Sight of You

Última atualização: 11/04/2021

Capítulo 1

Ponto de vista da :

O toque do meu celular ecoando pela casa àquela hora da manhã era uma surpresa, não costumava receber ligações tão cedo, que não fossem das minhas amigas ou de Vic. Vasculhei pela sala, até encontrar o bendito aparelho enfiado entre as almofadas do sofá, vendo a foto de preenchendo a tela.
Sorri, deslizando o dedo pela tela, levando ao ouvido e ouvindo barulhos de guitarra no fundo.
— Ora, ora... quem é vivo sempre aparece. — Brinquei. — A que devo a honra dessa ligação tão inesperada?
Até parece que sou só eu quem some, né, ? — O garoto respondeu. — Eu não tenho muito tempo, então vou ser direto.
— Manda! — Apoiei o celular entre o ombro e o ouvido, indo para a cozinha terminar meu café da manhã.
Nós faremos uma festinha particular hoje à noite, como comemoração de fim de tour. Você está mais que convidada. ! Eu estou no telefone! — Berrou, fazendo-me afastar o celular do ouvido. — Desculpa, os meninos estão fazendo bagunça. Então, você vem?
— Bom, você pode contar com minha presença. — Gargalhei, ouvindo sua risada do outro lado.
Conversamos por mais uns minutos, antes de ele precisar desligar. Conhecia os meninos fazia um ano, se não mais, e sempre era esse clima descontraído e leve. Era divertido estar com eles, mesmo que às vezes eu acabasse na cama de um deles no final da noite.
Não sei exatamente como isso havia começado, mas funcionava para nós e eles não se importavam, então por que não? Éramos solteiros, livres e desimpedidos, todos aproveitando nossa juventude.
Tomei meu café da manhã tranquilamente, enrolando o máximo que pude, arrumando o que estava bagunçado pela casa e gastando tempo na Netflix, já que era fim de semana. Entre um cochilo e outro, procurei outras formas de distração, enquanto esperava dar a hora para eu começar a me arrumar.

Quando o relógio bateu por volta de oito da noite, levantei-me, espreguiçando-me e seguindo direto para o banheiro, onde tomei um banho caprichado. Ao sair do banho, vasculhei meu guarda-roupa, achando um tubinho preto de alcinhas super bonito e básico. Sorri para a peça, já sabendo exatamente como combiná-lo ao resto do look. Poderia ser amiga dos rapazes e eles já tinham me visto em estados bem ruins, mas eu ainda queria que eles me vissem bem vestida e arrumada.
Fiz minha maquiagem, não exagerando muito, secando meu cabelo e o ajeitando em ondas pelo comprimento. O vestido foi o último para completar tudo, com botas sem salto e uma jaqueta jeans estilosinha para combinar. Olhei-me no espelho, decidindo que estava satisfeita e pegando minha bolsa pronta para sair de casa.

Pouco tempo depois, estacionei em frente à casa em que a festa tava rolando, o som já bastante alto. Dei meu nome para o segurança da porta, logo sendo colocada para dentro. Andei por entre as pessoas, avistando gente conhecida por todos os lados e algumas que eu não fazia ideia de quem eram.
Avistei saindo da cozinha com dois copos de bebida nas mãos, abrindo um sorriso caloroso assim que me viu.
, você veio! — Aproximou-se, depositando um beijinho no meu rosto. — Como você está?
— Ah, eu tô bem. Mas e você? Faz tanto tempo que não vejo vocês. Estava com saudades! — Comentei.
— A gente meio que te deixou de lado, né?! Desculpa, essa tour foi uma loucura, mas agora que estamos de volta, tenho certeza que a gente vai se divertir muito ainda... — sorriu malicioso.
— Mal posso esperar! — Retribuí a cantada, tentando não dar bandeira demais.
Eu não sabia como funcionava para eles, mas, definitivamente, não queria causar nenhuma confusão, já que quem tinha me convidado era o , então era sempre bom ter cautela. Pelo menos até eu encontrá-lo para ver qual seria a sua, depois podia fazer o que quisesse.
Conversamos por mais uns minutos, até eu avistar saindo da porta dos fundos, acompanhado de . Eles nos viram e seguiram até nós, com sorrisos lindos.
Deus, às vezes até eu me perguntava como tinha tido tanta sorte. Não era todo mundo que podia dizer que já ficou não só com um, mas com os quatro membros da 5SOS.
! — foi o primeiro a chegar até nós, abraçando-me e tirando meus pés do chão, uma coisa totalmente dele.
Seus abraços eram bons demais, não conseguia nem reclamar da falta de ar por conta do aperto que ele dava.
— Que saudades de você, menina.
— Bem. — Ri, massageando minhas costelas assim que ele me largou no chão.
— Não liga pra esse otário! — interviu, abraçando-me de leve, depositando um beijo em meu rosto. — É muito bom te ver depois de tanto tempo.
— Verdade. Vocês não deveriam me abandonar tanto assim... — fiz beicinho, de brincadeira, ganhando risadas como resposta.
— Não fala assim. Você está sempre em nossos pensamentos... — se posicionou. — Vou buscar uma bebida pra você! — E saiu.
Conversamos por um tempo, bebendo e rindo, até que avistei descendo das escadas com uma garota, que logo reconheci ser sua nova namorada. Eles estavam juntos já fazia algum tempo e mesmo assim, nunca deixei de sentir algo estranho sobre ela.
Foram direto para a pista de dança, com ela se esfregando nele como uma cobra, enquanto ele a puxava para perto com um sorriso sacana no rosto. Franzi o cenho, achando tudo aquilo meio forçado, porém, resolvendo ficar quieta. Eu não tinha direito de falar nada sobre aquilo.
Enquanto minha relação com , e era muito boa, entre e eu era meio... estranho. Tínhamos ficado algumas vezes e nos dávamos bem. Até que um dia, ele começou a agir estranho comigo, se afastou e me afastou. Não entendi muito bem o que eu havia feito de errado para que ele começasse a agir daquela forma, mas também nunca fui atrás. Se era daquele jeito que ele queria, por mim tudo bem.
E, então, Arzay apareceu, o que só o fez ficar mais distante ainda. Eu não sabia se era ciúmes ou implicância pessoal, mas ela claramente não gostava de mim. O lado bom era que era recíproco. Mas eu também não seria a pessoa que arrumaria confusão por isso. Se por ele estava tudo bem me ignorar e ser frio por causa da namorada, que fosse. Eu tinha três caras incríveis que me davam toda a atenção do mundo e que faziam questão da minha presença. Não seria algo bobo assim que me abalaria.
No entanto, acho que minha cara de desagrado me entregou, quando acompanhou meu olhar e lançou um sorriso sem graça.
— Você não gosta mesmo dela, né?
— O quê? — Desviei a atenção pra ele. — Não, não é nada disso. É só que a presença dela me deixa incomodada. Me sinto uma intrusa. — Resmunguei.
— Você nunca foi uma intrusa entre a gente, ! — apertou meu ombro levemente. — Se a gente te chama pra vir e nos fazer companhia, é porque gostamos de você. Ponto final.
Sorri agradecida para ele e logo estávamos de volta à nossa conversa amigável, esquecendo o assunto.

A festa deu continuidade e eu me encontrava dançando com , bastante alterada pelas bebidas misturadas, o loiro junto de mim não muito diferente. Até que o DJ mudou para uma música mais envolvente, fazendo o clima mudar completamente.
Encarei , que mesmo na luz baixa, tinha seu olhar fixo em mim, suas pupilas verdes dilatadas de puro desejo. Involuntariamente, aproximei-me mais, deixando que ele rodeasse minha cintura com suas mãos fortes, sentindo meu corpo todo incendiar.
Eu não sabia se era o álcool falando mais alto ou se o garoto realmente sabia o que fazia, só sabia que o que quer que ele estivesse fazendo, estava dando certo. Aproximamo-nos ainda mais, num joguinho sensual muito excitante, disputando quem cedia primeiro, até cansar e enganchar seus dedos em minha nuca, puxando algumas mechas, fazendo-me olhar diretamente em seus olhos, antes de me beijar profundamente.
Depois do que pareceu uma eternidade e ele já tinha se divertido como queria comigo, minhas pernas parecendo gelatinas sob seu toque, levou a boca até meu ouvido.
— Tá afim de levar essa festa lá para cima? — Perguntou, acariciando meu rosto com o polegar.
Olhei-o debaixo, quase transpirando de tanto desejo.
— Achei que nunca fosse perguntar. — Foi tudo o que precisei falar para ele sorrir malicioso e tomar minha mão, guiando-me gentilmente para as escadas, onde eu sabia em como aquilo iria acabar.
E eu gostava daquilo. E como gostava.

