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Capítulo 21 - Querido Papai Noel…

25º Dia – Minas Gerais, 22 de dezembro de 2018.

Ninguém mais estava acordado quando chegamos a casa, ou seja, Rosa e Marcelo deviam estar em sua casa e e titia dormindo. Subimos em silêncio, tomamos banho juntos e dormimos juntos. Apenas dormimos, e não conseguiríamos mais ficar separados depois daquela noite.
Na manhã seguinte, estávamos na mesa de café com todos familiares, e ninguém nada nos perguntou. Exceto a única pessoa que deveríamos estar preparados para uma pergunta daquelas.
— Papai, o que você e a fizeram ontem que demoraram pra voltar? Eu até dormi sem minha baforada e meu beijinho de boa noite!
Evitei olhares à mesa e encarei sorrindo. Ele parecia saber o que dizer.
— Estávamos vendo estrelas, filha.
Ele respondeu e todos na mesa gargalhavam. Menos e eu, que não sabia onde esconder a minha vergonha.
— Ué pessoal, qual é a graça? – perguntou confusa.
— Seus pais estavam namorando . – titia respondeu à menina.
ficou confusa e eu estava ainda mais assustada com o possível rumo da prosa.
— Namoraram muito então.
A menina respondeu dando de ombros e saindo de sua cadeira levando para a pia, sua canequinha do Pooh e seu prato, vazios. Todos gargalhavam de novo, e eu sacudia levemente a cabeça, envergonhada enquanto me abraçava carinhoso sussurrando em meu ouvido:
— Bastante.
saiu para assistir os desenhos na televisão. E eu logo desviei o assunto da mesa, antes que eu mudasse definitivamente de cor.
— Vamos à cidade vizinha hoje, fazer as compras de Natal?
— Ótima ideia . Preciso mesmo comprar algumas coisas para a ceia de mamãe. – Rosa falou animada.
— Enquanto os casais vão às compras, eu vou montar a árvore com e enfeitar a casa. Já era para ter feito isso!
Concordamos com titia que nos aconselhou a não contar à sobre nosso destino, senão ela ia querer ir também e estragaria a compra dos presentes. Antes de sairmos, veio até meu quarto com a cartinha da menina em mãos.
— Então mamãe Noel, quer ler a cartinha da ? – ele perguntou me estendendo o papel colorido.
— Que pergunta papai Noel! É claro que quero.
Peguei o papel parecendo outra criança animada, e sentei à minha cama recostada à cabeceira com me abraçando. A letra redonda, mas ainda disforme, deixavam claro que aquelas palavras eram de quem ainda aprendia a escrever. Os inúmeros corações e florezinhas desenhados ao longo da folha pareciam soar como um mimo ao “Papai Noel”. Afinal, bem sabia o quanto suas pequenas artes poderiam contabilizar juntas, uma arte daquelas bem grandes.

Olá Papai Noel! Tudo bem aí no Polo Norte?
Sabe... Todo ano eu fico um pouquinho, confusa. Como que as cartinhas do mundo todinho chegam rapidinhas aí na sua casa? O senhor mora beeeeeem longe, e são muiiiitas cartinhas! Eu não sei por que a gente só pode escrever elas faltando pouquinho tempo pro Natal. Eu só espero que a minha chegue bem inteirinha e depressinha, aí. Olha, Papai Noel, em minha defesa eu preciso te contar que esse ano eu tive um tantão de contrastempos. A titia Rosa, que vai me dar um priminho, me ensinou essa palavrinha nova: constrastempos.. Diz ela que são coisas que atrapalham a gente. E nossa! Esse ano teve um tanto de coisas aqui na fazenda! Por isso, eu andei fazendo umas baguncinhas. Maaaas, Papai Noel, são baguncinhas bem boazinhas. Só pra distrair de vez em quando, porque os constrastempos aqui foram chatos. Eu vou até colocar em uma listinha pro senhor ver que não foi fácil ser eu nesse último ano. Tá bom? Presta atenção Papai Noel!
1 – A tia veio morar com a gente e foi muito legal! Eu não sei como aconteceu, mas eu acho que ela é minha fada madrinha, porque depois que ela chegou eu sei que ganhei uma mamãe. Eu nem chamo ela de tia . Só de mesmo. Porque eu sei que um dia eu vou poder chamar ela de mamãe.
2 – O papai se comportou muito, muito, muito mal! Não comigo, nem com a vovó, e nem com a tia Rosa ou o tio Marcelo. Ele foi muito malvado com a ! Olha Papai Noel, só aqui eu já acho que eu ganho do papai. Porque ele não vai ganhar presente esse ano, né? E eu nem fui tão malcriada igual a ele. O papai quase me proibiu de falar com a ! E eu não entendia nada, tadinha de mim! A vovó me explicava que como tinha muita briga do papai era porque ele estava caidinho de pirambeira pela . Eu não entendia muito, mas ela me contou que era igual nos contos de fadas.
3 – A começou a namorar com o tio Gabriel e eu odiei mesmo. Era pra ela ser a minha mamãe, então eu não vou mentir pro senhor: eu fiz pirraça. Mas, era uma pirraça importante! Se não, imagina se ela casa com o tio Gabriel? Eu seria a menina mais triste do mundo!
4 – Tia Rosa e tio Marcelo se casaram. Não foi ruim, mas é algo importante de contar porque naquela semana eu andei aprontando umas coisinhas... Mas, é porque tinha muita coisa na minha cabeça!
5 - A tia Rosa vai ter um bebê! E eu sei como ele foi parar na barriga dela, tá? A me contou tu-di-nho. Também não é uma coisa ruim, mas... Não acha que é muita coisa pra uma menina de quase oito anos pensar? Então eu acabei brigando com o papai de novo, porque ele não me dá um irmãozinho!
6 - A minha mamãe de verdade apareceu. Ela existe! E ela não é nada legal. No começo eu fiquei muito triste com ela, depois passou. Eu até achei que dava pra virar amiguinha dela, porque quando a Lorena não quis ser minha amiga na escola, eu falei que queria ser amiga dela e hoje a gente faz tudo juntas! Mas, depois... A Bruna não quer mesmo ser minha amiga. Eu não sei por que ela apareceu, mas... Ela me disse coisas ruins. E eu me comportei muito mal com o papai depois disso.
7 – A vovó está namorando o vovô Guino. Eu nem sabia que vovós podiam namorar! Aí eu fiquei mais triste depois disso, porque eu fiquei com ciúmes e me comportei mal com todo mundo de novo.
8 – Mas a voltou, e conversou comigo, e eu vi que estava sendo uma boba. Eu quis esperar a voltar pra te escrever Papai Noel, porque se ela não tivesse vindo eu ia te pedir a de Natal.
Olha... Acho que tem coisas que eu esqueci... AH! EU SOU MAMÃE AGORA! JÁ IA ME ESQUECENDO! Nuvem e Farofa são meus bebês ovelhas que nasceram esse ano, mas cruz credo, eu já consigo montar em cima deles. Eles crescem tão rápido não é? Eu não tô gostando de crescer também. A minha cabeça dói com o tantão de vozinhas que ficam dentro dela. Minha tia Rosa me falou que são os pensamentos. Ás vezes eles fazem muito barulho. Aí ela diz pra eu ir brincar que passa. Mas, olha Papai Noel, não passa não. A tia Rosa mente, ás vezes.
Então Papai Noel, como o senhor pode ver: foi difícil pra burro. Eu tinha sete anos no começo do ano e já tenho quase oito, e passou tão rápido porque eu tive muitos contrastempos pra pensar. Ai ai... Eu fui uma boa menina na maior parte do tempo, tá? Por isso eu tenho não um, mas... Alguns pedidos pro senhor. Um deles eu sei que não vai chegar no Natal, mas o senhor pode dar uma ajudinha?
O primeiro presente que eu quero, é uma galocha rosa. Eu cresci e a minha galocha favorita não cabe mais no meu pé. O segundo presente, é que eu quero que o bebê da tia Rosa goste muito de mim quando nascer, e que seja uma menina! O terceiro presente é que eu quero que a e o papai casem logo e de verdade, porque aí eu vou poder ter o meu quarto presente: um irmãozinho. Por favor, papai Noel, eu quero muito! E eu sei que ele não vai vir logo, porque a barriga da tia Rosa cresce muito, mas demora um tempinho. Então... Se o papai casar logo com a , vai ser mais rápido ainda pra nascer meu irmãozinho. Ah! E o último presente, não é pra mim... É pra Aninha. O papai e a mamãe dela foram embora pro céu há um tempinho... E esse Natal dela vai ser triste. Então, o senhor pode dar para ela um brinquedo bem legal, e que ela e a titia dela venham passar o Natal com a gente? Elas não tem muito dinheiro, a vovó me contou outro dia que estava fazendo um casaquinho para ela por causa disso. Eu separei até umas roupinhas, inclusive a minha galocha rosa que não me cabe mais pra dar pra ela. Então, o senhor pode ajudar elas a virem comer as comidinhas de Natal com a gente? Eu sei que o senhor e o papai do céu são muito amigos, por isso eu pedi coisas que o senhor não pode construir, mas pode pedir pra ele. Eu não sei se o menino Jesus tá muito feliz comigo, porque eu me comportei um pouco mal na catequese também... Mas já foi tudo resolvido tá? Eu pedi desculpas e tô me comportando direitinho, então não me deixa sem os meus presentes, por favorzinho!
Eu acho que eu pedi coisas demais pra um Natal, mas... Ai, ai... Eu não me importo de ficar sem presente nos outros Natais, se o senhor me der o que eu pedi.
Papai Noel, obrigada por ser tão bonzinho! Tomara que o senhor viva um tempão ainda! Amo você. Beijos quentinhos pra espantar o frio do Polo Norte, pra você, pra mamãe Noel, para os duendes e todas as renas!
Com carinho, .


Quando eu terminei de ler a cartinha eu tinha uma mistura de sorrisos, risos leves e lágrimas em meu rosto. que me tinha em seu abraço, apertou meu corpo junto ao seu e depositou um beijo emocionado em meu pescoço. Ele tinha seu rosto apoiado em meu ombro, então eu suspirei profundamente antes de virar meu corpo de frente ao dele.
— Ela é incrível. — Ela é abusada, isso sim! – ele ria — Olha o que ela pediu pro Papai Noel!
— É... Convenhamos que ela foi audaciosa, mas muito sensível.
— Compraremos outras coisas, é claro. Mas, estou preocupado com o que eu deveria dizer a ela sobre a cartinha.
— Você? Está maluco ? Ela vai saber que você leu!
— E daí? Não sou eu que entrego a carta todo ano para o Papai Noel?
— Mas entregar é uma coisa, ler é outra! Aliás, é violação de correspondência isso tá?
... – ele me encarava incrédulo — Tem horas que eu acho que você vem do mesmo mundo que a .
— Vai ver por isso nos damos tão bem. – eu ria.
fez carinho em meus cabelos me encarando com o olhar pequeno.
— Não... Acho que ela já tinha escolhido você para ser a mãe dela, antes mesmo dela vir a este mundo... Só que a cegonha errou o endereço.
— Não errou não.
A certeza de que nós dois éramos o certo um para o outro aumentava a cada dia. Eu não sei como explicar o tamanho do amor que eu sentia aumentar também. Era como se a vida inteira eu estivesse esperando aquele homem. O mesmo homem que eu julguei jamais me envolver era naquele momento, o único com quem eu poderia. Senti a necessidade absurda de abraçá-lo e me lancei sobre o corpo dele. O abraço dele era o melhor lugar no mundo.
— Vamos trocar de roupa e encontrar a Rosa, então? – sussurrou em meu ouvido.
Sorri e dobrei a cartinha guardando-a em meu bolso. Caminhei até meu quarto para trocar de roupa e pouco tempo depois, e eu estávamos a caminho da casa de Rosa.
Antes de sair do casarão, pudemos ver titia e arrastando uma árvore dentro de casa.
— Já vão namorar de novo!? – falou alto para nós sem parar de empurrar a árvore que a avó puxava.
— Não sua espevitada, nós iremos à casa da tia Rosa ver se ela precisa de ajuda! – respondeu puxando a filha no colo.
Enchia de beijos e cócegas e as risadas e gritos finos da menina ecoando na sala quase me distraíram de ajudar titia.
— Achei que vocês enfeitavam a casa com pinheiro de verdade. – perguntei a ela.
— Não querida, somos contra arrancar árvores apenas para embelezar uma sala.
— Uau titia! Eu realmente achei que vocês teriam um pinheiro igual aos filmes americanos.
— Ora ! – titia ria animada — Tem horas que eu acho que você e saíram do mesmo livro!
Eu ri novamente por ser a segunda vez em tão pouco tempo que eu ouvia àquilo.
Enquanto pegou a lista de compras com a mãe, eu peguei a chave da camionete. Fui sentando no lugar do motorista e ele me encarou duvidoso quando me viu em seu lugar.
Abriu a porta, ainda desconfiado e sentou-se no lado do carona.
— Isso é realmente seguro?
— Deixe de ser idiota, você sabe que eu dirijo!
— Sim, mas... É a primeira vez que você guia o carro comigo aqui.
— Não é não. Quando fomos desatolar a vaca, eu também ajudei. E também quando fomos buscar as ovelhas.
— Não senhora, essas vezes não contam. Eu não estava sendo o carona nesses dias.
— Quer ficar aqui na fazenda ou vai calar a boca e ir comigo?
— Ficou bravinha? – ele perguntou irritante me dando mordidas no rosto.
— Para! Para! – se afastou rindo e eu o olhei a fim de provocar também: — David até dorme quando eu estou dirigindo para ele.
BINGO.
A feição de se transformou. Ele ficou sério e mudo. Em outros tempos eu temeria aquilo, mas o conhecendo como eu já conhecia, ele estava cheio de ciúmes, mas também pensando em como iria revidar. Nosso jogo de gato e rato não era como antes, agora toda aquela provocação era gostosa.
— Por falar em David... É ele que vem com o Ângelo, né?
— Creio que sim, embora Anjinho não tenha me dito... Quem mais seria? – respondi ainda refletindo na visita que viria.
— Vocês se tornaram bem próximos, huh? – ele olhava a janela e não me encarou ao dizer aquilo.
Parei o carro na frente da casa de Rosa e respondi:
— Eu não sabia até que ele me contasse, mas David e eu já estivemos juntos no passado.
— Como assim? – finalmente ele me olhou.
— Como uma equipe. Num treinamento militar.
— E você não se lembrava dele?
— Não. – eu ri — Na verdade, eu sou bem rude com o David na maior parte do tempo, . Não tem que se preocupar, viu?
— Você era rude comigo. – ele respondeu preocupado.
— Só porque você era comigo, e sem nenhum motivo.
— Hm... Não ajuda muito já que pelo visto, você tem feito o mesmo com ele, sem o menor motivo também.
respondeu pensativo e desceu do carro para abrir a porta para a irmã que se aproximava enquanto Marcelo trancava sua casa. Assim que ajudou Rosa a sentar-se no banco de trás e veio de volta ao seu lugar, eu peguei sua mão o respondendo:
— Eu tenho um motivo. Ele não é você, e por tanto insistir, eu preciso deixar claro isso para ele.
Marcelo já estava abrindo a porta de trás, para sentar-se ao lado de Rosa, e minha cunhada ao notar o silêncio entre e eu nos encarando, não hesitou em perguntar:
— Vocês estavam brigando?
estava com ciúme. – respondi.
— Mas já? – Marcelo perguntou afivelando o cinto e rindo — De quem agora?
— David. O amiguinho policial dela. – a rispidez na voz dele me fizera rir.
Mas não gostou. Ele bufou e soltou minha mão dando partida na chave, como se dissesse para eu dirigir logo. Encarei-o bem divertida, para ele saber que não tinha motivos daquele ciúme existir. Dei partida e Rosa continuou curiosa:
— E por que esse ciúme agora irmão?
— Ele vem para o ano novo. – disse sem muitas delongas.
— Ah que ótimo! Teremos visita! – Rosa se animou.
— Ainda não sei se é ele quem vem Rosa. Na verdade, Anjinho e Vera estarão conosco aqui, e me perguntaram se podiam trazer um amigo. E o não tinha nenhuma objeção.
— Agora tenho todas. – resmungou.
— Deixa de ser infantil, ! É com você que a namora! – Rosa falou impaciente.
— E você por que está se metendo? E ainda descontando em mim! Controle seus hormônios de grávida!
Ao ouvir aquilo dei um tapa no peito de .
— Que isso?! – ele perguntou abismado.
— Respeite você a sua irmã e a gravidez dela! Sabe quão machista foi seu comentário?
, é bom demais ter você aqui. – de repente a voz de Marcelo ecoou aliviada e confusa ao encarar o rosto dele pelo retrovisor, ele explicou: — Eles são como crianças discutindo durante essa gravidez, não sei o que houve, mas tem sido difícil ser o único adulto aqui.
E então foi a vez de Rosa bater no marido.
— Amor, desculpa... – Marcelo abraçou-a e pediu com voz mansa.
Eu não entendia o que acontecia no banco de trás, até olhar para eles e ver a Rosa chorando. também olhou para trás e me encarou revirando os olhos, com mais vontade de rir do que qualquer outra coisa.
— Você implica de propósito, né? – sussurrei para ele, que riu dando de ombros.
— O não entende! Ele não sabe como é ter o corpo uma bagunça! Eu não sei lidar com isso! Eu nem quero chorar e estou chorando!
— Começou... – resmungou.
— Eu te odeio ! Você já passou por isso, deveria me apoiar! E não mandar-me controlar os meus hormônios! Eu só queria ajudar e você...
— Shhiii... Esquece seu irmão, amor. Ele é um idiota, a gente já sabe disso. – Marcelo continuou acarinhando Rosa e a consolando.
segurava o riso como uma criança travessa. Eu o encarei de olhos arregalados, e ele entendeu que eu estava dizendo para ser um pouco mais delicado. Ficamos discutindo silenciosos, por caretas um com outro.
— Desculpa Rosa. – ele respondeu derrotado e eu sorri, movimentando a mão para ele continuar — Eu só queria implicar com você como nos velhos tempos. Eu sei que não é fácil, e você tem razão. Por já ter passado por isso, eu deveria apoiar você e o Marcelo.
Então ele olhou para trás sorrindo e pegou a mão da irmã emotiva.
— Eu estou aqui para ajudar você, tá bem? Eu vou parar de implicar. Obrigada por se preocupar com a nossa relação.
Ele mencionou aquilo me olhando e eu sorri satisfeita.
— Sei que vou poder contar com a sua ajuda com o nosso bebê também.
E foi só ouvir as palavras “nosso bebê” para eu não conseguir esquivar de um buraco na estrada de chão. Todos no carro se assustaram, mas não mais do que eu.
— Desculpa! Está tudo bem Rosa? – perguntei preocupada.
Ela fez sinal positivo com a cabeça e me olhava confuso, risonho e preocupado. Ele pôs a mão em minha coxa e massageou-a para que eu o olhasse e ele pudesse perguntar se eu estava bem. Mas, eu estava evitando encará-lo.
— Tira a mão daí. – falei rápida e ele retirou ainda com uma expressão encantada e brincalhona no rosto.
— Você está grávida? É isso? – Rosa perguntou confusa.
Eu comecei a sentir o ar ficar rarefeito.
— Ela não pode. Se não já teria uma barriga ali... pelo tempo que ficou longe do .
Marcelo e Rosa faziam as contas conversando abertamente lá atrás, e ao meu lado nada dizia. Eu comecei a suar frio.
— A menos que em dois dias que está aqui, ela já tenha conseguido engravidar! – Rosa falou óbvia para o marido.
— E então , você fez o teste? – Marcelo perguntou-me diretamente e eu abria a boca e não conseguia falar.
Estava ocupada demais tentando regular minha respiração.
— Ela não está grávida. – respondeu-lhes calmo e risonho — Eu só falei aquilo como uma visão de futuro.
Rosa e Marcelo começaram a reclamar algo sobre ser lamentável, já que seria fantástico, ter duas crianças na família ao mesmo tempo, sem falar em ...
A minha cabeça girava. posicionou a mão sobre minha coxa de novo, e mais preocupado perguntou baixinho se eu estava bem, e embora eu não estivesse me sentindo normal, eu disse que sim.
Eu não fazia ideia das razões por trás das minhas reações. Mas, se pudesse colocar tudo em uma palavra, seria medo. Eu não estava preparada para aquilo, e de repente, quando eu retorno à fazenda estão todos tão imersos naquela “visão de futuro”, como disse , que mais me soava como sinos proféticos.
Durante o trajeto até a cidade mais próxima onde seriam feitas as compras, nenhum assunto de bebê foi pronunciado novamente. fez questão de mostrar a cartinha de , como um pai todo orgulhoso, para Marcelo e Rosa. Eles riram, e comentavam o quanto era espirituosa. E ao iniciarmos um diálogo sobre , eu já estava mais calma.
Dividimos as compras. Eu e compraríamos os presentes de todos, e Rosa e Marcelo iriam às compras da ceia. Eu queria participar das compras da ceia, para aprender como eram os pratos típicos da família, mas... Deixar e Marcelo para comprar os presentes não daria muito certo...
Separamo-nos e fomos cada um para uma direção da cidade, deixando Rosa e Marcelo com o carro por motivos de: compras maiores e mulher grávida a bordo. Marcamos de nos encontrar ao acabarem as compras no exato lugar em que nos separamos.
— Será que você está em boa forma para bater perna carregando as compras? – brinquei ao observar a camionete se distanciar de nós.
— Hunf... Você parece que não conhece o pique do seu homem.
respondeu e eu fiquei muito sem graça com o comentário. Não sabia dizer o que, exatamente, naquela frase me deixou constrangida. Mas, a conotação presente ali realmente tirou as palavras da minha boca.
— Que foi? Você está com vergonha? – ele abaixou a face em direção à minha me encarando surpreso — Essa é nova para mim... Eu não disse nada demais, não é?
— Vamos às compras?
Desconversei rindo de lado e fazendo a sonsa para sair de fininho. No entanto, segurou minha mão fazendo-me olhá-lo. Ele tinha uma feição confusa, mas ao mesmo tempo curiosa, e ao mesmo tempo... Satisfeita?
— Está acontecendo alguma coisa, ? Você está... Diferente, para não dizer estranha!
— Eu não sei. – comecei a sorrir desconcertada — Eu não sei... Só, tem umas sensações... Enfim, não preocupa não, . Eu estou bem.
Ele fez sinal positivo com a cabeça e segurou um sorriso travesso e torto.
— Fala. Faz logo a piada pra eu sair de perto de você o quanto antes. – respondi contrariada.
— Não é piada. – e ele cedeu ao sorriso — É que é fofo.
E começou a gargalhar. Aquela gargalhada gostosa e divertida, com uma pitada de deboche que me fez revirar os olhos e reclamar, já saindo em caminhada.
— Me poupe , até parece que tenho idade pra isso.
— O que? Você está fofa, me desculpe! Eu me lembrei de quando eu era adolescente e as meninas ficavam suspirando por mim e me enchendo de mimos a fim de me conquistar.
Parei de andar na mesma hora, abri a boca e murmurei contrariada. Eu queria rir, mas a minha indignação não deixava. Eu já estava me sentindo ridícula pelas emoções adolescentes que eu realmente estava sentindo, e ainda confirmava, a quão ridícula eu estava sendo. Ele segurou meu rosto com uma só mão, apertando as minhas bochechas e ainda rindo me disse:
— Eu sou muito sortudo de poder viver com você todos esses sentimentos genuínos da puberdade.
— Cala a boca, eu não estou achando graça. Tá? Eu estou me sentindo uma boba... E a culpa é sua.
— Hoje você está muito emotiva, não acha? Pode dar a mão para Rosa.
Ele disse calmo, me beijou e seguiu à minha frente. E eu fiquei parada criando paranoias na minha cabeça. Não era possível que eu estivesse engravidado e já demonstrasse sintomas duas noites seguintes, não é?
Olhei para frente e estava parado um pouco distante. Será que ele estava pensando o mesmo que eu? Quando ele virou-se para me olhar, com a expressão minuciosa de quem tenta desvendar algo, eu gelei. Por favor, que ele não me perguntasse de novo a mesma coisa! Se ele perguntasse, era sinal de que eu não estava tão paranoica e aquilo fosse possível.
— Vai fazer as compras, parada aí? – ele disse sarcástico.
Ufa. Estava tudo bem, então.
Eu fui até ele, e dei um tapa em sua nuca. Continuamos andando de mãos dadas, e planejando as rotas mais rápidas para diminuir nosso tempo de tarefas.


Capítulo 22 - Os Presentes do Natal.

Os primeiros presentes que compraríamos seriam “dos visitantes”. Guino, Carlinhos, e Belinha passariam o Natal conosco. A pedido de , a tia da Aninha e a sua amiguinha também. Embora ainda não tivéssemos ido falar com elas.
— Eu não tenho ideia do que dar para o Guino... Ele já tem a minha mãe como um presente, eu nem deveria dar nada.
Parei de olhar as vitrines das lojas na rua, para encarar . Estava emburrado como um garotinho de cinco anos.
— Eu não acredito no que eu ouvi.
— Você não concorda comigo? Minha mãe é o melhor presente que eu poderia ter dado a ele.
— Quem você pensa que é moleque? – perguntei e ele me olhou surpreso — Que autoridade é esta que você pensa ter? O Guino é uma pessoa maravilhosa, sempre fez sua mãe feliz e agora faz ainda mais! Você não a deu para ele, para com essa palhaçada ! Sem falar na falta de respeito com eles! E outra...
, tá bom... – ele me interrompeu.
— Tá bom uma ova, agora cala a boca e me escuta!
Eu realmente tinha ficado nervosa com aquele comportamento. Puxei ele pela mão o fazendo parar e me ouvir.
— Você não vai fazer com sua mãe, a pressão psicológica que fez comigo. Eu já te disse isso! Ela tem o direito de ser feliz, e você o dever de respeitar as escolhas dela. Seja homem e não um moleque! Que porra de ciúme ridículo é esse? É pela honra do seu pai? Então deixa eu te lembrar de que seu pai se foi há tempos, e sua mãe está sozinha desde então! Ela está vivendo o amor da vida dela, e tarde demais. E nós já conversamos sobre isso, por favor, tenha vergonha.
continuou olhando nos meus olhos com uma expressão que não dizia nem que gostou e nem que desgostou. Bufei e continuei andando à frente.
— Você está muito volátil hoje. – ele falou calmo e baixinho quando me alcançou e andava do meu lado — Desculpe se te ofendi, mas... Eu realmente não tenho nada contra o Guino. É só a ideia da minha mãe, uma senhora...
— Preconceito. – interrompi — Eu já te disse. É preconceito o nome disso.
— Tem razão. Eu vou ser melhor, te prometo.
— Você não tem que ser melhor para mim, . Tem que ser melhor para o mundo.
— Eu sei disso, mas é que sempre é você que me mostra os meus defeitos com toda essa coragem. Você esfrega na minha cara o lixo humano que eu sou às vezes, e aí eu percebo que eu preciso melhorar, por mim, por , pelo mundo... Mas principalmente por sua causa. Sei que não é esse tipo de homem que você merece ao seu lado.
— Hunf... – resmunguei sorrindo sarcástica — Você deveria ser ator. Ou advogado... Manipula que é uma beleza...
— Eu vou fingir que não fui ofendido. – ele constatou me puxando para dentro de uma loja de artigos gerais — E eu ainda não sei o que dar ao Guino. Eu falava sério.
— Guino e os sobrinhos são pessoas tão simples, não deve ser difícil achar algo... Vamos vasculhar.
Soltei a mão de e comecei a procurar entre algumas roupas, algo que agradasse ou fizesse o estilo do Guino. Sinceramente, eu estava perdida.
! – ele me olhou, mas continuou onde estava, procurando algo — Sua mãe não fez uma lista com os presentes dela? Podemos ver o que ela vai dar ao Guino, e tirar uma base...
riu divertido.
— Mamãe está fazendo os presentes dela. Ela sempre dá para nós, coisas de tricô. Como os suéteres natalinos... E toalhas de banho pintadas, com acabamento de crochê... Coisas de vó.
— Mas ela te entregou uma lista, não entregou?
— Sim, com os presentes da Belinha e do Carlinhos. Ela vai dar suéteres para todo mundo, mas como eles são visitas ela pediu para eu comprar algo. E tem algumas coisas que ela esqueceu de comprar também, para nós.
— E o Guino? O que ela vai dar para ele? – perguntei como se pensasse alto, e dei uma risada maliciosa.
me olhou cortante.
— Um jogo de quebra-cabeça e um suéter.
— Qual é o lance com os suéteres? – me aproximei de com as mãos em minha cintura, tentando entender — Que tradição americanizada é essa?
— Não era você que queria que eu derrubasse um pinheiro e entrasse em casa carregando ele nas costas gritando “Merry Christmas Family!”?
Não consegui conter minha gargalhada.
— Ei! Não é para tanto! Mas, é sério... Por que disso?
— Rosa. Quando o pai ainda era vivo ela inventou isso de suéter de natal, todo ano tinha que ser de cor diferente. A mãe passa o ano todo preparando eles aos pouquinhos.
— Então era isso que ela tanto tricotava! – me animei com a ideia — E todo mundo recebe igual?
— Depende da criatividade dela.
suspirou cansado e sorriu. Então eu olhei em volta e pensei o que poderia ser o presente do Guino.
— Já sei. Sua mãe vai dar um jogo para ele, ele deve gostar dessas coisas. Ou talvez ela só esteja pensando em manter a mente dele ativa.
... Não fica paranoica com isso. Vê o que você acha mais a cara dele, e pronto.
— Ah é? Fácil assim? Você o conhece, né! Eu não! E já escolheu o seu?
ergueu a mão com um boné boina, estilo antigo. Daqueles estilos ingleses de entregador de jornal do século passado. Era realmente a cara do Guino. E ia ficar muito fofo nele. Fiz uma careta e continuei rodando a loja. Lembrei-me que o Guino gostava de ouvir ao rádio. Foi assim que o conheci. Sentado na porta ouvindo rádio.
— Tem loja de antiguidades aqui?
— Tem. Já sabe o que comprar?
Afirmei risonha e fomos em direção ao antiquário. Entramos naquele lugar e eu sorri. Embora fosse uma boa cidadã urbana que adora uma modernidade, eu não poderia negar que lugares como aquele me fascinavam.
— Então vamos! – eu disse confiante me encaminhando até o atendente no balcão.
— Olá. Vocês tem algum rádio antigo, em bom funcionamento?
— Temos sim, mas você quer algum modelo específico?
— Não, não. Na verdade, eu quero um rádio antigo. Mas, que esteja tão conservado a ponto de ser uma peça de decoração quanto funcional a ponto de um senhor poder ouvi-lo o dia todo.
— Você está com sorte. Nós acabamos de reformar um modelo de 1960 da Marin. Ele está em perfeito estado, mas não perdeu o charme de sua época.
— Ai que ótimo! Quanto é?
— Por ser reformado, ele é um pouco mais caro do que uma peça vendida no “estado”, você vai levar só o rádio?
Olhei para que tinha os lábios torcidos como se quisesse me dizer algo.
— O que você acha?
Ele olhou para o homem de rabo de olho e disfarçou:
— Vamos dar uma olhada na loja, se algo mais interessar a gente vê o que faz. – ele falou tanto para mim quanto para o atendente.
— Claro! Por favor, fique a vontade!
Sorrimos e me guiava entre as prateleiras do lugar, com as mãos em meus ombros. Eu comecei a achar que ele queria sair dali. Antes que eu dissesse algo, ele parou e me virou já perguntando com a mesma feição cuidadosa:
... Você realmente quer gastar uma dinheirama dando presentes velhos para o Guino?
— Não é questão de ser velho, é questão de ter identidade. O Guino adora ouvir rádio, e eu nunca vi aquele modelo na casa dele. Eu acho que ele ia adorar.
— O atendente nem quis falar o preço, mais fácil você sacar sua arma e anunciar uma apreensão policial.
Eu não pude deixar de rir com comentário dele.
— Eu sei que antiquários são caros, tá? Não é como se eu estivesse achando que vou pagar quinze reais numa peça. E depois, ele pode fazer um desconto se levarmos outras coisas.
— Eu não quero que meu presente seja algo velho. Tá?
— Você é impossível! – falei entre dentes batendo no braço dele — Eu pensei no Carlinhos! Uma vez ele me disse que gosta de colecionar vinis. Só estou com medo de levar algum que ele tenha.
— Perfeito! Belinha me disse que ele estava atrás de um vinil do Led Zeppelin que ainda não encontrou... É... Qual era o nome mesmo?
Enquanto tentava se lembrar, eu estava querendo entender quando e por que ele falou com a Belinha sobre isso.
— Quando você falou sobre isso com a Isabela?
Isabela? – ele perguntou em tom divertido — Alguém está com ciúme?
— Responde.
— Calma amor, foi quando eu e ela estávamos saindo. Na época que você ficava beijando a boca do Gabriel por aí... – ele rebateu no mesmo tom que o meu.
— Isso já faz muito tempo, e se o Carlinhos tiver achado?
— Desconversou né... – zombou tirando o celular do bolso.
— O que vai fazer?
— Perguntar logo para ele. Palhaçada ficar aqui perdendo esse tempo.
— Mas vai estragar a surpresa.
revirou os olhos e conversou com o Carlinhos sem dar muita brecha de que iria comprar o presente, embora eu achasse que ficou bem óbvio.
— Pronto. “Coda”. Este é o álbum que ele ainda não tem. Mas, ele disse que se eu souber de alguém que tenha o “Live in San Francisco”, para dizer a ele, por que o que ele tem está arranhado.
— Ele sacou que vamos comprar?
— Sei lá, se sacou acho bom ele se empenhar no esforço como nós.
— Ai , deixa de ser ridículo.
Caminhamos até o balcão novamente, e perguntamos sobre o Vinil. E o atendente falou que tinha apenas um disco do álbum “Coda” que vem com três vinis. Como Carlinhos não tinha nenhum, achamos que não seria interessante presenteá-lo com um álbum incompleto. O “Live in San Francisco” estava lá, intacto. O atendente disse que não tinha nenhum arranhado no disco, pois ouvira recentemente. Confiamos na palavra dele e compramos.
— Ok, eu quero o rádio e o disco. Mas, você ainda não falou o preço do rádio.
— Bem, o rádio como eu disse, pela reforma vai sair por 600 reais, o disco, 50... Mas, é Natal então para alavancar as vendas, estamos fazendo uns descontos... Vocês não vão levar mais nada?
— Aquele quadro. – falou de repente apontando um pequeno quadro de uma mulher pintando.
— Que ideia é essa? – perguntei sem entender.
— Belinha gosta de quadros, e aquela arte é... O tipo que combina com ela. Já achei o presente dela.
Apenas concordei silenciosa e olhei para o atendente com um falso sorriso. Ele percebeu que eu estava incomodada. Que merda era aquela? Desde quando, o ogro sabe de arte e se atenta a essas sensibilidades da Isabela? Ah... Eu não fiz questão nenhuma de negar que eu não gostei daquilo.
— Bem... O quadro é 60, o vinil 50, e o rádio 600... Total de 710 reais, mas eu vou dar um desconto de 30% para vocês. Assim vocês podem indicar a loja e voltar também.
O sorriso do atendente era bem sincero, e eu sorri abertamente para ele:
— Isso é ótimo. Aceita cartão?
— Claro, e parcelo em três vezes sem juros, para você.
— Ah, mas assim eu volto mesmo, hein!
Ele sorriu e finalizamos a venda. Eu percebi que o atendente incomodou ao com toda aquela simpatia no final, mas que se dane. Pedimos para ele embalar tudo e saiu carregando. Já lá fora, eu sorria pela compra e ignorava o pela história do quadro.
— 497 reais gastos, você ainda vai comprar alguma coisa pra mais alguém? – ele perguntou brincando.
— Na verdade, eu tenho que comprar o meu presente para a Isabela, já que você já comprou o seu.
— A gente não combinou que são os nossos presentes para eles?
— Combinamos? Eu não sabia do seu gosto pela arte, e muito menos pela arte que agrada à Isabela.
— Sério? Você está com ciúmes? – ele ria — Eu sei mesmo algumas coisas sobre a Belinha, mas... E daí? Eu não posso presentear bem uma amiga? Você ia gastar 600 reais num rádio velho, .
— Aham... Só quero ver se na hora de comprar o meu presente, você vai realmente me conhecer bem.
engoliu a saliva, de modo contrariado e continuamos as compras. Entrei em outras lojas de roupas e sapatos, onde comprei um vestido para Belinha e outro para Rosa, um par de sapatos para titia, uma camisa Polo para Marcelo escrita “Dad's First Christmas”. Comprei para um vestidinho preto que era conjunto do meu. Ou seja, roupa “mãe e filha”. riu ao ver aquilo, e assim como eu, ele disse ter certeza que ia adorar. Para Carlinhos, comprei também outro presente, achei que só o vinil era pouco. Então, me ajudou a escolher um casaco que fosse o estilo dele. Para Gabriel, também comprei camisas sociais. Eu sei o quanto ele detesta comprar roupa para trabalho.
— Viu só? Você também sabe os gostos do Gabriel. – ele rebateu se referindo ao “piti” que dei por causa do quadro.
— Claro, eu tinha que saber alguma coisa sobre o homem que eu beijava, não é?
se aproximou do meu ouvido e disse:
— Com certeza! Por isso minhas expectativas estão mais altas, viu? Eu não sou só o cara que você beija. Aliás... Eu nunca beijei a Belinha, só para você saber.
Ele disse e se retirou me deixando calada. Precisava admitir, ele ganhou aquela.
Eu comprei a saída de Hospital de Rosa e do bebê, porque ela havia me dito que ainda não tinha comprado. comprou as galochas rosa de , um conjunto de roupa que eu ajudei escolher para ela e o outro para a Aninha. Eu comprei uma sandália para Aninha, pois eu ainda tinha no bloco de notas de meu celular a lista de tamanhos das convidadas da festinha do pijama. e eu compramos para a tia de Aninha, um xale muito bonito e um relógio. Para Marcelo e Gabriel, comprou relógios. Para a mãe dele, ele levou um vestido e um perfume. Para a irmã, ele levou um perfume e um livro. Ainda tinham os presentes de titia que faltavam, e ela nos pediu para comprar: quatro varas de pesca, dois conjuntos de xícaras de porcelana, e um perfume feminino que fosse floral. Ela não anotou o que era de quem, apenas as lojas que ela já tinha visto os itens.
E levamos também, alguns brinquedos para as crianças: , Aninha e o bebê que até então eu não sabia o sexo, já que Rosa queria segredo até nascer.
Então, chegou o momento de e eu comprarmos o presente um do outro. Fomos encontrar Rosa e Marcelo que nos telefonaram dizendo terem acabado as compras. Marcelo e foram comprar o meu presente e o de Rosa, e nós os deles.
— Já sabe o que vai comprar para o meu irmão?
— Aaaargh... Seu irmão já me fez muita raiva hoje, e ainda meteu uma pressão nesse presente...
Rosa riu e me abraçou de lado.
— Eu te ajudo! Como bem conheço vocês dois... Acho que uma provocação tem que acontecer.
— Eu tenho certeza absoluta disso. Estou pensando em comprar algo para o trabalho dele, mas... Não sei o quê.
— Se for assim, compre botinas! – Rosa riu — O agrônomo vai ficar feliz da vida. É o que ele mais gasta. Além das roupas.
— Bom o que você acha de um kit de barbear, tênis e looks mais casuais pra dar um ar de cidade nele?
— Eu acho ótimo, mas... Quando ele vai usar isso? Ele nunca sai da fazenda.
— Ah... Quando ele foi pra São Paulo ele andou bem descoladinho. Nem parecia um fazendeiro.
Rimos animadas.
— Então, vou comprar um look moderno, cosméticos masculinos, e um chapéu novo de couro, porque ele está precisando.
— Marcelo comprou um chapéu de couro para ele, se você não se importar em dar presente igual.
— Ah não! Chapéu é o que ele mais usa, acho que quanto mais ele tiver, melhor.
— Muito bom! Ótimo que você não quer comprar botas, porque eu comprei um par novinho com esporas para ele. – Rosa falou aliviada.
— E não acabei. Vou comprar um conjunto novo de lingerie para mim, assim ele terá um presente melhor...
— Sa-fa-da! – Rosa brincou dando risadas — E já sei! Compre um par de algemas e aí você dá esse presente na frente de todo mundo, eu tenho certeza que ele vai morrer de vergonha.
— Hm... Trolar ele não é uma má ideia... Mas, acho que eu poderia comprar algo melhor que as roupas... São para ele, mas, também são para mim né? Afinal, quem vai andar com o namorado arrumadinho sou eu.
— Sabe o que ele vai amar, mais até do que o seu lingerie?
— O que?
— Uma sela nova.
— Ah pelo amor de Deus! – eu gargalhei.
— É eu sei, mas este é o homem que você escolheu cunhadinha.
Rosa parou para comprar uma garrafinha de água e continuamos, já sabendo onde eu iria comprar tudo aquilo.
— Uma sela é muito grande para eu esconder, será que eles conseguem já embrulhar na caixa com o papel de presente? Assim nós só guardamos lá atrás, e ele nem vai perceber quando descarregar.
— A gente dá um jeito.
— E você, vai comprar o quê para o Marcelo?
— Ele está precisando de umas ferramentas de arquiteto que eu já encomendei e chegaram lá em casa anteontem. Então, pensei em comprar algo para ele e para o bebê, achei um macacão divertido numa loja daqui, quando vim da última vez. Ele carrega o bebê dentro do macacão dele, num outro macacãozinho! A coisa mais fofa !
Rosa segurava as bochechas sorrindo. Entramos na primeira loja e ela terminou dizendo:
— Depois, eu já comprei um cordãozinho de ouro e umas roupas para ele também. Esse ano, meu bolso está totalmente furado. Com a chegada do bebê, eu quis caprichar no presente dele, porque logo, nossos gastos serão todos da Laura ou do Fabiano.
— Mentira! Então estes são os possíveis nomes, Rosa? – perguntei me referindo aos nomes ditos.
— Uhum! – ela ria — Marcelo disse que o próximo bebê ele homenageará os pais dele. Então decidimos que este, se for menina será Laura, que é o nome que a mamãe queria ter... A história você já sabe... e se for menino, vai ser o nome do meu pai.
Abracei-a de lado e pisquei contente. Ela havia me dito que ninguém sabia daquilo ainda, além dela e do marido. Terminamos nossas compras daquele dia, e fomos com o carro em direção aos rapazes que – logicamente – demoraram menos que nós, e nos aguardavam em uma lanchonete. Rosa estava faminta, então foi inevitável não parar ali para comer, um x-egg burguer duplo que ela estava de olho.


