Contador:
Data de finalização: 17/12/2020

Capítulo 30 - Um passado desconhecido

Capítulo Especial

, uma mulher forte, geniosa, teimosa e destemida. Uma mulher que age agressivamente na defensiva e evita preocupar as pessoas à sua volta, embora não goste de fingir que está tudo bem quando não está. E é também, muito corajosa. Foi com essas qualidades, que ela alcançou o seu sonho de ser uma delegada.
Aos dezoito anos, a garota passou na faculdade de direito, sendo ainda mais motivo de orgulho para seu pai, o também delegado Rodolfo . Ao longo de cinco anos, a mulher estudou avidamente, pois já sabia muito bem aonde gostaria de chegar, então não foi difícil concluir sua graduação aos vinte três anos. Entre os vinte três e vinte quatro, já havia passado no exame da ordem, e advogou – a parte que mais detestava no Direito – ao mesmo tempo em que se preparava para a prova do concurso para Delegacia Estadual de São Paulo. Mas, o que ela realmente queria, era chegar à Agente Federal, uma delegada federal. Fez a primeira prova confiante e acreditou que seria classificada, mas até ser homologado o cargo – se de fato houvesse passado – havia um tempo de um ano. Então, da metade dos vinte e quatro para os vinte cinco anos de idade, lá estava a jovem mulher inscrita no Preparatório Para Agentes Federais. Um curso robusto de seis meses, onde os alunos se preparariam não apenas para as provas teóricas e práticas, como também teriam o desafio de simulação de situação real. Aquele teste final era o mais difícil: eles teriam que atuar numa missão real, como uma espécie de estágio, com todos os riscos de uma missão real, e com isso exporem seus pontos fracos e fortes do trabalho em equipe.

Ano: 2016

A mulher executava os exercícios na barra alta com maestria, e não seria algo tão difícil, dado o seu porte atlético. Verônica estava descansando do seu treino físico, em um dos bancos de concreto do grande pátio. O Sol estava absurdamente quente naquele dia, e exercícios ao ar livre, estavam sendo tão arriscado para a saúde quanto um tiro em meio a um confronto. Ela terminou de virar sua garrafinha de água, e suspirou pesadamente antes de olhar na direção de , que estava extremamente focada naquela semana. O treino simulatório se aproximava, e embora soubessem que seria difícil, as duas torciam para caírem juntas na equipe. Enquanto via a amiga executar a elevação do próprio corpo com uma facilidade invejável, seus olhos também observaram a figura de um homem sentado a um banco de supino, analisando concentrado cada movimento de . Não era a primeira vez que Vera o flagrava babando em sua amiga, e com isso sorriu. finalmente cessou sua atividade e caminhou lentamente até o local onde a amiga estava, pegando uma garrafinha de água no cooler coletivo refrescando-se.
— O de hoje tá pago. – ela falou aliviada.
... Aquele carinha não para de olhar pra você.
Verônica afirmou risonha e após uma troca de olhares com a amiga lançou o olhar em direção ao ponto, em que Verônica observava mordendo os lábios do modo safado que era comum a ela. Deparou-se com o homem que a amiga havia dito, executando seus exercícios.
— Aaah... – sorriu — Aquele é o David. Estamos na mesma turma, ele é muito esforçado. E inteligente!
Verônica arqueou a sobrancelha divertidamente para a amiga, que com risos completou:
— E você sabe que eu tenho um fraco por homens inteligentes.
— Quem não teria, não é mesmo? Ainda mais inteligente com tudo aquilo ali... – a voz de Verônica saiu mais sensual do que pretendia e gargalhou da amiga.
— É... Mas se ele quer então não tem graça.
— Você precisa parar com essa mania de querer os homens inacessíveis.
— No dia que você tiver o prazer de experimentar a vitória que é uma conquista difícil, você vai entender.
Vera abriu a boca e encarando forte ao rosto divertido de , falou indignada:
— Se aquele Deus Grego ali, me dá o mole que está dando a você...
— Você não faria nada, porque está apaixonada pelo Ângelo.
— Ângelo? Que mané Ângelo, ! Para com esse surto de querer desencalhar o seu amigo comigo. Nós só estamos nos curtindo.
— Eu não, ele.
— Ele?
Uhum... – observou o rosto de Vera mudar de cor empalidecendo, e resolveu zoar: — Mas, eu também já falei para ele partir para outra. Anjinho é um romântico incurável que não merece ter o seu coração partido por você.
— O quê? Como você pode? Você... – Vera levantou-se revoltada e ofegante: — Você falou pro Ângelo terminar comigo?!
— Terminar? Não é você que diz que vocês estão só se curtindo.
— Não! Não é só isso! Eu não acredito que você aconselhou o Anjinho a me mandar pastar!
começou a rir divertida da amiga que havia retirado todas as máscaras de seus sentimentos naquela mesma hora. Verônica ao perceber que havia caído numa armadilha, bufou e sentou-se constrangida ao lado de novamente.
— Não tem porque se defender dele, Vera.
Verônica ouviu atenta a amiga, que já estava mais séria, e a encarou em dúvida.
— Ele não é tipo que te transformou nessa mulher medrosa demais para se entregar a romances sólidos.
— Como posso saber?
— Eu garanto. Eu coloco minha mão no fogo pelo Ângelo.
— Se ele é tão confiável assim, por que você não ficou com ele?
— Porque nós somos amigos.
O tom de voz certeiro de fizera Vera se calar, por mais que estranhasse a desculpa. Ângelo era realmente o tipo de homem totalmente diferente do que Verônica havia conhecido até então. O suspiro denso e desanimado – quase titubeante – que saiu da boca de Verônica foi suficiente para entender que convencer a amiga não havia dado certo. Por isso, ela resolveu arriscar quebrar o segredo de Anjinho. E também, porque Verônica não reagia bem às surpresas e a probabilidade dela magoar seu melhor amigo era muito maior. Então no fim, estava ajudando aos dois.
— Ele vai te pedir em namoro.
Ela confessou e viu os olhos brilhantes e vacilantes de Verônica analisar ao seu rosto:
— Eu não deveria te contar isso, mas ele vai te pedir em namoro. Eu não sei quando ou como, mas ele está decidido quanto a isso. Então, Verônica, não parta o coração do meu melhor amigo.
Verônica ouviu aquelas palavras que soaram ensurdecedoras e levantou-se desatenta de uma só vez indo ao cooler, lateral ao banco em que estavam para pegar água. Foi aí que ela esbarrou em David que chegava sem que as duas notassem, e mesmo com “tudo aquilo” – como Vera dizia – sem camisa, esbarrando em si, a mulher havia ficado totalmente perdida com a informação recente. Então ela pegou sua garrafa de água, apenas, e saiu dali sem ao menos se despedir. e David observaram a cena, ele confuso, e ela satisfeita com o estrago que havia feito à mente da amiga.
— Água? – David ofereceu finalmente à sem olhar para ela, e apenas virando sua garrafa.
— Não obrigada.
Ele passou o polegar no próprio lábio o secando e observou, com os olhos pequenos a se defenderem da luz do sol que lhe castigavam, à sentada confortavelmente de olhos fechados para o Sol, apoiada sob os braços. David sentou-se ao lado dela, em silêncio. E em silêncio permaneceram na companhia um do outro, até seu superior gritar-lhes:
! Albuquerque! – os dois o encararam simultaneamente: — Chuveiro e depois para a sala sete!
— Sim, senhor. – responderam juntos.
David continuou observando o caminho que o professor havia feito, com sua mente pensando das possibilidades daquele chamado. o observava e desconfiava que David soubesse de algo que ela não sabia.
— O que você acha que é? – ela perguntou.
— Se eu estou certo e esta chamada estiver fora do roteiro, ele vai nos passar um pré-teste prático com as possíveis pré-equipes definidas para o teste final.
— Quantas vezes você já fez este curso? – ela perguntou desconfiada.
— Esta é a segunda vez que faço e com certeza a última, porque eu vou passar. – ele falou determinado e sorriu gentil para ela.
— Gosto disso.
— Gosta é? – perguntou com atrevimento a olhando dos pés à cabeça.
sorriu irônica e se levantou estendendo a mão para cumprimentá-lo. David encarou-a duvidoso, e pegou a mão da mulher com vontade, antes dela sair para o pavilhão e ele se levantar, seguindo-a. Depois de cada um ter seguido ao seu caminho e se arrumado para estar a postos na sala pedida pelo professor e capitão da polícia, e Verônica desceram de seu quarto, juntas, até o local. Quando chegaram, a sala já estava quase completa dos alunos. Vera observou David num canto da sala, sozinho e lendo algo em seu celular. Ele ponderou à sua leitura, e pensativo encarou ao capitão à frente da sala.
— Podem sentar-se, em dez minutos começarei.
O capitão deu a ordem e todos os presentes, que ainda não haviam se sentado começaram a se encaminhar às poltronas acolchoadas do auditório. Verônica puxou pela mão ao perceber que a amiga ia sentar-se distante de David. Vera não parou de observá-lo, e David continuava em pé escorado à parede do corredor lateral observando o seu telefone. Ele deu um sorriso de canto, convencido, e depois de digitar algo no telefone o guardou no bolso.
— Será que ele estava falando com a namorada? – Vera sussurrou
— O quê?
— Nada não amiga... – ela observou o homem vir em direção à fileira de poltronas na frente das duas e reclamou baixinho para : — Ele não percebeu que deixamos a última poltrona vazia para ele?
— O quê você está pretendendo, posso saber? – cochichou de volta.
— Não é óbvio?
Vera respondeu atrevida, mas antes que ela ou continuassem falando, o capitão chamou a atenção de todos.
— Bem agentes, como todos sabem o exame final de vocês se aproxima, por isso é chegado o momento de vocês passarem por um pré-teste.
arqueou a sobrancelha e olhou de soslaio para David sentado uma poltrona à sua frente, recordando-se do que ele havia lhe dito no pátio. Ele estava provavelmente certo, e ficou curiosa se apenas a experiência de ter feito o curso antes dava aquela vantagem a ele, ou não.
— Vocês serão divididos em quartetos e cada grupo receberá uma missão a qual deverão ser extremamente eficientes e cuidadosos. Junto ao grupo haverá um agente oficial liderando-os, então aproveitem a chance para aprender com os outros federais que estarão avaliando a sua equipe também. Eu vou falar o nome de quatro pessoas, em seguida uma delas vem até a mesa buscar a sua pasta. Eu peço que mantenham a ordem e deixem para se apresentarem e interagirem quando acabarmos.
— Tomara que fiquemos juntas. – Vera manifestou apreensiva para a amiga.
Depois que cerca de oito grupos haviam sido chamados, e observava a todos atenta, ela ficou em dúvida do sigilo da pasta. Achou que eles poderiam ler à medida que a recebessem, mas uma vez que nenhum deles abriu ficou sem entender se aquilo era uma espécie de protocolo ou se os alunos estavam começando a fase “competição entre si”. E ao pensar que a competição havia começado, ela preocupou-se novamente com David. Quem estivesse na equipe dele teria certa vantagem, já que aquele homem aparentava estar, alguns passos a frente de todos.
— Verônica Moraes Ribeiro, David Neves Albuquerque...
Vera não pode evitar o sorriso frouxo quando ouviu seu nome e o de David, e cutucou a amiga que estava focada demais para dar atenção ao momento flerte de Vera.
— Michael da Silva Lopes e . – o capitão terminou de chamar os nomes.
e David levantaram-se ao mesmo tempo para ir buscar a pasta, mas o homem à frente dela se adiantou. Ele não viu o movimento feito pela mulher que retornou ao seu lugar recebendo o olhar animado da melhor amiga.
— Então estamos juntas, e com o Senhor Inteligente!
— Vera, eu acho que realmente demos sorte.
— Por quê? Por que ele é um tesudo? Lógico!
— Para de fogo na bunda, cara... – advertiu e riu levemente concluindo: — Porque ele está com alguma vantagem que eu ainda não sei se é da experiência anterior de curso dele, ou de informações que ele tem.
— O quê? Como assim?
— Shiii.. Ele está vindo. – calou-se deixando a amiga confusa com a notícia.
David ao subir o corredor, não se sentou na cadeira em que estava antes, mas sim na poltrona ao lado de .
— Muito prazer, David Albuquerque. – ele estendeu a mão e um sorriso gentil para Verônica que rapidamente respondeu, e sorrindo ele se direcionou à : — Você não, você eu já conheço.
— Então trabalharemos juntos, e você estava certo.
— Eu disse que passaria, não disse?
O olhar convencido de David era contrastado por seu sorriso gentil, o que lhe retirava o ar arrogante que a situação permitiria.
— Quem é o Michael? – Vera perguntou e observou o local após perceber que os outros dois não lhe davam atenção.
David pôs-se a abrir a pasta e agradeceu por aquilo, estava extremamente curiosa. Mas antes que pudesse ler tudo que estava escrito, David leu o nome de seu líder, o número do gabinete e fechou a pasta.
— Posso? – perguntou um pouco contrariada apontando a pasta.
Ele estendeu a pasta a ela, e a mulher avidamente leu. David notou pela pressa e curiosidade da mulher que aquela era certamente a primeira vez que estaria em uma investigação.
— O que você faz?
— Como? – olhou para ele sem entender.
— Advogada?
— É eu advogo, infelizmente. Mas por enquanto!
David sorriu satisfeito e respondeu antes do capitão retomar o seu discurso:
— Você vai passar fique tranquila. Deixe a advocacia para quem não tem a mesma adrenalina que a nossa.
o encarou e não evitou o sorriso que surgiu ao seu rosto. A prepotência da frase dita por ele, nada tinha a ver com a carreira de advocacia. Ter a vida de uma pessoa em suas mãos era também função do advogado e por isso havia tanta adrenalina quanto em outro serviço da lei. Mas, ela compreendia David, e por isso, sorriu.
— Podem direcionar-se ao gabinete de seus instrutores agora. Vocês só retornarão a me ver, após o final deste teste e se vocês falharem. Àqueles que forem bem, eu desejo-lhes sucesso e boa sorte nas próximas etapas. Obrigado pelo trabalho com todos, e até mais.
Os alunos da sala começaram a se levantar e alguns iam em direção ao capitão cumprimentá-lo. David permaneceu sentado e procurou ao Michael, que ao sinal de Verônica se aproximou deles. Os quatro se cumprimentaram, e antes de saírem, foram ao professor capitão também agradecê-lo.
— Albuquerque... – o professor sorriu e além do aperto de mão o puxou para um abraço discreto: — Desta vez você passa, não é?
— Era para eu ter passado ano passado, então, eu não vou falhar desta vez.
— Muito bem! Boa sorte!
O professor falou para ele e notou o olhar analítico de aos dois, então ele pegou a mão dela firme, e cumprimentou-a olhando em seus olhos de um jeito que ela não soube decifrar, mas que parecia lhe dizer “eu sei o que você está pensando e você tem potencial”. Michael e Verônica também o cumprimentaram e depois todos seguiam ao David que andava com as mãos no bolso da calça, silencioso e tranquilo ao gabinete do instrutor.
— Não vamos discorrer sobre a missão? – Vera perguntou seguindo ao David e à sua amiga que parecia acompanhar prontamente o homem.
— Estamos indo ao gabinete do capitão Viegas. Ele é nosso instrutor e certamente irá discutir a missão conosco, mas podem ler a pasta. – falou decidida e virou-se um pouco para os outros dois companheiros sorridentes: — Desculpe, eu estava focada na leitura e nem a repassei a vocês.
— Focada, é isso aí . – Michael respondeu risonho.
— Vocês se conhecem? – Verônica perguntou confusa.
— Não, mas eu sou bom com nomes. – Michael respondeu e as duas assentiram retornando ao corredor.
David já estava muito à frente, e observava o homem da cabeça aos pés. Havia alguma coisa incomodando profundamente a intuição dela. Alguma coisa referente ao David, mas nada que indicasse algum perigo. Na verdade, a intuição de soava-lhe como uma premonição de que aquela parceria não teria um começo e final comum para um curso.



David adentrou à sala do capitão Viegas logo após algumas batidas em sua porta. Assim como o anterior professor, este também o conhecia e estava sentindo-se bastante incomodada com a pequena hipótese de passar no teste por obter vantagens. Lógico, que estar na equipe de Albuquerque não a garantiria nada, mas ela era boa e sabia que não teria motivos para não passar. era extremamente confiante. Quando todas as apresentações foram feitas, e a missão explicada, o capitão Viegas lhes ordenou que seguissem até a delegacia onde foram incumbidos de trabalhar. Estavam todos dentro de uma viatura à paisana, que o próprio curso disponibilizava para os até ali, detetives, e discutiam sobre a missão, enquanto Michael dirigia.
— Então nós temos que achar uma agulha num palheiro! – bradou Verônica.
— As investigações da polícia devem estar mais adiantadas Vera, certamente eles não iriam nos dar todas as informações mastigadas.
— A está certa. – David confirmou — Aqui nós temos só o dossiê inicial do desaparecimento da menina.
— Repasse as informações David. – Michael pediu desviando rapidamente os olhos da rua para o retrovisor a fim de encarar o agente parceiro com certa simpatia.
E David pôs-se a ler as informações contidas na pasta.

Isabel Montanha Rodriguez. Treze (13) anos de idade. Desaparecida em 25 de agosto de 2015, às 13:00 horas da tarde. Filiação: José Sorto Montanha e Alessandra Perez Rodriguez.

No dia 25 de agosto de 2015 às 13:00 horas da tarde, a adolescente de 13 anos, Isabel Montanha Rodriguez a qual estava com os pais em uma viagem de férias, desapareceu no hall do Hotel Asanorte, norte do Distrito Federal. A família se hospedara no hotel no dia 19 de agosto de 2015, dia em que chegaram à cidade para sua viagem de férias. Durante toda a estadia, os pais relatam não terem presenciado nenhum comportamento estranho ou presença de pessoas estranhas ao redor da família. Isabel estava acompanhada da mãe Alessandra, quando ao meio-dia da referida data (25 de agosto) as duas desceram ao restaurante do Hotel para o almoço. Ao retornarem ao quarto, Alessandra e Isabel encaminharam-se ao guichê do hall, uma vez que seria feito o check-out da família algumas horas depois. Enquanto Alessandra era atendida pelos funcionários, a jovem Isabel que estava próxima a ela, sem saber informar em que momento tenha se afastado da mãe, Alessandra informa que ali se deu o desaparecimento da filha. Não há testemunhas oculares encontradas à cena.

26 de Agosto de 2015.
DPCA - Delegacia de proteção à criança e adolescente, DF.

Indexação de provas: 1. Ao dia 15 de setembro de 2015 foram colhidas as imagens das câmeras de segurança do Hotel Asanorte onde constam novos fatos ao caso: é percebida a presença de uma mulher aproximando-se da adolescente Isabel e trocando palavras breves, em seguida a jovem olha para a direção onde sua mãe se encontrava, e novamente vira-se para a mulher suspeita e a segue sem maiores resistências.


— Gente, só eu que ainda acho que deram o pior dos casos para nós? – Vera suspirou após ouvir toda a leitura refeita por David.
— Ninguém disse que seria fácil gracinha. – ele respondeu sorrindo para ela.
— Bem, é um caso típico de desaparecimento. Desaparecimentos nunca são fáceis.
— Concordo. Se fosse um sequestro teríamos mais apontamentos.
— Na verdade Michael, quem disse que não é um caso de sequestro? – olhou para o motorista ao seu lado desafiando-o.
Michael se surpreendeu com algo tão possível, Vera e ele, calaram. David sorriu de lado pela esperteza de . Ao chegarem à delegacia e serem apresentados como os aspirantes do preparatório, o agente federal Guinle foi quem, lhes acompanhou e atualizou sobre o caso. Outras provas haviam surgido naquela metade de ano, e agora havia um direcionamento ao caso: Isabel Montanha havia sido vítima de sequestro relâmpago e ao que indicava o inquérito, estaria no estado do Amapá. Uma equipe federal, assim como os aspirantes seria encaminhada in loco.
— Bem, a adolescente foi vista no estado de Amapá, precisamente na capital Macapá, com uma aparência diferente e por isso alguns policiais averiguaram as imagens e denúncia feita e de fato era ela. O que nos deixa preocupados é que o caminho das investigações aponta para um sequestro por tráfico. Ou seja, não há intenção de solicitarem resgate à família. E como temos sido apontados, há uma rota ilegal na fronteira com a Guiana Francesa de emigração.
— Agente Guinle, mas se o caso é de tráfico porque levar tanto tempo para emigrar a menina? Já passaram seis meses desde que ela desapareceu. – perguntou-o.
— A quadrilha costuma agir rápido, mas realmente por algum motivo que ainda desconhecemos essa adolescente não foi enviada nos lotes anteriores.
— Lotes anteriores? – Vera falou pasmada
— Temos agentes infiltrados na fronteira, desde o desaparecimento de Isabel, dois grupos de mulheres, crianças e adolescentes foram enviados pela fronteira. Aproximadamente dezessete pessoas.
O agente respondeu observando com certa candura a expressão apavorada de Verônica.
— É um trabalho difícil o nosso, não? – ele perguntou gentil a ela.
— Estes grupos que vocês mapearam...
— Eram todas mulheres? – David interrompeu acertando em cheio a pergunta que ela faria e a deixando, irritada pelo modo como foi “cortada”.
— Exatamente. Nossos agentes traçaram uma rota da quadrilha que leva ao Mar da Espanha, de lá, essas pessoas passam por uma triagem, então temos agentes emboscando dois “covis” que aguardam ordens nossas para estourarem. Mas, não podemos agir rápido até porque a polícia internacional dos respectivos países está sendo investigada.
— E o FBI? – perguntou.
— É uma possibilidade, mas eles não entram em casos que sejam extremamente necessários, quando não interferem na diplomacia estadunidense.
— Há quanto tempo estão na cola da quadrilha? – David perguntou.
— Tempo o suficiente para vocês resgatarem a menina Isabel, que é uma chave importante nesse caso.
— Como assim? – Verônica perguntou ainda aturdida com as informações.
— O pai dela não é? – Michael perguntou ao agente Guinle que lhe olhou espantado assim como os colegas.
Michael era rápido em seu raciocínio e tinha uma memória impecável. pôs-se a pensar no que Michael poderia ter concluído e David chegou à mesma conclusão que Michael rapidamente.
— O pai dela não foi citado no depoimento original da mãe, e, portanto, onde ele estava quando a filha e a esposa foram almoçar? – Michael perguntou.
— Ele é suspeito de compor uma quadrilha rival? – David perguntou alinhando-se ao raciocínio de Michael.
— Sim rapazes. Não temos uma prova contundente, mas seria uma explicação para o motivo de Isabel ainda estar no país, e não ter sido morta ou atravessada.
— Faz total sentido agora... O pai dela não poderia pressionar a polícia, esse tempo todo a resolver o caso, já que ele também é réu de alguma coisa. – Verônica confirmou.
— Em poucas palavras, o fato de Isabel estar no Amapá já indicia que algum passo será dado, e nós estamos numa corrida contra o tempo. Quando partimos, agente Guinle? – falou categórica.
Todos os presentes, inclusive Guinle, a olharam com surpresa. Exceto David, que a cada momento mais próximo, mais se via admirado pela mulher incrivelmente decidida, inteligente e forte, que a era.



Já haviam chegado ao estado do Amapá e se hospedado num hotel fora de suspeitas. A equipe de agentes federais separou os quatro aspirantes em duplas, onde cada dupla teria uma função. Verônica e Michael seriam responsáveis pela infiltração de inteligência técnica e tática, e David seriam da equipe de espionagem e confronto direto.
Vera e Michael com dois dias de operação conseguiram descobrir informações sobre José Sorto, que reforçavam as informações obtidas pelos federais. Michael mapeou os locais onde José Sorto esteve, para que Verônica se aproximasse de Alessandra e conseguisse, com um disfarce, coletar informações precisas.
Mas a equipe falhou no terceiro dia de viagem, o que deixou a e David tão irritados, que foi impossível a eles conseguir trabalharem juntos. Estavam os quatro reunidos com Guinle, no quarto de hotel, no quarto dia de viagem.
— Não temos tempo para joguinhos de espionagem Vera! – falou brava com a amiga: — Nós já perdemos três dias aqui só mapeando e seguindo o cara. A filha dele está aqui e ele também, o que eu repito, significa que eles já estão finalizando alguma coisa!
— A está certa. – David falou mais calmo do que suas parceiras que eram bastante estouradas.
— Tá legal! – Vera bradou: — Guinle está aqui e está de prova, que a merda da Federal não tem nada! E se tem, não vai passar para nós! Então o que nós fazemos com zero de informações?
— Ei Vera, é na merda da Federal que você está tentando entrar. – Guinle falou rude.
— É parceira! – Michael respondeu mais descontraído: — Não desmereça o trabalho de inteligência do Maikito aqui não!
andava de um lado a outro roendo a unha e pensando. David ao notar que Guinle não iria ajudar – afinal com certeza a Federal já sabia a resolução daquele caso, mas os deixaria fritar os nervos até o máximo –, e ao notar também, que tanto Michael quanto Verônica não sabia como reagir à estaca zero do plano que recentemente falhara, decidiu que se unir à seria a mais rápida forma de buscar uma saída.
Desde que chegaram ali, ele e a mulher não concordavam em quase nada, e a rudez da mulher não lhe dava espaço para agirem juntos.
. – ele chamou-a se aproximando calmo, e recebendo um olhar de raiva: — Tá, .
— Pra você é .
— Deixa de palhaçada. – ele disse impaciente: — Nós temos que ser as cabeças pensantes aqui.
— E por acaso eu estou fazendo o quê, Albuquerque? Passeando?
— Se for continuar a sua estupidez comigo, essa merda não vai dar certo e eu não vou...
— Não vai o quê? – ela bradou cutucando o peitoral de David com um dedo indicador: — Você já está protegido neste exame, então por que está fingindo que temos que dar duro quando na verdade, quem tem que dar duro aqui, sou eu?
David encarou-a de forma cortante, e seu olhar denotava o máximo da impaciência e olha que, David, não perdia sua paciência de forma fácil.
— Eu juro que queria muito que você fosse homem, só agora. Porque eu não bato em mulher.
— Olha só...
Antes que ela dissesse qualquer coisa, em resposta, David pôs a mão em sua boca e saiu a arrastando para o corredor do hotel. Guinle observou à cena em dúvida, e os outros parceiros assustados. Verônica gritava perguntando onde eles estavam indo, mas o som de sua voz desapareceu assim que David fechou a porta do quarto. estava verdadeiramente uma fera.
— Babaca!
— Tá, tá, eu só preciso que você me ouça. – David disse esperando-a se acalmar: — Primeiramente... Eu não estou com nenhuma vantagem aqui, ok? Eu apenas... Não passei no exame final do ano passado, por uma fatalidade.
— Eu não sei se acredito em você, e isso não importa agora.
— Certo, não acredite então, mas precisamos nos unir. Somos uma equipe, onde temos duas histéricas, um gostosão talentoso e um nerd muito bom. Tirando o nerd e o gostosão aqui, corre-se um risco grande de falharmos.
— Você é um babaca da pior espécime.
... – ela o olhou feio, e David corrigiu rolando os olhos: — . Vamos pensar juntos ou não?
observou a mão estendida à sua frente, e decidiu que pensar sozinha estava sendo muita burrice.
— Tá certo. – ela respondeu segurando a mão dele — Eu sou a favor de irmos direto ao confronto. Não temos tempo a perder bolando planos perfeitinhos como nossos colegas querem.
— Eu sei, por isso que falei logo com você. Você e eu somos muito parecidos e fizemos uma boa dupla até aqui, apesar de você sentir prazer em me menosprezar.
— Eu menosprezo ao seu ego, Albuquerque, e não a você. Agora vamos lá dentro mapear o nosso plano.
Assim que adentraram de volta ao quarto, o agente Guinle encarou os dois como se soubesse que aquela equipe fosse sair da estaca zero. O sorriso ladino e convencido dele dizia-lhes isso. Verônica mais calma, decidiu colaborar numa intervenção pensada pela amiga e por David, entendendo que não poderia esperar que a Federal desse a eles o resultado do caso. E enquanto David e mapeavam o plano, com os colegas dando seus palpites, Michael continuava ao computador com uma expressão de certeza. Michael realmente sabia o que estava fazendo.
— Bem, se vocês querem entrar de penetras na festa, as suas entradas salvadoras estão aqui. – Michael falou chamando a atenção de todos — Estou no sistema do Sorto agora, e a escuta que Vera e eu implantamos na Alessandra me permitiu ouvir que a quadrilha tem um encontro com ele amanhã.
— Não podemos ir ao mesmo encontro que ele! – falou, mas foi interrompida pelo olhar convencido de Michael: — Ok... Continue.
— O encontro deles é amanhã porque hoje, a quadrilha tem outro negócio às 22 horas. No cais do porto. E bem... Apenas não consigo dizer quem é o mandante.
— Vou pedir outras informações para vocês sobre isso. Bom trabalho pessoal. – Guinle falou se levantando piscando e sorriu a todos.
Os demais, o olharam sérios, e Verônica revoltada por só agora ele buscar interferir como agente federal que já sabia de tudo. Antes de dar licença aos aspirantes, Guinle lançou um olhar convencido e orgulhoso à e David e os disse:
— Ei vocês. Sejam mais parceiros e deixem as briguinhas de tensão sexual para depois, ok? Vocês são uma ótima dupla.
— Agente Guinle não tem... – ia intervir impaciente, mas foi cortada pelo agente.
— E um ótimo casal também. Eu sei o que está rolando entre vocês , e espero que deixem tudo isso de fora durante a missão. David... Você já sabe disso não é?
O aspirante mais experiente ali apenas murmurou positivamente Enquanto os colegas o encaravam com curiosidade e desconfiança.
— Bem, eu vou atrás de descobrir os nomes que vocês precisam. Michael concentre-se agora em mapear o sistema da quadrilha. Como demoraram a chegar ao ponto atual, vou dar a colher de chá e te passar as chaves que a federal já tem. Você consegue trabalhar para descobrir a última?
— Com certeza. – Michael afirmou animado.
— Ótimo. Verônica, você se prepara para cobrir a e o David na infiltração.
— Claro.
e David venham comigo. Os dois precisam trabalhar nos disfarces.
Os colegas se olharam e despediram-se brevemente dos outros dois, seguindo ao agente.
— David... – Guinle falou sem olhar o homem atrás de si: — Não vamos permitir que aquela história se repita, tudo bem?
— Não é o que eu quero, nunca, agente. – David respondeu.
observou ao diálogo, confusa, mas manteve o silêncio.

Alguns dias atrás...


estava caminhando pelo corredor do pequeno hotel, ao qual haviam acabado de realizar o check in, com Verônica ao seu lado, dando graças por finalmente terem chegado ali após o cansativo voo. Mas, a mente de não estava atenta ao que sua amiga dizia. Ela pensava sobre todos os momentos em que David parecia já conhecer todo o plano, e em como ele parecia ser o favorito de todos os superiores.
— Você está me escutando? – Vera perguntou entediada.
— Não. Nem uma palavra. Eu estou com outra coisa martelando na minha cabeça.
Ela respondeu abrindo a porta do quarto e entrando devagar, assim como Vera que deu uma boa olhada no local e deixou as suas malas num canto.
— E o que é? Tem a ver com o David né?
— Tem sim. – respondeu e tirou seus sapatos.
— Vocês transaram? Como conseguiram tempo para isso?
Vera se adiantou ao banho soltando risadas debochadas, e abriu o frigobar do quarto, pegando uma lata de cerveja e abrindo.
— Não foi isso.
— Eu vi, .
— Viu o quê? – desfez a pose e expressão séria, se mostrando assustada e abrindo a porta do banheiro para encarar Verônica.
— Vi o clima entre vocês oras. – a voz de Vera soou desconfiada e divertida de novo.
— Ah, você está delirando. Ele quer foder gostoso? Quer, mas...
— Tá! Falando sério agora! – Vera falou mais alto debaixo do chuveiro: — Eu vi vocês se beijando, no voo.
— Não nos beijamos! – gritou em resposta.
— Na ida ao banheiro... Nossa, que clichê, !
— A gente não se pegou no banheiro do avião. Que nojo Vera!
, qual é? Eu sou a sua melhor amiga vai! Ele não ia ficar te lançando aqueles olhares todos, se não tivesse acontecido nada. Eu sei que rolou alguma coisa entre vocês no início do treinamento.
— Ai que merda, Vera! – falou entrando no banheiro de braços cruzados e brava por ter sido pega: — Ok! A gente acabou se beijando na primeira noite do treinamento.
— Na festa de recepção?
— Isso.
— Você é tão discreta! Tenho medo de descobrir algum dia quais as pessoas você andou pegando em sua vida.
— Enfim... Mas foi só aquela vez. Depois...
Verônica saiu do chuveiro se enrolando na toalha, e retirou a própria roupa para tomar banho sem conseguir terminar de falar, já que sua amiga lhe interrompeu.
— Depois ele se apaixonou e está flertando e você não dando a mínima. Como sempre, aliás. Você adora brincar com os homens.
— Eu não vim aqui para transar. Eu vim para me tornar uma delegada federal assim como o meu pai.
— Tá, mas o que está na sua cabeça então, se não é o quanto pode ser incrível dar mais uns amassos no Albuquerque?
— Esta intimidade e segurança toda dele... – falava do banheiro, agora mais alto, já que Vera tinha saído — Eu tenho certeza que ele é um tipo de “favorito” a passar.
— AH! – Verônica apareceu assustada no banheiro fazendo a encarar: — Eu ouvi uma conversa dele com o Viegas!
— Você anda muito fofoqueira!
— Quer ouvir o que eu descobri ou não?
— Lógico. Fala logo!
— David participou no ano passado, tinha tudo para ser aprovado no treinamento e concluir o concurso, mas a namorada dele estava aqui e aconteceu alguma coisa com ela.
— Como assim?
— Não sei tudo, eu não fico ouvindo por horas atrás das portas. – Verônica saiu tranquilamente como se não tivesse dito nada demais.
Aquilo foi o suficiente para ficar ainda mais interessada na verdade. Ela saiu de seu banho e Verônica disse que ia dormir um pouco, então pegou duas bebidas em seu frigobar e se encaminhou à porta de David.
Quando ele abriu a porta de seu quarto, que era em frente ao quarto delas, permitiu um sorriso grande lhe tomar o rosto.
— Michael! Sai fora, eu preciso do quarto!
David gritou da porta, presunçoso, arrancando um bufar irritado de .
— Estou te esperando na varanda do térreo.
falou e deu as cotas a ele. David saiu um pouco depois, apenas pegou seu cartão magnético e carteira, e desceu enquanto vestia uma regata, logo atrás dela. Assim que a alcançou, ela lhe estendeu uma cerveja.
— Eu devo me preocupar com isso estar envenenado? Afinal, somos concorrentes aqui.
— Eu não economizaria uma bala para te matar no confronto final, se fosse o caso.
— Uuuh... Bravinha... – sussurrou ele, ao ouvido dela — Qual o motivo deste convite surpreendente?
— Ah, vamos nos conhecer... Somos parceiros neste caso, não é?
— Aham... E você quer conhecer só a mim? – ele perguntou sarcástico — Fale a verdade, você quer repetir aquela conversa agradabilíssima que tivemos no primeiro dia?
— Não. Eu não cedi até agora, porque ia mudar de ideia?
— Por que mulheres são inconstantes, e você gosta de controlar as situações.
— Cretino. – ela sussurrou se sentando no banquinho da varanda.
— Fala .
— Não me chame assim, pra você é .
— Se não vai falar o que quer , então eu vou subir porque estou muito cansado e preciso acordar cedo amanhã.
Quando David fez menção de se levantar, segurou seu punho.
— Espera! – os dois se encararam analisando um ao outro — Vamos para o bar do hotel rapidinho?
— Amanhã cedo...
— Eu sei. – ela o interrompeu — Não vou ficar bêbada e cair na sua cama.
— Então não vou mesmo.
— David! – ela continuou o segurando — Prometo que a gente fode quando tudo isso acabar.
Ela falou risonha e zombeteira e ele riu, não conseguindo manter a seriedade.
— Eu vou cobrar isso, te caço, te acho, e vou te infernizar.
— Aham, claro. – falou descrente enquanto levantou-se calçando de novo seus chinelos e era apoiada por David que continuava aguardando uma resposta — Vamos.
. O que você quer?
O olhar, agora sério e desconfiado dele, denunciava a ela que talvez fosse realmente estranha aquela proximidade, uma vez que vinha evitando as investidas dele há algum tempo.
— Eu quero saber do seu ano passado.
— Eu não tenho nada a contar.
— Por que toda vez que eu menciono isso, você fica assim todo... Na defensiva?
— Eu não fico, mas me incomoda reviver o perrengue do ano passado a toa. Então, gracinha... – ele se aproximou um pouco mais dela e a segurou pelo queixo delicadamente — Vamos nos concentrar no presente.
— Desculpa... Mas eu não posso beijar alguém em quem não confio.
— Exatamente. – ele riu do deboche dela e rebateu: — E eu não posso sair contando a minha via para quem não confio.
David soltou-a e piscou em sua direção, mordeu o lábio inferior contrariada por ele sempre ser tão desconfiado, sem ao menos perceber que ela era igual. Então os dois subiram novamente, juntos, cada um para o seu quarto.

Na tarde da missão...

O agente Guinle abriu a porta do quarto reservado por ele, dando espaço para que David e adentrassem. Pouco distante do hotel, numa casa à paisana, toda uma equipe de agentes federais estava escondida. Uma força tarefa inteira, todos engajados no mesmo caso que os aspirantes estavam, e com os passos da missão já planejados.
Ninguém se importou com a presença dos dois que acompanhavam ao Guinle, e assim que eles entraram ao cômodo improvisado em um tipo de escritório, receberam suas instruções.
— Um homem, chamado Adenor é o responsável pela encomenda de hoje, mas ele nomeou Ribeiro, um dos seus homens que virá ao encontro de hoje com a quadrilha e aparentemente sozinho. Ele é o homem que vai receptar a jovem Isabel e levá-la. Ou seja, o lance de amanhã com o Sorto é uma armadilha falsa. A menina será levada hoje, momento propício para vocês.
— Verônica vai ficar emputecida por vocês já terem tudo esquematizado. – falou rindo discreta.
— Achou que realmente confiaríamos o sucesso de uma missão a aspirantes? Bem, continue pensando assim, porque a morte é verdadeira. – ele disse firme e olhou rapidamente para David que fugiu o olhar — Já perdemos aspirantes no treinamento , então tudo o que vocês têm que fazer, é não morrer.
— Entendido... – ela respondeu séria — E quanto ao disfarce?
— David, pelo que sabemos o tal Ribeiro ainda não é conhecido. Não houve troca de fotografias, pelo que pudemos averiguar, apenas a indicação do nome. Você vai se apresentar como tal. A equipe de inteligência está observando a quadrilha com a menina, e eles fizeram um mapa dos possíveis lugares onde Isabel estará até a levarem. O encontro é no cais, e temos muitos contêineres por ali, a única região que contém falha de imagens e câmeras, está entre o corredor X e o Z. O encontro será ali. A nossa equipe interceptou também algumas chaves e senhas do sistema de informática que eles usam para se comunicar, e conseguiu hackear. Eu vou entregar ao Michael as chaves, e assim que ele encontrar a última, este telefone – Guinle entregou um celular ao David — Estará clonado com o número do Ribeiro. Até aqui tudo bem?
— Sim. – os colegas responderam.
— Ótimo. Você receberá uma ligação minha, te passando o aval de que o telefone foi liberado, então só aí você fica atento a este aparelho, às chamadas e tudo o mais. Cada vez que você o atender, nós estaremos ouvindo aqui, mas é imprescindível o silêncio onde você estiver para não nos entregar.
— Certo.
— Uma vez que eles confirmarem o local do encontro, e os detalhes, você entra no disfarce e nós preparamos você .
— Tá, mas e se tudo já tiver sido acertado entre eles e não houver nenhuma confirmação hoje? – ela perguntou.
— Então, David liga para o telefone da quadrilha que, nossa equipe já rastreou o número, e se passa pelo Ribeiro e finge apenas confirmar tudo. Ele sabe como agir, então não se preocupe.
encarou David como se o acusasse por já ser um veterano.
— E eu? – ela perguntou.
— Você tem um papel mais delicado que o dele. Quando chegarem ao local do encontro, nós teremos mapeado a localização da menina, você vai receber pela sua escuta a indicação, e então vai até ela resgatá-la. Verônica é muito boa com armas, então não se preocupe ela irá te cobrir, e outros agentes estarão lá.
— Como vou tirar a menina dos capangas, que estarão com certeza a vigiando?
— Não quer que eu mastigue tudo para você, não é?
A resposta de Guinle não só a irritou como fez sua nuca arrepiar.
— Você dará um jeito . É boa nisso. – ele disse depois de suspirar a apoiando — Bem, então você vai levar a menina ao galpão indicado no cais, onde todo nosso pessoal vai estar pronto e como uma armadilha, vamos encurralar a quadrilha.
— E o David, como foge? – ela perguntou olhando para Albuquerque.
— Eu me viro. – e o parceiro respondeu surpreso pela preocupação dela.
— Eu confio em vocês.
A última frase de Guinle não ajudava nem um pouco. Só tornava tudo pior. Saíram dali, em direção ao hotel novamente, e mais informados da missão, repassaram as informações a Michael e à Veronica, que também já se prepararam para a ação da noite.
— Eu preciso beber alguma coisa. – disse aos três companheiros e saiu do quarto do hotel.
Estava ansiosa, nervosa, e também com medo. Aquela última prova era mais do que a realização do seu sonho, era um risco de vida. E ela confiava em Verônica, mas não confiava em sua equipe. Sabia que a missa não ia falhar porque a Federal estava preparada para tudo, mas isso não significava que ela não iria falhar. Um pressentimento, uma intuição lhe rondava e ela não gostava nada a sensação.
Assim que ela saiu do quarto, Verônica e Michael se entreolharam e observaram David encarando, aflito, a porta por onde a mulher tinha acabado de sair.
— Eu poderia ir atrás dela, mas preciso me preparar para mais tarde como Guinle ordenou, e também, são vocês dois que estão envolvidos. Vai lá, Albuquerque. – Vera disse para ele.
E imediatamente David saiu, indo até o bar do hotel, onde sabia que a encontraria. estava sentada no balcão bebericando um drinque de caipirinha, David pediu o mesmo e sentou-se ao lado dela.
— Não me parece o estilo da certinha, beber antes do serviço. – ele falou descontraído.
— Você confia em mim?
A pergunta dela não era estranha para ele como ela achou que seria.
— Não. Mas, mais tarde, no cais esta é a única opção. Se eu não confiar na minha parceira, então eu só tenho um caminho: falhar.
desviou os seus olhos dele, e coçou de leve a cabeça soltando um pesado suspiro.
— Me parece uma responsabilidade absurda. Eu não passei por nada disso antes. A Vera é policial, está mais acostumada. Ela deveria ter ficado no meu lugar.
— Todos os lugares desta missão estão devidamente preenchidos por aqueles que podem ser competentes para tal. Não subestime a inteligência da Federal.
— Não é isso, é só...
— Só, que não é apenas a sua vida em jogo. E isso é apavorante. – David a interrompeu e então os dois se olharam.
— Você está mesmo seguro assim ou isso é só um belo de um disfarce?
— Digamos que quando cometemos um erro, dificilmente vamos cometê-lo de novo se formos inteligentes.
fez uma careta e bebeu novo gole do seu drinque, o finalizou e pediu outro. A superioridade de David era muito irritante.
— Ano passado eu cometi um grande erro, que custou a minha vaga e a vida da minha namorada que prestou o exame junto comigo.
E assim que ele disse, sua expressão mudou para um semblante amargurado, culpado, fechado, determinado. Enquanto havia ficado totalmente boquiaberta.
— Era uma missão igual, e tudo estava indo muito bem até que... A irmã mais nova da Dani estava entre as garotas traficadas. Suelen desapareceu de casa enquanto a Dani estava no treinamento, os pais dela não queriam preocupá-la naquela fase tão complicada. Então imagine o choque que não foi descobrir no meio da missão que sua irmã mais nova estava sendo traficada. Quando ela viu a irmã dela, no meio do grupo de meninas do aeroporto clandestino, ela quis correr na direção da Suelen. Mas eu não pude deixar, se ela fosse até eles, ia morrer na mesma hora. E todos, estaríamos em risco, assim como a Suelen. O nosso companheiro estava se passando pelo receptador, como eu vou fazer hoje, e ainda não havia finalizado. Foi questão de segundos. Os caras pegaram a mala com o dinheiro, o Francisco pegou o grupo de garotas e estava saindo do local com elas, quando eu vi a Dani lá atrás dos traficantes, com a arma pessoal em punho se aproximando da irmã. Ela surtou. Pegou a Suelen pelo braço, que nem reconheceu que era ela e gritou. Ali começou o tiroteio e enquanto a Dani se escondia com a Suelen, eu fui até o lugar que elas estavam e entreguei o meu esconderijo, chamando ainda mais atenção e tiros. Francisco e eu atirávamos, e naquela confusão, a Suelen saiu correndo até mim. Ela me reconheceu, e não reconheceu a irmã. O traficante atirou, mas a Dani entrou na frente e levou o tiro no lugar da Su. As adolescentes fugiram, algumas foram recapturadas, e eu ainda não encontrei a Suelen até hoje. A Dani não resistiu. Eu voltei pra São Paulo, com o cadáver da minha namorada para os pais, e nem um vestígio da filha caçula desaparecida.
A voz de David era tão seca quando a garganta de que estava chocada com tudo aquilo. Ele bebeu um gole do seu álcool e continuou falando sem encarar a parceira ao seu lado.
— Bem, com isso... A missão falhou e nós não passamos. O Chico não quis tentar de novo este ano, ficou traumatizado. Ele tem família e mudou totalmente de profissão. – ele sorriu amargamente — E eu... Eu estou aqui, tentando de novo. E vou passar e encontrar a Suelen, viva ou morta. Mas, vou.
Os olhos de agora estavam marejados e antes dela se pronunciar, o silêncio se tornou mais confortável. Ela virou toda a bebida de seu copo recém-pedido, e soltou o ar denso de seus pulmões.
— Ok, você me fez sentir bem pior agora, por tê-lo julgado como um carinha corrupto com algumas vantagens aqui.
David riu, realmente bem humorado.
— Eu disse que não tinha vantagens, apenas uma experiência a mais.
— Uma puta experiência... – ela se atreveu a olhá-lo desde que ouviu tudo e se deparou com a expressão dura e culpada dele, então o cutucou dizendo: — Não foi sua culpa David.
— Ainda que tenha sido uma fatalidade, eu ao pude fazer nada.
Ele respondeu demonstrando a consciência de que não havia culpa por parte dele, mas mostrando a genuinidade de seus sentimentos.
— Caramba... Eles não deviam ter colocado você numa missão tão parecida! É muita pressão.
— Pressão psicológica faz parte, .
— Vá se ferrar com esse papinho. Eu estou com a minha cabeça fodida já com essa maldita pressão e você ainda me conta agora isso tudo!
Ela o encarou, brava, e então David viu seu humor mudar, ela era divertida até quando não queria.
— Por que me contou isso agora? Passei o curso todo tentando descobrir, estou há dias te perguntando isso, e você me vem com essa agora! Eu te odeio!
— Calma ... – ele riu e pegou a mão dela, o que a fez o encarar e novo — Eu só falei isso, pra você realmente ter certeza que todas as suas inseguranças agora são genuínas, e também pra te garantir que mesmo com todos os seus medos, eu não vou deixar nada acontecer com você.
O silêncio que pairou entre o olhar dos dois, foi não só um alívio, mas também trouxe para um calor gostoso ao coração.
— Só me responde uma coisa... – David falou descontraído: — Você não tem nenhuma irmãzinha né?
Os dois caíram no riso e negou já calma. Pegou seu cartão magnético do quarto e entregou ao bartender que passou ali, o valor dos drinques e David fez o mesmo. Assim que os dois se levantaram para retornar ao quarto dos rapazes – onde vinha sendo o QG da equipe naquela semana – David pegou a mão de e disse firme olhando em seus olhos:
— Eu não sei o motivo, mas... Eu estou apegado a você. Não sei se foi o beijo, a implicância, mas... Eu falo sério quando digo que te quero. E vou cobrar aquela parada de...
— Cala a boca David! – ela o interrompeu rindo, mas sem tirar os olhos dos dele.
— Você é muito diferente dela, e isso é o que mais me assusta por eu estar tão interessado em você desde que te vi pela primeira vez. Não tem nada na sua personalidade que seja igual a ela, nada. E eu vou confiar que tudo será diferente dessa vez também, porque você é firme . Você aguenta muito mais do que essa pressão psicológica que está te assustando, e a gente vai passar. Eu garanti isso desde que nos tornamos parceiros nesse treinamento, lembra?
Ela sorriu largamente e não poderia perder a chance:
— Eu poderia te abraçar agora David, e agradecer essa melação toda, mas... Vamos deixar os agradecimentos, para depois.
Eles riram e saíram de volta aos seus quartos.