•••

— Nossa, . Sua casa é linda! — Sorri, dando uma olhada pelo local.
Era realmente muito bonita e bem diferente do que eu estava acostumada.
— Gostou? — Ele riu, vindo atrás de mim, abrindo as cortinas, indo direto para a cozinha. — Você quer um vinho?
— Claro! — Aceitei, sentando no sofá.
Ele voltou em alguns minutos com uma garrafa na mão e duas taças, entregando-me uma e enchendo com o líquido.
Ficamos sentados ali, bebendo em silêncio. Eu estava nervosa, não sabia exatamente o porquê. É claro que já havia feito aquilo antes, passar a noite com um cara famoso não era mais uma novidade pra mim, mas daquela vez algo estava diferente e eu não sabia dizer o que era.
Talvez fosse seu jeito charmoso, talvez fosse por que ele não estava com pressa, talvez fosse sua voz grave e risada suave, que fazia meu coração palpitar de um jeito como nunca antes ou mesmo talvez fosse ele por completo, que me causava sensações que nunca havia sentido antes. O fato era que era areia demais para o meu caminhãozinho e eu estava tendo certa dificuldade de lidar com aquilo. Sabíamos para o que tínhamos vindo e mesmo assim, parecíamos querer ao máximo, embora a vontade e a tensão estivessem ali.
Respirei fundo e olhei para o rapaz sentado ao meu lado, que já me encarava. Acho que ambos sentíamos a mesma coisa.
Ele deu um sorriso leve, deixando a taça em cima da sua mesa de centro, dirigindo-se até o som da sala, colocando uma música que eu não conhecia, mas a melodia era bonita. Definitivamente não estava acostumada com aquele tipo de tratamento. Geralmente as coisas aconteciam muito rápido e antes da noite acabar, eu estava em um táxi, a caminho do meu apartamento.
voltou até onde eu estava, estendendo a mão para mim, a qual eu hesitei em pegar, mas desistindo assim que olhei em seus olhos. Fiquei em pé, nossa diferença de tamanho fazendo com que meu nariz ficasse à altura do seu peito. Inalei seu perfume discretamente, sorrindo para mim mesma. Ele cheirava muito bem. E então, de repente, estávamos dançando pela sala. Eu nem sabia que caras como o poderiam dançar, mas lá estávamos nós, girando e rindo como dois patetas pela sua casa luxuosa. Era ridículo pensar que justo eu estava vivendo aquilo. Aquele tipo de experiência não era para garotas como eu.
Encostei minha cabeça em seu peito, deixando que o loiro me conduzisse pelo cômodo, fechando os olhos e aproveitando o máximo que podia daqueles momentos, sabendo que jamais viveria aquilo de novo.

Abri meus olhos, vendo que estava em um quarto que não era o meu. Esfreguei meus olhos, um pouco desorientada, rolando pela cama macia, sentando-me devagar com o lençol branco cobrindo meu corpo nu. Olhei ao redor, reconhecendo o quarto de , só então entendendo o que tinha acontecido.
Fechei meus olhos em desconforto, sentindo os efeitos da bebida de ontem me atingirem rapidamente. Devia ter algo a mais para me fazer sonhar com a primeira vez que me envolvi com aquela banda.
foi o primeiro cara entre os quatro que eu fiquei. E sim, aquele foi o tipo de conexão que tivemos. Foi diferente e uma experiência e tanto, embora nunca mais tivesse acontecido algo do tipo. Todas as nossas ficadas pareceram meio... estranhas depois daquilo. parecia estranho. E meu comportamento refletiu o seu.
Tudo ficou ainda mais complicado depois que dormi com . nunca chegou a me tratar mal, mas definitivamente começou a me tratar com mais frieza e eu entendi que aquilo foi coisa de uma noite. Ele com certeza fazia aquilo com toda garota disposta a dormir com ele. Era difícil resistir àqueles olhos e cabelos loiros. Ele era o próprio príncipe encantado numa versão moderna e muito mais charmosa, que cantava e tocava como um anjo extremamente talentoso.
Deixava-me levemente triste saber que se para mim tinha sido algo especial e inesquecível, ao ponto de ainda me fazer sonhar com o acontecido, para ele foi só mais uma conquista barata.
Mas, bem, era a vida, não? Felizmente, eu tinha três outros caras, que mesmo em meio àquela confusão que era nossas relações, tratavam-me muito bem e eu considerava como grandes amigos — e era recíproco. Eu sabia que poderia contar com eles no momento que eu precisasse. Perdi a conta de quantas vezes ouvi desabafos e aconselhei , e , eu sempre estaria ali para eles e eles para mim. Não era todo cara que tratava uma groupie, como éramos chamadas, do jeito que eu era tratada e eu sabia que pelo menos nisso, era especial.
Olhei para o lado, vendo dormindo pesado de costas para mim. Deus, ele era tão bonito. Um homem daquele porte andar por aí daquele jeito deveria ser um crime!
Sorri, pondo os pés para fora, indo para o banheiro da suíte, bochechando um enxaguante bucal antes de descer e ir para a cozinha, fazer um café da manhã.
Outra coisa que tinha conquistado sendo acompanhante dos meninos durante aqueles meses que nos conhecíamos: eu podia passar a noite e ainda tinha liberdade de cozinhar e ficar até a hora que me desse vontade, mesmo que eu não fizesse aquilo com muita frequência. Mas como era retorno de tour, achei que merecia esse mimo.
Cheguei até a cozinha, ajeitando meu cabelo em um coque, começando a preparar um sanduíche e ovos, sabendo que adorava aquilo. No meio do processo de preparo do suco, que resolvi fazer para acompanhamento, escutei passos vindo pela escada. Esperando ser um dos meninos, apenas continuei o que estava fazendo sem preocupação.
— Parece que o brinquedinho está de volta, huh? — a voz de Arzaylea falou atrás de mim.
Desviei o olhar do meu trabalho, vendo-a escorada na parede, de braços cruzados, com uma camisa larga que batia até suas coxas, provavelmente era do .
— Pois é, parece que sim. — Dei de ombros.
— Você não se toca mesmo, né? Eles só estão te usando, te chamando apenas pra ser o brinquedinho de prazer deles. Mas acho que eu sou a única que acha isso estranho, já que pelo visto você não tem respeito nenhum por si mesma. — Falou como se realmente se importasse.
Não era novidade que Arzay e eu não nos dávamos bem. Naquele período de tempo que comecei a estar com mais frequência na vida dos meninos, tivemos algumas picuinhas desde quando ela chegou, mas a mais séria mesmo, foi o dia que ela criticou bem na minha frente e nenhum dos meninos falou nada. Não consegui me manter calada e o defendi, o que acabou por causar uma discussão bem feia no camarim de um show. Fizemos um acordo silencioso para nos mantermos afastadas uma da outra desde aquele dia, afinal, nenhuma das duas queria trazer má visibilidade para a banda, mas sempre que nos encontrávamos, como era o caso, farpas rolavam soltas.
Todas as vezes ela tentava me rebaixar e eu não dava a mínima, o que a deixava irritada e bufando como uma criança. Recusava-me a dar o que ela queria. Sabia que eu seria a única a perder algo ali, se levasse suas provocações adiante, e eu gostava demais da companhia dos meninos pra isso.
— Que bom que é minha vida, né? Eu que tenho que me preocupar com o que eu faço ou deixo de fazer dela. — Respondi sem muito ânimo, terminando tudo e ajeitando em uma bandeja, pronta para levar para o quarto.
Abri a geladeira, pegando as duas garrafinhas de suco que tinha preparado, voltando-me para a bancada, quando senti a mão da garota rodear meu pulso com firmeza.
— Eu só quero te dar um recadinho: — falou muito perto do meu rosto, tentando soar ameaçadora. — Se divirta o quanto quiser com os três patetas, mas fica bem longe do .
Senti meu sangue ferver e um impulso de meter a mão na cara dela me subiu à cabeça, mas consegui me controlar, respirando fundo e a encarando seriamente.
— Não se preocupa, linda. Eu não estou interessa no seu homem. — Desvencilhei-me de suas mãos e segui para a escada, voltando para o quarto de , sem deixá-la ter uma oportunidade de resposta.

