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Finalizada em: 22/06/2021

I: “Propriedade de

Nunca pensei que demoraria tanto para eu conseguir alcançar meu objetivo do momento. Fiquei dois anos tentando lutar contra a ansiedade e a depressão e conseguir entrar na faculdade. Cada dia não indo para o cursinho, cada dia que eu não conseguia levantar da cama, cada dia que eu não consegui estudar, não foi totalmente perdido. Eu estava lutando bravamente para poder aceitar o meu estado atual e assim conseguir viver e superar esses problemas. Não ir para o cursinho por um semestre foi uma das melhores e piores escolhas que eu já fiz, perdi o contato social, mas ganhei disciplina. No fim, consegui o que eu queria.
Consegui.
Mas a felicidade não é algo constante, ela é algo que te aparece em alguns momentos, para te dar ânimo para continuar a experimentar viver até que o seu fim chegue. Foi aí que eu recebi a notícia de que minha avó por parte de mãe tinha falecido.
A minha história não é exatamente muito interessante, ela é igual a todas as histórias de pessoas da classe média brasileira, só diminui a semelhança quando eu só tenho a minha mãe.
Minha mãe conheceu meu pai dando aulas para ele no último ano da faculdade de medicina. Meu pai é dez anos mais novo que minha mãe e, quando minha mãe me teve, assim como ela, ele tinha planos para o seu futuro que não incluíam um bebê - pelo menos não por enquanto. Bom, o resto vocês já devem imaginar: ele deixou-a assim que descobriu que ela estava grávida, se mudando para Goiás, enquanto minha mãe tinha que lidar com o fato de que outro ser humano estaria dentro dela crescendo por alguns meses. Ela já tinha quarenta anos, sabia se virar, mas ela não queria exatamente uma criança na sua vida. Minha avó foi uma mulher muito maravilhosa, ela ajudou a minha mãe, que é incrível também, a cuidar de mim. Nunca conheci meu avô também: parece que a minha família era amaldiçoada em relação ao outro que ajudou a fazer o filho.
Éramos nós três, minha avó , minha mãe Débora e eu, Julia. Nosso sobrenome era bem comum também: . Era da minha avó, que passou para minha mãe e depois para mim. A gente era bastante próxima, posso assim dizer. Inseparáveis, desde o momento que eu nasci. Não tenho uma lembrança que não esteja nós três juntas. Até agora.
Minha avó estava já muito idosa, ela tinha 93 anos quando ela não acordou naquele dia do ano de 2093. Eu que a encontrei, tinha ido chamá-la para acordar para tomar o café, tinha achado estranho que ela não tinha levantado antes de mim, mas também eu estava de pé desde as quatro, porque o cão do vizinho passou a noite latindo. Eu não tinha conseguido dormir, portanto acordei e fiquei desenhando, esperando o horário para ir para faculdade. Quando deu seis horas, ouvi o despertador da minha avó tocar, logo fiquei atenta para ouvir os passos dela indo para o banheiro. Mas isso não aconteceu.
Aguardei por uma hora, até que resolvi levantar da cadeira e me arrumar para o meu dia. Aproveitei e fui até o quarto dela, para chamá-la, mas ela não se mexeu. Achei estranho, e quando a toquei para se levantar, senti sua pele gélida. Chamei minha mãe com muito medo e ela veio correndo para o quarto. Minha mãe era médica, mas não era preciso ter feito seis anos de medicina para constatar o óbvio: minha avó já não respirava mais.
Choramos muito, eu me senti completamente desolada, abandonada, longe de alguém que eu amava demais e que nunca mais iria voltar para mim.
Os dias seguintes eu faltei na faculdade, conversei com a coordenadora do curso e ela me deu essa licença de no máximo duas semanas, pois era o que ela conseguia deixar eu faltar, sem eu repetir em absolutamente todas as matérias. O velório foi no dia seguinte do ocorrido.
Era sábado quando eu e minha mãe estávamos arrumando a casa que era da minha avó. Minha mãe morava lá desde que nascera, assim como eu. Então tirar as coisas da vó era algo que estava a matando. Eu disse para ela descansar, enquanto eu terminava o trabalho daquele dia.
Voltei para o escritório e comecei a empacotar tudo que era da minha avó, e minha mãe tinha ido para o quarto dormir um pouco. Eu estava na metade do trabalho quando eu descobri uma caixa que estava no topo do armário. O armário era muito alto chegava quase até o teto, então eu nunca tinha notado aquela caixa ali.
Estranhei e subi em cima da cadeira para a pegar. Vários cadernos estavam jogados ali dentro, com algumas outras coisas que pareciam ser souvenires de outro país. Sentei-me na própria cadeira e coloquei a caixa em cima da escrivaninha. Passei a vasculhar tudo, cada objeto presente naquela caixa. Havia alguns cartões postais, um colar, uns cinco cadernos e mais algumas outras velharias. Todos os cadernos estavam com um cadeado. Eu logo deduzi que poderiam ser diários, mas por que minha avó guardaria esse segredo de mim?
Não tinha a chave para eles, então procurei no meu quarto um grampo. Não sabia se isso daria realmente certo, tinha visto na televisão várias vezes eles utilizarem o grampo para abrir cadeados e fechaduras. Mas não tinha nada a perder.
E deu certo, abri todos os cadernos.
Joguei o grampo em cima da mesa e comecei a folheá-los, dando certeza para a minha dúvida: eram diários sim. Agora, descobrir a cronologia deles foi outra tarefa difícil. Mas assim que eu consegui, os separei em ordem.
Peguei o primeiro caderno e abri na primeira página.
“Propriedade de

— Hum. — Eu soltei e virei a página.
Tinha no canto direito uma data: 12 de julho de 2019. Minha avó tinha uma letra muito bonita, mas ali no diário conseguia estar ainda mais. Aconcheguei-me na cadeira e comecei a ler.


II: Vamos repetir isso algum dia

Querido diário,

É estranho para mim começar a escrevê-lo, mas meu pai, que era professor de inglês, me inspirou a ter o meu próprio registro de vida. Não sei exatamente até quando eu vou manter isso, mas eu sinto que está sendo estritamente necessário no momento.
Por onde começar?
Essa é uma pergunta muito difícil. Como decidir qual momento da história seria plausível colocar aqui para que eu futuramente entenda onde que tudo começa? Acho que podemos começar quando eu me mudei para Holmes Chapel, em 2009.
Eu era uma criança de apenas nove anos, quando meu pai me levou para a Inglaterra. Ele tinha conseguido um novo emprego na escola Holmes Chapel Comprehensive School como professor. Eu era muito nova para entender que mudar de país nessa idade poderia deixar marcas na minha própria personalidade, mas para mim, naquela época, era como se tudo fosse uma grande aventura.
Eu era a única brasileira na minha escola. As pessoas não ligavam muito para mim, mas ao mesmo tempo os professores, sim. Eles se importavam tanto para que eu não me sentisse excluída que obrigaram um dos alunos a ser meu amigo, Charles. Eu achava que estava apaixonada por ele, tinha até escrito um cartão para o dia de São Valentim, decorado com várias lantejoulas e purpurina. Um desenho de mim dando a mão para ele em um parque com um arco-íris no fundo. Eu tinha achado que estava um máximo. Desci as escadas de casa, passando pelo escritório de meu pai, que deveria estar corrigindo algumas provas, e corri para fora.
Andei até o fim da rua, não era muito longe da minha casa, e coloquei na caixa de correio. Eu estava muito nervosa, mas achava que eu iria conseguir conquistá-lo com o meu desenho. Então voltei saltitante para minha residência, quando eu vi um garoto andando em direção a uma casa. Ele não era exatamente o garoto mais bonito do mundo, Charles era mil vezes mais, porém ele era mais velho. Ah, bem mais velho. Deveria ter uns quinze anos, enquanto eu só tinha meus humildes nove.
Ele não chegou a olhar para mim, mas eu fiquei o observando até ele entrar em sua casa. Foi aí que eu soube que estava apaixonada. Droga, não devia ter mandado o desenho para Charles!, pensei.
Eu não fazia ideia de quem ele era, então tentei arrancar isso de meu pai. Acabei descobrindo que meu pai era professor dele, e que seu nome era Harry.
Harry.
Já soa apaixonante, não? Era o nome do príncipe. Isso fez com que meu coração acelerasse ainda mais.
Bom, Harry nunca descobriu quem eu era. Nem chegou a falar comigo, mesmo quando meu pai convidou a família dele para jantar na minha casa. Ele era bem mais velho, então porque ele iria olhar para uma criança de nove anos, não é mesmo? Não o culpo. Mas vê-lo ainda de mais perto era simplesmente magnífico.
Um ano se passou e eu me sentia mais adulta. Harry tinha uma banda que eu adorava ficar ouvindo tocar. Eu me encostava na janela, escondida atrás das cortinas, e escutava eles que tocavam do outro lado da rua. Eu amava a voz dele. Eu amava tudo nele.
Charles se mudou e eu nunca mais o vi. Tive que arranjar um novo amigo para que eu não me sentisse completamente sozinha, e essa pessoa foi Georgia. Ela também era aluna de outro país, Itália. Ficamos inseparáveis, e eu nunca contei a ela sobre a minha paixão secreta, mesmo quando ela foi em casa e eu me encostei na janela para escutar a banda dele tocar. Agora pensando, ela provavelmente desconfiava de algo, mas não queria me perguntar nada.
Descobri mais tarde que Harry estava participando de um Reality Show, chamado The X Factor. Eu torcia para ele conseguir ser aceito e passar das fases. Mas quando ele se juntou a outros garotos que eu nunca tinha visto, eu me desanimei um pouco. Como seria possível as pessoas apreciarem a música dele, se agora ele tinha que dividir o palco com mais quatro rapazes?
Tudo estava até que bem, então eu descobri que ele estava tendo um caso com uma mulher mais velha. Isso me deixou tão arrasada que resolvi nunca mais saber de Harry Styles de novo. Meu pai até chegou a perguntar para mim o que estava acontecendo, por que eu não estava mais assistindo meu Reality Show favorito, mas eu respondia sempre que tinha perdido o interesse. Ele não sabia que Harry estava lá, e muito menos da minha paixonite por ele.
No fim, Harry e sua boy band não ganharam o reality, ficaram em terceiro, mas acabaram fazendo mais sucesso que os outros vencedores. Eu tinha, já com meus doze anos, esquecido completamente dele – ok, não completamente – até que minhas amigas da escola apareceram cantando uma música chamada What Makes You Beautiful. Eu tinha amado essa música e quando eu fui pesquisar de quem era, quase caí de costas: lá estava Harry novamente.
Bom, a partir daí, tentei ignorar o máximo possível a One Direction, foi uma tarefa difícil, eles estavam por toda parte. A memória de Harry me deixava um pouco mal, lembrar que ele estava morando perto de mim e que eu era só uma criança, além dele ter tido um caso com aquela mulher, tudo, todas as lembranças que eu tinha me deixavam um pouco abalada.
Foi com 15 anos que eu me mudei para Londres e oficialmente eu tinha esquecido de tudo isso. Eu estava longe dessas notícias, estava mais concentrada em viver minha vida do que naquela boy band. Foi ótimo por um tempo, cresci bastante, amadureci bastante. Sofri um pouco de bullying na escola no ensino médio, eu era muito magricela e tinha uma cabeça maior, nada proporcional com o meu corpo. Gostava muito de estudar, mas meus colegas achavam isso muito estranho, combinado com a minha aparência. Meu apelido era “estranha ” e eu odiava muito esse apelido, só consegui me libertar dele quando eu me formei na escola.
Entrei em Oxford em Psicologia, e foi o ano mais intenso e legal da minha vida. Encontrei um namorado que era ótimo para mim, seu nome era Steven. Ele amava as mesmas coisas que eu: andar de bicicleta, filé a parmegiana e Beatles. Não tinha como ser mais perfeito do que isso.
Eu e Stevie éramos inseparáveis. Todas as minhas primeiras vezes foram com ele, desde as mais simples e fofas, até as mais, hã, pessoais.
Durou pouco, nos separamos no começo desse ano de 2019, eu voltei para Londres e me transferi para a faculdade King´s College London. Meu pai me recebeu de braços abertos e ele sempre dizia que foi a melhor decisão que eu já tinha tomado. Acontece que em Oxford eu tinha muita liberdade, mas ter que ver Steven todos os dias estava me deixando muito mal.
Eu estava de férias, no mês de julho, e passeava pela cidade que eu mais amava no mundo. É verdade que eu não tinha as melhores memórias de lá, mas estar junto do meu pai, e poder ter um recomeço, era maravilhoso.
Parei em uma sorveteria em uma das esquinas e pedi o meu sabor favorito: cookies. Esperei para que o moço pegasse meu sorvete e enquanto isso fiquei batucando de qualquer jeito na bancada.
— Você até que tem ritmo, hein.
Uma voz disse ironicamente isso atrás de mim, e eu logo a reconheci.
Harry Styles.
Eu fingi demência, obviamente, e o ignorei completamente. Não era possível, eu estava vivendo alguma fanfic por caso? Deus, eu gostaria muito que a minha vida ficasse normal, por favor. Bom, também eu já estava emocionada demais, pensando que essa única frase poderia mudar a minha vida toda. Era óbvio que não, pensei. Eu não iria me casar com ele só porque ele disse que eu não tinha qualquer senso de ritmo e essa frase não era um pedido de casamento. O que me fez pensar se ele estava solteiro ou não.
Peguei sorrateiramente o celular e busquei por seu nome no google. Várias informações inúteis estavam lá. The X fator, blá blá blá, One Direction, blá, blá, blá… Espere. One Direction acabou?
Cliquei em uma matéria que falava sobre isso e fiquei absolutamente chocada. Fazia anos que eles tinham se separado. O quê, Zayn saiu primeiro? Ele disse que não era amigo deles de verdade? Nada me surpreende, sempre o achei meio na dele mesmo. Vejamos, Harry está agora em uma carreira solo, já lançou um álbum, seu maior hit é Sign Of The Times. Cliquei para ver a letra da música, e enquanto isso o sorveteiro estava com dificuldades para pegar o meu sorvete.
Um piano começou a tocar bem alto do meu celular, e a voz de Harry na música apareceu. Eu estava com o coração acelerado demais, tentando desligar aquela música de todas as maneiras. Pude ouvir uma risada debochada dele, o que me fez sentir ainda mais ódio por ter clicado sem querer para tocar a música.
— Aqui, senhorita. — O sorveteiro estava com o meu sorvete na mão. — Cuidado, está derretendo um pouco. Tome, pegue esse pote e coloque nele. Isso, assim.
Eu coloquei o sorvete no pote enquanto a música ainda tocava, então eu só desliguei meu celular e tudo parou.
— Obrigada. — Eu disse, e corri para fora de lá.
Meu Deus, que VERGONHA.
Não quis nem olhar para trás, eu estava apressada demais. Procurei meu celular que eu tinha deixado no bolso. Meu sorvete derreteu muito, então eu parei de andar e me sentei em um banco na rua. Respirei fundo e tentei controlar a menina de dez anos dentro de mim.
Não encontrei em nenhum dos meus bolsos o meu celular e entrei em pânico. Ótimo, além de tudo eu agora tinha o perdido.
— Maldito Harry Styles.
— Ei, calma aí, eu só vim devolver seu celular.
Virei rapidamente para minha esquerda de onde tinha vindo a voz e lá estava ele de novo, com óculos de sol no rosto e um sorvete de um sabor aleatório na mão — a cor era amarela. Na outra mão ele tinha meu celular e estava com um sorrisinho no rosto.
— Ah. — Eu disse e estiquei a mão para receber meu pertence. Ele me entregou e eu enfiei o celular no bolso da calça jeans. Pude ouvi-lo respirar fundo e então ele se sentou ao meu lado no banco. Minha boca começou a ficar seca e meu coração estava disparado.
— Eu estava esperando um “obrigada pela gentileza, Harry”. Ou quem sabe “Valeu, camarada!”. Não, essa última ficou muito comunista, não acha? — ele disse e eu me mantive quieta, não porque queria, mas porque se eu abrisse a boca não iria conseguir falar absolutamente nada. Harry esperou alguns segundos e riu. — Caramba, minha aparição te deixou mesmo sem palavras.
Eu olhei para a minha direita e tentei ignorá-lo o máximo possível. Pigarreei e tentei molhar os meus lábios passando a língua por eles, mas nem isso estava fazendo com que minha boca voltasse ao normal.
— Ok, vou embora. — Ele disse e se levantou. Eu o olhei começando a caminhar, até que ele olhou para atrás. Harry Styles sorriu de lado e parou de andar. — Tudo bem?
— Ér... Hum... — eu tentei dizer, mas nada saía. Fale alguma coisa, sua anta!, foi o que eu pensei.
— Uau. Poético.
— Olha, você está atrapalhando meu momento. — Eu consegui dizer atropelado depois de muito esforço. Ele estranhou.
— Poxa, desculpa. Só achei que você era mais uma fã e que ficaria feliz em me acompanhar nesse sorvete.
— Querido, como você bem viu, eu tive que pesquisar no google quem você era. Acho que eu não sou uma fã. — Menti essa última parte. Eu era fã dele desde que eu o ouvi pela primeira vez, do outro lado da rua.
— Você me é muito familiar. — Ele disse e deu um passo para frente, meio incerto. — Qual é o seu nome?
. — Eu disse, sem acreditar que ele poderia mesmo se lembrar da pirralha que eu era.
— Ok, e o sobrenome?
Fiquei em silêncio. Então respondi.
.
Harry bateu na perna e sorriu.
— Sabia que te conhecia! Você é a filha do meu professor de inglês do colegial, não é? — Ele voltou a se sentar do meu lado. Fiz que sim e até a minha respiração estava trêmula. Não estava acreditando que isso estava acontecendo. — Você...
— Com licença. — Uma garota que parecia ter uns dezessete anos parou na nossa frente. — Você é o Harry, não é?
— Esse sou eu! — ele disse sorrindo para ela, um sorriso amigável. Ela esticou a mão com o celular para mim.
— Você poderia tirar uma foto nossa, por favor? — ela se virou para ele. — Eu sou muito a sua fã. Caraca, tô muito feliz de ter te encontrado!
Harry olhou para mim e arqueou a sobrancelha, como se dissesse “Viu, só?”.
Eu me levantei e tirei a foto para eles. Harry abraçou a menina e ela disse obrigada muito emocionada. A garota seguiu seu caminho e eu peguei meu sorvete que tinha deixado no banco. Voltei a tomá-lo, agora de pé, e ele deu uma lambida no seu.
— Então — ele começou — você e seu pai estão morando agora em Londres?
— Sim. — Respondi.
— Legal. — Ele deu outra lambida. Harry olhou para distante de mim e continuou a tomar o sorvete.
— Você está morando aqui? — Perguntei dando alguns passos para direita. Ele voltou seu olhar momentaneamente para mim.
— Nah, eu moro no mundo. — Ele respondeu, agora andando para a sua direita, e percebi que estávamos começando a andar em círculo. Ficamos em silêncio a partir daí. Eu estava terminando meu sorvete quando olhei para distante dele, o mesmo local que ele olhou anteriormente, e vi um homem atrás de um arbusto com uma câmera. Dei risada e virei de costas rapidamente. — O que foi?
— Paparazzo. — Eu respondi e ele deu de ombros.
— Qual o problema?
— Nada, eu só não quero ficar famosa. — Respondi, e ele e eu andamos em círculo de novo.
— Fique tranquila, eu converso com todo mundo o tempo inteiro e nem por isso todos ficam famosos. — Ele disse meio debochado e eu involuntariamente olhei para ele com os olhos semicerrados. Esse não era o garoto que eu me lembrava de gostar quando eu era pequena.
Terminei meu sorvete e joguei o pote no lixo ao lado do banco. Harry me olhou de relance.
— Você está com o queixo sujo. — Ele disse e eu não sabia aonde enfiar a minha cara de tão envergonhada que eu estava, acredite. Passei a mão no queixo e limpei o sorvete de lá.
— Bom, a conversa foi muito legal. Vou indo. — Eu disse e sorri amarelo para ele. — Boa sorte aí.
— Ah, obrigado. — Ele disse e eu comecei a sair de lá. — Ei!
Eu me virei para ele.
— Qual é o seu nome mesmo?
. — Disse com ar indiferente.
. Legal. — Ele deu uma última mordida na casca do sorvete. — Vamos repetir isso algum dia. Foi maneiro.
E assim foi meu reencontro com Harry Styles. Vamos repetir isso algum dia. Ah, você não sabe o quanto que eu fiquei repetindo essa conversa na minha cabeça, diário. Muitas vezes. Tipo, muitas, mesmo.


III: Não sabia que você lembrava dessa música assim

Terminei esse primeiro dia e virei a página. Harry Styles não era aquele cantor que morreu ano passado? Minha avó tinha conhecido ele? Caramba, e ela nunca me contou isso. Consigo até ver ela se vangloriando dessa história... Bom, não deve ter passado disso, pois ela realmente não mencionou isso em nenhum momento.
— Querida? — Minha mãe apareceu na porta do escritório. Eu fechei o diário e olhei para ela.
— Oi. — Respondi.
— Vou pedir o almoço, tudo bem? Não consegui descansar. Pode ser comida chinesa?
— Claro. — Eu disse e ela lançou um sorriso solidário para mim, logo saindo dali. Eu estava pronta para começar outro dia do diário, mas meu celular apitou. Era uma mensagem de Diego.
Como explicar quem é Diego? Diego era meu melhor amigo do momento. Meu ficante. Meu amigo colorido. Eu o conheci no cursinho e ele entrou na mesma faculdade que eu, então nos mantivemos muito próximos um do outro. Quando teve a primeira festinha universitária, eu fui com ele e mais alguns amigos, e, aleatoriamente, nos beijamos. A partir dai toda vez que a gente se encontra nós ficamos. Mas não somos nada um do outro, além de amigos que se beijam.
“Como você está? ☹”
Olhei para os diários em cima da escrivaninha e suspirei. Comecei a digitar.
“Tentando. Está difícil. :´(“
Esperei alguns segundos e logo a resposta estava lá.
“Qualquer coisa eu estou aqui, você sabe.”
Sorri. Outra mensagem.
“Quer que eu vá até a sua casa te ajudar?”
“To te esperando.”
Resolvi tomar um banho e passar um perfume para tentar tirar aquele ar de cansada e acabada que eu estava; estava jogada no sofá quando ele me manda mensagem dizendo que chegou. Vou até o portão da minha casa e abro para ele. Lá estava Diego, cabelos encaracolados. Barba. E aquela barriguinha que era uma delícia de apertar.
Ele se aproximou para dar um abraço em mim e eu aproveitei e apertei sua barriga.
— Ei! — Ele reclamou, mas eu sempre fazia isso, então apenas nos abraçamos e o convidei para entrar. Minha mãe estava também no sofá da sala lendo um livro, enquanto esperava a comida chinesa chegar. Ela desviou o olhar do livro para Diego e sorriu.
— Ah, oi, querido! Puts, acabamos de pedir comida! Ainda bem que eu e Julia não conseguimos comer tudo — minha mãe riu e ele a acompanhou.
— Fica tranquila, Débora! Eu já almocei! — Ele disse e eu o puxei para o corredor.
— Estaremos no meu quarto! — Eu disse por cima do ombro.
— Porta aberta! — Minha mãe respondeu.
Ele logo se sentou na minha cama, enquanto eu me sentava na cadeira giratória da bancada. Liguei a caixa de som da JBL e escolhi uma playlist aleatória do spotify. Só você do Dennis DJ, uma música dos anos 2010’s, começou a tocar, e eu e Diego nos olhamos rindo.
— Não acredito que você tem salvo essa música. — Ele disse e eu girei a cadeira para de costas a ele.
— Não é minha a playlist, é uma qualquer do aplicativo.
— Ah, tá. E é coincidência a música que a gente se pegou naquela primeira festa estar no seu celular? — ele disse e pude ouvi-lo sorrir.
— Não sabia que você lembrava dessa música assim. — Eu respondo me virando para ele e Diego revira os olhos. Eu já tinha dito a ele que essa era a música que me lembrava dele, mas ele estava bêbado demais para se lembrar disso. Aparentemente, ele não estava.
Diego puxou a minha cadeira de rodinhas para perto dele, segurando na base entre as minhas pernas e pegou o celular da minha mão. Ele trocou a música para outra e a brincadeira terminou. Eu estava gostando dessa tensão sexual que estava se formando entre mim e ele, mas parece que ele não estava muito afim hoje disso.
— Então... Como está sendo para você desmontar a casa e vasculhar todas as coisas da sua avó?
— Ah — suspiro. — Não sei... Estranho, eu diria. Caramba, você não vai acreditar! — me lembrei rapidamente da caixa que eu encontrei no escritório. — Minha avó morou na Inglaterra.
— Você já tinha me dito isso.
— Eu sei, mas agora eu sei das histórias dela por lá! — eu disse e ele me olhou estranho. Balancei a cabeça. — Eu encontrei os diários da minha vó de quando ela morou por lá.
— Sério? Caceta, deve ser muito legal! Ela escreveu em português?
— Claro, besta! — Eu bati no seu braço. — E tem mais. Sabe aquele artista que faleceu ano passado?
— Qual deles?
— Harry Styles. — Eu disse e ele arqueou a sobrancelha. — Ele e minha avó foram vizinhos, acredita?!
Ele começou a rir.
— Tem certeza que você não está lendo uma fanfic? — Diego disse e eu fiz que não.
— Tenho! Quer dizer, não sei... Agora você me deixou em dúvida.
Arrastei a cadeira para longe dele e me apoiei na mesa. Diego manteve silêncio comigo por um tempo. Será que aquilo não são diários, são apenas histórias inventadas por minha avó? Ela não é de mentir, nunca foi. Mas se for verdade, por que ela escondeu isso de mim?
Diego se levantou e me abraçou por cima dos ombros, me dando um beijo no topo da cabeça.
— Eu estava brincando. Pode ser real, sim. — Ele disse e eu assenti. Levantei-me e ele me abraçou direito. Comecei a chorar. Estava sendo muito difícil de viver sem ela por perto, sem ela me dando carinho, sem ela me dando conselhos... Minha avó é uma pessoa incrível. — Chore, bota para fora.
Foi o que ele disse. Já estava molhando a manga da sua camisa quando eu ouvi os passos da minha mãe. Tentei me recuperar rapidamente, mas apenas me virei de costas para a porta, deixando para ele falar com ela.
— Pessoal, a comida chegou. Vamos comer? — ela disse e Diego assentiu. Minha mãe foi para a cozinha e ele se voltou para mim. Eu apenas fiz que sim e ele esticou a sua mão para mim, logo eu a segurei.
Almoçamos todos, contando histórias da minha avó, mas deixei de lado o que eu li no diário dela. Ainda não tinha certeza se era real aquilo ou não, mas eu logo descobriria.
Di e eu ficamos arrumando o resto do escritório, enquanto minha mãe estava na sala, organizando os CDs da vó . A noite chegou e minha mãe disse que ia tomar um banho. Ficamos eu e ele com a casa só para nós, mas eu não estava com vontade de safadeza no momento.
Conseguimos arrumar tudo, menos os diários, e ele se sentou na minha cama, comigo ao seu lado, eu com o primeiro dos cadernos na mão.
— Você pode ler para mim, se quiser. — Ele disse e eu o encarei. Não era algo muito pessoal da minha avó para compartilhar com ele? Bom, eu nunca menti para ele, nem escondi nada...
— Ok. — Eu respondi. Abri o diário.


IV: Socorro

Querido diário,

Você já deve ter percebido que eu não escrevo todos os dias, apenas os dias que eu considero que foram importantes, certo? Então vou atualizá-lo sobre tudo.
Desde aquele dia que eu encontrei Harry, eu mantive segredo. Não contei para o meu pai, não disse a ninguém. Realmente, nenhuma foto foi publicada comigo, acho que o paparazzo não achou relevante. Eu achei ótimo. Mas...
Vamos repetir isso algum dia. Como eu escrevi, isso ficou por muito tempo na minha cabeça. Eu andava sempre atenta pelas ruas de Londres, verificando se algum cantor famoso apareceria de repente para conversar comigo sobre o passado. Secretamente eu desejava que isso acontecesse, não podia esperar para esse “algum dia” acontecer, mas por duas semanas nada aconteceu.
Um dia estava chovendo muito, precisava comprar algumas coisas no supermercado, e meu pai estava muito cansado, então ele me disse para que eu fosse e tomasse cuidado. Consegui comprar tudo que faltava, então voltei para a casa, com o guarda-chuva na mão e as sacolas de papel na outra. Eu estava incrivelmente fazendo malabarismos para manter tudo equilibrado, até que eu deixei uma das sacolas cair no chão. Suspirei e desejei que não fosse a dos ovos e, por um milagre, não era, era apenas do pão.
Não sabia como fazer para pegar a sacola, agora toda molhada, sem largar o guarda-chuva. Equilibrei-o entre meu pescoço e ombro, e com a mão livre peguei a sacola do chão.
— Quer uma ajuda?
Tinha que ser ele, obvio que tinha. Eu olhei para frente e lá estava Harry parado com um guarda-chuva transparente em uma das mãos. Eu realmente pensei em recusar, mas eu não estava exatamente em um bom lugar para fazer isso.
— Por favor. — Eu disse e ele pegou a sacola da minha mão. Eu me levantei e segurei o guarda-chuva normalmente. Arrumei a barra da minha blusa que tinha subido, e ele desviou o olhar.
— Onde que é o destino? — ele me perguntou e eu comecei a caminhar com ele ao meu lado. — Você me é familiar...
— Ah, não, isso de novo? — eu respondi e ele riu.
— O quê? Eu já disse isso? — ele perguntou.
— Harry. Eu não vou nem te responder.
— Estou brincando. , certo? — atravessamos a rua correndo e chegamos do outro lado, quase na minha casa.
. — Por que eu realmente achava que ele conseguiria se lembrar de mim, mesmo? Ele é muito arrogante para isso.
Minha casa estava na nossa frente e eu fechei o guarda-chuva assim que chegamos na varanda de casa. Ele fez o mesmo, e eu entreguei as outras compras para ele, procurando em seguida a chave no meu bolso. Ouvi alguma coisa e quando olhei para ele, Harry estava deixando as sacolas ao meu lado no chão.
— Bom, acho que é isso. Tenha um bom dia, ! — Ele disse e eu fiquei muito decepcionada que ele não iria entrar, mas orgulhosa do jeito que sou, não iria convidá-lo. Portanto, eu apenas fiquei olhando para o seu rosto e minha expressão devia estar muito engraçada porque ele deu uma risadinha. — O que foi?
— Eu é que te pergunto.
— Como assim?
— O que tem de tão engraçado? — eu disse e quando ele estava prestes a responder, meu pai abriu a porta, dando-me um grande susto. Olhei para ele que me devolveu o olhar e depois encarou Harry.
— Tudo bem, posso saber quem é esse aí? — Meu pai questionou. Harry sorriu.
— Sou eu, professor ! Harry, lembra?
Meu pai ficou alguns segundos processando, até que ele pareceu se lembrar.
— Ah, Harry Styles? — ele disse de repente e Harry fez que sim, ainda sorrindo. — Caramba, e a que devo a ilustre visita? Você não é um popstar agora ou algo do tipo?
Harry riu tímido.
— É, tipo isso.
— E como está a sua banda? Como chamava mesmo...?
— White Eskimo. — Harry respondeu.
— Não, não essa, a que te tornou famoso.
— One Direction. Mas eles não estão mais juntos. — Eu disse e meu pai me repreendeu com o olhar.
— Ah, certo. — Ele se aproximou de mim. — E você, vamos conversar mais tarde.
Juntei meus lábios em uma fina linha e assenti.
— Harry já estava de saída. — Eu disse e Harry fez que sim, se preparando para virar as costas e partir. Meu pai o interrompeu levantando a mão.
— Imagina! Entre, Harry! Que tipo de reencontro seria esse se eu não te convidasse para entrar?
Harry olhou para mim e eu olhei para ele, os dois com uma expressão de “socorro”.


V: Socorro; 2093

— Querida, eu já saí do banho! — minha mãe apareceu na porta do meu quarto, me interrompendo. Ela olhou para o caderno nas minhas mãos. — O que é isso?
— Ah — eu olhei para Diego pedindo ajuda. — É só...
— Uma história que eu escrevi! — Ele respondeu.
— Não sabia que você gostava de escrever. — Minha mãe desencostou da porta e sorriu.
— É, pois é! Eu estou começando! — Ele passou a mão por detrás da cabeça e eu respirei aliviada. — Ju estava lendo para mim...
— Ele queria ver como estava soando, sabe? — Eu disse rapidamente. Minha mãe assentiu.
— Que legal! Eu vou terminar de organizar os CDs da sua avó, querida, e depois vou dormir, ok? Não fiquem muito tempo acordados! E, Diego, - ela se virou para ele — se você quiser dormir aqui, querido, pode sim, tá? Essa Julia aí, se depender dela, demoraria anos para fazer essa simples pergunta.
— Mãe! — Eu disse e ela riu, acenando.
— Ok, já estou indo. Até mais! — E assim ela desapareceu pelo corredor. Olhei para meu amigo e a mesma expressão de socorro que minha avó descreveu no diário tinha aparecido nos nossos rostos.
— Por que você não quer contar a ela? — ele perguntou, enquanto brincava com o cordão do casaco. Dei de ombros.
— Eu só acho que ainda não é a hora. — Eu respondi e ele assentiu. — OK, onde estávamos?


VI: Cantar é uma habilidade secreta minha

Harry, eu e meu pai jantamos sanduíches de atum, enquanto Harry contava sobre sua vida de famoso para nós. Ele parecia bem empolgado enquanto dizia quantos famosos se tornaram amigos dele, ele não mencionou as namoradas que teve — Aliás, nota: pesquisar as namoradas de Harry Styles durante esses anos — e disse que sentia falta dos seus parceiros de banda, mas que estava adorando se aventurar sem eles.
— E ano que vem fazemos dez anos de banda — ele jogou o guardanapo amassado em cima do prato e juntou as mãos. — Não sei ainda o que vamos fazer, mas com certeza será algo bem especial.
— Ah, entendi — meu pai disse. Papai deu um gole em seu vinho e depois pigarreou. — E como anda a sua mãe? E sua irmã, Gemma, certo?
— Ah, elas estão bem. — Foi só o que ele disse. Ficamos em silêncio, eu chutei sua perna embaixo da mesa e ele continuou. — Muito contentes como eu, vendo aonde eu estou chegando.
— Certo. Que ótimo! — meu pai limpou o bigode no guardanapo. — E como você encontrou a minha filha, mesmo?
— A gente está em um relacionamento secreto já faz dois anos. — Ele respondeu e eu dei outro chute na sua perna.
— Claro que não, pai, ele está brincando. — Eu disse observando o rosto do meu pai mudar de preocupado para outra expressão não identificável. — Eu o vi passando por aí enquanto eu voltava do supermercado e ele só me ajudou a carregar as compras. Nada demais.
— Hum. — Ele olhou para Harry, que sustentou o olhar até se sentir intimidado e olhar para mim.
— Bom, foi um jantar maravilhoso! Adorei passar um tempo com vocês, revê-los, e ainda colocar o papo em dia, mas, ah, olha só, eu tenho que ir! — Ele disse arrastando a cadeira para trás, e eu fiz o mesmo, me levantando junto a ele.
— Ah, o que é isso, Harry, pode ficar mais tempo se quiser! — Meu pai respondeu e ele só sorriu.
— Eu realmente gostaria, senhor , mas eu tenho um compromisso. — Harry disse e eu assenti.
— É melhor assim, pai. — Eu disse. — Vou levá-lo até a porta.
— Claro. Obrigada, mais uma vez, senhor!
Meu pai apenas assentiu e eu puxei Harry, tomando essa liberdade, para em direção ao corredor que dava na porta de casa. Paramos em frente a porta, eu olhei para dentro da cozinha para ver se papai estava lá a espreita. Respirei fundo e voltei meu olhar para Harry Styles. Caramba, Harry Styles. Ele estava mesmo na minha casa, depois de dez anos.
— Bem, isso foi bem estranho — ele cantarolou a última palavra e eu só coloquei o dedo indicador na minha boca, dizendo para ele ficar quieto. Harry levantou as mãos. — Desculpe.
— Escuta, seria ótimo se você parasse de aparecer de repente e tentar participar da minha vida a todo custo... — eu comecei, mas foi ele que agora fez o sinal para que eu calasse a boca.
— Você está sedenta por atenção, não é mesmo, garota? — Ele me disse um pouco bravo.
— Ok, diga o que você quiser, só, por favor, não apareça mais aqui, e tente ficar o mais longe o possível de mim, tá? — Eu destranquei a porta. Harry arqueou a sobrancelha.
— Duas coisas: primeiro, esta cidade é grande, mas nem tanto. Talvez nos encontremos de novo, não há como saber. E segundo, qual é o problema disso? — Ele riu.
— Eu só não quero te encontrar, tudo bem? — eu respondi.
— Tá, mas isso não faz sentido. O que foi que eu fiz para você? Te ofendi de alguma forma? — ele parecia preocupado. Eu só balancei a cabeça e abri a porta.
— Não!
— Então o que foi? — ele perguntou e eu me exasperei.
— Olha, você não é exatamente a companhia que eu estou querendo para minhas férias.
— Calma! — ele soltou. Comecei a respirar calmamente e ele me acompanhou. — Assim está melhor?
Eu não respondi.
— Olha, eu posso te provar que eu sou uma pessoa boa, se você deixar. — Ele disse e eu o encarei com uma expressão de louca provavelmente, porque ele deu um passo para trás.
— Eu não quero.
— Vamos lá, que tal se a gente sair um pouco? Conversar e quem sabe tomar alguma coisa? — ele passou a língua entre os lábios.
— Você não estava de saída, Harry? — Meu pai apareceu e eu tomei um susto.
Harry olhou para mim e depois para ele, e disse que sim. Ele fechou a porta atrás de si e eu estava olhando para o chão, pensando que eu sempre quis que ele me notasse, sempre. Aquilo devia ser uma porra de um sonho, não era possível. Eu devia imaginar que ele só queria uma coisa de mim, provavelmente. E eu daria isso a ele?
— Pai, só um minuto, acho que eu esqueci um negócio lá fora. — Eu disse e abri a porta, fechando-a atrás de mim, sem dar chance para que meu pai dissesse algo. — Ei!
Vi Harry já com seu guarda-chuva em mãos, caminhando para o fim da rua. Ele parou e olhou para mim. Eu assenti para ele e Harry sorriu. Diário, aquele sorriso poderia matar qualquer um, eu juro. Mas eu me mantive plena e caminhei ao encontro dele, assim como ele fez também. Ficamos a dois passos de frente um para o outro.
Harry estendeu a mão para mim e eu não entendi.
— Celular. — Ele disse e eu procurei no meu bolso meu aparelho. Entreguei a ele e observei Harry Styles gravar seu número no meu celular, em seguida tirando uma foto com a língua de fora para provavelmente colocar no contato. Ele me devolveu o celular e entregou o seu junto. Olhei para o celular e coloquei o meu número no dele. — Foto.
Eu olhei para ele estranha, mas ele apenas fez com a mão para que eu continuasse. Abri a câmera e pude ver como eu estava horrorosa aquele dia. Deixei esse pensamento ir embora e sorri para a foto. Depois entreguei o celular de volta ao dono e ele sorriu, colocando-o no bolso de trás da calça.
— Espere eu mandar a mensagem, ok? — Ele disse e bagunçou meus cabelos com a mão. Eu empurrei a mão dele para longe como reflexo.
— Se você quer que eu te ache uma pessoa legal, não faça isso. Odeio que mexam no meu cabelo. — Eu disse e ele estava apenas sorrindo.
Harry foi embora e eu voltei correndo para casa. Deixei o guarda-chuva na varanda e assim que eu entrei, meu pai estava parado, me encarando.
— Encontrou o que você procurava? — ele perguntou e eu parei. Fiz que sim. Meu pai suspirou. — Ele é encrenca, . Se eu fosse você ficaria longe desse rapaz.
— Qual é pai, eu já sou bem grandinha, não acha? Além do mais, eu só o encontrei na rua, nada demais.
Meu pai ficou me observando mentir.
— Certo.
Depois disso corri para o quarto. Os dias que se seguiram foram os mais torturantes possíveis. É claro que eu estava criando grandes expectativas para essa mensagem, se ela acontecer mesmo. O que ele estava em mente? Tudo bem, eu sei que ele quer me levar para cama, e isso é só um joguinho besta que ele está fazendo, mas precisa me torturar dessa maneira?
Passei os dias sem saber como prosseguir sem pensar em Styles, uma tarefa muito difícil. Eu estava jogada na minha cama, olhando o facebook, quando eu me lembrei de pesquisar sobre as namoradas de Harry. Eu estava obcecada, queria conversar com alguém sobre, mas eu estava sem amigos naquele momento e não podia contar ao meu pai, pois eu tinha certeza que ele iria excluir o contato de Harry e o bloquear no meu celular. Abri o site de pesquisa e joguei ali, esperando as informações aparecerem.
Descobri que ele namorou Taylor Swift e Kendall Jenner, saiu com algumas outras famosas. Encontrei também várias fanfics sobre ele e um dos acompanhantes de banda, Louis. Eu acabei me distraindo com uma das fanfics, lendo-a, e pensando “quem era eu na fila do pão?”. Tanta gente mais bonita e mais interessante nesse mundo que ele já ficou e eu aqui, já planejando nosso casamento. Parei de ler a história e abri meus contatos do celular. Fui até a letra H, e encontrei-o ali. Olhei para a sua foto e pensei em como ele era simplesmente um sonho. Será que eu devia mandar uma mensagem primeiro? Lógico que não, , se é ele que quer tanto te impressionar, deixe-o fazer. Mas como ele estava pensando em me impressionar, se ele já me impressionava desde meus nove anos?
Eu tomei um susto quando o celular vibrou e na parte superior apareceu uma notificação das mensagens. Cliquei e abriu na conversa com Harry.
“Lucky Voice. Sábado a noite. O que acha? Xx H.”
Meu coração batia muito rápido. Minha respiração estava pesada, e queria gritar, mas meu pai já estava dormindo. Tentei normalizar a minha respiração pensando na resposta.
“Karaokê? Esse é o jeito que você vai me provar quem você é: música?”
Por que eu achei que ele fosse responder essa mensagem? Era óbvio que eu o tinha ofendido, burra, burra, burra! Meu celular vibrou.
“Claro, cantar é uma habilidade secreta minha. E aí, o que me diz?”
Não preciso nem dizer para você o que eu respondi, não é?


VII: Nunca corte seu cabelo

— E aí? Cadê a continuação? — Diego disse e eu fiz sinal para que ele se acalmasse. — Qual é, lê logo!
— Di, fica calmo, eu já vou ler... — Eu ri um pouco e ele revirou os olhos tirando o diário da minha mão. — Ei!
— Você demora muito. — Ele disse, e eu tentei pegar o caderno de volta, mas ele era mais alto que eu e conseguiu esticar o braço para bem longe de mim. Eu me joguei em cima dele e consegui recuperar o diário, enquanto ele ria. — Calma, não sabia que você me queria tanto assim.
— Não sabia que você me queria tanto assim — imitei-o com uma voz fina — Ah, dá licença, né! Minha avó, minha casa, minhas regras.
Diego riu e me puxou dando um beijo na minha bochecha. Olhei para ele e como ele era irresistível, merda. Ele não era a pessoa com o melhor físico da vida, mas esses cachinhos, ah, como o deixavam lindo.
— Me faz um favor. — Eu disse e ele estava atento. — Nunca corte seu cabelo, ok?
Diego riu e me abraçou.
— Até parece que você manda em mim assim. Meu cabelo, minhas regras.
Diego me beijou e eu cheguei até a largar o diário ao meu lado na cama para aproveitar o beijo. Porém ele parou e pegou o diário de volta.
— Vamos ou não?


VIII: Boa noite,

Querido diário,

Eu estou muito elétrica nesse momento. Eu achei que era um bom momento para eu...
[“O que está escrito aqui?” — Diego disse e eu tive que ler. Como que ele não conseguia entender a letra da minha avó? “Escrever” — eu disse e ele voltou a leitura. Panaca.]
... escrever o que aconteceu hoje. Bom, chegou o grande dia de sábado. Desculpe a demora para voltar a escrever, achei que meu pai tinha me escutado, mas ele não o fez. Enfim, como eu estava dizendo, chegou o grande dia de sábado. Eu tentei ao máximo manter a calma durante os dias, mas eu devo admitir que não dormi nada da noite passada para hoje.
A noite foi se aproximando e eu fiquei pensando em uma desculpa para dar ao meu pai. Então eu pensei em uma e disse a ele que eu iria ao centro essa noite encontrar uma amiga de Oxford que estava passando as férias aqui. Papai apenas disse que tudo bem, mas que era para eu não estender muito a noite. Ele avisou que iria ficar em casa e assistir uma maratona de “De volta para o futuro” e eu disse que queria muito ficar com ele, mas que eu já tinha combinado com essa amiga que eu iria a encontrar.
Eu coloquei um sutiã preto e por cima uma blusa um pouco transparente preta também, uma calça jeans escura e uma bota de cano baixo. Eu enrolei o cabelo, passei rímel e blush. Um batom vermelho era sempre bem-vindo, mas eu fiquei em muita dúvida se eu o usava ou não. Que imagem eu iria passar para Harry Styles com um batom vermelho?
Ah, quer saber? Que se dane ele, eu vou passar porque eu quero.
Eu estava pronta e avisei ao meu pai que estava saindo. Ele já estava preparado para a maratona quando eu deixei a casa, e estava pronta para ir até o karaokê. Pedi um Uber e cheguei até que mais rápido do que eu imaginava. Fiquei em frente ao local, e mandei uma mensagem para ele, perguntando se ele tinha feito uma reserva.
“Claro que fiz. Dê o nome de Haz. H”
Foi o que eu fiz e logo eu estava em uma das salas do karaokê. Eu estava entrando na sala quando Harry apareceu atrás de mim e sussurrou “Oi!” perto de mim. Tomei um pequeno susto, mas só olhei para ele, que sorriu e acenou para mim.
— Legal aqui, né? — ele disse e eu me sentei no sofá.
— Tá, qual é a parte que você me deixa louquinha por você? — eu disse olhando o cardápio de bebidas e Harry riu.
— Olha, pelo visto, essa será uma tarefa muito complicada — ele levantou o dedo indicador no ar e sorriu, se dobrando e aproximando de mim. — Mas não disse impossível.
— Blá blá blá, impossível. Foi só o que eu ouvi. — Sorri para ele de volta e ele riu voltando a ficar ereto. Escolhi uma bebida de frutas vermelhas com limão e ele pediu uma Margarita. — Ok, qual será a primeira música... Ah, eu não acredito que tem Harry Styles aqui!
Eu o olhei fingindo surpresa e Harry riu novamente.
— Vamos ver, qual música... Espera, hã, essa daqui parece boa: Two Ghosts. — Eu escolhi e a música apareceu. Um som gostoso começou a tocar, não acredito que ele escreveu essa música.
Tentei acompanhar, mas eu não sabia qual era o ritmo então cantei tudo errado, aparentemente, fazendo Harry rir o tempo todo. Então ele pegou o microfone e começou a cantar no meu lugar.
— Música bonita. — Eu disse quando acabou. — Foi para quem essa? Kendall ou Taylor?
Ele riu olhando para os próprios sapatos.
— Chegou a minha vez de escolher a música. — Harry clica em uma música e You’re Still The One começa a tocar. Essa eu conhecia, eu era muito pequena quando ela foi lançada, mas eu achava o ritmo simplesmente maravilhoso. É claro que vê-lo cantar comigo me deixou toda derretida, isso estava nos planos dele. E era engraçado como a minha voz desafinada não combinava nada com a voz dele, que era maravilhosamente rouca e no tom.
Harry cantava olhando para a tela e as vezes me lançava um olhar. Eu tentei ao máximo não babar, mas era quase uma missão impossível. Então não olhei para ele em nenhum segundo. A parte mais dura era o refrão que ele ficava me olhando e eu olhava para o chão e para a tela. Na última frase ele olhou para mim e eu nem percebi, mas estava olhando para ele de volta enquanto ele dizia “Look how far we've come my baby”. Meu olho devia estar entregando tudo o que eu estava sentindo, não era possível, pois ele sorria e se aproximava a cada milissegundo. Mas fomos salvos pelo garçom que apareceu com a nossa bebida.
— Então — eu disse me sentando no sofá e ele me acompanhou sentando-se do outro lado — eu sempre quis saber quem era Harry Styles de verdade.
Harry sorriu contra o copo. Meu deus, garoto, pare de sorrir, senão eu morro.
— E se eu disser que é um homem que está tentando se descobrir ainda?
— Eu não acreditaria. — Eu respondi. — Você sabe muito bem quem você é, Harry.
— A única coisa que eu sei é que eu sou alguém que está aproveitando muito a noite. E você?
Harry pendeu a cabeça para seu ombro direito, sorrindo amigavelmente.
— É. — Eu disse olhando para a tela. — Acho que você desafinou um pouco no último refrão.
Harry riu.
[“Caraca, sua avó era dura na queda, hein” — Diego diz e eu pego o caderno dele, mesmo ele protestando. Volto à narrativa.]
— Você não relaxa nunca? — Ele se levantou e colocou seu coquetel na mesa redonda no canto da sala. Harry pegou o microfone e me entregou. — Escolhe aí a próxima, então.
— Hã... — eu começo a olhar a lista de músicas e encontro uma da Taylor Swift que eu sabia que era para ele. — E essa aqui chamada Style?
Harry tentou conter um sorriso, desviando o olhar. Ele voltou seus olhos para mim e assentiu. A música começou a tocar e eu cantei ela inteirinha, sem que ele participasse. Achei estranho isso, pensei que ele quisesse cantar comigo e eu até disse a ele isso quando acabou a canção.
— Acho que é a minha vez de escolher, não é? — ele apenas disse isso. Fiz que sim e a próxima música era uma da Ariana Grande chamada Just a little bit of your heart. Ele cantou essa sozinho, pois dessa vez minha cabeça estava muito distante pensando em se eu o ofendi de alguma maneira. Provavelmente tinha, ele nem quis conversar sobre e cantou como se ninguém estivesse ali com ele.
Até que Harry cantou as palavras “Just a little bit of your heart is all I want” me esticando a sua mão e eu a peguei, começamos a dançar cada um no seu lugar enquanto ele cantava, nossas mãos ainda entrelaçadas. Dançamos o final da música e me puxou para perto sem eu perceber. Eu quase cai quando ele fez isso e soltei um “Harry!” mal humorada, fazendo-o dar risada, mas nossas mãos ainda não estavam separadas. Eu percebi que eu tinha começado a suar e que não estava preparada para essa aproximação com ele. Bom, o que eu esperava, ele iria fazer a sua jogada alguma hora da noite, não é mesmo? Eu não queria soltar, pois eu sabia que seria bem estranho, mas ao mesmo tempo eu não queria soltar porque eu simplesmente não queria.
— Podemos estender a noite em outro lugar? — ele disse, o que me fez soltar de sua mão.
— Pensei que você iria me convencer de que era uma boa pessoa. — Eu disse e ele não entendeu. — A gente mal se conhece e você já quer...
— ... Tomar um ar fresco e conversar com você um pouco sobre a vida? É, é isso o que eu quero, você me pegou.
Arqueei a sobrancelha, em dúvida de acreditar nele ou não.
Saímos depois dessa música e ele e eu começamos a caminhar pelas ruas de Londres. Estava uma noite gostosa, eu já estava um pouco alterada e acho que ele também. Bem, eu ainda estou alterada enquanto eu escrevo em você, diário. Mas eu precisava contar o que aconteceu hoje enquanto eu ainda tinha a memória inteira na minha mente.
Estávamos eu e ele lado a lado pela calçada. Chegamos na sorveteira que eu o tinha encontrado da primeira vez e nos sentamos no degrau em frente ao estabelecimento que estava fechado. Eu estava morrendo de frio, torcendo para que ele me desse seu casaco de seu terno. Aliás, eu nem comentei sobre isso quando o vi, mas ele está sempre vestido de maneira elegante, misturada com estampas incríveis. Ele inventava a própria moda.
[“Pausa para pesquisar Harry Styles no ano de 2019” — eu disse para Diego, que pegou seu celular e pesquisou o que eu pedi. Eu me aproximei do celular e fiquei boquiaberta. “Uau, sua avó estava com esse cara?” — Diego disse e eu assenti.]
Harry finalmente me entregou seu casaco que não era tão grosso assim. Colocou-o por cima de meus ombros e voltou seus braços para apoiá-los em seus joelhos.
— Tudo bem aí? — Ele perguntou.
— Com certeza. — Eu disse e ele ficou olhando para a paisagem que tínhamos ao redor. Londres era uma cidade apaixonante, não importa o que dizem. Viver aqui é um sonho, eu mal me lembro de como era viver no Brasil, mas a Inglaterra era agora o meu lar. Agora não, há muito tempo. — Se você pudesse escolher um lugar para acordar amanhã, que lugar seria?
Harry olhou para mim com um sorrisinho.
— Que pergunta mais de Tinder.
— Harry! — eu disse e ele riu, assentindo.
— Tudo bem. Hã, não sei, acho que em um palco. Fazendo o que eu mais gosto.
— Entendi. — Eu respondi. Ele olhou para mim, enquanto eu tentava esquentar inutilmente minhas mãos.
— E você?
Olhei para as árvores mais distantes antes de responder. Eu não fazia ideia.
— Não sei. Nunca parei para pensar nisso.
— Ah, mas assim você estraga a brincadeira, . — Ele disse colocando as mãos em sua cintura e piscando um olho. Sorri involuntariamente. — Isso foi um sorriso verdadeiro?
Revirei os olhos ainda sorrindo.
— Não... — comecei, mas ele me interrompeu.
— Ah, não me venha com essa! Eu tenho certeza que isso foi um sorriso sincero! Finalmente, hein?
— Sorriso sincero não significa que eu já me decidi em relação a você. — Eu disse e ele riu.
— E eu não esperava nada de diferente de você. — Harry respondeu. Encarei-o e ele, quando percebi, estava devolvendo o olhar. Você sabe quantas vezes eu quis beijar esse homem só hoje? Muitas.
— Você ficaria com uma fã? — eu disse sem pensar.
— Depende. Se a fã for você... — ele sorria. — ... Então não.
Soltei todo o ar de dentro de mim e dei um tapa de leve em seu braço.
— Eu não estava falando de mim, sua besta. Aliás, quem disse que eu sou sua fã mesmo?
— Até parece que você não se lembra de ser obcecada por mim e pela minha banda quando você era só uma criança. — Ele disse, vitorioso.
— O quê? — tentei disfarçar, mas ele estava rindo.
— Tudo bem, . Você foi a minha primeira fã de verdade, depois da minha mãe. — Ele respondeu e fez um bico. — Apesar de ser totalmente estranho.
— Ok, eu preferia que você mudasse de assunto agora. — Eu devia estar um pimentão naquela hora, tinha certeza. Levantei-me e o puxei junto. — Vamos, eu tenho que ir para casa agora.
Harry me levou a pé até a minha casa, enquanto conversávamos sobre vários tópicos mundanos. Como, por exemplo, ter um animal de estimação sempre foi o meu sonho, ele também amava os Beatles — o que fez meu coração acelerar muito, admito — e como família significava muito para nós dois. Estávamos nos aproximando de casa, então eu disse para nos despedirmos ali.
— Não posso te levar até a porta? — ele pergunta assim que paramos. Olhei para o relógio do celular.
— Bem, acho que tudo bem, a essas horas meu pai já deve ter caído no sono durante a sua maratona de filmes.
Puxei-o para minha casa e paramos em frente da minha porta. Olhei para ele, já dizendo que tinha sido uma noite até que agradável, mas que muito provavelmente seria uma única noite. Harry não estava nem me ouvindo e ele se aproximou de mim.
— Você vai tentar me beijar agora? — eu disse baixo e ele só sorria. Ele fez um carinho na minha face esquerda e puxou meu queixo para perto dele. — Você sabe que se você me beijar, tudo vai acabar aqui, não é?
. Você quer mesmo estragar o momento, não é? — ele respondeu olhando para meus lábios. Eu olhava para os do dele.
— Se você só queria isso de mim, você poderia ter pedido antes. — Eu disse e ele sorriu de lado. Harry soltou meu rosto e colocou as mãos nos bolsos da calça.
— Boa noite, . — Ele disse e começou a caminhar para longe dali. Fiquei observando Harry Styles olhar para mim andando de costas para a rua, até que ele se virou e foi embora. Meu coração estava disparado. Mordi o lábio inferior, sem saber como prosseguir.
Juro, diário, eu até agora não entendi por que eu não quis deixá-lo me beijar, quer dizer, ele. Estava. Bem. Ali!
Só quando eu entrei em casa notei que estava com o casaco dele por cima de meus ombros. Meu pai roncava no sofá, então eu aproveitei e subi correndo para meu quarto, fechando a porta atrás de mim. Guardei o casaco dele no meu guarda-roupa, prendi meu cabelo e me sentei para escrever. Já sabia com o que eu iria sonhar essa noite.


