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Última atualização: 09/04/2021

Homecoming I — Academic Commitment

(Dois meses desde a queda dos Vingadores)


— Black, você não vai conseguir me manipular, não adianta o quanto ficar com esses olhinhos grudados na minha cabeça.
Suspiro alto, me afundando no enorme moletom que decidi vestir. A roupa que uso por baixo é a mais feminina que possuo, uma das primeiras que a Srta. Potts comprou assim que soube da minha existência e que ficaria com Os Vingadores por um tempo. Ainda me lembro do sorriso amarelo que dei na primeira vez em que vi a blusa, com babados delicados em um tecido fino e com um caimento adorável de uma bata, como me explicou. Gosto dela. Mas, infelizmente, não estou tão animada para usá-la e simplesmente joguei um casaco por cima, combinando com um par de jeans claros e tênis, também escolhidos por Pepper na noite anterior. Não sei se eu pensaria em vestir algo assim por mim mesma. Ou se teria me esforçado para acordar hoje pela manhã.
Mas, como a Sra. Hall já mencionou dezenas de vezes durante nossas sessões, já está na hora de aguentar firme, não me deixar apenas correr pela vida. Deveria perceber, segundo ela, que não deveria parar de viver. A segunda chance que me foi oferecida deve ser aproveitada ao máximo. Parar de, literalmente, apenas aguentar firme até o dia seguinte e deixar de viver imaginando o amanhã. Nos olhos da psicóloga, eu não estou mais vivendo e sim esperando. Contudo, o problema é que eu não soube lhe responder exatamente o que estava aguardando para o dia seguinte. E me preocupo – durante minhas piores noites – com o que pode ser. Os monstros que eu espero poder lutar nunca estão exatamente debaixo de minha cama, mas dentro da minha cabeça e eu tenho os nutrido sem querer. Até mesmo quando tudo está perfeito eu continuo esperando e me preparando para quando tudo desmoronar.
— Eu não estava tentando te manipular, Happy. Só estava tentando olhar para você com a minha melhor carinha de cachorrinho pidão para você me livrar dessa. — Esclareço meu objetivo, em um tom de humor, tirando o meu outro fone de ouvido, agora os dois pendurados na gola de meu casaco e um sorriso em minha face. — Este é o distrito do Queens?
Eu olho pela janela, pouco acostumada com a arquitetura de New York, mas não deixando de olhar maravilhada para os prédios tão altos que não dá para se ver o topo em meio à neblina. A cidade é o meu lugar favorito no mundo inteiro. Gosto das manhãs enevoadas, as tardes de chuva, barraquinhas de comida árabe e cachorro quente que nunca tive chance de provar, mas sempre aparecem em filmes. Tenho gostado do que vi até agora, ainda que seja tudo novo e contrário ao imaculado Complexo dos Vingadores. Aparentemente, este é o mais rico distrito no campo cultural, pois eu já perdi a conta dos museus e galerias que já passamos desde que chegamos. Tive bastante tempo para aprender sobre o local e exatamente como tudo seria, afinal, me aproveitei das duas últimas semanas que tive desde os resultados de meu teste, usando todo o meu tempo livre no laboratório para pesquisar sobre o Queens.
— É sim... E, Black! Você deveria estar feliz com isso! Não que eu gostasse do ensino médio na minha época, mas talvez as coisas estejam melhores, entende? — Balanço a cabeça, fazendo falsa obstinação e ouvindo Happy bufar, mas sorrir para mim pelo retrovisor, compreendendo minha atuação. — Você vai ver gente de verdade, diferente daquele pessoal todo arrumadinho do Complexo. Adolescentes da sua idade, professores velhos e babões, vai conversar com as pessoas e fazer amigos. Ou você ainda não cansou de ficar rodeada de velhos estranhos com uniformes?
Meneio a cabeça, em meio a um impasse em que me encontro desde que a notícia que estaria entrando na escola regular veio à tona para todos durante o jantar, duas semanas atrás. Tony Stark garantiu para Happy e Rhodey que eu ia gostar, afinal, ia ser melhor que todo mundo em praticamente todas as aulas, poderia conseguir créditos para a faculdade que ele não poderia conseguir com um cheque gordo. Já Pepper, se irritou com o intuito do namorado, informando que a decisão de que eu iria para a escola seria pelo motivo da interação com outras pessoas da minha idade e não “Massacrar os Adolescentes Burros”, igual Tony havia me dito. Mas, mesmo com a irritação, todos rimos, afinal, era uma celebração, certo? O primeiro jantar dos dois juntos com a “família” após reatarem. O que Rhodey havia apostado comigo que aconteceria mais umas duas vezes nas semanas que antecederiam meu primeiro dia de aula, e outra aposta garantiu que eu nem iria para o primeiro dia.
E então, Tony ameaçou jogar o amigo cadeirante na piscina e vê-lo afundar.
— Se duvidar, não. — Respondo, verdadeira, me abaixando para amarrar meu tênis. — Eu gosto de ficar no Complexo, Happy. É seguro e posso fazer tudo o que tiver vontade desde que peça para a Pepper antes. Eu estudava pela manhã com os professores suecos que o Stark contratou, almoçava com o Rhodey na fisioterapia, ia para o Centro de Treinamento, depois eu estudava mais um pouquinho e ficava o resto do dia treinando tiro ou combate. — Comento minha rotina, erguendo o rosto no momento certo de ver quando Happy revira os olhos. — Ei! O que foi? Você queria que eu estivesse fazendo o quê? Fumando um baseado?
— Queria que você desse algum trabalho, .
No fim das contas, realmente não me oponho o suficiente à ideia de conseguir conhecer pessoas da minha idade para me negar a ir ao primeiro dia de aula, mas não cheguei ao ponto de me encontrar animada com isso. Ter que falar, puxar assunto e manter conversa com alguém ainda me deixa ansiosa ao ponto de cólicas. Como tudo, a teoria é sempre mais bela que um experimento empírico. A ideia de ouvir risadas perto de mim, falar e estar errada e ser punida ou sequer ir a algum local fora as paredes do Complexo dos Vingadores sozinha... Tudo me deixa nervosa, fazendo minhas palmas suarem e garganta trancar. É um sentimento complicado e de prudência, assim como a necessidade de enterrar meu rosto no travesseiro em manhãs que se torna complicado deixar a cama e precisar trancar a porta. No Castelo da HYDRA, ninguém nos ensinava a como ser pessoas legais e divertidas, ou a conversar ou tópicos a se discutir com os prováveis amigos. Contudo, a ideia de poder estudar mais a fundo coisas que já aprendi de casa me deixa mais calma, provando que livros são refúgios incríveis. Aprendi física, matemática e química primeiro. Me foquei tanto nestas matérias no ano anterior, que consegui atingir o nível de um bom aluno do ensino-médio em meses. Agora quanto a matérias como história, estudos sociais e literatura...
Números e elementos químicos fazem mais sentido que o resto.
— Você vai vir me buscar caso alguma coisa aconteça, não é?
Questiono, não querendo olhá-lo por vergonha de minha pergunta estúpida. Mesmo que toda a birra inicial tenha sido apenas para provocar risada no mais velho, agora sinto algo apertando meu peito. É tolo, mas não soa irracional. Não para mim. De meu lugar no banco de trás, tenho uma vista boa de tudo no para-brisa, logo podendo avistar uma quantidade pequena de carros virando na mesma rua que nós e engoli em seco ao me abaixar ainda mais para ver a enorme estrutura vermelho-tijolo e branca a uns quatrocentos metros a diante. O aperto em meu peito retorna e eu me sinto presa à maca na Ala Hospitalar novamente, sem poder me livrar do que quer que seja. Engulo a saliva em minha boca, respirando fundo.
— Se você estiver realmente em apuros, o Stark vai saber, . Isso não há nem para que lembrar você, literalmente não há para quê. Agora, se alguma menina chata empurrar você da escada, a Legião de Ferro não vai vir te levantar. O que considera “alguma coisa”?
Me permito sorrir, guardando meu fone de ouvido.
— Não querer sair do carro, por exemplo.
A escola é bem maior do que eu imaginei que seria, principalmente quando Stark me contou que era pública. Mas, aparentemente, o governo de New York não poupa investimentos na área tecnológica. Na verdade, o mundo inteiro não poupa. Foi complicado entenderem que não estamos sozinhos no universo e a tecnologia humana é ultrapassada demais se comparada com nossos vizinhos no resto da galáxia. Mas, de volta ao purgatório, a instalação é gigantesca e eu posso contar quatro andares, assim como um pequeno bosque ao redor da escola e um campo de futebol americano, um ginásio e um prédio que deve ser a biblioteca. O último me dá um boost de animação.
— É, eu não vou poder fazer muita coisa. A não ser levar você para o shopping e perder meu emprego. É uma pena, mas comprei um canal novo na televisão a cabo que só transmite Downtown Abbey no horário nobre e não posso perder o salário. — Apanho a alça da mochila quando Happy para o carro do outro lado da rua, provavelmente sabendo que eu não quero ser deixada na porta por meu “motorista particular”. Finjo que estou ajeitando o zíper da bolsa por um segundo só para ganhar tempo enquanto rio com nervosismo. — Chegamos. — Ele anuncia o óbvio, tentando chamar minha atenção. Entreabro meus lábios, mas Happy me corta, me encarando pelo retrovisor. — Vai dar tudo certo e ninguém aí vai te morder. Se morderem, você morde de volta. Tony tem ótimos advogados.
— Obrigada pelo concelho, Happy. Eu vejo você mais tarde?
— Vou trazer um Big Mac e chocolate. — Promete. — Vai que precisa, né?
Deixo o carro com minhas mãos enfiadas no bolso do moletom, os fones firmemente plugados em meus ouvidos e com uma expressão de constipação – profilaxia para o hamburger? É provável. – O sol está estranhamente quente na cidade que nunca dorme e eu me apresso para atravessar a rua, olhando para os dois lados vezes demais, querendo ter certeza de que não seria atropelada logo em meu primeiro dia. Bom, tecnicamente, todos aqui estão na segunda semana desde a volta às aulas e eu sou a atrasada. Atravesso o mar de pessoas na frente da escola com rapidez e sem dar muita atenção para o que faço. Por sorte, graças às camadas de roupa, minha pele não encosta em ninguém, evitando os arcos-íris de cores dos estranhos.
Uma das coisas que foram ensinadas a mim, tanto na HYDRA quanto por Natasha Romanoff em missões de reconhecimento, foi a importância de me misturar em meio à multidão. É nisto que os profissionais em sua área são excelentes: passarem despercebidos por sua normalidade. As roupas sempre eram o principal de tudo, muitas vezes sendo recomendado investigar exatamente o que se usavam nos locais que teria de frequentar antes de escolher o seu disfarce. Posso contar, mesmo com os olhos baixos, pelo menos três garotas com roupas iguais às minhas em alguns pontos específicos. Agora, o segundo passo: me manter longe das extremidades e no centro do furacão de alunos. Parece patético querer me esconder, mas a minha ideia é sair daqui como se jamais tivesse entrado.
Já é dentro da escola que eu retiro meu capuz, batendo na porta da secretaria.
— Bom dia. Eu preciso buscar o meu horário.
A senhora com casaco de lã e óculos com armadura vermelha ergue a cabeça para mim, me olhando por trás das lentes e da franja grisalha, dando dois toques no seu ouvido esquerdo ao fazer uma careta de desagrado para mim. Rapidamente, removo os fones, me demorando um pouco com eles graças à rigidez de meus músculos e a vergonha, sentindo calor borbulhar em minhas bochechas ao imaginar se havia entrado gritando na sala, afinal, o passatempo favorito de Sam Wilson era reclamar que os fones me deixavam surda. Me aproximo da mesa agora que ela se levantou, depois de ter mergulhado na direção de seu computador e começado a digitar. O local cheira a canela e menta, uma mistura estranhamente confortável.
— O primeiro dia de aula foi na segunda-feira. — Informou, em um tom ranzinza e eu concordo com a cabeça, entendendo que realmente havia falhado nisto. — Na segunda passada, aliás. — Isso mesmo, : você sobreviveu à HYDRA, lutou contra metade dos Vingadores, estraçalhou o exército de Ultron e está sendo repreendida por uma senhorinha que já deveria estar aposentada. — É a Srta. Black?
Concordo com a cabeça novamente, não muito confiante em minha língua. Não é assim que as coisas funcionam comigo há certo tempo. Os adultos não brigam comigo e me repreendem, sempre parecendo confiarem cegamente em mim e nas escolhas que faço e a responsabilidade inerente delas. Eu aceito as duas folhas impressas, assim como um cartão simples de plástico azul escuro e dourado e um crachá. Estreito meus olhos para o meu rosto no cartão depois que o coloquei ao redor de meu pescoço, não sabendo de onde a minha foto havia surgido. Meu cabelo está curto como agora, logo acima de meus ombros e eu estou sorrindo, minhas bochechas brilhantes e uma expressão risonha. Não tiro fotos por questões de segurança, então imagino que Tony tenha fabricado elas para uma emergência.
— Aí está o seu horário escolar. — Explica a idosa, cujo sobrenome parece ser Brown, apontando para o primeiro papel, um quadro feito no Excel com matérias escolares e números. — O outro é o calendário informativo. Estão os grupos extracurriculares, horários de encontros e as audições para o musical de outono. Algo envolvendo um marginal no telhado de alguém. O cartãozinho você vai apresentar no refeitório na hora do almoço e o crachá não sai do pescoço enquanto você não passar do portão. — Assinto, e confirmo de forma oral que a entendi. Ela suspira e aponta tudo de novo antes de pegar meus livros. — Eu tenho que repetir isso tudo porque vocês têm memória de elefante nesse colégio.
Depois de mais algumas informações sobre horários de aula e a entrega de meus materiais e número do armário, ela me libera para organizar tudo antes de seguir para a aula, entregando-me um passe laranja para apresentar ao meu professor. Então, ao sair da pequena salinha, eu atravesso mais alguns metros de alunos com cheiro de creme para espinhas e creme pós-barba para chegar até os armários, equilibrando livros em meu colo ao procurar o meu. O encontro depois de alguns minutos, precisando me controlar para não usar meus poderes e abrir a tranca rápido e sem esforço. Após algumas idas e vindas com o código, eu consigo destravá-lo quando alguém esbarra em mim, gritando para segurarem o seu aero planador antes que caia no chão.
Enfio meus livros dentro do espaço, apenas colocando em minha mochila aqueles que vou usar até o meio-dia, imaginando que provavelmente poderei voltar e repetir o processo. Neste ponto, o passe laranja já está entre meus dentes, meu joelho apoiado na parede e a mochila sobre minha perna enquanto tento organizá-la. Essa sacola enorme com duas alças tem a aerodinâmica de um tijolo com asas, entretanto, não posso negar que foi adorável que tenham me arranjado uma amarela e com detalhes em vermelho. Quando um alarme toca e todos começam a se mover pelo corredor largo, eu me apresso, jogando tudo o que não consegui enfiar na mochila dentro do armário e o tranco antes de seguir as plaquinhas penduradas no teto até a sala da Srta. Fuentes.
Bato na porta antes de entreabri-la, olhando para a professora que já copiava algumas coisas no quadro com os óculos apoiados na ponta do nariz. Ela aperta os lábios em um pequeno sorriso quando eu apresento o passe ainda da porta, lutando contra a timidez quando percebo que o resto da sala me olha um pouco curiosos. A professora pede que eu entre e assim o faço, seguindo em sua direção antes de entregar-lhe o passe e enterrar as mãos nos bolsos de novo. Nunca sei o que fazer com elas em público quando minhas luvas estão ausentes.
— Senhorita Black, como vai? — Lhe dei um sorriso, vendo que realmente não se preocupava muito com a resposta. — Bom, aqui é a classe de A.P, no caso, aulas aplicadas. O Diretor Stuart disse que você não havia frequentado classes avançadas antes então se tiver algum problema, é só avisar, certo? — Ela continua, me entregando um dos notebooks que estavam em cima da sua mesa enquanto alguns outros alunos ainda chegavam à sala de forma barulhenta e sem o passe. Eu seguro o aparelho pesado demais e com aparência arcaica comparado com os que tenho disponíveis e, estreitando meus olhos, penso bem antes de falar.
— Obrigada. — Agradeço, coçando a garganta. — Mas eu trouxe o meu próprio notebook de casa, Srta. Fuentes, já que vi algo autorizando isso no manual do aluno. — Explico-me, da melhor forma possível, dando uma bela olhada no eletrônico em meus braços antes de lhe oferecer um sorriso amarelo. — Eu posso usá-lo em sua aula?
A professora concordou após tampar seus pinceis.
— Claro que sim, e para ser bem sincera, ninguém usa esses computadores mesmo. — Dá de ombros, com um sorrisinho amigável antes de pedir que uma aluna fechasse a porta atrás de si. — Mas faça o login no wi-fi da escola, certo? Ele vai sempre abrir para você os materiais que os professores usarem e vai bloquear certos sites. — Eu confirmo com a cabeça, me sentindo um pouco menos preocupada, pois a sua bondade em me explicar tudo me acalma. Ela pega o notebook das minhas mãos e olha por cima de meu ombro para as mesas atrás de mim. — Você pode se sentar na cadeira da terceira fileira à esquerda, ok? — Agora amplificou o som de sua voz ao anunciar em alto e bom som: — A Michelle será a sua parceira por hoje!
Ao me liberar, eu torno a olhar para a classe, onde os alunos desviam os olhos assim que eu começo a olhar ao redor, buscando o assento que a professora havia indicado enquanto mantenho certa atenção para as janelas da sala e a vulnerabilidade delas. Todos os alunos estão com os notebooks abertos, conversando em voz alta com os parceiros de mesa ou nos celulares. Mas, surpreendentemente, a aluna que a Srta. Fuentes havia me designado está com os olhos concentrados em um livro gigantesco de capa amarela, sendo muito provável que não tenha percebido que fora designada como minha companhia. Me mantenho quieta quanto ao assunto, certa de que discrição é a melhor ideia. Ela veste um amontoado de casacos acima de uma camiseta cinza, os longos fios crespos soltos e alguns anéis nos dedos, balançando as botas ao som de uma música agitada e sem letra que emana dos fones de ouvido.
— Bom dia. — Cumprimento, ao me sentar no banquinho alto, colocando minha mochila sobre a mesa e retirando meu notebook de dentro dela. O aparelho está limpo, sem os adesivos que Sam e Bucky costumavam colar na parte de trás no intuito de me irritarem. Sem muita importância, esfrego um resquício de cola com a ponta de meu dedo, tentando apagar o contorno circular do que era o escudo de Steve Rogers. A morena ao meu lado apertou os lábios em um sorrisinho forçado que não fez favor de tentar esconder, antes que sumisse com a mesma agilidade.
— E aí, gatinha! — Controlo meus reflexos quando alguém se aproxima de mim, minha mão tendo se erguido alguns centímetros do notebook em um movimento automático meu, um vício enraizado de meus anos como prisioneira e que ainda não tenho total controle. É um rapaz baixo e com traços mediterrâneos, apoiando as mãos em minha mesa e que está com um largo sorriso no rosto e um boné em um tom verde muito desagradável aos olhos. Ele pisca para mim e eu me afasto com um bufar, desconfortável demais com a sua repentina proximidade e preocupada que meu autocontrole tenha demorado a reagir e eu acabe desferindo um soco em sua face a qualquer momento. — Me chamo Flash Thompson, qual o seu nome? — Ou o que posso chamar de uma simples vontade de lhe tirar da minha frente.
Michelle puxa meu banco para perto de si como um ato possessivo que vi em um filme, colocando o braço na minha frente e me fazendo chegar com o tronco um pouco para trás, inclinando-se para poder ficar frente a frente com o tal Flash e fechar a cara em uma carranca irritadiça. A cena é cômica e parece saída de um script hollywoodiano vencedor do Framboesa de Ouro, mas eu não intervenho. Engulo em seco, percebendo que assim que sua mão cheia de anéis esbarra em mim, eu posso ver a sua aura em um tom rosado claríssimo, evidenciando o seu sentimento de aborrecimento com a falta de delicadeza do rapaz.
— Vaza, Flash. — Rosna para ele, não parecendo se preocupar com a careta que ele lança em sua direção, claramente inclinado a ignorar e tentar a sorte outra vez comigo. — Deixa a menina em paz, ela não está interessada em você, está? — Agora ela olha para mim, como se buscasse confirmação, e eu, de uma maneira robótica, concordo com a cabeça. Ela dá um sorriso de escárnio para o garoto. Ele reclama com um “ugh” e se debruça na mesa, atiçando algo em mim que me deixa nervosa por mais uma investida. “Então, gracinha, você está procurando uma boa companhia? Posso ajudar você a se adaptar bem rapidinho. Eu estou sem parceiro, que tal?” O revirar de olhos de Michelle é tão evidente que se me concentrasse o suficiente poderia ouvi-lo.
— Vou passar. Sabe Deus o que o seu ex-parceiro teve de fazer para se livrar de você, não é? — Dou de ombros com humor e volto minha atenção para o meu notebook, desviando do braço protetor e intrometido de Michelle. Parecendo notar meu desconforto e em meio à sua reação surpresa com minha resposta, ela se retrai com uma risadinha no fundo de sua garganta. — Agora, com licença, Sr. Thompson. — Aceno para que se distancie ainda sem o olhar, decidida que ignorar a sua presença é a melhor forma de me livrar de suas investidas desconfortáveis.
Eu volto a me inclinar para frente, minhas bochechas queimando de vergonha com a abordagem nada respeitosa do menino, mas entendendo que o dia ainda poderia ter começado de uma maneira pior se eu não tivesse o respondido dessa forma. A perplexidade da garota é notável quando observa boquiaberta enquanto o tal Thompson se ruboriza e desliza quase apressado para onde imagino ser o seu lugar. Ela havia removido os fones de ouvido e deixado o livro de lado, surpresa demais pelo garoto ter se lançado contra mim sem nem mesmo ter esperado eu ter me acomodado na mesa e pela minha facilidade de retrucar. Está balançando a cabeça enquanto guarda os seu livro na mochila.
— Desculpa, mas eu tenho vontade de socar o Flash as vezes. — Michelle se explica, calmamente, me lançando alguns olhares tímidos mesmo depois de ter estourado com o tal Flash para me “proteger” ou afastá-lo. Um rápido check-up em sua aura e fica claro que sua ideia inicial era conseguir me afastar dele. Eu lhe dou um sorriso amigável, mas de boca fechada, já podendo ouvir quando um burburinho começa nas mesas ao meu lado e até mesmo percebo quando um garoto se esforça para olhar para mim com o reflexo de sua tela. — E do resto do mundo, também. Mas só o Flash basta para acalmar minha sede por sangue de adolescentes mimados. — O discurso me faz rir e ela parece satisfeita consigo mesma, além de tímida, mas dá de ombros enquanto pega seu notebook. — Michelle, aliás.
Me conecto ao Wi-Fi da escola quando a introdução da aula começa.
Thompson levanta a mão, após uma pergunta da Srta. Fuentes. Não ergo a minha apesar de ter lido a resposta da equação no mesmo livro que usamos para a sua aula há mais ou menos um ano, o que agora parece ter sido em uma outra vida. O Dr. Bruce Banner e Stark costumavam deixar livros de cálculos, física e outros espalhados pelo Complexo, como se fossem um rastro em direção a algum tesouro, uma variedade de pistas sinuosas levando a não sei o quê. Quando eu ficava entediada e sozinha, pegava os livros na mesinha de centro da sala ou na pilha na pia da cozinha e os abria ao acaso. Queria ler as partes que Banner havia sublinhado ou aquelas com anotações ilegíveis de Stark nas margens. Queria entender o que podia ser tão certo e importante para eles quererem se lembrar.
Eu costumava me perguntar por que um determinado número ou fórmula estava grifado com amarelo desbotado. Com o passar do tempo, praticamente comi todos os livros e consegui entender as pistas. Criei, até mesmo, as minhas como post-its amarelos, pois minha mente funciona diferente da deles. Nunca perguntei a eles, principalmente sobre os estudo do Dr. Banner sobre biologia, no fim das contas, a importância destes. Por que isso ou aquilo? Uma das piores coisas com relação à distância é pensar em todas as perguntas que eu nunca fiz, de todas as vezes em que, estupidamente, presumi que teria todo o tempo do mundo. E isso também: como todo aquele tempo não parece tempo nenhum. O que resta parece algo fabricado. Memórias fantasmas.
— Sinto muito, Flash, está errado. — A Srta. Fuentes responde, já parecendo acostumada com os erros dele e nem se incomodando com isso. Balanço a cabeça pelo seu raciocínio distorcido. O produto do seno do ângulo vezes a gravidade e dividida pela massa? Não. Nem pensar. A resposta é simples e por um sistema de regra de três com duas fórmulas semelhantes. — Parker? Pode responder? — Ouço algumas risadinhas maldosas, um gaguejar nervoso e Michelle suspira sem paciência ao desviar os olhos para seu caderno. — Mais rápido na próxima, Peter. — Fuentes também parece acostumada, não da mesma forma tediosa que Thompson, mas com um semblante compadecido e entendedor das dificuldades do aluno. — Que tal você, ? Sabe a resposta? — Pisco para ela, ainda sem entender, fingindo desconcerto e vergonha. Ou melhor, amplificando-os. — Nós estudamos este conteúdo na semana passada, então tudo bem se não souber.
Percebo o olhar gentil da professora sobre mim e concordo com a cabeça.
— A massa é eliminada e a velocidade é desprezível porque a luz implica o limite de validade da mecânica. — Minha voz está baixa, porém audível, igual ao volume que uso no laboratório enquanto discuto algumas coisas com F.R.I.D.A.Y na presença de Tony. Pareço normal pela primeira vez desde que pus os pés para fora do Complexo. Ademais a questão é simples e não soa trabalhosa para mim, semelhante às questões que efetuei há algumas semanas. — Então é só fazer a gravidade multiplicada pelo seno e o momento na raiz da relatividade. Regra de três, armar a conta, encontrar os ângulos notáveis e achar o resultado.
A professora bate os cílios para mim quando finalizo minha explicação, surpresa e convencida que talvez eu esteja no nível certo para aulas aplicadas de uma escola já exigente. É provável que não esperava que pudesse lhe responder tão rápido e que estivesse correta por esta ser a minha primeira vez em uma sala de aula de verdade, não que ela sequer imagine isto. Já tive professores incríveis pagos pelo Sr. Stark, então posso respirar aliviada ao tirar física de um dos meus maiores problemas nesta vida.
Michelle me olha um pouco risonha e com surpresa similar, pegando um dos meus papeis entregues pela Sra. Brown na secretaria e os avaliando antes de escolher um e circular alguma coisa, o deslizando sobre a mesa para mim antes de começar a resolver a outra questão que havia sido indicada quando o transe da professora foi quebrado. Eu me inclino para ver o que havia sublinhado:
Academic Decathlon Team.

*


Me sento na mesa mais escondida do refeitório por simples falta de outro espaço disponível, colocando minha bandeja com dois sanduíches de frango e suco em cima desta também e a esquecendo por algum tempo enquanto tiro meu celular do bolso do casaco e a mochila de minhas costas. Posso ouvir a conversa de uma dupla de amigos um pouco distante de mim, mas não me interesso em prestar muita atenção enquanto digito uma mensagem para Potts, atônita, pois havíamos combinado de almoçarmos e agora eu acabei de perceber que apenas poderei sair da escola após as 2:45 da tarde. Minutos depois, ela me manda uma carinha sorridente e diz que está tudo bem e que Happy irá me buscar e podemos jantar juntas ainda hoje. Eu releio a mensagem mais uma vez, incerta se isso vai virar uma rotina e eu terei de comer sozinha em um local cheio de gente.
No meio tempo, envio um emoji exausto para Rhodey.
— Olha, a não ser que os seus planos sejam ser isolada e parecida com um personagem de livro, você está fazendo um péssimo trabalho interagindo com a turma. Recomendo até aceitar a oferta do Flash. — Ergo meus olhos de meu celular para finalmente perceber que Michelle Jones havia estado me encarando esse tempo todo a uma certa distância e se aproxima cada vez mais de minha mesa, segurando a sua bandeja na sua frente e a sobrancelha erguida quase tocando na franja cacheada. — Esse aí é o meu lugar, por falar nisso. — Ela inclina a cabeça, indicando onde me sentei.
Uma onda quente de vergonha tomou conta de mim e eu bati com meu joelho na mesa com certa força enquanto tentava me por de pé, entendendo que deveria sair de sua mesa ou no mínimo deslizar para a ponta desta a fim de não lhe incomodar. Mas me restrinjo de agir quando a garota abaixou o rosto, os ombros tremendo enquanto ri de minha reação apressada. Ela balança a cabeça e gesticula para que eu me sente de novo, deixando as suas coisas em cima da mesa junto a alguns livros enquanto eu o faço, massageando meus joelhos – que ainda estão roxos de uma missão com Tony alguns dias atrás – por baixo da calça jeans e o meu ego que tanto precisa de um boost após me preocupar tanto com sua opinião.
— Me desculpa. — Murmuro, baixo, lhe dando um sorriso envergonhado enquanto ela abre uma barrinha de cereal e seu livro amarelo, dando de ombros como quem apenas pede que eu me mantenha quieta. — Eu sou , a propósito. Percebi que não havia me apresentado antes, estava muito ocupada com aquele idiota, me desculpe. — Eu atropelo as palavras, mesmo que não seja meu propósito inicial, me tornando nervosa demais por estar sozinha com a garota e ter o dever de engajar uma conversa. Ela apoia o rosto na mão ao concordar com a cabeça, ainda lendo sem pausas como se o tempo estivesse correndo na direção oposta dela.
— Pode me chamar de MJ. E não precisa se desculpar tanto. — Propõe e eu aceito de imediato, sem preocupação por talvez parecer infantil e carente demais, louca para agradar quando nem sequer percebo quando exagero nas desculpas. — E então? Vai aparecer na reunião do Decatlo Acadêmico? Estamos indo para as nacionais em algumas semanas. — Informa, com descaso ao deixar o tão querido livro para tomar um gole de chá e eu pondero a possibilidade por alguns segundos antes de concordar sem muita certeza. — Legal. Eu vou falar com a Liz e o senhor Harrington. Ele vai gostar de você, já que é meio estranha: tá com a gola da camisa aparecendo em cima do casaco e tem cara de perdida. — Aponta com um sorrisinho antes de concluir a inspeção. — Definitivamente, vai entrar no Decatlo.
— Obrigada? — Eu me engasgo com o suco de uva que estava tomando. Isso é uma boa conversa, imagino. A garota é brutalmente honesta e eu faço o favor de apertar minha mandíbula para controlar minha expressão, tentando amenizar o semblante de surpresa e estranhamento com tudo ao meu redor além da aparente ausência de papas em sua língua. Começo a remover meu primeiro sanduíche da embalagem plástica quando percebo o nome do livro que ela está lendo. Manson. É cômico. — Você lê biografias sobre líderes de seitas e eu sou a estranha. — Comento, devagar, dando certas ênfases em minha fala.
Seus lábios se alongam em um sorrisinho.
— Você sabe quem ele é, então sim. No caso, nós duas somos estranhas. Mas você ainda está ganhando com o isolamento e respostas exageradas em questões, então, parabéns! — Retruca, com um sorriso, e eu pondero responder, mas acabo concordando com uma risada que escapa, pois a conversa e as cutucadas são revoltantes e divertidas de maneira inesperada. — E eu gosto de criminologia, ok? — Michelle dá dois toques na capa, bem no nariz enorme do sociopata com uma suástica na testa. Engulo em seco com o detalhe perturbador, tirando uma mordida generosa do sanduíche. — O homem era um gênio, mas um doente completo.
MJ explicava algo sobre sociopatia antes de divergir sua atenção para os dois amigos no final da mesa, onde um deles murmurou algo como “É melhor a gente parar de encarar antes que fique esquisito.” enquanto olhavam mesmerizados para uma garota no final do refeitório, esta em cima de uma escada enquanto pendurava um cartaz sobre o Baile de Boas Vindas. Se não estou enganada, e geralmente não estou, o seu nome é Liz e nós tivemos aula de química juntas, onde ela me ajudou com meus materiais junto à sua amiga loirinha, Betty, ambas sendo muito prestativas e até mesmo sorriram para mim quando elogiei seus sapatos, assim como Pepper havia me dito para fazer no caso de ficar sem assunto. Engulo uma boa golada do suco azedo, ainda pensando se deveria pedir a autorização de Pepper ou Tony para me inscrever no Decatlo, que MJ disse ser responsabilidade da própria Liz Toomes.
— Tarde demais, idiotas. Já é esquisito.
Uso o guardanapo para limpar o canto da minha boca quando os dois se viram em nossa direção, surpresos por serem pegos tão desprevenidos, alarmados pelas palavras altas de MJ, que altera o seu tom apenas no intuito de os provocar. O mais baixinho e gordinho dos dois, que usa uma camisa de anime, fecha a cara com a provocação, me fazendo curvar os lábios em um sorrisinho amigável para distraí-los da veracidade das palavras de MJ. Já o outro rapaz quase me fez rir, estando completamente perplexo com nossa presença na mesma mesa e sem nem ter nos notado antes, mas com certeza acostumado com as zombarias nada delicadas de Michelle.
Talvez seja um traço específico dos alunos de Midtown.
— Ué? Então por que você está sentada com a gente? — O maior questionou, e MJ revirou os olhos com falso mau-humor, voltando a enfiar o nariz em seu livro enquanto sua aura cintila em um laranja claro divertido e satisfeito com a situação. Eu finalizo meu suco ruim em um gole antes de perceber que os dois rapazes ainda me encaravam, logo os lançando em um loop de rubores e desviar de olhos quando retorno o olhar igualmente curioso. — Oi, o meu nome é Ned! — O gordinho ergue a mão e eu lhe dou um sorriso fechado, balançando a caixinha vazia e alguns dedos se erguendo para cumprimentá-lo de volta na mesma intensidade. — Você é a garota que deu um fora no Flash?
Percebo quando seu amigo se inclina para frente, os olhos brilhantes incrédulos.
— O idiota mal-educado? — Questiono, pela simples vontade de ver Michelle balançar a cabeça com humor e o desejo de relembrar a falta de educação do outro aluno. Os dois assentem com veemência e sorrisinhos animados, me fazendo sorrir abertamente pela primeira vez. — Sim. Por quê?
O amigo de Ned sorriu para mim.
— Você é a minha heroína.

*


— Mudança? — Eu questiono, alto, assim que entro no corredor do laboratório. — Vai se mudar, Tony?
O Sr. Stark está debruçado sobre uma das telas dos computadores quando eu volto do estágio, o que em suma foi apenas algumas horas ouvindo os médicos discutirem as abordagens mais corretas para o tratamento de Rhodey e se surpreenderem por eu entender sobre quase todas as propostas além de indicar alguns artigos que encontrei sobre o assunto. Ainda uso as mesmas roupas que estava quando saí hoje pela manhã para a escola, mas o casaco está em algum lugar na sala e meu tênis estão no topo da escada. O herói me olha rapidamente, por trás da parede de vidro que sela o seu laboratório, e move os lábios para permitir minha entrada, logo as portas que nos separam se abrindo. Eu repito a pergunta ao adentrar o espaço gigantesco, desviando de um dos braços mecânicos criados por Stark para auxiliar em seus projetos, que perde o controle e quase me acerta na cabeça quando ergo a mão e o metal atinge uma barreira criada por mim.
— Eu preciso arrumar isso, nem todo mundo aqui tem poderes... — Stark resmunga, ao se pôr de pé da sua cadeira, coçando a parte de trás da cabeça com uma caneta e me fazendo suspirar impaciente. — F.R.I.D.A.Y, concerte o Nº7 antes que ele mate a . — Eu ergo a reportagem na sua direção, meu celular brilhando em minhas mãos. Tony suspira com um bico, digitando algo no computador. — Vou. — Ele se inclina em cima da mesa e faz uma careta para meus pés. — Onde está o seu sapato, menina?
Meu coração começa a bater com força contra meu peito, a notícia de segunda mão me deixando atônita e um pouco magoada. Gostaria de um aviso prévio e a ideia de Tony nem ter se preocupado em me contar sobre isso me deixa triste, afinal, é algo importante. Ainda não tinha entendido o intuito de Happy se prestar a me levar para a escola todas as manhãs agora que a Pepper está trabalhando em um prédio a poucos quilômetros do Complexo, mas a notícia me leva a entender. O Sr. Stark vendeu a Torre dos Vingadores sem muito alarde até que a sua equipe começasse a mudança para sabe Deus onde, Hogan é o chefe da mudança e simplesmente havia me dado uma carona, pois estaria nas redondezas pelas próximas semanas.
— E onde eu vou ficar? — Minha voz soa, como sempre, mais infantil do que eu queria e eu pareço uma menininha assustada. Já fui realocada umas cinco vezes em minha vida, mas sempre me preocupo quando o momento chega e infelizmente havia me apegado aos heróis de maneira fraternal, muito mais do que a maioria dos médicos dizia que eu poderia emocionalmente fazer. Eu me sento em um dos banquinhos na sua frente, com minhas mãos no meu colo enquanto observo braços mecânicos surgirem do teto, consertando o robô defeituoso. O Sr. Stark ainda está no computador, mas agora concentrado em um pequeno chip na lâmina do microscópio enquanto o faz. — A Natasha sumiu, o Capitão e o Bucky são procurados, o Dr. Banner abriu um buraco na Terra e se escondeu e o resto das pessoas que deveriam estar aqui também desapareceram. O que vão fazer comigo?
— Tony, para de torturar a pobre menina.
Eu olho para trás quando a voz da Srta. Potts ressoa pelos alto-falantes, aveludada e reconfortante. Sua silhueta surge atrás do vidro com algumas taças de uma bebida amarela clara nas mãos. Quando eu peço que FRIDAY abra a porta, ela também entra no laboratório, os fios ruivos presos em um rabo de cavalo e o conjuntinho de terno e saia branco. Mas ao contrário de saltos, ela também caminha pelo chão gelado com os pés descalços e nas pontas dos pequenos pés com pedicure vermelha.
Quero rir da situação, mas ainda estou confusa e nervosa demais para reagir quando ela me entrega uma das taças depois de depositar um beijinho em minha cabeça. Certo, está tudo estranho demais. “Por quê? É divertido! Olha a cara dela de cachorrinho que caiu do caminhão de mudança!” Eu faço uma careta quando Stark começa a rir ao explicar suas ações e recebe um beijo da namorada, me fazendo revirar os olhos. Quando os dois terminam de me torturar, Potts entrega uma das taças em sua mão para o inventor.
— Legal: o amor ainda existe. — Retruco, fingindo estar enamorada com a cena, me distraindo por um segundo com uma mensagem que surge na tela de meu celular, mas logo voltando minha atenção para o casal. — Mas eu ainda estou perdida. Vocês irão se mudar ou não?
Pepper dá de ombro e concorda com a cabeça.
— Sim. — Tony responde, decidindo finalmente se atentar para a minha presença e deixando o que quer que estivesse fazendo de lado. Eu ergo as sobrancelhas para os dois, como quem quer uma resposta mais elaborada antes que Stark se pronuncie de novo. — Vamos nos mudar para cá. — Os dois começaram a rir, enquanto Potts questionava se as câmeras de segurança estavam ligadas, pois iria passar este vídeo no meu casamento. Foi como se uma tonelada tivesse sido erguida de meus ombros e eu me pego rindo envergonhada de minha reação exagerada antes e depois da notícia quando me debruço sobre a mesa, enterrando meu rosto nas mãos para não precisar olhá-los. — Viu? Eu disse que seria hilário! E onde está o seu sapato, Pepper? Vocês não são nem um pouco súbitas que querem sapatos novos.
— Eu odeio vocês dois. — Murmuro, abafado.
— Bom, a ideia era irmos para Washington. — Pepper inicia, ainda risonha e eu ergo a cabeça ainda apoiada na mesa, vendo quando ela tira o celular do bolso e lança ele em algum lugar na mesa. — Mas, simplesmente não dá. Todos os contatos que temos em razão da Stark Industries, os restos da SHIELD e tudo está aqui e realocar os funcionários seria uma péssima ideia em relação às famílias e há também a questão de ser uma área muito boa para tecnologia. New York é perfeita. Mas também temos que pensar em você, . — Potts explica, brindando com o namorado a pegadinha bem-sucedida, mas eu ainda permaneço confusa quanto à minha importância, mesmo que feliz por terem se preocupado em pensar em mim. Pisco, mesmo sem entender exatamente o que significo na equação. Sou parte da antiga SHIELD, então não entendo o que isso difere das outras problemáticas.
Os dois trocam um olhar como se eu fosse louca.
— O que foi, garota? Pepper, repete, ela está viajando. — É Tony que indaga e brinca, balançando a cabeça ao bebericar o conteúdo da taça. Eu dou de ombros, não entendendo muito bem o motivo do estranhamento dos dois em relação a mim. Os chips já estão a todo vapor e eu não consigo captar nada para entender o que se passa na mente de Stark e Pepper, o que me deixa preocupada. — , você achou que nós íamos fazer o que com você, hein? Pepper, isso que deu para ela é suco de maçã, não é?
Eu me encolho em meu banquinho, balançando a cabeça sem saber.
— Realocar como o resto dos funcionários? Eu sei que não faço muita coisa, mas vou às missões quando precisam, Tony, e vocês meio que me pagam com comida e abrigo. — O horror nos olhos dos dois, principalmente nos de Stark, me deixam assustada. Certo, agora eles estão pensando que eu quero dinheiro. Muito bem, . — Eu, tecnicamente, não tenho família, vocês estão lembrados, certo? Não sei para onde iria, mas poderia dar um jeito assim como os outros funcionários dariam. Não precisam me olhar assim. Eu posso me virar. — Asseguro-os, quando Pepper contorna a mesa, os olhos apertados em uma feição que não consigo entender. — E a Wanda matou o Brock, gente. Ele provavelmente tinha algum dinheiro para a “filha adotiva” roubar no post-mortem que eu poderia achar.
Pepper entrega a taça para Stark e agora está diante de mim, ruborizada.
— Primeira coisa: Não diga o nome daquele homem dentro desta casa de novo, ouviu, ? Nunca mais a não ser que não tenha outra opção. Entendeu bem? — Eu aceno, um pouco surpresa com a ofensiva, sem discordar e ela suspira com força antes de me envolver em um abraço protetor que eu não entendo, mas logo que suas mãos começam a acariciar meu cabelo, estou a abraçando de volta, minhas mãos cruzadas em sua cintura por falta de opção melhor. Ela bufa, exasperada com o que eu disse. — E segundo: por que acha que decidimos ficar aqui e mantê-la conosco? Larga de besteira. Você não é funcionária de nada, ou quer que sejamos presos por exploração e trabalho infantil? Você é da família. Ponto final.
Ouço quando Tony arrasta sua cadeira e meus olhos já estão fechados.
— Nós poderíamos jogar você em uma casa de apoio há um século, mas jamais faríamos isso. Você não é como um pum que eu posso soltar e deixar o vento levar. — Eu começo a rir contra Pepps com o humor na voz de Stark, mesmo que o assunto seja sério e sinto quando a mão da mulher me solta e volta após Tony reclamar de um tapa audível, mas ela também está rindo e eles parecem não notar o efeito que têm sobre mim. Meus olhos estão marejados sem piedade alguma da maquiagem ainda em meu cílios. — Agora, falando sério, nós estamos aqui, então não tem pra quê ficar com medo de ficar sozinha, valeu? Tu tem: o teu mentor jovem e bonito e charmoso que vai ficar de olho em ti por um tempo. Já a Pepper... Eu a vejo sendo a sua avó. — Não quero pensar porque isso importa tanto, então apenas concordo com a cabeça de novo.
— Tony, eu sou cinco anos mais nova, seu babaca.


Homecoming II — Power to the Nerds

(Três meses desde a queda dos Vingadores)


