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Última atualização: 31/01/2021

Prólogo

Dois dias antes do isolamento no hotel.

"Um novo vírus mortal está se espalhando pelo mundo. O novo corona vírus, também conhecido com Covid-19, começou na China e agora se espalha pela Europa. A situação está preocupante na Itália, com número de casos e mortes subindo a cada segundo. A orientação da OMS é para todos ficarem em casa; usar máscaras se tiver que sair; usar álcool em gel e lavar sempre as mãos. Evitem contato físico com outras pessoas e, se possível, fiquem sempre há um metro e meio de distância."

A televisão do refeitório estava ligada em um canal de notícias local, e todos estavam prestando atenção no que a repórter estava falando. A coisa estava ficando séria, todos no hotel estavam tomando os devidos cuidados, mas ainda sim estávamos extremamente assustados com isso. Tantas vidas sendo tiradas, voos sendo cancelados. Pessoas cancelando a hospedagem no último minuto pois não poderiam mais vir para Roma, a capital da Itália. Era triste ver as ruas, sempre tão cheias de vida, se esvaziarem aos poucos.

"A Espanha também está apresentando números preocupantes."

Me coração saltou ao ouvir sobre a Espanha.
- Toni, aumenta um pouco o volume, por favor?
- Claro, princesa! - ele respondeu, pegando o controle e aumentando.
- Valeu! - exclamei, voltando a prestar atenção na televisão.

"O primeiro ministro da Espanha decretou estado de emergência em todo o país. As aulas presenciais foram canceladas, todas as escolas foram fechadas, assim como os principais aeroportos."

Meus pais, minha avó e uma das minhas irmãs moravam há alguns anos na Espanha, mais especificamente em Madrid. Os três eram de risco, e meu coração apertava sempre que recebia notícias de onde eles moram. Era horrível estar tão longe deles, sem poder fazer muito para ajudá-los ou cuidados. Me consolava saber que minha irmã estava lá, mas me doía não poder sair correndo e ir para perto deles.
- Você tem falado com seus pais, ? - perguntou Olivia, minha melhor amiga e ajudante na confeitaria.
- Tenho sim, eles já estão bem, já estão se isolando. Mas eu posso imaginar como eles devem estar agoniados de ficar presos, sabe como eles são, não sabe?
- Sei bem. - Ela respondeu, rindo. - Lembra quando fui para Madrid com você e seu pai nos levou em um tour pelas melhores padarias da região? E depois sua mãe nos levou para fazer compras.
- Pois é, eles não param! - exclamei, rindo com ela. - Isso que me deixa agoniada, espero que eles respeitem o que estão pedindo.
Nesse momento, nosso gerente geral, Sr. Enrico Valente, se juntou a nós no refeitório para a reunião, como prometido. Ele nos informou que, por causa de um único caso de um hóspede do hotel, teríamos que fechá-lo parcialmente. Isso significa que que não receberíamos hóspedes novos, mas os que estavam não poderiam sair. Isso também significava que nós teríamos que morar lá por um tempo. Ele disse que receberíamos um e-mail com todos as informações necessárias.
- Morar aqui? - sussurrei para Olivia enquanto colocamos nossas máscaras e saímos do refeitório, voltando para a confeitaria. - Que loucura.
- Vai ser bem divertido, imagina? Vamos treinar para quando formos morar juntas! - ela disse empolgada, enquanto arrumava seu avental. Eu ri do tom infantil que ela adotou.
- Ainda está nos meus planos, gatinha. - Respondi. - Agora vamos focar nesses pudins, eles não vão ficar prontos sozinhos.


Capítulo 1 - Pijamas

Primeiro dia da quarentena.

Olhei para minha mala vazia em cima da cama, ponderando uma última vez se deveria mesmo deixar meu apartamento e passar a quarentena no quarto minúsculo do hotel em que trabalho. A pandemia de Covid-19 em Roma está cada vez pior; os números de morte e casos aumentavam a cada minuto e estava totalmente fora de controle. Não tinha vacina, o tratamento ainda era um pouco desconhecido, e os cuidados eram inúmeros: usar máscara no rosto; lavar as mãos sempre que possível ou usar álcool em gel; evitar aglomerações; higienizar absolutamente tudo; evitar sair de casa. E o pior de todos: ficar à um metro e meio de distância de todas as pessoas, não podendo encostar nelas e se for se aproximar, tem que estar com a maldita máscara. Sem toque, sem aproximação, sem abraços ou beijos. Sem contato humano, a não ser o virtual. Casamentos, festas de aniversário, baladas? Esquece.
Eu nunca havia vivenciado algo do tipo. Era assustador pra todo mundo. Eu tive o privilégio de até o momento nem eu e nem ninguém da minha família ter se contaminado ou falecido. Grande parte da minha família ainda morava no Brasil, mas a que sempre morou comigo estava em Madrid, na Espanha, onde a situação estava ficando tão feia quanto na Itália. Lá estavam meus pais, minha avó e uma de minhas irmãs. A outra morava aqui em Veneza, e também estava isolada em casa com o marido. Eu morava no centro de Roma pois havia aceito a vaga de confeiteira chef há dois anos atrás. Era meu sonho, é claro, mas se eu soubesse que o ano seria desse jeito, teria voltado para a casa dos meus pais antes de os aeroportos fechassem. Nesse caos, eu só queria poder estar com eles.
- Quer saber? Dane-se, eu vou. – falei em voz alta para as paredes, suspirando e atirando as roupas dobradas de qualquer jeito. Olhei para o relógio e já eram 6h30 da manhã, mas não estava com pressa, hoje na verdade seria minha folga.
Juntei alguns cremes corporais e de cabelo, perfumes e produtos que estavam no banheiro. Eu não pretendia ficar tanto tempo, mas não tínhamos previsão alguma de quando estaríamos vacinados e livres. Essa pandemia estava atrapalhando tudo: relacionamentos, economia, turismo. O hotel estava com a ocupação em 10%, sendo que costumava sempre estar 100%. Por causa de um único caso de contaminação de um hóspede, teremos que ficar presos no hotel por pelo menos 15 dias. Quinze dias que eu já desejava que passasse rápido.
Meu trabalho era perto, mas por segurança, decidi ir de carro. Até para não ter que arrastar minha mala pesada pela rua. Quando cheguei, fiz todo o processo de higienização, aferição da temperatura e ganhei um kit de segurança com máscaras de pano, álcool em gel e lenços umedecidos para limpar tudo no quarto, mas eu mesma já estava com um litro de álcool 70º na bolsa. Subi para o quinto andar, onde ficariam todos os funcionários, e fui para o quarto 501. Usei os lenços e o álcool para higienizar todas as superfícies possíveis, sentindo meu braço reclamar um pouco. Depois, tomei um banho e desci para tomar o café da manhã e participar da reunião matinal da equipe da cozinha. Dessa vez, todos os poucos funcionários que restaram (sobreviventes que não eram do grupo de risco e não foram mandados embora) estavam reunidos no restaurante. As luzes da cozinha estavam todas acesas e alguns funcionários já trabalhavam lá dentro, a essa hora já deviam estar preparando o café e o almoço para levar pro quarto dos hóspedes.
- Buongiorno! - exclamei tentando falar um pouco mais alto devido a voz abafada por conta da máscara de pano. Era ruim para respirar e falar, mas pelo menos me sentia protegida.
Todos responderam um pouco desanimados enquanto cada um pegava uma bandeja com alguns itens do nosso café: uma fatia de pão italiano com manteiga ou algum patê, uma caneca com café ou chá e uma fruta.
O italiano era uma língua linda que eu ainda não era fluente, mas me virava como dava, tendo comigo a sorte de que todos ali sabiam falar inglês, o que ajudava muito. E o fato de que o italiano é muito parecido com o português. Meu cérebro era essa grande mistura de línguas.
Peguei uma das bandejas e me coloquei no meio do círculo que se formou.
- Buongiorno, Ollie. O que aconteceu aqui? Todo mundo parece desanimado. - perguntei em inglês para uma das minhas ajudantes da confeitaria e minha melhor amiga, Olívia, que estava ao meu lado apoiada em uma das mesas.
Ollie era a típica garota italiana: romântica, culta e extremamente linda. Seus cabelos pretos e lisos caiam brilhantes até a cintura (quando ela não o prendia e colocava a touca) e seus olhos verdes e sorriso largo faziam todos os homens caírem de amores por ela.
- Buongiorno, Principessa! - ela respondeu, e eu sabia que atrás daquela máscara rosa claro estava seu sorriso radiante. - Estão dizendo que o gerente quer fechar a cozinha, mas acredito que sejam só boatos.
- Fechar? E como os hóspedes vão comer? - exclamei chocada. Aquilo não fazia nenhum sentido, não havia necessidade de fechar a cozinha, ela era tão essencial quanto os outros setores.
Ollie apenas deu de ombros, depois voltou a me olhar com o cenho franzido.
- Espera, não era pra você estar em casa? - ela questionou.
- Eu sei que é minha folga, mas decidi vir pra cá hoje para organizar as coisas... - respondi, vendo-a me olhar confusa.
- Não foi isso que eu quis dizer... - ela começou, mas foi interrompida quando o gerente geral, Sr. Enrico, se juntou a nós. Tentamos nos afastar o máximo que dava, respeitando o um metro e meio de distância.
- Buongiorno a tutti. - ele exclamou quando todos ficaram quietos. Os dois meninos que estavam na cozinha vieram se juntar a nós. - Como todos sabem, estamos passando por um momento muito delicado. Não irei me aprofundar novamente sobre essa maledetta doença, pois já falei muito sobre ela na última reunião.
O Sr. Enrico Valente era um homem de meia idade que estava sempre com seu terno caríssimo impecável, nenhum fio de cabelo saia do lugar, gesticulava demais com as mãos (mais do que os italianos consideram normal) e por mais que fosse rígido e sério, ele tinha um bom coração.
- Gostaria de agradecer novamente à todos que aceitaram passar um tempo morando em nossas acomodações, por segurança de vocês, dos hóspedes e das nossas família. - ele olhava no fundo dos olhos de cada um. - Sem vocês, o Hotel Raphaelli não estaria aberto. Espero que seja uma grande experiência para todos... - ele parou ao colocar os olhos em mim. Todos se viraram no mesmo instante e eu pude sentir minhas bochechas queimarem. Minha vontade era cavar um buraco e entrar nele para que todos parassem de me olhar.
- Senhorita , o que está fazendo aqui? Você não deveria estar em casa? - ele questionou, parecendo muito surpreso.
- Oi, Senhor Valente. Eu sei que é minha folga, mas eu queria vir antes para...
- Folga? Senhorita, você foi afastada. Não iremos abrir a confeitaria! Você não recebeu o e-mail? - ele exclamou, ainda surpreso e um tanto apavorado. - Ai, mamma mia!
- Fechar a confeitaria? Mas e a cozinha? E o que farão com as sobremesas? - questionei indignada.
- A cozinha continuará aberta com a ajuda do chef Ricciardo, da senhorita Olivia e dos outros dois meninos, Enzo e Antonio. - ele falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. - Compraremos os doces da padaria aqui da rua, teremos menos gastos e menos pessoas trabalhando, para nossa segurança.
- Ok, então eu posso ajudar na cozinha. - falei, dando de ombros.
- Não, senhorita, não podemos ter mais um funcionário na cozinha, temos que reduzir! - ele falou, passando a mão pelos impecáveis fios de cabelo que lhe restavam.
- Está bem, então eu vou embora...
Todos bufaram como se eu tivesse dito a coisa mais idiota que já ouviram. O senhor Enrico parecia prestes a arrancar seus cabelos quando ele respondeu:
- Ninguém está permitido a sair ou entrar neste hotel, . Agora somos apenas nós. Você vai ter que ficar aqui por pelo menos 15 dias antes de poder sair daqui. - ele respondeu, tentando se acalmar.
Sr. Enrico respirou fundo e continuou falando com todo mundo que estava ali, casualmente me lançando olhares preocupados. Assim que a reunião acabou, me despedi de Olivia e subi ao meu quarto depressa, sentindo raiva de mim mesma por não ter prestado mais atenção antes. Eu estava presa em um quarto pequeno onde eu não podia sair quando quisesse, e foi por pura desatenção minha.
Deitei na cama e fiquei encarando o teto enquanto meu cérebro estava a mil. A confeitaria, minha segunda casa, estava fechada. O que seriam dos almoços sem meus doces? Modéstia à parte, mas os meus eram bem melhores que os da padaria. Isso era tão injusto!
Me sentei na cama, sem conseguir ficar parada de tão agitada. Olhei para o café intocado em cima da pequena mesa e decidi comer pelo menos a banana. Enquanto dava a primeira mordida, meu celular tocou.
- Oi, mãe. - atendi desanimada e de boca cheia.
- O que houve, querida? - ela respondeu com a voz cheia de preocupação.
- A confeitaria foi fechada, mãe. Vim pro hotel atoa e agora não me deixam sair. O hotel inteiro está fechado por causa daquele maldito hóspede que pegou o vírus. - contei a ela, ainda comendo a banana.
- Meu Deus, . Mas vocês estão seguros? O hóspede ainda está ai?
- Não, ele foi para o hospital, eu acho. - falei terminando de comer a banana. Suspirei alto, limpando a mão em um dos lencinhos umedecidos. - O covid acabou com meu sonho...
- Não seja dramática, ! É temporário, você sabe disso. Seu sonho só está começando... E quem sabe por você estar aí eles não voltam atrás e reabrem a confeitaria?
Minha mãe é uma mulher muito sensata e muito prática. Com ela não tinha drama nem enrolação; ela é oito ou oitenta, sem meio termo. Eu admirava essa personalidade dela. Eu queria ter 1% da confiança dela e já estaria satisfeita.
- Obrigada, mãe. - respondi com sincera gratidão. - Mas e vocês? Como estão o papai e a vovó?
- Sabe como eles são, né? - ela respondeu e pude imaginá-la revirando os olhos. - Ansiosos e agitados, não aguentam mais ficar em casa.
- Mas só fazem duas semanas!
- Pois é, e você acha que eles entendem? - ela respondeu rindo. - Vou ter que desligar, meu amor. Mais tarde te ligo de novo, ok?
- Ok, mãe. Amo vocês. Se cuidem!
- Também amamos você e se cuida, ok?
Depois de desligar o telefone, desfiz minha mala, guardando tudo no pequeno armário que tinha no quarto e todos os itens de beleza e higiene foram arrumados no banheiro. Peguei um dos livros que havia trazido, era o Fangirl escrito por uma das minhas autoras favoritas, Rainbow Rowell. Mas eu já não aguentava mais ficar sentada naquele quarto, então depois de uma hora lendo, sai na varanda para tomar um ar. A vista era linda ali do alto, nunca tinha visto antes. Fechei os olhos por alguns segundos para sentir a brisa de Roma em meu rosto. Aos poucos comecei a ouvir uma melodia calma, logo abaixo de mim. Franzi a testa, pensando “meu Deus, eu já estou começando a delirar?”. Olhei para baixo e vi dois pés descalços apoiados na varanda, balançando conforme a melodia. Queria demais saber que música era aquela. De vez em quando a pessoa fazia uma pausa mas voltava a dedilhar o que eu imaginava ser um violão.
Me estiquei mais pra baixo a fim de tentar ver mais, mas o medo de cair falou mais alto e eu logo me endireitei, me afastando alguns passos da sacada e voltando a me sentar na cama. Olhei em volta, já me sentindo extremamente entediada. Liguei a tv para comprovar que nada interessante estava passando, então deixei em um programa de concurso de gastronomia e fiquei assistindo sem prestar muita atenção. Depois de algum tempo, meu estômago roncou e o relógio do meu celular mostrava que já eram uma e meia da tarde. Nessa hora, o telefone do quarto tocou.
- Alô?
- Principessa, essa cozinha está tão chata sem você! - disse Ollie. - Estou tentando convencer o Sr. Enrico a te trazer de volta, mas a verdade é que não tem absolutamente nada para fazer aqui.
- Ai, Olivia... Eu estou extremamente entediada. Eu pensei que passaria horas aí com vocês, me distraindo. Mas não poder fazer nada é horrível! - resmunguei, me deitando na cama e sentindo meu estômago reclamar novamente. - Ollie, tem alguma coisa pra comer ai?
- O almoço dos funcionários vai ser entregue daqui a pouco. Hoje é rondelli
alla salsa di pomodoro e parmegiana. Quer beber alguma coisa especial? - ela perguntou e imaginei seu sorriso travesso por detrás da máscara.
- Tem vinho tinto? - perguntei com o mesmo sorriso. Ela riu e respondeu:
- Pra você nós temos o mundo, chef! - e desligou.
A própria Ollie levou o prato até meu quarto, e a vontade de puxá-la para dentro para conversarmos a tarde inteira era enorme. Infelizmente não poderíamos fazer isso agora, mas com certeza fugiria para seu quarto ou ela para o meu antes de dormirmos.
E assim foi feito, depois de um almoço delicioso e uma tarde longa e tediosa, Ollie veio para meu quarto com alguns pedaços de bolo e pães recheados para comermos no jantar e acabar com a garrafa de vinho que ela trouxe no almoço. Não tinha problema em ficar sem máscara porque nós duas fizemos os dois tipos de testes antes de entrarmos aqui e das duas e de todos os funcionários que ficaram deram negativo. E de todos os funcionários do hotel, apenas uma camareira testou positivo e está afastada se cuidando. Era um alívio saber que todo os esforços que estamos fazendo há algumas semanas fez efeito.
Enquanto eu mastigava uma deliciosa fatia de pão recheado com calabresa, Ollie deu alguns tapas na minha coxa para chamar minha atenção. Estávamos as duas sentadas com as pernas cruzadas em cima da cama de casal e vendo um filme italiano antigo que eu me esforçava muito para entender sem legendas.
- Sabe quem está hospedado aqui com a gente? - ela falou animada, dando pulinhos e fazendo a cama balançar. Segurei nossas taças de vinho com firmeza, olhando-a assustada.
- Os lençóis brancos, Olivia! - exclamei, vendo-a gargalhar da minha cara. - Não sei, é alguém importante?
- Importante?! - ela falou quase engasgando com o gole de vinho que acabara de dar. Essa garota ia acabar manchando a roupa de cama e é claro que descontariam do meu salário. - É o Harry fucking Styles!
Agora foi a minha vez de quase engasgar. Não queria admitir para Olivia mas eu era uma grande fã de Harry desde a One Direction que, por sinal, eu ainda custava em aceitar a separação. Eu era fã a ponto de ter comprado o ingresso pro seu show no mesmo dia em que abriram as vendas. É claro que por causa da pandemia o show que seria em algumas semanas havia sido adiado, sem data definida.
- O bonitinho da One Direction? - questionei, tentando fingir indiferença enquanto bebia o vinho para tentar desengasgar.
- Primeiro que todos da banda são “bonitinhos”. - ela respondeu fazendo aspas. - Segundo que quem mais seria? O príncipe da Inglaterra? O Harry Potter?
- E o que ele está fazendo aqui no nosso hotel? - respondi depois de revirar os olhos.
- Bom, aparentemente ele não conseguiu um voo a tempo e ficou preso aqui com a gente. - ela respondeu com a boca cheia de croissant. - Boatos de que ele está escrevendo o terceiro álbum.
Arregalei os olhos enquanto meu cérebro puxava na memória a melodia que ouvira de tarde. Será possível?
- Você sabe o quarto que ele está? - perguntei, ainda fingindo não estar tão interessada mas sabendo que Olivia não estava caindo nisso, pois ela me olhava com os olhos semicerrados e um sorriso torto como se ela soubesse de tudo mas queria ver até onde eu iria com a mentira.
- Vai fazer uma visitinha? - ela brincou, me fazendo revirar os olhos e lhe dar um tapa de leve no braço dela.
- Não, garota! Até porque eu não quero me contaminar. Se for pra ficar presa aqui, que seja em segurança. - respondi, me levantando da cama e levando os pratos pra mesa, bebericando o restinho do meu vinho. - É que... Hoje de tarde eu ouvi alguém tocando violão no quarto de baixo. Sei lá, acho que pode ser ele.
Aquilo foi o suficiente para Olivia soltar um grito agudo e saltar da cama, quase derrubando o vinho pela terceira vez naquela noite. Corri até ela e peguei a taça de sua mão, colocando-a na mesa.
- Nós temos que ir lá! - ela disse empolgada, voltando a pegar a taça e finalizando o líquido que estava dentro.
- Não temos não, Olivia! Não pira. - respondi. - Nós temos que dormir porque a senhorita vai acordar cedo amanhã.
- Para nossa sorte, amanhã é minha folga e vou poder passar o dia todinho com você. - ela falou me abraçando desajeitada e apoiando a cabeça em meu ombro. Ela estava claramente bêbada.
- Não sei o que é pior, morrer de tédio ou ficar presa aqui com você. - brinquei mas me arrependi quando a vi fazer biquinho e seus olhos marejaram. - Jesus, Ollie, é brincadeira!
- Vamos lá, ! Só pra saber se é ele! - ela pediu com seus olhos verdes enormes e brilhantes e seu bico maior ainda. Suspirei, derrotada.
- Coloca a máscara. - respondi vendo-a saltitar até a cabeceira onde estava seu kit de máscaras. - Cinco minutos, ok? Depois voltamos pra cá e vamos dormir.
- Certo, chef! – ela respondeu batendo uma continência desajeitada, correndo até a porta. Coloquei a máscara no rosto, peguei um mini borrifador com álcool 70º e corri atrás dela, segurando-a pelo braço.
- Por favor, Ollie, faz silêncio! Não devíamos estar aqui. – sussurrei enquanto caminhávamos na ponta do pé pelo corredor até a escada de emergência que, para nossa sorte, ficava ao lado da porta do quarto onde o gerente estava dormindo.
Abri a porta da escada com cuidado e puxei Olivia comigo, que tampava a boca para não deixar o som da sua risada escapar. Descemos com cuidado as escadas, eu segurando Olivia com uma mão enquanto segurava no corrimão com a outra. Eu não percebi o quanto ela tinha tomado de vinho, mas algo me dizia que Ollie era muito fraca pra bebida e, realmente, eu não tinha muitas lembranças da garota relacionada com bebidas.
Como achávamos que ele estava no quarto abaixo do meu, seguimos com cuidado até o 501. Ollie se escorou no batente da porta e levantou a mão fechada e estava prestes a bater quando eu segurei seu pulso e a olhei assustada.
- Olivia, espera! O que vamos falar para ele quando ele abrir? – sussurrei, puxando-a para longe da porta.
- Que somos fãs, ora! – ela respondeu, me olhando como se eu fosse idiota.
- Claro, ai ele vai com seus lindos cachos até a recepção e fala que duas fãs loucas vieram incomodá-lo durante a noite! – sussurrei entre os dentes. – Ninguém pode saber que estamos aqui, Ollie. Precisamos de algo mais convincente.
- Confia em mim. – ela respondeu, me puxando de volta para a frente da porta. Naquele momento, a última pessoa em quem eu confiava era na Olivia bêbada.
Ollie bateu com vontade na porta e se endireitou, ajeitando os cabelos lisos e loiros, jogando-os para trás. Nesses longos segundos, eu observava a beleza extrema da minha amiga. Não que eu me achasse feia, mas eu com certeza me diferenciava de todas as italianas, por mais que eu mesma fosse descendente. Elas eram tão bonitas e elegantes, até mesmo Olivia que mexia nas panelas e utensílios com delicadeza e parecia flutuar pela confeitaria. Eu não era nada delicada, esbarrava em tudo e todos e se no final do dia eu saísse da confeitaria com apenas uma mancha no avental e na minha roupa, havia sido um dia bom.
Um dos lados da porta dupla se abriu e um garoto alto com cabelos bagunçados, uma camisa aberta de mangas curtas e metade do rosto coberto por uma máscara de pano preta apareceu. Uma mão segurava a porta aberta e a outra, um copo de whisky com gelo; as duas tinham os dedos longos cobertos por anéis. Ele nos olhou de cima abaixo, os cenho franzido em confusão. Eu não sabia dizer se foi a bebida ou o seu olhar, mas meu corpo esquentou instantaneamente.
- Buona notte, Senhor Styles! – exclamou Olivia, e pude perceber que ela sorria largo.
- Buona notte. – murmurei baixinho. Minha voz era um sussurro ridículo, e tive vontade de falar mais alto apenas para disfarçar o barulho do meu coração batendo forte.
- Buona notte! – ele respondeu animado, seus olhos entregando o sorriso que estava coberto por aquele pedaço de pano idiota. – Como posso ajuda-las?
Ele me olhava como se me desafiasse a perder a postura. O desafio estava aceito, mas eu mesma não sabia se conseguiria cumpri-lo.
- Nós somos da equipe da cozinha e gostaríamos de saber se você gostou do almoço de hoje. Tipo uma avaliação, sabe? - ouvi a voz de Ollie falar e pensei “Sério, Olivia? Essa foi sua melhor ideia?”. Ele levantou as sobrancelhas, parecendo estar se divertindo.
- Foi ótimo, vocês tem o melhor fettuccine ao molho branco de toda a Europa. - ele respondeu rindo e depois nos olhou novamente de cima a baixo. - Mas... É comum vocês fazerem essa pesquisa vestindo pijamas?
Arregalei os olhos, sentindo meu rosto queimar. Por sorte a máscara tampava metade do rosto e ninguém podia ver o rubor nas minha bochechas. Meu Deus, que vergonha! Eu queria poder afundar no chão e cair direto no meu quarto pra me esconder embaixo das cobertas e nunca mais sair. Olivia decidiu ficar quieta logo agora.
- Sim! - eu falei, fazendo Ollie me olhar chocada. - É uma forma de fazer vocês, hóspedes, se sentirem... Em casa.
- Isso, em casa! - completou Olivia, e eu puxei de leve um de seus dedos. - Espero que você esteja tão confortável quanto nós duas.
Harry assentiu de leve, tamborilando os dedos na porta, esperando que a gente falasse algo ou fosse embora.
- É só isso, meninas? - ele perguntou, vendo que nós duas estávamos congeladas.
- Sim, desculpa o incômodo, senhorStyles. Até mais! - disse Ollie, sem realmente se mover.
Eu acenei e me virei, puxando Olivia comigo, que acenava e tentava se virar para trás.
- Espera, meninas! - ouvi Harry exclamar, dando alguns passos para fora do quarto. - Vocês realmente trabalham aqui?
Eu me virei na mesma hora e assenti.
- Sabem onde posso encontrar um piano por aqui? - ele perguntou, ajeitando a máscara que teimava em cair do seu nariz.
- No restaurante... Na parte coberta, claro. Mas não sei se está autorizado a usar. - falei, tentando manter Olivia em pé. Ela estava claramente com sono e ainda sobre efeito do álcool. Essa não era uma mistura muito boa.
- Mas é claro que podemos dar um jeitinho para o senhor Harry Styles, não é, ? - ela falou meio arrastado.
- Não somos nós que decidimos, Olivia, é o Enrico. - murmurei entre os dentes. - Precisamos ir. Tchau, Harry.
- Foi um prazer, meninas, voltem sempre! - ele falou rindo, acenando de novo.
Arrastei Ollie até o elevador de serviço, seria um desafio subir as escadas do jeito que ela estava. Quando cheguei no quarto, a fiz higienizar as mãos e tirar a máscara com cuidado. Eu a coloquei na cama e fui tirar a minha, separando-a para lavar no dia seguinte. Quando voltei, ela já estava dormindo pesado. A cobri e me enfiei embaixo das cobertas com ela, sem conseguir pegar no sono. Eu conheci o Harry fucking Styles (como diria Olivia), e tinha certeza de que meu coração não iria desacelerar tão cedo.


