Última atualização: 17/02/2021

Capítulo Único

A Lareira

O tilintar das pedrinhas de cristal de gelo, penduradas às janelas do hall da pequena pousada, era o vestígio da brisa de inverno. Novamente, nevaria. já estava tão acostumada com o clima frio e congelante de Winterland, que às vezes não compreendia quando os hóspedes reclamavam das baixíssimas temperaturas. Como era o caso naquele momento, onde o casal de jovens recém-casados acabara de passar por ela, reclamando do tempo.

— Senhorita , como consegue viver aqui o ano todo? – a mulher perguntou.
— Bem... Eu estou acostumada. Estou aqui desde criança, então, o frio não me incomoda. Na verdade... Ele faz parte de mim.
Uow, senhorita ! Que coraçãozinho gelado você tem! – o marido abraçado à mulher brincou e sorriu.

apenas continuou o que escrevia no caderno de reservas, sem ao menos sorrir de volta. O casal notou que a mulher não havia dado muita atenção ou que talvez não tivesse gostado da brincadeira.

— Er... Desculpe-me, senhorita . – o homem falou e trocou olhares com a esposa antes de mudar o assunto: — Bem, nós gostaríamos de saber se há pranchas de ski para alugar aqui.
Hm... Um momento. – resmungou e saiu para a salinha atrás do balcão da recepção, e retornou dizendo: — está na cabana. Levem isso a ele.

Ela estendeu duas plaquinhas com números diferentes, ao casal que pegou sem muito compreender. Sabiam que era o quebrador de gelos, e quem "limpava" as ruas de Winterland, pois, foi ele a primeira pessoa que o casal conheceu e que os levou até a pousada Olaf. Mas não sabiam que ele também trabalhava na pousada alguns dias da semana. O casal então saiu em direção à cabana ao lado da pousada, para provavelmente pegar os aparelhos com aquelas plaquinhas em mãos.
encarou o caminho que o casal havia acabado de fazer e suspirou cansada. Aquele tipo de pergunta, realmente era cansativo. Qual o problema das pessoas não entenderem que para ela, que era dona do lugar, o frio fosse tão comum quanto... Respirar. Era natural, não sabia o que era o verão, o calor ou qualquer outro tipo de sensação que não fosse própria do inverno. O mais próximo de calor na vida de , provinha das lareiras que tentava acendia para aquecer aos hóspedes.
Atenta ao caderno de reservas, notou que o movimento estava baixo naquele mês, e até sentiu-se aliviada. Poderia quase ter um descanso, já que eram poucos os hóspedes que não se ocupavam de ficar andando na neve ao lado de fora. Afinal, era por isso que as pessoas visitam o lugarejo: pelo eterno inverno de Winterland ao longo de todo o ano.
Ela começou a ajeitar a lareira do hall naquela manhã. Caminhou para os fundos da pousada atrás das lenhas que ficavam armazenadas em um local seco e sem ventilação. Pegou alguns tocos e caminhou lenta entre a neve, observando a imensidão de montanhas geladas e pinheiros brancos ao redor de todo o lugar. A pousada ficava em um lugar alto, e tinha a vista magnífica de todo o vilarejo, das montanhas de ski e também de parte da estrada que dava acesso entre as montanhas, para o vilarejo.
Enquanto observava os borrões de poucas pessoas no vilarejo, abaixo do cume em que ficava a sua pousada, indo apressadas de um lado ao outro, fugindo do frio ou se aventurando nele, outras poucas pessoas com trenós puxados por cães mais afastadamente, enquanto observava a vida comum lá embaixo... caminhou devagar até entrar. Quem quer que a visse encararia a cena com estranhamento. A mulher pouco agasalhada andando como se não sentisse a brisa gelada cortar o seu rosto. bateu os pés no gradeado da porta dos fundos, para retirar o gelo das botas e se direcionou novamente ao hall. Colocou as lenhas na lareira, mas ao tentar acender, novamente aconteceu aquilo: sua frieza a impedia de chegar perto do fogo.

— Droga... O que há comigo hoje? – se perguntou baixinho.

