Finalizada em: 02/11/2019

1 - Esquecer tudo?

Sometimes I wish that we could all forget
(Às vezes eu desejo que pudéssemos esquecer tudo)


estava sentada ao balcão da balada, enquanto bebia seu drinque e conversava animada com alguns desconhecidos que, assim como ela acompanhavam animados o barman executar várias acrobacias no preparo de outros drinques. Uma das garotas ao seu lado concentrou o olhar em um ponto atrás da garota, indicando para com o olhar que alguém vinha falar com ela. E pela expressão da menina, era um "alguém" muito hot.
Concentrou-se em fazer sua melhor expressão sedutora enquanto as duas desconhecidas ao seu lado, piscaram para ela saindo do balcão para a pista de dança. Sentiu uma mão tocar seu ombro direito, e sorriu travessa antes de se virar.
— Você? – falou surpresa, e sua expressão de sedutora mudou para descontente.
Quais as chances de seu ex estúpido, esbarrar com você em outro estado onde você mora? não estava só desapontada, ela estava enfurecida.
— Eu não acredito que você está na merda da mesma balada que eu. Você não deveria estar sei lá… Em Floripa?
— É um prazer rever você também, .
Rindo da garota, Rafael sentou-se em uma das banquetas ao seu lado. virou-se para o barman e apenas com a mão, fez um número dois indicando um segundo drinque. E assim que o barman sorriu-lhe em resposta, ela transformou o número dois em um “dois, horizontal” indicando que seria um segundo drinque e duplo. Rafael observava as reações da ex, que voltou sua atenção a ele com o olhar que ele conhecia muito bem. “Estou esperando a explicação”, era o que significava aquele olhar.
— Quer dançar?
— Rafael, estou esperando a explicação. – ele sorriu ao ouvi-la. Afinal, ele ainda a conhecia bem.
— Me mudei para cá.
— Quem foi o maldito que te deu a oportunidade de sair de Florianópolis?
— Qual é, … Vamos esquecer tudo?
Esquecer tudo? Eu já esqueci tudo, e isso não significa que eu vá te receber com fogos de artifício ao te rever.
— Deixa de ser rancorosa. Lembra de como éramos bons amigos?
— Nós poderíamos ter nos tornado bons amigos, antes de estragar tudo naquela maldita noite.
— Eu me recordo bem de nós dois, amicíssimos, antes de imaginar nossas bocas grudadas.
— Em que vida? Você nunca foi meu amigo, nem antes e nem depois. Já eu, sim, fiz o que pude para ser sua amiga. Até depois de descobrir o canalha que você é.
— Ei! Eu vim para cá, por sua causa.
— Nem vem, nem vem! Pode parar com esta justificativa para trazer o inferno até mim. Eu não tenho nada a ver com isso.
— Tem sim, porque eu não consigo esquecer você.
Rafael apoiou os lábios ao pé do ouvido de . E a garota encarou-o divertida:
— Ninguém consegue. – e sorriu vitoriosa.
, vamos ser adultos. Eu voltei para me desculpar com você, e tentar do zero. Me dê esta chance?
— Está propondo que apaguemos o passado e fingimos que acabamos de nos conhecer?
— Praticamente isso.
E foi ali que a ideia surgiu na cabeça dela. Aceitaria fingir que nada acontecera, e veria onde as intenções de Rafael iriam.
— Então Rafael, me conte como foi sair de Floripa, finalmente…
Ele sorriu satisfeito por ter conseguido a trégua. E não demorou muito para, após vários drinques, e viras entre os dois para que Rafael demonstrasse sua recaída. gargalhava por notar quão fácil aquilo seria, enquanto escutava Rafael lhe cochichar “só um beijo, que mal nos fará?”, insistentemente.
— Não vou te beijar, cara. Você é tão… Absurdamente cara de pau!
— Certo, eu falhei, mas, fazer o quê se eu viajei de Floripa até aqui pensando no seu beijo?
— Se eu te beijar agora, você se arrependerá muito amanhã.
— Não mais do que se eu não te beijar.
negou com a cabeça, em risos que denunciavam a ele que, não facilitaria as coisas. Rafael, estava realmente ansioso por aquilo e não aceitaria a ex-namorada fazendo charme para ele. Ela sempre fora tão apaixonada por ele, não era possível que não sentisse um pingo de vontade, de nostalgia. Os olhos dela não lhe negavam os desejos, e observou a menina evitando olhá-lo diretamente. Encarou como um sinal de fraqueza.
havia ficado esperta no que dizia respeito ao ex, e sabia que demonstrar insegurança em não olhá-lo o faria cair em seu teatro. E ele caiu. Rafael, sem o consentimento dela investiu um beijo que a garota não negou, e sim, sorriu vingativa. Quão doce era o gosto daquele beijo, e pelo sentimento mais contrastante possível: sadismo.
Ela fingiu-se vencida por ele, e mais uma vez, fingiu-se ingênua quando aceitou ir embora acompanhada do rapaz. Ele ofereceu-se para acompanhá-la até em casa, e ela insistiu até aceitar.
— Vamos, eu faço questão de te acompanhar até em casa.
— Para quê vai gastar duas corridas de táxi? Segue o seu caminho, e eu sigo o meu.
— Não me importo, e depois é uma maneira de passar mais tempo com você. Amanhã você pode acordar me evitando.
— Não tenha dúvidas disso.
Ele já chamara um táxi e abria a porta para ela, que entrou e logo em seguida, Rafael acomodou-se ao seu lado. Por mais que ela estivesse fingindo “não ser preciso”, ela deu o endereço dela para o motorista, e ao perguntar onde ele estava morando, Rafael disse morar num bairro que era caminho para a casa dela. Então, propôs que eles rachassem a corrida. Ele aceitou.
Ao chegar em sua casa, a moça desceu do carro e ao pagar, Rafael foi mais rápido pagando a corrida inteira e dispensando o motorista sem que ela notasse.
— Você é um filho da mãe. Vai embora a pé por acaso?
— Peço outro táxi.
— A esta hora? Não tem vergonha de um golpe tão baixo para ficar aqui?
— Está me convidando? Eu aceito.
— Não, não estou. Você pode ficar no saguão enquanto eu chamo um táxi, ou pode esperar no meu apartamento. Não quero ser chamada a depor por largar um bêbado na rua a esta hora. Sabe que só por ser sua ex, eu seria principal suspeita, não é?
Entraram e a jovem cumprimentou o porteiro.
— Boa noite, Tadeu, se eu não interfonar de volta em dez minutos, pode chamar a polícia – sussurrou apontando para Rafael atrás de si: — É meu ex namorado obsessivo.
— Tão engraçadinha... – Rafael falou sorrindo para o porteiro e disse que a obsessiva era ela.
Eles subiram silenciosos pelo elevador, e quando Rafael investiu em beijá-la de novo, a garota o empurrou saindo pela porta do elevador. Aquele jogo de “pega-pega” seria divertido aos olhos dele. Elogiou o apartamento dela, e agarrou-a sem muito esforço. dissera que seria a última noite na vida, que ficaria com ele. Rafael sorriu entre beijos distribuídos por seu pescoço e antes que a jogasse no sofá da sala, a garota o guiou para seu quarto. Interpretou mais algum charme de “moça arrependida pelo que faria” e o jogou em sua cama. O rapaz se surpreendera e não demorou a retirar as roupas.
Enquanto Rafael investia as estocadas na garota, os olhos de reviravam-se de tédio, e ela estava extremamente feliz por perceber que não sentia mais nada por ele, nem mesmo tesão. Depois de suarem bastante, depois da garota morder todos os lugares que teve vontade no corpo do ex, e depois de deixá-lo surpreso por coisas que nunca antes havia feito com ele, ela virou-se para o lado para dormir. Rafael tentou abraçá-la, mas ela afastou os braços dele de sua cintura.
— Me solta, está calor.
— Você já foi mais carinhosa. – sussurrou no ouvido dela.
— Não tem romance aqui, acorda. E por falar em acordar, dorme logo que você vai embora bem cedo.
— Que grosseria, ! Nem vai me convidar para o café? – sentou-se na cama fazendo a garota o olhar.
— Eu não moro sozinha, não quero que meu companheiro esbarre com você saindo do meu quarto.
— Você ainda mora com o Pedro?
— Meu irmão? – ela riu maldosa — Não. Divido o apartamento com meu ficante.
— Seu… Ficante?
— Sim, e ele deve estar no quarto dele descansando para a prova de amanhã. Então fique quieto e durma.
Rafael estava muito contrariado. Desde quando se tornara aquela fingida que ficava com vários caras? Onde estava a garota ingênua e fogosa que ele havia conhecido?


2 - Atrair

Your figure fades into a silhouette
(A sua figura desbota em uma silhueta)


Amanhecera e acordara com os primeiros raios de sol adentrando seu quarto. Levantou-se sem dificuldade – apesar do abraço de Rafael – e sem importar-se em acordá-lo ou não. Escovou os dentes e pegou o celular confirmando as horas no visor. Algum tempo depois, retornara ao quarto enrolada em uma toalha, com os cabelos molhados sacudindo-os com uma toalha menor. Rafael ainda dormia tranquilo, a garota parou frente a ele e o sacudiu.
— Acorda Rafael, você tem que ir embora.
O rapaz murmurou, mas após mais algumas tentativas de , ele acordara.
— Que pressa para se ver livre de mim… Ontem não estava assim.
— Bem vulgar seu comentário, assim como você – pegou as roupas do rapaz e jogou sobre ele
— Se veste logo, o táxi já está te esperando lá embaixo.
— Por que eu não posso tomar nem um café?
— Porque eu não estou sozinha, já falei.
— Qual o nome dele?
— Victor.
— Hunf…
— Sem reclamações e sem barulho. Tchau. E bom dia.
Ela havia se enrolado num roupão e puxava Rafael para fora de seu apartamento. O rapaz estava puto pela forma como ela o tratava. Já na porta da sala, ele terminava de vestir sua camisa, quando ela estendeu ao tórax dele a carteira e o celular.
— Porra, espera!
— Fala baixo! – sussurrou repreendendo-o.
— Mal educada. Eu vou te ligar, me passa seu número.
— Não. Rafael… Deu, acabou, a gente nem se conhece, ok?
maluca, garota?! Vai sair me dispensando assim por qual motivo?
— Seja bem-vindo a São Paulo, seja feliz e me esqueça. Beijo, obrigada.
Fechou a porta e recostou-se a ela rindo em seguida. Retornou ao seu quarto, tirou o roupão e vestiu uma camisa masculina que estava guardada em seu armário. Deixada ali, pelo dono.
Saiu de seu quarto com os cabelos penteados, mas propositalmente desarrumados, a camisa e chinelos. Encontrou seu irmão, Pedro, saindo do banheiro.
— Bom dia! – disse animada.
— Bom dia… Você trouxe alguém ontem à noite, né?
— Sim… E como foi a sua festa?
— Boa. E quem era o cara?
— Pedro, você não acreditaria se eu dissesse.
— Uow, pode falando quem foi!
— Não vai demorar para você descobrir.
— Ele já foi embora?
— Óbvio. Afinal, meu ficante que divide a casa comigo não poderia acordar e dar de cara com ele.
— Seu o quê?
— Isso mesmo que você ouviu.
— Por que inventou isso?
— Você já, já vai saber. Até porque eu não dou três minutos para os dois se esbarrarem no corredor.
— Que dois?
Pedro perguntava confuso jogado ao sofá, enquanto sorria preparando o café e olhando o relógio.
— O cara que dormiu comigo, e Victor, o ficante que mora comigo.
— Victor?
Antes que Pedro continuasse suas confusas indagações, esticou a mão para que ele se calasse, e apontou-lhe com a outra mão livre uma contagem de um a três. E então a campainha tocou. Ela sorriu ameaçadora, e o irmão a olhava assustado. Levantou-se do sofá a fim de ver a movimentação à porta.
abriu e fingiu surpresa ao ver Rafael parado ali. Surpreso mesmo, estava Pedro.
— Rafael… Esqueceu alguma coisa?
Não deu tempo de Rafael responder, Victor chegara com um saco de pães quentes e um molho de chaves em mãos. Passou por Rafael o encarando curioso, enquanto Rafael o encarava surpreso. Victor o olhou de cima a baixo, esnobe. Parou ao lado de e com a mão que segurava a chave enlaçou-a pela cintura. A garota depositou um selinho íntimo aos lábios de Victor, que encarava o visitante.
— Vi! Acordou cedo?
— Não viu que o Pedro chegou de viagem? Acordei com ele chegando e saí cedo para buscar pão. – disse estendendo a sacola às vistas da moça.
— Vi sim, encontrei ele dormindo no seu quarto e não entendi nada.
— Ele tinha me avisado que chegaria, eu havia esquecido de falar. Estava cheio com a prova, que no final foi cancelada… E o seu…? – perguntava encarando o rapaz.
— Ah! Este é o Rafael, fomos colegas na faculdade. E ex-namorados.
sorria maldosa para Rafael, que a encarava ainda mais irritado do que quando saiu dali.
— Mas também é uma surpresa encontrá-lo aqui tão cedo. Nos reencontramos ontem na balada e ele foi gentil em me acompanhar até em casa. Mas… Onde você dormiu Rafael? Acaso está morando aqui perto?
O garoto estava embabacado com o cinismo da ex. E não conseguia formular direito uma frase.
— Sim, somos vizinhos. Resolvi passar para saber se estava bem…
Victor o encarou desafiador, e depositando um beijo no topo da cabeça de entrou na casa. Encontrou um Pedro de boca aberta assistindo à cena do sofá.
— Ah, que gentil. Bem, estou ótima.
— Eu… Já vou.
— Não quer tomar café conosco?
Encarou , com raiva nos olhos enquanto ela sorria zombeteira. Virou-se e saiu sem dizer mais nada. fechara a porta e começou a rir. Victor que estava sentado à bancada da cozinha americana, apoiava a cabeça sobre os braços, sonolento no balcão. Pedro olhou para o garoto desconhecido e nada entendia.
Pedro havia se mudado há alguns poucos meses, e não sabia de todas as loucuras de sua irmã ainda, mas Rafael era uma figurinha carimbada na memória de Pedro. Ele consolara noites e noites pelas idiotices que Rafael aprontava, e se tinha alguém que o garoto detestava no mundo era o ex da irmã. E mal podia acreditar que ela havia dormido com Rafael de novo, após tanto tempo.
Ela dirigiu-se até o balcão e deu tapinhas nas costas do amigo.
— Victor, acorde!
— Me deixe. Não fui eu quem ligou para você às seis da manhã de um sábado pedindo para você ficar plantada de vigia na porta do prédio.
— Mas se tivesse sido, eu teria feito.
— É, assim como eu, né?
Os dois sorriam entre si, até que Victor apontou com o olhar, o irmão da garota ainda boquiaberto no sofá tentando entender a situação.
— Vou explicar melhor para os dois, que não entenderam direito a situação: ontem meu ex reapareceu atrás de mim, e depois de pensar um pouco decidi ser uma boa oportunidade de me divertir às custas dele. Não acredito nada nele, Pedro, fique tranquilo. Então hoje de manhã, antes que Rafael acordasse eu liguei para o Victor, pedindo-o para vigiar quando Rafael voltasse, porque eu sabia que ele faria isso, e então quando ele entrasse, o Victor buscaria o pão da manhã para justificar sua chegada repentina e o flagrante do meu ex em minha porta. E de quebra, Victor é tão maquiavelicamente inteligente que ainda deu um jeito de explicar a presença do meu irmão aqui.
— Você não acha arriscada, , esta sua vingança adolescente e imatura virar contra você?
— Pedro, eu não sinto mais nada por ele. Comprovadíssimo ontem.
— Ah propósito, eu me chamo , e não Victor.
O garoto falou se apresentando ao Pedro enquanto bebia seu café, a fim de despertar do sono. gargalhou da cara ainda mais confusa do irmão, enquanto sorria divertido com as loucuras da amiga e colocava os pães e demais alimentos na mesa de café, em frente ao Pedro.
— Certo, maninha, vocês podem começar a explicar de onde surgiram?
— Este é o , ele veio morar no Brasil há uns… Quantos anos mesmo, ?
— Prazer em conhecê-lo, Pedro! – o garoto esticou a mão em cumprimento e após o irmão da amiga lhe sorrir ele continuou: — Eu sou coreano, e decidi vir para o Brasil quatro anos atrás. Eu estudava cinema, e e eu nos conhecemos no bairro Liberdade, aqui em São Paulo mesmo.
— Eu estava numa fase de “descobertas da Ásia”…
— É eu lembro desta fase, você me mandando foto de coreano todo dia.
Crushes por asiáticos, ? – perguntou zombeteiro e a garota apenas revirou os olhos para ele e deu um tapa fraco no irmão.
— Foi logo que eu me mudei para cá, sair de Floripa e conhecer gente nova era o meu objetivo. E eu não lembro bem, mas uma galera da faculdade começou a assistir uns vídeos de coreografias de bandas k-pop e aí eu desembestei para aquele mundo. A galera combinava uns passeios na Liberdade, e em um destes eu esbarrei com esta peça aí.
fez uma cara de desdém ao se referir a , mas o garoto apenas ria enquanto mastigava seu pão.
— Ela foi comprar uma camiseta do BTS, – o garoto começou a rir debochado — E estava com um bando de groupies. Eu assisti aquilo um pouco apavorado, porque é de se espantar garotas surtarem por alguém que nem sabe que elas existem.
— Cala a boquinha... – cantarolou a menina segurando os lábios do amigo e sentando-se à mesa de café, finalmente.
— Fica quieta , deixa ele contar.
— Como eu dizia, eu vi aquelas malucas e saí logo dali porque eu sabia que com estes olhos puxados eu corria risco de ser perseguido. Mas, adivinha Pedro?
— A te perseguiu? – o irmão perguntou surpreso.
— Não, mas as groupies que estavam com ela começaram a me seguir. E aí eu saí entrando em várias lojas e me perdi de onde estava, para onde iria e entrei numa rua mais agitada. Esbarrei na sua irmã no meio das pessoas, e ia fugir dela quando ela segurou meu punho e disse para eu ficar quieto que ela iria me ajudar.

— Desculpe, pelas meninas. É que nós estamos um pouco aficionadas pelo mundo do k-pop e certamente, ficou provado que eu preciso parar de andar com estas gurias.
— É… Sempre tem umas fanáticas por asiáticos aqui…
— Quer dizer que, já aconteceu com você antes?
— Não assim.
— Ah… Bem, muito prazer! Meu nome é .
— Prazer, eu sou o .

— E daí vocês se tornaram amigos ao ponto da minha irmã fingir que pega você?
— Na verdade, essa loucura também me pegou de surpresa.
— Ai, desculpa , eu não consegui pensar em mais ninguém ontem na cama.
O garoto arqueou a sobrancelha e sorriu travesso, enquanto Pedro ria descaradamente da irmã.
— Não sejam babacas, eu quis dizer que não consegui pensar em ninguém ontem para enganar o Rafael.
— Está se enrolando... – cantarolou .
Depois de explicar ao irmão que, a partir daquele dia no bairro Liberdade, ela e se tornaram mais amigos, pois, trocaram mensagens, saíram outras vezes e descobriram que estudavam e moravam próximos um do outro, se levantou da mesa para retirar seu prato e foi aí que reparou na camiseta dela.
— EI, esta blusa é minha!
— É, você esqueceu aqui, e veio bem a calhar viu? As roupas do Pedro são muito curtas. A sua blusa caiu como uma camisola.
— É... – encarou o corpo da garota e disfarçando os pensamentos que vieram à sua mente, disse: — Ficou muito bem em você.
Pedro observou o olhar do rapaz sobre a irmã e soltou um risinho de quem sabia muito bem onde daria aquela brincadeira. Eles observaram a garota entrar à lavanderia de seu apartamento e voltar com uma calcinha sua em mãos, e por trás do balcão da cozinha ela a vestiu.
— Você estava sem calcinha até agora? – perguntou Pedro incrédulo por ter se esquecido o quanto a irmã era nada convencional.
— Ai, nessa correria de enganar o Rafael, eu esqueci.
Ela gargalhou e continuava encarando-a com uma expressão indecifrável. Pedro notou – em sua percepção masculina – que, talvez e só talvez, sentisse algo a mais além da amizade pela irmã.
— Você gosta dela?
— Não como você está querendo insinuar com esta cara de sacana.
— Tudo bem, eu não vou ameaçar a sua integridade.
— Eu estou falando a verdade.
afirmou indiferente, mas Pedro não se convenceu. Observaria bastante os dois amigos enquanto estivesse ali. E ao pensar em sua estadia no apartamento da irmã, que Pedro atentou-se a um fato que até então, havia passado batido por : como enganaria o Rafael sobre “Victor” morar ali se ele chegasse lá de surpresa e nunca o encontrasse?
Levantou aquela questão e a irmã acreditava piamente que o ex não voltaria.
— Você não faria o que fez se não fosse para ele voltar, .
— Não , nada a ver. Eu dei uma lição nele. Acabou.
— Eu posso apostar que não irmãzinha, afinal, é do Rafael que estamos falando.
— Puta merda, será que me meti numa roubada?
— Você? Eu, né? Por que quem vai ter que acampar na sua portaria agora, sou eu!
E aos protestos entediados de , se deu conta: como faria para sustentar a mentira de que “Victor” morava com ela, se Rafael seguisse em seu pé? Pedro, rindo tranquilo os deu a solução óbvia:
— Acampar não, mas literalmente vir morar aqui .
Os amigos se entreolharam confusos e antes que dissesse qualquer outra coisa, o interrompeu:
— Tá esperando o quê, ? Vai pra sua casa fazer suas malas.


3 - Teatro: Primeiro Ato

estava em casa, com seus livros abertos sobre a mesa. Apesar de ser sábado, ela gostava de aproveitar algum horário para estudar também. Pedro passou por ela, bem-vestido e cheiroso. Beijou-lhe a testa, e disse que se precisasse era só telefonar. Ao perguntar onde ele iria, e com quem, o rapaz ignorou. A garota sorriu travessa, pois, sabia que aquilo tinha a ver com algum casinho do irmão.
O interfone tocou e Tadeu informou: “Senhorita, aquele seu amigo japonês está aqui”. E ela riu ao ouvir, meio abafado, corrigir o porteiro, como sempre: “Eu sou coreano”. Assentiu que o deixasse subir, e deixou a porta do apartamento aberta. surgiu com duas malas, e uma mochila.
— Você levou a sério, isso de mudar para cá? - ela perguntou rindo.
— Não pense que eu estou feliz em sair do meu conforto.
Ele largou as malas em um canto e puxou pela mão. Ela reclamou com ele, que fechou a porta sem trancar e a empurrou para dentro do elevador.
— Para onde está me levando?
— Para me ajudar com as caixas.
— Caixas? Você realmente está se mudando para o meu apartamento?
— São apenas alguns itens pessoais.
Eles chegaram ao térreo e a garota viu as quatro caixas de . O olhou assustada e ao cruzar os braços perguntou:
— Sua sobrevivência, sem estes itens é impossível?
, não reclama. Você me meteu nisso!
— É algum tipo de punição?
— Não garota. Seja inteligente... – ele colocou uma das caixas nos braços dela, a fazendo segurá-la e, empilhando as outras três caixas ele as pegou e continuou falando enquanto caminhavam para o elevador: — Se o Victor mora com você, nada mais natural que ter coisas dele na casa também, não?
— Oras, o Victor podia ser uma pessoa discreta.
— Quanto tempo você namorou aquele cara?
— Alguns anos, não muito.
— Suponho que o suficiente para ele saber os seus gostos, e o quanto o seu apartamento é a sua cara.
ficou pensativa e ao abrir o elevador, saiu na frente com todo o peso. E ela o seguiu. Sorriu o observando pelas costas, e pode ver o quanto ficava interessante carregando peso. Ela nunca o havia reparado daquela forma. E então antes de fechar a porta atrás de si, com o pé, brincou:
— Estou gostando de ver como você abraçou a minha causa.
Ele a sorriu em resposta, deixando as caixas ao chão. Caminhou até ela, e tirou a caixa da mão dela, a depositando sobre o sofá.
— O que tem nelas? – perguntou abrindo-as, curiosa.
— Alguns itens das minhas coleções de canecas, livros e CDs. Quadros, fotografias e outros enfeites.
— Céus, o Rafael vai rir quando descobrir que eu namoro um nerd!
— Namoro? Ei! O acordo não foi esse!
— Namorado, ficante… Tanto faz. É tudo fingimento, mesmo!
— Tanto faz nada! Ser seu namorado dá muito mais trabalho!
o olhou ofendida e bateu no braço de , que só notou o motivo daquilo ao parar para refletir o que havia dito. Tirou a furadeira da caixa sobre o sofá, aos risos.
— O que pensa que vai fazer?
— Pendurar os quadros.
— Ei! Espera! Não é assim: pega a furadeira e vai furando a casa não!
Ele continuou segurando a ferramenta a olhando entediado.
— Vamos tirar tudo das caixas e ver se há lugar para colocar as suas coisas.
— Tem horas que eu te odeio, . Vale lembrar que estou fazendo tudo isso por culpa sua, ok?
— Não coloquei uma arma na sua cabeça, .
— Certo, como queira madame.
Eles retiraram tudo das caixas e juntos foram “remobiliando” o apartamento de . O pallet reformado artesanalmente por , e que servia de porta caneca, fora pendurado na cozinha. Sob os avisos contundentes dele para : “Muito cuidado, quando for pegar qualquer uma destas canecas, ouviu Estaba?”.
Depois eles colocaram na parede que dividia sala e cozinha americana, alguns dos quadros de . Eram quadros orientais, discretos, mas que definiam muito bem as tradições dele. sorriu ao ver o quão bem ficaram emoldurados na parede.
Os CD’s foram empilhados no aparador da televisão, junto com alguns DVD’s de Pedro. Na estante de livros, ao cantinho da sala, estavam as coleções de , e agora alguns de . Pedro não utilizava aquela estante, pois, havia a própria em seu quarto.
Então sobraram alguns itens de enfeite, e retratos de que os dois não sabiam onde colocar. pegou um porta-retratos com a foto da família dele e admirou a fotografia. A família de era muito bonita, e ele muito parecido com o pai. Ela colocou a fotografia, ao lado do porta-retratos dela e Pedro em família. sorriu ao ver as fotos lado a lado, com uma sensação estranha de que havia ficado muito bem aquelas famílias uma com a outra. Sacudiu a cabeça, como se devaneasse.
— Bem, e o meu quarto?
— O que? Não tem quarto, .
— Eu vou dormir na sala?
— Eu não pensei nisso, mas, vamos dar um jeito. Por enquanto, acho que sim.
— Tudo bem.
— É provisório. Prometo. Até porque, eu disse ao Rafael que o seu quarto era no quarto do Pedro. Então, vamos esperar meu irmão chegar para ver se podemos colocar suas coisas lá.
— Não, . Beleza, o que sobrou de coisas eu levo de volta ao apartamento. E quanto as roupas eu posso trazer uma cômoda e a gente coloca em qualquer cantinho… Ali ó! - apontou para o aparador de corredor que ficava abaixo do espelho.
— De jeito nenhum! Vai ficar ridículo, um desleixo só, uma cômoda no meio do caminho! - ele revirou os olhos e fez careta para a amiga — Suas roupas ficam no meu closet. Tenho espaço.
— É uma surpresa, eu pensava que você era do tipo que ocupa todo armário da casa.
— Ei, eu não sou uma compulsiva por moda, tá.
Riram e levaram as malas para o quarto dela. Assim que entrou, se recordou de uma prateleira pouco usada acima de sua escrivaninha moderna, e ali colocou as outras “bobagens” de . “É, meu quarto agora tem dedo de um nerd”, ela falou recebendo um empurrão em desaprovação. Separou uma parte de seu guarda-roupas e , colocava suas peças ali e deitada em sua cama, refletia sobre como faria para acomodar melhor o amigo. E o pior, é que não havia ideia de quanto tempo aquele teatro duraria.
— Cadê o Pedro? – perguntou afastando-a dos pensamentos.
— Saiu sem dizer para onde e com quem.
… Essa maluquice toda, não vai incomodar seu irmão?
— Não. Na verdade, eu nem perguntei nada! - ela gargalhou.
— Sério cara, ele se mudou há pouco tempo, mas, agora mora com você. Você deveria perguntar a ele.
— É eu sei, vou conversar com ele. Mas, fica tranquilo , o Pedro é super de boa. E ele gostou de você.
— Ele disse isso, ou é uma tentativa de me fazer parar de impedir o seu plano?
— Você está tentando me impedir?- ela arqueou uma sobrancelha.
— Talvez.
— É tão ruim assim, fingir que é meu crush?
— Não é por isso, mas, por você mentir para um cara que não deveria se importar.
… Eu realmente achei que depois de ontem, tinha acabado, mas, Pedro estava certo. O Rafael disse que veio para cá por minha causa. Não que eu acredite, mas, significa que ele pode se tornar um problema perseguidor.
— Pois é, . Eu acho que você deveria acabar com isso, antes que essa maluquice comece e você se enrole.
— Eu vou acabar. É só o Rafael se tocar que eu tô em outra.
— Fingiu ficar com o Victor e dormiu com outro cara. Que raios de “estar em outra” é esse?
— Fiz tudo errado. E por isso preciso da sua ajuda!
uniu as mãos em súplica e ajoelhou sobre a cama, riu da cena e a respondeu:
— Relaxa, eu já trouxe minhas coisas não foi?
Quando Pedro chegou em casa, as luzes estavam apagadas. Ele acendeu o abajour da sala e notou os quadros orientais na parede. Eles não estavam ali antes. Caminhou até a cozinha e abriu a geladeira pegando um copo de suco. E viu que na pia haviam pares de pratos, talheres e copos. estava lá?
Ele deixou o copo na pia, e ao caminhar em direção ao seu quarto percebeu uma mão no meio do caminho. Sua irmã estava estatelada ao chão, dormindo no tapete, mas, parecia mesmo é que havia sido jogada ali. , estava deitado, contido e comportado como a irmã dele nunca foi, no sofá da sala. A televisão no modo de “suspensão automática”.
Pedro riu da cena, negando com a cabeça. Pulou sobre o corpo de , e desligou a televisão. Cutucou o pé dela, e nada dela acordar. Abaixou-se, e fez a única coisa eficaz para acordar a irmã, quando ela adormecia naquele estado de mórbido cansaço: como em suas infâncias, Pedro enfiou dois dedos no nariz de . E a garota acordou mal-humorada.
— Vai para a cama, .
Ela concordou esfregando os olhos e percebendo que adormeceu sem notar. Não só ela, como . Os dois estavam assistindo a “The 100”, e conversavam – coisas que ela já nem lembrava – e não perceberam-se adormecer.
Pedro saiu da sala, deixando a irmã a sós com . levantou-se, cambaleante. Foi beber água, apertou o pescoço dolorido pela posição incômoda que dormira. Voltou à sala e observou que não havia entregue ao amigo, nenhuma roupa de cama.
Caminhou até seu quarto, escovou os dentes, e depois pegou um jogo de cama voltando à sala. Puxou as pernas de , estendendo-as com certa dificuldade – o garoto era mais alto que ela, e mais pesado – esticadas ao sofá, tentou posicionar melhor a cabeça do amigo sobre a almofada. Mas, embora aos olhos dela estivesse sendo o máximo delicada que podia, não era muito delicada. Tinha uma mão pesada, e notara aquilo.
Ela observou o amigo continuar dormindo, como se torcesse por não tê-lo acordado, e o cobriu com o edredom. Beijou a testa dele, e ao virar-se escutou-o dizer: “Obrigado . Ela o olhou, e lá estava , com um sorrisinho sacana no rosto.
— Estava acordado?
— Eu tenho sonho leve, e você é como um hipopótamo andando na ponta dos pés.
— Idiota.
deu as costas deixando , rir sozinho. Ele se levantou e puxou o sofá retrátil, abrindo-o mais, mas ainda era desconfortável. Arrumou melhor a sua “cama” e voltou a dormir.