Capítulo 23 - A Noite do dia 24.

27º Dia – Minas Gerais, 24 de dezembro de 2018.

Havia chegado o dia da ceia, e a correria na fazenda me fazia sentir que seria uma noite linda. Certamente, um natal especial como há muito tempo eu não tinha.
Há dois dias, após voltarmos das compras para a cidade fomos até a casa da amiguinha de convidar sua tia, para cear conosco. E o convite foi aceito. Também chamei ao Gabriel, já que imaginava que Guino e os afilhados viriam. No entanto, todos os quatro apareceriam apenas na manhã seguinte de terça-feira para almoçarem conosco no dia 25.
Rosa passou o dia todo me ensinando como preparar junto à titia, os quitutes natalinos de família. E , claro, ajudando-nos do jeitinho dela. Eu não poderia me sentir mais completa, e mais cansada. Titia geralmente preparava todo o cardápio da ceia e do almoço seguinte num único dia. Marcelo e prepararam o leitão no espeto de chão. Eu nunca tinha visto aquilo e confesso ter ficado horrorizada. Uma fogueira no quintal, duas hastes e um leitão pequeno num rolete. Já eram seis horas da noite, e aquele fora um dia quente na fazenda. Titia e eu terminávamos de assar o peru e preparar os rápidos acompanhamentos. Marcelo e gargalhavam alto e gritando lá de fora conosco:
— Libera a mesa!
Titia rapidamente foi até a mesa posta na varanda, e ajeitou a grande travessa que já havia sido preparada para colocarem o leitão. Eu a acompanhei junto de Rosa e . Os homens seguravam o espeto com cuidado e pouco esforço, e colocaram o animal pururucado sobre a travessa.
— Quer colocara a maçã joaninha? – perguntou a que fez que não com a cabeça.
— E por que não? – Rosa perguntou surpresa — Você faz isso todo ano!
— Eu comia isso? – perguntou assustada pela imagem grotesca do animal inteiro, morto e suculento à sua frente.
— Lambendo até os dedos. – o pai dela respondeu sorrindo.
Ela me olhou com feição espantada e eu ri de seu comentário seguinte:
— Puxa vida, como eu sou cruel!
Todos riram, e titia se adiantou pegando a maçã caramelada e colocando na boca do leitão falando à :
— Nós o criamos para comê-lo agora , isso é uma tradição. Por isso é errado desperdiçá-lo. Temos de ser gratos por ele ser nosso alimento.
— Eu não vou comer ele vovó.
Titia revirou os olhos e saindo resmungou:
— Não é possível que a pré-adolescência chegue mais cedo nessa geração...
Olhamos uns para os outros e abaixou a cabeça como se tivesse feito algo errado, então seu pai a confortou:
— Não precisa comer se não quiser filha. O seu gesto de amor com o bichinho é muito lindo.
— Não é isso papai... Eu sei que é a mesma carninha que como todo dia, mas é que... Ele tá inteiro.
Rimos de novo com a expressão dela e eu concordei:
— Também achei chocante .
Beijei a testa dela e pedi para ela subir e tomar banho. Rosa entrou para ver se a mãe precisava de algo mais, Marcelo foi tomar um café e, e eu ficamos na varanda. Ele caminhou para perto de mim, e abraçou-me por trás. Estava sem camisa, suado, com cheiro de carne defumada.
— Você não está muito sexy com esse cheiro de leitão defumado, sabia?
— E você está extremamente sexy com esse avental de mãe. – respondeu beijando meu pescoço — Aliás, este será seu primeiro Natal de muitos na fazenda...
Virei meu corpo de frente para ele, num abraço mais frouxo.
— Bem... Quem sabe, não é?
— Eu sei! – falou firme — Tem alguma dúvida disso?
— Eu só não tenho certezas... Primeiro de muitos... É meio vago não? – provoquei.
— Não... – ele sorriu irônico — Logo você verá que você não tem mais saída.
Beijou minha boca rapidamente e saiu me deixando pensativa. O que ele queria dizer com aquilo? Chacoalhei a cabeça sorrindo e entrei. Às 22 horas da noite, estávamos todos conversando na sala e assistindo televisão, a tia de Aninha havia chegado há pouco com a menina e e a amiga estavam brincando animadas.
— Vó! – resmungou — Que horas a gente vai comer?
— Acho que já podemos liberar a ceia para as crianças, não? – Rosa falou e titia imediatamente levantou-se com a tia de Aninha.
As senhoras foram colocar as comidas das duas meninas que estavam famintas demais para esperar um pouco mais.
— Você também deveria comer Rosa. – bronqueou.
— Não, eu consigo esperar mais um pou... Ai!
Rosa interrompeu a fala levando a mão à barriga.
— O que foi? – Marcelo perguntou surpreso levando a mão à barriga dela também.
— Ele me chutou.
Todos nós rimos aliviados.
— Ele está com fome. Vá logo comer Rosa! – havia se irritado e Marcelo levantou-se para servir um prato à mulher.
— Por que está nervoso? – perguntei ao ogro ao meu lado.
— Essa teimosa! – ele falou apontando à irmã — Fica deixando meu sobrinho com fome!
— Ou sobrinha.
— Você tem que se cuidar direito! – ele falou para a irmã que sorria ralhando do irmão.
Eu encarei aquele momento como um dos poucos que eu presenciei. Durante toda minha estadia em São Paulo eu não pude ver a relação entre irmãos com a gravidez de Rosa avançando. parecia pegar no pé, e se preocupar bastante com a irmã. Certamente, foi um dos momentos mais lindos entre eles que eu pude ver. Sorria abobalhada observando a barriga de Rosa, e tive minha atenção voltada a ela quando a escutei dizer:
— Imagina quando for você . O que você conheceu e que pegava em seu pé o dia inteiro virá à tona.
— Eu vou carregar ela no colo para cima e para baixo. – ele disse me abraçando.
Ah, que ótimo. De novo aquele assunto.
— Do que estão falando? – Marcelo perguntou.
Marcelo, titia e Gracinda, a tia de Aninha, voltaram a sentar conosco.
— Que vai pegar no pé da mais do que pega no meu quando ela engravidar. – Rosa falou risonha.
— Ah, com certeza! E eu também. – titia sorria.
Eu não conseguia rir muito, estava constrangida com o assunto e me limitei a baixar a cabeça e sorrir.
— É, mais isso vai demorar. – ele respondeu ao perceber que eu estava incomodada.
— Vocês pretendem ter filhos quando? – Gracinda perguntou simpática.
— Primeiro eles devem casar, não é? – titia respondeu como se nos repreendesse.
— É, um passo de cada vez. – eu respondi finalmente — Por isso vai demorar senhora Gracinda. Eu não fui pedida em casamento.
— Sinto... Uma cobrança no ar? – Marcelo zombou rindo e me encarou surpreso.
— Não foi ainda. Você não sabe o que estou preparando.
— Ora, ora... Aguardo ansiosamente. – respondi.
— Como diz : “o papai é lerdo”. – Rosa lembrou-nos e todos riram.
— E por acaso você vai aceitar, senhorita delegada? – ele perguntou sarcástico.
— Prometo pensar no seu caso.
Faltando pouco tempo para meia-noite todos fomos à mesa cear. As crianças novamente comeram e ao dar meia-noite, abraços, felicitações e telefonemas de Natal iniciaram.
foi levar Gracinda e Aninha para casa. A criança assim como já dormia. Convidemo-las a voltarem, mas segundo Gracinda elas iriam para a casa de uma irmã no almoço seguinte. Agradeceu-nos imensamente pelo farto convite, e por termos proporcionados os presentes de Aninha, que não foram entregues diretamente, mas escondido à Gracinda. Afinal de contas, o papai Noel deixava os presentes na árvore ao amanhecer.
Rosa e Marcelo foram para casa assim que terminaram de ajudar titia a guardar a comida que restou, e eu levei para sua cama.
— Querida, você vai esperar o ?
— Vou sim titia, pode ir descansar. – falei bebericando vinho, sentada no sofá da sala.
— Eu irei, mas... ... Tem alguma coisa incomodando você?
— Como assim titia?
— Sinto que você fica nervosa quando falamos em gravidez.
— De fato eu fico... É que acho cedo ainda.
— Não se preocupe querida. Se acontecer antes do que você prevê, nós já estamos acostumados a isso.
Titia beijou minha testa e saiu em direção ao seu quarto. Ou seja, deixando-me com novas paranoias na cabeça. Por que aquele assunto estava sendo tão reverberado? Eu não fazia ideia, mas a cada dia na fazenda eu sentia que estava perdendo o meu controle mental. A linda barriga de Rosa, às vezes se transformava num bicho de sete cabeças para mim. E o pior, à medida que eu me assustava, eu também queria aquilo. Queria muito, embora soubesse que não era o melhor momento. Meu celular tocou e vi no visor o nome de Anjinho, atendi rapidamente.
FELIZ NATAAAL NIIIC! – a voz de Ângelo e Vera do outro lado me arrancou um largo sorriso.
Feliz Natal, meus amores! Eu sinto tanta falta de vocês! Queria que estivessem aqui amanhã!
— Nós também linda, mas estaremos com você em poucos dias.
– Anjinho continuou na chamada.
Estamos todos ansiosos aqui! E como está a comemoração de vocês?
— Hm... Neste exato momento, meu pai e o pai da Vera estão dançando na sala, ao som de “Então é Natal”.

Nós dois rimos, ele por ver a cena e eu por imaginá-la.
E por aí?
— Assaram um leitão inteiro no rolete! Você não sabe como eu fiquei chocada!
– Anjinho gargalhou do outro lado — E também não conseguiu comer, ficou surpresa. Ela está crescendo tão rápido Anjinho!
— Imagino! A casa está cheia?
— Não... Hoje foi uma ceia mais íntima, amanhã que é o almoço tradicional de Natal com os amigos, e a troca de presentes.
— Como está o ?
— Bem! Foi levar a tia da amiguinha de à cidade. Estou aguardando ele chegar.
— Céus... Você? Esperando alguém para ir dormir? Realmente... está fazendo milagres.
— Eu estou tão apaixonada, Anjinho... Tenho medo de acordar e ter sido tudo um sonho.
— Mas não é! Tudo isso é bem real. Vera quer falar com você, um beijo . Feliz Natal e até o ano novo!
— Te amo!
– gritei e ouvi Vera pegar o telefone.
Amigaaaa!! Feliz Natal, eu amo você! Abrace a todos na fazenda por mim!
— Eu também te amo Vera, um Natal cheio de felicidades e bênçãos para você, amiga!
— Como está a festa aí?
— Como eu disse ao Anjinho, amanhã que é o almoço entre os amigos.
— Mal posso esperar pelo ano novo!
— Vocês chegam que dia?
— Dia 29. E, vamos levar um amigo. Anjinho falou com você, né?
— Sim, só não disse quem.
— É o David. Algum problema?
— Problema nenhum. Eu já imaginava que fosse ele.
— Ótimo! Amiga, minha mãe está no karaokê com a minha sogra, eu preciso desligar e filmar isso.
— Boa festa amiga! Abraços à família!

Despedimo-nos e eu desliguei a chamada, ria ao imaginar que cenas hilárias não estariam acontecendo entre aquelas duas famílias que eu adorava.
Recostei ao sofá e puxei a manta para cobrir minhas pernas expostas pelo vestido vermelho, justo ao qual eu vestia. As noites de Mato Alto eram sempre muito frias. Apesar de estarmos no verão a serra mineira dava um ar aconchegante de Natal invernoso. Tomei mais um gole do meu vinho e encarei todo o espaço da sala de estar, a árvore natalina ao canto, iluminada e colorida... Eu amava aquele cenário, aquele lugar, aquela fazenda... E minhas memórias foram até a cena de e eu, abraços na varanda, e sua voz em meu ouvido causando leves arrepios dizendo “este será seu primeiro Natal, de muitos na fazenda...”. Sorri involuntariamente imaginando um futuro que eu poderia ousar sonhar: um pouco mais velha descendo a escada para andar a cavalo, eu guiando um bebê pelas mãos e entrando na sala abraçando e correndo na minha direção, beijando a mim e nosso filho. Rosa e Marcelo correndo atrás de seu filhinho que corria nu pela casa, a fim de fugir do banho. E titia, vindo até nós pegando seu novo neto ao colo. Seria uma linda cena. Seria uma linda família. Meu coração palpitava só de imaginar e minha garganta embargava sob um sorriso largo. O som do meu telefone tocando, novamente chamou minha atenção fazendo sumir a nuvem de pensamentos e sonhos idealizados à minha frente. Peguei o aparelho sobre a mesa de centro e me espantei com o nome que surgiu no visor.
Boa noite! Feliz Natal bela mulher que me dá um toco sempre que pode! – a voz do outro lado, parecia solitária e amena.
Feliz Natal David! Fico feliz que tenha se lembrado de mim... Obrigada.
— É... São exatamente duas da manhã e eu aguardei pela ligação da minha parceira de tiro, mas percebi que ela estava ocupada demais com seu namorado fazendeiro para se lembrar de me desejar um bom Natal. Logo, resolvi ligar e atrapalhar o que quer que estejam fazendo.
— Você não consegue ser menos idiota nem na noite de Natal?
– eu falei de forma a fazê-lo entender que era uma zoação.
Eu não consigo, confesso... Bem, só queria ouvir sua voz e te desejar uma boa festividade.
— Obrigada, eu me desculpo por não ter lhe telefonado.
— Não é como se eu esperasse, foi só uma brincadeira. Eu sei que seus sentimentos de amizade por mim são bem mais rasos que os meus, e não estou cobrando nada.
— Nossa você sabe deixar uma mulher mal com suas atitudes.
– ele riu discreto do outro lado.
Boa noite .
— Boa noite... Ah! Nos veremos no ano novo?
– perguntei ansiosa.
Er... Infelizmente não.
— Mas, o Ângelo disse que...
— É, eu ainda não consegui avisá-lo.
– David me interrompeu sem graça.
Que pena. quer conhecer você.
— Ele terá que conhecer o concorrente dele em outra ocasião, lamento.
— Certo, eu não vou nem discutir com você. Fantasias de doido, a gente não contesta.
— Feliz Natal .
– a voz de David mudara, parecia triste.
Está tudo bem? Está com sua família?
— Er... Sim.
— Feliz Natal então, David.

Ele agradeceu com um risinho fraco e desligou. Eu fiquei observando o visor do celular, um pouco confusa e curiosa por aquela ligação. David não parecia estar numa festa com a família, na verdade, me soava que ele estaria prestes a dormir. Havia muito silêncio do outro lado da chamada, assim como do meu lado, onde todos dormiam. O pigarro de me fez encarar a sua face séria e seu corpo ao batente da porta. Sorri ao vê-lo, ele sorriu de volta e fechou as portas do casarão.
— Preocupada com seu amiguinho? – ele perguntou ao se virar e notar que eu ainda estava encarando o celular, pensativa.
— Era o David, e me pareceu solitário.
— Quer pegar o avião para fazer companhia a ele? – levantou minhas pernas e sentou no sofá ao meu lado colocando-as sobre seu colo.
— Com certeza. Fiquei até agora esperando você chegar para me despedir e ir atrás dele.
Nós dois rimos e retirou a taça de minha mão pousando-a na mesa de centro da sala. Avançou seu corpo sobre o meu e puxou minha cintura em seus braços.
— Você nem pense em me trocar por aquele, fardinha.
— Você realmente não tem ideia do quanto eu sou uma tola por você... – eu respondi beijando a boca dele de modo calmo.
Nosso beijo logo foi se transformando em carinhos mais profundos e eu tive que me separar dele, antes que fossemos pegos em situações constrangedoras no sofá da casa.
— Eu não sei se foi o tempo longe, mas... Eu estou cada vez mais sensível ao seu toque... É como se eu precisasse do seu corpo 24 horas por dia. – ele falou.
— Vamos subir? – perguntei mordendo o lábio.
Quando levantei dando a mão para me acompanhar, ele puxou meu corpo de forma brusca me fazendo sentar em seu colo. Abraçou-me beijando meu pescoço e sussurrou:
— Se nós subirmos agora, eu vou fazer um filho em você, então é melhor ficarmos um tempinho aqui até o sono chegar.
...
— É sério .
Interrompeu-me encarando-me sério:
— Eu quero muito... – mordeu o lóbulo da minha orelha sussurrando: — Muito, te dar um filho.
Gelei com a sua afirmativa, e ao mesmo tempo senti um fogo subir por minhas pernas.
Era a gota d’água, eu estava em meu primeiro dia de período fértil, e arriscado ou não, eu precisava subir imediatamente. Puxei pela mão, e corremos apressados até o quarto onde eu tranquei a porta sentindo seus braços me envolverem puxando levemente meu vestido para cima. Caminhamos trôpegos até a cama e quando seu corpo estava colado ao meu, beijando cada parte do meu colo e pescoço, deitados e urgentes... A porta emitiu um som infeliz que demonstrava a presença de alguém.
— Papai?
A voz sonolenta de nos fez parar de nos beijar e praguejar.
— Merda, . – ele resmungou baixinho com o rosto abaixado próximo do meu pescoço. — Acho que deveríamos ter ficado no sofá... – falei entendendo a presença de como um sinal.
Levantei e ajeitei meu vestido deitando-me direito na cama. foi até a porta destrancando-a e vendo a filha esfregar os olhos com sono.
— Oi filha... – abaixou-se para abraçar a menina — O que houve?
— Cadê a Aninha?
— Ela e a titia foram embora filha, a festa já acabou há um tempinho.
— E o papai Noel?
— Você deveria estar em sua cama dormindo, senão como ele vai entregar o presente? Você sabe que ele não entra se tiver criança acordada.
— Mas eu não consigo dormir papai.
virou a cabeça olhando para trás, e me demonstrando que realmente, havia empatado nosso momento.
Sorri e fiz sinal para ele que estava tudo bem.
— Vamos, papai vai deitar com você no seu quarto até você dormir.
Ele saiu fechando a porta e eu bufei frustrada apertando meus cabelos. Levantei-me, e fui para meu quarto. Vesti minha camisola, e ajeitei-me em minha cama.

28º Dia – Minas Gerais, 25 de dezembro de 2018.

Amanheci mais cedo do que estava acostumada mesmo se tratando de estar na fazenda. A casa ainda estava silenciosa e ao virar meu rosto para buscar o relógio no criado-mudo, me deparei com dormindo em minha cama, todo encolhido, sem camisa e sem cobertor. Eu havia puxado toda a coberta e a fresta aberta da janela deixava a brisa da aurora esfriar o ambiente. Por que raios ele se deitou sem camisa? E por que estava dormindo comigo? Não que eu não quisesse aquilo, mas acreditei que ele ficaria com .
Percorri graciosamente a ponta dos dedos em seu rosto, esquadrinhando suas feições e, tão leve quanto eu poderia tentar ser, selei meus lábios ao dele. Em seguida sorrindo fui em direção de me organizar para uma manhã.
Eram ainda quatro e quinze da madrugada, mas eu não conseguia dormir mais. Fui diretamente, após trocar de roupa, em direção ao trato dos animais. Aproveitaria todos os momentos ali.
Alimentei os cavalos, que ainda repousavam em seus cochos, com exceção de Lunia, que estava mais agitada do que eu me lembrava. Adentrei à sua baia, e a égua não parava de bater com os cascos ao chão e relinchar. Quando avançou em minha direção, dei passos cautelosos para trás, e ao encarar seus olhos entendi que ela estava sofrendo. Aproximei-me e pude ver a maneira como ela se movimentava, esfregando a barriga no chão, depois de muito bater as patas em trote e cansada se deitar ora rolando para um lado, ora para outro.
Peguei o celular discando para o veterinário da fazenda, e assim que terminamos de conversar ele disse estar a caminho. Meu coração estava apertado entre deixar a égua de sozinha ou ir até ele. Quanto mais relinchava, mais notei que Sagaz remexia-se em sua baia também. Parecia que estava preocupado com a égua ali. Não sei quais às razões para explicar o instinto de desespero que me tomou, mas deixei a égua sozinha e corri até a camionete estacionada a fim de chegar mais rápido ao casarão.
! ! Acorda amor!! – eu tentava acordá-lo e ele resmungava coisas ininteligíveis — ! A Lunia! Está acontecendo alguma coisa com ela!
Assim que falei, ele virou-se espantado em minha direção e ergueu-se num pulo. Foi rápido até seu quarto e eu parei ao batente de sua porta afirmando:
— Eu vou ligar para o Marcelo ir nos ajudar.
— Não! Liga para o veterinário. – ele falou de dentro de seu banheiro.
— Já está a caminho, mas até ele chegar acho melhor irmos logo, eu não sei o que ela tem.
— Como ela está?
— Relinchando muito e se contorcendo no chão, parece sentir dor.
— Droga.
— O que ela tem? – perguntei o vendo puxar sua camisa de uma cadeira e passar por mim vestindo-a, desesperado e apressado.
— Está prenha.
— O quê? – falei surpresa.
Não poderia ser possível. Até a égua naquela fazenda estava grávida. Eu definitivamente estava à beira da loucura.
Corri para alcançar que já se posicionava a ligar a camionete, mas esqueci de avisar Marcelo então dei meia volta, vendo o carro partir com pressa até o celeiro.
Assim que terminei de telefonar e posicionei o aparelho da casa ao gancho, eu corri a plenos pulmões até o celeiro.
aplicava uma injeção no quadrante traseiro da égua, enquanto conversava com ela. Em seguida guardou a seringa e os vidrinhos de medicação na caixa de primeiros socorros veterinários que eu nem sabia de onde ele havia retirado.
— O que ela tem?
— Eu não tenho certeza, mas a julgar pelo sangramento... Pode estar abortando.
— O que é isso que você aplicou nela?
— Uma injeção analgésica que o Dr. Castro já havia recomendado.
— Por que não me contou que ela estava prenha?
— Ora , eu não sabia que vocês eram amigas íntimas. – respondeu nervoso sem tirar a mão da égua de estimação que acarinhava.
— Sagaz não para de se movimentar na baia... – sussurrei sem esperar resposta do .
— Natural, ele é o pai.
— Você me disse que o adquiriu há pouco tempo para inseminar ela, e que eles estavam se conhecendo! Não falou nada que montou o meu cavalo na sua égua!
— Oras... E essa agora? Isso é momento pra dar um piti? E olha como você fala da Lunia! Ela é moça de família.
defendia a égua como se defendesse .
— Só acho que você deveria ter me falado que o meu garanhão ia ser pai!
— Nem reagiria assim , controle-se! Os animais cruzarem é algo muito natural aqui nessa fazenda. Aliás! – seu tom de voz era sarcástico: — Parir e aumentar a família, inclusive de animais, é algo muito natural não só na fazenda, mas na vida.
— O que você está tentando dizer?
Perguntei encarando com olhos semicerrados à sua feição irritada. Infelizmente, não obtive alguma resposta porque o Dr. Castro tinha chegado com Marcelo e eu percebi um deja vú naquela cena.
— Eu vou terminar de tratar dos animais, logo mais volto para ver os cavalos. – sussurrei para Marcelo que assentiu.
Passei a mão na crina de Sagaz, que continuava inquieto e sussurrei para ele, como se o animal pudesse me entender:
— Eles vão ficar bem, garanhão.
Saí em direção ao curral, onde fiz a ordenha de algumas vacas e abasteci seus cochos. Em seguida, fui até os porcos jogando a ração que já havia pegado em baldes e posto na carroceria da camionete. Alimentei patos e galinhas com os farelos e milhos, em seguida abrindo a porta do galinheiro. Os bichinhos correram soltos. Fui até o paiol e peguei o alimento das ovelhas que ainda estavam presas do lado de cá do riacho e deixei a encargo do decidir se iria soltá-las em pastoreio ou não.
Retornei com a camionete e o corpo sujo e suado. Ao chegar ao celeiro o médico veterinário saía em direção ao seu carro.
— E então? – perguntei ao Marcelo.
— O Castro fez uma ultrassonografia aqui, e parece que foi só um susto. Mas Lunia amanhã vai para a clínica ficar internada até o parto do potro. Não podemos arriscar deixar ela aqui, é muito longe para um socorro.
— Droga.
— Eu vou acompanhar o Castro. ... Dá uma força pro seu cavalo, porque a égua dele vai partir amanhã e ele não está bem. – Marcelo falou com a mão em meu ombro.
— É... Sagaz está agitado desde que a socorri.
— Eu estava falando do , mas... É... Sagaz também vai precisar de carinho.
Marcelo respondeu rindo e eu sorri batendo em seu ombro fracamente. Caminhei até que pudesse ver acariciando a crina da égua, já mais calma. Acariciei Sagaz e o beijei, abri sua baia e o levei até Lunia que ainda estava deitada. O cavalo garanhão deitou ao lado da égua, apoiando a cabeça no pescoço dela e eu sorri. Sentei ao lado de no chão, e ele observava aos dois animais com uma feição preocupada. Fiz carinho em Lunia também.
— Eles se apaixonaram rápido. – disse.
Continuei muda só observando os animais.
— Duvido que ele vá montar outras éguas agora... – continuou ele passando a mão nos cabelos, de modo preocupado.
— Você pode inseminá-las, ele não precisa dessa intimidade com outras éguas, não é Lunia? – falei carinhosa.
— Às vezes não, pode ser que ele monte. Vamos deixar isso pra frente...
falou puxando assunto e eu mantive-me calada com a égua que não reagia mal aos meus carinhos.
— Ela não tem mais ciúme de você pelo visto. – ele constatou ao ver a calmaria de sua equina.
— Certamente está cansada para brigas, não é Lunia? – eu falei retirando a mão dela e direcionando-me para os três animais presentes: — Eu vou terminar o meu serviço.
suspirou forte e pude notar que ele movimentou-se também. Caminhei para a saída do celeiro, mas antes de alcançar a porta ele alcançou meu braço.
— Desculpa.
— Tá se desculpando pelo quê agora? – falei séria.
— Por descontar minhas frustrações em você no dia de Natal.
— Hm... Quando você não desconta, não é? Ilusão minha achar que seria diferente no Natal.
Falei e me virei para sair, mas passou os braços pela minha cintura me erguendo do chão e me levando até o amontoado de feno presente ali. Sentou-me em um amarrado da palha e agachou na minha frente.
— Não vamos ser assim, a gente já superou essa fase, não é?
— Tem ideia do que você quis dizer àquela hora?
— Eu não quis dizer. Eu joguei na sua cara a sua aversão pela ideia de termos um filho.
— Aversão? ! – o empurrei o fazendo cair sentado no monte de feno e levantei furiosa — Eu não pensei duas vezes ontem antes de subir pro seu quarto e arriscar ter um filho com você! Como você pode dizer isso?
— Mas é você que está fugindo dessa conversa desde que chegou!
— E por que essa conversa desde que cheguei então!? Não é porque a família inteira está acostumada à gravidez não planejada, que eu esteja também! Eu tenho uma vida bem diferente, não se lembra?
— Agora você separa a sua vida, da nossa vida? – ele falou furioso se levantando.
— Não é isso e você sabe! – apontei o dedo em seu peito — Eu não posso ter um filho agora! Eu quero muito ter um filho com você, mas eu estou cheia de problemas a resolver caso não se lembre!
Dei as costas e saí pisando fundo, doida pra dar um soco na cara do homem que estava me fazendo odiá-lo naquele momento, mas quando alcancei a porta do celeiro, alcançou meu corpo nos colando pelas cinturas.
— Você quer mesmo? Co... Comigo?
— Nunca desejei tanto a ideia... – assumi.
— Desculpa... Eu não acredito que pensei que... Me perdoa?
— Eu não tenho outra escolha, não é?
— Você tem, mas... É Natal. – ele falou sério e em seguida riu de sua própria piada.
— Eu odeio amar você, e não venha atrás de mim.
Soltei-me séria, sem dar ibope para as gracinhas dele e fui em direção à camionete para aguar a horta. Cheguei a casa antes de , que assim que eu terminei de molhar as hortaliças, se pôs a caminhar até o casarão. estava na varanda colocando a ração dos caninos.
— Pequena! Acordada há esta hora?
! VOCÊ VIU O TANTÃO DE PRESENTE QUE O PAPAI NOEL COLOCOU NA ÁRVORE?
Ela gritava correndo em minha direção com os olhos brilhando.
— Está explicado porque você levantou cedo.
, eca. Você está suada. – falou se soltando do meu abraço rapidamente.
— Para uma menina de quase oito anos, você anda muito fresca.
— A vovó vai te mandar pro banho, já, já!
— Eu estava cuidando dos bichinhos, senhorita dorminhoca que não vai me ajudar nunca!
— Eu posso ir?
— Por que não poderia? Está na hora de começar a cuidar dos animais também além do Canelinha e da Pancinha.
— Papai não deixa, ele diz que sou pequena.
— Hm...
Constatei e surgiu na varanda perto de nós, a menina rapidamente foi até ele perguntando:
— Eu ainda sou pequenininha para ir ajudar na fazenda papai?
— O que você acha? – ele perguntou em dúvida, pensativo.
— A disse que não. – ela apontou o dedinho para mim, de forma fofa e acusadora.
Eu ri com aquilo e encarei , preocupada com a forma como ele entenderia aquilo.
— Se a disse, então por que está perguntando? – ele falou óbvio com a filha.
— Porque você é meu papai.
— E ela vai ser a sua mamãe. – ele falou com expressão óbvia, sorrindo para filha.
Afagou os cabelos da menina que abriu a boca em surpresa e começou a pular e dançar de um jeito bem estranho na varanda. Parou à minha frente e encarou minha expressão confusa dizendo:
— Mãe de você e do seu irmãozinho.
Beijou minha boca de forma casta e tornou-se a olhar a menina que estava risonha e travessa:
— Mas ainda vai demorar um pouquinho, é claro.
A menina bufou e fechou a cara, saiu pisando fundo pela casa:
— Vou comer pão de queijo!
Eu neguei com a cabeça pela cena de e de . Pai e filha me deixavam doida.


Capítulo 24 - As Entregas do Papai Noel.

28º Dia – Minas Gerais, 25 de dezembro de 2018.

