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Última atualização: 08/02/2021

Prólogo

65 dias para o casamento
Eu não conseguia acreditar que ele tivera a coragem de me mandar aquele convite. Depois de tudo o que havíamos vivido, ele não seria tão insensível a esse ponto.
Seria?
Não só seria, como foi.

Eu já estava começando a sentir os efeitos de uma noite não dormida.
Tinha passado a noite em claro, perambulando pelas ruas vazias de Madrid, procurando algum bar que pudesse me oferecer uma xícara de café e ver se, milagrosamente, o líquido amargo conseguiria afastar aquele terrível aperto que eu estava sentindo.
Sabia que ir para casa não iria me ajudar. Afinal, eu não conseguia tirar da minha cabeça o fato de que era oficial: James iria se casar e não era comigo.

Não era novidade para mim que ele estava em um novo relacionamento.
Mesmo que tenhamos cortado contato após o término, seis meses atrás, o colombiano era visto constantemente nas manchetes de sites sensacionalistas da Espanha. A mídia de Madrid adorava pintá-lo como um womanizer, mesmo que isso não fosse de seu feitio.
Assim, querendo ou não, eu acabava sabendo de alguns dos detalhes que se passavam na vida de Rodríguez.
Além disso, ainda tinha Saló. A garotinha por quem eu aprendera a nutrir um sentimento irrefreável e, portanto, não tinha tido a iniciativa de cortá-la de minha vida.
Só que nada disso tinha me preparado para a notícia que havia recebido.
Casamento?
Não, casamento não era algo que eu esperava.
Na minha cabeça, Verona seria apenas um casinho do jogador que, por acaso, havia saído na mídia. Então o convite realmente me surpreendeu.

James foi o meu primeiro e grande amor. Nos conhecemos quando ele embarcou em Madrid, sendo cogitado como grande aposta do clube merengue.
Após 2014, mesmo com a eliminação da seleção colombiana para o Brasil, nas quartas de final, todos só sabiam falar do talentoso camisa 10 colombiano, fazendo com que grandes clubes se interessassem no jovem jogador do Mônaco.
Sendo bem sincera, eu não era muito fã de futebol.
Mesmo morando perto do Santiago Bernabéu e eventualmente acompanhar um ou outro jogo ou evento do Real Madrid, visto que meu ciclo de amigos era composto majoritariamente por torcedores madrilenhos, eu não conhecia praticamente nada do esporte. Com toda certeza, eu não compartilhava dessa devoção descabida que todos ao meu redor pareciam ter.
Então, posso dizer com convicção que foi ao acaso que encontrei James.
Numa festa de inauguração da La Niña, uma das boates mais divulgadas pela elite espanhola, eu acabei esbarrando no colombiano.
Eu não era famosa, longe disso. O maior engajamento que eu recebia em meu instagram era quando postava fotos de Senhor Gato, meu gato persa alaranjado e mau humorado.
Mas, Margot, minha melhor amiga, conhecia uma menina, que era namorada de um dos promoters do evento, então, voi lá , eu e minha bundinha magra conseguimos entrar na festa mais esperada do mês. Talvez do ano.
Não sei explicar, contudo, como fui parar no camarote reservado para os jogadores do Real Madrid. Só lembro de estar pedindo um martini de morango para o barman e, antes mesmo de receber minha bebida, já estava sendo arrastada em direção a umas escadas estrategicamente escondidas no fundo do salão.
Quando finalmente consegui assimilar o que estava acontecendo, vi-me diante de alguns dos caras mais bem pagos do mundo.
Não que eu soubesse os seus nomes, mas sabia que eram jogadores, o que os suspiros apaixonados de minha amiga acabavam por confirmar.
O que me chamava atenção, contudo, não eram os seus status ou contas bancárias, mas o modo como eles nos encaravam.
Os homens encaravam Margot e eu como se fôssemos uma garrafa de água no meio de um deserto. Assustador.
Mais assustador ainda ao lembrar que a maioria daqueles caras deveriam ser casados, com suas esposas esperando em casa com seus filhos mimados enquanto seus maridos estavam encarando mordazmente duas mulheres aleatórias em uma boate no meio da cidade.
E é por isso que eu poderia passar horas num palanque falando mal de homem, foi o meu pensamento.
Ignorando todos os olhares, e vendo minha amiga começar a falar com um narigudo tatuado, fui finalmente pedir o martini que me foi negado anteriormente, no pequeno bar exclusivo que tinha ali.
E nisso, eu o vi.
Sentado despreocupadamente, com uma calça jeans de lavagem escura e uma blusa branca de mangas longas, estava James Rodriguez. Encarando-me efusivamente com um olhar que, inesperadamente, não achei ofensivo.
Mas quente.
Um simples olhar daquele homem foi capaz de me acender em lugares que há meses clamavam por atenção.
E foi assim que a nossa história começou.
Em algum momento da nossa troca de olhares, James tomou a iniciativa e veio conversar comigo, em um espanhol com sotaque. Nisso, acabamos descobrindo muitas coisas em comum, perdendo completamente a noção do tempo e terminando a noite sem beijos, mas com números de telefone trocados.

Semanas depois, já me encontrava perdidamente apaixonada pelo moreno de olhos gentis e sorriso safado. Começamos a namorar logo depois disso.
James era o que eu poderia chamar de personificação do meu homem ideal.
Ele era engraçado, gentil, prestativo, inteligente e, simplesmente, a pessoa mais bondosa que eu já havia conhecido. E olhe que eu já tinha feito parte de algumas ONG's de proteção animal e de projetos de combate à fome na África.
Além de tudo isso, tinha um corpo de deixar qualquer mulher enlouquecida.
James era, sem dúvidas, o pacote completo.
Realmente, estranho seria se eu não me apaixonasse por ele.
Contudo, como nem tudo eram flores, logo apareceram alguns empecilhos no nosso relacionamento.
O primeiro deles tinha nome, sobrenome e parentesco direto com a pessoa mais importante da vida de James: Daniela Ospina, ex-mulher do colombiano e mãe de sua filha, Salomé.
Daniela não era uma pessoa digamos que, fácil.
Quando eu conheci o jogador, James e ela já não estavam juntos há alguns meses, mas isso não a impediu de me acusar de destruidora de lares.
A mulher chegou ao ponto de impedir que Rodriguez visitasse a própria filha, afirmando que só mudaria de ideia caso ele terminasse comigo.
Realmente, não foi o momento mais tranquilo do nosso relacionamento.
Ospina só desistiu, de fato, dessa atitude infundada, ao receber chamados dos advogados de James, uma vez que ele nunca aceitaria ficar longe de sua pequena Salo. Com medo de perder a guarda da menina, de forma definitiva, a mulher finalmente recuou.
Com esse problema resolvido, apareceram outros.
O pior deles foi a transferência do jogador para o Bayern de Munique.
Sua performance no Real Madrid não estava sendo o esperado pela torcida e pela diretoria do clube, fazendo com que o rapaz fosse emprestado para o time bávaro.
Sinceramente, eu nem sabia que um jogador poderia ser emprestado, tal como uma caneta qualquer, mas, aparentemente, isso era bastante normal no mundo do futebol.
Foram noites e mais noites de conversas sobre o que faríamos acerca do nosso relacionamento. Mudar para Alemanha não era, nem de longe, um dos meus objetivos.
Um país diferente, com um idioma diferente e um clima também diferente, não facilitaria o meu processo de adaptação. Mas, eu cedi e segui meu namorado para a cidade alemã.
Eu trabalhava para uma empresa de designer gráfico de jogos, então meu emprego não era exatamente um obstáculo. O home-office já era frequente na minha vida.
Minha família, por sua vez, não morava em Madrid há alguns anos, mudando-se para Sevilla logo quando eu entrei para a universidade. Então, tirando as minhas inseguranças, não havia nada que realmente me prendesse à cidade espanhola.
Por isso, eu fui.
Contudo, não posso dizer que foi fácil.
Não conhecia ninguém, fora algumas esposas de jogadores colegas de James, e não sabia falar nenhuma palavra em alemão. A não ser os básicos como Nein, e Guten Morgen. Nada muito elucidativo, claramente.
Eventualmente, porém, eu acabei me acostumando.
Munique era uma cidade adorável e jogadores como Thomas Müller e Robert Lewandowski viraram sinônimo de família.

Entretanto, quando eu já poderia me considerar adaptada às terras bávaras, o empréstimo de James acabou e ele voltou para Madrid.
Não posso dizer com certeza se foi isso que acabou abalando o nosso relacionamento, mas indubitavelmente, isso não ajudou.
Brigas e discussões, que antes eram resumidas somente à escolha de jantares e de filmes, passaram a ser mais frequentes.
O ciúmes também começou a florescer.
Nunca tive motivos para desconfiar de James, sabia que ele me amava e que era fiel. Todavia, uma voz irritante na minha cabeça ficava sempre me alertando sobre possíveis traições. Comecei ao ponto de acreditar que as fãs que comentavam em suas fotos poderiam não ser somente fãs.
Eu estava sendo totalmente irracional, eu sabia disso. Mas, na época, não conseguia enxergar isso. A mídia espanhola, por sua vez, não me ajudava a pensar de modo coerente. Constantes alegações de que o colombiano havia voltado para o país para retornar antigos affaires com modelos locais, eram proferidas. Resumindo, eu não era a WAG favorita do país. Talvez nem do continente.
Eu não era uma mulher pacata e devota à família como Antonella Rocuzzo, esposa de Lionel Messi. Nem extrovertida e autêntica, com tiradas espertas e sarcásticas, como Alexis Piovezan, esposa de Thomas Müller.
Eu era só… Eu.
, uma designer de 25 anos, que era fã de sitcoms e que assistia gameplays em seu tempo vago.
Com isso, em uma de nossas intermináveis brigas, enquanto eu argumentava que ele deveria ir embora se estava tão incomodado assim com as minhas suposições, ele foi.
Só que, contrariando todas as vezes em que ele voltava com seu tem manso, dizendo "Não vamos brigar mais não, amor. Eu amo você". Ele não voltou.


Francamente falando, ele havia voltado horas depois para tirar as suas coisas do nosso apartamento. E foi a partir disso, que eu vi que tínhamos acabado. Não havíamos tido um término propriamente dito, mas depois disso, cortamos todo o contato possível. Mais por conta minha do que dele, devo dizer.
Eu amava James e sabia que ele me amava também, mas aquele não era o nosso momento. Em pouco tempo de relacionamento, passamos por situações que serviram somente para nos desgastar, até o momento que ele não aguentou mais.
Não poderia culpá-lo.
Éramos as pessoas certas em um momento errado.
Com isso mente, eu não procurei falar com ele depois de sua mudança. Não queria transformar todo amor que tínhamos um pelo outro em rancor e mágoa, como sabia que já estava acontecendo.

As notícias que tinha do rapaz, vinham de minha ex-sogra, que me ligou, nas primeiras semanas, para saber como eu estava, e até de Salomé.
A menina era muito nova e não entendia muito bem o que um término de relacionamento queria dizer, mesmo que tivesse vivenciado isso com seus próprios pais. Além disso, eu amava aquela garotinha como fosse minha e me fazia bem conversar com ela, mesmo que nem sempre fosse fácil.
Era muito complicado conversar com alguém tão próxima ao jogador e não perguntar como ele estava. Algumas vezes, eu ouvi a voz do rapaz ao fundo, enquanto Salomé tagarelava sobre qualquer anedota de seu dia. Mas, depois do fatídico dia de sua mudança, nunca mais nos falamos.
Para mim, em alguns meses iríamos nos encontrar e viveríamos o amor que Deus reservou para nós.
Era o que eu achava, bem, até receber o convite.

James David Rodríguez Rubio e Verona Gabrielle Mathias,
Com a bênção de seus pais,
Convidam você para a cerimônia de seu casamento.
05 de Dezembro de 2020, às 19:30 hrs.
Finca La Montaña,
Av. Amazonas Central, 2, 4, 28300 Aranjuez, Madrid, Espanha


Deitada em minha cama, várias ideias já tinham vindo em minha cabeça. Algumas ruins e outras, simplesmente péssimas.
Entrar na Igreja correndo, ignorando todos os convidados, e gritar para James que eu sabia que era eu quem ele amava e chamava, na saúde, na tristeza, na alegria e na cama, era a minha favorita até agora.
Pedir, do jeito que sabia que ele não resistia, para ele parar com aquele teatro e jogar a aliança fora, era o meu maior desejo.
Mas, eu não podia fazer isso.
James merecia ser feliz, mesmo que para isso, eu precisasse abdicar da minha própria felicidade.
Desse modo, suspirando de maneira resignada e triste, fiz o que era mais correto: joguei o convite fora e tentei cair no sono.

UNO

55 dias para o casamento

Baby, no (baby, no)
Me rehúso a darte un último beso
Así que guárdalo (guárdalo)


No limbo entre a realidade e a inconsciência, tive o deslumbre do meu telefone tocando. Não fazia a mínima ideia de que horas eram, mas tinha certeza de que não havia dormido o suficiente.
Tentando me desvencilhar dos lençóis macios, comecei a tatear a cama incessantemente em busca do aparelhinho barulhento. Quando finalmente achei, logo fui bombardeada com a voz aguda de Margot.
- , você viu? - disse, exasperada, sem deixar que eu processasse a sua ligação - O James vai casar! - concluiu em um grito extremamente fino.
- Bom dia para você também, Margot. - retruquei em tom irônico, suspirando em seguida ao entender do que a espanhola falava - Eu sei, eu recebi o convite. - deitei novamente em meus travesseiros, lembrando de todo o peso que aquela informação me trazia. Ainda parecia um pesadelo.
- AQUELE FILHO DA PUTA TE MANDOU UM CONVITE? - exclamou, indignada - É AGORA QUE EU GASTO MEU RÉU PRIMÁRIO! - continuou, me fazendo afastar o telefone das orelhas devido ao tom que usava.
- É, ele mandou. - respondi, encarando o teto branco de meu quarto - E, desculpe, Marg, mas você já gastou seu réu primário dando um chute nas bolas daquele jogador do Barcelona. – conclui, dando um sorrisinho ao lembrar daquela situação em específico.
- Maldito Semedo - disse, irritada, me fazendo rir fracamente - Até para isso esse cara é incompetente!
- É, é... – respondi, aérea, sem realmente querer ter aquela conversa. Sabia, no entanto, que a mulher não estaria disposta a me deixar viver em meu vazio existencial.
- Como você está, ? - minha amiga questionou em uma voz mansa, tão divergente de seu temperamento extremamente caloroso e explosivo, após alguns segundos em silêncio. - Eu realmente não me importo de ir para cadeia por quebrar a cara daquele colombiano safado! - mesmo sem poder vê-la, tinha certeza de que Margot cerrava os pulsos e franzia as sobrancelhas, expressão típica de quando ficava estressada com algo.
- Eu não sei. – disse, em tom levemente embargado. Odiava o fato de chorar muito facilmente. - Eu não esperava por isso... - confessei em uma voz trêmula, me esforçando para não gaguejar.
- E quem esperava?! - retrucou, indignada. - Vocês terminaram não faz nem um ano!
- Seis meses. - corrigi a informação, brincando com dedos de minha mão. - Faz seis meses que nós terminamos. - fechei os olhos com força, lembrando-me de tudo que tinha vivido até ali.
- E ele te mandou um convite! - a espanhola parecia mais indignada com a informação do que eu. - Eu vou para aí! - afirmou, fazendo com que eu me sobressaltasse. Não queria ver ninguém. Ninguém mesmo. Nem a minha melhor amiga.
- Não. - suspirei, ouvindo uma reclamação do outro lado. - Eu realmente preciso ficar sozinha. - disse em um tom mais firme do que o utilizado durante toda a conversa.
- Mas, ...
- Por favor, Margot. - interrompi minha amiga em uma súplica. - Por favor, não.
- Mas você promete que qualquer coisa vai me ligar? - inquiriu em um suspiro derrotado. Sabia que não era fácil para ela me ver assim, sem poder fazer nada, mas eu realmente precisava de um tempo para mim. - ?
- Prometo, Marg. Eu prometo.

- x -


Já fazia alguns dias que eu descobrira sobre o casamento de James. Nesse tempo, eu sumira completamente das redes sociais. Não queria ter o risco de encontrar nada que fosse me machucar. Não estava pronta para isso. Mas também não estava mais aguentando toda essa situação. Não queria ficar me afundando num quadro depressivo, enquanto o causador disso tudo estava lá, com outra mulher e feliz.
Eu não merecia isso.
Com isso em mente, eu levantei e fui em direção ao espaçoso banheiro de meu quarto.
Eu não tinha orgulho de muitas coisas da minha vida, mas com certeza isso não incluía o meu apartamento.
Aquela era a ilustração de minha vitória pessoal.
Eu havia decorado cada pedaço daquele cantinho com meu suor e estava completamente satisfeita com tudo o que havia construído.
Tirei minha camisola e minhas roupas íntimas, jogando-as em um cesto que eu deixava ali justamente para isso. Entrei de cabeça no chuveiro e instantaneamente senti a água quente relaxar meus músculos. Lavei meus cabelos cuidadosamente, esfoliei minha pele e passei minha máscara de hidratação cara, que só usava de vez em quando. Ao terminar meu banho, eu era uma nova mulher. Já sentia os efeitos daquele processo na minha autoestima e no meu humor.
Saindo do banheiro, procurei uma lingerie preta rendada que eu não usava há exatos seis meses, juntamente com uma calça jeans e uma camiseta listrada. O primeiro passo já havia sido dado.
O segundo passo estava em andamento, enquanto eu andava em direção ao meu Jeep preto, estacionado na garagem do meu prédio.
Aquele era outro fato que eu me orgulhava em minha vida. Eu amava aquele carro com todas as minhas forças. Para mim, fora um sonho ter um exemplar do modelo que eu babara sempre que passava na frente da concessionária.
E, graças a Deus, e ao meu esforço, eu havia conseguido.
Por isso, me irritava demais quando alguém tinha a pachorra de afirmar que meus bens eram herança do meu relacionamento com James. Só eu sabia o quanto tinha ralado para conseguir as minhas coisas.
Balançando a cabeça para ignorar os pensamentos negativos que estavam me invadindo, entrei no banco do motorista, recebendo a confirmação que precisava para diminuir um pouco do peso do meu peito. Javier, meu cabeleireiro desde quando me entendia por gente, havia confirmado meu horário. Assim, saí da garagem e fui em direção ao salão. Eu precisava de uma mudança e começaria com meu próprio visual.