— x —

O esquema estava completo. David havia chegado ao local, sem maiores problemas. Como Guinle havia dito, a quadrilha entrou em contato para confirmar os detalhes. E ele pegou todas as informações necessárias: corredor Z, contêiner 259 era o ponto de encontro. Confirmou a cor da roupa que iria usar, para que a quadrilha lhe reconhecesse, e estava parado no exato ponto de espera. e Verônica também estavam posicionadas no mesmo corredor, na parte de trás. O agente federal, Conrado, encarregado por Guinle a ser o atirador de elite – caso o episódio do ano passado se repetisse, afinal, como David disse os inteligentes não cometem erros iguais – estava posicionado no topo de um dos contêineres, bem escondido, mas pôde ver exatamente onde dois carros estacionaram: um no corredor X atrás do Z, onde estavam, e o outro no próprio corredor. O homem que havia combinado com David, descia do carro alguns contêineres à frente. Ele caminhou com outros dois homens ao seu lado, devagar e cauteloso observando o “Ribeiro”. David mantinha seu personagem, como um ator digno de Óscar. Então, recebeu instruções de que a garota estaria no carro do outro corredor, e tanto ela quanto Vera foram cautelosamente até lá, escondidas entre os grandes caixotes de metal.
— Ribeiro. – o homem falou.
— Cortela. – respondeu David.
— Trouxe a grana?
David abriu uma mala em sua mão mostrando, e se aproximou poucos passos apenas para o traficante ver os dólares de mais perto. Ele retirou um dos malotes e jogou na direção de Cortela, que analisou as notas, rapidamente, e bateu no peito de um dos caras ao lado. O capanga deu-lhes as costas e saiu em direção ao carro do próprio corredor.
Aquela ação deixou o atirador confuso, afinal, porque eles iriam até o carro de onde saíram se a “entrega”, Isabel, estava no outro carro.
, a garota pode não estar aí. – o atirador sussurrou pela escuta.
e Vera se encararam, e uma fez sinal para outra a fim de se separarem. Verônica, sorrateiramente esgueirou-se pelos corredores dos contêineres tomando cuidado para não ser vista, quando chegou perto do carro que se encontrava a suspeita. O vidro fumê não lhe dava garantias. Então , recebeu outro sussurro pela sua escuta.
— Não dá pra ver nada.
— Fique aí, eu vou averiguar o outro. – ela respondeu Vera.
Enquanto retornava para o corredor onde David estava, ainda imóvel observando o homem quase chegar ao carro do chefe, ela pensava em que sentido havia naquilo.
Dois carros. Uma menina. Um receptador. Por que a quadrilha teria um carro como se, pronto para fuga, ali? Então ela se lembrou do que David lhe dissera mais cedo:
“— Digamos que quando cometemos um erro, dificilmente vamos cometê-lo de novo se formos inteligentes.”
O atirador. Se a equipe da Polícia Federal não ia cometer os mesmos erros, a quadrilha também não. Havia algo muito errado. Uma armadilha.
— Tem uma emboscada aqui. Vera, não faça nada. Conrado, você já era previsto aqui. – ela sussurrou na escuta e na mesma hora o atirador olhou para os dois carros da visão superior que tinha.
Ao mesmo tempo, os carros abriram suas portas traseiras e um homem saiu de dentro dele acompanhado de uma garota, com capuz e ambas estavam com as mesmas roupas.
— Pague uma, leve duas. – disse pela escuta para Vera, que entendeu e respondeu:
— Agimos juntas.
— Não. Espera.
David ainda estava ali. Se a quadrilha se deu ao trabalho de criar uma armadilha de enganação para supostos espiões, então David não estava seguro. Poderia até ter sido descoberto de alguma forma.
— Ribeiro... A menina está vindo. Pode me passar a grana.
Cortela falou, quando olhou para trás e viu que seu capanga trazia a menina, e David não tinha como saber que havia outra garota, vindo também. Mas, ele percebeu que algo estava errado, quando se deu conta de que não precisaria pegar a menina, uma vez que estava tudo dando muito certo. Até que o Cortela vendo a outra garota surgir atrás de David, sorriu sarcástico e o disse:
— Escolha a sua encomenda.
David olhou para trás e entendeu a situação. Uma delas era a verdadeira e haveria um código para aquilo. Ele tinha sido descoberto, e se tratava de segundos para que fosse morto, caso escolhesse a menina errada.
Atrás de si, um homem armado e uma garota.
Na sua frente, três homens armados e uma garota.
David encarou o traficante que lhe olhava desconfiado, e sorriu para ele.
— Vamos ver... – disse humorado e alto e olhou a menina de trás, dos pés a cabeça e quando se virou para frente, Cortela lhe apontava uma arma.
— Está demorando muito, não acha Ribeiro? Ou você não é mesmo o Ribeiro?
— Do que está falando? Eu sei exatamente quem é.
Enquanto eles dialogavam, Vera aproximava-se do contêiner onde o homem, que estava com a menina, posicionado atrás de David se encontrava. Ela posicionou-se de forma a acertar um tiro certeiro no capanga. E indicou para sua posição.
precisou andar rápida e silenciosa entre outros corredores para dar a volta sem ser percebida ao carro que estava à frente de David, onde os capangas, Cortela e a outra menina saíram. Quando ela emparelhou-se com o carro do contêiner de onde estava disse a Vera sua localização.
— Fale logo! Qual é a encomenda! – Cortela gritou e engatilhou sua arma.
— A garota de trás! – David respondeu firme.
E na mesma hora Cortela abaixou a arma e indicou ao outro homem para seguir até eles. David havia acertado, ele percebeu que a menina de trás tinha uma pulseira que a da frente não tinha. E se estava certo, aquele era o código, que o verdadeiro Ribeiro saberia. mas não estava acabado. Precisava entregar o dinheiro, pegar a menina, e sair sem maiores problemas.
Cortela, por sua vez, sabia que aquele não era o Ribeiro, e quando David se aproximava para entregar o dinheiro a um dos capangas, Cortela empunhou uma arma na cabeça da jovem desconhecida ao seu lado. Seu capanga empunhou a arma em frente à cabeça de David, outro pegou o dinheiro e o último, que estava com a outra jovem, também empunhou uma arma na cabeça dela.
— Quero os agentes todos aqui. – Cortela disse.
— Não sei do que está falando.
— Eu já sei que têm federais aqui, ou aparecem, ou vai ser um show de balas. Ano passado foi assim não é? O azar de você é que agora quem está neste esquema, comandando, sou eu!
Verônica recebeu por sua escuta a ordem de Guinle para se apresentar.
— Só uma? Vocês acham que eu sou babaca?
O capanga que empunhava a arma na direção de David engatilhou-a, e o outro que pegou o dinheiro foi até Verônica com sua arma empunhada.
— Anda logo! Cadê o restante? – Cortela gritava.
não queria se entregar, mesmo Guinle lhe dizendo para sair do ponto escondido.
— Aqui. – ela falou.
— Um festival de mulheres? Vocês continuam confiando em mulher pra isso? A garota do ano passado não foi o suficiente pra mostrar que elas não dão conta?
sentiu o ódio percorrer sua garganta, e olhou diretamente na direção de David, enquanto caminhava devagar até o carro ao lado.
— Vem aqui! – Cortela ordenou, mas ela hesitou olhando ao redor — Tá esperando o quê vadia?!
Ela deu passos incertos para frente, mas olhou de novo para o carro ao seu lado, pelo canto do olhar. Se corresse para entrar, eles atirariam. Se fosse até lá, eles iriam perder a missão. Mas, um lampejo lhe veio à mente: se sabiam que eles estavam presos ali, os federais que a aguardavam no galpão, conforme o plano inicial, estariam a caminho. Então ela se apressou para andar até eles, e foi aí que Conrado, o atirador de elite, disparou com sua arma silenciosa. Direto na cabeça do homem que segurava Vera.
A mulher pegou a arma dele e apontou para o chefe da quadrilha. Então qualquer um que disparasse não iria evitar derramar sangue de todos os lados.
— Eu proponho um acordo. – David disse.
— Que seria?
— Solta as duas garotas, fica com a grana e com a gente de refém.
— Não me interessa que vocês sejam reféns. Eu solto as duas garotas, e aí o seu atirador de elite termina de matar os meus capangas e eu.
— Independente de quem atirar todo mundo vai sair baleado.
Enquanto David negociava, havia parado. Ela olhou para o lado do atirador e com o olhar o apontou, então David entendeu o que ela dizia. havia dito para ele naquela tarde, antes de saírem que numa provável emboscada o trunfo seria sempre o snipper. Por isso, ele entendia que uma bala era garantida, as outras seriam tentar a sorte.
— Tem uma arma apontada na sua cabeça Cortela, outra vai para um dos seus capangas. Já pra minha turma, tem quatro prováveis balas que nos deixam em desvantagem. Eu corro o dobro do risco.
David falou, e nesse exato momento Cortela olhou para trás, e viu que estava parada. E ela parou de andar e propósito, para dar ao David a chance que ele e Vera tinham, de sair do alvo.
Quando Cortela virou-se para trás a fim de ver porque a agente ainda não estava em sua frente, Vera atirou no capanga atrás de David. Conrado acertou o outro capanga, ao mesmo tempo em que Vera atirou no que se encontrava ao lado de Cortela. David segurou o punho de Cortela com a arma em sua frente. E se abaixou e puxou sua arma atrás do cinto, e empunhou para atirar em Cortela, mas não se deu conta, que no carro de trás havia mais uma pessoa. Vera correu em direção a carro que avançava pra cima de , e disparou vários tiros que mesmo acertando o motorista, não o impediram de prensar entre os contêineres. Antes de ser totalmente chocada num atropelamento brutal, ela atirou no carro e acertou o peito do motorista.
David na luta corpo a corpo conseguiu pegar a arma, mas não foi preciso empunhar, porque Conrado que se dividiu entre atirar no carro precisamente, e na direção de David que estava correndo maior risco, atirou no chefe da quadrilha. As duas garotas haviam corrido e estavam escondidas ali. Os agentes federais entraram no momento em que foi atropelada e por isso rapidamente ela recebeu atendimento de emergência, mas David assim que Cortela caiu ao chão baleado correu na direção dela.

Dias depois no hospital.

David estava sentado à sala de espera do hospital, com braços cruzados e cochilava. Verônica o avistou, e cutucou Ângelo lhe indicando que o havia encontrado. Logo depois do confronto, os bandidos e foram levados para o hospital mais próximo, e Guinle ainda os acompanhava. Verônica foi para São Paulo encontrar-se com Ângelo e explicar o ocorrido, uma vez que ficaria internada ainda por um tempo, devido ao coma temporário. Desde então, fazia vinte dias que Ângelo estava hospedado na cidade, com Verônica e David, Mas, naqueles trinta dias de internação de , David não saiu do hospital, em nenhum momento.
— David? – Vera o cutucou.
O homem acordou assustado e ao ver que eram seus amigos, sorriu fraco.
— Guinle está a caminho.
— Saiu o resultado? – ele perguntou.
— Sim. E o médico? – Vera perguntou.
David encostou os cotovelos nos próprios joelhos, e de um modo desesperado coçou a cabeça e esfregou os olhos.
— Ele... – suspirou pesadamente — Disse que irão monitorá-la mais agora, porque apesar de ela ter acordado brevemente, estava desmemoriada. Desde então eles estão fazendo novos exames com ela.
— Graças a Deus ela acordou. – Verônica sentou-se aliviada ao lado de David.
— O Guinle chegou – Ângelo anunciou ao notar o agente se aproximar de onde estavam.
Assim que o agente se aproximou, ele cumprimentou aos três e perguntou como David estava. Não era uma pergunta necessária, dado o estado visível dele.
— David, não foi culpa sua. – Guinle afirmou ao perceber a mesma expressão de antes nos olhos dele.
— Nunca é não é? Vocês deveriam ter previsto aquilo! – o tom de voz de culpa denunciava ao Guinle a falha da Federal.
— Nós já estávamos lá David, e uma ação impensada poderia ter sido pior. Ainda mais que o Ribeiro estava chegando ao local. Foram duas ações conjuntas para prender todo mundo.
— Demoraram a entrar! Não era nem para você ter justificativa, é a Polícia Federa, e vocês falharam Guinle. Nós não.
— Nós sabemos, e é por isso que nós daremos todo o suporte a se...
— Se ela ficar com sequelas graves Guinle... – David o interrompeu se levantando bruscamente e encarando o agente — A Federal vai ter que me prender ou matar, porque eu não vou deixar barato!
Verônica o segurou pelo braço, e Guinle apenas o encarou sem dizer nada, mas tranquilo. Ele sabia que as palavras de David não faziam sentido, e o próprio sabia da sua pequenez perante aquela Instituição de poder. Mas, Guinle conhecia David e sabia que estava sendo pesado demais encarar a mesma situação de novo.
— Bem! – o agente falou cortando o assunto — Eu vim informar que a quadrilha foi presa. Os bandidos já receberam alta hospitalar. Isabel está com a mãe, e Sorto também está respondendo ao inquérito por outros delitos. Mas, o caso não acabou. Tem gente maior nisso, então nós abrimos um dossiê investigativo e escalamos dois de vocês quatro para este trabalho, de longo prazo.
Verônica e David se olharam apreensivos.
— Parabéns David. Você passou.
O homem não conseguiu nem mesmo comemorar. Não havia humor.
— Ainda quer encontrar a Suelen? – Guinle o perguntou e ele o encarou confuso: — Porque este trabalho é a sua chance.
— É claro. – ele respondeu apenas, e encarou o chão, fazendo sinal afirmativo silencioso com a cabeça.
— Verônica, você e Michael também passaram. Michael aceitou ao trabalho e mandou abraços a vocês, desculpou-se por não poder ficar aqui até a acordar.
— Obrigada Guinle. Mas, não passou não é?
— Não Verônica, eu lamento.
— Seremos Michael e eu neste dossiê? – David perguntou e o Guinle confirmou.
— Eu não sei se vou atuar na Federal mesmo tendo passado, mas... Até a posse dos cargos eu tenho tempo para decidir, não é? – Vera falou.
Guinle afirmou e achou um absurdo que Verônica desistisse. também acharia, e por isso se fosse desistir, Verônica lhe diria que não passou também e não deixaria ninguém jamais contar aquilo para ela.
O médico se aproximou do grupo que estava ali, e rapidamente eles lhe deram atenção.
— Acompanhantes de ? – perguntou e eles assentiram — Ela está bem. Funções vitais inalteradas, ainda com algumas escoriações internas, das quais se recupera. Mas, por sorte nenhum órgão foi gravemente atingido. A recuperação é mais importante agora. E a única sequela é que ela perdeu uma parte da memória. Mas, refere-se às memórias de curto prazo. Nós examinamos e aparentemente o dano cerebral foi mínimo, ela acordou achando que está a um dia de viajar para o treinamento do concurso.
— Ela esqueceu tudo destes meses de treinamento? – David perguntou alarmado.
— Aparentemente sim. Ela retrocedeu no tempo. Mas, não há como dizer precisamente se foi a única memória atingida, vocês devem observar se ela apresentará lapsos em outras esferas e circunstâncias. E nos informar caso ocorra.
— Doutor... É um quadro reversível? – Ângelo perguntou.
— Pela nossa experiência com casos assim, pode ser que esta etapa nunca volte à memória dela, como pode ser que daqui a algum tempo se houver alguma estimulação, ela recorde-se. É incerto. Depende do funcionamento do organismo dela, mas não criem esperanças. Lidem como se fosse definitivo, é o melhor.
— Quando ela terá alta? – David perguntou segurando a vontade de sair dali correndo.
— Ficará mais alguns dias em observação e se tudo der certo, daqui três dias eu assino a alta dela. E qualquer sintoma estranho vocês a encaminhem a um hospital novamente.
— Doutor, eu gostaria de solicitar a cópia do prontuário dela aqui, como somos de São Paulo, acho necessário. – Ângelo manifestou-se.
O médico concordou e saiu se colocando a disposição para novos diálogos, e afirmou que eles poderiam vê-la mais tarde. Verônica chorava assustada e chateada, sentada ao lado de David no banco. O homem igualmente se mostrava desolado. Ângelo abraçou a namorada e o agente Guinle, pigarreou. Eles perceberam que ele iria tratar de alguma questão, que com certeza não iam querer discutir.
— Eu sei que não é o momento, mas eu preciso repassar a vocês que...
— Você não quer que ela saiba de nada. – David afirmou.
— Não sou eu. É protocolo da instituição o sigilo do treinamento, vocês assinaram e ela também, mas agora que está sem memória, enquanto estiver assim eu sugiro que vocês não contem o que aconteceu exatamente para ela.
— Ah cara vá se danar! – Verônica levantou-se irada sendo segurada pelo namorado: — Ela tem o direito de saber de tudo!
— Ela tem também o dever de manter isso em segredo. Eu estou propondo que vocês evitem a ela saber exatamente o que aconteceu, e inventem uma situação menos traumática.
— Cala a boca Guinle! Nós sabemos os protocolos, e é melhor você ir agente. – David se levantou e encarou seu superior.
— Você tem dois dias para se apresentar no meu escritório se realmente for aceitar a posse, David.
Guinle afirmou e saiu após cumprimentar brevemente os outros dois.
— Eu sou contra. Ela tem que saber tudo! – Vera falou firme.
— Eu também acho Vera, mas... A gente tem que ter cuidado e ver primeiro como ela está de fato. – Ângelo disse.
— Eu... Eu quero pedir uma coisa. – David falou chamando a atenção dos outros dois — Ela não se lembra de mim, provavelmente, e eu gostaria que vocês não dissessem nada sobre mim quando...
— Espera! Você não vai vê-la? – Verônica bronqueou com ele.
— Vou, mas não quero que ela me veja. A deve estar absurdamente confusa e se ela retrocedeu no tempo como o médico disse, ela vai ficar mais confortável com os amigos perto e mais segura. Eu não quero ver que ela esqueceu tudo.
— Espera... O que rolou entre vocês? – Ângelo perguntou confuso e Vera o cutucou.
— Nada. Só uma bela e incrível parceria.
David respondeu e com as mãos no bolso da calça se colocou a caminhar pelo corredor do hospital.
— Ele está apaixonado. – Vera falou e Ângelo a olhou com a mesma expressão de pena — E ela não deve fazer nem ideia de quem ele é.
— Eles ficaram?
— Conhece a né? Rolou alguma coisa, mas ela é um túmulo mesmo pra mim, então só sei de alguns beijos. Não sei se ela também correspondeu o sentimento dele de alguma forma.
— Eu a conheço o suficiente para saber que ela provavelmente, adiou esse envolvimento para quando tudo acabasse. – Ângelo afirmou com a certeza que só o melhor amigo de poderia ter.
— Nossa se ela fez isso é bem pior. Porque agora, o David nem pode cobrar algum tipo de promessa, ela não sabe o que fez.
— Vou dizer para ele ir descansar no hotel e voltar mais tarde.
— Ele não vai. Está aqui há trinta dias e só sai para tomar banho e volta. Nem sei se está comendo direito.
— Não custa tentar, ele está péssimo e sabe disso. – os dois assentiram e Ângelo foi até David.
David não quis sair. Confessou ao Ângelo que iria aguardar o horário que o médico disse que eles poderiam ver , e a veria de longe. Depois iria embora. E assim foi feito.
Dois dias depois, ela recebia a sua alta e David retornou ao hospital. Falou com Ângelo e Verônica num momento longe da . Observou-a furtivo e descobriu que realmente ela não se lembrava dele, mas tinha alguns momentos, alguns lapsos do treinamento que vinham à memória.
Os amigos dela, não contaram a história exatamente como foi ela achava que havia sido atropelada casualmente na cidade, e que por isso foi desclassificada do exame. Eles disseram para David falar com ela e talvez ela se lembrasse, mas David não queria encarar a possibilidade de não ter ideia de quem era ele.
— Melhor não. Eu vou encarar a missão da Federal, e pode ser que eu não consiga vê-la por um bom tempo, então é melhor assim. Se um dia a gente se reencontrar, vai ser como se nunca tivesse acontecido nada. – David falou.
— Um dia... Quando você tiver tempo e quiser ou precisar vê-la... Avise-me. Eu apresento os dois. – Ângelo falou sorrindo para o outro que sorriu de volta, ainda um pouco triste.
Então, David e os amigos trocaram seus contatos e despediram-se. Verônica havia se apegado a ele naqueles tempos, porque sabia o quanto ele era uma pessoa incrível. E desde então, se tornaram amigos em comum de uma história que não sabia, e talvez nunca chegasse saber.


Capítulo 31 - Memórias Confusas Esclarecidas

Quando Anjinho soltou aquela informação de “acidente”, “parceria com David no treinamento”, eu senti um nó absurdo no meu estômago. O chão começou a afundar e só fui perceber que havia desmaiado, quando abri os olhos e me vi deitada no sofá, com três pares de olhos atentos em mim. David estava ali e os três cochichavam e eu não sabia o que era, mas fui bem direta:
— Eu não sei o que estiveram escondendo, mas vão agora abrir a boca e contar tudo.
— Tudo bem. – David disse.
Eu ouvi toda a história contada por David, Ângelo e Verônica com a expressão de total desolação. Eu não podia acreditar que meus amigos mentiram para mim, que David e eu tivemos uma relação próxima realmente, e que eu quase morri e ninguém iria me contar. Não queria acreditar, mas algo lá no fundo do meu subconsciente já me alertava aquilo tudo no momento em que David e eu nos reencontramos. A minha intuição de não confiar nele, o fato de sentir que já o conhecia, até mesmo aquele incômodo persistente pelas brincadeiras e aproximações dele... Tudo aquilo eram os sinais de um passado que eu desconhecia.
Quando acordei naquele hospital em Amapá, Vera e Anjinho disseram que eu perdi a memória devido a um atropelamento grave. Falaram que eu havia ido até aquela cidade para a última etapa do treinamento e havia sido desclassificada devido ao acidente. Vera havia passado no exame e mentiu para mim! Ela abriu mão por se sentir culpada em aceitar aquilo, uma vez que fui eu quem a convenci a concorrer ao concurso. Eles mentiram sobre uma parte muito importante da minha vida! E o David... Nós poderíamos ter nos reencontrado! Eu poderia não ter passado por tudo aquilo, já que se eu realmente estivesse apaixonada também – o que eu não lembro – eu não teria me envolvido com o Lucas!
Era tanta informação que depois que eles terminaram de contar, Anjinho e Vera se desculpavam, mas eu não queria ouvir mais nada.
— A gente conversa depois! – falei me levantando do sofá — É claro que eu vou perdoar vocês, por mais decepcionada que eu esteja, eu acredito que não fizeram por mal, mas...
— Nós entendemos . – Vera falou e Anjinho concordou.
Assenti em silêncio e peguei minha bolsa a passando atravessada ao corpo e saí.
!
David me chamou, mas eu não parei. Saí do apartamento, e antes que a porta do elevador abrisse ele segurou meu braço, delicadamente com o olhar preocupado.
— Aonde você vai?
— Eu preciso ficar sozinha.
— Eu posso...
— Não. – interrompi — Conversamos depois, tudo bem?
Ele murmurou devagar eu entrei no elevador. Quando cheguei no térreo do prédio, mal falei com o porteiro e apenas saí para caminhar na rua. A noite estava fresca e a minha cabeça quente. Tinha tanta coisa confusa naquela história que eu mal podia acreditar. As horas passaram, e eu fiquei cerca de duas horas na rua sem atender ao celular. Até o David me encontrar, sentada na praça que havia alguns metros depois do condomínio.
— Eu acho melhor conversarmos logo. – ele sentou-se ao meu lado com algumas cervejas numa caixinha.
Pff... Você e os seus coolers mágicos. – murmurei.
— Quer me perguntar alguma coisa? Eu juro não esconder nada.
— Ainda tem mais? Depois de tudo o que ouvi?
— Bem, então, eu vou contar, e você escuta.
Peguei a bebida e a abri sem encarar o David.
— Depois que você recebeu a sua alta, eu fui embora pra Brasília. Mudei para lá por um tempo, por conta da missão. E um ano depois eu estava de volta a São Paulo, justamente por causa do Lucas. Foi quando eu comecei a espionar os lances dele, reunir mais provas, e te reencontrei. Foi bem, bem difícil lidar com o fato que era você a mulher dele.
— Você... – interrompi com o choro preso na garganta — Nossa, eu estou muito estressada...
— Não pensa muito. – ele disse risonho — Só escuta.
Concordei e David não se pronunciou por um tempo. Ele ficou mudo, bebendo e encarando o mesmo horizonte que eu.
— Eu e você... Nunca tivemos nada . Só alguns beijos furtados. Na festa de recepção do treinamento, as turmas já tinham sido divididas, e nós estávamos na mesma. E foi na hora da divisão que eu te vi. Num treinamento onde a maioria dos aspirantes são homens, a Vera e você não ia passar despercebida mesmo. Mas, você não era nada fácil. Então me ignorou a festa toda. Pelo menos até o álcool perturbar os meus e os seus sentidos. Ficamos juntos e desde então eu queria ficar com você, mas você estava focada demais no treinamento para se permitir um pouco de diversão. Então a gente só continuou parceiros de equipe nos trabalhos conjuntos e ótimos adversários nos trabalhos individuais.
— Você se apaixonou, não foi?
— Com certeza, você perturba a cabeça de um homem com o seu gênio forte, até a gente se pegar o tempo inteiro pensando em você.
Eu sorri convencida. Não era mentira, praticamente, todos os meus relacionamentos começaram assim: à base de implicâncias.
— Nós transamos?
— Você me deve uma promessa. Mas, eu não vou te contar isso porque é como se você fosse outra pessoa agora.
— Eu prometi que ia transar com você?
David gargalhou e bebeu sua cerveja.
— Olha, a vida é bem irônica. Foi uma possível piada sua na época, e eu disse que te encontraria e infernizaria a sua vida por causa disso, e mesmo com o nosso desencontro, eu estou aqui tentando há algum tempo não é?
— Filho da mãe. – falei rindo também.
— Bom, então eu passei a investigar você e o Lucas. Logo descobri que você era inocente e provavelmente seria um bode expiatório pro Lucas. E foi como eu pensei: você logo foi incriminada e aqui estamos. O que eu não sabia é que você seria importante para nos levar a outras peças.
— Bruna?
— É. Sabe por que era tão importante que nada acontecesse contigo naquela missão?
— Pelo o que você disse, para que você passasse no exame.
— É, mas é por causa da Daniela. Minha ex-namorada que morreu no confronto um ano antes. Ela prestou exame comigo, mas a irmã mais nova dela foi levada pelos traficantes. E ali a missão falhou. Eu te contei tudo na época, e foi isso que te motivou tanto a não falhar. Você sabia que mais do que você desejar passar naquele exame, eu também tinha um motivo grande para passar. E só depois de todo este tempo, a sua ligação com a Bruna caiu como a chave que eu precisava pra fechar o quebra-cabeça.
— Como assim?
— A Bruna se tornou parte do esquema pra se salvar. Ela foi aliciada, mas inteligente demais para ser desperdiçada pela quadrilha, e inteligente demais para não aceitar os acordos deles. Então ela quem direciona, “cuida” – ele fez aspas com as mãos — das meninas que chegam. Esse ano, eu encontrei a Suelen. Mas eu não posso agir sem um plano.
— Suelen?
— A irmã caçula da Dani. Ela se tornou uma das meninas do Lucas, que já na época do nosso treinamento, era o mandante de tudo aquilo que eu e você tentamos resolver. Prendemos um grupo da quadrilha dele, mas existiam outros.
— Espera! Você tá me dizendo que eu tentei combater o crime do meu ex-noivo, e que a sua ex-namorada morreu por causa dele, a irmã dela foi levada por ele, e que você só a encontrou porque você descobriu quem era a Bruna, graças a mim?
David meneou a cabeça tranquilamente sabendo que era loucura demais todas aquelas linhas entrelaçadas.
— Entende a teia que está sendo todas as nossas ligações? Cara, se isso for um livro... Parabéns para quem escreveu.
David riu de mim e eu imediatamente abri outra cerveja, sedenta.
— Daria um belo filme de romance dramático. – ele falou.
— Não, fala sério! Um Óscar pra quem escreveu!
Nós dois rimos daquilo tudo e por mais que a minha mente estivesse muito perturbada, eu também estava mais leve. Como se todas as peças mais importantes tivessem encaixando-se no lugar.
— Porque não casou David? – perguntei já com medo da resposta.
— Acho que já tivemos essa conversa, eu não me casei porque meu trabalho me consumiu tempo demais para conhecer alguém. E eu gosto de ser solteiro.
— Por favor, só me diz que você não ficou esse tempo todo me esperando! – pedi em dúvida e preocupada.
— Qual é ? Eu não sou tão idiota assim. Lógico que eu gostaria muito que você cumprisse aquela promessa e tal... – riu e eu dei um soco no braço dele — Mas, eu sei que não estamos em um livro onde de repente ficaremos juntos.
— E se estivéssemos, a escritora não iria torcer por você.
— Por que escritora? – ele perguntou ultrajado.
— Uma história foda dessas só pode ter sido escrita por uma mulher.
— Feminismo. – ele falou debochado e revirando os olhos.
Observei o David ao meu lado, e ri com a ideia que tive. Juntei as mãos à boca e me levantei gritando para o nada:
— Ei! Escritora! Se você realmente estiver fazendo isso ser um livro, arruma uma garota bem bacana para o David tá? Uma mulher tão foda quanto eu!
David olhou em volta rindo e as poucas pessoas que passeavam pela noite, me encaravam assustadas. Ele levantou-se também e pegou as duas últimas cervejas.
— Isso aqui não é um livro sua lunática. É a sua vidinha mexicana conturbada mesmo.
Ele me entregou uma lata, abriu a dele, e com o braço em volta do meu pescoço saiu me arrastando:
— Agora vamos que o casal está nos esperando. Você é tão óbvia que nem me deu trabalho para achá-la.
Quando chegamos ao apartamento dos meus amigos, eles estavam na sala assistindo a um filme e comendo alguns aperitivos. David havia passado novamente num supermercado e compramos mais cervejas.
— Eu trouxe bebidas para comemorarmos o fim desse segredo! – ele falou entrando na sala.
Verônica gritou comemorando e nós rimos da reação dela. Ajeitamo-nos na sala, com mais comes e bebes. E eu queria aproveitar a sessão “verdades” para saber mais do que David queria de mim.
— Já que você disse que iria me responder tudo hoje... – ele me encarou desconfiado — Conte o plano da Federal.
— Que plano?
— Não se faça de idiota, Albuquerque!
Verônica e ele se encararam e riram.
— Eu só preciso que você preste um depoimento e responda a algumas perguntas da minha equipe. E se você quiser, só se quiser, viaja comigo para a Turquia. Você se aproxima da Bruna, e enquanto minha equipe finaliza as armadilhas pra prendê-los, você chega até a Suelen e sonda se ela quer sair daquilo ou se quer ficar.
— Ela está na quadrilha? Achei que fosse vítima.
— É uma vítima, mas a Bruna está preparando ela para alguma coisa há algum tempo, então, eu preciso saber se ela quer ser salva.
— Se não quiser?
— Vai ser presa, e enquanto cumprir pena eu vou dar todo o suporte para cuidar dela.
— Eu estou muito feliz que você a encontrou David. – Vera falou pegando a mão do nosso amigo e beijando.
— Eu também. – ele respondeu.
Eu senti que era uma obrigação ajudar ao David. Eu queria ajuda-lo a encerrá-lo aquela fase da vida dele.
— Eu te ajudo David! Mas, qual o meu álibi?
, claro. A Bruna não vai te evitar ou desconfiar se você disser que está viajando com a .
— Espera! Eu não vou levar a nisso.
— Claro que não! Mas, ela não sabe. E tem que ser agora, no carnaval.
— Porra David! e vão vir para cá!
— Não vão não. Desculpe, mas como ela vai acreditar que você tirou a menina do período escolar para uma viagem internacional?
— E o ? Ela não vai acreditar que ele deixou a menina sozinha comigo.
— Ah vai sim! Ela já sondou você o suficiente para saber que você é quase mãe daquela menina.
— Não sei não...
... – Anjinho falou — Pode dar certo, Bruna vai estar tão ocupada com os esquemas para esconder da polícia que certamente, desconfiar da e de você é a última coisa que ela fará.
— E se eu conheço a Federal... – Vera falou vindo da cozinha com mais comida e bebida — Eles farão o possível para parecer uma coincidência e a Bruna te encontrar, e não você a ela.
Fiquei observando aos três ainda com certo receio daquela justificativa não dar certo. Mas, isso seria preocupação do David.
— Não é como se nós não fossemos conseguir sem você . Na verdade, a ideia de te colocar nisso é minha. Pra passarmos mais um tempinho juntos. – David falou zombeteiro.
— As vantagens de ser o chefe de equipe. – Vera deu de ombros e David bateu as mãos com as dela.
— Eu deponho, mas... Vou pensar melhor sobre a viagem. O não vai gostar se eu viajar no carnaval.
— Ah! Ele nem pode saber dessa missão viu?
— Eu já imaginava.
— Mais alguma pergunta?
— Tenho! – respondi a ele e David cruzou os braços para ouvir — Tempo atrás a Vera me disse que você já prendeu uma namorada sua. Era a Dani?
— Não, isso foi um descuido. Eu estava saindo com uma mulher, mas não me importei muito em verificar quem era. Namoramos e ela descobriu que eu era policial, então ficou comigo por estratégia. E eu comecei a desconfiar de algumas coisas, umas perguntas estranhas que ela me fazia... Investiguei e descobri que ela bandida. E uma bandida, aliás... Não foi fácil mandar ela para cadeia.
Anjinho e Verônica gargalhavam com David contando a história e eu apenas senti o meu costumeiro, ranço das piadinhas dele. David dormiu na sala do apartamento da Vera, e eu fui dormir no meu quarto, trancada a chave. Ele poderia até ter esclarecido tudo entre nós, mas eu não confiava de acordar ao meio da noite e me deparar com ele na minha cama. Era muito a sua cara, ele fazer aquilo. Ou talvez, fosse a minha impressão errada. De qualquer modo, eu não iria vacilar.
Na manhã seguinte, tomamos café todos juntos, e eu fui à delegacia já com todas as malas em meu carro para a mudança de apartamento mais tarde. Antes mesmo do carnaval, eu fui passar um fim de semana na fazenda. Estava morrendo de saudades, e precisava contar tudo o que havia descoberto para . Ele ficou absurdamente enciumado, mas não tinha o que fazer, era parte da minha história. E com aquilo eu não contei a ele sobre a viagem, apenas disse que eu ia ajudar ao David e sua equipe numa missão. Ele gostou? Nem um pouco.
Fiquei como um enfeite na delegacia por todo aquele tempo, até o carnaval. decidiu que viria com a . E eu concordei em viajar com David. Eles ficariam uma semana em São Paulo. E depois daquilo, eu iria com o David. Pelo que ele havia dito tudo estava preparado para pegar Bruna, e com isso, Lucas. Não deveria demorar aquela ação.


Capítulo 32 - Um fim de semana de Fuga

Algumas semanas antes do Carnaval, eu não me aguentava de saudade da fazenda. A DP estava uma confusão como sempre, e eu era mais uma figurante espionada ali do que uma delegada. Peguei o meu celular em cima da mesa da minha sala, assim que tinha acabado de retornar da sala do Costa. Estressada era pouco para o que eu sentia.
A primeira coisa que eu fiz foi discar o número dele. Mas, a merda do destino não queria mesmo, me ajudar.
— Que vá tudo para o inferno! – sussurrei para mim mesma e peguei minhas coisas saindo da sala.
?
Ouvi o Costa me chamar estranhando o fato de eu abandonar o expediente de repente.
— Vocês podem se virar sem mim hoje! – falei para o Costa sem nem mesmo olhar para trás.
Certamente, ele riu. Talvez para todos ali fosse um alívio que eu estivesse longe. Apenas avisei aos meus amigos que estaria fora naquele final de semana. E sem me importar muito com tempo, roupas, ou coisas do tipo... Na verdade, sem pensar muito, eu peguei um táxi para o aeroporto. Só isso. Meus documentos estavam em minha bolsa, assim como cartões e algum dinheiro, e meu celular também. O que mais eu precisaria além de correr para os braços do meu ogro? Pelo celular fiz as compras da passagem, e nem me dei conta de que estava armada, até que eu quase fosse presa pelo detector de metais.
Mas, eu conhecia bem o protocolo, e como era uma pistola automática presa à minha cintura, eles já chegariam me desarmando.
— Calma! Calma!
Falei levando as mãos para cima da cabeça enquanto um segurança apontava a arma dele para mim, e outro se aproximava pegando a arma em meu corpo.
— Eu sou delegada. Meu distintivo está na bolsa e identificação também, é que eu estou vindo do trabalho cara... – falei em tom baixo para o segurança atrás de mim, enquanto passageiros me encaravam.
— A gente já vai descobrir isso.
Assim que eles abriram a minha bolsa, encontraram as comprovações do que eu havia dito. Um dos homens que controlava o raio-x, me estendeu de volta a bolsa, e os documentos, assim como a arma e perguntou em tom duvidoso:
— Por que a delegada não retirou a arma e colocou na caixa?
— Quanto tempo já ficou sem transar?
A minha pergunta direta e despreocupada enquanto eu me reorganizava, o deixou boquiaberto:
— Aposto que não mais que eu agora. Por isso eu estou indo atrás do meu homem, só com a roupa do corpo.
Sorri e pisquei para eles, que riram discretos. E todo o voo foi tranquilo, tirando alguns olhares desconfiados de passageiros que haviam me visto sendo barrada.
Algumas horas depois eu estava chegando à fazenda. Estava moída da viagem de última hora e cansada, não pelo voo rápido, mas por aquele maldito aeroporto de Confins ser longe demais da rodoviária da capital, onde eu teria que encarar ainda, um ônibus para Mato Alto. Chegando lá ainda me deparei com o fato de não ter ônibus para a cidade naquele horário.
— Fim de mundo hein ... Eu realmente vim aonde Judas perdeu as sandálias, só para me apaixonar... – resmunguei caminhando pelo saguão rodoviário.
Encontrei um guichê de aluguéis de carro, e depois de finalizada a burocracia, eu fiz a única coisa que poderia: ir de carro. O relógio marcava quase nove horas da noite, quando eu finalmente avistei a luz fraca do casarão.
Abri a porteira, retornei ao carro e entrei. Estacionei perto da camionete dele, e ao descer senti a brisa das montanhas mineiras, misturada ao cheiro de sereno.
Tudo estava silencioso demais, então estranhei. Canelinha, como sempre, não esboçou reação alguma de proteção ou alarde. Apenas eriçou as orelhas na minha direção.
— Ei Canelinha... – abaixei para fazer um carinho nele — Por que este silêncio?
Sem esperar que o cão de repente começasse a falar, eu bati os pés no tapete de entrada e entrei. Não havia sinal de ninguém na sala, mas a casa estava aberta. Aquilo era estranho. Fui até a cozinha e também não tinha ninguém.
Quão estranho era, saírem e deixarem a casa aberta? Subi as escadas, cautelosa, até os quartos. E estavam vazios. O último que verifiquei foi o quarto do . Igualmente solitário, antes de deixar minha bolsa ali eu levei a mão até minha arma, que estava em minha bolsa.
— Quase nove da noite, o casarão vazio, todo aberto, no meio do nada...? Não gosto disso... Não mesmo. – falei para mim mesma, indo até a janela do quarto observar lá fora: — Assustador.
Caminhei até a porta do quarto, respirei fundo e fiquei mais alerta ao sair no corredor. Devagar, desci as escadas e quando escutei um barulho de passos, vindos da varanda, me posicionei na frente da porta, com a arma em punho. E foi aí, que uma única pessoa surgiu.
— Puta merda! Que susto! – ele parou estático na minha frente e eu o encarei com a expressão de que estava pronta para atirar — De novo não... Amor, você precisa parar com isso.
— Sério ? – relaxei e abaixei a arma — Bom saber que você se cuida sozinho!
Ele também relaxou e ficou me encarando confuso.
— Sabe o susto que levei ao ver tudo aberto e a casa vazia?
— Sabe o susto que levei ao ouvir passos pela casa e encontrar uma arma apontada para mim? Você não deveria ficar usando isso assim!
Comecei a rir e estalei o pescoço. Então o encarei, e ele abria um largo sorriso se aproximando devagar.
— Me dá isso aqui, amor. – pegou a arma da minha mão com cuidado e jogou no sofá.
— Puta merda ! – gritei e abaixe meu corpo na mesma hora — É por isso que eu não deixo ninguém me desarmar! Que caralho! É uma pistola semiautomática engatilhada e você a joga no sofá? Eu devia te dar um tiro!
Ele ficou parado me observando e eu devagar caminhei até o sofá. Agachei cautelosa e peguei a arma, que estava segura, para meu alívio e retirei o cartucho de balas. Quando o olhei de volta, ele estava ainda me encarando como se aquilo tudo fosse exagero, com um sorriso que beirava a malícia.
— Você fica tão sexy com uma arma na mão.
— Eu sei. – sorri presunçosa.
— Caramba... Outros homens veem isso todo dia? – ele perguntou num tom enciumado.
— Só os que merecem um tiro. Agora... Cadê todo mundo? – perguntei caminhando devagar até ele.
— Foram visitar a família do Marcelo. Estamos sozinhos. – ele respondeu também caminhando devagar.
— Por quanto tempo?
— O fim de semana todo.
Quando respondeu, ele já havia puxado o meu corpo para o seu, então eu não tive alternativa, sorri largamente encarando os olhos azuis e profundos dele, e puxando os seus cabelos escuros sem piedade ordenei:
— A gente conversa depois.
E imediatamente nossas bocas se uniram no desespero urgente um do outro. Eu não esperei nem mesmo ele me guiar até o quarto, saí arrancando a minha blusa e ele também, e quando chegamos ao andar de cima, prestes a entrar no quarto, já estávamos seminus e mais apressados.
— Ah porra! Espera. – me afastei dele e saí correndo de calcinha e sutiã pelo corredor.
— O que foi?
— A minha arma! – gritei.
Desci e resmungava alguma coisa à porta do quarto. Localizei a arma e o cartucho ainda no sofá onde eu havia deixado, e peguei-os. Logo em seguida, saí fechando a casa. Quando subi, já estava no quarto, deitado na cama e nu.
— É sempre bom ver que valeu a pena vir procurar as sandálias de Judas. – falei para mim mesma me referindo à piada que eu mesma fiz mais cedo.
continuou calado apenas me olhando. Deixei a arma na escrivaninha dele e então ele falou:
— Tenho ciúme dessa coisa. – apontou a arma com o olhar — Você me deixou aqui engatilhado pra ir atrás disso.
Ri alto com o trocadilho e soltando o meu sutiã caminhei até ele.
— Relaxa que você vai ter o final de semana inteiro na minha mão.