A mesa do almoço de Natal havia sido posta, e todos já estavam bastante animados e arrumados. embora chateado com a situação de sua égua conseguiu não ficar tão preocupado. Até a hora em que abrimos a porteira para as visitas chegarem, ele havia ido ao celeiro duas vezes ver como estava Lunia.
também ficou triste em saber que o Dr. Castro buscaria Lunia no dia seguinte para interná-la, mas a ansiedade em abrir os presentes era maior do que a preocupação da pequenina. e eu, decidimos não ficarmos bravos um com o outro pelo que havia acontecido no celeiro, porque afinal era Natal, mas a verdade é que aquela conversa não tinha acabado.
O som do carro de Carlinhos adentrando a porteira foi escutado por que entrou correndo na casa e gritando.
— Vovó! O Vovô Guino chegou!
Colocamo-nos a receber os visitantes e terminar de ajeitar tudo. Marcelo colocou um CD de moda de viola e canções natalinas caipiras em som ambiente para tocar. Abracei os três: Guino, Belinha e Carlinhos, que se diziam muito saudosos por mim.
— Rosa, Rosa! Mas ocê tem certeza que é um só? – Guino falou em tom brincalhão ao ver a barriga de Rosa grande demais pelo tempo de gestação.
— Pelo amor de Deus Guino, não brinca não. Eu estou preparado para um só por enquanto. – Marcelo se aproximou o abraçando.
entrou na casa com o semblante preocupado e passou o braço por meu ombro, me depositando um beijo rápido nos lábios.
— O que houve? – perguntei.
— Ela não está muito confortável... – falou coçando a nuca e referindo-se à Lunia.
— Amor, tenta se distrair um pouco. Eu sei que é difícil, mas... – olhei-o compreensiva.
acenou com a cabeça concordando e foi cumprimentar a todos. Como eu estava próxima à porta do casarão, ouvi logo batidas de pés subindo os degraus da varanda e ao olhar para lá, vi Gabriel sorrindo abertamente. Ele veio até mim com um abraço apertado, e bons votos.
— Eu trouxe presentes! – falou erguendo com suas sacolas.
— Coloca abaixo da árvore, por favor.
Guiei-o para dentro da casa, passando a mão às costas dele e quando ele caminhou para cumprimentar todo mundo, tirou as sacolas da mão dele e com educação colocou os presentes ao pé da árvore.
Observei Belinha com semblante distante ao se deparar com Gabriel e troquei olhares com Rosa, que se aproximou dela entendendo minha sugestão. Trocou algumas palavras com a moça que logo se recompôs. Gabriel foi até ela e abraçou-a apertado, por algum tempo.
— O que aconteceu com aqueles dois? – surgiu do meu lado sussurrando ao meu ouvido.
— Você que está aqui este tempo todo, não sabe que eles terminaram, mas eu que estava em São Paulo sei? – encarei-o surpresa.
— Você é popular, eu nem tanto. E depois... Belinha não me disse nada.
— Vocês andam amigos assim para ela confidenciar segredos com você? – perguntei surpresa novamente.
— Pelo visto não, né. – ele riu mordendo minha bochecha ao notar o ciúme em minha voz — Mas, o que aconteceu?
— Gabriel... Surgiram alguns imprevistos e ele achou que era melhor terminarem.
— É outra mulher? – perguntou e logo me encarou preocupado e pensativo: — Não é por sua causa não, né?
— E se fosse?
— Eu diria que, optar por sofrer por uma mulher que não pode ter é uma perda de tempo, quando se tem uma mulher tão interessante como a Belinha apaixonada por você.
— Ok. Você está me dando nos nervos.
Afastei que me olhou sem entender, e riu assim que me afastei.
Todos nos direcionamos para a mesa, um pouco depois de conversar e passar um tempo juntos, e almoçamos como um grande almoço de Natal deve ser.
estava tão eufórica para os presentes, que não terminamos de retirar a mesa para abrir os embrulhos. Estávamos todos em volta da árvore, e fez as vezes do duende entregador.
— Esse aqui tá com o nome... É da tia Rosa! Nossa... Papai Noel tem uma letra bonita!
Gargalhamos ao perceber a ingenuidade e o comentário atento de . Ela entregou o embrulho, que não tinha remetente, e nenhum teria para não tirar a “magia” de , e Rosa pegou-o fazendo certo suspense ao abrir.
— Anda tia! – falou dando pulinhos.
— Ih ! Você não leu a cartinha do papai Noel para nós! – tia Cora falou antes de Rosa abrir.
estava surpresa e bateu na testa ao ver a avó pegar o envelope que tirava da árvore e abriu, entregando o bilhete para a menina ler. Era uma armação tradicional naquela casa que o Papai Noel “deixasse uma carta para a família” e um recadinho em cada presente. Eram, a própria titia e a Rosa quem montavam aquilo todo ano, e neste ano, seguiu-se a tradição conforme as informações que todos os convidados davam de cada presente.
Querida família! começou a ler calmamente, animada e risonha, agarrando entre uma palavra e outra — Como vocês cresceram este ano, não é? Se continuarem assim, eu vou precisar de mais ajudantes para entregar os presentes em sua árvore! Este ano, eu trouxe para todos, presentes que possam deixar vocês mais bonitos e mais unidos! Esta família é tão linda! Existe tanto amor entre vocês! Mas, que sejam sempre, cada vez mais amados e felizes. Dou as boas vindas aos novos integrantes da família, como o bebê de Rosa. Que nasça forte para que brinque muito com uma, certa garotinha bagunceira...
Neste momento parou de ler e arregalou os olhos, deu uma boa gargalhada que foi impossível não acompanhar. E então ela continuou:
E que encha esta casa de muitas alegrias. Para , gostaria de lembrá-la que você é muito amada por todos desta família! Aos queridos, Gabriel, Guino, Isabela e Carlos como foi incrível notar que pessoas maravilhosas estão ainda mais próximos desta família. À menina , eu espero que entenda que os seus pedidos deste ano foram um pouco difíceis para esse velho papai Noel, mas estou conversando com Jesus para atender àqueles seus pedidos que não dependem de mim. Quanto aos presentes que eu pude lhe dar, espero que goste de bom coração. Você é uma criança muito iluminada, e amada. Que o novo ano de vocês seja repleto de muita paz, amor e união. Um Feliz Natal a todos, ho-ho-ho!
terminou de ler e nós aplaudimos.
— Ele não falou nada se gostou da minha cartinha! – reclamou.
— Certamente ele gostou ! – falei beijando o rosto dela.
Retomamos a atenção ao presente de Rosa, que tinha um bilhetinho pendurado e ela pôs-se a ler antes de abrir.
“Uma futura mamãe, que irá preparar muitos chás entre os amigos e famílias em sua nova casa”.
Todos se olharam curiosos e ao abrir seu presente, um lindo conjunto de xícaras de porcelana arrancou sorrisos de Rosa. Eu brinquei dizendo que gostaria de estreá-los logo, e por se tratar de um item da lista de titia, eu reconheci. pegou outro embrulho e viu o nome, entregando o embrulho e o bilhete ao dono.
— Tio Gabriel!
Ele pegou o embrulho e leu o recado.
“É um presente simples, mas necessário já que você odeia comprá-las”.
Ele fez uma cara curiosa e eu já sabia que era o meu bilhete para ele. me cutucou risonho. Gabriel abriu o embrulho e sorriu agradecido pelas três camisas sociais.
— Papai Noel sabe das coisas ! Eu já estava quase sendo obrigado a jogar minhas camisas de trabalho no lixo, para comprar outras!
Ele brincou e a menina riu correndo para buscar o outro embrulho. Entregou com o mesmo ritual cada um dos presentes.
— Tia Rosa. De novo!? – ela entregou reclamando um pouquinho.
— Esse é grande. – Rosa falou ao ver o embrulho quadrado comprido e leu o bilhete — “Uma mamãe deve estar preparada para tudo, e espero que seja útil para a decoração do quartinho e para as noites de fraldas trocadas”.
Todos riram e acharam uma fofura o conjunto de porta fralda, abajur e lixeirinha artesanais em MDF.
— Belinha! – entregou para a mulher risonha que deu um beijo no rosto da menina agradecendo.
“Um casamento pode surgir quando se menos espera. A dona de um café tão delicioso receberá muitos amigos em sua casa”.
Belinha encarou a frase com certa dúvida, olhou em minha direção e eu fiz sinal de que não entendi a charada. Logo, quando ela abriu o embrulho entendi outra peripécia de Coralina ao tentar unir casais ali. Era o outro conjunto de xícaras de porcelana. Belinha sorriu agradecida, e Gabriel a fitou de um modo que eu bem conhecia: seu olhar apaixonado.
— Eu achei que pela charada era para a , mas... O meu café é realmente muito bom e eu nunca provei o seu. – ela disse tirando sorrisos de nós.
— Não seja por isso! Se eu não ganhar um kit lindo desses, eu passo um café e estreamos o seu ou o da Rosa! – eu falei com todos rindo da situação.
Enquanto buscava o outro presente, eu cutuquei que estava abraçado a mim e sussurrei:
— Sua mãe está aprontando de cupido novamente.
— E o pior é que ela sabe bem quem flechar... – ele riu sussurrando em meu ouvido.
De fato, tia Cora não havia errado os casais até então, nem a filha Rosa a quem ajudou na união com Marcelo, e eu nem preciso falar do sucesso, apesar das confusões, em unir e eu.
— Carlinhos!
O rapaz também abraçou agradecendo, e pegou o embrulho.
“No meio do interior havia um menino que queria ser rockstar. O rock não só está na música, mas também no estilo”.
Ele leu e animado como um adolescente olhou na direção de e falou:
— Eu não acredito! – abriu o embrulho revelando o disco e o casaco que comprei junto ao e nós dois rimos da animação dele: — Olha! Papai Noel entende de rock e de colecionadores!
— Claro tio Carlinhos! Papai Noel entende de tudo! – falou óbvia dando ombros.
Novamente a pequenina retornou com embrulho em mãos, desta vez um embrulho fino e comprido amarrado em um laço, mas com quatro bilhetes.
— Ué, esse aqui é pro tio Marcelo, papai, tio Gabriel e tio Carlinhos.
A menina distribuiu um embrulho para cada, depois de desfazer o laço que unia os presentes. E pela estrutura eu já sabia o que era e também.
— Cada um lê seu bilhetinho! – falou e Gabriel começou.
“Quatro moleques bastante aventureiros...”.
Gabriel leu e olhou para nós, confuso por só ter aquilo no papel, então leu o seu.
“Corriam para se encontrar ao pé do barranco...”.
Depois Carlinhos leu o seu:
“Deixando a todos bastante preocupados...”
E Marcelo finalizou:
“Voltando com sacos de peixe, abarrotados”.
Os quatro homens puseram-se a rir por entenderem a charada. Abriram seus embrulhos e um falatório masculino se fez alto. Estavam animados com as varas de pesca ganhadas, e avaliavam se eram iguais, com exceção de que sabia que eram iguais e falou:
— Papai Noel sabe que o importante não é a vara, é o pescador ser bom! – zombou com os amigos.
A titia ria sabendo que aquela seria a reação, assim como Rosa, Guino e Belinha que sempre conviveram com eles. Mas, para mim era uma surpresa. Era como ver, os quatro amigos de volta à infância animados com seus brinquedos. Achei um lindo e singelo momento. não entendeu muito a situação, bateu as mãos ao centro da sala “colocando todos em ordem” antes de voltar à árvore e pegar outro embrulho.
— Esse... – ela lia atenta o nome — Puxa, mas a letra é mesmo muito bonita!
Olhou para nós com certo espanto e eu respondi:
— Mamãe Noel e alguns duendes escrevem os bilhetinhos , e eles só fazem isso, então são craques na caligrafia.
— É eu vendo que são bons mesmo! Eu passo horas escrevendo no caderninho de caligrafia, e minha letra não fica bonita assim! Tia Rosa e tia Jurema ficam insistindo para... – ela danou a falar e de repente parou e disse: — Ah pessoal, vamos aos presentes!
Todos nós gargalhamos e então ela gritou animada:
— Esse é meu! É meu!
Já ia abrir correndo o embrulho quando eu a alertei:
— O recadinho !
— Ah é! – a menina riu e leu: — “Uma não veio da outra, mas tem muitas coisas iguais. Como amigas inseparáveis, como gêmeas tão lindas, um presente em miniatura para , amada e bela”.
olhou-nos com a boca arqueada em dúvida e abriu o presente. Eu sabia o que era. Era o vestidinho que fazia par com um meu também igual. Ela tirou a roupinha do embrulho, querendo vestir na mesma hora. Mas, Rosa disse para ela guardar para outra ocasião. E então falou entregando o presente na mão da avó:
— Eu só não entendi porque uma charada tão grande que eu não entendi nada.
Não tinha como não rir com . Ela retornou à sua função e todos continuaram atentos.
— É do tio Marcelo.
“O momento em que o bebê nascer, será mágico como nenhum outro igual. Então, não se atrase”.
Marcelo encarou aquela charada e todos estavam rindo, pela falta de nexo. Eu olhei para com cara de “eu não acredito” e ri, e ele respondeu em meu ouvido algo como “eu não sou bom com isso”. Marcelo retirou o relógio da caixa, que era totalmente a sua cara.
— Esse duende não é tão bom com charadas natalinas. – disse brincando e colocou-o no pulso.
— É bem prático ele. – falava voltando para a árvore, e nós não conseguíamos não rir da menina — Esse aí tinha que ter escrevido o meu.
— Escrito , o certo é “escrito”. – Rosa corrigiu ainda sobre risos.
— Bem... Agora é... o Papai!
soltou seus braços que envolviam minha cintura e foi até a caixa, já lendo seu bilhete.
“Um caubói à moda antiga, que ainda não dança country? Agora vai ter que aprender e dançar pela cidade”.
Ele olhou para a irmã, certo de que tinha o dedo dela. Mas, quando ele abriu a caixa e viu as botas lindas com esporas, falou animado que iria andar com elas para todos os cantos. Deu uma piscadinha para a irmã, e retornou ao meu lado.
— Vovô Guino!
Guino pegou o pacote, e na hora de ler Belinha o ajudou.
“Pedacinho a pedacinho costurou-se o seu amor, dando sempre tempo ao tempo, logo tudo se encaixou”.
Um coro de “ooown” foi ouvido pela casa, e todos sabíamos que era um presente de tia Cora para ele. Mas, ficava cada vez mais confusa com as charadas.
— Esses duendes são estranhos. Esse aí tá apaixonado! – ela disse voltando para a árvore.
Guino abriu e viu um suéter com corações pequeninhos e um tabuleiro de quebra-cabeça. Enquanto pegava o próximo, ele deu um beijo casto na bochecha de titia.
— Esse aqui, tá pesado... – falou pegando a caixa única com os nomes — , , Rosa, Marcelo, e (Esse a vovó Cora, pediu pra eu entregar junto).
A menina fez cara de surpresa e nós a dissemos para ler o bilhete e abrir.
“Todo ano suas fotos, ficam lindas combinando. Este ano é diferente, mas tudo conforme o plano”.
Ela foi retirando os suéteres de Natal de cada um de nós, e eu estava encantada por aquela tradição de família agora ter um espacinho para mim. Nós deixamos na caixa, para que depois dos presentes entregues, pudéssemos vesti-los para a foto anual.
— Agora... ! Esse é seu! – me entregou risonha.
é tão linda e bela, inteligente e amada. Comparo-te com uma flor, que é também bem perfumada”.
Abri a caixinha revelando um perfume floral de fragrância suave. E amei, eu adorava ganhar perfumes.
— Vovô Guino!
— Outro?
O velhinho disse rindo e ajudou a pegar a caixa de presente pesada, e então Belinha leu para ele seu bilhete:
“Uma jovem modelete que passou em seu caminho, mal sabia que o senhor do rádio, seria tão seu amigo”.
Guino me encarou por decifrar que o presente era meu. Abriu a caixa e ao ver o rádio seus olhinhos brilharam e ele pôs-se a chorar. Todos nós consolamos ele, e eu fui abraçá-lo.
— Poxa Guino, por que está chorando meu amigo? – perguntei.
— É igual ao do meu pai. Ele e eu ouvia junto, as modinhas da rádio depois que a mãe fazia a janta.
Ele respondeu e eu me senti muito feliz por ter dado um presente com uma memória tão afetiva a ele. beijou o velho avô e foi buscar o outro.
— Continuando pessoal! – gritou a menina pegando outro embrulho — Esse é Vovô Guino de novo!
Ela correu até ele entregando. Belinha leu o bilhete enquanto, impaciente e ansioso pela brincadeira, Guino ia abrindo.
“Um senhor tão boa praça, que passeia na cidade. Agora também elegante, protegendo-se do Sol assim”.
Guino tirou o boné boina, presente de e o pôs animado em sua cabeça.
— Puxa, esse duende é muito ruim. – falou negando com a cabeça ao se referir ao papel na mão de Belinha.
Eu gargalhei e abaixou a cabeça em meu ombro desapontado pelo comentário da filha que mal sabia, o quanto zombava o pai.
— Agora, é o Carlinhos.
“Não basta ter esse sorriso, tem que estar alinhado”.
— Esse aí foi o duende que escreveu o outro, certeza. – falou com a mão sobre os olhos negando.
Olhamos uns para a cara dos outros, tentando imaginar quem escreveu aquilo. Assim que Marcelo riu ao ver Carlinhos tirar a camisa polo do embrulho, descobrimos quem era o duende da vez.
— Vocês são péssimos. – sussurrei para que ria por não ser o único ruim na brincadeira.
— Tia Rosa! – falou entregando o embrulho.
“Na saída do hospital mãe e filho combinando, mas quando for jantar com o papai, um lindo vestido para ir arrasando”.
Aqueles eram meus presentes também. Rosa deu gritinhos eufóricos ao ver a saída de hospital e o vestido xadrez. entregou o próximo continuando suas funções.
— Belinha.
“Como as flores tão bonitas, é também essa pessoa. Que seu amor não resista ao te ver tão linda moçoila”.
O vestido floral que eu comprei, arrancou um sorriso de Belinha por ser tão “a cara” dela, e um olhar encantado de Gabriel ao imaginá-la o vestindo.
! – a menina falou animada e leu — “Uma escola de contos de fadas traz uma amiguinha fantástica, leve-a para conhecer sua fazenda que também é um mundo de mágica”.
Ela amou a boneca do Ever After High, seu desenho favorito, e o conjuntinho de roupinhas para a boneca e logo foi tirando tudo da caixa e entregando para a avó.
— Para o bebê? – perguntou confusa e entregou o pacote para a tia que leu.
“Você tem o tio legal, que é bonito e bem babão. Sendo menina ou menino vai andar bem bonitinho, igual o seu tio peão”.
— Finalmente uma rima boa. – falei para .
Rosa e Marcelo adoraram o macacão unissex estilo caubói que tinha comprado para o bebê.
— De novo, pro bebê.
“Todo banho divertido tem amigos na banheira”.
Rosa leu e todos disseram confusos e assustados: “O quê?!”.
— Que merda é essa, ? – perguntei rindo discreta.
— Eu não percebi que ia ficar tão estranho! São aqueles bichinhos de bebê brincar no banho.
— Meu Deus, nunca mais eu deixo você fazer isso. – falei e ele suspirou derrotado. — Agora é a ! – disse.
“A moça da cidade grande chegou na fazenda agora, e lhe caem muito bem, salto alto ou espora”.
Li animada e abri a caixa com a linda bota marrom de salto. Adorei o presente, e com certeza eu usaria muito.
— Agora o papai.
“Um caubói apaixonado, com a cabeça nas nuvens, eu te entrego esse agrado para que você tanto use”.
tirou o chapéu de couro da caixa e adorou, e supus ser do Marcelo.
— Vovó!
Tia Cora animada, que ainda não havia ganhado seu presente, apressou-se a pegar o embrulho, ler e abrir.
“Os teus pés experientes me guiaram num caminho de felicidade grande, e por isso retribuo com esse presente elegante”.
Abriu a caixa com o sapato ao qual eu sabia que não era hábito dela usar, mas, com certeza a fariam calçá-los com gosto para ir às missas de domingo.
— Tio Marcelo.
“Um papai babão vai andar com seu bebê, seja ele menina ou menina, como um pai canguruzão”.
Marcelo abriu o embrulho e ali estava o macacão que Rosa havia dito, onde o bebê seria carregado na barriga de Marcelo e com a mesma roupa. Ele amou e deixou algumas lágrimas escorrerem de emoção. Rosa abraçou o marido beijando-o no rosto, amorosamente.
— Tio Marcelo, de novo. – já estava impaciente e por isso agilizou o processo.
“O primeiro filho é seu primeiro tudo, e até o Natal é o seu primeiro”.
Aquele bilhete era o meu, que confesso, parece que eu havia pedido para o escrever, mas Marcelo adorou a camisa com a frase: “1º natal do papai”.
— Tio Marcelo. Caramba, de novo!
“Um marido tão bonito com uma mulher tão formosa, ande no melhor estilo, com roupinhas novas agora”.
Abriu o embrulho com algumas camisetas, bermudas e o cordãozinho singelo de ouro que Rosa havia comprado para ele, então ele a abraçou agradecido.
— Papai, tio Marcelo e tio Gabriel.
“Não basta só a vara, tem que ter uma boa isca”. – Marcelo leu.
Outra frase ambígua e que logo, fez com que os três ao abrirem novamente o presente em conjunto, retornassem aquele falatório de quando ganharam as varas de pesca. Era um kit de iscas, anzóis e tudo o mais, além dos bonés iguais. Carlinhos ria da situação, por certamente ele ter dado aquele presente, ou já ter um presente igual.
— Vovó!
“Levou anos para que recebesse esse mimo de um amigo, que também é um grande amor e te quer pelo infinito”.
Quando titia abriu a caixinha revelando o anel de compromisso, todos ficaram alarmados e surpresos. Ela riu chorosa, mas notei que havia ficado tenso. Marcelo o encarava também com uma expressão que eu não conseguia decifrar.
— O que houve ? – perguntei.
— Nada, nada não amor.
retornou aos presentes.
— Esse é meu! – falou animada por ver o tamanho do embrulho — “Para que a pequenina brinque muito e se divirta”.
começou a bater palmas e rir animada, ao se deparar com uma casinha de boneca, toda de madeira, colorida e feita à mão.
— Tio Gabriel.
“Permaneça em suas lembranças as histórias de nós dois”.
Belinha escondeu a face, num abaixar de cabeça. Gabriel a encarou sorrindo e ao abrir tirou um perfume, roupas e um porta-retratos com uma foto do casal. Ele foi até a mulher e a abraçou agradecido. deu de ombros, e continuou.
— Papai de novo.
— Ué... Esse não tem versinho. – ele falou e eu olhei para Rosa animada por saber que era a nossa trolagem.
abriu o embrulho e viu as algemas e a lingerie que eu havia comprado. Então ele olhou envergonhado para todos e fechou a caixa pigarreando. Ninguém entendia nada, e perguntou o que era.
— Hm.. Er... Um presente de adulto. Não, é um presente que é pra filha. Papai Noel errou, vai lá, vai lá, acha outro pra mim!
Ele disse animando a garotinha que não quis saber o que tinha na caixa e foi pegar outro embrulho para . O pessoal na sala começou a rir quando discretamente eu tirei a algema da caixa, e me fez guardá-la rápido envergonhado. não conseguia pegar outro embrulho, e eu sabia que era a sela dele.
“Para que nunca mais sua namorada arrisque cair de um cavalo, e vocês possam repetir um passeio romântico em seus braços”.
Ele abriu a caixa e ao ver a sela nova, me encarou surpreso e parecia novamente um menino. Rosa estava certa, ele ficou mais animado com a sela do que com o lingerie.
— Belinha. – entregou o embrulho à mulher enquanto seu pai ainda admirava a sela.
“Seu sonho de ser uma pintora, uma artista, retratado em arte antiga”.
Eu sabia que era o quadro só pela charada. Gabriel olhou confuso para Belinha animada tirando o quadro da mulher pintando um quadro, de dentro do embrulho. E posso dizer que ficou enciumado ao ver o modo como ela olhou agradecida para . Não foi preciso dizer que senti ciúmes, já que veio até mim e abraçou-me.
— Esse é meu também! – falou — “Para andar protegida da lama, e bem bonita com sua amiga pônei”.
fez uma careta para o bilhete e abrindo seu presente disse:
— Desisto desse duende.
Ela ficou animada ao ver as galochas rosa, gritando animada “o Papai Noel trouxe”, e também gostou das roupinhas e da boneca My Little Pony que o pai lhe deu.
— Tio Gabriel.
“Para um cara certinho, que anda sempre no horário”.
Gabriel leu e abriu a caixa pegando o relógio. Todos haviam desistido das charadas serem boas ou não, e apenas aceitávamos as frases e corríamos para abrir os presentes.
— Vovó. — “Uma mãe maravilhosa, elegante e perfumada”. – ela leu e não suportando virou-se para e reclamou da charada: — Por Deus , melhore.
Abriu seu presente entre os risos de todos, e tirou o vestido e o perfume de dentro da caixa, bastante agradecida.
— Tia Rosa.
“A irmã mais inteligente, que adora fantasias, vai ficar também cheirosa, tanto quanto é bonita”. – ela leu e olhou para o irmão dizendo: — Nesse o duende foi melhor.
Abriu a caixa com o perfume que segundo ela, adorou, e titia ficou enciumada, porque queria ter ganhado o perfume de Rosa. Disse que o cheiro era mais suave. revirou os olhos com a discussão das duas, Rosa também nos mostrou o livro que o irmão lhe deu, e que ela também adorou.
— Esse também é meu. – sorriu largo — “Uma boa médica de bichinhos tem que ter sua maletinha”.
Ela nem ligou pra charada, abriu correndo o presente que era uma maletinha de brinquedo, de primeiros socorros para veterinários.
— Bem, vamos então pegar os outros presentes e entregar, porque eu acho que acabaram as charadas.
Eu falei ao perceber que os demais presentes não eram da leva das charadas.
— Não, espera!
disse me interrompendo e pegou uma caixa de presente escondida, me entregou sorrindo e eu vi que Marcelo me encarava tão ansioso quanto ele.
— Este eu comprei pra você, meu amor. – ele disse sorridente.
Meu coração palpitava e eu não sabia por que. Abri a caixa e vi que lá dentro tinha um vestido lindo de seda, com uma caixa de joias onde abri e me deparei com uma linda gargantilha e brincos. Além disso, tinha um porta armas de couro. Comecei a rir surpreendida com tudo, e todos repetiram o coro de “oowwn” para nós. Mas, assim que terminei de beijar, agradecida, ao meu namorado, ele me entregou um envelope com um bilhetinho e tirou uma caixinha de embrulho igual, que estava escondida dentro da caixa maior. Ele desfez o laço da caixinha e pediu para eu ler o bilhete.
“Te odiei com tanta força, e igual força me fez te amar. Nunca pude querer tanto, com uma mulher me casar”.
Fiquei assustada e confusa com aquela charadinha, a única bem feita por ele. Ao olhar para titia e Rosa, as duas estavam me encarando com lágrimas nos olhos e mãos à boca.
... – pronunciei meio zonza virando o rosto para ele, e então o ar me faltou.
estava de pé à minha frente com uma pequena caixinha aberta e dentro dela um anel de noivado.
— Não vai me dar um fora agora não, né? – ele disse apreensivo.
Eu continuei com olhos arregalados sem saber o que dizer, apenas peguei o anel colocando em meu dedo e abracei . Ele me abraçou apertado me rodopiando no ar e me beijando.
— O que aconteceu aqui, pessoal? – perguntou confusa.
e o seu pai vão se casar ! – Rosa gritou para a menina.
E a cena que vimos foi a mais emocionante. abriu um berreiro emocionado, mas de um choro tão barulhento e infantil que parecia um bebê assustado. e eu a abraçamos rindo dela, e quando ela se sentiu menos assustada, eu mostrei a ela outro embrulho meu de presente que continha o vestido igual ao dela. Eu contei a ela que o papai Noel nos deu roupinhas de mamãe e filha, e a menina pulou no meu pescoço apertando seus bracinhos sobre mim.
Já mais calma, retornou a abrir os outros embrulhos que tinham seu nome. E todos nós continuamos a trocar os presentes. Todos nós ganhamos roupas, sapatos, perfumes, joias, enfim... Ao final da abertura dos presentes, fomos tirar novas fotos pós troca de embrulhos, inclusive a foto da família com seus suéteres.
Eu estava ainda em êxtase quando terminei de ajudar titia a guardar as comidas da mesa. Rosa e Belinha foram para a sala com a senhora, e eu estava fazendo o café que tinha prometido à Isabela.
Coava a bebida e enquanto o líquido escorria para a garrafa, eu encarava aquele anel em minha mão. Senti uma lágrima descer de meu olho, e a minha ficha finalmente cair. me abraçou pela cintura, e eu nem tinha me dado conta de que ele se aproximara.
— Você está bem? – perguntou ao meu ouvido.
— Agora que a ficha caiu.
— Não quer desistir, quer?
— Pelo amor de Deus ... – falei e virei meu corpo segurando o rosto dele entre as minhas mãos: — Me casar com você é tudo o que eu mais quero.
Ele me beijou rapidamente e eu terminei de coar o café entre risos e beijinhos do meu agora, noivo.


Capítulo 25 - Final de Ano.

32º Dia – Minas Gerais, 29 de dezembro de 2018.

A ideia de estar noiva de me deixou com a cabeça nas nuvens como nunca antes. Eu passava minutos inteiros observando o anel em meu dedo, e hora ou outra recebendo piadinhas dos meus familiares por aquilo. E eu estava exatamente sentada na beira do fogão à lenha, com um sorriso bobo no rosto e olhos vidrados naquela pedra azul, quando ouvi a risadinha satisfeita na porta dos fundos da cozinha. Dispersei minha atenção ao lugar, e me deparei com me encarando satisfeito, e um sorriso tomar conta do seu rosto inteiro, inclusive seus olhos.
Ele caminhou até mim com braços cruzados, e ao chegar à minha frente pegou a minha mão onde estava o anel, delicadamente e beijou-a. Puxou-me pela cintura a estar em seus braços e eu levei minhas mãos à sua nuca.
— Você ficou feliz, não é? – ele perguntou enquanto encarávamos os olhos um do outro com admiração.
— Você ainda tem alguma dúvida? – respondi.
— Eu quero muito te fazer feliz. Você me devolveu uma esperança que eu já havia perdido meu amor.
— Meu Deus... – eu falei entre risos de incredulidade — Eu ainda não acredito que a titia tinha razão...
— Sobre nós?
— Sobre você ser tão romântico. O ogro mais romântico que já existiu... – beijei a ponta do seu nariz e ele estalou a língua, pensativo.
— Hm... Então somos tipo Shrek e Fiona?
— Hey! Eu não sou a Fiona! Estamos mais para... A Bela e a Fera.
— Olha, isso é praticamente a nossa história, realmente.

Rimos e eu não me segurei ao ver aqueles olhos puxadinhos com as ruguinhas, ao seu sorriso. Beijei , tão tranquila como se o tempo pudesse congelar ali.
— Eu amo você. – ele sussurrou entre um beijo e outro — Mas, eu tenho que ir...
— Hmm... Não... – murmurei manhosa.
— É melhor a gente se separar agora, porque estou percebendo que a sua água para coar o café, já secou...
Saltei de seus braços ao me deparar com a chaleira de fato, seca, no fogão. Retirei-a de qualquer jeito, e não evitei queimar a ponta dos dedos. riu e tirou a panela de minha mão, enchendo-a novamente com água e colocando-a no fogo. A lenha também já estava com chama bem menor, então ele empurrou as madeiras para aumentar o fogo e eu molhava os dedos sob a água fria da torneira.
— Vê se não fica viajando na sua pedrinha de novo, e coa o café até eu sair do banho. – ele sussurrou em minha orelha e saiu beijando meu pescoço.
— Aonde você vai?
— Na clínica.
Ele falou enquanto saía e eu só pude ver as costas do meu homem se afastando. Fechei a torneira sorrindo, e fiquei encarando a neblina matutina se dissipando do quintal, pela janela da cozinha. Lunia estava na clínica há três dias e ia vê-la uma vez por dia, no mínimo, conforme suas possibilidades.
Na noite daquele dia em que fui pedida em casamento, e eu passamos longas horas conversando abraçados na cama.

Flashback
25 de dezembro de 2018.


Ouvir na playlist: Beautiful Crazy – Luke Combs

— Eu não acredito que você realmente fez o pedido! – eu dizia beijando a boca de meu noivo com avidez, enquanto entrávamos desajeitados em seu quarto.
— Achou mesmo que eu iria enrolar você?
puxou a blusa de manga longa que eu vestia a jogando em qualquer canto do quarto, e beijava com urgência meu pescoço. Desabotoei sua blusa enquanto conversávamos.
— Eu sei que você não seria louco de enrolar uma mulher armada.
— Falando em arma... – ele parou de me beijar e encarou-me contrariado — Você quer me matar de vergonha?
Gargalhei abraçando-o, e ele me segurou pela cintura e olhou atrevido para mim.
— Mas, confesso que vou adorar usar aquela algema prendendo você na nossa cama.
— Sua cama, você quer dizer, porque acho que não precisamos esperar para estrear...
O sorriso malicioso que surgiu em seu rosto antecedeu aos braços fortes me pegando no colo e se jogando na cama comigo.
— Eu tenho outra proposta, mas agora... Cadê as algemas, hein?
— Está louco? Quem vai ser preso aqui, é você!
Virei-me sobre o corpo dele, o deixando deitado espantado abaixo de mim, então me levantei da cama, e fui até a caixa que eu havia deixado ali e peguei as algemas dentro dela. Sacudi-as e retornei sorrindo para o homem que estava sentado à cama me esperando. E assim que subi ao colchão, caminhando de joelhos lentamente, me puxou sobre si e beijou-me eufórico. Retirei suas mãos de minha cintura, com risadas divertidas e prendi seus braços.
, isso é jogo sujo. – ele falou ao se deparar com as mãos presas.
Shiiiu... É pra ficar bem, bem quietinho, ok? Não queremos acordar ninguém...
Beijei a boca dele, e embora estivesse esperançoso, a única coisa que fiz, foi satisfazer carinhos a ele já que eu estava evitando relações naquele período. Lógico que ficou chateado, mas não tanto quanto ficaria caso eu tivesse o ignorado.
Depois de algum tempo, estávamos deitados na cama abraçados e em silêncio contemplativo.
— Você disse que tem outra proposta... – falei enquanto observava minha mão espalmada em seu peitoral.
Ele apertou-me em seu abraço e respirou fundo antes de dizer.
— Sabe... Quando eu disse “nossa cama” eu estava falando desta aqui... E não de uma cama de casal do futuro.
— Hm... Ok, mas... Eu ainda não entendi.
— Não acha que podemos devolver o seu quarto aos hóspedes e você... Se muda para o meu?
— Me mudar do meu quarto para o seu? – ponderei risonha.
— Sabe que não vai fazer muita diferença, não é?
Olhei para ele e respondi com um beijo.
— Amanhã você já traz as suas coisas!
— Que urgência é essa, hein? – brinquei.
— Quero viver minimamente o que poderia ser uma “vida de casados” com você, o quanto antes.
— Nossa... – balancei a cabeça incrédula — A gente vai se casar!
— E eu só vou esperar você dizer a data para marcar. Por mim, casávamos amanhã mesmo aqui na fazenda.
— Não senhor, eu quero tudo como tenho direito!
— Certo, certo... Você merece.
Abracei-me mais a ele, e ri sozinha quando pensei em nós dois vivendo juntos com uma família maior, assim como havia imaginado no dia anterior.
— Do que está rindo?
— Esses dias eu imaginei nós dois com nosso filho correndo pela casa, titia e aprontando na cozinha, e Rosa e Marcelo chegando com o seu sobrinho que já andava...
— Sério? – ele me olhou surpreso.
— Sim, por quê?
— Como ele era?
— O seu sobrinho? – perguntei confusa e o vi rolar os olhos.
— Nosso sobrinho! E não, não ele. Como era o nosso filho?
— Ah... – ruborizei — Tinha seus olhos, o seu nariz... Mas era parecido comigo também, embora alguns traços lembrassem mais à ... O sorriso dele era o mais lindo que eu já havia visto...
— Então ele era como a mãe... – sussurrou em meu ouvido e eu sorri abobalhada. — Era uma família linda. Eu nunca imaginei um dia que pudesse ter uma família daquela... Eu realmente espero que se torne real, .
Eu falei esperançosa e o sorriso dele com o selinho apaixonado foram uma resposta afirmativa.
— Será. Afinal, você se lembra de que pegou o buquê de Rosa? As coisas estão realmente acontecendo, não é?
Ele afirmou e eu concordei admirada por ter me esquecido daquilo.

