Última atualização: 13/09/2021

Prólogo

Será que há algum propósito para nossa mente lembrar dos momentos mais tristes de nossas vidas com mais ênfase do que os felizes?
Porque eu, por exemplo, não me lembrava de como minha grande amizade com Régulo Black havia começado, mas nunca me esqueceria de como terminou. Da gritaria de ambas as partes, das muitas lágrimas de mágoa derramadas.
Também nunca parei para pensar quando foi a primeira vez que os grandes olhos castanhos de Remo encontraram com os meus por tempo suficiente para que me chamassem a atenção, mas sempre me lembraria de todos os mínimos detalhes da noite que descobri seu pior segredo - de quando esses mesmos olhos, antes tão doces, não me reconheceram e estavam prontos para me machucar, se necessário fosse; de como eu suava e tremia de medo por mim e por ele ao mesmo tempo, por motivos bem diferentes, mas igualmente assustadores.
E claro que nunca fui capaz de esquecer todos os momentos de terror, perda e tristeza da primeira Guerra Bruxa que, na época, eu mantinha (em vão) a esperança de que fosse a última.
Para que eu possa explicar melhor toda essa história, é preciso voltar ao fim do verão de 72, quando eu e meu melhor amigo estávamos prestes a embarcar na maior e melhor jornada de nossas vidas. Bom, era o que nos diziam.

1.

1972



Era de se esperar que meu pai, um bruxo puro-sangue, que pertencia à casa Sonserina em seus dias de estudante na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, fosse aprovar minha amizade com um membro da grande e tradicional família Black. Talvez ele aprovasse, se não tivesse se apaixonado por uma trouxa, minha mãe - fazendo de mim, sua única filha, uma mestiça.
Eu convivia com alguns de nossos vizinhos bruxos desde muito pequena e não era capaz de entender o porquê de ele não gostar da minha amizade com Régulo, já que nunca havia me sentido desrespeitada no grande Largo Grimmauld. Bom, pelo menos não de cara, porque meu melhor amigo não deixaria que falassem mal de mim em sua presença.
Tudo bem que Walburga e Orion Black não eram muito de jogar conversa fora (e não só comigo). Passavam a maior parte do tempo deles observando o filho mais novo, cheios de orgulho, ou implicando com o mais velho. Eu raramente conversava com eles sobre alguma coisa.
― Não acredito que ele teve a sorte de entrar nessa escola um ano antes que a gente. ― Régulo gritou do alto, em cima de sua vassoura, no grande quintal da minha casa. Eu até queria estar lá com ele, mas, apesar do dia ensolarado, estava ventando muito e eu não arriscaria pegar um resfriado apenas uma semana antes do início do meu primeiro ano letivo em Hogwarts. ― E ainda não acredito que ele não voltou para casa nessas férias, nem mesmo escreveu uma carta. Só mandou um bilhete, por uma coruja, dizendo que foi ficar com um tal de James Potter durante o verão.
Não respondi, apenas dando de ombros, ainda sentada na grama verde e úmida. Régulo sabia bem que seu irmão mais velho e eu não nos falávamos muito porque ele teimava em me ignorar. Mas eu não tinha, nem nunca tive, nada contra Sirius Black. Meu pai, por outro lado, dizia que ele era a única pessoa daquela família com quem eu deveria estar disposta a socializar.
― Por que não sobe aqui, ? ― Régulo fez um beicinho.
― Não vou arriscar ficar doente essa semana e você também não deveria. ― falei alto para que ele pudesse me escutar bem. ― Quer mesmo ficar de cama por algumas semanas e perder os primeiros dias? Ou pior, o primeiro ano.
― Se isso acontecer, você vai aquecendo o time de Quadribol para quando eu chegar ― ele respondeu com um sorriso convencido. ― Aposto que você vai ser a melhor goleira que eles já tiveram.
― E você o melhor apanhador! ― gritei em resposta. ― Agora, sério, desça um pouco mais, porque além de doente, também não quero ficar rouca!
Ele foi pousando aos poucos enquanto seus cabelos escuros e olhos claros ganhavam ainda mais destaque com a luz do sol de fim de tarde, me deixando em algum tipo de transe por poucos segundos. Assim que ele chegou ao chão, se jogou ao meu lado na grama, largando sua vassoura de qualquer jeito.
― Sabe o que seria incrível? Se um de nós dois virasse capitão ou capitã do time.
― Mas é claro que o filhinho perfeito dos Black vai ser capitão do time de Quadribol de Hogwarts ― a voz grossa de Sirius surgiu atrás de nós. Eu não sabia o que ele estava fazendo ali, na minha casa, mas tinha certeza de que a grande xícara de chá em sua mão tinha sido feita pelo meu pai, que o adorava e não media esforços para lhe paparicar. ― Algum de nós tem que manter a reputação perfeita da família. Ou quase perfeita. ― Ele piscou em nossa direção.
Sirius era um garoto tão bonito quanto seu irmão mais novo, mas a beleza dele era diferente. Enquanto Régulo parecia um verdadeiro príncipe, com seu corte de cabelo sempre impecável e suas roupas bem passadas e engomadas, Sirius tinha um semblante de estrela do rock rebelde pairando sobre si quase o tempo inteiro, o que também não era nada mal.
Antes que pudéssemos perguntar o que estava fazendo ali, ele anunciou:
Sua mãe está descontrolada, para variar, perguntando por que você não voltou para casa ainda. Claro, eu passei o verão fora, mas você não pode passar mais que algumas horas.
― Achei que tivesse desistido de vez de vir para casa ― Régulo disse em um tom sugestivo.
― Infelizmente, não foi dessa vez, mas nada me impede de fazer isso algum dia ― Sirius respondeu. ― Bom, recado dado ― Ele já estava virando as costas, pronto para ir embora, mas ainda olhou em minha direção e deu um pequeno aceno com a cabeça, sussurrando: ― .
― Seu irmão me odeia ― disse baixinho para Régulo quando ficamos sozinhos novamente.
― Ele odeia todo mundo ― meu amigo respondeu enquanto levantava do chão e estendia a mão para me ajudar a fazer o mesmo. ― Acho melhor eu ir antes que minha mãe coloque uma nota no Profeta Diário de “filho desaparecido”.
Eu nunca teria coragem de admitir aquilo, mas sempre ficava um pouco triste quando nos despedíamos. Claro que também não teria coragem de dizer para Walburga que eu era o motivo do atraso do seu filho. Por mais que nunca tivesse havido qualquer atrito entre nós, ela ainda me dava os piores tipos de arrepios. Às vezes, eu sonhava que ela e o marido colocavam fogo na mansão com seus filhos e elfo doméstico ainda dentro, por puro descontrole.
― Ainda vamos para o Beco comprar o que falta juntos, certo? ― perguntei, tentando afastar a lembrança daquele pesadelo. ― Meu pai disse que nos leva ao centro de Londres no carro trouxa que era da minha mãe.
― Claro ― ele respondeu, dando um beijo demorado no topo da minha cabeça, deixando evidente a diferença de altura entre nós. ― Até mais, .

ϟ


Na manhã quase congelante de 1 de setembro, meu melhor amigo e eu já estávamos dentro do grande Expresso de Hogwarts, sentados em nosso vagão vazio, que demos muita sorte em achar.
Eu não sabia bem o que Régulo esperava, mas, quando Sirius se afastou de nós sem nem ao menos dizer nada (não que ele estivesse tagarelando no caminho para o metrô), e foi sentar com seus amigos em um dos vagões no fundo do trem, pude ver uma certa tristeza no olhar que eu já estava tão acostumada a ler. Não demorou muito para que ele começasse a fofocar sobre o irmão mais velho, como algum tipo de mecanismo de defesa esquisito que eu achava bem bobo, na verdade.
Como uma boa amiga, deixei que ele alugasse meus ouvidos e fiquei observando as paisagens pacíficas pela janela. Estávamos passando por um campo verde quase vazio, se não fossem pelas várias vacas espalhadas. Eu nunca havia saído de Londres antes, então achava qualquer cenário diferente, interessante.
― Ele colocou várias fotos de mulheres trouxas de biquíni nas paredes do quarto assim que chegou ― Régulo comentou enquanto contava o terror que tinha sido a semana com Sirius e seus pais brigando desde que ele voltou da casa do tal do James Potter que, segundo Walburga, era uma péssima influência para seus filhos. ― Meus pais nem ligaram muito para isso, para falar a verdade, mas quando viram uma foto dele com três amigos grifinórios, bem, foi uma gritaria. Nunca vi alguém com tanta raiva como meu pai naquele dia.
― É claro que Sirius só fez amizades com pessoas de outras casas ― falei, rindo, nem um pouco surpresa, mas Régulo balançou a cabeça, sério.
― Pior.
Demorei alguns segundos para ligar os pontos.
― Ele foi colocado em outra casa? ― perguntei, sentindo a expressão de horror se formar em meu rosto, sem poder evitar. Para qualquer outra pessoa, aquilo não seria nada demais, mas no mundo bruxo, o herdeiro dos Black não era qualquer pessoa. ― Mas todos os seus ancestrais são sonserinos!
― Bom, ele não ― Régulo deu de ombros.
― E ele deixou para contar isso quando já estava em casa? Quanta burrice! Por que não avisou logo em uma carta, para seus pais irem se acostumando aos poucos com a ideia? ― Se é que isso seja possível, acrescentei mentalmente.
― Ah, você sabe, ele gosta de provocar.
Não sabia dizer se era apenas impressão minha, mas tinha algo no olhar de Régulo enquanto ele contava as histórias do irmão que, se eu estivesse certa, ele nunca teria coragem de admitir: admiração. Principalmente pela coragem de enfrentar os pais e fazer o que bem quisesse.
― E você acha que pode acontecer o mesmo com você na hora da seleção? ― perguntei.
― Ficou maluca? Não quero ir para outra casa e virar o novo alvo da família.
― Que horror, Régulo.
― Só estou sendo sincero ― ele deu de ombros. ― Você ficaria satisfeita se fosse colocada em outra casa?
― Não ― respondi, sinceramente. ― Mas sei que, caso aconteça, meu pai não vai se importar. Sou eu quem quero ser monitora da Sonserina, como ele já foi.
― E monitora chefe ― ele acrescentou, já tendo ouvido meus planos um milhão de vezes.
― E quando me formar e estiver lecionando, diretora da Sonserina. ― E…
― E quem sabe, diretora do colégio, algum dia, quando Dumbledore se aposentar.
― Com toda essa ambição, eu não me preocuparia em cair em outra casa ― ele comentou, rindo, me fazendo jogar nele a metade de um Feijãozinho de Todos os Sabores que eu havia mordido, com gosto de aspargos.
Várias horas depois, os campos serenos com plantações e animais já haviam sido substituídos por paisagens de rios e matas, tão escuros quanto o céu da noite que estava chegando.
Régulo e eu estávamos falando sobre os testes para o time de Quadribol, quando uma menina do primeiro ano, já com as vestes do colégio, mas sem nenhum apetrecho de uma das casas, abriu a porta de nosso vagão. Ela era bastante alta, loira e sua expressão era uma mistura confusa entre relaxamento e desespero. ― Oi ― ela pigarreou. ―, posso ficar um pouco aqui? Tomei um chá para os nervos, para diminuir a ansiedade, mas ele me deixou bem confusa e não consigo mais achar o meu antigo vagão. Lembro que estava sentada com uma tal de Lily do segundo ano… ― Claro ― nós respondemos em uníssono. ― Sou Pandora Lovegood ― Ela estendeu a mão para nós. ― . ― Régulo Black. ― Espera aí, o Régulo Black? Irmão de Sirius? ― Ele assentiu. ― Uau, você não parece nada com ele. ― Obrigado? ― Revirei os olhos. ― Como conhece meu irmão?
― Acho que todos nesse trem conhecem. Ele aprontou bastante ano passado, pelo que pude ouvir por aí. ― Régulo ficou calado, apenas absorvendo a informação. ― Vocês deviam ir se trocar. Tem uma garota sonserina um pouco mal-educada no corredor falando que já estamos chegando. Uma tal de Narcisa, do último ano. Nós dois rimos do comentário por sabermos exatamente como a prima de Régulo, a mais nova entre três irmãs, podia ser indelicada quando queria. ― Tudo bem, eu vou logo e você fica aqui guardando o vagão.
― Vá rápido, não me deixe muito tempo sozinho com ela ― Régulo sussurrou, apontando com a cabeça para Pandora, que estava rindo sozinha e fazendo uma pequena trança em uma das mechas do cabelo loiro.
― Régulo! ― respondi, rindo discretamente. ― É sério, .
Havia uma pequena fila no banheiro que ficava na parte de trás do trem, onde os estudantes eram bem mais barulhentos, mas demorei apenas alguns minutos para conseguir trocar de roupa e colocar a capa do uniforme, que foi muito bem-vinda, já que com a chegada da noite, o frio só vinha aumentando.
Ao sair, acabei esbarrando com um garoto alto, da Grifinória, que voltava para seu vagão.
― Desculpe ― dissemos juntos.
Se parasse para pensar, tenho quase certeza de que, naquele mesmo momento, eu já sabia que estava perdida. Só era orgulhosa demais para admitir o quanto me senti atraída pelos grandes olhos castanhos, tímidos e doces que cochichavam secretamente “Já nos conhecemos?”, mesmo sabendo que não.
Seu semblante misterioso me atraiu como nada antes em minha curta vida. Seu rosto, apesar de conter algumas pequenas cicatrizes espalhadas por ele, para mim, era perfeito. ― Oi ― ele acabou dizendo tão baixinho que quase não ouvi.
― Oi.
Seu cabelo, tão castanho quanto seus olhos, estava um pouco bagunçado, como se ele tivesse dormido por uma boa parte da longa viagem.
― Remo! ― a voz grossa e animada de ninguém menos que Sirius surgiu atrás dele. Os olhos de Remo ainda demoraram em mim por mais alguns segundos, antes que ele virasse e respondesse, com o mesmo entusiasmo:
― Sirius!
Black agora me encarava da porta de seu vagão, sério.
― ele cochichou, e eu respondi:
― Sirius.
― James ― um garoto alto, de pele clara e cabelos escuros, que usava pequenos óculos redondos e parecia algum tipo de fantasma muito, muito atraente, estendeu a mão para mim da porta do vagão. ― Prazer, bonitinha. ― Essa é a melhor amiga do meu irmão ― Sirius explicou enquanto eu apertava a mão de James, que presumi ser James Potter, tão detestado pelos Black.
― Oh ― James respondeu, arqueando as sobrancelhas, enquanto Remo olhava para mim novamente em um misto de atenção e timidez.
! ― A voz de Régulo reverberou pelo trem, nos chamando a atenção enquanto ele vinha em minha direção, ainda sem perceber com quem eu conversava. ― Você demorou muito e deixei a lunática tomando conta do vagão ou não ia conseguir me trocar ― ele anunciou com a voz um pouco manhosa e dramática.
Remo finalmente havia tirado os olhos de mim, fazendo com que eu soltasse a respiração que nem ao menos percebi que estava prendendo. Quando parei para prestar atenção, o trem realmente já diminuía a velocidade, me fazendo agarrar um dos braços de Régulo nas pressas e puxá-lo de volta para nosso lugar.
― Tem razão, vamos. Prazer em conhecê-los! ― gritei, por cima do ombro.
Acredite, o prazer foi meu ― ouvi James dizer com um risinho.
― O que estava conversando com eles? ― Régulo perguntou, encarando o irmão enquanto nos afastávamos, que também o encarava de volta.
― Nada, só nos esbarramos sem querer.

ϟ


Ao descermos do trem, enfileirados, um homem enorme, com uma barba e cabelos tão grandes quanto ele, que se identificou como o Guardião das Chaves da escola, Rúbeo Hagrid, separou os primeiranistas do restante dos alunos. Arrisquei dar uma última espiada com o canto dos olhos nos três grifinórios com quem interagi no trem, que estavam acompanhados também de outro garoto bem mais baixo que eles, loiro e com enormes olheiras.
Assim que avistei uma linda paisagem com montanhas e matas, segurei a mão de Régulo e a apertei com força. Ele me reconfortou com um sorriso, mas pude notar que estava tão nervoso quanto eu. Hagrid nos guiou por um caminho estreito, rodeado de árvores, que nos levava à margem de um lago escuro. Do outro lado do rio, pudemos vê-lo: um grande castelo de rochas iluminado. Era, sem dúvidas, a melhor visão que já tive na vida.
Entramos em pequenos barquinhos para atravessar o caminho e pude jurar que os olhos de Régulo brilhavam tanto quanto os meus. Por mais que nós dois tivéssemos crescido vendo fotografias de Hogwarts juntos no chão de nossos quartos e sonhando com aquele dia, de perto, o lugar era ainda mais apaixonante.
Ao ancorarmos, ainda nas escadarias que davam acesso à parte interior do castelo, conhecemos a Professora Minerva McGonagall. Ela explicou toda a ladainha de casas e Chapéu Seletor, que meu melhor amigo e eu já estávamos cansados de saber. Dessa vez, foi a mão de Régulo que agarrou a minha com força e pude notar como estava suada. Ao comentar sobre a Taça das Casas, que eu também já sabia que existia graças às histórias que meu pai me contava, meu lado competitivo fez meu sangue fervilhar. Meu pai e seus amigos garantiram a Taça para a Sonserina praticamente todos os anos em que estudaram lá e eu prometi a mim mesma que não faria diferente.
Como se pudesse ler minha mente, Régulo sussurrou em meu ouvido, com uma piscada: ― É nossa, .
Quando nossa entrada no grande salão foi liberada, recebemos a atenção de todos os alunos dos outros anos e ficamos de frente para os professores e o Chapéu Seletor, que estava apoiado em cima de um banquinho de madeira. Enquanto o Chapéu cantava a música boba de boas-vindas que explicava sobre as quatro casas, parei para observar melhor o lugar. Ele estava todo iluminado com velas que flutuavam no ar sobre quatro mesas bem compridas, onde os demais estudantes já se encontravam sentados. As mesas estavam postas com pratos e taças douradas e o teto parecia um céu escuro, banhado de estrelas.
Estava tão distraída que, ao escutar meu nome ser chamado pelo Chapéu, dei um leve pulo de susto. Uma pequena parte de mim estava nervosa pelo medo de ter minhas ambições e planos frustrados, mas só isso. Eu não me incomodava com toda a atenção que recebia dos outros naquele momento - para falar a verdade, até gostava daquilo. Na minha cabeça, também era impossível eu ser colocada em outra casa que não a mesma do meu pai. Ela era quase um direito meu, que eu queria e almejava mais que tudo. Por isso, não me surpreendi quando o Chapéu disse, rapidamente, que eu pertencia à Sonserina.
Escutei uma onda de aplausos vindos da mesa do canto esquerdo, onde vários alunos com a gravata verde e prateada estavam sentados. Também vi Régulo me aplaudir da fileira da frente e sussurrei de longe um “Te vejo já”, enquanto ia me sentar ao lado dos meus novos colegas de casa.
Enquanto esperava, vi Pandora ser selecionada para Corvinal, e uma tal de Dorcas Meadowes para a Grifinória. Acabei me sentando ao lado de um menino bem sério do segundo ano, de cabelos escuros, que não parecia estar muito interessado em conversar comigo e não parava de olhar para uma ruiva sentada na mesa da Grifinória, bem em frente à nossa. Em algum momento, ele chegou a se apresentar como Severo Snape, mas não puxou nenhum outro assunto.
Quando finalmente anunciaram o nome de Régulo, o salão caiu em um silêncio profundo. Fechei os punhos, tentando conter o suor em minhas mãos, nervosa ao observar meu melhor amigo ir em direção ao momento que ditaria se ficaríamos juntos durante maior parte dos nossos dias, pelos próximos sete anos.

