Operação Wooga

Última atualização: 19/04/2022

ATO I — O ACONTECIMENTO

1. 1. O INÍCIO.


Janeiro, 2022.
A neve caía fina do lado de fora, deixando a situação ainda mais melancólica. Os sons ao redor pareciam distantes e abafados, como se não fossem capazes de perturbá-los ali. As pessoas pareciam se mover em câmera lenta e respirar tornara-se uma tarefa complicada; a culpa era quase palpável no ambiente. Era um velório, afinal; não tinha como a sensação ser diferente e menos incômoda.
Sem nem mesmo notarem, todos choravam silenciosamente enquanto tentavam passar despercebidos; queriam se fundir às paredes amarronzadas, ignorar a situação de merda que vivenciavam. Um soluço escapou do mais novo entre o grupo de amigos, atraindo a atenção dos outros. Kim Taehyung recebeu um afago leve e carinhoso no ombro direito, o único ato próximo de um conforto que Park Seojoon fora capaz de dá-lo, enquanto os outros respiraram profundamente, controlando as próprias emoções. Não conseguiam acreditar que estavam passando por aquilo, tampouco que eram os protagonistas de todo aquele caos. Queriam sumir por um período para lidar com o luto como fossem capazes, porém, sabiam que não seria possível — a polícia jazia plantada do lado de fora, e não era para escoltá-los por serem mundialmente famosos; estavam aguardando-os para tomar seus depoimentos. Sairiam dali sob os holofotes desrespeitosos da mídia e como suspeitos de um crime terrível; ninguém se importava se eram amigos próximos do homem morto e, agora, trancafiado em um caixão de luxo.
— Nós precisamos ir — a voz baixa e calma de Park Hyungsik invadiu os ouvidos dos outros três, tirando-os de seus próprios devaneios.
— Isso é uma palhaçada — Kwon Seonghwan murmurou, estressado. — Eles não percebem que estamos fragilizados? Acabamos de perder nosso melhor amigo.
— E também somos suspeitos por isso — Seojoon interrompeu o amigo, antes que ele recomeçasse com a discussão. — Só precisamos contar a verdade para a polícia e seremos liberados. Vamos logo.
Taehyung, ainda calado, fungou e agarrou o braço de Seojoon, fazendo-o parar de andar. O rapaz ficou em silêncio por alguns segundos, controlando-se para não voltar a chorar.
— Eu estou com medo, hyung — murmurou, por fim. — Eu não me lembro de nada daquela noite. O que devo dizer?
— Estaremos acompanhados dos melhores advogados do país, não há motivos para temer — Seojoon tentou sorrir. — Vai ficar tudo bem.
— Promete?
Após um suspiro e dois segundos de hesitação, Seojoon respondeu:
Prometo.
E apesar de não ser uma promessa verdadeira, pareceu acalentar os corações de todos os amigos — nada ficaria bem, eles sabiam; mas precisavam manter o otimismo, mesmo que Choi Wooshik não estivesse mais ali.
  Chegar à unidade de homicídios da polícia não foi uma tarefa fácil, pelo contrário, foi um completo caos. A imprensa estava ainda mais fervorosa, ansiosa e almejando qualquer furo que fosse. Ainda não sabiam a causa da morte do ator tão talentoso e promissor, não tinham quaisquer detalhes sobre nada. A única coisa que sabiam era que, assim que o dia primeiro de Janeiro chegou, o escândalo que surgiu não foi o casal do ano que sempre era divulgado pela Dispatch; mas, sim, a morte trágica e repentina de Choi Wooshik, um dos atores mais carismáticos e amados da Coreia do Sul. A informação vazou antes que a polícia pudesse controlar, já que o corpo fora encontrado por um cidadão comum às margens do Rio Han e, mesmo que tentassem ao máximo deixar sob sigilo, foi impossível controlar os boatos e imagens vazadas. Cerca de dez dias depois da descoberta e todos os exames e perícias feitos, a notícia foi ao público oficialmente, anunciando o velório que acontecera naquele dia.
O que mais chocou a população, no entanto, foram os possíveis suspeitos daquele crime tão terrível. As informações eram vazadas e repletas de teorias, ainda assim, chocava a todos descobrir que a polícia tinha em mente o grupo de melhores amigos de Wooshik sob suspeita. Até porque, bem, não se tratava de um simples grupo de pessoas com quem ele se relacionava diariamente — tratava-se de um grupo de melhores amigos tão famosos quanto ele.
Os jornalistas pareciam mais eufóricos do que sentidos com a notícia do possível assassinato, o que não era uma surpresa, já que há anos não encontravam um caso tão estranho e polêmico na Coreia do Sul. Por isso, ver pessoas tão importantes e mundialmente conhecidas cruzando a porta da delegacia como suspeitos de um crime tão terrível era um motivo de alvoroço e não de sentimentalismo — e, principalmente, respeito.