— Não faz mais isso, MJ.
— O quê?
— Me deixar sozinha com um monte de adolescentes.
A moça me entrega um copo com um líquido azul dentro, soltando uma risada de desdém por minha reação desesperada e criada apenas para lhe fazer rir. Ela se senta no balcão da cozinha luxuosa de Liz Toomes e empurra alguns pratos com canapés pela metade para dentro da pia, ninguém tendo optado por torradas com queijo e tomate quando havia bolinhas de queijo e pizza em algum lugar. Eu balanço a cabeça, ainda boba devido à situação para qual ela conseguiu me arrastar bem no meio da terceira semana de aula.
— Prova isso aí e me diz se não é a coisa mais nojenta do mundo.
Pepper e Tony estão em viagens distintas, mas ambos longe demais de mim para saber que eu estou aqui, ou que peguei um dos vestidos floridos de Pepps para vir, ou que convenci Happy a me deixar dormir na casa de MJ sem que o guarda-costas surte e ligue para Tony. Claro que não me autorizou a escapada sem fazer uma busca no sistema de segurança sofisticado dos Vingadores e engolir que não há mal algum que os pais de Michelle — uma professora de artes plásticas e um psicólogo — possam fazer contra mim. Ou seu irmãozinho que tem um canal do Youtube, que faz reviews sobre bonecos de heróis.
— Isso aqui tem álcool?
Questiono em voz alta, acima do som da música que explode as caixas de som na sala e irrita minha audição poderosa, balançando o líquido estranho para ver sua espessura. Ela sorri e nega com a cabeça. Uma vez já havia me dito que a minha inocência para com tudo o que cerca a vida adolescente lhe impressiona, mas ainda é hilária, e pediu que eu continuasse assim. Em pouco tempo, com a sua presença sempre ao meu lado, consegui fazer certas coisas bem legais e divertidas, que me animam a ir para a escola todos os dias. O decatlo foi bem fácil, afinal, o Sr. Harrington já havia tido uma chance de me ver respondendo alguns exercícios na velocidade da luz no dia anterior. Depois disso, Michelle me mostrou como gazear a aula de educação física e ainda ter nota alta ao comprar chocolates para o Sr. Keenan. E agora me trouxe para esta festa, que fomos convidadas ontem, por uma Liz superanimada pela autorização dos pais.
— É Gatorade, . Tem mais açúcar e corante que água, mas é bem famosinha — explica, ainda rindo no mesmo instante que a campainha toca e ambas nos viramos para a porta, mas logo retornamos ao estado de antes quando outra pessoa a abre. Bem, Michelle retornou para ver o espetáculo que minha careta foi e eu apenas ergui a cabeça, tomando um gole longo da bebida cheia de açúcar. É estupidez fazer isso, mas não consigo evitar confiar na menina que se ofereceu para amarrar meu tênis vinte minutos atrás, pois estou de vestido e não queria que um idiota me visse. — Uma delícia, né? — ela ironiza. — Sentiu esse gostinho de sabão em pó?
— MJ, isso é horrível! — reclamo, com um chiado ao pôr a língua para fora e balançar meus ombros em um arrepio pelo exagero de açúcar e ter realmente detestado a bebida. Limpo meus lábios com um guardanapo e a ouço gargalhar como nunca. Três anos atrás, teria ficado satisfeita por simplesmente beber algo que não fosse água suja ou urina reciclada, mas acredito que após tanto tempo vivendo com Tony e podendo provar das melhores comidas do mundo, criei até um senso para comida. — Isso tem gosto de... — Esfrego meus dedos em busca de um exemplo. — É como uma bala de menta, água gelada e enfiar a cabeça em um freezer enquanto despejam nitrogênio líquido na sua coluna — exemplifico, e ela ri de mim, logo encho um outro copo com a água da pia e o bebo, me sentando ao seu lado no balcão e cruzando minhas pernas ainda com o horror da bebida presente na língua. — -2 de 10, não recomendaria.
— Oh, Black, você é uma dama se sentando assim!
Lhe dou um empurrão com o ombro, medindo a minha força, mas ainda a balançando e arrancando um sorrisinho. Ela olha ao redor rapidamente, me cutucando ao apontar para a porta da cozinha, onde identifico duas figuras conhecidas paradas como estátuas, completamente desabituados a tudo que se passa ao redor deles, assim como nós duas, tanto que tomamos refúgio na cozinha quase vazia. Eu tomo mais uma golada da água, estalando meus lábios para garantir que o gosto terrível saiu e olhando-os, entortando meus lábios em um sorrisinho quando Peter Parker, cujo nome aprendi alguns dias atrás, respira tão fundo que seu peito infla e ombros se erguem. E, oh, é hilário... Por que alguém não bota fogo nesse chapéu do Ned?
— Não acredito que vieram a essa festa estúpida — MJ anuncia, com um curvar de sobrancelhas, alterando sua expressão por completo e eu rio, abaixando a cabeça com a ironia. Ah, certo, MJ, vamos fingir que você não trocou de camisa duas vezes antes de sairmos.
— E você veio também — Ned conclui, com uma expressão séria, mesmo sorrindo um pouco depois, e Michelle pula do balcão, indo na direção de uma caixa de pizza em cima da mesa para fugir da conversa. Ofereço um sorrisinho para o rapaz, agora que a maior já se afastou e eu não estou mais escondida em sua sombra. — Ah, oi, ! — ele saúda, animado, maneando o chapéu para mim.
— Oi, gente — cumprimento, aproveitando para descer da pia e ir à direção dos dois, me encostando na porta e encolhendo minha forma para fugir da luz de led lilás que vibra, não me arriscando muito a deixar o cômodo quase invisível aos outros alunos que estão dançando na sala. É como um refúgio secreto com pizza e Michelle. — Chapéu legal, Ned. Combinou com você — ele sorri orgulhoso e um pouco tímido, seus olhos quase sumindo e Peter me olha, ainda atônito. — Parker, você está bem? — ele concorda com a cabeça várias vezes, respirando bem fundo e assentando as mãos nos jeans, possivelmente removendo os traços do suor que deveria estar nelas. Tento ignorar o quão adorável é que os cachos em seu cabelo balançaram também no processo. — Bom, não parece tanto. Já o Ned, parece estar no habitat natural — comento, com gentileza.
— Ah, até parece... — o outro disfarça, tímido.
— Tá, tá. Mas aposta quanto que esse aí vai ter um ataque? Dou dois segundos...
Quero rir quando MJ se aproxima por trás de mim, instigando Peter de maneira óbvia e eu sigo o olhar dela na direção de Liz, esta que se aproximava dos dois com um sorriso super gentil. Eu dou um tapinha no ombro de Michelle antes de empurrá-la para dentro da cozinha de novo, perguntando de qual caixa havia pego a pizza enquanto ela apenas resmunga que não entende exatamente qual é a daqueles dois e se ainda não tinham superado a sexta série, onde todo mundo era apaixonado por Star Wars e Liz Toomes. Tiro um pedaço da pizza fria e borrachuda antes de lhe responder, aproveitando para abrir um sachê de ketchup e espalhar na fatia.
— Eu os acho legais — afirmo, com sinceridade, abrindo um outro sachê e oferecendo o resto que não passei em minha pizza para Michelle, logo depois que ela tira toda a calabresa de cima da sua. Claro, ela é vegetariana. Dividimos o condimento e tiramos algumas mordidas em um silêncio confortável antes que eu me pronuncie novamente. — Você não acha? Ah, é! Você não tem aquele negócio, certo? Qual era o nome mesmo?
MJ ri e joga a cabeça para trás, fios cacheados nos olhos.
— Coração.
— Isso mesmo.
“E aí, galera! Todo mundo com as mãos pro alto!” A voz estridente de Flash não se assemelha ao tom que eu gostaria de ouvir diariamente por escolha própria, mas é impossível que não lance algumas cantadas em minha direção hora ou outra e eu seja forçada a aturar sua presença. Quero revirar meus olhos pela dose absurda de vergonha alheia, causada por suas aparentes frases prontas, mas me concentro em minha comida e o ronquinho do engasgo de MJ com a estupidez dele. “Ah! Pinto Parker! Cadê o seu amigo Homem-Aranha?” Um som miúdo reverbera de meu peito, um rosnar irritado como dei esta manhã, quando o próprio Flash derrubou os livros de um garoto e não pude usar minha telecinese para bater com a sua cabeça na parede.
“Ah... Já sei! Ele está no Canadá, junto à sua namorada imaginária!” Michelle suspira, encarando o teto e toda a animação que tinha estocada para a noite (para nossas futuras partidas de UNO em sua casa) parece se esvair como cinzas quando a voz mais que insuportável de Flash ressoa pela casa dos Toomes, me fazendo fechar os olhos em algo que não consigo descrever além de frustração. Nem mesmo fora da escola, onde sempre quer se provar ser popular para disfarçar os problemas pessoais e tentar forçar um senso de humor inexistente em suas piadinhas depreciativas sobre os outros, Flash deixa de ser insuportável e intrusivo ao ponto de não saber por que foi convidado quando é tão intolerável. Quando as buzinas estúpidas de sua mesa de ‘DJ’ soam e todos lá fora riem, eu mordo a minha pizza com força e meus dentes se chocam.
— Bom, um dos legais está vindo e eu vou pegar mais refrigerante antes que eu agrida o Flash e você não tenha interesse em me impedir. — Me viro quando ela anuncia, entre uma dentada, podendo ver quando Peter se aproxima, os olhos baixos enquanto pega um copo ainda dentro do saco plástico. Sinceramente? Não tenho a mínima ideia se me importaria em impedi-la de disturbar apenas um pouquinho Flash Thompson, mesmo conhecendo as origens de sua necessidade por atenção. — Sinto muito, Parker — ela bufa, ao passar pelo mais alto, que dá de ombros, e um sorrisinho que some no mesmo instante que ela também sai.
Quando Michelle se distancia mais e eu sei que ficaremos sozinhos por um tempo, eu tomo um pouco de coragem para agir por pena do rapaz que sofre nas mãos maldosas do outro adolescente. Retiro um pedaço da pizza com um guardanapo, me atentando para que tenha bastante queijo nela, e oferecendo para o garoto assim que me aproximo dele. Nunca havíamos tido algum tempo para ficarmos sozinhos, e da mesma maneira que aconteceu hoje, quando fui direto da escola para a casa de MJ, meu estômago sente borboletas assassinas flutuarem graças à ansiedade que não parece querer me dar uma trégua. Não sou boa em conversa ou algo assim, mas sei como é se sentir diferente e não ter muito como mudar este status em um lugar ‘novo’ onde não há muitas opções, então me auto congratulo quando ele aceita a pizza de bom grado.
— Obrigado, — agradece, em um timbre baixo e envergonhado enquanto me encosto no balcão ao seu lado com certa distância, cruzando minhas mãos em meu colo, ainda indecisa em que fazer com elas. Peter olha ao redor antes de sorrir um pouco para mim, tirando um pedaço tristonho da pizza e parecendo realmente exausto com tudo, mesmo que consiga esconder isso em uma expressão neutra. Ademais, gosto da maneira que ele pronuncia meu nome, quase arrastando o final como um suspiro aliviado, o que realmente é devido à situação.
— De nada, Peter.
Sempre achei que pronunciar o nome de outra pessoa em voz alta fosse algo vergonhoso e digno de timidez. Parece intimidade demais para alguém que, como eu, foi criada para não me apegar em nada, pois alguma hora iria embora. No orfanato, sempre fora assim, pelo o que me lembro daqueles dias confusos. Já na HYDRA, nomes eram proibidos e hoje entendo que era mais uma forma de tortura, além de uma segurança para a Organização em caso da captura de seus soldados ativos, como eu fui treinada para ser e Bucky Barnes foi por mais de sessenta anos. Com esta ponte destruída, foi complicado demais atender ao meu próprio nome e aceitar que finalmente possuía um depois de viver em relativo anonimato dentro de minha própria mente.
— Sinto muito pelo Flash. Ele é um idiota e não é só com você, mas, infelizmente, ele prefere me encher com cantadas de pedreiro — condeno o DJ que toca músicas pop alto e ele assente, sobrancelhas esparsas franzidas em concordância e frustração. — E, olha, se você for realmente amigo do Homem-Aranha, diz pra ele que ele é incrível. E que seria legal se ele desse um cuecão no Flash. Ou pendurasse ele no topo do Empire State Building, claro que depois de me dar um autógrafo. — Dou de ombros, satisfeita pela minha sutileza ao mencionar o herói. Devo admitir que um senso irredutível de pretensão brilha em mim, afinal, os atuais heróis são o mais próximos que conheço de celebridades. — E um para o Flash também.
Peter Parker solta uma risada nasalada, ainda com a pizza no caminho da boca, e balança a cabeça como se a possibilidade seja realmente algo a se levar em consideração. Preciso segurar um sorriso ao ser minha vez de considerar se o novo herói de Tony realmente faria isso, mas não tenho propriedade alguma de dar um veredito, afinal, trocamos algumas palavras sobre o herói gigante no aeroporto e ele mencionou Star Wars, contudo sei que ele e Stark aparentam ainda manter contato. E acreditar que Peter Parker, um adolescente de dezesseis anos, mantém contato com alguém como o Homem-Aranha é quase cômico e impossível demais, assim como seria para mim (ou a personagem que atuo na escola) manter com o Homem de Ferro. Mas não menciono isso. O sorriso de Parker é amável demais equiparado com o remix terrível de Taylor Swift que Flash escolheu.
— E-eu vou dizer — compromete-se, rindo um pouco e dando ares de maior conforto em minha presença. Eu ergo meu rosto com satisfação, afinal, aparentemente consegui interagir com outra pessoa sem ser Ned ou MJ em níveis rasos. Até mesmo conversei um pouco com Liz Toomes hoje assim que chegamos. Ela é adorável e inteligente, sinceramente incrível, portanto, consigo entender a queda de Peter por ela e sua inclinação a agir como um tolo perto da moça. — Obrigado, tá? O Flash tem feito isso a uns, o quê? Sete anos? — Aperto meus lábios em aborrecimento, descrente que as provocações tenham se estendido por tanto tempo. — E q-quando eu disse que você era a minha heroína na semana retrasada, estava falando sério. Você foi uma das poucas pessoas que não deixou o Flash te tratar daquela forma simplesmente por... Ser ele.
Balanço a cabeça, irritadiça.
— Ser louco por atenção porque os pais milionários não têm interesse algum na vida pessoal do filho? E o senso de poder em importunar alguém é viciante? — retruco, azeda, imaginando que isso seria exatamente o que Pepps me diria caso eu fosse Peter e estivesse presa em um ciclo tão tóxico como Parker está graças a Thompson e sua necessidade de incomodar os outros desta forma. Me sinto um pouco mal por expor os pensamentos íntimos do bully desta maneira, mas me aproveito da inocência de Parker sobre meus poderes para soltar essa informação útil como se fosse um blefe ou tentativa de entender o perfil do rapaz. — Mas eu até admiro você, sabia? Aguentar isso tudo e ainda não ter matado ele? Eu não conseguiria alimentar a necessidade de controle do Flash com tanta calma. Admiro seu autocontrole.
O garoto mais alto que eu, bem mais alto, tosse contra a mão.
— Você me admira? Tem certeza? — questiona, incrédulo, começando a rir e acabando por me fazer imitá-lo. Eu mordo minha bochecha para controlar um sorriso, dando uma cotovelada no seu braço ao concordar, esta sendo a minha vez de alimentar o seu ego, que precisa de certo apoio. — Por que sou eu quem estava quase tendo um infarto quando cheguei se você não notou, tá? — Parker se freia, possivelmente ao notar que falou e se expôs demais. Ele limpa as pontas dos dedos com o guardanapo e me surpreende de forma positiva ao continuar. — Eu não queria vir. Exatamente por causa... — “Um otário reclamou da música, então vamos ouvir ela de novo!” Suspiro e aperto meus lábios, insatisfeita pela voz de Thompson. — Disso. — Peter indica com a cabeça, ainda mais envergonhado. — A Liz é legal por ter convidado a gente, mas...
— Nem uma garota bonita é o suficiente para aturar o Flash? — Parker está rindo, a cabeça tão abaixada que me preocupo com a sua pressão arterial, mesmo me divertindo agora que também posso lhe provocar em razão de seu comprovado afeto por ela. Cruzo meus braços sobre meu corpo, desviando a minha atenção para a manada de jogadores de futebol que cruzam a porta da casa de Liz Toomes. Eles são gigantescos, com ombros largos e faladores, alguns com o casaco do uniforme azul que usam com orgulho e engradados de cerveja. — Eu quase não vim por eles. — Aponto com o queixo, ciente que minha aversão soa fútil comparada à sua. — Não gosto de lugares com muita gente, mas vim porque não queria ser ingrata com a Liz sendo tão gentil comigo.
Sei que Peter está me olhando, mas estou focando minha atenção nos alunos.
— Ela não ia deixar de chamar. A Liz sempre convida todo mundo para as festas. — comenta, para me assegurar, e mesmo que eu tenho uma resposta autodepreciativa para a sua tentativa, me mantenho quieta e aceito de bom grado a sua provável dificuldade de falar com estranhos e nervosismo. — Bem, ela me convidou. Isso deve significar alguma coisa. E... — Outra pausa, esta sendo em razão da significativa aproximação de duas líderes de torcida, estas tão envolvidas em sua própria conversa para perceberem que estamos aqui e quase trombarem em Peter. Dou alguns passos para trás, ainda tentando manter certa distância entre nós. Quando elas pegam duas garrafas de água e saem, estou segurando meu sorriso. Até mesmo em um escola para nerds, os clichês adolescentes estão presentes. — E ela com certeza vai te convidar todas as vezes. Você é uma garota bem legal, . Está passando a festa na cozinha, comendo pizza, conversando com o idiota da turma e não quebrando os enfeites caros da mãe dela.
— Não se ache tanto, Sr. Parker, o Thompson está em primeiro lugar na minha competição de idiotas — garanto, em uma luta contra a timidez causada por seu elogio vago e gentil. Cruzo meus braços sobre o peito, percebendo que, em menos de cinco minutos, Peter havia comido uma terceira fatia inteira de pizza. — E eu tenho certeza de que você também é um cara legal, Peter.
O rapaz sorri, as pontas de suas maçãs do rosto rosadas.
— Obrigado, — sussurra, imitando minha posição e cruzando os braços, me dando um pouco de conforto ao perceber que sua expressão não está mais tão pesada ou humilhada como estava após as provocações babacas de Flash Thompson. — De verdade — eu concordo, mesmo sem entender por que pensaria o contrário. Peter é ótimo em quase todas as matérias e é engraçadinho. O tipo de garoto que Tony iria odiar e Steve ia gostar. A sombra de um sorriso surge. — E quanto ao Flash sendo um idiota e incomodando você, acho que teria menos problemas se eu estivesse por perto, não é? Iria distrair ele de você. Um pouco.
— Essa foi a proposta de escudo humano mais decente que recebi. Obrigada.
— Na verdade, foi um convite para sentar-se com a gente no almoço — Peter exemplifica, no meio de uma risada tímida, mesmo que eu tenha entendido seu intuito e esteja lisonjeada, me questionando se é um convite que se estenderá para MJ e seu humor ácido. Espero que sim. Ergo a sobrancelha, pressionada a sorrir. — Se quiser, claro.
— A ideia de jogar você na direção do Flash sempre que ele aparecer é convidativa.
A risada que lhe escapa parece fazer tudo melhorar.

*


Eu me agarro ao braço de uma Michelle Jones sonolenta quando o metrô freia e quase escorrego do banco devido à falta de sono decente durante a noite. Ela se levanta com um sorriso entretido enquanto eu ajunto do chão o meu celular e as inúmeras moedinhas que haviam caído da minha mão, precisando acelerar o passo para acompanhá-la e fugir da outra multidão que entra no veículo após a nossa saída. A cena fica ainda mais cômica quando as portas quase se fecham em mim, mas eu consigo passar sem usar de uma agilidade sobre-humana. Minha mochila bate com força nas minhas costas enquanto descemos as escadas da estação que fica de frente para a escola e Michelle me pergunta se, alguma vez na minha vidinha de garota de Manhattan, eu já havia andado de algo tão “radical” como metrô. Oh, a ironia.
— Eu quero muito dizer que sim só para te contrariar porque você é insuportável — retruco, com certa atitude e a ouço rir enquanto atravessamos a rua, lhe dando um empurrãozinho quando chegamos em frente à escola apenas para provocá-la. — Mas não, sua pé no saco. — MJ solta uma risada tão alta com minha tentativa de ofensa que eu me pego rindo junto a ela, não me preocupando muito com a plateia dos outros alunos no gramado, a maioria concentrados em seus próprios amigos ou problemas. — Nunca andei de metrô e nem de ônibus.
Michelle me olha como se eu fosse uma aberração e eu simplesmente dou de ombros, sem me explicar muito e decidida a manter informações vagas pela minha própria segurança. Claro que eu não vou lhe dizer que já andei no Quinjet dos Vingadores, ou no jato particular com piloto automático revolucionário de Tony Stark ou um porta aviões da SHIELD após a explosão de uma cidade, então apenas a ouço rir na minha cara com a minha melhor careta. Hoje “acordamos” ao som de algo que seus pais chamaram de ‘Mizmar’ e que é um instrumento de sopro muito popular no Egito, como uma flauta desafinada. Parecendo acostumada com a barulheira de sua casa, a primeira coisa que fez quando nos levantamos — eu em sua cama após muita discordância e ela em um colchão ao meu lado — foi me entregar um saquinho com tampões de ouvido que me fez rir por um bom tempo.
A noite foi complicada e ética. Imaginei que conseguiria descansar após todas as pesquisas de Happy sobre a família de MJ, mas cair no sono foi impossível. Ou controlar meus pensamentos ansiosos a oitenta quilômetros por hora e que não me deram trégua durante as longas seis horas. Estava desperta durante toda a madrugada e início da manhã, vergonhosamente agarrada ao cabo da lâmina que havia enfiado na sola de meu sapato com um dispositivo de choque, este preparado e projetado por mim logo na primeira semana de aula. Duas pisadas firmes e um toque de meu calcanhar no chão são o suficiente para que uma lâmina afiada surja na ponta de todos os meus sapatos. E um movimento rápido também é o suficiente para que provoque um ferimento fatal em quem eu escolher.
No café da manhã, após eu devolver o metal afiado para meu tênis, a sua mãe me ofereceu todo o tipo de comida que podia e fez o mesmo com a filha e o filho mais novo. Mazi Jones me fez prometer voltar para jogar X-BOX com ele, já que Michelle não me deixou na tarde anterior e eu disse que já estava em um nível acima do dele no jogo novo do “Homem de Ferro e Máquina de Combate: Ultimate Aliance”. Já o seu pai, me perguntou sobre a escola e se estava animada para as nacionais do decatlo, algo que nem me atentei e que pedi para FRIDAY me lembrar de questionar a Stark ou Pepper assim que pudesse. Os pais de MJ são o completo contrário do que eu imaginei que seriam, principalmente seu pai, que ficou um tempão me mostrando fotos de bebê de Michelle em porta-retratos na sala até que a menina nos flagrasse e me arrastasse para fora de sua casa esta manhã.
Ainda assim tenho um pacotinho de seus biscoitos caseiros na minha mochila.
— Oh, pobre garota rica, eu vou levar você para conhecer a verdadeira New York assim que tivermos um tempo livre — promete, ao desviarmos de alguns alunos mais jovens no corredor, suas maquetes incrivelmente detalhistas bem seguras acima de suas cabeças enquanto nada mais importava. A perspectiva de conhecer mais da cidade é sedutora e eu aceito de imediato. Ela sorri, paciente e com intensão clara, afastando as provocações com amabilidade. — Você merece um cachorro-quente de um dólar e um refrigerante gigantesco cheio de água de setenta e nove centavos. Te vejo no intervalo, não é? — MJ acena para mim quando entramos na escola, sua aula de filosofia já tendo começado quando chegamos, e eu lhe dou tchau ainda de meu armário, decidindo aproveitar que terei um horário vago para poder finalmente conhecer a biblioteca de Midtown.
Ainda estou pegando alguns livros e papeis limpos para montar mapas conceituais sobre História Americana, quando o corredor fica vazio. Não percebo que estou sorrindo pela noite anterior até que noto meu reflexo na tela de meu celular. O sorriso não se assemelha com aquele em meu crachá, mas é quase tão animado e eu me forço a tirá-lo do rosto. É meio impraticável, afinal, ontem foi incrível, mas algo dentro de mim se desfaz quando percebo que não posso correr e contar sobre a nova experiência para Natasha. É uma dor psicológica não poder ir até ela em momentos como esse, diferente do que eu fazia meses atrás, sempre que algo bom ocorria. Infelizmente, não posso lhe contar sobre os tickets de museus que MJ tem em sua parede, ou a mochila verde que ganhou da avó, mas não se acha descolada o suficiente para usar e muito menos sobre as músicas que ouvimos ontem.
Natasha não está aqui.
Minha expressão deve ter se alterado algumas vezes enquanto minha mente se torna agridoce, mas o rápido som de passos pesados chama a minha atenção completa, então, ao virar a minha cabeça, posso ver quando alguém que reconheço ser Peter Parker entra na escola com algo enrolado em um casaco nos braços e um olhar de euforia quando me vê. Não é surpresa que eu tenha o ouvido quando ainda estava do lado de fora, já que no fim das contas os meus sentidos não têm me dado um descanso sequer quando estou fora do Complexo. Empurro a porta de meu armário ainda sentindo um rápido formigar na ponta de meus dedos, mas me forço a afastar os pensamentos de agorafobia que me alertam sobre a consulta que irei ter amanhã com a Sra. Hall sobre este problema de superestimulação sensorial.
Eu aperto meus lábios para tentar disfarçar meu desconforto e dirijo minha atenção ao rapaz, não tendo certeza se deveria lhe contar de tudo o que aconteceu ontem na festa desde que se despediu de mim dizendo que iria para casa logo após comer mais um pouco de pizza e me fazer rir inúmeras vezes com suas piadas autodepreciativas e sobre Flash. Mas decido não o fazer, visto que imagino que Ned deve ter lhe contado sobre a “brincadeirinha” sem graça que Flash fez com seu nome enquanto todos fomos para a piscina e sobre como MJ e eu ajudamos seu amigo envergonhado a levantar depois que ele escorregou em uma poça de ponche proposital. Evito a vontade de lhe animar ao contar sobre ter feito Flash tropeçar repetidamente até que caísse na piscina.
! — ele chama, alto, subindo as escadas que dão para o corredor principal tão rápido que quase tropeça no último degrau. Ergo minha sobrancelha ao pressionar a porta de metal e trancar o cadeado vermelho, querendo estar com minha máscara para poder ver o que exatamente carrega com tanto cuidado em seus braços. O formigamento em meus dedos subindo para todos os nós até que eu perceba que minha mãos estão lentamente ficando dormentes. Aperto-as com força em punhos, disfarçando a surpresa que isso me causa. Por que elas estão assim? — ! Eu sabia que já tinha ouvido esse nome, mas nunca pensei que era você, então tinha esquecido disso até hoje, porém eu preciso da sua ajuda!
Peter Parker — chamo-o de volta, mas com menos animação ao erguer as mãos para o ar como quem comemora algo, ainda sem entender exatamente o que quer comigo ou onde havia ouvido meu nome ou a que tipo de ajuda se refere. Tento ignorar a surpresa que é ele estar me chamando por meu apelido, este que apenas Michelle e ora ou outra Ned utilizam. — Do que você está falando?
O rapaz se aproxima de mim, ainda segurando o pequeno embrulho no casaco, respirando bem fundo ao parar, aparentemente cansado, e eu dou uma boa olhada ao redor quando se curva e apoia uma das mãos sobre o joelho. Quero comentar algo sobre sedentarismo na adolescência, mas se ele precisa de minha ajuda para algo, imagino que não deva fazê-lo e guardar o sarcasmo. Eu decido por ajudá-lo, tirando o pacote — que se torna muito mais pesado do que eu esperava — de seus braços. Peter está escorado nos armários e ofegando quando eu removo a cobertura do envolto, um peso gelado caindo em meu estômago quando meus olhos se fixam na peça. Meus dedos estão trêmulos quando eu toco o metal frio, meu coração vacilando e começando a bater com força quando encaro a arma em meus braços. De repente, eu também estou sem fôlego.
— Peter...
É igual a uma das peças que Tony identificou ser alienígena tempos atrás, logo quando cheguei à Torre do Vingadores e eles ainda lidavam com as consequências do ataque do Deus da Feitiçaria à cidade de New York, Loki e seu exército Chitauri. Hesitei em permanecer perto de Peter com a arma, minha mente berrando para mim que ele é um civil e que eu preciso mantê-lo seguro e longe da radiação alienígena pouco estudada. Ainda estava me afastando devagar e com as mãos firmes contra o tecido, quando ele se recompôs, dando um passo em minha direção e então parando ao perceber o horror óbvio em meu rosto. Peter ergueu as mãos e separou dos lábios, surpreso pela minha reação. Mas não tenho o que lhe dizer, além de ter total certeza de que isto não devia estar em lugar nenhum que não fosse completamente isolado. Balanço a cabeça, sem expressão, implorando aos céus que ele entenda que deve se afastar.
Por isso o meu corpo está formigando e ansioso.
— Peter, onde você encontrou isso? Nós p-precisamos chamar a polícia.
Ainda com as mãos erguidas, Peter tocou os lábios como quem pede por silêncio e eu estivesse exagerando, sua expressão quase tranquila demais para quem toca algo assim sem nem sequer saber o que é. Quero revirar os olhos e o fazer apagar neste exato momento, ligar para Tony e dar um jeito nisso, mas tem muitas câmeras e eu não posso me arriscar. Eu balanço a minha cabeça, porém deixo que ele toque em meu braço e o segure acima do casaco, me guiando para uma parede atrás dos armários, que percebo ser apenas outro corredor vazio. Preciso falar com o Sr. Stark, ou com Happy, mas preciso fazer isso de imediato. Eles não devem fazer a mínima ideia de que algo assim está nas mãos de um adolescente ou fora de uma área de contenção federal. E este adolescente sendo Peter acaba por ferir algo dentro de mim, afinal, jamais esperaria isso dele, mesmo sabendo o quão valiosos e raros estes artefatos são para o comprador certo no mercado ilegal.
— Peter, nós precisamos falar com a polícia agora. — Minha voz é severa e sem medidas, eu não consigo esconder a apreensão nela, sentindo uma tensão superficial se formar em minhas mãos, que estão escondidas abaixo de seu casaco, afinal, sei que irão se iluminar e ficar carregadas de poder no menor sinal de reação vindo do rapaz. — Isso é perigoso demais para estar aqui. — Peter percebe que estou caminhando para trás sem pressa e segura em meus ombros com uma força incontida, seus olhos castanhos focados nos meus e eu engulo em seco, ainda sem entender por que estava com isso e a que ponto esperava por minha ajuda. O toque inesperado me assusta e eu imediatamente me sinto presa, logo temendo que reação meus poderes podem ter ao toque de um estranho em mim. Ainda estou formigando. — Me solta agora ou eu juro que vou gritar, Parker. — Por que meninas normais indefesas gritam e não batem com a cabeça das pessoas na parede até formar um traumatismo e apagam a memória delas.
Sua surpresa está direcionada a si próprio ao encarar suas mãos ainda em meu corpo, espantado por de fato ter me feito sentir ameaçada com sua investida, claramente arrependido e me soltando como se meu corpo estivesse pegando fogo. Eu me esforço para não abrir meus lábios de novo, enquanto aperto com mais força o metal pesado e gelado como um iceberg contra mim, forçando minha mandíbula para endurecer ao máximo minha expressão enquanto Parker suspira alto, correndo os dedos pelos fios escuros em uma tentativa de se acalmar.
— Desculpa, eu...
Deveria estar fugindo neste exato momento. Correr o mais rápido que um humano consegue até a porta e usar meus poderes para abrir os portões da escola, me esconder em um beco e ligar para Happy e Tony. Mas não o faço e sei que é pura estupidez, mas algo em minha cabeça me implora para ficar e ouvir sua desculpa para estar com isso. Sei que, se Natasha Romanoff estivesse aqui, teria me dado um tapa no braço com bastante força ou descontaria em mim no tatame, rosnando que eu havia ficado mole e branda demais. Que havia perdido qualquer noção do perigo e que acabaria morta.
Mas Natasha não está aqui.
Você assistiu O Império Contra-Ataca, por isso entendeu o que eu queria dizer quando o Sr. Stark não sabia. A cena quando o Luke está no Planeta Hoth e usa cabos para prender as pernas dos AT-ATs. Você sabia — Peter Parker fala, apenas para mim, baixinho, apertando os lábios em uma linha fina e curvando as sobrancelhas com preocupação ao notar o quão séria estou com a possibilidade de alertar alguém sobre o seu achado. Quando o sobrenome Stark deixa seus lábios, uma dor latente ressoa em minha cabeça, como um mecanismo de alerta ao perigo. De repente, sinto como se todo meu disfarce caísse por terra e meus olhos se arregalam. — E você luta bem pra caramba e já poderia ter me nocauteado agora se quisesse, mas, por favor, não faz isso, tá? — Eu nego com a cabeça rápido, forçando minha melhor expressão de incredulidade e humor, ainda que me sinta estática e sem reação. Peter Parker... Não pode ser. — E-eu sou o Homem-Aranha — confessa, ao piscar diversas vezes, respirando bem fundo e fechando os olhos por um instante, em uma tentativa clara de conciliar seus pensamentos. O quê? — Eu estava lá no aeroporto e você me viu, eu até... Eu peguei o escudo do Capitão. Eu vi você lutando contra o cara do braço de metal e até mesmo derrubando a Feiticeira Escarlate através de uma parede. Mas, principalmente, sei que você pode me ajudar a descobrir o que é isso. Por favor, .
Eu ainda estou em um silêncio completo, apertando o objeto contra mim como se fosse a minha vida, não confiando em devolver-lhe ou sequer tendo noção alguma do que fazer. Ele está certo, devo admitir. Eu posso nocauteá-lo sem muito trabalho e até mesmo deveria, mas algo no fundo da minha mente me diz para não o fazer e eu acabo por obedecer, optando por aguardar até descobrir aonde deseja chegar com seu teatro bem elaborado. Engulo em seco e entreabro meus lábios, meu coração batendo com força contra meu peito, pois não sei o que fazer, mas estou sustentando meu disfarce de descrença com confiança. Simplesmente não sei o que pensar. Cada detalhe que menciona para mim, desde o escudo que o Homem-Aranha roubou de Steve Rogers até a paródia da cena de Star Wars é verdade, mas não posso ceder tão fácil. Isso pode ser uma armadilha, uma piada ou pior. Não posso me arriscar desta maneira.
— Não lembro de você ter bebido ontem, Parker. — Dou-lhe um sorriso de escárnio e uma risada incrédula que o garoto que sofre bullying de um idiota como Flash Thompson seja o mesmo herói que Tony aliciou e embarcou para a Alemanha. Não faz sentido e o jogo nada lúcido ou saudável de Peter me irrita, me inclinando a crer que esta seja um brincadeirinha de adolescentes tolos com a aluna nova, esquentando minhas orelhas por vergonha de ter sido um alvo tão fácil. Mas sei que há algo brilhando nos olhos de Peter que não é graça ou maldade, então lhe permito uma chance única, mesmo que já possa sentir quando meus dedos queimam. — Você é realmente hilário, Peter. Vai me dizer que a sua namoradinha no Canadá também é real? E não gosta de fotos e por isso não tem nenhuma com ela? — Reviro meus olhos e dou um passo adiante, não sendo impedida. Aha! Me sinto mal por me aproveitar das piadas de Flash, mas entendo não ter outra escolha. — Então, enquanto cria outros cenários nessa sua cabecinha, eu vou levar essa sucata para o Diretor Stuart. — Aponto com a cabeça na direção que imagino ser o escritório do diretor, um sorriso falso se apossando de meus lábios. — Se me permite...
Não consigo dar um passo sequer antes que ele segure o meu braço.
— Como diabos você está segurando isso? — questiona, os olhos fincados nos meus enquanto seu aperto em meu braço se intensifica, ainda insuficiente para me ferir, mas o que juga ser necessário para me manter parada. Engulo em seco, piscando ainda sem entender onde deseja chegar com esta questão. Estou arquitetando uma resposta ladina quando concluo a seriedade em seu rosto, nada semelhante ao rapaz gentil da noite anterior que conversou comigo por um bom tempo e me convidou para almoçarmos todos juntos. — Quer me explicar esse detalhe? Essa arma pesa no mínimo doze quilos e eu me recuso a acreditar que uma menina de dezesseis anos consegue carregar ela com tanta facilidade. — Arfo, surpresa por não ter me atentado a este detalhe de antemão e igualmente maravilhada por Peter ter tido um raciocínio tão perspicaz. — E não me venha com “o que quer dizer com menina?”. — O aperto que me mantém parada se desfaz agora que tem certeza de que conseguiu minha atenção e desviar-me das tentativas de fugas e de rebaixá-lo. — Quero dizer que eu sei, pelos menos um pouco, quem é. E que não sou doido.
— Tá bom, Homem-Aranha — sussurro o alter ego. Peter engole em seco. — Prove.
— Eu juro que estou com meu uniforme na mochila, mas aqui tem câmeras.
Peter garante, as mãos sobre meus ombros de novo, mas eu não estremeço desta vez. Diferente do que deveria acontecer, proporcionado pelo toque que esbarrou em meu pescoço e consequente pele, eu não posso ver a sua aura e me questiono como não havia notado isso antes. Quero me socar até sangrar, pois eu realmente fiquei fraca demais e me deixei relaxar. Como não notei que desde ontem não pude ver sua aura? A ideia de estar ficando mole demais me faz querer chorar, mas... Céus! Ele não está mentindo. Peter provavelmente teve o chip implantado, afinal, não há outra desculpa plausível para algo me impedir de enxergá-lo.
— Mas, no aeroporto, você estava com um uniforme incrível como o do Sr. Stark. Ele tinha dourado, preto e vermelho. Hum... Liga de titânio, eu acho. N-não tive tempo de prestar atenção — Peter sussurra, engolindo em seco, sem saber se realmente iria me convencer. Mesmo a contragosto, eu concordo com a cabeça lentamente, surpresa por ter conseguido decifrar a composição da armadura apenas com olhares distante. — E o Happy foi quem me levou no jato particular até a Alemanha e ficou reclamando o tempo todo que eu era chato. O Capitão América conseguiu fugir no Quinjet dos Vingadores. E a Feiticeira Escarlate, ela estava segurando uma torre enorme na frente do Hangar Cinco antes que você... Você simplesmente a jogou do outro lado de uma parede de concreto, ! — O ar me escapa e eu ergo meus olhos para Peter. Merda. Ele está com o mesmo tom maravilhado que o Homem-Aranha tinha naquele dia. — E foi incrível! Você estava jogando aquelas esferas de plasma azul no Homem Formiga e lutou com o Gavião Arqueiro e...
Uso minha mão livre para cobrir a sua boca. Ele arregala os olhos.
— Você acredita em mim agora? — indaga, contra a minha palma, esperançoso, mas com faíscas de ironia para equilibrar a que eu sustentei anteriormente, olhos faiscando e sobrancelha erguida em associação a uma meio sorriso em minha destra. Eu olho para a peça mecânica em meu braço e então para Peter, a expressão neutra para lhe garantir que não estou nem um pouco convencida ou intimidada. Ainda sem explicações para que saiba de tudo isso ou conheça Happy o suficiente para saber que “chato” é a sua palavra favorita.
— Talvez — confirmo, devagar, ainda com a expressão mais severa que consigo e é sem dificuldade que olho em seus olhos castanhos. — Mas eu vou descobrir exatamente quem você é assim que chegar em casa, Peter Parker, como todos os detalhes que forem possíveis — prometo, estando ciente que não terei de sujar minhas mãos se ele estiver mentindo e o momento de se livrar dele chegar, e ainda mais ciente que realmente desejo que Peter seja o herói e eu não precise dizer a Tony que alguém descobriu minha identidade. Ou que tenham de ferir Peter. — E, se não for o Homem-Aranha, você está morto.

*


Percebi que meu rosto estava pegando fogo de indignação e embaraço no instante que a respiração quente de Peter tocou em minha bochecha da maneira mais delicada possível, seu corpo curvado sobre o meu enquanto uso um alicate para tentar arrancar a pedrinha roxa e brilhante demais da arma. Havia reclamado com ele minutos antes, assim que começou a tentar puxá-la com os dedos, nem se importando em calçar uma luva ou usar um óculos de proteção. Foi neste momento que coloquei uma de minhas pulseiras prateadas em seu braço, minha armadura de titânio e nylon balístico surgindo em sua mão direita no mesmo segundo em que a minha também surgiu, o fazendo ter um espasmo de surpresa e comentar o quão legal é que a minha armação se origina de algo tão simples como uma pulseira e como se adapta a diferentes fisionomias. Mas a decisão acabou sendo bem mal tomada agora que ele se inclina mais perto de mim para poder analisar o meu progresso e segurar a peça enquanto continuo a trabalhar nela.
O Laboratório de Marcenaria e Trabalhos Manuais é enorme, no mínimo. Muito bem equipado com tudo o que os alunos podem querer para seus projetos e ainda conta com um banco de dados para controle de materiais. Sendo este no porão da escola, o espaço disponível muito bem utilizado, tanto que estamos escondidos atrás de algumas prateleiras, em uma mesa ainda enorme enquanto eu decido que, com toda certeza, apenas um simples alicate de aço inox não vai conseguir soltar a joia e Peter se direciona a um martelo mesmo antes de eu pedir, o me entregando.
— Ei, Peter! — Quase deixo o martelo cair em meu pé quando me ocupo em cobrir a enorme arma o mais rápido que posso, surpresa com a presença repentina de Ned atrás de nós e a proximidade que sua voz me indica. — Obrigada mesmo por me deixar na mão ontem, cara. — Eu fecho meus olhos com força, como se isso pudesse me fazer sumir e Ned não nos veria juntos debruçados sobre uma peça alienígena. — Oi... ? O que... O que vocês dois estão fazendo? — Sorrio sem graça para Ned, girando em meu banquinho para encará-lo por cima de meu ombro e louca para jogar o martelo em Parker, que ainda não tirou o seu amigo daqui.
— Desculpa, eu tive um imprevisto ontem e juro que te conto depois — Peter se explica para ele, os lábios comprimidos ainda em uma linha fina enquanto dirige os olhos novamente para mim e suspira, colocando o braço sobre o ombro do melhor amigo e o virando em minha direção. Ergo minha sobrancelha, ainda sem acreditar que Peter realmente havia feito isso. Não pode ser verdade, mas eles está com um sorriso envergonhado e Ned o olha como se Peter houvesse acabado de mencionar que Star Trek é melhor que Star Wars. Assombrado. — Hum... , o Ned sabe sobre aquele... Troço.
É. Ele fez.
— Que troço? — Ned questiona, ainda confuso demais quando Peter lhe lança um olhar óbvio. Alguns segundos desconfortáveis passam até que Ned pareça perceber do que o amigo falava e logo me olha, sorrindo também de forma inocente. — Ah, ah, sim! O troço dos bagulhinhos que saem pela mão e voam e andar no teto e... Espera! Como assim você contou para mais alguém? — Eu controlo um sorrisinho quando Ned Leeds reclama com o amigo. Ok. Talvez eu realmente esteja acreditando de verdade que Peter é o Homem-Aranha, principalmente agora que ele enfia o rosto nas mãos com a preocupação tola e até engraçada do amigo. — Eu pensei que eu era o seu nerd da cadeira! — Peter pôs as mãos na cabeça em aspereza, aparentemente perdendo a paciência quando seu amigo, ainda se sentindo traído, se torna para mim. — Sem ofensas, tá, ? É que eu conheço o Peter há quase dez anos e...
— Tá bom. — Parker cobre a boca do menor similarmente como fiz com ele vinte minutos atrás, me lançando um sorriso envergonhado pela segunda vez. Me mantenho calada. — A sabe daquele troço porque ela... — Ele não termina sua frase e logo estou olhando para um Ned ainda confuso, erguendo a minha mão e acenando com a ponta de meus dedos enluvados. A boca de Ned quase atingiu o chão de incredulidade. — Também.
Ned segura a minha mão de imediato e eu pisco com a estranheza da ação.
— Bom dia para você também, Ned. Como vai? — Contemplo adicionar mais alguma coisa, mas percebendo o quão maravilhado ele está com o material da luva, evito soar irritadiça. Eu também fiquei fascinada quando a vi pela primeira vez, afinal, jamais havia visto lâminas de titânio tão leves quanto as do uniforme que Tony fez. Dou um tapinha na sua mão gorduchinha antes de me voltar para a peça causadora de toda a comoção, retirando o casaco de Peter de cima dela e suspirando ao pegar o martelo que estava no chão ao lado de meu pé. — Eu consigo ouvir o seu coração, Leeds. Recomendo se acalmar.
— Eu estou no céu — Ned Leeds sussurra, um pouco afastado, cochichando para Parker o quão incríveis minhas luvas são, ou o quão louco é ter dois super-heróis na escola e ser amigo dos dois. Mordo meu lábio para não sorrir quando Leeds questiona a Peter se eu já tinha um nerd da cadeira designado e se ele se importaria em dividi-lo, caso eu precisasse, ainda confusa com o que isso possa significar. Peter sussurra algo de volta para o amigo, a fim de o silenciar, como um acordo, e logo os dois trocam risadinhas iguais a duas menininhas, me arrancando um risinho mudo antes que Ned se pronuncie novamente quando se aproximam. — O que é isso?
Peter se dedica a explicar para o amigo o que havia acontecido na noite anterior, sobre como viu um brilho azul estranho no céu quando estava saindo da casa de Liz para vestir seu uniforme e como tinha ido averiguar a situação, descobrindo que era um posto de venda de armas e relatando como um cara havia tentando desintegrar ele usando a mesma arma em cima da mesa. A nova informação me faz ter mais cuidado ao desdobrar as abas que mantem a pedra presa. Em seguida, conta da perseguição, como havia quase conseguido parar os criminosos antes que uma cara gigantesco com asas de metal surgisse no céu e o lançasse em um lago congelante no Jardim Botânico do Queens. Então que Tony havia enviado uma armadura vazia para ajudá-lo antes de ir embora e ele não o tinha contado sobre o item que escondeu.
Não me admiro com a armadura vazia, afinal, dois dias atrás sua voz soou em alto e bom som na cozinha quando me prestei a fazer ovos mexidos para o jantar, já que tanto ele como Pepper já estavam viajando e não tive coragem de incomodar Happy por comida. No fim das contas, não pude nem sequer ligar o fogão, pois, segundo o herói, FRIDAY faria um pedido de jantar em um restaurante para mim. Então comentou algo sobre “Desculpe, Vossa Majestade. Adolescentes, certo? A senhora sabe como são.” Antes de desligar e me mandar ir para cama após o jantar, pois estava em uma reunião com o rei da Tailândia. Me questiono se ele realmente havia instalado câmeras estilo babá-eletrônica para me vigiar e a vasta possibilidade de estar divergindo sua atenção entre sua reunião e ficando de olho em mim ao mesmo tempo.
— Peter, você tem alguma ideia do que seja isso? — questiono, por fim, batendo com o martelo em uma chave de fenda algumas vezes nas pontas que prendem a joia, podendo sentir quando os dois se inclinam em minha direção e Ned solta uma exclamação maravilhada. Posso muito bem arrancar isso com toda a força possível, mas parece ser um objeto tão instável e igualmente delicado que acredito ser mais fácil e seguro ir o mais devagar que posso.
— Imagino que seja uma fonte de energia. E talvez tenha permeabilidade seletiva, porque ontem me lembro de um quadriciclo se desintegrar e ser absorvido — Parker explica, apontando para a quantidade de fios que se ligam ao núcleo da pedra. — Está vendo como todos os fios, fora os do gatilho, estão ligados nela? Não tem uma bateria nem nada. — Dá uma pausa, encolhendo os ombros e pendendo a cabeça para o lado. — Fonte de energia e... Fator de desintegração?
— Sim, mas está ligada a esses microprocessadores, gente. São eles que selecionam o alvo da energia e não esse negocinho brilhante, sabem? O cara que te atacou, Peter, só teve de puxar o gatilho. — É Ned que indica desta vez, usando uma das muitas chaves de fenda em cima da mesa para apontar para as pequenas pecinhas. Viu, Peter Parker? O seu amigo tem noção de perigo. — É igual a placa de indução que eu uso para carregar a minha escova de dente e que quando eu montei errado me eletrocutou. Essa gente deve saber muito de engenharia.
Analiso por alguns segundos o circuito impecável, concordando veemente.
— Quem quer que esteja montando essas armas, está misturando tecnologia extraterrestre com a nossa e sabe o que está fazendo. A pedra em si não deve ser de um fator alto de destruição, mas os circuitos criados na Terra devem amplificar bastante o poder dela igual a placa de indução do Ned. Como fuzis de precisão ou um míssil com detector de calor — explico, depois de um tempinho, soltando o martelo em cima da mesa e colocando uma mecha de cabelo para trás da minha orelha. — Eu vou entrar em algum dos servidores antigos da SHIELD e vou tentar descobrir se já houve algum cientista fazendo este tipo de coisa e de ele ainda estar vivo porque o nível de radiação dessa coisa deve ser pesadíssimo — anuncio, batucando na mesa com a ponta dos dedos, imaginando se há algo mais que posso fazer. Me ponho de pé e Peter automaticamente toma o meu lugar, animado para pôr as mãos na peça novamente. — Mas primeiro a gente precisa descobrir o que é isso. O Conselho de Segurança não quer nada mais que envolva metodologia alienígena que possa gerar danos.
Os dois rapazes ficam em silêncio.
— Essa foi literalmente a coisa mais legal que alguém me disse. , está ouvindo o meu coração de novo? Eu nem ‘tô sentindo mais, para ser sincero. — Eu enterro minhas mãos nos bolsos do jeans após a frase deslumbrada de Ned, ouvindo Peter rir um pouco da reação do melhor amigo enquanto ameaça bater na pedra com o martelo, usando um pouco de força bruta para tentar fazer funcionar. Eu dou um tapinha no ombro de Leeds, correndo a língua por meus lábios partidos em um sorriso. — Eu só quero agradecer a vocês dois por me deixarem participar dessa jornada incrível e... — Com um som alto, Peter libera a joia e nós nos viramos lentamente para o professor, este que não desvia os olhos de suas palavras cruzadas nem com o barulho. Estou atenta para a joia instável não estourar, mas o senhorzinho não parece se atentar.
“Mantenham os dedos longe das lâminas.” Recomenda, com a voz monótona.
— Nós precisamos descobrir quem está fazendo isso. — Retorno à minha linha de raciocínio. — E quando soubermos... — Estou olhando para Peter agora, ainda relutante em aceitar que o jovem de suéter e calças folgadas é o mesmo herói que usava um uniforme de lycra no aeroporto. Engulo em seco quando ele apanha a pedra violeta e a estende em minha direção, esta reluzindo com polidez diferente das unhas roídas dele. — Quando soubermos, devemos contar ao Sr. Stark.
Peter assente quando não me inclino a receber a pedra.
— Podemos ir ao laboratório depois da aula fazer uns testes — Ned oferece, encolhendo os ombros, também decidido a manter certa distância da joia nas mãos do amigo. — Eu sei que tem um Contador Geiger na sala do professor de Física Nuclear. — Ele estremece, observando o objeto alienígena com atenção. Peter também parece interessado, o girando entre as pontas dos dedos. Me indago se me ver próximo a isso seria o suficiente para Tony Stark gritar sobre ter problemas cardíacos e me arrastar para fora da escola. — Só para garantir, entende? Garantir que isso não vai estourar a abrir um buraco negro se cair uma gota de água. Sabe? Tipo um Gremilin.
— Cultura Pop — murmuro, ainda indecisa que ajudar Parker foi uma decisão boa. E foi com este simples diálogo que eu vejo a cena mais patética e juvenil da minha vida. Os outros adolescentes simplesmente dão início ao high-five mais longo e hilário do mundo inteiro. Eu preciso cobrir a minha boca para não rir na cara dos dois, mordendo os meus lábios enquanto desativo minha armadura e vejo a que está na mão de Peter sumir também. Ainda estou segurando a risada quando os dois se viram para mim, incrédulos e maravilhados com a nanotecnologia de meu uniforme, parando o toquinho no meio. — Não, não. Continuem — incentivo, ao me aproximar e tirar minha pulseira do braço de Peter Parker com cuidado para não o machucar, ficando um pouco desconfortável com fato de estar tocando em sua mão ao fazê-lo. Ele também desvia o olhar em respeito. — Tony vai adorar saber que vocês têm um toque inspirado nos Vingadores. — Aponto, ao apanhar minha mochila em um banquinho, imitando as pistolinhas que fizeram no final e são claramente inspiradas em Nat. — Não queimem o laboratório.
Os dois ainda estão envergonhados quando nos juntamos para almoçarmos.


