Finalizada em: 28/11/2019

Capítulo Um - Convocação

— Você só pode estar maluca. Eu não vou fazer isso!
— Como você pode se negar a me ajudar?
— O Fred vai perceber que sou eu!
— Não vai, porque você não pode ser vista!
— Ester... Quando eu vou parar de me meter em roubadas por sua causa?
O grito animado de minha melhor amiga era a prova de que, mais uma vez, eu fui uma pamonha que aceita tudo. Chegou a me dar coceira na cabeça só de pensar o quanto aquilo poderia dar errado. Fred e Ester estavam prestes a se casar e a esta altura do campeonato, minha amiga desconfiava que o noivo tivesse uma amante. Mas, fala sério! Ester não é lá muito normal, e sempre está afoita com desconfianças de que todas as pessoas estão mentindo para ela. Complexa, louca e mimada. Essa era Ester Magalhães. E sobrava para quem ser o bode expiatório dela? Exactly! Its me!
Ela me levou até o “clube masculino” de divertimentos que o noivo, vez ou outra frequentava com os amigos e há pouco ela descobrira. Francamente... Esse pessoal elitista é ridículo. Não o Fred e nem a Ester, porque eles eram realmente diferenciados nessa Terra, mas a elite num geral. “Clube de divertimentos masculinos”, um nome patético para “puteiro, zona, casa das primas, boate azul”... E lá estava eu, na porta dos fundos do local. Borrando-me de medo daquela loucura? Com certeza! Não que eu seja uma covarde, mas eu estava prestes a entrar escondida como a Kim Possible dos casamentos quase arranjados. Eu não sou Dante, mas a minha vida era uma divina comédia.
Ester me explicava mais ou menos como era a planta do lugar, já que uma conhecida de uma conhecida, da amiga de hóquei dela conseguiu fotos internas para ela. Aquilo estava sendo completa, e absurdamente ridículo!
— Ester, eu acho que isso não vai dar certo. Que tal você simplesmente chegar ao Fred e perguntar: “Seu cachorro! Você está me traindo?”, como a maioria das mulheres faria?
, em que mundo você vive? A maioria das mulheres faria exatamente como eu!
— Minha mãe estava certa, eu nasci mulher na alma de homem então!
— Amiga, ser prática não significa pensar como homem, tá? – Ester falou enquanto observava algumas garotas que caminhavam na nossa direção.
— Então você concorda comigo, que seria bem mais prático e menos arriscado perguntar diretamente a ele?
Ela me deixou falando sozinha enquanto observava as mulheres que paradas à porta dos fundos, mexiam em suas bolsas retirando algumas roupas brilhantes nos braços.
— Ei! Meninas!
Ester foi até elas, conversou e eu não sei como, lá estava eu sendo puxada pelas mulheres. Passamos pelos seguranças e numa espécie de “apoio universal feminino”, as dançarinas resolveram me ajudar em prol do plano maluco da minha melhor amiga. Eu me vesti de stripper e queria do fundo do meu coração, morrer.
— Garota que corpaço você tem! Já pensou em trabalhar nisso? – uma das dançarinas me dizia sorrindo simpática.
— Você não está falando sério, né? – perguntei e a outra começou a rir chamando minha atenção.
— Não, ela não está. Para a Kate ser admirada por um monte de macho escroto é o melhor trabalho do mundo.
— E para a Cher é só uma questão de tempo até arrumar trabalho melhor.
Eu me senti naqueles seriados, bem, bem besteirol em que uma amiga completa a frase da outra. Morrer. Nunca me foi tão atrativa a ideia.
— Vocês realmente se chamam Kate e Cher?
— Não. Eu sou a Bruna e ela é a Maria. – disse a tal “Cher”.
— São nomes de guerra. – respondeu “Kate”.
— Olha... Vocês me perdoem, mas eu acho isso tudo aqui uma loucura, então, vocês não podem ir lá e ver se o Fred está aí, fazendo o que com quem, enquanto eu espero aqui?
— Isso é vergonha de aparecer, ou medo de ser descoberta?
— Os dois. – respondi.
— Garota, você é linda e não vai ser difícil não ser reconhecida pelo tal boy, com essas pernas aí para jogo. – disse Kate.
— Você deve treinar pesado. – falou Cher terminando de passar seu batom.
— Eu jogo futebol.
— Minha nossa, você é interessante mesmo. – respondeu Kate num tom que me deixou um tanto envergonhada.
— Olha, bonitinha, nós vamos ajudar a sua amiga Ester te colocando no salão sem suspeitas, mas não podemos ajudar mais do que isso, nosso show começa em cinco minutos. Então, respira, concentra no noivo mentiroso e vamos!
Cher falou tudo e foi me puxando para outro acesso do lugar, e Kate às minhas costas sorria como se tentasse me acalmar. Quando saí ao lado do palco, e percebi o tamanho do lugar agradeci mentalmente porque não seria facilmente descoberta e praguejei em voz alta porque teria que achar uma agulha num palheiro. As dançarinas piscaram e acenaram para mim em despedida, e foram para o palco onde um jogo de luzes mostrava que começaria o show.
Desci os quatro degraus laterais e peguei meu telefone mandando mensagem para Ester e afirmando que estava tudo certo. Rapidamente a mensagem dela chegou me dando as coordenadas de como Fred estaria vestido e provavelmente com quem. Foi aí que ela me enviou a foto de um Deus Grego, literalmente. Puta merda! Como eu nunca tinha sido apresentada àquele amigo do Fred? Ester, seu fígado numa bandeja de prata. Suspirei profundamente, dei três pulinhos e dois, tapinhas no rosto como fazia em meu ritual antes de entrar em jogo. E lá fui eu para a galera ensandecida com as mulheres seminuas no palco.
Homens. Seres repugnantes por natureza. Eu sempre assisti aos desenhos animados, vendo os cachorros enlouquecerem atrás de uma corda de linguiças, e sempre pensei o desespero que deveria ser a linguiça. Bem, agora eu sabia. Eu me segurei umas quatro vezes para não virar bons socos em rostos barbados. Andei como a própria Madalena arrependida com medo do apedrejamento depois de anunciar “rapazes, acabou minha vida de pecados”, entre aquele povo tarado. Caminhei como Forrest Gump de um lado ao outro, e por fim, pedi ajuda. Cher estava descendo do palco quando por sorte a alcancei.
— Cher! É impossível achá-lo aqui!
— Hm... Você tem uma foto dele? A visão do palco pode ser que eu tenha o visto. – ela disse sendo a luz no fim do túnel.
— Tenho!
Peguei meu telefone, mas eu não tinha uma foto do noivo da minha amiga, oras. E a bem-aventurada da Ester havia retirado a foto deles do perfil,
— Esse cara está com ele hoje! – lembrei-me do tal amigo mostrando a foto para a Cher.
— Uau... Certamente nunca veio antes, porque eu não esqueceria esse rostinho.
— Um mau caminho, né menina? – falei analisando a fotografia.
Cher riu com minha reação e quando eu percebi, fiquei séria me concentrando novamente.
— Sortuda! – ela me disse — Ele está sentado ao balcão do bar, bem pertinho do palco. Se eu não estou confundindo era ele. De camisa vermelha, e com uma cara de que foi deixado à espera.
Abracei Cher, sorri dando glórias e caminhei direta e decidida até o local. E realmente tinha um rapaz de vermelho se levantando da mesa. Ele entregou umas notas de dinheiro ao barman e tomou a direção oposta à minha. Corri para alcançá-lo, e com dificuldade consegui. Parei na frente dele, e o homem sem entender nada me encarou dos pés a cabeça, ponderou o olhar nos meus olhos e sorriu ladino. Puta merda, eu me fodi. Sem a parte boa da coisa.
— Posso te ajudar? – ele perguntou analítico.
— Po-pode... Ér... Eu... Hãn...
— Você está no lugar errado? – ele riu discreto.
— É tão óbvio assim?
— Por que está vestida como uma das dançarinas então?
— Você já disse sim para a loucura de um amigo quando deveria dizer não?
— Sim. – ele começou a rir olhando para o chão e me encarou completando a resposta: — Vir a este lugar.
— Olha... Se não foi o destino nos unindo aqui, eu não sei o que foi então.
— Você estava indo a algum lugar ou queria falar comigo?
Fo-deu. Abri a boca sem palavras, e mordi os lábios, pesarosa.
— Desculpa, cara, eu achei que era outra pessoa que eu preciso encontrar aqui... Ou não.
— Hm... E qual o seu nome?
.

Burra! Como você diz seu nome para o cara que você estava caçando? São os malditos olhos.
— Prazer , eu sou o . – ele estendeu a mão para me cumprimentar — Mas, não era este o nome que você procurava, ou era?
— Não, não era. Mas confesso que foi bem melhor achar você sozinho.
Falei reflexiva e ele riu surpreso. Imediatamente arregalei os olhos.
— Não! Eu não estou te cantando não, cara, é só que se fosse o outro, eu teria que... É... Ah esquece.
— Quem você estava procurando? O seu namorado?
— Não necessariamente, mas... Digamos que um carinha está fazendo uma garota de trouxa e eu, estou aqui para tentar achá-lo.
— Será que estamos aqui por causa do mesmo homem?
Encarei os olhos de , confusa, e com medo da decepção.
— Como assim? Vo-você é gay, ou algo do tipo?
A gargalhada dele era melodiosa demais para a minha cabeça, por Deus. Ou a minha menstruação tinha acabado de descer, ou aquele homem me provocou um orgasmo em três sons: há-há-há.
— Não. Meu amigo tinha uma despedida de solteiro marcada aqui, mas parece que ele fez o pessoal organizar em outro lugar e não me avisou até eu telefonar para ele uns cinco minutos atrás.
— Ah...
— Ou seja, o meu amigo me fez de trouxa. Seria ele o cara que você procura? – ele falou em tom brincalhão, mas eu imediatamente aproveitei a deixa.
— Quem sabe? Qual o nome do seu amigo?
— Frederico.
— Olha... Eu estou para te dizer que na minha versão, a trouxa fui eu.
Levei as mãos à cintura, puta dentro da minha calcinha, por ter passado por aquela vergonhosa situação à toa.
— Então, está de saída? – ele me perguntou.
— É... Eu acho que sim, não vou achar nada por aqui, acredito.
— Que tal se a gente fosse beber algo num lugar menos... Num ambiente mais familiar.
— Vestida desse jeito? Eu acho que não. – eu ri.
— Suas roupas... Você veio assim? – ele me olhou como se eu fosse louca.
— Não! Na verdade, eu tenho que ir para o camarim, então... Desculpa por ter te confundido.
— Eu te espero, nós tomamos um drinque no lugar que você quiser e aí você estará desculpada.
— Rancoroso você... – falei em tom brincalhão.
Sabe o que é inacreditável também? Para cada roubada que eu me metia por causa da Ester, eu dava o troco nela. Então, agora ela ficaria esperando até a hora que eu quisesse, por notícias.
Caminhei até o camarim e troquei de roupa, pegando minhas coisas e deixando a roupa emprestada sobre as malas de Cher e Kate. Tateei por ali atrás de papel e caneta, e deixei uma mensagem para as meninas agradecendo.
Fui cautelosa até o corredor do salão, saindo de volta ao lado do palco e receosa se deveria mesmo fazer aquilo ao invés de sair pelos fundos. realmente me aguardava ali e pegou minha mão me guiando pela saída oficial do lugar. Quando chegamos do lado de fora nós nos cumprimentamos direito, e nos apresentamos melhor. Ele falou brevemente sobre estar afoito para sair dali e eu concordei. Caminhamos uma boa distância e quando me dei conta de que Ester deveria estar em surto, eu mandei uma mensagem por telefone apenas dizendo: “Vá para casa sua neurótica, ele não estava lá e eu estou com o ”. Ela enviou um conjunto de emojis obscenos e eu relevei.
— E aí, aonde quer ir? – ele perguntou.
— Na boa? Aquele foodtruck ali é o point. – eu apontei para o caminhãozinho parado mais à frente.
— Sério? Já comeu lá?
— Não. Mas o que é um podrão para quem tem fome?
Ele riu e olhou para o lugar como se fosse uma nave alienígena.
— Você nunca comeu num desses? – perguntei sentindo o cheiro da turminha elitista de Fred.
— Não, nunca tive uma companhia que me levasse a isso.
— Cara, eu preciso te mostrar o melhor da vida... – zombei me apressando em direção ao carro.
Fizemos os pedidos e eu acrescentei duas cervejas no cardápio, já que a proposta de era que bebêssemos um drinque fora da boate.
— Você é bem singular, . – ele falou assim que nos sentamos.
— Eu encaro como um elogio.
— E é um elogio. Mas então, me diz aí... Qual o nome do carinha e da garota da sua história?
Pensei um pouco e achei melhor me jogar no fogo para não dizer o que não devia.
— Está bem, eu confesso. Eu só disse aquilo porque te vi ali e queria te conhecer.
Ele riu e pensou um pouco, logo me respondendo desafiador deixando óbvio que não acreditava:
— Eu acredito, mas então, qual a razão de ter ido lá com aquela roupa? Você é dançarina do lugar?
— Não, eu não sou funcionária de lá. Eu realmente estava ali por acaso, mas... Acho que esse vai ser um dos segredos que eu vou colocar na lista de “cedo demais para contar para esse cara”.
— Certo... – ele se aproximou de mim, discretamente por cima da mesa e sorriu desafiador: — Então vamos ao que interessa você queria me conhecer, não é?
e eu conversávamos como se nos conhecêssemos há muito tempo, mas nada do que dissemos era diretamente relacionado a nós. Eu não saí dali sabendo muito sobre ele, e nem ele sobre mim. A única coisa que eu soube, valeu por qualquer outra informação. Depois de comer e beber algumas cervejas, eu achei que já havia passado da hora de ir embora. Chamei um carro pelo aplicativo, embora ele insistisse em me dar uma carona. Caminhar de volta até o estacionamento da boate também era algo que eu evitaria. Quando o carro chegou, se levantou e eu também. Ele pagou a conta do nosso lanche mesmo com todo o meu protesto sobre aquilo, e me acompanhou até o HB20 que aguardava. Sorri para ele e fiz menção de abrir a porta, mas ele foi mais rápido. Agradeci e antes de entrar senti ele me puxar pela mão, tranquilo e sorrir dizendo:
— Se não vai deixar seu telefone, eu posso pelo menos te pedir a lembrança de um beijo?
Puta merda, né?! Você não deixaria não? Bem, eu não só deixei quanto ainda pedi para o motorista de aplicativo esperar um pouquinho, enquanto eu dava um segundo beijo. E que bom que o motorista era bem-humorado. fechou a porta de trás assim que entrei no carro e se direcionou ao motorista exigindo educadamente, que ele me deixasse em casa em segurança.
O meu telefone não parava de tocar a uns bons minutos. Eu saí do banho, bastante cansada e em êxtase. Pela primeira vez, uma loucura da Ester trouxe algo bom para mim. Eu tinha certeza que me apegar naquela lembrança não seria saudável, mas sabia também que, esquecer aquele homem seria impossível. O sorriso frouxo na minha face e o olhar de flerte apaixonado denunciava que eu não sabia o que era beijar uma boca a mais tempo que o devido, e as minhas profundas reflexões foram interrompidas por uma Ester surtada que não parava de me telefonar.
— Por Deus, mulher, você não sabe quando uma pessoa não pode atender?
— Não pode, ou não quer, ? Você ainda está com ele? Eu acho que mereço explicações, não? Espera... Você não estava transando não, né?
Massageei meus olhos num extremo tédio em ouvir os disparos nada sutis de Ester. Pra variar.
— Eu não queria atender porque estou exausta. Eu não estou com ele. Queria estar transando? Com certeza. Mas eu acabei de conhecer o cara e quem me garante que ele não pode ser um psicopata? E quanto às explicações, você me deve algo que eu não sei bem o que é ainda... E deve desculpas ao seu noivo, que é inocente, sua maluca!
— Calma aí! É muita informação, perua, me conta devagar como foi a sua noite. Aliás, não conta não, amanhã você conta os detalhes... Só me responde as perguntas...
— Seja breve, por favor, o banho de imersão dos meus pés já está esfriando.
— Você tem certeza que o Frederico não estava lá?
— Eu vou te bater.
— Só quero saber se você procurou direito antes de se distrair com o !
— Eu vou te dar um soco.
Okay, okay! Vocês saíram juntos?
— Sim.
— Para onde?
Foodtruck perto da boate.
— O QUÊ? – ouvi a risada incrédula de Ester do outro lado. Certeza que era pelo motivo do amigo almofadinha do Fred estar comendo um podrão comigo na rua: — Você é a melhor! E... Teve pegação?
— Sim.
— Em que nível? – a malícia na voz de Ester nem fazia parecer que minutos atrás ela estava neurótica com a possibilidade do noivo a traindo.
— Dois beijos intensos antes de eu vir embora.
— Só?
— Eu já estou irritada com você, então me poupe, Ester.
— Tá, tá... Chata. E por que o estava lá se o Fred não estava?
— Seu noivo sabotou a festa de despedida de solteiro que seria ali, cancelou e não se lembrou de avisar ao .
— Cancelou? Mas vai acontecer? Em que lugar agora? Argh...
— Boa noite, Ester. Não me procura até o seu casamento! Bye, bye.
Desliguei a chamada sabendo que ela não me retornaria. Retirei meus pés da bacia, e organizei a pequena bagunça. Massageei meus pés com meus óleos essenciais e logo em seguida dormi, como um anjo, e sonhando com o diabo em forma de luxúria. Era definitivo: quebrou um jejum longo de pegação e despertou a safada que eu esqueci que era.



