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Última atualização: 28/04/2021

ALERTA DE GATILHO: Talvez eu Queira retrata a síndrome de Estocolmo, que é um estado psicológico particular desenvolvido por uma vítima de sequestro, como no caso da nossa Protagonista Mellia. Quero deixar bem claro que eu como autora, não apoio esse tipo de comportamento na vida real, e quero lembra-los que isso não se passa de uma história. Se você não se sente bem lendo esse tipo de conteúdo, peço que pare ou nem comece para o bem da sua saúde mental, que é muito importante para mim.

Capítulo 1

Trabalho nessa espelunca de lugar chamado Café Avellaneda há dois longos anos, ganhando um salário muito abaixo do comum, considerando o de outras pessoas normais e que trabalham em lugares normais, o que claramente não é meu caso. Mas foi a única coisa que consegui na época. O lugar é sempre lotado e não me resta tempo nem para respirar, e sim, tem outros funcionários, mas como estou a mais tempo trabalhando aqui, a bomba sempre explode nas minhas mãos. O último cliente se levanta da mesinha e ergo as mãos aos céus. Pensei que ele dormiria aqui.
– Finalmente! – Falo alto demais e o cara me olha de lado, meio sem graça.
Fecho o caixa do café e vou ao meu armário nos fundos pegar minha mochila e tirar meu avental. Eu até que aprendi a gostar de trabalhar aqui, mas isso não significa que se eu arrumasse um emprego melhor não sairia daqui correndo. Hoje está bem quente e vou andando para casa, não posso me dar o luxo de pegar um táxi todas as vezes que estiver cansada, já que isso é praticamente todos os dias, então... E fazendo isso não me sobraria nada do meu salário. Dou risada de mim mesma, pego uma scrunchie vermelha da bolsa e prendo meu cabelo longo e escuro. O caminho para casa é bem tranquilo, moro a cerca de 2 quilômetros de casa. No começo, foi bem difícil, mas me acostumei rápido, porém sempre estou atenta, nunca se sabe.
A vila onde moro desde que nasci é bem grande, minha casa é simples, mas não posso dizer que é organizada, já que trabalho das 7 da manhã às 22 horas, de domingo a domingo, e minha mãe sempre está fora, principalmente à noite, e meu pai... Bom, meu pai tem uns certos problemas aí, e tem minha meia-irmã que não faz nada melhor do que compras e sai com velhos ricos para conseguir suas roupas de luxo. Resumindo: a casa é mais minha do que deles e por isso minha casa sempre está uma bagunça, o tempo de dar um jeitinho nela é quando chego do café. Pego a chave na bolsa e destranco a porta, vendo aquela típica bagunça, jogo minha bolsa em cima do sofá e pego meus fones de ouvido para começar a limpeza ao som da minha cantora favorita, Rosalía.

Quando termino, já passa das 1:30 da manhã e estou caindo de sono. Vou para o meu minúsculo quarto, as paredes são pintadas de um verde-água claro que a cada ano ficam mais claras devido ao desbotamento. E por mais que seja pequeno, gosto muito dele. Minha cama de solteiro fica ao lado da parede abaixo da janela com cortinas brancas, do outro lado fica meu guarda-roupa que tenho desde criança e minha penteadeira de madeira. Sento na minha cama e começo tirar o tênis quando batem à porta. Pensei que dormiria por lá, meu pai nunca chegou tão tarde como hoje, sempre trazem ele. Como somos conhecidos na vila, sempre tem uma alma de bom coração que traz ele até em casa seguro, quando não dorme por lá mesmo. Corro pela casa para abrir a porta.
– Boa noite, senhor! – Abro a porta, pronta para a bomba de hoje.
– Boa noite! Bom, como ele não consegue ficar em pé, como pode ver, vim trazê-lo. – Como se eu não soubesse… O senhor tenta empurrar meu pai para dentro e eu o ajudo segurando no outro braço. Antigamente eu sentia muita vergonha das pessoas trazerem meu pai em casa bêbado como agora ou quando eu ia à escola e no caminho o via jogado na sarjeta de algum bar, mas cenas como essas acontecem tanto que eu já me acostumei. Finalmente colocamos ele sobre o sofá e ele não para de falar, mas nem ouso prestar atenção.
– Tenha uma boa noite, senhor! – Cumprimento a alma de bom de coração de hoje e ele se vira nem respondendo. Entro em casa e fecho a porta, vou até a geladeira, pego a jarra de água e encho o copo para levar para o meu quarto.
– Você e sua mãe são iguais. – Meu pai grita meio enrolado do outro lado, jogado no sofá, e me viro para o ver falar as baboseiras de sempre.
Sí, papá, afinal de contas, ela é minha mãe. – O respondo e passo pela sala, indo em direção ao meu quarto.
– Você sabe do que estou falando, não de merda de sangue. Você não vale nada como ela. – Sinto o aperto repentino no coração característico de todas as vezes que ele me diz coisas como essa. A verdade é que, como todas as outras coisas costumeiras que acontecem na minha vida, eu ainda não me acostumei com isso. Meus olhos começam a se encher de lágrimas e decido não escutar mais coisas como essa, começando a fazer meu caminho para o quarto.
Piraña. – Meu pai grita da sala e minhas lágrimas já não se seguram mais, rolando pelo meu rosto. Aperto o passo, entrando no meu quarto, trancando a porta, coloco o copo de água sobre o criado-mudo ao lado da cama e vou para o banheiro, tirando minha roupa.
Entro no chuveiro e sinto a água gelada tirar o peso do meu dia, as lágrimas ainda estão aqui e sinto o sabor salgado descendo até minha boca, e a voz do meu pai dizendo tudo aquilo não sai da minha cabeça, pego o shampoo e começo a lavar meu cabelo.
Depois do banho mais esperado do dia, vou até meu guarda-roupa e pego meu pijama favorito, branco com caveiras mexicanas e rosas, e o visto, pego meu celular e mando uma mensagem de boa noite para minha melhor amiga, Jess. Me jogo na cama como se não houvesse amanhã e não demoro muito para pegar no sono.

Eu achei que estava em um sonho, que eu estava acordando lindamente pronta em um quarto todo bonito e com paredes de um tom escuro de cinza, com o despertador tocando. Mas, na verdade, o meu despertador está tocando de verdade e pela as batidas na porta deve fazer um tempão, e não eu não estou linda, estou mais cansada do que quando eu me deitei, e estou no meu quarto mesmo. Me levanto e me espreguiço, pegando o meu celular para desligar o barulho irritante e vejo a hora.
Mierda! – Dez minutos atrasada, não vai dá para tomar nem um banho. Corro para abrir a porta do quarto e dou de cara com Cassie, minha meia-irmã.
– Caralho, dá pra desligar essa merda? Eu cheguei a uma hora e preciso dormir. – Cassie puxa a porta na minha cara e me viro correndo para pegar minhas roupas para me vestir e fazer minha higiene matinal.
Cassie me odeia porque minha mãe está com meu pai até hoje, e acho que é mais pelo motivo de eu existir. O pai de Cassie morreu quando ela era pequena e um ano depois minha mãe se casou com meu pai, já grávida de mim, e minha meia-irmã, mesmo desde pequena, cresceu sendo rejeitada pelo meu pai por não ser filha dele, mas a verdade é que nem mesmo eu sendo filha dele escapei de passar por isso, como podem ver.
Pego minha mochila e calço meu tênis, saindo pelo corredor. Meu pai está dormindo ainda no sofá, destranco a porta tentando fazer o mínimo de barulho possível e passo pela porta afora. Me viro e deparo com um carro diferente do que estou acostumada a ver encostando na frente de casa. Se Cassie e papai estão em casa, a única que falta chegar é Mamá. A vejo descer do carro toda desajeitada, com uma saia de lantejoulas prata, top cropped e um salto vermelho.
Buenos días, mi muñeca. – Ela vem para meu lado e consigo sentir de longe o cheiro de bebidas e cigarro.
– Bom dia, mamá. – Ela me abraça e seguro a respiração. – Ok, mãe, eu tenho que ir, estou atrasada. – Ela me solta e arrumo minha blusa, começando a caminhar quando ela me grita, mesmo eu ainda estando tão perto.
– Mell, estou precisando… – Ela faz o gesto que todos conhecem, unindo o dedo indicador com o polegar, sim, ela precisa de mais dinheiro.
– Vou ver o que consigo, mamá. – Minha mãe joga um beijo no ar e viro as costas, seguindo o meu caminho até o café, apertando o passo mais do que posso.

Chego ao café e dou de cara com Tom, meu chefe mão de vaca. Ótimo, vou começar o dia levando reclamação do chefe. “Senhorita Mellia, são 07:30...” Me recordo da frase que Tom sempre me fala quando chego atrasada, mas ele me interrompe no meio dela.
– SENHORITA MELLIA, SÃO 07:30. QUANTAS VEZES TENHO QUE FALAR QUE VOCÊ ENTRA ÀS 07 HORAS? – Dessa vez não teve nem como completar a frase, mais que saco, como se fosse todos os dias. Tá, é a maioria, mas não todos os dias, então…
– Desculpa, senhor Tom. É que… – Tento dizer qualquer coisa que me venha na cabeça, mas ele me corta novamente.
– Tá, tá, tá. – Ele me empurra uma bandeja cheia de copos sujos e pego rápido para não deixar tudo cair no chão. – Preciso ir, confio em você, Mellia. – Tom sai às pressas pela porta da frente e não deu nem tempo de pedir o adiantamento do meu salário. Coloco a bandeja na pia e vou até o armário, deixando minha mochila e pegando meu avental.
Cumprimento meus colegas de trabalho e começo a fazer os pedidos e todas as outras mil e uma utilidades que faço toda as manhãs. Paola é funcionária nova, não a conheço muito, mas os homens ficam babando por ela, com seu cabelo loiro cacheado e com seu corpo de modelo. Não peguei muita intimidade com ela ainda, mas parece ser uma garota legal. E tem o Alonzo, eu não sei como que diabos ele ainda trabalha aqui, está sempre arrumando confusão com os clientes, ainda mais as meninas. Ele é do tipo que pega geral, se aproveitando do corpo musculoso dele para conquistar as garotas. O sonho dele é ser lutador. Eu e Alonzo entramos quase juntos, por isso o conheço mais, e vamos dizer que, no começo, ele ficava dando em cima de mim, palavras da Jess, eu mesma nunca vi isso. Ou talvez eu só seja ingênua demais para perceber. Meu celular vibra no bolso da minha calça jeans e coloco a caneta e bloco de notas no bolso da frente do avental.

“Me diz que está pronta.”
Jess

“Você sabe que estou no trabalho, né?”

“Eu sei, sua chata, consegui uma coisa para você.”
Jess

“O quê?”

“Você não vai acreditar... Mas eu consegui uma entrevista de emprego para você.”
Jess

“Jess! Eu tô trabalhando, eu já cheguei atrasada hoje. Não dá pra me zoar outra hora?”

“Mellia López. EU TO FALANDO SÉRIO. Vou te pegar aí às 15 horas, esteja pronta, a entrevista é às 16 horas.”
Jess

“Como assim? Eu... Para de brincar comigo, Jess. E eu não posso sair.”

“Você vai desistir sem nem mesmo ter começado? Menina, pensei que você queria ser empresária de verdade.”
Jess

“Tá, eu dou um jeito, mas preciso ir agora. Jess, espero que não esteja brincando comigo, de verdade. ADIÓS!”

Meu Deus, juro que se a Jess me fizer sair do serviço para fazer algo à toa... Eu a mato, juro que mato. Minha amiga Jess é muito divertida, mas divertida ao extremo. Às vezes fica até difícil confiar nela, porque ela está sempre brincando com todos. Mas me lembro do nosso pacto, que fizemos alguns anos atrás: nunca brincar com os sonhos uma da outra. Então quer dizer... Deus... É verdade. Corro até Alonzo e peço a ele para me cobrir mais tarde e meus olhos enchem de lágrimas, será que finalmente vou conseguir um trabalho melhor? Tantas dúvidas e perguntas me vêm em mente, mas respiro fundo olhando as mensagens novamente e me concentro em fazer tudo mais rápido possível para ir para casa me arrumar.

Estou impaciente na calçada de casa esperando por Jess, que parece nunca chegar. Por sorte, minha mãe estava dormindo quando cheguei e eu me arrumei o mais rápido que pude. Coloquei uma calça social preta com uma blusa nude e um blazer preto por cima, um salto médio nude. Bom, Jess não entrou em detalhes para fazer surpresa, como sempre, mas disse que é em um escritório, então mais formal do que isso, impossível.
Finalmente Jess encosta em frente de casa e eu quase me jogo dentro do carro dela, fazendo com que ela risse de mim.
– Tá, vou te explicar tudo antes que você me encha o saco, e não vou pode te esperar, tenho uma prova na faculdade. – Jess vai direto ao ponto. – Na verdade, uma amiga da faculdade que me falou sobre essa vaga, parece que o tio dela, sei lá, é dono dessa empresa e o CEO de lá está precisando de uma assistente. Não sei quanto vai pagar, mas a família dela é podre de rica, então deve ser algo melhor do que você ganha, com certeza.
– Sem graça. – Dou um tapa de leve no braço dela. Ela dá partida no carro e saímos rindo de felicidade. Minhas mãos suam de ansiedade, foram tantas vezes em que sonhamos acordadas... Ela seria uma escritora famosa e eu, uma empresária de sucesso, e finalmente estou um passo mais perto disso.
Chegamos ao escritório de... Sei lá quantos milhares de andares isso tem, e Jess me pede para falar com uma tal de Maitte. Entro no elevador e me olho no espelho das portas laterais, ajeitando meu cabelo que não está colaborando justamente hoje, eu sou muito vaidosa com a minha pele e cabelo, mas de acordo com o que cabe no meu bolso, claro.
O elevador se abre e quando coloco o pé para fora dele, uma mulher vem imediatamente até mim.
– Prazer, Maitte. – Ela se apresenta pegando na minha mão.
– Prazer, Mellia López.
– Adorei seu nome. Venha, o senhor Cuevas já vai te atender. – Caminho atrás da mulher, muito bonita por sinal, de cabelo preto, liso e curto na altura do pescoço. “Se concentra, Mellia”, mentalizo comigo mesmo, “você pode”. A mulher para em frente a uma porta enorme com um desenho esquisito na porta, parece uma gota de sangue escorrendo com as letras CS. Que bizarro. A porta se abre e um homem alto e moreno vem em minha direção.
– Senhorita López, prazer em conhecê-la. – Ele me cumprimenta, pegando na minha mão.
– O prazer é meu, senhor Cuevas. – Ele aponta a cadeira em frente à dele para que me sente, e me sento rápido.
– A senhorita foi bem indicada pela minha sobrinha... – A porta se abre novamente, mas com um estrondo horrível, e me viro assustada para olhar.
– Mas que porra foi isso?! – O senhor Cuevas se levanta rapidamente, olhando para a porta que acabou de levar um tiro. “Meu Deus, o que está acontecendo?”, me pergunto. Um homem todo tatuado, com uma jaqueta preta, passa pela porta que acabou de destruir.
– Ops, foi mal, Cuevas. – O cara fala como se fosse normal, e o mais estranho, ou não, é que o senhor Cuevas está mais branco do que os papéis da mesa dele, e agora não sei se corro ou fico aqui parada. E as surpresas não param de chegar, entra um homem mais velho atrás do cara tatuado.
– Sebastian, tenha modos. Você não tá vendo a moça? – O senhor diz e nossos olhos se encontram.


Capítulo 2

Só pode tá de brincadeira. Com que tipo de gente essas pessoas trabalham? Ou melhor, que tipo de negócio eles teriam para chegarem em uma empresa dando tiros? Começo a me encolher na cadeira desconfortavelmente. Independentemente do tipo de negócios que eles tenham, com certeza eu não quero participar disso. Me levanto rapidamente e coloco minha bolsa no ombro.
— Desculpe, senhor, mas creio que tem assuntos mais importantes. — O esquisito com cara de encrenca não para de me olhar estranhamente.
— Peço perdão, senhorita, mas… — Senhor Cuevas começa a dizer, mas é interrompido pelo senhor de cabelos grisalhos.
— Cuevas, não nos poupe de mais trabalho, tudo é fácil de se resolver. — Começo a caminhar até a porta antes que as coisas fiquem mais estranhas, mas antes de chegar até lá, o estranho tatuado se coloca na minha frente. Deus, é agora que vou morrer, não tive a chance nem de ser contratada.
— Onde você pensa que vai? — Diz o maluco que deu um tiro em uma empresa cheia de pessoas. Ele tem uma voz firme, mas arrisco responder. Adeus, mundo, minhas mãos começam a tremer.
— Que eu saiba, você não é meu pai, muito menos minha mãe, levando em conta que você não está de salto. — Enfrento o cara à minha frente, como merecido. Ele ergue uma sobrancelha e revela um sorriso de lado. Não vi nada de engraçado para ele estar rindo da minha cara. Ele tem um sorriso fechado, mas confesso que é bonito.
— Ora, ora, ora...Tem certeza que vai contratar essa garota, Cuevas? — Quem ele pensa que é para me analisar? — Educação zero, viu? Me senti constrangido aqui. — Agora deu mesmo. Tento passar por ele, mas falho miseravelmente. Conta até três, até três, Mellia.
— Primeiro: quem você pensa que é para chegar dando tiro na empresa dos outros? E segundo: eu vim para trabalhar para o senhor Cuevas, e não para vocês, então, não te devo satisfação. — E quando ele tira a mão do bolso da jaqueta eu tenho certeza, agora não vou ser contratada mesmo, pois vou estar morta. Ele insiste em me olhar dos pés à cabeça, mas aproveito para sair correndo porta afora. Corro sem ousar olhar para trás e as pessoas estão olhando para mim, como se eu fosse a louca aqui. Será que ninguém percebeu? Chego até o elevador e começo apertar vários botões, que são basicamente todos inúteis. Por que o inferno desse elevador não abre?! Alguém toca no meu ombro e me gelo toda. Não vou olhar, não vou. Tenho certeza de que é aquele doido.
— Mellia?
— Ah, é você, que susto. Você tá bem, né? — Pergunto a Maitte, ainda apertando nos botões.
— Sim. — Ela diz um sim meio rindo, mas não entendo o porquê. — Olha, não se preocupe, ok? Nós vamos remarcar a entrevista e eu entro em contato.
— Senhorita Maitte, com todo respeito, mas o que te faz pensar que eu ainda quero trabalhar aqui? Você viu…
— Querida, não se preocupe, o senhor Cuevas trabalha com vários clientes diferentes. Acontece. — Ela diz com naturalidade, como se fosse normal uma pessoa chegar nos lugares desse tipo. Finalmente o elevador se abre e me despeço de Maitte. Entro no elevador, me aproximo do teclado na lateral do elevador e o vejo o tal Sebastian na porta que ele mesmo fez o estrago, encostando seu coturno preto na porta quebrada. Arrisco olhar para seu rosto, mas sou interrompida pela porta do elevador se fechando.

Chego em casa, me jogo no velho sofá e pego meu celular para contar tudo a Jess, que fica chocada com toda a história, mas, no final de tudo, acabou agindo como a minha Jess sempre age, rindo dos meus traumas da vida. Conheço a Jess desde que estava no ensino fundamental, a nossa amizade é, digamos, aquele clichê de séries antigas: a invisível por todos, que no caso sou eu, e a novata vida louca que chega para revirar a escola de ponta cabeça, colocando todas patricinhas em seu devido lugar. A verdade é que antes da Jess chegar, eu era a boneca das meninas metidas do colégio. Elas faziam o que bem entendiam comigo e eu, como uma boa garota que queria ser querida por todas, deixava elas zombarem de mim. Eu queria ser amada pelo menos na escola e por isso deixava as meninas da escola brincarem comigo, porque, na minha cabeça, naquela época todas as pessoas iam gostar mais de mim se eu fosse boa o suficiente para eles. E quando a Jess chegou com a pose de durona dela, pisando duro na escola, parecendo uma pequena emo, com seu cabelo loiro no meio das costas, seus olhos azuis pintados de preto e seu coturno preto, eu entendi tudo isso. Foi ela quem me fez entender que eu não preciso mudar o que eu sou para ninguém e que se as pessoas realmente quiserem ser minhas amigas, iriam me aceitar do jeito que eu sou. E se elas não quisessem, estava tudo bem, porque eu já tinha uma nova amiga. E de lá para cá, nunca mais nos se separamos e somos a âncora uma da outra.

Depois de fazer um sanduíche e devorar ele inteiro, vou para o quarto, arrumo meu pijama e coloco em cima da cama, quero deitar mais cedo para descansar, mesmo que não tenha feito quase “nada” hoje. Quero aproveitar que pelo menos uma vez na vida me forcei a ter uma mini folga. Entro no banheiro e começo a me despir, me recordando da cena de hoje. Quanta loucura, e mais loucura ainda eu responder um cara daquele tipo. No mínimo, deve ser traficante, para andar com uma arma, atirando quando lhe dá na telha. Imagino que tipo de negócios aquela empresa deve ter com aquelas pessoas. Mas uma coisa é certa: eu realmente quero trocar de trabalho, eu preciso disso. O banho dura mais que esperado e já ouço os gritos histéricos de mamá com meu pai. Paz era tudo o que eu desejava para esse resto de dia, só que isso pelo visto não será possível.
— Você é a porra de um bêbado estúpido. Só isso que você é! — Escuto mamá repetir isso por tanto tempo que já não fico mais surpresa. Por que tudo na minha vida é assim?!, pergunto a mim mesma. Ouço mamá batendo duro seus saltos finos de sempre em direção ao meu quarto e me jogo na cama para fingir que estou dormindo, não que isso funcione sempre, porém tento. Fecho meus olhos bem firme, se eu me render, eu sei o que ela vai perguntar. Ela abre a porta como se estivesse chutando ou... Portas, qual o meu problema com portas?!, me recordo da cena de hoje novamente, mas continuo quieta.
— Não me faça de besta, Mellia, eu sei que você está acordada. Cadê o dinero? — Me levanto devagar fingindo sonolência. Que Deus me ajude.
¡Buenas noches! — Minha mãe me olha com uma cara de desprezo e passa a mão pelo cabelo, mas permanece em silêncio. — Mamá…
— Mamá, mamá, mamá. Você não sabe falar outra coisa, menina? Eu falei que precisava do dinheiro, não falei? — Eu sabia que ela iria ficar irritada, mas eu realmente fiquei tão empolgada quando a Jess me falou, que não me lembrei.
— Desculpa! É que cheguei atrasada hoje e…
— Eu não quero saber se você chegou ou não, eu não ligo. Eu quero a porra do dinheiro na minha mão amanhã. — Ela grita e abaixo a cabeça, meus olhos enchem de lágrimas, mas me seguro para não chorar na frente dela e deixar tudo pior.
— Mãe, eu não sei se o Tom vai me adiantar o pagamento, até porque… — Tento explicar, mas novamente ela me interrompe, jogando a bolsa no chão e vindo até minha cama. Ela pega minhas bochechas, apertando, e sinto suas unhas grandes arranhando minha pele.
— Eu não quero saber. Rouba do caixa, não sei, se vira. — Minha mãe diz me olhando nos olhos e já não consigo conter as lágrimas. E ela me solta depois de dizer na minha cara para roubar. E tudo isso só para que ela se mantenha com seus luxos. — Mellia... — Ela se afasta de mim, pegando a bolsa do chão e me olha dos pés à cabeça. — Eu tenho pena de você. Olha só para você tão... Tão feia e fraca. — Ela se vira e bate a porta atrás dela.
E é isso que eu passo por longos 21 anos. Me deito na cama e me debruço, olhando pela janela semiaberta, os galhos da árvore se balançando, e me desabo em lágrimas novamente, deixando toda dor desses anos causados pela minha própria família me derrubar.

Amanhece e me olho no espelho do banheiro. As olheiras me lembram da noite passada, ontem fiquei tão atordoada que devo ter dormido chorando.
Chegando ao trabalho, não tive coragem de pedir um adiantamento para meu chefe e acabei optando por pedir emprestado para Alonzo. Não tinha outra opção, tendo em vista que pode ser que eu nem trabalhe mais aqui até o dia do próximo pagamento. Pego a bandeja de cima do caixa e levo até a cozinha, me sentando na banqueta de madeira para tirar uns minutinhos de descanso. Jess me ligou mais cedo dizendo que eu deveria contar para minha mãe, pelo menos, sobre a entrevista, mas minha mãe não me deixou terminar uma frase sequer, e na verdade nem sei se é uma boa ideia contar. Eu e minha amiga combinamos de sair hoje depois do meu serviço, ela anda sempre ocupada com a faculdade e não temos muito tempo de nos ver.

Quatro dias se passam como de costume, naquela mesma sincronia: casa, trabalho, casa e trabalho. Meu celular apita e o pego do bolso da calça jeans, é um e-mail.

Senhorita Mellia.
Creio que posso chamá-la assim. Dadas as circunstâncias da sua última visita à empresa, e como havia mencionado que entraria em contato com você, venho através desse
e-mail informá-la que infelizmente o cargo já foi preenchido.
Sinto muito!
Maitte


Ótimo, mais uma chance jogada aos ventos, mas eu sei que foi tudo culpa daquele tatuado metido a traficante. Mierda! Eu não tive nem mesmo tempo de esquentar a minha bunda na porra da cadeira, quando aquele idiota chegou. Ódio é a palavra certa para o que estou sentindo agora. Encaminho o e-mail para Jess, jogo meu celular dentro do meu armário e volto a fazer o meu serviço na linda cafeteria de onde parece que nunca vou sair. E eu burra, toda contente, contando que sairia daqui.

Já passa da meia-noite e eu deveria dormir, mas estou tão viciada nesse livro que peguei emprestado na livraria que nem sinto sono. Hoje foi um dia muito estressante e eu precisava relaxar, tirar meus pensamentos negativos da vida, então entrei de cabeça e mente no livro. E que saudade que eu estava de ler um bom livro, mesmo não tendo tanto tempo quanto eu gostaria. Ouço a campainha ecoar pela casa e, como já sei quem é, demoro mais do que de costume a me levantar, calço os meus chinelos surrados, caminho lentamente pela casa e respiro fundo para abrir a porta para o meu pai caindo de bêbado como todos os dias. Destranco a porta e a abro, dando de cara com um homem forte e alto, de terno, com um buquê de rosas vermelhas.
— Boa noite. — Só pode ser brincadeira, agora os machos da minha mãe ou Cassie enviam flores para elas em casa?!
— Boa noite. Acho que está no endereço errado.
— Senhorita Mellia? — Tá, agora com certeza é engano mesmo.
Si?! — O cara alto me entrega o buquê, vi que tem um envelope preto, mas mesmo assim resolvo perguntar.
— Quem enviou? — O cara alto se vira rapidamente e caminha de volta até a van preta. OK! Entro em casa e tranco a porta novamente, coisa mais esquisita. Nunca recebi flores, lógico, mas essas rosas são lindas.
Coloco o buquê em cima da mesa, pego o envelope preto e abro, retirando um papel pequeno.

5 DÍAS.


Capítulo 3

O que diabos 5 dias significa?!
Me pergunto, olhando o verso do cartão que não tem mais nada escrito a não ser 5 dias. Estou confusa agora, o buquê era para mim ou não?! Mas o moço falou meu nome corretamente. Puxo a cadeira e me sento, olhando as lindas rosas à minha frente. Só pode ser engano. Primeiro: que quem me mandaria flores?! Segundo: quem em sã consciência manda flores a essa hora?! Terceiro e mais esquisito ainda: não sei o que significa “cinco dias”. Mas vou ficar com elas, até porque não teria como devolver. Me levanto e vou até o armário para pegar um vaso e o encho com água. Coloco todas as rosas no vaso de vidro, pego o envelope com o cartão esquisito e o rasgo em pedacinhos, jogando-os no lixo.
Coloquei o vaso na cabeceira da minha cama e não paro de olhar. Todo o lugar agora está cheirando ao perfume das rosas, o pequeno lugar agora ficou com um toque mais aconchegante, parece que era a única coisa que faltava para completar meu pequeno e velho quarto. É melhor eu esquecer dessa loucura e ir logo para a cama ou aposto que amanhã quem irá me acordar gritando novamente vai ser Cassie.
Queria tanto continuar lendo, adoro quando pego um livro que a leitura flui super bem e fico tão apegada que não quero largar mais, assim como agora. Mas o dever fala mais alto.

1 ano atrás

— Mellia, sinto muito. — A coordenadora me diz. De novo não. Isso não pode estar acontecendo de novo.
— Pessoal, podem sair. Mellia, você pode ficar, por favor? — A vontade que eu tenho agora é de não existir mais. Mas permaneço no lugar, paralisada com a notícia. — Não tem problema, ok? — A coordenadora fala como se fosse fácil. Como me sinto mal por passar por isso de novo.
— Tem problema sim. Quantas vezes vou repetir a mesma série? Eu não aguento mais isso. — Vejo todos meus colegas de sala novamente se formar e eu não. Como isso é doloroso, sabendo que a culpa não foi minha.
Me levanto da cadeira, pego minha mochila e saio correndo pelos corredores da escola. Não posso deixar que me vejam assim, com cara de choro. Mas não consigo me controlar, não nesse momento.
O sinal da escola toca e aquela multidão sai por todas as portas, e as pessoas trombam umas com as outras. Chego finalmente até a porta de saída da escola e o vento frio vem com toda força no meu rosto, como se fosse um tapa. Continuo a correr e a alça da minha mochila cai, fazendo com que todos os objetos contidos nela se esparramem pelo chão. Me abaixo rápido, recolhendo tudo e jogando dentro da bolsa, mas escuto os saltos chegando perto demais de mim.
— Ah, desculpa, Mellia acho que pisei nesse... — Rebeca pisa de propósito no maldito boletim escolar. Tento puxar, mas ela pressiona mais o salto sobre o papel.
— Oi. É, eu tenho que ir agora. — Murmuro a desculpa mais tola que posso para me livrar dela.
— Claro. — Ela se abaixa e puxa o papel de debaixo do pé feio dela. Ótimo agora o mundo todo vai saber. — Deus Mio! Você reprovou de novo. — Ela diz algo óbvio, visto o enorme carimbo vermelho no boletim. Me levanto e tento pegar da mão dela, que se desvia rápido. O que ela tem a ver se eu reprovei ou não? Já não somos mais “amigas”. Na verdade, nunca fomos.
Tento pegar novamente, mas ela se esquiva.
— Você pode me entregar, por favor?
— Ah querida, você sabe que não. — Como não?! Fico cara a cara com ela e ela dobra o papel e coloca no sutiã, como se já não fosse vulgar o suficiente. Tento pegar novamente, não me importando com o lugar, mas ela segura minha mão e aperta com as unhas vermelhas grandes.
— Não encosta em mim. Se queria o papel só para você, deveria ter guardado com mais cuidado. — Agora ela tá me machucando. Puxo minha mão e decido acabar com essa conversa logo.
— Olha aqui, Rebeca, me devolve ou vou ser obrigada a comentar com outras pessoas para quem o seu “namoradinho” fica mandando mensagem. — Se era confusão que ela queria... E ela me dá um tapa na cara e segura agora meu cabelo de lado.
— Eu não preciso de papel nenhum para mostrar para as pessoas o quão burra você é. Então eu vou te soltar e você vai ficar quietinha. — Ela tira a mão do meu cabelo e permaneço quieta. Ela pega o papel do sutiã, o joga no chão novamente e sai como se nada tivesse acontecido.
E é por essa e outras coisas que não suporto mais essa escola. Sinceramente, devo os parabéns para os belos pais que tenho, que invés de dar apoio e um lar decente, me exploram e me fazem trabalhar e, por conta disso, eu, mais uma vez, estou reprovada.
Eu nunca tive e provavelmente nunca terei uma vida normal onde seus pais te dão comida, algo quente para vestir em dias frios, te levam na escola e todas essas coisas que pais fazem pelos filhos. Comigo tudo é ao contrário, eu que tenho que trabalhar, eu pago as contas de casa, eu coloco comida na mesa e eu nem saí da escola ainda.