Capítulo 2 - Red Velvet

Segundo dia de quarentena.

Acordei cedo demais, com uma leve dor de cabeça e todas as lembranças da noite passada me atingindo em cheio. Olhei para Olívia ainda dormindo ao meu lado, e me levantei para separar um remédio para a dor que ela iria sentir quando acordasse. Se eu, que não havia bebido mais de uma taça e meia de vinho, já estava sentindo um mal estar, imagine o que ela vai sentir quando levantar?
Depois fui até a varanda e observei a cidade vazia e silenciosa, iluminada apenas pela luz forte do Sol. Ninguém se atrevia a sair, os bares, restaurantes, padarias e bistrôs estavam quase todos fechados. Era triste ver minha Roma apagada; mesmo com tantas luzes acesas, ela não era a mesma sem os italianos animados falando alto demais, sem os turistas encantados com cada detalhe, sem os trabalhadores ficando até tarde na rua. Quando será que vamos voltar ao normal?
— Então é aí que você está.
Eu dei um pulo ao ouvir uma voz rouca falar do além. É claro que não era nenhum fantasma, era uma voz muitíssimo conhecida. Abaixei a cabeça e me curvei um pouco para enxergar a pessoa na sacada de baixo, me arrependendo amargamente ao sentir tudo girar. Voltei a posição de antes e respirei fundo com os olhos fechados.
— Vizinha? - ele chamou um pouco mais alto, me fazendo voltar e me abaixar com mais cuidado. Seu sorriso estava radiante sem aquela maldita máscara, provocando leves tremores em minhas mãos.
— Oi. Foi mal por ontem à noite, as ideias ideia da Olivia nem sempre são boas. - respondi tímida.
— Não precisa se desculpar, foi divertido - ele respondeu, rindo. — Ela está bem? Ontem ela parecia um pouco...
— Bêbada? - completei, o fazendo rir e concordar — Sim, mas ela ainda está dormindo. Ela não bebeu muito, mas aparentemente ela é muito fraca pra bebida.
— E você? Também é fraca? - ele questionou sem tirar o sorriso travesso do rosto.
Estreitei os olhos, me segurando firme no parapeito.
— Sou extremamente forte, muitíssimo obrigada - murmurei sorrindo para disfarçar a mentira, pois tudo ainda girava um pouco e eu sabia que o motivo era o vinho italiano.
— Qual é o seu nome? - ele perguntou. Voltei a olhá-lo e ele parecia mais inclinado ainda no parapeito, tentando me olhar.
— Você vai cair - murmurei, olhando-o com preocupação. Eram quatro andares (cinco no meu caso) que poderiam fazer um estrago em seu lindo rosto e em seu corpo tatuado. Imaginei o que faria com o meu, ridiculamente frágil.
— Então me responda antes que seja tarde demais! - ele exclamou enquanto ria, me fazendo rir também. Ele se inclinou mais um pouco, segurando firme na barra que o protegia.
— É - respondi. — Agora se afasta um pouco.
— Só ? - ele respondeu, sem me obedecer.
. . Pelo amor de Deus, toma cuidado!
— Muito prazer, . - ele voltou para uma posição mais segura, falando com seu sotaque forte que me dava arrepios bons pelo corpo. — Eu sou Styles. Harry Styles.
— Um britânico fazendo referência do James Bond, muito original! - exclamei rindo e vendo-o me olhar divertido.
— Ei, foi você quem começou! - ele retrucou. Depois de alguns segundos em silêncio, ele voltou a falar: - Vocês realmente trabalham aqui?
— Sim - respondi chocada por ele ainda não acreditar na gente. — Eu sou confeiteira chef e Olivia é minha ajudante. Ela ainda está trabalhando na cozinha, mas minha confeitaria está fechada há alguns dias.
— É uma pena, eu adoraria provar seus doces - ele falou me olhando sugestivamente. — E o que você está fazendo aqui?
— Eu não vi o email que me mandaram avisando que eu deveria ficar afastada, então eu acabei vindo e não pude mais sair - respondi dando de ombros.
— Que sorte a minha - ele respondeu, dando um sorriso torto.
Meu Deus, Harry Styles estava flertando comigo? Ou provavelmente eu estava com covid e deveria estar delirando de febre; talvez era o vinho, brincando com minha consciência. Coloquei a mão na testa e a temperatura parecia estar normal, então decidi culpar a bebida. Era isso, eu estava me iludindo e era o álcool ainda fazendo efeito no meu corpo.
— Pelo menos os da padaria são...Aceitáveis. - Falei, fazendo uma careta. Ele riu e balançou a cabeça.
— De jeito nenhum, eles são horríveis - ele falou. — Estou quase dando um jeito de sair daqui escondido para comprar doces decentes. Estou morrendo de vontade de comer um bolo red velvet coberto de chantilly.
A cara de prazer que Harry fez com a lembrança do doce fez meu corpo esquentar violentamente. Olhei para o céu para evitar a visão e, de repente, tive uma ideia louca e estúpida. E se eu fosse escondida na cozinha e fizesse um doce para ele? Poderia juntar o útil ao agradável: daria um doce decente à Harry e voltaria a fazer o que amava. Meu red velvet era uma das sobremesas mais pedidas no restaurante, seria injusto se ele não pudesse provar. Fechei os olhos com força e me obriguei a esquecer isso, era loucura e arriscado demais. Mas quando vi, as palavras já saíam da minha boca sem controle algum.
— Eu posso fazer o bolo pra você - falei, apertando os lábios. Eu o vi levantar as sobrancelhas e sorrir largo.
— Sério? Faria isso por mim? - ele perguntou sorrindo, apontando seu dedo comprido para si mesmo.
— Eu também estou com vontade. - menti, dando de ombros.
A verdade é que mesmo sendo uma confeiteira, eu não era grande fã de bolos. Tortas e pavês talvez, mas bolos eram sempre minha última escolha.
— Mas a confeitaria não está fechada? - ele perguntou, confuso.
— Eu dou um jeito - falei sorrindo de lado. Ele pareceu amar a ideia de fazer o doce escondido, pois me olhava como uma criança que acabou de saber que o Natal seria amanhã.

— Combinado, onde te encontro e que horas?
— Como!? - questionei confusa. — Harry, você não pode ir comigo.
— Por que não? - ele perguntou parecendo decepcionado. — Ah, vamos! Eu estou extremamente entediado aqui dentro, sem inspiração nenhuma pra escrever. Eu preciso sair daqui, !
Não sei se foi a forma como o meu apelido saiu dos seus lábios ou seus olhos verdes enormes que me lembravam os de Olivia quando queria pedir algo, mas eu não consegui resistir. Eu não era tão forte assim, no final das contas.
— Com quem está falando, ? - ouvi Ollie perguntar. Olhei para trás e ela estava sentada na cama, com uma mão na cabeça, os cabelos totalmente bagunçados e os olhos fechados. — Por que está tudo girando?
Me inclinei na varanda e Harry não estava mais lá. Droga
Entrei no quarto e falei para Olívia que estava apenas falando sozinha e ela nem questionou. Peguei uma garrafa de água e lhe entreguei para tomar o remédio. Ela me contou sobre o sonho estranho que ela teve, onde eu e ela íamos de pijama até o quarto do Harry Styles e ele abria e nos via desse jeito. Seus olhos se arregalaram quando falei que não tinha sido um sonho e ela reclamou da dor que sentiu. Eu a deixei ficar deitada e falei que ia buscar nosso café e a avisei que se quisesse vomitar, eu havia colocado o baldinho do lixo do lado da cama. Ela só respondeu com um murmuro e se deitou de novo. Pelo menos teria algo para me entreter durante o dia: cuidar da ressaca de Olivia.
Antes de sair, corri até o bloco de notas ao lado da cama e rabisquei as palavras "Me encontre às 23h30 no saguão principal. Faça silêncio e leve sua máscara. Assinado: sua vizinha do andar de cima". Desci um andar pela escada de emergência com o coração batendo a mil por hora. Quando cheguei ao 401, tomei todo cuidado para não fazer barulho, empurrei o pedaço de papel dobrado por baixo da porta e sai correndo até os elevadores de serviço.
Tive que me curvar e apoiar nos joelhos para conseguir recuperar o fôlego, correr normalmente já é um sacrifício para uma sedentária como eu, mas correr de máscara era muito pior. Quando cheguei ao andar do restaurante, no térreo, eu já estava respirando quase de forma normal, mas meu rosto ainda estava quente e eu provavelmente parecia cansada pois todos me olhavam como se eu fosse louca.
Me aproximei do buffet onde estavam servindo as bandejas e hoje tinha croissant, um pratinho com frios e suco de laranja, leite ou café para beber. Me aproximei de Antonio, responsável por colocar os itens nas nossas bandejas para que a gente não encostasse em nada. Ele falava com todos com uma simpatia e bom humor invejável.
Buongiorno, Toni - falei ao pegar uma bandeja com ele. — Como vai?
Buongiorno, mi amore! Vou bem, e você? - ele respondeu e pude imaginar seu sorriso enorme por trás da máscara azul descartável.
— Estou bem, sabe como é: um tédio só, não tenho muita coisa para fazer no quarto.
— Sei bem... As horas que não estou aqui trabalhando são bem chatas — ele falou distraído, colocando um daqueles copos descartáveis de café que vem com uma tampa em minha bandeja.
— Falando nisso... – comecei a falar, fingindo não estar tão interessada assim no assunto. — Que horas vocês estão fechando a cozinha?
— Estamos fechando às dez, ou dez e meia... Não estamos tendo muita coisa para fazer, então não tem porque ficarmos mais que isso.
— Sim, claro... – respondi, assentindo com a cabeça.— E vocês deixam a chave na recepção, certo?
Toni me olhou desconfiado, estreitando os olhos e franzindo a testa. Meu coração deu uma acelerada.
— Eu só quero saber se minha confeitaria está segura, só isso — respondi revirando os olhos e torcendo para ele acreditar na mentira.
— Sim, deixamos na recepção... – ele respondeu ainda desconfiado. Percebi que estava atrasando a fila então sai do caminho e entrei atrás do buffet, ficando ao lado dele.
— Será que posso levar o café da Olivia? Ela não está se sentindo muito bem para descer.
No mesmo instante eu me arrependi de ter falado isso, porque ele arregalou os olhos assustado.
— É covid? Mio Dio, Ollie é muito nova! — ele exclamou, balançando a cabeça.
— Claro que não, Antonio! Ollie testou negativo! — eu falei rindo de puro nervosismo, tentando pensar em uma desculpa melhor. — Ela está... Naqueles dias, sabe? Coisa de mulher.
— Ah, sim, claro! Vou separar o café dela então. Por quê não falou antes? – ele respondeu rindo, colocando mais um item de cada na minha bandeja. — Prontinho, senhorita . Mais alguma coisa?
— Na verdade, sim – respondi, vendo as pessoas nos observarem desconfiadas. — O Senhor Styles já pediu o café da manhã?
— Já sim, bem cedo. Acredito que agora ele esteja na academia – ele respondeu, voltando a dar atenção à pessoa que estava na nossa frente.
Minha imaginação foi longe, pensando em um Harry Styles sem camisa correndo na esteira ou levantando peso, seu corpo suado enquanto ele respirava ofegante. Um formigamento percorreu meu corpo enquanto eu me despedia de Toni e andava o mais rápido possível, fazendo de tudo para tirar essa imagem da minha cabeça. Ridícula, , isso que você é. Ainda se acha aquela garota de catorze anos que ficava o dia inteiro vendo vídeos da One Direction, suspirando pelo garoto de cabelos cacheados que, por delírio da sua mente, havia flertado com você.
Eu ainda me xingava mentalmente quando cheguei ao quarto e encontrei Olivia sentada na cama, bebendo mais água.
— Como você está? – perguntei, colocando a bandeja na mesa redonda no canto do quarto.
— Melhor, eu acho... – ela murmurou, deixando a garrafa de lado.
— Está com fome?
— Muita! – ela disse se sentando ao meu lado. Fui até o banheiro e lavei minhas mãos e minhas máscaras, pendurando-as para secar. Quando voltei, Ollie estava na varanda, olhando para baixo.
— Olivia! Você vai ficar tonta de novo, volta aqui! – falei andando até a porta de correr que separava a varanda do resto do quarto.
— Você estava falando com o Harry? – ela perguntou, me olhando desconfiada.
— Eu já disse que estava falando sozinha…
— Ah, claro, e eu sou a princesa Grace Kelly – ela disse em tom irônico. – Eu ouvi outra voz e não era ligação porque seu celular estava aqui na cama. Era ele, não era?
Mordi os lábios, sem querer admitir porque sabia que Ollie surtaria. Mas balancei a cabeça, confirmando suas suspeitas. Para minha surpresa, ela apenas arregalou um pouco os olhos e balançou a cabeça, imitando meus movimentos. Nós voltamos para a mesa e ela continuava com um sorriso no rosto
— Uau... Você vai pegar o Harry Styles…
— Ai Olivia, não fala besteira – eu falei quase me engasgando com o café. — Ele só estava dizendo que queria comer um doce, e eu... Bom, talvez eu tenha oferecido meu bolo red velvet pra ele.
Olivia explodiu em risadas, se arrependendo no mesmo momento por causa da dor de cabeça. Eu entendi perfeitamente o que ela pensou.
— Deus, como você é pervertida! – eu reclamei, segurando a risada. — Eu estou falando do bolo de verdade.
— Mas eu tenho certeza que ele vai querer o seu bolo – ela respondeu com o sorriso malicioso no rosto.
Eu revirei os olhos, mas não pude evitar voltar na imaginação de Harry na academia. Não sei se ele iria querer o meu bolo, mas eu super comeria o buffet inteiro do Harry Styles. Olivia me olhava com um sorriso divertido no rosto enquanto bebericava seu chá.
— Você está imaginando ele comendo seu bolo, não está?
— Come seu café e ocupa essa boca pra não falar mais besteira – respondi, fazendo-a gargalhar de novo. Ela reclamou da dor mas não tirou o sorriso do rosto. — Bem feito.
Quando deu 23h20, eu e Olivia saímos do quarto com cuidado, verificando se não tinha ninguém no corredor. Dessa vez não estávamos de pijama, mas eu não havia me produzido muito, afinal eu iria cozinhar e gostava de fazer isso estando bem confortável. Eu tinha colocado apenas uma legging preta, o sapato de borracha que usávamos na cozinha e uma regata branca larga. Já Olivia colocou um shorts jeans curto, uma regata preta que valorizava seus seios e saltos altos simples mas bonitos. Ela se maquiou apenas para descer ao saguão, pois sua missão era seduzir o recepcionista que estaria de plantão durante a noite para pegarmos as chaves da cozinha com ele. Eu até me maquiei um pouco para não parecer tão acabada, mas nada se comparava com Ollie, que passou até batom mesmo sabendo que ficaria de máscara.
Quando chegamos na recepção, Olivia desfilava com toda sua elegância até o balcão comprido de mármore cinza e se inclinava sobre ele. Acelerei os passos para alcançá-la e tentei fazer o mesmo, porém eu era alguns bons centímetros mais baixa que minha amiga então eu parecia uma criança tentando alcançar o balcão na ponta dos pés. O recepcionista de plantão era Felipe, o único outro brasileiro que trabalhava no hotel e tão jovem quanto a gente; acabou se tornando um amigo nosso.
— Olá, Felipe! – disse animadamente Olivia, mordendo o lábio inferior. Eu achei extremamente exagerado, mas Felipe pareceu adorar.
— Oi, Ollie. E ai, – ele disse sorrindo, sem tirar os olhos do decote de Olivia. Revirei os olhos, sem acreditar no quão fácil aquilo seria. — Como posso ajuda-las?
- Fe, mi amore, você acredita que minha amiga aqui esqueceu seus remédios na confeitaria? – ela falou enquanto balançava sua cabeça e, consequentemente, seus cabelos dourados. — Só não esquece a cabeça porque está colada no corpo, certo?
Os dois riram e eu soltei uma risada forçada, ouvindo meu coração bater muito forte de ansiedade. Olhei em volta, procurando quem eu queria. E se ele não tivesse recebido o recado? Ou pior, e se tivesse desistido de fazer o bolo comigo? Eu o faria de qualquer jeito, mas não podia negar que minha empolgação era mais por causa de Harry do que pelo bolo.
— Será que você pode emprestar as chaves da cozinha pra gente? – ela pediu com seus cílios cheios de rímel piscando freneticamente e eu sabia que ela estava fazendo um bico enorme por debaixo da máscara.
— Só porque você é a chef, hein? E está me devendo um brigadeiro – ele falou rindo e estava falando comigo, mas ainda olhava para Olivia.
Ele pegou as chaves e as colocou no balcão. Nesse momento, Harry chegou ao saguão, olhando em volta e acenou ao cruzar seu olhar com o meu. Ele estava absolutamente lindo com uma camiseta branca com um desenho que eu não conseguia entender de longe, uma calça marrom boca de sino e uma máscara da mesma cor. Seus cabelos castanhos estavam meio presos e meio soltos. Eu levantei a mão discretamente e pedi para ele esperar onde estava quando ele ameaçou dar um passo. Me virei para o balcão, vendo que Ollie já havia tirado a máscara e jogava seu sorriso charmoso para o garoto do outro lado.
— Obrigada, Fe! Assim que der eu faço seu brigadeiro, prometo! – agradeci enquanto eu pegava as chaves. Abaixei a máscara por um segundo para dar um beijo na bochecha da Ollie que me desejou boa sorte em voz baixa.
Ela ainda conversava com Felipe e o distraia quando dei as costas. Andei apressada até onde Harry estava e o puxei pelo braço sem dizer nada, levando-o até a porta do restaurante.
— Boa noite pra você também, – eu o ouvi dizer baixinho, sua risada sendo abafada pelo pano da máscara.
— Boa noite, Styles – respondi sem olhar pra ele, tentando segurar o sorriso que teimava em surgir no meu rosto. — Agora fica quieto, por favor.
Atravessamos o salão escuro, desviando das mesas redondas, mas parei no meio do caminho para mostrar-lhe o piano de cauda que ficava em um dos cantos do espaço. Seus olhos brilharam de forma visível mesmo no escuro, e ele ameaçou andar em direção ao instrumento, mas eu segurei seu braço e balancei a cabeça, proibindo-o de ir até lá. Seus ombros murcharam mas ele continuou me seguindo.
Para ir até a confeitaria, teríamos que passar por dentro da cozinha. Não liguei nenhuma luz, mas eu já conhecia aquele lugar como a palma da minha mão, então eu não soltei a dele e continuei guiando-o para ele não esbarrar em nada.
Acendi apenas as luzes principais para não chamar atenção e dei uma boa olhada para minha confeitaria. Respirei fundo, sentindo o cheiro de baunilha, açúcar e chocolates, com laranja, morango e limão. O que eu mais amava era isso: essa mistura de aromas e sabores que, combinados, funcionam como mágica.
— Então esse é o seu palco? – ele perguntou, olhando em volta e respirando fundo, tentando sentir os mesmos aromas que eu estava sentindo. — Já estou apaixonado.
— Espere até sentir os sabores. – eu falei, sorrindo.
Lavei minhas mãos e o chamei para fazer o mesmo. Seus olhos cor de esmeralda entregavam o sorriso largo que ele estava dando enquanto dividia a pequena pia comigo, fazendo nossos braços se esbarrar.