Capítulo Dois - Amarrando as chuteiras

Por que eu era melhor amiga da Ester? Eu não sei. Não me recordo em que momento do jardim de infância eu achei que aquela garotinha viciada em cor-de-rosa seria minha amiga para o resto da vida. Eu a amo? Pra caramba! Tanto que estou sempre topando fazer o que ela me pede. Ou melhor, me convence. Mas, certamente a quantidade de amor que eu tinha por nossa amizade era proporcional ao estresse que ela me fazia passar.
Nós nos encontramos numa lanchonete no dia seguinte à minha noite de “Três espiãs demais”. E olha... Eu nunca achei que seria a Clover, até o episódio terminar num encontro com o gatinho. Minha capacidade de fazer analogias com desenhos animados, também é algo inacreditável. Guardem essa palavra, porque vocês irão ouvi-la muito por aqui.
Enfim... Enquanto eu não narrei toda a aventura noturna, Ester não me deixou em paz. E eu estava a julgando, por ser uma péssima amiga e nunca ter me apresentado o playboy gostoso que eu beijei, quando a amiga dela telefonou. Aquela que conseguiu as malditas fotos da boate com a amiga de uma amiga e blá-blá-blá.
Salva das minhas torrenciais de reclamações, Ester atendeu e todo o suspense daquela ligação somado aos olhares lançados a mim, já me faziam crer: eu estava sendo cogitada naquela cabecinha histérica, para um novo plano.
Terminei de beber meu suco, olhei o relógio em punho e sorri acenando apressada, dando a entender que eu estava atrasada. Ester ao perceber que eu peguei a mochila de treino e estava me despedindo para sair de fininho, rapidamente se adiantou a me acompanhar. Ela continuava ouvindo a mulher lhe fofocar ao telefone, soltando exclamações ora de raiva, ora de surpresa e eu pensava em que esquina eu iria desviar disfarçadamente para fugir. O problema era que Ester premeditou meus planos e já foi me empurrando para seu carro, alegando que me daria uma carona. Não neguei. Apenas soltei minha mochila em meu colo, cruzei os braços e tampei minha face com uma das minhas mãos e assim me mantive até Ester desligar o telefone e me contar tudo.
— Frederico Aguiar, você está brincando comigo!
Ela reclamou e eu que não seria a louca de dar a deixa para ela. Fiquei caladinha como se estivesse em oração. E na verdade, eu estava. Invocava meu anjo da guarda com urgência.
— Você não vai acreditar, !
E pedi reforços para uns arcanjos.
— Eu estou falando com você!
Apelei para a Nossa Senhora.
— Você parece estar protegendo o canalha do Fred! ! Só escuta! Tenho outra missão para você!
— Ah, puta que pariu! Para quê eu vou à missa então? – finalmente falei olhando para o céu, como se estivesse num diálogo com o Superior.
— O quê? – Ester perguntou confusa.
— A minha resposta é não, Ester! Eu não vou entrar em mais um dos seus planos! Pelo amor de Deus, conversa com o Fred! Para de ouvir fofoca alheia, caramba!
— Amiga! Você não está entendendo! A Josie disse que ela mesma viu o Frederico na noite passada saindo do escritório com uma mulher e indo para um restaurante!
— Você é burra? – perguntei impaciente.
— Como é que é? – Ester também estava impaciente.
— Se você for burra, então o Fred realmente vai te trair bem embaixo do seu nariz. Mas, eu sei que você não é e ele sabe disso também, então se o Fred fosse trair você ele o faria onde você não poderia descobrir!
— E é exatamente por isso, que a Josie me ligou! Sabe onde é que ela viu a mulher que estava com ele?
— Eu não sei e nem quero saber.
— Na fraternidade, ! Eu vou arrancar as bolas do Frederico no altar!
— Puta merda, como você é nojenta. – falei olhando-a com uma careta.
— Vai ser nojento quando acontecer!
— Ester, por favor, para de surtar! Caramba, você vai se casar sob estas desconfianças todas?
— Claro que não! É aí que você entra! – ela estacionou na beira do campo e piscou para mim.
Eu me limitei a revirar os olhos e sair imediatamente do carro para o vestiário. Troquei de roupa e Ester me esperava na arquibancada, as outras meninas do time saiam comigo conversando animadas, mas não foi suficiente para Ester apenas nos observar. Ela se aproximou cumprimentando todas e me puxando pela mão, com olhar de súplica.
, por favor! Fred nunca me levou a fraternidade dele. Esse grupo de cavalheiros existe desde a época que ele assumiu as rédeas da empresa da família dele, e poxa... Namoradas não podem ir, e um tanto de outras babaquices masculinas. E agora aparece uma mulher que frequenta o lugar? Eu nunca gostei de dar ênfase às desconfianças com este clube, por que afinal, sempre respeitei a privacidade dele, mas não há como negar que eu me sinto insegura. Principalmente agora. E se ele me engana de verdade? E num lugar, como você disse que eu não posso ver? Eu o amo, mas não sou burra! Não vou fechar os olhos para as possibilidades! Você não acha que eu deveria descobrir antes de me casar com ele?
Quase não acreditei no que estava prestes a fazer. Estava novamente caindo na mesmíssima conversa mole, de Ester. Bufei impaciente e a encarei com a sobrancelha arqueada, e mãos na cintura.
— O que eu teria que fazer?
Ela sabia que eu havia aceitado, mas não iria comemorar por saber que eu, literalmente, estava irritada com aquilo.
— Eu ainda não sei direito, mas vou dar um jeito de te infiltrar na fraternidade.
— Você não disse que mulheres não entram? – perguntei desconfiada.
— Por isso eu disse que vou dar um jeito...
Ester me abraçou e eu fui me soltando do seu abraço, impaciente e atrasada para o treino. O treinador André estava ainda conversando com o time sobre a oportunidade de um olheiro assistir o nosso jogo naquela semana. Eu já estava quase desistindo do futebol. Já estava no esporte há um bom tempo, e sair do amadorismo era o sonho de todas nós ali. Eu queria muito viver do meu jogo. Mas, todas as peneiras que passamos eram muito poucas, e num espaço relativamente grande de espaço entre elas, ou seja, poucas vezes olheiros se interessavam em buscar jogadoras para comporem clubes grandes. No entanto, nos últimos anos, com o advento do esporte feminino na Europa, o quadro vinha mudando no Brasil e felizmente, seria a nossa terceira peneira aquele ano. O que não me animava tanto porque eu nunca era selecionada.
Antes de começar o jogo, porém, André me chamou num canto:
, eu quero que você concentre-se ainda mais nesta semana. Eu soltei seu nome para um dos empresários que estarão aqui, e ele vai estar atento a você.
— Isso é sério? – perguntei animada.
— Sim, mas seja discreta. Não queremos causar decepções e nem expectativas na equipe, certo?
— Fica tranquilo, André, eu vou me limitar a fazer meu trabalho sem muitas esperanças.
— Também não é para tanto... Agora vai, entra em campo e se concentre na tática.
Sorri e corri até o meio de campo. Iniciamos o treino e eu mal poderia esperar pelo dia de jogo.

xxxx

A arquibancada do Estádio Municipal repleta com os amigos de todas nós, jogadoras da equipe, nos deixou à vontade para jogar. Durante o jogo mal lembrávamos que empresários estavam nos assistindo. Eu consegui realizar duas jogadas para gol. Luciana, a nossa camisa nove, foi maravilhosa ao entender que meu sprint para meio de campo era um momento oportuno e previamente pensado. Um placar de 3 x 1 garantiu nossa subida na classificação do estadual da série B. E eu não poderia estar mais feliz!
Enquanto saía do campo, recebendo cumprimentos das meninas da equipe e do nosso corpo técnico, Ester me gritava da grade na arquibancada.
— Você viu? Eu arrasei nas jogadas, né?! – falei sorrindo me aproximando da minha melhor amiga que me encarava de olhos brilhantes.
— Sim, sim! Você foi e é, maravilhosa, boleira! Agora... Se troca rápido lá, porque tenho duas coisas para te falar antes de irmos com a galera para a comemoração.
— Aconteceu alguma coisa?
— Você tem um visitante. E eu já tenho um plano.
Quando Ester terminou de falar pude notar que a pessoa se aproximando atrás dela, não seria tão fácil de evitar.
— Vou para o vestiário. Me espera na saída.
Caminhei rapidamente a fim de não ter que falar com quem eu não queria.
Dentro do vestiário as meninas recebiam aplausos puxados pelo discurso da capitã, e assim que eu abri o chuveiro, a Luciana, do box ao lado chamou a minha atenção:
. Você viu quem estava te assistindo?
— Muitas pessoas. – eu não sabia se ela falava do empresário ou do homem ao qual eu estava fugindo.
— Você não vai falar com ele?
— Ah... Você está falando do Juan.
— Qual é, ... Você não vai mesmo repensar?
— Luciana! Me admira você, me perguntar algo assim! O cara é um babaca!
— Foram três anos de relacionamento, , não é possível que tenha tudo sido tão ruim.
— Não era, porque eu estava cega. Eu não vou ficar com ele.
— Uma pena. Vocês formam um casalzão.
Fechei o registro da ducha e puxei minha toalha encarando Luciana de modo que ela entendesse o absurdo que dizia. Ela deu de ombros e sorriu.
Hey, ! O treinador está esperando você lá fora. – disse Camila, a nossa lateral direita.
Terminei de me vestir rapidamente, colocando o jeans justo e rasgado com cintura alta, o cropped branco larguinho e calcei meus tênis Vans surrados. Típico look clichê de fanfic. Penteei os cabelos de qualquer jeito e os joguei de um lado ao outro, os amassando em seguida. Reuni minhas coisas, despedi das meninas, e algumas eu encontraria posteriormente no bar.
Quando saí pela porta do vestiário, André estava acompanhado de um homem bem arrumado e risonho.
— Ah! Aí vem ela. – ele falou piscando e sorrindo para mim.
O outro homem encarou o treinador com uma feição satisfeita e eu continuei caminhando até eles, mantendo a seriedade.
— Boa noite. – falei apertando a mão e recebendo o cumprimento de volta.
— Boa noite, , eu sou o Marcelo, coordenador esportivo da equipe feminina do Flamengo.
— É uma satisfação conhecê-lo. – respondi educada ajeitando minha mochila.
— Você fez um grande jogo! André me mostrou algumas filmagens antigas do seu estilo, e bem... Acho que podemos fazer algumas observações a mais e quem sabe umas experiências. O que acha?
— Eu acho ótimo, mas... Eu precisaria de maiores detalhes. Não leve a mal, mas... Já vieram outros com algumas promessas que não saíram muito de diálogos como estes. – respondi educadamente, com cuidado para não melar nada.
André me olhava satisfeito.
— Certamente, todos não sabiam o diamante a ser lapidado que você é, garota. – Marcelo manteve o tom informal e ameno.
— Eu apoio que a faça uma experiência no clube, sem um contrato formal por um tempo. Mas... Seria interessante que ela contatasse um empresário e vocês se reunissem antes de fechar qualquer coisa, Marcelo.
André interferiu e o outro homem apenas sorriu concordando. Tirou um cartão do bolso e me estendeu. Pediu para eu telefonar para marcar uma reunião assim que eu pudesse. E em seguida, se despediu. André me falou que buscaria um empresário de confiança para me auxiliar, e pediu que eu me atentasse a um advogado também. Nosso treinador nunca deixaria nenhuma de nós cairmos numa roubada.
Abracei o treinador e fui em direção à saída. Ester mexia no celular e começou a tagarelar ao me ver.
— Eu não fiz teste para poste não, tá? Por que demorou tanto? A maioria da galera já foi!
— Eu tive que conversar com um cara no caminho...
— O tal olheiro?
— É... Dessa vez não é time de várzea não, amiga... – eu olhei de lado para ela sorrindo pretensiosa.
Estava animada, esperançosa também, mas cautelosa. Não era certo ir com tanta sede ao pote.
— Qual clube?
— O maior carioca. – falei com os olhos brilhando.
— Uau! Não acredito que o Vasco finalmente te encontrou! – ela falou zombando por saber que eu odiava o Vasco da Gama.
— Eu disse o maior carioca, e não o maior da segundona. Segunda por segunda, eu já estou, não é mesmo?
— Ok, ok. Conversamos sobre isso depois, pode ser?
— Por que a pressa? Vamos andando, já corri demais!
Encarei Ester de modo curioso e já ia caminhando quando ela puxou meu punho me fazendo parar.
— Espera. Preciso falar com você sobre o plano, porque quem restou nos esperando mais à frente não pode ouvir.
— Mas que porra... – soltei a mochila ao meu lado e revirei os olhos gesticulando para Ester ser rápida.
— Primeiramente... O plano é que você vai entrar na fraternidade como um dos amigos do amigo do Fred. Mas isso, eu te conto melhor depois.
— É O QUÊ?
Ester agitou as mãos como se não tivesse dito nada demais. Eu sabia que ela ia fugir daquele assunto naquela hora. E isso era outra coisa que eu detestava: Para que iniciar um assunto que só vai terminar depois?
— Segundo... Juan quer falar com você. Eu não consegui o fazer ir embora. E para piorar o Fred torce por vocês e está apoiando ele. Ou seja, o Frederico está me dando nos nervos.
— Não vou culpá-lo, ele não sabe o que se passou entre nós. A reação do Fred é a mesma de todo mundo: “vocês formam um casalzão”.
— E aí, o que vai fazer?
— Mandar o Juan cair fora, lógico. Agora vamos.
Peguei minha mochila e caminhei sendo acompanhada por Ester, que terminou de soltar a bomba quando estávamos quase próximas da saída para o estacionamento do estádio.
— Que bom que o Fred está aí, vou precisar de uma consultoria jurídica dele.
— Eeer... ... Tem só mais uma coisinha... – ao notar o tom de Ester a olhei com a sobrancelha arqueada — O também está aqui. E pelo visto, Juan e ele estão trocando altas ideias.
Olhei para frente de olhos esbugalhados e percebi Fred, e Juan num bate-papo, entrosados. Ótimo momento para reencontrar o .