Dias atuais

Jess está buzinando sem parar na frente de casa e nem estou atrasada. Ela faz isso para irritar minha irmã e minha mãe. Confesso que adoro. Pego minha bolsa verde e passo pela porta, não sem antes olhar como aquelas rosas caíram bem ali. Saio da minha casa e vejo o carro da minha amiga parado na frente. Ela abre um sorriso sapeca.
— Entra aí, colega. — Jess e suas palavras esquisitas, cada dia ela vem com uma coisa diferente.
— Pensei que você era minha melhor amiga. E não colega. — Alerto ela.
— E qual a diferença? — Meu Deus a faculdade está acabando com o resto de mentalidade que ela tinha.
— Então, já que somos somente colegas, não vou te contar uma coisa que aconteceu comigo ontem. — Na verdade, hoje. Já era mais de meia-noite.
— Você sabe que você é mais que isso. É minha irmã de pais diferentes. Graças a Deus! — Gargalhamos juntas.
Conto tudo para ela sobre o buquê e na hora que falei o que estava escrito no cartão, ela riu da minha cara. Claro. É tosco demais.

Chegando ao trabalho, coloco meu avental e sigo com os serviços rotineiros de sempre. Eu começo organizando as fileiras de copos descartáveis e xícaras. Trabalhar com um colega homem é assim, eles fazem a bagunça e eu surto e saio arrumando.
Não eu não tenho TOC, porém um pouco de organização, até mesmo em um lugar como esse, ajuda muito. Você pode economizar tempo e o ambiente fica mais agradável até para quem está do lado de fora. Queria eu que minha casa ficasse assim, pelo menos por 24 horas.
Estou nas mesas do fundo, recolhendo alguns copos e toda a bagunça que as pessoas deixam. Vejo Paola toda sorridente conversando com um cara alto de terno preto. Penso comigo o que seria de mim se Paola fosse daquelas garotas metidas, como as meninas da escola. E pior ainda se Alonzo fosse uma dessas também. Bufo de desespero só de pensar nessa hipótese.
— Mell. — Paola me chama no caixa e vejo o cara de terno sair rápido porta afora.
— Mais um pretendente é? — Pergunto e ela dá risada. Paola é uma garota doce, gosto dela.
— Só se for para você. — Ela me diz e dá uma piscadinha para mim. Não sei se entendi. Ela pega uma caixa preta debaixo do balcão e a empurra sobre o balcão para mim.
— Quem deixou? Foi aquele cara? — Saio correndo pela porta, tentando alcançar, mas já é tarde demais. Um carro preto sai disparado pela rua. Tá, agora isso está mesmo estranho. Entro de volta no Café e pego a caixa, estou com medo de abrir, nem mesmo sei o que tem lá dentro. Vou para os fundos do café e sento no banco de concreto, coloco a caixa ao meu lado e penso que pelo menos fui inteligente o suficiente para sair para fora para abrir, vai que é uma bomba. Cielo.
Resolvo acabar com o suspense e abro devagar, vendo, de cara, uma espécie de dispositivo redondo e preto. Pego com as pontas dos dedos e olho bem de perto parece uma...
Mierda.
É uma câmera. Vejo se tem algum botão para desligar ou sei lá o que. Mas é inútil. Pego a caixa e as surpresas não acabam, há um papel dentro escrito um simples BUENOS DÍAS.
Eu preciso fazer isso parar. Coloco a câmera no bolso da calça e faço com o cartão o mesmo que fiz com o da noite anterior: rasgo tudo e jogo na lixeira. Eu vou descobrir quem é, nem que seja a última coisa que eu faça. Pego o celular e envio uma mensagem para Jess.

Te Necesito.


Capítulo 4

Minhas mãos tremem de espanto, ou medo, eu já nem mesmo sei o que estou sentindo nesse momento. Isso é, para dizer o mínimo, sinistro. A única coisa que consigo pensar é um maldito engano, por mais ridículo que isso pareça ser, ou a mais maluca das opções: alguém está de fato querendo algo de mim.
O que querem de mim eu não sei. Não tenho nada a oferecer. Muito menos dívidas, porém um lampejo vem à minha mente. Poderiam ser contas do meu pai?!

Fica onde você está. Já estou indo.
Jess

Volto para dentro do Café e começo a arrumar tudo o mais rápido possível, vou pedir para Alonzo segurar as pontas por hoje mais uma vez. A minha sorte é que em todo esse tempo que trabalho aqui, nunca precisei que ninguém ficasse no meu lugar. Mas parece que ultimamente as coisas têm mudado por aqui.
— Oi!
— Ah, oi, Mell. Bom dia! — Alonzo diz, pegando mais copos do que ele pode. Um deles, quase cheio, quase cai. E consigo pegar em tempo recorde. — Obrigado! Sabe, eu realmente não entendo por que as pessoas compram café e não tomam nem metade. — Ele reclama, mas não posso deixar de concordar com ele.
— Isso é verdade. Creio que não saibam que em algum lugar no mundo, alguém deseja ter o que tomar. — Alonzo para de mexer nos copos no mesmo momento e me encara.
— Nossa, Mell... Você...
— Não, não se preocupe, eu estou bem. Isso faz muitos anos. — Me lembro de tempos antes. Mas resolvo não entrar em detalhes. — Eu não disse isso só por mim...
— Ei, tá tudo bem! — Alonzo joga o resto dos copos na lixeira e se vira tão devagar que parece que está em câmera lenta, seguro o riso.
— Mell... Você tá namorando ou...
— O quê? NÃO! — Alonzo me olha com um olhar de dúvida. — Quem te disse ou de onde você... Na verdade, por que a pergunta?
— Paola... — Claro a caixa infeliz que recebi. — Ela comentou que recebeu um presente.
— Foi uma bosta... De caixa. E não é presente. — Aumento a voz e Alonzo arqueia a sobrancelha. — Não foi nada. Foi engano. — A quem eu quero enganar?
— Relaxa, Mell. — Sinto um toque quente e calmo na minha mão e percebo a mão de Alonzo tocando a minha. — Eu só fiz uma pergunta. — Levanto o olhar e pego Alonzo olhando com seus olhos castanhos para nossas mãos e puxo a minha rapidamente.
— Ei, você pode me cobrir hoje? — Resolvo mudar de assunto, antes que seja tarde demais. Não quero que as coisas fiquem estranhas entre a gente.
— Claro. — Ele disfarça com um sorriso de lado, o mesmo que ele dá para todas as meninas por quem ele se interessa.
Ele nunca agiu dessa forma comigo, digo, não tão carinhosamente, e me tocar muito menos, mesmo que só seja a minha mão. Começo a cogitar sobre as vezes que Jess me disse que ele está afim de mim. Mas... Não pode ser. Afasto o pensamento e volto ao serviço.

Jess foi me pegar para almoçar, passarmos o dia juntas e ver o que realmente vamos fazer. Viemos ao meu restaurante favorito, El Huequito. Não que eu já tenha ido a vários, mas sem sombra de dúvidas esse tem que ser o melhor de toda a cidade do México. Pedimos sempre tacos al pastor, que é um taco recheado com carne bem temperada e bem apimentada. Sempre que viemos aqui, saímos com literalmente fogo nos olhos, como diz minha amiga. O pedido chega na nossa mesa e atacamos de cara.
— Esplêndido... — Jess abocanha o taco e diz com a boca cheia. Aproveito para fazer o mesmo. O primeiro gosto vem e parece que é impossível comer de tão picante, mas logo o paladar se acostuma, é como mágica.
— O que vou fazer? — Pergunto. — Comer?
— Jess... Sério. — Bebo minha coca-cola.
¡Relájate, mujer! — Fácil falar quando não se sabe o que é parecer estar sendo seguida a todo momento.
— Eu pensei em ir à polícia. Quero dizer, é isso o que as pessoas fazem, né?
— Quando dá tempo, sim. — Não entendo o que ela quis dizer. — Na maioria das vezes, a pessoa é assassinada... Antes de chegar a ir na polícia.
— MEU DEUS! Jess! — Gargalhamos alto demais e as pessoas da mesa ao lado olham.
— Contanto que você tenha como provar, podemos ir. — Aí é que está o problema. Eu joguei todos os bilhetes fora.
— Eu só tenho uma única prova. — Como eu fui burra?! Deveria ter guardado ao menos um.
— Que seria? — Jess faz aquela cara de curiosa de sempre.
— A câmera. — A minha melhor opção.
— Opção errada, amiga. Uma câmera qualquer um pode comprar e dizer que recebeu. Tem que ser algo mais concreto. — Mierda! Pego a pequena câmera no bolso e tampo com toda minha mão. E mostro atrás do guardanapo para Jess.
— Não dá, Mell, faríamos papel de bobas.
Continuamos comendo e pensando em algo, mas ela está certa, não posso simplesmente chegar na delegacia e entregar uma câmera que só vai mostrar o meu rosto e mais nada. Agora já é tarde para me lamentar. O que eu deveria fazer agora?! Continuar recebendo flores, bilhetes e presentes estranhos até eu morrer?!
Jess insiste em pagar a conta como sempre e acaba vencendo. Não gosto disso, é como se eu fosse incapaz de pagar até o que como. Sim, eu estou sempre dando dinheiro para as despesas de casa e, para falar verdade, eu banco aquela casa mais do que meus próprios pais. Mas isso não quer dizer que não sou capaz de pagar um simples taco às vezes. Porém, no fundo, ela faz pra me ajudar que eu sei, e eu não poderia ser mais grata a Deus por ter colocado ela ao meu lado.

— Com licença, senhorita Mellia? — Um homem moreno, alto e de terno interrompe meus pensamentos.
Sí! — Ele empurra na mesa um envelope preto.
— Olha, seja lá de onde vem isso, fale para seu patrão que não quero nada dele. E peça que ele pare com tudo isso. Essa é a primeira e única vez que aviso: eu vou até a polícia. — Ele sai andando normalmente pelo restaurante como se não tivesse acontecido nada. Jess, mas que rápido, pega o envelope, abre e mostra pra mim.

Você vai ficar quieta, e não vai à polícia. E sabe por quê?!
Na hora que pisar lá, eu SABEREI.
E adivinha só?! TODOS TRABALHAM PARA MIM.


Jess começa a mexer na bolsa, tira 100 pesos da carteira e joga na mesa.
— Vamos. — Ela se levanta.
— Onde? — Pego minha bolsa da cadeira ao lado e Jess já começa a me puxar. Ela literalmente começa a correr em pleno restaurante e eu vou junto, sendo arrastada. Ela desativa o alarme o carro e praticamente se joga ao volante.
— Rápido, entra. — Tento não tropeçar nos meus próprios pés. — É aquela van preta, não é?
— É, mas o que você vai fazer? — Vejo a van preta saindo do outro lado da rua e agora entendo.
— Ora, vamos segui-los.
— Amiga, é perigoso, nós nem mesmo sabemos quem são eles. E eu nunca me perdoaria se algo acontecesse com você por minha culpa. Eu... Não sei nem porquê te arrastei para isso.
— Foi fofo, Mell. Mas agora estou em serviço para o FBI. — O carro sai correndo e Jess não perde tempo seguindo atrás.

Andamos por horas, o que me pareceu à toa, pela cidade afora. No começo, a van andou a 100 km/h em plena cidade, virando em praticamente todas as ruas, o que fez ser mais perigoso. Nos semáforos foi que começou a loucura. Atravessamos todos os sinais vermelhos. As pessoas colocavam a cabeça para fora do carro e buzinavam sem parar. Sério, parecia que eu estava no filme Velozes e Furiosos, eu juro que se não estivesse tão curiosa e preocupada para saber quem está por trás disso tudo, eu tinha desmaiado ali mesmo. Eu nunca vi a Jess dirigir como hoje, era como se ela fosse o próprio Vin Diesel, só que com cabelo. Mas continuamos por uma hora sem parar, e nunca chegamos a lugar nenhum, e no fundo eu sabia que, na verdade, eles já tinham desconfiado que estavam sendo seguidos. Eu pedi para que ela desistisse, mas foi em vão. E mais uma hora de perseguição se passou e somente quando eles diminuíram a velocidade foi que Jess deu o braço a torcer e desistiu. Eu me senti mais mal por ela, que ficou bem irritada quando viu que não ia dar em nada. No fim tudo, o que pegamos foi a placa da van. E voltamos para a minha casa de mãos praticamente vazias.

Eu acho que quando a Jess viu que era real, que ela abriu o envelope com as próprias mãos e leu o que estava escrito no restaurante, ela realmente sentiu que isso está passando dos limites e quis ajudar de alguma forma. Estávamos sentadas na minha cama, paralisadas, olhando para a câmera e o envelope. Ela, de repente, pega o celular e me olha.
— E se...
— Se? — Ela nem ousa terminar o que começou e começa a digitar no celular. E permanece por minutos assim.
— Vou fazer pipoca para a gente. — Me levanto, mas ela está tão entretida que aposto que não me ouviu.
Vou até a cozinha e, quando passo pela sala, vejo minha bolsa caída no meio do carpete. Me agacho, recolho todos os meus pertences e devolvo à bolsa. De volta à cozinha, vou até o armário e pego o pacote de pipoca de micro-ondas.
— Jess, pipoca de Bacon ou manteiga? — Grito da cozinha.
— Você devia parar de gritar, antes que os espelhos da casa quebrem. — Cassie aparece.
— Eu não te ouvir chegar.
— Eu já estava em casa quando você chegou com aquela outra escandalosa. — Ela aponta para a direção do meu quarto.
— Ah!
— Faça os dois sabores. A que a rainha não quiser, eu fico. — Concordo com a cabeça.
Termino de estourar a pipoca e caminho de volta para o quarto com Cassie ao lado.
— Bacon ou manteiga? — Pergunto a Jess. Ela se vira assustada.
— Bacon, claro!
— Uff! — Cassie bufa e minha amiga mostra a língua para ela. Entro e fecho a porta do quarto e Jess tira tudo da minha mão e me olha bem nos olhos. Me pergunto o que ela fez dessa vez...
— Contratei um detetive.
— Você o quê?


Capítulo 5

Acordei mais cedo do que de costume. Jess acabou dormindo aqui na minha casa, mas teve que acordar bem cedo para ir embora, e como minha casa estava uma verdadeira zona, usei o tempinho que restava antes de ir para o Café e organizei o que deu. Saindo de casa, vejo a vizinha, a senhora Carmélia, regando as flores do seu jardim, ela é uma senhora muito fofa, ajuda a todos e tem os melhores conselhos.

10 anos atrás

— Não encosta a mão em mim. — Minha mãe diz engolindo o choro, enquanto meu pai aperta o braço fino dela. Me encolhi na cadeira da mesa de mármore, como se eu fosse desaparecer.
— Você acha mesmo que eu vou tolerar isso, Rosa? — Papai grita e me sinto ainda menor que antes. Se ao menos funcionasse...
— Tolerar o quê? Que eu saia com algumas amigas?
— NÃO SE FAÇA DE TOLA! — Papai bate na mesa e os talheres pulam dos pratos.
— Mais tarde conversamos, Arturo. E já estou atrasada. — Mamá comenta, já se levantando da mesa, sem nem mesmo ter tocado na comida.
— NÃO! — Papi grita aborrecido e se levanta, pegando seu prato e jogando no armário, espalhando a comida do prato por toda a cozinha. Mas o que me assusta ainda mais é quando ele vem para o meu lado e passa a mão no meu prato, jogando tudo no chão. O copo com o suco aguado, que eu mesma tinha feito com o resto de suco de saquinho que ainda tinha na casa, caiu todo sobre meu vestido favorito de borboletas azuis. E, sem querer, grito, pelo receio do que ele pode fazer comigo. Mamãe grita para que ele pare e a campainha toca, mas nenhum deles escuta... E eu não sei o que faço: se fico quieta na mesa ou se me levanto. Tenho certeza que qualquer uma das duas opções vai irritar meu pai e eu não quero irritar ele.
— Você não está vendo a menina aqui? — Mamãe começa a retirar o que restou da mesa.
— AGORA VOCÊ SE IMPORTA COM ELA? — Papai grita novamente, vem para meu lado e segura meu braço. — Diz a ela o que suas amigas da escola falam para você.
Há alguns dias, as meninas da escola falaram que certamente eu não tinha mãe por eu ir com as roupas que não servem mais na Cassie e depois disseram que descobriram que eu era órfã. Mas não quero contar para minha mãe, ela vai brigar comigo e...
— Anda, menina.
— Não, papi.
— Está me chamando de mentiroso, sua insolente? — Papai levanta a mão para me bater, mas fecho meus olhos bem fortes.
— Arturo! — Minha mãe grita e volto a abrir os olhos marejados.
Papai a olha enfurecido por ter interrompido e desconta o tapa que era para ser meu no rosto no dela e começa a gritar palavras cruéis a ela. Aproveito para correr o mais rápido que posso e me encosto na parede do lado da porta da sala, coloco minha cabeça entre as pernas e agarro minhas pernas bem forte, como se aquilo fosse me proteger de todos os vidros que escuto espatifando na parede do meu lado ou de todos os gritos da minha mãe. Minhas mãos tremem de aflito e a campainha toca novamente, mas minhas pernas não se mexem.
Ouço o trinco da porta se mexer, levanto a cabeça para ver se finalmente a Cassie chegou e limpo o rosto com as costas da mão.
— Psiu... Vem cá. — Não é a Cassie e sim a vizinha. Me levanto em silêncio para que meus pais não vejam. A senhora de cabelos castanhos claros com alguns fios brancos estende a mão até mim e não hesito em pegar. A mão dela está quentinha, ao contrário da minha. Fecho a porta atrás de mim e volto a olhar a senhora ao meu lado segurando minha mão.
— Qual o seu nome? — Resolvo perguntar.
— Carmélia. — Ela me olha com olhos carinhosos e dou um sorriso amarelo.
— Prazer eu sou a...
— Mellia! — Falamos juntas.
— Como você sabe meu nome? — Eu nunca tinha falado com ela antes.
— Vamos dizer que eu e sua mãe éramos... Amigas antes. — Não me lembro de mamá ter mencionado o nome dessa senhora antes.
— Ah tá! — Não quero parecer curiosa e intrometida, então escolho palavras curtas.
— Só mais uma coisa. Me promete que toda vez que isso acontecer na sua casa, você vai fechar a porta e vir até mim?
— Mas... E meus pais? — Tenho medo de não estar perto e coisas piores acontecerem.
— Minha querida, seus pais são adultos. Eles são capazes de se resolverem sozinhos.
— Por que eles são assim? — Pergunto hesitante com a resposta.
— Um dia você vai entender. Vamos, irei te mostrar minha estufa. — Começo a atravessar a rua e olho para trás, vendo a porta fechada, e volto a lembrar de tudo o que está acontecendo lá dentro. O mundo aqui fora é bem diferente e penso se não seria melhor morar aqui do que lá dentro.
— Ei... Não fica triste. — A senhora me olha e só dela falar assim, sinto o choro vir.
— Tudo vai ficar bem e você vai ficar bem. Agora fique feliz, porque senão não vou te dar Garapinãdos. — Mostro um sorriso largo com a maioria dos meus dentes possíveis.

Dias atuais

Me lembro dos tempos difíceis que a senhora Carmélia me ajudou a passar. Não que tenha mudado muito, pelo menos não tenho mais 10 anos. E agora posso fugir de tudo com as minhas próprias pernas. Meus pais eram um verdadeiro caos quando eu era pequena, era briga por todo e qualquer motivo e meu pai batia na minha mãe todas as vezes e até hoje me pergunto por que ela não se separou dele ou foi embora. Eu ainda não sei... Acho que quando ambos perceberam que nada iria mudar entre eles, eles resolveram partir para lugares diferentes, mesmo morando na mesma casa até hoje.
— Bom dia, filha! — Senhora Carmélia saúda. Ela sempre me chamou de filha e de certa forma sempre me senti mais filha dela do que da minha própria mãe.
— Bom dia, senhora Carmélia! Faz dias que não vejo a senhora. — E como poderia, com toda essa loucura dos últimos dias?
— Sim, minha filha é que eu estava viajando. Fui visitar as minhas netas. — A senhora Carmélia tem uma família muito boa e estruturada, ao contrário da minha. Mas fico feliz por ela.
— Fico feliz que tenha saído um pouco de casa. E como estão as coisas por lá? — Pergunto.
— Tudo bem, graças a Deus! Mas eu queria mesmo falar com você, minha filha, se não for te incomodar muito agora... — Ela solta um sorriso ao falar da família. Mas logo se entristece olhando para os lados.
— Imagina, dona Carmélia, pode falar.
— Não sei se já está sabendo, mas eu e Rosário estamos tendo certas dificuldades com alguns frequentadores do bar... — Meu pai.
— Quanto ele está devendo para a senhora?
— Minha filha, eu só te disse isso para que saiba por mim e não pelos vizinhos. Sei que isso te deixa...
— Não precisa se preocupar, dona Carmélia, eu vou te pagar. — Pego na mão dela, que me olha com os olhos cheios de lágrimas.
— Minha filha, eu nunca te disse isso para que você possa me pagar, eu não quero seu dinheiro e acho injusto com você que você tenha que pagar uma conta que não é sua... Sei que é somente você que banca essa casa. Mesmo se eu quisesse, Rosário não permitiria tirar de você uma agulha sequer. — Sinto um aperto no coração e seguro o máximo que posso as lágrimas.
Tentei convencê-la o máximo que pude, mas ela se recusou a aceitar uma moeda que fosse de mim.
Por fim, acabei indo embora desabando em lágrimas. Como uma pessoa como o meu pai poderia fazer mal para outras pessoas?! Antes de ele ficar desse jeito, eles eram amigos. Onde meu pai vai ter que chegar para que ele pare com toda essa bebedeira e realmente arrume um serviço e se torne um pai de verdade que é o que ele deveria ser? Não me entra na cabeça, e nunca vai entrar, como um casal com duas filhas se deteriorou e se tornou isso?! Me pergunto se não seria mais fácil eles terem se separado e então vivido a vida que cada um quisesse. Longe um do outro.

No Café, o dia não poderia ser pior. A máquina de café quebrou e o que é uma cafeteria sem café?! Os clientes estão reclamando e o Tom, meu chefe, está muito, tipo muito, bravo. Só espero que ele não venha descontar em mim, não aguentaria mais essa hoje. Estamos todos atarefados, correndo por todos os lados para atender a todos. Um grupo de homens de terno está sentado na mesa do fundo e o mais esquisito é que eles não pediram nada. Espero que não fiquem por muito tempo, ou Tom seria capaz de expulsá-los um de cada vez. Volto para os fundos para terminar de embalar os donuts que as jovens pediram.
— MELLIA! — Tom grita meu nome do caixa e os saquinhos quase caem das minhas mãos. Junto tudo, caminho de volta ao caixa e entrego para as jovens.
Vejo um dos caras que estava na mesa, que agora se encontra vazia, na minha frente com uma única rosa vermelha cheia de espinhos e um cartão que, dadas as circunstâncias, já sei bem do que se trata. Uma coisa é fazer entregas na minha casa ou quando meu chefe não está aqui. Mas outra coisa completamente diferente é pedir que ele, o meu chefe, me chame para entregar esses tipos de coisas na frente dele. É no mínimo o cúmulo. O homem de terno me entrega a rosa vermelha e aperto com tanta força que sinto cada espinho entrar na minha pele, furando minha mão. O cara de terno vira as costas e sai andando perfeitamente, passando pela porta.
— Você acha que isso aqui virou um correio agora? — Meu chefe pergunta alto demais e os clientes olham assustados para o caixa.
— Não, Tom, é que...
— Ah, sinceramente, eu não quero saber. Volte para o seu serviço. — Pego o envelope e volto para a cozinha. Eu não aguento mais isso, não sei aonde isso vai terminar. O que eles querem de mim?! Eu preciso que isso acabe de uma vez.
— Ei, o que está fazendo? Mellia? Você está sangrando... Solta isso. — Sinto Alonzo apertar minha mão e só agora percebo que ele estava falando comigo.
— Oi. — Minha mão está sangrando e Alonzo fica parado, me olhando, enquanto eu seguro a rosa em uma mão e o envelope na outra.
— Solta isso, deixa eu te ajudar. — Alonzo abre minha mão delicadamente e retira a rosa, colocando em cima da pia. Eu olho para minha mão, assustada com o que vejo. As pequenas gotas de sangue começam a pingar na pia e me lembro do cartão. Automaticamente, começo a rasgá-lo com as mãos trêmulas e o desespero ou medo do que isso possa ser me toma.
— Mell, tá tudo bem, deixa comigo. — Ele pega o restante do papel rasgado das minhas mãos e joga na lixeira. Alonzo abre a torneira da pia e volta pegar minha mão, levando para a água. Vejo a água carmesim escorrendo pelo ralo da pia e as lágrimas rolam pelo meu rosto.
— Mell, seja lá o que isso tudo significa... Só não, chore. — Ele fecha a torneira, pega um papel toalha e começa a pressionar na minha mão. Depois de secar, ele para na minha frente e fica me olhando de perto. A proximidade é tanta que sinto a respiração calma e quente dele. Ele solta minha mão e se aproxima mais. Alonzo sobe sua mão até o meu rosto, me fazendo fechar os olhos por receber uma carícia que nunca tive. Sinto a respiração dele chegar cada vez mais perto e continuo com olhos fechados, sentindo a calmaria que ele me proporciona. As pontas dos nossos narizes se tocam, mas foi a única coisa que senti antes de nos beijarmos.
O beijo do Alonzo é bom, não que eu já tenha beijado muitos caras, na verdade só um antes dele, mas foi há tanto tempo que não me lembro. O que diabos eu estou fazendo ou pensando?! Parto o beijo na mesma hora.
— Mell... Desculpa, eu... — Alonzo passa a mão no cabelo, enrolado com as palavras.
— Você não é o único culpado disso. — Não posso culpá-lo por uma coisa que tecnicamente eu também quis. Só não acho que isso irá acontecer novamente, eu não sei nem porque deixei que ele chegasse tão perto. Alonzo é meu amigo, só isso e nada mais.
Volto a me recompor e fingir que nada aconteceu e faço a pergunta que me vem à mente.
— Você quer café?
— Mas a máquina está quebrada. — Eu sabia que não era uma boa ideia mudar de assunto tão rapidamente, mas tentei pelo menos.
— Verdade! Nossa... — Mexo a cabeça negativamente. E começo a me afastar. — É... Vou voltar ao serviço. — Saio apressada e deixo ele parado no mesmo lugar.

Estou bem atenta hoje. Depois de tudo o que aconteceu, não me surpreenderia se mais alguma coisa acontecesse. Jess mandou mensagem avisando o que nós suspeitávamos, a placa do carro é falsa. Tive que contar a Jess sobre o beijo com Alonzo e ela riu da minha cara novamente. E ficou repetindo que sabia que ele gostava de mim, que ele sente alguma coisa por mim e trinta minutos a mais de coisas do tipo. Quando saí do Café, resolvi passar na Sephora para pegar uma máscara facial, mas antes mesmo de ir para fila do caixa, percebi que não tinha mais nenhum dinheiro na bolsa, o que foi muito estranho porque tinha certeza que tinha alguns trocados. Por incrível que pareça, não passei a vergonha de chegar até o caixa com o produto na mão e sem dinheiro para pagar. Considerei isso uma coisa boa pelo menos.

Em plena madrugada, um toque alto demais ecoa dentro da minha cabeça e me faz acordar assustada. É o meu celular.
— Ahn... Oi, quem é? — Que horas são?! Quem em sã consciência liga para alguém uma hora dessas?!
Mellia, é o Tom. Preciso que você abra o Café amanhã. — Ele só pode estar de brincadeira.
— Tá, mas por quê?
Alonzo foi espancado.


Capítulo 6

A notícia revirou meu estômago no mesmo momento e corro até o banheiro. Aquele infeliz do Tom não me explicou nada e estou me remoendo, querendo saber se ele está bem, como e por que isso aconteceu. Me olho no espelho e meus olhos fixam na minha boca, e me lembro do beijo com Alonzo. Céus, o que há de errado com as pessoas?! Alonzo não é de se meter em brigas, ele até pode ser um galinha, mas se envolver em brigas jamais. Resolvo ir na cozinha preparar um café, depois dessa notícia não conseguirei dormir mais. Pego o meu celular e a vontade de ligar para ele é grande, mas não sei se seria o certo a se fazer.
Preparo um café sem açúcar e volto para o quarto. Sento na cama, me enrolo nas cobertas, pego minha xícara de café e tento absorver tudo que tem acontecido nos últimos dias. Não entendo o que há de errado comigo. Fico parada olhando fixamente para o meu celular, intercalando entre pensamentos. E por incrível que pareça acabo adormecendo encostada na parede.