- x -


Já era tarde quando eu havia deixado o salão de Javier.
Havia sido bastante exaustivo passar o dia no lugar, mas posso dizer que havia valido a pena.
Minhas unhas, que há tempos não eram feitas, exibiam um bonito tom de vermelho. Por outro lado, meus cabelos, que antes chegavam no meio das costas, agora estavam um pouco abaixo dos ombros, com luzes acobreadas.
Pode parecer bobo, mas eu me sentia totalmente revigorada.
Afinal, quem foi que disse que cortar o cabelo não transformava o ser? Essa pessoa provavelmente nunca teve o coração partido, visto que a sensação era reconfortante.
Me sentindo bem comigo mesma, decidi, antes de ir para casa, passar num Mc Donalds no caminho de meu prédio. Não havia nada no mundo que eu desejasse mais do que um hambúrguer no momento.
Ponderando entre comprar algo no drive-thru ou parar para comer no restaurante, decidi entrar. Não queria voltar para o vazio do meu apartamento agora. Não tinha motivos.
Estacionei o meu carro em uma vaga na sombra e caminhei em direção à lanchonete. Chegando lá, tive o primeiro empecilho do meu dia de mudanças. Ali, sentada, devorando uma porção de batatas, estava Daniela Ospina.
Quais as chances, Deus?
Eu devo ter dançado reggaeton na cruz para poder ter merecido isso.
A mulher não tinha reparado na minha presença, estava bastante distraída mexendo em algo no celular. Por causa disso, fiz menção de sair e voltar para o conforto do meu carro, mas antes que eu pudesse me mexer, Daniela me viu. Não soube dizer exatamente qual era a expressão que a mulher tinha, mas não era nada parecido com os olhares de desprezo que me mandava na época em que eu namorava com James.
Não sabia por quanto tempo nós estávamos nos encarando, mas tinha sensação de que fora muito tempo. Todavia, antes que pudesse me recompor e seguir para a pequena fila que desenrolava na minha frente, a colombiana se levantou e veio caminhando em minha direção.
Ospina era uma mulher bonita.
Alta, de longos cabelos castanhos e de postura impecável. Mas, não pude reparar muito em sua aparência, visto que logo ela estava parada em minha frente.
- . - começou ela, em um tom manso. - Como você está? - questionou, indicando a mesa que estava antes, em um convite mudo para segui-la.
Sendo bem sincera, pensei em ignorá-la e sair sem olhar para trás.
Não era idiota. Não tinha esquecido tudo de ruim que aquela mulher havia feito para mim e para James, principalmente durante os primeiros meses de nosso relacionamento. Contudo, eu realmente queria deixar algumas coisas para trás.
Eu precisava seguir em frente e esquecer das coisas que me fizeram mal no passado. Assim, respirei fundo e segui a colombiana até a mesa. Aparentemente, meu lanche teria que ficar para depois.
- Estou bem. - disse, simplesmente.
Não iria desabafar com a ex-mulher do meu ex-namorado. Não tínhamos um clube de mulheres que foram arrasadas por James Rodriguez. Mesmo achando que talvez fosse uma boa ideia fazê-lo. Seria uma boa desculpa para tomar sorvete e comer porcarias. Talvez pudesse até ter uma sala de jogos...
- Fale a verdade. Eu posso te ouvir. - adicionou, me tirando de meus devaneios, esticando uma de suas mãos para tocar em meu braço apoiado na mesa. Minha primeira reação foi afastar meu braço do toque da mulher, lançando-a um olhar irônico. Era muita ousadia mesmo. A mulher nunca havia me dado um “bom dia”, mas agora queria conversar comigo como velhas amigas?!
Eu devo ter muita cara de trouxa mesmo.
- Não sei o que você está querendo com isso, Ospina. - falei asperamente, fazendo menção de levantar. - Mas não vou cair nesse seu joguinho. - completei, pegando minha bolsa e começando a me afastar.
- , espera! - disse alto, chamando atenção de algumas pessoas que estavam ali - Me escuta, por favor. - pediu. Somente assenti, respirando fundo. Se esse encontro tivesse sido no dia anterior, eu já teria feito um escândalo e deixando a lanchonete depois de um bom barraco. Mas eu prometera ser uma nova , e a nova era paciente e plena.
- Eu soube do casamento do James - começou, me deixando mais desconfortável do que já estava. - E eu sinto muito.
- Você sente muito? – retruquei, amarga. - Você, que tentou atrapalhar o meu relacionamento inúmeras vezes?! Usando até a Salomé para isso? – terminei, indignada, deixando minha voz mais aguda. Talvez não fosse dessa vez que eu alinharia meus chacras e me tornaria uma pessoa mais tranquila.
- Eu sei que não fui a melhor das pessoas, . - falou, encarando meus olhos. - E eu peço desculpas por isso. Mas, eu já estive no seu lugar e sei como você está se sentindo.
A minha vida era uma sitcom, era a minha conclusão depois de tudo isso. Me sentia a Ângela na oitava (ou seria nona?) temporada de The Office, quando estava no fundo do poço e era acalentada por Oscar, amante de seu marido. Inacreditável.
- Ah, sabe?! – repliquei, sarcasticamente. - Você também teve uma doida se colocando dentro do seu relacionamento?
- Não, . - falou calmamente, ignorando o xingamento. - Eu também tive meu coração quebrado pelo James. - finalizou, afastando a bandeja que há muito tinha sido esquecida. Sabia que não era muito higiênico ou sequer educado, mas estava com muita vontade de roubar algumas das batatas da mulher. Droga, eu realmente precisava comer alguma coisa.
- Meu coração não está quebrado, Daniela. - menti descaradamente, desviando o olhar. - Terminamos há meses.
- E posso garantir que você ainda tinha esperanças de voltar com ele. – afirmou, convicta, arqueando uma de suas sobrancelhas bem definidas, como se me desafiasse a contrariá-la. Não gostava daquele tom. A mulher me olhava de cima a baixo como se fosse o suprassumo da razão. Eu detestava aquilo. Por esse mesmo motivo tinha largado o curso de direito no segundo período. Não conseguia suportar a ideia de conviver com pessoas que se achavam melhores do que as outras, principalmente por motivos fúteis como o fato de saberem argumentar melhor.
- O que você quer, Daniela? – perguntei finalmente. Não estava querendo tocar naquele assunto nem com os mais próximos, que dirá com Daniela Ospina. Já não sabia se um lanche do Mc Donalds valia todo aquele estresse. Deveria ter seguido minha nutricionista e comido um wrap de frango. Ou qualquer outra coisa sem gosto. Se tivesse ido por esse caminho, não estava estragando meu dia de fênix.
- Eu quero te ajudar a voltar com o James. - falou, encarando meus olhos de modo ansioso. Sei que não era muito educado, mas eu não pude evitar. Simplesmente gargalhei em sua cara. Discretamente, comecei a encarar o lugar para ver se encontrava câmeras.
O Ashton Kutcher tinha um programa daqueles, não é?!
Colocar pessoas em situações absurdas e esperar a reação delas sem saber que estavam sendo filmadas. Sinceramente, só poderia ser aquilo. A mulher, por sua vez, esperou pacientemente minha crise de riso passar e eu me recompor para continuar. - Não estou brincando, .
- E por qual motivo você faria isso? - retruquei, limpando uma lágrima teimosa que havia escapado enquanto ria.
- Salomé. - falou. Vendo minha cara de confusão, logo continuou. - Ela detesta a Verona e, por algum motivo, te idolatra. - finalizou a última parte com um leve desdém, que eu resolvi ignorar. - Eu só quero a minha filha feliz. - finalizou, parecendo ignorar que tempos atrás tinha tentado impedir a menininha de ver o próprio pai.
- A Salo é uma criança, Daniela. Você não pode acabar com um relacionamento por causa dos gostos dela. - expliquei, mesmo que a informação tivesse me deixado meio encucada. Como assim Salomé não gostava de Verona? A garota gostava de todo mundo. Todo mundo mesmo. - Com o tempo ela irá se acostumar.
- A Salo não desgosta da Verona porque é uma criança, . - devolveu, olhando para mim como se a criança fosse eu. De novo aquele tom. - Ela não gosta dela porque sabe que o pai não superou você.
- Agora você está viajando longe. - revirou os olhos, cansada. - Ela não entende essas coisas. Só tem sete anos.
- Pode até não entender tudo, realmente. – concordou. - Mas ela sabe que o pai não está feliz. – terminou, como se fosse óbvio.
- Se ele não está feliz, por que vai casar com ela, Ospina? - eu estava totalmente exausta daquela conversa. Só queria ignorar toda a minha educação e ir embora. Além disso, estava morrendo de fome, e o cheiro de comida gordurosa não estava ajudando. Ainda tinha o fato de o monstrinho verde do ciúmes estar dando as caras mais uma vez. Me incomodava que Daniela soubesse mais de James do que eu, mesmo sabendo que ela era mãe de sua filha.
- Porque o James é assim. - suspirou, com o olhar vago, como se lembrasse de algo vivido. - Ele tenta suprir alguma necessidade com pedidos de casamento. Foi assim comigo, está sendo assim com ela. Acho que ele só não fez isso com você porque te amava demais para casar com você só por casar.
- Ah, pronto! Agora o James é o Ross Geller. - balancei a cabeça em discordância. Aquilo já estava indo longe demais. - Você está totalmente insana. - afirmei, levantando de uma vez para ir embora. Já havia me alongado demais nesse assunto.
- Você sabe que eu estou certa, . - disse, enquanto eu me afastava. Não queria mais ter que ouvir a voz da mulher. - Você pode me ligar quando cair em si. Eu estarei aqui para te ajudar. - completou mais alto, para que eu ouvisse.
Nem em seus sonhos, Ospina, nem em seus sonhos, disse para mim mesma, enquanto adentrava o estacionamento e rumava para o meu carro. Iria passar no Burguer King só para alimentar o mercado da concorrência.

DOS

Quiero que tú seas mi princesa
Que sean mis labios solo los que te besan
Tocar tu suave piel cuando la noche empieza
Hasta volverte mía, princesa (Princesa - Río Roma ft CNCO)

FLASHBACK - Um ano e três meses para o casamento


Era o aniversário de 30 anos de Thomas Müller.
O homem havia organizado toda a celebração no grandioso quintal de sua casa recém adquirida em Munique, localizada na mesma vizinhança em que viviam James e eu.
Diversos rostos empolgados - a maioria de desconhecidos por nós - passeavam pelo espaço com copos cheios de líquidos, estes que deveriam ser alguma obra elaborada dos bartenders contratados pelo alemão.
Além, obviamente, dos muitos garçons, que andavam oferecendo aperitivos para os convidados que se arriscavam a comer alguma coisinha antes de se jogarem na agitada pista de dança, localizada ao lado da piscina de Thomas e Alexis; essa que estava perfeitamente iluminada, com diversas mesas dispostas ao seu redor. As caixas de som entoavam algum sucesso de uma boyband latina, fazendo até os mais tímidos balançarem os quadris levemente ao som da animada batida da música.
- Yo sólo la miré y me gusto; me pegué y la invité: Bailemos, yeh. - eu cantarolava, empolgada, com a voz levemente trêmula por conta da bebida ingerida. - La noche está para un reggaetón lento; de esos que no se bailan hace tiempo. - continuei, pegando nos braços do meu namorado para fazê-lo acompanhar o meu ritmo.
- Já está bêbada, cariño? - o mais velho perguntou, risonho, dando um beijo nos meus cabelos, que eu sabia, estavam cheirosos.
- Me respeita, James Rodriguez! - ralhei em tom de brincadeira, dando um tapinha no ombro do outro. - E eu lá sou mulher de ficar bêbada com apenas um copo de Martini?
- Perdão, senhora dona do bar. - gargalhou baixinho no meu ouvido, fazendo-me arrepiar os pelinhos do pescoço. - Impressão minha ou tem muita gente desconhecida aqui? - questionou, encarando de forma nada discreta um rapaz de cabelos longos, vestido com um macacão vermelho floral.
- James, pelo amor de Deus, não encara! - repreendi, dando uma cotovelada de leve no jogador, ao ver que o desconhecido havia mandado uma piscadinha para nós. - Pior que a sua filha, homem! - disse, prendendo um sorriso que queria sair ao sentir o colombiano morder minha bochecha. - Mas, sim. - assenti com a cabeça. - Tem gente que eu nunca vi na vida aqui.
- O Thomas não brincou quando disse que queria fazer a maior festa da cidade. - falou, coçando a cabeça.
- Quando você irá aprender que um Müller nunca brinca em serviço, Rodriguez? - o aniversariante surgiu de supetão, causando um sobressalto em Rodriguez e em mim. - zinha, você ainda não deu um jeito nesse seu namorado estranho? - balançou a cabeça em reprovação, antes de pular em cima do casal de amigos, quase nos derrubando, para um abraço animado. - Finalmente saíram da toca de vocês para socializarem! - exclamou ao nos soltar; ouvindo ganidos de descontentamento da minha pessoa, por ter amassado meu vestido e cabelo.
Eu não era uma pessoa fresca. Mas, poxa, eu realmente tinha caprichado naquela noite.
- Experimenta ter uma filha na idade em que ela está, em um misto de teimosia e independência! - exclamou o jogador colombiano, me dando um abraço lateral. - Amo minha pirralha, mas é foda.
- Entendo, meu amigo. - assentiu o dono da festa, dando um aperto em seu ombro como sinal de solidariedade. - Pads e Snow me deixam de cabelos arrepiados de vez em quando. - disse em tom vago, bagunçando seus cabelos loiros.
- Você está comparando a responsabilidade de uma criança a de dois cachorros, Thomas Müller? - respondi em um misto de espanto e de riso. - Deixa só a Alexis ouvir isso! - falei, fazendo referência à minha amiga e esposa do rapaz, que estava tentando engravidar do primeiro filho dos dois.
- Labradores podem ser muito temperamentais, ! - respondeu o mais velho, pouco ofendido com meu tom de ameaça. O rapaz adorava me provocar. Era demasiadamente fofo, em suas palavras, me ver com as orelhas e o rosto levemente avermelhados, sempre com um pequeno bico nos lábios finos.
- Eu não sei como eu aguento você, sinceramente. - apertei a ponta do nariz em um claro sinal de impaciência . - Cadê a Lexi, afinal de contas? - questionei por último, vendo que a minha indignação divertia os dois homens. Alexis Piovezan era a pessoa mais incrível que eu havia conhecido nesse tempo na Alemanha. A brasileira havia me abraçado como poucos, sempre tentando me ajudar no processo de adaptação. Por também ser estrangeira, Lexi entendia que não era fácil se adequar a uma cultura, clima e idioma totalmente diferentes. O casal estava junto há muitos anos, o que sempre nos fazia ter conhecimento de histórias incríveis. Thomas era extremamente brincalhão e Alexis tinha uma língua extremamente atrevida, então quando eles se juntavam, era sinônimo de diversão. Eu não sei até que ponto acreditava em almas gêmeas, mas se isso existisse, Müller e Piovezan eram o melhor exemplo disso.
- Ela deve estar com o Rob e a Anna. - ponderou, olhando rapidamente para os lados - Eles falaram algo sobre fiscalizar a produção de bebidas.
- Três bebuns juntos... - James balançou a cabeça, risonho, roubando um gole do meu Martini e recebendo um olhar de ultraje em resposta. - Não vai dar certo, hein… - terminou, depositando um selinho nos meus lábios que, involuntariamente, tinham formado um bico.
- Na verdade, já deu, meu caro amigo. - o filho dos Müller disse, sorrindo com malícia, bebendo um gole de sua bebida. - Já deu.
Após conversarmos mais alguns minutos com Thomas, James e eu decidimos ir ao bar experimentar mais alguns dos famosos drinks que estavam sendo oferecidos pelo aniversariante. Com a mudança para Munique, somado à constante presença de Salomé em casa - além de, claro, o manuseio e planejamento das carreiras de jogador de futebol e de designer- eram poucas as oportunidades que nós tínhamos para beber e, simplesmente, esquecer das responsabilidades que nos eram atribuídas.
Por sorte, a comemoração coincidiu com o fim de temporada do Bayern München; este que conseguiu angariar mais um título da Bundesliga para o seu grande acervo de conquistas. Em contrapartida, a eliminação da equipe bávara, nas quartas de final da UEFA Champions League, para o Liverpool, - esta que, mais uma vez, fora bastante contestada pelos torcedores do time alemão, além da derrota inesperada para o Eintracht Frankfurt - pelo placar de 3x1 - na final da Copa da Alemanha; acabaram por deixar o clima de comemoração ligeiramente menor. Os resultados indigestos, somados a uma provável saída do treinador Niko Kovač, e o consequente ingresso do alemão Hans-Dieter Flick no comando da equipe, tornavam o vestiário um ambiente levemente assustador. Além disso, a aproximação das eliminatórias da Copa de 2022 era mais um agravante que fazia James Rodriguez sentir vontade de afogar os seus temores na bebida. A campanha de 2018, na Rússia, com uma eliminação para a Inglaterra, nos pênaltis, ainda doía para os colombianos. Para James, em especial, a derrota tinha o gosto ainda mais amargo quando ele se lembrava que não havia conseguido participar do jogo responsável pela derrota de sua seleção, visto que estava com uma séria lesão muscular, essa que havia sido ainda mais forçada no confronto contra Senegal. Neste caso em específico, meu namorado não havia conseguido nem concluir o primeiro tempo da partida.
Somado a isso, também poderíamos citar a derrota da Colômbia, mais uma vez nas penalidades, para o Chile, nas quartas de final da Copa América, que tinha acontecido há alguns meses.
Resumindo, a pressão que Rodriguez sentia nos ombros, sobretudo por ser o principal jogador da seleção sul-americana, não era fácil.
A expectativa que o povo colombiano estava colocando naqueles 23 jogadores que seriam convocados pelo técnico Carlos Queiroz nos próximos dias, era bastante aterrorizante; mesmo para um jogador acostumado com desafios como James.
No caminho do bar, acabamos esbarrando em Robert Lewandovski e na sua esposa, Anna, que, de fato, estavam averiguando o andamento das bebidas.
- Olha aí, se não é o casal mais bonito de Madrid! - o polonês disse em um tom alterado, jogando-se em cima do amigo e, consequentemente, de mim. - Porque de Munique, obviamente, somos a Anna e eu! - concluiu em uma rebolada desengonçada.
- Alguém por aqui já está bêbado, huh? - disse em tom zombeteiro, aceitando o abraço desengonçado do meu amigo.
- Eu honro as minhas origens polonesas, mulher! - cantarolou o camisa 9 após receber uns tapinhas nas costas de James.
Homens e seus estranhos tipos de cumprimento.
- Desculpa esfarrapada, hein, mate? - piscou o jogador, indo pedir uma tradicional cerveja para o barman do local, enquanto inquiria a mim com o olhar para saber qual bebida era o meu desejo atual.
- Uma coca, por favor. - respondi a pergunta silenciosa do meu namorado. Ao ver a careta de indagação do rapaz, logo tratei de complementar. - Um copo de Martini foi o suficiente para mim. - dei de ombros. - Você sabe que nós não podemos ficar bêbados juntos. - adicionei, com uma careta desgostosa, ao lembrar do último porre que havia tomado com Rodriguez, meses antes.
- Definitivamente, não. - concordou o colombiano de forma efusiva; pegando sua long neck e a lata de refrigerante do rapaz de cabelos raspados, atrás do balcão.
- Eu nunca entendi muito bem o que aconteceu com vocês dois naquela noite. - Anna finalmente se pronunciou. A moça estava com os cabelos escuros compactados em uma trança lateral; juntamente com um vestido tubinho branco e um sapato scarpin vermelho. Já eu, por outro lado, estava com um vestido evasê em um tom rosê, acompanhado de meu inseparável Louboutin preto, um dos poucos sapatos de grife que eu tinha. - A única coisa que o Rob me esclareceu foi que vocês estavam atordoados demais para pensarem em sair de casa.
- É melhor focarmos em outro assunto. - eu disse de supetão, tentando tirar os olhares curiosos da esposa do meu amigo de mim. - Sério. - assegurei, recebendo o apoio do meu namorado e uma gargalhada debochada de Robert.
- Mas, eu gosto tanto dessa história! - o mais velho falou divertidamente, puxando a sua mulher e o outro casal, nós, para nos sentarmos em uma mesa próxima ao bar. - Vocês têm certeza de que não querem abordar esse assunto? - continuou a provocação, acomodando-se na cadeira e já fazendo um sinal para o garçom trazer os aperitivos para a sua mesa.
- Sim, Lewandovski, eu tenho. – frisei, entredentes. A história que consistia em James, eu e um gato desconhecido, deitados, de roupas íntimas, no jardim do vizinho, era algo que queria esquecer. - Não sei como você conseguiu ser meu bávaro favorito por tanto tempo. - tombei lateralmente a cabeça em uma falsa dúvida.
O meu questionamento despretensioso resultou em uma exclamação indignada de meu amigo, além de risadas divertidas do jogador colombiano e de Anna. Antes que Rob pudesse responder à minha provocação, contudo, o garçom chegou trazendo os salgadinhos requeridos anteriormente. A chegada dos aperitivos acabou dispersando um pouco da atenção da implicação, uma vez que os quatro presentes - incluindo eu, obviamente - eram extremamente esfomeados e o aniversariante e sua esposa haviam caprichado bastante na escolha do buffet.
- Não se engane, minha amiga. - Rob quebrou o silêncio, atraindo a atenção dos demais. - Independentemente de você trocar fluidos corporais com esse aí... - apontou de forma despretensiosa para o colombiano, recebendo um pescotapa em resposta aos termos utilizados. - E ficar de papinho com o Müller, eu sempre serei o favorito. – piscou, divertido.
- Pode sonhar que ainda é de graça. - James intrometeu-se, sorrindo de maneira desafiadora para o companheiro. - A só te achava legal porque não entende nada de futebol. - provocou, colocando um dos braços sobre os meus ombros, em um tom pretensioso. Eu apenas observava divertida as trocas de farpas de dois dos homens que mais adorava na vida - E porque os seus tik toks te fazem parecer boa gente. – finalizou, zombeteiro.
- Acredite no que te fizer dormir à noite, Jay Jay. - fez pouco caso da afirmação do meu jogador bávaro. - No fundo, você sabe qual é a verdade verdadeira. – piscou, provocador, recebendo um revirar de olhos dos restantes presentes.
- Dios mio, vocês parecem mais crianças do que as filhas de vocês. - balancei a cabeça em descrença, recebendo uma concordância veemente de Anna e um bico emburrado dos outros dois.
Apesar de não nos conhecermos há tanto tempo, a amizade entre o nosso grupo era bastante estreita e consolidada. Meus amigos eram a família que eu tinha fora da Espanha e, sem eles, a minha adaptação não seria possível. O jeito extrovertido de Robert e Thomas; a boca atrevida de Alexis e o jeito tímido de Anna se complementavam. Eu os amava com todo o meu coração.
- Vocês viram a Lexi? - comecei em um sobressalto, ao perceber que as provocações entre os amigos iria continuar. - O Thomas disse que ela estava com vocês no bar. - completou, passando os olhos rapidamente pelo lugar para ver se encontrava a brasileira escondida em algum canto.
- O Müller tá é escravizando a pobre coitada! - o camisa 9 respondeu vagamente, tomando um longo gole de seu drink.
- Ela estava com a gente mesmo, mas deu um problema lá no buffet e ela foi tentar resolver. - Anna tomou a dianteira na explicação, ao ver as caretas confusas diante a exclamação meio bêbada do marido.
Por sua vez, parecendo os comensais da morte quando Lord Voldemort instaurou um tabu em seu nome, Alexis pareceu surgir do nada.
Os cabelos castanhos estavam levemente bagunçados e as bochechas coradas, como se a mulher tivesse feito um grande esforço físico. Mesmo assim, a brasileira ainda era uma das mulheres mais bonitas que eu já havia visto.
Piovezan utilizava um macaquinho preto com um tule na região do busto, valorizando o que ela dizia ter de melhor. Nos pés, valorizando o seu tom inesperadamente bronzeado para os padrões alemães, seu inseparável par de scarpins vermelhos marcava presença. Minha amiga estava estonteante.
Alexis, ao finalmente perceber nossa presença, aproximou-se com um sorriso enorme, já me puxando para um abraço.
- ! - exclamou ao me soltar, logo pulando em cima do meu namorado, que quase tombou com o susto. - Vocês vieram! – disse, animada, pegando um dos salgados que estavam dispostos na mesa.
- Claro que viemos. - respondi com obviedade. - Tínhamos que comemorar o fato de que seu marido ainda vive para nos irritar. – continuei, irônica, fazendo com que a outra gargalhasse. Eu tinha uma leve impressão de que a morena já estava levemente bêbada.
- Sempre sarcástica essa minha amiga. - apertou a minha bochecha de leve. - Como você aguenta, James? - questionou meu namorado, que encarava a cena em silêncio com um leve sorriso nos lábios. A essa altura, Robert e Anna já haviam saído sem que percebêssemos, provavelmente indo atrás de mais bebidas. Não poderia culpá-los, mesmo que isso fosse sempre fonte de zoação. Com duas crianças pequenas dentro de casa, eram poucos os momentos que o casal tinha para se divertir sem responsabilidades. Nós vivíamos um pouco disso com Salo, mas não com tanta intensidade, uma vez que a garotinha não morava conosco.
- Sinceramente? Não sei. - respondeu meu namorado em um tom divertido, puxando-me para um abraço lateral. - Deve ser porque ela é gostosa. - completou, rindo de seu próprio comentário, desviando o corpo dos tapas que eu tentava acertar em seu peito. - Ai, amor! - reclamou quando eu finalmente havia alcançado meu objetivo.
- Engraçadinho você, né?! - estirei a língua para James, que mordeu minha bochecha em resposta.
- Ai, como vocês são lindos! - disse Lexi em um tom avoado, carregando-nos para um estranho abraço grupal. - Mas, como a vida não é justa, eu preciso ver como as coisas estão funcionando por aqui. - continuou ao nos soltar, olhando para os lados como se procurasse por alguém. - Antes que o Thomas tire a roupa e tente se jogar na piscina. - concluiu baixinho, falando para si.
Enquanto acompanhávamos Alexis se afastar, James chamou novamente minha atenção. Ao fundo tocava Princesa, uma das minhas músicas favoritas.
- Babe... - começou, passando seu braços ao redor da minha cintura, iniciando uma dança lenta que não combinava muito com a música ambiente. - Obrigado por estar aqui. Isso significa muito para mim. – declarou, me dando um selinho carinhoso e logo me puxando para um abraço apertado. Depois de me soltar, contudo, ao ver minha cara confusa, completou. - Não sei como eu estaria aqui em Munique se você não tivesse vindo comigo. - concluiu, voltando à nossa dança desengonçada. Eu não era uma pessoa que conseguia demonstrar plenamente meus sentimentos. Minha família era seca por natureza. Costumávamos demonstrar afeto por atitudes do dia a dia, não por palavras ou gestos afetuosos. Todavia, com James era diferente.
Era fácil.
James não era só meu namorado, era meu melhor amigo. Com ele, eu conseguia ser, verdadeiramente, a . Eu me esforçava diariamente para ser alguém melhor para ele, todos os dias, porque sabia que ele merecia só coisas boas. As melhores.
- Eu amo você, James. - disse, alisando seu rosto levemente áspero pela barba que crescia. - Estaremos aqui sempre. - finalizei, recebendo um beijo na testa em resposta.
- Eu amo você, . Para sempre.