Dezembro, 2021.
As risadas se misturaram novamente, altas e enroladas, com um punhado de palavras tentando sair em meio a elas. Ninguém entendia mais nada do que era dito, tampouco escutavam uns aos poucos. O álcool na corrente sanguínea já havia ultrapassado todos os limites, deixando todos os presentes cambaleantes e exaltados, do jeito que uma noite de réveillon deveria ser. O ano de 2021 se despedia e levava consigo parte das coisas ruins que aconteceram, deixando para 2022 um bocado de esperança embora sentissem que, no fundo, jamais as coisas voltariam ao normal — não importava quanta esperança conseguissem carregar dentro de si. Ainda assim, a noite de 31 de Dezembro era para ser repleta de comemoração e calor humano. Era a única data que o Wooga squad conseguia se juntar totalmente, a fim de comemorar os aniversários de dois membros daquele grupo um tanto quanto inusitado.
— Hyung! — Taehyung gritou, revelando-se completamente embriagado. Os outros quatro homens olharam-no, curiosos, sem saberem com quem ele estava falando de fato, já que era o mais novo da roda.
— Eu estou bêbado pra caramba — o maknae finalizou, soltando uma risada alta e rouca. Não demorou muito para que seus hyungs também começassem a rir, felizes. Era raro ver o garoto tão alegre e disposto a beber, mesmo que fosse pouco e apenas drinques cheios de frutas e bem docinhos — ele não tinha o hábito de beber, odiava a amargura do álcool. Afinal, ele raramente podia ser ele mesmo, Kim Taehyung; normalmente estava ocupado sendo apenas o V, membro do BTS, a maior boyband da atualidade. Portanto, a felicidade era inevitável quando ele surgia em frente aos amigos tão sorridente, sem nenhuma reclamação, apenas sendo um cara normal de meia idade, bêbado e feliz.
Alguns minutos depois, Taehyung encontrava-se estatelado no sofá, com metade do corpo em cima do estofado e a outra metade quase encostando no chão. Ainda assim, pôde ver quando Hyungsik empurrou Wooshik contra a parede e apontou-lhe o dedo entre os olhos, gritando de forma exaltada. Wooshik não pareceu incomodado, pelo contrário; parecia debochar ainda mais do amigo transtornado. Era raro Hyungsik se estressar daquele jeito, principalmente quando estavam apenas os cinco se divertindo. Porém, ninguém além de Taehyung parecia perceber a situação desconfortável que se desenrolava na sala. E depois de alguns segundos observando-os, Taehyung parou de perceber qualquer coisa ao seu redor.
Os olhos, pesados, fecharam e ele se entregou ao sono.

Janeiro, 2022.
— Isso é tudo o que me lembro — Taehyung concluiu, olhando para o policial à sua frente. O homem soltou um murmúrio de entendimento e fitou o jovem nos olhos, buscando qualquer coisa que pudesse mostrá-lo como culpado ou ainda mais suspeito.
— Aparentemente só você se esqueceu dos fatos daquela noite.
— Eu não tenho o hábito de beber, fico bêbado rápido — rebateu, firme. — É comum eu esquecer de quase tudo o que faço quando bebo.
— Então, você pode ter esquecido de ter assassinado seu amigo.
— Eu jamais mataria o Wooshik — Taehyung respondeu, cerrando a mandíbula, sentindo-se irritado de repente.
— Park Hyungsik parecia muito irritado, você disse — o policial ignorou o rapaz, retomando as perguntas. — Você acha que ele seria capaz de vingar-se do amigo por alguma razão? Acha que ele teve um momento de descontrole e acabou cometendo um erro?
Taehyung sorriu ladino, controlando-se ao máximo. Devagar, debruçou-se sobre a mesa que o separava do policial, olhando-o no fundo dos olhos. Com uma calma que ele não possuía, murmurou, lentamente, para que suas palavras fossem bem compreendidas:
— Nenhum de nós seria capaz de assassinar Choi Wooshik. Vocês estão perdendo tempo conosco.
O policial sorriu de volta, aproximando-se ainda mais do jovem artista. Encarando-o de queixo erguido, respondeu:
— O que vai definir isso é o resultado da investigação, não você e seus achismos.