Pela manhã, me apresso para sair para o trabalho, espero que alguém tenha notícias dele. Mas antes de chegar até a sala, vejo Cassie mexendo na minha bolsa.
— Cassie! — Ela deixa a bolsa cair pelo susto.
— Oi! — Ela me olha de lado, como se quisesse disfarçar algo tão óbvio.
— Por que está mexendo na minha bolsa? — Pergunto, agachando para pegar as coisas que caíram da minha bolsa.
— O quê? Por que acha que eu estava mexendo na sua bolsa? — Como ela tem a capacidade de mentir.
— Cassie, para de mentir, já não cola mais essa sua mentira. Se você quer dinheiro, é só trabalhar, sabe... Como eu faço todos os dias. — Me levanto do chão e coloco meu celular na bolsa.
— Olha aqui, sua ridícula, mede esse tom de voz para falar comigo. E até parece que eu vou querer alguma coisa logo de você. — Minha mão coça para dar um tapa na cara dela, o que meus pais deveriam ter feito.
— Eu falo do jeito que eu quiser, eu estou no meu direito. Você não pode sair mexendo nas coisas que não te pertencem... — Cassie me corta pulando em cima de mim, puxando meu cabelo. Espero por esse momento a tanto tempo que confesso ficar feliz. Deixo a minha frustração de dias e desconto tudo nela. Dou um tapa forte no rosto dela e ela revida com mais puxão de cabelo. Cassie cai em cima de mim, fazendo com que eu caia de costas no chão.
— Você se acha perfeita, não é? Mas você não passa de uma garota ridícula e burra. — Aproveito a oportunidade para tirar ela de cima de mim, seguro os dois braços finos dela com apenas uma mão e a outra seguro o maxilar dela.
— Eu não sou e nunca serei perfeita. Mas pelo menos não sou patética como você. Você deveria me agradecer por ainda ter o que comer nessa merda dessa casa, de eu limpar o chiqueiro que você chama de quarto. Sinceramente, Cassie, eu não sei por que você me odeia tanto, mas eu tenho certeza de que eu nunca te fiz nada para que você possa me tratar desse jeito e, pior, roubar o resto do dinheiro que eu enfio todo santo mês nessa casa para que você possa ter o que comer, ter um lugar onde tomar banho e dormir. E você? O que você faz? Você nunca deu um real para nada sequer e ainda tem a audácia de dizer que sou ridícula e burra? — Com o resto de fôlego que me sobra, chego bem perto do rosto de Cassie e olho bem nos olhos dela. — Não toque mais nas minhas coisas, ou você não terá mais mãos nem mesmo para passar esse delineador torto. — Cassie nem mesmo se mexe do chão. Me levanto e volto a me recompor, arrumando meu cabelo. A porta se abre devagar e Cassie começa a chorar escandalosamente.
— O que você fez com ela? — Minha mãe entra, deixando a porta escancarada, e corre até Cassie, que chora desesperada no chão.
— O que você deveria ter feito há muito tempo. — Viro as costas e fecho a porta com mais força do que o habitual.
Eu nunca pensei e nem imaginei um dia que eu e minha meia-irmã sairíamos aos tapas, mas Cassie já estava passando dos limites e como eu sei que ela é protegida da minha mãe e meu pai sinceramente não liga para nada que não seja bebida, eu tive que fazer. Eu não gostei, eu não queria, mas foi preciso, espero que ela aprenda de uma vez por todas.

— Bom dia! — Cumprimento Paola.
— Bom dia! — Ela responde com uma cara péssima.
— Não precisava vir mais cedo hoje, eu tomo conta de tudo.
— Eu sei. Mas você sabe, o Tom... — Eu não sei se ela está sabendo de Alonzo, mas resolvo perguntar. — Você... Já está sabendo...
— Alonzo? Sim, infelizmente. — Espero que ela saiba mais do que eu.
— Como você ficou sabendo? — Pergunto. — Porque o Tom só me disse que ele...
— Foi espancado. Acharam ele desacordado há duas ruas daqui. — Meu Deus é pior do que eu imaginava.
— Mas você o viu? Como que você sabe? — Minhas mãos começam a suar de ansiedade por notícias dele.
— Ele acabou fechando o café ontem e eu saí antes, dele praticamente junto com o Tom, mas tive que voltar para pegar uns livros da faculdade que esqueci no armário. A sorte é que eu estava com a minha chave, porque Alonzo já tinha ido embora, e quando estava indo para o ponto de ônibus, eu vi o resgate passando bem rápido. Pensei que fosse qualquer outro acidente, mas não era. — Paola abanou negativamente a cabeça. — E mais tarde, acho que era meia-noite mais ou menos, a irmã do Alonzo me mandou mensagem falando do acontecido. Fiquei totalmente desesperada, eu não sei o que houve e ela não quis falar muito na hora.
— Ela falou em qual hospital que ele tá? Se ele está bem? — Entramos no café e guardamos nossas coisas no armário.
— Sim, se quiser te dou o endereço...
— Eu vou te ajudar o máximo que puder aqui, mas eu preciso muito ver ele. Você pode segurar as pontas hoje? Acho que o Tom vai acabar vindo mais tarde...
— É claro!

Desço do ônibus e vejo o enorme hospital com as paredes brancas, me arrepio toda e sinto uma sensação lúgubre. Começo a andar rápido até a entrada do hospital e a recepcionista me pede o nome do paciente que desejo visitar. Uma enfermeira veio até mim e me informou da atual situação do Alonzo: ele quebrou várias costelas e trincou a perna, além de outras feridas, mas apesar dessa notícia, me recomponho. Não quero que ele me veja com pena dele. A mãe e irmã de Alonzo foram na lanchonete e a enfermeira diz que posso visitá-lo agora, mas por poucos minutos. E realmente eu não quero incomodar, tudo que ele não precisa no momento é de alguém desesperado do lado dele.
A enfermeira abre a porta e o que vejo assusta mais do que o que ouvi, mas entro devagar no quarto para não acordar ele.
— Vou deixar vocês a sós, mas não acorde ele. Como pode ver, ele precisa descansar no momento.
— Claro! — A enfermeira se retira encostando a porta.
Meu Deus, é tudo o que consigo dizer. Chego mais perto da cama dele. É como uma cena horrível de terror, a perna dele pendurada... Ele todo coberto por curativos, o rosto todo inchado, ele está quase irreconhecível... Não suporto vê-lo assim. Alonzo às vezes participa de algumas lutas e treina bastante, então automaticamente ele é bem forte e musculoso e ele saberia se defender de um, até dois caras... Mas vê-lo assim só afirma minhas suspeitas, foi um grupo... As lágrimas rolam pelo meu rosto e tenho que segurar para não fazer barulho nenhum. Seguro forte na lateral da cama de ferro e abaixo a cabeça, na esperança de abafar o choro. Imagino a dor e desespero que ele passou. Ele precisa ficar bem, meu Deus, ele precisa. Quem foi o animal que fez isso?! Por que fizeram isso com ele?! Eu não entendo como podem fazer isso... Esse mundo está cada vez mais assustador, as pessoas são doentias e cruéis, eles mentem e enganam o tempo todo e... Machucam as pessoas e nada é feito a respeito. NADA. As pessoas têm que se responsabilizar pelos seus atos, isso não é normal, não é coisa que se faça.
— Mãe? É você? — Alonzo gagueja entre uma palavra e outra.
— Oi! É a Mell. — Forço um sorriso, limpando o rosto. Alonzo tenta abrir os olhos. — Ei, eu tô aqui. — Pego na mão dele que está um gelo. Ele não me responde e começo a me preocupar, pego a coberta e o cubro mais. Alonzo começa a olhar desesperadamente para o quarto e o acompanho com os olhos, o que ele está procurando ou quem?!
— Quer que eu chame alguém? — Pergunto e ele começa a tentar se mexer na cama. Pego na mão dele para dizer que está tudo bem, mas ele retira a mão da minha. O monitor ao lado da cama começa a apitar e Alonzo começa a retorcer na cama, eu não entendo...
— Sai daqui. — Alonzo começa desesperadamente a apertar um botão na lateral da cama.
— Tá tudo bem, Alonzo. É a Mellia, se acalma por favor. — O monitor começa a apitar mais rápido e ele começa a tentar se levantar da cama.
— SAI DAQUI AGORA. — Me afasto da cama com o susto do grito. Uma enfermeira entra correndo pelo quarto. Alonzo começa a repetir a mesma coisa várias vezes para a enfermeira. — TIRA ELA DAQUI. — Eu não entendo por que ele agiu assim. A enfermeira aperta um botão azul no monitor e automaticamente ouço por todo hospital: Código azul, quarto 512.
— Você precisa sair querida. — Ela pega no meu braço.
— Eu vou ficar quieta no cantinho, eu não posso deixá-lo sozinho. — Alonzo começa a gemer de dor.
— Moça, por favor, você precisa se retirar para que eu possa ajudá-lo. — O que está acontecendo?!
— Por favor! — Suplico. Várias pessoas de branco passam esbarrando por mim com um carrinho de parada. A enfermeira me deixa para o lado de fora do quarto e só o que vejo são os médicos ao lado de Alonzo e mais nada. A porta se fecha e tudo que eu vejo é um completo branco por todas as partes que olho. Me afasto até sentir o gelo das paredes nas minhas costas.
— O que foi? O que aconteceu com o meu filho? — A mãe de Alonzo me pergunta desesperada, balançando meus ombros, mas não consigo dizer nada.
— Mellia né? — A irmã de Alonzo me pergunta com uma voz mais calma. — Você sabe o que aconteceu com o meu irmão?
— Eu... Eu não sei. — Respondo entre soluços. E acabo saindo correndo do corredor para fora, eu preciso sair daqui.

— Moça, você não vai descer? — O motorista do ônibus pergunta e só agora reparo que cheguei na rua de casa.
Gracias! — Agradeço e desço do ônibus terrivelmente abatida. Eu só quero tomar um banho, dormir e sumir. Como se isso fosse diminuir ou desaparecer toda a culpa que sinto por ter deixado Alonzo daquele jeito.
Procuro a maldita chave da casa, que inferno, não consigo achar. Por que tudo isso tem que acontecer comigo?! Fico plantada na porta de casa, procurando a chave maldita. Jogo todos os itens da bolsa no chão e o desespero me torna a preencher novamente. Chuto minha carteira, batom, papéis e tudo que continha na bolsa. Por fim, começo a choramingar e deslizo as costas na porta de casa até que alcanço o chão duro e sujo e cubro meu rosto com as mãos, abatida com toda essa merda acontecendo.
Sinto algo me incomodando na minha perna e passo a mão na coxa, a chave. A porra da chave esteve o tempo todo aqui. Recolho todas minhas coisas do chão, pego a chave do bolso da calça e destranco a porta. Gracias a Dios! Ninguém em casa, não que alguém iria se importar comigo, mas eu preciso ficar sozinha.
Jogo a bolsa em cima do sofá, mas me lembro o que aconteceu da última vez que a deixei aqui e a pego de novo. Caminho até o meu quarto, o que se parecem quilômetros, e a campainha toca.
— Hoje não, pai, por favor. — Aclamo. Mas volto para abrir a porta.
Abro e dou de cara com um completo nada, ninguém está na porta. Olho para os lados e não vejo ninguém, dou um passo para trás para fechar a porta e vejo uma caixa pequena, toda preta.
— VOCÊS ESTÃO DE BRINCADEIRA, É ISSO? — Grito porta afora. Eu preciso destruir essa campainha urgente. Tranco a porta pela milésima vez e vou para o banheiro com a caixa nas mãos.
Abro a caixa lentamente, me assusto com que vejo e solto a caixa na mesma hora, fazendo com que ela caia no chão. É uma... Abaixo e pego a caixa pela lateral. Uma borboleta azul morta... Ela foi cortada, ou despedaçada, e montada novamente, como se fosse um quebra-cabeças. E, ao lado, o costumeiro cartão escrito:

ISSO FOI APENAS UM AVISO!


Capítulo 7

Entrei em pânico após ter recebido aquela caixa horrenda. Eu estou cansada, exausta e mais um turbilhão de coisas, que eu nem mesmo sei o que sinto mais. Nada que eu faça nunca é o suficiente, tudo está desabando na minha frente e eu não posso fazer nada para que melhore. Já não sei se depois de todas essas merdas eu ainda vou ter sanidade mental para continuar.
Eu chorei e tremi tanto no banheiro com aquela maldita caixa, que achei que iria desmaiar. Foi um misto de medo, nervoso e culpa. Eu liguei para Jess no mesmo momento, e depois que consegui me acalmar, mesmo que só por fora, eu me senti culpada mais uma vez por colocá-la nessa loucura que é minha vida. E eu sei que amigos são para essas horas, mas ela tem tanta coisa para fazer, Sonhos para realizar, que às vezes sinto que estou atrapalhando a vida dela. É injusto da minha parte trazê-la para esse caos. Ela contratou até um detetive particular para me ajudar, e já que ele não obteve resposta nenhuma, ela acabou gastando dinheiro à toa. Ela queria tanto me ajudar que quando ficou sabendo que contratar o detetive foi em vão, não teve coragem de me contar.
O detetive particular procurou por qualquer mínimo detalhe, em todos os cantos da cidade do México, e não achou exatamente nada. É como se ele, ou eles, eu não sei, fossem fantasmas. Eu a agradeci, claro.
Jess quis dormir aqui para garantir que eu ficaria mais calma. Sinceramente, acho que de todas as pessoas no mundo a Jess é a única que me faz sorrir em pleno desastre.
— Hoje vamos fazer algo que não fazemos há muito, muito tempo. — Jess estendeu a palma da mão em minha direção.
No, no, no... — Imploro a ela, que agora cruza os braços na frente do corpo. Eu sei bem o que ela quis dizer.
— SÉRIO, MELL?! — Ela quer passear pelas ruas e acabar em um shopping.
— Olha bem para minha cara. — Faço cara de derrotada, embora eu realmente esteja.
— Amiga, é o que temos para hoje. De nada vai ajudar ficar trancada nessa casa, olhando para o teto. Eu sei que você ficou assustada e, acredite, eu também, mas infelizmente não há nada a se fazer. Me desculpa! E sei que está triste por causa do seu namorado...
— Ah, eu sabia, não deveria ter te contado. — Como se fosse possível não contar tudo a ela.
— Dê um tempo a ele. Ele passou por muita coisa e ainda vai passar, alguns caras não querem que as garotas os vejam nessas situações. É compreensível.
— Eu sei. É que... — Tento contestar a desculpa dela de me convencer.
— Eu acho melhor você se trocar e colocar uma roupa bem bonita, antes que eu comece a revirar todo o seu guarda-roupa e sei que você não vai querer isso.
— Jess, é melhor eu dar um jeito nessa casa. — O que é verdade, está uma bagunça.
Jess fecha a cara e se levanta rápido. Ela vai direto para o meu guarda-roupa, abre a porta e começa a jogar cabide por cabide em cima da cama em três pilhas de roupas: a pilha do talvez, nunca e amei. Comecei a me animar um pouco com o divertimento estampado no rosto dela e a ajudo a escolher uma roupa para sairmos.
Depois de quase uma hora para escolher uma roupa e fazer uma maquiagem simples, saímos de casa. Jess escolheu por mim um vestido bem fresquinho, vermelho, com laço nas alças e uma sandália de tiras nude. A make, claro, ficou por minha conta. Deus me livre deixar ela fazer minha maquiagem, eu sairia com um delineado azul, umas três cores de sombras na pálpebra e batom vinho. É bonito, mas acho que não combina com o meu estilo. Além de não estar no clima, claro.
Passeamos por praticamente a cidade toda, tomamos café da manhã no Starbucks, compramos alguns itens de decoração para o quarto da Jess, almoçamos um fast food na rua e agora, para a minha infelicidade, estamos no shopping. Eu acho uma tortura andar pelo shopping com a Jess, toda santa loja ela quer entrar.
— Ah, minha querida Mellia, se quiser chegar em casa ainda hoje, é melhor apressar o passo e me acompanhar. — Meus pés estão me matando, queria mesmo é estar usando meu tênis super confortável.
— Onde vamos? E iremos comprar o quê?
— Algumas roupas e produtos de skincare. Você viu minha pele? Aff, está um horror. — Assim como eu, Jess ama cuidar da pele.

Entramos em tantas lojas que eu já perdi as contas. Jess, como sempre, comprou vestido, blusas e shorts para mim. Esse é o segundo motivo pelo qual odeio fazer compras com ela. Eu gosto de presentes, lógico, quem não gosta?! Mas não toda semana, como se fosse obrigação dela me ajudar. Compramos tantos produtos de pele que vão durar no mínimo 3 anos e por fim acabamos entrando em uma livraria. Eu particularmente acho um lugar incrível, se não o melhor de todas as lojas do shopping.

Já são quase 10 horas da noite quando saímos do shopping, quase caindo de tantas sacolas. O dia foi tão perfeito, a não ser pelo meu chefe me ligando toda hora por eu simplesmente ter decidido não ir trabalhar, o resto foi maravilhoso. Incrível esse dom, vou chamar de “dom”, da Jess de saber exatamente o que eu precisava. Sair um pouco da minha zona de conforto e por um milésimo de segundo eu posso esquecer tudo o que vem acontecendo. Eu poderia facilmente jogar tudo para o alto e não ligar para nada. Mas eu quero mais para a minha vida, quero realizar meu sonho de fazer uma faculdade, de me tornar uma empresária, de poder pegar quantos Ubers eu quiser, ou melhor ter meu próprio carro e uma casa só minha. Hoje parecem sonhos tão distantes e impossíveis, eu choro, surto e até reclamo, mas se tem uma coisa que nunca faço é desistir. Tenho em mente que sempre tem pessoas em piores condições do que a minha e isso me faz mais forte.
Jess estaciona em frente à minha casa e desce com os presentes que ela me deu. Vejo a luz da sala acesa, revelando que alguém, por incrível que pareça, está em casa. Abro a porta e espero ela, que sai do carro correndo até a porta.
— Onde você estava? — Mamá pergunta, sentada com os pés apoiados em cima da mesa da cozinha.
— Oi, mãe, estava com a Jess. — Admito. Jess levanta as sacolas para cima.
— Oi, tia Rosa. — Jess a chama de tia desde de quando nos conhecemos, por sinal de respeito. Embora ela tenha deixado claro que a única pessoa que ela ama nessa casa sou eu.
— Claro que estava. — Ela coloca os pés no chão, calça os saltos e caminha até nós. — Eu não preciso te falar que você deveria ter ido trabalhar né? Aquele careca ridículo me ligou o dia todo, garota.
— É que eu estava tão cansada e conversei com a outra menina...
— E então você foi fazer compras com essa aí? — E como sempre ela me interrompe começando a falar bobagem.
— Eu já cheguei, mãe, tá legal?! — Asseguro.
— Eu já te falei tantas vezes, Mellia. Essa garota aí é rica e não precisa fazer nada da vida. E ela fica te tirando do seu serviço para fazer compras e ficar gastando tempo à toa. — Me sinto envergonhada por minha amiga estar ouvindo essas mentiras sobre ela.
— Olha, senhora, a Mell estava precisando de apoio, por isso eu vim. Mas tenho certeza de que vocês, como pais ausentes que são, não se importam com ela. E por isso eu sempre vou ficar do lado dela e vou ajudá-la com tudo o que eu puder, sendo rica ou não.
— SAI DESSA CASA AGORA. — Minha mãe grita e aponta para a porta. Seguro na mão de Jess para que ela fique.
— Está tudo bem, Mell, é que a verdade dói. — Jess me olha com um meio sorriso e coloca as sacolas em cima do sofá. — Eu vou indo. Mas não se acostume, porque eu volto. — Minha amiga diz encarando minha mãe e vira as costas, caminhando até a porta.
— Jess... Me desculpa! — Peço perdão pela forma que minha mãe a tratou.
— Amiga, relaxa, eu já estou acostumada. Se eu ficasse triste todas as vezes que ela me fala coisas do tipo, eu já estaria internada em um hospício. — O bom humor reina nessa garota, só pode. Dou um beijo na bochecha dela e a abraço. — Qualquer coisa me grita.
— Tá bom! — Afirmo. Jess entra no carro e sai.
Fecho a porta e vejo minha mãe, que não perde tempo revirando as sacolas deixadas pela menina rica, que ela mesmo diz.
— Precisava disso tudo? — Questiono e puxo as sacolas das mãos dela.
— Precisava sim! Você sabia que eu estava com umas amigas? E aquele careca ficou me ligando sem parar, me atrapalhando? — Claro que estava, reviro os olhos.
— Desculpa, mamá. — Não quero que isso se torne uma discussão. Ela simplesmente vira as costas e sai com seu salto dourado para o quarto.

Depois de ter tomado um banho e guardado todos os presentes em seus devidos lugares, resolvo pegar um livro para ler. Jess me aconselhou a sempre estar fazendo alguma coisa, para que eu não fique pensando nessas bizarrices e acabe enlouquecendo de vez. Palavras dela, não minha.
Acabo dormindo e minha cabeça cai em cima do livro, por pouco não babo nele. Só mais um capítulo e vou dormir, prometo em vão. Alguns minutos se passam e eu acordo com o barulho do meu celular, olho para a página do livro e é a mesma. Procuro pelo celular na escrivaninha ao lado da cama, me viro de barriga para cima e entro nas mensagens de texto. Quem usa SMS hoje em dia?! Como se diz a Jess, “coisa mais cafona”.

Que bom que se despediu da sua amiguinha!
Número desconhecido

Me levanto rápido e releio a mensagem. Como conseguiram meu número?! Mil pensamentos rodeiam minha cabeça e volto a olhar a mensagem. Mas ela não está mais lá. Como assim uma mensagem se autoapaga?!
E todo aquele sentimento do dia anterior retorna com força total. Com as mãos trêmulas, pego o maldito celular e o jogo no chão.


Capítulo 8

O som estridente do meu celular entra na minha cabeça como uma facada, mas eu... Chuto a coberta rosa com corações brancos para longe e pulo da cama na mesma hora. Sei que hoje em dia é essencial ter um celular e as pessoas usam para exatamente tudo, mas infelizmente nesses últimos dias tudo o que eu quero é me desfazer desse celular. E ele, como posso ver, apenas trincou a tela, deveria ter sido despedaçado. Mas mesmo assim o despertador toca e aperto em parar.

O grande dia chegou!

De novo... Mais uma mensagem de sei lá quem e com o número desconhecido, que aposto que daqui a pouco segundos será apagada como na noite passada. E o que deveria fazer com isso?! Quem em sã consciência acreditaria em mim recebendo flores, cartões esquisitos, câmera e até borboleta morta?! No mínimo, me chamariam de louca e me trancariam em um hospício. Estou com medo e não sei como ou quando isso vai acabar, eu não sei de nada, e não sei mais o que fazer. Isso está me consumindo junto com os outros problemas com a minha família, Alonzo e serviço. Às vezes, eu questiono Deus sobre o porquê de Ele me colocar nesse mundo, por que ele me faz sofrer desse jeito. Eu não entendo, de verdade! Só queria entrar em um buraco e sumir, sei que pareço patética e dramática, mas eu acho que não aguento mais viver, eu não quero mais, espero que Deus me perdoe. Eu cansei de ser forte.
Me levanto com o celular na mão e vou até minha cômoda, jogo o celular dentro da jarra de água. Vou garantir que eu não receba mais nenhuma mensagem. Me abaixo para ver o celular mergulhando na jarra e vejo a tela piscando até que por fim se apaga. Ótimo, agora só falta uma coisa.
Pego minha bolsa e saio do meu quarto, rumo ao meu próximo passo.
— Você pode me explicar por que sua irmã disse que você a chamou de ladra? — Vejo minha mãe saindo do quarto toda arrumada como de costume, e, óbvio, com os seus saltos.
— Bom dia! E eu não disse isso. — Queria ter dito.
— Está chamando sua irmã e eu de mentirosas? — Claro que Cassie abriria aquela boca que só diz mentiras.
— Minha bolsa estava revirada esses dias e um ou dois dias depois fui comprar umas coisas e não tinha dinheiro na minha bolsa e eu sei que tinha dinheiro. E depois eu a vi mexendo e ela negou. — Explico.
— Pode até ser que seja a Cassie, mas… — Minha mãe caminha até mim. — Não quer dizer que ela tenha roubado, as coisas são difíceis, sabia? — Difíceis... essa é nova para mim. Difícil é para mim, que tive que trabalhar desde que estava no ensino médio, para eu poder comer.
— Quando alguém mexe na sua bolsa escondido e pega uma coisa que não é sua, isso é roubar. E Deus sabe que ela não precisa e se precisasse, seria melhor economizar nas roupas e bolsas de luxo dela. — Minha mãe coloca a mão na cintura e me olha fixamente.
— Garota, você acha que é quem para falar assim da sua irmã? Você acha que vou tolerar isso dentro da minha casa? Olha, vou te contar um segredo, caso você ainda não saiba, essa casa é minha. E se você ainda mora aqui é porque eu quero, e se você ainda quiser morar nessa casa a partir de agora você vai dar 30% do seu salário todo mês para a Cassie. Você me entendeu? — Com o que eu ganho não dá para quase nada. — VOCÊ ME ENTENDEU? — Minha bate os dois dedos na minha testa, para chamar minha atenção.
— Sim!
— Ótimo, filha. Ótimo! — Ela passa por mim e vai embora, como se nada tivesse acontecido. Legal, mais uma para a conta. Eu quero tanto gritar, sair quebrando as coisas e chorar, porém eu já não tenho mais lágrimas e força para isso.
Fecho os olhos com força, respiro bem lentamente e volto ao meu plano besta.

Eu cheguei atrasada, claro! O motivo de hoje?! Foi que eu subi em uma cadeira e martelei a campainha da minha casa tanto de dentro como de fora. Foda-se. Eu já não ligo, tudo o que eu quero é tentar continuar levando a minha vida e tirar esses pensamentos horríveis da minha cabeça. Perdóname, Dios! Por duvidar de ti e do seu propósito em minha vida. Só estou cansada e confusa. Eu já não sei mais o que falar ou pensar.
— Senhorita Mellia, o que deu em você? — Meu chefe pergunta.
— Eu estava cansada, acredite, eu não seria de muita ajuda aqui. — Explico.
— Vou explicar a você novamente, como fiz no dia em que você entrou: aqui ninguém tem folga! — Disso eu já sabia.
— Eu até entendo, mas eu trabalho aqui há anos e nunca tive um dia sequer de folga...
— Sim, mas se você acha que não está bom, é só sair. — Considero a hipótese de jogar um copo de café quente na cara dele e pedir demissão, mas me lembro das “minhas responsabilidades”.
— Não vai acontecer novamente. — Assim espero.
— Há propósito, estamos contratando mais um. — Isso é bom, as tarefas vão ficar mais leves. — Alonzo pediu demissão!
— O quê? — Por que ele pediria demissão?! Sei que ele precisa do emprego...
— Foi o que escutou. — Tom diz e vira as costas, saindo do café. Eu não vou perguntar mais informações, porque sei que ele vai dar uma meia resposta.

Hoje é o dia da bandeira nacional e como costume mexicano o Café fecha mais cedo. Na verdade, a maioria dos comércios não abre, mas como o meu chefe é um fanático por dinheiro, ele abre até às 2 horas.
Mandei mensagem para a irmã de Alonzo do celular da Paola, que felizmente disse que ele está se recuperando rápido. Graças a Deus.
Jess ficou preocupada comigo já que me desfiz do meu celular e ligou no Café. Depois Jess foi para o meu serviço e não para ajudar, lógico, ficou enchendo meu saco para ir embora, mas acabamos ficando no Café, conversando com as portas trancadas. Jess ficou fingindo que era Alonzo e acabamos nos divertindo muito com Paola que se juntou a nós. Pedimos fast-food e jogamos batata frita umas nas outras, brincando como se fôssemos crianças.
Depois de horas de bagunça, Paola e minha melhor amiga foram embora, Jess deu uma carona a ela.
E eu estou indo para casa andando, caminho rápido e de longe vejo o bar onde logicamente meu pai vai estar.
Do outro lado da rua eu o vejo gargalhando com outro homem, com um copo na mão. Acho que desde os meus 10 anos não vejo meu pai sorrir a não ser com um copo na mão, queria tanto que ele fosse um pai para mim como ele é pra bebida. Sei que isso está longe de acontecer, mas me alegro mesmo assim vendo o sorriso dele. Meus olhos se enchem de lágrimas.
— Você é uma boba, Mellia, uma boba. Mais tarde ele vai para casa te encher o saco. — Falo comigo mesma.

Chego em casa e não vou nem mesmo ao banheiro, largo a bolsa em cima da mesa e vou lavar a pilha de louça, provavelmente feita pela Cassie. Quem usa 8 garfos para comer?! E como ela consegue sujar três panelas para fazer um macarrão?! Macarrão que daria para comer um exército, se não fosse pelo fato de que a metade está queimada. Cinco copos, molho derramado no fogão e embalagens de plástico espalhadas por toda a pia. Sério, dessa vez não dá, pego minha bolsa novamente e vou para o meu quarto, não vou lavar isso agora nem que me paguem.

Chego na porta do meu quarto e vejo que ela está fechada, o que é estranho porque eu nunca fecho. Pelo menos não antes, ou talvez eu tenha fechado e não esteja lembrando. Que paranoia minha.
Abro a porta e sinto um cheiro estranho, o que pode ser resultado de o quarto ter ficado fechado o dia todo, mas entro mesmo assim. Mas o que vejo me deixa assustada e deixo a bolsa cair no chão. Entraram na minha casa. Coro até o banheiro e abro a porta devagar, mas não tem ninguém. Chega, eu vou até a polícia, não estou nem aí.
Volto para o quarto e pego o buquê, enfurecida, mas não vejo nenhum cartão esquisito. Começo a mexer no meio das rosas para ver se tem algo escondido, mas o cheiro que senti quando entrei no quarto fica mais forte, e sinto uma moleza repentina no corpo todo. Olho para os meus pés e minhas pálpebras começam a pesar, minhas pernas e braços falham. Não sinto meus movimentos, não sinto meu corpo. Caio de joelhos no chão e a última coisa que escuto são passos altos pelo corredor da minha casa e desabo, vendo tudo se tornar uma eternidade de escuridão.


Capítulo 9

Sebastian Dellafuentes

5 dias atrás


Meu pai não quer me deixar resolver o assunto com o Cuevas, o porquê eu ainda não sei. Ele me veio com uma desculpa esfarrapada de que tem que manter a paz até que eu escolha. Antes de ir até o escritório desse merda, já estava certo que não era minha hora. Não sei porque, mas depois que saí daquele escritório ridículo aquele dia, estou cem por cento confiante que essa não é a vida que quero para mim. Meu pai que continue tomando aqueles milhões de comprimidos dele.
— Já conseguiu o que eu pedi? Preciso de diversão.
— E quando eu o decepcionei? Está aqui. — Valentim me entrega o iPad.
— Ótimo! — Agradeço. — Resolveu o assunto com Cuevas, ou vou ter que fazer uma visita mais drástica a ele?
— Eu mesmo fui resolver e foi feito na minha frente. A garota não vai ser contratada. — Dou risada mentalmente e foco nas informações a seguir.

