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Última atualização: 31/08/2021

Prólogo

65 dias para o casamento
Eu não conseguia acreditar que ele tivera a coragem de me mandar aquele convite. Depois de tudo o que havíamos vivido, ele não seria tão insensível a esse ponto.
Seria?
Não só seria, como foi.

Eu já estava começando a sentir os efeitos de uma noite não dormida.
Tinha passado a noite em claro, perambulando pelas ruas vazias de Madrid, procurando algum bar que pudesse me oferecer uma xícara de café e ver se, milagrosamente, o líquido amargo conseguiria afastar aquele terrível aperto que eu estava sentindo.
Sabia que ir para casa não iria me ajudar. Afinal, eu não conseguia tirar da minha cabeça o fato de que era oficial: James iria se casar e não era comigo.

Não era novidade para mim que ele estava em um novo relacionamento.
Mesmo que tenhamos cortado contato após o término, seis meses atrás, o colombiano era visto constantemente nas manchetes de sites sensacionalistas da Espanha. A mídia de Madrid adorava pintá-lo como um womanizer, mesmo que isso não fosse de seu feitio.
Assim, querendo ou não, eu acabava sabendo de alguns dos detalhes que se passavam na vida de Rodríguez.
Além disso, ainda tinha Saló. A garotinha por quem eu aprendera a nutrir um sentimento irrefreável e, portanto, não tinha tido a iniciativa de cortá-la de minha vida.
Só que nada disso tinha me preparado para a notícia que havia recebido.
Casamento?
Não, casamento não era algo que eu esperava.
Na minha cabeça, Verona seria apenas um casinho do jogador que, por acaso, havia saído na mídia. Então o convite realmente me surpreendeu.

James foi o meu primeiro e grande amor. Nos conhecemos quando ele embarcou em Madrid, sendo cogitado como grande aposta do clube merengue.
Após 2014, mesmo com a eliminação da seleção colombiana para o Brasil, nas quartas de final, todos só sabiam falar do talentoso camisa 10 colombiano, fazendo com que grandes clubes se interessassem no jovem jogador do Mônaco.
Sendo bem sincera, eu não era muito fã de futebol.
Mesmo morando perto do Santiago Bernabéu e eventualmente acompanhar um ou outro jogo ou evento do Real Madrid, visto que meu ciclo de amigos era composto majoritariamente por torcedores madrilenhos, eu não conhecia praticamente nada do esporte. Com toda certeza, eu não compartilhava dessa devoção descabida que todos ao meu redor pareciam ter.
Então, posso dizer com convicção que foi ao acaso que encontrei James.
Numa festa de inauguração da La Niña, uma das boates mais divulgadas pela elite espanhola, eu acabei esbarrando no colombiano.
Eu não era famosa, longe disso. O maior engajamento que eu recebia em meu instagram era quando postava fotos de Senhor Gato, meu gato persa alaranjado e mau humorado.
Mas, Margot, minha melhor amiga, conhecia uma menina, que era namorada de um dos promoters do evento, então, voi lá , eu e minha bundinha magra conseguimos entrar na festa mais esperada do mês. Talvez do ano.
Não sei explicar, contudo, como fui parar no camarote reservado para os jogadores do Real Madrid. Só lembro de estar pedindo um martini de morango para o barman e, antes mesmo de receber minha bebida, já estava sendo arrastada em direção a umas escadas estrategicamente escondidas no fundo do salão.
Quando finalmente consegui assimilar o que estava acontecendo, vi-me diante de alguns dos caras mais bem pagos do mundo.
Não que eu soubesse os seus nomes, mas sabia que eram jogadores, o que os suspiros apaixonados de minha amiga acabavam por confirmar.
O que me chamava atenção, contudo, não eram os seus status ou contas bancárias, mas o modo como eles nos encaravam.
Os homens encaravam Margot e eu como se fôssemos uma garrafa de água no meio de um deserto. Assustador.
Mais assustador ainda ao lembrar que a maioria daqueles caras deveriam ser casados, com suas esposas esperando em casa com seus filhos mimados enquanto seus maridos estavam encarando mordazmente duas mulheres aleatórias em uma boate no meio da cidade.
E é por isso que eu poderia passar horas num palanque falando mal de homem, foi o meu pensamento.
Ignorando todos os olhares, e vendo minha amiga começar a falar com um narigudo tatuado, fui finalmente pedir o martini que me foi negado anteriormente, no pequeno bar exclusivo que tinha ali.
E nisso, eu o vi.
Sentado despreocupadamente, com uma calça jeans de lavagem escura e uma blusa branca de mangas longas, estava James Rodriguez. Encarando-me efusivamente com um olhar que, inesperadamente, não achei ofensivo.
Mas quente.
Um simples olhar daquele homem foi capaz de me acender em lugares que há meses clamavam por atenção.
E foi assim que a nossa história começou.
Em algum momento da nossa troca de olhares, James tomou a iniciativa e veio conversar comigo, em um espanhol com sotaque. Nisso, acabamos descobrindo muitas coisas em comum, perdendo completamente a noção do tempo e terminando a noite sem beijos, mas com números de telefone trocados.

Semanas depois, já me encontrava perdidamente apaixonada pelo moreno de olhos gentis e sorriso safado. Começamos a namorar logo depois disso.
James era o que eu poderia chamar de personificação do meu homem ideal.
Ele era engraçado, gentil, prestativo, inteligente e, simplesmente, a pessoa mais bondosa que eu já havia conhecido. E olhe que eu já tinha feito parte de algumas ONG's de proteção animal e de projetos de combate à fome na África.
Além de tudo isso, tinha um corpo de deixar qualquer mulher enlouquecida.
James era, sem dúvidas, o pacote completo.
Realmente, estranho seria se eu não me apaixonasse por ele.
Contudo, como nem tudo eram flores, logo apareceram alguns empecilhos no nosso relacionamento.
O primeiro deles tinha nome, sobrenome e parentesco direto com a pessoa mais importante da vida de James: Daniela Ospina, ex-mulher do colombiano e mãe de sua filha, Salomé.
Daniela não era uma pessoa digamos que, fácil.
Quando eu conheci o jogador, James e ela já não estavam juntos há alguns meses, mas isso não a impediu de me acusar de destruidora de lares.
A mulher chegou ao ponto de impedir que Rodriguez visitasse a própria filha, afirmando que só mudaria de ideia caso ele terminasse comigo.
Realmente, não foi o momento mais tranquilo do nosso relacionamento.
Ospina só desistiu, de fato, dessa atitude infundada, ao receber chamados dos advogados de James, uma vez que ele nunca aceitaria ficar longe de sua pequena Salo. Com medo de perder a guarda da menina, de forma definitiva, a mulher finalmente recuou.
Com esse problema resolvido, apareceram outros.
O pior deles foi a transferência do jogador para o Bayern de Munique.
Sua performance no Real Madrid não estava sendo o esperado pela torcida e pela diretoria do clube, fazendo com que o rapaz fosse emprestado para o time bávaro.
Sinceramente, eu nem sabia que um jogador poderia ser emprestado, tal como uma caneta qualquer, mas, aparentemente, isso era bastante normal no mundo do futebol.
Foram noites e mais noites de conversas sobre o que faríamos acerca do nosso relacionamento. Mudar para Alemanha não era, nem de longe, um dos meus objetivos.
Um país diferente, com um idioma diferente e um clima também diferente, não facilitaria o meu processo de adaptação. Mas, eu cedi e segui meu namorado para a cidade alemã.
Eu trabalhava para uma empresa de designer gráfico de jogos, então meu emprego não era exatamente um obstáculo. O home-office já era frequente na minha vida.
Minha família, por sua vez, não morava em Madrid há alguns anos, mudando-se para Sevilla logo quando eu entrei para a universidade. Então, tirando as minhas inseguranças, não havia nada que realmente me prendesse à cidade espanhola.
Por isso, eu fui.
Contudo, não posso dizer que foi fácil.
Não conhecia ninguém, fora algumas esposas de jogadores colegas de James, e não sabia falar nenhuma palavra em alemão. A não ser os básicos como Nein, e Guten Morgen. Nada muito elucidativo, claramente.
Eventualmente, porém, eu acabei me acostumando.
Munique era uma cidade adorável e jogadores como Thomas Müller e Robert Lewandowski viraram sinônimo de família.

Entretanto, quando eu já poderia me considerar adaptada às terras bávaras, o empréstimo de James acabou e ele voltou para Madrid.
Não posso dizer com certeza se foi isso que acabou abalando o nosso relacionamento, mas indubitavelmente, isso não ajudou.
Brigas e discussões, que antes eram resumidas somente à escolha de jantares e de filmes, passaram a ser mais frequentes.
O ciúmes também começou a florescer.
Nunca tive motivos para desconfiar de James, sabia que ele me amava e que era fiel. Todavia, uma voz irritante na minha cabeça ficava sempre me alertando sobre possíveis traições. Comecei ao ponto de acreditar que as fãs que comentavam em suas fotos poderiam não ser somente fãs.
Eu estava sendo totalmente irracional, eu sabia disso. Mas, na época, não conseguia enxergar isso. A mídia espanhola, por sua vez, não me ajudava a pensar de modo coerente. Constantes alegações de que o colombiano havia voltado para o país para retornar antigos affaires com modelos locais, eram proferidas. Resumindo, eu não era a WAG favorita do país. Talvez nem do continente.
Eu não era uma mulher pacata e devota à família como Antonella Rocuzzo, esposa de Lionel Messi. Nem extrovertida e autêntica, com tiradas espertas e sarcásticas, como Alexis Piovezan, esposa de Thomas Müller.
Eu era só… Eu.
, uma designer de 25 anos, que era fã de sitcoms e que assistia gameplays em seu tempo vago.
Com isso, em uma de nossas intermináveis brigas, enquanto eu argumentava que ele deveria ir embora se estava tão incomodado assim com as minhas suposições, ele foi.
Só que, contrariando todas as vezes em que ele voltava com seu tem manso, dizendo "Não vamos brigar mais não, amor. Eu amo você". Ele não voltou.


Francamente falando, ele havia voltado horas depois para tirar as suas coisas do nosso apartamento. E foi a partir disso, que eu vi que tínhamos acabado. Não havíamos tido um término propriamente dito, mas depois disso, cortamos todo o contato possível. Mais por conta minha do que dele, devo dizer.
Eu amava James e sabia que ele me amava também, mas aquele não era o nosso momento. Em pouco tempo de relacionamento, passamos por situações que serviram somente para nos desgastar, até o momento que ele não aguentou mais.
Não poderia culpá-lo.
Éramos as pessoas certas em um momento errado.
Com isso mente, eu não procurei falar com ele depois de sua mudança. Não queria transformar todo amor que tínhamos um pelo outro em rancor e mágoa, como sabia que já estava acontecendo.

As notícias que tinha do rapaz, vinham de minha ex-sogra, que me ligou, nas primeiras semanas, para saber como eu estava, e até de Salomé.
A menina era muito nova e não entendia muito bem o que um término de relacionamento queria dizer, mesmo que tivesse vivenciado isso com seus próprios pais. Além disso, eu amava aquela garotinha como fosse minha e me fazia bem conversar com ela, mesmo que nem sempre fosse fácil.
Era muito complicado conversar com alguém tão próxima ao jogador e não perguntar como ele estava. Algumas vezes, eu ouvi a voz do rapaz ao fundo, enquanto Salomé tagarelava sobre qualquer anedota de seu dia. Mas, depois do fatídico dia de sua mudança, nunca mais nos falamos.
Para mim, em alguns meses iríamos nos encontrar e viveríamos o amor que Deus reservou para nós.
Era o que eu achava, bem, até receber o convite.

James David Rodríguez Rubio e Verona Gabrielle Mathias,
Com a bênção de seus pais,
Convidam você para a cerimônia de seu casamento.
05 de Dezembro de 2020, às 19:30 hrs.
Finca La Montaña,
Av. Amazonas Central, 2, 4, 28300 Aranjuez, Madrid, Espanha


Deitada em minha cama, várias ideias já tinham vindo em minha cabeça. Algumas ruins e outras, simplesmente péssimas.
Entrar na Igreja correndo, ignorando todos os convidados, e gritar para James que eu sabia que era eu quem ele amava e chamava, na saúde, na tristeza, na alegria e na cama, era a minha favorita até agora.
Pedir, do jeito que sabia que ele não resistia, para ele parar com aquele teatro e jogar a aliança fora, era o meu maior desejo.
Mas, eu não podia fazer isso.
James merecia ser feliz, mesmo que para isso, eu precisasse abdicar da minha própria felicidade.
Desse modo, suspirando de maneira resignada e triste, fiz o que era mais correto: joguei o convite fora e tentei cair no sono.

UNO

55 dias para o casamento

Baby, no (baby, no)
Me rehúso a darte un último beso
Así que guárdalo (guárdalo)


No limbo entre a realidade e a inconsciência, tive o deslumbre do meu telefone tocando. Não fazia a mínima ideia de que horas eram, mas tinha certeza de que não havia dormido o suficiente.
Tentando me desvencilhar dos lençóis macios, comecei a tatear a cama incessantemente em busca do aparelhinho barulhento. Quando finalmente achei, logo fui bombardeada com a voz aguda de Margot.
- , você viu? - disse, exasperada, sem deixar que eu processasse a sua ligação - O James vai casar! - concluiu em um grito extremamente fino.
- Bom dia para você também, Margot. - retruquei em tom irônico, suspirando em seguida ao entender do que a espanhola falava - Eu sei, eu recebi o convite. - deitei novamente em meus travesseiros, lembrando de todo o peso que aquela informação me trazia. Ainda parecia um pesadelo.
- AQUELE FILHO DA PUTA TE MANDOU UM CONVITE? - exclamou, indignada - É AGORA QUE EU GASTO MEU RÉU PRIMÁRIO! - continuou, me fazendo afastar o telefone das orelhas devido ao tom que usava.
- É, ele mandou. - respondi, encarando o teto branco de meu quarto - E, desculpe, Marg, mas você já gastou seu réu primário dando um chute nas bolas daquele jogador do Barcelona. – conclui, dando um sorrisinho ao lembrar daquela situação em específico.
- Maldito Semedo - disse, irritada, me fazendo rir fracamente - Até para isso esse cara é incompetente!
- É, é... – respondi, aérea, sem realmente querer ter aquela conversa. Sabia, no entanto, que a mulher não estaria disposta a me deixar viver em meu vazio existencial.
- Como você está, ? - minha amiga questionou em uma voz mansa, tão divergente de seu temperamento extremamente caloroso e explosivo, após alguns segundos em silêncio. - Eu realmente não me importo de ir para cadeia por quebrar a cara daquele colombiano safado! - mesmo sem poder vê-la, tinha certeza de que Margot cerrava os pulsos e franzia as sobrancelhas, expressão típica de quando ficava estressada com algo.
- Eu não sei. – disse, em tom levemente embargado. Odiava o fato de chorar muito facilmente. - Eu não esperava por isso... - confessei em uma voz trêmula, me esforçando para não gaguejar.
- E quem esperava?! - retrucou, indignada. - Vocês terminaram não faz nem um ano!
- Seis meses. - corrigi a informação, brincando com dedos de minha mão. - Faz seis meses que nós terminamos. - fechei os olhos com força, lembrando-me de tudo que tinha vivido até ali.
- E ele te mandou um convite! - a espanhola parecia mais indignada com a informação do que eu. - Eu vou para aí! - afirmou, fazendo com que eu me sobressaltasse. Não queria ver ninguém. Ninguém mesmo. Nem a minha melhor amiga.
- Não. - suspirei, ouvindo uma reclamação do outro lado. - Eu realmente preciso ficar sozinha. - disse em um tom mais firme do que o utilizado durante toda a conversa.
- Mas, ...
- Por favor, Margot. - interrompi minha amiga em uma súplica. - Por favor, não.
- Mas você promete que qualquer coisa vai me ligar? - inquiriu em um suspiro derrotado. Sabia que não era fácil para ela me ver assim, sem poder fazer nada, mas eu realmente precisava de um tempo para mim. - ?
- Prometo, Marg. Eu prometo.

- x -


Já fazia alguns dias que eu descobrira sobre o casamento de James. Nesse tempo, eu sumira completamente das redes sociais. Não queria ter o risco de encontrar nada que fosse me machucar. Não estava pronta para isso. Mas também não estava mais aguentando toda essa situação. Não queria ficar me afundando num quadro depressivo, enquanto o causador disso tudo estava lá, com outra mulher e feliz.
Eu não merecia isso.
Com isso em mente, eu levantei e fui em direção ao espaçoso banheiro de meu quarto.
Eu não tinha orgulho de muitas coisas da minha vida, mas com certeza isso não incluía o meu apartamento.
Aquela era a ilustração de minha vitória pessoal.
Eu havia decorado cada pedaço daquele cantinho com meu suor e estava completamente satisfeita com tudo o que havia construído.
Tirei minha camisola e minhas roupas íntimas, jogando-as em um cesto que eu deixava ali justamente para isso. Entrei de cabeça no chuveiro e instantaneamente senti a água quente relaxar meus músculos. Lavei meus cabelos cuidadosamente, esfoliei minha pele e passei minha máscara de hidratação cara, que só usava de vez em quando. Ao terminar meu banho, eu era uma nova mulher. Já sentia os efeitos daquele processo na minha autoestima e no meu humor.
Saindo do banheiro, procurei uma lingerie preta rendada que eu não usava há exatos seis meses, juntamente com uma calça jeans e uma camiseta listrada. O primeiro passo já havia sido dado.
O segundo passo estava em andamento, enquanto eu andava em direção ao meu Jeep preto, estacionado na garagem do meu prédio.
Aquele era outro fato que eu me orgulhava em minha vida. Eu amava aquele carro com todas as minhas forças. Para mim, fora um sonho ter um exemplar do modelo que eu babara sempre que passava na frente da concessionária.
E, graças a Deus, e ao meu esforço, eu havia conseguido.
Por isso, me irritava demais quando alguém tinha a pachorra de afirmar que meus bens eram herança do meu relacionamento com James. Só eu sabia o quanto tinha ralado para conseguir as minhas coisas.
Balançando a cabeça para ignorar os pensamentos negativos que estavam me invadindo, entrei no banco do motorista, recebendo a confirmação que precisava para diminuir um pouco do peso do meu peito. Javier, meu cabeleireiro desde quando me entendia por gente, havia confirmado meu horário. Assim, saí da garagem e fui em direção ao salão. Eu precisava de uma mudança e começaria com meu próprio visual.

- x -


Já era tarde quando eu havia deixado o salão de Javier.
Havia sido bastante exaustivo passar o dia no lugar, mas posso dizer que havia valido a pena.
Minhas unhas, que há tempos não eram feitas, exibiam um bonito tom de vermelho. Por outro lado, meus cabelos, que antes chegavam no meio das costas, agora estavam um pouco abaixo dos ombros, com luzes acobreadas.
Pode parecer bobo, mas eu me sentia totalmente revigorada.
Afinal, quem foi que disse que cortar o cabelo não transformava o ser? Essa pessoa provavelmente nunca teve o coração partido, visto que a sensação era reconfortante.
Me sentindo bem comigo mesma, decidi, antes de ir para casa, passar num Mc Donalds no caminho de meu prédio. Não havia nada no mundo que eu desejasse mais do que um hambúrguer no momento.
Ponderando entre comprar algo no drive-thru ou parar para comer no restaurante, decidi entrar. Não queria voltar para o vazio do meu apartamento agora. Não tinha motivos.
Estacionei o meu carro em uma vaga na sombra e caminhei em direção à lanchonete. Chegando lá, tive o primeiro empecilho do meu dia de mudanças. Ali, sentada, devorando uma porção de batatas, estava Daniela Ospina.
Quais as chances, Deus?
Eu devo ter dançado reggaeton na cruz para poder ter merecido isso.
A mulher não tinha reparado na minha presença, estava bastante distraída mexendo em algo no celular. Por causa disso, fiz menção de sair e voltar para o conforto do meu carro, mas antes que eu pudesse me mexer, Daniela me viu. Não soube dizer exatamente qual era a expressão que a mulher tinha, mas não era nada parecido com os olhares de desprezo que me mandava na época em que eu namorava com James.
Não sabia por quanto tempo nós estávamos nos encarando, mas tinha sensação de que fora muito tempo. Todavia, antes que pudesse me recompor e seguir para a pequena fila que desenrolava na minha frente, a colombiana se levantou e veio caminhando em minha direção.
Ospina era uma mulher bonita.
Alta, de longos cabelos castanhos e de postura impecável. Mas, não pude reparar muito em sua aparência, visto que logo ela estava parada em minha frente.
- . - começou ela, em um tom manso. - Como você está? - questionou, indicando a mesa que estava antes, em um convite mudo para segui-la.
Sendo bem sincera, pensei em ignorá-la e sair sem olhar para trás.
Não era idiota. Não tinha esquecido tudo de ruim que aquela mulher havia feito para mim e para James, principalmente durante os primeiros meses de nosso relacionamento. Contudo, eu realmente queria deixar algumas coisas para trás.
Eu precisava seguir em frente e esquecer das coisas que me fizeram mal no passado. Assim, respirei fundo e segui a colombiana até a mesa. Aparentemente, meu lanche teria que ficar para depois.
- Estou bem. - disse, simplesmente.
Não iria desabafar com a ex-mulher do meu ex-namorado. Não tínhamos um clube de mulheres que foram arrasadas por James Rodriguez. Mesmo achando que talvez fosse uma boa ideia fazê-lo. Seria uma boa desculpa para tomar sorvete e comer porcarias. Talvez pudesse até ter uma sala de jogos...
- Fale a verdade. Eu posso te ouvir. - adicionou, me tirando de meus devaneios, esticando uma de suas mãos para tocar em meu braço apoiado na mesa. Minha primeira reação foi afastar meu braço do toque da mulher, lançando-a um olhar irônico. Era muita ousadia mesmo. A mulher nunca havia me dado um “bom dia”, mas agora queria conversar comigo como velhas amigas?!
Eu devo ter muita cara de trouxa mesmo.
- Não sei o que você está querendo com isso, Ospina. - falei asperamente, fazendo menção de levantar. - Mas não vou cair nesse seu joguinho. - completei, pegando minha bolsa e começando a me afastar.
- , espera! - disse alto, chamando atenção de algumas pessoas que estavam ali - Me escuta, por favor. - pediu. Somente assenti, respirando fundo. Se esse encontro tivesse sido no dia anterior, eu já teria feito um escândalo e deixando a lanchonete depois de um bom barraco. Mas eu prometera ser uma nova , e a nova era paciente e plena.
- Eu soube do casamento do James - começou, me deixando mais desconfortável do que já estava. - E eu sinto muito.
- Você sente muito? – retruquei, amarga. - Você, que tentou atrapalhar o meu relacionamento inúmeras vezes?! Usando até a Salomé para isso? – terminei, indignada, deixando minha voz mais aguda. Talvez não fosse dessa vez que eu alinharia meus chacras e me tornaria uma pessoa mais tranquila.
- Eu sei que não fui a melhor das pessoas, . - falou, encarando meus olhos. - E eu peço desculpas por isso. Mas, eu já estive no seu lugar e sei como você está se sentindo.
A minha vida era uma sitcom, era a minha conclusão depois de tudo isso. Me sentia a Ângela na oitava (ou seria nona?) temporada de The Office, quando estava no fundo do poço e era acalentada por Oscar, amante de seu marido. Inacreditável.
- Ah, sabe?! – repliquei, sarcasticamente. - Você também teve uma doida se colocando dentro do seu relacionamento?
- Não, . - falou calmamente, ignorando o xingamento. - Eu também tive meu coração quebrado pelo James. - finalizou, afastando a bandeja que há muito tinha sido esquecida. Sabia que não era muito higiênico ou sequer educado, mas estava com muita vontade de roubar algumas das batatas da mulher. Droga, eu realmente precisava comer alguma coisa.
- Meu coração não está quebrado, Daniela. - menti descaradamente, desviando o olhar. - Terminamos há meses.
- E posso garantir que você ainda tinha esperanças de voltar com ele. – afirmou, convicta, arqueando uma de suas sobrancelhas bem definidas, como se me desafiasse a contrariá-la. Não gostava daquele tom. A mulher me olhava de cima a baixo como se fosse o suprassumo da razão. Eu detestava aquilo. Por esse mesmo motivo tinha largado o curso de direito no segundo período. Não conseguia suportar a ideia de conviver com pessoas que se achavam melhores do que as outras, principalmente por motivos fúteis como o fato de saberem argumentar melhor.
- O que você quer, Daniela? – perguntei finalmente. Não estava querendo tocar naquele assunto nem com os mais próximos, que dirá com Daniela Ospina. Já não sabia se um lanche do Mc Donalds valia todo aquele estresse. Deveria ter seguido minha nutricionista e comido um wrap de frango. Ou qualquer outra coisa sem gosto. Se tivesse ido por esse caminho, não estava estragando meu dia de fênix.
- Eu quero te ajudar a voltar com o James. - falou, encarando meus olhos de modo ansioso. Sei que não era muito educado, mas eu não pude evitar. Simplesmente gargalhei em sua cara. Discretamente, comecei a encarar o lugar para ver se encontrava câmeras.
O Ashton Kutcher tinha um programa daqueles, não é?!
Colocar pessoas em situações absurdas e esperar a reação delas sem saber que estavam sendo filmadas. Sinceramente, só poderia ser aquilo. A mulher, por sua vez, esperou pacientemente minha crise de riso passar e eu me recompor para continuar. - Não estou brincando, .
- E por qual motivo você faria isso? - retruquei, limpando uma lágrima teimosa que havia escapado enquanto ria.
- Salomé. - falou. Vendo minha cara de confusão, logo continuou. - Ela detesta a Verona e, por algum motivo, te idolatra. - finalizou a última parte com um leve desdém, que eu resolvi ignorar. - Eu só quero a minha filha feliz. - finalizou, parecendo ignorar que tempos atrás tinha tentado impedir a menininha de ver o próprio pai.
- A Salo é uma criança, Daniela. Você não pode acabar com um relacionamento por causa dos gostos dela. - expliquei, mesmo que a informação tivesse me deixado meio encucada. Como assim Salomé não gostava de Verona? A garota gostava de todo mundo. Todo mundo mesmo. - Com o tempo ela irá se acostumar.
- A Salo não desgosta da Verona porque é uma criança, . - devolveu, olhando para mim como se a criança fosse eu. De novo aquele tom. - Ela não gosta dela porque sabe que o pai não superou você.
- Agora você está viajando longe. - revirou os olhos, cansada. - Ela não entende essas coisas. Só tem sete anos.
- Pode até não entender tudo, realmente. – concordou. - Mas ela sabe que o pai não está feliz. – terminou, como se fosse óbvio.
- Se ele não está feliz, por que vai casar com ela, Ospina? - eu estava totalmente exausta daquela conversa. Só queria ignorar toda a minha educação e ir embora. Além disso, estava morrendo de fome, e o cheiro de comida gordurosa não estava ajudando. Ainda tinha o fato de o monstrinho verde do ciúmes estar dando as caras mais uma vez. Me incomodava que Daniela soubesse mais de James do que eu, mesmo sabendo que ela era mãe de sua filha.
- Porque o James é assim. - suspirou, com o olhar vago, como se lembrasse de algo vivido. - Ele tenta suprir alguma necessidade com pedidos de casamento. Foi assim comigo, está sendo assim com ela. Acho que ele só não fez isso com você porque te amava demais para casar com você só por casar.
- Ah, pronto! Agora o James é o Ross Geller. - balancei a cabeça em discordância. Aquilo já estava indo longe demais. - Você está totalmente insana. - afirmei, levantando de uma vez para ir embora. Já havia me alongado demais nesse assunto.
- Você sabe que eu estou certa, . - disse, enquanto eu me afastava. Não queria mais ter que ouvir a voz da mulher. - Você pode me ligar quando cair em si. Eu estarei aqui para te ajudar. - completou mais alto, para que eu ouvisse.
Nem em seus sonhos, Ospina, nem em seus sonhos, disse para mim mesma, enquanto adentrava o estacionamento e rumava para o meu carro. Iria passar no Burguer King só para alimentar o mercado da concorrência.

DOS

Quiero que tú seas mi princesa
Que sean mis labios solo los que te besan
Tocar tu suave piel cuando la noche empieza
Hasta volverte mía, princesa (Princesa - Río Roma ft CNCO)

FLASHBACK - Um ano e três meses para o casamento


Era o aniversário de 30 anos de Thomas Müller.
O homem havia organizado toda a celebração no grandioso quintal de sua casa recém adquirida em Munique, localizada na mesma vizinhança em que viviam James e eu.
Diversos rostos empolgados - a maioria de desconhecidos por nós - passeavam pelo espaço com copos cheios de líquidos, estes que deveriam ser alguma obra elaborada dos bartenders contratados pelo alemão.
Além, obviamente, dos muitos garçons, que andavam oferecendo aperitivos para os convidados que se arriscavam a comer alguma coisinha antes de se jogarem na agitada pista de dança, localizada ao lado da piscina de Thomas e Alexis; essa que estava perfeitamente iluminada, com diversas mesas dispostas ao seu redor. As caixas de som entoavam algum sucesso de uma boyband latina, fazendo até os mais tímidos balançarem os quadris levemente ao som da animada batida da música.
- Yo sólo la miré y me gusto; me pegué y la invité: Bailemos, yeh. - eu cantarolava, empolgada, com a voz levemente trêmula por conta da bebida ingerida. - La noche está para un reggaetón lento; de esos que no se bailan hace tiempo. - continuei, pegando nos braços do meu namorado para fazê-lo acompanhar o meu ritmo.
- Já está bêbada, cariño? - o mais velho perguntou, risonho, dando um beijo nos meus cabelos, que eu sabia, estavam cheirosos.
- Me respeita, James Rodriguez! - ralhei em tom de brincadeira, dando um tapinha no ombro do outro. - E eu lá sou mulher de ficar bêbada com apenas um copo de Martini?
- Perdão, senhora dona do bar. - gargalhou baixinho no meu ouvido, fazendo-me arrepiar os pelinhos do pescoço. - Impressão minha ou tem muita gente desconhecida aqui? - questionou, encarando de forma nada discreta um rapaz de cabelos longos, vestido com um macacão vermelho floral.
- James, pelo amor de Deus, não encara! - repreendi, dando uma cotovelada de leve no jogador, ao ver que o desconhecido havia mandado uma piscadinha para nós. - Pior que a sua filha, homem! - disse, prendendo um sorriso que queria sair ao sentir o colombiano morder minha bochecha. - Mas, sim. - assenti com a cabeça. - Tem gente que eu nunca vi na vida aqui.
- O Thomas não brincou quando disse que queria fazer a maior festa da cidade. - falou, coçando a cabeça.
- Quando você irá aprender que um Müller nunca brinca em serviço, Rodriguez? - o aniversariante surgiu de supetão, causando um sobressalto em Rodriguez e em mim. - zinha, você ainda não deu um jeito nesse seu namorado estranho? - balançou a cabeça em reprovação, antes de pular em cima do casal de amigos, quase nos derrubando, para um abraço animado. - Finalmente saíram da toca de vocês para socializarem! - exclamou ao nos soltar; ouvindo ganidos de descontentamento da minha pessoa, por ter amassado meu vestido e cabelo.
Eu não era uma pessoa fresca. Mas, poxa, eu realmente tinha caprichado naquela noite.
- Experimenta ter uma filha na idade em que ela está, em um misto de teimosia e independência! - exclamou o jogador colombiano, me dando um abraço lateral. - Amo minha pirralha, mas é foda.
- Entendo, meu amigo. - assentiu o dono da festa, dando um aperto em seu ombro como sinal de solidariedade. - Pads e Snow me deixam de cabelos arrepiados de vez em quando. - disse em tom vago, bagunçando seus cabelos loiros.
- Você está comparando a responsabilidade de uma criança a de dois cachorros, Thomas Müller? - respondi em um misto de espanto e de riso. - Deixa só a Alexis ouvir isso! - falei, fazendo referência à minha amiga e esposa do rapaz, que estava tentando engravidar do primeiro filho dos dois.
- Labradores podem ser muito temperamentais, ! - respondeu o mais velho, pouco ofendido com meu tom de ameaça. O rapaz adorava me provocar. Era demasiadamente fofo, em suas palavras, me ver com as orelhas e o rosto levemente avermelhados, sempre com um pequeno bico nos lábios finos.
- Eu não sei como eu aguento você, sinceramente. - apertei a ponta do nariz em um claro sinal de impaciência . - Cadê a Lexi, afinal de contas? - questionei por último, vendo que a minha indignação divertia os dois homens. Alexis Piovezan era a pessoa mais incrível que eu havia conhecido nesse tempo na Alemanha. A brasileira havia me abraçado como poucos, sempre tentando me ajudar no processo de adaptação. Por também ser estrangeira, Lexi entendia que não era fácil se adequar a uma cultura, clima e idioma totalmente diferentes. O casal estava junto há muitos anos, o que sempre nos fazia ter conhecimento de histórias incríveis. Thomas era extremamente brincalhão e Alexis tinha uma língua extremamente atrevida, então quando eles se juntavam, era sinônimo de diversão. Eu não sei até que ponto acreditava em almas gêmeas, mas se isso existisse, Müller e Piovezan eram o melhor exemplo disso.
- Ela deve estar com o Rob e a Anna. - ponderou, olhando rapidamente para os lados - Eles falaram algo sobre fiscalizar a produção de bebidas.
- Três bebuns juntos... - James balançou a cabeça, risonho, roubando um gole do meu Martini e recebendo um olhar de ultraje em resposta. - Não vai dar certo, hein… - terminou, depositando um selinho nos meus lábios que, involuntariamente, tinham formado um bico.
- Na verdade, já deu, meu caro amigo. - o filho dos Müller disse, sorrindo com malícia, bebendo um gole de sua bebida. - Já deu.
Após conversarmos mais alguns minutos com Thomas, James e eu decidimos ir ao bar experimentar mais alguns dos famosos drinks que estavam sendo oferecidos pelo aniversariante. Com a mudança para Munique, somado à constante presença de Salomé em casa - além de, claro, o manuseio e planejamento das carreiras de jogador de futebol e de designer- eram poucas as oportunidades que nós tínhamos para beber e, simplesmente, esquecer das responsabilidades que nos eram atribuídas.
Por sorte, a comemoração coincidiu com o fim de temporada do Bayern München; este que conseguiu angariar mais um título da Bundesliga para o seu grande acervo de conquistas. Em contrapartida, a eliminação da equipe bávara, nas quartas de final da UEFA Champions League, para o Liverpool, - esta que, mais uma vez, fora bastante contestada pelos torcedores do time alemão, além da derrota inesperada para o Eintracht Frankfurt - pelo placar de 3x1 - na final da Copa da Alemanha; acabaram por deixar o clima de comemoração ligeiramente menor. Os resultados indigestos, somados a uma provável saída do treinador Niko Kovač, e o consequente ingresso do alemão Hans-Dieter Flick no comando da equipe, tornavam o vestiário um ambiente levemente assustador. Além disso, a aproximação das eliminatórias da Copa de 2022 era mais um agravante que fazia James Rodriguez sentir vontade de afogar os seus temores na bebida. A campanha de 2018, na Rússia, com uma eliminação para a Inglaterra, nos pênaltis, ainda doía para os colombianos. Para James, em especial, a derrota tinha o gosto ainda mais amargo quando ele se lembrava que não havia conseguido participar do jogo responsável pela derrota de sua seleção, visto que estava com uma séria lesão muscular, essa que havia sido ainda mais forçada no confronto contra Senegal. Neste caso em específico, meu namorado não havia conseguido nem concluir o primeiro tempo da partida.
Somado a isso, também poderíamos citar a derrota da Colômbia, mais uma vez nas penalidades, para o Chile, nas quartas de final da Copa América, que tinha acontecido há alguns meses.
Resumindo, a pressão que Rodriguez sentia nos ombros, sobretudo por ser o principal jogador da seleção sul-americana, não era fácil.
A expectativa que o povo colombiano estava colocando naqueles 23 jogadores que seriam convocados pelo técnico Carlos Queiroz nos próximos dias, era bastante aterrorizante; mesmo para um jogador acostumado com desafios como James.
No caminho do bar, acabamos esbarrando em Robert Lewandovski e na sua esposa, Anna, que, de fato, estavam averiguando o andamento das bebidas.
- Olha aí, se não é o casal mais bonito de Madrid! - o polonês disse em um tom alterado, jogando-se em cima do amigo e, consequentemente, de mim. - Porque de Munique, obviamente, somos a Anna e eu! - concluiu em uma rebolada desengonçada.
- Alguém por aqui já está bêbado, huh? - disse em tom zombeteiro, aceitando o abraço desengonçado do meu amigo.
- Eu honro as minhas origens polonesas, mulher! - cantarolou o camisa 9 após receber uns tapinhas nas costas de James.
Homens e seus estranhos tipos de cumprimento.
- Desculpa esfarrapada, hein, mate? - piscou o jogador, indo pedir uma tradicional cerveja para o barman do local, enquanto inquiria a mim com o olhar para saber qual bebida era o meu desejo atual.
- Uma coca, por favor. - respondi a pergunta silenciosa do meu namorado. Ao ver a careta de indagação do rapaz, logo tratei de complementar. - Um copo de Martini foi o suficiente para mim. - dei de ombros. - Você sabe que nós não podemos ficar bêbados juntos. - adicionei, com uma careta desgostosa, ao lembrar do último porre que havia tomado com Rodriguez, meses antes.
- Definitivamente, não. - concordou o colombiano de forma efusiva; pegando sua long neck e a lata de refrigerante do rapaz de cabelos raspados, atrás do balcão.
- Eu nunca entendi muito bem o que aconteceu com vocês dois naquela noite. - Anna finalmente se pronunciou. A moça estava com os cabelos escuros compactados em uma trança lateral; juntamente com um vestido tubinho branco e um sapato scarpin vermelho. Já eu, por outro lado, estava com um vestido evasê em um tom rosê, acompanhado de meu inseparável Louboutin preto, um dos poucos sapatos de grife que eu tinha. - A única coisa que o Rob me esclareceu foi que vocês estavam atordoados demais para pensarem em sair de casa.
- É melhor focarmos em outro assunto. - eu disse de supetão, tentando tirar os olhares curiosos da esposa do meu amigo de mim. - Sério. - assegurei, recebendo o apoio do meu namorado e uma gargalhada debochada de Robert.
- Mas, eu gosto tanto dessa história! - o mais velho falou divertidamente, puxando a sua mulher e o outro casal, nós, para nos sentarmos em uma mesa próxima ao bar. - Vocês têm certeza de que não querem abordar esse assunto? - continuou a provocação, acomodando-se na cadeira e já fazendo um sinal para o garçom trazer os aperitivos para a sua mesa.
- Sim, Lewandovski, eu tenho. – frisei, entredentes. A história que consistia em James, eu e um gato desconhecido, deitados, de roupas íntimas, no jardim do vizinho, era algo que queria esquecer. - Não sei como você conseguiu ser meu bávaro favorito por tanto tempo. - tombei lateralmente a cabeça em uma falsa dúvida.
O meu questionamento despretensioso resultou em uma exclamação indignada de meu amigo, além de risadas divertidas do jogador colombiano e de Anna. Antes que Rob pudesse responder à minha provocação, contudo, o garçom chegou trazendo os salgadinhos requeridos anteriormente. A chegada dos aperitivos acabou dispersando um pouco da atenção da implicação, uma vez que os quatro presentes - incluindo eu, obviamente - eram extremamente esfomeados e o aniversariante e sua esposa haviam caprichado bastante na escolha do buffet.
- Não se engane, minha amiga. - Rob quebrou o silêncio, atraindo a atenção dos demais. - Independentemente de você trocar fluidos corporais com esse aí... - apontou de forma despretensiosa para o colombiano, recebendo um pescotapa em resposta aos termos utilizados. - E ficar de papinho com o Müller, eu sempre serei o favorito. – piscou, divertido.
- Pode sonhar que ainda é de graça. - James intrometeu-se, sorrindo de maneira desafiadora para o companheiro. - A só te achava legal porque não entende nada de futebol. - provocou, colocando um dos braços sobre os meus ombros, em um tom pretensioso. Eu apenas observava divertida as trocas de farpas de dois dos homens que mais adorava na vida - E porque os seus tik toks te fazem parecer boa gente. – finalizou, zombeteiro.
- Acredite no que te fizer dormir à noite, Jay Jay. - fez pouco caso da afirmação do meu jogador bávaro. - No fundo, você sabe qual é a verdade verdadeira. – piscou, provocador, recebendo um revirar de olhos dos restantes presentes.
- Dios mio, vocês parecem mais crianças do que as filhas de vocês. - balancei a cabeça em descrença, recebendo uma concordância veemente de Anna e um bico emburrado dos outros dois.
Apesar de não nos conhecermos há tanto tempo, a amizade entre o nosso grupo era bastante estreita e consolidada. Meus amigos eram a família que eu tinha fora da Espanha e, sem eles, a minha adaptação não seria possível. O jeito extrovertido de Robert e Thomas; a boca atrevida de Alexis e o jeito tímido de Anna se complementavam. Eu os amava com todo o meu coração.
- Vocês viram a Lexi? - comecei em um sobressalto, ao perceber que as provocações entre os amigos iria continuar. - O Thomas disse que ela estava com vocês no bar. - completou, passando os olhos rapidamente pelo lugar para ver se encontrava a brasileira escondida em algum canto.
- O Müller tá é escravizando a pobre coitada! - o camisa 9 respondeu vagamente, tomando um longo gole de seu drink.
- Ela estava com a gente mesmo, mas deu um problema lá no buffet e ela foi tentar resolver. - Anna tomou a dianteira na explicação, ao ver as caretas confusas diante a exclamação meio bêbada do marido.
Por sua vez, parecendo os comensais da morte quando Lord Voldemort instaurou um tabu em seu nome, Alexis pareceu surgir do nada.
Os cabelos castanhos estavam levemente bagunçados e as bochechas coradas, como se a mulher tivesse feito um grande esforço físico. Mesmo assim, a brasileira ainda era uma das mulheres mais bonitas que eu já havia visto.
Piovezan utilizava um macaquinho preto com um tule na região do busto, valorizando o que ela dizia ter de melhor. Nos pés, valorizando o seu tom inesperadamente bronzeado para os padrões alemães, seu inseparável par de scarpins vermelhos marcava presença. Minha amiga estava estonteante.
Alexis, ao finalmente perceber nossa presença, aproximou-se com um sorriso enorme, já me puxando para um abraço.
- ! - exclamou ao me soltar, logo pulando em cima do meu namorado, que quase tombou com o susto. - Vocês vieram! – disse, animada, pegando um dos salgados que estavam dispostos na mesa.
- Claro que viemos. - respondi com obviedade. - Tínhamos que comemorar o fato de que seu marido ainda vive para nos irritar. – continuei, irônica, fazendo com que a outra gargalhasse. Eu tinha uma leve impressão de que a morena já estava levemente bêbada.
- Sempre sarcástica essa minha amiga. - apertou a minha bochecha de leve. - Como você aguenta, James? - questionou meu namorado, que encarava a cena em silêncio com um leve sorriso nos lábios. A essa altura, Robert e Anna já haviam saído sem que percebêssemos, provavelmente indo atrás de mais bebidas. Não poderia culpá-los, mesmo que isso fosse sempre fonte de zoação. Com duas crianças pequenas dentro de casa, eram poucos os momentos que o casal tinha para se divertir sem responsabilidades. Nós vivíamos um pouco disso com Salo, mas não com tanta intensidade, uma vez que a garotinha não morava conosco.
- Sinceramente? Não sei. - respondeu meu namorado em um tom divertido, puxando-me para um abraço lateral. - Deve ser porque ela é gostosa. - completou, rindo de seu próprio comentário, desviando o corpo dos tapas que eu tentava acertar em seu peito. - Ai, amor! - reclamou quando eu finalmente havia alcançado meu objetivo.
- Engraçadinho você, né?! - estirei a língua para James, que mordeu minha bochecha em resposta.
- Ai, como vocês são lindos! - disse Lexi em um tom avoado, carregando-nos para um estranho abraço grupal. - Mas, como a vida não é justa, eu preciso ver como as coisas estão funcionando por aqui. - continuou ao nos soltar, olhando para os lados como se procurasse por alguém. - Antes que o Thomas tire a roupa e tente se jogar na piscina. - concluiu baixinho, falando para si.
Enquanto acompanhávamos Alexis se afastar, James chamou novamente minha atenção. Ao fundo tocava Princesa, uma das minhas músicas favoritas.
- Babe... - começou, passando seu braços ao redor da minha cintura, iniciando uma dança lenta que não combinava muito com a música ambiente. - Obrigado por estar aqui. Isso significa muito para mim. – declarou, me dando um selinho carinhoso e logo me puxando para um abraço apertado. Depois de me soltar, contudo, ao ver minha cara confusa, completou. - Não sei como eu estaria aqui em Munique se você não tivesse vindo comigo. - concluiu, voltando à nossa dança desengonçada. Eu não era uma pessoa que conseguia demonstrar plenamente meus sentimentos. Minha família era seca por natureza. Costumávamos demonstrar afeto por atitudes do dia a dia, não por palavras ou gestos afetuosos. Todavia, com James era diferente.
Era fácil.
James não era só meu namorado, era meu melhor amigo. Com ele, eu conseguia ser, verdadeiramente, a . Eu me esforçava diariamente para ser alguém melhor para ele, todos os dias, porque sabia que ele merecia só coisas boas. As melhores.
- Eu amo você, James. - disse, alisando seu rosto levemente áspero pela barba que crescia. - Estaremos aqui sempre. - finalizei, recebendo um beijo na testa em resposta.
- Eu amo você, . Para sempre.