4 - Maybe I'm Crazy

Na manhã seguinte, Pedro acordou antes que os outros moradores da casa e decidiu dar uma caminhada no parque. Passou pelo quarto de antes de sair, e observou a irmã ainda dormindo – totalmente descomposta como sempre – e fechou cautelosamente a porta. Ao passar pela sala, se mexeu no sofá, e a coberta caiu ao chão.
Pedro pensou em cobri-lo de novo, mas aquilo poderia soar estranho para . Então ele pegou a coberta do chão e deixou-a sob o canto do sofá, aos pés de . O amigo da irmã, dormia sem camisa e Pedro notou que , tinha um físico muito mais em forma do que o dele.
Aquilo o deixou um pouco invejado. E se perguntou se já havia visto aquilo. Sorriu, sacudindo a cabeça, pois, era óbvio que sua irmã já teria ficado com . Ele saiu dali, cuidadosamente para não acordar o garoto, pois, havia notado que tinha sono leve.
O relógio marcava quase dez da manhã, e Pedro parava sua corrida e tomava fôlego com as mãos aos joelhos. Ele faria um cooper de leve, uma caminhadinha moderada, mas, ao chegar no parque observou as pessoas correndo, treinando, se alongando e instantaneamente o físico de veio em sua mente. Ele não poderia ficar atrás! Agora morava na mesma casa que ele, e portanto, secreta e mentalmente Pedro iniciara uma competição. Se assim se pode dizer.
Levantou o tronco, e caminhou até um ambulante que vendia água. Comprou uma garrafinha e andava devagar, para a saída do parque. Sentiu uma mão tocar seu ombro, e um alguém apressado o alcançar. Qual não foi a surpresa ao dar de cara com Rafael.
— Pedro!
— Rafael… - ele dissera sem muito ânimo, e o outro rapaz notou.
— Er… Tudo bem?
— Sim.
— Olha Pedro, - Rafael suspirou pesadamente — eu sei que vacilei feio com a , e que você de melhor cunhado e amigo passou a me odiar como a pior pessoa do mundo.
— Dispenso as suas explicações Rafael, e sim, eu não estou nada feliz em saber que você está aqui.
— Eu sei, eu sei. Mas, eu só queria me desculpar. Depois que a foi embora, eu notei que fui um completo babaca machista e…
— Fala logo Rafael. O que você faz aqui?
— Er… Eu encontrei sua irmã.
— Eu já sei.
— Ah é? Que bom… Quer dizer, eu vim para cá por ela, sabe?
— Como é?
— Não só por ela, surgiram umas oportunidades boas, mas, o fato é que eu fiquei muito contente em saber que poderia reencontrar ela. E fiz o que pude para isso e…
Pedro estava tão irritado com tudo o que ouvia, que grosseiramente apertou a garrafa – já vazia – e a jogou no lixo, e mexendo nos cabelos interrompeu Rafael, sendo estupidamente direto com ele.
— Rafael! O que você quer com a minha irmã? Porque eu vou deixar uma coisa bem clara aqui: eu não vou deixar você ser um babaca de novo com a . Então se pensa que vir atrás dela foi uma estratégia inteligente, eu te digo que não foi. Porque você vai ter que me encarar, como nunca encarou, e garanto que eu sou muito mais homem que você para isso. Eu cheguei há pouco tempo, mas já decidi ficar, então pense bem no que vai fazer e tome muito cuidado.
Pedro virou as costas e seguiu andando sem dar direito de resposta ao Rafael, no entanto, o rapaz não se deu por vencido. Correu mais um pouco até Pedro, e o chamou. O ex-cunhado fechou os olhos, irritado, e muito mais irritado com a irmã do que com Rafael propriamente. Era culpa de se agora ele estava ali, tendo que lidar com aquele cara. Ela que dera esperança quando iniciou aquele joguinho infantil. Respirou fundo e encarou Rafael, que tinha uma postura convicta de quem não desistiria de falar.
— Como eu disse, sua irmã não foi o único motivo. Mas, estou disposto a reconquistar ela. E reparar todos os erros.
— Para quê perder este tempo?
— Porque como eu disse a ela, eu não consegui esquecê-la.
— Mas estava muito bem, todo este tempo longe dela. Então, se esforce um pouco mais, que esta nostalgia que sente agora vai passar.
— Não vai. Eu amo a . E não vou abrir mão de tentar de novo, nem que para isso eu tenha que reconquistar a confiança de vocês dois.
Pedro paralisou quando ouviu: “eu amo a . Tinha certeza, agora, que a irmã havia se metido numa roubada.
— Vamos deixar outra coisa, bem límpida aqui: a minha confiança você não terá de volta. Não sei se a minha irmã será idiota o suficiente para acreditar em você de novo.
— Sem querer ofender, Pedro. Mas, ela vai. Porque sua irmã me amou muito. Amou por nós dois, e embora eu desconfie que ela ainda me ame, desta vez serei eu a retribuir amando por nós dois se necessário.
— Certo. Então deixe eu te contar uma coisinha: ela está em outra.
— Eu sei.
Pedro entendeu o tom de desafio que Rafael o dera. E aproximando-se do garoto, o olhou nos olhos e os dois batalharam ego contra ego.
— É bom saber também que o melhor é focar seu tempo nos outros motivos que o trouxeram até aqui, porque se depender de reatar com a , você vai voltar para Floripa no mesmo avião que veio para cá.
— Ei Pedro, deixe para ela decidir.
— Nunca foi decisão minha, até porque se fosse você não estaria na minha frente agora.
— Já entendi. Você tem os seus motivos e eu não o julgarei por isso, mas, se não se importar, eu estou indo para a casa de vocês convidá-la a passear e podíamos caminhar juntos.
— Desculpa Rafael, mas, eu não vou contribuir com isso. Se quiser ir, vá. Como eu disse não é minha decisão. Mas, eu não vou me esforçar para uma convivência.
— Pedro. – Rafael demonstrou cansaço em seus gestos, e suspirou leve e longamente antes de continuar: — Eu só estou dizendo que estamos indo ao mesmo lugar.
— Beleza. Até a vista então.
Pedro adiantou o passo, e saiu por outro caminho. Fingira passar em outro lugar, apenas para ter tempo de telefonar à irmã.
O maldito celular não parava de tocar no ouvido de , e a garota já estava tão impaciente quanto Pedro para que ela atendesse-o. Ela pegou o telefone e atendeu mal-educada à ligação.
Ao ouvir cada palavra do irmão, seus olhos foram se arregalando e ela se levantando sem jeito, esbarrando sonolenta nas coisas pelo quarto e abrindo a porta.
Pedro havia dito que Rafael estava a caminho, e ele andava um pouco afastado do ex-namorado dela porque tentava fazê-la atender a chamada. Mas, eles estavam perto do prédio, e eles chegariam juntos.
Foi a deixa para que pensasse em como receberia Rafael, de modo a fazer com que ele se tocasse que o lance dela com “Victor” era mais sério do que dera a entender antes.
Ela saiu correndo em direção à sala, do jeito que estava. Sacudiu o amigo, que sem muito esforço acordou rápido e assustado.
— Rafael está subindo com o Pedro. Vamos deitar juntos, chega pra lá!
— Não! Vai ser esquisito que ele dê de cara comigo no sofá!
— É! Tem razão, vem pro meu quarto! Tive uma ideia!
Ela e saíram catando os vestígios de alguém adormecido na sala, e correram para o quarto dela. Se ajeitaram na cama, como um casal. E só então notou o quão sedutora estava , apenas de lingerie encostada a ele.
Ela puxou a mão dele, para sua bunda, e os descobriu. Queria que o irmão armasse um flagrante. E mesmo sem combinar, torcia para que Pedro – e sabia que ele seria sagaz para isso – colaborasse.
não pode evitar a surpresa e ficou vermelho. riu da cara dele.
— Não fica com vergonha, ao invés disso aproveita, porque se não fosse essa ideia estúpida você não teria a oportunidade.
— Duvido. – ele riu sacana — Uma hora você cederia ao meu charme.
— Tá, tá, agora escuta: vou falar ao Rafael, que você está de mudança para o meu quarto, caso ele pergunte. Porque meu irmão chegou ontem e veio para ficar. E como nós estamos juntos, você cedeu seu quarto para ele. Perfeito!
— Shiiiiiu! – tampou a boca da amiga com a mão — Ouvi a porta.
Sussurraram e fingiram adormecer. se ajeitou ainda mais ao corpo de , e o rapaz sentiu calafrios novos.
Pedro abriu a porta do quarto da irmã, e ao ver a cena entendeu o que ela pretendia. Chamou Rafael até a porta do quarto dela, e disse: “Ela está dormindo, e como pode ver, acompanhada. Melhor tentar outro dia”. Rafael viu aquela cena e não pode evitar fechar a cara. Estava com ciúme e admitia. pertencia a ele, e ainda mais após a noite da boate. Vê-la ao braço de outro homem, o deixou enfurecido. A vontade de Rafael era entrar naquele quarto e arrancar dos braços daquele Victor. E depois, encher o cara de pancadas.
Pedro, notando o sentimento de raiva no rosto de Rafael, puxou a porta a fechando e dizendo para ele que fosse embora, e que ele avisaria para a irmã sobre a visita. Rafael assentiu, descontente e saiu sendo acompanhado por Pedro.
Dentro do quarto, ao fechar da porta, e abriram os olhos. Os dois sorriam cúmplices como se segurassem uma gargalhada, e bastou poucos segundos encarando-se, para perceberem que havia algo novo ali. levantou-se um pouco sobre os cotovelos e apoiou uma das mãos no peitoral do amigo. O cabelo dela estava solto, e caiu todo para um lado. ficou hipnotizado com aquela cena tão sexy: os olhos brilhantes dela, o sorriso largo, o cabelo caído bagunçado e, descendo os olhos um pouco mais, aqueles seios desenhados tão perfeitamente no sutiã. Seios, na opinião dele, na medida ideal.
pigarreou, e sacudiu a cabeça para afastar os pensamentos. Ele a encarou e ela sorria maldosa. Não com a maldade do desejo, mas a maldade do sadismo de quem reconhecia ter surtido efeito nele.
Ele retirou o cabelo do rosto dela e reclamou que ela estava o machucando, para que ela saísse de cima, pois segundo ele: “você tem gestos muito bruscos”. apertou um pouco mais o cotovelo na costela dele, com a face emburrada. E reclamou sem fazer muito barulho, arqueando a cabeça para trás no travesseiro quando Pedro abriu a porta e encarou os dois naquela cena que se tornava cada vez mais, cômica.
— Seu ex, só não entrou aí e acabou com a festinha de vocês porque eu fechei a porta e o expulsei.
gargalhava e levantou-se sentando sobre os calcanhares na cama. voltou a observá-la discretamente.
— Ele ficou muito puto?
— Se vistam e levantem, precisamos conversar.
Ela encarou , sem entender o tom nada brincalhão do irmão. E saltou da cama, passando por cima do amigo e foi para a sala.
“Se vista… Até parece. Essa maluca vai me enlouquecer!”, sussurrou assim que saiu do quarto, exatamente como estava: com a lingerie que dormiu. Ele levantou-se e foi até o banheiro do quarto dela e escovou os dentes.
O apartamento de , era do tipo moderno, em que o banheiro social da casa não tem box para banho. É um banheiro de visita. Para não tirar a discrição do cômodo, o pediu que utilizasse as suítes dela ou do irmão. já achava muita invasão morar ali, e perturbar o irmão dela que, embora parecesse tranquilo, mal o conhecia. Então, decidiu que incomodaria em seus aposentos “reais”.
Ao sair, encontrou a garota sentada na banqueta do balcão que dividia a cozinha e a sala. E não percebera quão pequena era a calcinha dela até – literalmente – dar de cara com a bunda vantajosa da menina sobre o estofado. Deu passos para trás, e recostou-se à parede afagando os próprios cabelos, de um modo perturbado. E ficou ainda mais perturbado ao lembrar que teve as mãos segundos atrás, naquele pedaço de corpo chamativo. Respirou fundo e concentrou-se a ignorar o máximo que pudesse, o corpo da amiga.
Aproximou-se e pegou a conversa entre irmãos pela metade. Olhou para ela, e até o simples fato de tomar um suco, com um canudo infantil todo retorcido, se tornou para ele uma visão tentadora. Arregalou os olhos e pegou o copo à sua frente, colocado por Pedro, e serviu-se de suco também.
— Aconteceu alguma coisa, ? – Pedro o perguntou parando de falar com a irmã, ao notar que o garoto estava mais pálido que o normal.
— Ãhn? Não, não… Tudo bem. É só que, acordei mais uma vez no susto por causa das loucuras da sua irmã.
— É exatamente sobre as loucuras dela que estamos conversando. Me diz, , o que você está achando disso tudo?
— Pedro, pode me chamar só de . Bom, quanto a isso – apontou para si e para — Ontem conversamos, e eu disse a ela que deve acabar com a farsa logo.
— Exatamente! Só que o problema é que o imbecil do Rafael está decidido a voltar com você, .
— Pedro, se acalme. Eu e o estamos decididos a não estender muito a mentira. Queremos ser o máximo convincentes que pudermos.
— Tu não estás entendendo, mana. Eu conversei com o Rafael hoje. Ele disse que veio para cá, depois de averiguar onde você estava, como te encontrar, e decidido a reconquistar você.
— Nossa, ele parece decidido, .
— Pior que isso, . Ele descobriu que perdeu a minha irmã e não deu valor quando devia, e se é que dá para piorar, percebeu que a amava só depois disso.
— Isso não muda nada, Pedro.
— Tomara irmãzinha, porque ele disse que ainda te ama, e que não vai desistir nem que tenha que amar por ele, e por você.
— Ele disse isso?
— Sim, e não me espanta. Ele sempre foi um maníaco doente. … Na boa! Eu quero te esganar, por ter entrado nesta brincadeira! Percebes que o Rafael vai te perseguir de novo?
— Calma Pedro! Eu vou dar um jeito de parar isso, tá?
Pedro negou silencioso para a irmã e saiu em direção ao quarto. apenas observava. levantou-se da banqueta e foi até a pia lavar a louça do dia anterior. , seguiu até ela, ajudando-a secando e guardando as louças. Eles mantiveram o silêncio e ao terminar, ela foi para seu quarto. O amigo a seguiu e entrou fechando a porta.
Ela estava no banheiro retirando o sutiã, quando ele apareceu na porta a assustando. Ele se desculpou, e envergonhada ela subiu novamente as alças o tranquilizando. Pediu para que ele fechasse a peça. se aproximou a encarando pelo espelho. Notou a expressão de arrependimento pela mentira tomar a face da garota. Abotoou novamente o sutiã dela e pegou-a pela mão guiando para o quarto. Sentaram-se na cama, e encarou o chão.
… Eu tive a opção de te impedir com isso tudo, negando aparecer aqui ontem de manhã, mas, o fato é que não fiz isso e agora cá estamos.
— Não me culpe também, !
— Não estou te culpando, fica quietinha e ouça. Estou dizendo, é que agora estou contigo nisso. E acho que precisamos ser muito claros, sinceros e cúmplices um do outro para cair fora disso.
— Tem razão…
— Então, vamos fazer uma espécie de “análise” desta sua vingança. E para começar a entender o que a fez começar tudo isso, eu preciso que me conte como era o seu namoro.
, eu não acho que…
— Não quero que sinta-se obrigada a falar nada. Só entenda que sou seu amigo, e estou tão atolado quanto você nesta farsa, e para sair, eu preciso entender no que entrei.
Ela suspirou pesadamente e sorriu para ele.
— Faça suas perguntas.
— O que o Pedro quis dizer com maníaco doente?
— Rafael era o tipo de cara que diz que ama através de atitudes possessivas e abusivas.
— Ele também disse que o cara é perseguidor… Isso significa que é para eu me preocupar que o Rafael pode nos seguir também?
— Não. Ele me perseguia quando namorávamos porque era absurdamente ciumento. Eu achava lindo, porque acreditava que era prova de amor saber que havia alguém com tanto ciúme, a ponto de me perseguir. Levei muito tempo para acordar. E Pedro esteve em muitas fases comigo.
— Entendi, e que tipo de atitudes Rafael tinha com você?
— Ele era muito carinhoso. De verdade! Eu me sentia a mulher mais amada e desejada do mundo. Mas, também era egoísta. Nossa relação tinha espaço para ceder a tudo que fosse interessante para ele, mas não para mim. Ele me dava tudo o que eu queria, e sempre fazia surpresas românticas, mas, eu não podia sair com os meus amigos, os amigos do meu irmão, ou com as minhas amigas. Nossos programas passaram a ser todos em casal, mas, ele podia sair sem mim quando quisesse. Com o tempo, eu não percebia, mas, estava na mão dele. Fazendo o que ele queria, quando queria e sem contestar nada. Começou com as roupas. Toda vez que saíamos juntos, ele reprovava ou aprovava o tipo de roupa que eu podia usar. Depois passou a controlar os meus horários, me buscar nos locais que eu ia ou vinha. Um dia, tivemos uma briga séria porque ele atendeu uma ligação do meu celular sem meu consentimento. Não que eu me importe, nunca me importei com quem atendesse meu telefone, mas o que aconteceu depois daquele telefonema me deixou irritada. Era um colega de curso, tínhamos um trabalho a terminar e Rafael foi extremamente grotesco com o garoto. E então discutimos, ficamos sem nos falar, e eu terminei. Àquela altura, minhas amigas e meu irmão já me alertavam sobre as atitudes dele, e eu começara a pensar se eles teriam razão, até que Rafael surgiu arrependido dizendo que extrapolou e com um presente. Eu aceitei ele de volta. Não notava que a cada vacilo, vinha um pedido de desculpas com um capricho que acabava sendo a moeda de troca para que eu aceitasse tudo de novo.
— Nossa, … Como foi que acabou definitivamente?
— Ele nunca fora uma pessoa ruim, ou explosiva. Sempre foi calmo, brincalhão e tínhamos uma amizade muito, muito antiga. Então terminar com ele, era difícil para mim. Mas…
olhou para , de uma maneira que sabia que a seguir viria a piedade ou o julgamento.
. Por quê o Pedro ficou tão irado? O que ele fez para deixar o seu irmão tão preocupado?
— Olha! Eu não ligo de contar, mas, por favor! Não me olhe com piedade ou com julgamento, tá? Promete!
— Ei garota, eu nunca estive aqui para isso. Já estive?
— Não.
— Então deixa de bobeira e me responde. Dependendo da resposta, eu dou um fim nesta sua mentira agora mesmo.
— Rafael me bateu. Foi a primeira e última vez. Parti pra cima dele na hora, porque aquilo era como ouvir todas as falas dos meus amigos e do Pedro sobre como acabaria a nossa relação. Eu terminei com ele sem nenhuma dificuldade naquele dia, para nunca mais. Mas, não quis denunciar, para evitar o meu constrangimento e também pela amizade de anos. Rafael não era aquela pessoa, ele só estava agindo errado. Com o tempo, eu percebi que na verdade ele não tinha justificativas para nada daquilo. Calhou com a faculdade daqui me aceitar, e eu vim embora. Nunca mais tivemos contato, ou uma conversa, ou nada do tipo…
— Machista, agressor, abusivo e psicopata.
estava enfurecido. Já tinha as mãos na cintura e andava de um lado para o outro no quarto. Parou de frente para e a perguntou incrédulo:
— Como você não tem repulsa dele?
— Já passei dessa fase. Quando o vi naquela boate, atrás de mim, como se nada tivesse acontecido… Cara, nem desculpas ele pediu! Eu precisava me aproveitar para me vingar e fazê-lo sofrer por tudo o que me fez.
— Tá tudo errado. Você está agindo errado, eu agi errado de entrar nessa…
, eu sei disso, mas, eu não sei o que me deu. E quando a gente transou…
— Porra, você transou com ele!
gritou com ódio e assustava vê-lo daquele jeito. Ela percebeu ali, que, não pedir para a julgarem era impossível. Ela abriu a porta para um abusador entrar na própria casa. E percebendo aquilo, buscava justificativas.
— É… E quando aconteceu eu me senti muito poderosa, como nunca antes na nossa relação, porque ele é quem estava na minha mão agora. Desculpa te meter nisso.
a encarou assustado e acalmando-se, sentou-se novamente ao lado dela na cama. Pegou o rosto de e beijou-lhe a testa.
— Sabe que não vamos seguir com isso, não é?
— Sei. Mas, como?
— Eu vou falar com esse cara e mandar ele para longe.
— Ah é? E dizer o que? “E aí, Rafael! Antes de quebrar a tua cara, eu quero dizer que é pra ficar bem longe da , porque eu sou o namorado de mentirinha dela e não quero mais fingir”?
— Primeiro: o problema aqui não é que eu não queira fingir que nós somos namorados…
— Ficantes.
— Não me interrompa. O problema é que precisamos fazer ele entender que não tem volta.
— Exatamente! E você conversar com ele, vai mostrar uma competição que não queremos. Ele tem que perceber que eu não quero mais.
— Difícil depois de você transar com o cara.
— Ei! Vacilei, já sei, para de jogar na cara!
— Tive uma ideia.
sorriu batendo em uma das mãos com a outra em punho, e foi até o quarto de Pedro. Deixou sozinha no quarto e quando voltou, estava acompanhado do irmão dela.
— A ideia do é radical, mas, é mais ou menos o que vocês devem fazer.
— Vamos assumir publicamente uma relação, .
— É mana, essa de tu ficar com o Victor, e dormir com o ex deixou uma ideia de que o Rafael pode tentar.
— E ele tem que encarar como algo sem volta. Então vamos nos assumir, quando ele te procurar você vai dizer tudo o que não disse para ele antes, vai deixar claro o quanto ele errou, e contar que só dormiu com ele para se vingar dele.
— Mas entendeu que agiu errado, e assume que não deveria ter feito isso, e que não quer nem contato com ele por telepatia. E que você está feliz com o Victor.
— Se depois disso, ele insistir, aí vamos ter certeza que você não fez as coisas direito e pensar num plano B.
, se depois disso o Rafael continuar atrás da minha irmã, ou ela é retardada ou ele muito psicopata e aí, você vai ter que casar com ela.
— Vocês dois são idiotas.
— Idiota é você que transou com seu ex problemático, e ainda colocou uma terceira pessoa na confusão!
— Pedro! Eu já entendi que errei! Dá para ajudar em vez de ficar jogando na minha cara?
— Beleza, beleza. Desculpa. Mas, se você tivesse deixado o Rafael na boate e transado com outro cara qualquer não seria tão complicado.
— Pedro, na boa, sai do meu quarto e me deixa sozinha com o .
Pedro saiu. Ele entendia que jogar na cara da irmã, os erros dela, não era algo válido a se fazer. Porém, entendia também que lembrá-la dos erros, era necessário para fazer entender a dimensão de tudo aquilo. Por sorte, havia , disposto a ajudar Pedro em acabar com a farsa da irmã.
, sentou-se novamente na cama dela. E novamente irritada com o irmão, pegou um par de lingeries limpas e entrou no banheiro, avisando a que tomaria banho. Ele ficou aguardando-a terminar, deitado na cama dela. Pensou em todo um plano para fazer aquela história acabar de vez. E só quando sentiu o corpo de sobre o seu, que abriu os olhos espantado, se dando conta de que ela havia terminado.
Ela o olhava em dúvida pelo que ele estaria a pensar. Sorria travessa, e os cabelos molhados pingavam gotículas frias no tórax dele.
sentiu novamente, a sensação estranha e os novos calafrios quando estava perto da amiga. O sorriso dela foi se desmanchando, e a face curiosa e divertida de , passou a uma expressão de confusão.
— Por que está me olhando assim? - ela perguntou.
Então, notou o quão assustador devia estar o seu olhar, um olhar que denunciava os pensamentos de alguém que se imaginava invadindo a boca de . Sorriu tranquilo, e negou com a cabeça voltando a fechar os olhos.
— No que está pensando?
— Em como podemos transformar a sua mentira em verdade, para o Rafael.
suspirou, e passou a mão pelo tórax do amigo secando-o das gotas recém-saídas de seu cabelo. Levantou-se e sentiu-se incomodada por não continuar acariciando o peitoral definido de . Deu as costas a ele, confusa com o que pensou. Escutou-o se mexer na cama dela, e então virou-se sorrindo.
— Bem, eu vou preparar o almoço. Enquanto isso, você pensa em como me ajudar, tomando um banho. E aí, nos reunimos os três para bolar um plano.
— Estou fedendo? - ele perguntou brincalhão por ela ordená-lo a ir ao chuveiro.
— Está. - ela gargalhava.
sabia que não estava, e levantou da cama. Correu até , que fugia dele pela casa, e ao alcançá-la retirou a garota do chão colocando-a sobre os ombros e correu novamente com ela pela casa. Ele sabia que ela detestava ser chacoalhada daquele jeito. Uma mania estranha, própria da garota.
Pedro ao ouvir toda aquela bagunça, os gritos finos de sua irmã e os protestos de: “me coloca no chão”, saiu de seu quarto já arrumado e encarava divertido aos dois. Ele não diria aquilo para e , mas, os dois combinavam. Pedro, imaginava, a mesma cena no futuro: os dois correndo pela casa, como um casal. E sorria alegre com a possibilidade. Quisera ele, que a mentira da irmã fosse verdade. , embora pouco o conhecesse, arrancava da sua irmã um sorriso solar. E trazia a Pedro uma sensação de completude entre eles.
colocou no sofá, e a menina o xingava por estar zonza, mas também gargalhava com ele. Ela notou o irmão parado no corredor de frente aos dois, com um sorriso de quem só estava presente de corpo.
— Ei! Aonde vai vestido assim?
— Pelo sorriso, eu me atrevo a dizer que ele tem um encontro!
Pedro abaixou a cabeça, num sorriso irônico. O que trazia a ele, aquela sensação de felicidade não era um encontro. Mas, sim, o encontro das duas pessoas certas ali em sua frente. pegou sua toalha no varal, jogou sobre os ombros e retornou a sala dizendo para Pedro:
— Já que não quer contar, eu vou tomar meu banho.
— Não é isso, é que eu estava pensando numa coisa…
ainda sorria para ele, ao ouvi-lo olhou curioso para que o olhou da mesma forma. A menina saiu do sofá e pulando no pescoço do irmão, perguntou:
— Pensando no quê, maninho?
Pedro olhou para ela divertido, e depois para . Os amigos já estavam curiosos, achavam que Pedro tivera uma ideia para a farsa acabar.
— Nada que seja da conta dos dois, e agora, com licença que eu realmente tenho um almoço marcado.
Ele retirou as mãos da irmã de seu pescoço e caminhou até a porta da sala. Antes que abrisse a porta, sua irmã perguntou quando levaria o seu “encontro” para ela conhecer. E Pedro sem entender o que ela dizia, olhou apreensivo em sua direção. Ela sorriu discretamente e disse:
— Se for a mesma pessoa com quem tem saído, desde aquela festa, talvez esteja na hora de me apresentar.
— Por quê? Você levou um ano para me apresentar o .
— Mas, e eu não estamos saindo.
— Resposta errada, maninha.
Ele disse e acenou aos dois saindo do ambiente, sem ouvir qualquer resposta.
— Ele está certo.
com os braços cruzados na frente de seu corpo, ria da cara de poucos amigos, que ficara quando o irmão não lhe contou quem era a pessoa. Ela o encarou com tédio, por ele concordar com Pedro.
— Ele está certo, . Nós estamos saindo um com o outro, e é o que faremos todos acreditarem.
— Que todos, cara pálida?
já tinha lhe dado as costas e caminhava ao banho. pensou se ele e Pedro já teriam um plano. Ela saiu bicuda em direção à cozinha e começou a preparar o almoço.
Os dois haviam acabado de almoçar e fora lavar a louça, e secar. Depois se jogaram no sofá da sala e a garota procurava uma série para assistir, mas a impediu de dar play, assim que ela escolhera.
— O que foi?
— Eu pensei bastante e cheguei a conclusão de que não vai dar certo fingirmos só para o Rafael.
— Como assim?
— Pensa comigo: ele veio de Florianópolis para cá, e embora outras razões corroborassem para isso, imaginemos que o motivo tenha sido somente você.
— Mas não foi.
— Ok, , mas, imagine. Pedro disse que Rafael fez uma pesquisa desde onde te encontrar, até como encontrá-la. E não é curioso que ele tenha achado você aquele dia, na boate? São Paulo é enorme, não teria como ele te encontrar por acaso.
— A menos que o destino quisesse me sacanear.
— Não é o caso. Tenha os pés no chão, por favor!
— Você acha que o Rafael esteve me espionando a distância?
— Não diria espionar mas, se eu estou de mudança para um lugar onde está uma pessoa que eu quero reencontrar, a primeira coisa que eu faria seria stalkear as redes sociais.
— Claro! Eu havia postado minha localização na boate aquele dia!
— Então, desde que soubera da própria mudança, Rafael deve ter te observado pela internet. Assim, ele chegou rápido até você, e sabe que você não está namorando!
— É, mas eu falei que nós dois somos ficantes, só.
— Sorte sua, porque se mentisse além disso, ele teria sacado. O fato é que: você não é comprometida com ninguém publicamente.
— Mas, dá pra achar que estamos saindo, nós temos fotos juntos. Várias!
— Tem certeza?
arqueou a sobrancelha e puxou o telefone para mostrar as redes sociais da garota. Havia poucas fotos deles postadas, várias no celular da garota, e no dele também. Mas, nas redes sociais, poucas e todas as que estavam juntos eram bastante discretas.
— Vamos postar nossas fotos agora!
— Ah com certeza, e postar também um status dizendo: “Estamos postando todas as fotos que temos de uma só vez, porque queremos que pensem que somos um casal”.
— Idiota. E o que faremos?
— Postaremos sim, mas, pouco a pouco… Como se, fosse uma novidade estarmos juntos.
— E vamos começar agora!
pegou o seu celular, ajeitou-se no sofá mais perto de , e entrelaçou suas mãos. Ao “bater” a fotografia, sorriu contente: as pernas esticadas lado a lado, as mãos entrelaçadas sobre uma almofada e o televisor mostrando a série que assistiriam, se tornara o cenário de um “programa de casal” em pleno domingo à tarde.
— Ficou bom, ! Discretos, mas verdadeiros.
— Acho que para alguém que não escancarou nossa amizade, não seria convincente escancarar nossa relação.
— Exatamente, você entendeu. Temos que ser um casal de amigos discretos que começaram a namorar, quase que, escondido.
— Acha que vai convencer ele?
— O Rafael eu não sei, mas, prepare-se para os curiosos.
O celular dos dois vibrou, e ao repararem as notificações sorriram divertidos.
— Meus amigos estão curtindo e brigando comigo por não ter contado nada.
— Sorte sua. Minha mãe quer saber “quem é a garota que me marcou numa foto íntima e por que ela não sabia de nada”.
— Você nunca falou de mim para a sua mãe?
— Você nunca falou de mim para o seu irmão!
— Certo. Estamos quites. Mas… Sua mãe é muito ciumenta?
— Não é isso, é só que… No meu país, as tradições estão mudando aos poucos, mas, eu prometi que não esconderia nada quando saí de lá. E com certeza para a minha família, será um choque.
— Nossa … Desculpa te meter nisso.
O telefone de denunciou as mensagens quase eufóricas de Pedro e ela riu, ao ler.
— É o Pedro! - falou para — E ele está muito bravo com a gente. Disse que mamãe ligou para ele, interrompendo o almoço dele para pedir explicações do motivo de eu namorar e não ter contado nada para ele, e porquê ele também não contou. Ele disse que da próxima vez que agirmos assim sem o avisar, ele vai nos matar.
— Acho que você deveria ter postado uma legenda: não somos namorados.
— Não, não… É melhor assim, sem legenda.
— Certo. Acho que agora somos um casal, publicamente.
— Ainda não, as pessoas não conhecem o Victor.
— Victor? … Você me marcou!
— Qual o problema?
— Você marcou o , e não o “Victor”!
— Ai minha santa!
A garota se levantou do sofá num pulo e encarava , sem saber o que fazer.
— Espera!
— O que?
— Tive uma ideia!
— Fala logo então, !
Ele digitava em seu celular o novo nome em coreano, no perfil de sua rede.
— Pronto! Vamos falar para o Rafael que eu me chamo “Victor ”. Ele não vai saber que é nome e não sobrenome.
— Legal, ninguém vai se preocupar em traduzir nada. Mas, e a sua família e amigos?
— Eu me viro com isso.
— Eu estou transformando a sua vida numa bagunça!
sentou-se novamente tampando o rosto com as mãos. sorriu de canto, divertido com a culpa dela. Entretanto, ele puxou a amiga para si a abraçando e tranquilizando-a com aquilo. insistia em dizer que não estava certo manipular a vida de daquele jeito. E decidira que contaria toda a verdade para Rafael.
demonstrou estar contra. E então, a menina pediu para ele reverter o nome. Embora não achasse certo, , voltou a deixar o nome como estava. E ela, confessou que contaria ao Rafael, que dormira com ele por vingança. E que tinha o plano de brincar com os sentimentos dele. Diria também que havia contado a verdade para e ele a repreendera. Diria que eles brigaram, e a partir dali perceberam que amavam um ao outro e não queriam ser um casal de amigos com benefícios somente, e que agora estavam namorando. Deixaria claro que estavam felizes e apaixonados. E diria ao Rafael também, que, o nome de Victor era , e que ela chamava ele de Victor por uma brincadeira entre eles.
não achou ser sensato contar tudo daquele jeito. Então, sugeriu a ela que deixasse para fazer isso quando Rafael a procurasse. Como se ela não esperasse vê-lo novamente, assim pareceria mais real. E por mais que temesse que, Rafael não aceitasse aquela história, era melhor contar aquela meia verdade, do que continuar com seu plano de cada vez mais contar pequenas mentiras. E combinou com a amiga que, se por acaso, Rafael se desse por vencido, eles iriam parar de fingir serem um casal e não postariam mais nada na internet para evitar envolver mais pessoas àquela mentira.
Na cabeça deles, seria um excelente plano, mas, na verdade continuavam afundados em mentiras. E fora Pedro que mostrara isso para eles ao chegar em casa e ouvir o plano dos dois. Pedro mostrou que tanto Rafael desistindo quanto não desistindo existia o problema: na primeira hipótese, ele desistira e os dois teriam de manter o namoro falso. Na segunda, ele não desistira continuando a perseguir , e aí ela poderia terminar o falso namoro com a desculpa de ser por causa do ciúme de Rafael e continuar tendo ele em seu pé; como também, poderia não terminar o falso namoro e continuar tendo ele em seu pé.
— E o que seria a solução então, Pedro?
— Rafael ir embora de São Paulo.
— Não seja imbecil! Acha que ele vai embora por causa disso? Se ele desistir de mim, não importa o que eu faça depois, se namore ou não, ele tem que desistir porque eu não quero estar com ele, e não porque eu estaria com alguém.
está certa, Pedro. E , sendo assim, não sou eu ou seu irmão que o convenceremos disso.
— É… Sou eu.
Pedro e olharam-na com pesar por saberem que dependeria só dela encarar aquela situação. Então a garota disse que resolveria o problema que ela havia se metido, e foi para seu quarto estudar. Aquela tarde depois de assistir série com , ela estava indo revisar a matéria da prova do dia seguinte, quando seu irmão chegou ocupando-a a contar o plano dela e de . Mas, precisava aproveitar o fim da tarde e noite para ocupar a mente com a prova.
Pedro e permaneceram na sala assistindo à televisão.