Fim do Flashback

Percebi a água ferver e imediatamente tirei-a do fogo antes que secasse de novo. Coei o café e titia entrou à cozinha cantarolando.
— Bom dia! – falei animada ao vê-la.
— Bom dia minha mais nova nora!
— Oras, eu achei que já fosse sua nora antes!
— Agora é oficial! – ela abanou o ar com as mãos como se não fizesse diferença.
— E por que a senhora está tão animada hein?
— Ah, minha querida... Faltam dois dias para a virada do ano e eu sinto como se estivéssemos finalmente renovando todo um ciclo... A família crescendo... Eu apenas estou muito feliz!
— Isso é muito bom titia! – falei sorrindo e a abraçando.
— E você hein!? Já está tomando a minha cozinha! – ela falou tomando o bule de café das minhas mãos.
— Eu tenho apenas acordado mais cedo...
— Não sei por quê! Deveria ficar na cama com o máximo que puder.
— Tem razão! – eu ri — Mas, ele também tem suas obrigações com a fazenda não é?
— Eu sei querida, estou apenas brincando. Escute... Não é hoje que chegam os seus amigos?
— Sim! – falei animada.
— Então deixe tudo comigo aqui embaixo, prepare o quarto deles e termine de arrumar a sua mudança se quiser.
— Ah, isso eu já acabei. Não tinha muito, o quê levar para o quarto do .
Ficamos conversando enquanto terminávamos de preparar a mesa de café da manhã. desceu com ainda sonolenta, mas arrumada para ir à cidade com ele. Havia prometido a menina que a levaria para ver Lunia. Todos nos sentamos para tomarmos café, e Rosa chegou com Marcelo, com uma expressão cansada.
— Tudo bem minha filha? – titia perguntou ao ver o semblante de Rosa.
— Estou cansada, não tenho conseguido dormir direito mãe.
— É assim mesmo, filha.
— Não está sentindo nada estranho não né? – perguntou se aproximando da irmã com a mão à barriga dela.
— Não, está tudo certo. – ela falou e soltou uma piada para ele: — Por acaso você é médico?
— Estou só vendo se está tudo bem com meu sobrinho sua grávida chata.
— Eu não sou uma égua, só pra constar.
Ela falou sentando-se à mesa e todos riram. Assim que acabamos o café da manhã, Rosa ficou conosco na casa, já que Marcelo iria à cidade com e não queria deixá-la sozinha.
Entre diálogos acerca do almoço do dia, do almoço das festividades de ano novo, bem como as compras que seriam necessárias e ainda, sobre a vinda de meus amigos, titia iniciou o almoço da manhã, com Rosa e eu ajudando nos pormenores. Às onze horas eu subi para arrumar o quarto de hóspedes onde ficariam Anjinho e Vera, assim como o amigo que eles trariam e não haviam me dito quem era. Eu já esperava na verdade que David não viesse devido ao que ele disse no seu último telefonema, no entanto, Anjinho continuava afirmando que o traria. Talvez, houvesse o convencido. Em todo caso, arrumei os dois cômodos e foi realmente uma ótima ideia de liberar o meu quarto de uma vez, para ser um segundo quarto de hóspedes. Aquela casa andava recebendo muitos hóspedes e mesmo com o “quartinho de bagunça” que titia transformou em outro quarto para hóspedes quando eu estava em São Paulo, nós sabíamos que um a mais seria necessário com o tempo.
Quando eu terminei a limpeza rápida e a troca das roupas de cama e cortinas, desci colocando os que já estavam nos quartos dentro da máquina para lavar. Retornei à cozinha para ajudar titia, e faltando pouca coisa para o almoço estar pronto, a voz de Verônica falando alto pela casa, me fez sorrir animada e correr até ela.
— Eu nunca vou comer tão bem, como eu como nesta fazenda! – ela falou brincalhona na soleira da porta.
Larguei tudo indo abraçá-la. E logo estávamos todos recebendo os visitantes com falatório animado e muitos abraços. Marcelo, e que haviam ido à cidade aproveitaram para buscar meus amigos na rodoviária.
Depois de Ângelo e Verônica tomarem banho, almoçarem conosco e nós termos arrumado a cozinha, fomos Titia, Vera, Rosa e eu para a varanda do casarão. Rosa sentou-se na cadeira de balanço da titia, e a senhora a olhou sobre os óculos.
— Ah mãe, por favor, minhas costas estão ardendo...
— Só porque está gestante. – titia afirmou sentando-se com seu tricô no banco de madeira.
Eu sentei-me à escadaria da varanda com Vera ao meu lado.
— Não conseguiram convencer David mesmo, não é? – perguntei.
— Ele não quis vir. Não entendi muito bem, estava tudo acertado até o Natal.
— Ele deve estar com a família. Eu falei com ele no Natal.
— Amiga, ele não tem família. – Vera afirmou confusa.
— Como não? – titia e eu perguntamos juntas.
— David perdeu o pai numa ação policial e nunca conheceu a mãe. Ele morou com uma tia até se formar depois que o pai morreu, mas depois que essa tia faleceu também, ele ficou sozinho.
— Esse rapaz deveria ter vindo então. – titia falou certeira.
— Mas, ele me confirmou que estava em família no Natal.
— Ah amiga, você sabe como ele é... David é solitário e não gosta de ninguém se preocupando com ele.
— É... Ele me pareceu mesmo solitário... – falei pensativa.
Não entendi por qual razão David mentiria para mim no Natal, mas logo fui distraída por Verônica que pegou minha mão e olhando o anel se levantou eufórica com a mão na boca.
— Ele pediu!? – ela perguntava ansiosa.
Eu olhei para as outras duas mulheres na varanda que nos encaravam divertidas.
— Sim. – respondi fingindo desinteresse.
— Mulher! – Vera gritou me puxando num abraço — Até parece que você está lidando com isso, nessa calma toda!
Hey! Eu não era igual a você que tinha aversão à ideia de casar, tá? Só não imaginava...
— Ela fica o dia todo olhando esse anel... – Rosa disse sorrindo zombeteira.
— Eu também fiquei assim. – Vera respondeu sorrindo e Rosa concordou com ela — Quando foi isso? E por que não me contou!?
— Foi no almoço do dia 25, e eu quis esperar você chegar pra ver a sua reação.
— Já marcaram data?
— Não, ainda não. Por ele, tínhamos casado já, mas... Quero fazer tudo direitinho, e quero esperar ao menos acabar o julgamento.
— Bobagem! – Vera falou categórica: — Esperar para organizar tudo sim, mas por causa do julgamento não! Você não será condenada e não tem por que esperar.
— Vera... – suspirei contrariada e ela me interrompeu.
— É só o que eu acho.
— E como estão você e o Anjinho?
— Estamos um pouco melhor...
— Um pouco?
Perguntei e fiquei sem resposta, já que e os outros surgiram chamando nossa atenção.
— Rosa na cadeira da mãe? – parou com mãos na cintura olhando a cena.
— Só porque ela está gestante com dor nas costas. – titia falou sem desviar atenção dos pontos de tricô.
— Você terá que ficar grávido para sentar aqui, . – a irmã zombou.
— Você ouviu né ? – ele me falou e eu o olhei, confusa: — Ela não vai poder me tirar daquela cadeira quando eu estiver esperando nosso bebê.
Nós rimos e eu revirei os olhos. Marcelo foi buscar uma almofada para a esposa por nas costas, e retornou da cozinha com um pote de pão de queijo nas mãos e sentou-se no colo de Verônica, fazendo minha amiga e seu noivo sorrirem com aquilo. Os três conversaram sobre os presentes de Natal que havia ganhado, e eles haviam trazido outros também para ela, e nós todos da casa.
me puxou pela mão pedindo que fosse com ele ao galpão da marcenaria. Havia acabado a cadeira de balanço da Rosa e combinou com Marcelo que a colocaria no quarto do bebê logo. Então, queria minha ajuda para levar a cadeira. Disse que não estava tão pesada, e se Marcelo fosse levantaria suspeitas.
Quando o indaguei por que daria o presente naquele momento, já que a ideia era esperar o bebê nascer ele falou que com os sintomas crescentes da gravidez, o cansaço, o peso nas pernas e dores no corpo, ele achou que seria útil para a irmã, tê-la logo.
Assim que retornou para sua casa, arrastando os pés, cansada e com as mãos nos quadris, Rosa pediu para que nós ficássemos à vontade enquanto ela ia tomar um banho. Diferente do casarão, a casa de Rosa não tinha dois andares. Assim que chegávamos à entrada da casa, com uma varandinha externa parecia-se com a casa da mãe dela. A sala era ampla, com uma decoração simples, mas menos rústica. O quarto do bebê era o primeiro do corredor frente à sala, e os dois pais ficavam ao lado, o terceiro quarto era de hóspedes. No fim desse corredor ficava o banheiro social e no outro lado da sala, a copa e cozinha. Era uma boa casa.
Assim que entrou pelo corredor em direção ao seu banheiro, Rosa passou olhando o quarto do bebê. Parou à porta, estática. E olhou na direção de e eu que a observávamos no meio da sala.
— O que houve amor? – Marcelo perguntou curioso.
— Foi você, não foi ?
Ela perguntava se esforçando a caminhar até o irmão, que para poupá-la, soltou-se de mim e foi até a irmã chorosa e abraçou-a. Rosa parecia uma menina com o melhor presente do mundo. De fato, havia um significado importante naquele gesto.
Os irmãos entraram sorridentes para dentro do quarto, e falantes. Rosa dava suspiros relaxada, ao sentir o estofado da cadeira construída pelo irmão. Marcelo e eu olhávamos os dois do batente da porta, extremamente contagiados pela alegria de Rosa. Logo, ele foi em direção à esposa, ajudando-a a levantar para que enfim ela fosse ao banho. e eu decidimos deixá-los, e caminhamos satisfeitos de volta para a casa. Titia e contavam qualquer coisa engraçada à Verônica e Ângelo, pois eles não paravam de sorrir. Juntamo-nos a eles para descobrir enfim, que se tratava das peripécias de na escola.
Após o jantar daquela noite, estávamos conversando os dois casais de noivos, dormia e titia também. acendeu uma fogueira no quintal, e nos sentamos à varanda, bebendo chá, agasalhados em nossos respectivos pares.
— Amiga. – Vera me chamou ao notar que Anjinho foi mexer no fogareiro e buscar mais chá para nos servir.
— Sim? – respondi.
— Ângelo já falou com você sobre o caso?
— Não. Por quê?
— Ele descobriu umas coisas novas, mas... Relaxe, ele vai contar no momento oportuno então.
Argh Vera... Odeio quando você faz isso. – falei irritada e ela riu sapeca — Então... Mudando de assunto. Pode me responder agora como vocês dois estão?
Ela encarou o noivo ainda mexendo no fogo, e suspirou pesadamente.
— Estamos bem. – sorriu, mas não conseguia me enganar.
Eu conhecia Vera muito bem para saber que eles ainda estavam se acertando. chegou servindo a bebida quente, Anjinho retornou risonho abraçando Vera e me dizendo:
— Realmente, . Não tem como querer ir embora daqui. Agora te entendo.
— Vocês podem se mudar para cá quando casarem! – falei animada.
— Não. Não, né amor? – Vera perguntou duvidosa e nós rimos.
— Você é uma garota urbana demais, não é Verônica? – perguntou.
— Eu ainda não sei como a se adaptou.
— Ela tinha um motivo forte pra se deixar adaptar. – respondeu convencido.
— E que sem dúvidas não era você. – respondi.
— Vocês realmente são muito parecidos. – Anjinho falou e nós rimos.
— E aí, quando vão se casar?
me olhou em dúvida diante à pergunta de Verônica.
— Eu não sei. Estamos ainda sob o efeito da surpresa.
— Por mim... Temos uma autoridade policial e uma jurídica aqui. Podemos nos casar agora.
— Eu já falei que quero tudo conforme sonhei! – falei impassível.
— E eu só quero você. O quanto antes.
Meus amigos riram e zombaram da declaração dele, e eu o beijei timidamente.
— Desse jeito, não vai caber no vestido. – Anjinho zombou.
Eu encarei constrangida aos meus amigos e notei o desconforto de Vera com a piada do noivo. Eu também já estava farta daquilo. Então, mudei de assunto rapidamente:
— Por que David não veio Anjinho?
— Sério que você vai mudar o assunto falando no policial? – me encarou incrédulo.
, não começa.
— Ângelo... E você e Vera? Pretendem ter filhos logo após se casarem? – ele me provocou.
Percebi o constrangimento no casal à frente e cutuquei , trocando mais uma vez o assunto, reticente.
— Vamos falar de David. Por que ele não veio?
— Ele iria mesmo vir, mas surgiu um trabalho para ele. Internacional. Ele está na Espanha e eu não sei mais detalhes, mas certamente, ele vai curtir bem a virada de ano, não?
Rimos e eu não pude deixar de constatar:
— Sem dúvidas. Se tratando de David, ele vai virar o ano muito bem acompanhado das espanholas.
— Algum problema nisso? – novamente alfinetou.
— É impressão minha ou você morre de ciúmes do David? – Vera perguntou risonha.
— Ele não pode ouvir falar no nome dele. – respondi.
— Faz bem .
Anjinho colocou lenha na fogueira. E não era na fogueira que nos aquecia, era na fogueira do ciúme.
— Ah é, Ângelo? Conte-me mais a respeito... – falou calmo, mas eu sabia que por dentro ele estava buscando razões para me azucrinar.
— Porra , sério? Vai mesmo procurar assunto pra gente brigar?
— Por que você está nervosa?
— Por que você é um infantil.
Eu disse e me levantei. Todos fizeram o mesmo, e nos direcionamos para dentro da casa. Meus amigos perguntaram se estava tudo bem e eu disse que sim, que apenas estava dando um jeito de fazer o se arrepender de me irritar. Anjinho e Vera riram, e os dois subiram sendo acompanhados por e eu. Ele me esperava na porta do quarto dele, enquanto eu abraçava Vera. Ela olhou na direção dele e riu me fazendo olhar para trás, com a minha expressão de poucos amigos. estava de braços abertos me esperando.
— Seu noivo está arrependido. Acabe com ele. – Vera piscou e sorriu se despedindo.
Aproximei-me dele, que mantinha um sorriso travesso e os braços ainda abertos. Empurrei-o e não dei ideia para sua gracinha.
— Amor... – ele falou arrependido me abraçando por trás.
, para. É sério! Foi ridículo o que você fez!
— Por que ficou tão irritada por eu querer saber as intenções do fardinha com você?
— Porque soa ridículo você perguntar aos meus amigos, algo que eu já disse a você!
— Amor, eu só estava te irritando. Você sabe que eu confio em você.
— Eu não sei de nada . Tem horas que você é mais imaturo que .
Ele suspirou fundo encarando-me indo deitar sem dar a ele alguma atenção.
— Você que está sendo imatura reagindo assim... – ele deitou-se ao meu lado ainda me encarando — E depois, porque tanto interesse em saber os motivos para ele não ter vindo?
— Está vendo! – constatei encarando ele ainda mais brava — Você não estava brincando, estava de fato com ciúme.
— Claro que eu tenho ciúme! Você continua paranoica com esse assunto de gravidez, e lembra-se de outro cara para mudar o assunto?
— Uma coisa não tem nada a ver com a outra, !
Ele me encarou assustado por meu tom de voz.
— David mentiu pra mim. Disse que estava passando o Natal em família, enquanto Vera me contou que ele não tem família. Eu ainda estou pisando em ovos com as pessoas à minha volta. Eu queria entender a justificativa dele para não ter vindo.
analisou a situação com mais frieza.
— Acha que ele pode estar do lado do tal Lucas?
— Ele tem me ajudado muito na verdade, mas... Ao troco de que?
— Certamente a troco de te levar pra cama dele.
Pronto, estava de volta o maníaco do ciúme. Encarei , chocada.
— Eu não estou insinuando que você seja esse tipo, mas pode ser o interesse dele...
. – falei interrompendo-o e olhando em seus olhos, séria: — Isso não vai dar certo.
— O que?
— Se você não amadurecer, não adianta nada colocar um anel no meu dedo.
— Eu só não consigo me sentir confortável com esse cara!
— Você age igual à época em que eu namorava o Gabriel, e não, isso não é insegurança, é pirraça. Meu Deus, eu não posso me casar com um homem que eu vou ter que ficar educando como um filho.
— É isso que você pensa mesmo?
Eu já previa que ele ia se levantar, e dar um chilique, mas na verdade, pegou seu celular e o desligou. Apagou o abajur ao seu lado, tirou sua camisa, porque dormir sem roupa independente da atmosfera era característica dele, jogando-a na cadeira da escrivaninha. Beijou minha testa dando-me boa noite, e fechou os olhos para dormir.
Eu encarei aquele ritual todo um pouco perplexa. Ele não ia mesmo render assunto? Ele havia ficado bravo? Não, não era a reação comum a quando, ele não queria nem ouvir a minha voz.
Apaguei o abajur do meu lado, e me ajeitei na cama ainda fugindo olhares para ele. A respiração calma dele era notória pelo movimento de seu tórax. E lá estava eu a encarar a expressão tranquila de a tentar dormir. Quando me dei conta eu estava pensando, se no fim das contas eu estava certa ou errada. E ao olhar para ele de novo, disposta a chamá-lo, se virou de costas tranquilo.
Fui tomada de um desejo tão absurdo de mudar aquela situação, pois parecia que eu havia voltado à época em que ele me ignorava. Eu preferia mil vezes as crises de ciúme dele, do que me ignorando de novo. Vê-lo dormir de costas para mim, me levou à memória de quando viajamos juntos para São Paulo e tivemos que dividir a cama. E todo o retorno daquela viagem veio à minha mente, me deixando assustada. Completamente apavorada de voltar atrás.
Tirei minha blusa e apenas de sutiã, puxei fazendo-o abrir os olhos, assustado e me encarando confuso. Sentei-me sobre o corpo dele e me lancei a beijá-lo.
— O que está fazendo !? – ele perguntou confuso e alterado.
— Nunca mais me ignore desse jeito. – falei retirando o sutiã e voltando a beijá-lo.
Pronto.
Nenhum David nos faria dormir brigados daquele jeito, de novo.
Nos dias que se seguiram até a virada do Ano, as festividades da fazenda iam sendo preparadas. Tudo foi maravilhoso, nossos amigos mais próximos foram passar ano novo conosco. A família de Guino também. Mas, infelizmente, o dia de ir embora se aproximava e eu já percebia o clima entre as pessoas tornando-se menos animado.
me fez prometer que não demoraria mais a vir vê-la. E eu a fiz prometer que daria um jeito do pai dela levá-la para São Paulo para me visitar, caso eu demorasse.
No último dia ali, eu retornaria com Anjinho e Vera. E o dia havia chegado. Era 02 de janeiro de 2019, e meu coração sangrava profundamente.
Naquela semana de final de ano, descobrimos tanta coisa, que minha sensação era de que se eu me afastasse de novo, eu estaria perdendo a minha vida ali. Descobrimos que Lúcia havia terminado seu noivado, que titia e Guino planejariam morar juntos assim que eu e nos casássemos. Descobrimos também que Belinha e Gabriel haviam voltado a namorar. E descobrimos que eu não estava grávida. No dia 31 de dezembro, eu passei mal a maior parte do dia e aquilo acendeu um alerta absurdo na minha cabeça. ao notar os sintomas, ficou tão eufórico quanto eu e antes do jantar da virada de ano, me puxou para o quarto.

Flashback
31 de dezembro de 2018.

— O que é isso? – perguntei alarmada encarando o homem ansioso à minha frente.
— Você sabe muito bem o que é, e pelo amor de Deus faça logo esse exame. Eu passei o dia inteiro tendo picos de pressão.
— Por que você...
. – ele me interrompeu puxando meu rosto para beijá-lo castamente — Eu vi você ficar tonta, e enjoada o dia inteiro com o cheiro da comida sendo preparada.
— Droga, será que mais alguém notou?
— Amor, olha... Eu não me importo se tiver acontecido, mas, por favor, vai logo matar essa dúvida antes que ela nos mate.
Encarei a caixa do exame em minhas mãos, e fui ao banheiro do quarto. Quando voltei, andava de um lado ao outro roendo as unhas. Encarei a cena e não evitei um sorriso admirado por perceber a mesma euforia do dia que ele aguardava Rosa com o resultado.
— Você não se importa de ficar toda hora comprando exame de gravidez na farmácia, não? – perguntei.
— Por quê?
— A cidade inteira deve estar pensando que você está tentando fazer outro filho.
— Claro que não, Carlinhos é muito discreto. E da primeira vez eu contei a ele que era para Rosa.
— Mas agora não era.
— É. Agora eu falei para ele torcer por mim.
— Torcer pra ser negativo ou positivo?
— Apenas torcer! , por Deus, me dá isso aqui!
impaciente tirou a fita de minhas mãos a olhando confuso.
— O que foi?
— Eu não lembro o que significa um tracinho.
— Eu não estou grávida, .
A expressão dele me cortou o coração. ficou me encarando de olhos arregalados e sem emitir nenhum som. Sentou-se na cama olhando para o chão pesaroso e respirou profundamente.
— Isso não significa que não ficarei um dia. – falei ao notar sua tristeza a fim de consolá-lo.
— Eu sei. É só que...
— Você se deixou levar pelas expectativas.
— Eu sei que você não queria agora, mas... Eu realmente fiquei esperançoso.
Sorri e beijei profundamente, o homem que eu amava e que certamente, um dia seria pai dos meus filhos.

Fim do Flashback

Entre tantas descobertas, Ângelo decidiu me permitir novas descobertas apenas quando estivéssemos no avião. E eu não entendi por qual razão fazer aquilo, até saber o que ele tinha a me contar.
Eu tinha acabado de afivelar meu cinto em minha poltrona ao lado de Vera, e enviava uma mensagem ao para tranquilizá-los de que já estávamos no voo. Anjinho e Vera se olhavam estranhos, como se eu, uma exímia policial não fosse notar.
— Eu vou ter que iniciar um interrogatório ou vocês dois começarão a falar? – perguntei terminando de configurar meu aparelho em “modo avião”.
— Eu quis te falar na fazenda, mas acho que poderia gerar uma tensão desnecessária?
— Tem a ver cm o David, não é?
Vera e ele me olharam confusos e surpresos e eu me expliquei:
— Não engoli ainda o motivo de ele mentir pra mim no Natal.
— Ah... – Anjinho sorriu como se eu estivesse sabendo menos do que ele — Bem, não tem a ver com ele, mas sim com a Bruna.
— Então fala logo!
— Bruna e Lucas estão relacionados.
— Como assim? – perguntei confusa.
— Ela é uma modelo internacional que tem ligação com alguns dos empresários que coincidentemente tem relação com Lucas.
— Coincidentemente? – perguntei encarando a fala de Vera como ingênua demais. — Ao que eu pude traçar... Lucas e ela tem algum caso. Ou tiveram. A questão é que... Bruna pode não ter reaparecido pelos motivos que você achava . – Anjinho afirmou.
— Isso explicaria ela saber sobre o meu processo e me ameaçar daquele jeito.
— É, mas... O que eu tenho apontando pro Ângelo, , é o quão estranho é logo a Bruna. Não é como se ela fosse uma peça chave que o Lucas encontrou agora. Ela já tinha alguma relação com ele, antes de você e terem os seus caminhos cruzados.
— Então... Estão me dizendo que o fato de, Bruna ser ex de e estar relacionada ao Lucas, é de fato uma coincidência?
— Estamos averiguando isso.
— Como assim, Ângelo? – perguntei mais impaciente.
— Não posso dar mais respostas agora, porque não as tenho , mas tem gente nossa investigando isso.
Ele disse e eu realmente vi o meu mundo girar. Eu não conseguiria esconder essa informação na fazenda. E duas coisas me dilaceravam o peito. A primeira, encarar Bruna como uma inimiga além de ser um fantasma no passado de . A segunda, encarar o fato de que ela realmente, não dava a mínima para . Eu estava decidida a colocar aquela mulher no devido lugar dela. Seja ele fora ou dentro de grades penitenciárias.


Capítulo 26 - De volta às Terras Paulistas

Depois de semanas em que havíamos retornado a São Paulo, a vida cotidiana voltara ao seu fluxo. Quero dizer que, os fóruns, tribunais e trabalhos jurídicos estavam reiniciados. David havia retornado de sua viagem, a qual Ângelo me dissera, mas nós ainda não tínhamos nos visto, ou nos falado. E eu estava com meu faro irritado ao pensar naquilo. Ainda não tinha engolido a mentira dele. David não me parecia o tipo de homem que evitaria , por qualquer que fosse o sentimento, na verdade, David era o tipo de homem peitudo o suficiente. Tanto quanto . Era sobre aquela pequena incoerência que eu pensava quando Ângelo surgiu no quarto de hóspedes me chamando. Deixei as roupas que eu arrumava em uma mala – já que havia decidido ir logo para o apartamento de Anjinho até que todo o processo finalizasse – e fui em direção a ele. Ele estava novamente com vários papéis sobre a mesa de centro da sala, seu notebook aberto observando algo. Vera pegava suas chaves para sair, e mal me escutou perguntando aonde ela iria.
— Está tudo bem com a Vera? – perguntei ao seu noivo concentrado em seus trabalhos na sala.
— Ela foi comprar alguma coisa para fazer não sei o quê de almoço.
— Hm... Está tudo bem entre vocês? – perguntei ainda mais desconfiada.
Ângelo respirou fundo, retirou os óculos e me encarou suspirando cansado. Sua expressão cansada e ao mesmo tempo irônica havia me dado a resposta que eu já conhecia. Puxei meu amigo para recostar sua cabeça em meu colo, assim que me sentei ao seu lado no chão.
— Acho que vamos ter que nos casar logo , se não eu corro o risco de perder o amor da minha vida.
Eu fazia cafuné em seu cabelo, com uma expressão confusa de quem havia perdido coisas demais desde o Natal.
— O que está acontecendo? Por que diz isso?
— Eu sei lá ... A Vera... Ela está estranha sabe? Parece que ela não quer mais.
— Não quer mais casar? Ela te falou isso Ângelo? – minha voz saiu bastante duvidosa e surpresa.
— Não. Não disse, mas sabe quando as suas atitudes falam mais do que as suas palavras?
— Eu acho que você está errado. Ela estava muito animada na fazenda, contando os preparativos do casamento para titia, Rosa e eu. Não é isso! Mas, eu acho que eu sei o que está acontecendo amigo. Deixa comigo, eu vou conversar com ela.
— Então converse, por favor. E se você descobrir algo que eu não sei me conte . Promete?
Encarei o olhar urgente do meu amigo que não só estava preocupado, mas também com medo, e me detestei. Eu já sabia de algo que ele também deveria saber, mas me parecia que não. Verônica ainda não deveria tê-lo dito sobre a sua infertilidade e por medo de como a notícia cairia sobre o casal, das duas uma: ou ela estava adiando até o casamento, ou tentando minar a probabilidade de se casarem, em silêncio.
— Promete ? – ele perguntou de novo em dúvida pela minha demora.
Certamente Anjinho logo desconfiaria.
— Claro! Prometo.
— Ótimo. Agora vamos trabalhar.
Ângelo pegou alguns papéis sobre a mesa e entregou em minhas mãos.
— Reconhece algum destes processos?
— Bem... Deixe-me ver... – li atenta aos ofícios em minhas mãos e neguei com a cabeça à medida que não encontrava nada, recolocando-os sobre a mesa até encontrar um: — Martha Melo de Soares, 30 anos, desaparecida em 2001...
— Conhece esse?
— Eu me recordo de uma senhora me abordar na delegacia querendo indícios desse caso. Havia sido arquivado, e eu ainda não era delegada nomeada em primeiro cargo, estava de suplente... Eu havia recém chegado à delegacia, como substituta do Paiva e estava tão concentrada no caso do assassinato dele, que eu demorei a verificar este inquérito. Era a mãe dessa moça, que buscava notícias do caso. Lembro que quando eu fui averiguar, não só este, mas... Uma sequência de casos de desaparecimento de mulheres em diferentes datas havia sido arquivada sem ao menos passar por uma investigação de primeira instância. Eu achei aquilo estranho, mas repassei a continuidade do inquérito dessa mulher a um policial encarregado porque eu não podia parar nem um minuto do caso do Paiva.
— Você reconhece alguma dessas mulheres? – Ângelo virou o notebook para mim repassando uma sequência de fotos.
— Sim! – eu respondi alarmada e apontando quais eram as que eu havia visto nos inquéritos arquivados — Estavam essas todas nos inquéritos parecidos aos de Martha.
... Sua delegacia está vendida. Algumas das suas águias continuam trabalhando lá dentro, mas outras fora se transferindo, porque depois do que te aconteceu ficou mais difícil permanecer por lá quem trabalha limpo. E sabe... Ter suas águias espalhadas em outras corporações é uma estratégia que nos ajuda muito.
— Meu Deus Anjinho! Nós precisamos achar quem são as peças corruptas da minha DP.
— Nós vamos achar, fique tranquila.
— Tá certo... Mas, isso é caso para a Federal Ângelo.
— Eles já estão trabalhando nisso.
— Estão? – perguntei confusa e um pouco irritada por saber que havia mais coisas das quais eu não sabia.
— Na verdade, tem gente da Federal trabalhando com a gente . – ele falou tranquilo. — Gente de confiança que foi indicada por mim, e também por alguns dos seus...
— Mas qu... – o interfone do apartamento tocou e Anjinho foi atender.
Enquanto ele atendia a porta, eu pensava minuciosamente na situação. Lucas era promotor de vários casos da minha DP na época, e não seria estranho ter o dedo dele naqueles inquéritos de mulheres desaparecidas, uma vez que nós já estávamos trilhando o tráfico internacional de mulheres que recaía em suas costas.
— E aí gracinha, sentiu minha falta?
Ouvi a voz conhecida e olhei em direção à porta me deparando com um Ângelo risonho, e um David um tanto quanto sorridente.
— Ora, ora, se não é o senhor Mentiroso?!
Levantei-me o cumprimentando e ele me puxou para um abraço mais apertado.
— Mentiroso, eu?
— Não foi você quem disse que passou o Natal em família?
— Ah... Eu não ia ficar contando minha história triste para você não é?
— Sei... – olhei Anjinho que nos observava risonho da bancada da cozinha, e olhei novamente para David constatando: — É ele não é, Ângelo?
— Sim . David é o nosso Federal.
Tã-daaan! – David abriu o braço brincalhão.
— Por que não me contou antes, Anjinho?
... Você sabe como é uma situação minuciosa.
A porta da sala abriu revelando Verônica afoita com muitas sacolas de compras. David foi até ela ajuda-la e cumprimentou-a. Eu rapidamente fui à cozinha ajudar minha amiga, na verdade, a doida da Vera comprou o almoço todo em restaurante.
— Comida pronta Vera?
— Eu me esqueci de que o “tira dos sonhos”, viria!
— “Tira dos sonhos”? – perguntei confusa.
— Esse gostoso que aqui vos fala. – David falou em meu ouvido parando atrás de mim, me surpreendendo.
Afastei-me rapidamente e Vera riu enxotando ele da cozinha.
— Eu vim ajudar! – ele reclamou.
— Você quer é ficar cheirando a aqui na cozinha, sai David, anda!
Ele saiu rindo e eu continuei organizando as comidas nas travessas de servir, sem dar trela para ele.
... – Verônica aproximou-se manhosa e me cutucou atrevida: — Ele é apaixonado por você. Você sabe né?
Encarei minha amiga totalmente de queixo caído com a fala dela.
— O que é isso Verônica?! E o que você quer que eu faça?
— Eu nada... Só que me dá uma peninha...
— Eu fico triste por não poder corresponder os sentimentos dele, mas... Vera, eu amo o e não acredito que você está insinuando isso.
— Não insinuei nada, só disse que ele é apaixonado por você, e há anos! Você bem podia tratar ele com mais carinho.
— Ah Verônica! Faça-me o favor! – falei enérgica enxugando minha mão na toalha: — Você é que podia tomar vergonha na cara e cuidar do seu casamento ao invés de ficar passando pano para o David.
— O que você está dizendo? – ela me perguntou atrevida.
— Estou dizendo que o Anjinho está pensando que você quer desistir do casamento! E eu sei que você não contou pra ele! Então, tome vergonha na sua cara!
Saí levando a comida para mesa, em seguida, ela trouxe outras travessas e os rapazes se levantaram para nos ajudar a por a mesa. Almoçamos, David fez piadas sobre “poderia estar perfeito se fôssemos dois casais amigos”, Anjinho e Vera se colocaram a organizar tudo enquanto David e eu conversávamos sobre suas investigações.
Ele e eu nos sentamos ao redor da mesa de centro da sala, onde os mesmos papéis continuavam expostos.
— É o seguinte . Vera e Ângelo já estão cientes de tudo, e não podíamos falar nada pra você antes para não comprometer minha investigação. Estou na cola do Lucas há um bom tempo, e quando soube do seu inquérito, outras questões nos levaram a observar as pistas novas que iam surgindo. Ou seja, nossos casos se relacionam até certo grau.
— Então você estava me observando este tempo todo?
— Não. Estava mais como um segurança. Quando Ângelo me procurou para falar que estava num caso de investigação contra Lucas, eu já sabia tudo a seu respeito. Eu observei o relacionamento de vocês há alguns anos... Enfim... O fato é que agora você pode saber tudo e ainda pode contribuir com mais...
— Como?
— Lucas é líder de uma quadrilha internacional de tráfico e prostituição feminina, . E ele tem autonomia da justiça para algumas ações. O caso de Rubens Paiva se relaciona a ele, porque Lucas também é canal de tráfico internacional de drogas. Não é o líder dessa quadrilha, mas tem um dedo sujo nisso também.
— Já tem as provas todas?
— Tenho o suficiente para ele ser preso, depois de muitos anos de investigação apurada, mas nós precisamos além de prendê-lo indiciar os cúmplices. Por isso, estamos averiguando cada pessoa que tem relação ao Lucas com muita cautela.
— E onde é que você estava nessa viagem?
— Na Espanha... Ah ... As espanholas são realmente especiais.
— Você não consegue ficar um momento falando sério? – perguntei revirando os olhos.
Ângelo e Verônica se aproximaram, e juntaram-se a nós nos casos investigados.
— Eu já a informei sobre a Bruna, David. – Anjinho disse ao policial que desfez a expressão tranquila concentrando-se novamente na conversa anterior.
— Bem, pelo que entendi ela é ex-namorada do seu atual namorado não é? – ele perguntou-me sério.
— Não só isso, eles tiveram uma filha e tempos atrás a Bruna ressurgiu depois de muitos anos longe, segundo ela, pela filha.
— Me conte com todos os detalhes que você souber , a história dos dois.
Respirei fundo desacreditando que eu teria que lidar com aquele tipo de problema a mais.
— Ela é de Mato Alto, e os dois se conheceram na infância. Foram apaixonados na adolescência e então ela engravidou logo que eles terminaram a escola. Pelo que eu soube a Bruna sempre foi muito ambiciosa, sempre sonhou sair da cidade, ser modelo. E ela tinha um agente interessado quando descobriu a gravidez. Por causa disso ela quis abortar, mas...
Parei de falar e recordei de titia me contando aquela história. As coisas realmente faziam algum sentido.

“— Rosa e eu nos mexemos muito para encontrar o tal agente que queria lançar ela e convencer o homem a esperar a gestação. Por sorte, ela é realmente linda e ele se interessava muito na carreira da Bruna, não queria perdê-la. Questões de lucro… Esse mundo é tão supérfluo…”.