FLASHBACK’S END

Acordei em um sobressalto com um aperto no peito. Nunca havia tido um sonho tão realista. Lembrar dos meus momentos com James, quando estava extremamente vulnerável, não era algo que me fazia bem. Eu sentia saudades da nossa história e, principalmente, tinha saudades do meu colombiano. Suspirei, levantando-me em busca do meu celular, que estava no banheiro. Provavelmente eu iria me arrepender do que estava fazendo. Mas, escutando os célebres conselhos de Margot, o “não” eu já tinha, estava em busca, agora, da humilhação. Assim, sem tentar dar voz à minha consciência barulhenta, teclei os números que nunca achei que teclaria em prol de um objetivo que não fosse proferir ofensas. Poucos toques depois, ouvi aquela voz, levemente sonolenta.
- Alô?
- Ospina, sou eu. Qual o seu plano?

TRES

Ya me enteré
Que hay alguien nuevo acariciando tu piel
Algún idiota al que quieres convencer
Que tú y yo, somos pasado… (Ya Me Enteré - Reik)


44 DIAS PARA O CASAMENTO

Depois de passar mais de uma hora no telefone com Ospina, organizando os detalhes de seu plano, finalmente a minha consciência pesou. Não sei bem se era pelo fato do plano ser péssimo, ou se era meu amor próprio dando as caras.
Talvez uma mistura de ambos.
A questão era que eu só conseguia pensar no o que diabos eu estava fazendo?
James era um homem crescido, sabia tomar suas decisões. Se ele queria casar, que casasse. Eu não deveria me meter nisso. Ele que lidasse com as consequências de suas ações. Não estávamos na Idade Média e o divórcio existia por alguma razão. Mesmo que passar por dois divórcios, antes dos trinta anos, não era nenhuma meta de vida para alguém. E, pensar nisso, fazia a comparação de James com o Ross convergir mais ainda.
Ao mesmo tempo, vinha em minha mente a ideia de que tudo que nós tínhamos não
poderia ter acabado assim. Não sei se era o meu ego ferido ou qualquer outra coisa falando, mas era muito errado pensar que um grande amor não era destruído de repente?
Seis meses seriam suficientes para tudo acabar?
Realmente, não sabia.
Ainda tinha o agravante de ter recebido o convite de casamento.
Será que era algum sinal?
Provavelmente, não.
Ele deveria só querer me mostrar que havia, de fato, nos superado.
De uma forma bem desagradável, devo dizer.
Por outro lado, conversando com Alexis, que tinha uma visão bastante fantasiosa e exageradas das coisas, uma pulga atrás da minha orelha começou a ser implantada.
A brasileira até perguntou se não havia algum cantinho rabiscado no verso, escrito algo como “estou casando, mas o amor da minha vida é você”.
Claro que isso, provavelmente, era invenção de sua mente criativa, mas isso me deu mais forças para seguir com o planejamento de Daniela.
Margot, por sua vez, disse que eu estava louca e que o jeito certo de superar era pegar todos os caras bonitos de Madrid e, de preferência, amigos de James. Até porque, como cantava Maluma: Vamos a ser feliz, vamos a ser feliz , felices los 4 ,te agrandamos el cuarto.
Eu somente ri de sua sugestão absurda, afinal, desde que eu terminara meu relacionamento, não havia pego nem mesmo uma gripezinha, que dirá outros jogadores famosos.
Antes de tomar alguma decisão, eu ainda liguei para a minha mãe, mas não tive coragem de dizer nada acerca do meu relacionamento com James. Nem sabia se eles tinham conhecimento do casamento.
Meus pais, apesar de serem bastante secos quando comparados ao colombiano e à sua família, gostavam bastante do rapaz e não entendiam o porquê do namoro ter acabado.
Os espanhóis argumentavam que, quando duas pessoas se amam e se respeitam, o resto deveria se tornar insignificante. Eu também pensava assim, mas a teoria era bem diferente da realidade. As variáveis eram muitas e o orgulho e a mágoa acabam se fazendo demasiado relevantes.
Além disso, quando Rodriguez assumiu publicamente o relacionamento com Verona, fui bombardeada com ligações e áudios de Whatsapp perguntando se isso era realmente sério ou se era alguma notícia sensacionalista. Não queria passar por aquilo novamente. Então só preferi ignorar tudo e não pedir conselhos sobre o que infernos eu estava fazendo da minha vida.
No final de tudo, quem melhor saberia lidar com minha situação era eu mesma. Era eu quem sofreria os resultados das minhas ações. Assim, suspirando sofregamente, mandei uma mensagem para Daniela, confirmando minha participação.

- x -


O dia que eu tanto ansiava finalmente havia chegado. O salão em que me encontrava era bastante grande e iluminado.
Mesas se distribuíam harmoniosamente pelo espaço, em consonância com os garçons - fantasiados de personagens da Disney - que estavam com as bandejas sempre cheias, oferecendo petiscos a todos que encontravam.
Crianças correndo por todos os lados, aventurando-se nos brinquedos infláveis e eletrônicos dispostos no local, também era facilmente notável. Ao fundo, havia algumas oficinas de maquiagem artística, bem como carrinhos de pipoca, algodão doce e crepes. No centro havia uma grande mesa, com um bolo cor de rosa de três andares e diversos tipos de docinhos, estes cuidadosamente elaborados, fazendo alusão a filmes como Frozen e A Princesa e o Sapo.

Era o aniversário de oito anos de Salomé.
A garotinha tinha me convidado assim que descobriu que teria uma festa, mas eu havia negado o convite para evitar desentendimentos com o seu pai.
Todavia, Ospina tinha conseguido me convencer de que aparecer ali era uma excelente ideia, fazendo-me engolir todo o orgulho e senso de autopreservação presentes em meu ser. Mas, como eu ainda não estava sendo totalmente irracional, havia colocado um par de tênis para caso precisasse correr do vexame e da humilhação. As chaves do meu carro também estavam bem localizadas, em um bolso externo da pequena bolsa que havia levado para a festa.
Melhor prevenir do que remediar, seja lá o que isso significasse.
Olhei rapidamente ao redor com o intuito de encontrar Saló. Já havia entregado o seu presente pessoalmente, visto que não sabia que iria comparecer na festa, bem como gostaria de ver a reação da menina ao se ver transformada em uma princesa da Disney, em seu próprio conto de fadas. Thiago, um colega de trabalho, era um gênio do audiovisual e
conseguiu transformar a pequena Rodriguez em uma animação extremamente realista.
O curta As Aventuras de Salo ficou digno de um Oscar, diga-se de passagem.
Não encontrando a colombiana, decidi ir para a mesa que eu tinha sido colocada, preparando-me psicologicamente para o que eu iria encontrar por lá, ou melhor, quem.
Com um suspiro aliviado, percebi que só Juana, minha ex-cunhada, que estava sentada à mesa sem sinal algum que alertasse que seu irmão tinha passado por lá. Caminhando lentamente, finalmente parei em frente à cadeira com o nome estampado em uma pequena plaquinha de metal.
Estranhei a formalidade dentro de um aniversário infantil, mas isso era bem a cara de Daniela Ospina.
O arrastar da cadeira, por sua vez, chamou a atenção de Juana, que estava concentrada vendo algo em seu celular. Quando a morena levantou o olhar, o seu sobressalto foi evidente. A Restrepo tinha os olhos arregalados e a boca aberta de um modo cômico, como se não acreditasse que eu pudesse realmente estar ali.
- Oi, Jua. - disse timidamente, vendo a outra se levantar rapidamente para me abraçar. Juana e eu sempre fomos muito próximas. A mulher era como a irmã que eu nunca tive e eu realmente sentira sua falta. Constantemente marcávamos noites das garotas, convidando também Margot, que achava Juana muito mais incrível que o seu irmão.
- , sua doida! - exclamou sem me soltar. - Eu vou matar você! - mudou drasticamente o tom, afastando-se de mim e apontando o dedo de maneira ameaçadora. Rindo discretamente de sua reação, apontei para as cadeiras para podermos sentar. Afinal, se é para receber sermão, pelo menos irei receber sentada.
Juana se mostrou relutante ao acatar meu pedido, mas quando eu me acomodei no móvel, ela não teve outra opção a não ser me seguir.
- Posso saber o motivo de você querer a minha morte? - perguntei, pegando uma empadinha de queijo que estava disposta em uma travessa.
- Ainda se faz de sonsa! - apertou a ponta do nariz com o polegar e o indicador. - Você simplesmente sumiu, ! Parou de atender nossas ligações, sumiu das redes sociais e nem em casa você parou. - começou a pontuar, fazendo com que eu me sentisse levemente culpada, sobretudo pela última parte. Não era bem verdade que eu não estava em casa. Na verdade, ficar em casa era o que eu mais fizera nos últimos meses. Todavia, havia pedido para os porteiros do meu prédio avisarem que eu havia saído com malas e não tinha informado para onde tinha ido. Na época, não pensei que fosse uma atitude egoísta. Só queria preservar a minha saúde mental. - Só ficamos sabendo que você ainda estava viva por causa da Salomé!
- Desculpe, Jua, de verdade. - falei sinceramente, encarando seus olhos magoados. - Mas, eu precisava desse tempo para mim.
- Não estou julgando as suas atitudes, . - explicou pacientemente. - Só queria que você entendesse que nós não somos o James e que nos importamos com você. - suspirou, segurando de leve em minha mão. A fala de Juana apertou o meu coração de um jeito dolorido. Passei tanto tempo pensando somente em minha dor, que não tinha percebido que estava magoando outras pessoas com o meu afastamento. - E não senti isso recíproco nesse tempo.
- Podemos esquecer isso e começar de novo? - supliquei o seu perdão, sentindo-me realmente mal com o desabafo de minha amiga. - Eu sinto a sua falta e realmente me arrependo de ter afastado você... - confessei para Jua, que abriu um sorriso leve em resposta.
- Esquecer eu não vou. – falou, decidida, em uma pequena careta. - Mas, claro que podemos começar de novo, . Eu falei sério quando disse que realmente me importo com você.
- Obrigada. - agradeci sinceramente, pensando como realmente tinha sentido falta da mulher. - Isso realmente significa muito para mim.
- Não precisa agradecer, só não faça de novo. - disse em tom de aviso, fazendo-me assentir em resposta. - Mas, me diga, o que fez você, que só socializou com sua sombra nos últimos meses, sair de casa para vir logo para o aniversário de Saló? – indagou, curiosa, desviando rapidamente o olhar para um Aladdin que lhe oferecia um refrigerante.
- Daniela. - disse simplesmente, fazendo a outra engasgar com a bebida. - Calma, mulher. – completei, rindo de sua reação.
- Daniela Ospina te fez vir para esse festa? – perguntou, incrédula. - Ela quase fez com que eu não viesse! Principalmente quando eu descobri que meus pais não iam vir…
- Longa história. - suspirei, tomando um gole da Coca Cola deixada pelo Aladdin e ignorando a informação de que meus ex-sogros não estariam ali. - Muito longa. - disse em tom cansado e levemente envergonhado. Não queria ter que explicar o plano infalível de Ospina logo para minha ex-cunhada. Vendo que eu não iria falar mais nada, Juana resmungou, contrariada, trazendo outro em seguida.
- Ele já chegou. - avisou simplesmente, fazendo uma ruga de dúvida surgir na minha testa. - O James chegou faz uma hora, mais ou menos, junto com a mala dele. - finalizou em uma careta, comendo mais um dos salgados que, a essa altura, já não estavam tão quentes assim.
A afirmação da colombiana, contudo, fez tudo aquilo que eu estava prendendo dentro de mim querer sair.
A sensação de arrependimento já estava batendo e o fato de não ter encontrado Salomé ainda, me fazia ter mais vontade de sumir e fingir que a minha ida até lá fora um delírio coletivo.
No entanto, antes que eu pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, eu vi a pessoinha que eu estava procurando. Vestida em uma fantasia de Moana, Salomé Rodriguez caminhava alegremente em minha direção. Ou na direção do príncipe Philip, que estava atrás de mim. A menina não pareceu ter me notado, contudo, saltitando para pegar um copo de bebida.
- Salo? - chamei carinhosamente quando a menina estava próxima o suficiente de mim. - Parabéns, meu amor! - levantei para abraçá-la, tomando cuidado para não derrubar o copo de suas pequenas mãozinhas. A menina, por sua vez, dividiu-se entre um misto de surpresa e alegria, me abraçando com o máximo de força que conseguia, quase derrubando o líquido em minha blusa.
- Tia ! – falou, animada, depois de eu beijar sua bochecha - Você veio! - concluiu, puxando-me rapidamente para o outro lado do salão. Só tive tempo de acenar com as mãos para Juana e comecei a acompanhar a garota. Não fazia ideia para onde a pequena estava me levando, mas a segui sem grande hesitação. Já estava ali, então não tinha muito o que fazer mesmo. Só esperava não dar de cara com o pai da criança.
Mas, claro que isso iria acontecer.
Salo foi me guiando por mais alguns metros, até parar diante de três adultos que conversavam. Bem, dois conversavam enquanto a outra mexia no celular com cara de tédio.
Daniela, Verona e James.
Certamente, o trio de ouro. J.K Rowling que se cuidasse.
Sinceramente, não sei dizer exatamente o que senti ao ver James. O suar das mãos, por sua vez, me relembrava todo o nervosismo presente em mim quando estava diante do colombiano. Nesses seis meses, ele não tinha mudado muita coisa. O corte de cabelo estava do mesmo jeito. Aparentemente, tudo igual. No corpo, a calça jeans de lavagem escura, com uma blusa social azul de mangas curtas se faziam presentes. Nos pés, James usava o par de tênis adidas originals, branco com listas pretas, que eu tinha lhe dado de presente. Era o seu tênis favorito. Ele estava incrivelmente perfeito, como sempre. E isso me fazia ter raiva.
Nem para sofrer uma deformação no rosto ele servia?! No momento, queria saber aparatar para sumir de suas vistas, antes que ele me notasse.
- Mama! Papa! - a garotinha exclamava em pulinhos quando chegou perto o suficiente. - Olha quem veio! - concluiu em um gritinho, apontando para mim de forma exasperada. A reação da pequena fez com que seus pais abrissem leves sorrisos, mesmo que eu não tivesse prestado muita atenção na reação de James. Todavia, com minha visão periférica consegui perceber um olhar surpreso e meio… Feliz?!
- , querida! - Daniela disse, se aproximando para me abraçar, fazendo com que eu contestasse meu instinto de recuar. Não havia olhado para o jogador colombiano, mas sabia que, muito provavelmente, ele franzia o cenho em confusão. Afinal, Daniela e eu não éramos o que poderíamos chamar de amigas. - Siga o plano. - cochichou em meu ouvido, antes de soltar.
- Você veio! - retomou a fala, em um tom mais alto para todos ouvirem.
- Não poderia perder o aniversário dessa princesa, não é?! - falei casualmente, recebendo um abraço lateral da minha garotinha.
- Mas a tia disse que não vinha! - falou Salo, de repente, como se só agora tivesse se lembrado da minha recusa ao seu pedido. A fala espontânea da criança fez um sorriso se abrir em meu rosto, mas este logo foi transformado em um frio na barriga ao escutar uma risada gostosa e levemente rouca.
- A tia não sabia do que estava falando, meu amor. - repliquei suavemente, balançando de leve os cachinhos da colombiana.
- , ... Sempre causando surpresas. - disse James, inesperadamente, aparentemente superando sua confusão anterior, caminhando em minha direção, como se fosse me abraçar. Eu simplesmente paralisei no meu lugar, sem saber o que fazer. James parecendo levar um choque de realidade, afastou-se levemente desconcertado, olhando para o lado e parecendo se lembrar que estava ao lado de sua noiva.
- Bem… - começou, coçando a cabeça como fazia quando estava desorientado. - , essa é a Verona. Verona, essa é a , minha ex-namorada. - concluiu, recitando as últimas palavras em uma careta desgostosa, como se não gostasse de como o som soava em sua boca.
- É um prazer. - Verona se fez presente pela primeira vez, olhando para mim de cima à baixo com uma feição de desagrado.
- O prazer é todo meu. – respondi, desconfortável. Tentando evitar aquela situação, olhei para Daniela em um silencioso pedido de ajuda, afinal, a ideia daquele desastre havia sido dela.
- Agora que as apresentações foram feitas. - disse em um tom irônico. - Eu vou ver como estão os detalhes do buffet. - apontou para trás, onde se via uma porta com os dizeres “Cozinha”. - Salo, por que você não leva os três para a mesa que você escolheu para eles? - deu um olhar bastante significativo para a menina, fazendo-a assentir várias vezes.
Quando viu que James ia protestar, Salomé começou em seu tom mais manhoso:
- Vamos, papai! Quero conversar com você, quase não estamos fazendo nisso. - suplicou em um bico que eu sabia que James não resistia. Assim, poucos segundos depois, James aceitou a mão que a menina estendia para ele. Prontamente, ela me ofereceu a outra e assim seguimos para mesa que eu estava sentada anteriormente com Juana.
Chegando na mesa, percebi que a irmã de James não estava, fazendo-me entender que havia ido ao banheiro, comer algo, ou só quis sair dali. Ignorando esses devaneios, sentei na cadeira que anteriormente possuía meu nome, percebendo que James estava do meu lado, também já acomodado. Por sua vez, quando Verona iria se acomodar ao lado do noivo, a voz de Salo se fez presente.
- Tia Verônica! - chamou, exasperada, segurando o pulso da mulher. - Não, não. - negou várias vezes com a cabecinha, deixando nós três confusos. - Eu preciso da sua ajuda para pegar comidinha! – disse, como se fosse óbvio.
- É Verona, querida. - disse a loira, em um tom enjoado. - Por que você não chama a sua tia para ir com você? - apontou para mim com descaso, fazendo-me arquear a sobrancelha em ultraje.
Por que, diabos, essa mulher estava sendo tão grossa comigo?
Por Deus, eu odiava rivalidade feminina. Não pensei que seríamos amigas, até porque eu ainda era apaixonada pelo cara que estava noivo dela, mas esse tratamento hostil não era algo que eu estava esperando. Até Daniela, que era uma pessoa que eu costumava detestar, já estava quase virando uma colega.
- Porque papai disse que temos que nos conhecer melhor! – disse, cruzando os bracinhos, com um bico extremamente fofo. - Papai?
James, ao ver que estava sendo chamado na conversa, balançou a cabeça como se estivesse saindo de um transe.
- Quê… - disse, abobado, percebendo o olhar raivoso que Verona lhe lançava. Balançando a cabeça como se tentasse dispersar algum pensamento, tomou a voz. - Pode fazer isso por ela, nena? - perguntou para a mulher, segurando de leve a sua mão, fazendo-a ceder em virtude do tom e do olhar utilizado.
É, eu sei como é derreter por causa desse homem, minha filha, pensei, com um leve nó na garganta. Ver o cara que jurava que fosse ser o pai dos meus filhos, tratando outra mulher como costumava me tratar, não era fácil.
-Claro. – disse, ainda a contragosto, mas seguiu a garotinha que ia em direção ao final do salão.
Enquanto eu as acompanhava com o olhar, tentando evitar qualquer contato com o homem ao meu lado, James quebrou o silêncio que havia se instalado.
- , você está ótima. - falou simplesmente, me direcionando um sorriso cordial, como se fôssemos colegas que não se encontravam há algum tempo.
Cachorro.
Com certeza estou ótima depois de receber o convite para o casamento do meu ex, por quem ainda sou apaixonada, e que por algum acaso do destino é você
- era o que eu gostaria de ter respondido, mas em vez disso, somente respondi que ele também parecia estar muito bem.
- Não esperava que você aparecesse. - falou, olhando em meus olhos pela primeira vez. - Mas, estou feliz por ter aparecido. Faz muito tempo des…
- James, por que você me enviou o convite do seu casamento? - interrompi sua fala, o que fez com que ele arregalasse os olhos, assustado. Aparentemente, ele não esperava que eu abordasse aquele assunto. Sendo sincera, nem eu. Mas, como eu não sabia quanto tempo mais Salomé e Verona ficariam fora, achei por bem questionar o motivo da minha insônia dos últimos dias. Não sei se teria coragem de comentar algo com outras pessoas ali.
- Por que o quê? – questionou, confuso. - Do que você está falando, ? - perguntou em um verdadeiro tom de surpresa, encarando-me com os seus olhos castanhos.
- Do convite que você me enviou. – respondi impaciente, apertando minhas unhas na palma da mão, gesto que fazia para aliviar o estresse. - Você queria algum presente ou algo do tipo? Porque eu não sou nenhum dos seus amigos ricos, caso tenha se esquecido. - debochei, ácida.
Não me importava com as dicas de Ospina, que havia me orientado a não tocar no assunto casamento e apenas fazê-lo sentir saudade dos velhos tempos.
Sinceramente, não sabia mais se queria seguir com aquele joguinho.
Ver o jogador fez acender sentimentos que eu tinha escondido muito bem desde o nosso término. Não somente o amor que eu tinha por ele, mas uma mágoa latente ao ver que ele tinha seguido em frente tão rápido. Talvez fosse melhor seguir minha consciência e ir embora.
- Eu não te mandei convite nenhum, . – respondeu, sério, ignorando a minha provocação, arrumando a postura na cadeira. - Eu nunca faria um negócio desses. Aliás, praticamente ninguém recebeu o convite ainda. Estamos organizando a lista de convidados para poder, assim, enviá-los. - completou, fazendo com que a surpresa migrasse para minha pessoa.
O convite existia.
Estava em algum aterro sanitário, no momento, muito provavelmente, mas eu havia recebido. E tinha provas de seu recebimento, visto que tirei fotos para enviar a Margot e poder xingar James com imagens.
Lembrando de tal fato, catuquei a minha bolsa em busca do meu celular. Quando eu o encontrei, coloquei no aplicativo de fotos e logo mostrei para James, tentando ignorar o choque que havia sentido quando nossas mãos se tocaram. Rodriguez, por sua vez, ao ver as imagens franziu as sobrancelhas em descrença, como se realmente não acreditasse no que estava vendo.
- Isso não faz sentido, . - balançou a cabeça em negação, devolvendo-me o aparelho. - Eu não te enviei isso.
- Então, quem foi? – questionei, ainda desconfiada de toda essa situação. Sabia que o rapaz estava sendo sincero, já que não sabia mentir, mas não fazia sentido o convite ter aparecido magicamente na minha caixa de correios. - E como essa pessoa conseguiu meu endereço? – indaguei, preocupada. Quais as chances de algum psicopata saber o meu endereço, Deus?!
- É o que eu vou descobrir. – respondeu, decidido, vendo a filha se aproximar com Verona e, por isso, dando o assunto como parcialmente finalizado.
Eu ainda não tinha conseguido absorver o que Rodriguez tinha dito.
Como assim não foi ele quem mandou o convite?!
Enquanto isso, Salo tinha uma cara emburrada, como se tivesse sido contrariada. Ao seu lado, Verona carregava desgostosamente dois pratos recheados de salgadinhos, colocando-os na mesa quando se aproximou o suficiente.
Percebendo a cara da menor e, provavelmente, querendo acabar com o climão que tinha se instaurado, James questionou:
- O que aconteceu, princesinha? - colocou a pequena em seu colo. - Por que essa cara? - mordeu a bochecha dela, fazendo-a dar um gritinho esganiçado.
- Papai! - brigou com ele, que só desviou o olhar como se nada tivesse acontecido. - Tia Verônica. - aqui eu já tinha a impressão de que Salo errava o nome da mulher de propósito. Garotinha danada. - Não quis esperar as arepas ficarem prontas! - cruzou os bracinhos, fuzilando a loira com toda sua mágoa infantil. Eu choraria se recebesse um olhar desses da garotinha, mas Verona parecia não se importar.
- Elas iriam demorar demais, querida. – falou, em um falso tom meigo. - Não poderíamos esperar.
- E por que não? - perguntou, em desafio, fazendo com que a outra revirasse os olhos, movimento que não passou despercebido por James, que fez uma cara de repreensão.
- Porque você disse que queria conversar com o papai, não é, Vero? - interrompeu James, vendo que a discussão entre as duas iria perdurar por algum tempo.
- Claro, claro. – falou, displicente, abanando o ar com a mão.
Sinceramente, o que o jogador via nessa mulher?
Claro que ela era linda.
Os olhos azuis vibrantes; o cabelo loiro e comprido, bem como o corpo de fazer inveja a qualquer modelo. Mas, ela era só isso.
Pelos poucos minutos que a conhecia, não conseguia entender o motivo pelo qual James tinha se envolvido ao ponto de pedi-la em casamento.
Cansando do assunto e da falta de importância que seu pai dava para a sua queixa, Salomé tomou a frente mais uma vez. Eu só não esperava, contudo, que a pauta do assunto fosse aquela.
- Tia , hoje é o meu aniversário e você ainda não foi na Baby Corp como me prometeu no ano passado! - falou, encarando-me com seus gigantes olhos castanhos. Vendo-me franzir o cenho em desentendimento, prosseguiu. - Meu irmãozinho, Tia ! - replicou em obviedade, fazendo James arregalar os olhos. Senti minhas bochechas esquentando com a afirmação da pequena, que fora bastante inesperada. Eu não havia perdido contato com a Salo e ela nunca havia tocado nesse assunto em específico.
Quando James e eu ainda namorávamos, Salo nos pediu uma encomenda da Baby Corp, o seu irmãozinho. Depois de assistir O Poderoso Chefinho, a criança realmente acreditava que os bebês vinham de uma espécie de empresa, e, por gostarem dessa teoria inocente, James e Ospina nunca desmentiram essa ideia.
- Oh, meu amor. - comecei sem realmente saber o que falar, olhando para James em um pedido de socorro. - Você sabe que seu pai e eu não estamos mais juntos. O pedido da Baby Corp agora deve vir para a Verona. - apontei com a cabeça para a mulher, que havia entrado em sua própria bolha. Aparentemente, socializar comigo e com Salomé não era algo que a madame gostaria de fazer.
- Nããããão! - alongou a palavra em um sinal evidente de drama. - Papai! - olhou para ele com exigência. - O bebê Samuel vai ser filho da Tia !
- Salo! - repreendeu o colombiano, olhando discretamente para a loira que, realmente, não parecia estar preocupada com o falatório. - Já conversamos sobre isso! - determinou, ajeitando a criança em seu colo, que pareceu cada vez mais insatisfeita com o rumo da conversa.
- Mas eu não gosto dela, papai! – disse, como se fosse uma confissão, mas alto o suficiente para ouvirmos. Concluindo sua fala, apontou para Verona que, ao perceber que a menina falava dela, revirou os olhos em um claro sinal de impaciência. - Duvido que a Baby Corp mande o Samu para essa mulher!
- Salomé! - reclamou em um tom mais duro, fazendo a criança criar um bico choroso nos lábios. - A Verona é a minha noiva e você precisa respeitá-la!
- James, não se preocupe com isso. Eu não me importo. Ela é só uma criança.
- Mas eu me importo. - disse o colombiano, firme. No momento, eu só queria fugir para longe daquela situação constrangedora. Por que eu havia me metido naquilo, Deus?
- O senhor nem ama ela, papai! - continuou Salo, como se o pai não tivesse falado nada. - Mamãe disse que…
- Chega, Salo. - fui eu quem tomou a dianteira dessa vez. - Seu pai é um homem grandinho e sabe muito bem o que faz, sim?! – disse, olhando a morena ao mesmo tempo que tentava absorver aquelas palavras para mim.
Havia sido um erro aparecer na festa.
O que eu estava pensando, afinal?
Que James iria me ver chegando, com I Will Always Love You começando a tocar, as pessoas dando passagem para nos encontrarmos e BAM. Voltaríamos no tempo e as brigas, a mágoa e, bem, Verona, iriam desaparecer?
Eu era uma pessoa racional, não chegaria aonde cheguei se não soubesse ponderar todas as minhas ações. Então realmente não sei o porquê ter aceitado essa estúpida ideia.
A apaixonada não era alguém que eu sabia lidar.
Contudo, James, em resposta, me lançou um olhar que eu não consegui distinguir exatamente o que era. E, sinceramente, nem queria descobrir. A vida não era uma fanfic adolescente que, simplesmente, tudo se encaixava no final.
Fui ao local achando que teria respostas, mas saí com mais dúvidas ainda. A única certeza que eu tinha era que o sentimento ainda não havia acabado e que a minha dignidade estava levemente abalada. Grande dia. E o pior de tudo, eu ainda não tinha comido bolo.
- Mas, tia … - antes que a garotinha começasse sua onda de protestos, levantei da cadeira, oferecendo minha mão para a aniversariante pegar.
- Que tal irmos jogar um pouco de Guitar Hero? - convidei, apontando para a máquina que tinha acabado de ser desocupada por duas crianças mais velhas. - Pelos velhos tempos.
Salomé ainda olhou para o pai, como se quisesse dizer mais alguma coisa. Por fim, desistiu e decidiu me seguir até o brinquedo. Eu somente suspirei, tentando consertar a bagunça que aquele dia tinha se formado, visto que a festa ainda não tinha acabado. Talvez não fosse uma má ideia sair correndo e fingir que nada tinha acontecido.

CUATRO

44 dias para o casamento

Contigo es que me siento bien
No importa quién deba enfrentar
Si tu quiere una estrella la voy a buscar
La montaña mas alta yo subiré
Pero todo contigo, sin ti no soy lo haré (Estrella - Nicky Jam)

(Dê o play quando for indicado!)


Após ser massacrada algumas vezes por Salomé no Guitar Hero, o silêncio que nos envolvia, sendo quebrado por, eventualmente, alguns gritinhos da criança, animada por conseguir angariar uma vitória tão facilmente, e alguns resmungos de minha parte, foi cessado. Depois de mais uma vergonhosa derrota minha, a garotinha depositou a guitarra de brinquedo no suporte ali disposto, pedindo licença e fazendo o mesmo com a que estava nas minhas mãos. Em seguida, murmurou algo que eu entendi como “vem comigo”, e assim eu fiz. Agora mais ressabiada, visto que da última vez que a colombiana me levou para algum lugar desconhecido, acabei esbarrando nos três mosqueteiros.
Caminhamos alguns metros até uma porta corrediça de vidro que dava para um lindo jardim. Não havia muitas pessoas por lá, somente um ou dois adultos conversando. Pelo que deu para entender, aquele espaço em especial não era exatamente parte da festa, uma vez que destoava totalmente do ambiente de dentro, que estava repleto de brinquedos e decorado com personagens da Disney. Como Salo havia descoberto aquele local, era realmente um mistério.
A garotinha ainda me guiou por mais alguns metros, parando em frente a um banco de madeira, disposto estrategicamente na frente de uma fonte que jorrava água cristalina de uma de suas aberturas. Então, Salomé sentou e pediu para que eu fizesse o mesmo, logo tomando a palavra.
- Tia ? - começou baixinho, em sua voz infantil. - Você está brava comigo? - encarou-me, ansiosa, como se estivesse com medo da resposta. Em um primeiro momento, eu apenas franzi o meu cenho em confusão. Não entendi o porquê do questionamento da criança que eu amava como se fosse minha filha. Todavia, após alguns segundos de ponderação, deduzi que a dúvida era devido à minha repreensão tempos antes, quando estávamos todos na mesa. Essa minha demora para responder, contudo, fez Salomé entender tudo errado, já que em seguida ela começou a pedir desculpas desenfreadamente em um tom choroso.
- Ei, ei, calma, pequena! - tentei acalmá-la, puxando para um abraço. - Nunca que eu ficaria com raiva de você, meu amor. - completei, acariciando de leve seus cachos cuidadosamente arrumados. - Você é a minha pimentinha enxerida e eu te amo muito. - beijei a bochecha redondinha dela, relembrando um apelido que tinha lhe dado anos antes. Aparentemente, a menção do apelido fez a garotinha se tranquilizar, logo aninhando-se mais nos meus braços.
- Eu não queria ser intrometida, tia. - começou baixinho, me apertando um pouco mais forte. - Eu só queria que o papa entendesse que eu amo muito, muito você e que sinto sua falta…
- Oh, meu bem! - exclamei, realmente tocada com suas palavras. Me afastei um pouco do aperto da menina para poder encarar seus olhos chorosos. - Você sempre vai ser meu pinguinho favorito, okay? - afirmei, apertando a ponta de seu nariz, o que ocasionou um riso fraco de Salo. - Só que, como falamos antes, seu pai e eu não estamos mais juntos. Ele vai casar com a Verona. – expliquei, meio enjoada, logo me apressando ao ver que Salo tentava me interromper. - Mas isso nunca vai mudar o que eu sinto por você. Eu amo você muito, meu amor. E o fato de estar com seu pai ou não, não faz nenhuma diferença para mim, ok?! - questionei incisivamente, vendo a pequena concordar com a cabeça, mais relaxada.
- Você ainda ama meu pai, tia ? - a garota perguntou de repente, após alguns segundos em silêncio. Salomé estava afiada nas perguntas naquela noite.
- Eu acho que nunca vou deixar de amar seu pai, Salo. – confessei, sincera, em um suspiro, observando a feição de Salomé mudar para algo parecido com determinação e euforia. Eu somente estranhei a reação exagerada da pequena.
- Eu sabia! - levantou em um rompante, colocando os bracinhos para cima como se comemorasse algo, fazendo-me rir fraco. - Mamãe tinha dito que não tinha certeza, mas eu sempre soube! - continuou em um gritinho fino, fazendo-me arquear a sobrancelha em confusão.
- Como?!
- Mamãe não sabia se deveria falar com você, tia , mas eu disse que, como o Snape amava a Lily, o amor de vocês era para sempre! – afirmou, resoluta, como se fosse uma adolescente cheia de razões. Sinceramente, eu não sei como ainda me surpreendia com Salomé. A menina embora tivesse somente oito anos recém completados, em muitos momentos parecia ser mais velha do que eu. Não sei se achava adorável ou ficava assustada.
- Pimentinha, você está me dizendo que a Daniela veio falar comigo porque você pediu? - questionei, abismada com a possibilidade. Salomé abriu um sorriso arteiro em resposta.
- Dã! - exclamou com obviedade, colocando as mãos na cintura. - Mamãe disse que a tia ia achar muito estranho se ela falasse com você, mas eu convenci ela mesmo assim. - a menina falava muito rápido, atropelando as palavras. - Aí, minha mamãe ia na sua casinha, titia! Mas, vocês acabaram se encontrando antes. Ela me contou tudinho! - terminou em um só fôlego, como se estivesse me contando detalhes de um plano brilhante. - Foi minha a ideia de fazer a titia falar com meu papai na minha festinha!
Ok, talvez eu estivesse em alguma realidade paralela, em que a minha vida era como o Show de Truman. Vamos recapitular o dia de hoje:
1 - Aceitei seguir um plano péssimo (desculpe, Salo), que eu achava ter vindo da ex-mulher de James;
2 - Reencontrei o jogador e conheci a sua adorável noivinha;
3 - Confrontei o colombiano e descobri que não foi ele quem me mandou o convite do casamento;
4 - E, claro, fiquei sabendo que a minha ex-enteada de oito anos armou com sua mãe para tentar arrumar as coisas com James.


