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Última atualização: 17/02/2021

Prólogo – Mau Presságio

O último dos homens caindo de bêbados que sobrou presente na humilde taberna – inteiramente tomada pela tripulação de depois de uma batalha nada desafiadora –, corria tropeçando em seus próprios pés para longe de lá, intimidado pela presença da mulher que declarava em alto e bom som a posse da pequena ilha mercante que acabara de invadir.
Portando sua espada em uma das mãos e uma garrafa de rum quase vazia na outra durante o processo, a capitã estava orgulhosa de seu feito: o sorriso estampado em seus lábios indicava mais uma de suas vitórias, agregando outro local conquistado – que não ficava tão longe de seu domínio principal – à ilha que ela chamava de casa há tantos anos.
— O fato de não ter havido um único homem ou mulher suficientemente capaz de me entreter em uma batalha dentre as três últimas ilhas que saqueamos me entristece. — A voz da mulher soa exageradamente dramática, o que faz seus marujos rirem. — Estão rindo de que? Eu não estou brincando!
Uma feição séria toma conta de sua expressão ao mesmo tempo em que ela aponta sua espada para o grupo reunido em uma das mesas, mas esse conjunto logo se desmancha em uma risada suave a qual acompanha a da tripulação — que não havia parado mesmo com sua repreensão quanto ao fato.
— Certo, seus cães sarnentos, vocês estão perdendo todo o respeito e estão precisando de uma lição! Mas vou relevar hoje por conta do bom humor causado pela nossa vitória. — As botas já gastas pelo tempo e tantas batalhas travadas deixam de tocar o chão quando ela dá um impulso e se senta no balcão de madeira, guardando sua espada na bainha e dando o último gole no rum que havia na garrafa que tinha em mãos, posta ao lado instantes depois de finalizá-lo. — Não ousem se acostumar com isso.
De rabo de olho, a mulher nota uma de suas imediatas se aproximando e abre um pequeno sorriso pra ela. A garota, porém, não detinha a mesma expressão leve e feliz que a capitã exibia.
— O que foi, Gemma? — Os olhos atentos para a mais nova analisavam sua expressão, procurando por algo ali escondido. O olhar da garota, apesar de cheio de vida como sempre esteve, não detinha a mesma animação que contagiava o ambiente dos demais ali presentes. — Não deveria estar bebendo e comemorando com o resto da tripulação?
— Faz tempo que estamos longe de casa — Um suspiro preocupado escapa de seus lábios ao dizer em voz alta o que lhe passava pela cabeça, e assim as peças se encaixam para a mais velha.
— Qual é o problema? Não é como se um dos comerciantes fosse se revoltar e organizar um motim — diz em tom bem humorado para amenizar o clima pesado que aquele comentário trouxe, mas sabia que deveria ouvir o alerta: Gemma nunca se enganava em suas intuições, pelo contrário, elas já haviam salvado a tripulação mais vezes do que a mulher poderia contar.
— Eu só... estou com um mau pressentimento — Os olhos escuros e firmes da garota sustentam os da capitã, não demorando a fazer a mulher ceder e escolher dar ouvidos ao seu alerta.
— Partiremos de volta essa noite, então. Deixe os demais cientes. — Uma vez que a decisão é tomada, os ombros da garota relaxam, assim como sua expressão. — Obrigada por me avisar.
Com um pequeno sorriso, Gemma curva levemente sua cabeça em respeito à sua superior e se afasta para juntar-se aos outros, que estavam entornando garrafas e mais garrafas de rum, uma atrás da outra, e cantando animadamente reunidos em uma das poucas mesas do lugar. Uma vez que a mais nova dá as costas, o olhar de acompanha os passos dela, até que eles param de fazer barulho no solo da taberna, dando lugar ao som das botas da própria capitã que se encaminhava agora para fora do lugar.
Ao fechar a porta atrás de si, teve o vislumbre dos últimos raios de sol que brilhavam no horizonte e davam ao mar uma tonalidade bonita de fim de tarde, bem como faziam das nuvens do céu suas próprias ondas alaranjadas. A brisa da maresia batia nos grandes cabelos trançados – negros como uma noite sem lua e envoltos por uma bandana carmesim –, e no rosto de pele bronzeada da pirata, que sorria ao ver aquela bela paisagem. Era uma boa ilha. Boa, mas não tanto quanto a que chamava de lar.
A Ilha Cresta era sua verdadeira casa, ela sabia disso. Era lá que a pirata tinha encontrado sua família, seu lugar, e principalmente a si mesma depois de tanto tempo perdida. Não se recordava de outro local que um dia foi capaz de fazer com que se sentisse assim. Exceto, talvez, pelo grande palácio de Wilhye, antes de tudo acontecer. Agora, porém, as memórias de lá eram apenas fantasmas do passado que perseguiam-na vez ou outra.
Imersa nesses pensamentos, deixou que seus olhos verdes percorressem despreocupados toda a extensão do novo lugar adicionado em sua lista de posses, desde a espuma que a água deixava na areia branca até a popa de seu navio ancorado mais ao longe, onde as letras douradas entalhadas na madeira e refletidas pelo sol exibiam o nome "Rogers's Vengeance"; à dedo escolhido e tão significativo para a mulher.
Um suspiro escapa de seus lábios cheios ao se deixar levar pelas lembranças nostálgicas e certamente tristes que ele lhe fazia recordar. Ainda havia muito para se desbravar naquelas águas selvagens e seu espírito aventureiro pedia por isso, mas a mulher não podia deixar de admitir que uma parte dela estava mesmo com saudades de casa. O aviso de Gemma veio a calhar, bem ou mal.
Sim, uma pequena parada na Ilha Cresta, apenas para checar como estavam as coisas desde que saíram... e então poderiam seguir viagem para o próximo destino tão esperado da extensa lista: La Maldita Isla Sangrienta, lugar onde nenhum pirata ousou pôr os pés até hoje, por medo da terrível maldição que a cercava. Ao menos, nenhum pirata que detivesse o nome Rogers .
Os devaneios da mulher, porém, são rapidamente cortados quando passos sorrateiros atrás de si a trazem de volta ao mundo real. Sem hesitar, em segundos, a espada estava desembainhada, empunhada e pressionada contra o pescoço do homem que havia ousado se aproximar.
— Lute comigo — A voz exibia um tom divertido e desafiador, o que fez com que os olhos de esmeralda da mulher semicerrasem-se ao analisar o sorriso despretensioso no rosto de seu tripulante e adversário no momento.
— Acha que está à minha altura? — O tom de desdém se fez presente propositalmente ao responder seu pedido.
— Não. — O sorriso se alarga ligeiramente — Mas ao menos posso lhe garantir mais diversão do que a que teve momentos antes, na taberna.
Agora, a capitã também exibia um pequeno sorriso.
— Pois bem — Assim que as palavras são pronunciadas pela mulher, Benny não perde tempo em sumir de sua frente e reaparecer às suas costas, a adaga que detinha em mãos agora pressionada contra as costelas de . — Se pretende usar magia para tornar a luta mais interessante, vou chegar à conclusão que quer me bajular. Qual sua verdadeira intenção?
Sem esperar resposta, entretanto, os pés da capitã, quase como em uma dança, se movem estrategicamente em um giro para afastar o homem e sua adaga de perto de seu corpo, voltando a ficar frente a frente com ele em posição defensiva e à espera de outro ataque.
— Você nos prometeu La Maldita Isla Sangrienta, agora quer voltar pra casa. Não pode esperar que os tripulantes fiquem felizes com a decisão.
Após a resposta, o mago investe novamente contra a mulher, que se defende sem esforços, iniciando o confronto de lâminas que tilintavam a cada choque.
— Gemma disse que está com um mau pressentimento quanto à Ilha Cresta. Você sabe que as palavras dela são como profecias, Benny. Ela não erra, nunca errou.
Foi a vez da capitã de investir contra o homem, que se esquivou rapidamente do golpe de sua espada e pulou para trás no último segundo, a tempo de evitar a queda que certamente sofreria se tivesse acertado a rasteira que sucedeu seu ataque.
— Se for esse o caso, não me incomodo de transmutar meu corpo para sobrevoar a ilha e verificar se ela está, de alguma forma, sendo ameaçada. Evitamos horas de viagem de volta e assim poderemos avançar para nosso próximo destino.
O tom cortês e polido quase fez com que a capitã soltasse uma risada, mas ela se conteve e manteve a atenção focada na luta.
— Ganhe de mim e eu acato seu pedido. Perca, e sua punição por me desafiar será não velejar com a tripulação até La Maldita Isla Sangrienta. — As palavras da capitã, apesar de suaves, eram sérias e soavam como uma sentença para aquela batalha.
— Você não me deixaria para trás quando sabe que sou de grande ajuda. — O tom do homem, porém, era de dúvida, não de certeza.
— Não me subestime — Foi a resposta final antes de se calar e se concentrar no que estava fazendo.
Se a capitã bem sabia, Benny não hesitaria em usar de seus atributos mágicos para ganhar aquela luta, ainda mais depois de sua ameaça. Era com isso, porém, que ela estava contando. havia passado anos lutando contra cada um de seus tripulantes, bem como os observando lutar uns contra os outros também. Dizer que sabia cada ponto fraco, forte e trunfos de cada um não era exagero. E foi exatamente por isso que, ao vê-lo tomar distância e se aproximar logo em seguida, com velocidade para um ataque direto, ela se virou de costas. Um movimento arriscado, e que contava apenas com a sorte de ser um palpite correto.
Mas, como esperado, Benny havia reaparecido bem em sua frente, e assim, não foi difícil usar a espada para contra-atacar sua investida de adaga e tomar a dianteira da luta. Uma vez que a capitã cruzou as lâminas e aproveitou da proximidade para, dessa vez, dar uma rasteira bem sucedida, o corpo do mago caiu na areia e ficou suscetível a um último golpe, o qual ela parou segundos antes de atingí-lo pra valer, deixando que o aço gelado da lâmina apenas encostasse gentilmente em seu pescoço.
— Achei que tivesse dito que seria mais divertido do que foi na taberna — A ironia presente na voz da mulher fez com que o homem endurecesse a expressão. — Trace o curso para a Ilha Cresta, sim? Vou reunir o resto da tripulação.
Depois dessas palavras, a pirata usou o ombro para secar as poucas gotas de suor que escorriam de sua têmpora até o queixo e estendeu a mão para que ele usasse de apoio ao se levantar.
— Sim, capitã . — A resposta não soou muito mais alta do que um resmungo contrariado, o que fez com que soltasse uma risada ao se afastar depois de o ajudar.
Enquanto a mulher caminhava de volta à taberna, onde a comemoração era ouvida muitos passos antes de chegar de fato ao local, Benny bateu as mãos em suas roupas para tirar o excesso de areia grudada depois da queda e seguiu até o navio, onde começou os preparativos para partirem. Não havia muito a ser feito porém, e por esse motivo, ele apenas aguardou a chegada dos outros, recostando seu corpo na proa e observando as águas escuras do mar iluminadas pela luz da lua e estrelas com a chegada da noite. Depois disso, não demorou até que o resto da tripulação abordasse e estivesse pronta para partir. No convés, todos olharam para a capitã, esperando que a mesma desse as ordens.
— Eu realmente preciso dizer o que cada um tem que fazer depois de todos esses anos?! Vocês são patéticos. — Ela os encara desacreditada. — Vamos logo, levantar âncora, içar as velas, a todo pano para a Ilha Cresta, blá blá blá. — Um gesto de mãos dispensou a tripulação, que foi logo à postos.
Uma vez estando todos em suas devidas posições, se destinou à sua própria e tomou o timão, começando a navegar para casa. Não era uma viagem longa se o mar estivesse à seu favor, em menos de três horas estariam atracando. E assim se seguiu. Não diferente do habitual, visto que todas as viagens com seus tripulantes eram barulhentas e animadas – essa um pouco mais, devido ao nível alcoólico em que se encontravam –, as horas se passaram sem que percebessem, entre conversas e brincadeiras. Apenas quando Nash, pendurado no alto do terceiro mastro gritou: "Terra à Vista", é que se deram conta de que haviam chegado. Estavam em casa.
Mais do que depressa, a âncora foi lançada novamente ao mar e o navio atracado à base da ilha. Inspirando fundo e contendo o nervosismo, esperou uns segundos para desembarcar, demorando seu olhar por toda a extensão do local. Tudo por ali estava calmo, o que fez a capitã relaxar os ombros e se permitir sair do navio e pisar em terra.
Depois de uma demorada vistoria, checando cada canto possível do lugar, ela confirmou que nada havia acontecido e que tudo estava em seu devido local. Talvez tivesse se preocupado demais. Talvez, pela primeira vez, a intuição de Gemma fosse apenas um alarme falso. Mas para a infelicidade da capitã, a confirmação não tardou a vir.