5 - Afundando em mentiras

Pedro estava sentado no banco de trás do carro de , e protegido pelo insulfime das janelas. E estava sentado no banco do motorista sem acreditar, que Pedro dera para ser detetive. Os dois estavam parados em frente ao prédio da faculdade de .
— Lá vem ela! - Pedro bateu no ombro de , mostrando sua irmã caminhando para a saída — Vai lá, e beija ela!
— Para quê tudo isso, Pedro?
— Porque eu investiguei, o babaca está aí também! Ele vai acabar, encontrando ela por aí, e é bom que veja os dois juntos. Pode não ser hoje, mas será um dia.
Min revirou os olhos e desceu do carro. Andou ao encontro de . Quando a garota o percebeu, lançou um olhar confuso para ele e sorriu com a surpresa. parou na frente dela, e acariciou o rosto da menina que continuava sem entender nada. Ele estava criando coragem para fazer o que o Pedro pediu, e então abraçou que o retribuiu ainda surpresa. Ao separar-se do abraço ele puxou-a para um selinho casto. arregalou os olhos, e não sabia o motivo de Min estar ali, na porta da sua faculdade, e fingindo. Mas, não contestou. Apenas sorriu e deixou ele pegar sua mão enquanto caminhavam para o carro.
— O que está fazendo aqui?
— Seu irmão está obcecado. Ele deu pra seguir o seu ex-namorado e descobriu que ele está fazendo uma pós-graduação aqui.
— O quê?
— É! - disse contrariado — E agora eu terei que vir buscar você todos os dias, para fingir publicamente nosso namoro já que existe a possibilidade de alguma hora Rafael a encontrar.
— Pedro está mesmo obcecado.
Ela falou rindo e entrou no carro junto com . Eles se acomodaram, então o rapaz falou:
— E tem mais.
— O quê? - ela disse colocando o cinto.
— Ele está aí atrás escondido.
riu olhando para o banco de trás, e foi repreendida por seu irmão que disse para ela olhar para frente e o evitar.
Ela não entendia para quê tanto radicalismo, Pedro estava alucinado parecendo um fugitivo da polícia. E estava irritado, mas, não entendia o motivo. Ela achou que era por ter sido obrigado a buscar ela todos os dias.
Ele estava com a roupa do trabalho, e o achava muito sexy vestido daquele jeito, tão sério embora seu cargo de redator cineasta não exigisse tanto. Mas, ela aprendeu com Min, que os coreanos levam a aparência muito a sério em seus trabalhos. gostava de andar arrumado, mesmo tendo um trabalho pouco exigente com a elegância.
Já estavam afastados da faculdade, quando tiveram seus pensamentos surpreendidos por Pedro que aproximou-se dos bancos da frente falando alto e os assustando:
— Ninguém vai acreditar que vocês namoram!
— Nossa Pedro…
— É cara, que susto! Quer que o bata o carro?
— Do que você está falando, Pedro?
! Eu falei para você beijar ela! O que foi aquilo?
— Qual o problema do beijo que ele me deu, Pedro?
— Aquilo é beijo desde quando, ? Não é possível que vou ter que ensinar vocês dois a beijar!
revirou os olhos irritada com o irmão, e desta vez fora que sorriu desemburrado com o estresse que Pedro submetia-os.
— Vem cá, você vai vir com o todo dia agora?
— Se vocês não começarem a atuar de verdade, eu acho que vou ter que vir sim!
— Chega Pedro! Deixa que das nossas bocas, nós cuidamos tá? O não é obrigado a te aturar. Já eu, não posso ter a mesma sorte.
Pedro dera um peteleco na orelha da irmã e voltara a sentar atrás, emburrado. Ele só queria ajudar e garantir que Rafael se afastasse de , na velocidade da luz. Ficou atrás, observando os dois nos bancos da frente, rindo e entreolhando-se como se estivessem se divertindo com a reação inusitada dele, quando veio à sua cabeça uma ideia: poderia aproveitar o plano de afastar o Rafael, aproximando de verdade os dois. E então, Pedro se acalmara, e decidira ser um agente duplo.
Quando chegaram em casa, estavam cheios de fome. Tomaram banho e quando foi para a cozinha, acompanhado de , Pedro dissera que compraria alguma coisa para eles comerem. pediu um sanduíche do subway e também. Eles entregaram o dinheiro para Pedro, e foram para o quarto.
Min, pegou as suas coisas para arrumar a cama na sala, e então a garota o surpreendeu:
, não quer dormir na minha cama?
— Não precisa , obrigada.
— Sério, aquele sofá é desconfortável, e eu tirei você do seu conforto. Insisto que aceite dormir comigo, prometo que serei boazinha e não vou abusar de você.
— Não sei se posso confiar em você. Você deve dizer isso para todos.
fingiu-se inocente arrancando gargalhadas da garota, que deu as costas a ele e ajeitou sua cama de casal.
— Vem, deita aqui.
, é sério, eu posso ficar no sofá sem problema algum.
— Para de bancar o puritano. Nós acampamos juntos, lembra?
— É, mas é diferente.
— Diferente por quê?
Os olhos grandes dela, o sorriso de paz, aquela face insinuante encarando-o no aguardo de uma resposta, o fizeram se desarmar.
— Diferente porque… estávamos os dois numa situação desconfortável.
— Tá… Então nada mais justo que ficarmos desconfortáveis juntos de novo.
— Está se sentindo tão culpada assim?
— Estou. Não se preocupe … Não farei nada que você não queira. – ela disse sugestiva — E depois, não é como se você não estivesse louquinho para dormir comigo.
Ela disse ainda mais brincalhona e sorriu sem graça. Se ela soubesse que a brincadeira dela, realmente tinha um fundo de verdade…
— Está bem, mas, eu fico com a parede.
— Que folgado.
Os dois preparam a cama, e saíram para a sala. Pedro chegou com os lanches e os três comeram. Depois separou uns papéis do trabalho, Pedro voltou a abrir o notebook para trabalhar, e se acomodou no sofá. E vestiu sua camisola para dormir, por mais que já tivesse a visto de lingeries várias vezes, ela não sentiu-se confortável para dormir descomposta como sempre, ao lado dele. Na hora que deitaram juntos, os dois se acomodaram olhando para o teto.
— Está com sono? - ela perguntou.
— Mais ou menos, e você?
— Não. Estou pensando na prova.
— Ah é! - ele virou-se para ela apoiando-se sobre o cotovelo — Como foi a prova?
— Está mesmo interessado? - ela o perguntou admirando a expressão curiosa dele.
— Sim!
— Foi uma bosta!
— Não acredito ! Você é sempre ótima nesta matéria! - ele disse com pesar e ela riu pelas reações dele.
— É que, eu não conseguia me concentrar. Fiquei pensando nessa história de nós dois.
— Ontem você disse que resolveria tudo, o que está em sua cabeça?
— Chamar o Rafael para uma conversa muito séria. E deixar claro que eu não quero saber mais dele, nem que ele seja o último homem na terra. Ter a conversa que devíamos ter tido quando tudo acabou.
— Acho certo. Quando será?
— Este é o problema… Não sei se posso.
a olhou pensativo e sentou-se na cama. Observou os olhos de por um longo tempo e perguntou:
— Você acha que, ainda há algum sentimento por ele?
— Não sei … Até então eu não quero saber mais dele, mas, eu tenho medo que na hora de lavar a roupa suja, ele fale ou faça algo que…
Ela parou de falar.
— Então você precisa ter certeza do que sente antes de chamar ele para uma conversa, porque se ele fizer o mesmo jogo que fazia ao te enganar, você estará preparada.
— Pois é, mas é este meu medo: eu fraquejar…
— Sabe… Dê-se um tempo para refletir sobre o passado de vocês dois, e em que tipo de futuro poderia ter ao lado de um machista agressor.
— Você também passou a odiá-lo depois de saber a verdade, não é?
Min deitou-se novamente ao lado dela, virado para ela a encarando.
— Não tem como gostar de um cara que fez mal a você – ele sorriu para ela afagando seu rosto — e sabe , algumas mulheres se deixam confiar em homens assim por achar que mudaram, mas, ele não mudou. Posso afirmar isso. Se o Rafael realmente fosse apaixonado por você e tivesse mudado, ele não teria voltado desta forma. Ele usou você de novo.
— Você tem razão. Naquela noite ele poderia ter feito tudo ao contrário, mas, achou que estava me enganando de novo e tentou me manipular.
— E na cabeça dele, ele conseguiu.
— Pois é, eu fiz tudo errado mesmo!
A garota bufou e colocou as duas mãos sobre os olhos, demonstrando todo o arrependimento que sentia. Min retirou as mãos dela do rosto e pediu que ela esquecesse o erro, e se concentrasse em sair daquela situação. virou-se de frente para ele também, e os dois continuaram olhando uma para o outro.
— Vamos mudar de assunto. – ela pediu.
— E sobre o quê quer falar?
— Sobre nós.
— Nós?
— Sim. Eu estava me lembrando do ataque do Pedro, hoje no carro.
Os dois começaram a rir divertidos recordando-se das reações dele.
— E acho que ele tinha razão sobre demonstrarmos mais afeto.
— Poxa, mas eu fiz tudo certinho: te abracei, beijei e dei as mãos. Mais do que isso só se eu te carregar no colo.
— Você deveria estender um tapete vermelho para eu passar, jogar rosas sobre a minha cabeça e me carregar no colo mesmo, vestido como um príncipe. Bem clichê!
— É o que você gostaria que seu namorado, seja ele quem fosse, fizesse?
— Claro!
— Então eu farei isso. Quero ser o namorado perfeito, assim o Rafael não poderá competir.
Eles gargalharam mais uma vez.
— Falando sério agora, … Tem uma coisa que eu preciso saber. - ela o olhou apreensiva e Min também ficou mais sério para ouvi-la.
— Pode falar.
— Você estava irritado. Não venha mentir! Eu quero saber se esta história de ter que me buscar e demonstrar publicamente que me namora está te incomodando. Por que se estiver…
, ! - ele a interrompeu rindo da inocência dela em achar que ele detestaria aquilo — Não tem nada a ver com o fingimento. Eu confesso que fiquei irritado, mas não foi no sentido de estar bravo ou descontente.
— O Pedro às vezes é muito irritante, desculpa por isso também.
— Também não foi pelo seu irmão, na verdade eu passei mais tempo rindo das reações dele do que achando desagradável. É só que…
As bochechas de começaram a ficar vermelhas, e brincou com a ponta do nariz dele rindo. Ela sabia que quando ele ficava envergonhado era só brincar com o nariz dele, que ele esquecia da vergonha e começava a rir.
— Pode falar, .
— Eu fiquei irritado por não saber como fazer aquilo, digo… Beijar você.
riu divertida, e ele avermelhou-se de novo, rindo junto a ela. A garota franziu as sobrancelhas e chamou-lhe pelo nome, para que ele encarasse-a.
… Por que sente tanta vergonha comigo? Sabe que podemos falar sobre tudo… E agora, nesta mentira que estamos, você fica mais envergonhado do que antes. O que está acontecendo?
— É só que é diferente agora…
— Diferente, por quê?
— Porque agora, eu tenho que fingir algo muito diferente do que somos.
— Não consegue imaginar nós dois como um casal, é isso?
— Na verdade… É o contrário. Eu estou notando algumas coisas que não notava antes. E aí fica difícil saber como tocar você, como beijar, se não vou parecer um atrevido, porque antes eu podia te jogar pro alto que tinha a certeza que não iria ofendê-la, e agora… Bem, agora dividimos uma cama e eu fico com medo de nesta situação ser mal interpretado.
— Ei, para com isso! Eu disse que não faria nada que você não quisesse, e nunca vou julgar você por nada, porque sei que você também não fará nada que eu não queira. Eu também acho estranho que agora me pegue observando algumas coisas que não observava antes… Como alguns trejeitos seus, mas, acredite que nada entre nós vai mudar contra a vontade do outro.
Ele sorriu e partiu para cima da amiga, num abraço fraterno e respeitoso. Ela sorriu ao sentir o abraço dele e fechou os olhos ao respirar o perfume dele. Com certeza ela escondera algumas informações a ele, e não sabia, mas, ele também escondeu dela. Os dois se separaram e beijou a testa da amiga dizendo para ela dormir, e não pensar em problemas. Disse que a hora do sono é sagrada, e antes de fechar os olhos deve-se colocar todos os pensamentos na gaveta. Manter a cabeça limpa, vazia, e clara como uma grande luz branca para ter um sono tranquilo e bons sonhos. Afinal, tudo o que se passa na mente, reflete-se no corpo.
Ela adorava quando ele vinha com suas sabedorias orientais. Concordou e beijando o rosto dele virou-se de costas para dormir. Ele, depois de encarar os cabelos da jovem esparramados sobre o travesseiro, também se virou de costas para ela. A parede bege à sua frente servindo como uma lousa para ele enxergar os pensamentos. E depois de rabiscar a parede com todas as cenas em sua cabeça, seguiu o próprio conselho e esvaziou sua mente e dormiu.
Na manhã seguinte ao acordar com o barulho baixo do despertador de seu celular abaixo de seu travesseiro, ele abriu os olhos notando o quão apertado estava na cama. o espremia contra a parede e estava esparramada em toda a sua cama. Ele desceu da cama com um pouco de dificuldade. “Ela é mesmo um desastre. Um desastre bom”, ele pensou. Suas costas doíam e olhou a amiga dormir. Quase atravessava a cama e ocupava muito espaço com os braços abertos. Sorriu. Como ela poderia dormir daquele jeito e não sentir dor?
Ele estalou as costas, e depois de separar sua roupa para o trabalho foi tomar banho. Ao sair do banheiro, ainda dormia, então em vez de levar suas roupas para o banheiro, decidira se trocar ali. Já estava de cueca, então largou a toalha para completar seu look. E enquanto se vestia observava a menina e sorria. Sorria porque achava linda, mas nunca havia passado tanto tempo reparando nela desde que se mudara para lá. Sorria porque embora soubesse que ela dormira de camisola, apenas para ficar mais composta, o bumbum dela estava totalmente de fora, denunciando a calcinha infantil daquele dia e as celulites que ela tentava esconder com todos aqueles cremes que passava pós-banho. Ele havia reparado naquele hábito dela, e franziu a testa assustado por perceber que reparava até os mínimos detalhes.
Mas eram aquelas manias que ele adorava nela. não se mexia, e começava a achar que ela estivesse morta. Ele terminou de se vestir, arrumou os cabelos e passou perfume. Em seguida foi acordar a sua amiga, e tentou, tentou, até fazer a única coisa que ele fazia que a acordava: tampou o nariz dela por alguns segundos até lhe faltar o ar e ela acordar. De mau humor, claro.
acordou assustada dando um pulo da cama, e não ria, estava apreensivo com a reação dela.
— Bom dia. - ele disse.
— Isso é jeito de acordar?? Mau dia!
— Bem, desculpe, mas, você é como uma pedra.
— Quantas horas? - ela perguntou ao notar que estava pronto para sair.
— Ainda dá tempo de se arrumar. Eu acordo cedo para trabalhar.
Ela levantou-se sem ao menos falar nada com , e arrancou a camisola mostrando as costas nuas para ele e deixando-o ver também a calcinha com um enorme ursinho no bumbum. Min revirou os olhos por tamanha controvérsia, ela ter dormido de camisola se faria aquele tipo de coisa de manhã. Saiu do quarto entendendo o mau humor da garota e auxiliou Pedro com o preparo do café.
A menina apareceu na sala com outra cara, arrumada e sorridente como se não tivesse sido acordada daquele jeito. Os dois rapazes riram entre si, porque sabiam que o mau humor matutino durava uma ducha.
Eles tomaram café juntos e ao saírem, Min seguiu em seu carro dando carona aos outros dois. Deixou na faculdade, primeiro. Ela desceu e se despediu deles, e então, Pedro iniciou os protestos.
— Vai atrás dela, !
— O que ela esqueceu?
— Você não beijou ela!
— Para quê? Está muito cedo para o Rafael estar escondido a observando.
— Não se trata de Rafael ver ou não, mas de um hábito que devem criar! Anda logo!
Min saiu do carro entediado por Pedro. Alcançou depois de uma corridinha e a puxou tão rápido que a garota deu um giro parando entre os dois braços de .
— Saindo sem se despedir?
— O quê?
Ele então colou os lábios com o dela, num selinho igual ao do dia anterior. E ela continuava sem entender.
— Palavras do Pedro: “Não se trata de Rafael ver ou não, mas de um hábito que devem criar!” - sussurrou no ouvido dela.
— Está certo… - ela balançou a cabeça de um lado ao outro, sorrindo discreta.
Eles se soltaram e voltou ao carro. Deu partida para deixar Pedro em seu trabalho logo depois que o “cunhadinho” falou: “Ainda precisam melhorar esta encenação!” . Ele o olhou negando com a cabeça de um lado ao outro e seguiram para suas rotinas.
À tarde, Min estava em casa. Havia ido embora depois do almoço, naquele dia. Estava só em casa, quando seu celular tocou. Era uma mensagem de Pedro dizendo-o para não esquecer de buscar . Estava quase na hora, e por isso ele fechou seu notebook sobre a mesa da sala e foi tomar banho.
Ao sair, estava em dúvida de que roupa colocar. Agia como se fosse um encontro, e quando percebera mais aquela novidade em relação às suas reações com , sacudiu a cabeça e pegou uma calça jeans e uma regata branca sem pensar muito. Vestiu um tênis casual e dirigiu até a faculdade.
Aguardou a garota aparecer em seu campo de visão, e quando ela veio, toda sorridente e distraída ao lado de uma jovem, Min desceu do carro e caminhou até seu encontro. A garota ao lado dela, foi a primeira a notar a presença do rapaz caminhando até elas e cutucou discretamente, com um olhar muito atrevido para cima de . percebeu o olhar maldoso da amiga e quis ver quem seria a nova presa de Catarine. Qual não foi o seu susto ao notar que era Min, mas, por sorte talvez, não teve muito tempo para desejar matar a amiga. Min chegou até elas as cumprimentando, em especial, puxando pelo rosto e beijando-lhe discretamente.
Catarine tinha o olhar comprido e curioso para os dois. E se despediu rapidamente dela, pegando pela mão e o puxando rápido para fora. Assim que entraram no carro, notara que algo estava errado. Encarou a amiga e não se conteve a perguntar o que estava a incomodando.
— Catarine é muito vadia! Como ela pode dar em cima de você na minha cara?
Min sorriu, e depois riu contente pelo que acontecia. estava muito brava com a amiga por ela dar em cima de .
— Está com ciúme de mim, ?
— Hãn, o quê?
Ela encarou furiosa e confusa, e quando observou o olhar orgulhoso e o sorriso confiante do garoto, entendeu o que acontecia: ela estava com ciúme sim, pois, em sua mente só pensava em passar a cara de Catarine no chão.
— Deixa de ser convencido, !
— Então que ataque de fúria foi este?
— Não é fúria de verdade, é só que, você chegou lá me beijando, ou seja, subtende-se que estamos juntos e ela fica dando em cima de você na minha cara? Então ela não é confiável!
— Não parece que ela deu em cima de mim, mal deu tempo de trocar umas palavras com a garota. Você me arrastou de lá!
— Claro! Para ela ver que eu não gostei de saber que ela é do tipo que fica cantando o namorado das amigas.
— Está exagerando, não teve nada disso. E da próxima, você deixa eu conversar com ela, porque achei ela uma gatinha.
— Você é meu namorado, !
O rapaz gargalhou da amiga, que logo foi consertando:
— Não fica bem para mim você aceitar piscadinhas de outras, e se eu ver você de conversinha com ela, eu vou te bater.
— Possessiva.
— Para de palhaçada! É para isto – ela apontou para si e para ele — convencer as pessoas, e olha por julgar por estes beijos pobres que você anda me dando, não espanta-me Catarine achar que pode dar em cima de você!
— Ah, então você quer que eu te beije pra valer? - falou irritado.
— Não é isso, eu quero que você colabore fazendo a gente parecer um casal de verdade. E se fosse o Rafael ali?
— Por quê raios o Rafael estaria, andando ao seu lado com a senhorita cheia de risinhos para ele?
— Não estou falando isso, e você me entendeu!
Os dois seguiram o resto do caminho em silêncio. Ao chegarem em casa, ainda sem se falar, um entrou após o outro com as caras amarradas e sem trocar palavras. Pedro que já estava em casa, bebendo um suco e lendo um livro observou a cena dos dois, curioso. Seguiu a irmã e o novo amigo para o quarto dela, onde haviam ido.
estava arrancando a camisa encarando , descontente. E ela, ainda furiosa entrava ao banheiro quando o irmão surgiu no quarto.
— Vocês brigaram? - ele perguntou.
— Não! - os dois disseram juntos.
— Não é o que parece.
Pedro disse e bateu a porta do banheiro.
— Pergunte à sua irmã.
saiu do quarto para a sala. E Pedro bateu à porta do banheiro. não respondeu, ele sabia que ela devia estar muito irritada. Então ele saiu e voltou para seu livro na sala. , retornara ao notebook, estava sentado à mesa.
apareceu algum pouco tempo depois, mais calma e envergonhada pelo que fizera com , mas, não falou com ele. Beijou a cabeça do irmão e foi para a cozinha. Pedro abaixou o livro e olhou para ela na cozinha, ela sorriu-lhe. Então ele olhou para , ele estava concentrado no trabalho.
— Vocês dois, sentem-se aqui. Preciso falar com vocês.
Pedro ordenou sutilmente e os dois se aproximaram, calmos, mas, envergonhados um com o outro.
— O que aconteceu? - Pedro falou levantando-se do sofá e sentando-se no chão de frente para eles.
teve um ataque de ciúme. - falou, calmo encarando-a.
— Não foi isso. - a voz dela mostrava seu constrangimento e Pedro sorria disfarçadamente por saber que aquilo deixava clara a verdade de e a vergonha da irmã — É que o entendeu errado e foi um grosseiro comigo.
— Desculpa ter falado daquele jeito com você, mas, , você quase me bateu porque a sua amiga só olhou para mim.
— Você não viu o jeito que ela olhou! - falou mais alto, contrariada.
Novo silêncio se fez, ao perceberem a reação raivosa dela reaparecendo.
, o que aconteceu? - Pedro perguntou.
foi me buscar e Catarine bateu os olhos nele e quis devorá-lo, até aí tudo bem, mas, chegou e me beijou e ela continuou. Eu fiquei chateada porque isso mostra que ela não é minha amiga! Como ela dá em cima do cara que me beijou, bem na minha frente?
— Daí eu brinquei que ela estava com ciúme, e faltou a sua irmã me matar. Depois reclamou do meu beijo! Uma mal educada!
?
— Tá, eu descontei nele, mas fala sério, o beijo dele não convence ninguém! Todo mundo daqui a pouco vai falar que eu tô fingindo! E vai chegar no ouvido do Rafael e ah! O teve um ataque porque eu argumentei que se fosse o Rafael ali, não acreditaria nada naquele beijo!
— Eu não tive ataque nenhum! Eu fiquei ofendido por te ajudar, e você ainda reclamar!
— Ei, ei, ei! - Pedro bronqueou ao perceber que a briga recomeçaria, e quando teve a atenção dos dois sorriu brincando: — A primeira briga do casal! Owwwn!!!
Os dois começaram a rir junto com Pedro, e se desculparam. puxou para um abraço apertado e ela retribuiu. Eles se soltaram e Pedro estava os encarando ainda divertido. Então respirou fundo e falou:
— Mas, eu falei que os beijos não convencem . É como eu falei, vocês precisam criar o hábito. Ainda estão envergonhados em se aproximar um do outro, e assim, não vai dar certo.
— Isso tudo é mesmo necessário?
— Claro que é , que tipo de namorado não beija a namorada? - falou alarmada.
— Vocês devem treinar. - Pedro disse e os dois o olharam assustados — Eu falo sério. Vamos lá, eu ajudo!
— O quê?
— É , vocês devem treinar! O que acha ?
— Não acho necessário, eu beijo muito bem.
— Ah! E eu que beijo mal agora?
— Não foi o que eu disse!
— Vocês dois! O que há com vocês hoje, brigando desse jeito?
Os amigos olharam para o chão contrariados, e Pedro continuou:
— O que estou querendo dizer é que vocês precisam decidir como farão isso. Um beijo normal, não vejo problema nenhum nisso, mas, já que estão cheios de mimimi um com o outro, talvez devam fingir que beijam também, e para isso precisarão treinar.
— Tá falando de beijo técnico, Pedro?
— O que é beijo técnico?
— Sabe as novelas, e os doramas ? Os atores não beijam de verdade, então há uma técnica para beijar.
— Ah é? Eu achava que era só beijar.
— Não, isso é o que você deveria fazer com a minha irmã, mas, parece que não consegue… - Pedro zombou.
— Você tem que saber Pedro, que eu respeito muito a sua irmã e é estranho agir assim, como se eu estivesse me aproveitando dela.
— Nobre, confesso. - Pedro afirmou — Mas, voltando ao princípio: acho melhor vocês treinarem.
— O que acha, ?
— Você é quem diz, , eu faço como quiser.
— Ótimo! - Pedro gritou — Vamos encenar! Você está indo buscá-la como todo dia , e vai beijar a como se não a visse há décadas.
Pedro falou e os dois se prepararam. virou de frente para a amiga, e antes que se aproximasse, foi ao seu encontro se lançando sobre ele, mas quando apoiou a mão na beira do sofá para alcançá-lo ela escorregou a fazendo cair. Min que não havia se movido em nada, encarou a cena confuso e começou a rir acompanhado por Pedro.
— Isso que é cair aos meus pés.
— Calado, ! - ela bradou rindo.
, assim as pessoas vão achar que você está desesperada.
— Você disse para ele fazer como se não nos víssemos há décadas.
— Exatamente: ele. Não você, e … Não seja desesperado assim como ela.
— Pode deixar. Quero que o Rafael acredite que ela me ama, e não que eu sou um doido implorando um beijo.
— Vá à merda, ! - gritou empurrando-o pelo ombro.
Na segunda tentativa, fora que se aproximara. Ele segurou o rosto de , apenas de um lado e colou os lábios aos dela de olhos abertos e depois beijou de novo, ainda encarando-a, desta vez ambos abriram os lábios, mas pararam. Estavam com os olhares fixos um no outro, confusos e com as bocas coladas, abertas e parados. Como se congelassem. Pedro encarava aos dois como se visse a cena mais bizarra do mundo. Revirou os olhos e gritou:
— Por Deus! Vocês não sabem beijar?
Os amigos se separaram encarando cansativos ao rapaz que os olhava, incrédulo.
— Fechem os olhos! E que cena mais bizarra, depois que unem as bocas, movimentem-se como se estivessem se beijando! Vergonhoso!
— PEDRO! - gritou fazendo o irmão se calar e a encarar — Cai fora! Você fica aí como uma plateia agressiva pronta a jogar tomates em nós dois!
— É o que estão merecendo! Caramba é só um beijo!
— Pedro! Não é assim tão fácil, nenhum de nós dois é ator! Quer saber? e eu, vamos treinar longe de você!
Ela levantou puxando o garoto pela mão, direto para o seu quarto.
— Isso! Quem sabe trancados aí dentro vocês não deixem de palhaçada e se agarrem de verdade!
Pedro gritou e reapareceu na porta de seu quarto jogando uma almofada no irmão. Ao entrar novamente em seu quarto, encarava o chão, pensativo.
?
Ela o chamou, de pé à sua frente, e de repente Min se ergueu da cama puxando para os seus braços. Com um dos braços prendeu-a forte pela cintura e com a outra mão agarrou os seus cabelos pela nuca. Encarou os olhos assustados dela um momento e fechando os olhos invadiu a boca da garota que, sentindo as pernas estremecerem, deixou que fizesse o que quisesse.
Ao separarem, ele sorriu sacana como alguém que havia acabado de provar que era muito melhor do que ela pensava, e de fato, para ela, era mesmo. E a menina sorriu sacana e surpresa.
— Ele estava certo de novo. - ela falou para referindo-se ao irmão — Aqui dentro a gente se agarrou de verdade.
— Desculpa por isso, mas, se eu pensar muito não consigo beijar você.
— Uou! Que indelicado, ! Deve ser apavorante para você! - ela falou de cara amarrada chateada pelo que escutou.
— Não, não é isso, ! - ele pegou a mão dela — É o contrário: só a hipótese de beijar você de verdade já é ótima, então, se eu fizer isso tenho que agir sem pensar, porque se não eu vou acabar me viciando em você.
encarou com olhar surpreso, ela não esperava ouvir aquilo. Ele sorriu e a abraçou beijando o topo de sua cabeça.
— Amanhã, é só repetirmos isso e vai ficar tudo bem.
Ele acariciou o rosto dela e sorrindo saiu do quarto. Voltou aos afazeres em seu notebook e Pedro não lhe perguntou nada ao vê-lo voltar à sala. Bastou alguns segundos espionando Min tentar concentrar-se no trabalho, que teve certeza que a cabeça dele não estava ali. Algo deveria ter acontecido. Pedro, satisfeito, fechou seu livro e foi dormir despendindo-se de .
, já estava deitada em sua cama, sua fome passara depois do beijo de . Na verdade, seu estômago estava embrulhado de nervoso. Ela fechara os olhos e tentara dormir, mas, o sono só foi maior que a vontade de correr até a sala e beijá-lo de novo, poucos segundos antes de surgir no quarto para dormir. Ou tentar.
Ele encarou , deitada encolhida – tão diferente do habitual – sob os lençóis e com um sorriso bobo no rosto deitou-se ao lado dela. Deixaria ela ficar do lado da parede aquela vez, sob a condição de poder abraçá-la a noite toda. E foi o que fez. Ele deitou-se ao lado dela, e a colocou em seus braços. Sem medo de acordá-la, afinal, ela tinha um sono pesado.