Narrador avulso


Régulo Black não estava acostumado a não conseguir o que queria. No entanto, pela primeira vez na vida, ele não conseguia esconder o medo de se frustrar na frente de tantas pessoas.
O primeiro olhar que viu fixado em si foi o do Diretor da Sonserina, Professor Horácio Slughorn, de Poções. Pelo que ouviu falar do homem, ele devia estar desesperado para ter um Black em sua casa, principalmente depois de ter perdido Sirius para Grifinória no ano passado.
Ah, Sirius...
A seleção improvável de Sirius em outra casa, quebrando uma tradição centenária de sua família de sonserinos, fazia com que esse momento fosse ainda mais crucial para ele. Nada o impedia de ser colocado em outra casa, agora que ele sabia que era possível. Mas ele não queria. Tinha motivos para não querer.
Sirius também não queria.
Morreria com aquele segredo, mas estava preocupado com a probabilidade do irmão ser posto em outra casa e atrair para si a raiva da família que ele mesmo já recebia. Não desejava aquilo a Régulo. Nunca desejaria.
Assim que o Chapéu foi colocado em sua cabeça, Régulo pôde ouvi-lo invadindo seus pensamentos e fazendo comentários banais como “interessante” ou “muito inteligente”. Depois de alguns segundos (mais do que todos os outros alunos tinham levado, ele pôde perceber), o Chapéu começou a tomar sua decisão. “Vejo que tem muito desejo de poder e de se provar. Mas tamanha inteligência, em uma casa como Corvinal, teria muito mais potencial…”
“Corvinal não!”
, Régulo gritou em seus pensamentos, fechando os olhos com força.
“Meus pais vão me matar. Não quero ser perseguido pela minha própria família”, ele implorou. “Tem certeza? Acho que é uma das mentes mais brilhantes que já sentaram nessa cadeira”, o Chapéu respondeu, sua voz reverberando em sua mente.
Régulo abriu os olhos e viu o olhar de apreensão de , já sentada na mesa da Sonserina, o que o fez relaxar, de certa forma. Ela era, sem dúvidas, o seu porto-seguro.
“Por favor, me deixe ir com , ele pensou, pronto para implorar ao Chapéu, se necessário fosse. Depois de poucos segundos, pôde ouvir a voz do objeto mágico fora de sua cabeça, anunciando a todos os presentes:
― Será melhor na… SONSERINA!

2.

1972


Quando Régulo sentou ao meu lado, não soube dizer qual de nós dois estava mais nervoso.
― Por que demorou tanto? ― cochichei enquanto os alunos da nossa casa ainda aplaudiam a seleção do filho mais novo dos Black.
― Não quero falar sobre isso, ― ele respondeu baixinho, mas eu já imaginava que, pela demora da seleção, meu amigo não foi parar em outra casa por pouco. ― Está tudo bem agora, certo? Estamos aqui, juntos.
Ele me ofereceu um sorriso de conforto que foi simplesmente impossível não retribuir.
― É, você tem razão.
― Bem-vindo, Black ― O fantasma mais horroroso que já vi na vida, coberto de sangue prateado, veio cumprimentá-lo, ignorando completamente a mim e os outros alunos que acabavam de ser selecionados na Sonserina.
Barão Sangrento ― Snape sussurrou ao meu lado.
― Ah, o fantasma da nossa casa, certo? ― Ele assentiu.
― Se tiver problemas com Pirraça, é só ameaçar chamá-lo. ― Agradeci, mas Snape voltou logo a dividir sua atenção entre a comida em sua frente e a garota ruiva na mesa da Grifinória. Decidi não insistir em puxar conversa porque notei que, vez ou outra, ele encarava Régulo com o canto dos olhos, desconfiado.
Depois do jantar e das palavras de boas-vindas de Dumbledore, o Professor Slughorn, diretor da nossa casa, nos levou para a nossa sala comunal, acompanhado pelo monitor-chefe da Sonserina. Ela ficava situada bem ao lado das masmorras, e a senha que nos permitia a passagem era Bolas Festivas, o que não fazia o menor sentido, mas eram palavras fáceis de memorizar.
Ao entrarmos, nos deparamos logo com um grande salão comprido, revestido com largas paredes cobertas de pedra. O local era aconchegante, bem iluminado por luzes esverdeadas vindas de um lustre prateado e pelo fogo da lareira de madeira, que ficava em frente a grandes sofás verde-musgo confortáveis.
― Lar doce lar ― cochichei sozinha com meus botões, feliz por estar ali.

ϟ


Mesmo tendo sonhado em estudar naquela escola por toda a minha vida, não podia negar: a rotina de aulas em Hogwarts era puxada, até mesmo para os primeiranistas. Tínhamos muitas aulas incríveis, como a de Feitiços, mas outras eram tão insuportáveis que nos faziam perguntar qual era o sentido da vida ou de ter que aprender qualquer coisa. Acho que os trouxas também passam por isso, aulas tão chatas que te dão vontade de morrer. Uma dessas aulas era a de História da Magia, com o Professor Binns, que era um fantasma que não tinha muita paciência para lidar com alunos barulhentos e costumava nos separar bem pela sala, evitando cochichos na hora da aula que, para piorar, era a primeira do dia.
Sabendo disso, Régulo e eu passamos uma noite inteira na biblioteca da escola, procurando e praticando uma azaração que nos permitia teletransportar bilhetinhos sem que ele ou qualquer outra pessoa percebesse. Quase fomos pegos por Pirraça, o poltergeist, que começou a gritar pelos corredores:
BLACK APRONTANDO! OUTRO BLACK APRONTANDO!
Meu pai já havia me avisado sobre Pirraça antes, mas não sabia que ele podia ser tão irritante. Bem como Snape disse, ameacei chamar o Barão Sangrento e ele saiu de perto, nos xingando dos piores palavrões possíveis e com muita raiva. Tivemos que correr de volta para nossos dormitórios antes que algum monitor ou professor aparecesse.
No dia seguinte, já na aula do Professor Binns, peguei um pequeno pedaço de pergaminho e escrevi algo que considerei importante (caso o bilhete fosse parar nas mãos do professor, não queria que ele achasse que alguém perderia tempo no meio de sua aula por qualquer besteira).
“Ouvi alguns alunos do sexto ano cochicharem sobre o exército de Comensais da Morte que está cada vez maior. Tenha cuidado e não confie em qualquer um.”
Assim que terminei de escrever, cochichei as palavras da azaração e vi o pergaminho sumir da minha mão. Como não assinei meu nome, não fiquei tão preocupada assim em ser pega. Alguns segundos depois, vi Régulo erguer as sobrancelhas de longe para mim e escrever no mesmo pedaço de pergaminho, que logo apareceu novamente em minhas mãos. “Está com medo? Mamãe disse que não devíamos nos preocupar.”
Revirei os olhos. Claro que Walburga não estava preocupada. Na cabeça dela, nada ousaria entrar no caminho ou prejudicar a sagrada família Black.
“Medo? Do Lorde das trevas? O que acha?”, respondi. Pude ouvir Régulo soltando um risinho disfarçado de onde estava sentado.
“Hogwarts é um lugar seguro, . Além do mais, eu estou aqui. Não vou deixar nada acontecer a você.”
Não quis escrever outro bilhete, então apenas olhei para ele, mesmo sabendo que minhas bochechas deviam estar fervendo de tão vermelhas, e sussurrei de longe:
Promete?
Prometo.
Senti meu coração ficar quentinho e, por algum motivo, mesmo sabendo que meu amigo era tão experiente com a magia quanto eu, confiei nele. Até porque sabia que, se dependesse de mim, nada jamais aconteceria a ele também.
Depois das aulas do Professor Binns, o momento menos esperado da semana, pelo menos para mim, era quando tínhamos que ir ao observatório, às quartas-feiras, estudar as estrelas à meia-noite. O segundo e terceiro ano também precisavam ir, o que significava, para infelicidade de Régulo, que eram algumas horas obrigatórias ao lado de Sirius e seus amigos - os Marotos, como os outros os chamavam.
Eu já sabia, pelo que ouvia nos corredores da escola, que eles davam trabalho, mas não achei que fossem tão descarados. Bom, pelo menos James e Sirius eram. O garoto baixinho que sempre os acompanhava, Peter, costumava os encorajar e aplaudi-los de perto, nada mais. Remo, mesmo não participando abertamente das brincadeiras, ria de longe e não reclamava. Os Marotos podiam escolher qualquer alvo para irritar com suas brincadeiras, mas o preferido era, de longe, Severo Snape (ou Ranhoso, como o chamavam).
Naquela quarta-feira não foi diferente. Estávamos entediados porque, os poucos que ainda tentavam, mal conseguiam ver qualquer estrela no céu cheio de nuvens. Estávamos só esperando a Professora Trelawney desistir de uma vez daquela “aula” e nos liberar. Régulo estava distraído ao meu lado, abrindo um sapo de chocolate que havia contrabandeado da sobremesa, quando ouvimos um grito assustado.
Ah, vamos lá, Lily, é só um bichinho ― A voz de James nos chamou a atenção enquanto a aluna da Grifinória, Lily Evans, corria para longe deles.
― Por que trouxeram um rato para aula? ― ela perguntou.
― Peter está fazendo uns estudos com ele, não é, Wormtail?
― Nojentos ― Lily sussurrou, franzindo o cenho e puxando seu amigo para que pudessem se afastar ainda mais. ― Venha, Severo.
Nesse exato momento, Sirius cutucou James com o cotovelo, apontando Snape com a cabeça.
― Saca o que eu aprendi ― ele falou, sem se preocupar em interromper a enorme falação da professora, que já estava acostumada a não ser ouvida. ― Ei, Ranhoso! ― Snape virou em sua direção, pronto para reclamar do apelido ridículo que tanto detestava, quando Sirius tirou sua varinha de dentro da capa e a apontou para ele. ― Wimbledimble!
Aparentemente, nada aconteceu.
― Que merda foi essa? ― James riu do amigo.
O q-q-que v-v-v-ocê f-f-fezzzz? ― Snape perguntou com muita dificuldade. ― O q-que voc-c-cê f-f-fezzzz c-com m-minha língua?
― Sirius, desfaça! ― Lily gritou, já com o rosto vermelho de raiva. ― Desfaça agora!
― Está aí o problema, gata… Eu não sei desfazer ― ele deu de ombros, fazendo com que a garota gritasse ainda mais com ele, finalmente chamando a atenção da professora.
― O que está acontecendo aqui? ― Professora Trelawney perguntou, ajustando seus óculos em seu rosto e logo reconhecendo os envolvidos na briga. ― O que fizeram desta vez?
V-v-voxxxê m-m-me p-paga, B-Black! ― Snape gritou, ainda com a língua travada, só atraindo ainda mais risadas dos outros alunos para si.
Ele ainda tirou a varinha do bolso para revidar o feitiço, mas foi impedido pela professora, que o levou às pressas até o Professor Flitwick para que aquilo fosse desfeito logo. Lily os seguiu, preocupada com o amigo. Os Marotos, no entanto, ficaram onde estavam, rindo da situação com os outros alunos. ― Típico ― Régulo comentou ao meu lado. ― Achei que ele só tinha essa necessidade ridícula de chamar atenção em casa, mas acho que me enganei.
― O que disse? ― Sirius perguntou, não tão longe de nós, fazendo com que as risadas dos seus amigos cessassem.
― Ele não disse nada ― eu intervi, nervosa, tentando levar meu amigo para longe dali e de qualquer encrenca que pudesse se meter. ― Venha, Régulo.
― Você ouviu ― Régulo o encarou, ficando de frente para seu irmão mais velho.
― Ah, claro, aposto que o filho perfeito dos Black nunca quebrou as regras ― Sirius comentou em tom de deboche, se aproximando ainda mais de Régulo, ainda com a varinha na mão. Quando olhei em volta, todos os alunos que ainda estavam presentes no observatório nos cercaram, prontos para assistirem ao show que sabiam que estava por vir. ― Você se acha tão melhor que eu em tudo que faz, não é mesmo?
― Régulo, vamos embora ― eu disse entredentes, porque sabia onde aquilo ia dar.
Quando percebi que meu melhor amigo não estava se afastando, olhei desesperada para James e Remo que, diferente de Peter, também pareciam tensos. Acho que sabiam que os sentimentos e as complicações entre aquela família eram muito mais sérios do que qualquer brincadeira que estavam acostumados a fazer com pessoas aleatórias.
Padfoot, cara, deixe isso para lá ― James falou, puxando o ombro do amigo. ― Vamos embora, estou com um frio do caralho.
― É, cara ― Remo concordou. ― Já vai pegar uma detenção pela língua do Ranhoso, não quer se meter em mais confusão hoje, quer? Vai acabar sendo expulso.
Ao ouvir aquilo, Sirius finalmente guardou a varinha e se afastou, ainda encarando o irmão. Hogwarts era o único lugar onde era feliz e ele não estava disposto a colocar aquilo em risco por uma briga. Ainda bem.

ϟ


A temporada de Quadribol estava perto de começar.
É claro que Régulo e eu faríamos o teste de admissão para o time da Sonserina, mesmo sabendo que era difícil alunos do primeiro ano entrarem. Levávamos o jogo bem mais a sério do que muitos alunos, então acreditávamos que tínhamos boas chances de conseguir.
Em um de nossos horários livres, sentamos em nossa sala comunal enquanto meu melhor amigo polia sua vassoura novinha em folha, presente de seus pais por ter entrado na “casa certa”. Ele também marcava algo nela com uma pena mágica de tinta dourada e permanente. Me aproximei para ler o que escrevia.
R.A.B.?
― Não quero que ninguém confunda com outras vassouras do armário ― Ele deu de ombros.
― Você fala como se o armário estivesse cheio de Nimbus 70 novinhas.
― Conhece as pessoas da nossa casa? É claro que é uma questão de tempo até comprarem. Deixe eles realmente aprenderem a voar naquelas aulas que somos obrigados a ter.
― Hum, para falar a verdade, gostei da sigla ― comentei, admirando a vassoura. ― Devia assinar todos os seus materiais ou coisas importantes com ela.
Ele levantou o olhar do “seu novo bebê”, como gostava de chamá-la, para me dar um sorriso, aprovando a ideia.
Eu também tinha minha vassoura em mãos, mas só porque estava decidida a usar meu tempo livre para praticar um pouco antes do teste. Estava mais nervosa do que gostaria de admitir.
― Vou logo, antes que escureça. Vai comigo? ― perguntei, mas Régulo já estava hipnotizado novamente pelo seu novo brinquedinho. ― Hummm, hum ― ele resmungou, sem nem olhar para mim.
― Tudo bem. Não, então ― eu respondi por ele, rindo e indo em direção ao campo.
Nunca tinha estado em um campo de Quadribol antes, apesar de já ter visto vários em fotos ou gravações de jogos que meu pai tinha em sua coleção. Régulo já tinha me convidado para ir a um jogo com sua família, mas meu pai não deixou, alegando ser perigoso demais em tempos como aquele, quando o Lorde das Trevas e seus seguidores começavam a atacar eventos do mundo bruxo sem piedade.
Sempre que treinava Quadribol, era no quintal da minha casa, com uma forte proteção anti-trouxa, para que ninguém visse vassouras ou bolas voando de um lado para o outro.
O campo de Hogwarts era enorme. Retangular, com três grandes aros de gol de alturas diferentes em cada lado dele, como devia ser. Vazio, ele transmitia uma certa paz, difícil de se explicar, que devia ser o total oposto da animação e agitação que carregava em dias de jogo.
Era até um privilégio eu estar ali, pela primeira vez, sozinha. Ou era o que eu pensava.
James Potter pigarreou atrás de mim poucos segundos depois que pisei no local. Ele usava seu uniforme de Quadribol vermelho e segurava sua vassoura em uma mão, e um pomo-de-ouro na outra, que tentava fugir entre seus dedos, mas não conseguia.
― Preciso do campo para treinar, lindinha. Tenho um jogo importante em algumas semanas que vai abrir a temporada com chave de ouro. Que nem esse pomo aqui, que eu pretendo pegar rapidinho.
Ele deu uma piscada que poderia muito bem funcionar em outras circunstâncias, mas não ali. Não estava nem um pouco interessada em desistir do meu precioso treino por causa dele.
― Sério? Bom, eu preciso do campo para praticar para os testes do time que são amanhã. ― Cerrei os olhos em sua direção. ― Lindinho.
Ele soltou um riso de escárnio que achei muito engraçado e tive que fazer muito esforço para não acompanhar. Por mais que eu tentasse, era quase impossível odiar James Potter. Quase.
― O problema é inteiramente seu. Não vou ceder meu campo para alguém da Sonserina treinar.
Seu campo? ― Foi minha vez de rir. ― Engraçado, não estou vendo seu nome gravado em nenhum lugar aqui. Ele não é propriedade sua ou da sua casa.
― Olha só, ela tem a língua afiada… Gostei. ― Ele começou a brincar com o pomo em suas mãos, exibindo-se ainda mais que o normal. ― É uma pena que não vá ser do meu time. Vou ter que te destruir nos jogos.
― Não vai não, até porque eu pretendo praticar bastante, começando agora mesmo. ― Subi na vassoura. ― Então, se não quer dividir o campo comigo, sugiro que saia logo.
Ele me encarou em um misto de irritação e surpresa. Acho que não estava acostumado a ser contrariado em seu próprio território. Eu já tinha ouvido falar em como ele era brilhante no Quadribol e tinha sido o único aluno do primeiro ano a ser admitido no time em 1971.
Alguns segundos depois, ele suspirou, em desistência.
― Como pretende praticar sozinha?
Apontei para o arremessador de bolas enquanto pegava algumas para colocar dentro dele e me dirigia aos arcos.
― Você é goleira? ― Eu assenti e ele assobiou.
James ficou parado, olhando do campo para mim, em uma batalha interna, pensando se deveria me ajudar ou não. Quis abraçá-lo por isso.
― Não precisa, Potter ― respondi, sorrindo como se estivesse propondo uma trégua. ― Entendo que deve ser difícil por causa da minha casa e de toda rivalidade.
Ele retribuiu o sorriso e, separados, começamos a treinar, dividindo o mesmo espaço sem nenhuma intriga.

