mas no passivo. Você pode ir quando quiser, mas vai ter que voltar na primeira semana de janeiro.
— Ótimo! Vou comprar minhas passagens para dia 20, então! – sorri abertamente.
— Poxa... Achei que passaríamos juntos.
— Vão ficar aqui? Por que não vão comigo?
— Vera quer ir para casa dos pais dia 24 e depois para a casa dos meus pais, dia 25. Mas, queríamos que você fosse.
— Levem o David. – falei ciumenta.
— É bem capaz de esse maluco ir... – Anjinho riu e eu o encarei, chateada — O quê? Você está com ciúme do David?
— Só não estou entendendo essa relação surpresa entre vocês!
— Você não gostou dele?
— Não tenho nada contra ele. Até que é divertido, o idiota. Mas me irrita a falta de noção e insistência dele!
— David tem um interesse antigo em você.
— De um treinamento? Ah fala sério!
Zombei e Anjinho riu.
— Ele e Vera trabalharam juntos por muito tempo. E eu sempre pude contar com ele nos meus melhores casos, por isso, quando ele veio para São Paulo acabamos nos aproximando mais. Não é como se ele roubasse o seu lugar, viu?
— Claro que não! Sou mais eu! E o que vocês farão no ano novo?
— Ano novo, não temos planos ainda.
— Já sabem que eu vou esperá-los lá em casa.
— Se realmente formos, eu te aviso.
Sorri em resposta e meu celular tocou indicando a chamada de . Encarei o visor, pensativa.
— Está tudo bem entre vocês? – Anjinho perguntou ao perceber que o celular tocou até desligar.
— Não exatamente. – voltei o olhar para Ângelo: — Eu tenho uma missão para você!
— Ok.
— Fale com alguma das minhas águias, e faça um levantamento para mim sobre a Bruna. Eu não posso aparecer mesmo.
— Tem algo a ver com o lance de tomar a guarda de ?
— Tem algo a ver com querer esta mulher bem longe.
...
— Por favor, Ângelo.
— Tá bem. Vou falar com nossa principal águia.
— Obrigada, e depois me diz quem é para eu agradecer por ter trabalhado com a nossa equipe.
Anjinho sorriu e beijou minha testa.
— Liga para ele. E conversem!
Anjinho me advertiu se levantando e eu puxei o braço dele:
— Você e Verônica conversaram?
— Sobre o quê?
— Não sei, vocês estão estranhos.
— É só estresse do casamento. Vamos ficar bem, não se preocupe.
Sorri de volta. Ela não havia dito nada. Eu deixaria aquilo para depois então.
— É sério. Liga para o fazendeiro, .
Anjinho saiu e eu sorri me deitando à minha cama. Peguei o celular ligando para casa e ele quem atendeu. Conversávamos quando bateram à minha porta. Era David sorridente, e quando notou que eu estava com no telefone, apenas acenou despedindo-se. Acenei de volta, e sorri mais calma para ele.
Titia já havia se deitado, e tentava fazer dormir quando liguei, portanto, não demoramos a nos falar porque eu fui incumbida de ser a responsável por contar uma história para dormir.


Capítulo 20 - O Retorno a Casa

Atenção: Segundo pedidos de muitas leitoras, este capítulo tem cenas restritas.

23º Dia – Minas Gerais, 20 de dezembro de 2018.

Eu havia chegado em Minas há uma hora e faltava bem pouco para o ônibus se aproximar da rodoviária de Mato Alto. Eu não avisei ninguém da fazenda que chegaria, com exceção de titia. E pedi ao Gabriel para me dar uma carona da rodoviária até a fazenda quando eu chegasse. Logo, a única pessoa a me esperar sorrindo quando desci as escadas do ônibus foi ele. Cumprimentamos-nos com um abraço apertado, e Gabriel pegou minhas malas. Quando já estava no carro dele rumo à estradinha de cascalhos e já havia falado sobre minha estadia em SP, eu decidi sondá-lo sobre os acontecimentos da cidade.
— Vai Gabriel, me passa o relatório de tudo que aconteceu enquanto eu não estava presente.
— Na cidade ou na vida do ?
— Em ordem de prioridade, o .
— Bem, eu não sou babá dele, mas... As poucas vezes que o vi, foi em suas tarefas habituais na cidade e na escola indo buscar .
— Desculpa Gabs, eu sei que você não é obrigado a vigiá-lo, mas... Por culpa sua eu estou com mil paranóias na mente, tá?!
— Culpa minha?
— Desde que você falou que o viu com a Bruna... E ele não me disse nada...
... Fala sério! Você é maravilhosa e o levou anos para se apaixonar de novo, e foi por você. Não fica alimentando insegurança.
Encarei Gabriel com expressão de lamúria e olhei para baixo. Sorri e concordei com ele, revirando os olhos. O carro parou na porteira e eu desci. Não queria que ele fizesse alarde da minha chegada. Pela hora, somente titia estaria em casa, mas ainda assim eu queria evitar estragar minha surpresa.
Encarei a visão da porteira e os patinhos naquele dia estavam caminhando próximo ao casarão. Canelinha eriçou as orelhas e junto a ele, Pancinha veio correndo. Céus ela estava crescida! Ou eu estava com saudades demais.
Brinquei com os peludos e sorria largamente acenando em despedida para o carro de Gabriel. Puxei minha pequena mala, pois, não havia muito que trazer de volta e fui arrastando as rodas pela poeira vermelha da fazenda e deixando marcas de pé sobre pé, pegadas de uma bota paulistana.
A sensação do retorno ao lar era até então a melhor coisa que eu havia experimentado na vida. A melhor, depois de .
Bati os pés na escada de entrada do casarão, a fim de tirar a poeira dos pés. Canelinha e Pancinha, sabendo que um ente querido havia retornado me acompanharam e deitaram na porta principal do casarão. Titia que ouviu o barulho das botinas no chão, surgiu sob seu avental com panos de prato secando as mãos e ao me ver deu um grito estridente e alegre, e correu até mim. Eu abri um sorriso largo e soltei a mala indo de encontro à senhorinha.
— Que saudade do seu abraço titia!!
— Graças a Deus você voltou minha filha! Como você está? Venha, venha... Deixe-me dar uma boa olhada em você!
Titia me afastou e rodopiou-me, analisava meticulosamente minha aparência. E ergueu um olhar um pouco preocupado.
— Você emagreceu! Está na mesma forma de quando chegou aqui na cidade.
— É que eu andei treinando tia, eu voltei para musculação então não se preocupe! Estou saudável.
— Não entendo dessas coisas. Mas se você diz que está bem, eu acredito. OH MEU DEUS, TODOS VÃO FICAR TÃO FELIZES! VOU MUDAR O CARDÁPIO DA JANTA!
Titia saiu correndo para a cozinha aos brados, e eu fui atrás dela.
— Não titia, não mude. Eu estou com tanta saudade da sua comidinha caseira!
— Certeza?
— Uhum! Eu vou subir e tomar um banho e já desço para ajudar a senhora.
Peguei minha mala ao pé da escada, e minhas memórias foram ao primeiro dia que eu chegara ali, a visão de puxando a mala de minhas mãos, rudemente subindo as escadas... Sorri involuntariamente e respirei aliviada por ter voltado. Subi até meu quarto, e quando o abri me deparei com ele do jeitinho que eu havia deixado. As roupas de cama haviam sido trocadas. Peguei o travesseiro e o abracei, e quando a brisa da janela entrou, eu senti o cheiro de . Seria coisa da minha cabeça? Aproximei o rosto do travesseiro e desvendei de onde vinha o perfume do meu homem. Titia que até então eu não havia notado parada à porta, rompeu o silêncio:
— Ele tem dormido aqui desde que você se foi.
— Como?
— Meu coração de mãe tem experimentado a alegria de vê-lo amando, e a tristeza de vê-lo sofrer por amor.
Olhei com culpa para titia, e ela sorriu fracamente negando com a cabeça, como se dissesse “não se culpe”.
— Vá se arrumar, ele chegará logo. Eu vou adiantar a comida e você pode colocar a mesa para mim quando acabar?
— Claro, mas a senhora vai sair?
— Vou até a casa de Rosa.
Acenei positivamente e titia saiu. Tomei banho, peguei uma das roupas que já estavam na fazenda, e prendi os cabelos num penteado desajeitado. Era tão bom me sentir novamente daquela forma... Livre e em casa.
Quando desci à cozinha verifiquei as panelas ainda quentes e com vapor, e salivei ao ver o menu da noite: lingüiça caseira, polenta, couve fininha, torresmo pururuca, feijão recém cozido e arroz branco. Tão simples, mas para mim tão suntuoso.
Limpei a mesa tirando de cima dela o que não deveria estar, coloquei os pratos e talheres, preparei suco e gelo, e quando eu dispunha os copos na mesa ouvi um baque me retirando dos meus pensamentos.