Mellia López, 21 anos, solteira. Ensino médio completo.
Filha de Rosa e Arthuro López.
Meia irmã de Cassie Santiago.
Nascida na Cidade do México.
Pai alcoólatra e mãe prostituta.
Trabalha no Café Avellaneda.
Amiga Jessica Fontes.

Isso vai ser interessante. Passo os dados pessoais para o lado e vejo fotos. Quando dei de cara com ela no escritório, tive vontade de pegá-la pelos longos cabelos escuros e arrastá-la para fora. Odeio que alguém atrapalhe meus planos ou entre no meu caminho, e ela ainda teve a ousadia de me dirigir a palavra. Digamos que as pessoas não costumam me desafiar, elas sabem do que sou capaz. Começo a planejar minha diversão mentalmente, ela pediu por isso no exato momento em que me dirigiu a palavra, então agora ela vai aguentar as consequências. E sim, eu achei ela bonita, mas nada mais do que uma nova diversão. Entrego o iPad de volta.
— Quero mais informações. — Valentim me olha espantado. Caminho até o escritório do meu pai e Valentim fica parado me olhando. — Não é porque você é meu primo que te devo satisfação, sabe disso, não é?
— Sei, mas desde quando informações inúteis sobre mulheres te interessam? — Gostaria de dizer algo em relação a isso, mas nem eu mesmo sei.
— Como eu disse, não te devo satisfação, primo. — Ele vira as costas e sai, aproveito para entrar no escritório. Meu pai tem um gosto um tanto peculiar. O escritório é uma mistura de velharia com alguns pertences sofisticados que ele odeia, mas que hoje em dia são necessários. Entro e o vejo sentado na sua mesa rústica de madeira. Ele está no celular e a cara não está muito boa. Vou até o cofre e coloco minhas armas dentro, sim, armas, no plural, costumo andar com mais de uma, afinal de contas, nunca se sabe.
Mierda! — Eu sabia que tinha algo de errado assim que entrei.
— O que foi agora? — Espero que não me venha...
— Filho, você precisa decidir.
— Não tenho nada para decidir, se não acredito que já tinha escolhido. — Me mantenho firme como nos últimos meses.
— Sebastian, não se faça de mal-entendido, você não é mais uma criança, sabe que uma hora ou outra tem que escolher e essa hora chegou. Nós precisamos deles se quisermos comandar todo esse país.
— Errado! Nós já comandamos esse caralho por inteiro. — Afirmo, mas no fundo sei que não é verdade. Meu pai se levanta devagar, olha nos meus olhos e bate na mesa velha à frente dele.
— AGORA! — Meu pai grita e flashes me passam pela cabeça de quando era criança. Preciso de tempo.
— Pela manhã terá uma resposta. Preciso tratar de outros assuntos agora. — Asseguro e saio do escritório com o plano perfeito montado na cabeça.Pego meu celular e mando uma mensagem a Valentim.

Arrume um buquê de rosas vermelhas para hoje à noite.

Faço sinal para que um dos meus funcionários venha até mim e peço que tragam o informante até a sala da morte, como Valentim e meu pai costumam chamar. Felizmente o inútil foi pego pelos meus homens na saída da empresa do nosso pior inimigo no momento. Não que tenhamos muitos, mas sempre tem alguém entrando no meu caminho e destruo todos eles para deixar bem claro, pedaço por pedaço, seja pelo corpo ou dinheiro.
Digito o código na porta da sala e ela se abre automaticamente, entro e começo a tirar minha jaqueta, por mais que esteja frio aqui dentro, mas as coisas provavelmente ficarão quentes e sujas aqui. Vejo o homem sentado na cadeira de ferro, com as mãos e pés amarrados e com uma fita na boca. Coloco uma cadeira na frente e me sento. Valentim e Bernardo entram na sala e ficam ao meu lado.
— Vejo que você fala bastante. — Aponto a fita na boca dele, mas ele nem ousa se mexer. — O lado bom disso, meu amigo, é que vamos depilar esse seu bigode ridículo, e o outro é que vai doer um pouco, mas nada comparado com o que vamos fazer com você caso não me dê algo útil. — O homem fecha os olhos e aceno com a cabeça para Erich, um dos meus homens, para que tire a fita. — Você começa ou eu?
— Não sei de nada, senhor, eu juro. — O homem começa.
— Tão típico, não acha? — Pergunto olhando para os meus primos, que riem junto comigo. — Ok! Então vamos recomeçar de outra forma. — Me levanto e vou até Erich, pegando o machado em cima da mesa de ferro.
Erich puxa a mesa e coloca na frente do homem, desamarra uma mão do cara que nem mesmo sei o nome e a coloca em cima da mesa. Pego o machado vermelho e coloco em cima do dedo indicador do homem, apenas apertando. Olho nos olhos dele e tenho certeza de que ele sabe de algo no momento em que o sangue começa a escorrer. Ele desvia o olhar entre o próprio dedo e meus olhos, e nesse momento coloco força para que ele sinta cada pequeno nervo se desfazer do restante do seu corpo. O dedo cai no chão assim que o estalo que tanto amo se corrompe.
— Onde ela está? — Pergunto sem rodeios.
— Eu só sei que ela não está no país.
— Sério isso?! Itália ou Espanha?
— Isso é tudo que sei. — Estou em dúvida do que irei arrancar agora. Pego o alicate e Erich força a boca do homem, aperto o dente da frente, que me parece ser forte. Mas no fim o arranco, o sangue escorre por toda boca do homem que agora grita de dor. Limpo minha mão na toalha que Erich me joga. Pego o iPad e mostro a foto para o homem.
— Não, senhor, pelo amor de Deus, eu juro que não sei de mais nada. Minha família não tem culpa.
— Resposta errada! — Pego meu celular, digito seguir adelante! e coloco na cara do homem à minha frente. — É só clicar em enviar e você nunca mais vê sua bela família.
— Não sei de mais nada. Por favor, senhor... — Aperto em enviar.
— Você fez sua escolha. — Concluo. — Terminem isso, e Bernardo, venha comigo.
Pego minha jaqueta e digito o código para que a porta se abra, Bernardo vem logo atrás, eu sei que ele também está preocupado com o sequestro de Alana.
— Alguma informação? — Pergunto.
— Estou quase entrando no sistema deles.
— Precisamos resolver isso logo antes que seja tarde demais. Vou para o meu quarto, me avise quando entrar.
— Ok!
Subo as escadas de dois em dois, louco para tomar um banho antes do jantar. Entro no quarto e vou direto para o banheiro, coloco o celular em cima da pia, tirando o coturno e as roupas, e jogo tudo no cesto. E entro no chuveiro, fecho meus olhos e acabo viajando em pensamentos.
Sinto uma mão nas minhas costas e já imagino quem seja. Viro de encontro e a vejo toda nua, pronta para mim. Carmem é dois anos mais velha do que eu, adoro a ousadia dela e o poder que ela tem de me satisfazer. Ela se abaixa e começa chupando meu pau, ela faz isso tão bem. Depois de alguns minutos ela pega uma camisinha do armário do banheiro e a coloca em mim. Enfio três dedos na boca e depois na boceta dela. Sempre deixei claro que nós não passamos disso, uma foda casual. Pego firme na cintura dela e a viro de costas, ela empina a bunda para o meu pau, que entra no mesmo instante. Com uma mão, puxo o cabelo loiro dela, ela geme alto me fazendo ficar mais duro, se é que isso é possível. Me movimento rápido.
— Porra, rebola a boceta no meu pau. Vamos, caralho. — Ela obedece no mesmo instante.
Soco bem fundo com o clímax vindo e acelero minhas estocadas, comendo-a vorazmente. Tomado pelo prazer, finalmente gozo, me esvaindo em sêmen. Saio de dentro dela e me desfaço da camisinha ali mesmo.
Depois que Carmem saiu do banho comigo, mandei ela ir para casa, tenho coisas demais para resolver e já me diverti por hora. O jantar passou rápido devido aos assuntos divididos entre o sequestro de Alana e a escolha que preciso fazer, o que me deixou mais irritado. Agora estou seguindo com o meu plano inicial.
— Então ele desce... — Valentim repassa o plano, apontando para um dos meus homens que trouxe comigo.
— E nós observamos. — Completo.

Assim que encostamos na frente da velha casa, esperamos alguns minutos para observar a vizinhança. Mas algo estranho acontece comigo e decido começar logo, mando levar o buquê com o cartão preto. E Valentim e eu ficamos na van, observando cada pequeno detalhe dela, a boca rosada, os cabelos ao vento e até seu chinelo surrado. Ela pega o buquê e pergunta algo ao meu funcionário, mas ele não dá a mínima e aperta o passo para entrar na van. Assim que ele entra, meu motorista arranca e saímos rua afora. Já tenho uma resposta.

Exatamente às 5 da manhã, Bernardo conseguiu entrar no sistema do nosso rival e todos nós, incluindo meu pai, acordamos. Planejamos e mandamos Valentim e meus melhores homens para espionar, e se algo concreto surgir, iremos invadir com força total. Meu pai ficou me observando em todos os momentos na sala de reunião, eu sei o que ele quer perguntar.
— Já tenho uma resposta, se é por isso que ficou me observando o tempo todo. — Só acho que ele não vai gostar.
— E qual é?
— Eu não me casarei com nenhuma.


Mellia López

Dias atuais


Minha cabeça lateja e meus olhos não querem abrir. Por baixo de mim sinto a maciez do que me parece uma cama, e uma bem melhor do que a minha. Não ouço nada, é como se eu estivesse no paraíso que todos dizem existir. Forço meus olhos a abrirem, mas mesmo assim continuo no escuro, não sinto o cheiro de nada diferente. Tento me mexer, mas quando sinto o objeto gelado no meu pulso, puxo para ter certeza do que estou imaginando. Meus pés estão doloridos e agora um misto de sensações estranhas por todo corpo me toma. Tento puxar minhas mãos e pés, tento me levantar, mas estou presa. Eu não entendo, onde eu estou?! O que está acontecendo?! Tento me soltar com toda força que consigo fazer, mas é em vão. Ouço um barulho, como se fossem dígitos de celular, e o que me parece ser uma porta se abre. A claridade me cega no momento em que o feixe de luz entra no ambiente. Passos altos se aproximam de mim.
— Pode me soltar, eu... — Tento puxar o que se parecem algemas das minhas mãos, mas os passos voltam para a porta e o feixe de luz desaparece.
Continuo tentando me desprender desses objetos, mas tudo parece inútil. Eu começo a entrar em desespero, sem saber o porquê estou aqui, onde estou e o que querem quando as luzes se acendem.
O quarto é todo cinza. Deus, é exatamente o quarto com o qual eu sonhei a alguns dias, uma porta o que parece ser um banheiro e um closet. Ouço novamente os barulhinhos na porta e ela se abre, revelando dois homens altos entrando no quarto, eu não os conheço. Eles me olham da cabeça aos pés, me sinto envergonhada e abaixo a cabeça. Uma terceira pessoa entra com um coturno preto e calça jeans, levanto a cabeça para olhar, mas o que vejo é surpreendente. É ele... É o cara tatuado da entrevista.
Sebastian.


Capítulo 10

Mellia López

E mesmo com os olhos turvos de lágrimas, a raiva incendeia meu corpo como se eu estivesse em uma luta comigo mesma. Sinto o olhar sarcástico dele sobre mim. Todo o maldito tempo eu pensei que toda aquela loucura não passava de um mal-entendido, ou até mesmo uma brincadeira de mal gosto, quando na verdade era ele, o tempo todo. Brincando com a minha vida como se eu fosse um brinquedo barato.
— O que você quer? — Pergunto sem rodeios. Ele se aproxima da cama e tento me encolher, como se fosse possível, devido às algemas.
— Não seja tola. — Ele fala frio e calculista e se senta na cama ao meu lado, com os olhos amendoados fixos em mim.
— Não encosta em mim! — Afirmo com medo do que mais ele é capaz de fazer. Os homens que entraram primeiro observam todos os movimentos, olhando estranhamente para Sebastian, se é que esse é o nome dele mesmo.
Ele se aproxima cada vez mais e levanta a mão. Não deixo de observar o love tatuado na sua mão direita. Será que ele já amou alguém?! Duvido!
Pessoas normais amam uns aos outros, isso é ser humano. Mas creio que ele não saiba o que é isso.
Engulo o ódio e o medo, pronta para finalmente olhar na cara dele e ouvir o que ele realmente quer de mim, ele leva a mão ao meu rosto e o toca levemente, tirando uma mecha do meu cabelo da frente do meu rosto. Tenho medo até mesmo de olhar para ele, mas ele pelo jeito nunca sentiu nada como eu sinto agora, medo do que possa acontecer comigo. Eu temo a minha própria morte.
— Foi tudo você, né? — Questiono, mesmo sabendo a resposta. Ele me encara friamente agora.
— Você fala bastante para o meu gosto. — E mais uma vez sou ignorada.
— Estou no meu direito de fazer quantas perguntas eu achar necessário. Você não acha? Que tola que sou... — Dou risada de mim mesma. — Mas é claro que você não acha, não foi sequestrado e amarrado como eu. — Puxo as algemas com força e ele se levanta rápido da cama, voltando para seus amigos de terno. — Ei... Eu te fiz uma pergunta. — Solto, cada vez mais irritada. Ele começa a gesticular e falar com os homens. E sai rumo à porta com um dos caras, sem me dizer uma única palavra. O outro fica parado na minha frente, me olhando como se eu fosse um objeto de exposição.
— Olá, Mellia! — Ótimo, todos aqui sabem meu nome, enquanto eu não sei nem mesmo onde estou. Tento agir o mais calma possível, a fim de que ele me dê alguma informação.
— Oi, você pode me dizer onde eu estou? Juro que não falo para ninguém. — Tento desesperadamente conseguir qualquer coisa que seja.
— Não precisa se preocupar com nada aqui. Luzia vai te ajudar com tudo o que precisar. Só uma dica: não tente nada, pelo seu próprio bem, e você ainda está no México. — Graças aos céus, pelo menos um ser é sensato nesse lugar.
— Obrigada! O que vocês querem? Eu não fiz nada...
— Mellia, isso é tudo o que posso dizer. — O homem de cabelos castanhos claro adverte. Ele parece ser legal. Alto, os músculos dos braços bem definidos, com os olhos amendoados assim como... Ele pode ser irmão dele. Céus o que estou pensando, ele pode até ter me dado alguma informação, mas isso não faz dele uma pessoa boa, ele ainda faz parte disso, assim como aquele imbecil.
— Você também faz coisas como ele? — Pergunto apontando a cabeça para a porta.
— Como assim?
— Sair atirando nas empresas das pessoas, como seu amigo ou patrão fez. — Ele abaixa a cabeça rindo.
— Sebastian é imprevisível. Nunca se sabe até onde ele pode chegar quando ele quer algo.
— Pelo menos esse é o nome dele mesmo. — Reflito. — E você? — Volto a perguntar.
— Aqui fazemos de tudo, Mellia. — Como assim de tudo?! Ele se vira caminhando até a porta.
— Ei... — Balanço as algemas. — Pode me soltar?
— Luzia vai lidar com isso. — E a porta se fecha, ouço o clique da porta no mesmo instante.
O vazio e a sensação ruim dentro de mim retornam. Não sei se é dia ou noite aqui. Eu preciso ser inteligente se eu quiser sair daqui, preciso saber cada pequena informação mesmo que não me sirva de nada agora. Preciso fazer com que eles confiem em mim para me contar algo que posso usar e me deixar sair desse quarto. Me deito na cama com os braços cansados de tanto tentar arrancar as algemas do meu pulso. Maldito sea.


Sebastian Dellafuentes

Ela é mais bonita do que as fotos mostram, porém arisca. Espero que ela não seja burra o suficiente para me tirar do sério, não tenho paciência com gente tola. Dei instruções precisas para Luzia cuidar dela enquanto estou ocupado. Passo em frente ao quarto do meu pai, que está com a porta aberta. Ele já deve estar sabendo de algo sobre a garota e só está esperando eu falar com ele, mas eu não vou. Como ele mesmo disse, eu não sou mais um garoto, portanto, não devo satisfação da minha vida a ele.
— Estava pensando no que, Sebastian? — Porra!
— A que está se referindo? — Tanta coisa para fazer e ele preocupado com uma simples garota.
— Você pode até manter contato com essa putinha que você sequestrou, mas você ainda tem que escolher. — Abaixo a cabeça, rindo das palavras ditas.
— Eu não vou me casar. E já te disse isso. — Se ele acha que mudei de ideia, está muito enganado.
— Marquei um jantar hoje com as duas às vinte horas. Você vai estar lá, entendeu? — Ele está brincando com a minha cara.
— Se sobrar tempo, irei. Caso você tenha esquecido, ainda estão com Alana e estamos trabalhando nisso desde que Valentim retornou. — Ele ajeita a gravata e ri.
— Se não quiser ver sua nova putinha morta na sua cama, é melhor estar lá. A escolha é toda sua. — Os olhos castanhos dele se tornam negros e sei que ele não está blefando. Viro as costas saindo da porta do quarto.
Se meu pai acha que vai se sair por cima com esse jantar, ele perdeu a porra do juízo de vez. Desço as escadas rapidamente indo até a cozinha. Peço a Luzia que tire as algemas de Mellia, dê a ela roupas limpas e o que comer. Mas repasso mais uma vez a questão de não dizer nada dos nossos negócios, onde exatamente estamos e outras informações que ela não precisa saber. Peço também que ela traga uma estilista, ou sei lá como se chamam as pessoas que trabalham com moda, para vesti-la de acordo com o jantar, e deixo claro para que ninguém saiba de nada disso, principalmente meu louco pai. Ele rasgaria a garganta das duas na mesma hora.
Depois da reunião para discutir a questão do sequestro de Alana, resolvemos que vamos partir para a Espanha amanhã pela manhã. E, claro, dessa vez irei junto, sairemos de lá com Alana morta ou viva. Termino de separar as armas que irei levar nessa missão e não poderia deixar de escolher as minhas favoritas: metralhadora calibre 2000m, que mata ser humanos a dois quilômetros e destrói veículos, embarcações e helicópteros. Meu rifle e as armas pequenas.
Meu celular está tocando o caralho do dia todo, a porra da Carmen não quer me deixar em paz um mísero dia, isso porque tinha dito que estaria ocupado hoje.
— O que é? — Resolvo atender.
Posso ir até aí hoje? — É por isso que não vou me casar nunca, odeio que fiquem no pé o dia todo.
— Se eu não estou com amnésia ou algo do tipo, já tinha falado que não! — Preciso avisar a Valentim para riscar ela do meu caminho.
Que chato, estou com saudade! — Isso precisa acabar.
— Estou ocupado! — Solto e encerro a ligação.

Já passa das 7:30 da noite quando me recordo do maldito jantar. Mal posso esperar para ver a cara de todos na mesa quando ela descer ao meu lado.
Digito a senha da porta do meu quarto e entro, vendo a cama vazia e toda desfeita. Luzia e a garota estão no meu closet. Ela me olha com a cara fechada e dou risada, ela se afasta para trás e Luzia caminha até mim.
— Desculpa, senhor, já estamos terminando. — A governanta afirma.
— Temos tempo ainda. Leve o tempo que precisar, Luzia.
— Eu não vou! — Estava demorando.
— Você não manda em nada aqui e se digo que você vai, você obedece. — Deixo claro como as coisas vão funcionar, até eu tirar ela do meu caminho. Ela vem até mim, tentando se equilibrar em um salto preto.
— Senhorita? — Luzia entra na frente da garota e pergunta, mas ela desvia, chegando perto de mim, até me dar um tapa no rosto. Como eu disse, arisca demais. Ela se choca com o próprio ato e fica paralisada na minha frente, como uma estátua. Levanto a mão e ela se encolhe com medo, levo a mão até seu braço acariciando de leve. Puxo ela forte e saio arrastando pelo quarto.
— Pelo visto não entendeu ainda... — Pego a algema em cima do criado mudo e empurro ela na cama, que senta forçada. — Então vai continuar presa. — Prendo a mão dela na cabeceira da cama.
— Me desculpa... Por favor, não vou fazer mais. Me solta! — Ela pede chorando. Que patética.
— Luzia, termina com isso logo. E você, é melhor se comportar lá embaixo ou as coisas vão ficar piores do que estão. — Vou para o banheiro e fecho a porta.
Meu pai começa a remexer impaciente na comida que mal comeu, devido ao fato de eu não ter dito nada até então e ter deixado o melhor para o final, a sobremesa.
Rebekah, filha de um dos nossos inimigos mais conhecidos, é uma das opções, segundo meu pai. Eu começo a me imaginar casado com uma praga dessa. A pobre parece um ratinho loiro, até sua voz é fina demais. Magra demais, pergunta demais e, no mínimo, é uma daquelas loucas em dietas. Porra, ela queria saber de tudo que seria servido!
A segunda opção, Diana, é uma criança, só fala de coisas inúteis, apesar de ser bonita. Ela deve ter um tique nervoso ou alguma doença que faz ela piscar sem parar. Aposto que ela seria a escolha que meu pai faria, se eu deixasse ele tomar conta da minha vida.
Meu pai me chuta por debaixo da mesa e agora percebo que estava olhando sem parar a escada enquanto a ratinha loira estava falando comigo.
— Creio que esteja na hora da sobremesa. — Resolvo acabar com toda essa babaquice e afirmo com a cabeça para que a empregada traga minha sobremesa.
— Me perdoem, mas não costumo comer sobremesa... — A rata loira começa a falar, mas corto.
— Não se preocupem, essa sobremesa é só para mim! — Meu pai me olha furioso no justo momento em que ela começa a descer as escadas com um vestido azul de um tecido fino, aberto na lateral, da perna até sua coxa. Porra, as fotos que vi não mostravam tudo isso. Me levanto, indo de encontro a ela, que revira os olhos, estendo a mão e ela pega, juntando nossas mãos. Simulo um beijo no rosto como comprimento.
— Sorria e se comporte se quiser saber do seu amigo Alonzo. — Sussurro no pescoço dela sentindo o seu perfume.


Capítulo 11

Mellia López


A terrível sensação de desespero me toma, me desequilibro no salto enorme que me forçaram a usar. Por pouco não tropeço nos meus próprios pés, mas ele é rápido e segura meu braço com mais força que o necessário. Ele está diferente das últimas vez que o vi, assim como na primeira vez naquele sórdido escritório. Calça jeans clara, jaqueta de couro preta e o ridículo coturno preto. Não entendo nada de moda, mas com toda certeza Jess acharia tudo isso ultrapassado como ela diz. Agora ele veste um terno todo preto, completamente alinhado no corpo alto, aposto ter sido feito por medida para ele, dado em vista os músculos fortes dos braços, o sapato preto reluz o brilho de longe.

— Como sabe de Alonzo? — Sussurro segurando as lágrimas nos olhos.
— Cala a boca e se comporte, não vou repetir de novo! — Eu não sei por quanto tempo irei aguentar isso. Não sei o que é pior, estar do lado de pessoas criminosas ou se eu estivesse morta. No momento escolheria a segunda opção sem pensar duas vezes. Ele é doente, como ele pode saber tantas coisas, principalmente de Alonzo e me chantagear com isso.

Caminho ao lado dele observando toda enorme sala de jantar, facilmente caberia a minha casa toda aqui dentro. As cortinas são enormes, de um tecido de cor bordô que parece ser muito caro como todos os itens da sala. O homem com postura ereta passa a mão pelos cabelos grisalhos, me recordo totalmente de quando ele entrou atrás desse monstro, no escritório o repreendendo. Tudo passa como um filme na minha cabeça e o protagonista babaca desse filme é o maldito tatuado, sempre foi ele. Como fui tão burra.
Sebastian me leva até a direção da cadeira onde ele mesmo estava sentado, e aponta para que eu me sente do seu lado. Quem vê pensa que ele é um cavalheiro, a porra de cavalheiro sequestrador doentio.

— O que é isso, Sebastian? — O senhor de cabelos grisalhos pergunta. Quanta perda de tempo, porque ele não me mata logo e me joga numa vala qualquer, acabando com todo esse circo de vez. Mas claro seria fácil e rápido demais, ele prefere me usar por sabe-se Deus quanto tempo.
— Papai, creio que seja uma mulher. — Sebastian zomba. A duas garotas na mesma mesa, olham estranho para mim, como se eu fosse um bicho de sete cabeças. Elas estão bem vestidas, maquiadas e com cabelo de dar inveja a qualquer um.
— Estamos em um jantar importante, com convidadas importantes... — Ótimo, pai e filho, dois criminosos pelo jeito, não poderia ficar pior.
— Concordo com você, inclusive tenho um anúncio a fazer. — Sebastian interrompe. Tento com todas as forças possíveis ficar calma e ser paciente, a fim de que ele me diga no final de tudo isso o que ele sabe sobre Alonzo.
— E o que isso tem a ver? — O senhor pergunta, apontando a mão para mim e bebericando um pouco de seu vinho. Pelo visto eu não passo de um bicho ou qualquer outra coisa que não tenha a ver com um ser humano. Será que isso acontece com frequência, para todos estarem agindo normalmente?! Eles tomam vinho com pessoas sequestradas no jantar todos os dias como se fosse uma coisa normal de se fazer?
— Te apresento, querido pai, minha noiva! — O quê? Sebastian coloca sua mão sobre a minha, e vira o rosto com sua barba escura e bem aparada para mim, sorrindo. O senhor de terno começa a tossir freneticamente, provavelmente pela notícia repentina. Uma das garotas se levanta e vai até ele, ela começa a dar tapas nas costas dele. Com certeza não acontece sempre!

Tento puxar minha mão, mas ele pressiona fortemente a mão sobre a minha.
— Eu prefiro morrer, do que estar… — Eu nem mesmo consigo dizer a palavra.
— Estamos muitos felizes como pode ver, papai. — Ele olha para o pai que agora está mais branco do que antes. A garota que ajudou o pai de Sebastian, agora volta ao seu lugar e pega sua bolsa pendurada sobre a cadeira.
— Acho que tudo já está resolvido por aqui, e parabéns pelo noivado! — A menina diz com sorriso nos lábios. Noivado?! Minha cabeça começa a martelar, meu corpo adormece com toda essa estupidez. — Tenham uma boa noite! — Ela se vira em direção a uma porta que nem notei quando entrei. O senhor se levanta rápido da cadeira, como se fosse ir atrás da garota, mas não vai.
A outra mulher loira impaciente bate as longas unhas vermelhas na mesa, chamando a atenção de todos.
— Pode me explicar toda essa...Brincadeira, tio Roberto? — Cada palavra e barulho que escuto é como uma facada a mais na minha cabeça. O senhor se senta novamente e finge um sorriso, que até mesmo as pessoas que não o conhece percebem a falsidade. Ele tenta desconversar as palavras ditas por esse estúpido ao meu lado, enquanto Sebastian dá risada, trocando olhares entre mim e seu pai.

Não entendo o motivo de ele achar tanta graça, mas já que agora estou fazendo papel de palhaça em todo esse circo, eu só quero que todo esse show acabe logo para que ele responda minhas perguntas.

Eu nunca fui uma pessoa que odiasse as pessoas, acho que na verdade nunca odiei ninguém em toda minha vida, até conhecer Sebastian. Ele me tirou da minha casa, da minha vida, ele me tirou do meu próprio corpo, como um monstro que ele é. Ele brinca com o resto da minha vida, me drogando, sequestrando, me algemando sobre uma cama em um quarto escuro. Eu sou vestida, maquiada e penteada como uma boneca. Aposto que como essa garota que agora grita com o pai desse... Psicopata, adoraria estar no meu lugar.
A verdade é que bonecas não passam de um brinquedo que as crianças brincam, brincam e quando se cansam, elas são jogadas em uma caixa escura e vazia, assim como eu.
Eu tenho medo que eu não tenha tempo de conseguir fugir antes que eu seja jogada em uma caixa, tenho medo de nunca mais conseguir ver meus pais, minha irmã, Jess. Engulo em silêncio o soluço que me vem, só de imaginar nunca mais poder pisar os pés nas ruas e sentir o vento batendo no meu rosto, meu estômago revira.
Me levanto rápido, sem dar tempo para que ele me force a fazer parte desse jogo doentio dele. Levanto um pouco o vestido e corro ao mesmo tempo, para a mesma escada que desci até esse inferno, subindo o mais rápido que posso.
Chegando até o topo da escada, dou de cara com dois brutamontes enormes, me barrando de passar, solto o vestido e vou para cima deles. Eu sei que vou fazer papel de menina mimada, mas tento mesmo assim. Começo a tentar empurrá-los e bater em seus peitos estufados, eles acham que estão ganhando alguma coisa trabalhando para criminosos como Sebastian e seu pai, tento de todas formas possíveis mais como imaginei é impossível atingi-los.

— Levem-na para o quarto. — Sebastian grita da mesa. A garota loira parece chateada e o pai desse maldito conversa com ela, levando-a até a porta onde a outra desapareceu momentos antes. Os homens tentam me segurar pelos braços, mas não paro de me movimentar, ainda estou viva por hora e não pretendo deixar que eles me toquem. Aquele psicopata quer brincar com a minha cara então vamos brincar, nesse estúpido jogo sujo.
— Por que você não vira homem e vem me levar, então. Ah claro, você prefere me drogar pra isso, né? — Grito alto para que todo o lugar me escute.

Sebastian sai da sua cadeira e caminha até o primeiro degrau da escada com as mãos no bolso da frente da calça, a cara fechada que antes se acabava de rir com a cena agora está séria. Os olhos amendoados agora ficam sombrios sobre mim, e sei que consegui atingir em cheio. Os brutamontes ainda tentam me segurar pelo braço, e luto, desvencilhando deles, tentando fazer que me soltem para que eu possa ir de encontro com Sebastian e gritar tudo o que eu tenho que falar.
Juro que se eu tivesse até mesmo um garfo comigo, não hesitaria em furá-lo mesmo sabendo que acabaria presa ou sei lá o que. Na tentativa frustrada de fazer com que me soltem, piso em falso, tropeçando no maldito vestido, tento desesperadamente me segurar no corrimão da escada mas já é tarde demais, meus pés tropeçam entre eles e rolo escada abaixo. A última coisa que vejo são as caras assustadas dos homens que antes lutavam comigo e apago com a dor.


