Finalizada em: 27/12/2018

Capítulo Único

Eu estava ansioso para chegar em casa e vê-la após tanto tempo. Passei três meses viajando a trabalho sem poder tocá-la e levá-la para minha cama a fim de fazer as pazes de nossas discussões sempre tão desnecessárias…
Era lindo o vestido sobre a cama e o som da voz dela cantando uma música minha debaixo do chuveiro. Havia um cheiro de “lar”, o cheiro almiscarado do desodorizador de ambientes no nosso quarto.
Larguei a mala em um canto qualquer ao lado da cama e tirei devagar as roupas em meu corpo. Ao abrir da porta do banheiro, o vapor tomou minha face e me fez sorrir. Ela não perdia aquela mania de anuviar todo o box.
Antes que eu pudesse surpreendê-la, ela passou a mão no vidro do box e ao limpar sua visão pôde se deparar com minha figura sorridente. Mas, ela não sorria.

— Eu quis fazer uma surpresa - eu disse como quem se justificava.

O sorriso que brotou no rosto dela era tão medíocre, aliás menos que medíocre, era um sorriso mínimo. E sorrisos poucos não combinavam com a pele dela.

— Eu deveria ter avisado à minha esposa que estava retornando?
— Não… Imagine querido…

Sorriu um pouco melhor e veio até mim, nua. Mas mesmo sentindo seu abraço urgente sobre meu corpo, eu sabia que algo estava errado.

— Eu vou tomar banho.
Foi só o que eu consegui dizer quando ela se separou do nosso abraço e não conseguiu me olhar nos olhos. Três meses longe e nada havia mudado? Ou eu estava equivocado demais, e tudo havia mudado?
Saí do nosso quarto com a toalha envolta ao pescoço e caminhei lento até a cozinha. Ela estava mexendo em seu telefone enquanto aguardava algo no forno. No meio do caminho até a lavanderia, nossos olhares se cruzaram e havia tanto constrangimento na face dela que eu sentia meu sangue ebulir em preocupação.

— Onde está Louis?
— Com meu irmão. Foram passear hoje à tarde, mas já falei com ele e estão voltando.
— Tem algo que você queira me dizer ?
— Desculpa. Eu sei que não era uma esposa cabisbaixa que você esperava encontrar depois de três meses, mas eu não consegui esquecer a nossa última briga .
— Não imaginei que tivesse esquecido, mas achei que ficaria feliz em me ver e quando me deparo com seu rosto, mais parece que estamos em um velório. Nosso amor morreu e eu não fui avisado?
— Me diz você!

Eu percebi no brilho dos olhos dela que lágrimas viriam. Inexplicavelmente eu tinha o dom de fazer minha esposa chorar, e na maior parte das vezes eu sabia os motivos. Mas, de uns tempos para cá eu era culpado pelas piores lágrimas dela. As mais grossas, pesadas, e eu não fazia ideia do que tinha feito.
Estava sendo desgastante antes, e piorou ainda mais ao retornar. Ela abriu o forno revelando a pizza quente, cheirosa e aparentemente apetitosa.

— Louis quis comer a pizza favorita do pai, hoje. Parece que sentiu que você viria.
— Vou esperar ela chegar para comer. Enquanto isso, a gente pode conversar.
tem muitas coisas a serem ditas, e eu não sei se é o melhor momento.
— Quando pretende me dizer? Quando vai desentalar todos os verbos que estão nos separando ?
— Você tem que entender que não é fácil para mim! Eu estou há meses pensando quais as razões você teve para me trair! O que eu fiz de errado?
— Eu já disse que sou inocente! Eu não te dei motivo algum pra desconfiar de mim desse jeito, !
— Você me traiu . Pelo amor de Deus, assuma isso porque…

As lágrimas dela caíram como uma torrencial e o embargo em sua voz me dilacerava:

— Eu não aguento mais. - ela completou.

Puxei o corpo de de encontro ao meu, abracei-a num sufoco desesperado de salvação e beijei seus lábios como se fossem água no deserto. Ela soluçava entre os toques de nossos lábios, mas de repente foi tomada de volúpia.
Aquela sim era a .


Cinco anos atrás.

— Lembra do dia que eu pedi a sua mão? Você hesitou. Eu quase tive certeza que você diria não para mim, mesmo depois de toda nossa história. E eu fui em frente, abdiquei de todo o mundo que eu vivia, porque naquele momento você já era praticamente meu mundo inteirinho! E eu dediquei cada passo até aqui, somente a você, ! Que droga ! Eu era tão novo! Eu ainda tinha toda uma carreira pela frente!