Era muito para minha cabeça e a soma dos acontecimentos já estava me dando enxaqueca.
- Salomé, você está me dizendo que foi você quem armou tudo isso? - perguntei bobamente, só para confirmar o que ainda não fazia sentido na minha cabeça.
- Eu só queria vocês juntos, titia, não fica brava! - pediu, sentando novamente ao meu lado e segurando minhas mãos frias. - E, pelo menos assim, a tia veio na minha festinha. – disse, convencida, tentando disfarçar o sorriso que escapava de seus lábios.
Francamente, aquela menina não era uma criança comum.
- Salomé Rodriguez Ospina. – comecei, ainda incrédula, balançando a cabeça em negação várias vezes. - Eu não sei o que fazer com você, sua peste! - completei, sem saber o que falar. Não sabia dizer se um sermão caberia na situação.
- Eu sei! - exclamou a menina, levantando mais uma vez e parando em minha frente. - Pedir o Samu lá na Baby Corp! - suplicou, colocando as mãozinhas juntas para enfatizar seu pedido.
- Salo! - somente gargalhei, perguntando-me que realidade paralela era aquela em que eu havia me metido.

X


Passamos mais alguns minutos conversando e, com toda certeza, eu ficava cada vez mais impressionada com o que Salomé me contava. Aparentemente, eu havia subestimado a criança, visto que ela pensava em coisas que nem tinham passado pela minha cabeça.
Entretanto, antes de eu poder questioná-la mais, fomos interrompidas por Daniela, que veio chamar Salo para cantar os parabéns. O tempo havia passado realmente depressa quando estávamos lá e o final do aniversário já se aproximava.
Atendendo ao pedido da mãe, a menina estendeu sua mão para mim, para que eu a acompanhasse pelo mesmo caminho que tínhamos ido.
Chegando na porta que dava para o salão, consegui identificar Juana chamando a todos para cantarem os parabéns, em um microfone utilizado, anteriormente, por uma das atrações da festa. Pelo o que eu conhecia da minha amiga, era certeza que ela tinha sido obrigada a fazer isso.
A mulher odiava ser o centro das atenções e de jeito nenhum faria aquilo de livre e espontânea vontade.
Ao ouvir a voz da tia, Salo apressou seus passinhos, correndo comigo pelo espaço e gritando palavras de incentivo para eu segui-la. Tentei impedir que a menina andasse daquele jeito, mas foi inútil. Além disso, eu não era uma pessoa muito atlética, ou seja, correr e falar ao mesmo tempo não era algo que eu conseguia fazer sem ficar ofegante.
Depois de correr alguns metros, Salo parou em um rompante, fazendo com que eu quase escorregasse e caísse, o que seria uma cena e tanto.
Com minha quase queda, consegui observar o espaço ao redor, percebendo que havíamos chegado na mesa do bolo. Por todo o lado, havia crianças e seus pais, todos amontoados e esperando pela aniversariante. Do outro lado da mesa, havia um painel enorme, com uma gravura que ilustrava a princesa Moana - favorita de Salo e fonte de inspiração de sua fantasia - em que se encontravam Daniela (que eu não sei como conseguiu chegar antes de nós), seus pais, Juana e, claro, James e Verona.
Percebendo que todos nos encaravam, incentivei Salo a ir atrás de seus pais, o que foi respondido com um menear negativo da menina. Comigo franzindo o cenho, confusa, Salomé falou apressadamente, levemente nervosa pelos olhares.
- Você vem comigo, tia ! - apontou para o local que deveria ir, fazendo com que eu negasse várias vezes com a cabeça. Contudo, Salo não estava disposta a receber uma negativa, apelando como podia. - Eu só vou se você for, tia ! - falou mais alto, cruzando os braços, emburrada, e atraindo cochichos de seus convidados, ao entenderem o motivo da demora da aniversariante.
Não poderia julgá-los. Quanto mais demorasse para cantar os parabéns, mais demoraria para comermos o bolo. Mas eu realmente não me sentia confortável ao ficar ao lado da família de Salomé, principalmente porque meu elo com a garotinha já estava lá, disposto lindamente ao lado de outra.
Vendo o meu olhar suplicante, Salo apenas balançou a cabeça, segurando novamente minha mão e seguindo comigo até o espaço designado para ela. Chegando lá, a menina recebeu um olhar de repreensão de Daniela por sua demora, que foi prontamente ignorado pela menina, que continuou me puxando até me colocar ao lado de seu pai.
Ótimo.
Evitando olhar para os lados, eu somente agradeci aos céus quando Dani puxou o coro de parabéns, que foi prontamente seguido por todos ali presentes.

Cumpleaños feliz,
Cumpleaños feliz,
Te deseamos todos,
Te deseamos, Salomé
Cumpleaños feliz.


O final do coro foi seguido por uma salva de palmas, que fez com que a aniversariante, que estava no colo de seu avô, desse palminhas animadas.
- Você quer dizer algo, hija? - ouvi a voz do colombiano ao meu lado e tentei ignorar os arrepios involuntários que ela me causava.
- Quero! – assentiu. - Parabéns para mim! - ela gritou, fazendo com que todos gargalhassem por sua espontaneidade.
Após terminar os cantos, chegou a hora de cortar o bolo, com Salomé insistindo que conseguia cortar sozinha. Mas como era uma péssima ideia deixar com que uma criança de oito anos manipulasse uma espátula sozinha, Daniela auxiliou a menina no processo, mesmo com murmúrios de indignação da menor.
Salo realmente estava crescendo.
Cortando uma fatia meio torta, alguém que eu não conhecia gritou “A primeira fatia vai pra quem, Salo?”.
Aparentemente, ela não sabia que existia um imaginário coletivo acerca da importância do primeiro pedaço de bolo, franzindo o cenho, confusa. Eu também não estava acostumada com essa tradição, visto que ela era comum somente na América Latina, mas namorar com um colombiano me fez adquirir conhecimento de um pouco dessa cultura tão rica e diversa. Ou talvez isso fosse mais algum dos meus conhecimentos aleatórios adquiridos com a Gloria de Modern Family, vai saber.
Vendo a carinha da filha, James pegou ela no colo, cochichando algo inaudível no ouvido da menina. Depois de assimilar o que o pai havia dito, Salo somente assentiu com a cabeça diversas vezes, dando um gritinho afetado quando o pai mordeu sua bochecha, logo colocando-a no chão.
- Mamãe! O primeiro pedaço é seu. - entregou para Daniela, que sorriu grande frente ao gesto da filha. - Amo você! – exclamou, feliz, recebendo um beijo na cabeça de Ospina. Guardando o pedaço em cima da mesa, Daniela cortou mais algumas fatias e passou para Salo poder distribui-las. A segunda fatia, como o esperado, foi para James, que deu um sorriso gigante para filha, seguido de vários beijos pelo rosto da menina, que tentava afastar o pai às gargalhadas. Ao contrário da ex-mulher, ele já foi dando uma garfada no bolo, fazendo uma cara de deleite e sujando todo o rosto com o glacê.
Vendo o homem todo lambuzado, guardei para mim o impulso de ir lá e limpá-lo, como costumava fazer, depois de, obviamente, zoá-lo por sua capacidade de comer feito uma criança.
Certas coisas nunca mudam, pensei, nostálgica.
Só sai do meu devaneio melancólico ao sentir a mãozinha de Salo me puxando, e estendendo para mim uma fatia de seu bolo. Com um sorriso, agradeci a pequena, que me deu uma piscadela e passou a distribuir os pratos para sua tia e avós. Como eu não tinha mais nada para fazer ali na frente, fui seguindo para a mesa que estava sentada antes, a fim de degustar minha comida. Afinal, além do objetivo de passar vergonha, a comida era o principal chamativo da festa.
No caminho, peguei um copo de Coca com um garçom que eu acredito estar fantasiado de Kristoff, mas não poderia dizer com certeza. Sendo sincera, ele estava mais parecido com o Sven, mesmo que fosse rude de minha parte pensar daquele jeito.
Divagando sobre a fantasia do rapaz, sentei distraída na minha cadeira, sentindo meu peito apertar, dolorido, ao identificar a música que estava tocando. (Play agora!)

Ser un cantante, ir a viajar
(Ser um cantor, ir viajar)
Dinero y fama
(Dinheiro e fama)
Sin ti no es nada
(Sem você não é nada)
Mil mujeres me buscarán
(Mil mulheres vão me procurar)
Pero te amo y nadie ocupa tu lugar
(Mas eu te amo e ninguém ocupa o seu lugar)



Estrella do Nicky Jam era a música que definia o meu relacionamento com James. Quando eu sentia meus momentos de insegurança, com noites de insônia, caminhando pela casa e tendo pensamentos ruins, o jogador cantava para mim, até dispersar tudo que fosse de negativo.

Contigo es que me siento bien
(Com você é que me sinto bem)
No importa qué deba enfrentar
(Não importa quem possa enfrentar)
Si tú quieres una estrella la voy a buscar
(Se você quer uma estrela, eu vou buscar)
La montaña más alta yo subir é
(A montanha mais alta que eu subirei)
Pero todo contigo, sin ti no lo haré.
(Mas tudo com você, sem você eu não vou fazer.)


O colombiano costumava trocar as palavras cantante e concierto por jugador e juego, de modo a deixar os versos mais a nossa cara. Com isso, memórias do nosso relacionamento passavam em um looping na minha cabeça.

Mansiones frente al mar
(Mansões à beira-mar)
Avión privado y más, pero no
(Avião particular e mais)
Pero no se siente igual
(Mas não, mas não se sente como)
Yo cantaré
(Eu cantarei)
En un concierto, cantaré
(Em um concerto, cantarei)
Pero en las noches el vacío no llenaré
(Mas à noite eu não vou preencher o vazio)


O dia que havíamos no conhecido na La Ninã.
O primeiro beijo, a primeira vez, o pedido de namoro...
O dia em que ele havia me apresentado Salomé e quando todos os receios que eu tinha em ser uma madrasta foram dissipados.
Desde que havíamos terminado, eu não conseguia ouvir a música sem cair em um choro compulsivo. Evitava-a constantemente, excluindo de todas as minhas playlists e bibliotecas. E ouvir ela ali, hoje, depois de encontrar James após seis meses… Era dolorido.

Cuando yo te pienso, paso sonriendo
(Quando eu penso, eu passo sorrindo)
Yo te lo juro, tú eres mi felicidad
(Eu juro, você é minha felicidade)
Te lo diré, por ti me arriesgaré
(Eu vou te dizer, por você eu vou me arriscar)
Doy todo lo que tengo
(Eu dou tudo o que tenho)
Esto es real
(Isto é real)


Percebi que tinha deixado meu bolo quase intocado quando acabei esbarrando meu braço no prato, sujando-o levemente com a cobertura da sobremesa. O nó em minha garganta havia tirado todo o meu apetite. Eu tentava segurar minhas lágrimas a todo custo. Não queria desabar ali, principalmente na frente de James. Doía saber que eu ainda me afetava tanto por sua presença, enquanto o rapaz estava ali, esbanjando alegria ao lado de sua noiva.

Contigo es que me siento bien
(Com você é que me sinto bem)
No importa qué deba enfrentar
(Não importa o que possa enfrentar)
Si tú quieres una estrella la voy a buscar
(Se você quer uma estrela, eu vou buscar)
La montaña más alta yo subiré
(A montanha mais alta, eu subirei)
Pero todo contigo, sin ti no lo haré
(Mas tudo com você, sem você eu não vou fazer)


Eu só queria que as coisas fossem como antes. No começo, era tudo tão fácil e natural. Não existia mídia, ciúmes ou desavenças. Até Daniela, depois de um tempo, deu uma trégua e pudemos viver todas as glórias possíveis de um casal apaixonado.

Cuando yo te pienso, paso sonriendo
(Quando eu penso, eu passo sorrindo)
Yo te lo juro, tú eres mi felicidad
(Eu juro, você é minha felicidade)
Te lo diré, por ti me arriesgaré
(Eu vou te dizer, por você eu vou me arriscar)
Doy todo lo que tengo
(Eu dou tudo o que tenho)
Esto es real
(Isto é real)


Agora eu estava ali, sozinha, no meio do aniversário de Salomé. Enquanto isso, o casal maravilha estava tirando fotos e mostrando para todos que eram felizes. Ou, pelo menos era o que transpareciam, mesmo com o mau humor latente de Verona.

Contigo es que me siento bien
(Com você é que me sinto bem)
No importa qué deba enfrentar
(Não importa o que possa enfrentar)
Si tú quieres una estrella la voy a buscar
(Se você quer uma estrela, eu vou buscar)
La montaña más alta yo subiré
(A montanha mais alta, eu subirei)
Pero todo contigo, sin ti no lo haré
(Mas tudo com você, sem você eu não vou fazer)


O fim da música chegava e, infelizmente, a nostalgia fazia morada. Comecei a tentar pensar em outras coisas, como no fato de que Senhor Gato, meu gato, tinha ganho uma coleira nova de Margot e estava extremamente adorável.
Ou como estava próximo da estreia do live action de Mulan, minha princesa favorita da Disney.
Ou, quem sabe, no esperado reencontro do cast de Friends, cerca de dezesseis anos depois do último episódio. Pensar nessas coisas estava tendo o efeito desejado, mesmo que minimamente.
Havia conseguido, parcialmente, me blindar da avalanche de emoções que a música tinha me trazido. Por isso, não havia percebido que não estava mais sozinha. Só quando ouvi aquela bendita voz cantar baixinho Contigo es que me siento bien que eu abri meus olhos - que eu nem percebi que estavam fechados - alarmada.
James estava sentado ao meu lado, encarando-me com toda a sua intensidade de castanho.
- Não importa quantas vezes eu ouça essa música, ela sempre será a minha favorita. - falou baixinho, chamando a minha atenção. Eu somente o encarei em resposta e sorri fraco, desviando o olhar para o outro lado. -
- Agora não, James, por favor. - supliquei, fechando os olhos com força para evitar o impulso de me perder no seu olhar. Não queria que ele percebesse a minha fraqueza. Eu odiava ser tão transparente assim.
- Você sabe que precisamos conversar. - insistiu, fazendo-me o encarar com certa incredulidade. - Nunca tivemos uma conversa definitiva, .
- Isso não foi realmente um obstáculo para você, James. – apontei. - Tanto que não esperou nem um ano e já está noivo de outra. - falei rancorosa, com toda a mágoa presente dentro de mim.
-
- Não, Rodriguez. - neguei, em tom definitivo. - Estamos no aniversário da sua filha e a sua noiva está aqui. Agora não.
- Ainda precisamos conversar, . – continuou, insistindo. Realmente, Salomé tinha a quem puxar a teimosia. - Posso te ligar para marcar? - indagou, se aproximando de mim, mas ao ver meu olhar de censura, logo tratou de se afastar. - Também temos que descobrir quem te mandou aquele convite. - suspirou, cansado e, certamente, frustrado.
- James. - ia começar uma negativa, mas ao ver seu olhar, apenas suspirei e decidi ceder. -Depois acertamos isso, okay? - falei, resignada. Realmente precisávamos conversar. Eu só não sabia se estava preparada para aquilo. - Cadê a Verona? - questionei, de modo a mudar a pauta da conversa, ao analisar que a loira não estava em nenhum lugar próximo.
- Dani e Juana a levaram para distribuir as sacolinhas para as crianças. - respondeu como se não fosse nada. - Ela deve estar odiando cada segundo disso. - riu fraco, coçando a cabeça.
- Se eu não comentei antes, ela é adorável. – disse, irônica, arqueando minha sobrancelha para ele e tomando um gole do meu refrigerante, que a essa altura já estava quente. A minha garganta mostrava certo desconforto. - Parece um dementador de saltos.
- Ela é meio difícil. - concordou, rindo fraco de minha comparação, mas logo tratou de emendar. - Mas é uma boa pessoa.
- Se você diz… - abanei o ar, como se não fosse nada, iniciando mais uma vez um silêncio desconfortável. A única coisa que se ouvia era uma conhecida música de Frozen, que tocava ao fundo. Aparentemente, Estrella foi a única música a destoar de toda a atmosfera infantil do aniversário. Quase como se fosse premeditado. O que, sinceramente, depois dos últimos acontecimentos, eu não duvidava que fosse.
- Falando em Dani, eu ainda não entendi como vocês duas se acertaram. - chamou minha atenção para si novamente. quebrando o silêncio e me encarando com os olhos curiosos.
- Há mais de uma coisa que você não entende, Rodriguez. - o olhei, sem grandes expressões, não querendo dar detalhes da situação em que eu havia me envolvido. James, por sua vez, não pareceu satisfeito com a minha resposta vaga, olhando para mim como se fosse retrucar, ao que eu impedi. - E vai continuar sem entender. – falei, meio seca, quase me arrependendo do tom. Quase. Naquele momento, não estava ligando muito para modos.
Com minha resposta firme, o silêncio desconfortável voltou a nos rodear. Na minha cabeça, eu cantarolava Let It Go, tentando incorporar os versos da música e, de fato, deixar ir.
Após mais algum tempo naquele clima estranho, o silêncio foi quebrado por um longo suspiro de James.
- Eu vou te ligar, . Por favor, atenda. - pediu, levantando de sua cadeira e vindo para perto de mim, depositando um beijo em minha cabeça. Mas, antes de eu sequer processar o que tinha acontecido, James já tinha ido embora.

CINCO

40 dias para o casamento

Ella es la favorita, la que canta en la zona
Se mueve en su cadera como un barco en las olas
Tiene los pies descalzos como un niño que adora
Y sus cabellos largos son un sol que te antoja (La Bicicleta - Carlos Vives y Shakira)


Depois que James foi embora, eu também levantei e decidi seguir o meu caminho. Salo não estava por lugar algum, muito menos Juana ou Daniela, por isso, fui sem avisar ninguém. Talvez a menina ficasse um pouco chateada, mas eu precisava respirar e sei que essa sensação de sufoco só passaria quando eu tivesse no conforto do meu lar.
Caminhei o mais rápido que conseguia sem chamar atenção, pegando a chave do meu carro de forma meio atrapalhada de dentro da minha bolsa, suspirando, aliviada, quando, finalmente, me deparei com o estacionamento do salão de festas.
Adentrando mais o espaço, olhei para os lados em busca do meu bebê de quatro rodas. Quando finalmente o achei, embaixo de uma árvore, dei graças aos céus, principalmente por não precisar apelar para o sensor de perda do veículo. Certamente, o barulho acabaria chamando atenção de alguns dos convidados, que logo viriam vasculhar o que estava acontecendo e me encontrariam no meio de uma fuga.
Talvez, eu desse mais importância à minha presença do que de fato tinha, mas, pelo que conhecia dos latinos, a cultura era louca por uma fofoca. Então, ver a ex-namorada do pai da aniversariante saindo fugida, de fato, seria um prato cheio.
Balançando a cabeça para dispersar esses pensamentos bestas, apressando-me para chegar no meu carro, logo o destravando e me acomodando no banco do motorista, joguei minha bolsa de qualquer jeito no banco de trás e suspirei, encostando minha cabeça no volante.
Aparentemente, o peso do dia, agora, realmente, tinha chegado nos meus ombros.
Fechando os olhos em descrença, percebi que meu encontro com James não havia sido nada do que tinha imaginado. Sendo realmente sincera, o saldo positivo daquela catástrofe se restringia à felicidade de Salomé ao me encontrar, bem como a descoberta de que a garota, realmente, faria de tudo para me ver junto ao seu pai. Mesmo ficando assustada inicialmente, acabei me sentindo lisonjeada ao perceber que a menininha realmente gostava de mim e me queria em sua vida. Contudo, eu precisava ser uma adulta racional e conversar com Salo sobre como era errado tentar sabotar o relacionamento de seu pai.
Muito me intrigava o fato de que a própria Daniela não havia censurado a filha e impedido de bolar esse plano infalível.
No geral
, Daniela estava me surpreendendo em mais de um aspecto.
Quando namorava com James, eu achava a mulher um ser humano horrível. Mas, não foi sempre assim.
Constantemente, ouvia Salomé falar que sua mãe era incrível e que era a pessoa que ela mais amava no mundo. Sendo a última parte sempre sussurrada, com o objetivo de não deixar James escutar. Talvez o jogador não percebesse, na época, mas a ênfase que a menina dava para a mãe era muito pela ausência dele.
Rodriguez era um excelente pai, não poderia negar isso.
O amor que tinha pela filha ultrapassava barreiras e eu sei que ele faria tudo no mundo para fazê-la feliz. Mas, na época em que se separou de Daniela, o rapaz se jogou em uma rotina de trabalho intensa e acabou negligenciando sua filha. Não sabendo, inicialmente, separar uma da outra.
Isso só começou a mudar, de fato, quando começamos a sair juntos e ele não precisava mais se jogar em rotinas estressantes para, simplesmente, esquecer das coisas negativas.
Também não sei o porquê da mulher me acusar de ser uma destruidora de lares e ameaçar o meu relacionamento, já que a minha presença somente aproximou James das duas, mas talvez fosse um modo de chamar atenção.
Não que isso justificasse a atitude de Ospina de tentar, posteriormente, impedir James de encontrar a filha. Só que eu sempre olhei as coisas pelos lados meu e dele: O pai que estava tendo seus direitos negados e estava tendo seu relacionamento prejudicado, e a mulher que estava sendo atacada gratuitamente.
Friamente falando, talvez Ospina só tentasse proteger a filha de alguma decepção com o jogador e, agora, com uma madrasta, já que Salo não entendia seus momentos de ausência com muita facilidade e não estava acostumada a ver outra mulher na vida do pai.
Salomé era o ser mais iluminado que eu conhecia e deveria ser crime cometer algo que pudesse retirar o brilho intenso de seus olhos e, talvez, Ospina achasse que estava fazendo o melhor por sua pequena.
Eu realmente não sabia.
Um dia eu ainda iria querer ouvir os motivos da mulher de ter feito o que fez.
Por muito tempo, guardei rancor de Daniela.
A mulher tumultuou de uma forma descabida o início do meu namoro e só se acalmou quando o aparato jurídico foi solicitado.
Mas, a atitude dela de incentivar os planos de Salomé, que somente eram pedidos infantis de uma criança de oito anos, não sei…
Talvez ela não fosse tão ruim assim.
Quando conversamos, dias atrás, pensei que tinha sido um impulso que a havia motivado a falar comigo. Nunca imaginei que a conversa tinha sido estrategicamente elaborada com Salomé.
Realmente, não acho realmente que seríamos amigas, mas eu poderia começar a aniquilar os sentimentos negativos que tinha para com ela.
Encontrar James depois de seis meses havia me deixado emotiva e eu deveria começar a, na prática, tirar as coisas ruins da vida. Tinha prometido a mim mesma que iria fazer isso, mas só agora estava, realmente, criando mecanismos para o fazer.
É, , chegou a hora de crescer.
Com isso em mente, ajeitei minha postura e comecei a dirigir para casa.

XX


Alguns dias tinham se passado desde o fatídico aniversário. Como esperado, Salo ligou para mim para perguntar o porquê de não ter me despedido, mas eu consegui acalmá-la, respondendo que tinha passado mal e que precisei ir para casa. Contudo, a garotinha só havia ficado satisfeita depois que eu jurei, juradinho que, em breve, iria para o parque com ela.
Por outro lado, seu pai não havia dado as caras desde então.
Não sei se me sentia aliviada ou triste mediante disso, mas tentava não pensar muito no assunto.
No momento, tinha coisas mais importantes para me preocupar, além do fato de ter sido mais uma vez, iludida.
Um dia depois do aniversário de Salomé, Alexis me ligou, avisando que estaria em Madrid em alguns dias e que eu estava convocada para turistar pela cidade com ela. A brasileira tinha ganhado neném há pouco tempo e via a oportunidade de passear como um escape extremamente necessário.
E, por isso, agora eu estava ali, procurando, desesperadamente, um shorts jeans no meio da bagunça de meu closet. Jogando algumas peças de qualquer jeito no chão e tentando ignorar o fato de que teria que arrumar aquele caos quando chegasse, finalmente achei o modelo em questão, suspirando, aliviada. Se eu atrasasse mais alguns minutos, a Müller iria servir e degustar o meu fígado de garfo e faca.
Nesses momentos de pressa, eu agradecia muito o fato que o Senhor Gato estava na casa de Marg, passando uma temporada para desestressar. Aparentemente, meu período depressivo, decorrente da descoberta do casamento de James, acabou por estressar o animal ao ponto de fazê-lo diminuir drasticamente o apetite e começar a se lamber de forma excessiva. Ao levar o bichano para o veterinário, a médica apenas sugeriu que ele passasse um tempo fora do lar tóxico em que estava inserido.
É, eu cheguei ao ponto de oferecer um lar tóxico para o meu gato.
Finalmente vestida com o shorts e uma blusinha branca, fui apressada calçar meu par de all stars azuis, amarrando-os de qualquer jeito para, finalmente, poder sair do meu apartamento e sair para encontrar Lexi. No caminho, ainda iria buscar Margot, que estava bastante animada para conhecer a brasileira, visto que ambas só haviam se visto, poucas vezes, em chamadas de vídeo.
Entrando no meu carro, liguei o rádio em uma estação aleatória, que tocava algum reggaeton que eu não conhecia, mas que tinha uma batida muito envolvente. Enquanto cantarolava desajeitada a melodia, acelerei pelas ruas de Madrid, chegando em pouco tempo à casa de primeiro andar de Margot. A mulher já me esperava do lado de fora, com uma cara de tédio que demonstrava que eu certamente não estava no horário.
Vendo o meu carro parar na sua calçada, Margot levantou do batente que estava sentada e deu uma pequena corrida até o veículo, esperando impacientemente eu destrancá-lo para possibilitar a sua entrada.
- Veio de ré, ? – indagou, rabugenta, colocando o cinto de segurança e virando-me para me encarar com uma carranca bastante cômica.
- Ui, para que tanto estresse, gatinha?! – perguntei, debochada, segurando a risada e dando partida no carro, logo indo para o endereço que tinha marcado com Alexis.
- O seu gato adorável estava usando as minhas costas de arranhador! – exclamou, irritada. - Tive que sair de casa antes que o passeio tivesse que ser trocado para o hospital.
- Que exagero, Marg! - olhei de soslaio para ela, voltando a prestar atenção no trânsito. - Ele só estava brincando…
- , você tem muita sorte que eu amo animais e que, por alguma razão do universo, você acabou sendo minha melhor amiga. – declarou. - Porque nessa de desestressar o Senhor Gato, quem tá ficando louca sou eu! - dramatizou, fazendo com que eu soltasse a gargalhada que estava prendendo.
Depois de seu desabafo, Marg trocou de assunto, me inteirando sobre as fofocas de seu ambiente de trabalho. Não que eu fizesse a mínima ideia de quem ela estava falando, mas, saber que o Marco estava saindo com a Fiorella, aparentemente, era uma notícia quente. Enquanto falava palavras de incentivo para a morena, o GPS apitou, avisando que havíamos chegado no nosso destino.
O VP Plaza España Design era localizado na famosa Gran Via, no centro da cidade madrilenha. O local era realmente próximo de lojas e bares, o que para Lexi era o fator mais importante.
Estacionando na lateral do prédio, Marg e eu seguimos para a recepção. O lugar era estonteante.
Na entrada do Hotel não restavam dúvidas, estávamos na Espanha. O contraste entre a modernidade dos vidros enormes que se espalhavam pela entrada, portas e janelas, e a tradição característica do sol que só brilhara daquele modo em Castela nos acolheu como se estivéssemos numa versão mais luxuosa de casa. Os raios solares confrontavam a luminosidade característica das lâmpadas de led e dos quadros abstratos, de forma que se notava uma tonalidade entre o castanho e o dourado nas poltronas, no piso e nas paredes. Salamanca. O hotel me lembrava Salamanca, local que jurava que iria passar minha lua de mel, quando era mais nova. Se pegássemos um carro, chegaríamos em duas horas, mas ali nos bastava estar no lobby do hotel no movimentado centro de Madrid. Parecia feito, pormenor a pormenor, pelas pedras de arenito de Villamayor, aquelas que, quando o sol incidia ao chegar no ponto mais alto da manhã, eram transformadas em algo próximo do ouro.
- Eu sabia que era pobre, mas não sabia que era tanto. - disse Margot, deslumbrada, o que me fez concordar prontamente. Já havia visitado lugares do mesmo nível do hotel com James, mas nunca em Madrid. Parecia que eu estava encontrando uma nova realidade dentro de minha própria cidade. - Liga para Alexis antes que pensem que viemos assaltar o hotel, . – falou, apressada, percebendo que estávamos paradas feito estátuas no meio do lobby, enquanto alguns hóspedes passavam por nós. Não que eu pensasse isso geralmente, mas realmente não seria muito difícil assaltar o local não. Ninguém realmente havia prestado atenção em nós e estávamos estancadas no mesmo lugar há alguns minutos.
- Exagerada! - balancei a cabeça, risonha.
Tirei o celular que estava no bolso traseiro do meu shorts e disquei o número que Lexi tinha me dado. Por comodidade, a brasileira havia comprado um chip espanhol para utilizar no período que estaria em Madrid. O celular tocou algumas vezes e no quarto toque ouvi a voz animada de minha amiga.
- , oi! - falou, ignorando o atraso. - Vocês chegaram?
- Estamos aqui embaixo. – confirmei. - Você vai descer?
- Não. - disse simplesmente, fazendo-me franzir o cenho em confusão e alertar Margot, que prestava atenção na conversa. - Já avisei na recepção que é para vocês subirem. Venham conhecer a Eileen!. - exclamou, deixando-me mais confusa ainda.
- Eu pensei que a bebê tinha ficado na Alemanha, Lexi. – falei, sem entender.
- Depois eu explico. Subam logo! - mandou, desligando o telefone antes que eu pudesse replicar. Balançando a cabeça em negação, pensando que essa era uma atitude bem comum de Alexis, puxei Margot até o balcão da recepção, em que três mulheres diferentes atendiam. Parei na frente da morena de traços asiáticos e repassei meu nome e o de Margot, avisando que Alexis estava nos esperando. A mulher somente parou para conferir se existia alguma anotação referente ao apartamento de minha amiga, confirmando a informação e permitindo nossa subida. O andar que a Müller estava era o quinto, o que nos proporcionou uma breve amostra da vista do hotel, visto a presença de um elevador panorâmico.
Quando o objeto metálico finalmente parou, andamos em busca do quarto 512, encontrando-o com a porta aberta.
- Thomas Müller, pelo amor de Deus, você não vai colocar esse body horroroso na minha filha! - consegui ouvir uma voz conhecida exclamar de dentro do quarto, fazendo-me refrear meus passos.
- Schatzi, você tem que aceitar logo que a Leen é uma legítima sonserina. Ela está simplesmente incrível nessa roupa. - a outra voz retrucou, em tom contemplativo. Percebendo a confusão dentro do quarto, Marg cutucou minhas costelas, sem muita delicadeza, chamando minha atenção.
- , você nos trouxe para um recanto de loucos. Ainda dá tempo de fugir e dizer que nos perdemos. - sussurrou, mirando o elevador do outro lado do corredor. Somente ri de sua proposta, embora concordasse levemente com sua consideração. Pelo o que conhecia de Alexis e Thomas, eles poderiam discutir por horas pelos motivos mais fúteis. E mesmo que eu concordasse com Müller, nesse sentido, já que todos deveriam ser inseridos no mundo de Harry Potter, não importava o quão cedo fosse, não tínhamos tempo para aquilo.
Assim, quando estava pensando em pegar o celular para avisar que estávamos estancadas na porta do casal, Thomas percebeu nossa presença, dando um grito animado e assustando a bebê que segurava em seu colo. Eu juro que vi um olhar de repreensão na feição dela, mesmo que isso não parecesse muito lógico.
- ! - veio em minha direção, mais rapidamente do que recomendado por estar com uma criança nos braços. - Que saudades! - abraçou-me lateralmente, ou melhor, tentou.
Aparentemente, Eileen não gostava muito de dividir a atenção do pai, já que empurrou meu rosto para o outro lado com seus braços gordinhos, afastando-me dele. A atitude da neném fez com que eu e Margot ríssemos, enquanto Thomas se dividia entre repreender a menina ou achar adorável. A risada de Marg, porém, acabou chamando a atenção do alemão, que não a conhecia.
- E você! Marlene, não é?! – questionou, animado, empurrando com um dos braços nós duas para adentrar o quarto que, sozinho, era 50% do tamanho do meu apartamento.
- Margot. – corrigiu, rindo do jeito do alemão, que somente se desculpou e logo tratou de pegar a bebê para que víssemos com maior atenção. - Prazer te conhecer, Müller. completou, ainda risonha.
Eileen era uma menina de seis meses. Eu apenas a conhecia por fotos e vídeos que Lexi costumava me mandar, mas já sentia um carinho gigantesco pela garotinha, principalmente pelo fato de saber que ela era um sonho para o meu casal de amigos.
A menina era uma mistura perfeita dos pais. Os cabelos ralos e castanhos e o nariz vinham da mãe, enquanto os olhos, de um azul vibrante, e a boca de lábios finos eram contribuição de Müller.
Eileen era adorável.
Enquanto o pai babão contava histórias de sua pequena e sobre como tentava fazer com que ela falasse papai antes de mamãe, Lexi apareceu, de repente. Sobressaltando os adultos e fazendo com que sua filha desse gritinhos em sua direção, pedindo o seu colo. A mulher estava vestindo um vestido leve e floral, com uma sandália rasteirinha simples nos pés.
- Vi que vocês já conheceram meu monstrinho. – disse, animada, pegando a menina no colo, que passou a alisar os seus cabelos de forma desajeitada. - E no seu caso, Margot, meus dois monstrinhos. - apontou para o marido, que fez uma cara de ultraje em resposta. - É um prazer finalmente te conhecer, menina! só sabe falar de ti. – falou, se aproximando da minha amiga com o intuito de abraçá-la.
Todavia, tal como tinha acontecido comigo minutos antes, Eileen também afastou o rosto de Marg para longe de sua mãe. Só que, ao contrário de Müller, Alexis não pareceu achar a atitude tão engraçada.
- Eileen Piovezan Müller! - exclamou para a menina, que não parecia minimamente abalada com a mudança de tom da mãe. - O Thomas fica dizendo para ela que ela deve ser uma verdadeira sonserina e aí essa menina fica danada desse jeito! - reclamou, fuzilando o alemão com o olhar que, de forma semelhante à filha, somente ignorou a esposa, pegando a menina de novo para si.
- Ela precisa fazer jus ao nome, schatzi. - explicou, caminhando para sentar na gigantesca cama de casal que se encontrava ali. - A mãe do meu querido Severo Snape! – disse, como se fosse óbvio, fazendo a mulher revirar os olhos e Marg e eu segurarmos o riso.
- Você não sabe como eu me arrependo de ter colocado esse nome na minha filha, Müller. – disse, cansada, como se já tivesse tido aquela discussão inúmeras vezes. O meu amigo somente riu e lembrou a mulher que eles tinham público.
- Desse jeito a Margot vai ficar assustada, Lexi. – repreendeu. - A já está acostumada. Inclusive, posso dizer que ela e o James eram bem pior que nós dois. – falou, distraído, soprando o cabelinho de filha e fazendo-a gargalhar.

Bebês e a sua estranha capacidade de rir de tudo.
- Thomas! - repreendeu o marido, que a olhou, sem entender. Entretanto, depois de uma conversa mental por alguns segundos, o rapaz pareceu cair em si e olhar para mim com um olhar culpado.
- Desculpa por falar do Ja… - porém, vendo o olhar duro da esposa, corrigiu-se. - Do seu ex-namorado. - disse pausadamente, olhando para a brasileira para ver se ela aprovava o termo. Quando recebeu um dar de ombros, prosseguiu. - Você tá bem, ? Com o lance do casamento e tudo mais.
- Vocês não precisam pisar em ovos para falar comigo, gente! - afirmei, olhando para o casal e para a minha amiga, que permanecia quieta. Sendo bem sincera, nunca havia visto Margot calada por tampo tempo. Aparentemente, a presença de um jogador mundialmente famoso a encabulava. Mesmo que não tivesse sentido isso quando conheceu James ou enquanto se enroscava com um dos jogadores do Real Madrid, quando tudo começou, lá na La Niña.
Vai entender.
- Eu estou maravilhosamente bem. - menti descaradamente, mas de um jeito bastante impressionante. Às vezes eu até me surpreendia pela minha capacidade de atuação. Mas, pelo visto, somente eu compartilhava dessa opinião, visto que os adultos daquele quarto me encaravam com o maior quê de incredulidade.
- Você mente e a gente finge que acredita, . - falou Margot, finalmente se fazendo presente. Apesar de que eu, pessoalmente, estava gostando mais de sua versão calada. -Só que como esse é um dia para esquecer dos problemas... - emendou antes que eu pudesse protestar sobre sua fala. - O colombiano é assunto proibido. - decretou de forma dura, criando coragem e fuzilando o casal com o olhar. Fofinha. Parecia um pinscher de lacinhos coloridos.
Discretamente, cutuquei seu braço, lançando-lhe um olhar agradecido, que foi respondido com uma piscadela.
Thomas e Alexis se encararam por alguns segundos, concordando em uníssono, pouco tempo depois, com a decisão de minha amiga. Não acreditava que Lexi fosse abordar o assunto, mas Thomas era mais próximo de James do que de mim, então era natural que acabasse se esquecendo que o amigo não estava sendo a minha pessoa favorita no momento.
- Enfim! - falou Lexi, dispersando o clima meio pesado que havia surgido no cômodo. - Vamos, meninas? - olhou para nós duas, que confirmamos com a cabeça. Ao ver nossa resposta, Lexi se virou novamente para o marido, proferindo instruções a serem seguidas que, pela postura do alemão, já haviam sido repetidas exaustivamente. Com isso, Thomas se levantou e foi nos empurrando levemente para fora do quarto, tomando cuidado com Eileen, que já apresentava sinais de sonolência.
- Sim, Lexi, não vou esquecer. - repetia, enquanto continuava nos empurrando. - É, eu anotei seu número da Espanha. - continuou, impaciente, finalmente conseguindo o seu objetivo de nos expulsar. Quando percebeu que nós três já estávamos do lado de fora, Müller deu um selinho na esposa, uma piscadela para mim e Margot e fechou a porta em nossa cara. Gritando um Tchau já dentro do cômodo.
Alexis, meio chocada com a atitude do marido, fez menção de voltar a bater na porta, sendo impedida por mim, que a puxei pelo antebraço para andarmos no caminho do elevador.
- Ele nem deixou eu me despedir da Eileen. - a brasileira dizia, consternada, seguindo a contragosto o caminho para a saída do hotel. Contudo, ao finalmente se deparar fora do local, Alexis levantou os braços em comemoração e foi correndo comigo e Margot para o local que eu tinha lhe dito ter estacionado meu carro.
Era hora de curtir Madrid, baby!