•••

O fim de semana havia passado e com ele foi-se embora minhas horas de preguiça e lazer. A semana estava sendo corrida, mal pisquei os olhos e já estávamos na metade dela. Eu estava prestes a pedir socorro.
, vem me ajudar aqui, por favor. — Minha chefe chamou, fazendo-me largar o que estava fazendo e segui-la.
— Pois não, senhora Willians? — Perguntei, soando o mais educada possível.
Ela me olhava com cara de poucos amigos, analisando os novos quadros que haviam chegado para a exposição, o que me indicava que ela não estava feliz. Aquela semana tínhamos tido muitos problemas com o pessoal da curadoria e entrega de peças, e de alguma forma, acabou sobrando para mim.
— Preciso que você dê um jeito nisso e organize o melhor que conseguir. Esse cara costuma ser um pé no saco, então já sabe. Preciso disso aqui impecável pra ontem. — Sorriu. — E já sabe, se qualquer coisa sair do esperado, cabeças vão rolar e não vai ser a minha.
Deus! Quanto mau humor!
Jess costumava ser durona, mas aquela semana ela estava intragável. Ela sempre me dava trabalhos como aquele, mas nunca com ameaças veladas. Eu não tinha culpa que as outras pessoas não faziam seus trabalhos direito e ela não precisava descontar as frustrações em mim. Mas eu não queria ser demitida. Apesar de aquele não ser meu trabalho dos sonhos, era o mais próximo que eu havia conseguido que chegava perto do que eu realmente amava fazer e era só aquilo que me impedia de dar uma resposta mal-educada a ela. Eu precisava me sustentar e ajudar Vic, minha irmã caçula.
Depois da morte dos nossos pais, fiquei com toda a responsabilidade da casa, incluindo a vida minha irmã. Ela era tudo o que me restava e eu faria tudo para que ela conseguisse tudo o que quisesse na vida.
Ano passado, Vic havia entrado para a faculdade de Astrofísica, seu maior sonho desde que tinha uns nove anos. Eu costumava zoar com ela, chamando-a de nerdzinha, mas a verdade era que eu sempre morri de orgulho do que ela era. Vic sempre foi mais esperta e inteligente que eu, e se eu tivesse que suportar o mau humor e rabugice da minha querida chefe para que ela conseguisse fazer aquilo que mais amava na vida, eu faria feliz.
Houve uma época que nossa família era única e feliz, mas como nada na vida durava para sempre e não estávamos num conto de fadas, as coisas ficavam um pouco duras às vezes. Eu tinha que viver longe da minha única família para que minha outra metade conseguisse viver seu sonho, tinha que cuidar de mim mesma também. Aos olhos de outras pessoas, poderia parecer que eu era uma desocupada que saía com caras famosos de vez em quando, mas a verdade era muito longe daquela.
Claro, era ótimo receber atenção e um pouco de afeto, mas fama nunca foi meu real objetivo. Pelo menos, não daquele jeito. Se um dia eu desejasse ficar famosa, queria que fosse pelo reconhecimento das minhas obras. Esse era um dos motivos que eu aguentava esse trabalho tão exaustivo. Eu ainda não sabia como, mas, um dia, seria eu organizando minha própria exposição numa galeria como essa. Ou, quem sabe, muito melhor!
Sorri com o pensamento. Era aquele ditado: se a vida te der limões, faça a droga de uma limonada e vá à luta.
Sem perder muito tempo, comecei a organizar as telas que haviam chegado. Olhar para aquelas telas todas trabalhadas com tanta dedicação me faziam sonhar. Conseguia visualizar o artista responsável pela tinta no tecido, imaginando por quantos dias e noites ele havia se mantido acordado até estar satisfeito com o resultado do seu trabalho. Até olhar para a tela e sentir orgulho de si mesmo, vendo que depois de tantas horas do seu tempo gastas no que parecia uma coisa sem futuro, no fim, havia acabado dando certo. Eu valorizava muito tudo aquilo. Para as pessoas dessa galeria, podia ser só um bando de loucos que acabavam fazendo sucesso, para mim era muito mais que isso. Eles derramavam seus corações em cada tela, por trás de cada uma tinha uma história que queriam compartilhar com o mundo, mesmo que fossem incompreendidos.
Sorri, pegando a primeira tela, levando até o salão onde aconteceria a exposição. Já conhecia aquele cliente, era um dos mais exigentes.
Escaneei o local, visualizando mentalmente se eu tivesse a cabeça daquele homem, como iria querer que minhas telas estivessem expostas... Seria um longo dia!

Após três horas de trabalho, havia conseguido terminar de colocar o último quadro na parede. Dei uns passos para trás admirando meu trabalho. Eu gostava do que via e com sorte a Jess também gostaria. O resto da organização seria por conta dela.
Dei uma olhada no relógio, vendo que estava quase na hora da minha saída, o que fez com que eu voltasse para o escritório para arrumar minhas coisas e ir para casa, ter o meu merecido descanso.