Naquela mesma noite, depois de todos estarem relaxados em suas estalagens – na cabine de seu navio, como sempre o fazia –, aproveitando a ressaca e dormindo após um dia inteiro de comemorações, uma das tripulantes; a mais nova, a intuitiva, se levantou abruptamente com sua respiração pesada, interrompendo um sonho turbulento para confirmar o motivo de seu mau presságio. A rainha mandaria tropas para invadir e tomar a Ilha Cresta.

Capítulo 1 – As Ordens da Rainha

Os passos apressados e barulhentos que preenchiam o que na visão do homem era um inacabável corredor, somados à feição séria e maxilar trincado que exibia em seu rosto, denunciavam o nervosismo de ao se aproximar da maior e mais importante sala do grande palácio. Era a primeira vez, desde que havia conseguido um cargo alto na corte, em que sua presença era solicitada repentinamente por Sua Majestade. E ele não sabia o que esperar com isso.
Teria cometido algum erro? Esquecido alguma tarefa? Ela pediria sua cabeça como punição?
Ninguém era chamado em presença da mulher há muito tempo. As ordens delegadas aos soldados eram passadas por superiores na grande hierarquia presente no reino, tornando desnecessária a participação direta da soberana.
Então por que ele, sendo tão invisível em meio a tantos outros mais importantes naquele palácio, estaria sendo convocado?
As dúvidas que rondavam sua mente não o deixavam em paz; pelo contrário, só aumentaram ao estar em frente à grande porta de madeira, onde deixou duas batidas antes de adentrar.
— Com licença. — A voz grossa e firme, apesar do nervosismo que sentia, não falhou em se fazer presente no ambiente. — Mandou me chamar, Majestade?
. — Por estar de costas, seus olhos perdidos no mar agitado mostrado pelos vidros límpidos de uma das janelas, a mulher não viu a mesura do homem que se curvava em respeito. Seu nome pronunciado por ela o fez tencionar ainda mais os ombros. — Sim, mandei. Tenho uma tarefa importante a solicitar e, depois de muito ponderar, creio que, talvez, você seja a pessoa certa para cumpri-la.
Os segundos que se passaram em silêncio após aquelas simples palavras, para ele, pareceram horas.
Mesmo podendo soltar um suspiro aliviado por não ser algo ruim como previa, o choque não deixou de se fazer presente, uma vez que não esperava receber uma proposta importante dessas tão cedo. Mesmo seu irmão, sendo um dos homens mais requisitados para missões da corte em sua época, havia demorado anos para conquistar confiança e servir diretamente à uma ordem superior, e agora era ele quem estava tendo essa oportunidade depois de apenas um ano de promoção e ainda sendo tão jovem. Era inacreditável, para dizer o mínimo.
As sobrancelhas grossas erguidas em surpresa voltam para seu natural tão logo quanto se puseram acima, uma vez que se deu conta de que deveria responder àquilo.
Antes de qualquer palavra ser pronunciada, porém, a rainha se virou para encará-lo.
Suas vestes, como sempre muito bem feitas e bonitas, moldadas e costuradas especialmente para ela pelas modistas da corte, hoje eram compostas por um vestido vermelho sangue de seda que realçava sua pele clara, adornado por detalhes rendados em tom cru na cintura e finalizado por rubis tão vívidos e brilhantes quanto a cor do tecido.
O rosto longo da mulher, de traços finos e bem desenhados, era emoldurado por seus cabelos loiros que caíam em cascata pelos ombros e completo pelos seus olhos de um azul tão hipnotizante quanto o mar lá fora, quase como se, de alguma maneira, fizessem parte dele. Ela era bonita, um tipo de beleza dificilmente igualada além de incomum, que conseguia fazer até mesmo olhos atentos se perderem para encontrá-la.
De certo, essa poderia ser sua maior característica, não fosse pelo fato de uma única coisa ser capaz de atrair ainda mais atenção para si: sua idade. A rainha Syrena parecia uma moça em muitos aspectos, o que por si só era uma arma e um lembrete. Nenhuma vez, em toda a história de Wilhye, a coroa havia descansado sob uma cabeça tão jovem. Muito menos permanecido nela por tanto tempo.
A joia ancestral, porém, estava há tantos anos adornando seus cabelos e impondo-se acima de todos, que parecia apenas algo certo, feito para ela, como se fosse uma parte de seu corpo. Era uma sorte que a mulher houvesse se adaptado tão bem ao trono, especialmente depois da morte súbita do último rei, – seu marido –, antes mesmo que completassem um ano de união.
— Ficarei honrado em servi-la, Majestade. — As palavras voltam a ser pronunciadas por depois de instantes, dessa vez, mais convictas do que quando ele adentrou o local. Fruto, talvez, da expectativa já criada antes mesmo de saber qual seria sua tarefa.
— Acredito que esteja muito bem familiarizado com o nome . — Syrena se pôs a andar de um lado para o outro. Aquele simples nome, ela sabia, seria capaz de desconcertar o homem à sua frente.
E assim como imaginou, não tardou a ver a reação. A mão direita de se fechou em punho, sua feição séria se tornando enraivecida e as linhas de expressão se franzindo em claro desprezo.
Ele deveria estar surpreso por ouvir esse nome ser pronunciado tantos anos depois do ocorrido. Deveria até mesmo estar feliz ante a perspectiva do que estava por vir com aquela introdução às ordens que se seguiriam, mas o único sentimento a surgir dentro de si foi o ódio.
E claro, a vingança.
Vingança essa que o homem alimentava desde que viu seu irmão ser assassinado pela mulher.
— Não poderia esquecer esse nome nem se tentasse, Majestade. — Apesar do que sentia por dentro, ele desfez a expressão enraivecida brevemente exibida e se pôs sério e impassível outra vez, esperando o desenrolar da conversa.
— Essa mulher é uma criminosa procurada pelo reino desde que desapareceu seis anos atrás, como imagino que bem se lembre. — Syrena não pôde deixar de colocar um tom de pesar em sua frase em respeito à , mesmo que não se importasse de fato com o ocorrido.
Claro, havia perdido um de seus melhores homens, mas não gastaria seu tempo se lamentando uma vez que o relógio estava correndo e a oportunidade de fazer a culpada pagar por aquilo finalmente surgia à sua frente.
— O assassinato de seu irmão foi uma perda muito grande para Wilhye. Foi, também, o primeiro dos crimes da mulher. Desde então, ela é uma desertora. Pirata. — A última palavra foi pronunciada com nojo perceptível na voz da rainha.
— Estou ciente. — Ainda sem demonstrar emoção, por mais que o ódio que sentisse o corroesse, esperou que a mulher finalizasse seu monólogo e fosse direto ao ponto antes de dizer qualquer outra coisa.
— Para sua alegria, ou assim suponho... sua localização finalmente foi reconhecida, e este é o motivo de ter lhe chamado. — Um longo suspiro escapa de seus lábios rosados. — Tenho conversado muito com meus conselheiros a respeito disso, e voluntários para essa missão não faltaram. Mas acredito que, por ter uma rixa pessoal e sentimento de vingança dentro de si, você seja a pessoa ideal para liderar essa missão.
A mulher se pôs a andar novamente pela sala, os passos em direção à diminuindo a distância estabelecida entre os dois no início da pequena reunião. A diferença de altura entre eles era algo bem perceptível, uma vez que o homem com seu porte militar – resultado de alguns anos de treinamento, – era muito mais alto e corpulento do que ela.
Essas características, porém, se tornavam quase insignificantes se comparadas à imponente presença e poder que Syrena exibia.
— Não posso deixar de ter a preocupação, porém, de que o sentimento que te motive a cumprir essa tarefa com afinco seja o mesmo a lhe tirar o sucesso, se deixar suas emoções superarem o profissionalismo. Veja, estou lhe oferecendo essa oportunidade porque preciso de alguém para assumir o lugar que Willian deixou, e também porque sei o quanto almeja encontrar aquela que lhe tirou a vida. — apenas assentiu minimamente com a cabeça ao ouvir isso. — Quero que tenha em mente, porém, que a punição adequada para ela será decidida e executada por mim, assim sendo, suas ordens são apenas para contê-la e trazê-la de volta para o reino como prisioneira. Os que a seguem não me importam, fica ao seu critério o que fazer.
O silêncio que se seguiu por vários instantes depois disso seria absoluto se não fosse pela respiração pesada do homem, que não falhava em denunciar seu descontentamento com as condições da missão proferidas pela rainha.
Ele sabia que aquela era uma oportunidade única e não iria recusar, mas esperava poder ter a sua vingança uma vez que a encontrasse; esperava poder fazer, com suas próprias mãos, a culpada pagar por ter destruído sua família.
Em vez disso, teria que encarar a assassina de Willian frente a frente sem poder fazer nada, apenas seguindo ordens de capturá-la.
— Mas... — Os olhos do soldado, uma vez opacos ante a decepção, voltam a encarar Syrena com certo brilho de expectativa. — Minha única exigência é que faça dela sua prisioneira. O que precisa fazer para conseguir isso, e até mesmo o estado em que ela se encontrará ao chegar aqui é irrelevante. — O tom divertido e ao mesmo tempo cruel que permeava suas palavras abria uma grande brecha para interpretações variadas, e foi nisso que se agarrou, os lábios se curvando de maneira quase imperceptível em um sorriso singelo.
— Não falharei, Majestade. Não deixarei que meus sentimentos atrapalhem meu sucesso. — Foi com imponência que depois de muito tempo sem falar, o homem fez sua convicção ser demonstrada naquelas palavras.
— É o mínimo esperado — Syrena volta a se afastar, caminhando outra vez em direção à janela que observava antes da conversa começar e deixando seu olhar se perder ali. — Ela está na Ilha Cresta, um dos comerciantes do lugar aproveitou seu período de ausência para comunicar à corte. Ao que parece, vem querendo aumentar o que julga serem suas posses; pequenas ilhas pouco habitadas e derivados, talvez rotas de fuga e esconderijos. Mas sua localização fixa é lá, desde o começo. Pergunto-me como conseguiu passar despercebida até hoje.
A inquietação da rainha perante toda a situação fica clara quando, mais uma vez, o barulho de seus saltos é ouvido ecoando pelo ambiente enquanto ela caminhava. Dessa vez, seu destino foi a mesa central de sua sala, onde um mapa aberto continha uma taxinha indicando a localização do destino almejado.
— Não é longe daqui, fica a três dias de viagem. Acredito que tampouco precise de mais do que isso para cumprir suas ordens, o que te dá um total de nove dias ao todo, entre ida e volta. — Seu dedo indicador deslizou pela parte azul do papel, demonstrando a rota marítima a ser seguida. — Dez, se for necessário contar imprevistos na rota ou na execução da tarefa, algo que acredito não ser. É um homem cético, ?
— Cético? — As sobrancelhas se franzem por um segundo ao ser pego de surpresa por essa questão. — Não estou certo do que se refere nessa pergunta, Majestade.
— Sereias. — Os olhos azuis da mulher voltam a encarar os dele; o tom quase de mesma cor, mas não de mesma profundidade, se cruzando. Havia um brilho diferente ali que, quase tão logo quanto aparecera, se foi. — Há uma baía tomada por elas no meio do caminho. Sereias são criaturas difíceis de lidar, uma vez que fazem questão de afogar marinheiros que cruzam seu caminho, hipnotizando-os com seu canto e beleza surreal.
— Eu não... — O soldado não sabia bem o que responder perante àquela pergunta e as informações que a seguiram, por isso, a mulher fingiu não perceber suas palavras, retomando sua fala quase a ponto de interrompê-lo em suas dúvidas.
— Ao mesmo tempo em que são um perigo mortal para você, podem servir como trunfo se souber como usá-las a seu favor. — O canto dos lábios de Syrena se curvou em um pequeno sorriso enquanto sua mão direita se dirigiu a uma das gavetas acopladas à mesa, tirando dali um colar de pérolas negras. — Sereias, muito além de sua beleza, têm poderes incríveis. Pode imaginar como isso atrai as mais variadas pessoas, principalmente aqueles ratos do mar. Esse colar pertenceu à uma delas, ela foi capturada por piratas e meus homens entraram em um embate com os mesmos para soltá-la e devolvê-la ao mar. Infelizmente, ela não sobreviveu, mas em retribuição e agradecimento, nos seus últimos minutos, nos deixou isso.
A rainha entregou a joia para , que a segurou e analisou cada uma das pérolas ali presentes. Por mais que fosse uma história fascinante, a resposta para pergunta anterior da mulher era "sim", ele era cético. Criaturas marinhas místicas estavam muito além do que um dia ele ousou acreditar, uma vez que, tendo velejado algumas vezes, nenhuma delas cruzou seu caminho.
No entanto, não iria recusar algo que talvez, apenas talvez... pudesse ajudá-lo em sua viagem.