SEIS

40 DIAS PARA O CASAMENTO

No bailes sola
No te arriesgues sola
Déjate amar
Que nos llegó la hora (No Bailes Sola - Danna Paola part. Sebastian Yatrá)


Em meio a conversas animadas sobre assuntos diversos, dirigi por cerca de vinte minutos até o bar que havíamos escolhido anteriormente. O local estava mais para uma casa de karaokê do que para um barzinho propriamente dito, mas estávamos animadas com o lugar.
Alexis ainda não se sentia totalmente confortável em sair durante à noite depois que teve Eileen, mesmo que a criança estivesse com Thomas e que o rapaz insistisse para que a esposa saísse para se divertir. De acordo com o que minha amiga já tinha me confessado, ela tinha medo de que algo acontecesse com a menininha e, porventura, não conseguissem contatá-la. Confesso que era um pouco engraçado assistir a dinâmica dos Müller como pais, mas me sentia bastante orgulhosa dos meus amigos.
Por isso, buscamos selecionar um lugar que funcionasse durante o dia, mas permitisse tanta diversão quanto uma noitada de bebedeira. Bem, pelo menos o que nós considerávamos diversão.
Assim, depois de algumas deliberações, decidimos por um bar karaokê brasileiro que havia aberto há pouco tempo, mas que, conforme as pesquisas de Alexis, era bastante famoso entre a comunidade latina na Espanha.
Ainda estava cedo, então não tinham muitos carros por ali, o que eu agradecia muito, visto que odiava ter que procurar vagas, principalmente porque sempre as achava nos locais mais esquisitos e estreitos possíveis. Após desligar o veículo, as meninas e eu saltamos do carro e fomos em direção à entrada do lugar. Por fora, parecia como um lugar qualquer, com uma fachada de madeira que estampava o nome Rapsódia Karaokê Bar e um conjunto de portas francesas que pouco introduziam o espaço para quem estava olhando de fora.
Já dentro do local, um palco se destacava no meio do salão, sendo ocupado por um casal que cantava até que afinadamente alguma música que eu não conhecia. As mesas eram de madeira e comportavam sofás de couro - aparentemente confortáveis - para os clientes se acomodarem. A decoração, basicamente, era composta por bandeiras de países latinos emolduradas e quadros de alguns cantores conhecidos no continente, como Anitta e Nicky Jam. A iluminação, por sua vez, também era algo que se destacava. O ambiente todo era marcado pela mistura dos tons rosa e azul, dando uma atmosfera hipnótica e envolvente. Na minha concepção, as luzes serviam para mascarar o rosto das pobres vítimas dispostas a passarem vergonha no karaokê, o que já era bastante válido. Vamos nos humilhar, mas não tanto, né?!
Fui acordada dos meus devaneios com um cutucão de Margot, que indicou uma das mesas que já abrigava Alexis. Como ela sentou ali sem que eu visse, não era uma resposta que eu sabia dar. Segui, então, até o local que minha amiga estava e tratei de me jogar do modo mais confortável que consegui naquele sofá. Esperava que não fosse um daqueles modelos que deixava a bunda quadrada após muito tempo sentada.
- Não viemos muito desarrumadas, não?! - perguntou Margot, depois de nos acomodarmos. Olhando ao redor, tinha que concordar com a minha amiga. As poucas pessoas que ali estavam usavam mais do que roupas básicas, como vestidos colados e saltos altíssimos.
- Nah. - respondeu Lexi, abanando a mão displicentemente. - Não são nem quatro horas da tarde, eles que são os estranhos por estarem com esse tipo de roupa num karaokê. - disse, encarando sem muita discrição uma moça que parecia ter recebido grandes tapas nas bochechas de tanto blush que havia aplicado.
- É, pode ser. - me intrometi, em um tom indiferente. Havia aprendido a não ligar muito em parecer desarrumada nos lugares. Ninguém ali pagava minhas contas, então não era da conta de ninguém o modo como eu me vestia. Além disso, nada no mundo valia mais do que o meu conforto.
Não foi um processo fácil, mas era algo que eu tentava reafirmar diariamente. Nos meus anos de relacionamento com James, a mídia havia arrumado inúmeros jeitos de me diminuir, com inúmeras insinuações de que eu não era o suficiente para namorar um jogador de futebol famoso. Francamente, eu achava que toda essa exposição e a consequente invasão dos meios de comunicação sobre nossas vidas pessoais era algo restrito a rockstars e seus inúmeros affairs. Nunca havia acompanhado casos de manchetes tendenciosas para outros nichos, pelo menos não para as namoradas. Geralmente, quem acompanha futebol não se importa com a vida pessoal dos jogadores, o que torna ainda mais irônica toda a perseguição da mídia sobre mim e James. Mas, essa era uma ferida que já estava praticamente cicatrizada.
- Enfim, o que vamos comer?! - questionei, ignorando as regras de etiqueta e apoiando meus cotovelos na mesa.
- Já pensando em comer, ? - indagou Margot, em um tom divertido. - Acabamos de chegar.
- Claro. - respondi com obviedade. - A lactante ali... - apontei para Lexi. - Não pode beber. – enumerei. - Eu estou dirigindo e não posso me dar ao luxo de morrer em um trágico acidente de carro. – dramatizei. - Nem estou disposta, por enquanto, a me humilhar naquele palco. - apontei, olhando rapidamente para o lugar de que falava e vendo que o casal fora substituído por um homem. E que homem. - Então, por eliminação, o que me resta é comer. - conclui com obviedade, encarando a minha amiga com superioridade. Marg, em resposta, somente riu, acenando para um dos garçons que ali passava. Depois de fazermos nossos pedidos, nossa conversa foi cessada temporariamente devido ao estupor causado pela voz do homem misterioso. O homem que parecia uma versão latina do Ben Barnes tinha um tom rouco que fazia os pelinhos do meu pescoço se arrepiarem. Seu corpo balançava enquanto performava Robarte un Beso do Carlos Vives e do Sebastian Yatrá.
- Puta que pariu. - xingou Margot, encarando o desconhecido de forma lasciva. - Eu queria que ele me roubasse um beijo. Deixava roubar minhas roupas e até a minha dignidade. - dramatizou, desviando o olhar do rapaz para encarar a mim e a Lexi. Embora concordasse com a minha amiga, eu somente ri, enquanto Alexis deu mais corda à minha amiga.
- Se a minha câmara secreta não abrisse somente com um basilisco alemão, até eu deixava. – disse, brincalhona, causando gargalhadas gerais. Essa tinha sido uma das piores associações que eu já tinha visto, ao mesmo tempo que conseguia ser genial. Pelo menos era o que minha alma potterhead achava.
- Que merda de comparação foi essa, Müller? - questionei a brasileira, tentando controlar o ritmo da minha respiração.
- Eu também sei algumas referências de Harry Potter, minhas queridas. - piscou displicentemente. – Mas, sério, se eu fosse vocês, investia. - sugeriu, olhando de Margot para mim de forma incisiva. Enquanto isso, o misterioso moreno já havia deixado o palco, para nossa tristeza, e se encontrava a algumas mesas da nossa, com mais dois homens igualmente atraentes.
- Mesmo estando muito, muito tentada. - Marg falou, enfatizando o muito. - Acho que o bonitinho está de olho na . – afirmou, me cutucando sem discrição alguma. Ao que reclamei, ela continuou. - Olhem discretamente para o lado e vejam por si. - pediu. Mas, obviamente, não havíamos sido discretas o suficiente, já que ao nos virarmos, encontramos três homens nos encarando sorridentes, enquanto que o dono da voz bonita levantava o seu copo em nossa direção, propondo um brinde.
- Eu disse discretamente! - exclamou Margot, nos recriminando. - Agora eles vão achar que estamos interessadas!
- E vocês não estão?! - indagou Lexi, afastando o corpo um pouco da mesa para possibilitar que o garçom, que Deus sabe de onde surgiu, colocasse a comida diante de si.
- Estamos! – respondeu, um pouco mais alto do que provavelmente pretendia, já que olhou rapidamente para os lados. - Pelo menos eu estou. - enfatizou Margot, olhando para mim de soslaio. Eu propositalmente ignorava as minhas amigas, comendo uma porção de batatas rústicas despreocupadamente. Não havia ido até ali para arranjar sarna para me coçar, mas para me livrar da praga que já estava nas minhas entranhas há tempo demais. Sim, péssima comparação, mas eu realmente não ligava. - deve estar também, mas nunca irá admitir. - me acusou, enquanto eu só revirei os olhos e tratei de continuar a comer minhas batatinhas. Nossa, como aquilo era bom!
- Então, qual o problema deles saberem do interesse de vocês? - continuou Lexi, me mantendo na conversa.
- O raciocínio é um pouco óbvio, minha amiga brasileira. - falou Marg, tombando a cabeça um pouco para o lado, enquanto beliscava algo chamado de dadinhos de tapioca. - Homens nunca podem saber que temos tanto interesse quanto eles. - explicou, como se tivesse cheia de razão. - Porque aí damos a eles um poder que nunca deve estar com eles: a segurança de que nos afetam. - disse em tom sábio, dando um gole no copo de Coca Cola. - Aí, minhas amigas, eles fodem com nossos emocionais e nós ficamos cada vez mais inseguras e desconfiadas de tudo e de todos.
- É, você tem razão. - após ponderar por alguns segundos, concordou, comendo uma das coxinhas que havia pedido. - Felizmente, o Thomas sabe que se vier de gracinha, corto o amiguinho dele e dou para os cachorros do vizinho comerem, porque seria nojento dar para Pads e Snow. - deu de ombros como se estivesse falando do tempo, e não de uma esterilização forçada de seu marido. Sinceramente, às vezes Alexis me assustava. - E você, ? O que acha disso?
- Não tenho o que opinar. - dei de ombros, sincera. - Dando corda ou não, no final de tudo, terminaremos sozinhas, deitadas em algum tapete felpudo, assistindo Friends e tomando sorvete barato de chocolate. – falei, amarga. - Homem é tudo covarde.
- Nossa, quem foi o idiota que te deixou ter uma visão tão ruim do sexo masculino? - perguntou uma voz não tão desconhecida, fazendo as meninas e eu, principalmente eu, nos sobressaltarmos.
- Porra! - xinguei, depois de me recuperar do engasgo causado pelo susto. - Você tá doido, cara? - virei o rosto, com raiva, para encarar o desconhecido, encontrando um sorriso meio culpado, meio divertido. O homem de cabelos compridos vestia uma calça jeans de lavagem escura e uma camiseta branca, contrastando com a pele bronzeada. Os músculos eram bem definidos e o sorriso mostrava uma característica que, normalmente, me faria sair correndo: a capacidade de mostrar que não valia nada.
- Desculpa, nena. - falou, se sentando no espaço vazio ao meu lado. Ao ver a cena, encarei o rapaz com incredulidade, enquanto as minhas amigas seguravam o riso. - Mas é que eu não pude conter a minha vontade de vir falar com você, acredita?! - fez uma feição de falsa surpresa, me encarando com os olhos cor de mel.
- Aposto que podia. - respondi sem muita polidez, comendo mais uma batata. - Ninguém te avisou que é falta de educação interromper os outros, que nesse caso, são totalmente desconhecidas, no meio de uma refeição? - indaguei, ainda estupefata com toda essa situação. Aparentemente, só quem se encontrava assim era eu, porque as minhas amigas encaravam tudo com os olhos divertidos, sem qualquer menção de se intrometerem.
- Se disseram, eu esqueci. - disse, divertido. - E se você me disser seu nome, não será mais uma mera desconhecida. - sugeriu, comendo uma das minhas batatas. Uma. Das. Minhas. Batatas.
Um fato curioso sobre mim: eu odeio dividir comida. Nunca tive problemas em dividir bens materiais, mas comida não. Comida é algo sagrado. Agora eu já estava irritada.
- Você vem aqui do nada, senta com três desconhecidas, come a MINHA comida e ainda quer que eu me apresente?! - encarei o ladrão de comida de maneira indignada. - Qual o seu problema, cara?!
- ! - finalmente uma das minhas queridas amigas decidiu falar. - Não precisa ser grossa assim. - Margot me repreendeu, como se eu estivesse errada.
- Ah, então o seu nome é . - falou o indesejado, ignorando tudo o que eu havia falado. - Prazer, meu nome é Felipe.
- Só podia ser. - ouvi Lexi dizer. - Todo Felipe é descarado.
- Desculpe?! – perguntou, rindo. - Que preconceito é esse com o meu nome?
- Sem ofensas, mas nenhum Felipe vale alguma coisa. - deu de ombros. - Verdade consolidada por anos de experiência prática.
- Claramente vemos um exemplo vivo aqui. - apontei, olhando para o não mais tão desconhecido assim. - Além de tudo é sonso. - cutuquei, lamentando por não ter mais nenhuma batata no meu prato. Ainda teria se não fosse pelo meu adorado amigo.
- Além de linda, é toda debochada. - Felipe falou, se insinuando. - Acho que me apaixonei.
- Essas coisas só acontecem com a . - ouvi Margot sussurrar para Lexi, vendo a brasileira concordar com a minha amiga.
- O que você veio fazer aqui, Felipe?! – questionei, impaciente.
- Vim te chamar para cantar, claro. - falou como se fosse óbvio. - Tenho certeza de que será uma excelente dupla. - me bajulou, buscando apoio nas outras duas pessoas da mesa.
- Ah, eu não canto. – neguei, como se fosse um absurdo o que ele me pedia. O que realmente era. - Principalmente com desconhecidos.
- Mas não somos desconhecidos, . - apelou, usando o meu apelido. - Você já me conhece, sou o Felipe.
- Nossa, realmente. – debochei. - Já posso te considerar meu melhor amigo.
- Por favor, canta comigo, vai. - pediu, apoiando o rosto da mesa e me encarando com os olhos pidões. O homem era metido, descarado e egocêntrico, mas o desgraçado era lindo. Oh, Deus, o que eu fiz para merecer tanto sofrimento com o sexo oposto nessa vida?! - Juro que não vai se arrepender.
- Não. - continuei negando, completando rapidamente ao ver que ele iria continuar insistindo - Você não tem um amigo para cantar com você, cara?!
- Ter até tenho. - olhou para a mesa dele, apontando para os dois rapazes que nos encaravam com cara de pura diversão, como se não acreditassem que o amigo fosse tão cara de pau assim. Somos três, meus filhos. - Mas eu quero você.
- Vai, . - apoiou Lexi. - Qualquer coisa, a gente grava, manda para um programa de comédia e você fica rica passando vergonha. - concluiu em um deboche estampado, fazendo eu estirar minha língua para ela. Muito madura, eu sei.
- Você não vai desistir? - encarei o moreno ao meu lado, que negou com a cabeça. - Inferno. – suspirei, resignada - Mas só uma música, okay?! - pontuei com veemência, ao que Felipe concordou com a cabeça, abrindo um sorriso enorme.
Por que essas coisas estranhas só acontecem comigo?!

XX


Após seguir Felipe para o palco, percebi algumas pessoas nos encarando curiosas. Afinal, a estrela da noite estava indo para mais uma apresentação e, dessa vez, acompanhada de uma pobre coitado, vulgo eu. Chegando lá, o moreno me ajudou a subir a elevação e me colocou em sua frente, me encarando, ansioso.
- E aí, alguma sugestão? - questionou, virando-se para olhar uma longa playlist disponibilizada no iPad do estabelecimento.
- Você que me chamou aqui. - respondi, levemente desconfortável. - Se vira. - dei de ombros, sem me importar muito com a escolha de Felipe. Já estava ali mesmo, então o que me restava era aceitar o meu destino, independentemente da vergonha e da música em questão.
- Estava só esperando você responder isso. - disse, animado. - Tenho uma música muito boa. - completou, pretensioso.
- Tenho até medo de saber qual é. - suspirei, resignada. - Qual é?
- No Bailes Sola, conhece? - perguntou, ansioso.
- Quem não conhece?! - retruquei de forma retórica, um pouco mais animada com a escolha de Felipe. Pelo menos, era uma música que eu gostava muito. - Boa escolha. - admiti, vendo o sorriso do moreno aumentar, antes dele se virar para selecionar a canção no aparelho. Quando o rapaz finalmente clicou na música, pude sentir o meu estômago retorcer em nervosismo. Não costumava ser uma pessoa com muita facilidade para me apresentar em público, muito pelo contrário.
Nos trabalhos de escola e faculdade, sempre tive problemas nos seminários; não por não saber o conteúdo, mas por me enrolar na hora da apresentação e começar a surtar por ver que estava embananando todas as informações. Achei que isso poderia melhorar na faculdade de Direito, mas acabou piorando e, além do universo extremamente hostil, esse foi um dos motivos que me fez desistir do curso e seguir atrás do Design Gráfico. Não me arrependo das minhas escolhas e hoje eu consigo viver com as minhas dificuldades mais tranquilamente.
Balançando a cabeça em negação para dispensar esses pensamentos intrusivos e sob o olhar atento e curioso de Felipe, comecei a cantar.

(Play aqui!)

Volver al pasado no tiene mucho sentido
(Voltar ao passado não tem muito sentido)
No sé qué ha pasado, esto nunca lo había sentido
(Não sei o que aconteceu, nunca senti isso antes)


Comecei, ainda tímida, procurando os olhares de Alexis e Margot em meio às pessoas que ali estavam. Quando as encontrei, vi Marg fazendo um sinal de positivo e balbuciando algo como “Arrasa, amiga!” e Lexi me filmando com uma cara de orgulhosa.

Tú estás a mi lado y me olvido que estoy con él
(Quando você está comigo, eu esqueço que estou com ele)
Siento mil cosas en la piel, yo sé que nunca ha sido infiel
(Sinto mil coisas pelo corpo, sei que você nunca foi infiel)


Chegando na parte de Felipe, me virei para encarar o rapaz, que já me olhava intensamente. Quando ele finalmente começou a cantar, me senti levemente impactada pela sua voz sedutora soando tão de perto, como se realmente estivesse cantando para mim, e não só comigo.

No bailes sola
(Não dance sozinha)
No te arriesgues sola
(Não se arrisque sozinha)
Déjate amar
(Permita-se ser amada)
Que nos llegó la hora
(Chegou a nosso momento)


Voltando novamente para a minha parte, cantei encarando Felipe com a mesma voracidade que ele me encarava. Não estava mais nervosa como antes. Inexplicavelmente, parecia que eu estava na sala de minha casa, comendo com alguns amigos e passando vergonha no karaokê. Não que a última parte não fosse verdade, mas, nesse momento, eu me sentia solta.

No bailo sola
(Não danço sozinha)
Ya nunca bailo sola
(Eu nunca danço sozinha)
Te quiero besar
(Eu quero te beijar)
Intentémoslo ahora
(Vamos tentar fazer isso agora)


Felipe, dessa vez, segurou minhas mãos, como se fosse para ilustrar que eu realmente não estaria dançando sozinha. Sozinha como eu estava há seis meses, desde que havia rompido com James.

Sigues con ese bobo al lado que no suelta el telefono
(Você continua com aquele idiota do seu lado, que não solta celular)
Que se queda sentado, pero linda, conmigo no
(Que só fica sentando, mas, linda, comigo não é assim)
Conmigo, tú sabes cómo son las cosas
(Você sabe como as coisas funcionam comigo)
Parece una estrella, parece famosa
(Parece uma estrela, parece famosa)


Felipe balançava os quadris no ritmo da canção, me instigando a fazer o mesmo. Enquanto ele cantava, jurei ouvir alguns suspiros femininos e alguns incentivos vindos da mesa que o homem estava anteriormente com seus amigos.

No tiene idea de lo que puede perder (No, no, oh)
(Ele não faz ideia do que ele pode perder - não - )
Que tu sonrisa ya se fue
(Que o seu sorriso já se foi)
Y que a tus brazos, yo llegué
(Que o seu sorriso já se foi)


Cantei, me sentindo livre como há tempos não me sentia. Naquele momento, não existiam preocupações, nem James ou o seu casamento marcado. Ali, só havia e Felipe que, mesmo sendo um desconhecido atrevido e intrometido, estava me proporcionando uma sensação diferente. Era diferente porque não estava acostumada a me mostrar para tantas pessoas, pelo menos não espontaneamente. Então, naquele momento, eu agradeci por isso. Talvez, quando a música acabasse e a adrenalina desse trégua, eu sentisse uma grande vergonha e saísse correndo para o meu carro com o objetivo de chegar em casa o mais rápido possível. Poderia acontecer. Mas, naquele momento, eu me sentia grande e poderosa, como uma estrela.

¿Qué tengo que hacer pa' que te vuelvas mi mujer?
(O que eu preciso fazer para que você vire minha mulher?)
Si tú estás con otro que no te sabe querer
(Você está com outro, que não sabe te dar amor)


Felipe cantava como se estivesse se apresentando em algum show. Sua voz melodiosa, muito parecida com a do Sebastian Yatrá, ecoava de forma imponente no espaço do barzinho, como se fosse a dona do local.

¿Qué tengo que hacer pa' que te pueda convencer?
(O que eu preciso fazer para conseguir te convencer?)
Si tú estás con otra que no te sabe querer
(Você está com outra, que não sabe te dar amor)


No refrão, o rapaz me puxou para mais perto de si, quase me fazendo tropeçar nas minhas rasteirinhas, mas isso não o abalou.

No bailes sola
(Não dance sozinha)
No te arriesgues sola
(Não se arrisque sozinha)
Déjate amar
(Permita-se ser amada)
Que nos llegó la hora
(Chegou a nosso momento)


Mais uma vez, comecei a cantar com avidez, como se fosse a própria Danna Paola em meio a uma apresentação importante.

No bailo sola
(Não danço sozinha)
Ya nunca bailo sola
(Eu nunca danço sozinha)
Te quiero besar
(Eu quero te beijar)
Intentémoslo ahora
(Vamos tentar fazer isso agora)


A música já se aproximava dos versos finais e eu, no meu íntimo, já queria uma nova apresentação, com uma nova canção. Queria sentir novamente a liberdade que estava emanando de meu corpo em cima daquele pequeno palco.

Que no me escriba, que no te llame
(Que não me escreva, que não te ligue)
Si estamos solos, que nadie nos separe
(Quando estamos a sós, que ninguém que nos separe)
Con solo verte cambió mi suerte
(Só de te ver, mudou a minha sorte)
Sé que no me arrepentiré de conocerte
(Sei que não arrependerei de te conhecer)


No último verso, o moreno encarou os meus olhos, como se quisesse reafirmar a mensagem de letra. Não me arrependerei de te conhecer.

Quiero amanecer en tu cama
(Quero acordar na sua cama)
No puedo esperar a mañana
(Não posso esperar até amanhã)
Si el mundo se va a acabar
(Se o mundo vai acabar)
No perdamos el tiempo ya
(Não vamos perder mais tempo)


Confesso que me senti levemente envergonhada ao cantar que queria estar na cama dele, mesmo que não fosse na cama de Felipe mesmo. A música era intensa e mensagens poderiam ser interpretadas de maneiras equivocadas. O homem era lindo, não tinha como negar isso, mas não sabia se me sentia preparada para ir para a cama com alguém que não fosse James, por enquanto. E, sinceramente, eu não sabia nem o motivo disso estar passando pela minha cabeça. Era só uma música, por Deus. Eu nos últimos tempos estava muito emocionada. Parecia uma adolescente de doze anos lendo fanfics com seu ídolo cantor de boyband.
Mais alguns versos depois e a música finalmente terminou. Após a apresentação, pude ver e ouvir pessoas aplaudindo animadas e, ali, me senti verdadeiramente bem. Margot e Alexis davam gritinhos e exclamações com algo que identifiquei como “Essa gostosa é minha amiga!” e outras variantes. Olhei para Felipe, que me encarava de volta, e tentei repassar para ele o meu agradecimento pelo momento. Para muitos, isso não seria nada, mas para quem estava sofrendo há tempo demais, de um modo que conseguiu até estressar o meu gato, era importante. Era o primeiro passo para uma trajetória de libertação.
Alvárez não era uma parte de James Rodriguez. A era uma mulher foda para caralho que não precisava estar com homem algum para se sentir completa. Óbvio que ainda queria a presença do colombiano e que, por algum motivo, ele percebesse que a Verona não era mulher para ele e voltasse para mim. Mas, se isso não acontecesse, estava tudo bem. Eu era muito além do que uma namorada de jogador de futebol. Eu era a mulher da minha vida e iria lutar por ela. Assim, aceitei a mão de Felipe e desci na mesa em direção às minhas amigas.

XX


- PUTA QUE PARIU, ! FOI SIMPLESMENTE INCRÍVEL! - Margot falou. Lê-se, berrou, quando eu cheguei perto o suficiente delas, levantando-se para me abraçar. Lexi, por sua vez, permaneceu sentada, mas sua fala era tão animada quanto a da minha amiga.
- A química de vocês dois, meu amigo, é surreal. - falou a brasileira, olhando de soslaio para a mesa vizinha, que se encontrava Felipe. Após o fim da apresentação, o rapaz me deu um beijo na bochecha e, com uma piscadela, seguiu para a mesa de seus amigos que, como as minhas, davam gritos de zombaria e tapinhas nas costas do rapaz.
- Foi só uma música, gente. – falei, como se não fosse nada, bebendo um copo de água que Margot havia me estendido. - Tanto que ele nem está mais aqui. - dei de ombros.
- Deixa de baboseira, - falou Margot, impaciente. - Você não vai pegar o número dele?
- Número? - arqueei a sobrancelha em confusão. - A gente só cantou junto, por Deus. Não quer dizer que vamos para a cama. - falei como se fosse óbvio.
- Claro que não. - negou Lexi. - Mas vocês podem simplesmente conversar, né?! - ponderou a brasileira. - O cara claramente está afim de você, ou ele não viria te encher o saco para cantar com ele.
Nisso eu tinha que concordar com a minha amiga. Todavia, eu não iria atrás dele. Se ele me achou a princípio, podia vir atrás mais uma vez.
- Você que sabe. - falou Lexi, simplesmente. - Agora lá vou eu mostrar um pouco de cultura para vocês, europeias safadas. - disse em brincadeira, jogando o cabelo para trás. - Quem já viu um barzinho brasileiro que não toca música brasileira?! - indagou em ultraje, levantando e indo em direção ao palco que eu estava há poucos minutos.
Quando Lexi saiu de nosso campo de visão, Margot logo tratou de falar.
- Seu telefone não parou de tocar, . - falou, fazendo com que eu franzisse meu cenho em confusão. - Não mexi nele, ainda está na sua bolsa. - indicou, me entregando a bolsa branca que estava ao seu lado, junto com as bolsas da mesma e de Alexis. Ao finalmente achar o objeto, senti um leve retorcer no meu estômago, encarando as notificações de ligações perdidas e mensagens não lidas. Eu conhecia aquele número. Nunca havia bloqueado James, mas havia excluído o seu número com a esperança que o tempo também me fizesse esquecer de seu contato e da sua importância em minha vida. Claro que isso nunca deu certo, mas valia a pena tentar.
, você tá aí?”
“Descobri quem te mandou o convite, posso te ligar?”
, tentei te ligar algumas vezes, mas como não atendeu, presumi que está ocupada.”
“Acabei de ver os stories dos melhores amigos de Lexi. Sempre te disse que sua voz é maravilhosa, nem esse cara estranho conseguiu ofuscar o seu brilho”
“Divirta-se aí, mas quando puder, retorne as minhas ligações, por favor. Precisamos conversar.”


E essa era a última mensagem, enviada há cerca de três minutos. Suspirei, pensando se deveria retornar o contato de James agora. Não sabia se queria mergulhar naquele momento na mistura de sentimentos que o colombiano me trazia. Todavia, antes mesmo de tomar alguma decisão, senti uma presença ao meu lado.
- Para quem não queria cantar, você deu um show, hein?!- Felipe falou, brincalhão, colocando o braço folgadamente ao redor dos meus ombros. Folgado.
- Ela nega até o fim, mas adora esse tipo de coisa, Felipe. - intrometeu-se Marg, causando uma careta em mim.
- É por isso mesmo que eu estou aqui. - falou displicentemente. - Para fazê-la admitir que quer o meu número tanto quanto eu quero o dela. – provocou, malicioso. Somente revirei os olhos em descrença.
- Você é muito idiota, sabia disso?! – perguntei, emburrada, para o moreno, que ainda não havia retirado o braço de meus ombros. - Claro que eu gostei de cantar com você, mas isso não quer dizer nada. - falei com uma convicção que não era minha.
- Sei, zinha. Sei. - falou em descrença. - Vamos ver se até o final da música da sua amiga você muda de ideia. - indicou Lexi, que só agora iria cantar a canção que havia escolhido.
Assim, enquanto ouvia minha amiga começar os versos de Eu Não Sou Boa Influência Pra Você, de um grupo brasileiro da cidade de Alexis, que ela havia me apresentando quando eu ainda morava em Munique, passei a ponderar o que eu faria naquele momento.
Eu realmente tinha que retornar o contato de James, tanto porque tínhamos assuntos pendentes acerca do nosso relacionamento, quanto pelo fato de eu estar curiosa em saber quem foi que mandou o bendito convite de casamento do rapaz para mim. Só que ali, naquele momento, eu tinha Felipe, um completo desconhecido que apenas tinha feito um dueto comigo, mas demonstrava interesse em me conhecer mais um pouco. Não estava interessada em conhecer novas pessoas, no sentido romântico da coisa, até porque não achava justo me envolver com alguém enquanto ainda estava apaixonada por Rodriguez. Mas, queria viver novamente, pelo menos um pouco, da sensação que senti enquanto cantava em cima daquele palco. A sensação de que não tinha problemas para resolver e um peso no coração que não saía. Assim, decidi ceder para Felipe e dar o meu número para o rapaz, fazendo com que ele abrisse um sorriso lindo. Margot somente sinalizou que era uma excelente ideia, me dando uma piscadela em apoio. Eu poderia responder James depois, quando chegasse em casa. Eu já não era mais prioridade em sua vida, então não tinha para que colocá-lo nesse patamar na minha.

Siete

40 DIAS PARA O CASAMENTO


Mais uma história com final
Mais um coração partido
Um novo fim para um amor normal
Mais um choro sem sentido

(Desde Quando Você Se Foi - Fresno)


POV James Rodriguez

Os últimos dias foram muito confusos. Sendo bem sincero, não só os últimos dias, mas os últimos meses.
Encontrar no aniversário de Salomé somente intensificou toda a confusão que estava permeando dentro de mim.
Eu não havia pensado na possibilidade de ver minha ex-namorada tão precocemente e, muito menos, de ter algumas verdades jogadas na minha cara de modo tão cru e ressentido. O olhar magoado da mulher que achei que seria minha para sempre, tocou em um lugar mais profundo do que eu imaginei que seria capaz.
Eu sabia que tinha todos os motivos do mundo para guardar rancor de mim. Afinal, para ela, eu havia jogado toda a nossa história para o alto e, de repente, assumi um relacionamento com outra. Mas, não era bem assim.
A verdade era que o nosso namoro já não ia bem há mais tempo do que, de fato, contava o nosso término. Não sei bem em que momento havíamos nos perdido, mas não conseguia mais enxergar na mulher todos os planos que havíamos feito.
Salomé gostava de fazer manha sobre como gostaria de ganhar um irmãozinho e, na sua frente, apenas desconversávamos, já que conhecíamos muito bem o gênio da menina e tínhamos noção de que uma afirmativa seria o nosso fim. A pirralha jamais nos deixaria em paz enquanto não houvesse realmente uma gravidez.
Todavia, em conversas de travesseiro, depois de nos entregarmos da forma mais pura e intensa que alguém pode se entregar, a possibilidade de um filho nosso era real. Eu sempre quis ter uma família grande e era a mulher da minha vida. Não havia ninguém melhor para ser mãe dos meus filhos. Nem mesmo com Daniela, que havia sido minha esposa e a primeira mulher para qual eu verdadeiramente me entreguei, eu tinha aquela certeza. Só que, infelizmente, a vida mostra não ser justa mais vezes do que é considerado saudável.
Os primeiros meses do nosso relacionamento foram incríveis. era a mulher mais linda, inteligente, prestativa e carinhosa que eu já havia conhecido, mesmo que ela negasse veementemente ser a última coisa. Até que o furacão Ospina surgiu e toda uma novela se desenrolou por conta disso. Dani guardava rancor de mim por toda a ausência que impus durante os nossos anos de relacionamento, o que não melhorou muito com a chegada de Salo. Eu queria mais do que tudo alcançar melhores resultados na minha carreira e acabava esquecendo que o futebol não era a única coisa que importava.
Ospina fazia de tudo para que Salomé não sentisse a minha falta, ao mesmo tempo que jogava em minha cara como eu estava sendo um pai e um marido de merda.
Não tinha como me defender, afinal era bem isso que eu estava mostrando para minha esposa e filha. Eu mal parava em casa por causa da exaustiva rotina de treinamento e jogos e, quando finalmente havia folga, preferia me desestressar em algum dos bares exclusivos de Madrid. Assim, o divórcio foi inevitável.
Embora não tenha conseguido consertar toda a bagunça que havia feito com o meu casamento, eu tinha a certeza de que já não era o otário que era antes com a minha filha. Eu daria a minha vida por aquela criança e queria deixar bem claro para Salo que ela teria o pai dela para todos os momentos. Não poderia fracassar no que era o projeto mais importante da minha vida.
Com o obstáculo Ospina superado, tivemos que lidar com a minha mudança para Munique. Me frustrava o fato de que não estava conseguindo angariar os resultados que precisava dar ao meu time e, por isso, estar sendo emprestado como se fosse um fardo para se lidar. Era uma merda se sentir como uma peça descartável e sem utilidade dentro da equipe que sempre foi meu objetivo chegar. Então, ir para o Bayern era a minha chance de mostrar que o James Rodriguez, artilheiro da Copa de 2014, estava dentro de mim, e que ele era foda com uma bola nos pés. E, sinceramente, achava ter conseguido bons resultados na equipe bávara. A adaptação não foi fácil, obviamente. Um novo país, idioma, clima e vestiário… Foi realmente uma mudança bastante abrupta. Mas, eu tinha ela. foi o meu maior apoio daquele período e afirmo com convicção que, se não fosse por ela, eu não teria aguentado passar por tudo que passamos.
Só que, em mais uma brincadeira sem graça de nossas vidas, o empréstimo com o Bayern acabou e voltamos para Madrid quando finalmente havíamos nos acostumado com todas as nuances de estar na Alemanha.
Depois disso, parecíamos estar descendo de tirolesa para um abismo sombrio. Os jornais de Madrid eram conhecidos pelo sensacionalismo e, por algum motivo, os tabloides cismaram com o meu relacionamento. Gostavam de pontuar como parecia deslocada do meu mundo, seja por seu jeito mais despojado e indiferente, seja por, simplesmente, ser algo além de uma namorada vitrine. Manchetes maldosas com nossos nomes foram sendo criadas uma atrás da outra apenas com o intuito de causar. Chegaram ao ponto de afirmar que os meus inconstantes resultados no Real Madrid se davam pela displicência da para comigo.
Totalmente absurdo.
Eu ignorava esses comentários o máximo que podia. Não estava acostumado com toda essa atenção negativa na minha vida pessoal, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Eu havia comunicado a minha equipe jurídica para ver se tinha como processarmos os veículos de comunicação ou algo do gênero, mas fui desaconselhado por três advogados diferentes. Aparentemente, processá-los só daria mais munição para o ataque e eles nunca nos deixariam em paz. Assim, só nos restava ignorar os burburinhos e esperar alguém trair alguém ou raspar a cabeça em surto.
Só que não conseguia abstrair essa atmosfera negativa.
Minha namorada começou a se achar insuficiente e, assim, todo o ciúme começou. O que era leve, ficou insuportável.
me ligava a cada 30 minutos para saber com quem eu estava e o que estava fazendo. Toda a confiança que havíamos construído em anos de relacionamento pareceu evaporar de uma hora para outra. Mas, eu a amava e sabia que era recíproco. Também entendia o motivo de todas as inseguranças, mas não era fácil suportar. No trabalho, precisava lidar com as cobranças rudes de Zidane e dos torcedores, e em casa, lugar que antes era meu refúgio, vivia com as constantes alegações e desconfianças de traição.
Eu estava exausto e não sabia se tinha mais forças para lutar pelo meu relacionamento.
Então, um dia, me mandou embora e eu fui.
Posso dizer com tranquilidade que foi uma das decisões mais dolorosas que já havia tomado. O amor estava ali, obviamente. Eu nem sabia se algum dia seria capaz de deixar de amar e de abandonar a sensação de que ela era a mulher da minha vida. Mas, não tínhamos mais como continuar nos termos em que estávamos. Eu tinha medo de que uma das fases mais bonitas da minha vida fosse manchada pelo desgaste que havíamos infligido a nós mesmos. não merecia isso. Nós não merecíamos isso.
Por isso, não me arrependi de ter ido embora. Mas, em alguns momentos, deitado em minha cama antes de dormir, vinha o arrependimento de não ter voltado.
Salomé, Juana, meus pais e até Daniela constantemente afirmavam que eu havia sido burro e inconsequente. Argumentavam que eu não poderia jogar para o alto tantos anos de relacionamento assim. Mas a minha decisão havia sido definitiva. e eu éramos passado, pelo menos por um tempo.
Só que, nesse período, uma nova variável surgiu em minha vida. Verona.
A mulher era modelo contratada da Calvin Klein, marca para a qual eu, ocasionalmente, fazia alguns trabalhos. E em um dos incontáveis ensaios fotográficos, eu a conheci.
Verona era linda. O tipo de mulher que Juana definiria como saída de algum filme clichê do tipo As Patricinhas de Beverly Hills. Não era o padrão de mulher que eu costumava me relacionar, mas gostei dela. Tínhamos gostos em comum e, como eu, ela também havia terminado um relacionamento longo, com um cara que namorava desde a época do colegial.
Então, não demorou muito para eu chamá-la para sair. Não que eu achasse certo usar a loira como estepe emocional, mas havia deixado claro que meus sentimentos por não haviam acabado e, por ela, estava tudo bem. Tempos depois, fomos flagrados por paparazzis e, assim, assumimos um namoro para o público.
Verona era divertida, embora gostasse de vestir uma máscara de fútil e desagradável na maioria das vezes. Não gostava muito de crianças também, mas para mim isso não era exatamente um obstáculo, já que não pretendia seguir com nada mais sério com ela ou sequer introduzi-la na vida de Salomé. Irônico pensar que apenas dois meses depois de assumirmos um relacionamento, estaria preparando convites de casamento.
Eu não tinha memórias muito concretas acerca do famigerado dia do pedido. Somente lembrava de ver algumas publicações de Margot, no Instagram, em que aparecia tão bonita, tão leve e feliz, de um jeito que eu não via há um bom tempo. E aquilo me doeu.
Egoísta para caralho querer, inconscientemente, que a minha ex ficasse mal quando eu mesmo já estava em outra, eu sei disso. Mas, não consegui evitar a avalanche de sentimentos ruins. Naquela noite, aproveitando que não tinha nenhuma partida marcada, chamei Verona para beber todo tipo de coisa que havia na minha adega. Depois disso, tudo o que me vinham eram flashes. Flashes de nós dois transando em qualquer superfície do meu apartamento e falando bobeiras. Até que, em algum momento, eu soltei a frase que mudou tudo.
- Sabe o que seria muito louco, Vee? - questionei com a língua enrolada, sentindo os efeitos da bebida me atingirem em cheio. A loira, em resposta, balançou a cabeça em negação, me instigando a continuar. - Se a gente se casasse. - falei simplesmente. Verona, por sua vez, virou o corpo desnudo para mim, franzindo o cenho como se pensasse na ideia. - O que você acha?
- Casar, James? - riu mole, sentindo, como eu, os efeitos da bebida. - É, pode ser… - deu de ombros, como se estivesse confirmando o jantar da noite, voltando a deitar a cabeça em um dos meus travesseiros. - Senhor e Senhora Rodriguez. - me cutucou com uma de suas unhas gigantes, fazendo-me arrepiar. - Até que não soa ruim.
- É… - disse, sonolento, já sem prestar atenção na mulher ao meu lado. Em poucos minutos, caí em um sono profundo e sem sonhos, acordando horas depois com a maior ressaca moral que já havia vivenciado na vida. Eu estava noivo.
Obviamente, eu pensei em desmanchar toda aquela situação. Não se deveriam levar em conta declarações de bêbados, muito menos pedidos de casamento. Por alguns dias, eu simplesmente ignorei o assunto, torcendo para que Verona também não se lembrasse de nada. Mas, aparentemente, essa era a única coisa daquela noite que a loira não havia apagado da memória. Sorte a minha.
Contudo, depois de pensar muito e analisar os prós e os contras, eu cheguei à conclusão de que poderia tentar.
Eu vivi dois relacionamentos intensos em minha vida, com muitos anos de duração, e ambos terminaram com muita dor e mágoa. Talvez a fórmula do sucesso fosse embarcar em algo novo, sem muita prisão emocional e cobranças. Talvez desse certo com Verona. O fato de ela não curtir muito crianças poderia ser revertido. Alguns amigos meus que tinham aversão a pirralhos mudaram totalmente as suas percepções ao conhecerem Salomé. O jeito esperto e carinhoso da criança era capaz de derreter até o mais peludo dos corações. Poderia acontecer o mesmo com Verona. Além disso, não é como se vivêssemos no século XVIII e eu tivesse que manter um casamento pelo resto da minha vida, com perigo de levar um tiro na testa do pai da noiva, caso cogitasse a separação. Ross Geller mostrava para a população mundial há mais de 20 anos que divórcios eram naturais.
Claro que não foram muitas as pessoas que concordaram com o meu ponto de vista.
Meus pais enlouqueceram. Falaram que era um absurdo completo que eu apenas cogitasse a ideia de me casar com uma mulher, em suas palavras, aleatória, por puro medo de me envolver em algo mais concreto e me machucar novamente.
Por sua vez, Juana me xingou de todos os palavrões que conhecia - que eram muitos - e disse que se eu não fosse um covarde, desgraçado do caralho, não precisaria casar com Verona porque estaria com a mulher que eu realmente amava.
Fora isso, ainda recebi críticas de praticamente todos os meus amigos. Müller e Lewandowski me chamaram de cuzão e de sem noção, afirmando com veemência que eu já deveria saber que casamento não era brincadeira e que um divórcio não era somente uma certidão.
Ramos e Marcelo, os jogadores de quem eu era mais próximo dentro do Real Madrid, endossaram as opiniões e adicionaram que eu provavelmente estava fazendo a maior merda da minha vida. Mas eu apenas os ignorei e segui com a minha decisão. Como Juana gostava de argumentar, como bom canceriano, minhas decisões eram mais baseadas em emoções do que na boa e velha lógica. Não que eu acreditasse nessa baboseira de astrologia, mas quanto mais variáveis estivessem ao meu favor, melhor para mim. E eu segui com essa percepção, estando, inclusive, muito certo dela até o aniversário.
Encontrar não estava nos meus planos. Sentir o impacto da presença da espanhola estava menos ainda. Achá-la a mulher mais bonita do local, enquanto vestia uma calça jeans, uma blusa qualquer e tênis também me mostrou que eu estava fodido. Era fácil abafar os meus sentimentos pela mulher quando ela estava longe, mantendo apenas um contato casual com Salomé, que era a maior fã do nosso relacionamento. Mas com ela ali, tão perto, ficava praticamente impossível fingir que ela era passado. Conversar com a mulher, mesmo que palavras breves e ressentidas, trouxe de volta um sentimento de nostalgia que apertava meu peito de forma dolorosa. E, no meio disso tudo, ainda tinha a questão de que alguém havia enviado o convite do meu casamento para ela.
Confesso que, em um primeiro momento, cogitei veementemente que Verona havia feito isso. Mesmo que eu nunca mais tivesse tocado no assunto e nos meus sentimentos por ela, havia ainda aquele elefante branco que não se dissipava. A verdade era que eu não sabia o porquê de Verona ter aceitado se casar comigo e os motivos de continuar nessa loucura. Mas a teimosia era compartilhada e íamos continuar com tudo isso. Juntos.
Quando eu questionei a modelo sobre o convite misterioso de , por sua vez, a sua feição ofendida e até magoada me fez entender que não, não havia sido Verona a pessoa a enviar o convite para . Olhando atentamente, nem fazia muito sentido, já que a loira não tinha o endereço da espanhola e não acreditava que a minha família, tão desgostosa com a nossa relação, fornecesse essa informação sem mais nem menos. Todavia, a negativa em vez de me deixar aliviado, me trouxe frustração. Tornou-se pessoal a empreitada de descobrir quem havia feito isso, já que achava que só assim teria a certeza de que eu não tinha nada a ver com essa situação. Então, quatro dias após o aniversário de Salomé, em uma conversa com a minha mãe, eu havia descoberto quem tinha enviado o convite.

