Finalizada em: 07/02/2020

Capítulo 1 - Acordando para a realidade

"Oh, não diga simplesmente adeus. Não diga simplesmente adeus. Recolho estes cacos até eu sangrar se isso fizer tudo ficar bem."
(Bruno Mars)


Manhã de outono e as folhas caem como se dançassem sobre nós. Nesta manhã acordei no sofá, não me recordo o motivo de pernoitar por lá, desconfio que a razão esteja no filme tedioso que minhas pálpebras insistiram em observar. Insistiram para não pensar no episódio da noite anterior e teimaram até serem derrotadas. De fato o cansaço, a ilusão e a sensação de não doer como gostaria trouxeram-me o alívio do sono. Sono tranquilo.
está comigo e andamos pareados indiferentes às coisas sem importância. Percebendo os mínimos detalhes da simplicidade da vida. Coisas que os outros descartam, nós juntamos e montamos como um álbum. Estar com ele é estar livre, me sinto sem rótulos ou censura.
— Como se sente hoje?
iniciou um diálogo comigo quebrando o som da brisa de outono e das folhas dançantes acima de nossos corpos.
— Feliz.
— Mesmo? Não precisa fingir que nada aconteceu. Somos amigos, não?
O olhar dele não era tão surpreso como, quando nos conhecemos anos atrás. Não era curioso, nem surpreendente. Era preparado. Ele sempre sabe o que esperar de mim e nunca se assusta com o quê vê.
— Sempre seremos. Mesmo se for apenas da minha parte.
— E então?
Também nunca fora de se contentar com o meu monossilabismo. Sempre insiste até chegar à conclusão que quer, mas também sabe reconhecer quando chega o meu ponto final e respeita isso.
Sem fazê-lo insistir muito, até porque esse jogo de mistérios e atrasos entre nós já havia nos exaurido, respondi sua pergunta que ia muito além de apenas saber se ainda somos amigos:
, eu não finjo. Apenas descobri que enfim é outono e se olhar ao seu redor, tudo mudou.
— Você é louca. Anteontem terminou um namoro de dois anos e meio, pelo motivo certo, mas mesmo assim... – ele fez uma pausa sorrindo para mim incrédulo – Felicidade não era o que eu esperava de você, principalmente porque você me ligou chorando.
— Chorava porque não sabia a causa de ter passado tanto tempo com ele. Ontem eu precisava conversar com você.
— Não precisa mais?
Ele sempre dá um jeito de colocar uma piada ou algum comentário que penda para um lado mais descontraído em assuntos como este.
— E o que estamos fazendo ? Não há necessidade de saber mais detalhes até porque, você com certeza, já tem ideia das minhas razões. Não basta saber que estou bem e me sinto feliz de estar aqui?
Sorriso. Aquele sorriso largo e radiante que só o tem. E o único que sempre me fez e faz sentir cócegas no estômago. Ele continuou a falar, me olhando com esse sorriso dilacerante.
— É que me preocupo com você. Ontem eu fiquei pensando em como você estaria mal com tudo isso, e eu não podia estar aqui com você por causa daquela reunião chata da empresa com o novo gerente admitido.
Eu sorri radiante.
Eu sempre soube que ele se preocupa comigo e não era a primeira vez que ele dizia isso diretamente. Contudo hoje é diferente. Bons ventos trazem cheiros doces que repuxam da minha memória as sensações perdidas envoltas a e a toda a nossa amizade.
Sexto sentido talvez? Ou um simples presságio antigo?
Essa reunião veio bem a calhar, não que eu não quisesse tê-lo ao meu lado me dando força naquele momento. Mas era necessário que eu tivesse aquela noite sufocante de arrependimentos e com filmes tediosos dos quais meu cérebro nem se preocupou em gravar algum resquício.
Não há nada como a sensação de abrir os olhos e sentir-se livre e acordada. Tudo reflete agora como uma peça onde eu atuei sem amor.
— E foi bem ao contrário... Eu me senti aliviada de ter acabado, mas fiquei decepcionada de não ter doído tanto quanto deveria.
— Não entendo... Você não o amava não é? Queria que doesse?
— Não é isso, mas, não era só um namoro, sabe? Era um namoro, e só.
Como eu disse se desvencilhar de um personagem do qual eu não reconheço o motivo de tê-lo vestido. Para quê eu estava vivendo algo vazio? Quem era a plateia dessa comédia fracassada? Ou melhor: deste romance antirromântico!
Não era só um namoro, destes onde, nós não cogitamos o fim e nem vamos muito além. Ou ainda destes onde fazemos múltiplos planos que realizamos ou não. Simplesmente esses "só um namoro" de muitos ou poucos, mas consequentemente namoros que ensinam e são vividos.
As nossas almas – generalizo mesmo – é formada de partes, assim como as fases das nossas vidas. Há um pedaço diferente para cada época, momento, vivência. Há a alma de criança, de jovem, de adulto, medrosa, corajosa, tímida e assanhada e tantos outros antônimos e sinônimos que em seus pedaços formam-nos unicamente no ser.
Um "namoro só" recusa explicações. É só. A doação é única de um pedaço que pode entregar-se sem esperar retorno ou apenas entregar-se a si mesmo. Na segunda opção o retorno é automático. É como ferir seu corpo por própria vontade e receber dor e raiva de si mesmo.
No meu caso eu não entreguei tudo o quê eu poderia entregar, não por egoísmo, mas por falta de interesse. E aquilo que eu recebi não era coerente com o que eu dava, nem coerente à coisa alguma que se referisse a quem eu sou. Duas flechas perdidas, diferentes e que não se cruzam.

