FFOBS - 1940, por Bianca Ferreira

Última atualização:08/01/2026

PRÓLOGO

Brooklyn, 1940.



Era uma tarde fria de janeiro e a neve que começava a cair baixava ainda mais a temperatura. A garota sentada no canto do bar afundou o rosto no cachecol e soltou o lápis para colocar suas luvas.


Ela poderia estar em casa, terminando os desenhos das roupas que sua chefe, aquela estilista francesa arrogante, havia pedido, mas seria impossível. O apartamento minúsculo que ela dividia com suas três amigas sempre estava um caos, até mesmo um bar era mais tranquilo para ela conseguir desenhar.


Ela voltou sua atenção para os desenhos, mas não demorou para ser interrompida quando um copo foi colocado sobre a mesa e alguém sentou ao seu lado.


Ela não estava com paciência para conversar e depois de ignorar tantos homens naquele lugar pensou que eles já haviam entendido o recado.


O rapaz limpou a garganta, esperando que aquilo chamasse sua atenção, mas ela permaneceu concentrada no desenho. Em algum momento ele perceberia que não valia a pena insistir.


— Não é educado ignorar os outros, sabia?


Aquela voz. Ela imediatamente soube a quem pertencia: James Buchanan Barnes.


E isso só lhe dava ainda mais motivos para ignorá-lo.


Barnes sempre estava ali nas sextas-feiras, os mesmo dias em que ela ia para concluir os trabalhos da semana. Ele passava a noite toda bebendo, dançando e sendo disputado por todas as garotas — com exceção dela, é claro. No fim da noite ele escolhia uma garota e saía com ela.


— Vai mesmo agir como se eu não estivesse aqui? — perguntou, fingindo um tom magoado.


— Estou ocupada — ela apontou para as folhas espalhadas sobre a mesa.


Bucky examinou os desenhos, balançando a cabeça em sinal de aprovação.


— Você é bem talentosa.


— Obrigada — ela agradeceu com uma voz doce — Agora, poderia me dar licença, por favor? — concluiu no tom mais ácido possível.


Aquilo não o afastou. Só fez Bucky se aproximar ainda mais.


— Qual o seu nome?


— Você ainda está aqui?


Ele sorriu, como se tivesse acabado de encontrar o jogo mais divertido para jogar.


— Eu sou Bucky Barnes. — ele estendeu a mão para ela.


Ao invés de estender a mão, ela estendeu o copo que ele havia colocado sobre a mesa.


— Todo mundo sabe quem é você, Barnes. Agora vá oferecer essa bebida a alguém que esteja interessada. — Ela apontou para o balcão, onde cinco garotas o observavam.


Elas acenaram, porém seus sorrisos desapareceram quando ele apenas rolou os olhos e se voltou para a mulher ao seu lado.


— Elas não fazem meu tipo — respondeu, empurrando a bebida novamente para ela.


— É mesmo? Porque nos dois meses que eu tenho frequentado esse lugar, você sempre sai com uma delas.


Um sorriso divertido se formou nos lábios dele.


— Quer dizer que você tem me observado, não é?


— Não foi isso que eu…


— Tudo bem, eu entendo — ele comentou sorrindo.


Ela fechou os olhos, inspirando fundo, Barnes já estava lhe dando nos nervos.


— E fazem três meses — ele disse, tomando um gole de sua própria bebida.


— O quê disse? — ela indagou.


— Final de outubro. Foi a primeira vez que eu te vi aqui. Era halloween e você usava um casaco laranja, da mesma cor das abóboras da decoração — ele riu, mas ela o encarou com uma expressão séria, indicando que ele só estava piorando a situação. — Você estava linda — Bucky afirmou, sério — Você estava desenhando. Esperei você terminar os desenhos e estava prestes a te chamar para dançar quando alguém fez isso primeiro. Você recusou, ele insistiu e então você deve ter dito alguma coisa cruel, porque quase fez ele chorar — ele riu — Foi por isso que eu não falei com você antes, mas… Eu precisava saber seu nome, e então hoje criei coragem.


Ela lembrava daquela noite.


Ela tinha o casaco laranja há anos, era o seu favorito e ela sempre o usava durante o outono, e ela lembrava de ter reparado que ele era da mesma cor das abóboras sobre o balcão quando entrou no bar pela primeira vez. Ela também lembrava de ter dispensado aquele rapaz, apesar de não lembrar ter sido tão rude, mas não tinha nenhuma lembrança de ver Bucky naquela noite.


Mas, ele a viu.


— Quer dizer que você tem me observado, não é?


Ela pegou o copo sobre a mesa e tomou um gole, olhando fundo nos olhos claros dele.


— O meu nome é .


Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

“Nos encontraremos novamente, não sei onde, nem quando.


Mas sei que nos encontraremos novamente em algum dia ensolarado.


Permaneça sorrindo até o fim, apenas como você sempre faz,


Até que os céus azuis levem as nuvens cinzas para longe”


We'll Meet Again, Vera Lynn



— Precisamos sair daqui, eles já estão chegando!


acordou com a voz autoritária de uma mulher, mas sabia que não falava com ela. Eles jamais a deixariam sair.


— E o que fazemos com ela? — o carcereiro perguntou.


levantou a cabeça para encará-los. Eles não conseguiam vê-la naquele canto escuro da cela, e muito menos perceber que ela estava acordada e os ouvindo.


— Quem é ela? — a mulher perguntou, impaciente.


Os gritos de dor e barulhos de objetos quebrando se tornavam mais altos. 


Eles estavam chegando.


— Eu não sei… Eu não consigo lembrar — o carcereiro murmurou com a voz trêmula.


— Não sabe? Ela está presa há mais de dois meses, como você…


— Eu não lembro… Ninguém consegue lembrar por que ela foi presa, nem quem ela é…


— Não lembram? — a mulher perguntou com descrença. — Então porque ela ainda está aqui?


— Dizem que ela é uma bruxa, que é ela quem nos faz esquecer — o carcereiro sussurrou. — Ela é perigosa.


Ele não estava errado, pensou.


— O que faremos com ela?


A mulher ponderou por alguns segundos, e então ordenou:


— Deixem-na aí, eles vão dar um jeito nela…


E aquele foi seu maior erro.



II


Wakanda, 2017



observava o sol se erguer no horizonte, seria outro dia quente como foram todos os outros naquela semana, e apesar de não gostar do calor, ela estava satisfeita. Finalmente estava livre.


Depois dos meses em cativeiro, sem poder ver a luz do sol, com os braços presos em uma camisa de força e os pés acorrentados, ela encontrou refúgio em Wakanda.


T’Challa afirmou que não a encontrariam ali, mas ela sabia que mais cedo ou mais tarde alguém viria atrás dela. E então, para evitar que mais inocentes morressem por culpa sua, ela teria que fugir, como já fizera tantas vezes. No entanto, nos dois meses que se passaram desde a sua chegada, nenhum incidente havia ocorrido.


A única pessoa com quem ela tinha contato era Alexis, que assim como ela havia sido resgatada do cativeiro. As duas estavam abrigadas em um prédio vazio distante do palácio.


Ela evitava ser vista, e tentava não sair do prédio, passava a maior parte do tempo na varanda, observando Wakanda como uma silenciosa espectadora. Talvez um dia, aquele fosse seu lar, mas no momento, era só outro refúgio.


, trouxe café da manhã! Alexis entrou no quarto carregando uma bandeja.


Apesar de haver apartamentos o suficiente para cinquenta pessoas, elas haviam decidido dividir o mesmo quarto. Nenhuma das duas conseguiria ficar sozinha.


— Não estou com fome.


 — Nervosa? — perguntou Alexis, deixando a bandeja sobre a cama e indo até a varanda.


concordou com um aceno de cabeça.


Quando a levaram para o cativeiro, Alexis já estava lá há semanas. Suas celas ficavam lado a lado e durante todo o período em que estiveram presas, foram a única companhia uma da outra.


Alexis a conhecia melhor do que qualquer um.


— Eu não sei se consigo ajudar ele — confessou — Eu conversei com o T’Challa e com o Steve ontem e a ideia deles faz sentido, mas… Eu só consigo manipular memórias, ele sofreu lavagem cerebral… — Ela não podia evitar a urgência em sua voz  — Me diga como eu vou conseguir apagar o que fizeram com ele?


Mas ela tinha uma dívida com T’Challa por tê-la resgatado do cativeiro, assim, quando ele pediu que ela ajudasse Bucky Barnes a se livrar do Soldado Invernal, ela foi incapaz de negar.


Um mês atrás, T’Challa veio até ela e contou sobre o homem que ele estava escondendo ali sob criogenia. Ele não disse que se tratava do Soldado Invernal, mas, contou sobre a lavagem cerebral, e como sabia que ela tinha a habilidade de manipular memórias, pensou que ela pudesse ajudá-lo. Segundo T'Challa, eles já haviam tentado tudo o que podiam no ano em que ele esteve ali, mas não encontraram nenhuma solução.


“Você é nossa última esperança, ”, foi o que ele disse.


E ela temia decepcioná-lo.


— Você sempre deu um jeito de resolver tudo — Alexis assegurou — Vai encontrar uma forma de ajudar ele.


suspirou.


Esperava que Alexis estivesse certa.



III


Trinta minutos haviam se passado. Meia hora ouvindo T’Challa, Steve e Bucky discutirem como se ela não estivesse ali, sentada no sofá a menos de dois metros deles.


O rei de Wakanda assegurava que ela conseguiria ajudar Bucky, mas, Barnes insistia que era perigoso e que poderia machucá-la, enquanto Steve tentava convencê-lo do contrário. Mas, nenhum deles havia se importado em dirigir a palavra diretamente a ela.


? — ela ficou de pé assim que ouviu T’Challa a chamar.


— Sim?


— Poderia explicar como seus poderes funcionam? — pediu, apontando para Bucky.


— Claro — ela se aproximou, buscando os olhos de Bucky Barnes, mas, ele insistia em desviar o olhar — Eu consigo manipular memórias. Sou capaz de trazer de volta memórias do passado que você esqueceu e posso apagar as memórias do que a Hydra fez com você.


 — Isso vai resolver? — ele perguntou, olhando diretamente para Steve Rogers.


  rolou os olhos. Por que ele não perguntava a ela? Pensou.


 — Vai? — Steve perguntou.


 Ela sentiu o olhar dos três sobre si.


 — Vai. — assegurou, mesmo que não tivesse tanta certeza.



IV



— Nós já nos conhecemos?


levou um susto quando Bucky falou.


Ele ficou em silêncio desde o momento em que ela entrou na sala. Ela havia até mesmo esquecido que ele estava ali.


Ela levou a mão ao peito, tentando normalizar sua respiração. Podia jurar que ouviu um risinho vindo dele.


— Eu acho que não — respondeu.


Os dois estavam no prédio onde ela estava hospedada. As paredes e grande parte dos móveis eram brancos. Cortinas vermelhas cobriam as janelas e uma capa com padrões coloridos estava sobre o sofá no qual Bucky estava.


Quatro Dora Milaje os vigiavam de cada um dos cantos.


— É estranho, eu sinto que já te conheço — ele insistiu.


— Bom, podemos descobrir se já nos conhecemos quando vasculharmos sua memória, está pronto? — perguntou, sentando em uma das cadeiras perto da janela.


E apesar de Bucky concordar, ele não parecia muito pronto. Na verdade, ele parecia cansado.


Seus cabelos compridos estavam presos e sua barba estava um pouco maior do que da última vez que ela o viu na criogenia algumas semanas antes. T’Challa havia a levado até lá, na expectativa de que ela conseguisse alterar as memórias dele enquanto ele ainda estava hibernando, mas, ela não conseguiu.


— Como isso vai funcionar? — Ele perguntou, sentando na cadeira em frente a .


— Memórias são complicadas, — ela explicou, mexendo no bracelete de contas coloridas em seu pulso — nossa mente as manipula o tempo todo para nos proteger. Por exemplo, se alguma coisa ruim acontece, nossa mente tende a modificar os fatos, apagar o que é tóxico para nós, mesmo que muitas vezes, apesar do trauma ficar, as memórias sobre aquilo são esquecidas, mas as que estão presas no teu subconsciente, são elas que determinam quem você é, e são elas que nós precisamos encontrar e manipular. — esclareceu — É nelas que o Soldado Invernal está se escondendo.


Bucky acenou em concordância, desviando o olhar dela e encarando o chão, como se tentasse absorver tudo o que ela havia falado.


— Só há um pequeno problema… — hesitou.


Os olhos claros dele imediatamente se voltaram para ela.


— Para filtrar as memórias, nós precisaremos reviver grande parte delas — tentou explicar, aquela parte era a mais difícil de todas.


— O que você quer dizer? — perguntou Bucky.


se ajeitou na cadeira.


— Bom, é parecido com o que acontece em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças…


A expressão de confusão ainda cobria o rosto dele.


— É um filme… — e então o óbvio a ocorreu — De 2004, é claro que você não sabe do que eu estou falando, eu sou uma idiota — murmurou, passando a mão pelo rosto, vendo um sorriso tímido surgir nos lábios dele.


— Bom, a maioria das memórias nós vamos ver de fora, como se estivéssemos assistindo à cena, mas, para manipular, nós vamos precisar repetir ela em sua mente, sentindo tudo o que você sentiu quando ela aconteceu e isso pode ser bem difícil…


— Espera — ele a interrompeu. — Você disse nós?


— Sim. — respondeu, sem entender a dúvida — Algum problema?


— Você sabe as coisas que eu fiz? Eu não posso permitir que você passe pelo mesmo que eu passei.


sentiu seu coração apertar. Ele iria reviver os piores momentos da sua vida e estava preocupado com ela?


— Eu entendo a preocupação, mas é uma decisão minha, Bucky. E acredite, eu já vi coisas bem ruins, posso lidar com isso. — assegurou, mas ele não pareceu mais confortável. — Já expliquei isso para o Steve, e ele concordou — mentiu, mas sabia que era a única forma de convencer Bucky.


— Tem certeza? Você vai ficar bem?


sorriu.


Em apenas alguns minutos de conversa ela já havia percebido que Bucky tinha um coração enorme. Ele não merecia tudo o que passou.


— Vamos ficar bem — assegurou ela.


E então, sem mais nenhum protesto, ela segurou a única mão dele, pedindo para que ele fechasse os olhos, e então envolveu o polegar de Bucky com seus dedos, exercendo uma leve pressão sobre ele.


Aquela era uma técnica de relaxamento que ela aprendeu enquanto tentava descobrir como controlar seus poderes. Consistia em pressionar, por um minuto, cada um dos dedos e o centro da mão. A técnica sempre funcionou com ela e esperava que funcionasse com Bucky também.


Emoções intensas acabavam confundindo as lembranças, e se ela tentasse acessar a mente dele quando as emoções estavam bagunçadas, uma enxurrada de memórias viria de uma só vez e ela não iria suportar.


Ao terminar, notou que a respiração de Bucky estava mais calma que no início.


— Pronto? — sussurrou.


Bucky abriu os olhos e balançou a cabeça, mas ela podia ver a hesitação em seu semblante.


— Vai ficar tudo bem — afirmou ela.


levou suas mãos até o rosto de Bucky, seus polegares tocaram as têmporas dele, seus olhos se fecharam e por um momento não houve nada, nada além de escuridão.


O silêncio assustador das memórias começou a se tornar sufocante.


sentia a ansiedade crescendo dentro de si. Suas vias respiratórias se estreitando, impedindo que o ar passasse normalmente. Seus batimentos cardíacos começaram a acelerar, se tornando tão descompassados quanto sua respiração. Ela sentia suas mãos tremendo, a adrenalina se espalhando por seu corpo e então ela entendeu.


Estava prestes a acontecer.


Ela sabia que uma onda de lembranças intensas viria a seguir, por isso se preparou para o impacto, tentou se concentrar para segurá-lo, mas quando veio, foi pior do que ela poderia imaginar.


Uma sequência de imagens invadiu sua mente, e uma onda de emoções intensas e dolorosas preencheram seu corpo.


Foi como se uma bomba tivesse explodido a centímetros de onde ela estava. Primeiro veio o clarão, então o estrondo alto. Um zumbido ecoou por seus ouvidos e uma dor excruciante dominou sua cabeça, como se seu crânio estivesse sendo pisoteado.


Um grito de dor ficou preso em sua garganta, mas o de Bucky não.


Ela o ouviu gritar. Um grito cheio de dor e desespero. Ela sabia que precisava dar um jeito naquilo, ela precisava se concentrar ou os dois sofreriam ainda mais.


tentou manter o foco, tentou encontrar uma trilha no meio daquelas lembranças bagunçadas, mas era difícil quando ela não sabia o que procurar.


“O que o Steve disse? O que o Steve disse?”, ela repetia mentalmente, tentando lembrar-se de qualquer momento que ele houvesse mencionado, tentando buscar alguma informação para norteá-la naquela bagunça, mas, já era tarde demais.


As lembranças acumuladas de 100 anos a atingiram de uma só vez.


Foi como levar uma facada, e então outra e outra.


Cada lembrança era como uma pontada de dor. Sua cabeça, seus braços, seu tórax, seu corpo inteiro doía, mas a dor física não era nada quando comparada com a dor emocional.


Ela queria chorar, queria gritar com todas as suas forças para que aquela tristeza, aquela raiva e aquela mágoa fossem embora. Ela nunca havia sentido tanto sofrimento e tanto desespero nas memórias de alguém. Era difícil imaginar como ele aguentava viver daquele jeito.