Algumas semanas depois, quando eu e Régulo já éramos oficialmente parte do time de Quadribol da Sonserina em Hogwarts, eu me vi fugindo do assunto dias antes do primeiro jogo. Precisava de tempo longe da correria das aulas e dos treinos, então busquei refúgio em uma pequena cabana em frente ao Lago Negro, apenas com um livro de literatura trouxa e uma xícara de chá, em uma tarde de quinta-feira.
Era difícil dizer se estava lá havia minutos ou horas quando uma voz interrompeu a minha leitura:
― O que está fazendo aqui?
Remo Lupin se aproximava devagar da pequena cabana, também com um livro em suas mãos. Senti meu estômago se manifestar com um nervosismo repentino.
― Estou lendo. ― Apontei para o livro em minhas mãos como se aquela fosse uma resposta óbvia.
Era sempre um mistério saber como agir quando estava na presença de um Maroto, mas logo percebi que não precisava estar em alerta para gracinhas (como com James e Sirius) quando estava com Remo. Ele ficou parado na entrada da cabana e parecia tão sem graça que quase me levantei e ofereci minha xícara de chá para ele.
― Certo. É que, geralmente, eu costumo ler aqui.
― Por que você e seus amigos têm essa mania de achar que os lugares de Hogwarts pertencem a vocês? ― Bufei, lembrando de James.
Remo suspirou, ainda nervoso, mas sem disposição para discutir.
― Justo. Pode ficar.
― Ah, muito obrigada pela gentileza ― respondi, sarcástica, e comprimi um sorriso.
Tentei voltar a atenção para meu livro, mas quando Remo sentou-se em minha frente, percebi como aquela cabana era pequena. Senti como se tivesse descoberto um segredo seu sem querer e que estávamos muito perto um do outro porque eu decidi ser algum tipo de intrusa naquele lugar.
― Tudo bem, me desculpe ― respondi, fechando o livro. ― Realmente sinto que estou invadindo seu espaço. Posso procurar outro lugar para ler.
― Não, não precisa ― ele respondeu rápido. ― Eu não me importo.
― É que Régulo quase só fala sobre Quadribol nesse último mês porque está nervoso com o jogo. Eu também estou, claro, mas tenho meus limites.
― O irmão de Padf-, hum, quer dizer, Sirius, certo? ― Assenti. ― Sei. James está exatamente assim, mas meus amigos gostam de ouvir ele falar sobre os jogos, então o incentivam. Principalmente Peter.
― Por que os apelidos estranhos entre vocês?
― É difícil de explicar. Coisas de melhores amigos, eu acho. ― Ele riu, um pouco nervoso.
Ficamos em um silêncio confortável por um tempo, apenas lendo. Eu, no caso, estava fingindo que estava lendo, porque a presença de Remo me deixava mais nervosa do que qualquer outra coisa e eu nem ao menos sabia o motivo. Quando arrisquei subir o olhar para ele, ele também já olhava para mim. Quando percebeu que foi pego, abaixou a cabeça para o livro rapidamente e ficou mais vermelho que um tomate. Achei aquilo mais fofo do que deveria.
Depois de mais ou menos uma hora, me levantei para ir embora, já notando que o tempo estava começando a esfriar. Antes de ir, perguntei ao garoto em minha frente, querendo prolongar aquele momento entre nós dois de algum modo:
― Você vai ao jogo amanhã?
― Ah, não sei, hoje à noite vai ser bem… Hum, cheia ― ele respondeu com um uma expressão tão triste que, não sei como ou porquê, prometi a mim mesma que nunca mais o veria daquele jeito. Apenas assenti, me despedindo, mas antes que eu saísse da cabana, ele me chamou novamente: ― ? Não conte a ninguém sobre esse nosso esconderijo, ok?
― Pode deixar ― respondi sorrindo ao perceber que ele falou nosso esconderijo, sabendo que eu voltaria ali assim que pudesse.

3.

1972



Era muito difícil que as aulas de Galateia Merrythought, nossa professora de Defesa Contra as Artes das Trevas, me deixassem com medo. Mas aquela aula específica foi uma exceção, e não só para mim.
A Professora Merrythought precisou mencionar alguns seres que vinham sendo marginalizados pelos bruxos havia anos e que não precisaríamos estudar até, mais ou menos, o terceiro ano. Ao mostrar rapidamente diversas fotos de lobisomens, gigantes e até mesmo centauros para turma, ela disse que precisávamos estar mais atentos a eles do que nunca, porque o Lorde das Trevas vinha recrutando estes seres para sua grande armada.
Ele oferecia a oportunidade de vingança por terem sido tratados como seres inferiores por tanto tempo. Claro que não eram todas as criaturas que estavam em busca disso, mas aquela declaração nos lembrou que estávamos, inegavelmente, em meio a uma guerra - o que já era o bastante para tirar nosso sono por um bom tempo. Você-Sabe-Quem estava cada vez mais forte e as coisas só tendiam a piorar no mundo bruxo.
Assim que saí da sala, tentei esquecer por um momento o que ouvi, não só porque era sexta-feira e eu precisava de um descanso, mas porque deveria mesmo estar feliz por termos vencido nosso primeiro jogo contra a Grifinória na noite anterior (o que significava que James estava tendo um péssimo dia. Não só ele, mas todos os Marotos, como fui perceber um pouco mais tarde.)
Eu não tinha ideia do motivo pelo qual Remo parecia estar tão mal, mas assim que o vi andando pelos corredores, segurando uma pilha de livros, fui até ele, aproveitando que estava sozinho, sem sua gangue que não gostava muito de mim. Ele tinha olheiras profundas, como se não tivesse uma boa noite de sono há algum tempo, e estava muito abatido.
― Você parece péssimo. Está tudo bem? ― Fiquei ao seu lado a tempo de impedir que um dos livros caísse da grande pilha que ele segurava.
― Bom dia para você também, ― ele respondeu com um meio sorriso.
― Está doente?
― Estou bem. ― Remo deu de ombros.
É claro que ele não me convenceu, mas percebi que não devia querer falar sobre o assunto e até estava prestes a deixar para lá; foi quando vi o grande corte no começo do seu pescoço, aparecendo pela gola frouxa do uniforme. Parecia vir do seu ombro e ser um ferimento bem recente.
― Está machucado? ― perguntei com os olhos arregalados. ― Aconteceu alguma coisa ontem?
― Não é da sua conta, é? ― Sirius apareceu ao seu lado, puxando o amigo para longe de mim. Remo não reagiu, parecia tão cansado que apenas se deixou ser levado, de cabeça baixa, evitando fazer contato visual comigo.
― Eu sei, só quis ajudar.
― Ele não precisa da sua ajuda ― Sirius me interrompeu. ― Tem os amigos dele para isso. Por que não vai procurar meu irmão para encher de perguntas?
Fiquei olhando os dois se afastarem, sem conseguir tirar o ferimento de Remo da cabeça. Lembrei que ele tinha dito que a noite anterior seria “cheia”, mas achei que fosse algo relacionado aos estudos. Não conseguia imaginar nada que pudesse tê-lo deixado daquele jeito. Sabia que ele nem ao menos tinha um gato ou algum outro bicho de estimação.
No dia seguinte, acordei cedo, mesmo sendo fim de semana, e fui para a cabana no Lago Negro. Tentei me convencer de que estava realmente focada em ler e me distrair um pouco, mas, no fundo, sabia bem porque estava ali. Como suspeitava, mais ou menos uma hora depois, o garoto misterioso com cicatrizes no rosto apareceu. Ele ainda estava um pouco abatido, mas bem melhor do que no dia anterior.
― Pensei que fosse encontrá-la aqui ― ele disse enquanto sentava-se em minha frente. Apenas acenei com a cabeça, com um pequeno sorriso, e voltei a atenção para o meu livro. Estava um pouco chateada pela grosseria de Sirius e não estava interessada em levar outro fora. Como se pudesse ler minha mente, ele logo falou: ― Queria te pedir desculpas. Sirius pode ser bem intolerante com pessoas da sua casa às vezes. ― Arregalei a sobrancelha quando o ouvi dizendo “às vezes”. Ele notou. ― Tá, sempre. James também, mas algo me diz que ele vai com a sua cara.
Tentei não rir, mas não consegui evitar. Quando Remo viu que eu relaxei com sua presença ali e não estava mais chateada, abriu um sorriso. Nunca fui capaz de esquecer aquele sorriso. ― Como está seu corte? ― perguntei, voltando a ficar um pouco séria, porque estava preocupada.
― Bem ― ele respondeu, dando de ombros, mas notei que ficou tenso de repente.
― Não vou perguntar, Remo ― tentei tranquilizá-lo. Ele não me devia nenhuma explicação afinal. Se não queria falar sobre aquilo, tinha seus motivos. Eu só esperava, do fundo do meu coração, que estivesse tudo bem.
― Eu só levei uma queda.
― Se você diz...
― O que está lendo? ― ele tentou mudar de assunto. Levantei a capa do livro para que ele pudesse ler o título. ― Feitiços Silenciosos?
― Pandora Lovegood me emprestou o livro. Ela parece ser boa nisso porque coisas estranhas sempre acontecem quando ela está por perto.
― Mas isso é assunto do sexto ano.
― Não custa tentar agora.
― É, acho que você está certa. ― Remo riu, balançando a cabeça.
Percebi que ele não havia trazido nenhum livro consigo e não queria que ele fosse embora ou que o assunto entre nós acabasse. Gostava da presença dele, mesmo quando só estávamos em silêncio, lendo.
― Quer me ajudar? ― perguntei, animada.
― Ainda estou no segundo ano, .
― Já é mais experiente do que eu.
― Acho difícil. ― Ele desviou o olhar do meu de repente. ― Não podia praticar muita magia quando ainda era pequeno. Nós éramos uma família bem discreta.
― Mesmo assim, pense que já tem um ano a mais que eu de aulas de Feitiços!
― Tudo bem ― ele suspirou em desistência, mas estava sorrindo. Me afastei um pouco para que pudesse sentar ao meu lado.
Acabamos praticando os feitiços silenciosos durante todo aquele fim de semana. Quando notamos que tínhamos jeito para aquilo e que poderíamos ficar realmente bons, passamos a nos encontrar várias vezes por semana, naquele mesmo local. Até quando não estávamos com tanta vontade de praticar os feitiços, ainda íamos até a cabana, ler nossos livros em silêncio, trocando olhares de confidência vez ou outra, que eu não sabia muito bem o que significavam, mas que aqueciam meu coração de algum jeito.
Nem ao menos me dei conta que estivemos fazendo aquilo por quase um mês inteiro, até perceber, acidentalmente, o quanto já tinha progredido.
Estava na sala comunal com Régulo quando Narcisa Black sentou-se ao lado dele para falar mal do tio que tinham em comum, Alphard. Não demorou muito para que o assunto chegasse em Sirius e evoluísse até todos os Marotos.
― Você precisa dar um jeito no seu irmão ― ela resmungava. Até Régulo já estava sem paciência para a faladeira, por mais que adorasse ser comparado a Sirius. ― Alguém precisa colocar ele e os amiguinhos dele em seus devidos lugares. Quem eles pensam que são? Os donos de Hogwarts?
Por algum motivo, não gostei do jeito como ela falou dos garotos, mas tentei ignorar. Os Marotos realmente se achavam donos de Hogwarts em alguns momentos.
Mas então ela resolveu piorar tudo.
― Aquele Potter é um grande de um exibido meia boca que adora os aplausos do baixinho que anda com eles. E o outro… Como é o nome dele? ― Régulo não respondeu. Duvido que ainda estivesse prestando atenção. Mas eu estava. ― Bom, esqueci o nome dele. Acho que nunca prestei atenção em nada que saísse da boca dele porque sempre fico distraída com aquelas cicatrizes horríveis que ele tem no rosto. Por que ele não usa magia para consertar aquela cara?
Eu não queria ter feito aquilo. Nem ao menos percebi quando comecei a fazer, mas não me arrependia.
Em total silêncio, como havia praticado por tanto tempo, consegui fazer com que a grande xícara que ela segurava virasse em cima de seu uniforme em apenas um segundo.
Mas que merda foi essa? ― ela gritou com a voz mais aguda que o normal.
Percebi que ela não tinha se queimado. Algo dentro de mim não gostou daquilo. Reparei que a roupa dela também não tinha ficado com manchas. Em poucos segundos, a bebida que molhava suas vestes foi escurecendo aos poucos, e o cheiro de vinho invadiu o local.
― Meu Deus, Narcisa! Vai logo limpar isso! ― Régulo reclamou, tapando o nariz. O cheiro de álcool estava tão forte que até Barão Sangrento apareceu para reclamar da bagunça.
― Eu estava bebendo chá! Quem…? ― Ela começou a olhar em volta, enfurecida, mas, felizmente, não chegou a desconfiar de mim, uma mera aluna do primeiro ano que não saberia como lançar mais de um feitiço silencioso em menos de um minuto.
Segurei o riso, secretamente satisfeita pelo drama que aquilo tinha causado e me perguntando por que eu me importava tanto com o que alguém tinha a dizer sobre Remo Lupin.

ϟ


No dia seguinte, fui correndo para a cabana no Lago, ansiosa para contar para Remo o que tinha conseguido fazer.
Claro que não pretendia contar o porquê fiz o que fiz.
No entanto, esperei por horas até aceitar que ele não iria aparecer. Tentei me convencer de que não me importava, de que não estava curiosa ou até mesmo preocupada para saber se estava tudo bem, mas sabia que não era bem assim.
Como a cabana não tinha a menor graça quando eu estava lá sozinha, peguei meu livro e fui para a biblioteca da escola. Assim que cheguei, me surpreendi ao ver Sirius lá, anotando algo em sua caligrafia perfeita (e estranhamente parecida com a de Régulo). Eu sabia que não devia provocá-lo, mas não pude evitar.
― Uau, você está mesmo anotando algum assunto das aulas? Acho que vai chover hoje.
Era de conhecimento geral em Hogwarts que Sirius Black era um bom aluno - tirava boas notas. Mas também era de conhecimento geral que ele não era o aluno mais fácil de se lidar durante as aulas e que, por isso, cumpria mais detenções do que qualquer outra pessoa da escola.
― Moony está doente e me fez jurar que anotaria as aulas para ele. ― Percebi que ele revirou os olhos enquanto me respondia, mesmo sem olhar diretamente para mim. ― Mais alguma pergunta?
― Hum, então quer dizer que Sirius Black é um cara legal ― disse, fingindo surpresa.
Ele riu alto, jogando a cabeça para trás e atraindo para si os olhares dos outros alunos. Régulo, que eu também não sabia que estava por ali, nos viu e começou a vir em nossa direção.
― Não conte para ninguém ― Sirius falou baixinho, ainda em seu tom de provocação. ―, mas eu sou um cara muito legal com quem me importo.
― Você está aí! Te procurei por esse castelo inteiro ― Régulo falou um pouco alto demais e acabou sendo repreendido pela bibliotecária, Madame Irma Pince. ― Foi mal ― ele cochichou.
― Espere aí, você disse que Remo está doente de novo? ― perguntei a Sirius.
― É, , está ― Ele soltou a pena em cima da mesa e olhou para mim com impaciência. ― Mais alguma pergunta?
― Por que tem que ser tão grosso com ela? ― Régulo perguntou, ficando de cara feia.
― Está tudo bem ― tentei acalmá-lo.
― Não, não está. O que ela te fez, cara? O que eu te fiz?
Pude sentir a dor em suas palavras e no olhar que Sirius o lançou. Prendi a respiração, nervosa com o atrito entre os dois, mas Madame Pince interveio:
Black! Fale baixo! ― ela reclamou novamente com Régulo.
Ei, vamos ― cochichei, puxando meu melhor amigo para fora antes que ele acabasse na detenção.

ϟ


1973


Nós fomos passar nossas curtas férias de fim de ano em casa. Foi muito bom rever meu pai, mas quando me dei conta, já estávamos de volta à escola.
A semana de provas veio acabando com qualquer paz que pudéssemos ter quando não estávamos treinando para os jogos. Nos demos bem nas provas, mas perdemos o campeonato de Quadribol para Grifinória.
Nunca tinha visto James Potter tão feliz. Ele era realmente mais obcecado com o jogo do que eu e Régulo juntos.
Podíamos não ter ganho o campeonato, mas a Sonserina ganhou a Taça das Casas, como prometi a mim mesma que ganharia.
Eu continuava me encontrando com Remo na nossa cabana, mas com menos frequência do que gostaria, graças à correria do fim do ano letivo.
― Não achei que nosso primeiro ano aqui fosse acabar tão rápido ― Fiz um beicinho dramático, sentando em cima da mala de Régulo na sala comunal. Ele estava lendo, largado em um dos grandes sofás. ― Poções Mais Incríveis do Século? Você está tão entediado assim?
― Não ― ele riu. ―, só enfeiticei a capa.
Régulo era muito bom com transfiguração. Era um dos alunos preferidos da Professora McGonagall, mesmo não sendo da casa dela.
― Não devia ter tanto medo assim de ser pego lendo um livro, Arturo.
Argh, não me chame assim ― ele contestou dramaticamente, jogando uma almofada em mim.
― Ah, é ― respondi, rindo. ― Desculpa, R.A.B.!
― Você tem razão, é uma sigla bem legal. Faz com que eu pareça um agente secreto ou algo do tipo.
― Não vou ficar te chamando de R.A.B. o tempo todo! ― reclamei.
― E por que não?
― Porque seria ridículo! ― Régulo jogou outra almofada em mim e nós dois tivemos uma pequena crise de riso. ― Tá, agora, o que você está lendo? ― perguntei, ainda me recuperando.
― Nada ― Ele já estava prestes a guardar o livro, mas consegui arrancá-lo de sua mão a tempo. ― Ei!
Jane Eyre?
Ele revirou os olhos, tomando o livro de volta.
― Eu peguei da sua mochila quando estava entediado na aula do Professor Binns ― admitiu. ― É legal. Acho que gosto de literatura trouxa, afinal de contas.
― É mais do que legal ― Tentei fingir que não sentia por ele. Se fosse pego lendo literatura trouxa em casa, Walburga seria capaz de queimar o livro e revistar todas as suas coisas, em busca de mais “contrabandos”. Lancei um olhar solidário ao meu amigo. ― Agora entendi por que enfeitiçou a capa.
Algumas horas depois, fomos escoltados para o trem com um grupo de aurores que foi à escola especialmente para isso.
― Por que tantos seguranças? ― Régulo perguntou, impaciente com a demora.
Estavam revistando todas as malas, bolsas e alunos, para que pudéssemos voltar para casa com toda a segurança necessária.
― Estamos no meio de uma guerra ― respondi o óbvio.
― Como se fossem pegar o Lorde das Trevas assim… ― ele resmungou baixinho.
Não tão longe de mim, vi Remo com seus amigos, esperando para entrar no trem em seu famoso vagão nos fundos. Quando nossos olhares se encontraram, sorri para ele e cochichei de longe:
Boas férias.
Boas férias ― ele respondeu.
Ignorei Régulo olhando para mim com o canto do olho, estranhando nossa aproximação. Não havia contado a ele dos meus encontros com Remo no lago. Lupin, no entanto, percebeu que ele nos encarava e abaixou a cabeça, virando-se para falar qualquer coisa com James, que também me deu uma piscada de longe. Balancei a cabeça, rindo.
― Não acha que vão pegá-lo? ― voltei a atenção ao que Régulo tinha dito.
― Acho difícil. Acho que essa guerra está só no começo, diferente do que muitos pensam. Ele ainda vai ganhar muito poder…
Senti um arrepio ao ouvir aquilo. Régulo deve ter percebido, porque prendeu seu braço no meu, me puxando para mais perto.
― Mas, ei, estamos seguros ― ele me confortou. ― Nada vai nos acontecer, está bem? Eu prometo, .
E, como sempre, acreditei nele, lembrando de suas palavras enquanto voltávamos para casa.

4.