— # —

Narração:

— Preciso fazer um curso sobre este seu lirismo falado, para ver se te entendo.
Eu tentei brincar, mas o fato é que eu a compreendo perfeitamente. Eu sempre a compreendo. Às vezes mais do que eu gostaria até. E ela sabe disso, talvez não nas proporções reais, mas em algum vestígio é evidente que sabe.
— Você sempre me entende e sabe disso. É uma das coisas que me encantam em você. Ninguém nunca entende o que eu digo, até me rotulam de louca. Mas você não, você me compreende perfeitamente.
— É porque eu te conheço. Ninguém entende o desconhecido certo?
— Certo . E quer saber mais? Este é um momento ótimo para um café.
— Eu pago.
— Viu como você me compreende? Eu adoro você! – ela piscou divertida.
— Também te amo pequena.


Capítulo 2 - Um café, conversas Intuitivas, e mais alguns passos.

"Vamos nadar no mar da sabedoria e serenidade. Melhorar."
(Goldfraap)

Narração:

Ele sempre lê meus pensamentos. Desconfio que seja alguma conexão paranormal entre nós, pois também consigo ler os olhos dele. Não com a mesma frequência que ele a mim, mas ainda assim é algo muito particular nosso.
Eu adoro quando ele diz que me ama. Sinto-me honrada e especial. E só ele faz da palavra "pequena" parecer um elogio ao invés de um desaforo, como quando ouço por outras bocas menos gentis.
e eu nos conhecemos na lanchonete onde eu trabalho. Foi engraçado. Ele passou uma vez pela loja e eu estava limpando uma mesa, então eu o vi. Ele também olhou para mim, mas continuou andando apressado. Daí ele voltou e me olhou de novo, eu sorri. Ele entrou e escolheu algo para comer.
Conversamos. Não necessariamente nesta ordem, e nem tão simples e singelo assim. E aqui estamos nós. Três anos de amizade. Renato Russo dizia, "já morei em tanta casa que nem me lembro mais, eu moro com meus pais". Ao contrário dele, eu não moro com meus pais. Há vinte cinco anos. Nunca morei.
não é o meu melhor amigo, mas amigo o suficiente para se tornar especial e essencial para mim. Não tenho melhores amigos. Com o tempo, ele se tornou um pouco do que eu poderia chamar de família.
— Sabe o que é o mais insano nisso tudo?
— Sobre o que?
perguntava desentendido enquanto adentrávamos no "Café Com Cheiro", a lanchonete que sempre íamos.
— É muito insano eu ter vivido dois anos em um relacionamento vazio. Como se fosse uma obrigação, pelas aparências. Logo eu, que não suporto esse tipo de atitude! – eu falava sem levar fé em mim mesma.
— Acho que entendo tudo agora... – dizia com um sorriso enigmático no rosto.
Rosto lindo. Rosto que eu adoro admirar e ficar analisando cada linha, cada marquinha na pele.
— Por favor, dois cafés expressos. Vamos até aquela mesinha ali.
Ele fez o pedido e me guiava. Os toques de na minha pele soavam como unhas em quadro negro. Era chocante, mas delicioso.
— Por que o mundo se importa tanto com as aparências, com os clichês? As pessoas falam de individualidade, mas só se confortam e aceitam a comodidade.
Eu dissera aquilo sabendo que a informação era óbvia e já sabendo também, qual seria a resposta de . Não era a primeira vez que entrávamos nesse assunto. Ele sempre encontrava uma brecha para isso, principalmente quando meu namoro estava na roda do nosso assunto. Ele já premeditava que caminho tudo aquilo levaria e algumas vezes, jogou as pistas para mim. Mas, decidimos ambos, pagar para ver. Eu decidi que iria levar até onde desse e ele contentou-se em assistir.
— Verdade. É engraçado isso. Escutamos o tempo todo que "ser diferente é natural", mas ninguém ou muito poucos, aceitam o diferente, o exótico... Basta sair com o visual um pouco mais incomum, por exemplo, que você se torna alvo de comentários e olhares furtivos. E muitas vezes, o "diferente" nem é tão incomum assim.
— Eu me arrependo de não ter acabado tudo antes. Perdi dois anos em nada, em um compromisso furado. "Devia ter amado mais".
"Ter visto o sol se pôr". Que acha de vermos o pôr do sol hoje?
— Ainda nem são meio-dia ... Mas, aceito a proposta. Você me faz muito bem, sabia?
— Não sabia não. Conte-me mais.
Sorriso vadio! Um dia eu morro com estes dentes e essa boca alargados, para mim assim. Deveria ser um crime permiti-lo sorrir deste jeito.
— Ah cala a boca ! – rimos – Vamos continuar o passeio?
— Sabe o que é mais insano do que tudo o que você me disse?
— O quê?
Não sei por que, mas senti que a brisa fraca da janela da lanchonete, passando por meus cabelos sussurrou em meus ouvidos um fraco aviso: “Acalme-se”. Era o que a brisa soava. De certo, ela saberia como as próximas palavras dele bateriam em mim.
— É mais insano do que tudo isso quando nós queremos e podemos fazer ou ter algo, mas não o fazemos por motivos que nem nós mesmos conhecemos. Tipo agora.
Ele me olhou com fogo nos olhos e eu reagi com fogo no rosto.
— Tem a ver com a Mayra?
Cérebro inútil. Sempre falha nas horas importunas. Eu não poderia dizer "tipo o quê"?
— Não... O que teria ela nisto tudo? – agora sim ele estava surpreso.
Eu sou tão idiota!
— Vocês não estão mais juntos, e foi tão inesperado. O que houve?
— Eu não a amo. Tentamos. Quero dizer, ela tentou, eu nunca quis tentar. Você sabe disso.
A forma como me olha, na verdade são diversas. Eu conheço todos os olhares dele. Naquele momento ele me lançou o olhar número três. Olhar de "não se faça de boba".
Assim como eu, ele também levou o barco com a Mayra, não por vontade dele, mas sim dela. Várias vezes nós conversávamos sobre nossos relacionamentos. Sempre desabafamos um com o outro sem pudor. Até a minha primeira noite com meu, agora ex-namorado, eu contei a ele. Embora ele teimasse em não me falar das noites loucas dele e Mayra, eu sempre conseguia arrancar algum comentário. Na maioria, de reprovação. E sempre, sempre mesmo, ao fim desses comentários ele dizia "Está longe de ser do jeito perfeito. Com quem eu quero". Deixava solta a informação, que rodeava o ar entre nós, e pairava em minha mente numa conspiração – da qual eu não sabia se era real – de que nós dois devíamos estar juntos.
— Por que não disse logo para ela que não estava satisfeito? Ainda não entendo esta sua reação.
— Eu disse inúmeras vezes. Lembra que ela insistiu e me fez prometer que a deixaria tentar?
— Eu hein... Você é doido.
— Falou a normalíssima da cidade.
— É sério! Poderia ficar com quem ama de verdade, ou descobrir alguém para amar, ao invés de tentar algo em vão.
— Engraçado! Acho que eu já escutei esta história.
— Eu também conheço bem o final dessa comédia improvisada e fracassada.
Estranho nós dois voltando a um assunto tão conhecido por nós. Juramos ambos, cada um para a própria consciência, que tentaríamos passar firmes por esses aprendizados. Julgamos ser a melhor forma de chegar onde queríamos.