Flashback On

Frustração era o sentimento que me definia. Após uma conversa turbulenta com Verona, eu havia dirigido para a casa dos meus pais, em Toledo, para simplesmente desabafar. Os últimos dias estavam me consumindo de um jeito que eu só queria poder deitar por uma semana, sem pretensões de levantar da minha cama antes de ser confundido com uma das partes do móvel. Fora todos os aspectos da minha vida pessoal, ainda tinha o agravante profissional. Zidane deixava claro que eu não estava em seus planos táticos e era foda ter que lidar com isso. Eu já não era titular dos jogos, sendo que em alguns nem escalado para a partida era mais. E isso era extremamente desgastante. Não tinha mais argumentos para debater com o francês, já que eu realmente não vinha conseguindo manter uma constância nas partidas disputadas, fazendo valer a minha vaga. Nisso, aparentemente, mais uma mudança seria inevitável. O Everton já havia demonstrado interesse e os tabloides estipulavam que o time inglês tinha uma proposta de cerca de 25 milhões de euros por mim, bem menos do que os 80 milhões que o Real havia pago em 2014 para me tirar do Mônaco. Era isso. Eu realmente estava perdendo o meu valor.
Eu não havia nem comentado sobre o assunto com Verona, desconversando quando ela vinha me questionar sobre a veracidade das notícias sobre mais uma transição de equipe. Eu sabia que era algo que eu precisava comentar com a mulher que era a minha noiva, mas o meu desinteresse acabava falando mais alto sempre que eu cogitava falar do assunto. Eu estava realmente exausto. Nesses momentos, a falta de chegava em níveis absurdos. A mulher sempre tinha uma palavra bonita e um abraço quentinho para me oferecer nas piores situações. Mas, se ela não estava mais em minha vida, a culpa era minha e eu precisava lidar com o peso das minhas escolhas. Assim, desliguei o carro quando avistei a casa de fachada amarela, com um pequeno, mas bem cuidado jardim na região frontal.
Quando me separei de , havia comprado uma casa em um condomínio fechado relativamente próximo ao Santiago Bernabéu, deixando para trás o apartamento que dividia com a minha namorada. Nisso, eu havia oferecido aos meus pais uma casa no mesmo local, para que pudessem ficar mais próximos de mim. Eu realmente sentia falta deles no meu dia a dia. O casal se dividia entre a Espanha e a Colômbia e eram poucos os momentos que tínhamos juntos. Mas, honrando a teimosia do sangue Rodriguez, ambos negaram a oferta, afirmando que não largariam a tranquilidade de Toledo pela tumultuada Madrid. Por isso, eram constantes as minhas viagens para a antiga cidade medieval.
Andando pelo curto caminho até a porta de madeira, me peguei pensando no que exatamente eu falaria com meus pais. Falar de Verona para ambos era furada. Nenhum dos dois gostava da loira e muito menos apoiavam o noivado. Citar também era um terreno perigoso. Ao contrário do que sentiam pela modelo, Maria e Juan Carlos tinham a espanhola como uma segunda filha e, por isso, me questionavam diariamente o porquê de eu estar com outra pessoa.
Suspirando resignado e tentando manter a minha mente clara, toquei a campainha da casa, sendo atendido pouco tempo depois.
- James! - disse a minha mãe assim que percebeu que era eu quem estava na porta. - Entre logo, hijo! - mandou, me empurrando para dentro após me soltar de nosso abraço. Maria Del Pilar Rubio era uma mulher bonita de traços jovens. Não que eu entendesse muito de procedimentos estéticos ou de qualquer coisa do tipo, mas minha madre em pouco transparecia a idade que tinha. - Seu pai foi no mercado, mas logo mais ele volta! - Juan não era exatamente o meu pai, mas padrasto. O homem era parente somente de Juana, mas nunca havia feito distinção entre nós dois e o sentimento que eu tinha para com ele era realmente de pai e filho. Era muito grato pelos anos vividos e pela criação dele. Juan Carlos era o meu pai e nenhum exame de DNA negaria isso.
Quando finalmente nos acomodamos no grande sofá branco que estampava no meio da sala, minha mãe começou a falar.
- James, meu filho, está tudo bem? – indagou, preocupada, alisando meus cabelos carinhosamente. - Está tão quietinho e calado…
- Só muita coisa no trabalho, mãe. - sorri fraco, simplificando bastante a situação na qual eu estava imerso. - Tá tudo bem. Sério. - reafirmei ao ver a colombiana arqueando a sobrancelha em descrença.
- Você saiu de dentro de mim, Jay. - disse em repreensão. - Não tem como você me enganar. - continuou. Ao ver que eu iria retrucar, prosseguiu - Mas, se você não quiser me falar nada, tudo bem. – suspirou, cansada.
- Obrigado. - agradeci, fechando os olhos com força. - Tá tudo meio confuso nesses últimos tempos…
- A vida é confusa, meu filho. - falou, simplesmente. - Cabe a nós trilharmos caminhos e escolhas que transformem essa confusão em certezas. - declarou, dando um peteleco de leve em meu nariz. Gesto que costumava fazer quando eu era somente um pirralho. Mais uma vez, assenti em silêncio, permanecendo de olhos fechados. Vendo que eu não continuaria falando, minha mãe chamou minha atenção novamente.
- Juana me disse que a foi para o aniversário de Salo. – falou, como quem não quer nada. Abri meus olhos rapidamente, encarando a morena que tinha um sorriso esperto no rosto. - A sua confusão tem a ver com isso, não tem?!
- Talvez. - suspirei, sem querer admitir. - Não esperava ela lá.
- Como assim não esperava, James?! – questionou, indignada, como se eu tivesse proferido um sacrilégio. - Não é porque você é meio fraco de inteligência e terminou com aquela mulher incrível, que nós tenhamos que tirar ela de nossas vidas também. – afirmou, resoluta, fazendo-me arquear a sobrancelha em resposta ao fraco de inteligência. Isso era eufemismo para burro?! - é e sempre será a madrasta de Salomé e não importa com quem você se relacione nesse meio tempo. Principalmente se for com aquela tal de Verônica…
- Verona, mãe. - corrigi, enquanto a mais velha cerrava os olhos. - O nome dela é Verona.
- Verona, Verônica, Vanderleia… - pontuava com descaso enquanto rolava os olhos. - Não muda o fato de que ela não é mulher para você, meu filho.
- Por favor, mãe. - pedi, cansado. - Hoje não.
- Você em algum momento vai ter que cair em si, James. Pensei que o convite que eu enviei para iria fazer alguma diferença, mas pelo visto… - continuou falando, mas eu não conseguia mais prestar atenção. Minha mãe havia enviado o convite para ?!
- Calma aí. – levantei, impaciente. - Você enviou o convite para a ?!
- Claro que fui eu, James. - cruzou os braços, parecendo que ela era a filha naquela situação. - Quem você achou que teria feito isso?!
- Não importa quem eu achei que fosse, mãe. – dizia, afobado, andando de um lado para outro na espaçosa sala de estar dos meus pais. - Você não tinha o direito de fazer isso! - briguei, elevando a minha voz por um instante.
- Pode ir abaixando o seu tom, mocinho! - mamãe levantou também, utilizando um tom duro que costumava usar quando iria me colocar de castigo. - Eu sou a sua mãe e você me deve respeito!
- Tá, tá, que seja. - revirei os olhos, o que pareceu irritar mais velha. - Desculpa, mamãe. - falei a contragosto, aceitando a mão dela para voltar a sentar no sofá.
- Agora que estamos civilizados novamente, eu vou falar. - começou, sem dar espaço para respostas. - Eu mandei o convite para porque achei que assim ela iria atrás de você. E, desse modo, você iria cair na razão e desistir dessa ideia absurda de se casar com aquela garota. - explicou, como se fizesse muito sentido. Eu era uma pessoa calma. Eram poucos os momentos que me causavam estresse, mas eu simplesmente odiava que se metessem na minha vida.
Eu já tinha que lidar com isso diariamente por causa da profissão que havia escolhido. Tinha perdido a mulher da minha vida por causa de intromissões alheias, então ver isso acontecendo embaixo do meu nariz, mesmo que fosse com boas intenções, me deixava puto da vida.
- Não importa o que você achou, mãe. - balancei a cabeça em negação. - Você não tinha o direito de se meter assim na minha vida. Eu não sou mais uma criança.
- Não vou pedir desculpas por tentar colocar um pouco de juízo nessa sua cabeça, James. – disse, teimosa, me encarando com os olhos que eram iguais aos meus. Rolando os olhos em indignação, somente assenti, levantando e indo atrás das minhas chaves para ir embora. Eu precisava de ar.
- Para onde você está indo, James?! - escutei a voz da minha mãe enquanto rumava para a saída da casa. - Espere pelo menos o seu pai chegar…
- Eu preciso de um tempo. - falei, sem ao menos olhar para trás. - Conversamos melhor depois. - decretei, fechando a porta e dando uma corridinha até o meu carro, para não dar chances de minha mãe ir atrás de mim. Eu precisava muito de espaço.

Xx


Dirigindo para a minha casa, pensei em tudo que havia descoberto na casa dos meus pais. Embora parecesse um motivo bobo e até altruísta, realmente me irritava a mania da minha mãe em querer se meter em todos os aspectos da minha vida. Principalmente em coisas que não lhe diziam o menor respeito.

Tentando respirar fundo, coloquei para tocar algumas playlists que mais gostava, cantarolando as letras conhecidas com relativa animação. Estrella no Nicky Jam apareceu em algum momento e me acertou em cheio com lembranças do meu relacionamento com e também da última vez que havia cantado essa música para ela, no aniversário de Salomé.
Eu tinha avisado que iria ligar para informá-la quem havia enviado aquele convite para ela e, assim que chegasse em casa, era isso que eu iria fazer. Suspirei mais aliviado quando avistei os grandes muros que cercavam o condomínio que morava, rumando apressadamente para a minha casa. Chegando na residência que, com certeza, definiria como extremamente impessoal e sem personalidade, estacionei o meu carro de qualquer jeito e desci rapidamente. Ainda errei algumas vezes a entrada da chave na fechadura, mas respirei aliviado quando finalmente me vi no lugar que há alguns meses chamava de lar.
Jogando meus tênis de qualquer jeito pela sala, peguei o meu celular para discar os números que me eram tão conhecidos e que acreditava não ser capaz de esquecer.
Uma, duas, três ligações e nada. não me atendia. Franzi o cenho em confusão, decidido a mandar uma mensagem para ela.

, você tá aí?”
“Descobri quem te mandou o convite, posso te ligar?”


Permanecendo sem respostas, mandei mais uma mensagem, já ficando meio preocupado. Será que ela estava me ignorando de propósito?

, tentei te ligar algumas vezes, mas como não atendeu, presumi que está ocupada.”


Mandei por último, decidido a não enviar mais nada. Não queria parecer desesperado, por Deus. Eu não era uma garotinha de doze anos. Para evitar o ímpeto de continuar a enviar mensagens para , abri o Instagram para distrair, olhando curioso para o círculo de bordas verdes ao redor da foto de Alexis, esposa de Müller. Tinha conversado com o casal há alguns dias e Thomas tinha me falado que eles iriam passar uns dias na Espanha. Como quem não quer nada, apertei no espaço e me deparei com algumas imagens interessantes.
A primeira era de Lexi e Thomas com a pequena Eileen. Aparentemente, a pequena estava com um body verde da Sonserina e a sua mãe mostrava bastante insatisfação enquanto o alemão sorria abobalhado.
Rindo de leve, passei para o próximo story. Neste, Lexi estava com Margot e , abraçadas em um sofá escuro, num ambiente que parecia uma boate ou similar, por conta do jogo de luzes coloridas. Ignorando as sensações que me faziam sentir como uma menininha ao ver a foto, passei para um vídeo que foi responsável por me intrigar. Nele, e um cara cantavam No Bailes Sola de forma bastante intensa. A garota balançava os quadris de forma enlouquecedora, enquanto o homem jogava o cabelo para o lado e cantava encarando os olhos dela. Exibido.
Afinal, que porra era esse cara?! Eu não tinha problemas em achar um cara bonito. Esse aspecto tão pífio jamais definiria a minha heterossexualidade e eu tinha bastante noção disso. Mas, aquele cara era realmente estranho. Parecia que tinha mirado no Ben Barnes, mas acertado no Ibra, jogador foda, mas convenhamos que fraco de feições.
Tentando sufocar o meu ciúmes dentro do meu poço de hipocrisia, foquei minha atenção em , no jeito que ela parecia leve ao cantar. Sempre havia elogiado a sua voz, dizendo que ela estava perdendo tempo na área do web design. Eu era o seu maior fã e gostava de deixar bem claro isso. Mas, ver ela ali, cantando com um cara qualquer, machucava.
Não querendo me mostrar afetado, mandei mais algumas mensagens para reafirmar que eu estava ok com a sua demora para responder. Convenhamos que eu não tinha muito mérito para cobrar agilidade nas respostas.

Acabei de ver os stories dos melhores amigos de Lexi. Sempre te disse que sua voz é maravilhosa, nem esse cara estranho conseguiu ofuscar o seu brilho”
“Divirta-se aí, mas quando puder, retorne as minhas ligações, por favor. Precisamos conversar.”


Suspirei, jogando o celular para o lado. Ia tomar um banho para ver se conseguia me afogar ou ter alguma luz acerca das minhas decisões. O que viesse primeiro. Pelo menos, naquela noite, Verona estava em Paris para um evento e eu poderia lamentar as minhas escolhas em paz.

OCHO

39 DIAS PARA O CASAMENTO

Oye
Te fuiste y no me pude despedir
Ya dije lo que estaba por decirte, ya no vuelvas más
Entiendo que ahora estás mejor sin mí
(Oye - Tini part. Sebastián Yatra)


POV JAMES RODRIGUEZ

Não sei como exatamente caí no sono, mas aparentemente não foi de um jeito muito legal. Minhas costas doíam e a minha cabeça alertava um princípio de enxaqueca.
Maravilha. Era tudo o que eu realmente precisava.
A luz solar que vinha com força da janela aberta, que as cortinas não foram capazes de esconder, também não ajudou a melhorar o meu humor. Meus olhos ardiam com a claridade e a dor nas têmporas só fazia aumentar. Eu nunca fui uma pessoa muito crédula, mas se fosse, afirmaria com veemência que estes eram presságios de um mau dia.
Bufando, irritado, levantei para fazer minha higiene matinal. Eu tinha certeza de que não conseguiria voltar para a sonolência novamente. Jogando o lençol de qualquer jeito para o lado e quase tropeçando nos meus pés no caminho, segui para a minha suíte. Ao levantar, contudo, senti um leve incômodo na região da anca, onde eu tratava uma lesão recente.
Havia conseguido esse pequeno presente em um jogo contra o Sevilla, pela La Liga, no qual eu apenas passei quinze minutos em campo. Jesús Navas, que de santo só possuía o nome, zagueiro da equipe palangana, havia me dado um carrinho totalmente desleal, tirando-me do jogo e dando margem para ainda mais críticas envolvendo o meu nome.
Tempo insuficiente para fazer algo pelo time, mas tempo o suficiente para conseguir mais uma lesão, como Zidane gostaria de frisar. Não que o francês já tenha me dito algo do gênero. Mas, se eu fosse legilimente, como Lord Voldemort foi, tenho a plena certeza de que poderia ouvir isso entoando de sua cabeça.
Tentando ignorar a dor e os pensamentos absurdos que me vinham à mente, segui para o meu banheiro. Era engraçado analisar como, depois de um tempo, todas as comparações da minha vida, sobretudo as mais trágicas e absurdas, passaram a ser sobre Harry Potter. Não por influência minha. Sinceramente, eu nunca fui um leitor ávido, muito pelo contrário. Quando eu era criança, dizia para meus pais que ler muito deixaria minha cabeça desproporcional de um jeito que eu não conseguiria mais apoiá-la no meu corpo. E, por isso, não conseguiria mais jogar futebol. Algo parecido como o Jimmy Neutron. Afinal, alguém já tinha visto o menino gênio jogando uma pelada?!
Claro que meus pais acharam tudo isso uma bobagem e Juana tratou de me apelidar de menino burro, mas nada me fez ganhar o espírito leitor. Afinal de contas, estava bastante satisfeito em ser a cota do gostoso da família. Mas, aí apareceu . e seus livros com nomes que eu não era capaz nem de entender o título. A morena gostava muito de ler, principalmente sobre tecnologia, área que era apaixonada desde nova.
Provavelmente tenha sido isso que tenha me feito criar tanto apego a Harry Potter, já que é uma saga infanto-juvenil e, portanto, fácil o suficiente para eu entender e gostar, pelo menos mais fácil do que os livros que tinha em sua cabeceira.
Gostava não como Thomas Müller, que chegou a nomear um dos cachorros e até a própria filha com nomes de personagens dos livros, mas eu gostava do Menino-que-sobreviveu. Mesmo achando que a coisa mais irreal da obra não era a existência de gigantes, dragões ou qualquer coisa do tipo, mas sim o fato de colocarem um garoto magrela e baixinho como futuro salvador do mundo bruxo. Mas, se a Argentina fora capaz de colocar o Higuaín como centroavante em uma final de Copa do Mundo, quem era eu para contestar algo ilógico?!
O meu interesse, por sua vez, foi o suficiente para passá-lo também para Salomé. A garotinha amava os livros e tinha Severo Snape como personagem preferido, entrando até em discussões acaloradas com qualquer um que ousasse falar algo contra o bruxo de cabelos oleosos. Quando Salo e Müller se juntavam, pareciam duas crianças esperando a carta de Hogwarts, inseridos em um mundo de fantasia. A grande questão era que apenas um deles era realmente uma criança.
Já em frente ao espelho, me assustei com a imagem que me encarava ali. Era eu, óbvio. E não algo tenebroso como a Maria Sangrenta ou a Loira do Banheiro, mas o susto que tomei poderia facilmente se equivaler a um possível encontro com essas simpáticas senhoras.
O James que me encarava tinha os olhos fundos e opacos, como se tivesse passado por um beijo do Dementador. Olheiras arroxeadas e evidentes marcavam presença em meu rosto, que ilustrava uma palidez incomum. Parecia que um caminhão tinha passado por cima de mim e dado ré. Cinco vezes.
Tentando melhorar as minhas feições abatidas, lavei o rosto e escovei os dentes, decidindo, rapidamente, por tomar um banho para ver se a água quente conseguiria levar consigo as dores do meu corpo.
Após o banho, já me sentindo levemente melhor, fui até o closet que dividia parcialmente com Verona. A mulher não morava comigo, mas alguns de seus sapatos e roupas já eram encontrados por ali, ocupando um espaço que não parecia certo. Depois de vestir uma calça de moletom preta e uma regata cinza, me joguei novamente na cama, molhando levemente os travesseiros com respingos que vinham da minha cabeça recém-lavada. Tateando cegamente a cama, finalmente coloquei as mãos no aparelho que havia guardado de qualquer jeito ontem à noite. Ao desbloqueá-lo, contudo, fiquei assustado com o número de notificações que havia recebido.
A tela mostrava seis ligações perdidas de Verona; duas da minha mãe e uma de Daniela, fora as quinze mensagens que foram deixadas ali. Franzindo o cenho em confusão, passei a ler o conteúdo das mensagens, ainda estranhando tanto estardalhaço em apenas poucas horas.

WHATSAPP
Verona
visto por último hoje às 10:00

James, cadê você?!

James, atenda este telefone!

Eu espero que você esteja em algum hospital gravemente ferido para não estar respondendo as minhas mensagens. Caso contrário, ficarei contente em te deixar nessa situação.

Você é insuportável.



Uma atrás da outra, como se eu fosse a porra do cachorrinho de estimação dela. Bufei, irritado, revirando os olhos e tentando não me estressar. Era fácil estar com Verona. Esse era um dos motivos para eu estar com a loira. Mas, desde o aniversário de Salomé, a mulher estava sendo grossa e desnecessária sem motivos, me tratando como seu saco de pancadas oficial. No momento, se eu reunisse Zidane e Verona, tenho certeza de que ambos passariam horas ininterruptas falando mal de mim. E nem é drama, garanto. Passando para as próximas mensagens, abri um sorriso de leve, ao lê-las.

WHATSAPP
Mama
visto por último hoje às 10:14

Jay, meu filho, desculpe por ter me intrometido um pouco demais na sua vida. Só quero que você seja feliz, e continuo achando que a Vanessa não será capaz de te proporcionar isso. Mas, aprenderei, com o tempo, a respeitar as suas decisões. Volte para nos visitar com mais calma. Te amo, niño! Se cuide!



Mamãe era a minha melhor amiga, sempre tinha sido. Quando era mais novo, ainda nas categorias de base do Envigado, os meus companheiros mais velhos gostavam de zoar o fato de eu ser um filhinho da mamãe, extremamente dependente da mulher que havia me colocado no mundo. Mas, eu realmente não ligava. Havia sido ensinado de que família era a base de tudo, e isso era algo que levaria para o resto da minha vida.
Passando por mais algumas mensagens, reparei em algumas do fisioterapeuta do Real Madrid me convocando para passar em sua sala antes do treino, que seria no próximo dia. O El Clásico estava chegando e nada mais inflava os nervos de catalães e merengues do que um confronto direto. Aparentemente, queriam ver se poderiam contar comigo fisicamente, mesmo eu particularmente achando que não seria selecionado para ser titular, talvez nem mesmo convocado para a partida. Suspirei, cansado. A minha situação no Real Madrid estava praticamente inconcebível, fazendo com que a oferta do Everton ficasse cada vez mais tentadora. Não queria ter que me mudar novamente, para outro país e com uma língua que, embora soubesse o básico, não era fluente e tinha bastante dificuldade em me comunicar com ela. Mas, nada era pior que o alemão, que juntava várias consoantes em uma a palavra e utilizava uma entonação de raiva para todas as palavras do seu idioma. Na primeira vez que ouvi uma conversa no idioma, entre Kimmich e Boateng, quando ainda era um recém-chegado no Bayern, achei que ambos estavam marcando uma puta pancadaria, fora do CT do clube. Principalmente pelo fato de que ambos tiveram um desentendimento durante o treino. Mas, contando essa história para Joshua, tempos depois, descobri que eles só estavam marcando de ir jantar juntos, depois do treino. Alemães e sua língua complicada.
Balançando a cabeça para dispersar esses pensamentos, respondi uma mensagem de Dani rapidamente, afirmando que poderia pegar Salo na escola após o treino. Mas, o que realmente me deixou surpreso, foi a última mensagem que estava ali, quase passando despercebida por meus olhos desatentos.

WHATSAPP

visto por último hoje às 09:15

Desculpe, James, cheguei em casa apenas agora. Podemos nos falar amanhã?



A mensagem tinha sido enviada cerca de duas horas depois que enviei as minhas. Tentando dispersar meus pensamentos criativos sobre o que a espanhola estaria fazendo nesse tempo ausente, respondi com a rapidez de um menininho virgem apaixonado pela primeira vez.
”Claro, ! Podemos sim.”. Mandei, trocando de ideia logo em seguida. Nós precisávamos conversar e não apenas por celular, mas pessoalmente. Não era muito lógico ligar para a mulher apenas para marcar um dia futuro para conseguirmos falar. Então, logo decidi mandar outra mensagem.

Melhor ainda: vem aqui em casa. Precisamos conversar e aqui teremos privacidade.. Mandei, jogando o celular para o lado após confirmar que havia sido enviada. Só esperava que a mulher não se assustasse e negasse vir me ver.

xX


Depois de assistir alguns episódios de Modern Family, decidi encarar meus problemas e ligar para Verona. Não deveria ser tão difícil me comunicar com a mulher que era a minha noiva, mas eu já me encontrava mentalmente exausto antes mesmo de discar os conhecidos números. Suspirando, resignado, peguei o celular que havia jogado na cama. Desbloqueando o aparelho, me senti mais uma vez como um virgem desesperado, sentindo um estranho frio na barriga que não sentia há algum tempo.

WHATSAPP

visto por último hoje às 12:10

Você tem certeza, James?

É, se você não tivesse, não teria mandando a mensagem. Me envie o seu endereço e o horário que estarei aí.



Sorri meio abobado ao ler as mensagens de , feliz por saber que iria encontrá-la, bem como nervoso por não saber o que esperar dessa conversa. Seria uma dose muito grande de emoções jogadas em cima de nós dois e não sabia se estava preparado para isso. Depois dessa conversa, poderíamos arruinar para sempre o que um dia foi e James, e isso era o que eu mais temia. Mas, somente ignorei essa possibilidade, enviando rapidamente a minha localização para e indo, finalmente, ligar para a mulher que agora era a minha noiva.
No segundo toque, a loira atendeu, e somente o seu tom de voz me fez respirar fundo, pedindo paciência e plenitude para todas as divindades possíveis e existentes nesse universo.

- O que você estava fazendo de tão importante para não me atender, James Rodriguez? - perguntou com a voz afetada, sem nem mesmo dizer “alô”. Revirei os olhos, respirando fundo e me lembrando de toda a educação que meus pais tinham me dado.
- Estava dormindo, Verona. - disse pausadamente, como se ela fosse uma criança com problemas de compreensão. - Bom dia para você também. - adicionei, ironicamente.
- Sem gracinhas para mim, Rodriguez. – falou, irritada. - Você não dorme tão cedo assim! - insistiu no assunto. O timbre da voz dela sempre foi tão irritante assim?!
- Mas dormi cedo assim ontem, Verona. - revirei os olhos mais uma vez. Eu realmente já estava irritado. - O que você quer, afinal?! - perguntei diretamente, ouvindo o bufar estressado no outro lado da linha.
- Quero falar com meu noivo! - disse em um tom afetado. – ‘Tô com saudade, amor! - declarou, mudando radicalmente o modo de falar, como se não estivesse sendo uma insuportável segundos atrás.
Eu suspirei, me sentindo meio culpado. Talvez estivesse sendo injusto com Verona. Ela não merecia isso, mesmo me irritando em alguns momentos. Talvez estivesse despejando minhas frustrações em cima dela. Então, também decidi ser mais maleável.
- Desculpe, nena. - pedi em um tom de voz leve. - Estou sentindo um pouco de dores e acabei descontando em você. - disse. Não era exatamente uma mentira, mas iria falar por telefone que estava estressado com algumas cobranças infundadas dela.
- Dores, James? - inquiriu, preocupada. - Mais uma?
- Na verdade, é a mesma. - falei, amaldiçoando mentalmente todo o elenco do Sevilla. - Só com uma dor de cabeça mais.
- Se cuide, bebê! – falou, manhosa, de um jeito que fez revirar o estômago de um jeito não muito condizente com o momento - Amanhã estou indo para cuidar do meu jogadorzinho!
- Amanhã não dá, Vee. - neguei rapidamente em uma careta, já me preparando para o discurso da mulher. - Depois do treino, eu vou buscar a Salo para ficar comigo.
- Ah, não, James! – negou, contrariada. - Não pode ficar com ela outro dia? Estou com muita... – frisou. - Saudades! - tentou apelar, manhosa.
Eu me sentia verdadeiramente incomodado nos momentos em que Verona tentava fazer com que eu não visse Salomé, ou sugerindo implicitamente que ela não deveria ser uma prioridade. Porque ela era. Salo era tudo na minha vida e ninguém seria capaz de tirá-la de seu posto. Muito menos a Verona.
Fiquei alguns segundos em silêncio, evitando ser grosso mais uma vez com a mulher. Nesses momentos, eu realmente repensava esse noivado e começava a concordar com todos que me chamaram de idiota por tornar as coisas entre mim e a loira mais sérias.
Ao perceber o meu silêncio, Verona logo tratou de consertar o que havia dito.
- Mas eu entendo, meu amor. - falou em um tom compreensivo, que pareceu meio falso para mim. - Teremos toda a semana para nós dois, não é?
- Depois dos treinos e dos momentos com a minha filha, sim. - corrigi a loira, que bufou em resposta.
- Você entendeu, James. - se eu pudesse vê-la, tenho a certeza de que a encontraria revirando os olhos. - Enfim… - insinuou, completando em seguida. - Preciso voltar para o trabalho. Quando sair daqui, te ligo. – combinou. - Vai ficar o dia todo em casa?
- Sim, vou. - respondi, o que não era mentira. Não achei necessário mencionar o meu encontro com . Não queria que a dor nas têmporas, que havia sido sanada há pouco tempo, voltasse. - Até logo, Vee. - me despedi, ouvindo um “Bye, lindo” de volta. Por que eu não me sentia culpado em omitir coisas da mulher com quem eu iria casar?