? – Anjinho me chamou interrompendo meus pensamentos.
— Lembrei-me de uma coisa que pode fazer mais sentido agora... A Bruna estava selecionada por um agente, como eu disse, mas desde que titia me contou, eu fiquei surpresa com o fato de que o homem esperou a gestação inteira dela, para levá-la. Quero dizer... Normalmente, uma gravidez faria a agência desistir dela, e buscar outra, mas... Ainda assim ele se mostrou muito interessado na carreira dela.
Quando terminei de falar, David pegou um envelope que tinha trazido consigo, e retirou algumas fotos e me mostrou.
— Esta é a Bruna?
— Sim... Mas... De quando e onde são estas fotos?
Mais uma vez eles se entreolharam como se soubessem de algo horrível.
— Termine de contar sobre o retorno dela , por favor.
Eu não me lembrava de ver David tão sério e profissional.
— Ela teve a filha, entregou para o pai e desapareceu. Foi seguir carreira internacional como modelo, e só foi revista quando retornou à cidade. Ela chegou um tempo depois que eu já morava lá. Foi direto à fazenda, exigir ver , me conheceu e depois foi à delegacia da cidade me procurar. Disse saber do meu processo, me ameaçou dizendo para eu me afastar de e diversas vezes. Primeiro ela queria forçar o encontro com a filha, e nós intermediamos aquilo, mas em seguida o interesse dela se mostrou em reatar com . E na última vez que eu me lembro... Ela ameaçou tirar a filha dele se ele não se separasse de mim.
— Onde ela está agora, você sabe?
— Não. Ela esteve na cidade de novo, mas eu estava aqui. Pelo o que eu soube ela foi com desculpa de se reaproximar de de novo, mas na verdade, ela atacou a criança com uma conversa fria e cruel de que nunca quis ser mãe da ... Enfim... Foi confundir a menina. Eu não tenho notícias dela mais, geralmente ela fica aqui em SP quando vem ao Brasil, pelo que descobrimos.
David retirou outras fotos do envelope e me mostrou.
— O que...? De quando são estas fotos, David!? – perguntei confusa e furiosa olhando para ele.
— É da época em que você e Lucas estavam juntos sim. Bruna foi uma das mulheres enganadas pela quadrilha . Ela foi levada à Milão sobre o pretexto de ser uma supermodelo, e aí Lucas ordenou fazerem com ela o que faz com todas. Primeiro ele oferece um mundo de ilusão, e quando a vítima chega ao outro país, ela de fato se torna modelo, e começa a ter um gostinho do que era a promessa. Enquanto isso ele observa quais eles vai selecionar para serem acompanhantes de luxo, e quais serão prostitutas de boates. Depois que a vítima está convencida de que conseguiu o que queria, eles começam a viciá-las em drogas, e aí elas se tornam presas manipuláveis. Pelo vício começam a fazer tudo o que eles querem fora as ameaças com familiares. Algumas, como é o caso de Bruna, conseguem muito mais do que outras. Ela no caso foi uma acompanhante de luxo, e de fato é uma supermodelo reconhecida. Mas, concidentemente, ela é também amante de Lucas há anos, e por isso hoje Bruna é cúmplice dele. Uma espécie de gerente das mulheres... Uma cafetina executiva.
Meu queixo foi ao chão. E meus olhos se encheram de lágrimas em pensar que ela só se aproximou para tomar .
... Ela... – eu começava a respirar mais rápido, até que David pegou minha mão me acalmando.
— Não, não. Acalme-se. O alvo dela não é levar . Pelo menos, não é o que nos apontam os vestígios. O fato é que Lucas descobriu a ligação dela com , e colocou Bruna como uma personagem para atingir você.
— Não faz sentido David! – levantei andando de um lado a outro, confusa, e David levantou me observando também — Ela não tentou me atingir em nenhum momento até agora!
— Tem certeza ? – Anjinho me perguntou como se eu não estivesse entendendo.
— Te desestabilizar psicologicamente é importante pra te levar ao desespero de ceder ao Lucas, amiga. – Verônica falou.
— Você acabou de contar que ela veio tentando tirar tudo o que era importante pra você , através de . Seja tirando ele de você, ou o fazendo sofrer. – David constatou.
Aproximei-me de David e com os olhos cheios de lágrima, e queixo caído, abracei-o como se quisesse que tudo o que eles disseram fosse mentira.
Meus amigos se juntaram a nós no abraço e Verônica me fez sentar no sofá. Eu segurava minha cabeça entre as minhas mãos, e chorava. Eu queria que esse pesadelo acabasse, mas tudo parecia impossível.
. Nós vamos trabalhar duro pra isso tudo acabar o quanto antes. – David falou segurando minha mão, compreensivo.
— Certo. – levantei o rosto, decidida a parar de chorar e resolver tudo: — Vocês disseram que eu só sei disso tudo agora, porque vocês precisam da minha ajuda. O que eu tenho que fazer?
, calma. Não precisa se envolver mais do que já se envolveu até agora. – Ângelo disse paciente, mas David o cortou.
— Precisa sim Ângelo! A pode fazer o quebra-cabeça todo encaixar!
— David, ela ainda é minha cliente, e ainda está num processo! Eu não vou expor à a outros riscos.
— E você acha mesmo, que eu, logo eu vou expor a ?
David e Ângelo se encaravam face a face bravos e eu nada entendia. Verônica intrometeu-se entre os dois homens, e com certeza havia muita coisa ali que eu desconhecia.
— Vocês, se acalmem. – Vera falou respirando fundo: — pode realmente ser crucial para que o andamento das investigações de David se cumpra, Ângelo.
— Eu sei que ela está fora de indiciamentos, cara! O seu trabalho agora é só comprovar a inocência dela, e com os resultados dessa briga, a gente pode conseguir fazer a ...
— Não. – Anjinho interrompeu David enquanto eu só olhava a tudo — Temos que separar as coisas. Eu temo que seja posta como cúmplice dele se o Lucas desconfiar um terço do que está acontecendo aqui. E dois processos acusatórios podem ferrar todo o trabalho já feito até aqui. Eu preciso livrar ela de uma acusação, primeiro.
— Certo, eu não vou usar da autonomia da PF pra isso. Eu não quero prejudicá-la. – David respondeu irritado ao Ângelo.
— Eu ainda estou aqui! – falei já brava por eles conversarem como se eu fosse uma criança na mão de adultos.
— Eu explico amiga! – Vera falou sentando ao meu lado: — Primeiro ninguém na fazenda pode saber de absolutamente nada. Isso pode colocar tudo a perder. Como Lucas traiu você com a Bruna, é possível que existam vários vestígios da época em que vocês eram noivos. Como aquela vez que você reconheceu o nome de Adenor Martins vinculado ao Lucas, mas para isso, você teria que seguir com o David nas investigações da Federal. Só que Ângelo acha melhor nós pelo menos tentarmos uma armadilha pra Lucas, e assim provar sua inocência nesse inquérito primeiro.
— Eu não posso fazer as duas coisas ao mesmo tempo por quê? – perguntei óbvia.
— Ela é das minhas. – David sorriu ladino e piscou um olho para mim.
— Por que não vou arriscar jogar tudo que já conseguimos até aqui para o alto assim, . – Ângelo disse enérgico.
— Ok. Então, executamos seu plano primeiro, e depois eu vou com o David pra onde for preciso. — Eu queria tanto que essa frase tivesse outros sentidos... – David fez piada quebrando o clima tenso entre nós.
Finalizado aquele momento de descobertas, nos reunimos na cozinha para tomar café.
David estava sentado na bancada com Anjinho, Vera coava o café quando eu surgi com minha mala na porta.
— Onde é que você vai? – David perguntou.
— Eu vou ficar no apartamento do Anjinho a partir de agora, assim ele e Vera terão mais privacidade.
— Então ... É... Sobre isso...
Quando notei que novamente, os três se encaravam cheios de dedos, eu invadi a cozinha com as mãos na cintura encarando-os furiosa.
— Ah qual é!? Vamos parar de me tratar como se eu fosse criança? Que merda gente! Fala Ângelo!
— Xii... – David sussurrou pela minha reação rindo debochado.
— É que, eu estou reformando o apartamento. Coisa rápida.
— Ah! Desculpa... – falei mais calma me servindo um café — Achei que você ia me dizer que eu estou proibida de sair das suas vistas também.
— É, isso também.
— Como é que é?
— Só até fecharmos a primeira parte do meu plano .
— Ei... – David me chamou sorrindo: — Pode cair lá em casa quando quiser.
— Vá à merda. Ou melhor... Vamos beber comigo, anda.
Deixei a xícara na bancada e os três não entenderam nada quando eu peguei minha carteira e coloquei meu celular no bolso do meu jeans e soltei meu cabelo.
— Anda David! Verônica tem que conversar com Ângelo. Não é?
Minha amiga me encarou apavorada e logo David se pôs a me seguir. Quando passei pela porta do apartamento respirando fundo, o policial um pouco mais à frente me encarou preocupado.
— Tudo bem?
— Eu só... – bufei — Posso confiar que você vai me trazer em segurança para casa?
— Hm... Entendo. Você quer tomar um porre?
— Posso confiar em você David?
A seriedade na minha voz, a súplica que eu sabia que estava em meu olhar, fizeram novamente aquele David sério que eu não conhecia surgir em minha frente. Ele sorriu e assentiu com a cabeça, silencioso.
Ele dirigia em seu carro até um bar que segundo ele, era o lugar perfeito pra afogar as mágoas sem julgamentos. Colocou uma música baixa para tocar em seu aparelho de som durante o percurso. Não troquei nenhuma palavra com ele o caminho todo. Minha mente estava concentrada nas lembranças dos meus primeiros momentos na fazenda. Quando eu achava que tudo era terrível demais para piorar. Lembrei-me da chegada de Bruna à cidade, e tudo o que eu sofri por sentir que naquela mulher existia o perigo de que eu perdesse e .
Lembrei-me de quando ainda era a noiva de Lucas, e das nossas brigas numerosas por tantas vezes ele despertar o sentimento de desconfiança em mim. As viagens longas, as saídas no meio da noite, os telefonemas estranhos, e como tudo aquilo desaparecia enquanto eu me afundava nos estudos para passar no concurso de delegada. Lembrei-me de como ele tinha as palavras certas, para me manipular. E estúpida, eu não sabia que estava sendo manipulada. Eu queria chorar até morrer. Até secar toda a água de meu corpo. E não percebi que já estava fazendo aquilo, até David desviar o caminho e me dizer que pela minha situação, havia outro destino melhor.
Paramos com o carro numa rua longa, tranquila, com casas antigas, árvores que se multiplicavam na calçada rente às muretas. Havia ali um boteco, do qual David entrou e eu observava-o de dentro do carro. Ele retornou com algumas bebidas numa sacola e dirigiu um pouco mais à frente. Estacionou numa praça e falou para eu descer. Já era final de tarde, e a noite começaria logo a surgir. Acompanhei-o assim que bati a porta do carro. Sentamo-nos em uma daquelas mesinhas de jogar damas.
— Por que me trouxe para cá?
— Porque mesmo para um bar de fracassados, você não merece que as pessoas te vejam chorando assim.
— Que lugar é este?
— Eu morei aqui uma parte da minha infância. Hoje é um bairro mais deserto, e bem... Eu gosto de vir aqui observar o céu e beber sozinho às vezes.
Abri uma das sacolas e peguei uma das cervejas que estava colocada dentro de uma caixa velha de isopor. Encarei David, curiosa por aquilo.
— O dono do boteco já é velho amigo meu. Eu sempre pego esse kit pra vir aqui. Tenho lá minhas regalias, garota. Eu disse que sou um bom partido.
Eu ri discreta e virei meia longneck num gole só.
— Viu? Até te fiz rir.
— Ah David... Caiu tudo como uma bomba.
— Eu imagino. A sensação de que há uma conspiração contra você.
— É... É exatamente isso.
... – ele me chamou cauteloso então eu o olhei igualmente — Eu sou bom no que eu faço. Eu vou prender o Lucas, acredite.
— Acredito. Até por que... Lucas não é tão bom assim. Ele depende de subornos para cobrir as pontas soltas que ele deixa, é só que... Merda... A Bruna.
— Você tem medo dela tirar o seu fazendeiro de você?
— Já tive mais. O meu medo agora é que ela destrua tudo, destrua não só a minha vida, mas... .
— Ela não vai. Você não é o tipo de mulher que deixa tirarem o que é seu.
Novamente sorri e quando olhei para David ele estava sério, tristonho, encarando o céu.
— Me fala de você. – pedi.
— O que quer saber de mim?
— Me conta da sua família. Por que você é tão solitário...?
— Ah... Eu sou como o Batman. Uma história trágica de família, e uma profissão que não me permite ser o cara mais popular do mundo.
Ponderei sobre o que ele disse um tempo, e ficamos um tempo a mais em silêncio até eu fazê-lo outra pergunta.
— Você é feliz David?
— Não. – respondeu tranquilo.
— Será mal da profissão? Até tudo isso acontecer, eu achava que era. Mas só depois que eu fui embora, me apaixonei e ganhei uma vida nova, que eu percebi o quanto eu era infeliz. A gente nunca sabe o que é felicidade até não desejar mais nada. Quando nós temos mais do que um dia pensamos que era preciso, é que encontramos a felicidade.
— Não existe felicidade plena, . Você não é feliz por que encontrou tudo o que queria. Você está feliz por que por enquanto não te falta nada.
Refleti sobre as palavras dele, e ficamos ali bebendo e conversando. David bebendo água, e eu as cervejas que ele comprou para mim. Na verdade, bebemos a maior parte do tempo em silêncio. E quando eu me sentia sonolenta, ele riu levantando-se da mesinha e recolhendo as coisas.
— Vamos pinguça. – falou me puxando pela mão.
Eu caminhei um pouco tonta, mas bem o suficiente para ir sozinha até o carro. Entrei e David me observava curioso e risonho. Depois que ele entregou a caixa de volta ao boteco, e deu partida em direção à casa de Vera novamente, eu olhei para ele curiosa.
— Como e por que você se apaixonou por mim? – perguntei.
Ele sorriu e me encarou dizendo:
— Não acha que já teve emoções fortes demais por um dia?
David virou meu rosto para o vidro da minha janela e disse para eu dormir. E eu só fui perceber que havia mesmo dormido, quando ele estava abrindo a porta do meu lado e me acordando.
Subi o elevador do prédio depois de me despedir dele, com um sono maior do que o anterior. Abri a porta e não ouvi barulho além do que vinha da TV. Passando pela sala, observei meus amigos deitados juntinhos no sofá me encararem duvidosos:
— Onde estava? – Vera perguntou.
— Numa praça bebendo com o David.
— Se queria ficar a sós com ele, era só falar amiga. Não precisava me jogar na berlinda daquele jeito.
O tom de voz irônico de Verônica me fez notar que ela não havia conversado com Ângelo.
— Eu não queria ficar a sós com ele. Eu queria que vocês conversassem mesmo.
— O que teríamos para conversar? – Ângelo perguntou para Vera, desconfiado.
— Eu não sei. Acho que a está sem graça por descobrir que o David é apaixonado por ela, só isso.
— Mas ela já sabia disso. – Anjinho respondeu e se levantou analisando Verônica e eu: — não é de, não sacar que tem algo acontecendo. E nem eu.
Ele falou e saiu até a cozinha. Vera me olhou me julgando, com a cara fechada.
— Não me olhe assim. Conte logo a ele, antes que você perca o homem que ama. – respondi um pouco bêbada e cansada.
Fui para o banheiro tomar banho e depois, apaguei na minha cama. Janeiro estava em sua última semana, e no segundo mês do ano eu iria para o apartamento de Ângelo logo após o carnaval. e eu estávamos combinando de passar o carnaval juntos. Eu queria ir para a fazenda, pois, não poderia vir com ele, já que as aulas tinham voltado. Não entendi bem, ele pretendia antecipar a vinda dele, já que também teria pouco tempo de feriado para descansar. Mas eu insistia que ele viesse e trouxesse . Eu já estava ansiosa para revê-los.
Eu precisava trabalhar, afinal, não tinha mais o Gabriel para me pagar. E por isso peguei uns bicos de detetive particular com a ajuda de David. Eu não imaginava o quanto havia de pessoas precisando desse tipo de trabalho.
Eu estava chegando de mais um dia cansativo. Ser detetive não era tão fácil como pensei. Na maior parte do tempo, era entediante. Eu havia passado o dia todo na cola de um empresário, cuja esposa desconfiava de ser bígamo. Então, o cansaço era iminente.
Quando cheguei em casa tudo estava silencioso. Não encontrei Verônica nem Ângelo pelo apartamento. Imaginei que a saída deles teria algo a ver, com a conversa que Vera tanto adiava. Pensei em telefonar, mas, logo em seguida achei melhor não. Em meu quarto separei a roupa que eu vestiria após o banho, deixando-a sobre a cama. Não demorei muito, embora a água estivesse confortavelmente quente para aquela típica noite fria paulistana. Sacudi os cabelos com a toalha ao sair do banheiro, vestida com meu lingerie. E então algo estranho me espantou. Ao lado da minha roupa posta sobre a cama repousava uma rosa amarela e uma caixa de joias. Olhei em volta, o quarto vazio. Terminei de sacudir os cabelos com a toalha, sem muito zelo, e joguei-a sobre a cadeira.
Peguei a rosa, e o cheiro recordava-me a fazenda. Pude sentir o cheiro orvalhado das manhãs de idas ao celeiro. Sorri. E então encarei a pequena caixinha de joias. Seria possível? Passei novamente os olhos por todo o quarto, inclusive atrás da porta e ainda estava vazio. Olhei embaixo da cama, embora fosse ridículo imaginar que, numa surpresa planejada se esconderia embaixo da cama.
Abri a caixinha me deparando com um singelo par de brincos em ouro branco, com detalhes simples talhados em ouro dourado, e uma pequena e retangular pedra no meio. Muito delicada.
O sorriso desconfiado estendeu-se num riso convulso de ansiedade. Eu não conseguia acreditar que ele estaria ali. Saí do quarto, apenas de lingerie, com aquela caixinha e rosa nas mãos.
Fui direto para a sala, não havia ninguém.
Esperançosa à cozinha, vazia.
Invadindo o quarto de Vera, também não havia ninguém.
Retornei ao banheiro, e nada.
Então comecei a cogitar que houvesse pedido para que Anjinho ou Vera preparassem aquela surpresa. Mas, não… não era homem de incumbir aos outros as tarefas mais importantes dele.
Com um retalho de esperança, eu entrei no refúgio de Anjinho, e lá dentro também não havia ninguém.
E nada fora do comum. A casa permanecia como se habitada, apenas por mim.
Encarei os presentes em minhas mãos, e os diplomas de Anjinho na parede. Um sentido de alerta me tomara. Se não era presente ali, ou quem pudesse ter colocado aqueles mimos sobre minha cama, quem mais seria? Ao ir para o banho, não havia nada na minha cama. A casa não estava vazia. Cautelosa eu voltei ao meu quarto, e sorrateira olhei novamente atrás da porta. O espaço continuava como estava. Fui em direção à minha bolsa, rapidamente empunhei minha arma, e enquanto a pegava ouvi alguém se aproximar. Fingindo-me distraída deixei a pessoa achar que estava me surpreendendo. E então ouvi o barulho da pessoa se encostar à soleira da porta e rir baixinho. Virei o corpo de frente ao suspeito com a minha pistola apontada na direção dele.
— Amor, se você não gostou dos brincos, eu troco, não precisa disso. – disse com as mãos à frente do corpo em defesa.
Respirei aliviada e sorri abobalhada por vê-lo.
— Inclusive, que cena mais sexy! Por favor, fique quietinha.
Retirou o celular do bolso e me fotografou – a esta altura eu fazia cara de brava para dar o clima anterior à foto – e sorriu malicioso se aproximando. Sem largar a minha arma, eu peguei os brincos novamente, com a mão livre e os encarei. Eu sorria para balançando a cabeça em negação, não por não ter gostado, mas por não acreditar.
Frente a frente, ele pegou os brincos colocando-os em minha orelha. Abracei-o e puxando sua nuca invadi sua boca. Ele abraçou minha cintura me puxando cada vez para mais perto, e dançou suas mãos por meu corpo seminu. Senti um leve tremor, e todo o meu corpo se arrepiou. Não sabia se por desejo, ou se pelo frio que eu sentia somado às mãos geladas dele. Não me contive em morder seus lábios, e com um fraco gemido, passou as mãos sobre meus glúteos, e descendo às coxas ergueu minhas pernas me impulsionando a subir em sua cintura. Cruzei as pernas me fixando a ele. nos guiou em um ato rápido até o guarda-roupa me fazendo sentir o baque de minhas costas ao móvel. E desceu beijos por meu pescoço retirando um dos meus braços do entorno ao seu pescoço. Baixei o braço deixando-o segui-lo acariciando, até chegar à minha mão, entrelaçando nossos dedos. E após massagear um dos meus seios com sua mão livre, redirecionou-a a própria nuca onde eu ainda apoiava a mão com a arma. tocou em minha Kadet P-07.22, e eu soltando a mão entrelaçada puxei com força seus cabelos, o afastando assustado. Ele me olhava duvidoso e eu séria, o encarei.
— Não toque na minha arma. – eu disse girando ela em minha mão e desci de seu corpo.
— O quê?
Fui até a bolsa guardando novamente o meu xodó, e ocultamente sem que ele percebesse peguei minhas algemas. Virei o corpo para ele, o encontrando com uma espantosa cara de dúvida por achar, talvez, que eu teria rompido o momento por ciúme da pistola. E então sorri maliciosa para ele.
— Vem aqui tirar o meu sutiã.
Sorrindo curioso ele se aproximou já retirando sua camisa e ao tocar o fecho da frente de meu sutiã, eu estufava o tórax com uma feição safada, enquanto os olhos dele não desgrudavam dos meus. Somente após abrir a peça ele encarou meus seios tocando-os, satisfeito. E aí prendi as algemas.
— Está preso por invasão de domicílio.
— Droga… Como eu faço para você tirar isso? – seus olhos revelavam um fascínio que eu ainda desconhecia.
— Você tem duas opções… – falei colando nossos corpos e ao sentir a ereção de concluí: — Não, você só tem uma opção… Não é, em um domicílio, que você vai ter que entrar agora…
Sussurrada essas palavras, passou os braços algemados por minhas costas, com uma agilidade surpreendente e nos prendeu um ao outro, me beijou voraz enquanto apertava meus glúteos. Joguei nossos corpos na cama, saí de dentro dos seus braços e retirei suas calças. Ele gemeu meu nome, e ali matamos a saudade do corpo um do outro de uma forma menos romântica do que da última vez.
Abri os olhos. Olhei para o lado e o meu homem estava deitado adormecido. Sua expressão tranquila. Beijei-o sutilmente, e então ele acordou aprofundando o toque.
— Eu não quero nunca mais, me afastar de você. Precisei fazer essa surpresa antes do carnaval. – disse ele afagando meus cabelos.
— Como você entrou aqui?
— Anjinho sabia de tudo, eu fui ao escritório e peguei a chave. Ele e Vera ficaram no apartamento dele para nos deixar a sós. Quando cheguei você estava no banho, aprontei tudo e fiquei me escondendo.
— E muito bem, por sinal.
— E então, gostou?
— Do sexo? Maravilhoso. – ri baixinho.
— Não era, mas fico contente em saber… – nos encaramos cúmplices — Dos brincos, gostou?
— Não precisava gastar tanto.
— Você não respondeu o que eu perguntei.
— Adorei.
Beijei-o e levantei. rosnava na cama por eu ter levantado.
— Como eu sinto falta destes teus resmungos irritantes…
O olhei sorridente assim que disse, e ele estendeu uma mão para que eu me aproximasse. Ao tocar sua mão fui puxada novamente ao seu lado da cama tendo-o sobre mim.
— Eu não disse que tinha acabado.
— Está para nascer o homem que vai me obrigar a fazer sexo, querido.
— Eu não estou obrigando. Eu apenas disse que não tinha acabado.
Analisava meu rosto, e encarava meus olhos, compenetrado.
— Mas, se você não quer… – saiu de cima do meu corpo, se deitando novamente.
O olhei desacreditada e ele encarava o teto com um sorriso brincalhão. Puxei seu corpo para mim novamente.
— Eu não disse que não queria. – falei sorrindo enquanto recomeçava nossa briga de amor.
não ficaria muito tempo, e no dia seguinte àquela noite, Vera e Anjinho chegaram em casa, cautelosos. Entraram pé por pé. e eu estávamos na cozinha preparando o almoço e decidimos ficar quietos para observar as reações. Verônica nos chamou, em tom baixo. Ângelo ia em direção ao seu quarto, quando Vera o puxou.
— Ei, espera amor, eles podem estar transando!
— Eu não vou ao quarto dela, vou ao nosso.
— Mesmo assim, melhor fazer mais barulho. Para eles saberem que tem gente em casa.
— E acordá-los caso estejam dormindo? Eu dou umas batidinhas na porta do quarto dela.
— Você vai continuar me tratando assim? – Vera perguntou ao noivo, soltando um suspiro pesado.
— Eu não estou te tratando diferente, só estou preocupado com o meu trabalho Verônica.
— Ah, sim, com certeza! – ela elevou a voz — Isto tudo é porque eu não posso ser mãe biológica para os seus filhos?
— Não grite. Nós já conversamos sobre isso.
— Eu não quero mais me casar.
— O quê?
No momento achei que era a hora de intervir.
— Ei, nós estamos acordados aqui na cozinha!
Eu disse acenando e indo na direção deles:
— Bom dia, e vamos parar de brigar. Sentaremos à mesa para almoçar e vocês conversarão e vão se entender. Ou eu vou ter que me intrometer?
— Bom dia, linda.
Fora a única coisa que Anjinho me dissera antes de beijar a minha testa, acenar ao escorado no balcão da cozinha e sair em direção ao quarto.
e eu nos entreolhamos, Vera já tinha os olhos marejados. Ela caminhou até a cozinha e abraçou em cumprimento. Perguntou-nos como fora a nossa noite e ao respondermos juntos: “Ótima!”, ela sorriu e pegou um copo d’água. Pedi discretamente para olhar as panelas, e chamando Vera para se sentar ao balcão da cozinha comigo pude notar sua tristeza. Ela logo desabafou.
— Contei a verdade, e ele me odeia agora.
— Não é assim, ele só está chocado. Como você ficou.
— A quem quer enganar ? Você o conhece tanto quanto eu, e sabe bem como eu joguei um balde de água fria nos planos dele.
— Desculpe… – se pronunciou — Onde fica guardada a pimenta do reino?
E então me recordei que o meu ogro, às vezes compunha-se de uma total falta de tato, para situações como aquela.
— Larga isso . Preciso ouvir a sua opinião. – Vera disse nos surpreendendo.
Ele me encarou como se perguntasse o que era correto fazer naquele momento. Assenti com a cabeça, e tomei seu lugar no fogão. Ele cautelosamente se aproximou de Vera. Escorou-se no balcão, do outro lado de frente para ela.
— O que houve?
— O maior sonho do Ângelo é ter filhos, um monte. Um time de futebol.
riu.
— Você não quer ter filhos?
— Eu não posso engravidar.
— Lamento. De verdade. Tenho certeza que seria uma ótima mãe.
— Como pode ter certeza? Você não me conhece.
— Tem razão, eu não te conheço. Se pudesse, você gostaria de ter filhos?
— Dois garotos, para eu ser a mãe policial descolada que iria orgulhá-los. E uma menina, para eu ensinar a ser uma mulher foda.
— Então tenho certeza de que seria uma ótima mãe.
Sorri para ao ouvir o que ele dizia à minha amiga. Talvez ele não tivesse tanta falta de tato assim, e Vera o olhou em dúvida, até ele continuar a falar.
— Quando uma mulher diz que gostaria de ter filhos, ali está uma ótima mãe. Não existe uma receita de paternidade perfeita, e nem maternidade… Mas se você quer, se você deseja essa experiência, se você ama os seus filhos, todas as adversidades são superadas e você passa a dar o seu melhor. Quando se torna pai, ou mãe, ao se tratar de sentimento não tem esta de “querer não é poder”. Se você quiser dar o seu melhor você dará. E dificilmente você vai aceitar ser “qualquer coisa” para o seu filho, por amá-lo. Tenha você planejado isto, ou não.
— Como pode saber disso?
— Esqueceu que eu sou pai solteiro? De uma menininha maravilhosa que me ensinou a ser um homem melhor, e que precisa que eu seja um homem melhor.
— É verdade… – Vera sorriu recordando-se de , você acha que Ângelo vai aceitar isto algum dia?
— Não deve ser fácil para ele, assim como não está sendo para você. Os homens também planejam suas famílias. Isso não é coisa só de mulher… Eu sonhei com a família perfeita, com o filho perfeito. Mas, tive uma filha e não um filho. Tive uma família ótima, composta de pai, avó e tios. Mas não tive a mulher dos sonhos, a mãe que eu desejava à minha filha… E bem, eu consegui ser feliz entre altos e baixos.
— Eu não sei… Estou tão insegura…
— Tudo se ajeita Vera, dê um tempo a ele. Ele te ama, não é como se isso acabasse diante da notícia. Ele só vai precisar de um tempo para se adaptar às mudanças. E na vida tudo tem um tempo. Eu queria a família perfeita quando era novo e não tive, mas, hoje acho que estou mais preparado para isso.
— É? – ela sorriu saliente olhando para mim.
— É. Afinal, hoje eu tenho a mulher dos meus sonhos e a mãe que eu desejava para a minha filha. E se antes eu consegui ser feliz, hoje eu não consigo não ser feliz.
Larguei as panelas indo abraçá-lo por trás e beijei seu rosto.
— Viu amiga? Tudo o que eu já havia dito a você!
— Verdade… Vocês pensam iguais.
— Você não falou sério quanto a adiar o casamento, não é?
— Não sei , depende dele. Eu preciso saber se a nossa relação mudou para ele ou não. Ter certeza sabe?
— Eu entendo. – falou sorrindo e saiu.
Ficamos a sós, minha amiga e eu.
— Aonde ele vai?
— Acho que dar umas sacudidas no Ângelo.
— Hm… – murmurou desanimada e de repente seu humor se transformou: — E então, safada! Conta logo como foi!
— Eu queria beijar a boca de vocês dois ontem, por ajudarem ele com a surpresa.
Respondi e mostrei os brincos para que minha amiga visse. Ela se iluminou de alegria por nós.
— Olha só, quem está parecendo uma adolescente!
Rimos divertidamente.
— Transaram?
— Claro né!
— Que inveja de vocês, Ângelo e eu não. Desde aquele dia em que brigamos na sala.
— Sério?
— Sim.
— Ah, então está explicado! Não tem nada a ver com a sua infertilidade amiga, tem a ver com a rotina de vocês mudando! Cadê o casal fogoso? Aquele casal não se importaria tanto com um obstáculo desses, pelo contrário, já estariam se divertindo escolhendo a mãe do seu bebê, ou o seu bebê num catálogo!
Assim que terminei de falar, um sorriso confuso surgiu no rosto de Verônica. Ela passou um tempo, pensativa. apareceu na cozinha ao lado de Ângelo e gritou para mim: “Amor, vamos sair rapidinho e já voltamos!”. Vera e eu concordamos e assim que eles saíram, ela pronunciou que iria para o apartamento dele preparar uma noite de “resgaste ao relacionamento”.
— Você não vai almoçar?
Fiquei sem resposta. Ela saiu e eu almocei sozinha. e Ângelo demoraram. Avistei o celular dele sobre a mesinha de centro da sala, e decidi mexer. Estava livre de senha. E assim que desbloqueei o aparelho, me indaguei se era o correto. Uma voz em minha cabeça dissera que aquilo estava errado, mas eu fiz assim mesmo. Abri seu whatsapp e não havia nenhuma conversa suspeita de Bruna. Mas ao olhar os seus registros de chamada, encontrei várias não atendidas de Bruna, e algumas poucas atendidas.
estava a evitando, mas, ela estava correndo atrás dele. O que aquela mulher queria!? Minha intuição dizia que Bruna tentaria reconquistá-lo. Ou utilizá-lo como arma de Lucas, de alguma forma agora que eu sabia quem ela era. Mas, eu estaria preparada para colocá-la de volta no lugar dela: o passado.
Quando os dois voltaram, sorriam muito e Anjinho já não era o mesmo emburrado que havia chegado àquela manhã. Os dois foram a um bar conversar e se distrair. me pediu desculpas por não ter almoçado comigo, discretamente, sem que Ângelo notasse. Anjinho me contou sobre tudo o que disse, e pediu minha opinião sobre tudo o que estava acontecendo. Eu disse-lhe o mesmo que havia dito à Vera:
— Vocês estão precisando transar, é isso que está os afastando e os deixando irritado um com o outro.
Ele sorriu e perguntou-me sobre ela. Menti. Falei que ela havia saído, mas que não dissera aonde iria, apenas que voltaria. E assim que ele lhe telefonou, se despediu de nós afirmando que ela havia dito ter ido para o apartamento dele, e preparar tudo para cancelar o casamento. Fingi estar assustada e Anjinho saiu mais do que desesperado atrás de Vera. Expliquei ao , quais eram os planos de Verônica aquela noite.
Assistíamos a um filme, juntinhos, por baixo das cobertas no quartinho da diversão quando meu celular tocou. E era o David. Cobrou-me se eu não iria ao CT aquela semana, porque estava curioso para saber quantos maridos cornos ou mulheres traídas eu descobri nos últimos dias. Logicamente, fazendo piada de meu trabalho como detetive. Mas quando eu contei que meu namorado estava em SP, ele zombara perguntando se poderia dar uma conferida no cara. Apenas me despedi desligando.
não gostou nada, de David me ligar para perguntar se iríamos treinar tiros. Logo, o ciúme se dissipou. Terminado o filme, telefonamos para casa. implorava para nos ver na telinha. logo me disse que havia instalado uma antena melhor na fazenda.
— Como assim? Que antena?
Riu divertido me encarando:
— Fechei contrato de aluguel de um terreno da fazenda para uma empresa de telefonia, na primeira semana do ano.
— Ah… Este tipo de antena… Estas coisas, não costumam ser caras?
— Sim, um valor muito bom por se tratar de um pedaço de terra que estava em desuso.
— Quanto?
— Cinco mil.
— No total?
— Estão nos pagando sessenta mil por ano, pelo espaço.
Eu gargalhava surpresa.
— Amor! Isto é incrível! Você vai poder fazer todas as benfeitorias que queria na fazenda!
— É, é sim. Mas, lá em casa, todos estão animados porque com isso conseguimos um sinal de telefone e internet muito melhor.
Gargalhamos.
— E o que seria a “telinha”?
— Isso é coisa sua, meu amor. Foi você quem apresentou o Skype a ela.
— Vou buscar meu notebook.
Passamos boa parte daquela noite conversando com a família por videoconferência.
Antes de dormir, perguntara-me sobre o processo. Eu não poderia repassar nenhuma informação, apenas falei que estávamos trabalhando para provar minha inocência.
sabia que – àquela altura de nossas vidas – tudo o que eu mais desejava era poder dizer à família quando voltaria. E ao notar que eu estava fugindo do assunto, iniciamos uma discussão.
— Depois de tudo o que passamos você não está preparando tudo para voltar a viver aqui, não né?
— Claro que não !
— Então o que você está escondendo de nós?
— Nada! Eu não tenho realmente novidades.
— Você havia dito no telefone que tinha boas notícias, mamãe falou também. Você disse a ela que poderia voltar logo.
— Eu também achei, só que agora eu não posso mais voltar no tempo que previ.
— Por quê?
Fiquei em silêncio o encarando brava.
— Era por isso que queria que viesse? Para ser menos doloroso para nós que você está saindo aos poucos?
— Como pode dizer isso?
— Dizendo.
— Eu quis apenas que ela viesse com você para conhecer São Paulo, para passear, matar as saudades.
— Eu realmente espero que você não esqueça o sentido desse anel no seu dedo. – ele falou segurando o dedo onde estava o anel de noivado em minha mão.
— Eu jamais vou esquecer o sentido disso! – falei segurando firme o rosto dele para beijá-lo, e continuei: — Isso é a certeza de que somos um casal. Do nosso jeito torto e não convencional! Esse anel é para poder esfregar na cara de todos os homens que me cantarem que eu não estou disponível. E aproveitar, para deixar bem claro para a Bruna que, não adianta ela ficar correndo atrás de você! Você realmente acha que eu vou te entregar de mão beijada para ela?
— O que ela tem a ver com tudo isso?
— Gabriel viu vocês andando juntos na cidade, e quando te perguntei você mentiu. Disse que não a tinha visto desde a discussão na praça.
— Isso já faz tanto tempo ! E eu não queria que você ficasse paranoica.
— Ah! E você faz isso mentindo para mim?
— Por que o Gabriel te disse isso?
— Não foi de propósito, eu que perguntei! E posso saber por que eu ficaria paranoica?
— Eu realmente preciso te responder essa?
— Por que ela está te ligando tanto?
— Você mexeu no meu telefone?
— Mexi! Tá aí! Eu mentiria, mas quer saber, nada de mentiras! Fiquei encucada com você mentindo para mim sim, e hoje tive a oportunidade e peguei seu telefone. Olhei suas conversas e chamadas atrás dela. E achei várias ligações não atendidas, entre poucas atendidas! Eu não tenho motivo para ficar paranoica?
— Eu não aceito isso . Não aceito esta invasão. Eu não estava e nem estou escondendo nada de você. Mas você já deixou claro, outras vezes, a sua insegurança perante a Bruna. E estamos longe, não tem por que te contar que ela está tentando reatar comigo, para alimentar não apenas as suas inseguranças quanto esta sua maldita desconfiança!
Não ouvi mais nada. Meu cérebro travou ao ouvir a palavra “reatar”. Céus, eu estaria me tornando aquele tipo de mulher ciumenta e obsessiva? Ou foi toda aquela história de Bruna envolvida com Lucas, que estava me deixando ainda mais surtada?
— Ela está tentando voltar contigo? Quando pretendia me contar?
— Assim que você voltasse, afinal, você voltaria logo não é mesmo?
— Não mais, tá legal? Eu não posso voltar antes do tempo previsto! E estou proibida de contar para qualquer pessoa o que está acontecendo. Eu não posso ser antiprofissional justamente quando estou tentando provar a minha inocência!
Estávamos de costas um para o outro no quarto, andando opostamente de um lado para o outro.
— Droga , eu vou embora amanhã.
— Eu sei, não queria que fosse assim.
— Ou nós confiamos um no outro, ou isso não vai dar certo principalmente pela distância. Nós já superamos tanta coisa juntos!
— Tem razão.
Aproximamo-nos em um abraço apertado.
— Eu prometo que eu vou voltar para casa, meu ogro.
— E eu prometo que estaremos te esperando exatamente como você nos deixou. Só a Rosa, que estará um pouco mais barriguda, ou dependendo do tempo que você levar... Já com um filho nos braços.
Rimos.
— Nós não teremos problemas quando eu voltar. Eu estarei inocentada e vou matar a Bruna quando eu voltar, tá?
— Eu não vou fazer visitas íntimas para ninguém.
— Não mesmo meu homem, nós vamos esconder muito bem o corpo. Já enterramos uma ovelha não foi?
— Não. – ele disse rindo.
— Foi uma vaca?
— Também não. – gargalhou.
— Bem, esta vai ser a primeira vaca que eu enterro então.
Fez-se um silêncio divertido. Até me colocar sentada em seu colo, enquanto sentava-se na cama.
— Meu Deus! Como eu te amo, mulher…
— Por que isso agora? Só porque eu disse que matarei a sua ex?
— Esquece ela! – me beijou carinhosamente: — Eu quero me despedir…
— Não, sem despedidas, só um até logo.
— Você me entendeu…
— Quer que eu pegue as algemas? Uma boa ideia, aliás, para te fazer ficar.
— Não. Só deixe comigo…
Assim que terminou de falar, girou o corpo comigo em seu colo e se pôs a me beijar. Presa entre suas pernas, com as mãos grandes e fortes dele segurando as minhas, apenas me deixei estar entregue. E pela manhã tomamos banho, juntos. E nos atrasamos, em consequência.
e eu entramos no táxi apressados, e partimos para encontrar Ângelo no aeroporto. Vera estava de serviço e por isso não poderia se despedir, mas telefonou agradecendo ao meu homem pelos conselhos dados a ela e ao Ângelo. Depois da noite de reconciliação deles, tudo estava bem novamente entre o casal.