Ouvir na playlist: (Ai que saudade D’Ocê – Elba Ramalho ft. Zé Ramalho)

Ele estava parado na soleira da porta da cozinha, o saco que antes estava em sua mão, agora caído ao chão, proveniente talvez do barulho que eu ouvi. tinha os olhos lacrimejantes, e um sorriso largo no rosto, assim como eu. Ele tirou o chapéu de sua cabeça e jogando-o no chão apressou-se até mim. Eu mal tive tempo de ir até ele. Deixei o copo sob a mesa e caminhei três passos, e já estava nos braços dele. Num abraço forte, saudoso, e quando encaramos os olhos um do outro, cheios de brilho e lágrimas, rapidamente a mão dele me apertou ainda mais, enquanto a outra desfazia meu penteado mal feito e puxava meu rosto para um beijo avassalador.
Beijamos-nos por um tempo que eu não pude contar. Encostamos as testas e sorrimos chorando. Ele me deu outro abraço sentindo o cheiro de meus cabelos soltos e eu também senti o cheiro do pescoço dele.
!
Ouvi gritar e correr até nós. me soltou e eu me abaixei abrindo os braços. A minha menina chorava, chorava de soluçar.
— Calma , está tudo bem... – me assustei com a reação dela.
Olhei preocupada para , ao contrário de mim, despreocupado sorria nos observando.
— Que saudade ! Meu coraçãozinho dói!
Abracei ainda mais apertado a minha menina, enchendo-a de beijinhos.
— Eu te amo , e meu coraçãozinho também dói... Mas, agora vamos matar a saudade e arrumar a mesa para o jantar juntas?
—Sim! – ela gritou com os braçozinhos para o ar.
— Tomar banho primeiro . – advertiu.
— Não paaai!
— Anda, suba. Eu vou por mais lenha no fogão para a água ficar quentinha como você gosta, filha.
— Não! Eu quero ajudar a !
— Você vai ajudar, mas depois do banho.
— Você fala isso porque quer ficar sozinho com a !
falou e saiu pisando fundo cozinha à fora.
— O que foi isso? – perguntei a ele que passava as mãos no rosto, contrariado.
— Ela está impossível.
Caminhei até ele, passando as mãos em volta de seu pescoço e encarando os olhos azuis do meu amor.
— Agora que estou aqui, nós vamos lidar com isso, juntos.
— Eu te amo .
— Eu também te amo .
Nos beijamos e assim que nos separamos eu comecei a rir provocando a curiosidade nele, então esclareci:
— Ela estava certa. Você queria ficar sozinho comigo.
Ele riu também, e em silêncio não negou. Pegou seu chapéu no chão, e o saco de tubérculos que carregava. Levou o saco para a varanda da cozinha e deixou as batatas ainda cheias de terra no tanque. Pegou a toalha de e subiu.
Eu observei-o caminhar até a escada, e sorri deixando uma lágrima cair dos meus olhos. Eu não conseguia me acostumar com a sensação de se deparar totalmente, absurdamente apaixonada por alguém.
Um pouco depois, estavam todos à mesa. Marcelo e Rosa ao me verem deram-me abraços apertados e felizes. A barriga de Rosa começava a aparecer. Após o jantar nos dirigimos todos à sala. Estavam afoitos para saber o que eu havia feito por todo o tempo longe da fazenda. Infelizmente eu não poderia contá-los sobre o andar de meu processo, e ninguém nada me perguntou ao perceber que eu não toquei no assunto. Àquela altura, acho que o pessoal da fazenda já me conhecia o bastante para saber que se eu não disse nada é porque não havia nada a ser dito. Ou apenas esperaram eu dar a deixa e como não o fiz, perguntariam outro momento.
Titia foi deitar-se cedo, pois segundo ela teria que acompanhar Guino ao médico no dia seguinte. torceu a cara com aquela frase, e eu notei. Rosa e Marcelo retornaram para sua casa logo em seguida, e sentou-se entre e eu, risonha. suspirou pesadamente enquanto olhava para e eu.
— O que foi? – perguntei.
— Ele está pensando em me mandar ir dormir. – disse com o cenho franzido e cara séria ao pai.
Ele encarou-a de modo suspeito. Alguma coisa aconteceu entre eles e eu não estava sabendo! não era de ser petulante daquela forma.
— Eu não irei fazer isso, porque a senhorita como uma moça de quase oito anos já deve saber, muito bem, os seus horários não é?
— Claro que sei! E é por isso que estou aproveitando o colinho da enquanto posso. – ela respondeu desdenhosa e aprofundou a cabeça em meu colo.
Encarei . Seu olhar contrariado na direção da filha me passara preocupação. Coloquei uma das mãos no rosto dele e sorri.
?
— Euzinha.
— Por que está sendo malcriada com o seu pai? – perguntei com voz serena.
A menina levantou a cabeça tristonha, e fez beicinho. Evitou me olhar nos olhos e a chamei pelo nome mais uma vez. Ela olhou discretamente para o pai e em seguida para mim.
— E então ? – perguntei de novo.
Novamente ela olhou para , e então me respondeu:
— Eu tenho que dormir porque amanhã tem escola, e eu não sou mais criança. Então eu tenho que levantar sozinha, . – me abraçou apertado e sussurrou em meu ouvido: — Eu te amo viu?
pulou de meu colo e saiu correndo escada acima. Fiquei boquiaberta com a cena e suspirou pesadamente, me abraçando de lado.
— E fica brava comigo por ir acordá-la todos os dias, claramente frustrada por não conseguir acordar sozinha.
— O que houve com ela? – perguntei incrédula.
— Estamos numa fase difícil.
— Certo, então pode me contar como tudo começou? Estou preocupada com a minha menina.
sorriu de canto e beijou meu rosto.
— Sei que vai ficar tudo bem com a sua menina, porque agora você está aqui.
Sorri de volta e o beijei calmamente.
— Vou atualizar você das notícias!
— Por favor.
— Mamãe comporta-se como uma adolescente apaixonada desde que começou esse namoro com o Guino. E eu estou preocupado. Ela não cuida da saúde dela direito, e só sabe cuidar do Guino agora. Tem dias que vai para a cidade junto com e Rosa e só volta no fim da tarde com elas!
— Hm... Isso é bom. Significa que ela está feliz com ele, não?
— Você não acha que ela...
— O que? – interrompi — Não tem mais idade? Olha amor, eu acho que você está com ciúmes.
— Eu não sou mais um moleque, . – falou emburrado e eu ri.
— Tem certeza?
— Você deveria ser racional como eu estou sendo, e pensar em como essa situação é preocupante! Mamãe parece estar vivendo tudo o que não pôde viver antes!
— Exatamente! É o momento disso.
— Como assim ? Você não se preocupa aonde isso pode chegar?
— Não me diga que está com medo da adolescente da sua mãe, aparecer grávida ?!
Comecei a rir debochadamente da cara dele, e ao notar que seus próprios argumentos eram falhos, riu também.
— Eu não sei... Me parece muito estranho tudo isso... – ele disse após um tempo de risadas e silêncio entre nós.
— Sua mãe foi apaixonada por Guino na adolescência, assim como ele por ela. Mas, naquela época os pais casavam as filhas e ela foi obrigada a casar com o seu pai. Titia me disse que se apaixonou aos poucos por seu pai, e amou o “seu” Fabiano por todo o tempo que estiveram juntos. Mas, depois que seu pai faleceu, ela sempre esteve pensando em como teria sido se ela e Guino ficassem juntos. E não se arrependeu de ter casado com seu pai, mas gostaria de viver o amor de menina que sentia. Antes de eu ir embora ela me contou que se sentia pronta e sem culpa para viver esse amor. Então, ... Pense se fosse você no lugar dela. Você não gostaria de ter uma segunda chance com seu grande amor?
Eu não tinha me dado conta que a pergunta que eu fizera era cabível ao romance que ele tivera com Bruna, uma vez que ela foi o grande amor dele.
— Eu estou tendo a minha chance agora.
Ele respondeu e eu sorri, embora lá no fundo sua resposta desse brecha à muitas das minhas interpretações inseguras.
— Eu não sabia dessa história. Ela contou tudo isso pra você?
— Sim.
— Rosa sabe disso?
— Creio que possa ser possível, mas eu não tenho certeza.
— Uau... Mamãe e Guino. Sempre desconfiei dessa amizade.
— Viu só? Não foi do nada, sempre esteve ali. E deve ter sido muito complicado e difícil para ambos durante toda uma vida, se manter afastados. Embora amigos, tenho certeza que sua mãe sempre respeitou seu pai, assim como o Guino também.
— Eu também acho.
mantinha o olhar confuso a encarar o chão.
— Vai parar de pirraçar com sua mãe agora?
— Obrigada por me contar. Ela podia ter me dito!
— Ela não diria. Você é impossível , teimoso como uma mula. Só eu sei o quanto escondi a verdade de você, apenas para não usá-la como arma contra mim. O que você fez, mesmo quando soube.
— Eu sou um canalha, já sabemos disto! Poderíamos, por favor, mudar de assunto? – me puxou para seu colo contrariado pelo passado entre nós que tanto o incomodava agora.
— Claro! Vamos falar de . Explica logo, porque eu não sou burra e sei que vocês dois estão me escondendo algo.
inclinou a cabeça para trás e suspirou fechando os olhos. Um claro sinal de que o assunto iria me incomodar bastante. Fui rápida ao constatar:
— Tem a ver com a Bruna não é?
— Olha... é difícil namorar uma delegada.
— Sem gracinhas . – minha face séria o fez ficar tenso.
— Bruna andou visitando a escola de . Uma confusão dos diabos. Tive que ir a diretoria contar que ela era mãe de fato, e pedi que não a recebessem novamente lá. E embora Bruna não tenha tentado entrar na escola de novo, foi o suficiente para os coleguinhas de perseguirem ela com a história da mãe “morta-viva”. Mas, não foi o bullying que incomodou . Bruna retornou à escola no horário de saída. Eu tinha ido buscá-la e enquanto eu conversava com Gabriel na porta da delegacia, brincava com uns coleguinhas na praça. Bruna abordou sem que eu visse. As crianças vieram correndo até Gabriel e eu...