Prendendo a respiração, tentou se concentrar e orientar aquelas memórias, mas, era em vão. Então tentou se desconectar, mas era impossível, suas forças estavam sendo sugadas. A dor estava indo embora, mas um formigamento dominava seu corpo. Seus membros estavam amortecendo, e por alguns instantes, ela teve a sensação de que iria desmaiar. O que não parecia tão ruim. só queria que tudo se tornasse escuro, que ela ficasse inconsciente, contanto que aquela dor acabasse.


Foi quando um grito agudo a trouxe de volta, mas não era Bucky gritando. A voz desesperada saía de sua própria garganta. E com o resquício de forças que ainda tinha, ela conseguiu afastar suas mãos de Bucky, e então as lembranças e a dor foram embora.


Sua respiração estava descompassada, suas mãos estavam trêmulas e seus músculos começavam a doer, como se ela tivesse feito um grande esforço físico. Ela abriu os olhos devagar, e quando se acostumou com a claridade, foram diretamente ao encontro dos olhos marejados de Bucky. Ele estava cercado pelas Dora Milaje.


fez sinal para que elas se afastassem, disse que estava tudo bem, mesmo que não estivesse.


— Eu sabia que isso ia acontecer. — a voz dele estava embargada, fraca.


Sua respiração pesada indicava que ele estava tão exausto quanto ela.


No entanto, somente quando ele tocou o rosto de e enxugou suas lágrimas, ela notou que também estava chorando.


Bucky levantou sem dizer mais nada e quando estava prestes a se afastar, segurou seu pulso.


— Eu sinto muito, eu me distraí… — ela justificou, juntando todas as forças que ainda tinha — Podemos tentar amanhã de novo — pediu com a voz trêmula, já imaginando qual seria a resposta dele.


Bucky suspirou.


— Eu agradeço por você querer me ajudar, mas… — ele balançou a cabeça em negação — Você não precisa passar por isso, é melhor eu voltar a hibernar até…


— Por favor, me dê só mais uma chance — o interrompeu — É tudo o que eu estou pedindo, Barnes.


Os olhos de Bucky se arregalaram, como se de repente ele houvesse lembrado, e uma sensação estranha preencheu , aquela sensação de saber alguma coisa, mas, ser incapaz de lembrar-se dela.


Ela tinha certeza de que havia encontrado uma lembrança crucial naquelas memórias bagunçadas, algo que poderia ser vital para livrá-lo do Soldado Invernal.


— Você sentiu isso, não sentiu? — perguntou , ainda tentando forçar sua mente a lembrar-se o que era — Tem alguma coisa importante que você precisa lembrar e eu posso te ajudar…


— É perigoso — insistiu ele.


— Eu posso encontrar outro jeito — a voz de já estava desesperada — Só mais amanhã, se eu falhar nós desistimos e você volta para a criogenia sem nenhum protesto meu.


Bucky desviou o olhar dela, observando a janela escondida pelas cortinas vermelhas, ponderando suas opções.


— Tudo bem — concluiu ele — Temos um acordo. Só mais amanhã, se não der certo, nós desistimos.


sorriu, tentando passar alguma confiança, mesmo que achasse que ele tinha razão e que a segunda vez não seria diferente.



Obedientes Sonhos dos Quais Podemos Acordar e Chorar

“Eu conheço bem aquela melodia,


É engraçado como recorda meu sonho favorito.


Um sonho que trouxe você tão perto de mim,


Eu conheço cada palavra porque eu ouvi aquela canção antes.


Por favor, peça para tocarem novamente


E eu irei lembrar quando eu ouvi aquela adorável canção antes”


I've Heard That Song Before, Harry James and His Orchestra



Os braços dele estavam presos, e não importava o quanto ele tentasse se mover ou se soltar, nada adiantava. Ele não conseguia ver nada, sua visão estava embaçada, mas ele enxergava aqueles vultos, a silhueta das pessoas usando branco naquele cômodo escuro. Hora ou outra alguém se aproximava, lhe perguntava alguma coisa, mas ele estava confuso demais para responder, e continuava repetindo a mesma frase incessantemente.


Eles não estavam contentes com isso.


Ele estava sonolento, sentia-se fraco, porém, todos os seus sentidos se aguçaram quando ele sentiu alguma coisa ser colocada em torno de sua cabeça. Ele voltou a se debater e a gritar, sabia que aquilo iria machucar, mas antes que pudesse entender o que estava acontecendo, seu cérebro explodiu.


Pelo menos, a sensação se pareceu com isso.


Parecia que duas garras estavam dentro de sua cabeça, apertando e torcendo seu cérebro. Uma dor aguda pressionava seus glóbulos oculares, parecendo ser capaz de esmagá-los, forçando-o a fechar os olhos. A dor agoniante se intensificou, como se uma coroa de ferro pressionasse todos os ossos de seu crânio, quebrando-os um a um.


Uma corrente elétrica percorreu sua cabeça, a sensação era a de agulhas quentes a perfurando, e logo todas aquelas dores ficaram para trás, porque uma nova e mais intensa passava a tomar conta. Ele sentiu o gosto ferroso de sangue tocar sua boca, um zumbido ecoou por seu ouvido, seguido da dor mais angustiante que ele já experimentou em toda a sua vida, não demorou para sentir o sangue quente escorrendo por seu ouvido.


E então tudo começou a ir embora.



II


Quando acordou, suas mãos estavam em torno de sua cabeça, lágrimas corriam por seu rosto e os resquícios daquela dor intensa ainda estavam por ali. Mas, conforme ela respirava, conforme observava o ambiente ao seu redor e percebia onde estava, a dor ia se dissipando.


A cama do outro lado do cômodo estava vazia. Alexis não estava ali e agradeceu por isso. Não queria que a amiga ouvisse seus gritos, porque não queria explicar o que eles significavam, e sabia bem o que era aquilo.


Não era um sonho, era uma memória.


Não uma memória dela, a frase que ela ouviu ser repetida tantas vezes deixava bem claro a quem aquela lembrança pertencia.


— Sargento James Barnes, 107ª Infantaria… repetiu em um sussurro.


Ela havia acabado de ver a primeira vez em que tentaram quebrá-lo.



III


— Como foi ontem? — Alexis perguntou enquanto entrava na cozinha.


ponderou o quanto deveria contar, enquanto enchia um copo com suco de laranja.


— Foi mais complicado do que eu esperava — confessou — Ele… — as imagens da memória que surgiu enquanto ela dormia preencheram sua mente — Ele passou por muitas coisas terríveis. As memórias dele são uma bagunça, e as emoções também. Não sei se consigo controlar. Queria que eles estivessem aqui, poderíamos lidar melhor com isso juntos.


— Não! — Alexis a repreendeu, batendo na mesa, sua voz se tornando autoritária — , prometemos não falar sobre isso.


— Qual é, Alexis. Não é como se falar sobre eles fosse mau agouro.


— Você sabe melhor do que ninguém porque não falamos deles.


Ela desviou o olhar, para Alexis era fácil falar aquilo. Sempre foi mais difícil para .


— Nós não falamos sobre eles desde o cativeiro e tem funcionado. Vamos continuar assim. — Alexis insistiu.


concordou, sabia que não adiantava discutir. Alexis tinha seus motivos, e ela era a última pessoa que tinha o direito de contrariá-la.


Ela observou o pedaço de torta intocado à sua frente e tomou o que ainda restava de suco no copo, decidindo deixar a torta para mais tarde. De repente, havia perdido a fome.



IV


Aquele era outro dia quente, mas a brisa ajudava a diminuir o calor. prendeu seus cabelos em um rabo de cavalo e seguiu até o terraço do prédio, onde havia um enorme jardim, esperando que um pouco de ar fresco clareasse sua mente e ela encontrasse uma maneira de ajudar Bucky.


E como que por destino, ela o encontrou lá. sabia que ele também havia se mudado para o prédio, mas não esperava vê-lo fora do quarto tão cedo.


No fundo, ela ainda não se sentia pronta para ver ele.


Bucky estava apoiado na borda de proteção. Não vestia mais a camiseta e a calça branca do dia anterior, agora usava uma túnica azul, parecida com a que vira alguns homens em Wakanda usarem.


Ele parecia imerso em seus pensamentos, e ela se perguntou o que estaria passando por sua cabeça naquele momento, apesar de certa forma, já saber.


— Barnes — ela chamou ao se aproximar dele.


Bucky se virou rapidamente, assustado.


— Me cobrei pelo susto de ontem, não é?


Ele sorriu, e aquilo foi o suficiente para ela.


— Você pode me chamar de Bucky, sabia? — disse ele em tom brincalhão.


Ela deu os ombros.


— Eu gosto de chamar as pessoas pelo sobrenome — confessou — Eu sei que é estranho.


— Bem estranho, Levesque — retrucou ele.


fez uma careta.


— Não… É estranho quando me chamam pelo meu sobrenome, só está ótimo.


— Só Bucky está ótimo — rebateu ele.


sorriu e ele sorriu de volta para ela.


Bom, dois sorrisos em menos de cinco minutos… Aquele deveria ser um bom sinal.


Mas, tão rápido quanto surgiu, o sorriso desapareceu, e logo aquela expressão, um misto de tristeza e decepção voltou a tomar conta do rosto dele.


— Eu sinto muito por ontem — pediu, desviando o olhar dela e voltando a encarar as ruas lá embaixo.


— Não foi culpa sua, Bucky, eu me distraí — admitiu ela.


O que quer que tenha sido, — ela era incapaz de conseguir lembrar — havia tomado sua atenção, fazendo-a perder o controle.


— Não devíamos tentar de novo, não vai ser diferente.


— Vai — assegurou, confiante.


Os olhos dele encontraram os dela, como se avaliassem se ela estava mentindo.


— Noite passada — começou ela — Eu filtrei e organizei algumas das memórias que eu absorvi de você e, acredito que se trabalharmos em cima delas primeiro, eu vou conseguir manipular as memórias mais profundas também.


— E se acontecer de novo? — perguntou preocupado.


— Eu desisto, como prometi — respondeu — E você volta a hibernar até encontrarem uma alternativa.


Ele não respondeu. Desviou o olhar, dessa vez observando as pequenas flores coloridas que cresciam sobre a coluna de proteção.


Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos. ponderou se era hora de falar sobre o assunto que a estava perturbando, mas no fundo, sabia que não haveria momento certo para aquela conversa. No fim das contas, para que ele conseguisse encontrar motivação outra vez, ela precisava mostrar aquilo.


— Posso te mostrar uma lembrança? — pediu.


Bucky a encarou em silêncio por alguns segundos, e quando ela já achava que ele iria negar, ele balançou a cabeça concordando. Eles ficaram de frente um para o outro, e então estendeu sua mão em direção ao rosto de Bucky. Quando seus dedos tocaram a pele dele, seus olhos se fecharam, e ela o guiou para a memória que queria mostrar.


Aquela memória não tinha mais que cinco segundos. Eram imagens que poderiam parecer desconexas, mas que contavam uma história que ele não deveria esquecer.


A lembrança mostrava um Bucky e um Steve bem mais jovens, na adolescência, em um bairro de Manhattan.


Quando ela afastou suas mãos e abriu os olhos, Bucky sorriu. Não aquele sorriso que ela havia visto até então, era um sorriso sincero.


— Ele é importante pra você, não é?


— Ele é tudo o que eu tenho.


sorriu, mas sua alegria foi embora no instante em que lembrou o que estava prestes a fazer.


A outra memória que ela havia recuperado não era boa. Iria destruir toda a felicidade que ele estava sentindo naquele momento e ela se odiava por ter que fazer isso, mas era necessário.


— Bucky, eu… — ela tentou escolher as melhores palavras, como se pudesse diminuir o peso daquela lembrança com isso — Eu recuperei algumas memórias do que… — ela suspirou, tomando coragem para falar tudo de uma vez — Do que aconteceu em Washington, depois que você salvou o Steve do Rio Potomac — ela encarou os olhos dele, vendo a tristeza os encobrir como uma sombra, seu sorriso diminuiu. Ele sabia onde ela iria chegar — Eu sei o que você pensou — disse ela por fim — Eu sei o que você queria fazer.


Ele ficou sério, e ela pôde ver um tom rubro surgindo em seus olhos, junto com o brilho que indicava que lágrimas estavam prestes a cair. Seu olhar deixava claro que ele não se orgulhava daquela decisão.


A palavra que ela não ousaria dizer em voz alta. Sabia que aquilo ainda o machucava.


segurou a mão dele.


— Eu sei que naquele momento parecia a melhor decisão — tentou confortá-lo.


Bucky desviou o olhar como se sentisse vergonha por ela saber. depositou um carinho em sua mão, deixando claro que estava ali por ele e que não o julgava — Você não tinha nenhuma lembrança, não tinha ninguém. Sabia o que o Soldado Invernal tinha feito e que ele ainda estava lá, escondido dentro de você. Você achou que não viver, resolveria tudo, mas não foi até o fim. E por um único motivo…


— Steve — completou Bucky, voltando seu olhar para .


— Por causa dele você foi em frente. Foi até o museu descobrir quem você era de verdade, para tentar recuperar suas memórias. E eu preciso que você encontre essa força de novo — pediu — Nós podemos destruir o Soldado Invernal. Só temos que encontrar algo que canalize tudo o que você está sentindo, e tudo o que você passou. Se você tiver foco, eu consigo fazer meu trabalho. — assegurou — Bucky, a Hydra tinha dez palavras para te transformar no Soldado Invernal e… — ela tentou sorrir — Por ironia, o Steve precisou de dez palavras para te trazer de volta.


— Porque eu estou com você até o final da linha — completou ele, a sombra em seus olhos desaparecendo.



V


— Se concentre. Lembre-se do que eu falei: Foco. — pediu .


Eles estavam sentados de frente um para o outro, como no dia anterior. segurava a mão dele entre as suas.


— Pronto? — perguntou, sem ter certeza se ela mesma estava.


— Pronto.


Ela levou suas mãos até a cabeça dele, fechou os olhos e se preparou para outra torrente de memórias. E elas vieram aos montes, mas dessa vez ela já sabia o que esperar. Estava preparada, por isso soube lidar com mais calma.


Era como estar em uma galeria de arte, haviam quadros por todos os lados, cada um com uma lembrança, mas ao invés de escolher, se permitiu levar, e acabou chegando a uma memória antiga.


— Onde estamos? — perguntou a Bucky.


— Eu não sei — respondeu ele.


A memória mostrava um rapaz em um bar. Pelo espelho atrás do balcão, era possível ver que ele tinha cabelos curtos e usava roupas típicas da década de 40, várias garotas estavam ao seu  redor, mas ele não dava atenção a nenhuma delas.


— Eu reconheço esse lugar — Bucky comentou — É um bar que ficava perto de onde eu morava, eu costumava vir aqui toda semana.


— Já é um começo, mas estamos nessa lembrança porque alguma coisa importante aconteceu aqui. Consegue se lembrar o quê?


Bucky pensou por alguns segundos.


— Eu não consigo lembrar — disse por fim.


— Tudo bem, vamos por partes. Me diga o que está acontecendo ao teu redor? Tem alguém conversando? Tem música?


— Tem música — Bucky concordou — Não tem muita conversa, só essas garotas que não ficam quietas — ele falou impaciente — Se elas parassem de falar eu reconheceria a música.


— O que elas estão dizendo? — perguntou .


— Eu não sei, eu não estou prestando atenção.


— Você está prestando atenção no que então? — insistiu.


Ele voltou a ficar em silêncio, mas então algo lhe ocorreu.


— Na garota na mesa perto da janela.


— Certo. Quem é ela? — questionou .


— Eu não sei, eu não consigo ver o rosto dela direito, está embaçado — reclamou ele.


— Isso é normal, nossas lembranças não costumam guardar detalhes, ainda mais quando são tão antigas assim, mas, geralmente conseguimos deduzir quem é a pessoa. Você tem um palpite?


— Eu não sei — Bucky repetiu — Eu sinto que conheço ela, que já a vi antes, mas não consigo lembrar.


— Preste atenção nos detalhes, o que tem sobre a mesa onde ela está?


— Papéis — respondeu ele sem hesitar — São desenhos, ela desenhava.


— O que ela está desenhando, Barnes?


Barnes.


Naquele momento foi como se o tempo parasse para os dois. Por um segundo nada aconteceu, a sensação de que se está prestes a lembrar de algo que estava óbvio desde o início tomou conta deles.


 No entanto, a chuva de lembranças veio de uma vez só:


“Não é educado ignorar os outros, sabia?”


“Estou ocupada”


“Você é bem talentosa”


"Agora, poderia me dar licença, por favor?"


“Eu sou Bucky Barnes.”


“Todo mundo sabe quem é você, Barnes.”


Barnes.


“Eu gosto de chamar as pessoas pelo sobrenome. Eu sei que é estranho.”


Não podia ser.


“O meu nome é .”


Era impossível. Mas como poderia, se não estava mais acompanhando a memória pelos olhos de Bucky? Como ela poderia ver tudo através da garota? Por que ela estava vendo aquela lembrança como se fosse sua?


E se fosse?


afastou as mãos de Bucky e então eles estavam de volta à sala em Wakanda. Seus olhares se encontraram. A surpresa, a confusão e o pavor se mesclando em suas expressões.


— Como isso é possível? — sussurrou ela.


— Você mentiu — Bucky acusou — A tua história parece ser muito interessante.



Cada Prece é Aceita

“Novamente,
Isto não pode acontecer novamente,
Isso é uma vez na vida
Esta é a emoção divina.
O importante querido é que isso não aconteça novamente,
Nós vamos ter este momento para sempre
Mas nunca, nunca mais”
Again, Doris Day


— Isso é impossível — murmurou , mais para si mesma do que para Bucky, que permanecia na cadeira enquanto ela andava de um lado para o outro.