FLASHBACK’S END

Acordei em um sobressalto com um aperto no peito. Nunca havia tido um sonho tão realista. Lembrar dos meus momentos com James, quando estava extremamente vulnerável, não era algo que me fazia bem. Eu sentia saudades da nossa história e, principalmente, tinha saudades do meu colombiano. Suspirei, levantando-me em busca do meu celular, que estava no banheiro. Provavelmente eu iria me arrepender do que estava fazendo. Mas, escutando os célebres conselhos de Margot, o “não” eu já tinha, estava em busca, agora, da humilhação. Assim, sem tentar dar voz à minha consciência barulhenta, teclei os números que nunca achei que teclaria em prol de um objetivo que não fosse proferir ofensas. Poucos toques depois, ouvi aquela voz, levemente sonolenta.
- Alô?
- Ospina, sou eu. Qual o seu plano?

TRES

Ya me enteré
Que hay alguien nuevo acariciando tu piel
Algún idiota al que quieres convencer
Que tú y yo, somos pasado… (Ya Me Enteré - Reik)


44 DIAS PARA O CASAMENTO

Depois de passar mais de uma hora no telefone com Ospina, organizando os detalhes de seu plano, finalmente a minha consciência pesou. Não sei bem se era pelo fato do plano ser péssimo, ou se era meu amor próprio dando as caras.
Talvez uma mistura de ambos.
A questão era que eu só conseguia pensar no o que diabos eu estava fazendo?
James era um homem crescido, sabia tomar suas decisões. Se ele queria casar, que casasse. Eu não deveria me meter nisso. Ele que lidasse com as consequências de suas ações. Não estávamos na Idade Média e o divórcio existia por alguma razão. Mesmo que passar por dois divórcios, antes dos trinta anos, não era nenhuma meta de vida para alguém. E, pensar nisso, fazia a comparação de James com o Ross convergir mais ainda.
Ao mesmo tempo, vinha em minha mente a ideia de que tudo que nós tínhamos não
poderia ter acabado assim. Não sei se era o meu ego ferido ou qualquer outra coisa falando, mas era muito errado pensar que um grande amor não era destruído de repente?
Seis meses seriam suficientes para tudo acabar?
Realmente, não sabia.
Ainda tinha o agravante de ter recebido o convite de casamento.
Será que era algum sinal?
Provavelmente, não.
Ele deveria só querer me mostrar que havia, de fato, nos superado.
De uma forma bem desagradável, devo dizer.
Por outro lado, conversando com Alexis, que tinha uma visão bastante fantasiosa e exageradas das coisas, uma pulga atrás da minha orelha começou a ser implantada.
A brasileira até perguntou se não havia algum cantinho rabiscado no verso, escrito algo como “estou casando, mas o amor da minha vida é você”.
Claro que isso, provavelmente, era invenção de sua mente criativa, mas isso me deu mais forças para seguir com o planejamento de Daniela.
Margot, por sua vez, disse que eu estava louca e que o jeito certo de superar era pegar todos os caras bonitos de Madrid e, de preferência, amigos de James. Até porque, como cantava Maluma: Vamos a ser feliz, vamos a ser feliz , felices los 4 ,te agrandamos el cuarto.
Eu somente ri de sua sugestão absurda, afinal, desde que eu terminara meu relacionamento, não havia pego nem mesmo uma gripezinha, que dirá outros jogadores famosos.
Antes de tomar alguma decisão, eu ainda liguei para a minha mãe, mas não tive coragem de dizer nada acerca do meu relacionamento com James. Nem sabia se eles tinham conhecimento do casamento.
Meus pais, apesar de serem bastante secos quando comparados ao colombiano e à sua família, gostavam bastante do rapaz e não entendiam o porquê do namoro ter acabado.
Os espanhóis argumentavam que, quando duas pessoas se amam e se respeitam, o resto deveria se tornar insignificante. Eu também pensava assim, mas a teoria era bem diferente da realidade. As variáveis eram muitas e o orgulho e a mágoa acabam se fazendo demasiado relevantes.
Além disso, quando Rodriguez assumiu publicamente o relacionamento com Verona, fui bombardeada com ligações e áudios de Whatsapp perguntando se isso era realmente sério ou se era alguma notícia sensacionalista. Não queria passar por aquilo novamente. Então só preferi ignorar tudo e não pedir conselhos sobre o que infernos eu estava fazendo da minha vida.
No final de tudo, quem melhor saberia lidar com minha situação era eu mesma. Era eu quem sofreria os resultados das minhas ações. Assim, suspirando sofregamente, mandei uma mensagem para Daniela, confirmando minha participação.

- x -


O dia que eu tanto ansiava finalmente havia chegado. O salão em que me encontrava era bastante grande e iluminado.
Mesas se distribuíam harmoniosamente pelo espaço, em consonância com os garçons - fantasiados de personagens da Disney - que estavam com as bandejas sempre cheias, oferecendo petiscos a todos que encontravam.
Crianças correndo por todos os lados, aventurando-se nos brinquedos infláveis e eletrônicos dispostos no local, também era facilmente notável. Ao fundo, havia algumas oficinas de maquiagem artística, bem como carrinhos de pipoca, algodão doce e crepes. No centro havia uma grande mesa, com um bolo cor de rosa de três andares e diversos tipos de docinhos, estes cuidadosamente elaborados, fazendo alusão a filmes como Frozen e A Princesa e o Sapo.