1973



Apesar das notícias de algumas mortes de aurores por comensais da morte, aquele verão foi bem tranquilo. Fiquei em casa com meu pai a maior parte do tempo. Ele me deu uma vassoura nova e vários livros de feitiços do seu segundo ano, caso eu quisesse praticar algo para quando voltasse à escola, mas eles estavam muito empoeirados, então não fiquei tão animada com a ideia. Ele tinha um trabalho considerado comum no Ministério da Magia e me garantiu que estava seguro em seu escritório, o que me deixou mais tranquila.
Régulo e eu ainda nos víamos quase todos os dias. Jogávamos ainda mais Quadribol juntos, se é que fosse possível, porque não queríamos perder o hábito e nem o campeonato novamente.
Sirius tinha voltado para casa daquela vez. A tensão no Largo Grimmauld estava ainda pior. Isso era o suficiente para me fazer ficar o mais longe possível de lá, recebendo Régulo aqui sempre que queríamos nos ver. Ele também preferia assim, já que procurava fugir da gritaria constante entre seu irmão e Walburga.
Além do Quadribol, também treinávamos feitiços pequenos, que tínhamos permissão para praticar fora da escola. Apesar de ser muito boa em Feitiços, Régulo era muito melhor que eu em Transfiguração. Éramos os alunos preferidos no nosso ano dos professores Flitwick e McGonagall, mesmo não sendo de suas respectivas casas.
Já na nossa última noite de férias, que chegou mais rápido que eu poderia imaginar, eu estava no meu quarto, sozinha, arrumando a mala que levaria para a estação na manhã seguinte, quando Régulo entrou no meu quarto e jogou-se em cima da minha cama, bagunçando algumas das roupas que estavam dobradas em cima dela.
― Você vai arrumar isso! ― avisei, rindo, apesar de não estar brincando.
― Adivinha o que meus pais acabaram de me contar? ― ele perguntou, animado e com um imenso sorriso no rosto. Não tentei adivinhar porque não consegui pensar em nada de bom que pudesse sair da boca daquelas pessoas. Os pais de Régulo nunca me deram motivos diretos para detestá-los, mas aquilo não significava que eles não me incomodavam, mesmo de longe. ― Narcisa está noiva de outro bruxo!
Ele fez uma dancinha de comemoração com os braços, jogando meu travesseiro para o alto e desarrumando ainda mais a minha cama. Eu realmente não entendia por que ele estaria tão feliz com aquela notícia, já que nem ao menos era próximo da prima.
― Hum… Parabéns? ― respondi, confusa.
― Não sabe o que isso significa? ― ele perguntou, ainda histérico.
― Significa que sua família continua com uma linhagem intacta de bruxos? ― chutei, brincando.
― Infelizmente, não. ― Mesmo que aquelas palavras tenham sido ditas de forma rápida, ficaram reverberando em meus ouvidos por muito mais tempo do que eu gostaria. ― Andrômeda casou com um trouxa, lembra? ― ele perguntou.
― Ah, é… ― Desviei meu olhar do seu para que não percebesse minha mudança de humor repentina.
― Significa que não vou ser obrigado a casar com ela para manter o nome Black na família. Você sabe, meus pais fizeram isso! Sem falar que ela era a última prima solteira que eu tinha, então… ― Ele fez novamente a dancinha com os braços, comemorando. ― Imagina ser obrigado a passar o resto da vida aguentando o mau humor de Narcisa? Ugh! ― Régulo estremeceu ao pensar na ideia.
― E quem é o sortudo? ― perguntei, sarcástica.
― Lucius Malfoy.
Argh ― fiz uma careta ―, meu pai odeia os Malfoy. ― Régulo deu de ombros, sentando na cama, começando a dobrar as roupas que tinha amassado e jogando-as na mala aberta em minha frente. Nem ao menos me dei conta se ele continuou falando ou não, porque não consegui me concentrar em mais nada, até respirar fundo e, finalmente, fazer a pergunta que não saía da minha cabeça: ― O que quis dizer com “infelizmente”?
― Como assim? ― ele perguntou, distraído, ainda dobrando as roupas.
― Você disse que, infelizmente, a linhagem da sua família não continua intacta.
Eu já tinha ouvido e lido desaforos feitos a pessoas não-bruxas um milhão de vezes, andando pelo Beco Diagonal e até mesmo lendo entrevistas de conservadores dentro do Ministério, no Profeta Diário. Meu pai sempre me ensinou a deixar para lá e nunca dar palco para aquele tipo de gente. Mas não foram apenas as palavras que me machucaram tanto, foi o fato de que saíram da boca do meu melhor amigo, da pessoa que eu mais confiava no mundo.
― Eu disse? ― Régulo olhou para mim, parecendo genuinamente confuso e dando de ombros. ― Não percebi. Acho que só repeti o que meu pai me contou. ― Ele continuou me olhando por mais alguns segundos, provavelmente assimilando como aquele pequeno comentário pode ter soado ofensivo a uma bruxa mestiça, com uma mãe trouxa. ― Merda,
Não quis ouvir suas explicações porque senti um nó se formar em minha garganta e eu não queria chorar em sua frente. Por isso, fechei a mala e me levantei do chão às pressas.
― Você… Não precisa mais terminar de dobrar isso. Pode deixar aí ― eu disse com a voz trêmula, evitando contato visual, certa de que meus olhos já estavam começando a ficar marejados. ― Vou ver se meu pai precisa de ajuda na cozinha.
, não foi isso que eu…
Mas eu não ouvi o resto. Já tinha saído do quarto.
Só falei com Régulo novamente no dia seguinte, quando já estávamos na estação. Ele parou em frente ao vagão vazio que eu tinha achado e ficou me encarando com os olhos cheios de culpa.
― Se nós dois concordamos que eu sou meio babaca às vezes, ainda posso me sentar aqui com minha melhor amiga?
Eu realmente queria acreditar que ele apenas havia reproduzido, de forma inconsciente, uma fala pronta de seus pais. Eu tinha que acreditar, para o bem de nossa amizade, então, resolvi tentar esquecer de uma vez aquele assunto.
― Entra logo! ― disse, sorrindo.
Ele me prendeu em um abraço exageradamente apertado enquanto enchia minha cabeça de beijinhos.
Por já estar no segundo ano, achei que estaria menos ansiosa enquanto voltava à Hogwarts, mas não estava. Cada hora dentro daquele trem era preenchida por novas expectativas de outro ano letivo incrível. Dois dos nossos amigos sonserinos vieram sentar em nossa cabine, fazendo com que a longa viagem passasse um pouco mais rápido com as conversas animadas. Eu não saí muito do vagão, mas nas poucas vezes que saí, tive a impressão de estar procurando inconscientemente por algo ou alguém.
Mais tarde, já no grande Salão Principal, depois da seleção dos alunos do primeiro ano, Dumbledore nos apresentou ao novo zelador da escola, Sr. Argo Filch, e sua gata, Madame Nor-r-ra. Ele tinha a cara de quem não estava disposto a perdoar gracinhas ou infrações às regras da escola. Olhei imediatamente para as pessoas que faziam aquilo constantemente, além de serem recordistas de detenções, os Marotos. Como previsto, James e Sirius olhavam para o Sr. Filch com uma cara feia, como se ele estivesse ali para acabar com todos os seus sonhos. Peter parecia um pouco assustado, principalmente com a gata acizentada e olhos vermelhos, o que era esquisito. Remo parecia neutro e bem entediado, e senti uma pequena animação por estar o vendo pela primeira vez naquele dia.
Fiquei me perguntando se não era estranho demais admitir para mim mesma que senti sua falta. Bom, sabia que tinha sentido falta dos nossos encontros na cabana e de sua companhia. Ainda assim, achava estranho pensar naquilo. Não tive tempo de dizer oi, mas trocamos um sorriso amigável durante o jantar, quando o peguei olhando para mim.
No dia seguinte, um pouco antes do começo das aulas do turno da tarde, eu estava sentada em um dos largos corredores, descansando um pouco após o almoço no lugar mais arejado que achei, quando o vi saindo da biblioteca com Peter, segurando uma penca de livros e cadernos. Quando me viu, cochichou algo com seu amigo, despedindo-se dele e vindo em minha direção. Percebi que Peter me encarava enquanto se afastava.
― O terceiro ano é puxado assim? ― perguntei, olhando a quantidade de anotações que Remo carregava consigo já no primeiro dia de aula, enquanto ele sentava-se ao meu lado.
― Ah, não, só estou ajudando Peter. Ele está se sentindo meio atrasado com alguns assuntos do ano passado ― deu de ombros. ― Mas não conte a ninguém, ele se sente meio mal por isso.
― Pode deixar ― respondi, sorrindo. Sorri mais um pouco quando o vento fez seus cabelos castanhos voarem em seu rosto. ― Sabe, são coisas assim que só fazem com que eu me pergunte como você pode ser amigo dos valentões da escola.
― Ah, é? ― Ele arqueou as sobrancelhas, sorrindo de volta para mim. ― Também não achei que você fosse ser tão… legal?
Tive que rir da sua escolha de palavras. Ele me achava legal?
― Porque sou da Sonserina?
― Hum, não. Porque é amiga de Régulo.
― Ah… ― senti o sorriso morrendo aos poucos no meu rosto, por mais que não estivesse chateada. Ele ficou sério, de repente.
― Desculpa se ofendi. Eu nem o conheço, mas as coisas que Padfoot diz sobre ele não são das melhores.
― Não, não, tudo bem. ― Pensei rapidamente em Régulo. Tínhamos muitas memórias boas juntos, então por que eu só conseguia pensar no pequeno desentendimento que tivemos na minha casa? Realmente passei aquelas 24 horas achando que já tinha superado aquilo, mas, vez ou outra, aquelas pequenas palavras, “infelizmente, não”, insistiam em voltar para me assombrar. ― Régulo é uma pessoa muito doce, mas tem essa fixação por agradar a família que às vezes faz com que ele aja como um grande idiota. ― Assim que terminei a frase, me arrependi. Eu não devia falar assim do meu melhor amigo para outras pessoas. Ele já havia se desculpado. Remo, no entanto, me escutava com atenção, mas não parecia estar me julgando por ter dito aquilo. ― Acho que ele cresceu vendo Sirius sendo rejeitado pela família e tem medo que aconteça o mesmo com ele. Sei lá.
― É, faz sentido ― ele assentiu.
― E não posso te julgar ― dei de ombros. ― Achei que você fosse tão irritante quanto seus amigos também.
Ele riu alto e, por um momento, desejei que pudesse escutar aquele som para sempre.
― Eles não são irritantes e nem valentões, .
― Remo. ― Cerrei os olhos, desacreditada, rindo junto com ele.
― Ah, tudo bem, eles pegam bastante no pé do Ranhoso.
― Ah, especialmente, mas não exclusivamente.
― Você acredita em mim se eu disser que eles são boas pessoas? ― Seus olhos doces e castanhos se fixaram nos meus e eu podia jurar que acreditaria em qualquer coisa que ele me contasse naquele momento.
― Você acreditou em mim quando eu disse que Régulo é?
― Acho que sim. ― Seu sorriso se alargou.
― Tá, então também acredito em você.
Passamos alguns segundos em silêncio, sustentando aquela troca de olhares que nem mesmo sabíamos o que significava, antes que ele se levantasse para ir embora. Sem pensar ou nem mesmo saber se tinha algo a dizer, chamei por seu nome, só para fazer com que ele ficasse mais um pouco ali comigo:
― Remo? ― Ele olhou novamente para mim na mesma hora, como se estivesse procurando uma desculpa para demorar um pouco mais também. Soltei um pigarro nervoso. ― Suas anotações. ― Entreguei um caderno que ele ia deixando para trás, com um pouco de raiva de mim mesma por não ter pensado em algo melhor.

ϟ


Mais tarde, já com as luzes do dormitório apagadas, estava com a ponta da varinha acesa enquanto escrevia uma carta, contando da viagem para meu pai, avisando que cheguei bem. Quando terminei, ainda estava sem o mínimo de sono. Abri minha bagagem, logo percebendo que tinha esquecido de colocar meus livros na mala depois do episódio que tive com Régulo.
Merda ― cochichei comigo mesma. As garotas com quem eu dividia o dormitório já estavam apagadas, cansadas do primeiro dia de volta à correria da rotina dos estudantes.
Respirei fundo, ainda entediada, precisando de algo para me distrair ou me fazer pegar no sono logo. Pensei se seria tão perigoso assim ir de fininho até a biblioteca, em silêncio, só para pegar um livro e voltar. Se fosse muito, muito cuidadosa, conseguiria desviar de Pirraça ou usar um feitiço para alterar minha voz e imitar o Barão Sangrento para afugentá-lo. Só não sabia se o novo zelador estaria à espreita, como disse que ficaria. Eu teria que ser ainda mais que cuidadosa, teria que ser, praticamente, invisível.
Ainda com a varinha acesa, saí pela calada da noite, escutando alguns quadros resmungarem com a luz e sussurrando desculpas para todos. Antes que chegasse na biblioteca, nos longos corredores que davam para as escadas, fui descoberta:
― Ei, ! ― Escutei a voz cochichada de James Potter e virei em sua direção. Ele andava pelos corredores, despreocupado, também com sua varinha acesa, repousando uma das mãos no bolso, como se não estivesse infringindo regras por estar fora da cama tão tarde. Estava vestindo calças jeans escuras, uma camiseta vermelha e um casaco preto. Era impressão minha ou ele estava arrumado? Olhei para as minhas vestes, ou melhor, meu pijama, calça de moletom cinza e uma blusa de lã de manga comprida verde escura, e me perguntei se era possível que existisse alguém que não dormisse assim.
― James? ― perguntei, achando que pudesse estar vendo coisas.
― O que vai fazer agora?
― Tentar dormir. Fui só pegar um livro na...
― Ah, não, que sem graça! ― ele me interrompeu, fazendo uma careta.
― E o que você vai fazer, senhor interessante?
Ele se aproximou de mim, cochichando ainda mais baixo, como se realmente não quisesse correr o risco de ter mais alguém nos ouvindo:
― Estamos dando uma festa de início das aulas na Torre de Astronomia. Não quer vir?
Uma festa? Você ficou malu... ― fui interrompida mais uma vez, dessa vez por sua mão tapando minha boca.
Shhh! Fala baixo!
― Quem está aí? ― a voz de Filch preencheu o eco dos corredores, trazendo uma onda de pânico que começou a tomar conta de mim, até James tirar do casaco uma manta escura e nos cobrir com ela, ainda tapando a minha boca com uma das mãos. Apagamos nossas varinhas e ficamos imóveis. ― Eu ouvi alguma coisa! Sei que estão aí!
Filch carregava uma vela frágil em suas mãos, com sua gata sentada em seus ombros e não parecia nada feliz. Prendi a respiração quando ele passou por nós, me perguntando o que ia achar de ver dois alunos escondidos embaixo de uma capa, sozinhos pelos corredores, à noite, mas ele não pareceu nos notar lá. Olhei para James, desconfiada. Quando Filch deixou o corredor e desceu as escadas, acendemos novamente nossas varinhas e caminhamos, ainda embaixo da capa, para as escadas que davam para os andares de cima, em silêncio.
― Capa de invisibilidade ― James explicou, quando não corríamos mais o risco de sermos ouvidos pelo zelador.
― Uma capa de invisibilidade? ― perguntei, maravilhada. ― Onde você achou isso? Ai, meu Deus, você não roubou de ninguém, roubou? E se confiscarem ela de você?
Eu já estava soltando meus cabelos do coque e tentando arrumá-los porque, aparentemente, estava mesmo indo para uma festa clandestina.
― Sabe, , Sirius estava certo. Você faz muitas perguntas.