— Não, não é. Você viu, era você, eu tenho certeza.


— Bucky, como poderia ser eu? — indagou ela impaciente — Eu tenho certeza de que nasci em 1991.


— Mas, era você! — insistiu Bucky — Ela era igual a você, o rosto, o cabelo, a maneira de falar.


— Eu não sei o que aconteceu, Bucky, mas isso não está certo, não tem como ser real. Você tem outras memórias com ela?


— Isso é que é estranho, antes eu não lembrava de nada, mas agora as lembranças com ela estão vindo à tona como se sempre estivessem lá.


inspirou fundo, tentando se acalmar para encontrar uma explicação lógica.


— O nome dela era também. Qual a chance de isso ser só coincidência? — respondeu Bucky.


Ela fechou os olhos, como se houvesse levado um soco no estômago.


— Isso é impossível — sussurrou outra vez — Você lembra o sobrenome dela? — indagou voltando a fitar Bucky.


— Brandon.


— Está vendo? é um nome bem comum, qualquer garota nos anos 40 poderia se chamar , não é? — perguntou otimista.


Bucky a encarou com a sobrancelha levantada. “Você acredita nisso?” era o que aquele olhar queria dizer.


— Eu sei, não pode ser só coincidência — admitiu — O que mais você lembra dela?


— Não muita coisa — respondeu Bucky — As memórias estão voltando, mas, devagar. O que eu consigo lembrar é que ela trabalhava com uma estilista francesa que ela odiava, ela desenhava, gostava de dançar e… — ele hesitou.


— E o quê, Barnes? — insistiu sentindo o pânico que ela estava tentando dominar crescer dentro de si.


Bucky suspirou, fazendo uma careta como se aquela informação não importasse.


— Era minha namorada. — concluiu por fim.


franziu as sobrancelhas.


— Você só pode estar brincando — falou pausadamente.


Bucky deu os ombros como se não tivesse culpa sobre aquilo.


— Mas, isso prova algumas coisas — concluiu — Eu nunca tive interesse por moda, desenho muito mal, não sei dançar e…


— Não seria minha namorada? — provocou Bucky.


rolou os olhos.


— Eu e ela somos bem diferentes.


— Para de dizer “ela” — pediu Bucky já impaciente — É você , eu não sei como isso é possível, mas, aquela garota é você. É por isso que eu sempre senti que te conhecia de algum lugar…


A cabeça de girou, de repente era como se o chão não estivesse sob seus pés. Tinha que haver uma explicação lógica, mas as únicas pessoas que podiam lhe dar explicações eram seus pais, mas a essa altura, eles já deviam achar que ela estava morta.



II


Naquela tarde, decidiu fazer algo que não fazia há muito tempo: vasculhar suas próprias memórias. Se possível, de uma época em que ela nem deveria existir.


sentou na varanda do quarto com as pernas cruzadas, fechou os olhos e começou a pressionar os pontos em sua mão, respirando fundo, tentando se acalmar.


Meditar ajudava a limpar as memórias que ela havia absorvido naquele dia para que elas não a afetassem. Não era como eliminar as lembranças, afinal, uma vez absorvida, a memória ficava pra sempre com ela, mas, conseguia guardá-las. Ela as armazenava em seu subconsciente, escondida o bastante para não causar problemas, mas, à vista o suficiente para que ela pudesse acessar outra vez caso precisasse.


Quando não fazia essa limpeza, as lembranças ficavam livres em sua mente, aparecendo em seus sonhos, como o que havia acontecido com as memórias de Bucky. Mas, ela não tinha planos de armazenar as lembranças dele ainda, não importava quão difíceis elas fossem. Ela poderia ver em seus sonhos algo que não viu quando visitou a memória, e aquela poderia ser a chave para conseguir ajudá-lo.


As mãos de seguiram até sua própria cabeça, ela começou a lembrar da memória que recuperou de Bucky, da cena do bar. Da garota desenhando. E então uma lembrança veio:


— Você tem um encontro? — uma voz doce que não conhecia perguntou.


Ela não lembrava daquela memória, sequer lembrava daquele lugar ou daquelas pessoas. Mas, era ela. Era o seu reflexo no espelho, com o cabelo mais curto, usando um vestido rosa claro de ombros arredondados, a cintura marcada e saia reta. Algo que ela jamais imaginaria usar. As pontas de seus cabelos estavam cacheadas, uma franja ondulada caía sobre o lado esquerdo de seu rosto enquanto a lateral direita estava presa com grampos. Não havia muita maquiagem em seu rosto, somente um batom vermelho destacando seus lábios.


— Não é um encontro — ouviu seu eu do passado dizer.


Mas, as garotas ao seu redor não estavam muito convencidas.


Elas eram três, duas loiras e uma ruiva, e estavam amontoadas em cima da cama polindo suas unhas, enquanto tentavam tirar alguma informação de .


— Você está vestida como se fosse um encontro — a ruiva provocou.


rolou os olhos.


— Eu trabalho com uma estilista, preciso me vestir bem — rebateu.


— Não minta para nós — uma das loiras pediu.


, nós já sabemos que é um encontro, só nos conte com quem você vai sair — pediu a outra.


— Ela nunca sai com ninguém, ele deve ser o príncipe encantado para ter convencido ela — a ruiva sussurrou para as outras.


bufou, sabia que suas amigas não a deixariam em paz se não contasse.


— Tudo bem — disse ela, se virando para as amigas — Vocês estão certas, é um encontro.


— E quem é ele? — perguntaram elas ansiosas.


— Bucky Barnes — respondeu a antiga , como se não fosse nada de mais, se voltando novamente para o espelho.


As outras três ficaram em silêncio, como se estivessem em choque, até que uma das garotas loiras resolveu falar.


— Eu não acredito que você vai sair com o solteiro mais cobiçado e não nos contou.


— Que exagero — disse rolando os olhos outra vez.


— Qualquer uma morreria para sair com o Bucky, e você conseguiu e não nos contou nada — a ruiva protestou — Que tipo de amiga você é?


bufou.


— É só um encontro, nada de mais. O Barnes não é o tipo de homem para mim.


afastou as mãos de sua cabeça e se obrigou a sair daquele transe. Não poderia ser possível, não havia explicação alguma para aquilo ser real, mas, a lembrança recuperada deixava bem claro o oposto disso.


No fim das contas, Bucky tinha razão. A garota de 1940 era ela.



III

Era o entardecer daquele dia confuso e como sempre fazia quando as coisas se tornavam difíceis demais de suportar, seguiu até o jardim no terraço, e não foi nenhuma surpresa encontrar Bucky lá.


O sol estava se pondo, e por alguns minutos os dois somente observaram os últimos raios laranja desaparecendo no horizonte.


— Você tinha razão — admitiu ela, por fim.


Bucky a olhou com curiosidade.


— Sobre eu ser a garota da tua memória — explicou . — Eu consegui recuperar uma lembrança daquela época, mas, você não está nela, então, não tem como ser sua.


— Sobre o que era a memória? — perguntou Bucky.


sorriu, lembrando-se da cena, de repente aquilo tudo parecia tão real.


— Ela estava… — corrigiu — Eu estava me arrumando. Nós tínhamos um encontro. Minhas amigas insistiam que eu tinha muita sorte em ter conseguido um encontro com você.


Bucky sorriu.


— Eu falei com o Steve, perguntei se ele lembrava de você ou de uma garota com quem eu estava antes de ir para a guerra.


— E o que ele disse?


— Ele não se lembra de ninguém, mas, teve a mesma sensação que já te conhecia.


— Isso é muito estranho — sussurrou — Mas, esse não é o nosso foco, precisamos focar nas memórias da Hydra.


— E você acha que eu vou conseguir focar na Hydra quando tem algo tão estranho quanto isso acontecendo? — indagou ele.


— Não é uma opção, Bucky. Me pediram para tirar o Soldado Invernal de você e é o que eu vou fazer.


— Mas, e as nossas memórias? — perguntou ele, a mágoa em sua voz aparente.


E só então ela percebeu o quanto aquilo deveria significar para ele.


Tudo o que restava do seu passado era Steve, mas agora havia ela. E mesmo que para não passassem de memórias, ele ainda tinha sentimentos. Os sentimentos eram os mais difíceis de apagar, eles raramente iam embora, eles poderiam ficar adormecidos por um tempo, mas quando voltavam, era como se nunca tivesse deixado de estar ali.


se virou para Bucky, levou sua mão até o rosto dele. Ele fechou os olhos e colocou sua mão sobre a dela. E só então, ela percebeu o que estava prestes a fazer. Era aquilo que ela fazia sempre quando magoava alguém, sempre que dizia as coisas erradas: ela iria apagar a memória dele, apagar todas as lembranças que havia daquele seu “eu” do passado. Seria mais fácil para os dois, mas não era justo. Bucky já havia perdido tanto, que parecia um ato de crueldade tirar ainda mais dele.


sabia como aquilo terminaria, sabia que no final, para a segurança dele mesmo, ela teria que tomar as lembranças dele onde ela estava presente, ela precisaria se apagar da memória dele.


E aquilo seria difícil, mas era necessário.


No entanto, por hora, ela se proibiu de pensar naquilo. Ela somente aproveitaria o momento e permitiria que ele aproveitasse também.


No final, pelo menos, ela ficaria com as boas lembranças.


Cada Desejo Atendido

“Os dias tristes acabaram,
Os tempos de depressão se foram.
Cada esperança que eu ansiava há muito tempo, se tornou realidade.
Há muito tempo e muito longe,
Eu sonhei um sonho um dia
E agora esse sonho está aqui ao meu lado.”
Long ago and Far away, Jerome Kern

“Missão”, aquela era a única palavra que passava pela cabeça de , sendo repetida naquele mesmo tom de voz conhecido por ela.


E ela sabia que estava sonhando com outra memória de Bucky.


A sua visão estava turva, como se ela estivesse vendo a cena passar na janela de um trem. Sua cabeça doía e ela se sentia enjoada, como se fosse desmaiar a qualquer segundo, e aquilo indicava uma coisa: Ela estava em uma memória que não era fácil de lidar.


“Missão. Missão. Missão.”


Aquela palavra continuava se repetindo, como um lembrete, claro como sentir o cano frio de uma arma tocando sua nuca. Ela não conseguia ignorar aquelas palavras, Bucky não conseguiu ignorá-las.


“Missão”.


A voz gritou quando o carro se aproximou, perdendo o controle e indo em direção à árvore fora da estrada.


A consciência de Bucky se desligava aos poucos, ela podia perceber isso, pois a cada segundo a lembrança se tornava mais embaçada. Agora ele estava no modo automático, o Soldado Invernal era quem estava no controle.


“Missão”.


A voz repetiu quando ele desceu da moto.


Ele não tinha mais controle sobre o que iria fazer. Ele estava lutando, tentando parar, não queria ir até o fim, sabia o que viria em seguida, sabia o que o Soldado iria fazer, mas, era impossível assumir o controle quando o monstro dentro de si havia tomado as rédeas da situação e decidido. Nada mais importava além de cumprir a missão.


“Missão”.


Mesmo que tentasse lutar ele continuou caminhando em direção ao carro.


“Missão”.


E então sentiu a arma ilusória em sua cabeça… A arma ilusória na cabeça de Bucky, disparar.


O gatilho final sendo puxado para o Soldado assumir o comando.


A raiva o dominou, o ódio, a sede pela vida dos ocupantes daquele carro… Aquilo era tudo o que importava.


Mas, Bucky ainda estava lá. Preso, acorrentado dentro de sua própria cabeça, gritando para que o Soldado parasse, tentando assumir o controle, mas, já era tarde demais.


Ele só podia assistir, só podia ficar parado vendo o Soldado abrir a porta do carro e puxar o motorista para fora.


“Não!”


Ela ouviu Bucky gritar, mas o Soldado Invernal gritava mais alto.


“Missão”, aquela era a única palavra que importava.


Bucky continuou gritando, tentando tomar o controle outra vez, tentando parar suas próprias mãos, mas, era impossível.


Ele socou o rosto do homem uma vez, e então outra, e outra.


Bucky queria parar, ele gritava dentro de si para que o Soldado parasse, mas, não adiantava, ele estava preso lá dentro e não havia nada que pudesse fazer.


— Socorro… — o homem tentou falar —Minha esposa… Ajude minha esposa.


Mas, o Soldado ignorou suas palavras, puxando-o pelo cabelo, encarando seu rosto coberto por sangue.


E então o reconheceu.


Era Howard Stark, de alguma forma sabia que era ele e isso só tornou tudo pior.


— …Sargento Barnes? — foram suas últimas palavras, antes de seu crânio ser esmagado.


A voz desesperada da mãe de Tony Stark chamando pelo nome do marido foi a última coisa que ouviu antes da memória se apagar.


Ela acordou em pânico. As batidas de seu coração aceleradas, lágrimas se acumulando em seus olhos, soluços presos em sua garganta.


E então ela olhou suas mãos, procurando vestígios de sangue, mas, não havia nada ali. É claro que não havia, era só outra memória, outra lembrança em forma de pesadelo e aquilo a estava destruindo.


Duas semanas se passaram desde que ela começou a ajudar Bucky e apesar da melhora dele, as coisas estavam cada vez piores para ela.


Nos últimos dias ela estava tendo insônia, se é que se podia chamar de insônia.


Ela sentia-se exausta, seu corpo implorava por uma boa noite de sono, mas era impossível fechar os olhos. Ela tinha consciência do que viria quando dormisse, as memórias do que o Soldado Invernal havia feito a perturbavam mais que tudo. Mas, quando o cansaço vencia e ela conseguia dormir, aqueles pesadelos apareciam.


Primeiro vieram as torturas da Hydra. Cada vez que ela fechava os olhos a imagem daqueles cientistas aparecia, sempre acompanhada de uma dor de cabeça insuportável.


Depois vieram as missões do Soldado Invernal. Uma a uma elas se repetiam em sua cabeça. A missão que tirava seu sono naquela noite era a que ceifara a vida de Howard Stark e sua esposa. Aquela já era a terceira vez que acordava naquela noite, e ainda não eram nem 2 horas da madrugada.


acendeu o abajur ao seu lado e procurou pelo caderno e a caneta na mesa ao lado da cama, descrevendo o pesadelo, adicionando mais uma folha a tantas outras com as memórias mais dolorosas de Bucky. E por mais difícil que fosse colocar no papel as memórias que assombravam seu sono, aquilo pelo menos ajudava a aliviar um pouco sua mente.


se questionava como Bucky havia conseguido conviver com aquilo por tanto tempo, ela estava com aquelas memórias há poucos dias e já estava destruída.


Ela não conseguia imaginar como era para Bucky carregar aquilo por todos esses anos, viver com aqueles fantasmas em sua mente, mas, aquilo a motivava a tirar aquelas memórias da cabeça dele logo. Ela queria que ele pudesse se livrar da culpa que carregava pelos atos do Soldado Invernal, ela só queria que ele tivesse uma boa noite de sono, porque com aquelas lembranças, ela sabia que ele não dormia bem há muito tempo.



II

estava quase cochilando no sofá quando o barulho da porta sendo aberta a trouxe de volta.


— Bom dia — cumprimentou Bucky enquanto entrava na sala onde ela o esperava para uma nova sessão.


— Bom dia — respondeu bocejando.


— Vejo que não dormiu bem — comentou ele.


— Eu dormi bem sim, isso é só meu corpo sendo preguiçoso — mentiu, não queria que ele tivesse mais um motivo para se culpar.


— Se quiser podemos adiar a sessão, você parece bem cansada.


— Eu estou tão horrível assim? — indagou em um tom divertido — Nós finalmente estamos fazendo progresso, não vamos parar por causa de uma bobagem.


Ela indicou o espaço vazio no sofá ao seu lado para ele.


— Tem certeza de que está bem? — perguntou Bucky, sentando ao lado dela.


— Tenho — ela mentiu.



III

— Onde estamos? — perguntou ela, assim que acessou uma lembrança de Bucky.


— É a fábrica principal da Hydra, foi aqui que eles nos prenderam depois de nos capturarem durante a guerra — explicou, sua voz trêmula.


E entendia o porquê.


— Foi aqui… — começou ela, sua voz hesitante.


— Foi — ele não permitiu que ela terminasse a frase, foi ali que as torturas começaram.

Na memória, Bucky estava deitado sobre uma maca, seus olhos custavam a se manter abertos, mas ele continuava repetindo a mesma frase que ela já ouvira tantas vezes em seus pesadelos: James Barnes, 107ª Infantaria.


Bucky segurou o braço de , e ela sentiu que a mão dele estava tremendo. Apesar de estar tentando se controlar, ela sabia que ele estava em pânico, e aquilo não a surpreendia, foi ali que o torturaram pela primeira vez. Foi naquele lugar que Zola o usou como experimento e começou a quebrar sua mente.


— Quer apagar essa memória? — perguntou .


Bucky ponderou por alguns segundos, mas, então negou.


— O Zola está fugindo, é o dia em que o Steve me resgatou. Eu não posso apagar isso.


concordou, e permitiu que a memória continuasse. Não demorou para Steve Rogers aparecer na sala, libertar Bucky e então os dois fugirem.


— Sabe o que é estranho? — perguntou Bucky — Eu não fazia ideia de onde eu estava ou o que havia acontecido, eu só fui me dar conta quando…


E então o momento a que ele se referia surgiu naquela lembrança.


Steve e Bucky estavam parados sobre uma passarela alta, o prédio estava desmoronando, mas, o que tomava sua atenção naquele momento era as duas pessoas do outro lado da passarela: Schmidt e Zola. Mas, os olhos de Bucky não encaravam o Caveira Vermelha, eles estavam presos no cientista que o torturou nas últimas semanas.