Flashback

— Tio , tio !
— Crianças, o que houve? Cadê ?
— Uma moça se aproximou da gente, e ficou falando com a . E a tá chorando! – Juca disse assustado.
Gabriel e encararam a praça.
— Eu vou acabar com essa mulher! – bradou ao perceber o que ocorria.
! – Gabriel gritou-o e então se virou para as crianças: — Obrigada por avisarem crianças, lembrem-se que não devem falar com estranhos.
As mães das crianças que estavam na mercearia de dona Carlota se aproximaram.
— Delegado Moura, há uma confusão entre o pai de e uma mulher ali na praça. – uma das mães disse.
— Eu já estou a caminho.
Gabriel foi em direção ao que tinha chorosa em seu colo.
— Eu só estava conversando com a minha filha, ! – gritou Bruna.
— O que disse a ela? Ela está assustada e chorando! Eu te proíbo de se aproximar de , entendeu?
— Você não pode me proibir! Eu sou a mãe dela!
, é melhor você ir pra casa e cuidar de . Amanhã se quiser pode vir à delegacia que entraremos com uma medida protetiva para .
Gabriel disse para ele, e em seguida encarou Bruna:
— Embora seja a mãe biológica dela, a justiça pode proibi-la de ver sua filha. Primeiramente porque o fato de ser mãe biológica não significa que a senhora tem qualquer direito sobre a criança uma vez que a abandonou com o pai. E depois, porque alienação parental é crime. E temos testemunhas de que isso vem ocorrendo, Bruna. Então sugiro que se afaste da menina ou entre em um acordo amigável com o pai dela.
— Não haverá acordo nenhum. – falou bravo.
Agradeceu Gabriel com um aceno de cabeça e saiu. No caminho de volta para a fazenda mantinha-se calada. estava cada vez mais preocupado com a filha e por isso tornava-se encolerizado ao pensar o que Bruna teria feito-a. Chegaram à fazenda, e foi diretamente ao quarto. Pé por pé, foi à cozinha espiar titia que cozinhava cantarolando. Não havia os notado chegar, e aproveitou-se disto para conversar com a criança.
estava deitada, chorava em silêncio quando o pai chegou. Ele abraçou a menina que correspondeu num abraço ainda mais apertado.
— Joaninha... Conte para o papai o que aconteceu.
— Eu sinto falta da .
— Eu sei meu amor, papai também. Mas a não está aqui agora. E eu preciso que você seja forte para aguentar mais um pouquinho, tudo bem?
assentiu positivamente.
— O que a Bruna te disse?
— Ela disse que sente muito ter me abandonado. E que quer ser minha amiga.
— E você quer?
— Não papai. Eu não gosto dela. Eu choro por causa dela. E eu disse isso pra ela, e aí ela... – começou a chorar mais e soluçar.
— Shiiii... – a abraçou — Calma, respira fundo. Conta até três. E continua a história pro papai.
fez exatamente como disse, fungou e continuou:
— Ela falou que eu não sou mais um bebezinho. Que agora eu sou uma mocinha e que eu tenho que entender que ela não podia ficar comigo, e mesmo que eu não queira, ela sempre vai ser minha mamãe. Que um dia vocês vão ficar juntos de novo.
— Ela sempre vai ser sua mãe, . E realmente, você é uma mocinha agora, mas eu e sua mãe não voltaremos a ficar juntos, porque não existe mais amor entre ela e eu. Entende isso?
A menina afirmou silenciosa.
— Ela te disse mais alguma coisa pra te fazer chorar assim?
— Ela falou que eu estou agindo igual uma menina malcriada, que não recebeu boa educação. Falou pra eu crescer. E que a nunca mais voltar.
— Você sabe que ela contou um monte de mentiras pra te deixar assustada não sabe?
— Por que ela é má assim, papai?
—Ela não é má filha. Ela só não teve uma boa educação então não sabe que tudo tem seu tempo, e nem sempre nós podemos ter aquilo que queremos quando e como queremos. Mas, você vai entender isso melhor quando for mais velha.
— Eu nunca mais vou ser uma criancinha papai. Crescer faz a gente entender muita coisa.
— Ei filha! Sabia que quando a gente cresce, nós queremos voltar a ser crianças?
— Eu não.
sorriu e abraçou a filha.