Murmurou com os lábios um resmungo e levantou-se batendo as mãos na calça e esfregando uma na outra. Vestiu suas luvas que estavam ao bolso, e tentou novamente, mas nenhuma faísca saia. Contrariada por ter que pedir novamente ao , pela terceira vez naquela semana, ajuda para acender a lareira, caminhou rumo à cabana.
O homem estava sentado na alta cadeira de observatório da pousada. Foi o próprio a colocar aquela cadeira lá, e como um salva-vidas de binóculo observava a tudo. Muitas vezes soava o alarme de socorro a algum desavisado que caía no lago congelado, ou era pego por alguma corrente de nevasca no topo da montanha. Desde que ele tivera aquela ideia, também se tornou um brigadista do inverno, e ajudava aos bombeiros com aquela pequena tarefa de observar e alertar, se preciso.

! – gritou abaixo o fazendo olhá-la rapidamente sorrir.
! Algum problema?
— A lareira!

A contrariedade era nítida na voz da mulher. Ele sabia que ela odiava pedir ajuda para aquilo, então deu uma última checada no ponto que observava antes: a estrada de acesso entre as montanhas e depois desceu.

— Desculpa te pedir isso de novo, mas eu realmente não sei o que está acontecendo.
— Tudo bem, sabe que eu não me importo. Mas, você está bem? Isso não é comum apenas quando você está passando por alguma situação? – ele perguntou preocupado já caminhando em direção à pousada ao lado dela.
— Sinto-me bem, não sei realmente o que pode ser. Na verdade, tenho estado bem desanimada esta semana, mas não há um motivo para isso diretamente.
— Talvez você precise descansar.
— É, talvez seja isso... E você viu algo lá de cima? – ela perguntou entregando a ele uma pederneira, que em sua mão não funcionava.
— Tem algo estranho na montanha sim, . Parece que vai desabar um pico de gelo no meio da estrada, e não deve demorar.
— Desabar? Mas para isso acontecer, o gelo teria que estar derretendo!
— Exatamente. Mas, eu tenho observado a montanha e a cada dia o pico parece menor.
— Isso é muito sério . Deveríamos falar com o prefeito?
— Não acho boa ideia. Você sabe... A suspeita do inverno indo embora de Winterland não seria uma boa situação na vila.
Hunf... – sorriu sarcástica — Eu ainda estou aqui . Não é como se o inverno fosse embora.

pronunciou e imediatamente o fogo pegou na lareira, logo na primeira tentativa de . Ele sorriu para a mulher que o sorriu de volta, mas logo fechou a cara e se afastou ao notar as chamas diminuírem por sua presença. E logo que se afastou o fogo incendiou alto novamente.

, talvez você devesse procurar ajuda de novo. – pronunciou se aproximando da mulher ao sofá do hall.
— Ninguém pode me ajudar, . Só o tal do verão, que aparentemente... Nunca me encontrará.

Flor do Inverno

estava servindo o chocolate quente pedido pelos hóspedes que haviam descido de seus quartos há pouco tempo, no hall quando apareceu agasalhada com a chave da sua camionete.

— Vai ao vilarejo irmã? – perguntou, se aproximou ao vê-la pegar o cachecol pendurado.
— Sim. Estamos sem ração fortificada para as renas, e o não poderá trazer.
— Ah sim, verdade. Hoje ele foi ao campo cortar lenhas...

A voz meiga de sua irmã ficava ainda mais doce quando falava de . então sorriu por estar cada vez mais nítido o quanto aqueles dois se gostavam, mas não assumiam.

— Você sempre foi uma mulher ousada, . Deveria dar o primeiro passo!
— Do que está falando?
— Declare-se logo para ele. também é apaixonado por você, mas... Ele é um homem tímido. Não vai arriscar um fora, e é um lerdo também!
— Não fale assim dele!
— Oras, não é mentira! Como ele pode ainda não ter notado que vocês se gostam se até os hóspedes cochicham isso por aí?

enrubesceu – outra coisa que achava adorável e nunca aconteceria com ela –, colocando a bandeja em cima do balcão, e se pôs a empurrar a irmã para fora.

— Anda! Vai logo!
— Já estou indo! – riu e antes de entrar no carro pronunciou: — Cuide da pousada direitinho.
— Eu não sou mais criança !

Deu partida risonha ao ver a irmã caçula bufar e bater o pé antes de entrar. Dirigindo devagar, desceu a montanha em direção ao vilarejo. Não era um caminho longo na verdade, assim que chegou à loja de rações percebeu algum tumulto diferente na porta da loja.