— Você vai fazer o papel da Olivia hoje, está bem? Então pode pegar um avental, ou vai acabar sujando sua roupa Gucci se for tão desastrado quanto eu.
— Espera, eu vou te ajudar a fazer? — ele perguntou surpreso, seus olhos verdes estavam arregalados.
— Não era isso que você queria? Você quem quis vir – perguntei confusa.
— Na verdade eu achei que iria apenas te observar fazer a obra prima e, de bônus, comer e aprender – ele disse, dando de ombros e cruzando os braços ao se encostar na bancada de inox.
— Cozinhar é uma arte que só se aprende na prática, Senhor Styles – respondi, vendo-o revirar os olhos.
— Por favor, me chame só de Harry – ele pediu. Eu ri e assenti.
— Enfim, Harry... - continuei, dando ênfase em seu nome. — Se quer aprender, vai ter que me ajudar.
— Ok, chef! – ele brincou, batendo continência. — O quê eu faço primeiro?
— Pega a batedeira. – pedi e ele ficou parado, olhando para os equipamentos na bancada de trás com cara de dúvida. — Você sabe qual é, certo?
— Claro que sei! – ele disse, mas continuou parado, revezando seu olhar entre os equipamentos.
— Certo, vamos mudar. Abre aquela geladeira e pega dois ovos, eu pego a batedeira – falei rindo, e ele assentiu envergonhado.
Peguei a batedeira pesada e a coloquei em cima do balcão, ligando-a na tomada.
— Harry, batedeira; batedeira, Harry. Agora estão devidamente apresentados.
— Muito prazer, senhora “Batedeira”. – Ele falou rindo, entrando na brincadeira. — Aqui estão seus ovos.
— Muito impressionada por você saber o que são ovos – brinquei, e ele soltou uma risada irônica.
— Posso não ser expert na cozinha, mas te garanto que sei fazer muitas outras coisas – ele falou se aproximando perigosamente de mim, seu rosto ficando a centímetros do meu.
Agradeci por estarmos de máscara, mas minhas mãos tremeram mesmo assim e ouvi um dos ovos se quebrando no chão enquanto meus olhos estavam grudados nos dele.
— Merda! – murmurei, colocando o outro ovo em um pote de inox e pegando o papel toalha para limpar o chão. — Distanciamento social, Harry, já ouviu falar disso?
— Eu testei negativo, – ele murmurou revirando os olhos. Eu lancei meu olhar mais bravo, fuzilando-o. Ele apenas riu e levantou os braços como se estivesse se rendendo. – Ok, foi mal, vou pegar outro ovo.
Ele me entregou o ovo substituto e perguntou o que mais poderia fazer. Era ridículo como meu coração estava acelerado e meu cérebro parecia não funcionar. Eu tentava puxar a receita na minha memória, mas estava com dificuldades de pensar. Abri um dos armários e tirei o livro de receitas que eu carregava desde a infância, onde minha avó anotava suas receitas e eu continuei anotando até a faculdade de gastronomia e a pós em confeitaria. Folheei até encontrar o bolo red velvet e consegui lembrar de tudo na mesma hora. Pedi para ele pegar a manteiga, um limão siciliano e o extrato de baunilha na geladeira; eu peguei todos os utensílios necessários e os ingredientes que estavam no armário. Quando estava tudo no balcão, ele parecia estar mais empolgado ainda.
Antes de começar, peguei meu celular e vi que Ollie tinha mandado algumas mensagens.
"Seria muito errado se eu beijasse o Felipe? No fim das contas, ele sabe flertar."
"Ele disse que testou negativo e não tem uma alma viva aqui no saguão. Posso??"
", EU BEIJEI O FELIPE!!"
Eu ri para a tela do celular e percebi que Harry estava colado comigo, olhando para o aparelho em minhas mãos. Eu o olhei incrédula com a intromissão dele.
— Com licença?
— Felipe é o recepcionista, não é? – ele perguntou, ignorando minha indignação. Eu assenti e guardei o celular, voltando a lavar minhas mãos. Ele soltou uma risada rouca. — Ela é rápida.
— Ela é doida – respondi, balançando a cabeça. — Bom, vamos começar?
Eu e Harry fomos acrescentando os ingredientes aos poucos, enquanto eu o ensinava o porquê das quantidades serem aquelas e cada função dos ingredientes naquela receita. Era surpreendentemente divertido e gostoso estar ali com Harry, o ser humano normal Harry, me fazendo esquecer que aquele era o homem que eu estava ansiosa para ver cantar em algumas semanas. Ele me questionava tudo, fazia piadas, e é claro que nos sujamos muito e, depois de colocar a forma no forno, começamos a rir do caos que era a cozinha e nós mesmos.
Preparamos o recheio de cream cheese enquanto o bolo continuava no forno e aproveitamos para limpar a cozinha e pegar os pratos. Depois de rechear e cobrir tudo, Harry olhava para o bolo com olhos de uma criança vendo doce pela primeira vez. Cortei uma fatia e o servi.
— Você não vai comer? – ele perguntou.
— Primeiro eu quero ver sua reação – falei, observando-o tirar a máscara.
Meu Deus, a beleza desse homem era desumana. Suas covinhas estavam visíveis por causa do seu sorriso largo, e a forma como seu rosto se transformou quando ele comeu o primeiro pedaço fez tudo valer a pena. Era muito satisfatório ver a reação positiva dos clientes ao comer meus doces, mas eram raros os momentos que eu conseguia fazer isso. Mas com Harry era um outro nível, ele deixava transparecer todos os seus sentimentos em sua feição. O prazer tomou conta do seu rosto enquanto ele fechava os olhos e gemia baixo, mastigando lentamente. Aquilo deveria ser proibido por lei. Tentei controlar o calor que subiu pelo meu corpo, agradecendo por estar apoiada na bancada porque minhas pernas ficaram bambas no mesmo instante.
— Caralho, , esse é o melhor bolo que eu já comi na vida! – ele falou com a boca cheia do seu segundo pedaço. — Meu Deus, você tinha razão, o sabor é ainda melhor que o aroma.
— Os dois se complementam – murmurei sem conseguir tirar os olhos da sua boca. Ele parou de mastigar e apontou pro bolo. Eu neguei com a cabeça e o vi revirar os olhos.
-— Não vou comer isso tudo sozinho – ele falou, pegando a espátula de cortar bolo e me servindo um pedaço. Tirei a máscara com relutância e me afastei dele o máximo que a bancada permitia. Ele riu do meu ato e balançou a cabeça.
— O quê? Se você não leva a covid à sério, eu levo – falei, comendo mais um pedaço. Estava realmente delicioso.
— Eu levo sim, ... Mas estamos isolados aqui, pelo menos eu estou isolado há alguns bons dias. Se todo mundo aqui dentro fez o teste e de todo mundo deu negativo, é loucura não me sentir seguro.
— É, mas... – eu tentei pensar em uma desculpa e o sorriso no rosto dele me desafiava a fazê-lo, mas eu apenas suspirei e dei de ombros. — Você está certo, mas mesmo assim...
— Eu não acho que você queira distância por causa do vírus – ele falou, seu sorriso se transformando em um carregado de malícia. Ele se aproximou um pouco, e eu já estava na ponta da bancada, sem ter pra onde ir a não ser que largasse o bolo ali e saísse correndo. — Eu acho que você está com medo.
— M-medo? De quê? – falei gaguejando enquanto ele se aproximava mais ainda. Minhas mãos tremiam tanto que tive que apertar o garfo para disfarçar. Seu rosto estava a centímetros do meu.
— De não conseguir fugir do cream cheese – ele respondeu, e de repente eu senti seus dedos passando algo cremoso em meu rosto.
Cazzo, Harry! – exclamei brava, limpando o creme do meu rosto.
Harry gargalhou tanto que teve de segurar a barriga que doía e secava as lágrimas que caiam. Peguei um punhado da farinha que ainda estava no balcão e joguei nele, vendo-a voar até cair em seus cachos perfeitos. Ele parou de rir e se endireitou, me olhando chocado.
— É guerra? – ele questionou, abrindo a geladeira.
— Não, Harry, eu só revidei, agora estamos quites! – falei tentando me afastar e procurando algo que eu pudesse jogar nele.
Encontrei uma bisnaga com calda de morango dentro do armário e a preparei como uma arma. Ao mesmo tempo que ele jogava o resto de um suco de laranja de garrafa, eu joguei a calda. Ele jogou morangos enquanto eu jogava amendoins. Por fim, os dois estavam sentados no chão, no meio da sujeira, rindo tanto agora que era a minha barriga que doía.

— Eu estava precisando disso... – ele disse, tentando recuperar o fôlego. Me arrastei até ficar do seu lado com as costas apoiadas na bancada, tentando recuperando o ar. — O que significa cazzo?
— É tipo "porra" em italiano. – falei enquanto ria da sua pergunta. — Os italianos tem o segundo melhor xingamento do mundo.
— Qual é o primeiro? – ele questionou.
— O português do Brasil, é claro! – falei fingindo estar ofendida por ele não saber disso.
— Aaaah, é daí que vem seu sotaque! – ele exclamou como se tivesse descoberto as Américas. — Adoro o seu país.
— Tanto que até tatuou na sua coxa – murmurei rindo.
— Então quer dizer que você é uma fã? – ele falou divertido e me olhava como se eu tivesse lhe contado meu maior segredo.
— Digamos que eu tenha comprado o ingresso para o seu show na mesma hora em que começaram as vendas – confessei envergonhada. Ele me olhou surpreso e riu.
— Uau, e você não surtou até agora? Eu lembro de as fãs brasileiras serem as mais loucas e animadas de todas.
— Hoje eu descobri que tenho muito auto controle. – falei rindo.
— Eu também. - ele respondeu, dando um sorriso torto.
Respirei fundo, tentando ignorar minha mente que parecia gritar, me dizendo que o cara ao meu lado estava dando em cima de mim mais uma vez. Eu discutia mentalmente comigo mesma, respondendo que não passava de pura criação da minha imaginação fértil; eu era incapaz de acreditar que ele tivesse interesse em mim.
Me levantei com certa dificuldade, tentando não escorregar na sujeira do chão e o ajudei a se levantar, torcendo que ele não percebesse o quão trêmula estava a minha mão.
— Temos que limpar isso.
— E isso aqui também – ele disse, passando a mão em uma mecha do meu cabelo e tirando um pedaço morango que ficou preso. Ele ficou me olhando, dessa vez ele estava sério e até franzia a testa. Eu o ouvi cantarolar baixinho. — Tastes like strawberries on a summer evenin'... And it sounds just like a song.
— Você está cantando sua própria música? – murmurei tão baixo quanto ele, com seu rosto a centímetros do meu e sua mão ainda em meus cabelos.
Ele me olhava como se analisasse uma espécie desconhecida de ser vivo, mas isso não me incomodava tanto quanto deveria. Dessa vez, não tínhamos nenhuma máscara nos impedindo ou nos protegendo.
— Você me fez lembrar dela. – ele falou dando de ombros. Ele sorriu e se afastou, me deixando totalmente frustrada. — Onde estão os itens de limpeza?
Depois que eu e Harry arrumamos tudo em um silêncio constrangedor, nós limpamos nosso rosto o melhor possível e colocamos nossas máscaras. Uma pontada de tristeza acertou meu peito por não poder mais ver seu sorriso lindo, agora escondido atrás daquele pano ridículo. Encontrei Ollie na recepção, ocupando o lugar que era de Felipe. Ela disse que acontecera um "acidente" com a calça dele, fazendo-o ter que ir ao banheiro, e eu entendi tudo na mesma hora. Dei boa noite depois de chama-la de pervertida, deixei alguns pedaços do bolo com ela e fui encontrar com Harry na frente dos elevadores. Dentro do elevador, ele me olhava com os olhos brilhando, visivelmente estava sorrindo. E eu, como uma idiota, retribuia o olhar o tempo todo. Quando chegamos no quarto andar, ele parou na porta do elevador, segurando-a com a mão livre; a outra segurava um prato com metade do bolo que fizemos.
— Obrigada pelo bolo, de verdade. E desculpa pela bagunça. – ele falou, e eu assenti.
— Não tem que agradecer, você o preparou tanto quanto eu. – respondi sorrindo, mesmo que ele não pudesse ver. — E a bagunça valeu a pena.
— Valeu a pena mesmo, hoje foi bem... Diferente.
"Diferente? Que merda ele quer dizer com diferente?" eu pensei, me questionando se deveria considerar isso uma coisa boa ou ruim.
— Até mais. – ele falou enquanto soltava a porta, acenando para mim antes de dar as costas. Eu acenei de volta mas ele obviamente não viu.
— Até. – Murmurei para as paredes de madeira do elevador, sentindo que um pedaço do meu coração foi junto com o pedaço do maldito bolo red velvet.


Capítulo 3 - Piano

Terceiro dia de pandemia

"Recomenda-se colocar City of Stars para tocar."