IX: O que você teria feito?

Olhei para Diego, que devolveu o olhar. Abri a boca para dizer algo, ele me imitou, mas não dissemos nada. Ficamos em silêncio por alguns segundos.
— O que você teria feito? — eu perguntei, quebrando o clima. Di olhou para mim e balançou a cabeça.
— Beijaria, foda-se. — Ele respondeu e eu ri. — Sério. Eu não sei se ele iria me encontrar de novo, essa poderia ser a única chance de ficar com ele.
Observei-o colocar sua tese, mas ao mesmo tempo fiquei pensando que minha avó deveria estar com medo de se apaixonar por ele no primeiro beijo. E sim, talvez eu esteja dizendo isso porque foi o que aconteceu comigo em relação a Diego, mas eu ainda não tenho certeza.
— E você? — Ele pergunta me cutucando. Volto meu olhar para ele.
— Ah — começo, meio incerta do que eu estava prestes a dizer. — Acho que ela fez isso para se proteger.
— Proteger? — ele ficou um pouco confuso. — Proteger de quê?
— Ah, sei lá, talvez de começar a gostar dele.
— Ele só queria um beijinho sem comprometimento. Nada de mais. E antes que você diga — ele me interrompeu antes mesmo de eu conseguir falar — que ele estava errado de querer isso dela, eu não concordo. Pelo o que eu já li do começo do século XXI, Bauman tinha dito que as relações estavam cada vez mais líquidas. Era próprio da época ser assim. E ela deveria saber, como ela mesma coloca, que ele só queria isso dela.
— Não sei, não, hein. — Eu respondo. — Eu acho que quem estava errado era ele, sim, porque ele só queria se aproveitar dela.
— Você tá pensando com a cabeça de hoje em dia, Ju.
— Tá, mas ele não a beijou de qualquer jeito.
— É, mas isso só deve ter dificultado as coisas, porque, pelo o que sua avó escreve, ela devia estar caidinha por ele naquele momento e ele só a deixou com vontade de mais.
Fiquei olhando para Diego que estava acenando com a cabeça.
— Então você admite que ele está errado? — eu disse e Diego riu. Logo em seguida bocejou — ou fingiu um bocejo.
— Acho que está na hora da gente dormir, não acha?
Eu preparei o colchão que sempre ficava embaixo da minha cama para ele, enquanto ele usava o banheiro. Assim que Diego voltou, ele se jogou no colchão já pronto e depois de alguns minutos já roncava. Eu não estava conseguindo pregar o olho de qualquer maneira, tentando entender o porquê de tudo isso ter acontecido com a vó e ela nunca ter me contado isso. Será que minha mãe sabia? Eu não queria arriscar por enquanto, eu queria viver um pouco a história da minha avó, ver até aonde ela foi e então eu estarei preparada para saber a verdade e se era verdade mesmo tudo isso.
Eu estava me revirando na cama, até que virei de barriga para cima e fiquei olhando para o teto. Virei-me em direção a mesa e fiquei encarando o diário. Eu queria muito saber a continuação, talvez eu não estivesse conseguindo dormir porque eu estava muito ansiosa e ler o que aconteceu em seguida provavelmente iria me acalmar. Olhei para Di dormindo ao meu lado. Acho que ele não se importaria se eu continuasse sozinha, não é? É a minha avó, afinal.
Tentei manter o maior sigilo possível e estiquei meu braço até a mesa. Peguei o diário, o abri e virei a página, tirando o marcador que tínhamos colocado. Aconcheguei-me na minha cama e comecei a leitura.


X: Você ainda é única

Querido diário,

Harry nunca mais me mandou mensagem. Pelo menos não por alguns dias. Eu ficava repetindo aquela última conversa que tivemos sobre o beijo toda vez antes de dormir, analisando as possíveis respostas que eu poderia ter dado ou feito. Para me distrair, fiquei lendo um pouco, jogando Wii — Mario Kart, para ser mais precisa — e fazendo palavras cruzadas. Eu saia durante o dia e passava a tarde em uma cafeteria qualquer de Londres, sempre desejando que aqueles olhos esverdeados me encontrassem. Isso não aconteceu.
Então chegou um dia que eu estava sentada em uma das mesas de uma cafeteria perto de casa lendo Orgulho e Preconceito, quando eu notei que duas garotas sentadas mais a frente estavam dando gritinhos emocionados enquanto compartilhavam fones de ouvido e olhavam a tela do celular. Eu consegui as ignorar por algum tempo, até que eu não pude deixar de prestar atenção quando uma delas disse “Ai, meu Deus, como o Harry é lindo!”. Eu obviamente estiquei meu pescoço para ver o que elas estavam vendo e era um vídeo de um dos shows dele. O título era “You’re Still The One”.
Meu coração acelerou e eu o vi cantar com uma outra cantora chamada Kacey Musgraves. Não sabia como reagir, então pigarreei para ver se elas me escutavam, mas não obtive respostas. Tentei novamente, sem sucesso. Então me levantei e cheguei até a mesa delas, chamando toda a atenção das meninas para mim. Sorri.
— Olá, tudo bem?
— Hã, oi. — Uma delas disse e a outra ficou apenas me encarando. — Tudo sim.
— Eu não pude deixar de prestar atenção no vídeo que vocês estavam vendo... É o Harry Styles cantando You’re Still The One?
Uma delas olhou para a outra e sorriu.
— Sim. Você também gosta dele?
Querida, se eu te dissesse como eu gosto dele...
— Sim! — eu ri e elas me acompanharam.
— Ele é um sonho, não é? — a primeira disse e eu assenti. — Eu amo esse cover que ele fez com a Kacey.
— Sim! Eu achava tanto que ele devia gravar uma versão dele dessa música! — a outra respondeu e eu só sorria, sem saber o que dizer.
— Sim, sim. — Eu disse e olhei para o celular, pensativa. — E você sabe da música Just A Little...
—... Bit Of Your Heart? — a outra completou. — Ele também cantou no show! Ah, ele é demais.
Eu estava perplexa. Quer dizer então que as músicas que ele cantou para mim, e comigo, no karaokê eram todas planejadas? Ele realmente só queria uma coisa de mim, não é?
[Eu não acredito que minha avó está realmente pensando isso. Caraca, ela não vê que não tem problema as músicas serem as mesmas?!]
— Obrigada, meninas, pelo papo, eu já tenho que ir. — Eu disse e elas assentiram, acenando para mim.
Diário, se você soubesse como eu fiquei transtornada aquele dia... Eu não sei como eu consegui chegar em casa, só sei que cheguei e me enfiei no quarto. Vários pensamentos rondavam na minha cabeça, mas um deles era de alívio por eu não ter o beijado. Não dei o que ele queria, mesmo que fosse o que eu quisesse também. A verdade é que eu tinha certeza que eu iria me machucar se eu desse aquele beijo nele. Eu sempre tive essa obsessão por Harry Styles, admito! Beijá-lo poderia ser a minha libertação ou a minha prisão, e eu não queria arriscar.
Estou agora esperando meu pai sair do banho para que eu entre e possa chorar em paz. Faz dois dias que eu descobri tudo e desde então eu não penso em outra coisa. Bom, me deseje sorte para esquecer esse tal de Harry Styles.


XI: Harry Styles. Ele era mesmo alguém real?

Querido diário,
Talvez você esteja me julgando previamente pelo o que eu vou dizer, pois você já deve imaginar o que virá a seguir, mas direi mesmo assim: não estou mais brava com Harry. E tudo isso foi parte de um grande mal-entendido. Acho que você já estava imaginando isso, não é? Sim, eu reagi mal e exagerei na reação. E agora está tudo bem. Vou explicar o que aconteceu.
Bom, Harry me enviou mensagem coincidentemente no mesmo dia que eu escrevi em você, mas eu o ignorei. Ele mandou mais algumas mensagens, mas como eu não respondi, Harry desistiu de mim. Em um primeiro momento eu achei isso ótimo para eu conseguir superá-lo de vez. Essa história de conhecer um popstar era muito distante de mim e nunca tinha visto isso acontecer, só em histórias fictícias mesmo.
No começo eu estava evitando sair, não queria correr o risco de encontrar alguém e ter que socializar, mas fui melhorando de humor e já um tempo breve depois eu tinha conseguido até sair para fazer o que eu mais gostava: comprar discos de vinil.
Eu amava com todo o meu coração discos de vinil, ganhei minha primeira vitrola quando eu tinha 13 anos e desde então eu tenho cultivado esse hábito de ouvir preferencialmente as minhas bandas favoritas por meio desse aparelho antigo e mágico. Então lá estava eu, já explorando a loja, procurando algum álbum que eu ainda não tinha do Queen ou dos Beatles. Estava um dia engraçado, o céu não sabia se deixava o sol brilhar ou a chuva cair. Meio que os dois se complementavam e fizeram naquela tarde aparecer um arco-íris. Estava bem bonito.
Andei pelas fileiras de discos, tocando em cada um, lendo algumas considerações. Eram discos de segunda-mão, e fiquei imaginando as histórias que eles deviam carregar em cada um.
Estava toda distraída, quando eu levantei um dos discos para ver melhor sobre o que era. Quando eu o abaixei, dei de cara com meu querido Harry do outro lado da estante, mexendo nos discos enquanto olhava para mim. Coloquei o disco de volta e comecei a caminhar para minha esquerda, tentando me afastar dele, mas ele me acompanhava no mesmo ritmo. Eu nem estava prestando atenção no que estava tocando na loja, mas a próxima música que se iniciou era inconfundível. Harry olhou para o alto e depois para mim e me entregou um olhar sugestivo, como se ele fizesse as palavras da música, dele. Justin Bieber já estava na parte em que falava “You know I try but I don't do too well with apologies” e Styles sorria para mim com a linha da boca. Balancei a cabeça negativamente, mas ele não desistia. Harry começou a dublar a música e eu tentei não olhar, mas era impossível, uma vez que ele saiu de trás da estante e parou na minha frente, me impedindo de andar, mesmo eu tentando continuar.
Ele foi me acompanhando até quase tropeçar e cair de costas no chão. Eu o segurei e ele não chegou a cair, mas foi por muito pouco.
— Você é uma besta, mesmo, não é? — eu disse soltando seu braço. Ele puxou a blusa que tinha subido um pouco e fez que não, sorrindo. — O que você quer?
— Eu quero saber o que aconteceu, claro. — Ele disse e eu cruzei os braços na altura do busto. — Por que não respondeu minhas mensagens?
Eu olhava com tédio para ele, o que não correspondia com o meu estado interno naquele momento, é óbvio. Harry apoiou o braço na estante mais próxima.
— Porque não quis.
Harry estranhou.
— Eu não quero parecer convencido...
— Você é convencido.
—..., mas você não me parecia não querer ter contato comigo na última vez que nos encontramos. — Ele disse. Não estava acreditando que aquilo estava mesmo acontecendo.
— Olha, só me deixa em paz, ok? — eu voltei a caminhar para longe dele, mas Harry me acompanhou no meu encalço.
— Qual é, , vai me dizer que eu te tratei mal aquele dia?
— Não é isso...
— Então!
— Justamente por você ter me tratado bem!
— O quê? — ele disse sem entender nada.
Eu parei de andar e me virei para ele.
— Escuta, senhor Styles, rockstar do mundo inteiro. Não pense que eu não sei o que você quer de mim. Eu só não sei se eu quero mesmo entrar nessa furada.
— E o que eu quero de você? — Ele se aproximou. Não pude responder, porque uma fã apareceu e pediu licença para tirar uma foto com ele. Ela me entregou o celular e eu, com muita má vontade, tirei a foto para a garota. Depois que ela foi embora eu só suspirei e dei as costas para Harry. — Ah, qual é, !
Eu saí da loja e a chuva continuava com o sol raiando. Coloquei o capuz e logo percebi que Harry estava atrás de mim.
— Não vai me dizer mesmo? — ele disse e eu, a alguns passos dele, parei de andar. Virei-me em sua direção.
— Por que insistir nisso? — eu balancei a cabeça. — Eu sei que tudo foi uma jogada só atrás de uma única noite.
— Hã?
— Olha, eu sei que você cantou as músicas na sua turnê “maravilhosa” do ano passado, mas saiba que eu realmente não sou uma das suas fãs que aceitariam de tudo para ficar com você. — Eu disse para ele. Foi como se um peso saísse de mim. Harry ficou me encarando por alguns segundos e desatou a rir. — Do que você está rindo?
— Nada, é que... — ele riu mais um pouco — ... qual é o problema de eu ter cantado essas músicas na minha turnê?
— Ora, porque...
— E outra, você mesma ficou escolhendo músicas minhas para cantar, além de tocar aquela música que eu detesto da Taylor. Não acha que quem deveria estar não muito contente aqui seria eu?
Eu estava muito confusa. O que ele dizia fazia muito sentido. De repente toda a mágoa que eu sentia sumiu e no seu lugar sobrou apenas vergonha. Acho que ele notou isso em mim, pois ele se aproximou alguns passos e passou a fazer carinho no meu braço. Ele estava muito cheiroso.
— Desculpe, eu não quis ser grosso. Só queria te mostrar que não tinha nada para se preocupar.
Olhei para seus sapatos muito chiques que deviam ter custado uma nota. Levantei o olhar para ele que sorriu para mim.
— Aquela música Just A Little Bit Of Your Heart realmente era bonita. — Eu disse apenas o que o fez soltar uma risada.
— Gostou? Eu a escrevi há alguns anos.
Demorei para entender que quem era o autor da música era ele, mesmo ele dizendo com todas as letras isso. Assenti e ele segurou meu cotovelo.
— Estamos de bem?
Respirei fundo.
— Não. — Eu disse e ele soltou o ar de dentro dele, pendendo a cabeça para seu ombro direito. — Eu realmente não sei se quero ser... Sei lá, não sei se quero ser...
— O quê? — ele não estava conseguindo entender.
— Não sei se quero mesmo ter contato com você. — Eu disse e ele fez um bico. Logo em seguida sorriu.
— Tem certeza? Eu ainda não mostrei tudo o que eu sou para você. — Ele disse apenas, me fazendo revirar os olhos. — Eu estou falando sério, !
Fiquei encarando Harry Styles. Ai meu Deus, como é estranho escrever isso, diário! Harry Styles. Ele era mesmo alguém real?
— Tá. — Foi o que eu respondi e Harry soltou uma risada breve.
— Você é uma mulher de muitas palavras, adoro isso! — Ele disse e eu não tinha percebido antes, mas ele já tinha parado de segurar meu braço. De repente queria aquele carinho de volta. A chuva começou a apertar mais ainda, Harry estava sem seu guarda-chuva, seus cachos estavam todos molhados, e seu rosto pingava. Só naquele momento eu me dei conta de que eu estava judiando dele.
Puxei Harry para um local com um teto para nossas cabeças e esse local foi a loja de bolos mais próxima. Tateei meu bolso em procura do meu celular e o encontrei. Ele estava a salvo, ainda funcionava bem. Harry balançou seus cabelos, me molhando toda. Obviamente eu protestei, mas ele não ligou. Ele apenas pegou o seu celular e abriu no aplicativo do Uber.
— Vou pedir um Uber, minha casa é perto daqui, podemos ir lá nos secar. — Ele disse ainda olhando para o celular. Uma parte de mim não queria ir para a casa dele, sei lá o que poderia acontecer ali. Mas a outra parte...
— Ah. — Soltei e ele lançou um rápido olhar para mim.
— O que foi?
Olhei para o tecido da lona que nos abrigava.
— Não era isso que eu tinha planejado quando saí de casa. — Eu respondi e Harry riu. Olhei para ele. — É sério, meu pai está me esperando.
— Ah, é? E como ele está? Está bem? — Harry não tirava os olhos do celular e eu me irritei. Estalei os dedos na frente de seu rosto, chamando atenção. Ele parou e olhou para mim. — Ok. Você quer que eu chame um Uber para te levar para sua casa?
É aí que eu sei que você me julga, diário. Porque eu disse que não. Entenda, era difícil resistir essa tentação. Não é todo dia que Harry Styles te convida para a casa dele.


XII: Sempre, sempre é assim

Percebi Diego se remexer na cama e automaticamente eu escondi o diário embaixo do travesseiro. Fiquei olhando para o teto ouvindo-o roncar. Estava muito tensa e não sabia o porquê, mas acho que a história da minha avó estava me deixando cada vez mais ansiosa. Será que o melhor era eu não ler mais? Realmente nada irá mudar na minha vida se eu parar de ler, já que tudo isso já foi — se for real, é claro.
Caí no sono assim, com o diário escondido no meu travesseiro. E tive o sonho mais louco que é possível ter. Eu era a minha avó, e Harry e Diego estavam no sonho. Diego era meu marido e Harry meu amante. Mas não fazia o menor sentido, porque eu queria o tempo todo passar com o Di e não com o Harry. Tanto que no sonho toda vez que Harry tentava me levar para algum lugar eu passava o tempo reclamando e dizendo que queria Diego de volta. Acordei com ele me olhando, o que me fez tremer de susto.
— Cara, que susto! — eu disse passando a mão por meu cabelo todo bagunçado e me esticando. Diego soltou uma risada tímida.
— Dormiu bem? — ele estava dobrando o cobertor e o lençol do colchão dele. Fiz que sim, e assim que eu parei de me esticar, deixei o diário cair da minha cama. Soltei um palavrão e ele parou o que estava fazendo para olhar o objeto caído no chão. Diego olhou para mim e eu olhei para ele. Ele abriu a boca para dizer algo, mas a fechou em seguida. Então abriu de novo. — Você leu mais?
Hesitei em responder, mas balancei a cabeça confirmando. Diego não acreditou.
— Achei que iriamos ler juntos. — Ele disse largando o cobertor dobrado em cima do colchão. Sentei-me na cama rapidamente.
— Di...
— Qual é, Julia. Você sempre faz isso! — Ele reclamou e eu estranhei.
— Isso o quê? — Eu perguntei. Ele balançou a cabeça negativamente.
— Você sabe o quê.
— Não, eu não sei, e ficaria muito grata se você...
— Você não consegue cumprir um combinado nosso! — Ele soltou e eu fiquei o encarando. Como assim?!
— Como assim?! — eu disse exasperada.
— Sempre, sempre é assim. A gente combina de fazer algo juntos, mas você acha que é melhor fazer sozinha ou simplesmente desiste.
— Do que você tá falando, Dieg...?
— Lembra-se da festa de aniversário de Marcos, que a gente iria juntos e você ia me buscar na minha casa? Você se lembra de não ter feito nada disso, se lembra do porquê?
— Eu...
— Ou então lembra-se do dia da sua matrícula? Tínhamos combinado que eu iria junto e depois iríamos almoçar no seu restaurante favorito. Lembra-se do que aconteceu no fim?
— Eu fui com a minha avó. — Eu disse e ele se calou. Eu olhava para o chão e ele continuava a me encarar, com um ar pesado no rosto.
— Desculpe, eu...
— Escuta, Diego. Por que você não só... Vai embora? — Eu disse levantando o olhar para ele.
— Julia...
— É sério. — Eu disse e ficamos em silêncio. Então ele começou a andar na direção da porta.
— Ah. — Eu disse o impedindo de continuar. Diego se virou para mim. — Você não acha que eu tenho o direito de querer continuar a ler a história da minha avó sozinha? Pense sobre isso.
— Julia, eu...
— Tchau, Diego. — Eu disse e ele assentiu. Diego saiu do meu quarto e esperei ele sair de casa, ouvindo a porta bater, para me jogar de volta na cama. De novo, queria dormir e esquecer que eu estava passando por tudo isso.


XIII: Petit gateau de doce de leite

Passei a manhã na cama, sem vontade de fazer nada. Dormi mais um pouco, acordei e depois dormi mais. Minha mãe veio ver se estava tudo bem, e eu assegurei a ela que sim, só tinha tido um mal entendido com o Diego, mas que logo mais tudo ficaria bem — eu não tinha certeza sobre essa última parte, mas não quis transparecer isso a minha mãe.
Eu e minha mãe estávamos deixando para o final o quarto da minha avó, essa seria com certeza a parte mais difícil de todas. Por enquanto estávamos evitando aquele local, então voltei para o escritório, pois tinha ainda muito a se fazer ali.
Comecei a tirar tudo da primeira prateleira, estava cheia de papéis aleatórios que eu não tive paciência para ler no momento, eu estava mais preocupada em limpar as prateleiras em si. Peguei o pano e comecei a passar pela madeira. Ao mesmo tempo, fiquei de ouvido antenado no meu celular, na esperança de que Diego mandasse mensagem pedindo desculpas e dizendo que, sei lá, ele era um idiota. Mas isso não aconteceu, é claro.
Terminei a primeira prateleira já eram três da tarde. Perguntei para minha mãe se eu poderia sair um pouco de casa e ela disse que tudo bem, que iria continuar com o trabalho de arrumar a sala de televisão com as coisas da minha avó. Peguei o diário e saí de casa, em busca de um lugar diferente para eu ler.
Encontrei uma cafeteria com ar do século passado e resolvi me sentar um pouco. Coloquei o diário em cima da mesa e estava procurando meu celular na bolsa para deixá-lo junto ao caderno, até que a garçonete apareceu e perguntou se eu queria o cardápio. Levantei o olhar para ela e era como se tudo de repente ficasse em silêncio. Observei a garçonete de cabelos castanhos me olhar de volta e estar com o cardápio nas mãos. Meu coração parou por um segundo e começou a acelerar muito rapidamente quando ela disse “E então?”. Foi o momento mais bizarro da minha vida.
— Ah... Eu... — olhei para seus olhos que me olhavam com curiosidade e pigarreei, olhando para o cardápio que ela estava me entregando. — Quero sim. Obrigada.
A garota sorriu para mim depois que me entregou-o e foi embora em direção ao balcão da cozinha. Fiquei a observando, até que me dei conta de que estava a olhando por muito tempo e voltei meu olhar para o cardápio agora em minhas mãos.
Fiquei pensando muito em que pedir, fiquei pensando em Diego, fiquei pensando nessa garota. Senti seu olhar em cima de mim, meu coração a mil. Ela se aproximou.
— Sabe, se eu fosse você, eu escolheria o petit gateau de doce de leite. É realmente uma maravilha. — Ela sorriu para mim, eu não conseguia desviar o olhar de seus olhos. Eu soltei uma risada depois de muito tempo de constrangimento.
— Hã, certo, acho que vou querer o petit gateau de doce de leite então. — Eu respondi sorrindo e ela fez o mesmo. Entreguei o cardápio a ela e a garçonete se virou para ir embora, mas eu a impedi. — Hã... Você me parece familiar. Já nos vimos antes?
Eu queria muito dizer a ela que a vi nos meus sonhos, mas me segurei.
— Ah, pode ser...
— Aonde você estuda? — eu perguntei me projetando para frente.
— Na PUC. — Ela disse colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. Eu estudava no Mackenzie.
— Ah, então acho que não. Talvez nos vimos em alguma festa? — eu tentei mais uma vez. A menina olhou para o lado e então pareceu se lembrar de algo.
— Você conhece a Lisa? Lisandra Oliveira? — Ela disse e eu fiz que sim.
— Não brinca! Você conhece a Lisandra? Caramba, que massa! Da onde?
A garota sorriu.
— Ah, então você a conhece. Ela é minha colega de sala. Nos conhecemos pelo grupo da calourada e agora somos amigas. — Ela segurou um dos braços. — Fomos juntas na Filhos da Puc.
— Ah, é claro! Então a gente se conhece de lá, eu também fui à Filhos da Puc, mas com outros amigos.
Lisandra era minha colega de cursinho, junto com Diego e outras pessoas.
— Poxa, que maneiro. — Ela disse sorrindo e eu concordei.
— Qual é o seu nome, mesmo? — eu perguntei.
— Sofia. E o seu?
— Julia. Prazer em te conhecer, Sofia. — Eu sorri para ela estendendo a minha mão e ela a apertou sorrindo também.
— Bom, eu vou voltar aqui a trabalhar, mas se precisar de mim, é só chamar! — Ela disse prontamente e começou a se afastar. Fiquei a observando até que ela bateu sem querer em um cara que estava voltando da cozinha. Ela pediu desculpas e olhou para mim segurando o riso. Sorri para ela.
Fiquei com esse momento na minha cabeça durante a meia hora seguinte, enquanto desfrutava do petit gateau. Achei que esses minutos que tinham se passado me deixaram muito com o coração disparado, então me lembrei de que estava com o diário de minha avó ali. Pedi um café e voltei para onde eu tinha parado.


XIV: Quase beijo

— Bela casa... — Eu deixei sair quando o carro nos deixou na frente de um casarão branco. Harry me levou até a entrada da casa, e pediu para que eu deixasse os sapatos ao lado da porta. Foi o que eu fiz. — Ainda não acredito que o cara do Uber nos deixou entrar mesmo molhados.
Harry se virou para mim enquanto tirava o casaco todo encharcado e sorriu.
— Esse é um segredinho meu. — Ele piscou para mim e se virou de costas para entrar na cozinha. Eu fiquei encantada com os quadros e a decoração de sua casa. Fiquei com muita inveja naquele momento e me questionei se algum dia eu teria tanto dinheiro assim.
— Para quê? — eu disse baixo.
— O quê? — ele gritou lá de dentro.
— Ah, nada! — eu respondi e percebi a grande janela que dava para o jardim. Caminhei até lá e comecei a olhar para fora, apreciando a paisagem daquele dia já não tão chuvoso, mas que ainda continuava com o sol.
— Aqui. — Harry me entregou um copo quente e uma bebida escura o preenchia. Hesitei. Harry riu. — Relaxa, quando eu quiser te embebedar, eu te aviso.
Não achei a brincadeira nem um pouco engraçada, mas aceitei o copo e tomei um gole: era chá preto.
— Já coloquei biscoitos no forno, venha que vou te mostrar o banheiro para você tomar um banho...
— Ah, acho que uma secadora já é o suficiente, obrigada. — Eu disse dando uma pausa na bebida. Harry ficou me olhando.
— Tem certeza? — assenti. — Bom, me deixe pelo menos te emprestar umas roupas enquanto você espera estas secarem.
Eu concordei e Harry desapareceu pelos corredores. Fiquei o esperando na própria sala, tomando o chá em silêncio. Ele me entregou em seguida uma blusa gigante e um moletom. Disse que deveria caber em mim, eram roupas antigas dele. Fui ao primeiro banheiro que encontrei e me troquei ali, em seguida saí e procurei a lavanderia, encontrando a secadora. Não sabia muito em mexer em coisas tecnológicas, mas eu não era tão atrasada em relação a secadoras. Logo estava trabalhando a máquina e eu voltei para a sala, esperando a ilustre presença de meu anfitrião.
Encontrei o controle da televisão e a liguei. A televisão era enorme, eu nem sabia que era possível ter uma TV daquele tamanho. Rodei pelos canais até que larguei em um de notícias, enquanto olhava as mensagens no meu celular. Meu pai tinha me mandado uma mensagem dizendo “Me liga assim que puder”.
—... e Harry Styles foram vistos no sábado em um bar karaokê. Pelo visto eles não notaram que foram vistos. Veja agora a imagem que nossa fonte conseguiu deles dois juntos onde provavelmente deveria ser a casa de sua amiga.
Eu olhei para a tela assim que eu ouvi a palavra “Harry”. E inacreditavelmente eu estava na televisão. A imagem era de mim e de Harry na frente da minha casa, eu com o casaco dele sobre os ombros e ele conversando comigo. Meu coração acelerou e eu esperei a imagem do nosso quase beijo aparecer, mas isso não aconteceu. Quem quer que tenha tirado a foto ou não esperou para isso acontecer ou apenas estava aguardando o momento certo para nos expor.
— Calma. Fica tranquila. — Ouvi a voz de Harry atrás de mim que estava no sofá. Respirei fundo. — Veja, mal dá para ver o seu rosto. E outra, eles dizem “amiga” ...
— Isso é um desastre, Harry. — Eu disse. Não estava conseguindo normalizar a minha respiração. — Não importa se não dá para ver o meu rosto, eles sabem aonde eu moro! E se meu pai ver isso, aí com certeza estaremos ferrados!
— Ei, fique calma! É tão ruim assim ser amiga de Harry Styles? — ele apenas disse isso e eu soltei um grunhido, me virando em sua direção. Fui pega de surpresa quando o vi com uma calça de moletom e uma camisa aberta, mostrando todas as tatuagens em seu tronco — inclusive uma de borboleta e dois pássaros. Fiquei sem palavras e ele notou, o que o fez sorrir.
Grunhi de novo e caminhei até a cozinha, Harry começou a me seguir.
— O que foi, ?
— Agora temos apelidos? — eu disse irônica e ele parou de andar. Eu parei em frente ao forno, já sentindo o cheiro dos biscoitos. Respirei fundo.
— Você não está me contando alguma coisa, não é?
Era óbvio que eu não estava te contando alguma coisa, querido! Meu pai disse para eu não me relacionar com Harry, e o que eu estou fazendo? Estou na casa dele, usando suas roupas, enquanto uma matéria sobre nós dois passa no canal de fofoca da televisão.
— Quanto tempo ainda para a secadora terminar o serviço? — eu perguntei e ele suspirou.
— Escuta, . Você tem que relaxar! Você acha mesmo que seu pai vai ver esse canal de fofocas? Pelo pouco que eu conheço e me lembro dele, ele não é muito de fazer isso.
Ele até que tinha razão. Comecei a me acalmar. Minha respiração foi se normalizando e eu pude sentir Harry se aproximar de mim. Então aquele carinho de mais cedo apareceu novamente em meu braço.
— Fique tranquila, ok? — ele disse e eu assenti, mas me desvencilhei dele. Harry estranhou.
— Tá, tudo bem. — Eu disse apenas e caminhei um pouco para ficar longe dele e há uma distância segura, para eu me virar e olhá-lo. Aquele homem era um imã.
Diário, os momentos seguintes foram realmente adoráveis. Nos servimos de biscoitos quentinhos, conversamos enquanto tomávamos chá sobre a sua vida na escola e como ele não sentia mais tanta falta de ser menor.
— E você, como foi a escola para ? — Ele sempre falava com dificuldade o meu sobrenome. Era até que fofinho. Dei um gole no meu chá e me acomodei na cadeira.
— Ah, foi... horrível, para falar a verdade. Principalmente o ensino médio. — Eu disse rindo, mas ele não achou engraçado, apenas pendeu a cabeça para o seu ombro esquerdo. — Sofria um pouco. E, com um pouco, quero dizer bastante.
Harry riu soltando o ar de dentro de si.
— Ah é? E como era isso, se você me permite perguntar? Não consigo te imaginar sofrendo. — Ele disse e eu suspirei.
— Diga isso para a “estranha ”. — Eu disse já bebericando o final do meu chá. Harry não entendeu. Terminei de beber para explicar. — Quando eu era menor me chamavam de “estranha ” porque eu tinha a cabeça enorme desproporcional ao meu corpo magrelo.
Pude vê-lo segurando a risada o que me fez me sentir um pouco pequena.
— Pode rir, eu sei que você quer. — Eu soltei desviando o olhar e ele balançou a cabeça.
— É claro que eu quero rir! Quem diria uma imbecilidade dessa? Sua cabeça é exatamente proporcional ao seu corpo e qualquer um que não aceite isso é apenas um invejoso. — Ele disse acenando para mim com a cabeça e eu fiquei o encarando. Até que sorri. Eu sabia que não era isso o que ele realmente pensava — ou pelo menos a minha baixa autoestima me sabotava ao ponto de eu achar isso. Enfim.
— Bom, acho que está na hora de eu pegar as minhas roupas. — Eu disse me levantando e ele me acompanhou.
— Não quer dormir aí? — ele disse olhando pela janela. — Já está tarde para você voltar.
— Não, é melhor eu ir mesmo. — Fiz que não, agradecendo. Harry suspirou e pareceu ter uma ideia.
— Então eu já sei: vou te levar para casa! — Ele disse como se tivesse acabado de achar um tesouro. Eu ri.
— Mas é claro que não! Eu já fiquei paranoica com a parada do quase beijo aparecer na televisão...
— Do quê?
Olhei para Harry que estava sorrindo de lado para mim. Revirei os olhos.
— Esquece.
— Repete aí, vai. — Ele disse cruzando os braços e rindo.
— Você é um patético, sabia disso? — Eu disse e fomos em direção a lavanderia pegar minhas roupas. Quando estava me trocando senti uma última vez o cheiro de suas roupas e as dobrei, depois de pronta as entreguei para ele que as deixou em cima da mesa.
Eu esperei meu Uber dentro da casa dele, e, assim que o carro chegou, eu não fazia ideia de como me despedir de Harry. Ele se aproximou para me abraçar, mas eu não me sentia exatamente próxima dele — apesar de ter quase o beijado naquele dia. Mas aquele dia não vale, porque estávamos todos alcoolizados e, por assim, muito soltos. Não era eu.
Então eu corri para a porta e acenei para ele, o que foi uma cena mais patética ainda. Peguei o Uber para casa sem parar de pensar nele, é claro. E em como essa última parte tinha sido ridiculamente constrangedora. Para completar tudo, o cara do Uber deixou em uma rádio que tocava Sign Of The Times. Perfeito, eu diria.
Cheguei em casa e meu pai estava me esperando na sala de jantar. Ele tomou um susto quando me viu e saiu correndo em minha direção.
— Caramba, eu pedi para você me ligar, e você nada?! — ele disse bravo me abraçando. Ele se desgrudou de mim enquanto eu pensava em uma desculpa.
— Ah, é que... Eu estava ocupada.
— Ocupada? É isso o que você tem para dizer? — ele me acompanhou enquanto eu caminhava para as escadas.
— Sim, pai. Está tudo bem?! — eu perguntei me virando para ele que parou de andar. Meu pai me observou por um tempo e fez que sim.
— Está sim. Pode ir agora. — Foi só o que ele disse e foi se sentar no sofá.
— Pai... — eu comecei, mas ele ligou a televisão bem alto no canal de esportes — e ele nem era tão vidrado assim em esportes. Suspirei.
É difícil para meu pai só me ter, minha mãe morreu quando eu era muito jovem, é claro que eu me lembro dela, foi uma época bem difícil para todos nós, mas acredito que foi mais ainda para meu pai. Ele era órfão e só tinha a minha mãe e a mim. Agora só lhe sobrou uma pessoa e essa era eu. E para melhorar tudo eu estava o decepcionando, sei que sim. Pois é, diário, eu disse que estava tudo bem, mas eu quis dizer em relação unicamente a Styles. Minha vida com o meu pai parece que só vai piorar se eu continuar essa brincadeira.


XV: Ansiedade

Querido diário,

Eu continuei com a brincadeira.
Sim, eu me sinto muito mal por isso. Esconder essa relação de meu pai tem me deixado um pouco mal. Eu tenho me questionado o motivo disso acontecer, ele parece óbvio, não é? Mas ele não é.
Eu estava em momento da minha vida que amigos seriam de bom agrado, mas como a faculdade ainda não tinha começado e eu tinha acabado de me transferir, isso não estava acontecendo... Tirando, é claro, Harry. Começamos a ficar próximos, o que me surpreendeu de uma maneira incrível. Ao ver a banda dele — a boy band — crescer de longe, pelas matérias e pelas pessoas que ele já se envolveu, bem, que não faziam exatamente o meu tipo de amigos, sempre achei que ele tinha se tornado alguém arrogante. Ok, ele era mesmo alguém arrogante. Mas que tinha suas virtudes também.
Algo de ruim aconteceu esses últimos dias. Eu estava pensando demais sobre meu pai, enquanto Harry escolhia um sorvete para dividirmos — algum com banana. Eu estava parada em frente a sorveteria, olhando para a rua, observando as pessoas passarem, irem e virem, até que notei uma banca de revistas do outro lado. Eu comecei a ver as manchetes penduradas, passeando com os olhos pelas revistas e jornais, até que percebi algo que não queria que estivesse ali: uma foto minha de frente para Harry em uma das revistas teen. Meu coração parou naquele instante e eu engoli totalmente a seco, sem perceber que a minha respiração estava se tornando cada vez mais rarefeita. Pensei tudo muito rápido e o dono da banca nem teve tempo de me impedir quando eu comecei a tirar todas as revistas de vista e as virar ao contrário. Ele me perguntou se estava tudo bem, mas eu não conseguia responder, foi como se eu estivesse fora do meu corpo.
Eu estava descontrolada, não estava mais prestando atenção no que eu estava fazendo, só sei que quando eu percebi, Harry estava tentando me segurar e o cara da banca estava me xingando por eu ter jogado as revistas no chão. Pude ouvir o sussurro de Styles dizendo “Eu estou aqui, você está aqui, calma”. Aos poucos ele foi conseguindo me abraçar e eu cedi, o abraçando de volta. Olhava desesperada para o moço dono da banca, mas ele só me devolvia com um olhar bravo enquanto pegava as revistas e as colocava de volta, me deixando cada vez pior. Então Harry me tirou dali e me levou para um local mais restrito, atrás da banca, para eu me acalmar. Ele disse para eu respirar com calma e foi me ajudando assim, até que eu recuperei a respiração normal. Toquei meus olhos e os senti molhados, não tinha notado que eu tinha chorado. O que estava acontecendo?
— Você está melhor? — Ele perguntou encostando com a mão no meu ombro. Fiz que sim e encostei na parede atrás de mim. Fiquei observando seus sapatos chiques, mantendo o silêncio entre nós. — Você sabe qual foi o gatilho?
— Gatilho? — perguntei sem entender e ele fez que sim. Dei de ombros. — Não sei, eu estava olhando e vi nossa... Nossa... — eu tentei continuar, mas aquela sensação ruim começou a voltar.
— Calma. Eu já entendi. Eu te trouxe sorvete, você quer? — ele estava com um pote com uma banana cheia de chantili e sorvete em cima. Assenti e ele me entregou o pote. Peguei a colher e comecei a comer. Parei e entreguei de volta a ele, assim Harry segurou o pote com uma mão e com a outra ele segurou a minha. Styles me levou pela rua, até encontrar um local com muitas árvores e alguns bancos. Nos sentamos.
Eu e ele ficamos em silêncio, até que eu apoiei a cabeça em seu ombro e ficamos olhando as pombas passarem por ali. Com uma das mãos ele começou a fazer carinho nos meus cabelos e me entregou o sorvete. Voltei a tomá-lo.
Eu não sabia o que tinha acontecido naquela hora, diário, mas sei que depois de terminar o sorvete eu estava conseguindo conversar melhor. Agora eu noto que tudo aquilo era porque eu estava com medo de meu pai descobrir que eu estava o enganando. Harry agiu surpreendentemente bem em relação ao que aconteceu, o que me surpreendeu. Aliás, eu já volto, vou mandar uma mensagem para ele perguntando como que ele fez isso.
Ok, ele me respondeu agora, ele disse isso:
“Minha irmã tem ansiedade. Tenho experiência em sair de crises. Xx H.”
Ansiedade? Eu estava com ansiedade? Eu devia ter notado mesmo, ora essa, eu faço psicologia! Mas eu não sabia que ele tinha isso também, ele conseguiu sair muito bem da crise. Fiquei impressionada e contei isso a ele. Harry disse para eu conversar com o meu pai antes que ele descubra por outro caminho. Acho que ele tem razão, mas não sei se eu tenho certeza se eu estou pronta para isso. Eu nunca tinha enganado meu pai antes — pelo menos não intencionalmente. Agora eu me deitei um pouco na cama e fiquei ouvindo Conan Gray. Ele era um ótimo cantor e eu queria alguma música que não me fizesse pensar em Harry e nessa situação: mas parece que eu falhei, pois é sobre exatamente isso que eu estou pensando.
Sentei-me e voltei a escrever em você, para conseguir tirar todo o peso de dentro de mim, mas não está funcionando. Logo mais começam as aulas novamente e eu não sei mais como viver. Ai meu Deus, eu estou pirando!


XVI: Macarrão com queijo

Querido diário,
Então eu finalmente decidi contar ao meu pai sobre meu mais novo amigo. Foi uma decisão difícil, mas eu estava pirando, como eu tinha escrito da última vez.
Meu pai tinha ido no centro para fazer compras, e eu fiquei em casa, arquitetando como eu faria isso. Eu tinha que preparar o terreno, então eu preparei o jantar preferido dele: macarrão com queijo. Peguei o vinho tinto e derramei sobre as taças em cima da mesa. Coloquei os pratos e talheres, fiquei monitorando a chegada dele pela janela da cozinha, e quando eu notei que ele tinha chegado, coloquei a panela com o macarrão no centro da mesa.
Meu pai abriu a porta e eu estava parada de pé, o esperando. Ele chegou já dizendo que tinha comprado algo para mim, mas eu apenas o ajudei com as sacolas e então o disse que tinha sua comida favorita em cima de mesa.
— Macarrão com queijo? — Ele perguntou esperançoso e eu fiz que sim. Meu pai deu um gritinho de alegria e fomos para a cozinha jantar. Até eu me surpreendi como estava gostoso a refeição, eu tinha feito muito preocupada, mas parece que meu carinho se sobressaltou.
Ele terminou de comer, limpando sua boca com o guardanapo de pano, e sorriu para mim, segurando minha mão.
— O que está acontecendo, filha? — ele perguntou. Estranhei.
— Como assim, pai? — ele sabia que algo estava acontecendo? Como?
, eu tenho escutado você com seus pesadelos a noite. Tenho notado você mais ansiosa, mais estressada, e nem começou o ano letivo. O que está acontecendo?
Fiquei o observando por um curto período e suspirei, olhando para meu prato já vazio, apenas com o molho do macarrão.
— Pai... — Eu comecei, mas eu tinha muito medo de continuar. Não queria desapontá-lo.
— Tudo bem, filha. Pode falar. — Ele voltou a fazer carinho na minha mão. Assenti e mordi o lábio inferior.
— Eu... Eu tenho uma nova pessoa como amiga. — Eu disse e meu pai fez que sim.
— Nova? Não é sua amiga de Oxford que veio passar as férias aqui? — Ele perguntou, mas aí eu notei que ele já sabia. Ele já sabia, diário, ele só queria ouvir de mim. O que me deixou um pouco preocupada.
— É... Não. Pai, não é ela a minha nova amiga. — Eu disse e ele assentiu. Ele soltou minha mão e apoiou os braços na mesa.
— Harry Styles, certo? — Ele disse e eu demorei para fazer que sim. Ele repetiu meu gesto. Meu pai respirou fundo e segurou novamente a minha mão. — Querida, eu só disse para você não se aproximar dele, porque eu conheço o tipo. Ele pode parecer um cara incrível, charmoso, enfim. Mas ele não é flor que se cheire.
— Pai, eu acho que essa visão que você tem dele é ultrapassada...
— Filha. — Ele me interrompeu. — Acho que eu já vivi um pouco mais que você, não é?
Isso me irritou profundamente. Como assim, isso significava que ele era blindado de errar?!
— Pai. Eu estou te dizendo que eu já o conheço um pouco mais do que aquela imagem que você tinha dele quando ele era só um adolescente...
...
—... E ele é realmente uma pessoa incrível. — Eu terminei, o cortando. Meu pai estava me encarando e então ele começou a balançar a cabeça negativamente. — Pai, eu estou falando sério. Ele até me ajudou inclusive com essas crises que eu estou tendo.
— Filha, você está tendo essas crises justamente por estar falando com ele! Antes você não era assim! — Ele disse meio bravo. Fiz que não, e meu pai riu irônico. — É logico que sim, !
— Pai! Me escuta! — Eu disse e ele virou o rosto. Não estava acreditando que estava sendo difícil assim. — Ok, então você quer que eu pare de falar com ele?!
— Quero! — Ele respondeu.
— Mas isso não vai acontecer, pai! — Eu disse e ele já estava irritado. Meu pai se levantou da mesa e saiu da cozinha. Eu não quis ir atrás dele, porém ele voltou com papel na mão todo dobrado. Meu pai me entregou o papel e eu fiquei olhando para ele, sem entender nada.
— Abra. — Ele ordenou e eu o fiz. Era uma foto minha abraçando Harry. — Eu joguei a revista fora para você não a encontrar.
Olhei para ele.
— O quê?
— É isso mesmo o que você ouviu. Eu já sabia que você estava o vendo, mas namorar ele, filha?!
— Pai! Eu não estou namorando o Harry!
— Não ainda! — Ele devolveu. Fiz cara de quem não entendeu, mas acho que isso estava lá no fundo do meu coração: esse desejo de quando eu era criança de tê-lo para mim. — Filha, você já está ficando famosa pelos motivos errados! Quero dizer, eu sempre soube que você iria conseguir a fama, por ser uma cientista famosa, ou uma grande matemática, ou quem sabe uma grande artista! Mas não por namorar alguém!
Engoli a seco e senti o desespero voltar.
— Pai. — Respirei fundo de olhos fechados. — Não adianta. Eu vou continuar a o ver. Não há nada que você possa fazer, e... — Eu disse antes que ele pudesse continuar — ... Caso você não queira participar disso, eu entendo completamente, mas, realmente, ele é a única pessoa que eu estou tendo contato que não é você desde que eu voltei para Londres!
— Filha, você que não está me entendendo! Vou ter que te colocar de castigo?! Eu nunca fiz isso, vou ter que fazer agora?!
— Pai! — Eu respondi e ele ficou me fitando com o olhar totalmente bravo. Respirei fundo e me levantei da mesa, colocando o guardanapo em cima dela. — Se é isso o que você quer, eu vou ficar então de castigo. Por mil anos, que seja! Mas isso não vai me impedir de nada, acredite no que eu estou dizendo.
!
Eu já estava subindo as escadas e me joguei na cama. Comecei a chorar e a chorar sem parar com o travesseiro apertado contra meu rosto. Isso não podia ter saído pior! Agora estou mais calma, mas não quero ver o rosto do meu pai por enquanto.


XVII: Te vejo no próximo diário

Querido diário,

Voltei para escrever em você apenas para atualizar o meu registro do dia anterior. Acabei de acordar e na noite passada meu pai passou pelo meu quarto antes de dormir para se desculpar. Eu chorei mais ainda, ele me abraçou e disse que estaria ali para mim e que só não queria que eu me machucasse nessa história toda. Eu fiz um acordo com ele de nunca mais esconder nada dele e ele me prometeu fazer o mesmo, mas não senti muita firmeza dele. Achei estranho, mas fingi que não achei nada, e ficamos de bem.
Estou percebendo que estou nas últimas páginas desse caderno, por isso eu irei hoje mesmo comprar mais um. Quero continuar com isso até achar necessário e vou deixar essas duas páginas restantes em branco para eu não sentir que tudo acabou, portanto, te vejo no próximo diário!

Xx, .


XVIII: Chuva

Terminei a leitura do primeiro diário. Fui olhar no relógio as horas e tomei um susto quando vi que eram já sete horas da noite. Eu tinha que voltar para ajudar a minha mãe.
Procurei Sofia para pedir a conta, mas não a encontrei e, no lugar, um garoto de cabelo rosa me atendeu. Paguei e me levantei para sair. Estava fora já do estabelecimento, quando começou a chover. Pelo menos eu tinha um casaco com capuz e eu o coloquei. Estava puxando as mangas para proteger minhas mãos e alguém sem querer bateu em minhas costas, me projetando para frente. Olhei para a pessoa e lá estava Sofia.
— Ah, desculpa! — Ela riu, sem graça, e eu sorri. — Não tinha te visto parada aí.
— Tudo bem. Seu turno acabou?
— Sim! Ele terminou agora! — Ela estava colocando um casaco também e pegou seu guarda-chuva para abri-lo. Sofia não estava tendo sucesso com aquilo, então eu me ofereci para ajudar.
— Está emperrado. — Eu observei, e ela pediu o guarda-chuva de volta para tentar. Então ela o abriu, mas na minha cara.
— Ah, meu Deus, desculpa! — Ela disse, se aproximando com a mão erguida para tocar no meu nariz dolorido. — Está tudo bem? Ah, é claro que não está tudo bem! Me desculpa, Julia!
Eu comecei a rir, o que depois de um tempo a levou a fazer o mesmo. Sofia estava muito próxima de mim, eu pude observar seus olhos castanhos escuros de perto e constatei cada traço de seu rosto delicado. Ela parecia fazer o mesmo, nos mantivemos em silêncio enquanto nos registrávamos uma a outra.
— É... — Ela quebrou o silêncio dizendo, olhando para o chão e colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Você mora para que lado?
Eu sorri e apontei. Sofia sorriu para mim também.
— Eu tenho que pegar o metrô.
— Ah, então é para o mesmo lado! — Eu respondi, e ela assentiu. — Podemos ir juntas uma parte do percurso, o que acha?
— Eu acho uma ótima ideia! — Ela disse, colocando uma das mãos dentro do bolso e a outra carregava o guarda-chuva. Ela me ofereceu um espaço embaixo dele e eu aceitei. Andamos uma do lado da outra, conversando coisas bobas, como o tempo, nossas faculdades que eram rivais e outras coisas.
— E o que você estava lendo ali no café? — Ela perguntou, de repente.
— Ah... — eu não sabia como continuar. — É... — Tentei sentir se me sentia confortável para dizer a uma completa estranha sobre os diários de minha avó. — Era um diário. Da minha avó.
— Poxa, sério? Que legal! Eu queria ter esse hábito de escrever minhas memórias, mas eu tenho tanta preguiça! — Sofia riu. — E como está a sua avó?
Engoli a seco, me sentindo muito sozinha naquele momento.
— Ela... Faleceu. Há alguns dias.
— Ai meu Deus, eu sinto muito! — Sofia se exasperou. — Sinto muito, de verdade! Tenho certeza de que ela está em um lugar melhor agora.
Eu não sei se acreditava em algum lugar além dessa vida que vivemos, mas agradeci mesmo assim.
— Vocês eram muito próximas? — Sofia continuou.
— Hã, sim. Ela era uma das minhas melhores amigas. — Respondi.
— Nossa, ela devia ser uma mulher incrível. — Ela disse. Eu assenti, sorrindo. — E o diário?
— O que tem?
— Como está a leitura?
— Ah, está bem interessante. Minha avó tinha uma letra muito bonita! — Eu disse, sorrindo. — Ela era muito bonita também.
— Imagino. — Ela disse, e chegamos ao ponto em que nos separaríamos. — Bom, é aqui que eu me despeço.
— Ah, certo. — Eu disse, e ela sorriu com a linha da boca para mim. — Obrigada, aliás, pela carona.
Sofia riu.
— Não há de quê! — Ela disse, e ficamos nos observando mais alguns segundos, até que eu me aproximei para nos despedirmos e ela esticou a mão. Então trocamos de papel e eu estiquei a mão e ela se aproximou. Rimos e ela me deu um beijo na bochecha. — Até mais, Ju!
— Até, So! — Eu sorria de lado quando me virei e comecei a caminhar rua acima. Olhei para trás e a vi caminhando em direção ao metrô. Uau. Eu estava impactada com aquele momento.
Cheguei em casa encharcada e fui para o banheiro tomar um banho. Minha mãe estava deitada no sofá, lendo algum artigo no computador quando me disse oi. Eu retribuí o oi, e entrei no banho. Tudo o que eu conseguia pensar era naquele pequeno momento que eu tive com a minha mais nova amiga. Por que estava me deixando sem respirar toda vez que eu me lembrava dela? Nunca tinha sentido aquilo antes.
Terminei o banho e fui para a cozinha jantar as sobras da comida do dia anterior Comer aquela comida chinesa me lembrava Diego, fiquei muito chateada por ele não ter me procurado. Mas, por enquanto, eu não falaria nada.
Perguntei para minha mãe se ela iria continuar o trabalho de arrumar a casa e ela disse que eu podia descansar. Aceitei o que ela me disse e eu fui atrás da caixa no escritório. Eu a tinha deixado em cima da mesa, mas ao colocar o primeiro diário ali e trocar pelo segundo, pensei que era melhor devolver no lugar, assim minha mãe não descobriria que eu os estava lendo.
Peguei o segundo diário e me sentei em minha cama, com as pernas esticadas. Deixei apenas o abajur ao lado para iluminar a leitura e retomei, abrindo na primeira página.


XIX: Ela

Querido diário,

Minha vida parecia estar muito boa para ser verdade. Ela continuou boa... Até hoje.
Tudo começou quando Harry me convidou para ir, na última sexta-feira das minhas férias, ao seu estúdio, vê-lo gravar algumas músicas que estavam sendo preparadas para soltar no novo álbum dele. Até aí eu disse que tudo bem, eu iria. O problema foi encontrar uma roupa.
O que se usa em um... (não vou chamar de encontro, porque não estamos namorando e ele nem disse que era um encontro) momento desses? Fiquei enrolando os dias todos anteriores para decidir qual roupa eu deveria usar. Cheguei até a me perguntar por que eu estava tão preocupada com isso, mas não quis ir muito a fundo — você já deve saber a resposta para essa pergunta.
Então a decisão chegou ao seu limite de tempo e eu escolhi uma roupa qualquer: calça jeans e camiseta. Era o que estava tendo para o momento. A beleza estava nos detalhes, então eu me maquiei — nada muito forte, óbvio — e prendi a parte da minha franja dividida no meio, com presilhas da cor da minha blusa branca. Fiquei uma gracinha.
Harry disse que iria mandar um carro me buscar, fiquei esperando em frente de casa. Dessa vez, meu pai sabia de tudo, então em relação a isso eu estava aliviada. Mas esse alívio não duraria muito tempo e logo mais você saberá o porquê.
O carro chegou — eu não fazia ideia da marca, não sou boa com carros — e eu entrei. O motorista era bem bonzinho e perguntava se o clima estava bom para mim o tempo todo. Ele me deixou em frente à gravadora Sony. Desci e entrei no local, perguntando para a recepcionista onde que Harry Styles estaria gravando. Ela ficou relutante em me deixar entrar, então eu pedi para ela ligar para ele. Harry, por sorte, estava entrando no prédio. Ele estava de fone de ouvido e os tirou quando me viu, me dando um beijo na bochecha.
— Ela está comigo, Barbara. — Ele disse, e ela assentiu. Subi com Harry até o andar certo.
— Então... — eu comecei e ele nem se virou para mim. — Eu escutei o seu último álbum.
— Sério? — Ele disse, e eu assenti. — E o que achou?
Dei de ombros e então sorri.
— Melhor do que eu esperava. — Eu disse isso, mas eu realmente estava achando um álbum muito bom, que fez jus a quem Harry era. Ele me deu outro beijo na bochecha e achei bem esquisito esse comportamento dele, mas eu já devia imaginar que ele iria começar a ser mais carinhoso ao decorrer daquela amizade.
Entramos e eu fiquei do lado da mesa de controle, enquanto Harry entrou no estúdio. Eu me sentei e fiquei o observando, por um tempo, conversar com as pessoas da sua banda. Tinham três mulheres e dois homens além dele. Ele fez sinal para o cara que comandava a mesa e ele começou a gravar, enquanto a banda de Harry começava a tocar.
Uma música bem bonita se iniciou e depois descobri que seu nome era “She”. O ritmo era bem sensual e a música em si dizia como a mulher que Harry mencionava era querida por todos e vivia em grande perigo ao seu lado. Achei bem interessante, a voz dele era muito boa.
Em seguida, eles tocaram outra música que chamava “Lights Up” e eu simplesmente amei o ritmo. As músicas foram correndo, mas ele não chegou a tocar todas do novo álbum – pelo menos foi o que ele me disse mais tarde.
Harry e sua banda terminaram de gravar as músicas e ficaram conversando entre si, enquanto eu estava olhando tudo de fora. Estava me sentindo um pouco sobrando, comecei a questionar o motivo dele ter me chamado ali, até que Harry fez sinal para que eu entrasse no estúdio. E foi o que eu fiz, mesmo morrendo de vergonha.
— Pessoal, essa aqui é a . esses são Mitch, Sarah, Ny Oh, Adam e, por último, mas não menos importante, Charlotte. — Ele disse, e ela riu.
— Prazer em conhecê-la, . — Sarah disse, e eu acenei para eles.
— Oi. — Eu respondi, e um silêncio constrangedor se instalou entre nós.
— Harry disse coisas maravilhosas sobre você. — Ny Oh disse, e eu estranhei.
— Harry? Esse Harry? — eu apontei para ele e ela riu, fazendo que sim. Harry deu um sorriso infantil. Olhei para ele. — Você está muito carinhoso esses dias, o que está acontecendo?
— Nada. — Ele deu de ombros, ainda sorrindo daquele jeito. — Só estou feliz, não posso?
— Hum. — Eu respondi.
— Eu estava aqui dizendo para o pessoal como você canta maravilhosamente bem.
Eu comecei a rir e ele me acompanhou, deixando o pessoal sem entender nada.
— Eu não canto bem, ele está brincando com vocês.
— Ah. — Charlotte respondeu, e riu. — Que brincalhão esse Harry, hein.
Eu notei ironia na voz dela, não entendi o motivo, mas resolvi ignorar. Eles começaram a conversar sobre o álbum e me perguntaram qual música eu mais tinha gostado. Eu respondi que aquela primeira que eles tocaram foi a mais instigante e eles se entreolharam, concordando.