xX


Fiquei ansioso o resto do dia, ansiando pela visita de . Assisti a mais alguns episódios de Modern Family, depois tentei fazer uma espécie de bolo de liquidificador que minha mãe me ensinou (e que deu bastante errado, vale ressaltar), mas nada fez com que eu me aquietasse. Depois de um tempo, acabei desistindo de arrumar alguma coisa de útil para fazer, me lançando no sofá de casa e indo jogar uma partida aleatória de FIFA. Eu gostava de jogar com a equipe do Barcelona, mesmo que eu morresse antes de admitir isso para alguém. Jogar com aquele time caótico e desorganizado deles e ainda ganhar era um reflexo de que eu realmente estava bom no jogo. Os caras conseguiram perder de 8x2 do Bayern, em uma semifinal da Champions League, o que era feito de um time da segunda divisão do campeonato colombiano, não de um time consagrado mundialmente. Azar deles, diversão minha. Tinha até feito o favor de ligar para Alexis Müller, culé fanática, para zoar o timinho dela pelo vexame histórico.
Em resposta, a brasileira respondeu que antes de zoá-la, meu time tinha que, ao menos, passar das oitavas de final. Até perguntou se eu queria o número do Cristiano Ronaldo, para poder chorar no colo dele depois de mais uma eliminação humilhante na Champions. Extremamente adorável, a Müller.
Consegui me distrair suficientemente com o jogo, só sendo acordado dos meus devaneios quando vi um carro já conhecido parar na frente da minha casa. Já tinha autorizado anteriormente a entrada de dentro do meu condomínio, então não foi difícil inferir que a chegada era dela. Mas, isso não me deixou menos nervoso. Após o choque momentâneo, pausei o jogo, levantando em um rompante do sofá para abrir a porta para a espanhola. Ainda dentro da casa, consegui vê-la olhando de forma curiosa, com o cenho franzido para a construção. Então, decidido a me encontrar com ela, logo abri a porta, assustando-a levemente. A mulher usava roupas simples, como lhe era de costume. Um vestido florido, meio solto e um par de sandálias baixas, adornando com o tempo quente que se fazia presente em Madrid.
- Estava me perguntando se estava na casa certa. – falou, tímida, aceitando o meu convite para entrar na casa. - Fiquei com medo de ser a errada e acabar sendo processada por algum milionário por tentativa de invasão.
Eu somente gargalhei, vendo a menina dar um sorriso contido pela piada que havia feito. Quando chegamos no sofá, a primeira coisa que reparou foi na televisão ligada, que mostrava a partida pausada de FIFA, que eu anteriormente jogava.
- Já posso vender para os tabloides que você está jogando com o Barcelona, contra o Real Madrid, e ganhando de cinco a zero? - brincou, em um arquear de sobrancelha. - E ainda por cima, numa véspera de El Clásico?
- Shiu, ! – performei, dramático, olhando para os lados, exasperado, como se procurasse alguém. - Vou ser expulso de Madrid! – concluí, jogando os braços para cima, exagerado. A outra gargalhou de mim, balançando a cabeça e dizendo algo como “você não existe”. Após o momento inicial de descontração, contudo, um silêncio incômodo acabou se instaurando entre nós. Eu não sabia exatamente como começar a conversa e, pelo que parecia, parecia do mesmo jeito.
- Então… - começamos juntos, rindo de leve ao constatar os fatos. - Pode falar. - propus à espanhola. acenou afirmativamente com a cabeça e tomou a voz para si.
- É… - pigarreou para deixar a voz mais firme. - Você… - respirou fundo. - Você disse que descobriu quem me enviou o convite. - disse, apoiando as mãos nas coxas e me encarando.
- Disse. - acenei positivamente com a cabeça. - Descobri. - adicionei, bobamente, querendo me bater ao ver a sobrancelha arqueada da mulher a minha frente. Porra, James, aja como a droga de um homem!
- E então…?
- Minha mãe te enviou o convite. - falei simplesmente, me sentando ereto no sofá. - Ela disse que não fez por mal. - completei rapidamente ao ver que a mulher iria retrucar. A minha resposta, contudo, não pareceu esclarecer muito as coisas para , visto que o seu cenho ainda se franzia em confusão.
- A sua… - se interrompeu, levantando em um rompante. - A sua Mãe – enfatizou, esganiçada, apontando para mim. – Me... - apontou para si. - Enviou um convite?! – exclamou, afetada. - Isso é algum tipo de jogo sádico, James?! - indagou, começando a caminhar entre círculos. - Mandar um convite para a pobre para mostrar como a vida de todos seguiu lindamente, mas a dela não! - continuou esbravejando, ao passo que eu, de um jeito totalmente inadequado, passei a achar graça de sua raiva. - Porque, claro que a minha ilusão deve ser muito… - parou de andar, me encarando. - E qual a graça disso, seu imbecil?! - falou abruptamente ao perceber que eu segurava o riso.
- É que… - parei para buscar ar e impedir a gargalhada que eu prendia de sair. - Você realmente acha que a maior fã do nosso relacionamento, depois da Salo, faria algo para te machucar? - perguntei sinceramente, após me recompor. , que só agora pareceu voltar a pensar racionalmente e a ver além da névoa da mágoa e da raiva, abaixou os ombros, deixando-os mais relaxados. Em um suspiro, continuou.
- Bom… - ponderou, sentando novamente no sofá. - Não, mas também não esperava que você estivesse noivo e que eu fosse convidada.
- Justo. – concordei. - Mamãe te ama, . De acordo com ela, só queria colocar algum tipo de “juízo”... - frisei, fazendo aspas com os dedos. - Na minha cabeça. suspirou, esfregando de leve as mãos no tecido leve do vestido que usava. A mulher parecia mais calma depois do surto inicial que tivera. Conhecendo-a do jeito que conheço, imagino que o leve descontrole não veio do fato da descoberta de que mamãe tinha a enviado o convite, mas da mera possibilidade de que isso tenha sido um plano nosso para esfregar em sua cara um suposto cenário de felicidade. Mesmo que no aniversário de Salomé eu tenha afirmado que não tive absolutamente nada a ver com o envio do seu convite. A mágoa que tinha de mim era muito profunda e cada vez mais eu percebia isso.
- É… Bom… - pigarreou, com as bochechas levemente coradas. - Desculpe por antes. - pediu, desviando o olhar do meu. - Mas é difícil.
- Eu não queria que as coisas fossem assim, . - falei, sincero. - Não queria te magoar. Nunca quis.
- Mas magoou muitas vezes, James. - me encarou, com os olhos doídos. Meu peito se apertou de leve com a cena. - O casamento foi só mais um episódio.
Crispei os lábios, umedecendo-os de leve para começar a falar.
- Nós nos ferimos muito nos últimos meses do nosso relacionamento, . - pontuei, buscando o seu olhar. - Por isso nós terminamos.
- Não, James. - negou com a cabeça, mexendo no cabelo, mania que tinha sempre que estava nervosa. - Não foi só isso. - começou, em um suspiro. - Você me deixou sozinha e depois achou mais fácil ir embora do que encarar a sombra da pessoa que eu era, e o que eu havia me tornado. - desabafou, baixinho, em um tom quebrado.
Franzi o cenho, de certa forma indignado. A culpa do fim do nosso relacionamento não era só minha, nunca foi. Nós nos destruímos. Realmente não entendia o que estava querendo insinuar.
- Você está colocando a culpa do nosso fim apenas em mim? – perguntei, calmo, tentando entender o que ela estava falando.
- Não. - ela negou. - Claro que não. - reafirmou, me olhando. - Mas eu tinha a mídia me colocando como a culpada de todos os seus problemas profissionais. - começou a pontuar. - Além dos seus fãs me xingando nas redes sociais, dizendo que eu não era o bastante para você. - prosseguiu com uma leve falha na voz. A sua expressão mostrava que ela estava segurando o choro. Vendo isso, tentei me aproximar, algo que ela rapidamente negou. - Não, por favor. – pediu. - Eu preciso falar tudo que está aqui dentro. - apontou para o próprio peito. Sentei novamente, assentindo ao seu pedido. - Eu nem sabia que as pessoas se importavam com a vida amorosa de jogadores de futebol. - riu fraco, sem realmente achar graça. - Mas, eu era a própria causadora da sua desgraça dentro do futebol. - respirou fundo, tentando se recompor. - E talvez nem se importem mesmo, já que eu só conheço uma ou duas esposas de jogadores por nome. - falou, franzindo o cenho em seguida. - Tirando, claro, as esposas dos meninos do Bayern e do próprio Real Madrid, que eu conheci pessoalmente.
- … - tentei chamá-la, ao ver que ela havia silenciado por alguns segundos.
balançou a cabeça como se quisesse dispersar algo e prosseguiu com o seu desabafo.
- A questão é que… - fechou os olhos rapidamente, abrindo-os em seguida e me encarando com os olhos marejados. - Era coisa demais. - falou, baixinho. - Eu não sou famosa e nunca quis ser famosa. - riu de leve, completando em seguida. - Só nos momentos em que eu achei que iria me casar com o Tom Felton, quando era adolescente. - voltou a mexer no cabelo.
Eu não sabia o que pensar, só queria ouvir o que a mulher tinha para dizer atentamente.
- Mas aí você apareceu. - me encarou. - Com essa cara de menino travesso e esse sorriso que… - se interrompeu, sorrindo fraco. - Sempre gostei do seu sorriso.
Sorri, convencido.
- É o meu charme. - me gabei em tom de brincadeira, para deixar o clima mais leve.
- É… - concordou, rindo de leve. - Você virou meu mundo de cabeça para baixo desde aquele dia na La Niña e, sinceramente, não teve um dia que eu tenha me arrependido de ter aceitado entrar no furacão chamado James Rodriguez. O único furacão com nome de homem, inclusive. - tentou brincar, me fazendo rir de seu comentário.
- Nem nos piores dias? – perguntei, curioso.
- Nem nos piores dias. - respondeu, suspirando. - Mas você não estava mais lá comigo. Toda a avalanche que vinha com você estava cada vez mais presente, e você… - pigarreou novamente. - Você não estava, James.
Eu conseguia me lembrar bem desses momentos. Eu evitava ficar em casa para não ter que lidar com as cobranças de , sem perceber exatamente os motivos da mudança de minha namorada. Eu sei que fui egoísta ao focar somente nos meus problemas com o time e, assim, esquecer que a mulher que eu amava também precisava de atenção. Isso sempre foi uma tendência minha. Aconteceu anos atrás com Daniela, e depois com . Respirei fundo, frustrado.
- O Zidane já estava no meu pé, . - comecei a tentar me justificar. - Ele não queria que eu voltasse para Madrid e deixava isso bem claro. - fiz uma careta, lembrando do que era e do que ainda era a minha relação com o técnico francês, que se pudesse, me jogava de volta para Munique e ainda pagava por isso. - Eu só tentava… - mexi nos cabelos, agoniado. - Só tentava não ser mais um fracasso.
- Eu sei disso. - balançou a cabeça com veemência. - Deus, é claro que eu sei disso. – reafirmou. - Passamos cinco anos juntos, James. Cinco anos. – frisou. - Eu até saí do país para te acompanhar na sua carreira. - ao ver que eu iria falar, me interrompeu. - E não, óbvio que não vou jogar isso na sua cara. - revirou os olhos. - Eu fui porque eu quis. Mas isso demonstra como eu faria de tudo por você. – apontou. - Por nós. E quando tudo começou a ficar difícil, você não estava mais lá.
- … - comecei, suspirando. - Eu não espero que você entenda, mas era difícil para mim também. - passei as mãos no rosto, cansado. - O Zidane e toda a mídia espanhola faziam da minha vida um verdadeiro inferno e quando eu achava que poderia ter paz em casa, vinham as cobranças, as brigas, as acusações. - pontuei, encarando os olhos da mulher que jurei amar pelo resto dos meus dias. - Você me acusou de traição, . - balancei a cabeça em negação, ainda chateado com aquele assunto.
A verdade era que ambos saímos machucados desse relacionamento. Eu a amava. Porra, eu a amava desesperadamente. E era foda ver a mulher da sua vida tão perto de você, parecendo tão frágil e indefesa, e você sem poder puxá-la para um abraço, para protegê-la de tudo o que era ruim no mundo. Era realmente foda. Mas não dava para continuar do jeito que estávamos. Caminhávamos para um abismo gigantesco que eu acreditava não ter mais escapatória. Não foi um erro sair do nosso apartamento sem pretensão de voltar. O único erro latente era, talvez, a adição de Verona nessa equação não resolvida. Talvez a história do casamento não fosse realmente uma ideia sensata, mas isso era algo que eu me preocuparia depois.
- Acusei. - acenou positivamente. - E eu me desculpo por isso, mas… - parou, fechando os olhos e jogando a cabeça para trás, em sinal de cansaço. - Você tem que entender, James. Você não estava ali. - balançou a cabeça. - Notícias de affairs novos saíam todos os dias e eu não conseguia dormir com a certeza de que era mentira, porque você não estava ali. - levantou o rosto, me encarando com os olhos marejados. - A confiança sempre foi tudo para nós. Sempre. E eu sempre fui capaz de colocar até as minhas duas mãos no fogo por você, mas… - hesitou, desviando o olhar para a televisão ligada. - Eu não poderia ter mais certeza de nada quando o homem que eu amava preferia ficar na rua, fazendo Deus sabe o que, em vez de ficar comigo. - finalizou com a voz quebrada, limpando o rosto rapidamente para tentar evitar que eu visse a lágrima teimosa que escapou de seus olhos.
- … - chamei, com cuidado.
- Quando eu te pedia para ir embora, James... – falou, ignorando o meu chamado, já em um tom falhado. - Eu… - me encarou, com o rosto vermelho. - Eu só queria que você me abraçasse e dissesse que ia ficar tudo bem. – disse, chorando, em um tom quebrado que eu me acostumei a ouvir nos últimos meses de nosso relacionamento. - Mas você somente foi e nunca mais voltou. - depois disso, toda a armadura que tinha ao seu redor desabou. Eu conseguia escutar os seus soluços abafados enquanto ela tentava esconder o rosto para que eu não a visse chorando.
Sem saber o que fazer e querendo de algum jeito atenuar a dor que ela parecia estar sentindo, sentei ao seu lado, puxando-a para um abraço.
, em um reflexo, tentou me afastar, mas eu apenas a apertei mais forte, escondendo o seu rosto em meu pescoço, que já começava a ficar molhado por conta de suas lágrimas. O aperto que eu sentia no meu peito era insuportável.
Quando ela ficou mais calma, senti seus braços me empurrando de leve e, por isso, me afastei.
- E… - respirou fundo, em uma pausa, secando o rosto com as suas mãos. - E quando eu achei que tinha me acostumado com a sua ausência... - balançou a cabeça, em negação. - Ou que, sei lá, você iria voltar e nós iríamos reatar. - suspirou, triste. - Eu recebi o convite do seu casamento. - riu sem realmente achar graça, evitando me encarar.
- … - tentei tocar o seu rosto, mas ela tirou a minha mão de si. - Não faz isso… - pedi, magoado com o gesto.
- Você não percebe como me machuca ficar tão perto de você, James? - retrucou, afastando o corpo de mim e se sentando do outro lado do sofá. - Eu me senti tão idiota por ter esperado por você enquanto você estava noivando com outra. - mexeu no cabelo nervosamente, me encarando com os olhos ainda inchados, mas não mais molhados. - Como se nós não tivéssemos significado nada
Mordi o lábio em nervosismo. O ponto de vista que tinha das coisas era dolorido e pesado. Mas eu não a culpava por achar isso.
- Nunca pense que foi menos do que foi para mim, cariño. - falei, me aproximando dela novamente. - Você foi... - é, completei mentalmente. - O meu grande amor, . A gente só aconteceu em um momento errado…
- Não me chame assim! - se levantou abruptamente, olhando para mim em misto de raiva e mágoa. - Não se atreva a me chamar do jeito que me chamava, ou pior ainda... - apontou, com as mãos trêmulas. - Dizer que eu fui o seu grande amor. Isso não é justo. - balançou a cabeça em negação, colocando as mãos no rosto novamente. - E, como assim, momento errado? - me encarou, como se só tivesse dado conta da minha fala agora. - Passamos cinco anos juntos, James! - exclamou, afetada. - E não cinco meses! - respirou fundo, buscando calma. - Sabe, eu até pensei assim por um tempo também, mas acho que não é justo com nenhum de nós dois resumir a nossa história a um “momento errado”. - fez o sinal de aspas com os dedos. - Não era o momento errado, nós que fomos fracos demais para lutar pelo o amor que sentíamos. - sorriu sem graça, olhando para o nada.
Eu a olhei, culpado. Odiava estar naquela situação com . Nunca imaginei que nós chegaríamos a esse ponto. Além disso, o uso do verbo sentir no passado doeu. Doeu porque o sentimento para mim não era passado. E cada vez mais eu me perguntava o que estava fazendo com a minha vida.
- , por favor… - levantei para tentar confortá-la em meus braços novamente.
- Não! - me empurrou, sem força. - Por favor, não… - começou um choro descontrolado, agarrando a minha camisa com os dedos firmes, tentando se acalmar. Enquanto acalentava a mulher, passei a reconsiderar tudo o que havia feito para chegar até ali. O corpo trêmulo, que se movimentava devido aos soluços, fazia com que eu me sentisse mais culpado ainda. Eu não amava Verona. Eu sabia disso. Mas por que não tinha forças para acabar o relacionamento com a mulher ou assumir como me sentia para ?
Terminar com foi a dor mais doída que eu já senti na vida, não queria ter que passar por aquilo novamente. Sentimentos machucavam e eu não me sentia pronto para passar por outra provação. Com isso em mente, toquei como suavidade o seu rosto, segurando-a pelas bochechas. Os olhos inchados, o rosto vermelho e ainda molhado, não foram capazes de tirar toda a beleza que tinha. Já tive contato com modelos, atrizes e cantoras famosas, mas nenhuma tinha uma beleza tão única quanto a espanhola. era única, com todos os defeitos e imperfeições. E perceber isso só fez com que eu, involuntariamente, me erguesse em direção à sua boca, que parecia ainda mais chamativa do ângulo que eu a olhava. Mas, antes que eu pudesse finalmente tocá-la, me afastou, sorrindo fraco e com um olhar cansado.
- Eu acredito quando você disse que nunca me traiu. - começou, indo para o lado do painel que sustentava a minha televisão. - Mas a dor que eu senti apenas por cogitar isso, não será esquecida. - mordeu o lábio, nervosa. - Então nunca iria te ajudar a trair a sua noiva. - cuspiu a palavra, respirando fundo.
- … - tentei tocar o seu braço, ao que ela se desvencilhou.
- Vir hoje aqui foi um erro, James. - desabafou com os olhos brilhantes, mas não do jeito que costumavam ficar quando estávamos juntos. - Eu ainda não estou pronta para lidar com essa confusão de sentimentos que sinto aqui dentro... - tocou no próprio peito. - Quando vejo você. - afirmou, indo em direção à porta para poder ir embora. Enquanto seguia a mulher, franzi o cenho ao perceber a movimentação de outro carro conhecido, que estacionava na frente de minha casa. A minha distração, por sua vez, foi o suficiente para fazer colocar as mãos na porta, quase conseguindo sair, se eu não a tivesse impedido rapidamente.
- , não vai embora assim. - pedi. A mulher nem fez menção de se virar. - Por favor…
- Depois a gente se fala, James. - tentou tirar os meus braços da porta, sem sucesso. - Por favor, me deixe ir. - falou, ainda de costas.
Eu ia negar mais uma vez, mas a visão de uma Daniela carregando uma Salomé adormecida nos braços, foi distração o suficiente para conseguir abrir a porta e caminhar para fora de casa. Eu ainda tentei ir atrás dela, ou gritar o seu nome, pedindo-a para ficar. Mas desisti para não acordar Salo - que eu ainda não entendia o que estava fazendo ali -, que já tinha entrado junto com a sua mãe. Bufando, frustrado, observei o carro conhecido se afastando, não só da minha casa, mas também da minha vida.

NUEVE

39 DIAS PARA O CASAMENTO

No quiero disimular, no quiero hablarte
No quiero que, al despertar, quiera besarte
Voy buscando una razón para olvidarte
Y entre más lo intento, más me cuesta soltarte (Falta Amor - Sebastián Yatra)


play quando for indicado.

POV JAMES RODRIGUEZ

Não sei por quanto tempo fiquei olhando o nada depois que o carro de foi embora. Talvez tenham se passado segundos, ou muitos minutos. Não sabia dizer. O aperto que estava dentro de mim era praticamente impossível de ser ignorado, contudo.
Eu não deveria ter tentado beijá-la. Sabia que não era certo, ou sequer justo. Mas, no momento, não consegui evitar. Era como se a sua boca chamasse pela minha, e como se fosse errado elas terem passado tanto tempo separadas. Mas foi essa atitude impensada que estragou todo o possível progresso que estávamos tendo durante a conversa.
Eu realmente era um idiota.
Admito que não pensei em Verona ou em como a mulher poderia se sentir ao saber de uma traição minha. Na real, cada vez mais eu percebia como não me importava acerca de muitas coisas relacionadas à loira. Talvez tenha sido por isso que tenha ocultado a minha conversa com durante essa tarde. Ou desconversado todas as vezes em que a mulher tentou descobrir se os rumores de que eu estava indo embora para a Inglaterra eram verídicos. Eu estava agindo como um filho da puta egoísta, sabia disso. Sempre abominei traições e deslealdades, mas, naquele momento, beijar não pareceu uma traição perante Verona e o nosso noivado, só parecia… Certo. E isso era o que me deixava pior, porque depois de tudo, eu sabia que era minha culpa estarmos nessa situação. Não toda, obviamente. Como falei à , realmente acreditava que nós dois havíamos nos destruído e acabado com o relacionamento que tínhamos, mas talvez eu pudesse ter feito mais. Suspirei, chateado, ainda estancado na porta.
- Você realmente é um idiota. - me sobressaltei, tendo um pequeno espasmo ao ouvir uma voz ao meu lado. Por um segundo, achei que a minha consciência havia se materializado ao meu lado. Contudo, ao ver que era Daniela, revirei os olhos, impaciente. Ospina me encarava com os braços cruzados e uma das sobrancelhas arqueadas em uma expressão de julgamento que eu conhecia bem.
- Agora me conte uma novidade. - retruquei, entrando em minha casa e indo para o sofá sem ao menos ver se a morena me seguia.
- Não, James. - ela balançou a cabeça, negando, sentando ao meu lado - Você não está entendendo. - falou em um meio sorriso. - Você é realmente um idiota.
- Muito bem! – exclamei, irônico, cruzando os braços e a encarando de volta. - Quer fundar um clube com a com um título de “ex-namoradas que odeiam o James?” - sugeri, jogando a cabeça para trás e massageando as têmporas de leve. A minha dor tinha definitivamente voltado.
- Calma aí, bonitinho. - debochou, em um tom de repreensão. - Não desconte os seus problemas em mim. - apontou o indicador para mim. - Não tenho nada a ver com isso.
Em resposta, somente suspirei, cansado. Ela tinha razão. Tinha que parar de descontar a minha frustração em pessoas que nada tinham a ver com a história.
- Desculpe, Dani. - pedi, olhando-a rapidamente. - É que você chegou em uma péssima hora. - justifiquei, levemente sem graça.
- Jura?! Nem notei. - debochou mais uma vez. Revirei os olhos, sem muita paciência para o cinismo de Daniela. - saiu daqui com uma cara ótima, inclusive.
- Ha ha ha. - resmunguei, sem achar nem um pouco de graça. - Hilário. - fiz um joinha com uma das mãos, sem nem olhar para Daniela.
- Ok, sem mais brincadeiras. - pela minha visão periférica, a vi pegando uma das almofadas e a abraçando, uma mania que a mulher tinha há tempos. - O que aconteceu, James? – questionou, curiosa.
Eu realmente não queria falar sobre o desastre que havia acontecido minutos antes nessa mesma sala. A conversa dolorida ainda ressoava em minha mente e eu ainda conseguia sentir o calor que vinha do corpo de quando eu a abracei. A imagem da mulher chorando e pedindo para eu deixá-la ir era algo que me aterrorizaria por dias, tinha certeza disso. Mas, conhecendo Ospina como conhecia, sabia que a mulher não me deixaria em paz até saber os mínimos detalhes do que havia acontecido aqui. Então resolvi ser o mais breve possível.
- Descobri quem enviou o convite de casamento para , chamei ela para conversar, tentei a beijar, ela me rejeitou e foi embora. - sintetizei, ouvindo um esganiçado “O QUÊ?!” em resposta.
- Basicamente foi isso. - dei de ombros, sem vontade de prolongar o assunto. Daniela passou alguns segundos em silêncio, parecendo começar a entender o que tinha ouvido. Quando a mulher voltou a si, por sua vez, deu um tapa ardido no meu braço, que estava descoberto por conta da regata que eu vestia.
- AI! - reclamei, olhando, indignado, para Ospina. - Por que você fez isso, sua doida?!
- Você tentou beijar a estando noivo de outra mulher, Rodriguez?! - rosnou, revoltada, me fazendo entender a sua reação explosiva. Dei de ombros novamente, sem realmente saber o que responder. Eu não conseguia me sentir realmente culpado por isso. - Desde quando você virou um canalha?! - me bateu novamente, com menos força dessa vez. Eu a olhei, crispando os lábios em silêncio. Isso só pareceu indignar Dani mais ainda.
- James! - levantou, parando em minha frente e cruzando os braços. - Você não vai dizer nada?!
- Não sei o que você quer que eu diga, Dani. - respondi, umedecendo os meus lábios. Minha boca estava estranhamente seca. - Na hora não pareceu errado.
- Então seu senso de justiça foi afetado gravemente! - revirou os olhos. - Isso que dá passar tanto tempo com Sérgio Ramos…
- Você só não curte o Ramos porque foi ele quem me sugeriu te colocar na justiça no processo acerca das visitas da Salomé. - franzi o cenho, revirando os olhos em seguida. – Porque, fora isso… Você mal conhece o cara…
- E o que eu conheço já é o bastante para achá-lo um boludo insuportável! - cruzou os braços em uma pose desafiadora. Revirei os olhos mais uma vez em resposta. - E não tem nada a ver com o processo. - revirou os olhos. - Eu realmente estava errada em tentar te proibir de ver a sua filha, James. – falou, séria. - Eu realmente me arrependo de ter feito o que fiz… - falou, em um suspiro cansado.
Por um momento, me arrependi de ter trazido o assunto à tona. Nossa história, como um todo, foi repleta de turbulências, muitas causadas por minha causa e pela minha ausência. Mas, quando tivemos que apelar para a interferência jurídica no começo do meu relacionamento com , pelo fato de Daniela tentar me impedir de encontrar a minha própria filha… Isso estava fora de todos os limites. Mesmo que nós tenhamos nos resolvido, muito por causa de Salomé que não merecia os pais em um estado permanente de guerra, isso ainda era algo que me deixava engasgado e enjoado. Mesmo que eu não a culpasse totalmente. Sabia que tinha sido um pai de merda por muito tempo.
- Mas não era esse o centro da questão. - abanou o ar com displicência. - Não me surpreende a ter saído do jeito que saiu. - balançou a cabeça, em negação. - Tem noção do que você fez?
- Tenho… - respondi com vagueza, sem convicção na voz. A verdade era que eu não fazia a mínima ideia das consequências, a longo prazo, da minha conversa com . Nem sabia se estava pronto para descobrir.
- Não, James. - estalou o céu da boca. - Você não tem.
- Então me explique, oh, sábia mulher. - retruquei impaciente. A dor de cabeça já estava me incomodando e o deboche de Daniela não estava me ajudando a ficar exatamente calmo. Eu nem sabia o que ela estava fazendo na minha casa, já que havíamos combinado de que eu pegaria Salomé somente no dia seguinte. Me senti culpado ao perceber que o meu estado de espírito estava tão conturbado que nem ao menos me importei com a chegada inesperada da minha filha. Mas se fosse algo sério, Dani falaria, certo?!
- Você entende que acabou de mostrar para a que não se importa o suficiente com os sentimentos dela? - me perguntou, arqueando a sobrancelha. - Mostrar que é ok dar uns beijos nela, mas quem você assume publicamente é a outra… - terminou, insinuante, apontando em minha direção.
Franzi o cenho, confuso. Para mim, não fazia o menor sentido o que Daniela estava afirmando. Não tentei beijar do nada, existiu toda uma situação para o quase beijo acontecer. E, outra, ela não interpretaria assim, não é?! Fiz questão de deixar claro para ela o valor que tinha para mim. Não tinha?!
- Não acho que tenha sido isso, Dani. - acenei negativamente com a cabeça. - não pensaria isso...
- E por que você acha que ela saiu daqui tão alterada, Rodriguez? - devolveu em um tom de quem sabe tudo. - Posso não conhecer tão bem quanto você, mas sei reconhecer uma mulher machucada quando vejo uma.
- Ok… - tentei dar o braço a torcer, ajeitando a minha postura no sofá. - Vamos supor que você esteja certa…
- Eu estou certa. - me interrompeu, jogando os cabelos por cima dos ombros.
- Se você realmente estiver certa. - continuei, ignorando a sua provocação. - O que eu faço agora? - suspirei, frustrado. Se eu tinha esperanças de dissipar a nuvem de mágoa que rondava entre e eu, poderia praticamente desistir e declarar a minha derrota. - A essa altura ela deve estar me odiando...
- Nada. - declarou, simplesmente, como se estivesse me devolvendo um “bom dia”, e não me dando a resposta para a atual questão mais importante da minha vida. E não, não estava falando sobre a proposta do Everton. - E sim, grandes chances de ela estar não odiando, mas extremamente chateada com você...
- Como assim nada?! - retruquei em um tom de quase desespero, sem prestar atenção no que Dani havia falado depois disso. Ela queria que deixasse acontecer naturalmente?! Como?! Se o que eu mais queria, no momento, era deixar claro para que eu não queria fazê-la chorar.
Em resposta, Daniela riu, como se tivesse se divertindo com o meu atual estado de espírito. É aquele ditado, se ex fosse bom, não era ex, era atual. A mulher parecia genuinamente gostar do meu sofrimento.
- Você não pensa, James?! - perguntou. Em seguida, respondeu o seu próprio questionamento antes que eu pudesse fazê-lo. - Claro que não pensa. Isso é óbvio. - mais uma vez tentei rebater, mas Ospina foi novamente mais rápida. - Você está noivo de outra mulher, seu idiota. Enquanto não tomar alguma decisão acerca disso, não procure a . Estou falando sério, James! - exclamou ao ver minha feição de desagrado. A bronca de Ospina, por sua vez, só fez aumentar a careta desgostosa que estampava em minha cara. Sabia que ela tinha razão, mas parecia extremamente errado deixar as coisas continuarem assim, estagnadas. - Ninguém merece ser tratado como segunda opção, James. Ninguém. Procurar a é uma falta de respeito e consideração com ela e com a sua noiva. - cruzou os braços, séria. - Nós dois sabemos que você não ama essa mulher, mas foi uma decisão sua continuar com essa palhaçada de noivado, então respeite a porra da mulher com quem vai casar! - finalizou, irritada.
Não respondi imediatamente, ficando pensativo como o que Daniela falava. Mais uma vez a minha consciência pesou. Como eu poderia casar com Verona, sendo que nem me importava o suficiente com os seus sentimentos? Isso não deveria ser certo. Estava colocando os meus medos acima da minha felicidade e isso só me mostrava que eu era a merda de um covarde. O Pottermore tinha razão quando não me colocou na Grifinória, afinal de contas.
- Nosso casamento terminou de um jeito totalmente conturbado e nós nos amávamos, James. - falou, vagamente, como se lembrasse de uma memória passada. - Você não ama e nem se importa com essa mulher. Então não cometa o mesmo erro duas vezes. - suspirou, mexendo nos cabelos de modo nervoso. - Casamento não é brincadeira. É um juramento que você faz para a sociedade e para Deus sobre amor, parceria e tudo o que você já sabe. - continuou, colocando uma das mãos no meu braço, apertando carinhosamente. - Não faça isso consigo mesmo por medo, James. Ou você vai acabar perdendo a mulher que ama e, deixa eu te dizer... - riu fraco. - Eu posso até ter minhas diferenças com a , mas reconheço que ela é do caralho. - enfatizou, em uma careta divertida. - E até muita areia para o seu caminhãozinho… - parou novamente, me encarando. - Você não vai achar outra mulher assim com facilidade. Salo a ama, bem como toda a sua família. - suspirou mais uma vez. - Só… - hesitou por um instante. - Não seja mais um idiota.

Xx


POV

Eu não sabia como havia me dirigido até o meu apartamento. Fiz o caminho totalmente no automático, rezando baixinho para conseguir chegar em casa sem sofrer qualquer tipo de acidente ou algo do tipo. No percurso, algumas lágrimas nublaram parcialmente minha visão, enquanto no rádio do carro tocavam algumas músicas piegas, que em uma situação normal fariam com que eu zombasse delas, mas, na conjuntura atual… Só me fizeram mais miserável ainda.
Não havia sido uma boa ideia ir conversar com James. Eu achava que estava pronta, tanto que, por conta disso, havia aceitado ir para o aniversário de Salomé dias atrás, mas… Nada foi o bastante para me preparar psicologicamente para a conversa que tivemos.
Nada.
Muitas coisas estavam engasgadas dentro de mim, dentro de nós dois. E a avalanche de sentimentos que nos atingiu era algo pesado demais para se passar com tranquilidade. James era o homem que eu amava. Deus, como eu o amava. Era o meu melhor amigo, o meu confidente e o meu namorado. Perdê-lo não significou apenas perder o cara que me levava para a cama e que me roubava beijos no meio do dia, mas a pessoa que me acalentava em seu colo quando sofria com o estresse do trabalho.
Ou que passava horas maratonando episódios de Modern Family após um dia cansativo. James nunca seria apenas um namorado para mim. Ele era o porto seguro. Mas, em algum momento, ele virou um total estranho e toda a sensação de conforto que eu tinha quando o via, acabou se esvaindo. Eu tinha culpa pelos meus ataques de insegurança e ciúmes, em que eu o acusava de traição e questionava cada passo dele. E ele tinha culpa por me abandonar no período mais complicado do nosso relacionamento, afastando-se de mim e dando mais munição para a minha imaginação destrutiva. Ambos erramos e ambos nos machucamos. Eu conseguia ver isso com clareza e acreditava que ele também. Mas, mesmo assim, não era fácil. E o que era ruim ficou pior quando ele tentou me beijar.
Em cinco anos de relacionamento, não houve um momento em que eu tenha negado um beijo de James. Os lábios dele eram velhos conhecidos e me traziam o gosto gostoso de casa. Beijar James era como intensificar todos os meus sentimentos a uma amplitude máxima, mesmo após anos juntos. Ainda conseguia sentir certo frio na barriga quando ele se aproximava, e as bochechas esquentando, ao ser a pessoa a quem ele direcionava o sorriso torto, marca presente em seu rosto após a troca de carícias.
Sentimentos nada parecidos com o gosto amargo que apareceu em minha boca após ver seus lábios tão perto de mim, de um modo que não estavam há seis meses.
Por um segundo, tive o intuito de esquecer todas as circunstâncias que nos rodeavam e me entregar ao momento. Não queria viver em uma realidade na qual beijar o cara que eu amava era errado. Não era justo viver assim. Mas, infelizmente, era a situação em que eu me encontrava. Poderia beijá-lo ali, no meio de sua sala, por alguns minutos. Ou horas, quem sabe?! Mas não mudaria o fato de que o lado direito de sua cama, onde eu costumava dormir, não era mais ocupado por meu corpo. As mensagens rotineiras pelo dia, não tinham mais a mim como destinatária. Os pensamentos e o coração dele não eram mais meus. E não tinha o que fazer para mudar essa situação.
Não sei o que ele pensou ao tentar me beijar. Talvez tenha cedido ao sentimento de nostalgia que fazia morada entre nós. Ou só… Tivesse vontade, não sei. Mas não era certo. Traição era algo que abominava enormemente. Quantas vezes não consolei amigas após elas descobrirem que estavam sendo traídas por seus namorados? Mais do que eu poderia contar nos dedos, provavelmente.
Ainda hoje me lembro da sensação sufocante que senti quando comecei a cogitar que estava sendo traída pelo colombiano. Um sentimento de impotência e de insuficiência que transbordavam.
Você não é boa o suficiente.
Você é uma vergonha para o seu namorado, família e amigos. Por isso todos te odeiam.
Pobre , realmente achou que poderia namorar um dos jogadores mais queridos da atualidade? Coitadinha.
Ridícula. Feia. Insuficiente.

Esses pensamentos vinham em looping na minha cabeça, aumentando os meus batimentos cardíacos e a sensação de vazio dentro do meu ser. Foi preciso muita terapia e apoio de Margot para conseguir me livrar das amarras da insegurança que me perseguiram durante os últimos meses do meu relacionamento. Era horrível. Nem sabia se tinha me livrado totalmente delas, afinal, só tínhamos terminado há seis meses. Então eu nunca poderia contribuir com a perpetuação desses sentimentos em outra mulher. Mesmo que a mulher fosse Verona, alguém que parecia ser insuportável e que me fazia questionar diariamente os limites da sororidade feminina. Eu não era tão evoluída assim, mas tentava me colocar no lugar dela.
Suspirei, extremamente cansada. Meu corpo doía como se tivesse corrido uma maratona de 20 quilômetros. Minha cabeça parecia que iria explodir a qualquer momento. Tentando relaxar, procurei alguns sais de banho que sabia ter escondido em algum lugar do armário do banheiro. Quando finalmente achei um de lavanda, verifiquei rapidamente a validade, já que não queria morrer com algum tipo de alergia bizarra. Até porque eu morreria antes de ligar para a emergência dentro de uma banheira. Patético? Claro, mas tinha que assegurar alguma dignidade, pelo menos, na minha morte. Quando finalmente terminei os preparos do banho, joguei minhas roupas de qualquer jeito pelo banheiro, sem me preocupar com a bagunça que estava sendo feita. Após estar finalmente despida, imergi na banheira, sentindo o efeito dos sais de relaxamento no meu corpo dolorido. A água morna me ajudava a descansar os músculos e a baixa iluminação melhorava a dor nas têmporas que castigava a minha cabeça.
- Alexa, tocar minhas músicas. - pedi ao Echo dot que tinha em meu banheiro. Podem me achar fútil, mas uma das coisas mais edificantes que fiz com o meu salário foi encher a minha casa de “Alexa’s”, utilizadas para momentos como esse. Momentos em que o meu estado de espírito é tão mórbido que nem forças eu tinha para montar uma playlist decente, no celular, para um banho.
- Estação de de Apple Music. - ouvi a voz robótica me devolver, ao passo que Oye, da TINI e do Sebastián Yatra começou a tocar no cômodo abafado. Bufei, irritada, ao lembrar de como era a letra. E odiando o fato dela se encaixar com a minha realidade atual. Pensei em pedir para passar a música, mas desisti em seguida, cantando baixinho a canção que saía da caixa de som. (Play agora!)

Oye
(Ei)
Escucha lo que tengo que decir
(Escuta bem o que tenho pra te dizer)
Ya no me quedan ganas de mentirte para no llorar
(Eu não quero mais mentir pra você, para não chorar)
Yo sé que ya es muy tarde, pero
(Eu sei que é tarde demais, mas)


A voz suave da cantora fazia com que o aperto do meu peito aumentasse, lembrando de tudo o que levou James e eu ao término.

Oye
(Escuta só)
Todo es cuestión de tiempo, ahora estoy bien
(Tudo é questão de tempo, agora estou bem)
Ya no me quedan ganas de dejar mis besos en tu piel
(Eu já não quero deixar meus beijos na sua pele)
Quererte fue mi error y ahora lo sé
(O meu erro foi te amar e agora eu já sei disso)


Amar James não foi um erro. Nunca poderia pensar assim. Ele foi e é o amor da minha vida. O cara que eu achei que seria o pai dos meus filhos. Quem me deu a certeza de que construir uma família era o que eu mais queria. Mas nada parecia importar agora.

Porque al final del cuento sé muy dentro
(Porque, no final da história, bem lá no fundo eu sei)
Que yo sin ti estoy mejor
(Que estou melhor sem você)
Te fuiste con el viento en un momento
(Você foi embora com o vento num instante)
Y no llevaste este amor
(E não levou esse amor com você)
Porque eres tú, nunca fui yo quien nos dejó
(Porque é você, nunca fui eu quem nos deixou)


Eu realmente estava melhor sem ele? Eu não sabia responder. O amor, de acordo com os filmes da Disney, era sempre algo que acrescentava. Poderia até machucar, em algum momento, mas, no final, tudo daria certo. Porque amar era isso, não era?! Chorar, sorrir, mas, sobretudo, crescer junto e segurar a mão da pessoa amada. E não foi isso que aconteceu. Talvez tenha sido realmente James quem nos deixou, mas será que eu poderia ter feito algo?

Conmigo siempre vas a estar mejor
(Você sempre vai ficar melhor comigo)
No intentes con un dedo venir a tapar el Sol
(Não tente tampar o Sol com uma peneira)
No intentes ser más fuerte que la paz y que el amor
(Não tente ser mais forte que a paz e o amor)
Porque este amor no está perdido
(Porque esse amor não é um caso perdido)
Tú ya sabes que este amor nos encontró
(Você sabe que esse amor nos encontrou)


Sempre achei que não tinha casal mais certo que nós. Nos completávamos nas imperfeições e nos detalhes. James foi um furacão em todos os sentidos na minha vida e não teve realmente um minuto que tenha me arrependido de me jogar de cabeça nessa tempestade. Mas, agora, sozinha, em todos os sentidos, eu penso se não era o momento de finalmente seguir em frente. O colombiano iria se casar. Não tinha mais o que fazer. Eu não fazia o perfil de quem invadia cerimônias de casamento e proporcionava o maior barraco, também não iria mais atrapalhar uma história que não era mais minha.

Por miedo a perderte
(Por medo de te perder)
Y vivir solamente pensándote más
(E viver apenas pensando mais em você)
Sin saber con quién estás
(Sem saber com quem você está)
Yo ya no te sé querer, maldita inseguridad
(Eu já não sei te amar, maldita insegurança)


No final de tudo, foi o demasiado medo de perder James que acabou o afastando de mim. Eu queria poder fazer as coisas diferente. Queria também poder ter mostrado o meu lado da história para o jogador, quando ainda estávamos juntos. Dizer que não era apenas ciúmes, era também o pavor de vê-lo com outra pessoa e longe de mim que me fazia agir do jeito que vinha agindo. Mas agora era tarde demais.

Por miedo a quererte y no ser suficiente
(Por medo de te amar e não ser suficiente)
La velocidad, tengo que dejarte atrás
(A pressa, tenho que te esquecer)
Tantas ganas de volver, tantas ganas de llorar
(Tanta vontade de voltar no tempo, tenho vontade de chorar)

Cómo te enloqueces por una persona
(Como você enlouquece por uma pessoa)
Si ya van tres meses y tú no reaccionas
(Se já faz três meses e você não reage)
Y aunque la razón te advierte, el corazón traiciona
(E embora a razão te avise, seu coração te engana)


Era deprimente assumir que não houve um dia depois da partida de James que eu não tenha esperado pelo seu regresso. A mídia sempre apostava em novos affaires, mas o meu coração negava acreditar na veracidade das manchetes tendenciosas. Afinal, se eles já erraram tanto, o que garantia que não estavam errados mais uma vez? Mas não estavam. O casamento estava marcado e James, muito em breve, nunca mais seria meu. Seria apenas mais uma lembrança de alguém que passou pela minha vida. Uma lembrança distante.

Pero no hay invierno que sea para siempre
(Mas não há inverno que dure para sempre)
Ya se fue un verano, ya vendrá el siguiente
(Um verão se foi, o próximo chegará)
Y aunque la tormenta vuelva, vas a ser más fuerte
(E mesmo que a tempestade volte, você será mais forte)


Mas eu iria me reconstruir. Eu era muito mais do que um relacionamento desastroso. Era injusto comigo mesma estagnar desse jeito por causa de alguém que já estava seguindo em frente. Eu iria sair mais forte de toda essa confusão que atendia por James Rodriguez. O dia de hoje, no futuro, seria apenas mais um obstáculo que eu contornei. As dores e feridas serão cicatrizadas e, finalmente, irei construir novamente a minha felicidade. Eu merecia isso. Era hora de dar adeus a James e deixá-lo viver a sua própria vida.