Fim do Flashback


— Desde então, tem agido estranhamente. Eu tenho tentado ser compreensivo com essa fase dela, mas a coisa está saindo de controle. E eu não sei o que fazer ou dizer a ela.
, como essa víbora pôde? Ela... Argh! – eu estava com tanto ódio de Bruna que algo quase me passou despercebido: — Espera... Como ela sabia que eu não estava na cidade?
— Amor, Mato Alto é um ovo. E você não estar por aqui não era segredo pra ninguém.
— Certo, mas... Por que ela afirmou com tanta ênfase que eu não voltaria mais?
— Ela só quis atingir . Por que está preocupada com isso?
— Não sei, mas... Algo me diz que...
— Que?
— Nada... Só neurose da minha cabeça, pra variar.
— Sabe como me ajudar com a ?
— Amanhã vamos à escola, conversar com a psicopedagoga. Ela pode ajudar com um acompanhamento psicológico para . Rosa não pensou nisso?
— Não contei a ninguém sobre isso. Não quero encher a cabeça de todos nesse momento. Rosa está feliz com a gravidez e mamãe com o namoro adolescente.
— Certo... Enquanto estiver aqui, eu vou ajudar você.
— Hunf.... – bufou insatisfeito — Quando você vai ter que voltar?
— Depois do ano novo.
— Você não comentou nada sobre o processo. É porque não podemos saber ou está acontecendo algo?
— Ninguém pode saber. Mas, creio que falta pouco pra acabar, meu amor.
sorriu compreensivo, e levantou-se do sofá comigo em seu colo. Dei um gritinho baixo com o susto.
— Temos pouco tempo juntos, vamos logo ao que interessa.
— Então conversas não te interessam senhor fazendeiro? – perguntei brincalhona.
— No momento, seu corpo me interessa mais, senhora delegada.
respondeu sorrindo e subiu as escadas comigo em seu colo, beijava meu pescoço e o roçar de sua barba em minha pele, já era suficiente para me fazer amolecer.
Ele colocou-me em sua cama, e eu comecei a me despir risonha. encarou meu corpo inteiro e sorriu, com o mesmo brilho no olhar que seus olhos claros sempre apresentavam antes de me amar.
— Você está ainda mais maravilhosa.
— Eu voltei a treinar né. – falei convencida.
— Espero que não esteja falando do tal policial. – ele arqueou uma das sobrancelhas e cruzou os braços à frente do corpo.
Desci da cama seminua e com um sorriso travesso no rosto, puxei os braços dele ao redor da minha cintura enquanto minhas mãos brincavam com sua nuca.
— Estou falando da academia. Eu só treino tiros de Glock 17 com o David.
— Não tenho ideia de que arma é essa, mas se for pra você atirar no fardinha, eu não me importo.
— Não era você que não estava interessado em conversas? – falei soltando-me de .
Rapidamente ele puxou-me contra seu corpo e me beijou de modo selvagem. Tão selvagem quanto eu gostava.

24º Dia – Minas Gerais, 21 de dezembro de 2018.