O terceiro dia de quarentena foi o mais longo de todos. Ollie teve que trabalhar até mais tarde e Harry não apareceu na varanda e nem deu sinal de vida. Então tive que ficar sozinha no quarto, lendo Fangirl ou assistindo as notícias que pioravam a cada dia. O número de mortes e casos aumentava drasticamente todos os dias. O que eram dezenas viraram centenas que viraram milhares. E não era mais só na China e na Itália, agora até o Brasil, entre muitos outros países, estava contaminado. A Espanha estava tão grave quanto a Itália.  Decidi fazer uma videochamada com minha família antes de entrar no banho para garantir que eles não saíssem de casa por nada.
— Como vocês estão? - perguntei após cumprimentar meu pai e minha família.
Ah, continuamos presos em casa, sabe como é... - ele falou com seu sorriso sempre bondoso e olhos brilhantes.
Ao contrário da minha mãe Maria, Oswaldo era a calma em pessoa. Ele e minha avó eram meu lado italiano da família, com todas as características possíveis que um italiano poderia ter. Eles me ensinaram a xingar nessa língua, me ensinaram as maravilhas da culinária italiana, e fizeram eu me apaixonar por gastronomia.
E você, filha? A coisa aí em Roma está feia, hein? - ele completou.
— Pois é, ainda estou presa aqui no hotel, sem poder sair. Tenho que ficar pelo menos 15 dias aqui antes de poder voltar pra minha casa. - falei, indo até a varanda para me esquentar no Sol. — Está bem chato sem poder trabalhar.
— O quê tem feito pra se distrair? - ele perguntou.
— Tenho lido, assisti alguns filme, tenho passado um tempo com Olivia... - falei, omitindo sobre Harry. Meus pais nem deviam saber quem era ele de qualquer jeito.
Depois de mais meia hora conversando com meus pais, decidi ir tomar um banho de banheira para passar mais rápido o tempo. Coloquei algumas músicas pra tocar e entrei na banheira com espumas, resultado dos vários litros de sabonete líquido que eu joguei. Fechei os olhos enquanto a água quente relaxava os músculos que eu nem sabia que estavam tensos. Tentei limpar a mente enquanto cantarolava as músicas que tocavam, me forçando a parar de pensar no garoto que estava hospedado no quarto debaixo do meu. Mas a playlist no aleatório quis sacanear com a minha cara e começou a tocar uma melodia que eu infelizmente adorava. Golden era uma das minhas favoritas do segundo álbum, acho que só perdia para Falling, porque a música e o videoclipe da última eram uma obra prima.
E lá estava eu de novo, pensando no Harry Styles. Acho que nem quando eu era obcecada por One Direction eu pensava tanto assim nele. E odiava a forma como meu coração reagia em sua presença ou em uma mera lembrança da noite anterior, como reagiu agora. Eu bufei enquanto saia da banheira, desistindo de relaxar depois de 15 minutos mergulhada ali. Olhei no espelho, limpando uma parte para poder enxergar no meio do vidro embaçado pelo vapor. Aquela garota ali não chegava ao alcance das garotas com quem Harry se relacionou no passado. Taylor, Kendall, Camille... Chegava a ser cômico pensar que ele realmente estava flertando comigo, ou melhor, com essa garota que estava longe de ser uma super modelo ou cantora internacional. E a forma como ele me tratou antes de voltar pro quarto? Ele agiu com certo desdém, como se não tivéssemos tido a melhor noite de todas. Para ele tinha sido apenas “diferente”. O quê ele quis dizer com aquilo?
Eu ouvi uma batida na porta que me fez pular de susto. Coloquei as pantufas do hotel, me enrolei na toalha e saí do banheiro. Peguei uma das máscaras limpas e coloquei de qualquer jeito no rosto. Mas quando abri a porta, não tinha ninguém. Olhei no corredor, mas ele estava vazio. Antes de fechar a porta, porém, vi que tinha um papelzinho dobrado no chão. Peguei o papel e fechei a porta, sem tirar os olhos do papel. Me sentei na cama e desdobrei o bilhete, meu coração parou por um segundo quando comecei a ler.
"Não me esqueci de você, vizinha. Seu red velvet perfeito ainda está no meu coração(e no frigobar), e seus olhos na minha mente. Estou ocupado com as músicas, mas assim que der, quero te ver de novo. Harry.xx".
Olivia surtou quando mostrei o bilhete assim que ela chegou no meu quarto depois de passar no seu, tomar um banho e correr para o meu. Ela queria contar como tinha sido sua noite e queria saber detalhe por detalhe de como tinha sido a minha. Mas o bilhete a distraiu, e agora ela andava pelo quarto, de um lado para o outro, enquanto eu permaneci sentada na beira da cama, esperando ela se aquietar.
— Você tem que chamar ele pra sair! - ela falou, empolgada.
— Sair, Ollie!? - respondo rindo. Ela deu um tapa na testa, como se lembrasse de repente que estávamos em uma pandemia.
— É verdade! - ela falou ao se sentar ao meu lado na cama. - Mas vocês deram um jeito de ir na cozinha, podem fazer alguma outra coisa aqui no hotel.
— Tipo...?
— Tipo... Ir na piscina? É coberta, está fechada para os hóspedes, ninguém vai ver! - ela falou, mordendo os lábios. — E eu não me importaria de distrair Felipe outra vez.
Eu a olhei chocada, sem conseguir conter uma gargalhada.
— Ollie! - exclamei empurrando seus ombros enquanto ela também ria. — Me conta como foi!
— Foi muito bom, de verdade. Ele tem uma pegada que, Jesus, nunca tinha experimentado igual. - ela falou, revirando os olhos em sinal de prazer.
— Brasileiros, minha querida. - falei convencida, dando de ombros e sorrindo. — Mas como vocês...
— Oh, não! Não transamos! - ela disse rindo. — Mas ele realmente teve um... Acidente na calça, entende? Isso era o quão bom estava os beijos.
— Não era nem isso que eu ia perguntar mas, meu Deus! - respondi rindo muito. — Eu ia perguntar como vocês ficaram se beijando na recepção sem ninguém pegar?
— Não tinha ninguém, . A porta estava trancada e ele desligou a câmera da recepção... - ela falou enquanto se levantava para pegar água pra nós duas. Depois daquela noite, Ollie está evitando bebidas alcoólicas. — Agora quero saber sobre você, Principessa. Aquele bolo estava divino! Foi o melhor que você já fez e eu posso imaginar o porquê.
Contei tudo para Olivia, tentando ao máximo deixar a história rica em detalhes. Ela falou o que eu tentava negar o tempo todo: ele estava sim flertando comigo. Ollie pegou o bloco de notas e escreveu um bilhete.
 Me encontre na recepção amanhã de noite. .xx".
— Acho tão romântico essa troca de bilhetes! - ela suspirou enquanto descíamos as escadas de emergência. Verificamos se o corredor estava vazio, mas tinha apenas uma camareira que já estava dentro do quarto.
— Isso é loucura, Olivia! - sussurrei enquanto caminhávamos na ponta dos pés até o quarto 401.
— Olha, se ele não aparecer, me manda mensagem que eu aproveito essa escapada com você. - ela sussurrou em resposta e ficou quieta enquanto empurrava o papel dobrado por debaixo da porta.
Saímos correndo de volta à escada de emergência e voltamos pro quarto. Estávamos sem fôlego quando paramos de frente à porta do seu quarto, rindo como se fôssemos duas crianças que apertaram a campainha do vizinho e saíram correndo.
— Me avisa quando ele responder, ok? - ela pediu enquanto destrancou sua porta.
— Se ele responder. - falei, vendo-a se virar pra mim e revirar os olhos.
— Ele vai! Ele não seria louco de perder esse corpo de biquíni. - ela falou, gesticulando para meu corpo.
— Ah, claro, como se eu fosse uma Jenner. - murmurei, cruzando os braços.
— Você não é mesmo, é muito melhor e natural! - Olivia falou, me dando um abraço. — Te amo, chefinha. Dormi bene, mi amore.
Ti amo, dormi bene. - respondi antes de ela fechar a porta.
Eu me revirei na cama por horas, sem conseguir dormir. Achei que era o calor, então liguei o ar condicionado. Depois, pensei estar muito gelado, então peguei uma coberta. Por fim, admiti para mim mesma o real motivo que estava tirando meu sono. Eu não queria aceitar o que estava acontecendo. Eu não acreditava que era boa o suficiente para ele. Isso parecia ridículo vindo de uma pessoa que estava constantemente falando para todos aceitarem o próprio corpo e aceitar a aparência, e eu realmente acreditava nisso, mas quando a pessoa em questão era eu mesma, eu não conseguia pensar assim. Harry Styles namora modelos, não uma garota qualquer que por um acaso trabalha no hotel que ele estava hospedado. Quem eu penso que sou, a Jennifer Lopez em Maid in Manhattan? Eu estava longe disso e isso aqui era vida real, não um filme dos anos 2000.
Sai da cama bufando com raiva. Meu cérebro não parava e eu sabia um jeito bom de me fazer dormir. Coloquei meu moletom preto e um shorts de fazer exercícios que eu nunca usava, coloquei minha máscara e desci até o térreo. Chegando na recepção, Felipe estava lá com uma feição de paisagem e o rosto apoiado em uma das mãos.
— Planeta Terra chamando Felipe! - falei em português, me sentindo feliz em usar minha língua nativa. - Pensando na Ollie, não é?
— Oi, ... Caramba, sua amiga me deixa louco! - ele falou, suspirando.
— Te garanto que é recíproco, só não conta pra ela que te disse isso, ela jamais vai admitir. - falei rindo.
— Pode deixar! - ele respondeu, também dando risada. — Como posso te ajudar hoje?
— Será que pode me emprestar a chave de novo? - pedi tentando imitar da melhor forma o rosto de Olivia quando queria pedir algo, pois sabia que sempre funcionava. Felipe, entretanto, torceu a boca antes de responder.
— Sei não, . Eu deixei ontem, mas agora está muito tarde. Se descobrem que estou te entregando a chave esses dias, eu posso ser demitido. - ele falou, receoso.
— Eu sei que é arriscado, meu anjo, mas eu não to conseguindo dormir e queria muito fazer um chá. - respondi, juntando as mãos e fazendo bico. — Por favor, vai ser bem rápido. 
Ele ponderou alguns segundos e por fim, suspirou enquanto me entregava as chaves.
— Não demora, ok? - ele murmurou enquanto eu tentava dar o meu melhor sorriso por detrás da máscara.
— Obrigada, Fe! - falei com animação. — Depois eu peço pra Ollie te dar um beijo por mim!
Praticamente corri até a porta do restaurante. Eu a destranquei e atravessei o salão escuro em direção a cozinha que também tive que destrancar.
Eu não gostava de chás prontos ou fabricados, eu gostava de fazer com ervas e especiarias que a Itália e outros países conseguiam me proporcionar. Mas depois de colocar a água para esquentar e separar os ingredientes do chá de camomila com limão siciliano, percebi que faltava um ingrediente importantíssimo: o próprio limão.
Procurei nas geladeiras da cozinha e da confeitaria, mas não tinha nada. Então desliguei a água e decidi ir até o jardim onde tínhamos muitas árvores frutíferas, incluindo a de limão siciliano. Saí pela porta de vidro do salão que dava para o jardim e colhi dois limões maduros. Porém, antes de entrar, comecei a ouvir uma melodia que vinha de dentro do restaurante. Me aproximei de uma das janelas de vidro enormes que cercavam parte do salão e senti meu coração acelerar quando percebi quem era. Estava escuro demais para ver o que ele estava vestindo, mas pude ver que ele estava sem sua máscara. Quando entrei, ele parou de tocar e me olhou surpreso e depois apontou para os limões.
— Vai fazer mais um doce escondido? - ele perguntou enquanto eu me apoiava em uma mesa ao lado do piano de cauda. Essa mesa sempre foi muito disputada quando esse salão costumava ficar lotado. Era estranho vê-la vazia enquanto alguém estava sentado no instrumento.
— Na verdade eu vou fazer um chá. Não estou conseguindo dormir. - falei sincera.
— Eu também não, por sorte vi que a porta estava aberta então entrei de fininho. - ele olhou para a porta dupla de madeira aberta, a única luz presente no local, além da luz da Lua. — Só espero que Felipe não veja.
— Espera um pouco. - falei antes de correr para a porta e fechá-la com cuidado. Voltei até o piano e deixei os limões em cima da mesa. — Pronto, agora ele não consegue ouvir. As paredes daqui isolam o som para o resto do hotel não ouvir quando não estiverem aqui no salão.
— Obrigado. - ele falou sorrindo, e voltou a dedilhar.
Eu reconheci a melodia, e me sentei ao seu lado no banco para confirmar que as notas musicais e a letra da música na folha presa ao piano era de City of Stars do filme La La Land. Eu sabia aquela letra de trás pra frente, pois o filme era meu musical favorito.

City of stars, are you shining just for me? - ele começou, fazendo todos os pelos do meu corpo se arrepiarem. - City of stars, there';s so much that i can't see…
Ele parou um pouco apenas para dizer:
— Você vai cantar comigo, certo? Não tem Ryan Gosling sem uma Emma Stone.
— Na verdade tem sim a versão só do Ryan...
— Por favor. - ele interrompeu meu argumento, voltando a dedilhar a música. Suspirei enquanto tirava a máscara, esperando que ele terminasse sua parte na música. - Who knows? I felt it from the first embrace I shared with you...
That now our dreams, they've finally come true...
Harry não tirava os olhos de mim enquanto me ouvia cantar, desviando apenas para garantir que seus dedos ágeis estivessem no lugar certo. Então eu continuei, também sem tirar os olhos dele.
City of stars, just one thing everybody wants... There in the bars and through the smokescreen of the crowded restaurant... - nessa última frase eu apontei para o restaurante vazio, fazendo-o rir.
 It's love... Yes, all we're looking for is love from someone else...
A rush. - ele continuou antes de eu acompanhá-lo.
A glance.
— A touch.
— A dance...
To look in somebody's eyes, to light up the sky, to open the world and send them reeling... A voice that says, I'll be here and you'll be alright. - nós cantamos essa parte juntos, os dois sorrindo e olhando um nos olhos do outro.
I don't care if I know, just where I will go, 'cause all that I need is this crazy feeling. A rat-tat-tat on my heart... - cantamos juntos de novo enquanto ele soltava uma risada gostosa, balançando os ombros no ritmo da música.
I think I want it to stay... - ele cantou, ficando sério novamente, acompanhando o ritmo da música que voltava a ficar lento. — City of stars, are you shining just for me... City of stars...
Never shined so brightly... - finalizei enquanto seus dedos tocavam as últimas notas.
Ficamos os dois parados, um olhando para o outro com nossas respirações ofegantes parecendo ritmadas e em sincronia como quanto cantamos juntos. Harry me olhava da mesma forma como me olhou na noite passada depois de tirar o morango do meu cabelo, como se lutasse internamente contra algo que eu nem imaginava o que era. E como na noite passada, ele colocou uma mecha solta do meu cabelo que teimava em sair do rabo de cavalo mal feito. Seus dedos roçaram meu rosto, me fazendo fechar os olhos, me deliciando com o toque. Não sabia dizer se ele ia me beijar ou não, nem ao menos sabia se queria que ele o fizesse. E quando abri meus olhos, ele continuava com seu rosto retorcido, como se estivesse totalmente concentrado em estudar cada detalhe do meu rosto.

— Essa música é linda... - falei na tentativa de quebrar o silêncio, minha voz não passava de um sussurro tosco e falho.
— Realmente, muito linda... - ele respondeu, sua voz rouca fazendo com que as borboletas no meu estômago dessem piruetas.
Algo me dizia que ele não falava da música ao dizer isso. Pigarreei e tirei sua mão do meu rosto antes que ele pudesse chegar ainda mais perto de mim.
— Quer chá? - perguntei enquanto me levantava e pegava os limões que me esperavam na mesa.
Ele riu e assentiu com a cabeça, colocando sua máscara. Eu fiz o mesmo e segui para a cozinha com ele atrás de mim. Eu sentia meu corpo esquentar e tinha certeza absoluta que ele continuava me olhando. Acendi novamente o fogo com as mãos trêmulas. Me obriguei a acalmá-las para cortar os limões sicilianos e espremê-los dentro de duas canecas grandes. Coloquei as ervas dentro da água quente e esperei para que a mistura virasse um chá. Depois de colocar nas mesmas canecas que continham o suco, coloquei uma colher de mel em cada uma e mexi, entregando-lhe a dele e me sentando no balcão em seguida, bebericando a minha bebida com cuidado.
Esse chá me lembrava da época em que eu morava no Brasil e meu pai fazia chá para qualquer coisa que estivéssemos sentindo: dor de cabeça, dor de estômago, dor de garganta, dor de coração partido; ele tinha um chá para qualquer coisa.

— Está muito bom. - ele falou, voltando a tomar pequenos goles. Eu sorri, tentando disfarçar com a caneca para que ele não visse. — Então quer dizer que além de muito bonita e uma excelente confeiteira, você faz chás e canta lindamente.
Quase engasguei com a bebida quente quando ouvi as primeiras e a última palavra.
— Não exagera, eu não sei cantar e definitivamente não sou tão bonita assim. - respondi, voltando a dar atenção ao chá. — E essa música é fácil, Emma não é cantora.
— Para de ser modesta, garota. - ele falou rindo, apoiando sua xícara quase vazia no balcão e parando na minha frente. — Admite que você é boa em tudo.
— Nem tudo, Harry! - respondi rindo, deixando minha própria caneca de lado e apoiando minhas mãos ao lado do corpo, sentindo o metal gelado contrastando com minhas mãos aquecidas..
— Ok, então me diz uma coisa que você não é boa. - ele me questionou, colocando cada mão sua em meus joelhos e abrindo devagar as minhas pernas, se colocando entre elas. — Lembrando que você também tem sido muito boa em fugir de mim.
Suas mãos subiram pelas minhas coxas e pararam em minha cintura, me puxando para mais perto. Me segurei em seus ombros, sentindo meu corpo todo reagir ao seu toque. Ele ainda apertava de leve minha cintura, me dando arrepios gostosos pela coluna. Deus, espero que ele não perceba o quão acelerado meu coração estava, eu mal conseguia respirar.

— Eu... - comecei com a voz fraca, sem conseguir raciocinar direito. - Eu não sei costurar direito.
Aquela foi a coisa mais idiota que eu poderia ter dito dentre todas as coisas que eu não sabia fazer. Eu não sabia andar direito de bicicleta, sempre caía. Eu não sabia falar espanhol direito, por mais que eu tentasse muito. Eu não conseguia decorar a tabuada inteira nem se minha vida dependesse disso. Eram tantas as coisas que eu não sabia ou conseguia fazer, e me afastar de Harry Styles era uma delas.
Ele deu uma risada gostosa antes de subir uma de suas mãos tatuadas para a minha nuca e me puxou para finalmente acabar com o pequeno espaço entre nós. Os lábios de Harry eram como eu imaginava: macios, úmidos e quentes. Ele me beijava com urgência, como se ele estivesse necessitando daquilo para sobreviver. E eu correspondia da mesma forma enquanto passava as mãos por seus cabelos compridos e os puxava quando não conseguia controlar o prazer que aquele beijo estava me dando. Harry passou a beijar meu pescoço enquanto colocava as mãos por debaixo do meu moletom. Naquela noite, suas mãos ágeis me tocaram de forma impecável como tocaram o piano. Ele me fez ver as estrelas da música, e eu finalmente me entreguei inteira para ele.
Dessa vez, Harry não tirou os olhos de mim e não soltou nossas mãos enquanto subíamos para nossos quartos. E quando chegamos no quarto andar, eu saí com ele e o acompanhei até a porta do 401. Harry tirou sua máscara e depois a minha, me puxando para um último beijo demorado enquanto os dois ainda sorriam.
— Obrigada por hoje. - ele falou. — Você tem deixado minhas noites bem mais divertidas.
— Eu que agradeço. - falei sorrindo. — Você é incrível.
Ficamos nos encarando por longos segundos, sem conseguirmos tirar o sorriso do rosto.
— Eu preciso ir. - falei, apontando em direção à escada de emergência. — A gente se vê amanhã.
— Por que você não fica? - ele me questionou com a cabeça inclinada pro lado. Eu o olhei surpresa, não esperava por esse convite.
— É melhor não, Harry…
— Sério? Depois de tudo o que a gente fez lá embaixo? - ele perguntou.
— Não é isso, Styles e acredite, eu quero muito! Mas já foi arriscado demais em todos os sentidos possíveis. - respondi enquanto recolocava a máscara. — Eu posso ser demitida se me virem com você.
— Eu não vou deixar isso acontecer. - ele murmurou baixo, segurando meu rosto a centímetros do seu.
— Você não tem controle sobre isso, querido. - respondi, me desvencilhando de seus braços, mesmo querendo muito continuar ali, sentindo o calor do seu corpo. — Me encontre amanhã na recepção, ok? Às 23h.
— Claro... - ele falou, parecendo um tanto chateado.
Dormi bene, Harry. - disse em italiano, tentando animá-lo.
— Você também. - ele falou antes de fechar a porta.


Capítulo 4 - Gelato

Quarto dia de quarentena.
O quarto dia de quarentena no hotel foi o que me deixou mais ansiosa. As notícias não eram boas, os números de mortes já passavam de 1 mil. De casos então, eram incontáveis. Fiquei mais de uma hora no telefone com minha família, reforçando a importância de eles não saírem de casa de jeito nenhum. Todos eles, menos minhas duas irmãs, eram do grupo de risco. Me doía demais não poder estar com eles.
Depois da ligação, decidi fazer uma faxina no quarto para passar o tempo, ele parecia se arrastar até as 23 horas.
Quando acabei de limpar e organizar tudo, mandei uma mensagem para Olivia que falou para eu ir buscar o almoço para ela me contar qual seria o plano de hoje. Chegando lá, eu e Ollie nos sentamos em uma mesa afastada de todos enquanto comíamos ali. Sr. Enrico abriu uma exceção para eu poder comer ali, acho que até ele já estava com dó de mim. Mal sabia ele que eu não estava tão entediada assim em meu quarto, pois tinha encontrado a distração perfeita no andar de baixo.
— Certo, eu já comecei a jogar indiretas pro Felipe, então com certeza ele vai estar me esperando hoje à noite. Eu o distraio, vocês saem pelo jardim e pulam aquele muro atrás das laranjeiras...
— Pular um muro?! Ollie, você pirou de vez? - a questionei com olhos arregalados e queixo caído.
— Ele é super baixo, confia em mim! Harry pode te dar uma mãozinha. - ela disse, dando uma piscadela. Dei um chute leve em sua perna por debaixo da mesa e ela riu. Eu dei um sorriso torto, sem conseguir segurar. As imagens da noite passada ainda eram frescas em minha mente.
— Certo, e depois? - perguntei, começando a achar graça..
— Eu pesquisei e tem uma gelateria aberta a duas quadras daqui, vocês podem ir lá e depois, sei lá, façam o que os jovens fazem hoje em dia! - ela falou rindo. — Quando forem voltar, me avisem.
— Combinado. Parece ser um plano horrível mas ainda é melhor que nada. - falei rindo e ela fingiu estar ofendida. — Brincadeira, mi amore, muito obrigada por esse plano genial!
Olivia foi direto para meu quarto quando acabou o expediente para me ajudar a escolher a roupa ideal para a escapada de hoje. Eu precisava de algo bonito, mas confortável e prático para me ajudar a pular o muro. Ollie ignorou tudo o que eu disse e pegou um dos poucos vestidos que eu tinha, ele era florido com alças finas e saia rodada. Eu o adorava porque ficava perfeito em meu corpo e valorizava meus seios sem ser de forma vulgar, mas definitivamente não era uma boa escolha para os planos de hoje.
— Como você quer que eu pule um muro de vestido, Olivia? - a questionei enquanto me olhava no espelho.
— Como se Harry não tivesse visto o que tem aí embaixo. - ela respondeu, revirando os olhos. — , relaxa. Confia em mim, vai dar certo. Agora senta aqui na mesa que eu vou dar um jeito nesse rostinho lindo.

Ollie finalizou minha maquiagem e me deu um par de tênis brancos para usar com o vestido. Eu peguei uma bolsa pequena, coloquei meu celular, meu cartão, meus documentos e claro, álcool em gel e máscara reserva, e dei uma última olhada no espelho; minha melhor amiga sabia fazer milagres.
Ollie desceu desfilando como sempre e parou de frente à recepção, começando a jogar seu charme para Felipe. Fiquei alguns passos atrás, perto das portas de madeira do restaurante, e vi Harry sentado em uma das poltronas, folheando uma revista de fofocas com a testa franzida. Quando ele ouviu a voz nada baixa de Olivia, ele olhou em nossa direção e pude ver seus olhos brilharem. Acenei e indiquei para ele vir na minha direção. Ele deu uma olhada rápida para o recepcionista que já estava hipnotizado pelos olhos da minha amiga, e andou a passos largos até mim. Eu o puxei imediatamente até a porta de madeira e entramos no já conhecido restaurante escuro.
Entrelacei sua mão com a minha, torcendo para ele não perceber como ela tremia, e o puxei em direção à porta de vidro que dava para o jardim das árvores frutíferas. Quando cheguei no muro, quis matar Olivia. Para minha altura rídicula, ele parecia enorme.
— Nós vamos pular isso? - ele falou, arregalando os olhos. Eu assenti. — Você sabe que está de vestido, não sabe?