6 – Pequenas Coisas

Ao amanhecer, havia acordado antes de e observou-a em seus braços, risonha e dormindo pesadamente. Ele se desvencilhou do abraço sem muita dificuldade e levantou-se para o trabalho. Não poderia se atrasar aquele dia, então tomou um banho rápido e se arrumou impecável. Estava, como diria : “impecavelmente sedutor em seu terninho”, sorriu para si no espelho e encarou a garota dormindo ainda pelo espelho enquanto ajeitava sua gravata. Pegou o celular dela e conferiu o alarme, não que confiasse nele, inclusive ligaria mais tarde para acordá-la, mas, no caso de não conseguir telefonar-lhe a tempo o alarme a salvaria. Ele depositou um beijo na testa dela, escreveu um bilhete e o pregou na porta da geladeira, e saiu com a casa ainda em silêncio.
tinha um trabalho especial naquele dia, apostava em conseguir uma parceria importante para seu novo roteiro. A empresa em que trabalhava não havia se interessado no roteiro, mas, outra hipótese ele tinha em suas mangas, e por isso precisava chegar mais cedo à capital para sua reunião. No carro silencioso, ele decidiu ligar o rádio e o pen drive de ainda estava ali. A primeira música a tocar, era a favorita dela “Summertime Sadness” numa versão remix que a garota adorava ouvir qualquer momento de seu dia. Ele sorriu ao recordar-se dela dançando ao som daquela música, sempre tão estabanada.
Nunca havia visto dançar de verdade, e então se deu conta de que os dois nunca haviam saído para dançar. Seus programas eram sempre caseiros, ou programas intelectuais, muitas vezes, coisas de casal como passeios, piqueniques, praia, shopping… E então ) percebeu novamente que uma sensação estranha surgia dentro de si.
Ele sorria ao som da música, pensando em como convidaria sua amiga para uma balada, sem que aquilo parecesse algo que não fosse. Lembrou-se do beijo na noite anterior, suspirou com a cena em sua mente, e sentiu arrepios por seu corpo. Aquilo estava mesmo parecendo algo que não era? Ou de fato, , sentia algo maior por ?
Em sua cabeça a segunda opção parecia a mais certa, entretanto, o clima de brincadeiras e falso namoro em que havia se metido soava como a justificativa perfeita para sua mente e coração sentirem-se tão confusos. O semáforo abrira e ele chacoalhou a cabeça afastando aqueles pensamentos.
O maldito telefone sempre tocava tão alto e estridente, que a garota não entendia como não o havia jgado pela parede até aquele dia. E não compreendia porque não desligava aquele maldito aparelho. Levantou a cabeça irritada, e ao abrir os olhos buscando seu amigo em sua cama, estranhou estar sozinha. Havia sido uma noite diferente das outras, sentia-se confortada nos braços dele. Teria sido um sonho? E aquele cheiro dele impregnado em sua cabeça, e em sua cama, e em seu corpo? sentou-se na cama, sacudindo a cabeça. Só poderia estar louca.
Pegou o celular e desligou o alarme. Min já deveria estar na cozinha. Ela foi ao banheiro se arrumar para sair, e ao voltar do banho pegou o aparelho que notificava algumas ligações do amigo. Ele não estava em casa? Ela abriu a porta do quarto e foi rapidamente até a cozinha, enrolada na toalha avistando o silêncio e quietude. Seu coração apertou-se, e pela primeira vez notara o quanto era esquisita a sensação de acordar e não se deparar com por ali conversando com seu irmão.
Voltou ao seu quarto para terminar de vestir-se. Voltara à cozinha, e Pedro também não havia dado sinal ainda. Ela foi preparar o café da manhã e então avistou o papel na porta da geladeira, que dizia:

“Desculpem galera, hoje tive que sair mais cedo porque tenho uma reunião importante. Tenham um bom dia, nos vemos mais tarde. Torçam por mim!”

A água ainda não dava sinal de fervura, mas, estava tão distante pensando que reunião seria aquela, e quais as razões para não ter contado a ela que algo importante estaria para acontecer, que não se deu conta que não havia preparado nada para coar o café quando a água fervesse. Ela refletia sobre o beijo da noite passada, e sentia os arrepios tomarem seu corpo, enquanto encarava aquele papel em sua mão. Sorria involuntária com a possibilidade de começar a sentir algo maior por , e apagava o sorriso com a hipótese de estar se precipitando sobre algo tão pequeno, quanto um beijo. Então a água ferveu, e ela saiu daquele transe com seu irmão fazendo barulho. Pedro estava ao seu lado, encarando a irmã divertido e curioso e já começando a coar o café. Ele estava ali há algum tempinho. Em seus olhos ela pode notar que ele sabia que a garota refletia sobre sentimentos e sensações estranhas, e como cúmplices, sorriram entre si.
— Bom dia princesinha Alice. - ele disse.
— Bom dia. - ela respondeu sorrindo e abraçando o irmão pelas costas.
— Cadê o ?
— Ele deixou um bilhete dizendo que precisou sair mais cedo.
— E foi este bilhete que te fez quase pôr fogo na casa, tão cedo?
— Pedro… Deixa de ser babaca logo tão cedo!
— Não é babaquice. Pude notar que alguma coisa deixou você pensativa e feliz…
— Não, não aconteceu nada. Só estava pensando na vida.
— Hum… Sei.
Eles tomaram café trocando poucas palavras, e não falaram nada mais sobre a estranha reação de . Saíram juntos e seguiram com suas rotinas.
Logo no primeiro horário do dia, deveria assistir uma apresentação de seminário no auditório da faculdade. Contaria pontos na disciplina, além de ser um assunto do qual ela estava realmente interessada. Na entrada do auditório era necessário entregar um formulário preenchido ao professor, e ao se deparar com a fila para entrega do documento, a garota desesperou-se por achar tê-lo esquecido. Remexia em sua bolsa, tão atrapalhada como sempre, e alguns papéis caíram na frente dos pés de alguém. A pessoa gargalhava com o nervosismo na menina. Abaixou e pegou os papéis caídos.
— Será possível que você não consegue ao menos achar um formulário, ?
Ela reconhecia a voz, mas, ainda pelo ocorrido no dia anterior não conseguia se comunicar bem com aquela pessoa.
— Oi Catarine, obrigada. - ela disse séria para a amiga que sorria, pegando os papéis de suas mãos.
— Está tudo bem? - a outra perguntou estranhando a reação fria da amiga.
— Sim, já encontrei o formulário.
Ela disse dando as costas em direção à entrada do auditório. Entregou o formulário e caminhou ao seu assento guardando suas coisas na bolsa. Antes que pudesse encontrar aonde se sentar, Catarine segurou o braço dela.
! Eu fiz alguma coisa contra você?
Ela encarou a garota e respirou fundo. Mexeu nos cabelos e fechou os olhos, se dando conta do quanto estava sendo ridícula por sentir ciúme de uma situação que nem era verdadeira.
— Não. Desculpa, eu só estou com a cabeça um pouco cheia. - mentiu.
— Tudo bem. Podemos sentar juntas, então?
— Claro.
Sorriram e seguiram caminho, enquanto procurava onde teria uma melhor visão e audição das palestras, avistou Rafael já sentado a encarando. Ele sorriu para a garota e deu-lhe um breve aceno. fingiu que não o viu e sentou-se. Catarine percebeu os dois, e não pode aguardar o fim do seminário para encher a amiga de perguntas.
— Um cara muito bonito acabou de cumprimentar você, e a senhorita fingiu que não viu.
— É.
— Por quê?
— Porque não quero contato com ele.
— E quem é ele?
— Meu ex-namorado.
— Não brinca! Desde quando?
— Ele chegou de Florianópolis há pouco tempo, e para meu desprazer está estudando aqui.
— Não me parece uma coincidência, principalmente a julgar pela forma como ele está te olhando.
— Para de ficar encarando, ou ele vai achar que estamos falando dele!
— E estamos!
— Catarine!
— Ok, não vamos mais falar no gato do seu ex.
— Ótimo!
— Vamos falar no carinha que veio buscar a senhorita ontem…
não pode evitar bufar com o interesse de Catarine naquele assunto.
— Eu só quero saber quem é aquele maravilhoso que apareceu de repente, beijando você! - a amiga justificou após notar o desgosto de .
— É o meu… - fez uma pausa pensando em como definiria, .
— Seu?
— Namorado.
— Como assim? Então, aquela foto que você postou…
— Sim, era ele.
— Mas, desde quando você está namorando?
— Pouco tempo, na verdade. Nós só estávamos saindo.
— E como ninguém conhecia o seu namorado? Ou melhor, como eu não sabia que você estava
saindo com alguém?
e eu… - ela parou de falar pensando se deveria ter dito Victor ou não – Enfim… e eu somos amigos há tempos e nunca havíamos ficado, até que rolou uma situação e daí pra lá foi rápido, afinal, não é como se estivéssemos nos conhecendo agora.
Mentira de novo. Apesar de se conhecerem há algum tempo, para ela – e acreditava que para também – era sim, como se eles tivessem se conhecendo só agora.
— Hum… Ele é muito charmoso, e bonito. E me pareceu simpático embora você tenha saído correndo com ele ontem!
— Estávamos atrasados.
— Sei…
Catarine encarou a amiga, desconfiada. Ela voltou a procurar Rafael, e ele ainda olhava na direção das duas. Ela encarou a amiga e o ex, e então perguntou:
— Ei! Já que você está namorando, se importaria se eu tentasse algo com o seu ex?
— Com o Rafael? Por quê?
— Se importaria?
— Não, claro que não. Me faria um favor, na verdade.
— Ótimo. Se der certo podíamos sair os quatro.
— Tá, tá, Catarine.
A palestra inicial começaria e mal dera-se conta do que havia dito.
Pedro apressava-se dentro do prédio em que trabalhava a caminho do escritório, quando ao entrar no elevador deu de cara com Matheus. Os dois se encararam, nada amigos. Ele apertou o botão do seu andar e o companheiro de equipe deu-lhe bom dia, mas Pedro não o respondeu. Quando chegou no seu andar, saiu sério sem trocar nenhuma palavra, com o outro que sorriu sarcástico pela atitude de Pedro.
Gisele sua colega de andar, tomava café em sua recepção – que ficava lateral ao elevador – e sorriu divertida quando observou Pedro chegar irritado por sua recém-companhia de elevador. Até quando eles continuariam naquela rincha? Ele passou pela porta externa ao lado da recepção e já estava dentro do mesmo cômodo de Gisele. Foi sério até ela, Gisele ainda segurando seu copo ao lado da máquina de café, em pé continuava o encarando divertida. Pedro puxou a cintura da mulher e beijou-lhe a boca de maneira rude, do jeito que ela gostava. Depois de beijar-lhe, Pedro pegou um chocolate de menta, no suporte da máquina e colocou dentro do copo dela e disse:
— Precisa de mais menta.
Gisele abaixou o rosto sorrindo por saber exatamente o motivo daquele bom dia diferente. Ele saiu da recepção e entrou por outra porta, que dava para seu escritório, e ela negou com a cabeça. Não demorou a preparar o café de Pedro, do jeito que ele gostava todas as manhãs, para levar até a mesa dele.
No centro da cidade, discutia seu projeto com o possível cliente, numa mesa externa de um café para reuniões. O investidor parecia bastante interessado, mas, não fora tão receptivo a dar uma oportunidade ao rapaz. Ele dissera ao que analisaria suas propostas, o roteiro, discutiria com os produtores e entraria em contato em breve. Despediram-se e encaminhou-se ao estacionamento logo que o outro homem o deixara. Dentro do carro, ele refletia desanimado sobre aquela reunião. E saiu em direção ao seu trabalho, no caminho pegou o telefone para ver se havia mandado alguma mensagem. Mas, nada. Preocupou-se, pois, embora tivera tentando acordá-la, será que a garota havia se levantado? Telefonou novamente, mas ela não atendia. começava a pensar se ela estava em casa, ou na faculdade, e em como aquela manhã foi estranhamente diferente. Não havia muito tempo que estava morando com o casal de irmãos, mas, já sentia-os parte de sua rotina. Não gostara do jeito como aquele dia começara, ainda mais por não ter saído tão confiante da reunião. E pensando em , lembrou-se novamente do beijo que dera-lhe na noite anterior. E em como ele arrumou coragem para não só beijá-la, como para dizer a ela o quanto ele aguardou aquele momento. Fora uma verdade velada, mas, ele sabia que era esperta o suficiente para entender o que ele quisera dizer.
A palestra estava interessante, mas, não conseguiu se concentrar. Não sabia se o motivo seria do palestrante ser descendente de asiáticos, ou por outra coisa, mas ela só pensava em . Onde ele teria ido aquela manhã? Provavelmente teria se vestido impecavelmente. Com o terninho de ocasiões especiais que ele sempre utilizava. Ela sorriu ao pensar no penteado clássico que ele deveria ter feito, junto com a gravata azul-marinho cintilante que usaria. E se bem conhecia-o, ao sair do trabalho naquela tarde, afrouxaria a gravata e despentearia o cabelo de maneira sexy, não menos elegante. Ela torcia para que ele fosse buscá-la, assim poderia ver aquela cena.
Encarou o palestrante que não parava de falar sobre os movimentos artísticos modernos e a maneira como refletiam nas tradições mais firmes da sociedade, entretanto, ela via o próprio naquele palco. Falando desinibidamente e gesticulando de maneira sensual e firme. Com aquele ar de homem intelectual e sedutor, que só o próprio tinha. Sacudiu sua cabeça, dando-se conta de quanto seus pensamentos estavam confusos naquele dia. Havia reparado em coisas nos trejeitos de que jamais notara conhecer. Pegou sua bolsa, sentindo-a vibrar e percebeu que novamente telefonara a ela. havia se esquecido de retorná-lo pela manhã. Olhou o relógio em seu pulso: faltava muito para o fim do seminário.
Pedro terminara de redigir o contrato que havia sido solicitado a ele, e pegou-o saindo de sua sala a fim de entregar para Gisele. Quando chegou na recepção, surpreendeu-se com Matheus folheando um bloco de papéis que a sua secretária havia entregado a ele.
— O que você quer aqui, Matheus? - ele perguntou impaciente.
— Eu vim buscar um processo com a gracinha da Gisele.
A mulher encarou, descontente, ao Pedro e com um aceno de cabeça pediu a ele que não se importasse com o que Matheus dizia.
— Que processo poderia lhe interessar, já que não trabalhamos na mesma área?
— Pois é, mas, o Dr. Abílio pediu que eu me responsabilizasse por este. - ele entregou a pasta com o documento de suas mãos para Pedro.
Pedro leu o resumo inicial do processo, e acenou com a cabeça silencioso. Ele já estava a par daquela situação.
— Ah sim, estou ciente disso. - afirmou para Matheus — Você já pode ir, então.
— Você não precisa me odiar para sempre, Pedro. Afinal, trabalhamos juntos.
— Ódio é um termo muito forte. Eu só não finjo ser o que eu não sou.
— Senhores… - Gisele intrometera-se — Há muito trabalho para todos nós, então é melhor nos encaminharmos a eles, não é?
Matheus encarou Gisele, mandou-lhe um beijo no ar e uma piscadela, e Pedro bufou com aquilo. Depois que Matheus entrou no elevador, Pedro apenas entregou o documento que tinha redigido nas mãos da secretária, e saiu de volta à sua sala. Gisele procedeu com o documento, e depois de despachá-lo, ela foi até a sala dele. Bateu à porta, e entrou assim que ele autorizou.
— Pedro? Vai ficar virando a cara para mim, toda vez que Matheus lhe provocar? Eu não tenho nada a ver com a confusão de vocês dois.
Pedro fechou o notebook em sua mesa, e observou calado Gisele se aproximar. Ela parou ao lado da cadeira dele, recostando-se à mesa.
— Eu sei que você não tem culpa de nada, mas, eu não posso evitar sentir ciúmes toda vez que ele se insinua para você. Ainda mais por saber que tudo se trata de uma encenação ridícula.
— Ciúmes de mim ou dele, Pedro?
— Está ficando louca por acaso?
— Então, que tal se nós transformamos este relacionamento em algo sólido?
— O que você quer Gisele?
— Me apresente de uma vez, à sua família. Ou eu não passo de mais uma?
— Eu não sou este tipo de homem, e você sabe. Só acho que está cedo para formalidades.
— E eu acho que eu não passo de uma desculpa para você.
— Gisele… - ele chamou-a enquanto a mulher saía firme de sua sala.
Pedro achava muito cedo transformar a relação com Gisele em algo público. Mas, decidiu que apresentaria ela à sua irmã, não como namorada, mas como uma companheira. Ele não poderia perder Gisele, apesar do pouco tempo, Pedro gostava do que estava surgindo entre eles. Mesmo que Matheus fizesse questão de perturbá-los.
O último dia, em tempo integral na faculdade não fora como havia esperado. Ela achava que terminar aquele semestre seria como um fim de ano escolar. Porém, ela estava exausta. O longo seminário teria sido mais proveitoso se sua cabeça, não estivesse tão distante aquele dia. E as aulas que seguiram abordaram cansativos assuntos. e Catarine, encaminhavam-se para fora da sala de aula, ambas cansadas.
— Não acredito que acabou.
— Não acabou, agora virá o trabalho.
, não corta o meu barato. Caramba, que dia pesado!
— Sim, foi um dia muito teórico e pouco prático.
— É, mas a prática virá logo e não tenho certeza que será menos cansativa.
— Você já conseguiu algum trabalho, Cata?
— Não, na verdade nem procurei. E você?
— Estou aguardando algumas respostas.
— Boa sorte, amiga.
— Pra você também. E o que fará neste recesso?
— Buscar trabalho? - as duas riram — É sério, eu deveria ter corrido atrás antes, e agora vai ser difícil.
— Não vai ser difícil, mas, você não terá como escolher muito. As melhores vagas foram preenchidas com certeza.
— Droga… E você , quais os planos para o recesso?
— Não sei. Nem pensei nisso na verdade, não vai ter descanso, eu acho. E nem Pedro.
— Falando em namorado… O seu ex, está vindo.
virou-se assustada e observou Rafael vir em sua direção.
— Aproveite para nos apresentar. - sussurrou Catarine.
— Boa tarde, . - ele disse em frente a ela.
— Boa tarde Rafael. Está é Catarine.
— Prazer. - os dois cumprimentaram-se — Eu poderia falar com você um instante, ?
— Bem gente, eu tenho que ir. A gente se fala, amiga.
— Até mais, Cata.
Eles esperaram a garota distanciar-se um pouco, e então, caminhou até a saída da faculdade e Rafael a seguiu. Os dois pararam um pouco antes do portão.
— O que você quer?
— Será que nós podemos agir como colegas, pelo menos?
— Rafael, eu realmente preciso falar com você. Eu estou namorando agora.
— Eu sei.
— Pois é, e eu estamos apaixonados e decidimos dar um passo sério na nossa relação. E eu preciso ser franca com você. Eu menti. Ele não se chama Victor, se chama . Na verdade, aquela noite na boate eu quis me vingar de você por todo o mal que você me causou, e fiz aquele jogo estúpido de sedução. Era pra ser uma noite e nada mais, e quando eu contei ao , apesar de termos um lance moderno, ele não gostou. E foi aí que descobrimos o que realmente sentíamos um pelo outro. Sem relacionamento aberto, agora é real, é pra valer. E eu não te amo mais, graças a Deus.
— Por que mentiu o nome dele?
— Não queria que você tivesse alguma aproximação com ele, mas, ele acabou surgindo aquele dia de manhã, e eu levei a farsa até você ir embora, depois ele e eu conversamos e eu contei a verdade.
— Você fala de mim, como se eu fosse um monstro.
— Você pode até não ser um monstro, mas foi como você se portou enquanto estávamos juntos. E não é exagero, talvez você não saiba o mal que me causou Rafael, e o quanto eu sofri.
— É eu não sei mesmo, porquê por mais que eu tenha errado, não consigo enxergar todo este absurdo que causei.
— E é esse o seu problema. Você é machista, abusador, e ainda por cima me agrediu de todas as formas.
, por favor… Acredite que eu te amo. De verdade, eu sei o quanto eu perdi.
— Eu acredito Rafael, mas, eu não me importo com o que você sinta. Da sua forma doentia você deve ter algum sentimento. Mas, é doentio. Você precisa de tratamento.
— Entendi. Então, agora você e aquele cara…
— Sim, nós estamos namorando. E eu não acho legal, e nem saudável com você que nós, tratemo-nos como se fôssemos amigos. De verdade, eu não quero.
— Você é minha, . Não se engane.
— Não se engane você, Rafael!
estava nervosa e àquela altura gritou. Rafael continuava calmo. Eles se encaravam em silêncio, até Rafael olhar para alguém atrás de . Ela sentiu uma mão em sua cintura e virou-se deparando-se com . Abraçou-o forte, e o rapaz lhe apertou em seus braços.
— Algum problema, amor? - perguntou a ela encarando Rafael.
— Não, o Rafael e eu só estávamos esclarecendo algumas coisas.
— Eu sei quem você é! - apontou para Rafael e afastou para atrás de si, ele se aproximou ainda mais ameaçador do rival — E eu não quero você perto dela, eu não vou deixar você se aproximar da minha namorada e nem fazê-la mal algum, entendeu?
— Não é mal que eu tenho a oferecer a ela. - ele encarou de volta.
— Você não tem nada a oferecer para a !
— Veremos.
avançou para cima de Rafael, mas, o segurou. Ela pediu para ele se acalmar e foi o empurrando para longe do ex. virou-se dando a mão para e saindo com ela, pelo portão da faculdade.
Quando os dois passaram do portão, o carro de estava estacionado em frente, do outro lado da rua. Eles atravessaram, olhou para trás e viu Rafael caminhar para fora da faculdade, calmamente, logo atrás dele. Sem pensar muito, ele soltou a mão de e a escorou na porta do carro, onde ela deveria entrar. Prendeu-a entre ele e o carro, segurou o rosto dela, furioso a encarando nos olhos e avançou-lhe à boca. Beijou de maneira desesperada. Apertava o rosto dela contra o seu. E separou-se da boca dela, ofegante. Abriu a porta para que ela entrasse. E depois que a garota entrou no carro, olhou na direção de Rafael, desafiadoramente. Depois deu a volta no carro, ainda furioso entrou e deu partida cantando pneu.
estava assustada, nunca havia visto daquele jeito. Depois de algum tempo, sério sem trocar palavras, respirou fundo caindo em si e olhou para a amiga. ainda estava calada e com olhar assustado.
— Desculpe, … Eu fiquei nervoso quando vi aquele babaca perto de você.
— Ahn… Tudo bem, foi bom você ter chegado.
— Ele fez algo com você?
— Não, foram só as coisas que ele disse.
— O que ele disse?
— Nada de importante, só provocações. Vamos esquecer o assunto, tudo bem?
— Como você quiser.
O silêncio se fez novamente entre eles, e sentiu necessidade de pedir desculpas pelo beijo.
— Desculpe pelo beijo.
— Não precisa se desculpar por isso, .
— Eu… Só quis deixar claro que ele não tem mais chance. Ou tem?
— O quê? - ela o olhou indignada — É óbvio que não!
— Então, agi certo? - ele perguntou com receio para ela, que pensou para responder — Esquece! Não precisa responder, é claro que agi certo. Estamos fingindo isso para te livrar daquele cara!
sorriu falsamente, não gostou de ouvir que tudo não passara de fingimento. Mas, decidiu por uma pedra naquele assunto.
— Onde você foi esta manhã?
— Tive uma reunião importante, mas, acho que não consegui o que queria.
— Fiquei preocupada. A propósito, eu não tive como retornar suas ligações! Foi um dia tenso.
— Tudo bem, eu só fiquei preocupado se você teria conseguido acordar.
— Ei! Eu sou responsável com meus horários.
— Claro que é, mas só uma avalanche para te acordar.
— Que exagero.
Eles riam, e conversaram descontraidamente sobre seus dias até chegarem no apartamento. Quando chegaram, Pedro ainda não havia voltado. foi em direção ao quarto tomar banho, e então lembrou-se:
! Olha pra mim! - ela gritou e ele virou-se sem entender. Então ela sorriu ao encará-lo: — Pode ir.
— O que foi?
— Nada.
Ele sacudiu a cabeça e saiu, sorria observando-o. Estava do jeito que ela imaginara: despenteado sexy, o terninho desarrumado e a gravata azul-marinho cintilante afrouxada.
Ela abriu a geladeira para ver o que preparariam, mas, não havia muita coisa. Precisavam fazer compras. Pegou os inúmeros panfletos de delivery, nada a satisfez. Abriu o aplicativo de delivery pelo celular e ao escolher foi até o quarto ver se estaria de acordo.
! - ela abriu a porta de repente.
estava de cueca, e virou-se para ela calmo dobrando sua calça. Ela o olhou surpresa e baixou os olhos até a cueca de , e depois envergonhada virou o rosto. Os dois começaram a rir e desculpou-se:
— Foi mal, não teve como não olhar. É… Termine de se vestir, depois nos falamos.
Ela disse risonha e vermelha e fechou a porta. Os dois riam divertidos, mas, escorou-se na porta do lado de fora, com as mãos à boca, surpresa por ter se deparado com daquele jeito. E assustada com o efeito de algo que para ela era tão comum, como a nudez de um corpo. Ela não entendia porque estava envergonhada.
Do outro lado da porta, estava ainda de pé olhando a porta com um meio sorriso. Ele havia visto envergonhada? Envergonhada por algo que ela nunca tivera vergonha alguma? Ele estava surpreso com a reação dela. E mais uma vez, ele soube que a convivência íntima mudava uma amizade. Não era do feitio da demonstrar-se incomodada com em poucas roupas. Ele jogara a toalha sobre seu ombro e sorrindo foi para o banheiro.
entrou pouco tempo depois no quarto, e ouviu o barulho do chuveiro. Pegou suas roupas e foi para o banheiro do quarto do irmão. Tomou seu banho e vestiu-se. Quando saiu, encontrou voltando da lavanderia. Ele estava sem camisa, e de moletom. Ela passou por ele, fingindo não ter percebido o abdômen definido dele. Nunca houvera reparado daquela forma, e se espantou por nunca ter olhado para com outros olhos. Ele era realmente quente! Pendurou sua toalha na lavanderia e voltou para a sala, e sem deixá-lo perceber encarou o abdômen do rapaz sentado de qualquer jeito no sofá, que mexia no celular. Passou por ele procurando o seu celular nas poltronas da frente do sofá, e foi a vez de reparar no short curto, do baby doll que usava. Ele engoliu seco, e disfarçou encarando seu celular de novo.
— O que houve, ? Aconteceu algo?
perguntou sentando-se ao lado dele, com seu aparelho em mãos.
— Nada, por quê? - ele perguntou confuso para ela.
A garota tocou a testa dele com dois dedos desfazendo a ruga que encontrara ali.
— Então não fique franzindo a testa desse jeito.
Ele sorriu e abaixou a cabeça, como se tivesse feito algo errado.
— O que queria me falar? - ele perguntou.
— Eu pensei em pedir este prato, o que você acha?
Ela abriu o aplicativo e mostrou-o. Ele concordou e então, os dois ouviram a porta se abrir. Olharam ambos para a entrada da casa, e se assustaram ao ver Pedro chegando acompanhado. Ficaram calados encarando-o.
— Não vão dar boa noite, mal educados? Temos visita! - Pedro disse risonho.
— Boa noite. - e disseram juntos.
— Esta é a Gisele.
Pedro puxou-a pela mão, até próximo aos dois. e se levantaram sorridentes e cumprimentaram a garota. a cumprimentou bastante sorridente. E apenas a cumprimentou educadamente. Estava sem graça por estar sem camisa.
— Gi, está é a , minha irmã. E , o namorado dela.
A mulher sorriu para eles, mas, os amigos se olharam sem jeito e encararam Pedro que ria da cara dos dois. abraçou Gisele e foi ao quarto vestir uma camisa. Quando voltou a sala, não gostou de vê-lo vestido e fechou a cara. Pedro percebeu aquilo e sorriu. Algo, finalmente, parecia acontecer.
— Fique à vontade Gisele. É um prazer conhecê-la. - falou gentil, e a garota respondeu com um agradecimento e sentou-se em uma das poltronas.
sentou-se de frente a ela, após cumprimentar Pedro. E , mais animada que o normal, sentou-se no sofá ao lado de , com as pernas cruzadas e bateu palmas.
— Ai eu estou empolgada! Vocês estão namorando? - ela perguntou para Gisele, e seu irmão.
— Não, . Não assusta a Gisele, se não ela vai desistir só por te conhecer.
— Calado Pedro!
Gisele riu e encarou Pedro, aguardando a resposta dele para “o quê” eles eram.
— Estamos juntos, nos conhecendo. - ele respondeu à irmã encarando a reação de Gisele.
Ela sorriu, pareceu gostar.
— Acabamos de pedir massa italiana para o jantar, vocês jantarão conosco?
— Não, . Gisele e eu temos um jantar entre amigos. Só passei em casa para me arrumar.
— Que pena! Gisele está convidada a voltar qualquer hora, e jantar conosco!
falou simpática, e a mulher agradeceu. Os três: , Gisele e conversavam enquanto Pedro se arrumava. Logo que ele ficou pronto, se despediram e saíram. ficou chateada por não poder conversar mais com a garota que o irmão trouxera. Não era típico do Pedro apresentar garotas à família. E , retirou sua camisa novamente, e dobrou-a deixando no braço do sofá. observou aquilo, enquanto estava deitada no sofá. Cutucou com a ponta do pé apenas para ele olhar para ela.
— Por quê você é sempre tão organizado?
— Desde quando isto é um defeito?
— Não disse que era um defeito, eu perguntei por quê.
— Vocês brasileiros são muito bagunceiros, sabia? Na minha cultura somos educados a ter etiqueta e disciplina, tudo tem o seu horário e o seu lugar. Infelizmente já perdi muito dos meus bons hábitos.
— Hum… é só uma questão de rotina. Quando você voltar…
? - ele chamou-a depois de notar o silêncio repentino.
A garota se ergueu, sentando-se no sofá, devagar e séria. Encarou e perguntou-o após enlaçar seus dedos:
— Você veio para estudar, e no entanto, já formou. Já está trabalhando…
— Sim. Qual o problema?
— Quando nos conhecemos, você dizia que depois que acabasse seus estudos voltaria para sua terra. E hoje você disse ter uma reunião importante… Você está planejando voltar para a Coreia, ?
Ele sorriu plácido, com a calma que só ele tinha. E encarou o olhar curioso – e talvez aflito, se assim pudesse dizer – de . Respirou fundo e se aproximou dela, sentando mais perto.
— Eu não estou planejando voltar agora, ainda tenho algumas coisas a cumprir, mas, eu quero voltar. O Brasil é um país incrível, mas, não é o meu lar. Eu poderia viver muito bem aqui, mas, tudo o que tenho e o que é importante estão na Coreia. A reunião de hoje era um passo a mais para a minha carreira, entretanto, não deu certo. Por isso, não se preocupe, eu ainda passarei um tempo aqui.
abaixou o olhar, descontente. Não fez questão nenhuma de esconder. E notara, ele levantou o queixo da menina a fim de se olharem nos olhos e então ela lhe sorriu.
— Mesmo que fosse embora não se livraria de mim, tão fácil. - ela disse.
— E nem você de mim. Acha mesmo que ir para o outro lado do mundo é o suficiente para me tirar da sua vida?
— Droga, eu tinha esperanças que sim.
Eles riram, e então avançou sobre ela para lhe fazer cócegas. Enquanto ele torturava a amiga, ela tentava o empurrar de cima de si, mas, era inútil. Ele era mais forte que ela. Então, parou de brincar, e sentou-se ao chão. Ficou ao lado dela, com a cabeça apoiada em sua barriga. E , deitada como antes, mexia no cabelo dele.
— Sobre o que era a reunião? - ela perguntou.
— Escrevi um roteiro há algum tempo, para uma série ou dorama. Infelizmente a produtora não se interessou, mas, consegui o contato de um investidor coreano de uma conhecida produtora, mas, não sei se a reunião de hoje foi satisfatória.
— Tudo acontece ao seu tempo, não fique preocupado com isso. Tenho certeza que na hora certa você vai chegar lá.
— Seria fantástico se você atuasse em um dos meus roteiros.
— Nada é impossível. Se você me convidar, pode apostar que eu irei!
— E você, como foi seu último dia de aula?
— Último não, último dia integral. Agora virá o trabalho de conclusão e estou aguardando respostas das entrevistas que fiz. Mas, tem gente pior. Catarine por exemplo, nem começou a procurar.
— Catarine? A sua amiga gata? Como é hein, quando vai nos apresentar?
— Não vou. Você tem um relacionamento comigo cara pálida. E ela já sabe.
— Olha você me atrapalhando mais uma vez.
— E depois, Catarine não está interessada em você. Ela quer que eu a apresente ao Rafael.
— Ao Rafael? Como ela o conhece?
— Estávamos os três na mesma palestra hoje de manhã. E ela percebeu que ele estava nos encarando, então eu contei que era o meu ex-namorado.
— E mesmo assim ela te pediu isso?
— Uhum! Viu como eu falei que não dá pra confiar nela?
— E você vai apresentá-los?
— É claro que não!
virou-se para , com o cenho franzido e humor alterado.
Aigoo! Por que não?
— Porque eu não quero que ninguém passe pelo que eu passei.
— Tem certeza que é isso?
riu ao perceber o incômodo de . Ela tocou a testa dele, afastando as rugas e bronqueando para que ele não fizesse mais aquilo.
— É só por isso, sim.
— Sei… - ele respondeu voltando a deitar-se com a cabeça sobre a barriga dela e fechou os olhos, enquanto a amiga mexia em seu cabelo.
— Alguém está com ciúme? - provocou.
— Com certeza. Não quero este cara perto de você.
?
— Hum?
— Está falando sério?
— Você é minha namorada, e não dele.
calou-se confusa e observou a expressão no rosto de . Ele ainda mantinha os olhos fechados, mas se mostrava sereno. Aquela história a confundia cada vez mais. Ouviu-se o som da campainha.
— Finalmente!
levantou-se rápido indo em direção da porta, para receber o delivery. Ele pagou o entregador e correu para a cozinha e pôs a mesa. continuava deitada no sofá pensativa. Então ele se aproximou dela devagar, abaixou-se e acariciou a cabeça dela:
— Não vai comer?
— Vou sim, estava longe com meus pensamentos.
— Eu posso saber o que é?
— Não, porque agora vamos comer.
levantou-se puxando pela mão. Sentaram ao balcão da cozinha e jantaram juntos.