Capítulo 27 - A justiça tarda, mas não falha.

A despedida entre e eu no aeroporto foi tão intensa quanto todas as outras. O afastamento entre nós sempre era uma tarefa dolorosa demais.
Eu começava a identificar uma dependência de e não sabia dizer se aquilo era bom ou não, embora estar com ele fosse a melhor sensação desde muito tempo.
Naquele dia, Anjinho foi trabalhar após o almoço então voltamos juntos para o apartamento de Verônica, onde ele pode me contar os motivos pelos quais reagiu tão mal à notícia, mas afirmou que, depois de conversar com e Verônica acabou enxergando que nada mudaria. Eles ainda poderiam ter, o seu pequeno time de filhos. E quando Anjinho saiu para o trabalho eu fui à academia. Decidi ligar para David, não para treinar tiros, mas para beber.
— Então você quer afogar as mágoas por seu namorado que foi embora, e aí se lembra de mim?
Ouvi a voz presunçosa de David se aproximando da mesa onde eu o esperava. Ele puxou uma cadeira e chamando o garçom pediu outro copo, e já se adiantou pedindo outra cerveja.
— Eu não quero afogar mágoas. Eu quero beber. E não conheço ninguém que seja à toa como você.
Hunf… Olha quem fala. E eu não sou à toa, eu apenas posso fazer o meu horário.
— Um dia eu chego lá.
— Ah cara, para! Você nem está trabalhando e tem dinheiro para gastar.
— Eu sou econômica. Não quer dizer que tenho dinheiro.
— Você saiu daqui quebrada?
— Não, claro que não. Eu perdi meu emprego por motivos pelos quais você já sabe, e tive que sair do apartamento que eu tinha alugado porque o dono faleceu. Então eu tive pouco tempo para lidar com as mudanças. Fui passar uns tempos na casa de uma tia até colocar as coisas no lugar, e fui ficando…
— E quando pretende começar a procurar outro apartamento?
— Eu vou ficar no apartamento do Ângelo mesmo.
— Conheço um ótimo que está à venda, mas, o dono aceita alugar se preferir.
— Eu não pretendo ficar aqui.
David levantou os olhos em minha direção bloqueando seu celular e colocando-o sobre a mesa. Encarou-me com um meio sorriso descrente.
— Este cara te fisgou mesmo, não é?
— Eu te chamei para beber, e não para falar da minha vida pessoal.
— Tudo bem.
Bebemos nossas cervejas nos olhando silenciosos, mas, eu sabia que David continuaria a investigação.
— Sabe... eu continuo curioso para conhecer o cara. Por que não nos apresentou?
— E perder parte do dia que eu poderia passar com ele, para apresentar você? Achou mesmo que eu não aproveitaria cada segundo com ele aqui?
— Estou começando a achar que ele é fruto da sua imaginação…
— Eu sabia que você diria isso.
Puxei meu celular abrindo a galeria em duas fotos que eu havia tirado de . Uma, com ele de costas saindo da cama apenas de cueca boxer, e a outra com ele após o banho, de toalha amarrada na cintura conversando comigo no quarto distraído.
— Depois desta, passe para a direita mais uma vez. – eu disse lhe estendendo o aparelho.
— Certo… O cara é galã… Mas, não mais do que eu.
— Você não vai morrer se admitir que o meu homem é gostoso.
— Opa… – David disse sorrindo malicioso e me encarou divertido.
— O que? Não tem nada comprometedor nesta pasta.
— Quem falou que eu estou naquela pasta?
Estendeu-me o celular com a foto que tirara de mim, de lingerie apontando a arma na direção dele.
— Não acredito que você estava procurando os meus nudes! Como você é cafajeste David!
— Não estava. Estava saindo da pasta quando me chamou atenção esta sua imagem, muito, muito sexy. – David sussurrou em tom provocativo.
— É eu sei, eu já disse que sou mulher demais para você.
Bebi mais um gole da minha cerveja, e o garçom trouxe um prato de petiscos que David havia pedido quando chegou, sem que eu percebesse.
— Eu fico curioso com uma coisa.
— Só uma? – ri de maneira irônica.
— Ele não tem ciúmes de mim?
— Tem. Você gostaria da sua namorada encontrando um cara abusado e desconhecido quase sempre?
— E por que ele não quis me conhecer?
— Porque você não é uma ameaça ao nosso relacionamento. Mesmo que você me roubasse um beijo, por exemplo, não destruiria nossa relação, David. Então por mais que você planeje uma maneira de fazer o me dar um chute na bunda, não vai conseguir.
— Eu não planejo nada. Eu já disse que sou paciente. E garota, eu sei que um dia eu vou ter você na minha cama, desde aquele curso preparatório. Com ou sem.
— Sério, há tanto tempo? Sério que me reconheceu assim que me viu?
— Eu juntei as informações de Ângelo sobre a tal amiga, com umas memórias… Afinal, eu não esqueceria jamais de uma mulher que eu quisesse muito.
— Isto é muito psicopata.
— Não é não. Só que você foi embora antes da festa de confraternização da academia, e eu tinha planejado te conquistar aquele dia, e olha onde o destino nos trouxe.
— A uma mesa de bar, comigo mostrando a foto do meu namorado seminu para você.
— Ok… Já entendi que é assim que você quer enxergar os fatos.
— Chega deste papo David, agora estou falando sério. Eu não vou sair com você.
— Eu sei. E eu já disse que eu sou paciente.
— Você é irritante, não sabe aceitar um fora. E é lamentável, por você.
— Relaxa ... Você não sabe brincar?
— Não é esta a questão! Eu já sei que você é apaixonado por mim, e embora eu não saiba como isso aconteceu e nem desde quando, eu não quero te dar quaisquer esperanças, porque eu realmente amo o . E se vamos trabalhar juntos, eu quero tudo muito às claras.

— Olha só... Você não é a primeira mulher por quem me apaixono e tenho que trabalhar tudo bem? Eu sou maduro suficiente para separar as coisas, relaxa .
Ficamos por ali até o final da tarde e início da noite. David, quando não insistia nas suas investidas era muito descontraído, e o assunto sempre fluíam divertidos. E nós estávamos desenvolvendo uma amizade divertida, apesar da nossa irritabilidade: ele com a minha incomplacência, e eu com a insistência dele.
Ele insistiu em pagar toda a conta, mas, eu jamais permitiria aquilo. Não por não aceitar que um homem fizesse uma gentileza, mas, por não alimentar um gesto de abertura ao David. Ele precisaria entender que eu não facilitaria com ele. O tipo de cara como ele, requer certo cuidado.
— Agora que notei… Você veio direto da academia?
— Qual problema? – perguntei de pé em sua frente, me preparando para ir embora.
— Deixa o seu personal saber que você sai do treino para beber. — Ah cara! Não enche! Ele riu divertido quando avistei que por trás de David, na calçada, se aproximava um desembargador que eu conhecia muito bem. Ele era amigo de Lucas.
Virei de costas ao David, e tentei abrir a porta do carona de seu carro. As travas estavam acionadas. Olhei furiosa para ele, que ainda me encarava sem entender direito o motivo pelo qual eu estava entrando em seu carro. Destravou o carro, e deu a volta direcionando-se ao banco do motorista.
Dentro do carro dele, eu observei discreta com vidros fechados quando Moreira, o desembargador, passou na calçada ao meu lado. Vestia-se de roupas comuns falando ao telefone. Entrou em um carro estacionado mais à frente e saiu. Soltei o fôlego que havia prendido, e olhei para David. Seus olhos me estudavam da cabeça aos pés, e ao notar que eu já estava atenta a ele novamente, sorriu.
— Eu vi um cara que fiquei há algum tempo e… Não te devo explicações.
— Se queria ficar a sós no meu carro, era só falar.
— Meu Deus, você não desiste. – eu disse irritada e ele riu.
— Já que estamos aqui no carro, se você quiser…
— Não, Albuquerque.
— Eu ia dizer “eu posso te dar uma carona até o apartamento”.
— Ah, tá. Eu vou aceitar.
— Perfeito.
— Meu apartamento. Onde a Vera mora. Não o seu.
— Eu nem havia pensado nisso, como a sua mente é suja, !
Àquela noite, ao encontrar com Ângelo, contei sobre o encontro inusitado com o Moreira e ele me dissera para ter cuidado.
— Todo cuidado agora é pouco . Principalmente porque, eu entreguei nesta tarde em mãos do juiz, as provas necessárias para ferrar o Lucas. A primeira fase do plano foi um sucesso.
— Eu achei que precisaríamos trabalhar mais.
— Eu também. Mas o nome que você encontrou minha amiga foi um bilhete premiado.
— Eu sabia! – vibrei batendo nas mãos de Anjinho — E agora, qual o próximo passo?
— Aguardar o juiz entrar em contato comigo, e se tudo der certo, você fará contato com o Lucas.
— O quê?
— Você vai marcar um encontro com o Lucas, uma semana antes da data do julgamento para não levantar suspeitas. A finalidade é que consiga alguma confissão direta. Apenas para fundamentar ainda mais as acusações contra ele.
— Um encontro com meu ex?
— Se possível, um flashback.
— Você está brincando!
— Você sabe que ele não é idiota, mas, quem resistiria a um bom charme desesperado?
— Talvez ele acredite que Bruna conseguiu abalar meu psicológico, não é?
— Lembra-se das suas aulas de teatro?
— Deixa comigo, Anjinho.

-x-

O juiz aceitara as provas e com isso, eu poderia dar procedimento ao plano de Ângelo. Até porque, já havia se passado dois meses desde a resposta do juiz para Ângelo, informando que iria solicitar uma audiência extraordinária. Então, aquele era o momento apropriado para que o Lucas soubesse de meu retorno.
Foi um dia apreensivo.
David estava a postos, próximo o apartamento de Lucas, para o caso de acontecer algo contra mim. Verinha também estava a postos em sua corporação, caso fosse necessário reforços policiais. E Ângelo tinha em mãos um mandato expedido pelo juiz de prisão preventiva, o qual, meu advogado com todos os seus contatos conseguira pedir para adiara a expedição do mandato até a nossa ação ser concluída. Eu telefonara para ele, interpretando uma personagem assustada, amedrontada e desesperada para ter seu emprego de volta. Contudo, aquele papel me obrigava ter muita astúcia, não estava interpretando para um leigo. Pelo contrário, Lucas Castro, se tornara o homem mais duas caras que eu havia convivido e nem DRT tinha. Então marcamos um encontro, o qual o próprio fez questão de que fosse à sua casa. Arrumei-me como se estivesse com intenções de seduzi-lo. Havia chegado há poucos minutos.
Estávamos, em sua cobertura em Moema e Lucas havia me deixado na sala o aguardando voltar de seu escritório.
Netto! Filha prodígio do Dr. Rodolfo , delegada por excelência familiar e minha querida ex-namorada. A que devo a sua vinda?
— Lucas… Você conseguiu foder comigo de todas as formas, não é mesmo? – eu já tinha algumas lágrimas escorrendo no rosto, discretas.
— Não, imagine. Oras . O que é isso? – ele estendeu-me uma dose de uísque: — Eu nunca tive intenção de fazer qualquer mal a você.
— Então por que fez isto? Por que me incriminar?
— Eu não entendo de onde saiu esta sua hipótese. Eu te amava, . Você sabe o quanto nosso término foi duro?
— Lucas! Eu estou desesperada, ok? E você me conhece o suficiente para saber que eu jamais pisaria aqui de novo se não fosse por uma situação extrema!
Ele encarava-me no sofá à minha frente, em postura despojada como se fosse o poderoso chefão com a minha vida em suas mãos. E tinha dúvida, eu sabia apenas pelo seu olhar.
— O que houve ? Ângelo não está dando conta?
— Eu não sei. Ele não quer me contar as manobras dele, por precaução. E isto tem me deixado totalmente irritada. Como seguirá a minha inocência se, o advogado em quem confiei não dá conta de provar isso?
— Não dá conta? Oras o que houve com o “anjinho dos injustiçados”?
— Eu não sei, mas, por ser meu amigo ele vem me poupando de confiar a verdade a mim. Porém tanto você quanto eu, sabemos que eu não sou nenhuma idiota. E já percebi que ele tem dificuldades no caso. Deve contar com uma última cartada e por isso não me fala nada.
— Ou você não é uma injustiçada, não é? Todos sabem da incorruptibilidade de Ângelo.
— Eu sou inocente e você sabe disso.
— Por que afirma com tanto vigor que eu tenho algo a ver com esta história?
— Eu pressinto e além do mais, eu terminei com você após descobrir que o seu caráter não existia não é mesmo? E faltava muito pouco para eu prender os mandantes do assassinato do Rubens Paiva.
— Você acha que eu tenho algo a ver com isso?
— Me diga você. E assim eu poderei saber como negociar contigo.
— Negociar? Você quer negociar comigo? Eu poderia saber o quê?
— Você me ajuda a me livrar destas falsas provas contra mim, e eu te livro das suas acusações.
— Posso saber como você faria isso?
— Oras Lucas! – eu sorri irônica — Não vamos nos esquecer, que eu sou muito boa no que faço. E por ser muito boa eu não vou aceitar perder este processo, de um jeito ou de outro, eu vou provar que não tive culpa.
Você, aceitando a possibilidade de se corromper?
Abaixei a cabeça em sinal de derrota, e deixei uma dura e falsa lágrima escorrer por meus olhos. Encarei-o firme e limpei aquela lágrima com todo o fulgor possível. Queria fazê-lo entender que a minha decisão era impassível.
— Você me botou num beco, então para me livrar disto, eu sou obrigada a pegar atalhos, não é?
— Eu não consigo acreditar em você…
Lucas levantou-se de sua poltrona e veio andando calmo até onde eu estava sentada. Chacoalhava o pouco do uísque em seu copo e sentou-se ao meu lado mantendo o olhar direto em mim. E o meu, no dele.
— Eu não posso reclamar. Eu também não acredito em você. E estou me humilhando e me arriscando demais aqui, não é?
— Vamos deixar um pouco de lado, esta sua… Atitude de misericórdia. , – ele puxou meus cabelos de modo violento pela nuca, me aproximando a encará-lo — você não faz ideia de quanta raiva eu senti por você ter me deixado.
Eu o olhava, assustada, e não escondi isso.
— O que você queria Lucas? O homem que eu amava me trai e é apontado como envolvido numa quadrilha que eu estava investigando. E tudo ao mesmo tempo.
— Você me amava mesmo, garota?
Ao perguntar aquilo, sua mão seguiu ainda mais forte nos puxões do meu cabelo.
— Como pode duvidar disso?
— Como você pode duvidar de mim?
— Sério Lucas? – empurrei o afastando — Você realmente acha que estava em condições de exigir a minha confiança? Eu não estou falando pela acusação! Estou falando por ter pegado você com outra na nossa cama!
Ele começou a rir. Eu já havia levantado e estava de pé na frente dele, extremamente irritada. Eu me irritei com aquela situação, me irritei com a hipocrisia dele, me irritei com aquele joguinho. Lucas levantou-se sorrindo e se aproximou de mim.
— Se eu não tivesse sido acusado, você me perdoaria pelo deslize de te trair?
— Nunca.
— E se eu não tivesse lhe traído e tivesse sido acusado?
— Eu te daria a chance de provar sua inocência antes de julgá-lo.
— Mentira! – ele se exaltara também: — Você é certinha demais para cogitar a ideia de que alguém que você ama, precisa provar a inocência! E por isso eu sabia que você sofreria muito em passar por toda esta situação! Você me daria às costas, e a qualquer um, então… Como foi , estar do outro lado?
— Então você confessa que armou tudo isso? – perguntei chorosa.
— Eu não tive nada a ver com isso. Mas, me deleitei com cada cena.
— O fato de você pensar que eu agiria assim só prova que você não me conhecia, e não devíamos estar juntos.
— Engano seu, outra vez. Nós éramos perfeitos juntos, . Todos sabiam disso. Você era perfeita para mim.
Lucas se aproximou de novo, e ficamos cara a cara. Arrogantes, odiosos e desconfortáveis. Pelo menos eu, estava.
— Você era a mulher que eu desejei todos os dias, enquanto estávamos juntos. Fiz planos. Imaginei a nós dois no topo…
— Você tenta chegar ao topo de uma maneira bem diferente da minha!
— Será? O que você veio fazer aqui mesmo? Pedir para eu fraudar as provas. Não foi?
— Não. Pedir para você desfazer as falsas acusações que fez… Mas, quer saber? Eu estava errada… Não deveria ter vindo. Não vai adiantar me corromper por você.
— Por mim? Por você, eu acho que você quis dizer.
Eu conhecia Lucas Castro muito bem como amante, e não o conhecer como estrategista tanto quanto deveria me levou até ali. No entanto, Lucas nunca soubera esconder suas sensações, seus sentimentos e naquele momento eu pude notar que ele ainda sentia algo por mim. Ainda que não fosse o amor torto e doentio dele, poderia ser orgulho pelo fora que levou, ou uma obsessão. Ele amava de uma forma doente. E eu sabia daquilo. Eu vivi cada sufoco do amor doentio dele, quando eu ainda estava cega de amor por ele. Então, o jogo seguiria conforme as peças.
— Você não foi o único a fazer planos Lucas. Em algum momento você pensou em como eu fiquei destruída com o fim de toda uma possibilidade de viver ao seu lado? Eu perdi o homem que eu amava, o meu cargo, a minha profissão, a minha dignidade, tudo de uma vez…
Sem mais delongas Lucas se aproximou voraz de mim, e puxou meu corpo junto ao seu. Eu fiquei sem ação observando os gestos dele, e com certo medo. Mas, Lucas não se movia. Encarava-me com olhar brilhante. O mesmo olhar de arrependimento que eu vi em todas as vezes que ele pisou na bola comigo. O mesmo olhar que se tornou um hábito fácil para ele. Um mau hábito que eu aceitei até me levar onde levou. E de repente, ele tentou me beijar. Puxou-me pela nuca, mas eu virei o rosto. Ele me soltou assim que provou a amargura da minha rejeição.
— Você não pode fazer isso comigo depois de tudo o que fez… É ferir ainda mais o que eu sinto.
— O que você sente?
— Sinto que foi um erro vir aqui… Esquece tudo.
Disse e saí apressada da casa dele. Lucas não abriu a porta. Lucas não me seguiu. E eu entrei no elevador ofegante. Tinha nojo do que acontecera, nojo da proximidade, e ódio.
O perfume almiscarado dele, e o cabelo negro com a mecha grisalha natural – que era um charme irrevogável – o som da voz e as roupas impecáveis, a sua elegância… Tudo aquilo antes fora a minha perdição, e eu me sentia extremamente feliz por tê-lo. Tão feliz que perdoava os vacilos, a arrogância, as mentiras da traição.
Eu sabia de tudo no fundo, mas estar ao lado dele me transformava numa mulher desejável e imbatível. E somente após descobrir que fui traída da única maneira que eu não poderia aceitar, traída pelo meu profissionalismo foi que eu acordei para o fato de que não era Lucas que me transformava naquela imagem. Eu passava aquela imagem. Eu era aquela mulher, e por isso ele estava ao meu lado. E por isso éramos um casal tão vislumbrado.
Encostei-me ao espelho do elevador respirando profundamente. Saí pela portaria enorme, e caminhei algumas quadras até onde eu pudesse entrar no carro de David sem deixar suspeitas.
— E aí? Você está bem? – David me perguntou olhando-me de cima a baixo quando entrei em seu carro.
— Eu estou morrendo de nojo dele! Mas... Deu certo. Consegui implantar uma escuta quando ele estava no escritório. Você só tem que torcer para ele soltar algo útil.
— Ângelo não pode nem sonhar que você me ajudou com isso, entendeu?
— Eu já sei David! – falei entediada.
— Mas, me conta como foi?
— Quando cheguei ele verificou se eu estava com alguma escuta escondida no corpo... Argh... Que nojo das mãos dele passando em mim de novo...
— Esperto. Afinal, era bem provável mesmo que você estivesse com uma escuta no corpo.
— É, mas eu sabia que ele faria isso. A escuta estava no meu cabelo. Enfim... Num geral, ele ficou balançado. Duvidoso da minha atitude, mas, o deixei com uma pulga atrás da orelha.
— Certo, mas... Ele sabe de você e do com certeza. Convencê-lo de que você ainda o ama ou algo assim, é furada.
— Anjinho não me disse ainda os próximos passos, mas não acho que seja isso.
— Bem, vamos torcer para que ele ainda seja obcecado por você. O que eu não acho que seja muito difícil.
Olhei para David revirando os olhos pelo tom de cantada e seguimos para o apartamento de Vera. Assim que cheguei ao apartamento, contei para Anjinho e Vera, mais ou menos o que acontecera. Entreguei as escutas que havia gravado ao Souza, que aguardava as gravações com os aparelhos necessários, na sala. Eram duas escutas no total, uma para David, a qual eles não sabiam, e que o mesmo já deveria estar em sua casa analisando, e outra era a nossa que eu gravei. Fechei um acordo de ajudar David sem que Anjinho soubesse, e sem me expor demais. Então aquela foi à primeira ação, a qual eu saberia as mesmas coisas que David escutasse a fim de me colocar um passo à frente de Lucas.
— Pegou pesado . – Souza dissera após ouvir tudo.
— Acha algo comprometedor?
— Temos uma quase confissão, mas… Se eu conheço bem o tipo dele, e o seu jogo de sedução... – Souza riu discreto me encarando — Você mexeu com o orgulho dele.
— Ótimo! Era isso que eu queria, com o Lucas em minhas mãos fica mais fácil.
— Sempre assim pra você. – Souza soltou novamente fazendo com que Ângelo e Vera nos olhassem desconfiados e eu o olhasse com seriedade cortante.
, e se o Lucas chegar além do que você quer, nas exigências? – perguntou Verônica.
— Como o quê? – perguntei.
— Dormir com ele para te livrar das provas.
Souza proferiu e olhei para os três, incrédula.
— Ele não chegaria a isso.
— Não me parece que ele a odeie tanto quanto pensamos. – Ângelo falou concordando com Souza.
— É verdade… Culpar-te parece uma vingança por ser chutado. – disse Vera.
— Ele me trai, eu dou um fora nele, e ele ainda julga que eu quem mereço a vingança?
— Estamos falando do seu ex-namorado obsessivo doentio, amiga…
— Que espécie de amiga é você que me deixou envolver por um cara desses?
Culpei Vera já imaginando que eles poderiam ter razão.
— Bom, no momento , é melhor esperar o próximo passo.
— Acha que ele vai me procurar Souza?
— Acho. Esteja preparada, afinal, é o Lucas.
Sentei no sofá passando as mãos por meu rosto de maneira cansada. Souza beijou o topo da minha cabeça se despedindo. E quando me dei conta, Verônica e Ângelo me olhavam com caras maliciosas.
— O que foi agora, casal?
— Você e o Souza? Quando? – Ângelo perguntou.
— Carnaval de 2015! – exclamou Vera se lembrando da nossa conversa de tempos atrás: — E que crime, não é?
— Calada Vera. E isso já faz tempo, parem de agir como se nunca tivessem feito algo que se arrependeram depois.
— Foi tão ruim assim? – Ângelo gargalhava zombeteiro.
— Não. Foi muito bom, mas, é o Souza. Ele tem um trunfo eterno contra mim.
Continuamos rindo. Após o jantar daquela noite, eu pedira a Anjinho para conversar com ele assim que Vera saiu para tomar banho. Perguntei se poderia contar ao sobre o plano com Lucas, pois, temia que tivesse de chegar aonde não queria.
— Acha certo contar ao ?
— Eu não estaria te perguntando se soubesse Ângelo!
— Eu não estou falando só sobre a confidencialidade de uma missão policial. Estou falando de contar para o seu noivo que por um trabalho investigativo você poderia ter que chegar a uma pseudotraição.
Pseudo? Ângelo, isto já é uma traição. E só piora o fato de esconder.
— Se não houve intenção de ficar com a outra pessoa, você não pode chamar de traição. Você não deseja fazer isso. Então, sua lealdade por continua.
— Eu não sei… Isso me parece tão errado.
— Olha , tudo isso é uma facilidade a mais para o fim do processo, mas, você não é obrigada a isto. Se não quiser seguir em frente com as propostas que Lucas pode vir a fazer, ou até mesmo, se não quiser seguir o plano você tem toda a liberdade de deixar em minhas mãos.
— Eu quero ajudar, eu sei que ele vai vir atrás de mim, mas, realmente não quero ultrapassar os limites.
— Então pronto. Estamos resolvidos! Vamos aguardar o Lucas dar o próximo passo.
— Ou não.

-x-

O relógio marcava meio-dia em ponto, e Verônica estava deslumbrante em seu vestido escolhido. Eu já havia passado pelos últimos retoques no meu. Ângelo telefonou naquele sábado, um pouco antes de sairmos do ateliê do estilista para avisar que também estava tudo certo com o seu terno. David havia ido com ele, e eu não entendera nada, apenas entendi que saindo de lá iríamos todos nos encontrar num barzinho.
Vera não parava de tagarelar quando nossos celulares tocaram ao mesmo tempo. Estávamos na porta do barzinho. Avistamos os rapazes na mesa, e seguimos ela e eu, até lá com os telefones pendurados nas orelhas. Eu falava com . David soltou alguma piada sobre “mulheres amarem um telefone”, da qual não prestei atenção, mas pude notar que Vera havia o respondido à altura.
Ela conversou alguma coisa com Anjinho, que virou seu copo de cerveja e se despediu de David. Os dois levantaram. Então expliquei ao que falaria com ele mais tarde, porque Ângelo e Vera iriam a algum lugar.
— Vocês estão onde?
— Num barzinho. Provamos as roupas do casamento e paramos aqui, mas Vera e Anjinho estão me olhando de pé, acho que aconteceu algo… A gente se fala à noite?
— Fazer o quê né?
— Eu também estou sentindo muito a sua falta.
— Te amo.
— Te amo também.

Desligada a chamada, David fez uma cara piadista para mim e Vera murmurou um sussurro apaixonado por minhas palavras com .
— Aonde vocês vão?
— Me ligaram da loja de bolos, e precisamos ir lá resolver um problema.
— Querem que eu vá? – perguntei ao meu casal de amigos.
— E me deixar aqui, ? Sério que a minha companhia é tão insuportável assim? – David resmungou fazendo todos olharmos para ele.
— É melhor você fazer companhia ao senhor Carente, aqui. – dizia Vera divertida.
— Até mais, casal. – eu disse e eles saíram.
David estava com uma face bastante irritada, e não entendi aquela reação.
— O que deu em você? – perguntei ao notar sua expressão.
— Você me menospreza sem motivos!
— Como é?
— Somos amigos, . Pelo menos eu acho que somos não é?
— Somos.
— Então por que você foge tanto de estar comigo?
— Ah meu, você não pode falar sério… – murmurei bebendo minha cerveja que havia acabado de ser servida — David, nós dois estamos quase sempre juntos. Qual o problema?
— A partir de hoje se não quiser estar comigo, não precisa fazer esforço pelo Ângelo ou pela Vera, tudo bem?
Ele estava muito irritado mesmo.
— Todas as vezes que eu não quis estar com você eu deixei claro.
Ele me olhou como se a razão voltasse ao seu cérebro.
— Tem razão. Deixou mesmo.
— Eu só ofereci ir porque eu sou madrinha do casamento deles.
— E eu sou o padrinho, o que isso tem a ver?
— Como é?
— Você não sabia?
— Desde quando?
— Desde o início.
— Eles não me contaram.
— Que diferença isso faz? Você recusaria o convite por saber disso?
— Não, claro que não. Mas, não é estranho eles não terem me contado?
— Vai ver fizeram isto por saber que você me detesta.
— David pare de drama! Eu não te detesto. Se detestasse você saberia. Eu nem olharia na sua cara.
— Às vezes, eu acho que você não percebe que eu sei lidar com o fato de você ser comprometida.
— Mesmo se não soubesse, não faria diferença.
— Que seja.
Disse e virou o rosto contra mim. Eu o observava com um sorriso de canto. Uma mulher passou ao seu lado e mexeu com ele, mas David não correspondeu. Então comecei a rir.
— Sabe o que eu acho?
Perguntei e ele continuava me ignorando.
— Não adianta ignorar. Eu sei lidar muito bem com birrentos como você. Meu namorado é exatamente assim.
— Ele tem quantos anos? Quinze? Por que eu tenho trinta.
— Trinta com a birra de um adolescente.
Ele apenas bufou ainda sem me encarar.
— Bem, eu acho que você está com ciúmes pela forma como eu falei com o . – eu comecei a rir brincalhona.
Então David me olhou, sério. Virou sua cerveja de uma vez. Cruzou os braços sobre a mesa se aproximando de mim e falou de um modo baixo, quase em sussurro:
— É claro que eu estou ciúme! Eu sou atraído por você desde o dia que te vi naquele maldito preparatório, e aí te reencontro anos depois numa investigação contra seu namorado, e continuo sendo atraído. Não bastando, nossos casos se relacionam e eu tenho que continuar desejando uma mulher comprometida. E nos tornamos amigos, e eu passo a gostar de você cada vez mais. E o pior é que eu estou me apaixonando por uma mulher que eu não vou ter, porque ela é loucamente apaixonada por outro. Acha mesmo que eu não tenho motivos pra ter ciúme do seu noivo?
Respondeu, e eu, séria, o encarava. Ele levantou da sua cadeira e saiu sem se despedir deixando uma quantia qualquer de dinheiro em cima da mesa. Fiquei ali terminando de beber e após secar a garrafa, paguei e fui embora.
Em casa, mais tarde, conversei com a Vera sobre o que David me disse. Ela continuou dizendo que David jamais atrapalharia a parceria em nosso trabalho por causa de um sentimento. Esse era o defeito dele segundo ela.
— Ele teve outros amores além de você . Inclusive, conheço David há anos. Enquanto ele investigava Lucas, que nós não sabíamos exatamente que era o Lucas, ele contava estar absurdamente apaixonado pela namorada do seu investigado. Contou que já havia conhecido ela em outros momentos da vida, e que achou que aquele sentimento tinha acabado até reencontrá-la. Eu não sabia que era você a mulher. Mas, aconselhei David a lutar por você.
Vera contou rindo.
— Mas, por você ser uma mulher complicada, ele não fez nada. David tinha uma namorada também da PF, e quando foi necessário separar trabalho de romance, ele não teve a menor piedade em prendê-la ao descobrir que ela estava envolvida com esquema corrupto de lavagem de dinheiro.
— Vera... Eu não entendo de onde vem este sentimento dele.
— Você não se lembra, mesmo, não é? – ela falou surpresa.
— Me lembrar do quê?
, você e o Davi se tornaram bons amigos. Não tem nada a ver. Ele sabe que você não está disponível. Por que agirem feito adolescente, se evitando?
— Tem razão. Mas, vou dar um tempo a ele. Ele me procurará quando estiver mais calmo.
— Eu acho melhor você esquecer tudo isso. David não vai estragar as coisas e nem forçar a barra como ele faz parecer, amiga. Acredite, esse mulherengo atrevido é só um disfarce pra esconder o solitário coração mole dele.
— Vamos jantar? – perguntei indo pra cozinha.
Vera ficou na sala, me deixando pensativa. Eu realmente estava preocupada. Não havia a menor possibilidade de que ele fosse correspondido.
Depois do jantar conversei por Skype com toda a minha família e ficamos e eu, até a meia-noite, de conversas. insistiu para não dormir, mas ambos a fizemos dormir. Depois ele saiu do quarto dela com o computador em mãos, e foi para o seu quarto.
— Sinto sua falta.
— É torturante me pegar tão ligada a alguém a este ponto. – concordei.
— Não queria estar ligada a mim?
— Se tem uma coisa que eu queria agora, era estar ligada a você.
– rimos.
— Você não era assim tão provocativa.
— Você não era meu noivo.
— Quando você volta, ?
indagou num suspiro profundo.
— Falta pouco. O julgamento já será nas próximas semanas.
— Eu irei.
— Tem certeza? Titia vai precisar de você aí, com todas estas mudanças que estão fazendo no curral… E eu não acredito que não estou participando disso.
— Olha ela… Toda fazendeira.
gargalhou rouco, e eu pude me sentir estremecer — Não são mudanças muito grandes. Só a reforma do curral que já se fazia necessária.
— Hmm… Deixa um pouco de trabalho para mim.
— Ah! Pode ter certeza! Os porcos sentem sua falta.
– ele gargalhou.
— Idiota.
— Nuvem e Farofa estão enormes, esta semana vou ensinar a a tosquiá-los.
— Ah droga, eu vou perder isto também?
— Você quer muito participar?
— Mas é claro! São os meus bebês, eu os fiz nascer!
— Então vou conversar com a , se ela aceitar nós faremos quando você estiver aqui.