Porque al final del cuento sé muy dentro
(Porque, no final da história, bem lá no fundo eu sei)
Que yo sin ti estoy mejor
(Que estou melhor sem você)
Te fuiste con el viento en un momento
(Você foi embora com o vento num instante)
Y no llevaste este amor
(E não levou esse amor com você)
Porque eres tú, nunca fui yo quien nos dejó
(Porque é você, nunca fui eu quem nos deixou)
Nunca fui yo
(Nunca fui eu)

Oye
(Ei)
Te fuiste y no me pude despedir
(Você foi embora e eu não consegui me despedir)
Ya dije lo que estaba por decirte, ya no vuelvas más
(Já falei o que eu tinha pra dizer, não volte mais)
Entiendo que ahora estás mejor sin mí
(Entendo que agora você está melhor sem mim)

DIEZ

No sales de mi mente
Y eres lo mejor que he vivido
Borrarte no me provoca
Sin ti no tiene sentido (En Cero - Yandel part. Sebastián Yatra y Manuel Turizo)


30 DIAS PARA O CASAMENTO

POV JAMES RODRIGUEZ


Já fazia alguns dias desde que e eu havíamos conversado. Desde lá, eu andava realmente pensativo sobre o meu casamento. A conversa com Dani também foi responsável por trilhar um pouco de luz em meio à penumbra na qual estava inserido. Estava realmente decidido a conversar com Verona e dar um basta em nossa relação. Não poderia mais continuar vivendo e mentindo para mim mesmo, acreditando que poderia ser feliz com uma mulher que não amava e que nem achava ser capaz de amar um dia. Era necessário aceitar que foi tudo muito precipitado e que eu estava errado em permanecer nessa história, como se estivesse certo.
Já tentava preparar meus ouvidos para a discussão que se prosseguiria, naturalmente, após terminar as coisas com a loira. Verona não era uma pessoa muito pacífica, então sabia que não seria uma conversa fácil. Sem contar que os preparativos do casamento já estavam sendo feitos e os convites pouco a pouco já estavam sendo enviados. Os nossos familiares e os amigos mais próximos já estavam com seus exemplares em mãos, e a lista de presença já estava praticamente elaborada. Faltava cerca de um mês para a cerimônia e isso me mostrou que eu estava extremamente atrasado na minha tomada de decisão. Todo o meu relacionamento com a modelo foi rápido demais e, nada mais previsível nessa situação do que também apressar o casamento. Na época, essa decisão pareceu ser extremamente coerente e necessária. Hoje, essa pressa já me deixava à beira dos nervos. Sinceramente, às vezes eu até esquecia que estava tão perto de casar. Minha opinião não foi requerida em nenhum momento, então eu não sabia dos detalhes da festa. Só sabia o local porque havia sido eu quem reservou a cobertura do VP Plaza, mas, tirando isso, eu estava totalmente por fora, como se fosse um mero convidado, e não o noivo. Nem os padrinhos fui eu quem escolhi, mesmo que nesse ponto, Verona não seja exatamente a culpada. Pedi para o casal Müller para serem os meus padrinhos, mas ambos negaram afirmando que não gostariam de participar dessa, em suas palavras, palhaçada sem noção. Depois, tentei apelar para Lewa e para Anna, sua esposa, mas a resposta foi semelhante a do primeiro casal. Após a segunda negativa, simplesmente desisti e deixei que Verona convidasse um casal de amigos seus para o papel. Eles nem eram as minhas primeiras opções, sendo sincero. Nahuel e Magali, amigos meus de infância, foram os primeiros nomes da minha lista, mas antes do convite, eles já haviam recusado. Provavelmente influenciados por Daniela, que também era próxima do casal, disseram que não poderiam ser coniventes com essa minha loucura. Agostin e Fiorella, padrinhos do meu casamento com Ospina, também se manifestaram, afirmando que só poderiam participar de um casamento fracassado meu e que a cota deles já havia sido preenchida. Na época, devo dizer que fiquei extremamente chateado e irritado, afirmando inúmeras vezes que não possuía amigos de verdade. Hoje, consigo ver que eles só queriam o meu bem, embora de um modo torto e até insensível. O elenco do Real Madrid ao menos foi cogitado para esse papel. Nem havia mandado os seus convites ainda, mesmo faltando tão pouco para a festa. Sabia que meu relacionamento não era bem-visto por lá e queria evitar mais estresse, além do que o âmbito profissional já trazia.
No mais, nos últimos dias, Verona estava inexplicavelmente mais carinhosa e até meio nervosa, sempre que me encarava. Em alguns momentos, tive a impressão de que ela tinha algo a me dizer, mas sempre hesitava e acabava desistindo. E isso era realmente estranho. Verona era uma pessoa extremamente geniosa, que, dificilmente, segurava as próprias opiniões para si, mesmo que essa opinião fosse repulsiva e pudesse vir a magoar alguém. Para deixar tudo ainda mais incomum, a modelo até tentou socializar com Salomé, nos dias que a menina passou lá em casa. No dia da minha conversa com , Dani havia levado Salo lá para casa porque, por algum motivo, a menina não parava de chorar, afirmando que só dormiria tranquila se fosse para a minha casa. Ironicamente, a garotinha acabou dormindo no carro, a caminho do meu condomínio, mas Dani achou melhor não a contrariar quanto a isso e deixá-la comigo mesmo assim. Salomé não era uma criança birrenta e mimada, então eram raros os momentos em que ela usava do drama para conseguir o que desejava, por isso, quando algo do tipo acontecia, sabíamos que era algo realmente sério.
Na manhã seguinte à conversa, quando a questionei sobre o porquê de querer ir para a minha casa na noite anterior, sendo que já estava combinado que eu iria pegá-la na escola para ficarmos juntos, a menina apenas respondeu que precisava me ver, sem dar maiores explicações, mesmo após as minhas insistências. Decidi não pressioná-la mais quanto a isso, principalmente pelas caretas desgostosas que a pequena fazia quando encontrava a minha noiva pela casa, tentando agradá-la ao máximo durante a semana que passou junto a mim. Nesse momento, a minha filha estava junto aos meus pais e à Verona, na área destinada aos familiares dos jogadores e aos convidados dos clubes no Camp Nou, estádio do Barcelona. O estádio era o maior da Europa, com capacidade de público de até 99.300 torcedores e, pelo que eu pude inferir, estava completamente lotado. Por onde olhava, conseguia ver azul e grená por todos os lados. Crianças, adultos e idosos estampavam camisas, faixas e bandeiras em apoio ao time blaugrana e aos seus jogadores, que hoje recebiam o seu maior rival. Nós. O El Clásico era considerado a maior rivalidade da história do futebol, com um certo acirramento acerca dos resultados. Eram 98 vitórias nossas contra 95 deles. Sem contar com os 52 empates. Fora isso, eram mais de 800 gols que ilustravam a animosidade inserida dentro do derby espanhol. Inexplicavelmente, Zidane havia me escalado para a partida, mesmo que como reserva. O treinador estava cada vez mais intragável, querendo de todo jeito que Ancelotti conseguisse me levar para o Everton e, assim, para longe de sua equipe.
O clima aquecido de Barcelona ornava perfeitamente com os ânimos alterados que envolviam a partida. O Barcelona estava na frente na classificação da La Liga por meros dois pontos, mas não existiam favoritos no El Clásico e tudo poderia acontecer. Inclusive, nada.
Enquanto eu calçava as chuteiras dentro do vestiário, senti uma presença atrás de mim, quase como uma assombração, visto que a pessoa nada falava, mas eu sentia seus olhos em mim.
- Rodriguez. - a voz de Ramos veio em um rompante, junto com um cutucão em minhas costelas. Ao sentir o toque, sobressaltei-me de leve, virando para o capitão merengue com uma careta surpresa. Ao ver minhas feições, Sergio continuou. - Desculpe. – pediu, rindo, ao ver que havia me assustado. Apenas acenei em resposta, mostrando que não havia sido nada demais. - Precisamos conversar. - afirmou, indicando uma região mais vazia do local ao lado de alguns armários vazios. Após assentir para o convite de Ramos, o segui para a região indicada, longe dos olhares dos meus companheiros de time.
- O que foi? – perguntei, confuso, ao vê-lo me encarar com os lábios franzidos, sem emitir qualquer som. Sergio suspirou, balançando a cabeça em negação e fazendo com que a minha confusão apenas aumentasse.
- Você sabe da consideração que eu tenho por você, certo? - perguntou, cruzando os braços em uma feição séria.
- Sei… - respondi vagamente, sem saber aonde ele gostaria de chegar com aquela conversa.
- Mas você sabe também que o Real Madrid, quando estamos em campo, é a coisa mais importante, não é?! - e ali eu entendi o que Sergio queria falar comigo. Anos atrás, antes do meu empréstimo para o Bayern, na final do Mundial de Clubes, uma declaração minha sobre a insatisfação que sentia por não jogar o suficiente acabou não pegando tão bem assim. Havíamos ganhado o título e era óbvio que eu estava contente e orgulhoso da minha equipe, mas também estava bastante frustrado por não ter tido a chance de jogar nem por alguns minutos. Por isso, tinha deixado em aberto qual seria o meu futuro, se iria ficar ou sair do Real Madrid, o que acabou desagradando muitos torcedores e, inclusive, os meus parceiros. Ramos foi um dos que havia dito publicamente que não era o momento de misturar problemas pessoais com o profissional. Fácil para ele dizer isso, era o que eu até hoje acreditava. Ironicamente, um tempo depois, na final da Champions League, em que o Real Madrid derrotou o Liverpool, Cristiano Ronaldo havia feito uma declaração bem semelhante à que eu havia feito anteriormente, mas não por causa de minutos jogados, e sim por um aumento de salário. Nessa ocasião, não ouvi de Ramos que o português deveria comemorar o título e deixar os problemas internos para outra ocasião.
-Não vou fazer nenhuma declaração polêmica, Sergio. - rolei os olhos, impaciente. Em dias de El Clásico, as atenções nos jogadores de ambos os times era ainda maior do que o normal, e qualquer comentário, por mais inofensivo que fosse, poderia virar um grande estardalhaço. Eu odiava a imprensa espanhola e nunca fui capaz de negar, mesmo que os jornalistas colombianos gostassem de frisar que eu só me irritava com as críticas feitas por eles. Várias vezes me alfinetaram afirmando que em Madrid eu era omisso aos comentários negativos, o que estava longe de ser verdade. Não gostava de críticas, o que era óbvio. Mas meu problema nunca fora alguns comentários mais ariscos feitos por algum comentarista. O que me irritava era o desrespeito e o descaso para comigo e com a minha carreira, bem como a invasão à minha vida pessoal. O resto eu aceitava como consequência do meu trabalho.
- Sei que não vai. - assentiu, sem quebrar o contato visual. - Mas tente deixar toda a sua frustração fora do campo, está certo? - pediu, ainda sério. - É o seu primeiro clássico desde que voltou do Bayern e eu sei que a sua vida profissional está uma loucura. - continuou, abrindo um sorriso complacente. - A pessoal também, mas não quero elencar os motivos do porquê te acho burro. - riu enquanto eu rolava os olhos. - Então, se você entrar em campo, dê o seu melhor. Os caras do Barcelona não terão pena de nós, então não dê mole. - apertou o meu ombro de leve, em sinal de apoio. - E, depois, se quiser xingar o Zidane, a Verona, ou até a coitada da , conte comigo. - me abraçou lateralmente. - Estamos aqui, colombiano insuportável. Você não está sozinho.

Xx


Depois da nossa breve conversa, Ramos se aproximou de Zidane, junto com os outros dez jogadores que seriam os titulares de hoje, para as últimas orientações para a partida. Após ouvirem as recomendações, todos seguiram para a fila para poderem ingressar no campo e dar início ao jogo. Quando estava indo para o banco de reservas, senti um breve puxão no meu braço direito, percebendo ser Marcelo quem impedia o meu caminhar. O brasileiro estava em tratamento de uma lesão e também não seria titular no derby, sendo bem improvável que entrasse na partida em algum momento.
- James, você está bem? - perguntou, com a mão cobrindo a boca, de modo a evitar os especialistas em leitura labial, que sempre pareciam atentos às conversas dos jogadores.
- Estou…?! - confirmei em um tom de dúvida, já que não entendia o motivo da pergunta.
- Soube da sua conversa com a , cara. - arqueei a sobrancelha em descrença, vendo o outro completar rapidamente. - Daniela falou com a Clarisse, que comentou comigo depois.
Por serem umas das poucas esposas latinas e com filhos, na época em que ingressei no Real Madrid, Daniela e Clarisse acabaram desenvolvendo uma forte amizade, o que deixou a colombiana também próxima a Marcelo, de modo totalmente oposto à relação dela com Sergio, que tinha toda a sua antipatia. Inclusive, no início de meu namoro com , quando Ospina fez todo um inferno relacionado à Salo, Clarisse foi uma das pessoas que mais repreendeu a mulher, até cortando o contato de ambas por um tempo. Então não era exatamente uma surpresa que ambas fofocassem sobre assuntos cotidianos, mesmo que esse assunto em específico fosse a minha vida.
- Ah… - suspirei, sentando na área destinada aos reservas. O jogo já rolava e, pelo canto de olho, consegui ver que o Barcelona quem estava com a posse de bola. - Está tudo bem, cara…
- Bicho, tu sabe que eu te acho extremamente burro, não é?! - questionou retoricamente, sem se preocupar com o fato de algum curioso entender o que ele falava para mim, como se o comentário devesse ser difundido. - Largar a , que era uma puta de uma parceira, pela loira aguada da Verona. - arqueei a sobrancelha, querendo rir. - Sem ofensas. - desculpou-se, sem transparecer o menor sentimento de culpa.
- Você realmente quer falar sobre isso aqui? - sinalizei o jogo que, no momento, mostrava uma arrancada de De Jong, que conseguiu achar Griezmann, na entrada da área, sozinho. O francês olhou rapidamente ao redor, localizando Messi livre e lançando a bola para o argentino, que dominou no peito e chutou de primeira. Courtois até chegou na bola, mas não conseguiu defender. Gol do Barcelona. Xinguei baixo, irritado. Não estávamos nem nos primeiros dez minutos de partida e os catalães já haviam marcado.
- Oh! - exclamou, irônico. - Você tem alguma coisa mais importante para fazer? - colocou as mãos na cintura, tombando a cabeça para o lado. - Não estou muito interessado em ver o rival marcando. - balançou a cabeça em negação, como se repreendesse mentalmente os companheiros de time pela bobeira.
- Eu acho a ideia do Barcelona amassando a gente, menos desagradável do que essa conversa. - fiz uma careta. - Nos últimos dias, tive mais conversas e aconselhamentos do que gostaria e, principalmente, do que pedi.
- É porque você é burro, hermanito. - respondeu como se fosse óbvio. – Para gente burra, nós precisamos falar várias vezes, de vários jeitos diferentes, até que o burro consiga entender. - deu palmadinhas na minha cabeça, como se eu fosse um cachorro. Afastei os braços do lateral, irritado com os afagos desajeitados. - Seria mais fácil adestrar um animal.
- Hilário. – disse, ironicamente, rolando os olhos em seguida. - Fala logo o que você quer falar. - mandei, sabendo que o brasileiro, direto como era, não estava puxando esse assunto apenas pela fofoca, mesmo que Marcelo fosse um baita de um fofoqueiro.
- Quando tu vai largar a insuportável da tua noiva e voltar com a ? – perguntou, direto. Eu apenas esperava que ninguém estivesse prestando atenção em nós. Não queria que essa conversa vazasse, principalmente pelo meu desejo de conversar a sós com Verona mais tarde, logo após o jogo. - Nem me mande um convite de casamento que eu não vou. - apontou, voltando atrás ao ver meu olhar incrédulo. - Talvez até vá, mas só porque quero comer às suas custas.
- Você é ridículo. - balancei a cabeça, rindo baixo. - Mas… - suspirei, coçando a cabeça. - Pretendo conversar com ela hoje…
- NÃO BRINCA! - exclamou um pouco alto demais, chamando atenção de Asensio e de Vinicius Jr., que estavam a alguns bancos de distância de nós dois. - Achei que teria que te expor no Twitter para você fazer alguma coisa!
- Do que vocês estão falando? - perguntou Asensio, pulando para o banco ao lado do meu, que estava vazio. A esse ponto, ninguém parecia realmente preocupado com o jogo que se desenrolava à nossa frente. Já podia esperar alguma manchete sensacionalista do tipo “Real Madrid em crise: time apanha do rival e os seus jogadores pouco se importam com o resultado”, caso a vitória do Barcelona se confirmasse. Felizmente, ninguém da equipe técnica parecia prestar atenção no nosso grupinho, ocupados demais em gritar orientações para os titulares, que pareciam extremamente perdidos ao passo que o Barcelona e a sua torcida dominavam todo o ambiente.
- Da vida amorosa do James. - Marcelo falou, antes que eu tivesse a chance. - Finalmente ele vai ser útil para alguma coisa e vai terminar com a noivinha dele.
- Finalmente, cara! - foi Vinicius quem respondeu. - Estávamos fazendo um bolão para saber quando isso iria acontecer.
- Bolão?! – indaguei, confuso, até meio indignado. - E por que você está interessado nisso, Júnior? Você nem conhece a ! - pontuei, já que o brasileiro só havia chegado à Espanha meses depois do término do meu relacionamento, então o máximo que ele conhecia a espanhola era pelos comentários dos nossos companheiros de time.
- Mas conhece a Verona. - falou Marco, fazendo os brasileiros assentirem fervorosamente. - Isso já é motivo suficiente para participar de um bolão.
- Não queria defender o hermanito aqui... - começou Marcelo. - Mas que história é essa de bolão?! Que absurdo… - exclamou, indignado. Mas antes que eu pudesse agradecê-lo, Marcelo concluiu. - Eu não estar participando! - cruzou os braços, apontando para os mais novos com uma face de chateação. - Por que ninguém me convidou?!
- Você estava ocupado demais com a fisioterapia. - foi Asensio quem se explicou, levantando os braços em rendição. - Não quisemos te atrapalhar…
- Como se ganhar dinheiro em cima do Rodriguez fosse me atrapalhar em algo. - rolou os olhos, dramaticamente. - Ele terminando hoje, quem ganha?!
- Pelas minhas contas, o Toni. - respondeu Vinicius após uma pausa, como se tivesse tentando recuperar alguma memória. - Mas não tenho certeza…
- Até o Kroos está participando disso?! - exclamei, realmente surpreso. Toni era o mais sério de nós. Não sabia se era por ele ser alemão e querer seguir todo aquele estereótipo de gente fria e sombria, mas o loiro realmente era mais na dele. Não éramos tão próximos assim, mas tinha certa consideração pelo jogador. - Porra… - xinguei baixo, acenando negativamente com a cabeça.
- Para você ver... - concordou o brasileiro mais novo. - Todo mundo apostando em cima da sua burrice.
- Vocês são péssimos amigos. - bufei, inconformado com toda a situação.
- Nós somos ótimos amigos e só estamos fazendo isso porque queremos a sua felicidade. - discordou Asensio, fazendo com que eu o encarasse com incredulidade. - E também ganhar dinheiro nas suas costas. - completou, dando tapinhas no meu ombro.
Antes que eu pudesse respondê-lo, contudo, David Bettoni, assistente técnico de Zidane, surgiu em nossa frente, com uma cara extremamente irritada.
- Não sei se as donzelas fofoqueiras perceberam... – começou, irritado, parecendo tentado a jogar a prancheta que segurava em cima de nós quatro. - Mas o primeiro tempo acabou. Entrem na porra do vestiário e façam valer vestir a camisa do time que paga os salários de vocês! - vociferou, nem nos dando tempo para responder, sumindo pelo corredor que dava para os vestiários.
Nós quatro trocamos alguns olhares, decidindo rapidamente por seguir o francês sem maiores questionamentos. Eu não precisava piorar a minha situação dentro do time madrilenho.

Xx


No segundo tempo, pouca coisa mudou, a não ser pelo placar. O Barcelona permaneceu com a maior posse de bola, interceptando todas as nossas jogadas. Lenglet e Piqué, zagueiros blaugrana, provavelmente faziam a melhor atuação de ambos nesta temporada, sendo os grandes protagonistas, junto a Messi, na partida. Outra surpresa havia sido a atuação de Pedri, jovem atacante espanhol que foi responsável por um dos três gols que havíamos sofrido dos catalães. Aparentemente, a partida havia servido apenas para que os torcedores culés se encantassem novamente com os seus jogadores, e para também ampliar a distância entre o Barcelona e o Real Madrid na tabela. Zidane estava possesso. Meus ouvidos ainda zuniam pelos gritos que fomos obrigados a ouvir. E quando Asensio, inocentemente, comentou ao meu lado que não tínhamos culpa pelo resultado, visto que não havíamos entrado em campo, tivemos que ouvir ainda mais gritos sobre como éramos ainda mais inúteis que os titulares, visto que nem para ajudar o clube como reforço nós servíamos. Extremamente agradável.
Após a sessão de tortura, fomos liberados para pegar o ônibus do time, que nos levaria direto para o aeroporto para que, assim, voltássemos a Madrid. Eu não voltaria com o time, já que minha família estava me esperando ainda no estádio. Havia reservado um hotel para eles, que estavam extremamente animados em passear por Barcelona e utilizaram o pretexto do jogo para me acompanharem. Verona, normalmente, questionaria o porquê de vir prestigiar uma partida que eu não iria jogar, mas dessa vez havia aceitado vir junto aos meus pais e Salo. Minha família, por outro lado, foi quem não gostou do convite. Mamãe havia me questionado se a presença da loira era realmente necessária, ficando frustrada ao perceber que eu não iria ceder aos seus desejos de impedir a ida de Verona para a Catalunha. Parando para pensar, realmente não havia sido uma boa ideia insistir pela presença da mulher. Conversar com a loira, fora de Madrid, não era exatamente um jeito decente de terminar um noivado, mas se demorasse mais, eu provavelmente desistiria de fazer o que precisava ser feito. Então, apesar dos pesares, nós romperíamos ali mesmo. Já estava adiando essa situação há tempos. Desde o dia seguinte a que o pedido foi feito, se fosse para ser sincero. Após trocar o uniforme do time por uma calça jeans e uma camiseta preta, me despedi rapidamente de meus colegas, recebendo uns tapinhas e algumas palavras de incentivo dos que sabiam o que eu iria fazer. Os que não estavam por dentro do assunto, por sua vez, me lançaram olhares curiosos, logo sendo introduzidos à novidade por Marcelo, que não conseguia manter a boca fechada.
Havia previamente combinado com os meus pais que iria esperá-los no estacionamento privativo, visto que o carro que eu tinha alugado para andar por esses dois dias de folga estava parado no local. Chegando lá, encontrei as quatro pessoas com a camisa de número 16, que já não era mais o 10 que eu costumava defender em temporadas anteriores, o que ainda feria com o meu ego.
Ao colocar seus olhos em mim, Salomé veio correndo em minha direção, me abraçando forte quando chegou em minha frente.
- Jogo horrível, papai. - declarou a pequena, em uma careta desgostosa. - Sentamos ao lado dos filhos do Messi e eles só sabiam rir de vocês. - cruzou os braços, indignada. - Vovó nem deixou eu responder! - apontou para a minha mãe, que se aproximava com o meu pai, ambos com sorrisos amarelos no rosto.
- Temos que saber perder, Salo. - meu pai quem respondeu, após me dar um abraço e seus típicos tapinhas nas costas. - Eles jogaram melhor.
- Isso não me impede de querer tirar o sorrisinho daqueles pirralhos irritantes. - disse em um bico enfezado, empinando o nariz em uma posição de superioridade. Realmente acreditava que estava criando uma adolescente.
- Você é uma pirralha irritante e mesmo assim eu te quero sorrindo, Salo. – falei, implicante, vendo Verona estagnada ao lado de um Audi qualquer que estava estacionado ali. A mulher não parecia estar prestando atenção em nós, brincando com mechas do seu longo cabelo loiro, distraída. Salomé, por sua vez, fez menção de responder à brincadeira, mas desistiu ao ver para quem eu olhava.
- Tia Verônica não foi tão chata hoje, papai. - falou, balançando a minha mão que estava grudada à sua. - Ela até me chamou de Salo! – falou, surpresa, como se um ato de gentileza vindo da madrasta não pudesse ser real. Essa constatação trouxe um gosto amargo para a minha boca. Não poderia me casar com uma pessoa que não tratasse a minha filha com o mínimo de consideração e só agora parecia entender isso.
- Salo está certa, hijo. - mamãe falou ao meu lado. - Ela parecia mais simpática hoje, embora estivesse pálida e com a aparência assustada.
- Assustada? - perguntei, curioso, andando junto a eles em direção à loira, que já havia parado de mexer nos cabelos e esperava pacientemente o fim de nossa conversa.
- Sim. - meu pai concordou. - Como se estivesse escondendo alguma coisa. - declarou.
Quando eu iria perguntar mais detalhes sobre o que havia ocorrido entre os quatro durante a partida, Verona surgiu inesperadamente em minha frente, me abraçando com certa força e depositando um beijo leve em meus lábios. O ato me trouxe certa estranheza, confesso. A mulher não gostava de demonstrar afeto em público, principalmente se esse público era alguém da minha família. Então, me abraçar e beijar na frente dos meus pais e da minha filha não era algo que eu esperava dela.
- Sinto muito pela derrota, cariño. - falou amorosamente, dando mais um beijo em minha bochecha. Ao ver que eu a encarava, pasmo, a loira bufou, em um sinal de irritação. Esta expressão era mais condizente com a loira, devo dizer. - Eu posso ser carinhosa, ok? - colocou as mãos na cintura, adivinhando o que eu pensava.
- Sei que sim, Vee. - abracei a loira lateralmente, concordando, por não querer discutir. Depois disso, fui a guiando e o restante do grupo para a Land Rover preta que eu havia alugado, achando-a rapidamente. Chegando no carro, parei por um segundo antes de ligar o veículo, suspirando de leve com o frio da barriga incômodo que estava sentindo pela conversa que se aproximava. Só quando Salomé perguntou o porquê de não termos partido ainda, que eu balancei a cabeça em negação, dirigindo para o hotel em seguida. O caminho foi relativamente silencioso, com apenas o som do rádio tocando algumas das músicas mais famosas da atualidade.
Ao me deparar com a grande fachada do Yurban Passage, hotel que sempre me hospedava quando estava em Barcelona, dirigi para a entrada do local, falando rapidamente com o manobrista que ali se encontrava e deixando com o rapaz as chaves do carro. As nossas malas já se encontravam nos quartos que havia reservado, então não tinha nada de valor dentro do veículo. Depois de entrar no majestoso prédio e de resolver algumas burocracias referentes à nossa estadia, pegamos o elevador para o quinto andar, que tinha uma das melhores vistas da cidade. Chegando em frente aos quartos escolhidos, comecei a sentir o suor em minhas mãos, mostrando o nervosismo que escorria por meus poros.
- Papa, posso dormir com você? - Salo pediu, ao ver que iríamos nos despedir. Crispei os lábios, em desagrado. Não gostava de negar coisas para a minha pequena, mas não tinha como ela dormir comigo essa noite. Não sabia o que iria resultar da minha conversa com Verona e não queria que a menina fosse submetida a uma situação de turbulência.
- Hoje não dá, Salo. - neguei em um tom ameno, me ajoelhando em sua frente e brincando com um dos cachos presentes em seu cabelo. - Mas amanhã eu prometo passar o dia com você, ok? - completei rapidamente, ao ver que a menina iria reclamar da negativa.
- Mas…! - começou, bufando de leve ao ver o meu olhar de repreensão. - Promete de dedinho que amanhã o dia será só meu? - pareceu ceder, frisando a última palavra e olhando de soslaio para a loira que parecia estar totalmente dispersa de nossa conversa, olhando para os próprios pés.
- Prometo, mi amor. - concordei, deixando um beijo em sua cabeça. Após ver Salo assentir em concordância, levantei e me despedi dos meus pais, que também não sabiam das minhas intenções para aquela noite, seguindo para o quarto com Verona em seguida.
Fechei a porta com cuidado, mordendo os lábios em apreensão. Não sabia como começar o assunto. Nem se deveria começar o assunto do nada. Deveríamos pedir algo para comer primeiro, não?! Acho que seria mais sensato nos alimentarmos antes de partir para o assunto principal. Se bem que, não acho que seria uma boa ideia deixar garfos e facas a um fácil alcance de Verona, que mesmo aérea, ainda era… Bem, Verona. Decidindo por não pedir nada, coloquei o meu olhar na figura da loira, que também parecia inquieta, como se também se preparasse para uma conversa indigesta.
- Vee? - chamei, vendo-a parar em um rompante, assustada com a minha voz. Após sentir o seu olhar sobre mim, continuei. - Precisamos conversar. - falei, me achando um grandíssimo filho da puta por querer acabar nosso relacionamento naquela situação.
- Ahn… - piscou, confusa por um momento, como se não entendesse o que eu estava falando. - Sim, precisamos. - assentiu em seguida, sentando na grande cama de casal do nosso quarto.
- Eu… - comecei, pigarreando para deixar a voz mais firme. - Nós… - tentei mais uma vez, sem sucesso. Passei a me amaldiçoar mentalmente por não conseguir completar um raciocínio como uma pessoa racional. Porra, James, recomponha-se, pensei, irritado. Conseguia ouvir perfeitamente a voz de Daniela dizendo algo como “se teve coragem de pedir essa mulher em casamento, então tem coragem suficiente para dar um chute na bunda dela. Honre as suas bolas, Rodriguez!”, o que me deixava mais inquieto ainda. Não suportava os momentos em que a voz da minha consciência se parecia com a de Ospina.
- Fale o que você quer dizer de uma vez só, James. - pediu Verona, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha e chamando novamente minha atenção para si. A modelo não me encarava nos olhos e isso tornava a situação ainda mais estranha.
- Eu acho que deveríamos terminar. - soltei, sem mais nem menos. Não sabia como falar isso de forma mais amena, então preferi ser direto. É o que dizer, não?! Um curativo se tira de uma vez, sem hesitação. Verona, por outro lado, levantou a cabeça em um sobressalto, como se não acreditasse no que eu estava dizendo. Pela sua expressão, a loira não esperava nada disso. Mas, no momento, não conseguia me importar muito com os sentimentos dela. Mesmo que isso fosse extremante insensível da minha parte.
- Terminar?! – perguntou, como se quisesse ter certeza do que havia escutado. - Você quer terminar o nosso noivado?!
- Quero. - assenti, encostando o corpo no painel da televisão. - Sejamos sinceros, Verona, nós não nos amamos. - comecei, sem saber se estava sendo indelicado demais. - O nosso noivado foi um erro impensado e isso não tem como dar certo. - falei em um suspiro, passando a mão no rosto em sinal de cansaço. E sabe o que mais? Eu também sou apaixonado pela minha ex e espero conquistá-la novamente, completei mentalmente, achando que não cabia expressar esses pensamentos em voz alta. Verona me encarou por alguns segundos, calada. Com uma expressão cansada, posteriormente, quebrou o silêncio em um suspiro frustrado.
- Sinto muito que você se sinta assim, James. – começou, sincera, em um tom aparentemente exausto, como se estivesse com algum fardo muito grande sobre os ombros. - Mas é que eu estou grávida e não sei como lidar com isso sem você.

ONCE

Verão passado
Fizemos planos como sempre fizemos
Dissemos que até lá teríamos tudo e mais
Nunca pensei que estaríamos sonhando desacompanhados (Remember Me - UMI)


30 DIAS PARA O CASAMENTO

POV JAMES RODRIGUEZ


Eu paralisei, atônito. Se pudesse dramatizar, diria até que senti uma fraqueza nas pernas, como se fosse cair a qualquer momento. O quarto pareceu ficar menor e eu já não conseguia firmar os meus pensamentos com clareza. Ela estava o quê…?! Não, eu não poderia ter escutado certo. A minha primeira reação foi de me beliscar como forma de averiguar se realmente estava acordado e que aquilo ali não era uma espécie de pesadelo super realista. Eu, sinceramente, esperava que fosse.
Vendo que eu permanecia sem reação, Verona suspirou, cansada. A feição da loira era de dar pena. Não sei se eu era realmente relapso ou se ela conseguia disfarçar muito bem, permitindo mostrar suas fraquezas apenas agora, mas só nesse instante eu consegui perceber o porquê do comportamento estranho da loira e o quanto ela parecia destruída. Não fisicamente, claro. Os cabelos loiros permaneciam bem arrumados e o seu rosto estava pintado com uma maquiagem leve, nada muito exagerado. A mulher estava bonita como sempre. Porém, o olhar dela era realmente algo triste de se observar. Como eu não havia percebido isso antes?! Meus pais comentaram sobre sua simpatia surpreendente e sobre ela estar escondendo algo, mas ninguém havia percebido sua atmosfera melancólica. Talvez ninguém se importasse o suficiente, o que era mais triste ainda. Como eu havia nos enfiado nessa situação, Dios?!
- Você não vai falar nada? - ela finalmente quebrou o silêncio, buscando meu olhar com o seu. Eu suspirei, balançando a cabeça em negação, buscando forças para continuar com a conversa e com o rumo indesejado que ela estava tomando.
- Você está grávida? - apenas repeti bobamente, fazendo-a revirar os olhos em sua típica postura impaciente. Aparentemente, eu havia demorado demais para mostrar alguma reação perante a sua declaração e isso a tinha estressado.
- Sim, James. - bufou, colocando as mãos no rosto. - Eu estou grávida.
- Eu… - hesitei, sem saber o que falar. Eu estava realmente surpreso com tudo o que estava acontecendo. Eu tentei terminar o meu noivado e de brinde descobri que iria ser pai novamente. Isso só poderia ser algum tipo de brincadeira bem sem graça do cara lá de cima. Eu não era um dos seus favoritos, claramente. - Você tem certeza? - quis assegurar, quase me arrependendo ao ver a feição irritada que surgiu no rosto de Verona. Eu não deveria estressar uma mulher grávida, mesmo sabendo que isso era impossível quando se tratava da modelo.
- Claro que eu tenho certeza! - exclamou, levantando em um rompante e apontando para mim. - Eu fiz sete testes de farmácia, Rodriguez. – frisou. - Sete! - exclamou novamente, cruzando os braços. - Eu nem sei de onde saiu tanta urina de dentro de mim. - balançou a cabeça, dando um riso seco, amargurado. - E todos deram positivo. - suspirou, sentando novamente na cama e olhando para cima, como se buscasse calma. - Ainda não satisfeita, fiz o teste de laboratório, e adivinha só?! - dramatizou, rolando os olhos. - Positivo também!
- Você deveria se acalmar, Vee. - me aproximei dela, sentando-me ao seu lado na cama e tocando o seu braço, tentando passar força. Não sabia quando exatamente os hormônios da gravidez começavam a alterar o humor da mulher, mas não queria arriscar um sapato na minha cara, sendo arremessado por ela. A loira, por sua vez, me olhou como se eu tivesse cometido o pior dos crimes, dando um tapa no meu braço e levantando novamente para se afastar de mim.
- Me acalmar?! - elevou o tom, esganiçando a voz em uma quase histeria. Fiz uma careta involuntária pelo tom agudo que estava irritando os meus ouvidos. - Eu não quero ser mãe, James! Nunca quis. Não gosto de crianças, e odeio a ideia de ter um pirralho remelento por aí que dependa só de mim. - começou a despejar, irritada. - Além de tudo, eu sou modelo, Rodriguez. Modelo! - puxou os cabelos para trás, tentando atenuar o seu mau humor. Como se isso fosse possível. - Minha magreza é o meu sustento. Eu simplesmente não podia estar passando por isso! - apontou, vindo em minha direção com uma súbita raiva. Quando me alcançou, começou a me dar socos pelo corpo, atingindo todas as partes que conseguia. – Aí, você vai e me engravida! - continuou batendo em todas as regiões de mim que alcançava, sem se importar com o fato de estar me machucando ou não. Sentindo os braços já começando a ficar doloridos pela força que Verona estava aplicando sobre eles, tentei segurar suas mãos, falhando duas vezes antes de conseguir imobilizá-la e parar com os golpes. - Eu odeio você. - choramingou, balançando os pulsos para se desvencilhar de mim. Vendo que poderia machucá-la mesmo sem ter a intenção, soltei-a, afastando-me rapidamente e me encostando na parede a uma distância segura da modelo.
- Nós sempre transamos protegidos, Verona. - falei após um tempo em silêncio. Ainda estava atordoado com a chuva de informações que havia me atingido em pouco tempo. Tentei abstrair a minha mente, balançando a cabeça e esfregando o rosto com frustração. O surto de Verona deixava tudo ainda mais complicado. - Como isso pôde acontecer? - suspirei, tombando a cabeça para trás, sem saber mais o que pensar.
- Eu não sei. – respondeu, sincera, um pouco menos pilhada, mas ainda bagunçando os cabelos com raiva. - Talvez a camisinha tenha furado na semana em que eu estava tomando os antibióticos…
- E a droga do anticoncepcional falhou. - conclui o mais óbvio, fechando os olhos ao vê-la assentir. Em silêncio, amaldiçoei todas as entidades responsáveis pela fertilidade, de Afrodite à Freia, sem saber o porquê de isto estar acontecendo comigo. Suspirei mais uma vez, repentinamente exausto. Era muito azar, realmente.
- E sabe o pior de tudo?! - riu ironicamente, em um tom ácido, chamando a minha atenção para si novamente. - Eu achei que pelo menos você ficaria animado com isso, mas, surpresa! - fez uma falsa cara de choque, com o olhar ainda mais cortante em minha direção. - Você estava só esperando o melhor momento para dar um chute na minha bunda e ir atrás daquela sua ex-namorada sem graça. - rolou os olhos - A doce e querida . - cuspiu a provocação, como se as palavras tivessem um gosto ruim. - Surpreso, querido?! - deu mais uma risada amarga, vendo o meu cenho franzido ao ouvi-la entoar o nome de . Não sabia onde ela queria chegar com essas insinuações, ou melhor, fingia não saber. Não era tão burro assim. - Você realmente achou que eu não perceberia como você ficou afetado depois de a encontrar no aniversário da sua filha?! - apertou a ponte do nariz em sinal de frustração. - Eu não sou idiota, James, mesmo que você ache que sim. - respirou fundo, batendo nas coxas. - Talvez eu seja, porque realmente acreditei que esse casamento poderia dar certo e que você se apaixonaria por mim…
- Você também não é apaixonada por mim, Verona. - salientei, começando a me indignar com os fatos que estavam sendo jogados por ela. Ok, admito que não era o melhor dos noivos e que não me importava o suficiente com os sentimentos da loira, mas isso nunca foi algo unilateral. A modelo possuía o mesmo nível de indiferença que eu tinha, com o agravante de estendê-lo à minha família, sobretudo à Salomé. - Não me pinte como alguém pior do que eu sou.
- E você deixou com que eu me apaixonasse por você, James? - retrucou, levemente ofendida com o meu tom de voz. - Sempre ausente e indiferente, priorizando outras pessoas constantemente no meu lugar...
- Se com “outras pessoas”... - fiz o sinal de aspas com os dedos. - Você está se referindo à Salomé, pode parar! - retruquei, indignado com a acusação de Verona. Realmente, isso nunca daria certo. - Ela sempre será a minha maior prioridade.
- Olha, James… - balançou a cabeça, crispando os lábios em desagrado. - Eu não me importo mais. - deu de ombros, em uma falsa indiferença. - Eu cresci com uma mãe solo porque meu pai a abandonou depois de culpá-la pelo afastamento do grande amor de sua vida. - riu irônica mais uma vez, com uma dose mais acentuada de rancor. Sempre era muito difícil para a loira falar do pai, tanto que eu nem sabia o nome dele. - Sendo que o imbecil nunca entendeu que a tal mulher o largou porque ele a traiu com a minha mãe e, ainda por cima, a engravidou. - respirou fundo, tentando conter a frustração dentro de si. - A minha mãe não fazia ideia. - sorriu fraco, procurando o meu olhar. - O único erro dela foi ter se deixado levar pelo papo de um homem desconhecido. - suspirou, tombando a cabeça para trás. Eu sabia superficialmente da história da família de Verona. Havia conversado com a sua mãe, Dolores, apenas duas vezes, e, apesar do seu aparente gosto por minha pessoa, ela também não concordava com o casamento. Verona e a mãe eram muito próximas, visto que a pequena família delas se restringia apenas às duas. A modelo não possuía irmãos, tios e os avós já haviam falecido há certo tempo. O pai da loira, pelo que eu sabia, ainda era vivo e já havia tentado contato com ela algumas vezes, mas a mágoa e o rancor de Verona nunca o deixaram se aproximar. Nunca perguntei diretamente, mas meu palpite era que o seu desagrado pela maternidade e por crianças vinha devido ao trauma infantil do abandono paterno. A possibilidade de colocar um filho no mundo para sofrer o que ela havia sofrido quando mais nova deveria ser perturbadora. Mas, isso ainda não justificava todo o desprezo que ela deixava transparecer para Salomé, que nada tinha culpa por seus problemas familiares. - Eu não quero continuar com esse ciclo. - finalizou, cruzando os braços em uma posição séria.
Eu arregalei os olhos involuntariamente, sem saber exatamente o que responder. Certamente não deveria estar surpreso, visto que havia ido conversar com a mulher com o intuito de realmente chutar a sua bunda, mas agora as coisas eram diferentes, certo?! Teríamos um filho e eu não queria ficar longe desse processo.
- O que você quer dizer com isso? - perguntei, crispando os lábios em dúvida.
- Você realmente não escuta nada do que eu digo, James?! - cuspiu, parando por um segundo para respirar fundo, provavelmente se controlando para não avançar em mim novamente. - Você veio terminar comigo e, okay, iremos terminar. Eu não sou um estepe emocional, por mais que tenha me submetido a esse papel por tempo demais.
- Mas… - tentei refutar, mas o seu olhar gelado me calou.
- Meu filho. - cuspiu a palavra novamente, como se não tivesse se acostumado com o teor daquele termo. - Não vai sofrer pelo fato de seu pai ser um covarde. Mesmo que tenha vindo cheio de coragem mais cedo. - balançou a cabeça negativamente. - Não como eu sofri, James. - suspirou depois de reafirmar o seu ponto. - Você disse que queria terminar comigo, então vamos terminar. - soou firme, apertando a ponta do nariz.
Fiquei em silêncio, perdido em pensamentos. Tinha medo de Verona sumir no mundo e esquecer que não havia feito o filho sozinha. Ou pior, largar a criança por aí e tentar apagar de sua história a existência dele ou dela. Firmar um relacionamento com a modelo seria garantir que ela ficaria perto de mim e que não cometeria uma loucura. Não tinha mais forças para colocar outra mãe de um filho meu na justiça apenas pelo direito de participar da criação da criança.
- Você disse que não conseguiria passar por isso sozinha, Verona. - rebati após algum tempo, sem ter nada mais direito para declarar. - Já mudou de ideia?
- James, quantos anos de casamento você está completando com a Ospina mesmo? - debochou, revirando os olhos com impaciência. - Não precisa colocar uma coleira em mim para participar da gravidez, Rodriguez. - pontuou o óbvio. - Eu realmente não consigo passar por isso sozinha porque eu não queria estar passando por isso, mas não preciso de você grudado em mim vinte e quatro horas por dia. - concluiu, levantando-se e indo em direção ao banheiro da suíte. Como não tinha dado o assunto por encerrado, segui atrás dela, estancando na porta do cômodo ao vê-la entrar para lavar o rosto e tentar tirar os vestígios de cansaço de suas feições. Após observá-la secar o rosto com uma toalhinha que ficava pendurada por ali, segui-a novamente até o quarto, sentando ao seu lado na cama de casal.
Eu continuei em silêncio, apenas encarando a loira, sem grandes expressões. Mesmo com o fim do noivado, a minha vida estava indo para lados extremamente inesperados e com uma pessoa que ainda me inspirava desconfiança.
- Eu não sou uma pessoa ruim, James. - quebrou o silêncio, falando em um tom baixo, quase sussurrado. - E eu não quero ser uma mãe ruim… - suspirou, sem a pose que esbanjava há poucos minutos. Por instinto, a puxei para os meus braços, vendo a loira se aconchegar em mim e começar um choro baixo. Eu não esperava essa reação de Verona e quase afastei sua cabeça do meu peito para ter certeza que havia lágrimas escorrendo dali, mas logo que isso se passou por minha mente, afastei a ideia para longe, sabendo que não pareceria nem um pouco delicado. Por sua vez, apertei o seu corpo mais ao meu, também procurando forças para a nova etapa que iria começar. Não estava pronto, mas faria o possível e o impossível para que o pequeno bebê se sentisse para sempre amado e protegido. Eu não iria falhar do modo que um dia falhei com Salomé. Nesse momento, eu não podia pensar apenas em mim, mas na outra vida que era totalmente dependente dos pais e que precisava de todos os cuidados possíveis.