— Foi nesse momento que eu lembrei o que ele fez comigo — Bucky confessou, ela nunca havia sentido tanto medo na voz dele — Apague essa parte — pediu ele, desesperado — Por favor.


E ela o fez.



IV

— Você dormiu mal essa noite.


Foi a primeira coisa que Bucky disse quando chegou para a sessão na manhã do dia seguinte, e claramente não era uma pergunta.


— Eu estou bem. — afirmou ela.


Mas, era óbvio que não estava.


Seu rosto parecia cansado, olheiras profundas se formavam sob seus olhos e ela parecia menos atenta e animada do que costumava ser.


— Eu sei o que está acontecendo — disse Bucky, quando ela sentou na poltrona em frente ao sofá — E não posso permitir que continue assim.


suspirou, não queria vê-lo se culpando por mais uma coisa.


— Bucky, não é…


— Não diga que não é culpa minha — pediu com a voz autoritária — Eu sei que é.

E ouvir a mágoa na voz dele a destruiu.


— Foi uma escolha minha Bucky.


— Mas, foi a escolha errada — rebateu ele — Os pesadelos que eu deveria estar tendo, eles estão todos com você e eu sei o que eles fizeram comigo, por isso sei o que estão fazendo com você.


— Isso não é nada perto do que você passou — assegurou — Confie em mim, eu posso suportar isso.


Ele não respondeu.


E não fez questão de quebrar o silêncio, sabia que ele estava ponderando, tentando encontrar um argumento que fizesse ela desistir, e antes que ele encontrasse um, ela decidiu falar.


— Eu tenho uma teoria — havia um sorriso travesso em seu rosto.


Bucky levantou o olhar e o sustentou nela por alguns segundos.


— Sobre nosso passado? — perguntou ele.


E aquela famosa sensação de borboletas no estômago surgiu nela ao ouvir “nosso passado”. Eles não haviam falado muito sobre aquilo nos últimos dias e não se esforçou para trazer outras memórias à tona, o foco deles estava nas memórias relacionadas à Hydra, aquilo poderia esperar.


balançou a cabeça negando.


— Uma teoria sobre você.


Bucky levantou as sobrancelhas, incentivando-a a continuar falando.


— Você tem medo de altura — disse ela de uma vez.


A expressão de Bucky mudou para espanto, como se ela houvesse descoberto seu maior segredo. O que de certa forma era o que estava acontecendo.


— Eu não… Por que… Por que você acha isso? — ele gaguejou, o que só a fez ter certeza de que estava certa.


— Eu estava pensando naquelas lembranças do dia em que você teve que saltar no trem que carregava o Zola, e nas lembranças de quando o Steve te resgatou na fábrica da Hydra e vocês estavam naquela plataforma alta… — explicou — Você estava em pânico, Bucky — ela se inclinou na direção dele — Eu vi o medo nos seus olhos. Qualquer um era capaz de ver a tua expressão de pavor, mas, você jamais admitiria que tinha medo, e sabe por quê?


— Me diga você.


— Steve. — concluiu ela, se recostando na poltrona outra vez — Você sempre quis parecer forte pra ele, afinal, você era a sua grande inspiração: Três vezes campeão de boxe, corajoso, valente, sem medo de nada, mas… Nós dois sabemos que essa não era a verdade — completou semicerrando os olhos.


Bucky também se recostou no sofá, indicando que estava ouvindo o que ela tinha a dizer.

— Você tinha medo, Bucky. Não só de altura, você tinha medo de ir para a guerra. Você não queria ir, mas, tentou parecer confiante para o Steve porque aquele era o sonho dele e você era a sua grande inspiração, você não queria decepcioná-lo, não queria parecer fraco, mas… — ela fez uma pausa.


— Mas?


— Eu não sou o Steve, Bucky. — o tom de voz dela se tornou mais urgente — Você não precisa ser forte o tempo todo quando está comigo, você não precisa agir como se suportasse tudo, porque eu sei que você não suporta. Você tem medos, Bucky. Eu tenho medos, o Steve tem medos, e é isso o que nos torna humanos, então, pare de tentar carregar o peso do mundo nas suas costas — pediu ela, se inclinando na direção dele outra vez.


— Então eu deveria jogar o peso para cima de você?


— Você deveria permitir que eu te ajudasse a carregar — ela olhava fundo nos olhos claros dele, sabendo quanta dor eles estavam escondendo. — Eu sou mais forte do que pareço, e em algumas semanas essas memórias vão ter ido embora, o Soldado Invernal vai desaparecer, então, eu acho que vale a pena suportar mais um pouco.


— Isso não é certo, você não deveria sofrer por minha causa — ele ainda estava relutante.

— Bucky — ela chamou — Eu não sei o que essas nossas lembranças do passado significam, mas sei que eu tenho exatamente o dom necessário para ajudar você, isso não pode ser só coincidência, então, pare de tentar me impedir de fazer aquilo que eu quero fazer.


Bucky suspirou, desviando o olhar dela. Por um momento achou que ele iria discordar, mas, ele não o fez.


— Promete que se ficar difícil demais para você suportar, você vai falar comigo?

balançou a cabeça concordando.


— Prometo — mas, aquela era só outra mentira.



V

Algumas horas mais tarde, estava no corredor do prédio, caminhando ao lado do rei de Wakanda, enquanto ele lhe dava péssimas notícias.


— Estamos fazendo todo o possível, mas ainda não encontramos nada — disse T’Challa. não conseguiu evitar a expressão de desapontamento em seu rosto.


— Nós aprendemos a nos esconder bem — disse ela, forçando um bom humor, mesmo que aquilo estivesse a corroendo — Mas, obrigada por tudo.


— Nós vamos encontrá-lo — assegurou ele.


E ela confiava em T’Challa, mas, sabia que não seria fácil encontrar quem ela estava procurando.


— E aqui está o que eu havia prometido — disse ele, estendendo uma mochila preta para ela — Espero que possa ajudar.


sorriu, agradecida.


— Com certeza vai…


Ela se calou quando viu Bucky saindo de seu quarto. esperava que ele não tivesse ouvido toda a conversa. Ainda não estava pronta para explicar.


Ele e T’Challa se cumprimentaram, o rei de Wakanda fez algumas perguntas e então seguiu seu caminho até o elevador, onde duas Dora Milaje o aguardavam.


— Pronto para a sessão? — perguntou , colocando a mochila nas costas, não dando espaço para ele questionar.


Bucky concordou, mas, ela tinha certeza que ele faria perguntas mais tarde.


VI

— Sobre o que estava falando com o T’Challa? — Bucky não esperou sequer ela fechar a porta da sala para perguntar.


— Há alguns dias eu pedi uma coisa para ele, e hoje ele veio me entregar — aquilo não era uma total mentira, ela só estava contando metade dos fatos.


tirou a mochila das costas e a estendeu na direção dele.


Por alguns segundos Bucky encarou a mochila atônito, sabia que ele havia reconhecido, e então seus olhos se desviaram para ela. E ele sorriu, o que instantaneamente fez com que ela sorrisse também.


— Como…Como você? — ele era incapaz de formular uma frase concreta.


— Eu vi nas suas memórias que a mochila era importante e quando falei com T’Challa, ele disse que poderia recuperá-la.


Bucky ainda estava extasiado quando sentou no sofá, abriu a mochila e começou a vasculhar seu interior.


Aquela era a mochila que ele escondia sob o chão do apartamento em Bucareste, a única coisa que ele levara quando fugiu de lá, mas, que a polícia pegou mais tarde.


— Eles estão todos aqui — disse ele animado, como uma criança que acaba de desembrulhar um presente na manhã de Natal.


O que estava naquela mochila nada mais era que um monte de cadernos, contendo anotações e fotos de tudo o que Bucky conseguia se lembrar, de todas as informações que ele havia conseguido no museu. Os cadernos eram a garantia de que ele conseguiria lembrar, não importava quanto tempo passasse, ou para onde ele fosse. Bucky tinha medo de esquecer de novo.


— Você é incrível! — disse ele, nunca o vira tão feliz.


E então ele veio em sua direção e a envolveu em um abraço.


Naquele momento, a sala branca desapareceu, sendo substituída por um salão de baile como aqueles que costumava ver nos filmes antigos.


Ela não usava mais o vestido roxo wakandano, ela estava em um vestido azul típico dos anos 40. Uma mão sua estava apoiada no ombro de um rapaz alto que usava um terno preto, ele segurava sua outra mão e os dois se movimentavam em um ritmo lento, acompanhando a música It’s Magic de Doris Day que tocava ao fundo.


Ela não precisava olhar para o rosto do rapaz para saber quem ele era.


— When in my heart I know the magic is my love for you — cantarolou ela — Essa é minha música favorita.


— Todas as músicas são suas favoritas — provocou Bucky.


Ela sorriu, encostando sua cabeça no peito dele, fechando os olhos e ignorando todos os problemas que tinha. Ela só queria aproveitar o momento.


— Há quanto tempo estamos juntos, mesmo? — perguntou ele.


deu os ombros.


— Você é quem costuma lembrar de detalhes, mas, acho que já faz quase um ano, certo?


Bucky sorriu.


— Irá fazer um ano semana que vem.


— Está vendo, eu quase acertei — murmurou ela.


— Eu fico me perguntando o que teria acontecido se eu não tivesse criado coragem para falar com você.


ficou em silêncio por alguns segundos. Um riso nasalado antes de falar já indicava que ela tinha uma boa resposta:


— Acho que você ainda teria todas aquelas garotas aos seus pés e eu teria encontrado um marido decente.


Bucky a afastou, somente para olhar em seus olhos com decepção.


— Está dizendo que não sou decente? — fingiu um tom ofendido.


— Estou dizendo que não é meu marido — devolveu ela, voltando a encostar sua cabeça nele.


— Uma vez você me disse que não pensava em casar — lembrou Bucky.


— Eu ainda não sei se estou pronta, mas, é estranho ver todas as minhas amigas casadas e ser a única solteira. Além disso, morar sozinha naquele apartamento tem sido solitário, eu nunca pensei que sentiria falta daquelas três garotas barulhentas. — explicou rindo.


— Talvez possamos fazer isso em breve — disse ele — Quando as condições melhorarem, talvez até lá você esteja pronta. — ela sentiu os batimentos dele se tornando mais intensos, como se ele estivesse criando coragem para falar algo importante — Eu amo você , muito.


fechou os olhos, sentindo seu próprio coração acelerar.


Ela se afastou dele outra vez, seus olhos indo de encontro aos dele.


— Essa é uma péssima decisão — brincou.


Ele deu os ombros.


— Eu não posso controlar.


sorriu.


— Eu também amo você.


E então ele segurou o queixo dela, aproximando seus rostos, e quando seus lábios se tocaram, foi como se estivessem se beijando pela primeira vez de novo.

Quando abriu os olhos e voltou para a realidade, ainda podia sentir o toque dos lábios dele sobre os seus, mesmo que não houvesse acontecido de fato. De alguma forma estranha, ela queria beijá-lo outra vez, dessa vez de verdade.


— Você viu isso? — Bucky perguntou com a voz trêmula, afastando-se dela. balançou a cabeça, ainda surpresa demais para falar.


— Isso parece tão estranho, mas, ao mesmo tempo tão… — ele pensou na palavra certa.


— Real. — ela completou.


— Precisamos descobrir o que tudo isso significa, como isso é possível.


entendia bem onde ele queria chegar.


— Não, Bucky, eu não vou vasculhar as tuas memórias atrás disso, nós precisamos focar na Hydra — disse ela, começando a mexer no bracelete de contas em seu pulso.


— Eu não estava falando sobre as minhas memórias, estou falando sobre as tuas, e não são nem as memórias dos anos 40…


— Então, quais são? — perguntou ela, impaciente.


— As memórias de agora, a tua história que você insiste em esconder de mim, talvez a resposta esteja lá.


— Não tem nenhuma resposta lá, Bucky. — ela assegurou.


— E se tiver? E se você não conseguiu perceber? Talvez se contar pra mim…


— Não vai ajudar em nada — ela o interrompeu. — Isso está no passado, e agora, no presente, eu preciso te curar, nós estamos ficando sem tempo.


Ele o encarou com confusão.


— O que você quer dizer?


fechou seus olhos, sentindo uma pontada de dor atravessar sua cabeça. Ela havia falado demais outra vez.


— Eu não vou ficar em Wakanda pra sempre e… — ela passou a mão pelo rosto, nervosamente — Nem você vai.


— Pare de mentir pra mim — ele pediu — Você ainda é a mesma de 70 anos atrás, acha que eu não percebo quando está mentindo? Não tente me enganar.


A respiração de se tornou mais pesada, como se ela estivesse prestes a ter um ataque de pânico e naquele momento ela soube que não poderia mais mentir para ele.


— Tudo bem, acho que está na hora de você saber a verdade.


Esquecendo o Mundo e Pelo Mundo Sendo Esquecido

“Diga-me que é verdade
Diga-me que você concorda
Eu fui feito pra você
Você foi feita para mim.”
Dearly Beloved, Rita Hayworth

e Bucky estavam no terraço outra vez, no mesmo local costumeiro, de onde podiam sentir o aroma das flores e ver a cidade lá embaixo. E apesar do sol forte, as cores das flores naquele dia não pareciam tão intensas, ou talvez fosse só o humor dela que fazia tudo ao seu redor parecer melancólico.


— Existem outros como eu — começou a explicar.


Ela havia mentido tantas vezes sobre aquilo que era até estranho ouvir a verdade saindo de sua boca.


— Outros cinco, na realidade — completou.


—Eles podem manipular memórias como você? — perguntou Bucky.


negou, encarando o bracelete em seu pulso enquanto tentava lembrar, ela não pensava neles havia um bom tempo, e as lembranças que tinha começavam a se tornar nebulosas.


— Cada um de nós possui uma habilidade — explicou — A Alexis tem o poder de sentir e manipular a energia que qualquer ser vivo ou objeto emite, como se pudesse seguir o rastro deixado pela aura deles. Ela pode encontrar qualquer pessoa desaparecida ou objetos escondidos.


— Vocês já se conheciam antes de virem para cá? — perguntou Bucky.


— Nos conhecemos há muito tempo. Ela tem uma irmã, Alison, que consegue curar feridas e restaurar a saúde das pessoas, mesmo em casos em que a pessoa está à beira da morte. Também tem a Maya, ela consegue criar duplicatas de si mesma, que agem de forma independente. O irmão dela, Joe, é capaz de projetar sua consciência para fora do corpo físico, e vagar, vendo tudo e indo para qualquer lugar, sem ninguém vê-lo. E é claro, tem o meu irmão, Luke — ela não pôde evitar a tristeza em sua voz — Ele pode prever o futuro, eu sempre odiei o dom dele.


— Por quê? — perguntou Bucky.


— Quando você sabe o que vai acontecer no futuro você tenta evitá-lo de todas as formas — e ela entendia aquilo melhor do que ninguém — Mas às vezes, algo pior acontece — explicou, seu tom de voz de repente se tornando sombrio.


fechou os olhos, lembrando-se das palavras dele, da certeza com a qual ele havia lhe avisado.


— Nossos poderes nunca trouxeram nada além de dor — ela sentiu as lágrimas surgirem, lembrando onde tudo começou. — Estou feliz por estar te ajudando, é a primeira vez que uso eles para algo que vale a pena.


Bucky não a questionou, somente passou seu braço em torno dos ombros dela, puxando-a contra si e beijando o topo de sua cabeça. envolveu seus braços ao redor dele e permitiu que as lágrimas que ela segurava por tanto tempo viessem à tona.


Por um momento, ela desejou ser capaz de apagar suas próprias memórias.



II


Bucky não insistiu que ela contasse o resto da história naquele dia. Ele disse que esperaria até ela estar pronta, mas não sabia se esse dia iria chegar.


Lembrar-se dos outros já era difícil o suficiente, principalmente quando ela não fazia ideia de onde eles estavam, e se poderia vê-los outra vez.


A sessão foi realizada à noite. apagou as memórias que ainda restavam das missões do Soldado Invernal, mas ainda não havia conseguido acessar todas as memórias do que a Hydra fez com Bucky, e principalmente, as memórias do momento em que as palavras foram implantadas,, eram essas lembranças que ela precisava eliminar, mas elas pareciam ser as mais escondidas.


Naquela noite, foi incapaz de dormir. Depois de acordar pela quarta vez com pesadelos, ela simplesmente desistiu, pegou o caderno e ao invés de relatar o sonho, colocou ali as palavras de ativação do Soldado Invernal. Por um momento ela considerou que se descobrisse o que as palavras significavam, poderia encontrar o momento em que elas foram implantadas em Bucky e então apagá-las.


A primeira palavra era “Saudade”.


“Saudade, saudade…” repetiu ela mentalmente. “Talvez se refira à saudade do passado, da vida que ele tinha antes da guerra”.


anotou aquilo. A palavra seguinte era enferrujado.


“Bom, se a Hydra não o tivesse resgatado e preservado ele, Bucky estaria morto… Enferrujado”


Ela anotou aquelas frases, mesmo que não estivessem bem claras em sua cabeça ainda.


A palavra que vinha a seguir era dezessete. correu os olhos pela folha, percebendo que além daquela havia outras duas palavras que eram números: nove e um.


— 1917 — sussurrou , baixinho para que Alexis não acordasse.


Aquele foi o ano em que Bucky nasceu.


As palavras que vieram a seguir eram Aurora, Forno, Benigno, Volta para Casa e Vagão de Carga.


— Aurora deve se referir ao renascimento dele como Soldado Invernal — murmurou ela — Vagão de Carga deve ser por conta do local onde o Bucky Barnes morreu e o Soldado Invernal surgiu — concluiu .