Sorri mais feliz e bati palmas como costumava fazer. sorria alegre e parou um momento, me admirando, com rosto sério.
— O que foi?
— Nada.
– seu olhar denunciava pensamentos dos quais eu sabia que só teria conhecimento quando ele quisesse.
— David vai ser o padrinho do casamento da Vera.
— O quê? Você e ele, padrinhos?
— Qual o problema?
— Você costuma ter uma antipatia dos padrinhos que fazem par contigo.
— Ah, o David e eu já somos amigos. Ele não é mais tão insuportável.
— Menos mal, porque o último padrinho insuportável que você teve foi parar na sua cama algemado.

Não contive a gargalhada e depois de mais “namoro adolescente” por Skype já estávamos exaustos de tanto falar. E céus, como surgiam assuntos! Com sono, carentes, mas felizes, nos despedimos e fomos dormir.
Eram sete e meia da manhã, quando David me telefonou.
— Bom dia. – respondi alerta.
— Já acordada? Achei que teria o prazer de te tirar da cama.
— Eu acordo cedo. Estou trabalhando.
— Trabalhando de detetive a esta hora? Poxa, o mercado está mesmo promissor.
— Não, não... É um caso antigo de Minas. Enfim… O que faz acordado há esta hora?
— Estou correndo.
— Entendi…
– eu não sabia bem, o que falar ao David e muito menos o que ele queria falar comigo.
— Olha só, nós somos padrinhos do casal maravilha e não quero “climão” entre nós. Então liguei para me desculpar por ter sido um estúpido ontem com você.
— Ora, ora… Alguém reconhece que pisou na bola.
— Tá, tá, que seja.
— Eu também vacilei. Não devia ter brincado daquele jeito.
— Não, eu quem não devia ter dito nada daquilo. Não tinha como você adivinhar os meus sentimentos, e confesso que estou muito arrependido por tudo o que falei. Você saber que mexe com a minha ereção está tudo bem, mas, daí te dar motivo para se achar mais do que já se acha foi uma burrice.
— Eu não sou metida assim.
– ri fraco.
— Você é. Tanto quanto eu. O que nos faria um casal perfeito, mas, eu também não sou um milionário e a vida é esta.
— Então estamos bem?
— Se você quiser me mandar um nude ficaria melhor.
— Estamos bem assim.
— Até mais, delegada! Bom dia.
Ele apenas disse e desligou sem aguardar que eu falasse. A espontaneidade dele era um ponto positivo para aturá-lo, mas, eu sabia que aquelas palavras foram sérias e David tentava esconder sua frustração. Por causa disso eu seria cautelosa nas brincadeiras com ele.
havia me passado umas informações, poucas que conseguira reunir, a respeito de Vitório Nolasco. Eu telefonei ao Gabriel e discutíamos o andamento daquele caso. E eu mal conseguia esperar para voltar àquela fazenda. Vitório teria muito a explicar.
Terminei minhas anotações e tomei banho. Aquele era um dia, “à toa”, então pensei em ir mais cedo à academia. Até que Lucas me telefonou.
Observei o visor do aparelho repensando o que seria melhor fazer. E após um longo suspiro e uma estalada de cervical, o atendi.
— Alô.
— Sou eu, Lucas.
— O que você quer?
— Podemos almoçar? Às onze e meia no restaurante de sempre.
— Depende. O que você quer tratar comigo?
— Que eu me lembre, foi você quem me procurou.
— Não acho apropriado tratarmos nossos assuntos num restaurante.
— Então venha à minha casa no mesmo horário. Estarei a aguardando.

Ele desligou a chamada de repente.
Informei aos meus amigos o que havia acontecido. David disse que daria uma escapada do trabalho na hora do almoço para montar campana na porta do prédio de Lucas, como fizemos da outra vez.
Ângelo pediu que eu tomasse cuidado e fizesse as mesmas manobras da outra vez.
Preparei meu psicológico, a escuta escondida, e a roupa, ciente de que as coisas poderiam sair do controle. O relógio já marcava dez para as dez. Arrumei-me e saí cedo, não queria chegar atrasada e perder a chance de arrancar confissões de Lucas.
Devido ao trânsito cheguei exatamente às onze e meia na portaria do prédio. Desci do táxi e não avistei o carro de David pelas redondezas. Talvez não tivesse chegado, e estivesse a caminho. Fui anunciada e ao sair do elevador, a porta da casa dele já estava aberta. Parei na soleira e o chamei desconfiando daquele clima.
— Pode entrar. – ele dissera e cautelosa entrei. — Só estou colocando a mesa.
Ele havia pedido comida para nós e dispunha a mesa como antigamente fazíamos.
— Não precisava se preocupar. Isto não é um encontro.
— Eu te convidei para um almoço. Teremos um almoço.
Decidido como sempre. Após colocar os pratos na mesa, ele pediu para que eu fechasse a porta e depois de fechá-la caminhei até a sala de estar. Sentei-me ao sofá o aguardando.
— Vinho? – ofereceu-me uma taça de vinho branco.
— Pode ser.
— E então ? Comemos primeiro e conversamos depois? – perguntou enquanto servia a minha taça.
— Depende do quão sem apetite esta conversa pode nos deixar.
— Não vamos correr o risco então. Almoçaremos primeiro.
Eu estava extremamente desconfortável com aquela situação toda. Um cenário ridículo de hipocrisia. Lucas agia como se nada tivesse acontecido e sorria o tempo todo para mim, enquanto comíamos calados. Eu começava a imaginar de que seria vítima de um envenenamento, e como se lesse a minha mente, Lucas advertiu-me:
— A comida não está envenenada.
— Não posso discordar e nem concordar. É um risco.
— Oras , quando vai entender que eu não te faria mal?
— Quando vai entender que eu não acredito?
Encaramo-nos silenciosos e almoçamos. Eu, mais fingi almoçar. Não queria comer, estava sendo educada, até porque o meu estômago estava embrulhado de ansiedade. Ele levantou da mesa, e dissera que havia dispensado a empregada naquele dia. Retirou sozinho, os talheres e louças. Não fiz o menor esforço para ajudá-lo. Não estava ali para cortesias.
— Vamos ao que interessa! – disse ele se aproximando com a garrafa de vinho, e novas taças: — O que você quer?
— Eu já lhe disse. Você desfaz suas armações contra mim e eu te ajudo a se livrar de seja lá qual for o processo que está passando. No último julgamento você foi indiciado a uma investigação, pelo que eu me lembro.
… Eu sou um promotor. O que a faz pensar que eu precisaria da sua ajuda? – gelei por completa.
— Então para quê me chamou?
— Eu vou te ajudar sim. Mas, antes… – parou me encarando profundamente: — Quando esteve aqui outro dia, você murmurou suas dores quanto ao nosso término.
— E você também.
Deixei claro que eu não era a pessoa fragilizada com o rompimento, e já não gostava do rumo daquela conversa.
— Não fiz questão de esconder. Responda-me... Quanto tempo levou para me esquecer?
— Você não pode estar falando sério.
— Quanto tempo, ?
— Quanto tempo você levou para me esquecer, Lucas, se é que já me amou?
— Jogo de snooker! – ele riu sarcástico.
— Não pode responder primeiro? – insisti.
— Posso. Eu não te esqueci.
— Ah não? E foi capaz de me incriminar mesmo assim… Quão doentio você é?
— Sua vez mocinha, me responda.
— O que você quer, hein? Seja direto Lucas Castro. Rodeios não são do seu feitio!
— Você está muito tensa… É só uma pergunta.
— Uma pergunta que não nos levará a lugar nenhum. Faça as suas propostas de uma vez.
não é?
— Como?
— Seu namoradinho, se chama , não é?
Eu senti um embargo em minha garganta, mas não poderia deixar a minha farsa cair.
— De onde você tirou isso?
— Eu o vi no seu julgamento...
— Não era meu namorado.
— Mas, agora é... Não é? é a filha dele... Eu tenho meus informantes .
— Lucas... O que você pretende?
— Eu sei bem que você não me ama, !
— Você não sabe nada dos meus sentimentos.
— Responda logo! – ele gritou — Quanto tempo levou para me esquecer?
— Não esqueci! – gritei de volta chorando: — Como eu poderia esquecer alguém que me faz sofrer tanto!?
— Então você está fazendo o quê com este homem, brincando de casinha?
— Estou tentando esquecer o homem pelo qual amei tanto, e hoje está me torturando.
Menti. Eu precisava tentar fazer com que ele entendesse que, embora eu estivesse em um relacionamento, os sentimentos por ele eram maiores do que por , fossem eles de amor ou mágoa.
Lucas não sorriu, nem falou nada. Pousou sua taça e a minha numa mesa. E com as mãos no bolso me encarou pensativo.
— Um beijo.
— Você está de brincadeira com a minha cara, não é possível. – resmunguei.
— Não é capaz disso?
— Um beijo e você confessa no tribunal tudo o que me fez e me livra das acusações?
— Acha mesmo que seria fácil assim? Um beijo e eu te apresento uma proposta condizente ao que você quer.
— Não. Eu não vou te beijar por nada.
Eu peguei a minha bolsa no sofá e estava saindo até que Lucas me segurou pelo punho. O olhei desafiadora e seu olhar era indecifrável.
— Eu só preciso de um beijo para saber se acabou. – ele disse.
— Me chamou aqui para tentar reatar comigo?
— Fiquei pensando no que você disse a respeito de não me perdoar apenas pela traição. Só quero que saiba que foi um deslize inútil e impensado. Arrependi-me no mesmo instante. E... Existiram outros motivos que me fizeram trair você. Não era por falta de amor.
— Isso não faz a menor diferença, agora.
— Eu ainda te amo . De uma forma incoerente e destrutiva.
— Ainda bem que você reconhece. – ri sarcástica por sua última frase.
E não tive tempo de pensar em uma segunda resposta. Lucas me enlaçou ao seu corpo e me beijou. Eu queria matá-lo. Sem a menor dúvida. Mas, ele estava em minhas mãos e queria uma resposta para o “amor” doentio que sentia por mim. Eu poderia entrar um pouco naquele jogo, até ter a certeza se aquilo me levaria ao que eu buscava.
— Espera… – afastei-me dele ofegante, fingindo uma surpresa excitação: — O que isto vai mudar?
— Você me beijou de volta, com o mesmo ímpeto…
— Lucas, eu vou embora… – o interrompi e me desvencilhei de seus braços e ele me puxou novamente.
— Não! – colou nossos corpos — Eu não tive culpa. Meti-me em coisas maiores e para me livrar tive que proteger quem você queria prender. Eu não te traí . Aquela mulher foi uma prostituta qualquer, e ter deixado que a incriminassem foi uma estratégia. Eu livrava os meus negócios, e te livrava depois. Mas, você prosseguiu rápido com as suas investigações, como a excelentíssima delegada que era e chegou ao meu nome. Virou-se contra mim e não quis escutar nada do que eu tinha a dizer, não quis escutar os meus planos. E eu sabia que depois de tudo aquilo, por sua honra indiscutível você não me daria outra chance. Então eu simplesmente deixei que tudo acontecesse…
Ele confessou. Eu estava radiante. Eu mal podia acreditar. Precisei me concentrar para não sair da personagem.
— Mesmo dizendo me amar, você deixou que eu passasse por tudo aquilo Lucas? – iniciei um falso choro — Eu te amava! Eu desejei com todas as forças que fosse tudo um grande engano! E você se tornou o meu carrasco!
— Nós podemos consertar isto! Eu vou te ajudar! Livro você das provas falsas, e você fica comigo de novo. Você é a mulher que eu quero, e preciso para se casar comigo. Vamos recomeçar, eu estou com ótimos esquemas e…
— E a minha honra indiscutível Lucas?
— Você não precisa se envolver em nada! Eu não quero isso! – ele segurou meu rosto com as duas mãos de uma forma predadora — Eu não quero que você se corrompa, só quero que fique comigo. Como sempre fomos meu amor.
E novamente me beijou voraz.
Havia dois riscos: eu sair dali e deixá-lo e a ira de Lucas piorar as coisas de alguma forma ou, eu levar aquela situação e aguardar os próximos dois dias que faltava para o julgamento.
A segunda hipótese. Pensei em , e em como aquilo era vil com ele, mas, também pensei em como aquelas palavras confessas não apenas me livrariam da culpa como o acusariam sobre as demais investigações. Eu não deixei de ser uma investigadora durante todo aquele momento. E agindo como tal, convenci-o de que me entregaria ao “sentimento” que tinha por ele.
Uma farsa suja. Cara. E necessária.
Por Deus, estar na fazenda me salvou em tantos sentidos. Mas, o maior deles, fora a minha fé. Eu havia retornado à espiritualidade naquele local, e embora não houvesse ido muito às missas de domingo desde que retornara para São Paulo, eu rezava todos os dias. Caxias. Como o novo hábito que conquistei na fazenda. Não me isentava de culpa, mas, estava agradecida e agraciada por aquilo. Tanto, que um telefonema de última hora me salvara das garras de Lucas. Ele atendeu ao telefone assim que leu um nome no visor.
Estávamos no sofá, e ele agarrava-me sem pudor. Meu estômago embrulhava.
— Desculpe , eu preciso atender. – disse se retirando para o escritório.
Eu me recompus, peguei minha bolsa e o aguardei voltar. Não podia fugir, pois, daria nas caras. Então aguardaria seu retorno e faria uma cena de mulher apaixonada, magoada e confusa e me despediria prometendo procurá-lo. Mas, nada daquilo fora preciso. Ele retornara vestido para sair, e beijou minha boca novamente com ardor.
— Eu te procuro para terminarmos nosso acerto, tudo bem? – falou acariciando meu rosto e depositando beijos por todo ele.
Fiz sinal positivo com a cabeça, e saí do apartamento antes dele. Observei ao redor, e vi o carro de David, mas não poderia entrar já que Lucas estava por perto. Pedi um táxi e fui para casa. David telefonou perguntando se estava tudo bem, e dizendo estar seguindo meu táxi. Informei que estava indo para casa, e que nada grave havia acontecido. Ele disse ter ouvido tudo, e me parabenizou. Falou que passaria depois no apartamento para me ver, mas precisava naquele momento retornar ao trabalho. Tomei um banho tão agressivo que saí do chuveiro com a pele avermelhada. Decidi ir à academia para extravasar ainda mais o asco que sentia de mim, mas, liguei para Souza. Era o melhor e mais seguro a ser feito: entregar as provas finais.
Assim que Anjinho e os demais envolvidos souberam da missão bem concluída, o juiz expediu o mandato preventivo de prisão e o julgamento foi marcado.

Semanas depois...

Ângelo, Verônica, Souza, David, e eu estávamos reunidos do lado de fora do fórum festejando a vitória do julgamento. me beijou espontaneamente e David me cumprimentou de longe. O chamei mais para perto, mas, ele fizera sinal de bater em seu relógio dizendo que estava atrasado. Sorri e o agradeci murmurando um emudecido “obrigado”. Meus amigos fizeram uma festa de abraços, beijos e sorrisos ali mesmo.
Lucas foi preso no dia seguinte ao nosso beijo. Anjinho entregara as escutas ao juiz e a sentença de prisão preventiva fora assinada. O julgamento dele ainda aconteceria, mas, o meu que seria nos dias seguintes já estaria salvo. Vera e Anjinho desde o momento que ouviram a escuta, começaram a festejar por saber que “sua inocência é iminente agora”.
, parabéns!
Meu antigo supervisor acompanhou todas as seções daquele julgamento, mas a leitura da sentença aquele dia o deixara extremamente feliz.
— Finalmente, doutor Abelardo! – o abracei agradecida. — Excelente trabalho Ângelo. – ele cumprimentou meu amigo — E quanto a você senhorita, segunda-feira seu batalhão te espera. Chega de ócio!
Sorri feliz, sendo acompanhada pelos companheiros de equipe que estavam ali me prestigiando e pelos amigos mais próximos que acompanharam o caso.
— Doutor Abelardo, eu sou grata por tudo isso, mas, precisaremos conversar sobre uma transferência.
— Ah não me venha com uma notícia dessas, num dia como esse! – ele reclamou com as mãos na cintura — O que houve com você lá em Minas Gerais?
E assim que ele terminou de dizer, eu sorri sem graça, e todos olhavam para e eu. Notando que, ao meu lado era mais do que parecia ser, Dr. Abelardo o encarou como um pai preocupado e depois sorriu para mim.
— Entendi… Bem , nós faremos o que for preciso. Mas, você não pode ir agora.
— Eu sei, tem todo um processo…
— Exatamente.
Abraçamo-nos e nos despedimos.
Faríamos uma reunião em casa para comemorar, mas o doutor Abelardo não iria. E eu já esperava por aquilo. Mandei mensagens ao David, o convidando. Ele apenas dissera que estava ocupado e que faria o possível para passar lá, depois. Acreditei que ele estivesse evitando o .
Aquela noite, eu festejei com toda a liberdade que não tinha há muito tempo. e eu fizemos chamada de Skype para família – aquilo se tornara o novo vício de titia – e todos se alegraram.
, vai voltar com você papai? gritou apoiando o rostinho na tela do computador como se pudesse entrar nele e arrancou nossas gargalhadas.
— Ainda não filha, mas ela volta antes do que imaginamos!
— Eu estou com saudades, !
– ela gritou birrenta.
— Eu também minha princesa! Eu prometo que volto logo!
Ao fim da chamada, a festa rolava e fizemos presença até a meia-noite. Eu não contara ao como consegui a confissão de Lucas. Apenas afirmei que ele caiu na armadilha que Ângelo preparou e foi o suficiente para ele. Eu me sentia suja por ter feito aquilo com ele, mas… entenderia? Com medo da resposta, eu decidi virar aquela página e carregar aquele peso na consciência até que eu pudesse me perdoar.
Todos foram embora e não percebemos, quando ao sair do banho e ir até a sala desejar boa noite para Ângelo e Vera, que os dois também haviam nos deixado a sós de novo. Sorrimos cúmplices e fomos deitar. Preparei um chá de hortelã. Estávamos cansados, exaustos na verdade. E enquanto deitados bebendo o chá, conversávamos mais calmos.
Era impressionante como a conversa entre e eu, se tornava um hábito necessário e prazeroso. Nem parecíamos aquela dupla de estranhos que mal trocavam sílabas e se ofendiam sempre que possível. Havíamos evoluído tanto.
— Eu não sei quanto tempo mais terei que ficar aqui até sair a minha transferência, mas, estou pensando em alugar um apartamento. Quero dizer... Estava tudo certo para eu ir para o apartamento dele depois do carnaval, mas... O meu processo foi retirado agora que eu fui inocentada e a sentença foi lavrada, então... Vou ter que voltar a trabalhar e seria bom livrar Anjinho e Vera desta falta de privacidade. Comentei cautelosa, aguardando a resposta de . Eu acreditei que ele encrencaria naquela história de “você não quer voltar”, novamente. Mas, já havia perdido aquela insegurança.
— Se você se sentir mais à vontade com isso, então faça. Tente um contrato curto para evitar problemas, como você disse sua transferência pode sair a qualquer hora. – ele depositou a caneca do chá que bebeu no criado-mudo e me abraçou recostada ao seu peitoral: — Para onde pretende pedir a transferência?
— Eu não faço ideia amor. Eu não conheço a região, então pensei em conversar com o Gabriel. Pedir umas indicações.
— É, acho que ele vai poder te ajudar.
Beijei meu homem, delicadamente e pela primeira vez acho que posso dizer, relaxada. Não que eu ficasse tensa com ele. Há muito tempo, já houvera se tornado minha paz momentânea. Entretanto, a liberdade do medo me trouxera uma sublime e constante paz. Eu sentia que qualquer outra dificuldade, seria passada com mais leveza. Não somente por ser livre, mas, pelo aprendizado que toda aquela desventura me proporcionou.
— Quando você vai?
— Amanhã de manhã, . Não poderia nem ter vindo, mas fiz questão de estar aqui com você.
Beijando-o carinhosamente, não demorou muito para que ele passasse suas firmes e quentes mãos por dentro da minha blusa de pijama. Acariciou minhas costas e me causou arrepios. E já que ele me provocava, eu faria o mesmo. Passei minhas mãos em seu abdômen, e aticei a fera que havia nele, quando sem pudor me jogara no colchão e se posicionara sobre mim. Arrancou-me risos felizes e safados, e beijou o meu pescoço e colo.
Nada de algemas, nada de arma, nada de luxúria. Aquela estava mais para uma transa tântrica. era viril na medida certa, em seus toques carinhosos e firmes eu me sentia totalmente à vontade, e segura.
Não queria provocá-lo numa troca calorosa de volúpia. Eu queria me abandonar nele, senti-lo como meu. Pertencer àquele momento, como se fosse a nossa primeira vez. E seguimos num amor par, – selvagem à nossa maneira e também espiritual – aquele encaixe exato de uma alma em duas.
Eu estava deitada, com os cabelos soltos e espalhados pelos lençóis, desarrumada e sorridente de olhos fechados, descansando. Ele, sobre mim, com os cabelos igualmente bagunçados, os braços erguidos apoiando o próprio corpo lado a lado dos meus. Sorria sem mostrar os dentes, numa paz recentemente, comum a ele. Relaxou os tríceps, ao dobrar seus cotovelos no colchão, deitando sua face entre meus seios a me encarar. Eu estava pronta para perguntar o que ele pensava, notei aquele semblante igual ao do dia em que conversamos por videoconferência, e sem me dar tempo de falar qualquer coisa, ele se pronunciou.
— Quero um filho teu.
Eu arregalei os olhos. E pisquei algumas vezes. Eu poderia jurar que a minha postura o deixaria zangado. Mas, continuava me olhando com o semblante pacífico. Era aquilo que ele queria dizer de novo, mas só diria na hora certa, ou quando quisesse que eu tivesse certeza.
— O quê? – eu havia entendido, mas não sabia o que responder.
— Não precisa ficar nervosa. Eu já sei o que você pensa disso. Não precisa ser imediato, porque eu também sei que agora você vai falar que o processo acabou, mas ainda não é a hora certa, mas, eu quero.
… – comecei a rir abobalhada — Eu…
— Não precisa falar nada, .
— Eu fico muito feliz em ouvir isto, mas, nós podemos esperar um pouquinho mais até...
— Eu sei. – ele me interrompeu — Só quero que saiba que, quando estiver pronta para isso, e se você quiser ter um filho comigo eu serei muito mais feliz do que agora.
Ele me beijou. Levantou da cama, nu, e foi ao banheiro tomar seu banho. Fiquei alguns minutos digerindo o que acabara de ouvir.
Um filho. Comigo. Uma família real. Pra sempre.
Eu ainda tinha dúvidas sobre o quê eu queria realmente naquele momento. Íamos casar uma hora, eu sabia, eu queria. Mas, eu estava confusa. Tinha acabado de reaver meu direito de trabalhar, minha corporação em São Paulo me aguardava. Ainda tinha o inquérito de corrupção da minha própria delegacia, ao qual David também investigava, então... Não havia acabado ainda. Eu não poderia me transferir ainda. E por tanta confusão, por hora decidi apenas tomar um banho. Fui atrás dele, e tomei meu banho para depois dormirmos abraçados.


Capítulo 28 - A imprevisibilidade da vida

Tocar na playlist: (Iza – Dona de Mim)


Acompanhei ao aeroporto novamente, e aquele gesto de despedidas sequenciais, mantinha vivo em nós o ímpeto de colocar tudo no devido lugar o quanto antes. Após deixar meu homem no portão de embarque, e vê-lo se afastar mais uma vez, respirei profundamente. Aquele seria um dia absurdamente louco. Eu tinha mil e uma coisas a fazer entre decidir os assuntos da transferência, retomar meu posto na delegacia e – embora São Paulo não tivesse a paisagem exuberante e natural de Minas Gerais, ou as praias do Rio de Janeiro para um happy hour – eu daria uma volta após o expediente, em qualquer lugar. Naquele desejo de vento nos cílios que estapeiam a nossa face com a liberdade.
Na segunda-feira, quando finalmente chegou a hora de retomar meu posto, meu celular apitou as mensagens de meus amigos, desejando-me boa sorte no novo dia de trabalho. Todos estavam alegres e ansiosos no grupo de whatsapp por saber como seria o meu reinício, mas, sem dúvidas, não mais que eu. Minha família também falou comigo naquela manhã, antes de eu terminar de me arrumar, para desejar as melhores coisas para meu dia. Eu estava radiante!
Dirigi muito ansiosa até a delegacia onde eu trabalhava, e nada havia mudado. Reconheci os carros no estacionamento, e desconheci a tranquilidade dos camburões. Assim que cheguei à portaria de entrada, David estava lá de pé. Com sua roupa sempre descolada, a barba bem feita, e um sorriso safado no rosto. Veio até mim e deu o abraço em atraso, que no dia do julgamento não veio me dar.
— Bom dia, delegada!
— David, obrigada por ter vindo... – eu sorri largamente o abraçando grata: — Mas, estou sendo prepotente ou realmente veio por minha causa?
— Também! Na verdade, eu tenho um caso federal a discutir com o Dr. Abelardo.
— Certo! Bem-vindo à minha delegacia. Vamos entrando, porque eu não me aguentava de saudade daqui!
Seguimos e David com o mesmo olhar de admiração, que várias vezes o vi me lançar, encarou minhas reações. Abri a porta que dava para a minha divisão e uma enorme faixa dourada com os dizeres: “Seja Bem-Vinda a Casa” se pendurava sobre as cabeças de todos os agentes, policiais, e companheiros de equipes que aplaudiam e gritavam.
Corri para os cumprimentos de todos e meu supervisor, sério, mas feliz, caminhou até mim e com toda a pompa estendeu-me o meu distintivo. Peguei o objeto de sua mão segurando a emoção e o pendurei no pescoço, cumprimentei novamente meu supervisor com um abraço. Fui até a minha antiga mesa, apoiando-me nela e olhando para todos que me encaravam atenciosos, agradeci:
— Eu não tenho palavras para agradecer todo o carinho de vocês, e empenho enquanto eu não pude estar aqui. Quero agradecer ao delegado Tavares, por cuidar da minha equipe enquanto eu estive fora. Em especial, ao Dr. Abelardo por sua liderança primordialmente impecável. E aos meus águias, que estiveram agindo com toda a lealdade, agilidade e talento que sempre tiveram. E como eu diria de costume, para matar suas saudades: “Bom dia a todos, e vamos trabalhar porque o dia mal começou e já tem meliante por aí!”.
Todos sorriam e aplaudiam, e logo deram as costas à sala seguindo para seus trabalhos. David sorriu orgulhoso para mim, se despediu com um aceno de cabeça e tocando o ombro de meu supervisor saiu com ele para a sala dele. Antes olhou para trás, dando de cara com minha expressão de felicidade acariciando a minha mesa.
Sentei-me e comecei o dia analisando todos os processos pendentes em meu escaninho, e recebendo as explicações de Tavares sobre tudo o que havia acontecido e todos os casos.
A parte da manhã foi tomada por reconhecimento dos casos novos, retomada dos antigos e reorganização da delegacia ao meu jeito.
— Costa, não é possível que foi só eu me ausentar, para você amolecer no ritmo! Eu acho bom você retomar o controle do nosso trabalho, porque eu estou sedenta para resolver este caso como nunca, e eu não admito peso morto aqui dentro.
Eu estava sentada à minha mesa com um dos meus agentes à minha frente, encarando-me com um sorriso enviesado de quem já aguardava por aquele esporro. Havia chamado além de Costa, parte dos agentes que comandavam minhas equipes investigativas.
— Desculpe delegada , confesso que manter o ritmo sem a senhorita por aqui, não foi possível.
— Entendo a dificuldade que devem ter tido para readaptarem-se com a confusão que isto aqui se tornou, e por esta questão eu quero que você me explique o que houve.
Soltei a pasta com o caso sobre minha mesa e cruzei os braços, séria, denotando-o que eu exigia ótimas explicações para que um caso importante como aquele estivesse atrasado. Costa sorria, e quando viu que eu não iria facilitar, ele ajeitou a gravata e pigarreou retomando sua postura profissional. Todos estavam ainda, meio abobalhados com minha presença ali, mas eu os faria retomarem-se ao meu jeito de comandar uma delegacia.
— O Dr. Tavares teve dificuldade em se enquadrar aos nossos processos ativos, e por tais questões, como seu principal policial eu tive que remanejar minhas atenções e reforços para acompanhar o delegado Tavares. Fiz o possível para abrir mão dos casos menos preocupantes.
— Eu compreendo... – suspirei fundo, massageando as têmporas e logo falando para todos ali presentes em minha sala: — Mas, não vamos nos esquecer de que aqui nesta delegacia não temos “casos menos preocupantes”. Manter a ordem e a eficácia minimamente possíveis em todos os casos é a nossa prioridade! O que costumamos fazer é escalar os casos em nível de urgência e vocês erraram feio em deixar um caso praticamente resolvido para concluir depois. E eu só tenho uma pergunta, Costa: qual caso vocês deram a atenção no lugar deste?
Os policiais presentes se entreolharam, inseguros da resposta.
— Nós demos alçada ao caso do sequestro da Zona Leste. Aquele que, o filho do Dr. Matoso foi a vítima.
Encarei os olhares ansiosos de meus policiais, com o meu olhar de decepção e surpresa.
— Eu não quero olhar para vocês agora, porque eu estou a ponto de avançar em cima de cada um. Eu não estou acreditando que vocês afrouxaram as amarras do cúmplice no Rubens Paiva, para esclarecer a porra do sequestro do riquinho! Caramba! Nós já tínhamos resolvido esta pasta! O culpado havia sido pego, era só uma questão de tempo!
— Drª. , nós não podíamos descumprir a ordem do Dr. Tavares.
Fugindo de olhar na cara do meu policial, desviei os olhos para fora da sala e notei David sorrindo fraco a me encarar.
— Eu vou esclarecer esta história com o Tavares. E até lá, eu realmente espero não me decepcionar com vocês de novo. Ou eu não sei do que serei capaz...
Eles me olhavam sérios aguardando minhas reações finais, e desabafando o meu descontentamento esclareci a minha reação a eles, um pouco mais calma:
— Vocês não poderiam dar as costas ao caso do Rubens Paiva, eu passei por tudo aquilo justamente porque estava na cola de resolver esse caso. E eu realmente espero que vocês não tenham entregado a prisão dos bandidos.
Meus policiais abaixaram a cabeça, tão envergonhados quanto eu estava descontente.
— Podem ir. Eu volto a chamar vocês quando necessário, e até termos este assunto encerrado, trabalhem duro e não fraquejem nas suas obrigações. Não me deem mais motivos para decepções.
Assim que terminei de falar, os policiais um a um foram se retirando, e Costa – como meu principal encarregado – pelo olhar concordou com o que eu havia dito e sussurrou um fraco: “não decepcionaremos mais você, ”.
Ele tinha certa intimidade para se referir a mim daquele modo. Após ele dar as costas eu fiz sinal com a mão para que David entrasse. Ele veio calmo, e observador.
— Você brava, me deixa louco.
Sorri sem vontade, apenas para não lhe dar uma resposta atravessada. David pegou minha bolsa e estendeu-a para mim:
— Vamos! Como um bom amigo irei te levar para almoçar. Foram muitas emoções para um primeiro dia de retorno, e não tem motivo para resolver tudo de uma vez. Você acabou de recomeçar, vá com calma.
— Obrigada David. – peguei minha bolsa, minha arma e segui com ele reclamando pelo caminho: — Mas, este caso não! Eu não consigo acreditar, que mesmo depois de entregar nas mãos do Costa todo um dossiê importante, ele simplesmente o trocou por outro caso trivial. Não menos importante, mas puxa... Ele viu o duro que nós demos para chegar onde estávamos! E o mandato de prisão já havia sido expedido sobre o sequestro, não consigo entender o que faria o Tavares mudar o foco.
— Acalme-se! – massageou meus ombros enquanto caminhávamos na direção do seu carro.
— Eu espero que não tenha regredido tanto.
— Creio que o Costa, não faria nada imprudente uma vez que você confiava nele. Então, espere para ouvir a história toda. Explodir desse jeito não vai te levar a nada, e depois é como eu disse, não precisa pressa. Você acabou de voltar!
— É eu sei, mas estou com pressa sim, preciso proceder com os trâmites da transferência e não quero deixar nada pendente.
— Transferência?
David intercalou o olhar entre a avenida que o carro já adentrava e eu, no banco do carona ao seu lado.
— Você saiu correndo no dia da sentença e não soube. Eu avisei ao Dr. Abelardo que quero uma transferência.
— Para Minas?
— Onde mais, seria?
— Puxa... Eu não contava com isso. Quero dizer, você havia mencionado, mas acreditei que ao retomar seu posto iria repensar isto.
— Desculpe te decepcionar. – zombei sorrindo.
— Não decepcionou. Mas, para qual DP pretende ir?
— Não faço ideia, por isso estou com pressa de resolver tudo.
— Lá na sua cidadezinha, não tem como?
— É uma possibilidade, mas não tenho certeza, é uma delegacia de interior e não sei como me sairia no ritmo de lá.
— Você não disse que estava ajudando o delegado de lá?
— Sim, mas não era permanente, né David.
— Compreendo...
David ficou pensativo e então ao pararmos no semáforo, puxei assunto:
— Você pode me falar sobre o assunto com o Dr. Abelardo, ou vai fazer como uma tal e manter segredo?
Ele riu fraco, voltando a sua atenção para mim.
— Sobre o seu ex, agora quase condenado, estar envolvido em negócio internacional.
— Não me diga que você pegou o caso do “Turco”? Eu me lembro de Ângelo me dizer que depois de descobrir o lance do Adenor, o caso veio para cá.
— Eu tive um interesse particular neste.
— Hm... Posso saber a razão?
— Não.
— Tudo bem. E posso saber onde está me levando para almoçar?
La Garizzo. Comida italiana gosta?
— Muito.
— É eu sei.
— Andou puxando minha ficha com o Anjinho de novo?
David me olhou com tristeza enquanto o segundo semáforo que passávamos acabara de fechar.
— Não...
Notei que havia uma informação perdida naquele diálogo. David dobrou a esquina à minha direita assim que o sinal abriu e logo chegamos ao local. Descemos e então percebi que o restaurante trabalhava com reservas. E me preocupei se David teria feito aquelas reservas apenas por minha causa.
— Reservas em nome de David Albuquerque.
Ele respondeu a uma atendente que o olhava como a maioria das mulheres, com desejo, dando aquele seu sorriso galante de sempre. Caminhei à sua frente, enquanto a recepcionista local nos levava à mesa. E assim que nos acomodamos, David sorriu e piscou para a mulher. Tão cafajeste e sexy.
Riu zombeteiro para mim, que o observava e reprovava seu gesto.
— Você ainda volta ao trabalho hoje ?
— Mas é claro, eu nem comecei o meu dia.
— Entendo, então deixaremos para nos embebedar outra vez. Um vinho branco pode ser?
— David... Por que me trouxe aqui?
— Relaxe, senhorita “eu desconfio até da minha alma”, eu já havia feito estas reservas para duas pessoas. Mas, levei um fora.
— Um fora? O gostosão do Albuquerque? – ri discreta.
— Quer dizer que eu sou gostosão?
— Não muda de assunto.
— Isso mesmo, . Um fora.
— Fingirei que acredito.
— Eu já levei um fora de você. Parti para outra e não deu. Satisfeita?
— Tenho mais uma questão.
Ele bebeu um gole da água que nos foi servida e revirou os olhos em incômodo. Não dei a mínima e continuei:
— Por que você foi embora como um fugitivo ao final do julgamento e não apareceu na recepção de comemoração?
— Digamos que, o melhor para mim era evitar você e seu namorado.
— Você estava louco para conhecê-lo.
— Não naquelas circunstâncias.
— Por hora, me darei por satisfeita.
— Acho ótimo, porque não quero perder o apetite falando do seu namoro.
— Nossa, eu não sabia que a minha felicidade lhe tirava o apetite. – zombei agradecendo ao garçom que nos servia o vinho.
— Falando em felicidade, o seu namorado já sabe da transferência?
— Não era você quem não queria falar disso?
— Só acho que se está tomando esta atitude por causa dele, o cara é um babaca. Ele deveria apoiar as suas vontades e não te induzir a fazer a dele.
— Você não entende nada de cumplicidade, é por isso que levou um fora. – eu ri — Mas, não tem nada a ver com ele.
David arqueou uma sobrancelha como quem não crê no que houve.
— Tudo bem, ele tem a ver sim. Mas é porque eu quero estar perto dele, ok? E de toda a família que eu ganhei. Eu amo aquele lugar, e cada uma daquelas pessoas.
David assentiu calado.
— Não sente falta nem um pouco da vida que tinha aqui?
— Estar naquela fazenda me fez muito bem, David. E me mostrou que eu sou muito menos fútil do que eu achava que era. Percebi que consigo viver sem todas as coisas de uma cidade grande.
David sorriu admirado.
— Mas, confesso que se tivesse uma cafeteria descolada com wi-fi e, uma boa livraria e uma academia top de linha, eu ficaria mais contente.
Rimos um para o outro e nossos pratos chegaram.
— Podemos nos tornar sócios, e abrir um destes negócios por lá. Parece-me uma boa oportunidade.
— Nós dois, sócios? O que te diz que daria certo?
— Somos ótimos parceiros.
— E desde quando trabalhamos juntos? – falei abertamente dando uma generosa garfada em minha massa.
— Você não se lembra de nada? – David perguntou chateado — Nada, nada daquele treinamento em Brasília?
— Claro que lembro, mas, por algum motivo você tem muito mais memórias deste evento. Como se fosse o ocorrido mais importante da sua vida.
— E foi. Foi naquele treinamento que eu passei para agente Federal. E depois... Eu não poderia esquecer nem se quisesse os nossos momentos juntos. Porque, foi lá que eu comecei a me apaixonar por você.
— David...
— Relaxa , não estou dizendo isso para ser o cara chato que não sabe seguir em frente. Eu tinha um encontro hoje, lembra?
— David, me desculpa. Desculpe de verdade por não lembrar... De verdade, parece que eu perdi alguma coisa importante. Acho que eu estava focada em outras coisas na época, e poxa... Eu me sinto tão mal por não ter a mesma importância para mim.
— Ei, esquece isso. Como está seu prato?
— Maravilhoso. E o seu?
— Nunca erro neste restaurante.
Seguimos durante todo o almoço num papo mais leve. David me perguntou sobre os meus planos até a transferência sair, e eu lhe contei que pensava em alugar um lugar para deixar Anjinho e Vera mais à vontade. Ele voltou a mencionar o apartamento à venda, mas que o dono aceitava alugar, e era próximo ao seu condomínio. E eu não deixei de lado a hipótese.
Quando chegamos à delegacia novamente, antes que eu saísse do carro dele, o deixando seguir seu caminho, David me falou algo que para mim, era como um grande favor que eu o deveria.
— Ah propósito, você me deve uma.
Ele falou com sua expressão de que, nem por um milhão de chances, eu fosse acertar o assunto ao qual ele se referia.
— Eu te devo uma no quê? Tá maluco?
— O telefonema que Lucas atendeu e interrompeu vocês.
— Você estava na escuta, né?
— Eu disse que tinha escutado tudo. Dei um jeito de fazer alguém ligar para ele.
— Como?
— Ei, ei! – ele riu animado — Só basta você saber que está me devendo uma!
Ele tinha um largo sorriso no rosto e um olhar convencido para mim, eu encarei seu olhar em resposta, mas diferente de como era comum, não havia o brilho de desafio no meu olhar, apenas gratidão.
— Obrigada, David. – agradeci verdadeiramente sorrindo.
— Eu sabia que você não queria levar as coisas àquele ponto, e... Eu não achei certo também. E eu sabia que você ia se martirizar de culpa, por fazer mais do que fez.
— Eu ainda sinto essa culpa. Afinal, não sei como lidar com isso quando o souber.
— Ele vai surtar. Com certeza. Mas... Eu acho que você precisa mesmo falar com ele sobre a parte suja em ser investigadora, .
— O que quer dizer com isso?
— Em breve a gente conversa. Agora... Bom trabalho!
Cumprimentei David, desconfiada, e segui para minha delegacia. Tive uma conversa com Tavares naquela tarde, buscando compreender em como a forma de trabalho dele, chancelou a escolha de priorizar o caso do sequestro. E não gostei nada de sentir que o delegado substituto não abarcava argumentos suficientes para me convencer.
Entre pensar em muitas coisas que permeavam minha mente, e executar meu trabalho de forma organizada e clara, Costa bateu à porta do meu gabinete pedindo para falar comigo.
— Eu preciso conversar com você, sobre umas coisas... Pessoais. – ele disse de forma tranquila.
Mas, havia um sinal de Costa, que ele sempre utilizava comigo quando estávamos em alguma sinuca de bico. Duas fungadas rápidas com o nariz. Ele queria me dizer algo, mas por alguma razão não podia.
— Pessoais? – respondi ao seu sinal, com o meu: um estalar de língua.
— É. Como a amiga conselheira que você sempre foi.
— Mulheres, né?
— Uma mulher.
— O que isso aí? – sorri fingindo aquela ser uma conversa casual, e apontei ao envelope em suas mãos.
— Ah, só mais uns casos que eu não tinha entregado a você antes, mas estes já vão ser dados por concluídos. Como conheço bem a delegada , sei que gostaria de dar uma olhada. – ele me entregou e se preparou para sair da sala: — Qualquer dúvida me pergunte, e nos vemos mais tarde? Eu preciso mesmo dos seus conselhos femininos.
Quando ele saiu da sala eu acenei positivo e fingi dar uma olhada naqueles papéis. Saí da minha sala fingindo ter me esquecido de falar algo com o Costa e disfarcei indo até o meu carro, – ao qual eu tinha fechado o contrato de aluguel dias antes – e lá deixei os papéis que estavam dentro do envelope pardo, realizando o retorno à sala, com o envelope vazio. Depositei junto a outros que eu iria despachar em breve.
Na saída do trabalho daquele dia, Costa me aguardava numa quadra depois da delegacia, em sua moto, e eu pareei o carro ao lado dele, abrindo o vidro de leve:
— Vamos naquele bar de sempre? – perguntei.
— Melhor um lugar mais reservado.
— Acho que lá em casa, vão estar os meus amigos.
— Vamos para a minha então, já faz tempo que você não desfila sua beleza por lá, não é? – Costa piscou e partiu.
Segui até o pequeno apartamento modesto dele, e me deparei com o lugar organizado e limpo. Como sempre.
— Cadê a Aurora?
— Nós estamos separados.
— Nossa... Parece mesmo que eu passei décadas longe de tudo.
— Quer beber alguma coisa, ? – ele perguntou sorrindo enquanto eu sentava ao sofá.
— Qualquer coisa não alcoólica.
Depois que Costa me serviu um suco e se sentou ao meu lado, eu peguei os papéis em minha bolsa.
— O que são estas listas investigativas?
... Eu vou falar uma coisa muito, muito séria aqui. E eu preciso que você seja paciente e cautelosa a partir de agora.
— Que porra Costa, o que é?
— A delegacia tá cheia de abutres. Desde sua saída até as pessoas que foram implantadas para trabalhar lá... Percebeu que alguns dos nossos não estão mais lá, ou foi um dia cheio demais?
— Eu já sabia. Soube durante o meu processo, na verdade, recentemente. Quem ainda está com a gente lá dentro?
— Eu, e todos que estavam em sua sala hoje na hora do esporro. Mas...
— Tavares é um dos corruptos, não é? – interrompi concluindo.
— Eu sabia que você entenderia logo que falasse com ele. O cara não tem a menor capacidade de esquivar quando é apertado. Foi colocado estrategicamente ali, e tem a ver com aquele desembargador que era muito amigo de Lucas.
— Eu o vi na rua recentemente... Que estranho. Mas... E estes papéis que você me entregou?
— O passo a passo até aqui da investigação sigilosa que o Dr. Abelardo me pediu. Ele tá fingindo ter aceitado o esquema do narco, e inclusive tá trabalhando com a Federal. A ordem dele é a gente dar linha na pipa.
— Isso explica a bagunça real que encontrei.
... Você não vai poder bobear, a gente desconfia que tenham escutas e câmeras por toda a delegacia. E o esquema envolve outras jurisdições também. Viu os nomes da 46ª delegacia?
— Não. Não vi! É a DP que a Vera trabalha. – peguei os papéis, preocupada e procurei a lista que ele citou.
— Tem muita gente lá que não sabe de nada ainda, mas, eu preciso te dizer uma coisa muito séria. Sei que entre esses nomes aí, há alguém que tem amizade por você e inclusive te ajudou durante o processo.
Meu coração acelerou. Se Costa estivesse certo, eu poderia correr graves riscos de ter um infiltrado inimigo ao meu lado.
— Não pode ser...
Minha expressão duvidosa demonstrava que não havia sentido em nada daquilo.
— O Souza? – perguntei alarmada e confusa.
Costa me olhou tão confuso quanto eu.
— Ainda não tenho informações suficientes se o Souza está dentro do esquema ou só infiltrado entre eles, mas, você tem que observar isso com cautela . Ele foi um dos inspetores que vazou da nossa DP para lá.
Puta merda, Costa! Ele estava do meu lado esse tempo todo. Não é possível! Se fosse, ele teria entregado tudo para o Lucas... Olha... Você disse que o Dr. Abelardo está agindo duas vezes não é? Precisamos reunir nosso lado e entender o que está acontecendo! Vou procurar o Dr. Abelardo, amanhã mesmo!
... É que... Você vai ser afastada de novo. Na verdade, a sua ideia de se transferir caiu, como uma luva para nós.
— Que merda é esta Costa?
— Eu não poderia te passar essas informações agora, mas... Você vai ser afastada para não chamar atenção para nós de novo, e sua transferência vai ocorrer bem rápido, mas, você também tem umas missões, não é?
Minha cabeça estava dando um giro de 360º e eu já não sabia se eu poderia confiar no Costa ou não. Tudo o que ele vinha ame dizendo era absurdo demais. Logo quando eu retorno ao trabalho, me deparo com todo aquele esquema corrupto, a 3ª delegacia de pernas para o ar, e ainda com essa de que eu serei afastada de novo?
Eu me sentia como uma paciente recém-acordada de um coma. De um coma, de no mínimo dez anos.
— Até onde eu sei, Costa, minha missão é terminar o caso do Rubens e colocar a delegacia em ordem de novo!
. Eu estou do seu lado, sou seu homem de confiança ali dentro. Sempre fui. Eu sei que você vai ser delegada para um trabalho pela Federal, porque, o próprio Dr. Abelardo veio me informar isso, já que até lá, o Tavares vai rodar. Eu vou ficar no comando na sua ausência, sobre o pretexto de ter sucumbido ao esquema do narco também.
— Costa... Olha só... O que afinal, eu faço então? Por que você me chama até aqui, me joga essa bordo
ada de informações e diz que eu estou de mãos atadas? — Você não faz nada. Aliás, você obedece. Eu só quis alertar você, porque te conheço . Seu sangue ferve com um distintivo no peito, e hoje você já chegou querendo meter o pé na porta, colocar os pingos nos “is”, e eu só estou te situando para você não acabar se ferindo de novo. Só isso.
Costa se aproximou de mim com a sua expressão de sempre, tão calmo. Enquanto eu queria explodir bem na frente dele. Contive-me em apenas suspirar.
— Eu nunca fui tão repreendida por ser correta. E olha que nos últimos tempos, eu tenho sido repreendida por apenas existir.
Ele riu e me puxou para um abraço.
— Relaxa . A vida tem dessas coisas... Às vezes ela, dá um jeito de nos parar na marra... – Costa afagava minhas costas no seu abraço apertado, e então eu me afastei analisando-o.
— Aquela história de conselhos não era mentira, não é? – ele fugiu o olhar dos meus olhos — O que você fez com a Aurora?
— Por que a culpa é sempre do homem?
— Só, me diz logo vai...
— Ela me traiu. E... Você me conhece. Não tinha necessidade disso, então, para mim foi imperdoável.
— E quem é que... – olhei desconfiada ao redor do apartamento dele: — Está mantendo essa organização impecável no apê?
— Oras assim você me subestima! Eu! É claro.
— Sei...
Olhamo-nos duvidosos e caímos no riso.
— Sabe... Eu preciso te dizer uma coisa .
— Ah não, é mais bomba?
— Não sei como você vai encarar isso, mas... Eu lamento muito que logo agora que eu estou solteiro, você tenha arrumado um agroboy para você.
Agroboy? – eu perguntei estranhando aquela novidade.
— É o apelido que o David deu para o seu namorado... Como é mesmo o nome dele? – Costa falava sorrindo zombeteiro.
— É ! E... Eu acho que vou ter que dar um tiro no David para ele começar a me respeitar.
Eu falei revirando os olhos e dando as costas para o meu amigo que gargalhava da minha reação.
— Pega leve com ele , você vai ter que suportá-lo por mais tempo do que imagina.
— Desde quando você também ficou amiguinho dele, hein?
— O cara é uma comédia, admita.
— Estou cercada de infames.
Costa me abraçou novamente rindo de mim, e nos despedimos. Quando entrei de novo no meu carro, havia informações demais na minha cabeça e eu só queria fazer uma lista pontual dos meus pensamentos. Ou definitivamente, eu entraria em pane total. Dirigi de volta para o apartamento dos meus amigos, louca por descanso.