Capítulo 3 - Revelações de uma praça.

"Algo no jeito com que ela se move me atrai como nenhum outro amor. Algo no jeito com que ela me persuade."
(Beatles)

— A praça fica linda no outono, não? – dizia admirando, as folhas secas e penduradas caindo das árvores.
— É linda. Reparou naquele senhor sentado ali no cantinho?
— O que tem ele?
— Em todos os primeiros e últimos dias das estações, ele senta bem ali, pega um livro, o abre e começa a ler. Como um ritual.
Eu reparava naquele senhor há algum tempo e nunca tinha tido a chance de compartilhar essa observação com o . É um homem ao contrário do que se poderia julgar, rodeado de pessoas que o amam. Patriarca de uma grande família, unida e alegre, porém o próprio se esconde atrás das capas de brochura.
Eu nunca conversei com ele, mas gostaria de perguntá-lo o que as rugas de seu rosto trouxeram-no de amargo para ele não notar as coisas lindas que tem à sua volta. Como o olhar fulgurante de seu netinho tentando chamar a atenção dele e as tentativas frustrantes da mãe do menino em mostrar ao pai que atrás daquele livro – ainda que seja um livro, objeto mágico capaz de mudar todo um mundo desconhecido ou conhecido – existe uma história que ele ajudou a fundamentar.
— Ele não parece estar a fim de ler para alguém que mantém um ritual.
— Você entendeu. Ele nunca lê com vontade. É como alguém que cumpre uma tarefa obrigatória e de rotina.
— Acho que o livro é uma desculpa, para se sentar ali e curtir a transição das estações sem ser incomodado, sem dever explicações a ninguém.
— Você falando assim faz parecer melhor, a imagem que tenho dele.
Nós rimos distraídos mastigando um doce que eu sempre desconheço o nome. Favorito do e que ele sempre compra na nossa lanchonete já batida.
— Olha ali aqueles três jovens. Estas meninas moram próximas à minha casa, e este menino sempre as acompanha na saída do colégio. A questão é que ele nunca está sorrindo ou conversando empolgadamente com elas. Ao contrário, elas sempre conversam e riem muito alegres. Ele as acompanha até a quadra da casa delas, e volta todo o caminho à sua casa, cada vez mais cabisbaixo.
— É, as pessoas precisam se libertar.
E novamente os bons ventos que chegavam aos poucos iam sussurrando-me que algo grande está por vir.
Ergui o meu olhar para , e ele me fitava docemente. De um jeito incomum ao diário. Não me recompus. Continuei ali imóvel e perplexa no olhar dele e no seu sorriso que matava cada pedacinho de mim.
Outra boa brisa amiga bateu balançando nossos cabelos. Ele passou os braços pelos meus ombros, beijou minha testa e continuamos a caminhada.
— Está um clima tão gostoso de outono. Parece que enfim o sol vai esquentar.
disse sorrindo para o Sol e olhando para o alto se deixando ser guiado por meus passos.
— E o que faremos?
— O que você quer fazer, minha pequena?
Sem dúvidas ele sabe o que me causa com estas palavras e sem dúvidas, ele sabe que eu não deixo a tortura às pechinchas.
— Com você, qualquer coisa. – vingada.
Sinto o estremecer do estômago dele, através de suas ações, quando faço estas coisas.
— Que moral a minha. – ele riu para disfarçar a timidez — Vamos à floricultura.
, eu quero te pedir uma coisa e não aceito um "não" como reposta.
— Vindo de você é uma ordem. – me olhou revestido de travessura.
— Vamos tornar o dia, o mais insano à nossa maneira possível? Quero dizer, para nós será um dia comum. Mas, vamos nos permitir?