Mas, as outras palavras ainda eram um enigma pra ela.


deixou o caderno de lado e fechou os olhos.


“Onde o Bucky Barnes morreu e o Soldado Invernal surgiu”, a mente de

continuava repetindo aquela frase como um eco.


Ela sabia que precisava encontrar as primeiras memórias do Soldado Invernal, provavelmente aquelas que vieram logo após o resgatarem, era só tendo acesso a elas que conseguiria eliminá-lo de vez.


E naquele momento ela abriu os olhos, percebendo que havia encontrado a resposta que procurava.


Mesmo que houvessem apagado a memória de Bucky, aquelas lembranças ainda estavam lá escondidas, mas ele as bloqueava porque era um trauma grande demais para suportar, mas o Soldado Invernal… Ele não bloquearia aquelas memórias, ela teria livre acesso àquelas informações se tivesse acesso a ele. Era óbvio o que ela precisava fazer.


Ela teria que ativar o Soldado Invernal e então pegar as memórias dele.


Mas, havia um risco. Um risco muito grande.


Ela sabia o que o Soldado Invernal era capaz e não era justo colocar a vida das outras pessoas em risco, e mais do que isso, não era justo com Bucky ativá-lo outra vez. Ela teria que encontrar outra maneira.



III


Era manhã do dia seguinte e estava outra vez no jardim com Bucky, os dois estavam sentados no banco debaixo da árvore com folhas azuis cujo nome não conhecia.


Eles permaneciam em silêncio, mas, ficar ali com ele estava sendo uma tortura para ela.


Sua vontade era contar a ideia que teve na noite passada, mas, ela sabia que não deveria. Ela levou um bom tempo para conquistar a confiança de Bucky, e agora que a tinha, sugerir que eles ativassem o Soldado Invernal seria o mesmo que jogar tudo pelos ares. Ela não poderia perdê-lo.


Além disso, aquela não poderia ser a única alternativa, deveria haver alguma coisa que eles pudessem fazer.


— Está tudo bem? — perguntou Bucky.


balançou a cabeça em afirmação, sem encará-lo. Já era difícil o suficiente mentir sem olhá-lo nos olhos.


… — chamou ele — No que está pensando?


— Em nada — mentiu, sua voz mais aguda do que ela gostaria.


— Você teve uma ideia, não foi? — perguntou ele — Mas, acha que não é a melhor opção.


não pode evitar a surpresa, mas tentou não demonstrar


— Não é nada disso


— Já não cansou de mentir pra mim?


— Eu não minto pra você — reclamou ela.


— Tem razão, você só conta o que é conveniente pra você — disse ele com sarcasmo.


bufou.


— Tudo bem, o que você quer saber? — perguntou por fim.


— Sobre o que você conversou com T’Challa?


— Sobre você, a mochila, os cadernos…


— Não minta.


— Eu não estou mentindo.


Bucky a encarou, e ela precisou desviar o olhar dele para não confessar tudo.


— Tem a ver com as outras pessoas que são como eu — aquilo não era totalmente uma mentira.


— O que aconteceu com eles?


— Eu não sei — confessou — O T’Challa está me ajudando a encontrá-los.


Bucky ficou em silêncio, e ela imaginou que ele estava satisfeito com aquela resposta, mas, é claro que ela estava errada, ele estava somente formulando sua próxima pergunta.


— Do que você está se escondendo? — Bucky indagou, fazendo-a suspirar — Tudo bem, se for difícil falar sobre isso, você não precisa…


— Não. — ela o interrompeu — Eu preciso terminar de contar a história… Quer dar uma volta?


IV


Os dois caminhavam pelos corredores vazios do edifício. Seus passos eram lentos e achou que era melhor assim. Ela tinha muita coisa pra contar.


— Sete anos atrás eu sofri um acidente de carro. — explicou — O outro veículo avançou o sinal vermelho, nós colidimos e então os dois carros capotaram. O meu carro ficou destruído, mas de alguma forma eu saí ilesa, ou pelo menos quase isso, eu entrei em pânico, fiquei muito assustada e quando consegui me acalmar, corri para ajudar a motorista no outro carro, ela estava muito machucada, mas pelo menos estava consciente, eu segurei a cabeça dela, tentando imobilizá-la enquanto o socorro não chegava, mas então aconteceu: as memórias dela invadiram minha mente de uma só vez, eu vi toda a história dela passar bem diante dos meus olhos em poucos segundos, foi demais para que eu pudesse aguentar. Desmaiei ali mesmo, acordei horas depois no hospital. A mulher sobreviveu, mas não lembrava de mais nada.


— Foi a primeira vez que isso aconteceu?


confirmou.


— Mas não foi a última, meses depois eu recebi a notícia de que ela havia tirado a própria vida, ela deixou uma carta dizendo que não conseguia continuar vivendo sem lembrar de nada, ela era uma estranha para si mesma. Mesmo que eu ainda não entendesse, de alguma forma eu sabia que eu era responsável por aquilo, eu me culpei pela morte dela, e isso foi o suficiente para eu entrar em surto, foi quando aconteceu de novo, eu estava no dormitório da universidade com uma amiga, e quando ela me abraçou tentando me acalmar, eu apaguei as memórias dela também.


— Eu contei para o Luke o que havia acontecido, — continuou — e então ele me contou sobre seu próprio dom, ele já tinha visões há muito tempo, só não havia contado para ninguém porque não queria que achassem que ele estava enlouquecendo. Quando eu disse pra ele o que aconteceu comigo, nós entendemos, o que quer que fosse aquilo, estava em nós dois.


Ela voltou a mexer no bracelete em seu pulso, sabendo que outro igual estava com seu irmão.


— Ele previu que meu dom sairia do controle, que eu apagaria as memórias dos nossos pais. Eu não podia permitir que aquilo acontecesse, se eu era um perigo para eles, então era melhor eu ficar bem longe, por isso eu fugi, e o Luke veio comigo. Foi quando ele previu que haviam outros como nós. Fomos atrás deles, e por fim encontramos Alexis, Alison, Maya e Joe.


— Você não ficou com medo de apagar a memória deles?


— Não, Alexis era capaz de manipular a energia dos meus poderes, sempre que eu ficava instável por algum motivo, ela conseguia me controlar, antes que eu explodisse e apagasse as memórias de outras pessoas. E eu fiquei instável muitas vezes, principalmente depois que descobrimos que a Hydra, disfarçada de S.H.I.E.L.D, estava atrás de nós.


Ela sentiu a surpresa no semblante de Bucky, a história dos dois se entrelaçava cada vez mais.


— De alguma forma eles descobriram sobre nossos poderes — explicou — E não demorou para virem atrás de nós. Eles queriam nos usar e não havia ninguém para nos defender, ninguém além de nós mesmos. — ela fez uma pausa, lembrando-se dos fatos que ela ignorava há tanto tempo — Alison descobriu um lugar onde havia outros como nós, onde podíamos ficar em segurança, e nosso único objetivo se tornou chegar até lá vivos, nós aprendemos a lidar melhor com nossos poderes, aprendemos a lutar, conseguimos armas, mas foi ficando cada vez mais difícil. — ela apertou a mão de Bucky com força, lembrando-se de todas as pessoas que precisou machucar para fugir.


— Luke previu que se a Hydra nos pegasse, nos obrigaria a fazer coisas horríveis, usariam nossos dons para machucar outras pessoas — ela fechou os olhos enquanto inspirava fundo — Eu vi as memórias dele, eu vi as imagens daquela visão e… — ela passou a mão livre pelo rosto — Tantas pessoas inocentes iriam morrer… — não conseguia sequer pensar naquela possibilidade — Até que um dia a Hydra conseguiu pegar a Alison, eles a assassinaram e eu percebi que não haveria misericórdia, que eles matariam quem fosse necessário para conseguir pegar os que tinham os poderes que seriam mais úteis pra eles. Eu não podia mais contar com a sorte, precisava cuidar de mim mesma.


Ela sentiu o olhar de Bucky sobre si, mas, não ousou olhar de volta. Não queria que ele visse seus olhos marejados, não queria parecer fraca.


— Me candidatei para trabalho voluntário no Quênia, eu queria ir para o mais longe possível de casa, não me perdoaria se a Hydra fosse atrás dos meus pais por minha culpa.


— E o seu irmão?


— Eu deixei ele pra trás, nós dois tivemos um… desentendimento. — Era mais fácil resumir desta maneira do que admitir a verdade — Alexis veio comigo, mas ela amava receber atenção e depois de uma semana já havia contado para todos do vilarejo onde estávamos sobre seus poderes, não demorou para um grupo criminoso que procurava vibranium ficar sabendo e nos capturar. Ficamos presas por três meses, até T’Challa aparecer. Ele me libertou e me ofereceu refúgio, eu achei que aqui eu estaria segura, mas, a Hydra sempre acha uma forma de me encontrar, e eu não posso aceitar que eles machuquem mais pessoas por minha causa, é por isso que eu não mantinha contato com quase ninguém, porque eu sei que eles vão tentar machucar qualquer um que se aproxime de mim.


Bucky parou de andar e a abraçou.


— Isso não vai acontecer —assegurou — Você está segura aqui, eu vou te proteger. Eles não vão machucar ninguém.


não gostava de parecer fraca, ela sentia que deveria se manter forte não importava a situação, mas, quando estava com Bucky a máscara que encobria seus sentimentos caía, e ali, lembrando-se de tudo aquilo que prometera jamais relembrar, ela se permitiu chorar.


Ela não chorava somente por ter abandonado sua família, pelas pessoas que morreram por culpa dela ou pelo medo constante que sentia. Ela chorava porque sabia como aquilo iria terminar, em algum momento ela teria que partir, e seria melhor se Bucky não lembrasse dela.


Mas, naquele momento eles estavam ali, juntos, e ela decidiu que tentaria aproveitar cada segundo que tivesse ao lado dele.


Ela se afastou de Bucky, o suficiente para encarar seus olhos, segurou o rosto dele e então, ficando na ponta dos pés, juntou seus lábios.


Bucky pareceu surpreso a princípio, mas, logo envolveu o braço em sua cintura e a puxou para mais perto, sentiu seus corpos se encaixarem de forma perfeita, e então aquele sentimento, de ter encontrado algo há muito tempo perdido tomou conta dela.


Os dedos de se entrelaçaram nos cabelos dele, puxando-o para mais perto.


E ali, enquanto o beijava, percebeu que aquela garota dos anos 40 era ela de fato, e que havia uma simples razão para eles terem se encontrado outra vez: eles pertenciam um ao outro, e mereciam viver o resto de sua história juntos, uma história que não fosse interrompida pela guerra, uma versão onde eles pudessem ter um final feliz.



V


estava tendo dificuldade para dormir naquela noite, mas, não tinha nada a ver com os pesadelos. O beijo entre ela e Bucky continuava se repetindo em sua mente, a impedindo de conseguir manter os olhos fechados. E no fundo era bom ter algo para tirar seus pensamentos do passado — tanto o passado dela quanto o dele — e era bom ter algo que lhe desse esperança.


Bucky e ela passaram o resto da manhã no jardim, de mãos dadas o tempo todo, com a impressão de que se soltassem, se perderiam novamente e nenhum deles queria que aquilo acontecesse.


Durante o tempo em que ficaram lá, eles falaram sobre algumas das coisas que conseguiam se lembrar do passado juntos, tentando despertar aquelas lembranças um no outro.


lembrou que não muito tempo depois de conhecer Bucky, se demitiu do emprego com a francesa e começou a criar e vender suas próprias roupas. As matérias primas naquela época estavam escassas, a maioria dos tecidos estavam sendo usados na confecção dos uniformes e paraquedas para a guerra, mas havia encontrado um jeito de reaproveitar peças antigas conseguindo vendê-las por um baixo custo, e pelo o que ela conseguia lembrar havia sido libertador trabalhar por conta própria.


E quando parava para pensar nisso, percebia que sempre houve um traço da antiga naquele seu “eu” de agora. sempre foi fascinada por filmes antigos, e parando pra pensar, ela nunca havia tentado desenhar roupas, talvez se tentasse, percebesse que tinha talento assim como a antiga. E quanto a dançar… bom, ela nunca havia tentado, mas, Bucky havia prometido que iria lhe ensinar e ela estava ansiosa por isso.


E foi pensando nisso que adormeceu.


VI


Como esperado, uma memória apareceu em seus sonhos naquela noite.


Era uma noite fria de dezembro e sabia que estava voltando para casa tarde demais. Ela precisava acordar cedo no outro dia, mas, por insistência de Bucky, os dois haviam ido ao cinema, depois de terem jantado e ela até poderia reclamar, mas, a noite foi perfeita. Os dois assistiram ao filme que ela passou a semana toda dizendo que queria ver e jantaram no restaurante favorito dela, restaurante caro o suficiente para eles irem somente em ocasiões especiais e já imaginava a razão de terem ido. Aquela poderia ser uma das últimas noites que eles teriam juntos, já que podiam chamar Bucky para a guerra a qualquer momento. Mas sabia que, diferente do patriótico Steve Rogers que queria a todo custo ir para o campo de batalha, Bucky só queria continuar vivendo sua vida. Eles tinham planos, e agora a guerra estava destruindo todos eles.


Bucky a acompanhava até em casa. O braço dela estava entrelaçado ao dele e eles estavam em silêncio, qualquer conversa de uma forma ou outra levava até a guerra e eles estavam tentando viver o momento, sem pensar no que poderia acontecer no futuro.


— ele chamou, inspirando fundo, como se estivesse tomando coragem para falar alguma coisa importante — Eu… Eu queria…


sorriu. Ele estava mesmo gaguejando?


— Bucky Barnes nervoso? — provocou ela — Vamos lá, sou só eu, você não precisa ficar nervoso.


Ele riu.


— Só você? — perguntou — Querida, você tem noção de como eu me sinto quando estou com você?


sorriu, sentindo seu rosto esquentar.


— Vamos lá, Barnes. Já estamos chegando na minha casa, seu tempo está acabando…


Bucky parou de andar bruscamente, o encarou confusa.


— O que foi? — perguntou.


— Eu queria fazer isso de um jeito romântico, e acredite eu considerei várias formas, mas… — ele começou e sentiu seu coração parar, ela já podia imaginar o que estava prestes a acontecer — Lembra desse lugar? — perguntou ele.


olhou ao redor, eles estavam na rua onde ela morava. Árvores, agora sem folhas, se estendiam pelas calçadas. Mas, eles estavam parados debaixo da luz de um poste e logo entendeu ao que ele estava se referindo.


— Foi o lugar onde nos beijamos pela primeira vez — disse ela sorrindo.


— Você ainda lembra? — perguntou Bucky.


acenou com a cabeça.


— Foi um mês depois do nosso primeiro encontro. Você estava me acompanhando até a minha casa, uma garoa fina começava a cair, você parou para armar o guarda-chuva e… — sorriu — Nós ficamos parados por alguns minutos, somente nos olhando, ouvindo as gotas baterem contra o guarda-chuva, então eu fiquei nas pontas dos pés e te beijei.


Bucky sorriu, acariciando o rosto dela.


— Bom, nós já estamos juntos há quase três anos e desde aquele momento eu já tinha certeza de que você era a garota certa, na verdade, desde o momento em que eu te vi pela primeira vez eu soube que você era a garota que eu procurava — concluiu sorrindo.


O sorriso nos lábios de aumentou.


Bucky voltou a inspirar fundo, colocando a mão no bolso, quando ele se ajoelhou na sua frente, percebeu que ele segurava uma caixinha de veludo azul, e ao abri-la revelou um anel prateado, com uma pedra em seu topo.


Brandon — começou, ela sentiu seus batimentos cardíacos acelerando — Você aceita se casar comigo?


Foi como se o ar tivesse sido sugado de seus pulmões. encarou Bucky atônita, balançando a cabeça em confirmação sem conseguir dizer nenhuma palavra, já sentindo lágrimas teimosas se formando em seus olhos.


— Isso é um sim? — perguntou ele.


— Sim! — afirmou, vendo Bucky colocar o anel em seu dedo anelar, sem conseguir conter o sorriso que se formava em seu rosto.


Bucky levantou, envolvendo seus braços em torno da cintura dela, a levantando no ar, juntando seus lábios em um beijo que se intercalava com sorrisos que não podiam ser contidos.


Quando acordou, teve certeza de que aquela era uma das memórias mais felizes deles juntos, mas, de alguma forma, sentia que era igualmente uma das mais tristes, porque era uma das últimas.



Quão Feliz é o Destino de um Inocente sem culpa?

“Eu desejei não ter te amado tanto,
O meu amor por você deveria ter acabado há muito tempo”
I wish I didn’t love you so, Betty Huton


acelerava o passo tentando acompanhar o caminhar rápido de Ayo, o que estava sendo quase impossível. A Dora Milaje havia a recebido quando ela chegou ao palácio e agora a levava até o rei.


Naquela manhã, havia recebido um recado avisando que T’Challa queria falar com ela com urgência, mas, sem mais detalhes, o que a deixou assustada. Ao chegar ao palácio e questionar sobre o assunto, tudo o que Ayo disse foi: “Ele tem notícias sobre seu irmão”, e não tinha um bom pressentimento sobre aquilo.


nunca falava sobre seu irmão — e tinha bons motivos para isso —, mas após sair do cativeiro, a urgência por encontrá-lo somente aumentou.


Eles nunca chegaram a se despedir, mas, parecia haver um acordo implícito entre eles: Nunca mais se verem.


Apesar de tudo, não suportava a ideia de seu irmão mais novo estar sozinho. Ela se perguntava se ele estava em segurança, ou mesmo se ainda estava vivo. Por isso, ela tinha consciência de que as notícias de T’Challa poderiam não ser tão boas quanto ela esperava.