XX: Dia nublado

Acordei com o barulho do aspirador de pó. Minha mãe deveria estar limpando a casa naquele horário, mas não entendo o motivo de ser tão cedo. Olhei para o relógio do celular e já eram duas da tarde! Ok, talvez não era tão cedo assim.
Me espreguicei toda e me levantei da cama. Tinha dormido no meio da leitura, portanto nem lembrava onde eu tinha parado. Troquei-me as roupas e me arrumei, pois iria para aquela cafeteria de novo — não sei o que estava me levando tanto a querer ir para lá, mas acho que o ambiente me deixou bastante confortável para ler os diários.
Perguntei à minha mãe se ela queria ajuda, mas ela disse que iria dar uma pausa na arrumação e que iria trabalhar um pouco. Minha mãe também estava de licença e ela aproveitou e já pegou férias de quinze dias. Acho que ela também queria passar um tempo sozinha para refletir e quem sabe se sentir melhor.
Aquela tarde estava muito bonita: estava nublado. Eu adorava dias nublados; ensolarados eram bonitinhos, mas nublados eram maravilhosos.
Estava caminhando enquanto pensava muito em Diego. Ele ainda não tinha me mandado nenhuma mensagem. Será que era o momento para eu mandar?
Ah, não seja boba, Julia! Se ele quiser se desculpar, ele que fale com você, você não tem nada para pedir perdão. É.
Sentei-me à mesma mesa que eu tinha sentado ontem e coloquei meu celular em cima dela. Abri o caderno e olhei por cima dele, em busca de Sofia. A encontrei de costas para mim, atendendo uma das mesas mais à frente. Sorri e voltei o olhar para o diário.


XXI: Coloque um pouco de amor em mim

Depois de muita conversa jogada fora, Harry disse que me levaria para casa. Todos se despediram, saímos antes de todo mundo e ele me levou até o carro. Entramos nos bancos de trás, os vidros eram muito escuros, então era bem difícil de alguém adivinhar que Harry estava ali comigo. Pelo menos isso.
— O que achou? Diga a verdade agora. — Ele disse, olhando para a janela do motorista. Olhei para Harry e depois para frente.
— Eu adorei! De verdade. Foi maneiro, consegui conhecer você um pouco melhor... — comecei a viajar, quando ele me interrompeu e ficou falando sobre o seu novo álbum, Fine Line. Eu estava pensando naquela Charlotte, em como ela era bonita e em como ela tinha me respondido. — E você e Charlotte?
O interrompi e Harry parou, me encarando.
— O que tem?
— Você sabe o que tem. — Eu disse, ainda sem olhar para ele, continuando a observar a paisagem que passávamos.
— Está com ciúmes, ? — Ele me cutucou, mas eu não respondi. — Ah, eu estou noivo dela.
— Harry! — Olhei-o agora, mas ele desatou a rir. Balancei a cabeça negativamente. — Acho que ela gosta de você.
— Nah. — Ele jogou a mão no ar. — Ela só trabalha comigo. Somos profissionais.
Lembrei daquela mulher mais velha que trabalhava no X Factor e que ele teve um caso. Só assenti.
Percebi que não era o caminho da minha casa, então estranhei.
— Aonde estamos indo? — eu perguntei, e Harry sorriu.
— Você verá.
Fiquei tentando adivinhar o caminho inteiro, mas só quando o motorista parou em frente que eu adivinhei: Hyde Park.
— E por que estamos aqui? — Eu disse, enquanto saíamos do carro. Harry falou com o motorista e depois ele se virou para mim, pegando na minha mão. Naquele momento, aquele choque passando por meu corpo todo e fazendo meu coração acelerar feito louco aconteceu. Tentei deixar a minha respiração normal, estava difícil, vou admitir, sua mão grande envolvia a minha pequena.
— Só queria passar um tempo com você. Esses dias têm sido malucos por conta dos retoques no álbum novo. E eu sei que daqui a três dias começam as suas aulas, o que significa que você não vai ter tanto tempo assim para mim.
— Ah, Harry Styles está tristinho que eu vou voltar às aulas? — eu perguntei, com um sorriso no rosto, olhando para ele. Ainda estávamos de mãos dadas. Ele balançou a cabeça, sorrindo.
— Deixa de ser chata. Eu não posso querer passar um tempo com a minha amiga? — ele disse, se virando para mim e soltando a minha mão. Ele estava andando na minha frente, de costas para o caminho. Coloquei as mãos nos bolsos da calça.
— Se for com a Charlotte... — comecei, e Harry riu. Sorri para ele. Olhei distraída para o lado e percebi um paparazzo. Harry olhou para onde eu olhava.
— Quer apostar corrida? — ele disse.
— E voltamos para o jardim de infância. — Eu respondi, e ele balançou a cabeça, já se virando e se projetando para frente.
— Vamos! Quando eu disser já.
— E o que eu ganho com isso? — Eu perguntei.
— Bom, ficar longe deles. — Ele apontou com a cabeça na direção do cara com a câmera. Sorri e falei:
— Quando eu disser já.
— O quê? Eu que ia falar...
— Já! — Saí correndo na frente de Harry, mas logo ele já estava quase ao meu lado. Ele tinha pernas mais longas que as minhas, portanto corremos muito e ele me ultrapassou rapidinho. Chegamos cansados em um lugar que eu nunca tinha visto dentro do parque: era um caminho coberto por folhas e plantas até o céu.
Parei ao seu lado, ele apoiando suas mãos em seus joelhos e eu me sentei no chão, encostando as costas nas plantas. Harry tentava normalizar a respiração, assim como eu, e ficou olhando para longe dali.
— Acho que ninguém vai nos ver aqui. — Ele disse, se jogando ao meu lado. — Estamos sozinhos.
Eu e ele ficamos em silêncio até estarmos com o fôlego recuperado. Então eu tive uma ideia. Estava com o meu celular em um dos bolsos e o peguei. Tinha os fones de ouvido também e coloquei um deles no ouvido esquerdo. Entreguei a um Harry cansado e ainda respirando desengonçadamente ao meu lado, que o pegou e o colocou, em seguida perguntando o que iríamos ouvir.
— Calma, estou colocando. — Abri o celular e fui ao Spotify. Encontrei a música “Are You Bored Yet?” e botei para tocar. Harry começou a mexer a cabeça no ritmo da música, eu ri e o empurrei para o lado, o fazendo sorrir. Depois começamos a prestar atenção na letra.
Fiquei pensando que eu estava tentando passar uma mensagem para ele subliminarmente com essa música, só não sei se ele repararia. Eu estava com medo dele se sentir entediado comigo em algum momento e então me descartar, aquele medo era muito grande, mas eu estava tentando me conter durante aquele tempo todo e no tempo seguinte, até quando aquilo durasse. Era estranho tê-lo como amigo, era gostoso, mas ao mesmo tempo meio perigoso, eu não queria ser “a amiga de Harry Styles” para o mundo, como meu pai tinha dito que eu viraria. Eu queria ser .
Harry estava olhando para o chão em frente enquanto ainda ouvíamos a música. Fiquei olhando para ele, esperando uma reação. Meu coração estava aceleradíssimo só por estar a essa pequena distância dele e poder sentir seu cheiro de tão perto. A música terminou e uma outra qualquer que o Spotify colocou começou a tocar. Harry estava ainda em silêncio, então ele pediu licença e pegou meu celular. Eu li o título “Put a Little Love On Me” do Niall Horan e a música começou a tocar. Eu fiquei ouvindo a música, mas no começo eu viajei no pensamento de que era de um dos integrantes da boyband dele. Achei bonitinho da parte de Harry me apresentar uma música de seus amigos.
Então quando Niall cantou a parte “I've still got so much love hidden beneath this skin” eu voltei a prestar atenção. A música dizia para a pessoa perceber que o eu lírico gostava dela e que ela devia se contentar com isso. Harry tinha respondido à minha música com aquela, só que aquela música dizia muito mais do que eu estava esperando, dizia como Harry estaria possivelmente apaixonado por mim. Eu sei que não poderia ou não deveria questionar se aquilo era verdade, porém a minha baixa autoestima me dizia que eu estava viajando. Viajando ou não, eu estava acreditando. E não queria me achar naquele momento, mas se fosse realmente verdade, então eu tinha Harry Styles apaixonado por mim. A minha eu de nove anos estaria gritando de alegria.
Niall cantou as palavras “Last night I lay awake stuck on the things we say” e eu me virei para Harry para dizer que aquela era a música mais bonita que me mostraram naqueles últimos tempos, mas ele já estava olhando para mim. Estávamos muito próximos um do outro, meu coração aceleradíssimo e se ele não estivesse tão alto, eu poderia escutar o dele. Harry começou a olhar para meus lábios e eu já sabia o que estava por vir. Daquela vez, eu não iria impedi-lo, inclusive até fechei meus olhos, preparada.
?
Abri meus olhos e Harry estava olhando para cima. Eu fiz o mesmo e não acreditei no que eu vi: Steven estava ali, me encarando.
— S-Steven? — eu gaguejei, e ele olhou para Harry antes de sorrir para mim.
— Você não vai me cumprimentar? — Ele disse, e eu assenti, me levantando em um pulo.
— E aí, como você está? — Abracei-o, tentando parecer surpresa e feliz, o que não deixava de ser verdade... A parte da surpresa, já a da feliz, não. — Quanto tempo, hein!
— Pois é! — ele disse, me soltando, e notei que Harry estava ao meu lado de pé. Steven ficou olhando para Harry e Harry para Steven.
— Ah, esse é... — Comecei, mas Steven me interrompeu.
— Harry Styles! É claro! Quem não reconheceria Harry Styles? — Ele disse, ainda olhando para Harry.
— Ah, certo. Harry, esse é... — Eu disse, mas foi a vez de Harry me interromper.
— Steven. — Ele disse, e eu não entendi como ele sabia o nome dele. Harry lançou um olhar rápido para mim e voltou a olhar para ele. — Você acabou de dizer.
— Ah, é! — Eu disse, e ri, mas nenhum deles me acompanhou. — É... Que bom, agora todos se conhecem!
Eu disse, numa tacada desesperada.
— Como você conhece a ? — Harry perguntou para Stevie. Steven sorriu naquele momento.
— Eu era o namorado dela em Oxford. — Ele respondeu. — E você?
— Eu sou o namorado dela em Londres. — Harry disse, e eu dei uma cotovelada nele.
— Ele está brincando! — Eu disse, rindo desconfortavelmente. Harry sorria vitorioso para Steven, que devolveu o sorriso, porém bem falso.
— Ah, entendi. Eu ouvi falar que você era bem brincalhão, mesmo. — Stevie deu uma risadinha por educação e Harry devolveu com outra bem irônica. Eu estava surtando, diário.
— E, Stevie, o que você está fazendo aqui? — Eu perguntei para Steven.
— É, Stevie, o que você está fazendo aqui? — Harry perguntou também. Steven olhou para Harry rapidamente e voltou a me encarar.
— Eu posso conversar com você... A sós? — Ele disse, e eu me espantei.
— A sós? — Eu me virei para Harry, que ainda o encarava. Então ele olhou para mim.
— Ah, claro, eu preciso falar com o motorista para voltar mesmo, eu tenho um compromisso logo mais. Com licença, vou ligar para ele. — Ele disse, já pegando o celular e se afastando um pouco. Eu estava olhando para Harry e Stevie pegou em minhas mãos, me fazendo olhar para ele.
. — Ele disse. — Você não sabe o quanto eu pensei em você nesse último mês.
— Hã... Certo. — Eu disse, desconfiada. — Steven, muito bonito da sua parte, mas nós terminamos e eu fui embora justamente para não pensar em você.
, eu sei disso, mas é que eu realmente não parei de pensar em você e — ele continuou, antes de eu conseguir o interromper. — Vim até Londres para te dizer que eu te quero de volta.
Suspirei. Ele não tinha o direito de querer reatar comigo depois de tantas brigas de ciúmes e o término, não tinha o direito de me fazer duvidar de não gostar mais dele.
— Stevie — comecei, e ele não me deixou terminar.
— Você não precisa dar sua resposta agora, teremos pelo menos um semestre para você decidir se quer ou não.
— O quê? Você...?
— Me transferi para a King’s! — Ele disse, animado, e eu não sabia como reagir àquela notícia. — Mas fique tranquila, não é por você exatamente que eu fiz isso, minha mãe e meu pai estão se separando e eu já te contei que eu detesto meu pai, certo? Ele era tóxico para minha mãe, a tratava muito mal e ela se mudou para Londres por conta da psicóloga. Daí ela pediu para que eu morasse com ela durante um tempo. Cá estou!
Eu me senti um pouco aliviada por não ser “exatamente” por quem ele fez isso, mesmo assim eu estava preocupada. Eu ainda tinha sentimentos por ele, não havia me recuperado totalmente da nossa última conversa em que dissemos que não estava indo para frente a nossa relação, não queria ter que passar por aquilo de novo. Mas acho que poderíamos ser amigos, não?
— Entendi. — Eu disse, e ele soltou as minhas mãos.
— Vamos, é uma chance de darmos novas risadas! — Ele ainda estava animado e eu só assenti e olhei para Harry, que estava falando no celular. Harry olhou para mim. — Vocês são mesmo namorados?
— O quê?
— Você e o Harry Styles. — Olhei para Steven e ele parecia tímido.
— Não! Não acredite em tudo o que ele fala, Harry gosta de brincar o tempo todo. — Eu disse, colocando as mãos nos bolsos da frente da calça.
— Certo. — Ele disse, e continuou a me olhar. Eu sempre amei aqueles olhos dele.
— Oi. Vou ter que interromper, mas Jeremy, o motorista, já está aí. Vamos, ? — Harry apareceu, colocando sua mão nas minhas costas, o que fez um arrepio percorrer por todo o meu corpo. Um arrepio bom.
Stevie disse, sem emitir um som, ?” e eu só sorri, me despedindo dele. Ele disse que me mandava mensagem e eu disse que tudo bem.
Harry ficou mudo a viagem inteira. Mas ele não podia me culpar se Steven do nada apareceu e interrompeu nosso momento. Poxa, se ele quer tanto me beijar, por que não me beija agora? Que droga, diário.
O carro parou em frente à minha casa. Tirei o cinto e respirei fundo.
— Harry, está tudo bem? — eu perguntei, e ele sem me olhar respondeu:
— Está sim.
— Harry... — Eu disse, e ele começou a olhar para a sua janela. Suspirei. — Então tchau.
Eu saí do carro e não olhei para trás, diário. Se ele queria ficar irritado comigo por aquele motivo besta, não podia fazer nada.


XXII: Não existem coincidências

— É o diário?
Olhei para cima e Sofia sorria para mim. Sorri de volta, assentindo.
— Sim! — Disse, empolgada. Ela estava olhando para o caderno em minhas mãos e depois levantou o olhar para mim.
— Esse não é o mesmo caderno de ontem, não é? — Ela disse, e eu me surpreendi por sua perspicácia. Fiz que não.
— É a continuação.
— Ah! — Ela disse, e sorriu. — Que demais!
— Sim. — Eu concordei. — E está tudo bem com você?
— Hã? Ah, está sim! Trabalhando, sabe como é. Voltei agora pouco da faculdade.
— E qual curso você faz? — eu perguntei.
— Psicologia.
— Não brinca! Minha avó também fez psico! — Eu estava sorrindo. — Que coincidência.
Sofia riu e olhou para suas mãos, antes de olhar para mim de novo, um pouco envergonhada.
— Eu sempre acreditei que não existem coincidências. — Ela disse, o que me fez pensar. Um dos funcionários a chamou e ela teve que se despedir de mim por enquanto, voltando a trabalhar. Naquele mesmo momento, meu celular tocou. O peguei e olhei para a tela: uma foto de Diego distraído estava lá, enquanto o telefone ainda tocava. Fiquei em dúvida se eu atendia, mas logo a dúvida foi embora. Era óbvio que eu devia atender.
— Alô?
Ju?
— Oi. — Eu olhei para o diário na mesa. — Tudo bem?
Ju, eu te liguei, porque eu quero que você me escute.
— Tudo bem. — Eu disse, e olhei para Sofia, que estava atendendo uma das mesas. — Pode falar.
Julia, eu esqueci de te falar uma coisa ontem. Você é a mulher mais incrível que eu já conheci. É destemida, tem personalidade marcante, sem falar que é a mulher mais linda do mundo. Mas, principalmente, quando precisamos de verdade de você, você está sempre lá. Eu exagerei quando eu surtei ontem. Não devia ter falado que você nunca cumpre com o que combinamos, você não faz porque quer, você faz porque precisa. Eu sei que isso não significa que você não gosta de mim, só significa que naquele momento você precisava ajudar outra pessoa — e eu fico muito feliz quando essa pessoa é você mesma, porque mostra como você sabe cuidar de si e se valorizar. Desculpa de verdade por ser um grande babaca! Eu prometo que estou mudando, você me faz querer ser alguém melhor.
Suspirei. Era tudo o que eu queria ouvir dele.
— Diego...
Você me perdoa?
— É claro, sua besta! — eu disse, e ele riu. — Por favor, só não faça mais isso. Eu...
Eu sei, eu sei, me desculpa. Eu te amo, tá? — Ele disse, e meu coração parou. Olhei para o chão em frente à mesa. Ficamos em silêncio por alguns segundos e, antes que ele pudesse falar qualquer coisa, eu disse:
— Eu também.
Diego soltou uma risada gostosa. Eu estava dizendo a verdade, só não sabia se era da mesma maneira que ele estava dizendo. Então eu escutei alguém batendo no vidro ao meu lado da janela e eu olhei. Lá estava Diego, com um buquê de flores na mão. Fiquei em choque, não acreditei na hora, mas logo desliguei o celular, peguei minhas coisas e saí do café, indo encontrá-lo.
— Não acredito. — Eu disse, a alguns passos dele. Diego sorria. — Ah, meu Deus, você é um ridículo!
Diego riu e eu fui até ele para abraçá-lo. Diego me deu um beijo daqueles de cinema, me deixando caidinha por ele. Ele se desgrudou de mim, dando mais um selinho, e me entregou as flores. Eu as peguei e dei risada, ele me acompanhou.
— Estamos de bem? — Ele perguntou, e eu assenti, olhando para as flores. — Ótimo.
Diego esticou a mão e eu a peguei, começamos a andar lado a lado para longe dali. A alguns metros de distância, enquanto ele falava alguma coisa que eu não estava prestando atenção, eu olhei para trás para ver a cafeteria. Voltei o olhar para ele e continuamos a andar.
— E a leitura? Como está? — Ele perguntou, e eu dei de ombros, um pouco decepcionada.
— Minha avó quase beijou o Harry.
— Mas isso já tinha acontecido, não? — Ele olhou para mim e eu fiz que não.
— Dessa vez ela disse que estava pronta para beijá-lo, mas o ex dela apareceu e disse que a queria de volta.
— Uau, que filme. — Ele olhou para frente.
— Filme foi você aparecer com um buquê para mim. Aliás, como sabia onde eu estava?
— Bom, primeiro eu fui até a sua casa e só encontrei sua mãe. Ela tinha dito para mim que você foi a uma cafeteria perto daqui e eu comecei a andar a esmo procurando por ela, só que eu não estava me aguentando de ansiedade para conversar com você. Eu te liguei e quando reparei, estava no lugar certo.
— Caramba! — Eu disse, impressionada.
— Coincidência, não? — Ele me disse, sorrindo, e eu sorri de volta. Eu sempre acreditei que não existem coincidências, a voz de Sofia disse, na minha cabeça. — Então... Para onde você quer ir?
— Hã, acho que podemos ficar por aqui mesmo. — Estávamos em uma praça. — Acho que aqui é gostoso para continuar a leitura.
— Tudo bem, eu vou ler um livro então. — Ele disse, e eu o encarei. — O que foi?
— Você vai ler comigo, ué. — Eu disse, e ele sorriu, empolgado.
— Sério?
— Claro. Se prometer não pirar de novo... — Eu comecei, e ele riu.
— Culpado. Bom, vamos nos sentar aqui? — Ele se aproximou de uma árvore e se sentou em frente a ela. Eu afirmei com a cabeça e me sentei entre suas pernas, apoiando a cabeça em seu peito, ele me abraçando por trás. Peguei o caderno, abri onde eu tinha parado e voltei a ler, agora em voz alta.


XXIII: Daqueles que vivem sem amor

Querido diário,

Os primeiros dias de aula foram entediantes. Claro, a matéria era sensacional, mas as pessoas não deram muita bola para mim. Eu até que achei ótimo, mas a sensação de adrenalina que eu tive ano passado quando eu comecei a faculdade não aconteceu dessa vez. Devo admitir que a essa sensação foi por conta de eu conhecer Steven logo no primeiro dia de aula.
Steven.
Nós continuamos amigos, ele realmente não tentou nada além disso e tem me respeitado bastante. Não somos da mesma sala, mas, quando eu o encontro no corredor, é como se aquela sensação de casa voltasse. Era bom, mas eu não sentia exatamente o que eu sentia quando eu o via antes.
Acho que é porque eu estou com outra pessoa na cabeça. Sim, Harry não mandou mensagem, nem me ligou, nem nada depois daquela sexta. Já se passaram três semanas inteiras e nada. Só notícias de tabloides dele andando por aí, eu não trombei com ele pela cidade. Talvez eu tenha escutado a música “All By Myself” muitas vezes durante esses dias, mas tenho conseguido me distrair.
Eu estava estudando Neuro, quando o meu celular apitou. Eu estava esperando uma mensagem de Steven, pois eu o convidei para assistir os dois últimos Harry Potter’s no sábado à noite. Meu pai disse que iria dormir na casa de um amigo nesse dia e eu não queria ficar sozinha a noite inteira.
Peguei o celular e o desbloqueei, abrindo nas mensagens, mas não era de Stevie.

“Oi. Posso te ligar? Xx H.”

Respirei bem fundo e a música All By Myself pareceu muito distante de mim agora.

"Estou estudando agora”

A resposta chegou mais rápido do que eu imaginava.

“Eu preciso te dizer uma coisa.”

Olhei para os cadernos na minha frente e encostei na cadeira. Estava começando a escrever a resposta, mas o celular começou a tocar e a foto de Harry fazendo careta apareceu.
— Alô? — eu disse.
Alô — ele respondeu.
— Você me ligou para ficar fazendo gracinha? — eu fui direta e seca com ele. Eu poderia estar morrendo de vontade de falar que eu sentia saudades de nós, mas não iria deixar isso transparecer antes que ele me dissesse o que ele queria.
Tudo bem, eu te liguei porque quero me desculpar. Eu agi feito uma criança mimada aquele dia e eu precisei de alguns...
— Três semanas, você quer dizer — eu o interrompi, mas ele continuou logo em seguida.
... Dias. É, ok, foi bastante tempo. — Fiquei em silêncio. Ele respirou fundo. — É que... Estávamos em um momento, sabe? E aquele cara apareceu do nada, eu juro, não faço ideia de como ele te encontrou, estávamos bem escondidos naquelas plantas todas.
Contive uma risada. Steven não estava me procurando aquele dia, ele só estava andando pelo parque aleatoriamente.
— Bom, se esse é o problema, você é mesmo uma criança mimada — eu disse, olhando para minhas unhas.
. Você não está ouvindo o que eu estou te dizendo.
— Harry, olha, eu aceito suas desculpas, mas eu preciso voltar a estudar, já tenho prova marcada...
— ele disse, apenas e eu me atentei para o que ele estava prestes a dizer. Diário, eu estava esperando que ele dissesse que me queria, mas isso não aconteceu. Ele só ficou em silêncio por alguns segundos. — Como foi o seu primeiro dia de aula?
Levantei-me da cadeira e me sentei na cama.
— Ah, foi normal, eu acho. Mesma coisa de sempre — eu respondi.
Sério? Nenhuma amiga nova para apresentar ao seu amigo aqui? — ele disse, e depois riu. Eu senti uma pontada no meu coração, essa doeu um pouco, mas fingi que estava tudo bem.
— Nah. Por falar nisso, eu adorei a música que você me apresentou naquele dia do parque, amei a voz do Niall Horan. Você podia me apresentar a ele, não acha? — eu disse, e ele riu. Sorri involuntariamente com a risada dele. Droga.
Espertinha — foi o que ele respondeu. — Está tudo bem com você? O que tem feito?
— Eu tô bem, Harry, tenho estudado bastante. Como eu disse, eu tenho provas marcadas e tal... — Eu gesticulei com a mão, mesmo ele não conseguindo ver. — Nada como ser deixada de lado pelo amigo por três semanas inteiras, não é?
, eu já me desculpei! O que você quer, que eu envie várias flores para você?
— Estou brincado, Harry Styles — eu disse, dando risada. — Mas eu até que iria gostar das flores.
Ainda mais se vierem com o seu cheiro, eu pensei. Ele soltou uma risada. Ficamos em silêncio por alguns segundos.
Sinto sua falta — ele disse, e meu coração começou a acelerar. — Você está livre esse sábado?
— Ah... — Eu não estava esperando por isso. — Eu tinha combinado com Steven...
Steven — ele disse.
— É — suspirei. — Combinamos de assistir Harry Potter nesse sábado à noite.
Entendi... Só vocês dois? — perguntou e eu disse que sim. — E seu pai?
— Não estará. — Harry ficou em silêncio. — Bom, eu tenho mesmo que voltar a estudar.
Ah, sim, claro. Nos falamos depois, então?
— Hã, sim. Por que não?
Ele riu.
Certo. Até mais, então, — Harry disse.
— Até, Harry. — Então desligamos.
Era óbvio que eu não consegui estudar direito aquele dia, fiquei pensando ainda mais nele. Eu até voltei a sentar e ler o livro, fazer anotações, mas nada estava entrando na minha cabeça. Não foram diferentes os dias seguintes até sábado, na verdade, minha atenção estava entre a conversa com Harry e o tempo que eu passava com Stevie. Inclusive, ele respondeu a minha mensagem no mesmo dia que Harry Styles me ligou, dizendo que topava sábado à noite na minha casa.
Até que esse dia finalmente chegou. Eu disse a mim mesma que hoje eu não ia pensar em Harry, iria me concentrar em passar o tempo com o meu amigo e iria aproveitar muito. Coloquei uma calça de moletom, uma manga curta branca com estampas de rosas vermelhas e prendi meu cabelo em um rabo de cavalo. Meu pai foi embora umas sete da noite, meia hora depois, eu já estava preparando a pipoca.
Eu coloquei uma playlist aleatória do Spotify e Paul Young começou a tocar, com sua música “Oh Girl”. Eu só percebi que estava gritando a música quando a campainha tocou e me fez parar de cantar. Fui até a porta e a abri, lá estava Steven com os DVD’s de Harry Potter e as Relíquias da Morte, partes 1 e 2.
— E aí! Entra! — Eu o abracei e ele entrou em casa. Fechei a porta e falei para Stevie já colocar o primeiro filme, pois a pipoca estava pronta, só faltava colocar um pouco de sal.
— E manteiga? — ele perguntou, e eu achei estranho.
— Você come pipoca com manteiga agora? — perguntei, e ele sorriu, fazendo que sim. Fui até a cozinha e ele me acompanhou no meu encalço. Peguei a frigideira e pedi para que ele pegasse a manteiga na geladeira. Steven me obedeceu e se aproximou de mim com a manteiga em mãos.
— Ok, então vamos derretê-la e jogar em cima da pipoca — eu disse, e ele assentiu, colocando a manteiga na frigideira. Eu peguei uma colher de madeira e fui até o fogão para derreter a manteiga mais rápido.
— Ei, pode deixar, eu faço isso — ele disse, e eu não o deixei. Steven riu. — Ok, não lembrava que você cozinhava.
— Eu cozinho agora, meu querido. E outra, cozinho muito bem — eu disse, e o empurrei com o quadril para o lado. Steven sorria para mim e me observou mexer na manteiga. — E desde quando derreter manteiga é considerado cozinhar?
— Ah, para você que só sabia fazer gelo, já é um grande avanço. — Ele me cutucou e eu ri.
— Ok, tudo bem.
Ficamos conversando sobre cozinhar, jogando papo fora, até que ele tomou a liberdade de fazer uma piada sobre a minha comida. Eu fingi que estava triste, Steven para se redimir se aproximou de mim e me abraçou por trás, me dando um susto. Os abraços dele eram sempre muito bons.
— Desculpa — ele disse, baixinho no meu ouvido. Me arrepiei toda e assenti, desligando o fogo. Ele se desgrudou de mim e eu virei para ele, eu nem lembrava o que eu ia dizer, mas aqueles olhos me deixaram sem palavras. Ele sorria para mim e eu me sentia paralisada.
Ainda bem que a campainha tocou, me acordando do transe.
— Que estranho — eu disse, e ele perguntou se eu tinha convidado mais alguém. Eu disse que não, eu estava achando tudo estranho, mas eu fui até a porta, deixando Steven sozinho na cozinha. Abri a porta e a primeira coisa que eu vi foi uma caixa de pizza. Em seguida, eu vi quem estava a carregando.
— Harry? — eu disse, espantada e ele sorria feito criança.
— Oi! — ele disse, me dando um beijo na maçã do rosto e entrando em casa. Não estava entendendo nada. — Onde eu coloco isso?
— Espera, o que você está fazendo aqui? — Eu o segui até a cozinha e Steven tinha desligado o fogo e despejava a manteiga na pipoca quando o encontramos. Harry parou de andar e sorriu para Stevie, que parou de fazer o que estava fazendo e ficou sem palavras, olhando para Harry. Ele olhou para mim como se perguntasse o que significava aquilo. — Hã... Harry?
— Eu estava sem nada para fazer em casa e pensei em fazer uma visitinha. Então, onde coloco a pizza? — Ele se virou para mim com a caixa em mãos, sorrindo e eu olhei para Steven para ver qual seria a reação dele.
— Ah. Entendi — ele disse, e eu olhei para Harry, pegando a caixa dele e sussurrando:
— Por que você está realmente aqui, Styles?
— Não posso visitar minha amiga? — ele sussurrou, de volta, e eu coloquei a pizza em cima da mesa.
? Posso falar com você? — Escutei Steven me chamar.
— Bom, eu vou ligando a televisão enquanto isso. Vamos assistir a Harry Potter, não é? Ah, e ainda os meus favoritos! Estou na sala se precisarem de mim.
Ele foi embora e eu o observei ir até a sala, depois olhei para meu amigo ali, parado com a pipoca nas mãos.
— Mas que porra...? — ele começou.
— Calma, ele só quer passar um tempo comigo e provavelmente só tinha hoje. A agenda de Harry está sempre atarefada.
, esse cara não falava com você há três semanas e agora você vem me dizer que ele quer passar um tempo contigo? — ele disse, baixo, se aproximando de mim.
— Harry é assim... — eu disse, olhando para a sala de televisão e vendo ele lendo a contracapa do DVD.
— Ah, certo. E vai dizer que foi coincidência ele vir no sábado à noite que estamos passando juntos?
— Olha, Steven, só não... Pira. Eu estou com tudo sob controle, logo mais ele vai embora e vai ficar tudo bem. Não passa nem do primeiro filme. — Ele assentiu.
Mas passou do primeiro filme. Aliás, estávamos os três assistindo no sofá, eu no meio. Harry e Steven competiam para comentar o filme, enquanto eu me mantinha quieta. Eu estava pirando, porém estava gostando de ver os dois brigando por minha atenção — só não queria que aquilo virasse uma guerra.
Estava perto da guerra de Hogwarts, quando eu notei que eles já não discutiam fazia alguns minutos. Olhei para Steven e ele estava dormindo, com a cabeça apoiada no meu ombro. Ele parecia um anjinho dormindo, o que me fez sorrir.
— Eu atrapalhei muito hoje?
Olhei para Harry, que estava atento na televisão.
— Ah... Não — eu comecei a falar, baixo para Steven não ouvir. Não queria que ele acordasse e iniciasse uma discussão. — Eu gostei de te ver.
Harry sorriu.
— Eu também gostei de te ver. Aliás, era exatamente disso que eu estava precisando.
Eu soltei uma risada baixa.
— Até parece... — eu comecei, e ele riu também, mas agora olhando para mim.
— Eu estou falando sério! — ele disse, ainda me olhando. — Eu nunca achei que iria me importar tanto com você, devo admitir. Mas não sei o que você desperta em mim, acho que essa sua confiança em si mesma — eu soltei uma risada quando ele disse “confiança” — e principalmente em mim... Não sei.
Eu já estava olhando para Harry quando ele disse “desperta”. Ah, eu queria muito o beijar naquele momento. Você estava precisando disso, querido Harry Styles? Eu sei que eu estava.
Eu estava mesmo considerando em simplesmente o beijar, mas Steven se remexeu ao meu lado, me lembrando de sua presença, e desisti. Harry ainda me olhava, mas eu desviei o olhar para a televisão. Harry Potter já tinha morrido e estava falando com Dumbledore.
— Eu adoro essa frase dele — eu disse, antes mesmo dela ser dita e Harry olhou para o filme, se aconchegando ao meu lado.
— Qual?
Não tenha pena dos mortos. Tenha pena dos vivos, e, acima de tudo, daqueles que vivem sem amor — eu disse, junto a Dumbledore. — Dumbledore era meu personagem favorito, até eu descobrir como ele realmente via o Harry, mas ainda gosto dessa frase.
— Dumbledore? Sério? O meu é o Sirius — ele disse, e eu não esperava nada de diferente dele: Sirius lutava para ser quem era e é assim que eu enxergo Harry.
— O meu é o Snape.
Olhamos para um Steven meio acordado, meio dormindo, se ajeitando ao meu lado. Eu ri baixinho.
O filme finalmente terminou e Steven se esticou todo, se levantando do sofá e dizendo que iria ao banheiro, mas que já voltava. Já era meia noite e o sono já estava se apoderando de mim. Harry pigarreou e se esticou também, depois apoiando as mãos nas pernas e me olhando.
— Esse cara... — ele disse, apontando com a cabeça para o corredor. — Onde você o achou?
— Para, Harry. — Eu o empurrei e ele sorriu. — Steven é um ótimo amigo.
— Mas, pelo visto, não foi um bom namorado, senão vocês ainda estariam juntos. — ele observou, e eu respirei fundo o encarando.
— É complicado...
— Tudo bem, tudo bem, não vamos entrar nesse assunto agora. Acho que eu já tenho que ir, mesmo. — Ele olhou para o relógio do celular e depois para mim. Eu assenti e Stevie saiu do banheiro dizendo a mesma coisa. Eu me despedi dos dois com um abraço em cada — dessa vez eu não passei vergonha com Harry — e disse boa noite. Subi as escadas correndo para escrever em você e cá estou. Acho que agora eu vou me deitar e só Deus sabe quando eu vou voltar a escrever em você, nada de muito interessante tem ocorrido na minha vida... É isso! Boa noite, diário.


XXIV: Definições excluem possibilidades

Terminei esse dia e olhei para o céu; já estava anoitecendo e ficar ali seria um pouco perigoso. Disse para Diego para irmos para a minha casa e ele disse que tinha que voltar para o jantar na sua. Separamo-nos com um beijo e assim cada um seguiu seu caminho.
Eu disse que eu iria continuar a leitura sem ele e ele não surtou dessa vez, ainda bem.
Tomei um banho e minha mãe estava dormindo no sofá quando eu cheguei. Tinha colocado um cobertor nela antes de seguir para o banheiro. Depois do banho, eu fui até o escritório e decidi que iria ler ali essa noite.
Estava me sentindo muito próxima da minha avó naquele momento. Principalmente, quando ela estava sentada entre Diego e Sofia. Ai meu Deus, eu disse o que eu estava pensando antes de terminar a frase! O que eu quis dizer é: ela estava sentada entre Harry e Steven.
Engraçado, eu disse meio que brincando essa de ficar entre Diego e Sofia, mas a verdade era que eu não sabia o que eu estava sentindo em relação a nenhum deles. Eu comecei essa narrativa dizendo que Diego era a minha paixão, mas Sofia me fazia sentir algo diferente... Era estranho, mas bom. Eu nunca tinha me definido, até hoje, se me perguntassem, eu diria com toda a convicção de que eu era heterossexual, mas... Eu era mesmo? Não quero me definir nesse momento e acho que nunca mais. Definições excluem possibilidades, apesar de trazerem representatividade. Mas, no momento, eu só queria me descobrir.
Sentei-me no pequeno sofá do escritório e abri o diário. Corri pelas folhas até a última que eu tinha lido e virei a página, pronta para ler mais um “Querido Diário” de minha avó e tentar aprender um pouco com ela.


XXV: Eu quero te amar

Querido diário,

Eu não acredito que tudo isso aconteceu, mas aconteceu e agora eu sou a pessoa mais feliz do mundo — eu estou quase gritando feito uma louca nesse momento. E vou explicar o porquê.
Bom, depois daquele sábado incômodo que eu passei com os dois homens mais lindos da face da terra, eu continuei a viver a minha vida normalmente. Ou pelo menos tentei.
Harry me visitava na faculdade às vezes, o que causava um reboliço entre as pessoas de lá, os fãs dele, e deixava Steven sempre muito bravo. Assim como quando Harry me via com ele também ficava bravo. O que acontece é que eu fiz as primeiras provas e elas terminaram na sexta, duas semanas depois de sábado. Já estávamos em outubro, o tempo estava voando e eu adorava passar esse tempo com eles dois, mas separadamente. Ah, sim, separadamente, porque eles dois juntos eram terríveis. Eu contei para Harry o porquê de eu ter terminado com Steven — brigávamos muito, pois ele era muito ciumento e eu também era às vezes. Em contrapartida, eu disse para Steven a minha história com Harry — eu nunca tinha mencionado minha paixão secreta por ele de quando eu era menor e não a mencionei agora, apenas disse que eu já o conhecia de outros tempos. Os dois não reagiram muito bem às minhas histórias, mas eu não liguei, eram apenas verdades e não tinha como mudá-las.
Harry tinha me buscado na faculdade na sexta e fomos para a minha casa, ficar fazendo absolutamente nada, apenas assistindo desenho e comendo chocolate. Foi uma tarde gostosa, ríamos bastante das besteiras que estávamos conversando, até que ele perguntou se eu queria beber e eu disse que iria estudar com o Steven mais tarde via Skype, então era melhor não. Mas Styles me convenceu de não estudar, já que as provas tinham acabado eu merecia um descanso. Avisei Stevie e ele aceitou aparentemente numa boa.
Harry colocou Gino Vanelli para tocar bem alto e eu achei engraçado. Ele tinha esse gosto estranho do século passado, apesar de suas músicas serem bastante diferentes desse estilo. Ele me chamou para dançar, eu obviamente aceitei, tinha bebido uma ou duas — ou talvez mais — taças de vinho com ele. Ele me segurou pela mão e me puxou para perto, começamos a dançar abraçados aquela música breguíssima. Ele cheirava tão bem, era um cheiro de alguma planta misturada com alguma outra coisa — eu realmente não sei identificar cheiros. Só sei senti-los e aproveitá-los.
Então a música mudou para uma mais atual, uma dos Rex Orange County. Acho que era Sunflower. Só sei que eu esqueci de tudo e fiquei dançando abraçada a Harry Styles. Achei estranhíssimo dizer isso, mas, sim, eu estava abraçada a Harry Styles. Acho que já estava me acostumando à ideia de ser amiga dele, o que estava evoluindo para algo a mais esse pensamento. Infelizmente, só o pensamento, pois na vida real...
Harry começou a dançar rápido comigo, me fazendo rir, ele estava tentando acompanhar o ritmo da música.
— Agora você dá uma pirueta... Assim. — Ele deu uma pirueta e me fez rir ainda mais. Harry riu comigo e eu o abracei, voltando a dançar com ele.
— Você cheira muito bem — eu disse, baixinho e pude ouvi-lo sorrir quando ele disse:
— Você cheira a amor.
Eu parei de dançar e olhei para ele.
— O quê? — eu perguntei, com vontade de rir, e ele riu.
— É sério. Eu realmente quis dizer isso! — ele disse, e eu balancei a cabeça negativamente. — Você é amor, .
Você é amor. Foi o que ele me disse. O que isso queria significar, eu não fazia ideia.
Dançamos mais algumas dessa banda e meu pai chegou do trabalho, nos pregando um susto. Eu e Harry nos separamos, acho que meu pai notou o que tinha acontecido pelo meu cheiro de vinho. Styles pegou suas coisas e foi até a porta, eu o acompanhei.
— Ah — ele disse, virando e trombou comigo, logo começou a rir. — Desculpe. Amanhã eu darei uma festa, terminamos o álbum e agora ele está preparado para ser produzido milhares de vezes. É uma festa chique, mas não tanto. Vá linda, como sempre, e se quiser pode trazer alguém... Mas não queira, por favor — ele disse, e eu ri, já o expulsando da minha casa. — Você vai?
— Vou pensar no seu caso! — eu respondi. — Boa noite, Harry Styles.
— Boa noite, !
Assim nos despedimos e eu tive que dormir com essa.
Eu fiquei muito em dúvida em relação ao que vestir. Felizmente, eu tinha um vestido perfeito para isso: um que eu usei na formatura do ensino médio. Ele ainda cabia em mim e ninguém dessa festa teria me visto com ele anteriormente. Era um vestido lindo, azul, com bordado de flores em prata e um decote delineando os seios. Tinha alça fina e movimento. Eu amava esse vestido.
Acabei revelando para Steven da festa e ele obviamente perguntou se poderia ir junto. Eu disse que tudo bem, não gostava muito dessa ideia, mas também não queria ficar sozinha naquela festa com várias pessoas que nunca vi antes. Pedi para ele me buscar às nove da noite.
Enrolei o cabelo com babyliss, minha franja loira eu deixei lisa e passei um batom claro, destacando os olhos dessa vez com um esfumado azul. Ficou um arraso, eu devo admitir, mas aquela maquiagem não acordaria bonita como chegou na festa.
Enfim, Stevie chegou no horário em casa e ele ficou impressionado com a minha roupa. Disse que eu estava deslumbrante e eu me senti a poderosa, não é? Ouvimos, no caminho, The Script, eu estava com um frio na barriga, um sentimento de medo. Não sei por que, o que poderia acontecer essa noite?
Chegamos à casa dele, estacionamos na garagem com outros carros muito chiques. Steven me ajudou a descer do carro e fomos de braços dados até dentro da casa. Um segurança estava lá, perguntou o meu nome e eu dei, aproveitando e dizendo que eu estava com um acompanhante. O segurança deixou nós entrarmos e foi o que fizemos. E eu fiquei bastante intimidada com aquela casa cheia de gente importante.
Ficamos eu e Steven pegando todo aperitivo que aparecia e bebendo loucamente Gin e outras bebidas que os garçons nos ofereciam. Harry surgiu no meio das pessoas, conversando com a banda dele. Eu notei isso, notei que Charlotte estava especialmente bonita aquela noite e que ele não tirava os olhos dela. Fiquei um pouco sentida, começou a tocar I Wanna Love You e eu já estava bêbada, mas nem tanto, puxei Steven para dançar e algumas pessoas fizeram o mesmo. Eu o levei até o meio das pessoas e soltei sua mão, me virando de costas para ele assim que Snoop Dogg começou a cantar. Comecei a dançar, rebolando o quadril, sentindo a música. Me virei para Steven e olhei para ele, que estava sorrindo para mim enquanto dançava. Eu grudei nossas testas e continuei a dançar. Eu devia estar muito louca, porque eu me lembro de pensar que queria muito transar com ele naquele momento. Só dele me tocar, eu sentia um arrepio todo percorrer meu corpo. Não sei se eu queria transar com ele, ou só queria simplesmente transar, só sei que continuei a dançar. Me virei de costas, sendo abraçada por Steven e quando levantei meus olhos encontrei direto os olhos de Harry, que estava dançando com Charlotte. Eu não consegui parar de olhar para ele, só quando Stevie me virou de volta para ele. Resolvi não olhar mais para Harry e terminei de dançar com Steven. A próxima música era Naughty Girl da Beyoncé, eu estava achando tudo muito sugestivo. Mas dessa vez eu não dancei.
Fui com Steven pegar uma bebida. Ele disse que ia ao banheiro enquanto eu esperava as bebidas serem preparadas. Fiquei olhando para a coleção de garrafas de bebida atrás do barman, viajando completamente com a mente.
— Você trouxe o Steven, hein?
Olhei para Harry, que estava sorrindo de lado. Ele estava de blusa social branca, parecia ser de seda, uma calça azul escura boca de sino e aquele colarzinho que ele tinha de cruz. Ele estava muito gostoso, diário. Sorri para ele com todos os dentes. Acho que eu estava bastante bêbada, sim.
— E você estava com a Charlotte, hein? — eu respondi, me virando de costas para a bancada do bar, apoiando meus cotovelos nela. Fiquei olhando para pista, esperando a resposta de Harry, que chegou muito rápida.
— Eu fiquei muito feliz que você veio — ele disse, fazendo o mesmo que eu e se apoiou na bancada. — Está curtindo a festa?
— Meh — eu disse, e as bebidas chegaram. Peguei os dois coquetéis, o meu era de frutas vermelhas com limão. Harry notou que era o mesmo do dia que saímos para o karaokê, ou foi impressão minha? Ele deu uma risada maravilhosa. Eu não sei, acho que eu estava com os hormônios à flor da pele, pois tudo o que ele fazia me dava vontade de simplesmente arrancar aquela roupa dele e fazer Deus sabe o quê. Dei um gole no meu drink e ofereci para Styles, que sorriu.
— Acho que você vai aproveitar essa bebida mais do que eu — ele disse, e batucou na bancada. A música estava chegando ao final e ele se virou para ir embora. — Chegou a minha hora de me apresentar.
Harry piscou um dos olhos para mim e sumiu entre as pessoas. Tentei segui-lo com o olhar, mas não consegui. Steven apareceu logo depois e eu entreguei a bebida a ele, sem antes não dar um gole nela.
— Tudo bem? — ele perguntou, e eu assenti. A música foi parando e todos bateram palmas quando um cara apareceu com um microfone. Eu olhei na direção dele e fiquei atenta.
— Muito bem, pessoal! Nosso querido anfitrião dará algumas palavras para comemorar o final da gravação e o sucesso certeiro que será esse novo álbum! Harry, vem cá!
Harry surgiu das pessoas e estava sorrindo. Ele agradeceu ao cara e se sentou no banco do piano. Todos pararam de fazer barulho para ouvi-lo.
— Eu nem acredito que conseguimos — ele disse, e soltou uma risada. — Esse álbum é sobre fazer sexo e se sentir triste, mas com certeza não é como eu estou me sentindo agora. A parte do triste, eu digo, não a do sexo. — Todos riram. — Essa música é do Fine Line e eu acho que é a minha favorita até agora. Então lá vai.
Ele começou a tocar e logo a letra apareceu. Meu coração ficou na garganta o tempo todo durante essa música chamada “Falling”. Era muito bonita e falava sobre essa relação de término com alguém, a sensação de que você estava caindo em um precipício, sentindo saudades de alguém que uma vez foi seu. Você duvida até das suas qualidades, é como se sem essa pessoa você não conseguisse continuar. Olhei para Steven que estava apenas apreciando a música. Ele não fazia ideia de que tudo aquilo que Harry falava era exatamente como eu me senti em relação a ele. Mas acredito que essa fase já passou e eu agora estava livre dessa sensação horrível. Só sobraram as lembranças boas e as ruins servirão para eu não cometer o mesmo erro de novo.
Então Harry terminou de cantar. Eu só percebi que tinha chorado quando fui coçar o rosto e ele estava molhado. Limpei rapidamente as lágrimas e, sem dizer nada, fui para o banheiro.
Lá eu entrei e fiquei me olhando no espelho, limpando qualquer resquício da minha lembrança. Logo alguém entrou no banheiro e, quando eu vi, lá estava Charlotte indo retocar o batom. Ela sorriu para mim e eu sorri de volta, tentando parecer normal.
— Então... Festa legal, né? — eu disse, e ela sorriu apenas para mim, voltando a se concentrar no batom.
— Muito! Eu adoro festejar com o Harry, ele sabe dar uma boa festa — ela disse, e eu assenti.
— Certo. Nos vemos por aí! — eu falei e ela concordou. Eu saí do banheiro e a festa continuou normalmente.
Eu não encontrei mais com Harry, só o vi de longe. Os convidados já estavam saindo, procurei Stevie em todas as partes, mas não o encontrei. Quando estava totalmente vazia, eu o encontrei deitado no sofá com duas garotas aleatórias.
— Ah, Stevie! — eu disse, quando cheguei ao seu lado. As meninas disseram que já estavam indo e que não sabiam como ajudá-lo. Ele e eu estávamos sem condições de irmos embora no nosso estado. Agradeci a elas por terem cuidado dele durante esse tempo e sentei-me ao seu lado. Acho que ele estava quase dormindo quando Harry surgiu.
— E aí, gostaram? — Ele olhava dele para mim.
— Harry... — Eu me levantei e o puxei para um pouco longe de Steven. Comecei a falar baixo, só para ele ouvir. — Steven não está nada bem, será que...?
— Ele pode dormir aqui, fique tranquila — Harry completou, e eu respirei, aliviada. — Você também. — Eu abri a boca para dizer algo, mas ele continuou. — Eu insisto.
Assenti e olhei para Stevie. O que eu faria com ele? Harry me ajudou a levá-lo pelas escadas até um quarto e o colocamos na cama. Eu estava morrendo de fome e Styles ofereceu o que sobrara da festa. Eu aceitei e fomos até a cozinha.
Ficamos comendo em silêncio, era como se a falta de som fosse um barulho na minha cabeça, estava estranho, era uma sensação que sempre ficava depois de ouvir música alta por muito tempo. Terminei de comer e fui para a sala de televisão, me jogando no primeiro sofá que eu vi. Ele se sentou ao meu lado.
— Cara... Eu tô acabada — eu disse, apenas, e ele soltou uma risada. — Nunca pensei que dançaria tanto como eu dancei essa noite.
— Eu vi. Você parece ter se divertido. — Ele estava sorrindo. Eu não conseguia tirar os olhos desse homem, confesso. Ele também não parecia querer parar de me encarar. Ficamos assim por alguns segundos, talvez minutos, em silêncio, apenas nos olhando. — Gostou de Falling?
— Ah, prefiro She — eu disse, como se nada fosse e ele se aproximou um pouco de mim.
— E por que você diz isso? — Ele parecia curioso. Me ajeitei no sofá.
— Acho muito boa. Não sei. — Dei de ombros e ele ficou me olhando. Eu olhei para ele de volta, o que o fez sorrir. Eu soltei um grunhido.
— O que foi? — ele perguntou.
— Pare de sorrir. Por favor!
— Por quê? — ele riu.
— Como você quer que continuemos amigos se você não para de sorrir?
— Do que você está falando, ? — ele perguntou, e eu virei meu corpo para ele.
— Esse sorriso. Ele me faz querer pular em você toda a vez — eu disse. Ok, eu estava muito bêbada, mas consciente das minhas atitudes e perfeitamente sóbria para fazer minhas escolhas com sabedoria. Harry se aproximou um pouco, acredito que involuntariamente.
— Ah, é? E o que você faria comigo? — ele disse, e eu estava olhando já para aqueles olhos, em seguida desci o olhar para aquela boca maravilhosa.
— Eu faria tudo e mais um pouco — eu disse. Ele sorriu. — Que droga, Harry! Só... Pare.
— Me mostre, então — ele respondeu, e eu soltei uma risada.
— Não me provoca — eu disse e ele continuava a sorrir. Ficamos nos olhando até que ele desmanchou seu sorriso até ficar com um tímido na boca.
— Eu fico feliz que você goste de She — soltou. Eu fiz cara de quem não entendeu e ele continuou. — Se eu tivesse te conhecido antes, com certeza eu teria a escrito para você.
Subi o olhar para seus olhos e ele parecia sincero. Então olhei para seus lábios e ele fez o mesmo comigo. Estávamos muito próximos.
— Harry.
— O quê?
— Você ficaria com uma fã? — eu perguntei, e estava muito perto de pular nesse homem.
— Depende. Se a fã for você... — Ele olhou uma última vez para meus olhos. — Então, sim.
Puxei seu rosto e o beijei com vontade. Senti sua língua massageando a minha, o gosto de cereja foi compartilhado. Sua mão macia estava no meu braço, ela desceu até a minha mão e entrelaçou os dedos nela. Eu não queria gentileza, eu queria mais.
Soltei a mão dele e segurei seu rosto com as duas mãos. O beijo continuava nesse meio tempo, eu comecei a fazer um carinho na sua nuca, ele colocou as mãos na minha cintura e a apertava de leve de tempos em tempos.
Comecei a me projetar na direção de Harry, ele entendeu o que eu queria e juntos ele se encostou no sofá e eu me sentei em cima dele. Ele passou a mão por toda a minha coxa, apertando-a às vezes. Eu parei de beijá-lo e aproveitei aquele pescoço cheiroso. Distribuí vários beijos por sua extensão e ele segurou meu queixo, voltando a me beijar. Harry puxou meu vestido para cima, eu estava literalmente com a minha parte íntima de calcinha em cima dele. Todo movimento que ele fazia me deixava cada vez mais excitada. Eu passei a abrir o resto dos botões de sua camisa e logo ela estava jogada no sofá ao lado. Ele parou o beijo e arrancou o resto do meu vestido, não fazia ideia de onde que ele foi parar naquele momento. Harry procurou minha boca com desespero, eu não estava muito diferente.
Eu comecei a procurar o fecho da calça dele, ele pegou a minha mão e colocou por cima da calça, na região pélvica dele. Eu apertei o lado de dentro de sua coxa e ele arfava toda vez que eu fazia isso. Harry começou a distribuir seus beijos por todo o meu pescoço e colo. Eram beijos delicados, mas que me faziam querer ir logo para os finalmentes. Sim, eu estava molhadíssima em cima de Harry Styles. Quem diria?
Eu achei o fecho e abri a calça. Ele me deitou no sofá logo em seguida e tirou a calça. Harry voltou a me beijar. Senti suas mãos irem para trás nas minhas costas e ele procurou o fecho do meu sutiã. Ele rapidamente conseguiu o abrir e eu fiquei pensando em como ele devia estar acostumado a cenas como essa. Eu me senti um pouco mal nesse momento que eu pensei nisso, mas tratei de tirar aquele pensamento da cabeça: eu estava com Harry Styles beijando meu pescoço, seminua e ele igual a mim. Não sei se teria essa chance de novo, então queria aproveitar ao máximo.
Ele beijou meus seios, sugando um, depois o outro, dando beijos molhados neles e os apertando de leve. Harry desceu seus beijos para a minha barriga e eu já estava enlouquecida. Pelo amor de Deus, Harry, anda logo!, era só o que eu pensava. Ele olhou para mim e eu devia transbordar desejo nos meus olhos, pois ele sorriu, o que me fez soltar outro grunhido. Ele deu um beijo por cima do tecido, nos lábios da minha vagina. Então Harry puxou com a boca pela alça da calcinha para baixo e terminou de tirá-la com as mãos. Ele distribuiu beijos por minha parte interna da coxa e então parou para olhar para a minha amiga lá embaixo. Ele lambeu os dois dedos médios e começou a massagear meu clitóris. Eu estava com tanta vontade que acho que teria um orgasmo só dele fazer isso. Ele gostou de ver a minha expressão de prazer e passou a chupar o clitóris, enquanto os dedos foram introduzidos no meu canal vaginal. Eu não consegui aguentar e minhas mãos foram automaticamente para aqueles cabelos encaracolados lindos. Eu os puxava toda vez que ele sugava e passava a língua rapidamente. Harry me olhava nos olhos enquanto fazia os movimentos de vai e vem. Não aguentei e me sentei rapidamente, o surpreendendo, e o empurrei para trás, dessa vez quem deitou foi ele.
Eu me ajoelhei no sofá e olhei para a cueca dele, dava para ver o volume bem grande ali. Passei as mãos pelas coxas dele e tirei a sua última peça. Eu toquei em seu pênis e o segurei, fazendo movimentos em volta dele, enquanto observava seu olhar brilhar. Isso estava mesmo acontecendo?
Então eu comecei a chupá-lo, o barulho do meu trabalho preenchia todo o recinto e eu conseguia ouvir seus gemidos bem baixinho. Olhei para Harry e ele estava com a mão na testa, sorri e parei de sugar, caminhando para cima e fiquei em cima dele, sem encostar em nada, apenas de quatro, o observando com um sorriso no rosto. Harry estava atento para descobrir qual era o meu próximo passo, eu aproximei a minha boca da dele e apenas mordi seu lábio inferior. Ele balançou a cabeça negativamente e sussurrou:
— Você é real?
Eu sorri e ele me puxou para um beijo quente. Ele projetou seu quadril para cima, revelando o que ele queria fazer. Eu parei de beijá-lo e olhei para ele enquanto eu me sentava e estava pronta para colocar seu pênis em mim, quando ele pareceu se lembrar de algo e me pediu para esperar. Harry me colocou ao seu lado no sofá e se levantou, saiu correndo e eu achei a cena mais cômica da minha vida. Soltei uma risada quando ele voltou com uma camisinha na mão, ele estava a abrindo enquanto caminhava. Jogou o pacote no chão e colocou no seu pênis ereto. Harry voltou a me beijar, se sentando no sofá e eu o empurrei para ele se deitar. Era eu quem queria comandar no momento.
Ele se deitou e ficamos nos olhando enquanto eu colocava seu pênis dentro de mim. Ele soltou um gemido quando eu fiz isso e eu soltei o ar de dentro de mim. Joguei meu cabelo não tão mais enrolado para trás, para enxergá-lo melhor, e coloquei as mãos delicadamente em sua barriga, fazendo carinho enquanto eu cavalgava nele. Eu fazia movimentos para cima e para baixo, às vezes esfregando a minha pélvis na dele, às vezes apenas quicando. Eu estava muito concentrada nos meus movimentos, estava amando muito aquilo tudo, fazia tempo que eu não transava e essa primeira vez depois desse tempo todo ser com ele só podia ser um sonho.
Fechei os olhos e continuei a cavalgar, segurando nos meus seios e os apertando ao passo que eu aumentava o ritmo. Harry puxou minha mão e começamos a nos beijar novamente. Ele dobrou as pernas e passou a comandar. Harry estava me penetrando cada vez mais rápido, eu estava arfando e gemendo, assim como ele. Meus seios estavam balançando bem na frente de seu rosto, então ele escolheu um e começou a sugá-lo. Eu estava enlouquecendo de tesão e achava que ele também estava, pois ele parou o que estava fazendo e me virou contra o sofá, ficando por cima. Harry aumentou a velocidade dos movimentos e quando ele diminuía eu pedia por mais. Ele devia estar adorando me ter assim, só sei que eu estava.
Harry começou a sugar meu pescoço e aumentou de vez os movimentos, eu pedi para ele não parar e ele estava gemendo baixinho no pé do meu ouvido. Então eu finalmente cheguei ao ápice e senti aquele tremor nas pernas, a sensação de prazer se estender por todo meu corpo. Não demorou muito e ele conseguiu atingir também. Harry, ao terminarmos, se jogou ao meu lado no sofá, estávamos os dois respirando alto, sem ar quase. Eu não sabia o que dizer, eu só tinha naquele momento percebido totalmente o que acabara de acontecer. Eu sorri enquanto tentava respirar e senti seu olhar em cima de mim.
Harry não disse nada, apenas ficou me olhando, eu virei meu rosto para vê-lo também. Ele e eu estávamos arfando, olhando um para o outro, até que ele me puxou para um beijo mais calmo. Estávamos os dois suados, nus, deitados no sofá dele, nos beijando. Eu nem lembrava de Steven naquele instante, mas agora pensando ele poderia muito bem ter acordado e visto a cena — ao menos ele estava muito cansado para acordar, de qualquer jeito isso não aconteceu.
Eu nem sei como eu adormeci, só sei que quando eu acordei tinha um lençol em cima de mim. Não entendi de onde que aquilo apareceu, mas não estava nem aí. Olhei para o meu lado e Harry estava lá, babando no sofá. Acho que ele esperou eu dormir e pegou esse lençol para colocar em cima de nós. Sorri ao lembrar da noite anterior e me deitei de novo, não acreditando no que aconteceu.
Eu. Transei. Com. Harry. Styles.
Dá para acreditar, diário?
— Bom dia — ele soltou, de olhos fechados ainda. Eu estava o observando até ele abrir um dos olhos e sorrir. — Tudo bem?
— Sim. — Me aproximei dele com curiosidade. — E você?
— Também. Melhor agora — Harry disse, o que me fez rolar os olhos. Ele sorria e me deu um beijo no rosto. Harry e eu ficamos nos olhando e eu puxei o lençol por cima das nossas cabeças, ficando os dois por baixo dele. Fiquei olhando para ele e Harry devolveu o olhar. — Você é linda.
Ele sussurrou, e eu não estava nem aí para o que ele estava falando. Eu só estava pensando em como a noite anterior foi incrível.
Depois de notar que minha maquiagem estava ridícula de horrorosa depois de ontem à noite, eu lavei o rosto e coloquei o vestido de volta. Prendi o cabelo com um elástico dele de pérolas e fui até o quarto acordar Steven. Ele não entendeu onde estava num primeiro momento e eu expliquei para ele até recobrar a memória. Ele disse que estava com uma dor de cabeça muito grande, eu disse que dirigiria o caminho de volta. Harry estava com a calça novamente, mas sem blusa, deixando todas aquelas tatuagens à mostra e seu colar. Ele nos levou até o carro e eu entrei no lugar do motorista, enquanto Steven entrava no do passageiro. Ele estava colocando o cinto, quando Harry dizia para eu ter cuidado e eu disse que tudo bem. Harry Styles me deu um último beijo na boca antes de eu sair com o carro dali. Acho que Steven ficou um pouco ressentido com isso, mas não disse nada, provavelmente estava com muita dor de cabeça para falar algo.
O deixei em casa e fui caminhando para a minha, não era tão longe assim. Meu pai não tinha acordado ainda, era muito cedo para um domingo. Cheguei e tomei um banho, logo me sentei para escrever em você e enquanto eu escrevia eu recebi uma mensagem de Harry.