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Quando decidiu entrar na Universidade da Polícia e tornar-se uma serva da lei, não pensou que teria de ficar numa situação tão desconfortável quanto aquela. Era óbvio que trabalhar na unidade de homicídios não seria um conforto de qualquer modo, ainda assim, era extremamente incômodo estar sentada diante de alguém que costumava admirar e ter de encará-lo como um suspeito.
Tomar depoimentos não era uma coisa boa de fazer; odiava, as pessoas costumavam mentir, debochar e deixá-la irritada ao ponto de perder o controle e ser retirada da sala. Ela não era a detetive mais paciente do mundo, não mesmo, mas era boa demais no que fazia e, por isso, a corregedoria nunca levava para frente as acusações que recebia. Naquele caso em especial, ela se sentia um pouco pressionada e acuada, não sabia bem em que direção seguir ou o que fazer ou falar. Era um caso público, grande e envolvia estrelas do cinema e da música mundial, e não tinha nada pior do que lidar com artistas suspeitos em um caso de assassinato. Ainda assim, esperou ter de tomar o depoimento de qualquer outro suspeito do caso, até mesmo quis falar com os familiares da vítima, coisa que ela detestava, para não ter de encarar seu ex-colega de classe — para não dizer claramente seu ex-amor da adolescência.
Estava sendo no mínimo estranho encarar Park Yongkyu, ou melhor: Park Seojoon, porque, bem, não tinha como ser o rapaz que conheceu décadas atrás. Ele parecia mais astuto, com um olhar diferente do que costumava carregar quando era um simples jovem sonhador. O corpo, que sempre fora atlético, parecia maior, mais inchado, como se passasse horas na academia e não tivesse outra coisa para fazer — e esse pensamento quase, apenas quase fez explodir em gargalhadas. Porém, apesar das mudanças físicas, ele ainda parecia ter sinais do seu amor da adolescência internamente. As olheiras sob os olhos mostravam claramente que ele não conseguia dormir nem fazer qualquer outra coisa a não ser pensar na morte de um dos melhores amigos. Não era segredo nem mesmo dentro da polícia que Choi Wooshik era como um irmão para ele.
Mas agora ele estava ali, diante da policial mais competente daquela delegacia, sob suspeita.
— Não imaginei que te reencontraria um dia nessas condições — Seojoon murmurou, tentando dar um sorriso. — Mas pensando bem, acho que não teria outro jeito de termos um reencontro. soltou uma risada que mais pareceu um ofego, erguendo a cabeça para olhá-lo nos olhos.
— Não estou aqui para falarmos sobre nossa vida pessoal — declarou. — De qualquer forma, não éramos tão próximos assim. Não deixemos parecer algo que não é real, por favor. Irei iniciar o interrogatório.
Dito isso, ligou o notebook que estava sobre a mesa, ignorando totalmente o olhar do policial ao seu lado, que também era seu parceiro e observador daquele depoimento. Ela não havia comentado com detalhes sobre conhecer o grande astro Park Seojoon, apenas disse que fizeram o ensino médio juntos e pronto; era o suficiente para conseguir deixar de lado e seguir na investigação. Afinal, estavam há mais de dez anos sem um encontro de fato.
— Pode me dizer o que estava fazendo no dia e horário do incidente? — perguntou em um tom de voz contido e educado.
— Dormindo — Seojoon deu de ombros. — No dia 31 bebemos e passamos mal antes mesmo da meia-noite. Despertamos com os fogos anunciando a chegada de 2022 e bebemos mais um pouco.