— # —

Narração:

Ela tem este hábito de cantarolar em meio as suas falas. E é muito bom. Ela é minha amiga essencial e perfeita. Ela sempre foi perfeita, na medida para mim.

— # —

Narração:

Chegamos à floricultura, e eu me senti tão pequena e feia perto de tantas flores lindas. Até que – em sua fiel, sincera, comum e surpreendente abordagem para me encantar –, novamente me encantou.
— Para você. – e ergueu um buquê esplêndido.
— O quê?
— É como você. Linda, elegante, pura, rara.
Ele deve treinar estas coisas, só pode. Resta saber se as treina exclusivamente para mim.
— Nossa, , eu amei. Nunca ganhei uma orquídea, ela é tão linda e delicada.
— E assim como você, ela também é cara!
Ele interrompeu colocando o dedo nos meus lábios e depois de lançar sua piadinha, gargalhou.
— Desculpa, mas a piada caiu, como uma luva vai!
— Seu idiota.
Insano, provocante, sexy, educado, simpático, sincero, sedutor, sensual, maravilhoso, romântico. Ele me partiu ao meio com todas as palavras e com aquela atitude.
Foi lindo, uma das mais lindas emoções que me fez passar. Ele sempre demonstrou que via em mim, não uma bela mulher, mas uma mulher bela. E eu sempre o admirei por isso. Toda a sua delicadeza. Tantas vezes chamado pelos "homens" que nos cercavam de lerdo, gay ou burro por ter tido muitas chances de fazer o que quisesse comigo e não tê-lo feito.
Homens, que de homens nada tinha senão a denominação da espécie. Pessoas que não sabiam o que era respeito. Diferente de todos e único, sempre me fez acreditar que eu era muito mais do que olhos humanos poderiam enxergar. Mais até do que ele mesmo enxergava. Um amigo como poucos, um homem como nenhum outro.

— # —

Narração:

Insana, provocante, meiga, sedutora, romântica, linda, responsável, admirável, elegante, ingênua e todos os adjetivos de perfeição possíveis. Ela saiu correndo da floricultura como uma menina de dezesseis anos, sorrindo e gritando: "Anda , temos um dia longo!". Às vezes tão inconsequente e sem juízo, mas ainda assim, sempre responsavelmente responsável.
Sabendo que eu não poderia voltar e levar o presente até a casa dela, eu pedi para entregarem o arranjo na portaria do prédio. Fomos à praia observar as ondas, ou "festival dançante das águas" como descreveria. Ela tinha seu velho mp3 na mão e escutava "I don't want to miss a thing" do Aerosmith. Uma de suas bandas favoritas. Dividimos os fones, como fazemos com frequência.
— Um pouco depressivo não?
Achei mesmo, afinal o término do namoro não tinha deixado ela triste como contara, e estávamos vivendo um dia mais feliz que todos os outros que tivemos.
— Não! É libertador, apaixonante, dopante. – e estas suas definições confusas.
— Entendi, é emocionante. Exagerada. – debochei da intensidade dela.
Rimos. Ela me abraçou confortando seu rosto em meu peito. Provocando palpitações em meu corpo, pouco perceptíveis.
— Obrigada, por estar aqui comigo, me deixando ser tudo o que eu sou. Sem questionar, sem repreender. Sem dizer que sou insensível por não dar a mínima para o David e tudo o que houve entre nós.
— Eu quem agradeço por me ligar e me prontificar a estar com você aqui. É para mim, importante estar presente na sua vida.
— Eu te quero nos meus melhores momentos.
— Eu sempre estarei neles, pode acreditar.
E agora?
Eu, ela, juntos na areia.
A canção da vez é "Something" dos Beatles.
Talvez por ela a canção fosse outra pelo clima da situação, mas para mim não. Ela ama os Beatles, ponto de desencontro com o ex. Quero fazer algo mais especial com ela. Quero um dia perfeito, à altura de nossa amizade. À altura do que eu sinto ou há milímetros do que ela merece, pois eu nunca conseguirei dar tudo o quê ela merece. Mas sei que não desistirei de tentar.
— Escuta ... Tem um parque na cidade!
Ela se levantou dos meus braços fazendo eu suspirar desanimado por isso. Seus olhos brilhavam e eu nunca recusaria um pedido dela. Ainda que fosse dos mais bizarros.
— Vamos lá, então?
— Só se for agora. – assenti fazendo alargar seu sorriso tão perfeito.