– x –

Na manhã seguinte, quando acordei não estava na cama. Provavelmente pelo Sol alto já devia passar das oito da manhã, e ele estaria cuidando de seus afazeres.
Assim, me espreguicei e levantei da cama indo tomar um bom banho. E logo que terminei, senti o cheiro de omelete pela casa. Sorri em imaginá-lo preparando algo no fogão. Abri o guarda-roupa e puxei um vestido soltinho e fresco, e mesmo com os cabelos um pouco despenteados e molhados, desci em direção à cozinha.
E como eu havia imaginado, ele estava sem camisa, soprando a brasa na lenha do fogão.
— Eu acho melhor voltarmos pro quarto. – falei sensualmente.
ainda apoiado no fogão, com todos os músculos de suas costas contraídos e expostos, a pele ainda suada pelo trabalho da fazenda, virou seu rosto para mim e sorriu provocante. Voltou a assoprar o fogo e só então falou no tom rouco da sua voz pelas manhãs:
— Se você quiser, podemos começar aqui mesmo.
Caminhei em direção àquele corpo que eu amava cada dia mais, e o abracei pelas costas. Eu só queria ficar ali abraçada e nunca mais ter que voltar para São Paulo.
— Senti tanto a sua falta.
Ele sorriu me abraçando de volta, e colocando a frigideira no descanso de panela do fogão.
— Eu também nunca vou me acostumar a isso. – respondeu e me beijou rapidamente — Está com fome?
— Muita! Eu não almocei ontem.
Sentei-me no tampo da mesa da cozinha, enquanto observava preparar um sanduíche com omelete para mim.
— E não comeu nada na viagem?
— Não, eu só tinha fome de você. – ri sacana e ele também.
— Eu adorei a surpresa.
— Eu queria poder fazer isso mais vezes, mas... Foi um momento de cansaço e muita, muita vontade de me abandonar em seus braços.
Ele me encarou preocupado e se aproximou com meu café da manhã em mãos. Colocou o prato com o sanduíche e a caneca de café à mesa, e ficou em pé entre as minhas pernas me observando comer, sorrindo.
— Aconteceu alguma coisa? – perguntou com uma expressão bem preocupada.
— Eu estou bem.
— Não foi isso que te perguntei, .
— Eu só estava cansada, e com saudade de casa... – mordi voraz ao meu pão e mudei de assunto — Porque a casa estava aberta ontem?
— Qual o problema? Eu estava em casa.
— Não senhor! Eu cheguei e não tinha ninguém, procurei na cozinha, nos quartos...
— Eu estava sim amor, mas estava lá nos fundos quando ouvi barulhos e fui pegar a lanterna pra checar lá fora. Fiquei na varanda observando um tempo até que você apareceu.
— Não ouviu o carro chegar e nem o viu estacionado?
— Não, sinceramente, eu só ouvi os barulhos de alguém subindo as varandas da escada.
... É perigoso. Não é porque estamos no meio do mato, que não vai acontecer nada! – virei todo meu café o olhando brava e ele sorria — Não quero mais você sozinho aqui com o casarão aberto.
— Tudo bem meu amor.
Ele me abraçou apertado e beijou meu pescoço se demorando ali. Ficamos alguns minutos abraçados, curtindo o calor do corpo um do outro.
— Não tem nada para fazer. Eu já fiz tudo. – ele disse com o rosto na curva do meu pescoço e me perguntou travesso: — Quer subir?
— Vamos preparar o almoço de uma vez? Assim a gente sobe depois e fica na cama.
— Tudo bem, então deixa que eu preparo tudo. Quero te mimar, pode ir dar uma volta se quiser.
— Não. Eu não quero ficar longe de você.
, eu não vou conseguir cozinhar com você aqui. – ele riu me olhando sugestivo.
— O problema é seu. Vou ficar sentadinha aqui nessa mesa, observando você cozinhar pra mim com esse corpo suado.
fingiu um controle que eu sabia que ele não tinha, e saiu de perto para preparar nosso almoço. Olhei o relógio de vaquinha na parede, e ainda eram dez horas da manhã. Mas, tudo bem. Era melhor prepararmos o almoço e depois curtir a presença um do outro com tranquilidade.
Enquanto ele cozinhava eu ficava o observando, sem o menor trejeito de cuidado com os preparos, não havia uma organização como a de titia ou Rosa ao utilizar os utensílios, e as louças acumulavam na pia, os cortes dos alimentos eram irregulares, e ele tinha o hábito de pegar uma colher para provar os alimentos e jogá-la na pia a cada cinco minutos. Então eu ri notando que daquele jeito não haveria talheres limpos até almoçarmos.
— Você faz muita bagunça, e isso é inacreditável porque tecnicamente estando em sua casa, era para você ser um pouco mais consciente de onde estão as coisas.
document.write(Bernardo) me lançou o seu olhar estreito com a sobrancelha vincando sua testa, e a boca entreaberta em desgosto. Uma expressão que ele sempre me direcionou quando me odiava, e que tenho quase certeza, que foi uma das razões por eu me apaixonar por ele também. Mordi os lábios de forma sensual, porque aquela expressão de desdém era o meu top cinco das caretas do . E que, aliás, ele não conseguiu sustentá-la por muito tempo já que eu fazia questão de provocá-lo.
— Você deveria ser mais grata por eu estar aqui cozinhando para você depois de ter cuidado da fazenda sozinho!
— Você disse que queria me mimar... E bem... Eu vou te agradecer depois...
— Eu acho bom mesmo. – ele falou se aproximando e me puxando forte para um beijo rápido e por pouco eu não caio daquela mesa — Aliás, já reparou que desde que começamos a namorar você ficou preguiçosa com a ajuda na fazenda?
Ele falou aquilo de modo simples e sem me olhar, o que não lhe permitiu o vislumbre da minha face chocada. Então soltei um riso descrente e desci da mesa, indo até a pia e me escorando ali com braços cruzados para encará-lo de perto.
— Você está tentando puxar uma das nossas velhas discussões, não é?
— Não amor, eu estou falando sério. Você trabalhava mais quando eu gritava com você...
Eu gargalhei sarcástica. Era inacreditável que ele estivesse falando sério.
!
— Eu não estou reclamando, é só uma constatação. Eu fiquei pensando... Você tinha medo de eu te cobrar alguma coisa ou só era pontual mesmo para me convencer que você não era tão má assim?
... Você está sendo ridículo agora! E eu sempre odiei tudo em você, então eu não sentia medo de você. Eu sentia...
— O quê? – ele me interrompeu prendendo o meu corpo entre o dele e a pia.
O olhar sério e desafiador também dava lugar ao sorriso divertido, e eu respirei fundo antes de rir e o encarar de volta.
— Eu sentia vontade de te provar que, eu jamais iria abaixar a cabeça pra você.
abaixou a cabeça, riu divertido e me olhou dizendo:
— E acabou abaixando não é mesmo.
Eu havia entendido a piada sugestiva, mas não achei melhor fingir que não. Foi uma piada machista e infame. Às vezes eu me pego pensando, por que eu tive uma recaída apaixonada pelos homens mais difíceis que já passaram em minha vida.
, se tem alguém abaixando a cabeça aqui, é você que está cozinhando pra mim agora.
— Claro, mas você sabe que não vai ser de graça.
— Tu és machista para caralho! – até conjuguei um português impecável, tamanha a minha indignação.
— Pode ser, mas no caso, estou sendo justo.
Ele se afastou eu teria implorado para ele esquecer tudo e ficar ali comigo ainda mais colado ao meu corpo, se ele não tivesse provocado àquela conversa que me motivava a mostrar que não, eu não era uma total caidinha nele. A quem eu queria enganar?
— Lava a louça. – falou jogando o pano de prato em mim e já ia saindo da cozinha.
— Aonde você vai?
— Atender ao telefone, não o ouviu tocando?
Ele disse e sorriu, e eu apenas bufei baixo. No fim, eu não precisava me esforçar muito. Ele sabia que eu já havia perdido na briga de ego entre nós.
— Odeio lavar louça empilhada, . – sussurrei para mim.
Encarei as vasilhas sem saber se ele sabia daquilo e me provocou, ou se não fazia ideia daquele pequeno traço sobre mim.
E pela primeira vez, em todo aquele nosso tempo juntos algo novo me incomodou: o que o sabia sobre mim?
Quando ele retornou, me pegou de surpresa lavando a louça concentrada naqueles pensamentos e beijava o meu pescoço, com a barba rala arranhando-o.
— Vamos almoçar?
— Quem era? – perguntei.
— Nolasco. Pediu para eu aparecer na segunda à fazenda.
— Você tem notícias do caso de roubo de gado?
— Por que eu teria amor?
— Eu me interessei pelos assuntos da sua vida antes de ficarmos juntos, achei que você se interessaria um pouco pelo meu trabalho. – falei com meu tom de desconfiança e reflexão, e notou.
Ele soltou-se de mim, e fechou a torneira me obrigando a encará-lo com uma expressão confusa.
— O que é isso?
— Nada. Só achei que você se interessaria por...
— Não é o seu trabalho. – ele interrompeu óbvio — É o do Gabriel. Toda vez que me interesso pelo seu trabalho, você me diz que é sigilo e não pode me contar alguma coisa.
E como um soco na boca do estômago, eu sorri falsamente e terminei de enxaguar uma louça. entendeu que eu não iria insistir no assunto e foi até o armário pegar os pratos e talheres.
— Onde estão as colheres? – ele perguntou ao puxar a gaveta e só ver os garfos e facas e eu ri divertida.
— Estão sendo lavadas já que você usou todas nas suas experimentações de tempero. Jacquin ficaria puto com você!
— Quem? – ele perguntou me olhando como se eu falasse outra língua.
O chef... Érick Jacquin... – e ele ainda me olhava confuso: — Master Chef? Pesadelo na cozinha?
— Amor do que você está falando? – ele gargalhou vindo até o escorredor para pegar os talheres de servir.
— Dos meus programas favoritos...
Sussurrei desanimada e incomodada com algo que ainda não tinha sentido.
— Mas, o que eu quero dizer é que você fez uma bagunça surreal aqui! – desconversei.
— Ah... É que eu queria que ficasse perfeito para você, e como não sou muito de cozinhar... ‘ sabe...
Ele falou sério, como se não tivesse feito o meu coração dar pulos com aquela pequena frase. Nós almoçamos e depois de organizarmos juntos, a cozinha, me propôs que fôssemos pescar.
— Pescar? – perguntei ultrajada.
— É! A gente não fez isso, juntos, ainda!
— Eu não sou o seu amigo de pescaria, . Eu sou a sua mulher, eu quero transar!
Ele gargalhou com aquilo enquanto íamos em direção à sala, e quando ia me abraçar com outras intenções, eu espalmei a mão em seu peito o impedindo.
— Mas tem razão! A gente não fez muitas coisas juntos... Então vamos ver um filme, ou algum dos meus programas prediletos.
— Ver um filme? Isso é algum tipo de código pra...
— Ver um filme. – falei certeira — Afinal, eu ainda não conferi a super velocidade da internet desta casa com a Netflix.
— Você só pode estar de sacanagem.
Nós preparamos o filme, e começamos a assisti-lo, embora reclamasse que deveríamos aproveitar o tempo juntos sem que nos atrapalhasse, como da última vez. E eu insisti que ficássemos focados ao filme e na série que iniciamos depois, até que ele se levantou e foi tratar da fazenda de novo.
— Melhor eu ir também, se não vou ser chamada de preguiçosa. – mencionei ao me levantar.
— Não.
Ele disse sorrindo:
— Você se prepare... – e aos poucos foi deitando o corpo sobre o meu ao sofá e me beijando, e então anunciou antes de sair: — Porque quando eu voltar, eu só vou trancar a casa e subir pra te encontrar lá em cima.
Eu não pude negar aquilo. A ideia era tentadora e eu sentia tanta falta dele, que ficaria o fim de semana inteiro na cama com ele, e mais tentadora foi a ideia pervertida que me surgiu a mente: tínhamos a fazenda inteira pra nós por aqueles dois dias. Sem pensar muito e só me permitir agir por impulso, subi e me arrumei. Eu iria surpreendê-lo sim, mas não quando ele voltasse. Fui até o local que seria a última parada dele antes de retornar ao casarão: o celeiro. E foi uma escolha muito prazerosa e divertida.

– x –

Pela noite, decidimos acender uma fogueira e ficarmos sentados à varanda, observando a lua, o silêncio e o brilho da estrela no céu que mais nos parecia uma pintura. Eu estava enrolada num xale fino, Pancinha e Canelinha rosnavam um para o outro enquanto mordiam-se e lambiam-se numa brincadeira canina de casais. E eu ri por me pegar assemelhando Pancinha e Canelinha, ao e eu.
Ele se aproximou com as canecas cheias do caldo de costela que havia feito e sentou ao meu lado também. Passou os braços por meu ombro e nos aproximou.
— Eu amo o seu cheiro. – ele falou após beijar meu cabelo, e eu sorri enquanto provava o caldo.
— Não está igual ao do Tadeu.
— E eu não te perguntei nada.
Ri alto beijando o rosto sério dele, e depois de me aninhar mais a ele, enquanto ouvíamos os grilos cricrilando, me perguntou de repente:
— Você foi até lá como a namorada do Gabriel, não é?
— Do que está falando?
— Do almoço na casa do Tadeu.
— Fui sim, o tio dele é um doce, e a tia mais ainda. Eles são ótimos. Mas, por que essa pergunta agora? – perguntei.
— Como ele pôde te convidar depois de ver como eu te tratei na feira?
— Olha, não sei se você sabe, mas... Se você achou que estava me tratando bem, para me conquistar, e que fosse óbvio ao mundo que você me amava, está enganado, amor.
— Não te tratei bem, mas era óbvio sim. Todo mundo viu, porque eles me conheciam, menos você.
— É... De onde eu venho os homens dão flores e convidam para jantar. – ironizei.
— Nós começamos meio estranhos.
— É...
E de novo aquele pensamento que tive mais cedo na cozinha, me deixou aflita. Mas, não pude perder muito tempo nele já que continuava me fazendo perguntas.
— Como está o seu amigo fardinha?
— Para de chamar ele assim ...
— O que houve? – ele me olhou surpreso e confuso — Você não se importava com isso.
— David e eu somos amigos agora... Eu gostaria que você fosse gentil com ele.
— Eu seria, se o conhecesse.
— Não seria não . Você é um ogro, principalmente quando está com ciúme.
se levantou se desvencilhando de mim, e eu podia jurar que iríamos brigar pela primeira vez desde que voltei, mas ele caminhou até a fogueira para atiçar a lenha.
— Sabe... – falou para mim quando retornava ao meu lado — Eu realmente sou estúpido, xucro. E morro de ciúme de tudo e todos que possam passar mais tempo com você do que eu, mas não sou um babaca sem educação .
— Eu sei amor, não quis dizer isso é só que... – suspirei fundo e não terminei.
. Eu sei que você me ama, e adoraria passar mais tempo comigo, mas quando é que você vai me contar o que realmente aconteceu para te fazer vir aqui desse jeito, tão desesperadamente? Eu sei que você não está bem. , aflita, e eu conheço a “ aflita” melhor que ninguém.
— Eu... Tem muita merda acontecendo na DP, e eu estou perdidinha sabe...
— Transfere logo para cá, amor. Não era este o plano?
— É, mas... Não depende de mim agora. Eu descobri que o inquérito do Paiva foi parado e sumiu uma porrada de coisas, e ainda tem o caso da federal...
— Caso da Federal?
— É, pra conseguir prender o Lucas, a gente trabalhou em conjunto. A Federal e a minha equipe... E ainda tem algumas coisas a serem investigadas.
Hm... E o David é o federal, não é?
— É...
— Como mesmo que vocês conseguiram pegar o Lucas?
A pergunta de fez um arrepio subir pela minha nuca. Um arrepio frio de culpa.
— Ah... Eu... É... Às vezes a gente tem que arrumar umas emboscadas.
— Eu sei! Não sou tão leigo assim. Meu melhor amigo é delegado, lembra? Eu estou curioso em como foi a emboscada.
— Ah... – eu bufei pesarosa e percebeu.
— Você não pode falar, não é?
— É complicado... Desculpa amor.
Eu continuei observando aquele horizonte escuro, com a silhueta das montanhas longe. E terminou de tomar o seu caldo, e eu também.
... Você está me escondendo alguma coisa não está?
— Se tratando do meu trabalho, eu escondo muitas coisas .
— Você sabe do que eu estou falando. Tem alguma coisa que era pra eu saber do seu trabalho, e você não consegue contar.
Eu o encarei diretamente, pela primeira vez desde que ele iniciara aquele interrogatório e a expressão preocupada dele não tinha nada além de medo.
— Só me diz se tem a ver com o David.
Eu podia sentir a súplica na voz dele, e estava me matando ter que mentir.
— Tem uma coisa com ele sim... Eu vou ter que trabalhar com o David numa ação da PF.
— E ainda não é isso, . Eu te conheço, por mais que não pareça tá? Eu vi todas as suas reações, enquanto você me escondia sobre o seu caso, aqui na fazenda então não tente fugir de mim. Se há uma coisa que eu odeio , é a mentira.
— Desculpa amor é que... – soltei outro suspiro e me levantei dos degraus e parei em frente a ele em pé, e se levantou também me encarando diretamente.
Ele passou a mão em meu rosto, num carinho compreensivo.
— Quer conversar lá dentro?
— Não tudo bem. Mas é que eu descobri umas coisas do meu passado... Envolve o David, mas eu não sabia, porque eu perdi a minha memória.
A expressão chocada de perdurou até o fim da história que eu contei. Falei a verdade que havia escutado pelos meus amigos e ele custou a aceitar que tudo aquilo fosse sério, tanto quanto eu. Nós fomos nos deitar em seguida, e durante um tempo até eu pegar no sono observei a face preocupada do olhando para o teto do quarto. Ele sabia agora que existia um passado entre David e eu, e aquilo o incomodava. E eu já sabia que seria assim.

– x –

Dei algumas batidas no aparelho de som antigo, e entre chiados e palavrões meus, o som da música se fez possível. Não da melhor forma que eu gostaria. Mas, contentei-me com aqueles ruídos de alguma melodia. E enquanto a única rádio da cidade soava baixinho, eu coava o café. não dormiu bem, na verdade, acredito que ele nem havia dormido direito. Então eu levantei antes dele para tratar dos animais.
Novamente deparei-me com a falta que tudo aquilo fazia. Certamente seria muito difícil ter que escolher entre a minha carreira e a fazenda. Porque eu já estava aceitando que em Mato Alto, eu não poderia ficar como delegada, ainda que houvesse vaga. Que tipo de trabalho eu faria ali? Nada contra, mas se até Gabriel estava vislumbrando partir dali por sua carreira, como eu iria tocar uma delegacia onde o máximo do máximo, envolvia os crimes da fazenda Nolasco. Todos, crimes de roubo de gado. Enfim... Se aquela transferência saísse, eu teria de me contentar com a capital Belo Horizonte. E de que isso adiantaria? Eu ainda estaria longe da fazenda.
Vi o nascer do Sol, despontar alto no céu, quando eu retornava ao celeiro, e assim que entrei ali, meu sorriso se expandiu ao olhar para o amontoado de feno e pensar no dia anterior.
— Você é louca ... – sussurrei para mim mesma e retornei ao casarão.
No caminho, passei na horta e escolhi as verduras do almoço. Então, enquanto coava o café, aquele rádio foi uma opção visível para esquecer os pensamentos que gritavam na minha cabeça. Mas, quando a canção “Luz dos Olhos” tocou, eu viajei nas memórias de muitos meses atrás, quase há um ano. Eu me lembro de ouvir aquela música enquanto pintava o celeiro com o , e ao mesmo tempo em que me invadia a saudade de algo que eu já estava vivendo, me invadiu a felicidade. Cantarolei baixinho, aquela música, que estava sendo desgraçada pelo chiado do rádio, mas logo foi abençoada pelos braços de ao redor da minha cintura, e a voz grave dele ao meu ouvido e que, aliás, deixavam Nando Reis no chinelo.
— Passo as tardes lembrando, passo as tardes tentando te telefonar... – ele cantarolou me fazendo arrepiar ao som da sua voz.
— Cartazes te procurando, aeronaves seguem pousando sem você desembarcar. – e eu cantarolei me virando para olhar em seus olhos.
— Pra eu te dar as mãos nessa hora, levar s malas para o fusca lá fora, e eu vou guiando... Eu te espero bem...
prosseguiu sacudindo nossos corpos de um jeito calmo.
— Diga onde vãos seus pés que eu te sigo também... Porque eu te amo, eu te peço vem... Diga que você me quer, porque eu te quero também. – finalizamos o trecho cantarolando juntos e em tom baixo.
O café já havia passado inteiro para a garrafa, mas eu não estava prestando atenção em nada daquilo. Tinha um par de olhos azuis na minha frente que me impediam de prestar atenção em qualquer outra coisa.
O suspiro confortável que eu dei foi o responsável por fazê-lo alargar um sorriso, e me dar um cheiro forte no pescoço. Quanto tempo mais eu suportaria sem aquele abraço? Era uma pergunta que ficava maior, mais urgente e gritante a cada dia. E com um beijo de bom dia, me fez sentir-me ainda mais confusa: como escolher entre a carreira e o amor?
— Bem... Se eu não sair daqui agora, eu não saio mais... – ele sussurrou distribuindo beijos no meu rosto — E eu já me atrasei para cuidar dos bichos!
Ele falou num rompante nos afastando e eu observei-o vestir sua camiseta preta surrada, até puída em alguns pontos, e colocar o seu chapéu velho de cowboy.
— Eu já cuidei de tudo. – falei risonha e colocando a garrafa de café já fechada sobre a mesa — Eu vi que você não dormiu.
Ele levou as mãos à cintura e apoiou o peso do corpo em uma das pernas. Então me olhou como um menino que perdeu a diversão.
— Bom... E o que eu faço agora? – ele riu.
— O que você faria depois que acabasse de cuidar da fazenda? – puxei a cadeira da mesa para me sentar.
— Eu tomaria café com a mulher mais linda do mundo. – sorriu ladino e estreitou os olhos.
retirou o chapéu e o colocou sobre a mesa, fazendo-me corrigi-lo na mesma hora, e ele bufar enquanto corrigia o seu ato. Como se não visse comida há dias, ele começou a grosseiramente partir o pão e montar o seu sanduíche, fazendo uma bagunça pequena, mas típica dele.
— Arrume a manteiga. – falei.
— Que frescura. Você e a mamãe enchem a merda do saco com cada coisa...
— Não é educado deixar a manteiga cheia de furos ... – rolei os olhos ao dizer.
— Não é educado com quem? Com a manteiga né? – ele riu dando uma grande mordida em seu pão.
— Com as visitas.
— Ah tá... É a casa está cheia mesmo, e os hóspedes vão fugir quando virem a nossa manteiga.
Ele gargalhou me fazendo bufar impaciente e ficou me observando risonho até que eu não conseguisse mais segurar o sorriso que eu queria dar. Apesar da melhora dele comigo em muitos aspectos, ainda era o mesmo teimoso e turrão que conheci.
— Você sempre arruma motivo para nossas briguinhas, não é ? – ele perguntou divertido como se lesse os meus pensamentos.
— Eu confesso que não gosto quando a gente se torna aquele casal meloso demais... Tem que ter um pouquinho de ação. – falei debochada e pisquei.
...
O tom provocativo e a sobrancelha arqueada dele logo deram espaço para uma mudança de assuntos. Se não mudássemos o rumo da prosa, ele ainda ficaria com muita fome, já que estaríamos ocupados com outra coisa.
— Não vai comer? – me perguntou.
— Não estou com fome, amor.
— Já eu... – ele disse se levantando e indo até a geladeira.
Arregalei os olhos estranhando aquela esfomeação repentina. Acho que nunca o vi com tanto apetite. E se o vi, certeza não foi em momentos de raiva ou felicidade, mas talvez, preocupação. Mas, não, eu não havia visto aquele faminto ainda. Quando o vi pegar a frigideira e atiçar a lenha, com um pacote de linguiça em mãos eu realmente fiquei assustada.
— O que vai fazer?
— Eu estou com fome, amor! – falou como se justificasse — E você, não vai comer por quê?
— Não estou com fome.
— Como pode não estar com fome? Está se sentindo mal? Aconteceu alguma coisa?
A sequência de perguntas preocupadas foi interrompida apenas para que ele virasse o óleo na frigideira que esquentava, e se aproximou de mim. Apoiou a mão na mesa e abaixou o olhar até o meu.
— O que houve?
— Eu que te pergunto... Que fome é essa?
— Não muda de assunto. Você está passando mal?
— Não . Eu só acordei sem fome, oras... – ele arqueou a sobrancelha em dúvida e então eu retruquei apontando a frigideira: — O que você vai fazer ali?
— Pão com linguiça. Quer? – e a mordida de lábio que ele deu me arrancou gargalhadas impossíveis.
— Você está impossível! – falei.
me beijou rapidamente e voltou-se ao fogão.
— Você me surpreendeu ontem.
— Eu sei. – e foi inevitável não rir — Eu também me surpreendi comigo.
Trocamos olhares divertidos e logo o cheiro e barulho daquele óleo quente fritando a bisnaga de linguiça, se misturou às tapas que dava ao rádio.
— Merda. Deixei essa caixinha de marimbondo cair ontem, e mamãe vai reclamar horrores.
— Não dá para arrumar? – perguntei.
— Você gosta de coisas velhas tanto quanto ela, não é? – me encarou como se eu tivesse dito absurdos — Eu vou comprar um novo. Não hoje... Mas vou, ela vai falar até a décima geração se não puder ouvir o Zé Luís.
Em imaginar a titia chamando a atenção de por aquele descuido, eu já sorria. Mas, ao mesmo tempo estava melancólica. Eu não estaria ali para ver aquilo.
— Coma. – ordenou me estendendo um prato com o sanduíche — E me diz o que está deixando você assim.
— Me diz você. – ele me encarou em dúvida enquanto se sentava novamente à mesa e eu continuei — Você está ansioso. Eu estou vendo isso, e não dormiu a noite toda. O que está perturbando você? Foram as coisas que te falei ontem?
abaixou a cabeça, e pensativo ficou calado. Eu não iria insistir se ele não queria falar sobre aquilo, mas certamente, eu estava certa. Ele estava frustrado com algo e sem sombra de dúvida seria sobre David e eu, e o nosso passado de um “quase” romance.
Depois que terminei de comer, embora estivesse sem fome, eu fiz menção de me levantar e arrastei a cadeira. Então , ainda com o olhar baixo me chamou atenção com as suas palavras.
— E se você o amava?
E constatando exatamente o que eu tinha pensado, eu sorri leve. Deixei o prato à pia, e me aproximei do homem tenso, tranquila. ainda não me olhava e terminava de comer, limpando sua boca e encarando a própria caneca de café. Sentei-me ao seu lado, com uma perna no chão e a outra na mesa. Minhas mãos foram lentamente esquadrinhando o rosto bronzeado pelo Sol da fazenda. Sentindo devagar a barba que crescia e até mesmo as ruguinhas que já pareciam dar sinais. Eu sorria fazendo aquele carinho silencioso e respirou fundo, enfim me olhando. Então sem tirar meus olhos dos dele, eu fui sincera.
— Eu amo você, e mesmo que tivesse me apaixonado por ele no passado, isso está lá agora. Você não tem que temer um fantasma.
entendia o que eu dizia, mas ainda tinha a feição de alguém que estava observando um ponto diferente do meu. Ele observou a paisagem através da janela da cozinha, fixando o olhar nas nuvens brilhantes num misto de luz solar e cinza. Levou sua mão a minha perna sobre a mesa, e repousava ali um carinho descontraído.
— A questão não é o passado.
Ele falou voltando a me encarar, tranquilo, mas com o semblante de quem estava tentando não ceder aos instintos ciumentos e iniciar uma briga. Eu passei a reconhecer esse gesto relutante dele, quando a voz dele saia amena, mas seus olhos fechavam, assim como as suas sobrancelhas uniam-se de encontro ao meio da testa.
— A questão é que, se você se apaixonou por ele, pode se apaixonar de novo.
Eu esbocei um riso e desci meu olhar até a altura do rosto dele, e beijei castamente o beicinho emburrado de . E mesmo assim ele não sorriu, mas sustentou meu olhar e se aproximou mais abraçando minha cintura.
— Eu não tenho um futuro se não for ao seu lado, .
E só então ele sorriu, mas ainda havia medo. e eu sentíamos uma atmosfera estranha entre nós. Havia algo. Algo que não estivera entre nós todo aquele tempo.
... Você e ele têm muitas coisas em comum, e eu não sei se nós também temos.
— Então é hora da gente descobrir.
Ele não respondeu nada e eu não insisti no assunto. Nós concordamos silenciosos de que ainda havia muito a descobrirmos um do outro. Mas, eu não queria fazer aquilo naquele momento. Estava com medo. Um absurdo medo de conhecer o e perceber que realmente, tínhamos menos em comum do que pensávamos. A química de um casal é suficiente para sustentá-lo até certo ponto. Como se ele compartilhasse em seus pensamentos, o mesmo medo que o meu, não se contrariou à minha proposta de passear pela cidade.
Nós teríamos apenas mais aquele dia até eu voltar, e por mais que eu quisesse ficar o tempo todo só com ele, eu também estava precisando sair um pouco do mundo construído por nós. O mundo onde eu ficava fugindo dos meus pensamentos gritantes enquanto abandonava meu corpo no dele. Na presença daquela maldita atmosfera estranha de que talvez, e eu devêssemos ser mais do que a rota de fuga um do outro.
Era domingo, e pelo horário havíamos perdido a missa. Eu só percebi naquele momento, que eu não me importava tanto com aquilo. Na verdade, aquele novo hábito cristão era mais uma das coisas que eu compartilhei com a rotina daquela família. Genuinamente assumindo, eu nunca havia sido tão cristã, e isso era notório quando eu cheguei ali. Mas, pelo meu momento de tanto desespero, eu apelei para o conforto espiritual quando foi preciso. E pode ser que eu seja uma pessoa horrível por isso agora, mas não... Eu não estava sentindo falta de “ir à igreja” agora. E quando começou a martirizar-se por ter perdido a missa da manhã, eu notei que ele dava importância àquilo mais do eu.
— Não tem outro horário? – perguntei.
— Só à noite.
— Eu vou embora ao final da tarde, então podemos sair juntos e você assiste a missa noturna.
— O quê?
Estávamos dentro da camionete dele a caminho da cidade, porque por mais que não houvesse a bendita missa, eu queria passear e tinha a feira, as praças, os amigos da cidade para visitar. E naquele momento em que falei tão tranquila que iria embora, o homem ao meu lado me encarou chateado.
, eu não posso ficar muito tempo, amor.
— Eu não estou reclamando disso, mas... Só agora você me diz isso?
— Qual o problema?
— Poxa ... Se eu soubesse que você iria embora hoje à tarde eu nem teria saído da fazenda com você! Você vai dirigir e precisará descansar mais tarde, então eu ficaria com você mais tempo lá em casa.
... Eu quero ir à cidade, e por isso estamos indo à cidade. Então, foda-se o que eu quero? Só porque você quer ficar isolado comigo não podemos passar um tempo juntos em outros lugares?
— Do que está falando ? – ele me perguntou como se eu estivesse dizendo alguma coisa totalmente fora de contexto: — Eu estou falando que eu quero passar mais tempo com você!
— E nós estamos! Mas eu quero ver nossos amigos também!
— E eu estou te proibindo por acaso? – ele me perguntou risonho.
— Não. Por que você não vai me proibir de nada.
O tom de voz que eu usei era sim irritado. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas eu comecei a pensar com a cabeça empoderada que eu sempre tive, ou achei que tivesse antes de conhecê-lo. E pelo visto, aquilo era novidade para ele. não me encarou diretamente, ao dizer aquela frase seguinte e eu sabia que havia o magoado.
— Não me lembro dessa assim tão rude.
— Talvez porque eu estivesse frágil o suficiente para ser oprimida. Mas, eu sou assim .
— Você tem alguma coisa para me dizer? Algo que esteja incomodando?
A pergunta confusa dele era sincera acima de tudo.
— Não. E você?
— Tenho. Mas você não vai gostar de ouvir.
Nãodemos mais atenção ao assunto. Era meu último dia ali e talvez, fosse melhor apenas deixar passar. Quando chegamos à cidade, eu revi o Guino que animadamente conversava conosco, e nem parecia que e eu tivemos um pequeno impasse minutos antes. Belinha não estava em casa, e passamos brevemente na farmácia para visitar o Carlinhos. Depois seguimos para a feirinha, onde claro, provamos o caldo do Tadeu e entre risos e implicâncias brandas entre e eu, contei ao senhor da barraquinha que o caldo feito por ele não chegava aos pés daquele ali. E é óbvio que não deixaria que eu o zoasse e por isso começou a implicar com o meu almoço – o qual eu ainda iria fazer ao chegar em casa –, fazendo que nós três ríssemos bastante.
— Vocês dois... São o avesso um do outro desde que vieram aqui a primeira vez! – a frase seguida de risos fartos do seu Tadeu, nos fizera sorrir, sem graça.
e eu entendemos aquilo, como mais uma vez, a verdade de que precisávamos conhecer um ao outro melhor. Ele me abraçou pela cintura antes de nós nos despedirmos e voltamos a caminhar entre as barracas, até que encontramos a Lúcia.
— Lúcia! – falei alto me aproximando dela e a mulher de rosto redondo me encarou surpresa, vindo ao meu encontro abraçar-me.
! Que saudade! Como você está?
— Bem, e você?
— Eu também! Voltou de vez?
— Ainda não. – sorri sem graça e encarei o chão.
Lúcia correu o olhar pelo rosto do . Ela não era muito boa naquilo de “disfarçar”. E pelo semblante dele que eu avistei pela visão lateral e a expressão dela ao me olhar de volta, era claro para Lúcia que aquilo o incomodava.
— Vamos à Dona Carlota? Vocês devem querer conversar... – ele propôs.
— Ótima ideia. – Lúcia concordou.
Seguimos os três à vendinha da senhora, que funcionava como bar e um pouquinho de tudo. Pedimos uma cerveja gelada para aquela manhã quente de domingo, e jurou que beberia pouco já que ia dirigir. Não passou vinte minutos que estávamos ali e foi chamado por um conhecido. Ele se distanciou até a porta da vendinha e ficou ali conversando, enquanto Lúcia e eu tivemos um momento mais tranquilo a sós. Ela contou-me que Belinha e Gabriel estavam viajando, e eu ri jurando que iria reclamar com ele por não me avisar aquilo. Significava que eles haviam se entendido então! E ela também me contou que as coisas não estavam tão bem em seu noivado.
— Talvez nós terminemos logo... Sei lá, mas... Isso de noivado não está dando certo à distância.
— Eu sei como é.
— Aconteceu alguma coisa entre vocês dois, não é?
— Ele está chateado porque só avisei a pouco que vou embora hoje.
— Tem quantos dias que você está aqui?
— Cheguei sexta à noite.
sente muito a sua falta sabe? Eu não acho que você vá ficar chateada, e não sei se ele te contou, mas... A gente tem se reaproximado como antigamente.
— Você e ele? – perguntei confusa.
Uhum. Isso é um problema pra você? – a voz preocupada e o olhar fixo de Lúcia em mim, demonstravam receio.
— Não, não Lúcia, por que seria?
— Que bom... Por que o tem precisado bastante de alguém pra conversar. E eu acho que já que você e o Gabriel se envolveram ele não se sente à vontade pra conversar com ele, sobre o relacionamento de vocês.
— Bobagem. Eu sempre converso com o Gabs sobre nós.
— É, mas é o não é fácil... Demonstrar suas fraquezas é um assunto complicado para ele. Acho que como ele sempre se sentiu confortável em falar comigo porque eu não iria julgá-lo, nesses últimos tempos tem sido assim. A gente se esbarrou na feira um dia, e ele conversou comigo que tem medo de perder você.
— Ele nunca vai deixar de ter esse medo pelo visto... Eu só queria que ele visse o quanto eu assumi riscos aceitando ficar com ele... Talvez assim ele fosse menos possessivo.
Hm... – ela bebeu sua cerveja — Um adjetivo novo. Então, agora, você percebe os defeitos dele?
— Como assim? – perguntei confusa — Eu sempre vi!
— Sério? Achei que você não visse mais que o é bem complicado de lidar, depois que vocês começaram a namorar.
— Ele mudou Lúcia. Todo mundo vê.
Ela sorriu compreensiva, e suspirou pesadamente.
— Fala Lúcia. Agora fala! – pedi mais firme e séria.
— Você é a mulher que ele ama, é claro que ele vai fazer coisas que te agradem, dizer o que você gosta de ouvir e demonstrar todo o amor dele. Mas, e quanto ao homem que ele mostrou ser no início? Aquele que não se importa com os sentimentos de uma mulher se ela não lhe diz respeito? O mesmo machista que apesar de ser uma pessoa bem divertida e legal, me tratou como um nada quando eu era mais nova e foi ele o meu primeiro amor? Ele ainda é o cara que me procura para conversar, quando ele precisa. E sobre mim? Meus sentimentos de amizade por ele são recíprocos? Eu poderia correr até ele para contá-lo do meu noivado, por exemplo? Eu não conto com isso, . Eu estou aqui desabafando com você que mal me conhece e já é minha amiga. Na verdade, eu não espero que ele vá retribuir isso, porque... O não é um homem atencioso. E não estou dizendo que ele é ruim por causa disso, mas estou dizendo que o isolamento que ele propôs a si, é um dos defeitos dele.
O que ela disse me pegou de surpresa. Engoli a saliva densa que se formou em minha boca e bebi mais um gole de cerveja tentando disfarçar.
— É, mas, eu não conheci este . Na verdade, isso é um problema entre a gente agora... Não sabemos trivialidades um do outro.
— Entendo... Vocês não tiveram muito tempo mesmo pra conhecer quem vocês eram fora e antes de se esbarrarem na fazenda. Sem falar que as coisas foram rápidas e intensas, né? Vocês estavam convivendo o tempo todo juntos.
— É... Isso atrapalhou um pouco, e agora lidar com a distância é difícil, porque conhecendo o raso um do outro, parece que a cada dia a gente está se perdendo mais, enquanto estamos longe...
— Acho que o melhor caminho é conversar, agora que ele se abriu pra você... É melhor conversarem sobre tudo, se conhecerem mesmo. Eu acredito que vocês tem tudo pra dar certo, mesmo sendo bem diferentes.
— Lúcia... Você não acha mesmo, que o se tornou uma pessoa melhor depois de mim?
Lucia desviou os olhos para o homem parado à porta do estabelecimento conversando. A postura dele era firme. O semblante dele era sério. não era de sorrisos, e eu sempre soube daquilo. Os sorrisos só vieram depois, e para mim. Antes, os sorrisos eram para a filha, a família. Até que eu fui aceita como família para ele.
— Eu acho que ele tem tentado ser uma pessoa melhor para você. E até ele sabe disso... Ele sabe que tem dificuldades em ser uma pessoa melhor no geral, porque é difícil assumir seus próprios defeitos. E ele sabe. – Lúcia disse com convicção.
— Ele disse?
— Ele disse. E sabe disso desde que a gente era adolescente, porque eu continuo reclamando das mesmas coisas com o . Mas, ele quer muito mudar. Só que... Ninguém muda da noite para o dia, não é senhora delegada?
A maneira racional que Lúcia disse aquilo me fez ter um estalo mental. Ninguém muda da noite para o dia. Se fosse assim, eu não precisaria ser uma delegada, que prende e pune quem erra. Que aprisiona justamente para retirar as pessoas de um convívio social, mas, além disso, que aprisiona para que as pessoas erradas pensem sobre seus delitos. Cumpram uma punição e tentem socializar novamente. Ninguém muda da noite para o dia.
Nem eu mudei. Eu não era a da fazenda. Eu era a . A mesma com defeitos de quando chegou ali. Só que eu me adaptei a uma vida diferente. Agi conforme o necessário, e me deixei encantar e deslumbrar por sensações e coisas novas. Mas, ali estava eu de volta e cheia de dúvidas, mesmo depois de ter passado tanto tempo naquele lugar. Eu não mudei. Eu ainda era a que buscava que seus relacionamentos, milagrosamente funcionassem do meu jeito. Eu ainda queria estar com o , mas com o que eu achava interessante: meio bruto e amoroso. Mas, onde eu coloquei o que me magoou tanto? Por que eu troquei aquele homem tóxico por um grande amor, e perdoei tão fácil? Porque eu aceitei que ele mudou. Mas, ninguém muda da noite para o dia.
? – Lúcia me chamou ao perceber que eu divagava assustada, então a encarei e ela logo foi se desculpando: — Olha, desculpa ... Eu não quero te confundir!
— Não, não confundiu. Na verdade, me trouxe uns pensamentos bem, bem antigos, mas reais... Então, ele mudou para mim não é?
— Você pode perguntar a qualquer um da cidade. O é o mesmo que era antes da , durante a e depois da . Ele só mudou com você.
— Sabe... Ele era absurdamente apaixonado pela Bruna, não é? Mas, de repente ela se tornou a pior pessoa do mundo, porque não fez o que ele achava certo ou queria.
— Quer saber? Vamos beber e parar de pensar nisso!
A Lúcia tinha razão. As coisas começavam a surgir com algum sentido. Eu era aquele tipo de mulher que parece muito forte por fora, mas facilmente se apaixona por seu algoz. Então, eu era uma mulher boa demais em tudo, mas dependente de relações amorosas. E o que eu jurei que não cometeria de novo – depois da decepção de Lucas – eu cometi. Eu não queria enxergar o Lucas de verdade, então namorei e noivei com ele até que a prova substancial de que eu não poderia ficar come ele, se esfregou em minha cara: a traição. E se eu não tivesse pegado aquela traição, eu ficaria com ele até toda a confusão do processo explodir, pra eu enfim terminar. Mas, não era o Lucas e a relação não era a mesma. Já eu, era a mesma . Eu não quis enxergar a real face do quando me apaixonei, porque no fundo, a recompensa de estar com ele, e de que ele me tratava melhor apagava todo o resto.
Aquilo me incomodou muito. Eu já havia visto aquela situação no meu ramo: mulheres totalmente apaixonadas que perdoam os erros indesculpáveis dos seus parceiros. Mas, o não era ruim. Não era de todo o ruim. Tinha defeitos, claro. Todo mundo tem, e até eu tenho defeitos que agora parecem o incomodar, mas o problema não era o . Não era eu. O problema era não saber quais seriam os seus reais defeitos que eu, não aceitaria e vice-versa, e nem as suas principais qualidades que eu amaria. Porque até suas qualidades giravam em torno da nossa paixão, da nossa química, e do pouco que eu convivi durante um ano.
Mas um ano era pouco para os vinte e poucos anos de nossas vidas. O que era um ano de uma personalidade que foi construída por vinte e sete anos?
Lúcia tinha razão. Fazia todo o sentido eu não enxergar o mesmo que ela e todo mundo, porque tinha o filtro do amor. Mas, agora, mais do que nunca eu vejo o quanto e eu podemos ter tudo ou nada em comum. E o quanto a gente precisa se conhecer. De perto ou longe.
Bebemos a cerveja toda, e quando pedimos a segunda, ele retornou animado.
— Acho que consegui mais um cliente lá em Grota Funda!
Ele passou o braço pelo meu ombro e me puxou para perto de si, beijando meu rosto. E se serviu da cerveja que tinha acabado de chegar. estava muito mais animado do que antes, ele era extremamente apaixonado por seu trabalho. Tínhamos um ponto em comum. E novamente aquilo me preocupou: como escolher entre a sua carreira e o amor? Ele escolheria por mim? E eu, conseguiria escolher por ele?
— E aí Lúcia, quando sai o casamento? – ele perguntou.
Ela me escapou um olhar cheio de razão, como se quisesse me mostrar algo.
— Tem três meses que está incerto ... Acho que não vai ter mais noivado.
— Sério? Por quê? – ele perguntou surpreso.
— Incompatibilidades. Eu comentei com você há algumas semanas.
— Comentou? Poxa, eu não prestei atenção, me desculpe.
Ele soou sincero e a Lúcia riu dando de ombros, e disse para ele antes de pedir licença para ir ao banheiro:
— Não é como se eu esperasse que você me dissesse alguma coisa sobre, .
a encarou confuso, e soltou a respiração em seguida olhando para a mesa, como se entendesse o que ela dizia. Havia um reconhecimento de comportamentos ali entre eles, que eu sabia, deveria ser antigo.
— Você poderia dizer algo para ela... Ela é sua amiga há anos, .
Ele me olhou e concordou silencioso com a cabeça.
— Mas, eu não sei o que dizer para a Lúcia.
— Por quê? Você deu ótimos conselhos ao Anjinho e à Vera quando estava lá em São Paulo.
— É diferente amor, eles estavam com problemas sobre paternidade. E esse é um assunto fácil pra mim, porque afinal, a paternidade é o meu ponto fraco e a única coisa que eu realmente tenho experiência.
— Você não tem experiência no amor? – perguntei surpresa.
— O meu histórico não foi muito bom, não é? – me olhou com um humor melancólico ao se referir a Bruna — Eu não sei amar direito.
— Como pode dizer isso?
— Talvez porque eu estou começando a perceber que estou fazendo alguma coisa errada com a gente também.
Encarar aqueles olhos azuis, cheios de muitas falas que eu não pude compreender, mas que eu sabia que eram pontos de medo sobre nosso futuro não foi fácil.
— A gente vai aprender a fazer a coisa certa.
E a minha resposta soou como uma certeza que ele não teria. Eu sem querer, havia admitido que havia mesmo uma coisa errada entre nós. E a expressão culpada de , misturada à raiva de quem trancava seu maxilar, cortou o meu coração. Eu não ia conseguir esconder por muito tempo que eu estava começando a ficar insegura sobre nós dois.
... – ele me chamou baixinho e eu o olhei — Me ensina a te amar?
— O que?
— Me ensina para eu não te perder.
— Eu ensino, mas antes acho que eu também tenho que descobrir como fazer isso, amor. E talvez a gente tenha que aprender juntos.
O sorriso dele foi dissipando a preocupação que o semblante sério transparecia.
— Me conta mais sobre o trabalho de Grota Funda.
Quando pedi aquilo, ele se iluminou e Lúcia já tinha voltado à mesa. Continuamos conversando, bebendo – menos ele, que parou no quarto copo – e acabamos por decidir almoçar ali na Dona Carlota mesmo. A cidade estava movimentada naquele domingo, mas só até a hora do almoço, onde logo foi possível detectar a praça esvaziando.
Antes de ir embora, eu abracei Lúcia apertadamente e disse a ela que poderia contar comigo para conversar, quando precisasse mesmo com a distância. E se desculpou por sua indelicadeza. Coisa que ela até, nem deu importância já que sempre o desculpava mesmo. Lúcia era amiga de verdade dele, precisava valorizar mais aquilo.
Fomos de volta para a fazenda, tranquilos, menos preocupados do que na vinda, mas tão pouco dispostos a falar sobre nós quanto antes. Tomamos banho, e nos deitamos um pouco. Eu não demorei a adormecer nos braços dele enquanto recebia seu cafuné. Acordei às quatro da tarde, por causa do despertador que ele mesmo havia posto. Pedi para cuidar dos bichos com ele, e fomos à rotina usual da fazenda, e quando nós retornamos ao casarão eu fui tomar banho de novo. Iria partir às dezoito horas.
preparou o café da tarde, comemos juntos na varanda e depois ele foi se arrumar para ir à missa. Ele realmente não deixaria de ir. Ponto incomum entre nós.
A despedida foi difícil como sempre. Mas o beijo de até logo, foi memorável como todos. Apesar das dúvidas em meu coração, não encerramos o fim de semana em conflito. Pelo contrário, estávamos começando a compreender – acredito, que cada um em seu interior – que alguns pontos deveriam ser trabalhados em nós.
Nós demos partida em nossos carros ao mesmo tempo, eu saí à frente e ele atrás, e quando chegamos ao ponto da estrada que nossos caminhos divergiam, me ultrapassou e buzinou adiantando. Achei que ele se despediria daquele jeito: acelerando e jogando aquela poeira toda em meu carro, mas ele fez aquilo para que parasse a camionete atravessada metros à frente, e desceu dela.
Só não estranhei mais, porque eu também sabia que fazer cenas era a especialidade dele, então diminui a velocidade estacionei. Logo ele estava abrindo a porta do meu carro, soltando o meu cinto e grudando meu corpo no seu. E nós só fomos interrompidos por um carro de passeio, com um grupo de amigos que estavam pescando na região, e começaram a gritar animados pela cena que haviam acabado de presenciar.
— Faça boa viagem, e tenha cuidado, ok? – ele disse acariciando o meu rosto depois de nos separarmos.
— Você também, tenha cuidado na volta.
— Pode deixar... Te amo.
— Também te amo. – selei nossos lábios e entrei de volta ao meu banco do motorista — Te espero em São Paulo.
— Eu logo estarei lá com a , meu amor.
Sorriu. O sorriso que eu por tanto tempo cobicei e que agora era meu. Quando ele voltou à camionete e liberou um caminho na pista para que eu passasse por ele, nós olhamos um para o outro pelas janelas do carro, e dividimos um carinhoso “Eu te amo”, juntos. Depois eu acelerei para a esquerda, e avistei a camionete de se distanciando pela direita, através do retrovisor.