Era o aniversário de oito anos de Salomé.
A garotinha tinha me convidado assim que descobriu que teria uma festa, mas eu havia negado o convite para evitar desentendimentos com o seu pai.
Todavia, Ospina tinha conseguido me convencer de que aparecer ali era uma excelente ideia, fazendo-me engolir todo o orgulho e senso de autopreservação presentes em meu ser. Mas, como eu ainda não estava sendo totalmente irracional, havia colocado um par de tênis para caso precisasse correr do vexame e da humilhação. As chaves do meu carro também estavam bem localizadas, em um bolso externo da pequena bolsa que havia levado para a festa.
Melhor prevenir do que remediar, seja lá o que isso significasse.
Olhei rapidamente ao redor com o intuito de encontrar Saló. Já havia entregado o seu presente pessoalmente, visto que não sabia que iria comparecer na festa, bem como gostaria de ver a reação da menina ao se ver transformada em uma princesa da Disney, em seu próprio conto de fadas. Thiago, um colega de trabalho, era um gênio do audiovisual e
conseguiu transformar a pequena Rodriguez em uma animação extremamente realista.
O curta As Aventuras de Salo ficou digno de um Oscar, diga-se de passagem.
Não encontrando a colombiana, decidi ir para a mesa que eu tinha sido colocada, preparando-me psicologicamente para o que eu iria encontrar por lá, ou melhor, quem.
Com um suspiro aliviado, percebi que só Juana, minha ex-cunhada, que estava sentada à mesa sem sinal algum que alertasse que seu irmão tinha passado por lá. Caminhando lentamente, finalmente parei em frente à cadeira com o nome estampado em uma pequena plaquinha de metal.
Estranhei a formalidade dentro de um aniversário infantil, mas isso era bem a cara de Daniela Ospina.
O arrastar da cadeira, por sua vez, chamou a atenção de Juana, que estava concentrada vendo algo em seu celular. Quando a morena levantou o olhar, o seu sobressalto foi evidente. A Restrepo tinha os olhos arregalados e a boca aberta de um modo cômico, como se não acreditasse que eu pudesse realmente estar ali.
- Oi, Jua. - disse timidamente, vendo a outra se levantar rapidamente para me abraçar. Juana e eu sempre fomos muito próximas. A mulher era como a irmã que eu nunca tive e eu realmente sentira sua falta. Constantemente marcávamos noites das garotas, convidando também Margot, que achava Juana muito mais incrível que o seu irmão.
- , sua doida! - exclamou sem me soltar. - Eu vou matar você! - mudou drasticamente o tom, afastando-se de mim e apontando o dedo de maneira ameaçadora. Rindo discretamente de sua reação, apontei para as cadeiras para podermos sentar. Afinal, se é para receber sermão, pelo menos irei receber sentada.
Juana se mostrou relutante ao acatar meu pedido, mas quando eu me acomodei no móvel, ela não teve outra opção a não ser me seguir.
- Posso saber o motivo de você querer a minha morte? - perguntei, pegando uma empadinha de queijo que estava disposta em uma travessa.
- Ainda se faz de sonsa! - apertou a ponta do nariz com o polegar e o indicador. - Você simplesmente sumiu, ! Parou de atender nossas ligações, sumiu das redes sociais e nem em casa você parou. - começou a pontuar, fazendo com que eu me sentisse levemente culpada, sobretudo pela última parte. Não era bem verdade que eu não estava em casa. Na verdade, ficar em casa era o que eu mais fizera nos últimos meses. Todavia, havia pedido para os porteiros do meu prédio avisarem que eu havia saído com malas e não tinha informado para onde tinha ido. Na época, não pensei que fosse uma atitude egoísta. Só queria preservar a minha saúde mental. - Só ficamos sabendo que você ainda estava viva por causa da Salomé!
- Desculpe, Jua, de verdade. - falei sinceramente, encarando seus olhos magoados. - Mas, eu precisava desse tempo para mim.
- Não estou julgando as suas atitudes, . - explicou pacientemente. - Só queria que você entendesse que nós não somos o James e que nos importamos com você. - suspirou, segurando de leve em minha mão. A fala de Juana apertou o meu coração de um jeito dolorido. Passei tanto tempo pensando somente em minha dor, que não tinha percebido que estava magoando outras pessoas com o meu afastamento. - E não senti isso recíproco nesse tempo.
- Podemos esquecer isso e começar de novo? - supliquei o seu perdão, sentindo-me realmente mal com o desabafo de minha amiga. - Eu sinto a sua falta e realmente me arrependo de ter afastado você... - confessei para Jua, que abriu um sorriso leve em resposta.
- Esquecer eu não vou. – falou, decidida, em uma pequena careta. - Mas, claro que podemos começar de novo, . Eu falei sério quando disse que realmente me importo com você.
- Obrigada. - agradeci sinceramente, pensando como realmente tinha sentido falta da mulher. - Isso realmente significa muito para mim.
- Não precisa agradecer, só não faça de novo. - disse em tom de aviso, fazendo-me assentir em resposta. - Mas, me diga, o que fez você, que só socializou com sua sombra nos últimos meses, sair de casa para vir logo para o aniversário de Saló? – indagou, curiosa, desviando rapidamente o olhar para um Aladdin que lhe oferecia um refrigerante.
- Daniela. - disse simplesmente, fazendo a outra engasgar com a bebida. - Calma, mulher. – completei, rindo de sua reação.
- Daniela Ospina te fez vir para esse festa? – perguntou, incrédula. - Ela quase fez com que eu não viesse! Principalmente quando eu descobri que meus pais não iam vir…
- Longa história. - suspirei, tomando um gole da Coca Cola deixada pelo Aladdin e ignorando a informação de que meus ex-sogros não estariam ali. - Muito longa. - disse em tom cansado e levemente envergonhado. Não queria ter que explicar o plano infalível de Ospina logo para minha ex-cunhada. Vendo que eu não iria falar mais nada, Juana resmungou, contrariada, trazendo outro em seguida.
- Ele já chegou. - avisou simplesmente, fazendo uma ruga de dúvida surgir na minha testa. - O James chegou faz uma hora, mais ou menos, junto com a mala dele. - finalizou em uma careta, comendo mais um dos salgados que, a essa altura, já não estavam tão quentes assim.
A afirmação da colombiana, contudo, fez tudo aquilo que eu estava prendendo dentro de mim querer sair.
A sensação de arrependimento já estava batendo e o fato de não ter encontrado Salomé ainda, me fazia ter mais vontade de sumir e fingir que a minha ida até lá fora um delírio coletivo.
No entanto, antes que eu pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, eu vi a pessoinha que eu estava procurando. Vestida em uma fantasia de Moana, Salomé Rodriguez caminhava alegremente em minha direção. Ou na direção do príncipe Philip, que estava atrás de mim. A menina não pareceu ter me notado, contudo, saltitando para pegar um copo de bebida.
- Salo? - chamei carinhosamente quando a menina estava próxima o suficiente de mim. - Parabéns, meu amor! - levantei para abraçá-la, tomando cuidado para não derrubar o copo de suas pequenas mãozinhas. A menina, por sua vez, dividiu-se entre um misto de surpresa e alegria, me abraçando com o máximo de força que conseguia, quase derrubando o líquido em minha blusa.
- Tia ! – falou, animada, depois de eu beijar sua bochecha - Você veio! - concluiu, puxando-me rapidamente para o outro lado do salão. Só tive tempo de acenar com as mãos para Juana e comecei a acompanhar a garota. Não fazia ideia para onde a pequena estava me levando, mas a segui sem grande hesitação. Já estava ali, então não tinha muito o que fazer mesmo. Só esperava não dar de cara com o pai da criança.
Mas, claro que isso iria acontecer.
Salo foi me guiando por mais alguns metros, até parar diante de três adultos que conversavam. Bem, dois conversavam enquanto a outra mexia no celular com cara de tédio.
Daniela, Verona e James.
Certamente, o trio de ouro. J.K Rowling que se cuidasse.
Sinceramente, não sei dizer exatamente o que senti ao ver James. O suar das mãos, por sua vez, me relembrava todo o nervosismo presente em mim quando estava diante do colombiano. Nesses seis meses, ele não tinha mudado muita coisa. O corte de cabelo estava do mesmo jeito. Aparentemente, tudo igual. No corpo, a calça jeans de lavagem escura, com uma blusa social azul de mangas curtas se faziam presentes. Nos pés, James usava o par de tênis adidas originals, branco com listas pretas, que eu tinha lhe dado de presente. Era o seu tênis favorito. Ele estava incrivelmente perfeito, como sempre. E isso me fazia ter raiva.
Nem para sofrer uma deformação no rosto ele servia?! No momento, queria saber aparatar para sumir de suas vistas, antes que ele me notasse.
- Mama! Papa! - a garotinha exclamava em pulinhos quando chegou perto o suficiente. - Olha quem veio! - concluiu em um gritinho, apontando para mim de forma exasperada. A reação da pequena fez com que seus pais abrissem leves sorrisos, mesmo que eu não tivesse prestado muita atenção na reação de James. Todavia, com minha visão periférica consegui perceber um olhar surpreso e meio… Feliz?!
- , querida! - Daniela disse, se aproximando para me abraçar, fazendo com que eu contestasse meu instinto de recuar. Não havia olhado para o jogador colombiano, mas sabia que, muito provavelmente, ele franzia o cenho em confusão. Afinal, Daniela e eu não éramos o que poderíamos chamar de amigas. - Siga o plano. - cochichou em meu ouvido, antes de soltar.
- Você veio! - retomou a fala, em um tom mais alto para todos ouvirem.
- Não poderia perder o aniversário dessa princesa, não é?! - falei casualmente, recebendo um abraço lateral da minha garotinha.
- Mas a tia disse que não vinha! - falou Salo, de repente, como se só agora tivesse se lembrado da minha recusa ao seu pedido. A fala espontânea da criança fez um sorriso se abrir em meu rosto, mas este logo foi transformado em um frio na barriga ao escutar uma risada gostosa e levemente rouca.
- A tia não sabia do que estava falando, meu amor. - repliquei suavemente, balançando de leve os cachinhos da colombiana.
- , ... Sempre causando surpresas. - disse James, inesperadamente, aparentemente superando sua confusão anterior, caminhando em minha direção, como se fosse me abraçar. Eu simplesmente paralisei no meu lugar, sem saber o que fazer. James parecendo levar um choque de realidade, afastou-se levemente desconcertado, olhando para o lado e parecendo se lembrar que estava ao lado de sua noiva.
- Bem… - começou, coçando a cabeça como fazia quando estava desorientado. - , essa é a Verona. Verona, essa é a , minha ex-namorada. - concluiu, recitando as últimas palavras em uma careta desgostosa, como se não gostasse de como o som soava em sua boca.
- É um prazer. - Verona se fez presente pela primeira vez, olhando para mim de cima à baixo com uma feição de desagrado.
- O prazer é todo meu. – respondi, desconfortável. Tentando evitar aquela situação, olhei para Daniela em um silencioso pedido de ajuda, afinal, a ideia daquele desastre havia sido dela.
- Agora que as apresentações foram feitas. - disse em um tom irônico. - Eu vou ver como estão os detalhes do buffet. - apontou para trás, onde se via uma porta com os dizeres “Cozinha”. - Salo, por que você não leva os três para a mesa que você escolheu para eles? - deu um olhar bastante significativo para a menina, fazendo-a assentir várias vezes.
Quando viu que James ia protestar, Salomé começou em seu tom mais manhoso:
- Vamos, papai! Quero conversar com você, quase não estamos fazendo nisso. - suplicou em um bico que eu sabia que James não resistia. Assim, poucos segundos depois, James aceitou a mão que a menina estendia para ele. Prontamente, ela me ofereceu a outra e assim seguimos para mesa que eu estava sentada anteriormente com Juana.
Chegando na mesa, percebi que a irmã de James não estava, fazendo-me entender que havia ido ao banheiro, comer algo, ou só quis sair dali. Ignorando esses devaneios, sentei na cadeira que anteriormente possuía meu nome, percebendo que James estava do meu lado, também já acomodado. Por sua vez, quando Verona iria se acomodar ao lado do noivo, a voz de Salo se fez presente.
- Tia Verônica! - chamou, exasperada, segurando o pulso da mulher. - Não, não. - negou várias vezes com a cabecinha, deixando nós três confusos. - Eu preciso da sua ajuda para pegar comidinha! – disse, como se fosse óbvio.
- É Verona, querida. - disse a loira, em um tom enjoado. - Por que você não chama a sua tia para ir com você? - apontou para mim com descaso, fazendo-me arquear a sobrancelha em ultraje.
Por que, diabos, essa mulher estava sendo tão grossa comigo?
Por Deus, eu odiava rivalidade feminina. Não pensei que seríamos amigas, até porque eu ainda era apaixonada pelo cara que estava noivo dela, mas esse tratamento hostil não era algo que eu estava esperando. Até Daniela, que era uma pessoa que eu costumava detestar, já estava quase virando uma colega.
- Porque papai disse que temos que nos conhecer melhor! – disse, cruzando os bracinhos, com um bico extremamente fofo. - Papai?
James, ao ver que estava sendo chamado na conversa, balançou a cabeça como se estivesse saindo de um transe.
- Quê… - disse, abobado, percebendo o olhar raivoso que Verona lhe lançava. Balançando a cabeça como se tentasse dispersar algum pensamento, tomou a voz. - Pode fazer isso por ela, nena? - perguntou para a mulher, segurando de leve a sua mão, fazendo-a ceder em virtude do tom e do olhar utilizado.
É, eu sei como é derreter por causa desse homem, minha filha, pensei, com um leve nó na garganta. Ver o cara que jurava que fosse ser o pai dos meus filhos, tratando outra mulher como costumava me tratar, não era fácil.
-Claro. – disse, ainda a contragosto, mas seguiu a garotinha que ia em direção ao final do salão.
Enquanto eu as acompanhava com o olhar, tentando evitar qualquer contato com o homem ao meu lado, James quebrou o silêncio que havia se instalado.
- , você está ótima. - falou simplesmente, me direcionando um sorriso cordial, como se fôssemos colegas que não se encontravam há algum tempo.
Cachorro.
Com certeza estou ótima depois de receber o convite para o casamento do meu ex, por quem ainda sou apaixonada, e que por algum acaso do destino é você
- era o que eu gostaria de ter respondido, mas em vez disso, somente respondi que ele também parecia estar muito bem.
- Não esperava que você aparecesse. - falou, olhando em meus olhos pela primeira vez. - Mas, estou feliz por ter aparecido. Faz muito tempo des…
- James, por que você me enviou o convite do seu casamento? - interrompi sua fala, o que fez com que ele arregalasse os olhos, assustado. Aparentemente, ele não esperava que eu abordasse aquele assunto. Sendo sincera, nem eu. Mas, como eu não sabia quanto tempo mais Salomé e Verona ficariam fora, achei por bem questionar o motivo da minha insônia dos últimos dias. Não sei se teria coragem de comentar algo com outras pessoas ali.
- Por que o quê? – questionou, confuso. - Do que você está falando, ? - perguntou em um verdadeiro tom de surpresa, encarando-me com os seus olhos castanhos.
- Do convite que você me enviou. – respondi impaciente, apertando minhas unhas na palma da mão, gesto que fazia para aliviar o estresse. - Você queria algum presente ou algo do tipo? Porque eu não sou nenhum dos seus amigos ricos, caso tenha se esquecido. - debochei, ácida.
Não me importava com as dicas de Ospina, que havia me orientado a não tocar no assunto casamento e apenas fazê-lo sentir saudade dos velhos tempos.
Sinceramente, não sabia mais se queria seguir com aquele joguinho.
Ver o jogador fez acender sentimentos que eu tinha escondido muito bem desde o nosso término. Não somente o amor que eu tinha por ele, mas uma mágoa latente ao ver que ele tinha seguido em frente tão rápido. Talvez fosse melhor seguir minha consciência e ir embora.
- Eu não te mandei convite nenhum, . – respondeu, sério, ignorando a minha provocação, arrumando a postura na cadeira. - Eu nunca faria um negócio desses. Aliás, praticamente ninguém recebeu o convite ainda. Estamos organizando a lista de convidados para poder, assim, enviá-los. - completou, fazendo com que a surpresa migrasse para minha pessoa.
O convite existia.
Estava em algum aterro sanitário, no momento, muito provavelmente, mas eu havia recebido. E tinha provas de seu recebimento, visto que tirei fotos para enviar a Margot e poder xingar James com imagens.
Lembrando de tal fato, catuquei a minha bolsa em busca do meu celular. Quando eu o encontrei, coloquei no aplicativo de fotos e logo mostrei para James, tentando ignorar o choque que havia sentido quando nossas mãos se tocaram. Rodriguez, por sua vez, ao ver as imagens franziu as sobrancelhas em descrença, como se realmente não acreditasse no que estava vendo.
- Isso não faz sentido, . - balançou a cabeça em negação, devolvendo-me o aparelho. - Eu não te enviei isso.
- Então, quem foi? – questionei, ainda desconfiada de toda essa situação. Sabia que o rapaz estava sendo sincero, já que não sabia mentir, mas não fazia sentido o convite ter aparecido magicamente na minha caixa de correios. - E como essa pessoa conseguiu meu endereço? – indaguei, preocupada. Quais as chances de algum psicopata saber o meu endereço, Deus?!
- É o que eu vou descobrir. – respondeu, decidido, vendo a filha se aproximar com Verona e, por isso, dando o assunto como parcialmente finalizado.
Eu ainda não tinha conseguido absorver o que Rodriguez tinha dito.
Como assim não foi ele quem mandou o convite?!
Enquanto isso, Salo tinha uma cara emburrada, como se tivesse sido contrariada. Ao seu lado, Verona carregava desgostosamente dois pratos recheados de salgadinhos, colocando-os na mesa quando se aproximou o suficiente.
Percebendo a cara da menor e, provavelmente, querendo acabar com o climão que tinha se instaurado, James questionou:
- O que aconteceu, princesinha? - colocou a pequena em seu colo. - Por que essa cara? - mordeu a bochecha dela, fazendo-a dar um gritinho esganiçado.
- Papai! - brigou com ele, que só desviou o olhar como se nada tivesse acontecido. - Tia Verônica. - aqui eu já tinha a impressão de que Salo errava o nome da mulher de propósito. Garotinha danada. - Não quis esperar as arepas ficarem prontas! - cruzou os bracinhos, fuzilando a loira com toda sua mágoa infantil. Eu choraria se recebesse um olhar desses da garotinha, mas Verona parecia não se importar.
- Elas iriam demorar demais, querida. – falou, em um falso tom meigo. - Não poderíamos esperar.
- E por que não? - perguntou, em desafio, fazendo com que a outra revirasse os olhos, movimento que não passou despercebido por James, que fez uma cara de repreensão.
- Porque você disse que queria conversar com o papai, não é, Vero? - interrompeu James, vendo que a discussão entre as duas iria perdurar por algum tempo.
- Claro, claro. – falou, displicente, abanando o ar com a mão.
Sinceramente, o que o jogador via nessa mulher?
Claro que ela era linda.
Os olhos azuis vibrantes; o cabelo loiro e comprido, bem como o corpo de fazer inveja a qualquer modelo. Mas, ela era só isso.
Pelos poucos minutos que a conhecia, não conseguia entender o motivo pelo qual James tinha se envolvido ao ponto de pedi-la em casamento.
Cansando do assunto e da falta de importância que seu pai dava para a sua queixa, Salomé tomou a frente mais uma vez. Eu só não esperava, contudo, que a pauta do assunto fosse aquela.
- Tia , hoje é o meu aniversário e você ainda não foi na Baby Corp como me prometeu no ano passado! - falou, encarando-me com seus gigantes olhos castanhos. Vendo-me franzir o cenho em desentendimento, prosseguiu. - Meu irmãozinho, Tia ! - replicou em obviedade, fazendo James arregalar os olhos. Senti minhas bochechas esquentando com a afirmação da pequena, que fora bastante inesperada. Eu não havia perdido contato com a Salo e ela nunca havia tocado nesse assunto em específico.
Quando James e eu ainda namorávamos, Salo nos pediu uma encomenda da Baby Corp, o seu irmãozinho. Depois de assistir O Poderoso Chefinho, a criança realmente acreditava que os bebês vinham de uma espécie de empresa, e, por gostarem dessa teoria inocente, James e Ospina nunca desmentiram essa ideia.
- Oh, meu amor. - comecei sem realmente saber o que falar, olhando para James em um pedido de socorro. - Você sabe que seu pai e eu não estamos mais juntos. O pedido da Baby Corp agora deve vir para a Verona. - apontei com a cabeça para a mulher, que havia entrado em sua própria bolha. Aparentemente, socializar comigo e com Salomé não era algo que a madame gostaria de fazer.
- Nããããão! - alongou a palavra em um sinal evidente de drama. - Papai! - olhou para ele com exigência. - O bebê Samuel vai ser filho da Tia !
- Salo! - repreendeu o colombiano, olhando discretamente para a loira que, realmente, não parecia estar preocupada com o falatório. - Já conversamos sobre isso! - determinou, ajeitando a criança em seu colo, que pareceu cada vez mais insatisfeita com o rumo da conversa.
- Mas eu não gosto dela, papai! – disse, como se fosse uma confissão, mas alto o suficiente para ouvirmos. Concluindo sua fala, apontou para Verona que, ao perceber que a menina falava dela, revirou os olhos em um claro sinal de impaciência. - Duvido que a Baby Corp mande o Samu para essa mulher!
- Salomé! - reclamou em um tom mais duro, fazendo a criança criar um bico choroso nos lábios. - A Verona é a minha noiva e você precisa respeitá-la!
- James, não se preocupe com isso. Eu não me importo. Ela é só uma criança.
- Mas eu me importo. - disse o colombiano, firme. No momento, eu só queria fugir para longe daquela situação constrangedora. Por que eu havia me metido naquilo, Deus?
- O senhor nem ama ela, papai! - continuou Salo, como se o pai não tivesse falado nada. - Mamãe disse que…
- Chega, Salo. - fui eu quem tomou a dianteira dessa vez. - Seu pai é um homem grandinho e sabe muito bem o que faz, sim?! – disse, olhando a morena ao mesmo tempo que tentava absorver aquelas palavras para mim.
Havia sido um erro aparecer na festa.
O que eu estava pensando, afinal?
Que James iria me ver chegando, com I Will Always Love You começando a tocar, as pessoas dando passagem para nos encontrarmos e BAM. Voltaríamos no tempo e as brigas, a mágoa e, bem, Verona, iriam desaparecer?
Eu era uma pessoa racional, não chegaria aonde cheguei se não soubesse ponderar todas as minhas ações. Então realmente não sei o porquê ter aceitado essa estúpida ideia.
A apaixonada não era alguém que eu sabia lidar.
Contudo, James, em resposta, me lançou um olhar que eu não consegui distinguir exatamente o que era. E, sinceramente, nem queria descobrir. A vida não era uma fanfic adolescente que, simplesmente, tudo se encaixava no final.
Fui ao local achando que teria respostas, mas saí com mais dúvidas ainda. A única certeza que eu tinha era que o sentimento ainda não havia acabado e que a minha dignidade estava levemente abalada. Grande dia. E o pior de tudo, eu ainda não tinha comido bolo.
- Mas, tia … - antes que a garotinha começasse sua onda de protestos, levantei da cadeira, oferecendo minha mão para a aniversariante pegar.
- Que tal irmos jogar um pouco de Guitar Hero? - convidei, apontando para a máquina que tinha acabado de ser desocupada por duas crianças mais velhas. - Pelos velhos tempos.
Salomé ainda olhou para o pai, como se quisesse dizer mais alguma coisa. Por fim, desistiu e decidiu me seguir até o brinquedo. Eu somente suspirei, tentando consertar a bagunça que aquele dia tinha se formado, visto que a festa ainda não tinha acabado. Talvez não fosse uma má ideia sair correndo e fingir que nada tinha acontecido.

CUATRO

44 dias para o casamento

Contigo es que me siento bien
No importa quién deba enfrentar
Si tu quiere una estrella la voy a buscar
La montaña mas alta yo subiré
Pero todo contigo, sin ti no soy lo haré (Estrella - Nicky Jam)

(Dê o play quando for indicado!)