Homecoming III — Webbed Surveilance

(Dois meses desde a queda dos Vingadores)

— Você nunca esteve no subúrbio?
Eu mantenho minhas mãos dentro dos bolsos até mesmo enquanto caminho lado a lado com Peter Parker, este parecendo muito mais confortável com as ruas movimentadas e barulhentas do Queens do que na escola. Por um segundo, entendo exatamente o que Michelle havia me ofertado no início do dia. Pelo menos a cada duas esquinas posso ver barraquinhas de comida indiana, cachorros-quentes, churros mexicanos e muitas outras comidas que jamais vi em minha vida. Os cheiros da cidade e todo o resto me afetam de maneira estranha, alguns lugares cheiram a tinta fresca de pichações, gasolina queimando dos carros e ocasionalmente algo doce provindo de uma janela. Mas a pergunta acusatória me faz sentir as bochechas esquentarem tanto que eu ergo meu rosto em sua direção e meus ombros estão encolhidos.
— Está tão na cara? — indago envergonhada, retirando o meu fone para lhe dar atenção. — MJ disse que tenho cara de Soho.
Peter curva os lábios finos em um sorriso sem graça, concordando um pouco, a postura caindo com o peso da sua mochila onde havia enfiado alguns pedaços da arma e mantinha a pedrinha roxa. É estranho estar ao seu lado e principalmente estar tão exposta à cidade, contudo, estar junto do famoso Homem-Aranha alivia minha ansiedade em décimos úteis. Algumas pessoas já esbarram em mim pela manhã quando eu não uso meu casaco, de maneira que minha mente se enche de auras coloridas e vozes demais, apenas reforçando o motivo de eu sempre optar pelas roupas com mangas longas. Me lembro neste instante de arrependimento, o que a Srta. Hall diria e que apenas intensifica a ideia de que passei tempo demais dentro dos muros do Complexo. Nunca interagi demais com alguém estranho e sabíamos isso iria acontecer.
— Você parece confusa com tudo. Fica fácil perceber, sabe? E Soho é um bairro chique, se é isso o que ela queria dizer — ele se explica e eu me pergunto se estava prestando tanta atenção assim em mim para ter notado. Oh, claro. Chique. — Quando a “moça do uniforme” comentou que havia um Vingador próximo, nunca imaginei que seria você, . E não pensei que o Sr. Stark fosse deixar a filha dele estudar em uma escola pública — Peter adiciona quando nos apressamos para atravessar por baixo de uma calçada suspensa, sua mão se erguendo para que os motoristas possam nos ver e a outra tocando minha mochila para me apressar, pois ainda não tinha pegado o ritmo.
O seu engano me faz rir um pouco quando voltamos ao compasso normal.
— Peter, o Tony não é meu pai.
A expressão do herói é uma mistura de desconcerto e vergonha pela gafe, mas eu não posso culpá-lo. Provavelmente, para alguém que vê tudo de fora, como Peter, a possibilidade que eu seja filha de Tony e Pepper faz até um pouco de sentido e aquece meu peito mesmo que seja uma grande mentira. Se bem que eu não entendo como relacionou Tony a mim, mas deixo isso de lado pela lembrança da pitada de preocupação na voz de Tony e Nat toda vez que se dirigiam a mim no episódio do aeroporto. Quero lhe questionar o motivo de não imaginar que Natasha esteja na equação, mas sinto que ele já sabe o suficiente.
— Não? — Peter ainda parece não conseguir engolir a notícia, nariz franzido em incerteza clara. Ele soa tão confuso e perdido que eu começo a rir novamente, negando o parentesco outra vez. Um pequeno sorriso embaraçado depois e Peter está gesticulando para mim, caminhando de lado para poder me olhar enquanto eu curvo meus ombros, ainda rindo de sua tentativa de criar um argumento. — M-mas, no aeroporto? — Nego outra vez, apertando meus olhos quando o sol dourado surge por trás de um prédio. Os fios levemente ondulados de seu cabelo brilham como xarope de bordo na luz. — Ele disse assim: “Romanoff, a está no chão. A está no chão!”
A risada esganiçada que deixa os meus lábios é o suficiente para que eu quase fique sem ar, afinal, a imitação hilária que o colegial havia acabado de fazer da voz, do biquinho e da sobrancelha erguida de Tony Stark foi assustadoramente real e semelhante. Eu estou cobrindo a boca para não rir tão alto quando percebo que ele me acompanha, mas fico indecisa, sem saber se a graça estava em sua imitação bem-humorada ou em minha risada que não foi nem um pouco comportada. Mesmo sem entender, começo a andar de novo, o rapaz me seguindo enquanto pressiona suas mãos no estômago igual a mim, ambos tentando tomar um pouco de ar para seguir até sua casa sem passarmos mal. Não havia esperado que alguém tão reservado e quieto como Peter Parker fosse tão comum, ao ponto de fazer graça das manias de uma celebridade.
— Oh, meu Deus! — Peter agora soa desesperado e risonho quando cruza os braços para se recompor e eu gargalho da sua expressão petrificada que se parte em outra risada. — Não conte para o Sr. Stark que eu estou rindo da cara dele, por favor!
Todas as vezes que tentamos parar, Parker tenta ao mesmo tempo manter a expressão igual a de Tony quando desdenha de alguém — entrevistadores, paparazzis e políticos em geral — e a vontade de rir reaparece. Quando conseguimos voltar ao passo antigo, começo a pensar que talvez Peter Parker possa ser uma pessoa legal como MJ e sinto uma pontada de remorso pelo que lhe disse para afastá-lo. Nem um pouquinho agradável, para ser sincera. Ergo minhas mãos como um sinal de rendição com seu pedido tão bobo, mas ainda espirituoso.
— Eu prometo.
Peter me guia por mais alguns quarteirões de aparência falha, a caminhada me fazendo um bem inesperado por respirar um ar diferente. Pepper morreria com a ideia de me ver caminhando por um bairro “perigoso” sem que Happy estivesse me guiando para o carro ou que alguém estivesse pronto para pular na frente de uma bala por mim, mesmo que minha identidade seja anônima. Engulo em seco, Tico e Teco surgindo em minha mente, ainda que eu goste da possibilidade de sair. Em especial de poder estar na companhia de alguém que não tenha o dobro da minha idade e que não esteja preocupado comigo. Contudo, eu também gosto da companhia de Peter em especial, claro que não por ser um rapaz ou algo do tipo, como eu deveria gostar acima de tudo, mas por ele se esforçar para que isso não seja tão estranho impessoal como deveria ser. Estou indo para sua casa no intuito de lhe ajudar a pegar traficantes de armas com tecnologia alienígena, mas a atmosfera não é tão pesada. Sou grata a ele, mesmo estando certa de que isso não irá se repetir outra vez.
Assim que minha aula de economia acabou, ele e Ned estavam discutindo avidamente algo na frente de meu armário e ao me verem tentaram parecer os mais “descontraídos” possíveis com poses pensadoras e Ned quase batendo com a cara em um armário, me arrancando um sorrisinho e fazendo MJ revirar os olhos com a cena. Prometi a Michelle que lhe enviaria as fotos da aula assim que chegasse em casa à noite, afinal, iria com Peter e Ned à loja de quadrinhos e ela não pareceu interessada neste tipo de publicação em nossas conversas. Claro que, após isso, fiquei com um peso generoso em minha consciência por mentir para MJ e Peter foi o primeiro a perceber, me assegurando que entendia como eu me sentia logo ainda nos primeiros meses de seu novo “hobby”, quando precisou mentir para Ned.
Até mesmo o próprio Ned concordou que foi o melhor, por mais que estivesse nas nuvens ao saber que era o melhor amigo de um herói, me arrancando risadas enquanto íamos para o metrô. E nem mesmo dentro do transporte público as risadas cessaram quando Ned, tentando ser o mais educado possível, perguntou o que eu podia fazer e se tinha uma armadura ou se havia caído em lixo tóxico e conseguido poderes. Depois de lhe explicar da melhor maneira que consegui sem rir das bochechas vermelhas envergonhadas de Peter, foi preciso que Parker cobrisse a sua boca de novo. Ao descer em sua estação, pois tinha que estar em casa cedo e não poderia nos acompanhar, Ned jurou que iria me chamar de Ravena pelo resto de minha vida.
Não reclamei, mesmo sem entender o motivo e Peter disse que iria explicar-me.
— É sério, eu podia jurar que o Sr. Stark era o seu pai — o rapaz continua, balançando a sua mochila desbotada por um certo tempo enquanto enfia as mãos dentro dela. Estamos parados em frente a um prédio cinza e vermelho, a estrutura decorada com tijolos das mesmas cores e folhinhas crescendo nos vãos. — A-ah, esse é o meu prédio, ‘tá? — Peter gagueja com nervosismo quando eu olho para cima, checando a quantidade de andares e o número de janelas. — N-não é um apartamento gigante como o que você deve morar, mas é... Bem legal? — Posso notar a sua timidez ao me apresentar sua casa, mas decido ignorá-la. Há algo em tijolinhos vermelhos e plantas que me conforta.
Seguro um sorriso quando ele começa a abrir a primeira porta do prédio.
— Peter, eu moro numa instalação militar e meu quarto era um cubo cinza um mês atrás — comento quando ele abre a porta e eu entro, imediatamente dando de cara com um lance de escadas e um tapete verde lamacento com escritos desbotados, mas o espero ir na frente para começar a subi-las, cuidadosa com degraus sem antiderrapantes. — E tem algo na arquitetura de New York que faz todos os lugares serem aconchegantes. — Tomo cuidado para não esbarrar no quadro de notícias do prédio enquanto faço uso do corrimão no fim do primeiro lance, relembrando os documentários que assisti meses atrás. — E a sua casa é a sua casa. Não tem para que se preocupar com a minha opinião.
Isso silencia a sua apreensão pelos próximos dois andares até que adentremos um outro corredor, este tão bagunçado e barulhento quanto os que já passamos, sinto quase como uma necessidade colocar meus fones de ouvido, a irritabilidade de meus poderes é uma droga enquanto não me acostumo com o mundo exterior, ainda sendo um distrativo recorrente. Muitas vezes me apanho ouvindo com atenção enquanto MJ faz seus exercícios ou xinga personagens de seus livros, mesmo com uma distância considerável entre nós. Consigo, no fim das contas, me guiar por meio das pessoas, seguindo atrás de Peter, minha mão agarrada a alça de sua mochila sem que ele perceba.
Faço o favor de soltá-la quando paramos diante de uma porta azul com tinta descascando.
— Então... — Peter pausa com uma mão na chave e outra no trinco da porta, virando-se para me olhar com um sorriso sem graça. — Eu não costumo trazer outras pessoas para minha casa sem ser o Ned... — ele se explica, me fazendo querer rir, mas eu me seguro, concordando em entendimento para que prossiga. Peter coça a parte de trás de sua cabeça com o molho de chaves e a semelhança que surge em minha mente quase remove meu foco. Sua linguagem corporal se assemelhou a de Tony por alguns segundos. — E a minha tia, ela mora comigo. E-espera, e-eu moro com ela, ‘tá? E ela é uma italiana que ama ouvir Andrea Bocelli muito alto e faz um bolo de carne terrível com gosto de carvão, então se ela... — Parker pausa quando eu estou sorrindo, suspirando ao perceber que realmente não me importo com tudo o que tenta me explicar e sua tia é o menor dos meus problemas. — Ela provavelmente vai mostrar fotos de bebê vergonhosas e vai ficar batendo na tecla que eu não tenho muitos amigos.
Dou de ombros e balanço a cabeça, sua timidez sendo humana e fascinante demais.
— Sem problemas.
Com problemas. Porém eu não os aponto quando minhas bochechas se tornam tomates, afinal, Peter parece ter entendido que eu não planejo fugir ou rir da sua humildade, que parece tão verdadeira que aquece meu peito, então gira a chave e abre a porta com um som esganiçado, provavelmente chamando atenção de sua tia. Meus poderes e instintos são ágeis, inclinando-me a crer que ela não está muito distante da porta. Respiro baixo, pendendo a ter uma certeza de que ela está do meu lado direito, também.
Eu dou uma rápida olhada no apartamento, algo como uma onda de calmaria se dissipando pelas pontas de meus dedos por estar certa. Tudo parece aconchegante, convidativo e me sinto confortável com a ideia de ter vindo para a casa de Peter Parker, por mais estranho que soe. No centro da sala, há um sofá verde escuro e almofadas coloridas, algumas poltronas ao redor e muitas mantas de aparência confortável. A luz da tarde entra por uma janela larga com cortinas azuis e se infiltra pelas estantes de livros, os banhando com um brilho dourado.
— Tia May! — Peter chama enquanto tranca a porta atrás de mim e eu dou um passo para frente, quase esbarrando em uma estante de CDs e fotos, mas acredito ter disfarçado bem quando ele ergue o rosto para mim e aponta para a cozinha com o queixo. — Cheguei e trouxe uma visita! — Posso ouvir o som de panelas se chocando e uma música baixinha ser pausada. Um “Oi, Ned!” melodioso cumprimenta, vindo por trás da parede na minha lateral e eu aperto minhas mãos diante do corpo. Peter coça a garganta. — Não é o Ned, tia. Lembra a garota que eu falei ontem na festa? — Peter explica, saindo de perto de mim e removendo o seu casaco e mochila, pendurando em um cabide ao lado da porta. Ele falou de mim para sua família? — Quer tirar o casaco, ?
Eu deixo a minha mochila no chão ao lado de meus pés, tentada a encolher o espaço que ocupo a poucos metros quando Peter se aproxima de novo, as mãos pairando em meus ombros ao me ajudar a tirar o casaco cinza, no mesmo instante em que uma mulher com expressão admirada surge por trás de uma cortina colorida de contas. Estou desconfortável pelo toque inesperado de Peter quando analiso a figura dela, impressionada demais por sua aparência tão jovem e divertida. Os longos fios lisos estão presos em uma trança lateral quando remove o avental empanado de trigo, se atrapalhando com os brincos coloridos e os óculos. Ela possui uma beleza caseira e comum, mas ainda assim belíssima. O suficiente para que possa ser uma das atrizes em um filme da Lifetime.
— Olá, como vai? — Ela sorri para mim, os olhos alternando-se entre mim e o sobrinho, rindo ainda surpresa ao abanar o macacão jeans e empurrar a trança sobre o ombro. — Peter, você deveria ter me avisado que iria trazer visitas, querido — ela repreende e por um segundo eu estou estática, preocupada por minha presença arranjar problemas para o rapaz.
— Foi mal — Peter desculpa-se ao meu lado. — Trabalho de última hora.
Logo o receio se dissipa quando a mulher cruza a distância entre nós, engolindo-me em um abraço apertado e tão hospitaleiro que eu preciso de alguns segundinhos para retribuir. Não esperava isto. Embora possua um rosto sincero e amigável, ainda convivo com um hábito ofensivo de pensar e agir no extinto. Jamais havia sido abraçada assim por um estranho ou qualquer um fora de meu círculo pessoal de confiança, portanto a aproximação despreocupada e que deveria ser “normal” me surpreende, mas sigo minha intuição ao relaxar, sentindo extrema dificuldade e vergonha por não conseguir de primeira. Ela cheira a biscoitos de aveia e chocolate, com uma pitada de baunilha e ferro quente das panelas.
— Você deve ser a , certo? — ela questiona de maneira gentil e eu concordo com a cabeça e também com um sussurro. O seu sorriso é bondoso demais e eu tenho vergonha por aparecer em sua casa sem avisar antes, mesmo sabendo que não a incomoda como fez querer parecer segundos antes. — Peter, você não tinha me dito que a sua amiga nova é tão bonita assim! — A mulher segura em minhas mãos com estima, sorrindo com sinceridade para mim e me observando um pouco. Engulo em seco, lábios apertados em um sorriso para disfarçar o tremor que o contato de nossas palmas me causa, ativando cada neurônio meu para se expandir e acoplar suas reações e pensamentos. É como um pingo de água em um lago, vibrando e se espalhando com facilidade.
— Ah, obrigada. É um prazer conhecê-la, Sra. Parker — cumprimento quando ela toca meu braço, uma aura amarela e levemente esverdeada surgindo ao seu redor conforme minha mente se adapta às suas emoções e os hormônios coloridos que exalam devido a eles. — Pode me chamar de , por favor. — As cores que se traduzem em alegria e confiança ao seu redor me animam, garantindo com sutileza que não devo temê-la. — Me perdoe por ter vindo sem avisar, não quero causar problemas ao Peter.
— Claro que não, querida! — Ela balança a cabeça, pondo as mãos juntas, revelando os pedacinhos de gotas de chocolate na costa de sua destra. É adorável. — Pode vir quando quiser, certo? — Concordo com recato, imitando o seu sobrinho quando este ajunta sua mochila do chão. Nós esbarramos ao fazermos isso e eu posso notar quando a Sra. Parker assume um tom laranja interessado. Preciso suprimir o meu sorriso por sua avidez e rápida polarização emocional. — Podem ir estudar. Eu levo uns sanduíches para vocês rapidinho!
Ignoro o tom rosado nas bochechas de Peter quando ele me guia ao seu quarto e como quase esbarra no batente da porta.
— Peter! Pergunte se a gosta de pasta de amendoim!

*


— Eu acho que vou cronometrar a sua atenção.
Abaixo meus olhos para Peter, este que está deitado no chão e com as pernas elevadas sobre a cama, segurando o Sistema de Rastreamento de seu uniforme próximo ao rosto para não perder o movimento dos ladrões. Bom, está agora, pois imagino que estivesse olhando para mim, sendo que sabe que eu ainda observava estupidamente atraída para a rua abaixo de nós. Havia pedido que ele me impedisse de fazê-lo com o intuito de não parecer uma stalker louca para qualquer um que passar por sua rua. Peter havia concordado com um sorriso minutos antes, o queixo enfiado no peito devido a uma postura incorreta. Mas parece impossível me conter e não apreciar cada movimento abaixo, as pessoas e os carros e os becos úmidos. O Queens é cheio de pessoas e sons, tudo muito diferente dos arredores do Complexo, onde apenas posso ver árvores e torres de vigília.
— Perdão.
Após algumas idas e vindas, consegui entrar nos arquivos da SHIELD. Sabia que havia algum risco em levar um notebook já usado para acessar FRIDAY, porém não acreditei que o risco seria hackear algo como a SHIELD em si. No entanto, que outra opção estava disponível? Usei um decodificador remoto, através de “buracos de minhoca” para invadir o sistema, desativando tudo o que conecta o computador a mim e a todos os sistemas mundiais — em especial os Satélites Stark. Infelizmente, os arquivos são muito pesados e já faz quase vinte minutos que aguardamos enquanto carregam. Peter havia avisado que a sua internet não era a das melhores assim que conectou meus dispositivos a ela e se desculpou, fugindo rapidamente para questionar em um tom baixinho para sua tia se a conta havia sido paga. A super audição que tenho me fazendo atentar ainda mais à preocupação de Peter e como sua tia lhe garantiu que eu não iria me importar e que ele estava uma pilha.
— Você já visitou a Times Square? O Queens passa bem longe, mas... É casa, sabe? — Eu assinto.
Casa.
A Sra. Parker, ou apenas May, como havia pedido que eu a chamasse quando tinha vindo entregar alguns (lê-se: dez) sanduíches, havia se despedido de nós, pois precisava fazer uma ida rápida ao supermercado. E, diferente do que eu esperava, não estou extremamente nervosa ou ansiosa por ficar sozinha com Peter em seu quarto como imaginei que ficaria. O local, como tudo desde que cheguei à sua casa, é agradável e pessoal, diferente das decorações ora exageradas ora mínimas do Complexo dos Vingadores.
Nem de perto o quarto é organizado e fora as revistas em quadrinhos que se empilham em caixas etiquetadas no seu beliche, tudo permanece em um estado de “caos organizado” como Peter havia explicado à sua tia assim que ela se desculpou comigo. Mas Parker havia se esforçado, tirando todos os livros e a caixa de ferramentas de sua cama e me dando alguns travesseiros para que pudesse me sentar, mesmo que ambos estivéssemos envergonhados com a situação. É interessante ver como há detalhes de Peter em alguns pedaços do cômodo. As marcas na porta, onde provavelmente gravavam o seu crescimento, os prêmios de física na parede e os posters de desenhos.
— Posso perguntar uma coisa? — Eu concordo com a primeira pergunta que me faz sem hesitar muito. — O seu sotaque — Peter pondera enquanto se senta de maneira mais confortável e retira os pés de cima da cama, chamando minha atenção para longe do monitor enquanto as cruza —, de onde ele é?
Percebo a hesitação em sua voz, como se esta fosse uma pergunta que pondera há alguns minutos sem ter certeza se tem liberdade suficiente para fazê-la. Entendo que, se Natasha Romanoff estivesse aqui, me diria para não ficar conversando demais com as pessoas ou revelando informações pessoais para qualquer um. Mas agora que vi tudo o que vi e pude conhecer um pouco de Peter, me sinto confortável com a ideia de confiar nele um pouco ou pelo menos com uma informação tão básica. Pois, por fim, a possibilidade de ter alguém com quem conversar, que entenda pelo menos um pouco a minha realidade, é reconfortante.
— Reino Unido — informo, removendo o notebook de meu colo, cruzando minhas pernas e me curvando um pouco para trás, esticando minha coluna para não ficar curvada como ele. Não sei se devo lhe oferecer um relatório completo de tudo, então paro por aí, imaginando que tenha sido o suficiente. — Londres e Cardiff. Quando estou irritada, como fiquei com você mais cedo; Cardiff. — Consigo ver o seu sorrisinho daqui, a luz vermelha do holograma cintilando em seu rosto.
Peter havia substituído a calça e as duas camadas de roupas por uma camiseta azul escura e um jeans surrado, usando apenas um par de meias assim como eu. Poderia ter trocado de roupas, imagino, mas não sei se o mesmo vestido que usei ontem na festa de Liz Toomes seria uma boa ideia, agora que me sinto tão protegida com meu par de jeans e que agradaram May Parker. Não que eu não tenha me surpreendido com sua aura tão radiante e gentil, ainda me sentindo demasiada evasiva ao ler seus pensamentos.
— Ah, faz sentido. — Ele ri com uma pontinha de acanhamento por não ter pensado nisso antes enquanto cava algo em uma das gavetas do móvel de plástico ao lado da cama. Sua inocência é adorável. Peter não deve conhecer o protocolo dos Vingadores para qualquer coisa oriunda de outros países. Me questiono o quanto sabe sobre a SHIELD, Hydra, ou Vingadores. O quanto realmente sabe sobre o que acontece ao seu redor. — Então isso explica o fato de você gostar de New York. É diferente da Europa, certo? — Peter relaciona e eu acabo por concordar, afinal, é uma meia verdade, mesmo que de volta no outro continente eu não tivesse tido chance alguma de conhecer onde estava e nunca tenha perambulado por Londres ou outro lugar. Ele se levanta do chão e se senta ao meu lado na cama, mantendo uma distância educada e satisfatória entre nós, posicionando um saco branco ao seu lado. — Você gosta de minhocas?
Eu estreito meus olhos, sem entender o que quer dizer.
— Perdão?
Intrigo com humor, sem ter noção do que ele se refere mesmo que pareça algo que qualquer um deveria saber do que se trata pelo seu tom de voz, agora que duvido ser minhocas de verdade. Peter pisca algumas vezes em confusão ao se virar em minha direção, cruzando as pernas ao abrir o saco, retirando uma embalagem amarela e com as laterais verdes de dentro dele, a pondo em minhas mãos. Seguro a caixinha de papel e sei que devem ser balas de goma com o lado de fora azedo e o de dentro doce só de ler a embalagem, mas não a reconheço. O olho, balançando a cabeça em negação. Sinceramente, não me recordo de ter provado alguma delas.
— Você nunca comeu isso? — Peter me encara ultrajado e eu nego, nem um pouco surpresa por jamais ter comido algo do tipo. A HYDRA não é o tipo de organização criminosa que distribui doces para os prisioneiros e a Srta. Kovnosh se congratulava quando conseguia nos pôr para dormir com o estômago cheio de mingau ou pão. Mas Peter Parker está esvaziando a sacola, incrédulo. — Nem Reeses Cup’s? Vamos, ! Eu tenho Reeses, Snickers, Palitinhos de Nutella, Skitles... — Já estou sorrindo com o seu desespero enquanto ele me entrega os inúmeros pacotes em uma moda exagerada, pacotes brilhantes e coloridos em sua cama e meus braços. — M&M’s, Black. M&M’s. É impossível que você não conheça estes.
Ding!
— M&M’s — repito com animação como uma criancinha, pegando o já conhecido saquinho amarelo, um sorriso conhecedor em meu rosto, me lembrando das vezes que Rhodes me oferecia um pacote após o almoço na sua sala de fisioterapia. — Viu? Eu conheço M&M’s. — Me vanglorio, fazendo Peter rir enquanto abre um outro pacote do doce, encostando-se na parede e descansando um pouco da perseguição virtual. — É que eu não cresci comendo doces assim, então muitos destes aí eu nem sequer conheço.
Peter está enfiando um punhado do chocolate na boca quando me olha.
— Você não foi acostumada a comer doces? — E lá vem o olhar assustado e sinto meu estômago pesar, assim como o início da cólica ansiosa de sempre. Mesmo preocupada quanto à forma que me vê, as suas expressões me dão vontade de rir e eu pego um dos amendoins cobertos de chocolate antes de assentir. — Não existem doces na Inglaterra? Que horror. Por isso que a rainha de vocês está viva há tanto tempo, ela se alimenta da infelicidade alheia.
— Não, Parker — restrinjo, rindo igual a ele enquanto checo rapidamente a barra de processo no notebook, voltando a me sentar ao seu lado. Não sei se devo lhe contar, mas decido que sim. Os Vingadores são os únicos a saber sobre minha história, então decido que, bem, Peter deve saber de algo, mesmo que seja uma outra versão. — A questão é que eu fui criada em um orfanato. — Estou admirada pelo olhar de Peter não se tornar o que eu temia. Ele não parece cheio de pena ou remorso por ter questionado. Isso me incentiva a continuar a historinha. — E lá a senhora que cuidava da gente não tinha muitos recursos. Éramos quase cinquenta meninas. Então o máximo de doce que tínhamos era quando as doações chegavam no final do ano. Você sabe, não é? Natal, quando as pessoas querem apagar tudo de ruim que fizeram no ano doando coisas velhas para os pobres. — Peter concorda com a cabeça em compreensão. — Depois eles entregavam uns saquinhos pequenininhos para nós, com uns quatro ou cinco M&M’s dentro. — Coloco mais um doce na boca, a cobrindo antes de continuar. — Por isso é o único que conheço.
Novamente, Peter me surpreende.
— Quando eu era menor, a May e o meu tio Ben não tinham muito dinheiro. — Começa, abrindo o primeiro saquinho que havia me mostrado com certo cuidado. Eu mantenho minha atenção em suas palavras, da mesma forma que fez comigo. — Isso foi um tempo depois que os meus pais morreram, então eu devia ter uns quatro ou cinco anos. Inclusive, foi no verão em que eu conheci o Ned. — Eu dou um sorriso triste por ele quando me entrega um punhado dos doces coloridos com açúcar ao redor, mas não pelo doce, e sim pela memória boa que seu amigo desperta em contraste com a angústia anterior. — Então, quando o meu tio morreu em um assalto, foi tudo por água abaixo de novo. O dinheiro ia todo para o aluguel, sem sobras. E toda semana a May ia distribuir o currículo dela nas lojas lá embaixo. — Peter corre a língua pelos lábios, levando a bala para a boca em seguida. Ele faz uma careta, estreitando a boca e forçando rugas nos olhos. — E o Sr. Delmar me dava todos os dias um saquinho de Gummy Worms. Doces da Infância Complicada, Srta. Black.
Eu levo um deles à minha boca, franzindo meu nariz com o azedo.
— O seu Doce da Infância é horrível, Parker! — reclamo com uma careta, mastigando a bala azeda como morango não maduro até que se torne doce enquanto o rapaz dá risada ao meu lado, provavelmente esperando por esta reação. A pegadinha também me faz querer rir graças à semelhança com a bebida horrível que Michelle me ofereceu ontem na festa de Liz. Ambos azuis como o plasma de meus poderes. — Argh! É horrível, Peter.
O moreno faz um “joinha” com a mão, comendo mais uma quantidade absurda.
— Como você conheceu Os Vingadores, ?
Parker indaga depois de um tempo, comendo mais da balinha azeda sem nem evitar franzir o rosto e lendo a parte de trás da embalagem onde haviam algumas charadas infantis. Eu apenas me apego aos M&M’s, decidida a me manter longe dos outros doces por enquanto. A pergunta que me faz é complicada em razão das camadas que posso romper e eu não sei se quero lhe dizer a verdade, se aguentaria que desta vez ele se surpreendesse com minha origem nada convencional. Mastigo um chocolate antes de lhe responder.
— Um cara me adotou. — Retomo a minha história, percebendo como Peter se tenciona ao meu lado. Tenho pleno conhecimento que existem histórias ainda piores que a minha, mas, com sorte, o destino foi generoso comigo da maneira mais horrível possível. O início da história deixa minha boca em um suspiro raso. O sabor do chocolate há muito esquecido. — E fez uns experimentos. Então eles me acolheram na mesma época que os Maximoff. — Eu pauso, pegando um pouco mais de chocolate. — O Dr. Banner concluiu que ele queria criar versões alternativas do soro do Steve Rogers. — Lentamente as memórias me forçam a rever os episódios de finais infelizes para outros materiais humanos de “estudo” da HYDRA, mas eu me sinto calma na presença de Peter. Calma o suficiente para deixá-las fluírem mesmo que minha mente me force a recordar o cheiro de carne podre sendo queimada em fogueiras. — E como eu estava bem mal, o Tony pagou uma conta monstruosa de saúde até que eu estivesse bem de novo.
Peter está em silêncio, maneando a cabeça como se ligasse pontos.
— Foi por isso que você ficou do lado do Sr. Stark? — Parker supôs lentamente e sem acusar-me de nada. — O negócio todo dos Acordos de Sokovia? Tipo, como se houvesse uma dívida a ser quitada?
Eu preciso respirar bem fundo antes de relutantemente, soltar um “talvez” bem baixo, como se Stark ou Rogers pudessem me ouvir. E é como se as paredes enormes que eu havia construído ao me redor fossem rompidas em uma fenda mínima. Peter Parker, o garoto engraçado que eu conheço há apenas duas semanas, me decodificou sem querer. Estou indecisa se fiz o certo ao revelar a verdade, mas percebo que não cometi um erro quando seus mornos gentis se põem sobre minha mão, dando um aperto leve na mesma antes de soltá-la como se fosse entrar em combustão pelo simples toque. O breve ato de apoio físico não esmaga toda a tensão que sinto, mas é tranquilizante. Correto, mesmo que eu deseje mais que tudo que não repita isso tão cedo, o toque alheio era quente demais e sufocante.
— Isso não sai daqui — garante, diminuindo minha revelação a uma simples informação de uma paixonite adolescente que deveria ser oculta de nossos colegas de classe.
— Obrigada. — Eu poupo agradecimentos exagerados quanto à sua gentileza e rápida demonstração de amizade, certa que isso lhe indicará que não me importo e ele irá esquecer-se rapidamente. Peter dá de ombros quando eu o olho, mas não esconde o rosado no topo das maçãs do rosto, me fazendo sorrir mesmo que um pouco. Pego uma das suas balinhas azedas, apertando meus olhos no instante que entram em contato com minha língua e arrancando-lhe uma risada baixa. — Olha, como tocamos no assunto: “Tony Stark”, você precisa saber que — estalo a língua, odiando o sabor desta outra bala — que mesmo sendo como ele é, ele falou bem de você.
Parker quase se engasga e eu decido continuar, rindo do exagero.
— Sério mesmo! — garanto, pensando em quando Tony me mostrou vídeos de Peter no dia anterior ao aeroporto. Ou da “Guerra Civil”, como Rhodes insistiu em chamar apenas para irritar Tony. Em momentos de muita tensão, em especial quando o embate é mencionado, Rhodey opta por tentar inclinar-se ao lado humorístico de toda a situação. — Ele ficou muito impressionado, juro. — Talvez “muito” não seja a palavra ideal, mas tento lhe agradar da mesma forma que fez comigo. — Principalmente como um adolescente tinha criado algo como as suas teias, o que, pra falar a verdade, também me impressionou. Tony gosta de pessoas inteligentes e que se viram como pode — lhe explico, afinal, realmente me impressionei com a resistência de suas teias e como havia se provado engenhoso com o passar do tempo. Até mesmo em seu último dia no decatlo há alguns dias. — Ele chegou ao Complexo dos Vingadores me mostrando uns vídeos seus, até. — Peter Parker ainda está calado, sem acreditar que estou falando a verdade, mas não me importo. Tony teve razão em se fascinar com ele. — Ele disse que ia ajudar com um bom uniforme, mas pelo visto você está fazendo o resto do trabalho sozinho. Isso tudo é muita loucura da sua parte e... — Direciono meu olhar ao Rastreador no chão, onde o pequeno emblema do Homem-Aranha havia parado de se mover. Parker me encara confuso antes de também desviar a atenção. — Peter, eles pararam!
Em menos de meio segundo, estamos os dois ajoelhados no chão diante do rastreador, que parecia ter funcionado perfeitamente bem, reassegurando outra vez a eficácia de tudo que é criado pelo Sr. Stark. Peter segura o objeto na altura de nossos olhos, clicando no holograma para que os nomes surjam no mapa do display HUD avermelhado. Eu percebo que nossos braços estão se tocando e a pele de Peter é quente contra a minha, mas me desligo do fato, um suspiro me escapando com o lar final dos capangas. É uma instalação robusta e enquanto Peter circunda o holograma para analisarmos todos os lados do prédio, não encontro saídas de ar ou ar condicionados, apenas com uma entrada e saída. Se assemelha a um cofre gigante, em especial pelos guardas e o perímetro protegido do local. Tony nos fez o favor de habilitar cores e sinais diferentes, também.
— Maryland? — o rapaz pronuncia com cuidado a sua leitura, mas infelizmente o rastreador não mente. — Por que eles iriam a Maryland? São quase trezentos quilômetros de distância, o que estão escondendo lá que não podem manter em New York?
Eu me viro na direção de meu computador sobre a cama de Parker, o trazendo para o meu colo agora no chão, percebendo que todos os documentos, dados e mapas haviam sido carregados. Dou outra olhada no rastreador e o rapaz mais alto logo percebe o que estou fazendo, se juntando a mim no pequeno espaço abaixo de sua janela e entre a parede. Digito as coordenadas de Maryland no campo de pesquisa do programa da SHIELD, esperando alguns segundos até uma quantidade enorme de documentos e notas fiscais surgirem.
— “A instalação mais segura da SHIELD na costa leste”, recentemente tomada pelo Estado Americano e que está sobre responsabilidade do FBI. O Cofre de Armazenamento do Controle de Danos Federais, Maryland, Annapolis. — Li o título de um dos documentos, sem palavras ao perceber que aqueles homens estavam roubando material alienígena direto de um galpão da própria agência que deveria mantê-los seguros. Abaixei ainda mais a tela, lendo alguns pedaços dos documentos. — Eles têm o maior número de peças Chitauri catalogado nos últimos anos, armas biológicas desativadas, antigos caças da Força Aérea Americana e... Foi o Tony que comprou. Ele comprou esse cofre há dois anos do Controle de Danos Federal e do FBI.
— Chitauri? — Peter repete apenas a parte que lhe interessa, saindo do meu lado rapidamente para cavoucar sua mochila em busca da pedrinha roxa antes de se sentar ao meu lado novamente. Não ouso me atentar à maldita pedrinha furtada de Tony. — , qual a possibilidade dessa pedra ser Chitauri? Do Loki? — Eu nego com a cabeça, deixando o notebook de lado e segurando a joia em meus dedos. — Se eles foram lá e ela estava em uma das armas, é claro que é deles e seja a tecnologia alienígena e humana que você comentou. Talvez seja dos restos das armas dos alienígenas que invadiram New York em 2012, certo?
— Os Chitauri são uma raça alienígena, Peter. Mas só ajudaram o Loki, tanto que quando chegou o momento de realmente destruir tudo, eles assumiram o controle. Thor disse que não são Asgardianos — lhe informo, percebendo aos poucos que já havia anoitecido e as únicas luzes no quarto de Peter são do meu computador, o rastreador e a joia. Esta brilha como nunca no escuro e reluz em minha palma. Se ela não houvesse sido martelada por Parker mais cedo, eu temeria a tocar. — E se aqueles homens têm acesso cofre, bom, isso com certeza é dos Chitauri e tem alguém entrando e saindo daquele lugar com artilharia de guerra e vendendo para ladrões sem a mínima noção do perigo.
Parker respira fundo, fechando os olhos e encostando a cabeça na parede.
— Maryland é longe demais, não tem como ir para lá — lamenta. — É isso. Acabou.
— Paciência é uma virtude, Parker — comento ao retornar ao mapa do rastreador, diminuindo a imagem o suficiente para que o galpão se torne um ínfimo ponto no canto da divisa de dois estados. Washington o separa do estado da Virgínia. — O Decatlo Acadêmico da escola vai participar das nacionais em DC, lembra-se? — eu o informo da localização com um pequeno sorriso em meu rosto, o cutucando com o braço para que volte a prestar atenção. E Peter o faz imediatamente, como se tivesse tido a ideia do século. — O Sr. Harrington disse que chegaríamos ao hotel por volta das sete da noite e a competição será às nove da manhã. Você teria mais de doze horas para entrar, verificar tudo e chamar o Stark. Ou a polícia. — Dou de ombros, estendendo-lhe o aparelho. — Escolha sua, mas já é um bom ponto de partida.
Black, você é um gênio!
O som alto de meu celular me desperta, soando quase que abafado de onde se encontra debaixo de todos os travesseiros e guloseimas que Peter tinha colocado em sua cama. Eu o encontro após bagunçá-la um pouco mais, atendendo automaticamente a ligação e levando o aparelho ao meu ouvido, exalando um suspiro cansado ao me sentar na cama alheia e atender quem quer que seja.
— Alô?
Reconheço imediatamente o bufar do outro lado da linha.
Você tem vinte minutos para estar em casa antes que vá te buscar e mate o garoto.

*


— Se eu ouvir falar algo sem autorização, não sei o que faço, . Senta.
Faço assim como sou ordenada, retirando o meu casaco e sapatos ainda no topo da escada, um pouco assustada com a voz de Tony Stark tão fria ao direcionar-se a mim, sua irritação mais evidente do que jamais esperei estar. Mas entendo que, em dois anos, não lhe dei motivação alguma para agir de tal maneira. Até mesmo Happy veio o caminho todo da casa de Peter Parker calado, acenando para May quando ela insistiu em me levar até a porta e foi parada por Peter de ir conversar com o motorista com uma expressão nada amigável para o garoto. Ela, mesmo assim, não deixou de me envolver em um abraço apertado, me convidando para me juntar a eles algum dia para jantarmos comida chinesa. Já Peter estava estático demais para dizer alguma coisa, simplesmente me abraçando rapidamente enquanto sussurrava minúsculos desculpas em meu ouvido.
Precisei assegurar-lhe que não deveria se preocupar antes de soltá-lo.
O lounge principal do Complexo dos Vingadores está mais escuro que o normal, as luzes da lua e das estrelas que o invadem pelas paredes de vidro se mesclando com o amarelado dos quatro abajures que estão acesos, criando um ar que deveria ser quase relaxante. Seria, se eu não estivesse com o pescoço na linha e o coração martelando contra meu peito. Eu me direciono até o sofá, contornando a mesinha e evitando olhar para figura alta que paira diante de mim, respirando bem fundo antes de abaixar a cabeça para encarar meus joelhos. Eu realmente fiz merda dessa vez. Realmente consegui irritá-lo.
— Eu só tenho uma única pergunta: O que estava passando pela sua cabeça, ? — Minha cabeça se inclina mais sem intenção, os ombros tencionando instintivamente pela minha sessão disciplinaria. A voz de Tony está grave, profunda e escondendo uma dose de mágoa por meus desvios. Não é a repreensão que me afeta mais e sim o que minhas decisões lhe provocaram. Ele exala um suspiro profundo antes de prosseguir. — Tem noção alguma do quão decepcionado eu estou?
As palavras de Tony são duras e ele soa amargo. Eu engulo em seco, nem sequer pensando em me defender. Contudo, o medo de uma punição — alimentado por todos os castigos que já sofri — me deixa mais nervosa ainda e me forço a engolir as desculpas, lembrando-me que mandou que ficasse quieta.
— Eu pensei que tínhamos um acordo, certo? Ignorei tudo o que a Romanoff havia me dito desde que chegou aqui e te dei a liberdade de conhecer, mesmo que só um tanto, o que estava lá fora. E com essa pouca de liberdade você vai e lasca toda a confiança que depositei em você. — Pelo som rápido do ar curvando-se, sei que gesticulou avidamente com a mão. A menção de Natasha me surpreende, mas Tony já está ocupado demais para aguardar minha reação. — Não vê que é um puta esforço para mim deixar que saia daqui todo dia, ? Ninguém sabe se há algum agente da HYDRA de olho em você, apenas esperando para te sequestrar ou a CIA estar duvidando da autenticidade da sua documentação, mas mesmo assim eu deixei que fosse para aquela maldita escola que mudou você — ele estala os dedos — assim.
Aperto minhas mãos, no intuito de manter um pouco da calma que ainda tenho para não implorar por perdão e jurar que jamais faria tal coisa irresponsável de novo, mesmo que seja apenas para lhe agradar. É doloroso saber que decepcionei Tony desta forma, logo quem nunca fez nada que pudesse me machucar propositalmente e sempre buscou me manter segura. Meu rosto arde com vergonha. Quero lhe dizer que estou sempre prestando atenção em tudo, mas não adianta tentar e ele irá deduzir que estou tentando o enganar e mentir entredentes. Poderia dizer que tenho horror a ficar próxima às janelas de vidro da escola, com medo de levar um tiro que espatifará vidro e irá ferir Peter, Ned e MJ por estarem perto demais. Seria útil informar que uso roupas iguais a todos e faço o mínimo de contato com outros alunos, evitando me destacar o máximo e que foi esperto e tático me colocar em uma escola onde meu intelecto não se destaca de forma extrema. No entanto, me mantenho calada.
— Você foi para uma festa no meio da semana sem nem sequer pedir a minha permissão ou ao menos ter a noção que era uma ideia de merda. Essa sua amiga, você conhece ela há menos de um mês! Quem te garante que ela não iria matar você enquanto dormia? E se alguém tivesse colocado alguma coisa na sua bebida? Sumisse com você? — Tony Stark questiona em alto e bom som, cansado e preocupado com meu desleixo e acima de tudo irritado. Depois de alguns segundos, sua voz soa novamente e ele vira o corpo na direção da lareira quando busco em seu rosto algum sinal de calmaria. Sua mandíbula está apertada e as maçãs do rosto escuras de raiva. Ainda assim, eu corro a língua por onde deveria estar o meu siso e ele enfiou um rastreador “sem que eu soubesse” um ano atrás. — Se estivesse com a pá virada, tinha te arrancado daquela festa no mesmo segundo! — Garante-me ao se sentar na outra ponta do sofá.
Só tomo nota do tremor em minha mão quando as olho.
— E, se fosse só isso, estaríamos ótimos, certo? — ele ironiza ao bater as mãos e apoiá-las no joelho depois ao se mover no sofá e respirar fundo. — Por um acaso, a sua memória perfeita sequer te lembrou que haviam pessoas esperando por você no Columbia? — Desta vez aperto os meus punhos para controlar a vibração, meus olhos lacrimejando e a humilhação de ter falhado queimando minha nuca. Eu não acredito que realmente me esqueci do agendamento que tinha com os médicos no Hospital Universitário hoje à tarde. — Nem se deu o trabalho de fazer uma ligação, ! Decidiu ser adulta e tomar as rédeas, mas acabou foi dando um passo maior que a perna. Infelizmente, é o Rhodes que tem de ficar desapontado com as suas gracinhas — Stark relembra, toda a prova de confiança que me ofereceu para ajudar seu melhor amigo sendo reavaliada. — Porém você estava “ocupada”, então eu tive de ir ao hospital e agendar tudo para a terça-feira. Porque você não se importou o suficiente com os outros e o tempo deles.
— Eu não consegui dormir — sussurro com a garganta apertada.
— O que eu disse sobre ficar calada? — Stark ruge na minha direção, o som ecoando pelas paredes do Complexo dos Vingadores. Eu aperto meus joelhos, voltando a inclinar minha cabeça, ciente que aquele foi mais um deslize tolo. — Ótimo saber que não dormiu, porque não deveria! — aponta com aspereza. — Não pode confiar nas pessoas assim, ! E logo eu quem imaginei que teria um senso maior de perigo... — Sei que controla sua língua para não mencionar a HYDRA outra vez. A interrupção o empurra para fora dos trilhos, sua voz cessando em meu ouvidos. — Tem noção do quão preocupado eu fiquei? — Balanço a cabeça, assumindo não ter pensado vez sequer nele. Ou em Pepper e Happy. Minha falta de consideração e mal agradecimento é suja. — Se alguma coisa acontecer com você, vão vir pela minha cabeça se eu não tiver feito algo antes, por simples e espontânea pressão do remorso. Não faça mais isso! Ouviu bem?
— Sim, senhor.
— Eu quero saber tudo. Se for atravessar a rua para entrar no carro, eu quero saber. Se comprar um picolé, eu quero o recibo. Estou sendo claro?
— Sim, senhor — confirmo e com a voz quebrada, tremendo e afinando pela pressão de minhas emoções em minha garganta. — Me desculpa, Tony. — Eu uso a manga de minha blusa para secar meu nariz que começou a escorrer, minha voz resumida a um sussurro embargado que me faz soar como uma imbecil. — Eu vou falar com o Rhodes e pedir desculpas a ele. — Fungo quando sinto mais lágrimas surgindo em meus olhos. Eu as sustento com o rosto erguido, evitando piscar mesmo com a luz amarela em minha face. Não gosto de chorar e soar como uma criança. Sempre me forcei a suprimir minhas emoções até estar segura para desabar, contudo é difícil demais com Tony não apenas me culpando por meu desleixo, mas também desviando a culpa para si mesmo e sua confiança em mim. — Tony, me desculpa por decepcionar você. E-eu não queria, mas eu me esqueci e deixei as minhas responsabilidades de lado sem querer — murmuro contra a manga de minha blusa, não entendendo de onde tanta vontade de chorar surge. — E-eu vou estar no hospital na terça-feira e vou organizar tudo com os médicos.
A melancolia retorna ainda mais potente quando o herói me recolhe contra a lateral de seu corpo, passando um braço por meu ombro e o encosta em seu ombro ossudo, revelando como os últimos meses foram igualmente exaustivos para nós dois. Tony nunca foi o tipo de abraços, mas eu sei que ele se esforça para me confortar sempre que pode, não sendo alguém que foi criado com muito carinho paterno e isso ainda se reflete diariamente em sua vida. Porém ele acaba sempre fazendo o seu melhor para não me machucar, mesmo quando seja necessário, como agora. Eu estou cobrindo meus olhos de tanta vergonha por meus atos irresponsáveis, quando ele beija o topo de minha cabeça.
— Precisa entender que certas vezes eu vou repreender você e que está se desviando demais dos nossos acordos. E esses desvios estão te pondo em perigo e levando a tomar decisões estupidas — ele lembra, afagando meu braço ainda meio sem jeito com todo o lance de consolar alguém. Aceno com a cabeça, entendendo perfeitamente a necessidade de um puxão de orelha tão merecido. — Não quero que cometa os mesmos erros que eu cometi na sua idade por não ter ninguém aqui para me frear. — Tony se explica, com uma calma que vem tão repentina como a raiva posterior por meu mau comportamento. — Você é uma boa menina, . Então mantenha os seus deveres em primeiro lugar e não saia mais sem pedir para mim ou a Pepper, ouviu? — Tony bagunça o meu cabelo, me arrancando um sorrisinho dolorido. — Vá para o seu quarto e arrume suas coisas. A escola ligou para pedir a autorização da sua viagem.
Já estou de pé quando Tony relembra da viagem do Decatlo. Como eu pude me esquecer de perguntar sobre a viagem? Talvez da mesma forma que esqueci de todos os meus outros deveres. Ajustando o meu cabelo atrás da orelha, ajunto minhas coisas do chão.
— Mas depois disso você está de castigo.
Assinto aliviada por Tony não me negar a chance de ir à viagem do Decatlo e ajudar Peter, mesmo que eu nem mereça a chance. Contudo o castigo parece ser promissor. Me viro em sua direção quando coloco a mochila nas costas, percebendo que o herói está ainda pensativo a me olhar.
— Eu não deveria querer saber pelo bem das minhas noites bem dormidas, que por um acaso são mínimas, mas... O que diabos você estava fazendo com o Parker? Não deveriam nem sequer ter se conhecido — explica-se e eu cruzo meus braços sobre o peito, mesmo que tenha certeza de que estou parecendo um filhotinho confuso pelo fungar insistente. Tony revira os olhos, notando que soltou mais informação do que deveria. — A Pepper insistiu que você deveria ir para aquela escola e que é boa para você, não eu. Então mexi uns pauzinhos, mas vocês ainda ficaram com umas quatro matérias iguais no horário.
Então eu estou sem saber o que fazer, apenas bufo e aponto para a mochila.
— Temos um trabalho de história para fazer juntos — mantenho a expressão igual à anterior, relembrando-me que história europeia é um dos poucos horários que temos juntos. — E eu não consigo ver nada em quem está com o chip “Anti-”, lembra? — Tony balança a cabeça, parecendo surpreso por não ter imaginado isso antes. — A FRIDAY me confirmou quando eu perguntei. E, o que foi, Sr. Stark? Uma adolescente lhe passou a perna?
O herói aponta para as escadas.
— Tem um castigo sob aviso, Black. Não abusa.

Minha cama está bem-feita, o lençol amarelo claro dobrado ao lado de meu travesseiro como todas as manhãs, algo que me faz pensar na bagunça enorme que é o quarto de Peter Parker e como lutou em busca de travesseiros com fronhas que não eram de heróis. Em minha mesa, pelo contrário, meus materiais que deixei há algumas noites permanece intocado pelas moças da limpeza. Abro as portas do armário onde guardo materiais de estudo e ferramentas, encarando uma mochila de lona verde escura que está aí desde que me mudei para cá uns dois anos atrás e que já vi todos os Vingadores levarem consigo durante missões prolongadas.
Balanço a cabeça ao imaginar as malas de Nat, Steve e Bucky.
Pego um jogo de facas militares de lançamento, certificando-me que estão limpas antes de as colocar em minha cama. Após tanto tempo sem treinar, quase suspiro ao correr meus dedos pelo aço macio. Escolho também prendedores de cabelo e enfio em um saquinho, tendo os criado há semanas no intuito de usá-los para me defender se necessário. Abaixo do tecido, há uma cerra de fio de cromo afiada o suficiente para cortar ossos com a fricção correta, também podendo ser usada como condutora de energia. Dobro algumas roupas do closet com cuidado ao escolher um casaco com bolsos largos para as lâminas retráteis de minhas facas. Abro minha mochila sem muito cuidado e pondo tudo em minha escrivaninha. É com um pouco de surpresa que eu recolho as embalagens que escorregaram para o chão.
Um pacote de M&M’s e minhocas ácidas de gelatina me encaram de volta.


Homecoming IV — The Baby Monitor Protocol

(Três meses desde a queda dos Vingadores)


Encho uma xícara de café assim que chego à cozinha, colocando-a sobre o balcão enquanto preparo cerca de seis torradas, aproveitando para ler todas as mensagens no grupo do decatlo. Vestindo as roupas da viagem e com a mochila, me sinto ainda nervosa para partir por um dia. Ouço as vozes de Tony e Happy vindo da sala, logo me adiantando para o armário e retirando outra xícara e enchendo-a de café para Happy. Pela forma que apenas grunhe com tudo o que Stark fala, provavelmente nem parou para tomar um café da manhã decente após acordar.
Cumprimento os dois ao chegarem, entregando as xícaras antes de me sentar para comer o meu montante de torradas com manteiga de amendoim, estas apenas me mantendo cheia por mais algumas horas antes de precisar abusar das barrinhas de cerais na mochila. Hogan estreita os olhos para Stark, que faz o mesmo para mim enquanto acerta a gravata no pescoço, um pouco desconfortável com o tecido vermelho que deve ser mais caro que todo o café que consumimos em uma semana. No caso, nem tanto, se considerarmos o fato de que Tony compra um café da Guatemala tão caro que fez Pepper se frustrar quando descobriu. Eu lanço um olhar questionador aos dois, não entendendo exatamente o motivo da troca de olhares estranhos.
? — Tony iniciou, erguendo os clássicos óculos de sol amarelados para então cruzar os braços após dar uma olhada rápida em mim. Ah, claro. Minhas bochechas se ruborizam sem dó. — Você está usando um vestido? É isso mesmo?
Eu abaixo os olhos para o vestido preto com flores brancas, engolindo um pouco a minha timidez pela escolha ousada de roupas antes de assentir com a cabeça, ouvindo quando Happy ri abafado por sua caneca. Merda. Pensei que o vestido preto não chamaria tanta atenção assim, mas fico aliviada quando lembro que quase também fiz um penteado que vi num aplicativo na noite anterior. Dou uma mordida dura na torrada, me pondo de pé, esperando que vejam a sapatilha que uso para quebrar a formalidade e pego minha mochila do banco.
— Ei, você está linda, — Stark assegura quando parece notar o rubor que surge em minha face, desviando a sua atenção para o seu café, não ajudando em nada com minha vergonha. Happy me lança um joinha, piscando como quem concorda com o chefe. — Duas semanas atrás você estava afundando em um par de jeans o dobro do seu tamanho. Parecia um balão de posto de gasolina.
Suspiro com humor, pegando o meu celular.
— Eu sei, tá? — retruco, colocando meu cabelo castanho atrás da orelha. Sei que se Pepper estivesse aqui teria rido com a situação e garantido que eu estou tão incrível como uma modelo. Logo vejo que Tony tentou fazer o mesmo, mas, claro, não estamos tão habituados a isso até agora. Mesmo assim, levo seu esforço em consideração. — Só achei que seria legal tentar algo novo, sabe? — Apanho meus pratos e os coloco na lava-louça. — A Pepps foi tão generosa em comprar roupas pra mim, eu sempre fiquei com as mesmas, então... É. — Dou de ombros, ao guardar minha garrafinha de água. Eu realmente preciso agradecê-la por seu esforço quando puder. — Black está usando um vestido.
Tony faz um bico irônico e dá um tapinha no ombro de Happy.
Black está usando um vestido, sim, senhor. — Stark toca a cabeça como se estivesse salvando uma imagem mental e eu reviro meus olhos ao deslizar meu celular pelo bolso da roupa que uso. — Pronto! Salvei a cena na minha cabeça. Vamos, eu tenho um voo para pegar e não posso atrasar. Ah, é... O avião é meu. — Ele volta a dar um tapinha no braço de Happy, acenando com a cabeça para que possamos sair antes de se curvar sarcasticamente para mim, apontando para a saída. — A dama primeiro. ‘Seguir-emos-nós-vosotros’ para a carruagem de metal de 435 cavalos.
Bufo e finjo uma reverência antes de passar por Tony.
— O Thor ia matar você se ouvisse essa imitação fajuta.
Tony dá de ombros, murmurando algo sobre “cachinhos dourados”.

*


Encosto-me confortavelmente contra um dos últimos bancos do ônibus escolar, escolhendo escutar um dos álbuns antigos do Eletric Guest durante todo o caminho para Washington. E, ainda assim, é difícil não prestar atenção no número de campainhas soando enquanto Liz faz um breve aquecimento com os outros alunos, o som me incomodando demais em união com a quantidade de pessoas que falam uma por cima das outras, porém acabo me divertindo toda vez que Flash erra alguma questão e alguém sempre faz o favor de salientar ainda mais o fato. Ambos eu, Ned e Michelle optamos por não participar, porém MJ prefere por ficar perto o suficiente para gravar quando o pobre Sr. Harrington cair no sono de exaustão e alguém enfiar um Hot Cheetos em seu nariz.
? — Ergo a cabeça, retirando um dos fones a tempo de ouvir quando Betty reclama do nível de dificuldade das perguntas e o professor pede a Liz para pegar leve. É Ned quem me chama, sentando-se no banco à minha frente e me fazendo ficar em pé para poder ver o rastreador em sua mão. Ele parece, novamente, extasiado com a peça. — Você tem um desses também?
Eu observo o holograma antes de responder.
— Não faço a mínima ideia, Ned. Mas vou perguntar ao Tony se tenho um assim que o Peter der um jeito nesses caras — prometo, me curvando um pouco mais para dar uma outra olhada. De acordo com o que Ned havia me dito hoje quando entramos no ônibus e Peter quase tropeçou na escadinha enquanto conversava com Liz Toomes, os ladrões já haviam voltado ao Queens antes de seguirem para Maryland, estando apenas algumas horas atrás de nós. — Mas, se não tiver, eu posso montar um.
— Você pode? — Ned me olha com um sorriso enorme. Não consigo imaginar como algo assim, tão comum para a parcela da sociedade com quem vivo, pode lhe animar tanto. Mesmo assim retribuo o sorriso, feliz por algo que eu posso fazer ter a capacidade de lhe cativar tanto.
— Claro, Ned! — Dou risada, apoiando meu rosto no banco e dando uma rápida olhada para o aparelho. Tony provavelmente o montou em questão de minutos, tão habilidoso com tecnologia que já decorou os protocolos. Não deve ser assim tão difícil para mim. — Primeiro temos de criar um software. Eu posso fazer isso em quinze minutos e depois é só encontrar um hospedeiro, um celular ou até mesmo um relógio digital para ser o rastreador, depois habilitar em algum dos satélites do Sr. Stark. Eles captam o sinal emitido no mundo inteiro — informo, lembrando-me então como Peter havia explicado da pequena aranha de metal que voou no sapato de um dos caras. — Então conectar tudo a um chip com frequência de longo alcance. Como o que o Peter usou neles. — Aponto para o símbolo que se move no mapa. — Depois disso, é esperar a hora de usar.
— Como? — ele questiona e eu abaixo o rosto para rir. — Como você sabe disso?
— O Sr. Stark é um bom professor.
Explico ao ver que Peter corre — ou melhor, tropeça — para a parte de trás do ônibus, o celular grudado no ouvido e com uma cara de desespero que lança para mim e Ned. Me sento novamente quando se joga contra o espaço vago em meu banco, afastando o celular do rosto rapidamente para que eu precise segurar o riso ao ver a cara emburrada de Happy na imagem do contato. Sinalizo para que ele aumente o volume do celular e Peter o faz sem pôr no viva-voz, mas encostando o aparelho perto de meu ouvido e juntando sua cabeça à minha para que ambos possamos ouvir em alto e bom som, assim como Ned também.
— Não. É um passeio do colégio — Peter explica, eu cubro minha boca para que Hogan não possa ouvir o som da minha respiração e Ned se debruça sobre o banco. — E, poxa, Happy! Vocês me rastrearem sem a minha permissão é invasão de privacidade, sabia? — Reviro os olhos para o garoto, apontando para o rastreador na mão de Ned. — É diferente! — Peter sussurra, o rosto ainda mais próximo do meu e me forçando a engolir em seco pela proximidade abusiva.
O que é diferente, moleque?
— O-olha, é só o decatlo acadêmico. — Dou um empurrão em Peter pela sua falta de noção. Estou balançando a cabeça desacreditada quando começa a gaguejar e aperta o estofado do banco de Ned sem saber o que falar. — Não é nada demais — garante e eu concordo, fazendo um sinal de positivo “Hum! Então não é nada demais. E fica longe da Black, garoto! O pescoço dos dois já está na linha com o Sr. Stark. Não arranja problemas pra menina, Parker! Eu tô de olho!” — Hein? — Acabo rindo quando a linha cai.
Peter está com a mão no peito quando suspira profundamente. Com toda certeza haviam descoberto o que planejava fazer ou acharam estranha a sua volta repentina ao decatlo quando, segundo Betty, horas mais cedo, “ele ficou todo estranho uns meses atrás e saiu de todos os clubes e aulas extras” e Flash sintetizou tudo como “o cara é doido e deve estar tendo umas crises aí”, me fazendo precisar segurar Michelle para que não jogasse o bully debaixo do pneu do ônibus. Felizmente, minutos depois, Peter chegou e foi, com sorte, bem recebido pelo Senhor Harrington e tomou de volta seu lugar que seria ocupado por Flash Thompson.
— Eu pensei que ele ia mandar um robô monstruoso para me levar de volta pro Queens. — Parker bufa, agradecido. Ned ri e eu recolho minhas coisas do banco para que ele se sente confortavelmente ao meu lado, parecendo ter se esquecido de voltar ao aquecimento. Peter, quase me matando de susto ao pular do banco, parece ter notado e registrado a minha presença, arregalando os olhos antes de se sentar corretamente, as bochechas brilhando com o tom rosado. — , como foi ontem? — questiona, a preocupação me fazendo sorrir um pouco e Ned apenas ergue a sobrancelha de volta ao seu banco. — Me desculpa mesmo por ter atrapalhado você. O Senhor Stark deve ter ficado muito chateado, . Desculpa.
Encontro uma posição confortável no banco antes de responder.
— Ele ficou, sim, chateado — informo, retirando o outro lado de meu fone, agora que a bagunça nos bancos da frente terminou e todos parecem ter decidido descansar um pouco. — Mas nem foi com você, entende? Eu tinha uns deveres a cumprir que acabei negligenciando desde que comecei na escola — explico novamente, muito aliviada por poder ter com quem conversar sobre isso tudo. — O Oficial Rhodes está fazendo este trabalho que eu insisti. Eu tenho um “mini estágio” que deveria estar indo e mais umas coisas — enumero, bloqueando a tela de me meu celular e alterando a história com Rhodes. — Mas não se preocupa, ele não está irritado com você. O Happy falou aquilo só pra te deixar com medo. É um talento dele que não funciona muito, mas ainda consideramos talento.
Peter balança a cabeça, nervosamente entrelaçando os dedos no seu colo.
— Não, tudo bem ele ficar irritado comigo, eu acho. Mas você? — Ele tenta mostrar força, mas sei que também não quer ser visto com maus olhos logo agora que tem se esforçado tanto para mostrar seu valor ao herói. Contudo, ainda acho gentil que se preocupe comigo e o que Tony pensa quanto a mim. — Mas eu fiquei com medo de ter arranjado problemas para você. Você foi me ajudar com isso e acabou levando um puxão de orelha por minha culpa. — Sua voz está mais baixa agora que todos no ônibus estão em silêncio, exceto Ned, que faz barulhinhos aleatórios enquanto joga algo no celular. A atmosfera me faz respirar um pouco mais confortável. — Tem certeza de que está tudo bem?
Aproveito a escuridão que se forma no veículo para camuflar meu sorriso.
— Tenho, Peter — garanto, esbarrando a minha mão na sua, apertando-a bem de leve. O rapaz retorna o toque, igual havia feito na noite anterior, gentilmente me confortando. Agora os papeis se alternam e, com a consciência mais leve, eu confirmo para mim que havíamos ficado quites. Eu afasto minha mão e a descanso contra minha perna, dando de ombros. — Só que eu tenho que limpar o laboratório do Dr. Banner. E sabe, uma ajudinha seria legal...