•••

Depois de tomar um banho longo e relaxante, vesti um camisão e segui para a sala, pronta para fazer uma maratona de série antes de dormir. Peguei alguns salgadinhos para beliscar e me aconcheguei no sofá, desligando a luz, com a Netflix só me esperando para começarmos nosso encontro da noite.
Meu celular começou a tocar quando estava na metade do terceiro episódio, em cima da mesinha de centro, fazendo-me olhar para a tela para ver quem estava ligando. Um sorriso brotou em meu rosto quando vi a foto de Vic brilhando ali.
— Vic, oi! — Atendi animada. — Como você está? — Ajeitei-me no sofá, preparada para receber novidades da minha irmã.
Oi, tô bem e você? — Respondeu no mesmo tom.
Nossa, eu estava com tanta saudade dela!
— Me conta tudo, não me esconde nada. Faz quase uma semana que você não me dá notícias, menina! — Repreendi em tom brincalhão.
Eu sempre evitava ficar ligando ou mandando mensagens, os horários da faculdade eram confusos e eu tinha medo de atrapalhar alguma aula importante.
Ah, está tudo bem. Você sabe, muitos estudos e muitas provas, estou quase ficando doida. — Riu levemente e eu franzi o cenho. Ela costumava ser mais animada que aquilo.
— Sei. E tem alguma coisa que você não está me contando? — Questionei, sabendo que naquele angu tinha caroço.
Vic nunca hesitava em falar sobre cada detalhe dos seus dias. Ela evitar assunto desse jeito só me preocupava.
Às vezes, desejava poder estar sempre perto da minha irmã. Mesmo que ela já tivesse dezoito anos, eu ainda a via como meu bebezinho. Queria protegê-la de qualquer coisa que a incomodasse.
Por que você acha que estou escondendo algo? — Despistou, atiçando meu modo irmã mais velha superprotetora ainda mais.
— Porque você está evitando falar sobre o assunto. Desembucha! — Falei séria, deixando claro que ela não tinha opção.
Vic soltou um suspiro e ouvi ela se movendo pelo quarto, provavelmente, o barulho de folhas de papel invadindo o som de fundo da ligação.
Você é um pé no saco! — Resmungou. — Odeio que me conheça tão bem.
Acabei rindo, porque era verdade, eu a conhecia até melhor que ela mesma.
Mas, enfim, tem sim algo... — admitiu, fazendo-me dar um sorriso vitorioso.
Eu nunca errava.
— Sou toda ouvidos.
Tem um carinha aí... — começou, tímida. — E a gente se deu muito bem, sabe? Parecia que éramos compatíveis em tudo. Tudo mesmo, . Você tinha que ver! — Pude ouvir o sorriso em sua voz... mas se tivesse dado tudo certo, não estaríamos tendo essa conversa agora.
— E aí? Você descobriu que ele era um idiota ou?
Não. Não exatamente. — Sua voz ficou meio triste — É só que quando parecia que íamos engatar um namoro ou pelo menos algo mais sério, ele me veio com um papinho manjado sobre não ser o cara certo e que era melhor que nos afastássemos.
Fechei os olhos, pressionando a ponte do nariz. Sabe Deus quantas vezes estive nessa mesma situação e por mais que com o tempo nos acostumássemos e aprendêssemos a lidar com isso, ainda era uma chateação sem fim quando acontecia.
E daí ontem saí com algumas amigas, porque elas me arrastaram pra aquele clube com a desculpa de que eu precisava me animar... — suspirou alto. — E ele estava lá. Com outra garota. Parecendo todo íntimo e feliz.
Meu coração doeu por ela. Realmente era péssimo quando descobríamos que nosso possível príncipe encantado não era tão encantado assim.
Eu me senti uma idiota, . Enquanto eu estava lá toda triste por aquele imbecil, ele estava muito bem e saindo com outras garotas. Ele me viu e teve a cara de pau de ir falar comigo como se nada tivesse acontecido. — Agora a voz dela estava cheia de raiva. — Eu queria tanto matar aquele infeliz com minhas próprias mãos.
— Me diz pelo menos que você deu uma bela resposta nesse idiota.
Eu tentei me segurar. Não queria que ele visse o quanto eu me importava com sua cafajestada. Mas quando vi, tinha jogado um copo de bebida na sua cabeça. — Comentou, parecendo arrependida e arrancando uma gargalhada de mim.
— Essa é minha garota! — Vibrei. — Ele mereceu, Vic. Não tem um único motivo para você se sentir mal.
Ela deu uma gargalhada baixinha, fazendo-me ficar satisfeita por pelo menos conseguir fazê-la rir.
— E quer saber? Eu sei exatamente como curar isso!
Como? — Perguntou, curiosa.
— Vem para LA assim que você conseguir uma folga. — Ofereci. — A gente faz um dia só de garotas e compraaaas.
Parece tentador, mas eu não sei, ... Eu tenho muita coisa para fazer e eu não posso deixar um cara tomar conta da minha cabeça desse jeito e-
— Mas você não vai estar fazendo isso por ele, estará fazendo por você. E por mim... — pedi. — Eu não te vejo faz tanto tempo. Estou com saudades, poxa! — Fiz vozinha fofa para convencê-la. Sabia que ela não resistiria.
Vic ficou em silêncio por um tempo, provavelmente ponderando suas possibilidades. Eu sabia que era complicado para ela, mas estava me permitindo ser um pouquinho egoísta. Eu também precisava da minha irmã.
Por favooooor! — Pressionei e ela suspirou.
Tá bom, vai! Eu vou arrumar algumas coisas e próxima semana eu vou, tudo bem assim?
Soltei um gritinho feliz, que a fez reclamar do outro lado da linha.
! Se controla.
— Desculpa, eu só fiquei muito feliz. Eu vou te ver, finalmente. — Eu amava demais aquela garota, que saco.
Tá bom, tá bom! — Vic riu. — Eu te vejo semana que vem, irmã.
— Te vejo semana que vem! — Repeti.
Obrigada por tudo!
Sorri.
— Você não tem que me agradecer, meu bem. Estou aqui pra você. Sempre!
Eu sei! — Ela ficou em silêncio por um tempo. — Bom, deixa eu ir. Grande teste amanhã. Beijos. Amo você!
— Amo você também, pirralha. Bom teste, você vai arrasar! — Incentivei.
Eu sabia o quanto ela era boa no que fazia e o quanto se dedicava àquilo. Não era à toa que era uma das melhores alunas da sua turma.
Ela riu e desligou.
Fiquei ali, parada, animada para encontrar com ela na semana que vem. Eu iria ver minha irmã, nada poderia estragar meu humor.
Aquela conversa com Vic me deu até ânimo para enfrentar o dia exaustivo que teria no outro dia na galeria.
Desliguei a televisão, arrumando tudo e indo me deitar com um sentimento de que todas as órbitas estavam alinhadas e tudo estava em seu devido lugar.

•••

Eram umas três da tarde quando me ligou. Eu estava no meio de uma confusão dos preparativos da exposição que aconteceria, havia gente correndo pra todo lado. Olhei ao redor, vendo se ninguém estava de olho em mim e dei uma escapada para a rua para ouvi-lo melhor.
! — Foi como ele respondeu assim que atendi. — Como é que você está, minha linda?
— Muito bem e você, senhor ? — Brinquei, encarando a rua.
Credo, . Você sabe que odeio quando me chama de “senhor ”. Parece que está falando com meu pai.
Eu podia vê-lo torcendo o nariz, fazendo-me rir.
Mas, enfim, deixando sua provocação idiota de lado, preciso te fazer uma pergunta.
— Ih, vindo de você, eu tenho até medo... — dei uma risadinha, pois já havia feito cada pergunta cabulosa, que deixaria qualquer um sem graça. — Mas pode falar!
Desse jeito você me ofende. O que vai estar fazendo hoje à noite?
— Depende. Eu estava planejando uma pizza, vinho e maratona de série... — olhei para dentro da galeria, checando se não tinha ninguém a minha procura. — Vão dar outra festa?
Não. Sem festas dessa vez! — Ele deu aquela risada que só ele poderia ter. — Mas eu vou fazer um karaokê aqui em casa, tá afim de vir?
— Ah, eu não sei, ... você não acha meio injusto chamar alguém como eu pra um karaokê, sendo que vocês todos cantam? — Era verdade, eu não me atreveria nunca a cantar na frente deles.
Que nada, estaremos bêbados e também, é algo pra gente se divertir. Não é como se você estivesse indo se apresentar no The Voice. — Retrucou. Ele tinha um ponto.
— É, posso não estar indo me apresentar no The Voice, mas cantar num karaokê em que 5 Seconds of Summer vai estar também é pedir pela humilhação.
Você está de sacanagem, né? Por favor, . É seu amigo que está pedindo! — Falou e eu sorri.
Que droga, por que era tão difícil ser durona com ele?
— Quem mais vai estar? Se eu for cantar, tenho que ter certeza que não vou destruir minha reputação. — Mordi o lábio, ansiosa. Eu queria ir, mas estava insegura.
Ih, qual a sua, hein, ? Faz esse favor pro seu amigo, vem no meu karaokê. Estamos na cidade tem duas semanas e eu só te vi uma vez e você só deu atenção pro ! — Emburrou e eu amoleci.
Era difícil dizer “não” para ele, quando ele falava assim.
— Ai, tá bom. Eu vou! — Concordei. — Que horas vai começar?
Vai estar só eu, os meninos e mais alguns amigos próximos, então é só chegar. A hora que você quiser. A casa é sua. E também, se você se cansar de gastar suas cordas vocais, a gente pode jogar alguma coisa, sei lá... — gargalhou. — Toda hora é hora, né?!
— Sei. Então tá, . A gente se vê mais tarde. Preciso voltar para o trabalho antes que deem minha falta e aí cortam minha cabeça e você fica sem amiga. — Exagerei, fazendo ele rir.
Você é tão melodramática. Tudo bem, eu vou ficar te esperando, então. E se você me der um bolo, eu vou te buscar na sua casa, de pijama e tudo. — Ameaçou.
— Credo, . Até parece que eu já fiz isso com você alguma vez. — Reclamei. — Até mais!
Até. Bom trabalho.
Desliguei a chamada, sorrindo que nem uma idiota. Eu adorava aqueles caras e não só pelo que eles podiam me oferecer.
Ser uma garota como eu, por vezes, acabava sendo muito solitário. Era bom ter pessoas que me dessem esse tipo de atenção e realmente gostavam da minha companhia, não só para flashes de câmera ou uma noite de sexo. Também estava ali para aconselhamentos e uma boa noite de diversão como bons amigos. Eu podia me considerar uma garota sortuda.
Minha vida parecia tão bem ultimamente, que me custava acreditar que tudo era real. Claro, tinha seus obstáculos, mas que vida não tinha?
Minha irmã estava na faculdade, feliz da vida e isso por si só já era motivo para me deixar feliz para o resto dos meus dias. Eu tinha alguns bons amigos pela cidade, tinha uma boa casa e até mesmo um bom emprego, mesmo que minha chefe fosse uma mala sem alça. E era isso, eu não tinha motivos para reclamar da minha vida. Não podia pedir mais nada.
Podia parecer clichê eu falar que não tinha tudo o que amava, mas amava tudo o que tinha, embora fosse uma grande verdade e quase um mantra, eu estava grata pelo que tinha.