“Você é demais para ser verdade. Vamos repetir isso algum dia... xx H.”

O bobo ainda disse a mesma frase de quando nos “reencontramos” meses antes. Eu realmente estava amando isso.


XXVI: Ler ou não ler

Acabei de ler esse dia e estava em choque. Minha avó acabou de, literalmente, descrever uma cena de sexo com um famoso? Meu Deus, que horror.
— Ju?
Olhei para a porta do escritório e estava lá minha mãe com a cara inchada. Ela devia ter chorado um pouco hoje, antes de dormir. Sorri para ela e fechei o diário.
— Oi, mãe.
— Está tudo bem? — ela perguntou, olhando em volta no escritório. Fiz que sim e sorri. Minha mãe apontou para o caderno nas minhas mãos. — Fez as pazes com Diego?
— Ah, sim. Fiz — eu respondi, e ela assentiu, sorrindo e depois bocejando.
— Querida, eu vou dormir. Se precisar de mim, você me chama? — ela disse, e eu queria poder conversar com ela, nós não falamos exatamente da morte da vovó e nem nada, só nos consolamos entre choros e risadas de lembranças boas. Mas ela parecia cansada, então eu a dei a chance de dormir sem se sentir pior do que já estava se sentindo. Vovó era uma grande mulher e ajudou muito a minha mãe, a falta que ela faz é inexplicável. — Boa noite, minha linda.
— Boa noite, mamãe — eu respondi, e ela se foi para seu quarto. Respirei fundo e olhei para o diário. Eu deveria continuar a leitura? E se tivessem mais cenas como aquela que eu acabei de ler? Bom, eu preferia ler isso sozinha a ler junto a Diego... É. Vou continuar então.


XXVII: Sutiã

Querido diário,

Uau. Como dizer isso? Eu estou em êxtase. Ou melhor, estava. Esses últimos dias foram incríveis. Harry e eu ficamos cada vez mais próximos, enquanto com Stevie a minha relação se manteve. Ele não perguntou nada em relação a Styles, porém ele deve ter imaginado, pois, em um dos dias dessa semana, Harry foi me buscar para almoçarmos juntos e ele acabou me dando um beijo na boca — não foi nada demais, foi apenas um selinho —, mas depois disso Steven pareceu meio distante, apesar de continuarmos na mesma. Não sei o que fazer em relação a isso. Mas vamos voltar para a parte boa.
Harry.
A porra do Harry Styles. Esse homem não existe, não é? É tudo ficção da minha cabeça, só pode.
Quinta-feira ele me buscou novamente na faculdade e me levou até a sua casa, tínhamos combinado de ter uma tarde de jogos de tabuleiro, coisa mais besta, eu sei, mas eu amava — e ele também. O primeiro jogo que jogamos foi batalha naval e eu afundei todos os navios dele muito rapidamente, mais rápido do que eu esperava. Ele era péssimo nesse jogo.
Depois desistimos dos jogos de tabuleiro — rápido, não? — e fomos para Gartic no celular. Dessa vez, ele ganhou de mim. Harry desenhava muito bem e era muito rápido de sacar o que eu estava desenhando. Ele parecia cansado quando terminamos, então fomos assistir televisão. Ele se jogou no sofá e bateu no lugar ao seu lado, me chamando para perto. Eu me sentei ali e seu braço foi parar nos meus ombros, me trazendo para si. Aquele sofá era uma memória extasiante para mim, mas me mantive quieta, eu não ia simplesmente jogar na cara dele que transamos naquele sofá há menos do que, cinco dias? Mesmo porque ele estava lá quando isso aconteceu — risos.
— Caraca, não tem nada passando nessa televisão, não? — eu disse, pulando de canal em canal. Ele encostou sua cabeça na minha, em seguida depositou um beijo no topo dela. Harry, com a outra mão, começou a enrolar uma mecha do meu cabelo em seus dedos, fazendo um nó terrível. — Você está se divertindo aí?
Ele soltou uma risada breve.
— Por que, você quer se divertir comigo? — ele disse, e eu dei de ombros. — ... Como nos divertimos no sábado?
— Harry! — eu disse, e ele riu. Me desvencilhei dele, mas sua mão ainda estava presa em meus cabelos. — Ai, Harry, olha o que você fez!
— Calma! — ele respondeu, tentando tirar a mecha de sua mão, até que conseguiu, mas deixou o nó ali. Ótimo, foi o que eu pensei.
— Agora tenho um filho aqui — eu disse, olhando para o nó no meu cabelo e tentando desembaraçar.
— Já estamos nessa fase da vida?
— Harry, você está bem engraçadinho hoje, hein? — Eu o olhei e ele riu, pegando no meu braço e dando a mão para mim, entrelaçando seus dedos nos meus. Fiquei olhando para Harry Styles ali, ao meu lado. Ele se aproximou e me deu um beijo nos lábios, mas não me deixou aprofundar aquele contato. Fiquei de olhos fechados por alguns segundos e os abri. — Tem mais alguma coisa a dizer?
— Hã, deixe-me ver... — ele começou, e olhou para longe, como se estivesse realmente pensando. Então sorriu abertamente. — Que tal jogarmos mais uma coisa?
— O quê? Sério? — eu perguntei, enquanto ele se levantava e me puxava junto.
— Mas dessa vez... Com bebida? — ele disse, e eu balancei a cabeça.
— Sem bebida, querido. Tenho aula amanhã — eu respondi, mas ele não se deixou abalar por isso.
— Tudo bem... Que tal uma aposta então? — Olhei para ele desconfiada. — Vamos, , é só para deixar as coisas mais interessantes!
Balancei a cabeça negativamente e sorri.
— Tá! O que você tem em mente?
— Que tal... — Ele me levou até uma sala que tinha uma mesa de sinuca no meio. — Sinuca?
— Sinuca, Styles?
— Sinuca, . — Ele assentiu e soltou a minha mão.
— Ok, tudo bem! E como vai funcionar essa aposta? — eu disse, me encostando na parede. Ele sorriu malicioso.
— Já ouviu falar em strip sinuca?
— O quê? Você quer brincar de tirar a roupa? — Eu me desencostei da parede, fingindo indignação, mas a verdade era que eu estava gostando da ideia. Harry levantou uma das sobrancelhas sorrindo.
— Você tem alguma ideia melhor? Ah — ele disse, antes que eu pudesse continuar —, mas que tem de tirar a roupa no meio. Se você gostar, é claro.
Eu ri e ele sorriu mais ainda.
— E se a gente brincar de verdade ou desafio? O desafio é tirar a roupa?
— Não sei, acho meio perigoso essa... — ele disse, meio incerto. — As chances de isso não terminar bem são maiores.
Pensei um pouco, me perguntando o que ele estava escondendo de mim, mas resolvi concordar com ele e fomos jogar strip sinuca.
O jogo era assim: quem acertava a bola do outro tinha de tirar uma peça de roupa. Caso você acertasse a sua bola, o outro que tinha que tirar uma peça de roupa. Não era um jogo exatamente muito difícil, mas Harry foi o primeiro a acertar uma bola minha e ele teve que tirar algo. Eu escolhi a blusa, queria ver aquele tronco maravilhoso dele.
Ele sorria sem mostrar os dentes quando tirou a blusa, sem desviar o olhar de mim. Engoli a seco quando ele ficou nu na parte de cima. Aquele homem era um deus grego, pelo amor de Deus!
— Sua vez. — Ele me entregou o taco. Eu mirei na minha bola e encaçapei ela. Olhei para um Styles dando risada ao meu lado e ele respirou fundo antes de abrir o zíper da calça. Eu fiquei bastante atenta nos movimentos dele, logo ele estava só de cueca e meias. Eu comecei a rir descontroladamente e ele balançava a cabeça. — Ok, não estou vendo muita graça nesse jogo.
— Minha vez de novo, não? — eu disse, e ele assentiu. Mirei em outra bola, mas acabei acertando muito de raspão na bola que era dele. Virei-me para Harry, que tinha cruzado os braços na altura do peito e me olhava com um sorriso de lado.
— Blusa. — Ele foi certeiro na peça e eu assenti, desabotoando minha camisa, me deixando só de sutiã na parte de cima do meu corpo. Vi Harry soltar todo ar de dentro dele e sorri.
— Sua vez, campeão. — Entreguei o taco para ele e ele olhava para mim enquanto se inclinava sobre a mesa para acertar a próxima bola. Ele focou sua atenção no jogo e conseguiu acertar dessa vez. Harry olhou para mim e se endireitou, sorrindo.
— Calça — ele disse, apenas e eu soltei uma risada.
— Tudo bem — eu disse, e tirei a calça, a colocando ao lado da mesa. Aonde aquele jogo iria parar, eu não tinha ideia. Eu estava só de roupa íntima na sua frente, ele ainda tinha as meias antes de tirar o principal. — Vai, quero ver se você consegue.
— Ok. Ah, espera — ele disse, e correu para uma mesa ali com um grande aparelho de som. Harry pegou um controle e apertou o play. A música Gold de Chet Faker começou a tocar e ele sorriu para mim malicioso. — Pronto. Agora eu posso ir.
Revirei os olhos e ele sorria para mim. Harry se aproximou de mim me olhando nos olhos e se dobrou para jogar. Ele mirou em uma das bolas, mas acertou a minha.
— Droga — ele disse, e eu ri.
— Cueca — eu disse, imitando seu tom de voz e ele fingiu irritação.
— Ei, espera aí, eu estava sendo bonzinho com você e você já me ataca assim? — ele disse, e eu pendi a cabeça para o lado. — Só se você tirar o sutiã.
O quê?
— Ah, tá! Como se eu... — eu comecei, mas ele dobrou os braços de novo. Lembrei o propósito do jogo e soltei uma risada. — Então vem. Tira para mim.
Harry sorriu e esperou alguns segundos, dando uma tensão no ar. Ele se aproximou devagar de mim, até que ficou a pouquíssimos centímetros. Ele me olhava no olho, até que terminou com a distância entre mim e olhou para a minha boca. Harry levou suas mãos para meus ombros, deslizando por meus braços e parou na altura do fecho do sutiã. Então seguiu com elas até as minhas costas e se encurvou sobre mim, olhando por cima do meu ombro o que ele estava fazendo. Senti sua respiração quente contra a minha pele e logo o sutiã se afrouxou. Ele não soltou a peça, tive quase certeza que ele cheirou meu cabelo e então depositou um beijo na dobra do meu pescoço. Fechei os olhos para sentir aquele toque, mas ele não estava mais lá. Abri os olhos e ele estava com o meu sutiã na mão, me olhando e olhando para meus seios. Harry soltou o sutiã e mordeu o lábio inferior. Aquilo me fez ir à loucura, minha calcinha já estava um pouco molhada. Harry levantou o olhar para mim e sorriu.
Eu não me aguentei e juntei nossos lábios. Passei a língua por seu lábio inferior e logo eu estava em contato com a língua de Harry Styles. Ele levantou as mãos e as colocou nos meus braços. Como era bom beijá-lo, eu sentia um choque lá embaixo toda vez que ele virava a cabeça para me beijar mais.
Harry estava fazendo carinho na minha pele, até que ele pareceu se encher e acelerou o beijo. Eu subi minhas mãos para aquele cabelo encaracolado e ele me virou contra a mesa de bilhar, dando a entender para eu me sentar nela. Subi na mesa e abri as pernas, Harry se encaixou ali e intensificou o beijo ainda mais. Estávamos brigando para ser quem dominava o beijo, enquanto eu deslizava as mãos por seu abdômen até chegar ao cós da sua cueca. Ele desgrudou sua boca da minha e encostou a testa na minha, segurando minhas mãos em sua cueca.
Harry me olhava sem ar, eu devolvia o olhar da mesma maneira. Então ele sorriu de lado e levou minhas mãos para trás de mim, me fazendo apoiá-las na mesa. Ele estava debruçado sobre mim e olhava para a minha boca de uma maneira sedutora, sem largar minhas mãos. Então ele começou a distribuir beijos por meu colo, demorados e molhados. Harry lambeu um dos meus seios e o chupou com vontade. De novo, o choque lá embaixo me deixando mais molhada ainda. Fechei os olhos e abri a boca, deixando escapar um gemido baixo. Ele desceu os beijos e se demorou na barriga. Harry, com um puxão, arrancou minha calcinha e passou as mãos por minha coxa, indo de cima para baixo, lentamente. Eu abri os olhos e olhei para Styles, que me olhava transbordando desejo, enquanto passava suas mãos por meu corpo. Me desapoiei da mesa e com uma das mãos trouxe seu rosto para um beijo demorado. Minha língua se chocava contra a dele, mas de uma maneira bem devagar, o deixando pirado.
Ele parou o beijo e, olhando nos meus olhos, lambeu dois dedos da minha mão e os levou até a minha intimidade, encontrando o clitóris. Ele começou a fazer movimentos circulares com os meus dedos sob aquele ponto de prazer e levantou o queixo, como se quisesse me desafiar para me conter. Eu estava tentado me conter, sim, não queria o deixar ganhar aquela pequena disputa tão fácil, mas eu não aguentei e troquei de posição da mão dele com a minha, colocando a minha por cima e fazendo com que ele esfregasse seus dedos em mim. Harry sorriu e se aproximou para me beijar, mas eu virei o rosto e seus lábios encontraram o canto da minha boca. Olhei para ele, que me olhava de volta com desejo explícito, e soltei sua mão, me apoiando de volta com os braços atrás do meu corpo e me inclinando na mesa.
— Ah, você vai se bancar de difícil? — ele disse, e eu sorri para ele. Harry se aproximou, colocou seus braços em volta da minha cintura e encostou sua intimidade ainda coberta pela cueca na minha, começando a roçá-la bem devagar. Mordi o lábio inferior, tentando me conter, mas estava difícil, tudo aquilo estava me deixando maluca. Harry beijou meu pescoço e mordeu o lóbulo da minha orelha, voltando para mim seu olhar. Eu olhei para a boca dele e não consegui me aguentar. Me direcionei para ela, mas, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, a campainha tocou.
A campainha tocou, diário.
— É só ignorar, eles já vão embora — ele sussurrou, e começou a me beijar, mas a campainha não parava.
— É melhor você ir ver quem é — eu disse, me soltando dele. Harry respirou fundo, tentando recuperar o fôlego e assentiu. Ele se desgrudou de mim bem lentamente e colocou a calça novamente, indo embora daquela sala e indo para a porta. Eu suspirei e desci da mesa, pegando minha camisa e a abotoando numa velocidade incrível e botei a calça novamente. Esqueci da minha roupa íntima e, quando eu estava pensando em pegá-las do chão e escondê-las, um homem apareceu na sala com um bolo nas mãos. Ele estava sorrindo e quando olhou para mim desmanchou o sorriso. Harry chegou logo em seguida e arrumou seus cabelos com uma das mãos, olhando para mim.
— Louis, essa é... — ele começou, mas o homem o interrompeu.
— A menina dos tabloides. — ele disse, apenas e eu me senti pessoalmente atacada. — Olá.
Ele tinha uma voz meio fina, meio grossa, era estranha, mas bonita. Louis olhou para a minha lingerie no chão e depois para mim. Eu só dei um sorrisinho, tentando parecer simpática, mas eu sentia todo o sangue do meu corpo no meu rosto.
— É, seu nome é — Harry disse, e Louis assentiu. — , esse é Louis...
— Tomlinson. Um dos caras da sua banda, não é? — eu perguntei, e ele fez que sim. — Oi, tudo bem?
Louis ficou quieto por alguns segundos.
— Tudo sim. Harry — ele se virou para ele —, pensei que hoje era dia de jogo de tabuleiro...
Meu coração deu um pulo. Como assim? Harry apenas soltou uma risada.
— Você está bem engraçadinho, não é? Não, fala a verdade, por que veio? — ele disse, calmo e eu respirei fundo, tentando me acalmar também. Louis sorriu de lado.
— Eu só vim visitar meu melhor amigo. Não posso? — ele disse, e Harry sorriu também, dando um soquinho no braço de Louis.
— Claro! Me dá esse bolo, eu vou servir pedaços para nós — ele disse, pegando o bolo da mão de Louis Tomlinson e indo em direção à cozinha. Louis bateu uma palma, feliz, e olhou para mim, colocando as mãos atrás de seu corpo.
— Então... Você e Hazz, hein? — ele disse, e eu balancei a cabeça, tímida.
— Não tem nada — eu disse, em seguida pigarreei.
— E essa roupa íntima aí no chão? Harry estava experimentando para você? — ele perguntou, desconfiado. Eu soltei uma risada, mas ele não parecia exatamente casual naquele momento. — Não, me responda.
— É, bem... — eu comecei.
— Pessoal, vamos? — Harry apareceu e me pediu a blusa jogada no chão. Eu entreguei a ele e fomos comer, mas eu estava com um pé atrás com esse tal de Louis Tomlinson.
Vou resumir essa parte, diário. Basicamente, ficamos jogando conversa fora, os três, geralmente Harry e ele falavam alguma piada interna, mas Harry sempre tentava me incluir. Eu não entendia nada e só dava risada por educação. Estava me sentindo uma pata naquele momento, sem saber nada. Não sabia que seria assim que eu conheceria um dos melhores amigos de Harry, no pulo.
— Bom, a conversa tá muito boa, mas eu preciso ir! — Louis disse, já se ajeitando na cadeira.
— Ah, tudo bem! — Harry disse, e olhou para mim sorrindo. — Eu te levo até a porta! Ah, por falar nisso, eu tenho um negócio para te dar, só um minuto!
Harry se levantou e saiu da sala de jantar. Olhei para Louis, que estava observando Harry sumir e então ele desmanchou o sorriso e olhou para mim. Estranhei, mas fingi que não reparei.
— Eu só quero te dizer que Harry não é a pessoa fácil que ele faz parecer que é de lidar — Louis começou.
— O quê?
— Ele tem segredos. Se eu fosse você, perguntaria deles para ele se você quer mesmo continuar nessa de brincar de casinha — ele disse, e assim que eu ia responder Harry voltou com um pacote de massa de bolo nas mãos. Louis pareceu surpreso e agiu como se não tivesse acabado de dizer uma coisa horrível. — Caramba, bolo de cenoura!
— É! Incrível, de marca brasileira! Tenho certeza de que você vai gostar. Ah, é brasileira, sabia? — ele disse, se apoiando na minha cadeira. Louis sorriu amarelo para mim, mas acho que só eu percebi isso.
— Bom, lá vou eu. — Ele se levantou e lançou um cumprimento com a cabeça para mim. — . Prazer em conhecê-la, a propósito.
— O prazer foi todo meu, Louis — eu disse, e ele sorriu para mim, se voltando para Harry, que o levou para a porta. Tentei me manter calma, mas estava difícil. Eu só queria fugir. Eu não ia perguntar dos segredos de Harry assim, como ele sugeriu. Se ele tinha segredos, oras, que ele ficasse com eles e só quando se sentisse à vontade que me contasse. Não ia cair na de Louis, não, diário.
— Então... — Harry reapareceu e se dobrou por mim, ficando com sua boca na altura da minha bochecha. Ele sussurrou, antes de começar a distribuir beijos por minha pele: — Onde estávamos?
— Harry, acho que eu tenho que ir embora... — eu comecei, e ele parou naquele instante.
— O quê? Foi algo que eu fiz? — ele perguntou, enquanto eu me levantava da cadeira.
— Não, eu só... Não estou me sentindo bem — eu disse, e coloquei a cadeira no lugar, me virando para ele. Ele suspirou e se aproximou, me dando um abraço. Ficamos abraçados por alguns segundos.
— Não quer dormir aqui? — ele perguntou, e eu fiz que não. — Vamos, eu prometo que me comporto.
Eu ri e ele me olhou sorrindo, sem se desgrudar completamente de mim.
— Não, eu tenho que ir mesmo — eu respondi, e ele assentiu, parecendo triste.
O dia se seguiu tristemente. Eu queria ter ficado, mas acho que a conversa com aquele cara me deixou abalada.
O dia seguinte na faculdade se estendeu de forma tediosa. Eu tive as aulas, mas nas pausas eu encontrei Stevie e ficamos conversando sobre coisas aleatórias e os professores. Na saída, eu tinha combinado que eu ia com Steven ao shopping, pois ele disse que precisava comprar umas roupas novas. Eu estava saindo com ele ao meu lado, indo até o carro, quando alguém buzinou para nós. Viramo-nos e era Harry em seu carro. Ele estacionou e saiu dele, indo na minha direção. Steven ficou inquieto ao meu lado.
— Oi! — ele disse, animado para mim e me abraçou. Deixando sua mão nas minhas costas, ele se virou para Steven e o cumprimentou com um gesto com a cabeça. — Steven.
— Styles. — Ele o olhava com dificuldade por causa do sol.
— O que você está fazendo aqui, Harry? — eu perguntei, olhando para ele e ele deu de ombros, como se fosse óbvio.
— Não posso te visitar?
— Na verdade, não. Eu tenho que fazer um negócio com o Steven e depois estudar. — eu disse, me desgrudando dele. Harry me olhou estranho e depois olhou para Steven.
— Ah — ele disse, apenas. Harry se virou para seu carro e tirou do banco do passageiro uma sacola de pano. Ele olhou para mim e me entregou. — Você esqueceu isso ontem.
Eu peguei a sacola, mas eu a derrubei sem querer, revelando o meu sutiã de dentro dela. Eu a peguei rapidamente, mas Stevie já tinha olhado. Meu coração estava a mil.
— Que bom! Agora precisamos ir — eu disse, dobrando a sacola e encaixando o meu braço no de Steven. Ele continuava a olhar para Harry sem falar nada. — Tchau, Harry.
— Tchau... — Ele se inclinou para me dar um beijo, mas eu puxei meu amigo e fomos andando para o carro. Deixei Harry Styles no vácuo.
Eu não sei, fiquei pensando melhor e depois do que Louis disse eu estava na dúvida se eu queria me envolver com um cara como ele. Posso estar ficando doida? Talvez.


XXVIII: Garota do tabloide

Querido diário,
Ok, talvez deixar Harry no vácuo não foi exatamente a ideia mais sábia que eu tomei nesses últimos tempos...
Não sei nem por onde começar a escrever... Por isso, vou escrever de acordo como eu fui me sentindo ao longo dessas semanas que se seguiram.
Eu e Harry estávamos começando algo que nenhum de nós saberia como terminaria. Eu apareci em mais revistas por aí, mas sempre como a nova amiga de Harry. Olhar essas revistas e essas notícias me fazia lembrar o que aquele cara, Louis, disse sobre mim: a garota dos tabloides. Eu não queria ser a garota dos tabloides nem aqui, nem em nenhum lugar.
Eu fiquei impressionada com a minha capacidade de desapegar de Harry Styles tão rapidamente — ou ao menos achar que eu estava desapegada. Sim, ele era lindo, engraçado, cheiroso, ótimo no sexo. Mas Steven também já foi assim e eu consegui o superar.
Estávamos no final de outubro, as provas vieram e se foram, eu consegui manter a média e Steven também. Ele foi o único amigo que eu consegui nesse mês, as garotas já tinham formado seus grupos, assim como os garotos. Só me restou o bom e velho Stevie. Até o dia em que todos decidiram ir para o bar depois da aula.
Eu estava pronta para ir para casa, tinha pegado minha bolsa e estava saindo da faculdade quando uma garota com outras três me parou. Ela disse:
— Ei, você é da minha sala, não é?
Eu, sem saber o que dizer:
— Sim.
Ela riu e se aproximou de mim, as amigas ficaram juntas mais atrás.
— Vem, estamos indo para o bar!
— Ah, não sei se é uma boa ideia...
— Qual é, as provas acabaram! Vamos lá se divertir um pouco! — ela disse, já se projetando em direção às amigas, me chamando com a mão. Olhei para elas e no fim me dei por vencida. Acompanhei-as para o bar.
Quando cheguei à rua do bar, ela estava completamente lotada. Nunca vi tantas pessoas juntas numa mesma rua. Eu não estava prestando atenção em muita coisa, até que a menina que tinha me chamado voltou para o meu lado com copos de cerveja, me oferecendo um.
— Qual é o seu nome? — ela perguntou amigavelmente. Aceitei o copo e dei um gole.
. E o seu?
— Que nome bonito! O meu é Melanie! — Ela estava sorrindo com o seu outro copo de cerveja nas mãos. Melanie tinha cabelos encaracolados com um rosa na raiz e castanho nas pontas. — O que você tem achado da King’s?
— Ah... — Não tinha muito o que dizer dessa faculdade. Ela era boa, porém as pessoas não me chamaram muito a atenção, mas eu não podia dizer isso a Melanie. — Gostado. Bastante.
Melanie riu e bebericou sua cerveja.
— Sim, as pessoas não são exatamente as mais empolgantes de início. Mas elas são as mais incríveis que eu já conheci. — Ela deu de ombros e só naquele momento eu comecei a notar que tocava uma música bem alta para toda a rua. Aquilo era realmente algo anormal para mim.
— Ah, sim. Você me pegou — eu disse e ela riu.
— Você é muito quieta, ! O pessoal também é meio tímido, então ficou difícil de te enturmar. Porém, nada que um álcool não ajude, não é mesmo?
Ela esticou o copo para mim e eu brindei com ela. Melanie deu outra risada. Iniciamos uma conversa aleatória sobre as pessoas de Londres e de como aquela cidade era maravilhosa. Contei para ela que eu estudava em Oxford, mas não disse nada sobre Stevie. Ela me disse que amava gatos em vez de cachorros — eu tive que discordar — e que era alérgica a canela.
Chegou a um ponto em que eu já tinha bebido muitas cervejas, até que Melanie teve ideia de tomar shots de vodca. Eu não acreditava que estava me enturmando tão facilmente assim, realmente o álcool era uma coisa doida. Então ela me levou até dentro do bar e fomos até o balcão. Aquele lugar estava super cheio e a música era mais audível ali. Ela pediu ao barman os shots, enquanto eu olhava em volta, apenas sem saber o que fazer com a minha presença.
Avistei Steven de longe, ele estava conversando animado com um grupo de pessoas no canto do bar. Fiquei olhando para ele, pensando em como ele estava bonito hoje. Uma calça jeans azul escura, uma blusa branca simples e tênis preto. Bem discrepante com o estilo do Harry. Droga, pensei em Harry naquele momento. Mas tratei de deixar de lado esse pensamento e voltei a olhar Steven com outros olhos. Ele estava com o cabelo mais comprido, seus cachos caíam pela lateral do seu rosto, às vezes ele colocava o cabelo rebelde atrás da orelha, mas era impossível de controlar. Ele sorria de lado às vezes enquanto falava. Uau, aquele sorriso era realmente o sorriso.
O olhar de Steven encontrou com o meu de repente e eu até me assustei, mas me mantive olhando para ele. Ele sorriu para mim e voltou a falar com os amigos. Alguém me cutucou. Olhei para o lado e notei uma Melanie com uma expressão maliciosa.
— Então você é afim do Stevie? — ela disse e eu balancei a cabeça, saindo do transe.
— O quê? Não...
— Eu vi como você olha para ele. Aí tem coisa — ela disse e eu ri.
— Não. Eu e Steven já fomos namorados, mas não deu certo. — Dei de ombros e virei para o balcão. Ela estava tamborilando em cima da mesa, olhando para mim com os olhos estreitos.
— Mas isso não impede um remember — Melanie respondeu e eu a encarei. Ela sorria para mim. O barman apareceu com nossa bebida. Ela me entregou um dos copinhos. — Ok, pronta? Virada de uma vez, hein?
— Sempre pronta — eu respondi sorrindo. E assim tomei o primeiro shot daquela noite.
O primeiro de muitos.
Dancei muito, ri bastante e fiz novos amigos. Melanie me apresentou às suas amigas e elas me apresentaram seus namorados. Ficamos de conversa boba, até que alguém me abraçou por trás. Senti o cheiro que eu já fui tão viciada e olhei em sua direção.
— Oi — Steven disse e eu sorri. — Como está, ?
— Bem. E você? — eu perguntei.
— Melhor agora — ele sussurrou no meu ouvido e eu senti um arrepio todo por meu corpo. Tocava uma música super agitada que eu nunca tinha ouvido antes. Ele segurou minha mão. — Quer dançar?
Olhei para Melanie, que meneou a cabeça. As meninas começaram a fazer a maior algazarra para eu ir e eu acabei aceitando. Fomos dançar eu e Steven. Meu querido Steven.
Estávamos nos soltando mesmo, pulando no ritmo da música, então começou uma música lenta. Eu identifiquei como Fair-Weather Friend do Bruno Major. Olhei para ele, que passou a mão pelo cabelo e esticou a outra na minha direção. Eu a peguei e ele me puxou para perto, eu abraçando seu pescoço, ele, minha cintura. Estávamos dançando no ritmo, balançando devagar. O balanço era gostoso, seu cheiro era gostoso, aquele homem era gostoso. Era isso o que se passava na minha cabeça: Steven era gostoso. Aquela súbita vontade de me entregar a ele me atingiu como um raio e eu me segurei muito para não simplesmente pular em cima dele.
— E aí, você tem se divertido com as aulas? — ele perguntou e eu ri.
— Nossa, muito, você não faz ideia — eu respondi e ele riu. — E você?
— Psicanálise tem me dado trabalho, mas acho que consegui ir bem na última prova. Nada demais — ele disse e eu assenti, respirando fundo aquele cheiro dele maravilhoso. — Você está muito linda hoje.
Sorri.
— Acho que é a bebida falando, não é? — eu disse e Steven me olhou nos olhos.
— Claro que não. Você está e é linda. Maravilhosa, para falar a verdade. — Ficamos nos encarando, mantendo o contato com o olhar. Ele começou a se aproximar, mas eu me soltei dele. Eu não estava pensando direito.
— Não dá. Não podemos fazer isso. Eu não posso fazer isso — eu disse, passando a mão pela minha testa e corri para o banheiro.
Não tinha ninguém ali, só eu. Eu fui direto para uma cabine e fechei a porta. Sentei-me na privada e comecei a pensar na minha vida. Caramba, ela estava bem bagunçada naquele momento. E eu estava muito bêbada também.
? — Ouvi a voz de Stevie.
— É melhor você ir embora — eu respondi.
— Eu não vou, . Eu estou aqui porque quero conversar com você — ele disse e vi os sapatos dele em frente à minha porta. Suspirei.
— Aqui é o banheiro feminino, não sabe? — eu disse meio brava e ele riu.
— Hã, na verdade, você está no banheiro masculino.
— O quê? — Eu abri a porta e dei de cara com uma fileira de mictórios. Me senti uma idiota. — Não acredito nisso.
— O que foi, ? O que aconteceu lá? — ele respondeu, chamando a minha atenção. Olhei para Steven, que nessa iluminação estava com sua pele ainda mais escura. Balancei a cabeça.
— Não posso.
— O quê?
— Eu não posso fazer o que estávamos fazendo, o que eu estava fazendo — eu respondi olhando para ele e ele ergueu uma das sobrancelhas. Steven começou a se aproximar.
— E o que você estava fazendo?
Ele já estava muito próximo.
— Isso, ficar pensando em você pe... — eu comecei, mas me contive. Ele sorriu de lado.
— Pensando em mim como? — Stevie parou na minha frente, a poucos centímetros de mim. Ele era mais alto do que eu, eu estava olhando para a boca dele e ele para a minha. Notei que uma música tocava de fundo, abafada. Acho que era Location do Khalid. Eu sentia a respiração dele, uma mistura de cereja com menta.
— Você sabe como... Não me faça dizer. — Eu estava encantada com aqueles lábios. Eles pareciam tão convidativos naquele momento. Ele só ficou ali, parado, até que eu tive a iniciativa e grudei nossas bocas. Que ato desesperador, diário.
Eu estava sedenta naquele momento, eu necessitava de um toque mais íntimo. Nosso beijo começou calmo, ele logo estava apertando a minha cintura e eu bagunçando os seus cabelos, mas eu não estava satisfeita. Acho que nem ele, porque eu comecei a empurrá-lo em direção a uma das cabines e ele se desgrudou de mim para trancar a porta. Eu aproveitei para respirar, e, quando ele se virou, eu me atirei em seus braços. Steven não me recusou em nenhum momento e eu me senti querida depois de tantas semanas.
Dobrei uma das pernas, pressionando a minha intimidade na dele enquanto o beijo se tornava algo mais selvagem. Ele começou a beijar meu rosto, passou pelo lóbulo da minha orelha, desceu pelo pescoço e deixou um chupão ali. Ele estava arrancando a própria camisa, enquanto eu aproveitei e tirei a minha. A sorte era que eu estava de saia naquele dia, então ele apenas a subiu e voltou a me beijar, apertando a minha bunda com uma das mãos. Eu arfei e mordi seu lábio inferior. Ele parou de me beijar e me empurrou até a parede da cabine.
Ele segurou meus dois braços ao lado do meu corpo, enquanto roçava sua pélvis na minha intimidade. Eu estava puro êxtase. Ele desceu seus beijos até meu busto e se demorou na minha pele. Eu estava louca, queria aquilo mais que tudo.
— Harry... — eu soltei. Sim, soltei isso entre meus suspiros.
Nesse momento Steven parou. Eu olhei para ele, que se soltou de mim.
— O que você disse?
Fiquei o encarando, sem saber o que responder. Stevie perguntou mais uma vez.
— Stevie... — eu comecei e ele fez que não, me interrompendo.
— Achei que você não estava mais vendo esse cara.
— E não estou.
— Então...?
Ficamos nos olhando e eu assenti. Peguei a minha blusa do chão e a coloquei, arrumando a minha saia logo em seguida.
— Você tem razão, isso é uma estupidez. — Destranquei a porta e saí da cabine.
— Calma. ! — ele disse e segurou meu braço. Olhei para o chão enquanto ele me parava. Ficamos em silêncio. Só dava para ouvir as nossas respirações e uma música abafada ao fundo. — Eu preciso te dizer uma coisa.
— Acho que não tem o que falar, Stevie. Eu estava cometendo um erro. Somos amigos, é isso — eu disse ainda sem olhar para ele.
— Por favor, me escuta. Desde aquele dia que você foi embora de Oxford, eu tenho pensado em você, em nós. Eu sei que eu fui um babaca com toda aquela história de ciúmes, mas eu mudei. Pessoas mudam, ! E eu percebi que... Que eu te amo — ele suspirou. — Eu te amo, .
Não queria olhar para ele de jeito nenhum. Eu não o amava. Não mais da mesma maneira.
— Steven. Eu não quero voltar a ter o nosso relacionamento — eu disse.
— E por quê? Você gosta de mim, você sempre gostou, assim como eu. Fomos feitos um para o outro, . — Ele começou a fazer um carinho no meu braço, mas eu me desvencilhei dele. Steven ficou em silêncio. Até que ele o quebrou. — Você realmente gosta dele?
— E se eu gostar? — Eu finalmente o olhei nos olhos. Ele estava com os olhos marejados. — Você tem que entender que acabou, Steven. Acabou. Entre nós não há mais nada.
Ele engoliu a seco e uma lágrima escorreu por seu rosto.
, eu...
— Acho melhor a gente se dar um tempo... até como amigos. Precisamos entender quem nós somos e o que podemos realmente ter — eu disse agora olhando para o chão. Não estava aguentando olhar ele chorar. Mais silêncio.
— Ok — ele disse apenas e pegou a camisa dele do chão, passando por mim e indo embora do banheiro. Esperei mais alguns minutos sozinha, até que tomei coragem e saí dali também.
Muita gente por toda a parte. Eu tentando encontrar minhas novas amigas para dizer que eu estava indo embora, mas não estava conseguindo. Eu queria gritar naquele momento. Eu não devia ter o beijado, eu não devia ter feito nada... Na verdade, eu não devia ter feito nada com Harry.
Mesmo assim, tudo o que eu conseguia pensar era nele. No seu sorriso, no seu cheiro, no seu toque.
Sua voz.
Nesse momento, a rádio que tocava no bar anunciou que um novo hit tocaria agora. A voz de Harry dizendo “Oi, eu sou Harry Styles e essa é a minha nova música Lights Up. Você sabe quem você é?” apareceu. Meu coração apertou muito e a música dele começou a tocar. Comecei a chorar e peguei o celular desesperadamente, saindo dali, daquela rua, indo de volta para a faculdade.
Estava chamando, ninguém estava atendendo.
Oi. — A voz de Harry apareceu.
— Harry? Harry, temos que con…
Te enganei! Deixe a mensagem após o sinal. Prometo que respondo.
Ouvi o sinal e estava chorando ainda mais.
— Styles, você desgraçou a minha vida. Espero que você não volte para ela nunca mais... — Dei uma pausa dolorosa antes de continuar. — Ok, estou mentindo, espero que você nunca mais saia dela. Ah, eu não sei o que eu estou dizendo! Eu só... — Respirei fundo. Soltei um grunhido. — Tchau, Harry.
Desliguei o telefone e fui embora para casa, andando.
Já era noite fazia tempo, inclusive já deveria ser outro dia, enquanto eu andava por Londres, pensando muito. O que eu estava fazendo com a minha vida? E por que em tão poucos meses ela mudou drasticamente? Eu devia ter investido em Charles, o menino da minha escola de quando eu era pequena, quando eu tinha chance... Se bem que ele se mudou e isso com certeza iria desgraçar a minha cabeça.
Mas qual é, eu nunca devia ter prestado atenção em Harry. Eu devia ter mantido a calma desde o início, naquele momento em que eu o encontrei na sorveteria. Eu devia ter ficado calma, pegado meu sorvete, dado uma risadinha e ido embora.
Cheguei à porta de casa depois de uma hora. Olhei para a varanda e lá estava Harry Styles sentado nela. Tomei um grande susto e parei de andar. Ele olhou para mim e se levantou.
Harry olhava com súplica para mim. Eu não sabia o que fazer, eu só queria sair correndo para seus braços. Como eu me tornei alguém tão frágil?
— O que você está fazendo aqui? — eu tentei falar, mas estava realmente difícil de manter uma frase. Ele notou isso.
— Você... bebeu?
— E daí que eu bebi? — eu disse alto. — Você não manda na minha vida.
, calma. Eu vim porque ouvi seu recado — ele respondeu e comecei a chorar novamente. — Ei... eu tô aqui.
Harry se aproximou e me abraçou. Ou melhor, eu permiti que ele me abraçasse. Não conseguia parar de chorar e ele começou a fazer carinho no meu cabelo. Não sei se contava para ele ou não de Steven, eu só sei que, no fim, Harry quis saber o porquê de eu ter o tratado daquela maneira há semanas. Eu só disse que eu era uma idiota e que eu tinha que parar de ouvir as pessoas e ir mais pela minha intuição. Ele continuava a me abraçar, eu continuei a desabafar, mas sem mencionar o dia de hoje.
— Por que demorou tanto para vir atrás de mim, Styles? — eu perguntei, me desgrudando dele e o olhando. Harry ficou apenas me fitando.
— Não sabia que você queria que eu viesse atrás — ele disse apenas. Ele tinha razão. Eu não posso esperar que as pessoas façam aquilo que eu tenho que fazer. Eu tenho que enfrentar meus problemas eu mesma e mais ninguém.
O convidei para entrar depois de eu me acalmar por completo e ele aceitou. Meu pai já dormia naquele horário, eu o levei até meu quarto e disse para ele que iria dormir. Ele perguntou se eu queria que ele se deitasse junto a mim e eu disse que sim. Deitamo-nos na minha cama e ficamos ali, abraçados.
Eu não ligava para o que Louis tinha dito, no fim. Eu queria ser alguém na vida de Harry Styles. Não ligava quem eu seria, mas não queria o ter longe de mim.


XXIX: Jogo da garrafa

Querido diário,

Então chegou novembro. Um novembro gelado e abarrotado de tarefas.
Não converso com Steven há pelo menos três semanas. Eu o vi de longe algumas vezes, porém eu tratei de fugir dele. Estava sendo difícil, bem doloroso o encontrar na faculdade. Minha nova amiga, Melanie, o mencionava às vezes para mim, pois ela era amiga dos amigos dele, mas eu fingia — para ela e para mim — que estava tudo bem entre nós e que naquele dia do bar dançamos juntos e depois eu precisei ir ao banheiro, logo o desencontrando.
Tudo normal na minha casa, meu pai tem até que gostado de me ver com Harry, sempre com restrições: ele não deixava que eu fechasse a porta do meu quarto quando ele estivesse lá em casa, a noite não poderia durar infinitas horas e se ele dormisse em casa teria que ser em camas separadas — aquele último dia que ele dormiu lá na minha cama abraçado comigo, meu pai nos encontrou e fez o maior escândalo (a vergonha que eu senti, meu Deus, não tem explicação).
Harry tem sido meu melhor amigo nesses últimos tempos. Sim, transávamos bastante quando podíamos. Tipo, muito mesmo. Era uma amizade colorida engraçada, que a mídia nunca conseguia dar a certeza do que éramos, os encontros que tivemos nos últimos tempos foram muito caseiros.
Engraçado mesmo foi quando Melanie descobriu que eu era íntima de Harry Styles. Ela surtou. Mel era a fã número um dele — depois de mim, claro — e ela tratou de perguntar tudo, desde como eu o conheci até o que eu era dele nos tempos atuais. Eu contei que ele era meu vizinho e que estranhamente ele lembrava disso quando nos reencontramos anos depois na sorveteria, contei que eu era uma melhor amiga para ele e que ele era o mesmo para mim. Não disse nada sobre a parte com benefícios, não queria que ela espalhasse por aí que eu estava saindo com Styles, mesmo porque eu não sei se é exatamente esse o verbo que identifica o que estamos fazendo. E eu só a conhecia há pouco tempo, então não tinha plena confiança nela.
Ela resolveu fazer uma noite do pijama com algumas amigas e eu aceitei ir.
Cheguei lá e toquei a campainha. Ela morava perto da faculdade, então eu não poderia me perder. Mel abriu a porta e sorriu para mim. Ela estava muito arrumada, com uma saia preta, um top verde neon e sandálias. Eu me assustei com essa roupa, mas só imaginei que ela gostasse de se arrumar. Melanie me deu um abraço e me levou até a sala.
O que mais me surpreendeu foi que, quando eu cheguei lá, era uma social com alguns garotos e as amigas dela. Eu estava de moletom, com uma mochila cheia de doces e um travesseiro, o que foi terrível para alguém com uma autoestima baixa como a minha. Qual é, diário, ela não me disse que eu tinha que me arrumar de uma maneira não tão casual.
— Pessoal, essa aqui é a ! , esse é o pessoal — ela disse e eu acenei para eles, que me olhavam de um modo engraçado. Puxei Melanie para o canto.
— Mel, você não me disse que eu tinha que me vestir assim como vo...
— Ah, fica tranquila, ! Você está ótima! Se quiser, eu te empresto um batom se for a ocasião. — Ela deu de ombros, o que me irritou profundamente, mas eu respirei fundo para não falar uma bobagem.
— Hã... Tá. E por que você não me avisou?
— Porque eu achei que você não viria se eu te falasse que era uma social, poxa! Você tem ficado muito na sua durante essas semanas. Achei que você não viria, mas eu tinha certeza de que se você viesse, você se divertiria! — Ela soltou uma risadinha. — Quer saber, vem, vamos te arrumar então! Eu tenho algumas roupas que cabem em você, são de quando eu tinha uns dezesseis anos, mas tamanho pequeno!
Eu me dei por vencida e fomos até seu quarto, onde ela me emprestou uma calça jeans branca, um casaco azul marinho e uma blusa preta. Prendi o cabelo em um rabo de cavalo, mas deixando a franja solta na frente. Mel me elogiou o cabelo, disse que adorava que eu tinha a franja loira e o resto castanho. Acho que eu já escrevi sobre o cabelo dela, não? Bom, o cabelo dela também tinha uma parte colorida e outra castanha.
Ela me emprestou um batom da cor vinho e eu passei um rímel, com direito a blush. Deixei minha mochila com os doces ao lado de sua cama e descemos para a sala.
Notei que eram três garotos e nós quatro garotas, um total de sete pessoas. Não era exatamente um número grande, mas, mesmo assim, eu estava me sentindo um pouco mais confortável arrumada.
Ela pediu que eu me sentasse ao lado do cara chamado Roger e foi o que eu fiz. Começamos a conversar, até que o assunto chegou em Harry, eu não faço ideia de como.
— Então... é amiga de Harry Styles, dá para acreditar? — Mel disse com sua taça de vinho na mão. Todos se viraram para mim, inclusive Roger.
— Quem? — Roger disse, olhando de volta para Mel, que lançou um olhar esbugalhado.
— Como assim quem, Roger? Harry Styles, ex-integrante da One Direction.
— Ah, essa banda. Eu me lembro dela — ele disse e olhou para mim com um sorriso. — Você é amiga de um deles?
— Ah, sou, nada muito...
— Ah, para, , deixa de ser tímida! Ele às vezes vem buscá-la na King’s! — ela disse animada. Eu apenas sorri, meio constrangida. — Aliás, podíamos chamá-lo para vir à nossa festinha, o que acham?
Todos concordaram, inclusive Roger. Eu não tive muita escolha e disse que ligaria para ele. Levantei-me e fui até a cozinha para ligar. Estava chamando.
— Harry? — eu disse quando notei que o telefone tinha sido atendido.
Ah, oi, . Estava pensando em você — ele respondeu, o que fez meu coração pular. — O que aconteceu?
— Nada, só estava pensando em você — eu disse de volta e ele soltou uma risadinha maravilhosa. — Meus amigos querem te conhecer e estamos aqui na casa daquela Melanie, sabe? Acho que eu a mencionei para você.
Ah, sei. É que eu estou ocupado... Tem que ser agora? — ele disse e eu me surpreendi. Roger entrou na cozinha e parou na minha frente.
— Ah... Não, na verdade... — Fiquei olhando para ele, que me pediu licença, eu estava na frente da geladeira. Ele pegou uma cerveja de lá de dentro e tropeçou, quase caindo com a garrafa. — Roger! Você está bem?
Eu segurei o telefone um pouco longe, mas pude escutar Harry perguntando quem era Roger. Eu estava o ajudando a se equilibrar novamente e ele agradeceu, me dando um beijo no rosto. Harry perguntou novamente e eu voltei para o telefone.
— Ah, é um dos amigos de Melanie — eu disse distraída, o vendo sair da cozinha.
Amigos de Melanie, han? — ele disse e eu ri.
— Sim, Harry. Nada demais — eu disse, olhando para meus sapatos. — Então, deixa para lá, a gente se fala mais tar...
Não, tudo bem, eu estou indo para aí. Você me passa o endereço por mensagem?
— Passo! Ok, então... Até já — eu disse e ele respondeu com um “Até, ”.
Voltei para a sala e avisei o pessoal que ele estava vindo. Melanie quase pulou de alegria e me puxou para me sentar ao lado dela e de Roger.
Ficamos jogando papo fora. Roger me contou que era já formado em psicologia, que seu cachorro chamava “Bolinha” e que ele odiava suco de tangerina. Eu não estava conseguindo prestar muita atenção no que ele estava dizendo, só fiquei pensando em Harry chegar a qualquer momento e, no fim, foi o que aconteceu.
A campainha soou e eu e Melanie nos levantamos ao mesmo tempo, dizendo “Eu atendo!”. Fomos as duas para a porta e ela a abriu, revelando um Styles de calça social verde escura, uma malha felpuda marrom e um colar de pérolas. Na mão ele carregava um vinho.
— Olá! — ele disse, olhando para mim e depois para Mel. Mel não estava conseguindo dizer nada de tão animada. Eu segurei a risada e puxei ele para dentro, dando um abraço nele.
— Harry, essa é Melanie. — Eu estava ainda com um dos braços em volta dele quando disse isso. Melanie sorria de uma forma inexplicável.
— Ah, oi, Melanie!
— O-oi, Harry... Desculpa, é que eu não tô acreditando que eu estou conhecendo você em carne e osso! Ai meu Deus, olha esses olhos, eles são ainda mais claros ao vivo... E esse cabelo, como você o deixa tão maravilhoso assim? Eu tenho cachos também, mas eles são bem mais enrolados que os seus... Ah, isso não quer dizer que os seus não sejam lindos, é claro que são!
— Ok, Mel, está tudo bem — eu disse e ela riu animada. Melanie puxou Harry pela mão, fazendo com que ele se desgrudasse de mim e o levou até a sala. Eu os acompanhei logo atrás.
— Pessoal, Harry Styles! — ela o anunciou e logo eles começaram a integrá-lo na conversa. Harry se sentou ao lado de Mel e eu me sentei do outro lado da sala, com Roger.
Não consegui prestar atenção de novo no que ele falava, eu estava mais preocupada em olhar para as mãos de Melanie que faziam questão de encostar em Harry. Isso estava me incomodando um pouco.
— E eu devo estar te entediando com essa minha conversa, não é? — Ouvi Roger dizer e eu o encarei.
— O quê? Lógico que não! — Então eu ri. — Para com isso, você é bom de papo.
— Tão bom quanto o seu amigo? — Ele apontou com a cabeça na direção de Styles e Melanie.
— Diferente, só. — Eu dei de ombros, com uma expressão amigável no rosto.
— Vocês são só amigos mesmo? — ele perguntou curioso.
— Claro que somos! Por acaso você já viu uma notícia minha e dele mostrando o contrário?
— Eu nem sabia quem ele era até agora a pouco. — Ele riu. — Mas não, nunca vi. Agora, o que isso tem a ver...?
Eu soltei uma risada nervosa.
— Só quero te provar que eu não sou nada dele além de uma boa amiga.
— Se você diz... — ele disse e voltou a falar sobre qualquer outra coisa. Eu comecei a pensar muito nisso, eu queria ser mais que uma amiga para Harry? Nah, lógico que não, melhor deixar as coisas como elas estão, eu pensei.
Mas aí resolveram brincar do jogo da garrafa.
Roger pegou uma garrafa vazia de cerveja e colocou na mesa de centro. Melanie quem deu a ideia do jogo. Só que dessa vez ele seria diferente, não seria apenas um beijo, seria uma pegação no closet. Olha as ideias, diário! Eu fui a primeira a protestar, mas Harry pareceu gostar da ideia, eu não sei o motivo. Todos estavam aceitando o jogo, então eu não tive muito o que fazer.
A primeira a rodar a garrafa foi Brianna e ela acabou apontando para um dos outros garotos, Josh. Eles subiram as escadas e foram para o quarto, o que me deixou bastante preocupada quando Mel resolveu mudar as regras para cada um escolher um cômodo e então ficar se pegando com o outro lá, por tempo indeterminado. Eu fiquei pensando nos meus doces, se eles iriam descobri-los e comê-los.
Assim foi indo até sobrar, com ironia do destino, obviamente, eu, Harry, Roger e Mel. Era a vez de Roger e Harry estava olhando para mim enquanto meu amigo se preparava para girar a garrafa. Eu não parei de devolver o olhar, acho que ele estava dizendo alguma coisa com os olhos, mas eu não consegui decifrar. A garrafa parou e Mel começou a bater palmas.
— Sua sortuda! Você e Roger podem escolher qual cômodo sobrou, vamos lá — ela disse, me tirando do transe que era os olhos esverdeados de Styles. — Bom, e acho que sobrou eu e você, Harry.
— Não sei se essa brincadeira é exatamente a minha favorita... — eu comecei.
— Acho que não estou muito no clima de... — Harry dizia ao mesmo tempo que eu.
— Ah, bobagem! Agora vocês querem sair? Não vão me dizer... — Mel parou e soltou uma risada. — Não vão me dizer que vocês são um casal exclusivo, certo?
Mel fez um bico e eu olhei para Styles, suspirando. Mas ele logo mudou a expressão do rosto, quando Roger esticou um de seus braços atrás de mim e entregou sua mão a Melanie.
— Vamos — ele disse e os olhos dela brilharam intensamente. Ele ainda me encarava e eu fiquei com o coração apertado. Ele se levantou do sofá com Mel ao seu encalço e os dois foram para a cozinha, nos deixando sozinhos na sala. Desde quando essa noite virou tão maliciosa desse jeito?
— Então... — Roger começou e eu estalei a língua com os dentes.
— Então — eu respondi e ele se ajeitou ao meu lado no sofá.
— Tudo bem se você não quiser fazer isso. Não vou te obrigar como a Melanie está fazendo com o seu amigo — ele disse dando um sorriso.
Eu estava pronta para responder, mas a cozinha tinha uma “janela” para a sala, então dava para vê-los se beijando de lá. Aquilo me destruiu muito e eu nem queria que fosse dessa maneira o descobrimento de eu gostar mesmo de Harry. Poxa, era lógico que você gostava de Harry, sua doida! Ele é Harry Styles, seu crush de infância, o pop-rockstar mais gostoso e maravilhoso desse mundo! Só o olhar dele te deixa toda arrepiada, quem não gostaria de um cara desses?
Mas eu não consegui me mover, eu só fiquei ali olhando para eles se beijando e Roger esperando uma resposta minha. Então Harry abriu os olhos e olhou para mim durante o beijo. Aquilo foi a gota d’água. Horrível, diário, horrível.
— Eu preciso... Tomar um ar. — Me levantei em um pulo e fui direto para a porta de saída da casa, a abrindo e a fechando atrás de mim. Encostei-me na porta e fiquei olhando para o chão por alguns segundos, até o choro começar a vir. Cobri minha boca com uma das mãos e comecei a chorar. Eu nem sabia o porquê de tanto choro, mas eu estava ali, com as lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
— A porta se abriu e eu quase caí para trás, mas Harry me segurou. Olhei assustada para ele, que estava igual a mim. Saí de seus braços e dei alguns passos para frente, me distanciando dele, logo limpando o choro.
— Harry — eu respondi e cruzei os braços, olhando para qualquer outro ponto longe dali. Ele ficou em silêncio por um tempo e fechou a porta atrás dele.
— Por que está chorando?
Engoli e dei de ombros, voltando meu olhar para meus sapatos.
— Nem eu sei.
Sentia seu olhar quase que me atravessando de tanta intensidade.
— Você sabe — ele disse apenas e eu fiz que não. — Sabe, você sabe, . Só não quer me contar.
Ele se aproximou de mim e me chamou mais uma vez. Eu levantei o olhar para ele e seus olhos brilhavam. Styles começou a fazer um carinho no meu rosto com a parte de trás da mão.
— Está tudo bem, — ele sussurrou.
— Eu acho que... — eu comecei baixo e parei.
— Você acha que...? — ele perguntou e eu respirei fundo.
— Nada, você provavelmente não vai gostar da ideia... — Eu tirei meu rosto da mão dele. Ele imediatamente colocou as mãos nos bolsos da frente da calça.
— Pode falar. Tudo dá para se conversar, — ele disse firme.
— Não — eu disse e comecei a andar na direção da porta de volta, mas ele me impediu com sua fala.
— Você acha que está apaixonada por mim?
Parei de andar e não me mexi.
— Porque, se for isso mesmo, eu já imaginei que isso aconteceria — ele disse e eu estava com o coração sendo apertado por uma mão invisível. Tive a coragem de me virar para ele.
— Nossa, então você previu o futuro, porque é exatamente como eu estou me sentindo, uau — eu disse irônica e ele balançou a cabeça negativamente.
— Não precisa falar assim. Eu sei, nós dois sabemos que é verdade.
— Harry, olha, sinceramente eu sempre achei que você fosse um convencido de merda, mas dessa vez você está me surp...
— Sabemos também que eu estou apaixonado por você.
Fiquei o encarando. Ok, isso foi novidade para mim, diário.
— O quê?
— Você realmente acha que eu fui conversar com você por conta do seu celular? Eu poderia muito bem ter ido embora e deixado ali na sorveteria para você um dia voltar e o pegar — ele respondeu. — Mas eu fui atrás de você, . Alguma coisa dentro de mim disse “vá atrás dela”. Eu achava que era só a minha impulsividade, mas quando nos beijamos naquela festa, eu soube que era algo maior.
— Harry, eu não sei se eu estou realmente acreditando no que você está dizendo, mas eu acho melhor continuarmos só amigos — eu disse e ele continuava a me encarar, esperando que eu continuasse a falar.
— Uau. Não achei que você fosse falar isso — ele respondeu. Meneei a cabeça.
— O que você queria que eu dissesse? Que tudo isso é verdade e que eu estou mesmo perdidamente apaixonada por você? — eu disse. Ficamos em silêncio e eu não consegui me conter. — Merda.
Eu me aproximei dele e o beijei. Um beijo tão intenso, tão desesperado, tão... verdadeiro. Eu estava apaixonada por Harry Styles e ele por mim. Foi assim que tudo começou, diário.
Foi assim que eu virei a garota dos tabloides.