Capítulo Três - Concentração

Quando Ester e eu, paramos em frente ao trio masculino, uma sequência de olhares cruzados se deu. Fred encarou Ester, afoito. Ester o encarou de volta e olhou para . olhou de Juan para mim. Eu olhei para , sorri e encarei Juan, irritada. Juan se aproximou e eu joguei minha mochila para que rapidamente a segurou surpreso. Fred nos olhou sem entender, e Ester sorriu.
— Vocês se conhecem? – Juan perguntou a mim ao ver segurando minha mochila.
— Onde isso é da sua conta?
— Foi só uma pergunta.
— Está fazendo o quê aqui, Juan? – perguntei, e me afastei um pouco a fim de que ele me seguisse.
— A gente pode conversar? – perguntou manso.
— Já estamos conversando mais do que deveríamos. Não temos nada a tratar.
... – ele segurou meu braço levemente — Dê uma nova chance para nós. Até o Fred acha...
— O Fred não sabe quem é você de verdade. – interrompi soltando meu braço — E eu não quero, não vou e não poderia dar uma chance a alguém que me faz escolher entre ele, e o que eu gosto de fazer. Sem falar que... Não tenho talento para ser corna. O que já não é verdade sobre você. Então... Não está sendo inteligente em vir aqui pedir uma chance para levar um par de chifres. Repetidas vezes, assim como você fez.
. Para de ser teimosa e malcriada. Foram três anos juntos, e isso não pode ser jogado assim pela janela tão fácil.
— Ah não? E o que foi que você fez?
Juan se manteve me encarando surpreso. Ele sempre era ingênuo o suficiente para se contradizer.
— Tem outra pessoa? – ele perguntou com as mãos na cintura.
— Isso não faz a menor diferença quando o querer de uma pessoa não existe. Ou seja, eu não quero você, e isso é o suficiente.
... Mas eu ainda amo você.
— Você não vai ser o único no mundo que terá que aprender a lidar com isso. Agora... Juan... Por favor, não me procura mais, ok? Eu não desejo o seu mal, mas também não desejo nenhuma ligação entre nós.
Suspirei e dei as costas ao meu ex-namorado que me observava afastar, ainda inerte. Chegando perto dos meus amigos, me cumprimentou com um beijo no rosto e eu estava ruborizada pela saia justa.
— Oi... – falei baixinho.
— Aquele é o carinha que estava fazendo uma garota de trouxa?
perguntou mencionando o dia que nos conhecemos. Ester imediatamente arregalou seus olhos, preocupada com o rumo que a conversa tomaria. A olhei de lado discretamente e sorri o respondendo:
— Era sim.
— Ele não sabe o que acabou de perder... – olhou na direção de Juan que ainda nos encarava pensativo e concluiu: — Ou sabe...
— Espera! Vocês se conhecem? – Frederico mencionou curioso.
Encarei pensando em como eu poderia sair daquilo sem comprometer Ester. Tentei transparecer pelo franzir das minhas sobrancelhas que eu não queria que Fred soubesse, e notei que também não desejava explanar o assunto. Só não poderia afirmar se por mim, ou pelo fato de ter que contar da despedida de solteiro armada para Fred, na frente de Ester.
— Nos esbarramos uma vez numa balada. – ele falou convincente e Fred nos olhou com sua expressão mais maliciosa.
— Que mundo pequeno... Vamos. – ele disse abraçando Ester e nos deu as costas caminhando.
Ester me olhou discretamente pelos ombros, certamente aliviada. e eu continuamos olhando um para o outro sem graça, e então os seguimos.
— Obrigada... – sussurrei — Uma situação vergonhosa demais para compartilhar.
Justifiquei e sorriu também se justificando:
— Não é como se eu pudesse dizer em quais circunstâncias eu estava também... – sussurrou.
Percebi que ele ainda carregava a minha mochila.
— Ei, pode me passar a mochila. Que audácia ter a jogado para você.
— Não, não. Eu levo. E eu sei que você agiu por impulso para impactar o seu ex.
— Foi. Mas, me dê ela aqui, não precisa fazer isso. – toquei a alça da mochila no seu ombro, mas ele delicadamente retirou minha mão.
— Você deve estar cansada, bateu um bolão! Eu não acreditei quando vi que era verdade que você jogava.
— Então não acreditou em mim? – o olhei ultrajada — Você é desses que acha que uma garota não pode jogar bola?
— Não, não sou. E se eu fosse você teria calado minha boca hoje.
Sorri envergonhada.
— Foi um trabalho em equipe.
— Com excelentes assistências suas para o gol.
— Hm... Não posso contestar isso.
Chegamos ao local do estacionamento onde estavam os carros de ambos, e Fred e Ester me olharam como se perguntassem para onde eu iria.
— O que foi? – perguntei aos dois.
— Ahn... Você quer ir com a gente ou com o ? – Fred perguntou segurando um sorriso.
— Ela vai comigo, afinal, você já está em ótima companhia. Não seria justo que eu vá sozinho, não é, Ester?
se adiantou aproveitando para fazer Ester concordar. Não que eu fosse negar também. Ela apenas sorriu piscando para mim, e eu abri a porta do carona no carro do entrando ao mesmo tempo em que ele.
Ele colocou minha mochila no banco de trás enquanto eu afivelava o cinto. E assim que deu partida, seguindo o carro de Fred, um silêncio constrangedor durou alguns minutos.
— Então... Eu acabei tirando as conclusões, mas você não confirmou... O cara lá é seu ex-namorado mesmo?
— Há uns meses, mas por alguma razão ele achou que eu fosse mudar de opinião. Ainda não conheci um homem que me faça mudar de opinião. – respondi firme.
me contemplou curioso por alguns minutos.
— E você? Não tem mesmo uma namorada?
— É difícil de acreditar quando se tem a minha beleza, não é?
Ele falou me fazendo o encarar irônica por sua autoestima. Embora também não fosse mentira.
— Eu também ainda não encontrei a mulher que me faça mudar de opinião.
— Hm... Já vi tudo... – resmunguei.
— O quê?
— Um Don Juan também.
— Não, não. Na verdade, eu estava noivo há um ano. Mas... Não era algo que eu realmente desejasse. Algumas relações apenas são convenientes.
— Que bom que não se casaram então.
— Por que pudemos nos conhecer?
— Porque ninguém merece suportar uma conveniência dessas.
O olhei séria e sorrimos um para o outro.
— E você chegou bem em casa aquele dia?
— Sim, bem melhor do que eu esperava. – soltei um riso sacana e entendeu ao que me referia.
Continuamos o percurso conversando sobre casualidades das nossas vidas. Ele queria saber como eu me tornei amiga de Ester e de Fred, e eu devolvi as perguntas embora soubesse que certamente, Fred e ele eram do mesmo berço bem nascido.
Embora “riquinho”, não se diferenciava de Fred e Ester, no quesito humildade, e com isso percebi que poderíamos ser bons amigos também.
Ao chegarmos ao bar, estava a maioria do time e dos nossos amigos por lá, sendo eu a última a chegar com os outros três. e eu descíamos do carro rindo tanto, que Ester, antes de entrarmos me puxou num canto e sussurrou alguma brincadeira, sobre eu e nos darmos tão bem depois de compartilhar nossas bocas.
Durante toda a noite não houve quem não se divertisse. E ao nos despedirmos, outro impasse de, quem iria para onde e com quem começou.
você quer que eu te deixe em casa? – perguntou Fred.
— Depende. Você e Ester vão ficar juntos hoje?
— Não, senhora! Eu vou dormir na sua casa, porque... – ela começou a falar, mas não sabia como justificar ao noivo que não iria dormir com ele.
e eu nos entreolhamos e aguardamos curiosos, a justificativa dela.
— Por que o quê, amor? Não é possível que você vá dormir na casa da , ao invés de ir comigo... – Fred já dizia contrariado.
— É que a tem algo muito sério a me contar!
— Tenho? – perguntei em dúvida, e um pouco bêbada.
O olhar cortante de Ester foi o suficiente para me fazer lembrar o que, afinal, ela queria.
— Ah... Aquilo... A gente pode conversar depois, amiga. Amanhã! Sem falta!
— Tudo bem então... – Ester falou entredentes disfarçando a irritação — Sem falta, amanhã! Chegarei cedo à sua casa!
— Ótimo! Então, novamente, ... Quer que eu te leve?
— Pode ir, Fred, antes que sua noiva fuja correndo de você. – disse brincalhão e Ester apenas revirou os olhos para ele — Eu posso levar a em casa se ela não se importar.
Olhou-me novamente e eu concordei pensativa. Fred nos encarou malicioso e rapidamente se despediu partindo com Ester. e eu continuávamos falantes no percurso até a minha casa. E ao chegarmos, ele suspirou fundo após estacionar.
— Está entregue, jogadora.
Sorri e ponderei se deveria convidá-lo para entrar ou não. Não queria parecer mal educada, mas também não queria que ele entendesse de outra forma. Pensei na bagunça que deixei antes de sair, e decidi por não convidá-lo.
— Pode parecer falta de educação, mas... Vamos combinar que numa próxima vez eu te convido para entrar.
Ele riu da maneira como eu falei preocupada.
— Sem problemas! Você está cansada e por hoje já tivemos um bom tempo de companhia um do outro.
Entendi a frase dele como um fora. E fiquei chocada por achar que ele tivesse talvez outras expectativas.
— Bem, obrigada pela carona. – desafivelei o cinto de segurança e o sorri.
continuava sorrindo me observando e quando mencionei sair ele segurou meu pulso.
— Sua mochila!
Ele pegou a mochila no banco de trás e me entregou, eu encarei-a confusa e me detestando. Devia estar parecendo uma idiota.
— Obrigado pela sua companhia, . – ele disse me fazendo ter a atenção em seus olhos que se aproximavam lentamente.
Eu fiquei em silêncio, parada observando o rosto dele se aproximar aos poucos. Parecia que tudo estava em câmera lenta, mas certamente era só o álcool. Quando notei, os lábios dele estavam em minha bochecha, e eu com sentimento de frustração.
— Eu que agradeço por ter ido ao jogo. – respondi sem graça, e saí do carro, ligeira.
Acenei discreta, do portão recém-aberto da minha casa e ao fechá-lo, vi partir com o carro.
Parecia que ele não queria relembrar a despedida de quando nos conhecemos tanto quanto eu. Ao fechar a porta meu celular denunciou uma mensagem de Ester perguntando se eu havia chegado. Bati na testa ao lembrar que mais uma vez, não troquei o número do celular com o , e assim que constatei que ele também não pediu meu número tive certeza que ele estava de fato, desinteressado em manter contato.



Capítulo Quatro - Entrando em campo

A campainha gritante da minha casa me fizera derrubar um pouco do meu café com leite no chão a caminho da sala, devido ao susto. Fiz Ester esperar no portão enquanto limpava a sujeira, apenas por desaforo. Eu já sabia que a próxima a passar longos momentos de raiva era eu.
Qual não foi minha surpresa ao dar de cara com Ester, Bruna e Maria. Ou melhor, Ester, Cher e Kate.
Elas entraram me cumprimentando com beijos e abraços e bom humor, com exceção de Ester, que entrou rápida e ansiosa mal falando direito enquanto mordia um pedaço de pão sem nenhum recheio.
— Meninas, isso é uma surpresa e tanto! – eu falei para as visitas enquanto minha amiga gritava se tinha manteiga em direção à cozinha — Tem sim, mas desde quando você não come?
— Amiga, não sei o que houve, estou com uma fome de mil leões.
— Isso foi a sua noite, queridinha... – Kate, ou melhor, Maria falou rindo e sentando-se educadamente no meu sofá.
— Então... Sejam bem-vindas... – falei as olhando — Vamos à cozinha, venham tomar café da manhã comigo!
Elas sorriram e me seguiram, logo, todas nos reunindo na mesa simples da minha cozinha.
— Eu não sabia que vocês tinham ficado amigas...
— Eu peguei o contato delas aquela noite, e para nosso plano próximo, elas vão nos ajudar. – Ester dizia animada.
— Você meteu as meninas nas suas loucuras também? Cara, eu acho que chegou o momento de internar você! – ralhei séria e as duas novatas riam.
— Nós achamos muito divertida a ideia, . De verdade, ela nos pediu só um favorzinho, e nós que nos empolgamos, não é, Maria?
— Modéstia à parte, você está diante das melhores maquiadoras dessa cidade, mon’amour. Bruna e eu somos especialistas em disfarces.
Encarei Bruna e Maria sem ideia do que ia acontecer, mas com medo. Total medo, porque quando Ester chamava reforços, o destino aproveitava-se da situação para me punir de todas as formas, ou seja... O cosmos é aliado da retardada da minha melhor amiga.
— Por Deus! Vocês duas deveriam ter me ajudado a fazer essa louca perceber a insanidade de tudo isso, e não apoiá-la!
— Queridinha, nós nos conhecemos de uma forma bem inusitada e três dias depois sua amiga já sabia da nossa vida inteira por ter nos stalkeado, e nós aceitamos não só ajudar como participar de tudo por livre e espontânea verdade!
— O que a Maria quer dizer, é que... Você não acha que nós somos tão doidas quanto a Star?
— Quem é Star? – perguntei confusa encarando Bruna.
— Sou eu! Elas me deram um apelido! – Ester ria divertida como se aquilo fosse algum batismo de clã.
— E logo daremos um a você também! – Bruna me respondia sorridente.
— Certo... Contem-me logo o plano, antes que eu perca a fome sem terminar meu café.
— Amiga... É o seguinte...
A Ester pensou em tudo. Absolutamente. Eu iria para a fraternidade como um amigo, de um amigo, de um amigo do Fred. Uma porra de pique corrente que não fazia sentido, mas parecia que ia dar certo. Em seguida, eu me aproximaria “casualmente” de alguém do círculo do Fred, através desse “falso amigo do amigo, do amigo, do amigo do Fred”. Até aqui, dá para entender tendo ensino fundamental. As doidas das dançarinas Bruna e Maria vão entrar como coringas eventuais no lugar. Primeiro, elas serão minhas personal disfarce oficial. Em seguida, serão garotas que trabalham no bar da fraternidade. Ester já tinha encaminhado tudo com aquela conhecida, da conhecida da amiga de hóquei dela, para infiltrar as meninas. Até aqui já é preciso um ensino médio para entender. Logo, eu teria Maria e Bruna como aliadas de emergência no lugar. O objetivo era: me aproximar de Frederico Bulhões sem ser descoberta e depois, descobrir quem era a vadia imaginária com quem ele estava traindo Ester. Daqui para frente, só vai ter maturidade para entender os fatos, quem tiver ao menos ensino superior incompleto. Ou não.
Maria queria que eu cortasse o cabelo para entrar no personagem.
— NEM MORTA! Sabe o tempo que leva para meu cabelo crescer? – intervi.
— Gata. Você é perfeita até careca, olha essas pernas! – Maria insistiu.
— NUNCA. Se virem! Vocês não são as mestras do disfarce? – desafiei e o sangue nos olhos dela me garantia que não teria corte de cabelo.
Bruna conseguiu uma maneira de enrolar meu cabelo para caber em uma peruca loira masculina de cachinhos.
Ester, já havia pensado no meu estilo “super playboy descolado sem ser esnobe”. Eu queria bater na cara dela e fazê-la voltar à realidade. Mas a louca ali era eu, que aceitei aquele teatro todo.
Maria tirou de sua mala – e eu nem havia percebido ela e Bruna deixando aquelas malas preparadas ao canto da porta quando entraram – toda uma máscara fina de falsa pele.
— Resistente à água, e ao suor. Na verdade, é uma tecnologia caríssima que a Ester topou patrocinar desde que desse certo o plano. Esse silicone adere ainda mais à sua pele quando em contato com o seu suor.
— Como isso é possível? – perguntei.
— Queridinha, muito complexa a pergunta. Teremos certeza disso, é claro, quando você usar, mas... Esquece isso! Só venha aqui para eu testar o tom da sua pele para passar à máscara.
— Agora? – perguntei e Maria já me encarava com uma pequena pistola de tinta de maquiagem em mãos, e vários tubos de base permanente.
Ester ria animada enquanto limpava as louças do café da manhã e Bruna se mostrava empolgada também.
Bruna retirava os esmaltes das minhas unhas, que já eram curtas devido ao esporte. Depois que as meninas me ensinaram como vestir a máscara facial, e como amarrar meus seios em faixas, eu me sentia a própria Múmia do terror mais antigo e trash. Por fim, chegado o momento de me ver pronta no espelho, eu quase caí para trás. Eu estava mais perfeita e convincente do que as Branquelas. Literalmente, eu era um homem transgênero, sem as cirurgias.
— U-A-U! – Ester me olhava de boca aberta como eu.
Maria e Bruna se olhavam orgulhosas de seu trabalho impecável, desde os detalhes de pigmentação da pele da máscara, até a aplicação fio a fio de poros de barba, sobrancelhas e cílios.
Na verdade, a máscara já estava quase pronta quando elas a trouxeram, aquele trabalho minucioso da barba deve ter levado horas.
— Quanto tempo para fazer essa barba com aspecto de recém-raspado? – perguntei.
— Hm... Umas sete a dez horas se fizer sozinho. – Bruna respondeu.
— Como fizemos juntas, levamos por volta de cinco horas, porque não precisava do fio também, só do aspecto. – Maria concluiu.
— UAU... – respondi.
— Você está perfeito! – Ester me falou sorrindo — Vou deixar você escolher seu nome.
— Caio! – Maria falou.
— Lucas! – Bruna opinou.
— Hm... . – decidi.
? – elas perguntaram.
— Sim. Pensei em Alex, mas combina mais com os cachinhos.
— Ótimo! Bem-vindo, ! – Ester me abraçou.
— Quando eu vou ser jogada na cova dos leões?
— Amanhã. Seu álibi já estará à sua espera. Eles vão passar uma semana na fraternidade, pelo campeonato de futebol interno. Ah é! Você vai ser levado justamente como um reforço do time deles, por isso vai ser aceito rapidamente!
Ao ouvir tudo o que Ester disse eu fiquei ainda mais confusa.
— Bem... Então é melhor eu descansar e aproveitar meu último dia fazendo xixi sentada.
— Claro que não! Hoje nós três faremos um intensivo comportamental com você!
— O quê?
Ester olhou as meninas a fim de que elas me explicassem com mais calma:
— Imposição de voz. – Maria levantou um dedo.
— Postura entre os caras. – Bruna levantou o outro.
— História de vida do . – Maria levantou mais um.
— Personalidade. – Bruna levantou outro.
— E claro... As situações que podem levar você a acabar com o disfarce e que deverão ser evitadas. – Maria concluiu com um terceiro dedo.
Joguei-me no sofá temendo a morte.