*


— Qual a sua cor favorita?
— Quê?
Abro a porta com uma careta, não entendendo o desvio aleatório de tema que MJ toma. Estamos há quinze minutos falando como um ator — um tal de Armie Hammer que ela havia me apresentado alguns dias atrás — é um intérprete perfeito para John Brooke de Mulherzinhas por Jane Austen, outro livro que havíamos descoberto há pouco ser um querido de nós duas e engatamos nessa conversa por horas há alguns dias. Percebo que Michelle já está jogada sobre sua cama, os pés cruzados e o celular em mãos enquanto me olha por baixo dos cachos, ainda aguardando a minha resposta. Me permito rir da situação muito inusitada, usando os segundos que preciso para atravessar o quarto e prender meu cabelo antes de me sentar na ponta da cama que escolhi. Sinceramente, nunca me peguei pensando na minha cor favorita.
Mas sei qual é de imediato assim que ponho esforço.
— Felicidade. — A palavra me escapa sem querer.
— Felicidade? — Michelle ri baixo, mas eu sei que acabei de falar algo errado. Porém ela não se importa, agora dobrando as pernas para ficar de frente para mim. Como uma idiota, concordo com a cabeça devagar, analisando o terreno. — E que cor você vê a ‘felicidade’, Black? — questiona para melhor entendimento, parecendo verdadeiramente interessada de uma maneira que me soa estranha. Contudo, algo no fundo da minha cabeça me diz que é assim que deve ser. Somos amigas, certo? E amigas devem se interessar uma pela outra. — Eu acho que as pessoas devem ver ela diferente, né? Qual a sua?
Envolvo meus braços ao meu redor, envergonhada.
— Amarelo. — Ninguém além de mim sabe as cores que variam em minha mente de pessoa para pessoa de acordo com seus sentimentos. Mas em algumas partes é óbvio demais. O amarelo é um sinal básico de felicidade. — Mas não um amarelo vivo horrível e que dói nos olhos. É meio que... Quando eu vejo uma cor, eu acabo por associar ela com um sentimento, entende? Quando eu vejo algo vermelho, minha cabeça relaciona à paixão e intensidade. Um violeta soa como raiva. Quando é verde, eu penso em equilíbrio e esperança, mas, dependendo do tom, se for um tom de musgo e algo frio demais, me traz a ideia de medo.
Explico a maneira que minha mente se relaciona seletivamente com cores e emoções da melhor maneira que posso, percebendo a curiosidade e o interesse de MJ quando ela concorda, parecendo me entender. Logo eu estou sorrindo, confortável por, mesmo que sem ela saber, estar lhe revelando um pouco de mim. As palavras me escapam, formando uma teia que parece boba, mas faz todo o sentindo do mundo para mim. Michelle tem um sorriso compreensivo no rosto. Algo em mim me conforta ao imaginar que, se o momento de lhe contar tudo chegar, ela vai tentar entender. Eu respiro fundo antes de continuar, afastando a possibilidade.
— Porém o meu favorito é aquele amarelo pôr do sol. Quando a borda do sol vai se pondo, o céu fica com sombras alaranjadas e a luz pálida — comento, rindo quando Michelle também o faz. — Laranja e amarelo — declaro por fim, me jogando de costas na cama para evitar que ela possa ver o sorriso bobo em meus lábios. — Mas, se não me engano, a gente estava falando de Mulherzinhas e o seu “tipo ideal” sendo garotos com pinta de alunos de artes que só bebem água com gás saborizada. Por que você quer saber da minha cor favorita tão de repente?
Michelle Jones brilha em uma mistura delicada de verde e amarelo. E rubor.
— Eu estou respondendo uma quiz de amigas — murmura baixinho para que eu não entenda, logo um sorriso enorme me escapa igual a borboletas no estômago. Amigas. Quero correr e contar para Pepper o mais rápido possível, mas estou surpresa de uma maneira deliciosa demais para me desvencilhar deste momento tão rápido assim. — É bobagem. Esquece.
Ela se apressa, no entanto eu me sento sobre a cama, abraçando meu travesseiro quando me ponho ao seu lado, olhando por cima de seu ombro ao ler as perguntas do quiz. A ideia de Michelle se interessar em fazer algo tão simples apenas para garantir que somos — em alguma forma bem confusa — amigas é algo especial demais para mim. Até entendo a sua apreensão quanto ao que eu ia pensar, afinal, não duvido de que, se fosse em outras condições e eu não carregasse toda uma carga de problemas, solidão e ansiedade em minha costas, provavelmente ia achar besteira.
Mas a importância da sua presença é muita. E me deixa feliz.
— Qual a sua cor favorita, MJ? — indago, retirando o celular da sua mão, rindo da cara de tédio que ela se põe a fazer, mesmo que ambas estejamos envolvidas em um tom sereno. — Vai, eu prometo que não conto para ninguém que não é preto, ok?
Ela me dá um chutinho com a ponta do pé.
— Hum... Azul? — Michelle chuta, parecendo quase em dúvida antes de acenar com a cabeça. — Sim, azul. Mas não como todo mundo acha que é o azul, tá? Não é um azul de luto ou um azul de tristeza — se esclarece e eu concordo com a cabeça, interessada em sua interpretação, pois como ela realmente havia mencionado antes, as cores possuem significados diferentes para todos nós. — Pra mim, é como se significasse algo como honestidade e inteligência. — Propõe e eu sigo para as outras perguntas, ainda maravilhada como algo igual pode ter tantos sentidos díspares. — Como a Corvinal. — Ambas damos risadas da analogia no mesmo instante que meu celular vibra.

? Você pode vir aqui no terraço rapidinho?”
Devolvo o celular de Michelle ao abrir a mensagem que tenho certeza ser de Peter, pedindo que procure mais perguntas para irmos respondendo, tentando desamassar o máximo o meu vestido antes de mentir que ia lá embaixo comprar uma garrafa de água e pedindo aos céus que ela não perceba que tenho uma minha mochila. Ela grita algo como “Norman Bates” antes que eu feche a porta atrás de mim, o nome entrando na minha lista de coisas as quais devo pesquisar. Do lado de fora do quarto aquecido, o ar frio de Washington faz com que eu me arrependa de não ter pegado ao menos um casaco, mas me concentro apenas em descobrir onde fica o terraço que Peter havia mencionado.
Após rodar um pouco pelo andar e não encontrar placa alguma, me dobro contra o parapeito do corredor, dando uma boa olhada para o lounge do hotel onde a maioria das luzes estão apagadas e para os outros quartos ao redor. Sei que é perigoso usar meus poderes assim, mas de qualquer maneira eu posso sentir as vibrações e ondulações internas correrem desde meu peito para as extremidades de meu corpo. Fecho os olhos. Preciso de poucos segundos para visualizar o terraço que vi na frente do hotel, com as saídas de ar e tijolos sem uso. O ar ao meu redor parece se curvar e torcer um pouco, meus pés não tocam mais o chão e então o silêncio chega.
Quando meus olhos se partem, posso ver a admiração crua de Peter Parker.
Esta é a terceira vez que faço isso desde que descobri a possibilidade, alguns meses atrás. Não que mais alguém saiba que consigo simplesmente sumir e reaparecer em um local diferente em questão de segundos. E cada vez que passa, o enjoo é menor, como agora, minha cabeça apenas doendo um pouco acima de meus olhos e na nuca. Eu ainda consigo me lembrar de como tive de ir imediatamente ao banheiro quando o fiz pela primeira vez, no Complexo, indo de meu quarto para a cozinha. Parecia que iria vomitar todos os meus órgãos para fora, mas agora o meu corpo — mesmo de forma relutante — parece ter se acostumado com a nova habilidade.
— C-como você fez isso? — O rapaz severos centímetros mais alto indaga com admiração, apontando para mim com os lábios em ágape, impressionado demais comigo para quem sai voando pela cidade em teias de aranha. Eu dou um sorriso tímido, encolhendo meus ombros e enfiando as mãos nos bolsos do jeans ao me aproximar. — Isso foi incrível!
O vento frio açoita meu rosto.
— É novo — informo como se estivesse falando de uma peça de roupa ou um carro, não algo completamente impossível como teletransporte. Se levarmos pelo lado da física, eu nem deveria poder fazer isso. Devo ter quebrado tantas leis que mataria a professora Fuentes. Peter está sorrindo para mim, os olhos cintilando. A admiração me causa um sentimento amargo e eu engulo em seco, entendendo bem de onde minha aversão pela ideia de meus poderes serem valiosos provêm. — O que aconteceu? — É minha vez indagar, mas as alças da mochila em seus ombros estreitos me desconcentram. — Você já vai? Vai seguir eles tão cedo?
Quero massacrar o tom de preocupação em minha voz.
— Eles estão saindo de um hotel agora. — Peter enterra as mãos no casaco, unindo as sobrancelhas em um pouco de preocupação. Ele não parece convencido que isso é o melhor a fazer, mas com certeza não vai desistir. — Eu vou seguir eles e dar um jeito. Amanhã de manhã vou estar de volta para o decatlo. — Seus olhos estão focados no chão antes de se direcionarem a mim e pausarem ali. A mochila que trouxe em seguida cai de seus ombros enquanto remove seu casaco nas pressas. — Você está congelando, não está?
Estou ainda confusa quando Peter Parker retira seu capuz, bagunçando todo o seu cabelo, e se aproxima de mim com correria, parecendo quase aflito e jogando seu casaco com cuidado sobre meus ombros. Não consigo entender como percebeu tão rapidamente, ou por que sua pressa em me aquecer, mas estou em choque. Quero articular alguma coisa enquanto suas mãos estão friccionando meus braços, em uma tentativa de me esquentar que visivelmente funciona. Mas eu estou sem ar ou palavras. Nunca fui muito fã de contato físico, mesmo tendo um grupo seleto daqueles que não me importo que toquem em mim. Stark, cujos abraços são desengonçados, Pepper e suas mãos delicadas, Natasha, que sempre remove a máscara de malvada para mim, e o Capitão Steve Rogers, a quem eu confio minha vida. E algo que posso apenas descrever como preocupação me aflige quando imagino que Peter pode se encaixar na lista.
— Está melhor? — Eu concordo com a cabeça, não confiando nem um pouco em minha voz para respondê-lo. Peter tira a mochila do chão, a colocando sobre os ombros novamente, respirando bem fundo. Deixo o casaco me engolir, ainda não entendendo o porquê de ter sido chamada. Ele parece notar minha confusão e coça a cabeça. Posso ver o tom de vermelho de seu uniforme escapulindo pela camisa longa esverdeada. Abraço meu corpo, tentando entender se ele sequer sente frio pela ausência de mais camadas. — E-eu chamei você pra perguntar se acha que eu fiz algo errado — Parker se explica e eu ergo a minha sobrancelha, olhos se arregalados no segundo que ele puxa um chip do seu bolso da calça. — Eu tirei o meu rastreador...
Pego o pequeno chip da sua mão.
— Peter, por que você fez isso? — vocifero, não acreditando que fui tão ingênua e pensei que ele não faria este tipo de coisa para fugir do radar de Tony e Happy. Tudo bem falar que está em outro lugar, ou desligar o celular e largar em algum canto. Mas retirar o rastreador do uniforme é suicídio. — Isso é pura estupidez, Peter! E se alguma coisa acontecer? Se você se machucar feio, ninguém vai saber onde você vai estar e vai morrer. — Eu soo irritadiça, da mesma maneira que Natasha soou comigo anos atrás, quando eu me atrevi a fazer o mesmo com meu celular. Agora consigo entender a sua preocupação, pois conheço o quão mau o mundo pode ser para alguém inocente de suas ações. — Isso é muito perigoso, Parker.
Peter suspira derrotado, como se soubesse que eu diria exatamente isso.
— Eu sei, mas... — Ele morde os lábios rosados com força, como se ainda buscasse palavras para tentar me convencer que não há tanto problema. Mas há e isso é inegável. — Eu quero provar para o senhor Stark que posso fazer isso, saca? Algo importante e “grande”. Mas sem que ele saiba e venha me procurar com uma armadura vazia como fez na festa da Liz. — Seus olhos estão fechados, como se realmente lutasse contra algo grande, o medo de se machucar, mas a vergonha de ser ajudado colidindo em sua cabeça. — Não quero que ele me ajude nessa, . Que provar que tenho valor.
— Parker, coisas grandes e importantes como essas são perigosas — alerto, segurando em seu braços com minhas mãos frias, tentando puxá-lo para a realidade. — E se eles machucarem você? — Agora tem algo como medo atrás de minha voz e Peter percebe, entreabrindo os lábios para tentar formular uma resposta. — E não venha me dizer que você vai dar um jeito. O jeito era esse rastreador em você! Era simplesmente um alerta chegar para o Tony quando alguma coisa ruim acontecesse e ele viesse intervir. — Estou sentindo algo gelado em meu estômago, pois sei que não adianta o que disser. Ele vai de qualquer forma. Posso não ter poderes contra sua mente, mas eu sou humana o suficiente para conseguir lê-lo. — Só... Toma cuidado, tá?
Envolvo meus braços ao redor de sua cintura, encostando meu rosto em seu ombro em um abraço desengonçado, logo sentindo quando o retribui e respira profundamente, parecendo pela primeira vez ter notado a gravidade das ações que planeja tomar. Peter é quente contra meu corpo, os braços ao meu redor com cuidado, como seu eu fosse quebrar. Ambos estamos muito surpresos pela coragem que eu tive, mas Peter ainda me segura contra si com cuidado. Não dizemos nada e eu apenas me afundo no seu perfume, que invade meu nariz. É um cheiro fresco, exalando uma sensação morna e confortável, com um toque de amaciante de roupas. Tenho medo de meu corpo se tornar gelatina quando ele respira contra meu cabelo e seu peito infla.
— Não morre, Parker. Sei que o Happy parece mau, mas ele ficaria triste.
Peter não é um idiota que se acha assim como Flash, mas algo na forma que me abraça, fala comigo ou me escuta com atenção me gera tanta confiança quanto Tony e Pepper. Sei que posso confiar nele desde o momento em que me ouviu com cuidado e respeito na noite anterior, quando confiou em mim para contar-me sobre suas perdas ou meramente enfiou um chocolate em minha mochila caso as coisas ficassem complicadas em casa. No momento mais simples, eu acabei por encontrar um amigo. Eu me afasto, bufando ao desistir de convencê-lo do contrário e envolvendo meus braços ao meu redor em retorno.
— S-sim, claro — gagueja. — O Happy ficaria triste.
— Peter, eu estou falando sério — repito apenas mais uma vez. — Por favor.
Peter Parker sorri para mim quando dou um passo para trás.
— Agora eu sei por que a May gostou tanto de você: são iguaizinhas.

*


“Aqui é o Peter. Deixe o seu recado.”

Bufo quando a ligação cai direto na caixa postal, apertando o celular com força na mão e ouvindo um estalo da tela frágil demais para meu poderes e a raiva que tenho nutrido por mim mesma. O professor estava no telefone por minutos a fio com May Parker enquanto cruzávamos o Jardim da Constituição na direção do Monumento Washington e eu tentei da melhor maneira possível contatar Peter a tempo. Eu não quis entrar nas minhas mensagens de novo, afinal, sei que ele não as recebeu e que me martirizar por isso não vai valer nada. Prefiro acreditar que ficou sem bateria, mas pedi para que F.R.I.D.A.Y me avisasse assim que surgisse algum sinal de uma interface semelhante à sua próximo a mim. Hoje pela manhã, Ned contou que Peter desativou severos protocolos no uniforme e sei que estamos em igualdade em relação às armaduras, então mantenho o fone bluetooth no ouvido.
— Prefiro não entrar em um monumento construído por escravos, mas obrigada.
A relutância de Michelle me faz sorrir um pouco e ela garante que vai esperar aqui embaixo para irmos ao museu quando saímos. Eu sigo sozinha para dentro do enorme monumento, me confortando um pouco quando Ned me espera depois do raio-x como um bom colega. Coloco minha bolsa, celular e fone sobre a esteira e ergo minhas mãos para passar pelo detector de metais, me apressando quando percebo que ele me chama em sua direção. Pego minha mochila com pressa e corro para acompanhá-lo com o resto da turma. É o senhor Harrington que segura a porta para nós e eu me enfio no final da enorme caixa de metal, encostada na parede com Ned.
— O Peter ligou e ele está vindo, mas já falou com a Liz, então acho que está tudo certo — Ned me explica calmamente enquanto entramos, aliviado por saber que o amigo está bem.
Liz?
Engulo em seco, algo que não consigo entender, mas apenas suspiro com alívio, apertando os ombros de Ned, entendendo mesmo que um pouco como ficou preocupado com a segurança de Peter. E é como se o peso do mundo todo houvesse sumido de meu ombros, também. Não imagino o que falaria para Tony caso o pior acontecesse com Peter e eu soubesse que algo daria de errado e não tivesse lhe avisado. Por alguns segundos, eu me permito refletir no que Michelle comentou ontem no quarto, depois que eu apareci sem garrafa de água, mas com o casaco de Peter. Ela ficou rindo ao relembrar como foi hilário como Parker gaguejava enquanto falava com Liz Toomes e como sempre ficava nervoso perto da menina. E também, como se estivéssemos em um livro, seria a típica parte em que ela o fecharia por não aguentar a vergonha alheia.
— Eu posso falar para o Parker que ele vai ser expulso? — Flash provoca.
Prendo meu lábio inferior entre meus dentes, pois Michelle havia imitado a voz de Liz ontem, recitando as palavras doces de apoio e elogios que ela havia dito a Peter e como ele parecia soar enfeitiçado com tudo o que ouviu, tudo isso acontecendo nos mínimos segundos em que eu estava no banheiro. Então, bem, não tenho direito algum de me ofender. Claramente, Peter já é apaixonado por Liz Toomes há alguns anos e MJ acha que as coisas enfim estão andando para os dois e eu não tenho que ser a babá de Parker.
Estou com um sabor ácido inusitado em minha boca quando ouço F.R.I.D.A.Y.

“Srta. Black, foi detectado um grau 4,8 GP — em uma escala de cinco —, de gás contaminado aos seus arredores. A exposição desregulada pode ser fatal aos civis na sua companhia. Segundos dados do sistema, a radiação provêm de um explosivo.”

Eu toco o ponto em meu ouvido, me atentando quando o elevador começa a subir andares sem fim, algo pesando em meu estômago com o aviso. Eu me apoio ainda mais contra a parede quando a guia que nos acompanha inicia uma breve introdução ao monumento e o elevador treme. Mas não consigo ouvir mais nada além do som de meu sangue pulsando alto em meu ouvido.
De onde essa radiação surgiu? Minha mente está a mil enquanto busco uma saída da enorme caixa de metal, minha respiração se tornando mais e mais erradicada ao averiguar a fundição das paredes.

“Srta. Black, a fonte da radiação encontra-se extremamente próxima. Devemos iniciar o protocolo de desativação? O tempo estimado para colapso do núcleo é de 7 segundos.”

Então eu posso ver quando uma luz azul intensa começa a surgir da mochila de Ned Leeds, este que se encontra há apenas dois passos de distância. Meu corpo inteiro parece reagir quando as luzes se tornam mais fortes e se direcionam para o teto do elevador, formando uma auréola azul. Mas é tarde demais. Acontece tudo rápido demais e eu não consigo agir como planejava.

“Cinco, quatro, três, dois...”

Por um momento, tudo parece congelado no tempo. Então meus braços se fecham ao redor do corpo de Ned quando todas as luzes se apagam e sou jogada bruscamente para trás, num estouro em meu peito. O impacto com o metal duro me deixa sem ar e eu atinjo o chão com um gemido apertado de dor. Minha mochila pouco faz para aliviar o golpe. Por sorte, o casaco fica justo no cotovelo, poupando não só sua integridade como também meu ombro, e as cinzas da joia estão firmemente seguras em minha mão.
O elevador ainda treme devido às explosões e eu sinto os gritos dos alunos na mesma intensidade do chacoalhar. Mas não consigo escutar o barulho. Não consigo escutar nada no momento, pois meu corpo está comprometido com outras informações. A radiação e a energia se misturam ao meu sangue, ardendo em minhas veias. Tudo arde e coça de repente, minha pele formigando.
Posso formular meu nome nos lábios de Liz quando tenta me ajudar.
Avisto Ned e Betty abaixados e grudados as paredes do elevador, minha visão turva demais quando não consigo identificar mais nada e sou tomada de um misto de alívio e raiva. Eu sei que devem estar todos gritando com a explosão, mas suas palavras não me alcançam e meus olhos estão cheios de lágrimas, tanto pela dor em minha cabeça quando o sangue contaminado se espalha por meu corpo e pelo fato de meus ouvidos estarem zunindo. Uma fumaça ácida cobre nossas cabeças, o que não é o remédio ideal para alguém que está tentando recuperar a capacidade de respirar. Mas tem braços ao meu redor e mãos que me erguem contra uma parede, porém está tudo escuro demais e eu estou com algo horrível queimando em meu peito e garganta.
Depois de mais ou menos um minuto, o chão para de vibrar e eu posso ouvir.

“Srta. Black, danos no sistema foram detectados. O núcleo do explosivo se rompeu, mas foi contido, infelizmente ainda causando danos estruturais ao Monumento. Estima-se quatro minutos até um colapso do cabo de sustentação do elevador. A Segurança Nacional e o corpo de bombeiros foram acionados.”

— Nós vamos morrer!

“Uma interface irmã foi detectada.”

Peter. A notícia é como uma luz no fim do túnel.
É melhor sair logo daqui. Eu preciso tirar todos daqui. Mas assim que me levanto, noto que escapar não deve ser uma tarefa tão simples. Estou tonta. Não aquele tipo de tonteira leve, mas o tipo que faz com que as pessoas rodopiem à minha volta e a terra se mova em ondas embaixo de meus pés. Dou alguns passos e acabo caindo nos braços de Liz, então atingimos o chão. Paro alguns minutos para esperar a sensação passar, mas ela não passa. Começo a entrar em pânico como os outros, pois estou gastando tempo valioso. Não podemos ficar aqui. Fugir é essencial, mas não consigo nem me colocar de pé. A ideia me assusta e me faz querer chorar, mas eu preciso tentar nos manter seguros e faço desta a minha prioridade.
Minhas mãos se espalmam no chão de metal e eu faço força, toda a força que tenho dentro de mim antes que algo estale em meu corpo de maneira gloriosa. E em minha mente eu sei que está funcionando mesmo que meus ossos pareçam estar queimando por baixo de minha pele. Meus olhos se fecham, pois não preciso da luz humana. Todos os sentidos me guiando, mesmo no escuro, por isso podendo sentir e ver a onda monstruosa de energia envolver a caixa de metal, sondando-a e reestruturando toda liga metálica do cabo que nos mantém erguidos a quase duzentos metros de altura. Sei que não sou suficiente e que isso é apenas um remendo momentâneo, então aperto meus olhos com concentração, esticando os dedos contra o metal enquanto vejo a caixa fazer o mesmo e se sustentar nas paredes com a dilatação que a emperra.
— Vamos saindo com calma! Com calma! Temos uma aluna ferida!
Quantas vezes não ouvi escapar dos lábios de algum agente da S.H.I.E.L.D em que Tony Stark e Steve Roger confiavam que o motivo da minha existência não ter sido revelada para as autoridades era básico? O motivo de meus poderes serem ocultos do resto do mundo? Porque não existem protocolos no país para emissão de vistos ou autorizações para armas de destruição em massa presas no corpo de uma criança sem controle algum. Porque todos sempre acreditaram que um dia eu perderia o controle e mataria todos ao meu redor por acidente. Mas a ironia se torna maldosa quando eu mantenho nove vidas nas pontinhas de meus dedos. A imagem gentil de Natasha Romanoff surge em minha pálpebras e eu posso, mesmo que seja uma alucinação doentia causada por minha mente exausta pelo esforço, sentir o toque de suas mãos em meu cabelo, igual fez quando decidiram que eu era perigosa demais para me soltarem no mundo.
A dor em meu peito é insuportável e o ar some de meus pulmões, como se várias agulhas estivessem perfurando minha pele de todos os ângulos possíveis, mãos pesadas esmagando minha garganta e é uma sensação reconfortante para o fim. A escuridão teima em me puxar e eu em não ir com ela, mas uma hora eu não consigo mais lutar.


Homecoming V — Monumental Meltdown

(Três meses desde a queda dos Vingadores)

— Eu estou bem, juro! — garanto ao levar a garrafa de água para meus lábios.
Um círculo enorme estava formado ao meu redor quando acordei na ambulância, alguns cobertores prostrados em meus ombros e um soro em meu braço. Mas não parecia, nem por um segundo, em meu corpo, que eu literalmente havia parado uma explosão que mataria todos naquele elevador. Nem parecia que eu ainda tinha as cinzas da Pedra Chitauri nas minhas mãos quando acordei e as esfreguei contra o carpete da ambulância antes de perceberem que eu havia despertado. Então um monte de paramédicos vieram me checar, avaliando meus sinais vitais e se eu consigo me mover normalmente, mas consigo e é uma sensação dolorida de forma agradável, como se meu corpo estivesse despertando pela primeira vez em milênios.
Michelle foi a primeira pessoa a vir na minha direção depois dos exames e questionários. Pude ver como seu corpo estava envolto em uma aura verde vivíssima, o horror que havia passado ao nos ver sair de um monumento que quase explodiu sendo demais até para seu temperamento forte e fachada de durona, quebrando a casca grossa até o interior delicado dela. Quando me abraçou, eu precisei fechar minha boca para não gemer de dor pela força que pôs e como segurou em meus braços. Mas eu não fiz diferente, a envolvendo em um abraço tão forte quanto e implorando que ela não me deixasse subir em monumentos construídos por escravos de novo, respirando fundo em seu cabelo macio que cheira a argan. Seu sorriso e olhos meio embargados foram o suficiente para saber que sairia bem desta. Liz estava sentada na calçada com Betty a ajudando a se recompor do susto, Flash gravando um story no Instagram com um amigo e Ned sumiu. Mas duvido que Harrington ficaria tão calmo com um aluno morto.
, o impacto atrás de você foi muito forte e caiu bem feio. Tem certeza? Nós temos um seguro-viagem que cobre exames — o Sr. Harrington volta a me explicar e tentar convencer enquanto alguns policiais cercam a cena, já tendo isolado a área, pois o número de repórteres que havia surgido não era algo para se brincar. — B-Bem, cobre apenas um raio-x, mas já deve ser útil — o pobre professor tenta me convencer a ir ao hospital com o rosto vermelho, sua camisa branca ensopada de suor e a gravata borboleta torta. — Nós só vamos chegar a New York em três horas.
MJ pega a garrafa seca da minha mão, se sentando ao meu lado na beira da ambulância.
— Eu tenho, sim, Sr. Harrington. E ninguém vai processar o senhor, ok?
Minha voz ainda está baixa e rouca, como se eu houvesse passado o dia inteiro gritando. O som ríspido e o ardor sendo tão familiar de uma maneira traumática que me esforcei para beber toda a água que me foi oferecida. MJ passa a mão em minhas costas, vendo como ainda é difícil para mim falar e até mesmo raciocinar com todo o estímulo sensorial do tumulto. Como devo explicar a eles que não posso ir para um hospital qualquer e que apenas a Dra. Cho consegue cuidar de mim? Engulo em seco, correndo a língua por meus lábios rachados. Com meus sentidos tão sensíveis, o som das outras ambulâncias que partem — transportando outros turistas que se feriram com a explosão — me deixa extremamente nervosa e eu engulo a vontade de vomitar.
— O senhor já falou com os paramédicos. Eu estou bem. Posso esperar chegar em casa para tomar um sonífero e dormir até a dor sumir. — Assim que eu começo a rir, Michelle me olha com reprovação antes de dar um beliscão em meu braço e fazer grunhir. Mesmo assim estou sorrindo para ela. — Cedo demais?
Então um tumulto começa no meio da barricada de policiais na nossa frente, o que leva nosso professor a se afastar caso fosse um de seus alunos e eu me permito descansar a cabeça no ombro de MJ assim que ele vira as costas. Minha garganta arde e a cabeça dói. Tenho certeza de que é apenas o meu corpo tentando se reequilibrar após a absorção da energia da bomba e que as dores vão piorar com o passar das horas até eu estar em um estado deplorável, porém sei que devo seguir para o hospital assim que chegar em casa e ficarei alguns dias em constante vigília. Por mais que isso não seja algo novo, Tony faz questão de me manter em observação após cada despertar de um poder novo.
A absorção de energia, principalmente a radioativa, que foi o caso da pedra Chitauri, é uma ciência perigosa e deteriorante para o corpo humano, mesmo que meu poder regenerativo seja monstruoso. A radiação tem a capacidade de alterar as características das células e, ao contato com o objeto, os efeitos são agudos e rápidos. Imprevisíveis e impossíveis de controlar. Duvido que, se minhas mãos não houvessem servido como um sarcófago para a pedra, alguém pudesse se aproximar daqui sem o risco de contaminação. A dor na garganta provavelmente é meu sistema imunológico e que está trabalhando o sêxtuplo do normal para tentar controlar os danos ao meu corpo. Minhas plaquetas devem estar morrendo lentamente neste instante e aos poucos meu sistema cederá a anemia, já perceptível pela minha tontura e leve febre constatada por um paramédico. Em breve, os efeitos aparecerão em minha pele enquanto tento controlar para que a radiação não saia de mim e se espalhe para os outros. Ficarei vermelha, começarei a vomitar e então minha pele vai borbulhar com queimaduras.
— Você quase matou todo mundo de susto — MJ comenta, como se fosse algo bobo demais para se importar, mas sei que não é. Você quase me matou de susto, transcreve minha mente e eu sorrio com a boca fechada, tentando ignorar minha saúde. — Mas você tinha que ver! O Homem-Aranha surgiu do nada, . Como se soubesse que algo ia acontecer — ela relata abismada e seu ombro se move. — Eu até falei com ele. Disse que meus amigos estavam lá dentro e ele forçou uma voz estranha, tentando parecer másculo ou sei lá o quê. — Estou rindo um pouco, balançando meus pés que não tocam no chão pela altura da ambulância. Peter estava vindo. Como tinha prometido. — E então o cara simplesmente escalou aquele obelisco...
! Que bom que você está bem! — A presença de Liz Toomes ao meu lado me surpreende quando ela me abraça. Ainda estou dolorida demais, mas consigo mover meu pescoço para lançar um olhar perdido e sonolento para MJ, que dá de ombros, bem-humorada graças à minha aparente recuperação milagrosa. — Eu fiquei tão preocupada quando conseguimos sair e você ainda estava desmaiada no chão. — Estou retribuindo o abraço quando o final de sua frase me surpreende. Eu estava desmaiada, ok. Mas como me tiraram dali? O elevador caiu depois de todos saírem. — Tem certeza de que não quer ir ao médico? Você bateu as costas com muita força. O Ned e a Betty tentaram segurar você e eu fiquei com muito medo de me mexer para fazer alguma coisa. Me desculpa, .
Eu balanço a cabeça. Não posso ir ao médico.
— Tudo bem, Liz. — Afago suas costas para confortá-la, realmente surpresa e agradecida por sua preocupação comigo. Liz Toomes é uma garota incrível e sinceramente merece o mundo. Estico minha mão para Betty, que está super pálida, mas segura em minha destra com cuidado. — Obrigada, Betty. Mas... Como conseguiram me tirar de lá? Se o elevador caiu...
MJ curva os lábios em um meio sorriso, dando um chutinho em meu pé.
— O Homem-Aranha salvou você, ! — Liz me explica como se tivesse sido o momento mais maravilhoso de minha vida. Eu pisco, percebendo o quanto havia perdido desde que apaguei. Ela está segurando as minhas mãos e eu posso ver quando Betty se aproxima mais também. Elas trocam um olhar penoso, parecendo viver tudo de novo por meio de palavras. — Só faltava você quando o pedaço do elevador que ele estava se apoiando se partiu e vocês dois caíram no arcabouço.
Não paro de analisar os olhares das meninas, arrepiada quando tudo o que capto parece ser a mais pura verdade, principalmente pelas lágrimas nos olhos castanhos de Liz. Ela realmente havia ficado aterrorizada com tudo. Não posso culpá-la. Eu também estou e meu coração está transbordando com uma gratidão enorme. Peter salvou a minha vida! Liz está abalada demais então é Betty que decide continuar a história quando os pensamentos da amiga ficam muito tumultuados: “Ela podia ter morrido naquele instante enquanto eu estava paralisada. Só consegui sentir medo. Queria ajudar, mas estava escuro e eu queria chorar de medo. Nem mesmo consegui segurar em Betty. É vergonhoso.” Seguro em suas mãos com força, tentando lhe passar confiança, anestesiada por seus pensamentos e o tom de verde musgo que retrata o seu pavor.
Betty afirma que todos estavam desesperados, horrorizados pela inevitável morte de Peter (Homem-Aranha) e eu, principalmente quando a fumaça da explosão começou a subir, tão alta que atingiu até o andar onde já tinham sentido o prédio tremer. Disse que ainda havia seguranças debruçados no buraco quando, de forma gloriosa, uma das teias do Homem-Aranha se prendeu à mão de um e logo eles notaram o peso e começaram a puxar-nos para cima novamente, sendo ajudados por inúmeros turistas que auxiliaram na evacuação. Betty ressaltou, principalmente, como Ned Leeds começou a pular, como se por uma sorte efêmera que eu pudesse estar viva. Mas esta foi a primeira coisa que o Homem-Aranha se certificou de descobrir assim que surgimos da poeira e penumbra. Peter teria me deitado no chão, aparentando desespero, e pressionado o ouvido em meu peito, garantindo que ainda ouvia o meu coração batendo antes de desaparecer ao se lançar por uma das janelas.
— Foi a coisa mais incrível que eu vi na minha vida, Black — Liz Toomes retoma, os olhos brilhando não mais de horror, mas de consolo quando aperta minhas mãos novamente para ter certeza de que eu estou realmente aqui. Retribuo o toque, pois é verdadeiro e ela é gentil. — E você está aqui! — Iria lhe responder quando o Sr. Harrington surge novamente, irritadiço e seguido de duas figuras muito conhecidas. Uma delas faz meu coração doer. — Você está aqui e o Homem-Aranha salvou a sua vida... Ei, ! — Ouço Michelle, Liz e Betty protestarem quando eu me ponho em pé, mas suas vozes são abafadas pelo pulsar do sangue em meu ouvido.
Peter Parker manca ao lado de Ned e nossos olhares se cruzam.
Foi como uma chave girando na fechadura, libertando-me, e eu avancei em sua direção da melhor maneira que poderia, me esforçando para não estar em seus braços em um instante devido aos olhares ao nosso redor. Jamais houve distância tão grande separando-me de alguém quanto nesse momento e é revoltante. A rua é enorme e larga demais; agora a distância entre New York e Washington, que fora ressaltada por Harrington, não parecia nada em comparação à extensão do local. Vi Peter esticar a mão, a boca formar palavras, então eu estou em seus braços e quase perdemos a respiração ao nos encontrarmos e nossos ossos se chocarem. Eu estou nas pontas dos pés, abraçando-o, sussurrando seu nome em choque. E é como se toda a dor que eu sentia em meu corpo se dissipasse como gás no ar e eu caminho por nuvens em vez de cacos de vidro.
— Você está bem? — Sua voz se parte, emocionada ao sussurrar para mim. Posso ouvir claramente quando Peter se engasga, apertando as laterais de meu corpo e prendendo um soluço em sua boca. Minhas lágrimas começam a cair e eu mancho sua camisa quando ele toca meu cabelo, entrando em desespero, pois não esperava reagir assim ao vê-lo. — Você me deu um susto, . N-não vamos mais fazer isso, tá?
Parker enterra o rosto no meu pescoço e respira fundo contra mim. Ele tem cheiro de fumaça, concreto e o perfume que eu pude sentir ontem repetidas vezes no seu casaco. Ele me puxa ainda mais forte enquanto agarro o seu moletom até minhas mãos doerem pela força e permanecemos grudados por alguns segundos apenas para garantir que realmente estamos aqui. Por apenas aquele instante, a dor que me comprimia como um punho de ferro desde o momento que entrei no elevador parece relaxar e eu posso respirar de verdade. Penso no inferno pelo qual deve ter passado desde que deixou o hotel e não conseguiu voltar. Com os mesmos pensamentos incoerentes incessantes, no tremor de minhas mãos e o medo de ser a responsável se algo ruim houvesse acontecido a ele.
— O-obrigada — eu sussurro. Agonia virando alívio. Quero agradecer-lhe em voz alta, de todas as maneira possíveis, mas não posso. Não posso meramente lhe agradecer por ter salvado a minha vida e ter chegado a tempo de salvar a de todos que estão aqui, mas sei que ele pode sentir pela forma que eu o abraço e entendo o quão aliviado também está por ter conseguido fazê-lo. — Obrigada, Peter.

*


Eu acordo horas depois, quando alguém ao meu lado se move.
O ônibus que pegamos de volta para New York está escuro e eu só posso ouvir o som do motor do ar-condicionado acima de mim e roncos que escapam da boca de alguns alunos nas primeiras cadeiras, mas ao meu lado eu ouço apenas o som da respiração alheia próxima ao meu ouvido. Não me movo muito, apenas ajusto minha cabeça no seu ombro e a minha mão que está enfiada dentro do casaco que Michelle — da maneira mais gentil que conseguiu —, havia diligentemente me forçado a vestir desde que entramos no automóvel, algumas horas atrás. A penumbra na janela me garante que ainda está noite e que chegaremos em casa antes do amanhecer em pleno outono e meus dedos dos pés já estão gelados pela queda de temperatura na estrada.
É como estar desperta em um universo paralelo, ao mesmo tempo certa de onde estou e também deliciosamente perdida. Sei que os sentimento incoerentes são oriundos do meu corpo estar tão desgastado e mente estar cedendo à doce loucura do que a radiação ainda não destruiu. Movo meus dedos dentro do bolso do casaco, plenamente feliz ao encontrar o fone de ouvido de Michelle ali, os puxando para fora e me questionando de forma sonolenta onde deve estar meu celular. Ainda estou tentando desembaraçar a quantidade considerável de fios quando sinto um outro movimento ao meu lado.
Mãos gentis escorregam para ajudar-me sem questionar.
— Você precisa descansar, . Não ouvir música — Parker sussurra só para mim, determinados fios bronzeados e ondulados de seu cabelo surgindo por baixo do capuz de seu casaco quando abaixa a cabeça para começar a desatar meu fone. Me surpreendo por não estar dormindo, mas não o culpo. A carga enorme de adrenalina que seu corpo deve ter liberado deve ser o que o mantém desperto e alerta até mesmo para meus movimentos mais delicados. Posso notar quando o seu olhar cansado recai sobre mim de maneira acusatória por não descansar e eu suspiro, voltando a deitar minha cabeça em seu ombro, encontrando conforto ali. — Eu pensei que tinha matado você hoje.
Por mais que o Sr. Harrington quisesse que eu me sentasse ao seu lado no caso de me sentir mal durante a viagem de volta para casa, eu optei novamente por me refugiar no final do ônibus, onde podia ligar para Pepper e pedir que avisasse a Dr. Cho que chegaria em breve. Sua primeira reação foi de horror e preocupação desmedida, questionando diversas vezes se eu estava bem e sua voz soando engasgada, mas parecia estar perto o suficiente de uma televisão no aeroporto para poder ouvir o nome do herói que tinha salvado o dia. Prometi responder todas as suas perguntas quando chegasse em casa, ou melhor, na ala-hospitalar onde quer me levar. Não lhe recusei.
Então, minutos depois do fim da ligação, enquanto eu mandava um relatório enorme sobre o que havia acontecido para Tony — ocupado demais em uma reunião com o presidente da Agência Nacional de Segurança —, Peter Parker surgiu ao meu lado. Precisei assegurá-lo meia dúzia de vezes que realmente estava bem e o forcei a fazer o mesmo quando percebi o hematoma em sua clavícula e os ferimentos em seus punhos. Então peguei a pequena necessaire em minha mochila, o surpreendendo e o fazendo rir com os band-aids em saquinhos e a pomada que espalhei em seus machucados antes de fechá-los. Peter também foi delicado ao cuidar de um machucado em minha bochecha, mas eu notei como sua mão tremia em contato com minha pele, reagindo à dor de seus próprios machucados e notável medo de me machucar.
— Vai precisar se esforçar mais para conseguir me matar, Peter Parker. — Estou sorrindo quando murmuro de volta, mas sinto a tensão em seu corpo, que revela culpa em sua afirmação. Assim, eu toco em sua mão que lutava com meu fone de ouvido, a fazendo parar, pois percebo a inquietude. Engulo em seco, tentando não soar rouca demais. — Você não me matou. Eu estou aqui e, como a Liz não parou de comentar, o Homem-Aranha me salvou. E, olha, eu ainda estou muito agradecida a ele, mesmo ele não tendo pendurado o Flash no topo do Empire State como me prometeu.
É Peter quem entrelaça nossos dedos e descarta o fone ao sorrir um pouco, buscando meu toque mesmo que ainda esteja tenso. Eu tomo cuidado para não pousar minhas digitais sobre os band-aids em sua mão, não querendo machucá-lo.
— Ela gosta do Homem-Aranha, acha ele corajoso e nem imagina que sou só eu. — Peter suspira nervoso, não parecendo acreditar na ideia que a menina tem dele, ou sobre seu outro lado. Mesmo após arriscar a sua vida para salvar a minha, Peter não acredita ser corajoso. — Agora imagina o que ela vai achar quando souber que a estupidez dele quase matou todo mundo. Incluindo vocês duas. — Eu aperto a sua mão com força, a puxando um pouco e atraindo a sua atenção para mim. Infelizmente, não posso ver os seus olhos. — Imagina como ela vai reagir se descobrir, um dia, que o herói que criou na cabeça sou simplesmente eu. Peter Parker, o idiota que perdeu o Decatlo e quase toda a turma.
— E ela tem todo os motivos plausíveis para admirar um herói incrível que arriscou a própria vida, da maneira mais irresponsável de todas, para salvá-la. — Minha voz ainda está áspera, mas seus sentidos apurados permitem que me escute e como ressalto outra vez que o êxito de hoje poderia ter outro desfecho para nós. Não só para mim. Merda, Peter! Como alguém tão inteligente assim não conhece o seu próprio valor? Como Liz Toomes não o reconhece o seu valor mesmo sem ser um herói? — Você, Peter, é incrível. Com ou sem aquele uniforme, você é uma pessoa boa e... — Eu engulo em seco, minha garganta doendo um pouco pelo esforço de falar tanto. Mas, no fim das contas, preciso terminar isso. Preciso tirar algo de meu peito de duas formas. — Se a opinião dela importa tanto para você, eu tenho certeza de que ela iria entender que fez o que achou ser certo. E é isso o que importa, pois a Liz entenderia que...
Peter se move com rapidez e me entrega uma garrafa assim que a tosse dolorida começa e eu me encolho contra a janela do assento, não querendo que nem um resquício de minha saliva o toque e possa contaminá-lo. Eu cubro meus lábios e respiro fundo, balançando a cabeça e apertando minhas mãos em punhos, pois as suas não estão mais nas minhas. As pontas dos meus dedos estão sujas de sangue destilado em saliva e o sabor metálico enche a minha boca. Quando consigo me recuperar, suas mãos estão em meus braços e eu sinto a sua preocupação quando pede que eu respire mais fundo O seu toque é gentil e suave, como se eu fosse sensível demais. Não que eu também não duvide disso após hoje, mas preciso terminar de falar. Talvez não esteja falando mais para Peter e sim para mim e, apesar de tudo, continuo quando ele não para de questionar se eu estou bem e chama bem alto por nosso professor, suas bochechas brilhando com suor quando passamos por baixo de um poste de luz.
— Sacrifícios precisam ser feitos.

*


— Eu não me importo! Saiam da minha frente. — Uma pausa. — Saiam!
Posso ouvir uma voz esganiçada rugir no corredor e entreabro meus olhos pesados que tinha acabado de fechar quando a enfermeira me avisou sobre a injeção e o quanto iria doer mais se eu me movesse, provavelmente acostumada com minha inquietude em salas hospitalares. Quando a porta do quarto se abre bruscamente, meus lábios secos se partem em um sorriso anestesiado, quase não acreditando em quem está diante de mim. Pepper Potts vem em minha direção como um furação ruivo e azul enquanto uma outra enfermeira ainda cola os receptores dos monitores em meu peito. A mão pálida de Potts cobre os seus lábios vermelhos quando analisa meu estado na pequena cama de hospital. Minha aparência deve estar horrível, mas não me importo mais.
— Oh! Meu bem, o que aconteceu?
Quero rir quando Pepper atravessa o mar de enfermeiras ao meu redor e as faz recuar, até mesmo a própria Dr. Helen Cho na minha esquerda, que estava checando meus batimentos com o seu estetoscópio. Minha voz já sumiu há um bom tempo, então eu apenas volto a sorrir e ergo minha mão machucada e vermelha em sua direção com certa dificuldade, todavia sendo prontamente ignorada quando ela me envolve em um abraço apertadíssimo, fazendo até mesmo Helen dar uma risadinha baixa e se afastar mais, dando-nos um pouco de espaço ao liberar as enfermeiras para voltarem em alguns minutos. Eu me perco nos braços de Pepper e no seu cheiro, soltando um suspiro que nem percebo estar segurando esse tempo todo e é como se pela primeira vez eu possa sentir o estrago que fiz em mim mesma naquele elevador.
De repente, tudo dói e eu estou lacrimejando como uma criancinha. Minha cabeça, ombros, braços e coluna berram de dor. Além de minha pele, que borbulha como se houvessem despejado ácido em mim e os ossos que clamam por atenção. Não sinto mais a dor no peito, não depois da Dr. Cho ter me injetado uma dosagem enorme de alguma coisa que não mencionou o nome, minha mente em um estado de dormência e a sua em pânico não comum a uma médica. Ela me disse que ainda estava com uma carga tão grande de adrenalina nas últimas horas e por isso não reparei nos sinais de meu corpo. Tudo dói novamente, mas eu não quero me soltar dos braços de Pepper, não agora quando finalmente choro de alegria por estar segura. Seus dedos cuidadosos correm por meu cabelo e eu quero dormir ali, em seu colo e em paz, mas sei que é quase tudo efeito do remédio e que preciso me manter acordada.
, eu pensei que você tinha apenas desmaiado.
Pepper está com o rosto ruborizado e olhos lustrosos e brilhantes quando segura em minhas bochechas, dando uma bela olhada na minha face, analisando o ferimento em minha bochecha com o band-aid que Peter botou, o tom de meus olhos cansados e os inchaços loucos em meu ombro e os arroxeados cianóticos na parte superior de meu corpo. Eu engulo minha saliva espessa, me esforçando para não pedir como uma criança que caiu do balanço que ela fique comigo e cuide de mim. Os lábios de Potts tremulam e eu sei que sou o motivo de sua dor quando ela segura minha cabeça e beija a minha testa, não se importando que eu suje seu terninho branco de sangue.
— Tecnicamente, a desmaiou, mas o que aconteceu foi bem além disso — explica a Dr. Cho, olhando para Pepper, que se senta na ponta de minha cama, a mão sobre a minha com cuidado para não esbarrar no soro. — Como nós descobrimos na última vez que ela absorveu energia de algo — no caso, quando Bucky Barnes tentou explodir uma das invenções do Dr. Banner em um surto no ano passado —, quando a absorve a energia de uma explosão, ela acaba absorvendo a radiação junto — Helen continua e eu respiro fundo, percebendo que as enfermeiras retornaram agora que Pepper se acalmou. Eu aperto a sua mão com fraqueza, não querendo que vá. — A Srta. Black sofreu uma queda gigantesca do número de plaquetas e então diversas hemorragias se formaram, destruindo os tecidos do corpo dela de dentro para fora. Por último, foi a pele que está descascando nas extremidades, mas não foram identificadas pelos paramédicos em Washington. E assim que ela chegou aqui, a estava bem machucada, Potts. Sistema imunológico muito debilitado e sangue contaminado.
Pepper pisca ainda inquieta.
— Já administramos os antibióticos e estamos preparando os pacotes para a transfusão de sangue, mas primeiro precisamos manter o quadro dela estável. A recuperação vai cobrar muito dela, então vamos sedar a por enquanto — Cho explica. — Ela ficou muito sensível. Felizmente, tudo está se curando bem rápido, em especial as queimaduras causadas da radiação. E como a própria me explicou quando chegou e ainda tinha um pouco de voz, ela não fez só isso...
— Claro que não. — Fechei meus olhos quando Pepper resmunga, parecendo ter despertado de seu momento de preocupação muda e atenção às palavras da médica, virando-se para mim como se estivesse pronta para me esganar. — Então ela não só absorveu a energia de um explosivo e quase morreu. Seria pouco para ela, não é, ? — Agora entendo o porquê de Tony Stark uma vez ter me dito que construiria um controle universal para deixar Pepper no ‘mudo’ sempre que ela descobre alguma bobagem que ele fez. Abro os meus olhos para uma Pepper Potts irritadiça e pisco para ela, tentando agir o mais inocente e o mais “eu apenas fiz o melhor para todos” que consigo. Ela balança a cabeça, não se deixando enganar. — Doutora Cho, pode me contar o que a sombra do Tony fez? Ela segurou o prédio nos ombros ou engoliu uma granada?
Não, Cho. Não faz isso comigo, ela vai me matar.
— Claro, Srta. Potts. — Cho corre a língua pelos lábios ao me olhar como se pedisse perdão. — Eu não sou boa em física, meu campo de atuação principal é química e biologia, como deve saber, mas consegui que ela me explicasse o que fez. A criou energia térmica para dilatar o metal do elevador. Ela estando lá dentro, serviu como um isolante térmico e impediu que o calor absurdo ferisse os outros alunos. — Pepper fecha os olhos, claramente se controlando para não brigar comigo na frente de outra pessoa que não fosse Tony. Bom, ela costuma gritar com o Tony, mas, como sempre estou por perto, absorvo parte da culpa. — Foi bem arriscado e poderia ter matado a todos, incluindo ela mesma, mas foi efetivo e expandiu a caixa do elevador o suficiente para criar tanta fricção com a parede que ele se manteve apoiado por tempo suficiente. — Cho pausou e me lançou um olhar de apoio, junto a um sorrisinho. — Responsável ou irresponsável, a salvou aquelas crianças.