Capítulo 12

Sebastian Dellafuentes


Essa inconsequente tropeça nos próprios pés e rola escada abaixo, sem ao menos dar tempo para que os meus seguranças a segure pelo braço fino, que até então ela lutava para que eles não a tocassem. Ela cai nos meus pés como um maldito filme clichê. Me abaixo para conferir. Ela não se mexe, levo minha mão até seu pescoço para conferir sua pulsação, e confirmo que seu ritmo cardíaco está irregular. Pego ela com cuidado no colo e meus homens vêm de encontro comigo.

— Pegue a van e me encontre na porta da frente, AGORA! — Esses inúteis só podem ter algum problema. Mellia não se mexe em nenhum momento, está gelada e a pele antes com cor agora está pálida. Acho que ela não quebrou nada, mas a várias escoriações principalmente na perna, braços e no rosto.
A van finalmente estaciona na porta da frente, o motorista abre a porta e entro colocando-a delicadamente em dois acentos.
— Bora, caralho, está esperando o quê? — Pergunto para o lerdo que fica parado me olhando em vez de sair com a van. Realmente espero que ela não tenha quebrado nada, ou vai estragar os meus planos.

Chegando no hospital particular onde o próprio financiador é meu pai, entramos pelos fundos para que não sejamos vistos por ninguém. No mesmo momento que desço da van com a garota no colo o médico vem de encontro, junto com duas enfermeiras ao lado empurrando uma maca toda branca. O médico, cujo já havia visto algumas vezes em casa, consultando meu pai pergunta o que aconteceu e explico toda a cena, claro que menos a parte que ela estava lutando com dois homens maiores que ela, só para me irritar. Caminho lado a lado com o médico, que nos leva em uma das alas VIPs, feitas somente para o uso da minha família.

Algumas horas se passam enquanto resolvo problemas maiores como a viagem de amanhã, mais precisamente hoje, visto que já se passou da meia-noite. Valentim ficou sabendo do acontecido e veio logo se colocar à disposição, meu primo é um cara bem concentrado em seus deveres, mas quando se trata de algo familiar pode contar com ele. O que não entendi o por que dele ter aparecido aqui, a essa hora da noite mesmo tendo dito que não havia necessidade. Agora estamos na sala de espera como dois babacas. Finalmente avisto a enfermeira vindo em minha direção.

— Boa noite, senhor, ela irá acordar a qualquer momento, se quiser, já pode entrar. — Virou Bela Adormecida agora. Confirmo com a cabeça e ela me leva até o quarto. A enfermeira abre a porta e entra na minha frente, abusada do caralho. O médico nota minha presença e me chama para o lado da cama onde Mellia está ainda dormindo.
— Vaza! — Menciono para a enfermeira que está parada me olhando como se eu fosse a porra de uma estátua.
— Mas senhor… — Ela tenta retrucar.
— Faça o que ele diz. — O médico diz a enfermeira, que obedece no mesmo instante. Será que é difícil as pessoas entenderem as coisas?! Isso facilitaria tanto meu trabalho se me escutassem, vidas seriam poupadas.
A enfermeira sai e o médico agora senta na cadeira ao lado da cama, revisando alguns papéis.

— Depois de todos os exames feitos, por muita sorte ela não sofreu nenhuma fratura, somente alguns arranhões. Além, claro, de uma leve desidratação. — Pensei que ela tinha se alimentado depois que a visitei logo pela manhã, depois de mais de 24h dormindo devido à alta dose de clorofórmio, é óbvio que ela não aguentaria.
— Quando ela pode ir? — Pergunto apressado.
— Eu prefiro que ela passe esse resto de noite aqui, em observação e também para descansar. Mas ela poderá sair logo pela manhã! — Caralho! Pego meu celular do bolso e envio uma mensagem para Valentim para que ele venha até o quarto.
— Bom, vou deixar vocês a sós, a enfermeira vem observar a cada hora. Daqui a pouco ela deve acordar. Recomendo deixar ela descansar. — Quem ele pensa que é para me dar ordens?!
— Tá, eu já entendi tudo, se puder sair… — Peço com o resto de paciência que me resta. Ele junta os papéis na cadeira que ele ocupava antes e caminha em direção a porta.

Depois que o médico saiu logo em seguida, Valentim entrou, resolvemos não atrasar a viagem a Espanha, mas, conhecendo bem meu primo, sei que ele se sentiu mal nesse quarto e saiu mais rápido possível. Assim como eu, Valentim ama colocar pessoas no hospital, quando não matamos, é lógico, mas visitar hospitais não está na nossa alçada. Então ele preferiu ficar na sala de espera, segundo ele, é menos hediondo. Só não entendo que caralho ainda estou fazendo plantado aqui. Me levanto da poltrona, preciso de um café forte, para não surtar e terminar de matar essa garota.

— Hum… — Ora, ora, ora quem resolveu acordar. Mellia se remexe ainda sonolenta, porra o quanto uma pessoa é capaz de dormir?! Me aproximo da cama, ela parece melhor, mas como vou saber?! Ela parecia bem momentos antes de rolar escada abaixo.
— Bela Adormecida? — Zombo. Ela abre os olhos rápido e por um momento me lembro da Bella de Crepúsculo acordando vampira, com os olhos ávidos.
— O que você tá fazendo aqui? — Ela é muito abusada mesmo.
— Além de lógico ter te trazido pra esse inferno, esqueceu que estava na minha casa? Deveria me pagar um boquete só por isso.
— Você é nojento! — Ela faz cara de horrorizada com o linguajar. É bom que ela se acostume.
— Por agora, aceito um obrigado. Afinal das contas, tinha compromisso. — Infernizo.
— Poderia ter me deixado sozinha, estaria muito melhor do que com a sua presença. — Filha da puta, egoísta! Com certeza está melhor. Ela começa a conferir seu corpo procurando por algo de errado.
— Você é sortuda! Segundo o médico, não fraturou nada, apenas alguns arranhões e ele citou algo sobre desidratação. — Ela confere os braços e pernas vendo curativos por toda parte. Não deixo de encarar as belíssimas pernas torneadas, mas ela logo percebe e se cobre novamente. Coitada! Se acha que não vai ser minha… Dou risada dos meus pensamentos pecaminosos.

Meu celular toca e vou até a mesinha, é meu pai para completar a noite fodida.
— Fala. — Atendo.
— Sua putinha tá viva ainda ou já me poupou esforços? — Meu pai pergunta.
— É assim que você se refere a sua nora, meu querido pai? — Questiono e imagino a reação mais comum dele, cerrando o punho.
— Sebastian, você tem noção do que você fez? — É sério isso em plena madrugada, ele me vem com esse papinho.
— Eu fiz exatamente o que você sempre quis nesses últimos tempos, que eu arrumasse uma noiva. E eu fiz!
— E o que essa simples garota tem, que nos ajude a acabar com os nossos inimigos? Me diga uma? — Esse assunto já está me enchendo a paciência, me viro para sentar na poltrona, mas é só aí que percebo que a porra da garota fugiu. Encerro a ligação no mesmo instante. O acesso que antes estava no seu braço está jogado no chão. Porra!

Corro para fora do quarto olhando por todas as partes, mas não a vejo. Entro na sala de espera correndo e Valentim se levanta rápido pronto para agir.

— Ela fugiu, vamos procurar. — Valentim sai pelo lado direito do hospital, e eu vou até a recepção e informo a atendente que tem uma mulher armada à solta no hospital, e ela aciona o código preto imediatamente. Automaticamente o barulho é ecoado por todo hospital. Volto a sair à procura, entrando em todas os quartos que vejo não me importando se estão ocupados ou não, foda-se! Quando uma mensagem chega no meu celular.

— No andar debaixo! — Filha da puta! Ela é esperta, escolheu tentar sair pela entrada principal do hospital, onde tem mais movimento. Pego o elevador e desço contando os segundos para ver a cara decepcionada dela.
Escuto ela falando alto e Valentin de longe observando tudo, os seguranças estão segurando-a e me aproximo chamando Valentim.

— Podem soltá-la! — Ordeno.
— Mas senhor… — Minha paciência está por um fio.
— Dellafuentes. — Grito para que esses merdas de seguranças ousam.
— Moço, por favor, não me solta, chama a polícia, eu fui sequestrada por esses dois… — Desgraçada vou matá-la. Ela começa a chorar se desabando no chão feito uma criança mimada. Valentim tenta ajudá-la a se levantar, mas ela se recusa, chutando-o com as pernas.
O diretor geral do hospital chega e me cumprimenta, explico a situação verdadeira a ele, não que eu deva satisfação a ele, até porque se está trabalhando aqui deve isso a mim e meu pai. Ele chama uma enfermeira com uma cadeira de rodas e manda os dois seguranças levá-la até o quarto, eu agradeço e subo juntamente com Valentim que está em uma crise de riso.
Chegando no quarto peço que meu primo fique com ela até que eu fale com o médico que nos atendeu quando chegamos. O caralho que fico mais um minuto nessa porra.
O médico receita que ela se alimente bem, tome água, descanse e tome algumas vitaminas. Talvez ela nem fique viva para isso.
Volto para o quarto e ela ainda está chorando com os braços cruzados, e não saiu da cadeira de rodas.

— Vamos! — Chamo e Valentim move a cadeira de rodas empurrando.
— Vamos passar em casa? — Meu primo pergunta.
— Vamos direto pra pista de aterrissagem.
— E quanto a ela? — Já era meu plano antes, depois dessa gracinha dela, então...
— Vai junto!


Capítulo 13

Mellia López


Depois que caí da escada acordei no hospital com a visão que menos queria ter visto na vida, ele me olhou com o maldito sorrisinho no rosto e ainda brincou comigo. Antes de abrir os olhos, fiquei alguns segundos rezando em pensamentos que tudo aquilo que eu tinha passado não passasse de um pesadelo, e que, na verdade, eu teria dormido mais que a cama e tinha perdido o horário pra ir trabalhar. Mas eu escutei o mesmo maldito passo de quando fui sequestrada e foi aí que eu soube que tudo era real.
Eu fingi que estava tolerando tudo isso, que estava bem, para que eu usasse como oportunidade de fugir e aconteceu, só não funcionou.
Gritei, chorei e tentei convencer as pessoas que eu tinha sido sequestrada, mas ninguém pareceu me ouvir. Me senti uma louca, todos me olhando e cochichando como se eu fosse a maluca aqui, quando o caso é ao contrário. Agora eu estou indo viajar de avião pela primeira vez, e nem sei para onde estou indo e muito menos para que estou indo, mas se ele acha que vou facilitar as coisas pra ele está muito enganado.
Estou cansada de lutar por tudo, eu realmente não entendo por que eu ainda estou viva, não bastou tudo que eu passei antes e agora isso?! O que eu fiz de tão ruim para merecer isso?!
Já chorei tanto, mas tanto que talvez a minha desidratação seja por conta disso, sinto meus olhos inchados, mas não me importo, logo estarei morta e nada disso vai importar.

— Desce! — Sebastian exige e eu ignoro. — Você não está dormindo porra nenhuma, anda logo! — Continuo com os olhos fechados, ele quer brincar, então vamos brincar. Depois de alguns segundos fingindo, resolvo abrir os olhos e vejo Sebastian conversando com um homem alto na entrada do avião, então some de vista e o homem que antes estava conversando com ele caminha em minha direção, o homem entra na van e vem até meu lado me pegando pelas pernas.
— Ei... Me solta! Diz para o seu patrãozinho de merda que não vou a lugar nenhum. — Grito! Mas ele finge não escutar e me joga em seu ombro. Do dia que acordei já vi tantos homens, mais do que toda minha vida trabalhando no café e me pergunto para que tantos homens diferentes?! Acabo chegando à conclusão que até agora não parei pra pensar que tipo de negócio provavelmente sujo, Sebastian e seu pai fazem.
O homem de terno sobe as escadas do avião e vejo todo o luxo que é por dentro, isso parece uma casa. Será que todos aviões são assim?! O cara passa por Sebastian que já está sentado em um assento mexendo no celular, e me joga em um outro assento.
— Coloque isso nela, pelo jeito ela gosta de ficar presa. — Sebastian joga a maldita algema para o homem que me carregou até aqui.
— Sério isso? Você acha que eu vou o que... Pular do avião? — Pergunto.
— Digamos que você não é uma pessoa confiável. E considere um de seus castigos, por todo aquele trabalho no hospital.

Depois de alguns minutos já voando, e de um frio na barriga terrível quando decolamos, consigo descansar a cabeça no assento, mas isso não dura muito. Uma comissária de cabelo loiro e alta começa a passear pelos assentos todo santo minuto me observando.
— Senhorita, está na hora de tomar suas vitaminas. — Vitaminas?!
— Desculpe, mas acho que houve um engano, eu não tomo nenhum medicamento. — Afirmo!
— O senhor Dellafuentes que mandou. — Ele vai me drogar de novo…
— Eu não vou tomar nada! — Maldito o que ele tem na cabeça?! — Mande-o tomar, pode dizer que fui eu que mandei. — A comissária levanta as sobrancelhas, mas não sai do lugar, outra pau mandado.
— Senhorita eu só estou fazendo meu serviço. — Me coloco no lugar dela, e agora me sinto uma megera, eu não nunca fui assim. Vejo Sebastian fechando o notebook com mais força do que necessário e se levantando vindo até mim.

— O que é agora? — Ele se encosta em outro assento e cruza os braços, intercalando olhares entre mim e a comissária.
— Desculpe, senhor, mas ela se recusa em tomar a vitamina que o senhor mandou.
— Não estou surpreso com isso! Me entregue as cápsulas e um copo de água. — Ele nem ouse…
— Sabe, Mellia… — Ouvir ele dizendo meu nome é uma mistura estranha de medo com um frio na barriga. — Você complica as coisas pra você.
— Eu complico as coisas? Você tem noção do que fez comigo? Você acha que eu vou ficar quieta e aceitar fazer tudo o que você manda numa boa? Sinto te dizer, mas não vou! E não me importo com as consequências disso... A minha vida acabou mesmo. — Ele balança a cabeça negativamente, e não entendo o porquê.
— Pode ir! — Sebastian manda a comissária sair assim que ela entrega as cápsulas e uma garrafinha de água. Ele então se coloca na minha frente e se agacha, olhando nos meus olhos, tento desviar o olhar, mas o medo fala mais alto. Sebastian levanta a mão até o meu rosto e enfia os dois dedos juntamente com a cápsula na minha boca.
— Você tá louco? — Cuspo longe, jogando fora a vitamina. Ele não muito satisfeito coloca mais uma na minha boca e em seguida coloca a garrafinha de água e aperta para que eu beba. A água sai mais que o devido e derrama sobre o meu corpo, fazendo minha blusa molhar. — Olha o que você fez… — Retruco!
— Eu te avisei! — Sebastian diz se levantando e fechando a garrafinha de água. Passo a mão na blusa como se fosse resolver alguma coisa, já que somente uma mão está solta. Levanto a cabeça e vejo que Sebastian ainda está na minha frente, parado olhando para minha blusa ensopada e só aí que percebo que ela ficou transparente. A auréola do meu peito está nitidamente à vista com o bico avantajado na blusa, e ele não disfarça o olhar pervertido.

— Senhor, estamos chegando. — A comissária interrompe avisando que já estamos chegando sabe se Deus aonde.
— Ok! — Sebastian assente e pega o celular do bolso. Percebo algo inusitado entre as pernas dele. Ok! Isso é estranho Mellia e você não deveria estar olhando, mas o volume na calça social dá pra ver até mesmo de longe. Sebastian volta para seu assento e coloca o cinto de segurança.

Assim que pousamos, um carro chique preto nos esperou na pista, entramos nele e fomos por uma estrada estranha em direção contrária das luzes da cidade. Ninguém me respondeu nenhuma pergunta me ignorando totalmente, ficaram mexendo em celulares e Tablets em todo momento. Quando chegamos em uma entrada no meio de árvores enormes, um portão se abriu e entramos em um terreno avistando uma casa escura e com janelas grandes, a casa tem uma aparência antiga, porém bem cuidada.
Os homens de Sebastian me levaram para uma sala incrivelmente grande, com uma mesa com computadores por toda parte, e claro me algemaram novamente em uma cadeira. Logo em seguida Sebastian entra com seu primo Valentim, eles se sentam e começam a conversar, não dá pra entender muita coisa, mas o que eu consegui ouvir foi que estamos na Espanha e um nome de uma mulher chamada Alana.
Um aparelho celular toca em cima da grande mesa e Valentim olha estranhamente para Sebastian, que pega o celular imediatamente.

— Calisto, que bom que ligou. — Sebastian tira o celular do ouvido e aperta algum botão.
— Fiquei sabendo que já chegou no meu país. — Um homem fala do outro lado da linha.
— Vamos parar com essa fodida formalidade. E começa dizendo onde está o que eu quero. — Nem pra falar com as pessoas ele tem educação, é um imprestável mesmo!
— Você mal chegou e já quer mandar no meu país, meu amigo? — Não faço ideia quem seja esse outro cara, mas algo me diz que ele não é uma boa pessoa. Nem Sebastian e seus cúmplices são. — Eu tenho uma coisinha linda aqui pra você. Um presente de boas-vindas. — O homem diz com certo divertimento na voz, e Sebastian se levanta da cadeira.
— Se encostou, seu dedo podre… Você sabe que eu vou atrás de você e vou arrancar cada pequeno membro seu, né? — Sebastian se encosta na mesa e segura na borda dela com tanta força fazendo com que as pontas dos seus dedos fiquem vermelhos.
— Você receberá seu presente amanhã 7h! — O homem afirma por fim e desliga na cara de Sebastian.
— Não vamos esperar! Daqui a três horas vamos até eles, estejam prontos. — Sebastian passa por mim e para na porta de costas para a sala.
— Levem ela para o meu quarto. — Ele diz e volta a andar.


Capítulo 14

Sebastian Dellafuentes


Mellia já está me fazendo me arrepender de ser bonzinho com ela, de fato nunca sequestrei nenhuma mulher para fins satisfatórios, todas elas vieram porque quis, eu nunca forcei ninguém a nada e me orgulho disso. Na verdade, me orgulhava até que eu decidi sequestrá-la, como meus primos me disseram eu não sei o que eu tenho na cabeça, talvez tenha sido muita pressão por parte do meu pai, não faço ideia. Eu já sei que tenho 28 anos e que, segundo o meu pai, e o que vejo por aí, nessa idade os homens já têm uma família, ou estão construindo uma. Mas foda-se eu não sou igual a ninguém!
Nunca foi minha intenção me casar, ter filhos e essas coisas, pelo menos era o que eu achava até um ano atrás, meu pai começou a ficar cada vez mais debilitado com os problemas de coração dele e eu fui criado a vida toda para ser um verdadeiro chefe da máfia, e com todas essas responsabilidades meu pai deixou claro que uma hora ou outra eu teria que fazer o mesmo que ele.
Sempre me passaram a mesma visão que meu avô passou para meu pai: nunca tenha somente um plano. E isso vale tanto para os negócios quanto para a vida pessoal, que significa que devo continuar a geração Dellafuentes custe o que custar e doa a quem doer. Claro que meu pai iria influenciar nisso, como está acontecendo, querendo escolher as mulheres que eu foderia para ter um herdeiro Dellafuentes e ter um casamento que beneficie em algum momento os negócios da família. Mas não é isso que eu queria para mim, não a parte de se casar e ter filhos. Um bom rei é capaz de comandar seu reino sozinho.
Sempre gostei de ter mais de uma mulher à minha disposição e ainda gosto. Odeio que me imponham as coisas, eu sei o que tenho que fazer só ainda não estou pronto. Quanto a Mellia, eu quis uma coisa diferente, uma diversão que estaria disponível a hora que eu quisesse, então eu fui lá e peguei. Estava enjoado de todas essas mulheres grudadas no meu pé o tempo todo, querendo se tornar mais do que uma simples foda.
O plano para Mellia era foder com ela até eu enjoar e descartá-la. Mas então eu tive a fodida ideia de dizer para meu pai que me casaria com ela, para pirraçar ele logicamente. E funcionou, porém agora estou pensando o que vou fazer com toda essa merda. Eu realmente não quero me casar com nenhuma daquelas ratas brancas, mas também não quero foder o resto da minha vida com uma garota inconsequente e teimosa como a Mellia. Por enquanto, vou continuar queimando o cérebro dela até que eu decida o que fazer.

Entro no quarto indo diretamente até o banheiro, começo a me despir e entro no box abrindo o chuveiro, cada gotícula de água caindo sobre mim parece me aliviar de mais de 24h sem fechar os olhos. Tomo um banho rápido e saio para o quarto para me trocar, minhas roupas estão limpas e intactas como sempre, pego uma cueca box preta e uma calça jeans da pilha no closet. Passo a mão pelo meu cabelo molhado jogando para o lado, ele está maior do que costumo deixar, mas não me importo. Alguém bate na porta e imagino que estejam trazendo a estressadinha.

— Entra!
— Com licença, senhor, o jantar que pediu. — A governanta entra arrastando um carrinho com vários pratos, levando até a sacada. Ouço gritos do corredor e vou até a porta olhar a cena, nessa altura já até conheço os gritinhos de Mellia, será que ela não se cansa?! Acho que ela ainda não entendeu que nunca sairá daqui a não ser morta.
— Está tudo pronto, senhor, bom apetite. — A senhora diz saindo do quarto.
— Obrigado! — Os dois seguranças passam pela governanta que olha estranho para a cena e chegam até a porta, caminham até a cama colocando Mellia sentada. Eles dão meia volta e saem fechando a porta.
— Vai tomar banho! Estarei te esperando aqui. — Ordeno já esperando uma má resposta.
— Eu não vou tomar banho com você me olhando. — Ela é impossível de lidar.
— Você quem sabe, se gosta de ficar suja com roupa de hospital, o problema é seu. — Digo e ela fica parada olhando a porta do banheiro. — Suas roupas já estão no closet. — Ela dá mais uma olhada em todo o quarto e caminha rumo ao banheiro com passos rápidos.
Vou até a sacada olhar a vista que faz anos que não vejo e escuto a porta do banheiro se fechar.

Depois de longos minutos observando a vista, vou até o closet e pego algumas peças de roupas e uma puta lingerie vermelha que me deixou duro só de pensar nela vestindo isso, espero acabar com todos os problemas logo para que eu possa usufruir de todo aquele corpo.
Tento abrir a porta o mais devagar possível para que ela não perceba, mas ela é mais inteligente e está enrolada na toalha sentada na tampa do vaso sanitário.
— Suas roupas… — Coloco em cima da bancada do banheiro.
— Eu não vou agradecer se é isso que está esperando. — Ela me olha com os olhos escuros.
— Se veste logo! — Mellia passa a mão no cabelo molhado e vira de costas. Eu saio fechando a porta atrás de mim.

Já estou quase para jantar sozinho quando finalmente ela abre a porta do banheiro, a calça jeans clara se ajustou perfeitamente em seu corpo fazendo com que suas belas curvas se destacassem, a blusa preta molda sua cintura e seios perfeitos. Os cabelos escuros estão soltos vindo até sua cintura.

— Vamos jantar! — Volto para a sacada esperando que ela faça o mesmo, mas não faz!
— Olha! A oferta expira em cinco minutos, se não quiser morrer de fome ou desidratada, sugiro que venha logo. Eu tenho mais o que fazer. — O cansaço é tanto que acabei me esquecendo que daqui uma hora tenho que explodir a cabeça de algumas pessoas, e capturar Alana de volta. Ela continua parada me olhando. Que inferno essa louca tem?!
— Três perguntas, você pode fazer três perguntas se você se sentar e jantar. — Dou uma trégua a ela, que assentiu com a cabeça vindo até mim.

Mellia se senta na cadeira de frente comigo e olha para os lados procurando por algo ou alguém.
— A casa está cheia dos meus homens então não, não tem como você escapar daqui. E todos aqui incluindo funcionárias são leais a mim. — Ela mostra o dedo do meio para mim como resposta e ignoro. Apesar de estarmos na Espanha, ainda prefiro a comida do meu país e em todas minhas viagens para fora deixo isso bem claro para os meus funcionários, hoje em dia nem costumo mais falar pois eles já sabem.
Como sei que ela se negaria a se servir, coloco um pouco de Caesar salad e quesadilla de queijo em seu prato e depois no meu. Ela pega os talheres e começa a comer, pelo menos não tive que dar na boca dela como a vitamina de horas antes. Sirvo nossos copos com água enquanto ela pega o guardanapo.

— Por que eu? — Ela não perde um maldito minuto.
— Porque eu quis! — Respondo.
— Isso não é resposta. — Ela toma um gole de sua água.
— Para mim é. Próxima. — Resolvo acabar com esse jogo logo.
— Como você sabe sobre Alonzo? — A pergunta que eu esperava. Solto os talheres no prato.
— Sei mais do que você pensa, inclusive que vocês andaram se beijando. — Questiono olhando bem nos olhos dela que me encaram.
— Como... Você sabe disso?
— Não interessa! Eu só sei. — Afirmo voltando a comer.
— Ele está bem? — Que palhaçada isso, estou ficando de saco cheio.
— Se recuperando, mas bem! — Minto.
— O que vai fazer comigo? — Mellia pergunta olhando para as árvores ao redor da casa.
— Nas minhas contas, você já fez quatro perguntas. Agora é minha vez de perguntar, porém vou deixar para uma outra hora. Preciso ir. — Me levanto e ela faz o mesmo. — Você vai ficar! Continue comendo eu volto em breve. — Digo me retirando da mesa.


Estamos todos escondidos perto de um galpão prontos para atacar Calisto e sua turma, Bernardo conseguiu rastrear vários aparelhos celulares vindo daqui, inclusive o usado para falar comigo hoje mais cedo. O homem é tão burro que não contrata nem um hacker, e ainda fica em um lugar de fácil acesso. Esperamos ver alguns homens que trocam de turno daqui alguns minutos para pegarmos eles, em alguns metros do galpão encontramos uma grande parte da sua mercadoria, especificamente drogas de todos os tipos e vamos usar isso para que eles deixem o galpão livre.
— Um minuto, Sebastian. — Bernardo avisa pelo aparelho de comunicação que todos estão usando.
— Perfeito! — Eu conto os segundos mentalmente, e minha adrenalina sobe mais ainda, se é que isso é possível. Infeliz dos infernos, vou explodir você em pedacinhos Calisto. Eu disse para não entrar no meu caminho. 18 segundos para acabar com toda essa merda.
— Sebastian... Sebastian? Para... Parem com tudo. RECUEM AGORA!


Capítulo 15

Mellia López



Sebastian sai do quarto e me deixa sozinha, eu sei que ele disse que não tem como escapar daqui, mas mesmo assim me levanto para observar todo o lugar. Penso em pular da sacada do quarto, mas seria burrice, pois me machucaria e, talvez, não teria como correr rápido o suficiente para que ninguém me pegue.
Faço o que ele mandou, e volto a comer o prato delicioso na minha frente. Antes de vir para o quarto vi alguns homens tirando várias armas enormes de caixas escuras, me pergunto se esse é o negócio sujo dele. Creio que aquele tipo de arma não seja usado para coisas boas hoje em dia, não aparece nenhum policial na TV com aquele tipo de arma. Meu Deus! O que estou pensando, Sebastian me sequestrou, é óbvio que ele não é uma pessoa comum. Termino de comer e junto os pratos para levar para cozinha, se é que tem uma cozinha nesse lugar. Tento equilibrar os pratos em uma mão, e levo a outra até o trinco. A porta não se abre, tento de novo, mas nada acontece. Como sou burra, é claro que ele iria me trancar, volto para mesa e coloco os pratos de volta.

Depois de algumas horas revirando o closet e as gavetas, tentando achar algum papel, alguma coisa útil, me jogo na enorme cama no centro do quarto. Pelo menos posso usufruir de uma boa cama, uma boa comida e de roupas novas. Só não sei por quanto tempo isso vai durar.
Me reviro na cama mais vezes do que posso contar e simplesmente não consigo fechar os olhos. Toda vez que tento, tudo passa como flashes na minha cabeça de todas as coisas que aconteceu comigo nos últimos dias, pra falar a verdade, aconteceu mais coisas desde que ele me sequestrou do que em toda minha vida. Penso em meus pais, Cassie, Jess e até no Tom, será que algum deles além da Jess percebeu que eu desapareci?! Minhas lágrimas rolam queimando minha bochecha, eu estou tão cansada da minha vida, sempre carreguei tudo nas costas e nunca me dei por vencida, acho que tudo que passei antes me fez ficar forte para lutar hoje. Mas não existe nada com o que lutar aqui, Sebastian sempre estará na minha frente. Sempre!

Acordo com um barulho ensurdecedor. Me levanto assustada correndo para a sacada, o grande portão que antes estava ali, agora está destruído despedaçado no chão. Uma van muito parecida com a de Sebastian usada no México entra correndo no meio da poeira, abaixo para que não me vejam seja lá quem for. A van para na entrada da frente da casa e um homem desce correndo, empurrando uma mulher para fora, o homem está vestido todo de preto com um capuz também da mesma cor. O cara empurra a mulher no sentido da porta e volta correndo entrando na van novamente, o veículo sai no mesmo momento ainda com a porta aberta. Levanto novamente me colocando nas pontas dos pés para olhar a mulher que agora está sendo levantada por um dos amigos de Sebastian, seria ela a tão falada Alana?!
Odeio ficar sem saber as coisas, odeio não poder ajudar ninguém! Se pelo menos me deixassem sair desse quarto eu poderia ajudar a garota, mas como já bem sei, ninguém moveria um dedo para fazer nada contra as ordens daquele idiota. Que se fodam também, eu não tenho nada a ver com isso. Pela primeira vez na vida me preocupo comigo primeiro. Me deito na cama novamente e o maldito ciclo de fecha e abre os olhos começa, até eu apagar de vez.

O sol arde na minha pele, abro os olhos com dificuldade por conta da claridade e só aí me dou conta que tem uma mulher mexendo na mesa do jantar de ontem. Jogo o lençol para o lado e coloco os meus pés no chão, como é bom sentir essa sensação de descanso, que seu corpo faz parte de você mesmo.

— Bom dia! — Saúdo a mulher que se vira assustada.
— Bom dia! Desculpe se acordei a senhora. — A mulher se desculpa com os olhos preocupados. Espera ela falou...
— Não acordou não e, por favor, me chame de Mellia. — Caminho até ela que assentiu com a cabeça. Ela montou a mesa do café da manhã perfeitamente saborosa.
— Sebastian… Chegou? — Pergunto e a mulher mostra um sorriso ainda colocando as torradas em cima da mesa.
— Sim, senho... Mellia. — Graças aos céus que aquele metido a dono do mundo, não veio me acorrentar ainda, apesar de estar presa nesse lugar. — O senhor Dellafuentes pediu para que entregasse isso. — Ela me entrega uma caixinha de remédio. Claro que são porcarias de vitaminas, não sei por que ele se importa tanto com essas vitaminas, sempre fui saudável o suficiente. O que aconteceu foi tudo culpa dele que me drogou, me manteve presa por sabe se lá quantas horas, sem me alimentar.
— Obrigada! — Pego a maldita caixinha e volto para dentro jogando em cima da cama. Vou até o banheiro para tomar banho e fazer minha higiene matinal.