Capítulos corrigidos até aqui por Ray Dias.


7 – E se não for mentira?

Depois do jantar, e dividiam o sofá deitados, ela mexia em seu celular, e ele assistia à Netflix concentrado. Ela sorriu para algo em seu telefone, em seguida furtou o olhar na direção do amigo. Tirou uma fotografia dele, e postou em suas redes sociais o marcando, com a seguinte legenda:
“Quando a gente gosta de alguém, até os detalhes mais comuns nos passam ao olhar como algo indescritível…”
O celular de apitou em seu bolso, e ele ainda concentrado na TV pegou-o. Direcionou atenção ao objeto em sua mão e depois sorriu tímido. Olhou para que ainda sorria o encarando. Então foi a vez do celular da garota tocar, e como um ato automático, ela atendeu a chamada.
— Alô?
— Eu estava pensando em você quando chegou uma notificação da sua postagem. Eu diria que foi uma conexão incrível, se não fosse pela fotografia. reconheceu a voz, mas não quis acreditar. Tirou o aparelho da orelha e encarou o visor. O nome de seu ex estava ali. Ela irritou-se e se levantou de súbito.
— Crie vergonha na sua cara, e não me ligue mais.
— Será que é o que você realmente quer?
— O que eu realmente quero é que você me esqueça! - ela bravejou.
, que já havia entendido o que acontecera, levantou-se também e retirou o aparelho das mãos de , tomando a conversa para si:
— Eu só vou dizer uma única vez, Rafael: deixe a em paz, ou eu mesmo irei atrás de você acabar com essa palhaçada.

— Olá, Victor, ou melhor… … Estarei esperando!
— Eu não aviso duas vezes. Não se aproxime dela, ela não quer, e nem eu.
— Você acha que vai ficar com ela? Ela é minha. Abra você os seus olhos! Ops… Desculpe a piada! Rafael riu sarcástico e então desligou a chamada, depois bloqueou o número dele no celular de . A menina estava nervosa observando o amigo de costas a ela. E então, o chamou pelo nome. virou um pouco a face, deixando o próprio perfil bravio visível à amiga. pareceu preocupada com ele, e se aproximou lenta. O rapaz entregou a ela o celular, e quando a menina o pegou de suas mãos, o olhar dos dois fixaram-se um no outro profundamente. puxou para si, abraçando-a fraternal. A garota, menor que ele, desaparecera em seu abraço. Ela fechou os olhos aproveitando aquele momento, sentindo a pele de e arrepios desciam e subiam por todo o seu corpo. E então em tom rouco, e baixo, sussurrado próximo ao ouvido de , a disse:
— Eu não vou deixar que ele toque em nenhum fio do seu cabelo. Eu vou te proteger, custe o que custar. - os olhos dele que estavam abertos, desesperados para todos os lados do chão daquela sala, se fecharam apertando mais e mais contra si.

Depois de um tempo naquela situação, eles separaram-se e sorriram. acariciou o rosto dela, e abriu a boca para dizer algo, mas, não emitiu voz. Ela o encarava curiosa, e então o ouviu:
— Eu vou dormir. Estou cansado do dia de hoje… Você vem?
Ela fez que não com a cabeça. Eles encararam o chão e beijou a testa dela despedindo-se. Ele foi direto para o quarto, e ficou na sala. Sentou-se no sofá, assim que viu a porta do quarto fechar. Mordeu os lábios e desligou a TV. Caminhou até a mini sacada da sala, e sentiu o vento forte da noite. O cheiro da poluição que saía dos carros na avenida abaixo de sua janela, que não descansava nem mesmo na madrugada. Ficou um tempo ali, pensando em e em tudo o que vinha sentindo por ele, que lhe parecia tão novo e estranho.
Dentro do quarto, demorou a pegar no sono. Ficou repassando as palavras que desistira de dizer em sua mente. Virava de um lado ao outro da cama. Pensou na conversa com , quando ela perguntou se ele iria embora. Pensou no momento que encontrou ela e Rafael conversando na faculdade e da raiva que sentiu. Pensou no beijo que deu em mais cedo. E no abraço instantes atrás. Pensou nas palavras doentias e preocupantes de Rafael ao telefone. Na expressão de medo na face dela. E em até onde aquela farsa adiantaria alguma coisa. Deveria falar com Pedro, sobre tudo aquilo. E como num estalo, pensou na reunião que tivera pela manhã e na possibilidade do investidor dar uma resposta positiva. Por mais desconfiante que estivesse, ainda havia aquela hipótese que ele escondeu de . Suspirou fundo e ouviu a porta do quarto abrir. Fechou os olhos fingindo dormir. se aproximou devagar, na expectativa de não fazer barulho, mas, a pisada da garota – por mais que ela tentasse – era forte.
Ela acomodou-se na cama, o mais discreta que conseguia, e sorriu secretamente encarando as costas da mulher deitada ao seu lado. Ele ficou ali observando ela afastar os cabelos para frente, suas costas nuas sob a roupa, e o ombro emoldurado pela fina alça do babydoll rosa. E então, seu coração batia mais forte, ele queria se aproximar. Mas, de repente recordou-se de seus costumes orientais: já era demasiado errado estar na mesma cama que ela. E depois recordou-se feliz de que estava no Brasil: aproximou-se lentamente do corpo dela, e passou seu braço sobre a barriga dela. Juntou seus corpos em uma conchinha e falou baixinho no ouvido dela:
— Posso?
A garota sorriu tímida – como nunca antes – e respondeu virando o rosto numa fração mínima:
— Deve.
Fecharam os olhos e adormeceram.

Pedro caminhava urgente pelo cômodo da casa de Gisele. Suas línguas entrelaçadas e os cabelos despenteados. As mãos que exploravam carinhos um ao outro, e as peças de roupa que ficavam no caminho da sala até o quarto. Gisele jogou-se no próprio colchão, e provocativa, sorria para Pedro. Ele não demorou-se a avançar sobre ela, e cobri-la de carícias que intermediavam entre toques rudes e delicados. No meio de toda a agitação dos dois, Gisele puxou a cabeça de Pedro para trás, a fim de encará-lo. O rapaz a olhou curioso e luxurioso.
— Eu tô apaixonada por você. - a voz melodiosa da mulher soou séria como nunca.
Pedro apenas sorriu e atacou a boca dela, na tentativa de calar-lhe. E deu certo.

De manhã, ficaria em casa. Não tinha aula, e decidira trabalhar em seu roteiro, também estava de folga. Os dois sorriam um para o outro, vez ou outra. Aquilo soava tão estranho quanto automático. Era como se os olhares se buscassem sem perceber. A porta da sala abriu-se num estrondo forte. , que estava na cozinha bebendo água, e , que escrevia uma lista de compras, olharam na direção do barulho de forma pausada e perplexa.
Pedro adentrava à casa, descabelado, amarrotado e com um semblante de ressaca. Caminhou devagar até o sofá da sala e se jogou ali. e se olharam de novo, desta vez propositalmente e riram caminhando até ele. sentou-se no braço do sofá próximo à cabeça do irmão, e na ponta oposta do sofá.

— Que noite hein, Pedro?
— Nem me fale, maninha!
— Cadê a Gisele? - perguntou mastigando gelo.
— Não faça isso, , é irritante. - Pedro mencionava o barulho de gelo sendo mastigado.
— Xiii… Alguém está de ressaca, .
— Cadê a Gisele?- ignorou a reclamação de Pedro e repetiu-lhe a pergunta. Então Pedro levantou-se moribundo, e sentou-se no sofá com as mãos à cabeça. Olhou para cada um dos companheiros presentes, e iniciou um choramingar de descontentamento.
— Ela disse que está apaixonada! - ele resmungou.
ergueu as sobrancelhas surpreso e sorriu, revirou os olhos por saber o que aquilo se tornara.
— Ai. Meu. Deus. O que você respondeu, Pedro?
— Calei a boca dela com um beijo.
— Ok… E depois?
Pedro olhou óbvio para a irmã.
— Ah tá! Entendi! - ela exclamou e a olhou confuso, então a menina explicou: — Eles estavam transando na hora.
arregalou os olhos surpreso e parou de mastigar seu gelo.
— Certo, Pedro, mas, vocês falaram sobre isso em algum momento depois? - perguntou-o.
— Não. Eu acordei antes dela e saí de fininho. Por que acha que eu estaria aqui a esta hora, com esta ressaca?
— O QUÊ? - tanto quanto exclamaram ao mesmo tempo.
— Não gritem. - Pedro reclamou sem alterar a voz.
— Aigo! Como você faz isso com a menina, cara? Que rude. - perguntou descontente com Pedro.
— Tá legal! Pode começar a falar sobre qual foi a enrascada que você se meteu, desta vez!
disse categórica ao irmão. Pedro rolou os olhos impaciente, e a irmã insistiu. Ele olhou para , e apontou com o olhar de uma maneira discreta. bufou e sorriu sacana:
! - o amigo a encarou confuso — O Pedro é bissexual.
— O quê?
! Qual é!
— Não se preocupe, Pedro, eu não vou discriminá-lo. - disse sem graça.
— Foi mal, . Sei como pode parecer estranho para você.
— Nem tanto. - sorriu solidário para Pedro.
— O já está no Brasil tempo suficiente para saber lidar com a sua indecisão sexual, Pedro. Não é como se na Coreia não existisse isso também.
— Não tão abertamente. - afirmou.
— Enfim! - Pedro encerrou o assunto, ou quase isso: — E não é indecisão, é condição, sua idiotinha.
— Sem discurso moralista, ô pequenas causas!
— Você é a pior irmã do mundo.
— Anda logo, Pedro! Fala logo no que você se meteu, porque eu sei que esta história com a Gisele já deve ter começado errada!
Pedro encarou a irmã e respirou fundo. e , sabendo que ele começaria a contar algo, buscaram sentarem-se de frente para ele. correu à poltrona da frente, e sentou-se atento. Assim como também, sentou-se no braço da poltrona de . O amigo passou o braço pela cintura da amiga e os dois atentavam-se a Pedro que contava-lhes a situação.
— Lembra daquela festa que eu fui, no dia que você reencontrou o Rafael?
— Sim.
— Naquela festa eu fiquei com uma pessoa e a gente começou a sair. E eu comecei a me envolver, mas, ao mesmo tempo Gisele vinha dando indiretas sobre seu interesse em mim. Mas, eu não sou canalha de sair com duas pessoas ao mesmo tempo. Daí teve um dia, que eu saí de novo com a tal pessoa e propus que fôssemos em um lugar mais próximo. Mas aí…
— Já sei! Ele não quis sair, porque é um homem não assumido. - falou convencida e arregalou os olhos surpreso, mas calado.
— É, , exatamente. Eu sabia que não daria certo, porque eu já estava me envolvendo naquele lance. Decidi terminar. E ele não gostou.
— Hm… Eu achei que você tinha levado um fora.
— Não dessa vez. O fato é que eu comecei a sair com a Gi. Acontece que ele trabalha no mesmo escritório que eu. E nos esbarramos todos os dias, e ele começou a dar em cima da Gisele para me provocar.
— Ela sabe de tudo?
— Sabe.
— Ela corresponde ele?
— Não.
— Você gosta dele?
— Não mais, porque ele foi babaca o suficiente para espalhar, entre o pessoal do escritório, que eu chamei ele para sair.
— E você está tendo problemas no trabalho agora?
— Não, ninguém acreditou, mas, as pessoas acreditaram quando eu disse que foi o contrário.
— Você jogou baixo também? Pedro, você não é esse tipo de pessoa.
— Eu sei! Mas, desde então ele tem perseguido a Gisele, e me provocando. Me irrita, mas, ele não é o problema. O problema é que eu comecei a sair com a Gi para me livrar das lembranças com ele, e agora a garota está apaixonada.
— Uh… É você está ferrado.
— Só isso? Minha irmã pede para eu me expor desta forma, para não dar solução nenhuma?
— Calma aí, nervosinho! Eu tenho que pensar em como te ajudar. Mal consigo sair dos meus problemas.
— E por falar nisso…
— Por falar nisso preciso conversar com você depois, Pedro! - , que até então estava calado, recordou-se da ligação de Rafael e se pronunciou interrompendo Pedro.
— É eu já ia perguntar. Não precisa de formalidades, por mim, tudo bem.
— O quê? - e perguntaram ao garoto à sua frente, confusos.
— Do que você ia falar? - Pedro perguntou de volta.
— É uma conversa particular que preciso ter com você, depois. - respondeu ainda confuso.
— O que você está escondendo de mim, ? - perguntou surpresa ao amigo.
— Afinal de contas! O que vocês dois estão tendo?
Pedro exclamou para os dois que se encaravam perto demais, e mal perceberam. Então e encararam confusos ao rapaz. Pedro arqueou a sobrancelha óbvio e apontou com as duas mãos para os dois. e se olharam de novo, e só aí se deram conta. já não estava sentada no braço do sofá, mas sim, no colo de . E Pedro, que durante o diálogo havia notado os gestos deles, não pronunciou-se imediatamente, mas sabia que algo estava diferente. e estavam envergonhados entre si, e antes que a garota levantasse, Pedro perguntou:
— Vocês estão transando?
— Não! - gritou eufórico enquanto saía de seu colo.
— Nossa, … - ela reclamou e Pedro riu.
— Pedro, eu não estou… Com a sua irmã… Eu….
— Calma, , relaxa, cara! Eu já disse que por mim tudo bem.
— Não estamos transando, Pedro, deixa de ser idiota.
— Mas está rolando alguma coisa porque… revirou os olhos impaciente e interrompeu o irmão. Caminhou até a mesa da sala e pegou a lista de compras.
— Eu vou ao supermercado. - ela disse.
— Eu te acompanho. - afirmou levantando-se rápido.
— E eu vou dormir, até mais, casal. - Pedro disse se encaminhando ao próprio quarto, e acenando aos dois.
saiu na frente com sua bolsa atravessada ao corpo e correu para pegar o elevador aberto. correu logo atrás alcançando-a. A vizinha que estranhara a presença – contínua – daquele rapaz no apartamento da jovem, sorriu para os dois observando-os de maneira incômoda. Quando a vizinha saiu, olhou para ele emburrada e disse:
— Vizinha fofoqueira.
Ele sorriu divertido, mas, observou a amiga de soslaio e percebeu sua irritação.
— Está chateada com o que o Pedro disse?
— Estou irritada pela sua reação, isso sim!
— Pela minha reação?
— Seria tão ruim assim, que estivéssemos transando?!
, fala baixo.
— Aaahh, !!! - ela saiu pisando fundo em direção ao estacionamento.
— Vamos de carro? Eu vou buscar a chave! - disse para ela, se dando conta que não havia pego as chaves.
— Eu já as trouxe.
— Iria dirigir meu carro, por acaso? - ele brincou com a amiga ainda séria.
— Foi você quem disse que me acompanhava. - e ela respondeu sem trégua.
! Espera! - ele pegou o braço dela, fazendo-a encará-lo.
— O que foi?
— Me diz você! Está irritada por quê?
— Porque você me faz sentir como se qualquer hipótese de nós ficarmos juntos, fosse um absurdo!
— Você sabe que não é verdade.
— O que eu sei, , é que sozinhos somos diferentes de quando outras pessoas estão perto. E quando alguém pergunta sobre a gente, você age como se fosse uma loucura.
, não é isso! Você sabe que… É complicado pensar nessas coisas entre a gente. Sempre fomos amigos, e só amigos.
— E o que somos agora, ?
— Eu não sei…
— Somos uma farsa. Então, vamos continuar agindo como antes, tá? Antes dessa besteira que eu inventei.
— Não dá. Não depois de ter beijado você… Ele afirmou se aproximando dela e a olhando profundamente. calou-se confusa e sua respiração falhava, ela sentia se aproximar cauteloso de seu rosto, e então o interrompeu. Baixou o rosto e esticou as chaves do carro até ele. Deu as costas e foi andando na direção do carro. bagunçou os cabelos e fechou os olhos, de modo contrariado. Em seguida a seguiu.
No caminho para o supermercado eles trocaram poucas palavras, apenas escutando as músicas coreanas de . Mas, ao chegarem no lugar, já estavam bem um com o outro novamente. Faziam as compras distraídos, até que Catarine se aproximou os cumprimentando. Eles sorriram surpresos para ela, e fingiram o que tinham de fingir. Depois que ela saiu, os dois se olharam envergonhados pela discussão do estacionamento.
— Desculpe, , eu surtei, né?
— Não, não. Eu também me sentiria rejeitado por ter reagido daquela forma. Só que… … Entenda, você não é uma qualquer para mim. É uma amiga importante, a mais importante que fiz no Brasil. E não posso ser hipócrita em dizer que tudo pode ser como antes. Porque não pode. Eu não sei exatamente o que está acontecendo, mas, não vai ser a mesma coisa.
sorriu com a sinceridade do amigo, e beijou o rosto dele.
— É, eu sei. - ela afirmou e levou o carrinho de compras para o próximo corredor.
ficou observando-a distanciar, e então veio uma memória à sua mente. Ele correu para alcançá-la e se pôs a caminhar ao lado dela pegando as coisas que ela pedia.
— Sabe o que eu estava pensando outro dia?
— Em mim.
— É, mas não em você propriamente. Estava pensando na gente.
— Sério? - ela perguntou surpresa.
— Eu concluí que nós nunca saímos para uma balada. Pra dançar. Ela pensou um pouco e sorriu concordando:
— Verdade! Que tipo de amizade é essa?
— Não é muito convencional. Mas, o que você acha?
— Acho que devemos concluir isto o quanto antes!
— É, mas, para onde?
— Deixa comigo!
— Não sei se é uma boa ideia… Da última vez que você foi para a balada, encontrou seu ex.
— Lá mesmo! Apesar dos pesares, é uma boate ótima. Eu super adoro aquele lugar.
— Não quero.
— Hum! Que chato! Escolhe você então! sorriu discreto, e puxou o telefone do bolso e começou a mexer.
não importou-se em descobrir o que ele estava fazendo, apenas continuou suas compras. Dias depois, os dois amigos chegaram ao mesmo tempo em casa, no final do dia. tinha saído de um teste, e estava eufórica e falante. estava animado por ela, a ouvindo com atenção. Os dois riam bastante, mas, quando entraram em casa, se depararam com Pedro e Gisele numa discussão. Ao que puderam entender, Pedro não havia respondido à Gisele sobre os sentimentos dela desde que ela confessara.
A garota saiu tempestiva, e passou por eles sem cumprimentá-los. Pedro gritou para ela esperar, pegou seu casaco e correu atrás dela. Ao passar por e sua irmã, ele apenas acenou-lhes de maneira desajeitada. Os amigos olharam-se aflitos e logo terminaram de chegar em casa. estava sentada no balcão da cozinha, comendo besteiras antes do jantar de ficar pronto. E o amigo já tinha tirado os salgadinhos de perto da amiga várias vezes, mas, ela sempre os pegava de volta. Ele perdera a paciência e já ia reclamar com ela de novo, quando observou-a pálida lendo uma mensagem no celular.
— O que houve, ?
— É a Cata.
— Aconteceu algo com ela?
— Mais ou menos. Ela conseguiu sair com o Rafael. E está perguntando se nós não queremos ir com eles a um barzinho, tipo… Agora.
— Que garota sem noção.
— Viu! Eu falei! E você achando que era coisa da minha cabeça!
— Nós não vamos.
— Claro que não!
— Eles é que vão vir.
— É o quê, doido ?
— Pensa comigo: receber seu ex e a ficante dele, para um jantar na “nossa” casa pode ser uma boa. A chance de mostrarmos o quanto somos apaixonados.
— Será?
— Vamos dar um choque de realidade naquele babaca.
— Realidade? No nosso mundo de fantasia?
— Só confirma aí para sua amiga, que é para eles virem.
— E se eles não quiserem?
— Aí você diz que não vamos, porque o jantar está quase pronto. E quer saber? Duvido que o Rafael não tope. Como se soubesse que aquela seria a chance perfeita de se livrar do ex-namorado de , ele terminou o jantar e no horário marcado, lá estavam o ex, e a amiga Cata. não podia acreditar no que estava acontecendo, mas, muniu-se de sua melhor personagem e seu talento cênico e os recebeu amigavelmente.
Durante o jantar, ela e agiam com a cumplicidade e naturalidade de todos os dias. E novamente perceberam que não precisavam de muito esforço para mostrarem-se apaixonados. Contudo, aproveitaram-se da situação para se abraçarem bastante, se tocarem e também trocarem beijos. Catarine, que não notava o quanto Rafael estava descontente com o casal à sua frente, não parava de falar. E Rafael, surtia olhares desafiadores para . E não encontrou chances de ficar a sós com em momento algum, começara a se arrepender de sair com Catarine. A garota não apenas parecia instável mentalmente, como também parecia ser uma controladora. Não o largava momento nenhum, e Rafael começou a provar da incômoda situação de alguém limitar tudo o que você faz. Entretanto ele não percebera aquilo, naquele momento.
Antes de ir embora, o abordou na porta de saída a sós, enquanto Catarine e conversavam próximas ao sofá. despediu-se de Cata, mas não conseguiu tirar os olhos dos dois homens que sussurravam entre si. — Bem! Agora vocês devem uma saída com a gente, não é, Rafael?
— Claro, claro. Podemos marcar no final de semana.
e eu estamos meio ocupados durante a semana, então um fim de semana será ótimo, não é, amor?
— Claro! Vamos ao barzinho que a Cata nos chamou hoje, que tal?
— Ótimo! Eu ligo pra você combinando, amiga. Se despediram de novo, e Rafael parecia bastante contrariado. Ele tentara beijar o rosto de em despedida, mas Catarine o puxou antes disso. e fecharam a porta, caminharam até a sala e começaram a gargalhar. Se jogaram no sofá, risonhos da loucura que fizeram em receber o ex-namorado inconformado e sua atual ficante controladora, e ainda combinarem um repeteco.
— O que vocês conversaram?
— Eu disse que ficava satisfeito de saber que ele havia entendido o meu recado. Ele falou que Catarine era só uma distração até ter você de volta. E eu disse que ele poderia desistir, porque, mesmo se você quisesse voltar para ele, eu sempre estaria ao seu lado para lhe mostrar o que é amor de verdade.
— E ele acreditou?
— Você não acreditaria?
— A questão não é essa… Você acha que ele desistiu?
— Ainda não, mas, só porque ele ainda não entendeu os seus motivos. Você deveria ser mais franca.
— Não acho que essa é a questão. Conheço o Rafael, e ele sabe sim o quanto me fez mal. Só não quer aceitar que eu não sou mais a ingênua de antes. Na verdade, me parece que ele não levou fé na gente.
— Levou sim, pode ter certeza. Os olhares dele para mim, eram claros sobre isso. E Catarine nos ajudou muito com todos os comentários sobre nós. — Verdade… AAAAAH! Eu só queria me ver livre dele.
… Lembra da conversa que eu queria ter com Pedro?
— Sim, aquela que eu fui excluída. Já tiveram esta conversa?
— Não. Mas, eu vou te contar… Rafael foi muito psicótico ao telefone aquele dia. Dissera que você pertencia a ele, de uma maneira doentia. E eu fiquei realmente preocupado, então…
— Fala, !
— Então eu acho que você deveria prestar uma queixa. Ir à delegacia e contar tudo o que ele fez antes, e a maneira como te persegue agora. Isso pode ser importante, além de ser útil para o afastar.
, não é para tanto, é?
— Quando eu encontrei vocês na faculdade, você me parecia muito abalada. Mas, não quis conversar sobre aquilo depois. O que ele te disse? O que você sentiu? encarou , pensativa e depois de alguns segundos sacudiu afirmativamente a cabeça:
— Tem razão. Eu acho que vou prestar queixa, mas, só se ele continuar incomodando. Pode ser que depois de hoje, ele pare.
— Não tenho certeza. Mas, saiba que eu estarei aqui. Eu sempre vou estar do seu lado, eu vou cuidar de você. Os dois sorriram e se abraçaram. sentia que nos braços de nada poderia lhe acontecer.
Capítulo betado por Thay Sandes



8 - O meu toque não é mentira

sorria de orelha a orelha enquanto fazia o percurso de volta para casa. Não deixaria de buscar no novo trabalho dela, nem se quisesse! Finalmente ele concluíra seus planos para sair com . Deviam a si, uma balada entre amigos. Ainda pensando na garota, o seu celular tocou indicando a chamada dela:
— Uau! Que conexão! – ele disse.
— Ué, por quê?
— Estava pensando em você.
— Pensando o que, exatamente, amor?
Ela pronunciou o apelido com ironia, mas adorou aquilo mesmo sabendo não significar nada.
— Estou indo buscá-la, assim você não demora a se arrumar.
— Eu nunca demoro a me arrumar?
— Verdade, você não é uma garota convencional.
— Mas para onde vamos que, eu precise de pressa para me arrumar?
— Eu não disse que prepararia uma balada para nós?
— Como você decide isso sozinho e só me avisa em cima da hora?
— Porque era a minha função. Vai demorar aí?
— Não. Ensaiamos a última cena agora, e já estou guardando minhas coisas.
— Chego em poucos minutos.
— Ok, melhor desligar, não gosto que você dirija ao telefone.
— Que cuidadosa a minha namorada. - os dois riram divertidos — Até logo, minha princesa.
desligou a chamada apressando-se para encontrá-la. Minha princesa, era novidade para . E ela gostou daquilo, embora soubesse ser errado gostar ou se apegar aos sentimentos novos por . Quando ele chegou, ela estava conversando com a galera do teatro e mal percebera sua aproximação. Algumas meninas olharam na direção da porta e ao ver o garoto se aproximar, elas sorriram entre si. Então atenta olhou para trás. Abriu um sorriso maior do que a própria face, quis deixar claro que ele não estava disponível. Embora, em seu âmago, ela soubesse que ele estava e que era errado agir daquela forma. E os garotos na rodinha, observavam atentos o rapaz retirar os óculos escuros e sorrir para . Os dois caminharam de encontro um ao outro, e sentindo-se a própria abelha rainha da porra toda, o abraçou apertado.
não deixou por menos, desde o momento que saíra do trabalho ele estava louco para beijar . Escondia seus desejos sob a farsa há algum tempo. Ele retribuiu o abraço carinhoso, mexeu de modo cuidadoso nos cabelos dela, e assim que a viu sorrir – um sorriso tenro e o fechar de olhos que ela só fazia, imperceptivelmente, quando sentia os toques dele sobre si – o rapaz não pôde controlar seus impulsos. Ela já estava ali, de olhos fechados, com o rosto entregue às palmas das mãos dele. beijou-a de maneira calma e profunda. Um beijo que pegou desprevenida, mas que a fez desejar muito mais.
Eles se separaram e se olharam urgentes. Sabiam que ambos estavam confusos, e sabiam que pela primeira vez precisavam conversar de verdade sobre aquilo. A garota olhou para os amigos que assistiam a cena e puxando pela mão, ainda cautelosa em apresentá-lo ou não, se aproximou. Apresentou os amigos do teatro para ele, e trocaram poucas palavras em grupo. Saíram de mãos dadas por todo o caminho até o carro. Quando entraram no automóvel, afivelaram o cinto e deu partida. Rapidamente, as mãos de ambos se buscaram e ao perceberem juntos o gesto automático, encararam as mãos entrelaçadas. olhou para , convicto de que aquilo estava certo. olhou para constrangida por achar que aquilo estava errado. Soltaram-se, e evitaram falar. Mas ele não queria evitar.
, nós devemos conversar sobre nós. Não acha?
— Tem razão. Como foi o seu dia?
Ele notou que ela fugia do real assunto. E não insistiu, pois sabia que em algum momento iriam confrontar aquela situação.
— Foi bom, mas estive ansioso a maior parte do tempo.
— O que você está tramando, hein?
— Uma noite divertida.
— Hm… E aonde iremos?
— Curtir boa música!
— Sim, mas em que lugar?
— Surpresa.
— Como vou saber o que vestir?
— Não era você que não ligava para essas coisas?
— Uma coisa é ser prática, outra é ser cafona. Eu sempre ando bem arrumada.
— Isso quando não está nua, né?
— Que absurdo! Quando foi que me viu nua?
Infelizmente, nunca.
ruborizou com a fala dele, e calou-se.
— Sabe… Você não costumava sentir vergonha das nossas brincadeiras.
— E quem disse que estou com vergonha?!
— Então porque seu rosto está vermelho e você não me deu uma resposta atrevida como sempre?