Capítulo 29 - Os lados das moedas

Tocar na playlist: (Projota - Carta aos meus)


“Deus te deu arma, Não te pediu pra ir pra guerra. Deus te deu alma, você decide o quanto erra. Não importa qual Deus você escolher, mas precisa acreditar em algo. Mesmo que seja só em você”.

Depois de guardar o carro de aluguel na vaga extra do prédio de Vera, eu peguei os papéis que me foram entregues por Costa, minha bolsa, e saí do estacionamento subindo pelo elevador do subsolo. Assim que cheguei ao andar do apartamento, Souza estava sendo levado ao elevador por meus amigos.
— Souza?
— E aí , tudo bem? – ele perguntou amigável me cumprimentando com um abraço.
— Sim. E você?
— Tudo certo. – ele respondeu tranquilo.
— Mas, aconteceu alguma coisa para você vir aqui?
— Não. Só precisei relatar umas situações para Vera, coisa interna dá 46ª.
Ele sorriu ameno e eu sorri de volta, suspirei e ajeitei minha bolsa em meu ombro e abaixei a cabeça pedindo licença para entrar. Souza respondeu com um aceno e uma expressão tão desconfiada quanto a minha. Anjinho e Vera também estranharam a minha reação, e foi só depois que eu saí do meu banho que eu me deparei com o casal, me analisando gesto por gesto.
Na cozinha eu peguei um pedaço de torta na geladeira, percebendo os dois cochichando algo. Aproximei-me deles, e sentei ao sofá, sem intenção de não ser direta:
— Está com problemas na sua DP, Vera?
— Sempre não é? Afinal, é uma delegacia. – seu tom de voz era desconfiado.
— Aconteceu algo ? – Anjinho perguntou.
Peguei os papéis que eu havia deixado na mesinha de centro quando cheguei e mostrei à Vera.
— O que é isso?
— Me conte a verdade Vera. O Souza está ou não metido com o narco?
— Que absurdo é este, ?
— O nome dele está aí.
— Isso... Isso não é o que parece, ok? Você já sabe que o Dr. Abelardo está no esquema também?
— A situação é a mesma?
— Claro que é ! O Souza é incorruptível. Você sabe disso.
— Sinceramente amiga? Eu não sei de mais nada depois de tudo o que eu passei.
Ângelo preocupado com a maneira como eu me mostrava desconfiada de Souza ainda não tinha dito nada, mas quando eu deixei clara a minha confusão sobre “amigos incorruptíveis”, ele levantou-se um pouco do sofá para me olhar nos olhos.
. O que está deixando você assim tão desconfiada? Porque eu acho que o seu tom não é referente apenas ao nome de Souza nessa lista.
— Eu tenho a sensação Anjinho, de que todo mundo está mentindo para mim.
— Até nós? Sobre o quê?
— Podiam começar me explicando, de onde vem esta ligação com o David.
Ângelo e Vera se entreolharam, desconfiados.
— Nós somos amigos dele desde muito tempo, . É só.
— Eu sei que tem alguma coisa no meu passado com ele, algo que eu não sei o que é, mas vocês parecem saber!
— Já perguntou para ele?
— Ele desconversa. E é incrível que meus melhores amigos não queiram me ajudar a esclarecer isso.
Levantei do sofá indo à cozinha lavar a louça que eu havia sujado.
— Eu vou pro quarto porque tem muita coisa na minha cabeça agora. E eu preciso ligar pra casa. – falei saindo silenciosa. Anjinho e Vera, qualquer que fosse a situação que eles me escondiam, e eu sabia que escondiam, não disseram nada para me esclarecer as dúvidas. Sentei à cama e telefonei para casa. Não demorou muito para que todos quisessem me chamar numa videoconferência agora que a fazenda tinha a melhor internet da cidade.
A barriga de Rosa aumentou bastante, sob o meu olhar, desde que eu saí dali. Titia estava bastante vistosa e eu sabia que aquilo tinha relação com Guino. , como sempre, amorosa e espevitada. E ... Bem, ele foi o último a ficar falando comigo. Depois que eu já havia conversado com todos e havia subido para dormir, foi em direção ao nosso quarto, e deitou-se à cama com o notebook no colo.

— Lunia foi liberada.
— E o potro?
— Sendo gestado, e bem.
— Quanto tempo uma égua leva a parir?
— Onze meses.
— Só em novembro então? Misericórdia.
– eu disse e riu.
— Como está indo no trabalho, meu amor?
— Uma zona, ogro. Uma zona... –
suspirei pesadamente:
— E sinto que, eu não vou ter paz tão cedo.
— Hm...
– ele murmurou pensativo, desviando o olhar da tela por alguns segundos.
— E o que faremos com o carnaval?
— Vem para cá. Eu sei que você quer que a conheça São Paulo, mas, você está exausta .
— Estou. Mas, eu queria muito que vocês viessem.
— Tudo bem então. Eu vou organizar tudo aqui para nós irmos.


Sorri animada. Já estava com vários planos sobre como divertir . e eu passamos alguns minutos a mais nos falando e por fim, nos despedimos. Antes de dormir, eu fui escovar os dentes e assim que retornei ao meu quarto, procurei meu bloco de anotações de bolso e fiz uma lista do que eu precisaria esclarecer no dia seguinte.

– x –

Na manhã seguinte, Anjinho havia deixado sobre o aparador da sala a chave de seu apartamento e um bilhete.

“Obras finalizadas, e eu já paguei uma empresa para limpar tudo.
O apartamento está à sua espera !”.

Sorri pela notícia, e ainda que eu soubesse que ele não aceitaria aquilo, eu iria insistir em pagar um aluguel a ele. Telefonei para Ângelo, mas não obtive resposta de atendimento à ligação, assim como Vera, que também não me atendeu.
Chegando à delegacia eu entrei em minha sala, cumprimentando a todos por onde eu passava, e após conferir se estava tudo certo com os papéis que eu havia deixado no meu escaninho, liguei o computador e peguei meu bloco de anotações. Eu havia chegado mais cedo do que o horário de maior movimento, como já era meu hábito fazer aquilo, e por isso ninguém iria tomar meu tempo. A primeira tarefa da minha lista era o caso Rubens Paiva. Peguei a pasta do inquérito e analisei todos os documentos novamente, minunciosamente, e percebi que a parte final quase concluída e que eu fui obrigada a abandonar, não estava na pasta. Onde estavam todos os nomes dos indiciados que eu tivera tanto trabalho para apontar? Apertei meus olhos tendo ciência de que o caso havia sido abafado, uma vez que a delegacia estava dentro do esquema.
Levantei guardando o dossiê na minha mesa, dentro da gaveta com chave, e fui à sala de arquivos da delegacia. Assim que abri a porta, havia dois policiais lá dentro se beijando.
— Delegada ? – o homem me perguntou atrapalhado.
— Vocês não deveriam estar trabalhando? – perguntei e a mulher se ajeitava o encarando de modo suspeito.
Os dois saíram calados e seguiram caminhos opostos enquanto eu ainda os observava. A delegacia estava de fato, uma bagunça, dada aquela cena antiética que antes não aconteceria. Se eu trancasse a porta da sala, eu levantaria suspeitas, por isso, apenas fechei-a e me encaminhei ao arquivo procurando naturalmente informações do caso ali, mas estava limpo. Nada, nem mesmo os papéis antigos que eu havia deixado sobre o caso. Tudo relacionado ao inquérito “Paiva” que existia na delegacia, certamente, estava na pasta que me foi entregue. Deram um jeito de sumir com tudo. Aproveitei que já estava no arquivo, e puxei meu bloco de anotações de meu bolso. A segunda tarefa ali era procurar os inquéritos das mulheres desaparecidas, que tempos antes, eu havia analisado com Ângelo. Mas, também não havia nada.
— Droga! – resmunguei.
Pensei um pouco e saí da sala indo até o gabinete do meu superior. Dr. Abelardo estava sentado analisando uns papéis com uma expressão muito contrariada, mas quando bati na porta seu rosto suavizou para mim.
!
— Posso falar com o senhor um momento?
— Claro, entre.
Sentei-me na cadeira frente à dele, e rapidamente, Abelardo deixou tudo o que fazia para dar-me atenção:
— Eu estive nos arquivos agora a pouco, porque precisava ver a situação do caso Paiva, mas, não encontrei nada.
, deixe isso com o Costa. Concentre-se nos novos casos que estão entrando, até porque, não estava quase tudo finalizado mesmo?
— A questão é essa Dr. Abelardo, estava quase tudo finalizado, e de repente sumiram todos os vestígios do caso.
Dr. Abelardo passou a mão sobre seus olhos, e depois de um pequeno momento de silêncio, comigo o encarando, ele levantou-se e foi caminhando calmo até a porta de sua sala, observou pelo vidro o movimento da delegacia, e retornou aos poucos me olhando cuidadoso e tentando me convencer de alguma coisa:
. Eu preciso que você se concentre nos novos casos, e deixe os antigos para quem já estava fazendo o trabalho por aqui.
— Um trabalho muito suspeito e confuso, não é? A DP está uma zona! E me desculpe Dr. Abelardo, mas... É uma questão de honra para mim, que esse caso do Paiva se resolva.
... Por todo respeito e carinho de pai que sempre lhe tive, apenas ouça o que eu digo e esqueça isso.
— O senhor deve ter algo então, de muito sério para me contar não?
, eu só posso te dizer uma coisa: não faça isso. Eu sei o que está maquinando na sua cabeça. Escute o que eu digo, e em breve tudo vai se resolver.
Olhei para o Dr. Abelardo de forma duvidosa, mas compreendendo que havia um motivo para aquilo. Precisava existir um motivo plausível.
— Só mais uma pergunta. Os inquéritos de desaparecimentos de algumas mulheres, por volta dos anos 2010 até 2015. Por que não os encontro?
— Você estava investigando isso?
— É. Eu larguei um caso com o Mourão porque na época estava muito concentrada no caso Paiva, mas... Já que voltei queria retomar e não encontrei nada, também.
Dr. Abelardo desviou o olhar para o chão e se mostrou pensativo.
— Esses casos, se não me engano, estão nas mãos da Federal agora.
— Entendi. Por isso David estava aqui?
— Não tenho certeza, David veio apenas tratar de umas burocracias comigo. , não olhe para trás, eu te peço.
A maneira preocupada e firme, em que Dr. Abelardo me aconselhou a não tocar naqueles assuntos me fez compreender que eu estava cutucando um vespeiro. Mas, só não consegui ter certeza se eu estava sendo afastada por proteção ou ameaça. A conversa que Costa teve comigo, me fez ficar na corda bamba quanto ao Dr. Abelardo.
Assenti calada à recomendação dele, e levantei-me da cadeira o olhando diretamente, e insatisfeita saindo da sala. Observei, enquanto fechava a porta, ele escrever algo no telefone e logo em seguida meu aparelho me notificar. Entrei em minha sala nervosa, batendo a porta e andando de um lado ao outro. Sentei encostada à mesa retirando meu celular do bolso e lendo a notificação recebida.

Dr. Abelardo: “... Tem muita coisa acontecendo que eu não posso te explicar agora, mas, mantenha-se longe dos casos complexos da delegacia. Sua transferência sairá em breve para Minas Gerais, e dentro de pouco tempo você terá que escolher só a região”.

Bufei alto e retornei para a cadeira da sala. Observei calada ao movimento do lado de fora, que era possível ver pelas persianas dos vidros da sala, então abri algumas pastas do sistema do computador, e de fato, muita coisa não estava mais ali. Haviam feito uma limpa na delegacia, e se Costa estivesse certo sobre parte da DP fingir aquilo estava em algum lugar que ele sabia. Mas, como ele também já havia deixado claro, eu não conseguiria sua ajuda para descobrir nada. Por hora, me concentrei em ver os tipos de casos que estavam às minhas mãos. Um verdadeiro ultraje, nada daquilo condizia com o trabalho pesado que eu fazia antes.
Busquei dados acerca do desembargador que há pouco tempo eu havia encontrado por coincidência desagradável na rua, no sistema policial, e puxei a ficha completa dele. Também fiz o mesmo com os dados de Costa e Dr. Abelardo, só pela minha intuição. E também puxei os dados de David, já que algo me dizia para fazer aquilo logo. E então, eu fiquei chocada.
Lia e relia a tela sem compreender em que momento aquilo era uma realidade. Apenas imprimi os papéis e com muito custo concentrei-me em meu trabalho até dar a hora de ir para casa. No estacionamento, percebi dois policiais conversando e me cumprimentaram duvidosos quando passei por eles. Ainda dentro do carro eu observei que eles me encaravam enquanto eu saía do estacionamento dirigindo. Aquilo mexeu com a minha cabeça. Não quis ficar pensando nas coisas que me aconteceram naquele dia de trabalho, onde nem almoçar eu almocei, ou nos dados escritos de David naquele papel. Mas, de repente me bateu uma necessidade absurda de sumir.
No apartamento, nem Anjinho nem Vera haviam chegado, então eu tomei um banho, me arrumei para ir à academia, arrumei todas as coisas que eu levaria ao apartamento de Anjinho, e saí para fazer exercícios e extravasar minha cabeça. Quando eu retornei, cansada, suada, e com a cabeça um pouco menos leve apenas, mas com um forte desejo ainda de surtar e meter o louco, meus amigos encaravam um ao outro, preocupados.
— Ah você chegou! – Vera falou afoita.
— Ei, e aí, tudo bem?
— Amiga! – ela me olhava preocupada: — Que malas são aquelas no quarto?
— Ah... Eu decidi ir hoje para o apê do Anjinho, mas, antes eu quero combinar umas coisas com você Ângelo.
Meu amigo olhava da noiva para mim, confuso, e preocupado.
— Tudo bem.
— Vou só tomar um banho, ok?
— O jantar está quase pronto. – Vera falou e eu apenas acenei.
No banho, eu deixava a água cair por meu corpo como se fosse levar todo cansaço e dúvidas. Quantas vezes eu havia feito aquilo nos últimos tempos? O que teria acontecido se eu simplesmente fosse embora depois de todo aquele julgamento resolvido ao invés de aceitar a delegacia de volta? E o que eu faria com o meu desejo louco por justiça? Como Costa dizia: meu sangue fervia com um distintivo no peito. O que eu me tornaria se eu pegasse o primeiro avião para Mato Alto e me casasse com , tivesse uma porção de filhos e me tornasse fazendeira ao lado dele? Quem seria sem aquilo que ela mais amava fazer?
Eu nunca tinha pensado tanto naquilo antes, porque a espera pela minha inocência provada, e o fim do julgamento era tudo o que eu mais queria. E eu achava que quando acontecesse, naturalmente, eu poderia ter tudo: ter a fazenda, os corações de quem eu amava, e a vida de perseguições policiais. E eu achava que teria tudo do meu jeito dessa vez, mas os últimos dias só me mostravam que eu estava com as mãos atadas e a alma enrolada em mistérios e segredos. Eu estava sendo vítima do destino, mas, até quando?
? – Vera falava batendo na porta do banheiro: — Está tudo bem?
— Sim! Eu já estou indo.
Saí do banho indo ao encontro dos meus amigos que continuavam cautelosos comigo. Vera sorriu e foi à cozinha passando por mim e beijando meu rosto. Anjinho também me deu um abraço de lado me arrastando para o jantar.
— Estamos preocupados, mas imaginamos que você só está estressada por encontrar muita falcatrua na delegacia que você ama, não é?
— Anjinho... – eu sussurrei e respirando fundo declarei: — O que acontece se eu largar tudo?
Os dois me olharam confusos enquanto encaminhavam-se a servirem seus pratos e se ajeitarem no balcão da cozinha.
— Nada. Você só recomeça. Você é livre . – Anjinho dizia com um sorriso paciente.
— Sei lá. Eu não sei se poderia ser fiel a mim fugindo assim.
— Então não fuja amiga. – Vera falou simplesmente.
— Era isso que queria falar comigo?
— Não Anjinho, eu só quero avisá-lo que eu vou pagar o aluguel justo pelo apê, e não aceito negativa como resposta.
— Não tem necessidade disso, na verdade, você estará me fazendo um favor cuidando do imóvel.
— Eu já disse que vou pagar e ponto.
— Ok, mas o condomínio eu acrescento no aluguel então.
— Como quiser desde que cobre o justo.
Vera mastigava me percebendo triste e então largou os talheres, e eu já sabia que ela tinha perdido a paciência.
! Você foi inocentada! E está aos poucos retomando a sua vida, então pode, por favor, nos contar o que está acontecendo e parar de sofrer sozinha!?
Tanto eu quanto Anjinho, olhamos para ela com uma expressão pesarosa.
— Desculpem. Eu estou deixando vocês dois apreensivos, não é?
— Olha ... Estamos mesmo preocupados desde ontem.
— É que... A minha vontade agora, é de sumir. Ir para Mato Alto e fingir que nunca fui policial e nem nada, e só... Abraçar minha felicidade.
— Mas? – Anjinho perguntou já sabendo que havia um “porém” na história.
— Mas, eu não posso brincar com a minha vida e a dos outros agindo por impulso.
— E de onde vem esse impulso? – Vera perguntou.
— Do fato de que a delegacia está cheia de bandidos fardados e eu não sei quem é quem. Do fato de que, eu baixei a ficha profissional e criminal do meu superior, que me pediu descaradamente para não me meter com casos “complexos” depois de eu perguntar a ele o que houve com as provas do dossiê “Rubens Paiva”, e dos inquéritos das mulheres desaparecidas. E principalmente do fato de ter meu nome na ficha profissional e criminal do David, sem eu fazer a menor ideia de como ou quando eu e ele estivemos em situação que nos unisse como parceiros.
A expressão de Anjinho e Vera não só era alarmante quanto, as cores de suas faces também mudaram do pálido para o rubor.
— Aliás, baixei a ficha do Costa também, e não sei por que, me esqueci do Souza.
— Espera! Vamos por partes! – Vera disse já se recompondo e respirando fundo.
— Isso, vamos comer primeiro porque hoje eu não almocei. – eu falei decidida.
Depois de jantarmos em um silêncio maior do que o habitual, e com olhares demais sendo trocados entre meus amigos, e não, não eram olhares apaixonados, nós fomos até a sala conversar.
. Eu já tinha avisado a você da situação da delegacia.
— Eu sei Ângelo, mas eu não imaginava que eu seria bloqueada pelo Dr. Abelardo, Costa e nem que eu ficaria entre a dúvida de acreditar ou não que eles estejam no esquema do narco. E ainda tem o David que tem uma ligação com o Dr. Abelardo a qual eu não sei qual é. Ah! E o Souza! O Souza está ou não metido com isso também? Eu não sei!
Vera me olhou aflita e assim como Anjinho ela parecia querer dizer algo, por isso os dois se encararam e entraram num consenso afirmativo, silencioso.
, o Souza tá limpo. – Vera falou bufando: — Merda ! Eu não posso ficar falando essas paradas para você! Mas, estão todos limpos, ok?
— Como tem toda essa certeza Vera? Até onde eu sei tem uma teia de milicianos e narcotraficantes entre os policiais de São Paulo.
— Porque... – ela olhou para Anjinho que a instigou a continuar: — Porque tudo isso começou com a sua ação no caso do Paiva e foi tomando proporções que fizeram os envolvidos te afastarem, e depois disso os processos foram andando e chegando a situações maiores ao ponto da Federal se meter. E estamos todos agindo em parceria com a Federal . Ou por qual razão acha que o David está metido nisso desde o começo?
— Então não foi você que o colocou do seu lado? – perguntei ao Ângelo.
— Ele mesmo já havia confessado a você que te observa há anos junto com o Lucas. Eu só recebi ordens maiores do Tribunal Federal Judicial para dar carta branca ao David.
Eu levantei sacudindo o meu cabelo com as duas mãos e levando posteriormente, uma delas a minha boca:
— Porra eu não sei o que é pior: descobrir mais caroço no angu, ou descobrir que o David tem essa moral toda.
. Entenda que tudo isso está muito acima de nós, um advogado e alguns policiais, e de você, delegada estadual.
— Então... Aquela vez que David disse que precisaria de mim, o que é afinal?
— Isso nós não sabemos, é parada da Federal. – Vera afirmou: — Só sabemos que tem a ver com o Lucas.
Eu respirei fundo assimilando tudo o que me diziam, e mais controlada sentei novamente à frente deles, no chão.
— E o fato de estarem correndo com a minha transferência é porque eu posso atrapalhar lá dentro?
— Eu não sei nada disso. – Vera falou.
— Nem eu. – e Anjinho assentiu.
— Mas, eu sei que você como a principal delegada envolvida e vítima do caso, certamente pode colocar tudo a perder se eles estiverem de fato na cola dos bandidos. Pensa comigo: se os nossos águias estão infiltrados entre os narcos, você é a última pessoa que pode saber e a primeira, que iria levantar suspeitas.
Vera relatou e eu comecei a encontrar um pouco de sentido naquilo tudo.
— Talvez por isso, Costa pediu para eu ter tanta cautela e cuidado. E por isso Dr. Abelardo queira me afastar logo.
— É o que faz mais sentido. – Vera disse.
— Claro, descartando a hipótese de serem culpados. – eu afirmei sarcástica.
— Isso, mas, você mesma falou que pegou a ficha do Dr. Abelardo e do Costa. Está tudo limpo, não é?
— Aparentemente, sim.
Os dois me encararam como se eu estivesse me preocupando em desconfiar à toa das pessoas erradas.
— Certo! E quanto ao David? Por que eu tenho uma ligação antiga com ele e eu nem sabia disso?! Porque eu tenho certeza que vocês sabem.
... – Anjinho suspirou preocupado: — A gente não tinha que falar disso contigo, até porque não sabemos o que o David pode achar e... —
Ângelo! – eu interrompi furiosa: — Cara vocês são meus amigos! Eu estou realmente assustada e preocupada, com essa porra de passado com ele que eu não lembro nada, não lembro de nós no treinamento, não lembro de ter sido parceira dele, não sei ao menos de onde surgiu esse amor louco dele por mim, o cara sabe tudo da minha vida e...
Parei de falar cansada e só suspirei.
— Porra... Tenta me entender, por favor?
— Certo. Então a gente vai contar para você uma história real da sua vida, que você não conhece. – Anjinho disse sério.
— Ângelo, não. – Vera contestou.
— Ela está certa Verônica! Nós somos amigos dela e não é justo que não sejamos nós a contar! – ele falou nervoso.
— Mas o David...
— O David vai entender! E depois... – Anjinho se acalmou me falando:— Eu só vou falar do que eu sei.
Comecei a sentir a minha respiração pesada, o ar ficando rarefeito, e as lágrimas que vinham em meus olhos incontroláveis como um mau presságio, pareciam querer me sufocar. A expressão séria e apreensiva de Ângelo, e a expressão espantada e aflita de Vera deram cenário para a voz arrastada de Anjinho me parecer ainda mais assustadora.
— Vocês foram parceiros por um tempo , ainda no treinamento, mas... Você sofreu um acidente e por isso tem parte de sua memória apagada. Os médicos disseram na época que você poderia tanto recuperá-la um dia, como nunca.

Eu senti o chão abaixo de mim afundar, antes de tudo ficar escuro.


Continua...



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Nota da autora: Preparadas para os capítulos especiais do passado que virão a partir de agora? Aguardo seus comentários! ♥
Enquanto esperamos o próximo capítulo, vamos conversando pelos comentários, grupos e etc! Espero vocês!



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Essa fanfic é de total responsabilidade da autora. Eu não a escrevo e não a corrijo, apenas faço o script.
Qualquer erro no layoult ou no script dessa fanfic, somente no e-mail.


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