XXX: Baby

Acordei no dia seguinte um pouco mais disposta que o dia anterior.
Passei o dia arrumando meu quarto, que estava precisando. Passei aspirador e tudo. Coloquei uma roupa confortável para voltar a cuidar do escritório de casa. Tirei mais papéis agora de todas as prateleiras, junto de alguns porta-retratos antigos sem fotos e alguns materiais de arte. Limpei o pó de toda a madeira, deixei a porta aberta para respirar um pouco e tudo isso tomou a minha tarde toda. Essa terça-feira estava muito abarrotada de coisas para fazer, então resolvi relaxar um pouco depois de tudo.
Minha mãe terminou de arrumar a sala e disse que tinha alguns CDs antigos da minha avó que ela estava pensando em doar. Perguntou para mim se eu queria e eu disse que daria uma olhada.
Então mamãe deixou uma sacola cheia deles em cima da bancada do meu quarto. Eu tinha acabado com o segundo diário e minha avó acabou escrevendo até o ponto em que ela e Harry Styles decidiam que eram um casal assumido. Eu fiquei curiosa e resolvi pesquisar sobre isso na internet. Peguei meu celular e procurei no site de buscas por “Harry Styles e ”. Algumas coisas nada a ver apareceram, algumas entrevistas de Harry tentando falar algumas palavras em português, algumas notícias locais sobre a minha avó e sua clínica psicológica. Resolvi pesquisar de novo, mas dessa vez escrito “2019” no final. Bingo! Encontrei algumas imagens deles juntos andando pela calçada de Londres, em outros lugares que eu não conseguia identificar, em festas, e uma que mostrava eles em um café, sentados e de mãos dadas, uma sequência, na verdade, deles assim e depois se beijando. Então era tudo verdade... Não uma ficção da cabeça da minha vó!
Achei incrível como eles pareciam sinceros quando juntos... Fiquei me perguntando se eu parecia sincera junto a Diego. Logo o pensamento de que “bobagem, vocês não são nada um do outro” apareceu na minha mente para arremessar longe essa pergunta. Então me lembrei que minha avó também era só amiga de Harry por muito tempo, mas pelo visto eles começaram algo diferente.
Ah, não. Acabei recebendo um spoiler. Eles não ficam juntos. Bom, isso era meio óbvio, já que meu avô não é Harry Styles, aliás, nem eu sei quem ele é — e acho que isso não importa mesmo. Eles terminaram em... Ah, não vou ver isso. Fechei a aba da internet e coloquei o celular em cima da minha barriga. Eu estava deitada no sofá, olhando para o teto, pensando na relação Harry e . Fiquei me perguntando se ela foi saudável ou não.
Recebi uma mensagem de Diego dizendo para eu o encontrar em sua casa para jantar. Levantei-me do sofá e fui tomar um banho. Me arrumei inteira e peguei o próximo diário, colocando-o na minha bolsa, caso a gente queira ler a continuação.
Cheguei lá perto das oito horas da noite. Ele morava em um prédio bonito e antigo, parecia uma mansão dos anos 2000. Pedi para o porteiro me anunciar e depois de alguns minutos eu já estava subindo para o quarto andar. Toquei a campainha e Diego abriu a porta, ele estava vestido com uma calça jeans escura, uma camisa preta e uma blusa xadrez por cima.
— Oi, Ju — ele disse e em seguida me deu um beijo na boca. Sorri para ele e entrei na casa, pedindo licença.
— Seus pais estão aqui? — perguntei assim que ele fechou a porta, olhando em volta. Eu me virei para Diego, que fez que não com um sorriso de lábios fechados para mim.
— Só nós dois, baby — ele disse, me abraçando e me dando um beijo no canto da boca. Soltei uma risada.
— Baby? Desde quando você fala “baby”? — eu perguntei, olhando para Diego, que sorria.
— Desde que eu comecei a ler com você os diários de sua avó.
— Isso não faz sentido, ela os escreve em português... — eu comecei e ele apenas fez um barulho para que eu me calasse, me dando um beijo novamente.
— Ok, vamos jantar! Eu pedi uma pizza, ela chegou uns cinco minutos antes de você, então não está fria! — ele disse dando uma risadinha no final. Segui Diego até a cozinha, onde tinha a mesa de jantar já posta. Ele colocou a caixa de pizza no centro e abriu a tampa, revelando uma pizza metade mozzarella, metade frango com catupiri.
Comemos, demos risada, mas eu não estava me sentindo muito ali, sabe? Parecia que meu corpo estava lá, mas meu coração não, era estranho. Talvez seja só a ansiedade voltando, não sei. Mas ficar com a presença de Diego me fazia esquecer um pouco a realidade em que minha avó não existia mais.
Depois da pizza, fomos para o seu quarto assistir televisão. Eles não tinham televisão na sala, esta era para só socializar, segundo a mãe de Di, enquanto cada quarto tinha uma TV. Ficamos assistindo a um desenho maluco que eu não estava entendendo nada, mas Diego estava super se divertindo. Acho que ele notou que eu não estava muito animada com o desenho, pois ele começou a me cutucar o pé com o seu pé. Ele entrelaçou nossas pernas e ficou passando seu pé no meu. Eu comecei a rir e disse para ele parar, então ele riu também e começou a me beijar.
Acho que a partir daí, a sacanagem correu solta.
Diego e eu nos beijávamos quase como se estivéssemos brigando, um se mexia para cima do outro, até que ele se rendeu e eu fui parar em cima de seu corpo, com uma perna de cada lado do seu tronco. Eu estava distribuindo beijos por todo seu pescoço, dando chupões intercaladamente. Minha intimidade estava bem em cima da dele, já consegui perceber seu membro se enrijecendo, enquanto eu passava a mão pela parte de dentro de sua coxa.
Diego puxou meu queixo para voltar a beijá-lo. Esse beijo era bem diferente dos beijos que eu e ele já tivemos, era mil vezes mais sexual, mais preciso, mais... selvagem? Eu não sabia descrevê-lo, mas que eu estava gostando, ah, eu estava.
Ele nos separou e eu arranquei meu casaco, enquanto ele tirava a blusa xadrez e em seguida sua blusa preta. Diego me virou contra a cama e se posicionou em cima de mim, dando beijos molhados no meu pescoço e rosto. Suas mãos foram parar nos botões do meu vestido e ele foi abrindo, um por um, mas como era um vestido que a frente era de botões desde a gola até a barra, eu ri entre o beijo e o empurrei para longe. Ele me olhou com a sobrancelha arqueada, em tom de desafio, e eu com um puxão tirei o vestido, me deixando só com a minha lingerie. Di sorriu de lado e balançou a cabeça negativamente, e eu engatinhei na cama até voltar a o beijar. Ele se deitou e eu em cima dele passei a acariciar seu amigo bem animado, o deixando ainda mais duro. Trilhei seu corpo com meus beijos até chegar ao cós da sua calça, me sentei em cima de meus joelhos e comecei a abrir o zíper, logo puxando sua calça para baixo. Sua cueca também preta não me deixava enxergar direito o volume de seu membro, mas eu logo tratei de me livrar dessa peça de roupa, revelando seu pênis ereto.
Comecei a dar um beijo na glande, enquanto minhas mãos escorregavam por ele, o masturbando. Passei a chupá-lo e a parte que não cabia na minha boca eu estava cuidando com as minhas mãos. Ele estava arfando e gemendo já baixinho, o que estava me deixando muito excitada.
— Minha vez — ele conseguiu dizer e me puxou para cima, voltando a me beijar e me virando contra a cama novamente. Ele, ao descer seus beijos, abria meu sutiã e aquele alívio apareceu quando ele jogou a peça longe. Diego enquanto chupava um dos meus seios, apertava o outro, fazendo às vezes movimentos circulares com o dedão no bico.
Di desceu mais um pouco e puxou minha calcinha para baixo, me deixando completamente nua. Ele então passou a chupar meu clitóris, intercalando com movimentos circulares com a língua. Eu estava com muito tesão, acho que poderia alcançar o orgasmo a qualquer instante, mas ele parou e voltou a me beijar. Diego esticou a mão até a cômoda ao lado da cama e abriu a primeira gaveta, tateando até encontrar o preservativo. Ele parou o beijo para se vestir e olhou para mim uma última vez, perguntando:
— Tem certeza de que você quer isso? — Era a primeira relação sexual que estávamos tendo. Eu tinha certeza? Absoluta. Fiz que sim e ele sorriu, voltando a me beijar e entrando em mim lentamente. Seus movimentos eram lentos no começo, mas depois foram ganhando velocidade. Às vezes ele voltava para um ritmo mais calmo, mas quando eu estava chegando ao ápice, eu implorei para ele ir mais rápido. Ele me obedeceu e conseguimos chegar ao orgasmo ao mesmo tempo. Senti seu membro pulsante dentro de mim, minha vagina se contraiu e aquele tremor percorreu meu corpo, me deixando extasiada.
Diego se deitou ao meu lado na cama e ficamos os dois tentando recuperar o fôlego. Eu estava puro suor, ele não estava tão diferente de mim, mas eu me sentia perfeitamente leve e menos tensa.
— Cara... você sabe como me deixar louco. — Ouvi ele dizer e eu ri. Ele sorriu e eu me virei de lado para o observar. Diego sorria ainda. Eu escondi meu rosto por detrás do meu ombro, ele levantou meu queixo com as pontas dos dedos e me deu um selinho demorado. Ele se soltou de mim e passou a acariciar meu rosto, em seguida passando a mão por meu cabelo. — Já disse que eu amo esse seu cabelo azul?
— Não. Pode falar mais coisas que você ama em mim... — Eu dei de ombros, brincando. Diego soltou uma risada e se aproximou de mim, sussurrando:
— Eu amo você.
Eu sei que eu já sou adulta e tudo mais, porém ouvir isso me deixou um pouco em pânico. E acho que ele notou, pois ele pigarreou e disse que se eu quisesse dormir ali, seria perfeito, seus pais tinham saído para jantar fora e só voltariam de manhãzinha. Mas eu não estava mais me sentindo tão confortável como antes.
— Minha mãe está me esperando, então... — eu disse e ele olhou surpreso para mim, logo assentindo.
— Ah... Claro. Quer que eu te leve para casa? — ele perguntou e eu disse que sim.
O caminho de volta foi esquisitíssimo. Eu sei que ele já tinha dito que me amava antes, mas depois de uma transa essa frase fica ainda mais pesada. Comecei a sentir aquele desespero da ansiedade tomar conta do meu coração, mas fiz a respiração pausada em quatro tempos para me acalmar. Diego deve ter notado isso também, senti seus olhos às vezes em mim enquanto ele dirigia, mas eu me mantive olhando para frente, ignorando-o. Ficamos em silêncio durante esse tempo, ele tentava puxar alguns assuntos, mas eu respondia meio aérea, sem prestar muito a atenção no que ele estava dizendo. Foi difícil.
Eu sou uma pessoa que, devo admitir, não gosta de definições — acho que eu já até falei isso antes, só não consigo me lembrar quando... Ah! Lembrei.
Foi em relação à minha sexualidade. Talvez tudo esteja ligado, talvez eu não queira nada sério agora. Seria impossível ter algo sério com alguém que diz te amar sem o magoar totalmente. E quando ele repetiu que me amava, aquilo me deixou, sei lá, com medo. Não quero magoar ninguém, não quero decepcionar ninguém, não estou pronta para também ter o coração partido, não nesse momento em que minha avó não está mais aqui para me ajudar e consolar.
Diego parou o carro em frente à minha casa. Eu tirei o cinto logo que ele estacionou e peguei minha bolsa. Abri a porta e a fechei, estava indo em direção à minha porta quando ele me chamou. Olhei para Diego e ele apenas disse “Fica bem”. Eu demorei, mas balancei a cabeça positivamente e ele ligou o carro, em seguida indo embora.
Entrei em casa e encontrei minha mãe com uma taça de vinho, sentada no sofá, com os olhos marejados e o rosto vermelho. Coloquei a bolsa em um dos sofás e fui até ela, me sentando ao seu lado e dando um abraço apertado.
— Oh, mãe... — eu disse baixinho e ela chegou a soluçar. Não me contive e comecei a chorar também. Não falamos nada, mas não era preciso: já estava dito. Fiquei com ela a noite toda.
Eu fico reclamando, dizendo o tempo todo como é difícil para mim viver sem a minha avó, mas para a minha mãe deve estar sendo pior ainda. Ela e minha avó sempre foram unha e carne, ela nunca achou que se mudar de casa era algo viável, mesmo porque a vó não conseguiria viver sozinha. Acho que ela tinha trauma. Desde que o pai dela faleceu, pelo o que ela sempre relatou, as suas crises de pânico foram aumentando gradativamente a frequência durante os anos. Quando eu era menor, eu nunca tinha visto ela em uma crise, acho que porque para mim tudo era colorido demais, a vida era bonita e fácil demais. Quando a depressão apareceu na minha vida e a ansiedade também, eu passei a observar melhor esses momentos da minha avó. Ela era psicóloga, acho que isso foi a ajudando também a saber controlar melhor o que estava se passando, mas, mesmo assim, ela tinha o cuidado de nunca ter esse tipo de crise na minha frente — porém nunca é uma palavra muito forte para essa situação.
De qualquer jeito, minha mãe, além de ser cuidada por , cuidava também dela. Elas formavam uma dupla muito boa, realmente. Ela deve estar arrasada por dentro e, mesmo que ela esteja tentando não transparecer muito para mim, eu sei. Eu sei que ela está.


XXXI: De volta para o presente

No dia seguinte, propus para minha mãe passarmos um tempo juntas em casa mesmo. Ficamos assistindo a filmes da época de quando minha mãe ainda era criança e até antes disso. Eu lembrei que a vovó disse em um dos seus diários sobre um filme chamado acho que “De volta para o presente” e eu coloquei para nós duas assistirmos. É um filme bem legal, conta a história de um garoto cujos pais viveram desde a década de 1960/70 até os anos noventa do século passado, junto a ele, confinados em um abrigo antibomba. Depois que o menino completa trinta anos, ele resolve sair do abrigo para descobrir como é o mundo lá fora e assim o filme vai.
Comentei com a minha mãe no final que a vovó disse que adorava esse filme e que assistia com o pai dela. Minha mãe me olhou estranho e então deu risada.
— Não, querida! Ela gostava de “De volta para o futuro”! — ela disse e eu não estava entendendo nada, então ela completou. — Esse que assistimos é “De volta para o presente!”
— O quê? É sério isso? Eu só coloquei esse filme porque achei que a vovó... Ah, não acredito, que merda. — Eu cruzei os braços, me afundando no sofá e minha mãe desatou a rir. Ela se aproximou de mim e me deu um beijo na testa.
— Tudo bem, o que vale é a intenção. — Ela passou a fazer carinho em meus cabelos. Fiquei aproveitando por alguns segundos, mas a minha verdadeira intenção era conversar com ela sobre vovó.
— Mãe.
— Sim?
— Você está bem?
— Estou — ela disse e eu a olhei. Ela devolveu o olhar e deu de ombros. — Na medida do possível.
— Mãe... — comecei, mas ela me interrompeu.
— Não sei se quero conversar sobre isso agora, querida — ela disse e eu suspirei.
— Uma hora vamos ter que falar sobre isso — eu respondi. — Eu também estou sofrendo, mas eu quero saber de você. Poxa, a vovó sempre falava que tudo dava para conversar... — Parei nesse instante, me lembrando que quem disse isso na verdade foi Harry Styles para minha avó. Minha mãe me olhou com um ponto de interrogação no rosto.
— Ela não dizia isso — ela afirmou e eu balancei a cabeça.
— Ok, talvez eu tenha me confundido, mas não acha que é o que ela gostaria que acontecesse? — eu disse e ela ficou me fitando, desconfiada.
— Sua avó queria que muita coisa acontecesse, mas nem tudo aconteceu — ela disse apenas e eu fiquei pensando no que ela disse durante esse silêncio. Minha avó nunca foi de não querer algo que ela não poderia ter, ela não viajava nos seus sonhos, a única coisa que ela dizia perto disso é que ela gostaria que minha mãe tivesse encontrado alguém tão bom para ela, quanto alguém já foi para a minha avó quando ela era... Espera... Quando ela era mais nova. Isso significa uma coisa: minha mãe sabe dos diários.
— Mãe. Por acaso você notou uma caixa...?
— Ju, fui eu que deixei a caixa ali, meu bem — ela respondeu, voltando com o carinho. Agora fazia sentido o porquê de eu nunca ter notado a caixa ali: ela não estava lá antes de minha avó falecer.
— Então você sabe?
— Dos diários? Claro, filha — ela disse, olhando para a televisão com a imagem já parada em uma sugestão de outro filme qualquer e parando o carinho. Me ajeitei no sofá.
— E por que não me disse nada? — eu perguntei meio estressada.
— Querida, nem eu quando ela me mostrou os diários estava preparada para tudo aquilo e eu era muito mais velha do que você é agora. Não é só sobre romance aqueles diários, Julia. Tem muita coisa ruim lá também, um lado da sua avó que ela preferiu esquecer por muito tempo, e, como eu te conheço, sei que poderia te dar gatilho.
— Mas... — eu comecei e parei. Minha mãe sempre soube. — Você mudou de ideia então? Por isso deixou a caixa em um lugar que eu pudesse ver?
Minha mãe mudou a expressão de preocupada para um sorriso calmo.
— Bem, eu não tenho certeza de nada nessa vida, apenas de que você já é madura o suficiente para lidar com o que está lá dentro. Por favor, qualquer coisa, vem falar comigo, ok? — ela disse e eu assenti. Minha mãe então me deu um abraço reconfortante e foi assim que eu comecei a me perguntar que tipo de coisa ainda está por vir sobre minha avó.
Mamãe foi tomar banho e já era quase noite quando eu resolvi ler o próximo diário. Dessa vez eu fui à sala, me joguei no sofá e o abri, esperando o que de ruim poderia aparecer.


XXXII: Mulherão desses

Querido diário,

Eu nem acredito que estou no terceiro caderno. Acho que estou pegando gosto por isso de escrever...
Bom, então como eu disse da última vez, eu virei aquilo que todos me alertaram para não ser — ao menos sem consciência: namorada de Harry Styles. Esse é o termo correto, eu tenho que me policiar para não me chamar de outra maneira a não ser essa, pois não está correto.
Meu pai foi o primeiro a saber sobre o meu mais novo relacionamento. Harry fez questão de vir em casa e me ajudar a contar isso para meu pai. Ele não veio pedir permissão, todos nós sabemos que eu sou grande o suficiente para tomar minhas próprias decisões e mais, não sou propriedade de ninguém. Então ele só me deu apoio para que meu pai soubesse que essa não era uma decisão dada aos pulos e de uma maneira inesperada. Estávamos gostando mesmo um do outro, apaixonados com certeza — apesar de eu às vezes ter pensamentos que dizem o contrário, mas isso é somente minha baixa-autoestima atacando novamente. Estávamos dispostos a mostrar isso também ao mundo, mas só quando a oportunidade surgir. Afinal, não iríamos nos pegar no meio da rua, mas com certeza daremos algo para os paparazzi trabalharem. Isso, claro, sou eu pensando. Harry não liga muito para isso, mas eu me sinto muito nervosa para entrar no mundo dos famosos, mesmo que possivelmente brevemente e dessa maneira.
De qualquer maneira, meu pai deu a bênção para o nosso mais novo relacionamento, o que me deixou extremamente aliviada. Pelo menos isso.
Melanie veio atrás de mim para pedir desculpas por ter agido daquela maneira com Styles. Eu disse que não era a mim a quem ela devia dizer isso, mas ela completou dizendo que tínhamos que nos unir e apoiarmos uma à outra, sem competições e intrigas entre nós, e que era por isso que ela estava se desculpando. Eu aceitei as desculpas, claro.
Ela tentou de todas as maneiras me retribuir, me ajudando com as matérias que ela era boa na faculdade e eu fiz o mesmo por ela. Saíamos bastante para tomar cervejas e reclamar do governo, mas quando ela quis sair para paquerar, eu a contei que estava namorando-o. Mel abriu o maior sorriso do mundo e disse “Não acredito que sou mesmo amiga de um mulherão desses!”. Eu achei muito engraçada essa expressão.
E Steven, bem... Eu acabei trombando com ele na faculdade, mas ele fingiu que nada tinha acontecido e me tratou normal. Eu senti que eu precisava conversar com ele sobre o bar, então, como eu sabia que ele estudava na biblioteca às quartas à tarde, eu fui até lá e o encontrei em uma das mesas, de fone de ouvido. Sentei-me à sua frente, chamando sua atenção. Ele retirou um dos fones e perguntou se estava tudo bem.
— Não, não está. E você sabe que não está — eu disse e ele ficou me olhando até respirar fundo e desligar a música de vez, tirando o outro fone. — Precisamos conversar.
— Tudo bem. Mas acho que aqui não é o melhor dos lugares.
Fomos até o estacionamento e entramos em seu carro. Ele ficou um tempo olhando para frente, apertou um pouco o volante com as mãos e então olhou para mim. Eu o observava o tempo todo, mas ele parecia não querer me olhar nos olhos. Ele finalmente me devolveu o olhar, mas não por muito tempo, até que ele soltou uma risada e balançou a cabeça negativamente.
— Eu sei o que você veio falar — ele começou. — Eu fui um idiota e que eu não devia ter pirado por você ter dito o nome dele, mas a verdade, , é que...
— Eu estou o namorando agora — eu disse numa tacada só, surpreendendo Stevie. Ele assentiu logo em seguida.
— ... Você está apaixonada por ele — Steven completou. — É, eu imaginei. Eu conheço esse olhar que você dá quando o vê, conheço muito bem, é o que você me dava quando estávamos juntos. É o que eu ainda dou quando te olho.
— Stevie... — Eu desviei o olhar dele, mas ele levantou a mão como se dissesse que não tinha problema algum.
— Eu peço desculpas, . Por ter agido como um idiota ao achar mesmo que teríamos uma outra chance, quando estava óbvio que não teríamos, desde o começo. Por ter jogado que eu te amava como uma afirmação desesperada para te fazer ficar. Mas principalmente por ter agido como um irresponsável, emocionalmente falando.
Fiquei ouvindo tudo com muita atenção e pensando em como ele tinha evoluído como pessoa, mas ao mesmo tempo era o mesmo Stevie por quem eu tinha me apaixonado. Isso era bom, mas eu tinha certeza de que eu não o amava mais da maneira que ele gostaria, que ele merecia.
— Você sabe que ainda somos amigos, certo? — eu disse depois de um silêncio. Ele sorriu de lado e fez que sim. Eu sorri também. — Ótimo. Eu iria odiar não te ter mais uma vez na minha vida.
Steven soltou um grunhido e riu em seguida.
— Jogada baixa, hein — ele disse, olhando para o teto do carro e eu ri.
— Ok, desculpa. — Mas isso me fez pensar se seria saudável para ele continuarmos amigos. Perguntei isso para ele, mas ele disse sorrindo:
— É claro que é. Acho que esse tempo que passamos separados foi bom para eu entender isso.
Eu simplesmente amei a conversa que tive com ele e não poderia ter saído de uma maneira melhor do que foi. Mais uma etapa resolvida. Agora me sentia completamente livre, leve e solta.
E sobre Harry, ah, Harry. Ele era incrível. Era doce, era carinhoso, engraçado. Não era o mulherengo que a mídia fazia parecer, ele era uma pessoa normal, afinal de contas. Ter ele agora em casa quase todos os dias era algo simplesmente maravilhoso. Ele me ajudava a ficar mais calma, mas nosso relacionamento ainda não tinha sido oficializado, pelo menos para mim. Harry Styles me pediu para ir a um encontro com ele para que isso acontecesse e eu me sentisse namorada dele. Eu até que gostei da ideia.
Me arrumei toda, coloquei um vestido rosa claro de renda e forro também rosa. Uma meia-calça branca, sapatos pretos. Prendi o cabelo na metade e quase não passei muita maquiagem — apenas o básico. Fiquei nervosa esperando por ele na sala de casa. Meu pai estava assistindo televisão, enquanto eu estava sentada lá no sofá ao seu lado. Ele disse algumas vezes que eu não precisava estar assim, eu já o conhecia muito bem e que era só mais um encontro com ele.
Mas para mim não era só mais um encontro. Era o começo de algo que eu não sabia onde iria terminar, nem como, e muito menos se iria terminar. Eu não quis pensar muito nisso. Harry chegou tocando a campainha. Eu saí correndo para atender e abri a porta, encontrando-o ali, usando um terno preto com flores bordadas. Ele sorriu ao me ver, dando vida às suas covinhas. Ele segurava na mão uma orquídea e me entregou. Eu disse que não precisava, mas ele disse que queria fazer com que parecesse um encontro das antigas, um clichê. Eu ri e ele me puxou para um beijo.
— Eu estou aqui — meu pai gritou de dentro da casa e eu me soltei de Harry, dando risada. Coloquei a flor em um vaso com água, enquanto ele esperava na sala junto ao meu pai.
Voltei rapidamente e nós fomos embora, com ele dirigindo seu carro. Eu estava amando tudo aquilo, a sensação de estar em um encontro de verdade me deixava animada e com medo ao mesmo tempo. Uma sensação maravilhosa.
Ele parou o carro na rua mesmo e fomos andando de mãos dadas.
Eu estava de mãos dadas com Harry.
Estava me sentindo uma garotinha apaixonada naquele momento.
Fomos chegando ao destino e eu soltei uma risada. Harry logo perguntou do que eu ria.
— London-eye? — eu perguntei e ele ergueu uma sobrancelha, sorrindo de lado.
— Calma, não é só a London-eye — ele respondeu e eu me mantive em silêncio, esperando para saber o que ele queria dizer.
Chegando lá, não encontramos ninguém, apenas alguns funcionários. Isso mesmo, a London-eye estava vazia. Só para nós dois.
— Harry! — eu disse assim que eu entendi. — Não acredito que você reservou a roda-gigante para só nós dois!
Ele cumprimentou os seguranças e seguimos andando para a entrada da construção gigantesca que era a London-eye. Ele começou a andar mais rápido na minha frente e eu ainda esperava alguma resposta. Harry se virou para mim.
— Achei que você quisesse um pouco de privacidade — ele disse sorrindo e eu não pude não sorrir também. Eu nunca tinha dito que queria privacidade, na verdade, eu estava querendo mesmo era controlar a situação e sair logo nas revistas.
Então eu entendi que quem queria privacidade era ele.
— Achei que você gostasse de ter sua vida pessoal exposta na mídia — eu disse e ele parou de andar, me fazendo trombar nele. Harry ficou me olhando de perto.
— Gostar é uma palavra muito forte — ele disse e então ele se virou e falou com o cara que cuidava para que a roda-gigante funcionasse.
— Boa noite, senhor Styles. Senhorita — o homem disse e então abriu a portinhola para entrarmos na cabine da London-eye. Ele logo a fechou assim que entramos e eu fiquei encantada com o tamanho daquilo tudo. E me toquei quando a roda começou a funcionar que aquele cara sabia o meu nome.
— Como ele sabe...?
— Achei que você quisesse que o mundo soubesse de nós — Harry respondeu e eu entendi que ele estava apenas me provocando. Balancei a cabeça negativamente e dei uma sequência de tapas no braço dele, enquanto ele pronunciava “Ei!” várias vezes.
— Querer é uma palavra muito forte — respondi imitando sua voz e ele riu, me puxando para perto, abraçando minha cintura. — Caramba, como eu amo a sua risada.
— Ah é? — ele disse sorrindo, olhando nos meus olhos. — O que mais você ama em mim?
— Aí já é sacanagem, quer ficar aqui até amanhã? — Ele riu e me abraçou. Apoiei o queixo em seu ombro e fiquei sentindo seu cheiro. Então eu identifiquei finalmente o cheiro: orquídeas. Era isso, o cheiro dele era de orquídeas; talvez seja por isso que ele tenha me dado uma, para que eu sempre me lembre dele. Perguntei isso a ele, que respondeu dizendo que sim, dando um beijo no meu ombro logo em seguida. — Vou lembrar de você pelo menos até ela morrer, não é?
Harry soltou mais uma vez sua risada.
— Ela é de plástico.
Me afastei um pouco dele para olhá-lo nos olhos. Harry estava com um sorriso calmo no rosto. Então eu soltei um barulho como se fosse uma risada.
— Você é impossível, garoto — Eu disse e ele arrumou meu cabelo, colocando os fios soltos atrás da minha orelha. Eu tinha colocado à toa a flor na água e ele nem para me avisar.
Harry e eu ficamos conversando sobre várias coisas, como os Beatles, Harry Potter, Londres, países que queríamos visitar — eu disse que queria ir para o Brasil no final de tudo, um sonho meu para conhecer minha terra natal. Ele disse que iria comigo, mas eu não sei se vamos estar juntos por tanto tempo... Talvez nem como amigos. Mas eu tratei de parar de pensar nissO, claro. Naquele momento era só eu, Harry e a vista da London-eye.
Estávamos sentados nos bancos da cabine, um do lado do outro, eu com a cabeça apoiada em seu ombro, ele fazendo carinho em mim. A roda tinha parado lá no alto. Tudo o que eu conseguia pensar era em uma música, então eu peguei meu celular, procurei no Spotify “Beautiful Stranger” da Halsey e a canção começou a tocar. Harry se virou para mim e eu olhei para ele com um sorriso bobo nos lábios.
Então ele se levantou em um pulo e eu o observei. Ele esticou a mão para mim com uma reverência.
— Me concede esta dança, linda estranha? — ele disse.
— É claro que sim, mas quem é o lindo estranho aqui é você — Eu disse, me entregando a Harry, que me pegou em seus braços e começamos a dançar no ritmo da música. Eu o olhava nos olhos, ele nos meus, os dois envoltos no momento.
Harry tinha pontos azuis em seus olhos verdes. Eram incríveis aqueles olhos. Resolvi dizer isso a ele e ele sorriu de lado, revelando uma covinha. Grunhi.
— Ah, isso me mata — Eu disse e ele riu. Harry foi deixando seu sorriso se transformar em um pequeno sorriso tímido, mas seus olhos brilhavam de uma maneira nunca vista antes por mim. Ele estava me observando com esse olhar, mas eu não pude me conter. — O que foi?
— Posso estar muito perto do céu, mas o motivo é você, — ele sussurrou e aquilo quase me fez tremer e ter um ataque do coração, diário. Grudei nossos lábios e passamos a nos beijar.
Harry não podia ser real. Nada daquilo podia ser real. Foi naquele momento que eu percebi: não me importava em ser famosa, não me importava em aparecer em revistas com ele. Tudo o que importava eram esses momentos em que só tinha ele e eu.
O resto da noite se seguiu de maneira maravilhosa. Trocamos confissões sobre a vida, nos conectamos como nunca e eu me sentia completamente inteira naquele dia. Ele me fazia me sentir assim, não porque ele exatamente me completava, mas porque ele me ajudava a me ver como alguém completa. Me ajudava a me ver como um “mulherão desses”, como diria Mel.


XXXIII: Fim do ano

Querido diário,

As férias de Natal estão aqui, duas semanas para comemorar esse feriado e o ano novo. Harry convidou a mim e a meu pai para irmos passar o Natal na casa da mãe dele, junto à irmã, Gemma. Na verdade, ele tinha só me convidado, mas como eu disse que meu pai iria ficar sozinho se eu não ficasse aqui, ele o convidou também.
Passei a semana inteira nervosa. Harry reparou e disse que ele estaria lá, não havia motivos para eu estar assim. Eu sei que eu entrava em pânico quando eu achava que meu pai iria descobrir sobre mim e ele, porém agora o que estava me deixando em pânico era a mãe de Harry não gostar de mim.
Talvez eu esteja reclamando de barriga cheia, afinal, dane-se se a mãe dele gosta de mim ou não, eu sei que o filho gosta... Mesmo assim, eu sinto que eu preciso agradar a todos, principalmente a criadora do meu namorado.
Namorado.
Que estranho escrever isso. Até disse em voz alta para ver se era real, e é. Veja se não é incrível isso ser real? Para mim era.
Eu coloquei uma calça preta, uma camisa branca de seda com botões dourados até nas mangas, um casaco vermelho — bem Natal eu diria. Deixei o cabelo solto e fiz cachos. Para a maquiagem, eu passei rímel, fiz delineado e um batom marrom pintou minha boca. Blush era indispensável, apesar de eu sair de casa, não era o suficiente para eu pegar uma corzinha, então dale blush.
Passei meu perfume novo, não sei se meu namorado repararia que é novo, mas passei mesmo assim. Era uma ocasião especial e queria usá-lo. Meu pai estava lindo, ele usava uma calça marrom, uma camisa azul clara e um casaco preto. Não poderia ser mais meu pai do que essa roupa.
Fomos então eu e meu pai para a casa de Anne Twist, mãe de Harry. Estacionamos o carro, fomos até a porta e tocamos a campainha. Meu pai me observava. Eu estava tentando parecer o mais calma possível, mas acho que não estava dando certo, pois ele disse para eu ficar “calma”.
— Pai, como eu vou ficar calma em uma situação dessas? — eu disse, mas antes dele responder, Harry abriu a porta, sorrindo.
— Aí estão vocês! — ele disse animado. — Vamos, podem entrar!
Meu pai pediu licença, cumprimentou Harry e entrou na casa, deixando os sapatos ao lado da porta. Styles observava meu pai entrar e então ele dirigiu sua atenção a mim. Eu sorri para ele, totalmente nervosa, o fazendo dar uma risadinha e me puxar pela mão para dentro.
— Oi — eu disse e ele me beijou, um selinho rápido.
— Eu estou aqui, lembre-se — ele disse baixinho no meu ouvido assim que eu avistei sua mãe cumprimentando meu pai. Tirei os sapatos e Gemma apareceu para me dar boas-vindas.
— Então você que é a garota que amarrou e sequestrou o coração do meu irmão? — ela disse brincando e eu dei uma risada extremamente alta, totalmente estranha. Pigarreei logo em seguida, dizendo que aquilo poderia dar uma música. — Ah, sim. Uma música meio brega, mas sim.
Eu ri desse comentário, junto a Gemma. Demos um abraço e ela se voltou para seu irmão, enquanto eu olhava para a mãe de Harry, Anne.
— Olá! — Anne disse e eu sorri para ela. — Vem aqui me dar um abraço, minha mais nova nora! Olha só como ela é bonita, Harry! Deve ser incrível também como personalidade.
— Ah — eu disse sem graça enquanto ela me abraçava. Nos desgrudamos e ela sorria para mim. — A senhora também é maravilhosa.
— Senhora? Olha, a “senhora” está no céu! — ela disse e todos riram, provavelmente por educação. — Pode me chamar de Anne.
— Ah, sim, desculpe, Anne — eu disse um pouco envergonhada. Harry se aproximou de mim e me abraçou por trás, dando um beijo na minha bochecha.
— Fique tranquila, ! Bom, vamos comer? — ela disse animada e Gemma e meu pai engataram numa conversa sobre autores brasileiros famosos da atualidade. Harry ainda me abraçava, enquanto eu observava a cena.
— Foi tão ruim assim? — ele disse no meu ouvido. Eu me virei para ele, fazendo que não com um sorriso leve no rosto, mas por dentro estava sentindo que tudo tinha sido um desastre.
A noite foi, realmente, muito agradável. Anne era uma mulher maravilhosa, meu pai e ela estavam conversando muito — o que me deixou um pouco atenta, eu não queria o Harry como meu novo irmão, obrigada. Gemma e eu conversamos sobre seus cantores favoritos, os nossos crushes de celebridades — eu estava obviamente longe de Harry nesse momento — e em como ela gostava de cachorros.
Ficamos no fim da noite todos assistindo a um filme de Natal qualquer que passava na televisão, enquanto conversávamos. A família dele era fantástica, não poderia esperar menos já que ele era assim. O que eu achei engraçado foi que a mãe e a irmã de Harry se lembravam do meu pai, mas de mim elas se lembravam vagamente. Elas disseram que eu era muito criança quando foram em casa aquela vez, mas que hoje eu já era uma mulher crescida. Eu ri desse comentário, elas não paravam de me elogiar a noite toda.
Quando percebemos, eram já duas da manhã. Despedimo-nos de todos, Harry pegou uma muda de roupa e colocou em uma mochila. Ele iria passar a noite comigo e assim meu pai foi no banco de trás do carro, enquanto Harry foi no da frente e eu no do passageiro.
— Elas te adoraram — Styles disse de repente. Eu o olhei por alguns segundos, tentando entender o que ele tinha acabado de falar, eu tinha bebido muito vinho e estava cansada demais.
— Ah, eu as amei — eu disse e ele sorriu. — Elas são uns doces.
— Você se saiu muito bem, — ele disse e eu sorri com seu comentário. Estava morrendo de sono já.
— Que bom — respondi. Meu pai já estava dormindo atrás, eu estava por um triz.
, se você soubesse... — ele disse, mas meu pai deu um grande bocejo na hora. Harry parou de falar e eu acordei segurando a risada. — Deixa, outra hora nós conversamos.
— Não, pode falar! — eu disse tentando o encorajar, mas ele soltou uma risada leve e disse que agora não era a hora. Eu compreendi que estar ali não era um momento de privacidade entre nós, portanto esperei chegar em casa.
Meu pai se despediu de nós e disse que iria para a cama. Harry e eu ficamos assistindo televisão no meu quarto, deitados juntos na mesma cama — já que meu pai sabia sobre nosso relacionamento. Ele afagava minha cabeça, eu estava de olhos fechados aproveitando o carinho e quase pegando no sono, quando ele roçou os lábios nos meus. Soltei um barulho que o fez rir baixo.
— O que foi? — eu perguntei ainda de olhos fechados.
— Nada, você é linda — ele disse simplesmente e eu abri um dos olhos.
— O que você quer, Styles?
Harry riu e se aproximou para me beijar. Começamos a entrelaçar nossas línguas, ele inclinado sobre mim, eu deitada. Eu estava começando a me deixar levar totalmente por aquele beijo até que ele disse apenas:
— Você.
Eu abri meus olhos e ele me encarava com um pequeno sorriso no rosto. Harry era um dos homens mais bonitos que eu já tinha visto na minha vida, não pela sua aparência em si, mas seu charme, sua personalidade, sua voz. Tudo nele era um pacote que o deixava extremamente atraente e me deixava louca. Não acreditava que estava com ele, nem que eu acabara de conhecer sua pequena família maravilhosa. Soltei uma risadinha que o fez rir também.
— O que você anda pensando? — ele disse depois de um tempo e eu dei de ombros, ainda com um sorriso.
— Na vida. Na minha vida. Em você — eu disse e ele olhou para a televisão, depois para mim. Achei estranho ele desviar o olhar quando eu disse aquilo, mas fiquei quieta. Não queria achar pelo em ovo, não mesmo.
Seu celular apitou. Harry olhou para a tela e disse que precisava ir ao banheiro.
— Okay dokey — eu disse assim que ele se levantou. Continuei a assistir televisão, mas ele logo voltou e pegou seu celular esquecido ao meu lado. Harry foi até o banheiro e fechou a porta. Depois de alguns segundos ele a abriu novamente, eu observava tudo de canto de olho, e saiu correndo na minha direção, se jogando ao meu lado na cama. — Não ia ao banheiro?
— Decidi que prefiro ficar com você. — Ele distribuía uma série de beijos por meu rosto e pescoço, dando leves mordidas e chupadas. Eu soltei uma risadinha.
— É só o banheiro, Hazz. Não é tanto tempo assim — eu disse quase como um sussurro, extasiada com os beijos dele.
— Nah, isso não pode esperar — ele disse baixinho no pé do meu ouvido e eu me virei para ele. Harry trilhou meu colo até meu nariz com a ponta do dedo indicador.
— O que não pode esperar?
Então Styles sorriu e se aproximou, antes dizendo:
— Nós.
Ele tinha razão. Se havia uma coisa que não poderia esperar seria nós e acho que ficou claro naquele dia da noite do pijama na casa de Mel. Porém, o que ele quis dizer com aquilo, eu não sei exatamente.
Estou agora escrevendo em um quarto de hotel com ele dormindo ao meu lado. Acabara de ser a virada do ano de 2019 para 2020, passamos em uma festa de famosos bem chata, mas que terminou de um jeito muito bom no nosso quarto. Eu fiquei pensando muito em nós nesse meio tempo breve. Não estava ainda encaixando que éramos um casal, mas acho que eu irei me acostumar logo mais. É, ser namorada de Harry Styles poderia se tornar uma rotina para mim, mas nunca seria algo entediante.

Um bilhete a mim mesma do passado: , sua burra, nunca duvide do destino e da vida, ela não é 100 % bela e muito menos fácil. Lembre-se disso de agora em diante.
de abril de 2020


XXXIV: Pombinhos

Querido diário,

As aulas voltaram e já se passaram duas semanas que isso aconteceu. O aniversário de Harry estava chegando e, para a minha surpresa, eu tive a ideia de irmos para Amsterdã comemorar o fim de semana. Iriamos na quinta à tarde e eu faltaria na aula na sexta. Harry queria ir para Amsterdã, ele tinha me dito isso algum tempo atrás, então eu pensei em tudo — tive ajuda de alguns amigos dele — e contei para Hazz no dia.
Fizemos a mala correndo, ele muito animado, eu com medo de alguma coisa dar errado. Fomos para o aeroporto e partimos em direção a Amsterdã.
Chegamos ao hotel depois de algumas horas de voo e trânsito na cidade e eu dei o meu nome para a reserva. Ele ainda estava de óculos escuros e eu também, até que Harry retirou os dele e segurou meu rosto para dar um beijo nos meus lábios.
— Não acredito ainda que você fez tudo — ele disse, sorrindo depois do beijo e eu assenti, piscando.
— Pois acredite, fiquei pobre depois que eu paguei esse hotel. — Eu fiz um bico e ele pareceu se exasperar, porque disse para que ele devolvesse tudo para mim. Eu dei uma risadinha e respondi. — Estou brincando, tonto. Eu fiz minhas economias, mas você é quem vai pagar os jantares.
Harry soltou aquela risada gostosa dele e eu sorri ainda mais. Era mentira, eu não tinha pagado nada. Na verdade, foi Louis que me ajudou com tudo, mas Harry não precisava saber disso.
A recepcionista nos entregou as chaves do quarto e agradecemos. Fomos até o elevador e quando as portas se fecharam, ele me abraçou pela cintura e ficou me olhando ternamente.
— O que foi? — eu perguntei me fazendo de boba. Ele deu de ombros, sorrindo.
— Você é a mulher mais incrível que eu já conheci. Só isso — ele disse, depositando um beijo na minha boca. Eu sorri em seguida e começamos a nos beijar.
Eu entrelacei meus braços atrás de sua nuca e aproveitei o momento. Aquele gosto dele maravilhoso e o cheiro de orquídeas no seu perfume, caramba, me faziam delirar. Eu queria cada vez mais me fundir com aquele homem e estava ficando impaciente com o elevador que não chegava ao nosso andar nunca.
Até que ele parou e uma voz conhecida soou.
— Ah, se não são os pombinhos — Louis Tomlinson disse, fazendo com que eu e Harry nos separássemos. Harry sorriu para o amigo, que sorriu de volta. Ele tinha uma mulher ao seu lado, que sorria também.
, acho que você se lembra do Louis, certo? Essa é a Eleanor, sua namorada — Harry Styles disse, após cumprimentar os dois. Eu sorri para eles, que devolveram com outro. — O que vocês estão fazendo aqui, casal?
— Estamos aproveitando a vida, ora essa, Harry! — Louis disse como se fosse óbvio. Eleanor sorria ainda e Harry riu.
— Ei, ok, não precisa falar assim! — Ele fez um carinho nas minhas costas enquanto falava e eu fui relaxando os músculos aos poucos. O hormônio da felicidade estava sendo liberado e eu acabei dando um sorriso.
— E vocês? Vieram aproveitar o aniversário do Hazz? — Louis perguntou agora abraçando Eleanor de lado.
Ele estava se fazendo de dissimulado, porque ele sabia o que estávamos fazendo ali. Louis Tomlinson foi também convidado para a festa que eu preparei para Harry daqui alguns dias no sábado. Chamei todos os integrantes da ex-banda dele, foi uma decisão que eu tomei conversando comigo mesma e chegando à conclusão de que era importante que eles fossem convidados, já que para Styles eles foram uma peça tão importante na sua vida.
Chamei inclusive aquele outro, o Zayn. Não sabia se esse apareceria. Pelo o que eu li na internet e pelo o que Hazz me contou — mesmo que fora pouco —, Zayn não estaria se sentindo tão confortável em voltar a falar normalmente com os integrantes da One Direction tão cedo. Harry ainda sentia um certo remorso pelo colega que saiu da banda antes de todos, como se tivesse sido traído, mas eu via de outra forma. Para mim, Zayn Malik estava muito fodido da cabeça e precisava se afastar o quanto antes para poder se sanar novamente. Enfim, sigamos com a narrativa.
— Isso mesmo — eu disse, sorrindo com os dentes e ele deu uma risadinha bem falsa para mim — pelo menos foi o que eu achei. — Mas agora eu e Hazz vamos subir, sabe como é...
— Ah, claro, não queríamos atrapalhar, não é, Els? — Louis olhou para a namorada.
— Claro que não! Vocês não gostariam de tomar algo com a gente no bar do hotel mais tarde ou quem sabe outro dia...? — Eleanor perguntou e eu me surpreendi com a voz melódica dela.
Harry olhou para mim e eu para ele, e por um segundo tudo ficaria bem, mesmo com Louis Tomlinson tentando se intrometer na nossa vida. Styles me deu um beijo na boca brevemente e Louis soltou uma risadinha.
— Vamos, Els. O casal precisa de um tempo — ele disse para a namorada, que riu e assentiu.
— Bom, com licença, vamos para o nosso andar agora — eu disse, me soltando de Harry e me direcionando para os botões do elevador, porém fui impedida por meu namorado.
— Essa é a cobertura, querida — ele disse e eu ri de forma envergonhada.
— Ah, claro. — Pensei por alguns segundos na minha audácia de ter pegado um quarto na cobertura no hotel. — Bom, vamos, Harry?
— Claro! — Ele respondeu animado e se voltou para o amigo e Eleanor. — Nos vemos mais tarde, pessoal!
— Até. — A voz de Louis pareceu longe de nós, pois já estávamos no meio do corredor quando ele respondeu. Escutei a porta do elevador se fechando e assim estávamos sozinhos novamente.
Me virei para Harry Styles, que estava caminhando, e assim que chegamos ao nosso quarto, antes mesmo de ele tentar o abrir, me coloquei em sua frente, entre seu corpo e a porta, e o puxei pela camisa com um sorriso malicioso no rosto.
— Então... Onde estávamos? — Eu disse e ele riu, abraçando minha cintura em seguida. Harry aproximou seu rosto do meu e senti seu hálito bater contra minha boca. Ele sorria quando disse:
— Pronta para ir para o céu?
Eu ri e passei a língua entre meus lábios, sorrindo logo depois.
Passamos horas naquele quarto, transando em todos os lugares possíveis, conversando muito sobre a vida e tomando vinho, até que eu estava cansada e bêbada demais para continuar o que estávamos fazendo.
Dormimos por algumas horas. Harry continua a dormir ao meu lado na cama, enquanto eu escrevo em você. Ele parecia um anjinho no meio daqueles lençóis brancos.
O que eu posso concluir em relação a Louis Tomlinson? Ele com certeza não é a minha pessoa favorita nesse mundo, mesmo porque essa pessoa sou eu mesma, mas ainda não estou pronta para me deixar levar e acreditar que ele exatamente não gosta de mim. De qualquer maneira, vou voltar a descansar agora. Preciso estar bem, amanhã vamos fazer vários passeios por Amsterdã — só espero que Louis não resolva se intrometer e querer nos acompanhar.