— Sim?
Ela desistiu de falar sério e achou melhor desconversar. Agir como ele esperava.
— Não gosto de ver você infeliz, então, quando quiser pode me espiar trocando de roupa.
Ele gargalhou divertido e surpreso.
— Vou entrar no seu banho quando você menos esperar.
— Estarei preparada.
Se olharam, e por mais que entendessem a situação como uma brincadeira, havia faísca em seus olhares. Um misto de ansiedade e receio no significado daquelas brincadeiras. 

O relógio marcava nove horas da noite, e apenas aguardava se arrumar. Pedro havia acabado de chegar e estranhou o amigo andando de um lado ao outro.
— Boa noite, o que houve?
— Sua irmã que nunca demora para se arrumar, hoje, excepcionalmente hoje, está demorando.
— Excepcionalmente hoje? O que faz ser excepcional?
— Vamos sair.
— Sério? – Pedro sorriu de orelha a orelha afrouxando a gravata e se jogando no sofá: — Vocês terão um encontro para valer?
parou de andar, nervoso encarou o rapaz que o olhava animado. Tentou falar algo, mas apenas gaguejava.
— Por que não pediu minha ajuda? Eu sei de lugares bacanas que ela gosta.
— Não é um encontro.
— Pelo tempo que ela está demorando a se arrumar, eu acho que é sim.
— Não, não é. Nós descobrimos que nunca saímos para dançar e decidimos que precisávamos disso.
— E onde vão?
— Numa tal de Gauguin Club. Um amigo do trabalho me indicou. — Gauguin Club? – Pedro assustou-se e sorriu.
— Algum problema?
— Não! Na verdade, acho que a vai gostar.
Pedro bateu amigável no ombro de e saiu em direção ao seu quarto. , bufou olhando o relógio. Caminhou até a porta do quarto e bateu, não ouviu resposta e entrou.
, como é?
Olhou em volta e não a viu. Caminhou até a porta do banheiro:
?
— Aqui!
Ele ouviu o som abafado da voz da garota, mas não a encontrou.
— Aqui onde?  
Ele indagou-se perdido, quando de repente assustou-se com empurrando a porta do guarda-roupas e saindo de dentro dele. Ela ainda estava de lingerie, os cabelos já arrumados.
— O que você está fazendo, garota maluca?
! Eu não sei o que vestir! Você precisa me dizer aonde vamos!
— Você nunca foi disso. Pega qualquer coisa.
— Eu estava lá dentro, pensando nas várias roupas sobre a minha cabeça e não sei o que vestir!
Ela estava agora de costas para ele, com as mãos na cintura e encarando seus cabides. quis rir da situação, e abriu um sorriso preparando-se para gargalhar, mas ao baixar o olhar deparou-se com a bunda de dentro da minúscula calcinha, e não pode pensar em mais nada. Tudo o que vinha à sua mente, era sujo demais. Sacudiu a cabeça de um lado ao outro e andou até as roupas, parando ao lado dela e vasculhando os cabides.
Pedro abriu a porta e sorriu ao notar que alguém teve que escolher – pela primeira vez desde que se lembre – uma roupa para a irmã vestir. Ela percebeu o irmão chegar e olhou para trás sorridente. Pedro ria da cena: igual na sua infância, pouco vestida, com as mãos “nas cadeiras” esperando a mãe tirar suas roupas para ela vestir.
— É, você já está bem vestida.
— Eu não sei para onde vamos Pedro, não tem como vestir algo.
— Mas, eu já falei: você está bem vestida.
— O que quer dizer com isso?
— Nada! Eu vou para casa da Gi, casal. Se cuidem e juízo.
— Até mais! – disseram os dois juntos, enquanto escolhiam a roupa.
— Boa foda! – gritou para o irmão.
— Vocês também! – ele rebateu.
e olharam-se sem graça e a garota sorriu com a hipótese, ela sentou-se na cama aguardando. , mais rapidamente mexia em seus vestidos, abriu uma das gavetas e encontrou os lingeries da garota. Puxou uma delas, e mostrou-a dizendo:
— Tem certeza que isso entra em você?
— Está me chamando de gorda?
dizendo que isso é muito pequeno.
— E daí?
— Com quem você usa isso?
— Particularmente essa em sua mão, eu vestia no dia que transei com o Rafael.
mudou sua feição de curioso com algum ciúme para furioso e incrédulo. Ele arrebentou a calcinha de modo fácil. abriu a boca espantada, e estava furiosa.
— EI! Era uma das minhas favoritas!
— Não gostei dela. Achei muito indecente.
!!!
— Toma. – ele jogou o vestido sobre ela — Vai com este.
— Este vermelho? Mas, ele não é muito confortável para dançar.
— Só vista-se logo, . Por favor. Antes que eu desista de sair com você.
— Ai! bom.
A garota pegou outro sutiã, de modelo mais apropriado com o vestido, foi ao banheiro e começou a se vestir. sentou-se na cama aguardando e mexia no celular quando a sombra de – de costas – surgiu em sua frente. Ele olhou para ela parada, que olhando para frente, não o encarava.
— Como é? Pode fechar aí pra mim, ou vai ficar olhando para a minha bunda?
— Você que jogou a sua bunda na minha cara, meu amor.
Ele se levantou e puxou o zíper do vestido.
— Pronto. Podemos ir.
— Aleluia!
Os dois seguiram, e quando chegaram no lugar, inclinou-se para frente encarando melhor a fachada. , estacionava o carro dentro do estabelecimento.
— Aqui? – pareceu surpresa.
— Sim, por quê?
— Não esperava que frequentasse este lugar.
— Algum problema?
— Não, não, achei diferente só. Até gostei.
Eles saíram do carro e encaminharam-se à entrada. pagou as entradas dos dois, olhava para tudo muito curiosa e com um sorriso surpreso no rosto. à medida que entrava, estranhava aquela atmosfera. Uma garçonete bem vestida surgiu oferecendo bebidas aos dois. ia pegar uma taça de champanhe quando negou educadamente puxando-a para longe da bandeja. Ele observou os palcos de pole-dance e as várias pessoas que já enchiam o lugar.
— Ei, a gente não vai beber? – perguntou contrariada.
— Você já veio aqui antes?
sorriu por notar que estava perdido no programa que ele próprio inventara. Um rapaz de traje à rigor surgiu na frente de , e pegou-lhe a mão sussurrando algo em seu ouvido. A garota sorriu e pegou o convite em sua mão. observou a cena atento.
— Vem , vamos nos sentar em alguma das mesas.
Quando eles se sentaram, um show de luzes começou e dançarinos e dançarinas entraram no palco. A coreografia erótica começou e estava animada. Não sabia se estava mais animada por olhar espantado tudo aquilo, ou se pelos homens maravilhosamente lindos que a seduziam do palco.
O mesmo rapaz que abordou quando ela chegou, retornou à mesa dos dois e serviu bebidas a eles, piscou diretamente para a garota que mordeu o lábio sorrindo. , não gostou nada daquilo e esperou o homem se afastar, para chamar atenção de :
— O que você está fazendo?
— Eu que te pergunto! Você que me trouxe para cá!
— Eu não sabia que era um clube erótico!
— Péssimo, . Péssimo. Antes tivéssemos ido à boate em que sempre vou.
— Nós vamos embora! Esse não era o tipo de programa que eu tinha em mente!
— Não, não! Eu sempre quis vir aqui. Agora você espera, porque eu tenho um convite para uma lapdance e eu vou usar! E depois: você não vai querer ter desperdiçado seu dinheiro!
! Você não vai entrar numa daquelas cabines com aqueles caras não, não é?
— Por que não? Se eu fosse você aproveitava também.
A garota levantou-se e prevendo que decidiria ir embora antes da hora apressou-se para curtir seu brinde. Ela se direcionou ao lounge onde os rapazes ficavam, e escolhendo o mesmo que a recepcionara saiu acompanhando-o. estava indo atrás da garota, quando fora barrado no lounge.
— A ala das mulheres é do outro lado.
— Eu quero é a minha mulher que entrou aí. – ele disse firme como se aquilo mudasse tudo.
— Lamento, mas é proibida a entrada de cônjuges aqui.
Ele coçou a cabeça contrariado e uma moça surgiu ao seu lado. não estava com cabeça para aquilo, e dispensou-a de forma educada. Viu passar de mãos dadas com o homem para uma cabine de vidro escuro, mas não fumê.
Ele caminhou atrás dos dois, e ficou em pé de frente à cabine. Outras pessoas ali presentes, reclamaram e pediram que ele saísse da frente. Queriam assistir o que aquele homem faria com , assim como outros também acompanhados em cabines paralelas. Sentou-se em um dos sofás que ali estavam com seus braços rígidos cruzados e as mãos fechadas em punho, ele observava atento o que aconteceria.
sentou-se numa cadeirinha, de costas ao público. E não pode ver as expressões felizes e surpresas da garota. Mas, ele podia ver aquele homem tentando seduzi-la. Começou a suar frio e pensou em como tiraria a amiga de lá. Não poderia fazer escândalos. E infelizmente, teve que aguardar os quinze minutos da dança erótica que recebia. Quando ela saiu do local, parecia que nada havia acontecido. Procurou por , e o notou com a expressão mais raivosa que já vira em sua face desde que se conheceram. Ela sorriu para ele de maneira animada.
! Você não tem noção do que é esta experiência!
— Vamos embora agora!
— Calma! Ainda tem a sua vez.
— Vamos embora!!!
Ele gritou com ela, e a garota assustada não conseguiu ter outra reação se não a de segui-lo. Dentro do carro, olhou para e viu que ela não estava feliz. Estava muito, muito brava.

— Eu só falo com você quando chegarmos em casa, !
Ele engoliu a saliva, e um bolo enorme de culpa em sua garganta. Chegaram no apartamento, e imediatamente a garota encaminhou-se ao quarto batendo a porta. tirou a camisa que vestia e se jogou no sofá. Precisava criar coragem e pedir desculpas. A culpa era toda dele. surgiu tempestiva pela sala indo até a lavanderia. Antes que pegasse sua toalha no varal, surgiu atrás dela e a impedia de passar por ele, sem ouvi-lo.
— Me escuta.
— Eu quero de verdade, bater em você!
— Desculpa! Eu sei que eu não deveria ter gritado com você daquele jeito. — Não! Não deveria!
Ele pegou a mão da amiga e a guiou até a sala. Antes que sentassem no sofá, ele pegou as duas mãos dela e as beijou.
… Eu não queria ter sido um grosseiro com você. Eu não deveria.
— A culpa é sua se o programa foi por água abaixo, seu babaca!
— Eu sei! Deveria ter pesquisado o lugar antes de ir.
— Eu entendo , que não faça o seu estilo de diversão, mas não precisava ter gritado comigo daquele jeito… – ela diminuía o tom de voz aos poucos: — Você e eu nunca gritamos assim um com o outro. Foi muito…
— Desrespeitoso. Eu sei. Mas, … Você e aquele cara…
— Foi só uma dança . E se não tivesse sido apenas uma dança, onde é que você tem o direito de agir daquela forma?
— Ele estava seduzindo você!
— E daí? É um clube erótico!

olhou para a garota, que mantinha seu rosto decepcionado e triste com o amigo. Ele tocou a face dela, e ela não reagiu como ele esperava. Detestou-se. Havia magoado . Por algo que ele era culpado. Puxou a garota para um abraço e ela não retribuiu. Apenas ficou imóvel sentindo-o envolver seu corpo.
— Me desculpa?
— Nunca mais faça isso. Entendeu, ?
— Posso tentar salvar a noite?
— Pode tentar.
Ela ainda não sorria, e caminhou até a televisão, ligou-a, abriu o Youtube e digitou a música preferida.
— O que está fazendo?
— Eu prometi que íamos sair para dançar.
— Exato. Sair. Dançar na sala de casa como gente sem vida social não conta.
olhou para ela, repreendendo-a por fazer pirraça pelo vacilo dele. Ele sabia que ela não se importava em curtir uma dança em casa.
A música começou a tocar e foi inevitável que um sorriso de trégua surgisse no rosto de . Então sorriu também, se aproximando dela. Ele fazia uns passos que a fizeram rir. Pegou a mão dela a rodopiando na sala. E quando ela menos esperava ele a abraçou por trás. Mantiveram-se abraçados, dançando e riram bastante.

Your head is filled with unproven thoughts,
(Sua cabeça está cheia de pensamentos não comprovados)
Twisting theories into bigger knots
(Torcendo teorias em nós maiores)
I wanted to know you
(Eu queria conhecer você)
Though I still don't know myself
(Embora eu ainda não me conheça)
I've got so much to show you
(Eu tenho tanto para te mostrar)
Won't you show me the way?
(Você não vai me mostrar o caminho?)
Tonight won't ever end; can we pretend, pretend, pretend?
(Esta noite nunca vai acabar; nós podemos fingir, fingir, fingir?)


A primeira música parou e a garota começou a gargalhar. Ela, mais animada do que antes, correu até o barzinho de sua cozinha e pegou uma garrafa de uísque escondida.
— Isso sempre esteve aí? – perguntou surpreso e sentou-se no sofá enquanto ela os servia.
— Tenho meus segredos, afinal.
Ela estendeu a ele um copo e brindaram.
— Eu escolho a música agora!
colocava outra canção no Youtube. E aguardava ansioso.

나의 피와 땀과 눈물, 나의 마지막 춤
그들 모두를 가져 가라.
(Meu sangue, suor e lágrimas, minha última dança.
Leve-os todos)


A menina rebolava discreta aos primeiros acordes da música, e não pode deixar de prestar atenção aos quadris dela, se movendo despretensiosos.
Ele virou outro gole da bebida seca e amarga, a fim de matar a sede de seu próprio desejo.

내 몸, 마음, 영혼
나는 너의 전부라는 걸 잘 알고있다.
그것은 나를 처벌하는 마법입니다.
(Meu corpo, mente, alma...
Saiba perfeitamente que sou todo seu.
É um feitiço que me pune)


ainda estava de costas, e virou sua dose de uma só vez. Ela se virou para o amigo, enquanto mexia nos cabelos de modo sensual – sem que a própria percebesse – e sacudia os quadris num rebolado latino, misturando o beat da banda coreana.

— Você não vai dançar?
serviu o copo dos dois de novo, e sorriu calado.

그러나 그 날개는 악마의 날개 다.
단맛이 있기 전에는 쓰라린 쓰라린 맛이납니다.
(Mas suas asas são as de um demônio.
Antes da sua doçura, há um gosto amargo, amargo.)


 — Qual é ? Você não pode ficar parado!
Ela não sabia, ou sabia e fingia-se inocente, mas estava se segurando para não a puxar para si. E a letra da música não ajudava em nada para ele, enquanto para não fazia a menor diferença. Ela só se ligava no ritmo.
— Ok! Eu vou te mostrar com nós coreanos dançamos então!
— Uuuuh! – zombou ela.

나 한테 키스해라. 아프지 만,이 넥타이를 더 강하게 만든다.
더 이상 다칠 수 없을 때까지
(Beije-me, não importa o quanto doa, torne este laço mais forte. Até que não possa doer mais)


virou sua dose de uma só vez, e levantou-se aproximando ao corpo de . Ele rebolava de uma maneira desconhecida pela garota. E aumentou o som, se divertindo com tudo aquilo.

여보, 이제 술 마셔도 돼. 너를 마시니까.
깊은 목구멍에 위스키가 있습니다.
(Querida, tudo bem me embriagar, porque agora eu bebo de você.
No fundo da minha garganta, está o uísque que é você.)


Quando ela virou seu copo de uma vez, puxou o corpo dela para si.

나는 너를 아주 아주 아주 많이 원해.
(Eu te quero muito, muito, muito, muito)


E a garota o encarou profundamente nos olhos, havia uma mensagem diferente naquele olhar. E ela pôde notar pelo corpo rígido do amigo.

아무리 고통 스러울지라도 나를 더 세게 쥐어 짜내서 벗어날 수는 없습니다.
(Não importa o quanto doa, me aperte mais, para que eu não possa escapar.)


se deixou levar por , ele beijou o pescoço da garota de maneira lenta, assim como esfregava seu quadril ao corpo dela.

나를 단단히 붙잡고 내가 의식을 잃을 때까지 나를 흔들어 라.
내 입술에 키스, 입술, 이건 우리 사이에만있는 비밀이야.
(Abrace-me fortemente e me balance até que eu fique inconsciente.
Beije meus lábios, lábios, esse é um segredo que fica apenas entre nós dois)


fechou os olhos e suspirou agarrando as costas de , arranhando-o fraco. Espalmou seu peitoral nu e inclinou a cabeça para trás:
… – sussurrou baixo.
— Shiiiiu… – ele avançou à boca da garota.

나는이 교도소에 중독 돼 너야.
(Eu estou viciado nessa prisão que é você)


foi empurrando o corpo de , desajeitada e lentamente, até que ele se sentou no sofá e a garota sentou no colo dele. Continuaram beijando-se de modo cada vez mais urgente.

나는 너 외에 누구도 숭배 할 수 없다.
나는 중독 된 성찬에서 마시고 있다는 것을 잘 알고있었습니다.
(Eu não posso adorar ninguém mais além de você.
Eu sabia muito bem que estava bebendo do cálice envenenado.)

— Acho que você merece um pouco de diversão, já que saiu em desvantagem esta noite… – ela sussurrou nos ouvidos dele.
— Divirta-me como quiser… – respondeu passando as mãos pelas coxas dela e as apertando.

조심스럽게 날 죽여라.
(Mate-me com cuidado).


puxou os cabelos de , e lambeu o pescoço dele distribuindo chupões. O rapaz soltou um gemido abafado, e ela rebolou sobre o membro quase ereto dele.

애무로 내 눈을 감아 요.
(Feche meus olhos com o seu afago)


, apertou a bunda de soltando uma vontade antiga e reprimida por aquela parte do corpo da amiga. Delicadamente ele puxava o zíper de seu vestido, enquanto a garota continuava a rebolar sobre si. À medida que ela fazia movimentos circulares, apertando o membro de abaixo de si, ela se afastava e voltava. Num ciclo torturante, que pouco a pouco despertavam os instintos de .

나는 그것을 어쨌든 거부 할 수 없었다.
(Eu não poderia rejeitar, de qualquer forma.)


enrolou os cabelos de em sua mão, e os puxou de uma maneira violenta. Ela gemeu alto e foi o suficiente para ele perder o resto de qualquer controle que tinha. beijou o ombro dela e chupou seu pescoço com força deixando uma marca imediata ali. agarrou-se ainda mais no corpo dele, quase sufocando-o entre seus seios. , apressou-se em retirar o vestido – já aberto – do corpo dela, e numa sagacidade que a garota não poderia imaginar com aquele jeito manso dele, junto de seu vestido fora retirado seu sutiã. encarou os seios da amiga, e massageou-os. Olhou para ela sobre si, com a boca entreaberta de desejo, e achou prudente perguntar: 
— Eu posso prosseguir, ?
— Não perca tempo com perguntas inúteis. – ela disse ofegante de olhos fechados.

나는 더 이상 도망치려 고 노력조차 할 수 없다.
(Eu não posso mais nem tentar escapar).


Ele sorriu ao ouvir aquilo, e tomou os seios dela em sua boca. continuava movimentando os quadris, e puxou o restante do vestido no corpo dela, direcionou os dedos à entrada dela e sentiu um torpor por todo seu corpo.
— Tão molhada, pra mim, ?
— Espera!
A garota pediu, puxando o rosto dele, a fim de fazê-lo parar. não acreditava que ela interromperia logo aquele momento. 
— Não se mexa, não faça nada. Apenas deixe eu dar a dança que você não teve esta noite.
Ele assentiu silencioso, e a garota saiu de seu colo. De pé à frente dele, ela colocou os braços estendidos paralelos ao rosto dele apoiados no sofá, e beijou a orelha de , passando os lábios por todo seu rosto até chegar à sua boca. Levantou os seios à altura do rosto dele, e tocou-se massageando os próprios mamilos. , hipnotizado, engolia a seco a saliva que parecia arder de tanto desejo. virou-se de costas e lá estava aquela calcinha minúscula, dividindo o perfeito glúteo de . era fissurado naquela bunda, tinha certeza a cada vez que a via daquela forma. Sua vontade de arrancar aquela peça, teve de aguardar. puxou os cabelos para frente do corpo dando a a perfeita visão de suas costas nuas e de seus quadris rebolando ao som lento de outra música que ela pusera a tocar, desta vez sensual. Aproximou-se de , e sentou-se de costas em seu colo. O rapaz fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás.  
… Você vai me enlouquecer.
— O que você quer que eu faça por você ? – perguntou provocativa.
O garoto mantinha uma respiração descompassada à medida que sentia o membro pulsar sob a calça. levantou-se e agachou à frente de . Distribuiu beijos por seu abdômen. Como ela desejou aquele abdômen definido! Abriu a calça de , e retirou-a devagar. Ele segurava sua cabeça, de uma maneira ansiosa e sorria por torturá-lo, encarou a cueca volumosa do rapaz e mal podia esperar para vê-lo totalmente.  
— Vamos … Você não respondeu… – ela puxou a cueca revelando o membro rígido de ereto o suficiente para fazê-la engolir tudo.
Porra ! Acabe, logo, com isso!
falou um palavrão? – ela riu debochada.
! Me chupa caralho! – ele que já segurava a cabeça da garota pressionou-a para próxima de seu membro.  
O que a garota mais queria era aquele momento, onde delicadamente seus lábios tocaram a glande do pênis de . Ela lambeu-o e abocanhou a cabeça do membro, com as mãos massageava os testículos de que já doíam de excitação. intensificou os movimentos de vai e vem, e gozou em sua boca. Ela engoliu o sêmen do rapaz, fazendo-o delirar ainda mais… Pressionou o pênis entre os seus seios e puxou os cabelos dela.
— Eu não vou aguentar te esperar mais, desse jeito. – afastou-a de seu membro — Minha vez!
A garota levantou-se, e puxou sua cintura. Levantou uma das pernas de , colocando-a ao lado de seu rosto no sofá. Assim mantinha as pernas da amiga abertas da maneira certa para que ele pudesse chupá-la. Segurou a cintura dela, e estimulou o clitóris dela com a língua, chupando-o de tempo em tempo. Sentiu o gozo de descer em sua boca, enquanto lambia-a e mantinha os dedos massageando o ponto G da garota. As pernas dela estavam estremecidas.
— Eu poderia beber de você o dia todo. – ele disse afundando o rosto ainda mais na região púbica dela.  
Ela gemia de maneira forte, e num ato rápido puxou-a para sentar em seu colo encaixando-a em seu membro. Num ato rápido, forte, mas, extasiante. Os dois penetravam-se e soltavam urros de prazer. Quanto mais aumentavam a velocidade, mais beijavam-se profundamente. Sentiam como se o corpo fosse fundir-se em um. A voz de Jay Park cantando na playlist automática do Youtube só deixava a atmosfera mais luxuriosa.
, percebendo o desconforto de , virou o corpo sobre o dela, deixando-a deitada no sofá, e cada vez mais intensificava as estocadas dentro dela. A garota sentia uma lágrima escorrer de seus olhos, tamanho o orgasmo que sentia. Aquele sem dúvida fora o melhor e maior orgasmo que tivera em sua vida. já havia tido sua ejaculação há algum tempo, mas, mesmo assim não conseguia parar. E aquela selvageria toda com a garota o fizera pensar porquê daquela reação. Estava sem transar há tanto tempo assim? Ou aquele era o efeito, ?
Quando pensou que a garota esmoreceria, ele retirou seu pênis de dentro dela e sorriu aliviado, mas, o empurrou e novamente se encaixou sobre ele. Agora quem estava por cima ela era, e assustava-se com a falta de saciedade da mulher. Ela percebeu:
— Só mais um pouco, . Essa música me estimula.
— Faça o que quiser.
Ele disse com a voz fraca e não parava de “quicar” sobre o membro de . Tão forte quanto ele, e os dois já sentiam seus abdomens arderem de tanta contração. abocanhou o seio de , para que não gritasse alto o suficiente para que os vizinhos ouvissem. E a garota, mordia o próprio lábio sentindo outro orgasmo chegar. Dessa vez, gozaram juntos, ao mesmo tempo. E só então recaíram sobre o corpo um do outro. Começaram a gargalhar exaustos como nunca antes. puxou a garrafa de uísque em cima da mesa de centro, e virou-a na própria boca, e depois na boca de . Se beijaram lentos, harmônicos e fecharam os olhos para descansar. Adormeceram nus, um sobre o outro.


9 - A verdade no meio das mentiras

Na manhã seguinte acordou muito cedo, bem mais cedo que o habitual. Havia levado em seu sono pesado, para o quarto de madrugada. E depois disso dormir foi uma missão quase impossível. Observou a amiga que dormia nua e deixou mil e um pensamentos passarem por sua mente. Estava mais adiantado até que o próprio despertador. E sem saber como seria encarar depois da noite que aconteceu entre eles, foi arrumar-se para o trabalho.
Saiu antes que ela acordasse, mas deixou um bilhetinho na porta da geladeira que dizia:

“Bom dia, minha princesa. Precisei sair cedo para o trabalho,
mas irei buscá-la no ensaio. Acho que precisaremos conversar...”