Assenti de novo e pude ver um brilho malicioso surgir em seus olhos, me fazendo corar. Harry olhou em volta e parou seu olhar em uma das laranjeiras.
— Você já escalou uma árvore? - ele perguntou.
— Quando eu tinha uns seis anos, talvez... - falei distraída. Mas então entendi o que ele quis dizer e arregalei os olhos. — Nem pensar!
— E qual outro jeito você pensa em fazer? Você sabe voar? Porque isso aqui é alto até pra mim. - ele falou rindo.

Mordi os lábios e encarei a árvore de galhos tortos. Respirei fundo, indo em sua direção e começando a subir nela. Senti a mão de Harry em minha cintura, me segurando, e meu corpo se arrepiou com seu toque.
— Não se preocupe, não vou olhar. - ele falou com seriedade.
Com uma mão livre, ele foi indicando onde eu deveria segurar e colocar os pés até que eu conseguisse ver o outro lado da rua. Ele terminou de escalar a árvore e ficou ao meu lado, ainda segurando com firmeza a minha cintura.
— E agora? - sussurrei ofegante.
— Eu vou primeiro e te ajudo a descer. - ele respondeu, se jogando pra frente e agarrando o muro.
Eu prendi a respiração e fechei os olhos, ouvindo apenas um baque surdo do outro lado. Olhei para baixo e lá estava ele, limpando as mãos na calça e rindo. Ele estendeu os dois braços e me chamou com as mãos.
— Faz a mesma coisa! Eu te seguro! - ele falou um pouco mais alto.
Então eu me inclinei pra frente, me segurei no muro e saltei como ele fez. Senti seus braços em volta do meu corpo antes de aterrissar totalmente no chão. Quando abri os olhos, seu rosto estava quase colado ao meu. Começamos a gargalhar descontroladamente, sem nos soltar.
— Não acredito que a gente fez isso! - eu disse ainda rindo, sentindo os músculos do meu abdômen reclamarem.
— Você e a Olivia são loucas! - ele disse rindo. — A ideia foi dela, não foi?
— Acertou em cheio. - respondi, tentando recuperar o fôlego. Limpei minha mão no vestido e peguei o frasco de álcool em gel que tinha na bolsa e passei, oferecendo a ele.
Caminhamos lado a lado enquanto eu o guiava pelas ruas do quarteirão, indo em direção à gelateria e torcendo para que ela ainda estivesse aberta. O céu estava pintado de um azul escuro lindo, cheio de estrelas brilhantes e uma lua nova que nos iluminava com as luzes das ruas. Eu e Harry conversamos sobre absolutamente tudo: nosso sabor de sorvete favorito, o melhor lugar que já visitamos, os piores filmes que já assistimos. Eu falei brincando que Dunkirk era de longe o pior filme que eu já assistira, e tive que ouvi-lo defender seu filme até chegarmos à gelateria que, pra nossa felicidade e sorte, estava aberta. Eu pedi um gelato de chocolate trufado com avelã e Harry pediu de pistache com chocolate meio amargo. Era engraçado ver a cara de prazer que Harry fazia toda vez que comia algo gostoso, curiosamente era a mesma cara que ele fez ontem à noite durante nossa transa.
Andamos mais algumas ruas até encontrar uma praça enorme com pouquíssimas pessoas aproveitando o ar fresco. Nos sentamos na beira da fonte que jorrava água, deixando o ar ainda mais refrescante.
— Ok, você prefere comida ou sexo? - perguntei com um sorriso travesso no rosto. Ele me olhou espantado, dando um sorriso que faziam suas covinhas saltarem e abaixando a cabeça, envergonhado.
— Impossível escolher, não é nem uma comparação justa. - ele respondeu rindo, comendo mais uma colher do seu sorvete.
— É sim! Os dois são extremamente prazerosos se feito da forma certa. - justifiquei enquanto dava uma risada.
— Bom, você faz os dois da melhor forma possível. - ele respondeu com um sorriso torto, me dando uma piscadela. — O que torna a escolha ainda mais difícil, então não dá, não vou responder.
— Está bem, eu também não saberia responder. - falei sorrindo, voltando a olhar a praça vazia.
— Minha vez. - ele falou, se virando e ficando de frente pra mim. Virei a cabeça para olhá-lo com um sorriso divertido nos lábios. — Quem teve a melhor carreira solo na One Direction?
Uma risada alta escapou da minha boca. Eu queria socá-lo por me perguntar isso.
— Eu não vou responder! - protestei. — Não é justo!
— Claro que é, mais justo do que sexo e comida! - ele respondeu indignado, mas sem tirar o sorriso do rosto. — Pode falar, eu aguento.
— Eu me recuso a responder isso, Styles, nem tente. - falei balançando a cabeça.
— Está bem, então se você tivesse que ir em um show, qual você escolheria? Entre nós cinco, é claro.
— Caramba, você não vai desistir, não é? - falei, ficando de frente para ele. Harry deu um sorriso largo, fechando os olhos como uma criança. — Você sabe que comprei o ingresso pro seu show, e já fui no do Niall. Eu iria no do Zayn se ele fizesse, mas não sei se iria no de Liam e Louis.
— Você acabou de entregar sua lista de favorito para menos favorito e é uma honra ser o primeiro. - ele respondeu com um sorriso convencido no rosto, fazendo uma reverência.
— Uou, quem disse que você é o favorito? - eu falei fingindo estar indignada.
— Está estampado na sua cara, minha querida. - ele respondeu, se aproximando e juntando nossos lábios gelados e doces.
Eu nem tentei negar, porque ele estava certo. Harry era meu favorito desde a primeira vez que vi um clipe da banda na televisão. Desde então, meu coração era daqueles olhos verdes, e era surreal que eu estivesse ali, sentada ao lado dele, sentindo o gosto da sua boca na minha; passar as mãos em seus cachos era algo que eu sempre sonhei em fazer, e ali estavam minhas mãos, puxando seus fios de leve enquanto ele intensificava o beijo. Era difícil acreditar que era real, por mais que eu estivesse ali, encostando nele, tocando-o com todos os meus dedos e com meus lábios. Meu coração batia acelerado demais, como se gritasse “sim, eu sou sua há anos e ainda sou sua”.
— Minha vez de perguntar. - falei quando finalmente nos afastamos alguns centímetros. Ele continuava olhando pros meus lábios enquanto balançava a cabeça em concordância. — O que você viu em mim?

A pergunta pareceu pegá-lo de surpresa. Ele me olhou confuso, entortando a cabeça.
— Como assim o que vi em você?
— Ah, Harry... Eu claramente não sou seu tipo.
— Eu não tenho um tipo, . - ele respondeu, revirando os olhos.
— Tem sim! - o acusei, impaciente. — Você só namora modelos, Harry. Altas, extremamente magras, ricas. De longe dá pra ver que eu obviamente não sou assim.
— Primeiro... - ele falou, respirando fundo. — Eu acho você extremamente bonita, além de muito legal, divertida e inteligente. Segundo: você está se baseando nos poucos relacionamentos que eu expus na mídia que, coincidentemente, todas eram assim. Aliás, eu não quis expor, mas eles foram atrás porque elas eram famosas. Não necessariamente eu só fico com mulheres daquele tipo, eu realmente não ligo pra aparência. Você deveria saber disso, me conhece há anos.
— Eu te conheço há dias, Harry. - eu o corrigi, mordendo a parte interna da bochecha em sinal de nervosismo. — O Harry Styles que conheço há anos é o da televisão, dos vídeos, das matérias manipuladas pela mídia... Eu não te conheço direito.
— Então acredite em mim quando digo que não sou assim tão superficial. - ele falou, segurando uma das minhas mãos. — Eu gosto de você, . Muito mais do que eu esperava gostar. Você é sim diferente das outras e todo o clichê que vem junto com isso, mas isso é o que mais me encanta em você.

Eu mordi os lábios para conter o sorriso que estava se formando. Droga, esse garoto me deixava fraca em todos os sentidos. Acariciei seu rosto e ele me deu um último beijo antes de falar para voltarmos pro hotel. Nós tiramos algumas fotos juntos, e um do outro posando na frente da fonte. Quando voltamos, Harry me ajudou a escalar a parede e eu o ajudei a subir. A essa altura já estávamos os dois sujos e um pouco arranhados, mas não ligamos. Aquela adrenalina de estarmos fazendo algo errado e um pouco perigoso era o que me fazia acreditar que aquele momento realmente estava acontecendo.
Quando fui dormir, o sorriso no meu rosto parecia não querer sair mais, minhas bochechas chegavam a doer, mas eu não me importava. Eu queria passar todas as noites da quarentena com o Harry Styles, não importava o quanto eu me arriscasse ou me arranhasse. Cada segundo com ele fazia tudo valer a pena. Droga, , você está mesmo apaixonada por ele?


Capítulo 5 - Sapatos

Quinto dia de quarentena
O quinto dia foi o que passou mais rápido até agora. Acordei relativamente tarde (eram 10 horas da manhã e eu costumo acordar às 7 horas) e por sorte ainda tinha café da manhã para eu comer. Fiquei algumas horas lendo e assistindo maratona de Friends na televisão, rindo como se já não tivesse assistido milhares de vezes antes. Dessa vez não pude almoçar com Olivia e não consegui falar com ela o dia inteiro. Harry tampouco respondia minhas mensagens, não enviou bilhetes nem aparecera na sacada. Dias assim eram chatos demais, me faziam lembrar da realidade que estava acontecendo lá fora. Eu estava presa no hotel por conta do vírus e as autoridades diziam que as coisas estavam muito ruins mas que ainda não chegamos no ápice da pandemia, ou seja, ainda poderia piorar.
Eu tomei um banho demorado na banheira, dessa vez conseguindo relaxar de verdade, cantarolando todas as músicas (inclusive as do próprio Styles) e deixando a água quente relaxar meu corpo que estava constantemente tenso. Me maquiei apenas para ocupar o tempo, começando a realmente acreditar nas palavras de Olívia; eu realmente era bonita, e Ollie não era a única responsável pela minha boa auto estima, ela dividia o posto com o homem que estava no quarto embaixo do meu.
Entretanto, quando deu o horário de saída da Olivia, comecei a achar que algo estava um pouco errado. Ela ainda não respondia minhas mensagens e não veio direto ao meu quarto como fazia todos os dias. Eu comecei a ligar para seu celular, mas caía na caixa postal depois de alguns toques. Desisti depois de várias tentativas, imaginando que ela provavelmente estava dormindo. Eu não queria ligar para Harry pois sabia que ele usava seu tempo de manhã e tarde para focar nas músicas que estava escrevendo. Então decidi deixar os dois em paz e esperei até se aproximar do horário combinado com Harry para me encontrar na piscina coberta.
Era bem ruim me arrumar sem a companhia de Olivia. A opinião dela era muito importante pra mim e eu não me sentia confiante sem ela para dizer como eu estava e se estava no caminho certo com as escolhas. Então vesti o que já tínhamos discutido ontem: meu único biquíni preto e simples, com um shorts jeans e uma regata também preta apenas para poder descer sem estar semi nua. Eu tirei a maquiagem por recomendação da própria Ollie que disse “você não quer transar com o Harry fucking Styles parecendo um panda, não é?”.
Esperei mais alguns minutos depois de mandar mais algumas mensagens para Olivia e uma para Harry dizendo que esperaria por ele na piscina. Peguei uma toalha e desci pelo elevador até o andar da piscina que ficava um acima do térreo. Dava para ver o vapor saindo dela, tornando-a muito convidativa. Tirei minha roupa e entrei na água aquecida, sentindo meu corpo relaxar mais ainda. E esperei que ele chegasse, sabendo que ainda estava um pouco cedo. Mas então deu onze horas, depois onze e vinte. Quando deu meia noite eu já estava com lágrimas nos olhos, tamanha a frustração que estava sentindo. Era óbvio que ele não viria. Me senti uma idiota em acreditar nas palavras bonitas que ele disse na noite passada, achando que realmente viveriamos o clichê adolescente dos encontros escondidos e beijos no escuro.
Sai da piscina revoltada, me secando com raiva. Minha amiga tinha desaparecido e eu estava aqui, preocupada e sofrendo por um cantor pop que tinha tudo em seus pés.
Coloquei minhas roupas e minha máscara e desci para o saguão, caminhando até Felipe que novamente estava ali, com cara de sono e a cabeça nas nuvens.

— Você não folga nunca? — brinquei com ele ao me aproximar. Eu adorava poder falar en português com alguém ali dentro.
— Só amanhã — ele respondeu desanimado.
— Ei, você falou com a Olivia hoje? Estou preocupada, ela não me atende e nem responde minhas mensagens — perguntei, me apoiando no balcão.
— Eu achei que ela estivesse com você — ele me olhou com confusão em seus olhos. — Hoje foi folga dela.

Meu coração apertou ao ouvir isso. Por que diabos minha melhor amiga não falou comigo o dia todo e não avisou que seria sua folga? Se ela fosse sair, certamente me avisaria, certo?
— Ela não estava com você ontem a noite? — perguntei um tanto desesperada.
— Estava! Mas ela pegou algumas bebidas e eu não bebi porque estava trabalhando, obviamente. Mas Ollie encheu tanto a cara que tive que carregá-la até o quarto dela hoje de manhã quando acabou meu turno. Depois disso não a vi mais — ele respondeu, dando de ombros. — Ela estava estranha, dizia coisas como ser uma péssima amiga ou algo assim. Não entendi muito bem o que ela queria dizer.
— Me dá uma chave do quarto dela, rápido — eu pedi e ele rapidamente me entregou sua própria chave eletrônica.
Coloquei a toalha nos ombros e entrei no elevador social mesmo. As portas mal se abriram e eu já corri em direção ao quarto 502 ao lado do meu. Bati algumas vezes na porta mas como esperado, ninguém abriu.

— Ollie? — chamei enquanto abria a porta. Acendi as luzes e vi seu quarto impecável, arrumado e vazio. — Olivia, está tudo bem?
Seu celular estava em cima da cama, única parte desarrumada do quarto. Eu o peguei e vi todas as minhas mensagens e ligações perdidas, junto com de outras pessoas que também esperavam uma resposta, inclusive de Felipe. Comecei a ficar desesperada, meu coração estava tão acelerado que pensei estar tendo uma taquicardia.
Sai do seu quarto para ir ao meu, larguei a toalha no chão e fui ao telefone para ligar para o Felipe. Foi aí que eu ouvi um som baixo e ritmado vindo do andar de baixo. Mas não era o violão que eu costumava ouvir, era uma voz fazendo sons que eu reconhecia muito bem.
Fui até a sacada a fim de ouvir melhor o som, e eu confirmei minhas suspeitas: eram gemidos. Gemidos de uma mulher, mas também tinha outro som, o mesmo que alcançou meus ouvidos algumas noites atrás na cozinha do restaurante. Então relacionei uma coisa com a outra, e eu juro que pude sentir e ouvir meu coração se despedaçando em milhares de pedacinhos. Eu respirei fundo e decidi não tirar conclusões precipitadas, afinal Ollie era minha melhor amiga e jamais faria algo do tipo comigo, eu confiava minha vida à ela. Disparei pela escada de emergência com a chave que Felipe me deu firme entre meus dedos, torcendo para que fosse uma chave mestra que abrisse todas as portas.
Porém, quando cheguei ao quarto 401, eu congelei. Os gemidos estavam mais altos, me fazendo perder toda a coragem; eu não sabia se realmente queria saber a verdade. Minhas mãos tremiam tanto que foi difícil encaixar a maldita chave no leitor, mas assim que fiz, meu estômago pareceu despencar. Dei alguns passos para dentro apenas para me deparar com a cena da minha melhor amiga cavalgando no meu... Bom, na verdade esse babaca não era nada meu. Eu fui a idiota que fantasiou um mundo onde eu ficaria com o cantor da boyband como nas fanfics que eu lia na adolescência. Eu merecia palmas pela inocência e pela burrice.
Os dois finalmente perceberam minha presença ali, e eu finalmente percebi que chorava. Não sei em que momento as lágrimas começaram a cair, mas agora meu rosto estava tão úmido quanto quando estava mergulhando na piscina.
— Ah, merda, não! — murmurou Olivia, se enrolando no lençol e saindo aos tropeços da cama, vindo em minha direção. Eu estiquei a mão e a impedi de se aproximar. — , me perdoa, por favor, eu não quis...
— Ah, você quis, Olivia! Você quis desde o começo! — eu gritei, vendo-a me olhar assustada.
, me escuta... — começou Harry, mas o interrompi com uma risada forçada.
— Sabe onde eu estava, Harry? — ele me olhou confuso, depois arregalou os olhos, lembrando de onde ele deveria ter me encontrado. – Lembrou, não é?
— Me desculpa, , mas não é o que você está pensando... — ouvi a voz rouca de Harry dizer, aparecendo ao lado da garota apenas com uma cueca box cinza.
— Hm, vamos ver o que estou pensando — eu falei em tom irônico, forçando um sorriso. — Estou pensando que a minha melhor amiga... Ou melhor, a pessoa que se dizia ser minha melhor amiga, estava transando com o garoto que eu... Que eu tava...
Não consegui terminar a frase, olhando as duas pessoas na minha frente sem acreditar em minhas próprias palavras. Olivia chorava descontroladamente, falando palavras que não faziam sentido nenhum para mim. Harry apenas me olhava com tristeza, os olhos pareciam estar carregados de dor e culpa. Me obriguei a não acreditar naquele teatro ridículo.

— Quer saber? Fodam-se vocês dois! Vocês se merece.
, você está sendo injusta, deixa a gente se explicar! — Olivia implorou, ameaçando dar um passo em minha direção.
— Injusta!? — eu gritei, sentindo meu corpo todo tremer. — Eu estou sendo injusta, Olivia? Não tem nada que vocês possam dizer pra justificar essa merda!
Eu respirei fundo, tentando controlar a respiração.
— Espero que estejam felizes — falei antes de sair do quarto.
Subi as escadas correndo, agradecendo por ter esquecido da máscara maldita, e continuei até entrar no meu quarto, batendo a porta com força pela raiva que estava sentindo. Então deixei todo o peso do que aconteceu cair sobre mim, me derrubando com força no carpete do quarto. Eu respirava com dificuldade, todo o ar do mundo não parecia não ser o suficiente. Eu era uma idiota e muito otária em acreditar no que ele disse ontem. É óbvio que ele ia preferir Olivia, ela sim era a modelo que ele gostava, ela sim era o tipo dele. Ele só me usou como um passa tempo até conseguir o que realmente queria: ela. E ela o empurrou para mim apenas para atacar depois que eu já tivesse tido meus dias de glória.
Uma batida na porta me fez levantar a cabeça.
, por favor, abre a porta — eu ouvi Olivia choramingar do outro lado. — Por favor, me perdoa.
Eu me arrastei até a porta, tapando minha boca para que ela não me ouvisse soluçar alto.
— Eu sei que errei, eu fui a pior amiga de todas, mas por favor, , por favor... — ela falou entre soluços. — Me deixa entrar.
Eu apertei meus olhos e me sentei com as costas encostada na porta. Abracei minhas pernas e afundei a cabeça entre meus braços, abafando meus soluços.
— Eu não vou sair daqui enquanto você não...
— O que está fazendo aqui, Senhorita Romano?
           Levantei a cabeça novamente quando ouvi a voz grave do gerente, Senhor Enrico, ressoar do outro lado da porta. Engoli em seco, prendendo a respiração. Um silêncio absoluto se estendeu por alguns segundos, sendo interrompida por ele novamente.
— Estou esperando, Senhorita Romano — ele insistiu.
— E-eu vim... v-vim pegar um sapato... — ouvi Olivia gaguejar, tentando se explicar. Eu olhei para os saltos pretos que ela me emprestou ontem e suspirei. — E-eu acho que os perdi, mas queria ver se não estão com ela. Mas, ela... ela não está me ouvindo.
— E precisa chorar por causa disso? — ele a questionou com desdém.
— Os sapatos são muito importantes pra mim, Senhor Valente. Eu não quero ficar sem meu sapato, eu amo muito eles — ela falou, voltando a choramingar.
Eu sabia que ela não estava falando dos sapatos, então me levantei sem ouvir a resposta da garota, sequei minhas lágrimas o melhor possível e agarrei o par de saltos, abrindo a porta com uma violência desnecessária.
— Desculpa, Olivia, eu estava no banho, não tinha ouvido você bater — falei de forma monótona, sem emoção alguma na voz. — Boa noite, senhor Valente. Como vai?
— Estou bem... — ele falou, olhando de mim para Olivia com olhos desconfiados. — Está tudo bem com você?
— Está tudo ótimo, agora se vocês me dão licença, eu realmente queria ir dormir. O dia de hoje acabou comigo – falei antes de fechar a porta na cara deles.


Capítulo 6 - Isolada

Décimo dia de quarentena. (5 dias após a briga).