Capítulo 2

Ponto de vista do :

Arzay andava de um lado para o outro pela casa, arrumando suas coisas e guardando o que tinha esquecido. Ela passaria uma semana fora, visitando a família na cidade natal. Eu apenas a observava da cama, com um sorrisinho besta nos lábios.
— O que você tanto me olha, hein? — Ela parou no meio do quarto, com as mãos na cintura. — É divertido me ver igual uma barata tonta, enquanto você está no bem bom aí? — Perguntou e eu ri.
— Na verdade, é sim! — Puxei-a pelo braço, fazendo-a cair em cima de mim, enquanto eu a enchia de beijos. — Mas estava pensando no quanto você fica bonita fazendo qualquer coisa.
— Aw, você é um lindo, mas vai me amarrotar toda a minha roupa desse jeito... — empurrou-me de leve e eu a segurei pela cintura.
— Se o problema é suas roupas, podemos tirá-las. — Dei de ombros, bem cara de pau e ela riu, passando a mão pelo meu rosto.
— Você sabe que eu não posso, vou perder meu voo. — Deu-me um selinho demorado, levantando-se em seguida, pegando a mala. — Você vai pelo menos até na porta se despedir de mim.
— Nah, a cama está bem melhor. — Relaxei, colocando as duas mãos atrás da cabeça, encarando-a descaradamente e Arz me olhou incrédula.
— Você é um sem vergonha! — Jogou-me uma almofada, que estava na cadeira da escrivaninha. — Depois reclama que eu não te dou carinho... — semicerrou os olhos em minha direção, andando até mim e me dando um beijo. — Eu te vejo em uma semana, se comporte! — Sorriu e eu concordei, vendo-a ir em seguida.
Joguei-me para trás, encarando o teto, pensando no que faria durante o dia. Desde o fim da turnê estávamos tirando umas miniférias para que pudéssemos aproveitar a companhia de amigos e familiares, e era exatamente que estávamos fazendo. Porém, estava começando a ficar chato, sem muitas opções do que fazer a não ser festinhas nas nossas casas ou passarmos o dia um na casa do outro. Eu adorava os caras, mas fazer a mesma coisa praticamente todo dia não era o melhor programa.
Estava quase pegando no sono, quando meu celular começou a tocar na mesinha de cabeceira. Peguei o aparelho, vendo o nome de no visor.
— Fala, dude! — Atendi animado.
Eu estou entediado. quer fazer uma noite de karaokê aqui em casa, poucas pessoas. A Lily está na cidade. Você vem? — Disse tudo em um só fôlego, o que me fez rir.
era sempre tão afobado, parece que estava sempre ligado no 220.
O fato de Lily estar no meio me deixou mais animado. Ela era nossa antiga amiga da Austrália. Fazia muito tempo que nós não a encontrávamos, já que dificilmente ela vinha para Los Angeles, mas tínhamos muitas histórias do ensino médio. Seria ótimo revê-la.
— Eu vou, claro. Estou morrendo de saudades da Lily! — Respondi. — Que horas?
A casa é sua, a hora que quiser aparecer, estaremos por aqui.
Concordei e jogamos mais um pouco de conversa fora, antes de eu desligar e fazer algumas coisas por casa, só então pegando o carro e seguir para a casa do .

— Você é tão melodramática. Tudo bem, eu vou ficar te esperando, então. E se você me der um bolo, eu vou te buscar na sua casa, de pijama e tudo. — falava no telefone quando entrei em sua sala. — Até. Bom trabalho. — Desligou com um sorrisinho besta.
Ele me encarou ainda sorrindo, enquanto eu sentava no sofá.
— Quem era? — Perguntei, despreocupado.
. — Deu de ombros — Chamei ela pra vir mais tarde, depois do trabalho, também. — Sentou ao meu lado. — Por quê?
— Não, nada. Só curiosidade. — Dispensei o assunto.
Eu não gostava muito de falar sobre a com eles. Era meio que um tabu, mesmo que ela quase sempre estivesse com a gente.
Nossa relação não era das melhores, embora não fosse conturbada. Era só... estranha. Eu me sentia meio mal por não a tratar como deveria ou pelo menos com normalidade, mas além de eu não conseguir, Arzay já havia deixado claro seu desagrado com a garota e eu tentava a qualquer custo evitar brigas desnecessárias no meu relacionamento. Eu me mantinha afastado o quanto podia. Mas quem sabe aquela noite, com Arzay longe, as coisas não mudariam?!
— Mas e aí, quer jogar alguma coisa? — perguntou, largado.
Ele parecia mesmo entediado.
— Fifa? — Sugeri e ele concordou. — Cadê e ? — Perguntei, sentindo falta dos dois.
— Foram no mercado comprar algumas besteiras. Devem estar chegando por aí a qualquer momento! — Disse, já ligando a TV e o videogame, entregando-me um controle.