— O nome dela era Ella. Lembre-se disso. — Era nítido que a conversa se encaminhava agora para o final. — Quero que parta amanhã cedo, portanto, tem o resto do dia de hoje para reunir sua tripulação. Deixo os meus homens à sua disposição, mas se quiser incluir alguém além da corte que seja de sua confiança para lhe auxiliar, não vejo problemas. Está dispensado.
Com uma reverência em respeito e agradecimento, o homem deixou os aposentos da rainha.
O fato de ter liberdade para escolher sua própria tripulação, não se limitando apenas à soldados da corte, deu a alguns trunfos. Ele tinha muitos contatos em vários lugares e sabia de pessoas que adorariam a oportunidade de sair para uma boa caça aos piratas. Entre eles, um alguém em particular, muito peculiar e que lhe devia um favor.
Mas este seria o último a ser chamado.
Primeiro, ele começaria por um amigo de anos, o qual sabia que bastaria pronunciar a palavra chave para fazê-lo topar a aventura.
Filho de falecidos marinheiros – estes, assim como seu irmão, assassinados por piratas –, Frank, de certo, conhecia muitas histórias de pescador. Por esse motivo, não duvidava que ele acreditasse em sereias e demais criaturas, o que ajudaria na possível parte da missão em que, eventualmente, encontrariam as mesmas.
Além do mais, o homem poderia facilmente ser definido como um "pau para toda obra", uma vez que também tinha habilidades em luta corporal e perícia em algumas armas. Seria bom, de várias formas, tê-lo ao seu lado nessa tarefa.
Enquanto procurava por seu amigo, caminhando pelas ruas calmas de Wilhye depois de sair do grande palácio, o soldado deixou seus pensamentos vagarem até aquele dia em que sua vida havia mudado.
Willian sempre fora para um exemplo a ser seguido. O mais velho parecia invencível aos seus olhos; voltava vitorioso de todas as missões que recebia e cumpria seus deveres com excelência. Tinha também a total confiança da rainha, e isso, de fato, era o mais notável, uma vez que o mérito era quase impossível de ser alcançado.
Ele havia construído sua imagem e feito com que o nome de sua família fosse conhecido e respeitado por todos no reino, se tornando, assim, alguém quase intocável. Um soldado perfeito.
Talvez, por isso, ninguém imaginasse que sua vida seria tirada tão facilmente e de forma tão abrupta, em praça pública e em plena luz do dia.
vira acontecer. E ele se lembrava de cada detalhe.
Da vívida imagem da espada afiada atravessando o peito de seu irmão enquanto o mesmo caía de joelhos numa poça de seu próprio sangue, a vida se esvaindo dos olhos arregalados em surpresa; de como a mulher se vangloriou disso e riu em cima do corpo, dizendo algumas palavras sobre a rainha que ele não fez questão de prestar atenção, uma vez estando mais preocupado em correr em sua direção junto aos soldados que a cercavam; da tristeza e do ódio que sentiu e, principalmente, do jeito que ela desapareceu como se nunca, de fato, tivesse estado por ali. Era como um fantasma, que tão logo quanto veio e cumpriu seu objetivo, se foi sem deixar rastro.
— Você tá um caco — A voz tão bem conhecida fez tudo aquilo desaparecer, trazendo o homem antes perdido em pensamentos de volta para o mundo real. — Perdeu o rumo de casa? Acho que nunca te vi tão avoado.
— Frank. — franziu o cenho, olhando rapidamente ao redor e se dando conta de que já há um tempo havia deixado as ruas nobres para trás, estando agora na parte mais esquecida e pouco frequentada da cidade. — Ah, eu estava procurando por você.
— Por mim? A que devo a honra desse nobre soldado visitar a ralé? — A ironia em sua voz era carregada, bem como o sorriso de canto que apareceu, indicando a brincadeira. — Pensei que havia se esquecido daqueles menos afortunados.
— Também senti saudades. Andou se metendo em confusão de novo? — O motivo da pergunta era claro, visto que havia alguns hematomas aqui e ali no rosto do homem, bem como vários rasgos em suas roupas simples, as quais fez questão de apontar, olhando-o de cima a baixo.
A diferença entre eles se dava apenas nesses quesitos, porém. Os dois tinham a mesma estatura, Frank perdendo apenas por alguns centímetros. O porte físico também não ficava muito atrás, visto que da mesma forma que treinava como soldado, seu amigo o fazia por conta própria, em brigas de rua e coisas do tipo.
— Como se esse não fosse meu jeito de ganhar a vida, meu amigo. Sabe, nem todos têm privilégios de ser da alta classe, andar por aí com roupas de luxo e encher o bucho num palácio como você. — A expressão forçada de tristeza que Frank colocou em seu rosto fez rir.
— Ah, pare com isso, você não tem essa vida porque não quer. Já lhe foi oferecido um cargo na corte como soldado. Você recusou. — Com essas palavras, Frank acabou dando de ombros e rindo também.
— Claro, imagina só ser um engomadinho como você. Tô fora. — O desdém fez revirar os olhos e começar a andar, indicando ao amigo para que lhe acompanhasse. — Por que veio aqui?
— Vou lhe explicar. Tem alguma taberna por aqui para bebermos enquanto isso? O assunto é longo.
Com um aceno breve de cabeça, Frank começou a guiar o caminho, cumprimentando algumas pessoas pelas ruas em que passavam.
O soldado não deixou de notar que aquela região era realmente diferente dos arredores do palácio em que estava acostumado; enquanto por lá passavam mulheres bonitas, bem vestidas e educadas, acompanhadas por homens nobres, ali, a grande maioria se resumia a miseráveis e causadores de confusão puxando briga a cada esquina.
— Ah, não pareça tão surpreso. Faz muito tempo que você não vem pra esses lados, mas as coisas continuam como da última vez. Chegamos. — A voz de Frank se faz presente para tirar de seus devaneios outra vez. Agora, os dois estavam em frente a uma pequena taberna, onde não hesitaram em entrar e buscar uma mesa mais afastada. — Então? Qual é o assunto tão importante?
— Eu vim te recrutar para uma missão. — A expressão curiosa do homem se transformou em surpresa ao ouvir aquelas palavras, mas o soldado continuou antes de poder ser interrompido. — A rainha Syrena encontrou o paradeiro da assassina de Willian e me deu a incumbência de ir até ela.
Frank ficou alguns instantes em silêncio até conseguir processar a informação e recuperar a fala. Ele conhecia a história, havia lhe contado seis anos atrás, quando aconteceu. Era estranho pensar que haviam encontrado a mulher tanto tempo depois, principalmente por ela ter desaparecido de um jeito tão fantástico a ponto de deixar dúvidas de sua existência ter sido mesmo real.
— Estou ouvindo — Com um gesto para que ele prosseguisse, o homem se pôs atento à cada palavra.
O fato da taberna estar cheia de homens cantando, brigando, ou rindo alto facilitou a conversa dos dois a passar despercebida. A última coisa de que precisavam era mais atenção atraída para eles, não fossem as roupas da corte que usava mais do que suficientes para isto.
O soldado então contou todos os detalhes da missão e explicou o porquê de querer Frank nela, não deixando de notar a animação surgir nos olhos dele em partes específicas da narrativa.
Quando finalmente terminou, esperou por uma resposta.
A mesma veio quase de imediato, sem hesitações.
— Piratas e sereias. Que tipo de homem eu seria se recusasse esse tipo de aventura? Você sabe que eu topo. — Os dois sorriram ao mesmo tempo com isso. — Você disse que a rainha te deixou escolher sua própria tripulação, por isso veio até mim. Sou exclusivo ou tem mais alguém em mente?
— Além de você, vou chamar Blanche, a caçadora de recompensas e um... amigo, digamos assim. Por quê? — Com a pergunta, achou sua resposta antes que ela fosse pronunciada, acompanhando o olhar de Frank até uma das serventes da taberna.
— Bom, se estiver disposto a aceitar sugestões... Aquela é a Mia. Ela e sua irmã, Amália, costumam ganhar todas as brigas que entram. Além disso, enquanto uma é especialista em explosivos, a outra é uma arqueira incrível. Ambas têm suas desavenças com piratas. Talvez sejam de grande ajuda.
— Ótimo, vou deixar em suas mãos a parte de chamá-las, então. Meu tempo está acabando e eu preciso falar com os outros. Estejam no porto ao amanhecer. — O soldado então se levantou e deixou alguns trocados em cima da mesa pelo que havia consumido.
Sem esperar alguma resposta de Frank, com um aceno, ele saiu do local e recomeçou a caminhar pelas ruas, agora mais escuras com a chegada do crepúsculo. Sabia que seria uma tarefa um pouco mais difícil chegar até Blanche, então tomou seu caminho até uma pequena casa, ainda mais afastada e esquecida aos olhos do reino, onde sabia que encontraria aquele que pretendia chamar desde o começo.
Com apenas uma batida, ele esperou até que a porta se abrisse, e quando ela o fez, o soldado sorriu para o homem que ali apareceu.
— Veio cobrar seu favor, imagino. — A voz soou sem muita emoção, mas era possível distinguir uma pontinha de curiosidade em meio ao desinteresse.
— Você pode recusar se quiser, mas imagino que não irá quando ouvir a proposta. — Diferente de Pogue, demonstrava sua animação nas palavras.
— Não preciso, eu sei do que se trata. E sei que a rainha não ficará feliz se souber que me chamou. — O homem não evitou uma risada amarga. — Estarei no navio antes do amanhecer para lhe evitar problemas. Espero que esteja certo de que é isto que quer em retribuição ao que fez por mim.
— Estou certo. — O soldado disse firme enquanto o encarava. Não havia sequer uma ponta de dúvida ou hesitação em sua voz.
— Que assim seja, então. — A porta estava para se fechar outra vez, mas o homem pronunciou uma última frase antes disso. — Não se preocupe em procurar pela Blanche, ela estará lá também.
Ao final, assentindo positivamente em agradecimento, deu as costas e começou a caminhar de volta para o palácio. As horas restantes até o nascer do sol seriam de grande ansiedade para o início da missão mais importante de sua vida.

Capítulo 2 – Guerra Declarada

Sentir a areia macia e a espuma das águas geladas do mar tocando seus pés descalços sempre havia sido algo relaxante para , mas naquele momento nem mesmo a melhor das sensações conseguiria calar os pensamentos que insistiam em rondar sua mente ou acalmar seu coração, que batia de forma acelerada ansiando pelo que estava por vir.
Desde que havia sido acordada no meio da noite para receber o aviso de Gemma, o sono e o cansaço deram lugar à inquietação e êxtase e, por isso, a mulher deixou seu navio ainda na madrugada para se sentar na orla da praia e observar o horizonte escuro enquanto processava aquela informação. A chuva fina que caía e as fortes ondas que se chocavam violentamente contra os rochedos ao redor da ilha não a incomodavam. Ela estava imersa demais em seu próprio mundo para notar qualquer coisa além de suas lembranças.
Aquela simples menção de sua imediata à rainha, a quem há tempos não ouvia falar, havia feito tudo voltar à tona. Tudo que perdeu, tudo que havia passado, todas as memórias de sua infância roubada e arruinada por conta da soberana; sua casa, sua felicidade, sua família.
não havia se esquecido de sua promessa, ela não poderia. Havia jurado para si mesma desde os treze anos de idade que faria aquela mulher cair, que faria com que ela pagasse por tudo. Havia baseado sua vida nisso, lutando e se fortalecendo dia após dia para cumprir com sua palavra. Todas as coisas que tinha aprendido sozinha em seu longo e difícil caminho agora seriam postas à prova. Ela estava prestes a entrar em uma batalha para defender sua ilha, sua tripulação, e sua vida, mas era exatamente esse o motivo do sorriso que estampava seus lábios naquele momento.
Não planejava que as coisas acontecessem dessa maneira, mas um presente a estava sendo entregue de bandeja: as tropas reais estavam indo à seu encontro. Ela não precisaria voltar ao palácio para poder dar continuidade ao que havia começado seis anos atrás. Pelo menos, não por agora. Aquele seria seu segundo aviso à Syrena, e sabia que a mulher o receberia e entenderia: se a quisesse morta, teria que pegá-la pessoalmente, não mandar encarregados fazerem o seu trabalho sujo.
Aquela guerra estava declarada há muito tempo, e a pirata estava um passo à frente. Sempre esteve. Ela devia isso ao seu pai e cumpriria com sua palavra, independente de qual fosse o custo.
Imersa nessa maré de memórias, ela só se deu conta de que o sol já se fazia presente quando os olhos de esmeralda puderam vasculhar claramente cada canto do horizonte em busca de um navio ao qual sabia precisamente quanto tempo demoraria a chegar. O canto dos pássaros da ilha logo deu lugar ao som do tilintar de espadas se cruzando, e essa foi a deixa para se levantar, tirar a areia das roupas e calçar suas botas novamente para caminhar de volta ao seu navio e reunir sua tripulação. Tinha um aviso a dar e nenhum segundo a perder.