xxxx

Semana do Disfarce – Primeiro Dia

Ester havia me dado inclusive um telefone falso para eu usar em público. Era um telefone que ela tinha guardado há algum tempo. A regra era de que, o meu aparelho, ou melhor... o da , só deveria ser usado no meu quarto, sozinha. Ela me abraçou antes que eu saísse de casa, prometendo que cuidaria bem da minha casa – já que dissera ao Fred que passaria a semana comigo enquanto ele estivesse em passeio – e aguaria as plantas. Inacreditável.
Conrado era o sobrenome do nosso álibi que havia conseguido me infiltrar no clube dos rapazes. Eu já havia chegado com ele há algum tempo, e o rapaz só sabia me dizer: “vocês são doidas”, “mas contem comigo”, “eu vou me divertir muito”, “inclusive da sua cara”, “quero conhecer seu rosto verdadeiro antes disso acabar” e “boa sorte, !”. Ele iria, me “ambientar” até o momento em que eu colasse com algum alvo do círculo de Fred. Quando chegamos à recepção de drinques entre os caras do clube, eu estava muito nervosa. Avistei Maria e Bruna me acenando discretas pelo balcão do lugar, e fiquei um pouco mais calma. Conrado era cumprimentado por todos quando me apresentou:
— Caras! Este é o . Estudamos juntos na faculdade, mas ele desistiu do curso para ser jogador de futebol.
— E aí, beleza? – falei alterando a voz como havia treinado, tentando parecer natural e tocando as mãos dos homens presentes.
Os olhares de todos eram atentos a mim, e eu precisei me jogar no sofá como um cara tranquilo, mas, na verdade, o fiz para não cair de pernas bambas pelo desespero.
— Você hein, Conrado... – Fred falou minucioso — Trouxe reforço para o time!
— Com certeza! Conta aí para eles sua trajetória, !
— Eu comecei a faculdade de direito com o Conrado, mas mudei para Educação Física. Já tem advogados demais na família, e eu sempre gostei de futebol. Então fiz da escolinha de futebol da infância uma possibilidade de carreira.
— E você jogou em algum time grande?
— Além da equipe universitária, eu joguei na base do... – fingi me distrair com uma “mulher”, que era a Maria, passando em minha frente apenas para pensar em outro time, porque estava prestes a falar minha trajetória real.
— Quem é essa gracinha? – um dos caras perguntou referindo-se à Maria.
— Notei que tem duas funcionárias novas no bar do clube. – Conrado respondeu e direcionou-se a mim: — E o já está voando baixo... Esse cara é impossível.
Todos os outros riam e eu abaixei a cabeça rindo sem graça.
— Mas, e aí... Onde você jogou, cara? – Fred perguntou.
— Na base do Riverplate, depois joguei numa equipe profissional do Japão. Depois parei um tempo jogando só amador mesmo, mas recentemente pensei em voltar, profissionalmente.
— Meu pai é um apaixonado por futebol, ele tem uns contatos na Europa... Quem sabe não posso te ajudar? – falou um dos caras ali que eu não lembrava o nome.
Networking é sempre bem-vindo. – respondi.
Todos ficaram ali conversando, e eu mais observando e sendo cordial. Era melhor fazer o estilo misterioso, do que o “playboy descolado” que a maluca da Ester queria.
Quando eu pensava numa resposta para tentar sair dali e ir para o meu quarto, o Fred gritou:
— Até que enfim! Ele chegou, galera!
Olhamos para trás e eu pude ver chegar sorridente com óculos escuros, e uma roupa de tenista.
— Foi mal, galera, a partida não tinha fim hoje.
— Senta aí, bebe algo conosco. – Fred disse.
— Valeu, Fredonho, mas estou morto, caras, só vim cumprimentar vocês e vou descansar.
— Antes de ir, deixa eu te apresentar o ... – Conrado fez as honras e eu agi em modo automático.
Minha cabeça parecia um monte de engrenagem de máquinas da Revolução Industrial desmontando-se.
— Prazer, .
.
— Ele é o nosso reforço do time, nem vai passar por uma peneira, não é, Tiago?! – Fred falou convicto com o capitão da equipe concordando com ele.
— Muito bom! Porque eu não jogo nada de futebol. – falou sorrindo para mim e eu mal pude reagir.
— Ele é um burguês safado que joga tênis. – Fred zombou sendo igualmente zoado pelos outros.
saiu em seguida, meu falsophone tocou, e eu queria dar graças a Deus por aquilo. Pedi licença para me retirar e o atender e fui ao bar. Percebi que foi uma falsa ligação de Maria que estava me aguardando no balcão. Mantive o telefone na orelha fingindo.
— Você está bem? Imaginei que estava uma pilha! Aquele não era o cara do dia do...
— Era! – a interrompi — Eu vou matar a Ester! E muito obrigada, Maria, eu já estava sufocando. Vou inventar algo e subir.
A mulher concordou discreta e eu retornei ao círculo de homens dizendo que iria subir para descansar um pouco. Eles falaram onde estariam mais tarde: numa partida de pôquer no salão de jogos, e me convidaram e eu apenas assenti e saí tranquila.
Entrei no meu dormitório, totalmente aliviada. Por sorte, os chalés eram individuais. Imagina se eu tivesse que dividir quarto com o Conrado? Eu ia pirar. Peguei o meu verdadeiro telefone, certifiquei de fechar bem as cortinas e trancar a porta e liguei para Ester. Ela já estava ansiosa para saber como foi a tarde de chegada e eu jurei que a mataria um dia, por tudo aquilo. Principalmente por não avisar sobre . Ela disse que havia se esquecido tamanha a ansiedade dela, e logo nos despedimos. Eu precisava dormir para esquecer aquela loucura toda.

xxxx

Ouvi as batidas na porta do meu chalé, e despertei aos poucos. A direção da janela emanava uma luz que parecia provir dos postes de iluminação, era noite. Novamente as batidas, e uma voz:
! É o Conrado, abre aí!
— Já vou! – levantei rápida e respondendo.
Como eu havia tirado aquela máscara desconfortável de silicone, eu teria que recolocá-la, para o caso de Conrado estar acompanhado, e então eu me certifiquei:
— Estou saindo do banho, espera um pouco, cara!
A voz de Conrado soava certa graça da situação:
— Estou sozinho!
Dito aquilo, eu me tranquilizei, caminhei até porta e pela janela ao lado dela, espiei atrás da cortina se ele realmente estava só. Ele surgiu com seu rosto bem próximo ao vidro dando a língua, me assustando. Abri a porta cautelosa e o puxei.
— Estou me sentindo o próprio Tom Cruise.
— Olha... Para Tom Cruise falta muito, para Missão Impossível, é exatamente o que estamos vivendo. – falei coçando meu cabelo e me jogando de volta na cama.
Conrado ficou um tempo em silêncio, me observando atencioso e curioso.
— O que houve? – perguntei.
— Eu não tinha conhecido você. – falou óbvio sentando-se na cama à minha frente.
— Ah é... Me esqueci... – sorri sem graça estendendo a minha mão em seguida: — Prazer, .
— Prazer, . Você realmente está em grande perigo.
— Por?
— Acho que não vai ser fácil esconder como você é uma linda mulher por muito tempo.
Revirei os olhos rindo irônica.
— Está me cantando, Conrado?
— Com certeza, quando acabar isso tudo, nós vamos sair.
— Gosto da sua autoestima.
— Não é autoestima. Considere uma dívida sua comigo, por te ajudar nisso tudo.
— Inacreditável.
Ele sorriu para mim e observou meu quarto devagar. Identificou o disfarce numa poltrona do quarto, e caminhou até ele observando tudo.
— Uau... Vocês são mesmo profissionais. Como você veste isso?
— É um pouco demorado só na parte corporal. Esses músculos de silicone tem que ser bem colocados, se não...
— Beleza. Então se vista! Eu vim buscar você para irmos ao chalé do Fred.
— Ahhh... Sério? O motivo da minha vinda para cá estará lá?
— Como assim?
— Vai ser alguma “festinha masculina”, ou algo do tipo?
— Não. O Fred não trai a Ester, eu já disse isso para vocês quando vieram me colocar nessa loucura.
— É o que eu acho também. Então não vou. Diga que eu saí.
— Não vai colar, gracinha. Anda, vai lá tomar seu banho e se arrumar. Eu te espero.
— Aqui no meu quarto?
— Algum problema?
— É que eu preciso de privacidade para colocar esse disfarce, e no banheiro pequeno não vai dar.
— Você fica pelada para vestir?
— Não, mas...
— Então anda logo! – ele falou me empurrando para o banheiro e fechando a porta.
Olhei descrente em sua direção, e abri a porta do banheiro em seguida. Conrado me encarou como se me repreendesse por ter voltado. Ele me observou pegar minha roupa íntima na mala, e fez uma cara de “ah sim...”. Em seguida voltei ao banheiro, tranquei a porta e iniciei meu nem tão tranquilo banho.
— Ei! Posso te perguntar uma coisa? – Conrado dizia do outro lado da porta do banheiro.
O som do chuveiro atrapalhava um pouco para ouvi-lo, mas eu consegui entender que ele estava colado à porta tentando algum diálogo, então respondi que sim.
— Você já conhecia o , né?
— Ahn.... – estranhei a pergunta — Por quê?
— Vi que você ficou um pouco perdida e assustada quando ele chegou.
— Os outros notaram?
— Não. Só eu, porque eu estou prestando atenção em você.
Pensei em que resposta daria a ele, e achei que por ser meu aliado, ele precisasse saber a verdade.
— Sim, eu o conheço.
— Você acha que ele pode te reconhecer?
— Espero realmente que não.
— Vocês já saíram?
— O quê?
— Você e ele, já tiveram ou tem algum lance?
— Ah... Bem... Uma vez nós saímos juntos, quando nos conhecemos da primeira vez, mas foi só.
— Ótimo!
Abri a porta do banheiro enrolada na toalha e Conrado se assustou afastando-se rápido.
— Ótimo por quê?
— Porque se foi só uma vez, ele não vai te reconhecer.
Encarei Conrado, ainda confusa com aquele assunto, e ele sorria me analisando.
— Você é forte.
— Eu jogo futebol e você já sabe disso.
— Confesso que não acreditei, achei que era um tiro no pé quando Ester falou que você entraria como o reforço do time.
— Vocês homens me enojam com isso de “não acredito que uma mulher está jogando futebol”.
— Não se ofenda, não é por isso. É que nunca conheci uma garota jogadora.
— Continua me enojando o seu comentário. E agora, dá licença que eu tenho que me vestir.
— Eu te ajudo.
— Não precisa, Conrado, cai fora.
— Eu só queria ajudar... – ele deu sorrisinho malicioso erguendo as mãos em inocência e saindo do quarto: — Te espero aqui fora.
Tranquei a porta e revirei os olhos. Preparei-me com calma, e certa dificuldade. Até pegar a prática daquilo iria demorar. Depois que estava devidamente montado, vestido e sem nenhum traço de , eu abri a porta indo de encontro ao Conrado.
Ele mexia no celular e levou as mãos à boca, em claro sinal debochado de falsa surpresa. Dei um soco fraco em seu braço e ele passou o braço sobre meus ombros me arrastando.
No chalé de Fred, uma música em volume confortável já tocava. Os homens gargalhavam e bebiam, outros jogavam bilhar e, Conrado e eu adentramos já pegando as bebidas.
— Não vai ficar bêbado e dizer o que não deve. – Conrado falou baixinho para mim quando estávamos os dois perto do frigobar.
— E você também! – adverti.
Fomos em direção ao grupo que estava sentado em círculo no tapete ao chão, e Fred interessado em saber sobre mim, não parava de puxar assunto. Foi uma noite em que me saí bem, até.
— Eu tenho uma amiga que joga futebol, aliás. Seria bom se você pudesse me ajudar a arrumar uns contatos de trabalho para ela. – ele falou.
— E ela é boa? – eu perguntei.
— Tá brincando? Ela é muito boa! – falou sendo cutucado por Fred.
— É né? Boa,, né? – Fred zombou e bebeu sua cerveja rindo de cabeça baixa.
— Qual é, Fred, que amiga é essa que você tá escondendo de todo mundo, menos do pelo visto? – Conrado provocou e eu não sabia se batia nele ou mudava de assunto.
— É a . Vocês não conhecem. – Fred começou a explicar: — Ela é amiga da Ester, e acabamos nos tornando bons amigos. Depois da Ester é a garota mais sensacional que eu conheço. E ela joga muito! Mas, nesse país o incentivo ao futebol feminino é uma merda.
— Bem... Me passa o telefone dela, eu converso com ela e indico alguns contatos. – respondi.
— Esperto. Esperto você, hein? – Fred falou indignado — Já quer que eu dê o telefone dela! E aí, , o que eu faço?
— Qual é, cara, eu não tenho nada com a . Nem o telefone dela eu me lembrei de pegar.
— Como assim? – Fred falou abismado.
— Eu fiquei tão distraído com ela, que nem me toquei de pedir o número dela. – disse com arrependimento bebendo e olhando para o teto.
Eu reprimi um risinho frouxo que queria sair ao descobrir que na verdade, ele queria o meu telefone.
— Pô, explica aí, . Que rolo é esse com a mina? E que trairagem é essa hein, Fred, nem me apresentou a sua amiga! – Conrado se fez de ofendido.
Olhei para ele como se dissesse que ele deveria encerrar o assunto, ao invés de estimular, e ele não parou:
— Nem me olha não, ! Você tira o cavalo da chuva, que eu também vou entrar nesse páreo, espertinho... “me passa o telefone dela, eu converso com ela e indico alguns contatos”...
Conrado me remendou e eu novamente o empurrei com o ombro enquanto bebia minha cerveja, achando tudo muito irônico.
— Eu não apresentei a para ninguém, seus pervertidos. Eu até hoje não entendi com o a conheceu...
— Eu já disse, numa balada.
— E por que nunca me contou? Você sabia que ela era minha amiga, eu tenho fotos com ela para todo o lado.
— Na verdade não, Fred. Eu não me concentrei muito em saber de onde eu já tinha visto o rosto dela no dia que a conheci. Eu só fui me tocar quem era a , no dia do jogo.
Todos estavam atentos ao diálogo de Fred e , e eu ainda mais interessada.
— Tá, então o tá pegando a ? – Conrado perguntou.
— Não. Eu saí com ela só uma vez... Da última vez que a vi eu até queria beijá-la de novo, mas... Achei que ela não estava muito na minha...
— Não! – gritei e todos me encararam, então eu pensei rápido: — Ela não está na sua mesmo, porque quando ela me conhecer, você já era, cara.
Fiz de conta que estava zoando e os rapazes riam me zoando. Conrado ficou me encarando, observando minhas reações e levou na esportiva brindando comigo:
— É o que nós vamos ver então.
— Esse é o ! – Fred gritou abraçando : — Foi mal, , você pode até ser bom no futebol, mas o é muito bom em mulheres.
Dei de ombros e pensei naquela frase. Será que era um típico mulherengo que não se apaixona? Isso explicaria o fato de ser solteiro, com todo o potencial que tinha.
— Me mostra uma foto dela. – Conrado disse.
— Tá muito interessado nela, não acha, não? – Fred perguntou.
— Estou.
A resposta de Conrado gerou novas piadas, e em minha cabeça, dúvidas de quais motivos para aquela provocação toda.
— É essa aqui. – Fred mostrou o celular com uma foto nossa para Conrado.
O telefone passou de mão em mão e cada um com um comentário que eu “adorei”. Tá legal, alguns eu gostei mesmo, outros... Machistas demais para eu querer me gabar.
— Ela é mesmo bem bonita... Quando acabar essas férias aqui, eu vou atrás dela. Saibam disso. – Conrado falou apontando para e Fred.
Ele me entregou o telefone e eu tinha que fingir uma reação surpresa ao ver minha cara ali.
— Uooow... Linda assim, jogadora... Ela é meu tipo. Pode deixar que eu vou dar um jeitinho de colocar essa gatinha em jogo.
— É, ... Não tá fácil para você. – Fred avaliou a situação rindo.
Eu tinha acabado de passar o telefone para o , ele pegou e ficou um tempo observando a foto em silêncio, entregou a foto para os outros dois que retornaram do bilhar e disse:
— Que droga, eu deveria ter pedido o telefone dela.
Sorri e ouvi os elogios dos outros rapazes, até que Fred se manifestou me dando certeza de quão injusta eu estava sendo de estar ali entre eles:
— Se com uma saída você já está arrependido assim de ter dado esse mole, eu vou te passar o número dela. Vai que isso se torna algo especial.
— Do que você está falando, mané?! Vai passar nada não! Isso é injusto comigo e com o . Não é não, ?
Eu queria bater no Conrado. Certeza.
— Com certeza! Se passar para ele, vai ter que passar para nós.
— Eu passo. Ela vai me matar por isso, mas passo. Eu não vou deixar o sem a chance de descobrir o amor da vida dele!
— Que porra é essa de amor da minha vida? – perguntou ao Fred alarmado e rindo.
— Desde que a conheceu você não para de reclamar por não ter pegado o número dela. Fica suspirando aí quando a gente fala dela... Eu lembro bem dessa sensação. Foi assim que eu me apaixonei pela Ester. Abre seu olho.
Então ele se arrependia mesmo? E ficavam falando de mim? Eu estava louca para tirar a fantasia de e agarrar o ali.
— Pô, o cara saiu com ela uma vez e você já está dizendo que ele está apaixonado? – Conrado perguntou.
— Eu não me admiraria. A é realmente uma mulher incrível. – Fred respondeu e concordou.
— Estou ainda mais curioso para conhecê-la. – falei a fim de observar a reação de , que apenas me olhou virando mais um gole de sua cerveja.
Lá pelas altas horas, percebi que Fred estava mais animado do que normalmente se mostrava, ou seja: ele estava bêbado. Decidi sondar um pouco, antes de sair dali. Os rapazes começavam a se comportar como homens bêbados em conjunto, e eu estava a ponto de levantar a bandeira da calcinha de paz.
— E então, Fred... Essa Ester aí, é sua namorada?
— Noiva. A noiva mais linda do mundo.
— Ele é caidinho por ela. – confirmou também risonho e alegre.
— Noivo, cara? Jura?! Então vai rolar uma festinha de solteiro aqui? – fiz de conta que estava animado e interessado.
— Não, lamento, , mas se quiser se divertir com garotas, vai ter que se contentar com as funcionárias do clube. Sabe que a fraternidade não permite mulheres, não é?
— Quem inventou essa regra absurda? – falei fingindo indignação, e de certo modo até estava.
— Eu mesmo. Ester não me permitiria estar aqui se fosse o contrário. Não que ela mande em mim, mas... Acredite... A minha noiva sabe ser absurdamente paranoica.
— Hm... Mas... Nem fora daqui? Que isso, Fred! É uma despedida de solteiro, cara!! – eu tentava manipular a convencê-lo, e torcia para dar errado.
— Ele quase teve uma... Foi quando eu... – começou a falar e pensou um pouco desistindo — Quando eu fui parar num clube de strippers por engano.
— Foi ideia do Conrado e eu cancelei!
— Mas, não me avisou no dia.
Observei e Fred discutindo e rindo sobre o assunto e comemorei mentalmente por não falar mais do que deveria. E parece que ele pensava a mesma coisa quando eu o olhei, e percebi o homem concentrado em seus pensamentos.
— Aím caras... Eu vou pro meu chalé. Amanhã tem jogo, não é? – afirmei.
— Tem sim. Mas, tá cedo, fica aí. – Fred insistiu e Conrado apareceu perto de mim gritando.
— Carambaaa... Eu tô cansadaço! – passou os braços sobre meu ombro e ria animado.
Vam’bora Mané, eu te largo na porta da sua cabana. – falei como um menino.
estava me olhando concentradamente, parecia tentar compreender de onde me conhecia.
— A gente já se viu antes, cara? – ele perguntou enfim.
— Acho que você não esqueceria esse rostinho lindo aqui se tivesse o visto, não é? – zombei descontraindo a atenção desnecessária de .
Despedimo-nos de quem ainda estava no quarto, e eu me coloquei a caminhar trôpega com o peso do corpo de Conrado sobre meus ombros.
— Porra, você disse que não ia beber muito! – briguei com ele.
Não obtive resposta, ele ficou sonolento durante o caminho e antes que eu pudesse alcançar a porta do chalé dele, Conrado caiu me levando ao chão com ele, na frente do meu chalé. Praguejei e abri a porta entrando em meu quarto e o puxando para caminhar devagar e com cuidado.
— Caramba, seu bocó! Vai ficar aqui só hoje!
Falei sem ter a atenção do homem desmaiado em minha cama, então segurei seu rosto e dei tapas leves na sua testa dizendo:
— Entendeu, Conrado? Amanhã eu te mato!