— Bom dia. – ela pronunciou e foi respondida com afeto e simpatia pelas pessoas.

era muito querida por todos na cidade, e acreditava ser por sua discrição já que não se sentia uma mulher muito simpática para ser querida. Na verdade, acreditava que era por que as pessoas lhe tratavam bem. Desde a infância as duas órfãs eram muito queridas na vila, a irmã mais velha sempre muito responsável, mas era a , a criança mais extrovertida. As duas foram criadas pela família de , e quando completou os dezoito anos, a jovem já tinha juntado dinheiro o suficiente para cuidar de si e da sua irmã. Apenas não sabia que os pais haviam lhe deixado uma pousada. Então, desde então, as irmãs eram donas da pousada Olaf.
entrou na loja e foi atendida como de costume pelo dono do estabelecimento. Ao sair da loja, vendo o homem levar os sacos de ração para a traseira de sua camionete, escutou um burburinho que lhe chamou a atenção.

— Como assim apareceu?
— Derreteu! O gelo derreteu e finalmente podemos ver as cores delas!
— Mas... Se elas tem cores... Significa que são flores normais!      
— Sim, sim! Meu avô estava certo em dizer que eram flores comuns tomadas pelo inverno… Mas, eu sempre acreditei na lenda da flor do inverno! E mais ainda: após todos estes anos, o gelo está derretendo!

aproximou-se confusa e surpresa do grupo de pessoas conversando, e perguntou:

— Desculpe, mas... Do que estão falando?
querida! – disse uma mulher que como as outras pessoas em volta deviam ter quase a mesma idade que a sua — As flores de inverno! Elas não estão congeladas, elas estão aparecendo!
— Como assim? Quantas? – perguntou surpresa.
— Eu não sei! Esta manhã eu tive este susto ao abrir a janela da minha cozinha e ver o meu jardim... Florido.
— Será que é a chegada da primavera? Será que o inverno vai finalmente acabar em Winterland? – um dos homens do grupo perguntou à moça que havia respondido à .

apenas despediu-se e saiu apressada para seu carro. Pegou seu rádio de comunicação e chamou por , que lhe disse estar a caminho da pousada.

! Tem algo estranho nos campos?
— Na verdade, tem sim . Já estou voltando para a pousada inclusive!
— Me espere aí! Estou indo até você.

Quando desceu de sua camionete, a aguardava ao lado de sua camionete também. A traseira já estava lotada de lenhas, e o homem de braços cruzados observava ao grande campo, repleto de flores campestres, coloridas e de grama verde. Aquilo era assustador. Há trinta anos que não se via nada além de gelo, em Winterland. se aproximou dele e pôde finalmente ter a mesma visão do homem, sentindo dentro de si um aperto muito grande.

! – ele bradou ao vê-la ao seu lado, catatônica: — Você está bem?
— O que é isso ? Por que o gelo está derretendo?
— Eu não sei. É estranho quando os seus poderes parecem descontrolados, não é? – ele olhou para as flores e novamente para : — Acha que isso que está acontecendo tem a ver com você?
— Eu não sei... Mas, a cidade dos meus pais neva desde que eu nasci. E mesmo por todos estes anos, nunca aconteceu algo estranho comigo ou com Winterland. Algo provocou a vinda de uma nova estação e não fui eu.

entendia o que ela dizia. Fazia muito sentido. Ele levou até a principal flor da cidade. Quando o vilarejo de Winterland começou a congelar, tudo começou por uma única flor de gelo. E a partir dela, todo o solo começou a congelar, e a natureza ao redor entrou no inverno, como um efeito dominó. No dia que a flor de gelo surgiu, foi também o dia em que nasceu. sabia que aquela flor, possivelmente estaria ligada a ela e se algo acontecesse com o gelo da flor magna, também aconteceria a ela. Somente e sabiam da existência da flor da lenda da cidade e sua localização, e por anos investigaram juntos em segredo, os mistérios dos poderes dela e descobriram aquilo: havia uma ligação entre a mulher e a flor, mas não era só aquilo. Ainda não haviam descoberto tudo!

— Graças! Ela não mudou! – falou aliviada olhando para logo que os dois entraram na caverna congelada.
— Acha ainda que você está ligada à flor?
— Acho... Mas, bem... Não terei essa resposta. No momento, precisamos descobrir o que está acontecendo com Winterland!
... – tocou no ombro dela afim de consolar: — Enquanto você ainda conseguir acender as lareiras tudo estará normal.
— Eu não sei ... Eu sempre tive o controle dos meus poderes, por que agora eles não me obedecem? Acender lareiras quando eu bem queria era o normal, mas agora é como se... Todo o inverno de Winterland estivesse vindo para mim...

a encarou preocupado. Aquilo era tudo muito misterioso e novo para eles. sorriu agradecida. Não sabia dizer se desejava se livrar ou não dos poderes gelados. Achava que sim, mas tinha medo. Afinal, o que aconteceria a ela, se por acaso ela se tornasse uma mulher comum como sua irmã?