Capítulo 4 - O reflexo das vontades na roda-gigante.

"Neste mundo o coração bate devagar. Nos meus braços, vamos dividir o frio. Nos meus olhos você é tudo o que eu conheço. Querida, vamos para casa."
(Angus and Julie Stone)

Lá estávamos na roda gigante, ao som de "Falling in love" do McFly e vocês não adivinhariam qual ideia fantástica a doidinha da teve.
— Hey , vamos jogar nossas pipocas no povo lá embaixo?
— Por quê? Para nos espancarem depois? – este comentário me renderia uma boa discussão boba que a faria se irritar em nível um.
Ela tem níveis de irritação e eu conheço todos.
Assim como ela tem caretas diferentes e também conheço todas.
Sei cada traço dela. Quero dizer... Não todos, pois os melhores traços dela, aqueles que eu desejo conhecer desde que a vi pela primeira vez eu ainda não pude.
— Nada a ver, ninguém vai saber que fomos nós, olha a altura! Qual o seu problema?
— E se alguém morrer?
— É só uma pipoca. Nós não vamos nem acertar alguém. – eu provoquei a careta, número quatro de "Está falando sério?".
— Olha a altura! – eu disse remendando a voz dela minutos atrás, isso também a irritava — Vai que um grão de milho, atinge uma velocidade de 100 km/h e perfura o crânio de alguém?
— Eu vou enfiar essa pipoca toda na sua goela ! – ponto para mim.
Objetivo alcançado.
— Duvido.
Eu ainda queria fazê-la se avermelhar de irritação. Era uma das melhores miragens que eu tinha dela. Entretanto eu realmente não acreditava que ela faria o quê disse e a desafiei. Ela fez. Não como eu imaginei. Grão em grão, ela foi me alimentando com pipoca, não agressiva, mas carinhosamente. Estilo de tortura que ela domina muito bem.
— Se soubesse que era assim, eu teria duvidado bem mais, de outras coisas antes. – eu falei divertido continuando com o meu jogo de provocar sensações.
— Eu não iria o machucar.
— Você não conseguiria me machucar nem se quisesse.
— Ah é? Você é um tipo de masoquista?
— Talvez... Só com você. Você tem tanto efeito sob o meu coração , que eu não sei dizer se ele obedece a mim, ou a você.
Ela desdenhou do que eu havia dito e voltou a cantarolar. Parece proposital.
"You are, the only exception...".
Cantava encarando-me e ainda me alimentando como um pombo. Eu sorria. Então parei para pensar no fim de namoro dela com David. Tinha uma dúvida que talvez ela não pudesse responder e não existia necessidade de eu perguntar, mas quando dei por mim, já havia tocado no assunto.
— Não consigo entender como David pôde trair você.
— Ele só não me amava. – ela falou normalmente.
Óbvia e sem nenhuma sombra de dificuldade de citar o ex.
— Você é incrível demais para precisar ser amada para não ser traída. Você não deveria ser traída nunca.
Tento me controlar, mas aí eu penso: "Para quê?".
Por que esconder o que temos vontade de falar?
Este é o maior problema das pessoas. Este é o motivo por nem tudo dar certo para elas. Ficar escondendo as coisas não é saudável, nem divertido, muito menos agregará qualquer bom valor.
— Acho que lhe subestimei ao conhecê-lo . Sabe, acho que o erro entre David e eu foi termos nos conhecido com a ânsia de ficarmos juntos. Eu te vejo de modo diferente agora.
— O que quer dizer com isso tudo?
O tão incrível dom de me fazer estremecer.
Por que só ela é capaz disso?
O "problema" sou eu, as outras garotas ou ela?
— Dizem que amar é sofrer. Não deveria ser assim. Deveria ser bom, feliz e pleno. O que muda são as circunstâncias humanas de amar. Os pais amam os filhos e não sofrem por amá-los. Os amigos se amam e não sofrem por isso.
E eu já havia sacado que dali sairia alguma coisa estranha. Sinto isso. Quando ela começa assim... Sei não. Mas, gosto disso.
— Não é o amor que faz as pessoas sofrerem, é o desejo pelo outro.
— Você sempre me entende!
Ela respondeu, e tinha o sorriso de Alice e o olhar de Capitu.
— Imagine um casal de amigos. – falou animada para me explicar algo.
— Como eu e você?
Eu não sei se é exatamente o exemplo mais fiel para o que ela virá a falar, mas vejamos.
— Exato. Eles se adoram, na verdade se amam. Então começam a namorar.
— Vou imaginar outro casal. – eu sabia que a cópia não era tão fiel.
— Qual é ? Está dizendo que sou pouco para você?
— Não foi isso. Mas, nada a ver nós dois nesta situação.
Tudo a ver. Tudo a ver mesmo, mas, eu não poderia afirmar aquilo assim, naquele momento. Ou até poderia, mas ela me deixa inseguro quanto a nós.
— Não se relacionaria de outra forma comigo? – me perguntou sincera e tímida.
E eu me pergunto, por que ela faz isso se sabe as respostas verdadeiras?
— Não é isso. Mas não tem como imaginar nós nos beijando. Sei lá ...
Eu já estava envergonhado ao extremo como só ela consegue me deixar e não conseguia fugir do assunto.
— Não acho.
parou pensativa a me encarar como se procurasse alguma coisa no fundo dos meus olhos. Eu ficava sem ar, o que é uma contradição miserável, já que eu estava a metros do chão em uma roda gigante. Quer mais ar do que isso?
Beijou-me.
Não foi nada muito intenso.
Foi um doce selo quente e molhado.
E inocente.
Ela não colocou malícia naquela atitude.
Fiquei perplexo. Sem palavras e quando acabou ela só me olhou sorrindo e continuou a tese de amigos que namoram que ela constituía minutos antes.
— Viu? Nós nos beijamos. Nada anormal.
Sorriu travessa e desinibida, não deu à mínima para minha perplexidade.
— Mas, como eu dizia o tal casal começa a namorar, você acha que eles sofreriam por se amarem? Sendo que eram amigos antes, se conheciam, eram íntimos de alguma forma? O amor real e duradouro vem de uma relação para outra. De amigos para namorados, por exemplo, de namorados para noivos e assim por diante. Não adianta querer conhecer a pessoa e de primeira engatar um romance eterno, fiel e feliz. Não acha?
, eu ‘tô meio sem ação. Fica quietinha um pouco... A roda parou. Vamos descer.
Assimilei todas as palavras dela e concordava com tudo, mas, eu tenho hormônios. Não dá para usar o cérebro para respondê-la e tentar me controlar ao mesmo tempo.
— Está passando bem ? O que houve?
Minha vontade era dizer: "Houve você! Cadê seu juízo, sua sanidade?". Mas, ela nunca teve ambos. Eu não estava preparado para aquilo, embora esperasse por algo parecido há tanto tempo.
— Nada não, só fiquei assustado com seu beijo.
— Credo, e olha que isso nem foi um beijo! – ela gargalhava.
Aquilo não foi um beijo?
Não, não foi. Mas, ouvi-la dizer aquilo com ar de "você não viu o meu beijo ainda!"... Ah Deus, muito obrigada... Agora eu nem vou ficar o triplo, o múltiplo, de agarrá-la sem pudor. Mas o que me impedia de fazer isso? Além do consentimento que eu não sabia se teria. Aquela situação estava se tornando cada vez mais difícil.
— Perdeu o juízo? – perguntei a fim de me distrair com outras coisas.
— Quando eu disse que o tinha? Eu não tenho juízo e não tenho ninguém.
— Você não pode dizer que não tem ninguém. Você tem a mim.
— Você é exceção. Aquela única exceção que basta por qualquer outra... Você também tem a mim, você sabe, não é? Você me terá para sempre.