Capítulo 33 - O Atentado

O retorno para São Paulo foi tranquilo, mas o pesar em meu coração permaneceu por muito tempo. E tudo só piorou quando eu tive que contar ao sobre a possibilidade de cancelar o nosso carnaval.
— Você realmente está me dizendo que não vai passar o carnaval comigo e a por causa do fardinha? – a voz dele ecoou forte e irritadiça do outro lado da chamada.
Eu podia vê-lo caminhando de um canto ao outro à minha frente, chacoalhando as mãos e com o peito estufado de ódio.
— Não ! Eu estou dizendo que por poucos dias antes de vocês irem embora, eu posso ter que viajar com o David para uma missão. E isso é cerca de... três dias, sei lá!
A minha voz também não era mansa. Era de igual para igual. E eu odiei aquilo!
— Olha só ... Eu, sinceramente, estou acostumado com os seus recentes momentos de “segundo plano” da nossa relação... Na verdade, desde que a gente começou a namorar, o seu trabalho tem nos tomado muito tempo, mas... A está envolvida! Você prometeu a ela isso!
— E eu não estou cancelando nada! Eu só estou dizendo que... – suspirei pesadamente.
— Tá... Tá, ... Vamos tentar não brigar. – ele me interrompeu ao ouvir o meu suspiro cansado — Seria uma boa solução se nós formos um pouco antes?
— Um pouco antes? Para mim vocês podem chegar hoje se quiser, mas... Você tem trabalho !
— Que se dane o meu trabalho . Eu só não quero ir até aí para a ter um dia com você e fim.
... Eu ainda não dei a minha resposta final ao David... Pode ser que...
— Mas você vai aceitar. – ele me interrompeu de novo — Eu conheço você, e sei que você vai. Ficamos combinados assim... Eu chego antes com a .
...
— Pode ser? Ou te atrapalha? – pela terceira vez ele me interrompeu.
E dessa vez doeu ouvir o tom de voz acusador que ele utilizou. podia até não ter entendido ou se sentido “descartável” com a minha possibilidade de furar o programa, mas eu não havia proposto nada contrário do anterior. Apenas tinha avisado que poderia ser que, eu viajasse antes do carnaval acabar.
— Vocês não atrapalham em nada, deixa de ser estúpido. – respondi firme — Estou esperando os meus dois amores.
— Certo. A gente se fala depois.
Ele nem mesmo me deu tempo para respondê-lo. Desligou a chamada e eu apenas bufei pesarosa.
Sentei-me em frente à minha mesa, o computador da delegacia aberto em sua área de trabalho, nenhum documento, nem planilha, nem sistema... Merda nenhuma que me justificasse trabalhar. Em minha mesa, uma pilha de boletins de ocorrência – que só não digo inúteis, porque ainda que, de menor grau, são crimes –, aos quais eu já havia lançado todos ao sistema.
— Isso nem é o meu trabalho... – murmurei baixinho com raiva.
? – ouvi meu nome com as duas batidinhas na porta.
O rosto tranquilo e paternal do Dr. Abelardo surgiu entre a fresta, e eu sorri falsamente, o indicando minha mesa.
— Está tudo bem? – ele perguntou ao perceber meu mau humor.
— Eu não sei para quê venho aqui... Sinceramente. – respondi irônica.
— É... Eu sei que os casos não te agradam, mas... Tenho notícias ruins.
— Ruins para mim, não é?
— Certamente.
— Vai doutor... Pode dizer!
— Estou te liberando até segunda ordem, .
Eu o encarei, extremamente confusa. E ele como se fingisse assinar algum tipo de liberação para mim escreveu em um papel que havia trazido e me estendeu-o junto à caneta.

“Vamos lá fora conversar e eu te explico tudo. Finja que está aceitando minha dispensa com raiva, e assinando este documento”.

Li e o encarei abismada. Fiz o pedido e nem precisaria “fingir” estar indignada. Porque eu realmente estava.
— Isso é um absurdo doutor Abelardo! Eu não acredito que estou sendo dispensada dessa forma depois de tudo o que eu fiz!
Saí da minha sala fazendo um escândalo e o homem veio atrás de mim, constrangido. A delegacia inteira viu o show que eu dei ao sair da minha sala. Caminhei revoltada para fora da delegacia, e no estacionamento, ao lado do meu carro fui alcançada pelo meu supervisor.
— Boa encenação. – ele falou ao se colocar de costas à delegacia em minha frente.
— Não foi uma totalmente! Eu estou mesmo indignada! O que está acontecendo?
— Você corre perigo. Descobri uma linha de ataque a você... Tenho que te afastar.
— E me afastar não vai levantar uma suspeita?
— Não, porque você moveu um processo contra nós, e a decisão veio de fora e não de mim.
— O quê? – perguntei alarmada.
— Costa moveu uma falsa ação por você.
— Isso não é permitido! Vocês não podem usar o meu nome assim!
... Nós fizemos o que tinha que ser feito para te proteger, e nos responsabilizaremos por tudo.
— Quer saber? – o encarei com um ódio absurdo — Eu realmente estou caindo fora!
Entrei no carro e bati a porta. Eu nem olhei para o rosto do meu chefe ao dar ré em meu carro alugado. Simplesmente saí dali tempestiva. Era tudo absurdo demais! Eu estava sendo usada como isca, como manequim, como uma peça de um jogo que fui forçada a participar sem ao menos conhecer as regras! Eles estavam ultrapassando os limites legais, em nome da legalidade? Que merda era aquela? E sem falar no estresse com o um pouco antes.
Apertei o botão do rádio em busca de uma música que me aliviasse. E consegui me distrair levemente, até parar em uma padaria no caminho de casa. Eu havia estacionado e visto o mesmo carro que estava atrás do meu há alguns metros, parar estacionando na esquina de trás.
— Que porra é essa? – sussurrei desconfiada para mim mesma.
Entrei na loja, realizei a compra do meu café da tarde, e retornei ao meu carro atenta.
Quando dei partida, o carro de trás também deu. Não demorei a notar que eu estava sendo seguida. Telefonei para o David no mesmo instante.
— Oi ... – ele respondeu ofegante — Tudo bem?
— Estou sendo seguida e dando voltas em meu bairro para disfarçar, mas acho que fui pega.
— Vem pra cá!
– David disse urgente.
Desliguei e acelerei o carro. E quando alcancei rapidamente a via expressa, o carro que antes era um se transformou em dois. Emparelhados ao meu lado, eu mal tive tempo de alcançar minha pistola em minha bolsa. Pisei no acelerador cortando entre os carros. Não poderia ser alvejada bem ali, havia carros demais transitando. A chamada de David ecoou novamente pelo alto falante do carro, já que eu tinha conectado meu telefone ao painel, e atendi pelo volante.
! Onde está?
— Pegando o viaduto, não posso ir direto! Eles estão aqui para me alvejar David! Tem muitos carros.
— Desce pela marginal. Tente se adiantar a eles, e quando estiver mais livre pega a direita para a rua do centro de tiro. Lembra o caminho?
— Boa, boa... Lembro! Eu acho que eles ficaram mais atrás.
— Se esconda lá, eu chego aí em dez minutos.

E assim que David desligou a chamada, eu escutei o disparo e senti a queimação no meu braço esquerdo.
Eles conseguiram me alcançar e desceram o viaduto atirando. Olhei para a placa, e gravei a numeração. Pisei firme no acelerador e não consegui despistá-los por mais um quilômetro. E eu não podia atirar de volta, eram muitos os transeuntes nas ruas.
— Merda! Merda! Merda! – sussurrei pensando em uma alternativa de saída.
Quando passei pelo grande hipermercado Extra, alguns caminhões davam a ré na rua para sair da zona de descarga, então acelerei ainda mais. A quilometragem marcada no ponteiro indicava 200 km/hr, numa via que só permitia 80 km/hr. Se eu batesse não sobraria nem um fio do meu cabelo. Contornei o caminhão que dava ré, pelo espaço que sobrou da rua, quase atropelei uma mulher que estava parada na calçada mexendo ao celular, e se não fosse minha buzina, ela teria sido levada. Quando passei pelo caminhão vi os perseguidores pelo meu retrovisor fazendo uma manobra de retorno rápida. Eles conheciam o lugar até melhor do que eu, então eu apenas agi como poderia. Dirigi apressada, sentindo o braço queimar e pesar, quase caindo do volante sem ter certeza de onde estava. Até David me ligar de novo.
— Cadê você?!
— Eu acabei de passar pelo Extra.
— Pega a segunda esquerda depois do cruzamento... Já passou por ele?
— Estou nele
. – minha voz não era firme e aquilo parecia preocupar David.
, tá tudo bem?
— Estou baleada, mas eu aguento... Já identifiquei a rua... Estou quase...

E assim que identifiquei o local, eu entrei em uma rua estreita que dava saída exatamente para onde David queria que eu estivesse. Quando cheguei parando o carro de qualquer jeito em frente ao centro de treinamento, ele estava fora do seu carro.
Eu abri a porta, puxei minha bolsa e as chaves do automóvel. Corri apressada até David que abriu a porta de trás para mim, e eu imediatamente me joguei no banco urrando de dor. Ele correu até o lado do motorista, entrou e acelerou para sair dali.
— Saímos antes que eles vissem o carro.
Ele disse e eu levantei um pouco o tronco para olhar para trás, percebendo os dois carros chegarem ao fim da rua.
— Eles iam me alcançar de qualquer jeito... Conheciam o local melhor que eu, e se não fosse uma sorte eu não tinha despistado. Aaargh... – urrei de dor de novo.
— Lá vêm as viaturas.
David falou quando ao longe da rua que estávamos na pista oposta ele identificou as sirenes.
— Você chamou quem?
— Relaxa... Não foi a 46ª e nem a sua DP, é óbvio... Mas, e aí... Onde foi a bala?
David perguntou me encarando pelo retrovisor preocupado. Eu ajeitei meu corpo no banco de trás, porque já estávamos fora de risco, e mostrei a ele meu braço ensanguentado. Não conseguia falar, aos poucos estava me sentindo zonza e com uma dor que irradiava pelo corpo todo.
— Só aí?
— Fica tranquilo, não é grave, mas dói pra cacete e eu agradeceria se chegasse logo a um hospital.
— Relaxa, confia em mim ...
David começou a falar e eu mal pude escutar o restante, minha visão embaçou e uma dor lancinante me atingiu bem forte. O corpo inteiro doía, e tudo ficou escuro aos poucos.

– x –

O barulho dos aparelhos foi o que me acordou. Eu estava deitada numa cama de hospital e embora estivesse um pouco atordoada, me lembrava de tudo. Observei-me sozinha ali, com atenção, e quando tentei sentar em meu leito, David abriu a porta e eu pude vê-lo segurando um copo descartável em sua boca, que conseguia estender um sorrisinho safado também. A enfermeira que entrou cheia de risinhos frouxos e olhares maliciosos em sua direção segurava uma bandeja de aço enquanto dizia a ele, provavelmente, o número do seu telefone.
— Ah, acordou senhorita . – a mulher falou alerta assim que me viu encarando-os com tédio.
— E aí ! – David me cumprimentou com um beijo na testa e sentou-se ao meu lado em meu leito.
Ele e a enfermeira não paravam de trocar olhares e sorrisos, e eu queria muito rir, mas estava concentrada ao que a enfermeira faria com todas aquelas pinças, algodões e gases que estava preparando para mim.
— Como se sente?
— Dói tudo.
— Isso é normal, a senhora levou um tiro sério no abdômen.
— O quê? – perguntei confusa.
— Você apagou logo depois que me falou que estava bem, . Só quando te vi deitada no banco que pude notar sua camiseta cheia de sangue também.
— Merda. – respondi confusa — Mas, eu não senti nada.
— Descargas de adrenalina podem mascarar algumas dores. Aparentemente a senhorita percebeu o tiro no braço e isso chamou a sua atenção, então não sentiu o outro disparo. Teve muita sorte senhorita , a bala não teve força pra perfurar nenhum órgão. Ficou alojada entre a derme e o interior do seu abdômen.
— Provavelmente porque o carro era blindado. – constatei — Mas, eu estou bem então?
— Sim! Os projeteis foram retirados, os exames feitos e logo a senhora terá alta. Vou só terminar a troca dos seus curativos está bem?
Assenti para enfermeira e dei atenção ao David que lia algo concentrado em seu celular.
— Estou aqui há quanto tempo David?
— Nove horas. – ele respondeu me dando atenção — Nove longas horas que me prendeu aqui.
— Por que não ligou para Anjinho ou Vera?
— Porque as pessoas trabalham enquanto você brinca de perseguição por aí. – ele debochou e talvez pela dor, eu começava a me irritar:
— Exceto você que estava em casa aguardando para me salvar, não é?
— Eu estava malhando, ou seja, estava trabalhando duro pra manter meus 1,90 de puro...
— Tem sedativo? – perguntei a enfermeira interrompendo a fala dele.
— Como?
— Eu não vou suportar ficar aqui com esses dois, sem algumas drogas.
— Como? – a enfermeira perguntou ainda mais confusa, e David gargalhava.
— Ele e o ego dele.
Apontei com a cabeça na direção do homem risonho ao meu lado e a enfermeira riu junto ao David, eu revirei os olhos e mudei de assunto:
— Mas agora é sério, eu estou realmente com muita dor.
— Vou aumentar a dose do seu remédio intravenoso.
— Obrigada.
Ela saiu logo após mexer na regulagem de alguma das parafernálias e agulhas em minha veia, deixando David e eu a sós.
— Sério... Por que está aqui?
, eu não posso deixar você sozinha. Você já sai se ferindo e destruindo tudo.
— Muito engraçado.
— Sério, eu não posso deixar você sozinha. Foi um atentado. – ele falou com sua entonação mais profissional.
— Pegaram alguém?
— Não tenho muitas informações além de que, você é uma carta marcada agora.
— Merda... Abelardo estava certo. Ele me liberou justamente por isso.
— É ele esteve aqui.
— David... Acha que eu posso representar perigo para mais pessoas?
— Acho. É bom você ter cuidado.
— Merda.
— Muita merda! Você ainda se fodeu com a agência do carro.
— Ai meu Deus, puta merda! – bradei e David gargalhou.
— A sua sorte é que eu mexi na sua bolsa, peguei seus documentos e já resolvi tudo. O Estado vai pagar. O dr. Abelardo já entrou com reparação de danos, já que foi uma perseguição enquanto você saia do seu trabalho.
— Espera... Eu estou livre desses gastos?
— Pode agradecer beijando minha boca depois. – ele gargalhou e eu dei um soco em seu braço — fortinha ainda, hein?
— Pede beijo pra enfermeira!
Hmmmm... – David não parava de rir — Ciúmes? Eu não acredito! Vamos comemorar aqui mesmo?
— Cala a boca! Eu estou puta é com a sua falta de respeito! Eu estou aqui convalescente, e você flertando por aí!
— Isso mesmo, você está convalescente, eu estou ótimo gracinha. Você pode ver se quiser.
— Vai à merda! Escuta... Você avisou a alguém pelo menos?
— Vera e Ângelo devem chegar logo, eles só iam passar no apartamento buscar umas roupas pra você.
— E ?
— Ele ligou e eu não atendi. Achei que poderia dar merda, e por mais tentado que eu estivesse, eu não poderia atender para provocá-lo, ou teria que dizer que você estava baleada.
— Fez bem, obrigada. Eu explico depois o motivo por não tê-lo atendido, mas não quero que ele saiba disso agora... Ele vai ficar preocupado.
— Certamente!
— David... Ele e estão vindo para cá... Acha que pode ser arriscado?
— Sinceramente? Sim. Tem tocaia aramada pra você com certeza ! Melhor esperar e dar um tempo em outro lugar, e nem na fazenda você está segura por enquanto.
— Droga... Não queria cancelar com eles...
— Fiquem em um hotel.
— De jeito nenhum, eu vou ter que falar os motivos e...
. – David me interrompeu de um modo reprovador — Você vai ter que falar os motivos para ele de qualquer jeito.
— Mas, David... Se eu disser, ele e eu não vamos poder ficar juntos.
... Eu acho que... Vocês são de mundos diferentes, mas se quer fazer dar certo, ele tem que entender onde está se metendo com você.
Eu não pude responder ao David. A porta do quarto abriu e uma Verônica desesperada invadiu o quarto e correu para me beijar o rosto. Entre os carinhos de Vera e Anjinho eu encarava o sorriso sublime de David para mim.
Meus amigos contaram que a investigação sobre o atentado estava rolando, e como sempre, Anjinho duvidava de Lucas. Achava que ele havia comandando aquilo da prisão, e era bem possível. Ele me fez perguntas sobre meus recentes momentos na delegacia, respondi alguns onde eu poderia apontar pessoas estranhas que me observavam, mas a verdade é que eu estava cansada daquele assunto, desconfiada até da minha alma, e não conseguia pensar em outra coisa que não fossem as recentes palavras do David.
— Pessoal, eu vou indo. Vocês ficam com ela, né?
— Vai descansar anjo loiro. – Vera falou abraçando-o.
— David... – chamei e ele me olhou imediatamente — Obrigada.
— Já falei que só aceito seu agradecimento, no mínimo em beijos, gracinha.
Encarei-o com um revirar de olhos e ele sorriu beijando minha testa antes de sair. Ângelo o acompanhou para fora do quarto, e ficamos Vera e eu, a sós, por um bom tempo.
— Vocês estão se aproximando, não é? – ela perguntou satisfeita.
— Sim. Ele tem sido um ótimo amigo.
— E como está se sentindo, ? Eu fiquei apavorada quando o loiro me ligou.
— Agora o remédio parece começar a fazer efeito e amenizar as dores, mas normalmente, eu sinto muita dor.
— Você avisou ao ?
— Não... Nem queria, mas... David acha certo eu avisar...
— E desde quando você liga pro que ele diz?
— Não faço ideia. Mas, faz sentido algumas coisas... É só que, e a viriam para cá, e ele acha perigoso. Estou sob ameaça e todos vocês também por conta disso.
. Eu acho que você deve contar mesmo para o essa, e todas as coisas que por acaso tenha escondido.
— O problema é que nós não estamos muito bem Vera... E ele me falou que odeia mentira. Como eu vou contar que estou mentindo sobre várias coisas?
— Certamente continuar mentindo não é a melhor saída. E depois... Ele precisa saber dos riscos atuais de se envolver com você.
— Eu não quero que eles corram riscos por minha causa... – desabafei pensativa e começando a ficar triste.
— Por hora, é melhor não pensar nisso. Descanse!
Eu tentei descansar pelos dois dias que estive ali. Entre visitas dos meus amigos e trocas de curativos. Mas, a verdade é que eu não conseguia descansar a minha mente. Estava vivendo uma montanha russa de desastres em minha vida, e a vontade de sumir só aumentava. Quantas pancadas mais eu teria que suportar?
Pra completar, eu menti de novo para o . Não contei o ocorrido e não tive coragem de dizer para ele não vir, apenas propus que eu fosse para lá ao invés deles virem. E como o tino dele era ótimo, para saber quando eu estava fingindo não estar, preocupada, me choveu perguntas. Para não discutir, tive que falar que sofri um acidente, mas estava bem, e ele brigou comigo de novo. Sentiu-se traído por eu esconder algo tão importante. Estava certo, aliás.
No terceiro dia, recebi alta e foi novamente David quem me acompanhou até minha casa. Ele abriu a porta da sala carregando minha bolsa, sob meus protestos de que eu poderia fazer aquilo.
— Fica quieta, e vai se sentar. Está quase na hora do seu remédio.
— Não preciso de babá.
— Que ótimo, porque não contratamos nenhuma mesmo. – ele falou indo até a cozinha.
— Aonde vai?
— Beber. Você me cansa.
Ele retornou com uma garrafa longneck em mãos e se jogou no sofá, o qual eu já estava sentada aguardando-o.
— Cadê a minha? – perguntei ultrajada.
— Você não pode beber sua alcóolatra.
— Vá à merda.
— Com você eu vou. – ele piscou me arrancando uma risada, eu estava farta de implicar com as respostas prontas dele, então passei a me limitar a somente rir — . Contou para o ?
— Juro que tentei evitar, mas tive que contar alguma coisa.
— O que é “alguma coisa”?
— Sofri um acidente de trabalho.
— Só isso? Não falou pro seu agroboy que levou dois tiros e está correndo risco de vida?
— David. Você contaria? Longe?
— Lógico. – ele falou sensato.
— Você não conhece o ! – reclamei me levantando chateada para buscar na cozinha ao menos uma água.
David ficou me observando analítico, até eu voltar. Quando sentei-me novamente ao seu lado, ele simplesmente começou a falar sem muita cerimônia.
— Não era repreensão numa situação como esta que você devia esperar, do cara que diz amar, e sim conforto. E eu não estou julgando o . Mas, quando reencontrei você, eu tive que investiga-la também, afinal, você era mulher do Lucas. Então, percebi pelo seu histórico de relacionamentos, que você é péssima . Tem um péssimo julgamento para homens.
— É o quê? – falei sem menor problema em demonstrar minha irritação com seu julgamento.
— Eu não conheço o pessoalmente, mas não me espantaria se ele fosse mais um cara controlador na sua vida. Você não é nenhuma santa e nem é um docinho de lidar, mas... Dá para perceber que você mede muito as suas ações como se tivesse medo de que a reprovasse e isso fosse, o suficiente para um dos dois chutar o balde.
— Tem razão, você não o conhece! Então não tem que ficar falando dele.
Minha voz carregada de reprovação fez David rir debochado. Ele sabia que no fundo estava certo e eu nunca iria admitir aquilo.
— Não esquece, eu estou na torcida para que um dos dois chute o balde. – ele piscou e se levantou risonho indo à cozinha — Mas, eu também sou um bom ouvinte para seus momentos de mágoa, você sabe né?
Olhei na direção dele que me encarava com uma expressão de companheiro, enquanto pegava todas as garrafinhas na geladeira.
— Valeu, e parar de assaltar as minhas bebidas.
— Você não pode beber, e me deve por duas vezes que te salvei com o álcool.
— David! – gritei com ele enquanto ele caminhava até o puxa saco da cozinha colocando tudo dentro de uma sacola.
— Vai ficar bem sozinha? – me perguntou desconsiderando minha reprovação.
— Vou. Para de levar as bebidas!
— Quer que eu mova uma segurança especial para ficar de tocaia? Ou vai se comportar e ficar quietinha em casa? – ele ignorou minha reclamação.
e chegam amanhã. Será que é preciso? – perguntei sem querer acreditar que oferecia riscos a eles ali no apartamento do Anjinho, que agora eu residia.
— Hm... – David pensou caminhando até a porta da sala e antes de sumir através dela, respondeu rápido: — Eu vou acampar dois caras à paisana, fica tranquila.
— Espera! – gritei e ele surgiu novamente — Isso não vai te complicar?
A risadinha convencida dele, me fez arrepender da pergunta no mesmo instante:
— Eu quem mando gracinha.
Ouvi a porta do apartamento batendo e levantei para ir até ela trancar. Quando cheguei à cozinha, com muita fome e vontade de beber uma cerveja, precisei conferir se David não havia deixado nem uma garrafinha. E como um otário que era, realmente ele não deixou.
— Filho da puta.
Reclamei risonha baixinho quando vi que não havia nada alcóolico na geladeira, mas variadas caixas de água de coco, uma caixinha de cupcakes variados, e muita, muita coisa saudável.
— Pelo menos deixou algum doce.
Constatei puxando um dos doces. Eu já havia abastecido minha geladeira antes, mas eu sabia que foi David quem havia a completado ainda mais com tantas frutas, verduras, suquinhos de caixa e água de coco. Sorri feliz por saber que poderia contar com ele. Verônica não tinha tempo para me ajudar nas compras com a chegada de e , enquanto eu estava hospitalizada. E Anjinho, até poderia ser... Mas, algo me dizia que foi o David. Atencioso, ele ter comprado os suquinhos para , mas a água de coco, eu sei que foi pura sacanagem comigo.
Meu telefone notificou uma mensagem, e assim que eu peguei o aparelho e me joguei no sofá ligando a televisão, eu gargalhei ainda mais ao ler o que estava escrito.
David Insuportável: “Você me deve sessenta e cinco reais em compras, e não estou abatendo a cerveja, porque você ainda me deve uma caixa! Beba água de coco! E os cupcakes são para a , não para você!”.
Tranquilizava-me admitir, no meio de tanto caos, que David era uma boa pessoa mesmo.


Capítulo 34 - Conversas Francas

O desembarque da rodoviária estava apinhado de pessoas e eu me concentrava em observar os novos ônibus que encostavam à espera, ansiosa, de ver que eles haviam chegado. O ônibus em que e viriam, estava atrasado.
Esticando-me entre as pessoas a fim de encontrá-los, eu começava a pensar se havia desistido ou embarcado noutro horário, e praguejava por minha ideia de fazê-los vir numa data tão próxima ao feriado. O número de pessoas que saiam de São Paulo nestas épocas, por si já deveria fazer outras tantas escolherem ficar na cidade.
Quando o vozerio me impediu de escutar o anúncio do alto falante, eu caminhei em direção à escada da plataforma em que eu estava e alguns degraus acima, eu pude constatar o ônibus da Viação Cometa. Ele encostou à plataforma em que eu antes aguardava, conforme eu pensei: atrasado.
Apressei-me entre as pessoas para chegar até ele. E assim que a porta abriu-se e as pessoas iam descendo, eu não demorei a alargar um sorriso de alívio e felicidade. descia devagar, sendo segurada pelo pai abarrotado de almofadinhas, uma manta e – não sei por que, mas poderia imaginar – uma pelúcia grande demais para facilitar as coisas. A expressão no rosto de era de extremo sono, e ela estava calada demais em minha opinião.
desceu e olhando o grupo de pessoas que aguardavam suas bagagens e misturavam-se em abraços, me viu sorrindo e também sorriu aliviado.
— Oi meu amor. – abracei-o e dei-lhe um rápido beijo e logo abaixei em direção a abraçando-a: — Oi minha princesa!
— Eu estava com saudade ! – ela respondeu animada e me abraçou.
Mas, algo estava errado.
me entregou aquele apinhado de coisas e apenas com uma mochila em suas costas seguiu até o bagageiro para pegar a mala maior. Eu fiquei com , e a puxei para nos afastarmos um pouco daquela zona confusa de recém-chegados. Dobrei a manta, enquanto segurava as duas almofadinhas de travesseiro, e o seu ursão. E logo já estávamos prontas para apenas sair dali, junto ao .
E por mais que eu puxasse assunto com , eu soube que algo estava errado.
— Como foi de viagem minha princesa?
— Demorou um tantão! Eu até passei mal, ! – falou demonstrando indignação.
— Passou mal? Você não tomou o remedinho de enjoo?
— Tomei, mas eu acho que não estou acostumada. Papai ficou preocupado.
— E você está sentindo mais alguma coisa?
— Eu estou cansada... – ela respondeu com um longo suspiro.
Encarei minha menina, com evidente preocupação, e levei a mão à testa dela, e nem precisei de muita análise. surgiu atrás de mim, abraçando-me pela cintura e beijando meu pescoço. Seu rosto demonstrava o tamanho de sua preocupação paterna, e ao escutar o tom de sua voz, eu sabia que ele não iria relaxar tão cedo:
— Ela está ardendo em febre. Medi a temperatura e dei antitérmico durante a viagem, mas não parece abaixar.
— Vamos logo então. Antes de ir para casa iremos ao hospital! – falei firme nos apressando.
pegou no colo, e eu segui à frente com as coisas que estavam em minha mão, além de puxar a mala. Ele tinha uma mochila em suas costas, além de nos braços, e perguntou se eu preferia levá-la, mas eu não poderia. Ainda estava me recuperando do acidente, e só não queria levantar o assunto naquela hora.
Depois que saímos da zona de desembarque, e com tamanha dificuldade chegamos ao estacionamento, eu abri a mala do outro carro que tive que alugar na agência. Ele ajudou a se organizar no banco de trás, e depois que ele havia liberado ela, eu pedi ajuda.
! Eu preciso de ajuda! – o chamei quando ele se direcionava desnorteado para o banco da frente.
Eu não poderia fazer muito esforço, e nem considerava aquilo esforço, mas, a mala estava pesada para eu levantar com um braço só, e não poderia usar nem meu abdome para me ajudar. E como iria dirigir, queria poupar. Além disso, era sempre um prazer observar em trabalho braçal.
— Desculpa amor! É o machucado não é? – ele perguntou com voz preocupada duplamente, mas nenhuma sombra de irritação.
Apenas assenti em silêncio, e ele colocou tudo ali. Inclusive a mochila, que ainda estava em suas costas e ele não havia se lembrado de tirar.
— Pegue só os seus documentos amor, pra não ter que pegar a mochila aqui de novo.
— Ah, é! Cla-claro! – respondeu confuso.
Observando o pai tão preocupado com a filha, me dei conta de que nunca havia estado com doente. Nunca havia presenciado o zelo, o olhar perdido e preocupado, e o senso de dor por não poder trocar de lugar com a própria filha, que o apresentava naquele momento. A situação não era para risos, mas eu sorri. Como aquele homem conseguia se tornar ainda mais atraente aos meus olhos?
Entramos no carro, e logo eu fui dirigindo em direção aos caminhos e atalhos possíveis até o hospital. O tempo todo perguntava à como ela se sentia, e logo a menina dormiu de novo.
— Droga... não é de ficar assim, ! – ele mencionou olhando zeloso ao banco de trás — Febres não a derrubam desse jeito, e só pode ser sério.
— Calma, amor, eu prometo que estou sendo o mais rápida possível, mas o trânsito daqui é uma merda! Ela vai ficar bem... Calma...
Por mais que eu tentasse acalmá-lo, a verdade é que eu estava tão nervosa quanto ele. Ouvi a respiração profunda de e só me dei conta de que ele estava mais calmo, quando a mão dele repousou em minha coxa. O contato me fez escapar um olhar com sorriso na direção dele.
— Obrigado ... Desculpe por te deixar assim afoita.
— Até parece... É a nossa menina, afinal. Não tem como eu não me preocupar! Mas, desde quando ela está assim?
— Há duas horas. Acho que a viagem contribuiu para bagunçar o organismo dela, mas ontem eu a notei com o corpo um pouco mole antes de dormir. Mamãe e eu a medicamos, porque parecia um resfriado.
— Eu falei para vir de avião né, ! – reclamei repreendendo-o.
— Você tem que parar de gastar demais.
— Não é o caso! Mas, me diga... Como estão todos?
— Bem... A Rosa que está cada vez mais indisposta. Este momento da gravidez, entre o sétimo e oitavo mês é quando começa a entrar na pior fase.
— Já tem data marcada para nascer?
— Quinze de Abril.
— Nossa, passou rápido! E a Lunia?
— Está bem! Eu sempre estou indo vê-la, a equipe de veterinários cuida muito bem dela. E nem poderia ser diferente, eu estou gastando uma grana alta com a Lunia!
— Mas é por um bem maior, amor... E o Sagaz?
— Seu garanhão está ótimo! Mas, tem outras éguas querendo se aproveitar que Lunia não está por perto... – ele explicou rindo.
— O quê?! Que piranhas! E ele? – perguntei revoltada.
— O que você acha? Ele é um garanhão né...
— Machos... – reclamei e gargalhou.
— Eu tive que separá-lo, fique tranquila. Lunia não será traída, até porque, se ele emprenhar outra égua agora, eu vou ter gastos muito maiores.
— Por favor, né, ! Você está cheio da grana desde o contrato com a telefônica! Larga de ser mão de vaca, e vamos expandir as criações! Mas, não com o Sagaz!
Ele riu e se aproximou beijando meu rosto e apertando minha coxa, onde sua mão ainda repousava.
... – adverti risonha.
— Eu adoro quando você fala assim da fazenda, se incluindo e incluindo um futuro entre nós!
— Que ótimo, porque eu ainda não sei como, mas eu pretendo me envolver cada vez mais no futuro da fazenda.
— Não sabe como? Oras! Se casando comigo, é claro! Vamos ser o casal mais bem sucedido na nossa região! – eu ri abertamente da empolgação dele.
— Claro amor, claro... E eu assumo a delegacia da cidade?
— Por que não?
— Eu não estou certa ainda sobre isso... – respondi sincera e sorriu, e me beijou o rosto de novo, como quem mostra que compreende.
— E você amor, como estão às coisas por aqui? Aliás, você pode dirigir ?
— Claro que posso ! – menti com meu melhor tom de convencimento.
— O que aconteceu, hein? Eu sei que você não me contou a história toda.
— Acidente de trabalho, amor... Já está tudo bem... – tentei desconversar e sabia que não conseguiria fugir dele, mas como tínhamos chegado ao hospital apenas concluí antes que reclamasse: — Mais tarde te conto tudo, porque a gente já chegou.
— Graças a Deus...
entrou com em seu colo, logo que nós nos direcionamos ao atendimento de emergência, do mesmo hospital onde no dia anterior eu havia sido liberada. E fui reconhecida pela enfermeira que acabava de chegar do guichê de atendimento, enquanto preenchia a ficha de junto à atendente.
— Ué! Você aqui de novo? O que houve? Algum problema com seus pontos? – ela perguntou preocupada, com um sorriso brando vindo até mim devagar.
estava atenta a nós, assim como que se dividia entre responder a ficha e prestar atenção ao meu diálogo com a enfermeira.
— Não, eu estou bem enfermeira Cássia. Obrigada pela preocupação, mas é que a minha menina está ardendo em febre... – respondi apresentando no colo do pai.
— Ah, não sabia que você tinha uma filha! Tudo bem bonitinha? – a enfermeira perguntou puxando um termômetro digital, e acariciou aferindo sua temperatura.
— Tudo... – respondeu desanimada.
— E qual o seu nome, princesa?
.
— Muito prazer , eu sou a enfermeira Cássia! Você está com dor?
— Uhum... – murmurou a minha pequena antes de responder: — Na barriga.
— Nós já vamos resolver isso, tudo bem? – Cássia falou simpática e logo se virou para mim: — É, a febre está mesmo alta .
O tom de Cássia já era outro.
— E você é o pai? – ela sorriu para o e eu.
— Sim. Eu me chamo , muito prazer. – ele respondeu sorrindo simpático.
— Ótimo! Um dos dois venha comigo. Sorte que não tem mais ninguém na triagem pediátrica , o doutor Alberto está livre para atender à .
A enfermeira saiu em direção à outra ala logo após nos passar aquela instrução. ficou terminando de responder às questões de seu convênio, desceu de seu colo que me deu a mão e caminhou comigo atrás do local onde a enfermeira nos aguardava na porta.
— Aqui meninas, este é o doutor Alberto. – sorriu nos dando passagem e piscando para o médico concluiu: — Logo o pai dela virá e eu trago o prontuário da menina.
— Certo. Obrigado Cássia.
O médico se apresentou a , conversou com ela um pouco à medida que examinava seus olhos, ouvidos, nariz e boca. E quando surgiu, ele já estava examinando o local onde indicou doer, e auscultando seus pulmões. se apresentou como o pai, e pegou no colo assim que o médico caminhou de volta a sua mesa, para anotar o pedido de exame.
— Bem papais, eu vou pedir uma radiografia do pulmão e um hemograma rápido. Aparentemente pode ser pneumonia. Assim que o resultado sair, vocês retornem aqui na minha sala, tudo bem?
— Obrigado doutor. – respondeu e eu olhava para o pedido que peguei das mãos do médico.
— É só seguir no corredor à esquerda até o laboratório, senhora .
— Obrigada.
Respondi e nós seguimos. era realmente dura na queda, e sem frescura. Embora eu achasse que ela fosse encrencar com o exame de sangue, a menina foi muito madura. Sentou-se na cadeira indicada, obediente e tranquila permitiu à enfermeira trabalhar.
Enquanto o exame foi para análise laboratorial, eu a acompanhei até a sala de radiologia. Depois que tudo havia sido feito, foi encaminhada a um leito para se deitar.
— Vocês podem aguardar os resultados aqui, tudo bem? – a enfermeira Cássia novamente nos atendeu.
— Obrigado, mais uma vez. – agradeceu.
— Não há de quê, eu trago os resultados assim que saírem. – Cássia caminhou atém mim, que estava em pé ao lado da cama da , e pegou em minha mão dizendo, antes de sair: — , ela vai ficar bem.
e eu sorrimos um para o outro após ver que Cássia já tinha ido.
— Eu gostei que o médico disse que a é minha mamãe. – falou baixinho, com um sorriso sapeca escondido pelo sono. —
É né? Eu também gostei! – respondi sorrindo — Agora descanse um pouquinho meu amor.
Beijei sua testa e assentiu fechando os olhos. se aproximou me abraçando por trás e pousando o queixo em meu ombro, apertou-me um pouco nos seus braços e fez meu curativo doer sem saber.
— É normal ela dormir assim? – perguntei.
— Não. Só quando ela fica muito, muito doente... – reclamou pesaroso e me apertou um pouco mais.
— Amor, eu sei que você está se sentindo preocupado, e me abraçar te faz sentir seguro, mas... Meu curativo...
— Nossa! – ele falou me soltando logo que se deu conta — Perdão !
Sorri dizendo não ser nada, mas me fez sentar em um pequeno sofá do quarto. E sentou-se ao meu lado me tratando como uma boneca quebrável.
— Dói?
— Um pouco. Já passou a hora da minha medicação.
— E onde esta o remédio? – perguntou preocupado.
— No carro...
— Quer que eu chame a enfermeira?
— Não, tudo bem. – eu ri fracamente — Fica calmo! Estou bem.
— Sei... Eu vi a enfermeira falando em pontos. Foi muito grave?
— Eu fui baleada né amor...
— É, mas do jeito que você disse ao telefone, que havia passando no meio de um confronto e baleada de raspão, eu achei que não havia sido tão grave.
— E na verdade, não foi. Não dada à situação... Quero dizer, eu poderia ter ficado pior.
— Mas... Como você passa no meio de um confronto ?! É o seu trabalho, mas... Sei lá, não tem um protocolo de segurança? O que aconteceu realmente?
... Depois a gente fala disso, tá?
— E o carro? Porque trocou o carro? Foi atingido?
— Foi sim, a empresa precisou levá-lo... E não sofri danos financeiros, porque eu estava saindo do trabalho.
— Entendi. Bom, com doente e você recuperada, nosso carnaval vai ser em casa, entendeu? – seu tom autoritário e protetor estava presente.
— Não mesmo! Se melhorar, vamos sair um pouquinho com ela! Vai acabar com o passeio dela?
, nós não vamos discutir! E outra, eu vou perguntar à enfermeira o seu caso!
— Pra quê? Não confia em mim?
— Eu não confio quando você vem com esse tom de “depois te conto” e finge que esqueceu.
— Você realmente me observa mais do que eu penso.
— Eu te amo. Estar do seu lado é não querer tirar os olhos de você.
Aproximei-me para beijar o rosto dele e senti uma pontada no curativo. Levantei a camisa depois que me ajeitei em posição sentada, a gaze estava suja de sangue. surtou, se apavorou e saiu correndo atrás da enfermeira. E eu ria, enquanto descolava meu curativo pra confirmar se havia sido um ponto arrebentado.
A enfermeira Cássia entrou ao quarto, e com uma bandeja de curativos nas mãos.
— Eu sabia que ia me chamar... Quando vi você em pé e andando para lá e para cá, , eu sabia que ia arrebentar estes pontos! – ela brigou sentando ao meu lado — Você tem que ficar de repouso! Seus ferimentos foram graves, mocinha! Não é porque você é forte demais que pode abusar.
— Eu sei enfermeira Cássia, mas é que...
— Muito graves? – me interrompeu atento ao que tinha escutado.
— A primeira bala no braço até que não, mas a segunda no abdômen, por mais que tenha se alojado sem atingir nenhum órgão vital, vai levar muito tempo de cicatrização completa, né... Aliás... – a enfermeira parou o meu curativo e me encarou.
Deu pra perceber que eu não queria que ela tivesse dito nada. E logo ela olhou para irritado ao meu lado.
— Dois ferimentos de bala ? – me perguntou.
— Desculpa perguntar, mas... Vocês são casados? Ou são apenas os pais da menina?
— Ele é o pai. Eu sou a namorada dele.
— Noiva. – me corrigiu.
— Isso, noiva... Mas, é como se fosse minha filha para mim.
— Ah sim... Isso me explica não tê-los visto durante a sua internação. Achei que o seu acompanhante que ficou cantando minhas técnicas de enfermagem, fosse o seu namorado. – a enfermeira falou e logo se deu conta que não deveria ter dito aquilo, e concentrando-se apenas no meu curativo disse: — Assim como achei que o outro casal fosse sua família, antes de me contarem que eram todos seus amigos.
— É... São amigos, mas também são família. – respondi apenas.
revirou os olhos, aproximou-se de , levou mão à testa dela para ver se o antifebril medicado pelo doutor Alberto tinha feito a febre dela baixar, e com braços cruzados se aproximou mais de nós.
— Está tudo bem com estes ferimentos?
— A mocinha arrebentou cinco pontos, mas é forte o bastante para não sentir nenhuma dor pelo visto.
— Na verdade, já estava doendo – respondi e ri fraquinho — Mas, achei que fosse pelo horário do remédio. E também não é como se a sutura não estivesse doendo agora, sabe?
— Me desculpe, mas eu já passei pomada anestésica no local.
— Eu sei. É por que eu realmente não repousei, fui encontrar o meu príncipe e minha princesa, e acabamos aqui.
— Dirigiu? – a enfermeira me perguntou sussurrando, e olhando-me sobre os óculos.
Eu sorri em resposta e ela entendeu logo se silenciando e deixando claro para mim que não aprovava aquilo.
— Eu acho bom você nem discutir comigo, . Não vai ter passeio nenhum de carnaval, está ouvindo? Vamos todos ficar bem quietinhos em casa! E quem dirige a partir de agora sou eu!
Eu não quis responder por que sabia que traria uma discussão desnecessária, e eu também sabia que estava preocupado demais. E sentindo-se mais uma vez, traído por eu esconder a verdade. Quando contei do acidente, falei que passei por um confronto policial, e levei uma bala perdida de raspão. E bem... Ele merecia saber a verdade, mas ali não era o lugar.
A enfermeira Cassia riu do modo preocupado e assertivo dele, e logo que finalizou meu curativo seguiu para o laboratório para verificar se estavam prontos os resultados de .
Ela retornou pouco tempo depois, e entregou os envelopes dos resultados para , que foi até a sala do médico, com acordada, dando a mão a nos dois.
O diagnóstico foi de uma pneumonia forte, e o médico decidiu não internar a nosso pedido, pois ela havia acabado de chegar de viagem, mas nos disse que um dia depois, ele queria ver para nova consulta. Ela teria que ficar de repouso e evitar correntes de ar, e todos os cuidados necessários à ocasião. Depois de receitar a medicação do tratamento, e explicar sobre como a recuperação deveria ser feita, nós agradecemos ao médico e fomos em direção a casa.
Porém, na volta, é claro, não me deixou dirigir.