Após ser massacrada algumas vezes por Salomé no Guitar Hero, o silêncio que nos envolvia, sendo quebrado por, eventualmente, alguns gritinhos da criança, animada por conseguir angariar uma vitória tão facilmente, e alguns resmungos de minha parte, foi cessado. Depois de mais uma vergonhosa derrota minha, a garotinha depositou a guitarra de brinquedo no suporte ali disposto, pedindo licença e fazendo o mesmo com a que estava nas minhas mãos. Em seguida, murmurou algo que eu entendi como “vem comigo”, e assim eu fiz. Agora mais ressabiada, visto que da última vez que a colombiana me levou para algum lugar desconhecido, acabei esbarrando nos três mosqueteiros.
Caminhamos alguns metros até uma porta corrediça de vidro que dava para um lindo jardim. Não havia muitas pessoas por lá, somente um ou dois adultos conversando. Pelo que deu para entender, aquele espaço em especial não era exatamente parte da festa, uma vez que destoava totalmente do ambiente de dentro, que estava repleto de brinquedos e decorado com personagens da Disney. Como Salo havia descoberto aquele local, era realmente um mistério.
A garotinha ainda me guiou por mais alguns metros, parando em frente a um banco de madeira, disposto estrategicamente na frente de uma fonte que jorrava água cristalina de uma de suas aberturas. Então, Salomé sentou e pediu para que eu fizesse o mesmo, logo tomando a palavra.
- Tia ? - começou baixinho, em sua voz infantil. - Você está brava comigo? - encarou-me, ansiosa, como se estivesse com medo da resposta. Em um primeiro momento, eu apenas franzi o meu cenho em confusão. Não entendi o porquê do questionamento da criança que eu amava como se fosse minha filha. Todavia, após alguns segundos de ponderação, deduzi que a dúvida era devido à minha repreensão tempos antes, quando estávamos todos na mesa. Essa minha demora para responder, contudo, fez Salomé entender tudo errado, já que em seguida ela começou a pedir desculpas desenfreadamente em um tom choroso.
- Ei, ei, calma, pequena! - tentei acalmá-la, puxando para um abraço. - Nunca que eu ficaria com raiva de você, meu amor. - completei, acariciando de leve seus cachos cuidadosamente arrumados. - Você é a minha pimentinha enxerida e eu te amo muito. - beijei a bochecha redondinha dela, relembrando um apelido que tinha lhe dado anos antes. Aparentemente, a menção do apelido fez a garotinha se tranquilizar, logo aninhando-se mais nos meus braços.
- Eu não queria ser intrometida, tia. - começou baixinho, me apertando um pouco mais forte. - Eu só queria que o papa entendesse que eu amo muito, muito você e que sinto sua falta…
- Oh, meu bem! - exclamei, realmente tocada com suas palavras. Me afastei um pouco do aperto da menina para poder encarar seus olhos chorosos. - Você sempre vai ser meu pinguinho favorito, okay? - afirmei, apertando a ponta de seu nariz, o que ocasionou um riso fraco de Salo. - Só que, como falamos antes, seu pai e eu não estamos mais juntos. Ele vai casar com a Verona. – expliquei, meio enjoada, logo me apressando ao ver que Salo tentava me interromper. - Mas isso nunca vai mudar o que eu sinto por você. Eu amo você muito, meu amor. E o fato de estar com seu pai ou não, não faz nenhuma diferença para mim, ok?! - questionei incisivamente, vendo a pequena concordar com a cabeça, mais relaxada.
- Você ainda ama meu pai, tia ? - a garota perguntou de repente, após alguns segundos em silêncio. Salomé estava afiada nas perguntas naquela noite.
- Eu acho que nunca vou deixar de amar seu pai, Salo. – confessei, sincera, em um suspiro, observando a feição de Salomé mudar para algo parecido com determinação e euforia. Eu somente estranhei a reação exagerada da pequena.
- Eu sabia! - levantou em um rompante, colocando os bracinhos para cima como se comemorasse algo, fazendo-me rir fraco. - Mamãe tinha dito que não tinha certeza, mas eu sempre soube! - continuou em um gritinho fino, fazendo-me arquear a sobrancelha em confusão.
- Como?!
- Mamãe não sabia se deveria falar com você, tia , mas eu disse que, como o Snape amava a Lily, o amor de vocês era para sempre! – afirmou, resoluta, como se fosse uma adolescente cheia de razões. Sinceramente, eu não sei como ainda me surpreendia com Salomé. A menina embora tivesse somente oito anos recém completados, em muitos momentos parecia ser mais velha do que eu. Não sei se achava adorável ou ficava assustada.
- Pimentinha, você está me dizendo que a Daniela veio falar comigo porque você pediu? - questionei, abismada com a possibilidade. Salomé abriu um sorriso arteiro em resposta.
- Dã! - exclamou com obviedade, colocando as mãos na cintura. - Mamãe disse que a tia ia achar muito estranho se ela falasse com você, mas eu convenci ela mesmo assim. - a menina falava muito rápido, atropelando as palavras. - Aí, minha mamãe ia na sua casinha, titia! Mas, vocês acabaram se encontrando antes. Ela me contou tudinho! - terminou em um só fôlego, como se estivesse me contando detalhes de um plano brilhante. - Foi minha a ideia de fazer a titia falar com meu papai na minha festinha!
Ok, talvez eu estivesse em alguma realidade paralela, em que a minha vida era como o Show de Truman. Vamos recapitular o dia de hoje:
1 - Aceitei seguir um plano péssimo (desculpe, Salo), que eu achava ter vindo da ex-mulher de James;
2 - Reencontrei o jogador e conheci a sua adorável noivinha;
3 - Confrontei o colombiano e descobri que não foi ele quem me mandou o convite do casamento;
4 - E, claro, fiquei sabendo que a minha ex-enteada de oito anos armou com sua mãe para tentar arrumar as coisas com James.


Era muito para minha cabeça e a soma dos acontecimentos já estava me dando enxaqueca.
- Salomé, você está me dizendo que foi você quem armou tudo isso? - perguntei bobamente, só para confirmar o que ainda não fazia sentido na minha cabeça.
- Eu só queria vocês juntos, titia, não fica brava! - pediu, sentando novamente ao meu lado e segurando minhas mãos frias. - E, pelo menos assim, a tia veio na minha festinha. – disse, convencida, tentando disfarçar o sorriso que escapava de seus lábios.
Francamente, aquela menina não era uma criança comum.
- Salomé Rodriguez Ospina. – comecei, ainda incrédula, balançando a cabeça em negação várias vezes. - Eu não sei o que fazer com você, sua peste! - completei, sem saber o que falar. Não sabia dizer se um sermão caberia na situação.
- Eu sei! - exclamou a menina, levantando mais uma vez e parando em minha frente. - Pedir o Samu lá na Baby Corp! - suplicou, colocando as mãozinhas juntas para enfatizar seu pedido.
- Salo! - somente gargalhei, perguntando-me que realidade paralela era aquela em que eu havia me metido.

X


Passamos mais alguns minutos conversando e, com toda certeza, eu ficava cada vez mais impressionada com o que Salomé me contava. Aparentemente, eu havia subestimado a criança, visto que ela pensava em coisas que nem tinham passado pela minha cabeça.
Entretanto, antes de eu poder questioná-la mais, fomos interrompidas por Daniela, que veio chamar Salo para cantar os parabéns. O tempo havia passado realmente depressa quando estávamos lá e o final do aniversário já se aproximava.
Atendendo ao pedido da mãe, a menina estendeu sua mão para mim, para que eu a acompanhasse pelo mesmo caminho que tínhamos ido.
Chegando na porta que dava para o salão, consegui identificar Juana chamando a todos para cantarem os parabéns, em um microfone utilizado, anteriormente, por uma das atrações da festa. Pelo o que eu conhecia da minha amiga, era certeza que ela tinha sido obrigada a fazer isso.
A mulher odiava ser o centro das atenções e de jeito nenhum faria aquilo de livre e espontânea vontade.
Ao ouvir a voz da tia, Salo apressou seus passinhos, correndo comigo pelo espaço e gritando palavras de incentivo para eu segui-la. Tentei impedir que a menina andasse daquele jeito, mas foi inútil. Além disso, eu não era uma pessoa muito atlética, ou seja, correr e falar ao mesmo tempo não era algo que eu conseguia fazer sem ficar ofegante.
Depois de correr alguns metros, Salo parou em um rompante, fazendo com que eu quase escorregasse e caísse, o que seria uma cena e tanto.
Com minha quase queda, consegui observar o espaço ao redor, percebendo que havíamos chegado na mesa do bolo. Por todo o lado, havia crianças e seus pais, todos amontoados e esperando pela aniversariante. Do outro lado da mesa, havia um painel enorme, com uma gravura que ilustrava a princesa Moana - favorita de Salo e fonte de inspiração de sua fantasia - em que se encontravam Daniela (que eu não sei como conseguiu chegar antes de nós), seus pais, Juana e, claro, James e Verona.
Percebendo que todos nos encaravam, incentivei Salo a ir atrás de seus pais, o que foi respondido com um menear negativo da menina. Comigo franzindo o cenho, confusa, Salomé falou apressadamente, levemente nervosa pelos olhares.
- Você vem comigo, tia ! - apontou para o local que deveria ir, fazendo com que eu negasse várias vezes com a cabeça. Contudo, Salo não estava disposta a receber uma negativa, apelando como podia. - Eu só vou se você for, tia ! - falou mais alto, cruzando os braços, emburrada, e atraindo cochichos de seus convidados, ao entenderem o motivo da demora da aniversariante.
Não poderia julgá-los. Quanto mais demorasse para cantar os parabéns, mais demoraria para comermos o bolo. Mas eu realmente não me sentia confortável ao ficar ao lado da família de Salomé, principalmente porque meu elo com a garotinha já estava lá, disposto lindamente ao lado de outra.
Vendo o meu olhar suplicante, Salo apenas balançou a cabeça, segurando novamente minha mão e seguindo comigo até o espaço designado para ela. Chegando lá, a menina recebeu um olhar de repreensão de Daniela por sua demora, que foi prontamente ignorado pela menina, que continuou me puxando até me colocar ao lado de seu pai.
Ótimo.
Evitando olhar para os lados, eu somente agradeci aos céus quando Dani puxou o coro de parabéns, que foi prontamente seguido por todos ali presentes.

Cumpleaños feliz,
Cumpleaños feliz,
Te deseamos todos,
Te deseamos, Salomé
Cumpleaños feliz.


O final do coro foi seguido por uma salva de palmas, que fez com que a aniversariante, que estava no colo de seu avô, desse palminhas animadas.
- Você quer dizer algo, hija? - ouvi a voz do colombiano ao meu lado e tentei ignorar os arrepios involuntários que ela me causava.
- Quero! – assentiu. - Parabéns para mim! - ela gritou, fazendo com que todos gargalhassem por sua espontaneidade.
Após terminar os cantos, chegou a hora de cortar o bolo, com Salomé insistindo que conseguia cortar sozinha. Mas como era uma péssima ideia deixar com que uma criança de oito anos manipulasse uma espátula sozinha, Daniela auxiliou a menina no processo, mesmo com murmúrios de indignação da menor.
Salo realmente estava crescendo.
Cortando uma fatia meio torta, alguém que eu não conhecia gritou “A primeira fatia vai pra quem, Salo?”.
Aparentemente, ela não sabia que existia um imaginário coletivo acerca da importância do primeiro pedaço de bolo, franzindo o cenho, confusa. Eu também não estava acostumada com essa tradição, visto que ela era comum somente na América Latina, mas namorar com um colombiano me fez adquirir conhecimento de um pouco dessa cultura tão rica e diversa. Ou talvez isso fosse mais algum dos meus conhecimentos aleatórios adquiridos com a Gloria de Modern Family, vai saber.
Vendo a carinha da filha, James pegou ela no colo, cochichando algo inaudível no ouvido da menina. Depois de assimilar o que o pai havia dito, Salo somente assentiu com a cabeça diversas vezes, dando um gritinho afetado quando o pai mordeu sua bochecha, logo colocando-a no chão.
- Mamãe! O primeiro pedaço é seu. - entregou para Daniela, que sorriu grande frente ao gesto da filha. - Amo você! – exclamou, feliz, recebendo um beijo na cabeça de Ospina. Guardando o pedaço em cima da mesa, Daniela cortou mais algumas fatias e passou para Salo poder distribui-las. A segunda fatia, como o esperado, foi para James, que deu um sorriso gigante para filha, seguido de vários beijos pelo rosto da menina, que tentava afastar o pai às gargalhadas. Ao contrário da ex-mulher, ele já foi dando uma garfada no bolo, fazendo uma cara de deleite e sujando todo o rosto com o glacê.
Vendo o homem todo lambuzado, guardei para mim o impulso de ir lá e limpá-lo, como costumava fazer, depois de, obviamente, zoá-lo por sua capacidade de comer feito uma criança.
Certas coisas nunca mudam, pensei, nostálgica.
Só sai do meu devaneio melancólico ao sentir a mãozinha de Salo me puxando, e estendendo para mim uma fatia de seu bolo. Com um sorriso, agradeci a pequena, que me deu uma piscadela e passou a distribuir os pratos para sua tia e avós. Como eu não tinha mais nada para fazer ali na frente, fui seguindo para a mesa que estava sentada antes, a fim de degustar minha comida. Afinal, além do objetivo de passar vergonha, a comida era o principal chamativo da festa.
No caminho, peguei um copo de Coca com um garçom que eu acredito estar fantasiado de Kristoff, mas não poderia dizer com certeza. Sendo sincera, ele estava mais parecido com o Sven, mesmo que fosse rude de minha parte pensar daquele jeito.
Divagando sobre a fantasia do rapaz, sentei distraída na minha cadeira, sentindo meu peito apertar, dolorido, ao identificar a música que estava tocando. (Play agora!)

Ser un cantante, ir a viajar
(Ser um cantor, ir viajar)
Dinero y fama
(Dinheiro e fama)
Sin ti no es nada
(Sem você não é nada)
Mil mujeres me buscarán
(Mil mulheres vão me procurar)
Pero te amo y nadie ocupa tu lugar
(Mas eu te amo e ninguém ocupa o seu lugar)



Estrella do Nicky Jam era a música que definia o meu relacionamento com James. Quando eu sentia meus momentos de insegurança, com noites de insônia, caminhando pela casa e tendo pensamentos ruins, o jogador cantava para mim, até dispersar tudo que fosse de negativo.

Contigo es que me siento bien
(Com você é que me sinto bem)
No importa qué deba enfrentar
(Não importa quem possa enfrentar)
Si tú quieres una estrella la voy a buscar
(Se você quer uma estrela, eu vou buscar)
La montaña más alta yo subir é
(A montanha mais alta que eu subirei)
Pero todo contigo, sin ti no lo haré.
(Mas tudo com você, sem você eu não vou fazer.)


O colombiano costumava trocar as palavras cantante e concierto por jugador e juego, de modo a deixar os versos mais a nossa cara. Com isso, memórias do nosso relacionamento passavam em um looping na minha cabeça.

Mansiones frente al mar
(Mansões à beira-mar)
Avión privado y más, pero no
(Avião particular e mais)
Pero no se siente igual
(Mas não, mas não se sente como)
Yo cantaré
(Eu cantarei)
En un concierto, cantaré
(Em um concerto, cantarei)
Pero en las noches el vacío no llenaré
(Mas à noite eu não vou preencher o vazio)


O dia que havíamos no conhecido na La Ninã.
O primeiro beijo, a primeira vez, o pedido de namoro...
O dia em que ele havia me apresentado Salomé e quando todos os receios que eu tinha em ser uma madrasta foram dissipados.
Desde que havíamos terminado, eu não conseguia ouvir a música sem cair em um choro compulsivo. Evitava-a constantemente, excluindo de todas as minhas playlists e bibliotecas. E ouvir ela ali, hoje, depois de encontrar James após seis meses… Era dolorido.

Cuando yo te pienso, paso sonriendo
(Quando eu penso, eu passo sorrindo)
Yo te lo juro, tú eres mi felicidad
(Eu juro, você é minha felicidade)
Te lo diré, por ti me arriesgaré
(Eu vou te dizer, por você eu vou me arriscar)
Doy todo lo que tengo
(Eu dou tudo o que tenho)
Esto es real
(Isto é real)


Percebi que tinha deixado meu bolo quase intocado quando acabei esbarrando meu braço no prato, sujando-o levemente com a cobertura da sobremesa. O nó em minha garganta havia tirado todo o meu apetite. Eu tentava segurar minhas lágrimas a todo custo. Não queria desabar ali, principalmente na frente de James. Doía saber que eu ainda me afetava tanto por sua presença, enquanto o rapaz estava ali, esbanjando alegria ao lado de sua noiva.

Contigo es que me siento bien
(Com você é que me sinto bem)
No importa qué deba enfrentar
(Não importa o que possa enfrentar)
Si tú quieres una estrella la voy a buscar
(Se você quer uma estrela, eu vou buscar)
La montaña más alta yo subiré
(A montanha mais alta, eu subirei)
Pero todo contigo, sin ti no lo haré
(Mas tudo com você, sem você eu não vou fazer)


Eu só queria que as coisas fossem como antes. No começo, era tudo tão fácil e natural. Não existia mídia, ciúmes ou desavenças. Até Daniela, depois de um tempo, deu uma trégua e pudemos viver todas as glórias possíveis de um casal apaixonado.

Cuando yo te pienso, paso sonriendo
(Quando eu penso, eu passo sorrindo)
Yo te lo juro, tú eres mi felicidad
(Eu juro, você é minha felicidade)
Te lo diré, por ti me arriesgaré
(Eu vou te dizer, por você eu vou me arriscar)
Doy todo lo que tengo
(Eu dou tudo o que tenho)
Esto es real
(Isto é real)


Agora eu estava ali, sozinha, no meio do aniversário de Salomé. Enquanto isso, o casal maravilha estava tirando fotos e mostrando para todos que eram felizes. Ou, pelo menos era o que transpareciam, mesmo com o mau humor latente de Verona.