xxxx

Semana do Disfarce – Segundo Dia

Eu havia acordado cedo e enquanto escovava os dentes observava o corpo caído na minha cama. Conrado era inacreditável. Mais um para a minha lista de “pessoas impossíveis das quais ter cuidado”. Depois de pensar como eu me livraria do bêbado ali, cheguei à conclusão de que expulsá-lo seria a única alternativa, já que eu já havia recebido uma mensagem do Fred em meu falsophone dizendo que me aguardavam no campo para o treino. Então, depois de acordar Conrado com nenhuma gota de delicadeza, e ouvindo os murmúrios revoltados dele, eu estava caminhando rumo ao campo até ouvir uma voz conhecida me chamar.
! Espera aí!
Olhei para trás e dei de cara com correndo até mim. Cumprimentamo-nos e iniciamos um diálogo natural.
— Vai ao treino?
— Não, meu negócio é realmente o tênis. – ele respondeu.
— Não tenho paciência para esporte de burguês. O mais gostoso no futebol é aquela multidão de pessoas torcendo e contando com você!
— Uau... Para um playboy você realmente gosta das massas... – falou de forma irônica.
— Eu não posso contestar isso.
E assim que eu disse aquela frase, ele parou de caminhar e ficou me observando com os olhos semicerrados como na noite anterior.
— O que houve?
— Tem certeza que nós não nos conhecemos?
— Cara... – cocei a peruca um pouco afoita e com medo de ser descoberta mesmo debaixo de tanto silicone facial: — Você está um pouco obcecado comigo, não?
Comecei a rir dando-o entender que eu estava brincando. Na verdade, eu queria pegar minha malinha e correr dali dizendo para Ester: “Fred está limpo, case-se com ele e para de ser doida de uma vez por todas!”. E eu até poderia, afinal o que me prendia ali?
! !
Tiago, um dos jogadores da equipe, ao ver e eu parados conversando no saguão do salão de convivência se aproximou eufórico.
— Mano! Vem para o campo! Rápido. Acabei de receber informação de que o jogo vai ser agora de manhã, mudaram a porra da escalação, e a gente vai ter que jogar no peito sem o treino da manhã.
— Merda, mas dá tempo de um aquecimento? – perguntei nervosa.
— Sim. Vamos para o vestiário que eu vou entregar seu uniforme.
Tiago saiu correndo na frente, e eu fiquei meio parada sem saber se o seguia ou se ia ao meu quarto.
— Que foi cara? Não vai para o vestiário?
— Vestiário... – falei baixinho.
— Está tudo bem, ? – perguntou e eu só assenti.
Segui em direção ao campo do clube, os caras reunidos no vestiário, outros realizando o aquecimento. Entrei e Tiago já foi me entregando os uniformes de treino e de jogo, e eu dei a desculpa de que tinha me esquecido de pegar uma parada importante no quarto. No caminho até meu chalé eu torcia para não encontrar , mas na verdade encontrei o Conrado. Ele veio desesperado até mim.
Porraaa, eu acordei assustado com Fredonho dizendo que a gente vai jogar agora, cara... Eu já estava achando que todo mundo havia descoberto os seus bubbies.
— Larga de ser idiota! E você pretende jogar com ressaca agora? Até parece, né! Vai ficar no banco, e agora eu preciso que você dê um jeito de enrolar o povo no vestiário. Não posso me trocar lá!
— Calma, eu vou contigo te ajudar a se trocar.
— Não precisa.
— Certeza? – ele perguntou parecendo não ser mais uma de suas piadas.
— Chama a Maria para mim!
— Beleza.
Conrado foi para o bar atrás de minha cúmplice e eu corri para meu quarto. Troquei-me e quando Maria chegou ela analisou se não havia nada que pudesse suspeitar.
— Amiga! Esta vai ser a prova de fogo, se o disfarce resistir ao jogo, então tudo vai estar numa boa!
A frase dela, dita antes de eu deixar o salão e ir em direção ao aquecimento no campo, não parava de martelar na minha cabeça e me deixar aflita. Antes do jogo propriamente, cerca de meia hora antes, os rapazes do time retornaram ao vestiário para uma ducha. O jogo estava marcado para as dez da manhã. Eu me mantive na beira do campo concentrada, e lógico, fugindo de um banho coletivo.
— Qual foi, , você tem boas jogadas. Vamos para o banho, relaxar um pouco. – Tiago disse me estendendo uma garrafa de água.
— Já vou, cara, eu tenho meus rituais pré-jogo.
Tiago riu como se eu fosse um cara muito esquisito e saiu. Na verdade eu era.
— Você é muito boa.
Olhei para trás assustada e vi Conrado sentar ao meu lado.
— Vai dar tudo certo, relaxa. – ele apertou meu ombro com maneiras de amigo.
— Conrado... Eu vou desistir disso.
— O quê? Tá maluco! Vai jogar porra, a gente está contando com você!
— Essa merda toda é loucura da Ester, cara! – eu sussurrei nervosa — Você ouviu o Fred falando ontem todo apaixonado por ela. Não tem razão para eu estar aqui!
— Olha só, eu concordo com você. Mas você vai entrar no jogo, e nós inventamos uma desculpa qualquer depois, ok?

xxxx

Era para ter sido daquele jeito, se eu não tivesse jogado a partida mais incrível da minha vida. E o resultado mega positivo do time me impossibilitou de ir embora. Fred não engoliu as desculpas que Conrado e eu tínhamos planejado sobre “uma urgência familiar” e eu me vi presa aquele lugar. Não bastando Ester que me proibiu aquela noite, após o telefonema que tive com ela, de que eu fosse embora.
Eu acabei passando o resto da tarde, comemorando com os rapazes a vitória do time naquele que era o primeiro jogo do campeonato. Conrado saiu pela noite, dizendo que havia um “problema pessoal” para resolver e falou para eu colar no , pois apesar do risco dele me conhecer, era a pessoa mais tranquila ali que não ia me achar estranho se acontecesse alguma coisa. Comecei a me preocupar com a atenção demasiada do Conrado.
Tudo bem, que era só meu segundo dia ali, mas... Eu realmente achei que ele não seria o tipo que descreve o passo a passo dele, sem falar nas investidas claramente dadas quando me viu de mulher. E ainda os comentários da noite anterior. Tudo que eu não precisava, era de um aliado interessado na minha verdadeira pessoa ali dentro.
Às 22 horas, Bruna estava cobrindo Maria no que seria a “folga” dela do bar. Então, eu e ela combinamos de conversar sobre aqueles dois primeiros dias ali no meu chalé. Estávamos bebendo e comendo alguns petiscos e ela gargalhava dos comentários que passou a tarde toda escutando sobre o jogo.
— É sério, ! Quando descobrirem que o é uma garota, eles vão querer arrancar as bolas de ódio.
— Eu não percebi nenhuma reação preconceituosa quando os caras comentaram sobre a amiga do Fred que joga futebol. Eu ouvi foi muita piadinha machista do quão ela era gostosa e ele um babaca por proteger a amiga dos amigos.
— Você arrasa mesmo. Acho que o Conrado está a fim de você, mesmo com todo aquele disfarce. – ela me falou convencida encarando o disfarce e depois me olhando diretamente.
— Você também percebeu que ele está...
— Na sua cola. E para quem chegou lá no seu apartamento dizendo à Ester que ia se lixar para você aqui dentro com toda essa loucura, ele anda vigiando bem, não?
— Acho que é porque só tem dois dias né? Ele deve achar que eu estou vulnerável ainda.
— Não sei não... Quem sabe vocês não se tornam o casal gay do clube? – Maria brincava gargalhando.
— Por favor... Se for para formar casal gay eu prefiro desenrolar o lance que eu já comecei com .
— Hm... É verdade, mas... O Conrado é mais acessível agora não? E depois... Ele é bem, bem gostosinho, amiga.
— Olha só! – falei jogando alguns amendoins nela e rindo — Se não é você quem está interessada!
— Eu não vou negar.
Rimos das nossas bobagens e Maria deu um pulo na cama, ajeitando-se sentada sobre os calcanhares e com certa expressão maliciosa.
— Me conta agora! E como foi a experiência do vestiário?
— Consegui escapar.
— Droga, ! – ela se jogou sentada de lado na cama desapontada — Eu esperava por medidas e nomes.
— Deixa de ser ridícula! Eu não posso dar esses moles! – eu ri novamente jogando amendoins nela, e quando ela ia revidar a porta do meu quarto acusou algumas batidas.
Olhamos uma para a outra, assustadas.
— Rápido! Começa a se vestir! – ela sussurrou levantando e me ajudando com o disfarce.
— Quem é? – gritei com a minha voz de .
!
Ela começou a dar um risinho nervoso e eu abanava o ar pedindo-a para ficar quieta.
— Só um momento! – respondi alto para ele.
— Ele deve chamar você para ir a algum lugar com os meninos. – ela declarou.
— Que merda! Toda noite eu tenho que ficar saindo agora? – sussurrei.
Às pressas eu terminei de vestir a máscara facial, ajeitei e fui até a porta abrindo-a. Então Maria bateu-a novamente fechando a porta na cara de .
— O cabelo! – ela sussurrou desesperada e ajeitou a minha peruca — Vou sair primeiro para dar a entender que nós...
— Tá, tá, pelo amor de Deus, já entendi! – sussurrei também.
Ela abriu a porta vestindo o personagem daquela noite em que nos conhecemos e sorriu para que arregalou os olhos, surpreso e sem graça.
— Boa noite. – Maria cumprimentou-o com voz sensual.
— Boa noite. – e respondeu num sussurro de voz.
Assim que ela havia se afastado um pouco, me olhou culpado.
— Oh cara, foi mal! Empatei seu lance, né?
— Não, não, a gente já estava aqui há muito tempo. – falei sorrindo — Mas, e aí, o que pega?
— Os caras estão na, pool party. Ficamos esperando você aparecer, mas... Agora entendi porque não ia. – ele afirmou rindo.
— Tranquilo, só um momento e eu já vou.
Retornei e me estudei pelo espelho do banheiro, observando se não estava nada errado no disfarce. Quando sai fechando a porta do quarto, olhava para a direção em que Maria havia seguido com o mesmo semblante de quem me analisava desde o dia anterior.
— Cara... De onde é aquela mulher?
— Funcionária aqui do bar do clube, por quê?
— Não, beleza, mas... Ela por acaso é dançarina?
— Eu sei lá, mano, a conheci aqui.
— Eu acho que ela é stripper numa boate que fui uma vez.
— Sério? Eu acho que você anda encontrando muitos conhecidos aqui, não?
— É eu sei que parece estranho, mas... Você...
Novamente parou à minha frente me observando cauteloso.
— Ih, qual foi, cara? Eu não tenho nada contra, mas você viu que eu não jogo nesse time, não é?
— Desculpa, não estou querendo te intimidar, mas é que... Você vai me achar muito louco se eu disser que você lembra a ?
Comecei a rir de desespero.
— Qual é, !!? – disfarcei zoando.
— Não, cara, é sério... Acho que é o seu olhar... Tem alguma coisa dela dentro dele.
— Ih papo estranho! Sai fora!
Dei um soquinho amigo no ombro dele e continuei seguindo.
— Eu acho que o Fred tinha razão... Você não tira essa mulher da cabeça. – afirmei observando atenciosa às reações dele.
— Não sei explicar, o jeito que nós nos conhecemos foi meio louco, sabe? E depois reencontrar ela no dia que ela jogou... Ah é! Isso também! Você tem uma jogada muito, muito parecida com a dela.
— Sinal de que ela é boa mesmo. – se eu não desse importância aquilo, ele certamente não desconfiaria de nada.
— Ela é boa em todos os sentidos, você não tem ideia.
Corei com aquele comentário e resolvi entrar na onda de quem estaria interessado, em mim mesma.
— Sabe que está me deixando curioso, não é?
— Sabe que eu não vou deixar ninguém tirar ela de mim, até eu ter certeza de que ela não quer nada comigo, não é?
— E acha que ela não vai querer?
— Sei lá... Na última vez que nos vimos, achei que ela fosse me dar algum sinal de interesse maior, mas... Ficamos no trivial sendo que na primeira vez que nos vimos terminamos a noite com um beijo.
— Vai ver por isso ela se policiou... – tentei salvar minha pele — Sabe que mulher tem essas preocupações, né? Se a gente vai achar que são muito ousadas, coisa e tal... Pelo visto, ela pode ter se segurado já que de primeira, vocês já tinham uma intimidade.
— É, faz sentido. Principalmente se considerar as circunstâncias que a conheci.
Chegamos à piscina, onde uma festa temática caribenha acontecia, e os sócios de todo o clube, se divertiam bebendo, jogando, dançando e alguns burlando as regras de “mulher não entra”.
— Qual era da regra lá do Fred de mulher não entrar? – perguntei encarando aquilo.
— Ah... O Fred tenta, mas... Quem impede um grupo de homens de extravasar sua testosterona, não é?
— É... Eu que sei... Você me pegou com a funcionária hoje.
— É verdade! – ele gargalhou passando o braço em meu ombro e batendo a mão em meu peito.
Saiu se misturando até onde os amigos estavam, e eu pude soltar o denso ar que prendia pela respiração.

xxxx

Semana do Disfarce – Terceiro Dia

Eu estava seguindo Fred há algumas horas. Peguei o carro de Bruna emprestado, e fui atrás de informações. Fred saiu da fraternidade dizendo que iria resolver “uma coisa” e eu achei aquilo bem esquisito. Eu tamborilava meus dedos no volante do carro e cantarolava uma canção da rádio, quando vi Fred saindo de dentro da cafeteria que tinha entrado há cerca de quarenta minutos atrás. E saiu acompanhado de um homem. Apertei os olhos a fim de não perder nada da cena, e logo uma mulher saiu se juntando aos dois homens. Abaixei meus óculos escuros em meu nariz, a fim de observar melhor e foi aí que respirei aliviada: a mulher deu o braço para o outro homem, e despedindo-se os três saíram. Fred entrou sozinho em seu carro e deu partida. Ajeitei meus óculos e o segui. Ele estava de volta à fraternidade.
Encostei-me ao balcão do bar, ainda paramentada de e chamei Bruna que atendia um cliente com um suco. Ela se aproximou e Maria de costas continuava seu serviço.
— A chave. Valeu pela ajuda, não era nada demais.
— Hm... Que droga! Então gastamos gasolina à toa.
Ela reclamou e eu sorri.
— Eu abasteci para você quando vi que ele havia voltado.
— Meu Deus, você é melhor que meu namorado.
— Você tem namorado? – perguntei alarmada.
— Por que o espanto? Só porque eu sou dançarina daquela boate não posso ter um namorado?
— Não foi isso que eu quis dizer, é que você nunca falou nada sobre.
— Hm... Sei... – me olhou sorridente e desconfiada — Acho que você vai receber alguma fama aqui...
Ela falou olhando para trás de mim e eu virei minha cabeça. estava nos observando, ele acenou com a cabeça e sorriu.
— Conrado não voltou? – perguntei retornando a atenção à Bruna.
— Não, mas o plano era você colar em alguém mais próximo do Fred, não é? – ela sussurrou dando sinal para eu ir logo até o .
Caminhei até ele, e o rapaz logo fez piada com “já está partindo para a outra?”. Eu dei de ombros e fomos juntos até a quadra de tênis. estava tomando café quando eu cheguei, e ao acabar ele me convidou para assistir ao esporte “de burguês”. Não havia muitas pessoas no local. Apenas ele e o grande muro onde ele treinava.
Enquanto ele rebatia a bola no paredão, e eu estava sentada jogada ao chão, nós dois começamos a conversar sobre tanta coisa!
Ele me falou da sua família. O pai um empresário, diretor de uma franquia de multinacionais, a mãe uma médica, cirurgiã plástica. Uma família extremamente tradicional e que dá muita importância às boas relações sociais, mas todos, pessoas boas. Nas palavras dele, filho defensor, porque na minha concepção certamente eram uns entojados.
explicou que o noivado que ele tivera era de fato, uma relação de negócios entre as famílias – coisa que eu já havia descoberto por ele em outras ocasiões – mas, que os pais o apoiaram e entenderam quando ele quis rompê-lo. Estavam pressionando-o há algum tempo para que encontrasse uma nova noiva e se casasse logo, principalmente desde que Fred anunciou seu casamento. Os dois eram amigos de infância, que passaram longos anos morando longe, e se reaproximaram há alguns poucos anos quando retornou da Flórida.
E então começou o monte de perguntas sobre mim. Eu não sabia explicar o motivo, mas eu sentia meu estômago embrulhar a cada mentira dita. Eu não queria mentir para ele. Ele estava ali sendo sincero, contando sua vida para mim, e eu que estava louca para dividir a minha história com ele também, não poderia fazer aquilo.
, o filho de boa família de advogados, que decidiu seguir para o futebol e tinha pais que não se importavam muito com suas decisões, mas amavam-no verdadeiramente o apoiando em tudo. , namorador, nunca noivo e que acreditava, apesar da fama de mulherengo, em amor verdadeiro. Um romântico ao qual surpreendeu-se.
No fundo, eu queria mesmo era apresentá-lo à . Quando uma funcionária aproximou-se, entregando a ele uma bandeja de sucos e frutas às quais ele havia pedido e eu nem reparei, me encarou com um sorriso sacana, e piscou fazendo sinal da mulher para mim. Eu ri sem graça e quando ela saiu, ele perguntou se eu estava disposto a encontrar entre as funcionárias algum tipo de “amor” ou só queria ver o circo pegando fogo. Expliquei que não estava fazendo nada demais, e que eu não causaria nenhum tipo de problema. Então perguntei a ele se eu não o veria trazer alguma mulher e burlar as regras do melhor amigo. Foi ali que eu gelei.
— A única mulher que eu não consigo parar de pensar, é a .
Abri a boca surpresa, e disfarcei em seguida puxando mais o assunto.
— Uau... Mas, vocês tiveram algo realmente forte para tanto?
— O pior é isso, cara! Não foi nada demais, mas... Parece que foi o suficiente para eu ficar tão interessado.
Eu não conseguia pensar em algo para respondê-lo.
— Acho que eu vou telefonar para ela! O Fred me passou o número, e talvez a gente possa marcar de nos encontrar amanhã...
— Não, cara! – falei nervosa, mas dando entender que eu tinha um plano: — Espera um tempo. Ela vai achar que você está muito na dela, e acabar desinteressando!
— Ela não me pareceu esse tipo.
— Ela é uma girl power, certeza! Só pelo fato de jogar futebol! Então, pensa só: ela deve ser o tipo que toma a atitude e gosta de ter tudo sobre controle. Não vai parecer um mané, que fica na cola da mina, né?!
— Talvez... Só talvez, pelo fato de que o ex-namorado estava atrás dela, eu deva dar um tempo mesmo. Ela não pareceu curtir o cara a surpreendendo.
— Isso aí!
Uma coisa não tinha nada a ver com a outra, mas consegui convencê-lo por hora. disse que era para nós falarmos menos e jogarmos mais, eu expliquei que não sabia nada de tênis, e então ele me lançou uma raquete me dizendo que ensinaria. Ficamos o restante da tarde ali jogando.
À noite, eu queria dar uma saída daquele clube. Não estava mais aguentando. Queria na verdade sair do personagem. Telefonei para Ester, ficamos um bom tempo conversando e eu convencendo-a de que não havia nada de errado com Fred.