XXXV: Irresistible

Querido diário,

Louis Tomlinson resolveu se intrometer.
Não sei nem descrever o que eu senti quando descemos para o café da manhã e os encontramos no restaurante do hotel. “Ah, podemos ir com vocês!”, foi tudo o que ele disse quando Hazz disse para onde iríamos.
Caralho, que cara chato! Tudo bem, era isso o que eu estava pensando antes, mas para que você entenda o que eu passei até chegar à conclusão que eu tive no fim do dia — que seria estranhamente um ponto positivo na minha relação com esse homem —, vou explicar toda a nossa manhã e tarde. Inclusive a noite.
Pois bem, começou quando, como eu disse, os encontramos no café da manhã do hotel. Harry avistou o amigo e perguntou se eu me incomodaria de comermos ao lado dele e da namorada. Eu, como a boa samaritana que sou, disse que tudo bem e assim fomos ao encontro do casal.
Primeiro Louis ficou contando sobre momentos dele e de Harry nos shows e nas viagens que eles já fizeram — o que não me incomodou nem um pouco. Eu achei até que interessante esses momentos, então nada demais aqui.
Mas saímos para fazer um passeio pela cidade, a esmo mesmo. Louis não calava a boca nem um segundo. Tudo o que ele sabia fazer era conversar com Harry, meio que ignorando a minha presença, o que começou a me incomodar bastante.
Chegamos a um café qualquer, onde eles resolveram parar para comer alguma coisa. Já era fim de tarde, na realidade. Já tínhamos visitado o bairro de Anne Frank e passeado por mais outras partes da cidade.
Harry e Louis foram pegar algo no balcão, enquanto eu e Eleanor nos sentamos em uma mesa. Eu estava distraída, olhando para meu namorado quando ela me interrompeu os pensamentos, dizendo:
— Ele pode ser às vezes meio inconveniente — Eleanor começou e eu me virei para ela.
— O quê? — Eu perguntei sem entender. Ela riu anasalado e se remexeu na cadeira.
— Louis — ela disse e eu abri a boca, assentindo. Ela colocou as mãos sobre suas pernas delicadamente. — Ele é meio inconveniente, mas tem um grande e bom coração.
Sorri para ela, tímida. Eleanor continuou.
— E ele me disse muito sobre você.
O quê?, foi o que eu pensei.
— Louis Tomlinson? — Perguntei e ela meneou a cabeça positivamente. — Uau, por essa eu não esperava. Foram coisas de que gênero?
— Boas, foram coisas boas. De como você é inteligente, engraçada, meio tímida às vezes, mas que parece ser muito do bem — ela disse e observou Louis e Harry rindo de alguma coisa. — Ele sente falta do amigo, só isso. Não leve para o pessoal.
— Ah, ok... — eu respondi e ela sorriu para mim, apontando com a cabeça na direção de Harry e Louis, que já se aproximavam com uma bandeja cada um de bolinhos e café.
Harry e ele colocaram a comida em cima da mesa e se sentaram, cada um ao lado de sua respectiva namorada. Styles passou um dos braços por meu ombro e depositou um beijo em meus cabelos.
— Tudo bem? — Ele sussurrou para mim no meu ouvido e eu sorri, assentindo. Louis deu um beijo em Els e todos voltamos para o assunto de antes, que era sobre como Louis Tomlinson tinha um sotaque engraçado.
Eu fiquei muito com isso na minha cabeça, sobre Louis ter dito coisas boas sobre mim para Eleanor. Fiquei me perguntando o porquê então de ele ter me falado aquelas coisas no dia em que veio visitar Hazz em sua casa... Qual era a de Tomlinson, realmente?
Voltamos para o hotel quando já estava anoitecendo. Cada um foi para o seu quarto e eu fui tomar banho. Harry ficou deitado na cama, lendo um livro que ele tinha trazido com ele e eu lá, pensativa enquanto me enxaguava.
Saí de toalha mesmo do banheiro e peguei as roupas na mala. Eu nunca tirava de lá quando eu viajava, achava que dava muito trabalho colocar tudo no armário e depois voltar tudo para a mala. Quando me agachei para pegar a calça e a blusa que eu tinha escolhido, a toalha caiu. Harry olhou para mim e deu uma risadinha.
— Tá olhando o quê? Safado — eu disse e ele riu ainda mais. — Foda-se, vou ficar nua mesmo.
— Para mim, isso não é problema, você sabe — ele respondeu e eu o encarei. Harry sorria para o livro.
Balancei a cabeça negativamente com ar brincalhão e me vesti logo. Assim que estava me maquiando no banheiro, ele se aproximou depois de se arrumar. Harry abraçou minha cintura por trás e encaixou seu queixo na dobra do meu pescoço, dando beijos na pele exposta. O arrepio percorreu por todo meu corpo e eu não pude evitar um sorriso.
— Tudo bem? — Ele soltou.
— Claro, por que não estaria? — Eu repliquei e ele passou a me olhar pelo espelho. Harry estava me encarando e eu não conseguia desviar daqueles olhos verdes claros.
— Eu sei que você tinha planejado um tempo só nosso. Louis e Eleanor nos acompanhando nesse dia, não sei... Só queria saber se você estava bem com isso. Qualquer coisa eu os dispenso e podemos seguir com a noite só eu e você.
Observava seus movimentos durante sua fala e notei que ele estava realmente sendo sincero. Fechei a tampa da embalagem do delineador e me virei de frente para Harry Styles.
— Ei, tudo bem. Eu quero fazer isso — eu disse, segurando seu rosto, provocando um sorriso calmo em seus lábios. Harry se aproximou e me beijou. Eu não sou boba nem nada e devolvi o beijo. Como eu gostava dele, caramba...
Seguimos então para a nossa noite. Começou com a gente indo para um barco com teto de vidro pelos canais de Amsterdã. Jantamos lá e eu me surpreendi como Louis estava sendo legal naquela noite. Acho que era porque eu tinha mudado a visão que eu tinha dele, notando agora como ele verdadeiramente gostava do amigo e só queria o bem dele.
Amsterdã era uma cidade muito bonita, principalmente à noite. Os lugares que passamos eram cativantes e a paisagem, maravilhosa. Uma música relaxante tocava no barco, fazendo meu coração ficar aquecido. Até que uma melodia passou a tocar e eu olhei para Harry, reconhecendo a voz dele só que uma versão mais jovem. Louis sorriu para ele meio tímido e Harry riu.
— Não acredito. Caramba, faz anos que eu não escuto essa música — ele disse e os outros integrantes da One Direction começaram a cantar também.
— Qual é o nome dessa música? — Eu perguntei e Eleanor respondeu.
— Irresistible — ela disse e eu passei a prestar atenção na letra. Louis me acordou de meus devaneios, dizendo:
— Gostaria de dançar, ?
Olhei para ele e depois para Harry, que estava sorrindo.
— Claro — eu disse e coloquei meu guardanapo em cima da mesa, o tirando de meu colo.
Louis segurou minha mão e fomos até um lado mais afastado das mesas. Ele colocou uma das mãos na minha cintura e a outra segurava a minha mão. Coloquei a minha outra mão em seu ombro e passamos a dançar ao ritmo da música.
Observei Harry convidar Eleanor para dançar também e assim encorajou outros a dançarem.
— Tudo bem? — Escutei Louis perguntar e olhei para seus olhos, que tinham um azul profundo.
— Sim — eu disse e sorri assim que avistei Harry sorrir para mim também.
— Ele realmente está gostando de você.
Olhei novamente para Louis Tomlinson e desviei o olhar depois de um tempo.
— Não posso discordar mais dele, você é uma garota e tanto, — ele continuou e eu ri inconsequentemente. — Por que está rindo?
— Agora você vem com esse papo, Louis? — Eu respondi sorrindo, sem deixar que as pessoas notassem o que eu estava falando.
— O que você quer dizer? — Ele perguntou e eu quis acreditar que era ingenuamente.
— Primeiro você diz que Harry era uma pessoa não fácil de lidar e que ele tinha segredos, sem contar que tinha me chamado de “garota dos tabloides” quando me viu...
— ele me interrompeu. — Eu precisava te falar isso, acredite. Só queria te avisar, caso você estivesse pensando em embarcar nessa...
— Louis, Harry é um cara incrível e eu sei muito bem me cuidar sozinha, obrigada — eu respondi. Louis ficou sem fala e assentiu.
— Tudo bem, me desculpe — ele disse simplesmente e eu o encarei. — É sério, me desculpe. Não queria ter te magoado.
Ele realmente tinha me magoado e isso acabou virando uma grande questão para mim. Comecei a me questionar, indo de como era a minha relação com Harry até quem eu era e quem eu gostaria de ser. Louis Tomlinson conseguiu ter um poder enorme sobre mim sem ao menos eu perceber e isso agora estava claro.
Porém senti sinceridade no que ele estava dizendo e lembrei de Eleanor dizendo que ele tinha um grande coração, afinal de contas. E ele estava se desculpando, afinal. Então eu sorri com a boca fechada e disse antes da música acabar:
— Obrigada.
As pessoas aplaudiram a música que tinha tocado e se viraram para Harry e Louis, os aplaudindo também. Eu ajeitei minha blusa e Louis suspirou aliviado.
— Amigos? — Ele esticou sua mão e eu a segurei após alguns segundos.
E foi assim que eu virei amiga dele. O perdoei e aproveitei para me perdoar também, acho que pensar demais sobre o que ele tinha falado naquele dia me fez ficar extremamente confusa, o que futuramente me deixou preocupada comigo mesma. Mas agora estava tudo bem.
No fim do passeio, falei para o nosso grupo para irmos até a um bar chamado Amsterdam Icebar Xtracold. Era um bar feito inteiramente de gelo! Imagina que loucura, diário?
Mas essa não foi nem a melhor parte. O local estava com as luzes apagadas e assim que chegamos lá, as pessoas saíram dos esconderijos e gritaram surpresa para Harry. Ele ficou boquiaberto, sem entender nada.
Eu o abracei, dando um beijo em sua bochecha e o pessoal estava batendo palmas.
— Meu Deus, eu não estava esperando por essa — ele disse entre risos e me abraçou logo em seguida. — Você pensou em tudo, hein?
— Não achou mesmo que eu te deixaria longe dos seus amigos na virada do seu aniversário, não é? — Eu sussurrei no pé de sua orelha, já voltando a visão para Harry, que me olhou com um brilho nos olhos.
— Obrigado — ele disse e se virou para as pessoas que estavam ali presentes. — Obrigado!
Começamos assim a comemoração dos vinte e seis anos do meu namorado — falando assim, até parece que ele não era uma pessoa pública.
A noite estava sendo muito agradável, eu acabei conhecendo ao vivo muitos amigos de Harry, os de infância e os atuais, até a banda dele estava lá — a que acompanhava ele em seus shows de carreira solo. E com isso estava uma noite hiper agradável.
Todos nós estávamos cobertos da cabeça aos pés por roupas de frio, mas assim que começamos a beber, a temperatura subiu. Não podia negar que eu estava me divertindo à beça. Eu convidei um DJ — que depois eu descobri que era brasileiro — chamado Alok, ele aceitou fazer a música de hoje e a de amanhã de graça e eu fiquei boquiaberta quando eu fui oferecer o dinheiro e ele disse que faria tudo livre de taxas. Talvez quando ele descobriu que eu era brasileira, também tenha despertado a saudade de casa nele. Enfim, incrível!
E ele era incrível! Tocou alguns hits dele, entre tantas outras músicas badaladas. Harry estava se divertindo muito com o pessoal e eu fiquei conversando com Eleanor sobre vários assuntos, enquanto nos embriagávamos.
Els saiu para ir ao banheiro e eu fiquei lá, dançando no ritmo da música, quando notei uma voz conversando comigo.
— Incrível a festa de hoje! Você deve ser a namorada de Harry, certo?
Olhei para a pessoa dona da voz e dei de cara com Niall Horan. Me surpreendi com ele, que sorriu para mim.
— Ah, sim! E você é Niall Horan, certo? — Eu respondi gritando para que ele me ouvisse.
Niall assentiu.
— Eu conversei um pouco com ele. Harry disse que não estava esperando que eu aparecesse, mas ele me conhece, eu não fujo de uma festa — ele disse e riu em seguida. Sorri para Niall.
Eu mesma não estava esperando que qualquer um deles aparecesse, apenas Louis talvez eu tivesse uma esperança maior. Mesmo assim, era bom vê-lo ali.
— Que bom que veio! — Eu assumi. Niall sorria para mim e bebericou de seu drink. — Ele sempre diz como vocês são uma família para ele.
— Nós estamos separados agora, mas acho que a vida dá sempre seu jeito de nos juntar — ele disse e eu assenti.
Ele estava gritando o tempo todo, e eu também, até que ele perguntou se eu não preferia ir conversar com ele fora do bar. Eu disse que estava esperando a Eleanor e ele apontou com o dedo na direção dela e de Louis, que estavam conversando animados. Tinha o fumódromo e lá fomos nós.
— Então... Como você e Harry se conheceram? — Ele perguntou assim que chegamos ao local. Eu pensei em dizer muitas coisas, mas decidi que foi por acaso, no fim. Niall sorriu. — Parece que você também está nessa de que o acaso dá seu jeito, han?
Eu ri, envergonhada, acho que era a bebida falando quando eu disse:
— Eu e Harry estamos apaixonados. — Sim, não sei por que aleatoriamente eu soltei essa, mas Niall riu.
Talvez eu estivesse me sentindo um pouco ameaçada por ele, no sentido de ele estar dando em cima de mim, mas foi tudo da minha cabeça, porque mais tarde descobri que a namorada dele, uma mulher que eu nunca tinha ouvido falar, mas que era modelo e atriz, além de cantora, estava lá com ele e que ele estava perdidamente apaixonado por ela.
— Acho importante isso quando se são namorados — ele disse e eu assenti mais embaraçada ainda. — O que você faz da vida, ?
— Eu estudo psicologia na King’s College London.
— Ah, interessante! Sempre quis estudar psicologia, quem sabe um dia eu não realizo esse meu desejo?
— Claro, por que não? — Eu respondi sorrindo.
Senti mãos me abraçarem a cintura e um beijo estalar na minha bochecha. Reconheci o cheiro de Harry, misturado ao cheiro de bebida e menta.
— O que vocês tanto conversam? — Ele perguntou me soltando e sorrindo.
— Como vocês estão apaixonados um pelo outro. Você tem sorte em ser namorado dela, Harry — ele disse e Harry ficou vermelho, assim como eu. Niall gargalhou com nossa resposta corporal e disse que iria agora ao banheiro, mas que foi uma honra me conhecer.
— Ele é bem doidinho, não? — Eu disse, me virando para Harry, que riu.
— Você é maravilhosa, sabia disso? — Ele mudou de assunto completamente e eu rolei os olhos, sorrindo, meio que esperando algo assim por vir.
— Você é um chato — eu disse e ele esticou sua mão para mim. Eu a segurei e ele me levou até lá dentro novamente, onde uma música agitada tocava e descobri que se chamava Free My Mind do próprio Alok.
Harry começou a se movimentar no ritmo da música e eu o acompanhei. Eu estava ficando sóbria já, mas estava me divertindo muito dançando com Harry.
Ele segurou minha cintura e acompanhava com os olhos nos meus a dança. Eu estava sentindo o meu coração acelerar, engraçado como isso nunca mudava em relação a ele.
Claro, ele era Harry fodendo Styles, meu coração tinha que estar no mínimo pulando dentro de mim!
Styles aproximou seu rosto do meu e gritou no meu ouvido:
— O que você acha de...?
— Banheiro. Agora — eu gritei em resposta, fazendo com que ele sorrisse abertamente. Segurei a mão dele e fomos até o banheiro feminino.
O empurrei para dentro, fechando a porta atrás de mim. Ele se virou na minha direção, dava para ouvir a música abafada ao fundo. Styles se aproximou até ficar completamente colado ao meu corpo. Eu olhava em seus olhos e ele nos meus, enquanto ele girava a tranca do banheiro, nos deixando presos do lado de dentro.
Harry sorriu, revelando suas covinhas e passou a olhar para a minha boca.
— Você é irresistível, sabia disso? — Ele disse, antes de eu puxar sua cabeça na minha direção com a mão. Antes de grudarmos a nossa boca, nossas línguas se encontraram e começamos o beijo.
As mãos de Harry foram em direção ao meu cabelo e ele passou a dar leves puxões nele, enquanto o beijo rolava. E que beijo quente!
Eu o empurrei até a outra parede e ele sorriu quando se encostou nela, levantando um pouco mais a cabeça ao me olhar me aproximar. Retirei meu casaco gigante e o joguei no chão. Ele retirou o dele e começou a tirar os apetrechos, assim como eu. Logo estávamos só de camisa e calça, além dos sapatos.
Eu me grudei com o corpo todo no corpo dele, me encaixando nele perfeitamente enquanto voltávamos a nos beijar. Harry Styles colocou suas mãos dentro da minha calça, apertando a minha bunda com vontade. Eu arfei entre o beijo e devolvi arranhando sua barriga com as minhas unhas. Ele estremeceu assim que eu abri os botões de sua calça e apertei a parte de dentro de sua coxa. A minha outra mão foi para o pênis dele, o encontrando completamente duro.
— Porra — ele soltou entre o beijo quando eu passei a masturbá-lo, lenta e torturantemente.
Harry puxou minha calça para baixo, parando com os movimentos que eu estava fazendo. Ele segurou nas minhas pernas, me obrigando a subi-las e entrelaçá-las ao redor de seu corpo. Ele passou a beijar meu pescoço enquanto me colocava em cima da pia. Meu coração estava saltando dentro de mim a cada movimento que ele fazia, eu estava ficando sem ar.
Ele abriu cada botão da minha camisa e em seguida terminou de tirar minha calça e calcinha, me deixando de blusa aberta, sutiã a mostra e salto — sim, perigoso para um bar de gelo, mas o meu era bem grosso, pelo menos. Ele voltou a beijar meu pescoço enquanto suas mãos corriam livres por meu tronco, costas e seios.
Eu estava delirando? Eu estava delirando.
Principalmente quando ele começou a sugar um dos meus seios.
Harry tinha puxado meu sutiã para baixo, deixando meus peitos para fora. Eu me apoiei na pia com as minhas mãos, arqueando as minhas costas. Escutei batidas no banheiro desesperadas, mas não nos importamos, ignoramos completamente.
Puxei seu rosto na minha direção, beijando-o com vontade. Harry pegou a camisinha dentro da carteira enquanto me beijava e se desgrudou de mim para abri-la. Ele colocou o pacote rasgado em cima da pia e se vestiu.
Styles puxou o meu quadril em sua direção e me penetrou lentamente. Engoli a seco enquanto escutava a respiração arfante dele e o sentia me completar por inteiro. Ele levantou os olhos para mim e começou a dar estocadas ritmadas, que foram ganhando velocidade com o passar do tempo. Mordi o lábio inferior, tentando conter os gemidos, Harry soltava um grunhido ou outro, estávamos nos contendo até que a situação foi ficando tensa e eu acabei me soltando e gemendo com vontade.
Ele sorriu para mim e passou a me beijar, enquanto suas investidas estavam se tornando rápidas. O beijo não durou muito, nos desgrudamos e segurei em volta de seu pescoço, quando ele me puxou para sair de cima da pia e fiquei de pé. Harry saiu de dentro de mim e me virou de frente para o espelho. Ele segurou na minha barriga e, sem tirar os olhos dos meus pelo espelho, fez menção de puxar mais para cima minha bunda. Eu a projetei em seu pênis, começando a me esfregar nele. Harry subiu as mãos para meus dois seios e os apertou com vontade, me depositando um beijo no meu ombro.
Eu gemi e ele entrou em mim novamente. Harry segurou meus braços atrás do meu corpo e começou a se chocar contra mim, gemendo comigo. Ele se movimentava muito rápido, me deixando completamente com tesão toda vez que ele enrugava a testa, olhando para a minha bunda.
Ele voltou os olhos para mim e soltou meus braços. Eu me apoiei na pia com as minhas mãos e ele passou a segurar na minha cintura, me trazendo para perto dele toda vez que eu me afastava um pouco. Agora quem dominava era meio que ele e eu juntos, eu me afastando um pouco, ele me trazendo de volta, fazendo com que eu deslizasse sobre ele.
Senti meu coração apertar, um nó dentro de mim se tornar cada vez mais solto e, numa explosão, meu orgasmo veio. Soltei um longo gemido, Harry deu mais algumas estocadas e soltou outro, meio gutural.
Ele me olhava pelo espelho e quando os dois tinham atingido o ápice, ele apoiou a testa no meu ombro. Harry saiu de dentro de mim e eu me virei em sua direção, encostando-me na bancada. Styles me olhou e sorriu, retirando a camisinha dele e a jogando no lixo. Ele o colocou para dentro da cueca e fechou a calça, me entregando a minha calcinha e a calça. Eu as coloquei ao meu lado na pia e o puxei para um beijo.
Lembrei do que Niall tinha dito e sorri com meus lábios ainda grudados nos de Harry Styles.
Acho que éramos, os dois, irresistíveis um para o outro.


XXXVI: Loucuras

Querido diário,

Chegou o dia da festa de Harry. Eu convidei todos os convidados de ontem e mais alguns famosos que achei que ele gostaria que aparecessem na festa dele — como Ed Sheeran, por exemplo. A mãe de Harry, o pai de Harry e Gemma apareceram também. A festa foi no próprio salão do outro lado do hotel, ficava na cobertura também.
Alok tocou, mas a festa tinha um tema: era anos 80. Então meio que as músicas que tocaram foram todas dessa época. Foi bem divertido, devo admitir.
Mas nem tudo saiu como eu planejei.
Cantamos parabéns para Styles antes da meia-noite e alguns amigos dele fizeram com que ele desse de cara com o bolo, se sujando inteiro no rosto. Em seguida fizeram o mesmo comigo — o que eu achei totalmente desnecessário, já que não era o meu aniversário, mas a desculpa que eles usaram foi que quem organizava a festa também levava.
Fui até o banheiro para limpar a sujeira que eles tinham feito no meu rosto, encontrando com as mulheres da banda dele, Charlotte, Ny Oh e Sarah. Elas estavam conversando algo sério antes de eu entrar lá, pois, quando eu entrei, elas emudeceram do nada. Chantili cobria meu rosto todo e cobertura branca de chocolate também, por isso elas não viram direito a expressão de desconfiança que tinha na minha cara, mas elas sorriram para mim como se não estivessem falando nada demais.
! A festa está incrível! — Sarah foi a primeira a falar e eu sorri de volta, caminhando em direção à pia e pegando papel para tentar tirar a sujeira do meu rosto. Passei o papel por minha face, retirando o glacê e todo o resto, deixando alguns resquícios que eu resolvi limpar com mais papel, pois assim não retiraria muito a minha maquiagem. — Você com certeza vai organizar todas as festas possíveis de agora em diante, se você quiser, é claro!
Ela riu e eu ri com ela.
— Harry ficou bem feliz — Charlotte disse e eu a encarei pelo espelho, enquanto sorria. — Ele parece estar muito feliz com você.
— É verdade isso! — Ny Oh completou e eu me virei para elas, já com o rosto livre de comida. — É nítido na aura dele como está mais radiante com você por perto.
— Ah, que isso, gente... Assim eu fico vermelha! — Eu respondi sem graça e elas deram risinhos. Sarah disse que elas estavam indo embora do banheiro, mas notei Charlotte se virar para mim quando elas já estavam na porta.
— ela me chamou e eu a encarei pelo espelho. Ela ficou me olhando por um tempo breve, as outras duas se viraram para Charlotte e então ela só disse: — Você é incrível. Não se esqueça disso.
Sorri para ela, que sorriu de volta, e as três se foram.
Eu estava achando Charlotte uma mulher maravilhosa. Pude a conhecer melhor e notar que ela era muito centrada na banda. Ela sabia o que queria e ia atrás sempre. Mas pelo menos o que ela queria não era Harry Styles, o que me deixava bem aliviada. Não que eu fosse competir com ela por ele, lógico que não, mas era só que eu realmente não sabia lidar com situações daquele tipo. Enfim, Charlotte era maravilhosa.
A noite terminou no nosso quarto de hotel maravilhosamente bem. Acordamos tarde para o café da manhã e para o nosso voo de volta para a Inglaterra, mas deu tudo certo no fim. Chegamos sãos e salvos em casa, Harry foi para a sua e eu fui para a minha.
As semanas foram se passando, as notícias do mundo me deixando cada vez mais angustiada. Um tal de vírus chamado covid-19 estava se alastrando pelo mundo aos poucos. No começo, eu achei que a situação iria se ajeitar rapidamente e que não haveria uma pandemia. Mas não, a pandemia não só estava já aqui, como também era mundial.
As aulas presenciais foram suspensas e a chamada “quarentena” começou no dia 11 de março de 2020. Eu estava presa na minha casa, assim como todos os cidadãos da Inglaterra. Eu só estava preocupada com o meu pai, ele estava no grupo de risco do corona vírus e eu não queria sair do meu lar doce lar por nada desse mundo, para assim não me contaminar e trazer o vírus para casa, consequentemente contaminando ele.
Então fiquei longe de meus amigos e meu namorado nas primeiras semanas. Eu já estava cansada daquela rotina sem graça: acordar, tomar café da manhã, assistir aula na frente de um computador, estudar no meu quarto, comer, tomar banho e dormir. Eu sentia falta de contato. Todos estavam assim, eu sei, mas eu estava cada vez mais ansiosa dentro de casa.
Meu pai disse para eu procurar uma psicóloga para me atender à distância nesse período de quarentena. Eu tentei relutar no começo, dizendo que eu conseguiria me ajudar sozinha, mas, sejamos sinceros, diário, quando precisamos de ajuda, temos que admitir, assim tudo fica mais fácil.
Ela se chamava Caroline, minha mais nova psicóloga. Tínhamos encontros toda quarta-feira e eu fui contando a minha vida a ela aos poucos. Ela meio que não sabia quem era Harry Styles, apenas bem por cima e o básico: que ele era um cantor de uma boyband e que hoje em dia ele estava em carreira solo. Eu contei toda a minha história de vida depois de umas três sessões, já estávamos a par dos acontecimentos atuais — pelo menos o principal.
Eu estava sentindo que eu e Harry estávamos ficando distantes um do outro, eu estava preocupada mesmo com o nosso relacionamento. Em uma de nossas conversas, ele disse que estava cansado de tudo e quando eu perguntei a ele o que ele gostaria naquele momento, ele disse:
— Acho que um café. — E rimos.
Foi aí que eu tive uma ideia meio doida, mas que me lembrou a noite de karaokê, o nosso primeiro encontro. Pensei em gravar eu cantando uma música para ele enquanto tocava violão, algo bem simples mesmo, mas que seria feito de coração.
E essa ideia veio porque eu lembrei de uma música que falava sobre café, chamada — pasmem — Coffee, da Beabadoobee. Perguntei para Caroline o que ela achava da ideia, ela disse que seria muito romântico da minha parte. Então fui eu gravar trocentas versões da mesma música, até ficar boa o suficiente. Tentei cantar, mas como eu já disse, eu não sei fazer isso, portanto, acabei por só tocar no ukulele.
Pensei em só enviar para ele, mas achei que a surpresa seria maior se eu postasse o vídeo em uma rede social e dedicasse a ele. Eu estava prestes a passar o maior mico da minha vida, mas nem liguei. Era como dizia a Maggie do desenho Hércules: as pessoas fazem loucuras quando amam.
Mas eu não tinha um Instagram, só Facebook, e eu achava que Instagram seria melhor para esse estilo de surpresa, então eu criei uma conta só para isso. Olha só o que eu fiz por você, Styles...
Lá fui eu postar e, de repente, quando as pessoas foram vendo que era eu que estava tocando e que eu tinha dedicado a música a ele, fui ganhando vários seguidores. Eu tinha pensado em deixar anônimo depois que umas seis pessoas aleatórias já tinham visto o vídeo, então pedi para seguir Harry e deixei privada a conta. Eu era muito confusa com a tecnologia, então demorei para fazer tudo isso, mas logo Harry notou que era eu e passou a me seguir. Eu tinha retirado o vídeo do ar e bloqueado as pessoas que eu nunca tinha visto na vida que passaram a me seguir, porém quando ele já estava me seguindo eu postei de novo.
Para completar tudo, eu encomendei cafés mocaccinos para entregar na casa dele. Disse para entregar bem às três da tarde, quando eu iria postar o vídeo. E, no fim, postei eram dez para às três. O que eu poderia fazer? A ansiedade estava me consumindo totalmente!
Fiquei entrando e saindo toda hora do Instagram, com receio de que tenha ficado uma verdadeira merda o vídeo, mas segurei a vontade de o excluir. Eu estava deitada no sofá, roendo as unhas, com o celular em cima da minha barriga, quando ele passou a vibrar. Eu me sentei rapidamente, olhei para a tela e senti meu coração parar de bater quando eu vi a imagem da careta de Harry Styles.
Eu atendi o telefone, mas não conseguia dizer nada. Então escutei sua risada gostosa e meu estômago borbulhou.
Você realmente lembrou do café — ele disse e eu sorri. Passei a mexer em um fio solto da barra da minha blusa.
— Gostou da música? — As palavras conseguiram sair de mim.
Se eu gostei? Garota, eu gosto dessa música, mas ouvir você tocando, nossa, me fez amá-la.
Sorri mais ainda, feito boba.
— Apesar de eu não o agraciar com a minha voz na música? — Perguntei e pude escutá-lo sorrir.
, você estava maravilhosa. Você é maravilhosa.
Escutei a campainha tocar na casa de Harry e eu soube que o café tinha chegado.
— Vai lá atender — eu disse.
Por quê? Não posso deixar tocando? — Seu ar brincalhão me fez rir.
— Idiota. Só vai.
Esperei ele abrir a porta e escutei o entregador dizer que era uma encomenda minha. Harry riu e eu o aguardei provavelmente assinar o papel dizendo que ele recebeu, logo depois fechou a porta.
Você lembrou mesmo do café — ele disse entre risos e eu o acompanhei. — Sinto sua falta.
Harry soltou depois de darmos risada e um silêncio compreensivo se instalou.
— Eu sei, amor. Eu também sinto a sua — eu respondi e mais um pouco de silêncio em seguida.
Já sei! — Ele disse de repente. — E se você passar a quarentena comigo?
Franzi o cenho.
— O quê?
É! Você está tendo mesmo aula a distância, qual seria o problema?
— Harry, não posso deixar meu pai sozinho — eu disse e ele suspirou, concordando.
E se eu passar a quarentena aí? — Ele sugeriu depois de um tempo e eu parei para pensar um pouco.
Ele devia passar duas semanas trancafiado em sua casa primeiro para garantir que ele não estava com covid-19 e só aí, então, pegaria o carro ele próprio e viria até aqui. Eu falei tudo isso a ele, que aceitou a proposta de prontidão. Meu coração ficou muito aquecido com essa notícia.
E agora estamos no final da segunda semana que ele passaria na casa dele. Eu estava aguardando ansiosamente — de um jeito bom, claro — por sua vinda.
Ah, eu esqueci de dizer que Louis e eu estamos conversando agora mais por mensagens também. Viramos amigos, ainda bem? Não sei, ele parece ser realmente um cara legal. Além dele, converso às vezes com Eleanor também. Eles formam um casal totalmente adorável, mas Louis tem falado mais comigo do que ela. Coisas da vida, diário.


XXXVII: London eye

Querido diário,

Então Harry veio finalmente para cá. Tem sido muito divertido, para falar a verdade. Ele e eu viramos melhores amigos, além de sermos namorados, claro. Durante o dia, Harry faz as coisas dele, eu estudo, às vezes fazemos isso juntos. Meu pai trabalha no escritório e nos encontramos sempre nas refeições e no fim do dia, que geralmente passamos assistindo televisão todos. Quando papai vai dormir, Harry e eu ficamos acordados fazendo coisas, se é que você me entende...
Mas também não é todo dia. Às vezes ficamos apenas jogando conversa fora, jogando algum jogo (pleonasmo proposital), assistindo a um filme, escutando música dividindo os fones de ouvido, coisas assim.
Teve um dia em que ele foi tomar banho tarde da noite e eu fiquei mexendo no celular, quando recebi uma mensagem de Louis.

“E aí, tá tudo bem? — Louis =)”
Me ajeitei na cama e comecei a digitar.

“Está sim, Harry entrou no banho agora.”
“Harry ainda está aí?”
“Claro, combinamos de ficarmos juntos até a pandemia acabar.”
“Hum.”
Ele respondeu apenas isso. Dei de ombros e escolhi assistir um vídeo no Youtube de pessoas construindo casas de materiais recicláveis, até que a resposta dele teve continuação.

“E vocês passam o tempo todo juntos?”
“Louis, aonde você quer chegar?”
Perguntei de uma vez. Não estava com um bom pressentimento sobre o que ele estava prestes a dizer, mas fiz a pergunta mesmo assim. A mensagem chegou depois de uma longa pausa.

“Você se lembra do que eu disse quando nos conhecemos, eu e você?”
Como esquecer?, foi o que eu pensei.

“’Harry tem seus segredos.’ Eu sei disso, e prefiro que eles continuem segredos, ok? Só gostaria de saber se fosse algo que me diz respeito, e como eu sei que não tem nada, então não vou me aborrecer. Por favor, deixe estar.”
Respondi a mensagem decidida que não iria me deixar enlouquecer novamente por algo que Louis Tomlinson disse. Ele respondeu algo, mas eu não quis ver, pois meu namorado saiu do banho com a toalha enrolada em volta do quadril. Joguei o celular na cama e o observei caminhar em minha direção, até deitar-se em cima de mim.
— Como está a mulher mais linda do mundo? — Ele perguntou, apoiando os braços ao lado da minha cabeça.
— A Beyoncé deve estar bem — eu respondi e ele riu.
Você é a mulher mais linda do mundo, — ele disse e passou a me beijar, antes que eu dissesse qualquer coisa. O resto você já deve imaginar.
Os dias foram se passando, eu ficando cada vez mais apaixonada por Harry, ao mesmo tempo em que eu ficava um pouco acostumada demais com sua presença. Louis não tocou mais no assunto e eu dei graças a Deus. Tudo estava dando certo, mas nada dura para sempre, não é mesmo?
Recebi a mensagem de Louis em uma madrugada de sexta-feira. Nela, dizia:

“Preciso falar com você. A sós. Se você puder sair de perto de todos, por favor... — Louis =)”
Suspirei. Eu estava mexendo no celular às duas e meia da manhã, porque eu não estava conseguindo dormir. Eu sei que ficar na frente de mais uma tela não seria a solução para o meu problema, mas só queria distrair a cabeça.
Olhei para um Harry dormindo ao meu lado na cama e tomei todo o cuidado para me levantar dela sem acordá-lo. Depois de conseguir passar por esta missão, desci as escadas e fui até a sala. Me sentei no sofá e respondi a ele que já estava sozinha, então ele me ligou logo em seguida.
— Jesus, Louis — eu bocejei incrédula. — O que aconteceu para você me ligar nesse horário?
Ok, vou falar de uma vez, . Não me interrompa, por favor — ele disse e antes que eu pudesse responder, ele continuou. — No começo, eu não fui com a sua cara, mas acho que era só o ciúme bobo que eu sentia pelo meu amigo... Bem, não é exatamente bobo, porque ele tinha seu ponto. O que eu quero dizer é que essa ideia foi mudando quando eu fui conversando com você naquele dia na cozinha dele, e, mesmo eu dizendo tudo o que eu disse depois, eu disse para o seu bem. Harry tem, sim, segredos, até eu tenho segredos, mas... Enfim, focando aqui: eu quero pedir desculpas por ter sido meio idiota com aquela mensagem naquele dia.
Respirei fundo e olhei na direção da escada.
— Tudo bem.
Tudo bem?
— Tudo bem — eu repeti.
, é tudo o que você tem a dizer? “Tudo bem?”
— Louis, são quase três horas da manhã, eu tô morrendo de sono, não podemos conversar uma outra hora? — Eu perguntei e ele concordou comigo. Desligamos depois de nos despedirmos e eu voltei para a cama.
Mas o achei extremamente estranho com tudo isso, então resolvi falar com Eleanor alguns dias depois. Mandei mensagem para ela, mas ela se manteve enigmática. Perguntei por que Louis era tão obcecado assim com os segredos de Harry e tudo o que ela me respondeu foi:

“Deixa para lá, os dois têm seus segredos.”
Não consegui descansar com isso, portanto fui atrás agora diretamente com Harry. Esperei meu pai ir dormir e abri o jogo, dizendo que Louis ficava falando que ele tinha segredos. Harry pareceu muito inquieto e eu disse que ele poderia se manter com seus segredos, mas antes que eu pudesse terminar a frase, ele disse:
, eu sou bi.
Fiquei quieta no mesmo instante, surpresa com a notícia.
— Como assim?
— Bissexual, . Eu sou bissexual.
Fiquei o encarando.
— Mas você já...?
— Já. — Ele se levantou da cama e esfregou os cabelos com as mãos, agitado. Então se virou para mim, com as mãos apoiadas no quadril. — Louis não foi o primeiro, mas aconteceu.
Fiquei chocadíssima com essa, diário. Quer dizer que ele e Louis Tomlinson já tiveram um caso? Agora tudo fazia sentido, o porquê de Louis querer que eu ficasse longe de Harry: ele tinha ciúmes real dele.
Me mantive em silêncio por um tempo pensando nisso. Eu estava muito impactada com tudo o que ele disse e ainda estava me dizendo, toda a história de como ele se descobriu e como foi indo sua jornada de descoberta. Harry foi me contando, calmamente agora, como ele e Louis tiveram seu caso durante o começo da One Direction, mas que passou. Ele disse que ele sempre teve um pouco de ciúmes do Harry desde então, mas Louis não sabia o que ele era, só Harry tinha certeza de que ele mesmo era bissexual.
— Você não precisa se afirmar para ninguém, Harry — eu disse depois de tudo. — Se você tem certeza do que é, ou se não tem, não importa. Você não deve isso a ninguém.
— Eu sei. Só que acho que Louis está um pouco obcecado com essa história. Provavelmente ele não sabe ainda que tipo de pessoa você é e tem medo de que conte tudo para a imprensa. Ele não sabe lidar com essa situação e vejo que até hoje isso perdura.
Fiquei encarando agora o chão. Harry se sentou ao meu lado e segurou as minhas mãos.
— Tudo bem com você? — Ele questionou e eu assenti, sorrindo logo em seguida. Precisava tirar essa história a limpo e, se Louis tinha realmente medo de que eu contasse para a imprensa do caso deles, com certeza ele precisava aprender que tipo de pessoa eu era.
No dia seguinte, resolvi ligar para Louis Tomlinson. Eu liguei acho que uma cinco vezes até que ele finalmente atendeu e eu disse logo que ele disse alô:
— Eu sei do seu segredo.
Louis ficou em silêncio do outro lado da linha. Então disse depois de um tempo:
— Sabe?
— Eu sei sobre o seu caso, Louis. E — eu disse, o interrompendo — antes que você ache que eu vim aqui te chantagear, eu não vim fazer isso. Eu só queria te dizer que eu não sou esse tipo de pessoa. Harry me contou tudo e eu agora entendo esse seu ciúme dele comigo. Você ainda deve ter sentimentos por ele, eu entendo, afinal, ele é Harry Styles, mas...
. Harry te contou todos os segredos dele? — Louis disse de repente e eu parei de falar, até encontrar a resposta.
— O quê? Isso importa?
Claro que importa, ! Pergunte a ele o que ele faz quando ele sai para as caminhadas dele. Pergunte e você saberá do que eu estava falando.
Então ele desligou. Ah, você acha que eu perguntei, diário?
Lógico que não. Eu deixei de lado esse assunto. Fiquei pensando muito no que ele disse, claro, mas não comentei nada com Harry.
Até aquele dia. Aquele maldito dia em que Harry saiu para a caminhada — que foi hoje, aliás — e eu fiquei estudando no meu quarto. Me perguntei aonde que ele ia, mas deixei essa pergunta ir embora também. Porém me levantei e quando estava caminhando com o prato de comida que eu tinha levado para estudar junto comigo para a fora do quarto, bati o olho em um pedaço de papel do lado da mesa em que ele sempre ficava. Tinha folhas em cima, mas o nome me chamou bastante atenção: London Eye.
Fiquei em dúvida se eu via ou não. Não segurei o impulso de tirar aquelas folhas de cima daquela partitura e encontrei uma letra de música completa naquele pedaço de papel. Passei os olhos pela letra, memorizando tudo o que estava dito lá. Então eu soube que segredo Louis estava tanto falando: Harry tinha outra pessoa.

London-eye


The night is full of stars, even for London
You are with me, but am I with you?
My head goes e comes to the moon,
Thinking of how beautiful you are
But do I deserve you?

If you only knew the truth
Would you still be good to me?
I may be close to the sky, but the only reason is you
If you only knew about my mistake
Would you still love me?
Because my heart is about to break
I don’t want you to hate me
That’s why you should be free
That’s why you should be free

Be here with you
It’s like infinity
I feel the infinity
That is to love you
I am not thinking straight
When I say
I don’t love you anymore
‘cause before you
There weren’t any before
If you only knew the truth
Would you still be good to me?
I may be close to the sky, but the only reason is you
If you only knew about my mistake
Would you still love me?
Because my heart is about to break
I don’t want you to hate me
That’s why you should be free
That’s why you should be free

The night is ending
And my head is spinning
Should I tell you the truth?
If you only knew about my mistake
Would you still love me?
I may be close to the sky, but the only reason is you
My heart is about to break
I don’t want you to hate me
That’s why you should be free
That’s why you should be free


XXXVIII: Do que você tem medo?

Eu estava meio que em choque...? Não sei.
Minha avó descobriu que Harry Styles era bissexual bem quando eu estava tentando me descobrir. Mas não era isso o que mais me chocava, a sincronia com a minha vida e a dela, e sim que: ele a traiu? Era isso o que eu tinha entendido?
Achava que sim... Meu Deus, minha avó foi feita de boba por Harry Styles. Para onde ele ia quando fazia essas caminhadas? E por que Louis Tomlinson sabia disso? Tantas perguntas, as respostas apenas se eu continuasse a ler...
Mas eu queria continuar a ler mesmo? Minha avó dizer a ele que ele não precisava se definir para ninguém... Isso estava me afetando. Não sei, eu estava com a sensação de que ela não gostou de saber que Louis Tomlinson foi um caso de Harry.
Espera! E se...? Meu Deus, Louis Tomlinson e ele ainda tinham um caso? Será que era para aí que Harry sempre ia? Para encontrar Louis? Minha cabeça estava fervilhando agora.
Eu estava prestes a chorar. Não acreditava que minha avó, alguém que não merecia ser traída dessa maneira, estava sendo...
Ok, talvez o choro que estava por vir era por conta de minha avó não ter gostado de saber que Harry era bissexual. Mas ela disse que tudo bem por ela, não? Por que eu estava achando o contrário? Será que é por eu tinha medo de que ela não me aprovasse...? Mas... Ah, mano, estava muito confusa agora. Acho que a ansiedade estava me atacando.
Resolvi parar a leitura e tomar um copo d’água.
Me levantei do sofá e fui até a cozinha. Peguei a água na geladeira e um copo, logo derramei o líquido nele. Levei o copo até a boca e passei a engolir a água calmamente, a sentindo percorrer meu organismo por dentro. Isso me trazia para o momento atual, me deixava mais calma.
Lembrei que minha avó disse que estava fazendo terapia e pensei no meu terapeuta, Ricardo. Hoje, coincidentemente, era o dia de fazer sessão com ele. Só que era só às 18 horas da noite, então... Ah, não! Já são 17 horas e 30 minutos! Como eu pude me deixar levar sem controlar o tempo?
Deixei o copo de água em cima da pia e corri para o meu quarto. Coloquei um tênis, penteei o cabelo e peguei minha mochila, colocando o terceiro diário dentro dela. Peguei meu celular e gritei para minha mãe que estava indo para a terapia. Ela respondeu que tudo bem e lá fui eu.
Subi a rua correndo e cheguei à esquina, correndo ainda até o metrô. Eu queria poder dizer que a viagem foi tranquila, mas onde eu moro — zona sul — e para onde eu vou — avenida paulista — não são exatamente locais em que o metrô é “de boa” nesse horário. Ele estava uma bagunça de tanta gente.
Mas ao menos era no sentido contrário do fluxo, então quando eu entrei no vagão, tudo ficou melhor. Cheguei à estação depois de uns dez minutos, na Trianon-Masp. Desci do metrô, subi as escadas e fui em direção ao prédio em que meu terapeuta atendia. Falei com a recepcionista, ela pediu meu RG e eu disse, aguardando enquanto ela ligava para o consultório. Depois de toda a burocracia, ela me entregou um cartão, assim consegui passar pela catraca e subi no elevador. Desejei que a grande caixa de metal fosse mais rápida, mas consegui chegar ao andar dele às 18 horas e 1 minuto.
A porta já estava aberta, entrei e encontrei sua secretária, Genice, que sorriu animada para mim. Sorri de volta e caminhei até ela e a abracei.
— Ah, Ju! Quando você ligou aqui, dizendo que não poderia vir na semana passada pelo que aconteceu... Sinto muito — ela disse e me soltou, lançando um olhar solidário a mim. Meneei a cabeça e senti meu coração se apertar muito. O choro estava vindo, mas me segurei muito para que ele não chegasse.
— Tudo bem — eu respondi e escutei a porta da sala do doutor Ricardo abrir. Me virei em sua direção e o vi ali, parado, com um sorriso calmo no rosto.
— Oi, Julia! Vamos? — Ele perguntou e eu fiz que sim, me despedindo temporariamente de Genice. Dei um abraço nele assim que passei por Ricardo e entrei na sala. Logo ele fechou a porta quando eu me sentei no sofá. — Então... Você prefere que eu deixe a janela aberta ou não?
— Ah, tanto faz... Pode deixar aberta se você quiser — eu disse, dando de ombros. Ele assentiu e se sentou na minha frente. Dobrou as pernas e com o prontuário na mesinha ao lado, continuou:
— E como estamos?
Suspirei. “Estávamos uma bosta”, era a minha vontade de dizer. Mas, em vez disso, eu disse:
— Ah... Meio péssimo. — Ele balançou a cabeça positivamente e ficou em silêncio, esperando que eu continuasse. — Bem, minha avó, ela... Ela faleceu. Semana passada. Eu que a encontrei e foi um... Choque para mim.
Engoli o choro. Continuei.
— Fizemos o velório no dia seguinte e eu e minha mãe passamos o fim de semana arrumando a casa e as coisas dela. Você sabe, separando coisas para doar ou jogar fora. Outras coisas vamos manter e... Enquanto eu arrumava o escritório, eu descobri uma caixa cheia de cadernos dela, da minha avó. Eram diários. São diários.
Ele manteve uma expressão surpresa. Ricardo perguntou se eu cheguei a ler os diários e eu disse que sim. Contei toda a história para ele, desde a primeira página, os momentos em que parei de ler e fui para a cafeteria, encontrando Sofia, o momento em que Diego foi cuzão comigo, mas que se arrependeu e pediu desculpas, quando ele também me disse que me amava — duas vezes — e eu não soube o que responder na última, deixando o clima todo estranho. Voltei para os diários e contei sobre minha avó e Harry Styles passarem a quarentena de 2020 juntos, de como tudo estava um caos naquela época e me distraí perguntando se os pais de Ricardo viveram bem a pandemia daquele ano, tendo como uma resposta um “sim, tentaram viver”.
— Mas você mencionou uma pessoa nova, como ela se chama mesmo?
— Sofia — eu disse meio saudosa dela.
— Sofia. Isso. E como foi conhecê-la? Me conte mais sobre. — Ele coçou seu queixo e eu assenti.
— Bem, foi estranho... Eu meio que senti como se só estivesse eu e ela no recinto, sem mais ninguém. O jeito que ela falou comigo foi... Legal, eu acho — eu disse, olhando para o chão.
— Aham — ele disse como incentivo para que eu continuasse. Olhei para Ricardo.
— E foi isso. Eu a encontrei no dia seguinte quando ela estava saindo do trabalho e a levei até perto do metrô. Conversamos e, é.
Ele sorriu.
— E como você se sentiu sobre esse encontro? Pelo o que você me disse você não a encontrou mais. Ontem você chegou a ir à cafeteria?
Fiz que não.
— Certo. Como foi que você se sentiu sobre tudo isso?
— Eu... Meio que gostei de a encontrar? Não sei, foi algo que eu nunca senti antes. Não sei se porque eu me privei disso a vida toda, mas com ela foi diferente, foi quase como se eu não pudesse fugir — eu respondi e voltei a olhar para o chão.
Ficamos em silêncio por breves minutos.
— Foi como se... Com ela, eu talvez não tivesse dúvidas do que eu sentiria, como eu tenho com Diego.
Fiquei olhando para Ricardo agora, que sustentou meu olhar ainda com um sorriso no rosto.
— E do que você tem medo?
Eu fui pega de surpresa por essa pergunta. Do que eu tenho medo?
— Minha avó, ela... Eu não te contei isso, mas, por favor, não conte a ninguém — eu disse e ele assentiu.
Eu contei a ele sobre Harry e Louis e a situação em que a minha avó estava sobre Harry se admitir bissexual, além do segredo de Louis Tomlinson e depois que Harry a traiu. Ricardo foi ouvindo tudo atentamente até que eu terminei de falar e ele se manteve em silêncio por alguns segundos.
— Sabe, Julia, sua avó tem razão sobre uma coisa: Harry não precisava se admitir para ninguém e muito menos você. Por isso eu pergunto novamente: do que você tem medo?
Respirei meio trêmula.
— Eu não sei — eu disse por fim. Ele assentiu.
— Eu digo isso para você pensar sobre. Mas fique tranquila, tudo tem o seu tempo, só acho que é uma pergunta interessante de se começar a fazer.
Depois disso, conversamos mais um pouco sobre minha relação com a minha mãe e de como era importante que eu e ela fôssemos o porto seguro uma da outra nesse momento. Ricardo disse também que eu devia terminar de ler os diários para eu poder descobrir a verdade toda sobre a minha avó e como ela viveu essa época da vida dela, além de que poderia me ajudar a descobrir do que eu tinha medo.
Nos despedimos, eu fiquei para conversar um pouco com Genice até que já eram 19 horas e 30 minutos e notei que tinha que ir embora antes que ficasse muito mais tarde. Peguei o metrô cheíssimo ainda para a volta e desci na minha estação, dando graças que estava mais vazia do que o vagão que eu estava antes.
Eu estava caminhando pela estação, indo embora, quando notei uma garota de cabelos escuros vir na minha direção, mas ela não estava me vendo, estava ocupada demais vendo algo no celular — acho que ela estava procurando músicas para ouvir, pois ela estava com os fones na outra mão. Então ela colocou um dos fones e eu estava tentando tanto descobrir o que ela estava fazendo no celular que só notei quem era quando ela cruzou seu olhar com o meu.
Sorri para Sofia, que sorriu de volta, animada, e veio em minha direção com um dos braços abertos. Eu estiquei os meus e nos abraçamos enfim. Ficamos abraçadas por alguns segundos e eu pude sentir o seu perfume que eu tentei identificar o cheiro, mas não conseguia. Nos soltamos e ela ficou sorrindo para mim até pender a cabeça para seu ombro direito.
— Que surpresa boa, Ju! — Ela disse, por fim, e eu assenti, sorrindo também.
— Nem me fale! Como você está, Sofia? — Eu a observei retirar o fone de ouvido e passar a caminhar comigo a esmo pela estação.
— Ah, eu estou bem. Acabei de sair do meu turno, o dia foi longo e te encontrar foi uma benção, sério — ela disse, olhando para os próprios sapatos. Eu sorri mais ainda.
— É, meu dia não estava sendo dos melhores também. Que bom que eu te encontrei! Uma surpresa boa, mesmo.
Ela levantou o rosto até mim e ficamos nos olhando por alguns segundos, até ela soltar uma risadinha.
— E como estão os diários? — Ela perguntou de repente. Tinha me esquecido deles por alguns minutos, mas agora que ela os mencionou, eu me recordei.
Disse a ela que eu já estava no terceiro de cinco e que estava terminando.
— Sabe, Ju, eu não estou a fim de ir para a aula agora... Você tem alguma coisa para fazer?
Eu sorri para ela. Meu coração se acelerou muito e eu não sabia se era porque ela estava me chamando para fazer alguma coisa agora ou se porque eu estava a coagindo para faltar na aula da faculdade. Talvez uma mistura dos dois.
— Na verdade, eu só estava indo para casa. Não tenho nada, não — eu respondi e ela sorriu de lado e me mostrou seus fones de ouvido.
— Que tal uma conversa regada a música?
Eu concordei na hora e fomos as duas para a entrada do metrô onde tinha uma mureta para nós nos sentarmos. Foi o que fizemos e então ela me entregou o outro fone, já colocando o dela no ouvido.
Sofia colocou no aleatório e passamos a ouvir as músicas dela, enquanto olhávamos os carros passando pela rua, preguiçosamente. Foi ela quem quebrou o silêncio entre nós — que na verdade não existia, pois estávamos as duas ouvindo música.
— Você já se perguntou algo que parece besta, mas que na verdade só parece besta porque ninguém tem a resposta?
Eu a encarei, mas ela estava olhando para a rua.
— Como assim?
— Não sei, como o céu é azul, por exemplo? — Ela disse e eu não pude conter o riso.
— So, acho que os cientistas sabem a resposta dessa — eu respondi e ela me olhou. — Podemos pesquisar na internet, se você quiser. Ah, vamos pesquisar então.
Peguei o celular da mochila e digitei no campo de buscas “por que o céu é azul?”. Foi isso o que apareceu:

Por que o céu é azul? A explicação por trás do fenômeno vem da forma como a luz se espalha pelas moléculas na atmosfera. É a luz azul — que tem o comprimento mais curto — que se espalha mais por essas pequenas partículas, o que leva à coloração azulada que observamos.

— Ah, ok, essa não conta então — ela disse e rimos. — Tudo bem, então você já pensou que nossos avós e bisavós tinham perguntas que hoje estão respondidas, mas que na época não? Por exemplo, a vacina para a covid-19. Ou a cura do câncer. Tudo isso já está em nossas mãos, mas setenta anos atrás não existia nada disso. Não é bizarro isso?
— Sim, só não conseguimos parar a depressão, que acabou sendo o mal do nosso século — eu disse pensativa e ela ficou me observando.
— E como está a situação com a sua avó? — Sofia perguntou e eu a encarei. Ficamos sem dizer nada por alguns segundos e eu dei de ombros então.
— Acho que nunca vou ser a mesma. Mas sei lá, ler esses diários... Não sei se estão me fazendo bem ou mal — segredei a ela. Sofia assentiu.
— Imagino que esteja difícil mesmo. Eu perdi meus pais ano passado. Acidente de carro. Nunca mais eu fui a mesma também. Esse tipo de coisa muda a gente, mesmo — ela disse e olhava para o chão enquanto falava. — Agora eu moro com o meu avô lá em Perdizes.
— Eu sinto muito — foi o que eu consegui dizer.
— Tudo bem. Eu tive um recomeço. Acho que é sobre isso, toda perda é o começo de uma nova vida. — Ela balançou seus ombros e sorriu para mim. — Minha mãe sempre me dizia isso. Por isso não acredito em coincidências.
Sorri junto. Então uma próxima música começou a tocar e ficamos quietas a escutando. Até que eu notei a frase “I may be close to the sky, but the only reason is you” e entendi de quem era a música. Meu coração parou na hora e eu olhei para Sofia, que estava ocupada mexendo com o pé em uma pedrinha no chão.
— Você curte Harry Styles?
Ela olhou para mim e assentiu.
— Sim, meus pais o adoravam. Tomei gosto em ouvir — ela disse e eu sorri. Fiquei na dúvida de contar a ela sobre a história dos diários, mas deixei em segredo no fim.
Conversamos sobre várias coisas depois, desde a pandemia do início dos anos 2020’s até as estrelas, que algumas são apenas o passado de uma estrela que a luz ainda não se apagou para nós.
— O passado tem uma grande influência no nosso presente. Veja as estrelas, por exemplo. O que vemos é só o brilho de uma memória de uma estrela. Quem sabe ela não já se foi e o que estamos vendo é o passado dela?
— Mas assim o que você está dizendo me faz ter a impressão de que nós vivemos do passado.
— É, pode dar essa impressão mesmo. Mas acho que o que eu estou querendo dizer é que o passado faz parte da gente. Carregamos o passado em nós mesmos, mas não significa que precisamos viver dele. Não sei, é algo que eu penso. Novidades são sempre bem-vindas.
Eu sorri com seu comentário. Então começou a chover e eu e ela fomos correndo para dentro do espaço do metrô. Ficamos ali esperando a chuva parar e continuamos a nossa conversa.
Meu celular vibrou e quando o peguei, era uma mensagem da minha mãe dizendo que eu deveria procurar abrigo e esperar a chuva parar para voltar para casa.
— Por acaso seria aquele cara que apareceu outro dia na cafeteria? — Sofia me perguntou e eu a olhei antes de responder a minha mãe com um simples “ok” e guardar o celular na mochila.
— Não. É a minha mãe — eu disse e ela balançou positivamente a cabeça.
— Ah. Vocês pareciam bastante apaixonados naquele dia, você e o cara — ela continuou e eu a olhei. — É seu namorado?
— Na verdade, não. Ele é só um amigo. Ficamos às vezes, mas não passa disso: ficadas. — Eu gesticulei com a mão e ela meneou a cabeça mais uma vez. Notei o pequeno sorriso que ela estava tentando conter e meu coração deu um mortal.
— Ah, certo — ela respondeu e eu não pude deixar para lá a pergunta:
— E você não namora ninguém?
Sofia fez que não e eu sorri. Ela riu do meu sorriso e eu ri com ela.
— Sua risada é muito gostosa, Julia — ela soltou e eu ri mais um pouco, a encarando. Sofia me devolvia o olhar e eu estava prestes a respondê-la, mas ela puxou minha blusa para perto de si e grudou seus lábios nos meus. Ficamos no selinho por alguns segundos, até que ela se desgrudou de mim. Sofia e eu ficamos nos olhando, até que ela pigarreou.
— Desculpa, eu... Não devia ter feito isso, descul...
Segurei seu rosto enquanto ela ainda falava e grudei mais uma vez nossas bocas. Dessa vez, pedi passagem com a minha língua, molhando seus lábios, e ela abriu, encontrando a língua dela com a minha. Senti Sofia segurar na minha cintura e dar leves apertadas lá toda vez que eu fazia menção de me afastar, mas eu não me afastaria, de qualquer jeito.
Nos separamos para recuperar o fôlego. Olhei para Sofia, que sorria, e eu também sorri. Ela olhou para distante de mim e voltou seu olhar para mim novamente, soltando a minha cintura. Sofia apontou com a cabeça na direção da saída do metrô.
— A chuva já deu uma parada... Se você quiser saber — ela afirmou e eu estranhei essa resposta. Será que o beijo não foi bom? Será que ela não gostou e por isso está me mandando embora? Mas, automaticamente, eu disse:
— Está me expulsando, Sofia?
Ela riu e fez que não.
— Não, sua doida! Só estou te avisando caso você queira ir para casa. Já está tarde de qualquer jeito e meu avô vai pirar se me ver chegar mais tarde do que isso.
— Ah, entendi... Então você quer ir embora... — comecei brincando e enchendo o saco dela, mas ela revirou os olhos com um sorriso tímido e me puxou para outro beijo. Depois que nos soltamos, ela estava sorrindo.
— Parece que eu quero ir embora? — Ela intercalava o olhar para a minha boca e meus olhos. Eu fiz que não, hipnotizada, e ela riu. — Me passa o seu celular, assim eu saberei que você chegou bem em casa.
— Ah... Claro! — Eu disse, saindo do transe. Ela pegou seu celular e anotou enquanto eu falava. Ela bloqueou a tela e olhou para mim, sorrindo.
— Bom, acho que é aqui que nós dizemos um...
— Tchau?
— ... Até logo — ela disse e eu sorri com sua resposta.
Sofia e eu demos um selinho de despedida e lá se foi ela em direção à catraca. Eu sorria feito boba e me virei para encarar a volta para a casa.
Voltei para casa rapidamente e tomei um banho assim que cheguei. Minha mãe estava mexendo no computador quando eu saí do banheiro. Ela me olhou passar pelo corredor e ir em direção ao meu quarto, então eu ouvi seu chamado.
— Oi! — Eu disse animada e ela sorriu para mim.
— Foi tudo bem na terapia?
— Ah, foi sim. Deu tudo certo — eu disse e ela assentiu.
— Que bom. Se quiser conversar, já sabe onde eu vou estar! — Ela disse e eu entendi esse como um bom momento para conversar sobre o que aconteceu hoje.
Contei para ela sobre o que aconteceu nos diários e ela me ouviu até eu chegar à parte da terapia e na pergunta que Ricardo me deixou como uma lição de casa. Minha mãe escutou tudo com muita atenção e disse o seguinte:
— Acho que para você desvendar essa pergunta, você pode começar chamando Sofia para sair.
— Você acha? — Perguntei, me apoiando no batente da porta. Ela fez que sim.
Fiquei com isso na cabeça por muito tempo, mas eu não anotei o telefone dela, ela quem foi que fez isso. Então eu só poderia falar com Sofia quando ela quisesse. O que me fez pensar que ela disse que queria o meu telefone para saber se eu tinha chegado bem em casa, mas como eu avisaria a ela se eu não tinha o celular dela? Será que ela fez tudo isso para dar uma enrolada em mim?
Como eu não tinha escapatória, resolvi ficar esperando o fim da noite toda para que ela me mandasse sinal de vida, mas isso não aconteceu. Eu estava controlando a minha ansiedade, até que decidi que não iria me deixar levar. Sofia não me ligaria ou enviaria mensagem tão cedo. Já estava tarde da noite, duvidava que ela estivesse acordada de qualquer maneira.
Minha mãe disse boa noite lá para as cinco para a meia-noite. Eu já estava na minha cama, mas não estava conseguindo dormir. Foi aí que eu pensei nos diários. Fiquei naquela de ler ou não ler, mas como eu me conhecia e sabia que não dormiria agora, me levantei e peguei o diário. Eu tinha o costume de deixar a veneziana aberta, então a claridade dos postes da rua me ajudava a ler à noite na cama. Abri na página em que eu tinha parado e me preparei para ler.