— # —

Narração:

Mais uma vez nos olhamos longamente. O beijei na mais pura inocência e falta de vergonha que tenho, mas a reação daquele toque foi intensa demais para o que eu esperava.
O dia havia acabado, e eu não queria o fim. Muitas risadas reflexões sobre este mundo – insano que se diz são – em que vivemos. Observações às pessoas que nos acercavam, olhares sinuosos entre nós, o beijo, as palavras dele para mim, as orquídeas, a brisa com as folhas de outono, o café da manhã mais simples e sensível da minha vida, a roda gigante, novamente o ousado e simples beijo, a praia com o pôr do sol que combinamos e as canções do dia, o sorriso dele.
Nem me cabe mais dizer a sonolência que seu sorriso causava em minhas pernas. Sonolência que eu fingia desconhecer. Fingia para manter as aparências sociais que eu tanto condenava.
A quem eu queria enganar? Ele mexia com as minhas estruturas, sempre mexeu. E eu me retratava e contentava com o pouco querer do David, com uma vida sem riscos e tensões. Mas não me culpo, não havia tido ensinamento para o amor. Criada sozinha pelo mundo e buscando vencer honestamente na vida, e havia conseguido.
Um namoro assim... Primeiro namoro, com um belo par de olhos azuis realmente eram muito para quem nada tinha. Porém desde o dia que aqueles cabelos bagunçados e passos apressados cruzaram a mim, na lanchonete, o David era pouco. Muito pouco de tudo o que eu esperava.
— No que está pensando me olhando assim? – me fitava curioso.
— No dia em que nos conhecemos. Você se recorda?
— Como esquecer? Eu estava atrasado para minha entrevista de emprego, totalmente atrasado. Passei pela lanchonete e te vi através do vidro, mas não a percebi. Tive que voltar para vê-la novamente. Aí sim percebi você. Você e seu sorriso de "Qual é bobão? Nunca viu uma mulher limpando mesas?".
— Eu pensei exatamente isso.
— Eu sei. Eu tive que entrar para fazer o meu pedido, que não foi atendido...
Começamos a nos recordar daquele dia:


— Então senhor, o que vai pedir?
— Posso pedir você?
— Escuta aqui... Eu não sou vadia falou? Sou garçonete, é diferente.
— Não... Você não entendeu...
— Vou te explicar como funciona por aqui: você entra e pega o cardápio, lê e diz o que vai querer comer. Mas tem que estar no cardápio, espertinho! Já se decidiu?
— Senhorita... ? Pois bem, a senhorita não me entendeu. Não quis ofendê-la, apenas entrei para falar com você. Eu me encantei por você quando te vi. Não estou querendo parecer abusado, mas para ser sincero... Sim, eu quero você.
— Uau. Que decidido e cafajeste! Nunca vi maneira mais ridícula de propor um encontro.
— Então funcionou?
— Não. Você errou feio na finalização. Manteve uma boa intenção, para no fim confirmar que realmente é um cafajeste.
— Certo, então me veja um café enquanto me preparo para recomeçar, desta vez, decente como eu sou.


Ele ficou ali por tanto tempo, que até outra garçonete, veio falar comigo uma hora depois:

, aquele cliente não para de te encarar e nunca vai embora. A propósito ele é um gato!
— Só você mesmo Joana. Vou levar a conta dele...
— Com licença senhor, a sua conta.
— Mas, eu não a pedi.
— Fiz o favor, me parecia atrasado quando entrou e quem sabe ainda se correr...
— Não, eu já perdi a entrevista e o emprego logicamente.
— Bem...
— Olha me desculpe, sinceramente. Eu realmente adoraria sair com você, mas estraguei tudo não é mesmo? Acontece que ser amável quase nunca deu certo. Acho que procurei nos lugares errados.
— Como eu me sinto culpada por ter perdido a sua entrevista de emprego, eu o desculpo.
— Obrigada. Aqui está o dinheiro.
— Espera. Talvez possamos ser amigos. Anota o meu telefone.


— Eu pulei muito de alegria na esquina por ter conseguido seu telefone.
me surpreendeu saudoso e sorridente.
— Você nunca me disse isso... Eu gostei de você desde que o vi todo atrapalhado pela vitrine. Achei que você era um safado qualquer querendo uma hora de prazer comigo logo que você abriu a boca, mas, depois quando você se explicou eu percebi que tinha gostado do seu jeito de menino virgem.
— Virgem? Eu não era virgem.
? Pra cima de mim?
— Está bem eu era... Mas, deixei de ser naquela semana mesmo.
— Então queria sair comigo e mesmo assim se deitou com outra para perder a virgindade?
— Eu não poderia arriscar de rolar alguma coisa entre nós e na hora eu... Você sabe... Fazer feio... Decepcionar você...
— Sério?
— Muito sério. Pode rir da minha cara agora.
— Não vou rir. Por mais idiota que seja essa preocupação masculina, foi fofo. Anormal e estranho, mas fofo.
— Bem, já estamos chegando ao ponto de táxi. Quer que eu a acompanhe até em casa?
— Não quero ir pra lá. Ainda me lembro da minha personalidade vazia de antes da traição. Até o abajur da sala não tem nada a ver comigo, odeio a cor cinza e me recorda o David.
— E o que quer fazer, pequena?
— Eu... Não sei...
, quer dormir lá em casa?
— Eu pensei nesta hipótese... "Estou com medo, tive um pesadelo, posso dormir aqui, com você?"

— # —

Narração:

Novamente ela cantarolou uma situação. Ela ter cogitado ir dormir em minha casa, pois, acredito que era isso que ela havia pensado, me deixou extasiado. Eu não estou enganando a ninguém mesmo, nem a ela, e nem quis enganar... Eu a amo, por hora isso basta. Chamei o táxi e fomos.
— Eu prometo que vou ser um bom menino.
— Eu sei que será... – ela sorriu — Me desculpe por incomodar, mas eu ainda estou meio sensível. Odiando a mim mesma por tudo e, não quero te incomodar, então se não quiser que eu vá é só dizer.
— Não há porque se desculpar. E você vai, se não eu nem teria convidado.
— Teria sim. Você ia ficar preocupado de qualquer maneira.
— É, eu teria.

— # —

Narração:

Era a desculpa mais deslavada que eu havia dito até então, para esconder que eu o amava. Eu não estava sensível a nada, se não àquele dia. A ele.
Chegando a casa dele, eu sabia que aquela noite eu deveria dizer a importância que o dia vivido significava para mim, não só por ele estar ao meu lado, mas finalmente por eu aceitar o sentimento camuflado que habitava meu coração.
— Vou pedir uma pizza, não almoçamos e estou morrendo de fome.
— Tá bom.
— Mas antes, vamos até o meu quarto e você escolhe umas roupas minhas. Toma um banho e se veste, tudo bem?
— Como quiser.
— Algum problema? Está tão monossilábica.
— Problema algum... Só pensativa...
— Entendo.