— Capitã, agora que já passamos uma noite inteira sem sinal de problemas em Cresta e seu bom humor voltou, a julgar pelo sorriso no rosto, devo presumir que podemos traçar o curso para La Maldita Isla Sangrienta, certo? E, obviamente, eu poderei acompanhá-la, já que mesmo perdendo aquela luta, você é uma capitã extremamente benevolente...? — A voz sugestiva de Benny se fez presente tão logo a mulher se juntou ao local onde seus marujos lutavam.
— Muito pelo contrário! — O homem quase engasgou ao ouvir essas palavras, mas antes que pudesse protestar, ela continuou: — Meu bom humor se dá pelo fato de que a rainha Syrena pretende invadir nossa ilha.
teve que se segurar para não rir dos olhares confusos direcionados à ela depois daquela afirmação. Todos a encaravam sem entender o significado de suas palavras, uma vez que a mulher tinha dito aquilo com a tranquilidade de alguém que deseja um bom dia.
— Ela ficou louca? — Celeste, uma das piratas que treinava com Nash num pequeno confronto de espadas, perguntou baixo para seu adversário. O mesmo deu de ombros, mas o cenho franzido indicava sua resposta positiva.
— Talvez eu tenha bebido demais noite passada e acabei ouvindo errado, não devo ter acordado direito ainda. — Connor levou sua mão direita até a altura da cabeça, usando o dedo indicador para cutucar o ouvido.
— É uma ótima brincadeira, capitã. Sério, eu estaria rindo se você também estivesse, mas agora estou começando a me preocupar com a sua saúde. — O mago volta a falar em tom descontraído, mas muda sua expressão ao perceber que, depois daqueles comentários, não mantinha mais a leveza em seu rosto.
— Agora escutem aqui todos vocês! — Sua voz séria fez os cochichos se calarem e toda a atenção se voltar para suas palavras. — Na madrugada de hoje, enquanto roncavam como porcos e curavam a ressaca com uma bela noite de sono, Gemma veio até mim e alertou que tropas reais estão sendo enviadas para cá. Eu não sei como aquela mulher descobriu nossa localização, mas de qualquer forma temos três dias até que a cavalaria chegue.
A informação foi como um balde de água fria. O clima descontraído de segundos atrás havia mudado completamente ao perceberem que aquilo realmente não se tratava de uma brincadeira. Não demorou também para que os cochichos recomeçassem, mas dessa vez, a surpresa e preocupação eram explícitas nos mesmos. Ignorando-os, retomou a fala e fez com que a tripulação se calasse outra vez.
— Eu não vou mentir, nós teremos uma batalha dura pela frente. Aquela mulher não brinca em serviço e também não poupa esforços para atingir seus objetivos. Estejam avisados de que "piedade" e "misericórdia" são palavras que não existem em seu vocabulário. — A postura firme da capitã fazia dela uma verdadeira líder. Ela mantinha o foco de visão se alternando entre cada um dos presentes enquanto falava. — Eu sou o alvo dela, não vocês, mas de qualquer forma, duvido que os soldados não tenham ordens para abrir fogo contra qualquer um que entrar em seu caminho até conseguirem chegar a mim.
— Não espera que fiquemos fora de cena enquanto você luta sozinha, espera? Porque não vai acontecer. — A forma que Celeste se impôs antes mesmo de terminar de ouvir suas ordens fez dar um meio sorriso.
— Não, nós vamos lutar como uma tripulação, como a família que somos. Eu sei que nada do que eu diga vai impedir vocês e não era isso que eu pretendia para começo de conversa. — Uma sobrancelha se ergue ao encarar a menina, que acaba relaxando os ombros ao ouvir aquilo. — Mas não vou aceitar que contestem a ordem de que, se eu for abatida e capturada, não devem tentar me salvar. Devem abandonar a batalha e fugir, porque a vida de vocês vale mais do que a minha.
Uma série de protestos indignados se inicia, vindo de quase todos ali presentes. Benny e Gemma eram os que mais gritavam, os dois se alteraram rapidamente ao ouvir aquela recomendação.
— Calem a boca! — O grito da capitã se sobrepôs a todas as vozes, fazendo-as silenciarem de imediato — Eu disse que não aceitaria contestações. Essas são as suas ordens e quero que as cumpram, estejam satisfeitos ou não com elas. Uma vez que eu estiver fora de cena, presumo que eles não irão mais atrás de vocês, então não testem a sua sorte tentando bancar os heróis. — Depois de passear seus olhos sobre todas as caretas ali exibidas, ela prossegue: — Eu não pretendo me render e muito menos ser abatida facilmente. Pelo contrário, tenho certeza que podemos ganhar essa batalha, porque nós temos a vantagem. Eles estarão em território desconhecido, mas nós conhecemos essa ilha como a palma de nossas mãos, o que faz com que nossa posição e plano de ataque sejam extremamente superiores. Temos também o elemento surpresa, afinal, eles não sabem que nós sabemos de sua vinda.
A expressão fechada que detinha em seu rosto vai se abrindo em um novo sorriso à medida que ela vê seus marujos, mesmo contrariados, aceitarem suas recomendações sem mais protestos. Com isso, a mulher começa a caminhar e diminuir a distância entre ela e sua tripulação. Estando cara a cara com o mago, ela recomeça a falar:
— Além disso, a magia está ao nosso lado. — Benny acaba por retribuir o sorriso de sua superior ao ouvir isso, fazendo uma pequena reverência. — Cada um de vocês é especialista em alguma coisa, e eu digo isso com propriedade, porque em nossos treinos, vencer não foi tarefa fácil. Gemma, assim como suas previsões, eu nunca vi você errar um alvo com suas flechas. — A imediata abaixa a cabeça, um pouco envergonhada com o elogio. — Celeste, você é tão boa quanto eu com a sua espada, e posso dizer que aprimorei meu combate corpo a corpo graças à você. Connor, você... bom, você consegue fazer muitas coisas explodirem. Se conseguirmos explodir pelo menos uma parte do navio deles antes que cheguem até nossa ilha, nossa tarefa vai ser ainda mais fácil. — O clima começou a se amenizar entre a tripulação, que agora ria e se encorajava com os comentários de . — Nash, você luta muito bem, mas sua especialidade em ervas e pomadas para curar ferimentos é incrível. Isso vai ajudar a todos. Você é uma parte importantíssima nessa batalha, todos vocês são. Tenham isso em mente. — Um a um, todos foram sendo citados, e isso fez com que a determinação estampasse seus rostos. — Nós vamos ganhar. Agora, seus preguiçosos, parem de perder tempo e comecem a se preparar! Não estou vendo seus corpos suados de esforço e muito menos sentindo o cheiro desagradável que isso traz. Ao trabalho!
Uma vez que a tripulação – agora animada e ansiosa pelo confronto –, se dispersou entre tre,inamentos e preparativos, a capitã deu as costas e adentrou a cabine de seu navio, caminhando até um dos cantos e sentando-se no chão de madeira do mesmo. Sozinha, ela desembainhou sua espada e a colocou em seu colo, correndo rapidamente seu olhar por toda a extensão da lâmina de aço até por fim se demorar no cabo. Ali se encontravam três pérolas incrustadas na madeira; duas delas da cor natural e uma completamente negra e brilhante, símbolo da magia que a mesma ainda continha, diferente das primeiras, cujos poderes já haviam sido usados. Aos olhos de qualquer um, elas poderiam parecer apenas uma decoração desnecessária para uma arma. Para a mulher, porém, o significado ia muito além, e trazia para o objeto ainda mais valor.
Com um sorriso melancólico, deixou seus pensamentos a levarem para anos atrás, quando ainda era uma garotinha. Mesmo crescendo na corte, ser uma das nobres donzelas que exibiam seus vestidos bem feitos e bons modos pelos corredores do palácio nunca foi seu forte: ela sempre se interessou muito mais por armas e batalhas do que por bailes e danças, motivo pelo qual insistia todos os dias para seu pai a ensinar a lutar.
Era difícil para ele resistir ao sorriso pidão e divertido da pequena, e foi então que ela ganhou sua primeira espada. Os dois trabalharam juntos na mesma, pois, além de um grande soldado, Rogers era um excelente ferreiro.
"Você não vai conseguir levantar essa espada tão cedo, . Já olhou para o tamanho dos seus bracinhos? Vai precisar treinar muito duro se quiser fazer isso." As palavras tão distantes pareciam ter sido ditas ontem.
A mulher quase podia escutar as batidas do martelo em cima do aço quente da arma enquanto se lembrava dessa conversa.
"Por favor, papai, me ensina! Você vai ver, um dia eu ainda vou conseguir te derrotar!" Era impossível, para o homem, deixar de notar a determinação que transbordava dos olhos verdes de sua filha.
"Por que você quer tanto aprender a usar uma espada? Brincar com as crianças da sua idade não é mais divertido?" Rogers perguntava levando uma mão ao ombro de , mesmo já sabendo a resposta.
"Claro que não, eu quero ser como você, papai. Eu quero ser poderosa e fazer você se orgulhar."
"Você já é o meu orgulho."
Soltando um suspiro enquanto encarava o vazio, a capitã sentiu uma lágrima quente escorrer pela sua bochecha.
— Ah, pai, se pudesse me ver agora. — A mão direita sobe ao rosto para secá-lo — O que será que pensaria?
Os passos que soaram pela escada de madeira, se aproximando cada vez mais da cabine, fizeram a mulher se recompor e levantar rapidamente, guardando a arma na bainha presa à cintura outra vez.
— Atrapalho? — A pergunta suave veio de Gemma, que detinha uma expressão tão leve quanto sua voz.
— Não. Eu só estava pensando em algumas coisas — responde, se aproximando da imediata. — Algum problema?
— Nenhum. Tem um minuto para conversarmos? — Com o aceno positivo da capitã, a menina sorri e indica a saída do navio — Quero te mostrar uma coisa.
As duas então começam a caminhar pela ilha. O tempo já havia melhorado; a chuva rala que antes caía deu lugar ao sol, que agora se fazia presente em todo seu brilho e calor.
— Então? O que quer conversar? E o que quer que eu veja? — pergunta depois de uns instantes em silêncio, olhando de relance para a pirata ao seu lado.
— Você está nervosa com a batalha? — Sem parar de andar para encarar sua superior, Gemma inicia o assunto. — Sabe que não precisa, e nem consegue, mentir pra mim.
— Nervosa não é a palavra — A resposta veio rápida, sem precisar ser elaborada — Eu estou ansiosa. Mas de qualquer forma, não é Syrena que vem para lutar comigo, são seus cãezinhos. Isso estraga um pouco a expectativa — As duas riram juntas com o comentário.
— Não importa, quando nenhum deles retornar, ela vai entender o recado. E então, quem sabe, ela não resolva vir pessoalmente. — Gemma sorriu, agora encarando diretamente a mais velha. A passagem à frente das duas começa a se fechar entre árvores e arbustos mais robustos, o que faz a capitã franzir um pouco o cenho. — Nunca veio para essa parte da ilha, não é? Bom, aqui há um pequeno truque que podemos usar a nosso favor.
Se embrenhando no meio de toda aquela vegetação, elas acabam, depois de certa dificuldade, chegando até um pequeno lago. Não havia muita iluminação ali, afinal, as copas das árvores eram grandes a ponto de não deixar os raios de sol penetrar no lugar. De fato, a capitã nunca havia estado ali antes, e tampouco entendia a razão de estar agora, o que resultou em um olhar confuso lançado para a mais nova. Isso fez com que a mesma soltasse uma risada e tirasse de um dos bolsos um par de luvas de couro, as quais vestiu logo em seguida.
— Quer me explicar o que está fazendo? — pergunta ao ver Gemma pegar uma das várias flechas guardadas na aljava que sempre carregava nas costas. Sem responder, a garota caminha até a beira do lago e tira de lá um sapo, deslizando a ponta e todo o resto da extensão de madeira da flecha pelas costas do anfíbio.
— Eu descobri esse lugar com o Nash — As bochechas ficam rosadas por uns segundos. — E, bom, acontece que ele não entende só de plantas. Esses sapos têm um veneno paralisante. Ele não mata, mas a pessoa atingida não consegue se mover por uns bons minutos, talvez até mesmo por uma hora completa. — Percebendo que a capitã não havia falado nada depois da explicação, a imediata se vira e dá de cara com uma expressão surpresa, e talvez até mesmo orgulhosa, de sua superior. — O que foi?
— É difícil de acreditar que aquela garotinha que veio me pedir abrigo quando nem eu mesma tinha para onde ir, cresceu tanto assim. — O comentário veio com uma risada.