– x –

estava sentada à sala comendo cupcakes, e terminava de arrumar a louça da refeição pronta que havíamos pedido. Eu estava à espreita da janela da sala, vendo que havia um carro estacionado do outro lado da rua, de frente ao prédio. Poderiam ser os policiais à paisana que David dissera.
Suspirei baixo e caminhei até o sofá me sentando ao lado da menina, que veio rapidamente deitar sua cabeça em meu colo.
— Devagar ! – adverti antes que ela se jogasse em meu colo — Estou machucada, lembra-se?
... – ela deitou devagar e virou o rostinho sujo de buttercream para mim: — Como você machucou?
— Hm... Você lembra que eu sou uma policial, certo?
— Sim! – ela falou empolgada e sorriu me fazendo sorrir também.
— Eu estava saindo do trabalho, quando passei por um lugar perigoso. Havia bandidos lá e eles estavam armados. Por um descuido meu, eu fui baleada no caminho.
A menina abriu a boca assustada e se aproximou de nós, sentando ao sofá e me olhando com expressão de que eu havia cometido um erro, mas sorriu.
não está acostumada com a realidade, .
— Ah... – encarei o rosto confuso e perplexo da menina — Sabe ... O mundo tem muita gente má. O meu trabalho é fazer com que estas pessoas más paguem por seus crimes. Então, é um trabalho perigoso.
— Eu sei ! O tio Gabriel já me contou como é o trabalho dele antes de eu conhecer você! Mas, , eu não gosto de armas!
— E isso é ótimo, ! Armas são muito perigosas, e eu mesma gostaria muito de poder fazer o meu trabalho sem elas.
— Armas machucam! – ela falou emburrada olhando para minha barriga.
— Machucam sim. – eu respondi e pude ver a curiosidade estampada no rosto da menina, observava a nós duas com um grande sorriso de satisfação.
... Eu posso ver o seu dodói?
Respirei fundo e encarei os olhos suplicantes da menina.
— No braço dela tem um curativo, filha! – falou paciente, mas fomos surpreendidos pela .
— Eu sei pai, eu vi esse. Mas lá no médico, eu ouvi a tia Cássia contar que ela machucou na barriga também!
— Tudo bem , eu vou te mostrar só o curativo, ok? Quando eu for passar os remedinhos no dodói eu te chamo, tá?
— Tá bom! – ela se levantou rapidinha levando as mãos até o queixo, em claro nervosismo curioso seguido de risadinhas e olhares entre ela e o pai.
— Sua bobinha. – falou rindo e puxando a filha num abraço.
Ergui minha blusa até os seios, permitindo que ela visse a bandagem de gaze e esparadrapo.
— Nossa! É grande!
— Só o curativo, o machucado mesmo é um pouquinho menor. Mas eu levei muitos pontos, até para um ferimento assim.
— Pontos?
— Sutura, é o nome que se dá quando o médico tem que costurar nossa pele.
— ECA!! Igual a vovó faz com as roupinhas do meu priminho?
— Quase isso... – eu respondi rindo.
— E doeu muito ?
— Muito! Eu não tinha percebido este ferimento, só o do meu braço, então quando o David me resgatou, eu até desmaiei de dor.
— David?
— Aham! O meu amigo policial, você vai conhecê-lo um dia.
suspirou e olhou para ele discreta, entendia o pai tanto quanto eu, e sabia que ele não havia gostado de ouvir aquilo. Mas a menina deu de ombros e continuou sua entrevista.
— Ele que levou você pro’ médico?
— Foi sim.
— Onde ele estava?
— Eu acho que em casa.
— E como ele te achou ?
— Eu liguei para ele enquanto fugia .
— Fugia do quê?
— Dos bandidos, oras... – eu ri divertida com a maneira como daria uma ótima repórter.
— Mas, eles estavam atrás de você? – ela perguntou confusa.
— É... – o tom curioso e reprovador, com um semblante pensativo de precedeu a pergunta que eu deveria ter tido mais cuidado: — Eles estavam atrás de você, ?
Ótima repórter. Ótima, ... Descobrindo outro talento da minha pequena eu respirei fundo, e desconversei.
— Não, mas eu precisava fugir da cena, não é?
— Ah sim! E aí o tio David te achou onde?
— Numa rua um pouco distante dali, onde ele pediu para eu esperar por socorro.
— Nossa, que aventura!
disse alarmada e encarou ao seu pai. estava novamente com a sua cara emburrada. Ele sorriu para a filha, e a abraçou apertado, enchendo-a de beijos no rosto. A menina explodiu em gargalhadas finas, e certo dengo.
— Vamos lá joaninha! Vai escovar os dentes, que já é hora de dormir!
— Tá bom papai! – ela me beijou no rosto, e desceu do sofá.
— Você precisa de ajuda? – perguntou-a.
— Não papai, eu sou mocinha.
— Certo, certo... – ele revirou os olhos e eu ri — Escove os dentes e venha aqui para eu conferir!
Assim que saiu nos deixando sós, eu abaixei a minha blusa e puxei o rosto emburrado de , com uma mão minha tascando nele uma beijoca.
— Isso não vai te aliviar, . – ele disse quando eu soltei seu rosto.
Então eu sorri e repeti o gesto, tão infantil como seria, na tentativa de adulá-lo.
— Quando você vai me permitir fazer parte de verdade, da sua vida? – ele perguntou.
, não é para tanto...
— Você reclama que não sabemos nada um do outro, eu estou tentando reconhecer os meus defeitos todos e mudar para você, desde que embarquei de cabeça em nós dois, mas você continua fugindo de mim !
— Fugindo de você? Está louco?
— Fugindo sim! Você não quer me mostrar as suas fraquezas, você...
— Eu não consigo mostrar as minhas fraquezas pra você, porque quando você as viu só fez me pisotear! – explodi aquela verdade interrompendo-o.
Eu nem mesmo sabia que aquilo ainda me torturava. E o olhar decepcionado do mostrava, que ele menos ainda.
— Então é isso? Eu ainda sou o seu opressor no seu coração...
— Não , espera... Não é isso é só que...
— Acabei papai! – apareceu na sala nos interrompendo.
deu atenção à filha, que logo se despediu de mim e ele foi com ela até o quarto pô-la a dormir. Eu fiquei ali, no sofá, com a cabeça jogada para trás, e os olhos fechados enquanto mentalmente praguejava-me por não pensar antes de falar.
Quando retornou à sala, ele sentou-se ao meu lado, e compreensivo pegou minha mão e começou a falar.
— Eu acho que nós precisamos, falar tudo um para o outro. Tudo o que doeu ou ainda nos doa.
— Como uma terapia?
— Como um casal que quer fazer isso dar certo.
A sua postura decisiva e tão sóbria, me fizera pensar se eu não estaria problematizando demais as coisas.
— Quer começar? Ou quer me ouvir primeiro?
— Eu... Quero te ouvir.
— Não podemos nos interromper, certo? Escutaremos tudo, e depois a gente comenta.
— Tudo bem...
— Então eu vou começar do início. Você tinha dois anos de idade quando eu a conheci.
— O que voc... – interrompi, mas ele colocou a mão na minha boca, para eu me calar.
— Seus pais tinham ido à fazenda pela primeira vez. Eu não me lembro disso, é lógico, eu só tinha quatro anos, mas a mamãe falava de você e do meu tio. Ela e o seu pai eram muito, muito próximos. E só não viveram tanto na vida um do outro, porque com o tempo, a distância se tornou uma barreira, e veio a doença do meu pai. Quando eu tinha oito anos, eu me lembro de você de novo. Você era uma garotinha de seis anos, linda e cheia de babados verdes. A minha priminha de São Paulo.
Eu ouvia a , com a boca aberta, é claro. Eu não lembrava nada daquilo. Mas, ao sentir a nostalgia em sua voz, e o sorriso encantado, eu também sorri e me endireitei ao sofá, como quem se aninha para ouvir aconchegante a uma boa história.
— Eu acho que desde aquela época, eu já havia me encantado por você. Porque ao vê-la, menor do que eu, tão franzina, eu tinha a necessidade de te proteger e cuidar. A gente brincava muito, quando você foi à fazenda. E infelizmente, você veio só, duas vezes. Depois, a mamãe e o tio Rodolfo trocavam cartas, e eu só te via pelas fotos que ele mandava para ela. Mamãe também mandava fotos nossas... Você não lembra?
, eu estou realmente assustada com tudo isso... Eu não me lembro de nada disso... Nem mesmo de ver estas fotos...
— Bem... A minha adolescência foi comum, e a Bruna já era presente na minha vida. Mas, só quando meu pai adoeceu que as coisas ficaram bem mais difíceis para mim. Aceitar a minha realidade de quem está vendo o pai ir embora... Não foi fácil, e eu acabava me colocando dependente da Bruna em tudo. Ela foi o meu primeiro amor, e tudo que vivemos foi muito intenso. Quando eu comecei a assumir as responsabilidades necessárias, e parei de dar trabalho à mamãe, pronto a ser o homem da casa, a Bruna apareceu grávida. Com isso, você já sabe o resto da história...
— Eu posso fazer uma pergunta? – perguntei ao ver que ele observava as minhas reações, calado, e quando ele assentiu eu suspirei e perguntei: — Por que está me contando isso agora? Quero dizer... O que a nossa infância e a Bruna têm a ver com nosso relacionamento atual?
sorriu como quem sabia que aquela seria minha pergunta.
— Quando a Bruna e eu terminamos da forma que foi, com ela me entregando nossa filha e indo embora... Foi um trauma. Foi como perder uma parte feliz de mim, porque afinal, eu a amava. Então não é difícil compreender o motivo pelo qual eu não quis nunca mais me envolver, não é?
— É, eu sempre soube disso, que é culpa desse trauma você ser assim tão fechado... Ou melhor... Era fechado. – sorri e acariciei o rosto dele.
Era inegável que não só se abriu a um relacionamento quanto rasgou o próprio peito para mim. Desde o tempo em que estávamos oficialmente juntos, mesmo com todos os seus defeitos, ele era absolutamente transparente comigo. Não eram desconfianças que me preocupavam em relação a ele, mas sim a minha insegurança em aceitar que sim, eu fui submissa a uma relação destrutiva no começo. Mas... Eu não havia me dado conta de uma coisa: e eu não éramos um casal. Ele não era o homem ao qual eu pensava em construir uma história, ele era um anfitrião que acolhia uma mulher desconhecida na sua casa. No mais correto dizer, um quase primo distante, e sem nenhuma familiaridade comigo. Por mais errado que o tratamento dele fosse, era certo eu julgá-lo por erros de uma época em que não éramos nada um do outro? Nada, exatamente como nos definíamos? Eu não deveria julgá-lo pelo homem que se colocou ao meu lado? é cheio de defeitos, mas e eu? Ele pode julgar que eu não posso estar ao lado dele então, por coisas que eu fiz antes de nós?
— Pois é... A Bruna deixou uma ferida. – ele continuou sua narrativa interrompendo os meus pensamentos — E toda vez que eu olhava para a , eu via a mãe. Mas, onde eu quero chegar é que um tempo depois que a minha vida estava se estabilizando, o seu pai faleceu. Mamãe novamente teve contato com vocês, através da sua mãe. E eu tive que me deparar com o sentimento de curiosidade com o que teria acontecido na vida da minha priminha cheia de babados, e em como ela estaria. E aquele sentimento da infância retornou. E talvez, você não se lembre, mas nós fomos ao velório. Na verdade, só a mãe se apresentou. Rosa e ficaram na fazenda, e eu a acompanhei, afinal era a morte do irmão dela. Mas eu passei a detestar velórios depois da morte do meu pai, então eu nem fiquei muito tempo lá dentro. Pedi desculpas à mamãe, e voltei para fora enquanto ela ia cumprimentar você e a tia Teresa. Mas, eu te vi. Aquela tarde toda, eu te vi chorando, sofrendo e fingindo ser forte. Eu vi que a garotinha que eu tinha vontade de proteger lá na fazenda, havia se tornado uma mulher e tanto. Que apoiou a mãe no momento mais difícil, assim como eu fiz. E me perguntava se assim como eu, você também havia se tornado uma pessoa solitária. Até que, enquanto eu te observava, um homem se aproximou te abraçando e se colocando entre você e a sua mãe, como o salvador das duas. Eu não fui com a cara dele de longe! E nem a mamãe!
riu e eu me recordei do evento mais recente na minha vida, que iniciou toda a onda de tragédias sucessivas: a morte do meu amado pai. Lembrei-me de titia se apresentando, mas realmente, eu não vi em lugar algum. Mas, eu sabia quem era o homem a quem ele falava.
— Era o Lucas.
— É... Ele mesmo. O mesmo que eu vi no julgamento da primeira vez, e me fez explodir num misto de sentimentos contraditórios. Ele se apresentou como o seu amor, disse à mamãe que iria cuidar de vocês duas, e eu vi ele devolvendo à minha mãe uma sobrinha estilhaçada!
A revolta do era evidente, mas aquilo não fazia o menor sentido para mim! Por que, ele continuou me tratando mal depois de ver a quão traumática a minha situação era?
— Se você sabia disso, porque me estilhaçou também ? Por que não foi mais compreensivo e por que não me contou que sabia disso tudo?
— Eu acho que você se recorda que depois da nossa viagem para São Paulo as coisas começaram a mudar entre nós, não é? – ele falou irônico — Eu estava numa luta interna no meu coração ! Depois do velório do seu pai, eu nunca mais a vi, mas você era uma presença constante na minha casa. Mamãe por algum tempo ainda conversava com a tia Teresa, tinha notícias, falava de vocês, se preocupava e até ofereceu ajuda... Mas, quando a sua mãe parou de corresponder, ela ficou preocupada, e achou que talvez, ela não queria mais contato conosco. Mamãe sempre soube da sua adoção, ela achou que talvez, a tia Teresa tinha medo dela contar alguma coisa... Na verdade, não sabíamos o que poderia ter acontecido. Eu então... Nunca nem me envolvi, a Rosa é que dava pitaco nesse assunto com a mãe. Eu só ouvia a mamãe e aconselhei-a a esquecer de tudo. Mas, ela ficou muito tempo pensando no que teria acontecido, até que te reencontrou.
— Como assim?
— Ela soube que sua a Teresa havia ficado doente através de você, e deduziu que esta foi a razão por ela não querer contato. Pensou que ela não quisesse nos envolver ou preocupar, talvez... E aí, mamãe consegue te contatar, descobre o que aconteceu contigo e me diz que iria chamá-la a morar com a gente. Eu fui contra. Mas, a mamãe não me contou tudo. Ela disse que sua a tia Teresa morreu e que você passava por dificuldades. E até então, Rosa e eu aceitamos ajudar. Dona Laura Coralina ficou por meses falando disso lá em casa, até que ela abriu seu perfil na internet nos chamando para fuxicar com ela. Rosa, e ela falavam de você o tempo todo, em como te receberíamos, se você aceitaria vir, se você ainda namorava... Com isso, elas começaram a lembrar da paixonite de infância que eu tinha por você, e como eu evitava na adolescência ficar vendo suas fotos que o tio mandava. Várias vezes, seu pai nos convidava a ir a São Paulo, mas eu nunca quis sair da fazenda, e a Rosa era um bicho do mato, com medo de cidade grande. Eu evitei todas as férias ir para a casa do tio Rodolfo e da tia Teresa, porque a Bruna também não queria que eu ficasse perto da minha “priminha distante”.
ria contando aquela parte da história. E eu estava encarando-o, incrédula, perguntando-me quantas seções da minha vida eu ainda desconhecia?
— Então, elas começaram a investigar suas redes sociais, descobriram que você estava solteira, e começaram a maquinar como seria ter você aqui conosco. Quando eu disse que talvez, você não soubesse que era adotada, e que só aceitaria por isso, a mamãe teve um estalo. Ela realmente não considerava que você desconhecesse a verdade, e só então ela começou a pensar como iria tocar no assunto com você. Enfim... O fato é que depois que ela te contou, e percebeu que você realmente precisava de ajuda, ela voltou para casa decidida a te convidar. Eu não me importei, e nem a Rosa, mas então... Ela veio no meu quarto um dia, depois que eu tinha chegado de uma viagem de trabalho, para conversar sobre você. Eu já havia notado que ela e Rosa tinham planejado algo... Mas, eu não achei que a minha mãe teria o disparate de achar que ter você lá em casa seria uma boa forma de me fazer conhecer uma mulher, forçado por uma situação, e quem sabe me envolver... Não sei se foi sexto sentido feminino ou só abuso da mamãe, mas deu certo. Eu já estava impaciente com toda aquela história, impaciente por reviver memórias de adolescência com a Bruna a cada vez que você era o assunto, antes apagadas, impaciente por imaginar que teria que lidar com uma mulher se insinuando para mim... Porque eu não conseguia imaginar, o que faria você que nunca quis se envolver com nossa família, surgir aqui de repente, sabendo que não era de fato da família... Quero dizer... O único laço que você poderia ter conosco era o afetivo, e isso nunca existiu... Eu realmente achei que a mamãe tinha caído na lábia de uma golpista.
— Eu? Golpista? – perguntei e gargalhei.
— Pois é... Eu soube quem você era depois que chegou lá em casa. Eu soube que você era delegada, e pensei que estava errado. Eu vi você se aproximar do Gabriel, vi você se mostrar uma mulher direita e me recusava a aceitar que eu estava errado. E pior ainda era aceitar que a mamãe estava certa: você poderia sim reacender alguma coisa no meu coração e reacendeu. No momento que eu entrei na sala e vi você com sua bagagem ao lado, com a sua pose de cidade, roupas de cidade, o olhar forte, e uma aparente postura de cansaço e indiferença... Eu vi a Bruna em você. Eu te odiei, mas ao mesmo tempo quando você me respondeu grosseiramente no andar de cima, depois de eu deixar suas malas, eu vi que você não era a Bruna. Por que a Bruna nunca me enfrentou, ela me manipulava, eu era tolo nas mãos dela e cego de amor. E você... Não, você sempre mostrou pouco a pouco, que não iria engolir as minhas ofensas. Eu vi um pouco de mim em você, um pouco do garoto, cheio de peito pra enfrentar a vida, mas também cansado de lutar pelas dificuldades que a vida impôs. Só que eu fui burro, né amor, eu não soube deixar as coisas claras e resolvidas... Eu me transformei num babaca que quis te afastar a todo custo... E na verdade, eu sou esse babaca... Este cara que quer afastar tudo o que pode significar a sua fraqueza, e só notei que eu sou assim, há pouco tempo. Lúcia e eu temos conversado e ela me mostrou o quanto eu fui inteiramente egoísta e cruel com ela... Eu quero mudar . Eu quero ser um homem melhor pra você há muito tempo, mas há algumas semanas eu quero ser um homem melhor no geral, sabe? Eu não tive uma educação, muito mente aberta, porque meus pais sempre foram tradicionais, a cidade é assim, o meu meio... Mas, eu tive educação suficiente para entender que eu tenha defeitos que precisam mudar, porque se tratam de outras pessoas também. Por isso eu estou rasgando meu peito assim com você, e eu queria muito, que você também fosse aberta comigo.
Eu havia levado o maior baque até então quando o assunto era . Ele não só rasgou o peito, mas também o verbo, sem ao menos dar-se conta de como ele esclarecia tanta coisa com aquela história. Por que e eu não dialogamos antes? Estaria tudo muito melhor, e eu não teria mais dúvidas. Mas, agora... Eram coisas demais para eu ponderar, coisas a aceitar e seguir ou enfrentar e lutar contra.
— Amor... Eu estou muito assustada com tudo isso, e estou muito... Confusa. Na verdade, muita coisa eu entendo agora... Mas, eu não posso simplesmente passar por cima das rachaduras que tem entre nós, sabe? Eu queria muito esquecer os seus defeitos e apostar que eu jamais vou sofrer por estar ao seu lado, mas a verdade é que eu tenho pavor de ser uma mulher submissa. Pavor de ser uma mulher que aceita a tudo, por desculpas de que ama... E ... A sua família... Ou melhor, a nossa... – eu sorri pegando a mão dele para encarar os olhos medrosos e dá-lo alguma força: — Tem convicções muito diferentes das minhas, e eu só tenho notado isso há pouco tempo, então... Eu sinto a necessidade de nós fazermos tudo do jeito certo agora... Como um namoro comum. E vai demorar um pouco pra eu perder todos os medos, traumas...
— Eu entendo. Eu entendo absolutamente que é um processo, . Eu te feri e assim como eu fui ferido, eu sei que levará tempo, mas... Nós precisamos ser verdadeiros um com outro! Eu preciso que você me fale tudo, eu preciso e quero te falar tudo, assim a gente pode recomeçar e ser mais sólidos no nosso relacionamento.
— Eu sei que você quer saber tudo, e eu vou te contar tudo o que eu sei e lembro sobre a minha vida.
— Até o seu trabalho? – ele perguntou com uma sobrancelha arqueada.
— Sim, até meu trabalho.
— Eu não estou falando só do que você achar necessário eu saber . Eu quero saber as trivialidades, o dia a dia bobo assim como você pergunta o meu... Coisas que aconteceram na delegacia que fizeram você rir, ou coisas que te preocupem, eu quero que você confie que eu não sou um cidadão qualquer que você tem que esconder as coisas... Eu sou o seu parceiro, o seu amor, o seu futuro marido... E por isso, coisas como esta – ele apontou para meus ferimentos e falou incisivo: — Que estão diretamente ligadas a você, que te oferecem risco e podem machucar, eu quero que você nunca me esconda. Não é porque eu não sou um policial que eu não vou saber lidar com as suas verdades.
Suspirei fundo e abaixei o olhar. me puxou delicadamente para um abraço e beijou-me de forma apaixonada, confiante e esperançosa. Encarei seus olhos brilhantes, e me senti cruel por esconder tanta coisa. Por esconder não só os meus sentimentos, a razão das feridas do meu corpo e coração, como também por esconder as coisas relacionadas ao trabalho.
... Eu estou sob ameaça de morte.
Falei simplesmente e vi o olhar dele se tornar maior, desesperado, e sua respiração ofegante demonstrarem que ele nem mesmo sabia por onde começar a perguntar, então eu prossegui:
— É por isso que me aconteceu isso... – apontei meu corpo machucado — Eu estava saindo da delegacia, logo depois de ser afastada forçadamente pelo meu superior. Ele me chamou para o estacionamento, a fim de me contar porque eu estava sendo afastada. Haviam descoberto que eu estou marcada, e ele achou melhor eu ficar em casa, longe de toda a sujeira que está rolando na DP, e em segurança. Então eu dirigi de volta, mas só quando parei numa padaria, que eu percebi um carro que estava me seguindo.
Logo que saí da padaria, eu vi os carros acelerando tentando me encurralar, e aí a perseguição começou. Na hora eu só podia ligar para o David. Não tem ninguém na minha DP que eu possa confiar no momento, Vera também não poderia me ajudar naquela hora, e até a DP dela tem gente que não pode saber nada sobre mim... Sei lá, eu só pensei no David na hora. E eu estava pela região de onde nós treinávamos tiros meses atrás, então ele pediu para eu despistar e ir até o ponto marcado para me resgatar. Na fuga eu fui atingida quando os dois carros se emparelharam, mas não senti o tiro no abdômen então eu consegui dirigir algum percurso e chegar até David em segurança. Entrei no carro dele, e vi que os perseguidores chegaram ao meu carro quando eu já estava segura. Eu seria certamente alvejada se não fosse o David na hora certa. E depois, eu desmaiei a caminho do hospital...
— E já tem alguma ideia de quem foi? – perguntou um pouco perdido e extremamente preocupado.
— Bem, eu tenho certeza que tem o dedo do Lucas. Mas, ainda estão investigando, os caras que me perseguiram foram presos, e eu não estou mais a par da situação, porque o David está cuidando de tudo. A questão é que, eu estive este tempo todo na DP fingindo trabalhar. Bloquearam todos meus antigos casos, e até o inquérito do Paiva foi dado sumiço. É como se tivessem apagado todas as minhas investigações. E o meu superior está ciente de muitas coisas, mas não me conta nada. Segundo ele é perigoso eu saber demais agora. Mas, certamente, me proteger de me envolver mais nos casos não foi o suficiente, já que agora, me parece que eu estou na mira de uma vingança.
... Vamos embora! É isso! Deixa essa confusão toda pra quem pode resolver... Pro’ David, pro seu superior, sei lá... E vamos pra fazenda!
— Eu adoraria amor, mas, todos envolvidos comigo correm risco agora... Eu prefiro que você e fiquem longe. Eu nem queria que vocês viessem, mas o David colocou seguranças a paisana, perto de nós então estamos sendo seguidos e vigiados por gente dele.
— Você confia no David?
— Até tempo atrás não confiava, mas ele tem me dado razões para acreditar nele, e depois... Eu não tenho muitas opções.
— Então você está andando em ninho de cobra, no escuro... – afirmou compreendendo a minha situação mais rápido do que eu imaginei que seria.
— Exatamente. Eu não sei quem é ao meu favor e quem não, mas o afastamento da DP foi ótimo, apesar de eu me sentir injustiçada e saber que o Dr. Abelardo burlou o sistema para isso, e ele pode até se enrolar feio nisso, mas... Eu sei que foi o melhor por hora. Tirar-me das vistas de quem está na delegacia. Tá’ cheio de miliciano do Lucas por lá, e não tem como nós termos certeza ainda de quem são. Na verdade, eu até acho que o Dr. Abelardo, o Costa e alguns outros amigos meus da área sabem por estarem implantados no esquema propositalmente. Mas eu sei que apenas saber quem são as peças não é o suficiente se não houver provas. E eu acho que é por isso que eles estão sendo tão cautelosos, e tem a Federal que está investigando tudo em paralelo com a Civil Estadual. Isso é algo que eles não podem nem desconfiar, uma informação que está sendo segura por um plano e que é de extrema confidencialidade. É por isso que o David está metido nisso até os dentes, ele está há anos nessa investigação, amor...
— O tal trabalho que você tem a fazer com ele é isso?
A pergunta que eu não queria responder. No momento que eu aprofundasse a história teria que falar da viagem, da Bruna, da relação dela com o Lucas, dos motivos pelos quais a Bruna e eu poderíamos estar mais ligadas do que ele pensa, e talvez até... A forma como eu agi para prender o Lucas. Não tinha significado nada para mim, mas e para o ? Eu não queria arriscar mais, então eu fiquei quieta. Mais uma vez, achei que por doses lentas seria mais fácil e melhor falar a verdade. Eu estava errada, e sabia daquilo, mas evitar encarar a grandiosa verdade e suas consequências, de uma única vez, me trazia uma falsa sensação de segurança em que eu queria acreditar.
— Tem a ver com isso sim, mas eu não tenho certeza ainda do que é.
— Você vai me contar quando souber?
Ponderei olhando para os lados e respirei fundo, receosa, sob o olhar desconfiado e desafiador do .
— Vou. – respondi.
Ele alargou um sorriso lindo, e me abraçou de novo. Eu afastei nossos corpos apenas para transformar aquele abraço num beijo necessitado. E logo estávamos trocando carinhos quentes e que poderiam nunca ter fim, mas andava sensato demais para o meu gosto:
— Vamos dormir, amanhã temos que inventar algo para fazer com a ...
— Sério? – o encarei perplexa.
— Você está machucada amor, é melhor descansar, você sabe...
— Que droga... Desde quando você diz não para isso?
Ele riu e se levantou me puxando num abraço protetor. Fomos para o meu quarto, e aninhados um no outro, dormimos tranquilos.


Capítulo 35 - Carnaval de Mentiras

Na manhã seguinte acordamos cedo, como se estivéssemos na fazenda, e foi impossível para fugir da minha armadilha. O que ele havia deixado de fazer na noite anterior, foi cumprido como eu tanto queria naquela manhã ainda escura. E como eu sentia saudade dele...

— Você está bem? – meu perguntou girando na cama para me encarar e acariciar o meu rosto.
— Como não estaria?
— Eu falo dos machucados, amor... – ele riu fraco — Acho que apertei muito a sua cintura.
— Ah, relaxa... Tudo bem com isso.
— Certeza? Não arrebentou nenhum ponto?

A preocupação de me fazia ter vontade de agarrá-lo em um abraço e não sair nunca mais dali. Mas, eu precisava levantar.

— Vem, vamos levantar. Precisamos ver como a amanheceu...
— Ela ainda está dormindo, do contrário você não teria se divertido tanto...

Eu gargalhei enquanto me encaminhava até o banheiro, e vestia a calça de moletom rápido e calçando os chinelos.

— Pode ir tomar banho, eu vou ver como a está.
— Certo, traga a toalha para mim, quando voltar.
Não demorou muito, e lá estava ele jogando a toalha sobre o vidro do box, e começando a escovar os dentes enquanto um sorriso safado fazia companhia ao seu olhar forte e sedutor. Eu sorri de volta e se apressou em sair dali, ele bem sabia que se continuássemos nos olhando daquele jeito, a pequena teria irmãozinhos logo.
Decidi que era uma ótima ideia levar para passear, mas logo que ligamos a televisão, a notícia das ruas abarrotadas por blocos fizera ser o estraga prazeres.

— E não vamos levar a nem mesmo ao cinema? Ela nunca foi a cinema comigo.
— Eu quero papai!
, um cinema, eu acho que não tem problema... Mas você vai toda agasalhada senhorita ! E de lá nós voltaremos ao médico que te atendeu!
— Que coisa mais chata!
, não fale assim com o seu pai! – chamei a atenção dela tentando segurar o riso.
— Isso não é justo! A gente viajou pra passear com você no Carnaval! Eu quero ir nos bloquinhos de criança!
, seu pai está certo, você está doente.
— E a culpa é minha, ?
— Na verdade, é sim! – ralhou: — Se escutasse à sua avó você não teria me convencido a deixar você tomar banho de mangueira daquele jeito! Uma semana ! Uma semana, que esta danadinha se aproveitou que eu estava ocupado para ficar tomando banho de mangueira no quintal! Olha aí o resultado!
— Mas, papai... As galinhas estavam com calor!
— Vou fingir que não ouvi o seu cinismo ! Termine o seu café e vá para o banho.

Encarei que olhava para a filha como se não a reconhecesse e gargalhei.

— Ela está ficando cada dia mais igual a você.
— Eu não sou cínico assim, ... – ele sussurrou baixinho para mim a fim de que não ouvisse.
— Ah você é... – respondi.

nos encarou desconfiada e logo afastou seu pratinho, delicada e como uma donzela bem educada. Até usou um guardanapo para limpar a boca e disse:

— Vou me arrumar e deixar os pombinhos. Não sei o que cisnismo, mas sei que estão falando de mim.
— Onde você aprende estas coisas ?

Perguntei risonha e descrente, recebendo um sorriso travesso da menina e uma resposta simples:

— Na televisão!
— Ótimo, eu vou ter uma conversinha com a sua avó sobre esta televisão viu!
— Papai, não brigue comigo... Eu só estava brincando.
— Eu já tive a sua idade , e para o seu azar você se saiu igualzinha a mim!

Ela deu os ombros e saiu correndo cheia de risadinhas travessas para dentro do quarto. Eu observei aquela cena com felicidade, e ainda zombei de que já estava como um pai das antigas dizendo “eu já tive a sua idade”...

— Pai das antigas? – ele perguntou ultrajado — Eu também vou ignorar o que você disse.
— Talvez, você esteja precisando renovar isso de ser pai... – falei brincando, mas só me dei conta do que havia dito quando os olhos arregalados, brilhantes e esperançosos de me encararam.

Eu não queria ter dito exatamente o que pareceu, mas sorri sem graça e fui ajudar .

— Eu vou cuidar da ... – falei constrangida e assentiu calado com um sorriso discreto.

---


se divertiu bastante no cinema. Não só a levamos para ver um filme, como passeamos pelo shopping e fomos a uma sala de jogos. Também andamos de patins numa pista do próprio shopping.
Vários foram os momentos que pessoas se aproximavam para elogiar a nossa família, e eu me sentia extasiada com aquilo. Por mais que eu já soubesse que éramos uma família, sempre me trazia um conforto a mais ouvir que “a sua filha é linda!”. Eu ficava orgulhosa de , mas também de mim. Do que eu estava construindo.
Em seguida fomos ao hospital, e o médico reexaminou , constatou que não havia necessidade de interná-la, mas manteve as ordens de extremo cuidado.
Aqueles três dias de e ali em meu apartamento foram assim: regados a programas familiares pouco agitados e muitos cuidados com a saúde de nós duas. E estar só com eles, me fez perceber o quanto eu desejava aquilo. Era uma das poucas vezes que estávamos os três sozinhos, como uma família pequena, sem interferências de uma rotina que existia antes de mim. Era a nossa rotina, ali. A minha rotina.
E como a minha rotina, o trabalho de repente se colocou entre a nossa felicidade. No último dia de viagem do e da , ele e eu estávamos à sala deitados no sofá, aproveitando as últimas horinhas juntos. dormia um pouco, por conta dos remédios, mas as malas já estavam todas ao canto da sala.

— Eu não acredito que passou tão rápido! Eu queria ter feito tanta coisa com vocês! Eu queria ter passado horas com a pela cidade e...
— Amor, relaxa... – ele me interrompeu beijando meu rosto — se divertiu muito mesmo que tenhamos saído pouco.
— Ah será, ? Não paro de pensar que ela ficou frustrada! Eu estou frustrada!

Reclamei e riu.

— Ontem à noite ela me disse que apesar de nossos planos não terem dado certo, ela sentiu que estava na casa da mãe e do pai dela, como uma família de verdade. E que nenhum passeio no mundo seria melhor do que isso.
— Ela disse? – o encarei surpresa e emocionada.
— Sim, ela disse.
— Meu Deus, a está crescendo rápido demais, não é?
— É, ela está... ... Eu vou embora daqui umas horas, e... Eu preciso saber o que você decidiu sobre...

Eu já sabia que ele iria perguntar do trabalho com David, mas antes de terminar, foi interrompido pela campainha. Entreolhamo-nos confusos, e eu me levantei para atender a porta enquanto ele permanecia deitado ao sofá.
Assim que abri a porta deparei-me com um David ansioso a invadir meu apartamento sem esperar o convite para entrada.

— David?

David entrou olhando para baixo, pensativo. Parou à minha frente, de costas para a sala, e eu fechava a porta no automático. A última pessoa que eu esperava ali era aquele que poderia entregar as minhas mentiras para o . E aparentemente o faria sem perceber.

— Oi , tudo bem né? Eu não tenho muito tempo, mas a ação vai acontecer logo, eu vim para dizer que nós embarcamos amanhã cedo por voo particular da Polícia Federal, e por isso se você for comigo mesmo eu preciso saber, para te pegar aqui amanhã.

David apoiou o peso do corpo em uma das pernas, enquanto as mãos estavam à sua cintura e ele me encarava urgente e aflito.
Eu não tinha palavras. Ele acabava de responder à pergunta que ao menos teve tempo de responder: eu já tinha decidido que iria.
Diante do meu espanto David suspirou, e talvez, imaginando que eu iria negar, ele começou a falar e explicar mais da situação na tentativa de me convencer.

— Olha , eu sei que você está insegura, mas agora mais do que nunca nós precisamos do seu álibi! Bruna embarcou esta manhã para um novo ponto, e sabemos que ela vai liderar uma negociação grandiosa de tráfico na fronteira com a Grécia! E mais do que isso, Bruna descobriu sobre você e o Lucas, descobriu que você o seduziu para prendê-lo e agora você é alvo direto dela! Temos certeza que o seu atentado não foi mandado por Lucas da prisão, mas pela Bruna! Então seria ótimo para a operação que você fosse nossa isca para atraí-la, ela está louca para terminar logo as pendências com você!

E meu mundo havia caído.
Ainda chocada e boquiaberta olhei à direção do sofá, onde acabara de se levantar e se colocar sentado a me encarar confuso. Mas, muito mais do que confuso, decepcionado e raivoso.

— Bruna? – ele pronunciou e só então David olhou para trás.

A expressão de culpa de David ao olhar para o e para mim mostrava o quanto ele não havia feito de propósito.

— Merda, eu esqueci que ele estava aqui... Desculpe-me...

David sussurrou para mim e eu apenas balancei a cabeça já engolindo o choro, e quando David percebeu que eu estava chorando ele, tentou amenizar:

— Então, você é o famoso amor da vida da ? Prazer em conhecê-lo finalmente, eu sou o David.

não encarou David, e nem lhe deu nenhuma resposta. Apenas me olhava diretamente.

— Esta Bruna... Não é a mãe da não é?

Ele perguntou e eu abaixei a cabeça enxugando as lágrimas enquanto David nos observava, atento a intervir se necessário.

Ok... Próxima pergunta... Você... Seduziu o seu ex para prendê-lo e achou mesmo que era melhor que eu não soubesse?
!
— Não é como se eu não soubesse que este tipo de situação é comum no seu emprego ! – ele me interrompeu — Mas, se você não me conta as mínimas coisas, faz parecer muito pior do que é!

David abaixou a cabeça concordando. Eu sabia daquilo, e ele também: eu deveria ter contado quando tive todas as chances.

— Vai ficar calada agora? E então? Foi o quê? Um beijo ou vários? Você foi para a cama com aquele... Aquele desgraçado que arruinou a sua vida!? É ISSO?
— Não! – gritei urgente — Não ! Me escuta, eu não... Eu não podia contar pra você que...
— Você não podia uma ova! – ele me interrompeu de novo — Você não quis correr o risco de me ver puto de ciúme, por algo tão banal! Ou melhor! Você não me conhece e agiu como se sentia segura, por achar que eu iria ser o imaturo da história, não é? O que você fez com esse cara já não importa. Não quero mais saber e...
— Foi só um beijo! Um beijo nojento para conseguir a confissão! Eu juro que...
— Um beijo? – ele ria sarcástico — Mentiu para mim por causa da porra de um beijo no meio de uma missão?
— Como eu saberia que você iria reagir com tanta naturalidade?
— Eu não iria! Eu iria espernear gritar e reclamar como você sabe! Eu iria sim ter um acesso de ciúme, mas eu sou assim! Eu sou este homem intenso que grita, ! E eu não posso nunca suportar a ideia de outro cara estar com você e não eu! Mas, você não sabe disso ou não quer acreditar! Eu te amo, e por causa da porra de um beijo que não significou nada pra você, você mentiu? Ou significou algo? Quantas vezes eu te pedi para compartilhar comigo o seu trabalho? Quantas vezes eu te perguntei como este canalha foi parar na cadeia?

falava mais alto e eu começava a achar que acordaria a qualquer momento. Eu não conseguia responder. De repente me soava tão sensato e fazia todas as minhas atitudes parecerem uma infantilidade absurda.

— Foda-se... – ele murmurou — E a Bruna? Essa Bruna que ele diz... É a mãe da ? Você vai me dizer agora ou eu vou ter que esperar o, fardinha me contar também?
— Ei cara...
— Cala a boca!
vociferou para o David que ao invés de se encolher como eu nunca havia feito, mas estava fazendo, deu passos em direção ao e despejou:

— Isto é assunto confidencial e a não tem autorização para falar porra nenhuma, entendeu?
— Ah ela não tem? Mas, você tem não é?

Os dois estavam cara a cara se desafiando, e então eu respirei fundo e me coloquei entre os dois.

— David... David... Por favor, me deixa contar para ele.

David me encarou, suspirou pesadamente e assentiu dizendo:

— Eu vou deixar vocês conversarem. Assim que puder me liga e me informa a que horas eu passo aqui para te pegar. Você pode até negar a participação, mas você sabe que... Enfim, não vou te pressionar por coisas que você já sabe.

Ele coçou a cabeça e mordeu os lábios, nervoso, encarou ao de novo, que o fuzilava com os olhos como se David fosse culpado de tudo, e se dirigiu a mim uma última vez antes de sair da sala batendo a porta:

— Você sabe até onde pode contar a ele.

Assim que o som da porta se fechando se fez ouvir, eu enxuguei as lágrimas apavoradas que caiam do meu rosto e me virei para encarar .
Como se estivesse apenas esperando David sair para deixar as suas lágrimas caírem, estava chorando. Seus olhos brilhando pelas lágrimas, mas opacos de decepção.

— Eu... Vou contar tudo...
— Agora eu só quero uma resposta: se é ou não a mãe da .
— A Bruna está envolvida com o Lucas há muito tempo. Eles eram amantes quando eu ainda estava com ele, e eu só soube disso há mais ou menos um mês, quando o David me contou. E... Bem, eles... Ela...
— Eu vou acordar a ... – me interrompeu tentando sair, mas eu segurei o seu braço implorando:
— Por favor! Você não acha que ter escondido de você isso tudo foi um motivo egoísta não é? Eu não te contei antes porque era difícil, porque eu não queria te fazer sofrer ou se decepcionar comigo... E eu posso ter feito tudo errado, mas já que você está ferido agora do mesmo jeito, me deixe ao menos arrancar estes segredos de mim!

Ele me olhou e eu ainda chorava, ele também. Assentiu num sinal de cabeça, e se pôs a me ouvir.

— A Bruna foi enganada por aquele agente. Ela não foi levada para ser modelo. Ela seria traficada, e foi. E ao chegar lá, depois de passar por sabe-se lá o que, ela foi inteligente: sucumbiu aos planos deles para sobreviver. Ela entrou para a quadrilha e se tornou uma protegida, mas mais do que isso, foi treinada. Ela deve ter muitas coisas que a prendem ali. Inclusive ameaças de morte a quem ela ama, e isso pode incluir a também! É por isso que quando o David descobriu que eu estava com você, e a minha proximidade com a nossa família ele me contou tudo. E eu não poderia simplesmente negar, não é? Este atentado contra mim só prova o quão grande a quadrilha é, e o quanto eu preciso ajudar a desmantelar este esquema, porque... A Bruna pode ser tanto a vítima quanto a ameaça, e no meio disso tudo estão vocês. Eu preciso ajudar a protegê-los de alguma forma! Ela... Está na Turquia, está sendo monitorada há anos, e parece que agora é o melhor momento para Federal pegá-los, e como você ouviu... A Bruna está na minha cola agora... Creio que já está a muito mais tempo do que eu poderia imaginar... ... De alguma forma meu caminho cruzou com o dela, e os nossos se cruzaram, e eu não podia simplesmente te contar tudo isso assim do nada!
— E se você morresse lá, como é feito o esquema? O fardinha ia aparecer na minha casa, com uma cartinha fúnebre e uma medalha? Foda-se a Bruna e o que quer que ela tenha se envolvido ! Você deveria me contar, porque é onde você esta escolhendo se meter! É você que está em perigo, e não eu ou a !
— Você fala isso agora! Mas, pense depois! Pense nas vezes que a Bruna apareceu de surpresa perto da , e todas as informações que ela já tinha sobre mim! Pense em quanto tempo, nós podemos estar sendo vigiados ou manipulados para algo pior! E se a Bruna não tiver mais escolha? E se ela quiser sair do esquema, mas não pode por nossa causa? Por causa da ?

enxugou as lágrimas, e eu também. Eu aguardava ansiosa a uma reação dele, e quando ele a teve eu desejei com todas as forças que não fosse daquele jeito.

— Eu vou me recompor, em seguida eu vou até o quarto da e vou acordá-la para irmos para o aeroporto. Eu não quero que ela nos veja neste estado, então se prepare para se despedir dela, tudo bem?
...

Aproximei-me alguns passos, mas ele levantou uma mão em minha frente a fim de me dizer para não chegar perto e olhando nos meus olhos, com os dele transbordando ele disse:

— É melhor darmos um tempo.
— Você, vai embora sem nós resolvemos isso?
— Não tem o que resolver. Você já decidiu ir com ele, então se prepare para sua missão e boa sorte.
você está terminando comigo?
— Eu estou dizendo que não tenho como decidir nada agora, e nem você. Então viaje e quando voltar... E eu espero que volte... Você e eu conversaremos. Até lá... A gente não tem nenhum compromisso ou pendência um com o outro.

Ele me deu as costas e saiu em direção ao banheiro, enquanto eu caí abaixada, abraçada aos meus joelhos e inundando em lágrimas. O que eu mais temia acontecer havia acontecido. Por minha culpa, eu estava perdendo .


Capítulo 36 - Missão Turquia

As nuvens escuras que tornavam o céu do Oriente um tanto quanto sombrio e preocupante, poderiam ser consideradas como o meu emocional naquele momento. Durante todo o voo eu me mantive calada e pensativa, e David respeitou isso. Passou grande parte com sua equipe, mas de vez em quando vinha até minha poltrona e me oferecia algo para comer.
Quando meu olhar pela janela do jatinho da PF, se deparou com a cidade abaixo de nós, eu suspirei decidida. Havia pensado muito durante todo o voo, e estava absolutamente arrependida de estar ali e de não ter ido atrás do . Afinal, que idiotice a minha achar que a missão não daria certo sem mim! Eu era apenas uma isca! Uma isca burra e egocêntrica! É claro que eles dariam conta daquilo com ou sem mim! Eu deveria ter ido atrás do no mesmo instante em que ele partiu.
David saiu da cabine do piloto e me olhava preocupado e analítico, sorri de leve para ele não pensar que eu estava com raiva. Por mais que tivesse me perguntado aquilo várias vezes durante o voo, e eu já houvesse respondido que não, ele se sentira culpado de verdade.