— # —

Narração:

estava estranha.
Por hora achei que fosse só a ressaca moral, batendo pela consciência de que, no dia seguinte teria que encarar sua vida sem o David. Sua casa que lembrava ao David. Mas... Aquilo era novidade, não é de chorar sobre leites derramados.
Ela é do tipo que segue em frente. Então não podia aquela ser a causa do comportamento inseguro ao chegar lá em casa. E eu nem poderia dizer também que fosse constrangimento. Aquilo não existia entre nós.
Minutos após, a pizza chegou e jantamos. Ela desceu do meu quarto, bela, cabelos soltos, minha camiseta larga até seus quadris e havia colocado um short de corrida meu por baixo.
Definitivamente, eu sentia que faltava pouco para eu realmente falar o que sinto.

— # —

Narração:

Eu precisava falar. Havíamos jantado, e ele havia tomado banho e estava perfeito sem camisa, apenas de moletom. Lavamos a louça com assuntos aleatórios, mas o que realmente importava falar não havia sido ecoado, ele sabia que eu queria dizer algo, e eu senti que ele também.
, eu adorei o nosso dia juntos. O melhor de todos estes, anos.
— Poxa, o melhor de todos os anos? Se livrar do David a fez tão bem assim?
— Não é isso, é que hoje percebi que te amo e não preciso esconder nada de ninguém, nem de mim e de você menos ainda.
— Eu também te amo pequena.
— Não , eu o amo mesmo, e te quero. Do mesmo jeito que você me quis quando me conheceu, porém muito mais convicta disso.
— Eu sempre quis ouvir isso de você, mas após tanto tempo achei melhor me desiludir.
— E conseguiu?
— Não, nem me esforcei para isso. Eu sempre amei você às escondidas. E ainda amo.
— Era só o que eu precisava saber.

— # —

Narração:

Ela me beijou novamente, de um jeito mais quente, mais molhado e dessa vez intenso. Entrelacei-a pela cintura com um de meus braços, a outra mão eu direcionei à sua nuca e puxei seus cabelos, de uma forma voraz, mas delicada.
Ela jogava com toda sua sensualidade nos movimentos, me mordiscava os lábios e acariciava meu abdômen. Estava muito claro que ambos nos desejávamos. Eu precisava daquilo. Deixar aquele clichê e discreto, "pequena" de sempre para trás e começar com o que realmente deveria ser: "minha pequena".

— # —

Narração:

Ele me enlouquecia e eu a ele. Estávamos na sintonia perfeita, como se tivéssemos sido feitos um para o outro. Subimos ao quarto e ainda aos amassos nos deitamos na cama.
, te quero para sempre.
— Isto é um pedido de casamento?
— Entenda como preferir.
— Aceito... Mas, eu quero uma festa linda, meu vestido com cauda e véu, todo branco e um buquê perfeito! – eu ri divertidamente com a resposta cômica dele e ele estendeu mais reflexões: — Sabe o que é realmente insano? Depois de tanto falarmos de insanidade, hoje.
— O quê?
— Saber que finalmente podemos parar de culpar o mundo pelos nossos erros e admitir que seja impossível não errar na busca pela insanidade comedida.
— Em pensar que se não buscássemos isso tudo desde que nos conhecemos, não haveríamos nos amado, e eu teria sido uma Mayra para você, e você um David para mim.

Momentos surreais e quentes vieram e viriam ainda mais.
Daí então, eu percebi que durante todo o dia, havíamos nos declarado demonstrando em palavras o quanto nos amávamos, mas foi pelas canções, olhares e pensamentos que descobrimos isso.
Há quem diga que o destino se encarrega de tudo.
Para nós dois cada um se encarrega da própria história. E camuflamos um amor, adiando-o para um futuro concreto. E é por isso que nos veem como insanos, simplesmente por não termos vivido os momentos urgentes.
Já não me assimilava o que iria acontecer depois.
Eu vivi pela primeira vez em minha vida, o meu presente. E que presente!
De repente percebi que não era ele muito menos eu. Éramos nós. Nós que havíamos cogitado todo aquele encontro para o futuro. Porque eu sabia que amores duradouros e reais vêm de uma relação sólida, para uma relação imbatível e ele sabia que teria que esperar a nossa consolidação.




Fim.



Nota da autora: Oi amoras! Esta foi a primeira fic que escrevi, na vida. Claro que para postá-la aqui, eu fiz umas correções e tentei trazer uma linguagem que exprimisse a minha intenção. E a intenção é mostrar que às vezes nós vivemos histórias que não são nossas, enquanto aguardamos o momento certo de viver o que será sólido, mesmo já o tendo na mão. E as coisas acontecem no tempo certo. E aí as coisas dão certo. E nós notamos que, não era para ser se fosse para não ser do jeito como foi. Espero que esta história, escrita nos meus 13 anos de idade, ainda traga um pouco da menina poética e reflexiva que a criou. Que esta história lhes traga uma paz gostosa, uma leitura amena, e muita poesia e amor. Um beijo afetuoso, e espero os comentários para saber se agradaram da história ou não!





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Essa fanfic é de total responsabilidade da autora. Eu não a escrevo e não a corrijo, apenas faço o script.
Qualquer erro no layoult ou no script dessa fanfic, somente no e-mail.


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