Dezembro, 2021.
Seojoon abriu os olhos de supetão, assustado e com o coração acelerado. Olhou ao redor e pôde ver os amigos pulando um sobre o outro, gritando coisas desconexas e dando boas vindas a um novo ano ao mesmo tempo em que fogos de artifício explodiam ao redor do bairro. Riu consigo mesmo, passando as mãos pelo rosto e levantando-se em seguida. Ainda se sentia tonto e cansado, não era muito de beber também, normalmente duas garrafas de soju já deixavam-no fora de si. Aquela noite, no entanto, decidiu que enfiaria o pé na jaca e beberia tudo o que aguentasse; o resultado foi cair sobre o sofá macio às dez e meia da noite e roncar feito um idiota. Estava exausto devido à agenda lotada dos últimos meses, beber naquele estado não era uma boa ideia, mesmo que fosse noite de réveillon e estivesse com os melhores amigos em uma mansão luxuosa com uma piscina aquecida totalmente liberada para eles. Não tinha mais fôlego para aquelas coisas, sabia, mas estar com aqueles caras fazia tudo valer a pena. Juntou-se ao abraço em grupo e gritou com os amigos, rendendo-se à curtição que lhe era tão rara.
Seojoon não sabia dizer quanto tempo havia se passado desde que despertara de seu cochilo embriagado, mas sabia que já estava prestes a cair no sono novamente. Era a melhor opção, tendo em vista que seus amigos pareciam descontrolados e Hyungsik começava a brigar com Wooshik novamente — pareciam cão e gato, bastava uma dose de álcool para que começassem a brigar feito dois idiotas por motivos igualmente idiotas.
— Até quando eles vão continuar com isso? — Seojoon perguntou para os céus, revirando os olhos. — Idiotas.
Levantou-se do sofá e saiu da sala, indo em direção à varanda que ligava ao quintal gramado. Deu uma olhadela para trás uma última vez, tentando parecer um bom amigo mesmo que estivesse bêbado. A cena que encontrou o fez bufar, percebendo que seus planos de tomar um pouco de ar frio para recuperar a sobriedade havia ido para o inferno. Hyungsik e Wooshik estavam, para variar, se empurrando contra a parede e erguendo os punhos um para o outro. Como sempre, sobraria para ele separá-los, já que Seonghwan estava sentado bebendo uísque e fumando um cigarro e Taehyung estava completamente apagado no sofá.
— Parem com isso! — Seojoon gritou, voltando para a sala. — Agora, seus imbecis!

Janeiro, 2022.
— E você descobriu o porquê da briga? — perguntou, digitando no notebook com destreza.
Seojoon deu de ombros. o encarou, erguendo uma das sobrancelhas.
— Eles brigavam por tudo — respondeu. — Provavelmente um bebeu a bebida do outro, ou lembraram que um dia viveram um drama amoroso em uma das nossas viagens.
— Drama amoroso?
— Os dois ficaram interessados na mesma mulher quando fomos à Europa.
— E quem acabou ficando com a mulher?
Seojoon coçou a nuca, sem jeito. Ergueu os olhos para novamente e, devagar, murmurou:
Eu.