Narrador Avulso


A torre mais alta de Hogwarts estava cheia de alunos do terceiro ano da Grifinória, iluminada por várias velas encantadas que não apagariam com o vento gelado daquela noite de setembro. No entanto, nenhum daqueles alunos estava interessado em estudar planetas. Uma banda bruxa local ecoava de um aparelho de som, com as paredes sob o efeito de um encantamento anti-ruído. Havia também uma mesa improvisada com algumas guloseimas que os Marotos conseguiram contrabandear do jantar e da grande cozinha de Hogwarts.
Sirius Black estava deitado no parapeito de uma das largas janelas, segurando um pequeno telescópio que cabia na palma de sua mão, fingindo analisar alguma constelação em particular. A única que realmente conhecia era a Cão Maior, que originou o seu nome e o de mais alguns familiares.
― Foi um inferno ― ele comentou com seus amigos, Remo Lupin e Peter Pettigrew. ― Pelo menos meu irmão ficou fora do caminho. Ficou indo para casa de o verão inteiro.
Remo Lupin se remexeu em sua cadeira, de repente inquieto e bem desconfortável. Ele não tinha o direito de sentir ciúmes de , até porque sabia que ela e Régulo Black eram bem próximos. Então, por que sentia-se enjoado com a simples imagem dos dois passando o verão inteiro juntos, rindo, jogando Quadribol, lendo...?
― Ah, é? ― ele perguntou, fingindo que aquela informação não havia mexido tanto com ele, tomando um gole de sua bebida que já estava quente.
― Ainda bem! ― Padfoot continuou. ― Se fosse o contrário, eu teria que aguentar os dois lá em casa e não tenho paciência para nenhum!
― Sério? Ela não parece ser tão má assim… ― Peter comentou, nervoso, com um sorriso provocativo enquanto olhava para Remo. Tinha visto os dois conversando mais cedo e eles pareciam bem próximos. Mas não comentaria com Sirius sobre aquilo.
― Aparências enganam, Wormtail. Se ela anda com meu irmão, deve ser tão metida quanto ele. ― Ele entregou o telescópio para Peter, que o recebeu tão animado quanto se tivesse ganho um presente de aniversário fora de época. ― Quer dizer, tenho quase certeza de que ela é.
Sem nem ao menos se dar conta do que estava prestes a fazer, Lupin colocou sua mão direita no bolso, tocando em sua varinha, relembrando rapidamente tudo que tinha aprendido com sobre Feitiços Não-Verbais.
Só um beliscão não faria mal, faria?, ele pensou, lançando o feitiço silenciosamente, como havia praticado.
― Ai, porra! ― Sirius reclamou, caindo da janela direto no chão da torre assim que o sentiu, atraindo o olhar de algumas garotas, que chegaram mais perto para ampará-lo. Sirius sempre chamava a atenção das garotas.
― O que foi? ― Remo perguntou, inocentemente, segurando o riso.
― Prongs! ― Peter anunciou assim que viu James entrando na Torre. Parecia que estava acompanhado por…
? ― Remo ficou em pé assim que viu a garota. Ela estava de pijama, mas ele ainda a achava mais bonita do que qualquer outra garota do seu ano que tivesse colocado quilos e quilos de maquiagem para estar ali. O sorriso de , no entanto, pareceu se iluminar ainda mais no momento em que viu o garoto.
― Achei essa gatinha aqui perdida no corredor e a trouxe para o lado divertido do castelo! ― James comentou, instantaneamente animado pelo ambiente festivo. Ele pegou dois copos escuros de plástico em cima da mesa, entregando um para sua convidada.
― Vocês conseguiram álcool? ― ela perguntou. Sua voz era um misto de choque e animação.
― Não ― Sirius, Peter e Remo responderam em uníssono. Peter parecia decepcionado, Sirius parecia com raiva e Remo parecia aliviado.
― Não, porque cometemos o erro de deixar Wormtail encarregado disso ― James completou, apontando para o amigo.
― Não posso fazer nada se a azaração de idade tinha um tempo curto! ― ele se defendeu. ― Tive que sair correndo do Três Vassouras para não me reconhecerem! ― Peter se abaixou e pegou uma garrafa vazia de cerveja, escondida embaixo da mesa, parecendo ansioso. ― Mas ainda consegui isso para jogarmos Verdade ou Consequência mais tarde!
Verdade ou Consequência? ― Sirius fez uma careta. ― Quantos anos a gente tem? Treze?
― Sim, cara ― Remo respondeu, colocando a mão em seu ombro. ― Essa é, literalmente, nossa idade.
― Que ideia excelente, meu garoto! ― James disse, dando tapinhas nos ombros de Peter, que parecia tão feliz pelo elogio que qualquer pessoa poderia jurar que ele tinha acabado de ganhar na loteria ou algo parecido. ― Vamos jogar agora, porque estou vendo que têm muitas garotas aqui ― ele cochichou para os amigos, fixando o olhar em Lily Evans, melhor amiga de Severo Snape.
Depois de uma hora sentados com os outros alunos, Sirius teve que beijar Marlene McKinnon; Frank Longbottom teve que arrotar o alfabeto inteiro (ideia de James) e admitiu achar uma garota chamada Alice, do mesmo ano e Casa que ele, a mais bonita de Hogwarts; Dorcas Meadowes admitiu ter colado na prova de Poções do ano anterior e Peter desafiou James a dizer quem ele beijaria daquele círculo. Ele respondeu com uma piadinha (“Remo, claro”), mas ainda não havia parado de olhar ocasionalmente para Lily Evans, que teimava em ignorá-lo.
Algumas rodadas depois, a garrafa parou em James, que novamente escolheu “Consequência” porque não queria mais responder perguntas idiotas.
― Ótimo! ― Marlene, que teria que desafiá-lo a algo, comemorou. ― Desafio você a ficar dentro do armário de telescópios por sete minutos com… ― Ela olhou demoradamente para Lily, que tentava negar com a cabeça discretamente, mas todos ali perceberam, inclusive James, que fechou a cara. Respeitando a decisão da amiga, Marlene desviou o olhar para a primeira garota que viu. ― !
― O quê? ― ela perguntou, assustada com a menção repentina do seu nome.
― Ah, qual é, , você não fez nada até agora! ― Frank reclamou.
Relutante, ela levantou e foi andando em direção ao armário. James já estava encostado na porta, parecendo despreocupado, mas não estava. O olhar de um de seus amigos, fixo no chão enquanto fingia que aquilo não o incomodava, era de partir o coração. Mas o que ele poderia dizer?
O armário era apertado e tinha um leve cheiro de mofo. logo percebeu que James não olhava diretamente para ela, nem tinha um dos seus sorrisos debochados no rosto. Também não tinha soltado nenhuma gracinha, o que era incomum por si só.
― Nervoso, Potter? ― o provocou.
― Acho que sim, sabe, de ser pego pelo Filch ― ele respondeu, ainda olhando para os pés.
― De ser pego? Você estava andando por aí com as mãos no bolso há uma hora. E tem a sua capa. ― respirou fundo, irritada com a situação. Ela devia ter ficado em seu dormitório, por mais que estivesse se divertindo. Não queria que pensassem que ela estava fazendo algo com James dentro daquele armário, até porque aquilo não estava em seus planos. James também parecia um pouco incomodado com a ideia, mas ela não saberia dizer o porquê, por isso, perguntou: ― Deixa eu adivinhar, você gosta de alguém?
Potter olhou para ela, parecendo irritado.
― Defina gostar.
― Ahá! Eu sabia. ― riu. ― Quem diria que James Potter não é o garanhão que todos falam que é.
― Olha aqui, eu sou sim. E não gosto de ninguém, só... ― ele suspirou, pensando nos olhos verdes da ruiva que teimava em ignorá-lo.
― Não precisa explicar. E não aja como se você estivesse me dando um fora, porque eu também não estou interessada.
― Ah, eu sei que não está… ― ele respondeu, rindo, deixando um pouco confusa. ― Sabe, , você é gente boa. Nunca achei que fosse dizer isso para alguém da sua casa.
Quando saíram do armário, foram recebidos por aplausos e assobios dos outros dos colegas. Ou quase todos os colegas.
Os olhos de procuraram imediatamente os de Remo, mas não o encontraram. Ele não estava mais ali. James também parecia ter notado a ausência do amigo, porque parecia aflito, de repente.
― Ei, de quem é essa gatinha? ― Dorcas perguntou com sua voz fina, apontando para a felina acinzentada que estava sentada na porta da Torre, observando-os como se estivesse entendendo tudo que diziam.
― Merda, é a Madame Nor-r-ra ― respondeu, reconhecendo a gata que viu no ombro de Argo Filch havia pouco tempo. Assim que foi reconhecida, ela correu de volta para as escadarias, miando alto.
― Ela foi chamar o Filch ― Sirius anunciou. Todos se levantaram, recolhendo às pressas tudo que haviam levado para festa. James e Sirius encaminharam seus colegas por um corredor escuro e silencioso, apenas mais um dos atalhos que conheciam dentro do castelo. Depois do que pareceram vários minutos, finalmente chegaram à Sala Comunal da Grifinória, despedindo-se de , que foi em direção às masmorras com cuidado para não ser pega.
Assim que os Marotos chegaram em seu dormitório, Remo já estava lá, lendo um livro, mais quieto que o normal.
― O que houve? ― ele perguntou, estranhando seus amigos terem voltado tão rápido.
― Filch ― Sirius respondeu, prendendo seus longos cabelos, jogando seu casaco no chão e jogando-se na cama.
Merda ― Remo respondeu, assustado.
― E aí, cara, por que você foi embora? ― Peter perguntou, subindo na cama de cima do beliche.
― Tive uma dor de barriga ― ele inventou.
Em poucos minutos, Sirius já roncava baixinho em sua cama, cansado pelo dia e pela adrenalina que tanto amava quando sabia que estava quebrando as regras. Peter também não demorou muito para apagar em um sono profundo.
James, que foi o único que se preocupou em vestir uma roupa minimamente confortável para dormir, aproveitou que os amigos não estavam mais acordados para sentar no pé da cama de Remo, tirando os óculos, cansado.
― Vou dizer de uma vez, tá? Não nos beijamos, nem nada ― ele anunciou, baixinho.
― O quê? ― Remo levantou os olhos do seu livro.
. No armário? Só ficamos conversando.
― Por quê? ― Remo perguntou, realmente confuso. Conhecia bem o amigo e sabia que sua fama de conquistador não era à toa. Não existia uma menina em Hogwarts que fosse capaz de resistir aos encantos de James Potter. Até mesmo algumas alunas mais velhas não estavam imunes aos charmes do garoto.
― Está brincando? Eu nunca faria uma coisa dessas com você ― ele deu um pequeno murro leve e amigável no ombro do amigo.
Remo, por outro lado, sentiu seu rosto ferver e ficar vermelho.
― Não sei do que você está falando ― ele disse, com indiferença, como se conseguisse mentir para seu melhor amigo. Já estava mais do que provado que não conseguia esconder nada dele. Foi James o primeiro a descobrir o maior segredo de sua vida no ano anterior.
― Moony, cara ― Potter disse, rindo da tentativa do amigo de guardar segredos. Remo apenas suspirou, em desistência, jogando seu livro de lado e esfregando as têmporas com as mãos.
― Está tão na cara assim? ― ele gemeu.
― Talvez ― James deu de ombros ―, mas talvez eu só tenha percebido porque sou seu melhor amigo.
― Bom, de qualquer forma, não vai rolar nada ― Lupin anunciou, cheio de dor em sua voz.
Por quê?
― Eu posso até gostar muito de estar com ela, mas sou perigoso demais.
― Você não colocaria a vida dela em risco nem se tentasse, cara. Nós somos seus amigos e você não nos coloca em perigo, coloca?
Remo olhou sério para James, pensando se o que ele tinha dito era verdade. Uma parte dele quis muito acreditar que era, que ele podia gostar de e estar com ela sem colocar sua vida em perigo, mas não tinha tanta certeza.

5.

1973



Os ruídos distantes das conversas ao meu redor não estavam sendo o suficiente para me manter acordada enquanto tomávamos café da manhã no Salão Principal. Tinha uma grande xícara de café em minha frente, a segunda que eu tomava naquela manhã, mas não parecia ter surtido nenhum efeito até aquele momento. Nem ao menos percebi que Régulo falava comigo até escutar meu próprio nome ser dito de forma alta, me tirando do meu transe momentâneo.
! — Ele cutucou meu ombro com a varinha.
— Oi — respondi, aérea.
— Então? — Olhei para ele, ainda confusa. — Você não ouviu o que eu te perguntei, né? — Neguei com a cabeça, muito cansada para sequer falar. Não tinha voltado tão tarde assim da festa dos Marotos na Torre de Astronomia, mas fiquei eufórica o suficiente para perder de vez o sono e ficar rolando na cama até tarde da madrugada. — O que está acontecendo com você? Está muito distraída.
— Nada, só estou com sono. — Pude notar que meu tom de voz entregou de vez que eu estava escondendo algo dele. Talvez aquilo fizesse de mim uma péssima amiga, mas eu não tinha planos de contar a Régulo que fui a uma festa organizada pelo seu irmão na noite anterior. Esperava que Sirius fizesse o mesmo.
Mesmo notando, Régulo escolheu não dizer nada. No entanto, sentir seus olhos verdes em mim, me analisando e estudando o meu comportamento de forma desconfiada, me diziam que ele estava magoado por perceber que eu estava guardando algum segredo dele.
— Para onde está indo? — ele perguntou, alarmado, quando me viu levantar do banco de madeira.
— Ao banheiro! — respondi, levemente irritada.
Uma hora depois, estávamos um ao lado do outro nas estufas do castelo, observando a Professora Sprout, de Herbologia, falar com uma paixão esquisita e inapropriada sobre adubos mágicos. Quer dizer, mágico ou não, aquilo ainda era adubo. Mesmo com o teto alto e as diversas janelas espaçosas, que permitiam a entrada da brisa fria e da luz do dia no local, o cheiro ainda era insuportável. Notei que Régulo e eu fazíamos a mesma careta de enjoo enquanto ouvíamos as instruções da atividade daquela aula.
Ao lado da nossa estufa, havia três grandes mesas com diversos tipos de materiais de jardinagem. Ele andou até uma delas, trazendo os materiais necessários para nós dois começarmos a mexer na terra em nossa frente e identificá-la corretamente.
Odeio herbologia — ele resmungou baixinho e eu tive que concordar com ele. Passava longe de ser minha matéria preferida e eu não cansava de repetir como detestava aquele cheiro. — O que vai fazer depois das aulas? Quer treinar um pouco? Os treinos oficiais só começam semana que vem.
— Acho que vou aproveitar para tirar um cochilo, fui dormir meio tarde ontem — respondi, fazendo uma careta enquanto mexia em uma substância negra, molenga e muito nojenta.
Na verdade, tinha feito planos com Remo na noite anterior de ir à cabana do Lago Negro no intervalo das aulas, mas também não tinha contado ainda para Régulo sobre aqueles nossos encontros que aconteciam havia quase um ano. Por algum motivo, queria mesmo que aquele momento e aquele lugar fossem só nossos, como combinamos que seriam desde o primeiro dia em que nos sentamos ali juntos por acidente.
Régulo, que já parecia antes que estava prestes a vomitar, me encarou com a expressão mais séria que já tinha visto em seu rosto desde quando nos conhecemos.
— Tá, . Continue mentindo para mim. — Não havia raiva em sua voz, só decepção, o que era ainda pior. Com medo de que ele soubesse o que eu estava escondendo dele, fiquei quieta, não sabendo como responder. — Quer saber como eu sei que está mentindo? Nossa próxima aula é Estudo dos Trouxas e você sempre dorme a aula inteira porque não precisa estudar para essa matéria. Você não vai tirar um cochilo coisa nenhuma. — Ele parou de me olhar e continuou mexendo, um pouco mais agressivo que antes, na gosma preta em nossa frente, colocando-a no vaso de qualquer jeito. — Não precisa me dizer aonde vai, faça o que quiser, mas não ache que sou burro e não percebi que você anda escondendo alguma coisa de mim. — A gosma preta, de alguma maneira, espirrou em suas vestes, tornando tudo ainda pior. — Mas que merda é essa?
— Excremento de Testrálios — respondi, consultando o livro aberto ao lado do meu vaso, ainda com pouco adubo.
Régulo suspirou, em desistência, tirando suas luvas com uma cara enjoada.
— Vou vazar. Estudo isso pelos livros — ele anunciou. Ainda não havia raiva em sua voz, mas havia algo ainda pior que a decepção de antes: tristeza.
Sim, eu havia deixado meu melhor amigo triste por estar mentindo para ele com tanta frequência. Senti um nó se formar em meu estômago, e nem era por causa do cheiro ruim.
— Régulo…
— A gente se vê mais tarde — ele respondeu, indo em direção à Professora Sprout e cochichando alguma desculpa em seus ouvidos. Ela, que sabia que ele era um aluno exemplar, não viu problemas em dispensá-lo daquela aula.
Na aula de Estudos dos Trouxas, que cheguei um pouco em cima da hora porque precisei tirar Excremento de Dragão das minhas vestes, vi Régulo já sentado com um garoto da nossa casa, evitando qualquer tipo de contato visual comigo. Ele tinha os braços cruzados sobre a carteira e o rosto apoiado em suas mãos. Fui me sentar ao lado de Pandora, aproveitando que estávamos dividindo aquela aula com a Corvinal, mas não consegui tirar nenhum cochilo durante a grande falação sobre coisas que já estava cansada de saber. Fiquei a aula inteira esperando Régulo me dar uma trégua e olhar em minha direção para que pudesse pedir desculpas, mas não tive a oportunidade.
Já na parte sul dos terrenos da escola, estava feliz em ver Remo sentado à minha frente. As águas calmas do Lago Negro tiraram um pouco minha cabeça do desentendimento que tive com Régulo, mas Moony percebeu que eu estava distraída e, como não quis perguntar nada, começou a me distrair com fatos aleatórios sobre o lago ao nosso lado. Não pude deixar de achar extremamente fofo como ele sabia tantas coisas sobre o assunto.
— Uma vez cheguei até a ver a Lula Gigante que mora aí. — Olhei para ele, assustada. — Foi no meu primeiro ano, no barquinho que pegamos para atravessar o castelo. Quase borrei as calças.
Minha risada ecoou no local quase vazio, fazendo com que ele sorrisse junto comigo. Os alunos sabiam que o Lago Negro abrigava grindylows e sereianos em suas águas, mas vários achavam que a Lula Gigante, que deveria guardar a entrada de Hogwarts, era apenas uma lenda.
— Sabe, dos dormitórios da Sonserina conseguimos ver o interior do lago, por ele ser ligado com as Masmorras — comentei, mesmo achando que ele já devia saber daquilo. Ele sabia de tudo. — Às vezes vejo alguns grindylows, mas grande parte é só algas e ruínas submarinas. Te aviso se ver a Lula Gigante passar por lá, e digo a ela que você mandou um oi.
— Ah, diga também que não faço questão de vê-la de novo.
Ainda estávamos rindo e falando amenidades quando uma brisa forte invadiu a cabana, fazendo com que eu me arrepiasse de imediato. Tinha tirado a capa das minhas vestes porque ainda estava fedendo.
— Minha capa está com cheiro de bosta de criaturas mágicas — expliquei.
— Herbologia? — Ele fez a mesma careta que passei a manhã inteira fazendo. — Essa aula foi um terror para mim também no ano passado. Foi pior para Peter, que tropeçou e derrubou o vaso de adubo em cima de si mesmo. — Sem ao menos hesitar, Remo tirou a capa dele, estendendo-a para mim com uma das mãos. — Aqui, pode usar.
— Obrigada. — Ao pegá-la, nossas mãos se tocaram por um breve momento, fazendo com que eu me arrepiasse mais uma vez, mas de um jeito completamente diferente. Vesti a capa rapidamente, torcendo para que ele não tivesse notado. De repente, reparei em seus ombros, que apareciam pela gola da camiseta dele que estava sempre desarrumada.
Havia um grande hematoma em seu ombro direito. Não parecia recente. Parecia ter sido causado algumas semanas atrás, mas ainda estava lá. Ele abotoou direito a camiseta e ajeitou a gola, percebendo que reparei o machucado. Lembrei da última vez em que o vi ferido e sabia que ele não me diria o que tinha acontecido. Calada, peguei o livro que tinha levado até lá e comecei a folheá-lo, vendo que Remo fez o mesmo, nervoso.
“Ferir-se é tão humano quanto respirar.” — Li em voz alta as páginas em minha frente.
— O quê? — ele perguntou, olhando novamente para mim.
— Aqui. — Estiquei os braços para que ele pudesse ver as páginas do exemplar de Os Contos de Beedle, O Bardo, e li novamente, dessa vez do começo. — “Nenhum homem ou mulher vivos, mágicos ou não, jamais escapou de alguma forma de lesão, seja física, seja mental ou emocional. Ferir-se é tão humano quanto respirar.”
Ele ficou calado por alguns segundos, absorvendo as palavras. Fechou o livro em minhas mãos, marcando a página com o dedo, e deu uma rápida olhada na capa.
— Dumbledore escreveu isso? — ele perguntou, impressionado, e eu assenti.
Não soube ler em seu olhar o que se passava em sua cabeça, mas ele parecia triste e cansado, de repente. Senti vontade de abraçá-lo, mas tive medo de estar invadindo seu espaço. Senti vontade de prometer que tudo ficaria bem, mas eu não tinha como ter certeza daquilo se nem ao menos sabia o que estava acontecendo com ele. O cheiro de seu perfume impregnado em sua capa, misturado com o cheiro familiar de café, invadiram minhas narinas, me dando a mesma sensação enorme de conforto que eu encontrava em seus olhos.
— Você está bem? — perguntei, por fim. Não me referia apenas ao machucado no ombro, e ele notou isso.
— Prometo que estou — Remo me garantiu e pude sentir a sinceridade em sua voz. Pensei em dizer que ele podia conversar comigo, caso precisasse ou quisesse, mas ele sabia.
Mesmo nos conhecendo havia tão pouco tempo, já sentia que podia confiar naquele garoto misterioso em minha frente de olhos fechados. Queria que ele soubesse que podia confiar em mim também e que, se eu pudesse, faria o que fosse preciso para ajudá-lo a evitar que se machucasse mais.
Já era noite quando cheguei à Sala Comunal e vi Régulo em uma das largas poltronas revisando suas anotações de Poções. Estávamos, aos poucos, tomando gosto pela matéria e éramos muito incentivados pelo Professor Slughorn, que queria que os melhores alunos fossem de sua casa.
Resolvi dar um basta naquele clima chato entre nós dois e me sentei em sua frente, pegando o pergaminho de suas mãos e fazendo com que ele fosse obrigado a olhar para mim.
— Não vou mentir para você — anunciei —, só não sabia como dizer que… — Respirei fundo. — Esbarrei com James Potter pelos corredores e ele me levou a uma festa com seu irmão e os amigos dele.
Pensando bem, era bem ridículo que eu estivesse tão nervosa em contar isso para ele. Eu não tinha nada a ver com as implicâncias dele com Sirius. Mesmo assim, preferi ainda não contar sobre os meus encontros com Remo. Ele tinha me feito prometer que não diria a ninguém sobre “nosso esconderijo”, certo?
— Você estava mentindo para mim porque estava com medo de me dizer que é amiga do meu irmão? — Ele franziu a testa.
— Eu não diria que sou amiga do seu irmão. Só talvez não o deteste tanto quanto você gostaria.
— Eu não detesto o meu irmão — ele protestou.
— Detesta, sim.
— É complicado — ele insistiu, mas vi que não estava com paciência para discutir aquele assunto. — Então, não é amiga de Sirius, mas é amiga de James Potter? — Notei que ele pronunciou o nome de James com um certo deboche, mas ignorei. Lembrei da confissão dele no armário de telescópios sobre me achar legal.
— É, acho que sim — respondi, rindo sozinha.
— Boa noite, . — Régulo revirou os olhos, impaciente, pegando o pergaminho de volta e se levantando. Puxei seu braço, fazendo com que ele se sentasse novamente. — Reggie… — usei o apelido que o chamava quando éramos crianças. — Eu menti porque sou uma idiota, mas você é meu melhor amigo e nada vai mudar isso. — Vi que ele começou a ceder quando suas bochechas coraram e ele olhou para baixo, tentando não sorrir. — E se um dia eu realmente me tornar amiga de Sirius, prometo que você vai continuar sendo meu Black preferido.
Sua risada invadiu o local e eu suspirei, aliviada.
— Ah, e para compensar a péssima amiga que fui hoje, olha o que eu consegui. — Enfiei a mão nos bolsos, pegando dois envelopes laranja.
Entrada para a festa de Halloween na Torre de Astronomia? — ele leu um deles.
— Não, duas entradas para a festa de Halloween na Torre de Astronomia! Você vai comigo, não vai? — Fiz o melhor beicinho triste que consegui.
— Claro. Mas sem segredos, está bem?
Dei um gritinho de felicidade e o abracei apertado do mesmo jeito que ele fez comigo no trem alguns dias antes, enchendo o topo de sua cabeça de beijinhos.