— Ah, corta essa, . Eu cresci graças a você, que "mesmo não tendo para onde ir", me levou junto. — Era possível sentir a sinceridade nas palavras de Gemma, mesmo a garota estando envergonhada quanto ao comentário.
— Não poderia deixar você passar pelas mesmas coisas que eu passei. — deu de ombros. — Sabe, viver como pirata, roubar e fugir de homens é bem melhor do que servir e vender seu corpo para eles em troca de umas moedas para conseguir sobreviver.
— Você é uma guerreira, . Além do mais, é a mulher mais incrível que eu já conheci. — A imediata volta a se aproximar da mais velha depois de guardar as flechas embebidas em veneno novamente em sua aljava. — Mesmo chegando depois de muita coisa, eu trilhei boa parte do seu caminho junto com você, então posso dizer isso com propriedade. Não foi à toa que depois de treinar completamente sozinha e se destacar em vários navios você conquistou o seu próprio, bem como sua tripulação e seu título de capitã. Todos que te seguem fazem isso porque gostam de você, porque são leais à você, não porque tem uma dívida ou foram obrigados, com suas cabeças ameaçadas, caso não o fizessem.
— Ah, cala a boca! — Apesar da repreensão, um sorriso se abriu no rosto de — Estamos prestes a entrar em uma batalha épica e você me vem com sentimentalismo? Preciso de uma garrafa de rum. — As duas então começam a trilhar o caminho de volta para o navio, rindo do comentário. — Gemma... você se lembra da história das pérolas? — A mulher volta a perguntar depois de uns instantes em silêncio.
— Claro que sim. O que tem? — O olhar curioso encarava a expressão pensativa que estampava o semblante de .
— Acha que conseguiríamos o apoio das sereias? Sabe, elas podem ser de grande ajuda nessa batalha. — A capitã para de andar, encarando sua imediata.
Gemma demora uns instantes para considerar a pergunta, como se estivesse analisando a situação como um todo antes de respondê-la.
— É algo difícil de responder, são criaturas muito complexas e, a meu ver, não há motivos para entrarem em uma batalha para nos ajudar. Não sabemos quantas delas existem, onde exatamente vivem, e muito menos se há uma hierarquia, um reino, ou algo assim entre elas. Mas... se tiver a sorte de achar uma, o que por si só já é uma tarefa muito difícil, e conseguir contar a sua história, fazendo com que ela acredite em você, talvez haja uma possibilidade de ficarem do nosso lado. Afinal, é uma escolha óbvia. — A garota olha para a espada da mulher. — Você tem algo para provar que o que diz é verdade.
assente em um gesto simples e então volta a focar seu olhar na trilha à frente, movendo seus pés outra vez. O resto do caminho foi silencioso, as duas estavam muito absortas em suas próprias questões para conversarem entre si.
Não muito tempo depois, uma vez estando de volta à frente do navio, Gemma acena em despedida e parte para o meio da ilha, visando os últimos preparativos para a batalha. , por sua vez, ao ver todo o resto da tripulação concentrada em seus próprios afazeres, se afasta, dirigindo-se até a orla da praia – onde estava mais cedo – e escala uma das grandes pedras que cercavam a extensão do lugar. Por sua localização precisa e alta, de cima da mesma, a mulher tinha um grande campo de visão do vasto oceano à frente.
— Ótimo. Agora, como é que eu vou contatar uma sereia?! — A pergunta baixa para si mesma foi acompanhada de um suspiro; não havia uma resposta para aquela dúvida, então, sua única opção foi sentar e esperar.
nunca havia tido contato direto com uma das criaturas, o que dificultava ainda mais o seu plano, que, àquela altura, já começava a parecer impossível.
A única coisa que a capitã sabia sobre elas é que as mesmas eram donas de grande beleza e de grande poder. Seu pouco conhecimento vinha das histórias de seu pai. Ele sempre as contava com entusiasmo, afinal, não era só pelo mar que tinha um grande fascínio, era também por todos os seres que nele viviam, principalmente os mágicos. Saber que sua maior paixão tinha sido o motivo de sua ruína fazia o sangue da mulher ferver.
Soltando mais um suspiro, não pôde evitar deixar os pensamentos vagarem, outra vez naquele dia, para sua infância. Gemma tinha razão, ela tinha algo para provar que sua história era verdadeira.
"Eu tenho uma surpresa para você". A menina, um tanto mais velha, parou de treinar com sua espada e correu para os braços de seu pai com um grande sorriso.
O homem, porém, apesar de feliz por ver a filha depois de quatro dias fora em uma missão real, mantinha uma expressão um tanto avoada no rosto.
"Papai, que bom que você voltou! Um presente? O que é?", tentou pular para alcançar a mão fechada que pairava bem acima de sua cabeça, cruzando os braços com uma careta emburrada ao não conseguir.
"É algo muito especial" O canto dos lábios de Rogers se curvou em um sorriso um tanto triste. "E importante"
Os joelhos do pai então foram ao chão, onde ele se sentou logo em seguida, de pernas cruzadas, esperando que fizesse o mesmo. Quando ela o fez, a mão antes fechada em punho se abriu em sua frente, revelando ali três pérolas completamente negras e brilhantes.
"Pérolas?! São bonitas... diferentes. Onde conseguiu?". O dedo indicador da garota as rolou na palma do homem, os olhos de esmeralda analisando-as em curiosidade.
"Foi um presente de uma sereia, elas são mágicas." A curiosidade então se transformou em surpresa e entusiasmo. "Escute, , as coisas na missão não correram muito bem e por isso eu quero que fique com essas pérolas. Estamos correndo perigo agora e estou certo de que elas te protegerão quando chegar o momento."
O tom empregado nessas palavras fez outra careta aparecer no rosto da garota. Essa, porém, demonstrava sua preocupação.
"O que aconteceu, papai? Por que estamos em perigo?"
"A rainha Syrena não aceita falhas, , você sabe. E eu... acabei falhando de propósito nessa missão. Não poderia cumprir uma ordem que fosse contra meus propósitos. Isso vai trazer consequências, é uma questão de tempo até que..."
— Atrapalho? — A pergunta, dessa vez vinda de Benny, fez os devaneios sumirem, trazendo a mulher de volta à realidade em um sobressalto. — Opa, não queria te assustar. Está tudo bem?
— Não. — A resposta simples veio acompanhada de um pigarreio. — Quer dizer, não, não atrapalha e sim, está tudo bem.
— Não estava planejando se jogar, espero. Digo, eu já estava achando que você não estava em plena consciência ao estar feliz pela invasão na ilha... o olhar de peixe morto em cima de um penhasco, agora, me preocupa ainda mais. — O tom descontraído fez a capitã rir de leve e negar com a cabeça.
— Eu estava reconsiderando te levar para La Maldita Isla Sangrienta quando tudo isso acabasse, mas vejo que vou ter mesmo que te deixar por aqui... — Uma sobrancelha foi ao alto com a provocação. se levantou, tirando a areia das vestes e encarando o mago — A não ser... não saberia, por acaso, como chamar uma sereia, não é?
— Por acaso, eu saberia sim. — O tom de desdém ao encarar a superior com um sorriso malandro se fez presente na frase. — Há pouquíssimas coisas que um mago de quase setecentos anos não saiba fazer.
— Então eu ficarei honrada de ter sua ilustre companhia em nossa próxima aventura. — A capitã lançou uma piscadinha para o homem à sua frente, seguida de uma reverência e uma risada. — Certo, então, como eu faço isso?
— Ah, você não faz. — O sorriso da mulher se transformou em uma careta, mas Benny logo tratou de continuar a frase: — Só há duas maneiras de chamar uma criatura dessas, e as duas envolvem magia. Uma delas é por meio de uma canção, que deve ser entoada por uma bruxa. A outra é por meio do sangue de outro ser mágico, que, para sua sorte, está bem aqui à sua frente.
Com alguns passos para ficar à beira da grande pedra, o mago tirou de sua bota uma adaga, fazendo um corte na palma da mão e deixando que as gotas de sangue escorressem e pingassem abaixo, se misturando às águas escuras que se chocavam contra os rochedos.
— Só isso? Não precisa dizer nada do tipo "Ó, ilustres e lindas criaturas, eu as invoco"? — O olhar que Benny lançou para a fez rir novamente, dessa vez com mais vontade. — Poxa, estou decepcionada, achei que teria todo um ritual...
— Vou deixar você sozinha, capitã "rituais de invocação". Elas logo vão aparecer. Boa sorte! — O sorriso ladino que apareceu uma última vez no rosto do mago foi retribuído por sua superior, que se adiantou até o extremo da pedra, ansiosa para o que veria em seguida.
E, assim como o homem havia dito, não muito tempo depois um brilho prateado ladeou as ondas, uma, duas, três vezes, até sumir. Por uns instantes, as águas ficaram calmas, como se aquilo não tivesse passado de um reflexo da lua que agora estava alta no céu.
O que veio a seguir, porém, foi de surpreender: da superfície, algo começou a emergir.
Os cabelos pretos, cheios e volumosos, esculpiam e emolduravam o – agora totalmente visível em meio ao véu escuro das águas –, rosto de pele muito branca da criatura. Seus olhos, de um violeta nunca antes visto pela capitã, ou sequer por qualquer outra pessoa, contrastavam com todo o resto, deixando explícito o fato de que não pertenciam a alguém comum.
não pôde ver muito mais do que isso, uma vez que o resto do seu corpo estava submerso no mar. Porém, o reflexo prateado que aparecera anteriormente se dava pela majestosa cauda que balançava de um lado para o outro. A mesma exibia um brilho ao qual era possível distinguir mesmo em meio à total escuridão.
Era, de fato, uma beleza surreal.
— Você é humana, mortal. Como conseguiu me chamar? — A voz melodiosa da criatura soava quase como um cântico, que chamava, atraía. Era quase impossível de resistir à vontade de chegar mais perto. — O que quer comigo?
— Eu... — balançou a cabeça algumas vezes para voltar à realidade, focando sua atenção em seu propósito e ignorando as primeiras perguntas da sereia para ir direto ao ponto, respondendo apenas a última: — Quero conversar sobre uma sereia chamada Ella.

Capítulo 3 – Águas Rasas

Reunir a tripulação, juntar pertences necessários para a partida e finalizar os preparativos para a tarefa foi a parte fácil. Tudo havia saído como brevemente planejado e agora a única coisa que restava era a madrugada escura dar lugar aos primeiros raios de sol da manhã para a missão mais importante de sua vida ter início. Essa foi a parte difícil.
estava impaciente demais para conseguir dormir, a mente trabalhava com inquietação para repassar todos os detalhes e imaginar incontáveis cenários do que logo menos viria a acontecer, razão pela qual as horas pareciam se arrastar enquanto o homem rolava de um lado para o outro na cama. Mais cedo, havia dito para a rainha Syrena, com convicção, que não falharia em cumprir suas ordens. Porém, estando sozinho com seus pensamentos, o homem não estava tão certo de que conseguiria manter a sua palavra. Não seria fácil se controlar.
Uma vez estando frente à mulher que havia tirado a vida de seu irmão, como poderia não deixar o ódio tomar conta e lhe cegar? Como poderia encará-la sabendo o que a mesma havia feito, estando ciente da dor e ruína que ela tinha causado à toda sua família e não lhe devolver na mesma moeda? Como poderia não fazer justiça com suas próprias mãos? Willian merecia ser vingado por alguém de seu próprio sangue, mas sabia que isso seria traição à sua soberana.
A pergunta que restava a se fazer era se ele conseguiria lidar com as consequências que o ato traria caso decidisse trilhar por esse caminho. Quanto mais pensava nisso, mais o dilema o consumia, guiando às mais sombrias possibilidades de sucesso e falha, mas em meio à exaustão de tanto remoer essas dúvidas, o sono acabou vencendo, permitindo-o cochilar brevemente.
Ao menor sinal do alvorecer, porém, o soldado já se colocava de pé, não demorando a juntar as poucas coisas separadas anteriormente para embarcar e atentando-se em deixar sua aparência apresentável e respeitável, digna de um capitão. Esse era seu posto agora, afinal. Ao se dar por satisfeito, os olhos se demoraram no espelho.
O reflexo que o encarava de volta, apesar de cansado pela noite quase completamente em claro, parecia orgulhoso. O uniforme azul refletido não só representava um grande peso em sua carreira, mas também em seu coração. Antes, ele havia pertencido a Will, era uma maneira de se lembrar de que onde quer que estivesse, seu irmão estaria com ele, acompanhando-o e o protegendo.
Com um suspiro e um pequeno sorriso por conta desse pensamento, começou a caminhar para fora de seus aposentos. Não tinha mais tempo a perder: agora o sol já clareava completamente o céu e sua tripulação provavelmente o aguardava no porto.
No caminho até lá, entretanto, uma pausa rápida foi necessária.