Logicamente, acordei cedo para acompanhar nos afazeres da fazenda. Senti tanta falta daquilo! Depois fomos à escola levar , que se mostrou muito mais animada. A direção da escola me conhecia como “a sobrinha de Coralina”, pois assim fui apresentada para os funcionários através de Rosa, alegando que eu necessitaria e estava autorizada a buscar na escola. Eu também era conhecida como a “possível namorada do delegado” e “a secretária do delegado”. Enfim, a estrangeira não era uma completa estranha a ninguém naquele interior. No entanto, os rostos pasmados das diretora, coordenadora e pedagoga da escola ao ouvirem me apresentar como sua namorada foi inevitável. E claro que eu preferi crer que o choque não era por finalmente transar com uma mulher depois de Bruna, mas sim, com o fato de que aos olhos delas eu era prima dele, estava transando com ele e isso seria um trauma para . Imediatamente após ele se pronunciar e ficar encarando as mulheres, confuso, enquanto me observava na busca de explicações, eu já tomei a fala. Tive que iniciar as explicações de nosso grau de parentesco inexistente e elas ficaram mais aliviadas por notar que não havia má influência à , uma vez que nunca convivemos como primos. Em seguida, expliquei a razão por estarmos ali. A pedagoga nos informou que tem sido excelente em seu desempenho escolar, se preocupando apenas com a sociabilidade dela. Ao que nos foi dito, se encontrava com o mesmo círculo de amizade e empatia com os colegas, nada diferente. No entanto, demonstrava-se relutante a ser tratada como uma criança. Sempre alegava aos professores que “já era madura para sua idade”, ou que “uma menina de quase oito anos não pode ser tratada como um bebê”.
De fato, as palavras de Bruna deixaram minha pequena desconfortável. teve então que contar às educadoras o que aconteceu tempos atrás entre e Bruna na praça, e prontamente a chave do problema foi detectada pela pedagoga e psicóloga da escola. Todas se mostraram solícitas em ajudar na relação de com suas dúvidas e nos aconselharam a como proceder melhor com o assunto, em casa. A pedagoga disse ao , para em situações como essa contar com a ajuda de Rosa, que como todas ali sabiam, era uma excelente profissional. Sorrimos agradecidos, os cumprimentamos e saímos da escola sem ir falar com , que não tinha conhecimento de que não a deixamos na escola somente.
foi receber alguns pagamentos pela cidade enquanto eu fui falar com meus colegas de delegacia. Fui recebida com abraços por todos, inclusive Matilde que surgiu com uma de suas deliciosas iguarias culinária. Perguntaram sobre o processo e eu apenas respondi que seguia como segredo de justiça. Logo Gabriel e eu, engatamos em um diálogo mais pessoal.
— Desculpe por ter cobrado de você explicações sobre .
— Esquece isso, . Eu sei que você é loucamente apaixonada por ele, mas não acha que não existem razões para tanta insegurança?
— Você tem razão. Eu preciso confiar mais, não é?
— É. Confiar em você. Porque eu sei que nele você confia.
Encarei Gabriel com uma careta infantil de quem fez besteira.
— Ele me contou sobre o ocorrido na praça.
— Eu sabia que ele diria, por isso não falei nada. E porque também não é minha função me meter nos assuntos pessoais dos outros.
— Você está autorizado a se meter nos meus assuntos pessoais desde que cheguei aqui, Gabs.
— Não faça esse jogo para me manter como babá do
... – ele falou risonho em tom reprovador.
— Não é jogo. É verdade. Eu te dou essa liberdade.
Gabriel sorriu plácido, e bebeu o resto do seu café.
— Ele voltou para entrar com a medida protetiva? – perguntei curiosa sobre a única coisa que havia se esquecido de dizer.
— Sim. Desde então, Bruna voltou para São Paulo. Mas, sinceramente não acredito que ela vá se dar por vencida. Não duvido que ela tenha voltado para consultar seus advogados sobre isso. está atento.
— Juro que não é só pelo fato de ser quem ela é, mas... Alguma coisa na Bruna faz meu sexto sentido apitar alto.
— Então o escute. Você mesma disse quando nos conhecemos que se tivesse ouvido sua intuição as coisas seriam diferentes.
— Com certeza. É o que tenho feito fielmente. Mas... Chega de falar de mim!
Gabriel era sábio em seus conselhos e isso era uma das coisas que eu mais amava em poder me abrir com ele. Ele sempre teria algo construtivo a dizer. Percebi que pouco eu retribuía aqueles gestos.
— Hm... E sobre o que quer falar? – Gabriel perguntou curioso.
— Você. Me conte, como andam as coisas...
— Tenho me ocupado muito com o caso Nolasco. As pontas soltas não param de surgir.
— É eu tenho algumas linhas de raciocínio que quero te mostrar depois. – ele assentiu animado — Mas não é sobre o trabalho que quero saber Gabs. Quero que me conte como está a sua vida pessoal.
Gabriel respirou fundo com um sorriso de canto e olhar intrigado, ajeitou as costas em sua cadeira de delegado, em seguida cruzou os braços sobre a mesa me encarando.
— Você pode ser mais específica?
— Belinha.
— Ah, claro... – ele riu constrangido — Não estamos juntos.
— E por que não?
— Eu vou contar algo a você que ninguém mais sabe. Um segredo.
— Certo... – o encarei assustada e um pouco preocupada.
— Daqui há um tempo, o qual ainda não está previsto, eu vou embora.
— Como assim Gabriel?
— Vou ser transferido. E isso implica em mudança de vida, coisas fora do lugar... Você sabe.
— Ok. E o que isso tem a ver com se envolver com Isabela?
— Eu não quero que ela tenha que escolher entre ir ou ficar. Você sabe que ela cuida do avô, e Belinha cresceu aqui na cidade. Nunca teve muitas ambições de sair daqui, ou ter uma carreira, eu não quero ser responsável por ter que tirá-la do seu conforto.
— Entendo. E por causa disso você vai sacrificar o seu sentimento. Pior ainda: vai impedi-la de escolher entre ir ou ficar ao lado de quem ela ama. Não querer que ela sofra é nobre, mas tomar as decisões por ela é egoísta Gabs.
— Eu só não quero começar algo para terminar bruscamente, .
— Já percebeu que você está lidando como se fossem acabar quando você partir? Acaso perguntou a ela alguma vez, se ela não teria vontade de dar outro rumo à vida dela?
— Ela nunca quis isso.
— Certo, mas o mais fantástico em nós humanos é a capacidade de mudarmos. Nossos pensamentos e convicções mudam o tempo todo Gabs. Olha o por exemplo.
— Está dizendo que a vida feliz que ela tem aqui, pode não ser mais o que ela quer?
— Estou dizendo que eu vivi na pele, o sentimento de ter a vida que eu sempre quis. Perfeitinha. E só me dar conta de que eu não tinha o que realmente desejava quando eu experimentei um mundo novo. É claro que Belinha está feliz aqui, mas será que outros horizontes não poderiam fazê-la se sentir mais feliz? Ainda mais se ela se redescobrir, conquistar novas coisas, e tudo ao lado do homem que ama?
— Agora eu fiquei confuso. Não sei se deveria me abrir tanto a ela . Não se trata só dela, tem o irmão e o avô que precisam dela.
— Guino viveu a vida toda impedido de amar a mulher da vida dele. Carlinhos tem a própria vida encaminhada. Eu tenho certeza que eles almejam a felicidade da Belinha. E não é como se ela fosse responsável por cuidar do avô ao ponto de abdicar da vida dela. E mesmo que fosse, Guino tem quem cuide dele se precisar.
Gabriel ficou me olhando pensativo. Sorri, levantei da cadeira e caminhei até ele beijando o topo de sua cabeça. Ele ainda mantinha o olhar fixo aonde eu estava. Deixei-o com seus pensamentos, e fui em direção a porta de saída da sua sala. Antes de deixar o lugar por completo segurei a maçaneta e o encarei. Ele me encarou de volta, e então eu disse sorrindo:
— Não feche a porta da felicidade na sua vida. Mudanças assustam, mas às vezes são uma segunda chance da vida para nós.