— Amiga, com ele eu não sei, mas comigo... Eu estou passando mal há três dias.
— Desde que saí daí então! Você não foi ao médico?
— É só algo que comi. Certeza.
— Ester Mantovani! Ou você vai imediatamente ao médico, ou eu largo tudo e vou pessoalmente tratar esse assunto!
— Amiga, relaxa...

Ela me prometeu que iria ao médico e ao desligarmos a chamada, a porta do meu quarto soou. Eu já havia notado que só poderia “sair do personagem” quando de fato, fosse dormir. Porque do contrário, sempre aconteceria aquilo de alguém me chamar e eu ter que me arrumar correndo... Enfim...
Abri a porta e dei de cara com em um sorriso muito agradável mexendo no celular. Eu me segurei para não agarrá-lo ali mesmo. Estava com uma bermuda jeans rasgada, uma regata preta com flores havaianas amarelas, um boné virado para trás, e uma sandália de couro no pé. Tipicamente um cara comum.
— E aí, bora sair? – me perguntou normalmente — O babaca do Fred está teimando em ficar aqui, tentando convencer ele.
Disse entrando em meu quarto e eu arregalei os olhos, varrendo o lugar. Felizmente não tinha nada errado ali. Eu vi sentar na poltrona e me encarar em dúvida.
— E aí, se arruma aí, cara, vamos dar um rolê na praia.
— Ah... Só... Saquei... Eu vou só ver se o Conrado chegou, porque tem um dia já que o Mané não dá notícias.
— Ah relaxa, eu vou lá, eu chamo ele. Vai se arrumando aí!
falou saindo e quando fechou a porta eu ajoelhei dando graças aos céus. Precisava deixar algumas roupas no banheiro, assim, eu poderia sempre me trocar lá, em situações iguais.
Saí do quarto e vi retornando com as mãos no bolso e sorrindo para mim.
— Conrado não está por aqui. Deve estar na casa de alguma garota.
— É só pode... – falei ainda me recuperando do susto.
— Cara, tudo bem? Você parece estranho...
— De boa, irmão, relaxa. – respondi com as mãos nos bolsos.
— Tem algum encontro com alguma garota também? – perguntou desconfiado.
— Não, infelizmente não. Mas... Quem sabe não encontramos umas gatinhas na praia, não é? – falei fazendo a preocupação de sumir e dar espaço aos risos.
— Fred disse que aparece lá depois.
— Por que ele não vai com a gente? – eu perguntei.
— Ele foi ver a Ester, parece que ela está se sentindo mal e ele ficou preocupado. Ele não está aqui.
Merda. Se Ester não soubesse daquilo teria que inventar uma boa desculpa para estar na minha casa, sozinha.
— Ela falou o que tem? – perguntei.
— Disse para ele que foi só algo que comeu. Mas, o Fred é um desesperado quando se trata da noiva.
Entramos no carro de e uma sensação boa de estar onde eu mais queria estar me invadiu. Como eu poderia estar me sentindo tão atraída assim por um cara que mal conhecia?
Fomos a um quiosque, compramos água de coco, caminhamos na praia observando as poucas pessoas em seus passeios noturnos. E depois sentamos na areia observando o mar. Passamos mais ou menos uma hora entre conversas amenas, e algumas reflexões de vida que a proximidade ao mar nos induzia. Eu percebi a lua alta no céu e sorri para ela. Virei meu rosto para olhar , e percebi o perfil do rosto dele tranquilo, pensativo, contemplativo ao mar. Ele mordia o lado interno da bochecha numa mania involuntária, e que me fazia entrar ainda mais em hipnose por ele.
Apoiei a cabeça em meus braços, num ato impensado de continuar observando ele, e então me olhou. A sobrancelha de um dos lados erguida, e o olhar de canto de quem achava graça em mim, influenciaram no sorriso enviesado a surgir em seu rosto. Ele desviou o rosto, mas parece que ao notar que eu não havia parado de encará-lo, ele voltou a me olhar diretamente. Ficamos ambos nos encarando. E quando percebi, tinha uma feição assustada em seu rosto, com o olhar tão direto ao meu.
— É muito estranho... – ele murmurou.
E então eu despertei para o que estava acontecendo: eu estava esquecendo que era o ali e não a .
— Cara, eu acho que deu a hora, né? O Fred não deve aparecer.
— Eu... Eu vou ligar para ele.
Nós dois levantamos e eu cocei a cabeça e apoiei uma mão na cintura fingindo distração. falou no telefone com Fred que realmente disse que não iria. Então, voltamos para a fraternidade. Aquele pequeno momento de contemplação nosso, não atrapalhou para que nossa volta fosse tranquila.
Quando cheguei a meu chalé, eu rapidamente tranquei tudo. Porta, janelas, fechei todas as cortinas. Na verdade confirmei, pois as cortinas sempre estavam fechadas. Após tomar banho e me jogar em minha cama, me peguei pensativa sobre a noite. E confusa com até onde aquela loucura de disfarce daria certo. Meu telefone dentro da gaveta do criado-mudo apitou, e então o peguei esperando ser uma mensagem da Ester. Meus olhos caíram quando eu li a mensagem de um número desconhecido.

, é o . Eu consegui seu número com o Fred, espero que não se importe... Será que a gente poderia se ver de novo?”.

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Semana do Disfarce – Sexto Dia

Eu havia tido muita dificuldade para dormir dois dias atrás devido à mensagem de . Não sabia o que respondê-lo e por isso, não respondi. Desde então, não comentou mais nada sobre comigo, e nem com ninguém. Talvez tivesse lidado com aquilo como um fora, e por mais que eu quisesse me defender para ele, eu não poderia, pois como o , não sabia daquele fato da mensagem. Então, me restava torcer para ele aceitar uma boa desculpa depois de tudo aquilo. Fred também me enviou mensagens perguntando sobre o estado de saúde de Ester – achava que ela escondia-lhe algo – e como eu não respondi, ele me ligou também. Precisei falar para minha amiga inventar uma história qualquer de que meu telefone havia estragado e, portanto, não teria como falar comigo. Logicamente Ester era esperta o suficiente, para saber como chegar nesse assunto sem parecer que eu havia pedido a ela para avisá-lo.
Bruna e Maria me salvaram de umas boas furadas, naqueles dois dias. Aliás, os últimos dois dias foram absurdamente inacreditáveis! Sinceramente, o cosmos parecia contribuir para que essa farsa acabasse.
Primeiramente, no dia seguinte à mensagem que eu não respondi, estava extremamente mal humorado. Tão mal humorado que passou a maior parte do dia na quadra de tênis. Tiago havia me dito que treinaríamos extensamente naquele dia e no outro, porque os dois últimos jogos seriam seguidos, e cansativos além de decisivos para aquele campeonato do clube. Então, eu fiquei treinando a maior parte do dia. Com isso, Conrado que apareceu naquele dia dizendo que tivera alguns problemas para resolver, esteve o tempo todo me vigiando. Até que surgiu no campo me chamando, estava cabisbaixo e bastante desanimado, e ouso dizer, ainda de mau humor.

FLASHBACK

— E aí, cara, o que houve? Sumiu o dia todo. – perguntei ao ao me aproximar.
Ele me estendeu uma garrafa de água que estava no cooler do campo, e sorriu em falso ânimo.
— Tá pegando qual das meninas do bar? – me perguntou diretamente.
— Por que essa pergunta?
— Preciso me distrair.
— Isso foi machista! – falei subitamente.
Esqueci que não era a e expus minha revolta, mas recebi um olhar cortante e julgador da parte de .
— E o que você faz não é também? Me dá um tempo, ! Eu puto, e só quero esquecer...
— A ? – não aguentei e perguntei.
— Quem falou dessa garota aqui? – rebateu estressado.
— Porra, cara, o que aconteceu? Olha como você está todo nervoso!
Eu gesticulava tentando não me comprometer com a situação, mas extremamente ansiosa para ele se abrir e eu poder manipular as informações.
— Esquece! Vou sair hoje, se o Fred inventar alguma coisa você diz que eu... Ah... Se ferrar também, diz nada não.
Ele saiu revoltado batendo o pé. Eu abri os braços sem entender e ia atrás dele se não fosse o Conrado a me segurar.
— O que está acontecendo, ? – ele sussurrou baixo para mim.
— Conrado... Eu preciso sair daqui, tomar um banho...
Falei com a cabeça um pouco confusa, e ele olhou em direção ao campo percebendo que todos estavam muito concentrados. Puxou-me para o vestiário pela mão e eu não entendi direito o que Conrado pretendia.
— Isso de você não tomar banho na frente dos caras ou se trocar, já está gerando burburinho. Então tira a roupa entra no chuveiro enquanto todo mundo está lá fora e eu fico vigiando aqui.
— E se vier alguém?
— Se tivesse entrando já o risco era menor, entra logo!
Conrado ficou na porta do vestiário espreitando e eu rapidamente me despi, coloquei o disfarce no banco, e abri o meu armário onde eu deixava uma muda de roupa trancada.
Enquanto eu tomava uma ducha rápida, Conrado revezava o olhar entre a porta e minha cabeça dentro do Box do chuveiro, e ouvia atento eu dizendo que falou estar muito interessado na , para o . Contei sobre a praia, sobre a mensagem não respondida e sobre isso estar supostamente relacionado ao modo como ele se portou há pouco.
— Vire-se para a porta, eu vou me trocar! – falei e Conrado nem fez hora ou piada porque ele sabia que devíamos ser rápidos.
Terminei de me vestir e ele saiu aliviado da porta se aproximando e dando sua opinião.
— Olha só, essa história está a ponto de estourar. – ele falou e tirou a camisa do time jogando-a num canto — Você não pode dar ideia pro enquanto estiver aqui, porque ele vai querer ver a e não vai rolar, então vai piorar tudo.
Ele tirou os sapatos e meias e eu ainda não tinha me importado com o homem se despindo à minha frente.
— Deixa para quando isso aqui acabar, você inventa, sei lá... Que estava viajando ou sei lá o quê e ele, se realmente te quiser, vai dar uma chance para vocês.
Então Conrado se levantou retirando a bermuda e eu precisei intervir.
— Ei, ei! Você realmente vai ficar nu na minha frente?
— Não vai ver nada que não tenha visto... – deu de ombros arrancando a cueca e me permitindo olhar toda a sua... “bagagem”.
— Conrado! – gritei seu nome e dei as costas para ele, só então tampando a minha boca preocupada de alguém estar se aproximando e ouvir uma mulher gritando lá dentro.
— Agora você me deve uma amostrinha do seu corpinho também. Até porque a gente vai sair quando tudo isso acabar...
Ele falou risonho sussurrando em meu ouvido e eu gelei em imaginar o corpo nu dele tão perto do meu. Era um belo corpo, vale ressaltar.
— Óh! Mas presta atenção! – ele entrou no Box para tomar banho e continuou o assunto anterior: — Se você ficar saindo do personagem e paquerar o , ele vai achar que você é gay e isso pode complicar mais pro seu lado aqui dentro...
Eu ia responder, mas o barulho dos caras entrando no vestiário chamou nossa atenção. Corri para meu armário para fingir que estava guardando as coisas na minha mochila e eles entraram barulhentos, arrancando as roupas e eu acabei sendo “presenteada” com mais alguns... Enfim... Rafael me perguntou se eu já havia tomado banho e eu vi a deixa perfeita para sair dali:
estava puto sei lá com o quê e me tirou do treino, aí eu aproveitei para encerrar. E se me dão licença... Vou pro meu chalé porque ninguém merece ficar aqui manjando um bando de marmanjo pelados, né não?
Eu sorri e os caras riram se despedindo. Bati na porta do Box de Conrado que me encarava com uma expressão zombeteira e saí.
Encontrei Maria no meio do caminho e contei a ela o que aconteceu, e ela disse que em poucos minutos estaria no quarto, para nós duas fofocarmos, então Bruna aproximou-se igualmente combinando. Alguns minutos depois estávamos eu, Conrado, Bruna e Maria em meu quarto falando sobre como iriamos lidar com aquela situação: Fred estava limpo! Não tinha por que ficar até o sétimo dia ali. Bruna não permitiu, dizendo que Ester não ia concordar. Ligamos para Ester e ela não atendia.
Bruna mudou o assunto dizendo que tinha a chamado para “visitá-lo” em seu chalé mais tarde. Eu na mesma hora mudei de cor – palavras de Conrado – e então, Bruna contou que negou o pedido. Falou que tinha namorado, e quando ele perguntou se ela estava falando aquilo por causa de “” ela realmente disse que “tinha dispensado o há alguns dias pelo mesmo motivo”.
— Pode respirar agora, ... Ninguém aqui vai pegar o seu namoradinho não. – Conrado falou revirando os olhos, entediado.
— Isso é ciúme? – Maria perguntou.
— Evidente. Eu vou tirar a dele assim que isso tudo acabar. – Conrado falou óbvio.
— Te manca, Conrado. Você não faz meu tipo! – eu respondi revirando os olhos com um sorriso divertido.
Ele que estava ao meu lado na cama, aproximou o rosto do meu perguntando em tom safado:
— Sério que depois de me ver nu hoje, não ficou nem um pouco interessada no meu potencial?
Maria e Bruna deram gritinhos histéricos entre olhos esbugalhados e curiosidade aflorada.
— Você vai ter que contar para nós duas o que você viu hoje! – Maria falou firme.
— E teve mais? Ou foi só o Conrado nu no vestiário? E o ? Me conta que eu posso até repensar o convite dele! – Bruna dizia sem pausas.
— Calem a boca! – joguei uma almofada nas duas, um pouco irritada pelo último comentário de Bruna.
Conrado ria e então, de repente ele girou-se sobre mim e beijou minha boca de modo casto. Eu que não esperava fiquei sem entender, e as meninas também olhavam a cena totalmente surpresas.
— Eu vou deixar vocês aí conversando sobre os pênis da galera... – ele se levantou da minha cama me deixando totalmente sem ação ou palavras, e da porta ele disse: — Ah! E fala a verdade sobre mim ouviu? Senão serei obrigado a provar que você mentiu para elas.
Enquanto as meninas riam eu observava confusa ao Conrado sair do quarto. Elas ficaram rindo da minha cara e então eu me levantei vestindo o disfarce.
— Chega de ser por hoje... Esse... Esse babaca me roubou um beijo! – falei me dando conta finalmente da situação.
— Vestir o agora não vai mudar o fato de que tem dois homens maravilhosos te querendo, Miss Ball.
Miss Ball? – perguntei com cara de estranhamento pelo apelido ridículo que me deram.
Vesti o e voltei a deitar na cama, totalmente absorta em pensamentos sobre como sair daquela situação logo. Fiquei um bom tempo repassando com as meninas os reais motivos que me prendiam ali, e o único agora, era a merda do campeonato. Eles não me deixariam sair antes do campeonato acabar. Bruna recebeu uma ligação do namorado, deixando Maria e eu ali terminando de conversar.
Passadas duas horas, Maria precisava retomar o turno no bar do clube, eu abri a porta para ela sair e estava parado à minha porta para entrar.
— E aí, mais calmo? – perguntei dando espaço para ele.
Ele entrou e se jogou deitado na minha cama, eu olhei para a cômoda do quarto vendo que havia deixado minha camisola ali. Fui rápida até o móvel e guardei a peça, mas já tinha visto e riu.
— Da Maria, né? Relaxa, eu não vou te julgar por dormir com a menina do bar. – ele falou e acrescentou: — Aproveita e pega a calcinha e o sutiã que estão na poltrona.
Olhei em direção a poltrona e ri como se tivesse “sido pego” e guardei tudo na mesma gaveta.
— Ela tem dormido aqui algumas vezes... – eu respondi.
— Pelo menos alguém tá fodendo quem quer. – ele disse e eu me espantei.
— Ué... Você não ia sair para isso hoje?
— Eu até tentei sair, mas... Sinceramente? Não consigo mais.
— Como assim?
— Por que a única mulher que eu quero agora, não respondeu a minha mensagem?
Finalmente ele havia chegado ao ponto que eu tanto desejava.
— Cara... Sei lá, às vezes ela não viu... Ah, por que não pergunta ao Fred sobre ela? Ele deve ter notícias ou conseguir sondar sobre ela, não?
— Vou mandar outra mensagem antes de falar com ele. – disse depois de um tempo pensativo.
Retirou rápido o telefone do bolso e eu arregalei os olhos imaginando que logo ele iria descobrir o barulho da mensagem saindo da gaveta do criado-mudo ao seu lado. Corri até lá fingindo que ia pegar o carregador do meu outro telefone falso, e silenciei o aparelho enquanto fingia buscar outra coisa.
Respirei aliviada quando a tela do celular verdadeiro se mostrou acender e não ecoar nenhum som, fechei a gaveta rapidamente e fiz de conta que não havia reparado o carregador na tomada perto da porta do banheiro.
e eu ficamos, um tempo ali conversando, e ele decidiu que ia até o Fred buscar informações, me fazendo o seguir. Fred contou a versão da história que Ester e eu havíamos combinado e eu não pude segurar um sorrisinho discreto. ficou mais calmo e confessou para Fred que não ia esperar nem mais um dia para ir até mim. E eu precisei novamente intervir:
— Cara! Deixa para ir atrás dela no final do fim de semana, vai aparecer lá do nada e dizer “você não respondeu a minha mensagem, eu tô louco em você então vamos sair?”.
— Qual o problema? – perguntou óbvio.
tá certo, cara... A é meio pé atrás, sabe? E ela é bem prática na verdade, sem falar na mania que ela tem de controlar os homens.
— Controlar os homens? – perguntei me sentindo um pouco afetada.
— Todos os namorados dela falaram a mesma coisa, e eu também conheço a .
— Falaram o quê? – tirou as palavras da minha boca.
— A é um pouco... – Fred sorria malandramente — Não acredito que vou contar isso para vocês... Mas, olha só, vocês não contem que eu disse viu!
— Eu nem conheço ela, fala logo, Fred! – eu disse ansiosa.
— A é um pouco dominatrix de homens.
— O quê?! – e eu dissemos juntos.
Eu não sabia onde enfiar a minha cara e não imaginava que o Fred tinha aquele tipo de conversa com meus ex-namorados. E nem era para tanto! É claro que eu curtia um estilo mais safado e tal, mas... Aquilo era um absurdo. Eu queria de verdade, dar um soco na boca do Frederico.
Dominatrix... Com chicote, a roupa colada e tudo? – perguntou com um sorriso de surpresa.
— Bem, o Juan me contou. Mas, foi o único também, porque os outros caras só me disseram que a é quente e safada, mas nada fora do normal. Eu não sei o tipo de relação que ela tinha com o Juan, mas ele disse que passou uns bons bocados na mão dela. E depois, é mesmo autoritária com os namorados. Ela parece ficar na defensiva o tempo todo por ser mulher, parece que não permite espaços para ser subjugada.
— Algumas mulheres só não querem dar espaços para abusos. – eu falei séria e irritada, e quando percebi os dois me olhando tentei aliviar: — Às vezes não é autoritarismo, é só safadeza mesmo...
— Sei lá, eu não sei o que se passa na vida romântica dela.
— Ah, mas pelo visto sabe, né?! – falei de modo debochado.
Aquela história do Juan era mentira. Nós tínhamos algumas fantasias realizadas, por desejo dele que era bastante excêntrico na cama, mas... Eu queria realmente enfiar um murro na cara dele.
Dominatrix ou apenas uma mulher em busca de respeito masculino, eu a quero. – falou pensativo.
Nós dois encaramos ele surpresos pela revelação. Eu fiquei calada, enquanto Fred continuou tirando sarro da cara de mais um pouco. Depois fomos para nossos chalés e nos despedimos.