Narrador Avulso


No dia 31 de outubro, a festa de Halloween sediada pelo próprio corpo docente, na Torre de Astronomia, estava lotada. Para os alunos, aquilo era melhor do que o aniversário de morte de Nick Quase-Sem-Cabeça, fantasma da Grifinória.
Assim que viu sua amiga, , James Potter foi cumprimentá-la. Não era o anfitrião da festa daquela vez, mas se sentia como se fosse o anfitrião de todas as festas que ia.
— Oi, ! — ele disse, animado, até perceber o quase clone de seu melhor amigo ao lado da garota. Régulo e Sirius seriam praticamente idênticos se tivessem o mesmo corte de cabelo e modo de se vestirem. — Oi, Blackzinho!
Régulo fechou a cara imediatamente ao ouvir aquele apelido. Abriu a boca para responder James à altura, mas sentiu puxar a manga de sua camiseta preta.
— Shhh! Ignore ele — ela comentou, mas ainda sorria para James. Régulo não sabia se era porque passava as férias inteiras ouvindo seus pais falarem mal dos Potter, mas algo em James o irritava profundamente.
James, por outro lado, não parecia abalado com a presença do Black mais novo. Foi em direção a dois de seus melhores amigos, Peter e Remo, que riam de algo que Frank Longbottom havia dito.
— Moony? Por que sua namorada veio acompanhada pelo Sr. Régulo Black? — ele perguntou, deixando Remo alarmado, de repente.
— Ela não é minha namorada, Prongs, fale baixo! — ele cochichou, irritado. Seus olhos procuraram pela festa e a acharam em questão de segundos. Apesar do frio, ela usava um vestido preto de mangas compridas, mais curto do que seria apropriado para uma festa na presença dos professores, mas ela não parecia se importar. Como sempre, para ele, era a garota mais linda dali e nem parecia notar aquilo.
— Ah, essas crianças… — James reclamou, brincando. Olhou para os olhos do amigo, que iam de para Régulo, sem saber o que pensar ou fazer. — Me dê cinco minutos e eu o distraio para que você possa tirá-la daqui — James cochichou.
Remo não fez perguntas. Queria mesmo ter um momento sozinho com sem ser na cabana do Lago Negro. E quanto menos soubesse dos planos de James, melhor - tinha aprendido aquilo na prática.
Deixou Peter conversando com Frank enquanto colocava seu copo de suco de abóbora em cima de uma mesa qualquer, indo de fininho em direção a , enquanto via James falar com Régulo.
— Não faço ideia do que você está falando, cara — Régulo respondeu, impaciente. — Pôquer — James cochichou, um pouco alto demais. A Professora McGonagall o olhou com o canto dos olhos, fazendo com que ele baixasse mais o tom de sua voz. — Sei que vocês, homens da família Black, sabem jogar e sabem muito bem. Alphard os ensinou quando eram pequenos. — Meu irmão não vai querer que eu invada o campeonato ilegal de pôquer dele — Régulo disse, simplesmente, e estava certo.
— Ah, então você deixa seu irmão ditar o que você pode ou não fazer nessa escola? — James o provocou. olhava para os dois com certa impaciência, não acreditando no que estava ouvindo. Os garotos são tão bobos, ela pensou, enquanto Régulo já aceitava participar e prometia vencer de todos de lavada. Ela só esperava que ninguém se metesse em uma confusão muito grande.
Psssiu! — Remo a chamou, suspeitamente perto demais da porta da Torre. foi até ele, animada, deixando Régulo para trás enquanto ele planejava sua noite de pôquer com James Potter. Quem diria! — Quer ver algo legal?
— Sempre — ela respondeu e o seguiu para fora da festa.
ϟ

nunca tinha ido à Orla da Floresta Proibida e não imaginou que fosse um lugar tão calmo e cheio de iluminação natural. Olhando dali, jamais imaginaria os perigos que as profundezas daquela floresta guardam. Ela sabia que até mesmo algumas aulas práticas de turmas um pouco mais avançadas eram feitas por aquelas redondezas, mas também sabia que estar ali à noite, sem a companhia de um professor, era extremamente proibido.
Por que estamos aqui? Você ficou doido? — ela perguntou a Remo Lupin, que parecia tranquilo até demais ao andar naquela parte castelo. Remo pegou sua mão, um ato impensado, fazendo com que ela andasse um pouco mais rápido e acompanhasse seu ritmo. — Não precisa ter medo. — Eu não estou com… — olhou para baixo e viu uma pequena víbora passar rapidamente entre suas pernas. — Uma cobra! — ela gritou, desesperada.
Shhh! — Remo olhou para ela, prendendo o riso, mas ainda sem parar de andar. — Sinceramente, , não achei que você fosse ter medo de serpentes. Você é da Sonserina! Já na parte do interior na floresta, mas ainda próximo à região da Orla, Remo Lupin parecia, finalmente, satisfeito com seu destino. — Pode me dizer agora por que estamos infringindo umas cem regras da escola? — perguntou, cansada da caminhada, ajustando seu vestido.
— Porque viemos ver o Sr. Alado. — Ele deu de ombros, posicionando-se atrás dela e a puxando para trás de uma grande árvore. — É geralmente aqui que ele aparece.
— Sr. Quem?
Então, antes que o garoto pudesse respondê-la, o viu. Banhado pela luz da lua e das estrelas que vinham de um céu límpido e escuro, o chifre cintilante de um enorme unicórnio branco se destacou entre as árvores, a poucos metros de onde estavam os dois estudantes. Ele abaixou lentamente a cabeça para beber um pouco de água de uma poça no chão e parecia tranquilo.
— Ai, meu Deus… — cochichou. Dizer que estava encantada diante daquele animal seria eufemismo. Era a criatura mais magnífica e deslumbrante que ela já tinha visto. — Ele não vai fazer nada com a gente, prometo — Remo soprou em sua orelha, fazendo com que suas pernas ficassem bambas, de repente.
— Ele é lindo — ela comentou e acabou chamando sua atenção. O unicórnio olhou diretamente em seus olhos, fazendo com que entrasse em algum tipo de transe. Era um pouco assustador, mas tão intenso. Nem ao menos percebeu que havia pego a mão de Remo novamente até apertá-la, um pouco apavorada com o contato visual demorado entre ela e o bicho. — Não faça nada — ele cochichou em seus ouvidos.
Assim que Sr. Alado, nome dado pelo próprio Remo quando ainda tinha onze anos, percebeu que não estava sendo ameaçado pela presença dos dois, voltou a abaixar a cabeça, bebendo um pouco mais de água e, logo depois, entrou por entre as árvores novamente, desaparecendo por completo.
soltou o ar dos seus pulmões de uma vez só, olhando para Remo com o maior sorriso que poderia dar. Só de pensar que era responsável por parte daquele sorriso (junto com o Sr. Alado, é claro), Lupin sentiu-se como o dono do mundo. Eles ainda estavam de mãos dadas e resolveram ficar ali por mais alguns minutos, em silêncio, aproveitando a calmaria da floresta, torcendo para que vissem algo tão incrível quanto um unicórnio.
A respiração de Remo batia na nuca de e ela engoliu seco. A menina olhou para lua, de repente, que estava minguante, e pensou no apelido do garoto que não saía de sua cabeça desde que se conheceram.
Moony — ela pronunciou devagar, ainda olhando para o céu. Remo pôde jurar que o nome ficava ainda melhor quando dito por ela. — É um apelido bem fofo. Sempre gostei muito de olhar para a lua.
Remo riu baixinho, nervoso e incapaz de ficar inquieto com a companhia de .
— Não sou muito fã dela — ele comentou, olhando para cima também e não podendo mentir que era uma bela visão. — É, mas acho que ela tem seu valor.
Encarar a lua por tempo demais, no entanto, fazia com que a mente de Lupin buscasse algumas das lembranças mais tenebrosas e difíceis que existiam em sua mente. Não foi diferente daquela vez.

1966
Sua pele ardia e coçava. Podia sentir que a temperatura do seu corpo estava um pouco alta, como sempre ficava nas manhãs seguintes. Sua visão estava meio turva, o que era incomum, mas poderia ser uma consequência das noites que vinham ficando cada vez mais difíceis.
Quando abriu os olhos por completo, Remo viu seus pais sentados na beira de sua cama, preocupados e prontos para se certificar de que ele estava bem. Hope Lupin, sua mãe, pegou sua mãozinha ainda pequena e deu um beijo delicado, cheio de carinho.
— Vamos ter que nos mudar — ela anunciou, com cuidado.
— Por quê? — Os olhos do garoto ficaram arregalados. Ele não queria ter que se mudar de novo.
Lyall Lupin, que ainda o olhava da ponta da cama, suspirou, cansado.
— Os March descobriram nosso segredo, filho — ele contou, cheio de pesar.
A família March era a única família bruxa, fora os Lupin, que morava no bairro. Tinham uma convivência tranquila havia alguns meses e Henry March, o garoto com quase a mesma idade de Remo, havia se tornado seu único amigo. Ao pensar nele, um nó se formou em sua garganta.
— Mas… Henry… Ele é meu amigo. Ele está com medo de mim?
Lyall e Hope não responderam, o que foi o suficiente para que seu filho soubesse que sim. Tinha assustado seu único amigo sem nem ao menos ter feito nada a ele. Era fácil controlar suas transformações quando ele ainda era pequeno, mas agora que vinha crescendo, o início das noites de Lua Cheia ficavam cada vez mais dolorosos e Remo gritava bastante. Não conseguia controlar. O feitiço anti-ruído não tinha sido forte o suficiente para que a vizinhança não notasse.
Nem ao menos percebeu que estava chorando muito até sua mãe enxugar as lágrimas de suas bochechas.
— Nós sabemos que você nunca faria mal a ninguém, Remo — Lyall disse. — Conhecemos você e seu coração. Sabemos também que tomamos todos os cuidados todas as noites para que as coisas não fujam do controle, mas nem todo mundo entende…
— Ei — Hope pegou as bochechas pequenas do filho —, as pessoas certas não se importarão com isso. Não ficarão assustadas. Amarão cada pedacinho e detalhe seu. Eu prometo.


1973

Remo soltou a mão de em um impulso ao lembrar daquela manhã, quando ainda tinha seis anos de idade e estava descobrindo o preconceito desenfreado que os bruxos tinham com pessoas como ele. Ele sabia que sua mãe estava certa, porque tinha os Marotos. Os Marotos não o rejeitaram quando descobriram o seu segredo e ele amava seus amigos mais do que poderia explicar.
No entanto, não estava pronto para descobrir se era uma das “pessoas certas” que apareceriam em sua vida. Não estava pronto nem para cogitar ser rejeitado por ela. Manteria seu segredo, por enquanto, até que sentisse que era a hora certa de revelá-lo.

6.

1973



Nunca achei que fosse admitir aquilo para mim mesma ainda tão nova, mas eu estava apaixonada. Apaixonada por Poções.
Tinha tirado a pontuação mais alta do segundo ano nas atividades da matéria e tinha me divertido mais do que jamais imaginaria criando as Poções Aromáticas e Antídotos de Les Bas nas semanas anteriores às férias de fim de ano. Eu já estava de malas feitas, arrastando-as pelo Salão Principal e indo em direção à saída do colégio enquanto conversava com Remo sobre as matérias.
― Você está doida, a melhor matéria que existe é Defesa Contra as Artes das Trevas ― ele rebateu. ― Acho que até ensinaria aqui em Hogwarts, se pudesse.
Professor R.J. Lupin ― pensei alto, sorrindo ao imaginar um Remo Lupin mais velho dando aulas naquela escola. ― Achei bem legal. E não é que eu não goste de estudar sobre Acromântulas, mas… Poções… Sabe aqueles kits trouxas de química para crianças?
― Não ― Remo respondeu, dando de ombros.
― Bom, não importa, é muito mais legal quando você não está apenas misturando ingredientes sem sentido.
― Você também pensa em ser professora aqui, não pensa?
― Sim. Quem sabe o Slughorn não se aposenta daqui para o meu sétimo ano e eu ocupo o cargo dele quando me formar?
Professora de Poções, Diretora da Casa da Sonserina ― Remo anunciou, fazendo meu sorriso se alargar e meus olhos brilharem de expectativa.
― Ei, nós trabalharíamos juntos! ― observei, animada.
― Ah, sim, mas não sei se teria a coragem de ser Diretor da Grifinória… McGonagall faz isso como ninguém.
Paramos no meio do caminho, entre uma das largas mesas do salão, para termos tempo de nos falarmos um pouco mais.
Eu estava exausta por causa das aulas, mas não estava tão animada assim para ir para casa. A atmosfera de Hogwarts fazia com que a escola se tornasse cada vez mais o meu segundo lar e meu lugar preferido no mundo. Eu até cogitei ficar lá durante as férias, mas estava com muitas saudades do meu pai.
No entanto, seria ótimo ficar. Eu poderia treinar mais Quadribol e aproveitar que estávamos indo tão bem naquela temporada. Havíamos ganho o jogo contra a Corvinal em outubro e contra a Grifinória no começo de dezembro. O jogo contra a Lufa-Lufa no ano seguinte ditaria se ganharíamos a Taça de Quadribol ou não.
― Vai mesmo ficar para o Natal? ― perguntei, vendo que Remo não segurava nenhuma bagagem consigo.
― Ah, é, mas Padfoot e Wormtail vão ficar comigo. Só Prongs que não conseguiu escapar do jantar de família.
James estava perto da porta do saguão, emburrado por estar indo embora sem seus amigos. Tinha parado no meio do caminho apenas para responder a Severo Snape, que se exibia pelo jogo que a Grifinória tinha perdido para Sonserina (o que era um pouco patético porque ele nem ao menos estava no time).
― Não vão com ele nesse ano?
Remo já havia me contado sobre como Fleamont e Euphemia Potter eram incríveis e amavam quando o filho levava os outros Marotos para casa.
― Esse ano não vou poder ir. ― Ele coçou a nuca, sem jeito. ― O fim desse mês vai ser complicado.
― Ah, quase esqueço de te dar uma coisa! ― Abri o zíper da minha mala até a metade, pegando um exemplar novinho de Os Contos de Beedle, O Bardo embrulhado com uma fita de seda azul para combinar com a capa. ― Achei que fosse gostar.
Remo piscou para o livro, desacreditado. Eu não sabia se ele acharia estranho ganhar um presente de Natal meu, mas não pude resistir. Ao ver a expressão maravilhada em seu rosto, vi como valeu a pena.
― Eu amei ― ele disse com um enorme sorriso no rosto. ― Obrigado.
Régulo nos observava de longe, sério, sentado em cima de sua grande mala enquanto me esperava. Estava tentando fazer as pazes com a ideia de que eu gostava de Remo e de James. Acho que, enquanto eu não fosse próxima de Sirius, ele poderia aceitar tudo.
Estava estranho desde a festa de Dia das Bruxas. Não cheguei a perguntar o que aconteceu na partida de pôquer ilegal de Sirius, porque ele não parecia querer tocar no assunto.
Régulo ergueu as sobrancelhas, ainda olhando para mim, como se perguntasse se eu ainda demoraria muito. Fazia questão de deixar algo bem claro: não era porque eu me dava bem com os Marotos, que ele teria que se dar também.
― Boas festas, Moony ― me despedi, fingindo que meu rosto estava levemente corado apenas pelo frio, não por reprimir a vontade que tive de abraçá-lo.
― Boas festas ― ele respondeu, sorrindo enquanto segurava o presente entre as mãos.

Passei o primeiro dia em casa, dormindo, me recuperando dos meses exaustivos de aulas e matando as saudades da minha cama. Já no dia seguinte, assim que escureceu, vesti dois casacos e um cachecol apenas para atravessar a rua. Londres estava coberta de neve. Passei pela cozinha, indo em direção à porta, e dei um beijo na bochecha do meu pai, que estava fervendo leite, também cheio de agasalhos.
! ― Ele me seguiu, fazendo com que eu parasse no meio do caminho. ― Onde está indo?
― Régulo me chamou para jantar.
― Você não vai.
― O quê? ― perguntei, incrédula. Cheguei até a achar que ele estava brincando, mas ele sustentava um olhar sério no rosto. ― Por quê?
― As coisas no Ministério não estão nada boas. Chegamos ao ponto de não saber se um dia vamos conseguir detê-lo. ― Ele me entregou uma grande xícara de leite quente, fazendo um gesto para que eu me sentasse em uma das poltronas da nossa sala de estar.
― Você está falando de Vold
― É, de Você-Sabe-Quem.
Arqueei as sobrancelhas. Sendo bem sincera, sempre achei ridículo o medo das pessoas terem de chamá-lo pelo nome. Na minha opinião, só aumentava o medo dele em si e não impedia que ele saísse matando quem quer que fosse.
― Mas a casa de Régulo é bem aqui ao lado!
― O problema não é esse… ― Ele suspirou, cansado. Parecia estar lutando uma batalha interna, decidindo se era uma boa ideia compartilhar aquilo comigo ou não. ― Olhe, estamos fazendo tudo que podemos para impedir que ele e seus seguidores machuquem mais pessoas, mas não são todos que discordam do discurso de supremacia de bruxos de puro sangue que ele tanto prega. Inclusive, temos bruxos dentro do Ministério que até atrapalham nossa busca.
Vários sobrenomes gritaram em minha mente. Malfoy. Goyle. Lestrange. Mas meu pai estava falando da grande família Black, e havia um em específico que ganhou destaque entre os demais nomes possíveis.
― Orion.
― O próprio.
Meu pai notou a aflição tomar conta de mim aos poucos. Ele colocou a caneca de leite em cima da mesa de centro e pegou minha mão, apertando-a de leve em uma tentativa de consolo.
, não estou dizendo que Régulo é igual a ele. Eu sei o quanto o ama. Só não quero você naquela casa enquanto tudo não estiver resolvido e quero que você tome muito cuidado naquela escola, entendeu?
― Entendi ― assenti, ainda meio triste.
― Seria bom evitar recebê-lo aqui em casa também.
Pai! ― protestei.
― Não quero nenhum problema com aquela gente. Walburga é uma mulher muito descontrolada.
Bom, eu não podia argumentar contra aquilo.
― Como estão seus feitiços de defesa? ― ele me perguntou de repente.
― Estão bons, eu acho ― respondi, sinceramente.
Como ainda estava no segundo ano, não tinha aprendido tantos feitiços de defesa nas aulas do Professor Flitwick. A Professora Merrythought, no entanto, tinha nos prometido que nos ensinaria o básico sobre duelos depois das férias.
― Não quero que estejam bons, quero que estejam ótimos. ― Ele se levantou, tirando a varinha do bolso e pedindo para que eu fizesse o mesmo.
― Não posso praticar feitiços fora da escola!
― Sei que não, mas eu estou aqui para supervisioná-la e trabalho no Ministério da Magia. Garanto que não vamos ter problemas.
Peguei a varinha e fomos ao seu escritório, no primeiro andar da casa. Meu pai mandou uma coruja a um de seus colegas do Ministério que trabalhava no setor de Restrição à Prática de Magia por Menores, informando que praticaria alguns feitiços comigo e que ele não se preocupasse. Assim que recebemos sua resposta, nos dando a permissão necessária, começamos os treinos.
Começamos praticando o feitiço de desarmamento, que eu já sabia, Expelliarmus; quando decidiu que eu já estava boa o suficiente, me ensinou um feitiço prático de bloqueio, o mais usado entre os bruxos: Protego. Por fim, apesar dos meus protestos, deixou que eu praticasse um feitiço estuporante nele. Não me senti nem um pouco bem estuporando meu pai, vendo seu corpo voar de um lado para o outro do escritório de um modo tão violento. Ele, no entanto, me parabenizava todas as vezes que batia contra a parede com mais força que antes, sem se importar com as dores que ficaria depois. Um pouco mais tarde, fui me deitar, pensando em como meu pai devia estar aterrorizado com o que vinha acontecendo no mundo bruxo para que chegássemos àquele ponto.
Já era madrugada quando decidi que não ia conseguir dormir e voltei ao escritório do meu pai. Soltei Annabeth, sua grande coruja marrom, da gaiola e a entreguei um bilhetinho para que levasse até Régulo.