— Já pousaremos. – sentou-se ao meu lado e afivelou o cinto, e em seguida me olhou meticulosamente atencioso.
— Eu estou bem, relaxe. Já disse que não estou brava com você.
— Mas eu estou. Eu não deveria sair falando daquele jeito, sem ter cuidado. Eu esqueci totalmente das suas visitas, e agora por um erro meu você está com essa cara de quem não vai reagir nem com uma caixa de cerveja trincando na sua frente.
— Para com isso, você sabe que eu beberia.
— Mas, não ia sorrir e nem chorar, e isso é o pior.
— Sabe David... Eu tomei uma decisão. – olhei diretamente naqueles olhos brilhantes, e ele aguardou minha resposta, curioso: — Assim que acabar essa missão, eu vou para Mato Alto. Vou largar tudo e começar do zero lá.
— Vai virar fazendeira?
— Não faço ideia do que farei... Mas, eu não vou ficar em São Paulo mais. Há um bom tempo que aquele lugar só destrói a minha vida...
— Então, vocês não terminaram. Se você está pensando em voltar para ele é porque vocês não colocaram um ponto final.
— Ele terminou sim. Disse que até eu voltar, não temos nenhum compromisso... Eu espero que ele realmente me perdoe.
— Se ele te ama, ele vai perdoar. E você sabe... Eu sempre vou estar por perto.

Encarei ao David, pronta para brigar por ele fazer piada no meu pior momento, mas quando me deparei com sua expressão, não havia sinal de flerte ali. Ele esboçava uma forte e verdadeira preocupação, David se tornou uma amizade que eu já não queria afastar.
Pousamos o voo num aeroporto particular, e descemos à paisana. Para todos os efeitos, éramos um grupo de empresários. O hotel onde estávamos hospedados era confortável, e sob qualquer suspeita. Imediatamente, a história de David e eu – contada por ele há pouco tempo a mim – em missão juntos, me veio como uma imaginação em minha memória.

— Isto é nostálgico.

Ele disse para mim dentro do elevador e eu sorri, sem ter a mesma sensação, afinal, eu não tinha memória verdadeira de nada daquilo.

— Eu vou até o seu quarto às dezesseis horas para nosso encontro com a equipe local. Pedi que o almoço seja entregue nos nossos quartos, então não se preocupe e apenas descanse.
— Obrigada David, eu vou dormir mesmo. Estou exausta dessa viagem.

Saí em um andar antes dele, e me encaminhei para o meu quarto. Um quarto espaçoso e grande, como uma cama confortável e alta, tapetes turcos ao chão e uma decoração bem típica. Parecia o quarto de uma rainha.

— Se este é o hotel mediano daqui, não quero nem ver o luxuoso... – murmurei deixando minha bagagem num canto.

Caminhei até a porta da sacada do quarto, e abri as cortinas e fui até lá fora. O friozinho da cidade atingiu meu corpo e eu só queria que estivesse ali comigo, abraçados, para juntinhos apreciarmos a paisagem que era realmente linda.
Retornei para o quarto e tomei banho, em seguida recebi o almoço que David havia pedido, e dormi. Mal toquei na comida, pois não tinha fome.
Às dezesseis horas ele bateu à porta do meu quarto, e eu já estava pronta. Abri a porta e o pedi para esperar.

— Vou só colocar um cachecol. Um minuto. – eu disse, e ali na porta ele ficou parado a me esperar.

Tranquei meu quarto, e logo que me virei para ele, David analisou o meu rosto.

— Você comeu?
— Sim, sim, vamos logo. – me apressei, mas ele segurou minha mão.
— Você precisa parar de mentir, mulher. – disse se aproximando e tirou a mão de trás de si que estava escondida e colocou um sanduíche embrulhado sobre a minha — Coma enquanto andamos.
— David...
— Coma, . Eu sou o seu superior nesta missão, e não vou deixar seu emocional atrapalhar o andamento dela, ok?

Ele disse incisivo como eu nunca havia visto e saiu andando à frente. Encarei o sanduíche nas mãos e na mesma hora meu estômago roncou. Traída por meu próprio corpo.
Quando saímos do hotel, um carro nos esperava e fomos levados até uma região empobrecida da cidade de Ancara. O carro estacionou numa rua movimentada, e o motorista perguntou algo para David em sua própria língua, e me pareceu preocupado. Fiquei surpresa ao ver que David falava turco.

— O que ele disse? – perguntei ao descermos.
— Que essa era uma região perigosa, e se queríamos mesmo ficar por aqui.
— E você respondeu?
— Que somos um casal de turistas que gosta de adrenalina, e que minha esposa queria muito um maldito tapete que só tem aqui.
— Ah... Por isso ele riu... Desde quando você fala turco?

David pegou minha mão e foi me guiando, entre as pessoas da ruazinha estreita que entramos. Era um lugar agitado, cheio de barraquinhas e tendas como uma feira de rua, e no momento que atravessávamos ali, presenciamos dois assaltos de batedores de carteira aos turistas. David parecia conhecer bem a região, então quando ele desviou do tumulto numa viela quase sem saída, eu não me preocupei. Ao final do beco, havia um pequeno túnel à direita que levava a outra viela.

— Eu falo oito línguas... – me respondeu a pergunta feita minutos antes — E agora vamos fingir que nós somos um casal despreocupado, eu vou te abraçar e nós vamos passar bem rápido por esta viela, ok?
— Não havia um caminho melhor não?
— É só não encarar os mendigos e não demonstrar medo.

Assim que terminou de dizer aquilo, David me puxou para si e beijou o meu rosto, e sem me dar tempo de reagir com um xingamento que fosse, entramos no beco onde três ou quatro caras, mal encarados, se reuniam em volta de uma fogueira falando uma língua embolada. Como David dissera, eu me pus a fingir que conversava animada com ele, e não tirei os olhos dele. Ao passar pelos homens, David acenou levemente a cabeça e pronunciou uma palavra em turco, que os homens corresponderam e ainda desconfiados, eles nos encararam até que sumíssemos de vista.

Puta que pariu Albuquerque! – falei assim que nos distanciamos dali.
— O quê? Te assustei? – ele ria da minha cara.

Soltei-me do abraço quente de David e algumas ruas movimentadas, mas não agitadas depois, parecíamos estar num ambiente mais calmo e comum. David indicou um prédio velho, de pintura descascada onde iriamos entrar, e assim que abrimos a porta, vi que era um bar. Ele caminhou até o balcão, falou algumas coisas e o homem me encarou de cima a baixo com olhos de cobiça. David pegou com ele uma chave, e me puxou para uma escada logo à entrada e quando subíamos ele ria discreto.

— Você... Você não falou que eu era uma garota de programa, não é? – deduzi pelo ambiente estranho do andar de cima.
— Não, eu disse que éramos um casal de turistas que gostava de aventuras estranhas.
— Eu não vou nem contestar, porque ter vindo para cá com você, foi no mínimo digno de manicômio.

David riu e caminhou até uma porta batendo nela. Logo a porta foi aberta, por um rosto que não me era estranho.

— E aí, cara!

O homem o abraçou apertado e os dois sorriam amigáveis, então David parou ao lado dele e me olhou. Vi o semblante do homem, mudar, seus olhos marejarem e ele me sorrir abertamente com um deslumbre.

— Oi ... Há quanto tempo.
Er... Oi?

Encarei David que sorria ladino e não me disse nada, apenas desviou os olhos ao chão. Entrei no quartinho e fechei a porta atrás de mim, e o homem que parecia me conhecer ainda estava parado a me observar.

— Eu sou o Mike. Você não lembra, não é?
— Mike? – estendi minha mão em cumprimento e ele me puxou num abraço, com o meu espanto David escondia risos debochados a nos encarar — O David me contou de um Michael, da época do treinamento...
— Este mesmo. – ele se afastou com as mãos em meus braços e me encarou fraternal: — É bom ver que você está ótima.
— Desculpe não me lembrar de você...
— Ah relaxa, não é como se eu não soubesse... Mas, venham, vocês precisam saber das coisas.

Mike se colocou a caminhar para dentro do quartinho, onde uma mesinha velha no centro estava abarrotada de aparatos eletrônicos.

— Você está bem? – David se aproximou me encarando preocupado.
— Poderia ter me avisado.
— E perder a surpresa? Não... – ele riu e beijou minha testa, me chamando para a mesinha, onde Mike nos olhava risonho.
— Vocês... Vocês... Estão juntos de novo?
— Não. – David respondeu e eu travei.

“Juntos de novo”. A frase ficou martelando na minha cabeça e eu me sentei à mesa, com os dois me encarando preocupados. David certamente sabia o que estava se passando na minha cabeça, mas Mike sorriu sem graça e me perguntou:

— E aquela chata da Verônica, hein? Como está?
— Ah... A Vera... Ela... Ela está bem! – sorri – E ela não é chata!
— Verdade, se eu bem me lembro você era pior.
— Olha cara, isso aqui é tipo como se eu te conhecesse agora, sabe? Não acho que vou simpatizar contigo se ficar me ofendendo.

Eu respondi sarcástica, e os dois homens a minha frente ecoaram em risos.

— Ela não mudou muito. – David falou para ele.
— E você está fodido, pelo visto suas chances só diminuem.
— Você não sabe o quanto.

Observei o diálogo dos dois amigos sobre mim, e pigarreei.

— Vamos nos concentrar... Mike, quais as novidades? – David perguntou.
— O prédio à frente é o ponto de negociações há dois dias. Ah... Só Deus sabe como eu estou pulando de galho em galho neste país atrás dessa pilantra.
— E ela já apareceu aqui?
— Chegou há dois dias e trouxe uma garota com ela... – Mike pronunciou aquela última frase com certa preocupação para David.
— Era ela?
— Era a mulher da foto que você nos deu sim, mas... Sabe que pode não ser ela né?
— Eu já tinha dado a foto a vocês, com tudo confirmado. Então era a Suelen.
— O quê? – me alarmei — A irmã caçula da sua ex-namorada?
— Exatamente . Ela está sendo preparada para substituir a Bruna.
— Mas, se a Bruna vai sair do esquema, o que ela fará depois?
— Com o Lucas preso, tudo indica que ela vai tomar a frente. Ela é a mulher dele, e está nisso há tempo suficiente para ele confiar.
— Certo, então... Qual é o plano?

Perguntei urgente para Mike, que trocou olhares com David e sorriu, e então pedi:

— Olha, será que dá para vocês dois pararem de me encarar como se eu fosse uma experiência, e parar com essas trocas de olhares e risos? É desconfortável saber que vocês têm as minhas memórias e eu não.
— Desculpe ... Mas, é que você é uma experiência. – Mike falou sério.
— O quê?
— Não sabia? Você é tipo a arma X, do nosso Wolverine aqui.
— Cala a boca com esse papo de nerd, Mike! – David bronqueou rindo.
— Se eu sou a arma X, você sabe que meu temperamento é bem curtinho e falar da minha experiência é traumático, então... Não me faça mostrar as minhas garras para você, Mike.
— Ok.. Desculpa! Você tem razão.
— Quantos anos ele tem? – perguntei debochada ao David que apenas sorriu.

Mike nos contou sobre a rotina de movimentação da Bruna e de Suelen com alguns capangas no covil que vinha observando. Enquanto ele falava David pegou o binóculo, e escondido atrás da cortina escura, espiou o prédio da frente. Não viu nada suspeito, e retornou rápido.

— Temos que fazer a Bruna e se esbarrarem por acaso, para assim a Bruna jogar nosso jogo. – David disse.
— Certo, e a Suelen? Ainda que desviemos o percurso da Bruna até nós, certamente Suelen levará as negociações aqui. Elas estão preparando os lotes, já saíram dois daqui de ontem para hoje. Aparentemente, sai um por dia. E pelo que mapeamos, faltam mais três.
— A equipe beta vai colar na Suelen. Vamos manipular para ela dirigir a saída do terceiro lote, assim, a se encontrará com a Bruna antes do terceiro sair.
— O terceiro é amanhã David. Pode ser que não dê. A vai esbarrar na Bruna no dia do quarto lote. Assim Suelen toma conta, a equipe beta cola nela, e vocês junto à equipe alfa tem um dia para pegar a Bruna, a Suelen e as mulheres.
— Espera! Elas podem muito bem apressar as coisas, e levar todos os lotes de uma vez. Um negócio assim, embora organizado, não segue uma temporalidade grande dessa! Elas vão negociar rápido, pelo o que eu conheço da Bruna, ela é uma raposa. Vai terminar isso no mesmo momento que começou, então não confiem. Lucas era bastante prático também, mas ele sempre foi o tipo que tem medo das coisas saírem do controle, ele sim manteria um plano longo de extravio dos lotes, mas a Bruna não. Ela vai agir rápido, para acabar rápido, e não levantar suspeitas ou deixar furos.

Os dois me olharam atentos e David mordeu os lábios, contrariado.

— Então... – Mike falou, mas foi interrompido por David:
— Então vamos colocar você onde eu não queria.
— Me deixa adivinhar... – ri irônica por saber — No plano original, onde eu sou pescada para o lote.
— Eu juro que tentei evitar. – David emburrou sentado de braços cruzados.
— Você realmente achou que eu não soubesse? David! – perguntei debochando dele, mas séria: — O plano de me fazer ser uma isca com a desculpa de viagem com a foi a ideia mais idiota que eu já ouvi! É claro que eu sabia que a equipe tinha outras intenções e você tentou burlar! Parem com esse teatro os dois, e me contem a porra da verdade!

Mike riu e puxou uma malinha debaixo da sua cama e me entregou.

— Você é muito boa mesmo. Está tudo aí, já tínhamos tudo preparado para seu disfarce, e só o David que estava tentando arrumar uma forma de mudar o plano. Não que ele fosse conseguir e ele sabe disso.

David levantou da cadeira e foi até um frigobar dali puxando uma bebida, abriu a lata e virou um gole longo. Então eu coloquei a malinha que havia pegou com o Mike sobre a cadeira que eu estava sentada, e me aproximei do David.

— Olha só, Albuquerque... – ele não me encarava, até que eu puxei a lata da sua mão o fazendo me encarar nervoso: — Eu sei que você está com medo de acontecer algum merda comigo, por essa culpa que você esconde até hoje ao que aconteceu lá atrás, tá? Mas, presta atenção em mim...

Aproximei-me mais dele e encarei duramente os seus olhos.

— Eu não vou falhar. Porque a segurança que eu não tinha lá atrás, eu tenho agora. E não vamos deixar a história se repetir, até por que... Eu não vou permitir perder as minhas últimas memórias. Essas não.

Como se entendesse do que ou de quem, eu estava falando, David estalou a língua e tomou sua cerveja de mim novamente.

— Vocês não vão se beijar não é? Eu ainda estou aqui.
— Ela nunca me beijaria, relaxe. – ele falou se encaminhando para o Mike, e eu não entendi a mudança súbita de humor dele.

Como não estava com paciência, apenas me concentrei por hora no andamento da missão.
Eu iria me disfarçar de turista perdida, e numa armação me envolveria com os atravessadores. Assim, eu me tornaria um “peixe” de um dos lotes. Dentro do lote, quando Bruna viesse e me encontrasse ela ficaria chocada, mas curiosa para saber o que eu faria ali. Lógico, ela iria pensar que eu estava com a polícia, e para isso minha atuação teria que ser perfeita, de mulher assustada e perdida. Mas, como eu também havia avisado, era muito certo de que Bruna me matasse na mesma hora – ou providenciasse isso – pois, sabendo de minha habilidade de atuar bem ao ponto de enganar o próprio Lucas ela iria desconfiar e agir o mais rápido possível, por isso, a equipe alfa precisaria estar na minha cola e evitar. Outra agente policial então estaria disfarçada junto comigo. Ela seria o meu coringa. E que a sorte estivesse comigo.

[...]


— Isso não vai dar certo. – David murmurou quando já estávamos no elevador do hotel novamente.

Pausei o elevador e com o tranco que deu David se assustou.

— Você realmente vai fazer o pessimista agora?
— Você não quer discutir com essa porra de elevador parado, não é? – assustado ele se colocou em direção para apertar o botão, mas eu o impedi me colocando na frente dele.
— O que é isso agora?
— Eu estou em frangalhos aqui, David. Você sabe disso! E mesmo assim estou me colocando na minha última missão com todo o profissionalismo possível! Não acha que eu não tenho medo de falhar? Claro que tenho, mas eu não posso e não quero, porque...
— Eu já sei! – ele falou incisivo — Eu já sei que você não pode morrer porque tem que ir correndo para os braços do agroboy, tá? Mas, eu tenho todo o direito de me preocupar! Eu, só eu, sei a dor que eu senti no passado e não quero que ela se repita então não pense que está sendo fácil para mim também!
— Eu não disse que era fácil! Não disse! Só não quero que se culpe por algo que passou ou algo que ainda nem aconteceu!

Gritei e apertei o botão do elevador o fazendo continuar. David e eu nos encostamos à parede dele, um de frente para o outro, e nos encarávamos confusos do motivo real daquela discussão.

— Você... Você tá puto comigo desde a hora da cerveja... O que eu falei que te deixou assim?
— Você acha que eu me sinto culpado por algo que possa te acontecer? Não é isso! Não é isso porque eu entendi exatamente o que você quis dizer, quando falou que não iria permitir perder suas novas memórias... Eu me sinto culpado porque eu sei que teremos sucesso e você vai voltar correndo para o único cara que pôde te dar as memórias perfeitas que você não quer perder agora.

A porta do elevador abriu no meu andar, mas eu não desci. David me olhou confuso indicando para eu sair.

— Você ainda me ama. – constatei.
— Você errou o seu andar por acaso?
— Cala a boca! A gente tem que conversar.
— Eu não vou ter uma DR com uma mulher que não tem nada comigo...

David respondeu saindo pela porta do elevador que havia parado no andar de cima ao meu, e eu o segui.

, vai para o seu quarto.
— Não, não vamos fugir! A gente tem que conversar, e que se foda se você quer ou não, abre logo a porta do seu quarto que eu vou entrar.

David deu de ombros, me olhou contrariado e passando o cartão magnético na porta ele entrou rápido. Arrancou cachecol e jaqueta e sentou-se à cama para tirar os sapatos. Eu o observava, atenta, e o segui. Tirei também meu cachecol e minha jaqueta sentei numa poltrona de frente a cama onde ele agora havia se jogado.

— David... Por que o Mike perguntou se estávamos juntos de novo? O que aquilo significa?
— Eu já te contei. Nós tivemos um flerte no passado, por que está dando importância para isso?
— Porque não me parece que foi um flerte qualquer. Principalmente quando vejo você ter uma crise de ciúmes do , e constato que depois de todos estes anos, e de nosso tempo juntos você ainda me ama!
— É claro que eu te amo. – ele falou e se levantou sentando a cama: — Tem como não te amar?
— David... Por favor... A última coisa que eu quero é te ver magoado por minha causa! Quando eu falei das minhas memórias que não quero perder, é lógico que você está incluído nelas! Você tem sido muito mais do que um parceiro ultimamente.
— Que se foda! Não é suficiente para mim e eu sei que não vai ser por muito tempo, porque a missão acaba e você volta para ele, e eu não estou te culpando de nada... Eu só quero que você seja feliz.
— David... Que ódio... Eu tenho todos os motivos do mundo pra ficar com você, você é mais correto para mim do que o em vários aspectos, mas...
... Na boa... Esquece isso, essa conversa não faz o menor sentido. Me deixe descansar, vai.

Encarei o olhar cansado dele, e me levantei da poltrona caminhando até a porta, e antes de sair perguntei:

— Quer beber mais tarde?
— Não, você tem que descansar. Amanhã você passará o dia com os alfas.
— E você não?
— Eu tenho outras coisas pra resolver.
Murmurei contrariada e me despedi saindo pela porta.
— Descanse.
— Você também.

[...]


No outro dia conheci toda a equipe alfa que Mike me apresentou. David havia se ocupado com outras questões que não me disse, mas assim que Mike e eu ficamos a sós, ele me falou ser referente à Suelen. David estava empenhado em tirar a mulher daquilo tudo, e viva.
A equipe alfa combinou comigo os detalhes da missão e como ela se daria. Eu sabia que teríamos sucesso, pressentia aquilo. Durante todo o dia ficamos na cola dos atravessadores, da Bruna e da Suelen. Observamos atentamente os seus passos para que eu me familiarizasse com rostos, lugares e me concentrasse em como agir. E no outro dia, eu já iria entrar com o disfarce. Só reencontrei David no hotel aquela noite, quando ao chegar ao saguão eu vi David chegando de algum lugar também. Aproximamo-nos, ainda cautelosos pela nossa última discussão.

— Correu tudo bem hoje? – ele perguntou ao meu lado.
— Vai ser fácil, estou confiante... E você? Onde esteve, correu tudo bem?
— Não tenho essa resposta...

Afirmei em silêncio e analisei o semblante preocupado e triste dele. David pigarreou e com as mãos na cintura me perguntou:

— Já jantou?
— Comi um lanche de rua com o Mike.
— Não vai na onda daquele avestruz! Ele come qualquer porcaria.
— Foi só um cachorro quente, não encana.
— Então não quer jantar?
— Você quer jantar comigo?
— Dá para parar de responder com mais perguntas?

Ri e enlaçando meu braço ao dele, respondi o puxando:

— Vamos lá, me pague o que tiver de mais caro neste hotel.
— Você já me deve muito para eu gastar tanto assim.
— Ei, eu vou te pagar todas aquelas cervejas quando isso acabar!
— Quer saber, eu vou pedir um miojo pra você. Nada de gastos com a princesinha até me pagar.

E foi assim que fizemos as pazes.
Jantamos e conversamos idiotices como era costume, e não tocamos em assuntos amorosos e nem sobre a missão. Depois que nós subimos, eu entrei no meu quarto e dormi, não tive nem tempo de pensar em problemas, e evitei pensar no . Precisava de muita concentração na missão.
Na manhã seguinte, novamente me reuni à equipe alfa, e nos preparamos para agir naquela tarde. Liliane, a agente que estaria comigo, já havia sido implantada a um dos lotes, e eu precisaria agora estar ao mesmo lote que ela.

18:59 pm


A rua escura daquela região perigosa de Ancara estava deserta, mas não o suficiente para eu não ter medo. Caminhei com as mãos aos bolsos olhando para todos os lados e quando cheguei perto da esquina que eu deveria virar, o meu coração bateu mais forte.
Assim que dobrei a esquina, os atravessadores estavam ali. Vesti-me da personagem de mulher perdida e assustada, numa rua tenebrosa da Turquia, e preocupada com os homens estranhos que se colocaram a segui-la. Entrei numa rua e parei olhando para trás. Os homens aproximavam-se sérios, mas falando mansamente naquela língua que eu desconhecia.

— Please don't do anything ... Don't hurt me... Do you speak English? – perguntei em inglês se eles me compreendiam, e implorei para não me fazerem mal.

Os homens se entreolharam confusos, e não me responderam, mas apressaram-se na minha direção. Eu comecei a correr simulando uma fuga, onde eles me perseguiram correndo também. Facilitei as coisas para eles, quando entrei no beco sem saída, sendo eu mesma a me encurralar. E então, um deles me segurou prendendo meu pescoço com uma faca, ou canivete. Não vi o objeto, mas senti o aço frio tocando meu pescoço. Parei de me debater e encarei o segundo homem a nossa frente, que indicava com a mão para eu fazer silêncio e os seguir. Assenti com a cabeça, e fui levada por eles. Parte um: concluída.
Eu não via nada com aquele saco preto na cabeça há cerca de uma hora. Meus punhos doíam pela amarra que eles fizeram, e quando o carro parou eu supus ter chegado onde era o ponto. Assim que me puxaram para fora do carro e me guiaram para dentro de algum lugar que eu não podia ver, eu só fui ter minha visão liberada ao me colocarem sentada num quarto junto a outras várias mulheres amarradas e amordaçadas.
Encarei o rosto delas, assustados, chorosos, alguns machucados e em silêncio me sentei ali. Havia súplica em seus olhos e solidariedade a mim. Procurei com o olhar, disfarçadamente, Liliane. E não a vi. E não, não era para não vê-la ali. Algumas horas depois, três mulheres foram jogadas pelos homens dentro do quartinho que estávamos, e uma delas era Liliane. Encarei a cena assustada e curiosa com o que haveria acontecido.
Não podíamos nos falar, e evitamos ficar nos encarando, por isso eu não saberia o que aconteceu. E ficamos ali naquele quartinho escuro, trancadas e amarradas, sem comida ou água, até a noite seguinte. Quando finalmente, iríamos ser transportadas. Eu estava certa, Bruna não iria esperar. O nosso lote se juntou aos outros dois, e lá seguíamos com os bandidos, para um ponto de entrega perto do porto.
Novamente, com olhos vendados por sacos nas cabeças não vimos o caminho feito, e ao chegarmos ao porto, apenas quando ela chegou que os sacos foram sendo tirados. Eu ouvia a voz dela a falar com os atravessadores, na língua local. Em alguns momentos, o tom de voz parecia mais alto e bravo como se ela estivesse brigando com os capangas.
Até que o escuro do saco preto foi substituído pelo escuro do céu noturno. Percorri o olhar pelo lugar, ainda temerária. E não avistei nada diferente, além de nós – as vítimas –, os bandidos, Bruna e Suelen. O olhar atento e assustado de Bruna a me encarar, com o saco preto que estava em meu rosto em suas mãos, encontrou-se com o meu, igualmente assustado e falsamente surpreso. Ela novamente perguntou algo para os homens que a responderam, e voltou seu olhar para mim.

— Bruna? – perguntei com minha expressão de “eu não acredito que você faz isso”.
, como foi pega?
— Eu estava perdida, e esses homens... Bruna! O que você faz aqui? Pelo amor de Deus me ajuda! Me tira daqui! O que está acontecendo?
— Cala a boca! O que você faz aqui?
— Eu já disse! Eles me sequestraram Bruna! Bruna, por favor, liga para a polícia!

SLAP!


O som de um tapa forte que ela deu no meu rosto só não era maior que a queimação na minha pele.

— O que você está fazendo?! – gritei nervosa tentando avançar sobre ela.

Um dos homens veio em minha direção para me segurar, e Bruna, totalmente fora do controle me encarava espumando raiva.

— Eu estava louca para te encontrar, e acabar com essa sua carinha de vadia! Não é muita coincidência a delegadinha aparecer nos meus negócios?!
— Negócios?
— Onde eles estão, hein!?
— Eles quem sua vadia!?

Bruna avançou sobre mim, e puxou os meus cabelos para trás me encarando com raiva.

você não sai viva daqui hoje! Sempre tirando tudo de mim! Me tirando o Lucas, depois o e até a minha filha!
— Do que você está falando?! Eu não tenho nada a ver com o Lucas! Como assim tirando ele de você? Ele está preso! O que vocês são?
— Você realmente acha que eu sou idiota? Eu já sei que você sabe de tudo, sua vaca!
— Eu não sei do que está falando! Eu estava viajando quando me perdi nas ruas e...

SLAP!


Outro tapa no rosto. E eu queria voar em cima dela.

— Sua...
— Como alguém que sofre um atentado há algumas semanas de repente sai pra viajar depois de deixar o e a pra trás, hein?! Você acha que eu não sei de nada? Que eu não sei do David e de você? Poupe-me, sua songa monga! Eu sei que você está aqui infiltrada! Que ousadia a sua, aliás!
Eu ouvia a tudo atenta. Ela sabia de tudo, e agora? O que eu iria dizer?

— Você pode não ter morrido quando eu mandei, mas agora eu mesma vou acabar com você !

Bruna ergueu a arma em minha direção, e engatilhou a bala rapidamente. Ela era uma profissional. Uma exímia matadora. Suelen assustada virou-se para ela, em minha defesa:

— Bruna! Não é hora de perder tempo, temos que atravessá-las!
— Cala a boca! Não percebeu? Ela é tira! É policial e a federal está com ela! Qualquer uma dessas vadias amarradas aqui pode ser uma agente!

Suelen encarou Bruna, que gritava nervosa... Não... Neurótica, ela estava neurótica com a possibilidade do nosso plano.

— Não pira, Bruna! Com exceção da , todas foram pegas há muito tempo!
— Tem certeza? Se a entrou agora estes idiotas podem ter trazido mais!

Bruna apontou a arma para um dos atravessadores que estava parado atrás dela, o homem sobressaltado levantou suas mãos, e eles começaram a falar em turco, exaltados.
Enquanto ela discutia sabe-se lá o quê, eu observava a região pensando em como sair daquela situação. Os alfas deveriam estar em algum lugar dali, mas por alguma razão estavam evitando a distração da Bruna. O que me fez pensar, se eles realmente estavam lá.
O capanga que me segurava me apertou mais quando de repente Bruna atirou no seu comparsa e o homem caiu de uma vez ao chão.

— Bruna!
— Cala a boca Suelen! – ordenou ela e Bruna voltou à arma na minha direção — Anda! Fala! Cadê o David?

Vi o semblante de Suelen mudar.

— Eu não sei de nada! Eu já disse!

O estampido da bala atingindo Liliane me fez arregalar os olhos. Na mesma hora minha comparsa caiu ao chão, ainda acordada e se contorcendo de dor.

— Eu vou ter que matar a sua cúmplice ou você vai me dizer, onde, quando e como eles vão agir? Eu quero a cabeça do Albuquerque! E eu quero a sua cabeça também!

Observei Suelen, discretamente, e como se soubesse que Bruna falava do ex-namorado de sua irmã, a mulher empalideceu.

— O que você disse?
— Cala a boca Suelen! – Bruna gritou uma última vez com a mulher, que se calou confusa, caminhando até Liliane e me encarou decidida: — Não vai falar?
— Tá! Já era para ele estar aqui, eu não sei o que aconteceu!

Bruna riu debochada e deu outro tiro em Liliane. Pouco tempo e a mulher fechou os olhos.

— Para com isso! Bruna, oque você pretende? Por que está metida nisso?
— Eu odiei saber que era você a noiva do Lucas que o impedia de ficar comigo e quando ele se livrou de você, eu realmente achei que tudo ficaria bem!

Ela caminhou engatilhando a mão na minha direção, o homem que me segurava, no entanto, desamarrou a minha mão sem ela perceber. Ele sabia que iria morrer se não me ajudasse.

— E então, Lucas me diz que você estava em Mato Alto, com o pai da minha filha brincando de casinha! Eu juro por Deus, que quando te vi lá, eu queria meter essa bala no meio da sua cara! Por sua culpa, a minha filha e o amor da minha vida corriam perigo!

Na mesma hora gelei.

— Você está dizendo que foi ameaçada, este tempo todo a isso?
— Você acha o que sua vagabunda? Que eu realmente gostei da proposta do Lucas? Que eu realmente estava nisso porque quis? Eu fui enganada quando era uma menina com o sonho de ser uma modelo! Trazida pra esse inferno e passei por todo o horror possível! Tudo para protegê-los!
— Bruna, você podia ter entregado tudo! Você podia ter pedido por ajuda e ainda, ajudado a polícia!
— Cala a boca! Não é a toa que foi tão fácil para o Lucas incriminar você! Você é ingênua demais quando está abrindo as pernas pra alguém !

Na mesma hora, eu quis avançar sobre ela, mas não pude. O som do tiro me paralisou, e eu vi o homem atrás de mim caindo ensanguentado com a cabeça estuporada. Aquela mulher havia se tornado um monstro.

— Eu fui julgada por todos eles. Laura, , nenhum deles entendia que eu não queria ser mãe. Que foi um acidente! Eu amo sim a , mas eu não tinha o direito de escolher? Eles me apedrejaram por querer seguir meu sonho, mas quando cheguei neste inferno eu nunca desejei tanto não ter abandonado eles... Aí você surge e vive a vida que era pra ser minha, ao lado deles...
— Bruna...
— Eu vou te matar por muitas razões ! Mas a maior delas é por você me tornar a grande vilã quando apareceu na vida deles...
— Parada aí Bruna!

A voz de David quando eu estava a centímetros de um tiro que ela iria dar, foi o suficiente para fazer Bruna olhar na direção dele, mas não atirar em mim. David indicou a arma na sua mão e a abaixou devagar.

— David Albuquerque... Eu estou há muito tempo querendo essa sua cabecinha inteligente na minha cabeceira.
— Só a cabecinha?

Ele fez uma piada. Sério, mas com um sorriso ridículo, ele fez piada. O que David pretendia? Parar Bruna no riso?

— Todo mundo! – ele gritou – Ninguém faça nada!
Hm... Então estou cercada, mesmo?
— Nós também, afinal, você não ia contar só com dois atravessadores burros não é?
— Você é muito espertinho e eu odeio isso.
— Que tal uma troca? Libera a , deixe-a levar a agente baleada e eu fico no lugar dela?
— Nunca! Você não me ouviu? Eu quero vocês dois!
— Você está muito gulosa não acha?
— Albuquerque... Não brinca comigo! Eu não sou as suas vadias!

Bruna engatilhou a arma na direção dele, e me deixou livre para me abaixar e pegar a arma do cara estirado no chão, mas se eu fizesse isso... Os capangas dela iriam atirar. Encarei David que me lançou seu olhar reprovador.
Droga, eu precisava de uma arma.

— Acaba logo com isso Bruna! – Suelen gritou.
— Sua cunhada tem razão, David. – Bruna falou — Você já me atrapalhou demais.

Dito aquilo, Bruna retornou para mim e atirou. Abaixei-me com a mão no ombro pelo tiro dado.

— Desamarrada é? Então melhor eu parar de brincar.

Antes que ela atirasse de novo, Suelen atirou em Bruna, mas errou. Enquanto Bruna se ocupava de matar a sua ex-comparsa, eu peguei a arma do capanga morto e atirei nela. David pegou sua arma no chão já embaixo de outros tiros. A guerra estava instaurada: a quadrilha de Bruna surgiu atirando e os alfas também. No meio dos tiros as mulheres vítimas, eram levadas pela equipe beta para lugares seguros, algumas baleadas. Suelen devia estar revivendo o horror de muitos anos atrás, porque sua expressão era de trauma. Bruna havia direcionado mais dois tiros em Suelen, e eu me levantei pronta a atirar nela, mas David foi mais rápido. Correu em minha direção, preocupado e abaixou-se:

— Você está bem?
— Era para eu atirar nessa vadia!
— Não é a hora e nem o lugar de discutir, vamos!
— Pegue a Suelen! Ela está muito baleada! Eu pego a Liliane!
— Você está sem colete, fique quieta!

E como uma ordem, David me abraçou e nos levantamos sob os tiros, com ele apoiando o seu corpo sobre o meu. Em algumas ruas atrás dos contêineres do porto estava armado o ponto de resgate. Outros agentes retornaram para lá com o corpo de Liliane e Suelen direto para uma das viaturas médicas.
As mulheres vítimas estavam assustadas e eufóricas, algumas muito feridas já eram atendidas e encaminhadas ao hospital. David me deixou sendo atendida em uma das viaturas, e ia voltar para a zona de combate que mais parecia uma favela do Brasil em plena ação contra o tráfico. O que não deixava de ser verdade.

— Aonde você vai? – perguntei.
— Dar reforços! A quadrilha que ia fazer a compra chegou.
— Então eu vou também.
— Você fica aqui! Deixe os médicos olharem este ombro.

O socorro médico local e a polícia do país, que estava em parceira conosco atendia aos feridos, e ajudavam dando cobertura.
Depois de vinte minutos de que eu havia sido socorrida, a troca de tiros acabou e a correria foi maior. Entre presos e atendimentos médicos, eu já estava com os primeiros socorros feitos, e aguardava David voltar. Até que o vi sendo trazido numa maca.

— David!

Quando me aproximei, ele sentou-se na maca com um pouco de dificuldade.

— Calma! Calma! Foi só um tiro no ombro, pra gente ficar combinando.
Comecei a abrir a jaqueta dele, e a retirar sua roupa.
— Você quer fazer isso aqui e agora? – ele riu fraco.
— Você não seria trazido numa maca, por causa de uma bala no ombro! Não adianta tentar me esconder! Aqui, aqui! – acenei para um dos médicos que caminhava até nós.

O médico terminou de tirar o colete que estava perfurado na altura do abdômen, com um projétil de fuzil pela metade do corpo dele.

Puta que pariu, David...

O médico falou alguma coisa para mim em turco que eu não entendi.

— O quê? O que ele disse?
— Vai me levar direto ao hospital, não dá pra mexer no ferimento aqui... Procure o agente Cortes para mim, rápido.

Saí em direção aos alfas que estavam reunidos numa viatura.

— Cadê o Cortes?
— Sendo atendido ali.
— Situação grave?
— Não. O que houve? Você foi atendida?
— David está indo para o hospital, e eu vou com ele. Estou colocando o Cortes e o Michael como responsáveis na ausência do comandante Albuquerque.
— O quê? Espera...

Os homens ficaram confusos, principalmente por eu nomear o Cortes na situação.

— Cadê ele? – David perguntou assim que me aproximei.

O médico murmurava algo como se me apresasse, e mesmo não entendendo eu apenas assenti para ele.

— David calado! Já resolvi. Fala para o médico que eu vou te acompanhar.
...
— Vamos, vamos! – falei em português assentindo e o médico pareceu entender.

Guiaram a maca, direto para ambulância onde eu entrei também, e enquanto fechavam a parte de trás deixando apenas um paramédico conosco, David me encarava sorrindo.

— Para de rir ou eu vou arrancar esta porra dessa bala! – falei nervosa.
— Eu estou rindo porque... É engraçado... O que você fez?
— Avisei que íamos para o hospital e coloquei o Mike e o Cortes no comando. Não era isso?
— A sua sorte... – ele sorria segurando o riso pela dor que sentiria se gargalhasse: — É que a minha equipe é bem treinada, e sabe que não fui eu quem deu a ordem. Mike não lidera equipes a não ser de inteligência, e o Cortes está três patentes abaixo de mim...
— E pra que queria que eu o chamasse?
— Para te acompanhar. Eu sabia que você ia querer vir comigo, e ele fala turco, você não.
— Um intérprete? A porra de uma bala de fuzil no seu abdômen e você procurando um intérprete para mim!? Eu quero te bater, Albuquerque!
— Ok, mas... Como vai se comunicar lá? Com língua de sinais?
— Eles que se fodam! Eles têm ao menos que entender inglês!

David riu e na mesma hora sentiu dor.

— Para de rir!
— Preocupada comigo?
— O que você acha?

Ele sorriu abertamente e desacordou. O paramédico colocou um ambu em seu rosto, e até chegarmos ao hospital, seguiu com o atendimento de socorro.
Eu não estava nem um pouco calma, e nem aliviada, e nem conseguia reagir direito. David estava gravemente ferido, coincidentemente com os mesmos ferimentos que eu tive, e agora estava desacordado enquanto sua pressão caía bem diante dos meus olhos, naquele aparato médico tecnológico todo, ao qual foi conectado.


Capítulo 37 - Brisa e Ventania

Minha cabeça não parava de pensar nas palavras ditas por Bruna. Ela foi ameaçada a se tornar cúmplice, mas mesmo assim, havia uma forma de sair daquilo. Eu não me conformava! Ela se acomodou com a situação, escolheu continuar na criminalidade ao lado de Lucas... E ainda teve coragem de me dizer que era o grande amor da sua vida? E que amava ? Mesmo após dizer à própria criança que não a amava! Eu me sentia enjoada. Não sabia se pela medicação ou por todos os pensamentos.
Logo que chegamos ao hospital, David foi levado para a emergência, e eu tive um pouco de dificuldade para preencher a ficha dele, mas consegui com ajuda de uma enfermeira bilíngue. Com os exames iniciais feitos, David foi levado com urgência para cirurgia, e eu fui arrastada por uma enfermeira, a ser examinada direito por um médico. Até a caminho da sala de operação, David que mesclava entre acordado e desacordado, mesmo com efeito de anestésicos, fez questão de dizer ao médico sobre o meu ferimento.
Então, eu estava naquele quarto coletivo, recebendo a medicação na veia, e com todos os curativos feitos. Depois de um tempo Mike surgiu e conseguiu que me liberassem daquele leito, em seguida retornou até fora do hospital, o agente Guinle estava chegando e eu fiquei na sala de espera da ala cirúrgica. Os médicos se aproximaram, e disseram que David estava bem, mas a cirurgia demoraria um pouco mais por algumas complicações. Meus batimentos aceleraram e eu fechei os olhos encostando a cabeça à parede, em oração.

— Os médicos disseram algo? – Mike perguntou assim que retornou e eu abri os olhos me deparando com ele e outro homem ao seu lado.
— Complicações farão a cirurgia demorar um pouco mais, mas David se encontra estável dentro do quadro. E o senhor, quem é?

Perguntei encarando o homem que não deixava de me olhar e analisar cada milímetro do meu rosto.

— Que irônico você aqui fora e ele lá dentro... Não imaginei este cenário de novo em anos.
— Então... O senhor foi o meu superior há alguns anos.
— É uma grande satisfação percebê-la bem, . Muito prazer... – estendeu-me a mão para cumprimento — Guinle.
... Mas, o senhor já sabe. – cumprimentei de volta.
— Eu só passei para ter notícias do quadro de David e vê-la, preciso voltar e entregar relatórios. E quando ele acordar, vocês me avisem...
— E a Bruna? O que acontece a ela agora?
— Ela certamente será presa. Se... Se sair da situação que se encontra. – Guinle me respondeu.
— Ela também está em cirurgia , mas o quadro dela é grave.

Mike contou e eu assenti preocupada. Não que eu não me preocupasse com a vida da Bruna. E não que eu choraria se ela não escapasse, mas ela era a mãe da . Eu não poderia ignorar aquilo.
Sentia-me um pouco tonta depois de tanta adrenalina, e Mike tentava me convencer a ir ao hotel descansar. Mas, eu não queria e não sairia nem um minuto daquele hospital até que David saísse daquele bloco cirúrgico ao menos.
Quando a cirurgia acabou, ele foi levado para o quarto, e ficou sedado por um tempo. Eu dormi para companhia dele naquele quarto, aquela noite. No outro dia, estava acabada. Minhas costas doíam, assim como o meu ferimento. Havia tido uma noite tenebrosa de tonturas e enjoos, e só percebi que a situação estava crítica quando Michael chegou de manhã.

? Acorda... ?

Hm? – murmurei acordando bem preguiçosa — Oi... Oi Mike, o que houve?
— Tudo bem? – ele abaixou-se um pouco me observando de perto — Você não parece legal...
— Tente dormir neste sofá e você também não vai parecer legal...
— Não , é sério! – Mike tocou minha testa — Você está um pouco quente, e mole... Está pálida também!
— Relaxa Mike...
— Ela passou alguns momentos vomitando à noite... – David murmurou ainda sem abrir os olhos.

Ajeitei-me ainda com o corpo pesaroso, e Mike se aproximou um pouco do leito dele, sem tirar os olhos de mim. Caminhei para me aproximar também.

— Se acordou de madrugada por que não me avisou David? – falei atenta ao seu corpo e rosto, que agora já deixava seus olhos bem à mostra.
— Eu acordei, mas foi como um sonambulismo... Não sei se foi real, ou delírio ainda da anestesia.
— Você passou mal à noite? – Mike perguntou.
— Sim... Um pouco, mas não se preocupe.
— Teimosa... – David reclamou olhando para Mike como se o dissesse para buscar uma enfermeira.
— Eu já volto.
— Como você se sente? – perguntei quando estávamos a sós, David e eu no quarto.
— Meio grogue... E você não foi para o hotel por quê?
— Como se eu fosse deixar você aqui.
... Você está péssima.
— Não vou mentir dessa vez David... Eu passando muito mal mesmo!
— Deve ser intoxicação alimentar. Eu avisei para você não ficar comendo aquelas porcarias com o Mike.

Foi ele terminar de falar e Mike entrar com uma enfermeira que mediu minha temperatura e aferiu minha pressão, e com uma expressão séria pediu para eu acompanhá-la.
Deixei David e Mike preocupados a nos olharem, mas certamente, Guinle chegaria logo para falar com David e eu teria que me ausentar de qualquer forma.
Fiz alguns exames de sangue e o médico que me examinou pediu um re-teste, mas ao que tudo indicava eu estava sob uma reação alérgica à medicação do dia anterior. Fiquei em observação durante os exames, e logo que os resultados saíram confirmaram que eu tive uma reação medicamentosa, mas ao invés de me medicarem de novo, o médico pediu outro exame de sangue. Não entendi bem, mas aguardei. Até que uma médica surgiu à minha frente, falando em um inglês um pouco embolado.

— Ah, ?
— Sou eu. – respondi e ela se aproximou risonha.

Indicou-me para segui-la até o consultório dela e ali nós conversamos. Entre tantas perguntas, o caminho que a conversa estava tomando me apavorava.

— O que a senhora quer dizer com... Por que me pergunta isso?
— Bem, ... A sua reação foi típica de um quadro de hipersensibilidade de gestante. Por isso pedimos o re-teste para averiguar e... Existe a possibilidade de você estar grávida. Na verdade, pelos resultados... Você está.

A lágrima que escorreu era de susto e não de felicidade. E não haveria a menor chance de ser diferente. Eu, grávida? Depois de surtar tantas vezes com aquilo e não ser nada? Depois de começar a compreender que eu desejava aquilo num futuro com , mas não ser a hora certa? Justamente naquele momento em que eu havia levado um grande pé na bunda? Aquilo estava errado! O exame estava errado! Tudo estava errado! Eu comecei a sentir o ar rarefeito... Era psicológico, claro! Mas eu sentia a falta do ar... Gravidez? Psicológica! Era isso! Tinha que ser aquilo!
Eu não estava em casa, eu não tinha ninguém naquele momento para poder me abraçar e dizer que tudo ficaria bem, além de David...