FIM DO FLASHBACK

Então, até no dia posterior àquela mensagem eu havia sido exposta à nudez de Conrado e outros caras do time, beijado o Conrado, sido exposta enquanto sexualmente por Fred, e descoberto que estava muito na minha. E até ali, nada do Fred ser culpado. Já era muita informação para minha cabeça, mas, no dia seguinte... Ou melhor, no dia de ontem, as coisas pareciam estar bem, bem piores para o meu lado.
estava tranquilo com a situação da mensagem, e inclusive me disse que estava se sentindo um otário por ter dado um “chilique” pela falta de resposta da mulher. Não era como se ela tivesse obrigação com ele, e isso eu não pude deixar de concordar. Mas, apesar de ficar ali como o , o ouvindo falar que se sentia mal e etc. e até concordar em certos aspectos, como , eu entendia o sentimento dele. Eu mesma fiquei puta dentro das minhas calças com o fato dele não me beijar ou pedir o meu telefone no nosso último encontro.
Então... Não vamos ser hipócritas! A gente espera mesmo que o cara ligue no dia seguinte, e os caras esperam mesmo que, se “baixarem a guarda”, sejam ao menos correspondidos.
Reflexões sexistas e escrotas à parte... passou aquele dia mais perto de mim e do Conrado, que também não nos deixava a sós sob a desculpa de que eu não iria me controlar. E eu aproveitei que estava mais perto do melhor amigo de Fred ontem, para investigar a índole de Fred. Como se eu não soubesse, né?
Nada, absolutamente nada, que dissera ia contra o que eu pensava a respeito do Fred. Frederico era tão extremamente apaixonado por Ester, que ele me revelou que Fred sabia das desconfianças que ela nutria, e segundo ele por paranoias de insegurança. Segundo , mesmo sabendo das desconfianças, Fred não falava a respeito com ela, e profundamente sentia-se traído e ofendido. Era terrível ter que ficar dando provas de que amava Ester, mesmo sem nunca ter dado a ela sequer uma razão para desconfiar.
Perguntei se achava certo, os dois se casarem sem conversarem a respeito. Ele obviamente concordou que Fred e Ester precisavam confrontar todas as últimas dúvidas antes de irem ao altar, mas confessou que Fred morria de medo de que, diante da racionalidade, Ester desistisse dele. Ele começava a crer que ela não o amava tanto quanto ele a amava.
Dá para notar o meu desespero ao saber que eu estava ainda mais em perigo ali dentro, né? Por que, se fosse descoberta, seria o fim para o Fred. Ele não me perdoaria, não perdoaria Ester e ainda corria o risco de confirmar sua teoria sobre não ser amado suficientemente para ter a confiança dela.
Eu fui em direção ao meu chalé, logo após aquela conversa com decidida a telefonar para minha melhor amiga louca, e contar tudo. Porém Conrado adentrou ao meu quarto logo que eu entrei e me tirou totalmente o foco.

FLASHBACK

, a gente tem que conversar. – ele disse entrando de supetão.
— Primeiro não me chama assim e fecha a porta. Segundo, não entre sem bater e terceiro, espera aí que eu descobri uma coisa que preciso contar para Ester.
Dei as costas sentando em minha cama, e quando vi que Conrado havia trancado a porta e se aproximava aos poucos, eu retirei a peruca e a máscara facial.
— Ele está traindo ela? – perguntou duvidoso.
— Não, não é isso, mas...
— Então foda-se, me escuta. – ele se aproximou puxando-me pela mão e interrompendo meu raciocínio.
— Qual a gravidade, afinal? – falei irritada por ele me impedir de pegar o telefone, me puxar daquela forma e falar daquele jeito comigo.
— Promete que vai me dar uma chance?
— O quê? – eu estava confusa com a pergunta feita.
— Promete que vai me dar uma chance da gente sair e...
— Conrado! – o interrompi — Que merda de papo é esse? Isso não é momento para...
Antes que eu pudesse terminar de falar, Conrado me beijou.
— O que... Que porra...
— Eu não sei o motivo disso, mas... – ele me interrompeu de novo encarando meu olhar colérico para ele — A cada vez que eu penso que você e o podem ficar juntos, eu surto. Eu não estou dizendo que eu estou apaixonado ou algo do tipo, é só que... Não é só sexo, tá?
— Conrado. Do que você está falando?
— Eu não sei! Eu só quero te conhecer melhor e... – ele gesticulava e falava com dúvidas e espanto — Não quero que você saia daqui direto para os braços do sem me dar ao menos uma chance.
— Eu devo ter algum feitiço, porque vocês me beijaram só uma vez, e eu já estou tendo uma DR com você e acompanhando surtar por causa de uma porra de mensagem não respondida! – falei eufórica.
— Eu já disse, não é que eu esteja apaixonado, mas é que... Eu te conheci pouco a pouco esses dias entre e , e... Eu não vou negar que sinto uma puta atração física pela , mas, não é só isso. Ver o modo como você está doida para acabar isso e ir correndo para os braços do me deixa puto! Porque é tão injusto que eu esteja aqui lado a lado de uma garota tão legal que eu conheci, mas infelizmente não conheci antes do ...
Olhei profundamente a reação confusa e surpresa de Conrado e não sabia de fato o que fazer. Eu ia dizer alguma coisa como: “vamos deixar as coisas acontecerem com calma, e tudo normalizar”, mas as batidas de na porta do quarto me impediram. Conrado revirou os olhos e me ajudou a rapidamente vestir a máscara e a peruca. Abri a porta do quarto e Conrado estava sentado na poltrona, quando o cumprimentou e me chamou para ir com ele ao treino. Fiquei sem coragem para dispensá-lo, então olhei culpada para Conrado e em tom de desculpa falei:
— A gente conversa depois, tá? – sussurrei antes de sair pela porta logo após , e vi o revirar de olhos entediado de Conrado.
Acabei indo com para o treino, e não telefonando a Ester. Ao final do treino de , eu tinha o meu treino de futebol com os caras e ele me acompanhou. Conrado estava me evitando ainda e ao final, consegui usar o de desculpa para não tomar banho imediatamente no vestiário. Saí de fininho do campo em direção a ele, e fomos os dois para os quartos. Cada um tomou banho em seu respectivo quarto e eu estava decidida a ir até Conrado conversar, mas me chamou para ir beber com ele.
Eu sabia que deveria conversar com Conrado, mas não queria perder um minuto longe de . Era a chance que eu estava tendo de conhecê-lo melhor. E ali, foi a minha maldição. Bebemos praticamente até às três horas da manhã e entre conversas sobre os campeonatos de tênis e futebol no dia seguinte, carros e mulheres, novamente tornou-se um assunto.
— Depois de tudo o que você me viu passar esses dias, por causa da ... Ainda pensa em procurar por ela? – me perguntou.
— Seria muita trairagem, né, e eu não sou assim... – falei rindo.
— Acha que mais alguém aqui pode ter ficado interessado nela aquele dia? – ele perguntou de novo.
— Você desconfia de alguém?
— Hm... Não sei. Para mim é tão ilógico que alguém venha a conhecê-la antes de mim.
— Conrado... – sussurrei mais para mim.
Entretanto escutou afinal eu já estava bêbada, o suficiente para não ter noção da altura da minha voz.
— Ele te falou alguma coisa? – perguntou preocupado e pensativo.
— Ah não... Só aquele dia no quarto do Fred mesmo... Ele... Achou ela linda.
— Não o culpo.
tomado por alguns minutos de reflexões alcoólicas, levantou-se de súbito dizendo que ia até Conrado saber se ele havia conhecido , ou escondia algo, e que iria até logo em seguida.
Não adiantou eu argumentar que não fazia sentido meter Conrado na história dele, sendo que o cara ainda nem havia conhecido a . Argumentei também que era ele quem tinha um pé na frente com a mulher, e que não adiantaria sair até a casa de , bêbado como estava.
teve resposta para tudo, mas não teve resposta para o beijo que eu acabei dando nele. Eu literalmente agi por impulso achando que o calaria beijando a boca dele.
Foi estranho em todos os sentidos, primeiro porque eu estava vestida de e ele ficou me encarando de um jeito tão profundo que eu imaginei que levaria um soco. Foi estranho ainda mais porque eu adorei e pelo visto ele também, uma vez que ele puxou minha nuca novamente beijando-me de volta. Eu diria que houve um reconhecimento ali de nossas línguas, e toda a tensão sexual que ele sentia pela e eu sendo a sentia por ele. Então, com um lampejo de sobriedade que veio sabe-se lá de onde, eu separei nosso beijo e cocei a cabeça em dúvida saindo do quarto dele caminhando apressada até o meu.
Mal notei que a porta do meu chalé, havia ficado aberta desde que saíra mais cedo deixando Conrado, sem uma justa conversa. Entrei de súbito e tranquei a porta, rapidamente arrancando todo aquele disfarce que estava me deixando ainda mais sufocada. Quando fiquei de calcinha e sutiã e retirei a máscara e peruca soltando meus cabelos, eu sentei à cama só então notando Conrado ali.
— Que susto!
— Estava esperando você tirar o resto para me pronunciar. – ele falou com humor fraco.
— Engraçadinho...
— Você sabe que me deve uma.
— Está fazendo o quê aqui?
— Eu vim do vestiário direto para cá, e estou aqui esse tempo todo esperando você. Assisti televisão, comi seus lanches, mexi na sua gaveta de calcinhas...
— O QUÊ?
brincando... Nas gavetas eu não mexi. – ele riu com um pouco mais de humor.
Então ele notou minha expressão de poucas ideias para as suas piadas e ficou me olhando preocupado. Eu me levantei indo abraçá-lo imediatamente e Conrado não entendeu nada.
— O que houve?
— Cadê as meninas?
— De folga. O que houve? – puxou meu rosto para me encarar.
— Eu o beijei.
— Como?
— Eu beijei o .
Conrado me soltou e me olhou ainda confuso.
— Então, ele sabe que você não é o ?
— Eu o beijei como o ! – falei revoltada me jogando na cama.
Conrado encolerizou-se e andou de um lado a outro me encarando com julgamento.
— Eu sabia que isso ia acontecer!
— Ele queria vir até você perguntar sobre a , saber se você a conhecia e se queria ficar com ela!
— Ah! E você achou o quê? Que eu ia jogar tudo pro alto agora, e foder o planinho infantil de vocês, só porque eu quero realmente ficar contigo?
— Não! Eu só não sabia como pará-lo!
— Fez muito bem agarrando ele como um homem!! – ele bateu as mãos sobre a lateral do corpo e sentou-se perto de mim na cama me encarando: — E o que ele fez?
— Me puxou para outro beijo.
— Quê?! – Conrado estava alarmado.
— Ele estava bêbado! E eu também! Sem falar que...
— Vocês beberam o quê? Mijo!? – ele perguntou me interrompendo.
— Não importa agora! Aconteceu, e nós vamos ter que aguardar para ver o que ele vai fazer amanhã.
— Aguardar porra nenhuma, foda-se se você vai ser desmascarada cedo ou tarde, mas amanhã é o penúltimo jogo do campeonato e o time precisa de você. Não vai ser justo deixá-lo estragar tudo depois que eu tive tanto trabalho!
— Ei, aonde você vai!?
Conrado saiu em disparada pelo quarto me deixando cheia de dúvidas. Dúvida sobre o que ele faria. Dúvida sobre o que aconteceria. Dúvida sobre o que ele teria feito para enfim não poder admitir que eu não jogasse.