O acidente da estrada

Há dias os burburinhos em Winterland não paravam. Como bem sabia , o vilarejo não estava preparado para o fim do inverno repentino. O prefeito estava preparando um mutirão de moradores para descobrir o que estaria acontecendo, e não poderia estar mais preocupada. Tirando , a família dele e , ninguém sabia dos poderes de . Por isso, quando a senhora Panfrey surgiu na pousada à procura de , ela não se espantou.
estava no observatório de novo, desde o dia que as flores primaveris surgiram, ele se prostrou a observar pacientemente as montanhas geladas de Winterland. Naquela manhã, acordou sentindo-se forte, porém mais desanimada do que de costume. notava que a irmã estava ainda mais pálida do que o normal, e seus olhos azuis pareciam clarear mais e mais. Perguntou se ela sentia-se mal, mas a resposta de era tão direta quanto contraditória à imagem: "— Me sinto ótima!".
foi até falar que estranhava como parecia ainda mais... Fria. E enquanto os dois se falavam, ao lado de fora da pousada, onde a caçula havia ido encontrá-lo: no observatório, os cristais da entrada da pousada tilintaram e saiu da sala de materiais para a recepção. A senhora Panfrey estava ainda parada a porta, com a mão abaixo dos cristas esperando para vê-los pingar.

— Eles não estão derretendo. Nada aqui no cume da pousada está derretendo, afinal. – a respondeu sorrindo.
— Querida! – a quase mãe adotiva dela se aproximou curiosa observando a palidez ainda mais forte de — Isso me deixa quase aliviada... Há tanto verde nascendo na vila que eu me preocupei se... Você estaria bem, .

As duas se abraçaram, e a senhora Panfrey antes que pudesse pensar, sentiu-se gelar.

Brrrrr... – a senhora Panfrey vibrou os lábios num claro sinal de friagem: — Como você está gelada!
—É... – sorriu sem jeito aproximando a mulher da lareira e se afastando antes que o fogareiro apagasse: — Eu tenho estado assim. Mais fria, mais gelada, e congelando tudo ao redor. Acho que é por isso que o degelo não chegou aqui na pousada.
— Mas... Você está se sentindo bem? Sua aparência não é das melhores e isso nunca aconteceu, não é? Você sempre controlou isso!
— Sim, mas... – pegou uma caneca e serviu-a do chá quente que ficava na garrafa térmica da recepção, em seguida foi entregar a senhora Panfrey, mas quando a mais velha olhou para o líquido, estava sólido. Encarou boquiaberta e preocupada e então a mais jovem deu um sorriso de auto-sarcasmo: — Aparentemente o inverno de Winterland está vindo para mim.
— Minha querida... Como iremos lidar?
— Eu não sei. e eu estamos tentando...

E antes que ela pudesse terminar de responder, o som da sirene do observatório soou junto a um grande estrondo. As duas direcionaram-se para fora dali quando viram o grande pico de gelo na montanha descer como uma avalanche ao longe.

estava certo! – bradou olhando a imensidão de gelo derretendo rapidamente e o burburinho de desespero soar lá embaixo na vila: — A montanha estava degelando!
— Será que nos atinge? – a senhora Panfrey perguntou preocupada segurando seu agasalho contra si cada vez mais apertadamente.
— Não mamãe! Vai bloquear a estrada, mas precisamos imediatamente fazer algo! – surgiu atrás de sua mãe a beijando em cumprimento, junto com e disse à : — Estou indo à vila, não saia daqui.
— Não irei a lugar algum, se precisar de algo me avise.
— Tenha cuidado ! – murmurou preocupada para o homem que sorriu e entrou na camionete apressado.