— Você não vai jogar nas minhas costas a culpa pelo desastre que nós nos tornamos, ! Eu vi! Eu vi você saindo com aquela mulher até o mezanino! Eu não te pedi para largar nada por minha causa, nem mesmo ela! Era ela que você queria aqui agora não é?

As lágrimas de eram ensurdecedoras, e eu nunca havia visto ela tão tempestiva e desesperada. Peguei seu rosto entre as minhas mãos enquanto ela debatia-se raivosa, dividindo-se entre me bater e se soltar de mim:

— Você está se ouvindo? - falei enérgico forçando-a olhar em meus olhos: — Eu disse que você é o meu mundo e você acha mesmo que eu queria outra no seu lugar?
— Não brinca comigo

Ela soltou-se de mim, abaixou a cabeça pesarosa, suspirou fundo cansada de chorar e me encarou firme:

— Não brinca comigo , porque eu estou grávida e agora é tarde para você ver que fez a pior escolha da sua vida.

Perplexo. Eu estava absolutamente perplexo com aquela notícia. Que mulher conta que está grávida daquele jeito? Eu não sabia se deveria continuar a discussão a fim de fazer entender que eu tinha feito a escolha certa ou, se eu pulava de alegria e girava ela no ar.
Naquele instante, eu só consegui ficar parado com olhos arregalados e mãos na cintura.

— Como é que é?
— Droga … Podia ao menos fingir que ficou feliz.

Ela chacoalhou a cabeça e saiu andando pela casa. Quando compreendi que eu estava por entrelinhas dizendo “sabe-se lá o quê” para a cabeça imaginativa de , eu corri até ela e a puxei num abraço.

— Nós vamos ter um bebê? - sussurrei em seu ouvido.
— Desculpa.
— Não, não tem que pedir desculpas meu amor! Você vai me dar um filho! Como não ficar feliz com isso? - eu perguntava animado e ela me olhava descrente.
— Como ficar feliz? A sua família cristã e tradicional agora não vai permitir você me abandonar, e eu acabo de condenar sua vida inteira ao meu lado.
— Para ! Para! Eu já estou exausto de você dizer que eu não soube fazer a minha escolha! Você era a pessoa mais errada para ficar comigo, e eu estou aqui não estou? Acredita, porra, quando eu disser que te amo!
— Eu vou… - ela falava secando as lágrimas que tendiam a escorrer o rosto outra vez: — Dar a notícia à minha mãe.

Eu me silenciei e assenti enquanto ela caminhava até outro cômodo da casa. Eu estava extremamente feliz por saber que seria pai, e extremamente triste por não entender por que não podia estar bem com a mulher que eu amava.


Quatro anos e meio atrás...

— Onde está ela? Cadê a ?

Eu perguntava eufórico para os pais dela no saguão do hospital.

— Acalme-se rapaz, ela está no quarto e precisa de você.

Minha sogra falou me abraçando com os olhos cheios de lágrimas.
Eu limpei meu olhos e já ia até o quarto, quando minha sogra novamente me perguntou:

— O que a sua amiga faz aqui, ?
— Estávamos no trabalho quando você me ligou, . Poderia avisar minha mãe?
— Eu aviso. - respondeu chamando os olhares desconfiados de meus sogros sobre ela.
— Isso é coisa de família, querida. Talvez você devesse ir embora, não sei nem o que veio fazer aqui.

Eu não queria que fosse julgada como estava sendo por , mas pouco me importava se elas estavam se estranhando ou não. Assim que me adiantei à entrar no quarto e ouvi a frase que minha sogra, cheia de defensivas pela filha, havia dito à modelo, eu não pensei momento algum em me meter. Eu precisava de . Da minha mulher e de meu filho. Mas, agora eu só tinha um deles.

Quatro anos atrás…

Enquanto eu me ocupava em fazer a multidão eufórica à minha frente ficar feliz e cantar minhas músicas até perderem a voz, aproveitava os bastidores com todos os artistas convidados. Entre uma música e outra, eu dava voltas pelo palco fazendo algumas graças para o público e conseguia vê-la na parte de trás conversando com Joe, e gargalhando com . Demi e ela estavam bem próximas naquela noite, e já fazia tanto tempo que eu não cantava com a Demi que eu nem imaginava que “tanto” de assunto elas poderiam ter.
Depois do show recebi os cumprimentos dos meus amigos, convidados, equipe, familiares e um beijo avassalador da minha mulher. Seguimos dali até um local que a produção alugou para um after. Durante a social, , o novo queridinho da mídia recebia a atenção de muitas pessoas e meu ego artístico não teria sido ferido, se entre as tietes não estivesse . Como ela poderia preferir as músicas dele, às minhas?