E independente de ser uma notícia boa ou ruim, ela sabia que iria arruinar os últimos dias que haviam sido os mais tranquilos em muito tempo.


Naquelas últimas semanas os pesadelos de começaram a diminuir conforme ela foi armazenando as memórias, eles ainda estavam lá, mas, ela estava conseguindo lidar melhor e sabia que em breve eles iriam embora. Bucky havia ganhado um novo braço feito de vibranium e já havia recuperado a maior parte das memórias de sua vida antes da guerra, com exceção das memórias que envolviam ela, que ainda estavam confusas.


Apesar disso, os dois pareciam estar em seu melhor momento, eles tomavam café da manhã juntos, andavam de mãos dadas pelo prédio vazio, passavam mais tempo no jardim relembrando os pequenos detalhes que conseguiam dos anos 40.


Durante aqueles dias, ele voltou a ser o garoto normal do Brooklyn, e ela voltou a ser só a , ela não era mais a garota que manipulava memórias ou uma arma em potencial, ela finalmente significava mais do que isso para alguém, e isso a fazia se sentir normal, fazendo-a esquecer, nem que somente por um breve período o passado turbulento que ela tinha para lidar. Mas, os dois sabiam que aquilo era só uma ilusão, o Soldado Invernal não havia ido embora e o passado ainda estava perseguindo ela.


Só era necessário um estalo, para que eles voltassem para a realidade.


E quando seguiu Ayo para dentro daquela sala e encontrou o rei de Wakanda sorrindo, a realidade a atingiu.



II


havia voltado para seu quarto e encarava a janela à sua frente com os pensamentos longe, sem conseguir decidir nada.


T’Challa havia encontrado seu irmão.


Ele estava em segurança em Nova York, o rei garantiu, e eles poderiam levá-la até ele quando ela quisesse.


E é claro que ela queria ir naquele exato momento, mas, ela devia? Ele estava em segurança, ela também estava, não havia motivo para se reencontrarem, e ela não poderia trazê-lo para Wakanda, não com Alexis ali.


E por ironia do destino, Alexis entrou no quarto naquele exato momento, com uma informação que não sabia onde ela havia conseguido.


— Por que você não me contou que estava procurando por eles? — ela estava visivelmente irritada — Nós fizemos uma promessa.


— Eu precisava deles — respondeu em tom urgente.


— E pra quê? Você sabe que fica mais fácil para eles nos encontrarem quando estamos juntos.


— Também ficamos mais fortes quando estamos juntos — justificou — Talvez assim eu possa curar o Bucky.


Alexis riu.


— Então é isso? Está disposta a colocar a segurança de todos nós em jogo, só por causa dele? — indagou se aproximando de com passos lentos — Ele é um caso perdido desde o início, você sabe que não vai conseguir curá-lo, já estamos nisso há quanto tempo? Três meses? E me diga o que você conseguiu fazer até agora?


— Eu estou quase conseguindo.


— Não, , você não está! — seu tom de voz era cada vez mais alto — Você quer acreditar que está conseguindo curar ele, mas, isso é só uma ilusão tua. Cedo ou tarde o Soldado Invernal vai aparecer, e então? Você vai conseguir controlar ele? — sentiu seu corpo tremer conforme ela se aproximava — Ele vai matar todos nós, e tudo porque você está baixando a guarda, . Você disse que era seguro dar um novo braço pra ele porque ele estava praticamente curado, mas nós duas sabemos que ele não está! — Alexis berrou.


a encarava atônita, nunca tinha a visto com tanta raiva daquela forma.


Alexis encarou nos olhos, como se tentasse ler seus pensamentos, e então ela deu alguns passos para trás. Sua expressão mudando de raiva para entendimento, como se ela tivesse acabado de perceber algo importante.


— Você sabe disso — Alexis comentou, sua voz mais controlada — É claro que você sabe, mas você não está fazendo isso só pelo Bucky, você… — os olhos dela se arregalaram, e soube imediatamente que ela havia descoberto — Você não estava procurando todos eles, não é? Você só estava procurando o Luke…


fechou os olhos. Sabia o que viria a seguir.


— Eu não acredito, — a voz de Alexis estava repleta de mágoa — Depois de tudo o que ele fez, como você ainda consegue…


— Ele é meu irmão! — gritou , já sentindo lágrimas se formando em seus olhos.


— E quanto à minha irmã, ? — esbravejou Alexis — Ela era tudo o que eu tinha, mas, ele a matou! — sentiu um choque percorrer seu corpo ao ouvir aquelas palavras, e o que doía mais era saber que Alexis tinha razão — Ele nem hesitou em matá-la, — Alexis balançou a cabeça, mordendo o lábio inferior como se para impedir-se de continuar falando.


— Alexis, eu sinto…


— Não! — ela gritou, apontando o dedo para o rosto de — Não me diga que sente muito porque você não sente.


não ousou continuar falando. Não havia mais nada a ser dito.


— A Alison tinha o dom mais lindo entre todos nós, ela curou tantas pessoas, foi a única de nós que nunca machucou ninguém, mas agora, nunca mais vai conseguir ajudar ninguém, porque o teu irmão a matou! — Alexis gritou com raiva, seu olhar triste voltando a se encher de ódio — Eu aposto que o T’Challa não sabe o que ele fez, não é? Se soubesse, duvido que estaria te ajudando.


— Você está certa — concordou , desistindo de gritar, não adiantava discutir com Alexis quando sabia que ela estava certa — Eu me deixei levar pelas minhas emoções e… — ela suspirou, passando a mão pelo rosto, secando as lágrimas que começavam a se acumular em seus olhos— É loucura ir atrás dele, mas… — ela encarou Alexis — Eu pensei que ele pudesse ter mudado, que… — um soluço escapou de sua garganta — Eu sinto muito Alexis, de verdade — confessou — Eu só pensei em mim mesma e…


— Está tudo bem — disse Alexis, sua voz se tornando mais calma — Você não tem culpa do que ele fez.


forçou um sorriso, indo até Alexis e a envolvendo em um abraço.


Apesar de saber que era errado, ela desejava com todas as suas forças ser capaz de apagar as memórias de Alexis, eliminar a lembrança onde Alexis descobria que Luke havia tirado a vida da sua irmã. Mas ela não podia, já havia tentado antes, mas o poder de Alexis enfraquecia seu próprio dom. Ela jamais conseguiria apagar aquele fato inegável: seu irmão era um assassino.


Mas nada impediria de ir atrás dele.



III


Três horas mais tarde, após considerar todas as consequências do que estava prestes a fazer, foi até o quarto de Bucky, e quando ele abriu a porta e sorriu para ela, ela já não tinha mais certeza se deveria ir em frente.


— Precisamos conversar — disse ela, sem conseguir esconder a ansiedade.


O sorriso de Bucky desapareceu naquele exato momento.


— Isso nunca é um bom sinal — brincou, dando espaço para ela entrar.


tentou sorrir, para que não parecesse tão grave, mas, seu sorriso deve ter parecido mais uma careta.


— Eu não fui completamente honesta com você — confessou, olhando para suas próprias mãos.


Bucky, sentado ao seu lado no sofá, permanecendo em silêncio.


— Eu não te contei tudo sobre o meu irmão.


E então o monólogo de se estendeu por mais de meia hora.


— Você vai ir atrás dele? — perguntou Bucky, assim que ela terminou de falar. E ela podia sentir o medo de ser abandonado na voz dele.


— Não — assegurou ela — Pelo menos, não até eu ter curado você, mas… Tem um problema maior que isso, algo que nem o T’Challa sabe.


Ela sentiu o metal frio da mão esquerda dele segurar a sua mão.


— Ele matou uma pessoa — disse ela — A irmã da Alexis.


Ela esperou que Bucky dissesse alguma coisa, que reagisse de alguma forma, mas, ele permaneceu em silêncio, indicando que ela deveria continuar.


Então explicou o que havia acontecido.


Em uma de suas últimas fugas eles haviam se dividido, , ficou com Maya e Joe enquanto Luke ficou com Alexis e Alison.


Algumas semanas depois, Alexis encontrou e os outros. Ela estava sozinha e completamente fora de si. Quando o choque passou, ela contou o que havia acontecido.

Luke havia feito um acordo com a Hydra, ajudaria a pegar os outros, e eles o deixariam livre.

Alison descobriu que ele passava informações sobre eles para a Hydra há meses, não havia lugar seguro, ele os estava levando para uma armadilha.

Alison confrontou Luke, foi quando ele perdeu o controle e tirou a vida dela.

— A Alexis conseguiu fugir a tempo, antes de ele matá-la também — concluiu, e então ergueu o rosto, seus olhos encontrando os olhos claros de Bucky — É errado eu querer encontrar ele? Mesmo depois de tudo o que ele fez?

Bucky acariciou seu rosto com a mão direita, balançando a cabeça em negação.

— Ele é sua família — assegurou — Você não pode perder ele também.

— Mas, eu também não quero perder você — choramingou ela.

— Você não vai — afirmou Bucky — 70 anos, . Nós demoramos 70 anos pra nos encontrarmos de novo, tenho certeza que podemos encontrar o caminho para o outro se nos separarmos outra vez.

tentou sorrir, mesmo que sua vontade fosse chorar.

Bucky aproximou seus rostos, selando seus lábios.

— Só me prometa uma coisa — pediu ele, após se afastar um pouco, mantendo suas testas unidas — Me prometa que não vai apagar você das minhas lembranças quando for embora — sua voz estava embargada.

Ela inspirou fundo, sentindo seu coração apertar. Ela não poderia prometer aquilo, ela não poderia se apegar a ele da forma como estava se apegando. Ela sabia como aquilo terminaria, eles não poderiam ficar juntos no final.

— Eu prometo. — mentiu, sentindo seus olhos marejarem.

De qualquer forma, ele não lembraria dela, assim como não lembraria daquela promessa quebrada.





voltou para seu quarto somente na hora de dormir. Ela não suportava a ideia de encarar Alexis depois da discussão que tiveram.


Por sorte, quando entrou no quarto, Alexis já estava dormindo. se arrumou para dormir também, mas, estava tão exausta que não se lembrou de pegar o caderno onde anotava os sonhos. Talvez, se tivesse lembrado, teria percebido que o caderno não estava no local onde ela escondia.



V


acordou com um estrondo alto, como o de algo se quebrando e seus olhos se moveram imediatamente para a porta.


Ela queria estar sonhando, mas não estava.


Com o pouco de luz que entrava pela janela, ela pôde ver Bucky parado lá, suas mãos tremiam, sua respiração ofegante e os olhos fixos nela, cheios de raiva, mas, sabia que não era ele ali, que aquele não era o seu Bucky.


Ela estava encarando o Soldado Invernal.


Os olhos de percorreram o quarto, tentando encontrar Alexis, seus batimentos estavam acelerados, suas pupilas dilatadas e a adrenalina correndo por seu corpo fazia suas mãos tremerem.


sabia o que tinha que fazer, mas, queria garantir que Alexis estava em segurança antes disso.


Os olhos do Soldado Invernal ainda estavam presos nela. Ele continuava vindo em sua direção, levantou da cama e deu alguns passos para trás, até sentir a parede tocando suas costas.


— Alexis? — chamou ela — Saia agora, sou eu quem ele quer — e então ela a encontrou.


Alexis estava abaixada, do lado de sua cama, abraçada às próprias pernas, uma expressão de pavor cobria seu rosto.


— O que você está fazendo? — sussurrou Alexis com urgência.


— Eu preciso pegar as memórias dele, vá buscar ajuda.


ouviu Alexis murmurar que ela era louca, mas, não teve tempo para responder, os passos do Soldado Invernal se tornaram mais rápidos e antes que ela pudesse fazer qualquer coisa a mão de metal dele estava em torno de sua garganta e ela estava suspensa no ar. sentiu uma pontada atravessar seus pulmões quando ele empurrou seu corpo contra a parede.


E ali, com a luz da lua que entrava pela janela iluminando o rosto dele, pôde encarar pela primeira vez os olhos raivosos do Soldado Invernal, mas, ela também sabia que aquela era a última vez que alguém o veria.


Com a garganta ardendo, quase sem ar e com a visão embaçada, estendeu sua mão, tateando no espaço à sua frente até tocar no rosto dele. Seu polegar tocou a têmpora dele e então as memórias vieram de uma só vez.


Todas as lacunas que faltavam na memória de Bucky foram preenchidas, tudo o que ela precisava estava ali, inclusive a palavra que a salvaria naquele momento.


tentou encher seus pulmões para conseguir falar, mas, era impossível, ela sabia que desmaiaria em poucos segundos e que se não falasse aquela palavra ele iria…


Sua mente começou a se apagar, sendo preenchida por pensamentos desconexos que logo dariam lugar à inconsciência.


Sua garganta ardia, mas, ela conseguiu inspirar e num último esforço, a palavra saiu de sua boca em um sussurro.


— Sputnik…


E quando sentiu os dedos em volta de sua garganta afrouxarem, ela teve certeza de que ele tinha ouvido. Seu corpo se chocou contra o chão e a última coisa que viu foi o Soldado Invernal caindo ao seu lado inconsciente, antes de apagar também.


Retire essa graça, essas dores e aquelas lágrimas

“Você sempre quebra o coração mais gentil
Com uma palavra apressada da qual você não lembra
Então se eu parti seu coração noite passada
É porque eu te amo acima de tudo”
You Always Hurt The One You Love, The Mills Brothers



observava o anel em sua mão, enquanto já sentia as lágrimas vindo. Ela não queria fazer aquilo, no entanto, não tinha nenhuma opção.


Ela estava em um dos bancos de madeira no parque perto de sua casa. O vento frio estava se tornando cada vez mais intenso, ela afundou o rosto no cachecol e continuou observando as crianças que corriam em volta da fonte.


Uma parte de si queria que Bucky chegasse logo, para que ela pudesse contar aquilo de uma vez, mas, outra parte sua queria que ele demorasse. ainda não estava pronta para magoá-lo.


— Bom dia, querida. — ela ouviu aquela voz conhecida dizer.


Bucky sentou ao seu lado no banco, colocando o braço sobre seus ombros e selando seus lábios aos delas.


— Como está? — perguntou ele.


não conseguiu responder, somente suspirou.


— Tão mal assim? — perguntou ele.


era incapaz de ficar prolongando, se ela tinha alguma coisa para falar tinha que dizer na hora e naquele momento não foi diferente.


— Eu preciso te contar uma coisa. — começou, olhando fundo nos olhos de Bucky.


Ele permaneceu em silêncio, indicando que ela deveria continuar.


— Eu… — ela mordeu o lábio inferior — Você sabe que tem sido difícil trabalhar por conta própria, eu não tenho muita matéria prima e tenho tentado continuar da forma como consigo, mas… — ela voltou a suspirar — Eu tenho tido mais prejuízo do que lucro e não sei quanto tempo mais eu aguento.


havia perdido seus pais quando ainda era bem jovem, e não possuía mais nenhuma família para ajudá-la financeiramente. Ela sempre deu um jeito de conseguir dinheiro, mas, estava se tornando cada vez mais difícil.


— Eu conversei com um estilista esse final de semana — ela prosseguiu — Ele sugeriu uma parceria, eu fico responsável pela parte criativa com os desenhos e ele se responsabiliza pela confecção. Isso acabaria com a preocupação constante que eu tenho com o dinheiro.


— Isso é ótimo! — Bucky exclamou, segurando a mão dela, a mão onde o anel que ele lhe dera um mês atrás estava.


— É… — concordou desanimada.


— Qual o problema?


Ela não conseguiu olhar para Bucky ao contar a notícia.


— Ele está indo para Los Angeles semana que vem e quer que eu vá junto pra ficar lá por pelo menos um ano.


Os dois ficaram em silêncio, o barulho do vento soprando e o riso das crianças pareceu cessar também.


— Você vai ir com ele? — perguntou Bucky, sua voz repleta de receio, mesmo que ele tentasse não demonstrar.


— Eu preciso do dinheiro — disse — Além disso, você vai ir para Wisconsin em dezembro para treinar, nosso… Nosso casamento não iria acontecer esse ano de qualquer forma.


Bucky sustentou o olhar nela por alguns segundos, ele sabia que ela tinha razão.


— Um ano — repetiu ele — Talvez quando você voltar eu ainda esteja na guerra.


— Eu sei — murmurou — Eu queria que houvesse outro jeito, mas…


— Nosso noivado… — ele não conseguiu terminar a pergunta.


suspirou.


— Bucky, eu não quero que você fique apegado à ideia de eu voltar…


— Você não pretende voltar — ele a interrompeu.


E queria dizer que ele estava errado, mas, sabia que aquela era a verdade.


— Nós podemos escrever cartas um para o outro, mas, eu sei que em algum momento vamos nos distanciar, vamos parar de nos falar e… — ela passou a mão pelo rosto — Não precisamos estender mais isso, vamos seguir as nossas vidas, em um ano eu volto e se… — ela sentiu sua voz falhar — Talvez possamos voltar a ficar juntos.


Quando ela voltou a encarar Bucky, viu que lágrimas se formavam em seus olhos, mas, ele tentava escondê-las.


— Eu não quero perder você — disse ele com a voz rouca — Eu quero ter certeza, quando estiver na guerra, de que tenho alguém para quem voltar, que vai ter alguém esperando por mim.


— E eu vou estar esperando, Bucky — disse ela, segurando a mão dele com ainda mais força — Se esse novo negócio der certo, nós vamos ter dinheiro o suficiente para nos casarmos, comprarmos uma casa e vivermos juntos depois, mas, pra que isso aconteça vamos precisar nos separar, pelo menos por agora — concluiu.