Eu vi a hora que chegou e praticamente fez xixi ao redor dela. Era quase como se ele tivesse marcando território. Eu sabia que eles eram amigos — às vezes com muitos benefícios —, mas não deixava de me deixar incomodado e eu nem entendia direito por quê.
Dei meia volta, antes que ela me visse e as coisas ficassem estranhas. Fui para o quintal, onde Lily estava, engatando uma conversa, enquanto via as poucas pessoas que tinha convidado sentados em pequenos grupos, entretidos em suas próprias conversas.
— Ei, vocês querem jogar beer pong? — chegou, apontando para uma mesa atrás dele, onde tinham vários copos já cheios com cerveja e mostrando uma bolinha na mão.
Olhei para Lily, que apenas me encarou de volta e deu de ombros. Já estávamos todos um pouco alterados àquela hora.
Concordei e levantei, puxando Lily.
— Se vamos brincar disso, você vai ser minha parceira. Quem vai ser a sua? — Encarei , que olhou em redor, procurando alguém disposto, até seu rosto se iluminar com uma ideia.
Ele olhou pelo vidro para dentro, na direção que e performavam desengonçadamente uma músicalme estava sentada de frente para eles, apenas rindo da palhaçada.
Droga.
— Esperem um minutinho aqui que eu já volto com uma parceira! — Disse e saiu atrás de .
Mudei o peso do corpo para a outra perna, sentindo-me desconfortável. Eu não sabia por que estava me sentindo daquele jeito. Estava livre aquela noite, Arzay nem sequer estava ali para implicar com cada detalhe que lhe incomodasse.
Talvez não fosse a presença de Arzay que me causasse aquilo. Minha namorada era teimosa e eu tinha certeza de que ela iria ver algum problema até em Lily. Não queria nem pensar no que ela falaria se visse perto de mim. De algum modo, naquela noite eu agradeci por não estar acompanhado. Sentia falta dela, mas pelo menos não teríamos que lidar com as provocações que ela sempre lançava para a garota ou as farpas que ela e acabavam trocando.
— Vamos lá. Eu e contra vocês dois! — chegou perto da mesa de beer pong, trazendo junto com ele. — Ladies first! — Entregou a bolinha para .
— Tem certeza, ? Eu sou péssima nisso... — fez uma careta e nós três rimos.
A morena franziu o cenho, provavelmente por ter me percebido esboçando reações a qualquer fala dela, já que eu geralmente acabava ignorando sua existência.
— No momento, todos nós somos. — Lily arqueou as sobrancelhas finas, largando um riso e sendo simpática como sempre.
Ela era uma fofa.
— Então tá... — mexeu os ombros, mirando a bola em algum copo aleatório do nosso lado da mesa, obviamente errado.
Nunca vi alguém ser tão ruim de mira.
— Eu disse. — Encarou e largou um riso.
Eu juntei a bola e entreguei a Lily, que mirou e acertou, pedindo a que bebesse um dos copos mais cheios de bebida. Meu amigo virou com tranquilidade, dando um de seus risos escandalosos quando terminou, fazendo-nos rir com ele. era aquele cara, não dava para ficar mal-humorado perto dele. Sua energia era boa demais para aquilo.
Assim seguimos por muito tempo e eu só tinha certeza de que estava tendo um bom momento. Eu estava realmente muito à vontade sem a presença de Arzaylea por ali. Meus amigos diziam que eu parecia outro quando estava longe dela. Até eu concordava que ficava muito mais divertido e acessível quando ela não estava por perto.
sempre era uma ótima companhia, principalmente quando estava de bom humor e meio alterado, assim como e . Lily estava dando jeito de nos fazer matar a saudade que tínhamos de seu humor peculiar e de suas brincadeiras bobas. Trocamos vários abraços e eu estava morrendo de saudades daquilo. Já ... bom, era ela.
Ainda que eu lutasse contra aquilo, não conseguia ignorar as falhas que as batidas do meu coração davam quando ela correspondia aos olhares que eu lhe lançava, rindo quando ela errava alguma jogada ou enquanto eu virava um copo de uma vez, tentando não parecer fraca, mesmo sabendo que era, fazendo o líquido escorrer pelo seu queixo e pescoço, enquanto recebia incentivos de para que ela bebesse rápido. Não estava flertando, porém, tinha aquele imã que parecia me puxar para perto dela, mesmo que só com olhares. Ela brilhava sozinha. Aquilo era fato.
A verdade era que sempre me chamou muito a atenção. Ela era, sem dúvidas, umas das mulheres mais bonitas que eu conhecia. Eu sabia que havia errado muito com ela no passado e sabia que ela tinha todos os motivos do mundo pra me odiar ou ao menos me menosprezar. Eu tinha noção de que, para , provavelmente eu era só mais um cara que ela havia se envolvido e que possivelmente havia a decepcionado. Com certeza eu não havia sido a melhor das pessoas com ela, dado ao meu comportamento mediante ao nosso "passado". Bem, ela não parecia ligar, ainda que correspondesse aos meus olhares.
Mas, naquele momento, eu estava namorando. E, ainda que minha garota não estivesse ali e eu insistisse em encarar às vezes, eu sabia que ela iria preferir me ignorar e tentar seguir sua noite como se nada estivesse acontecendo. Assim como eu deveria fazer.

Conforme o jogo ia se passando, mais a quantidade de bolinhas errava, ao passo que eu e minha dupla tirávamos vantagens ao fazermos ela e ingerirem copo atrás de copo de bebida. Em certo ponto, foi chamado para alguma coisa por outro grupo de pessoas e saiu em direção ao banheiro. Perguntei-me internamente se ela estava bem, assim que Lily se juntou ao e uma outra garota que eu não conhecia.
Segui para a cozinha, decidido a tomar uma água e talvez ligar para Arzaylea para saber se ela havia chegado bem. Sentei-me no balcão, tirando meu celular do bolso, quando notei pela visão periférica entrar no cômodo, parecendo um tanto quanto perdida. Encarei-a, largando um riso, mas logo parando no mesmo momento em que percebi que estava com dificuldades para abrir a geladeira.
— Você está bem? — Perguntei de cenho franzindo, pondo toda minha atenção na garota, o que a fez forçar mais uma vez a porta da geladeira, sem sucesso. — Eu acabei de fechar isso aí, tem que dar um tempo para ela abrir de novo. — Expliquei.
A geladeira de tinha aquela pressão insuportável que levava alguns segundos para que conseguíssemos abrir de novo.
bufou irritada, fazendo-me perceber que provavelmente ela já estava bem mal.
— Vem, senta aqui e dá um tempo... — puxei-a delicadamente pelo cotovelo, praticamente arrastando até um banquinho que tinha ali. — Não sabia que você era tão fraca para bebida. — Ri nasalado, na tentativa de descontrair, abrindo a porta da geladeira sem dificuldade alguma.
permaneceu intacta.
Enchi um copo grande de água, colocando algumas pedras de gelo dentro e entregando à . Ela tomou o copo da minha mão, olhando-me desconfiada.
— Quanto mais refrescante, melhor, foi um dia quente. Vai ser bom se você não desmaiar. — Dei de ombros e ela cedeu, tomando metade do líquido de uma vez. — Melhor? — sugeri, arqueando a sobrancelha.
riu, encarando-me com um pouco de estranheza. Ela realmente parecia confusa e fora dos seus sentidos demais para tentar entender o que estava acontecendo ali.
— O que foi? — Perguntei, estranhando sua repentina atitude.
— Nada. Eu só acho engraçado que de repente você resolveu ser legal e sociável comigo, depois de passar meses ignorando minha existência. — deu mais um gole de água, olhando diretamente para mim.
Abaixei a cabeça, concordando fracamente. Eu estava envergonhado por estar jogando aquilo na minha cara, e, mais ainda, por ela estar certa. Arzaylea tinha deixado bem claro o quanto desprezava sua presença. E eu sabia que não tinha medo dela, longe daquilo. Mas a conhecia bem o suficiente para saber que ela iria preferir se afastar a ficar entre nós dois.
— Olha, eu sei que não tenho sido a melhor pessoa do mundo com você... — já que estava pondo cartas na mesa, aproveitei para ser sincero também. — Mas eu gostaria de compensar as coisas.
— Não acha que está um pouco tarde para isso? Eu ando com seus amigos há mais de um ano e você sempre parece sentir dor física quando eu estou por perto. Por que essa mudança agora? — Disparou, não deixando barato, semicerrando os olhos em minha direção.
— Porque eu percebi que tenho sido um idiota. — Olhei-a nos olhos, tentando transmitir toda minha verdade. — E eu odeio me sentir assim.
Eu sabia que vinha sendo um babaca. Sabia também que aquilo, de certo modo, estava relacionado à Arzaylea. Afinal, eu sempre acabava cedendo às vontades e aos pedidos de minha namorada. Mas não podia a culpar por minha babaquice. Aquela parte, era toda minha culpa. não merecia minha ignorância e eu estava farto de agir como um otário. Eu não podia deixar com que o ciúme tosco de Arzaylea tomasse conta da minha vida.
ficou quieta, apenas me encarando por alguns segundos. Então, fez uma careta e correu até a pia.
— Acho que você precisa descansar um pouco... — falei atrás dela.
Ela estava muito mal. Também pudera, ela havia tomado muitos copos de cerveja quase seguidos, não era de se estranhar que estivesse naquele estado.
— Vem, deixa eu te ajudar.
— Eu sei cuidar de mim mesma! — Retrucou entredentes.
Okay, ela era do tipo que ficava agressiva quando bebia, então. Eu só estava tentando ser legal. Sabia que ela não estava em boas condições e não era justo deixá-la sozinha ali, quando estava quase caindo. O engraçado era que ela parecia bem desperta para quem estava bêbada daquele jeito.
— Sei disso, mas você está claramente bastante bêbada e sem condições nenhuma de voltar para casa sozinha. Os meninos estão no mesmo estado ou até pior que você, assim como eu, que bebi o suficiente para não poder dirigir, o que significa que nenhum de nós pode te levar em casa em segurança. Você não pode apagar no sofá, porque vai amanhecer dolorida. E os meninos vão tirar meu couro se souberem que eu era o que estava em melhor condições de te ajudar e não fiz nada. Quer, por favor, colaborar comigo? Você claramente está passando mal. Se você deitar, pode dormir e assim se livrar desse porre. — Expliquei com calma, na tentativa de deixá-la mais tranquila.
me encarava como se cuspisse labaredas de fogo, ela parecia irritada. Mas, em poucos segundos, relaxou.
— Okay. — Respondeu simples, dando de ombros e desviando o olhar.
— Okay? — Sorri levemente. — Achei que fosse ter que fazer um discurso maior para te convencer.
— Você fala demais, me dá dor de cabeça. — Resmungou, fazendo-me rir.
Estiquei minha mão em sua direção e me segurou, enquanto seguíamos para a escada.
Levei a garota para um dos quartos de hóspedes, deixando-a na porta, onde tirou seus sapatos de salto e se deitou. Cobriu a si mesma com a colcha quente e macia, aconchegando-se na cama e dando um sorriso leve com seus olhos fechados. era mesmo muito bonita.
— Melhor? — Perguntei, encarando-a parado no batente da porta, de braços cruzados.
me encarou e suspirou.
— Muito. Obrigada. — Sorriu.
— Não me agradeça. — Sorri e me desencostei do batente da porta, pronto para fechá-la.
, espera! — me chamou e eu a olhei, esperando. — Por que só agora? — Perguntou.
Ela se referia à maneira como eu estava a tratando durante todo aquele tempo, eu sabia.
— Porque eu percebi que você é legal demais para eu continuar agindo daquele jeito com você. Os meninos te adoram, você sempre esteve aqui por eles, não só pra festas e diversão. Já te vi os ajudar em momentos que ninguém podia. Você é uma amiga de verdade pra eles e eu estaria só sendo um cretino se continuasse te tratando como estava. — Falei tudo quase num fôlego só, olhando para os pés.
Não me orgulhava de ter a tratado com tanta indiferença por tanto tempo. E muito menos pelos motivos que eu tinha.
— Tudo bem... — falou, depois de ponderar um pouco. — Você está perdoado. — Sorriu, fazendo-me respirar aliviado.
— Isso quer dizer que somos amigos? — Perguntei esperançoso, levantando minhas sobrancelhas.
riu.
— Isso nós vamos ver pela manhã, se eu me lembrar dessa conversa. — Virou de costas para mim e eu lancei uma risada baixa, antes de sair e fechar a porta.
Eu esperava muito que se lembrasse daquela conversa no dia seguinte.