1.2 Por Trás Das Camêras

Janeiro, 2022.
Hyungsik encarou o policial e suspirou pela milésima vez, sentindo-se exausto e, principalmente, de saco cheio. Eram as mesmas perguntas sendo repetidas horas e horas, sentia que estava ali há semanas, mesmo que tivesse se passado apenas um dia — havia tomado café da manhã sob olhares julgadores de policiais desinformados; almoçara ouvindo piadas idiotas sobre seu trabalho; tomara um copo de café fervendo tendo de lidar com acusações infundadas.
— Eu já disse — ele repetiu, cansado. — Wooshik e eu éramos amigos, irmãos; é claro que brigávamos eventualmente. Não era do nosso feitio concordar em tudo, mas éramos leais e verdadeiros um com o outro; quem nunca brigou com alguém que ama?
— As pessoas não costumam matar quem amam — o policial comentou, dando de ombros. Hyungsik riu em puro escárnio e, olhando-o nos olhos, repetiu:
— Eu não matei Choi Wooshik, ele era um dos meus melhores amigos.
— Eu não acredito em você — o policial rebateu.
Hyungsik riu novamente, revirando os olhos desta vez. Ele definitivamente estava de saco cheio; e isso não era uma coisa boa, pois, como todos ao seu redor sabiam, ele não era uma pessoa tão paciente.
— Não preciso que acredite em mim, oficial, preciso que faça seu trabalho e analise as provas.
Após dizer isso, Hyungsik se levantou e não se importou se precisava de autorização para isso. Naquele momento, tudo que desejava era sua cama e seus cobertores quentes para que pudesse chorar a morte do amigo em paz. E não importava se, para isso, precisasse agir como um ator mesquinho e mimado. Seu objetivo era voltar para casa naquele momento; e ele o faria.
De cabeça erguida e peito estufado, caminhou em direção à porta com calmaria, deixando todos os policiais boquiabertos, porém, não foi impedido de seguir seu caminho. Ninguém tinha coragem nem motivos para pará-lo.
O som da porta se fechando ecoou baixo, e Hyungsik finalmente conseguiu respirar. Uma única lágrima escorreu de seu olho direito, deixando-o desconcertado por alguns segundos. Secou-a com pressa e retomou os passos em direção à saída, desta vez com pressa — estava prestes a desabar.

Dezembro, 2021.
Seonghwan virou o conteúdo de seu copo em um único gole. A manhã enevoada tomava sua visão, trazendo-lhe paz. A brisa gelada do inverno deixava a ponta de seu nariz avermelhada e dolorida, mas ele não se incomodava. O uísque o ajudava a encarar o frio que Janeiro trazia consigo.
— Está pensativo — a voz calma e arrastada de Wooshik mesclou ao som do vento, mas Seonghwan não se virou para o amigo. — É a magia do ano novo, bro? — Estou apenas relaxando — respondeu, baixo. — Esse período de mudança me traz inspiração. Acho que vou lançar um álbum novo.
— É uma boa — Wooshik sorriu, sentando-se no chão sem se importar com o amigo ainda de pé ao seu lado. — Eu acho que você deveria lançar uma música com o Taehyung, vocês combinam.
— Não preciso me escorar no Taehyung.
— Eu não disse isso, disse que vocês combinam musicalmente.
Seonghwan riu e revirou os olhos.
— Prometo que vou convidá-lo para uma collab para tocar no seu próximo drama.
— Ótimo, é isso mesmo que eu quero — Wooshik sorriu, feliz, e levantou-se de supetão. — Agora vou dar uma caminhada.
— Você não está muito alcoolizado para isso, cara?
— Eu quase não bebi, Seonghwan-ah — Wooshik rebateu, mesmo que sua voz arrastada e seus passos tortos dissessem o contrário. — Logo estarei de volta.
— ‘Tá certo, não demora mesmo, você ainda tá chapado pra caralho — Seonghwan brincou, voltando a fitar a neve que caía mais rapidamente agora.

Janeiro, 2022.
— E essa foi a última vez que vi um dos meus melhores amigos e vocês ainda estão me mantendo aqui como se eu fosse a porra de um assassino! — Seonghwan se exaltou, sentindo os olhos encherem de lágrimas novamente.
— Peço para que meça suas palavras — praticamente sussurrou, sem tirar os olhos da tela do notebook. — Eu entendo que é uma situação difícil, mas preciso que tenha em mente que até encontrarmos todas as pistas, você e seus amigos são suspeitos. Não irei tratá-los como vítimas só porque são famosos e perderam um ente querido; eu não posso, e se pudesse também não o faria. A reação explosiva que todos vocês tiveram ao longo desses depoimentos só me mostra que tem algo muito mais além — deu um sorriso fraco, de lado, e encarou o artista no fundo dos olhos. — E eu vou descobrir o que é, Seonghwan. Não importa o quanto vocês tentem enterrar esse segredo.