— Você promete que vai me esperar? — perguntou Bucky.


— Prometo — disse , sem hesitar, aproximando seu rosto do dele, juntando seus lábios em um beijo cheio de dor e mágoa.


— Eu amo você. — disse ela ao se separarem.


— Eu também te amo — sussurrou ele.



II


acordou ouvindo um bipe insistente, e estava prestes a reclamar quando percebeu que não deveria: aquele bipe indicava que seu coração estava batendo.


Ela abriu os olhos, tentando se acostumar com a claridade e logo percebeu que estava em um quarto branco. Tentou se mexer, mas, sentiu a agulha em seu braço causar um leve incômodo que a fez voltar para onde estava.


— Shh — uma voz suave pediu — É melhor você ficar deitada. Como está se sentindo?


E então, lembrou. As imagens da noite passada preencheram sua mente e as lembranças do Soldado Invernal vieram junto. Aquilo foi demais para que voltou a fechar os olhos.

— Bucky — sussurrou.


— Não, eu sou a Alexis — a voz que estava falando com ela contestou impaciente.


— Como está o Bucky? — perguntou com a voz fraca, abrindo os olhos.


Alexis limpou a garganta, como se estivesse montando uma mentira para contar.


— Eu vou chamar o Steve, ele pediu para avisar quando você acordasse.


segurou seu braço, a impedindo de sair.


— Onde está o Bucky? — perguntou com a voz firme.


Alexis bufou, desvencilhando seu braço.


— Ele voltou para a criogenia — disse


— Por que fizeram isso? — perguntou exasperada — Ele não ia machucar mais ninguém, eu desativei ele, não era necessário colocá-lo na crio…


— Alexis chamou com a voz calma, colocando sua mão sobre a da amiga — Você ainda não entendeu, foi o Bucky quem pediu para voltar para a criogenia.


a encarou por alguns segundos, esperando que Alexis desmentisse, mas ela não o fez. passou a mão pelo rosto, percebendo que aquele era exatamente o tipo de coisa que Bucky pediria.


— Eu preciso falar com o Steve e o T’Challa — disse ela por fim, arrancando a agulha de seu braço e os eletrodos de seu corpo.


, você não pode… — Alexis tentou impedir, mas, já era tarde demais, ela já estava saindo do quarto.



III


— O que você fez para pará-lo? — foi a primeira coisa que Steve perguntou.


o encarou perplexa, ele estava mesmo ignorando todas as perguntas que ela fez?


Rogers, T’Challa e ela estavam sentados em torno de uma mesa, não havia mais ninguém na sala além deles e Okoye, que permanecia de pé junto à porta.


— Eu acessei as memórias do Soldado Invernal e descobri que a Hydra havia implantado uma palavra para desativá-lo caso as coisas saíssem do controle — explicou , encarando suas próprias mãos, era difícil encarar os olhos de alguém quando as memórias continuavam voltando — Sputnik era a palavra. — concluiu, voltando a olhar para Steve e T’Challa — Precisam tirar ele da criogenia, agora eu tenho o que preciso.


— Bucky me disse que vocês tinham um acordo — T’Challa lembrou — Se as coisas saíssem do controle você desistiria.


— Eu sei que eu falhei — disse , mexendo as mãos impaciente — Mas, agora que eu acessei as memórias do Soldado Invernal eu tenho o que preciso…


, eu entendo que você queira ajudar, e acredite, o que eu mais desejo é que você consiga curá-lo — disse Steve, compreensivo — Mas, isso já foi o bastante pra ele. Saber que o Soldado Invernal machucou você foi o limite e ele estava muito abalado, não vai aguentar passar por isso de novo.


queria discordar, queria dizer que daquela vez tudo iria funcionar e nada de ruim aconteceria, mas, se falasse isso estaria mentindo.


— 45 — disse .


T’Challa e Steve a encararam sem entender.


— 1945, foi o ano em que a Hydra levou o Bucky.


viu a expressão de dor se formar no rosto de Steve, e soube naquele momento que ele estava se lembrando da queda do trem.


— Onde você quer chegar? — perguntou ele.


— 1968, foi o ano da primeira missão do Soldado Invernal — a expressão de dúvida ainda estava presente no rosto deles — A Hydra precisou de 23 anos para conseguir quebrar o Bucky e colocar o Soldado Invernal na cabeça dele, e sabem por quê? Porque ele lutou, ele tentou fugir diversas vezes — ela se lembrava com clareza das memórias de cada fuga, assim como da punição por tentar fugir que sempre vinha depois — Steve… — chamou ela, o Capitão a encarou — Lembra do uniforme do Soldado Invernal? Aquelas faixas na jaqueta que atravessavam o tórax não te lembram de uma coisa bem comum nos anos 40?


— Camisa de força — respondeu ele sem pensar.


— Exatamente, e você consegue imaginar quantas vezes ele teve que usar uma dessas como garantia de que não iria fugir? A Hydra fez o uniforme dele assim para que ele lembrasse quem estava no controle, para impedir que ele fugisse durante uma missão.


Nenhum deles respondeu, deduziu que entenderam onde ela queria chegar.


— A Hydra fez um bom trabalho, que deu a eles um assassino obediente, mas foram necessários anos e muita violência e tortura para ele ser assim. E eu sabia desde o primeiro momento em que vi as memórias dele que não seria fácil retirar o que a Hydra colocou nele, mas, agora eu tenho o que preciso para curá-lo e, além disso, também tenho a palavra para desativá-lo. Ele vai ficar bem, eu só preciso de uma chance.


Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, até T’Challa se pronunciar:


— A decisão é sua Steve.


Ele ponderou por alguns segundos, então balançou a cabeça afirmando.


— Eu espero que você consiga convencer ele.


sabia que aquela seria a parte mais difícil.



IV


— Eu sinto muito. — foi a primeira coisa que ele disse.


Bucky estava sentado em uma maca, usando roupas brancas e sua expressão não poderia estar pior.


— Não peça desculpas, aquilo não era você — disse ela com a voz firme.


Bucky riu sem humor.


— Então, se não fui eu, quem te machucou? — perguntou, apontando para ela e sabia que ele estava olhando para as manchas roxas em volta do seu pescoço.c

— A Hydra e a pessoa que disse as palavras, eles são os responsáveis, não você — afirmou — Consegue se lembrar quem foi?


Bucky balançou a cabeça.


— Ninguém aqui sabia as palavras — murmurou ele.


desviou o olhar, sentindo a culpa preenchê-la. Se ela não tivesse escrito as palavras naquele caderno, nada disso teria acontecido.


— Na verdade — a voz dela era hesitante — eu estava mantendo um diário com todas as memórias que eu recuperava de você, era a melhor forma de me organizar para conseguir apagá-las depois e em uma das páginas estavam as palavras — ela suspirou, voltando a encará-lo — Mas ele sumiu.


Ela esperava que ele fosse ficar com raiva, mas Bucky a encarou com um olhar compreensivo, tentando confortá-la, talvez vendo que ela já se culpava o bastante.


— Quem faria isso? — perguntou ele.


deu os ombros.


— O Steve e o T’Challa estão tentando descobrir, mas não é isso o que importa agora…


— E se essa pessoa tentar fazer de novo.


— Mas, não vai conseguir — assegurou — Eu precisava ter acesso às memórias do Soldado Invernal para recuperar o que faltava e conseguir apagar tudo o que a Hydra colocou em você, e agora eu tenho.


— Eu não vou colocar você em risco outra vez, nós tínhamos um acordo.


— Você não vai me impedir de te ajudar Bucky! — disse ela exasperada — Uma sessão, é só o que eu preciso, além disso, agora eu tenho a palavra que desativa o Soldado Invernal, se as coisas saírem do controle eu posso pará-lo.


Ele suspirou, como se não tivesse resposta para aquilo.


se aproximou, ficando entre suas pernas, passando seus braços em torno do pescoço dele.


— Eu posso apagar as memórias do ataque do Soldado Invernal — sussurrou ela — Vai ser mais fácil pra você.


Bucky fechou os olhos, passando os braços em torno da cintura dela.


— Ninguém está te culpando pelo o que aconteceu, todo mundo sabe que não foi tua culpa — explicou — Ficar se martirizando não vai ajudar em nada, só vai prejudicar você, então… Me deixa apagar.


Bucky olhou fundo em seus olhos, eles estavam marejados e ela conseguia ver a dor que aquela lembrança estava causando nele.


— Eu preciso lembrar, . Preciso lembrar porquê estou lutando contra a Hydra.



V


— Essa vai ser a última sessão — disse , quando eles entraram na sala juntos na semana seguinte.


— Você disse a mesma coisa quatro sessões atrás — brincou ele.


Diferente do que esperava, havia sido necessário mais de uma sessão para apagar completamente as memórias do Soldado Invernal, pelo menos Bucky estava colaborando.


— Eu estava tentando te poupar — explicou ela — É coisa demais, iria te sobrecarregar, mas a sessão de hoje vai ser a última, eu prometo.


Bucky sorriu e ela sabia que ele não estava a levando a sério.


Poucos minutos depois, eles estavam em seu local habitual. Nas cadeiras, um de frente para o outro. pressionou o centro da mão de Bucky, e então seus dedos foram até a cabeça dele, seus polegares pressionaram as têmporas, e no mesmo instante eles foram levados para uma memória bem específica. A última memória restante, que havia sido a primeira do Soldado Invernal.


Era um lugar frio.


— Onde estamos? — fez a pergunta de sempre.


— Sibéria — respondeu Bucky, sua voz trêmula.


— Consegue se lembrar o que está acontecendo nesse momento? — perguntou ela.


— Eu quero sair daqui — a voz dele era preenchida com horror — Me tira daqui, , por favor…


— Bucky, precisamos passar pela memória inteira para apagá-la.


… — insistiu ele.


— Bucky, você só precisa aguentar mais um…


Um grito de dor escapou pela garganta dele, e todos os detalhes daquela lembrança se tornaram nítidos diante dos seus olhos.


As palavras sendo ditas, uma a uma. Um choque intenso acompanhando cada uma delas. As ameaças, a dor, suas forças se esvaindo, seu corpo se entregando à sensação de estar prestes a morrer.


Bucky voltou a gritar, sentiu ele segurar seus pulsos, tentando afastar suas mãos de sua cabeça.


Ela se manteve firme.


— Está quase acabando, Bucky — ela tentou parecer forte, mas estava sendo impossível até mesmo para ela continuar vendo aquela cena.


— Por favor… — a voz falha dele pediu.


— Só mais um pouco…


E com um último grito de dor a lembrança se tornou uma mancha escura.


sentiu a cabeça de Bucky se tornar mais leve entre suas mãos. Ele havia desmaiado, e ela sentiu que não demoraria a acontecer com ela também.


Ela só teve tempo de chamar por ajuda antes de apagar.



VI


— Eu lembrei de você — Steve disse, ao sentar na cadeira ao lado de . — Ou quase isso.


Um dia havia se passado desde a última sessão com Bucky e agora eles estavam prestes a fazer o teste definitivo para saber se o Soldado Invernal havia sido apagado.


Steve e aguardavam Bucky e T’Challa para então começarem.


— Eu sempre tive a impressão de te conhecer de algum lugar — Steve comentou — E depois que o Bucky me contou o que havia acontecido, eu fiz minhas próprias pesquisas e descobri que estudei na mesma escola de artes que uma certa Brandon.


Os olhos de se arregalaram.


— Stevie! — disse, finalmente lembrando — Você era… menor.


Ele riu.


— É claro! — lembrou — Você teve uma crise de asma, eu te ajudei, foi assim que nos conhecemos.


— Deixei uma ótima primeira impressão — Steve brincou.


Os dois se levantaram quando T’Challa e Bucky passaram pela porta, acompanhados de um grupo de Dora Milaje.


e Bucky se entreolharam. Ela seguiu até ele, o abraçando enquanto sussurrava “vai dar tudo certo”.


E ela esperava estar certa.


VII


Steve era quem falaria as palavras, receava que se ela dissesse, poderia influenciar Bucky de alguma forma, por isso, ela ficou de pé, ao lado do rei de Wakanda. As Dora Milaje estavam do outro lado da sala, prontas para qualquer incidente, e torcia para que não houvesse nenhum.


Bucky sentou em uma cadeira no meio da sala, Steve ficou de pé em frente a ele, e após receber um aceno de cabeça de , ele começou:


— Saudade. — disse em russo.


Bucky permaneceu na mesma posição em que estava, seus braços apoiados nas pernas, encarando o chão.


— Enferrujado… — prosseguiu — Dezessete… Aurora...


pressionava o centro de sua mão com força. Ela não via nenhuma mudança no comportamento de Bucky, mas sabia que se tivesse falhado, o Soldado Invernal poderia aparecer a qualquer minuto.


— Forno… — continuou Steve — Nove… Benigno…


percebeu que Bucky estava fazendo o mesmo que ela, pressionando o centro de sua mão e aquilo não poderia ser um bom sinal, se ele estava tentando se acalmar era porque tinha algo errado.


— Volta para casa… — um sorriso discreto surgiu nos lábios de Steve ao perceber que o amigo não estava reagindo a nenhuma palavra, mas não gostava de comemorar antes da hora.


— Um…


sentiu suas mãos tremerem, faltava só uma palavra…


— Vagão de Carga. — Steve concluiu.


encarou Bucky por alguns segundos, segurando sua respiração. Ele levantou os olhos e encarou Steve.


— Qual o seu nome? — Rogers perguntou.


Bucky ficou em silêncio por alguns segundos e quando achou que ele iria levantar daquela cadeira como o Soldado Invernal, ele respondeu:


— Bucky. O meu nome é Bucky.


sorriu.


Ela havia conseguido. Ela havia tirado tudo o que a Hydra colocara dentro da cabeça dele.


Bucky estava curado, o Soldado Invernal não existia mais, mas aquilo também significava que ele não precisaria mais dela.


A hora de ir embora havia chegado.



Esgotado, com humilde dor, eu minto

“Os passeios de barco que nós tivemos,

O luar no lago, o jeito que dançamos e cantarolamos nossa música favorita.

As coisas que fizemos no verão passado.

Lembrarei delas por todo o inverno”

The Things We Did Last Summer, The Letterman



Naquela noite, sonhou novamente com outra memória.


O ano era 1943 e ela estava de volta à Nova York depois de alguns meses em Los Angeles. Ela nunca trabalhou tanto em sua vida, o estilista havia tomado quase todo o lucro para si mesmo e aguentou até onde conseguiu, mas, a pressão, e principalmente estar longe de Bucky, haviam feito ela desistir.


estava sentada na escadaria do lado de fora do prédio onde Bucky morava, esperando ele chegar para admitir que estava errada.


Segundo a irmã dele, Bucky estava na exposição de tecnologias junto com Steve e provavelmente chegaria tarde, mas, estava disposta a esperar, talvez ainda houvesse tempo. Mas, quando viu ele se aproximando, usando o uniforme militar, seu coração apertou. Ele iria para a guerra em breve.


? — perguntou, quase sem acreditar que era ela.


— Barnes. — ela o cumprimentou.


Ela havia imaginado aquela cena de uma forma diferente, os dois se abraçariam, se beijariam, ele a perdoaria e eles ficariam bem, mas, uma atmosfera desconfortável havia se instalado entre eles.


— Sargento Barnes — corrigiu ele, apontando para suas roupas — O que está fazendo aqui?


inspirou fundo, Bucky parecia diferente — o que não era de estranhar, eles ficaram oito meses sem se falar, e na última vez que se viram ela havia desistido de casar com ele.


— Eu fui uma idiota — admitiu ela.


Bucky a encarou com a sobrancelha levantada, um sorriso querendo se formar no canto de seus lábios, quase como se ele quisesse dizer: “Eu te avisei”.


— Esses últimos meses foram horríveis, esse estilista conseguiu ser mais insuportável do que a francesa, eu trabalhei o dobro do que costumava trabalhar e não recebi nem metade do que ele me prometeu, mas... Eu conseguiria aguentar tudo isso Bucky, se não fosse você. Eu senti a tua falta todos os dias, e a cada momento eu me arrependia de ter te deixado — suas mãos se mexiam constantemente, como se palavras não fossem suficiente para expressar o que ela sentia — Eu sempre pensei que a guerra iria nos separar, mas, no fim das contas fui eu quem fez isso e tudo porque eu tinha medo de me comprometer.


Ele cruzou os braços, sua expressão se tornando mais séria.


continuou.


—Bucky, você foi ótimo pra mim durante todos esses anos, e eu deveria saber que você era o homem certo pra mim, mas, você sabe como eu sou… Eu tenho medo de me apegar às pessoas, porque todas as pessoas a quem eu me apeguei me deixaram, primeiro meus avós, depois meus pais, minhas amigas… Eu não tinha mais ninguém Bucky, ninguém além de você e eu tinha tanta certeza de que te perderia um dia que acabei te deixando antes que isso acontecesse. E agora… — ela inspirou fundo — Eu pensei que se eu voltasse poderíamos ficar juntos, mas, parece que é tarde demais — apontou para o uniforme dele — Eu queria ter voltado antes — lamentou, com tristeza percebendo que já era tarde demais.


Bucky ficou em silêncio, e aquilo a torturava. Ela queria que ele dissesse alguma coisa. “Está tudo bem” ou “Você veio tarde demais” até mesmo um “Eu estou com outra garota”, não importava, ela só queria uma resposta, ela só poderia continuar vivendo se tivesse uma resposta.