Pedro mais uma vez estava parado sorrateiramente atrás da irmã, que enrolada num lençol lia o bilhete grudado no eletrodoméstico. Ela mal percebera que o irmão havia chegado.
— Típicas palavras de quem fez merda.
Pedro proferiu assustando que deu um pulo derramando a água do próprio copo e escorregando no molhado ao se virar para encará-lo. Por sorte seu irmão, mesmo gargalhando, conseguiu segurá-la antes de cair.
— E a julgar por você nua enrolada no lençol... Espero do fundo do meu coração, que não tenha sido Rafael o protagonista da sua cama esta noite.
não assimilava o que o irmão dizia. Ela caminhou lenta ao sofá e observou o rastro da bagunça na noite passada. Pegou a garrafa de uísque vazia na mesa de centro e encarou-a relembrando o ocorrido. Pedro estava um pouco surpreso pela reação muda da irmã. Ele serviu-se de café e ficou encostado ao balcão da cozinha observando-a.
— Ele quer conversar... – ela sussurrou para si.
— O que você disse? – Pedro perguntou não obtendo resposta.
Caminhou até onde a irmã estava e sentando-se ao seu lado acariciou os cabelos dela. Ao virar o rosto para ele, uma expressão confusa no rosto dela o deixou preocupado.
— Vamos lá, me diga o que houve.
— Ele quer conversar, Pedro. Sobre ontem.
— O que houve ontem?
e eu... – sentiu-se ruborizar e fechou os olhos.
— Espera... você está com vergonha de vocês terem transado?
— Eu não sei Pedro. Eu estou com medo de encarar o . Eu... eu estou confusa.
— Uow. – Pedro sorriu ao dizer dando-se conta do que acontecia ali.
A irmã deixou o corpo cair no sofá e Pedro tomou outro gole de seu café sorrindo.
— Desde quando você está apaixonada por ele?
— Não seja retardado. Eu não estou.
— Ah é? Me conta para onde foram ontem?
— O que isso tem a ver?
— Vou te provar que vocês estão apaixonados.
— Ai fala sério! – revirou os olhos — Eu vou tomar um banho e depois te conto.
Pedro observava-a com um sorriso zombeteiro e percorrendo os olhos pela sala, mal podia esperar pela história. O lugar estava uma bagunça. A TV ainda ligada no Youtube e ele observou o tipo de playlist usada na noite anterior. Ria divertido. Quando de repente parou de rir, ao passar algo por sua mente.
!
— O que é? – ela gritou de seu quarto.
— Onde vocês transaram?
— No sofá! – ela respondeu gritando do quarto enquanto ria da possível reação do irmão.
Como ela havia imaginado, Pedro fez uma cara enojada e se levantou imediatamente. A sala estava lhe parecendo agora um antro de sêmen. Imaginou que outros lugares eles não teriam usado e indo até seu quarto pegou o lençol da própria cama e forrou na poltrona antes de sentar-se. Quando retornou e viu aquilo, ela revirou os olhos reclamando:
— Por que não começou a arrumar tudo?
— Eu colocar minhas mãos nestes móveis? Vá você pegar o vaporizador e o desinfetante para limpá-los!
— Nós não temos nenhuma doença contagiosa, tá?
— É nojento. – ele afirmou dando de ombros e ainda comendo seu pão.
bateu na nuca do irmão e saiu até a cozinha para pegar alguns pães de queijo recém assados por Pedro. Quando retornou, ela comeu silenciosa sobre os olhares intimidadores do homem à sua frente.
— Não posso terminar?
— Você sabe falar enquanto come. – ele respondeu.
— Ele me levou num clube erótico sem saber que era um clube erótico. – ela riu recordando-se.
— Eu sabia que ele não tinha ideia de onde estavam indo. Quando ele me contou, eu só ri.
— Chegando lá, o ficou como um menino virgem totalmente abismado com o lugar. E eu tratei de aproveitar. Ganhei uma lapdance cinco minutos após chegarmos, e quando eu saí da cabine o teve um surto. Ele gritou comigo! Gritou. Comigo. Acredita?
sentiu a raiva da noite anterior retomar sua memória.
— Primeira prova: apaixonado por morre de ciúme ao vê-la se esfregando em um garoto de programa.
— Cala a boca Pedro. Daí ele saiu me arrastando para ir embora, e eu fiquei muito puta com a atitude dele. A gente literalmente passou cinco minutos lá. E quando chegamos em casa, eu não tinha dito nada o percurso inteiro e continuei calada e brava com ele. Mas aí o quis pedir desculpa e conversar...
Ela abaixou o olhar não mais encarando o irmão e continuou:
— A gente meio que se entendeu, e ele quis dançar em casa para cumprir a promessa. – ela sorriu ao lembrar — Que horror, ele dançava totalmente desajeitado! Peguei minha garrafa do esconderijo e começamos a beber e dançar, e quando me dei conta eu estava dançando sensualizando para ele.
— Segunda prova: apaixonada por , o seduz na sala de casa.
— Eu não seduzi ninguém! Ele que tirou um rebolado cretino das mangas, e me surpreendeu totalmente. Uau...
Ela fechou os olhos recordando-se e Pedro sorriu travesso.
— Eu não pensava em mais nada a não ser...
— Abrir suas pernas!
Pedro gritou gargalhando e só se calou após sentir uma almofada em seu rosto:
— Que nojo !!
— Para de ser babaca! A gente não saiu gozando nos móveis, tá!
Eles brigavam um com o outro e Pedro olhou-a desafiador.
, só no sofá... Mas te manca Pedro!
— Olha só... falando sério agora. Vocês podem não ter percebido, ou fingem que não, mas a mentirinha de vocês não é mais mentira há um tempo. Vocês estão mesmo se gostando.
— Não sei. Estamos confusos sim e isso não é segredo entre nós, mas...
— Vocês têm negado as sensações novas que têm um pelo outro. E a pergunta maior é: Por quê?
— Sei lá Pedro. A gente não esperava que fosse acontecer isso, sabe? E de todos os meus amigos, o era um dos que eu menos imaginei um dia transar. Sempre rolaram piadas, mas.... É que... Ele sempre esteve por perto, quase sendo um irmão mesmo. Principalmente quando você não estava.
— Pois eu acho que só você o via como um irmão. A primeira coisa que eu notei e até o perguntei sobre, quando o conheci naquela manhã maluca, era que ele gostava de você de um modo diferente.
O silêncio entre eles demonstrava que estava pensando sobre aquilo.
— Mas relaxa, vocês conversarão alguma hora, e se aceita meu conselho maninha: não foge das explicações e da verdade não. Vocês estão fingindo serem algo para os outros, justamente porque a sua negação aos fatos te colocou em apuros. Não acho que será legal para amizade entre vocês, fingirem que nada aconteceu.
apenas assentiu e levantou-se para organizar e limpar a sala.
Após o horário do almoço, por volta das 14 horas da tarde, ela tinha ensaio marcado com a companhia de teatro pela qual havia conseguido um papel. sentia-se muito bem e descansada. Não ter mais aulas davam a ela o descanso merecido antes de seu último semestre.
Como havia dito a ela, a buscaria no ensaio e a mulher evitava pensar sobre aquilo. Não sabia como reagiria ao vê-lo, e aquele era um sentimento extremamente novo! Após o namoro com Rafael, havia se envolvido casualmente outras vezes e por mais que tivesse sentido algum tipo de emoção diferente, nada era como aquilo. Vergonha do parceiro no dia seguinte era algo absurdo para ela. Então por que logo com , seu amigo de anos, tudo parecia tão amedrontador e novo? Durante todo o tempo de ensaio, Rafael estava sentado à uma poltrona nos fundos do anfiteatro municipal. E ela não havia o visto ali.
O ensaio acabara e ela estava sorrindo para alguns amigos enquanto remexia em sua bolsa à procura do celular para telefonar ao .
? – ouviu a voz conhecida e virou-se desanimada.
— Até mais, ! – os amigos despediram-se tornando sua atenção.
A mulher despediu-se deles e voltou a encarar a figura de Rafael à sua frente.
— Rafael? O que faz aqui?
Perguntou um pouco desanimada por toda aquela situação que viria, e mais do que desanimada, ela estava preocupada. Como ele teria encontrado ela ali? Não deu tempo de respondê-la. que havia chegado minutos antes do fim do ensaio, tinha notado o homem que se aproximava do palco quando ele chegou, mas não o reconheceu. Ao perceber Rafael próximo à , que já se aproximava também, portou-se com virilidade e se aproximou.
— Boa pergunta. O que faz aqui?
repetiu a pergunta feita por para Rafael, os surpreendendo. encarou o amigo e o ex-namorado de maneira sem graça e corou ao receber um sorriso largo e olhar protetor de . passou o braço pela cintura dela, abraçando-a de lado e mantinha-se rígida. E Rafael percebeu a estranha reação da ex-namorada com os toques do seu atual namorado. Ele sorriu vitorioso com aquilo.
— Eu vim a pedido de Catarine, . Ela gostaria de retribuir o jantar que nos deram e pediu que eu lhe procurasse.
Rafael respondeu-a ignorando o encarando sério. Mas, novamente retornou à fala para Rafael:
e eu estamos bastante ocupados, ultimamente. Mas, nós iremos nos organizar e ela procura a amiga para combinar, não é amor?
perguntou à que ainda pensava um pouco confusa, ao que tinha acabado de ouvir.
— Claro. – respondeu ela.
Rafael os observava minucioso, e após um breve silêncio continuou:
— Ela pensou em organizar um jantar amanhã, na casa dela. E parece que você comentou algo sobre seu irmão estar namorando, então, por favor convide-o também. Ela se animou com a ideia de um jantar triplo de casal.
apenas assentiu.
— Ou seria duplo? – Rafael provocou.
— O que você quer dizer com isso?
e proferiram ao mesmo tempo, irritados. Eles se olharam acanhados, e Rafael deu um sorriso debochado despendindo-se.
... Me espere aqui, por favor.
pediu educadamente e beijou o rosto do amigo, em seguida caminhou até alcançar Rafael quase na saída. ficou observando-a com uma expressão fechada e preocupada, com as mãos no bolso.
— Rafael!
Ao ouvir a voz dela, o ex-namorado virou-se para ela girando as próprias chaves no dedo, e sorriu arqueando uma sobrancelha.
— Catarine jamais pediria a você para me procurar por um recado. Então eu te pergunto: há quanto tempo está me perseguindo?
— Perseguindo? – ele repetiu em tom de ultraje — Isso soa muito agressivo, não? Mas, seguindo sim. Afinal, não foi para isso que eu vim de Florianópolis? Para encontrá-la e reconquistá-la?
— Você é doente, Rafael.
— Agora, eu quem te pergunto, ...
Ele andou poucos passos até ficar mais perto dela e encarou os olhos dela em tom de desafio:
— Até quando vai manter essa farsa de que namora aquele cara? – apontou levemente com a cabeça ao que ainda a aguardava no palco.
e eu nos amamos, Rafael. E você pode pensar o que quiser, mas nós não vamos nos separar.
— Ah jura? Realmente acha que eu acredito nisso? Não engoli esse namoro falso de vocês momento algum, está bem óbvio que vocês estão fingindo.
— Para de dizer bobagem!
respondeu vacilante, e virou os olhos para dar uma maior verdade ao que dizia.
— Estão ocupados demais para aceitar o convite de amanhã? Claro... Vocês precisam ensaiar como irão se comportar, não é?
— Rafael! Entenda de uma vez por todas: eu não te amo mais!
— Os sentimentos podem se transformar! Não foi isso que você me disse ao terminar comigo? Não foi você quem disse que o amor que eu sentia por você se transformou em obsessão? Pois bem! O seu amor se transformou numa espécie de mágoa agora, mas eu sei que ele ainda está aí dentro.
O olhar de Rafael era tão obsessivo quanto suas palavras convincentes.
— E assim como eu consegui transformar a obsessão de volta naquele amor genuíno que tivemos, eu vou transformar sua mágoa também. Eu fui o seu primeiro e verdadeiro amor, . E posso notar que fui o único.
engoliu a seco, segurando as lágrimas que queriam escorrer.
— Tudo o que eu sentia por você um dia, você conseguiu destruir Rafael. Pare com essas teorias absurdas de que ainda há algum amor dentro de mim por você.
— Eu vou te reconquistar. Eu vou te mostrar que está errada. E vou até conseguir o seu perdão, seja lá pelo que eu tenha lhe feito. Eu ainda não sei o que eu fiz de tão absurdo a você, para você me transformar nessa figura horrorosa, mas a verdade ...
Ele aproximou-se mais encarando-a íntimo:
— É que ainda existe sentimento sim, atrás dessa mágoa toda. Do contrário, você não estaria desesperada para me convencer que você e o tal são um casal. Você não estaria aqui na minha frente agora se preocupando com os motivos pelos quais eu vim até aqui. E principalmente, do contrário eu não estaria aqui porque já teria tido a certeza do nosso fim.
Beijou o rosto dela de forma lenta, e a mulher fechou os olhos engolindo a saliva pesada de sua boca, sem conseguir reagir. Estava imóvel e sentindo-se derrotada. Rafael sorriu irônico e voltando a girar suas chaves no dedo, deu-lhe as costas. Quando a silhueta dele saiu pela porta do teatro, esfregou nervosamente, os próprios cabelos. Sentiu uma mão em suas costas. Era , com a bolsa dela pendurada nos ombros e uma expressão indefinida.
— Pegou tudo o que precisava? – ele perguntou estendendo a bolsa dela para a própria.
— Sim, vamos. – ela concluiu.
Dentro do carro, os dois entraram ainda em silêncio e iniciou a partida com o carro sem fazer perguntas. Embora a curiosidade estivesse o matando. Ele passou o dia no trabalho pensando no que diria a ela depois da última noite e que decisões tomaria. Havia chegado às suas conclusões e estava certo do que fazer, e pressioná-la não era opção. Aguardaria que ela falasse sobre a conversa com Rafael, assim como aguardaria que ela dissesse o que esperava da relação deles após terem dormido juntos. suspirou fundo:
— Ele não acredita em nós! – falou alto e em tom de total desespero.
— É... Mas, talvez agora consigamos reagir melhor.
Ele encarou sorrindo e pegou a mão dela e beijou-a. Queria tranquiliza-la, mas a verdade é que aquilo só a deixou ainda mais nervosa. Ao chegarem em casa, Pedro não havia chegado.
— Será que ele ainda está na Gisele?
— Não. Ele voltou esta manhã, só não deve ter chegado do trabalho ainda. – respondeu se jogando no sofá com os olhos fechados.
deixou suas coisas sobre a mesa e umedeceu os lábios encarando a mulher concentrada nos próprios pensamentos e com olhos fechados. Desabotoou os primeiros botões da camisa e sentou-se ao lado dela, relaxado.
— Quero falar com você sobre ontem. Eu sei que está com a cabeça cheia, mas...
Ele falou baixinho com o rosto virado para ela. virou o rosto para o lado dele e abriu os olhos também.
— Está certo. Acho que temos que falar alguma coisa. – riu sem jeito.
— Eu posso começar?
Ela sorriu encarando o homem à sua frente, e.... Como pôde nunca notá-lo daquele jeito? Aqueles olhos pequenos sempre foram tão profundos e hipnotizantes daquele jeito? E os lábios de sorrisos ora presunçosos, ora infantis sempre foram tão convidativos? Onde estava com o olhar, que nunca havia percebido o quão lindo e atraente, seu amigo era?

Ouvir na playlist: Zayn – TiO


— Ontem foi... A melhor noite que eu já tive, sem exageros. Foi surreal. E eu nem posso dizer que nunca havia imaginado aquilo, porque já havia e de uns tempos para cá, te imaginar sob mim era uma ilusão recorrente. Mas, eu confesso que nunca acreditei que seria possível algum dia, que você me olhasse de outra forma. Eu não estou dizendo que era o amigo apaixonado desde o início, mas é possível que no meio do caminho eu... – começou a rir — Enfim... acho que estava meio claro a nós dois que as coisas foram se confundindo entre nós, nestes últimos tempos, não é?
sorriu abaixando a cabeça, e voltando a olhá-lo concordou silenciosa.
— Eu sei que você diz que não sente nada pelo babaca, idiota e insuportável do Rafael, mas eu também sei que não é verdade. O que você sente, não sabe definir. Somos amigos, e antes de mais nada eu quero que isso continue. Quero cuidar de você sem pudores, mas também quero que você se lembre que eu sou seu confidente quando você precisar. E por tudo o que nós encaramos nessa brincadeira de fingimentos, algumas conversas tidas demonstraram que você tem emoções conflitantes em relação a ele. Então não vou te pressionar ou causar qualquer tipo de situação. Acho que devemos continuar esse plano de se livrar dele, mesmo com tudo o que aconteceu. Mas, não vai ser legal fingir que não aconteceu nada.
— É, e nem vai ser possível.
respondeu virando todo corpo para o lado dele:
— Eu te entendo e concordo com você. Obrigada ...
— Não tem que agradecer nada. Eu só estou colocando a razão acima das emoções. Temos que terminar o que começamos, afinal. Mas eu tenho um pedido a fazer, e eu sei que disse que não vou te pressionar, mas já pressionando...
Ele começou a rir tímido, e riu junto confusa. Passou os dedos sobre a bochecha dele e perguntou animada:
— O que é?
— Quero pedir para você resolver as coisas entre você e ele, o mais rápido possível . Por que você precisa encarar esses conflitos e acabar com eles para se abrir novamente a um novo homem. E eu vou ficar esperando onde tudo isso vai dar, para... – ele suspirou fundo, retornando a dizer: — Tem muita coisa acontecendo. Entre elas, o meu trabalho e.... Só resolve logo esse carma aí para a gente...
— Ficar juntos? – ela perguntou olhando-o com certo desejo.
correspondeu o olhar sentindo a pele de seu corpo arrepiar. Abriu levemente os lábios deixando perceptível o movimento que sua língua fazia em passar por trás de seus dentes. Ele balançou a cabeça negativamente sorrindo ladino, arqueando a sobrancelha e engolindo a saliva espessa. lhe dava água na boca, e conviver tão perto era cada vez mais complicado.
Antes que respondesse, a mulher já havia puxado o rosto dele em direção ao seu, e beijava-o de forma doce, mas ao mesmo tempo intensa. Ele rapidamente segurou a cintura dela, e ela sentou-se ao colo dele. Só pararam de se beijar após perderem o fôlego.
— Isso está ficando insustentável e nem tem muito tempo que a gente... – ela falou risonha.
— Tem sido insustentável há algum tempo para mim, mas até que eu suportei bastante tempo.
— Eu vou tomar banho. Quer ir comigo?
— Tem certeza?
— Se o plano continua, e agora temos alguns benefícios, acho que devemos fazer se tornar o mais real possível.
Ela sorriu marota e repetiu o gesto concluindo o pensamento dela:
— Para sermos bastante convincentes ao Rafael...

Ouvir na playlist: Justin Bieber – Friends


Levantou-se com em seus braços e continuaram se beijando. Chegaram ao banheiro do quarto dela, e após colocá-la ao chão, a mulher começou a despir o amigo. estava fascinado. E depois que as mãos dela desabotoaram por completo sua camisa tirando-a do corpo dele, foi ele quem puxou a camisa de alcinhas que garota usava. Revelando o sutiã que rapidamente não estava mais ao corpo dela. Ele lentamente desabotoava a calça dela enquanto ela desabotoava a dele. Os dois concentraram-se em retirar as próprias peças restantes, e puxou a cintura de colando seus corpos nus, em um beijo. Caminharam desajeitados até o chuveiro e confundiam-se entre beijos, carinhos e sabonetes.
Tomaram banho, mas ao acabar não conseguiram resistir e voltaram a se beijar. Cada novo toque dos lábios de ao seu dorso, faziam-na sentir que nunca mais poderia resistir ao toque dele. As mãos de percorriam as costas largas do amigo mais alto, e ela lembrou-se do dia em que ele se mudara para sua casa. Enquanto observava caminhar carregando as próprias caixas para dentro do apartamento, atentou-se àquelas costas. Ele era definido e ela ainda não havia notado. Foi a primeira vez. Tempos depois aquele abdômen desnudo sobre o sofá, e ela ao recordar aproveitou para acariciar. Foi a segunda vez. Quis mordê-lo, e o fez. Arrancou suspiros de , que a puxou sobre seu colo e encostando-a na parede fria do box, sugou o seio dela para provocar. As mãos dela ao puxarem seus cabelos haviam deixado partes no corpo dele, totalmente eufóricas.
A porta do quarto dela se abriu, e a voz de Pedro ecoou berrando:
? ?
Os dois pararam de se acariciar e sorriram de olhos arregalados. fechou o chuveiro, pois já haviam acabado o banho há algum tempo e apenas gastavam água do chuveiro enquanto trocavam pegações. Ela puxou a própria toalha que estava no banheiro.
— Já vou! – gritou para o irmão.
Beijou a boca de e ia saindo quando ele a chamou baixinho:
— Minha toalha!
— Eu já trago.
Ela respondeu sorrindo, e secava os cabelos como podia: chacoalhando com as mãos.
saiu do banheiro e encontrou o irmão esperando-a no batente da porta.
— E aí? – falou sem olhar para ele já se direcionando ao guarda-roupas.
— Pizza de quê?
— Ah! – ela parou um pouco pensando qual era a favorita do : — Quatro queijos!
— Sério? – Pedro perguntou desconfiado: — Você e o já conversaram?
— Ah... Anrãm! Eu já te conto!
Saiu empurrando o irmão desesperada para que ele não soltasse nada da conversa que eles tiveram de manhã, quando ela acordou. Pedro fechou a porta do quarto deixando-a “sozinha”. Ele sabia que ela estava escondendo algo.
pegou uma toalha limpa no guarda-roupas, abriu a porta do banheiro a jogando para . Ele enxugou-se rápido e enrolou-a na cintura saindo do quarto com um sorriso bobo:
— Você odeia pizza de quatro queijos. – ele falou.
— Ah é, mas eu estou em dúvida e já pedi logo a sua.
Ela vestia-se sem encarar o amigo, que mantinha um sorriso bobo. Ela nem sabia dizer por que pediu a pizza favorita dele, mas sem dúvidas, não conseguir parar de pensar nele seria uma boa justificativa para tal ato. surpreendeu a garota abraçando-a pelas costas e beijando seu pescoço.
... – ela sussurrou advertindo-o.
bom... Temos a noite toda. – ele soltou-a após assoprar aquelas palavras em seu ouvido.
saiu do quarto seguida por , e Pedro ao vê-los sorriu por ter suas suspeitas confirmadas. E decidiu fazer piada:
— Nossa , nem o vi chegar! Entrou pela janela?
O coreano riu e deu um tapa na cabeça do irmão jogando-se ao lado dele no sofá.
— Eu cheguei antes de você, e estava no banho.
— É eu imaginei... – Pedro respondeu sugestivo fazendo corar.
lendo o quê? – perguntou ao irmão fuxicando os papéis dele.
— Processos!
Pedro fechou os olhos exausto e riu encarando .
— Como estão as coisas com a Gisele, Pedro? – perguntou ele.
— Ah. Vão bem. A gente meio que está... juntos, oficialmente. E como vão as coisas com a minha irmã, ?
olhou-o sobre os óculos de grau que havia acabado de colocar e a boca entreaberta. Pedro encarava-o ameno, sem nenhum tipo de expressão negativa. encarava a situação debochada. O celular dela tocou despertando a dar uma resposta ao Pedro. Mas, ela só foi atender à chamada depois que olhou para ela, e ela deu de ombros.
— Vão bem também. Nós meio que estamos descobrindo juntos.
Pedro sorriu largamente, e estava mais do que satisfeito com o que ouvira. Significava que a conversa entre eles havia dado certo.
— É a Cata, .
tirou o telefone da orelha sussurrando para ele. O rapaz mexeu nos próprios cabelos da nuca, virando a face na direção de , e apesar de delicado seu gesto soou-lhe tão sexy que ela já imaginava a versão intelectual de tomando o corpo dela.
— Você quer ir? – ele disse simplesmente.
— Não sei, o que você acha? – sussurrou ela.
— O que temos a perder?
Ela pensou um pouco e retornou o telefone à orelha:
— Que horas mesmo, Cata? Ah sim... tudo bem, obrigada. Quer que eu leve algum prato? Ok, mas bebida pode, né? certo... Tranquilo, relaxa eu vou falar com o Pedro sim... – encarou o irmão que estava confuso — Beijo, até amanhã.
— Expliquem, por favor. – Pedro disse.
A campainha tocou e foi liberar o interfone para o entregador e receber a pizza. Pediu que contasse ao Pedro as questões, e ele retirou os óculos e deixou seu notebook de lado iniciando a narrativa sobre o encontro com Rafael e o jantar.

– . – . –


Os três estavam jogados no sofá assistindo a um filme qualquer, e o relógio já marcava quase meia-noite. Pedro dormia de boca aberta, e estavam abraçados e quando percebeu o irmão, ela tirou uma fotografia pelo celular. riu baixo e deu um chute na lateral da perna do irmão.
! Não faz isso, sacanagem. – repreendeu-a risonho.
Ela deu de ombros e chutou levemente o irmão de novo. Revirou os olhos o vendo resistir em acordar.
— Pedro, vai pra cama! – ela falou alto o assustando.
— Nossa. Você é a pior irmã do mundo.
— Eu te amo e quero o seu bem, amanhã você vai ficar cheio de dores.
Aham... – murmurou sonolento se levantando — Vou fingir que vocês não querem o sofá só para vocês ficarem de saliência aí a sós.
corou porque Pedro havia acabado de entregar que ela contou o ocorrido com para ele. O coreano arqueou a sobrancelha e riu malicioso a encarando. Pedro entrou no quarto após acenar maldoso na direção deles.
estava extremamente sem graça, mas ao perceber a cara de zombaria do amigo, ela não segurou o riso.
a abraçou mais forte e aninhando-se mais ao corpo dele, os dois voltaram a assistir ao filme.


10 - Perseguidor

estava atento ao e-mail aberto, na tela de seu computador do escritório. Ele não achou que os coreanos voltariam atrás na decisão, e agora tinha um problema. Estalou a língua e fechou os olhos, enquanto massageava os cabelos. Como as coisas ficariam agora? definitivamente precisava resolver logo as questões com o ex. Mas, ele prometeu não pressioná-la e não faria isso.
Fechou o navegador da internet, desligou o computador e reuniu suas coisas na mochila para encerrar mais um dia de trabalho. Antes de trancar a porta de sua sala, pegou o celular em mãos a fim de mandar mensagem para avisando que a buscaria. Seu chefe apareceu no corredor chamando a atenção dele, e novamente guardou o celular no bolso.
— Ei , foi um bom dia de trabalho?
— Sim, mas fui ao set de gravação hoje mais cedo, pediram-me para alterar cenas no roteiro... Aish... Como eu odeio isso.
— Bem, pelo menos não terá mais que lidar com isso, não é?
— O que quer dizer?
— Eu soube da proposta que você recebeu. Vai nos deixar?
— Bem, eu ainda não sei.
— Você tem lutado por essa oportunidade desde que saiu da faculdade, . Não estou contra você, mas podíamos discutir uma proposta?
— Claro. Você tem todo direito de propor outras ofertas, mas... Como você disse e sabe meu amigo... Eu tenho trabalhado duro por essa oportunidade.
Carlos assentiu pensativo e sorriu estendendo a mão em cumprimento para . Eles sorriram silenciosos, e saíram juntos do prédio.
Dentro de seu carro, pegou novamente o aparelho telefônico, mas não teve tempo de discar. A chamada “mamãe” piscava em seu visor.
Omma! – ele respondeu o cumprimento em coreano, com um sorriso largo nos lábios.

*Omma: “mamãe” em coreano

caminhava na calçada da rua movimentada discando o número de , sem sucesso. A chamada só caía na caixa postal. Decidiu tomar um ônibus e no caminho tentaria avisá-lo. A poucos passos do ponto de ônibus, teve seu braço puxado para o caminho contrário, assustando-se e gritando.
— Sou eu! Para de escândalo.
— Rafael, seu idiota! O que está fazendo? Me solta!
— Seu namorado não veio, você iria pegar um ônibus e eu estou apenas oferecendo-lhe uma carona. – ele dizia calmo ainda puxando-a pelo braço.
— Arrastar uma pessoa até seu carro não é oferecer uma carona. Me solta! Eu não vou com você!
relutava, mas Rafael parou de caminhar e reticente, ainda segurando o braço dela, a encarou sério e sorriu-lhe dizendo:
— Você vai sim. Por que eu estou sendo gentil!
sentiu um medo que não sentia há anos. E apenas calou-se o seguindo. Ele abriu a porta do carro para ela, e ao entrar ela imediatamente telefonou ao . Mas, ainda não conseguia completar a chamada. Rafael havia dado a volta ao carro, e estava entrando quando ela desligou a chamada e mordeu os lábios encarando-o cuidadosa.
— Está com medo, ? – ele perguntou encarando-a de esguelha.
— Eu vou denunciar você, Rafael. Você não pode ficar me seguindo desta maneira.
— Seguindo? Eu apenas estava de passagem e lembrei que você sai a esta hora. O que há de mal nisso?
— Você está me obrigando a ir com você. Isso é crime.
— Nossa, que imaginação fértil ! Acaso eu ameacei a sua vida, ou coloquei uma arma na sua cabeça?
— Por que você simplesmente não me deixa em paz?
— Eu voltei para te provar o meu amor. E é isso que farei.
encarava Rafael com olhos assustados, e segurava as lágrimas que queriam se formar. Rafael ligou o rádio e começou a cantarolar uma música. segurou os próprios punhos, de modo tão defensivo que podia doer. Seu celular tocou e imediatamente ela atendeu à ligação de .
— Desculpe, eu vou me atrasar princesa, mas estou a caminho.
— Vá para casa, eu tentei avisar, mas você não atendeu... Eu já peguei um ônibus.
Rafael sorriu prazeroso ao escutá-la mentir.
, está tudo bem? Sua voz está estranha. Onde você está?
— Está tudo bem sim, nos vemos em casa amor.
“Amor”?
ficou alerta. Por que ela falaria daquele jeito com ele numa conversa entre os dois. A menos que ela estivesse na presença de alguém que não poderia suspeitar... Catarine? Rafael!
suspeitou que algo estranho estivesse acontecendo e pisou fundo no acelerador até em casa. Enquanto isso, Rafael dirigia calmo até a casa da mulher assustada ao seu lado.
— Por que não contou que pegou carona comigo, ?
— Porque certamente ele ficaria com raiva. Não de mim, mas de você. E certamente iria espancar essa sua cara de pau.
— Muito bom. Muito bom. – Rafael sorria debochado para ela — Sinal de que sou uma ameaça.
telefonava para Pedro, mas o rapaz também não atendia. Estacionou o carro em frente ao condomínio, apressado, quando percebeu descendo de um carro um pouco mais à frente. Ela estava branca de susto, e agachou com as mãos no rosto.
Imediatamente ele saiu do carro e correu até ela, e ao tocar o seu ombro ela levantou assustada.
— Sou eu, shiiii... Sou eu, calma... – ele abraçou-a e então permitiu-se desabar em lágrimas.
Ele acompanhou a mulher até o apartamento e depois que ela estava sentada ao sofá, ele desceu para guardar seu carro no estacionamento. Quando retornou, ela estava no banho. Entrou ao banheiro e observou a mulher apoiada à parede com a cabeça baixa, sentindo a água batendo forte em sua nuca.
— O que aconteceu, ?
— Ele me levou à força.
— Como?
... Eu não quero ir hoje.
desligou o chuveiro, enrolou-se no roupão que lhe estendeu, e abraçada a ele deitou-se em sua cama.
— Não iremos. É só ligar para Catarine e cancelar.
Pedro chegou a casa chamando por , pois estranhou as tentativas de ligação do amigo. Ele bateu à porta do quarto, quando escutou o rapaz dizer-lhe que estavam ali. Abriu cauteloso e não entendia o motivo da irmã, estar com a cara tão inchada de chorar.
— O que houve? – ele aproximou-se sentando na cama e acariciou os pés da irmã.
Ela abraçou-se ainda mais em , e encarou o irmão com olhar cansado, enfim contando-os o ocorrido:
— Eu estava a caminho do ponto de ônibus, já que não atendia as ligações e não havia chegado, quando Rafael puxou-me pelo braço e me arrastou até o seu carro. Disse que “estava oferecendo carona” e eu não aceitei, mas... Ele foi tão incisivo que eu tive medo. Ele realmente me trouxe até aqui, mas... Foi perturbador, foi horrível. Eu achei que iria morrer... O olhar frio e o jeito sarcástico dele... Parecia um... Maníaco pervertido!
começou a chorar novamente abraçando ainda mais forte e os dois homens presentes se entreolhavam. A raiva era clara no olhar de ambos.
— Aquele desgraçado... Eu vou matá-lo! – esbravejou.
— Eu vou acabar com ele! – Pedro também gritou.
Abaixou a cabeça respirando fundo e olhou para a irmã acuada nos braços de . E então deu o veredicto:
— Chega . Já deu. Acabou a brincadeira de fingimentos.
Ela encarou o irmão, confusa, enquanto acenava concordando.
— Pedro tem razão. Chega .
— O que vocês querem dizer?
— Que nós vamos agora indiciar o Rafael. Vista-se. – Pedro falou e saiu apressado pela porta do quarto.
abraçou-a, e não disse nada contrário. Ela não poderia. Tinha medo, sentia vergonha de ter que expor toda a situação, mas sabia que deveria fazer aquilo.