Por mais que já há algum tempo sua relação não estivesse boa, o homem não poderia partir sem a bênção de seu pai. Thomas sempre fora um homem muito amoroso com sua família, cuidando de todos os cinco filhos junto à sua esposa, Margaret. Eles levavam uma vida simples: Thomas era pescador e tinha um comércio local. O trabalho mal sustentava à todos e exigia muito mais do que sua avançada idade permitia, mas independente disso, o homem nunca chegava em casa sem um sorriso no rosto e muito amor para dar, agradecido por ter alguém para quem voltar todas as noites. O ponto alto de sua vida foi quando o filho mais velho ingressou na guarda real, seu coração encheu-se de orgulho. Não poderia ter ficado mais feliz pela conquista e por tudo que ela representou, não só para ele, mas para toda a família. Puderam viver bem depois disso.
Desde o acidente, porém, as coisas haviam mudado. Thomas havia se fechado em sua própria dor e vazio imensurável, tornando-se apático, frio, distante. Era difícil chegar até ele e esse talvez tenha sido um dos motivos de sua família ter se desmanchado, cada um seguindo seu próprio caminho sem a união e harmonia de muitos anos atrás. Ainda assim, nunca havia deixado de tentar reconquistar o que seu lar um dia fora. O soldado imaginava que se juntar à guarda real, assim como Willian antes dele, pudesse trazer um pouco de alegria para seu pai. O efeito, entretanto, não poderia ter sido mais adverso, isso havia os afastado de vez e Thomas não quis mais nenhum contato depois disso.
Reprimindo esses pensamentos, o soldado deu duas batidas na porta de sua antiga casa, esperando que o mais velho atendesse. Nada. Mais duas. Demorou um tempo, mas a porta se abriu, revelando a imagem de alguém no fundo do poço. As roupas estavam bem sujas, provavelmente não eram trocadas já há alguns dias, a barba grisalha por fazer cobria bastante de seu rosto, estendendo-se ao pescoço e até mesmo se emendando com os cabelos emaranhados acima, seu físico – uma vez atlético, por conta de exercícios diários e trabalho árduo – parecia anêmico. O homem estava fraco e os ossos bem aparentes sob a pele, mas tudo isso não se comparava ao olhar quebrado que ele exibia. Era possível sentir toda a sua dor por meio daqueles olhos quase invisíveis no meio das grandes olheiras.
— Pai. — A voz soava preocupada, seu coração se apertando ao vê-lo daquele jeito.
. Já faz um tempo. — Thomas parecia responder apenas por obrigação, sem estar ali realmente presente.
O soldado ponderou as próximas palavras. Não sabia como o homem reagiria perante a notícia de sua missão, talvez se alegrasse ao saber que ele estava indo vingar seu filho mais velho ou talvez se afundasse ainda mais em depressão ao relembrar-se de Willian.
— Recebi minha primeira missão oficial. — Os lábios se repuxaram em um sorriso triste. Ele havia decidido não mencionar nada que pudesse abrir uma ferida. — Vim pedir a sua benção, não poderia partir sem ela.
— Minha benção não vai lhe proteger — As palavras eram ácidas, mas sabia que nelas Thomas escondia preocupação, medo, e talvez algo mais. — De que serve? É inútil.
— Não diga isso, não é verdade! — Culpa, era o que estava escondido ali também. O soldado negou a afirmação do mais velho, umedecendo os lábios e voltando atrás em sua decisão de não mencionar o irmão. — Estou indo vingá-lo, pai. Vou caçar sua assassina e puni-la. Vamos poder viver em paz depois disso.
Uma longa pausa foi feita após essas palavras. O silêncio se instalou ali, tornando o clima do ambiente ainda mais pesado do que no início da conversa. A tensão era quase palpável.
— Piratas, essa é a sua missão? — Antes sem expressão nenhuma além de desinteresse, agora o homem demonstrava raiva. — Willian não conseguiu se livrar deles, pelo contrário, morreu por um. O que te faz pensar que você conseguirá?
Aquilo doeu. As palavras haviam atingido mais do que ele gostaria de admitir, haviam pegado em um ponto sensível. Ele sabia que não chegava aos pés do soldado que um dia seu irmão fora, não tinha a experiência necessária e talvez realmente estivesse indo para uma missão suicida e fadada ao fracasso. Mas apesar disso, confiava em si mesmo quando se tratava da importância dessa tarefa porque sabia que seu ódio lhe daria força para cumprir seu objetivo, independente das consequências.
— Eu conseguirei — A resposta veio simples. — Preciso que acredite em mim, pai. Não vou falhar.
Mais uma grande pausa, o olhar vazio do pai esquadrinhando todo o rosto do filho enquanto sua respiração se tornava pesada. Em um impulso, o mais velho passou seus braços finos e fracos ao redor do corpo de , lágrimas brotando de seus olhos.
— Não quero enterrar outro filho. Sei que não posso te impedir, apesar dessa ser a minha vontade. — Ele se afastou novamente, olhando-o mais uma vez e fungando o nariz. — Você tem minha benção. Apenas... prometa que vai voltar vivo.
— Voltarei vivo — Ele sabia que o pai não acreditaria nisso até que se concretizasse de fato. — E farei a culpada pagar por toda a dor que nos causou. É uma promessa.
Sem dizer mais nada, Thomas meneou a cabeça em aceitação e se encaminhou de volta para dentro de sua casa. O soldado levou uns instantes para absorver o que tinha acontecido ali, mas logo se pôs a correr para o porto; estava atrasado. Não demorou mais que alguns minutos em uma rápida corrida, porém, para chegar ao lugar. Observando ao seu redor, constatou que o dia estava bonito, o mar agitado, e quase não havia nuvens no céu por conta do vento consideravelmente forte. Talvez chegassem à ilha antes mesmo do prazo estipulado.
Esse pensamento, junto ao fato de Frank, Amália e Mia estarem o aguardando no cais e vestindo os mesmos uniformes que o resto da guarda real que completava a tripulação usava, fez o humor de melhorar consideravelmente. Os outros dois convocados não se faziam presentes ali, mas aquilo não preocupou o soldado; ele sabia que Pogue manteria sua palavra.
— Senhores — A voz chamou atenção para si, e todos prestaram continência ao olharem para o capitão. — Nossa missão começa agora. Ao navio! Não temos mais um segundo a perder.
Dadas as ordens, todos começaram a embarcar. O navio que Syrena havia recomendado para a tarefa não continha nenhum brasão do reino ou elemento que pudesse chamar a atenção para o real intuito de toda a operação, pelo contrário, era consideravelmente menor do que todos esperavam e se assemelhava a um navio comum, era uma boa estratégia. Cresta, sendo uma ilha mercante, deveria receber vários daqueles em diferentes períodos de tempo, o que faria com que eles passassem despercebidos pelos piratas, permitindo uma aproximação segura até terra firme.
Era um ótimo trunfo, um elemento surpresa. Uma vez estando todos reunidos no convés – mesmo com a âncora ainda cravada no fundo do oceano, impedindo o início do trajeto –, se pôs a falar, se apresentando formalmente e explicando a todos o porquê de terem sido convocados, o que fariam dali em diante.
— Meu nome é , serei seu capitão e comandarei essa missão. Acredito que todos aqui estejam cientes de que, atualmente, a maior ameaça do reino são os piratas, um grupo deles em específico. Nossa tarefa é eliminá-los. — O olhar focava em cada um dos que ali estavam enquanto as palavras eram pronunciadas. — Muitos de vocês já sofreram nas mãos desses malditos, então se sintam privilegiados por fazerem parte dessa tripulação, afinal, estando aqui, poderão se vingar. Não é necessário poupar esforços para acabar com cada um deles, seja como for, então minhas ordens são simples: usem a criatividade. Qualquer meio é permitido. Matem qualquer um que entrar em seu caminho. — Alguns burburinhos satisfeitos começaram, mas com um pigarrear, tomou a atenção para si novamente. — A capitã da tripulação, por outro lado, é minha. Tenho ordens da rainha para levá-la viva de volta ao palácio, o que a torna minha obrigação. Eu me encarregarei de sua captura. — O soldado soltou uma risada amargurada — Não quero que se aproximem dela, que a prendam, e não quero ajuda. Vocês terão muitos outros com quem se preocupar. — O tom de voz deixou claro que quem não seguisse esses comandos, estaria com problemas. — Estarei em minha cabine projetando estratégias de batalha. No mais tardar, os reunirei para novas ordens. Aos seus postos! Levantar âncora, içar velas, toda força à frente rumo à Ilha Cresta!
Ao dispensar a tripulação, que prontamente se colocou a trabalhar, adentrou a cabine, fechando a porta atrás de si. Pensando estar sozinho, o homem se assustou ao notar a presença silenciosa e discreta de Pogue e Blanche no local. Nenhum dos dois vestia o uniforme que os demais usavam e pareciam imersos demais em seus próprios pensamentos para terem ouvido qualquer coisa dita por ele minutos atrás, no convés. A loira estava jogada em cima de alguns barris, encarando com desinteresse uma faca a qual brincava, passando-a por entre os dedos. O mago se encontrava encostado em um dos cantos, os braços cruzados e o olhar perdido na paisagem mostrada pela pequena janela que ali havia.
— Então eu estava certo de não me preocupar ao não vê-los aguardando junto aos outros no porto. — A frase saiu quase como um suspiro aliviado, atraindo a atenção dos dois para si. — Suponho que não tenham ouvido as ordens dadas à tripulação?
— Eu disse que estaríamos no navio antes do nascer do sol. — A voz calma e desprovida de qualquer emoção de Pogue soou ao mesmo tempo em que ele arrumava a postura e se encaminhava para mais perto de seu capitão.
— Quer me explicar o que eu estou fazendo aqui? — Se colocando de pé e guardando a faca no cano de sua bota, Blanche também se aproximou. — Em um momento eu estava ocupada demais negociando uma boa recompensa por um foragido e no outro eu simplesmente apareci nesse navio. O bonitinho aqui se limitou a me dizer "Creio que não preciso gastar meu tempo com explicações. Uma vez que embarcar, tenho certeza que ficará mais do que feliz em ditar as ordens." — A irritação da mulher deixava claro que ela não estava contente com a situação.
— Blanche. Eu quase tinha me esquecido de seu temperamento. — Parecendo não ligar para o tom imperativo que a mesma usava, sorriu. — Imaginei que ir atrás dos piratas mais procurados de Wilhye a interessaria mais do que buscar um foragido qualquer.
Uma sobrancelha loira se arqueou rapidamente em curiosidade. e Blanche se conheciam já há bastante tempo, os dois tiveram um caso de alguns meses no passado, mas acabaram se separando por conta de suas ambições e trabalhos distintos. Enquanto o homem treinava para se juntar à guarda real, a mulher dedicou seus talentos para trabalhar anonimamente e sem vínculo à rainha, caçando criminosos valiosos por conta própria. Não se viam há anos desde então.
— Estou ouvindo — O desinteresse forçado em sua voz fez o capitão soltar uma risada antes de repetir o que havia dito aos demais tripulantes. — Uma caça aos piratas, a tripulação de . Ela vale uma ótima recompensa. — As palavras saíram quase cantadas ao verbalizar esse pensamento.
— Infelizmente uma que não está ao seu alcance. — A expressão de se endureceu. — Como eu disse, as ordens são para levá-la de volta ao palácio e eu me encarregarei disso. Não quero que faça nada quanto à ela. Os outros, por outro lado, são todos seus. Pode tentar ganhar algumas moedas por suas cabeças ou colocá-las em sua estante. Fica ao seu critério.
Os olhos castanhos da caçadora de recompensas esquadrinharam o rosto de , procurando uma brecha em suas ordens. Blanche agia sozinha e pelas suas próprias regras, e a pirata mais procurada do reino estava em questão. Ela não hesitaria em passar por cima de seu capitão para conseguir os montes de ouro que a mulher valia. Mas de forma óbvia, essa não era uma coisa que a mesma deixaria que o homem soubesse.
— Como quiser — Deixando seu desapontamento claro na afirmação, ela se afastou, se dirigindo à porta de madeira que levava para a saída da cabine. — Se isso é tudo, espero ficar em paz o resto da viagem. Conhecendo-me, você sabe que odeio contatos e diálogos desnecessários, então se puder avisar ao resto de seus encarregados que não me incomodem, ficarei grata. A menos que suas cabeças possam estampar minha estante também.
— Me manterei fora de vista, . Trarei problemas à você se alguém da guarda real resolver contar sobre a minha participação na missão para a rainha. — Pogue se pronunciou depois de todo o tempo em silêncio. — Esse navio tem um porão então não preciso me esconder porque consigo camuflar minha presença, mas isso é um saco de manter por muito tempo. Então se precisar de mim, sabe onde me encontrar.