Eu não conseguia levantar da cama por nada. Eu deixava meu celular na mesa, bem longe, mas conseguia vê-lo brilhar toda vez que alguém me ligava ou me mandava mensagem. Eu sabia exatamente quem estava tentando falar comigo, o que me fazia querer ficar cada vez mais longe do aparelho. Mas eu ligava todo dia no mesmo horário para meus pais, para não precisar me preocupar se eles iriam ligar em outro horário e para conseguir me recompor antes de aparecer na tela para não preocupá-los quando vissem meus olhos vermelhos e inchados. Eu não saía na varanda nem se minha vida dependesse disso, pois não queria ouvir um ruído sequer do quarto 401.
Dessa vez eu estava totalmente isolada no meu quarto, descia apenas para o café da manhã, ignorando o máximo de pessoas possível enquanto pegava a bandeja e corria de volta para meu "cativeiro". As vezes pedia o almoço ou a janta no quarto mas mal conseguia comer alguma coisa. Ignorei as batidas diárias na porta (eu sabia que era Olivia) e implorei para o Senhor Enrico me deixar voltar para casa, mas ele dizia que ninguém podia sair do prédio antes dos quinze dias. Se ele soubesse o que fizemos...
Meu travesseiro ficava úmido do tanto que eu ainda chorava, mas não fazia sentido trocá-lo, afinal eu poderia muito bem passar o resto da quarentena ali, com as lágrimas escorrendo livres pelo meu rosto.
No décimo dia, no fim da tarde, decidi me distrair com a televisão. Depois de me atualizar sobre a pandemia (nenhuma mudança, só mais aumentos nos casos e mortes), fiquei trocando de canais, vendo a programação ser tão ruim quanto deixá-la desligada. Mas um canal me chamou atenção, onde passava um filme com um casal de artistas que dançavam alegres e felizes pelas ruas de Los Angeles, sapateando e rodopiando como se não houvessem mais problemas no mundo, exibindo a forte química entre os dois.
La La Land costumava ser meu filme favorito, aquele a quem eu recorria para melhorar meu dia. Harry conseguira estragar até isso, pois eu soluçava sem parar ouvindo as melodias de City of Stars, a mesma que ele tocou no piano há algumas noites atrás. Meu Deus, eu era patética. Estava sofrendo por alguém que conhecera há dias?
Mas a realidade é que o que mais me machucava era Olivia ter me traído. Ela era como uma irmã, uma das poucas amigas que fiz desde minha chegada á Italia há alguns anos. Estava doendo não poder correr até seu quarto e chorar em seu colo enquanto ela alisava meus cabelos e dizia que ficaria tudo bem, que homens eram perda de tempo e soltaria uma piada sobre tristeza que me arrancaria uma risada com facilidade. Mas eu não conseguia sorrir. Era como se uma tonelada estivesse me empurrando contra a cama.
—  Filme idiota... --  murmurei entre soluços, desligando a televisão.
Ouvi uma batida na porta de novo, me fazendo sobressaltar.
? Sou eu, o Antonio! Abre pra mim? — ouvi o sotaque forte do cozinheiro, seguido de mais uma batida. Me levantei lentamente, arrastando meus pés descalços pelo carpete.
— Você está com alguém? — perguntei em um murmuro falhado enquanto colocava minha máscara.
— Relaxa, estou sozinho — ele respondeu, parecendo soltar todo o ar que estava segurando. — Eu trouxe comida.
Meu estômago roncou em resposta, me obrigando a abrir a porta para o garoto. Dei passagem para ele entrar, e segurei a bandeja preta enquanto ele tirava os sapatos e lavava as mãos. Coloquei a bandeja na mesa e me sentei em uma das cadeiras, cruzando as pernas e secando as lágrimas em meu rosto.
— Nossa, você está péssima — ele falou ao se sentar na mesa.
— Obrigada por falar o obvio — murmurei mau humorada.
— Olivia contou o que aconteceu. Ela contou sobre todas as coisas que aconteceram, na verdade — ele respondeu enquanto destampava o prato de macarronada com almôndegas.
— Então além de traidora, ela é fofoqueira — respondi, pegando meu garfo.
Só então eu percebi como ele parecia chateado. Toni negava sempre, mas eu sabia que a garota no coração dele era Olivia, ele era péssimo em disfarçar como ficava bobo perto dela, e os olhares apaixonados que lançava para a garota toda vez que ela estava distraída.
— Sinto muito. Sei o quanto gosta dela — falei com sinceridade antes de dar a primeira garfada. Meu estômago agradeceu, mas Antonio apenas deu de ombros e me olhou com confusão nos olhos. — Aposto que ela estava bêbada quando te contou.
— Na verdade, não — ele falou, dando de ombros novamente. — Ela só estava muito mal, acho que tão mal quanto você. Ela cortou o dedo de tão distraída que estava.
— Bem feito — respondi com a boca cheia.
, não fala assim...
— Toni, eu agradeço muito a comida, mas se você veio aqui defender ela, então pode ir embora — eu respondi o olhando com seriedade.
— Não vim defendê-la, relaxa — ele falou levantando as mãos como se estivesse se rendendo. — Mas ela está péssima e você está trancada nesse quarto há dias! Eu adoro vocês e não quero ver vocês assim.
Eu mordi meu lábio, perdendo um pouco do apetite. As lágrimas já estavam brotando em meus olhos e, percebendo isso, Toni levantou e veio me abraçar. Eu chorei de soluçar, agarrada em sua camisa social branca.
— É tão ridículo eu estar chorando por um homem que tão teve nenhum respeito por mim! — exclamei ainda chorando. — E eu sinto tanta falta da Ollie.
Toni se agachou para ficar na minha altura e secou minhas lágrimas com o guardanapo de pano que ele trouxe.
— Escuta, bella... - ele começou, deixando seu sotaque livre. — Ela errou sim, não estamos negando isso. Mas vale mesmo a pena perder a amizade de vocês por causa de um babaca como aquele Harry Styles?

Eu ri da forma como ele falou o nome do Harry, como se cuspisse as palavras sujas. Mas Toni tinha razão, por mais que eu não quisesse admitir. Eu nem dera uma chance para ela se explicar. Antonio percebeu que eu concordava com ele e vi seus olhos entregarem o sorriso largo que ele dava por trás da máscara. Eu revirei os olhos e ri.
— Sim, você está certo, pode se gabar... — respondi, fazendo-o rir.
— Não farei isso, mas obrigado — ele falou rindo. — Mas antes de você ir falar com ela, acho que você precisa de ar fresco.
— Preciso mesmo... — concordei, olhando para a varanda fechada e coberta pela cortina pesada.
— Então fique pronta às onze e meia, vou te levar pra comer o segundo melhor cannoli de toda Roma — ele falou se levantando bruscamente, me dando um susto. — Obvio que o primeiro é o seu.

Ele foi até as cortinas e as escancarou, depois abriu as portas de correr, deixa do o ar entrar.
Cazzo, Antonio! — reclamei quando a claridade atingiu meus olhos.

Toni era o típico italiano que gesticulava demais quando falava e se movimentava de forma exagerada e quase teatral. Mas na cozinha, ele era um gênio, muito habilidoso com as mãos e sua comida era quase tão boa quanto da minha avó. Quase.
Depois que ele saiu, eu fui tomar um banho e aproveitei para ajeitar meu quarto. Eu faria uma faxina amanhã, aquele lugar estava tão deprimente quanto eu mesma. Fui tomar um banho em seguida, aproveitando para lavar o cabelo e relaxar um pouco. A água parecia tirar um pouco os sentimentos ruins dentro de mim. Não que eu não tivesse tomado banho esses dias, mas foram banhos monótonos, apenas por pura necessidade, sem muito prazer nisso. Agora não, agora eu me dedicava a cada parte do meu corpo, como se o agradecesse por ter me aguentado nesses dias ruins. Antonio ter vindo aqui foi muito importante, e precisava agradecê-lo mais tarde.
Hoje eu me maquiei mais do que de costume, coloquei um vestido preto de alças finas, não muito colado no corpo mas também não muito largo. Desejei não ter devolvido os sapatos para Olivia, então pensei ser a oportunidade perfeita para pelo menos tentar mostrar que eu estava disposta a ouvi-la.
Fui descalça até seu quarto e dei algumas batidas. Em rápidos segundos, ela abriu a porta e arregalou os olhos claros e avermelhados ao me ver.
— Oi — ela falou sorrindo, me olhando de cima a baixo como se quisesse garantir que eu era real. — Você está linda. Vai sair?
— Vou. Com Antonio. — falei, mordendo os lábios.
A cena dessa garota transando com o cara que eu estava apaixonada não saia da minha mente, mas me forcei a não dar atenção pra isso agora. Ela me olhou mais surpresa do que antes.
— Será que você pode me emprestar aqueles sapatos? — perguntei.
— Claro, claro! Por favor, entre. Mas não repare a bagunça, ok? — ela disse deixando a porta aberta e entrando no quarto.
Eu a acompanhei e fechei a porta atrás de mim. O quarto de Olivia estava um caos, igual ao meu. Me confortou saber que ela estava sofrendo tanto quanto eu.
— Aqui estão — ela disse, me entregando o par de saltos.
— Obrigada — falei, dando um leve e breve sorriso. Ficamos em um silêncio constrangedor por longos segundos até que ela interrompeu.
, eu realmente sinto muito por tudo o que aconteceu, você não tem ideia de como estou me odiando no momento — ela falou, as lágrimas querendo escapar por seus olhos. — Eu amo você e queria muito uma chance pra me explicar. Eu sei que não mereço, mas por favor, ...
— Eu gostaria de sentar e conversar com você, Olivia — a interrompi, falando com sinceridade. — Amanhã eu volto para te devolver os sapatos e podemos conversar, ok?
A garota sorriu largo e assentiu freneticamente. Ela me acompanhou até a porta, me desejando um bom passeio, e eu senti sinceridade em sua voz. Chegando em meu quarto, coloquei o par de saltos e me olhei no comprido espelho do armário. Eu estava linda, mas não queria impressionar Antonio, queria impressionar a mim mesma, e eu consegui.
Enquanto esperava Toni chegar, me arrisquei em ir até a sacada. A noite estava perfeita, não estava frio mas tinha uma brisa refrescante. O céu estava lindo, coberto de estrelas. Respirei fundo aquele ar fresco, e não pude evitar olhar pra baixo. A luz do quarto estava apagada e parecia não ter ninguém. Suspirei alto, pensando se deveria dar à Harry a mesma chance que darei à Olivia. Era difícil demais, porque eu tinha uma relação com Olivia há meses; Harry não era nada além do cara por quem eu estava me apaixonando, o cara que fui fã por anos e que por uma brincadeira ridícula do destino, consegui ir à alguns encontros. Peguei meu celular e fiquei olhando nossas fotos juntos no dia que fomos na fonte, depois uma foto dele comendo o red velvet com cara de prazer. Meu coração apertou, aquelas tinham sido as melhores noites que tive em tempos.
Uma batida na porta me tirou dos meus devaneios. Coloquei uma máscara, peguei minha bolsa, coloquei meu celular dentro e corri para atender.

— Bem na hora, Toni! — falei animada, mas não era Antonio que estava parado na minha porta.
Harry estava com o braço levantado encostado no batente da porta, com a cabeça apoiada nele. Seus olhos estavam vermelhos e caídos. Ele levantou a cabeça e as sobrancelhas, me olhando de cima a baixo.
— O quê você quer? — perguntei, cruzando os braços. Isso fez com que apertasse meus seios, deixando-os à mostra no decote, e eu reparei que seu olhar foi direto nessa direção. Ótimo, olhe bastante o que você perdeu.
— Vai sair com esse tal de Toni? — ele me questionou, ainda com as sobrancelhas levantadas.
— Não é da sua conta, Styles — respondi, ameaçando fechar a porta. Ele a segurou com força, olhando fundo nos meus olhos.
, me deixe falar com você. Por favor, não me trate assim — ele pediu, sua voz parecendo embargada. Eu engoli em seco, tentando afastar minha própria vontade de chorar de novo.
— Como você quer que eu te trate, Harry? — perguntei, odiando o jeito como minha voz saiu falhada. — Caralho, eu estava pronta para entregar meu coração pra você e você o destruiu sem piedade. Você me perdeu, Harry.
— Não fala isso... — ele disse fechando os olhos, parecendo sentir dor.
Ele apertou o pulso contra a testa com força, e percebi que ele tentava segurar o choro. Aquilo apertou meu coração, e estava cada vez mais difícil continuar me fazendo de forte. Pisquei para espantar as lágrimas que já faziam meus olhos arderem.
— Me perdoa, . Eu faço qualquer coisa, mas por favor, me dê outra chance, ou pelo menos me deixe explicar — ele pediu, segurando meu braço e desfazendo a armadura que eu tinha feito. Ele segurou minhas mãos contra seu rosto e fechou os olhos novamente. — Você foi a melhor coisa que aconteceu em tanto tempo, eu não vou suportar te perder, é sério.
— Não exagera — sussurrei, olhando-o assustada. — Você me conhece há apenas dez dias.
— E foram os melhores e piores dias em meses — ele respondeu, abrindo os olhos. Ele ainda segurava minhas mãos em seu rosto, e pude sentir suas lágrimas molharem minhas palmas. “Aguenta firme”, repeti pra mim mesma enquanto tentava não me derreter por aquele rosto.
— Algum problema aqui, bella? — ouvi a voz abafada de Antonio ao nosso lado. — Precisa de ajuda?
— Toni, esse é... Esse é o Harry. Harry, esse é Antonio — falei baixinho enquanto tirava minhas mãos do rosto do garoto. Ele olhava sério para Antonio, que retribuía o olhar com certa raiva.
— Ah, o famoso e querido Harry Styles! É um prazer tê-lo hospedado aqui, senhor Styles! — Antonio falou com um tom carregado de ironia.
— Será que podemos conversar a sós? — Harry disse com a voz cansada, ignorando o outro homem.
— Agora não, Harry — falei o empurrando delicadamente para fechar a porta atrás de mim.
— Mas eu preciso te contar uma coisa, eu...
— Eu disse que agora não! — falei com firmeza. Ele me olhou chateado, enfiando as mãos no bolso. — Vamos, Toni.
Ciao, Harry! — ele falou com uma animação forçada.
Entrelacei meus braços com o de Antonio sem dizer nada. Dei uma última olhada antes de as portas dos elevadores se fecharem, e Harry não movera um músculo, apenas deixou sua cabeça tombar para frente.
Eu e Toni conseguimos sair pela porta dos fundos, e eu me questionei por quê não pensei nisso no dia que tive que pular o muro. Mas com certeza não teria a mesma graça. Caminhamos lado a lado em silêncio, mas não era um silêncio ruim. Antonio sabia o que devia estar se passando na minha cabeça, e eu me senti grata por ele respeitar esse momento e não fazer perguntas.
A Itália inteira estava em lockdown, a não ser pelos serviços essenciais e para nossa sorte,  bistrô era essencial; só não poderíamos ficar lá. Nos sentamos em uma mesinha na praça perto do bistrô onde compramos os cannolis. Ele pediu dois de creme e confeiteiro e eu de chocolate, meu favorito de sempre.
— Ele parecia bem chateado — Toni falou, finalmente quebrando o silêncio, depois deu uma mordida em seu doce.
— Se arrependimento matasse, não é mesmo? — falei sorrindo sem graça, dando uma mordida no meu doce, fazendo o recheio sair do outro lado. — Que droga!
Eu e ele rimos com a boca cheia, mas logo Toni voltou a me olhar com a expressão séria.
— Arrependimento é a pior coisa, não é? — ele falou me olhando significativamente.
— Eu sei o que está fazendo, Antonio, eu entendi perfeitamente — falei enquanto limpava minha boca com o guardanapo.
— E vai esperar se arrepender? — ele falou. Eu revirei os olhos.
— Eu já falei com a Ollie, ok? Iremos conversar com calma amanhã.
— Não é dela que estou falando, mas fico feliz em saber.
— Ah, agora vai defender ele? - falei com indignação. — Eu realmente não te entendo.
— Não estou defendendo ele, principessa. O que eles fizeram foi algo realmente terrível. Mas pense comigo, ok? Daqui há poucos dias o Senhor Enrico vai te liberar para voltar pra casa, você vai voltar sem ter falado com ele. Não acha que vai se arrepender?
— Não - respondi com seriedade, vendo-o balançar a cabeça.
— Está na cara que você é louca por ele, — ele falou, me pegando de surpresa. — Eu vi a forma como você estava olhando pra ele. Para de negar, cazzo!

Fiquei em silêncio, pensando sobre o que ele disse. Odiava admitir que ele estava com toda a razão. Eu me arrependeria sim de não ter nem ao menos dado uma chance de ele falar o que queria. Vai saber quando irei vê-lo de novo? Mas não iria admitir isso para Antonio.
Começamos a caminhar em direção ao hotel depois de mais algum tempo conversando e finalizando os deliciosos cannolis.

— E você? Quando vai admitir que Olivia é a garota no seu coração?
— Como!? — ele perguntou, confuso.
— Você ama a Olivia, não ama?
Toni me lançou um olhar triste, mas eu sabia que ele estava sorrindo pela forma que seus olhos ficaram finos e enrugados, e balançou a cabeça enquanto a abaixava.
— Amar é uma palavra muito forte, ragazza... — ele disse tentando conter um sorriso. — Eu não sei... Acho que Ollie e eu não combinamos muito.
— Fala sério, Toni.
— Estou falando sério, . Eu não sinto nada por ela e mesmo se sentisse, ela é muito energética, faz as coisas sem pensar, como você mesma viu — eu assenti, entendendo perfeitamente o que ele queria dizer. — Não sei se saberia lidar com isso.
— Olha, por mais que eu esteja bem chateada com ela... Não posso negar que Olivia é uma das melhores pessoas que eu já conheci. Ela é muito carinhosa, divertida... Ela é a melhor amiga que tive em anos — falei, o encarando. Ele não parecia convencido. — Não foi você que acabou de fazer um monólogo sobre arrependimento?
— Sou bom em dar conselhos, mas péssimo em segui-los — ele falou desanimado enquanto dava de ombros. Eu revirei os olhos. — Olha, vamos parar de falar dela, ok?
Nós chegamos ao portão dos fundos do hotel, mas Antonio segurou minhas mãos, me impedindo de entrar. Eu o olhei confusa, esperando que ele falasse algo, mas ele ficou em silêncio, só me olhando. Então eu o vi retirar a própria máscara.

— ele falou, meio engasgado. — Eu preciso fazer algo, antes que eu me arrependa.
Continuei olhando-o confusa enquanto ele abaixava minha máscara e se aproximava de mim.
— Antonio, o que... — não tive tempo de terminar a frase, ele apenas diminuiu o espaço entre a gente e selou nossos lábios.
Aquilo me pegou de surpresa. Ele segurou meu rosto, como se tivesse medo que eu fugisse. Eu não queria fugir, apesar de sentir que aquilo não estava certo. Meu coração estava sim acelerado e eu estava sim gostando, mas não pelo motivo certo. Era um beijo bom, não podia negar. Antonio era lindo e um cara incrível. Mas ele não era o Harry. Eu certamente nunca o olhei dessa forma, então por mais que o beijo fosse bom... Ele não parecia certo.
— Toni... — eu falei em um sussurro quando ele afastou alguns centímetros, incapaz de raciocinar.
— Não fala nada, bella... — ele pediu, fechando os olhos com força, como se sentisse dor.
Suas mãos quentes ainda seguravam meu rosto com delicadeza, e foi ai que tudo vez sentido. Não era a Olivia quem ele amava, era eu. E naquele momento, eu tive vontade de chorar, porque a última coisa que eu queria no mundo era machucar alguém como Antonio.
— Desculpa — eu sussurrei, minha voz parecendo ridiculamente fraca e sem vida. - Eu realmente sinto muito e por mais que eu queira, não posso retribuir isso.
— Eu sei — ele respondeu, evitando me olhar. — Eu cheguei tarde demais, mas eu tinha que fazer isso antes que fosse tarde. Todo o papo de arrependimento… Acho que estava falando tanto pra você quanto pra mim.

E é claro que as lágrimas já estavam rolando pelo meu rosto. Droga, por que as coisas não podiam ser simples assim? Eu e Toni, um cara incrível que sempre foi tão bom pra mim, vivendo felizes para sempre em Roma. E ele poderia até achar que chegou tarde demais e isso até poderia ser verdade, mas eu nunca vi Antonio dessa forma, a não ser pela primeira vez que o vi. Ele entrou algumas semanas depois de mim e naquele dia, Olivia veio correndo falar comigo sobre ele. Passamos a noite toda fantasiando sobre ele, mas mesmo assim, nunca senti algo que pudesse considerar. Era a mais pura amizade, e só isso.
— Não queria te fazer chorar, e não queria que isso estragasse nossa amizade — ele falou.
— Não vai estragar, eu prometo — respondi, sorrindo com tristeza. — Eu não quero te machucar, Toni. Você merece alguém que te ame de verdade, ok? E estou torcendo por isso, de coração.
Eu não soube muito bem o que fazer depois disso, então apenas o abracei e corri portão adentro, sem esperar por ele. Subi os cinco andares de escada mesmo, e bati ofegante na porta do quarto de Olivia. Ela abriu depois da segunda batida, e me olhou confusa enquanto esfregava os olhos.

— Posso dormir com você? — falei com a voz embargada. Ollie apenas abriu os braços e eu me joguei neles, soluçando alto enquanto ela me acolhia como sempre fazia.