*


Tony chegou a New York no início da manhã, um dia após o acidente e meu tratamento na ala hospitalar, tendo como a sua primeira tarefa do dia me abraçar com tanta força que eu usei um pouco da minha voz ainda fraquinha para avisar que iria explodir. Então, igual Pepper Potts havia feito no dia anterior, começou a ressaltar o quão estúpido e suicida havia sido e como poderia ter acabado matando a todos com a minha falta de noção e prudência. Por quase cinco vezes, seus olhos se direcionaram ao teto para manter enquanto me questionava se eu tinha sequer alguma noção do que teria acontecido se eu morresse naquele elevador. Rosnou que fui desleixada em fazer tudo o que fiz sem meu uniforme perfeitamente projetado para me proteger de mim mesma — que ele havia propositalmente feito de uma nanotecnologia tão sofisticada que eu apenas tivesse que acionar um botão para estar vestida — e absorvendo toda aquela radiação com uma roupinha de grife qualquer.
— Aquilo foi inconsequente e insensato, além de estúpido! Você me ouviu?
Foi somente após Pepper pedir que ele se acalmasse e sair para buscar água que eu sorri como nunca para o mais velho, afinal, estava há quase três minutos em silêncio enquanto via por mais de duas vezes um sorriso tentar surgir na face de Stark. Face esta que lutava com inquietação e orgulho. O herói balançou a cabeça, relutantemente vindo em minha direção e me dando um high-five rápido e um “Bom trabalho”, sem que Pepper pudesse ouvir da cozinha, graças ao espaço minúsculo entre esta e a sala de estar. Sala que se tornou minha morada oficial desde a alta. Pepps parecia muito mais calma quando fui autorizada a voltar à minha rotina normal, aceitando que seria preciso muito mais para realmente me derrubar, mas ainda incerta de que aguentaria outra prova de minha força. Foi isso o que me disse na manhã de ontem, ao anunciar que ficaria uns dias sem ir para o escritório enquanto me recupero.
— E, por um acaso, ela não salvou o dia sozinha. Sabia, Tony? — a ruiva provoca, lançando um olhar atrevido para o namorado, que fingiu ignorá-la, forçando uma expressão tediosa. — Tanto que, segundo a história que o professor de ciências dela contou para o Happy, foi o Amigão da Vizinhança que salvou todo mundo. Certo, ? — Eu assinto. — A ponto de se jogar em um arcabouço de mais de vinte andares para salvar ela. Não é incrível?
É Potts quem informa, tomando seu lugar ao meu lado no sofá enquanto liga a televisão, entregando-me uma xícara de chá e puxando uma manta para me proteger do frio. Tony revira os olhos, sentando-se na poltrona próxima a nós e retirando casaco e óculos, pronto para finalmente relaxar após dias de negociações sem fim com o governo e todos os órgãos públicos que podia, lutando para manter a integridade dos Vingadores após os eventos conturbados. Pepper me pede para encostar contra ela e eu o faço, sentindo seus dedos correrem por minhas costas com cuidado para não me machucar e tentando me massagear da melhor maneira que consegue.
— Ele poderia ter morrido — murmuro. — Meus poderes teriam me salvado. O Peter é um idiota.
Resmungo ainda azeda pela sua decisão que foi tão arriscada quanto a minha. Balanço a cabeça e fecho os olhos, tentando imaginar o que exatamente o rapaz está fazendo agora e falhando em me agradar com isso ao imaginar como Liz Toomes deve estar maravilhada se ele chegou a lhe contar sobre a sua identidade secreta. Por um momento, quero me socar. Eu não significo nada para Peter e simplesmente quero prioridade. E Liz é uma garota que se mostrou verdadeira ao se preocupar comigo ao ponto que me sinto uma megera. Encaro a realidade novamente e a atenção dos dois adultos estão em mim, preocupados e interessados.
— Foi... — divago. — As meninas me contaram o que aconteceu depois que eu apaguei e o elevador começou a cair. O Peter se jogou junto comigo e conseguiu me pegar antes que o elevador explodisse — relato, tomando mais um gole do chá. — E ele me contou que nós dois íamos acabar morrendo, porque ele nunca tinha visto tanto fogo na vida. — Tony coloca a mão no rosto, ainda tentando engolir o episódio. Eu aperto meus lábios. — Meus poderes criaram um campo de força, mas ele ainda me salvou de uma queda feia.
Pepper corre os dedos por meu cabelo.
— Certo — Stark inicia, esfregando o rosto para tentar apagar o cenário de sua mente. — Vamos evitar elevadores por enquanto. — Me pego rindo, mas concordo com a cabeça, decidida a pensar seriamente sempre que entrar em um elevador e não ter Peter comigo para ajudar em caso de uma emergência. Tony suspira olhando para mim, um toque estranho na expressão. — E vocês ganharam o Decatlo. Parabéns, monstrinha. — Seu sorriso é tão sincero que minhas bochechas esquentam pela timidez que a importância dada à nossa vitória tão boba me causa.
— Isso é sério? Por que não disseram antes? — Potts se surpreende, segurando em meus ombros e eu concordo novamente, a fazendo rir e então me abraçar por trás com força, dando um selar dolorido em minha têmpora. — Parabéns, ! Viu? Eu disse que você ir para uma escola normal e conviver com pessoas da sua idade ia ser ótimo, não disse? — Sei que está provocando Stark de novo e seguro a risada. — Não quero ter que lhe lembrar, Tony, que...
O moreno ergue a mão, fingindo jogar o cabelo para trás.
— Admiro o seu autocontrole, Virginia. — Ele lhe dá um sorrisinho forçado de escárnio e eu solto um riso engasgado quando é atingido por uma almofada bem na cabeça e ameaça iniciar uma guerra contra a namorada quando ela gargalha, seu rosto brilhando com uma alegria que o faz sorrir de volta.
— Mas como você soube, Tony?
O Homem de Ferro se vangloria para nós por alguns minutos sobre saber de tudo o que acontece no mundo, onde as piadinhas de Potts e as minhas acerca de Stark se achar o centro do universo são jogadas a torto e a direita e o cômodo rapidamente se enche de risadas e imitações das frases de efeitos do bilionário, que abraçava uma almofada e mandava língua. Ele está nos olhando sorridente quando explica que o Sr. Harrington o colocou em um grupo para pais de alunos que estavam no Decatlo e o pânico toma conta de mim, fazendo meu estômago se contorcer de vergonha. E se Tony não tiver gostado? Provavelmente está falando isso para que eu perceba e peça que o removam do mesmo. E se alguém descobrir que o tal Andrew Black é na verdade Tony Stark? Quantos problemas isso não irá arranjar? As possibilidades me dão náuseas.
, tem como você pedir que me adicionem no grupo? — A pergunta de Pepper me surpreende e eu a olho, admirada por querer estar no mesmo grupo que enfiaram Tony. Ela sorri para mim, dando um tapinha na minha perna. — No celular pessoal, ok? Vai que eles pedem alguma autorização e o seu “responsável” legal — as aspas que faz no ar fazem Tony zombar dela outra vez, mas ainda estou assombrada demais para rir também — está viajando. Eu posso dar a autorização para você.
Bem devagar — e ainda incrédula — eu assinto.
No fim das contas e como sempre e sempre, Natasha estava certa. Na carta que havia deixado para mim, a mesma que ainda escondo como um grandioso tesouro em uma gaveta de meu closet, ela havia mencionado o quanto confiava em Tony e Pepper para olharem por mim e protegerem durante sua ausência. Preciso de certo esforço para não deixar que lágrimas surjam em meus olhos com a realização do quanto os dois se importam, mesmo quando não tenho utilidade ou importância significativa alguma em suas vidas e os cause mais dor de cabeça do que realmente deveria devido ao esforço que fazem para estarem comigo. Aperto meus lábios e volto a acomodar-me no colo alheio, sentindo quando começa a tocar em meu cabelo, suas unhas encontrando meu couro cabeludo e o massageando gentilmente.
O medo que se instala em meu corpo não é nem um pouco gentil, mas mesmo assim eu fecho os meus olhos e tento me afogar no carinho que me é concedido. Nas piores partes da minha mente, estas que estão tão quebradas e obsoletas, estou tremendo. É um fruto de minha saúde emocional pútrida e abusada, mas todo o carinho e amor que aos poucos me é oferecido apenas estimula minha mente a montar os piores cenários possíveis em momentos como este. Quando deveria estar o mais feliz possível e amor e o cuidado me são ofertados sem pedir nada em troca. Contudo, não posso. Não consigo apenas fechar meus olhos e aceitar tudo assim tão fácil e me encher de tantos sentimentos bons.
Mesmo com meu passado estando tão longe, é impossível não me questionar o porquê de me sentir tão doente e desmerecedora. O medo de perder tudo é debilitante. Como nos fins de semana em que eu não conseguia sair da cama e me sentar na mesa de café, quando todo o time ainda estava reunido, pois talvez não fosse suportar ver tantos sorrisos e tantos rostos queridos de uma só vez. Ouvir Nat e Wanda reclamarem que os rapazes estão comendo as panquecas todas mesmo antes de levarem para a mesa. Ver Steve ler o jornal no iPad. Sentar-me com Bucky para comer cereal. E rir das provocações de Tony para Visão e Rhodey.
O mesmo temor está correndo por minhas veias agora, parecendo me empurrar para uma ansiedade carregada que se apossa do meu peito e se retorce das maneiras mais imperdoáveis. Quanto mais eu acumular — pessoas, coisas ou experiências como esta —, mais poderei perder em um piscar de olhos. Perder quando tudo desmantelar como desmantelou há alguns meses. Ou quando descobrirem em Midtown quem eu realmente sou e como posso ser uma ameaça. Quando Tony notar que não agrego nada e decidir que está na minha hora de partir. Ou perder quando a HYDRA me encontrar.
Pois eles vão me encontrar.
Quando a HYDRA me encontrar e colocar um prémio exorbitante para me levarem até eles viva, pois a morte não é pior que a dor que irei sentir. Vão me enfiar em celas que cheiram a sangue seco e carne queimada enquanto eu estiver pensando em voltar para este mesmo momento quando machucarem todos aqueles que amo e puserem meu cérebro em um liquidificador. Quando me desfizerem como se fosse argila úmida e remodelarem a minha mente da maneira que desejarem. Descartar tudo que me torna... Eu. E colocar algo novo. Um monstro, como queriam a princípio. Como Rumlow queria.
O protagonista dos meus pensamentos perturbados é sempre Brock Rumlow. O cabelo preto demais, os olhos gelados de um assassino e as mãos robustas atingindo minha face tão pequena, tão pequena, quando não obedecia às suas ordens. Tenho pesadelos com ele tentando tocar em mim de maneiras que me fazem vomitar em meus pijamas, ou me espancando até que meu rosto esteja desfigurado e eu possa ser descartada em uma vala rasa. Em alguns pesadelos, sua arma está apontada para a cabeça de Natasha e ela está chorando, ou está fritando a cabeça de Tony da mesma maneira que fez com Bucky. Engulo em seco, o horror que é saber que tudo isso é originado por minha mente.
— Ah, e por falar em viagem... — Sou despertada de meus pensamentos quando a voz de Pepper soa novamente, após Tony desligar o seu celular ao fim de uma ligação, um pequeno espaço de tempo que me disponibilizou minutos suficientes para que minhas mãos tremam debaixo de minha manta. Direciono meus olhos à mulher que pausou o carinho em meu cabelo e que respira bem fundo. — Eu passei três dias fora e quando eu volto para casa, adivinhem o que eu encontro dentro da geladeira? — Anthony Stark gruda os olhos arregalados nos meus e eu finjo me esconder. — Vocês dois são impossíveis! Mas me digam: O que eu encontrei na geladeira? Duas chances. Boa sorte.
— Hum... — Stark faz uma pose pensadora, coçando a barba. — Queijo.
Sinto a vibração do corpo de Potts quando ela segura a risada.
— Não. — O acariciar em minha cabeça retorna e eu sorrio. — ? Quer tentar?
— Que tal frutas?
— Estes seriam realmente dois bons achados, sabiam? Mas vocês se alimentam como duas formigas viciadas em carboidratos — ela reprova, balançando a cabeça antes de suspirar bem fundo. Tony já está sorrindo, mesmo sabendo que terá que ouvir algumas coisinhas a mais além de reclamações sobre nossos hábitos alimentares. Pepper aponta para a cozinha após se levantar, com uma das mãos na cintura e o pijama constituído de uma camiseta de Tony e calças de moletom formando um combo hilário quando tenta nos repreender. Sinceramente? Pepper está adorável. — Aquela coisa gigante prateada e com uma luz azul dentro se chama geladeira. Dentro dela, as pessoas colocam comida. Mas o que vocês dois colocam na geladeira mesmo? Ah, é! Um notebook com um buraco chamuscado na tela: Anthony. E um robô que ficou batendo com a cabeça na porta até que eu o tirasse de dentro: .
— Em legítima defesa, aquele notebook estava superaquecendo, Pepps — Stark explica. — Estava usando a câmara de resfriamento do laboratório, estava ocupada.
— Tony!
— E aquele robô era para a escola. E talvez ele tenha um pouco de ansiedade.
— Ótimo! Um computador pegando fogo e um robô tomando ansiolítico!

“Um acidente acaba de acontecer no Ferry de State Island. A balsa ainda está em alto mar e, segundo o oficial que ligou para a polícia local, o confronto entre uma gangue de distribuição de armas ilegais e o Homem-Aranha, herói local, foi o motivo de todo o incidente. Um dos subníveis da balsa está sendo infiltrado e todos os passageiros estão sendo movidos para o andar superior, onde o confronto ainda continua. Este repórter que vos fala se questiona: Que tipo de herói ameaça a segurança de civis?”

Tony lança ordens entredentes para F.R.I.D.A.Y, se pondo de pé no mesmo instante que a notícia o interrompe durante o filme que assistimos, cortando a programação de toda a cidade de New York. Me levanto do sofá em choque e com certa dificuldade, como se uma pedra atingisse o fundo de meu estômago quando o pseudônimo de Peter surge na tela e imagens aéreas da baía de State Island ilustram o desastre iminente. Pepper me imita e segura a minha mão como se soubesse que eu iria me por de pé igual ao namorado e ir auxiliar Peter, mas duvido que eu tenha forças. Não com as imagens que o helicóptero da emissora faz, com ondas atingindo o navio, carros boiando nos andares inferiores e pessoas em desespero nas janelas das cabines.
— F.R.I.D.A.Y. — chamo assombrada. — Acione a Guarda-Costeira.

*


?
No instante que meu nome deixa os seus lábios, Peter me alcança do outro lado do telhado diante da baía, os braços se envolvendo em minha cintura com força e me erguendo do chão sem dificuldade, como se eu tivesse o peso de uma pena. Ele aspira contra o calor da minha garganta e eu sei que cheguei tarde demais e ele já desmoronou, pois percebeu o seu erro. Sua respiração está errática contra mim, seu peito parece constringido e eu não sei como agir, mas elevo os meus braços e os entrelaço ao redor de seu pescoço quando meus pés tocam o chão, meus dedos deslizando para seu cabelo úmido de suor ao tentar acalmá-lo. Nós perdemos o equilíbrio com a investida tão rápida e bruta de Peter, mas eu não o solto quando minhas costas tocam um pilar de concreto. Mantenho minhas mãos ocupadas entre seus ombros tensos e a nuca molhada de suor e água do mar, tentando lhe passar pelo menos um pouco de segurança antes que o mundo caia embaixo de seus pés como eu tenho certeza de que irá cair.
— Ei, você — cumprimento sem ar, em um tom baixo e tentando o olhar por completo.
Os olhos de Peter continuam fechados quando eu o afasto com as mãos em seu peito antes de segurar as bochechas rosadas contra as palmas de minhas mãos, meu coração se partindo quando percebo o tremor de seus longos cílios claros e a vermelhidão de seu nariz. O peito dele sobe e desce em passo acelerado e eu posso ouvir as batidas fortes do seu coração, apressadas sob a solidez das costelas quando Parker balança minhas mãos para longe de seu rosto e me engole em um abraço dolorido novamente. O corpo dele está quente contra o meu, vivo e úmido pela maresia, mas não me importo com isso, apenas tento, como posso, confortá-lo.
Suas mãos são maiores que as minhas, por isso me sinto ínfima quando as põe sobre minha cintura e as flexiona, sentindo que eu estou realmente aqui como fez em Washington e queria garantir que não havia cometido um erro. Infelizmente, eu não estava aqui antes e não sou prova alguma disto, mas, sim, as sirenes de ambulâncias abaixo de nós. Contudo, não deixo de notar que o toque tão diferente de seu normal delicado permita a erupção de arrepios por meu corpo.
— Eu fiz uma besteira, . — Ele está brilhando com suor ao me olhar, olhos confusos ao decidir onde focarem-se. — Se o Sr. Stark não viesse... — Sua boca torna-se uma linha apertada e meu peito dói de pena, mesmo ciente que Peter decidiu se arriscar e eu não deveria consolá-lo por isso.
O olho com as mãos apoiadas em seu peito, sentindo um leve ardor em meu rosto. Sua face é feita de sombras, ângulos e planos rasos e eu quero tocá-lo, tocar a sombra que nunca sai de debaixo de seus olhos, o arco dos cílios contra a bochecha, empurrar suas bochechas até que esteja sorrindo para mim e limpar sua mente da dor. Mas não posso. A tristeza e o sentimento de falha refletem-se nos seus olhos como alfinetadas de luz por entre cortinas negras. Eu concordo lentamente com sua afirmação, pois o choque de realidade é necessário, meus lábios pressionados juntos. Não posso mentir para ele, mesmo que me doa. Peter não mentiu. Seu erro foi imenso, arriscando tantas vidas inocentes em prol de uma maneira de se mostrar grandioso.
— Peter, precisa se acalmar — sussurro, percebendo o cansaço em sua voz e pondo minha mão contra seu peito, que não para de subir e descer. Ele balança a cabeça, parecendo somente agora notar o erro que cometeu. Sou consumida por medo quando imagino que possa estar tendo um ataque de pânico e eu não posso pôr as mãos em sua cabeça e ajudá-lo a se acalmar. — Peter, você...
“Anteriormente em: Peter Pisa na Bola...”
Meu toque na cintura de Parker cai quando ouço a voz de Stark se aproximando e fecho os meus olhos, dando um passo para trás ao compreender que ele pode ver o quão próximos nós dois estamos. Sei que errei ao ter vindo até aqui quando deveria estar em casa, mas não poderia deixar que Peter estivesse sozinho em um momento como este quando Tony entraria em Full-Mood. Simplesmente não podia. Mas não tenho certeza se estou disposta a aceitar as consequências de meus atos, sejam elas quais forem. Eu, corajosamente, ergo meus olhos para a armadura vermelha e dourada a alguns metros de nós quando o vento de seus propulsores faz a barra de meu vestido tremular. Peter também mostra coragem ao se por diante de mim e tentar desviar a atenção de Tony, pronto para ouvir tudo o que tem a dizer. Mas temo que não estejamos preparados para isso.
— Eu mandei você se afastar disso, mas você preferiu hackear um uniforme de milhões de dólares para ir pelas minhas costas fazer a única coisa que eu mandei não fazer. Logo quando eu acho que consegui enfiar um pouco de noção na sua cabeça em Washington você faz isso. Parabéns, Parker. — Tony está exasperado, seu tom rancoroso e disciplinador. Eu engulo sem seco quando os ombros de Peter caem, me segurando para não o defender quando questiona se estão todos bem em um sussurro. — Não graças a você. Estariam se me ouvisse.
— Não graças a mim? — Peter Parker indaga em uma voz que eu jamais imaginei ouvir deixar seus lábios. Parece um animal enjaulado que finalmente poderia comer o adestrador no café da manhã. Mas este não é o seu momento de falar. Ele está caminhando na direção de Tony antes que eu tente segurá-lo e o mais velho ergue a mão para mim, parecendo se satisfazer com a rebeldia do menino, ou, no mínimo, estar incrédulo em como ele reage e interessado em o quão longe Peter pode ir. Oh, por favor... — As armas estavam lá o tempo todo, eu tentei dizer e você não me escutou! Eles estavam roubando você e a SHIELD debaixo do seu nariz! — o moreno indica, a raiva nítida em sua voz. — Nada disso teria acontecido se estivesse me escutado! E quer saber? Se ligasse mesmo, você estaria aqui.
Eu fecho meus olhos quando Tony Stark desce da armadura e Peter vacila.
— Eu escutei, garoto. Quem acha que chamou o FBI, hein? — retruca da maneira descarada que sempre faz com todos que tentam lhe derrubar, porém eu sei o quanto usa isso para mascarar a decepção para com o herói mais novo. — Você sabia que eu fui o único que acreditou em você? Os outros achavam uma loucura que eu tivesse recrutado um garoto de quinze anos... — “Dezesseis” — Não! — Stark ruge, fechando os punhos como se gesticulasse que Peter fique em silêncio. Eu engulo em seco, paralisada com o confronto e apavorada com a ideia de Tony realmente machucá-lo ao tratar-lhe desta maneira hostil. — Agora você vai escutar porque o adulto está falando! Se não tem noção, tenha respeito, no mínimo!
— Tony! — eu chamo, me adiantando para próximo dos dois, ficando de frente para Tony para evitar que avance em meu amigo. — Tony, por favor, não — peço, intercalando meu olhar entre ele e Peter antes de esticar a outra mão para afastá-los ainda mais. — Vocês dois estão de cabeça quente...
— Não! O Parker não é homem o suficiente para enfrentar os caras? Eu acho que ele pode aguentar alguém falando o quão idiota ele foi — Stark nega com ironia, se aproximando tanto de Peter que o menino dá para trás e eu preciso desviar os meus olhos. — Não vou passar a mão na cabeça de um moleque que já se acha gente grande só porque ele está com medo.
“E se alguém tivesse morrido hoje, hein? Ia ser outra história, não é? Porque a culpa ia ser sua. E se você morresse, a culpa ia ser minha. Então ouça bem, Parker: eu não quero isso na minha consciência! Eu já tenho que lidar com muitos erros e não vou assumir os seus.” “Sim, senhor, eu entendo, mas... Eles estavam aqui o tempo todo e eu fiquei dias tentando lhe explicar que decidi fazer isso por conta própria!” “Desculpa não adianta, Peter.” “Eu só queria ser como o senhor.” “E eu queria que você fosse melhor. Que vocês dois fossem melhores que isso. E já que não deu certo, eu quero o uniforme.” “Ma-as por quanto tempo?” “Pra sempre, garoto.” “Não! O senhor não entende! Isso é tudo o que eu tenho! Eu não sou ninguém sem o uniforme!” Eu aperto minhas mãos contra o parapeito enquanto encaro os carros na rua engarrafada. O vento, o ar, o movimento me deixam enjoada, assim como a discussão quando vejo tudo se despedaçando para os dois tão rápido.
“Se não é ninguém sem o uniforme, não merece ficar com ele.”
— E você, . — Não me movo, pois sei que não preciso e poderei ouvi-lo bem. Eu também sei que posso sentir a frustração em sua voz. Mordo meus lábios para reter um suspiro baixo, mas que sei que Peter poderia ouvir. — Poderia ter morrido naquele elevador, sabia? Arriscou a sua vida por uma porcaria de pedra?? Eu pensei que fosse melhor que isso, que tivesse te ensinado melhor que isso! E adivinha a minha surpresa ao perceber que depois de três anos você não aprendeu nada. Foi imprudente e negligente com os seus amigos. Você ficou parada enquanto via o garoto ir contra tudo o que eu estipulei. Hackeou um sistema operacional secreto e extremamente perigoso sem a mínima consciência do que estava fazendo. Segurou em suas próprias mãos o rastreador que eu coloquei no Parker e não avisou a ninguém sobre isso e o risco que ele estava correndo. Eu não sei se é isso o que chama de amizade, mas eu não prefiro chamar de nada pelo seu bem. — Concordo com a cabeça, mordendo minha bochecha com tanta força que sinto o sabor de sangue. Sim, eu errei e devia ter lhe avisado sobre tudo, mas pensei que poderia dar um jeito nisso. Pensei que as escapadas de Peter e a minha ajuda não terminariam de maneira catastrófica assim. — Sem laboratório, sem saídas com os amigos ou qualquer coisa remotamente divertida. Por um mês ou até que eu decida que você aprendeu a sua lição. E por falar em lição, dê adeus à Midtown Tech. Se eu sequer imaginar que vocês dois ainda se fal...
— Não!
Tony soltou uma risada fria.
— Não?
Me nego a obedecer a Tony Stark pela primeira vez.
— Não vou me afastar das pessoas que me fazem bem só porque você quer estar certo mais uma vez, Tony. — Meus lábios começam a frisar ao pensar na simples ideia de passar os dias trancada nas Instalações de novo. Sem Peter, MJ e Ned. Engulo em seco quando percebo o que disse e como havia relacionado tudo isso à sua rixa com Steve Rogers e discordância causada pela briga de ideais tão contrários. — De novo não, Tony. Não dá. Eu já perdi a Nat, o Steve, Sam e o Bucky. Não vai acontecer novamente. Me desculpa, mas eu não vou deixar que me tire de Midtown. — As palavras saem mais calmas que eu esperava. Não estou desesperada e agitada como pensei que estaria, pois tenho certeza de que não vou permitir que Tony me separe de meus amigos. Não outra vez. — Você pode tirar meus eletrônicos, livros e me trancar no Complexo como fez com a pobre da Wanda até ela estourar e acabar acorrentada no meio do Pacífico, pois pela primeira vez na minha vida eu fiz algo bom que não dependeu nem um pouco do seu nome ou da sua imagem. Pela primeira vez, eu pude ser normal, Tony. Você não deve imaginar o que é isso. Conhece mansões, carros, mulheres e salvar o mundo, mas eu sei e é bom. E eu sei que a Pepper vai me apoiar. — Corro a língua por meus lábios, respirando fundo ao passar por Tony como um iceberg, engolindo todos os meus sentimentos antes de sustentar o olhar arrasado de Peter. — Fica bem, Peter.
Toco seu braço antes de atravessar um véu de plasma para meu quarto.


Homecoming VI — Blame

(Três meses desde a queda dos Vingadores)

— Por que eu estou batendo na porta esse tempo todo, Potts? O lugar é meu! — Pressiono a caneta com mais força contra o caderno quando a voz de Tony invade o cômodo. Engulo minha saliva quando o cheiro da comida feita recentemente invade meu nariz, dando o meu melhor para ignorar o roncar nada súbito de meu estômago.
Desde o acontecido no Ferry State no início da manhã, estive trancada em meu quarto com meus livros e coloquei meu celular, notebook, cabos e fones de ouvido no corredor, não querendo passar pela humilhação de entregá-los para Stark quando chegasse em casa. Mas ele não pareceu se preocupar com verificar se eu seguia a parte mais fácil do castigo que havia me estipulado, simplesmente passando horas gritando com Pepper de algum lugar do Complexo sobre como ela havia me permitido sair quando sabia exatamente o que eu iria fazer. A ruiva não pareceu muito preocupada, dizendo que havia feito o certo para impedir que Tony afogasse o pobre rapaz no meio da baía de Manhattan e que não podia me parar. Nenhum dos dois podia.
Agora, no final da noite, sinto meu estômago roncar e corpo implorar por água, meu metabolismo acelerado não cooperando com minha irritação, porém não tenho interesse em descer e precisar lidar com a arrogância de Tony ou ouvir que havia perdido a cabeça desde que entrei em Midtown. Algo que Potts rebateu três horas atrás, gritando para quem quisesse ouvir que eu não tinha perdido a cabeça e simplesmente estava confusa e precisava do apoio e orientação dos dois, da mesma forma que ele sempre precisou dos seus pais e nem tinha percebido que estava repetindo o ciclo comigo. Depois disso, o Complexo ficou em silêncio, com todos os funcionários indo embora e apenas nós três restando no enorme instalação.
, você precisa comer. — Eu pisco para meu livro de geometria quando Pepper fala atrás de mim, a porta se fechando com cuidado. — Compramos massa naquele restaurante chique da Broadway que você e o Rhodes gostam. Macarrão com brócolis e carne — ela detalha, sua voz larga como se sorrisse para mim. — Não quer comer um pouco? Tá incrível. Tem pimenta e muito manjericão, como você gosta.
Não esperava que os dois estivessem juntos depois de toda a briga que ocorrera no andar de baixo, com toda a raiva e insatisfação clara em suas vozes. Entretanto, não me surpreendo quando é somente Pepper que vem em minha direção, pondo os braços sobre meus ombros e se curvando sobre mim para ver o que faço. Mesmo sem olhar para trás, sinto que Tony está sentado em minha cama com uma possível careta para a namorada por estar demonstrando afeto a mim quando deveriam estar me repreendendo pela rebeldia que tanto dizia admirar antes quando não direcionada a ele. E, por isso, por seu descontentamento, eu não paro de escrever e ignoro o contato físico, sentindo mesmo assim quando Pepper se vira para olhá-lo por cima do ombro.
Tony Stark anseia, as cordas vocais vibrando antes de falar.
— Olha só...
Ah, claro, ele vai agir como se fosse algo complicado. Como se fosse complicado demais perceber que havia exagerado em seu castigo. O esperado de Tony. Céus, como eu quero que vá embora.
— Eu posso ter sido um pouco radical demais com você. Um pouco, — pontua afiado — vou repetir. — Os dedos gentis de Potts massageiam os meus ombros quando eu largo a caneta, não sabendo se foi uma decisão certa ou não parar para ouvi-lo. — E depois de conversarmos, decidimos que foi uma decisão mal pensada. Você fica em Midtown Tech, mas o resto do castigo ainda vale. — Eu ergo a sobrancelha, ainda duvidando que seja somente isso que tem a me dizer, mas opto por concordar com a cabeça, mordendo minha bochecha. Tony bufa depois de um tempo, sendo insatisfação o que eu ganho pelo silêncio e respeito. — Bom, fiz a minha parte. — Bate as palmas para finalizar seu ato. — Boa noite para vocês.
Pepper me solta exasperada e eu me viro devagar na direção dos dois.
— Anthony! — irrompe irritada com a falta de tato que o namorado tem e os passos de Tony pausam após o chamado, parando para se virar até nós com os braços cruzados sobre o peito de maneira tediosa. Pepper balança a cabeça em reprovação antes de se voltar para mim e sentar-se sobre a minha cama, pondo a mão em meu joelho. — , eu preciso que você nos diga o que está acontecendo. Nós a conhecemos e sabemos que não é o tipo de pessoa que sai quebrando as regras dessa forma.
Meus olhos se encontram com o de Tony Stark, estes impassíveis.
— Porque... Porque eu queria poder me encaixar — sussurro, sentindo a ponta de meu nariz arder e desvio meus olhos para o chão. A verdade é fútil, mas foi o que todos me disseram para fazer, não foi? Agir como uma jovem, fazer bobagens e dar trabalho. Eu respiro fundo, tentando encontrar alternativas que expliquem meu comportamento. — Quando eu fui para a festa, achei a coisa mais idiota do mundo — minto sem ligar —, mas eu fui porque a Liz me convidou e eu me senti importante, pois ela tinha pensado em mim e todos estavam indo e eu queria ser igual a todo mundo. — Esfrego a manga de minha camisa. — Então eu fui para a casa da MJ porque pela primeira vez tinha uma amiga. Uma amiga que não era como a Wanda e que não era praticamente obrigada a gostar de mim pelo simples motivo de sermos as únicas. — Lentamente, quase que com pena, Stark sentou-se um pouco mais afastado de nós duas na cama. — E quando o Peter pediu a minha ajuda, eu fiz isso talvez mais por mim do que por ele.
, não adianta mais você tentar defender o Peter. Já deu — é Tony quem se pronuncia e eu enterro meu rosto entre as mãos com frustração, sentindo quando Pepper acaricia meus braços. Tony não entende. — Eu não sei como você defende tanto um menino que quase matou trezentas pessoas naquela barca por pretensão. Como você consegue entender aquilo? Porque eu não consigo. Não consigo ver bondade ou alguma coisa além de pura imprudência em algo como o que o Parker fez. , aquil...
— Eu ajudei o Peter porque entendi as motivações dele! — o corto e me ponho de pé, derrubando a cadeira atrás de mim e apertando minhas mãos turquesas em punhos antes de respirar fundo para que não percebam meus lábios tremendo enquanto preciso segurar as minhas lágrimas. A descarga de energia e frustração faz Pepper inclinar-se para trás e Tony erguer a mão, disposto a pedir que eu me acalme. Não lhe dou tempo para isso. — Porque eu sei o que é tentar, inutilmente, provar que as pessoas estão erradas sobre você. Precisar provar que não sou um erro cometido por você, Tony, mesmo que tudo sobre mim aponte o contrário.
As lágrimas enchem meus olhos e é como se engolisse uma pedra de gelo.
— Quando vocês chegaram de Sokovia pela segunda vez e pediram que os oficiais da S.H.I.E.L.D emitissem documentos falsos, eu pude ouvir quando um deles perguntou ao outro por que simplesmente não emitiram um visto para mim. E eu quis me lançar do topo da Torre dos Vingadores quando o cara respondeu que o governo não dá vistos para armas de destruição em massa. — Minha garganta já está doendo novamente, mas eu sei que falei demais então me calo no instante em que Pepper cobre os lábios e Tony abaixa a cabeça, os ombros se tencionando. — E eu entendo o Peter, pois eu sei o que é querer provar um ponto e o que é precisar se esforçar todos os dias para ser uma versão melhor de si mesmo. Porque eu tenho vontade de fugir às vezes de tanto medo que tenho de errar e de fazer algum de vocês sofrer. Porque eu estou tentando tanto não machucar ninguém, que nem sei mais o que estou fazendo.
Deixo que Tony me abrace quando me alcança.
A memória é o que causa um dos meus choros envergonhado; com soluços, engasgos e as lágrimas aceleradas que me deixam com a face fervendo. Me engasgo num pedido de desculpas quando Pepper se une a nós e os dois parecem finalmente entender o motivo de tudo o que fiz, a respiração delicada de Potts se mesclando com minhas lágrimas embaraçadas. Stark não esconde sua indignação, vestígios dela presentes no curvar de dedos em meu pijama e o respirar fundo que faz o arc-reactor em seu peito pressionar contra meu ombro — o relato sobre os oficiais sendo muito mais do que ele esperava. Abraço-o com força antes que ele me mande dizer exatamente quem disse coisas tão terríveis ou algo parecido.
, você é muito mais valiosa do que qualquer um daqueles homens jamais vai ser. E está tudo bem que você duvide do que pode ser ou qualquer outra coisa, mas não que pense ser desmerecedora de uma segunda chance. — Tony se curva pra olhar diretamente em meus olhos, os seus brilhando com piedade e pena. Engulo a vontade de chorar. — Não é um erro e jamais vai ser um, não importa o que aconteça. Precisa lembrar, o que você pensa de si é o que importa, entendeu? Ninguém importa mais para a gente do que você. — Ele me abraça mais ainda e enterra o rosto em meus cabelos, puxando Pepper ainda mais para perto. Calor irradia do ponto onde seus braços tocam o meus ombros e costas, lentamente espalhando-se pelo resto do meu corpo. A sensação é tão boa, tão boa, que sei que não consigo mais evitar as lágrimas ao voltar a falar.
— Eu nunca quis machucar ninguém, eu juro! — soluço enquanto Pepper acaricia meu cabelo em uma tentativa de me acalmar, mesmo que seus lábios se apertem entre os dentes para não tremerem. Sinto que estou falando demais, me expondo e abrindo demais e com a possibilidade de os irritar com minhas falhas, mas preciso tirar isso de meu peito em algum ponto e não há ninguém além deles em quem eu possa ter plena confiança assim. — Só queria mostrar para vocês que tinha algum valor... — Tony afaga minha nuca quando minha garganta aperta e as palavras se perdem. Eu respiro fundo e seco o rosto para tentar me acalmar. — Me trouxeram para a casa de vocês de braços abertos, mas eu não tenho nada a oferecer além de dor de cabeça. — As desculpas se embolam e atropelam, minha língua pesada pelo choro.
Stark me abraça com ainda mais força, balançando a cabeça.
— Você é tão boa, ... — é Potts que sussurra para mim, segurando meu rosto quente e me olhando não com pena, mas com estima que retrata tanto apreço ao ponto de ser em excesso. — Meu bem, você é uma menina tão boa que às vezes esqueço o fato de que algumas pessoas não levam isso como a verdade absoluta que nós levamos. E me dói não poder controlar o que as pessoas pensam, então precisa aguentar firme e entender que vale muito mais do que imagina e dar tempo para que todos ao seu redor também percebam isso. — Ela pausa com lágrimas nos olhos. — Nós, ao menos, já percebemos.

*


— Eu só acho que você podia remarcar — Tony diz — para o ano que vem.
Pepper não parece nada interessada na ideia, já tendo ressaltado uma vez o quanto a sua presença é importante em Tóquio nas próximas horas e o quanto seria de mais valor para a causa se Stark sequer se importasse em acompanhá-la. Tony revirou os olhos e disse que podia enviar uma armadura direto da sua confortável cama e Pepper retrucou que, claro, era exatamente isso o que as pessoas esperam do Homem de Ferro e por isso que é ela a CEO da Stark Industries no fim das contas. Happy riu no banco da frente quando ela bateu em Stark por cogitar voltar a assumir a cadeira, com saudade do aquecedor de assento e da secretária bonita.
, o que vai querer para o jantar? Devo pedir que comprem pizza?
Pepper está digitando algo em seu celular enquanto gesticula com a outra mão para mim, me incentivando a comer o que havia separado. Engulo um dos pedaços gigantescos de melão que ela havia enfiado em um pote para mim, pois, mesmo que todos tivéssemos acordado tarde demais, eu ainda estou me recuperando e ela insiste na alimentação saudável. Eu aceno com a cabeça, já farta da fruta e passando para Happy pela janelinha entre ele e os bancos de trás.
— Obrigada, Happy — agradeço quando, mesmo dirigindo, ele recolhe o pote. Me viro para o casal no banco diante de mim, percebendo como Stark tenta dar umas olhadas nos e-mails de Potts. — Vou sim. Pode ser naquela pizzaria na divisa com New Jersey? — indago, olhando a hora em meu relógio de pulso que havia conseguido com Pepper hoje pela manhã, sem ter a mínima ideia da passagem do tempo sem olhar a cada dez minutos em meu celular. — Aquela na Broadway é requintada demais, Pepps. E eu ainda não entendo a ideia de colocarem abacaxi em uma pizza.
— Você não tem o paladar sofisticado o suficiente para apreciar o sabor de uma pizza com abacaxi, abacate e muçarela de búfala, Black — Tony ironiza, imitando a voz de Potts da maneira mais hilária que pode. Eu aperto meus lábios quando ela nota a brincadeira e lança um olhar irritado para ele, a lembrança da pizza que ela havia encomendado de um restaurante gourmet ainda nos aterrorizando.
Pepper o acerta com uma das pastas que carrega.
— Vocês são muito mimados com a pizza que comem — ela reclama, rindo mesmo quando tenta manter a face séria conosco, ainda querendo que sejamos misericordiosos ao lembrarmo-nos da pizza horrível que Pepper encomendou para o aniversário do Oficial Rhodes dois meses atrás.
Todos agimos como se o dia anterior não houvesse existido, a ideia de esquecer o desentendimento tão fácil como passar uma borracha. No início da manhã, após passar pelo choque inicial de notar que realmente havia sido tão sincera com os dois sobre meus sentimentos, me peguei horrorizada e temendo descer as escadas e encontrá-los na cozinha, confusa de como encará-los após ser tão sincera e ter defendido Peter Parker mesmo que isso irritasse Tony. Ainda que nervosa, não me arrependi de engolir minha timidez.
Pepper estava cortando frutas para mim enquanto falava no celular, o pressionando no ouvido com o ombro e Tony surgiu sem pressa, passando-me uma xícara de café com leite sobre a mesa, alegando não fazer a mínima ideia de como preparar chá e que não estava afim de pôr fogo no Complexo por uma folha de hortelã, certo de que podia me dar um chiclete para substituir. Uma melodia tocava em um dos amplificadores que transmitiam a música da sala para diversas partes do Complexo, fazendo Pepper precisar elevar a voz no telefone e apontar para Stark com uma faquinha da maneira mais ameaçadora que podia ao jogar frutas em um pote e me elogiar quanto à trança que ainda permanecia intacta no meu ombro.
Homecoming?
É o próprio Stark que questiona, curvando-se para poder ter uma boa vista da faixa que havia sido posicionada acima das portas da escola enquanto enfio meu livro na mochila assim que Happy para o carro. Eu aperto meus lábios em um sorriso fechado quando Pepper Potts olha quase ofendida, provavelmente não acreditando que eu não havia comentado nada com ela sobre o evento. Tony balança a cabeça, como quem diz ‘crianças bobas’, porém a falta de interesse não alcança os olhos de sua namorada, essa que cruza os braços sobre o peito e não me tira de seu foco por um segundo sequer.
, por que você não falou nada sobre isso? — ela indaga, recebendo um olhar confuso (e obviamente falso) de Tony, logo colocando a pasta de arquivos na frente da careta dele para o excluir da conversa. — Alguém chamou você para o baile? — No segundo seguinte, Tony abaixa a pasta diante de seu rosto para que eu apenas possa ver seu óculos de sol brilhando e uma das sobrancelhas erguidas. Pepper volta a cobrir o rosto do mais velho, me olhando com um sorriso que vai de orelha a orelha. É adorável que ache que alguém me convidaria para o baile. — Black, não me deixe ansiosa! Alguém pediu?
Eu rio ao negar com a cabeça, deslizando as alças de minha mochila nos ombros.
— Claro que não, Pepps.
Nego nem sequer pensando em lhe dizer que Flash havia me mandado algumas indiretas estúpidas durante a viagem até que MJ o derrubou do banco do ônibus e ele ameaçou processá-la até Betty lhe mandar calar a boca. Algumas vezes eu pude o ouvir, assim como alguns outros rapazes do Decatlo. Todos os pensamentos iniciavam com Black”, suas vozes internas soando mais agradáveis que as externas, levando em consideração que todos eram do primeiro ano “Será que ela tem um par para o baile?” Era o que Flash mais se indagava. “Eu poderia perguntar, mas os amigos dela me odeiam.”
Se lhes contasse, Pepper iria reclamar de minha resistência e Stark iria enviar um míssil a casa do garoto. Não que um não fosse bem-vindo, mas...
— E estou de castigo, se não se lembra. — Tony ergue um ‘joinha’ para mim com orgulho e Potts estapeia o dedo dele, me fazendo rir das circunstâncias. — Eu tenho que ir. Vejo vocês domingo. Tchau, Happy!
Ainda ouço Tony falar algo por ser sortudo de não precisar se preocupar com um adolescente espinhento dando em cima de mim ou ser preso por matar o infeliz, mas espero para fechar a porta antes de começar a rir de toda a situação. Tenho certeza de que se MJ estivesse aqui, teria se prostrado de joelhos aos pés de Tony, implorando pelo míssil na cabeça de Thompson. Pensando em Michelle por um tempo, sei que ela já deve ter me enviado centenas de mensagens desde ontem, questionando sobre minha recuperação, e que provavelmente chegou a se irritar com meu sumiço repentino. Prometo a mim mesma que irei lhe explicar pelo menos o que puder sobre o que aconteceu no hospital.
Dentro da escola, quase todos alunos que vejo me questionam como eu estou; sobre como foi ser salva pelo Homem-Aranha, se havia visto o seu rosto ou se ele era tão forte e musculoso como as pessoas falam. Mas a maioria apenas murmura entre si enquanto eu enfio alguns livros no armário ou comentam sobre eu ter tido muita sorte. Depois de algumas perguntas de umas meninas da aula de química que jamais haviam falado comigo, me encontro com uma caixa de papel cheia de brownies e o questionamento de se foi necessário uma experiência de quase morte para que minha existência fosse notada por meus colegas de sala.
Mas a surpresa maior é quando encontro com Michelle no caminho para a aula de Geometria Aplicada e ela me ataca com seu livro, fazendo com que eu me encolha em uma risada enquanto sou atingida em todos os lugares que O Médico e o Monstro alcança, fingindo até que sinto um pouco de dor quando ela me abraça. Eu retribuo o abraço com um sorriso enorme, explodindo de felicidade por poder dar seguimento à minha rotina com MJ. Ela aperta meus ombros, fazendo inúmeras perguntas sobre por que eu tenho um motorista particular que foi me buscar na escola plenas quatro da manhã no dia do incidente, porque Peter não parecia querer me soltar e porque eu havia sumido.
Michelle parece diferente hoje, ligeiramente animada.
— Ei, você dormiu um pouco, ou algo assim? — questiono confusa com o tagarelar, segurando em seu braço e a puxando comigo para a sala no instante que o professor vai buscar algo em seu carro. Isso me deixa feliz. Estar de volta a Midtown Tech e ao lado de MJ quando pensei que jamais o faria após o acidente do Ferry. — Ou foi só a alegria de ver a sua amiga que foi salva pelo incrível Homem-Aranha?
— Está tão óbvio assim? — MJ me embala com o ombro e eu lhe dou um sorriso ao tirar meus materiais da mochila. — Seis horas. Seguidas, Srta. Black — confirma com orgulho, como se tivesse acabado de ganhar um prêmio. — Estou até com um torcicolo, tá?
A aula é boa e eu não canso do meu excesso de energia que mascara os vestígios de minha antiga preocupação pela briga com Tony. Estou feliz de poder, depois de um tempo, ter “certeza” de que sou ao menos aceita por Pepper e Tony e de que não sou um peso total em seus ombros. E ainda de estar tão próxima de MJ que ela assumiu ter se preocupado e sentido minha falta.
Eu assumo a vergonha alheia de ignorar sua pergunta em relação a Happy indo me buscar quando chegamos a New York, não querendo entrar em detalhes em relação à condição “confortável” de meus responsáveis. Não vou mencionar que estava chorando quando Happy veio me receber, pois me sentia finalmente segura. Ou que moro com Tony Stark e Pepper Potts, o criador do Homem de Ferro e a CEO da Stark Industries. Não quando ela tinha confessado para mim — ainda em Washington — que seu pai havia perdido o auxílio de um plano de saúde e metade de seus clientes. Ou que as obras da sua mãe não estavam vendendo mais tanto e que iria começar a procurar um emprego no verão.
Não quero ser esse tipo de pessoa com ela, então engajamos em bilhetinhos sobre filmes.
Quando o Sr. Gutierrez nos libera antes do sinal bater, eu ainda estou rindo da tentativa falha de MJ despistar o seu passado pecaminoso com filmes de romance água com açúcar ao caminharmos pelos corredores para fugir da a aula de Educação Física. Ela me assegura que trouxe outro chocolate para o Sr. Wayland quando cortamos caminho ao seguirmos para o seu armário. E é neste caminho que identifico uma figura conhecida deixando a sala do Diretor Morita e paro de seguir MJ, pedindo que vá sem mim quando percebo que tal conhecido também havia me visto. Jones se apressa para o armário e me manda encontrá-la na biblioteca enquanto eu dou um pequeno aceno para o rapaz na minha direita.
— Oi, .
Meu peito se aquece quando Peter Parker retribui o meu cumprimento cansado ao vir em minha direção e me abraçar sem muita cerimônia — isso se descartarmos seu sorrisinho embaraçado. Ele não está ensopado ou com cheiro de maresia como ontem, quando ainda era o Homem-Aranha que tinha vindo buscar conforto em meus braços, nervoso e borbulhando em adrenalina e culpa. Agora ele está quente e seco, cheirando a perfume e me abraçando com cuidado, muito diferente da maneira passada quando até mesmo tirou os meus pés do chão. Este aqui, gentil e calmo, é Peter. Eu envolvo meus braços em seus ombros, retribuindo o contato com carinho antes de me afastar, me esforçando para não ficar vermelha quando suas mãos permanecem em minhas costelas, logo também mantendo as minhas em seus ombros.
? — Me permito rir, tentando fazê-lo me imitar novamente, erguendo a sobrancelha e um pouco sem reação com o apelido que surge. Tenho certo medo de que Peter possa ouvir o acelerar de meu coração. — Sério? É assim que vai ser? — finjo reclamar, mas sorrio para ele e meu peito infla quando sou retribuída. Gosto dessa familiaridade, ou seja, o fato de ele me chamar por um apelido. Peter parece exausto e eu quero passar a mão em seu cabelo bagunçado mesmo que não seja de propósito, mas também me preocupo ainda com as bolsas avermelhadas abaixo de seus olhos avelã. Tudo nele parece abatido e eu temo que minha aparência não esteja muito melhor. — Pensei que você estaria encolhido em um canto escuro até agora. — Tento descontrair.
— Não. — Dá de ombros. — Eu só quero bater com a cabeça na parede a cada vinte minutos e dormir até o cansaço passar. — Parker tenta soar brincalhão, mas sei que em algum ponto é verdade. Ele aperta os lábios, tirando suas palmas quentes de meu corpo quando nota que manteve o toque por tempo demais e guarda o papel de advertência que ainda segurava dentro de um bolso na mochila. — Mas é só. — Eu suspiro, entendendo-o em partes e também o soltando. — Me desculpa se te preocupei, . E se causei, de novo, mais problemas para você. — Seus olhos são verdadeiros e preocupados, mas eu posso ver a ponta de vergonha além deles. Mesmo assim, estou exausta de tantas desculpas e apenas quero que entenda que jamais me forçou a nada. — E me desculpe por não podermos ir assistir A Liga da Justiça como eu prometi pra você e o Ned. Sei que gosta daquele cara o bonito lá e tal.
Quero rir e levar a minha mão até a sua, apertar os seus dedos e dizer que não há problema algum, mas sinto que pelo fato de não estarmos no escuro de seu quarto ou do ônibus ou em cima de um telhado, não o devo. Pois Peter poderia me ver além de me sentir e eu não quero isso. Quem sabe seja em razão de meus poderes que prefira sentir as coisas em vez de vê-las, mas duvido que possa entender, então me contento em caminhar ao seu lado por alguns segundos, não querendo que sonhe que conversei com Tony e Pepper ontem sobre como conseguia ver em seus olhos o mesmo que via nos meus: a vontade de provar competência.
— Tudo bem. O Ezra Miller pode aguentar a minha ausência — falo em um tom baixo quando passamos por uma sala de aula, me encolhendo dentro de meu suéter e olhando para a face de Peter. Ele não parece nada bem, mas sei que conseguiu esconder o máximo de todos, não habituado a mentir como eu. — Estou feliz por ver que você aparenta estar bem, Peter. — Mesmo sem poder ver além dele graças ao chip, consigo sentir que está em pedacinhos e realmente embaraçado por suas falhas. E não sei se vou aguentar vê-lo dessa forma. — Mas sei que está fingindo. — Admito quando paramos próximo a um mural de fotos qualquer, apertando minhas mãos juntas. Não lhe dirijo meu olhar, tentando garantir que terá certa privacidade para reagir como desejar. — Acho que ontem foi difícil para nós dois, então se quiser conversar, eu estou aqui.
Peter deixa o ar escapar, os ombros caindo e o moletom azul escuro da escola se encolhendo em sua figura que não é tão heroica como antes. Ele entreabre os lábios apenas para fechá-los, piscando enquanto ainda observa seu reflexo no vidro do mural como se decidisse que o que passa em sua mente não é importante o suficiente. Me requer coragem para segurar em sua mão e começar a caminhar rápido pelo corredor, o trazendo atrás de mim e me abaixando algumas vezes ao passarmos pelas salas de aulas antes de alcançarmos o corredor largo do auditório e trombarmos quando eu me viro. Eu jogo minha mochila no chão e preciso ainda de mais coragem para empurrar a mochila de um confuso e estarrecido Peter Parker para fora de seus ombros e segurar em seus braços para fazê-lo se sentar no chão ao meu lado.
— Fala comigo ou não fala nada, mas me deixa te ajudar de alguma forma, nem que seja matando aula — falo baixinho para que não nos encontrem, me encostando ao seu lado e fazendo-o rir com o que soa como uma escapada infantil, o riso diminuindo quando eu dou um empurrãozinho em seu ombro, puxando minhas pernas para abraçá-las. Peter nota a vontade de meus atos e cruza suas próprias pernas, encostando-se na parede, as sobrancelhas se franzindo. — Eu estou acostumada demais a saber o que as pessoas sentem só de olhar para elas, mas você é denso demais quando quer. Então, só... Fala o que vier na sua cabeça. Ou o que eu posso fazer por você.
Peter encosta a cabeça na parede, fechando os olhos como se fosse dormir.
Estou prestes a explodir de embaraço quando ele decide falar algo.
— Eu deveria ter escutado o Sr. Stark — Peter sussurra, como se sua confissão fosse tola demais para que outro alguém além de mim pudesse ouvi-lo concordar com a birra de Tony. É bem devagar que deixo um suspiro aliviado me escapar, satisfeita mesmo que a confissão seja azeda para nós dois. Tenho certeza de que ambos adoraríamos estar certos e que Tony fosse o errado na história. — Eu sinto arrependimento por não ter percebido que não ia lidar com aquilo no barco sozinho e porque tem pessoas no hospital por minha culpa. E, poxa... Eu arrisquei a sua vida e a do Ned deixando vocês dois perto daquela pedra idiota em Washington. Ou como quase matei pessoas inocentes ontem na barca, gente que estava indo para o trabalho... — Ele suspira cansado, um esforço grande para que a voz não se aperte e falhe. Conheço este suspiro e sei que está há um bom tempo sem realmente descansar, certamente dedicado a analisar cada tomada de decisão que foi falha e como poderia ter feito diferente. — E precisar ser maduro e entender que eu estava errado é um saco.
Eu corro a língua por meus lábios, abraçando meus joelhos.
— Você está certo — concordo com uma risada seca, pois ter de apontar nossos próprios erros com tão pouca experiência é mais difícil e requer mais humildade do que gostaríamos. — Por exemplo, quando eu quase coloquei fogo naquele elevador e matei todo mundo lá dentro querendo provar para... — baixo o queixo — mim, ou o Sr. Stark, ou a Pepper, que valia a pena eles terem me “mantido”. E por isso arrisquei a vida de todos os nossos amigos... — murmuro os nomes para garantir que não seremos ouvidos, mesmo que piscando algumas vezes para afastar as cenas do elevador que ainda consegui reter na memória. Eu fico em silêncio, precisando pensar bem no que irei dizer. — Isso tudo: a força e os deveres, são dons que precisamos aprender a lidar. E é muito difícil conseguir equilibrar tudo isso com tão pouca idade. Se é difícil para o Tony, imagine para a gente.
— Acho que deveriam ter mantido esse negócio de herói no quadrinhos.
— Não é assim também, Peter — corrijo devagar, respirando fundo, não conseguindo nem sequer imaginar o que Steve Rogers me diria neste instante e desejando que estivesse aqui com suas palavras sábias e alegorias dos anos vinte. Me lembro quando me contou sobre a maneira que Tony Stark havia pressuposto que tudo o que ele era provinha de uma seringa e como jamais conseguirei engolir aquilo. — Você pensou ser o único capaz de lidar com aquilo tudo e foi uma ideia boa, mas não eficaz para o que ia enfrentar — esclareço de maneira que as palavras que Tony dirigiu a mim meses atrás, sobre heróis e momentum, fazem sentido. Quando eu disse não ser forte o suficiente, ser apenas eu e ele garantiu que a humanidade dentro de nós é o que nos torna heróis. — Você errou porque é humano. E tentou porque é mais que isso.
, uma coisa é ser bom e querer ajudar e outra é simplesmente ser egoísta e alimentar o ego, como eu fui — Peter retorna amargo e mais sério que eu já o vi agir antes.
Ele me olha, os olhos frios e cansados, então não me atento à vergonha ou timidez ao colocar minha cabeça em seu ombro da mesma maneira que fiz no ônibus; minha mão buscando a sua entre seus joelhos erguidos. Peter segura em minha palma com força e eu observo quando as juntas de nossos dedos ficam brancas pela pressão. Me mantenho parada ao seu lado, tentando lhe transmitir auxílio por meio do toque, da mesma forma que Tony e Pepper fizeram comigo ontem, minha única referência de conforto e paz vinda do casal.
— Eu queria tanto provar ao Sr. Stark que poderia ser como ele que acabei esquecendo de tudo que ia ter de abdicar. Eu disse ao Ned que estava acima do ensino-médio — Peter solta um riso frívolo, percebendo a burrada que cometeu —, enganei a May por semanas e acabei não conseguindo nem pegar o Vulture. Perdi o uniforme e... — Ele estaciona, engolindo de maneira audível. Flagro a forma que Peter relaxa as digitais em minha mão, como se um outro pressionar nervoso fosse me desmontar. — Quase perdi todos vocês naquele elevador. — Deslizo meu dedo por sua mão, fechando os meus olhos. — ... Quando eu vi você caindo naquele dia... Não sabia que podia sentir tanto arrependimento, não sabia que podia sentir tanto remorso antes daquilo. Porque você estava machucada e esgotada por culpa minha. E está de novo agora, pois eu tenho certeza de que fiz o seu fim de semana com o Tony ser um lixo e, além de lidar com ele, ainda tem que me consolar por ser um idiota.
— Peter, vamos começar lembrando que você nunca me forçou a nada — relembro, erguendo minha cabeça do seu ombro e buscando os seu rosto apenas para precisar fechar meus olhos, pois seu olhar de amargura e culpa me machuca mais do que a minha necessidade de compreender meus erros. Nós estamos só começando e já estamos perdidos, a realidade me assustando ao pensar como Tony lida com isso todos os dias. — E eu optei por colocar os nossos amigos em primeiro lugar e precisei lidar com isso, mesmo que fosse me machucar. Sabia que você estava perto, a F.R.I.D.A.Y me avisou, mas eu quis tentar controlar uma situação que não tinha outro encerramento porque precisava provar a mim mesma que era o suficiente para fazer algo certo; mesmo que tivesse de lidar com as consequências dos meus atos. E tive sorte de você estar lá. — Quando abro meus olhos, me encontro com as íris escuras de Peter analisando meu rosto. — Eu tive muita sorte de você estar lá por mim.
Preciso soprar a última parte quando ouço passos vindos do corredor e percebo que Peter também os ouve, se apressando para me acompanhar e se botar de pé, apanhando nossas mochilas e me entregando a minha. Quanto mais perto a presença chega, eu posso identificá-la e rapidamente dou um passo para trás, me afastando de Peter como se ele pudesse me transmitir alguma doença absurda, meu estômago gelado e o chão tremulando abaixo de meus pés. Ofereço um sorriso educado para Liz Toomes quando ela vira a curva do corredor e seus olhos se arregalam, passando de Parker até mim enquanto se apressa antes de me envolver em um abraço.
do céu! — ela arfa, se afastando um pouco para me analisar após certo tempo, genuinamente feliz por me ver bem. Sua bondade e sinceridade são quase incômodas, mas me esforço para não deixar transparecer. — Que bom que você voltou! — Eu lhe dou um sorriso, precisando ser madura o suficiente para não ignorar quando a minha mente a lê e me transcreve o óbvio. — Como está? Ficamos preocupados quando você faltou.
Ela quer falar com o Peter, . Ela está com você, mas quer falar com o Peter.
— É bom estar de volta — comento de maneira afável, colocando meu cabelo atrás da orelha e respirando bem fundo ao apertar as suas mãos em agradecimento pela gentileza. Uso minha melhor atuação para olhar dela para um Peter Parker rubro e finjo prender um sorriso que me dói de maneira indevida. — Eu... Eu vou para a aula! — Finjo novamente estar buscando uma forma de sair, enquanto meu coração manda ficar, olhando feito uma idiota para ambos os lados do corredor vazio. — Geografia! — Liz parece notar o que quero dizer e solta minhas mãos enquanto eu ponho minha mochila sobre os ombros, estupidamente forçando minha partida. — É, eu vou para a aula de geografia! — Dou um empurrãozinho no ombro de Peter, mesmo querendo ficar aqui e pisco para ele com um pequenino sorriso de apoio, que faço questão de estender para Toomes.
Com isso, me apresso para fora do campo de visão dos dois.