Contigo es que me siento bien
(Com você é que me sinto bem)
No importa qué deba enfrentar
(Não importa o que possa enfrentar)
Si tú quieres una estrella la voy a buscar
(Se você quer uma estrela, eu vou buscar)
La montaña más alta yo subiré
(A montanha mais alta, eu subirei)
Pero todo contigo, sin ti no lo haré
(Mas tudo com você, sem você eu não vou fazer)


O fim da música chegava e, infelizmente, a nostalgia fazia morada. Comecei a tentar pensar em outras coisas, como no fato de que Senhor Gato, meu gato, tinha ganho uma coleira nova de Margot e estava extremamente adorável.
Ou como estava próximo da estreia do live action de Mulan, minha princesa favorita da Disney.
Ou, quem sabe, no esperado reencontro do cast de Friends, cerca de dezesseis anos depois do último episódio. Pensar nessas coisas estava tendo o efeito desejado, mesmo que minimamente.
Havia conseguido, parcialmente, me blindar da avalanche de emoções que a música tinha me trazido. Por isso, não havia percebido que não estava mais sozinha. Só quando ouvi aquela bendita voz cantar baixinho Contigo es que me siento bien que eu abri meus olhos - que eu nem percebi que estavam fechados - alarmada.
James estava sentado ao meu lado, encarando-me com toda a sua intensidade de castanho.
- Não importa quantas vezes eu ouça essa música, ela sempre será a minha favorita. - falou baixinho, chamando a minha atenção. Eu somente o encarei em resposta e sorri fraco, desviando o olhar para o outro lado. -
- Agora não, James, por favor. - supliquei, fechando os olhos com força para evitar o impulso de me perder no seu olhar. Não queria que ele percebesse a minha fraqueza. Eu odiava ser tão transparente assim.
- Você sabe que precisamos conversar. - insistiu, fazendo-me o encarar com certa incredulidade. - Nunca tivemos uma conversa definitiva, .
- Isso não foi realmente um obstáculo para você, James. – apontei. - Tanto que não esperou nem um ano e já está noivo de outra. - falei rancorosa, com toda a mágoa presente dentro de mim.
-
- Não, Rodriguez. - neguei, em tom definitivo. - Estamos no aniversário da sua filha e a sua noiva está aqui. Agora não.
- Ainda precisamos conversar, . – continuou, insistindo. Realmente, Salomé tinha a quem puxar a teimosia. - Posso te ligar para marcar? - indagou, se aproximando de mim, mas ao ver meu olhar de censura, logo tratou de se afastar. - Também temos que descobrir quem te mandou aquele convite. - suspirou, cansado e, certamente, frustrado.
- James. - ia começar uma negativa, mas ao ver seu olhar, apenas suspirei e decidi ceder. -Depois acertamos isso, okay? - falei, resignada. Realmente precisávamos conversar. Eu só não sabia se estava preparada para aquilo. - Cadê a Verona? - questionei, de modo a mudar a pauta da conversa, ao analisar que a loira não estava em nenhum lugar próximo.
- Dani e Juana a levaram para distribuir as sacolinhas para as crianças. - respondeu como se não fosse nada. - Ela deve estar odiando cada segundo disso. - riu fraco, coçando a cabeça.
- Se eu não comentei antes, ela é adorável. – disse, irônica, arqueando minha sobrancelha para ele e tomando um gole do meu refrigerante, que a essa altura já estava quente. A minha garganta mostrava certo desconforto. - Parece um dementador de saltos.
- Ela é meio difícil. - concordou, rindo fraco de minha comparação, mas logo tratou de emendar. - Mas é uma boa pessoa.
- Se você diz… - abanei o ar, como se não fosse nada, iniciando mais uma vez um silêncio desconfortável. A única coisa que se ouvia era uma conhecida música de Frozen, que tocava ao fundo. Aparentemente, Estrella foi a única música a destoar de toda a atmosfera infantil do aniversário. Quase como se fosse premeditado. O que, sinceramente, depois dos últimos acontecimentos, eu não duvidava que fosse.
- Falando em Dani, eu ainda não entendi como vocês duas se acertaram. - chamou minha atenção para si novamente. quebrando o silêncio e me encarando com os olhos curiosos.
- Há mais de uma coisa que você não entende, Rodriguez. - o olhei, sem grandes expressões, não querendo dar detalhes da situação em que eu havia me envolvido. James, por sua vez, não pareceu satisfeito com a minha resposta vaga, olhando para mim como se fosse retrucar, ao que eu impedi. - E vai continuar sem entender. – falei, meio seca, quase me arrependendo do tom. Quase. Naquele momento, não estava ligando muito para modos.
Com minha resposta firme, o silêncio desconfortável voltou a nos rodear. Na minha cabeça, eu cantarolava Let It Go, tentando incorporar os versos da música e, de fato, deixar ir.
Após mais algum tempo naquele clima estranho, o silêncio foi quebrado por um longo suspiro de James.
- Eu vou te ligar, . Por favor, atenda. - pediu, levantando de sua cadeira e vindo para perto de mim, depositando um beijo em minha cabeça. Mas, antes de eu sequer processar o que tinha acontecido, James já tinha ido embora.

CINCO

40 dias para o casamento

Ella es la favorita, la que canta en la zona
Se mueve en su cadera como un barco en las olas
Tiene los pies descalzos como un niño que adora
Y sus cabellos largos son un sol que te antoja (La Bicicleta - Carlos Vives y Shakira)


Depois que James foi embora, eu também levantei e decidi seguir o meu caminho. Salo não estava por lugar algum, muito menos Juana ou Daniela, por isso, fui sem avisar ninguém. Talvez a menina ficasse um pouco chateada, mas eu precisava respirar e sei que essa sensação de sufoco só passaria quando eu tivesse no conforto do meu lar.
Caminhei o mais rápido que conseguia sem chamar atenção, pegando a chave do meu carro de forma meio atrapalhada de dentro da minha bolsa, suspirando, aliviada, quando, finalmente, me deparei com o estacionamento do salão de festas.
Adentrando mais o espaço, olhei para os lados em busca do meu bebê de quatro rodas. Quando finalmente o achei, embaixo de uma árvore, dei graças aos céus, principalmente por não precisar apelar para o sensor de perda do veículo. Certamente, o barulho acabaria chamando atenção de alguns dos convidados, que logo viriam vasculhar o que estava acontecendo e me encontrariam no meio de uma fuga.
Talvez, eu desse mais importância à minha presença do que de fato tinha, mas, pelo que conhecia dos latinos, a cultura era louca por uma fofoca. Então, ver a ex-namorada do pai da aniversariante saindo fugida, de fato, seria um prato cheio.
Balançando a cabeça para dispersar esses pensamentos bestas, apressando-me para chegar no meu carro, logo o destravando e me acomodando no banco do motorista, joguei minha bolsa de qualquer jeito no banco de trás e suspirei, encostando minha cabeça no volante.
Aparentemente, o peso do dia, agora, realmente, tinha chegado nos meus ombros.
Fechando os olhos em descrença, percebi que meu encontro com James não havia sido nada do que tinha imaginado. Sendo realmente sincera, o saldo positivo daquela catástrofe se restringia à felicidade de Salomé ao me encontrar, bem como a descoberta de que a garota, realmente, faria de tudo para me ver junto ao seu pai. Mesmo ficando assustada inicialmente, acabei me sentindo lisonjeada ao perceber que a menininha realmente gostava de mim e me queria em sua vida. Contudo, eu precisava ser uma adulta racional e conversar com Salo sobre como era errado tentar sabotar o relacionamento de seu pai.
Muito me intrigava o fato de que a própria Daniela não havia censurado a filha e impedido de bolar esse plano infalível.
No geral
, Daniela estava me surpreendendo em mais de um aspecto.
Quando namorava com James, eu achava a mulher um ser humano horrível. Mas, não foi sempre assim.
Constantemente, ouvia Salomé falar que sua mãe era incrível e que era a pessoa que ela mais amava no mundo. Sendo a última parte sempre sussurrada, com o objetivo de não deixar James escutar. Talvez o jogador não percebesse, na época, mas a ênfase que a menina dava para a mãe era muito pela ausência dele.
Rodriguez era um excelente pai, não poderia negar isso.
O amor que tinha pela filha ultrapassava barreiras e eu sei que ele faria tudo no mundo para fazê-la feliz. Mas, na época em que se separou de Daniela, o rapaz se jogou em uma rotina de trabalho intensa e acabou negligenciando sua filha. Não sabendo, inicialmente, separar uma da outra.
Isso só começou a mudar, de fato, quando começamos a sair juntos e ele não precisava mais se jogar em rotinas estressantes para, simplesmente, esquecer das coisas negativas.
Também não sei o porquê da mulher me acusar de ser uma destruidora de lares e ameaçar o meu relacionamento, já que a minha presença somente aproximou James das duas, mas talvez fosse um modo de chamar atenção.
Não que isso justificasse a atitude de Ospina de tentar, posteriormente, impedir James de encontrar a filha. Só que eu sempre olhei as coisas pelos lados meu e dele: O pai que estava tendo seus direitos negados e estava tendo seu relacionamento prejudicado, e a mulher que estava sendo atacada gratuitamente.
Friamente falando, talvez Ospina só tentasse proteger a filha de alguma decepção com o jogador e, agora, com uma madrasta, já que Salo não entendia seus momentos de ausência com muita facilidade e não estava acostumada a ver outra mulher na vida do pai.
Salomé era o ser mais iluminado que eu conhecia e deveria ser crime cometer algo que pudesse retirar o brilho intenso de seus olhos e, talvez, Ospina achasse que estava fazendo o melhor por sua pequena.
Eu realmente não sabia.
Um dia eu ainda iria querer ouvir os motivos da mulher de ter feito o que fez.
Por muito tempo, guardei rancor de Daniela.
A mulher tumultuou de uma forma descabida o início do meu namoro e só se acalmou quando o aparato jurídico foi solicitado.
Mas, a atitude dela de incentivar os planos de Salomé, que somente eram pedidos infantis de uma criança de oito anos, não sei…
Talvez ela não fosse tão ruim assim.
Quando conversamos, dias atrás, pensei que tinha sido um impulso que a havia motivado a falar comigo. Nunca imaginei que a conversa tinha sido estrategicamente elaborada com Salomé.
Realmente, não acho realmente que seríamos amigas, mas eu poderia começar a aniquilar os sentimentos negativos que tinha para com ela.
Encontrar James depois de seis meses havia me deixado emotiva e eu deveria começar a, na prática, tirar as coisas ruins da vida. Tinha prometido a mim mesma que iria fazer isso, mas só agora estava, realmente, criando mecanismos para o fazer.
É, , chegou a hora de crescer.
Com isso em mente, ajeitei minha postura e comecei a dirigir para casa.

XX


Alguns dias tinham se passado desde o fatídico aniversário. Como esperado, Salo ligou para mim para perguntar o porquê de não ter me despedido, mas eu consegui acalmá-la, respondendo que tinha passado mal e que precisei ir para casa. Contudo, a garotinha só havia ficado satisfeita depois que eu jurei, juradinho que, em breve, iria para o parque com ela.
Por outro lado, seu pai não havia dado as caras desde então.
Não sei se me sentia aliviada ou triste mediante disso, mas tentava não pensar muito no assunto.
No momento, tinha coisas mais importantes para me preocupar, além do fato de ter sido mais uma vez, iludida.
Um dia depois do aniversário de Salomé, Alexis me ligou, avisando que estaria em Madrid em alguns dias e que eu estava convocada para turistar pela cidade com ela. A brasileira tinha ganhado neném há pouco tempo e via a oportunidade de passear como um escape extremamente necessário.
E, por isso, agora eu estava ali, procurando, desesperadamente, um shorts jeans no meio da bagunça de meu closet. Jogando algumas peças de qualquer jeito no chão e tentando ignorar o fato de que teria que arrumar aquele caos quando chegasse, finalmente achei o modelo em questão, suspirando, aliviada. Se eu atrasasse mais alguns minutos, a Müller iria servir e degustar o meu fígado de garfo e faca.
Nesses momentos de pressa, eu agradecia muito o fato que o Senhor Gato estava na casa de Marg, passando uma temporada para desestressar. Aparentemente, meu período depressivo, decorrente da descoberta do casamento de James, acabou por estressar o animal ao ponto de fazê-lo diminuir drasticamente o apetite e começar a se lamber de forma excessiva. Ao levar o bichano para o veterinário, a médica apenas sugeriu que ele passasse um tempo fora do lar tóxico em que estava inserido.
É, eu cheguei ao ponto de oferecer um lar tóxico para o meu gato.
Finalmente vestida com o shorts e uma blusinha branca, fui apressada calçar meu par de all stars azuis, amarrando-os de qualquer jeito para, finalmente, poder sair do meu apartamento e sair para encontrar Lexi. No caminho, ainda iria buscar Margot, que estava bastante animada para conhecer a brasileira, visto que ambas só haviam se visto, poucas vezes, em chamadas de vídeo.
Entrando no meu carro, liguei o rádio em uma estação aleatória, que tocava algum reggaeton que eu não conhecia, mas que tinha uma batida muito envolvente. Enquanto cantarolava desajeitada a melodia, acelerei pelas ruas de Madrid, chegando em pouco tempo à casa de primeiro andar de Margot. A mulher já me esperava do lado de fora, com uma cara de tédio que demonstrava que eu certamente não estava no horário.
Vendo o meu carro parar na sua calçada, Margot levantou do batente que estava sentada e deu uma pequena corrida até o veículo, esperando impacientemente eu destrancá-lo para possibilitar a sua entrada.
- Veio de ré, ? – indagou, rabugenta, colocando o cinto de segurança e virando-me para me encarar com uma carranca bastante cômica.
- Ui, para que tanto estresse, gatinha?! – perguntei, debochada, segurando a risada e dando partida no carro, logo indo para o endereço que tinha marcado com Alexis.
- O seu gato adorável estava usando as minhas costas de arranhador! – exclamou, irritada. - Tive que sair de casa antes que o passeio tivesse que ser trocado para o hospital.
- Que exagero, Marg! - olhei de soslaio para ela, voltando a prestar atenção no trânsito. - Ele só estava brincando…
- , você tem muita sorte que eu amo animais e que, por alguma razão do universo, você acabou sendo minha melhor amiga. – declarou. - Porque nessa de desestressar o Senhor Gato, quem tá ficando louca sou eu! - dramatizou, fazendo com que eu soltasse a gargalhada que estava prendendo.
Depois de seu desabafo, Marg trocou de assunto, me inteirando sobre as fofocas de seu ambiente de trabalho. Não que eu fizesse a mínima ideia de quem ela estava falando, mas, saber que o Marco estava saindo com a Fiorella, aparentemente, era uma notícia quente. Enquanto falava palavras de incentivo para a morena, o GPS apitou, avisando que havíamos chegado no nosso destino.
O VP Plaza España Design era localizado na famosa Gran Via, no centro da cidade madrilenha. O local era realmente próximo de lojas e bares, o que para Lexi era o fator mais importante.
Estacionando na lateral do prédio, Marg e eu seguimos para a recepção. O lugar era estonteante.
Na entrada do Hotel não restavam dúvidas, estávamos na Espanha. O contraste entre a modernidade dos vidros enormes que se espalhavam pela entrada, portas e janelas, e a tradição característica do sol que só brilhara daquele modo em Castela nos acolheu como se estivéssemos numa versão mais luxuosa de casa. Os raios solares confrontavam a luminosidade característica das lâmpadas de led e dos quadros abstratos, de forma que se notava uma tonalidade entre o castanho e o dourado nas poltronas, no piso e nas paredes. Salamanca. O hotel me lembrava Salamanca, local que jurava que iria passar minha lua de mel, quando era mais nova. Se pegássemos um carro, chegaríamos em duas horas, mas ali nos bastava estar no lobby do hotel no movimentado centro de Madrid. Parecia feito, pormenor a pormenor, pelas pedras de arenito de Villamayor, aquelas que, quando o sol incidia ao chegar no ponto mais alto da manhã, eram transformadas em algo próximo do ouro.
- Eu sabia que era pobre, mas não sabia que era tanto. - disse Margot, deslumbrada, o que me fez concordar prontamente. Já havia visitado lugares do mesmo nível do hotel com James, mas nunca em Madrid. Parecia que eu estava encontrando uma nova realidade dentro de minha própria cidade. - Liga para Alexis antes que pensem que viemos assaltar o hotel, . – falou, apressada, percebendo que estávamos paradas feito estátuas no meio do lobby, enquanto alguns hóspedes passavam por nós. Não que eu pensasse isso geralmente, mas realmente não seria muito difícil assaltar o local não. Ninguém realmente havia prestado atenção em nós e estávamos estancadas no mesmo lugar há alguns minutos.
- Exagerada! - balancei a cabeça, risonha.
Tirei o celular que estava no bolso traseiro do meu shorts e disquei o número que Lexi tinha me dado. Por comodidade, a brasileira havia comprado um chip espanhol para utilizar no período que estaria em Madrid. O celular tocou algumas vezes e no quarto toque ouvi a voz animada de minha amiga.
- , oi! - falou, ignorando o atraso. - Vocês chegaram?
- Estamos aqui embaixo. – confirmei. - Você vai descer?
- Não. - disse simplesmente, fazendo-me franzir o cenho em confusão e alertar Margot, que prestava atenção na conversa. - Já avisei na recepção que é para vocês subirem. Venham conhecer a Eileen!. - exclamou, deixando-me mais confusa ainda.
- Eu pensei que a bebê tinha ficado na Alemanha, Lexi. – falei, sem entender.
- Depois eu explico. Subam logo! - mandou, desligando o telefone antes que eu pudesse replicar. Balançando a cabeça em negação, pensando que essa era uma atitude bem comum de Alexis, puxei Margot até o balcão da recepção, em que três mulheres diferentes atendiam. Parei na frente da morena de traços asiáticos e repassei meu nome e o de Margot, avisando que Alexis estava nos esperando. A mulher somente parou para conferir se existia alguma anotação referente ao apartamento de minha amiga, confirmando a informação e permitindo nossa subida. O andar que a Müller estava era o quinto, o que nos proporcionou uma breve amostra da vista do hotel, visto a presença de um elevador panorâmico.
Quando o objeto metálico finalmente parou, andamos em busca do quarto 512, encontrando-o com a porta aberta.
- Thomas Müller, pelo amor de Deus, você não vai colocar esse body horroroso na minha filha! - consegui ouvir uma voz conhecida exclamar de dentro do quarto, fazendo-me refrear meus passos.
- Schatzi, você tem que aceitar logo que a Leen é uma legítima sonserina. Ela está simplesmente incrível nessa roupa. - a outra voz retrucou, em tom contemplativo. Percebendo a confusão dentro do quarto, Marg cutucou minhas costelas, sem muita delicadeza, chamando minha atenção.
- , você nos trouxe para um recanto de loucos. Ainda dá tempo de fugir e dizer que nos perdemos. - sussurrou, mirando o elevador do outro lado do corredor. Somente ri de sua proposta, embora concordasse levemente com sua consideração. Pelo o que conhecia de Alexis e Thomas, eles poderiam discutir por horas pelos motivos mais fúteis. E mesmo que eu concordasse com Müller, nesse sentido, já que todos deveriam ser inseridos no mundo de Harry Potter, não importava o quão cedo fosse, não tínhamos tempo para aquilo.
Assim, quando estava pensando em pegar o celular para avisar que estávamos estancadas na porta do casal, Thomas percebeu nossa presença, dando um grito animado e assustando a bebê que segurava em seu colo. Eu juro que vi um olhar de repreensão na feição dela, mesmo que isso não parecesse muito lógico.
- ! - veio em minha direção, mais rapidamente do que recomendado por estar com uma criança nos braços. - Que saudades! - abraçou-me lateralmente, ou melhor, tentou.
Aparentemente, Eileen não gostava muito de dividir a atenção do pai, já que empurrou meu rosto para o outro lado com seus braços gordinhos, afastando-me dele. A atitude da neném fez com que eu e Margot ríssemos, enquanto Thomas se dividia entre repreender a menina ou achar adorável. A risada de Marg, porém, acabou chamando a atenção do alemão, que não a conhecia.
- E você! Marlene, não é?! – questionou, animado, empurrando com um dos braços nós duas para adentrar o quarto que, sozinho, era 50% do tamanho do meu apartamento.
- Margot. – corrigiu, rindo do jeito do alemão, que somente se desculpou e logo tratou de pegar a bebê para que víssemos com maior atenção. - Prazer te conhecer, Müller. completou, ainda risonha.
Eileen era uma menina de seis meses. Eu apenas a conhecia por fotos e vídeos que Lexi costumava me mandar, mas já sentia um carinho gigantesco pela garotinha, principalmente pelo fato de saber que ela era um sonho para o meu casal de amigos.
A menina era uma mistura perfeita dos pais. Os cabelos ralos e castanhos e o nariz vinham da mãe, enquanto os olhos, de um azul vibrante, e a boca de lábios finos eram contribuição de Müller.
Eileen era adorável.
Enquanto o pai babão contava histórias de sua pequena e sobre como tentava fazer com que ela falasse papai antes de mamãe, Lexi apareceu, de repente. Sobressaltando os adultos e fazendo com que sua filha desse gritinhos em sua direção, pedindo o seu colo. A mulher estava vestindo um vestido leve e floral, com uma sandália rasteirinha simples nos pés.
- Vi que vocês já conheceram meu monstrinho. – disse, animada, pegando a menina no colo, que passou a alisar os seus cabelos de forma desajeitada. - E no seu caso, Margot, meus dois monstrinhos. - apontou para o marido, que fez uma cara de ultraje em resposta. - É um prazer finalmente te conhecer, menina! só sabe falar de ti. – falou, se aproximando da minha amiga com o intuito de abraçá-la.
Todavia, tal como tinha acontecido comigo minutos antes, Eileen também afastou o rosto de Marg para longe de sua mãe. Só que, ao contrário de Müller, Alexis não pareceu achar a atitude tão engraçada.
- Eileen Piovezan Müller! - exclamou para a menina, que não parecia minimamente abalada com a mudança de tom da mãe. - O Thomas fica dizendo para ela que ela deve ser uma verdadeira sonserina e aí essa menina fica danada desse jeito! - reclamou, fuzilando o alemão com o olhar que, de forma semelhante à filha, somente ignorou a esposa, pegando a menina de novo para si.
- Ela precisa fazer jus ao nome, schatzi. - explicou, caminhando para sentar na gigantesca cama de casal que se encontrava ali. - A mãe do meu querido Severo Snape! – disse, como se fosse óbvio, fazendo a mulher revirar os olhos e Marg e eu segurarmos o riso.
- Você não sabe como eu me arrependo de ter colocado esse nome na minha filha, Müller. – disse, cansada, como se já tivesse tido aquela discussão inúmeras vezes. O meu amigo somente riu e lembrou a mulher que eles tinham público.
- Desse jeito a Margot vai ficar assustada, Lexi. – repreendeu. - A já está acostumada. Inclusive, posso dizer que ela e o James eram bem pior que nós dois. – falou, distraído, soprando o cabelinho de filha e fazendo-a gargalhar.