Demoro mais do que o costume no banho, fazendo tudo com calma, afinal o que mais tenho agora é tempo. Tudo no banheiro é de uma tamanha riqueza que jamais vi na vida, a não ser nos programas de TV. O papel higiênico com cheiro, as toalhas super fofas, o shampoo, a pasta de dente, até o próprio chuveiro grita riqueza, dá vontade de morar nesse banheiro.
Me enrolo na toalha e vou para o quarto, no caminho paro em frente ao espelho e fico parada me olhando dos pés à cabeça por alguns minutos pensando em como vim parar aqui.

— Gosta do que vê? — Sebastian entrou no quarto que mal percebi, ele tem essa mania de entrar escondido nos lugares e pegar as pessoas desprevenidas. E eu o odeio mais ainda.
— Não sei! — Respondo continuando me olhando no espelho em transe.
— Eu gosto. — Sebastian está um passo atrás de mim me olhando no espelho, sinto uma estranha sensação me percorrendo por todo corpo e corro até o closet para me esconder. Depois de alguns segundos escuto ele caminhar, o que imagino ser para o banheiro.
Separo uma legging preta e uma T-shirt mais larguinha. O que me faz parar para pensar como todas essas roupas, tanto aqui quanto no México apareceu do nada?! Ele planejou me sequestrar e, quando eu chegasse, estaria tudo pronto, as roupas e sapatos são exatamente do meu tamanho. Ele planejou tudo em mínimos detalhes. Maldição!

Me visto rápido, calço um tênis e prendo meu cabelo em um rabo de cavalo. Vou até a sacada e me sento para tomar o café da manhã mais lindo que já tive, como tudo o que vejo o mais rápido que posso para que ele não chegue a tempo de me ver comer. E claro, não funciona, ele abre a porta do banheiro e sai totalmente nu.
Ele é louco e aterrorizantemente lindo, não vou fingir que não o vi por que é impossível. O maldito por mais que seja um criminoso, é um homem de dar inveja.
O suco de laranja desce rasgando minha garganta fazendo com que eu tenha uma crise de tosse na hora errada.
— Você usou todas as toalhas…Não tenho culpa. — Ele levanta as mãos em rendimento. Viro o rosto para que eu não o veja na sua mais perfeita forma.

De volta no avião para o México o que me traz mais tranquilidade, a garota da noite passada está sentada ao lado de Sebastian. Ela está com alguns arranhões no braço e rosto, mas nada muda a beleza surreal dela. Cabelos na altura dos ombros de um castanho claro com algumas mechas iluminadas, os olhos amendoados e uma pele tão reluzente.
Tenho quase certeza que se trata da tão falada Alana, ela não para de falar um minuto com Sebastian e ainda fica me olhando de hora em hora. Tento disfarçar o olhar, mas já é tarde, a garota se levanta vindo até o meu assento. Droga!

— Oi, prazer Alana! — Ela estende a mão. E cumprimento pegando na mão dela.
— Mellia. — Falamos juntas! Como diabos ela já sabe meu nome tão rápido e por que aquele maluco disse a ela?! Ela passa na minha frente e se senta do meu lado. Isso é estranho.
— Vou ser direta com você… — Ela se vira de lado no assento para ficarmos cara a cara. — Sebastian é meu primo favorito! Não sei o que ele quer com você, mas ele tem os motivos dele. — Isso só pode ser uma piada.
— E eu tenho os meus, se está me pedindo para facilitar as coisas para ele, fique sabendo que eu não vou. Ele por acaso te contou que me sequestrou? — Questiono.
— Sim! E não apoio esse tipo de atitude, mas ninguém pode pará-lo, nem mesmo o meu tio. — O que essa garota quer dizer?! Ela levanta a mão e coloca sobre a minha.
— Só para você saber eu estou do seu lado, ele só não pode saber. — Alana diz e dá uma gargalhada. Ainda não sei se gosto dela. O piloto do avião avisa pelo alto-falante que iremos pousar em poucos minutos e Alana começa a colocar o cinto de segurança.


Estamos no que eu acho o caminho para a casa, ou melhor dizendo, esconderijo de Sebastian, seu primo Valentim acaba de receber uma ligação que os deixou apavorados. A van corre mais rápido a mando deles, aposto que a velocidade está acima do que é permitido na estrada. Queria perguntar o que aconteceu, mas tenho medo da resposta.
De repente, a van começa a diminuir a velocidade e começo a avistar o verdadeiro caos, pessoas correndo por toda parte, funcionários chorando no portão. O veículo para em frente ao portão, ao invés de entrar, e todos descem correndo, esquecendo de mim. Resolvo descer para ver a cena mais horrível que já vi na vida. Nem mesmo nos filmes e séries é tão real como isso.
Os olhos roxos sem vida, a boca semiaberta e os cabelos desgrenhados da cabeça do pai de Sebastian enfincada na grade do portão.


Capítulo 16

Sebastian Dellafuentes



De tudo que já vi na vida, essa é a pior visão de todas. A cabeça do meu pai enfincada no portão da frente da minha casa. Valentim e Bernardo correm para dentro e começam a gritar com todos, para que tirem o que sobrou do meu pai do portão da própria casa. Fico parado no mesmo lugar, vendo tudo que acontece a seguir como um borrão. Não consigo me mexer! Os funcionários gritam e choram pela morte de seus entes queridos, a casa por fora está toda revirada. O jardim pisoteado, as rosas vermelhas, que estão aqui desde que minha pobre mãe as plantou, agora estão regadas a sangue.
Alguns corpos espalhados por toda entrada. O que eu nunca imaginaria acontecer comigo, aconteceu. Me encontro em um perfeito estado de destruição, eu quero que todos morram, quero a carne de quem causou isso na minha frente.
Eu não faço ideia do que fazer agora, eu fui ensinado a saber tomar decisões em horas como essa, mas isso é diferente. Ele era a única coisa que me restou da minha família, ele era a única coisa que me fez ser o que eu sou hoje, seja ruim ou bom. Eu devo toda minha vida a ele.

Alana está ajoelhada a alguns passos na minha frente gritando desesperada, e eu não posso fazer nada disso desaparecer. Coloco minhas mãos no ouvido, tentando abafar os gritos, que entram na minha cabeça rasgando todo e qualquer pensamento.
Mellia passa do meu lado e vai até minha prima que chora desconsolada, ela se ajoelha e a abraça como se fossem amigas há muito tempo, ela abre os olhos e me olha com pena.
Uma escada é colocada escorada no portão e um homem, que no momento não me recordo, sobe nela, ele coloca as mãos em cada lado do rosto do meu pai e faz força para tirá-lo de lá. Eu não suporto mais olhar isso!
Entro para dentro passando pelo portão, dou passos rápidos e todos param o que estão fazendo para me olhar, em dias normais eu amaria toda essa atenção, mas não hoje, não agora. Não quero que vejam que eu ainda não estou pronto para comandar tudo isso e talvez eu não esteja mesmo.
Há sangue por toda parte da casa, os funcionários correm por todo lugar com esfregões e objetos de limpeza, subo as escadas rápido indo para o lugar que me interessa.

O escritório está completamente intacto, como na última vez que estive aqui, o que me alivia. Vou para o cofre e digito a senha para que ele abra, tudo perfeitamente organizado como eu e meu pai deixamos, pego a pequena caixa dourada no compartilhamento ao lado e vejo que não está fechada por completo.
Fecho a porta, e me sento na cadeira que tantas vezes já foi usada por ele e seus antecessores. Meu pai, desde que descobriu o problema cardíaco dele, escreveu uma carta dizendo que tudo que eu deveria fazer, se alguma hora ele partisse, estaria aqui. Ele, lógico, nunca deixou que eu abrisse essa caixa, dizendo que eu só abriria quando a hora chegasse. Mas nunca me importei com isso, pelo menos não até agora! Abro a caixa e vejo que não contém apenas uma carta e sim duas, pego a primeira abrindo esperando que tenha tudo eu precise para continuar.


11/02/2018
Sebastian…

Eu queria começar dizendo o quanto errei com você, mas não vejo dessa forma, sei que muitas vezes passei do limite, mas foi preciso. Eu te ensinei a passar pelas piores situações e, como hoje provavelmente deve ser um dia difícil para você ou não, te perdoo por isso. Mas é só hoje!
Filho, você conhece o nosso caminho e tudo que percorremos para chegar até aqui, tanto eu como seu avô, que Deus o tenha. Sempre deixei claro tudo o que precisava saber e fazer para se tornar o verdadeiro dono de todo o México, e esta carta não é para dizer como agir nos negócios daqui para frente, pois já me provou várias vezes que sabe como fazer.
A carta é só um aviso do que eu ainda não tinha mencionado a você, eles virão atrás de você! Você deve estar se perguntando: quem?! E eu te digo: todos eles.
A vida está cheia de pessoas que vão querer seu dinheiro, sua casa, carro, armas, emprego, saúde, esposa, filho e você. Eles vão tomar tudo isso de você custe o que custar e é aí que entra tudo o que um dia te ensinei. Eu não quero te assustar, mas, à partir do segundo que eu partir, tudo que você tem está em ameaça, e o que você faz com ameaças?! Exatamente!
Você tem a obrigação de manter tudo em pé e em perfeito estado, até que você tenha um herdeiro Dellafuentes. Sebastian eu já te disse isso tantas e tantas vezes, mas tá aí algo que nunca consegui te fazer entender. Não existe rei sem rainha! Você sabe a minha história com a sua mãe, eu pensei que nunca a amaria, afinal das contas, casamentos por negócios nunca haverá amor. Mas com o tempo nos apaixonamos e foi tudo tão perfeito que achei que não poderia melhorar, até que você chegou para me completar!
Mas você vai se perguntar nesse momento, então por que eu não me casei novamente depois que sua mãe morreu… É porque eu já tenho você, o meu herdeiro.
Se você quer continuar a manter tudo isso em pé, você precisa se casar imediatamente. Nossos inimigos e até os que não são, vão atrás de você para tomar tudo o que tem, porque nenhum homem consegue comandar sozinho, principalmente um homem sem herdeiros. Por fim, use a cabeça e conquiste o mundo! Você sabe que odeio melação. então… Só queria dizer que tenho muito orgulho de você, e sei que vai fazer o seu melhor.

Te amo!
Roberto Dellafuentes

Assim que termino de ler a carta, guardo de volta na caixa, pegando a próxima.
— Sebastian… — Valentim abre a porta do escritório.
— Fala! — As palavras ditas pelo meu pai na carta não saem da minha cabeça, um sentimento ruim me corrói por dentro agora. E mais uma vez me sinto culpado.
— O que eu faço com a garota? — Acabei me esquecendo de Mellia, me surpreende ela não ter aproveitado para tentar fugir.
— Leve-a para o quarto de hóspedes. — Ordeno e Valentim assente, mas não se move.
— Você está bem? — Eu sinto a necessidade de dar uma mal resposta, porra quem fica bem vendo a cabeça do pai enfincada em um portão e fica bem?! Mas sei que ele se preocupa comigo e faço o meu melhor.
— Estou bem! Se puder adiantar algumas coisas para mim por hora, agradeceria.
— Claro! — Meu primo dá meia volta e fecha a porta.
Levanto e vou até o armário de bebidas, pego o copo e o melhor uísque enchendo o copo até o topo. Ainda resta uma carta e fico parado alguns segundos com medo do que pode ter escrito nela. Mas resolvo abrir do mesmo jeito.


01/04/2021
Sebastian...

Queria poder ter mais tempo para te dizer isto, mas enquanto você está trabalhando no resgate da minha sobrinha e sua prima, sangue do nosso sangue, Calisto armou para nós e está chegando até aqui. Era tudo um plano dele, sequestrar Alana para que você buscasse ela, enquanto ele me pegava desprevenido.
Se você está lendo isso agora quer dizer que algo deu errado e que eu não pude detê-lo.
Eu quis te mostrar as melhores opções de um casamento benéfico, que garantiria tudo, mas você escolheu a terceira e mais difícil opção. Desde que você colocou na cabeça que sequestraria a garota, você mudou. Eu vi nos seus olhos. Espero que lide com isso, se é isso o que realmente quer. Valentim me contou todos os detalhes, não fique bravo, ele só estava fazendo o trabalho dele.
E se realmente acha que está fazendo o certo se casando com essa garota, vou confiar em você como sempre fiz.
Quanto a Calisto, coloque a cabeça no lugar e o resto você já sabe.

Seja feliz! Nos vemos em um futuro distante.
Roberto Dellafuentes

Maldito Calisto, isso não vai ficar barato. Jogo o copo de uísque na parede, ele vai pagar por isso. Ele tem que pagar! Eu vou matar todos daquela maldita família um por um, custe o que me custar. Pego a caixa e coloco de volta a carta, abro o cofre e a jogo lá dentro. Pego meu celular no bolso de trás da calça e mando uma mensagem a Valentim e Bernando.

— Sala de reunião, AGORA!

Enquanto espero meus primos na sala de reunião, ligo todos os computadores. Seja lá como Bernardo faz para hackear as pessoas, ele vai fazer isso agora e rápido.
Valentim e Bernardo abrem a porta e entram assustados com a mensagem recebida. Eles trocam olhares sem entender nada.

— Toda essa merda que vocês viram lá fora, tem um nome…— Começo. — Calisto! E você vai dar seu jeito e vai ligar para ele agora.
— Como você sabe que foi ele? — Bernardo pergunta.
— Explico mais tarde, agora faça! — Me sento na cadeira, esperando que ele faça o trabalho dele. Não é preciso mais que cinco minutos e Bernardo me entrega um telefone descartável.
— Tão rápido, Sebastian? Como está Alana?
— Vou caçá-lo até o fim do mundo se for preciso. Eu vou destruir toda sua família de merda. Nem que eu tenha que ir até o inferno. — O condeno encerrando a ligação.


Capítulo 17

Sebastian Dellafuentes


Eu quero tudo que o Calisto tiver, cada centavo, pedaço de terra e fio de cabelo. Isso no começo só se tratava de negócios, mas agora ele mexeu com a minha família e vai pagar caro por tudo isso. Meus olhos queimam só de pensar de pegá-lo com as minhas próprias mãos, penso em várias formas diferentes de fazê-lo sofrer. Talvez despedaçar cada membro do seu maldito corpo, colocar em uma máquina de moer e dar pra sua família comer, depois de envenenar a carne podre ou vice-versa. Seria perfeito.

Valentim me contou tudo que houve com mínimos detalhes e, infelizmente, isso nunca sairá da minha cabeça. Ele, como um ótimo capo que é, já fez todos os arranjos para o enterro.
Me retiro da sala de reunião caminhando pela longa casa que agora me parece mais vazia do que antes. Entro no corredor dos quartos, onde há muita movimentação de funcionárias limpando marcas de sapatos sujas pelo chão e respingos de sangue pela parede.
Achei que seria fácil ver meu pai morto, por tudo que me foi ensinado e além de tirar muitas vidas, mas isso é diferente é como se metade de mim tivesse ido junto com ele. Queria ter cabeça o suficiente para entrar no quarto onde ele foi brutalmente assassinado, mas creio que se eu fizer isso, não me sobrará sanidade mental para lidar com tudo o que está por vir. Sacudo a cabeça para retirar todos esses pensamentos de merda, eu preciso focar nos meus planos daqui para frente. Como meu pai falou na carta deixada, à partir de agora, até o teto sobre a minha cabeça está em ameaça. Meu pai vai me desculpar, mas não vou ficar chorando em seu túmulo e deixar tudo desabar nas minhas mãos. Eu vou garantir a nossa perfeita vingança!

Passo direto pelo quarto que era do meu pai e sigo em frente indo para o meu, digito a senha para que a porta se abra. Percorro até o aparador de bebidas e pego o Bourbon mais velho que tenho. Jogo o celular em cima da cama e vou até o banheiro, abro o chuveiro e começo retirar minhas roupas.
Agarro a garrafa levando para dentro do box, sinto a água escorrer por cada parte do meu corpo me lavando da cabeça aos pés como se eu estivesse entrado em um mar de sangue. Tomo um longo gole de Bourbon e fecho meus olhos, tudo é tão difícil de digerir. Minha cabeça martela sem parar e fico dividido entre ir atrás do culpado e seguir com a vida. Eu sei o que devo fazer primeiro, eu só não quero. Soco a parede repetidas vezes até ver os nós dos dedos sangrarem, eu preciso sentir algo, preciso sentir dor.
Por fim, me sento no chão do banheiro e tomo altas doses, uma atrás da outra sem parar. O álcool que antes descia queimando minha garganta, já não tem o mesmo efeito.

Abro os olhos e vejo tudo em uma escuridão completa, minha cabeça gira e me sinto tonto. Tento me levantar agarrando nos lençóis da cama, não sei como diabos vim parar aqui. Não me lembro de ter saído do banheiro. Porra, que horas deve ser agora?! Me esforço subindo na cama, tateio o colchão procurando o maldito celular que parece ter desaparecido. Seguro minha cabeça com as mãos, mal consigo ficar em pé quando avisto o celular perto da porta do quarto. Caminho até lá com passos lentos, abaixo para pegar o aparelho e vejo cacos de vidros estilhaçados perto da porta do banheiro.
Caralho, eu apaguei por 20 horas! Respiro fundo e me concentro em me manter em pé indo até o criado mudo, aperto a campainha para chamar Luzia.
Depois de tomar um banho para tirar o cheiro do álcool, viro dois cafés extraforte com duas aspirinas na sala de reunião juntamente com meus primos. Não posso ir ao enterro do meu pai bêbado, ele se reviraria no túmulo.

— A garota quer te ver, disse que precisa falar com você. — Eu até cogitaria ter uma conversa com ela se fosse um dia normal, o que claramente não é.
— Não estou afim! — Respondo!
— Você sabe que ela vai dar trabalho, né? — Bernardo pergunta, como se eu me importasse.
— Foda-se! Deixa-a trancada, algemada se for preciso e pronto. — Indico.
— Como está Alana? — Minha prima sempre foi muito apegada com o meu pai, principalmente quando os pais dela e de Bernardo morreram.
— Lidando! — Bernardo diz dando de ombros.
— Vou vê-la. — Me levanto e avanço até a porta. Alana faz faculdade em Nova York e veio passar as férias conosco como sempre. Só que dessa vez não deu muito certo.

Bato na porta e ela não responde, resolvo entrar mesmo assim. Alana está deitada na cama com fones de ouvido. Aceno com a mão e só então, percebe minha presença.

— Bom dia! — Saúdo! Alana bate na cama para que eu me sente ao lado dela.
— Eu não te vi depois... Você sabe. — Ela gagueja para falar e me abraça. — Eu sinto muito, Sebastian.
— Obrigado! — Agradeço. Não sei se ela vai poder lidar com isso, mas resolvo perguntar do mesmo jeito. — Você pode me fazer um favor? Dar um jeito na Mellia, para fazer companhia a você no enterro, já que estão amigas… — Ela me solta do abraço e me olha bem nos olhos.
— Você sabe que eu não concordo com isso, não é? — Alana pergunta.
— Não respondeu minha pergunta! E de toda forma, isso não tem mais volta. — Questiono.
— Você sabe que tem, só não quer voltar atrás! E sim, eu vou cuidar dela. — Alana concorda passando a mão pelo cabelo.
— Obrigado! — Ela dá risada e não entendo o porquê. — O que tem de engraçado?
— Você mudou desde a última vez que estive aqui. — Alana completa.
— Não me vem com isso você também. — As mesmas palavras usadas pelo meu pai na segunda carta. Me levanto no mesmo momento que meu celular apita avisando a chegada de uma nova mensagem.

Saiu na imprensa!

— Preciso ir! — Aviso a minha prima e saio do quarto. Era questão de tempo até que saísse na mídia a notícia sobre a morte do meu pai. Tentamos evitar que se espalhasse rápido para não gerar tumulto, mas não durou muito. Vou de encontro com Valentim que não tira os olhos do iPad.
Odeio redes sociais, não tem outra função a não ser mostrar as duas caras das pessoas e espalhar notícias falsas. Infelizmente hoje em dia as pessoas são viciadas nisso, eu não perco meu tempo, afinal de contas nem tempo eu tenho.
— Você vai ter que se pronunciar sobre isso. — Bernardo avisa. O que significa uma coletiva de imprensa. E é por isso que odeio jornais e sites de fofoca, eles são como lobos esperando acontecer qualquer merda para atacar. A parte ruim de ter muito dinheiro e se tornar conhecido por todo o país é isso.
— Pegue os dados da Mellia. — Chegou a hora do plano B.


O enterro foi organizado no cemitério particular da nossa família, onde estão meus avós e minha mãe. Apenas os mais próximos do meu pai foram convidados para o enterro. A limusine para em frente ao cemitério e respiro fundo uma última vez para me despedir dele.
Desço do veículo juntamente com Valentim e Bernardo. Alana quis vir antes em outro carro com Mellia que ouvi dizer ter dado muito trabalho para trazer, o que não me surpreende.
A maldita imprensa já está aqui soltando flashes com suas câmeras idiotas, entro no cemitério cercado pelos meus homens. Me aproximo do lugar, e todos os convidados param para me olhar, pela primeira vez na vida desejo que todos desaparecessem daqui. Meu estômago começa apertar vendo o caixão fechado de longe. Todos me cumprimentam lamentando pela minha perda, sinto minha garganta começar a se fechar também.
As palavras do meu pai rodeiam minha cabeça e me fazem erguer a cabeça para enfrentar todos.

Use a cabeça e conquiste o mundo...

Sei que vai fazer o seu melhor…


Depois de agradecer a todos os convidados por ter vindo na cerimônia, digo algumas palavras finalizando. Todos saem para fora esperando a pior parte, o pronunciamento em público que foi escolhido ser feito aqui na frente do cemitério. Quase tudo foi repassado várias vezes com a minha equipe de departamento de recursos humanos.
Me movo até a multidão de repórteres, que gritam perguntas quando me avistam. Cerro o punho dentro do bolso da calça, para que não vejam.

— Boa tarde! Senti a extrema necessidade de comunicá-los, que meu querido pai Roberto Dellafuentes foi brutalmente assassinado. Não temos maiores informações no momento, o FBI está cuidando do caso com os devidos cuidados necessários. Eu estava viajando a trabalho quando tudo aconteceu, tudo isso foi e ainda está sendo um choque para mim. E peço por gentileza que respeitem o meu luto e de minha família. Gostaria também de dizer que meu pai era muito querido por todos nós e que irá fazer muita falta para toda a sociedade mexicana. Por fim, gostaria… — Vejo um certo tumulto atrás de mim, mas continuo com o plano. — Gostaria de compartilhar com vocês uma notícia boa em meio ao caos que estou passando. Infelizmente meu pai não estará aqui para ver seu sonho se realizar, mas ficou muito feliz com a novidade antes de partir. — Como combinado, Valentim empurra Mellia até o meu lado. — Estou noivo dessa mulher maravilhosa que amo muito e nos casaremos em breve. — Pego na mão de Mellia.


Capítulo 18

Mellia López


Nas séries de TV, usam bonecos para fazer cenas deploráveis como a que vi ontem, eu me senti dentro de um filme de terror. Fiquei tão comovida com tanto banho de sangue, corpos e até cabeça pela longa entrada da casa que não usei a oportunidade para tentar fugir, já que todos estavam ocupados demais limpando a bagunça. A garota que conheci poucas horas antes estava jogada no chão gritando desesperada pela morte do tio. Não poderia deixar de ajudá-la em uma hora como essas, ela parece ser legal. Então, por mais uma vez, deixei de pensar só no meu próprio umbigo e fiquei. Sebastian ficou parado o tempo todo olhando sem fazer nada, o que me surpreendeu. Quando abracei Alana, eu vi nos olhos dele a confusão que se passava e, por um segundo, senti pena. Quando a noite chegou, eu não conseguia dormir, tentava fechar os olhos, mas quando isso acontecia eu sentia medo da minha cabeça estar no lugar do pai de Sebastian.
Fui forçada a me vestir de luto com toda essa família de psicopatas que mal conheço, para o enterro de homem que se duvidasse era pior do que o filho. Não sei por que ficam me carregando por todo lado como um animal de estimação, por que não me deixam presa no quarto?! Qualquer oportunidade de fugir eu irei sem pensar duas vezes, o que claramente irá dificultar as coisas para eles, mas não me importo. Realmente sinto muito pela perda dele, e pedi para falar com Sebastian para desejar minhas condolências, porém não funcionou.
O vestido preto que estou vestindo é de um tecido macio, com um laço preto no ombro, justo até abaixo dos meus seios, onde começa descer fazendo um volume básico até minha panturrilha. Alana e Luzia fizeram um penteado simples colocando todo meu cabelo de um lado só, finalizando com babyliss no comprimento. Quanto à maquiagem, implorei para que não fizessem, mas Alana não abriu mão de um blush e gloss. Tentei de todas as formas saber de algumas informações, mas elas sempre fogem de todas minhas perguntas, eu chorei e implorei para não vir a este cemitério, mas não tive outra escolha.
Sebastian está se pronunciando para repórteres na frente do cemitério, ele parece abatido depois de toda aquela cena ou está fingindo muito bem. Tento me esconder atrás de Valentim para que não me filmem. Não quero que minha família e Jess me vejam na TV agindo normalmente, viriam atrás de mim e eu sei muito bem qual resultado isso teria. Valentim me puxa para frente e me empurra ao lado de Sebastian, o que ele diz me deixa em choque.

— Estou noivo dessa mulher maravilhosa que amo muito e nos casaremos em breve. — Essa história de novo não, ele é completamente louco, isso nunca vai acontecer. Sebastian coloca sua mão sobre a minha e sorri para mim como se isso fosse verdade. Ele é um cínico mentiroso! Sebastian aperta minha mão com mais força e solto um sorriso forçado como ele deseja.
— Isso é tudo pessoal. — Um homem chega do nosso lado e diz aos repórteres. Sebastian entrelaça nossas mãos e me puxa em meio à multidão. Ouço jornalistas gritando várias perguntas enquanto caminhamos para longe.

Quando será o casamento?

Estão noivos desde quando?

Onde será a cerimônia?

— Eu não vou no mesmo carro que você. — Afirmo procurando uma forma de escapar dos seguranças que nos cerca.
— Ah, você vai sim! Acabei de anunciar nosso noivado em público. — Sebastian fala sério segurando meu braço. O motorista abre a porta da limusine e entro sem opção. Depois de toda essa cena, não tenho dúvida que alguém vai acabar vendo algo sobre mim na TV ou sei lá para onde isso vai. O que diabos ele faz de tão importante para ser tão famoso, a ponto de dar uma coletiva de imprensa?! Eu nunca ouvi falar sobre ele antes.
— Por que fica falando que vamos nos casar? Além de louco, agora é mentiroso? — Pergunto.
— Porque vamos! — Sebastian deixa o celular cair no carpete do carro e se curva para pegar, fico esperando por mais alguma resposta, mas não vem. Ele coloca a mão na minha sandália, e começa a subir por debaixo do vestido. Sinto um arrepio na espinha e me mexo desconfortável no banco.
— O que está fazendo? Tira a mão de mim... — Tento afastar sua mão. Ele vira o rosto para mim e volta sua concentração para minha perna deslizando sua mão cada vez mais próxima da minha coxa.
— Você gosta, não é? — Não entendo aonde Sebastian quer chegar com isso. Volto em si, me afastando dele sentando mais longe. Ele volta para sua posição no banco desistindo. Isso não é certo, não posso deixar que ele me toque desse jeito nunca mais.
— Se quer tanto se casar, por que me sequestrou? Por que não se casou com alguma daquelas mulheres no jantar daquele dia? — Pergunto sem rodeios cruzando os braços.
— Isso não é assunto seu! — Maldito, ele nunca fala nada concreto. Sebastian volta a mexer no celular.
— Por favor, me deixe ir embora, juro nunca contar nada a ninguém... Se minha família e amigos ficarem sabendo, irão vir atrás de você com a polícia. Você vai ser preso. — Imploro por um milagre, mas sou totalmente ignorada, encosto minha cabeça na janela e me concentro na viagem. De nada me adianta fazer escândalo para uma coisa que vai acabar, eu sei que vai! Vou conseguir fugir uma hora ou outra, nada é para sempre! Isso é só um jogo doentio da parte dele, ele não se beneficiaria em nada se casando comigo. Por isso o pai dele queria lhe mostrar aquelas garotas no jantar de dias atrás, para lembrá-lo que existem melhores opções.
Quando ele se cansar de brincar comigo ele vai me deixar voltar para minha vida de antes, e mal posso esperar por esse dia.

De volta na prisão, me soltam dentro da casa sem seguranças me guiando pelos braços. Eu logo aperto o passo em direção a outros cômodos da casa, nunca me deixaram andar sem os seguranças desde que cheguei aqui, o que me faz pensar: o que mudou em relação a isso?! Começo o tour passando pela longa sala de jantar que já conheço, caminho passando por uma porta de vidro revelando uma longa cozinha igual às de novelas. Tudo é muito limpo e de luxo, no meio a um balcão enorme todo de mármore branca. A geladeira, micro-ondas e forno elétrico são embutidos na parede envoltos em uma parede de madeira escura. As funcionárias percebem minha presença e mostram um sorriso carinhoso, Luzia caminha até minha frente.
— Senhorita Mellia, deseja alguma coisa? — Ela ainda insiste em me chamar de senhorita.
— Não, obrigada! Só estou conhecendo a casa. — Ela me olha com os olhos gentis de sempre.
— Se desejar, posso fazer companhia. — Luzia se oferece para me mostrar a casa.
— Não precisa se incomodar, obrigada! Eu já estou indo. — Agradeço a única mulher que tem bom senso nessa casa e volto a percorrer pela casa. Saindo da cozinha, vejo uma porta com saída para os fundos. Desço os pequenos degraus avistando a piscina, rodeada por várias árvores de coqueiro e espreguiçadeiras espalhadas em volta.
Continuo andando pelo lugar chegando até a grama, meus saltos afundam e me abaixo para retirar. O quintal é maior do que dois campos de futebol, a casa fica centrada bem no meio e do lado direito em uma distância consideravelmente longe tem uma outra casa enorme com várias repartições. Vejo algumas pessoas se movimentando de longe e resolvo caminhar em outro sentido.