Quando saí da delegacia fui abordada por um par de braços a me abraçar pelas costas e me rodopiar no meio da rua. Comecei a rir alarmada por uma atitude tão repentina de .
— O que está fazendo? – eu sorria encarando os olhos brilhantes dele.
— Te amando!
Meu sorriso abobalhado aumentou e pegou um buquê de flores que havia deixado na janela da delegacia, bem ao lado de onde eu estava. O policial lá dentro que lia algum papel havia presenciado a cena e sorriu para nós dois discretamente. Ruborizei imediatamente. Era conhecido meu.
— São lindas. – respondi acolhendo o buquê que me entregou — Sabe... Um dia titia me disse que você era muito romântico, e eu gargalhei na cara dela.
— Pagou língua sua boba.
— De fato. – demos as mãos e caminhamos até o carro.
— Eu sou um homem de extremos. Posso ser o mais insuportável da sua vida, ou o mais romântico da sua vida. Graças a Deus, o amor venceu.
Sorri e ele abriu a porta para eu entrar.
— O que vai fazer hoje? – perguntei ainda parada em frente a porta do carro aberta.
— Cancelei todos meus afazeres para curtir minha namorada.
Beijei a boca dele de modo suave, e entrei no carro observando o sorriso dele se alargar, enquanto dava a volta pela frente da camionete e se dirigia ao banco do motorista.
— O que quer fazer hoje?
— Cavalgar. – respondi animada.
— Cavalgar como ontem à noite, ou eu vou ter que selar a Lunia para você?
O olhar malicioso dele e o comentário me fizeram ter vontade de subir em seu colo imediatamente, mas apenas me contive a rir.
— Os dois.
— Vou parar o carro assim que entrarmos na estrada.
! Primeiro a Lunia.
— Droga. A camionete é espaçosa sabia?
— A gente pode parar ela num cantão da fazenda se quiser, mas não no meio da estrada.
— Achei que você era audaciosa, delegada.
— Eu vou te mostrar minha audácia já, já.
— Hm... Isso me lembra nosso primeiro beijo.
Vagueei por pensamentos observando-o sorrir saudoso.
— Eu não podia ter escolhido momento melhor pra te beijar, embora tivesse ficado constrangido depois. Você se lembra né?
— Claro que lembro. Foi na Ford, debaixo da chuva.
— Temos agora uma Ford mais nova, mais confortável, e só nos falta uma chuva.
— Você está realmente falando sério? – o encarei em dúvida se aquele papo de “vamos transar no carro” era sério — Você fala da sua mãe, mas olha você agindo como um adolescente!
— Você não sente como se fosse a nossa primeira vez em tudo?
— Eu sinto como se tudo fosse novo, mas não a primeira vez.
— Eu não acredito que você não aproveitou minha deixa pra me falar coisa melhor. Eu não acredito que você disse isso!
— Oras , há de convir que temos outras experiências né! – eu gargalhava e ele já estava emburrado.
— Quer dizer que todos nossos momentos juntos foram iguais aos outros que você já teve?
— Não. De forma alguma. Eu nunca fui beijada numa camionete debaixo da chuva, nunca fui beijada num capô de camionete na estrada depois de dar um soco no cara, nunca fui beijada numa varanda de fazenda enrolada num cobertor, nunca tive meu quarto invadido pelo homem que odiava me agarrando...
— E ainda tem coragem de dizer que não viveu as nossas primeiras velhas vezes.
— Eu disse que foi tudo novo! Mas, não foi a primeira vez que eu beijei, assim como não será a primeira vez que eu transo em um carro.
Eu estava implicando com ele. Havia entendido sim o que ele tinha dito e compartilhava o mesmo sentimento, mas ter tão vulnerável a mim era tão delicioso e novidade que eu não poderia não torturá-lo um pouco.
— Quem foi o cara? – ele parou de dirigir o carro bruscamente e estava muito sério.
— O quê? Que diferença faz?
— Foi o Gabriel? Ou o Lucas?
— Não foi nenhum dos dois. Foi meu primeiro namorado de adolescência. O que isso importa?
— Foi com ele que você perdeu a virgindade?
— Foi, mas...
— No carro dele? – me interrompeu e eu já estava achando a cena ridícula.
— Não, pelo amor de Deus! Acha que eu ia perder minha virgindade assim?
— Ok. Numa escala de 0 a 10 quanto foi bom?
— Eu não acredito que você está competindo com isso!
— De 0 a 10...?
— Nossa senhora, você é ridículo. Eu nem me lembro direito.
Eu lembrava. Foi um nove. Mas eu não poderia dizer aquilo para ele, né?
— Foi nove ou dez?
— Mas que porra, ! Liga esse carro e vamos logo pra casa! Você está sendo infantil.
— Bem, se você não quer falar é porque ficou entre nove e dez. Eu te conheço . E sendo assim, eu vou te dar um, onze.
Gargalhei com a frase e ele continuou concentrado. havia surtado, e eu estava achando aquela loucura toda fofa. O ego masculino dele estava ferido, e onze... Bem, eu mal podia esperar. Meu celular tocou e já havia retomado à estrada.
— Oi Anjinho! Nossa, me desculpe por não ligar avisando que tinha chegado!
— Tudo bem . Eu sei que se você não ligou é porque estava imersa nas saudades. Como está tudo?
— É muito bom estar de volta. está mandando um abraço.
— Outro para ele. Eu não quero interromper seu momento... Mas, eu liguei pra avisar que fiz o que você pediu.
— Não está atrapalhando Anjinho, mas... Do que se trata mesmo?
— Bruna. Descobri algumas coisas e como acredito que você não tenha comentado isso com o , deixarei para tratar disso pessoalmente com você, certo?
— Ah não Ângelo! Você não vai fazer isso. Eu não posso esperar tanto.
— Tudo bem se eu e Vera formos passar o ano novo aí?
— Oras, mas isso é ótimo! Claro que podem vir, vamos adorar.
– olhei animada para o ao meu lado, nem mesmo cogitando se ele estaria a favor ou contra daquilo.
— Como nós tínhamos planos, que eu estou mudando por causa desse assunto... Importa-se se eu levar mais alguém?
— De forma alguma.
— Em todo caso, verifique aí se está tudo bem pela família eu levar um amigo.
— Ok, eu te confirmo, embora não tenha problema.
— Abraços a todos , beijos e até mais. Se cuida!
— Você também! Ei, Anjinho!
— Sim?
— Você e Vera, estão bem?
— Sim. Não se preocupe.
— Amo vocês, se cuidem.
— Nós também te amamos, tchau, tchau.
Ângelo desligou a chamada e eu sorri explicando ao :
— Eles vão vir para o Ano Novo, e querem saber se tem problema trazer uma pessoa.
— Claro que podem, vai ser ótimo receber seus amigos de novo!
— Obrigada amor.
— Não precisa agradecer essa também é sua casa.
Beijei o rosto de e desci do carro, já que havíamos chegado à fazenda.
Titia tricotava em sua cadeira de balanço quando Rosa e Marcelo chegaram junto com e eu.
— Não foi para escola hoje, Rosa? – perguntou preocupado e eu também estava.
— Acordei me sentindo mal.
— Eu falei pra não comer pimenta! – titia ralhou.
— E eu que sou teimoso né? – sentou-se no degrau da varanda me puxando para sentar entre suas pernas.
Rosa foi até o banco ao lado da mãe, e Marcelo para a rede.
— Desculpa a ignorância, mas qual o problema da Rosa comer pimenta? – perguntei confusa.
— Traz desconforto para o bebê, . – disse Marcelo.
— Mas eu achei que um pouquinho não faria mal... – ela justificou.
— Ah... Eu não fazia ideia... – respondi sem graça e titia percebeu.
— Tudo bem querida, é coisa de grávida. Você logo saberá! – titia respondeu risonha para todos que me encaravam com sorrisos curiosos.
— E então ? – Marcelo perguntou e eu nem quis olhar aos dois, de tão sem graça que eu estava.
— Com certeza! quer um irmãozinho. – ele respondeu me apertando em seu abraço e beijando meu rosto.
Todos riram e eu o encarei, reprovadora. Eu não podia dar um irmão à tão cedo. Não antes de organizar minha vida.
Titia entregou as linhas e agulhas para Rosa e disse para ela começar até ela voltar. Ao retornar, me entregou algumas revistas de pontos básicos de tricô e um kit de agulha e linha que comprou para mim.
— Titia...
— Calma! É para você aprender para tricotarmos juntas, o enxoval do bebê de Rosa.