A senhora Panfrey pegou a mão da irmã caçula e sorriu. Sabia que ela era apaixonada por seu filho e fazia gosto dos dois, já não conseguia tirar os olhos da montanha. Em trinta anos havia gelo demais acumulado para ele derreter tão rápido. E o pior... Ainda não havia descido nem metade do que havia ali. Aquele era um grande risco para o vilarejo, e ao menos saberia se ela tinha culpa.
As três entraram de volta à pousada, os hóspedes estavam se agitando quanto aquilo, alguns preocupados com suas partidas, outros curiosos, outros deslumbrados. Enfim... Uma verdadeira confusão e nem mesmo poderia servir um cafezinho.
Depois de três horas de reunião com os bombeiros, o prefeito e parte dos moradores da vila, surgiu à pousada dizendo que iriam para a estrada liberar o gelo. Ainda não havia uma solução para a situação, mas precisavam liberar a estrada. Não poderiam esperar que aquele gelo também derretesse. E ficaram uma semana ali limpando. O que pôde notar ainda mais estranho, é que... Naquela uma semana todas as flores que haviam descongelado estavam ainda mais coloridas e vivas. E todas as plantas e natureza, estavam quase todas descongeladas. Preocupada, ela partiu novamente até a flor do inverno. Ainda estava intacta. também notou que a montanha onde e os outros estavam, derretia ainda mais. Ela assumiu o posto de no observatório, observando preocupada a cada dia da semana em que os homens estavam ali.

! – gritou a irmã com o binóculo ainda em seu rosto: — A montanha parece que vai descongelar novamente!
— Oh céus... – murmurou a irmã mais velha que estava ao chão observando, ao lado do observatório, o gelo distante e então pegou seu rádio comunicador a procura do amigo, que logo a atendeu: , como estão as coisas aí?
— Já estamos voltando, conseguimos tirar todos os grandes blocos caídos.
— Certo... Tenham cuidado, disse que a montanha parece ainda derreter.
— Pode deixar!

O cão socorrista do inverno

Na noite em que retornou à cidade, não conseguiu dormir. Estava à sacada de seu quarto, observando incessante a montanha. Algo estava a chamando para lá. E algumas ideias sem muito sentido começaram a rodear sua mente. Ela soube que se a montanha derretesse inteiramente como estava acontecendo, o vilarejo corria perigo de ser destruído, então imaginava que, se acaso fosse até lá, o mesmo frio que mantinha a pousada intacta seria capaz de manter também a montanha.
No dia seguinte, foi à reunião de moradores da vila. Observou o quanto as pessoas ainda estavam preocupadas, assustadas e sem a menor noção do que fazer. E se pegou numa saia justa quando lhe perguntaram por quais motivos o cume da pousada era, ainda, o único gelado.

— Eu... Não faço ideia... – ela mentiu.
— Claro que ela não saberia! – uma das vizinhas gritou batendo queixo e em seguida reclamando a todos: — Por Deus! Vocês não estão sentindo este frio?

respirou fundo e sem saber como iria disfarçar que o ar gélido provinha de sua presença. As outras pessoas então sentiram aquela estranha mudança no tempo. Afinal, há dias que não andavam mais agasalhados e agora, dentro da cabana da prefeitura era como se uma nevasca estivesse a chegar. Se saísse, todos perceberiam em seguida que o frio era culpa dela, já que a névoa dissiparia. Então permaneceu, e quando um garotinho abriu a porta da cabana para trazer novidades, o próprio menino não estranhou a temperatura, ele estava todo agasalhado.

— O inverno está voltando! – o menino gritou fazendo a sala se esvaziar e todos perceberem pouco a pouco as coisas congelando.

estava confusa! O inverno voltou ou era apenas por que ela estava ali? Imediatamente, assustada, ela entrou em sua camionete se colocando de volta à sua pousada. Mas mesmo lá de cima, ao descer do carro, percebeu que o gelo ainda estava voltando no vilarejo. Um lampejo lhe veio à mente: a montanha! Subiu apressada pela escada do observatório de madeira e quando estava lá em cima, pegou os binóculos de que ali ficavam e constatou: a montanha estava congelando de novo, aos poucos.
Precisava ir até lá! Desceu tão apressada quanto subiu e pediu para que tomasse conta de tudo. A irmã estranhou, mas não contestou e nem perguntou aonde iria. Seria indiferente perguntar já que tudo estava fora de ordem, e se soubesse de mais alguma coisa esquisita acontecendo, seria capaz de surtar! Os hóspedes ainda estavam fazendo uma confusão na pousada, por causa do acúmulo de checkouts causado pela avalanche de uma semana atrás. não soube onde estaria, o último lugar que o viu foi na reunião da prefeitura. Então, sem falar nada ela pegou sua camionete vermelha e pôs-se rumo à montanha.
Quando chegou ao ponto onde havia ocorrido a avalanche, estacionou o carro no acostamento da estrada e desceu. Tocou as paredes da montanha, o gelo da base estava duro como a própria pedra, e extremamente congelado. Aquilo era muito estranho, e sentiu que não tinha relação com ela. Algo a instigou a dirigir ainda mais pela estrada, e assim seguiu. A estrada dava a volta na montanha, e em certo ponto avistou um cachorro vindo em sua direção. Freou bruscamente, e o cão parou à frente do carro latindo forte. Então ela desceu novamente e se aproximou.