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Hyungsik parou de respirar por alguns segundos, ficando submerso na água morna. Quando voltou à superfície, deu de cara com um par de olhos profundos em sua direção.
— Que susto, porra — murmurou, sentando-se mais confortavelmente na jacuzzi.
Logo à sua frente, com cara de poucos amigos, estava Seojoon. — O que aconteceu agora?
— Você não está preocupado em ser o atual alvo da polícia? Eles farão de tudo para te culpar — Seojoon disse, entrando na jacuzzi sem importar-se em sequer tirar a camiseta que vestia.
— Eu não matei nosso amigo.
— Eu não disse que matou, disse que a polícia vai fazer de tudo para te culpar.
— E estarão errados na própria investigação. Eles estão às cegas, sabem menos do que nós, que convivemos com ele e que estávamos no dia da festa. Quais provas eles têm contra mim e por que eu deveria me preocupar? Eu e Wooshik vivíamos entre farpas, mas nos amávamos, temos mais provas da nossa amizade do que dessa suspeita infundada.
Seojoon suspirou e fitou o teto de vidro, observando o céu nublado e os flocos de neve que caíam rapidamente, sendo levados pelo vento.
— Eu não sei o que eles têm — Seojoon murmurou. — Parece que estão segurando as informações para não vazar nada…
— Não é como se eles pudessem esconder dos nossos advogados — Hyungsik deu de ombros, levantando-se e puxando uma toalha que estava estrategicamente posicionada logo ao lado. — O jeito é esperar.
— É… Eu conheço a policial responsável pela investigação — Seojoon disse de repente, atraindo a atenção do amigo. — Fomos amigos por muitos anos, estudamos juntos e… — parou de falar, mordendo o lábio inferior. — Nós meio que namoramos por um tempo.
— Esse fato pode nos ajudar em alguma coisa?
— Acredito que não. A é… Como posso dizer? — Seojoon o encarou. — Difícil. E honesta. Principalmente honesta. Acredito que ela dará tudo de si para conseguir descobrir quem é o culpado. Mas confesso que estou com medo de usarem a nossa relação para tirá-la do caso. Se isso acontecer, pode-se considerar culpado. A mídia quer alguém para crucificar, e a polícia quer alguém para culpar e arquivar o caso.
— Então façamos o possível para que sua ex-namoradinha continue trabalhando na investigação. Fique quieto sobre isso, porque tenho certeza de que ela fará o mesmo.
Seojoon suspirou novamente e Hyungsik jogou a toalha para o lado, sentando-se novamente; sentia que o amigo precisava conversar e insistir naquele clima hostil era desnecessário, eram amigos, quase irmãos, e precisavam ficar juntos naquele momento tão conturbado.
— Eu acho que ainda gosto dela.
— Isso está escrito na sua testa — Hyungsik sorriu ladino, apoiando uma das mãos no ombro de Seojoon. — Mas não é o momento de você se declarar para ela.
— E também já se passaram muitos anos. Eu nunca a procurei.
— Ainda ficou algo mal resolvido?
— Digamos que nós brigamos no dia em que eu parti para o exército e ela foi para a Universidade da Polícia… Quando saí, já estava me preparando para entrar na indústria e ela ainda estava lá. Nos desencontramos — explicou, dando de ombros. — De qualquer forma, não é o momento de remoer o passado, e sim temer o futuro. Um dos nossos parceiros de vida e de tela não está mais aqui, o que é um coração partido na juventude perante a isso? — Vai dar tudo certo, nós vamos ficar bem — Hyungsik disse mais para si mesmo do que para o amigo. — Nós precisamos ficar bem.
— E se eles encontrarem mais alguma coisa contra você?
— Eu ficarei bem.
— Mas…
— Vai dar tudo certo, Seojoon-ah. Não vamos pensar nisso agora.
— Você acha que foi um de nós? — Seojoon perguntou, baixinho. Por um segundo chegou a pensar que o amigo não o escutara, já que ele ficou em silêncio, hesitante.
— Não tenho motivos para desconfiar de vocês, nem de mim mesmo — Hyungsik respondeu, por fim. — Não quero mais falar sobre isso, estou cansado, triste e confuso.
Seojoon apenas assentiu positivamente, entendendo os sentimentos do amigo; estava na mesma, mas, ao contrário dele, não conseguia parar de falar ou pensar naquela situação tão terrível. Estava com medo.
O silêncio que caiu em seguida foi desconfortável, deixando um clima estranho. Enquanto isso, lá fora o céu continuava nublado e a neve continuava caindo sobre o teto de vidro, deixando-os entretidos.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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