— Para com isso, você sabe que eu não prefiro as músicas dele. Eu gosto, apenas. Qual é? Não posso ser fã de mais ninguém porque sou casada com o Sr. Ego ?
— Foda-se se você gosta da música dele, . Eu não quero é este monte de sorrisinho frouxo que você está dando pra ele.

Estávamos mais afastados das pessoas, numa habitual-nova-discussão.

— O que? Você está com ciúme?
— Estou! Por que? Só você pode surtar a cada mulher que se aproxima de mim?
— Sabe muito bem que a única mulher que eu quero distante de nós é a sua amiguinha ! - ela se irritou e já falava entre dentes.

O vinco em sua testa piorou com meu sorriso ladino de quem não podia acreditar que mais uma vez, era o problema.

— Exatamente! Amiga. É o que ela é. Eu larguei a quando te conheci, porque oras, lá vou eu falar de novo: eu amo você, .
— É fácil amar a esposa com a amante à tira colo!
! - eu falei alto e com ódio: — Se é nisso que você prefere acreditar, eu já entendi o seu joguinho com o .
— Não tinha pensado nisso… Mas não é uma má ideia, afinal, vamos ficar quites!
— Eu já cansei de dizer que eu não traio você.
— E eu já cansei de acreditar, . Seis meses atrás eu perdia nosso filho e você chegava ao hospital com a ! E ela ainda se oferece gentilmente à avisar minha sogra que o ex-noivo dela tinha acabado de perder o filho com a esposa!

ainda não tinha aceitado a minha versão dos acontecimentos daquele dia, e há seis meses o comportamento dela mudou totalmente. Ela fazia o possível para me provocar cada vez que achava que eu estava a provocando.
Demos as costas um ao outro e dispersamos pelo saguão.

Dois anos atrás…

Aquela fita que parecia um termômetro, com aqueles dois risquinhos cor de rosa significavam o que eu que mais queria ouvir. Eu ia ser pai. E por que motivos havia escondido aquilo dentro daquela caixa? Nosso casamento estava ótimo. Há muito tempo a terapia de casal vinha cicatrizando todas as feridas abertas que o ciúme excessivo provocou entre nós, e uma notícia daquelas só fortaleceria ainda mais o nosso enlace. Caramba, eu amava ! Como eu amava, a ! E ela me daria um filho! E aquilo estava escondido! Que porra… Por que estava escondido?

! !

Eu corri até a biblioteca onde ela terminava de ler seu livro e quando me viu gritando desesperado, ela pulou da poltrona e veio até mim assustada.

— O que houve?

Ergui a mão com a fitinha e eufórico perguntei:

— Quando pretendia me contar sobre isso?
— Droga, ! Eu ia te fazer uma surpresa!
— Por isso escondeu?
— Eu queria esperar os quatro meses pra te contar… Você sabe… É o tempo até ter certeza que não corria o risco de perder de novo.
— Meu amor! Eu te amo!

Como deveria ter feito anos atrás, eu ergui a minha mulher e rodopiei ela em meus braços.

— Nós não vamos perdê-lo! Eu te prometo que vou cuidar muito bem de vocês dois!

Me abaixei para beijar a barriga dela, e novamente chorava. Eu tinha o dom de fazer a mulher que amo, chorar.

— Quanto tempo você está?
— Dois meses. - o sorriso dela era grande, lindo.
— Você já foi ao médico? Temos que ir! Vai! Vai lá e troque de roupa que eu vou te esperar no carro e…
! - ela me fez parar para respirar diante tanta alegria: — Eu já fui. Mamãe me acompanhou e é uma gravidez de risco, como a outra. Tem umas recomendações médicas, e por isso eu queria esperar pra contar e…
— Não importa! Vai dar certo. Nosso bebê vai vir, porque eu já amo tanto ele que não vou deixar você fazer nada!
— Que exagero!
— Eu vou ligar pra agora! Quero saber o que o médico disse direitinho!
— Calma amor, não vamos ligar pra primeiro?
— Minha mãe! Ela vai ser avó! E o meu pai! Meu Deus, meus irmãos vão ser tios!

gargalhava das minhas reações e eu não poderia ter um filho em momento melhor. Eu estava de férias, e acabei as estendendo um pouco mais para poder cuidar de e do bebê na difícil gestação. Nós estávamos em paz, harmonia e cada dia mais entregues.

Três meses atrás...