O sol está bem quente. O vestido preto gruda em minha pele, desfaço o penteado de antes e faço um coque frouxo. Já começo a me cansar quando chego perto do muro que cerca toda casa até o portão. Há várias árvores de diferentes formas encostas no muro de ferro, que é todo fechado. Eu sei que não é uma boa ideia, mas se eu não conseguir ser vista até chegar nas árvores pode haver uma esperança para mim. Acelero os passos, as vezes olhando à minha volta.
De longe avisto o portão de entrada e corro até as árvores para que ninguém me veja, há muito tempo não sinto a umidade da terra nos meus pés, a sensação é renovadora. Limpo minhas mãos no vestido, esfrego bem meus pés na terra para que fique mais fácil de subir. Ele é mais alto do que tinha visto antes, mas não me importo!
Eu costumava fugir da escola na época que tinha que entrar no trabalho antes que as aulas terminassem, então tinha sempre que pular o muro e não, eu não gostava de fazer isso, mas era preciso. Estou quase no topo, solto um sorriso silenciosamente. Nas vezes que saí de carro daqui não havia nenhum movimento de outros veículos, o que quer dizer que deve ser em um lugar bem longe de tudo, mas não me importo contanto que eu esteja livre.
Quando eu pular, corro para a floresta para me esconder, até conseguir ajuda.
— Você está de brincadeira, né? — Sebastian grita de longe. Droga! Eu preciso pular agora e correr, correr muito para que não me alcancem. E se eu pular e me machucar muito?! Isso seria pior! Mas preciso me dar essa chance.
— Idiota, desce daí agora! — Outros homens correm junto com Sebastian, fico olhando para o outro lado do muro e para eles entrando no meio das árvores. Burra! Sou muito burra e medrosa! Não consigo pular de uma merda de muro com medo de me machucar. Provavelmente estou aqui por isso, porque sou covarde demais.


Capítulo 19

Sebastian Dellafuentes


Desde que Mellia chegou, eu não tenho tido um minuto de paz, eu pensei que ela iria gostar de ter toda uma vida de luxo, uma vida completamente diferente da que ela tinha antes. Eu estava disposto a dar a ela quase tudo. Contando que ela seria minha e fizesse o que eu quisesse, não teríamos problemas. Mas ela se mostrou ser difícil de lidar, não cala boca, faz perguntas demais, escandalosa e, o que ela faz de melhor, é tirar minha paciência.
Não tenho tempo para ficar perdendo com garotas complicadas, não tenho mais 18 anos pra ficar correndo atrás de ninguém. Eu estava tolerando com humor todas suas gracinhas e suas tentativas de fugas sem nexo, não tenho cabeça para essa infantilidade. Ela precisa entender de uma vez por todas que nunca sairá daqui a não ser em um saco preto.

Mellia estava calma demais depois da viagem e pensei ter acostumado que nunca sairia daqui, então tentei agradá-la tirando a algema e deixando solta para fazer o que quiser dentro da casa, mas claro que, na primeira oportunidade, ela usou pra tentar fugir. Pelo jeito ela estava fingindo o tempo todo. Azar dela!

— Peguem ela! — Mellia é mesmo uma louca se acha que se daria bem pulando de um muro desse tamanho. Onde diabos ela aprendeu a escalar muros desse jeito?! Os seguranças que quando avistaram a tentativa de fuga trouxeram uma escada e agora colocam encostada no muro. Mellia troca olhares entre o homem que começa a subir e para o outro lado do muro.
— Eu vou pular se vocês encostarem a mão em mim. — Sinceramente, será que ela acha que se pular do mesmo jeito vai conseguir fugir?! Abaixo a cabeça dando risada.
— E você acha que eu me importo? Quer pular? Pula caralho! Você não vai longe toda arrebentada mesmo. — Perco a paciência explodindo. Cruzo os braços e me encosto em uma árvore esperando-a cair do outro lado, para rir da cara dela. Javier olha para trás me perguntando o que fazer, faço sinal para seguir em frente.
— Pode parar aí, eu vou pular. — Reviro os olhos enquanto Javier sobe degrau por degrau. Mellia se mexe um pouco olhando para o outro lado, e Javier age rápido pegando-a pela cintura. Meu segurança tenta descer com cuidado enquanto ela não para de espernear.
Assim que ele coloca os pés no chão, Mellia tenta correr para a casa, mas barro entrando na frente, pego ela em meu colo como no dia que ela rolou escada abaixo.
— Eu tenho pernas, sabia? — Essa garota não se cansa nunca de ser irritante! Mellia não para de mexer as pernas tentando descer e seguro firme. As mãos começam a socar meu peito e costas, mas não me importo. Ela vai aprender a como se comportar por bem ou por mal, Mellia pediu por isso então agora ela vai ganhar.
— Você é um monstro! — Mellia diz histérica. — EU TE ODEIO! — Ela grita bem no meu rosto e continuo ignorando o quanto posso. Chegando na casa, a coloco no chão e a puxo pelo braço. Os funcionários abaixam a cabeça enquanto atravessamos a cozinha, isso poderia ter sido diferente, mas ela escolheu dificultar as coisas, então não existe outra escolha. Entrando na sala avisto Valentim, Bernardo e Alana sentados no sofá, minha prima logo corre até mim.
— O que foi? Ela está bem? — Alana pergunta preocupada.
— Ela está ótima e vai ficar melhor ainda. — Bernardo se levanta, vindo de encontro comigo, mas antes dele abrir a boca já aviso.
— Não interfiram! — Viro as costas subindo a escada arrastando Mellia pelo pulso.
Me pergunto agora se não deveria ter escutado meu pai?! Será que teria sido mais fácil?! Como eu poderia adivinhar que ela seria assim? Como poderia saber que meu pai iria ser morto e eu teria que ficar no lugar dele?! De toda forma, tudo está feito e não tem como voltar atrás! Entro no quarto e fecho a porta atrás de mim, solto o braço dela que me olha intrigada.

— Você tem noção do que fez? — Mellia me pergunta enxugando as lágrimas. Eu fiz?!
— Ah é? O que eu fiz que não estou sabendo? — Questiono esperando pela resposta.
— Você me colocou na TV e uma hora dessa toda minha família e amigos devem estar falando com a polícia… — Solto uma gargalhada cortando-a.
— Você quer saber qual o seu valor? — Ela não faz ideia de nada mesmo, acabei de crer.
— Do que está falando?
— Que sua família te vendeu, mais precisamente sua mãe. — Esse sempre foi o plano, mas o jogo virou de ponta cabeça e eu não tive escolha, a não ser agilizar minha compra de seus pais, que sabiam desde o começo e que dariam-na de mãos beijadas se eu pagasse bem.
— Você não conhece minha família! — Mellia afirma. Nem quero, não sei como ela viveu tanto tempo com aqueles inúteis.
— Você é mesmo uma garota burra. — Solto — Você achou mesmo que eu colocaria você na frente de repórteres sabendo que algum conhecido seu poderia te ver na TV, e chegarem até mim? — Dou risada da tamanha inocência dela. — A transferência foi feita para a conta da sua mãe assim que ela desligou o telefone concordando com tudo.
— Eu não acredito em você. — Ela vira as costas para mim.
— Um milhão de pesos! Esse é o preço que sua mãe te vendeu para mim. — Mellia se vira novamente me olhando dos pés à cabeça.
— Minha mãe nunca faria isso… — Ela corta a frase engolindo o choro, mas volta se recompor vindo para cima de mim. Mellia começa a me empurrar pelos ombros descontrolada com a notícia, que no fundo ela sabe que é verdade. Quem ela pensa que é para me atacar desse jeito?! Eu não tenho culpa dela ter uma família fodida que nem o pais a querem por perto. Uma hora dessa a mãe deve estar fazendo compras e o pai morto de bêbado como sempre. Pego nos dois pulsos dela segurando forte.
— Sabe, eu não queria decepcionar meu falecido pai que foi contra isso desde o começo e olha só o que deu... Ele morreu! E agora eu quero muito enfiar uma bala na sua cabeça estúpida.
— Vai em frente...Por favor! — Tiro a arma da cintura e aponto para a cabeça dela.
— Estou muito, mas muito tentado a isso. — Puxo ela de costas para mim juntando nossos corpos, levo minha outra mão até seu pescoço. Colocando força aos poucos, até ela começar sentir dificuldade de respirar, continuo apontando o cano da arma para sua cabeça. Em poucos segundos Mellia começa a respirar com dificuldade se debatendo, implorando que eu pare, mas continuo. — Se quiser morrer, me avise agora que já acabo com isso ou...
— Por favor! — A garota fala com dificuldade.
— Ou se torna minha pelo resto da sua vida maldita. — Mellia agora chora com o resto de força que lhe resta. — Chegou a hora de escolher seu futuro, eu cansei desse jogo! — Ela agora balança a cabeça negativamente. Sinto suas lágrimas caírem no meu braço.
— Você tem cinco segundos para me responder. — Começo a sentir as pernas dela fraquejarem e sei que ela está perdendo as forças.
— Cinco… Quatro… — Afrouxo um pouco a garganta dela. — Três… Dois… — Destravo a arma, pronto para explodir essa linda cabecinha. Mellia começa a tremer e balança a cabeça positivamente.
— O que? — Pergunto esperando que ela confirme, por mais que eu queira explodir sua cabeça, não quero fazer um banho de sangue no meu próprio quarto. Tiro devagar minha mão do pescoço dela.
— Tudo... Bem! — Finalmente! Mellia volta a respirar puxando o ar com mais rapidez.
— Tudo bem o que? — Finjo não ter entendido a resposta.
— Eu vou me casar com você! — Se eu soubesse que era só apontar a arma para a cabeça dela, tinha feito no primeiro dia.
— Isso não vai acontecer de novo, está me entendendo? Não tem outra chance para você. Se fizer algo errado eu não hesitarei em te mandar para o inferno, entendeu? — Pergunto.
— Sim! — Mellia abaixa as mãos e aperta a própria perna.
— Entendeu, porra? — Ela movimenta a cabeça repetidas vezes confirmando. — Ótimo! — Solto ela e a viro para mim. — Você vai fazer e falar o que eu quiser. E vou logo avisando, não sou idiota, não se atreva a tentar fugir novamente ou fazer truques. A partir de agora as coisas irão mudar. Todas as refeições serão feitas na sala de jantar comigo, aonde eu for, você vai, empregadas farão o que você disser e vai dormir na mesma cama que eu, apesar de isso ser óbvio já que vamos nos casar e, com ele, todas suas obrigações. Você vai sorrir e agir como uma verdadeira esposa. — Levo minha mão para limpar as lágrimas que rolam nas bochechas dela.
— Ouviu o que eu disse? — Questiono.
— Entendi! — Mellia responde abaixando a cabeça. Perfeito! Me afasto dela e guardo a arma na cintura.
— Bem-vinda a sua nova vida, Mell.


Capítulo 20

Mellia López


Deus me ajuda, por favor, me ajuda. Deslizo pela parede do quarto enquanto me desabo em lágrimas, minhas mãos tremem. Como minha mãe pode fazer isso comigo?! Se um dia tudo isso acabar para onde eu vou?! Eu não tenho mais uma casa, uma família para voltar. Não tenho mais nada!
Ainda tinha esperança de que meus pais viriam atrás de mim, que no fundo eles se importavam comigo e agora minha alma foi vendida para um criminoso. Que tipo de pais fazem isso com a filha?! Meu Deus, me explica, porque eu não entendo. Me ajude a compreender por que eu sou tão indesejada pela minha própria família em toda minha maldita vida a ponto de ser vendida. Um milhão de pesos, esse é o valor! O preço que minha mãe pediu pela própria filha.
Eu senti tanta vontade de respirar como nunca senti na vida, quando ele me apertou pela garganta. Os dedos dele eram fortes e me faziam ansiar por ar, ele continuou apertando, apertando e apertando até que eu não conseguisse mais puxar o ar para meus pulmões. Achei que nunca mais abriria meus olhos e veria a luz do dia, tudo ficou tão escuro de repente e senti todo meu corpo se desfazendo nas mãos dele. Eu estava partindo desse mundo, até que ele me acordou do meu pesadelo com o click da arma na minha cabeça. Foi aí que percebi que seria meu fim. Minhas pernas fracassaram, minhas mãos suavam, meus olhos choravam lágrimas de medo e puro desespero. Já tinha certeza de que minha alma já tinha se partido.
É exatamente como contam, se passa um filme na cabeça desde quando era criança até o exato momento que você está lutando pelo ar que te falta.
Então ele me pediu para escolher entre morrer e ficar do lado dele e mais uma vez, eu senti medo de morrer e aceitei. Aceitei virar a mulher do diabo!
O que vai ser da minha vida ao lado dele agora?! Eu vou ter que fingir o tempo todo, estar feliz do lado de uma pessoa que apontou uma arma para minha cabeça. Que me fez chorar, que me fez desejar nunca ter nascido. Vou me casar com um homem que vai me mandar o que fazer e o que não dizer, o que comer e o que não vestir. Eu serei uma escrava sexual para ele, uma propriedade na qual ele pagou para ter. Me levanto e começo a andar de um lado para o outro ficando aterrorizada a cada minuto. Um milhão de cenários passam pela minha mente, cada um mais horrível que o outro.

Mellia com um vestido de noiva…

Mellia mandando redecorar a casa…

Mellia com uma arma na mão…

Mellia abraçada com Sebastian na TV…

Mellia grávida…

Toda a minha vida segundo o que Sebastian exigiu se passa pela minha mente como uma bomba prestes a explodir. Eu nunca imaginei um dia ter um futuro como esse, se é que isso pode ser chamado de futuro, já que concordei com tudo com uma arma na minha cabeça.
Eu não tenho outra escolha a não ser aceitar a vida que terei daqui para frente.
Entro no banheiro e abro a torneira da banheira no nível máximo, tiro o vestido e minhas roupas íntimas, entro na água morna e jogo minha cabeça para trás. Como eu gostaria que tudo voltasse no tempo, eu teria aproveitado cada segundo da minha liberdade, nunca teria ido naquela maldita entrevista de emprego. Eu me contentaria com tão pouco, o que hoje me parece muito.
Apoio minha cabeça na borda da banheira e tento pensar em um futuro para mim assim, mas nada que eu imagino é digno. Todas as palavras ditas por Sebastian ecoam na minha mente. Mergulho minha cabeça na banheira e começo a contar mentalmente por quanto tempo aguento ficar debaixo da água, tentando sentir a mesma sensação que alguns minutos antes. Me esforço cada vez mais para ficar dentro da água e agarro a borda da banheira. Escuto alguém me chamar, mas não ligo! Só preciso ficar assim para sempre!

— Mellia? Estou entrando… Queria conversar com você um pouquinho. Isso aqui é muito chato, só tem homens nessa casa. — E todos eles não se importam com ninguém. — Mellia? Estava pensando que poderíamos sair para fazer umas comprinhas. — Escuto passos chegando até mim. — Ai meu Deus! Mellia... Mellia? — A voz dela fica mais alta.— SEBASTIAN… Alguém me ajuda... Bernardo? — Isso precisa acabar logo. — Não, não… Meu Deus, o que eu faço?! — Finalmente começo a sentir o pânico de antes. Minhas unhas agarram mais forte a borda da banheira entrando em uma luta comigo mesmo entre continuar aspirando a água ou voltar para a superfície. Não escuto mais ninguém gritando do meu lado, ou talvez eu só esteja partindo.

— Salva ela! Por favor, Sebastian salve-a. — Braços fortes me puxam para a superfície e começo a tossir tentando jogar a água para fora.
— Pegue uma toalha. — Sou levantada da banheira e pega no colo, o ar começa entrar novamente e uma sensação de alívio me toma. Eu não quero abrir meus olhos, não quero que ninguém me veja nessa situação na qual me coloquei. Não quero que sintam pena de mim. Eu aceitei viver assim e agora minha cabeça não consegue lidar com isso, deveria ter deixado ele me matar. O vento bate no meu corpo me fazendo sentir frio, sou colocada em cima da cama e resolvo abrir os olhos. Alana está do meu lado com as mãos no rosto obviamente assustada, Valentim me olha de longe e Bernardo está do lado da irmã com os olhos vidrados em Sebastian. Eu começo a tremer de frio e Alana rapidamente puxa o edredom para me cobrir. Eu realmente sinto muito que ela tenha visto isso!
— Você está bem? — A prima de Sebastian pergunta passando a mão pelo meu cabelo. Eu não quero falar com ninguém, mas devo isso a ela.
— Sim, me desculpa… — Meus olhos enchem de lágrimas e Alana se senta ao meu lado na cama balançando a cabeça negando.
— Não precisa se desculpar por nada, só não faça mais isso, por favor. — Concordo tentando agradá-la. Me encolho enrolada no edredom e Alana volta a sorrir.
— Saiam! — Sebastian manda todos saírem e essa é a hora que eu temia desde o começo, caso não desse certo. Alana se levanta e caminha até a porta com seu irmão do lado. Valentim sai, mas a prima de Sebastian trava na porta.
— Sebastian, posso falar com você rapidinho? — Ela pergunta trocando olhares entre Sebastian e eu. Então ele se levanta da cama e vai de encontro com Alana. Troco de posição e cubro a cabeça com o edredom.
— Isso já está passando dos limites, por que não deixa ela ir? — Escuto Alana sussurrar para Sebastian. Espero que ela possa convencê-lo.
— Porque ela é minha! Eu a comprei. — Ele nunca se cansa de repetir isso, como se fosse uma coisa para se orgulhar, um troféu.
— Você está se apaixonando por ela, não é? — Sebastian se apaixonando por mim?! Isso é engraçado de ouvir, duvido que eu dia ele tenha amado alguém ou que vá amar alguma pessoa que não seja ele mesmo.
— Você está louca? — Ouço ele dizer espantando com a pergunta.
— Me dá um motivo para não acreditar nisso? — Se ela me perguntasse eu diria a ela que seres humanos que se preze não fazem o tipo de coisa que ele faz. Ele é doente, não é capaz de amar ninguém!
— Não começa ou te mando de volta para Nova York. — O que tem em Nova York?! Será que Alana mora lá?! Se isso for verdade quer dizer que ela não vai ficar por muito tempo e vou ficar completamente sozinha nessa casa. Sebastian fecha a porta e volta para a cama se sentando, ele puxa o edredom que me cobre. — Por que fez isso? Eu não fui claro o suficiente? — Ele pergunta com os olhos amendoados fixos nos meus. Não posso dizer a verdade a ele.
— Não foi proposital. — Digo o que me vem na cabeça no momento, mas não sei se fui convincente o bastante. Sei que o que eu fiz foi burrice da minha parte ou não, mas não aguentei minha cabeça, parecia que iria explodir com tantas informações jogadas. E em um momento de fraqueza eu acabei cedendo. Sendo fraca como sempre.
— Você dificultou as coisas e agora não confio em você. A partir de agora, aonde eu for, você vai, até mesmo aqui dentro de casa. Sua liberdade mal começou e você fodeu com ela então, vou repetir novamente caso não tenha escutado antes, não faça truques, sei que tentou se matar. — Sebastian apoia a mão do lado do meu ombro e inclina a cabeça para baixo chegando perto demais do meu rosto. — Agora levanta, se recomponha e veste uma roupa.


Capítulo 21

Sebastian Dellafuentes


Meu falecido pai sempre me ensinou desde pequeno a não confiar nas pessoas, não meter os pés pelas mãos e não ter piedade de ninguém. Eu só queria que ele tivesse me ensinado como ter paciência com gente estúpida, aposto que muitas pessoas teriam sido poupadas.
Não sei como diabos eu ainda não derreti a cabeça de Mellia, se bem que agora não dá mais. Vamos nos casar. Isso soa bizarro, logo eu que não queria me casar tão cedo, mas como meu pai deixou bem claro nas cartas, isso uma hora ou outra teria que acontecer.
Claro que nunca me passou pela cabeça que a bomba cairia nos pés de Mellia. Eu só queria usar ela de todo jeito e formas possíveis para depois descartá-la. Mas as coisas foram se deteriorando e quando vi já não tinha mais escolha, ela estava aqui no momento e hora errada. Eu só não sabia que iria acontecer tudo isso e tão rápido. Agora vou fazer isso dar certo, custe o que custar ou problemas maiores virão.

Meu avô criou uma espécie de plano para manter a ordem, que são elas: família e poder. Meu pai dizia que as duas coisas andam juntas, e uma vez eu perguntei por que, já que são coisas distintas uma da outra. Então ele me explicou que se estamos vivos é porque temos uma família, uma mãe e um pai. Família sempre vem em primeiro lugar, então se algo ou alguém prejudica a família, nós matamos ou morremos por ela. E quanto ao poder, eu só o tenho enquanto tiver uma família para proteger. É como os inimigos chegam até nós, pela família. E se mantenho o poder em minhas mãos, tenho capacidade de realizar o que eu quiser conforme eu desejar, portanto ninguém corrompe a família. Dinheiro, casa e outros bens materiais tudo pode ser retirado em um piscar de olhos.
Valentim sempre tomou conta dos problemas maiores lidando com os distribuidores das drogas por todo o país. Só aqui na Cidade do México tenho mais de 20 pontos de distribuição, assim se algo der errado em algum, o que nunca deu, não afeta o outro. As coisas não podem parar, até porque o que seria dos dependentes?! Outro ponto a salientar é que, não é porque fabrico drogas que eu ou minha família somos drogados. Isso é uma regra clássica para todo e qualquer tipo de negócio.
Mando e desmando na maioria dos policiais do país, então qualquer coisa que chegue a eles, e se tem meu sobrenome mencionado, eles devem eliminá-los. Os policiais que não fazem parte e entram no meio dos meus negócios são eliminados por nós mesmos. Nunca houve nenhum escândalo envolvendo meu sobrenome, o que me torna mais limpo do que meu próprio corpo.
Sempre tivemos outros meios de ganhar dinheiro para esconder a real fonte: hospitais, empresas de advocacia, bancos e uma porrada de outras coisas. Fazemos doações para instituições de caridade para disfarçar e, claro, assim nos tornamos bem conhecidos e admirados por todo o país. Existe apenas um estado que não estamos comandando por completo, por enquanto. A intenção do meu pai era que eu me casasse com a filha desse imprestável que está ocupando meu espaço, para unir tudo de uma vez por todas. Mas eu logicamente tinha outros planos e descartei a ratinha branca.
Peço pra Valentim organizar uma reunião com todos empregados incluindo os meus seguranças que ficam na minha propriedade. A falta de atenção não vai ser mais tolerada, as coisas a partir de agora vão mudar, quero seguranças rodeando todo o muro da casa por dentro e por fora e quero mais câmeras de vigilâncias. Vou criar tudo do zero se for possível, mas ninguém entra ou sai dessa casa sem eu ficar sabendo, incluindo Mellia. Acabou a palhaçada de tentar fugir, tentar se matar e de ficar agindo feito uma garota mimada. O navio vai flutuar do jeito que eu desejar.
No mesmo terreno da minha casa, mas afastado o suficiente, há uma espécie de condomínio com vários quartos, banheiros, uma área de treinamento e cozinha para os meus homens ficarem. Homens solteiros, sem “família’’, com sangue nos olhos dispostos a dar o próprio sangue por mim e minha família. Por isso os chamo de meus e os mantemos por perto por precaução. Eles fazem tudo o que eu e Valentim pedimos sem perguntas ou questionamentos, afinal são muito bem pagos para isso. Se eu ou Valentim pedimos para fazer algum serviço, podemos considerar feito. Sem hesitações!

Que dia do caralho que nunca acaba, já enterrei meu pai, anunciei meu noivado em público, peguei Mellia tentando fugir, dei uma lição nela, comecei a planejar um recadinho a Calisto e Mellia tentou se matar. Em dias normais estaria fodendo uma boceta uma hora dessas, não sei como meu pai teve tempo de engravidar minha mãe com toda essa porra. Entro no escritório que um dia foi do meu pai, e caminho até o armário de bebidas pegando o velho uísque de sempre.
Sento na cadeira e pego o celular que há horas não vejo, por mais que eu odeie redes sociais, sempre estou observando a vida falsa das pessoas. Rolo a tela para cima descartando notícias inúteis até que vejo uma que me ataca os nervos. Em um site de fofoca, a minha foto e de Mellia escancarada, quando estava dando a coletiva de imprensa com ela ao meu lado. Na foto dão ênfase na mão dela, mostrando que não há anel de noivado nenhum e estão se perguntando o porquê?! Que porra! Até isso eles especulam, o que caralho tem a ver com uma merda de anel?! Isso não significa nada. Mas claro, como eles amam especular vida alheia, isso não passaria por nada. O que quer dizer que estou mais envolvido do que pensava. Agora vou ter que perder meu tempo escolhendo joias para agradar esse povinho de merda, que pelo jeito não vai sair do meu pé. Era só o que me faltava!

Antes do jantar, Valentim reuniu todos inclusive as empregadas da casa como ordenei. Entrando na sala todos se endireitam ficando sérios. Luzia, por exemplo, está na casa há 30 anos trabalhando para minha família, é uma senhora bem concentrada no trabalho que faz, seja ele qual for.
Todos formam uma linha reta na minha frente esperando que eu comece.

— Boa noite a todos!
— Boa noite, senhor! — Os funcionários saúdam.
— Primeiros vocês... — Aponto para meus seguranças. — Que porra foi essa de não terem visto a Mellia tentar fugir, isso aqui virou o que caralho?! Uma zona?! Onde todos saem e entram hora que quer… Vocês estão aqui para trabalhar, observar e proteger. Se não dão conta de fazerem o que é exigido, falem agora e já resolvemos o problema aqui mesmo. Isso aqui não é parquinho de diversão, não! Então se querem continuar trabalhando comigo ajam como homens de verdade e façam a porra do trabalho de vocês, não avisarei novamente. Falhou na missão, acabou! — Todos me olham com a cabeça baixa. Não sou de ficar dando sermão em ninguém, até porque pisou na bola comigo, já era. Mas como eles estavam sob o comando do meu pai as coisas eram mais simples.
— O motivo real que mandei chamá-los aqui é para explicar como as coisas funcionaram daqui para a frente. Bom, vou começar pelas novas medidas que deverão ser tomadas imediatamente, quero um sistema de cerca elétricas de alta tensão para ontem, homens de plantão 24 horas ao redor do terreno todo, tanto por fora quanto por dentro. Quero mais câmeras de vigilância por todo o lugar, ninguém mais sai ou entra nesse lugar sem que eu, Valentim ou Bernardo saibam, e isso começa a partir de agora. Entenderão?
— Sim, senhor. — Todos respondem juntos.
— Segunda e última coisa, como devem saber, me casarei em breve. Com quem vocês já devem conhecer muito bem dada as circunstâncias. Então, a partir de agora toda questão relacionada a casa será passada para ela, vão fazer o que ela mandar. Mellia vai ser a mulher dessa casa agora, então, acima de tudo devem respeitá-la. Apesar que sei que vocês não fariam diferente.
Ela é… Digamos que uma mulher difícil de lidar, mas ela se acostuma. Por enquanto, se verem ou suspeitarem de alguma coisa que ela tenha feito ou planejando fazer contra mim, vocês devem me comunicar imediatamente.
— Por enquanto é só isso! Podem se retirar. — Completo.
— Tudo por causa dessa putinha… — Ouço um recém-chegado sussurrar para outro homem ao seu lado.
— Esperem! — Mando todos eles voltarem ao seus respectivos lugares e aguardo alguns segundos até que todos voltem. Retiro a arma da cintura e miro para a cabeça do imbecil que proferiu alguns minutos antes, destravo a arma e puxo o gatilho acertando em cheio a cabeça de merda dele. Algumas das empregadas se assustam com a cena e levam a mão na boca. O inútil com a cabeça estourada cai no chão.
— Que sirva de lição para todos. — Guardo minha arma de volta na cintura e me retiro da sala.


Capítulo 22

Mellia López

Preciso entender que a vida que eu tinha antes ou a que eu sonhava em ter, acabou. Isso só não quer entrar na minha cabeça ainda. Minha mente gira a todo tempo e entro em uma luta comigo mesmo tentando ver um lado bom nisso, se é que há. Ou posso ficar deitada para sempre nessa cama. Mas me lembro de Sebastian deixando bem claro na minha garganta e cabeça, que se eu não fizer o que ele quer, vai me matar. E a sensação de se sentir na beira do precipício não é nada bom. Me levanto como ele pediu e vou até o closet, escolho um vestido rosê claro de uma seda fina, isso parece mais uma camisola, mas é a primeira coisa que vejo.
Me afasto da visão da porta caso alguém entre. Isso é completamente estranho, as roupas dele estarem no mesmo espaço que as minhas. Na verdade, nem a calcinha que uso aqui é minha. O vestido escorrega pelo meu corpo como se fosse pequenos pedaços de algodão, ele tem algumas pregas na lateral da minha cintura descendo até as minhas coxas, nas costas o vestido faz um decote deixando-as nua. Confesso ser um dos vestidos mais bonitos que já usei, mas não merece ser usado neste lugar.
Dou uma olhada na parte dos calçados e não tenho outra escolha a não ser escolher um salto. Seja lá quem escolheu as minhas coisas, pensou que eu viveria em festas porque só tem salto aqui. O menor que vejo é um dourado com o salto quadrado com tiras enormes para amarrar no tornozelo, aposto que Jess adoraria isso. Que falta que ela me faz, daria tudo para vê-la de novo. Termino de amarrar as sandálias e vou até a frente do espelho, sei que estou tecnicamente bonita por fora, mas isso não passa de uma farsa e minhas olheiras fundas deixam isso bem nítido. Poderia dizer que gosto do que vejo, mas estaria me enganando, eu nunca vou gostar disso. Me sento na cama e fico esperando que alguém venha me chamar ou que Sebastian venha me arrastar pela escada abaixo.
A mesa está perfeitamente colocada com vários pratos diferentes, tem comida que daria para todos os seguranças que têm nessa casa. Luzia me mostra a cadeira para me sentar e a agradeço sorrindo sutilmente. Sebastian, Alana e Bernardo já estão na mesa, não sei se me assusto com a cara espantada deles por estar sentada na mesma mesa que eles ou se porque estou vulgar demais com esse vestido e sandálias escandalosas. Eu sabia que isso não daria certo, no mínimo estão se contorcendo por dentro tentando segurar a risada. Me levanto para sair da mesa, mas Sebastian segura meu braço com força me impedindo de ir.