*


— A propósito, eu vou com a Liz para o baile.
A lasca de gelo que senti em Washington voltou ao meu coração e parece que eu estou respirando em torno dela novamente. Não é dor-de-cotovelo, pois me nego a sentir este tipo de coisa por alguém que não me pertence, mas sim é uma tristeza rasa. Queria poder manter o momento que estava tendo com Peter mais cedo e o congelar no tempo, mas sinto que seria maldade congelar a sua dor, então eu me permito sorrir ao ouvir sobre seu par da noite. Mas não pretendo lhe contar que fiquei encolhida contra uma parede enquanto os dois conversavam e pude ouvir de primeira mão o seu pedido nervoso e sua declaração para Liz, o casal tão tímido que me senti suja por não apreciar sua felicidade como deveria. Não pretendo, muito menos, lhe contar como senti meu coração ser esmagado quando ela entrou no banheiro assim que ele saiu e deu uns gritinhos de alegria.
Oh, como foi bom saber que eu era a pior e mais amarga pessoa do toalete.
O que senti, mais do que ciúme, mais do que qualquer outra coisa, foi um desejo de sentir compaixão pelos dois por falarem sobre os sentimentos de maneira tão amável. Pude sentir a vibração de suas vozes quando gaguejavam e como oscilavam em múrmuros nervosos e quis sorrir por cima da angústia sem motivo. E me forcei a ficar feliz mesmo quando esses sentimentos tão puros pareciam rasgar algo dentro de mim. Me esforcei para sair dali antes que eles pudessem me ver ou ouvir, deslizando para o banheiro feminino e precisando de alguns segundos para ter certeza de que estava realmente me machucando por algo tão bobo e sem sentido como o mero fato de Peter ter convidado Liz Toomes para o baile. Ou ter se declarado a ela o mesmo tempo.
Não há espaço em mim para este tipo de futilidade.
Não há lugar em mim para conseguir gostar de alguém como Peter desta maneira, não há mais força suficiente para este tipo de coisa, o que me leva a avaliar que jamais houve um interesse como este em minha vida, pois em minha mente nunca teria uma chance como esta; a chance de estar tão próxima de alguém que compreender seus sentimentos para outras pessoas me doa tanto. Exceto Tony, Pepper, MJ e Nat, jamais permiti que encostassem em mim como Peter faz — ainda ciente do que passei na HYDRA —, não imaginei que este tipo de coisa aconteceria. Exceto estes, jamais me permiti aproximar tão física e emocionalmente de alguém. E quem sabe essa dor, essa tristeza, não seja eu percebendo como Peter, como qualquer um, seja apenas mais uma realidade passageira.
Foi esta ausência de constância física e emocional que provavelmente me ligou tanto a Peter, não interesse romântico. Foi a minha incessante busca por aceitação e cuidado e paz que me ligou a Peter, sendo a carência afetiva que me fez mergulhar tão fundo em seus problemas. Eu era uma menina muito pequena e carente demais, ociosa e indefesa quando tudo mudou depois que Brock Rumlow me forçou a mudar e talvez seja isso. Talvez eu ainda esteja cega em busca de uma âncora para me manter presa ao chão e não surtar e perder tudo o que tenho agora. Ou âncoras, no plural. Peter, MJ, Tony e Pepper. Talvez eu precise de algo que me mantenha no chão e estou usando pessoas para isso.
É isso o que espero.
— E quem se importa? — foi MJ que questionou irônica ao se sentar ao meu lado, seu livro na mão e uma xícara de café na outra, fazendo com que ambos, Peter e Ned, grunhissem, mas um sorrisinho me escapasse ao despertar de meus devaneios. — Não entendo o motivo de toda essa comoção em razão ao baile. É idiota.
Estendo meu burrito ainda embalado para Ned, que o aceita na hora.
— Bom, eu me importo e estou feliz por você ter tomado coragem, Peter. — Olho para o rapaz, divertida da melhor maneira que posso e ele esboça um sorriso tímido de agradecimento. Ele está feliz e eu não tenho o direito de me entristecer com isso. MJ bufa, mas eu prefiro não trazer à tona que vi um ingresso para o baile na contracapa de seu livro. Eu abaixo meus olhos para a caixinha de suco de uva, decidindo tomá-lo agora que desisti do almoço da cantina. — Eu acho que bailes são adoráveis, MJ — comento, tentando mudar o assunto. — Romeu Montéquio e Julieta Capuleto se conheceram em um baile, lembra? Pelo menos no filme de 1993, eu acho. E eles se apaixonaram depois da cena do aquário. Darcy e a Elizabeth Bennet também. É adorável, Michelle, assuma.
MJ ergue os olhos para mim, entediada com minhas desculpas.
— Romeu e Julieta cometeram suicídio — ela retorna, me fazendo querer rir, mas tento manter a expressão séria. Falho miseravelmente quando Peter ri, abaixando a cabeça e Ned quase se engasga com o burrito de feijão mexicano ao dar um ronquinho com a mão na boca. — Você se esqueceu da melhor parte da história, ! — Michelle repreende, tentando também parecer séria, mas eu posso ver quando seus lábios se repuxam em um sorrisinho. — E a Elizabeth Bennet, que jurou jamais se casar, ficou com o insuportável do Darcy. O que não é muito melhor. Mas, se você gosta tanto, por que não vem? Comprei dois ingressos porque o idiota do Mark Williams não tinha troco. Aí o seu único trabalho vai ser comprar um vestido, ou pedir para os seus pais ricos comprarem uma loja.
Encontro o olhar de Peter por apenas um instante enquanto estamos rindo.
— Estou de castigo, Srta. Capuleto — desculpo-me, não entrando em detalhes de como isso aconteceu, mas isso só desperta indagações vindas de MJ, surpresa demais pela ideia de que eu tivesse feito algo de errado. — Não, eu não estourei o limite do cartão de crédito, Michelle. — Reviro meus olhos com a brincadeira, fazendo Ned rir um pouco, mas Peter ainda se mantém em silêncio. — Meus pais descobriram que eu fui para a festa da Liz mês passado e que fiz algumas coisas que eles não gostaram. E nós discutimos um pouco. Mas está tudo bem agora e, adivinhe? Tenho a casa toda para mim pelo fim de semana! — tento comemorar, mas algo em mim me diz que deveria ter exagerado um pouco mais, a fim de que Peter se sinta em parte culpado. Porém ignoro a ideia, irritada por não saber controlar minha mente. — E Midtown High ainda terá muitos bailes pela frente.

*


A sala da psicóloga é impessoal e tem uma janela larga para o jardim.
Sento-me com minhas pernas cruzadas na cadeira confortável, pondo a manta de lã sobre meu colo ao fazê-lo. Me nego a tentação que é fechar meus olhos, pois mesmo depois de anos as fazendo, as sessões de terapia e as reuniões com a psicóloga ainda me deixam nervosa. Estava mais acostumada a fazê-las quando tinha toda a certeza do mundo que James Barnes estaria sentado na sala de espera, iria me acompanhar até o stand de lançamento de facas e me deixar afiar e polir as suas lâminas enquanto lutava. Era assim que tudo costumava funcionar e eu amava a rotina. Gostava de saber que Bucky teria sua sessão antes da minha e a de Steve seria logo após e ele iria conosco treinar, sempre dizendo que estava “bem melhor”. E vinha com seu papo de “buscar a cura” onde Bucky apenas o ignoraria. Pois Bucky sabe, acima de todos nós, que não é tão fácil.
A Srta. Hall é uma mulher jovem e bonita, com longos fios loiros e batom rosado que me deixaria parecendo uma idiota em comparação ao tom de minha pele. Foi Natasha Romanoff que revirou os olhos e disse que batons assim não ficam bons em ninguém. Bom, é uma ideia relativa. A doutora faz alguma anotação rápida em sua ficha. Minha ficha, para ser exata. O óculos está apoiado na ponta de seu nariz e ela o empurra ao direcionar o olhar para mim, ou melhor, para minha perna inquieta que não para de tremer. É involuntário e vergonhoso, mas não me cansa.
— Vamos seguir com o tema da escola, então? — Eu não sou uma fã do tom da sua voz, mas nunca mencionei isso para ela, apenas ri algumas vezes quando Sam Wilson a imitou na mesa de jantar numa Quinta-Feira da Pizza e me fez engasgar com refrigerante e até mesmo Steve deu um sorrisinho pela semelhança. É uma voz grave e quase forçada para soar ríspida e que faz suas narinas inflarem. A loura se adianta para sua mesa e apanha um StarkPad, dando uma breve olhada nele. — Na última sessão do Stark, ele mencionou que estava preocupado com o seu ingresso na escola regular. Como você se sente? Como foi o primeiro mês?
— O Tony fala de mim na terapia?
Minha voz soa surpresa e sinto minha sobrancelha erguer-se.
— O Sr. Stark fala sobre muitas coisas, — Hall dedura, como se fosse um incômodo o qual já havia discutido com ele, mas não houve progresso. — Você, Rhodes e Potts. E invenções e ferramentas. É a forma dele lidar com o estresse de colocar os sentimentos para fora com alguém. Assim como a sua forma de lidar é mudar de assunto e balançar a perna. — Desvio o olhar para os nós de meus dedos, o sorriso que estava crescendo em meus lábios voltando a ser um pressionar de dentes tenso. — Como tem sido na escola, ?
— Me desculpe. — Fecho minhas mãos, respirando fundo quando relembro tudo o que passei nos últimos dias e como tudo pareceu ir rápido demais. Não posso, infelizmente, mencionar-lhe isso. — Foi bom ir à escola.
Simples. Bucky iria ficar orgulhoso.
— F.R.I.D.A.Y disponibilizou algumas plantas da sua escola para mim. — Ela balança o aparelho em sua mão, ilustrando a explicação. Me remexo desconfortável, sentindo minhas coxas formigarem por baixo do jeans. — Percebi que muitas das janelas e paredes são de vidro e são direcionadas à rua e ao bosque. Elas têm sido de alguma forma uma problema?
Sei que é meu dever lhe contar a verdade e é tudo parte de um acordo que fiz com Tony Stark assim que fui resgatada e chegamos de Sokovia pela segunda vez. Refúgio, tratamento e reintegração. Sem mentiras e seguindo todas as etapas do tratamento — tentar o meu melhor para ser o mais diligente possível. Mas como devo contar para Hall que fugi de minha primeira aula de economia ao perceber que era na instalação atrás de Midtown High e onde todas, todas as paredes são de vidro e tem um pequeno bosque atrás. Não sei como posso lhe contar que disse à professora que houve um engano antes de correr na velocidade mais normal que consegui na direção da saída, quando vi os alunos do time de futebol americano saindo em linha reta de entre as árvores.
— Sim, tem sido. Eu gosto do Complexo, sabe? — Um meio sorriso escapa quando penso no local, mesmo que ainda possa ver o jardim sendo podado daqui onde estou sentada. Sei que não há nada que pode me ferir em um raio de sete hectares de todos os lados. Não tenho essa segurança na cidade. Na verdade, não tem guardas armados e a possibilidade de criar um domo impenetrável com um pressionar de botões no laboratório de Tony. — Quatro paredes em todos os cômodos — explico enquanto dou uma olhada ao redor. — Algo para me apoiar, encostar as costas e ter certeza de que não tem nada atrás de mim. E os poderes não ajudam. Eu tento gostar de estar lá fora, mas continuo me sentindo muito vulnerável. Em espaços abertos eu sinto como se fosse uma presa fácil. Então eu acabo assustada quando vejo uma motocicleta ou uma bicicleta. Ou doze adolescentes sem camisa.
— É exaustivo, sim? — Hall dá uma risadinha verdadeira, balançando a cabeça, mas sem desdenhar de meus problemas. No começo pensei que o faria. Que iria rir de tudo o que eu falasse, pois era bobo e eu era só uma criancinha. Mas ela não reage assim e aos poucos me recordo o porquê de vir para a terapia até mesmo nos dias que Bucky e Sam iam a pequenas missões em Manhattan. — Bom, , como você bem sabe, o dano maior que fica depois de um abuso e um trauma como os que você sofreu, é a relação de desconfiança com o mundo e não saber o que é real. Como confundir adolescentes sem camisa com... Soldados? — Concordo com a cabeça. — Por isso o seu estado constante de alerta quando sente que não tem onde se esconder. Me lembro de você ter mencionado que não se aventurava por mais de dois metros da sua cela nos primeiros meses, certo? Que ficava constrangida em um canto. Qual era o motivo?
Ao ouvir sobre a cela e o começo de minha jornada na HYDRA, todo o calor em meu corpo se esvai, me levando a agarrar a manta com força e empurrar minhas mãos para baixo dela. Engulo em seco; lembranças vívidas sobre a primeira vez que urinei em minhas roupas por já estar presa por horas e ser uma criança. E as fezes, o travesseiro com cheiro de pele e cabelo queimados e a umidade viçosa que escorria pela parede da cela. Hall me oferece todo o tempo do mundo para pensar e voltar, mas meus olhos estão focados na pele de meu braço, macia e limpa, sem a imundice que havia se grudado ao meu corpo por uma semana e meia até que eles decidissem me despir com mais onze crianças igualmente encardidas e nos “lavarem” com mangueiras pressurizadas que nos deixavam arroxeados de hematomas e frio.
— Eu queria estar pronta caso entrassem lá.
Me lembro das primeiras vezes que abriam a cela e eu, com meus um metro e dez de altura e bracinhos magrelos, tentava correr e era atingida com um soco antes de ser lançada para dentro. Ou batiam com a própria grade em minha face.
— E você acha que alguém iria invadir a sua escola e iria buscar você?
— Eles não chamam atenção, sabe? — Sei que irei vomitar no momento que sair do seu consultório, então engulo a bile que sobe por minha garganta e amarga minha língua. Meu corpo parece pesar vinte quilos a mais com o pensamento que cruza minha mente. Sinto como se pudesse desmaiar pelo ardor gelado nas veias. — É como eles faziam com o James Barnes: extração sem testemunhas. Mandariam alguém dar um tiro com uma sniper em meu ouvido e me matar no meio da aula de inglês e culpariam um maníaco. Depois de semanas, diriam que ele era um fã do Tony e todos iram culpar a ele. A HYDRA não iria me matar simplesmente, mas iria tirar toda a sanidade de quem me libertou.
Hall respira fundo, voltando a analisar minha ficha.
— Você tem medo de morrer assim, ?
A sessão termina antes que eu possa lhe responder.


Homecoming VII — Pop Vulture

(Três meses desde a queda dos Vingadores).

, isso dói — Peter sussurra para mim, suprimindo um ganido. — Muito.
Removo minhas mãos da área próxima ao ferimento em seu peito por alguns segundos, certa de que não está sendo apenas manhoso ou chorão. O sangue vívido — que agora mancha minhas digitais e unhas — é uma prova de que sua dor deve ser ainda mais intensa do que ele deixa transparecer. Os cortes que as garras de Vulture fizeram são profundos o suficiente para cuidados rápidos, mas não tão monstruosos que ele não consiga se curar somente utilizando-se do poder regenerativo acelerado. Eu não quero olhar para seu rosto agora, pois sei que não tenho coragem alguma de fazê-lo sem sentir meus olhos pinicarem graças ao inchaço em sua bochecha esquerda, que brilha ao esticar a pele e os outros arranhões que ferem sua face. Mas ergo a face o suficiente para que ele saiba que irei parar antes de engolir em seco e me afastar, quase esbarrando na luminária que uso de lâmpada.
— Eu sei, Peter — sussurro compreensiva, concordando com a cabeça como Pepper costuma fazer comigo, mas entendendo também que ainda preciso limpar seus ferimentos e fazer um de cada vez vai ser doloroso demais e desumano pela falta de pomadas anestésicas. Preciso pensar em algo rápido, pois quero ajudá-lo com meus poderes, porém sei que posso piorar a sua dor, já que não está acostumado a ser esticado e costurado de dentro para fora. Minha mão está sobre o seu joelho e eu dou um tapinha ali antes de me por de pé, saindo com cuidado de debaixo de seu beliche e pondo minhas mãos nos quadris. Os seus olhos me seguem imediatamente, como um filhote perdido. — Você acha que consegue tomar um banho?
Peter está mergulhado em um mar de travesseiros que amontoei para impedir que piorasse a condição dos ferimentos. Demorei um pouco ao arranjá-los de maneira que não tocassem nos cortes em suas omoplatas, o fazendo esperar em pé e quase desmaiando antes de deitá-lo. Seu rosto inteiro está em um tom pálido e cianótico, mas o sangue ainda jorra de seu nariz, lábios e sobrancelha. Ainda assim, preferi me dedicar ao primeiro ferimento em que pus meus olhos quando o encontrei na praia, minutos atrás, antes de tentar algo novo e nos transportar para seu quarto, aproveitando que May está em um encontro com algum estranho. Peter quase vomitou quando eu o fiz, mas sabia ser mais seguro que o fazer ir pendurado em teias sem fim por New York.
— Isso significa que eu... Merda. — Me aproximo preocupada com o xingamento e a indicação de dor, segurando em seu quadril e ombro suado quando ele se esforça para se sentar e solta um outro grunhido espremido. Peter segura a respiração quando toco em sua testa e tiro os fios grudados com sangue seco em um corte. — Significa que eu estou fedendo?
Tenho um acesso de riso, pois o seu senso de humor é revoltante.
— Certo, escolha equivocada de palavras. — Ainda estou segurando seu cabelo ao explicar. — Me desculpe.
A história de como acabei em seu quarto foi estúpida e inesperada: Vulture é o pai de Liz. No caso, o pacato Adrian Toomes, o pai que permitia que a filha desse festas enquanto viajava e que havia se tornado um criminoso após a perda do emprego em 2012. Ele planejava aproveitar a mudança de Tony e Pepper para o Complexo para sequestrar o avião cargo onde diversos objetos de poderes alienígenas, como pedras Chitauri, os dez anéis de Mandarim, entre outros bens dos Vingadores, estavam. Então Peter abandonou a coitada da Liz no meio do Baile de Boas-Vindas para ir caçar o seu pai. Fora a queda do avião e a explosão das asas de Vulture, Peter não conseguiu entrar em mais detalhes antes que eu o mandasse calar a boca, já que seu lábio parecia prestes a se abrir no meio. Eu irei questionar a Happy sobre isso, afinal, foi ele quem me ligou avisando que o avião havia sido sequestrado e que tinha certeza de que Peter estaria lá, pois um tal de “Nerd” o ligou.
— Você está fedendo só um pouquinho — minto franzindo meu nariz e vendo quando um sorriso lhe escapa e seus olhos inchados buscam a mim na escuridão. Levo minha mão ao seu queixo, angulando seu rosto para poder ver os machucados e mordendo minha língua. O sangramento parou na boca, mas o do nariz não. — Você precisa estar limpo para que eu possa cuidar dos seus machucados ou não vai ter diferença alguma se limpar tudo e você ainda estiver sujo de areia, cinzas e suor. Entendeu? — indago, pondo minhas mãos juntas no meu colo novamente. — Eu posso te consertar com os meus poderes em menos de dois minutos, Peter, mas vai ser dor demais para você.
Peter respirou fundo com dificuldade e a possibilidade de uma de suas costelas estar quebrada me deixa nervosa, pois não há nada que posso fazer. Preciso, pelo menos, o tempo em que banha para encontrar alguns remédios. Peter está queimando em febre e ele já reclamou de o braço esquerdo ter deslocado e ter precisado o colocar no lugar.
— Vai doer. — Não é uma pergunta, mas eu concordo mesmo assim. — T-tudo bem.
Quando começo a o ajudar a ir em direção ao banheiro do corredor — após quase morrer envergonhada quando pediu para pegar uma troca de roupa —, toda a frivolidade da atividade banal desaparece. São só quatro metros, será assim tão difícil? Muito difícil quando percebo que ele não é capaz de se mover nem um metro sequer por conta própria sem precisar parar para respirar fundo e começar a tossir. O pergunto sobre dores no peito e nas costelas diversas vezes, mas Peter diz não sentir nada, então me forço a crer que está apenas muito cansado e em choque. Está tão fraco que o melhor que consegue fazer é não resistir quando uso meus poderes para iluminar o caminho diante de nós e fazer as suas pernas se moverem com todo o cuidado que posso, suor em seu rosto brilhando com o reflexo azul. É preciso dois minutos para chegarmos lá, pois ele ainda está enjoado pelo teletransporte.
O banheiro é pequeno, mas tem espaço o suficiente para que caibamos nele ao mesmo tempo e não esbarremos na pia cheia de perfumes e itens de beleza que devem pertencer a May Parker. Peço que Peter se apoie na pia enquanto ligo o chuveiro e a água gelada começa a correr, e eu posso sentir que não será uma experiência nada prazerosa para ele. Já tive de tomar dezenas de banhos enquanto machucada da mesma maneira e a água se assemelha a facadas e fica complicado distinguir a água de lágrimas.
— A água esquenta depois de um tempo — Parker insiste em se desculpar.
Levo minha mão ao seu ombro curvado, sobre o “uniforme” imundo, e sinto meu rosto arder. Peter não vai conseguir tirar o seu uniforme sozinho, pelo menos não com o braço desta maneira.
— Você pode tirar a camisa? — tento soar o mais casual possível enquanto não lhe olho pelo espelho. Ele pausa para avaliar a sua situação por alguns segundos enquanto o vapor quente inunda o banheiro, balançando a sua cabeça por fim, apontando para o braço que está grudado à lateral de seu corpo.
, eu juro que não consigo nem mesmo erguer o braço. Me desculpa — explica-se baixinho e envergonhado e eu aceno com a cabeça. Certo, . Essa com certeza não é a primeira vez que você vê alguém sem camisa, então supere e tente ajudá-lo. — A c-camisa vai ser um problema, m-mas eu posso tirar a c-calça sozinho. — Eu olho o rosto de Parker no espelho embaçado com o vapor da água que aquece o pequeno cômodo, notando o quão vermelho e suado está, não tendo ideia se é por embaraço ou dor. Engulo em seco, percebendo que ele realmente não vai conseguir fazer isso sem ajuda.
E de maneira alguma vou conseguir tirar tudo isso de uma vez.
— Tudo bem, eu te ajudo — o conforto com um sorriso calmo quando seguro a manga de seu moletom, tomando cuidado para não tocar muito em seu braço antes de voltar a olhá-lo. Preciso conseguir lhe passar confiança, mesmo que não faça a mínima ideia de como ajudá-lo no geral. — Eu vou precisar rasgar o seu pijama, Parker — brinco, aliviada quando um meio sorriso ainda escapa os seus lábios, mas Peter está cansado demais para me responder então concorda com a cabeça.
Com apenas um puxão, eu arranco a manga sem dificuldade. Tento não o olhar pelo espelho outra vez enquanto o faço, principalmente pois deve estar me olhando com surpresa pela força bruta que demonstro a ele pela primeira vez, ou com timidez, e não preciso de mais alguém tímido neste banheiro. Com o primeiro rasgo, consigo desenluvar seu braço e evito tocar o ombro que foi deslocado, mas me encontro surpresa com a falta de flacidez nele ou arroxeados muito grandes, a recuperação rápida amaciando minha preocupação. A manga rasgada fica presa acima de seu pulso e eu me movo para sua frente, sentindo-me febril quando puxo o tecido até que caia no chão.
— Você fez um bom trabalho com o ombro — murmuro baixo enquanto ele se ajeita, buscando outro ponto de apoio na pia para que eu caiba ali e eu só percebo que estou entre suas pernas e seu braço está apoiado ao lado de meu quadril quando seguro na gola de sua camisa.
— Você fez um bom trabalho me trazendo para cá. Foi incrível quando eu literalmente levitei — Peter cochicha, engolindo em seco quando eu o olho por baixo de meus cílios e ele dá um sorrisinho. Respiro fundo e me seguro para não levar a mão até seu cabelo e tirá-lo de seu rosto, sentindo quando toca em minha testa, agora que Peter está curvado para me ajudar. Com outro puxão, abro a peça de roupa em duas bandas distintas, a rasgando desde a gola até a barra, expondo sua pele. Desvio meu olhar de imediato, já havendo tido um relances dos músculos rígidos que adornam seu estômago quando avaliei seus cortes antes. — Não sabia que você tinha super-força — Parker se engasga no mesmo segundo e eu quero congratulá-lo por não gaguejar como eu faria se os papeis fossem invertidos e eu estivesse quase nua.
— Super-força, sentidos aprimorados, cura regenerativa e eu consigo comer duas pizzas inteiras sozinha. — Provoco-lhe um curvar de lábios e entortar de sobrancelhas. Questiono outra vez se ele pode se virar sozinho e Peter confirma devagar enquanto eu pego os pedaços de seu uniforme que havia tirado e os enrolo em minha mão, sem saber o que fazer com eles. — Certo. — Suspiro, dando graças aos Céus que o ar está úmido e há certa névoa inundando tudo, então posso fingir que não enxergo seu rosto, mas ponho minha mão em sua nuca ainda quente. Evito tentar secá-la com a sua muda de roupa sobre a pia. — Preciso que você mantenha a água na fria, okay, Peter? Você está febril, ainda. E use só as suas mãos com sabão para limpar o ferimento no peito. — Indico e o guio pelo processo, satisfeita por ele prestar atenção no que falo e tentar concordar com a cabeça. — Então preciso saber onde estão os remédios de vocês. Pomadas, analgésicos e qualquer outra coisa.
Peter abaixa a gola do moletom destroçado, esta que estava em sua garganta.
— O kit de primeiros-socorros da May está na estante ao lado da janela da sala. — Parker indica e eu aceno com a cabeça, já no vão da porta e ainda aguardando outra instrução sua. — O meu está debaixo da cama. Lá tem mais coisas. — Me surpreendo por ele sequer ter se lembrado de comprar um próprio, mas é uma surpresa boa por ver o quanto se planejou. Digo mais uma vez para tomar cuidado com os ferimentos antes de sair do banheiro. — ? — Paro no corredor escuro quando meu nome ecoa pelo apartamento e me atento a mais alguma coisa, emitindo um som para que saiba que o ouço. Peter suspira e eu estou quase voltando para o banheiro quando volta a se pronunciar. — Obrigado por não desistir de mim esse tempo todo.
Não sei o que dizer, então apenas fico em silêncio ao me direcionar à sala do apartamento, minha face quente. Não entendo o motivo de tanta comoção e traição de meu corpo enquanto estávamos praticamente pressionados um contra o outro, afinal, já precisei arrancar as roupas de Pietro Maximoff algumas vezes quando treinávamos juntos e ele parecia que ia morrer, pois havia acabado de sair de uma seção com o Cetro e sua boca estava azul e os olhos se reviravam. Afasto o pensamento quando sua imagem retorna. Começo a tatear a parede da sala e desisto ao não achar um interruptor, decidindo apenas caminhar cegamente pelo local até a luz da janela e encontrar uma das estantes. A imagem de Pietro sorrindo surge em minha mente em flashes e eu me pego tentando abominar a situação em que a memória retorna a Clint o carregando sem vida em Sokovia.
As pontas de meus dedos correm pela primeira fileira de livros e estão na segunda quando, graças aos meus sentidos, posso ouvir um arfar rouco de dor vindo do banheiro, alertando que Peter havia tomado coragem para entrar debaixo do chuveiro. Então, misturado ao som da água, sufrágios abafados e grunhidos dolorosos estão escapando de sua boca. Aperto meus olhos para não arriscar ir lá ver se ele está bem, logo voltando a buscar pelo kit de primeiro-socorros, tateando até a terceira fileira antes de encontrar uma caixa de plástico com alças. Me atrapalho um pouquinho com o fecho, mas a abro e enfio minha mão nela, sentindo alguns saquinhos com gazes e o som de embalagens de remédios. A enfio no bolso de meu moletom.
Eu entro em seu quarto novamente após isso, deixando a caixinha vermelha de May sobre a cama e aproveitando para arrancar a colcha, dobrando o tecido sujo e o colocando ao lado de sua escrivaninha e debaixo de algumas camisetas caso sua tia decida entrar em seu quarto a qualquer hora. Peter ainda está arfando de dor no banheiro quando eu consigo alcançar a sua outra caixinha embaixo da cama. Abro a primeira e tiro tudo o que preciso, incluindo nimesulida. Deixo este ao meu lado, sendo o que usarei para seu ombro e febre.
Já no segundo kit, o de Peter, tem mais coisas que eu esperava, então imagino que deve ter sido muito caro de montar. Eu seleciono alguns pacotes de gaze, antisséptico, pomadas, um spray gelado, esparadrapo e volto ao kit de May, pegando um Draimin. Quando o som da água caindo cessa, eu devolvo o kit dele para o lugar e deixo o de May sobre a sua mesa. Preciso de um minuto em silêncio para poder organizar meus pensamentos e não entrar em pânico ao perceber que terei de cuidar de um alguém tão machucado e provavelmente assustado. Me questiono se os Vingadores se sentiam assim quando cheguei ao Complexo.
— Hum... ? — Me levanto quando Peter chama por meu nome um pouco alto, parecendo haver se esquecido do que eu havia lhe dito sobre meus sentidos minutos atrás. Eu vou para o banheiro, a sua figura agarrada ao vão da porta sendo banhada pela luz amarelada que parece lhe dar um pouco mais de vida e ele sorri um pouco para mim, o mínimo para que seu lábio não jorre sangue novamente. — Ei, você.
Ei, você. — Meus lábios se curvam e eu me movo em sua direção, colocando o seu braço bom por cima de meu ombro como fiz no caminho até o banheiro e segurando a sua cintura com o outro, nem um pouco confortável por estar o tocando tanto quando está sem camisa, mas há certo alívio cômico quando percebo que Peter também não está tão animado com a situação. Eu o arrasto para o quarto, a sua toalha pendurada no ombro lhe cobrindo o peito e o seu cabelo molhado pingando em mim sem parar, mas estou com uma pontada de alívio quando ele começa a se mover sozinho, sem precisar tanto do meu apoio.
Dentro do quarto, Peter se apoia no guarda-roupa e eu paro, não entendendo.
— Peter, você tem que se sentar — tento convencê-lo, uma mão ainda na lateral de seu corpo enquanto ele abre a primeira porta, o cabelo castanho claro pingando. — Eu posso pegar uma camisa para você depois, Parker.
— Espera um pouco, Black.
É a primeira vez que Peter se refere a mim por meu sobrenome e eu sinto um pouco de vontade de rir quando a sua tentativa de soar seguro some e ele quase choraminga meu nome falso. Eu puxo a sua toalha e coloco em cima de seu cabelo, como um capuz para que a água pare de pingar e aguardo enquanto Peter apanha algumas roupas e joga sobre a cama antes de se sentar ainda com minha ajuda, parecendo ser a atividade mais difícil do dia; os olhos se apertando com força e a respiração ficando presa enquanto o faz.
Quando o acomodo contra o montante de travesseiros de novo, volto a ser a preocupada. Os pequenos minutos de alívio em que não precisei olhar para o seus machucados passaram rápido demais. Eu preciso me segurar para não sair correndo e vomitar, pois é triste demais e evoca muitas memórias de ossos partidos e gritos de agonia. Sou eu quem protagoniza a maioria.
O corte em seu estômago começa a jorrar e eu abro os pacotes de gaze o mais rápido que posso, conseguindo alcançar o sangue antes que atinja seu colchão. Eu pressiono o ferimento, sentindo quando o seu peito começa a subir e descer lentamente, Peter controlando sua respiração para amenizar a dor. Passado o susto inicial, uso mais algumas gazes para limpar as laterais do ferimento e o sangue seco, respirando fundo ao dar uma olhada no corte. Ele segue desde o lado esquerdo de seu peito até metade de seu estômago, mas consigo me confortar quando noto que a parte de cima deste está lentamente voltando a tomar cor.
— Nós temos um plano? — Parker formula a pergunta após o que parece ser dois minutos e eu ainda estou engolindo a imagem de seu ferimento, tentando entender como as garras de Vulture alcançaram até a segunda camada de sua pele e eu possa ver o contorno de algumas camadas de tecido. Respiro bem fundo. — Por favor, me diga que temos um plano. — O tom de humor é gentil para mim, garantindo sua confiança em mim, mesmo que eu esteja encarando seu ferimento e paralisada. — , eu não tenho um convênio de saúde e o governo não se importa com os pobres.
Seu senso de humor é impossível e é isso que mantenho em mente.
— O plano vai ser: Esperar o sangramento parar de vez, lavar, colocar um antibiótico e fechar — começo quando Peter me olha, os olhos quase se fechando quando se esforça para poder me ver com o sangue que ainda cai de sua sobrancelha. Eu toco em seu rosto da forma mais delicada que posso, sentindo algo bater forte em meu peito, me inclinando em sua direção para poder dar uma olhada em seu lábio, um pouco de sangue coagulado ali. Depois dou atenção ao seu braço enquanto pressiono uma gaze em sua sobrancelha. — Vou limpar seu lábio por último, okay? Sua boca é muito delicada, então quero esperar que todo o sangue pare para poder dar atenção a dela.
O moreno concorda com a cabeça, confiando plenamente em mim apesar do rubor, e eu me sento ao seu lado com cuidado. Agito o pequeno spray anti-inflamatório, retirando a tampinha e colocando um pouco sobre o seu ombro. Quando o seus músculos se tencionam pela sensação fria, eu uso minha mão para espalhar o medicamento sem aplicar força. Ouço quando Peter engole em seco, então sinto a sua mão sobre meu pulso livre, segurando-o como se esperasse para apertá-lo quando doesse, mas isso não acontece. A certeza de que não estou piorando a sua situação sendo reconfortante.
— Prontinho. — Agora sim eu estou falando igual a Pepper. — Você vai poder voltar a se pendurar em prédios, com o risco de morrer, sem se preocupar! — Assopro o ombro pálido, um pouco preocupada com a tonalidade, mas satisfeita com o resultado. Peter não esmagou algum nervo ao colocá-lo de volta ao lugar, pelo visto. Eu esfrego minha mão que cheira a mentol na minha calça, me precipitando para a ponta da cama e pegando o analgésico. O copo de água que ele me pediu assim que chegamos ao apartamento ainda está sobre a mesa de cabeceira e eu o pego também. — Toma.
Obediente, ele toma o remédio sem reclamar.
— Você confia muito em mim, Parker.
Comento ao molhar um punhado de gaze em antisséptico e pressionar em sua sobrancelha direita, fazendo o rapaz silvar de dor e erguer o peito para mim. Peter confirma com a cabeça quando eu uso a toalha para secar um pouco de seu cabelo e o tiro de cima de sua testa. Quando estou satisfeita, deixo o curativo de lado, pegando a toalha que estava ao redor de seu pescoço e envolvendo em minhas mãos antes de me dedicar por alguns minutos a secar o seu cabelo. Há cerca de quarenta minutos, os fios castanhos estavam embebidos em sangue e com flocos de areia, mas agora estão limpos e quase secos.
— Eu poderia muito bem ter envenenado você agora, sabia? — É provocação, mas ainda espero que Peter saiba ser uma mentira. Tenho dificuldade em saber se um dia o conseguiria machucar de propósito.
, você está enxugando o meu cabelo — ele sussurra apertado, como se fosse o detalhe mais óbvio de nosso relacionamento, não movendo os lábios como eu havia alertando antes. Me seguro para não soltar um “bom menino” como imagino que Pepper faria.
Ele deixa uma risada baixa escapar depois de um tempo, olhando para mim por baixo dos cílios úmidos e assim enfiando a cabeça no travesseiro. Seco com cuidado a zona atrás de suas orelhas, movendo meus dedos em círculos e querendo sorrir quando os olhos chocolate de Peter se fecham e seus lábios se entreabrem em uma expressão muda de contentamento pelo carinho e cuidado. Tento tocar em seu cabelo da mesma maneira que Pepper e Tasha faziam comigo: bem devagar, constante e da forma mais gentil possível.
— Não me lembro a última vez que alguém secou o meu cabelo. Obrigado por isso, . — Eu paro o carinho para remover a gaze de sua testa e encostar o lado seco no ferimento, tentando não tocar no sangue mesmo que minhas mãos estejam limpas. Lhe digo que não fiz nada demais. — E me buscou na praia. E me ajudou com a pedra alienígena sem pedir nada em troca. — Eu me inclino na sua direção de novo, dando uma olhada no corte. Este foi pequeno como eu esperava. — Você é minha amiga. — Estou a caminho da pomada quando ele me garante o nosso laço.
— Isso foi mais uma afirmação que uma pergunta, Parker. E agora você está me devendo uma, tá legal? — o instigo, ainda surpresa pela naturalidade que tem para dizer algo assim. Claro, para Peter não deve ser tão complicado criar laços com as pessoas como é para mim. Eu passo um pouco da pomada em sua sobrancelha, novamente tentando ser super gentil.
— Eu não planejo deixar você se machucar a ponto de precisar da minha ajuda de novo depois do que houve em Washington. Está na minha hora de cuidar de você e não o contrário. — Novamente, o moreno me surpreende com a naturalidade de sua voz, assim como a promessa de não permitir que eu me machuque outra vez. Quero rir e dizer que Peter não é capaz de me proteger do mundo, mas pude notar a certeza em sua voz e decidi me manter quieta. — Bom... Sim. — Mastigou o pensamento ao concordar com a sua “dívida”. — Claro que sim. Nós somos amigos, não é? — Peter murmura enquanto eu uso um band-aid para cobrir o machucado. Eu começo a rir, balançando a cabeça. — Eu sei que posso contar com você, já deixou isso bem claro, . — . Tento não sorrir com o apelido ao começar a limpar a sua bochecha inchada e assoprando o fio de cabelo que cai de meu penteado. — E você pode contar comigo quando precisar, por mais que ambos saibamos que eu não tenho nada a oferecer.
— Quando você falou para o Tony que não era ninguém sem aquele uniforme, eu me senti horrível, Peter. Inútil. — Estou indecisa em colocar gelo ou deixar que o analgésico dê um jeito no inchaço, mas opto por permitir que suma naturalmente. Peter abaixa o rosto para o peito e eu me afasto, começando a juntar tudo o que já usei em um montinho. — Foi a mesma coisa com a Liz porque você nem nota o quão bom é e como as pessoas veem você como um tesouro. A Toomes viu isso e eu tenho certeza de que não foi a única — exemplifico mesmo que mencionar Liz me deixe desconfortável. Sento-me ereta para aliviar a tensão em minhas costas. — É dedicado, inteligente e é gentil com todo mundo. E não vou nem entrar em detalhes sobre a senhorinha que comprou um churros para você! — Peter começa a rir com a lembrança, encostando a cabeça nos travesseiros.
Tony e Happy amam a história do churros. Pepper acha fofo.
— Foi uma péssima ideia contar sobre o churros — Peter resmunga quando toco seu rosto e eu me desculpo, decidindo por fim que o remédio dará um jeito nisso por mim e apenas aplico um pouco de pomada em movimentos circulares. Ele exala, respirar já se tornando mais fácil. — Mas obrigado, . Não sei o que teria feito sem você aqui. Você é muito mais heroica que eu, no fim das contas.
— Não precisa agradecer, Sr. Parker. Você mesmo disse que faria o mesmo por mim, não foi? Algo sobre não querer perder minha amizade... — Balanço a cabeça com falsa soberba. — Minha bondade extrema... O fato que eu sou perfeita e que você ia me pôr em um pedestal e pagar uma pizza de calabresa... — vagueio cínica, pondo minha mão em sua testa, checando se a febre havia ido embora e lamentando que não. Droga. — Se nós formos levar em consideração poderes, eu sou mais forte que você também — volto a brincar e arranco um sorriso de Peter, mas não quero sorrir ao voltar para o seu machucado no peito, começando a erguer as gazes ainda preocupada. Está seco, mas ainda assim estou indecisa, porém opto por fechá-lo.
Peter morde o lábio ao se sentar mais confortavelmente enquanto me preparo.
— Não me lembro dessa última parte, mas dá pra me equilibrar com o resto.
Quero comentar mais alguma coisa e ser a última a dizer algo, mas estou tensa de novo, agoniada com a ideia de lhe causar dor em razão do machucado, porém preciso prosseguir. Enquanto embebedo um tanto de antisséptico no tecido, me questiono o quão os últimos trinta minutos têm sido difíceis para Peter fingir que não está com dor enquanto eu tento concertá-lo. Mas fico feliz por ele não me pressionar e querer ajudar, ficando quietinho e me deixando fazer o que posso. Estou limpando ao redor do ferimento vermelho, quando finalmente pareço notar de novo que Peter tem estado sem camisa este tempo todo e como estou grudada nele. Espero que ele não possa ver meu rubor.
— Como você soube onde o Vulture ia estar?
Pego uma boa quantidade da pomada e espalho em seu ferimento, tomando cuidado para não colocar meu dedo muito fundo no corte e apenas a empurrando pelas beiradas e sentindo quando os músculos de Peter voltam ao se tensionar, a dor com certeza sendo forte. Me afasto de vez em quando, lhe dando um tempo para respirar, o seu braço cobrindo os olhos, mas a boca firmemente fechada. Uso minha mão livre para tocar na sua, a mesma do ombro deslocado, e a aperto, sentindo seus dedos envolverem minha palma. Me incomoda a ideia de machucá-lo ainda mais, porém não há outra forma.
— P-pode ir, — Parker sussurra após respirar fundo e eu espero mais alguns segundos antes de soltar a sua mão. Esta se fecha em punho no mesmo instante. Volto a espalhar o antibiótico em seu estômago e rogar para qualquer ser superior que ele não sinta tanta dor. — Eu deixei meu celular no carro dele enquanto estávamos indo para o baile, então pedi para o Ned rastrear para mim. — Presto atenção. Não quero que pense que não me importo, mas estou mais atribulada com seus ferimentos. — E eu o segui num galpão. Ele falou algumas coisas então as asas surgiram do nada e começaram a derrubar os pilares.
Ergo as mãos em celebração quando termino de espalhar o medicamento.
Peter faz uma careta por eu não parecer tão interessada assim e logo me desculpo mesmo que ele esteja tirando sarro de mim em um momento indevido. Abro a caixinha de esparadrapos, começando a tirar pedacinhos deles a fim de torná-los borboletas, podendo unir as margens dos cortes.
— Que asas são essas? Elas devem ser muito fortes, Peter. Era metal puro? — questiono realmente intrigada com a composição, mas não muito surpresa, pois devem ter usado metal alienígena derretido e moldado para fabricá-la.
— Vibrânio em partes. — Para um grupo de ladrões que não tem passagens prévias pela polícia, trabalhar com vibrânio apenas para criar asas é quase sofisticado demais. Mas provavelmente as asas não eram só deste metal. Uma grama custa quase dez mil dólares. — Então, os pilares que ele quebrou derrubaram o teto e... — Eu o olho, não entendendo por que sua voz ficou mais baixa até sumir. Peter ainda está enterrado nos travesseiros, mas eu posso entender imediatamente o motivo quando percebo a razão de sua falta de ar prévia e como parecia prestes a cair quando se botava de pé.
— Ele derrubou o prédio em você? — Eu perco o ar de maneira sonora e Peter logo está tentando se levantar.
, está tudo bem! — ele garante rápido, ansioso como sempre. Mas meus olhos já estão arregalados, não acreditando que Vulture teria feito algo dessa maneira contra Peter, contra um adolescente que iria levar sua filha para um baile escolar. Eu ponho minha mão em seu peito quando noto seu intuito de me abraçar, mas não quero arriscar que seus ferimentos voltem a sangrar com o esforço, então o forço para a cama mesmo que me negar a abraçá-lo me doa na mesma proporção. — , eu estou bem! — Peter chama meu nome e segura minha mão que o empurra quando eu não digo nada, mas não tenho realmente o que dizer. Estou em choque. — Ei, .
Eu balanço a cabeça em negação, horrorizada com a ideia de que Peter pudesse ter morrido nos destroços de um armazém qualquer só por tentar fazer o certo. Ele estava à mercê de Vulture, sem sua armadura para protegê-lo do desmoronamento ou poder lhe ajudar a sair em segurança. Quero gritar com Tony, ferir Vulture com meus poderes da maneira mais horrível que conseguir imaginar e então estapear Peter por não ter dado para trás e se livrado disso quando podia. Mas agora eu não consigo empurrá-lo para se deitar novamente, pois estou arrasada com o cenário horroroso que monto em minha cabeça quando relembro meu soterramento no castelo da HYDRA e tudo parece mais real.
Deixo que me abrace meio desengonçado, usando a mão boa para puxar minha cabeça para seu ombro enquanto eu apoio a minha em sua perna. Peter cheira a sabonete de lavanda e sua pele está quente e úmida pela febre, mas eu não consigo afastá-lo, não agora que notei o quão perto estive de perdê-lo por teimosia sua. Eu engulo a vontade imediata de chorar e envolvo um braço ao redor de seu corpo, minha mão trêmula espalmada em suas costas.
— Ei, eu estou aqui — garante. — Não chora, vai...
Peter sussurra para mim com dificuldade pelo ferimento em seu lábio, que faz a sua voz sair espremida. E é este pequeno ferimento, o único que ainda não pude cuidar, que me faz lacrimejar. O choro esquenta meu rosto e me força a abraçá-lo com mais força, tentando me esconder em seu ombro quando minhas emoções me traem e imaginar Peter esmagado por toneladas de concreto me faz querer gritar. Peter não parece acreditar que eu realmente estou chorando por ele, algo que apenas me deixa mais temerosa por sua noção de valor próprio conturbada.
— Eu ainda estou aqui. Por favor, não chora por mim.
Ele me segura com cuidado, como se pudesse me machucar quando é realmente ele quem está ferido, mas me deixo ser cuidada. Não consigo formular algo semelhante à ideia de perdê-lo tão rápido logo após ter entrado em minha vida de forma tão repentina e isso me assusta, ou talvez o temor seja graças ao sentimento de conforto semelhante ao que sinto quando sua mão toca em minha nuca, nos pequenos fios ali e sua respiração sopra em meu ouvido, ditando um ritmo calmo que tento imitar quando sinto vontade de soluçar, tremendo contra seu corpo. Peter respira superficialmente contra meu cabelo quando eu fungo contra minha mão, meu braço ao redor de seu pescoço me mantendo junto a ele. Posso lhe sentir respirar na lateral de meu corpo, estou meio curvada contra seu ombro e as mãos dele segurarem em contato com minha pele enquanto me amparam.
— Pensei que morreria ali. N-não havia ninguém por perto e eu pensei... — Peter admite seu possível trauma, o medo sobressaindo na voz embargada e eu o aperto com mais força. Eu seguro em seu cabelo quando sinto a sua face encostada em minha blusa, seu corpo começando a se curvar em meus braços. Então engulo meu choque e lhe deixo também se quebrar contra mim. A agonia do rapaz é tão palpável que se mistura à minha e cria uma aflição aguda, um pouco mais leve por ser compartilhada entre nós, apesar de ser difícil dizer quem está confortando quem. Seu braço ferido se une ao outro e eu fecho meu olhos para trancar as lágrimas quando nossos peitos estão pressionados e seu coração bate acelerado contra minha clavícula.
Meus dedos se encaixam nos cachos úmidos de Peter, tocando com carinho e meus lábios se partem quando um fungar baixo lhe escapa. Eu sinto o corpo dele cedendo aos poucos contra o meu, mas não me afasto. Em vez disso, Peter agarra-se a mim, como se minha presença lhe trouxesse conforto. Não consigo lembrar quando fora a última vez em que estive nesta posição, a última vez em que precisei confortar alguém e, de fato, me permito fazê-lo sem me forçar a dar as costas por aversão de lidar com mais do que meus próprios problemas. Ausência de tal memória indica que é a primeira vez que consolo alguém. Me sinto tão desajeitada como quando era criança, derrubando tudo o que via pela frente, pois sempre tropeçava em meus pés ou era desatenta.
— Na próxima, leve o celular e me ligue. — Minha voz está abafada. — Mesmo que tenha de esperar o final do meu episódio de Brooklyn 99, me ligue.
Peter funga quando uma risada envergonhada lhe escapa e eu descanso minha cabeça contra seu ombro quando seus dedos se flexionam no tecido de minha camisa. A pele de Peter Parker é macia e quente, com consequentes sardas rosadas brotando entre a curva dos músculos e eu foco meus olhos nelas quando sinto o seu nariz deslizar por minha bochecha e os lábios tocarem ali com cuidado, selando minha face. Eu seguro-me em seu ombro, tentando apaziguar a angústia em meu coração. Enquanto isso, Parker corre as mãos por minhas costas — como Tony faz quando eu estou ansiosa e me deixa mais nervosa pela agilidade —, tentando me distrair da tempestade que fez o favor de cessar. Eu respiro fundo, sentindo seu cheiro fresco mesmo após uma noite inteira com o mesmo uniforme e ainda consigo sentir um pouco de maresia.
Longos minutos confortáveis se vão até que eu o ouça outra vez:
— Você quer conversar? — Peter sussurra para mim, a testa pressionada em meu ombro e respiração branda alcançando meu peito. A pergunta me dá vontade de rir, porém sei que há mais além disso. — Eu gosto do som da sua voz. — A confissão faz o meu rosto se aquecer como nunca. pois jamais ouvi algo assim, ou imaginei que alguém pudesse gostar de como a minha voz soa. Engulo em seco, tentando me segurar para não matar as borboletas em meu estômago quando sinto o frisar de sua testa, possivelmente envergonhado pela confissão.
Não lhe dou tempo de retirar o que disse.
— Sobre o que você quer falar, Peter?