XXXIX: Tudo bem

Querido diário,

Eu acabei não escrevendo mais, porque estava me sentindo exausta. Mesmo porque, eu não confrontei Harry naquele mesmo dia. O que eu fiz foi deixar meu cérebro trabalhar sozinho em como dizer para Harry Styles que eu sei que ele está me traindo, porque, sério, não é uma tarefa fácil.
Não porque eu tenho medo da reação dele, mas porque eu realmente não sei como dizer que eu li a música dele e descobri por conta dela o que estava acontecendo — pensei em não mencionar que Louis me deu dicas, mas está ainda em processo de consideração esse fato. De qualquer jeito, eu ainda não tinha falado. Mas aconteceu hoje disso mudar.
Tentei aproveitar meus últimos momentos com Harry ao meu lado, eu não sei se eu queria mesmo confrontá-lo, mas acho que eu não poderia só simplesmente ignorar esse possível fato e aceitar que estou sendo chifrada. A realidade é que só de pensar que ele não me ama, ou que nunca me amou, me dá náuseas. O que ele estava fazendo todo esse tempo comigo então, porra?
Enfim, voltando para a minha narrativa: eu estava deitada na cama já fazia mais de uma hora desde que ele acordou e disse que faria sua corrida matinal. Depois dessa fala, eu não consegui sair da cama. O desânimo era enorme, a vontade de viver, mínima.
Harry voltou depois de uma hora que ele saiu para correr e, quando me encontrou ainda deitada na cama, estranhou e resolveu se sentar na beirada dela para iniciar uma conversa comigo. Eu não estava ouvindo nada do que ele estava dizendo, eu só sentia aquela vontade de vomitar bem grande. Acho que era a ansiedade me atacando, só sei que eu não conseguia mexer um músculo do meu corpo, então fiquei parada ali, fingindo que estava ouvindo, mas não estava. Até que eu o escutei dizer:
— Ok, você está tendo uma crise?
Eu o olhei e balancei a cabeça negativamente. Tudo o que eu não queria agora era ter sua solidariedade.
, eu sei que você está tendo uma crise. Você não se mexe há tempos, está branca, não fala nada... Por favor, me conte o que está acontecendo!
Eu o escutei falar mais algumas coisas do tipo como ele estava preocupado e afins. Me sentei na cama de repente, me aproximando de Styles. Eu olhei no fundo de seus olhos e ele devolveu o olhar, meio confuso, até parecer estar penetrado por mim e meu olhar julgador. Ele suspirou profundamente e desviou o olhar para os lençóis da cama.
— Você leu?
Soltei o ar de dentro de mim com força, sentindo a dor dentro do meu peito se tornar mais pesada ainda. Ele não ousava me encarar, pelo menos até eu responder sua pergunta.
— “Se eu soubesse de seu erro”, Harry? — Eu disse finalmente, citando um trecho da música, e ele respirou fundo. — Eu tenho até medo de perguntar que erro é esse.
Ele levantou seu olhar até o meu e ficamos os dois sustentando esse contato por alguns minutos.
... — foi tudo o que ele conseguiu dizer, mas eu o cortei.
— Não, Harry. Qual é o seu erro, Harry? — Eu repeti e ele umedeceu seu lábio inferior com a língua, o mordendo em seguida.
— Do que adianta eu te falar? Você já sabe. Lá no fundo, você sempre soube, .
Senti a garganta apertar e meus olhos se encherem de lágrimas.
— Com quem, Harry?
— Isso importa?
— Com quem você andou me traindo, porra? — Eu disse em um tom mais alto de voz. Meu pai tinha ido ao mercado, estávamos livres de suas interrupções, mas eu não queria ter que enfrentar isso agora sozinha. Lá estava eu, fazendo isso, no entanto.
Harry Styles desviou o olhar para o chão. Ele passou desesperadamente as mãos por seus cabelos, que estavam levemente molhados por conta do suor da corrida, e se levantou da cama. Ele ficou de costas para mim até começar a andar de um lado para o outro e parou, olhando para o chão à minha frente.
— No começo, bem lá no começo, depois da nossa primeira vez, eu estive com Charlotte. Talvez uma ou outra noite, mas não era nada sério...
— Foda-se isso, Harry! Eu quero saber com quem você me trai agora.
Ele balançou a cabeça positivamente.
— Você não a conhece. Ninguém conhece. Eu a conheci há pouco tempo, ela é mais velha, enfim, não importa. Eu... — ele tentou dizer, mas ele não estava conseguindo ser real nem uma porra de um minuto.
— Ah, porra, Harry! Ao menos alguma coisa era real? Entre mim e você? — Eu gritei e ele fechou os olhos com força.
, calma... — ele começou, esticando os braços na minha direção e eu apenas levantei a mão para ele em sinal para que ele não se aproximasse. Ele parou na hora e ficou me encarando. Meu coração estava aceleradíssimo, não de um jeito bom. — Se você leu a música, você sabe que era real. É real, .
Passei uma das mãos pelo meu rosto, tentando tirar aquela angústia de mim.
— Eu fui idiota demais de acreditar que alguém como você pudesse manter fidelidade a outra pessoa — eu disse duramente.
— O que você quer dizer com...?
— Eu soube que você traiu outras namoradas. — Não contei isso, mas eu fiz minha pesquisa neuroticamente quando eu li a música, se Harry Styles já tinha traído alguém antes. E a resposta foi terrivelmente um sim.
Harry ficou me encarando, sem saber o que falar.
— Você está me julgando por meus relacionamentos passados? — Ele disse exasperado, eu soltei uma risada irônica.
Não, Harry, caralho! Eu estou te dizendo que você é um merda, é isso! — Isso era o que eu queria ter dito. Na verdade, eu disse:
— Estou te julgando quando você admitiu ter feito o que fez comigo. O que você ainda faz, porra! — Me levantei e ele deu um passo para trás. — Como eu pude ser tão ingênua? Achar que um relacionamento pudesse ser tão maravilhoso assim, tão recíproco. Acho que eu não mereço algo assim, não é? Steven, agora você...
Eu fui dizendo as palavras rapidamente, uma atrás da outra. Quando cheguei à palavra “você”, eu me debulhei em lágrimas. Ele não soube como agir. Eu comecei a sentir as lágrimas rolarem por meu rosto, aquele gosto salgado atingir a minha boca, um sentimento de desespero me consumir aos poucos. O que fazer agora?, era o que eu estava pensando.
, você merece um relacionamento mil vezes melhor do que o que você teve com Steven, você merece alguém melhor do que eu. Não diga que você não merece, porque você sabe que não é verdade! Você é incrível, , você é...
— Incrível? Você traiu alguém “incrível”, caralho! Isso te faz o quê? — Vociferei, abraçando o meu próprio corpo.
Ele segurou o ar. Harry assentiu e deu um passo na minha direção, com as mãos esticadas, mas eu recuei, fazendo com que ele parasse.
— Só... Só vai embora — eu disse.
— Tudo bem, você precisa de um tempo, eu entendo...
— Não. Vá embora de vez. Não volte. Não quero te ver nunca mais, Styles — eu disse e me virei de costas para ele, dando um soluço. Ficamos em silêncio.
— Tudo bem. Eu... Tudo bem — foi o que ele disse.
Tudo bem.
E, assim, do jeito que ele entrou na minha vida, ele foi embora: no tempo de uma batida de asa de borboleta.
Escutei seus passos se afastando de mim enquanto meu choro se tornava escandaloso. Caí fraca, sentada no chão e não consegui parar de chorar. Nunca pensei que seria traída. Sempre imaginei que eu soubesse conduzir um relacionamento, que eu soubesse amar alguém. Acho que não foi o suficiente. Tudo o que ecoava na minha cabeça eram suas últimas palavras, amargas, mas sinceras:
Tudo bem.
Não, não estava nada bem.


XL: Músicas para ouvir quando você está tentando superar alguém... Mas não consegue

Querido diário,

Não tive vontade nenhuma de escrever em você nesses últimos tempos, desde que me separei de Harry Styles. Sim, já se passou um mês desde que tudo aconteceu e eu permaneci jogada na cama na maioria dos dias, tentando sobreviver.
Parece que, quando eu fecho os olhos, eu vejo aquele sorriso, aquelas covinhas, aquele olhar... Então eu os abro e percebo que não faz mais parte da minha realidade. É estranho, parece que eu acordei de um sonho bom que se tornou um pesadelo no fim. Por que ele teve que me trair? Estragar tudo desse jeito... Eu não entendo. Será que foi a festa que eu dei para ele no seu aniversário? Não foi boa o bastante? Ou a minha companhia é enjoativa?

“Você merece alguém melhor do que eu”


Essas palavras estavam me matando aos poucos. Será que eu merecia mesmo? Quer dizer, eu acho que sim, mas ele era tão atencioso, tão engraçado, tão maravilhoso... Por que ele teve que foder com tudo? Que droga!
Na primeira semana, eu nem quis saber de ver o rosto dele nas reportagens, não quis ter nenhum contato com ele, nenhum mesmo. Mas já na segunda semana, eu me deixei levar e fiquei escutando a música “Two Ghosts” na versão ao vivo no estúdio. E tem uma parte que fala “não vá” e nessa parte eu chorei tanto que doeu. Doeu, diário. Ouvir a voz dele cantando, ouvir essas palavras, tudo. Doeu demais que eu resolvi não ouvir mais nenhuma música dele, nunca mais. Parece óbvio, afinal, o cara me traiu, ele foi um cuzão. Mas eu estava acostumada, eu estava o amando. É difícil se despedir de um sentimento tão bom quanto esse.
Mas na quarta semana eu já estava mais recuperada. Quer dizer, ainda eu estava deitada na cama, mas aí meu pai disse para eu tentar ocupar a minha mente. Então eu comprei livros, assisti filmes, tentei me dedicar aos estudos. Porém saber que a minha outra metade está por aí, andando com outra pessoa, doía muito.
Ah, quer saber, eu não sei se ele era a minha metade mesmo. Mas é que parecia tanto que éramos feitos um para o outro...! Ele, maravilhoso, e eu, nas palavras dele, incrível, fazíamos uma boa dupla. Afinal, ele disse que eu era incrível, não é? Eu até cheguei a pensar que eu deveria ter perdoado ele, se ele prometesse que iria parar... Mas ele não estava com cara de que ia parar. Ah, não sei. Conversei com a minha terapeuta, Caroline, sobre. Ela disse que talvez eu devesse botar tudo para fora escrevendo, mas é que eu não estava com vontade nenhuma de fazer isso.
Até que pensei melhor e notei que, depois de eu criar a playlist “Songs to listen when u r trying to get over someone… but u can’t” no Spotify e com ela colocar em palavras o que eu estava sentindo, eu devia voltar a escrever também em você. Mesmo porque eu comecei tudo isso pensando nas minhas aventuras em conhecer... Bem, você sabe quem.
Passei então a última semana ouvindo essa playlist e evitando as músicas dele, apesar de que às vezes elas eram indicadas pelo próprio aplicativo. Eu sei, você deve estar achando que eu sou uma louca por colocar aquelas músicas em uma playlist com esse nome, porém foi uma ação terapêutica e curativa. Não que eu esteja 100% pronta para continuar a viver, porque eu não estou, ainda mais presa nessa quarentena. Mas consegui mais tempo com o meu pai, estamos conversando melhor e eu sentia falta disso.
Por falar nele, ele acabou de me chamar para almoçar. Vou ter que ir, volto a escrever em você em algum dia desses. Aliás, estou vendo que faltam pouquíssimas páginas para terminar esse diário. Logo mais entraremos em um novo, portanto. Acho que será bom, será um novo caderno com novas histórias e novas perspectivas.


XLI: Pais e filhas

Querido diário,

Faltam apenas duas páginas para acabar este caderno. Eu fiquei muito na dúvida de escrever nessas duas páginas ou simplesmente pular para o próximo, mas acho que fiz a escolha certa em escrever mais um pouco nesse.
Minha terapeuta disse para eu começar a tentar me conectar comigo mesma. Para isso, eu devia passar um tempo sozinha, mas eu não sei se eu consigo. Tenho evitado isso, tenho estado com o meu pai quando eu posso e tenho a oportunidade. Tivemos uma conversa, aliás, muito esquisita esses dias.
Eu estava sentada no sofá, comendo pipoca e ele estava ao meu lado, nós dois assistindo televisão. Então ele começou um papo aleatório, depois de muito tempo em silêncio apenas olhando para o grande aparelho televisivo.
— Se você fosse ter uma filha, você sabe qual seria o nome dela?
Eu olhei para ele, estranhando.
— Não sei, nunca cheguei a pensar nisso — eu respondi. Ele continuou a olhar para a TV, antes de continuar.
— Que tal o nome Débora?
— O quê?
— É, Débora!
— Por que Débora?
— Por que não? — Ele argumentou e eu soltei uma risada.
— Forte argumento, pai.
— Ok, tudo bem. Eu acho o nome Débora muito bonito. E você sabe o que significa?
— Não, eu não sei — eu disse, voltando a olhar para a TV. Escutei ele sorrir ao dizer:
— Significa abelha laboriosa. Indica uma pessoa que possui uma força de vontade excepcional. Ela luta com grande determinação para alcançar os seus objetivos. Além de ser muito doce e amigável. Acho que seria uma boa filha.
Eu não tinha entendido nada desse papo ou o porquê de ele ter começado com isso. De verdade. Mas eu tinha gostado também.
Talvez ele não queria guardar nenhum segredo de mim, como tínhamos combinado há um tempo. Só sei que fazia alguns dias que ele estava muito esquisito. Só não sei o motivo.
Bom, no momento, eu tenho que entregar um trabalho para a faculdade. As provas finais estão chegando e eu estou com muito medo de não passar — apesar de eu saber que isso é meio que impossível, pois eu tenho ótimas notas. Enfim, está um dia lindo lá fora, mas, de qualquer jeito, eu não poderia sair, por conta da quarentena.
Eu não aguento mais essa quarentena, sério. Queria que ela acabasse logo, mas ela não acaba! Bom, acho que temos que viver um dia de cada vez, diário.
Ah, falta agora só meia página para acabar. Acho que vou parar por aqui. Nos vemos no próximo diário, então! Até mais!

Xx .


XLII: Pensando em você

Acordei eram duas da tarde.
Eu estava exausta, fiquei lendo o diário número 3 até umas quatro da manhã. Caí no sono com o diário em cima de mim e, quando eu acordei, ele estava jogado no chão ao lado da cama. Me espreguicei toda na cama e me sentei demoradamente. Assim que estava recuperada da noite de sono de dez horas de duração, me levantei do meu leito e fui até meu celular que tinha deixado carregando e com o modo avião ligado. Sim, eu coloquei o modo avião porque não queria que nada me atrapalhasse naquele momento e também porque eu não queria me iludir achando que receberia uma mensagem de Sofia ainda antes de dormir.
Tirei do modo avião e então as mensagens começaram a chegar. Dentre todas, a mais importante chegou por último:

“Oooooi, Ju. Desculpa a demora, eu estava arrumando meu quarto e ajudando meu avô em algumas coisas... Chegou bem?”
E em seguida:

“Ah, é a Sofia! Ahahahah 😊”
Sorri com as mensagens e me preparei para respondê-las. Escrevi:

“Cheguei sim, So! Magina, não precisa se explicar!”
Terminei de enviar e olhei para o céu através da janela. A resposta chegou em segundos.

“Que ótimo! Estou olhando para o céu azul e pensando em você... =D “
Meu coração disparou depois dessa. Fiquei até sem ar, tive que me sentar um pouco e fiquei olhando para a tela do celular, totalmente boba.
Saí do meu quarto depois de me recuperar e fui tomar café da manhã — porque eu não queria almoçar agora — na cozinha. Minha mãe estava lá, lendo jornal enquanto comia.
— Ah, oi, querida! Que bom que acordou — ela disse e bebericou de seu suco. Beijei o topo da cabeça dela e fui até a geladeira, colocando o celular em cima da mesa.
Peguei o pão e o requeijão e fechei a porta do eletrodoméstico, pegando os talheres e me sentando ao lado de minha mãe. Começamos a conversar sobre baboseiras, até o silêncio se instaurar por alguns segundos e minha mãe notar que eu estava sorrindo mais do que normalmente eu sorriria. Ela olhou para a comida, se preparando para dar uma mordida em seu pão e soltou uma risadinha.
— Alguém acordou de bom humor... — minha mãe disse e eu sorri ainda mais, não conseguindo conter a felicidade. — Sofia te mandou mensagem?
Eu olhei para o lado sorrindo e ela riu. Mamãe segurou a minha mão e acariciou o dorso dela, sorrindo para mim.
— Querida, você já a chamou para sair? — Minha mãe lembrou e eu fiz que não, mordendo o lábio inferior. — Julia, acho que chegou o momento.
Eu ri e ela sorriu para mim. Assim peguei o celular e mandei uma mensagem para Sofia, dizendo que eu gostaria de sair com ela essa noite. Sofia me disse que não poderia, mas que amanhã ela estaria livre. Combinei no metrô perto de casa às 19 horas da noite e bloqueei a tela do celular com o coração aceleradíssimo e com borboletas no estômago.
Não sabia exatamente se minha avó estaria nesse instante pensando em como eu era tola e como ela desaprovava essa relação, mas parte de mim dizia que isso tudo era loucura e que eu não deveria dar ouvidos a essa outra que estava tentando me sabotar.
Fiquei prorrogando o momento em que eu iria ler o quarto diário, por isso passei o dia arrumando a casa com a minha mãe e assistindo séries. Nada demais, até que minha mãe disse para eu ir ao supermercado comprar algumas coisas que estavam faltando em casa. Eu, totalmente ainda inebriada pelos pensamentos de que eu sairia com Sofia no dia seguinte, aceitei a ordem e peguei meu casaco, colocando o capuz sobre a cabeça, e peguei também o quarto diário colocando na bolsa, para o caso de eu querer ler em algum momento.
Tranquei a porta de casa e fui embora, caminhando pela rua. Fiquei pensando na música de Harry Styles que ele escreveu sobre a relação dele com a minha avó e em como homens conseguem ser tão desprezíveis... Não sei, não queria me relacionar com homens por um tempo a partir de agora. Não sei se isso também tem relação com a situação entre mim e Diego, muito provavelmente sim, já que eu estava assustada pelo o que ele disse. Talvez eu devesse conversar com ele sobre aquelas três palavras, mas ao mesmo tempo eu não queria fazer isso agora. Eu só queria aproveitar esse sentimento bom de esperança e reviravoltas no estômago.
Começou a chover e eu saí correndo pela rua até um lugar seguro para ficar, com teto. Coincidentemente, o local era a parte de fora do café em que Sofia trabalhava. Eu pensei que seria legal surpreendê-la e dar um oi, então respirei fundo e olhei para dentro do estabelecimento, a procurando com os olhos. Meu olhar correu pelo local, até que vi Sofia conversar com um dos clientes, de pé, perto do balcão. Sorri e comecei a caminhar em direção à porta, ainda olhando para os dois, então o homem se aproximou dela e segurou sua mão. Sofia sorriu e ele se aproximou para... Ele...
O homem beijou Sofia.
Foi horrível. Eu prendi a respiração e vi os dois se beijando, apaixonados. Eles foram interrompidos pelo chefe da cozinha, que passou dizendo algo para os dois. Sofia e o homem se desgrudaram, mas sem soltar as mãos. Eu queria vomitar. Mas não conseguia sequer dar um passo para sair dali e parar de ver aquela cena.
Sofia riu de algo que ele disse e olhou distraidamente para fora do café, seu olhar encontrando com o meu. Ela não moveu um músculo quando isso aconteceu enquanto o homem continuava a falar. Então eu saí dali, finalmente. Saí andando, com as mãos enfiadas nos bolsos da frente da calça, escutei o chamado de Sofia, que provavelmente estava na porta gritando por mim, mas eu não virei. Eu continuei a caminhar, ela me chamou mais uma vez, agora mais forte, mas eu corri. Corri muito, sem saber para onde eu estava indo.
Cheguei em frente a um prédio que eu já conhecia muito bem e parei de correr, de andar, de respirar, tudo. Coloquei as mãos sobre a cabeça, sem saber o que fazer agora. Eu não saberia que estava chorando, por conta da chuva, mas aí senti uma dor imensa dentro do meu coração e percebi que estava aos prantos.
— Julia?
Me virei em direção à voz. Diego estava com sacolas nas mãos, um guarda-chuva em uma delas, parado, me observando. Ficamos nos olhando por um tempo, até que ele largou uma das sacolas e eu caminhei até seu abraço.
— Ah, Ju... — Escutei ele dizer baixinho. O abracei com força e não consegui parar de chorar.


XLIII: Não do jeito que eu te amo

Eu estava sentada no chão de sua sala, com um chocolate quente entre minhas mãos, enquanto ele preparava o dele. Diego tinha me emprestado roupas novas e as minhas secavam na secadora. Os pais de Di estavam fora de novo, mas dessa vez porque estavam presos no trabalho. Ele terminou de fazer a sua bebida e se sentou em frente de mim, com a caneca em uma das mãos. Ficamos em silêncio agradável por um tempo.
Eu estava pensando em como eu, toda vez que me entregava a algo, acabava machucada. Em como eu estava confusa com tudo, em como eu não deveria ter beijado Sofia, nem conversado com ela, muito menos entrado naquela droga de café. Eu não devia ter feito nada disso, foi tudo um grande erro, eu...
— Você está melhor?
Meus pensamentos pararam instantaneamente e eu olhei para Diego. Eu abri a boca para dizer a ele que estava, mas não consegui e comecei a chorar novamente. Ele estalou a língua nos dentes e se aproximou, me abraçando.
Ficamos abraçados assim até eu conseguir falar algo. E esse algo foi:
— Diego. Eu preciso te dizer, sobre o que você disse...
— Shhh. Ju, eu sei, eu não devia ter falado aquilo. Não queria te assustar, mas acabei te afastando. — Ele olhou para o chão e eu continuei a observar ele falar. — Eu só não consegui conter o que eu queria te falar há um tempo.
— Diego, eu...
— Eu sei que você me ama, mas não do jeito que eu te amo. E está tudo bem. Eu vou aprender a lidar com isso. Todo dia isso acontece na vida das pessoas, então por que eu não iria experimentar algo assim na minha? — Ele disse. Eu fiquei em silêncio. — Agora me diga, o que aconteceu?
Suspirei e engoli o choro para contar tudo, tudo mesmo. Contei sobre como conheci Sofia, sobre o que aconteceu entre mim e ela, sobre vê-la beijando outro cara e me sentir horrível, sobre minha avó e os diários, sobre ela ter terminado com Harry Styles porque ele a traiu, absolutamente tudo o que eu precisava falar. Me segurei para não falar sobre o peso que eu estava sentindo por finalmente gostar de alguém na vida e esse alguém não gostar de mim de volta, já que ele estava passando isso comigo. Diego ouviu tudo pacientemente e só disse alguma coisa quando eu terminei.
Di disse que entendia a situação e que eu não deveria me sentir mal achando que minha avó provavelmente não aprovaria esse sentimento que eu estava em relação a Sofia, disse também que não havia nada de errado em sentir isso, ele disse que sabia bem — essa parte doeu um pouco em mim — e que eu deveria parar e pensar um pouco em como eu gostaria de proceder depois dessa informação descoberta hoje. Ele disse que talvez não fosse o que parecia que era, que Sofia e aquele homem talvez não tivessem nada e que aquele beijo não significava nada para So. Eu fui pensando enquanto ele falava que mesmo que não significasse nada o beijo, me assustava o fato de eu me importar tanto com isso. Eu nunca tinha sentido ou passado por isso na minha vida e passar isso sem a minha avó...
Diego disse para assistirmos alguma coisa e que eu poderia dormir ali, sem segundas intenções. Eu aceitei.
Assistimos uma comédia qualquer que passava na televisão do quarto e os pais dele chegaram depois que a chuva tinha passado. Diego conseguiu cair no sono antes de mim, mas eu continuei a olhar para o teto, pensando em tudo. Eu não conseguia parar de pensar, então lembrei que eu estava com o quarto diário da minha avó na bolsa.
Levantei-me de maneira sorrateira e o peguei da bolsa, me sentando de volta na cama com cuidado. Abri a primeira página e comecei a ler.


XLIV: Tudo bem?

Querido diário,

Caramba, escrever em você depois de longos 13 anos é incrivelmente estranho. Quem diria que depois de tantos anos eu voltaria a um hábito considerado por mim ingênuo e infantil: escrever um diário. Não me leve a mal, é apenas porque o fato de que eu fazia isso quando ainda era ingênua e infantil torna esse hábito de tal forma.
Sim, se passou mais de uma década desde que eu parei de anotar o meu dia a dia — que, sejamos sinceros, não era exatamente um diário, e sim quase um semanal. E, quer saber, não era de se esperar menos. A partir daquele dia, do fatídico dia em que eu terminei com o aquele cantor pop que você já está acostumado a me ver escrever sobre, os acontecimentos que passaram foram cada vez piores.
Bom, acho importante eu começar a dizer que sobrevivemos à pandemia. E com sobrevivemos, eu quero dizer eu sobrevivi...
Meu pai havia quebrado o juramento que ele tinha me feito e mentiu para mim, escondendo que estava com diabetes. O problema foi que ele acabou pegando o corona vírus e depois de muitas complicações e sofrimentos, dias no hospital, choros desesperados de minha parte e súplicas a Deus para que Ele não levasse o meu pai, no fim, eu só poderia rezar para que Ele cuidasse bem dele. Fizemos o velório e não sei nem porque eu deveria te contar isso, mas Harry nem deu as caras. Não que ele deveria, mas seria um gesto de delicadeza de sua parte. O que só mostra que ele provavelmente nunca me amou de verdade e nunca nem teve respeito à minha família. Tudo bem.
Então eu herdei as economias de meu pai e me mudei para um apartamento ainda menor do que a casa que eu morava em Londres, próximo à minha faculdade. Terminei os estudos e passei a trabalhar no hospital psiquiátrico por um tempo, até notar que eu estava muito debilitada emocionalmente e resolvi mudar de emprego.
Comecei a procurar uma clínica em que aceitassem não tão recentes formados e fui aceita na Clínica Huckleberry, onde passei a trabalhar até hoje. Ah, se você quer saber sobre meus amigos, eu digo: Mel se mudou para os Estados Unidos e Steven foi junto. Isso mesmo, eles passaram namorar e eu não poderia estar mais feliz pelos dois.
Já minha vida amorosa, depois de um tempo acabou tendo um solavanco e encontrei Anthony, um médico psiquiatra que trabalhava no mesmo hospital que essa mulher que vos fala agora. Saímos algumas vezes, ficamos por um mês, e ele me pediu em namoro.
Então, mais ou menos um ano atrás, Tony me pediu em casamento e estamos noivos agora. Eu o amo muito, mas ultimamente ele tem estado bastante ausente na minha vida. Ele trabalha muito e eu, cada vez mais, tenho me sentido só. Nada que precise de acompanhamento psicológico, mas...
Ah, é verdade, eu esqueci de mencionar que fiz terapia até o fim da faculdade e o período que eu estava no hospital psiquiátrico trabalhando. Depois de um ano na clínica, mudei de terapeuta e fui parar no consultório do Dr. Brown, que gosta de ser chamado de Taylor — seu primeiro nome. Tenho consultas com ele toda semana, salvo feriados e tempos de festas de fim de ano.
Sobre meus amigos famosos — o único, na verdade —, eu ainda continuo a conversar com Louis até hoje. Inclusive, ele vai se casar, mas não com Eleanor. Eles terminaram dois anos depois de mim e de Harry. Louis Tomlinson agora está noivo de Emily, uma mulher comum nos termos de publicidade, mas extraordinariamente incrível. Somos muito amigas e eu os considero muito, muito mesmo. Quem diria, não é?
E, como você já deve estar imaginando, eu mencionei Louis pelo o fato de ele e Emily estarem organizando um fim de semana com os padrinhos em uma das casas de veraneio de Louis, na Itália. Para ser mais precisa, a cidade é Verona, a famosa cidade de Romeu e Julieta. Eu achei muito romântico da parte deles, se você quer saber.
Assim eu estava arrumando minhas malas para ir para o aeroporto com Tony, quando ele me disse que precisaria ficar esse fim de semana por conta do trabalho. Eu surtei. Surtei mesmo.
Mas surtei silenciosamente, disse para ele que não estava satisfeita com essa situação, que fazia tempos que ele e eu não passávamos um fim de semana juntos completo e romântico e que essa era a nossa chance. Ele pareceu ficar muito mal com isso, então disse que iria me compensar assim que eu voltasse. Eu aceitei a proposta e fui para a Itália, sozinha.
Depois do avião, eu fui para Verona de carro até a mansão de Tomlinson, onde fui recebida com muito amor e carinho pelo casal. Eles perguntaram sobre Anthony e eu expliquei a situação a eles. Louis lançou um olhar para mim que eu já sabia o que significava, mas eu o assegurei que Tony me amava de verdade, diferentemente de um cara que eu era apaixonada a minha adolescência inteira e que me traiu. Tony nunca faria isso, e eu tinha certeza disso.
Louis me mostrou o meu quarto, muito encantador por sinal, e arrumei minhas coisas, tomando um banho em seguida e colocando um vestido longo solto com estampas floridas, e sandálias. Teríamos um jantar às 18 horas com todos os padrinhos, para nos conhecermos, então fiquei pronta eram 17:45.
Resolvi descer e ficar na piscina tomando um sol, de roupa mesmo, fazia um tempo que eu não fazia vitamina D no meu corpo. Estava descendo as escadas, quando vi Louis conversar com um homem que não estava a vista em um primeiro momento. E aquele foi o momento que eu esperava que não acontecesse absolutamente nunca na minha vida.
Isso mesmo, quando Louis me lançou aquele olhar, eu soube com quem ele conversava e repassei mil vezes na minha cabeça a possibilidade de eu subir correndo as escadas e me trancar no quarto até o fim do fim de semana, mas não consegui e resolvi ser adulta o suficiente para encarar o que estava por vir.
Harry Styles, de blusa azul clara aberta até o terceiro botão da camisa, com uma calça branca e sapatos marrons, estava com seus óculos de sol pendendo de sua mão, enquanto olhava para um quadro e tagarelava com Louis a respeito de algo que eu não queria saber.
Louis olhou para mim e sustentou meu olhar, ficando em silêncio até Harry notar a minha presença — o que também não demorou muito. Precisou que Styles olhasse para mim duas vezes para se certificar de que eu estava realmente ali, no pé da escada, com uma das mãos apoiadas no corrimão. Eu senti minha garganta fechar e uma sensação não muito boa me atingir em cheio. E eu pude saber, com a força daquele contato visual, que Harry passava pelo mesmo que eu.
— Styles — eu disse apenas e ele continuou em silêncio, me observando. Parecia que ele estava tentando catalogar todos os meus detalhes, não de uma forma legal.
— ele conseguiu dizer, como se fosse difícil se lembrar do meu nome, que eu não duvidava nada de que ele tinha se esquecido. Patético.
— Bom, parece que tivemos o grande encontro, não é mesmo? — Louis disse e deu uma risadinha tentando quebrar o gelo e se aproximando de mim, colocando sua mão por sob minhas costas. — Eu estava pensando que já podíamos ir para o salão de jantar, o que acham?
— Claro — eu e Harry dissemos em uníssono. Nos observamos durante mais alguns segundos que pareciam uma eternidade e Louis soltou um “ótimo”, nos levando para o salão.
Chegamos lá e muitos dos amigos de Tomlinson e de Emily já estavam com taças na mão, beliscando alguns aperitivos. Louis me deixou com Ems e seguiu com Harry até um grupo de amigos próximo dali, que não passavam de conhecidos meus.
— Ah, meu Deus, você já teve um encontro esquisito com ele? — Emily disse, bebericando de sua taça. Eu soltei o ar de dentro de mim e disse que sim.
— Não foi um encontro esquisito, foi o encontro esquisito — eu disse e me virei de costas para onde eles estavam. Um garçom passou com uma bandeja cheia de bebidas e eu peguei uma taça de lá. Dei um gole e Emily olhou para mim.
, isso já foi há muito tempo, você não deve ficar regurgitando algo que já passou — Emily me aconselhou, mas eu suspirei, pois foi um trauma para mim o que ocorreu entre mim e Styles.
Foi tanto trauma, diário, que eu não suportava escutar o apelido “” depois de tudo e obriguei aqueles que me chamavam assim a passarem a me chamar de — exatamente como Ems fez ao falar para que eu seguisse em frente. Eu segui, sim, em frente, mas não necessariamente significava que eu deveria suportar a presença daquele homem.
— Eu só queria que Tony estivesse aqui... — eu soltei para minha amiga, que assentiu disfarçadamente.
— Eu sei, . Eu sei.
A noite foi agradável, na medida do possível. Eu fiquei totalmente longe do dito cujo. Louis e Emily disseram que amanhã, sábado, iríamos passar um dia no lago que era ali perto. Seria um dia cheio de brincadeiras para interagirmos uns com os outros. Eu sorri amigavelmente quando Louis disse que seriam feitas duplas, mas a verdade era que eu estava surtando por dentro, desejando imensamente que meu amigo não fosse louco o suficiente para me colocar com Styles — senão, a terceira guerra mundial aconteceria.
Então fui para meu quarto assim que todas as atividades obrigatórias terminaram, Emily queria que eu ficasse mais um tempo com eles, mas eu disse que estava cansada demais e que precisava dormir. Deitei-me na cama, mas fiquei sem dormir aquela noite.
Pensava muito que eu não queria que aquele turbilhão de sentimentos voltasse para mim, sendo ele bom ou ruim, em relação a Harry. Eu nem sei por que eu estava pensando nele, ele nem deveria ter se dado o trabalho de estar nos meus pensamentos — ele nem ao menos tentou consertar a merda que ele tinha feito quando namorávamos e continuou a me trair até o último segundo. Acho que era isso que me atormentava tanto: o fato de que ele nem sequer tentou. Ele só disse aquele maldito “tudo bem” e se foi, para sempre.
“Acordei” eram oito da manhã aos berros de Emily, que entrou no meu quarto avisando que em meia hora estávamos partindo para o lago. Escovei meus dentes, me troquei, colocando um biquini por baixo dos shorts e da regata, e fui para baixo de óculos de sol no rosto, com cara de poucos amigos.
Fomos andando mesmo até o lago, que era incrivelmente perto. A turma de pessoas ajudou Louis e Emily a montarem as atividades e eu fiquei sentada na beirada do lago, com os pés dentro da água, aproveitando a minha companhia própria. Assim que fui chamada para me juntar aos outros, me levantei, limpando a terra arenosa da minha roupa. Caminhei até aqueles adultos e escutei Tomlinson dizer todos os comandos para as brincadeiras que se seguiriam, enquanto eu olhava para o céu azul daquela manhã de sábado.
A parte das atividades foram totalmente irritantes, se você quer saber. Não pelas atividades mesmo, mas sim por ver aquele cara que destroçou meu coração ficar de gracinha com uma das madrinhas. Era óbvio que ele não se manteria em suas próprias calças, mas não precisava fazer isso toda vez que a minha dupla tinha que jogar contra a dupla dele. Era para nos concentrarmos nas brincadeiras e não uns nos outros — ou algo do tipo. Meu lado competitivo se ativou e eu consegui, junto a Ethan, minha dupla, ganhar no final das atividades. Não houve prêmio, apenas meu contentamento de ganhar de Styles. Voltamos para casa eram umas seis da tarde.
Subi os degraus e tomei um banho quente assim que entrei no banheiro da minha suíte. Fiquei ali deitada na banheira, tomando um copo de vinho e pensando na minha vida. Na verdade, eu estava pensando em Tony. Tinha falado com ele assim que as atividades tinham acabado e voltei para a mansão com ele no telefone. Conversamos um pouco sobre como estávamos, mas eu não mencionei que Harry estava lá — mesmo porque Tony não sabia dessa parte da minha vida. Eu só não mencionei que tive um “romance” — entre mil aspas — com um cantor pop quando eu era mais jovem. E tudo bem.
Desci para o jantar, que foi um evento totalmente sem restrições ou comandos, nem todos estavam, pois tinham jantado mais cedo e agora estavam assistindo a um jogo de futebol na sala de cinema. Eu fui até a cozinha, onde encontrei o jantar posto na mesa, preparada para qualquer um que quisesse comer. Peguei um prato, montando-o, e fui para a piscina com a minha taça de vinho. Sentei-me na beirada da própria piscina e comecei a comer, aproveitando, mais uma vez, a minha companhia. Até eu notar vozes se aproximando.
— Harry, pare com isso, você sabe que eu tenho cócegas... Harry! — E risadas. Parei de comer e olhei para o lado, dando de cara com Styles e sua dupla de mais cedo. Ele parou de andar e lançou aquele olhar esverdeado agora surpreso para mim.
.
— Styles — eu respondi e me preparei para me levantar. — Podem ficar à vontade, já estou de saída.
— Não, não precisa, eu tenho que subir mesmo, preciso ligar para minha irmã — a mulher disse, se desvencilhando de Harry, que a olhou como se pedisse socorro.
— Stacy...
— Até amanhã, Harry! — Ela cantarolou, já voltando para a casa. Eu voltei a me concentrar na minha refeição, tomando um gole de vinho.
Escutei Harry suspirar e depois de longos segundos, ele resolveu quebrar o silêncio.
— Então... — foi o que ele disse.
— Quer ficar sozinho? Eu posso tranquilamente comer no salão... — eu comecei, mas ele me impediu que continuasse.
— Não, imagina! — Harry respondeu e colocou as mãos nos bolsos dos shorts que ele usava, passando a se balançar. — Louis me disse que você está trabalhando como psicóloga.
— É para isso que eu me formei, não é? — Eu disse e ele ergueu as sobrancelhas.
— Ah, sim. Seguindo seu sonho — Harry disse, mas trabalhar em uma clínica que não era minha na Inglaterra não era exatamente o meu sonho. — E eu soube que você está noiva também...
— Harry, que tipo de conversa é essa? — Eu olhei para ele, que colocou toda a sua atenção em mim.
Styles deu de ombros.
— Não sei, eu só queria saber como você está...
— Ah, qual é. Não precisamos fingir que estamos de boa um com o outro, ok? — Eu dei alguns goles na taça de vinho, virando-a e terminando com o líquido de vez.
Harry ficou me olhando como se eu fosse um ET.
— Qual é, , você ainda guarda mágoas pelo o que aconteceu...? — Ele começou e eu balancei a cabeça negativamente, dizendo um “inacreditável” baixinho. Levantei-me e passei a caminhar para a cozinha com meu prato e meu copo. Harry foi atrás de mim. — É sério isso?
— Olha, Styles, eu fico muito contente em saber que você sumiu da minha vida...
— Você me pediu para sumir! Você não lembra? — Ele disse atrás enquanto eu entregava os utensílios que eu utilizei para jantar para o mordomo. Virei-me para ele e passei reto. — ! Tem como você ser menos infantil?
— Infantil? — Eu olhei para ele, que estava com os braços dobrados e as mãos apoiadas em punhos fechados na cintura. — Acho que fingir que eu não existo e fingir que nossa relação nunca existiu é pior, não acha?
— Do que você está falando?
— Harry, você nem apareceu no funeral do meu pai! — Eu disse baixo para que as pessoas não escutassem eu ralhar com Styles. Ele suavizou a expressão.
— Seu pai...?
Eu fiquei em silêncio e não entendi o porquê da surpresa. Eu avisei as pessoas e algumas delas, eu soube, contaram para ele. Pelo menos foi o que eu entendi.
De qualquer jeito, não importava. Ele desapareceu e se era isso o que eu disse na época, não era exatamente o que eu queria. Obviamente, não disse isso a ele, fiquei quieta até ele soltar um “Sinto muito”. Eu dobrei os braços na altura dos seios, olhando para longe, para a piscina, para fora, para qualquer outro ponto que não fosse os olhos dele.
— Escuta, eu sei que nada vai apagar o que eu fiz. Mas já somos adultos o suficiente para concordar que devemos seguir em frente e começar de novo. Digo, não vamos fingir que não aconteceu, porém vamos tentar uma amizade, pelo menos até o casamento de Louis e Emily. Vamos ter que nos ver bem mais do que você gostaria, então eu diria que essa é a nossa melhor opção.
Observei os olhos verdes dele, que estavam puxados para o mel aquela noite. Respirei fundo e assenti.
— Tudo bem — eu disse e uma sombra de sorriso apareceu em seu rosto.
— Ótimo.
Então, diário, voltei a falar com Harry, não como antigamente, lógico, mas como um tratado de paz que duraria até o casamento de Louis. E eu não podia esperar a hora de nunca mais vê-lo novamente.


XLV: Arma secreta

Querido diário,

Anthony compensou mesmo a falta que fez no fim de semana em Verona. Assim que cheguei no domingo, ele me buscou no aeroporto e montou uma surpresa na minha casa, com velas, pétalas de rosas e tudo o que um romance clichê poderia oferecer. Tony não morava comigo, mas tinha uma cópia da chave da minha residência, assim como eu tinha uma da dele. De qualquer jeito, a noite foi incrível e nunca tinha me sentido tão feliz como naquele dia.
Continuei nos meus casos na clínica, trabalhando, vivendo a minha vida normalmente. Tony continuou ausente, mas quando estava presente ele era mais que o noivo perfeito; ele era tudo. Então ficou tudo certo, por enquanto.
Emily e Louis queriam que eu provasse os doces e me convidaram e mais dois padrinhos que, depois descobri, não era nenhum Harry. Antes fomos provar o vestido de casamento, apenas eu e Ems. O grande evento estava se aproximando ainda mais, logo ela estaria casada e se tornaria a senhora Tomlinson — e ela não poderia estar mais feliz do que isso.
E devo confessar: Ems estava maravilhosa naquele vestido creme. Ela era uma mulher incrível e Louis, um cara de sorte. Fiquei tão feliz por ela que até uma lágrima escorreu do meu olho e acabei me imaginando em um vestido de noiva daqui alguns meses. Isso me assustou um pouco, mas dei um jeito de mandar esse pensamento para bem longe e voltei para o mundo real.
— Ah, aí estão vocês! — Emily disse, abrindo os braços e os envolveu em Stacy e Kimberly. Sim, isso mesmo, Stacy, a mulher que estava com Harry naquele sábado. Eu claramente não tenho nada contra ela, mas também não sou sua melhor amiga — eu mal a conheço.
Também nem haveria motivos para ter algo contra ela, a coitada só estava curtindo sua solteirice com Styles e não vejo nada de errado nisso. Mas ela poderia ter escolhido alguém de nível maior, na minha opinião.
— Olá, Emily? — Uma mulher de terninho apareceu com algumas páginas de papel na mão. — Estão todos aqui?
Emily abriu a boca para falar, mas uma voz lá de trás do saguão do buffet em que estávamos para provar os doces gritou:
— Desculpe o atraso!
Claro, era claro que tinha que ser ele.
Segurei a respiração por um segundo e a soltei devagar ao observar Styles arrumando o paletó com suas mãos cheias de anéis. Olhei para Emily, que também não estava entendendo nada.
— Onde está Louis? — Ela perguntou para Harry.
— Ah, ele não pôde vir, mas pediu que eu viesse em seu lugar — ele respondeu, olhando para mim.
— Tudo certo? Podemos? — A mulher de terninho disse.
— Hã, claro... Tudo certo. Podemos sim — Emily disse e Harry deu um sorrisinho, caminhando atrás da mulher com Stacy e Kimberly ao lado. Olhei para Ems e ela estava tão surpresa quanto eu. — Eu não sabia, eu juro que não sab...
— Tudo bem, tá tudo bem — eu disse e dei um sorriso encorajador para minha amiga, que assentiu e caminhou na direção que a mulher tinha levado os outros convidados para o salão que provaríamos a comida. Eu fiquei por alguns segundos respirando fundo e entrei no salão logo depois.
Os doces eram uma maravilha! Eu gostei de quase todos, apenas no final eu já não aguentava comer mais nada e tomava cada vez mais goles de água, passando o doce para a próxima pessoa provar. Harry se sentou de frente para mim, ao lado de Stacy e Emily, e Kimberly se sentou ao meu lado, com a mulher de terninho — que eu descobri que se chamava Olivia — na ponta da mesa.
— E por último, temos este de pistache — ela disse e garçons chegaram com o doce nas bandejas e o colocaram na frente de cada um.
Eu já estava verde de enjoada, mas comi um pedaço para experimentar e dar uma ajuda. Emily recusou e disse que confiava na nossa opinião sobre. Eu disse que estava ótimo, me segurando para não jogar todo o conteúdo do meu estômago nos sapatos de Olivia.
— Ótimo, então acho que é isso! — Emily disse satisfeita.
Fomos os cinco — infelizmente — no carro de Harry, com ele dirigindo enquanto conversávamos.
— Meu Deus, eu acho que nunca mais vou comer doce na minha vida! — Kimberly disse e Stacy riu, concordando.
— Apenas no casamento mais lindo do mundo com a noiva mais linda, é claro — Stacy disse, olhando para Emily pelo retrovisor. Ems foi no banco do passageiro ao lado de Styles e nós três fomos atrás, comigo no meio das duas.
Emily riu muito provavelmente envergonhada.
— Aham, e o que você está querendo de mim, Stacy?
— Nada, caramba — Stacy disse e todos rimos, inclusive ela própria.
A primeira a se despedir de nós foi Kimberly, depois foi a vez de Stacy. Eu estava sem horário naquela noite de sexta-feira, Emily disse que queria assistir a um filme no cinema, então Harry estava indo para lá para nos deixar.
— Oi, amor! — Emily disse ao atender o telefone. Eu fiquei observando a paisagem que passava pelas janelas do automóvel, nem prestando atenção na conversa dela com o noivo. — Ok, te vejo lá.
Ela desligou o celular e se virou para mim. Olhei para Emily, ela estava com uma expressão que eu já conhecia. Suspirei e olhei para a janela do carro mais uma vez antes de perguntar:
— Você vai sair com o Louis, não é?
— Desculpa, amiga, ele disse que não conseguiu vir na degustação, porque... — E eu parei de escutar, fiquei pensando que eu teria que ficar com Styles sozinha e estava começando a ficar irritada, mas ao mesmo tempo eu super entendia minha amiga, que queria um tempo com o noivo super atarefado dela. — Por favor, não fique chateada, eu prometo compensar depois!
— Está louca, Ems? É claro que eu não vou ficar chateada, pode ir ver seu noivo! — Lancei um sorriso para ela, que sorriu de volta.
— Harry, você pode me deixar na casa do Louis?
Assim que ela saiu do carro, Styles e eu ficamos em silêncio por longos minutos, ele dirigindo, eu olhando as árvores se mexendo ao passar do carro.
— Vamos ficar de uber, então?
Não entendi nada.
— O quê?
Harry riu.
— Eu digo, você não quer vir para frente? Vai ficar aí atrás mesmo?
— Hã... — eu ponderei, mas eu realmente não tinha uma boa desculpa para ficar atrás, então disse que iria para frente. Harry parou em um farol e eu só pulei para o banco do passageiro, chutando a cabeça dele sem a menor intenção. — Ah, meu Deus, me desculpa!
Ele deu uma risadinha e passou a massagear o local atingido com uma das mãos.
— Não se preocupe com isso.
— Vai formar um galo... — eu comecei, mas fui interrompida por Styles dizendo um “outch” quando eu toquei o novo machucado. — Ok, temos que colocar gelo.
, é sério, está tudo bem... — ele tentou responder, mas avistei uma sorveteria e falei para ele parar o carro perto de lá.
Tirei o cinto de segurança e abri a porta do carro, já indo em direção ao estabelecimento. Harry saiu do carro em seguida, dando passos largos para me acompanhar. Fui até o balcão e não vi ninguém ali para nos atender, por isso me debrucei por cima do mármore, olhando para dentro da cozinha.
. — Harry riu e eu o ignorei.
— Com licença? — Eu falei alto e uma mulher me olhou pela janelinha da porta da cozinha, vindo na minha direção.
— Sim?
— Vocês podem nos emprestar um saco de gelos? Meu amigo aqui precisa, ele sofreu uma leve contusão e...
— Ah, meu Deus, você é Harry Styles! — A mulher disse empolgada, me interrompendo. Harry olhou para mim antes de dizer um “culpado!”. — É claro que vamos dar um saco de gelos para ele, inclusive, escolham um sabor cada um de sorvete, é por conta da casa!
A mulher voltou correndo para a cozinha e eu olhei para Harry, ainda debruçada no balcão. Ele sorria para mim. Eu meneei a cabeça, endireitando a postura, mas ainda com um dos braços apoiados na bancada.
— Então o efeito Harry Styles ainda continua o mesmo nas mulheres — eu disse e ele me olhou com uma expressão esquisita, mas ainda sorrindo.
— É, meu charme sempre foi minha arma secreta — ele respondeu e eu lembrei de uma coisa que não deveria ter compartilhado com ele, mas o fiz mesmo assim:
— Pensei que era cantar — eu disse, me lembrando quando ele disse que cantar era sua habilidade secreta. Pensei “Meu Deus, , já faz tantos anos...”, porém os olhos de Harry brilharam.
— Essa é a minha habilidade secreta, não minha arma — ele enfatizou e eu ri de leve, olhando para longe dele, evitando aquele mar verde.
A mulher entregou o saco de gelo e em seguida escolhemos cada um sabor de sorvete. Ela montou para nós as nossas casquinhas e Styles e eu nos sentamos em uma mesa, ele, pressionando o saco no galo e na outra mão o sorvete, e eu, lambendo o meu, distraída.
— Está melhorando? — Perguntei quando ele colocou o saco de gelo em cima da mesa.
— Está sim. Não sinto nada demais, mas estou com um pouco de dor de cabeça. — Harry deu de ombros. Balancei a cabeça, não acreditando ainda que tive a proeza de chutar Styles na cabeça.
— Me desculpe por isso. — Eu apontei para seu galo e ele sorriu de lado, tomando seu sorvete de cor amarela.
— Ah, vamos, eu sei que foi prazeroso me chutar — ele disse e eu ri involuntariamente.
— Não...
— Qual é, ...
— Ok, talvez um pouco — eu admiti e ele riu.
Meu celular passou a tocar e quando eu o peguei, avistei a foto de Tony comigo na tela. Atendi quase no mesmo instante.
— Oi, amor. — Eu olhei para Harry antes de olhar para a mesa.
— Oi, querida, como você está? Tudo certo para hoje à noite?
Hoje à noite?, eu pensei, então lembrei que eu tinha combinado uma noite romântica com ele e coloquei a mão por sobre a boca, chocada que tinha esquecido.
— Ah, eu tive algumas complicações na degustação de doces, mas já estou indo para casa — eu disse um “droga” sem emitir som, olhei para Styles, que continuava a tomar seu sorvete.
Tony riu.
— Fique tranquila, eu já preparei o jantar. Estou te esperando, ok? Te amo.
Sorri ao ouvir isso e repeti que estava indo para casa naquele momento, respondendo o seu “te amo” com outro, e desligamos. Olhei para Styles, que pegou as chaves do bolso e as girou nos dedos.
— Harry, preciso ir... — eu disse mesmo assim. Ele entendeu na hora e nos levantamos das cadeiras. Harry jogou o resto de seu sorvete no lixo e fomos para o carro.
Na volta, ficamos escutando a radio tocar músicas dos anos cinquenta/sessenta, sem falarmos uma palavra. Assim que Harry parou o carro, eu olhei para o fim da minha rua, e por um segundo esqueci que eu tinha quase trinta e três anos e estava indo encontrar meu noivo na minha própria casa. A culpa disso era unicamente da música que tocava: Can’t take my eyes of you do Frank Valli. Meu pai amava essa música e ouvi-la naquele momento me deixou saudosa. Não me mexi por alguns segundos. Precisei que Harry me trouxesse de volta para a realidade, me chamando algumas vezes.
Olhei para ele, que devolvia o olhar com um leve sorriso no rosto.
— Meu pai, ele...
— Ele amava essa música, não era? — Harry disse e eu assenti. Suspirei e fiquei em silêncio, de olhos fechados, saboreando a música. — Me desculpe por não ter aparecido no enterro de seu pai, .
Abri os olhos e olhei para Harry. Ele parecia sincero, mas eu não cairia na possível jogada dele de tentar conquistar a minha confiança novamente. Ficamos nos encarando, até eu pigarrear e soltar o cinto.
— Boa noite, Styles — eu disse e saí do carro. Caminhei até a entrada do prédio e entrei, fechando a porta atrás de mim e me encostando nela.
Ok, eu poderia ter escrito que eu não cairia na jogada dele, mas a verdade era que aqueles olhos e aquelas covinhas sabiam como conquistar uma mulher. Não que eu estivesse sendo conquistada, mas eu diria que seria possível conquistar alguém só com aquelas características dele. Que merda, não é, diário?