•••

Acordei no sofá de , cheio de dor nas costas. Eu sabia tinha sido uma péssima ideia ficar por ali depois que todo mundo já havia ido embora, mas fiquei com preguiça de subir e me encontrava naquele estado. Eu era um idiota.
Espreguicei-me e segui para a cozinha, pronto pra uma xícara bem grande de café. Não tinha bebido muito, mas estava com uma leve ressaca, que nunca era bom em nenhuma circunstância.
Passei o café e sentei, mexendo no celular, respondendo às mensagens de Arzay e entrando no Twitter para ver o que estava acontecendo por lá. Logo e desceram, parecendo bem dispostos. Eu queria saber qual era o segredo deles para sempre parecerem tão bem depois de uma noitada.

foi o que mais demorou para aparecer, dando as caras apenas quase perto do meio-dia.
— Bom dia, cambada! — Brincou o mais velho. — Como estão as senhoritas?
— Eu não entendo como você está de ressaca e de tão bom humor... — o encarou, negando com a cabeça.
Eu ri, porque tinha mesmo aquele dom. Não importava as circunstâncias, seu humor parecia estar sempre intocável.
— Eu sou um mago. Esse é o segredo! — Puxou uma cadeira na mesa, sentando-se e servindo café para si mesmo.
— Caras, vocês sabem da ? — perguntou de repente, parecendo lembrar-se da existência da garota. — Eu não a vi ir embora ontem e também não se despediu de ninguém, isso não é muito dela. Ela não pode ter ido dirigindo, né? — Perguntou, genuinamente preocupado.
Eles se importavam com ela, aquilo era claro, só pelo vinco que a testa de cada um deles formou ao saber dessa informação.
— Achei que ela estava sob sua responsabilidade ontem, . — falou calmo.
— E estava. Mas eu a perdi de vista... — deu de ombros. — Ela sumiu no meio da partida de beer pong.
— Relaxem, ela está lá em cima. — Falei e todos os olhares se voltaram para mim.
— Como você sabe? , você não-
— Não! Claro que não! — Cortei a possibilidade levantada por antes mesmo de ele falar. — Ela passou um pouco mal depois de beber tanto e eu a levei lá pra cima para dormir. Só isso! — Dei de ombros, não dando importância ao assunto e recebendo acenos positivos de todos.
Continuamos conversando tranquilamente, deixando o assunto para trás, enquanto eu fingia que aquela noite não tinha mexido um pouco comigo. Não era grande coisa, mas também não podia negar que cuidar de tinha me trazido memórias de quando nos conhecemos, memórias essas que estavam enterradas e eu não queria que viessem à tona naquele momento.