— Marcelo está tricotando também! – Rosa disse orgulhosa olhando para o marido.
— Tricotando, pintando o quarto, comprando os móveis... Tudo pelo nosso bebê! – ele falou feliz.
! – titia bronqueou e o filho a encarou sem entender o que tinha feito: — Seu cunhado está tricotando para o filho, e você não vai fazer nada para seu sobrinho?
— Eu já estou fazendo mamãe.
— O que é? – Rosa perguntou animada e curiosa, e eu sorri porque eu sabia o que era.
— Segredo. – respondeu.
! – Rosa apelou para mim.
— Você ouviu ele!
Tricotei, ou melhor... Comecei a aprender o tricô com titia e Rosa. À tarde foi cuidar dos animais e disse para eu me arrumar, para no fim da tarde darmos nosso passeio a cavalo. Então, eu não fui com ele. Aproveitei para conversar com quando a menina chegou da escola. Ficamos juntas brincando, fazendo as lições da escola, e antes de ir tomar meu banho e me arrumar, eu conversei com ela sobre o ocorrido com a mãe. prometeu que ia pensar em tudo o que eu disse, e estava feliz por eu ter voltado. Talvez a menina estivesse confusa com o fato de Bruna dizê-la que eu não voltaria a fazendo acreditar que eu teria decepcionado-a. E realmente, eu torci para que nunca acreditasse naquilo e voltasse a ser apenas uma criança feliz, ao invés de uma mini-adulta.
Arrumei meus cabelos em um rabo de cavalo alto, vesti short jeans e uma camiseta cinza mais antiga e já surrada e chinelos. Desci as escadas da sala e tagarelava com a barriga da tia. Ela havia criado o hábito de conversar com o priminho todos os dias. E eu achava aquilo lindo. Aliás, tudo em eu achava lindo! Eu era uma pseudo mãe coruja.
Olhei para o relógio e estranhando as horas perguntei para Rosa:
— Onde está o ?
— Ele está demorando mais que o habitual hoje, não é?
— Sim... – respondi baixinho e ouvi os passos fortes vindos da cozinha.
surgiu com a toalha enrolada na cintura.
— Papai! Vovó não gosta que ande assim!
— Desculpa filha! – ele falou sem dar a menor importância e veio até mim segurando minha cintura e me beijando discreto — Você está linda.
Encarei-o duvidosa, e me dei uma última olhada. Ele realmente devia ter sentido mais a minha falta do que eu imaginei.
— Você demorou.
— Eu sei, desculpe. Por isso tomei banho na ducha lá fora, e só vou subir e trocar de roupa. Já deixei os cavalos selados.
Assenti positivamente entendendo o motivo de ele ter demorado e o vigiei subindo as escadas até sair da minha vista.
— Ai, ai... Há tanto amor nessa casa ... Mamãe e Guino, eu e o tio Marcelo, e o seu papai, e todos nós por você... – Rosa brincou apertando o nariz de que ria espevitada.
— É o amor mágico tia Rosa! me contou sobre ele!
gritou batendo as mãozinhas animadas e Rosa e eu rimos com a menina, mas de repente fechou o semblante, e colocou o dedinho em dúvida no queixo e caminhou até mim me encarando confusa.
— O que foi ? – Rosa perguntou, mas a menina apenas se concentrou a mim.
— Se o amor mágico chegou pra você e o papai ... Agora eu vou ter um irmãozinho né?
Raspei a garganta ficando sem ar e sem resposta. Rosa ria baixinho do sofá, acariciando sua barriga e a menina mantinha os olhos grandes de jabuticaba em minha direção. Abaixei-me para falar com ela.
— Bem ... Isso pode demorar um pouquinho... Seu papai e eu teríamos que casar, lembra?
— Hm... Mas isso é fácil ué! Tia Rosa casou rapidinho!
— Acontece que eu não posso casar agora com seu papai . Ainda tem assuntos do trabalho em São Paulo.
A menina murchou na mesma hora e eu olhei para Rosa pedindo ajuda.
— E depois ... Seu pai não pediu para casar com a ainda.
— Mas a vovó deixa!
— Ele tem que pedir à , .
— Que droga, o papai é lerdo! – falou contrariada e subiu as escadas com as mãos na cintura apressada.
Encarei Rosa como se ela fosse culpada, e a minha cunhada apenas ria.
— Agora cai para trás. – respondi.
— Ou como disse a , fica menos lerdo. – Rosa rebateu.
— Ok Joaninha! Eu já te expliquei que agora não podemos, mas eu vou pedir tá bom? – descia com cara entediada e com a filha emburrada no colo.
— Você tá demorando muito! Ela vai desistir! – fechou o cenho e suspirou derrotado.
...
— Já sei, já sei! – ela interrompeu o pai — Eu não entendo dessas coisas porque sou muito criança ainda.
A menina pediu pra descer do colo do pai e saiu pisando fundo até a tia. Agachou-se próxima à barriga de Rosa e sussurrou:
— Ei, bebê. Assim que você nascer eu vou te ajudar a pedir um irmãozinho pra titia. Porque se você esperar como eu... Xiiiii.... Você vai ser enganado!
Todos nós rimos com aquilo e e eu saímos em direção aos estábulos. Entramos na camionete e ao chegar ao estábulo, parou o carro e já desceu se direcionando aos dois cavalos selados.
— Achei que eu montaria na Lunia. – perguntei.
— Esse é o Sagaz. Ele é seu.
— O quê?
— Adquiri há pouco tempo para inseminar Lunia. Eles estão se conhecendo ainda, mas se dão muito bem. – acariciava a cara dos dois animais, já que Lunia relinchava se ele não a desse atenção — Sua ciumenta! – ele riu para sua égua.
— Então ele é um bom montador?
— Um dos melhores. E é seu. Comprei para você também, já que ele é dócil.
— Mas eu não sei montar, . Como vou ter um cavalo só para mim?
— Por isso o Sagaz. Sendo dócil você pode aprender. Lunia é bem temperamental e ciumenta se você se lembra. E depois, eu vou te ensinar. Venha cá.
me fez acariciar o animal primeiro. Depois do reconhecimento, me ensinou a subir sozinha e em seguida ele subiu em sua égua. Não atravessamos o riacho. Fomos conduzindo pelo campo verde da região que estávamos. Depois de um bom tempo segurando as rédeas comigo, ele as soltou e eu me sentia muito feliz por finalmente andar de mansinho sobre um cavalo. Sagaz parecia ter gostado de mim, e eu era o máximo, delicada com ele.
Depois de um tempo, perguntou se eu queria correr com ele em sua garupa. E eu aceitei. Descemos e ele me ensinou a tirar a sela de Sagaz, e o levamos de volta à sua baia. Depois, montamos em Lunia e aí eu senti o torpor do vendo no rosto em volta dos braços do meu homem. Aquela sensação me trazia lembranças da primeira vez que fizemos aquilo e eu deitei minha cabeça no ombro de , que alcançou o canto de minha boca e me beijou. Eu já sentia a dificuldade que seria me despedir de novo.
Quando retornamos ao estábulo para deixar Lunia, eu estava extasiada. Entrei no carro antes de , e a noite já era escura, embora não fosse tão tarde.
Eu já estava estranhando a demora de para retornar ao carro. De repente ouvi o barulho no pára-brisa da camionete e quando olhei havia água escorrendo por ali. Olhei pelas janelas laterais e havia água também.
— O que é isso? Está chovendo? – sussurrei e olhei para trás.
Pela traseira da camionete não havia indício de chuva. chegou correndo e se molhando ao abrir a porta e molhando o carro. Eu sorri confusa.
— O que você fez? – perguntei enquanto ele me encarava feliz.
Eu conhecia aquele brilho nos olhos.
— Improvisei uma chuva.
— O que... – eu comecei a gargalhar e ele tratou de me explicar.
— Eu te prometi um número.
Quando entendi o que ele estava tentando fazer, eu sorri tranquila aceitando aquela ideia adolescente. Ele acenou o banco de trás da camionete que eu não havia notado estar deitado e arrumado como uma cama romântica e aconchegante.
Notando minha confusão ele esclareceu:
— Quando te pedi para guardar a sela de Lunia e colocá-la na baia, eu não havia ido buscar feno nenhum para ela. Corri rapidamente ao carro e depois subi no telhado do estábulo para abrir a mangueira assim que você entrasse.
— Nós nem começamos, mas com certeza você já ganhou a nota que queria.
— Shiii... – ele tocou meus lábios com delicadeza — Só me diga quando eu tiver te dado toda a certeza.