— Ei, garotão... Se acalme... – ela abaixou-se um pouco à altura dele, ainda afastada de forma segura e ao lado de seu carro, o cão latiu se aproximando e a deixou passar a mão em seu pêlo, e em seguida retornou correndo pelo caminho que viera, a fazendo se questionar: — Ele quer que eu o siga?

Sem estranhar, o seguiu dirigindo, e foi quando avistou outra parte da avalanche na estrada. E abaixo de todo o gelo, um carro. Desesperada ela caminhou até o automóvel vendo que dentro havia um homem desacordado, com poucos ferimentos, mas pálido demais. tentou abrir a porta mas ela parecia travada, de certa forma era bom, aquilo poderia ter impedido que ele se congelasse mais rápido. Foi em direção à sua caixa de ferramentas que estava na camionete, e pegou também à pá. Retirou parte da neve quase descongelada totalmente que impedia a porta de abrir, e em seguida com uma chave de fenda arrombou a tranca da porta. Assim que abriu, retirou o cinto de segurança dele, e o puxou para fora. Com esforço por se tratar de um homem bem mais alto e pesado do que ela, o arrastou em suas costas até seu carro, e o colocou sentado no banco do carona, tudo com muita dificuldade. Depois, puxou cobertores que sempre deixava ali atrás de seu banco e o cobriu. Também cobriu o cão que rapidamente entrou em sua cabine. Voltou ao carro dele e observou se poderia encontrar alguma bolsa ou mala, mas apenas achou seus documentos e telefone no painel.

! Onde está? – ela o chamou pelo rádio comunicador, afinal Winterland tinha um péssimo sinal para celulares.
— Na pousada! Aonde você foi?
— Eu encontrei um homem desacordado na estrada, atrás da montanha! Há outro pico da avalanche aqui!  Estou indo para a pousada, ele parece... – ela encarou o homem ao seu lado enquanto dirigia de volta — Bem mal! Vocês precisam vir aqui liberar a estrada e retirar o carro dele.
— Certo! Eu vou agora até os brigadistas! Você precisa de ajuda?
— Não, eu já estou o levando para a pousada!

E assim, socorreu , sem ter ideia de quem ele era.

O desconhecido da Avalanche

Dias depois do socorro, tudo estava normalizando novamente, inclusive a neve. havia dito para que acreditava que o inverno havia voltado para ficar, mas ela ainda estava achando tudo muito desconexo.

— Onde está o rapaz? – a perguntou sentado à cozinha com ela.
— Lá em cima, foi levar a sopa dele. Se eu fizesse isso ela congelaria.
— Ele já está acordado então! – felicitou-se e só então percebeu que não lhe tinha dito nada.
— Ah sim! Verdade, eu não te avisei. Ele despertou esta manhã, pedindo para ver quem o salvou. Eu mandei o cachorro dele, afinal, foi mesmo o cachorro, mas também fui até ele... Não sei por que, mas ele me causa alguma coisa...

escondeu um sorriso e o encarou confusa.

— O que é?
— Então encontramos aquele que vai derreter seu coraçãozinho de gelo, senhorita, ?
— Do que está falando?
— Ora vamos, ele até que é bem apessoado! – zombou.
— AH! – esbravejou um gritinho e encarou maldosa ao amigo à sua frente: — Vejamos se não é o cara que é apaixonado em segredo, pela minha irmãzinha há anos, e me dizendo esse tipo de coisa!
— Ei! Eu não... – ele iria retrucar, mas a expressão de foi firme o fazendo concordar: — Tudo bem, eu sou. Mas, não é como se ela fosse.
— Vocês dois sentem prazer em fingir que não se amam, não é? – a mulher disse e em seguida prosseguiu: — Enfim! O fato é que não estou falando disso, estou dizendo que tem algo nele que me enfraquece... Algo, com meus poderes, entende?

a olhou extremamente surpreso e em seguida suspirou abanando a mão no ar como se quisesse tirar aquela ideia da cabeça dela:

, seus poderes andam uma bagunça há semanas, não vai agora dizer que é por causa dele!
— Eu não sei ! Eu só... Sinto...