Capítulo 7 - Aviões

Décimo primeiro dia de quarentena.

Olivia me acordou com nosso café da manhã já nos esperando na mesa. Mas eu não sentia fome alguma naquele momento.
Eu e Ollie passamos boa parte da madrugada conversando, era um milagre termos acordado tão cedo. Ela me contou tudo o que aconteceu com todos os detalhes; ela estava bêbada mas, antes de decidir beber, ela percebeu algo que a fez surtar, ela estava completamente apaixonada por Felipe. Tem uma coisa importante que precisamos entender sobre Olivia Romano: ela não se apegava a ninguém. Pelo menos uma vez por semana ela me falava sobre um cara novo e no dia seguinte já havia se cansado dele. Mas com o recepcionista era diferente, eu nunca a vi falar de alguém como ela falou do garoto naquela noite. Então ela surtou com o fato de estar apaixonada e apegada a alguém, descontou na bebida e o resto nós já sabemos. Ollie passou o resto da noite me pedindo desculpas e bom, eu a perdoei. Afinal, Olivia era minha melhor amiga há anos e continuaria sendo por sabê-se lá quanto tempo. Eu conseguia ver Olivia no meu futuro, em todos os momentos que eu sonhava, e não queria que isso mudasse. Ela errou, isso é inegável, mas que ela consiga levar isso como uma lição, assim como eu levaria. Depois da nossa conversa, contei tudo sobre o que aconteceu com Antonio, e ela pareceu tão surpresa quanto eu.
— Não que eu tivesse essa ideia louca de que ele estava apaixonado por mim... — ela começou falando. — Mas você? Eu jamais iria imaginar, ele disfarçava muito bem.

Eu me forcei a dar algumas mordidas na torrada, ainda sem apetite. Era difícil sentir vontade de comer qualquer coisa, ou de fazer qualquer coisa. Eu odiava admitir que sentia falta de Harry, e agora havia magoado uma das minhas pessoas favoritas no hotel. Me confortava saber que pelo menos tinha Olivia comigo, e agradeci Toni mentalmente por ter me convencido a fazer as pazes com ela.

— Ele perguntou de você hoje — Ollie disse enquanto adoçava seu café. — Não parecia muito bem.
— Tadinho, Ollie... — choraminguei, deixando a torrada de lado. — Antonio era a última pessoa que merecia isso.
— Oh... Não estou falando do Toni — ela disse, me olhando receosa. — Quer dizer, ele também não parece feliz, claro, mas...
Ela se interrompeu, ponderando se deveria continuar no assunto.
— Mas o quê, Olivia? — a incentivei a continuar, me debruçando sobre a mesa para ficar mais perto. — De quem você está falando?
— Eu tive que pegar o elevador social, e acabei cruzando com... Com o Harry. — ela falou com o rosto retorcido de culpa. — Olha, eu juro que não está rolando nada, ok? Eu te disse, foi só aquela vez, depois nunca mais nos falamos.
Ela pausou e me olhou como se esperasse uma autorização para continuar falando, seu rosto carregando uma culpa desnecessária.
— Continua, Ollie! — eu disse, sabendo que ela só falaria se sentisse que estava tudo bem. — Eu acredito em você.
— Ok — ela respondeu com um alívio explícito em sua voz. — Ele estava descendo com as malas e perguntou sobre você, só isso. Falei que você estava bem, claro, não ia dizer que estava mal. Mas você tinha que ver, ele parecia exausto. Disse que queria muito se despedir, mas que iria respeitar seu tempo e sua vontade.
— Como assim se despedir? — perguntei confusa. Mas logo tudo fez sentido, e eu arregalei os olhos inchados quando percebi o que aquilo significava. — Ele está indo embora?
— Achei que você sabia... — disse Ollie, me olhando com desconfiança. — Ele não te falou?
— Meu Deus, eu não... Eu não deixei ele falar, Ollie! — eu falei desesperada, passando as mãos pelo cabelo. — Ele ainda está lá embaixo?
— Não sei, talvez... — ela gaguejou, me vendo levantar e procurar por minhas pantufas. — Onde você vai?
— Preciso falar com ele antes que eu me arrependa — respondi enquanto colocava o roupão e a máscara e escancarei a porta. — Você vem?
Eu e Olivia descemos de escada porque eu era incapaz de esperar pelo elevador lerdo daquele prédio velho. Estávamos ofegantes quando chegamos no saguão quase vazio.
— Felipe, cadê o Harry? — perguntei desesperada. Só depois percebi o desconforto entre ele e Ollie.
— Bom dia pra você também — ele respondeu, claramente chateado. — Ele acabou de sair.
— Saiu pra onde? — Ollie perguntou, desesperada. Ele a olhou com certa raiva. — Desculpa... Bom dia, Felipe.
— Desculpa, Fe, bom dia. — falei também, tentando forçar um sorriso. — Você sabe pra onde ele foi?

Felipe ficou quieto por alguns segundos antes de suspirar e responder:
— Ele fez o checkout, pegou um táxi e foi direto para o aeroporto.
— Aeroporto? — eu exclamei com a voz esganiçada, olhando apavorada para Olivia que retribuía o mesmo olhar. — Merda!
— Eu adoro quando você xinga em português — disse Olivia —, mas estamos perdendo tempo aqui, vamos nos arrumar.
— Arrumar? Pra quê? — a questionei enquanto ela me puxava em direção aos elevadores. Gritei um “obrigada” para Felipe mas não tive tempo de ouvir sua resposta.
— Para ir ao aeroporto, oras! — ela respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— E você acha que o Sr. Enrico vai deixar nós duas sairmos à luz do dia? — eu a questionei enquanto tentava acompanhar seus passos largos até o quarto.
— Eu disse ontem para ele que precisava ir à feira comprar algumas especiarias — ela disse me olhando com sua melhor cara de convencida. — Ele só não precisa saber que você vai junto.
Ollie remexeu em seu armário e tirou um vestido florido claro e o largou em cima da cama. Em seguida, retirou um bege, igualmente leve e largo e o jogou por cima. Eu a olhei com uma sobrancelha levantada.
— Que foi? — ela questionou. — Nós estamos indo salvar sua vida amorosa, temos que estar lindas.
Eu sorri largo. Amava ter minha melhor amiga de volta.
Ollie falou para eu ir àquele mesmo portão no fundo do hotel. Ela ia pegar sua vespa e me encontrar lá depois de falar com o gerente geral. É claro que Olivia tinha uma vespa, havia alguém tão tipicamente italiano quanto ela? Eu duvidava.
Depois de longos minutos que pareceram uma eternidade, Olivia finalmente apareceu e me entregou o capacete. Eu já estava acostumada a andar com Ollie em sua moto, mas nunca na velocidade em que ela corria. Eu me agarrei em sua cintura e apenas fechei os olhos, tentando não ficar enjoada e apavorada. Já haviam passado bons minutos e ainda não tínhamos chegado.
— Você acha que a gente chega a tempo? — eu gritei ainda sem abrir os olhos.
— Só mais quinze minutos e a gente chega. — ela gritou de volta.
Abri levemente os olhos, vendo a paisagem e a estrada estreita passarem rapidamente por nós. Olhei no retrovisor e Ollie estava com um sorriso enorme no rosto.
Finalmente chegamos ao aeroporto Leonardo Da Vinci, também conhecido como Fiumicino por ser localizado na cidade com o mesmo nome, ainda na província de Roma. Aquele aeroporto era enorme, foi nele que meu voo aterrissou quando cheguei à Itália. Eu me perdi naquele dia, e rezava para não me perder de novo.
Depois de todo o processo de tirar temperatura e de higienização, eu e Olivia saímos correndo em direção ao embarque enquanto eu tentava ligar para Harry, mas ele não atendia, nem visualizava minhas mensagens. Recebemos vários olhares de reprovação das pessoas que acabamos esbarrando pelo caminho, e depois de muitos "me desculpa" e "com licença", chegamos aos televisores onde anunciavam os vôos. E ali estava: "Vôo 9120 direto para Londres – 10:45 – decolando".  Olhei para o relógio do meu celular, era 10:50.
Corri para o balcão de embarque com minha melhor amiga atrás de mim.
Scusi — Olivia falou para a moça atrás do balcão. — Precisamos muito entrar no vôo 9120.
— Sinto muito, senhora, mas ele já está decolando.
— Pede para parar, nós precisamos falar com uma pessoa ali dentro! — Ollie insistiu, desesperada.
— Moça, é só por alguns segundos, por favor! — eu implorei.
— Sinto muito mas não tem nada que eu possa fazer, mi amores.
Nós agradecemos e nos afastamos, meus ombros caíram como se duas bigornas tivessem sido colocadas lá. Nos sentamos nos bancos, ofegantes.
— Merda! — eu gritei enquanto passava as mãos pelos cabelos curtos. Ignorei todos os olhares reprovando o palavrão ou os confusos que não entenderam o que eu disse por ter sido em português. — Merda, merda, merda!
, calma…
— Que calma, Olivia? Eu nunca mais vou ver ele e a última conversa que tivemos foi uma discussão.
— Eu estou me sentindo muito culpada, — disse Olivia com a voz muito baixa. — Se não fosse por mim, você não teria brigado com ele.
— Não é sua culpa... — suspirei alto enquanto me levantava. — Não fui culpa de ninguém, só não era pra ser.
Eu me aproximei da enorme janela que cobria a parede do embarque, e observei um dos aviões partindo em direção à Londres. Um flashback dos últimos dias passou pela minha cabeça, e minha vontade era quebrar aquele vidro, puxar aquele avião de volta para o chão e arrancar Harry de lá para sentir seus lábios nos meus de novo. Meu Deus, como eu sentia a falta dele. E o buraco no meu peito só aumentou em pensar que provavelmente nunca o veria de novo.
Voltamos para a moto de Olivia e dessa vez ela não correu como antes, pois não tínhamos mais pressa. Eu fiquei observando a paisagem, o mar cheio de barcos voltando para o almoço, a praia quase deserta e os pássaros voando livres. Itália era linda demais para não ser apreciada com calma e dedicação. Ali com certeza era minha segunda casa, e a pessoa ali naquela moto comigo era minha família. E naquele momento, depois de mais uma aventura com ela, eu percebi que não fazia sentido não perdoar Olivia. Ela errou, como já errou antes, como eu mesma já errei antes... E eu irei errar de novo um dia, afinal somos humanas, jovens, com anos de vida pela frente para fazer a merda que quisermos fazer. Mas a diferença é que nós nos amamos e eu sabia que ela estava arrependida. Não havia mais mágoa entre nós, nem entre eu e Harry. Mas ele não estava mais aqui para saber disso, então que diferença isso fazia?
Quando chegamos ao hotel, fizemos a besteira de entrar pela recepção porque Ollie tinha que guardar a moto em uma parte específica do estacionamento que só tinha acesso para a porta principal. E é claro que o Senhor Enrico estava lá, nos esperando.
— Comprou suas especiarias, senhorita Romano? — ouvimos a voz dele ressoar pelo espaço vazio, nos fazendo parar em frente à recepção.
— Você não vai acreditar, Senhor Enrico, mas a feira estava fechada — Olivia mentiu, usando todo o dom de atuação que ela não tinha. Olivia podia ser qualquer coisa no mundo, menos uma boa mentirosa.
— Eu realmente não acredito — ele respondeu com seriedade ao cruzas os braços. — Você e a senhorita foram atrás daquele cantorzinho, não é?
— Sim, é verdade, mas é porque ele esqueceu o casaco dele comigo — interrompi, me arrependendo na mesma hora. — Quer dizer, ele esqueceu no quarto e a Lucy, a camareira, deixou comigo.
— Por que ela faria isso? — Olivia sussurrou no meu ouvido. Eu a belisquei no braço como resposta, e ela entendeu o recado.
— E precisava ir as duas? — ele questionou, ainda desconfiado.
— Ela não sabe dirigir. — Olivia respondeu, apontando seu longo e fino dedo para o meu rosto. Eu dei de ombros, concordando.
— Isso é verdade, ? — ele perguntou e eu apenas assenti. — E por que mentiram para mim?
— Porque nós sabíamos que você ia querer levar o casaco com suas próprias mãos e a gente sabe que... Bom, o senhor já está em uma idade de risco, não é? — Ollie respondeu e percebi que ela segurava o riso. Eu dei um sorriso torto, agradecendo por estar de máscara.
— Bom, é verdade, eu iria mesmo... — ele respondeu, parecendo ponderar. — Mas não quero mais as senhoritas andando por aí, capicci?
Capicci! — respondemos em uníssono, começando a caminhar até os elevadores.
— Espere, senhorita ! — ouvi Enrico me chamar, caminhando até nós. — Você está autorizada a voltar para casa a partir de amanhã.