Bebês e a sua estranha capacidade de rir de tudo.
- Thomas! - repreendeu o marido, que a olhou, sem entender. Entretanto, depois de uma conversa mental por alguns segundos, o rapaz pareceu cair em si e olhar para mim com um olhar culpado.
- Desculpa por falar do Ja… - porém, vendo o olhar duro da esposa, corrigiu-se. - Do seu ex-namorado. - disse pausadamente, olhando para a brasileira para ver se ela aprovava o termo. Quando recebeu um dar de ombros, prosseguiu. - Você tá bem, ? Com o lance do casamento e tudo mais.
- Vocês não precisam pisar em ovos para falar comigo, gente! - afirmei, olhando para o casal e para a minha amiga, que permanecia quieta. Sendo bem sincera, nunca havia visto Margot calada por tampo tempo. Aparentemente, a presença de um jogador mundialmente famoso a encabulava. Mesmo que não tivesse sentido isso quando conheceu James ou enquanto se enroscava com um dos jogadores do Real Madrid, quando tudo começou, lá na La Niña.
Vai entender.
- Eu estou maravilhosamente bem. - menti descaradamente, mas de um jeito bastante impressionante. Às vezes eu até me surpreendia pela minha capacidade de atuação. Mas, pelo visto, somente eu compartilhava dessa opinião, visto que os adultos daquele quarto me encaravam com o maior quê de incredulidade.
- Você mente e a gente finge que acredita, . - falou Margot, finalmente se fazendo presente. Apesar de que eu, pessoalmente, estava gostando mais de sua versão calada. -Só que como esse é um dia para esquecer dos problemas... - emendou antes que eu pudesse protestar sobre sua fala. - O colombiano é assunto proibido. - decretou de forma dura, criando coragem e fuzilando o casal com o olhar. Fofinha. Parecia um pinscher de lacinhos coloridos.
Discretamente, cutuquei seu braço, lançando-lhe um olhar agradecido, que foi respondido com uma piscadela.
Thomas e Alexis se encararam por alguns segundos, concordando em uníssono, pouco tempo depois, com a decisão de minha amiga. Não acreditava que Lexi fosse abordar o assunto, mas Thomas era mais próximo de James do que de mim, então era natural que acabasse se esquecendo que o amigo não estava sendo a minha pessoa favorita no momento.
- Enfim! - falou Lexi, dispersando o clima meio pesado que havia surgido no cômodo. - Vamos, meninas? - olhou para nós duas, que confirmamos com a cabeça. Ao ver nossa resposta, Lexi se virou novamente para o marido, proferindo instruções a serem seguidas que, pela postura do alemão, já haviam sido repetidas exaustivamente. Com isso, Thomas se levantou e foi nos empurrando levemente para fora do quarto, tomando cuidado com Eileen, que já apresentava sinais de sonolência.
- Sim, Lexi, não vou esquecer. - repetia, enquanto continuava nos empurrando. - É, eu anotei seu número da Espanha. - continuou, impaciente, finalmente conseguindo o seu objetivo de nos expulsar. Quando percebeu que nós três já estávamos do lado de fora, Müller deu um selinho na esposa, uma piscadela para mim e Margot e fechou a porta em nossa cara. Gritando um Tchau já dentro do cômodo.
Alexis, meio chocada com a atitude do marido, fez menção de voltar a bater na porta, sendo impedida por mim, que a puxei pelo antebraço para andarmos no caminho do elevador.
- Ele nem deixou eu me despedir da Eileen. - a brasileira dizia, consternada, seguindo a contragosto o caminho para a saída do hotel. Contudo, ao finalmente se deparar fora do local, Alexis levantou os braços em comemoração e foi correndo comigo e Margot para o local que eu tinha lhe dito ter estacionado meu carro.
Era hora de curtir Madrid, baby!

SEIS

40 DIAS PARA O CASAMENTO

No bailes sola
No te arriesgues sola
Déjate amar
Que nos llegó la hora (No Bailes Sola - Danna Paola part. Sebastian Yatrá)


Em meio a conversas animadas sobre assuntos diversos, dirigi por cerca de vinte minutos até o bar que havíamos escolhido anteriormente. O local estava mais para uma casa de karaokê do que para um barzinho propriamente dito, mas estávamos animadas com o lugar.
Alexis ainda não se sentia totalmente confortável em sair durante à noite depois que teve Eileen, mesmo que a criança estivesse com Thomas e que o rapaz insistisse para que a esposa saísse para se divertir. De acordo com o que minha amiga já tinha me confessado, ela tinha medo de que algo acontecesse com a menininha e, porventura, não conseguissem contatá-la. Confesso que era um pouco engraçado assistir a dinâmica dos Müller como pais, mas me sentia bastante orgulhosa dos meus amigos.
Por isso, buscamos selecionar um lugar que funcionasse durante o dia, mas permitisse tanta diversão quanto uma noitada de bebedeira. Bem, pelo menos o que nós considerávamos diversão.
Assim, depois de algumas deliberações, decidimos por um bar karaokê brasileiro que havia aberto há pouco tempo, mas que, conforme as pesquisas de Alexis, era bastante famoso entre a comunidade latina na Espanha.
Ainda estava cedo, então não tinham muitos carros por ali, o que eu agradecia muito, visto que odiava ter que procurar vagas, principalmente porque sempre as achava nos locais mais esquisitos e estreitos possíveis. Após desligar o veículo, as meninas e eu saltamos do carro e fomos em direção à entrada do lugar. Por fora, parecia como um lugar qualquer, com uma fachada de madeira que estampava o nome Rapsódia Karaokê Bar e um conjunto de portas francesas que pouco introduziam o espaço para quem estava olhando de fora.
Já dentro do local, um palco se destacava no meio do salão, sendo ocupado por um casal que cantava até que afinadamente alguma música que eu não conhecia. As mesas eram de madeira e comportavam sofás de couro - aparentemente confortáveis - para os clientes se acomodarem. A decoração, basicamente, era composta por bandeiras de países latinos emolduradas e quadros de alguns cantores conhecidos no continente, como Anitta e Nicky Jam. A iluminação, por sua vez, também era algo que se destacava. O ambiente todo era marcado pela mistura dos tons rosa e azul, dando uma atmosfera hipnótica e envolvente. Na minha concepção, as luzes serviam para mascarar o rosto das pobres vítimas dispostas a passarem vergonha no karaokê, o que já era bastante válido. Vamos nos humilhar, mas não tanto, né?!
Fui acordada dos meus devaneios com um cutucão de Margot, que indicou uma das mesas que já abrigava Alexis. Como ela sentou ali sem que eu visse, não era uma resposta que eu sabia dar. Segui, então, até o local que minha amiga estava e tratei de me jogar do modo mais confortável que consegui naquele sofá. Esperava que não fosse um daqueles modelos que deixava a bunda quadrada após muito tempo sentada.
- Não viemos muito desarrumadas, não?! - perguntou Margot, depois de nos acomodarmos. Olhando ao redor, tinha que concordar com a minha amiga. As poucas pessoas que ali estavam usavam mais do que roupas básicas, como vestidos colados e saltos altíssimos.
- Nah. - respondeu Lexi, abanando a mão displicentemente. - Não são nem quatro horas da tarde, eles que são os estranhos por estarem com esse tipo de roupa num karaokê. - disse, encarando sem muita discrição uma moça que parecia ter recebido grandes tapas nas bochechas de tanto blush que havia aplicado.
- É, pode ser. - me intrometi, em um tom indiferente. Havia aprendido a não ligar muito em parecer desarrumada nos lugares. Ninguém ali pagava minhas contas, então não era da conta de ninguém o modo como eu me vestia. Além disso, nada no mundo valia mais do que o meu conforto.
Não foi um processo fácil, mas era algo que eu tentava reafirmar diariamente. Nos meus anos de relacionamento com James, a mídia havia arrumado inúmeros jeitos de me diminuir, com inúmeras insinuações de que eu não era o suficiente para namorar um jogador de futebol famoso. Francamente, eu achava que toda essa exposição e a consequente invasão dos meios de comunicação sobre nossas vidas pessoais era algo restrito a rockstars e seus inúmeros affairs. Nunca havia acompanhado casos de manchetes tendenciosas para outros nichos, pelo menos não para as namoradas. Geralmente, quem acompanha futebol não se importa com a vida pessoal dos jogadores, o que torna ainda mais irônica toda a perseguição da mídia sobre mim e James. Mas, essa era uma ferida que já estava praticamente cicatrizada.
- Enfim, o que vamos comer?! - questionei, ignorando as regras de etiqueta e apoiando meus cotovelos na mesa.
- Já pensando em comer, ? - indagou Margot, em um tom divertido. - Acabamos de chegar.
- Claro. - respondi com obviedade. - A lactante ali... - apontei para Lexi. - Não pode beber. – enumerei. - Eu estou dirigindo e não posso me dar ao luxo de morrer em um trágico acidente de carro. – dramatizei. - Nem estou disposta, por enquanto, a me humilhar naquele palco. - apontei, olhando rapidamente para o lugar de que falava e vendo que o casal fora substituído por um homem. E que homem. - Então, por eliminação, o que me resta é comer. - conclui com obviedade, encarando a minha amiga com superioridade. Marg, em resposta, somente riu, acenando para um dos garçons que ali passava. Depois de fazermos nossos pedidos, nossa conversa foi cessada temporariamente devido ao estupor causado pela voz do homem misterioso. O homem que parecia uma versão latina do Ben Barnes tinha um tom rouco que fazia os pelinhos do meu pescoço se arrepiarem. Seu corpo balançava enquanto performava Robarte un Beso do Carlos Vives e do Sebastian Yatrá.
- Puta que pariu. - xingou Margot, encarando o desconhecido de forma lasciva. - Eu queria que ele me roubasse um beijo. Deixava roubar minhas roupas e até a minha dignidade. - dramatizou, desviando o olhar do rapaz para encarar a mim e a Lexi. Embora concordasse com a minha amiga, eu somente ri, enquanto Alexis deu mais corda à minha amiga.
- Se a minha câmara secreta não abrisse somente com um basilisco alemão, até eu deixava. – disse, brincalhona, causando gargalhadas gerais. Essa tinha sido uma das piores associações que eu já tinha visto, ao mesmo tempo que conseguia ser genial. Pelo menos era o que minha alma potterhead achava.
- Que merda de comparação foi essa, Müller? - questionei a brasileira, tentando controlar o ritmo da minha respiração.
- Eu também sei algumas referências de Harry Potter, minhas queridas. - piscou displicentemente. – Mas, sério, se eu fosse vocês, investia. - sugeriu, olhando de Margot para mim de forma incisiva. Enquanto isso, o misterioso moreno já havia deixado o palco, para nossa tristeza, e se encontrava a algumas mesas da nossa, com mais dois homens igualmente atraentes.
- Mesmo estando muito, muito tentada. - Marg falou, enfatizando o muito. - Acho que o bonitinho está de olho na . – afirmou, me cutucando sem discrição alguma. Ao que reclamei, ela continuou. - Olhem discretamente para o lado e vejam por si. - pediu. Mas, obviamente, não havíamos sido discretas o suficiente, já que ao nos virarmos, encontramos três homens nos encarando sorridentes, enquanto que o dono da voz bonita levantava o seu copo em nossa direção, propondo um brinde.
- Eu disse discretamente! - exclamou Margot, nos recriminando. - Agora eles vão achar que estamos interessadas!
- E vocês não estão?! - indagou Lexi, afastando o corpo um pouco da mesa para possibilitar que o garçom, que Deus sabe de onde surgiu, colocasse a comida diante de si.
- Estamos! – respondeu, um pouco mais alto do que provavelmente pretendia, já que olhou rapidamente para os lados. - Pelo menos eu estou. - enfatizou Margot, olhando para mim de soslaio. Eu propositalmente ignorava as minhas amigas, comendo uma porção de batatas rústicas despreocupadamente. Não havia ido até ali para arranjar sarna para me coçar, mas para me livrar da praga que já estava nas minhas entranhas há tempo demais. Sim, péssima comparação, mas eu realmente não ligava. - deve estar também, mas nunca irá admitir. - me acusou, enquanto eu só revirei os olhos e tratei de continuar a comer minhas batatinhas. Nossa, como aquilo era bom!
- Então, qual o problema deles saberem do interesse de vocês? - continuou Lexi, me mantendo na conversa.
- O raciocínio é um pouco óbvio, minha amiga brasileira. - falou Marg, tombando a cabeça um pouco para o lado, enquanto beliscava algo chamado de dadinhos de tapioca. - Homens nunca podem saber que temos tanto interesse quanto eles. - explicou, como se tivesse cheia de razão. - Porque aí damos a eles um poder que nunca deve estar com eles: a segurança de que nos afetam. - disse em tom sábio, dando um gole no copo de Coca Cola. - Aí, minhas amigas, eles fodem com nossos emocionais e nós ficamos cada vez mais inseguras e desconfiadas de tudo e de todos.
- É, você tem razão. - após ponderar por alguns segundos, concordou, comendo uma das coxinhas que havia pedido. - Felizmente, o Thomas sabe que se vier de gracinha, corto o amiguinho dele e dou para os cachorros do vizinho comerem, porque seria nojento dar para Pads e Snow. - deu de ombros como se estivesse falando do tempo, e não de uma esterilização forçada de seu marido. Sinceramente, às vezes Alexis me assustava. - E você, ? O que acha disso?
- Não tenho o que opinar. - dei de ombros, sincera. - Dando corda ou não, no final de tudo, terminaremos sozinhas, deitadas em algum tapete felpudo, assistindo Friends e tomando sorvete barato de chocolate. – falei, amarga. - Homem é tudo covarde.
- Nossa, quem foi o idiota que te deixou ter uma visão tão ruim do sexo masculino? - perguntou uma voz não tão desconhecida, fazendo as meninas e eu, principalmente eu, nos sobressaltarmos.
- Porra! - xinguei, depois de me recuperar do engasgo causado pelo susto. - Você tá doido, cara? - virei o rosto, com raiva, para encarar o desconhecido, encontrando um sorriso meio culpado, meio divertido. O homem de cabelos compridos vestia uma calça jeans de lavagem escura e uma camiseta branca, contrastando com a pele bronzeada. Os músculos eram bem definidos e o sorriso mostrava uma característica que, normalmente, me faria sair correndo: a capacidade de mostrar que não valia nada.
- Desculpa, nena. - falou, se sentando no espaço vazio ao meu lado. Ao ver a cena, encarei o rapaz com incredulidade, enquanto as minhas amigas seguravam o riso. - Mas é que eu não pude conter a minha vontade de vir falar com você, acredita?! - fez uma feição de falsa surpresa, me encarando com os olhos cor de mel.
- Aposto que podia. - respondi sem muita polidez, comendo mais uma batata. - Ninguém te avisou que é falta de educação interromper os outros, que nesse caso, são totalmente desconhecidas, no meio de uma refeição? - indaguei, ainda estupefata com toda essa situação. Aparentemente, só quem se encontrava assim era eu, porque as minhas amigas encaravam tudo com os olhos divertidos, sem qualquer menção de se intrometerem.
- Se disseram, eu esqueci. - disse, divertido. - E se você me disser seu nome, não será mais uma mera desconhecida. - sugeriu, comendo uma das minhas batatas. Uma. Das. Minhas. Batatas.
Um fato curioso sobre mim: eu odeio dividir comida. Nunca tive problemas em dividir bens materiais, mas comida não. Comida é algo sagrado. Agora eu já estava irritada.
- Você vem aqui do nada, senta com três desconhecidas, come a MINHA comida e ainda quer que eu me apresente?! - encarei o ladrão de comida de maneira indignada. - Qual o seu problema, cara?!
- ! - finalmente uma das minhas queridas amigas decidiu falar. - Não precisa ser grossa assim. - Margot me repreendeu, como se eu estivesse errada.
- Ah, então o seu nome é . - falou o indesejado, ignorando tudo o que eu havia falado. - Prazer, meu nome é Felipe.
- Só podia ser. - ouvi Lexi dizer. - Todo Felipe é descarado.
- Desculpe?! – perguntou, rindo. - Que preconceito é esse com o meu nome?
- Sem ofensas, mas nenhum Felipe vale alguma coisa. - deu de ombros. - Verdade consolidada por anos de experiência prática.
- Claramente vemos um exemplo vivo aqui. - apontei, olhando para o não mais tão desconhecido assim. - Além de tudo é sonso. - cutuquei, lamentando por não ter mais nenhuma batata no meu prato. Ainda teria se não fosse pelo meu adorado amigo.
- Além de linda, é toda debochada. - Felipe falou, se insinuando. - Acho que me apaixonei.
- Essas coisas só acontecem com a . - ouvi Margot sussurrar para Lexi, vendo a brasileira concordar com a minha amiga.
- O que você veio fazer aqui, Felipe?! – questionei, impaciente.
- Vim te chamar para cantar, claro. - falou como se fosse óbvio. - Tenho certeza de que será uma excelente dupla. - me bajulou, buscando apoio nas outras duas pessoas da mesa.
- Ah, eu não canto. – neguei, como se fosse um absurdo o que ele me pedia. O que realmente era. - Principalmente com desconhecidos.
- Mas não somos desconhecidos, . - apelou, usando o meu apelido. - Você já me conhece, sou o Felipe.
- Nossa, realmente. – debochei. - Já posso te considerar meu melhor amigo.
- Por favor, canta comigo, vai. - pediu, apoiando o rosto da mesa e me encarando com os olhos pidões. O homem era metido, descarado e egocêntrico, mas o desgraçado era lindo. Oh, Deus, o que eu fiz para merecer tanto sofrimento com o sexo oposto nessa vida?! - Juro que não vai se arrepender.
- Não. - continuei negando, completando rapidamente ao ver que ele iria continuar insistindo - Você não tem um amigo para cantar com você, cara?!
- Ter até tenho. - olhou para a mesa dele, apontando para os dois rapazes que nos encaravam com cara de pura diversão, como se não acreditassem que o amigo fosse tão cara de pau assim. Somos três, meus filhos. - Mas eu quero você.
- Vai, . - apoiou Lexi. - Qualquer coisa, a gente grava, manda para um programa de comédia e você fica rica passando vergonha. - concluiu em um deboche estampado, fazendo eu estirar minha língua para ela. Muito madura, eu sei.
- Você não vai desistir? - encarei o moreno ao meu lado, que negou com a cabeça. - Inferno. – suspirei, resignada - Mas só uma música, okay?! - pontuei com veemência, ao que Felipe concordou com a cabeça, abrindo um sorriso enorme.
Por que essas coisas estranhas só acontecem comigo?!