Dois dias depois de acordado, saiu da cama. Conheceu melhor a pousada, e embora sentisse vontade de se aproximar de , era quem ele mais via e falava. Até o dia em que decidiu ler um livro na lareira, ao lado de seu cão. Sentia que estava ficando forte de novo, e saiu com pela porta da pousada em conversas animadas e mal o notaram ali. Devido aos últimos acontecimentos, disse a ele que a pousada não estava recebendo hóspedes porque os turistas não estavam vindo. A prefeitura interditou as entradas até que  a situação das avalanches fosse avaliada por especialistas que vieram de fora.
chegou à recepção para organizar o quadro de chaves quando o notou ali, lendo. Percebeu que o fogo da lareira estava bem alto.

— Gostaria de ajuda, senhorita, ? – ele perguntou ao vê-la encarar a lareira tão concentrada.

o direcionou o olhar quase se arrependendo no mesmo instante. Ele tinha um largo sorriso branco, lindo e perfeito. A pele escura reluzindo próxima ao fogo e não sabia se era ele ou coisa da sua imaginação, mas um forte cheiro amadeirado tomava conta do lugar. Ele era extremamente... Solar.

— Não. Obrigada, pode... Continuar sua leitura.

Disse sem sorrir e saiu para fora da cabana. Sentia uma queimação invadir seu peito e quando olhou para a vila novamente, avistou pela primeira vez naqueles dias, as copas das árvores verdejantes de novo.

— Mas que droga! – ela murmurou.

Entrou para a cabana assustada com o que havia sentido e também com o fato de novamente perceber o degelo, e se erguia da poltrona, estava indo até seu quarto. ficou parada à porta e notou que a lareira diminuiu gradativamente quando ele saiu. Ela estava maluca, tinha certeza!
Várias outras vezes, em pequenos momentos perto do homem ela notou estas estranhezas. Como no dia que tudo estava novamente florido, e a montanha agora degelava com calma, e estava no cume de sua sempre congelada pousada observando tudo. surgiu ao seu lado lhe estendendo uma caneca de chá, e observando sorridente a beleza do lugar.

— Incrível como Winterland fica ainda mais bonita com essa mistura de gelo e flores coloridas. – ele pronunciou encarando o vilarejo e o olhou de soslaio — Mas, não é aqui que dizem nevar o ano inteiro?

Ele já sabia do que acontecia na cidade porque a própria o contou. Mas queria tanto aproximar-se de que não pensava em que tipo de assunto poderia puxar. A mulher era um tanto quanto fria e distante.

— Costumava ser. Mas não se sabe o que mudou isso.
— Bem... Talvez seja a hora dos moradores de Winterland conhecerem um pouco do verão, não?

o encarou duvidosa. Ela ainda tinha aquela curiosidade, mas ainda temia também por sua segurança.

— Eu realmente não sei como puxar assunto com você.

De repente confessou rindo sem graça, e ela olhou para o chão a fim de desviar do olhar dele. Notou a poça de água se formando sob os pés dele.

— Pode começar me dizendo porque por onde você passa... – ela parou de falar no mesmo momento.

Ele olhou para os pés, preocupado. Sabia que aquilo poderia acontecer quando decidiu visitar o vilarejo do famoso "eterno inverno", e sabia que talvez fosse ele a causa daquilo tudo. Mas como diria para sobre aquilo?

— Esquece... – ela desistiu de perguntar.
— Bem, eu vou entrar... Devo partir amanhã.
— Já? – ela perguntou subitamente.
— Sim. Eu vim para conhecer o eterno inverno ou descobrir a causa dele em Winterland, mas... Aparentemente eu não poderia.

pronunciou e saiu com um sorriso triste, deixando ainda mais curiosa e confusa. A mulher sentiu seu peito palpitar com aquela notícia, e de repente tudo ficou frio de novo quando ele se afastou.
Durante a noite, não parava de pensar nas inúmeras vezes que estranhou o fato de lhe passar tanto conforto, e como dizia que a pousada estava quente, o modo como os cristais de gelo de na porta derretiam, e a lareira ficava ainda mais forte na presença dele. E o fato de onde quer que ele pisasse que estivesse congelado, deixava um rastro de água. De repente, tão claro como a própria água, percebeu: era como ela, só que o oposto.
Levantou-se de sua cama e bateu à porta do quarto dele. Assim que ele atendeu ela entrou eufórica o perguntando:

— Você tem poderes!
— O que? – ele se fingiu confuso.
— Há quanto tempo estava à caminho da cidade? Quero dizer... As coisas aqui podem ter começado quando você estava vindo para cá!
— Senhorita , o que está dizendo?

a encarava  quase surpreso, e entendeu que ele não falaria nada. Ela viu a lareira do quarto dele acesa e pediu para ele se afastar o máximo possível dela. E sem entender o que ela faria, foi até a outra extremidade do quarto, enquanto ela se aproximou da lareira estendendo as mãos. Mas o que pretendia não aconteceu.