— Eu... Sofri um acidente há um mês. Como, como isso não foi notado? Eu levei um tiro no abdômen! Quando, quanto tempo tem isso? – perguntei à médica ainda tropeçando nas palavras e segurando o desespero.
— Exatamente quatro semanas e meia. O seu acidente pode ter sido um pouco antes?

Fiz os cálculos do dia do atentado. Se fosse verdade, eu já estava grávida. Não poderia ser antes, já que eu fui para a fazenda bem antes de sofrê-lo.

— Não, não foi antes. Eu... Eu... Como isso não foi notado?
— Bem , era apenas um embrião, a detecção só se daria se os médicos pedissem os exames... Uma gravidez não é detectada em um exame de rotina, é preciso um exame específico de sangue. O que nos motivou a realizar a análise da sua coleta foi justamente a reação alérgica. E olha... São apenas quatro semanas. Não dá nem para ver algo, mas nós podemos fazer uma ultrassonografia agora se você quiser, para termos certeza da integridade do seu útero, por conta deste acidente.
— Eu... Não, não tudo bem... Já foi feito tudo isso na época, está tudo certo com meus órgãos... Só não imaginei que não iriam me dizer que eu estava grávida... Eu voltarei ao Brasil em breve e irei ao meu médico. Muito obrigada pelo atendimento doutora.
— Claro. Eu espero que seja uma boa notícia! – ela sorriu simpática.
— É, é sim... Apesar das circunstâncias.

Sai do consultório, trêmula, assustada – na verdade, desesperada – e quando entrei no quarto do David, Mike já não estava lá. Caminhei como um zumbi em sua direção. David me encarava intrigado sentado ao leito comendo.

— Ei, o que houve? – perguntou-me indicando para sentar em sua cama.

Eu nem mesmo pensei, a poltrona ao seu lado onde eu deveria me sentar estava vazia, mas me desabei sentada em seu leito encarando os seus olhos, em transe.

— Você está bem? – ele perguntou desconfiado.
— Eh... Cadê o Mike?
— Foi fazer umas coisas para mim. , por que está chorando?
— O quê? – passei a mão no rosto limpando o rastro de lágrimas.

David largou os talheres de plástico, eu respirei fundo e já tomei posse do que ele comia forçando-o a continuar. Ele ainda em silêncio abriu a boca para receber a comida que eu servia-lhe.

— Não é nada grave. – respondi.
— E você chorou?
— Não foi por minha causa.
— Bem, o que a médica disse?
— Foi uma reação alérgica ao medicamento. – respondi, mas as lágrimas não paravam de escapar.

David fechou os olhos num lamento, tirou as coisas da minha mão e me fez encará-lo.

— Você está grávida, não é?
— O que te faz pensar uma coisa dessas? – tentei mentir.
— Bem, se fosse um tumor você não estaria chorando, estaria revoltada e reclamando do quão a vida é uma merda. Mas, você está chocada, com medo e aflita. Ou seja... Você está grávida.
— Tem experiência no assunto, David? – zombei a fim de tentar parecer mais calma.
— Ah ... – David murmurou num tom de voz acolhedor e me puxou para perto de si num abraço, depois de me pedir pra retirar a bandeja de comida.
— Que merda, a minha vida é uma novela mexicana!
— Ei... Se a sua vida é uma novela mexicana então eu sou o coadjuvante que sente um amor impossível pela mocinha... Tem certeza que o pior papel é o seu?

David falou sorrindo tentando me reconfortar e eu, não pude me soltar de seu abraço enfermo, e nem mesmo segurar o choro forte que embargava minha garganta.

— Calma, calma... Eu estou aqui, tudo bem?
— David... – me soltei finalmente o olhando — Como isso foi acontecer logo agora?
, vocês não terminaram de vez. Assim que contar ao ele vai ser o homem mais feliz do mundo!
— David... Eu... Só não queria que fosse assim! Como uma prisão para ele!
— Que isso ?! Para né? O agroboy é louco por você! Ficou claro até para mim que só o vi uma vez!
— Eu não queria que fosse desse jeito...
— Ei, olha só! Se estiver se comparando agora com o momento em que a Bruna engravidou dele, você está pirando! Não tem nada a ver, e com certeza ele queria isso não é?
— Sim, sim... Ele e toda a família, mas... Que droga... Logo agora?!
— Eu juro que ainda não entendi o problema... Vocês se amam, estão noivos e vão ter um filho.
— Ele terminou comigo David! Você não tem ideia de como é o ! Se ele chegou a ponto de decidir terminar é porque ele não quer arrastar mais isso, do contrário a gente ficaria discutindo uma vida inteira! Mas, ele terminou! Não é como se ele quisesse “dar um tempo”... Ele... Ele não agiria assim.
... – David segurou minha mão apertadamente me fazendo baixar o olhar em mais lágrimas — Olha pra mim.

Obedeci e encontrei seu suspiro pesado, seu sorriso calmo e seu olhar de conforto.

— Se na pior das hipóteses ele não quiser assumir, eu assumo o seu filho se é isso que te assusta. Ângelo, Vera e eu nunca deixaremos você.

Achei que era piada, até perceber a seriedade da voz e da expressão dele. David andava muito sério a partir de uns tempos em que eu o conhecia melhor.

— Assumir um filho que não é seu, David? Da mulher que você ama ainda, por cima? Sério?
— Qual o problema? Eu sempre estive preparado para assumir um filho meu de alguma mulher que eu não amasse... Os papéis se inverteram, mas em todo caso te conheço bem demais para saber que o seu choro e medo não tem nada a ver com uma representação masculina ou não ao seu lado. Tem a ver com ele, e com o momento de vocês... Então, só não fique criando hipóteses e sofrendo antes da hora, bem?
— Eu não posso mais ficar sem você na minha vida, e eu queria muito que isso não acontecesse porque seria mais justo contigo.
, não ouse me abandonar. Eu estou doente. – ele falou bem humorado.

Fez piada. Como sempre. E eu tinha que admitir, David estava certo: meu dedo era muito podre.
Eu voltei para o hotel para tomar um banho assim que os agentes se reuniram com David e Mike me acompanhou. Horas depois, eu estava deitada na cama do quarto tentando abstrair de tudo, mas chorava copiosamente. Não conseguia nem ficar em posição fetal, pela simples menção à palavra. Estava estatelada na cama, olhando o teto do quarto embaçado por minhas lágrimas. Decidi levantar e caminhar até a varanda do meu quarto, e a brisa que sacudiu meus cabelos não era páreo para a ventania dentro de mim. Puxei o telefone da minha bolsa, num ímpeto de coragem e liguei para ele, mas não me atendia. Liguei para casa, mas só dava ocupado.
Agachei ao chão, abraçada aos meus joelhos e chorei. Sentia-me abandonada, culpada, burra e arrependida tudo ao mesmo tempo, mas assim que um pássaro pousou na grade da varanda e piou, eu olhei para ele. E então levei à mão à barriga. O pássaro me lembrou de , e me lembrava de filhos. Eu estava esperando um filho. Eu realmente me sentia abandonada, culpada, burra e arrependida, mas no meio de tudo aquilo, eu me sentia também muito feliz. Eu teria um filho do , o amor mais certo de todos os meus amores errados.


Capítulo 38 - Adeus de uma Delegada

Dois dias depois, graças à Polícia Federal, David conseguiu sua alta médica, embora ainda requeresse cuidados. Faria acompanhamento no Brasil, no Hospital da Polícia e com isso pudemos nos preparar para ir embora. Eu ainda não havia conseguido falar com , e o que me preocupou ainda mais é que também não conseguia falar com titia, nem mesmo com Rosa. Alguma coisa deveria ter acontecido. Fui até o quarto de David para encontrá-lo a fim de descermos ao check-out, e ele com um pouco de demora abriu a porta, com uma cara de dor.

Caralho... Nunca um tiro me doeu tanto.
— Sabe que vai ficar de molho quando voltarmos, né? Você tem que fazer repouso absoluto! – informei.
— Nem vou retrucar agora, porque realmente...

Encarei sua expressão de quem não estava bem, e peguei os remédios para dor, que vi que ele havia esquecido à cabeceira.

— Já desceu as malas?
— Mike veio pegar... Ele volta com a gente.
— Certo... Então vamos. Na próxima não esquece os remédios!
Ajudei-o indo até seu corpo e o abraçando.
— Eu consigo andar sozinho, não que eu não esteja gostando disso... – brincou me olhando de lado e sorrindo — Mas, não precisa mesmo.
— Tudo bem...

Afirmei me soltando dele, e vi David propositalmente fazer uma cara triste.

— Não vai ao menos insistir? Poxa, eu estou convalescente!

Descemos pelo elevador e quando chegamos ao térreo, eu fui ao guichê de entrada realizar todo o encerramento da hospedagem. Mike estava animado por finalmente voltar para casa, segundo ele “após tanto tempo”. E dali nos encaminhamos para o carro que nos levaria até o aeroporto particular, onde o mesmo jatinho que nos trouxera, nos levaria.
No voo de volta ao Brasil, David dormiu a maior parte do tempo e Mike eu pudemos conversar um pouco, mas a verdade é que eu não estava muito falante, na hora em que Mike decidiu dormir também, eu até fiquei feliz. Estava uma pilha de nervos com as notícias recentes, ansiosa para chegar em casa, e extremamente preocupada com o sumiço da família pelo telefone. O que teria acontecido? Era o pensamento que trazia inúmeras hipóteses à minha mente, e nenhuma que realmente me tranquilizasse.
Chegamos em São Paulo algumas horas depois, e eu até havia tirado um cochilo rápido, mas nada que me retirasse o cansaço do corpo. Vera e Anjinho nos encontraram no aeroporto, então, quando o jatinho aterrissou na base militar não tivemos nenhum tumulto a ser presenciado. Mike e eu pegamos as nossas bagagens e saímos os três em direção ao hall do aeroporto particular da Polícia, e logo avistei Verônica acenando distante para nós, e com uma expressão de quem discutia com Anjinho.

— Meu casal! – abracei-os apertado e já cochichei: — Não estão brigando, não é?
— Ângelo insiste que você e David fiquem lá em casa! E eu falei que não tem necessidade, que vocês precisam de espaço, afinal, vocês não são um casal e não vão dividir uma cama! – Vera voltou a falar óbvia a ele antes mesmo de cumprimentar os homens ao meu lado.

Os dois começaram a discutir novamente, Ângelo tentava me explicar e eu fiquei parada observando sem acreditar que aquilo era sério.

! Eu só acho que é melhor termos três olhos sobre o David, que está ferido, para ajudar! Se acontecer qualquer coisa você vai estar sozinha com ele e...
— E exatamente Ângelo! – Vera o interrompeu: — Ele está ferido!
— A não se importa de se acomodar em outro espaço, não é? Podemos inflar um colchão na sala de jogos, o que acha ?

Anjinho soltou a pergunta e eu fiquei os encarando inacreditável. David se pronunciou antes mesmo de eu pensar no que dizer.

— A não vai dormir no chão por minha causa, pessoal. Combinamos que eu vou ficar no apê dela, só por um tempo.

Vera trocou olhares entre David e eu, confusa. Ela sabia que eu havia levado um pé na bunda de antes de viajar e aparentemente, havia contado ao Ângelo que estava igualmente suspeito.

— Não estamos juntos! – bradei — Vocês dois são inacreditáveis, sabia?
— Vera, não vai cumprimentar o Mike? – David disse dispersando a atenção para Mike que nos olhava a todos, com um sorriso de canto.
— Mike? – ela o direcionou um olhar confuso e ele retirou os óculos, e logo Vera o reconheceu: — Ai meu Deus, é você!
Vera gritou e correu na direção de Mike o abraçando forte, e ele ria a abraçando de volta, com o mesmo carinho.
— Sim, sua chata! Pelo visto continua uma encrenqueira!
— Caramba Mike, que idiota você! Por que não manteve contato!? – Vera soltou-o ainda segurando os braços dele.

Olhei de relance para a cena bastante confusa, lógico, eu não tinha memória e perceber Vera tão íntima de Mike era estranho. O que na hora eu pude perceber também, por Anjinho que observava a tudo, bem sério. David e eu trocamos olhares e sorrimos. Ciúme. Não era comum presenciarmos Ângelo naquele estado, mas foi divertido. Vera e Mike ainda engatavam a conversar.

— Eu perdi bons anos da minha vida em missão. Se eu te disser que nem a minha mãe lembra direito da minha voz, você não vai acreditar.
— Aquela missão?
— Aquela, que se vinculou a outra, e outra, e a esta de agora... Enfim, mas estou livre.
— Caramba... – Veronica gritou então para o David: — David! Por que não me contou que tinha contato direto com o Mike!?
— Vocês nunca se deram bem, por que eu ia contar?
— Porque ele é um nerd da inteligência policial! Você sabe quantos códigos eu me fodi pra decodificar?
— Ah... Eu sabia que ela estava receptiva demais! Mercenária! – Mike reclamou e nós rimos.
— Não quero saber, você vai me passar o seu telefone! – Vera ordenou e então se lembrou de seu noivo: — Ah! A propósito, este é o Ângelo. Meu noivo.
— E aí, tudo bem? – Mike e ele se cumprimentaram.
— Certo, certo... Vamos. David e eu estamos moídos. Mike, você vai para onde? – interrompi antes que eles sentassem no chão mesmo e começassem a conversar.
— Ah, não se preocupem, a minha namorada já está aí fora me esperando.
— Namorada? – perguntei.
— Não teve contato com sua mãe direito, mas teve uma namorada? – Vera zombou.
— Uma maluca que ainda não terminou com ele, sabe-se lá o motivo... – David também zombou.
— Quer ver o motivo, Dave?
— Tá legal, vocês dois... – ralhei puxando Mike num abraço: — Se cuida, cara. E não some.
— Foi incrível poder trabalhar com você de novo, .
— Foi incrível para mim também, obrigada por tudo.

Logo todos havíamos nos despedido e por mais que David reclamasse, Ângelo arrastou sua bagagem. Dentro do carro de Anjinho, decidimos ir direto para o apartamento em que eu ficava, o que era de Ângelo, mas alugado para mim. E logo que cheguei, percebi que as poucas plantas estavam bem regadas.

— Obrigada por regá-las Vera.
— Ah não, foi o Ângelo! Eu esqueci totalmente.

Entreolhamo-nos e eu decidi não passar sermão.

— David, vai para o banho que eu vou te ajudar com os curativos. – falei.
— Me ajuda no banho também.
— Eu ajudo! – Anjinho falou de repente totalmente ingênuo.
— Porra Ângelo... – David brincou: — Era para a esfregar minhas costas.
— Relaxa Anjinho, ele não precisa disso. – eu ri e me joguei no sofá vendo David caminhar risonho para os cômodos adentro.

Ângelo e Vera sentaram-se junto a mim e me encaravam preocupados.

— O que o David falou a vocês que eu não sei?
— Nada! Nós estamos preocupados por que... O que você pretende fazer?
— Do que estão falando? – perguntei novamente confusa sobre o assunto.
— Sobre o , ! – Vera afirmou óbvia.
— Exatamente o que sobre ele?
, o que está acontecendo? – Anjinho perguntou tão confuso quanto eu.
— Eu estou grávida. Aparentemente.

As bocas de meus amigos se abriram em surpresa e seus olhos faltaram saltar também.

— Como assim?
— Grávida, Ângelo! A tem um mini na barriga! Espera... É dele, não é?
— Eu não iria transar com o David e engravidar dele em uma semana de término Vera! – briguei com a hipótese de Vera pensar que o filho não fosse do .
— Mas você já contou isso a ele?
— Não... Eu descobri nesses dias finais da missão... Mas, eu quero ir à minha médica daqui. Não que eu esteja dizendo que a medicina da Turquia é duvidosa, mas... Eu preciso de detalhes de alguém que eu tenha absoluta confiança...
... Quanto tempo?
— Segundo o exame que fizeram lá, quatro semanas... Aproximadamente na época daquele final de semana que eu fui para a fazenda antes do carnaval.
— Isso significa que você sofreu um atentado, estando grávida, e ainda partiu nessa missão grávida! Isso tudo foi muito arriscado , como não descobriram isso antes?
— Eu também não entendo sabe, Anjinho... Mas a doutora me falou que se não averiguaram por alguma desconfiança os exames não iriam apontar mesmo.
— O vai ficar louco! Primeiro por conta dos riscos, e depois por essa grande notícia amiga! – Vera se jogou sobre mim num abraço e logo Anjinho fazia o mesmo.
— Você não vai avisar a ele? – Ângelo perguntou.
— Eu não estou conseguindo contato nem com ele e nem na fazenda... Até pensei em ligar para o Gabriel para saber o que houve por lá, estou preocupada...
— Mas, você não vai dar a notícia por terceiros não né?
— De forma alguma! Eu vou saber o que aconteceu, avisar que eu voltei e que em breve estarei lá. Pedir minha baixa aqui na DP e ir embora...
— Pedir baixa? Você realmente vai fazer isso? – Vera se alarmou.
, você não precisa exonerar! Pega a transferência! Isso é o que você mais ama fazer, você não pode...
— Não posso ter o tempo todo que escolher entre o trabalho e a família Anjinho! – o interrompi.
— Mas se você tiver que escolher entre um e outro, então está tudo mesmo muito errado! acorda! Não tem nada que te impeça de ter uma família como todo mundo e ser policial!
— Eu também disse isso a ela. – David surgiu dando forças a Vera: — Mas aparentemente o problema na cabeça dela é ir para o fim do mundo cuidar dos roubos de gado.
— Não zombe David! Você sabe como eu sou, sabe que eu gosto da adrenalina!

A partir daquele momento, meus amigos discutiam o quão absurdo era a minha ideia de largar tudo e tentavam me fazer repensar. Na verdade, enquanto eu fui para o banho eles se dedicaram a pensar nas várias hipóteses possíveis para eu não fazer aquilo. Eu não estava a fim de pensar em nada na verdade. Telefonei para o Gabriel, que notou minha preocupação por minha voz, e me explicou que um raio caiu na antena da fazenda danificando as comunicações.

— Eles estão incomunicáveis, mas está tudo bem com todo mundo ! Agora... É verdade que vocês terminaram?
— Ele te contou, foi?
— É, ele contou... Disse que pediu um tempo.
— Sim, ele não curtiu que eu tenha ido à missão, mas... Enfim... Foi um conjunto de coisas Gabriel. Eu vou resolver algumas coisas da minha vida aqui, e em seguida estarei de volta.
— Você acabou toda a missão?
— Sim... Agora é o fim.
— Como assim?
— Eu quero mudar para aí Gabriel, independente de o me querer de volta ou não.
— Nossa , que ótima notícia para nós! Mas, o que vai fazer com o seu cargo? Quer assumir o meu?
— Você já vai embora?
— Estou assumindo a delegacia da outra cidade, a princípio até enviarem um substituto ficarei no apoio em Mato Alto, mas eu posso indicar um nome. Infelizmente aqui na nossa guarnição não temos outro delegado, mas eu conheço uma delegada que minha equipe adora e é muito competente!
— Tsc... –
estalei a língua — Eu não sei Gabriel... Eu estou com medo. Mas, eu não posso te explicar isso agora, contudo... Eu posso te ligar daqui uns dias confirmando isso?
— Eu vou segurar a sua vaga . Essa delegacia é sua se você quiser.
— Obrigada meu amigo! Posso te pedir mais uma coisa?
— Avisar a eles que você voltou?
— Só ao . Eu não sei se a tia Cora está sabendo de algo, enfim... Ele precisa saber que eu estou voltando e se ele puder dar um jeito de me ligar, eu vou ficar grata. É um pouco urgente.
— Tudo bem, eu aviso. Se precisar de algo me telefone! Se cuide , até mais!


Então havia mesmo uma saída. Os três amigos que estavam à cozinha comendo e bebendo – exceto David, pois eu tive o mesmo cuidado com ele quanto teve comigo – estavam ansiosos para as notícias da minha ligação. Expliquei tudo e eles apoiaram fortemente a ideia de Gabriel. Depois que Anjinho e Vera saíram, David e eu nos acomodamos na sala para ver televisão. Mas, não foi o que fizemos exatamente, ele não parava de me encarar e aquilo estava me incomodando.

— O que foi? O filme está ruim? Ou você só está secando a minha cerveja?
— Sabe que isso é cruel, não é? Você não deveria beber na minha frente!
— Ora, ora! Não foi exatamente o quê você fez tempo atrás? Ainda roubou as minhas cervejas da minha geladeira! – zombei gargalhando.
— Um gole não vai me matar, mulher!
— Olha ele... É bom para cuidar dos outros, mas um suicida ao se tratar de você, não é? Um gole não será o suficiente, mas você também não vai ficar em um gole! Nem pensar!
— Qual é , eu posso beber escondido sabia?
— Se sobrar alguma... – eu gargalhei de novo e depois de vê-lo emburrado como um menino, expliquei com cuidado: — Ei, preciso que você se recupere rápido para ir comigo enfrentar mais uma.

David me encarou com compaixão e pegou minha mão a beijando. Não tinha pena em seu olhar, mas havia um brilho triste que me confortou.

... Tá com medo do quê?
— Sei lá David... É assustador sabe?
— Acha que o vai desconfiar que o filho não seja dele?
— Não! Claro que não! O não seria estúpido assim... Eu acho...

David se mexeu com dificuldade no sofá se aproximando mais de mim, e me puxou num abraço fraterno. Repousei minha cabeça em seu ombro, como fazia comigo quando se sentia triste.

— Eu vou estar lá com você, eu prometo. Assim que eu passar na última consulta e você se organizar, nós viajamos. Até lá, tente falar com ele pelo telefone, adiantar o assunto... Não acho que seu agroboy vai gostar de mais surpresas. me parece o típico machão que não gosta das coisas fora do seu controle.
— Não fala assim dele David! – reclamei me separando do abraço e encarando a expressão debochada do meu amigo.
— Você não gosta de ouvir essa verdade! Mas, quer saber? Vocês dois são iguaizinhos neste ponto. Lutam pelo controle de tudo entre si.

Eu ri, tinha que admitir: David era bom em ler pessoas.
Depois de uma semana que havíamos voltado, eu já tinha conseguido falar com através de Gabriel. Estava bravo ou se fazendo de bravo, mais certo de que era pirraça dele, contudo, conversamos. Não conseguimos decidir nada, eu só avisei que havia algo muito sério para dizer a ele e que em breve estaria na cidade, pedi notícias de todos e então não telefonei mais. E nem ele a mim. O que foi estranho, na verdade, foi a falta do contato de titia ou Rosa. Certamente, ele havia dito-lhes do término e as duas estavam com muita raiva de mim.
David já tinha passado na sua última consulta e recebido alta definitiva, havia tirado os pontos e se recuperava rápido! Era forte, não seria estranho que fosse assim, mas ainda requereria repouso. E eu, já havia ido a minha médica na companhia de Vera, no dia seguinte ao que eu voltei. Era verdade mesmo. Eu estava grávida, não de quatro semanas, mas cinco. Ou, um mês completo se assim preferirem.

— As primeiras semanas são as mais críticas , então até a décima quinta semana, evite se estressar, se esforçar ou ir além do comum. Alimente-se bem, durma bastante e, por favor... Nada de trabalhos pesados, ok, delegada?

As palavras da minha médica ecoavam na minha mente à medida que eu entrava à delegacia. Todos meus antigos colegas de trabalho sorrindo e me cumprimentando ali. Alguns me desejando um feliz retorno. A delegacia estava limpa de novo, graças ao trabalho de todos e de David. A porta da sala do Dr. Abelardo se abriu e ele surgiu com as mãos na cintura num sorriso amplo, na direção de David e eu:

— Seja muito bem vinda, de novo, ! Olá David!

Os dois se cumprimentaram primeiro e eu, retribui o sorriso e os votos, abraçando o homem mais próximo do meu pai ali. Entramos na sala dele, e David recostou-se a um armário enquanto Dr. Abelardo sentava à sua mesa e eu também.

— É muito bom ter você aqui inteira ! Eu confesso... Senti medo de... David! – Abelardo parou de falar comigo encarando ao meu amigo em pé, de forma curiosa: — Sente-se aqui! Vai ficar aí como um guarda-costas da mulher?
— Ah, tudo bem, ela precisa conversar com o senhor, eu vou me retirar já...
— Deixa disso né! Como se não soubesse o que eu faço aqui! – falei o indicando para sentar-se ao meu lado.

Dr. Abelardo olhava de um para o outro desconfiado.

— Como assim , a que veio? Está aqui para retomar seu posto, não é?
— Na verdade não, Dr. Abelardo.
— O quê? O que está acontecendo?
— Eu... Eu quero a exoneração.

Na mesma hora que respondi, David bufou.

— Está maluca? Exoneração? Eu não vou permitir uma coisa dessa garota! Vocês podem ir se explicando! O que aconteceu na Turquia para você vir com essa? David!
— Eu não tenho nada a ver com isso, Dr. Abelardo! – David se colocou em defesa: — Eu disse a ela que está sendo radical!
— Tio Abelardo...

Chamei-o pelo tom que raramente eu usava desde a morte do meu pai. Dr. Abelardo mudou a expressão no mesmo instante. Ele sabia que havia algo muito grande para eu estar tomando aquela decisão.

— Bem... Vamos lá , há tempos eu não faço este papel. – ele sorriu compassivo.
— Eu sou muito feliz com minha profissão, e muito grata por ter sido acolhida aqui pelo senhor e toda a equipe do meu pai. Delegar é como... Como ainda ter um elo com papai, o senhor sabe... Mas eu não sei se devo continuar nisso. Eu estou apaixonada e a nova vida que eu vou ter... Eu não sei se conseguiria permanecer nessa constante adrenalina. Também não posso permanecer em São Paulo.
— Tem a ver com o fazendeiro, não é? Eu até imaginava mesmo que você fosse mudar para lá, mas daí exonerar ? É como o David disse: isso é muito radical!
— Mato Alto tem uma vaga de delegado disponível. O próprio atual delegado quer me indicar, mas... Eu não sei se serei feliz no cargo de interior.
— Você precisa tentar! Se tiver que exonerar seu cargo, faça isso depois de tentar todas as possibilidades! Foi isso que eu e seu pai te ensinamos! A tentar todas as formas, primeiro!
— Eu sei, eu sei... – sorri nostálgica — Papai realmente deve estar decepcionado comigo.
— Não, claro que não! A filha dele resolveu um grande caso, passou por uma grande batalha judicial, e ainda atuou numa grande missão com a Federal. Eu posso garantir que você se tornou exatamente o tipo de policial que seu pai temia: melhor do que ele. E por saber disso , que ele evitou tanto este caminho para você. Era por isso que ele não gostava de ver você passando seu tempo extraclasse enfiada aqui no nosso escritório. Dodô sabia que a filha se esforçaria tanto quanto ele para ser uma boa policial, e como um bom pai que era... Ele só queria que você fosse feliz, querida. É o que eu quero também.

Senti a lágrima escorrer em meu rosto e David começou a rir quando percebeu o Dr. Abelardo sem graça, estranhando:

— Que isso? Você está chorando? A última vez que vi você chorar, , você batia na minha cintura!

Gargalhei e limpei as lágrimas rapidamente, voltando a manter a minha postura sisuda. David ainda observava a tudo calado, mas eu sabia que mais cedo ou mais tarde ele iria zombar.

— Bem, eu... Estou emotiva estes dias. Tio Abel, a questão é que... Eu também não posso trabalhar por um tempo, então... Eu achei que pedir a exoneração é o melhor.
Hm... Isso é alguma prescrição médica?
— É sim.
— Entendo! – ele falou como se soubesse tudo: — Provavelmente é estresse depois de tudo o que você passou! Mas, olha, eu tenho uma solução! Não posso te afastar por mais tempo, você pegou duas licenças por afastamento temporário, e agora a única forma seria com o laudo médico ou psiquiátrico. Eu vou te encaminhar para a psicóloga do regimento, ela pode nos dar aí, uma licença de noventa dias a você. Enquanto isso eu ajeito a sua transferência para Mato Alto e você descansa essa cabeça e se ajeita na fazenda! Mas é só o que posso fazer ! Ainda mais depois que estiver reinstalada lá em Minas, você vai ter que trabalhar! Com outra equipe... Sabe como é!

A disposição do Dr. Abelardo em anotar tudo para que se lembrasse do que fazer não o fez notar minha frustração e a troca de olhares com o David.

— Tio Abelardo... Eu não posso trabalhar mesmo. Não é só uma questão de nove dias... É uma questão de nove meses e alguns anos. Eu vou ter que mudar de profissão mesmo... Ainda mais em Mato Alto!

Dr. Abelardo me encarou com semblante confuso, e depois de arregalar os olhos brevemente, afrouxou a gravata e encarou ao David, que ao notar, sorriu ladino. Lá viria mais uma de suas gracinhas...

— Nove meses e alguns anos...? David talvez você queira me explicar por que a minha menina está dizendo que vai precisar de nove meses e alguns anos de licença!? – eu vi naquela expressão a superproteção do meu pai, e novamente senti saudade, e quis rir.
— Mas é claro! – David se ajeitou na cadeira ao lado como se fosse explicar uma grande fórmula matemática: — andou brincando de médico por aí, e a experiência resultou numa coisinha crescendo dentro dela. Dizem que demora nove meses pra nascer, e mais alguns anos até saber se virar sozinho.

Eu gargalhei não aguentando segurar o riso, após perceber David debochando e o Dr. Abelardo boquiaberto o encarando. Certamente sem ar, visto que sua face estava mudando de cor.

— Dr. Abelardo? – David o chamou.
— Eu posso presumir que você vai lidar com as consequências disso de forma decente, não é? Não me faça atirar nas suas bolas aqui e agora David!
— O quê? – ele riu divertido.
— Tio Abelardo, o David...
— Um momento ! – ele me interrompeu firme e voltou a falar com David acusando-o: — Como você engravida a minha menina e ainda quer deixá-la largar tudo para se virar sozinha? Eu sei que o seu salário é muito bom, mas é um disparate você simplesmente aceitar que ela abandone o cargo!! Vocês dois perderam a cabeça!?

Dr. Abelardo já estava de pé andando de um lado ao outro e David me encarou como se tivesse escutado errado.

— Dr. Abelardo o que te faz pensar que eu sou responsável por isso? A acabou de dizer que está apaixonada e indo embora para o mato. Aliás, foi lá no mato que ela fez isso! Infelizmente eu não tenho culpa. Mas agradeço por saber que o senhor também prefere a mim, ao agroboy.
— Cala essa boca... – eu o belisquei. — Tio Abel, é o . O pai do meu filho é o meu noivo... Ou melhor... Enfim...
— Ah... O fazendeiro... Claro... – o homem se recompôs e voltou a se sentar à mesa a nossa frente, mais calmo: — Meu Deus... Seu pai iria matar este e depois ficar feliz por você! É mais ou menos como eu me sinto. Onde está esse rapaz?
— Lá no mato. – David respondeu e eu quis socá-lo.
— Bem, ele está em Minas. Eu não fui para lá desde que retornamos há uma semana, estou vindo aqui para encerrar tudo e poder ir e levar a novidade.
— Eu só farei uma pergunta, ... – Abelardo me olhou profundamente, carinhoso: — Você está e será feliz com este rapaz?

Absolutamente eu não tinha a resposta. Eu nem mesmo sabia se estaria novamente com .

— Sim, absolutamente! – então menti.
— Eu prometo cuidar dela até ter a certeza que ela não está mentindo, Dr. Abelardo.
— Eu vou confiar em você para isso, David. Bem... Sendo assim, eu te desejo muitas felicidades minha filha!

Ele se levantou para me abraçar e eu o abracei de volta.

— Sabe que este velho sempre será sua família aqui, não é? Por favor, não se afaste tanto. – ele disse e eu novamente comecei a chorar — Está chorando de novo?
— São os hormônios! – David falou quebrando nosso momento carinhoso.
— Só mais uma coisa ! – nos soltamos e Abelardo voltou a me encarar com as mãos ao bolso em sua típica postura que não permitia intransigências: — Eu vou providenciar a sua transferência para Mato Alto, se você realmente quer a exoneração do seu cargo, e quer jogar o seu talento pelo ralo, não serei eu a compactuar com isso! Afinal, acha que é a única mulher policial que engravida? Se todas tivessem que abrir mão do emprego por causa disso, não teríamos tão boas agentes!

Me dei por vencida. A verdade é que a gravidez era desculpa. Eu não pensava naquela exoneração se não por uma única razão: culpa. Culpa por achar que meu trabalho me afastaria ainda mais de . Talvez eles todos estivessem certos. Talvez eu estivesse sendo radical e imprudente. Talvez, eles soubessem bem melhor quem eu era e o que eu deveria fazer, do que eu mesma.


Capítulo 39 - Definitivamente

— Eu gostaria da atenção de todos, por favor...

Os policiais espalhados entre seus afazeres se reuniram, em especial os meus amigos. Dr. Abelardo me olhou sorrindo e com uma mão em meu ombro ele se pôs a falar-lhes:

— A nossa excelentíssima delegada , está se despedindo desta guarnição.

Os burburinhos foram imediatos, e eu me senti feliz por aquilo, significava que havia um carinho daquelas pessoas por mim. Agora, eu não via nenhum dos rostos estranhos de antes, e até mesmo alguns rostos conhecidos: faziam parte da sujeira que foi lavada. Entre todos os meus amigos e fieis “águias” ali, eu pude ler a gratidão e a admiração no olhar de cada um.

— Bem, eu gostaria de dizer que vocês são excelentes companheiros e profissionais. Conseguiram comandar esta aeronave quando um dos pilotos foi amarrado e amordaçado. Descobriram tudo o que era preciso para restaurar a honra desta equipe. E eu sempre serei muito grata a vocês por isso. Há quarenta anos o meu pai, Rodolfo , foi o delegado chefe desta delegacia. Ele pensou em cada uma das pessoas que entraram para dar queixa, em cada vítima e em cada ser humano que trabalhou aqui. Lutou todos os dias para que o nome dele e de seus companheiros se tornasse honrável por onde fosse citado e não é à toa, que esta é uma das DPS mais admiráveis de São Paulo. Eu quero dizer que... –
minha voz embargou e eu tive que me segurar: — Que eu sou muito grata pelo cuidado e confiança de todos vocês em mim. Atuar aqui foi como perpetuar a memória do meu pai e só Deus sabe como meu coração está pequeno em ter que me despedir agora. Mas, nunca se esqueçam de tudo que aprendemos juntos aqui. Nunca se esqueçam dos nossos esforços, vitórias, das dificuldades e tudo o que a mais recente tempestade nos ensinou. E acima de tudo, por favor, nunca se esqueçam de mim porque certamente eu jamais esquecerei nenhum de vocês...

Outra lágrima fria escorreu por meu olho ao me lembrar da despedida de dias antes, na delegacia. Foi como deixar uma parte da minha história ali, afastada de quem eu iria ser.

— Chorando de novo, mamãe? – David brincou ao volante, me encarando risonho.
— Eu acho que a ficha está caindo aos poucos.
— Pela despedida? Estava se lembrando da DP?
— Sim... Nem o chororô de Vera e Anjinho me afetaram tanto porque, logo estaremos juntos de novo ao casamento deles e também porque, eles não vão simplesmente sumir dos meus dias...
— Ora... E nem seus amigos da DP, a menos que você queira. Em todo caso, o Dr. Abelardo brota aqui se você simplesmente o esquecer!
— Eu não pretendo esquecê-los, mas foram anos juntos todos os dias... Entende?
— Entendo sim , mas relaxe. Se recomponha porque já estamos chegando.
— Será que você pode dar a notícia sobre a Bruna? – me lembrei de repente daquele outro problema.
— Mas é claro, eu era o líder da missão. Jamais passou pela minha mente deixar você passar por mais este trauma. Eu falo com ele.

David estava dirigindo comigo em seu banco do carona, estávamos na estrada há oito horas. Decidimos ir para Mato Alto de carro, porque eu queria uma viagem lenta. Uma despedida calma rumo ao meu futuro. Revezamos entre a direção do carro, a cada parada, porque eu ainda estava preocupada com o repouso dele, e ele com o brotinho de feijão crescendo dentro de mim.
sabia que eu estava voltando, eu o avisei dias antes. E por mais que eu estivesse com medo de como ele receberia a notícia, o simples fato de encarar aquela ida como a minha mudança definitiva para Mato Alto, me tranquilizava. Eu iria assumir o posto do Gabriel na delegacia, a transferência estava em trâmite, o que deixou a todos, muito contente: dos meus amigos de São Paulo, aos companheiros da delegacia de Mato Alto. Era reconfortante saber a quão querida eu me tornei naquela cidadezinha pacata. David adentrava a cidade lento, observando os rostos, as casas, a configuração do interior e tinha certo espanto e deboche em sua expressão.

— Tem certeza que é aqui? Acho que entramos em Oz.
— Deixa de ser idiota, o que esperava de uma cidade chamada Mato Alto? É isso mesmo: um lugar ermo perdido entre o tempo e o espaço, mas onde encontrei a felicidade.
— Uau... Virou poeta! É alguma coisa na entrada da cidade, tipo Once Upon a Time?
— Cala a boca! – gargalhei.

Avistei Lúcia caminhando por uma das calçadas e pedi ao David que parasse um momento.

— Lúcia! – gritei e ela sorriu amplamente a me ver vindo ao encontro do carro: — Vai David, estaciona ali e vamos esticar as pernas.

Desci e assim que conseguimos nos abraçamos fortemente. David se aproximou aos poucos.

! Você sumiu! O que houve?
não te disse nada?
— Disse que você partiu em uma missão internacional e logo estaria de volta.
— Ele não te disse sobre nós?
— O que ele deveria dizer? Apenas que vocês brigaram e não se falavam desde então.

Observei a expressão sincera de Lúcia e assenti.

— Ele terminou comigo lá. Ao menos até eu voltar e bem... Estou de volta. Definitivamente e com muita bagagem.

A mulher loira de rosto redondo sorriu compreensiva, e o olhar de apreensão que notei surgir deu espaço para um sorriso largo e um abraço forte.

— Estou muito feliz que veio de vez agora! Vai ficar na fazenda mesmo?
— Isso depende dele não é... Não sei o que esperar...

Com a minha resposta, Lúcia abaixou a cabeça desconcertada. Havia algo errado. falou com ela, eu pude ler em sua expressão... Mas, mudei o assunto apresentando David para ela.

— Este é o meu amigo, David. E esta é Lúcia, minha amiga.
— É um prazer conhece-la Lúcia. – David disse brando, com um sorriso cansado estendendo sua mão.
— A mim também. – ela respondeu e então se despediu: — Bem, vocês devem estar exaustos da viagem! Vão logo! , boa sorte!
— Obrigada! Nos vemos depois, certo?
— Com certeza! ... Se precisar de qualquer coisa, me avise ok? Você sabe onde eu moro, não é?

Assenti num meneio silencioso e desconfiado. Ela estava preocupada com algo, e eu precisava mais do que nunca agora, chegar em casa. David não falou nada também, o que era de se estranhar já que eu esperaria uma gracinha sobre a Lúcia, mas aquilo só demonstrava que tanto como eu, ele desconfiou das atitudes da mulher. Ele apenas não quis me dizer.
Durante o trajeto pela estrada de cascalhos, David mencionou o quanto o lugar era realmente bonito, e eu me deleitei com o silêncio do carro e a paisagem saudosa. Assim que nos posicionamos à porteira que eu o indiquei, David abriu-a e em seguida deu partida entrando pela fazenda. Parou o carro na frente do casarão. Estava tudo muito calmo e aberto.

— Não tem ninguém em casa? – ele perguntou ao estranhar que ninguém havia surgido.
— Aparentemente não...
— Desça logo, eu te aguardo aqui fora.

Fiz o que ele pediu e bati a porta do carro. David recostou-se ao capô da camionete apenas me observando subir pelos pequenos e rasos degraus da varanda até a entrada do casarão. Meu coração errava as batidas. Era como a primeira vez que entrei ali, só que agora com uma ansiedade que não existiu antes, já que eu estava entorpecida de mágoa.
Caminhei para dentro da sala e ouvi os sons altos das pisadas de . Era ele. Eu sabia.

— Mãe? Já voltaram!? – ele gritou e surgiu à minha frente.

Seu semblante sério, a xícara de barro em sua mão e a postura encurvada de seu corpo demonstrava-me o cansaço. Ele me encarou surpreso e silencioso e então estufou seu peito, e eu permaneci parada, rígida e preocupada a encará-lo de volta.

— Oi .
... – ele mencionou e piscou algumas vezes se aproximando devagar: — Por que não me avisou que havia chegado? Eu ia te buscar.

Eu queria correr para os braços dele, mas ele apenas se aproximou brando. Parou na minha frente bebendo seu café sem ao menos, me tocar, e aquilo me destruiu. Era como se existisse uma barreira entre nós, imposta por ele e que não o incomodava.

— Eu não vim só.
— Ah não? Ângelo está aí? – ele olhou por cima da minha cabeça para fora, não avistando mais do que a parte da frente do carro.
— Não, é o David. Ele me trouxe... – a expressão dele enrijeceu ainda mais — Você não vai nem me dar um abraço? Eu estou viva, afinal.

respirou fundo e pousou a caneca em sua mão, na única parte possível do corrimão da escada.

— Claro...

E então nos abraçamos apertadamente. Eu já chorava de novo, e ele mesmo afagando os meus cabelos, parecia distante.

— Fizeram boa viagem?
— Sim, embora eu estivesse muito ansiosa. Ele veio porque... Eu queria que ele conhecesse a cidade já que eu vou ficar aqui agora.
— Ficar? – me perguntou surpreso.
— É... Ficar. Eu te disse que quando acabasse tudo isso eu iria vir de vez. Achou que algo mudaria?
— Você... Não precisa ficar só por minha causa, caso não queira.
— Não é por sua causa, é porque eu quero. Achei que isso tivesse ficado claro também.
... Precisamos conversar.
— Sim, precisamos.

Eu poderia desconversar e dizer que ia me acomodar e acomodar ao David e tudo o mais, mas a postura do não trazia uma faixa de “bem vinda ao lar querida”. Ele sentou-se ao sofá e eu me aproximei sentando na poltrona à sua frente, curiosa e preocupada.

— Cadê todo mundo?
— Mamãe, Marcelo e Rosa foram para outra cidade comprar algumas coisas, e está na escola.
Hm... Você quer falar primeiro?
— Quero. Eu andei pensando muito em tudo ... Eu acho melhor a gente ficar como está.
— Como assim? Você realmente está terminando comigo?
— Não é pelo o que aconteceu em São Paulo. É pelo conjunto de tudo o que passamos. As nossas diferenças não são o impeditivo de nada, mas acho que... A gente precisa se entender quanto pessoas nesse relacionamento não é? Sinto que eu tenho coisas demais que pesam sobre você e eu não quero isso. Ficou claro em São Paulo também que você não pode me incluir no seu mundo completamente, já que sempre está escondendo algo.

A minha cabeça girou de repente e eu quis vomitar, mas era só a sensação de náusea. Eu não podia acreditar no que ele estava fazendo.

— Você não tem ideia mesmo de tudo o que eu fiz para finalmente estar aqui, não é? Você só vai olhar para os momentos das minhas falhas, quando eu simplesmente fechei os olhos para todas as suas?
— É exatamente por isso que eu não posso permitir a você permanecer comigo, ! Você não pode e nem deve aceitar de mim o que não é coerente a você! Eu sei que te pressionei em vários aspectos, que a minha família te pressionou a adotar um estilo de vida que nem é o seu! Eu sei que eu não fui bom pra você o tempo todo, e eu não quero que você se arrependa no futuro e seja infeliz!

Meus olhos lacrimejavam incessantes, e a minha garganta seca não permitiu que eu dissesse muita coisa, além de:

— Talvez eu esteja arrependida agora, vendo que você está me chutando desse jeito.
— Eu não estou te chutando. Eu estou saindo do seu caminho! – ele se levantou subitamente e se aproximou de mim, mas eu também me levantei.

Levei minhas mãos aos cabelos e dei costas a ele, me esforçando para não desabar ali.

— Olha só... Eu vou embora. Eu vou acomodar o David na pousadinha da cidade e vou ficar por lá também... Você já contou sobre a sua decisão para a família?
— Não precisam ir, é lógico que vocês ficarão aqui!
— E ficar esbarrando com sua cara nesse clima? Fingindo demência para a família toda? Se for pra você me chutar eu não vou ficar aqui pra sofrer mais!
, não faz isso. O melhor para você, pra nós agora... É a gente começar isso direito!
— Ah é? E o que seria começar direito!?
— Começar do zero! Sem todas as brigas, todas as discussões, conhecendo um ao outro, sendo amigos e ...
— E você é um idiota ! – gritei o interrompendo: — No caminho de tentar fazer isso com você quando nos demos conta dos nossos erros, eu também percebi que fizemos tudo isso! Nós nos conhecemos um pouco, ficamos amigos, e só depois nós assumimos algo de fato! E antes da nossa briga tudo estava indo muito bem, no nosso empenho em nos conhecer melhor! O problema não é o passo a passo, mas é a intensidade que somos! Por isso nos confundimos! Por causa da porra da intensidade entre nós gritando o tempo todo como somos iguais!

Caminhei pisando fundo rumo à saída, mas ele foi mais rápido e se colocou na minha frente me impedindo de passar.

... Calma, não precisa ser assim. Fica aqui, vai. A mamãe está sabendo e a Rosa também, eu só não disse para a . A gente pode dar um jeito nisso juntos.
— Agora você quer dar um jeito juntos? Mas para decidir o que é melhor para nós você decidiu sozinho não foi? Me deixe passar!
, vocês acabaram de chegar, não faz sentido ficarem numa pousada!
— O David não vai se importar, ele sabe que eu corria o risco de ser chutada.
— É por isso que ele veio? Pra te levar com ele se por acaso a gente não desse certo?
— Vai pro inferno, ! – bati em seu peito e saí chorando.

David que estava parado afastado ao carro, de costas observando o horizonte, se virou rapidamente ao ouvir a voz de me gritando e se aproximou.