Sem mais nada a dizer, o mago saiu da cabine, deixando a sós. A loira havia feito o mesmo há apenas alguns instantes e, por esse motivo, foi fácil para o homem alcançá-la e segurá-la pelo pulso, impedindo-a de continuar seu caminho. Por estarem há alguns passos do convés principal e o resto da tripulação estar ocupada demais trabalhando em seus próprios postos, a presença e conversa dos dois passaria despercebida, sendo esse o exato objetivo de Pogue.
— Suponho que não seja surdo, então ouviu o que eu disse segundos antes. Quero ficar sozinha. — Um sorriso sádico se abriu nos lábios finos da mulher — A menos que não tenha amor à vida.
— Perdoe-me por não levar a sério a história das cabeças, mas tenho coisas mais importantes para me preocupar além de suas ameaças vazias. Consigo sentir sua sede de sangue a quilômetros de distância, bem como sua ambição de capturar a pirata à qual está encarregado. Suas intenções não poderiam estar mais claras em sua expressão, mesmo tentando disfarçar isso ao forçar o desapontamento em suas palavras quando acatou as ordens. Ele pode ter acreditado, mas eu não. — O homem cruzou os braços, recostando seu corpo em uma das bordas de madeira do navio.
Uma risada amarga arranhou a garganta de Blanche.
— Para começo de conversa, foi você quem me trouxe aqui. Eu nunca disse que queria fazer parte disso, mas agora que ouvi o propósito de tudo, as coisas se tornaram interessantes. Se espera que eu fique fora de cena depois de ganhar uma oportunidade dessas, está alucinando. — Ela se aproximou, diminuindo a distância entre os dois em uma clara tentativa de intimidá-lo.
— Essa missão ocorrerá exatamente do jeito que ela precisa ocorrer e, por isso, me vejo na obrigação de impedir que pessoas como você estraguem as coisas. Há um propósito maior sobre tudo, então ande na linha e se comporte. — A postura relaxada do homem não mudou apesar da aproximação, suas palavras soaram como um veredito.
— Ou o quê? Não recebo ordens de você. — A arrogância no tom da loira tornava sua pergunta um desafio, o que fez um dos cantos dos lábios de Pogue se repuxar em um meio sorriso.
— Mas recebe de , então se atente a fazer o que ele mandar e apenas isso. Se fizer algo além, vou garantir que as coisas não acabem bem pra você. — O mago se desencostou para sair dali, indicando que a conversa havia acabado.
— Não ouse me ameaçar — Numa fração de segundo, Blanche puxou a faca que estava em sua bota e investiu na direção do pescoço do homem, mas a arma não encontrou suporte para se apoiar.
Pogue havia sumido, sua figura se desmaterializou como fumaça num piscar de olhos. A loira estava completamente sozinha.
— O aviso foi dado. — A voz vinda do nada causou um arrepio na nuca da mulher, que engoliu em seco e voltou a trilhar seu caminho, deixando que seus passos soassem com clara irritação no processo.
Frank, debruçado na proa do navio para observar o vasto oceano à frente, teve sua atenção atraída para o som, conseguindo ver de relance a figura feminina que pisava firme e batia portas com força atrás de si, sumindo em direção ao porão. Franzindo o cenho ao notar o fato de suas roupas se diferenciarem do uniforme dos demais e de não se lembrar da mulher se fazer presente no cais ou na reunião do convés, ele se voltou para Amália e Mia.
— Quando foi que outra pessoa entrou no navio? Pensei que todos que estavam aqui, além de nós, fossem da guarda real. — Recebendo olhares confusos em resposta, ele continuou: — Acabei de ver uma mulher indo lá pra baixo. Ela não parecia ser da tripulação.
— Quando foi que esse tipo de coisa virou da sua conta? — Mia devolveu a pergunta sem olhar pra ele, a atenção voltada para o mapa e a bússola que tinha em mãos.
— Por que o mau humor? Pensei que estaria animada com a ideia de matar piratas. — Frank sorriu, sem levar a pergunta dela como ofensa.
— Não liga pra ela, esse é o jeito da minha querida irmã demonstrar entusiasmo. Se estivesse de mau humor, sua cara estaria bem pior — Amália se aproximou dos dois, sentando-se no chão de madeira. — Quanto à mulher, deve ser só uma servente qualquer ou coisa assim.
— Uau, você não consegue ser mais óbvia? — Mia alfinetou a mais nova, que revirou os olhos. — Eu estou animada, isso não é mau humor. Só respondi sua pergunta de maneira direta. Da próxima vez dou um sorriso para amenizar. — Seu olhar se desviou do mapa apenas para dar uma piscadinha para Frank, voltando à posição anterior logo em seguida.
Dando de ombros, o homem continuou a conversar apenas com a mais nova, que parecia mais aberta e animada do que sua irmã quanto à missão. Pouco a pouco, mais tripulantes começaram a se juntar à conversa, aproveitando que seu capitão ainda não havia aparecido com novas ordens para contarem histórias interessantes e engraçadas, que animavam o ambiente. Imersos no papo, nenhum deles percebeu a hora passando e, antes de se darem conta, o sol já havia se escondido no horizonte, dando lugar a uma noite clara e limpa.
Com a chegada da madrugada, porém, o clima mudou. O vento forte que os levava rapidamente ao destino cessou de forma súbita, desacelerando a viagem. Com a mudança repentina, um denso e intenso nevoeiro apareceu, envolvendo toda a extensão da embarcação. A luz da lua, que antes iluminava toda a superfície do oceano, começou a bruxulear e se enfraqueceu em meio à neblina, deixando toda a tripulação imersa em uma escuridão desagradável. As águas abaixo ficaram mortalmente calmas, fazendo com que o navio pairasse sobre elas sem mais avançar. Uma brisa gelada tomou o ar, trazendo arrepios aos tripulantes, talvez de frio ou medo. Todos esses fatores acabaram preocupando Frank, pois só poderia significar uma coisa.
Correndo até a beira do convés e se debruçando sobre ela, o homem forçou a visão, tentando distinguir algo em meio ao véu escuro que era o mar. Uma movimentação sutil e um brilho cintilante chamaram sua atenção e, sem esperar um segundo a mais, ele se dirigiu à cabine de , adentrando a mesma depois de duas batidas rápidas.
— Peço desculpas por interromper, mas acredito que o que tenho a dizer seja algo muito importante. — Fechando a porta atrás de si, ele se aproximou, umedecendo os lábios antes de falar. — Quando conversamos na taberna, você mencionou certas... criaturas. Creio que acabamos de entrar em seu território. O navio foi envolto por uma bruma escura, as águas ficaram calmas e... eu vi. Uma sereia.
o encarou por uns segundos, processando a informação. O homem à sua frente parecia maravilhado e entusiasmado demais para estar mentindo e, apesar de todo o seu lado racional gritar que aquilo não poderia ser verdade, ele tinha que acreditar. Pogue era um mago, magia era real. Sereias também deveriam ser.
— A rainha Syrena me disse que haveria uma baía repleta de sereias no meio do caminho. Não esperava que chegássemos tão cedo a esse ponto da viagem. — Um suspiro escapou dos lábios do capitão, que ainda tentava se acostumar com aquela ideia.
— "Há uma baía repleta delas no meio do caminho.", algo um tanto específico demais para alguém que nunca sai do palácio ter conhecimento sobre. — e Frank deram um pulo com o susto causado pela voz e presença repentina. Até um minuto atrás, eles estavam sozinhos na cabine. Um brilho de divertimento passou pelo olhar de Pogue, mas tão logo veio, se foi. — Sereias não têm um domínio específico, o mar é seu reino. Todo ele. Assim que um navio sai do porto, elas podem senti-lo. Navegamos à sorte delas, não à nossa.
— Quem é você? — Frank perguntou de maneira defensiva, a confusão em seus olhos era clara.
— Não vem ao caso. , o que pretende fazer? — Apesar da pergunta, o mago não parecia demonstrar tanto interesse pela resposta.
— Precisamos tentar uma aliança. Eu tenho uma coisa que pode fazer com que fiquem do nosso lado. — O soldado disse um pouco avoado, dirigindo-se até a pequena bolsa que levou consigo ao navio e retirando de lá o colar de pérolas negras.
Pogue demorou seu olhar na joia, analisando-a. Sua expressão era indecifrável, mas havia uma ferocidade ali.
— De acordo com todos os contos e relatos que eu ouvi até hoje, essas criaturas encantam, afogam e devoram marinheiros, pescadores... homens em geral. Como exatamente pretende conversar com elas? — Frank perguntou ao capitão, ignorando sua própria confusão sobre o homem que havia aparecido do nada.
— Vou descer ao mar, no barco, sem armas. Mostrarei que estou em missão de paz. De alguma forma eu sei que esse colar irá impedir que elas me façam mal. — disse com convicção, mesmo sem saber de onde aquilo veio. Um segundo atrás, não acreditava na existência das criaturas, agora tinha certeza de que não morreria se entrasse em contato com elas. — De qualquer forma, Pogue... pode me proteger se algo der errado, não pode? — A pergunta soou mais como um pedido suplicante.
— Desde quando eu deixei de ser um mago pra me tornar anjo da guarda? — O homem franziu o cenho com descrença ao ouvir a pergunta, quase parecendo ofendido. — Não vou precisar — Seu olhar se dirigiu discretamente a uma das pérolas, que perdia seu brilho negro, símbolo de sua magia, retornando à cor branca natural. — Mas se precisa de uma garantia pra se sentir melhor... — Deu de ombros por fim, concordando com o pedido.
— Vou com você. — O tom de Frank deixava claro que, apesar de todo o respeito que tinha por , não aceitaria um não como resposta. — Não posso morrer sem ver uma criatura dessas pessoalmente, topei essa aventura por isso. Além do mais, todas as histórias que ouvi me fizeram aprender algumas coisas. Posso ser útil.
O capitão apenas meneou a cabeça e saiu de sua cabine, sendo seguido pelos dois. Enquanto Pogue se debruçou na borda do navio para observar, Frank e entraram no pequeno barco, começando a descer até às águas escuras e calmas, onde uma melodia suave e hipnotizante soava.

Capítulo 4 - Histórias e Desavenças

Sozinha ali, do alto de uma das grandes pedras que rodeavam a orla da ilha, sob o brilho mínimo das poucas estrelas que salpicavam o céu escuro e exposta ao vento sutil, porém gelado, que não surtia efeito no oceano calmo e silencioso à frente ou na neblina que envolvia o ambiente – apesar de trazer arrepios ao corpo da mulher, que usava roupas simples e finas, impróprias para o clima – via seu plano de conseguir a ajuda das sereias ir, quase que literalmente, por água abaixo.
Daryah, como a criatura se apresentou no começo da conversa, mesmo se mantendo atenta às palavras da capitã – o que por si só já era algo que excedia expectativas – não parecia inclinada a aceitar qualquer coisa vinda de uma pirata. Pelo contrário; dado o fato de ser quase possível sentir a raiva que emanava de seu ser – fosse pela situação, pelo tema da conversa, ou pela pessoa a qual conversava em si – era plausível manter a guarda alta e esperar por um ataque a qualquer momento.
A postura defensiva exibida deixava isso bem claro, apesar de sua cantoria melodiosa e poderosa ter cessado para permitir à capitã concentração e foco nas palavras proferidas sem ser atraída pela morte.
Sua cauda, o único ponto de luz balançando despretensiosamente no véu negro da água, iluminava com seu brilho translúcido o rosto envolto pelos grossos cabelos molhados, chamando a atenção, com isso, – muito além de sua beleza –, para a desconfiança que queimava em suas íris de cor violeta e à pequena torção no canto dos lábios rosados, que se destacavam na pele muito branca. Essa mínima expressão demonstrada, porém, foi o mais perto de uma resposta que ela chegou, uma vez que não havia dito uma única palavra sequer além de seu nome desde que a história contada por teve início.
A capitã não tinha esperanças de que as criaturas se aliassem à causa dos piratas e fizessem parte da linha de frente da batalha. Sua ideia, na verdade, era que as mesmas pudessem auxiliá-los com distrações ou coisas do gênero, e, se isso não fosse possível, que no mínimo se mantivessem afastadas e não lutassem ao lado inimigo – mas talvez fosse apenas demais esperar poder contar com qualquer complacência de seres tão desconhecidos e peculiares.
Até aquele momento, a propósito, eles não passavam de uma lenda para a mulher. não conhecia nada além de histórias que seu pai contava vez ou outra. Histórias essas que provavelmente ouvira de outros marinheiros e pescadores, visto que ele próprio só havia tido contato direto com uma das criaturas uma única vez.
Estar na presença de uma era, de longe, umas das experiências mais incríveis já vivenciadas pela pirata. Mas não tinha tempo para desfrutar da magia da ocasião; tinha um objetivo a conquistar. E o fato de não ter nada além da verdade, – talvez, com sorte, uma mínima prova dela, – não ajudava em sua situação.