Ouvir na playlist: (Like I’m Gonna Lose You – Meghan Trainor ft. John Legend)
*Há cenas restritas aqui neste trecho, se preferir pule.

Mordi os lábios lentamente e pulou para o banco de trás, e me estendeu a mão para acompanhá-lo. Havia um som baixo do rádio que ele mesmo fez questão de ligar, com músicas que pareciam ter sido preparadas.
Eu o beijei delicadamente, e correspondeu ao meu ritmo, pouco a pouco despindo nossos corpos. Tirou sua regata devagar, me permitindo a visão que eu tanto adorava, e não enrolou para fazer o mesmo com as calças. Eu nem havia notado que ele já havia tirado sapatos e meias antes de pular para trás. Mas eu já havia deixado meus chinelos tão fáceis de retirar no banco da frente. Com as mãos mais delicadas que ele já havia me tocado, retirou minha camiseta surrada e me deitou abaixo de si, ainda aos beijos. Soltou meus cabelos de meu penteado e após sentir que estavam livres prendeu seus dedos nele puxando um pouco mais forte e eu adorava quando ele fazia aquilo. Passei minhas mãos de suas costas para o botão de me short, eu mesma o retirando. passou minhas pernas em volta de sua cintura e retirou meu sutiã sugando meu seio. Fechei os olhos e arfei em tesão. Cravei minhas unhas em seus ombros e rapidamente suas mãos foram descendo a última peça do meu lingerie devagar. Seus lábios desceram por meu abdômen e seus dedos para minha intimidade acariciando-a delicadamente. Antes que eu tentasse qualquer coisa, sussurrou me impedindo de inverter as posições:
— Eu te satisfaço primeiro.
Apenas assenti silenciosa e senti seus dedos me invadirem, e meu clitóris pulsar. A barba dele arranhava minha pele de forma delicada. Eu não me lembrava de termos feito sexo tão tranqüilo até então. Era sempre selvagem e entorpecente. Mas naquele momento, eu queria sentir devagar cada sensação que ele pudesse me proporcionar. retirou sua cueca e devagar introduziu seu membro me colocando sentada em seu colo. Lentamente e de maneira experiente ele guiava meus quadris com suas mãos sobre si. Eu sentia cada pedacinho em mim ser preenchido por seu amor. E após estar bem perto do meu primeiro orgasmo, o joguei no banco deitado, o assustando.
— Desculpe. Mas eu gosto de dominar, você sabe.
— Você estava quase, ... – ele lamentou.
— Eu quero juntos. – eu falei o fazendo entender.
Ainda não tínhamos vivido aquilo. Os dois terem o orgasmo ao mesmo tempo. Um sempre ia antes do outro.
Toquei o corpo dele, da mesma forma sutil que ele fizera comigo. Brinquei com os arrepios em sua pele com os leves toques de minhas unhas e lábios. segurou forte em meus cabelos, respirando ofegante. Então lhe proporcionei um oral e carinhosamente o levei a perder os sentidos. Ele nunca havia pedido aquilo, mas eu sabia que ele gostava.
Subi em seu corpo novamente, delicada, e quem o introduzia com maestria era eu. Ocupei sua boca com meus beijos, suas mãos em meus quadris eram seguradas pelas minhas. Aquele movimento que sempre era tão eufórico foi como uma morte lenta e deliciosa. Nós ficamos bastante tempo ali até que sentimos o estremecer juntos. Havia acontecido, e não conseguíamos nos separar.
Fiquei sobre ele respirando ofegante e ele também. Quando nos encaramos, havia um largo sorriso em seus lábios. E o brilho nos olhos dele. Brilho que era meu.
— Isso foi incrível. Bem mais que onze! – ele disse me fazendo rir.
— Não tem nem como dar nota para esse momento... Foi como zerar o placar e ir direto ao ouro.
— Então agora você sabe como me sinto desde o começo. – ele respondeu.
Separei-me dele e sentei à sua frente, assim como ele também. Sentados um de frente para o outro, suados e sorridentes. Não conseguíamos deixar de nos olhar.
— Quando começou a chover?
Ele perguntou e então encarei o céu pela escuridão, percebendo que não havia como a mangueira estar causando tamanha inundação.
— Você improvisa uma chuva muito bem. – falei.
— Mamãe deve estar preocupada com nós.
— Se bem conheço titia, ela já imagina o que aconteceu.
— Tem razão. E Rosa sabia que íamos cavalgar.
— Elas sabem o que estamos fazendo. Não precisamos de pressa. – eu disse sorrindo.
acariciou meu rosto e então eu senti meu corpo esquentar com aquele mísero toque. Eu estava absurdamente entregue. E de súbito o encarei assustada.
— O que houve?
— Eu não lembro se tomei meu remédio hoje.
— O quê?
, não ri! Você não usou camisinha!
— E foi ótimo, não foi? É sério que está preocupada com isso?
— Eu não posso ser mãe ainda!
— Ei, acalme-se. Se acontecer só vai ser um pouquinho antes da hora, nada que eu não esteja acostumado.
— Ah é! Eu sei bem! – falei mais nervosa.
, por favor, não estraga o momento.
— Pronto, agora eu estou tensa.
— Sem neuras amor, não é assim também. Foi a primeira vez que a gente se descuidou.
Iniciei uma contagem nos dedos e bufou irritado.
— Pelo amor de Deus, para com isso! – ele me puxou pra cima de si me prendendo em seus braços. — Relaxa.
— Não dá. Hoje o dia foi cheio de cobranças com essa história de bebês e eu to nervosa agora.
Ele riu zombeteiro, e começou a me beijar a fim de me acalmar:
— Eu vou te distrair... – sussurrou e por mais relutante que eu ficasse, não consegui resistir.
11 + 11 = 22.
22 horas e eu estava ofegante pela segunda vez, abraçada ao peito do meu fazendeiro.




Continua...



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Nota da autora: Sem nota.





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