Homecoming VIII — Lul'me to Sleep

(Três meses desde a queda dos Vingadores).


Após quase duas horas, eu estou enfiada ao lado de Peter em sua cama.
Minha cabeça está sobre o seu ombro de forma que não sinto um puxar desconfortável em meu pescoço; a sua bochecha está pressionada em meu cabelo e eu posso sentir o movimento de sua mandíbula quando a move para falar comigo. Eu aproximo o cobertor cinza de meu peito, o enfiando debaixo de meu queixo para que seja o suficiente para disfarçar o frio e esconder a estampa de sua camisa que visto, esta que substituiu minha roupa posterior junto a uma calça de flanela, já que a que eu vestia estava banhada em sangue e areia. Logo depois de fechar seus ferimentos, enfaixar o seu corpo e distribuir uma boa quantidade de pomada por seus cortes, Peter me convenceu a trocar de roupa e só depois disso falar.
Falar qualquer coisa que viesse à minha cabeça, responder qualquer pergunta que fizer e lhe contar qualquer história que souber: pois o som da minha voz é bonito. Falar sobre os Vingadores, comidas que poderia comer pelo resto da minha vida sem enjoar, sons irritantes, como Asgard deve ser divina e a forma que o professor de economia fala cuspindo. E rezar para qualquer deus que exista que Peter não pudesse ver a cor de meu rosto ou ouvir como meus batimentos cardíacos me traíram e se aceleraram quando confessou tal coisa para mim. Então escolhemos quando o sono chega após algumas idas e vindas, tentar nos conhecermos melhor e a semelhança com as perguntas que respondi como Michelle Jones na viagem são o suficiente para que eu esteja sorrindo a cada resposta e abrace com força a almofada que me ofereceu quando soltei seu braço ao ouvi-lo dizer que não tinha certeza se Star Trek e Star Wars estavam no mesmo nível.
— Aliás, você conseguiu comprar o livro que queria na semana passada? — Pergunta sonolento e amável.
— Battle Royale? — Indago e Peter concorda com a cabeça, me fazendo encolher o pescoço e seu corpo vibrar em um risinho cínico, afinal o movimento é bem em cima de mim e nada confortável. Havia mencionado o livro enquanto lanchávamos com MJ e ela questionava se eu estava lendo algo. E pensar que Peter sequer prestou atenção em mim enquanto eu falava com outra pessoa me deixa feliz. — Sim, comprei. Só tinham um exemplar na loja em que fui, mas eu estava tão ansiosa para ler que comprei mesmo assim. Ele está amassado na capa e com a lombada torna.
— Legal! — Parker soa aliviado e eu estreito os olhos, não enxergando nenhum palmo na minha frente agora que as luzes foram todas apagadas no quarto. — Se você não tivesse comprado, ele ficaria para sempre lá.
Dou um sorriso para o nada.
— Parker, você tem pena de livros?
— Livros com defeitos? Claro que sim, — ele me responde como se fosse óbvio e eu também devesse sentir o mesmo. Me afasto um pouco para poder observar os ângulos rasos de seu rosto enquanto fala e também como franze a sobrancelha. — Livros com arranhões, amassados, páginas faltando e com impressão desigual são especiais. E isso os faz mais especiais também. — Não ouso o interromper. — Eu tenho uma cópia de Piada Mortal do Alan Moore em que umas doze páginas são em preto e branco. É uma história a mais para contar, sabe? “Tinha doze páginas em preto e branco e a cor só voltou quando o Coringa atirou no Batman.” — Me pego surpresa com seu raciocínio tão simples, mas tão abundante em significado, meus lábios ligeiramente entreabertos. — E o seu livro, bem, talvez alguém tenha comprando antes de você e odiou ele tanto que jogou no chão e amassou a capa. Ou alguém amou tanto que abraçou, babou em cima e levou para todo canto até notar que estava amassado e decidiu que não valia mais a pena. Mas ele continuou igualzinho.
A relação sentimental entre as marcas físicas do livro e sua integridade escrita imutável me fazem pensar um pouco. Em especial em como meu corpo é meticulosamente coberto de cicatrizes como os livros imperfeitos que Peter comenta e eu entendo o que queira dizer com isso, pois é a mais linda teoria. Mas a prática é falha e imprecisa. Já ouvi cerca de três vezes da Srta. Hall sobre a cura e as cicatrizes e o amor; o amor-próprio que é tão impossível de compreender. Já ouvi também sobre o tempo e suas propriedades milagrosas de cura, contudo, pouco é mencionado que os ferimentos não se curam da maneira que desejamos que eles curem. Eles não somem da pele e a deixam imaculada. É pouco comentado como eles não se importam com o espaço que deformam e tem sim, o seu próprio tempo impreciso como o tempo negativo na cinemática, sempre impossível de reconhecermos.
Eu não acredito que o tempo cura tudo, afinal há muitas coisas que se agravam com o passar de anos e poucas que melhoram. O tempo ajuda, de verdade, mas não cura. Após um certo período, como Peter mesmo pode provar pelos ferimentos recentes, a dor vai parar até ser apenas um latejar constante abaixo da pele. Depois de um momento, a dor não consome todo o seu ser e cada pensamento que cruza a sua mente não está mais enlaçado em pontadas agudas. Não corromperá o bom senso, mas as marcas não somem. A ferida continua. Pele rosada, latente e maculada. Os tecidos se regeneram e os seus olhos não encontram mais os cortes e membros ausentes; é bonito pensar que o corpo humano e a mente estão tão ligados que as vezes podemos ignorar algo tão gritante apenas porque não nos convém mais.
— E cicatrizes são lembretes, apresentando progresso no desenvolvimento. — Preciso me esforçar para não discordar tanto em razão de seu pensamento que é tão bonito mas tão irreal e ingênuo. Encolho meus ombros e me aninho em seu ombro de novo, sentindo quando sua mão morna pousa perto de minha perna, mas sem a tocar. — E desde que eu consegui esses poderes e não fico mais com cicatriz nenhuma, nem de cortar o dedo cozinhando com a May, acho que elas se tornaram mais valiosas. Parece que tem essa camada invisível me protegendo contra a fragilidade da vida.
— E agora eu tenho pena de livros, Peter. Obrigada. — Ele ri um pouco pelo o que digo, se esforçando para não se mover demais assim como lhe instrui. Mordo meus lábios, pois sei que ele aguarda por uma resposta minha e não irá se satisfazer com ela por ser tão contrária à sua. — A sua aparência externa vai se emendar sozinha, Peter, mas é com o psicológico que precisa se preocupar. Como mesmo disse, nosso corpo resiste, mas a mente não é implacável assim. Sempre haverão vestígios de como você se machucou, quem te machucou e essa é a parte que não vai mudar fácil. É preciso um tempo incontável para estar bem de verdade. — Meus lábios se apertam até saber o que quero realmente dizer, mas sei que não há pressão alguma nisso quando Peter encosta sua palma fervendo contra a minha. É como um animal que conforta o outro, um toque febril apaziguar meu cérebro desesperado. E funciona, pois, no fim das contas. — É preciso de tempo para entender que é normal estar bem.
Ele respira devagar.
— Quando você quiser falar, eu vou ouvir. — Devagar, e quase surpresa, ergo meus olhos para encontrar com a cortina longa dos cílios de Peter, pois os seus estão fechados e ele parece cansado, é claro. Eu observo seu rosto, pois é tudo o que posso ver pela luz amarelada que emana da janela e engulo em seco, precisando apertar a sua mão com mais força para não querer tocar em sua face ou nas pequenas sardas no topo de seu nariz. — Quando você quiser me dizer o que aconteceu, quem foi o cara ruim que adotou você, como você conseguiu os seus poderes e como está tentando se curar: eu vou te ouvir. — Segura meus dedos com gentileza. — Você vai saber quando estiver bem.
— Obrigada.
É confuso que Peter não queira me forçar a nada; ele não quer me forçar a falar, me curar para sua comodidade ou quer que eu deixe o conforto que é fingir que nada aconteceu. Ele está me dando a chance para curar-me por mim mesma e não por mais ninguém. E assim, estar com Peter se torna tão fácil como respirar.

*


Estou descendo as escadas do Complexo quando ouço a televisão:
“As imagens vazadas na internet são do dia 19/04 deste ano, onde Os Vingadores se enfrentaram em Berlim, episódio que esteve fora dos holofotes por quase quatro meses até ser revelado ontem por um ex-funcionário do Aeroporto de Brandemburgo. Estas imagens apresentam para o mundo os prováveis Novos Vingadores.”
Na sala, todos estão estáticos: Pepper está com o celular quase caindo da mão, parada atrás do sofá e pálida como uma folha de papel. Happy mantém com a chave do carro pendurada no dedo, como se estivesse a rodando segundos antes de se congelar para poder atentar-se à notícia. Rhodes está calado, mas parece irritadíssimo e está com o rosto apoiado na mão no braço do sofá. Já Tony, bom, este está com um bowl de cereal e leite no chão diante de si, não parecendo nem um pouco satisfeito com a realidade do que passa na televisão. Eu me aproximo dos adultos, aterrorizada com a situação de maneiras que não posso explicar quando Pepper coloca a mão em meu ombro.
Nas filmagens, podemos ver como o antes conhecido como Garoto de Ouro, o Capitão América, e seus aliados são corajosamente enfrentados pelo Patriota Americano, Tony Stark, o nosso primeiro e único Homem de Ferro. Infelizmente, todos nós conhecemos o desfecho dessa triste história de deslealdade, onde um homem trai sua pátria em razão de um assassino. O símbolo americano sendo substituído por uma sombra que corrói um grande país em tristeza.” Lamenta o sensacionalista.
A imagem da câmera de segurança se aproxima do rosto de Steve Rogers, durante os poucos minutos onde Tony havia tentado convencê-lo de se entregar em bons termos e a música de fundo é apreensiva e nojenta a meu ver. Porém, o sensacionalismo não é exatamente o que mais me assusta, mas sim quando eu me aproximo e há um corte na imagem, então um zoom em minha máscara. Preciso me apoiar nas costas do sofá, sentindo como se houvesse engolido uma pedra de gelo. Tony se mantém calado, quase como se estivesse assistindo um filme e esperava pela cena mais incrível deste.
Estão com a mesma dúvida que eu, certo? Quem é a mulher atrás do Capitão Rogers? Uma infiel agente, como Natasha Romanoff, ou uma heroína entre os vilões? Bom, que tal darmos uma olhada em imagens que ela protagoniza, queridos espectadores? Primeiro, a quando salva a pele do Homem de Ferro contra Wanda Maximoff.
Então eu surjo na tela novamente, voando mais alto que relembro, erguida cinco metros acima do chão após disparos de energia psiônica deixarem minhas palmas e me impulsionarem para o ar. Há uma clara atenção direcionada ao uso de meus poderes e ainda mais em como derrubo Wanda sem delicadeza alguma e prendendo ela e Clint diante de Stark. Um corte na câmera mostra o sangue escorrendo do nariz e testa de Maximoff, assim como as mãos escoriadas pela queda que causei. Não encontro bondade em mim para resistir ao orgulho. Logo, os carros começam a despencar sobre Tony e a voz do apresentador retorna. “Os poderes que ela tem parecem ser semelhantes aos da Feiticeira Escarlate e nós morreríamos para ver o fim de uma cena tão épica, mas infelizmente a vilã derruba nossa nova heroína favorita.” Enquanto ele fala, outra câmera que estava em frente a Wanda revela os meus poderes com mais precisão: o golpe que atingiu Wanda, os nove carros que esmaguei ou lancei longe de Tony e como criei um escuro denso quando explodiram um caminhão a metros de mim e ele manteve as chamas contidas. Mas ainda não consigo crer que se referiram a Wanda como “vilã” e me escolheram como a correta em toda a história. Tudo me deixa enjoada.
— Puta merda, tampinha. — Rhodes riu e deu um tapinha em meu braço.
Pus a mão em minha boca quando Pepper suspirou com um dos replays, onde eu voava tão alto e tão graciosa, descendendo do céu contra Sam Wilson como um meteoro turquesa em chamas e muito mais rápido do que seria aceitável. “A aliada de Stark lutou ainda outra vez com Falcão, o atrasando e ferindo seriamente antes de seguir para O Gavião Arqueiro, nos dando um gostinho de uma luta muito bem-feita.” Sam foi ao chão com um baque, as asas do uniforme se recolhendo após o trauma e seu corpo apertado pela possível dor do impacto. E há um segundo de hesitação antes que ele se colocasse de pé, mas eu continuei na ofensiva, chutando sua têmpora e o lançando contra um avião. Fecho meus olhos quando meus punhos reluzem e Clint me tira de cima de Sam antes de poder lhe ferir mais. “A graciosidade dos dois apenas retorna a ideia de que além de extremamente poderosa, a heroína foi treinada ao extremo em lutas. Mas, e agora? Seria este o fim de nossa querida aliada? Não! Principalmente quando ela faz uso de sua armadura para paralisar Falcão e dar continuidade à luta com o Gavião. Será essa uma nova tecnologia Stark sendo testada diante de nossos olhos?”
— Happy, ligue para a Hill. Quero isso essas filmagens agora. — Stark se põe de pé, mas não sai da frente da televisão, ainda aguardando para ver até onde o jornal iria. — Quem controla aquele aeroporto? Como conseguiram essas filmagens? Happy! A Hill! Agora!
“Mas nossa cena favorita? A nova Queridinha da América enfrentando e derrubando o Soldado Invernal! Uma cena épica!”
A criatura que ataca Bucky não se parece comigo, mas sim uma predadora graciosa saltando sobre sua presa como uma lâmina na direção de um alvo. Tem que ser outra pessoa. É horroroso perceber o que me tornei em um momento de necessidade. Não me pareço com a menina que almoça macarronada com Michele, mas sim uma assassina que perdeu a chance ideal de rasgar a garganta de Barnes e estava pronta para fazê-lo pagar. Ver Bucky erguer as mãos na frente do rosto em sinal de defesa e evitar me machucar é triste, pois momento algum antes de nosso diálogo mostrei misericórdia ou bondade alguma com nenhum deles. Me encolho até que a palma de Pepper em meu ombro caia, enjoada pela força que pus em meus ataques, avançando sobre todos para feri-los. O jornalista ressalta que as mãos de Barnes estavam tremendo e o faz com uma gargalhada.
“As filmagens encontram um fim aí, mas, acreditem! Temos ainda mais! Como somos cavalheiros aqui em New York, cedemos os holofotes primeiro para as damas, mas e o cara que também roubou o coração da nação?” Peter surge de cima de um dos prédios onde ficavam as salas de espera e rouba o escudo de Steve Rogers assim como me lembrava. Um arrepio gelado tomou conta de meu corpo, ainda incrédula que tenha coragem de ter o feito e enfrentado todos os outros quando é só um estudante de ensino-médio. “O herói do Queens, o Homem-Aranha! Sim, sim! Aquele mesmo que salvou todos no Monumento Washington na semana retrasada! Não esperavam que o nosso orgulho do estado fosse estar lado a lado com Os Vingadores, certo? Mas aconteceu!” Happy solta um palavrão ao sair da sala para provavelmente ligar para Maria Hill, mas eu estou interessada pela primeira vez na maldita reportagem. Tony grunhiu com a cena, esfregando o rosto em irritação. “Parece que a mãozinha que o Homem de Ferro deu ao nosso querido herói em State Island foi uma cooperação entre amigos! Mas o nosso Queens não precisa de ajuda na hora de derrubar Falcão e o Soldado Invernal sozinho.”
— Ai, meu Deus... — É Pepper Potts quem suspira. — Tony, você levou o menino?
Então as câmeras do que parece ser a sala de embarque focam em Sam e Bucky correndo antes que Peter quebrasse uma das janelas de vidro e invadisse o local, derrubando Sam no mesmo minuto e avançando contra Barnes, se defendendo sem muita dificuldade de um soco vindo de Bucky. Rhodes emite um som de agrado, igualmente surpreso na facilidade de Peter em conseguir ser mais forte e rápido que o sargento, em especial sendo do seu braço de vibrânio que estamos falando. A câmera fica para trás enquanto eles seguem para o outro lado do espaço, Wilson voando com Peter em sua cola. Então posso ver Bucky Barnes no canto da tela. “A minha parte favorita? Essa aqui!” Uma placa gigantesca é lançada na direção de Parker e ele a segura com as teias apenas para lançá-la a milímetros da cabeça do Soldado Invernal. “Ah, sim, pessoal o espírito novaiorquino!” É impossível medir a força do golpe ou a força total de Peter, mas ainda assim é impressionante. Me convenço que dificilmente irei lhe olhar da mesma forma agora, certa de que a força bruta e absurda vai assemelhá-lo a Rogers e Barnes nos meus olhos.
— Olha, o moleque até que é bom quando não está tentando matar gente afogada.
Tony e eu lançamos um olhar sério para James Rhodes, que dá de ombros sem ligar muito, focado demais quando Peter e Steve Rogers se cruzam. “E aqui, neste exato momento, quando o nosso Homem-Aranha cai, vocês pensam que é o fim, certo? Mas não! O nosso cara tem o jeitinho malandro de NYC, meus amigos!” Eu me pego surpresa quando Parker consegue derrubar Steve, atingindo suas pernas, o puxando em sua direção com toda força e chutando o Capitão, que atinge uma passarela com um baque antes de cair. Certo, agora eu entendo a sua animação toda no aeroporto. Peter derrubou Steve.
“E então a cena mais incrível de todas, onde todo o nosso time de heróis se reúne para derrubar um herói gigante que parece ter habilidade de diminuir e aumentar de tamanho. Decidimos chamá-lo de Homem-Formiga, mas o que isso importa? Nós estamos aqui pelo o show do Team Stark ao juntarem forças e todos juntos destruírem o vilão!” Então em dois ângulos tem câmeras focadas em Peter, enlaçando as pernas de quem descobri ser chamado Scott Lang e nos comunicando sobre sua ideia para derrubá-lo. O outro foco está em mim e Visão, mas perde a cena em que derrubamos Lang
O rosto radiante e falso do apresentador surge na tela e eu abaixo a cabeça.
“Tony Stark! Onde estão os nossos novos heróis?”
— Contemplando homicídio.

*


— Trouxe cheeseburgers e refrigerante, Tones.
Stark se vira em minha direção assim que invado seu laboratório e lanço a sacola do McDonalds em cima da mesa de centro, ao lado dos modelos 3D de alguma estrutura militar, e o novo objeto faz os hologramas tremularem pela interferência. Sinto um leve borbulhar em meu estômago por ser a minha vez de fazer que o herói recluso coma e não o contrário, suspeita para assumir o quanto aguardei pela inversão de papeis. Ao ouvir a porta blindada atrás de mim se fechar, me adianto para um banquinho qualquer que estava por ali e o arrasto até perto da mesa digitalizadora do tamanho de uma tela plana, clicando algumas vezes nos hologramas até conseguir minimizar o tamanho deles e ter certeza de que Stark não irá ficar de olho neles enquanto come. O herói me encara com a sobrancelha erguida, mas abaixa o tablet onde digitava alguma coisa e me dá a atenção que eu queria.
Pepper havia feito macarronada para todos logo após o incidente das imagens vazadas, mas seu namorado não parecia nem um pouco interessado quando ela o chamou para almoçarmos juntos e se manteve trancado no mesmo laboratório que entrei com facilidade — obviamente ciente do seu constante rodízio de senhas e a frequência de alteração. E agora, após termos passado a tarde assistindo Brooklyn Nine-Nine e ela ter bloqueado meia centena de jornalistas sedentos por informações sobre os novos heróis — pobre e pequeno Peter Parker que tem uma análise para aula de literatura amanhã —, Pepper havia perdido as esperanças de ter Tony de volta. Isso antes que sua forma favorita de lidar com estresse (construir e criar tecnologias) o exaustasse amanhã pela manhã e ele se permitisse ser cuidado.
— Eu sei que você está irritado, mas precisa comer mesmo assim. — Recolho a comida que estava no saquinho de papel marrom e o copo enorme de refrigerante e começo a dispô-la cuidadosamente sobre a mesa, na expectativa que ele possa ver meu interesse e realmente comer um pouco. — Se você estivesse conosco lá em cima, já estaria bem melhor. Só pra ressaltar. — Os lábios de Tony se curvam em um sorrisinho de gratidão quando ele pega outro banquinho e, com a mesma agilidade, ele substituiu o sentimento antigo por uma careta de tédio a qual já estou habituada.
— Pensei que era uma “Girls Night”. Você sabe: fazer tranças, pintar as unhas e passar lama na cara. Eu não quis humilhar vocês, espinhentas, com a minha cútis perfeita. — Seu comentário nem um pouco modesto que tenta mudar de assunto me dá vontade de rir, mas tento me manter o mais séria possível até que ele deixa o StarkPad sobre outra mesa e começa a tirar a embalagem de um dos dois sanduíches, me permitindo relaxar por saber que vai comer. Tony aponta com o queixo para o outro hambúrguer quando tira um pedaço enorme do seu. — Come aí.
Agradecida, eu começo a imitá-lo e tiro uma mordida do que me ofereceu.
— Foi mais uma “Girls Afternoon”, pra ser sincera — explico com a mão sobre a boca ao falar, mesmo que o mais velho esteja enfiando uma quantidade nada elegante de batatinhas na boca antes de tomar um gole do refrigerante. — Depois que você desceu, nós almoçamos com o Rhodey, aí fizemos cookies e comemos assistindo um episódio de Greys Anatomy e o Derek morreu. — Meu sorrisinho na última nota faz Tony balançar a cabeça e rir de minha aversão ao personagem que ele talvez nem conheça, mas finge para me agradar. Stark empurra a embalagem com batatas na minha direção junto com um sachê de ketchup. — Então eu caí no sono e acordei com a Pepper pedindo comida — detalho minha tarde movimentada. — Mas ainda não acredito que você perdeu a máscara de argila, Tony — provoco.
— Acho que nem vou dormir direito hoje depois de perder este ápice que é colocar barro no rosto — Tony alfineta ao tirar um pedaço enorme de seu hambúrguer. — Valeu pela comida, coisinha.
Ficamos por severos minutos em um silêncio confortável, onde apenas os sons de nossas bocas mastigando e o movimentar de Dum-e pelo laboratório se fazem ouvir. Ainda não comentamos sobre a sexta-feira à noite, quando eu escapei do Complexo para ajudar Peter em Long Island, como me esgueirei para meu dormitório depois das cinco da manhã de hoje ou sobre o noticiário do meio-dia que ainda lutava para descobrir a identidade de Peter e a minha. O assunto parece ter morrido no momento em que Tony se afastou e eu não preciso de muito para entender o motivo disso, afinal, Stark conhece as consequências de uma identidade pública e todos ao seu redor também conhecem. Sequestros, tentativas de assassinato e a simples ausência de um verdadeiro momento de descanso são rotina para pessoas como ele e algo de se esperar ao entrar no negócio dos heróis. Tudo isso o tornou um alvo público e é difícil para mim acreditar que isso ainda o convém hoje.
E, para mim, sequer imaginar que alguém descobriria sobre meus poderes e de ondem eles vêm... A ideia faz meu peito apertar de tanta ansiedade, causando o mais massivo estado de pânico que conheço. Pensar que por sorte eu não deslizei e acabei tirando minha máscara durante o confronto em Berlim e como isso me separa da possibilidade de ter minha identidade exposta é capaz de me deixar mais nervosa pela pressão demais de algo que já passou. Não sei se teria a capacidade de sair em público novamente igual Tony faz todos os dias e ir para Midtown High como tenho feito há três meses. Também não sei se não teria uma crise tão forte ao ponto de simplesmente sumir do mapa, com medo de atrair algo ruim para as pessoas com quem convivo. Afinal, já tem uma mala de fuga pronta em meu armário.
Isso me faz admirar a resiliência de Tony ainda mais.
? — O Homem de Ferro coça a garganta e a barba com migalhas de pão, amassando a embalagem e bebendo do refrigerante uma última vez antes de apoiar os cotovelos na mesa. Ergo minha sobrancelha, ainda demorando em terminar meu hambúrguer e lhe lanço um olhar de simpatia como costuma fazer quando sou eu quem quer conversar. — O Barton for transferido para a fazenda no Missouri hoje pela manhã, mas eu vou assumir que você não viu isso no jornal. Ele está em prisão domiciliar pelos próximos oito anos igual ao Lang,
— Eu... Eu posso visitá-lo? — Questiono com um sorriso, largando o meio pão com carne sobre a mesa.
Clint Barton está em casa com sua mulher e filhos. Pisco algumas vezes para conseguir engolir a informação, ainda me lembrando perfeitamente de minha última interação com Clint e como... Como eu estava fora de mim naquele dia, as filmagens do aeroporto não compreendendo a batalha interna que tive de travar durante toda a luta, o atacando como se jamais houvéssemos sentado na mesma mesa para comer e ele jamais houvesse comprado uma barra de chocolate e colocado em minha cama após descobrir que era o meu doce favorito. Eu lutei contra Clint Barton com unhas e dentes, pois estava tão irritada, assustada e perdida que... Nem sequer me recordo de ter lhe ferido ou não, a raiva branca me cegando como uma venda.
Tony suspira devagar antes de negar com a cabeça.
— Não, . — Quero lhe questionar mil vezes por que não posso e o porquê de não querer que eu o veja, mas sinto a sua mão sobre meu joelho e fico um pouco tonta. Clint está seguro em casa, então onde estão os outros agora após fugirem da prisão de Everett Ross? Os olhos amendoados de Tony estão em mim e vagueiam hora ou outra pelo espaço ao nosso redor, logo provando que ele apenas procura por uma desculpa para me parar. A ideia que esteja me impedindo propositalmente de me aproximar de Clint faz meu sangue borbulhar com raiva e um sentimento azedo de traição. — Me desculpe, querida. — Balança a cabeça na falta de argumentos. — Mas não pode ir.
— Tony! — Mesmo não querendo apelar, eu imploro. Talvez Tony não entenda, mas isso significa muito. Eu o amo, a ele e a Pepper com todo o meu coração, mas também amo a Clint e todos os outros ao ponto da distância e ausência serem insuportáveis se comparadas com o que já tivemos. — É o Clint! Por favor! — Toda a mágoa ainda é nítida em minha voz. — O Clint não iria me machucar, Tony!
— Você precisa entender que não é com ele que eu me preocupo!
Empurro a comida para longe de mim, um pouco antes de ele trovejar sobre mim, tentando me fazer entender seu ponto e eu apenas me espanto com o seu tom. Ele parece notar isso quando se aproxima de mim e arrasta o seu banquinho para o meu lado, respirando fundo o suficiente para manter a calma e hesitando antes de segurar minhas mãos de forma terna, as apertando enquanto se curva cansado. Seu toque seguro apazigua minha irritação, mas ainda estou ferida demais por sua tentativa de me afastar dos outros e torná-los os vilões da história como a mídia adora promovê-los.
— Eu sei, , que o Clint jamais iria erguer um dedo para você. Sei muito bem disso. Mas não posso arriscar deixar você ir até lá. Não posso deixar que você se arrisque dessa forma. Não agora. — Algo quente escorre por minha face e já é tarde demais para impedir que as outras lágrimas despercebidas deixem os meus olhos. Eu aperto seus dedos com força, fechando meus olhos para que não perceba que estão lacrimejando de tanta raiva e angústia que a proibição me causa. — Ah, , não chore. — Seu pedido preocupado me faz soltar um suspirar baixinho que nem havia percebido estar segurando e logo as lágrimas começam a cascatear sem resistência alguma. Encosto minha testa em nossas mãos e sinto quando Tony puxa meu banquinho até que eu esteja entre suas pernas e ele possa envolver meu corpo em um abraço carinhoso, mesmo que eu ainda esteja encolhida. Um soluço me escapa e meus ombros tremem quando começo a chorar, agarrando-me desta vez aos seus ombros, pois preciso ter certeza de que não estou sozinha com tudo isso. Saber que Clint está bem e mesmo assim não poder vê-lo depois de tudo que fez por mim apenas faz tudo parecer mais real.
Faz o fim dos Vingadores muito mais verdadeiro do que parecia antes.
— Eu sou o responsável por você. E não posso te mandar para a casa de um criminoso que está em condicional com a polícia à espreita — explica-se devagar e com extremo cuidado, como se falasse com uma criancinha pequena que ainda precisa entender como o mundo funciona. Tony toca em meu cabelo que está macio pelos cremes, o tirando de meu rosto que deve estar suado e vermelho e o colocando atrás de minha orelha antes de beijar o topo de minha cabeça. — Nós temos documentos perfeitos, , mas eu não posso confiar você assim. Não como se fosse qualquer um. É de você que estou falando.
— Ninguém vai me descobrir... Por favor... Eu preciso ver ele, Tony.
— Me desculpe, — Tony me silencia e um choramingo misturado com um fungar me escapa e ele me abraça com ainda mais força, realmente se esforçando para conseguir me negar algo assim. Eu me apego a Stark, fungando e o abraçando de volta finalmente, sentindo minha cabeça doer com o choro e a dor que é por fim aceitar a verdade. Os Vingadores chegaram a um fim. — Não posso arriscar que o louco do Everett Ross ou o Secretário de Segurança saibam sobre você, façam algo e você tenha o mesmo destino do Rogers e da Maximoff em uma prisão. Me desculpe, querida.

*


— Bom dia, MJ — cumprimento ao me sentar ao seu lado para a aula de física da Sra. Fuentes, dando uma rápida olhada na tela de seu computador e me segurando para não suspirar quando leio o título do vídeo que ela assiste “Watch as The Phoenix Beats The Avengers Man’s”. Oh, sim. Fênix. — Até você está vendo isso? Pensei que não gostasse de violência, MJ — atuo bem, mesmo que meu tom seja azedo como resto.
Cogito a ideia de dizer que a nova heroína da América é uma farsa e apenas uma imitação barata da Feiticeira Escarlate e nem um pouco semelhante a uma figura mitológica poderosa, mas fico quieta e guardo esta observação para caso ela peça por minha opinião. Não consigo aguentar a ideia de que meu álter ego esteja tão evidente a todos agora e principalmente os meus poderes. Mas, para ser sincera, eu até mesmo gostei do nome. Por mais que seja um pouco intimidador, a associação me une de alguma forma a Sam Wilson por ser um pássaro e é o suficiente para que eu não interfira. E não que tenha muito o que ser feito depois que #SPIDERMAN e #PHOENIX se tornaram trending topics mundiais nos últimos dois dias. Incluindo #NEWAVENGERS, o que eu já considero muito exagero, mas conseguiu arrancar um sorriso miúdo de Tony Stark quando mencionei.
Tony passou o resto do dia em seu laboratório e eu o fiz companhia enquanto pude após conversarmos. Segundo Pepps, Stark precisava de um tempo para pensar sobre tudo. Não que ninguém mais não precisasse. Rhodes também ficou quieto o dia inteiro, provavelmente tentando engolir as memórias que voltaram a sua cabeça graças àquele fatídico dia, pois por mais que seu processo de recuperação esteja a vento e poupa, é quase impossível que ele recupere total mobilidade, mesmo com o tratamento e o exoesqueleto que Tony e eu estamos programando lado a lado de alguns ortopedistas. Ou que eu estivesse confortável ao ouvir quando chamaram Steve de traidor da pátria e acusaram Natasha de infiel. Ou quando a minha imagem foi exposta daquela maneira. Mas não tenho para que me preocupar, não agora.
— Bom dia, — ela cumprimenta de volta, colocando a franja para trás e dando uma pausa no vídeo. Se a situação fosse outra, eu comentaria pelo flagra do cabelo de Bucky Barnes esvoaçado no ar. MJ dá de ombros para meu questionamento, porém noto como sua aura está laranja com interesse. MJ gosta de... Mim? — Claro que sim, é a nova heroína. Se bem que ela tem um quê de desespero para lutar, pelo visto, mas até mesmo o Tony Stark tinha antigamente. — A comparação quase me arranca um sorriso e é a minha vez de dar de ombros. — Mas, pra ser bem sincera, é legal ver uma mulher lutando assim. Porém a Viúva Negra também faz falta.
Alguns alunos começam a entrar na sala e dentre eles eu reparo em Peter e Ned, mas tento não olhar muito para Parker sendo que esqueci suas roupas no Complexo dos Vingadores. Foi logo depois de eu terminar de fechar seu peito após o embate com Vulture — e chorarmos como criancinhas assustadas, mas com razão para tal — que Peter me entregou as mudas de roupas que havia pegado em seu armário, entre elas uma calça de flanela, camiseta de Einstein e uma toalha. Só assim percebi as manchas de sangue em minha blusa e a calça branca também imunda de terra. Fizemos uma troca e Peter guardou minhas roupas enquanto eu levei após tomar um banho, me trocar e quase dormir em seus braços algumas vezes antes de decidir me teletransportar para casa.
— Sim, ela faz — concordo sem emoção, enquanto os dois se aproximam e Ned acena para mim, animado com tudo o que provavelmente ouvira de Peter sobre o embate na noite do baile e me fazendo sorrir. Peter me cumprimenta com um manear de cabeça, sorrindo um pouco e eu o retribuo antes de virar na direção de MJ novamente quando os meninos se sentam na mesa ao nosso lado. Ela dá play no vídeo de novo, no exato minuto em que Bucky avançou contra mim antes de me reconhecer. Engulo em seco. — Todos eles fazem falta.
Estou no meio de um exercício, quando Parker e Leeds me mandam joínhas.

*


— Ei, você! — Peter chama do meu lado ao sairmos da sala. Parker está com as duas mãos nos bolsos da calça e caminha junto a mim, mas as suas bochechas não estão vermelhas como as minhas depois de levar um tapinha de apoio nas costas vindo de Fuentes quando acertei toda a folha de exercícios. — A May chamou você para ir jantar lá em casa hoje à noite com direito a sorvete. E disse que não aceita um não como resposta.
— Ei, você! — O cumprimento enquanto caminhamos pelo corredor movimentado, MJ indo na frente para conseguir bons lugares para nós na sala de literatura. — Bom, se ela não aceita um não, não sou eu a me negar comida grátis e passeio pelo Queens. Confirme minha presença, Parker. — Peter me dá um empurrãozinho com o ombro, o toque o suficiente para que eu me atente aos seus ferimentos da noite do baile e como seu braço ainda deve estar se recuperando. — Como você está, Peter? — Questiono, me segurando para não o tocar em público tanto por seus machucados quanto pelo montante de alunos ao nosso redor. — Os ferimentos já cicatrizaram? Seu ombro está melhor? — Pergunto em um tom baixo, sabendo que ele pode me ouvir mesmo assim.
Parker concorda com a cabeça, os cachos balançando.
— Sim, já estão todos melhores, . Só o maior que ainda não está nas melhores condições agora, mas melhorou muito, obrigado — ele responde, mas me dá um ar de garantia animador, então imagino que ficará bem em breve. — Fiquei o fim de semana inteiro deitado para que a May não reparasse. Funcionou, já que ela ainda não teve um infarto. — Dou um sorriso torto, nem sequer imaginando qual seria a reação de May Parker ao ver o sobrinho todo machucado ou poder ter me visto no quarto dele horas mais cedo. Mesmo parecendo aceitar minha presença em sua casa, me questiono se não seria demais. — Você viu sobre os novos heróis, os que estão falando que o Tony Stark vai contratar? Não que eu saiba de alguma coisa, é claro... Eu não sei de n-nada, mas... É o que tão falando e...
Concordo com a cabeça rápido, em razão da dificuldade de Peter em mentir.
— Todo mundo está falando deles. O Homem-Aranha já é um assunto bem velhinho, é óbvio... — provoco quando viramos o corredor, cruzando meus braços e podendo ouvir quando Peter zomba baixinho do que eu disse, balançando a cabeça ao me imitar e deixar a voz fininha. Quero lhe dar um tapa e o chamar de insuportável, mas ainda estou preocupada demais com os seus machucados para fazer isso. Irei guardar para depois. — Mas a Fênix? Ah, isso é outra coisa... Ela é incrível, não é? Viu ela lutando com o Falcão e o Gavião Arqueiro ao mesmo tempo?
— Eu... — O moreno pausa para rir de minha atuação, não conseguindo se segurar com a graça que deixo escapar ao me vangloriar, fingindo uma falsa admiração por... Bem, por mim. E é bom o ouvir rir, sem precisar me preocupar em estar em dor ou ser apenas uma forma de me distrair da tensão de o consertar. Sua risada é adorável: tímida, infantil e do tipo que deve vibrar seu peito. — Ok, Black... Eu deixo você falar assim do meu amigo Homem-Aranha, só porque a Fênix é muito legal, tá? — Ergo minhas mãos em rendição. — E, bem, você acha que eles realmente são tão bons assim?
— Não sei, Peter — assumo, pois realmente não sei. O vi lutando nas filmagens e tenho noção do que pode fazer, mas não tenho certeza quanto às minhas habilidades. Não tenho tanto controle de meus poderes ainda, quem sabe se fosse treinada para controlá-los ou tivesse mais chances de usá-los. Ou não. Acho que a ausência de um “controle” apenas demonstra o quão ajuizada sou. Tenho medo de deixar o controle escapar por meus dedos e é como lutar com uma mão nas costas. — Se você pensar bem, o Homem-Aranha, diferente da Fênix, consegue não desmaiar até o fim da luta — suspiro quando passamos por outro corredor vazio.
Ele para de caminhar e eu me viro para o olhar, não entendendo.
— Como assim, ? — Parker se confunde, não parecendo nem um pouco satisfeito com o que eu disse, sendo ele quem volta a se aproximar de mim antes de dar uma olhada no corredor que se esvazia. O seu rosto está menos inchado, mas a bochecha está meio amarelada e a sobrancelha nem parece ter se machucado. — , você tem noção de que é a mais forte dos atuais heróis, certo? — Ele sussurra para mim, mas eu balanço a cabeça com um sorriso. Infelizmente, não sou. Provavelmente seria Visão ou Thor. Devo estar no quinto lugar no máximo. — É claro que é, !
— Peter, eu não me mantive no controle da minha própria cabeça no aeroporto — explico-me em um sussurro como o seu, encostando nos armários ao retirar meu livro de literatura da mochila, não querendo lhe olhar por me sentir envergonhada com a confissão. Falhar e ser fraca ainda me assusta, mesmo que não tenha oficial nazista algum vindo me punir com uma arma de choque e um balde d’água. — A Wanda entrou na minha cabeça e foi a coisa mais horrível pela qual eu tinha passado em um bom tempo. Não estava mais acostumada a aquilo — explico-lhe com um nó na garganta ao voltar a caminhar. — Eu me machuquei e desmaiei porque não tinha mais forças e em Washington foi a mesma coisa — lamento, o olhando enquanto Peter não tem o mesmo olhar lamentável e triste que o meu, pois parece ainda não acreditar no que eu disse.
Peter corre para perto de mim, segurando em meu braço com cuidado.
— E daí? Isso só significa que você precisa praticar! — Ele dá de ombros como se isso fosse a coisa mais simples do mundo e por um segundo eu acho que é, antes de lembrar que meus três treinadores sumiram. Clint, Nat e Visão. Se bem que Visão some pelo menos uma vez a cada dois meses e eu quase não o vejo mais. — , eu sei que não sou de muita ajuda, mas nós podemos montar algumas... Situações? Tem esse prédio que eu fico a noite, ele fica vazio a partir das duas da tarde e eu acho que no teto tem isolamento. — Peter gesticula, começando a sorrir com a ideia. — E nós podemos montar esses protótipos de bombas para que você pratique, e eu tenho certeza de que o Ned ia gostar de ajudar, e treinaríamos a sua telecinese quando necessário. Quanto à luta, eu bem que iria gostar que você me ensinasse algumas coisas, então... Entramos em equilibro. E você está sorrindo então aparentemente gostou da minha ideia.
Ia finalmente estapeá-lo, afinal as suas tentativas de me pôr para cima e ajudar são adoráveis e apenas refletem toda a bondade em Peter, mas meus olhos se erguem para a movimentação no final do corredor e essa vontade desaparece. É como um soco na boca do estômago e, de repente, o meu sorriso some na mesma agilidade que se formou. A figura frágil de Liz Toomes atravessa o vão diante de nós de forma letárgica, olhando ao redor e memorizando a estrutura de Midtown High, completamente fria. Eu chamo seu nome quando vejo quem imagino ser a sua mãe surgir com uma caixa com alguns documentos e outras coisas que deviam estar em seu armário, e ela me olha com os olhos lacrimosos enquanto eu e Parker seguimos em sua direção.
Me surpreendo ao iniciar o contato, a abraçando com força quando me vê.
— Oh, Liz... — lamento ao ouvi-la fungar enquanto retribui o toque.
Me compadeço com a sua partida, entendendo como deve estar desmoronando por tudo e como deve estar confusa, mesmo que nunca tenha estado em sua posição. Ela me segura com força e afaga minhas costas enquanto analiso a sua aparência, que não se assemelha com a da garota sempre bem vestida e portada que era antes de descobrir sobre seu pai, agora sem maquiagem e com o rosto inchado de chorar. Mesmo que isso a faça parecer real, ainda é triste demais ver o quão ferida está pelos erros cometidos por Vulture. Uma parte de mim que é extremamente egoísta e nojenta se sente acomodada com sua saída, mas a dominante lamenta. Liz é uma garota incrível, inteligente, educada e com intensões genuínas. Me machuca imaginar que os crimes de seu pai irão lhe seguir por um tempo. Lanço um olhar solícito para sua mãe, mas ela está distante do momento, então não o percebe. Seu corpo permanece aqui, mas a mente está distante demais e eu preservo sua privacidade.
— Não somos tão próximas, mas me dói ver você passando por uma coisa assim — murmuro baixo, não querendo incomodar sua mãe ou que Peter possa me ouvir tão bem. — Eu sinto muito, Liz. Espero que saiba o quanto fará falta.
— Obrigada, . Santo Deus, obrigada. Você é um anjo — ela sussurra para mim e eu nos afasto, segurando em seus ombros, tendo certeza de que Liz realmente entende que eu não estou falando isso da boca para fora. Então, deixo que meus poderes flutuem em sua direção pelas pontas de meus dedos. Devagar e estável, para que nem ela nem Peter percebam. Lhe envolvo em um estado de calma, contornando cada sentimento de tristeza e só salvando os fundamentais como posso. Consigo ver quando sua expressão relaxa um pouco, a mandíbula destrava e as sobrancelhas se assentam devagar. Liz Toomes é uma menina com sonhos e um coração de ouro. E me irrita ver que, mesmo assim, ela passa por isso. — Você é incrível, foi um prazer conhecer você, tá? — Ela funga quando mais lágrimas voltam a cair e a sua mãe, que despertou, pede licença, indo guardar as coisas no carro quando Liz me abraça de novo. — Você pode...
Cuidar do Peter?
— Claro. — Toomes me olha após dar um passo para trás, surpresa, e eu lhe dou um sorriso, envolvendo suas mãos entre as minhas antes de me afastar definitivamente, percebendo que Peter está atrás de mim e entendendo o quão importante é para ele que se despeçam. Olho para ele, seu rosto em uma expressão que beira arrependimento. Dou um último aperto na mão de Liz, a soltando logo depois. — Fica bem, Liz. E não agride o Parker se ele começar a gaguejar.
Lhe arranco uma risadinha chorosa antes de ir embora.