̶2̶9̶ ̶D̶I̶A̶S̶ ̶P̶A̶R̶A̶ ̶O̶ ̶C̶A̶S̶A̶M̶E̶N̶T̶O̶

Eu estava jogado de qualquer jeito no sofá da minha sala, olhando para o teto, perdido em pensamentos. Puta que pariu, James. Você é muito burro. Puta merda, irmão. Burro. Burro. Burro. Como eu pude engravidar Verona? Sempre nos cuidávamos, eu com a camisinha e ela com a pílula. Nunca transamos sem nenhum método anticoncepcional. Então, como caralhos ela conseguiu engravidar? A desgraça do meu sêmen era tão forte assim?! Não era possível. Posso até não ter sido o melhor dos alunos de biologia, muito menos de matemática, mas sabia que dois meios de proteção eram mais eficazes do que somente um e que, porra, assim, era mais difícil que ambos falhassem. Eu deveria ser o infeliz mais azarado nesse inferno de mundo. Só podia ser. O meu filho não era um castigo. Nunca pensaria assim. Amava ser pai e ter mais um pedacinho de mim correndo por aí e destruindo o mundo sempre seria algo incrível. Mas eu não podia sequer imaginar as consequências de ter um filho com Verona. Meus pais iriam me infernizar por horas e horas, falando sobre como eu era irresponsável e que não haviam me criado assim. Juana iria me xingar e perguntar se eu não sabia deixar a desgraça do meu pinto dentro das calças. Daniela iria me chamar de idiota e inconsequente. Salomé… Bem, não sabia como ela iria reagir. A menina sempre quis um irmão, mas deixava claro que não queria um irmão vindo de Verona. Precisaria ter uma conversa longa com ela, visto que não poderia em hipótese alguma deixar com que ela menosprezasse a criança por desavenças com a mãe dela. A criança já estava chateada comigo, visto que não havia conseguido cumprir a sua promessa de passar o dia com ela. Mas, com a notícia da gravidez de Verona, não tinha mais clima para aproveitar as ruas de Barcelona e eu tinha feito com que todos nós voltássemos para Madrid. Meus pais haviam ficado confusos com a repentina mudança de planos, mas acreditaram na minha desculpa sobre problemas no trabalho e aceitaram voltar sem muitos questionamentos. Felizmente. Também não haviam se preocupado com o sumiço de Verona, que tinha reservado outro quarto para si, logo após a nossa conversa, e que, nesse momento, estava em uma reunião com sua agente para definir a sua carreira nesse período de gravidez.
, por sua vez, era a minha maior preocupação. Como poderia conquistá-la novamente se eu estava esperando um filho com outra mulher? era compreensiva, mas não idiota. Sabia que ela não aceitaria essa situação e nem poderia pedir para ela o fazer. Não sou hipócrita para dizer que aceitaria facilmente ficar com ela novamente caso a mulher estivesse grávida de outro cara. Então não poderia exigir que ela o fizesse comigo. Puta que pariu, James, você conseguiu foder com tudo mais uma vez. Enquanto me martirizava mentalmente, acabei me sobressaltando ao ouvir o barulho da campainha. Não estava esperando ninguém e nem havia sido informado pela portaria do condômino sobre visitantes. Estranho… Pensando ser engano, permaneci deitado, esperando que a tal pessoa fosse embora. Infelizmente, não foi isso que aconteceu e a campainha voltou a tocar, dessa vez com maior insistência. Já irritado com o barulho, levantei de má vontade, quase tropeçando nos meus chinelos que estavam ao lado do sofá. Sem nem olhar quem estava na porta, abri-a em um rompante, me assustando ao ver quem me esperava do outro lado.
- Mas que porra…?! - perguntei ao ver cerca de um terço do elenco do Real Madrid em minha frente.
- Não vai chamar a gente para entrar, seu mal educado?! - falou Marcelo, me empurrando para o lado e entrando com a porra de um quadro branco dentro da minha casa. Onde infernos esse cara arranjou um quadro branco?
- Entra logo, Rodriguez. - falou Ramos ao ver que eu permanecia estático ao lado da porta. Nem tinha percebido que todos os não convidados já haviam entrado e só restava Sérgio, que me encarava com o seu típico olhar superior. - Ou vou trancar você para fora de casa. – piscou, debochado, me empurrando para dentro. Analisando melhor o ambiente que me encontrava, percebi a presença, além de Marcelo e de Ramos, de Vinícius Júnior, Asensio, Isco, Benzema e Hazard. O que esse povo estava fazendo aqui?!
- Não vai nem oferecer água, Jamie? - Karim perguntou, debochado, cruzando os braços atrás de sua cabeça enquanto colocava os pés no centro em frente ao sofá. - Seus pais não te deram educação?!
- Se os deles não deram, os seus fugiram e te deixaram na rua, não é, Benzema? - retrucou Isco antes mesmo que eu pudesse falar alguma coisa, empurrando os pés do francês para longe do móvel de vidro. - Tira a porra dos pés do centro! - bufou, como se fosse uma dona de casa irritada com a bagunça. O que Isco provavelmente era.
- O cara chama a gente para a casa dele e não oferece nem um lanchinho. - concordou Asensio com o camisa 9, ignorando o revirar de olhos de Isco. - Você é um péssimo anfitrião, Rodriguez.
Como é?! E, de repente, como se eu estivesse livre do feitiço do corpo preso, sai do meu estado de estupor para reagir diante daquela situação extremamente bizarra.
- Calma lá, eu não chamei vocês coisíssima nenhuma. - pontuei, apontando para o espanhol folgado. - E, por isso, pergunto… O que cacete vocês estão fazendo aqui?! - exclamei, cruzando os braços e encarando brevemente cada um dos meus colegas de clube.
- Viemos para a aula, obviamente. - falou Vini, empurrando Eden para o lado para conseguir se arrumar melhor no meu sofá. O belga resmungou algo em resposta, mas afastou para que o brasileiro ajeitasse a sua posição. Eu não estava entendendo nada do que estava acontecendo.
- Que aula?! - perguntei, ainda mais confuso. - Moleque, você acabou de chegar no clube, já quer cair por causa de drogas?! - devolvi para Vinícius, que estirou o dedo para mim em resposta.
- Que droga o que, James. - Ramos quem tomou a frente, balançando a cabeça em negação. - Estamos aqui para uma aula. - falou em um tom de obviedade, meio que segurando o riso, indicando Marcelo, que estava calado desde então. E só aí consegui entender a situação que se desenrolava ali. Enquanto Karim, Isco, Eden e Vinicius ocupavam o sofá, por sua vez, Asensio e Ramos estavam nas poltronas, com almofadas em seus colos e o olhar debochado na minha figura. Marcelo, por outro lado, era quem havia conseguido me intrigar. O lateral estava com uma roupa social, que eu só havia percebido nesse momento, um óculos, provavelmente sem grau, e uma espécie de… Bastão?
- Alunos, sentem-se. - mandou Marcelo pomposamente, apontando aquele bastão para mim. - Não irei repetir. - cruzou os braços, abaixando brevemente a cabeça, o que fez com que o óculos deslizasse levemente para a ponta de seu nariz. Eu permaneci parado, ainda atônito com o cenário extremamente atípico em que estava inserido. Eu não estava entendendo absolutamente nada. Era como se tivesse caído no sono, enquanto me martirizava, e agora estava em algum tipo de realidade extremamente bizarra.
- Senta logo, James! - mandou Marco, indicando o tapete que estava vazio. Apenas revirei os olhos para o pedido do espanhol. Além de invadirem minha casa, não deixavam nem um assento decente para mim. - Estou empolgado com a aula! - esfregou as mãos com um sorriso animado, reafirmando a sua fala. Vendo que todos me lançavam olhares de expectativa, bufei mais uma vez, sentando em frente às pernas de Benzema, que tentou colocá-las em cima da minha cabeça.
- Qual o seu problema em colocar as pernas no chão como uma pessoa normal?! - Isco quem reclamou, cruzando os braços, indignado.
- Calma, Isquinho. - pediu em um tom meloso, beijando a bochecha do espanhol, que a limpou rapidamente com uma expressão de nojo. - Você não me esnobou assim ontem à noite… - afirmou em um tom meloso, fazendo uma falsa cara de mágoa. Isco somente estirou o dedo do meio na direção do centroavante, rolando os olhos ao ouvir as nossas risadas.
- Ordem, classe! - requereu Marcelo em um tom professoral. Ao ver que estávamos calados, prestando atenção em si, o brasileiro continuou, pigarreando para manter a voz mais firme. - Agora que tenho a atenção dos senhores, vamos para a aula do dia. - anunciou, pegando um pincel de tinta de dentro de seu bolso e escrevendo no quadro branco que havia trazido. Vendo o que o jogador escreveu, coloquei as mãos no rosto, incrédulo. Não era possível que isso estava realmente acontecendo. - Métodos contraceptivos. - leu, cruzando os braços com um olhar de superioridade. - Alguns de vocês parecem ter dúvidas sobre esse assunto e estou aqui para esclarecê-lo para todos. - disse, olhando significativamente para mim enquanto falava. Eu revirei os olhos, extremamente arrependido de ter relatado a notícia da gravidez de Verona para Marcelo quando ele me perguntou se eu tinha conseguido acabar o meu noivado com a loira. Naquele momento, só queria desabafar com alguém, mas claro que a conversa não teria acabado na noite anterior. Maldito brasileiro.
- Eu tenho muitas! - disse Vini, acenando positivamente com a cabeça.
- Você nem tem idade para transar, moleque. - retrucou Hazard, que encarava a todos com um sorrisinho petulante. - Já eu, sei coisas demais…
- Não foi você que engravidou a coitada da sua mulher três vezes? - apontou Asensio, jogando a almofada que segurava na cara do belga. - Imagina se não soubesse…
- O Hazard reverteria sozinho o crescimento vegetativo negativo da Europa… - concluiu Benzema, empurrando Eden com os ombros, que não esperava por tal movimento brusco. O belga quase caiu do sofá com a força desproporcional que o francês havia aplicado.
- E desde quando você sabe o que é crescimento vegetativo? - Isco arqueou a sobrancelha para o francês, como se não acreditasse que Karim fosse capaz de saber algum assunto além de futebol.
- Eu ‘tô começando a achar que esses dois aí realmente têm um caso… - Vini tentou cochichar para Marco, mas todos nós ouvimos. Antes que Isco pudesse retrucar, eu me meti no meio da conversa, querendo que as coisas se resolvessem mais rapidamente.
- Podemos ir logo para o ponto principal dessa conversa? – pedi, impaciente. - Imagino que todos vocês já saibam que a Verona está grávida… - revirei os olhos, olhando incisivamente para Marcelo, que não se afetou com a acusação implícita.
- Você não pode me culpar por contar. - se defendeu o brasileiro, perdendo a pose de professor por alguns segundos. - O Toni veio ontem querer cobrar o dinheiro dele do bolão, que eu nem estou participando - adicionou rapidamente, encarando Asensio e Vini com um olhar ressentido. - E eu tive que falar que não tem dinheiro nenhum porque você engravidou a sua noivinha.
- Aí o Toni veio falar comigo, indignado com a sua capacidade de não saber encapar o seu jatinho Jay Jay...
- Jatinho Jay Jay? - interrompi Asensio, franzindo o cenho em confusão. - Que porra é essa…?
- Você não teve infância, James? - foi Ramos quem me respondeu, abanando o ar com displicência. - Enfim, não importa. – desprezou, ao ver que a dúvida permanecia em meus olhos. Bufei, inconformado, cruzando os braços como Salomé costumava fazer quando era contrariada.
- Depois disso, eu precisei comentar com o Vini sobre isso. - Marco deu de ombros, continuando como se não tivesse sido interrompido. - Que comentou com o Hazard…
- Aí eu comentei com o Karim, que aparentemente nasceu colado com o Isco e foi fofocar para ele. - provocou Eden, recebendo um revirar de olhos e um dedo estirado em resposta.
- E eu falei brevemente com o Sergio, que, como sempre, foi o último a saber… - concluiu Francisco, olhando para mim com uma feição que demonstrava culpa. Ótimo. Aparentemente o Real Madrid era a sede de uma organização de fofoqueiros e nada ficava em segredo naquele lugar.
- E agora estamos aqui. - sinalizou Marcelo, batendo com o seu bastão no quadro. - Para ensinar sobre como se proteger e não engravidar novamente loiras desmioladas. - cruzou os braços, me olhando, rancoroso. - Logo agora que eu achei que o meu ship iria voltar, o James vai e acaba com tudo. - suspirou, balançando a cabeça em chateação. - Isso que dá dar moral para colombiano...
- Desculpe…? - pedi, sem saber o que responder. A verdade era que eles tinham certa razão. Eu havia demorado meses para tomar uma decisão definitiva sobre o meu noivado e a minha relação conturbada com Verona. E, quando finalmente descobri o que queria fazer, a vida deu um tapa na minha cara e respondeu: agora não, queridinho. Eu era realmente um filha da puta azarado.
- Oh, vida, devolva minhas fantasias… - recitou dramaticamente o lateral do Real Madrid, ignorando o meu pedido de desculpas. - Meus sonhos de viver a vida
- Devolva o meu ar… - continuou Vinicius, como se isso fosse a droga de uma música. O que provavelmente era, já que Marcelo não tinha muita vocação para criar versos de poemas.
- Sem teu carinho… - tentou continuar Marcelo, mas Ramos, com a sua típica impaciência, interrompeu o colega, mandando ele se apressar no que havia se proposto a fazer.
- Temos muito recalque perante o meu brilho dentro desta sala. - reclamou, fuzilando o capitão merengue com o olhar. - Se a tua estrela não brilha, não tente apagar a minha, Sergito. - apontou para o espanhol, que revirou os olhos diante da provocação.
Era sempre muito estranho observar toda a dinâmica presente dentro do Real Madrid. Todos éramos muito diferentes, mas de alguma forma combinávamos e conseguíamos manter uma boa amizade fora dos gramados. Talvez esse fosse um dos poucos motivos que tornasse a minha estadia no clube algo menos indigesto. Mesmo que Ramos e Marcelo fossem os meus colegas mais próximos dentro do clube, a amizade que eu tinha com os demais também era algo que eu gostaria de guardar pelo resto dos meus dias, mesmo que soubesse que isso iria me causar muita dor de cabeça. Se eu fosse realmente para o Everton, iria sentir falta deles, mesmo que morresse antes de admitir isso publicamente.
- Profe, profe…! - chamou Vinicius, levantando a mão como se estivesse em uma real sala de aula. O chamado pegou a atenção de Marcelo, que parou de encarar o seu capitão de modo ressentido e encarou o brasileiro mais novo, dando o passe livre para ele continuar. - Queremos aula! - bateu palminhas, apressando o jogador para começar a sua explicação.
- Claro, claro. - abanou o ar com displicência, pigarreando para deixar a voz mais firme. -Marquinho, você pode me entregar a minha maleta, por favor? - indicou uma maleta de couro preta, que eu não havia notado a existência até que fosse falado. Asensio assentiu, pegando o objeto e entregando para Marcelo, que agradeceu, batendo em sua cabeça com o bastão que segurava em suas mãos. Depois que Marco voltou para o seu lugar na poltrona, o brasileiro continuou, abrindo a maleta e fazendo eu querer simplesmente sumir. Eu não acreditava que ele iria realmente fazer isso.
- O que temos aqui? - mostrou o que havia tirado da maleta para todos os presentes da sala, como se fosse um professor de biologia desmiolado.
- Uma banana…? - hesitou Hazard, sem saber realmente o que responder. A situação era realmente bizarra.
- Dez pontos para a Grifinória! - assentiu para Eden, que fez uma careta para a fala de Marcelo. O rapaz odiava a casa do testa rachada.
- Sonserina, porra! - retrucou, cruzando os braços em indignação.
- Menos dez pontos para a Sonserina pela insubordinação. - levantou o nariz com pompa, ignorando os xingamentos de Hazard. - Agora sem mais interrupções… - continuou, pegando o quadradinho de plástico que se encontrava no seu bolso, rasgando-o rapidamente e revestindo a fruta com a camisinha.
- E qual seria esse método aqui? - perguntou mais uma vez, assentindo para a mão levantada de Vini. - Pois não, Júnior?
- Uma camisinha. – respondeu, orgulhoso de si, dando um sorriso com todos os dentes, digno de Vinícius Júnior.
- Dez pontos para a Lufa-Lufa. – confirmou, animado, vendo o sorriso de Vinicius aumentar ainda mais, se é que isso era possível.
- E para o que ela serve? - fez mais uma pergunta, olhando para todos nós. - James, responda! - apontou para mim, que fiquei confuso por um momento. Apontei para mim mesmo para ter certeza de que ele estava falando comigo. - Tem mais algum James aqui? - arqueou a sobrancelha em deboche. Eu apenas estirei o dedo para ele, bufando. Professores costumavam ser mais gentis.
- Para conter o esperma e impedir com que ele entre no corpo do parceiro. - respondi mecanicamente, revirando os olhos para o brasileiro. Contudo, fiquei confuso ao ver que Marcelo continuava me encarando com expectativa. - E o quê?! - questionei, sem entender o que ele esperava. Eu estava fazendo alguma prova oral de biologia, por acaso?!
- E por isso ela evita…? - insinuou, querendo que eu continuasse e desse uma resposta mais completa. Ele realmente estava levando a sério essa história de aula. Revirei os olhos mais uma vez, começando a sentir os sinais da irritação dentro de mim.
- DST’s e uma gravidez indesejada. – falei, entediado, cruzando os braços em frente ao meu corpo.
- Oh! - colocou a mão no peito com uma feição exagerada. - Estou surpreso por você conhecê-la, decidindo apenas por não usá-la. - provocou, jogando a fruta encapada em cima de mim e fazendo com que os outros idiotas dessem gritinhos zombeteiros. A banana bateu na minha cabeça e caiu no tapete em um baque surdo.
- Eu sempre uso, cara. - tentei me defender, jogando a banana em cima de Karim, que estava em minhas costas. Após sentir vários olhares incrédulos em cima de mim, bufei, impaciente. - É sério!
- Acreditamos, hermanito. - Asensio disse em um tom que não mostrava nenhum tipo de concordância comigo, levantando da sua poltrona apenas para bater em minha cabeça como se eu fosse um cachorro adestrado. - Acreditamos sim… - sorriu, irônico, voltando para o lugar que estava sentado anteriormente.
- Tá. - resmunguei, contrariado, mas sem falar mais nada. Não ia nem perder tempo argumentando com eles, mesmo estando certo. Métodos contraceptivos falham, ok? Eu tinha feito a minha parte. Ninguém aqui lembrava de quando Ross e Rachel tiveram uma gravidez imprevista porque a camisinha falhou?! E outra, Marcelo havia trazido o quadro apenas para escrever o tema de sua aula?!
- Enquanto o James mente e a gente finge que acredita… - provocou Marcelo, pegando mais um objeto de dentro de sua maleta. - Alguém sabe me dizer o que é isso aqui?
- Uma camisinha rosa? - arriscou Karim em um tom estranho. Quando virei para trás para entender o porquê disso, vi que o camisa 9 tinha a boca cheia de comida. O idiota do francês havia tirado a camisinha da banana e agora comia a fruta tranquilamente, indiferente aos olhares chocados que tinha em si. Benzema era realmente estranho. E nojento.
- Você é meio burro, hein… - debochou Isco em um típico comentário do espanhol para o francês, que viviam nessa relação estranha desde que os havia conhecido. Karim não se afetou com a provocação, mas tentou jogar a casca da banana em Francisco, que deu uma cotovelada nas costelas do francês e o fez resmungar de dor, ainda com a boca cheia de fruta. Por um momento, Benzema pareceu engasgar, mas logo se recuperou, engolindo o resto de alimento com certa dificuldade e sentando ereto no sofá. Depois de se recompor, direcionou a Isco um olhar sentido, sendo solenemente ignorado pelo outro. Indiferente à mágoa de Karim, Isco encarou Marcelo - É um diafragma, Celo. - respondeu pomposo, como se fosse o detentor de todo o conhecimento do mundo e estivesse em um patamar acima do nosso.
- Isso não é um órgão? - Asensio questionou, confuso ao ouvir a resposta de Isco. - Que ajuda na respiração e tal…
- Ainda bem que vocês jogam futebol. - Ramos ironizou, fazendo-se presente. - Esse também é o nome de um método feminino de contracepção. - começou, alongando os braços para trás, em uma feição de superioridade que constantemente irritava os adversários em campo. - O diafragma é também um método de barreira, mas deve permanecer no lugar durante seis a oito horas após o sexo, ao contrário da camisinha, que deve ser retirada depois do ato...
- Certíssimo, capi! - Marcelo confirmou, balançando a cabeça inúmeras vezes, animado por saberem responder corretamente os seus questionamentos. - Mais um método aqui que o James poderia ter usado e não usou. - terminou em um timbre mais sério, jogando o objeto em cima de mim mais uma vez. Dessa vez, decidi não devolver a provocação, ouvindo tudo calado. De certa forma, eu merecia todos os insultos possíveis.
- E esse aqui? - perguntou, segurando um recipiente cheio de cápsulas de comprimidos, assentindo para Hazard ao vê-lo levantar a mão.
- Essa é a pílula. - estalou o céu da boca com obviedade. - É cheia de hormônio, tem que ser usada todo dia e acaba com o organismo da mulher…
- Mas evita a gravidez. - antecipou a conclusão do belga, que já iria começar com todo o seu discurso contra as pílulas anticoncepcionais. Depois que Larissa, esposa de Eden, havia dado um sermão no jogador, afirmando que não usaria aquele método nem que ele implorasse de joelhos, o rapaz passou a estudar mais sobre os efeitos do produto no organismo feminino, assustando-se ao ler as possíveis reações adversas e passando a militar contra sempre que o assunto vinha à tona. - E como ninguém aqui está muito interessado no organismo da Verona… - insinuou, provavelmente ponderando se era sensato jogar aquele frasco em cima de mim. Felizmente, a consciência de Marcelo pareceu se fazer presente e ele apenas depositou o plástico novamente na maleta. Pelo que eu sabia, esses medicamentos nem eram vendidos em frascos, mas em cartelas. Então, sabe-se lá o que tinha realmente dentro daquele recipiente que Marcelo trouxe.
- Nossa, que cruel. - Isco advertiu, adicionando outro comentário rapidamente. - Posso até concordar, mas vou fingir que não porque quero ir para o céu.
- Que seja. - Marcelo revirou os olhos, colocando as mãos na cintura. - Temos muitos outros métodos como o DIU, a camisinha feminina, o anel vaginal… - começou a enumerar, usando os dedos para auxiliá-lo. - Mas não tinha como comprar tudo na farmácia e eu não queria gastar tanto dinheiro para instruir o James. - abanou o ar. - Então, vou mandar uma vídeo aula para vocês e façam o favor de assisti-la! - apontou para mim com voracidade.
- O James vai assistir com atraso, né?! - riu Benzema, jogando a casca da banana que havia comido na minha cabeça. - Menino idiota. - falou em zombaria, recebendo gritinhos em resposta, concordando com o xingamento.
- Vocês são ótimos amigos. - fiz um joinha com as mãos, colocando a casca da fruta em cima do centro e encarando todos ali brevemente. - Obrigado pelo apoio moral.
- Você está muito fodido, cara. - quem riu agora foi Marco, como se assistir à minha desgraça fosse divertido. - Vai casar só por causa de um bebê que nem era planejado. - balançou a cabeça em negação, não acreditando na minha má sorte.
- E quem disse que eu vou continuar com o casamento? - arqueei a sobrancelha em desafio, gerando olhares confusos em resposta. Talvez eu tenha esquecido de pontuar esse detalhe na minha conversa com Marcelo. Quando ele havia me perguntado sobre o término, eu apenas respondi que a mulher estava grávida, sem explicá-lo que isso não faria com que nós continuássemos juntos. É, talvez o Toni estivesse certo em cobrar o dinheiro da aposta...
- Ué… - Vini coçou a cabeça em confusão. - Pensei que você não tinha terminado com a Verona…
- É porque é complicado. - respondi em um suspiro; - Teoricamente, nós estamos separados e o casamento está cancelado. Mas ainda tenho medo de que ela suma no mundo com o meu filho e, por isso, não dei um ponto final… - apertei a ponta do meu nariz, cansado com a volta do assunto. - Mesmo que ela já tenha batido o martelo e afirmado que acabou mesmo.
Embora não fosse admitir em voz alta, concordei mentalmente com a afirmação do francês. A verdade é que eu só queria paz na minha vida pessoal para poder me concentrar na profissional. Mas sabia que as coisas só tenderiam a piorar. Por enquanto, só quem sabia da gravidez éramos eu, Verona e… Bem, todo o elenco do Real Madrid. Queria poder sumir no momento em que a notícia se tornasse pública.
- Se você não quer admitir que acabou, então não acabou. - Marco se intrometeu, apontando para mim. - Eu não quero dar a vitória ao Toni. Aquele alemão já se acha demais para que eu dê mais armas para a sua arrogância natural. - concluiu, ouvindo burburinhos de concordância em resposta. Como eu não estava diretamente envolvido na aposta, fiquei calado, apenas revirando os olhos por causa da citação à aposta. Após alguns segundos em silêncio, Ramos chamou a minha atenção para si.
- Pelo menos vocês não forçaram uma relação por causa da gravidez. - Sergio afirmou, tombando a cabeça para trás e passando o braço por seu pescoço para dar sustentação. - Filho não segura casamento não. - salientou em um tom firme.
- É, eu sei… - assenti, lembrando dos últimos meses do meu relacionamento com Daniela e como a presença de Salomé foi até um impulsionador de nossa crise.
- Hermanito. - Marco me chamou, receoso, após alguns segundos em silêncio. Quando eu o encarei em dúvida, ele continuou, ainda hesitante. - Tem certeza de que o filho é seu?
- Como? - arregalei os olhos, assustado com a indagação de Asensio. Não esperava que algum deles fosse questionar a minha paternidade. Não em voz alta, pelo menos.
- Bem… - foi Karim quem continuou o raciocínio, como se eles já tivessem discutido o assunto entre si anteriormente. - Eu não confiaria muito na Verona não… - disse em um tom acusatório, o que fez com que as minhas desconfianças acerca de uma discussão prévia sobre se eu era corno ou não fossem praticamente confirmadas.
- Caras… - suspirei, cansado com o assunto. Claro que nessas últimas horas eu já tinha me questionado sobre a paternidade do filho da loira, mas não acreditava que ela fosse mau caráter ao ponto de mentir sobre isso. Não sabendo que ser pai novamente era um dos meus maiores sonhos e que isso não mudaria nosso status de relacionamento. Afinal, ela mesma bateu na tecla de que não deveríamos ficar juntos por causa da criança. Além disso, ela não era uma pessoa ruim. Era difícil, mimada e irritante, mas não era alguém genuinamente má. Verona era fruto de uma realidade familiar conturbada e que ainda não sabia agir diferente dessa realidade a qual foi submetida. Acreditava que ela poderia evoluir e que, de fato, um dia iria. - O filho é meu. - confirmei, em um tom definitivo, sem dar espaço para argumentações.
- Mas…! - Vini tentou refutar, mas se calou ao receber um olhar cortante de Sergio. Mesmo fora do campo, o jogador tinha certo respeito entre todos nós. - Se você diz…
- A Vee não faria isso comigo. - frisei, tentando acreditar nas minhas palavras. No fundo, eu realmente acreditava nela.
- A Vee não faria isso comigo. - repetiu Benzema, em um tom irritantemente infantil, recebendo um tapão de Isco em repreensão. É bizarro como ambos pareciam um casal de meia idade. - Vee é um apelido péssimo, sabe disso, não é?! - provocou Karim, se desvencilhando dos braços do espanhol. - Combina muito com a personalidade da dona, inclusive.
- Sei. - ri fraco, ignorando o comentário ácido sobre a personalidade da modelo. - Tentei ficar chamando ela de Vero, mas ela odiava…
- Rona, Ronnie, Vex… - Asensio começou a pontuar, saindo da poltrona em que estava para se sentar ao meu lado no chão. Após isso, colocou o seu melhor sorriso debochado no rosto, me empurrando com o ombro para que eu me afastasse para o lado. - São todas opções melhores do que Vee. - apontou para mim, com um olhar de sabedoria, depois de se acomodar.
- Vou mandar uma listinha de preferências para ela. - debochei, revirando os olhos. - Mais alguma opção?! - a minha voz pingava sarcasmo, mesmo que intimamente concordasse com Marco.
- Eu te mando por e-mail. - Asensio continuou no deboche, fazendo com que Marcelo, que estava estranhamente quieto em uma conversa paralela com Sergio, se manifestasse.
- Aproveita e manda o link da vídeo aula! - colocou as mãos na cintura. - Porque errar uma vez é humano…
- Persistir no erro é ser o James. - concluiu Karim, pegando o celular de Eden de suas mãos. O belga não parecia mais estar prestando atenção em nós, provavelmente falava com a esposa por mensagens. - A Larissa não vai pedir o divórcio se você passar alguns minutos sem respondê-la, Hazard!
- Eu não… - tentou se defender, se esticando para tentar pegar o aparelho das mãos do francês. Isco, vendo o movimento, tirou o celular de Benzema, lendo rapidamente a mensagem e caindo na gargalhada em seguida.
- Ele não está falando com a Larissa. - Isco se levantou ainda com o celular do belga nas mãos, jogando o objeto para Ramos, que o pegou com facilidade. - Ele está fofocando no grupo do Chelsea!
- O quê?! – perguntei, assustado, levantando rapidamente para ir em direção a Sergio e poder ler o conteúdo das mensagens. Já imaginava sobre qual assunto Hazard estava comentando e não ficava nem um pouco feliz com essa informação. Chegando ao lado de Ramos, vi de soslaio que Benzema, Vinicius e Asensio seguravam o belga, também curiosos com o conteúdo das mensagens do jogador. Peguei o celular das mãos do capitão do Real Madrid, revirando os olhos automaticamente ao imaginar o que estaria escrito na tela do iPhone. Por que o Hazard permanecia nesse grupo mesmo?!
Depois de rolar a tela rapidamente para chegar nas conversas do dia, cheguei à conclusão de que os caras do Chelsea eram muito desocupados. Eram dezenas de mensagens, de inúmeros caras diferentes, falando sobre os mais diversos assuntos. Claro que o elenco do Madrid possuía um grupo também, bem como o do Bayern, mas não costumávamos conversar tanto assim. Zidane, chato como era, nunca permitiria tamanho movimento nas redes sociais de seus jogadores, alegando que isso nos tiraria o foco e todo o papo de vocês precisam ser mais profissionais que ele parecia repetir a cada segundo. Mesmo que o conteúdo em si fosse postado fora dos horários de treino. Ignorando todos ao meu redor, continuei deslizando a tela até conseguir ler o meu nome em uma das mensagens, parando de rolá-la imediatamente e tentando entender o que os meus olhos viam.

WHATSAPP
Chelsea
online

Não posso falar agora, estou na casa do James

Kai Havertz:
James Maslow?! Tira foto!

Kai Havertz:
Sou muito fã!

Mount:
Por que o Hazard estaria na casa do cara do Big Time Rush?!

Kai Havertz:
Ele agora está num clube de estrelinhas, deve ter seus contatos.

Vocês são idiotas.

Estou na casa do Rodriguez.

Thiago Silva:
Grande James!

Thiago Silva:
Gente fina. 😍😍

Ele dá pro gasto 🤷🏻‍

🤪😙

Mount:
Quem mais está aí? 👀

Isco, Ramos, Vinicius Jr, Asensio, Benzema e Marcelo.

Thiago Silva:
Manda um abraço pro Marcelo! ❤️

Eu não, manda você.

Thiago Silva:
Grosso

Obrigado. Minha mulher também acha.🗣

Azpillicueta:
Quanta baixaria em um grupo de família.

Azpillicueta:
Tem criança aqui, Hazard.

Azpillicueta:
Você era mais educado em Londres.

Cala a boca.

Mateo Kovačić:
Esse povo só se reúne para fofocar.

Mateo Kovačić:
Quem morreu?

O ship do Marcelo.

James engravidou a noiva. 🤰🤦🏻‍♂️

Mount:
O QUÊ?!

Thiago Silva:
O QUÊ?!

Azpillicueta:
O QUÊ?!

Kai Havertz:
O James Maslow?!



E depois dessa, tinham mais algumas mensagens discutindo a informação que Hazard havia jogado no grupo e outras falando sobre a lerdeza de Havertz. Suspirei, querendo jogar o aparelho na cabeça enorme de Hazard como forma de punição por ser um boca aberta.
- Você não sabe ficar calado, não?! - questionei o belga, devolvendo o aparelho para Sergio. Eden me encarava em silêncio com uma cara de quem havia sido pego fazendo besteira.
- Relaxa. - abanou o ar, batendo a mão na cabeça de Vinicius, que ainda o segurava. - Ninguém vai soltar para a mídia não. - garantiu, empurrando o brasileiro de cima de si.
- Eu sei que não. - concordei, sabendo que ninguém faria uma exposição minha de forma voluntária, principalmente quando se era de conhecimento público o modo como a mídia fodeu com a minha vida - Mas custava manter isso entre nós?! - tombei a cabeça para trás, soltando o ar de modo irritado. Grandes amigos esses que eu tinha. Realmente. Já não sabia mais se sentiria falta deles.
- O desastre que é a sua vida amorosa é entretenimento público, James. - Asensio defendeu o belga, que já estava livre dos braços dos companheiros de clube. - Não nos tire a alegria de discuti-la por aí.
- Vocês… - ia retrucar, mas desisti, aceitando a minha derrota. Aparentemente eu estava no fundo do poço e todos só faziam rir da minha desgraça. - Às vezes penso que colei chiclete na cruz. - divaguei baixinho, só para mim, mas Marcelo ouviu e logo tratou de emendar mais um de seus comentários pertinentes.
- Se colou eu não sei. - começou, apoiando a sua cabeça no meu ombro direito. - Mas tu largou a mulher que amava, noivou com uma desconhecida e quando finalmente ia tomar alguma decisão, a sua noivinha aparece grávida. - riu, cutucando minha bochecha com seu dedo indicador. - Por favor, temos o direito de discutir esse enredo de novela aí! - concluiu, ouvindo barulhos de confirmação dos outros jogadores.
É, eu realmente estava no fundo do poço.



Continua...



Nota da autora: Oi, gente! Esse foi um capítulo mais leve em comparação com os outros, mas bem importante para o andamento da história. Eu, particularmente, gostei muito de escrever sobre esse grupinho, mesmo que, como boa torcedora culé, os odeie em 95% do tempo. Mas, aqui, a gente ignora tudo isso e vai ser feliz. Finalmente finalizamos esse ciclo em NDDSC e o James não está mais noivo, mas em compensação será pai em breve. Talvez, esse fato não tenha feito sentido para muitas pessoas, mas era um acontecimento bem importante para a narrativa e, por isso, não me odeiem! A partir de agora iremos dar um pequeno salto na linha de tempo e voltaremos ao normal, que é a narração no ponto de vista da , que ficou sumida nesses dois últimos capítulos. Também queria usar esse espacinho para agradecer por todos os comentários e visualizações, mais uma vez, porque conseguimos mais um prêmio, que foi “Fiction do Mês”. Muito obrigada por isso! E, se você chegou até aqui, por favor, comente! Os comentários são bem importantes no processo de incentivo à escrita e, sem eles, tudo fica muito mais difícil. No mais, quem quiser me acompanhar nas redes sociais, o meu instagram é jasminescreve, só clicar aqui embaixo. Até mais, pessoal. Beijo!

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Nota da beta: Eu tô apaixonada nesse capítulo! HAHAAHAH Mesmo que tenha tido uma tensão ABSURDA no começo e eu odeie MUITO essa mulher, a cena desse grupo salvou TUDO! Sério, eu tô apaixonada por esse elenco e a forma como você retrata ele, porque eu super vejo assim UHASUAHSU E EU AMEI ESSA ESPOSA DO HAZARD, MUITO GRATA HAHAHAHAHA Aí, você merece todos os prêmios do mundo, porque essa história é tudo! Sua escrita é maravilhosa e esse enredo é tudo na minha vida! E, por favor, não abandone os POVs do James, é bom dmsss! 💙

Qualquer erro nessa atualização ou reclamações somente no e-mail.


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