— Por que.. A senhorita queria aquecer as mãos? – ele perguntou confuso e ela se levantou desesperada dizendo:
— É você! É por sua causa! Você é o verão, você está expulsando o inverno!

havia sido  descoberto, mas não poderia dizer a verdade. Ele caminhou lentamente até , os olhos dela esbugalhados na direção dele, e então, cautelosamente ele pegou a mão dela e a encarou nos olhos:

— De onde tirou isso, senhorita, ?
sentiu suas bochechas quentes e não tinha mais dúvidas. Era ele. Só o verão poderia fazer aquilo tudo com ela e com Winterland.

— Você está derretendo o gelo do meu coração, porque eu sou o inverno, .

Ele pigarrou e encarou confuso a mulher. Era possível que fosse ela o inverno que ele buscava para se livrar daquela maldição?

— Eu... Eu até poderia acreditar, mas... – ele disse e então o interrompeu novamente:
— Só me diz, você é o verão? Só o verão pode me livrar do inverno eterno sem que eu morra.
— Talvez eu seja...

Os dois se mantiveram inertes encarando um ao outro. E depois de um breve momento, cada um contou sua história. sabia pouco da sua, já que seus pais faleceram quando ela ainda era criança, mas não. sabia de tudo e lhe disse o porquê foi até a Winterland. Quando soube do eterno inverno do lugar, ele teve a esperança de que ali estaria a flor de gelo que nasceu de uma maldição há trinta anos. A mesma maldição que recaiu sobre ele, deveria ter recaído sobre alguém. Ele apenas não sabia em quem. perguntou qual era o cerne dele, já que agora sabia que o dela era de fato a flor. E falou que seu cerne eram as fogueiras, e por isso elas nunca se apagavam perto dele. Quando ficou soterrado pelo gelo quase desfalecendo, o inverno estava voltando novamente para Winterland, mas graças a ele sobreviveu.
soube através dele, que não sabiam a origem daquela maldição e nem as razões por ela ter recaído sobre os dois, mas se um encontrasse o outro, as chances de se livrarem dela estavam garantidas. Só precisava de um beijo. Um beijo sincero. Não precisava ser um beijo de amor, mas deveria ser um beijo desejado pelos dois e consensual. Aquilo não seria difícil, se de fato soubesse que o queria. No momento em que lhe contou tudo, ela disse que precisava pensar e saiu do quarto.
Queria se livrar dos poderes? E se não se livrasse? E se ele partisse logo depois a deixando só com aquele quentinho no peito que ela sentiu por causa dele? tinha o dobro de medo agora. Mas foi ao ver e , sentados num toco em frente à pousada, pela janela do seu quarto que ela se decidiu. A irmã e o amigo finalmente haviam se declarado. Pensou que independente do que aconteceria com ela depois do beijo, e mereciam ver todas as estações do ano juntos, e como eles, as pessoas da vila Winterland, mereciam que aquele inverno de 30 anos se findasse. Todos ali mereciam ver de novo o que já existiu antes, e ela... Ela também merecia descobrir como era o mundo com outras estações.
bateu novamente à porta do quarto de , que surpreso a encarou sem nada dizer. Ela entrou e fechou a porta.

— Eu nunca fiz isso em toda a minha vida e acho que vai ser muito estranho. Mas... Eu também sinto que... Eu quero que seja você.

a entendia, apesar de não ser a primeira vez dele beijando uma garota, ou melhor, uma mulher, era a primeira vez dele beijando o inverno. E não sabia se ele novamente congelaria ou se ele a derreteria. O fato é que quando as mãos quentes dele tocaram a pele fria do rosto de , os dois desejaram fortemente aquele beijo. E depois de selar seus lábios, ao redor dos dois uma luz azul e amarela surgiu, fundindo-se numa única luz verde. Estava quebrada a maldição. Agora, e eram pessoas comuns e não sabiam da força daquele beijo até que se encararam conscientes de que não queriam nunca mais se separar.



FIM.



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