Desculpe não ter aparecido no jantar. Meu pai está com medo de que eu saia de casa estas férias. Já vi que vou ficar presa aqui dentro essas semanas.
- .


Annabeth deu bicadinhas carinhosas no meu dedo antes de sair pela janela e me deixar apenas alguns minutos esperando que ela voltasse com a resposta presa em suas patinhas.

Duas semanas longe de você? Vai ser meu novo recorde.
R.A.B.


Durante as semanas seguintes, não nos vimos, mas ainda trocávamos bilhetes por nossas corujas de madrugada. Tanto o jantar de Natal quanto a noite de Ano Novo foram tranquilas e calmas. Meu pai, no entanto, estava adquirindo olheiras profundas sempre que precisava sair de casa para ir ao Ministério. Não queria admitir, mas eu percebi que ele devia estar apavorado. Um de seus colegas havia desaparecido no começo de dezembro, e quando não deu notícias, houve uma grande comoção no Ministério para achá-lo. Ele foi encontrado nos primeiros dias de janeiro, perto da antiga casa dos Riddle, morto.

1974

Continuamos praticando feitiços de defesa até o dia 7 de janeiro, quando voltei à Plataforma nove e meia para embarcar novamente para Hogwarts. O clima na estação estava tenso. Walburga e Orion nos encaravam com o canto dos olhos enquanto ajudavam Régulo com a bagagem. Eu nem me atrevi a chegar perto deles. Dei um abraço apertado no meu pai, me despedi e olhei para Régulo, que cochichou de longe que me encontraria já dentro do vagão.
Quando chegamos a Hogwarts, logo depois de guardar tudo em meu dormitório, aproveitei a última noite de férias para ver a segunda pessoa de quem mais senti falta nas férias. Fui correndo ao Salão Principal, certa de que ele estaria lá, mas só encontrei James, sozinho, surrupiando a sobremesa do jantar (potes de pudim de abóbora) para dentro de seu casaco. Ele ainda carregava uma mochila nas costas. Pensei em como a noite no dormitório dos Marotos seria animada.
Me aproximei de fininho e cochichei ao chegar mais perto:
Eu vi isso.
Ele deu um pulo para trás, assustado, quase derrubando todos os potes de pudim que carregava com ele. Ajeitou os óculos no rosto ao me ver, respirando fundo.
― Você quer me matar? Filch está na minha cola desde que voltei.
― Faz umas duas horas que você voltou.
Eu sei! Não entendo por que ele implica tanto comigo ― ele comentou, indignado. Eu tive que rir.
― Tem certeza de que não sabe? ― Ele olhou para mim, impaciente. ― O que foi? Ainda está com raiva por causa do jogo?
― Não estou com raiva de você ― ele explicou. ― Estou com raiva do seu time. E da sua Casa. E de Régulo.
Ri novamente. Nosso jogo contra a Grifinória foi apertado. James e Régulo, ambos apanhadores, avistaram o pomo de ouro juntos e foi uma verdadeira batalha para ver quem conseguia capturá-lo primeiro. Régulo acabou conseguindo por pouco, trazendo a vitória da Sonserina. James passou uma semana emburrado. Nunca aceitava perder no Quadribol.
Ele suspirou, olhando para mim com um sorriso debochado, o que significava que estava de bom humor, apesar de tudo.
― O que foi, princesa?
― Nada, só estava procurando Moony ― dei de ombros, disfarçando a ansiedade que estava sentindo em vê-lo logo. ― Você o viu por aí?
― Ah… Não… Moony vai… Passar uns dias cuidando da mãe. Ela está meio adoentada. ― James notou que eu olhei para ele, preocupada, então acrescentou rápido: ― Mas está tudo bem, não se preocupe. Ele inclusive mandou lembranças. Interprete isso como quiser.
Ele riu e balançou a cabeça, como se tivesse contado alguma piada interna. Saímos do salão andando em direção às escadarias e ficamos parados esperando que uma delas mudasse de posição.
― Como foram as férias? ― ele perguntou.
― Não pude sair de casa ― respondi, desanimada.
― Nem eu. Meus pais estão muito preocupados com tudo que está acontecendo ― James me lançou um olhar sombrio e nervoso de repente.
― Meu pai me fez praticar feitiços de defesa.
Nós estávamos atravessando o corredor do segundo andar, observando os quadros nas paredes interagirem entre si. James fazia um pequeno esforço para manter toda a comida dentro de seu casaco.
― Foi uma boa ideia, queria ter pensado nisso. Não que eu precise praticar feitiços ― ele acrescentou, dando de ombros.
Claro que não ― respondi de forma sarcástica, rindo.
Nós paramos em frente da sala de Defesa Contra as Artes das Trevas. Com muita dificuldade, James deslizou a mochila por seu ombro e tirou um punhado de papéis preenchidos com uma caligrafia impecável. Mesmo rapidamente, pude ler o título da redação e como estava assinada.
― Espere aqui, vou deixar essa redação sobre grindylows na mesa da Professora Merrythought.
Remo Lupin? ― perguntei, sem entender nada.
― Hã?
― Você assinou o seu dever de casa com o nome do Remo. ― Eu apontei para o papel, vendo a confusão nos olhos de James irem embora. Ele abriu um sorriso um pouco tímido, o que era muito incomum.
― Ah, é. Fiz a dele para que ele não pegue detenção. A culpa não é dele que… ― Ele soltou um pigarro nervoso. ― ...Que a mãe dele esteja doente.
― Você é um fofo, James Potter ― disse, impressionada.
― Não conte a ninguém. ― Ele alargou o sorriso, dando uma piscadinha.
Poucos dias depois, me deparei com Remo sentado no Salão Principal um pouco depois do almoço com o resto dos Marotos. Ele parecia levemente abatido e pensei que talvez tivesse pegado uma gripe com a mãe. Quando me viu, abriu um sorriso que o deixou bem menos pálido.
Me aproximei, sentando ao seu lado na grande mesa quase vazia. Os garotos tinham uma confusão de lápis coloridos, corações de papel e glitter espalhados por todos os lados.
― Oi! ― ele disse, animado.
― Oi, como está sua mãe? ― perguntei, preocupada.
― O quê? ― ele me olhou, confuso. ― Ah… Está bem. Não era nada sério.
― O que estão fazendo?
― Um cartão de Dia dos Namorados ― James respondeu, convencido, me mostrando um grande pergaminho cor de rosa. Os nomes dos Marotos estavam na parte de baixo, rodeados por pequenos corações que pareciam ter sido desenhados por uma criança de cinco anos.
― Assinado pelos quatro? Quem é a sortuda? Ou sortudo.
― Professora McGonagall ― Sirius respondeu, rindo, trocando um pequeno high-five com Peter.
― Ela recebe um todos os anos ― Remo explicou. ― Não fica muito feliz, mas sei que, no fundo, se diverte.
James pegou sua varinha e começou a conjurar uma azaração que eu não conhecia. Segundo Remo, assim que ela abrisse o cartão, várias bailarinas saltariam do papel e começariam a dançar e cantar canções melosas de amor até que ela o fechasse novamente. Fiquei imaginando a cena épica que seria a Professora McGonagall rodeada por bailarinas na sala dos professores, com o rosto vermelho, pensando qual seria a detenção mais apropriada para dar aos quatro alunos mais trabalhosos da escola.
― E você, ? Quais são seus planos para o Dia dos Namorados? ― James perguntou com um pouco de malícia na voz.
― Ah, eu pretendo receber um monte de presentes ― respondi.
― Ah, é? ― Remo perguntou, com a voz trêmula.
― Sim, sabe, é meu aniversário.
― Eu estou muito magoado que não tenha me dito antes. Vamos preparar um cartão para você também ― James disse, pegando outro pedaço de pergaminho rosa.
― Por mais que eu seja uma grande fã de bailarinas que cantam músicas deprimentes, eu passo.
― Você acha que vamos repetir o feitiço? Agora sim eu fiquei ofendido.
! Vamos nos atrasar! ― a voz de Régulo ecoou pelo local, atraindo os olhares de nós cinco. Ele esperava por mim na entrada do saguão, segurando nossas vassouras, e não parecia feliz. Tínhamos treino de Quadribol naquela tarde e vínhamos praticando quase todos os dias para o grande jogo contra a Lufa-Lufa.
Ele estava uma verdadeira pilha de nervos, mas eu podia sentir que seu olhar severo em nossa direção não era por causa disso. Quando seus olhos encontraram com os de Sirius, no entanto, ele os desviou, fingindo que estava olhando para o céu encantado e ainda claro acima de nós.
― Ele está bem? ― Sirius me perguntou tão baixinho que mal pude ouvi-lo.
― Está… ― respondi, estranhando o interesse. Ele nunca me perguntava sobre Régulo. Régulo também nunca me perguntava sobre ele. Desde o jogo de pôquer do Dia das Bruxas, os dois vinham agindo de um jeito diferente. Eu só não sabia explicar como.

Narrador Avulso


Remo Lupin estava animado demais para quem acabara de receber uma grande detenção da Professora McGonagall. Ele e seus amigos teriam que passar um dia inteiro ajudando Madame Pomfrey a limpar as macas da ala hospitalar, graças ao cartão de Dia dos Namorados criativo que tinham criado.
Além do Dia dos Namorados, era também aniversário de sua amiga, , da Sonserina, e ele tinha comprado um presente que tinha certeza de que ela iria gostar. A garota compartilhava um amor especial pela matéria de Poções, mesmo que ele não entendesse o porquê. Pediu ao seu pai, que vivia em Hogsmeade, que mandasse o Diário Fantástico de Poções, um grande livro que permitia que anotasse receitas, antídotos, ingredientes e reações de forma organizada.
Desde o Natal, Remo vinha procurando uma desculpa para retribuir o presente que ganhou de . Nunca saberia descrever os pulos que seu estômago dava quando pensava que ela se importava com ele suficientemente para presenteá-lo com algo que sabia que ele gostaria.
Estava andando rápido, atravessando os corredores externos do castelo que ficavam perto das estufas, quando a viu. Ela estava sentada, aparentemente olhando anotações de uma de suas aulas, quando foi surpreendida por seu amigo, Régulo Black. Os pés de Remo automaticamente pararam no meio do caminho e ele se escondeu atrás de uma das grandes pilastras de mármore, torcendo para que ela não o tivesse visto.
Régulo carregava um grande bolo de aniversário com granulados coloridos e velas encantadas que soltavam pequenas chamas cintilantes. A garota abriu um grande sorriso, dando no garoto, que era parecido demais com Sirius, um abraço bem apertado. Régulo cochichava algo em seu ouvido e eles parecia muito próximos, Remo pensou, com a respiração cortante. Régulo, então, soltou-se do abraço da garota e deu-lhe um beijo no canto da bochecha, íntimo e chamativo. Foi o suficiente para Remo ouvir a pequena voz em sua cabeça e voltar para sua Sala Comunal, ainda com o presente de em mãos.
, no entanto, estava completamente alheia da situação e aliviada em ver que seu melhor amigo não estava tão distante quanto ela achou que estaria.
Senti sua falta nas férias ― ele cochichava em seu ouvido enquanto a abraçava. Ela também havia sentido falta dele e tinha medo de que sua aproximação com os Marotos tivesse mudado algo entre os dois. Aquele gesto de carinho a fez pensar que não.
Ao chegar na Sala Comunal, Remo pediu emprestado a Capa de Invisibilidade de James e foi em direção às Masmorras, esperando a oportunidade de entrar escondido na Sala Comunal da Sonserina. Deixou o presente lá, embalado com um cartão contendo o nome de , e foi embora.
Ele sabia que era idiota sentir ciúmes. não era sua namorada. Não era nada sua. Mas as inseguranças de Remo, que existiam havia muitos anos, pelos mais diversos motivos, falavam muito mais alto. Ele era um monstro. merecia muito mais que um monstro que pudesse colocar sua vida em risco. Merecia um… Black. Régulo era um Black.

Os dias seguintes se arrastaram. Tinham tantos deveres de casa e tanto conteúdo para estudar, que ele não teve tempo para nada além daquilo. Usou os estudos como desculpa para parar de ir à cabana do Lago Negro também, mesmo se sentindo péssimo ao fazer aquilo. Seus amigos notaram que algo estava o incomodando. James, como sempre, descobriu logo do que se tratava, mas não disse nada. Sabia que não adiantaria.
Mesmo sendo uma decisão sua evitá-la, ele sentia falta de . Uma semana antes do início das provas, Remo estava atordoado, tentando decorar os significados dos símbolos das runas antigas que estudava, prometendo a si mesmo que nunca mais cursaria aquela matéria, quando esbarrou na garota que não saía de sua cabeça nem por um momento.
― Oi! ― O sorriso de iluminou-se ao vê-lo e seu coração deu uma grande pontada em seu peito. Ele sentia muita falta dela.
― Oi… ― ele respondeu, não conseguindo desviar os olhos dela.
― Não te vejo há um tempão, você… Parou de ir à cabana… ― ela comentou, olhando para os pés, corando de leve e torcendo para que ele não percebesse.
― Ah, é, sabe, fim de ano e provas… ― Remo sentia-se um grande idiota inventando desculpas para ela. Não achava que a garota acreditaria nem por um segundo nele, mas o que podia dizer? Que teve uma crise idiota de ciúmes seguida por uma grande crise de insegurança?
― Não tive a chance de te agradecer pelo presente de aniversário ― Ela sorriu, tornando impossível para Remo não acompanhá-la. ― Eu amei, de verdade. Sempre uso, mesmo quando não tenho conteúdo de Poções para anotar. Já saí catando ingredientes pelo castelo só para catalogá-los.
Ele sentia-se bobo. Só porque não era confiante o suficiente para dizer a como realmente se sentia, não significava que ainda não queria tê-la em sua vida. Ela era sua amiga, apesar de tudo.
― Desculpe não ter aparecido na cabana esses dias ― ele disse, sendo completamente sincero.
― Tudo bem, também estou cheia de coisas para estudar e com os treinos de Quadribol. ― A final de Sonserina contra Lufa-Lufa seria no dia seguinte. ― Você vai ao jogo?
― Claro ― ele respondeu, começando a relaxar com sua presença. ― Se eu torcer para a Sonserina, você promete não contar ao Prongs?
riu. Antes que pudesse respondê-lo, no entanto, ouviu uma pequena comoção vinda do corredor vizinho. Os dois olharam assustados para Alice Fortescue, da Grifinória, que vinha correndo, espantada.
― O que aconteceu? ― Remo perguntou à colega.
― Davi Gudgeon se machucou feio no Salgueiro Lutador ― Alice tremia. ― Acham que vai perder um olho, mas Madame Pomfrey está fazendo tudo que pode.
notou que Remo ficou estático ao seu lado, parecendo mais pálido que nunca.
― Quem ainda insiste em chegar perto de uma coisa daquelas, afinal? ― comentou, nervosa. ― É muita falta de bom senso.
― E quem foi o maluco que plantou aquilo numa escola? ― Alice perguntou. ― Deviam derrubar aquela maldita árvore de uma vez…
Remo não terminou de escutar o diálogo. Saiu correndo, tendo dificuldade de controlar a respiração, com os olhos cheios d’água. Achou que ouviu chamá-lo pelo seu apelido, preocupada, mas não deu ouvidos.
Ele sentia-se culpado. Claro, não tinha obrigado Davi a chegar perto de uma árvore assassina, mas ele era o motivo para que aquela árvore estivesse ali. Era isso que ele fazia, Remo pensou. Ele acabava colocando a vida de todos ao seu redor em risco, mesmo sem querer.

7.

1974



Aquele não foi um bom verão. Por mais que devesse estar animada por termos ganho a tão esperada Taça de Quadribol, voltei para casa me sentindo um pouco vazia. Foi uma vitória até fácil, um jogo rápido. Régulo achou o pomo em menos de 20 minutos de jogo e acho que nunca o vi tão feliz. Sabia que o momento em que nos abraçamos, segurando juntos a taça, ficaria marcado para sempre em nossas vidas.
No entanto, quando cheguei em casa, fui invadida por uma enorme solidão. Não podia visitá-lo ou recebê-lo em minha casa porque meu pai ainda não permitia. Não podia sair porque era perigoso demais. Pensava muito em Remo, que passou o resto do período de aulas agindo de forma estranha e distante e eu nem ao menos sabia o motivo.
Na verdade, pensei em Remo o verão inteiro. Pensei em escrever, perguntar como ele estava. Mesmo sem ter seu endereço, tinha certeza de que Annabeth, a coruja do meu pai, o acharia sem problemas, mas eu não sabia se ele ao menos me responderia. Tinha a impressão de que vinha me evitando desde o meu aniversário, mesmo que tivesse se dado o trabalho de me dar um presente incrível.
Ainda passei as primeiras semanas daquelas férias trocando bilhetes com Régulo por nossas corujas (escondida do meu pai, claro), mas ele viajou com a família para Irlanda para assistir a alguns jogos de Quadribol da seleção que mais gostava. Sirius, obviamente, não foi com eles. Passou o verão com James e fiquei me perguntando se Remo estaria com eles também.
Meu pai, minha única companhia, estava me ajudando com uma redação de História da Magia que eu deveria entregar quando retornasse à escola. Perguntei, um pouco distraída:
― O que sabe sobre os Lupin?
Meu pai me olhou, pensando por alguns segundos como se tentasse lembrar de algo.
― Não muito, eles são uma família bem reservada ― ele comentou. ― Lyall Lupin casou com uma trouxa e trabalhava há muitos anos no Ministério, mas foi embora por um tempo com a esposa e o filho pequeno. Soube que voltaram quando o garoto ingressou em Hogwarts. ― Eu assenti, ainda mais curiosa que antes. ― Você o conhece?
― Conheço… ― e não paro de pensar nele, acrescentei mentalmente. ― Sabe por que foram embora?
― Não... ― Ele deu de ombros. ― Há rumores, mas não são muito bons. Dizem que o garoto sofreu um acidente sério, estava muito machucado quando foram vistos indo embora.
Pensei nas cicatrizes no rosto de Remo. Já estava tão acostumada com elas que me surpreendi por ter ligado os pontos tão rápido. Na verdade, eu até gostava delas. Gostava de tudo nele. Mudei de assunto, voltando a prestar atenção no que meu pai dizia sobre a Caça às Bruxas do século vinte.
A ida à Hogwarts foi ainda mais solitária. Régulo havia voltado de viagem um dia antes de pegarmos o trem, então estava muito cansado e passou boa parte do caminho dormindo em nosso vagão. Fui de fininho ao famoso vagão dos fundos, o vagão dos Marotos, mas vi, ainda da porta, que Remo também estava dormindo. Ótimo. Sirius estava ocupado sendo paparicado por Dorcas Meadowes e James e Peter conversavam sobre Quadribol.
O grande jantar de boas-vindas e a seleção dos alunos novos deram uma boa melhorada no meu humor, como sempre. Ao voltar para meu dormitório, pensei se os Marotos dariam a festa clandestina de boas-vindas na Torre de Astronomia, como fizeram no ano anterior. Me perguntei quais eram as minhas chances de ser convidada, caso acontecesse, mas não fui chamada para nada.
Já no dia seguinte, depois das aulas, estava voltando para minha sala comunal quando escutei sussurros vindo de perto do corredor da sala de Poções:
Estamos estudando direito… ― Logo reconheci a voz grave e rouca de Sirius. ― Não vamos fazer qualquer merda sem pensar.
Eu já disse que é arriscado, Padfoot ― a voz de Remo o respondeu, me deixando em estado de alerta quase que de imediato. Cheguei um pouco mais perto, tentando escutá-los. ― Estamos fazendo isso ilegalmente. Como você acha que vou viver comigo mesmo se algo der errado por minha causa?
― Falamos sobre isso depois, no nosso dormitório, está bem? Aqui é arriscado demais.