— Por que eu deveria acreditar no que está dizendo? É fácil empregar um teor triste e melancólico em palavras vazias para fazê-las parecerem reais, mas mentiras e desonestidade são grandes habilidades de natureza humana. Principalmente quando os humanos em questão são piratas. Você pode, tranquilamente, estar manipulando os fatos a seu favor para me fazer ficar ao seu lado em uma batalha que nem mesmo me interessa — tendo se mantido em silêncio até o fim da narrativa, a voz melodiosa da criatura finalmente soou outra vez, envolvendo como uma onda forte. O tom empregado, apesar de rude e incisivo, tinha uma ponta de curiosidade. — Tem algo para comprovar que sua história é verdadeira?
Embora tenha acusado a mulher de estar mentindo, sua afirmação quanto ao interesse na batalha tampouco era verdadeira. Assim que ouviu o nome de Ella ser pronunciado pela primeira vez, lembranças de um passado mal resolvido foram desenterradas, e se houvesse qualquer envolvimento dos soldados da rainha – como afirmava, – no que dizia respeito à captura de sua irmã, catorze anos atrás, Daryah não hesitaria em tomar um partido nessa luta.
Ela só precisava ter certeza da veracidade dos fatos narrados pela mulher.
— Meu pai não costumava dividir comigo os detalhes das ordens que recebia, principalmente ao sair em missões, mas essa foi uma exceção. Ele disse que precisava recuperar para a rainha um objeto perdido no oceano, e que havia uma grande possibilidade de ver uma sereia com seus próprios olhos por conta disso. Eu me lembro de sua animação antes de partir. — Ignorando a alfinetada, a pirata manteve a postura ao tornar a falar. Seria sua última investida: — Quando ele retornou, parecia outra pessoa. Estava com medo. Era como se soubesse de algo que não deveria. Ele me entregou três pérolas, dizendo que as recebeu de Ella como retribuição pela sua tentativa de ajudá-la a se libertar. Me disse também para guardá-las comigo, porque elas me protegeriam do perigo que estaríamos correndo a partir daquele momento.
Com um suspiro um tanto frustrado por reviver aquelas memórias que remetiam a um momento triste de sua vida – e que na presença da criatura pareciam se intensificar, como se ela propositalmente à forçasse a isso – desembainhou sua espada para responder, dessa vez de maneira não verbal, a pergunta de Daryah.
A sereia, apesar do gesto inesperado vindo da pirata, o qual, à primeira vista, parecia uma ameaça, não se mexeu ou se deixou intimidar. Ela queria uma prova, afinal. Palavras a mais não bastariam.
apenas esperava que o que tinha além delas fosse suficiente.
No breu da noite e com a distância entre as duas sendo algo a se considerar, porém, era quase impossível contar com as chances de que as pérolas pudessem ser distinguidas em meio à madeira do cabo da arma, mas, como se a natureza lhe fizesse um favor, ao inclinar a espada para baixo, um fraco feixe de luz da lua crescente no céu apareceu por entre as densas nuvens, iluminando a lâmina e refletindo na água o brilho negro de uma das três jóias, símbolo do poder remanescente que ali havia.
O silêncio que se instalou no momento seguinte, enquanto Daryah contemplava – em um misto de choque, fascínio, e surpresa, – tanto a mulher quanto sua espada, foi suficiente para fazer uma pequena ponta de esperança aparecer no peito da capitã, que falhava em esconder um sorriso de alívio e vitória. Apesar de todas as emoções simultâneas exibidas no rosto da criatura, porém, era precipitado imaginar que o efeito causado houvesse sido positivo, afinal, não havia como a pirata saber quais pensamentos rondavam sua mente no momento.
— Aparentemente, elas protegeram. — O comentário feito pela sereia, segundos após se recompor, agora vinha num tom menos hostil do que o empregado em suas últimas palavras. — Mais do que uma vez, pelo que posso observar. Como sabia como usar as pérolas? — Não sabia. Até hoje, para falar a verdade, eu não sei. Tenho apenas um palpite. Eu só… me agarrei à promessa do meu pai, de que elas me manteriam segura, e quando precisei, foi isso que aconteceu. — A resposta honesta de fez a criatura balançar levemente a cabeça em um sinal positivo. — Há uma hierarquia entre nós. Mesmo que eu possa levar essas informações à minha corte e à minha rainha, não posso garantir que teremos inclinação em te ajudar nessa luta. — Foi a vez da pirata de assentir positivamente com o veredito da sereia — Mas, se te serve de consolo, não ficando ao seu lado, que aparentemente tem a verdade a seu favor, duvido que ficaremos ao de seu inimigo.
Essa, porém, era outra afirmação nada verdadeira vinda da criatura. Se realmente tinha a verdade ao seu favor como dizia, seu inimigo estava condenado. Daryah só não fez questão de deixar a mulher ciente disso.
Assim, sem esperar por uma palavra final de gratidão vinda da capitã, a sereia afundou nas águas geladas do oceano, não perdendo tempo em nadar para longe da ilha enquanto pensava na conversa que acabara de ter. Por mais que odiasse admitir, a história contada por tinha reaberto uma ferida que ainda não havia se cicatrizado por completo em seu peito, e o fato de a pirata ter em sua posse um elemento que servia como forte indício da verdade em suas palavras não ajudava no dilema que a criatura agora enfrentava dentro de si.
Até aquele momento, afinal, Daryah acreditava em uma versão diferente dos fatos relacionados à Ella. Mesmo que uma de suas irmãs houvesse presenciado sua captura e insistisse, desde aquele fatídico dia, que o que havia ocorrido era o mesmo que ela acabara de ouvir de .
Claro, as duas poderiam estar mentindo.
poderia ter conseguido aquelas pérolas de outro jeito; roubando, talvez. Era uma ladra por natureza, afinal. Uma saqueadora. Uma pirata. Cheryl, por sua vez, apenas gostava de pregar peças. De mentir, de enganar. Suas brincadeiras inconvenientes formavam um longo histórico que resultava no fato de ninguém mais a levar a sério.
Mas era muita coincidência duas pessoas que não se conheciam, – dois mundos diferentes – terem a mesma versão dos fatos, uma história completando os furos da outra. E era exatamente por esse motivo que havia uma voz na cabeça de Daryah insistindo que ela havia cometido um erro grave em não acreditar em sua irmã tantos anos atrás.
Talvez devesse ter deixado a cisma de lado só por aquela vez, e tê-la dado um voto de confiança, uma chance de ser ouvida. Talvez devesse ter levado em conta o apelo de sua narrativa, a tensão em sua voz que tremia ao relatar o ocorrido, ou quem sabe, o brilho de seus olhos que não pareciam mentir. Mas foi apenas difícil demais crer que logo ela, dentre tantas mais honestas ou, ao menos, mais fáceis de serem levadas a sério, poderia estar falando a verdade todo esse tempo.
Se estivesse, toda a vingança buscada pelas sereias contra os piratas ao longo dos anos, afundando vários navios e se alimentando da carne de seus tripulantes, havia sido em vão. Elas teriam perseguido e punido gerações de pessoas erradas, movidas pelo ódio de um ato que as mesmas não haviam cometido.
E com isso, deixando os verdadeiros culpados impunes.
Pela primeira vez, Daryah duvidou de seu próprio julgamento. E isso, para ela, era um fardo pesado demais para se carregar. A justiça era um dos principais pilares que regiam sua vida, afinal. Sem ela, o que restava?
— Não é irônico o fato de, depois de tanto tempo, aparecer alguém contando uma versão dos fatos relacionados àquele dia muito parecida com a minha? — Imersa demais em sua autodepreciação, Daryah tomou um leve susto quando a voz de Cheryl, quase como se houvesse sido invocada, arrancou-a de seu torpor, verbalizando tudo aquilo que a mais nova pensava segundos atrás. — Vejo que ainda não perdeu o costume de ouvir conversas que não te incluem — A falha em aplicar um tom rude no comentário foi rebatida por uma risada ácida de sua irmã mais velha. — Acho que já te disse o quanto é feio bisbilhotar assuntos particulares.
Cheryl não parecia preocupada em negar que havia mesmo ouvido cada palavra da conversa entre sua irmã e a pirata. Com as cores vivas presentes em sua cauda e cabelos ruivos ondulados se destacando mais do que os corais brilhantes do fundo do mar, – que traziam certa luz à escuridão das profundezas, – a sereia se aproximou, exibindo um sorriso de deleite em seus lábios cheios. Muito diferente de Daryah, tanto em aparência quanto em personalidade, Cheryl lembrava muito uma chama ardente que se alastrava de maneira rápida, tomando conta de tudo e todos antes que qualquer um pudesse fazer algo a respeito para contê-la.
Desde sempre havia sido assim. E isso era motivo de muitas dores de cabeça para todas as outras sereias.
— É quase um insulto você dizer que esse assunto em específico é particular — Passeando seus olhos cor de âmbar pelo rosto muito branco de sua irmã, a ruiva soltou uma pequena risada. — Estou curiosa. Por que a palavra da pirata vale mais do que a minha?
Daryah não segurou um suspiro cansado perante a pergunta, a qual ela sabia conter muito mais significado do que aparentava.
— Não vale. — A resposta veio simples. — As duas têm o mesmo peso. As pérolas que ela possui, por outro lado, dão maior credibilidade para sua narrativa. — Tendo sustentado o olhar da irmã até o momento, a mais nova vacilou ao encará-la para dizer as próximas palavras. — E isso significa, uma vez que o que ela me contou foi o mesmo que você contou anos atrás, que talvez você estivesse dizendo a verdade.
Cheryl sabia que esse seria o mais perto de um pedido de desculpas que Daryah chegaria. Era mais do que o esperado, mas não era o bastante, de qualquer forma.
Estava longe de ser suficiente.
— Eu nunca escondi minha falta de apreço pela Ella e por suas regras estúpidas. Pelo contrário, sempre fiz questão de deixar isso claro até demais. Ainda assim, ela me salvou, mesmo que apenas para cumprir suas obrigações como rainha. O mínimo que eu poderia fazer para retribuir isso era contar à vocês a verdade para que pudessem perseguir e punir os culpados para vingá-la. Em vez disso, vocês decidiram passar uma vida perseguindo pessoas que nada tinham a ver com aquilo apenas pela birra cultivada por mim e pelas minhas brincadeiras inocentes. — Transformando o tom levemente implicante em algo mais raivoso, a ruiva deixou sua voz soar outra vez — Agora, finalmente a sua ficha de que eu não brincaria com algo tão sério deve ter caído. Imagino que esteja se sentindo péssima.
Lançando para a mais velha um olhar ressentido, Daryah balançou a cabeça.
— As provas estavam contra você, Cheryl. Tudo estava. — Não suportando mais se afogar na própria culpa, a morena já se afastava para sair dali. — De qualquer forma, não tenho tempo para isso, preciso deixar Pearl ciente de tudo, afinal, cabe à ela o julgamento do que fazer com as novas informações, não a mim ou a você. — Não acha que isso mudará algo para ela, acha? — Impedindo sua irmã de sair dali e a deixar falando sozinha, a mais velha entrou em sua frente, encarando-a sem esconder o divertimento estampado em seu rosto com a situação. — Não há a menor possibilidade de ela levar as palavras de uma pirata a sério, afinal, ela vem cultivando raiva por eles todos esses anos. Foi bom, inclusive, você ter encontrado a capitã antes dela. Tenho certeza que se fosse diferente, a pobre mulher seria mais um esqueleto inocente no fundo do mar. — Me dá um tempo, Cheryl. — Perdendo a paciência com a provocação, Daryah voltou a encarar os olhos amarelos de sua irmã; os seus queimando em um misto de emoções negativas — Pearl pode não levar as palavras de uma pirata a sério, mas as minhas ela vai ao menos considerar. Diferente de você, eu não ajo com imaturidade e não dou motivo para desconfiança, o que já é um grande ponto a mais. — Não muda o fato de que eu estava certa o tempo todo. Mas quem sabe, se você se esforçar bastante para fazer a nossa querida rainha reconsiderar a minha história, Ella não pare de se revirar no túmulo em que está agora. — A risada da ruiva foi a gota d'água para Daryah, que, sem responder nada, nadou o mais rápido possível para longe dali.
Apesar da maldade daquelas palavras, que atingiram a sereia muito mais do que a mesma gostaria de admitir, ela sabia que sua irmã estava com a razão. Agora tinha certeza que realmente havia cometido um erro em não acreditar nela tanto tempo atrás. A única coisa que restava para aliviar sua consciência era fazer com que Pearl também visse isso. Havia uma chance de se redimir, afinal.
Elas poderiam considerar a oferta de aliança da pirata e lutar ao seu lado.


Continua...



Nota da autora: Oi, anjos!
Um beijoo, até a próxima att!



Nota da Scripter:

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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