— Vamos embora David! – gritei para ele entrando no carro.

Os dois homens se encararam duramente, David abriu a porta do motorista e antes de entrar me observou desconcertada.

— Você contou para ele?
— Não! Ele não me deu tempo de falar nada direito, só entra no carro!
— Você tem que contar !
— Agora não David! – gritei de volta.

Ele caminhou a passos fundos até o , disse alguma coisa que eu não poderia ouvir e retornou. Dirigimos em silêncio até a cidade. Na pousada Tafetá, a única pousadinha da cidade, fizemos o check-in em quartos separados e aquilo seria o suficiente para a cidade toda saber o escândalo: , a noiva de voltou para Mato Alto, com outro. Eu não me importava. Depois que tomamos banho, cada um em seu quarto, eu estava sentada na cama chorando. David bateu à porta pedindo para entrar e logo eu abri.

— A cidade toda vai comentar se me virem entrar ou sair daqui, quer conversar aí mesmo?
— Eles vão falar em qualquer que seja o lugar que estivermos. Entra.
Ok... Me explica o que aconteceu?
— Ele quis falar primeiro, eu deixei. me deu um chute definitivo dizendo que o melhor para mim era ficar longe dele. – soltei um resmungo sarcástico: — O que ele sabe do que é melhor para mim?
— Você deveria ter contado! Isso mudaria tudo.
— Mudaria? Se ele não quer aguentar o peso de seus próprios defeitos não pode jogar a responsabilidade em mim, então se ele acha que é melhor a gente não ficar juntos, um filho não mudaria nada. Ele só será novamente, o pai solteiro de outra criança.
— Escuta... Vamos descer, comer alguma coisa e amanhã vocês conversam. Eu falei para ele que voltaria amanhã para ter uma conversa séria, já que eu não vim de seu acompanhante, mas de policial. Ele não entendeu, mas... Enfim ... Um passo de cada vez, ok? Estamos juntos nessa também.

David me abraçou e logo eu me recompus para leva-lo a conhecer o bar da Dona Carlota.
Chegando ao bar, a dona Carlota abraçou-me saudosa e cumprimentou ao conhecido ao meu lado. Até então, nenhum comentário por parte dela ou de qualquer pessoa que fosse relacionada ao meu retorno e acompanhada a outro homem, ou até mesmo à minha estadia na pousada, havia sido dada. Em contrapartida, os olhares das poucas pessoas ao redor já diziam muito. David e eu, pedimos uma porçãozinha de filé de peixe frito, e refrigerante: se eu não o deixaria beber ainda por sua recuperação já no final, ele também não me deixaria por minha gravidez.

— Sabe que só agora não vamos afogar as suas mágoas não é? Eu já recebi alta definitiva doutora !
— Eu também não vou ficar sem beber por causa disso... – apontoei com olhar para minha barriga: — Pelo menos não se a recomendação médica permitir.
— O pai também não vai deixar. E nem o titio David. – ele falou convencido: — Mas, e aí ? O que você vai fazer?
— Vou ligar para o Gabriel, ele deve estar saindo do expediente. Você não chegou a conhecê-lo, não é?
— Não. Mas, estou falando em relação a tudo...

Levantei uma mão pedindo para que David esperasse minha chamada, e ele revirou os olhos, ciente de que eu fugia do assunto, mas não era o caso. Telefonando ao Gabriel, convidei meu amigo para sentar-se conosco ali, e não demorou muito para que ele se juntasse a nós.
Gabriel e David, depois das devidas apresentações, conversavam animados e curiosos um sobre o outro, e eu me mantinha cabisbaixa com o filé de peixe. Gabriel notou e trocou olhares com David que apenas negou com a cabeça.

?
— Eu preciso ver a ... – lamentei com saudade da minha pequena.
— E por que não está em casa?
— Eu fui chutada, Gabriel.
— Ah por Deus! – David reclamou impaciente: — Dá para parar com essa porra de Madalena sofrida?
— Como assim, chutada?
— Ele terminou.
— O QUÊ? – Gabriel se debruçou sobre a mesa, espantado: — Você tem certeza?
— Ele começou com aquele discurso ridículo de “eu não sou tão bom para você”...

De repente, uma coisa se passou em minha mente e eu nem dei tempo para Gabriel processar o que eu tinha dito. David me encarava com certa impaciência.

— Gabriel! Qual a possibilidade do ter se interessado em outra mulher?
— Você só pode estar brincando, não é ? Levou sete anos para isso acontecer, e você sabe que ainda precisou de meses de arranca rabo com ele até se permitir amar você!
— A Lúcia e ele estavam bem próximos na última vez que eu vim aqui, e...
— Você não está insinuando isso! Pelo amor de Deus, ! Isso não tem o menor sentido!
— Por quê? Isso poderia muito bem ser um clichê de amor de infância!
— É um clichê de amor e ódio.

Gabriel falou certo de ter razão e David observava a tudo curioso.

— Lúcia é a loirinha gostosa que você me apresentou mais cedo?
Hm, bem que eu estranhei você não comentar nada do tipo antes, garanhão! – finalmente pude rir um pouco: — É ela sim.
— Eu não podia fazer piadas, você estava tensa para encontrar o pai...
— David! – gritei com ele, mas Gabriel já havia pescado tudo.

Meu amigo soltou o copo com seu refrigerante na mesa e me encarou de olhos esbugalhados.

— Está grávida?
Ahn... Isso não pode sair daqui, pelo amor de Deus Gabriel!
— Meu Deus! Parabéns, ! – meu amigo se segurou para não dar alarde.
— Obrigada, mas isso não é bem um motivo pra comemorar no momento.
, eu vou me esquecer de que você é mulher e vou te bater. – David novamente impaciente começou o seu sermão: — Amanhã nós vamos voltar na fazenda, eu vou dar a má notícia e você a boa! E você não só vai, como deve, curtir e comemorar a notícia! E que se dane o agroboy!
Agroboy? Má notícia? Espera... A gente tem que sair daqui para ter uma conversa decente!

Gabriel se levantou imediatamente, apontando David e eu e nos dizendo para ir com ele à sua casa.

— Vocês vêm comigo! Eu pago essa conta, em comemoração!
— Gabriel não...
— Quietinha ! – David se levantou também e me interrompeu — Nós vamos para casa dele, assim você pode se abrir com alguém que não seja apaixonado por você, e eu vou poder encher a minha cara. Chega dessa merda de refrigerante, eu não estou doente.
— Eu também...
— Você não! – ele me interrompeu de novo.
— Vai se ferrar David!

Eu levantei me juntando aos dois no balcão, Gabriel já havia pagado a conta, e David comprava as cervejas enquanto nós discutíamos sobre eu beber também, sem dar muito alarde dos motivos pelos quais ele não queria deixar.

— Vocês dois parecem irmãos. – Gabriel zombou enquanto saíamos.
— Eu achei que não poderia piorar... – David reclamou me fazendo rir.

Acabamos passando horas na casa de Gabriel conversando, contando sobre a missão, no que era possível contar, falando da minha transferência e todo o resto. Ao final da noite, retornamos para a pousada e descansamos. Eu tentei, mas na verdade, meu coração palpitava a cada lágrima que escorria de meus olhos. Eu ainda não conseguia acreditar que havia perdido o .


Capítulo 40 - De todas as nossas velhas discussões...

MÚSICA TEMA DO CAPÍTULO: Você não sabe – Bruna Viola (Ouça Aqui ou na Playlist da fanfic)


Na manhã seguinte lá estávamos David e eu novamente, retornando à fazenda. Eu não dormi direito e minhas olheiras eram evidentes, David pelo contrário parecia bastante descansado da viagem. Assobiava cantarolando, e nem parecia alguém que daria uma notícia daquela. Quando estacionou o carro na frente do casarão e nós descemos, o cheiro de mato sendo cortado invadiu minhas narinas. Era no tratorzinho de cortar a grama. Pelo horário, todos os animais já estavam tratados.
O burburinho de pessoas a se aproximarem na varanda não foi capaz de desfazer o nosso contato visual. Ele me observou descendo do carro e dando a volta para ficar de frente para ele, que aparava a grama da entrada da casa, ele desligou o tratorzinho e ajeitou o boné em sua cabeça. Eu ainda não tinha o visto usando boné daquela forma, o virando para trás como um garoto rebelde. Nós ficamos nos encarando, eu paralisada com as mãos nos bolsos de trás da calça, e pode ter durado uma fração de segundos, mas para mim foi mais. Foi quase eterno. Ouvi meu nome sendo gritado por uma garotinha e despertei, ao vê-lo descer caminhando até nós. Virei-me para que já se jogava em um abraço comigo.

— Princesa! Que saudade!
— Você voltou ! Você voltou! – sorria e gritava animada.

Abracei-a ainda mais forte e a enchi de beijos a fim de sufocar o choro que queria surgir. David sorria para a cena, se colocava ao meu lado, titia e Rosa me encaravam emocionadas e cautelosas. Logo as duas se aproximaram de mim, e trocamos abraços e carinhos também.

— É muito bom revê-la cunhada. – Rosa mencionou o tratamento como se nada houvesse acontecido e me sorriu confiante.
— Querida... Que bom tê-la aqui! Como você está? – titia perguntou emocionada.
— Estou bem minhas queridas, é bom estar de volta também! Deixe-me apresentar a vocês... Este é o David.

Meu amigo deu alguns passos à frente em direção a elas, foi cumprimentado com carinho por titia e Rosa, e o encarou curiosa e confusa. Ele abaixou-se na altura dela e a menina se aproximou.

— Você é o tio David que deixou cupcakes para mim na casa da em São Paulo?
— Eu sou o tio David dos cupcakes sim! E eu trouxe um presentinho para a princesinha que a tanto ama!
— Pra mim? – bateu as mãozinhas animadas.
— Bem... Você é a ?
— Sim!
— Então é para você sim! Mas... Eu posso ganhar um abraço em troca?
— Nem precisa de presente pra isso! Você é bonitão, tio David!

mencionou o abraçando e todos nós gargalhamos, inclusive David que foi pego de surpresa. olhava para , boquiaberto, e fazendo careta de cinismo como a filha. Até então, tudo ameno. Titia puxou David para dentro, junto com e Rosa deixando e eu a sós. Ele cruzou os braços evidenciando seus músculos sob a camiseta surrada e larga, e eu mordi os lábios triste por não poder me jogar sobre ele.

— Como você está? – ele perguntou analisando minha face.
— Péssima. Eu não pensei que voltaria para cá desse jeito...
— Você não é a única que está péssima, eu também não dormi ...
— Por que está fazendo isso? Não faz o menor sentido !
— Eu tenho pensado sobre isso também. Não é possível que eu esteja cometendo outro erro, não é? Você tem o direito de...
— Não! – eu o interrompi — Você não vai começar com esse discursinho. Por favor... Faz o seguinte: pense bem se você realmente quer desistir com essa desculpa de começar do zero, ou se você quer continuar crescendo em conjunto. Quando decidir me avisa. Eu não vou a lugar nenhum mesmo.
— Então você vai realmente ficar? Vai desistir do trabalho?
— Se eu desistisse então você ficaria comigo? Essa é a sua condição?
— Jamais. Eu estou saindo justamente pra você não ter que escolher entre eu e qualquer outra coisa.
— Lamento informar, mas eu não faria isso. Eu sou o tipo de mulher que faz o possível para não perder nada, nem pessoas e nem causas. Achei que já havia notado isso. E só para saber... A delegacia da cidade agora vai ficar comigo.

Falei certeira e até marrenta, mostrando ao a realidade: eu voltei para ficar com tudo, mesmo que em ritmo diferente. Dei as costas a ele, mas antes que eu me afastasse muito, pegou em minha mão fazendo eu o encarar.

— O que ele quer falar comigo? Não consigo imaginar que assunto o fardinha poderia ter.
— É algo sério, sobre a missão e a Bruna. E seria ideal não estar por perto...

ficou intrigado e logo me seguiu até a parte de dentro do casarão, onde titia já servia guloseimas ao David, e o ocupava com histórias e um olhar extremamente brilhante.

— Sua filha tem bom gosto. – falei ao lado de e ele me encarou enciumado: — Eis ali o tipo de genro que ela vai lhe trazer.
— Ela não pode me dar este desgosto...
— Ele é um bom homem, eu vou torcer para ela encontrar alguém como ele.

me olhou desconfiado. Ele sabia que no início eu desaprovava David por ser um mulherengo.

Ok, talvez ela deva encontrar uma versão melhorada dele em alguns aspectos... Mas, ele é leal. Isso é importante.

negou com a cabeça e eu soltei um riso sarcástico. Havia esquecido como provoca-lo era bom. Juntamo-nos todos à sala, e pediu para ir brincar ao quarto por um momento. Ela não gostou muito, mas sabia que era uma conversa de adultos e foi obediente.

— Bem, vocês devem estar curiosos para saber o motivo de eu ter vindo, não é?
— Não é um convidado da ? – titia perguntou.

David sorriu para mim, eu confirmei aquilo, mas avisei que havia algo a mais.

foi escalada para uma missão comigo há algum tempo, algo interligado ao caso dela, mas... Eu não posso dar muitos detalhes e aquilo que vocês tiverem dúvida, ela mesma pode contar depois. A questão é que, como líder da missão policial, eu vim reportar o falecimento de uma pessoa aos seus parentes mais próximos.

Quando David disse aquilo, a expressão de mudou. Ele estava pálido e extremamente paralisado.

— Parente? – titia nos encarou confusa: — Não temos parentes além da em São...
— Titia. – a interrompi de forma delicada — O David descobriu há muito anos que...
— A Bruna morreu? – finalmente perguntou de boca aberta deixando uma lágrima assustada escorrer em seu rosto.
— O quê? – titia e Rosa disseram uníssonas.

Eu só conseguia observar a expressão chocada e amarga de . Ele havia ficado visivelmente abalado. David contou tudo desde a situação de vítima à investigada, de Bruna. Contou sobre a missão, sobre ela ter sido ferida, ter ficado no hospital em custódia policial, e sobre o seu óbito um dia antes da nossa viagem. Foi tenso. David não encontrou os parentes próximos da Bruna, avisou que os pais dela haviam morrido há alguns anos, e que ela não tinha contato com mais ninguém que ele soubesse. Sempre havia sido ela, e os pais dela na pequena e pacata cidade. Sobre a liberação do corpo para o velório, comprometeu-se em assumir a responsabilidade. Ainda que Bruna não gostasse da cidade, ele achou que fosse melhor ela ser enterrada perto de pessoas que a conheceram ou que a amaram algum dia.
Quando aquela conversa complicada acabou, era o momento de dar a notícia à . Pai e filha foram passear pela fazenda, o momento era íntimo demais para qualquer pessoa participar. E David e eu, ficamos no casarão diante daquela situação de peso entre titia e Rosa.

— Bem... Desculpem-me a indelicadeza pelo momento, mas para quando é o nascimento do bebê?

David perguntou à Rosa numa boa aposta de contrapor o assunto de morte, com o de vida.

— Ah... – ela sorriu amena: — Para Abril! Mal vejo a hora!

Ela sorriu abertamente, acompanhada por titia e eu que acariciei sua barriga. David trocou olhares sugestivos para mim, e logo disfarcei.

— Vá pegar suas malas, querida. Aproveitamos e já acomodamos o David também.
— Ah... Titia... É... Nós estamos hospedados na pousada Tafetá.
— Como assim? Essa é a sua casa! Como você volta e não fica aqui com o seu amigo? por acaso...
— Ele fez questão que ficássemos. – garanti antes que ela o culpasse — Mas, eu não posso ficar tão perto dele e...

Segurei o choro e titia logo compreendeu. Ela e Rosa seguraram minhas mãos, amigáveis.

— Nós já dissemos que ele está sendo burro, ! Mas, o só não quer se colocar entre você e suas escolhas. Ele quer você livre.
— Eu posso ser livre ao lado dele, Rosa. Mas, tudo bem... Ele tem um tempo para pensar. Eu não vou embora mesmo.
— E vai ficar por quanto tempo na pousada?
— Não sei titia. Quando sair a minha nomeação na delegacia, provavelmente eu já estarei instalada.
— Eu não vou admitir que você pague aluguel em lugar algum! Seu lugar é aqui, com o amor da sua vida!
— Não depende só de mim, não é? – falei cabisbaixa e David apenas observava a tudo calado e minucioso.
— Bem, então vai tomar o posto do Gabriel? – Rosa perguntou animada.
— Sim! Decidi aceitar! Mas, e você Rosinha? Conte como está essa reta final da gravidez, e o Marcelo?
— Estamos bem! Ele está na capital resolvendo umas coisas de trabalho há alguns dias, mas chega nesta semana ainda. E sobre o nosso bebê... Eu mal vejo a hora de ver a carinha dele ou dela!
— Você ainda não descobriu o sexo ou não vai mesmo fazer o chá para nos contar?
— Ela cismou de fazer surpresa ! – titia ralhou: — E eu aqui morrendo de curiosidade!
— Eu também estou mamãe! Mas, é segredo.

Todos nós rimos, e logo titia fez a pergunta que eu mesma queria fazer.

— Vai dizer o que para sobre sua estadia na cidade, ?
— Ai titia... Eu não faço ideia! não conversou com ela.
— Bem, é melhor vocês já dizerem a verdade.
— Também acho tia, mas estou com tanta peninha da minha menina... Acabou de saber que a mãe faleceu...
— Acredito que para a vai impactar mais saber que você e o estão separados do que... – Rosa anunciou sem terminar e todos meio que concordamos.

Tia Laura puxou novo assunto com David, e um pouco depois entrou correndo pela sala e se jogou sobre mim, aos prantos. Olhei para a porta onde surgia com uma expressão triste e desolada me chamando para fora. Peguei a menina no colo e nós dois nos sentamos com ela nas escadas da varanda. Ficamos em silêncio observando o horizonte das montanhas, até parar de fungar um pouco e me perguntar. Sabíamos que ela daria a deixa da nossa conversa inicial.

— Você e o papai nunca mais vão ser namorados?

Encarei que me mostrou por sua expressão o quão havia sido franco com a filha, dizendo apenas a verdade e nada mais. Todo o resto era só curiosidade.

— Bem , é normal que os casais tenham que se separar um tempo, às vezes, para se compreenderem melhor. Eu e seu pai nos amamos verdadeiramente, e só estamos um pouco confusos com algumas coisas. Eu prefiro acreditar que nós vamos voltar logo.

Fui franca também.

— Eu não entendo. Se vocês se amam, por que estão separados?
— Papai já te explicou . Eu preciso que a seja feliz, mas não sei se eu posso dar felicidade como ela merece.
— Na verdade , o seu pai está confuso sobre o que ele sente agora, mas no futuro nós duas vamos entender isso tudo, ainda que não entendamos agora.
— Você ama meu papai ?
— Muito, eternamente. – respondi a ela olhando para ele.
— Não tem nada a ver com o tio David, não é?
— Claro que não! – sorri a confortando.
— E... Agora você mora aqui? O papai disse que você vai ficar.
— Sim, eu vou ficar pra sempre . Por enquanto estarei morando na cidade, mas isso não significa que não possamos nos ver e passar tempo juntas, tá?
— Você vai voltar pra fazenda também , com o meu irmãozinho. Eu pedi isso pro papai do céu!

A menina disse sorrindo e me abraçou apoiando a cabeça em minha barriga. Uma vez, eu li que crianças sentiam a presença de outras crianças ainda no útero da mãe. E até ouvi histórias de algumas amigas e conhecidas, mas nunca acreditei naquilo, até aquele momento. e eu nos encarávamos com grande emoção.

— Bem... Eu vou lá dentro pro tio David me dar meu presente.
! Não seja interesseira! – de voz embargada a corrigia.
— Eu não pai! Mas, ele disse que trouxe!
— Pode ir , eu fico feliz que você gostou do David. – falei a animando.
— Ele é bem bonito! – ela respondeu dando risadinhas.
— Ih... – ralhou ameaçando fazer cócegas nela e a menina saiu risonha.

sempre me ensinava muito, com sua capacidade de recuperar seus sentimentos. e eu, permanecemos ali, parados a observar o horizonte, em silêncio. Eu quis fazer muitas perguntas em relação a como ele estava com a situação de Bruna. Mas, talvez fosse melhor esquecer o assunto.

— Ela era a mãe dela afinal... Não consigo ser tão insensível assim... – ele começou a se justificar e então o observei com cuidado: — Espero que você não tenha pensado que...
! – o interrompi — Eu não pensei nada além da sua dor de perda. É comum que você sinta o luto, ela não era uma pessoa qualquer na sua vida. Foi o seu amor de infância e a mãe da sua filha. Eu também estou muito abalada com tudo isso e sinto muito...

me olhou de volta e se desabou em lágrimas ao meu ombro e eu o abracei fortemente. Nada precisava ser dito, apenas sentido. E mesmo que nós não estivéssemos acertados ainda, eu faria o que fosse preciso para impedir que sofresse daquele jeito, por Bruna, outras coisas, ou quaisquer outras perdas. E aquilo, – evitar que ele sofresse por outras perdas – era um motivo grande para eu não desistir de nós dois.
Almoçamos todos juntos e na hora de voltar para a cidade, um pouco antes de entrarmos no carro, David me perguntou discretamente se eu não iria contar nada. Eu disse que não era o melhor momento, e ele achou que eu estivesse enrolando ou me afundando ainda mais, porém, eu também não queria que o assunto mudasse as decisões de . Ele precisava me ver por perto para acreditar que eu havia decidido ficar, sem se sentir preso a mim por uma obrigação.

— Acho que você está cometendo o mesmo erro da omissão, , que o fez terminar lá em São Paulo. – David sussurrou para mim.
— É uma situação diferente David, ele já sofreu emoções demais por hoje, e até ter certeza do que ele quer... Eu não vou contar.

Despedimo-nos, chorou de novo e mesmo eu dizendo que estaria por perto e que nada nos afastaria de novo, ela não deixou de sofrer. Rosa e titia insistiram para David e eu ficarmos na fazenda, e até insistiu. Mas, ele sabia que eu só não queria ter que vê-lo e ficar tão longe e tão perto.
Havia algo que eu não consegui tirar da cabeça naqueles dias: as reações de Lúcia ao me encontrar na cidade. David então, no nosso quarto dia ali, sugeriu que eu chamasse a mulher para conversar já que em dois dias de viagem ele já havia conhecido toda a cidade, e seus pontos turísticos de beleza natural. Bem, eu também, já que eu não havia feito aquilo até então. Bebíamos no bar da Dona Carlota, ou melhor, David bebia, quando titia surgiu nos surpreendendo.

— Titia! – levantei para abraçá-la.
— Como você está querida? Olá David! Tudo bem?

E enquanto os dois se cumprimentavam, Lúcia também chegou.

Hey, amiga!
— Oi amiga, tudo bem? Ei dona Laura!

David fez sinal de que levaria uma das duas para fora, a fim de que eu conversasse a sós com a outra, então apontei Lúcia com a cabeça e ele piscou animado.

— Lúcia, pode mostrar a igreja ao David enquanto eu tenho uma conversa com a titia? – pedi e a mulher logo aceitou sem o menor problema.

Os dois caminhavam para fora do bar, e titia sentou-se onde antes David estava os encarando como eu.

— Empurrando os amigos um para o outro?
— Eu não havia pensado nisso, mas... Até que eles ficam bem juntos não é?
— Com certeza, os dois são muito lindos.
Hm... Se eu conheço bem o David, ele vai conquistar a Lúcia nesse curto passeio. – sorri e titia me acompanhou, mas não durou muito o seu sorriso.

Ela pegou em minha mão e séria, com tom acolhedor de mãe zelosa, acariciou meu rosto.

. Volta para casa.
— Titia, eu não vou fazer isso enquanto o não me der uma reposta definitiva sobre o que ele quer fazer.
— Você sabe o que ele quer. Ele só não consegue acreditar que ele te faz bem. Ele está inseguro.
— Titia, eu não vou ficar com essa criancice de forçar a barra sabe? Eu já falei abertamente dos meus sentimentos. Eu posso ter errado muito, aliás, nós dois erramos, mas eu não posso entender o que se passa na mente dele... Na verdade, eu até pensei que o possa estar apaixonado por outra.
— Outra? – titia riu e desculpou-se em seguida: — Querida, me desculpe, mas... Só existe uma mulher na vida dele. Sabe o que aconteceu quando ele chegou de São Paulo?
— Não.
— Ele quebrou tudo o que quis, depois se culpou, depois pensou em mil possibilidades para vocês ficarem juntos, e depois em mais mil que comprovassem o quão ele não era o melhor pra você... Alguma coisa o fez acreditar que o melhor era se afastar. E é por isso que eu digo: volta para casa ! O ainda não entendeu o tamanho que ele tem na sua vida.
— Eu não quero forçar nada tia... Mas, se eu notar que ele está realmente disposto a desistir, eu tento uma última vez. Eu não pretendo entregar tudo tão fácil assim, para as pequenices que eu hoje enxergo das nossas diferenças culturais.
— Eu não tenho nada contra o seu amigo, mas... Talvez enquanto ele estiver aqui, o não se aproxime. Ele está convencido de que não é o melhor para você. E acho que isso tem a ver com a sua ida com David para outro lugar, ou sei lá... Você deve saber melhor do que eu.

Titia falou e olhou para a praça onde Lúcia e David se aproximavam do bar novamente, risonhos.

— Estarei na casa do Guino. Passe lá depois, meu amor. – ela beijou a minha testa e se levantou, e antes de sair de vez me encarou perguntando: — Tem mais alguma coisa acontecendo?
— Ah? Não...
— Você está mentindo. Mas, tudo bem. Conte-me quando quiser, querida.

Titia Laura atacara de guru novamente, e eu apenas sorri a vendo se afastar. Meus amigos se aproximavam e quando Lúcia se sentou à mesa, David foi em direção à delegacia cumprimentar Gabriel. A verdade é que ele queria nos dar privacidade. Lúcia e eu conversamos sobre David, a mulher ficou animada com a presença dele. E eu já sabia que seria assim, ele era o tipo “inalcançável” que Lúcia gostava. E a lábia de David, eu tenho que admitir, funcionava em todas as vezes que ele a usava. Menos comigo. Não demorou, para que Lúcia me perguntasse qual o real motivo da minha necessidade de conversar com ela.

— O andou conversando contigo sobre terminar comigo definitivamente?
Hm... No dia que você chegou, ele tinha me dito um pouco antes que você estava voltando, que ele iria terminar mesmo. Disse que você merecia alguém mais certo do que ele, que tivesse mais a ver contigo e que não fosse fazer você escolher entre...
— NICOLE!

O grito forte que ouvi vindo da rua me tirou do eixo, quando olhei para fora da vendinha e lá estava ofegante, com o mesmo boné de dias antes virado para trás. Aquela era a nova visão que estava me deixando cada vez mais encantada. Ele entrou batendo a botina com pisadas fundas, e por um segundo eu achei que ele estava bravo. Levantei da mesa imediatamente, assim como Lúcia que não entendia nada. Embora ela já estivesse acostumada a ser interrompida por . Todas as pessoas observavam ao nosso redor, surpresas e curiosas, não que não estivessem acostumadas àquilo também. Afinal, e eu éramos, um evento!

?
, a gente pode conversar?

Seu peito subia e descia descompassadamente.

— O que você quer me dizer?
— Você realmente quer ficar comigo? Mesmo ciente de todos os meus defeitos e falhas? Mesmo sabendo que eu não sou o cara certo para você, que eu te feri, que o David é muito melhor e tem muito mais a ver contigo e que... Que eu posso nunca conseguir ser bom o suficiente? Você tem certeza que quer ficar comigo para sempre?
, de onde você tirou isso tudo!? Você é tudo, tudo o que eu quero e preciso!
— Então por que não me contou? – ele se aproximou chorando, curioso, perdido e olhando em meus olhos.

Naquele momento eu percebi tudo. De alguma forma ele havia descoberto. Fiquei tão furiosa com a atitude dele, que peguei as chaves do carro de David na mesa e corri para fora do estabelecimento eufórica. Então era isso. Ele estava ali dizendo aquilo tudo e se redimindo por ter descoberto que eu estava grávida! Não era amor. Era culpa.
Enquanto ele gritava meu nome e tentava me alcançar eu corri até o outro lado da rua e dei partida no carro, observando-o me gritar e bater no vidro da janela. Acelerei deixando poeira, parado no meio da rua a olhar o carro e uma cidade inteira curiosa. A raiva se misturou com as lágrimas de descrença. Tudo o que eu menos queria aconteceu: ele voltou para mim só por causa do meu estado.
Não demorou para que eu visse a camionete de me seguindo pelas ruas de calçamento da cidade, ele buzinar como um louco e piscar a lanterna do carro. Ignorei, entrei na estrada cascalhosa da cidade, mas dirigi em alta velocidade levantando poeira e sem intenção de ir parar na fazenda. Mas, a camionete era muito mais rápida e potente do que o Jeep do David, continuava atrás de mim, buzinando e me perseguindo, então eu apenas virei numa curva sinuosa qualquer, deslizando o pneu na terra fofa.
Entrei em uma propriedade qualquer, que tinha a porteira aberta sem nem notar que logo chegaria. Na verdade, eu acreditava tê-lo despistado. Desci do carro, ofegante, assustada e me escorando na porta. A camionete dele chegou se aproximando veloz, levantando poeira e estacionando de qualquer jeito um pouco depois do meu carro. Eu até queria entrar e fugir tudo de novo, mas estava cansada daquela bobeira. Iria jogar tudo o que estava entalado nele. Quando ele se aproximou correndo, em minha direção, eu fui de encontro a ele também e comecei a bater em seu peito. tentava segurar meus punhos e pedia calma.

— Eu não acredito que você fez isso! Eu não acredito que você disse tudo aquilo por culpa!
— Do que está falando? pelo amor de Deus! Eu não menti!
— Não? Então que conversa é essa agora de que me ama?
— Mas eu te amo! Isso não é segredo ou mentira nenhuma!
— Até alguns dias você não queria ficar comigo, sabe-se lá por que!
— Ficar com você é tudo o que eu mais quero! Eu só não mereço!

Grunhi e novamente o empurrei me afastando dele. Caminhei em círculos, sacudindo meu cabelo do jeito que eu fazia quando estava brava e o encarei por cima do meu ombro, totalmente neurótica enquanto ele me olhava perdido.

— O que você quis dizer com “não ter te contado”?
— Eu saí de casa, decidido a te encontrar antes de buscar mamãe no Guino. Eu pensei e repensei e... Fui idiota de novo! Eu não consegui admitir que o David é melhor que eu em vários sentidos e simplesmente assumi que o melhor para você era ficar com ele! Na verdade, eu fui fraco! Covarde! Inseguro! Quis fugir de toda a culpa pela mágoa que eu te causei, fugir da mágoa que as suas mentiras me causaram, e fugir do fato de que não dá mais para viver sem você. Ver você partindo com ele para a Turquia me destruiu. Então me senti egoísta e mimado de te prender a mim mesmo com todas as nossas diferenças gritantes e os grandes desafios que viveríamos juntos! Mas com isso eu estava apagando todas as coisas boas que também vivemos ao lado um do outro! Me desculpe! Me perdoa!
— Eu vou repetir: O que você descobriu ?!
— Eu fui primeiro à delegacia perguntar ao Gabriel se sabia onde você estava, já que na pousada você não foi. E assim que entrei lá, ouvi o David e o Gabriel conversando sobre... Sobre você estar grávida e não ter me contado ainda...
— E por isso você veio até mim? Para tirar mais essa culpa de chutar a mãe do seu filho grávida depois dela vir atrás de você?
— Você ouviu o que eu disse? Eu vim dizer que te amo e quero casar com você, ficar com você pra sempre, não importa mais o que for obstáculo entre nós!
— MENTIRA! – gritei.

Na mesma hora ouvimos um tiro, abaixamos os dois imediatamente, me protegendo em seu abraço atrás do meu carro.

— SAI DA MINHA PROPRIEDADE VAGABUNDO!

A voz de um velhote se fez ouvir e pediu para eu ficar abaixada, e se levantou com as mãos para cima devagar.

!

Puxei sua camisa e ele só saiu de trás do carro gritando:

— SEU MANOEL! Ô SEU MANOEL! É O BERNARDO! BERNARDO DO FABIANO!
— BERNARDO? – a voz do velhote começou a amenizar e o , saía ainda mais de trás do carro e então o velho gritou: — BERNARDO DA CORA?
— SIM, DA FAZENDA DO LADO! DESCULPA SEU MANOEL, É QUE A MINHA NOIVA ESTÁ ME DANDO O TROCO E TERMINANDO COMIGO!
— OH RAPAZ, QUE SUSTO! TÁ PRECISANDO DE ALGUMA COISA?
— NO MOMENTO SÓ QUE ELA ME PERDOE!

Eu comecei a rir da situação olhando para o , e ele abaixou as mãos me chamando para perto. Seu Manoel aproximou um pouco mais e nos encarou observador.

— Minha filha! Perdoa ele logo! Eu quase matei os dois!
— Mil desculpas por invadir a propriedade do senhor! – gritei.
— Tá bom! Tá bom! Cês precisar de alguma coisa bate aqui .
— Obrigada seu Manoel, e me desculpe!

O velhote saiu em direção ao casarão da propriedade com sua espingarda e eu e nos encaramos sérios. Um pouco depois começamos a gargalhar de novo.

— Você está bem? – ele perguntou.
— Que merda... Você só me mete em roubada.
— Você que fugiu de mim invadindo a propriedade dos outros, delegada!

Rimos um pouco mais até que pouco a pouco ficamos sérios novamente.

... Acredita em mim? Eu não menti quando disse que te procurava decidido a pedir perdão, decidido a te convencer a ficar comigo... Eu só não podia imaginar que...
— Eu estou grávida. Descobri no fim da missão, e esperei chegar ao Brasil para ter certeza... Eu queria te contar quando cheguei, mas...
— Mas eu fui te afastando.
— É... E eu não queria que você tomasse qualquer atitude por conta disso, não quero na verdade. Eu ia esperar você me dar uma resposta definitiva.
— Ei... A minha resposta definitiva é essa: eu te amo e fui burro demais para tentar te afastar. Mas, eu te quero comigo, ainda que não tivesse esse filho agora entre nós. Ok?
— Eu também te amo, .

Abracei-o fortemente, e ele me enlaçou em seus braços, saudoso. Beijou minha boca com saudade, e eu logo fui o empurrando para o carro, aprofundando aquele beijo necessitado e cheio de saudade também. Depois que nos apartamos e encaramos o rosto um do outro, sorridente e entre carinhos, olhou na direção do casarão e começou a rir negando com a cabeça.

— De todas as nossas velhas discussões, esta foi a primeira que me fez quase tomar um tiro por sua causa.
— Meu Deus... – eu ri encostando minha cabeça em seu peito e ouvi a risada gostosa dele também — Eu vou averiguar essa história do seu Manoel ter uma espingarda e sair atirando, nos outros!
— Deixe isso para lá, delegada! Nós o assustamos.
— Vamos! Antes que o seu Manoel volte com a arma.
— Vamos sim, a cidade toda deve estar curiosa... Sua barraqueira.

Gargalhei e entrei no carro, logo em seguida abaixando o vidro e dizendo para que entrava na camionete:

— Ei agroboy! Que tal uma corridinha até a cidade?
— Eu deixo você ganhar!
— Eu não preciso disso! Esqueça que eu sou a mãe do seu filho, e rache na estrada, como homem!

gargalhou e eu fechei o vidro dando partida no carro apressada, um pouco depois lá estava ele atrás de mim levantando poeira por todo o caminho de volta.


Epílogo

— Grávida?

As vozes de titia, Rosa e Marcelo logo se confundiram com risos e gritos de felicidade. , entre todos era a mais feliz pulando e dizendo:

— Eu vou ter o meu irmãozinho!

Dois meses depois...


Quase dois meses e o vestido coubera perfeitamente em mim. Graças a Deus! Verônica iria me matar se eu tivesse que alterar tudo no último minuto. David estava impecável ao meu lado no altar, Anjinho ansioso do outro lado com os outros padrinhos. não parava de olhar para trás ansiosa para ver a noiva. Titia e Guino trocavam carinhos e risinhos enquanto aguardavam, e o padre abanava-se devido ao calor que fazia naquele dia em São Paulo.

— Meu Deus! Cadê ela!?
— Acalme-se Anjinho, se ela não fugiu estes anos todos, não será hoje. – David pronunciou tentando o acalmar, daquele jeito David.

A porta se abriu no fundo da igreja, a marcha nupcial tocando, e a belíssima noiva emocionada começou a entrar pela igreja. Eu não consegui me segurar. sussurrou um: “você é a próxima”, ali da segunda fileira dos bancos onde estava, e eu sorri tímida. Lúcia também sorria admirada para a noiva e David me cutucou mostrando a expressão admirada da sua nova namorada.

— Ai meu Deus, eu não acredito que você está tão apaixonadinho assim... – zombei sussurrando e ele apenas se limitou a concordar.

Eu vivi para ver o David suspirando por alguém. Era real. A cena da igreja repleta de nossos amigos de São Paulo e da minha família de Minas me emocionava. Poderia ser só o efeito hormonal de grávida, mas eu sabia que não era: aquilo era felicidade. O casamento corria bem e todos nós mantínhamos a atenção no casal do altar. Até que o momento mais tenso de toda cerimônia aconteceu.

— Se alguém aqui nesta igreja tiver algo que possa impedir este casamento, que fale agora ou cale-se para sempre!

Ninguém esperava que o padre fosse respondido.

— AAAAAAAAAAAAAAAHHHH!

O grito chamou a atenção da igreja toda, e nós olhamos na direção.

— Vai nascer! – Marcelo começou a gritar eufórico.
— ROSA! – desesperou-se junto comigo, com Marcelo e a única calma era titia.

Ela se direcionou a ajudar a filha a sair dali, assim como outras pessoas. Marcelo pegou a esposa no colo, perguntava eufórica para o pai: “— O que está acontecendo gente!?”. E eu corri para fora da igreja com o pequeno tumulto.

— Amor, vai para o altar! Você é a madrinha, eu consigo chegar num hospital com eles!
— Tem certeza? Sabe aquele que levamos a né? Ele é perto, assim que acabar aqui eu vou lá para...
— Amor, relaxa. Eu sei sim.

saiu em disparada com o pai da criança, a prima da criança, a avó da criança, o avô emprestado da criança, e a mãe da criança em trabalho de parto. Eu e os demais convidados voltamos para a igreja, e assim que cheguei ao altar o padre e todos me olhavam.

— Pelo amor de Deus padre, toca a cerimônia que o meu afilhado está nascendo! – falei urgente.

O padre olhou para a noiva e Vera, mais do que prontamente lhe disse:

— Anda padre! Case-nos logo! Eu aceito, ele aceita e ninguém impede!

A cerimônia correu, o casal foi alvejado de pétalas de rosa na saída da igreja, David e eu partimos rápidos para o hospital. O bebê ainda não tinha nascido, mas não levou muito tempo também. Assim como não demorou para que Verônica e Anjinho dessem um perdido rápido na festa. Eles decidiram ir direto à maternidade antes de irem ao salão de festas.

— Amiga? Sua festa!
— Não vai começar sem nós! – ela disse — Somos todos, uma única família não é?
— Obrigada pelo carinho, Vera e Anjinho! – falou ao meu lado.
— E então? Nasceu? – Anjinho perguntou.
— NASCEU! – Marcelo surgiu sorrindo e gritando na recepção para todos nós.

A sequência disso vocês podem imaginar, não é? Abraços apertados e felicitações de todos. Um pouco depois uma sequência de pessoas amontoadas no vidro do berçário: um tio, uma tia, uma criança transbordando ansiedade para pegar o primo, um casal de amigos em comum, outro casal de amigos em comum vestidos de noiva e noivo, e os avós babões. Do lado de dentro do vidro, um pai coruja e apaixonado segurando o novo integrante da família: o pequeno Fabiano. Era menino, e a homenagem de Rosa foi feita ao seu pai, com seu primeiro filho. Nem preciso dizer o quanto titia e ficaram emocionados, não é?
Nossa entrada foi liberada um tempo depois para ver a mamãe, e Vera e Anjinho foram os primeiros a cumprimenta-la para em seguida irem apressados à sua festa de casamento, onde todos deviam estar se perguntando: “cadê os noivos?”.
No quarto, com todas as pessoas fazendo o mínimo barulho possível e observando a mamãe amamentar o filho, e eu nos deliciamos abraçados com a atmosfera de boas vindas do nosso pequeno Fabiano. estava agarrada ao pé da cama da tia, namorando de longe o priminho, e bem caladinha.

Psiu... – murmurou no meu ouvido: — O próximo é o nosso.
— Temos que casar antes.
— Assim que seus padrinhos voltarem da lua de mel.
— Eu te amo. – murmurei e beijei o rosto de .
— Eu também amo vocês. Pra sempre. – ele respondeu sorrindo e acariciando minha barriga discretamente.

I'm so in love with you and I hope you know
(Eu estou tão apaixonado por você e eu espero que você saiba)
Darling, your love is more than worth its weight in gold
(Querida, seu amor é mais do que o seu valor em ouro)
We've come so far my dear
(Nós viemos tão longe minha querida)
Look how we've grown
(Veja como nós crescemos)
And I wanna stay with you until we're grey and old
(E eu quero ficar com você até ficarmos grisalhos e velhos)
Just say you won't let go...
(Apenas diga que você não vai embora)


- James Arthur: Say You Won’t Let Go.


Fim.



Capítulos Anteriores | Página Inicial

Nota da autora: No Coração da Fazenda, é para mim um presente. Um presente por toda a inspiração que tive, um presente pelos grandes aprendizados que essa história e sua construção me trouxeram. Um presente por tantas leitoras terem amado, acompanhado e compartilhado esta história. As mais próximas a mim, sabem que este era um projeto de livro antes de ser fanfic, e que depois de rejeitado algumas vezes, eu decidi postar aqui. Hoje, a história está passando por nova escrita e adaptações para em breve vir a ser um livro ou ebook.
As mais próximas também sabem, que o intuito com essa história era fazer com que, as leitoras e leitores, encontrassem a humanidade falha e imperfeita destes personagens. Identificassem-se com a delegada forte e destemida, que ao se tratar de quem ama, se faz tão sensível. Identificassem-se com o interior e toda a paz que ele causa, mas também com todo o conservadorismo que ele apresenta. Que enxergassem no nosso agroboy, o coração ferido por uma vida que às vezes nos faz crescer rápido demais. Que enxergassem na família de preceitos tradicionais, que esta própria família é diferente do que se pede, e nem por isso deixa de ser uma família. Que enxergassem na criança da casa, a esperança e a alegria de viver. Que enxergassem nos amigos, o apoio e esteio que muitas vezes nos impedem de cair...
Enfim... O que eu esperava com NCDF era tocar a seus corações, através do clichê de amor e ódio sim, mas muito além disso. Esta obra traz mais do que o romance principal nas entrelinhas. Traz repensarmos questões como corrupção, sonhos e mudanças, maternidade e feminismo, machismo e relacionamento tóxico, amor e até onde podemos e devemos chegar com ele. Se é que há barreiras que nos dizem tais limites.
Com muito carinho, gratidão, saudade e afeto eu quero AGRADECER a cada uma das minhas amoras, do meu grupo de whatsapp, do facebook e tantas outras que acompanharam essa história por seus três anos. Obrigada, por todo carinho, por todo afeto, por cada comentário que me permitiu perceber as necessidades de vocês e da história, por suas leituras atenciosas, por compreenderem meus momentos de dificuldade com a escrita. Mas, principalmente, MUITO OBRIGADA PELA FIDELIDADE, PACIÊNCIA E AMIZADE. Espero que daqui possamos nos encontrar em muitas outras histórias minhas. Que possamos nos ver também, nos futuros livros desta e outras histórias. E que vocês sempre se lembrem de No Coração da Fazenda, e tudo o que esta história lhes trouxe de bom.

Agradecimento em especial à toda a equipe do FFOBS que permitiu essa história estar aqui. Às scripters: antigas (Carol Mioto, Karime) e a atual, Ana Paula Ammon. Às capistas: Adry Salles e Gih Pessoa. À cada pessoa que tornou possível essa história, seja lendo ou ajudando em sua construção. Também agradeço a Deus, pela inspiração que me deu neste trabalho.

A todos e todas, obrigada. ♥
Com afeto, Ray Dias.

Blog



Outras Fanfics:
Em Andamento
» Linger
» Entre Lobos e Homens: Killiam Mark

Shortfics/Finalizadas
» Coletâneas de Amor
» Coletâneas de Amor 2
» Intro: Singularity
» Cidade Vizinha
» With You
» Mais Que Um Verão
» Entre Lobos e Homens
» Deixe-me Ir
» F.R.I.E.N.D.S
» Pretend
» Nothing Breaks Like a Heart
» O Cara do Meu Time
» O modo mais insano de amar é saber esperar
» A Garota da Jaqueta
» Semiapagados
» Deixe-me Ir
» Conversas de Varanda
» All I Wanna Do
» O Teu Ciúme Acabou Com o Nosso Amor

Ficstapes
» Nick Jonas #086 - 07. Take Over
» BTS - Young Forever #103 - 04. House Of Cards
» Camp Rock 2: The Final Jam #125 - 09. Tear It Down
» Descendants of the Sun #130 - 05. Once Again
» Descendants of the Sun #130 - 06. Say It
» Taemin - Move #148 - 02. Love
» Paramore – Riot #160 – 09. We Are Broken
» Luan Santana – 1977 #166 – 04. Estaca Zero
» Lana Del Rey – Utraviolence #187 – 14. Florida Kilos
» RBD – Empezar Desde Cero – 05. Él Mundo Detrás

MV's
» MV: Drive
» MV: You Know
» MV: Me Like Yuh
» MV: Take Me To Church


Qualquer erro no layoult ou no script dessa fanfic, somente no e-mail. Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


comments powered by Disqus