*


— Senhorita Black, já passou das três da tarde. Eu nem sei quem é fora daqui.
Eu me assusto com as palavras abruptas de meu professor de biologia assim que dou duas batidinhas em sua porta, já estando ali fora e andando de um lado para o outro por uns cinco minutos na frente de sua sala, sem saber como pedir para conversarmos. Mas, mesmo com sua resposta nada educada, eu adentro o laboratório, lhe dando o meu melhor sorriso de “Por Favor, Me Dê Cinco Minutos de Atenção” e ouvindo quando ele solta um suspiro alto e acena para a primeira cadeira da fileira e nem ergue os olhos para mim.
— Boa tarde, Sr. Walsh — cumprimento ao me sentar na mesa que indicou. Arthur Walsh não é um dos professores mais civis ou gentis da escola, mas o que lhe falta de gentileza, sobra de importância e didática. — E-eu queria tirar uma dúvida com o senhor... — Ele abre outro envelope de provas, ainda sem me olhar. Certo, isto já é um pouco rude demais. Ok, , ele não é um Steve Rogers em educação, mas podemos tentar não matar o pobre idoso. — Como eu faço para conseguir ingressar em suas aulas aplicadas? A-ainda neste semestre?
— Uma máquina do tempo, Srta. Black — ironiza sem muita atenção e eu engulo em seco, constrangida até mesmo por ter decidido lhe procurar, minha face em chamas quando decido me pôr de pé ao realizar o erro que cometi em sequer tentar. Ele nota minha reação e para por um segundo. — As provas de admissão para as minhas aulas aplicadas são diferentes da maioria dos professores. A Sra. Fuentes pede um trabalho manual, o Sr. Edwards pede uma lista de soluções, mas eu sou professor de biologia. — Eu concordo com a cabeça ainda de pé, entendendo o seu ponto. Sei aceitar um não. — Não posso pedir que produza um rim em seu quarto e o traga pra aula, ou que encontre uma outra forma de energia limpa e muito menos a cura para o câncer.
— Entendo — respondo. — Mas como funcionam as provas do senhor?
— Setenta questões de biologia avançada. Precisa de sessenta e seis pontos para prosseguir na segunda fase — começa e eu arregalo meus olhos pela surpresa. — Então um projeto de preferência sua. Fisiologia, patologia ou ecologia. Mais chances de aprovações se o projeto for material e eu possa tocar e analisar — explica e eu concordo com a cabeça, já imaginando em como precisarei me esforçar para recuperar o tempo perdido. Continuo a esperar por mais instruções e ele me olha torto, como se me analisasse. — Para que quer entrar na minha turma? — É uma pergunta genuína. — Pensei ser do Decatlo com o Harrington.
— Eu quero trabalhar em uma empresa, por isso decidi que iria conseguir o máximo de cartas de recomendação possíveis — me esclareço, entrelaçando meus dedos embaixo da mesa ao voltar a me sentar. Na verdade, as cartas serão mais como uma surpresa para Tony e um pedido formal de estágio na Stark Industries para poder trabalhar no caso de Rhodes de maneira correta e não por nepotismo. — E onde quero me especializar, preciso ser boa em mecânica, robótica e biologia. Na verdade, anatomia. Então, pensei em vir aqui conversar com o senhor sobre isso. Queria primeiro poder provar que consigo acompanhar aulas e o quão sou inteligente antes de sair pedindo por uma carta de recomendação sem que nem me conheça.
O velho Sr. Walsh sorri ligeiramente impressionado.
— “O quão sou inteligente”. Bem prepotente, não? — Instiga e eu assinto, minha expressão se tornando tímida. Começo a gaguejar algo antes que ele erga a mão e peça silêncio. — Parte de ser inteligente é conhecer o seu valor, Black — negocia de maneira educada, não erguendo a voz e sendo respeitoso, diferente do professor mal-humorado de sempre. Contudo, eu não tenho vergonha de dizer que sou inteligente e reconheço isso por minhas notas que já saíram no sistema da escola e em minhas faculdades mentais em geral, além dos dois testes de QI que Tony e Banner me levaram a fazer. Não sou uma idiota, mas não sei como respondê-lo. — Não queira se envergonhar ou pagar de burra para agradar os outros para conseguir o que quiser mais fácil. E eu conheço você e corrigi sua prova ontem, tanto que sei que se pedir à senhorita para se sentar aí e responder toda a primeira fase da prova, o faria sem pestanejar.
Quero lhe agradecer pelo conselho e o tempo disponível, mas um arrepio me impede logo que uma batida soa na porta.
— Professor Walsh, eu posso roubar a rapidinho?
Peter. Eu posso sentir a sua proximidade e me questiono se ouviu tudo o que eu disse, mas pela sua expressão um pouco amedrontada no vão da porta, creio que não. Imaginei que estivesse na sala do Decatlo com Michelle para a reunião. Apanho minhas coisas do chão e dou um sorriso de boca apertada para o Sr. Walsh, este que está parado em sua mesa, caneta há muito esquecida ao seu lado. Estou no caminho da porta, quando ouço a sua cadeira se afastando e o senhor de uns sessenta e tantos anos passa na minha frente, o seu terno marrom parecendo uma carapuça em suas costas. Ele abre a porta para mim e Peter quase cai com o susto de ver o professor sempre tão carrancudo auxiliando uma aluna.
— Na quarta-feira, Srta. Black, você fará a sua prova — o professor informa. Estou quase sorrindo e sacudindo Peter Parker em animação, mas apenas concordo verbalmente da maneira mais serena e calma que posso e o agradeço. — Se você passar, vamos entrar em um acordo para as aulas que perdeu. Se passar, ouviu bem? — O Sr. Walsh está quase fechando a porta quando diz: — E continue resoluta de suas habilidades, mocinha.
Eu me viro na direção de Peter quando bate a porta em nossa cara, uma expressão incrédula em meu rosto que não se assemelha em nada com a sua de admiração. Ele provavelmente nem esperava me encontrar aqui, não depois que menti para o Sr. Harrington que iria perder a reunião por estar com dor de cabeça, mas nem me importo muito com a mentira. A possibilidade de conseguir todas as minhas cartas de recomendação para mostrar a Tony e provar que mereço meu lugar no laboratório é animadora demais para me preocupar com uma mentirinha para um grupo de adolescentes.
— Você conseguiu que o Walsh te deixasse fazer a prova da aula aplicada dele? Depois do período? — Peter tem um ar de quem quer falar alguma coisa a mais, mas se mantem ainda descrente com meu feito. Eu concordo com a cabeça várias vezes para que o professor não nos escute e Parker solta um sorriso orgulhoso antes de este se fechar quando seu celular apita duas vezes em seu bolso. — , eu prometo que a gente vai tomar sorvete com M&M’s por cima para comemorar, mas temos um problema. Olha. — Me aproximo para olhar para as mensagens na tela.

Parker, encontra a .
Venham os dois ao banheiro.
Só avisando que aqui é o Happy, moleque.


Homecoming IX — Nightmare In Queens

(Três meses desde a queda dos Vingadores).

Tivemos um encontro nada confortável no banheiro masculino de Midtown após as mensagens de Happy. Dois alunos mais novos me viram e um deles travou no espelho por um bom tempo antes de ser escoltado para fora por Happy, quem me prometeu que, se houvesse necessidade de uma outra reunião assim, escolheria um outro local onde minha presença não fosse estranha ou proibida. No fim das contas, Tony precisava falar conosco no Complexo. Tive um pequeno intuito de levar todos para o local com teletransporte, mas preferi nem sequer comentar com Hogan que tinha os adquirido ou ele jamais me traria para a escola novamente e eu perderia os quarenta minutos diários onde aprendia quase todos os palavrões do mundo e como utilizá-los.
A viagem para o norte foi calma e Happy não nos disse o que queriam conosco ou o motivo de agendarem uma reunião tão urgente, então Peter e eu nos permitimos aproveitar a viagem em silêncio no banco de trás. Um silêncio relativo, claro, em especial quando imaginava diversos cenários onde o vazamento dos vídeos no fim de semana seria um problema. Só fui tomar consciência do tremor involuntário em minha perna quando Peter pressionou o indicador em meu joelho, me olhando travesso como se tocasse em um botão para desfazer-se de minha ansiedade. E como Happy já havia avisado que não subiria a divisória para o banco de trás (E adicionado um: “Sem brincadeirinhas, Parker!), não me surpreendo quando uma mensagem surge na tela de meu celular.

De: Peter Parker [15:49]
Aqui o Happy não pode te ouvir.
Para: Peter Parker [15:49]
Estou imaginando se o motivo dessa reunião é sobre os vídeos vazados.

De: Peter Parker [15:50]
Então é com os Acordos que está preocupada?
Para: Peter Parker [15:50]
Sim. Acha que faz sentido?


Ao olhar pela janela, percebo que estamos indo rápido demais, mas, apesar disso, o carro se move com tanta uniformidade e calma que eu nem sinto a velocidade. Somente as árvores passando me fazem reparar.

De: Peter Parker [15:52]
Claro que faz. Mas ainda somos menores de idade. Não há muito que possam nos forçar a fazer para seguir essas regras e revelar a identidade. Talvez tentem nos impedir de agir como heróis por aí, mas eu duvido que o Sr. Stark fizesse algo que acabaria ruim para você.

Pisco algumas vezes ao reler a mensagem reconfortante, apelando para o meu racional, que aceita as afirmações de Peter. Tony jamais tomaria uma decisão que fosse me afetar de forma perigosa e o impedimento que me mantém de visitar Clint é mais uma reafirmação disso, apesar de ser exagero. Quero contar a Peter sobre Clint Barton e como ele não é o monstro que a CNN o transformou por audiência igual fez aos outros Vingadores, mas ainda não tenho total certeza de que Happy não irá se chatear com isso ou até mesmo o que ele acha, então fico calada.
— Você mora aqui? — Eu imito Peter e me curvo um pouco para olhar pela sua janela ao chegarmos no Complexo.
— Sim — confirmo com os dentes apertados ao me esticar para descer do carro, já acostumada com as articulações rangendo após quase uma hora no veículo. — É legal lá dentro, Peter — garanto como imagino que um guia-turístico faria. — Tem muitos laboratórios de empresas que são filiais da Stark Industries, mas isso fica no centro empresarial que é esse aqui. — Eu aponto para a primeira zona que surge atrás dos portões, os cinco andares e dois blocos servindo para os associados de Tony. — O último bloco é disponível para alunos e professores da Columbia e do MIT. Como é uma instalação militar, fica mais seguro para teste de materiais e qualquer coisa considerada perigosa.
Logo após a derrota de Ultron, Tony decidiu utilizar o antigo galpão da Stark Industries pela a sua distância do centro urbano. Ele planejava fazê-lo desde o ataque de Loki em 2012, a magnificência da Stark Tower sendo aproveitada pelo asgardiano e arrastado a guerra para New York, atingindo muitos civis. Foi um choque a todos que Tony e Clint deixassem os time após Sokovia, mas foi um entendimento geral que ser herói em tempo integral não é uma profissão segura, ou mesmo recompensadora. Com sorte, grande parte da staff contratada para o Complexo é feita de ex-agentes da SHIELD de Nick Fury, incluindo Maria Hill e cientistas renomados que encontraram um local perfeito para testar inovações. Alguns estão fora do radar desde Loki, mas a maioria trabalha com ou para Tony. Sem contar com as pesquisas, centro militar e o New Avengers Program.
Apanho minha mochila quando o carro para e seguro na mão estendida de Happy para descer, mesmo tendo percebido como Peter havia se aproximado e quase esticava a sua destra para mim. Mantenho a cabeça baixa enquanto entramos no centro empresarial, evitando os recepcionistas e todos ao redor das mesas e nos sofás. Happy nos pede alguns minutinhos ao ir pegar um crachá para Peter e eu estou removendo o meu da mochila quando percebo que Parker está quase para babar com tudo que ocorre ao seu redor, os enormes olhos castanhos brilhando. Tem um Quinjet decolando na pista a distância.
— Gosta do que vê, Parker? — Brinco e ele automaticamente fecha a boca e a toca com os dedos, suas orelhas ruborizando com embaraço. Eu dou uma cotovelada em seu braço, sorrindo, pois ainda me lembro quando entrei na Stark Tower pela primeira vez como uma pessoa livre e pude olhar a magnificência do local com olhos que não eram mais de uma refugiada. Tony jamais foi o tipo de poupar dinheiro com decoração e monumentos, qualquer outra coisa que possa ser comprada sendo merecedora de esforço, o que Pepper Potts gosta de ver como desperdício de dinheiro, mesmo sabendo que nunca vai fazer falta.
— É incrível, . — Peter maravilha-se ao olhar ao redor da mísera e desimportante recepção, já tendo realizado um sonho ao estar aqui e poder, por um momento rápido, fazer parte disto. Não que não tivesse o feito no instante que Happy nos avisou que Tony precisava da nossa presença e ele ficou extasiado com a ideia de uma redenção de seus erros e poder se desculpar com o seu herói favorito. Mas aqui, no famoso Complexo dos Vingadores, parece ser mais real do que ele pensou ser impossível e a doçura disso me consome. — Tudo. — Ele me olha e eu concordo. — Poderes, tecnologia... É muito assustador, mas é incrível.
— Eu sei. — Encolho meus ombros, sendo bombardeada com memórias da primeira vez que pus meus pés neste exato local, com o braço de Natasha Romanoff em meu ombro e a risada de Wanda quando Sam Wilson comentou sobre estar entrando na USS Enterprise de Star Trek. Sinto todo o meu corpo se aquecer com a lembrança e me pego sorrindo diretamente para ele. — É incrível, mas as pessoas que fizeram isso tudo ser possível são ainda mais... — Então uma pontinha de dor substitui o carinho. Peter está me olhando de novo e parece saber o que quero dizer. Os Vingadores. — Queria poder apresentar você a eles.
Desperto do devaneio tolo ao ouvir a voz de Tony.
— Olha quem está aí... — Eu me viro em sua direção, surpresa por sequer ter cogitado sair de seu laboratório e ainda mais por ter se enfiado em um terno e penteado o cabelo. Faço o favor de lentamente me afastar do rapaz ao meu lado, ainda temerosa com outro castigo restritivo. Dou um aceno para Tony quando se aproxima, lhe garantindo que nossa conversa ontem foi proveitosa. Ele sorri um pouco para mim e toca meu ombro ao se aproximar, afagando meu braço em seguida. — Como foi a viagem? Eles se comportaram? implorou para ir ao McDonalds? — Reviro meus olhos com falsa irritação, percebendo que Happy sorri um pouco para mim ao se lembrar deste dia.
— A viagem foi boa — Happy confirma para Tony.
— Bom saber, mocinha. — Tony abaixa o óculos para cerrar os olhos para mim. — Me dá um minuto com as crianças? — Ergo minha sobrancelha, decididamente não fazendo ideia alguma do que passa na cabeça do herói, mas confortável com a ideia de que Happy também não faz, pois este fica meio em dúvida antes de dizer que vai nos olhar de longe. Tony assente e eu sei que usam uma linguagem muda para se comunicarem, porém não capto nada de Happy antes que Tony cubra meus olhos com a mão e me vire para a frente como uma criancinha. — Fica bem longe, tá? Distância é bom!
Ainda confusa com a situação, deixo que Tony passe o braço por meu ombro e dê um soquinho em Peter, a ação me surpreendendo pela forma como ele segura um sorriso. É uma reação nova e estrangeira, como se houvesse pesquisado no Google como interagir com adolescentes. Não posso discernir se está orgulhoso, feliz ou se segurando para não gritar conosco onde há testemunhas. As opções são infinitas. Ele segura Peter antes de nos incitar a andar ao seu lado para ter certeza de que não vamos fugir. Se bem que a ideia não é tão má quando não tenho a mínima noção do que planeja e a razão de nossa presença ser tão necessária.
— Me desculpa pelo uniforme, garoto. Mas, ah, você mereceu! — Tony Stark pediu desculpas para alguém? Eu coloco a minha mão no peito do mais velho, olhos esbugalhados em busca de sinais de um derrame. É estranho dizer que a ausência de um me surpreende ainda mais e Peter também está incrédulo, os lábios finos entreabertos, pois não parece conseguir formar um pensamento coerente. — E você, monstrinha! — Eu dou uma risada baixa com o apelido carinhoso que me deu desde que chegamos de Washington e faço uma careta quando Stark me abraça de lado com força. — Ah, também me desculpa pelo castigo. Mas os dois mereciam. Foi o suficiente para dar aquele empurrãozinho que estavam precisando para pôr a cabeça no lugar. Dar um sacode, sabem? Acordarem para as responsabilidades e terem noção do que estavam fazendo errado.
— Sim, senhor Stark — Peter concorda e eu o olho. — Mas eu queria...
— Você pisou na bola, garoto — Tony interrompe, dando uma dura em Parker. — Pisou feio e bateu de cara no chão. Não vou mentir, eu tive vontade de te jogar de volta naquela baía, mas foi com uma boa intenção. Um banho de água fria para despertar — o mais velho comenta, apontando para ele de novo. — Pisou na bola feio, Parker, furou a maldita bola. Porém, os dois gêniozinhos deram um jeito. — O tapinha em minha costa é tão leve que mal o sinto, mas Peter quase tropeça. Olho ao redor rapidamente. Pepper? Onde está Pepper? Tony está compreensivo e bonzinho demais conosco. — Levaram no borracheiro, botaram um chiclete...
— Péssima analogia, Tony — comento, recebendo um olhar tedioso. — Péssima.
— Tá, não foi a minha melhor comparação, tudo bem... O que importa é que eu me enganei. Principalmente sobre você, Peter — Tony observou, logo após um longo suspiro. — Não dei atenção o suficiente à sua adaptação com a coisa toda e sei que é, em parte, a minha culpa. E você, ... — Tony aperta meu braço, chamando minha atenção. — Não te dei espaço para crescer fora do Complexo e quem sabe foi por isso que o acidente no elevador poderia ter sido muito pior. Não queria que fossem rápido demais, porque, acreditem, quando se entra nessa de super-herói de cabeça, não tem mais volta. — Dessa vez, eu passo meu braço pelas costas de Tony, me encostando em seu ombro com entendimento já fundamentado em nossa conversa sobre Clint. — Mas com um bom aconselhamento, sei serão uma vantagem para a equipe.
Uma porta de vidro se abre em uma pequena sala.
É uma surpresa, claro. Assim que as imagens da Alemanha surgiram na internet, deduzi que Tony não queria isso para nós. Com nossa conversa de ontem, pensei que ele entendesse muito bem que ainda estou crescendo, mas a ideia de ser uma “vantagem” para Os Vingadores não me exprime tanto glamour como fez durante sua briga com Steve Rogers. Não me sinto obrigada a gostar disto como tanto me forcei no aeroporto, lutando contra aqueles que me criaram em busca de um famoso “bem maior”, esse o qual me peguei nem mesmo acreditando depois de um tempo. Assim, a oferta parece apressada demais. Tony se distancia de nós, subindo os dois degraus que levam a uma pequena salinha, onde posso ver painéis brancos com imagens de protótipos de armaduras brilhando para nós. Eu engulo em seco, apertando meus lábios em expectativa.
Posso ouvir o som de vozes e equipamentos vindo de uma porta logo adiante.
— Tony, nós dois nos Vingadores? Com você? — Questiono ainda surpresa.
— Não era isso o que queriam este tempo todo? — Não respondemos. — Tem uns cinquenta repórteres atrás daquela porta. Dos de verdade, não os blogueiros e twitteiros desocupados. — Toques gentis em seu relógio de pulso liberam dois compartimentos secretos de metal para surgirem ao nosso lado, o símbolo dos Vingadores como tampas de cofres antes dele abrirem e meus lábios se partirem em admiração. — Quando estiverem prontos e de preferência com seus uniformes, eu apresento ao mundo os novos membros dos Vingadores: A Fênix e o Homem-Aranha.
Meus olhos recaem sobre o novo uniforme diante de mim, esse não é nem um pouco semelhante ao usado em Berlim e duvido que seja de mesma formulação. Parece ser formado por nanitos, considerando as sequências que unem a liga de ferro no peito ao kevlar, semelhante à minha máscara antiga. O uniforme é todo recoberto por kevlar azul e detalhes em liga de ouro, contando com uma capa vermelha de aparência cara. As cores tocam mais fundo em mim do que imaginei que iriam, pois lembram do tom da Armadura Resgate de Pepper, só que um pouco mais escura, e o dourado e vermelho de Tony. A padronagem é igual ao uniforme antigo, parecendo ser do tipo que se ajusta a pele. Não me preocupo com baques, afinal, a armadura é mais grossa de onde meus ossos são mais vulneráveis.
Me abaixo para checar os detalhes de perto, pois são muitos. Aparentemente, não é algo que preciso me esforçar para vestir e deve se materializar e ajustar-se, então imagino que posso usá-la em cima de outras roupas. No lugar onde deveria haver luvas, há apenas cobertura em minhas palmas e nos meus dedos. A capa vermelha surge de meus ombros e parece ser pesada, porém duvido muito que Tony não tenha um motivo para ela. Imagino também que o cinto dourado em minha cintura seja relacionado a equilíbrio, mas não deixo de relacioná-lo ao uniforme de Tony. O ar me falta, pois estou realmente impressionada e me questiono se eram nestes toques finais que Tony trabalhou ontem durante todo o dia. Afinal, não poderia ter a preparado em uma manhã e deve ter me enganado com os hologramas de instalações militares.
— Ambos à prova de balas e flexíveis, do jeito que precisam. — Stark indica ainda atrás de nós. — As duas são de nanitos e você vão receber os recipientes assim que eu decidir o design. Não é todo mundo que pode andar com um armazenador de nanopartículas no peito. — Ouço quando toca o objeto em seu esterno. — Parker não vai precisar ficar trocando de roupa em becos e não vai ter que passar vinte minutos colocando o uniforme. — Engulo em seco e assinto. — Já falei que carregam com energia solar enquanto vocês usam?
Eu me ponho de pé, sentindo o peso de minha mochila. Engulo em seco.
— Bom, depois da coletiva, o Happy vai mostrar o seu quarto, Peter. Todo mundo tem um, é o seu alojamento. Ele vai ficar entre quem? — Happy responde algo que não me atento. — O Visão e a ? Vai se enturmar logo, os dois são bem acolhedores. — Sinto uma onda gelada de nervosismo como uma serpente se enroscando em minha garganta e levo a mão para meu pescoço, surpresa pelo suor frio. Minha ansiedade agiu mais rápido que esperava. — , sabe o laboratório do Banner? — Disparo um olhar de interesse forçado para Tony, ignorando meu coração pesado. — Pode catar as suas coisas de lá. Vai ganhar o seu próprio. Conversei com a Cho e ela vai ajudar a montá-lo com tudo o que precisa.
Não me importo com um laboratório quando Peter me olha do outro lado da sala e busca por uma confirmação que não posso lhe oferecer. Ele tenta encontrar segurança na oferta e percebo uma confusão igual à minha em sua expressão. Eu não quero ser como Tony. Não enquanto ainda estou nervosa ao pedir algo a um professor ou quando estou me adaptando a uma vida que jamais deveria ter sido tirada de mim em primeiro lugar. Não quero carregar peso do mundo em meus ombros agora.
Então, por um segundo, nós estamos no corredor de Midtown High novamente; ainda assustados com poderes, ações infantis e irresponsabilidade. Só dois adolescentes apavorados com a maturidade que tanto é cobrada e dos erros que precedem sua falta. Eu olho para Peter com carinho, esperando que não se sinta tão pressionado quanto eu e acabe aceitando a proposta. Respiro bem fundo, engolindo a apreensão que borbulha em meu sangue e me esforçando para entender que talvez, só talvez, eu queira fazer algo por mim e só por mim. Meu sonho era estar na equipe e ser tratada pelos outros como igual, porém há certo tempo, é claro que este não é o meu papel.
— Foi mal, Tony — eu me desculpo com as mãos úmidas apertadas.
— Me desculpe, senhor Stark. E obrigado — Peter agradece ao nos aproximarmos do adulto paralisado, sem crer em nossas palavras e parecendo surpreso demais por decidirmos isso tão rápido e “em conjunto”. Deve imaginar que pensamos rápido demais e ele provavelmente nos dará outra chance e teremos de dizer não outra vez. — Muito obrigado, mas eu estou bem como estou.
— "Está bem como está"? Como assim? — Ele não parece acreditar que estamos negando a oferta e isso parece tão novo para ele quanto a ideia de ser um Vingador parece para nós que tenho vontade de sorrir pela ironia.
— Tony — chamo, tocando no braço do herói mais velho, atraindo sua atenção para mim. Sua expressão preocupada se ameniza quando seus olhos pousam em mim. — Obrigada, mas... Nós temos dezesseis anos. Acho que, para nós dois, entrar na equipe depois dos últimos meses não é o ideal. Não por enquanto — explico-me com calma, pois sei que vai me entender. Ou Pepper pode fazê-lo entender, na pior das hipóteses. — Eu moro aqui e sempre vou estar à disposição para o que precisar, mas assumir esse peso todo agora não é o adequado.
— E eu quero manter os pés no chão por um tempinho, senhor Stark. “Amigo da Vizinhança Homem-Aranha”, como o senhor mesmo me disse... Alguém tem que cuidar do subúrbio, não é? — Peter se explica também, gaguejando um pouco, mas, por fim, conseguindo fazer um ótimo trabalho em rejeitar Tony Stark. — Por enquanto, acho que vou focar na escola, sabe? O mundo ainda pode esperar um pouco... As provas para a faculdade começam no ano que vem e, bem, o Homem-Aranha ainda precisa terminar o colegial.
Tony tira o óculos, sem acreditar em nossas respostas.
— Vocês estão me rejeitando? Me rejeitando? — Exigiu ainda incrédulo, sem jamais imaginar que iriamos contrariar nossos desejos posteriores, no caso de Peter, e eu iria ainda escolher o anonimato depois de tudo. Dei um passo para trás, esbarrando em Peter ao me afastar com um sorriso amarelo. Outra vez me indago onde Pepper estaria. — Os dois adolescentes estão me rejeitando? É sério isso? — Concordo com a cabeça bem devagar. — Pensem direito! Olhem pra armadura. — Tony põe as mãos em nossas cabeças, as virando para os dois manequins incríveis e novinhos em folha. Se meus músculos pudessem salivar, salivariam. — "Oh, que bonitinha!" — Minha armadura brilha na luz e ela parece ainda mais linda daqui. — Agora olhem pro tio. — Vira nossos rostos em sua direção. — Sim ou não?
Balançamos a cabeça ao mesmo tempo.
— Ok. — Ele assente com as sobrancelhas tortas e arqueadas, buscando se recompor da resposta tão rápida e se distraindo em alinhar o terno. — É essa rebeldia de herói adolescente que eu gosto. Muito bem, senhor Parker! — Tony aperta a mão de Peter como se tivesse fechado um negócio com um bom acionista. — E você é uma garota certa do que quer, . Continue assim. — O Homem de Ferro pressiona um beijo em minha testa e tapinhas amigáveis em minhas costas. Eu começo a descer os dois degraus, com Peter ainda nervoso vindo em meu encalço. — Ô, Happy! Leva o Peter para casa, tá?
Eu dou outro sorriso para Stark, dessa vez sendo eu a pedir um favor.
— Hum... A tia do Peter me chamou para jantar, então... Tudo bem se eu for? — Peço sua autorização por formalidade, afinal, Tony está sem presunção alguma para dizer alguma coisa para nós, provavelmente nem se lembrando do castigo em que estou. É errado, mas irei usar a distração ao meu favor. Quando percebo que ele ainda está chocado com nossas respostas e fecha as portas que nos separam de nossas armaduras, volto a subir os degraus, ficando nas pontas dos pés para lhe dar um beijo corajoso na bochecha e um abraço apertado em agradecimento por tentar nos entender. Stark suspira e dá um tapinha em minha mão. “Vai logo, monstrinha.” — Volto antes das nove, Tony! Prometo!
— Senhor Stark? — Estou com um sorriso no rosto quando Hogan nos pede para esperar no carro e volto para a altura normal, me aproximando de Parker ao caminhamos para longe dos dois amigos com sorrisos nervosos e olhos arregalados, mas então Peter para e eu também. — Isso era um teste, não era? Não tem ninguém aí atrás, né? — "Sim, sim, garoto. Vocês passaram! Agora cai fora daqui e, , esteja aqui às nove ou vou te buscar com a Pepper!" Assinto diversas vezes e puxo Peter pelo capuz da jaqueta.
Do lado de fora do prédio, tenho coragem de questionar-lhe a verdade:
— Então, Homem-Aranha... — começo com certa confusão. — Você não ouviu nada dentro daquela sala?
Ele dá de ombros, sorrindo um pouco. O imito ao entrarmos no carro.
— Cinquenta repórteres.

*


“Sou arremessada para traz quando uma intensa luz branca rasga a clareira.
Uma queda rápida e dolorosa me afunda há metros de onde estava antes, me empurrando por camadas de terra úmida que formam uma cova rasa ao meu redor. Meu corpo se torna algo imprestável com o baque — paralisado e com olhos arregalados. Um ardor alcança meus nervos como carvão em brasa, incendiando tudo o que minha existência compreende e queimando minha pele ao ponto dela chiar como uma fogueira craquelando a lenha. Minhas omoplatas, coluna, braços e cabeça parecem prestes a estourar pela pressão absurda da queda. A dor embrulha meu estômago, que se contrai com força, empurrando um sabor azedo de bile para a minha garganta devido ao incômodo agudo e gritante, do tipo que faria minhas pernas espasmarem se pudesse movê-las; um nível de agonia que jamais senti nem quando torturada. Assemelha-se ao que imagino ser metal quente correndo por minhas veias, de forma a queimar meus nervos e me deixar trêmula de tanta dor.
Quando olho para baixo, estou com a pele rachada e brilhando em magma azul que ameaça transbordar pelas rachaduras de minhas veias, uma substância gasosa, quente e desconhecida escorrendo também por meus dedos em uma nuvem cinza para cima, onde o vento a guie. Eu vejo os infinitos campos do Paraíso entre minhas pálpebras, um céu ardente com um brilho que cegaria qualquer humano e a relva paradisíaca que me convida a correr descalça. Reconheço Wakanda e toda sua beleza enquanto o ar se esvai de meus pulmões. Então uma onda de paz substitui o desespero e o calor não parece mais tão nocivo. Vejo nuvens na beirada das árvores como lâminas afiadas e sinto um vazio frio enevoar minha mente mesmo com todas as chamas que correm por mim e me fazem transpirar.
? — É Natasha Romanoff. — Não, !
Claro que é ela, eu reconheceria seu jeito de falar comigo em qualquer lugar. Mas ela não fala como antes, fala como se estivesse com o pânico entalado na garganta e falasse com um animal ferido que tinha sido atropelado. Agonizo pelo ardor em minha garganta quando sinto seus braços por baixo de meu corpo e me engasgo com o sangue que borbulha em minha boca e escorre por meu queixo. Tasha puxa meu corpo mole para seu colo enquanto sinto-me prestes a me partir no meio e gargarejo de novo com o sabor metálico e o ácido de vômito que logo corrói meu paladar.
É nojento e humilhante, muito pior que imaginei que seria meu fim.
, fique aqui! — Ela ordena dura e então grita por ajuda, tão alto que mal reconheço sua voz. Suas mãos estão tremendo, me virando para o lado a fim de impedir o engasgo, porém ambas sabemos que é tarde demais. — Fique! — Natasha manda, respirando desregulada e me empurrando para virar. — , por favor, você precisa segurar!
Posso ouvir a dor e o desespero na voz dela e os gritos que substituem a calma após a explosão, e quero alcançá-la, tocar o rosto sujo dela e os olhos cansados com manchas nas pálpebras. Mas, ao levantar os braços, as chamas azuis do magma se elevam e queimam meus dedos até tornarem-se pó. Minhas mãos viram cinzas e voam ao vento quente. Tasha berra por Steve Rogers com a voz embargada.
Pepper é a minha última memória antes de sumir.


É um pesadelo.
Então eu luto contra as amarras em meus braços e pernas, que fritam minha pele, forçando os meus olhos a se abrirem por uma fração de segundos para sentir um calor intenso que me faz suar. Vejo meu quarto e sua mobília, a porta do closet aberta, a fraca luz do corredor projetando-se no vão da porta no chão e sei que estou conseguindo despertar. Faço um esforço para segurar a realidade, a agarrar e puxar para meu peito para expandi-la antes que o pesadelo continue. Não sei por quanto tempo oscilo nos períodos de lucidez intercalados por febre e pesadelos — nunca o suficiente para me manifestar, falar e gritar por alguém. Quando finalmente escapo e a realidade perdura por tempo suficiente, deixo meu quarto em um estado elevado de tremor e suor exacerbado, chegando à cozinha em segundos longos ao me arrastar escada abaixo. Talvez seja verdade e eu esteja em chamas, afinal, sinto o cheiro de queimado me perseguir até o cômodo novo.
Quando vejo uma sombra se mover na pia, a inclinação à fuga é instintiva.
— Tarde demais. Já te vi — Tony Stark anuncia quando dou a volta.
Não quero nem mesmo abrir meus lábios para responder, pois sei que minha voz está estilhaçada e eu estou tremendo, apavorada que o sentimento perdure e eu exploda em infinitos pedaços no mínimo som que emitir. Meus braços estão ardendo como se fossem mergulhados em óleo quente e sei que meu coração está batendo tão rápido que Pepper vai querer me levar ao médico e conseguir aqueles remédios para que eu possa dormir, os remédios que simplesmente pioram tudo e fazem os pesadelos durarem ainda mais e eu não consigo me forçar a acordar como fiz. Preciso respirar fundo para não chorar e impedir o calor de se espalhar como em meu pesadelo, meu peito se apertando quando o sabor azedo da bile sobe por minha garganta e eu engulo o vômito, pondo a mão sobre minha boca. Não sei como me arrasto até a ilha da cozinha.
— M-me ajuda, Tony — imploro e de imediato minhas pernas começam a falhar e eu quase atinjo o chão polido. — Por favor — minha voz é miúda e ínfima, revelando meu esgotamento.
Tony está comigo no mesmo instante e me guia até uma cadeira na mesa de jantar, lançando meu braço por seu ombro. O movimento ergue o vômito até minha boca, mas engulo a bile outra vez, fechando os olhos com força antes de voltar a abri-los alarmada que os pesadelos voltem e o fogo retorne a correr por mim. Ponho a mão em meu coração quando tomo consciência dos batimentos acelerados, sangue pulsando em meu ouvido como um soco soaria. Como sempre, minhas palmas estão dormentes, então me forço a encará-las apesar do tremor, vigilante para que não se desfaçam igual na selva a qual sonhei. Com a curva de algumas lágrimas, não consigo ver coisa alguma com exatidão; como se usasse uma lente e tudo se torna nebuloso. Eu estava em chamas. Há fogo cedendo embaixo de minha pele enquanto respiro, o nível de ardor e a temperatura alta me fazendo transpirar e prantear de medo.
Um vulto ruivo cruza meu campo de visão comprometido, mas tudo se submerge e eu não consigo me mover mais, como se estivesse entorpecida, então posso sentir as mãos em mim. Posso ouvir Tony pedir que Pepper ligue para alguém e ouvir FRIDAY emitir alertas de emergência enquanto algo gelado começa a escorrer por meu crânio e eu posso ouvir-me respirar mais alto quando meus ouvidos entopem. Tem cabelo grudado em meu rosto e eu quero abaná-lo para fora, mas não consigo, pois receio que seja sangue ou o magma azul do pesadelo. Então panos são pressionados a minha cabeça e mais líquido cai sobre mim. A falsa queda e o choque com o chão são tudo o que consigo pensar. Caio com tanta força que meu cérebro não quer mais funcionar, ao ponto de parecer prestes a explodir pelo excesso de informação. Apenas sei que, o que quer que tenha causado minha possível morte e o desespero de Natasha, é forte demais para meus poderes absorverem como fizeram em Washington.
Alguma coisa, criatura ou força da natureza foi forte o suficiente para me matar com Natasha ali para impedir. Posso sentir o sabor mineral da água em minha boca e entendo que não é sangue e que estão tentando me manter desperta. Tem mãos em meu rosto e eu vejo um pouco da barba de Tony quando minha cabeça pende para o lado; sua boca se move, mas nada alcança meus ouvidos além de estática. Então é com uma colisão bruta de meus neurônios que eu respiro tão fundo ao ponto de tossir atormentada pelos sons altos que Pepper e Tony estão emitindo, chamando meu nome, mãos em minhas costas e em meu peito não me deixando cair quando me engasgo com o ar e um pranto dolorido não resiste, rompendo meus lábios trêmulos.
— Melhor? — É Pepper quem me acalma e meus dedos se fecham ao redor de seu braço. Com cuidado e devagar, Tony me abraça e eu caio no choro em seus braços, todo o meu corpo tremendo enquanto minha mente implora para que fujamos antes que a morte me encontre. — Meu Deus, Tony... — As mãos de Pepper estão em meus cabelos e os tiram do meu rosto com dificuldade por meu aperto em Stark. — , você precisa respirar. Você tem que respirar, meu bem. Vamos contar até quatro, ok?
Aspiro todo ar que posso, ainda evitando me engasgar e encho meus pulmões. Esvazio os órgãos com força, imediatamente ficando sem ar de novo. Então vou e repito. Um, dois, três e quatro. O ar se derrama por meus lábios e eu sinto quando o aperto em meu peito diminui pelo menos um pouco, mas as lágrimas não cessam. Sinto que morrerei de novo se fechar os olhos, então os mantenho abertos quando Tony se ajoelha diante de mim, segurando em meu rosto. Ele repete a contagem comigo e logo Pepper está no chão também, fazendo carinho em minhas costas e dando batidinhas para contar os segundos de minhas pausas. Os dois parecem já ter feito isso antes.
— Está tudo bem, meu anjo — Pepper promete, acariciando minha bochecha. Realmente quero acreditar. — Estamos aqui agora, está tudo bem.
Um, dois, três e quatro.
É preciso alguma relutância para que Potts aceite me deixar apenas para buscar uma toalha, mas os dois adultos parecem trocar um olhar de entendimento que eu não compreendo. Meus poderes foram adormecidos, empurrados para o fundo de minha mente, onde posso puxá-los de volta quando quiser, mas não agora. Não quero saber sobre a preocupação que sentiram no período que parece ter sido uma hora, mas para eles foram três a cinco minutos, seguindo o mesmo timming de meus pesadelos. Flashes que duram segundos e parecem horas, porém muito diferentes deste. Hoje pude sentir cada detalhe da alucinação; dor afiada e exaustão que me faz parecer pesar uma tonelada.
Já estou tremendo de frio quando Pepper ressurge e começa a secar meu cabelo, sendo cuidadosa para não puxar fio algum e murmura algo para Tony sobre incêndio. Estou regularizando a minha respiração e o tremor de medo substitui o frio, as cenas de Natasha desesperada repetindo-se em minha mente várias e várias vezes, até seu desespero tornar-se horror ao progredir. Tony ainda está de joelhos diante de mim, quando forço o pesadelo para longe, ainda impassível e concentrado em contar quatro segundos comigo, tocando no meu joelho para auxiliar a contagem. Com coragem, pego a mão dele e seguro na frieza das minhas. Os calos de Tony são todos originados de seu laboratório, mas, mesmo assim, são ásperos contra minha palma molhada. Vejo o peito dele inchar com a surpresa, então ele pressiona nossas palmas juntas, apertando a minhas mãos e respirando fundo. Eu viro a cabeça para o lado quando Pepper pede, não solto Tony.
— Me desculpem... — o pedido é seguido de um entalar pelo choro que tanto segurei e não consigo controlar as lágrimas após isso.
! — Pepper repreende, parando de me secar, me abraçando por trás com força e apenas ampliando a culpa que sinto. — O que esperava? Nós somos a sua família! Amamos você e não a deixaríamos sofrer desta maneira sozinha, querida. — Ela me beija na têmpora, nem se importando que eu estava suando ou estou molhada. É um beijo puro e verdadeiro. Potts aperta o meu ombro, me fazendo olhá-la. Com a face ainda cansada, ela tem uma habilidade de exprimir um carinho absurdo em seu olhar. — É doloroso ver alguém que você ama sofrendo, querida. Não se sinta culpada por não poder controlar algumas coisas, .

*


Esfrego meus olhos ardidos, deixando a caneta cair ao afundar o rosto em minhas mãos quando bocejo. Me encosto contra os travesseiros e mantenho as pálpebras juntas por pelo menos uns trinta segundos antes de sentir que estou relaxada demais e as abro de volta. Para recuperar energia, estico meus dedos dos pés e das mãos para me espreguiçar e me entretenho ao olhar um pouco ao redor. Faz mais ou menos duas semanas que estive no quarto de Peter pela última vez e não prestei muita atenção em quase nada após a “redecoração”, a forma que May Parker decidiu chamar a faxina que forçou o sobrinho a fazer. E sem Peter sangrando na cama, eu posso observar tudo.
Bandeirinhas do Midtown Otters adornam as paredes, um ventilador sopra um computador superaquecido e livros enormes são afogados por roupas dobradas no carpete. Massageio a área dolorida entre meu ombro e o pescoço, abaixando a cabeça para as anotações a tempo de decidir que o quarto é bem mais interessante. O decatlo se tornou mais intenso e com as provas se aproximando, decidimos que montar um grupo de estudos seria a melhor opção para não ficarmos para trás. Porém, após noites mal dormidas, não consigo me concentrar em nada.
— Não temos chá em pó, — Peter se desculpa ao voltar com uma xícara e uma garrafa de água. Sinto cheiro de bolo de banana e imagino que seja May. — Mas coloquei um daqueles da sachê de hortelã como como gosta. — O esforço é claro, sua camisa cinza com uma mancha de água na barra e o rubor.
Lhe agradeço mesmo assim, admirada por saber que chá eu gosto. A bebida está bastante quente, então a assopro um pouco antes de levá-la aos meus lábios. Volto a cruzar minhas pernas e pego o documento sobre Bauman que Peter havia impresso para que estudássemos, apanhando minha caneta e marca texto para continuar a fazer anotações quando ele se senta ao meu lado na cama.
— Vai me contar o que está acontecendo agora que eu fiz chá para você e tudo? — Ele bebe a água que havia pegado para si, imitando minha posição e cruzando suas pernas ao se sentar do meu lado. Junto as sobrancelhas da maneira mais natural que posso enquanto o chá me aquece a barriga, fingindo não saber do que se trata sua pergunta e querendo que simplesmente mude se assunto. — , eu te conheço há uns três ou quatro meses e sei que tem algo errado. Michelle já tinha comentado comigo e o Ned também — Peter enumera as motivações da pergunta. — Estamos preocupados.
Quero perguntar o que me entregou, mas tenho certeza de que é minha aparência. Pepper havia mencionado os olhos caídos de sono, MJ comentou rapidamente sobre um zumbi de The Walking Dead e Happy carregou minha mochila sem me permitir dizer nada. Não respondi nenhum dos comentários, afinal não há nada que eu possa dizer que não seja óbvio: estou em uma de minhas temporadas ruins. Com pesadelos, ansiedade e uma novíssima dor no corpo. Porém, isso não é problema de meus amigos ou de ninguém. É meu.
— Se soubesse que o chá viria com um preço, não teria aceitado — provoco e ele não liga, ainda me olhando pacientemente, não parecendo convencido. — Só estou meio cansada. O Sr. Walsh está me matando com dever de casa, sabe?
Peter não gasta muito tempo pondo meus livros no chão e guardando as canetas e meu celular na escrivaninha. Em outro momento, eu o repreenderia e mandaria tirar as mãos das minhas coisas, mas não quero brigar com ele, pois meu coração está aquecido demais pelo seu desejo puro de ajudar-me. Bebo o chá, imaginando que, pelo que o conheço, entrar em sua mente não seria exaustivo como é para mim quando preciso fazê-lo com outras pessoas e não encontrarei nada muito indesejado. Peter não deve ter muita maldade ou ódio dentro dele.
— São os seus poderes? — Ele investe ao retornar, preocupado de forma genuína. Eu nego, me concentrando em como as folhinhas de hortelã boiam na xícara. — Você sentiu alguém fazendo algo ruim? — Repito o gesto. — Certo... Hum, a sua loja de chá favorita fechou? — Um sorriso me escapa, eu dou um tapinha sobre o seu jeans e ele sorri. O sorriso doce que dura por muitos segundos até que ele se lembre o que estava fazendo. — É o Flash incomodando você? Está se deixando levar pelo charme dele? — Eu concordo com a hipótese absurda e nós estamos rindo em seguida. — , fala comigo, por favor — Peter pede como uma criança pequena e sendo enrolada pelos pais.
Olho para seus olhos, a luz do quarto banhando os cílios e os tornando quase loiros, pairando sobre suas íris com cor de chocolate quente. Peter não parece querer me magoar, mas sou eu quem o faz por entender o seu ponto de vista e renegar-lhe. Ele apenas quer ajudar e estou complicando tudo por medo de lhe dizer muito. Ainda assim, não consigo contá-lo sobre os pesadelos. Peter não me olhou estranho depois que mostrei uma pequena fresta de meu passado e provou-se paciente e respeitoso. Mas, dessa vez, temo que fique realmente assustado com as atrocidades que sonho. E eu não posso arriscá-lo.
Gosto de estudar em sua casa, com sua tia me chamando de “gatinha”, emprestando livros e conversando sobre eles para deixar Peter perdido. Eu tenho pessoas boas comigo e a maneira que cuidam de mim é muito mais que eu poderia pedir e estes o fazem sem obrigação alguma. MJ não é obrigada a se sentar comigo, Ned não é obrigado a me mostrar os upgrades incríveis que faz em qualquer coisa que toque, Tony e Pepper não são obrigados a dizer que me amam ou Happy é obrigado a mandar mensagens para saber se Peter não “tentou nenhuma gracinha”. Ninguém se importa comigo por obrigação e não quero que pensem ser necessário cuidar de mim quando compreenderem o que tenho passado nos últimos dias.
— Se eu te contar um segredo, vai me contar o seu? — Peter propõe e eu balanço a cabeça em meio a um gole, ainda que a sua cara me faça rir na xícara. Ele também está sorrindo e eu percebo que não há mais como lhe contar sobre os pesadelos. Os sorrisos despreocupados com a minha sanidade são lindos. — Ah, qual é, ? Por favorzinho!
— Peter Parker, o diminutivo de “por favor” não vai me convencer — lhe asseguro com minha melhor cara de Natasha Romanoff que o cansaço permite e sua expressão fica ainda mais engraçada, um bico se formando em seus lábios finos e as sobrancelhas ondulando como uma criancinha pidona. Ok, Peter é adorável. — Eu vou pensar — prometo e vejo um sorriso se abrir no seu rosto por ter me convencido. — Não vou garantir nada, mas vou pensar.
Ele concorda antes de se sentar confortavelmente.
— Certo, hum... Sabe daquela noite, no baile, quando você cuidou de mim? Depois de Coney Island e o Vulture? Quando teve uma das explosões e... — Eu aceno com a cabeça, segurando a xícara em ambas as minhas mãos, sentindo quando o calor se espalha por meus dedos. — Acho que, depois do acidente em Coney Island, o avião e o incêndio, eu possa ter desenvolvido transtorno de estresse pós-traumático...
— Perdão? — O interrompo, tomando nota da seriedade em seu rosto e verdade expressa na confissão. Me sinto uma má por ter lhe forçado a falar isso em uma tentativa de me esquivar dos meus problemas, logo lhe pedindo para não continuar e pondo minha mão em seu joelho. — A gente não precisa falar sobre isso, de verdade, Peter — garanto e removo a mão meio segundo depois após notar a intimidade do ato, a colocando no espaço entre nós. — Você realmente não precisa falar disso comigo, cara.
— Acho que eu preciso... — Peter confirma, com uma risada desconfortável, dando de ombros em seguida. — E se isso for ajudar você a tirar algo do peito, não vejo problemas — ele me garante e seu peito infla quando respira, dobrando os joelhos e apoiando os braços neles. — Lembra quando você chegou tarde na escola e perdeu um experimento da aula de química semana passada?
A memória está fresca em minha mente e eu percebo o que quer dizer. Michelle havia me atualizado sobre a aula durante o intervalo: o Sr. Harrington pediu para queimarem o propano dentro de bolhas de sabão, porém não contou que acenderiam chamas enormes nos béqueres. E eu me lembro bem de como descreveu a palidez momentânea de Peter, como ele teve dificuldade em fazer anotações como se a mão estivesse tremendo e que ele afastou a cadeira com medo do fogo lhe alcançar. MJ contou que Peter prendeu o fôlego até ficar vermelho, passou um tempo esfregando o pescoço com a mão que acendeu o béquer e que todos o olharam estranho. Eu não o vi no dia e imaginei que teve de ir para casa por outro motivo. Imediatamente, sinto um ardor nos olhos e preciso abaixar a cabeça por não ter reconhecido os claros sinais de angústia em Peter naquele momento. Talvez pudesse ter lhe ajudado se estivesse com ele.
— Fogo é o seu gatilho? — Questiono baixinho e ele hesita em assentir.
Infelizmente, entendo como TEPT funciona, li tudo o que pude encontrar sobre isso na internet quando ouvi Natasha comentar que a causa de meus pesadelos tão vívidos que sempre a acordavam no meio da noite eram os traumas que eu sofri quando menor. E sei também que algo assim não tem cura fácil e que Peter apenas poderá se livrar dos traços mais violentos da doença da mesma maneira que eu posso me livrar de meus pesadelos. Remédios e tratamentos que não farão muito. Meus remédios se acumulam debaixo de uma tábua do piso em meu quarto, os muitos vidrinhos amarelos escondidos, pois me recuso a tomá-los.
— Eu sinto muito, Peter. Muito mesmo — murmuro, erguendo a cabeça e buscando seu rosto. Ele está frustrado, as bochechas rosadas, os olhos baixos e lábios marcados de mordê-los enquanto me esperava montar o quebra-cabeças. Mas algo na maneira que sorri para mim sem esforço me diz que ele está aliviado por deixar que alguém saiba de seu problema. Talvez se eu possuísse o mínimo de bondade em mim, perceberia antes que ele precisava falar. Me culpo por ter ficado tão fechada em meu mundinho e não ter me atentado a isso. — Obrigada por confiar em mim. E me perdoa por não perceber que estava passando por isso. — Com toda a confiança que junto, toco em sua mão. Peter não se move, eu acho que seja melhor assim. — E não diga “transtorno”, pois é pejorativo. É uma síndrome.
— Certo, Srta. Black — Peter murmura. — Síndrome realmente soa mais normal. E não é culpa sua não saber. — Não respondo. — Está tudo bem e eu posso lidar com isso, . Sei que fiz o que fiz para conseguir salvar o Sr. Toomes naquela praia. Faria de novo. — Eu balanço a cabeça, como quem diz que jamais deixaria que fizesse algo do tipo novamente e enfatizo isso dando um soco em sua perna. — Ok. Faço isso com os olhos fechados na próxima. Só para garantir.
Bom, agora é a minha vez.
— Na última vez que eu dormi, tive um pesadelo horrível — explico-lhe em um tom normal e ameno, sentindo quando seus dedos se esticam para apertar a colcha de sua cama. Desta vez, não é como fogo e gasolina em minhas veias, mas gelo. — E tive uma crise e não consegui nem mesmo falar por um tempo. O Tony jogou um copo de água em mim para me acordar e a Pepper ficou brigando com ele, mas funcionou. — Sinto uma súbita vontade de rir ao lembrar da gritaria dos dois enquanto Pepper me fazia um chá e reclamava “Água gelada na menina, Tony? E se ela gripar? A Cho está em Seoul!”. — Eu sonhei que estava morrendo nos braços da Romanoff. — Posso ouvir o coração de Peter aqui, as ritmadas batidas servindo para me auxiliar a regular a respiração. — E o apelido que me deram de Fênix e todo esse negócio de ressurgir das cinzas... Nunca soou tão mal antes disso.
Girando a mão, Peter entrelaça nossos dedos sobre a cama.
— E por isso não tem dormido? — Concordo com a cabeça, percebendo somente agora que ele tem calos nos mesmos locais que Tony. O pensamento me dá vontade de sorrir, então o meu lapso dos sonhos de ontem à noite surge na superfície de minha mente e engulo em seco. Desta vez, era Peter quem se desfazia diante de meus olhos e era eu a queimá-lo. — Por quê?
— Meus sonhos conseguem criar cenários ultrarrealistas.
— Tem medo dos seus sonhos? — Peter questiona baixinho.
Lhe dou um sorriso fraco.
— Não precisa sussurrar, eu sei que tenho problemas.
Ele solta a minha mão com cuidado e imediatamente levo a manga de minha camisa para meu rosto, secando as gotas de um suor ansioso que escorre por minha têmpora e me sento direito, tentando entender o que faz. Peter começa a remover as caixas de quadrinhos que estão no andar de cima de sua beliche, as colocando no chão e indo até o guarda-roupa. Ele apanha uma manta azul de aparência macia, o travesseiro onde se apoiava e lança os dois para a parte de cima do beliche, esticando as mãos para mim em seguida. Ainda confusa, deixo que me puxe para ficar de pé.
— São quatro e sete. — Peter aponta para o despertador digital na sua mesa de canto. — Você pode ir dormir ali em cima, que eu vou ficar aqui e te acordo quando Happy chegar. — Qualquer reação que espera de mim não vem, afinal não sei como reagir com tão pura gentileza. Sei que pode não funcionar e eu ficarei com os olhos abertos o tempo todo, porém sua bondade não pode ser retribuída com menos do que merece. Estou sussurrando-lhe um “obrigada” tímido, quando ele puxa uma escadinha para o outro andar e me oferece a mão como ajuda. — Vou ficar tentando não bater com a cabeça na parede por causa de Bauman e também vou espantar os sonhos ruins quando eles vierem te pegar.
Não quero pensar por que gosto tanto de o agradecer com um selar na bochecha.


Continua...



Nota da autora: Olá, leitoras maravilhosas! Como estão? Espero que estejam bem :) O que acharam do capítulo? Da PP e o Peter pulando fora da iniciativa? Como já devo ter mencionado, estou me esforçando para manter a história fiel aos filmes e, obviamente, Peter iria se negar, já a PP, foi uma decisão que tive de tomar depois de pensar um pouco. Acho que fez sentido. E quanto aos sonhos da PP? Vocês têm alguma teoria? *smiles creeply* Estou super animada por entrar nessa nova fase da fic, sério. Vou esperar ansiosamente pelos comentários de vocês! <3



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