XLVI: Incrível

Querido diário,

O grande dia de Emily e Louis estava se aproximando. O casamento seria no sábado que vem, então tínhamos tempo. O casal pediu uma semana para todos os padrinhos irem com eles para Verona, já que o casamento seria lá. Eu tive que avisar todos os pacientes que eu estaria longe uma semana, mas ainda bem que nenhum estava em estado de alerta, então para eles tudo bem eu ficar fora — apenas alguns precisavam que eu fizesse a consulta via videochamada e eu o faria sempre nas manhãs.
Já Tony, só viria no sábado de manhã, portanto, eu só o viria no fim de semana. Se eu estava chateada? Claro que estava, mas eu também entendia e por isso não falei nada.
Eu e Stacy acabamos por nos aproximar, ela era mais nova que eu uns seis anos, porém isso não a impedia em nada de ter assuntos muito parecidos e experiências quase idênticas às minhas. Sentamo-nos juntas no avião e ficamos fofocando sobre a vida.
Estava olhando uma revista do próprio avião, tínhamos ainda uma hora até chegar a Milão, quando senti Stacy me cutucar no ombro. Olhei para ela, perguntando o que se passava e ela apontou para Harry caminhando entre os bancos e depois se sentando em seu lugar.
— O que foi? — Eu perguntei e ela, ainda com o olhar distante, se virou para mim.
— Estou de olho nele — ela disse apenas.
— O quê? No Styles? — Eu perguntei um pouco alto demais, o que a fez dizer um “shhh” para mim. — Desculpe. No Styles?
Eu sussurrei e ela assentiu, sorrindo.
— Ele e eu temos conversado há um tempo já. Acho que vai rolar alguma coisa nessa semana — Stacy alegou esperançosa e animada. Eu senti uma pontadinha de leve, nada demais, acho que provavelmente em memória dos velhos tempos em que eu era caidinha por ele. “Uau, ou essa garota não sabe sobre mim e Harry, ou ela é muito sonsa, ou então ela só é muito má”, pensei. Sorri para ela e voltei a ler a minha revista.
Fiquei em um quarto diferente do que eu tinha ficado da última vez que eu fora para a mansão Tomlinson em Verona. Agora era um quarto de frente para a piscina e o campo imenso com quadras de tênis e futebol. Gostei bem mais dessa vista.
Assim que eu saí do quarto naquele domingo, após eu me instalar, descobri que o quarto de Stacy era em frente ao meu. Eu trombei com ela entrando no corredor, enquanto eu estava caminhando para longe do meu quarto. Ela disse que logo mais desceria, só precisava tomar um banho e eu sorri de volta, apenas indo embora. Eu estava nem um pouco ligando para o que ela queria fazer agora, então só me fui para as escadas e desci cada degrau viajando na memória de Tony e eu no nosso último fim de semana juntos.
O jantar foi tranquilo, os convidados estavam na mesa todos reunidos ao mesmo tempo e ficamos conversando sobre diversos temas, lembranças de Tomlinson e Emily quando crianças e até mesmo de nossas infâncias. Stacy chegou um pouco atrasada, como ela previra, e se sentou ao lado de Styles, enquanto eu estava do outro lado da mesa. Ele cochichou algo no ouvido dela e eu só beberiquei meu vinho, ainda pensando em Tony.
Quando o assunto de todos crianças chegou à mesa, senti o olhar de Harry sob mim na minha hora de falar. Contei um pouco sobre meu pai e sobre mim, sobre nossa vivência em Holmes Chapel e em como eu odiava aquele lugar.
— Ei, espere um pouco, Harry é de lá, não é, Harry? — Stacy disse, me interrompendo um momento.
Harry estava com o braço esticado atrás dela, em cima da sua cadeira, e batia com os dedos na taça de vinho dele. Ele olhou Stacy e sorriu de leve.
— Sim, eu sou de lá.
— Caramba, que coincidência! — Ela disse genuinamente animada e eu soube assim que ela não sabia sobre minha história com Styles. Ninguém se deu o trabalho de dizer também naquele instante, apenas troquei um olhar culpado com Harry e voltei a contar sobre mim.
No fim da noite, eu estava deitada em uma das espreguiçadeiras da piscina, olhando para o céu estrelado, enquanto todos estavam lá dentro conversando. Eu só queria um tempo para mim, diário, mas era óbvio, simplesmente óbvio, que alguém apareceria para atrapalhar meu momento.
E adivinha quem foi?
— Então você está aqui também — Harry disse e eu olhei para sua figura com aqueles shorts curtos e as mãos nos bolsos.
— Estou — eu respondi e ele perguntou se poderia se deitar na espreguiçadeira ao lado. Dei de ombros. — Faça o que você quiser, Styles.
Ele se deitou. Ficamos em silêncio, apenas observando as estrelas.
— Louis me disse que seu noivo, como ele chama mesmo?
— Anthony Jones — eu respondi.
— Ah, sim, Anthony Jones. Ele me disse que Anthony era psiquiatra. Quer dizer, é psiquiatra — Harry continuou.
— Pois é.
— E como ele é? — Harry perguntou. Suspirei.
— Tony é... — Tentei encontrar a palavra certa para descrevê-lo. — Incrível. Ele é totalmente incrível.
Harry ficou sem dizer uma palavra por alguns segundos.
— Que bom. Você merece alguém incrível — ele disse e eu o olhei de relance.
E ficamos ali, apenas apreciando o céu. Foi um momento interessante entre nós, eu diria. Eu fiquei pensando em como ele tinha dito que eu merecia alguém incrível quando terminamos e me perguntei se ele tinha se lembrado quando ele disse aquilo novamente.


XLVII: Ainda sou louco por você

Querido diário,

Segunda-feira foi um dia estranho para mim. Eu me senti estranha e posso dedicar esse fato a Styles. A maioria dos convidados passou o dia na piscina conversando, bebendo e se deliciando com a comida que serviam na mansão. Eu não fiz diferente e fiquei junto a todos, conversando com algumas pessoas que eu não estava acostumada a conversar.
Stacy desceu “atrasada” como estava acostumada a fazer e apareceu toda arrumada, com um biquini incrível e com os cabelos perfeitamente ondulados. Ela estava linda, com certeza, e Harry ficou conversando com ela o dia inteiro. Foi essa a sensação esquisita, como se eu estivesse assistindo a algo que eu já passei e não queria passar de novo... Pelo menos era o que eu acreditava naquele momento.
Eu estava tomando sol e escutando a música que tocava nos alto-falantes, com Stacy ao meu lado, conversando, quando escutei Harry se sentar ao lado dela na própria espreguiçadeira. Uma conversa irritante se iniciou e eu não aguentei tanto tempo escutando aquela baboseira toda de flerte, por isso, me levantei e ao som de She Will Be Loved do Maroon 5 e mergulhei na piscina, me distanciando deles.
Fiquei alguns segundos embaixo d’água, pensando um pouco em como eu sentia falta de me sentir viva do jeito que um amor poderia proporcionar e em como Tony fazia falta. Então voltei à superfície, respirando novamente, e passei as mãos por meus cabelos, os jogando para trás. Assim que abri os olhos, encontrei com os de Styles, que me olhava enquanto Stacy o abraçava e o beijava no rosto. Sustentei seu olhar por alguns segundos, arqueando uma das sobrancelhas em tom de desafio. Ele então sorriu e se virou para Stacy, dando-lhe um beijo na boca. Fiquei em choque por alguns segundos, mas lembrei-me de como Harry gostava de fazer ciúmes nas pessoas e pensei que era só mais um jogo dele.
Saí da piscina depois de uma meia hora. Sentia a minha pele enrugada, o que estava me incomodando um pouco, e me enxuguei com a toalha jogada na minha espreguiçadeira. Fui até a mesa com alguns dos padrinhos e comi um pouco, conversando com alguns deles. Louis apareceu com Emily enroscada em seu pescoço e os dois se sentaram conosco.
Louis contou sobre uma vez em que a banda deles — de Harry e Louis — estava em um hotel na California e destruíram o quarto em que estavam. Foi uma história engraçada, mas eu não queria saber mais de Harry naquele dia, não mesmo.
Emily notou que eu estava estranha e me chamou para caminhar pelos campos da mansão. Virei um martini e fui com ela, esperando que ela não perguntasse sobre Styles. Mas foi exatamente o que ela fez.
— Eu vi que Stacy e Harry...
— Eu não ligo, Emily — eu disse, a interrompendo. Ems suspirou.
— Qual, é, . Eu sei que deve estar sendo difícil vê-lo com outra mulher, mais jovem que você, depois de tudo o que ele te fez. — Emily jogou na lata e eu parei de andar, a fitando.
— Emily. Você sabe que eu já superei isso há muito tempo. Estou feliz com Tony e não quero nunca mais me envolver com Styles, nem que seja para sermos apenas amigos.
— Eu não disse que você quer se envolver com Harry, , eu só disse que...
— Será que podemos mudar de assunto, por favor? — Eu falei e ela parou de falar sobre no mesmo instante.
Voltamos para a casa depois de uma hora e já estava anoitecendo. Subi para tomar banho e entrei no meu quarto, tirando o biquíni e entrando na banheira já com a água e os sais de banho. Fiquei um bom tempo ali relaxando até sentir que estava novamente enrugada e saí, me arrumando para o jantar. O problema foi sair do quarto quando Harry e Stacy estavam entrando no dela. Os dois estavam se beijando e ela estava tentando abrir a maçaneta, dando risadinhas. Eu pigarreei e eles pararam na hora, me encarando.
— Ah, oi, , desculpa. — Stacy riu e eu sorri amarelo para ela. Harry sorria calmamente, de uma maneira tão tranquila que eu acharia que ele estava mesmo surtando por dentro. Pelo menos eu estava.
— Podem continuar, eu já estou de saída — eu disse e fechei a porta atrás de mim, caminhando para a escada.
Aquela noite foi insuportável pelos sons que saíam do quarto de Stacy. Eu tentei dormir com várias almofadas sobre a cabeça, mas não estava resolvendo. Então desci e dormi na sala de cinema, só depois pensando em como eu poderia ter perguntado a Louis se eu poderia mudar de quarto. Enfim, foi terrível.
Mas terça-feira tudo mudou. E de um jeito inesperado.
O dia seguinte foi um dia de festa, todos bebemos em peso e ficamos totalmente fora de linha, em outro planeta. Acho que isso explica o que aconteceu com Styles. Vou explicar melhor o que ocorreu:
Durante o momento fogueira entre os padrinhos e o casal, tivemos um luau, em que alguns dos cantores presentes escolheram uma música para agraciar Louis e Emily. Quando chegou a vez de Styles, ele pegou o violão e alguns fizeram piadinhas de como ele não sabia tocar nada, mas, passado isso, Harry pigarreou e olhou para o instrumento em suas mãos. Seus anéis brilhavam ao passo que a fogueira queimava e senti que o coração de Stacy também.
Styles começou a dedilhar as cordas e eu logo reconheci a música.
You're just too good to be true, can't take my eyes off of you — ele começou e então subiu o olhar até a plateia. — You'd be like heaven to touch, I wanna hold you so much. At long last, love has arrived and I thank God I'm alive. You're just too good to be true, can't take my eyes off of you.
Ele continuou a cantar e até fechou os olhos por um instante, sentindo a música e franzindo o cenho. Quando chegou perto do refrão, ele abriu seus olhos e, de cara, me fitou.
I love you, baby, and if it's quite alright, I need you, baby, to warm the lonely night. I love you, baby, trust in me when I say. — Ele sorriu de lado. — Oh, pretty baby, don't bring me down, I pray, oh, pretty baby. Now that I've found you, stay and let me love you, baby, let me love you.
Assim que parou de tocar, o pessoal bateu palmas, ele sorriu levemente, olhando para todos, mas seu olhar pousou no meu. Sentia meu coração na garganta. Ele sabia o que essa música significava para mim. Ele sabia e escolheu tocar por esse motivo.
Fiquei pensando enquanto o pessoal o elogiava em como eu estava sendo feita de boba. Todos os esses momentos em que ele estava com Stacy, na verdade, não eram por estar com ela, mas para me provocar, eu sentia isso. Não sei se eu estava exagerando, mas quando ele cantou aquela música, eu tinha quase certeza de que ele estava fazendo isso por um motivo maior que não aproveitar a companhia da mulher mais nova. E esse motivo era simples e puramente me provocar.
Fiquei possessa, me senti péssima, queria vomitar e gritar ao mesmo tempo. Estava me sentindo exatamente como eu me senti quando descobri que ele me traiu e traía, e não aguentei. Me levantei e andei até a casa, o barulho das pessoas conversando se tornando cada vez mais raro e a quietude da mansão se aproximando.
Entrei e fui até as escadas, já sentindo as lágrimas rolarem por minhas bochechas, o soluço tropeçar na minha garganta e o aperto me incomodar. Apoiei a mão no corrimão e me inclinei para frente, querendo tirar de mim aquela sensação horrível de que eu estava sozinha naquele mundo.
... — Não me virei, deixei que ele falasse sozinho.
Styles continuou a me chamar, mas eu continuei a ignorá-lo.
! — Ele disse finalmente, colocando a mão por sobre meu ombro. Virei-me bruscamente e empurrei sua mão para longe. Engoli o choro e limpei as lágrimas, passando minhas mãos no rosto. Harry me encarava, uma expressão que eu não estava conseguindo identificar. Ficamos em silêncio até eu o quebrar de vez.
— Por que você está fazendo isso? — Eu perguntei e ele ergueu a sobrancelha.
— Isso?
— Não se faça de tonto, Styles. Eu sei o que você está fazendo.
Ele hesitou, mas deu um passo à frente.
— O que eu estou fazendo? — Ele perguntou com aquela voz grossa o mais baixo o possível.
— Isso! Você está nessas tentativas inúteis de me fazer querer ficar com você, de me fazer de gato e sapato do jeito que você fazia quando estávamos juntos... Você está tão desesperado — eu disse a palavra com raiva — que está usando uma garota totalmente inocente para me causar ciúmes e me fazer correr até você. Você tenta ser legal, você canta até a música que mais me faz ficar emotiva no mundo todo, tudo para fazer com que eu diga o quanto eu te quero. Mas, escute bem, eu não vou fazer isso!
Harry me escutava e respirou fundo quando eu terminei. Dei um balanço de cabeça negativo e engoli a seco.
— Se você me queria tanto, era só você ter ido atrás de mim, algo que você nunca fez, Styles. Eu só queria que você tivesse ido atrás — eu cuspi as palavras, ele ainda me fitando. Passei a mão por meus cabelos, exasperada.
Harry, após alguns minutos, se aproximou e ficou a alguns centímetros de mim. Eu estava o ignorando, pensando em como eu fui boba por ter dito isso tudo e ter admitido que eu queria que ele tivesse ao menos tentado. Ele segurou delicadamente meus pulsos que estavam cobrindo meu rosto e os tirou da minha frente. Fiquei o encarando, procurando qualquer sinal de que eu estava certa, mas ele estava enigmático. Então perguntei:
— Por quê?
Ele, após alguns segundos trocando olhares comigo, desviou seu olhar para a minha boca e voltou para meus olhos novamente.
— Porque eu sinto falta da sua voz, do seu toque, do seu carinho. Porque eu percebi o quanto você me fazia falta. — Harry, enfim, segurou meu rosto. — Porque eu ainda sou louco por você.
Olhei no fundo de seus olhos verdes e senti meu coração galopar. Senti a boca do estômago dançar, senti minha pele suar e não queria que ele soubesse o quanto eu estava brava comigo mesma. Brava por saber que eu possivelmente ainda sentia algo por aquele cretino.
Porém, eu não me deixei levar. Desvencilhei-me de seu toque e subi as escadas correndo. Entrei no meu quarto e tranquei a porta, caindo no choro. Cambaleei em direção da minha cama e deitei-me entre os lençóis, abraçando o travesseiro macio e chorando cada vez mais. Foi assim que a minha semana mudou drasticamente, diário.


XLVIII: Brincando com fogo

Querido diário,

Quarta-feira foi um dia morto. Eu acordei depois do ocorrido do dia anterior com o rosto inchado e peguei um pouco de gelo do frigobar, pousando o saco sob meus olhos.
Fiquei no quarto o dia todo, até Emily aparecer e dizer que eu tinha que descer para comer. Eu me desculpei com ela por estar vivenciando esse drama e possivelmente a deixando estressada na semana do casamento dela com Louis. Ems disse que eu estava sendo boba por me desculpar e que estaria ali para sempre por mim. Sorri quando escutei essas palavras e decidi que desceria para comer só quando não tivesse mais ninguém na cozinha.
Assim que notei que já era tarde da noite, fui comer. Encontrei apenas os funcionários que estavam já limpando a cozinha e se preparando para irem embora, então corri para pegar o jantar e o comer na saleta que tinha acoplada ao cômodo onde eles estavam.
Sentei-me na cadeira e coloquei o prato em cima da mesa. Comecei a comer e a pensar na terça-feira, algo que eu tinha evitado o dia inteiro. Pensei em como Stacy deveria estar se enganando e sendo enganada de maneira injusta, e em como Styles conseguia ser um babaca. Como eu não notara isso lá no início de tudo?
— Oi. Posso me sentar? — Olhei para a dona da voz.
Fiz que sim e Stacy se sentou ao meu lado na mesa. Ela respirou fundo e apoiou o queixo em uma das mãos.
— Olha... — ela começou, mas parou. Eu engoli a comida e devolvi o olhar.
— Stacy...
— Não, me escuta, . Eu soube da sua história com Styles e fiquei impressionada com a canalhice desse cara. Me desculpe por não ter notado que tinha algo de errado antes...
— Stacy, pelo amor de Deus, você não tem culpa de nada, não se desculpe! — Eu a interrompi.
, eu entendo que você quer tentar amenizar o que eu estou sentindo agora, mas saiba que Harry não é tão ruim assim...
— Não, você não o conhece. Ele consegue, sim, ser horrível. Ele é insuportável, manipulador, totalmente...
Pereira. Pare de falar e me deixe continuar, por favor! — Stacy disse, com um sorriso brincalhão nos lábios. Eu assenti. — Talvez você me odeie pelo o que eu vou te dizer agora, mas vou te dizer mesmo assim. Muito bem: Harry tinha me contado ontem de manhã que estava se aproveitando da situação entre mim e ele para te fazer ciúmes. Não que ele não tenha gostado de ficar comigo, não é isso, ele deixou claro que estava curtindo. Porém, ele tinha entendido que ainda gostava de você e percebeu isso na noite em que ficamos juntos. E eu disse que, apesar de ele ser um babaca, eu o ajudaria a te dizer o quanto ele ainda está apaixonado por você. Eu entendo — ela disse antes mesmo que eu pudesse dizer algo — que você deve estar o odiando nesse momento, porém, eu acredito que não é só ele que está apaixonado aqui.
Eu fiz uma careta brava que a fez dar uma risadinha, me irritando.
— Stacy, eu não sei de onde você tirou isso...
— Ah, fala sério, , todo mundo sabe disso. Eu até achei no começo que vocês eram um casal, naquele primeiro fim de semana que viemos para cá. Eu observei os olhares que vocês trocavam, mas Harry tinha me garantido que estava solteiro e que você estava noiva. Pelo visto, nada disso impediu que vocês ainda sentissem o que sentem. — Ela se inclinou um pouco sobre a mesa. — Não estou te dizendo para largar o seu noivo, nem nada do tipo, mas, sim, que você ao menos tente parar de fingir que não sente nada.
Eu fiquei a encarando, buscando um sinal de mentira em sua fala.
— Harry que te mandou aqui?
— O quê? E agora eu tenho cara de mensageira? — Stacy disse e riu em seguida. — Lógico que não.
Ela esticou a mão e encostou na minha, a segurando por um instante, antes de se levantar e dizer “pense sobre o que eu te disse, ok?”. Virei a noite pensando, se você quer saber.
Deitei-me com esses pensamentos duros sobre mim mesma, me culpando por ainda sentir algo por Harry Styles depois de tudo. Virei de um lado, e depois de outro, até ficar observando pela janela da varanda do meu quarto o céu estrelado. Então pensei em meu pai, desejei que ele estivesse ali comigo.
O que ele diria para eu fazer naquela situação? Ele provavelmente diria para eu ficar longe de Styles, ele sempre quisera isso. Ele até disse uma vez, lá no começo, que Harry não era “flor que se cheire”. Ele ficou muito bravo e quis ir atrás de Styles quando soube o que ele tinha feito, mas, depois que se acalmou, disse que eu deveria escolher entre duas opções: ou eu o esquecia e seguia em frente, ou eu esquecia o que ele tinha feito e voltava com Harry. Isso ficou na minha cabeça por um tempo, e você sabe qual opção eu escolhi. Mas agora...
Perdoar Harry Styles. Eu seria capaz disso?
Alguém bateu na minha porta às três e meia da manhã. Eu não quis responder, mas a pessoa foi insistente, portanto, eu me levantei da cama e caminhei até ela, ainda aflita. Quando a abri, dei de cara com Harry totalmente exasperado, com uma das mãos apoiadas no batente da porta e com a respiração desregular.
Ele respirou fundo e se desencostou do batente, gesticulando com a mão enquanto falava.
— Eu sei que posso ser manipulador, um incrível babaca e todos os piores adjetivos do mundo. Mas você disse que eu não fui atrás de você. E se tem uma coisa que eu me arrependo é de não ter ido atrás. Eu te deixei escapar uma vez, Pereira, e eu não me perdoaria se eu te deixasse escapar mais uma vez sem ao menos tentar te fazer ficar.
Eu o deixei terminar de falar e ficamos em um silêncio perturbador, como se estivéssemos brincando com fogo e nos queimando. Ele estava se balançando, depositando o peso de seu corpo uma hora em uma perna, outra na outra.
— Você não vai dizer nada? — Ele perguntou.
— Harry...
.
Eu provavelmente me arrependeria do que eu fiz em seguida, mas eu também não deixaria que Styles fosse embora para sempre. Não sem eu tentar. Não de novo.
Aproximei-me dele, ao passo que ele também se aproximou de mim, e minhas mãos, sem ao menos eu notar, foram parar em seus cabelos, enquanto as dele foram parar nas minhas costas, alisando o tecido da minha camisola. Olhei para o céu estrelado esverdeado de seus olhos e para seu cabelo, para então sua boca e notei que ele já olhava para a minha há muito tempo. E grudei nossos lábios, em um ato desesperador e misericordioso. Sei que não devia ter feito isso, mas... Eu fiz.
Eu estava realmente brincando com fogo.


XLIX: Quarto diário

Eu terminei de ler essa última parte em choque. O sol estava nascendo, eu não tinha dormido nada e acho que nem conseguiria dormir por enquanto.
Peguei minhas coisas, dei um beijo no topo da cabeça de Diego e fui embora silenciosamente. Coloquei o capuz de volta e caminhei com as mãos nos bolsos, me lembrando que eu não tinha avisado minha mãe onde eu estava.
Busquei o celular na bolsa e vi várias mensagens de Sofia por cima. Ignorei todas e vi as mensagens de minha mãe, perguntando onde que eu estava. Algumas ligações perdidas das duas, mas eu só falaria com uma delas.
Liguei então para minha mãe, avisando que eu estava voltando para casa. Ela soava muito irritada comigo e eu disse que tentaria não me esquecer de avisar onde eu estava. Depois que eu disse isso ela se acalmou um pouco e, assim, desligamos.
Cheguei em casa quando já eram seis da manhã. Minha mãe me esperava no sofá da sala, meio dormindo. Dei um beijo nela e um abraço e expliquei a situação que eu tinha passado ontem. Mamãe disse que eu deveria conversar com Sofia e entender o que tinha acontecido. Eu disse que eu estava muito estressada e que eu esperaria até o momento certo para conversar com ela, enquanto isso eu terminaria o quarto diário. Mamãe lançou um olhar que eu não consegui identificar o teor, e disse:
— Você está no quarto diário? — E eu respondi que sim. Ela assentiu e se levantou do sofá, pegando a coberta e indo em direção ao quarto. — Vou dormir mais um pouco, o que você precisar, por favor, venha falar comigo.
Tomei um banho depois disso e me deitei no sofá com o tronco apoiado em uma das beiradas do móvel, abrindo o quarto caderno e segurando a respiração por alguns segundos ao ler o começo. Entendi agora do porquê minha mãe ter medo da minha reação a esse diário.


L: Aproveitar o momento

Querido diário,

Acordei naquela quinta-feira, atordoada, e dei de cara com a cômoda ao lado da cama. Fui percebendo cada detalhe que me cercava, os lençóis por cima do meu corpo, o travesseiro quente e o meu celular ligando a tela toda vez que alguém me mandava mensagem. Foi a vez de eu perceber um braço por cima da minha cintura e uma mão grande e masculina pendendo em cima de mim. Notei a respiração calma e quente no meu pescoço e lembrei-me do dia anterior.
Harry. Era ele quem me abraçava.
Engoli a seco e virei o rosto para enxergar sua feição, muito tranquila, aliás. Ele dormia feito um bebê, ainda de roupa. E como ele era bonito, mesmo no auge de seus trinta, quase quarenta anos. Styles então abriu os olhos demoradamente e os fechou novamente, dando um sorriso sincero.
— Bom dia — sua voz saiu mais rouca que o normal, o que me fez arrepiar inteira. Não fizemos nada ontem à noite, além de nos beijarmos feito adolescentes e dormirmos abraçados. Acho que a necessidade de demonstrar o quanto Harry não estava ali só por diversão se sobressaiu. E isso me assustou por um instante, mas fiz questão de mandar esses pensamentos para bem longe. Eu não queria pensar, não por enquanto.
— Bom dia, Styles — eu respondi e Harry riu, abrindo os olhos e se arrumando no travesseiro.
— Eu amo quando você me chama pelo sobrenome. Eu faria isso com você, se seu sobrenome não fosse tão difícil de se pronunciar...
— Ei, ele é difícil para você, mas para nós, latinos, é fácil, fácil — eu disse, me deitando por cima da minha mão. Harry sorria e eu devolvi o olhar sereno que ele me lançava.
Trocamos olhares por muito tempo, ele então ergueu sua mão e retirou uma mecha de cabelo da frente do meu rosto, a colocando atrás da minha orelha. Sua mão escorregou para meu braço e passou a fazer um carinho gostoso na região. Até fechei os olhos para aproveitar mais, porém logo ele parou com aquilo. Abri os olhos e o encarei.
— O que foi? — Eu perguntei.
— Eu te quero, . E te quero inteiramente para mim — Harry disse de uma maneira muito responsável. Mas eu não queria pensar nisso agora.
— Shhhh. Vamos só... Aproveitar o momento — eu respondi e Harry riu, dizendo um “”, mas eu o calei, dando um beijo na sua boca. Passei a língua quente por seus lábios, pedindo uma passagem que ele logo cedeu e, assim, o senti devolver o carinho que eu queria dar.
Harry pousou sua mão por sobre meus cabelos e deu leves puxões neles toda vez que eu arranhava sua nuca com as minhas unhas. Ele e eu ficamos trocando carícias, nos beijando, até quando o clima esquentou e ele foi parar em cima de mim.
Styles já me beijava com voracidade, nossas línguas explorando a boca um do outro, e senti suas mãos irem de encontro com meus pulsos, os pegando e os colocando ao lado da minha cabeça. Ele me prendeu ali e eu projetei meu quadril contra o dele, que respondeu da mesma maneira. Suas mãos subiram até as minhas e entrelaçamos nossos dedos, sentindo o coração pulsar cada vez mais forte contra o peito.
Bobagem, diário, mas eu estava me sentindo como uma colegial. Do jeito que ele me deixava quando eu era mais nova, totalmente louca e louca por ele.
Ele puxou minha camisola até minha cintura e passava as unhas por toda a extensão do meu tronco, do topo da barriga até a barra da minha calcinha. Eu dobrei uma das pernas em volta de seu quadril, o trazendo para mais perto ainda, e o forçando a roçar sua intimidade na minha. Harry soltou um suspiro entre o beijo e eu sorri, puxando os seus cabelos. O que eu estava fazendo? Não, não, não, eu não iria pensar nisso naquela hora.
Assim que ele tirou toda a sua roupa e a minha camisola, nos deixando apenas a uma peça íntima um do outro, eu o virei na cama, ficando por cima. Então ele grunhiu quando eu passei a rebolar em cima dele e Styles, com um puxão, tirou minha calcinha até meus pés, em que eu a chutei para longe na própria cama. Ele me virou novamente na cama e dessa vez eu não consegui escapar: Harry desceu seus dedos até lá embaixo e só parou quando eu me desfiz pela primeira vez, soltando um longo suspiro. Foi a vez de ele sorrir entre as carícias e, de uma vez, ele entrou em mim, me fazendo arfar.
Seus movimentos ritmados eram perfeitos e na medida certa. Nos movimentávamos juntos há um certo tempo, e quando eu cheguei ao ápice pela segunda vez, eu soube que ele chegara também.
Styles e eu ficamos deitados, ainda processando o que acabara de acontecer. Eu olhava para o teto, com suor por todo meu corpo e ele, do mesmo jeito, nossas respirações se misturando.
Concordamos que, por enquanto, ninguém deveria saber sobre nosso encontro. Eu ainda era noiva de Tony, e, mesmo eu ignorando esse fato por algumas horas, não deixava de lhe dever fidelidade. Entretanto, continuei com o que Harry e eu começamos na mesma noite e na manhã seguinte, durante os momentos propícios em que podíamos nos entregar um ao outro.
Sexta-feira chegara e, com ela, o ensaio do jantar de noivado. Eu tinha colocado um vestido curto verde escuro e sandálias, me maquiado e arrumado o cabelo para a noite. Encontrei no corredor com Stacy, que concordou em fingir que estava com Harry para ninguém levantar suspeitas sobre nós dois, e fomos juntas para o salão principal da mansão.
Chegamos e a festa já rolava. As bebidas e as comidas eram da mais altíssima qualidade e a música estava também muito incrível. Eu estava conversando com Stacy e Emily sobre como o jantar estava muito bom. Harry se aproximou com Louis e eles se agregaram à conversa.
Louis disse que iria ao banheiro e Emily e Stacy foram convocadas para uma conversa com Kimberly, nos deixando à sós, eu e Styles. Tomei um gole da minha bebida e observei os convidados, Harry me imitando.
— Louis descobriu tudo — Harry disse e sorriu para um dos padrinhos, que acenou para ele. Engasguei-me discretamente e olhei para Styles rapidamente, voltando a observar a todos.
— Como é?
— Ele veio me dizer que sabe sobre mim e sobre você. Disse isso antes da festa. E eu tentei negar, mas ele foi muito incisivo, do jeito que Louis é, você sabe. — Harry se virou para mim. — Como você está?
— Ah... — eu disse apenas. — Mais alguém sabe?
Styles fez que não.
— Eu o fiz prometer que não contaria a ninguém, muito menos a Emily.
Eu assenti.
— Ótimo. Eu não sei se... — comecei, mas fui cortada pela voz de Louis, que disse bem alto próximo dali um “Tony, que bom que você veio!”.
Fiquei completamente paralisada e olhei para meu noivo de terno, que estava conversando com Tomlinson. Engoli o desespero e sorri para ele quando se virou para mim.
— Tony! — Eu disse animada e andei rapidamente até ele, deixando Harry sozinho. Abracei-o e o beijei, me desvencilhando dele em seguida. — Amor, você veio antes! Que surpresa!
Não disse uma surpresa boa, no entanto.
— Sim, eu quis te fazer essa surpresa! Como você está? Sentiu minha falta, ? — Ele perguntou, abraçando minha cintura e eu sorri para ele, o abraçando de volta. Olhei para Styles, que virava seu copo, e umedeci os lábios, nervosa.
Não preciso dizer que o restante da noite eu fiquei longe de Harry e ao lado de Anthony, não é mesmo? Agora estou escrevendo em você, diário, sentada na mesa do café da manhã do meu quarto, enquanto Tony dorme na nossa cama. E estou tentando não surtar de vez.


LI: Casamento

Querido diário,

Chegou o grande dia. Hoje, Louis e Emily se casam. E eu disse que não surtaria de vez, mas acho que não foi exatamente o que aconteceu.
Durante o dia de sábado, fiquei presa com Tony, sem poder transparecer o quanto eu não queria estar ali com ele, e, sim, ao lado de Harry. Me senti o próprio Adam no clipe She Will Be Loved do Maroon 5 — olha só essa música aparecendo aqui novamente.
Ficamos juntos o sábado inteiro, até o momento em que eu fui me arrumar com a noiva e as madrinhas. Tony não era padrinho, mas ele tinha sido convidado para passar aquele tempo com eles, ao lado de Louis e Styles. Eu nem queria saber o que poderia ter acontecido durante, muito menos como Harry conseguiu se manter completamente pleno diante de Anthony.
— Eu nem acredito que estamos te casando, Ems! — Kimberly disse e deu risada, enquanto terminavam de maquiá-la. Emily sorriu de olhos fechados, pois a maquiadora estava passando sombra sobre suas pálpebras.
— E logo mais será a vez de — Emily respondeu e eu dei uma risada sem graça. — Quem sabe um dia não chega a vez de Stacy?
— Eu não! — Stacy disse e rimos. — Deus me livre me casar.
— Ah, qual é, Stacy. Aposto que se fosse com Harry você adoraria... — Kimberly disse e Stacy riu histericamente. Eu só sorri para as duas, fingindo que estava tudo bem e que eu não tinha nada para esconder em relação a Styles. Mas Emily não deixa passar nada, nem mesmo quando não está de olhos abertos.
Ela, depois de as madrinhas tirarem fotos com a noiva, todas prontas, disse que queria que eu a ajudasse a ir ao banheiro. Eu, ingenuamente, aceitei, achando que ela não tocaria no assunto proibido. Porém, foi exatamente o que ela fez.
Eu estava segurando sua saia, encostada na parede, quando ela soltou a bomba.
— Quando você ia me contar que estava com Harry novamente? — Ela disse e eu esbugalhei meus olhos, mas, mesmo tremendo o sorriso, me fiz de sonsa.
— Do que você está falando? — Perguntei, mas Stacy me olhava seriamente.
. Nem venha tentar me enganar como você já estava fazendo.
Mantive-me olhando em seus olhos e suspirei.
— Como você soube?
!
— Emily! — Eu respondi e ela balançou a cabeça negativamente.
— Eu não acredito que não contou para a sua melhor amiga que — ela passou a sussurrar — você está com Styles! Que tipo de pessoa você é?
— Olha, você definitivamente não está me ajudando — eu disse e ela respirou fundo.
. — Ela ficou em silêncio por alguns segundos. — Tudo bem, eu entendo você não me contar, mas eu não entendo você fazer isso.
— Isso...?
— Trair Tony da mesma maneira que Harry a traiu — ela disse séria.
Fiquei a fitando, imaginando a reação de Tony se ele soubesse o que eu estava fazendo e me senti péssima. Provavelmente seria a mesma reação que eu tivera com Styles quando eu descobri a verdade, anos atrás. Senti a boca secar e a minha respiração começar a ficar desregular.
— Eu pretendia contar ontem... — eu comecei.
— Bom, mas você não disse — ela ralhou comigo e eu me senti cada vez pior. Eu já estava flutuando, quando ela notou o meu estado ansioso e me ajudou a respirar novamente. — Escute, eu entendo que você está confusa. Mas mentir para alguém que se importa tanto com você não é certo, .
— Eu sei, eu sei.
Ela me olhava com piedade e sorriu para mim, segurando a minha mão.
— Me desculpa por trazer à tona essa questão, mas eu me importo com você, , e não quero te ver mal, ok? — Emily concluiu e bateram na porta, perguntando se estava tudo bem. — Já estamos saindo!
Eu sei que a noiva chega atrasada, mas as madrinhas não! Vamos, , estamos na hora da morte! — A voz de Kimberly surgiu do outro lado da porta.
Quando eu caminhei pelo corredor aberto entre os convidados, que aguardavam a noiva, tentei me manter inteira. Mas eu estava despedaçada por dentro e só fui perceber tarde demais.
Olhei para todos os presentes ali e encontrei o sorriso de Tony. Sorri de volta, então me posicionei no meu lugar. Logo foi a vez de Emily caminhar e ela estava linda. Olhei para Louis e seus olhos brilhavam como nunca. Involuntariamente, olhei para Styles, que devolveu o olhar e voltei a me sentir péssima.
Mas nada se compara quando chegou a dança do casal, após a cerimônia. Meu Deus, diário, eu já estava fingindo que estava bem há tempos, mas quando Tony me chamou para dançar após Louis e Emily liberarem a pista de dança, eu tentei continuar fingindo.
Era uma música agradável que tocava, mas eu não estava mais ali. Estava pensando em Harry e em Anthony ao mesmo tempo. E nem notei a música acabar e ninguém menos que Ed Sheeran entrar no palco.
— Essa música eu dedico ao mais novo casal! Louis e Emily, amo vocês! — Ed disse e começou a tocar acompanhado da banda a música Give Me Love..
— Com licença.
Olhamos eu e Tony na direção do dono da voz e Styles sorria de leve.
— Posso dançar com você? — Ele perguntou na maior cara de pau e Anthony disse que iria ao banheiro, pois estava precisando. Então Harry tomou o lugar de Tony.
Primeiro ele segurou a minha mão e depois repousou a sua outra mão na minha cintura. Ele passou a conduzir a dança ao ritmo da música e eu estava sentindo um arrepio percorrer meu corpo quando ele se aproximou e senti sua respiração quente bater contra minha orelha.
Fechei os olhos e o deixei me conduzir pelo salão. Então comecei a ter lembranças de quando eu era uma garotinha e vi Harry pela primeira vez, depois na televisão, e decidi que não iria mais me importar com ele. Veio a memória de quando eu e ele nos reencontramos naquela sorveteria e desde lá viemos escrevendo nossa história. As sensações que ele me causava eram tão inimagináveis, indescritíveis, tão... incríveis. Ele era incrível, uma voz repetia na minha cabeça. Abri os olhos e encontrei os de Tony entre as pessoas, ele estava conversando com um grupo e sorriu para mim assim que eu o olhei.
Tony também era incrível e não merecia o que eu estava fazendo com ele. Ninguém merecia, mas ele, menos ainda.
— Tudo bem? — Styles perguntou. Senti meu coração pesar e encarei Harry.
— Eu... — comecei.
, você está pálida — ele disse preocupado e eu senti minha cabeça girar. Soltei sua mão e fiquei olhando para aquelas esmeraldas em seu rosto
— Eu preciso ir — eu disse e comecei a caminhar entre as pessoas.
— O quê? ! — Escutei Harry Styles dizer atrás de mim, mas continuei a caminhar.
Passei por Tony, que também me chamou, mas eu o ignorei. Fui caminhando para fora da casa, para os campos, e sentindo a falta de ar cada vez mais presente.
Eu estava tendo uma crise de ansiedade, eu sabia, mas não estava conseguindo controlar. Era como se a bola de neve já estivesse escorrendo pela montanha e acumulando cada vez mais neve nela, se tornando maior, e maior.
Olhei desorientada para aquela paisagem, sem saber direito onde eu estava, mesmo que no fundo eu soubesse. A noite estava tranquila, mas não se via muitas estrelas no céu. Também não havia brilho dentro de mim.
, me escuta. — Essa era a voz de Styles, mas eu tinha a percebido muito longe, e olhei na direção dela. Ele estava ao meu lado. — Eu estou aqui. Está tudo bem, eu estou aqui.
Ele disse e eu comecei a chorar. Harry me abraçou e eu o abracei de volta com força, me entregando inteiramente a ele, como ele havia pedido.
Eu estava soluçando e ele me abraçou ainda mais forte, passando a mão por meus cabelos, fazendo carinho nas minhas costas e pedindo para que eu contasse quantas plantas eu enxergava ali. Comecei a contar, mas parei no meio e voltei a chorar. Harry disse que estava ali mais uma vez e que tudo bem eu chorar, eu tinha que por para fora. Ele se distanciou um pouco de mim e segurou meu rosto, limpando com os polegares as lágrimas que saíam de meus olhos.
— Eu estou aqui, tudo bem? Eu te amo e eu não vou embora de novo — ele começou a dizer e eu chorei ainda mais. Styles me abraçou novamente com força. Fechei os olhos, desejando que todo aquele sofrimento acabasse, que eu não tivesse que nunca mais passar por isso novamente na minha vida.
?
Eu abri os olhos e encontrei os de Anthony me olhando confuso. Harry não me soltou, mas eu tive que fazer isso, portanto, saí de seus braços. Tony olhou de mim para Harry e de Styles de volta para mim.
Então Tony entendeu.


LII: Sofia

Fechei o diário, pois estava me causando uma agonia imensa.
Minha avó, que pregava que traição era a pior coisa do mundo, que já passou por poucas e boas, traiu o noivo. Minha avó , que eu acreditava que nunca faria isso, o fez.
Eu já estava sentada no sofá a partir do momento em que Harry tinha entrado no quarto dela, com as costas no encosto do móvel e sentada nas pernas dobradas. Endireitei a coluna e comecei a pensar muito. Eu deveria mesmo julgá-la? Ela só estava confusa, não é?
Minha mãe disse que eu deveria conversar com ela quando chegasse o momento. Seria esse o momento? Involuntariamente, pensei em Sofia e em como me senti quando a vi beijando outra pessoa.
Será que foi assim que Anthony se sentiu? Ou quando minha avó descobriu que Harry a traía? Bom, mas agora ela tinha experimentado do outro lado da moeda, isso a faz uma pessoa ruim?
Eu estava com tantas perguntas e já eram nove da manhã. Decidi que perguntaria à minha mãe tudo e fui atrás dela, em seu quarto.
— Mãe? — eu disse, quando atravessei o espaço onde a porta ficava e adentrei o quarto. Ela se virou na cama e olhou para mim.
— Sim, querida?
— Acho que cheguei à parte que você temia — eu disse apenas e ela continuou a me encarar. Então se sentou na cama e deu leves batidas ao seu lado, me chamando para sentar-me ali.
Fiz o que ela pediu e coloquei o diário por cima das minhas pernas.
— Em que parte você está?
— Hã, vovó, ela estava tendo uma crise ansiedade e Harry veio ajudá-la.
— Ah, então você sabe — ela afirmou, não era uma pergunta. Fiz que sim, mesmo assim. Mamãe respirou fundo. — Querida... O que você pensa sobre?
Continuei a fitar minha mãe, desviei o olhar para o chão e passei a balançar uma das pernas.
— Eu acho que... Não sei. Eu realmente não sei o que pensar — eu disse e ela balançou a cabeça, afirmando.
— Sim, é difícil... digerir. Mas acho que você tem que ter em mente que sua avó, apesar dos erros, não os cometeu duas vezes. Eu nem imaginava que você estaria passando por algo que a faz sentir de maneira parecida bem quando você estaria lendo essa parte da vida dela, mas aconteceu. E você precisa entender que as pessoas são de fato humanas e elas erram... — Mamãe parou de falar por um instante e pareceu se lembrar de algo. Ela pediu meu celular e abriu o spotify. Lá, pesquisou uma playlist e me entregou de volta o celular quando a encontrou. — Escute. Pode parecer bobo, mas acho que a resposta está aí.
Olhei para a tela do celular e li o nome da playlist. “Songs to listen when u r trying to get over someone… but u can’t”. Sorri e assenti. Faria isso.
Fui para o quarto e deitei-me na minha cama, colocando os fones de ouvido. Apertei play e então as músicas começaram a tocar.
Escutei quase todas as músicas, pensando no que minha mãe queria que eu encontrasse aqui, as respostas que eu pedi a ela. Foi quando uma música começou e eu li o título dela.

Sofia by Clairo


Esse era o nome: Sofia.
Entendi o que minha mãe queria dizer e me deixei flutuar com a música. Era exatamente aquilo que eu estava sentindo e fui sentindo um aperto quando ela disse que não queria que acabasse. Eu também não queria que acabasse.
Tive uma coragem repentina e me levantei da cama, peguei meu celular, os fones, a chave de casa, e saí. Comecei a caminhar pelas ruas, aparentemente a esmo, mas a verdade era que eu tinha um propósito. Um propósito que estava me deixando nervosa, mas que eu tinha de enfrentar.
Cheguei em frente ao café e olhei para dentro do estabelecimento, a procurando. Encontrei-a de costas para mim, servindo um cliente. Respirei fundo, até senti a brisa contra meu corpo me preparando para entrar e foi o que eu fiz em seguida.
Abri a porta e entrei, olhando para meu alvo. Eu disse “Sofia” e ela não me escutou. Eu pigarreei e ela ainda não tinha me visto, então fiz uma loucura e disse quase gritando um “Sofia!”. Todos do café olharam para mim, inclusive quem eu mais queria.
— Eu preciso falar com você — eu disse e ela olhou para o chef de cozinha que estava lá também. Ele assentiu e ela deixou a bandeja em cima do balcão, indo para fora do café. Eu a segui.
Sentamo-nos na calçada, uma ao lado da outra. Apoiei meus braços em meus joelhos e ela abraçou o próprio corpo. Ficamos em silêncio por alguns minutos, apenas olhando a rua.
Eu não sabia como começar o que eu queria dizer. Não sabia como explicar que eu nunca tinha passado por isso antes e que tudo o que eu estava sentindo era novo para mim. Olhei para o céu azul e me lembrei da nossa discussão sobre ser estranho não termos respostas agora sobre algumas coisas que no futuro teremos.
— Sabe, acho que você tem razão — eu comecei e ela se virou para mim.
— Sobre o quê?
— Acho que não existem coincidências — eu disse e ela não entendeu direto o que eu estava falando, mas concluiu erroneamente e tentou se explicar sobre o que eu tinha visto ontem. — Sofia, eu não sou sua dona. Nem ninguém é. Você é livre para fazer o que quiser e não deixe que ninguém te diga o contrário.
— Julia, você tem que entender que o que você viu ontem não significa nada para...
— Tudo bem, de verdade. Eu não me importo. Não mais. Eu só quero te dizer que o que eu estou sentindo agora é novo para mim, e eu nunca pensei que fosse passar por isso. Nunca achei que minha avó faria as coisas que ela fez, nunca nem achei que eu chegaria a duvidar se eu gostava só de garotos, e agora olha só para mim, eu estou totalmente em um lugar novo. E não acho que foi tudo coincidência, Sofia.
Ela me escutou atentamente.
— E o que você quer? — ela perguntou depois de tudo. Eu sorri.
— Eu não sei. E não é bonito não saber? Temos que sempre saber de tudo e acho que é o que você disse: não sabemos de coisas que futuramente saberemos. E está tudo bem.
Sofia escutava com um sorriso sereno no rosto.
— Você é incrível, Julia — ela disse e pensei no que minha avó tanto dizia sobre encontrar alguém incrível na vida.
— Você também é. — Continuamos com o contato visual até eu interromper o silêncio. — Bom, podemos marcar para amanhã o nosso encontro? Eu tenho algumas coisas para fazer...
— É claro. — E nos levantamos. Sofia sorria para mim. — Então, tchau...?
— ... Até logo — eu prometi e ela soltou uma risada gostosa.
Voltei para casa mais que radiante. Eu tinha tirado um peso enorme de meu coração e disse para minha mãe que terminaria de ler os diários agora. Ela disse que iria ao mercado — já que eu não fui ontem — e se despediu, me deixando sozinha.
Estava no meu quarto, deitada, e abri a página em que eu tinha parado. Estava pronta para me reconectar com a minha avó.


LIII: Orquídeas

Querido diário,

Depois do casamento de Louis e Emily, tudo se tornou uma confusão na minha vida. E uma confusão não boa.
Tony mudou de quarto e dormiu o resto da noite longe de mim. Eu tentei explicar para ele o que estava acontecendo, mas ele decidiu não me ouvir. No dia seguinte, bem cedo, ele foi embora.
Eu não conversei mais com Styles, não consegui. Você deve imaginar o escândalo que foi quando todos da festa descobriram o que se passava... Não consegui lidar com isso, então me isolei completamente.
As semanas seguintes foram muito conturbadas, eu não consegui ajudar meus pacientes de maneira correta, fiquei distante de todos e de tudo. Recebi várias ligações de Emily, de Louis, de Harry... Mas não retornei nenhuma.
Eu sei, eu estava tendo um comportamento autodestrutivo, porém eu só não estava sabendo lidar. E não descobri como naquele mês.
Eu estava em casa todos os dias e saía estritamente para trabalhar. Em um desses dias, meu interfone tocou e eu já estava preparada para dispensar quem quer que fosse, quando eu escutei a voz de Tony do outro lado.
— Oi — ele disse e eu prendi a minha respiração.
— Oi — respondi finalmente.
— Posso subir?
Eu abri a porta com meu coração pulando dentro de mim. Ele tocou a campainha e eu a abri. Assim que eu o vi, todas aquelas sensações boas que eu sentia com ele retornaram, não tendo o peso apropriado, mas sim algo muito maior. Como saudade.
— Eu vim te entregar isso. — Ele tirou uma das mãos do bolso do casaco e esticou na minha direção, com chaves pendendo.
— Ah — eu apenas soltei e o encarei. Tony não queria olhar nos meus olhos. — Tony...
— Você pode me entregar as suas? Quer dizer, as minhas? — ele se corrigiu. Eu engoli a seco e assenti.
— Vou buscá-las. — E entrei em casa, procurando nas gavetas da cozinha.
Observei Anthony dar dois passos para frente e olhar em volta meu apartamento. Ele parecia mais pálido que o normal, mas também parecia quase completamente renovado, como se o que aconteceu não o abalasse mais. Eu estava desejando que realmente não o abalasse mais, ao menos, e que ele me perdoasse. Não sabia se ele tinha o feito, mas acreditava que ele talvez nunca o fizesse.
— Aqui. — E entreguei as chaves a ele. Ele comprimiu os lábios um no outro e se virou para ir embora. — Tony...
Ele soltou o ar de dentro e ficou meio virado para mim, olhando o chão. Então seus olhos subiram até os meus, finalmente. E eu pude ver sua expressão de cansado.
— O que foi, ? — ele disse, duro.
— Eu... Me desculpe — eu concluí o que eu ainda não tinha dito. Ele, depois de longos minutos, balançou a cabeça positivamente e foi embora.
Foi o momento mais tenso da minha vida. E triste também. Senti como se perdesse a melhor parte de mim. Ao menos não durou tanto assim.
Sabe, diário, as coisas na vida nunca são como nós esperamos. As pessoas vêm e vão, as situações passam e nós superamos as fases difíceis para que novas apareçam e então mais desafios junto delas também. Quando Tony foi embora, eu tive que ir ao banheiro vomitar, não estava conseguindo lidar muito bem com aquilo. Passei mal durante dias, até que comecei a pensar que talvez o enjoo não fosse somente por estar desesperada pelo erro que eu cometi, mas sim...
Minha menstruação não desceu naquele mês. E nem no mês seguinte. Eu sabia, no fundo, o que era, mas comprei mesmo assim o teste. Foi o dia mais difícil, mas ao mesmo tempo, mais feliz da minha vida. Eu não estaria mais sozinha, não mais.
Deitei-me na cama e olhei para o teto, pensando no que eu faria agora que tinha um outro ser para cuidar. Três meses. Eu estava grávida de três meses. Um turbilhão de sentimentos me atingiu e só conseguia pensar em quem era o pai da criança.
O que eu faria agora? Eu contaria a ele...? Imaginei toda a repercussão que teria, a confusão que daria e percebi o que eu tinha de fazer. Foi a decisão mais dura que já tomei na minha vida, mas pensei muito sobre e decidi que não contaria.
Mas como eu esconderia a gravidez de meus amigos? Como eu lidaria com tudo? Pensei que não tinha mais com quem contar, apenas com a própria criança.
E lembrei qual era e sempre fora meu sonho: sair do país e voltar para a minha terra natal. É, eu poderia fazer isso...
Então comecei a me preparar para ir. Vi passagens, lugares para ficar temporariamente em São Paulo, até encontrar um emprego e uma casa própria, tudo. Eu já estava grávida de quatro meses quando tudo estava já pronto para ir embora.
Mas algo aconteceu.
Eu estava arrumando minhas malas para ir para o aeroporto, quando o interfone tocou. Eu o atendi e era um entregador. Disse que tinha uma encomenda para mim. Eu desci as escadas e cheguei à porta do prédio, a abrindo e dando de cara com um carro completamente cheio de orquídeas. Eu fiquei desacreditada.
— Assine aqui, por favor — o entregador disse e eu não precisei perguntar de quem eram as flores. Eu sabia quem tinha esse cheiro e quem as amava.
O que significava isso? Será que ele sabia sobre a gravidez? Mas como se eu não tinha contado a ninguém...?
Admito que eu fiquei na dúvida se eu contava a Styles sobre. Ele era, de fato, o pai da criança, mas acho que só complicaria mais a minha ida para o Brasil. Foi uma decisão pior do que a que eu tinha feito antes de apenas não contar. Porque eu sabia que Harry se importava e não contar talvez não fosse justo com ele. Mas naquele dia eu fui embora para sempre de Londres.
Estou no avião agora, escrevendo em você e me perguntando quais serão as minhas novas aventuras em um novo país e com novas pessoas, com uma cultura totalmente diferente. Acho que vou ter que pagar para ver, não é mesmo?

Até o próximo diário.
Xx, .


LIV: Vazio

E assim terminei o quarto diário.
Era bomba atrás de bomba. Quer dizer que mamãe é filha de...? E que eu sou neta...? Oh, meu Deus.
Não acredito que minha avó deixou isso em segredo por tanto tempo. Cara, ela teve que ir embora para sempre para eu descobrir. Ou seja, nem em vida ela me contou quem era meu avô! Eu não sei se estava brava com ela ou não, só sei que tive que ficar um bom tempo sentada e olhando para a parede do meu quarto, pensando em como ela deve ter se sentido ao ir para um país totalmente diferente e ter cuidado sozinha de mamãe.
Harry Styles tinha razão: minha avó era incrível.
Levantei-me após longos minutos e fui atrás do quinto e último diário. O peguei da caixa e sentei-me na cadeira em frente à escrivaninha. Abri-o, mas quando o fiz, um papel caiu de dentro. Virei a primeira página antes de pegar o envelope caído no chão e notei que a primeira folha estava vazia. Folheei o caderno, mas não era só a primeira folha que estava vazia. Ele estava completamente em branco.
Não entendi exatamente o motivo daquele caderno estar vazio, até pegar o envelope. Peguei um estilete e o abri, revelando uma carta. Assim que comecei a ler, reconheci a letra. Era da minha avó.


LV: Carta

Querida Julia,

Você só tem dois anos agora, mas quando você ler essa carta, e consequentemente tiver lido os diários, espero que você já esteja muito mais velha. Afinal, eu não estou mais fisicamente aí para te apoiar, para cuidar de você e te incentivar a ser quem você realmente é.
Querida, eu sei que você ainda é muito nova agora, mas tenho certeza de que se tornou uma mulher maravilhosa. Você deve estar com muitas perguntas e surpresa pelo que eu revelei nesses diários, mas saiba que você e sua mãe foram as melhores coisas que aconteceram comigo, independente do que eu já tenha dito nesses cadernos.
Veja, eu deixei esse caderno em branco por muitos anos. Quando eu cheguei ao Brasil, não senti necessidade de escrever nele, pelo fato de que eu estava muito ocupada vivendo a minha vida da melhor maneira possível. Mas uma coisa eu aprendi com esses diários: todo dia estamos escrevendo a nossa história e todo dia é uma página em branco. Por isso decidi que esse caderno seria um presente para você.
Julia, eu quero, como meu último desejo, que você saiba que viver pode ser difícil às vezes, mas que também é incrivelmente maravilhoso e que você tenha um lugar para registrar as suas aventuras, como eu tive também. No entanto, eu sei que ter você e sua mãe foi a melhor aventura de todas.
Eu me refugiei nas palavras desses cadernos por muito tempo. Por muito tempo achei que estivesse sozinha, mas conseguir colocar para fora o que eu estava passando me ajudou muito a superar esses momentos de solidão. Claro que, depois de sua mãe, sozinha se tornou uma palavra inexistente no meu vocabulário.
Lembre-se: quando você se sentir assim, o papel e a caneta podem ser seus melhores amigos. Ao menos, sei que foram os meus.
Eu te amo muito, e estou cuidando de vocês duas daqui. Não se preocupe, eu sei que vou estar muito bem onde quer que eu esteja. Porque tive a sorte de ter vocês e isso me bastou para ser verdadeiramente feliz.

Com amor e carinho,
Vovó.


LVI: Sinal dos tempos

Eu deixei que uma lágrima escorresse do meu rosto para o papel, molhando um ponto da carta. Limpei-me o rosto e respirei fundo. Olhei para o caderno em branco e sorri.
Passar esse tempo com a minha avó foi uma maneira de me dar forças para continuar. Fiquei evitando esse momento em que eu me despediria dela de uma vez por todas, mas acho que esse momento nunca aconteceria. É como ela disse: ela estaria olhando e cuidando de mim e de minha mãe, onde quer que esteja agora. E espero que ela esteja bem.
Peguei meu celular e procurei o aplicativo spotify nele. Estava com os fones de ouvidos acoplados, então eu só os coloquei e apertei na imagem do aplicativo, o abrindo. Pensei o que eu escutaria agora e lembrei o que minha avó escutou quando ela encontrou Harry Styles pela primeira vez. Procurei um artista específico e cliquei na música que eu queria.
Sign of the times começou a tocar. Fechei os olhos e escutei as palavras dele.
Pensei em Diego, em Sofia, na depressão e ansiedade, na faculdade, na minha mãe, em Harry e na minha avó. Tudo, de fato, tinha um propósito na vida e nada acontecia por coincidências.
Talvez seja mesmo o sinal dos tempos. Eu estava pronta para o que viesse a seguir e já sabia como continuar.
Peguei uma caneta na primeira gaveta e abri a primeira página do diário, escrevendo “Propriedade de Julia nele. E sabia exatamente para quem eu escreveria aquelas palavras.

“Querida ,

Hoje eu...”


FIM



Nota da autora: Quero agradecer a todas vocês que leram a história inteira e que acompanharam e Julia! Às minhas amigas, Bianca, Vanessa, Taíssa e Julia M., que me apoiaram e me apoiam sempre nas minhas histórias! Quero agradecer principalmente à minha beta, Ste, por me ajudar e incentivar que eu nunca parasse de escrever qualquer história minha. Vocês são verdadeiramente incríveis, obrigada por tudo!
Quero dizer também que, quando notamos que o sinal dos tempos está se aproximando, não deixar escapar a oportunidade de sermos a nossa melhor versão é essencial. A vida é difícil mesmo, mas, como disse, ela também pode ser maravilhosa!
Quero saber o que vocês acharam da história e do final! Por favor, comentem muito e caso vocês queiram participar do grupo no Facebook das minhas histórias, estará linkado aqui também. Beijos de luz a todas!
Ass: Giulia M.



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Nota da beta: O tanto que eu fiquei chorosa com esse final não tá escrito. Giulia do céu, você arrasou demais, amiga! Tô sem palavras com o talento incrível que você tem. Ficou tudo tão bem escrito que minha nossa! Tô chocada até agora que a pp é neta do Harry. A lição do final ficou tão linda! Nossa! Parabéns, amiga. Ficou incrível. Amo essa fic e amo você! ♥

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