XX


Após seguir Felipe para o palco, percebi algumas pessoas nos encarando curiosas. Afinal, a estrela da noite estava indo para mais uma apresentação e, dessa vez, acompanhada de uma pobre coitado, vulgo eu. Chegando lá, o moreno me ajudou a subir a elevação e me colocou em sua frente, me encarando, ansioso.
- E aí, alguma sugestão? - questionou, virando-se para olhar uma longa playlist disponibilizada no iPad do estabelecimento.
- Você que me chamou aqui. - respondi, levemente desconfortável. - Se vira. - dei de ombros, sem me importar muito com a escolha de Felipe. Já estava ali mesmo, então o que me restava era aceitar o meu destino, independentemente da vergonha e da música em questão.
- Estava só esperando você responder isso. - disse, animado. - Tenho uma música muito boa. - completou, pretensioso.
- Tenho até medo de saber qual é. - suspirei, resignada. - Qual é?
- No Bailes Sola, conhece? - perguntou, ansioso.
- Quem não conhece?! - retruquei de forma retórica, um pouco mais animada com a escolha de Felipe. Pelo menos, era uma música que eu gostava muito. - Boa escolha. - admiti, vendo o sorriso do moreno aumentar, antes dele se virar para selecionar a canção no aparelho. Quando o rapaz finalmente clicou na música, pude sentir o meu estômago retorcer em nervosismo. Não costumava ser uma pessoa com muita facilidade para me apresentar em público, muito pelo contrário.
Nos trabalhos de escola e faculdade, sempre tive problemas nos seminários; não por não saber o conteúdo, mas por me enrolar na hora da apresentação e começar a surtar por ver que estava embananando todas as informações. Achei que isso poderia melhorar na faculdade de Direito, mas acabou piorando e, além do universo extremamente hostil, esse foi um dos motivos que me fez desistir do curso e seguir atrás do Design Gráfico. Não me arrependo das minhas escolhas e hoje eu consigo viver com as minhas dificuldades mais tranquilamente.
Balançando a cabeça em negação para dispensar esses pensamentos intrusivos e sob o olhar atento e curioso de Felipe, comecei a cantar.

(Play aqui!)

Volver al pasado no tiene mucho sentido
(Voltar ao passado não tem muito sentido)
No sé qué ha pasado, esto nunca lo había sentido
(Não sei o que aconteceu, nunca senti isso antes)


Comecei, ainda tímida, procurando os olhares de Alexis e Margot em meio às pessoas que ali estavam. Quando as encontrei, vi Marg fazendo um sinal de positivo e balbuciando algo como “Arrasa, amiga!” e Lexi me filmando com uma cara de orgulhosa.

Tú estás a mi lado y me olvido que estoy con él
(Quando você está comigo, eu esqueço que estou com ele)
Siento mil cosas en la piel, yo sé que nunca ha sido infiel
(Sinto mil coisas pelo corpo, sei que você nunca foi infiel)


Chegando na parte de Felipe, me virei para encarar o rapaz, que já me olhava intensamente. Quando ele finalmente começou a cantar, me senti levemente impactada pela sua voz sedutora soando tão de perto, como se realmente estivesse cantando para mim, e não só comigo.

No bailes sola
(Não dance sozinha)
No te arriesgues sola
(Não se arrisque sozinha)
Déjate amar
(Permita-se ser amada)
Que nos llegó la hora
(Chegou a nosso momento)


Voltando novamente para a minha parte, cantei encarando Felipe com a mesma voracidade que ele me encarava. Não estava mais nervosa como antes. Inexplicavelmente, parecia que eu estava na sala de minha casa, comendo com alguns amigos e passando vergonha no karaokê. Não que a última parte não fosse verdade, mas, nesse momento, eu me sentia solta.

No bailo sola
(Não danço sozinha)
Ya nunca bailo sola
(Eu nunca danço sozinha)
Te quiero besar
(Eu quero te beijar)
Intentémoslo ahora
(Vamos tentar fazer isso agora)


Felipe, dessa vez, segurou minhas mãos, como se fosse para ilustrar que eu realmente não estaria dançando sozinha. Sozinha como eu estava há seis meses, desde que havia rompido com James.

Sigues con ese bobo al lado que no suelta el telefono
(Você continua com aquele idiota do seu lado, que não solta celular)
Que se queda sentado, pero linda, conmigo no
(Que só fica sentando, mas, linda, comigo não é assim)
Conmigo, tú sabes cómo son las cosas
(Você sabe como as coisas funcionam comigo)
Parece una estrella, parece famosa
(Parece uma estrela, parece famosa)


Felipe balançava os quadris no ritmo da canção, me instigando a fazer o mesmo. Enquanto ele cantava, jurei ouvir alguns suspiros femininos e alguns incentivos vindos da mesa que o homem estava anteriormente com seus amigos.

No tiene idea de lo que puede perder (No, no, oh)
(Ele não faz ideia do que ele pode perder - não - )
Que tu sonrisa ya se fue
(Que o seu sorriso já se foi)
Y que a tus brazos, yo llegué
(Que o seu sorriso já se foi)


Cantei, me sentindo livre como há tempos não me sentia. Naquele momento, não existiam preocupações, nem James ou o seu casamento marcado. Ali, só havia e Felipe que, mesmo sendo um desconhecido atrevido e intrometido, estava me proporcionando uma sensação diferente. Era diferente porque não estava acostumada a me mostrar para tantas pessoas, pelo menos não espontaneamente. Então, naquele momento, eu agradeci por isso. Talvez, quando a música acabasse e a adrenalina desse trégua, eu sentisse uma grande vergonha e saísse correndo para o meu carro com o objetivo de chegar em casa o mais rápido possível. Poderia acontecer. Mas, naquele momento, eu me sentia grande e poderosa, como uma estrela.

¿Qué tengo que hacer pa' que te vuelvas mi mujer?
(O que eu preciso fazer para que você vire minha mulher?)
Si tú estás con otro que no te sabe querer
(Você está com outro, que não sabe te dar amor)


Felipe cantava como se estivesse se apresentando em algum show. Sua voz melodiosa, muito parecida com a do Sebastian Yatrá, ecoava de forma imponente no espaço do barzinho, como se fosse a dona do local.

¿Qué tengo que hacer pa' que te pueda convencer?
(O que eu preciso fazer para conseguir te convencer?)
Si tú estás con otra que no te sabe querer
(Você está com outra, que não sabe te dar amor)


No refrão, o rapaz me puxou para mais perto de si, quase me fazendo tropeçar nas minhas rasteirinhas, mas isso não o abalou.

No bailes sola
(Não dance sozinha)
No te arriesgues sola
(Não se arrisque sozinha)
Déjate amar
(Permita-se ser amada)
Que nos llegó la hora
(Chegou a nosso momento)


Mais uma vez, comecei a cantar com avidez, como se fosse a própria Danna Paola em meio a uma apresentação importante.

No bailo sola
(Não danço sozinha)
Ya nunca bailo sola
(Eu nunca danço sozinha)
Te quiero besar
(Eu quero te beijar)
Intentémoslo ahora
(Vamos tentar fazer isso agora)


A música já se aproximava dos versos finais e eu, no meu íntimo, já queria uma nova apresentação, com uma nova canção. Queria sentir novamente a liberdade que estava emanando de meu corpo em cima daquele pequeno palco.

Que no me escriba, que no te llame
(Que não me escreva, que não te ligue)
Si estamos solos, que nadie nos separe
(Quando estamos a sós, que ninguém que nos separe)
Con solo verte cambió mi suerte
(Só de te ver, mudou a minha sorte)
Sé que no me arrepentiré de conocerte
(Sei que não arrependerei de te conhecer)


No último verso, o moreno encarou os meus olhos, como se quisesse reafirmar a mensagem de letra. Não me arrependerei de te conhecer.

Quiero amanecer en tu cama
(Quero acordar na sua cama)
No puedo esperar a mañana
(Não posso esperar até amanhã)
Si el mundo se va a acabar
(Se o mundo vai acabar)
No perdamos el tiempo ya
(Não vamos perder mais tempo)


Confesso que me senti levemente envergonhada ao cantar que queria estar na cama dele, mesmo que não fosse na cama de Felipe mesmo. A música era intensa e mensagens poderiam ser interpretadas de maneiras equivocadas. O homem era lindo, não tinha como negar isso, mas não sabia se me sentia preparada para ir para a cama com alguém que não fosse James, por enquanto. E, sinceramente, eu não sabia nem o motivo disso estar passando pela minha cabeça. Era só uma música, por Deus. Eu nos últimos tempos estava muito emocionada. Parecia uma adolescente de doze anos lendo fanfics com seu ídolo cantor de boyband.
Mais alguns versos depois e a música finalmente terminou. Após a apresentação, pude ver e ouvir pessoas aplaudindo animadas e, ali, me senti verdadeiramente bem. Margot e Alexis davam gritinhos e exclamações com algo que identifiquei como “Essa gostosa é minha amiga!” e outras variantes. Olhei para Felipe, que me encarava de volta, e tentei repassar para ele o meu agradecimento pelo momento. Para muitos, isso não seria nada, mas para quem estava sofrendo há tempo demais, de um modo que conseguiu até estressar o meu gato, era importante. Era o primeiro passo para uma trajetória de libertação.
Alvárez não era uma parte de James Rodriguez. A era uma mulher foda para caralho que não precisava estar com homem algum para se sentir completa. Óbvio que ainda queria a presença do colombiano e que, por algum motivo, ele percebesse que a Verona não era mulher para ele e voltasse para mim. Mas, se isso não acontecesse, estava tudo bem. Eu era muito além do que uma namorada de jogador de futebol. Eu era a mulher da minha vida e iria lutar por ela. Assim, aceitei a mão de Felipe e desci na mesa em direção às minhas amigas.

XX


- PUTA QUE PARIU, ! FOI SIMPLESMENTE INCRÍVEL! - Margot falou. Lê-se, berrou, quando eu cheguei perto o suficiente delas, levantando-se para me abraçar. Lexi, por sua vez, permaneceu sentada, mas sua fala era tão animada quanto a da minha amiga.
- A química de vocês dois, meu amigo, é surreal. - falou a brasileira, olhando de soslaio para a mesa vizinha, que se encontrava Felipe. Após o fim da apresentação, o rapaz me deu um beijo na bochecha e, com uma piscadela, seguiu para a mesa de seus amigos que, como as minhas, davam gritos de zombaria e tapinhas nas costas do rapaz.
- Foi só uma música, gente. – falei, como se não fosse nada, bebendo um copo de água que Margot havia me estendido. - Tanto que ele nem está mais aqui. - dei de ombros.
- Deixa de baboseira, - falou Margot, impaciente. - Você não vai pegar o número dele?
- Número? - arqueei a sobrancelha em confusão. - A gente só cantou junto, por Deus. Não quer dizer que vamos para a cama. - falei como se fosse óbvio.
- Claro que não. - negou Lexi. - Mas vocês podem simplesmente conversar, né?! - ponderou a brasileira. - O cara claramente está afim de você, ou ele não viria te encher o saco para cantar com ele.
Nisso eu tinha que concordar com a minha amiga. Todavia, eu não iria atrás dele. Se ele me achou a princípio, podia vir atrás mais uma vez.
- Você que sabe. - falou Lexi, simplesmente. - Agora lá vou eu mostrar um pouco de cultura para vocês, europeias safadas. - disse em brincadeira, jogando o cabelo para trás. - Quem já viu um barzinho brasileiro que não toca música brasileira?! - indagou em ultraje, levantando e indo em direção ao palco que eu estava há poucos minutos.
Quando Lexi saiu de nosso campo de visão, Margot logo tratou de falar.
- Seu telefone não parou de tocar, . - falou, fazendo com que eu franzisse meu cenho em confusão. - Não mexi nele, ainda está na sua bolsa. - indicou, me entregando a bolsa branca que estava ao seu lado, junto com as bolsas da mesma e de Alexis. Ao finalmente achar o objeto, senti um leve retorcer no meu estômago, encarando as notificações de ligações perdidas e mensagens não lidas. Eu conhecia aquele número. Nunca havia bloqueado James, mas havia excluído o seu número com a esperança que o tempo também me fizesse esquecer de seu contato e da sua importância em minha vida. Claro que isso nunca deu certo, mas valia a pena tentar.
, você tá aí?”
“Descobri quem te mandou o convite, posso te ligar?”
, tentei te ligar algumas vezes, mas como não atendeu, presumi que está ocupada.”
“Acabei de ver os stories dos melhores amigos de Lexi. Sempre te disse que sua voz é maravilhosa, nem esse cara estranho conseguiu ofuscar o seu brilho”
“Divirta-se aí, mas quando puder, retorne as minhas ligações, por favor. Precisamos conversar.”


E essa era a última mensagem, enviada há cerca de três minutos. Suspirei, pensando se deveria retornar o contato de James agora. Não sabia se queria mergulhar naquele momento na mistura de sentimentos que o colombiano me trazia. Todavia, antes mesmo de tomar alguma decisão, senti uma presença ao meu lado.
- Para quem não queria cantar, você deu um show, hein?!- Felipe falou, brincalhão, colocando o braço folgadamente ao redor dos meus ombros. Folgado.
- Ela nega até o fim, mas adora esse tipo de coisa, Felipe. - intrometeu-se Marg, causando uma careta em mim.
- É por isso mesmo que eu estou aqui. - falou displicentemente. - Para fazê-la admitir que quer o meu número tanto quanto eu quero o dela. – provocou, malicioso. Somente revirei os olhos em descrença.
- Você é muito idiota, sabia disso?! – perguntei, emburrada, para o moreno, que ainda não havia retirado o braço de meus ombros. - Claro que eu gostei de cantar com você, mas isso não quer dizer nada. - falei com uma convicção que não era minha.
- Sei, zinha. Sei. - falou em descrença. - Vamos ver se até o final da música da sua amiga você muda de ideia. - indicou Lexi, que só agora iria cantar a canção que havia escolhido.
Assim, enquanto ouvia minha amiga começar os versos de Eu Não Sou Boa Influência Pra Você, de um grupo brasileiro da cidade de Alexis, que ela havia me apresentando quando eu ainda morava em Munique, passei a ponderar o que eu faria naquele momento.
Eu realmente tinha que retornar o contato de James, tanto porque tínhamos assuntos pendentes acerca do nosso relacionamento, quanto pelo fato de eu estar curiosa em saber quem foi que mandou o bendito convite de casamento do rapaz para mim. Só que ali, naquele momento, eu tinha Felipe, um completo desconhecido que apenas tinha feito um dueto comigo, mas demonstrava interesse em me conhecer mais um pouco. Não estava interessada em conhecer novas pessoas, no sentido romântico da coisa, até porque não achava justo me envolver com alguém enquanto ainda estava apaixonada por Rodriguez. Mas, queria viver novamente, pelo menos um pouco, da sensação que senti enquanto cantava em cima daquele palco. A sensação de que não tinha problemas para resolver e um peso no coração que não saía. Assim, decidi ceder para Felipe e dar o meu número para o rapaz, fazendo com que ele abrisse um sorriso lindo. Margot somente sinalizou que era uma excelente ideia, me dando uma piscadela em apoio. Eu poderia responder James depois, quando chegasse em casa. Eu já não era mais prioridade em sua vida, então não tinha para que colocá-lo nesse patamar na minha.



Continua...



Nota da autora: VOLTEI, PESSOAL! Passou o vestibular e, assim, consegui voltar a escrever e concluir essa att dupla! E aí, o que acharam?! Sei que estavam esperando a conversa da com o James, mas a coitada precisa se divertir um pouco, né?! Prometo que essa conversa não vai demorar muito haha. E o Felipe? Será que vai ser alguém importante ou só mais uma pessoa aleatória que passa pela vida da ? hahaha. Veremos! E parece que o James conseguiu descobrir quem foi o ser humano que mandou o convite, né?! Garanto que ele é Maria fifi e está doido para explanar isso! Enfim, até a próxima, gente!


Nota da beta: Eu tô SURTANDO para saber quem foi, você é uma autora MALDOSA! Está destroçando meu coração soinsdonsodpjas eu AMEI esse dueto com o Felipe e confesso que fiquei curiosa nele, mas você está me fazendo amar o James só pelo jeito que ela fala dele, então fica difícil pensar em outros. Manda mais, poxa, eu quero ver essa conversa aí!!!!!! Ah, queria deixar meu amor registrado pelos Muller, é isso! Hahaha <3

Qualquer erro nessa atualização ou reclamações somente no e-mail.


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