11 - Coragem

estava tão aninhada nos braços de que era impossível mentir. E ela não queria mentir para Pedro. Por isso, quando o irmão olhava com um sorriso bobo para os dois, a irmã apenas desviava o olhar. Ele tinha conseguido o que pretendia desde o início daquilo tudo: unir os dois amigos.
Estavam os três sentados numa loja de conveniência de um posto perto de casa. Eles haviam ido até lá para abastecer após saírem da delegacia.
— Hoje foi um dia cheio! – Pedro retornou do balcão à mesa com dois refrigerantes e uma cerveja em mãos.
— O que houve com a Gisele? – perguntou, ao notar que o rapaz estava estressado.
— Ela... Está bem. Eu acho.
A resposta de Pedro fez com que atentasse-se ao possível problema do irmão.
— Vocês brigaram?
— Não, só estamos estranhos.
— Ninguém fica estranho do nada. – falou óbvio, virando um gole da sua bebida.
— AH NÃO! – falou mais alto batendo a palma de sua mão na mesa.
Os dois ali a olharam assustados e a atendente fez cara feia para ela, devido ao barulho.
— Já está melhor pelo visto, huh? – Pedro alfinetou-a.
— Ei, dê um tempo para ela... – defendeu risonho.
— E o namorado se vira contra o cunhado.
Pedro devolveu a brincadeira rindo da cara de ambos à sua frente.
— Sem mudar de assunto Pedro! Eu já sei o que está rolando e você sabe disso! – encarou o irmão, sua expressão era séria.
— O que está rolando? – - observou o embate de olhares entre os irmãos.
— Pedro finalmente caiu nas artimanhas do amor. Ele está apaixonado pela Gisele, e assim como deu um gelo nela quando ela se confessou, agora está dando um gelo nela porque é um covarde.
— Ah... – assentiu esperando resposta de Pedro, mas ele manteve-se calado bebendo a cerveja, então aconselhou: — Sabe Pedro... O amor é assustador, mas... Pior é não poder amar. Então, aproveite que o seu sentimento é recíproco e vá ser feliz com ela. Gisele é uma garota legal, e não importa o que outras pessoas vão pensar ou dizer.
— Uau, você é incrível. – falou sorrindo abobalhada.
virou o rosto na direção da amiga para observá-la e sorrir de volta, e perdeu a conta de quantos minutos ficaram se encarando risonhos. Pedro se levantou, jogando as chaves da direção para , já que uma lata de cerveja era suficiente para ser multado.
Quando chegaram, Pedro tomou o caminho do próprio quarto, calado. Não havia tido tempo de tomar banho e descansar após o trabalho, porque assim que chegou havia aquele problema para resolver com . A irmã, no entanto, antes que ele se trancasse lá dentro o puxou para um abraço.
— Obrigada. E me desculpe por te decepcionar.
— Eu não tenho que te desculpar por nada, apenas te proteger.
— Você é o melhor irmão que eu poderia ter. E eu te amo, viu?
! Pega um gravador, por favor! – ele gritou para o amigo que os observava e fez graça com a irmã que o empurrou para dentro do próprio quarto e fechou a porta.
— FICA AÍ DENTRO PENSANDO EM COMO VOCÊ É IDIOTA PEDRO!
- ria divertido, sentado no sofá, da cena entre os dois. rapidamente correu até ele e se aninhou num abraço.
— Você tem passado tempo demais nos meus braços. – sussurrou ao seu ouvido.
— Te incomoda? Eu posso me afastar se quiser...
— Sshhii... – ele puxou a mulher que tentou se afastar — Eu não estou reclamando.
?
se soltou sentando de frente para ele e encarando as próprias mãos. Ele mantinha-se atento a ela.
— Eu quero te agradecer também. Eu meti você em toda uma enrascada e você tem cuidado de mim, sem o menor remorso.
— Eu não seria seu amigo se fosse o contrário.
— É... – ela sorriu — Mas... E agora?
— Bem, o Rafael vai receber um aviso e ter que manter distância.
— Eu estou falando de nós.
— Ah! – ajeitou-se numa postura mais tensa — Eu não sei... Você... O que você quer?
— O que? – indagou assustada com a postura de , ou o que lhe pareceu uma rejeição: — Você falou para eu resolver a coisa toda com o Rafael, para gente...
— Ah! Sim, é... Eu acho melhor nós esperarmos ao menos o Rafael...
não conseguia pensar no que dizer. Por isso fechou os olhos e bufou profundamente.
— Olha . Eu preciso ser sincero. Eu já venho dizendo a você que algumas coisas estão acontecendo comigo, no trabalho e na minha família. E eu sei que eu falei para resolver tudo com o Rafael, mas não é como se estivesse resolvido ainda. Ele vai ser advertido pela polícia, e precisamos estar atentos ao que ele possa fazer. Você acha que ele é alguém que pegará o avião de volta para casa?
— Sinceramente eu não sei, mas não sei também onde isso nos impede de... Ficar juntos.
— Você sabe muito bem o que eu quis dizer com “resolver as coisas”. Eu não estava falando apenas de se livrar dele, porque com ele aqui nós fingimos do mesmo jeito que ficaríamos juntos. Eu estava me referindo aos seus sentimentos. Você já sabe o que sente por mim?
A pergunta bateu como um tapa na sua face. não deveria cobrar respostas de perguntas que nem mesmo ela poderia responder. Sabia que sentia um profundo carinho, desejo, amizade e gratidão por -. Mas, poderia dizê-lo que o amava?
— Você ainda não sabe. – ele afirmou paciente.
— E você sabe?
A pergunta urgente dela saiu como uma audácia. Afinal, não era ele que estava amarrado com alguém ao passado.
— Esquece! – ela disse balançando a cabeça: — Não é como se você tivesse um compromisso com alguém ou estivesse preso a relacionamentos antigos. Então, eu nem deveria fazer essa pergunta.
A campainha tocou, e desviou o olhar, de para seus próprios pés.
— Só para você saber... Eu sei sim.
Ele falou e se levantou para atender a porta, deixando uma cheia de caretas e autopunição pensativa no sofá.
— Gisele?
— Oi ... – a mulher cumprimentou-o tímida.
— Por favor, entre.
Ele deu passagem e ela agradeceu, acenando discreta para que a olhava surpresa, do sofá.
— Aconteceu algo? – pôs a mão no ombro dela e a perguntou atencioso.
— O Pedro está? Ele não me atende desde que saiu do escritório.
e se encararam e a menina rapidamente foi até a porta do quarto do irmão batendo-a. convidou Gisele para se sentar enquanto aguardasse. entrou no quarto e Pedro estava jogado à cama dormindo, sem ao menos ter trocado de roupa. Ela o acordou devagar, e ele pediu que avisasse Gisele para entrar.
— Gi, ele pediu para você entrar.
Assim que a mulher entrou, os outros dois sorriram. Não continuariam a conversa que estavam tendo.
— Devemos ir para o seu quarto, ou dar uma caminhada?
— Caminhar... Esta noite está fresquinha para isso! – respondeu animada.
Os dois saíram em direção ao elevador, e havia um clima estranho ali. Algo entre eles, que não sabiam quando havia surgido, mas que era uma grande ameaça para relação saudável de amizade entre eles.
— Como está se sentindo? Eu queria perguntar na saída da delegacia, mas... Não achei o melhor momento.
— Estou assustada . Não sei o que vai acontecer, e sinceramente... Sinto-me uma inútil. Uma idiota por ter permitido chegar a este ponto.
— A vida também é feita de erros para se cometer.
— Arrrrgh – ela resmungou brincalhona — A sabedoria asiática se faz presente!
— Não zombe da minha cultura. – ele cutucou-a rindo.
— Me conta como foi o seu dia? – o perguntou.
Eles já estavam saindo pela portaria do condomínio em direção à calçada.
— Foi... Movimentado.
— Só isso?
— Eu recebi propostas boas de trabalho, algo como... Algo que eu nem considerava mais.
— Tem a ver com o grupo coreano?
— É. Mas, Carlos vai contrapropor algo.
— Ok, mas se você queria tanto não é algo que deva aceitar? A proposta nova.
— É complicado... Enfim, ainda tenho algum tempo para pensar.
— Sabe ... Eu gosto do Carlos, acho que tratam você muito bem na empresa, e sua carreira é muito boa! Mas, não se prenda à segurança por medo dos pequenos desconfortos. Eu acho que provei hoje que coragem é um mal necessário.
— Mal necessário? Um ponto de vista inusitado de ver uma virtude como a “coragem”.
— Eu sou inusitada, afinal.
Ele pegou a mão dela para caminharem de mãos dadas enquanto ria da amiga.
— É você é. Obrigada pelo conselho. Eu estou realmente, pensando bem sobre tudo.
— Conte comigo para o que precisar.
— Você também. – ele puxou-a para um abraço de lado.
?
— O que? – ele parou de caminhar e a encarou.
Toda vez que o chamava daquele jeito, é porque iria pedir algo ou dizer algo importante.
— Me beija?
Os olhos dele sorriam como os lábios, a imagem da face tímida de era uma novidade que ele amava a cada dia mais. E aquele faiscar nos olhos dela, era como ímã. Ele aproximou os corpos lentamente, e acariciou o rosto dela segurando-o cauteloso entre suas mãos. E aproveitou cada segundo de um beijo cheio de sentimentalismo. Enquanto sentia os lábios calmos de sobre os seus, sua mente viajou a outro continente.
— Minha mãe telefonou hoje. – ele soltou de repente enquanto eles continuavam a caminhar após o beijo.
— Sério? O que houve?
— Ela virá ao Brasil.
— O quê? Quando? Por quê?
— Ainda não sei tudo.
— Uau... Eu vou poder conhecer a sua mãe! – falou animada.
não estava tão animado. Embora adorasse a ideia de conhecer toda a sua família na Coréia, sentia-se amedrontado com a hipótese.
— Ei, você falou que está passando por alguns problemas familiares, e agora a sua mãe virá... Bem, eu posso ajudar em algo?
Ele apenas acenou negativo e sorriu. Os dois sentaram-se no banco de uma praça urbana iluminada, onde casais namoravam, idosos caminhavam em família e crianças corriam de skate. Aquele assunto com teria que ser retomado em breve, e ele tinha medo disso.


12 - Dos Acidentes ao Fim

Há duas semanas que a denúncia contra Rafael havia sido feita, e até então estava tudo muito tranquilo. Tranquilo até demais, e se preocupava com aquilo como se esperasse o pior, se considerar a demora, para que Rafael demonstrasse alguma reação.
Era seu último dia de ensaios com o elenco do estágio, e agora precisaria concluir uma disciplina e duas avaliações da faculdade, para enfim ser aprovada no curso e se formar. A expectativa do final de curso também reverberava preocupações em sua mente. Estava exatamente, pensando o que faria a seguir quando todo o elenco aplaudia a última cena da peça, em despedida e orgulho. Ela abraçou os amigos e foram todos para a confraternização em um barzinho que tinham hábito de frequentar. estava pegando seu milk-shake, quando o diretor se aproximou dela:
— Milk-shake em um bar, ?
— Diretor... Ah... – ela encarou sua taça com canudo colorido e riu sem palavras ao encará-lo de volta.
— Você é peculiar garota.
— Considerarei um elogio.
— E é. ... Já sabe o que vai fazer agora com o final da peça?
— Bem... Eu tenho que finalizar a disciplina de Módulo V de expressão teatral, e passar pelo crivo das duas avaliações finais: a cênica e a científica. Se eu for aprovada em tudo, aí... Eu pensei em ir para o México por um tempo, fazer umas especializações.
— México? Por quê?
— Nós não damos o menor crédito para os dramalhões mexicanos, mas, tenho lido sobre recentes técnicas teatrais por lá... Eu sei que você já está imaginando eu interpretando daquele jeito exagerado, mas...
— Eu não estou imaginando nada. – ele a interrompeu — Na verdade... Eu já sabia do seu interesse pelo México. E é por isso que comentei com um diretor amigo meu, que trabalha por lá, sobre você.
— Como? – parou de beber seu milk-shake concentrando seu olhar surpreso no diretor.
— Não é nada certo. Eu apenas indiquei você para um trabalho futuro. Se, dará certo, vai depender dele e de você.
— Eu não tenho como te agradecer, diretor! Tomara que dê tudo certo!
— Sim, tomara. Muita merda pra você, então! – ele desejou para ela que riu e saiu de volta à mesa dos atores.
ficou parada ali pensativa por um tempo. Terminou seu shake e deixou a taça no balcão. Retirou o telefone do bolso e discava para , a caminho da mesa dos colegas. Antes que pudesse ouvir o terceiro toque de chamada pelo celular, seu braço foi puxado por alguém a assustando.
— Senhorita?
— Que susto! – ela falou zangada com o garçom.
— Me desculpe. Tem um rapaz dizendo que a aguarda lá fora.
— Ele não disse o nome?
. Ou algo parecido, eu não sei pronunciar.
respirou aliviada e assentiu agradecendo ao garçom. Foi à mesa dos colegas dizendo que encontraria o namorado lá fora e já retornava. Quando chegou à calçada do bar, sentiu dois braços lhe abraçando delicadamente e sorriu, mas ao virar seu corpo de frente, dentro daquele abraço se sentiu sufocada.
— Rafael!
— Fica caladinha, e me acompanha. – ele disse incisivo abraçado a ela como se fosse seu namorado.
sentiu tanto medo que mal ponderou se ele poderia realmente fazer algo contra ela ali caso gritasse e apenas o obedeceu. Eles caminharam até uma rua menos movimentada, próxima ao local e sem saída.
Rafael a encurralou no fim da rua, que mais lhe parecia um beco. E andava nervoso de um lado ao outro, enquanto encarava com ódio mortal a mulher assustada.
— Eu posso saber por que você me denunciou? O que eu te fiz de mal hein ? Eu por acaso te forcei a alguma coisa? Tem uma porra de um mandato de proteção contra mim, na delegacia! Tem ideia que você FODEU com a minha vida?
mantinha-se calada.
— RESPONDE PORRA! – ele gritou a assustando mais ainda.
— Você é louco. Um psicopata. Eu tinha que me proteger.
— Psicopata? Em que momento eu me tornei um psicopata? Na hora que deixei claro que voltei porque te amo? Ou na hora que, você foi como uma vagabunda, que me levou para a cama e me dispensou no dia seguinte? Foi algum tipo de vingança?
— Foi! – ela gritou perdendo a paciência — Você destruiu parte da minha vida! Você foi e é a pior memória que eu tenho! E eu fui uma idiota que achou que poderia se livrar de você numa manhã de desprezo! Eu fui tão burra! Você é um psicopata e eu permiti que você se aproximasse ao invés de fugir bem na hora que te vi naquela boate! Eu te odeio Rafael!
— CALA A BOCA! – ele gritou se aproximando e segurando o rosto dela de forma firme.
— Me solta! – lutava contra ele a fim de se soltar.
— Você NÃO me odeia. Você me ama! E é por isso que me deixou te comer naquela noite! Por isso inventou esse relacionamento RIDÍCULO e infantil, com o aquele merdinha!
— NÃO FALA ASSIM DELE! Você não sabe o que é amar alguém!
... – Rafael ao mesmo tempo em que a olhava, com ódio tentando se livrar dele, sentia-se atraído pela mulher indefesa em seus braços — Eu te fiz tão feliz... Você não se lembra?
começou a chorar cada vez com mais medo, e Rafael beijava o rosto dela de modo doentio. Ela o empurrava, pedia para soltá-la, mas Rafael era muito mais forte e a prensava no muro enquanto sua mão passeava pelos braços e cintura da mulher. O passado veio todo à tona. E aquelas memórias ruins foram o gatilho para que ela conseguisse agir: deu um chute na região íntima de Rafael, que se soltou dela gritando e se contorcendo de dor. A garota correu daquela rua, e logo Rafael estava atrás dela perseguindo-a. As ruas foram ficando movimentadas e ela enxergou o bar onde antes estava e quando atravessou a esquina em direção a ele, segundos depois ouviu o estrondo e a buzina. Olhou para trás, já bem próxima do local onde, os carros estacionavam-se e pessoas iam e vinham alegres em direção ao bar. Todos observaram o acidente recém-acontecido e a aglomeração foi se formando devagar. retornou o caminho que havia corrido ao perceber um corpo no chão e o motorista puxando o telefone do bolso.
— Rafael! – ela gritou o chamando, mas o homem estava desmaiado.
— Moça, você o conhece? – o motorista perguntou, e ela assentia silenciosa e assustada — Estou chamando a ambulância.
Depois que a ambulância chegou e estava acompanhando o corpo desmaiado de Rafael até o hospital, ela conseguiu suspirar mais calma, e um lampejo de consciência a tomou. Pegou o próprio celular e viu as duas chamadas não atendidas de , e o retornou.
, está tudo bem? Aguardei você me telefonar para te buscar, e não pude te atender antes. O que houve? Por que não atendeu minhas chamadas?
... Não estou mais no bar. – explicou cansada.
— Mas, eu já estou chegando aí para buscar você... Só que, tem um pequeno trânsito interrompido aqui nos arredores.
... Eu estou numa ambulância a caminho do hospital central, com o Rafael. Ele foi atropelado.
A voz de desapareceu. Ele não estava só confuso, mas preocupado. Ouviu a mulher suspirar do outro lado da chamada dando-lhe as últimas coordenadas do que fazer. Rapidamente ele deu a ré, e desviou do tumulto de carros a fim de ir de encontro a . Ao chegar no hospital ele correu pelos corredores até a emergência, onde estava sentada numa cadeira com braços cruzados. Ao vê-la, ele se aproximou rápido e puxou sua mão abraçando-a, e ela se assustou com aquilo, mas correspondeu ao carinho. segurou, num ímpeto protetor, o rosto da garota entre suas mãos e a beijou.
— Como você está? – ele analisava todo o corpo da menina de modo preocupado.
— Eu legal. Ele... Ele que está sendo operado agora... – falou e suspirou pesadamente.
— Mas, o que houve?
— Rafael tentou me sequestrar, eu acho... Ele me encurralou num beco, . Queria explicações da queixa que eu dei, e acabou agindo como um... Eu não sei o que ele faria... E aí quando eu consegui fugir dele, ele não viu o carro e bem...
— Temos que denunciá-lo!
— Calma ! Eu não sei se vou fazer isso.
— Como é?
estava contrariado e surpreso. Não conseguia acreditar que teria compaixão naquele momento.
, o cara está sendo operado agora!
— Mas você precisa dar queixa disso , não significa que a polícia vai agir com ele na cama de um hospital.
— Mas vai fazer isso quando ele estiver no quarto! Poxa... ... Eu preciso de um tempo pra pensar no que fazer, ok?
olhava para o amigo com os olhos esbugalhados e ele a observava meticuloso com as mãos na cintura, e semblante fechado.
— Espero que entenda que o que ele fez, foi crime.
— Eu sei disso.
O silêncio e o olhar de ao chão demonstraram a ele, que ela ainda se importava com Rafael. E aquilo estava o tirando do sério.
— Chamou alguém para acompanhar a internação dele?
— Liguei para a mãe dele. Mas eles só chegarão daqui dois dias, não conseguiram um voo de última hora.
— Catarine. Liga para ela.
— Eu não vou meter Catarine nisso, . Ela não é nada dele.
— E nem você! – a voz ríspida de denunciou seu ciúme de modo a deixar furiosa.
— Eu sou a ex-namorada dele! Você não pode mudar isso, agora.
— E pelo visto nem você quer isso, não é? Vou ligar para o Pedro e pedir pra ele vir, você precisa de alguma coisa?
— Você não vai ficar aqui comigo?
— Não, não agora . Eu também preciso de um tempo para pensar no que fazer.
Ele abraçou-a de modo cansado, e ela deixou uma lágrima de raiva escorrer em seus olhos. Abraçou de volta e voltou a sentar-se na cadeira que estava. Observando se afastar apertou sua cabeça entre suas mãos num claro sinal de desespero. não fazia ideia de como agir. Quando Pedro soube do ocorrido, além de ficar furioso pela atitude compassiva da irmã de não denunciar Rafael imediatamente, também soube que para ela não era tão fácil admitir que o ex-namorado novamente fora capaz de feri-la daquela forma. Pedro se manteve ao lado da irmã nos dias em que a família de Rafael ainda não chegara. O rapaz já tinha ido para o quarto e sua mãe e pai haviam chegado dois dias depois do acidente. Conversaram com sobre toda a situação desde a chegada de Rafael. Sua ex-sogra implorava para que ela não denunciasse o filho, e prometia que junto ao pai dele iriam impedir que Rafael a importunasse de novo. O pai de Rafael disse que iria forçar o filho a aceitar um tratamento.
queria conversar com Rafael antes de ir embora, explicar a ele como era importante que ele se tratasse, mas foi Pedro que demonstrou a ela que insistir em ajudá-lo, só faria Rafael compreender que ela ainda se importava com ele e daria mais força para ele a perseguir. Então, despediu-se dos ex-sogros e foi com o irmão de volta para sua casa sem ao menos ver como Rafael estava.
No caminho de volta, perguntou sobre ao seu irmão, já que o rapaz não havia dado sinais de vida desde o dia em que saiu do hospital. Estavam quase chegando a sua casa, quando ela rompeu o silêncio para falar desse assunto com o irmão.
— Por que não voltou ao hospital?
... Tem muitas coisas acontecendo com o , e... Bem, você vai ver quando chegar em casa.
— Ah não Pedro! Você vai dizer agora.
— Ele foi embora.
— O quê? – a mulher pasme com a notícia virou o corpo atenta ao irmão.
— Ele juntou as coisas dele e levou de volta ao seu apartamento.
— Por que ele fez isso assim? Nós só tivemos um desentendimento. O não podia me abandonar assim!
, calma. É como eu disse... você não é a única com problemas agora.
A mulher estava irritada e não podia conter as lágrimas que insistiam em cair. Pedro pegou a mão da irmã entre uma marcha e outra que passava no carro, e beijou a confortando. Assim que subiram ao apartamento, observou a casa minunciosamente. Na sala não havia sinal de nenhum dos porta-retratos de fotos das famílias de . Não havia os livros dele na estante. Não havia os CDS e DVDS, e nem seus figure actions geeks. E as paredes nunca foram tão brancas sem os quadros cinéfilos de .
correu até seu quarto e abriu sua cômoda. As roupas de não estavam mais ali. Em sua suíte, a escova de dente que ficava junto à sua, também havia sumido. sentou à beira da cama e observou o seu quarto, incrédula. Parecia que havia despertado de um coma. Tudo parecia tão estranhamente vazio.
Caminhou fraca até a sala, e segurou um choro abafado na garganta até Pedro desligar o celular e olhá-la. Ele abriu os braços para a irmã que iniciou seu choro exagerado.
— Ele está subindo. Calma. – Pedro falou confortando-a.
— Eu o amo, Pedro! – ela falou de olhos fechados, desesperada e apertando o irmão no abraço — Eu estou completa e perdidamente apaixonada pelo !
Quando terminou de falar aquilo, estava fechando a porta do apartamento e ouviu a frase desesperada sair da boca da amiga. Não pode evitar um largo sorriso.
Ele surgiu na visão dela que se separou do irmão, eufórica, e limpou suas lágrimas de modo desesperado. Correu até que a acolheu num abraço urgente. Quando se separou da mulher, as mãos dela puxaram o rosto dele para o encontro de um beijo abrasador. Os dois se encararam sorrindo e tinha muitas dúvidas em seus olhos.
— Vou deixá-los conversando. – Pedro sorriu contemplador e foi para seu quarto.
levou pela mão até o sofá e quando se sentaram a mulher o abraçou novamente como se quisesse impedi-lo de ir.
— Desculpe por esse susto... – ele falou culpado.
— Que merda é essa ? Por que levou suas coisas assim sem me falar? Aliás, por que sumiu esses dias?
... Minha mãe está no Brasil. Precisei levar as coisas de volta para meu apartamento para não dar entender a ela que eu estava morando aqui. Você sabe, eu te contei que ela é conservadora.
— Ah... Tá, tudo bem então...
— E ela quer conhecer a minha namorada de mentira, que ela acha que é de verdade. Falei que você estava viajando esses dias, mas que retornaria hoje, e bem... Você topa ir lá, na minha casa amanhã?
— Claro! É lógico que eu quero conhecer a sua mãe, ... – ela falou beijando-o de novo.
— É, mas... Temos que resolver umas coisas... Sobre nós.
— Eu já resolvi. Eu te amo . Eu te amo de verdade, e não teremos mais que nos preocupar com o Rafael. Acabou. A família dele veio, eu contei tudo e eles disseram que vão cuidar do distúrbio dele... Eu nem mesmo me despedi dele para que Rafael não compreendesse como um interesse de resolver as coisas de outra forma.
— Que bom. Eu fico muito feliz por você ter se resolvido. Mas, você vai denunciá-lo?
— Eu prometi à mãe dele que dessa vez não faria isso, mas se ele tentar de novo eu não poderei evitar.
— Entendi... – olhava para as próprias mãos, confuso.
, eu falei que te amo. Você não vai dizer nada?
— Eu amo você também . Na verdade, você sempre mexeu comigo. E essa nossa farsa só fez os sentimentos se tornarem mais claros e sérios...
Eles sorriram um para o outro e ela acariciou o rosto dele, mas não deixou de notar o olhar preocupado de .
— Tem um “mas” nessa situação, não tem? – os olhos tristes dela faziam querer jogar tudo para o alto.
— Temos muitos “mas”. Primeiro, eu preciso dizer que... Temos que esclarecer a verdade para minha mãe.
— Por quê? Se nos gostamos, devíamos agora mais do que nunca estar juntos, não?
— Acontece que eu não posso colocá-la numa situação como a que você vai ter que passar.
encarou de modo curioso e ele bufou pesaroso, no seu jeito tranquilo de ser.
— Minha família sempre teve um casamento arranjado para mim. É algo natural no meu país. E minha mãe ao saber de nós dois veio resolver essa situação. Ela não é a favor de nós dois, . Insiste para que eu assuma o noivado entre as famílias, mas... Ao mesmo tempo em que eu não quero me separar de você, não quero que você tenha que passar por dificuldades por minha causa.
— Ei! Essa é uma escolha minha. Por favor, , não me impeça de poder escolher.
— Só que não é só isso . Eu tenho aquela proposta de trabalho com o grupo coreano, lembra?
— Sim, sim! – ela falou animada: — Você aceitou, não é?
— Eu tenho que dar uma resposta definitiva hoje, mas... Praticamente aceitei. E isso implica em voltar para a minha terra. E voltar significa tornar as coisas mais difíceis entre você e eu, assim como tornar difícil sair daquele compromisso com a família da noiva. Já que eu não teria uma justificativa como outra pessoa.
— Para! Nós não passamos por tudo para agora você dizer que vai embora e que não poderemos ficar juntos! Eu também tenho uma proposta de trabalho em outro país , mas eu quero muito fazer isso – ela apontou para ele e para si — dar certo!
— Você entende que minha família não vai aceitar você facilmente, e que nós estaremos há países de distância um do outro?
— Foda-se o mundo eu não me chamo Raimundo. Eu quero você , e nada vai me impedir de tê-lo!
abraçou o homem à sua frente e beijou a boca dele como se fosse a última vez.
Nos dias que se passaram ela conheceu a mãe de . Pedro e Gisele estavam juntos como nunca também. Com a ida de para a Coreia em pouco tempo, a casa voltou a ser só dos irmãos. Mas, não se sentia confortável com aquilo. Ela e agora estavam oficialmente namorando, e a ideia de manter o relacionamento à distância assustava a mulher. A sogra de não a destratou, mas deixou claro que não achava o relacionamento dos dois, adequado. Não se colocou a impedir o filho e de ficarem juntos, pois acreditava que não iria durar. E saber que a família dele não se preocupava com ela por julgá-la uma aventura passageira na vida do filho, era o que ainda mais apavorava . Se ao menos eles dificultassem as coisas, ela saberia que lutar por um relacionamento de milhas de distância valeria à pena. prometeu a ela que iria fazer o possível para que eles estivessem sempre juntos, na medida do possível.

Meses depois...

Alguns meses desde que começaram o namoro haviam passado, e estava no aeroporto pronto para se despedir da namorada que não parava de chorar, do cunhado Pedro, seus sogros, Gisele e alguns amigos que ele fizera no Brasil. E ao contrário do que acharam que aconteceria, não iria para o México especializar-se em teatro depois. Na verdade, ela também estava no aeroporto para despedir-se de seus parentes e amigos. O horário de seus voos coincidia, e após os aguardarem juntos e despedirem-se de todos, os dois andaram para seus portões de embarque lado a lado, de mãos dadas.
— Eu te amo como nunca amei ninguém, e jamais vou esquecer tudo o que fez por mim enquanto meu amigo, e agora, como o homem da minha vida. – ela disse segurando o rosto dele.
— Eu prometo que não vou deixar nada atrapalhar nós dois, então, prometa se esforçar para isso também meu amor.
— Eu prometo .
Os dois se beijaram, e abraçaram-se apertado.
— Boa sorte no México. – ele sussurrou afagando os cabelos dela.
— Boa sorte na Coreia. E não me troque por nenhuma coreana magrela. – ela brincou segurando o choro.
— Eu prefiro suas curvas.
Soltaram-se dos braços um do outro. Acenaram para as pessoas atrás de si que os observava e despediam-se, e soltaram as mãos um do outro. Cada um seguiu para sua fila de embarque, que coincidentemente era uma ao lado da outra. Olharam-se enquanto puderam, até que o corredor do embarque os impedisse.


FIM



Nota da autora:Finalmente finalizamos a fic! Espero que tenham gostado da história, e percebido o quanto um relacionamento abusivo pode se esconder nas pequenas coisas, nos pequenos desejos, e em belas mentiras. Estejam sempre atentas a isso meninas. E não esqueçam: vocês são especiais demais para se contentar com castelos de fantasia.
Não esqueçam de entrar no meu grupo de leitoras no Facebook e interagir comigo: Autora Ray Dias (http://www.facebook.com/groups/raydias ) colocar link dentro de: Autora Ray Dias A fanfic também tem playlist no Spotify para vocês ouvirem enquanto lêem, então, por favor, ouçam e sigam. O link segue abaixo.
E não esqueça de comentar, tá? Aproveita e diz o que achou das músicas! Beijão!



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Essa fanfic é de total responsabilidade da autora. Eu não a escrevo e não a corrijo, apenas faço o script. Qualquer erro nessa fanfic, somente no e-mail.


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