Demorei alguns segundos para entender o que ele quis dizer. Eu finalmente estava livre para ir embora e ficar presa no meu pequeno apartamento no centro de Roma. Ótimo, eu necessitava daquilo. Agora parecia que todos os malditos cantos desse hotel me lembravam o maldito Harry Styles, e estava quase insuportável continuar por aqui.
— Ouviu o que eu disse? — Sr. Enrico falou, me tirando dos meus devaneios.
— Sim, claro. Mas não fazem 15 dias ainda...
— Eu sei, mas acredito que seja mais seguro que você fique na sua casa, e bom... Não estamos tendo muito trabalho na cozinha e a confeitaria não vai abrir tão cedo. Não faz sentido te manter aqui, sinto muito — ele respondeu, esfregando as mãos em sinal de nervosismo.
— Certo — falei, assentindo. — Irei arrumar minhas coisas. Obrigada, Sr. Enrico.
Eu e Olivia fomos direto para o restaurante para buscar nosso almoço. Decidimos comer por lá mesmo, na nossa mesa de sempre, afastada de todo mundo. Eu cutucava a comida com o garfo, sem muito apetite. Eu quis tanto sair dali quando descobri que a confeitaria iria ficar fechada, era muito ridículo e sem sentido eu ficar triste por ter que ir embora. Mais ridículo ainda era eu estar triste para o Harry ter ido embora.
— Estou me sentindo tão culpada — disse Ollie, seu prato tão intocado quanto o meu.
— Não sinta, sério — respondi sem ânimo. — Já disse, era pra ser assim. Foram bons os poucos dias, agora acabou, temos que aceitar.
— Se eu não tivesse feito aquilo...
- Primeiro que eu já te perdoei e agradeceria se não tocasse mais no assunto, ok? Segundo que você não fez nada sozinha; terceiro que de qualquer jeito ele teria ido embora. — falei, me encostando na cadeira. — Não era algo duradouro, Ollie, e eu já sabia disso.
— Mas, ... Vocês eram perfeitos juntos — ela protestou, parecendo prestes a chorar.
— "Eram" do passado "não são mais".
— Abaixa a guarda e para de tentar ser durona o tempo todo! — ela falou, parecendo levemente irritada. — Se permita ficar triste, brava, revoltada. Se permita sentir, ! Assuma o que você sente por ele.
— Eu não sinto nada — menti. — Assim como ele também não sente.
— Se não sentisse, você não teria corrido até o aeroporto comigo, teria? — ela respondeu, cruzando os braços. — Eu não te forcei a ir comigo.
Aquilo pareceu encerrar a discussão. Eu, teimosa como sempre, não queria dar o braço a torcer. Mas óbvio que Olivia estava certa. Eu gostava dele, ousava dizer que estava sim me apaixonando, e não era a mesma paixão platônica de quando eu tinha 15 anos de idade. Aquilo era real, eu provei e eu gostei (muito!), mas não teria uma segunda dose.
Quando o céu estava no seu mais belo azul escuro, Ollie voltou para o seu quarto porque ela precisaria acordar cedo no dia seguinte e a gente sabia que se ela ficasse, não dormiríamos tão cedo. Mas o clima estava um tanto pesado, não entre nós mas num geral, então o melhor mesmo era apenas dormir e esperar pelo dia seguinte.
Mas eu não estava com sono. Cansada, sim, mas minha cabeça estava a mil. Decidi arrumar minhas coisas na grande mala que eu trouxe, meu coração dava um aperto a cada camiseta ou calça dobrada que eu colocava dentro dela. Quando acabei, fiquei encarando a mala fechada ao lado do armário. Era estranho eu não querer ir pra casa quando eu sabia que o Sr. Enrico estava certo ao dizer que não fazia sentido me manter aqui, mas o que era "fazer sentido", não é mesmo? Porque nada do que aconteceu nesses 11 dias fizeram sentido para mim.
Desci até o grande saguão, pensando em fazer o meu famoso e poderoso chá, minha última esperança para me fazer dormir. Dei uma olhada na recepção, e não me choquei ao ver Felipe com cara de quem não havia dormido direito. Não fui falar com ele, pois eu podia imaginar porque ele estava assim e eu não queria me envolver. Me sentia culpada, afinal eu deixei que Olivia o "usasse" para me ajudar, mesmo sabendo que ela estava adorando aquilo.
Antes de ir para a cozinha, meu coração doeu ao ver o piano solitário no meio do restaurante. Merda, todos os cantos deste lugar estavam infectados com a memória de Harry Styles e toda a sua perfeição.
Preparei meu chá com toda a calma do mundo, e fui para o restaurante para tomá-lo enquanto observava o céu pintado com estrelas de todos os tamanhos. Enquanto bebericava a bebida quente, me permiti olhar para o piano. Senti falta das mãos que tocaram City of Stars antes de tocar meu corpo, mas também senti falta das aulas que estava tendo antes da pandemia. Bufei alto quando as notas de If I Could Fly vieram em minha mente, a ironia de essa ser uma das poucas músicas que aprendi em minhas breves aulas antes da pandemia. Era como se tivesse sido ontem o dia em que minha professora de piano perguntou qual música eu gostaria de aprender e eu respondi "Não ri, mas queria aprender uma música da One Direction." Ela não riu porque ela também gostava dessa música e sabia tocar com maestria. Eu não era a melhor pianista do mundo, muito menos de Roma, mas eu sabia tocar algumas coisas.
Meus dedos quentes e receosos começaram a tocar a superfície fria do piano enquanto eu tentava lembrar direitinho cada nota. Por fim, me sentei no banco e comecei a dedilhar tecla por tecla. A melodia preencheu o restaurante, eu prestava atenção no que fazia para não errar nenhuma nota. Era difícil, depois de algumas longas semanas longe das aulas, ter agilidade nos dedos, mas a música estava saindo. Comecei a cantarolar baixinho, só pra mim.
Recomenda-se colocar essa música para tocar
If I could fly, I'd be coming right back home to you. I think I might, give up everything, just ask me to... — eu respirei fundo antes de continuar. — Pay attention, I hope that you listen, 'cause I let my guard down. Right now I'm completely defenceless…
Eu parei por alguns segundos, me sentindo boba por estar ali, quase chorando, tocando uma música triste que só piorava a situação. Mas a sensação era boa, e o que importava se eu derramasse mais algumas lágrimas? O que me chocava era o fato de ainda ter alguma para cair.
Mas então, quando voltei a dedilhar, não era mais a minha voz que eu ouvia, e sim a de Harry.
For your eyes only, I'll show you my heart for when your lonely and forget who you are... — eu ouvi a voz rouca cantar, mas não levantei os olhos, me concentrando em não errar as notas.
"Estou delirando" pensei, balançando a cabeça. Mas eu parei de tocar para ver se a voz também parava, mas não parou, ecoando alto no salão vazio.
I'm missing half of me when we're apart... — eu finalmente levantei os olhos e o vi ali, parado na frente das portas de vidro, com uma camiseta branca e as mãos dentro do bolso da calça social marrom.
Sua voz estava abafada por causa da máscara que combinava com as calças, mas seus olhos pareciam brilhar no escuro do restaurante como as estrelas brilhavam no escuro do céu. Fiquei paralisada, sem saber o que fazer ou como reagir. Ele estava ali, em carne e osso, o universo dando ridiculamente uma segunda chance.
— Continua — ele pediu, se aproximando do piano.
— Como você...? O quê...? — eu tentava perguntar, sem sucesso.
Era como se as palavras tivessem escapado do meu cérebro. E ele riu, se divertindo com minha confusão. Harry se sentou ao meu lado, posicionando seus dedos com os meus. Seu toque fez meu corpo todo arrepiar.
— Continua, — ele pediu novamente, então seus dedos fizeram o que os meus não estavam conseguindo. — Now you know me, for your eyes only…
Sua voz era baixa e abafada pelo pano, mas entravam deliciosamente nos meus ouvidos. Ele continuava com as mãos em cima das minhas, guiando meus dedos com delicadeza.
I've got scars, even though they can't always been seen... — ele cantou sem tirar os olhos de mim.
And pain get hard, but now you're and I don't feel a thing... — completei, sem conseguir segurar o sorriso.
Continuamos cantarolando a música, ele ria dele mesmo quando errava alguma letra ou ria de mim quando eu o corrigia, surpreso por eu saber a letra de cor e salteado. Harry começou a tocar com mais vontade, e eu tentava acompanhar ainda com as mãos embaixo das dele. Por fim, desisti e deixei que ele tocasse sozinho.
I can feel you heart inside of mine, I feel it, I feel it! — ele cantou com os olhos fechados e a cabeça jogada para trás. Dava para ver as veias saltadas em seu pescoço e aquilo me tirou o ar. — I've been going out of my mind, I feel it, I feel it! Know that I'm just wasting time...
—  And I hope that you don't run from me — cantei com ele, minha voz saindo quase como um sussurro. Ele parecia ofegante, voltando a olhar nos meus olhos, dessa vez com seriedade presente neles.
For your eyes only, I'll show you my heart... For when your lonely or forget who you are — o deixei cantar essa parte sozinho enquanto me forçava a lembrar como se respirava.
I'm missing half of me when we're apart. Now you know me, for your eyes only... — foi a vez dele de me deixar cantar sozinha, finalizando a música sem o som do piano.
Os dois estavam ofegantes como se tivéssemos acabado de correr pelo quarteirão. Ele tirou a máscara e finalmente pude ver seu sorriso torto com as covinhas que eu tanto amava. Inferno de garoto perfeito! Era impossível ficar bravo com ele, era impossível não se apaixonar por Harry Styles.
— Onde aprendeu a tocar essa música? — ele perguntou, apontando pro piano.
— Eu fazia aulas antes da pandemia — respondi ainda meio atônita por ter ele ali comigo.
— Impressionante, você toca muito bem — ele respondeu e eu apenas assenti lentamente, ainda sem conseguir parar de olhar ele. — Não vai perguntar o que estou fazendo aqui?
— Faz diferença? — respondi, dando de ombros.
— Me diga você — ele retrucou, sorrindo. Dei de ombros de novo.
— Acho que o mais importante é saber por que você voltou — respondi, ainda séria. — O que Roma tem que Londres não pode te dar?
— Você? — ele perguntou retoricamente, como se fosse óbvio.  Xinguei meu coração por ter acelerado mais ainda com essa resposta. — Um querido amigo seu, e provavelmente agora ele é meu também, me disse que eu ia me arrepender muito se perdesse uma garota como você, e que eu deveria pelo menos tentar te conquistar de novo.
— Foi o Antonio, não foi? — perguntei já sabendo a resposta. Ele apenas assentiu com um sorriso culpado.
— Toni é um cara incrível — o garoto disse, pegando minha mão e segurando entre as suas. — Ele me contou o que aconteceu e disse que eu seria um idiota igual a ele se te perdesse.
— Ele não é um idiota — respondi, puxando minha mão e ficando de frente ao piano, encarando o teclado preto e branco. — Eu que sou. Não queria ter magoado ele.
— Bom, pelo que ele contou, não foi culpa sua — ele disse, dando de ombros. — Mas por que estamos discutindo isso se o verdadeiro idiota sou eu?
Não pude evitar dar um sorriso. Sua constatação não estava errada. Eu o olhei e ele estava sério, me olhando com seus olhos verdes apagados e tristes.
— Não vou discordas e dizer que você não é um idiota, porque você é. Ou pelo menos foi — respondi, dando de ombros.
— Eu sei e eu sinto muito mesmo, — ele respondeu, ameaçando pegar na minha mão de novo mas desistindo no meio do caminho. — E eu vou entender se você nunca mais quiser falar comigo, mas pelo menos me deixe explicar.
— Estou aqui, não estou? — falei, vendo-o dar um sorriso leve e soltar o ar em aliviado. — Pode falar, eu vou te ouvir.
Harry se ajeitou no banco de madeira escuro, colocando cada perna de um lado e ficando de frente pra mim. Aquela visão era injusta e eu tinha uma leve impressão de que ele sabia disso. Decidi provocá-lo também, ficando na mesma posição com as pernas abertas como as dele, sem tirar os olhos do seu rosto. Ele deu um sorriso torto, sabendo exatamente o que estávamos fazendo, e não podia ter momento mais inapropriado.
Então ele respirou fundo e começou a falar.
— Naquela tarde, meu empresário me ligou contando que tinha conseguido uma passagem de volta para Londres e eu lhe disse que não estava com vontade de voltar tão cedo — ele disse isso com um sorriso torto escapando dos seus lábios, mas logo o desfez. — Então ele questionou o motivo e eu contei sobre você.
— V-você o quê? — perguntei gaguejando, fazendo-o rir.
— Falei que tinha conhecido uma garota incrível, que estava me inspirando mais ainda a escrever as músicas para o próximo álbum — ele falou sorrindo meio sem graça. Consegui ver suas bochechas ficarem ruborizadas e me odiei por achar aquilo muito fofo. — Mas ele não ficou muito feliz, disse que eu não deveria ter distrações e que não faria bem para a minha imagem namorar uma "confeiteira qualquer".
Ele fez aspas com os dedos e balançou a cabeça, chateado.
— Eu odiava quando a Modest! nos controlava nesse sentido. "Namore essa pessoa, não a pessoa que você realmente gosta!", "você tem que ser hetero, não pode mostrar quem realmente é." — ele fez uma pausa, parecendo receoso em se abrir tanto comigo. — Não quero isso de novo, sabe? Isso também foi um motivo para ficar e lutar por quem eu gosto.
Meu coração se descontrolou ao ouvir aquilo. Ele estava ali, se abrindo pra mim, assumindo com todas as letras que gostava de mim e que ia lutar por mim. Deus, eu o adorava! E tive que me controlar para não beijá-lo naquele mesmo momento. Tentei permanecer o mais séria possível enquanto brincava com a barra do meu moletom.
— O quê isso tem a ver com o que você e Olivia fizeram? — perguntei receosa, sentindo uma pontada no coração ao tocar no assunto. Eu o vi suspirar e deixar a cabeça cair pra frente.
— Eu estava no meu quarto, bebendo, chateado demais com a conversa que eu tive com ele. Passei a noite em claro — Harry me olhou com a culpa explícita nos olhos, fazendo uma careta de desgosto. — E talvez eu tenha exagerado no whisky. Então Olivia bateu na minha porta de manhã, igualmente bêbada, achando que era o seu quarto. Então ela entrou, nós estávamos só conversando, ela estava falando sobre auto estima, eu estava falando sobre… Você.
Ele parou de falar e segurou minhas mãos geladas. As dele estavam quentes e macias, resisti ao impulso de colocá-las em meu rosto e nunca mais tirar.
— Enfim, uma coisa levou a outra e… Acabamos fazendo aquilo — ele finalizou, fechando os olhos e abaixando a cabeça até encostar a testa em nossas mãos. — Eu sei que parece uma desculpa ridícula, mas é a verdade e espero que acredite em mim.
— Ollie já tinha me contado tudo isso — falei, vendo-o levantar a cabeça. — Foi bom saber que ela estava falando a verdade.
Ele assentiu, ainda sério.
— Eu vou entender se você não quiser me perdoar, acho que nem eu me perdoaria — ele falou, deixando os ombros caírem. Me senti uma idiota por não resistir à aquela cara triste que ele estava fazendo.
— É claro que te perdoo, Harry — falei, soltando uma das mãos apenas para acariciar seu rosto. — Não vou mentir e dizer que não fiquei mal com tudo isso, pois eu fiquei e muito. Mas fiquei pior sabendo que não te veria mais. Todo mundo comete erros, Styles, só me prometa que esse foi o último.
— Eu prometo, claro que prometo! — ele falou animado, segurando meu rosto e se aproximando para me dar um beijo, mas parando a centímetros da minha boca. — Espera, isso quer dizer que eu posso te beijar, certo?
— Errado — falei, mordendo os lábios. Ele me olhou com frustração, e se afastou mais alguns centímetros. — Eu volto pra casa amanhã, Harry.
— E...? — ele questionou, dando de ombros. Eu o olhei incrédula.
— E que não vamos mais nos ver, acabou aqui. Você vai pra Londres para se resolver com seu empresário e eu vou para casa esperar até o dia que poderemos reabrir a confeitaria. Você acha mesmo que daríamos certo?
— Claro que daríamos! Aliás, daremos! — ele respondeu, abrindo os braços de forma teatral. — É tão fácil vir para Roma, eu viria direto com todo prazer.
— Harry... — protestei, esfregando as mãos no rosto cansado. Levantei a cabeça apenas para vê-lo me olhar cada vez mais decepcionado.
— Por que você fica colocando obstáculos? — ele questionou, se afastando mais.
— Eu só estou sendo realista — retruquei. — E além da distância, eu sou exatamente como seu empresário falou: só uma confeiteira qualquer! Eu não fui feita para você, Harry.
— Meu Deus, quanta merda que você está falando... — ele falou se levantando e passando as mãos pelo cabelo enquanto me dava as costas e se afastava.
— Merda? — o questionei com raiva, me levantando e indo atrás dele.
— Você nem está tentando dar uma chance! — ele respondeu, se virando para me encarar. — Será que não basta a gente se gostar e querer ficar juntos? O resto a gente dá um jeito!
Eu o encarava incrédula, sem acreditar no que ele estava falando.
— Nossa realidade é diferente demais, Styles.
— Viu? Colocou mais um obstáculo sem sentido nenhum! — ele disse, gesticulando com as mãos.
— Você vive na merda de uma bolha onde tudo é fácil de conseguir, inclusive as mulheres na sua vida, não é? — respondi com raiva. — Pois eu sinto muito em te decepcionar, mas dessa vez você não consegue a garota.
Eu saí do restaurante sem olhar para trás enquanto ele chamava meu nome. Era bizarro como as coisas mudavam de repente, por causa de algumas palavras. E era extremamente difícil dizer quem estava sendo irracional naquele momento, porque eu sei que estou certa, mas também sabia que ele também pensava no melhor pra gente.
Mas o quê seria esse "melhor pra gente"? Eu em Roma morrendo de saudades dele enquanto ele percorre o mundo em turnês, gravações de filmes e de música, esperando uma oportunidade para os dois se encontrarem de alguma forma? Eu vendo-o cercado de modelos e fãs que colocavam minha autoestima no fundo do poço, sem poder fazer nada a respeito, com a confiança abalada, por mais que eu tenha perdoado eles?
Eu começava a acreditar cada vez mais que o empresário dele estava certo. Isso não é uma fanfic que eu lia há anos atrás, isso é a porra da minha vida! Seria um sonho realizado namorar com ele? Óbvio. Eu estava apaixonada? Completamente. Mas eu era realista: não fui feita para namorar Harry Styles.


Capítulo 8 - Malas

Décimo quarto dia de quarentena.

Alguns dias se passaram desde a noite em que encontrei Harry no restaurante. Eu não tinha saído do quarto, Ollie passou algumas noites comigo, mas nenhuma das duas o encontrou ou ouviu falar nele. Esse era um assunto que não queríamos tocar de jeito nenhum, para ficar mais fácil na hora da despedida. Como faltavam poucos dias para completar os 15 dias necessários, o Sr. Enrico me deixou ficar, o que eu agradeci. Acho que teria surtado em casa sozinha sem Olivia para me acolher com a confusão que minha cabeça estava nesses últimos dias.
E no décimo quarto dia, acordei com batidas na porta e alguém exclamando "room service". Quem diabos poderia ser se eu não pedi nada para a cozinha?
Esfreguei os olhos enquanto calçava as pantufas e ouvia novas batidas na porta. Eu a abri com o cenho franzido. Um Antonio de cabeça baixa, uniforme impecável e metade do rosto coberto pela máscara estava parado ali com um carrinho com todos os itens servidos no café da manhã dos hóspedes: pães, croissant, suco, café, leite, vários tipos de queijos e salames, geléias, frutas… Era tanta coisa que eu provavelmente demoraria dias para acabar de comer.

— Buondiorno, Toni. É bom te ver de novo — falei com sinceridade.
— Buondiorno, — ele murmurou, a voz normalmente grave abafada pela máscara. — Mandaram entregar esse café para a senhorita.
— Senhorita? — respondi rindo, mas logo voltei a ficar séria pois vi que ele não gostou da brincadeira. — Está tudo bem? Digo, com a gente.
— Está sim, eu acho — ele falou suspirando. — Desculpa, eu realmente precisava de uma distância.
— Não se preocupe, sério — falei sorrindo para mostrar que estava realmente tudo bem. — Então isso tudo é pra mim? Quem mandou?
— Adivinha — ele falou, soltando uma risada anasalada. — Tenha um bom dia.
— Toni, espera! — exclamei quando o vi dar as costas. Ele se virou, surpreso. — Obrigada por falar com Harry. Foi muito legal da sua parte.
— Eu quero te ver feliz, se sua felicidade for ele… Não sou eu que vou impedir isso — ele falou antes de finalmente se virar e ir embora.

Antonio refez o caminho até o elevador e desapareceu de vista. Meu coração apertou porque mesmo que ambos dissessem que estava tudo bem, eu sabia que não seria mais como antes e isso despedaçou meu coração. Havia perdido um amigo e possivelmente o cara por quem eu estava apaixonada, que belo jeito de começar um sábado.
Puxei o carrinho para dentro e liguei para o quarto de Ollie, mas ela não estava mais lá. Então liguei para o ramal da cozinha e ela mesma atendeu.

— Ollie, já começou a trabalhar?
— Sim, mas vou parar agora pra tomar café. Por quê?
— Não pega nada e vem tomar café aqui no meu quarto, você vai entender quando chegar.

Enquanto eu esperava Olivia chegar, fiquei olhando para o café ainda em cima do carrinho de metal. Vi um papel branco dobrado ao lado da xícara e o peguei na mesma hora, meu coração disparado ao imaginar o que era.
"Não é tão gostoso quanto seus doces, mas espero que fique na sua memória, porque eu nunca esquecerei seu red velvet. Com amor, Harry. xx"
Aquilo fez meu coração doer e quando fui abrir a porta para Olivia, algumas lágrimas teimaram em cair.

— Ah, amiga. O que houve? — ela disse, me abraçando forte, e eu respondi apenas com mais choro.

Eu finalmente contei em detalhes tudo o que aconteceu naquela noite e a situação estranha com Antonio, Olivia pareceu segurar o ar o tempo todo. Ela assentia conforme eu contava as coisas, e sua feição foi de animada para agoniada e depois triste. Ela apertava minha mão quando via que minha voz ficava embargada, aquele conforto era tudo o que eu precisava no momento.

— Acha que fiz besteira? — perguntei, enquanto finalizava o café. Ollie deu um último gole em seu chá antes de responder.
— Sinceramente? Acho sim. Eu fico impressionada com como vocês conseguem estragar tudo depois de um momento tão romântico como esse.
— Não foi romântico — respondi e a vi revirar os olhos.
— Se tocar If I Could Fly no piano e cantar juntos não for algo romântico então eu não sei o que é romance — ela respondeu, balançando a cabeça. Ollie fez uma cara de chateada quando viu meus ombros caírem. — Escuta, eu entendo seu lado, de verdade. Mas, … É a primeira vez que eu vejo você ficar assim por um cara, abaixando todos os muros e mostrando finalmente seus sentimentos. E ele é o Harry fucking Styles! O universo já te deu outra chance de consertar tudo, vai saber quando você vai ter essa chance de novo?

Sem novidades, Ollie estava certa mais uma vez. Eu realmente nunca senti o que eu estava sentindo por alguém antes, meu foco sempre foi meus estudos e minha carreira. Tive alguns casos, claro, mas nada sério, nunca passavam de algumas noites. Mas com Harry era diferente, com ele eu queria passar todas as noites da minha vida. Fiz uma careta, já sentindo o gosto amargo do arrependimento.

— Agora é tarde demais, dessa vez de verdade — respondi dando de ombros, me levantando para escovar os dentes e me arrumar. — Estou indo pra casa, e ele também.
— É uma pena, eu ia amar te ver nos red carpets das premiações. Você ia ficar linda em um Valentino ao lado dele que provavelmente estaria usando Gucci.
— Chega de fantasiar e vai trabalhar, Olivia — falei rindo e lhe dando um abraço forte. — Não sei quando vou te ver de novo, então muito obrigada, de verdade.
— Eu que te agradeço por ter me perdoado. - ela falou, retribuindo o aperto. — Eu amo você,  Principessa!
— Também amo você, Ollie — respondi e a vi passar pela porta, levando o carrinho com o que sobrou do café com ela.

Eu tomei banho e terminei de guardar as últimas coisas na mala. Eu ainda estava com a sensação de não querer ir, mas dessa vez eu sabia que era o certo a se fazer. Então fui até a sacada e dei uma última olhada na vista da cidade, me despedindo do céu azul claro de Roma. Hoje o dia estava bonito, com o ar fresco invadindo o quarto e deixando-o mais leve, como se já estivesse completamente vazio, como as ruas da cidade.
O som de alguns acordes começaram a preencher o ar e eu reconheci a melodia no mesmo momento. City of Stars tocada baixinho, dessa vez em um violão, e eu sabia exatamente de onde vinha. Me inclinei um pouco, na expectativa de conseguir ver se tinha alguém. E ali estava ele, concentrado no que fazia, com o cenho franzido no rosto coberto pela sombra que sua boina azul fazia. Ele pareceu sentir que eu o olhava e levantou a cabeça, sorrindo leve com os olhos quase fechados. Adorável, como sempre. Ridiculamente adorável.

— Buondiorno — ele disse, sorrindo orgulhoso por conseguir falar uma palavra em italiano.
— Buondiorno — respondi, retribuindo o sorriso. — Obrigada pelo café, não precisava.
— Por nada — ele parou de tocar o violão e o deixou de lado, se levantando para se apoiar na varanda. — Era um pedido de desculpas e um presente de despedida.
— Eu que te devo desculpas — respondi, entortando a boca. — Não fui muito justa com você. Você voltou e eu te fiz ir embora de novo.
— Eu ainda não fui — ele falou dando um sorriso infantil. — Na verdade eu estava só me despedindo daqui, tentando puxar mais alguma coisa pra escrever, mas não consigo tirar essa música da cabeça.
— Não é à toa que ganharam um Oscar — falei, fazendo-o rir.
— Bom… Não é bem por isso que não sai da minha cabeça — ele respondeu, dando de ombros. Fiquei em silêncio, sem saber bem o que responder, apenas observei seu rosto cansado que ainda sustentava um sorriso divertido e esperançoso.
— Eu preciso ir, Harry.
— Ah, claro, eu também... — ele respondeu, seu sorriso ficando levemente mais triste.

Mas nenhum dos dois moveu um músculo, provavelmente porque nenhum dos dois queria se despedir. E não era apenas do quarto, nem da vista linda de Roma, mas um do outro. Não queríamos dizer adeus para nós, para o hotel, para o que aconteceu nesses poucos dias, nem para o que poderia acontecer. Nós dois queríamos ficar, mas não podíamos.

— Então adeus — finalmente falei, sem quebrar o contato visual. Ele acenou e respondeu:
— Até logo — e se retirou. Eu suspirei alto, e também entrei no quarto.

Coloquei minha máscara e peguei minha mala, pois não restava mais nada que eu pudesse fazer. Antes de fechar a porta, dei uma boa olhada no quarto, me despedindo dos lençóis brancos que Olivia quase manchou com o vinho, e da pequena mesa redonda onde comi bons cafés da manhã e almoços deliciosos. Olhei para a varanda coberta pelas cortinas, onde tudo começou e agora, terminou. Por fim, fechei a porta atrás de mim e segui rumo aos elevadores.
Passei pela cozinha para me despedir dos meninos e pela recepção apenas para me despedir de Felipe, que parecia um pouco mais animado que nos outros dias.

— Você vai fazer falta, — ele disse enquanto me abraçava rapidamente.
— Vocês não vão se livrar de mim tão fácil, ok? Eu vou voltar em alguns meses, não vai nem dar tempo de sentir minha falta — respondi rindo, enquanto voltava para a frente da recepção.

Eu lhe entregava minha chave quando percebi alguém do meu lado. Harry estava com sua mala da Louis Vuitton, e a segurava tranquilo como se aquilo não custasse alguns bons meses do meu salário. Eu o encarei enquanto ele fazia o checkout, incapaz de desviar o olhar. Ele me olhou de volta, seus olhos como sempre entregavam o sorriso coberto pela máscara preta.

— Volte sempre, senhor Styles — disse Felipe com uma simpatia claramente forçada.
— Voltarei — ele respondeu, sem tirar os olhos de mim. Mas desviou para agradecer o recepcionista. — Obrigada, Felipe e… desculpa por qualquer coisa.

O garoto apenas assentiu, desviando o rosto para a tela do computador. Olhei para meu celular que indicava que o carro de aplicativo que eu pedi estava me esperando na porta. Harry ainda me olhava, me desafiando a dizer algo como na noite em que nos conhecemos. Mas fiquei em silêncio. Prolongar aquela despedida não ajudava em nada, só tornava tudo mais díficil.

— Ciao, Felipe — falei apressada, puxando desajeitadamente minha mala até a porta giratória do hotel.

O motorista me ajudou a colocar a mala no porta-malas enquanto eu entrava com pressa no veículo. Nunca senti tanta urgência em ir embora, mas se eu ficasse, não conseguiria resistir àqueles olhos verdes. Quando o motorista entrou, vi Harry sair pela mesma porta, seus olhos pareciam tristes quando me viu dentro do carro, prestes a partir. Eu acenei uma última vez antes de o carro seguir seu curto caminho até meu apartamento.



Continua...



Nota da autora:Oi, meus amores! Aaaah, o que acharam desse capítulo gracinha, fofinho, cheio de clima de despedida? Pois é isso mesmo, esse foi o penúltimo capítulo de 15 Days!!! Não sei vocês, mas eu já estou morrendo de saudades! ❤️ Beijinhos e até o próximo capítulo!




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