— Bom dia, Bela Adormecida! — falou, obrigando-me a tirar o olho do celular e encarar a porta da cozinha, onde estava.
A morena cerrou os olhos na direção de , demonstrando que não estava no mood e ele riu de sua cara. Passavam das duas da tarde, tinha sido um porre e tanto.
— Você dormiu bem? — perguntou alto, fazendo tapar os ouvidos como uma criança.
Senti vontade de rir.
— Vocês podem, por favor, falar mais baixo? Agradeço. — Pediu.
Todos nós rimos, mas concordamos. se sentou em um dos banquinhos vazios e serviu uma xícara de café.
— Mas e então, linda, quais os planos para hoje? — perguntou, fazendo os olhares de todos os garotos caírem sobre a garota, inclusive o meu, que até aquele momento não havia me manifestado.
— Ir para a casa e dormir o dia todo. Seu timing de me convidar para uma noite de bebidas numa sexta foi perfeita, . — A morena sorriu para , que respondeu com uma piscadinha.
Não era possível que eles flertassem até em momentos como aquele.
— Até parece que eu ia fazer você ser demitida por não aparecer no trabalho, sabendo que você fica esse trapo quando bebe... — riu sacana.
— Como é que vocês não estão no mesmo estado? Que eu saiba, quando cheguei aqui, tava todo mundo meio alto já. — A garota protestou, encarando um a um de nós.
— Chama-se costume, babe! — provocou.
— Ah, é. Esqueço que vocês são profissionais nisso... — revirou os olhos. — Quer saber? Vocês são um pé no saco. Eu vou pra casa. — Ameaçou.
— Para com isso, vai. Estamos só mexendo com você. — a cutucou, arrancando um sorriso cúmplice dela. — Aí, viu? Você fica bem mais legal quando sorri.
Rolei os olhos discretamente. Alguém tinha que concordar comigo que aquilo estava ficando ridículo.
— Cala a boca, seu cabeça de prego! — empurrou a mão de , que ainda cutucava a sua bochecha, arrancando risadas de todos na mesa, menos de mim. — Como é que todo mundo foi embora ontem?
Uber... respondeu. — Ninguém tinha condições de dirigir. Ficamos preocupados com você quando acordamos, não vimos você sair, nem subir. contou pra gente que você passou meio mal e te deixou lá em cima. — Apontou para mim, que ainda permanecia mudo do outro lado da mesa. — Fracote. — Riu da própria piadinha.
Encarei e ela afirmou com a cabeça. Eu esperava que ela se lembrasse de nossa conversa na última noite, de como ela pareceu extremamente surpresa com a maneira como eu agi com ela. Não queria que se esquecesse de como me importei com seu estado. Eu realmente esperava que nós pudéssemos ser amigos.
— Valeu. — Foi tudo o que ela disse, fazendo-me acreditar que ela não lembrava.
Então, dei de ombros como se não fosse nada. A torta de climão tava servida, com aquele silêncio desconfortável reinando na mesa por alguns segundos.
— Enfim... — levantou, espreguiçando-se. — Acho que eu vou subir de novo e tirar mais um cochilo, tô quebrado. Caso eu não veja mais você hoje, por estar completamente apagado lá em cima, tchau. Apareça sempre! — Foi até , depositando um beijo no topo de sua cabeça e dando um abraço de lado.
— É só chamar. Mas da próxima vez, por favor, sem bebidas! — Praticamente suplicou, fazendo-nos rir.
— Você sabe que não tem graça assim... — se meteu.
Suspirei, voltando o olhar para meu celular.
— É só você se controlar da próxima vez.
É só você não embebedar a garota da próxima vez, pensei. Amava de todo meu coração, mas às vezes ele era impossível.
— Eu não já tinha dito pra você ficar quieto? — pareceu ler meus pensamentos, jogando um biscoito nele, que riu, pegando-o e colocando todo na boca.
— Valeu! — Falou, de boca cheia, fazendo-a torcer o nariz.
Eu só observava aquela palhaçada de lado, pronto para dar o fora dali.
— Você é ridículo! — reclamou, recebendo um beijinho no ar como resposta.
Os dois gargalharam, fazendo-me suspirar desconfiado. Era mesmo só amizade ali ou tinha algo mais que não estavam contando?
subiu e o resto de os três mantiveram uma conversa amigável por ali. E eu calado estava, calado fiquei. Não estava confortável.
As vezes em que colocou o olhar sobre mim, eu desviei, olhando para fora da janela ou para meu celular. Claramente havíamos voltado à estaca zero. Ela não lembrava que eu havia sido legal e eu me sentia novamente um intruso no meio dela e de nossos amigos.
— Bom, gente. Já está ficando tarde. Acho que essa é minha deixa... — falou, recebendo coros de desânimo de e .
— Ah, , deixa de ser chata! — emburrou como uma criança. — Você não tem ninguém te esperando em casa, nem sequer um animalzinho que seja você responsável por. Fica mais! — Pediu choroso e eu acreditei que ela cederia.
Ela sempre cedia às vontades do .
— É, a gente pode passar o dia na piscina. Seu bronze tá mesmo precisando de um retoque! — comentou, fazendo-me o estapear.
Ele era um idiota. Era por aquela e por outras que estava sozinho.
Dude... — o encarei com semblante fechado e falei em um tom de advertência.
apenas riu e levantou as mãos em rendimento, fazendo-me balançar a cabeça e voltar ao meu celular.
— Por mais que a oferta seja tentadora, eu preciso mesmo da minha cama e um banho. Eu tô fedendo a cerveja ainda. — disse, cheirando a gola da sua blusa para provar um ponto.
— Tudo bem! — rolou os olhos. — Mas eu vou te ligar de novo, vamos sair qualquer dia. Todo mundo. Faz tempo que a gente não faz isso.
— Sem álcool?
— Sem álcool! — Concordou e estendeu o mindinho para ele, feito uma criancinha.
Achei um ato fofo, mas tratava-se de ali e talvez ele estaria sendo tudo, menos fofo. Eu sempre achava que ele tinha segundas intenções. Conhecia meu amigo bem demais para saber daquilo.
— Sério, ? — Olhou-a incrédulo.
— Você sabe o que dizem, promessas de dedinho não podem ser quebradas... — deu um sorriso inocente, quase me fazendo sorrir junto.
— Tá, tá... Prometo! — enrolou seus mindinhos, selando o compromisso.
Então, levantou, dando um beijo na bochecha de e na de , ignorando a minha existência, e indo até o quarto pegar sua bolsa. Eu não poderia culpá-la, afinal de contas. Eu havia feito aquilo por tempo demais e agora estava provando do meu próprio veneno.
Seguimos para a sala e eu me sentei no sofá, despreocupado e sem esperanças de que lembrasse.
— É isso, chegou a hora que você abandona a gente... — dramatizou.
— Ai, mas você é um bebê chorão! — Riu, dando um abraço nele, que aproveitou a diferença de suas alturas para tentar sufocá-la com seus braços enormes.
não tinha limites.
— A gente vai se falando pela semana. Só não posso ter nada marcado no próximo fim de semana. A Vic vem me visitar. — continuou alegre.
Quase sorri com sua empolgação ao falar sobre a irmã. Era nítido o quanto a amava. Seus olhos brilhavam só de mencionar o nome de Vic, mesmo que não a visse com tanta freqüência quanto gostaria. E eu só sabia daquilo, porque já a havia visto reclamar uma ou duas vezes com os rapazes, quando estava com álcool em seu sistema, deixando-a vulnerável o suficiente para falar da sua vida pessoal com tanta facilidade.
— Sério? Que legal, ! — se animou, dando-a um abraço também. — Já faz um tempo que ela não vem, né?
— Uhum. Você sabe como são essas coisas de faculdade. — Riu.
— Na verdade, não sei, não... — respondeu sarcástico, dessa vez me obrigando a rir.
— Ah, é. Drop out of the school. — Ela cantarolou, revirando os olhos levemente. — Vamos ter um final de semana e tudo mais. Acho que ela está precisando.
— Divirtam-se e mande um beijo meu para ela! — O moreno sorriu genuinamente.
— Claro.
— E um meu também. — falou apressado, fazendo rir e o encarar encantada.
— Claro, . Eu mando seu beijo pra ela. — Sorriu.
Os três continuaram naquela enrolação, até que saiu porta afora. e seguiram para a cozinha, então tive o start de ir atrás dela.
estava quase entrando em seu carro, quando eu bati a porta da frente da casa de com força, fazendo-a olhar.
Andei apressado até sua direção, alcançando-a rapidamente. parecia confusa.
? Esqueci alguma coisa? — Perguntou, assim que eu estava a uma distância onde sabia que podia a ouvir.
— Na verdade, não. Eu só queria te perguntar uma coisa. — Falei, esperando que ela me desse algum sinal de que sabia do que eu estava falando.
Não aconteceu.
— Vai em frente... — gesticulou daquele jeito todo dela.
— Você por acaso se lembra de alguma coisa do que falamos ontem à noite? Você sabe, quando... — suspirei. — Te ajudei?
— Não. Tudo o que lembro é que fui beber água e daí acordei na cama do . — Deu de ombros e eu me mostrei decepcionado.
Decepcionado, mas não surpreso.
— Ah... Claro. Tudo bem. — Dei as costas, derrotado.
— Mas já que você perguntou, minha resposta é sim. Podemos ser amigos. — Falou alto, quando eu estava meio longe, fazendo-me rir e balançar a cabeça.
Voltei meu olhar para ela, tentando com todas minhas forças conter o sorriso que queria tomar meus lábios, fazendo-me morder o piercing.
— Você é uma pessoa terrível! — Neguei com a cabeça e ela deu de ombros.
— Nunca disse que não era... — entrou no carro, ainda sorrindo e me dando um tchauzinho pelo vidro.
Eu gargalhei leve e retribui o gesto, logo em seguida a mostrando o dedo do meio.

Cheguei em casa, quase de noite, sentindo-me incomodado de estar sozinho. Sentia falta de Arzaylea por ali, distraindo-me e me fazendo sentir quase completo. Mas ela estava longe e eu quase não sabia o que fazer.
Coloquei um filme na Netflix, deixando-me levar pela trama até uma cena aparecer, fazendo-me lembrar de quase que de imediato. Eu estava satisfeito que ela lembrava de tudo o que eu tinha falado e pelo modo como sorriu para mim, tinha acreditado nas minhas palavras.
Peguei meu celular, pronto para mandar uma mensagem, selando de vez a nossa amizade. Ou apenas queria que ela não se esquecesse de mim. Não sabia mais o que diabos era aquilo. A Arz tinha que voltar logo.
De qualquer forma, mandei a mensagem:
"Estou feliz que voltamos a ser amigos", foi o conteúdo. Simples e direto, como eu sabia que ela gostava. E como eu queria que fosse nossa relação dali em diante.



Continua...



Nota da autora: Oi, oi. Vocês devem ter reparado que faz um bom tempo que não tinha atualização de Sight of You e isso é porque eu estava reescrevendo a fic, mas ela já está de volta para vocês.
Espero que aproveitem e gostem tanto dessa nova versão quanto eu.
Boa leitura.



Outras Fanfics:
Best Years (5 Seconds of Summer)

O Disqus está um pouco instável ultimamente e, às vezes, a caixinha de comentários pode não aparecer.
Então, caso você queira deixar a autora feliz com um comentário, é só clicar AQUI.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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