Ao escutar largos passos se aproximarem, me escondi atrás de uma grande parede. Em poucos segundos, vi Sirius se afastar de Remo, olhando para os lados, parecendo bem desconfiado e logo me perguntei o que os dois estariam tramando.
De repente, fui tomada por uma súbita onda de coragem e me aproximei de Remo, aproveitando que ele estava sozinho e ficando ao seu lado enquanto caminhávamos em direção às escadarias do castelo.
― Oi, estranho!
! ― ele respondeu, sorrindo, e seus olhos brilharam em minha direção. Apenas por alguns segundos, me permiti pensar que, talvez, ele tivesse sentido tanto a minha falta quanto eu senti a dele.
Observando-o rapidamente e matando as saudades de cada detalhe seu, notei que ele carregava em suas vestes um grande distintivo vermelho e dourado com a letra M.
― Não é muito novo para ser Monitor? ― perguntei, apontando para o acessório em sua capa. Ele riu, tímido. Apenas alunos do quinto ano eram chamados para o cargo de monitoria.
― E você não é muito nova para ser co-capitã de um time de Quadribol? ― Remo sorriu.
No último dia de aula do nosso segundo ano, Régulo havia sido nomeado o novo capitão do time de Quadribol da Sonserina. O antigo capitão havia acabado seu sétimo e último ano em Hogwarts. Régulo ainda era muito novo para se tornar capitão, mas além de ser o melhor jogador do time, também tinha garantido nossa Taça de Quadribol. Assim que recebeu o título, meu melhor amigo não pensou duas vezes antes de me nomear co-capitã.
Como se quisesse falar sobre Régulo tanto quanto eu, Remo voltou rapidamente ao assunto de sua monitoria:
― Mas acho que sim, Dumbledore deve estar querendo que eu coloque meus amigos na linha.
Podia ser apenas uma impressão minha, mas ele não parecia muito feliz com aquilo. Todos em Hogwarts sabiam que, entre os Marotos, Remo era o que menos cumpria detenções, além de ser mais calmo e responsável do grupo. Ele era a consciência dos Marotos, na maior parte do tempo, mas não sempre.
― E como se sente com isso? ― perguntei.
― Me sinto chato ― ele suspirou exageradamente. De repente, Remo parou no meio do caminho, me lançando um olhar divertido. ― Quer uma prova de que não sou tão chato assim?
― Eu sei que você não é, Moony ― eu respondi, rolando os olhos diante o drama ―, mas, claro.
― Vem comigo ― ele sorriu. ― Vamos fazer uma coisa legal.
Eu sabia que não podia entrar na Sala dos Monitores. Nem mesmo acompanhada de um, muito menos de um que tinha acabado de ser nomeado como tal. O cômodo era grande e parecia bastante com a Sala dos Professores, com pequenos detalhes que os diferenciavam. Remo, que parecia ansioso, indicou com a cabeça uma grande caixa que ficava em um dos cantos da sala, cheia de pertences amontoados uns por cima dos outros. Logo notei que a maioria deles eram objetos enfeitiçados, perfeitos para pregarem peças em alguém.
Ele se aproximou da caixa, pegando um pequeno saco plástico cheio de ervas e uma cartela com pergaminhos cortados em retângulos também pequenos. Meus olhos se arregalaram, espantados, assim que assimilei o que ele estava me mostrando.
― Sabe o que é isso? ― ele perguntou em um cochichado animado.
Claro que sei ― respondi.
― Tive que confiscar de alguns alunos da Lufa-Lufa porque os Monitores deles não estavam por perto.
― Uau. Eu nem sabia que as pessoas realmente traziam esse tipo de coisa para escola.
― É, trazem… ― Remo riu baixinho, bem do jeito que eu achava extremamente fofo. ― Quer experimentar? ― ele perguntou como se estivesse me oferecendo nada mais que suco de abóbora.
Tadinho, ficou doido ― comentei, não podendo achar que ele estivesse falando sério.
― É que não temos mais aula hoje! ― Remo deu de ombros, nervoso. ― Podemos ir à cabana, sabemos que não vai ter ninguém por lá.
Eu nunca saberia dizer se estava ficando louca, se era efeito da solidão que senti durante as férias inteiras ou se só estava com muitas saudades dele, ao ponto de topar fazer qualquer coisa que ele me pedisse ou que me permitisse passar mais tempo ao seu lado. Por algum destes motivos (ou por uma mistura de todos eles), respirei fundo e respondi, muito confiante:
― Tá, vamos lá.
Eu tinha a impressão de que não ia àquela cabana havia anos. Estar ali de novo com Moony fez com que meu nervosismo fosse embora e eu me deixasse aproveitar o momento. Lembrei de quando ele me levou para a Floresta Proibida no meio da noite para conhecer o Sr. Alado e as coisas correram bem. Não seria diferente daquela vez. Eu confiava nele.
Nós demoramos alguns minutos tentando enrolar a erva do jeito certo. Era a primeira vez que nós dois fazíamos aquilo. Assim que conseguimos, Remo conjurou um feitiço de fogo e acendeu o cigarro. O cheiro enjoado impregnou o ambiente e torcemos para que Filch não tivesse algum tipo de super-olfato e descobrisse o que estávamos fazendo ali.
― É o primeiro dia de aula e eu já sou o pior Monitor que essa escola já teve ― ele colocou as mãos nas bochechas, exageradamente preocupado, logo antes de começar a ter um acesso de riso. Não resisti, comecei a rir também.
Eu estava encostada na parede da cabana arejada com Remo bem em minha frente, esparramado no chão enquanto olhava para o teto com os olhos fora de foco.
Ha! Você acha mesmo que é o único monitor que já fez algo assim?
― Hum… Não? ― ele perguntou, rindo. ― Imagina se Prongs tivesse acesso àquela caixa de itens confiscados ― ele gritou.
― Ele ia explodir a escola. Tipo, literalmente, explodir a escola.
Senti meus olhos lacrimejarem em meio a crise de riso que estávamos tendo. A risada alta de Remo só deixava tudo ainda mais engraçado para mim.
― Como está se sentindo?
Tranquila ― disse com uma voz etérea, quase cantando. ― Preciso começar a fazer isso antes dos meus jogos de Quadribol…
― Não, não, não ― ele me interrompeu dramaticamente, em uma mistura de preocupação e graça. ― Vou me sentir muito culpado se te levar para esse caminho!
Fomos parando de rir aos poucos, não porque não tínhamos mais vontade, mas porque começamos a nos cansar com nossas bochechas rígidas e nossas barrigas doendo. Quando finalmente paramos, deixamos o silêncio invadir a cabana por alguns segundos preciosos.
― Senti saudades de você as férias inteiras. ― Mesmo sério, ele parecia estar relaxado, quase aliviado por estar me contando aquilo.
E-eu também… ― confessei, baixinho, sentindo que meu coração podia pular pela minha boca a qualquer momento.
Remo sentou-se em minha frente, deixando seu rosto bem na altura do meu. Lentamente, tirou uma mecha de cabelo do meu rosto, colocando-a atrás das minhas orelhas. Eu não respirava direito. Não conseguia desviar meus olhos dos seus. Sua mão deixou meus cabelos e tocou lentamente em meu queixo, puxando-o, bem devagar, para mais perto de si e senti sua respiração tocar meu rosto.
Finalmente te achei ― a voz de James invadiu o local, fazendo nós dois pularmos para trás em um susto e nos afastarmos um do outro. James estava suado, apoiando-se na vassoura em suas costas enquanto caminhava lentamente em nossa direção. Devia estar voltando do treino. Ele ajeitou os óculos, com dificuldade de nos enxergar enquanto estudava o local bem distante do castelo. ― Mas que porra de fim de mundo é esse? Como acharam essa cabana?
Tentei me recompor às pressas, fingindo que meu coração estava acelerado daquele jeito apenas pelas gargalhadas que demos alguns segundos antes.
― O que estão fazendo aí? ― James perguntou, já em nossa frente, entrando na cabana apertada. Remo olhou para os lados, nervoso, ainda aéreo. ― Moony? Moony, olhe para mim… ― Remo olhou para James com seus olhos levemente avermelhados e, do nada, começou a rir. Rir muito. ― Vocês estão... chapados? E não guardaram nada para mim? Moony! Achei que fosse meu amigo!
Enquanto os dois tinham uma verdadeira crise de riso, eu não conseguia parar de pensar no que quase tinha acontecido. Ainda procurava, de algum jeito, estabilizar minha respiração e acalmar os meus batimentos cardíacos. Não parava de me perguntar se tinha imaginado tudo aquilo, se era apenas um efeito da erva que tinha fumado ou se eu realmente estava prestes a beijar Remo Lupin. Amaldiçoei mentalmente James por ter nos interrompido.
― Eu preciso ir ― anunciei, nervosa, chamando a atenção dos dois.
― Você está bem? ― Remo perguntou.
― Sim, só preciso… ― deixei as palavras morrerem em minha boca. Não conseguia me concentrar ou pensar em uma desculpa boa o suficiente. ― Vejo vocês por aí.
Enquanto ia embora, sentia os olhares dos dois garotos em mim, confusos. De repente, me lembrei de um detalhe muito importante e acrescentei, virando para eles uma última vez:
― James, se contar para alguém sobre esse lugar, te derrubo da vassoura no próximo jogo.
Nenhum dos dois respondeu, mas vi Remo sorrindo ao me ouvir dizer aquilo.

ϟ


Os extensos jardins do castelo já haviam sido tomados por um frio quase congelante ainda no começo de outubro. Eu olhava de longe a Cabana do Guarda-Caça, Hagrid, desconfiada, com medo de ser descoberta. Não podia estar ali sozinha já tão tarde da noite. Verifiquei mais uma vez o relógio em meu pulso, que indicava que faltavam apenas cinco minutos para meia-noite.
Sentei no banquinho de madeira e tentei me aquecer um pouco mais com meus agasalhos verdes da Sonserina. Tirei de dentro de uma sacola plástica um pequeno bolinho de abóbora e conjurei, sem muitas dificuldades, uma vela em cima dele.
Incendio ― falei baixinho, apontando a ponta da minha varinha para a vela. Em apenas um segundo, um fogo fraco e alaranjado acendeu-se em seu pavio. Respirei fundo, prometendo a mim mesma que não choraria e me ajoelhei em frente a um canteiro de rosas vermelhas, uma de suas flores preferidas, depositando o bolinho aceso perto delas, em cima da grama fria. ― Feliz aniversário.
?
A voz de Remo fez com que eu reprimisse um gritinho assustado. Levantei às pressas, limpando os resquícios de grama das minhas vestes.
― O que está fazendo aqui? ― perguntei, ainda assustada. Mal tínhamos nos visto depois do primeiro dia de aula porque Remo andava mais ocupado do que nunca com seus deveres de Monitor. De repente, fui invadida pelo ânimo que sempre sentia ao vê-lo.
― Uma última ronda no castelo, mas não achei que fosse encontrar ninguém… ― Seus olhos focaram no bolinho perto das flores antes de voltarem a me observar, preocupados. ― Não devia estar sozinha aqui a essa hora,
― Eu sei, eu sei, já estou voltando ― disse rápido, me desculpando, mesmo não achando que Remo fosse me meter em encrenca alguma, mesmo tendo o direito de me dar uma detenção ou tirar pontos da minha casa.
― Deixe que eu, pelo menos, te acompanhe de volta às masmorras? ― Ele pediu, olhando em volta, com as bochechas um pouco avermelhadas por causa do frio. Eu assenti, retribuindo seu sorriso tímido.
Andamos lado a lado até os Portões do Castelo, indo em direção à Sala Comunal da Sonserina em um silêncio confortável. Não tinha mais ninguém ali e estar sozinha com Remo depois do que aconteceu (ou quase aconteceu) entre nós na cabana era um pouco estranho. Queria continuar de onde paramos, mas não sabia como tocar no assunto.
― Para quem era o bolo? ― ele perguntou de repente.
― Minha mãe ― respondi, olhando para baixo, sentindo o misto de saudade e tristeza que sentia havia poucos minutos no jardim. ― Seria o aniversário dela hoje. Pensei que fosse uma boa ideia acender uma vela… ― Era estranho falar sobre minha mãe com alguém que não fosse meu pai ou Régulo, mas eu não sentia barreiras com Lupin. Seus olhos doces faziam com que eu me sentisse segura para compartilhar qualquer segredo ou falar sobre qualquer assunto com ele, por mais difícil que fosse. ― Ela morreu em um acidente de carro quando eu tinha apenas cinco anos.
― Sinto muito ― ele disse com a voz triste.
― Foi quando os Black entraram em nossas vidas, na verdade ― contei, sentindo vontade de falar e preencher o silêncio entre nós, que já não era mais tão confortável quanto antes. Soltei um riso curto e seco, me dando conta de algo que, quando era mais nova, era muito ingênua para notar. ― Eles nunca tinham nos dado um único oi quando ainda tínhamos uma trouxa na família.
― É, os Black são… Difíceis. Sirius sempre comenta. ― Ele balançou a cabeça, provavelmente lembrando dos relatos de brigas constantes que aconteciam no Largo Grimmauld, número 12, entre Walburga e seu filho mais velho. Remo desacelerou seus passos, parecendo um pouco pálido, de repente, e soltou um pigarro nervoso. ― É amiga de Régulo há muito tempo então, não é?
Por um breve momento, cheguei a acreditar que, talvez, bem no fundo, tivesse detectado um resquício de ciúmes em sua voz, mas não tive tempo de pensar muito sobre o assunto, porque fomos surpreendidos por um enorme estrondo, vindo de uma das salas que ficavam nas masmorras.
Trocamos um olhar assustado por um segundo antes de corrermos em direção ao barulho, descobrindo ter vindo da Sala de Poções do Professor Slughorn. No entanto, não foi o professor que encontramos lá, foi Peter Pettigrew, pendurado em uma das estantes de ingredientes que a sala abrigava.
Pete! ― Remo o chamou, assustado.
O Maroto mais baixinho estava pendurado pelas mãos na última prateleira da estante mais alta da sala. Não sabia o que ele estava tentando achar, mas tinha derrubado vários frascos no chão, o que explicava o barulho que causou. Remo, por outro lado, parecia saber exatamente o que o amigo fazia ali. Seu rosto estava vermelho de raiva e eu nunca o tinha visto tão irritado.
― M-Moony… Eu achei as folhas de Mandrágora picadas, mas estavam muito altas e…
Ainda estão fazendo isso? Achei que fôssemos dar um tempo, Peter! ― ele disse em um tom pouco contido.
Nós íamos ― Peter respondeu, desesperado. ― Mas conversamos e… ― Sua mão escorregadia quase se soltou da prateleira. ― Conversamos sobre isso depois?
― É, é, tá bom ― Remo respondeu, impaciente, enquanto ia ajudar o amigo.
Ele agarrou Peter pela cintura, mandando-o se soltar, mas ao fazê-lo, ainda com suas mãos escorregadias, Peter acabou não só caindo em cima de Remo, mas trazendo a estante consigo em outro estrondo enorme que me fez gritar de susto. Por ser pequeno, Peter quase não sofreu o impacto, mas Remo foi engolido por boa parte da estante e dos ingredientes dela.
Moony! ― gritamos em uníssono.
Aaahhhh… ― ele gemeu de dor enquanto eu e Peter tiramos os frascos e potes de cima dele.
Me desculpe, Moony, me desculpe… ― Peter pedia, desesperado.
Tudo bem… Estou bem… Ahhhh…
― O que está acontecendo aqui? ― Minerva McGonagall apareceu em suas vestes de dormir e foi correndo em nossa direção assim que viu a situação de Remo, que começou a xingar baixinho enquanto passava a mão em sua cabeça dolorida. ― Ah, meu Deus, Sr. Lupin! ― Ela nos olhou com a cara feia enquanto ajudava a levantá-lo devagar. ― Não sei o que está acontecendo aqui e nem quero saber agora! Vamos levá-lo à Madame Pomfrey antes que ele perca o juízo graças a uma concussão.

ϟ


A Professora McGonagall conjurou uma maca e levou um Remo bastante dolorido à Ala Hospitalar do castelo, que ficava em uma de suas torres. Peter e eu a seguimos, querendo nos certificar de que ele ficaria bem.
Nada explicaria como ficaram sabendo do que estava acontecendo, mas enquanto esperávamos do lado de fora da ala hospitalar, James e Sirius saíram de baixo da capa de invisibilidade, já sabendo de tudo que tinha acontecido lá dentro. Segundo eles, estavam “rondando o castelo, à procura do que fazer”, mas eu duvidava muito de que não estivessem aprontando também.
― Não foi nada sério, mas Madame Pomfrey está dando a ele um chá para os nervos para passar as dores ― James disse, dando de ombros.
― E quanto a nós? ― Peter engoliu seco.
― Remo fez o que pôde para livrá-lo de uma detenção, Pete, mas nada explica você estar na Sala de Poções a essa hora ― Sirius respondeu, balançando a cabeça. ― , quando McGonagall te perguntar, você apenas escutou um barulho da Sala Comunal e foi ver o que era, entendido?
Eu assenti, aliviada por não ter me metido em problemas. Os garotos voltaram para debaixo da capa quando McGonagall saiu de dentro da enfermaria, ainda em suas vestes de dormir, ainda parecendo muito irritada. Disse que teríamos uma conversa pela manhã e voltou aos seus aposentos.
Felizmente, ela não nos impediu de esperar por Remo, que saiu de lá apenas alguns minutos depois. Ele parecia ainda mais aéreo do que no dia da cabana do lago e demorou alguns segundos para nos notar ali fora.
― O efeito do chá foi rápido, hein, cara? ― Sirius perguntou, rindo.
― Ah, a primeira xícara não, mas as outras duas que eu tomei… ― Remo começou a rir, fazendo com que nós quatro também ríssemos com ele (e dele). ― Eu amo vocês. Prongs… ― Remo abraçou James, que ainda não tinha parado de rir do amigo. ― Pads… ― Ele soltou James e deu um abraço apertado em Sirius. ― E Wormtail? Se quiser ser um ratinho, seja um ratinho, cara. Eu te apoio! ― Com isso, Remo deu um abraço em Peter, bagunçando seus cabelos de uma forma carinhosa e desajeitada.
― O quê? ― perguntei, confusa.
― Nada, nada… ― Sirius respondeu, se recuperando da crise de riso que estava tendo. ― Ei, Moony, cale a boca, sim?
― Remo pronunciou meu nome devagar, ainda meio abraçado com Peter, e colocou a mão em seu coração, balançando a cabeça. ― Você… Ah, você…
Tudo bem! ― James o interrompeu, ainda rindo. ― Hora de levar esse carinha para o dormitório antes que ele fale alguma coisa que vá se arrepender depois. ― Ele puxou Remo pelo braço, livrando Peter do abraço quase sufocante do amigo e me lançou uma reverência exageradamente formal e debochada. ― Boa noite, senhorita.
Veja, Padfoot, aquele duende do quadro é maior que você! ― Ouvi Remo comentar, rindo, enquanto os Marotos desapareciam de vista.



Continua...



Nota da autora: Um capítulo bem light e tranquilo antes das coisas começarem a ficar difíceis… Obrigada por ter lido! Não deixa de me dizer o que está achando! Qualquer dúvida ou comentário, só me procurar <3 Beijo!

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Nota da beta: Socorro, bem light e tranquilo: ERVAS E CHÁS ESTRANHOS HAHAHAHAHA Eu tô chorando de rir, me diverti demais nesse capítulo, e AMÉM, um quase beijo! Eu já tô surtando de ansiedade para o próximo hahahaha 💙

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