— Eu não acredito que você foi buscar a Louis na escolinha com aquela mulher, ! Eu não quero ela perto da nossa filha!
, estava toda a equipe! Eu estava indo ao trabalho! Você sabe que tem esse maldito contrato de sete anos com a marca, e a é a principal modelo e eu … Não acredito que estamos discutindo por causa dela de novo!
— Quando ia me contar que viaja com ela nos próximos três meses?
— O que?
— Não ia me contar, não é Sr. ?
— Do que está falando?
— A agência ligou informando. Essa campanha toda na Índia vai ser com ela. Com os dois, aliás.
— Eu não sabia.
— Ah… Me poupe ! Ela sempre vai ficar entre nós.
— Porque você quer! Eu nunca estive tão certo que entre ela e eu não daria certo, mas você sempre torna tudo mais difícil!
— É melhor você pegar as suas coisas e fazer as malas. Seu voo é amanhã, e eu não quero ser culpada por “desestabilizar” o astro da música antes da viagem.


No dia atual…

— Não pense que um beijo é o suficiente pra me fazer esquecer.
— Eu não fiz nada . Poxa… Estou tão cansado de nossas brigas…

Ela caminhou alguns passos até o próprio celular e abriu uma imagem, me mostrando o motivo de tudo aquilo.

— Eu não fiz nada, eu já te disse.
— Isso era coisa da campanha ?
— Não.
— Então pronto. Talvez, você estivesse sendo sincero antes… Que era inocente e não fez nada e nem me deu motivos, mas… Vejo que talvez eu tenha sido culpada de te empurrar para ela né?
… Eu não estou mentindo. Não houve nada. Quem mandou isso pra você?
— A própria.

A campainha tocou e eu fui abrir a porta. Louis pulou do colo do tio para o meu e foi receber o irmão, que não demorou. Ao que me parecia ele já esperava que o meu retorno previa algum tipo de conversa tensa, e por isso nem mesmo me perguntou como eu estava, como era de praxe. Levei Louis, sorridente para a cozinha e sentando-a em sua cadeirinha ao ver a pizza, ela sorriu e comemorou.
sentou-se à mesa com nós dois, pela filha. Ela sempre se esforçava em não fazer Louis notar qualquer clima estranho. E depois que curti minha filha, dei banho, coloquei-a para dormir… Era vez de cuidar da mãe dela.


— Chega . Não tem porque nos mantermos presos nisso. Eu não quero mais.
— Do que está falando?
— Sei que seus pais vão achar um absurdo, mas também sei que são sensatos o suficiente para entender meu lado e não se meterem. Louis vai precisar de toda a família, avós, tios, e principalmente de nós, para entender a mudança que vai ser.
! Eu não quero me separar se é disso que está falando.
— E eu estou te entregando de bandeja para ela .

Me aproximei da mulher sentada em nossa cama, e beijei-lhe. Pouco a pouco as lágrimas dela eram também as minhas, e a dor dela, era a dor que agora eu sentia. Mas, parecia imutável, entorpecida. Ela de alguma forma enxergava algum tipo de libertação naquilo tudo. E eu ainda mais preso só conseguia me arrepender por aquela foto. Eu realmente não fiz nada de errado. Meu único erro foi não ter me afastado de quando terminei nosso noivado. Aliás, eu cometi muitos erros. Outro deles foi não amparar com a co-dependência dela. Deixei nas mãos do psicanalista algo que eu deveria ter tido atenção. O buraco negro de era eu.
Quando mencionei apertá-la mais forte em meus braços e ouvi um gemido sôfrego sair de sua boca, minha única intenção era mostrar a ela que eu me sentia culpado por não ter evitado tudo aquilo, e provar que eu a amava. Levantei pouco a pouco a blusa de minha esposa, mas ela me afastou de si.

— Não me toca. Não quero.
— Eu te amo, .
— Não quero saber do seu amor.
— Quer que eu vá embora, realmente?
— Vai tranquilo , nós tentamos tudo o que podíamos.
— Sabe que se eu for embora, vamos só comprovar que todo amor que eu te dei foi em vão não é?
— Pode me culpar. Eu sei que você pensa que a culpa é minha.
— Eu não penso… - levantei bruscamente e sob lágrimas puxei a mesma mala que eu havia jogado horas antes perto da cama, e me despedi de : — A verdade é que o teu ciúme acabou com o nosso amor.


Fim!



Nota da autora: Pesado, pesadíssimo eu sei. Mas, ai meu coração… O que fazer quando você ouve uma música e se inspira numa história inteirinha de ilusão? Perdoem-me leitoras, mas na próxima, eu juro que o amor vai vencer.





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09. Tear It Down

Music Video:
MV: Drive
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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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