E ainda sem falar nada ele deu alguns passos em sua direção, envolvendo seus braços em torno dela, a abraçando com todas as suas forças, afundando o rosto nos seus cabelos.


fechou os olhos, segurando o casaco dele com força, como se aquilo fosse impedi-lo de ir embora. Ela podia sentir lágrimas se acumulando em seus olhos, os soluços presos em sua garganta querendo sair a todo custo.


— Quando você vai? — sua voz saiu abafada.


— Amanhã — Bucky respondeu com a voz falha e aquilo foi o suficiente para as lágrimas que os dois seguravam corressem livres.


— Eu queria tanto que tivéssemos mais tempo — choramingou ela.


Bucky se afastou dela, o suficiente para poder olhá-la nos olhos. Ele secou as lágrimas do rosto dela, mesmo que seu próprio rosto estivesse coberto por elas.


— Ainda temos essa noite, é suficiente — ele tentou sorrir, mas, foi impossível.


— Uma vida não seria suficiente, Barnes — respondeu ela.


— Promete que vai me escrever sempre que puder? — pediu .


— Promete que vai me esperar?


balançou a cabeça.


— Quanto tempo for necessário.


Bucky sorriu.


— Então temos um acordo.


E assim, ele segurou o rosto dela, encostando seus lábios.


fechou os olhos, tentando gravar cada detalhe daquele momento, de como era a sensação dos lábios dele sobre os seus, tentando lembrar-se do toque dele em sua cintura, do cheiro dele… Porque sabia que eles ficariam muito tempo longe um do outro, e ela não sabia se seria capaz de aguentar a distância outra vez.


— Por que está chorando? — perguntou ele ao se afastar dela — Vai ficar tudo bem.


— Me prometa que vai voltar pra mim — ela pediu — Por favor, me diga que vai voltar pra mim.


— Eu vou voltar — Bucky garantiu, segurando a mão dela, só então percebendo que o anel de noivado ainda estava ali — Você ainda o usa?


observou o anel também.


— De alguma forma, eu sempre soube que voltaria pra você outra vez.


Bucky beijou o dorso da mão dela.


— Vamos encontrar o caminho de volta um para outro.


— Promete?


— Prometo.


Quando acordou, lágrimas se acumulavam em seus olhos e soluços estavam presos em sua garganta.


Aquela cena estava prestes a se repetir outra vez.



II


— Quando você vai? — Bucky fez a pergunta que estava adiando a noite toda.


Os dois estavam no jardim do terraço, deitados no chão, envoltos por flores azuis enquanto observavam o céu estrelado. Provavelmente já estavam ali há mais de duas horas, mas nenhum deles sabia ao certo, o tempo já não importava mais, ambos sabiam que não restava muito tempo para ficarem juntos.


suspirou, encostando a cabeça no ombro de Bucky, encarando suas mãos entrelaçadas.


— Amanhã — respondeu ela.


— Eu queria que tivéssemos mais tempo — completou Bucky.


fechou os olhos. Aquele momento estava sendo exatamente como quando eles se despediram pela última vez nos anos 40. A mesma escolha de palavras, os mesmos sentimentos, mas, dessa vez era ela quem estava indo embora.


— Ainda temos essa noite — ela repetiu as palavras ditas por ele naquele dia — É suficiente.


— Você lembrou? — perguntou Bucky, podia dizer pela sua voz que ele estava sorrindo.


levantou sua cabeça, se apoiando nos cotovelos, para olhá-lo nos olhos e acenou em concordância.


—Naquela época eu disse que uma vida não seria o suficiente, mas, agora eu vejo que nem duas vidas são o bastante.


— Não precisa terminar aqui, .


Ela negou.


— Eu preciso ir embora, Bucky. Eu preciso encontrar meu irmão, descobrir por que ele fez o que fez e se ainda há alguma forma de ajudá-lo — explicou — Eu queria ficar com você, mas… Não podemos.


— Estamos cometendo o mesmo erro do passado, — disse Bucky — Nos encontramos de novo por uma razão, não podemos ignorar isso e seguir nossas vidas separados.


desviou o olhar dele. O momento que ela tanto adiou havia chegado.


Ela sentou, vendo Bucky fazer o mesmo, a encarando com um olhar preocupado.


— Você está certo, não podemos ignorar, mas, eu posso apagar essas lembranças de você…


Ela viu a mágoa se acumular nos olhos dele.


— Não! Você prometeu que não iria apagar — ele suplicou, olhando fundo em seus olhos, implorando para que ela não o fizesse.


— Vai ser melhor assim, Bucky…


— Não, não vai! — ele esbravejou — , eu não quero esquecer de você.


— Eu vou manter as memórias do que aconteceu nos anos 40, Bucky.


, você não pode…


— Eu sei o que é melhor pra você, Barnes…


— Então sabe que é melhor que eu lembre de você.


— Bucky… — ela pediu com a voz falha — Não torne isso mais difícil do que já é.


, eles tiraram tudo de mim — disse Bucky, segurando as mãos dela entre as suas, seus olhos claros fitando os seus pareciam ser capazes de olhar a sua alma — Eles tiraram a minha família, o Steve, as minhas memórias, a minha liberdade… Então, por favor, . Não tire mais uma coisa de mim.


Ela inspirou fundo, só então notando que estava prendendo a respiração.


desvencilhou suas mãos, levando-as até o rosto dele, secando uma lágrima solitária que corria em sua bochecha.


— Eu sinto muito — ela sussurrou, antes de levar sua outra mão até a cabeça de Bucky e pressionar seus polegares nas têmporas dele.


Ela sentiu ele segurar seu pulso com a mão direita, assim como ouviu os gritos de protestos, mas, ela já estava acessando as memórias.


Aquela seria a pior parte, sabia. Eles teriam que reviver as memórias para conseguir apagá-las e ela temia fraquejar naquele momento.


— Pare com isso! — pediu Bucky, desesperado — Você não pode fazer isso, você não pode…


Ela tentou ignorá-lo, somente observando a cena que se construía à sua frente:


Foi a primeira vez que eles se viram.


Bucky estava de pé conversando com Steve e T’Challa, tentando alertá-los de que poderia machucar a garota, mas, apesar de estar atento ao que os outros dois falavam, seus olhos permaneciam presos à ela, no sofá branco a poucos metros deles.


Os olhos dela encaravam o teto branco.


De alguma forma ele sentia que já havia visto ela em algum lugar.


, eu não quero apagar você — insistiu ele — Me escuta.


Ela não respondeu.


“Ela estava em alguma missão do Soldado Invernal?” Bucky questionou mentalmente, ainda observando o rosto dela, aqueles traços eram tão familiares para ele.


E então, ela desviou o olhar do teto e encarou diretamente os olhos dele, a troca de olhares durou apenas alguns segundos, antes que Bucky se virasse para Steve que continuava falando alguma coisa sobre estarem ficando sem opções.


Ele conhecia aquela garota, ele tinha plena certeza disso, e mais do que conhecer… Havia um sentimento ali… Por alguma razão ele se importava com ela, apesar de ela ser somente uma estranha, ele queria protegê-la, e essa era só mais uma razão para mantê-la longe dele.


, por favor — Bucky suplicou, ela se manteve em silêncio outra vez, mas, um soluço escapou de sua garganta.


Ela estava chorando.


T’Challa chamou o nome dela: .


Aquele nome soava familiar para Bucky, mas era difícil lembrar.


Ela começou a explicar como seus poderes funcionavam.


A voz dela era familiar também.


Ela olhava diretamente para Bucky, mas ele não conseguia sustentar o olhar nela por muito tempo. Aqueles olhos eram tão familiares e um sentimento estranho tomava conta dele quando olhava para ela, algo parecido com ansiedade, com pesar, com… culpa?


Ela explicou que poderia trazer as memórias que ele havia esquecido de volta, assim como poderia apagar as memórias deixadas pela Hydra.


“Isso vai resolver?” perguntou ele a Steve.


Ele não conseguia falar diretamente com ela, sentia-se como um adolescente tímido que está convidando a garota popular da escola para o baile.


Bucky nunca se sentiu daquela forma.


“Vai?”, Steve perguntou para ela.


“Vai”, ela afirmou.


Bucky confiou nas palavras dela.


Mas, no minuto seguinte aquela lembrança virou pó, e Bucky não conseguia lembrar mais o que ela havia apagado, mas, sabia que ela continuaria o fazendo.


, por favor, pare com isso… Eu não quero esquecer você.


sabia que deveria se manter firme. As memórias mais difíceis ainda estavam por vir e ela não poderia fraquejar. Ela já havia começado e precisaria ir até o fim, não importava o quanto a machucasse.


Mas, então, ela sentiu a mão gélida de metal segurar seu outro pulso, Bucky não estava impondo força, mas, ela sabia que era uma forma de implorar para que ela parasse.


… — ele pediu outra vez, sua voz embargada. Ela sabia que o que estava fazendo era uma tortura para ele.


— Bucky, eu… — ela cometeu o erro de responder.


Sua voz chorosa deixava claro o quanto ela estava vulnerável.


Bucky, provavelmente percebendo isso, soltou seus pulsos e por um momento ela pensou que ele houvesse desistido, mas, então, as mãos dele seguraram seu rosto.


Não demorou para sentir os lábios dele contra os seus.


E aquilo foi o suficiente para se desconcentrar.


As memórias e sentimentos se acumularam nela, imagens que ela não conseguia decifrar ou organizar preencheram sua mente, sua visão estava embaçada, como se ela estivesse assistindo aquelas lembranças em uma televisão antiga.


tentou focar outra vez, mas, era impossível. Os sentimentos de Bucky estavam intensos demais, as memórias dos dois se repetindo ao mesmo tempo e aquilo era demais para ela aguentar.


Tudo o que ela sentiu foi o corpo de Bucky fraquejar, antes de as memórias se tornarem uma mancha escura.


III


Na tarde do dia seguinte, estava na Quinta Avenida em Nova York, quase ficando tonta pela quantidade de gente andando de um lado para o outro, apressadas.


Os carros pararam e acompanhou o fluxo para atravessar a faixa de pedestres, tentando caminhar o mais rápido possível sem tropeçar em seus próprios pés, olhando para os lados, esperando que qualquer coisa tomasse sua atenção, mas, estava impossível.


A quem ela queria enganar? Ela sentia falta de Bucky. E era essa a razão para ela olhar tanto para os lados, ela estava procurando por ele ali, mesmo sabendo que não o encontraria.


Na noite anterior, depois de Bucky desmaiar, havia desistido de apagar a memória dele. Era injusto fazer aquilo, Bucky já havia perdido tanta coisa, e mesmo que eles não pudessem ficar juntos, ela deveria pelo menos deixar que ele ficasse com as lembranças que os dois tiveram juntos. No fim das contas, são as lembranças que ficam, são elas que fazem tudo valer a pena. não poderia tirar aquelas memórias dele, mas, gostaria de poder tirá-las de si mesma. Era impossível continuar sem ele, sabendo que ele estava em Wakanda, que bastava a decisão de voltar para lá para eles ficarem juntos.


Mas, ela sabia o que era o certo a ser feito. Ela precisava encontrar seu irmão, resolver os assuntos com ele, e depois tentar se resolver com Alexis.


T’Challa havia dito que ela poderia voltar para Wakanda quando quisesse, que poderia levar seu irmão para lá onde eles estariam seguros. Mas, ela precisava garantir que ninguém sairia prejudicado se ela tomasse essa decisão, talvez, se conseguisse resolver tudo, um dia pudesse voltar para Wakanda e reencontrar Bucky, mas, algo dizia que esse dia estava longe de chegar.


IV

agradeceu quando uma garçonete colocou a xícara com café sobre a mesa e então voltou a encarar a rua movimentada do lado de fora da lanchonete pela janela.


Havia começado a garoar e buscou abrigo no primeiro lugar que encontrou, e só quando entrou lá e sentiu o cheiro de bolo recém-tirado do forno, percebeu que estava faminta e exausta.


Ela havia caminhado durante a manhã toda por aquele bairro, tentando encontrar seu irmão, mas, não havia tido sinal algum. pegou o caderno em sua bolsa e conferiu o endereço que T’Challa havia lhe dado, mas, ao chegar lá, tudo o que havia encontrado era um apartamento vazio.


Ela passou a mão pelo rosto, suspirando. Pegou a caneta na bolsa e começou a rabiscar na folha em branco ao lado do endereço. No início ela não sabia exatamente o que estava desenhando — e se surpreendeu com quão bom o desenho estava ficando — mas, logo percebeu que era a paisagem que ela via todos os dias do jardim do terraço em Wakanda, e logo um rosto começou a se formar, ela o reconheceu como sendo o de Bucky.


Talvez no fundo ela tivesse algum talento para desenho.


estava tão imersa rabiscando no caderno que não percebeu quando alguém sentou na cadeira ao lado da sua, só percebendo que havia alguém ali quando essa pessoa limpou a garganta.


— Não é educado ignorar os outros, sabia?


Ela reconheceu imediatamente aquela voz.


— Bucky? — perguntou, encarando o homem sentado ao seu lado.


Ele estava diferente. Havia feito a barba, usava um boné, uma jaqueta de couro preta sobre uma blusa azul escura, e luvas pretas, é claro, a fim de esconder a mão de metal.


— O que está fazendo aqui? — sussurrou ela, mesmo que sua voz demonstrasse um tom de empolgação.


— Vim atrás da minha garota, eu lembro que havia prometido que iria ensinar ela a dançar, e sempre cumpro minhas promessas. — explicou ele sorrindo.


Mas, não parecia nem perto de estar feliz.


— Você não deveria estar aqui, é perigoso… E se alguém te reconhecer?


Bucky rolou os olhos.


— Isso não importa, agora eu já estou aqui e você tem que aceitar isso, além de tudo, você deixou que eu ficasse com as memórias, eu entendi como um recado para vir atrás de você.


balançou a cabeça em negação, fechando o caderno e encostando suas costas na cadeira. Um pequeno sorriso passava a se formar em seus lábios, o que fez Bucky sorrir também.


— Está brava comigo? — perguntou ele, puxando sua cadeira para mais perto dela.


— Eu estou furiosa, Barnes — respondeu, mas, o sorriso em seu rosto dizia o contrário.


Bucky passou o braço sobre os ombros dela e encostou a cabeça nele. Por um momento, eles se sentiram como um casal normal.


— Conseguiu encontrar ele? — perguntou Bucky.


balançou a cabeça.


— Ainda não, ele não estava no apartamento. Deve ter previsto que alguém iria atrás dele e então fugiu — explicou, a decepção evidente em sua voz.


— Qual o plano agora? — perguntou.


—Vou continuar esperando. É provável que ele venha me encontrar.


— Isso significa que você está livre hoje à noite? — perguntou Bucky, sorrindo.


se afastou dele, somente para encará-lo nos olhos.


— No que está pensando, Barnes?


Ele deu os ombros.


— Quero ter um encontro de verdade com você — explicou, segurando a mão dela com a sua mão livre.


sorriu.


— Não me parece uma má ideia — respondeu, aproximando seu rosto dele, unindo seus lábios.


V


— Onde estamos? — Bucky perguntou, após eles descerem do táxi.


— Pelo o que eu consigo lembrar era aqui que eu morava — ela observou o local ao seu redor, um parque, com algumas poucas árvores e alguns bancos de madeira espalhados, cercado por prédios — Não era assim que eu me lembrava — concluiu, entrelaçando seu braço ao de Bucky, o puxando para sentarem em um dos bancos.


A garoa havia passado, e apesar do clima frio, o sol começava a aparecer em meio às nuvens. observou o céu por alguns minutos, sua cabeça encostada no ombro de Bucky, ela podia parecer serena, mas, seu pé se mexendo constantemente indicava que ela não estava tão tranquila quanto aparentava.


— No que está pensando? — perguntou Bucky.


suspirou.


— Você escreveu pra mim enquanto estava na guerra, como havia prometido — comentou ela, Bucky balançou a cabeça concordando — Eu lembrei de algumas cartas que você me enviou — um sorriso surgiu em seus lábios ao lembrar das mensagens — Você sempre dizia que me amava e garantia que ia voltar pra mim.


— Essa foi a única promessa que eu não consegui cumprir, não é? — lembrou ele.


levantou sua cabeça, somente para olhar nos olhos dele e balançar a cabeça negando.


— Você está aqui, não está? Acho que a promessa foi cumprida.


Bucky sorriu, envolvendo seu braço em torno da cintura dela, puxando-a para mais perto.


— Mas, não é isso que está te incomodando — disse ele, como se fosse capaz de ler os seus pensamentos.


— Eu só estava pensando… — ela fez uma pausa, procurando as palavras certas — Como deve ter sido quando eu descobri que você tinha morrido na guerra? — questionou — Eu lembro de ter recebido uma carta, eu pensei que era tua, mas, era do exército, lamentando a tua morte, mas… Eu não me lembro de mais nada depois disso.


Bucky depositou um beijo no topo de sua cabeça, a abraçando com mais força.


— Lembra o que você me disse na nossa primeira sessão? — perguntou ele.


riu.


— Eu disse tanta coisa…


— Você me disse que a nossa mente muitas vezes nos protege das lembranças que podem nos prejudicar, talvez não lembrar disso seja o melhor pra você. — concluiu ele.


E sabia que ele estava certo, e era justamente isso que a deixava com medo. O que poderia ter acontecido de tão grave após isso para que ela não conseguisse acessar essa memória?


— Não pense muito sobre isso — Bucky pediu — Estamos aqui, agora. É isso o que importa.


Com aquilo, prometeu pra si mesma que se permitiria viver o momento durante o resto daquele dia, sem se importar com o passado ou com o futuro. Eles tinham um ao outro naquele momento, e não sabiam por quanto tempo mais seria assim.




Continua...



Nota da autora: S/N

Nota da scripter:
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.