FIM DO FLASHBACK

Desde ontem então, eu não mais vi o ou falei com ele. Durante a manhã tivemos preparação para o jogo, o Conrado também não me disse nada. Na verdade nem mesmo falou comigo até alguns minutos atrás no vestiário, quando me puxou desejando boa sorte na partida. Prontos para iniciar a partida, a bola estava no meu pé, e a minha cabeça preocupada com o momento em que a verdade vai ser dita e eu vou ter estragado tudo desde o lance com até o casamento de Fred e a taça do time. Eu não pude acreditar quando ouvi o apito.
Corri em disparada realizando a troca de passe para Diego ao meu lado, e aproveitei para me infiltrar um pouco mais ao campo adversário. Tiago e Matias realizavam os passes, enquanto a marcação vinha acirrada. Eu já estava bem mais à frente que a equipe quando a bola retornou para mim, e ao me perceber em posição de impedimento se continuasse a levando, realizei um toque de recuo, onde Diego novamente pegou a bola reiniciando a jogada.
Por mais que tentasse me concentrar não percebi quando Conrado recebeu a bola de Soares, preparando a jogada em que havíamos treinado a minha assistência para o gol. Adiantei-me na corrida e embora tenha perdido o passe para o adversário, realizei a roubada de bola e finalizei a assistência que levou Conrado a realizar o primeiro dos dois gols que nos fizera ganhar aquela partida. O segundo gol saiu com muito sofrimento no final do segundo tempo, após o empate ter corroído a todos que jogavam e assistiam. Menos a mim, que estava absolutamente louca para fugir de um jogo de futebol pela primeira vez na minha vida.
O apito que soou o final da partida parecia o sino da minha liberdade. Caminhei pelo campo, distraída, e quando pensei que conseguiria novamente sair furtiva com a desculpa de cumprimentar Maria e Bruna que assistiam ao jogo, os rapazes do time me pegaram pelas pernas e me suspenderam em direção ao vestiário sobre cânticos de vitórias e brados. Eu seria desmascarada no vestiário, então?
Lá dentro eles começaram a retirar a blusa sacudindo-a e comemorando, e quando Diego e Soares me pegaram para receber o “trote do novato”, por ser aquele, o segundo jogo que eu participava e ter realizado as jogadas para a vitória deles, fora que ainda não tinha passado por aquilo, Conrado apareceu dizendo que havia um cara do lado de fora, um olheiro querendo falar comigo.
Não entendi nada, mas quando cheguei ele saiu me puxando pelo corredor e me fazendo sair pela parte de trás do vestiário, aonde ninguém iria me ver.
— O trote é tirar a sua roupa e te dar um banho com a água de gelo, dos coolers da partida. – ele falou sério me tirando dali.
Caminhei apressada de volta ao quarto, onde eu pude me arrumar para a comemoração que iria acontecer na boate do clube. Entre desculpas sobre “ter fugido do trote” e perguntas sobre o tal olheiro que não existia, eu consegui sair ilesa da comemoração noturna. Não bebi muito, e fiquei o máximo de tempo ali à espera de ou Conrado surgirem. Nenhum dos dois apareceu. O primeiro ninguém sabia onde estava, e nem mesmo Fred. O segundo havia dado a desculpa de que ia encontrar uma garota fora dali e por isso não iria comemorar com nós. E eu só soube que era mentira quando passando pelo chalé dele, vi a luz do seu quarto, acesa.

Semana do Disfarce – Sétimo Dia

Não consegui mais falar com a Ester na noite anterior e nem por parte da manhã de hoje. Teria outro jogo a tarde onde decidi que iria jogar o primeiro tempo, garantir uns gols para os meninos e sair escondida no segundo tempo. De resto eles que se virassem.
Conrado continuou sem falar comigo, mas apareceu no meu quarto para dizer que era para eu ter cuidado no treino, pela manhã. Falei que não iria, para ele inventar uma indisposição e avisar aos caras que eu iria descansar para jogar só no primeiro tempo. Devido à festa da noite anterior, as desculpas surtiram facilmente.
Tentei ligar para Ester muitas vezes durante a manhã, e nada. Liguei para Maria e Bruna e nenhuma das duas sabia o que havia acontecido então Maria foi atrás de Ester e Bruna ficaria para me ajudar a fugir pós-jogo. As duas meninas sabiam dos últimos acontecimentos e concordaram que era o melhor que eu poderia fazer.
Então, ao longo da manhã até o horário do jogo eu fiquei escondida no quarto, e Bruna levou minhas malas para o carro dela escondido, assim que eu saí para entrar em campo.
Exatamente como planejei consegui executar: três gols marcados no primeiro tempo e na saída para o intervalo, os meninos estavam tão concentrados com o fato de a equipe adversária ter marcado dois, que já davam a eles o troféu pela vantagem, que mal se importaram comigo. O técnico manteve as recomendações para alcançarem pelo menos mais um no segundo e garantir que o Clube da Associação Alemã Hanzkstën levasse a taça do campeonato.
Assim que todos retornaram ao campo, eu continuei no vestiário e ia sair com minha mochila pelo espaço que no dia anterior o Conrado me mostrou, quando o próprio me segurou pelo braço.
— Tenho que entrar no jogo, mas preciso que você fale com uma pessoa.
Ele me guiou até um homem bem vestido loiro, que eu identifiquei como sendo Marcelo, o coordenador esportivo do Flamengo, e nem pude acreditar no que estava acontecendo.
— Esse é o , bem... Conversem e explica para ele que eu preciso entrar.
Conrado pediu ao Marcelo, me olhou com um meio sorriso e bateu no ombro do outro, em seguida nos deixando ali.
— Você tem sorte. Estamos precisando de um jogador com o seu perfil de jogo imediatamente no Flamengo, e eu não sou de dar ouvidos aos pedidos do Erick, mas...
— Espera... Erick?
— O Conrado. Ele é meu sobrinho, e pediu pessoalmente alguns dias atrás, que eu viesse. Eu estava em uma viagem no exterior e ele esperou eu voltar, e me convenceu de vir assistir a final aqui. O clube aqui é... Um divertimento para os associados, então... Nós nunca encaramos chances reais de bons resultados ou um talento no elenco, mas ele me garantiu que você era bom .
Minha cabeça deu um nó. Eu lembrei os dias que Conrado havia ficado fora, e não disse exatamente qual o problema foi resolver. Em seguida lembrei-me de sua última frase para mim, dentro do chalé há um dia: “Não vai ser justo deixá-lo estragar tudo depois que eu tive tanto trabalho!”. Era aquilo então... Ele foi até o Marcelo pedir uma chance para mim, mas que destino! Marcelo já havia procurado a , e agora estava ali oferecendo uma chance real para eu entrar no masculino do Flamengo, enquanto a ainda passaria por alguns testes no feminino.
— Olha... Marcelo, não é?
— Sim. – ele parou de falar observando a minha interrupção de forma curiosa.
— Eu posso saber por que o Conrado não tentou essa chance para ele? – perguntei e o homem riu compreensivo.
— Não é a praia dele. O Erick nunca quis se profissionalizar com o futebol, embora seja até bom. Isso é só um hobbie.
— Entendo... Bom, a questão é que eu também não quero no momento.
— Mas, ele disse que você...
— Ele se confundiu. – respondi interrompendo-o novamente — Frederico Aguiar é quem falou para nós que tinha uma amiga que joga interessada em profissional... Eu, até posso ter dito algo, mas no momento... Eu não tenho interesse.
— Amiga? Nosso feminino também está precisando de novo elenco, você sabe quem é?
. Não sei muito sobre ela, além de que é muito boa. Obrigada pelo convite, mas...
— É eu sei quem é ela... Engraçado que vocês têm um jogo parecido... Ela é mesmo boa. Bom, eu que agradeço a atenção e peço desculpas pela confusão do Erick.
— Tudo bem, eu quero me desculpar por ele. Afinal, ele te fez perder tempo.
— Assisti a uma boa partida de primeiro tempo, então não perdi tanto assim.
Despedimo-nos em um cumprimento e o homem retornou para a arquibancada, enquanto eu corri ao meu chalé para me arrumar.
Estava saindo do banho quando me enrolei na toalha e adentrei ao quarto, apressada. Só me dei conta que não havia destrancado a porta, quando percebi em pé segurando a máscara de silicone em sua mão, com uma expressão confusa, e de costas para mim.
... Eu achei que precisávamos conversar sobre o que aconteceu, mas, eu... Que merda... – ele falou indignado se virando e me encontrando finalmente.
estava ali, de frente para , enrolada numa toalha. Minha feição espantada e culpada denotava o fracasso que eu sabia que seria, tentar reconquistar o cara mais incrível que eu já havia conhecido e que por sinal, achava que eu era um homem.
, eu...
— Era você o tempo todo? – ele disse com raiva e então se aproximou de mim devagar.
— Eu posso explicar... Por favor, me escuta, eu...
— Tudo faz sentido agora! – ele disse me interrompendo, com a expressão de decepção — Eu achei que estava louco por ter beijado um cara, e pensado em você e depois, ainda ter feito várias conexões estranhas, sobre a possibilidade de ser ou não gay, e caralho... Garota., sabe a merda de confusão que você fez na minha cabeça?
— Eu...
— Você sabe! – ele interrompeu novamente — O pior de tudo é que você sabe. Você estava lá me ouvindo falar de você e...
Ele parou de falar pensando em alguma coisa que infelizmente eu não podia decifrar, e então se afastou em direção à saída, e por mais que eu pedisse para ele esperar, ele não esperaria.
Vesti minha roupa, enfiei o disfarce na sacola, e peguei o telefone celular real e o fictício, deixando de uma vez aquele chalé. Só consegui me dar conta do que tinha acontecido quando entrei no carro e deixei as lágrimas caírem enquanto eu contava para Bruna que havia sido descoberta.



Capítulo Cinco - Prorrogação

Chegando a minha casa, descobri que Ester estava chegando com Maria, de uma consulta no hospital. Minha melhor amiga estava grávida, e embora todas estivéssemos muito felizes, eu não conseguia conter a tristeza. Antes de contar minha história, eu falei para Ester nunca mais duvidar do Fred, e contei tudo o que havia me dito sobre o noivo dela. Ela sentiu-se tão culpada, que jurou que jamais iria fazer uma loucura daquelas de novo. E eu agradeci mentalmente, fisicamente, espiritualmente, e então contei o que havia passado aqueles dias todos.
As meninas não sabiam o que fazer para me ajudar, ou me consolar. Só depois de alguns dias, quando Fred havia descoberto a gravidez que Ester resolveu que só poderia “arrumar” a zona entre e eu, se contasse para Fred toda a verdade. Ele ficou profundamente decepcionado com ela, e também comigo. Levou mais alguns dias para voltarem a se falar normalmente, e para ele também aceitar que eu só fui um bode expiatório de mais uma neurose da Mantovani.
Conrado havia entrado em contato comigo e aparecido na minha casa para dizer que lamentava muito o acontecido, que não queria desperdiçar nossa amizade e ao saber do pé na bunda que levei do , até fez suas piadas sobre nós nos conhecermos melhor já que eu devia muito a ele.
Acabei me acostumando por chamá-lo de Erick e esclareci o ocorrido com o tio dele. Não adiantaria aceitar o convite do clube, uma vez que eu não poderia jogar no masculino, e eu nem entendia por que ele tinha feito aquilo. Ele acabou contando que sabia da procura pelo elenco feminino e achou que o tio poderia se interessar mesmo que eu estivesse disfarçada. A surpresa para ele foi saber que o tio dele já havia me visto e me convidado.
Então depois de retornar para minha verdadeira equipe, contar a louca aventura para as meninas, que riram por dias, de conversar com um advogado que André, meu treinador, fez questão de agilizar após minha folga fatídica, eu procurei Marcelo para oficializar a experiência com o maior clube carioca, que era também meu time de coração.
Com a ajuda de Erick eu acabei me sentindo mais segura para confiar nas oportunidades que seu tio me oferecia, e também, o próprio sobrinho fez questão de que me tratassem como uma possibilidade e não mais um daqueles “testes para tampar buraco”.
Eu passei alguns meses sem notícias diretas de . Fred me disse que conversou com ele, e que o rapaz estava relutante entre me procurar ou não. Disse que havia desistido de pensar sobre a loucura que Ester me meteu, mas que tudo aquilo tinha o deixado confuso, sobre ser certo ou não se permitir sentir algo tão efêmero por mim, já que a natureza de seu sentimento não estava nos dias que ele passou conhecendo , mas sim no dia que ele me conheceu na boate. Ao fim de tudo, Ester também havia contado sobre este dia para Fred, então, sabia da verdadeira história do dia que nos conhecemos.
O casamento de Ester e Fred estava próximo também, e eu sabia que nos encontraríamos. Conrado e eu saíamos juntos, mas não como um casal e sim como amigos. Eu me recusei dar uma chance a ele sem antes saber que não havia nenhuma possibilidade de conquistar, e de me fazer ser conhecida por .
Bruna nos apresentou seu namorado, que era hilário e totalmente desprendido de convenções, achava um máximo eu ser jogadora de futebol, a namorada ser uma stripper e vez ou outra, ele, Bruna e Maria formavam um trio amoroso. O cara era ligado nos “poliamores” e dizia para eu entrar naquela onda com e Conrado e tudo seria resolvido. Ester ficava possessa com aquela história, porque para ela era absurdo demais.
Eu só fui reencontrar no dia do casamento de fato. Éramos padrinhos do casal, e quando nos vimos eu pedi desculpas e ele apenas sorriu dizendo para eu esquecer o ocorrido. Não falou mais comigo durante a noite, com exceção do que as regras de cordialidade permitiam.
Erick e eu aproveitamos a festa, e vez ou outra eu olhava para me observando, enquanto curtia também com uma moça bonita, que Ester me garantiu ser a prima dele.
Só teve um momento da festa em que eu me atrevi um pouco a arriscar. Ele estava saindo do banheiro quando eu o encurralei no corredor e ele me olhou surpreso.

— Eu só queria que você ouvisse, por favor. – falei e ele cruzou os braços para me ouvir — Entre um cara que eu beijei uma vez e não saía da minha cabeça, um cara que eu lamentei muito por não ter pedido meu telefone e que eu não tive tempo de conhecer melhor, por causa da loucura da minha melhor amiga. Entre ele e ela, eu até tentei cair fora da mentira, mas... No final o time contava comigo também. Eu não podia decepcionar todo mundo... Eu odiei cada mentira que eu te disse, e eu seria hipócrita de dizer que eu odiei ver os seus sentimentos por mim evoluindo aquela semana, mas eu não odiei. Eu só tive mais certeza de que eu estava, me apaixonando por um cara que mal conhecia e precisava sair dali o quanto antes para responder a mensagem dele... Enfim... Nunca foi minha intenção magoar você, , mas as coisas aconteceram de um jeito que era tarde para sair sem deixar algum estrago. Espero que você tenha visto um pouco da nas verdades triviais que o te mostrou... E eu não sou uma dominatrix, aquilo foi invenção do babaca do meu ex.
Sorri enquanto ele absorvia tudo o que eu disse, dei as costas e saí dali. Não só saí do corredor como, saí da festa. Erick e eu nos despedimos dos noivos e fomos direto para a boate, onde Maria e Bruna se apresentavam, e o namorado dela estava nos esperando.
Tínhamos muito mais que procurar rir naquela noite, porque embora felizes pelos noivos, Erick estava saindo com uma amiga das meninas, e eu... Bem, eu queria esquecer que passei a festa toda, me lembrando dos poucos momentos entre e eu, lá no clube.
Alguns dias depois após a festa, eu fiquei acompanhando a lua de mel dos meus amigos, entre um treino e outro do CT, entre um filme e outro na minha casa. E foi em um desses momentos de filme, que eu levantava para pegar mais sorvete na cozinha, que a campainha tocou indicando a chegada da pizza que eu havia pedido.
— Pizza! Uhuuuul! – gritei para mim mesma, já que estava sozinha.
Era o dia de sair da dieta rigorosa que eu seguia, e por isso, eu comia tudo o que podia e queria. Abri a porta risonha com uma colher do sorvete na boca, e enrolada com a carteira nas mãos.
— Obri... – tentei falar para o entregador com a colher na boca e parei ao me deparar com ele ali.
tirou a colher da minha boca, e sorriu da situação em que eu me encontrava.
— Você acreditaria se eu dissesse que eu não consigo esquecer o beijo que eu recebi do cara do meu time?
Deixei a boca abrir em surpresa, e à medida que encarava com meus olhos arregalados ele foi dando poucos passos em minha direção. Eu fui caminhando para trás, até que o vi colocar a colher em sua mão no aparador perto da porta, tirar a carteira da minha mão com a outra sem quebrar nosso contato visual, e fechar a porta da minha casa com seu pé.
— Aliás... Eu não me importo que você seja uma dominatrix, desde que você não se importe por eu ter gostado de beijar um cara.
Ele falou e eu sorri, era a única coisa que eu conseguia fazer até sentir os braços dele colando nossos corpos e nossas bocas se unindo num beijo cheio de paixão.
— Sabe... Tecnicamente ele não era o cara do seu time, até porque você só joga tênis. – respondi após me separar dele só para encarar seus olhos e perceber se era tudo real.
riu alto por achar inacreditável eu parar de beijar sua boca por uma observação daquela, e acabou ele me dominando em novamente continuar todos os beijos que queríamos ter dado, mas por um desvio de percurso não demos. Era realmente inacreditável que Ester sempre me colocava em boas enrascadas. E mais inacreditável ainda que no final tudo desse certo.





FIM.



Nota da autora: Espero que tenham gostado dessa fic feita com tanto carinho para este Especial Incrível ♥ Acompanhem-me no grupo de autora, com link abaixo, e vamos conversando pelos comentários! Estou ansiosa para saber o que vocês acharam dessa história! Espero vocês!





Outras Fanfics:
(Links na página de autora)
Até a data desta fanfic constam postadas:

Longfics

○ No Coração da Fazenda
○ Linger
○ Entre Lobos e Homens: Killiam Mark
○ Western Love
Shortfics

○ A garota da Jaqueta
○ All I Wanna Do
○ Cidade Vizinha
○ Coletâneas de Amor
○ Conversas de Varanda
○ Entre Lobos e Homens
○ Deixe-me Ir
○ F.R.I.E.N.D.S
○ Intro: Singularity
○ Mais Que Um Verão
○ Nothing Breaks Like a Heart
○ O cara do meu time
○ O modo mais insano de amar é saber esperar
○ O teu ciúme acabou com o nosso amor
○ Pretend
○ Semiapagados
○ With You

Music Video

○ MV: Drive
○ MV: Me Like Yuh
○ MV: You Know
○ MV: Take Me To Church
Ficstapes

Nick Jonas – Nick Jonas #08607. Take Over BTS – Young Forever #10304. House Of Cards
Camp Rock 2: The Final Jam #12509. Tear It Down
Descendants of the Sun #130 – 05. Once Again
Descendants of the Sun #13006. Say It
Taemin – Move #14802. Love
Paramore – Riot #16009. We Are Broken


Nota da beta: Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.


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