— Mellia, como está se sentindo? — Alana pergunta e volto a me sentar na cadeira. Me sinto sufocada com tantos olhares sobre mim.
— Bem e você? — Respondo com a voz mais baixa que o normal, se é que isso é possível. Todos ficam me encarando estranhamente e isso me incomoda.
— Posso te chamar de Mell? Já que vamos nos tornar primas. — Alana menciona o que tento esquecer a cada minuto, mas acabo concordando para agradá-la.
— Claro! — Minhas respostas são curtas e simples. Sei que ela não merecia isso, mas estou fazendo o que posso, pelo menos por hora. Sebastian e Alana começam a servir e a vergonha me consome, me fazendo ficar imóvel na mesa. Bernardo começa a conversar com Alana sobre Nova York para quebrar o clima estranho na mesa e o agradeço mentalmente por isso.

A sobremesa está sendo servida e eu já não aguento ver tanta comida na minha frente, no começo foi vergonhoso, mas ver todos comendo fez meu estômago roncar. Foi estranho de ver, acho que nunca comi tanta coisa diferente na minha vida. Nunca gostei de comer sobremesa depois do jantar a mistura de salgado e logo em seguida doce é esquisita. Sebastian e Bernardo conversam sobre um sistema de segurança que vão colocar ao redor da casa, e já imagino o porquê.

— Mell, você precisa experimentar esse chocoflan, é uma das especialidades da Luzia. — Bem que eu gostaria de experimentar em uma outra hora, mas isso não será possível.
— Desculpe, mas passo! Sou alérgica a chocolate. — Quando era pequena fui parar no hospital, com uma alergia grave de chocolate. Na verdade, algo que contém no chocolate, o que imagino ser o cacau. Minha mãe nunca soube me falar o que era de fato, já que a diretora da escola que ficou a maioria do tempo comigo no hospital, até que minha mãe chegasse. O que foi praticamente na saída da consulta.
— Como assim? — Bernardo me pergunta intrigado, essa foi a primeira vez que ele me dirigiu a palavra desde que coloquei os pés aqui. Não sei se devo respondê-lo já que ele também faz parte de tudo isso. Mas seria uma falta de educação da minha parte.
— Quando eu era pequena fui parar no hospital com muita febre, erupções por todo corpo, minha pele ficou vermelha e coçava sem parar. Então foram feitos testes e foi quando descobriram que eu tenho alergia a chocolate. — Concluo, percebendo o olhar de Sebastian sobre mim, disfarço olhando para Alana que aprecia o resto da sua sobremesa com os olhos brilhando.
— Primeira vez que ouço falar isso. — Alana responde terminando de comer seu chocoflan.
Estranho Sebastian não ter feito nenhuma piada inútil para mim durante todo o jantar, já que ele ama ter toda atenção para ele.

O jantar terminou incrivelmente sem nenhuma discussão o que me deixou mais aliviada, Sebastian pediu para eu subisse para o quarto enquanto ele fazia um pedido e eu o obedeci, já que sou obrigada a concordar com tudo que ele fala. Me sinto como uma peça de xadrez em um jogo doentio da parte dele. O que mais me preocupa agora é a noite que terei que ter ao lado dele. Pela primeira vez eu dormirei ao lado de um homem, isso me deixa assustada e em pânico.
Em toda minha vida nunca senti as famosas borboletas no estômago por ninguém, pelo menos não na idade adulta. Na época da escola gostava muito de um garoto, mas as meninas que eu andava antes de Jess chegar, fizeram questão de estragar toda e qualquer chance que eu tivesse com ele. Depois meu tempo sempre foi ficando menor, já que eu comecei a trabalhar e cuidar de casa para que não passasse fome, então não tinha mais tempo para interesses amorosos.
Coloco uma calça de moletom, uma blusa confortável e vou até o banheiro para escovar os dentes. Meu plano é fazer tudo muito rápido, deitar-me na cama, cobrir a cabeça, me encolher o máximo que posso para que ele não encoste em mim e se eu puder fechar os olhos e dormir. Será perfeito!
A porta se abre e prendo minha respiração debaixo do edredom, que Deus tenha piedade de mim. Escuto passos por todo o quarto, mas não ouso tirar a cabeça para fora.
Ouço o barulho da água do chuveiro cair no chão e descubro a cabeça para voltar a respirar.
Tento escutar qualquer passo dele que revele que esteja voltando para o quarto depois de alguns minutos, mas isso demora a acontecer.
Antes de escutar o chuveiro ser desligado volto a cobrir a cabeça novamente.

— Que gracinha! Está se escondendo do bicho papão? — Droga! Resolvo não responder. Como ele tem esse dom de saber de exatamente tudo?! Minhas mãos começam a suar de tanto segurar o edredom. Sebastian volta a dar passos pelo quarto e segundo os meus sentidos é vindo para a mesma cama que eu. Sinto a cama mexer e aperto minha mão segurando o edredom com mais força.
— Você vai derreter aí embaixo! — Me encolho mais ainda dando mais espaço entre nós. Sebastian puxa o edredom quase arrancando minhas mãos junto. — Você sempre foi chatinha assim? — Eu sou chata?! E ele é o que, então?! Estava disposta a ficar o tempo todo calada, mas tem coisas que não dá para ficar quieta.
— Não sou chata, só não quero conversar com você! — Respondo tentando ser o mais paciente possível. Tudo nele me irrita, essa presunção de achar que pode mandar em todas as pessoas da terra só porque tem dinheiro. Ele ajeita o travesseiro e eu continuo de braços cruzados olhando para o teto. Começo a contar quantos cristais tem no lustre e pressinto ele virar para o meu lado, consigo sentir os olhos dele sobre mim e perco a conta. Isso não vai dar certo!
— Aquele dia na Espanha deixei que você fizesse três perguntas e agora você vai me responder algumas, se não vou te envenenar com chocolate. — Ele me chantageia. Deus, quando esse homem vai finalmente dormir e me deixar em paz por algumas horas?! Volto a me concentrar no lustre.
— Por que ainda morava com seus pais? — Que merda de pergunta é essa…
— Porque eles são meus pais!? Boa noite! — Respondo o óbvio.
— Você já namorou com alguém? Não tive tempo de pesquisar mais a fundo. — Ele é mais psicopata do que pensei! Quem fica pesquisando a vida pessoal das pessoas?! — Se responder tudo certinho te deixo em paz por hora. — Mas que saco. Não é ele que sabe de tudo, agora quer ficar me fazendo perguntas idiotas?!
— Eu morava com os meus pais porque não tive a chance de ter dinheiro suficiente para morar sozinha e porque os amo, e nunca namorei ninguém. O que mais? — Quanto mais rápido isso terminar melhor para mim. Sebastian se apoia no antebraço e olha para mim.
— Espera... Ninguém te fodeu ainda? — Não respondo e ele entende a resposta. O maldito tem a cara de pau e começa a rir na minha cara. Agora chega, ele passou dos limites. Me levanto da cama, pego o travesseiro e me deito no chão. — Volta para essa merda de cama logo e para de palhaçada. — Sebastian aumenta o tom de voz e a mesma sensação de horas mais cedo, de puro terror, me preenche novamente. Não quero que ele me machuque. Não sei como isso vai acontecer, sinto mais medo ainda do resultado que isso cairá sobre mim, será que vou ser capaz de conviver com essa nova vida. Levanto do chão obedecendo como um bom cachorrinho faz e me deito na beirada da cama. — É bom se acostumar com isso, porque até agora tenho sido bonzinho demais com você, acho que eu deveria até ganhar um prêmio por isso. Na verdade, era para eu estar enterrando meu pau em você nesse exato momento, mas estou com tanta pena de você que estou deixando você se acostumar com a sua nova vida. Porra estou me controlando muito desde que te vi no escritório do Cuevas, então colabora também, se não vou perder o caralho da paciência rapidinho. — Respira, Mellia, só respira, mentalizo comigo mesma. Meu Deus, o que vou fazer agora?! Me mande um sinal, eu imploro por sua misericórdia. Não posso me entregar para ele. — Acho que estou virando um verdadeiro anjo que caiu do céu, não acha? — Só se for um anjo demoníaco, que Deus me perdoe! Viro de costas para ele e deixo as lágrimas caírem em silêncio.

— Ai! — Ótimo jeito de acordar caindo da cama, levanto do chão me espreguiçando. Pelo menos ele já acordou e me deixou em paz. Volto a deitar na cama, dessa vez ocupando mais espaço possível. Como é bom esticar as pernas!
— Bom dia! Nada de dormir até mais tarde, só vagabundos dormem o dia todo! — Maldito seja, onde esse homem estava que não vi? Me levanto e corro até o banheiro trancando a porta atrás de mim.
— Você tem cinco minutos! — Será que ele sabe até quanto tempo uso para fazer xixi e escovar os dentes?! Não duvido!

Antes de nos sentarmos na mesa para tomar café da manhã, Luzia entrega o que parece ser uma carta ou cartão para Sebastian, ele abre o envelope na mesma hora. Arrumo minha postura para tentar ver o que está escrito, mas não consigo enxergar nada, então ele devolve o papel para Luzia que sai apressada para cozinha.
— Temos uma festa para ir! — Sebastian diz, me olhando com um certo divertimento nos olhos.


Capítulo 23

Sebastian Dellafuentes

Não vou negar que amei saber que Mellia ainda é virgem, isso me deixou mais intrigado do que antes, ou devo dizer excitado?! As coisas aconteceram tão rapidamente que não tive tempo nem de foder ela. Céus, estou perdido. Jamais pensei que ela seria virgem ainda quando planejei sequestrá-la. Agora tudo mudou, ou no fundo, acho que meu consciente sabia que teria que ir devagar com ela por algum motivo, eu só não entendo esse autocontrole repentino meu.
Agora estou aqui fazendo papel de babá, esperando Mellia se trocar, passando raiva e isso porque não me casei ainda, mas como disse a ela, aonde eu for, ela irá. Isso até vai ser bom para que ela comece a se acostumar.
Agora tenho que comandar esse lugar, preparar minha vingança contra aquele maldito, me casar, fingir de santo e ficar dando satisfação da minha vida para a internet. Sempre tive tudo na palma das mãos, pensando em luxo e mulheres devido a minha família, logicamente. Mas as coisas nem sempre foram fáceis para mim. Eu tive que aprender a lutar e me defender do meu próprio pai, quando ele estava me ensinando a como ser um chefe da máfia, ele me dizia sempre que ser um chefe não é só saber fazer dinheiro e, sim, aprender a lutar, caçar, matar e planejar. Tudo é um conjunto de decisões que se não for tomada com sabedoria, além de perder tudo, você morre.
Ontem, depois do jantar mais engraçado que já tive na vida, pedi que Mellia subisse para o quarto para fazer a merda do pedido do anel de noivado, pedi que fizessem igual da minha mãe. Eu poderia ter usado o mesmo anel, mas meu pai fez questão de enterrar minha mãe com ele.
Mellia finalmente saí do quarto vestida como uma gangster e não deixo de dar risada da escolha dela. Ela veste uma calça preta com bota de salto, uma blusa curta mostrando a porra da barriga mais perfeita que já vi e um casaco também preto jogado por cima dos ombros.

— Caralho! Só não é mais perfeito que aquele vestido de ontem. — Pirraço e ela revira os olhos, mas não diz nada.
— Colocou os pés para fora desta casa, quero sorriso no rosto, demonstração de afeto e vai pegar na minha mão. Entendeu? — Explico para que não aja como uma criança na frente de todos e acabe fazendo showzinho em público.
— Eu não vou te beijar! — Mellia afirma como se ela tivesse o direito de escolha.
— Isso não é você que decide. — Deixo claro que ela não tem escolha contra isso e viro as costas, saindo do lugar. Desço os degraus da escada de dois em dois e avisto Alana e seu irmão na sala, estou sem tempo para conversa fiada, Mellia já me fez esperar demais. Se todos os dias forem assim, estou mais fodido do que pensava. A funcionária da casa abre a porta para que eu passe, mas percebo que Mellia não está atrás.
— Mell, minha prima favorita, que arraso você está! Não acha, irmão? — Alana elogia pelo visual escolhido e o filho da puta do Bernardo concorda. Eu adoro minha prima e toda sua bondade de fazer com que Mellia se sinta em casa, faço uma nota mental de agradecê-la mais tarde por tudo. Sei que ela não aprova o que eu fiz com Mellia, mas ela não entende que tudo era um jogo sujo e que do nada se tornou uma bola de lã. Tanto ela quanto eu caímos nessa bola de paraquedas e não me importo se Alana, ou seja lá quem for, achar ruim.
— Obrigada! — Mellia agradece, volto alguns passos e a pego pelo braço puxando para porta fora. Escuto Alana reclamar com o irmão da minha atitude, mas finjo não escutar. Sou pontual com os meus deveres e já estou atrasado, o que me deixa mais nervoso do que o normal. Mellia tenta puxar o braço de volta, mas continuo segurando com mais força, o motorista do carro abre a porta e faço sinal para que ela entre primeiro, só para não correr o risco de ela fazer showzinho de novo. Mellia se senta do outro lado do carro, mantendo a maior distância possível de mim. Será que ela não caiu na real ainda?!
— Para onde vai me levar? — Finalmente ela abre a boca para dizer alguma coisa e se vira. Esperando por uma resposta, o cheiro do seu perfume entra nas minhas narinas me fazendo contorcer por dentro. Porra, tenho que me controlar para não atacá-la aqui mesmo dentro do carro. Talvez eu deveria, isso já passou da hora, ou talvez eu meta os pés pelas mãos e acabe fodendo tudo de vez, fazendo com que ela fique mais fechada no seu mundinho do que antes e realmente quero fazer isso acontecer, quero que tudo dê certo para a gente, visto que não temos mais saída.
— Tenho que verificar umas encomendas que chegou! — Respondo depois do quase surto.
— Que tipo de encomenda? — Mellia pergunta, curiosa como sempre. No momento penso em esconder o tipo de negócio que faço, mas isso nunca foi e nunca será algo que eu sinta vergonha. Afinal de contas, ela também vai fazer parte disso tanto quanto eu. Não serei aquele tipo de marido que só pensa em si próprio e deixa a mulher plantada o dia todo dentro de casa. Acho ridículo esse tipo de atitude. Na verdade, sempre preferi mulheres independentes, donas de si próprias. Talvez seja por isso que fiquei encabulado com ela depois da quase entrevista com Cuevas. E ainda mais depois de ter visto sua ficha completa.
— Meus brinquedinhos novos, que explodem lugares, e principalmente pessoas. — Eu poderia dizer que paguei por isso, mas como vou lucrar mais ainda com o resultado, no final vai acabar saindo de graça. Nada melhor que explodir pessoas inconvenientes que me atrapalham e lucrar com isso, meus olhos chegam a brilhar de felicidade.
— Eu não quero participar disso! — Coitada, está achando que vou deixá-la de mão beijada em qualquer lugar para ela tentar fugir de novo.
— Ah, você vai sim e vou te ensinar tudo que sei. Você é fraca e nesse ramo, mulheres fracas sempre acabam morrendo uma hora ou outra. — O que é de fato verdade!
— Você ficou louco, não é? Eu não vou sair por aí matando pessoas inocentes e explodindo as coisas como você. — Inocentes... Solto uma gargalhada das palavras usadas por ela, pelo visto ela não entendeu nada mesmo. E se não tivéssemos chegado no lugar, talvez perdesse meu tempo tentando explicar, se é que algo entra nessa cabeça fodida dela.
— Eu só vou explicar mais essa vez, eu desço, você pega na minha mão e fica de boca fechada. Pode usar esse tempo para observar tudo que também vai ser seu. — O motorista abre a porta do carro assim que fecho a boca. Desço e estendo minha mão para Mellia, como imaginei, ela pega minha mão apertando como se isso fosse doer ou me afetar. O gerente do meu galpão vem de encontro comigo, mas passo reto, indo para o que me interessa. A mão delicada de Mellia está gelada e penso em perguntar se está com frio, mas se tiver, é um problema dela, não mandei sair com a barriga para fora. Dane-se!
— Bom dia, senhor e senhora! — Victor saúda estranhando minha visita repentina.
— Bom dia! — Mellia responde com um sorriso no rosto que me espanta, ela acha que isso é o que?! Um circo?! Não sei o que ela viu de engraçado nesse simples bom dia de merda.
— O senhor veio conferir a mercadoria? — Que merda de pergunta mais idiota, como se eu confiasse nesses inúteis.
— Victor, não acha que vim até aqui para te ver, não é? — Zombo.
— Desculpe, senhor, é que… — Pelo amor de Deus.
— Não ficou sabendo que eu viria, não é? Deixa só eu te explicar uma coisa, eu não preciso avisar nada para ninguém porque a porra desse lugar é meu, então eu venho quando eu bem entender. E já avise seus coleguinhas. — Explico.
— Sim, senhor! — Me pergunto como Valentim tem paciência para lidar com esses burros.
Puxo Mellia, voltando a caminhar rumo aos meus brinquedinhos espalhados, alguns homens estão abrindo algumas caixas e, quando me veem, abrem espaço. Passo a mão olhando tudo com calma, conferindo se é realmente o que pedi. Mellia observa tudo com os olhos atentos por todo o lugar, no mínimo imaginando alguma forma de sair correndo sem ser pega. Mando os homens se afastarem para que eu converse com ela a sós.
— Primeira lição de hoje: sempre tenha um plano B antes de começar tudo. — Comunico uma das regras mais básicas que me foi ensinado. Mellia me olha, estranho, obviamente não entendendo nada, caralho, será que vou ter paciência para ensinar tudo que ela precisa saber?
— E o que isso tem a ver com explosivos? — A pergunta que me interessa, finalmente.
— Eu e meu pai tentamos fazer com que o nosso inimigo do estado vizinho nos passasse o comando da distribuição das drogas por uma grana mais do que merecida, mas ele infelizmente recusou, então, agora vamos para o plano B. Vou pegar tudo que é dele para mim, usando essas belezinhas aqui. — Explico e ela dá um passo para trás, se afastando de mim. Já vai começar!
— Drogas? Você mexe com drogas? — Ela achou que fosse distribuição do que?! Santo Deus, o que se passa nessa cabeça de vento dela? Tento ser mais paciente do que minha cabeça permite.
— Minha querida Mell, você acha que tudo isso vem de onde?! Drogas é o que mais dá dinheiro no nosso país. — O que é a mais pura verdade.

Depois visitamos mais dois galpões e almoçados em um restaurante, o que odeio pra caralho. Mellia se comportou bem, pelo menos até agora, o que me faz ficar em dúvida se ela está fingindo ou se realmente está se acostumando.
— Vou ao banheiro! — Ela se levanta rápido sem dar tempo para que eu questione. Coitada se acha que vai ao banheiro sozinha para fugir pela janela ou sei lá por onde. Me levanto indo atrás sem que perceba, os garçons ficam me olhando entrando no corredor do banheiro feminino e mostro o dedo do meio. Aguardo alguns segundos para pegá-la no flagra e entro.
— Até no banheiro você vai me perseguir? — Mellia está com as mãos molhadas se apoiando no balcão, seu casaco colocado do lado sobre a pia. Vou até ela que se vira de costas para o espelho que antes olhava, me aproximo do corpo dela que tenta miseravelmente se afastar cada vez mais contra a pia. Ela olha para o outro lado evitando contato visual, é bem a cara dela fugir de tudo como sempre, pego Mellia pela cintura e a levanto colocando sentada na pia do banheiro.
— Me solta ou vou gritar! — Ela ameaça, mas continuo com as minhas mãos na sua cintura, sentindo sua respiração acelerar.
— Você vai ficar quietinha, senão não vai ganhar seu presente. — Seus dedos ficam vermelhos de segurar a borda da pia com força desnecessária.
— Por favor... — Coloco meu dedo indicador nos lábios dela para que se cale. Mellia fecha os olhos com o meu toque e aproveito para puxar seu longo cabelo de lado. Chego cada vez mais perto do seu rosto, sentindo-a se deter, levo minha boca até seu ombro e começo a deixar beijos molhados, subindo lentamente até seu pescoço.
Mellia se contorce, arrumando a postura, e a visão que tenho, vendo sua bunda se empinar é fodidamente pior do que ficar sem tocá-la por todos esses dias. Meu pau pulsa dentro da calça querendo entrar dentro dela o quanto antes, mas minha mente de merda me lembra do que tudo isso pode causar. Corto os beijos, a descendo da pia, viro ela de costas para mim, empurrando-a de frente ao espelho, vejo algumas lágrimas escaparem dos seus olhos, mas não paro.
Junto seu cabelo com uma mão só e levo sua cabeça perto do espelho fazendo com que ela fique de quatro e sinta a merda que ela está fazendo comigo há tempos. Puxo Mellia de volta, colando as costas dela no meu peito, levo minha mão até o cós da sua calça e começo a subir prolongando cada toque passeando pela sua barriga, umbigo e finalmente alcançando seus seios. Mais uma vez, Mellia se contorce com os meus movimentos pendendo a cabeça para trás encostando no meu ombro. Os seios durinhos e empinados dela me deixam cada vez mais duro, e sinto a necessidade de parar antes que seja tarde demais, porém contínuo em um looping infinito beliscando seu seio desejando que isso nunca acabe.

— Ai meu Deus… — Caralho! Ou devo dizer ainda bem? Uma mulher entra no banheiro e se assusta voltando para trás. Retiro minha mão e a solto.
Mellia abaixa a cabeça, no mínimo se recuperando da sensação, me afasto dela e passo pela porta, esperando até que ela volte. Alguns minutos se passam quando penso em entrar novamente, mas dou de cara com ela saindo do banheiro.

Depois de pagar a conta, pego em sua mão e caminhamos pelo restaurante, indo até carro. Passando pela porta, meus seguranças vieram até nós, cercando-nos. Não sei como diabos os paparazzi nos encontraram, mas estão por todos os lugares que olho.

— Só sorria! — Ordeno a Mellia que olha para todos assustada, mas, mesmo assim, obedece. Solto sua mão e a abraço de lado, fazendo ela chegar mais perto de mim. Os seguranças afastam os últimos paparazzi que se colocavam na frente do carro e o motorista abre a porta. Mellia entra no carro sem que eu mande pela primeira vez e a sigo entrando depois dela.

Depois de sairmos do restaurante e enfrentar aquelas pragas de paparazzi, o restante do dia se passou rápido, porém difícil de me concentrar. Quando chegamos em casa, Mellia desceu do carro primeiro do que eu e saiu correndo direto para o quarto e fechou a porta. Se ela achou que eu iria atrás dela para pedir desculpa ou seja lá o que ela pensou, se enganou! Sei que ela sentiu o mesmo que eu, sei que ela gostou! Ela só deve estar assustada com a reação dela sobre mim.
No jantar, ela desceu conforme eu mandei e não disse nenhuma palavra a não ser com Alana que sempre fala demais, mas quando percebeu que Mellia não estava animada com as respostas dadas, minha prima se calou.
Entro no quarto e ela está deitada encolhida, coberta com o edredom até o pescoço. Me sento na cama e ela vira as costas para mim, birrenta. Puxo o edredom descobrindo seu corpo.

— Você não quer seu presente? — Pergunto.
— Deixa aí, depois eu vejo. — Sério isso que ela vai se fazer de santa agora?
— Olha para mim agora e pega essa bosta antes que eu desista. — Exijo, perdendo o resto da paciência que ela tanto tira. Mellia se senta na cama e olha para as minhas mãos vendo uma caixa de veludo e uma caixa branca com um laço vermelho, entrego a caixa branca em sua mão, mas ela continua olhando para a outra. Resolvo acabar com toda enrolação e abro a caixinha do anel de noivado.
Mellia perde a cor ficando mais pálida do que quando acordou no hospital aquele dia, pego sua mão esquerda e coloco o anel em formato de borboleta com as asas toda feita de diamantes como pedi.
— Eu não posso usar isso… — Mellia se nega usar o anel de noivado, quanta frescura.
— Você vai usar! — Já não basta a internet comentar, agora, para completar, ela se recusa.
— Isso vale muito dinheiro... E se eu for assaltada? E se eu perder? — Solto uma gargalhada da imaginação fértil que ela tem.
— Quem vai te assaltar dentro de casa e do meu lado? — Essa é a pergunta mais tola que já ouvi. Mellia dá de ombros, mas começa desfazer o laço da outra caixa. Eu quis dar a ela um celular para que poste algumas fotos para satisfazer a mídia, a fim de que eles nos deixem respirar.
— Antes de mais nada, o celular não tem chip, então não faz ligação e, claro, chamada de emergência vai cair no meu celular e em todos os computadores do Bernardo. Tudo que você faz nele, eu e Bernardo vemos, a única utilidade dele para você é para entrar no seu Instagram e postar coisas sobre nós e mais nada. Você não consegue comentar, enviar mensagens e muito menos receber. Os comentários foram desativados então ninguém também pode comentar nada inútil em suas publicações e, óbvio, não dá para te localizar. Qualquer post, vídeo ou story seu antes de ser postado será avaliado, caso tente alguma gracinha. Ah e todas suas publicações antigas foram apagadas. — Explico.
— E o que vou fazer com isso então? — Mellia pergunta chateada. Ela achou mesmo que eu daria um celular a ela com todas as funcionalidades normalmente?
— Agora você vai entrar no seu Instagram que já está instalado e na sua conta, e vai tirar uma foto das nossas mãos juntas mostrando o anel de noivado e vai postar logicamente me marcando e com aquelas figuras idiotas que tem. — Determino. Agora fui obrigado a baixar esse aplicativo no celular, para que ela possa me marcar.
Mellia desbloqueia o celular e entra no aplicativo, vai até o ícone de nova publicação e volta a olhar para mim. Eu estou gostando dessa nova Mellia mais obediente, fazendo tudo que peço, espero que continue assim pelo bem dela. Coloco minha mão na sua perna e ela se recusa a colocar a dela.
— Quanto mais rápido for, mais fácil será! — Pego a mão dela, coloco sobre a minha e, então, ela aperta para bater a foto. Oras, ninguém morreu com isso, que dificuldade tem em tirar uma foto das mãos?! Tomo o celular da mão dela e adiciono meu nome, me marcando, coloco várias figurinhas de coraçõezinhos e posto. Aposto que vão amar isso. Entrego o celular novamente, mas ela não pega, está paralisada olhando o anel em seu dedo.
O celular começa a apitar várias vezes, notificando novos seguidores e curtidas. Tudo conforme o esperado.
— Posso fazer uma pergunta, pelo menos? — Mellia acorda do transe me fazendo uma pergunta. Concordo com a cabeça.
— Uma vez você me entregou uma borboleta morta, isso tem alguma coisa a ver com o anel? — Ela se lembrou! Na verdade, existe uma ligação, mas Mellia não precisa saber disso, não agora.
— Um dia você saberá!


Capítulo 24

Mellia López

No dia em que Sebastian passou as mãos pelo meu corpo e deixou beijos pelo meu pescoço, senti que morreria de tanta angústia, ninguém nunca me tocou, muito menos daquela maneira. Não posso mentir para mim mesma e dizer que não senti nada porque senti uma mistura de medo, enjoo e ao mesmo tempo uma tensão fora de mim. Eu fiquei impressionada pela beleza de Sebastian desde o primeiro dia que o vi na maldita entrevista de emprego, ele tem todo seu charme que não é difícil de notar. Pena ser como ele é! Tudo ficou muito confuso de digerir, era como se eu estivesse gostando do que ele estava fazendo comigo e, ao mesmo tempo, queria morrer naquele momento. Chorei na hora, mostrando meu lado que estava se sentindo suja e usada para ganhar sua confiança ou algo que me ajudasse a sair desse lugar, mas meu corpo dizia outra coisa.
A sensação diferente que somente Sebastian me fez sentir em toda minha vida foi incrível, mas sei que no fundo tudo não se passava de um momento de fraqueza e jurei para mim mesma que não deixaria que minha mente me dopasse novamente. Mas tudo foi um carrossel de sentimentos, tentei controlar, mas não consegui, foi mais forte do que eu. Eu queria que ele parasse e, dois segundos depois, continuasse. Sebastian fez questão de me mostrar que estava excitado com toda situação, desejei que ele continuasse na hora, mas depois que ele me deixou sozinha, me senti uma vagabunda qualquer e me odiei.
Quando cheguei do restaurante com ele, fui diretamente para o quarto, tirei minhas roupas e entrei no chuveiro. Eu queria tirar qualquer vestígio do toque dele, ao mesmo tempo que quando fechava meus olhos me via naquele banheiro de frente ao espelho com as mãos dele sobre meu corpo. Eu me esfreguei várias vezes para tentar parar de recordar o que tinha acontecido, mas não funcionou! Então me deitei na cama e rezei para dormir antes que ele chegasse, eu não queria vê-lo mesmo sabendo que dormiríamos na mesma cama. Pedi para que Deus tirasse aqueles pensamentos estranhos da minha cabeça ou ficaria doente, na verdade já estava me sentindo louca.
Me senti um ser humano desprezível, quem em sã consciência gostaria de ser tocada daquela forma pelo seu sequestrador?! Ninguém! Pelo menos ninguém normal. Por mais que ele seja abundantemente bonito e sexy.
Implorei que Sebastian me deixasse em casa todos os dias e prometi que não tentaria nada, mas ele recusou todos os meus pedidos.
A semana passou rápido com tantos lugares que tive que ir, acho que nunca saí tanto em toda minha vida do que saio agora, pena que na companhia do meu sequestrador e indo a lugares que só criminosos frequentam. Eu ainda não me acostumei e acho que nunca vou me ver envolvida com esse tipo de pessoa, Sebastian quer me ensinar a ser como ele a todo custo, o que obviamente não quero. Ele acha que só porque eu ainda estou aqui presa nesse lugar sem ter para onde ir que vou ser como ele, por mais que eu não tenha um lugar para ir se algum dia conseguir sair daqui, não vou me tornar um deles. Nunca! Eu finjo estar bem e solto risadas como se tudo fosse maravilhoso e perfeito como ele pede, mais é só para que eu viva mais um dia e nada mais que isso.
Agora estou aqui sendo arrumada por Luzia e Alana que insistem em me ajudar todas as vezes, eu sempre falo que não precisam se preocupar que farei tudo sozinha para não incomodá-las, mas elas sempre vêm com uma desculpinha ou outra e acabam ficando. É diferente ter alguém que te ajude a decidir que batom usar ou que sandália colocar, a Jess me ajudava com tudo quando tinha tempo antes. Agora que tenho um projeto de celular, sempre tento postar algo meu para que ela veja que estou bem, isso quando é aprovado pelo senhor hacker, Bernardo. É completamente assustador não saber de nada dela quando ela sabe sobre mim. De um dia para o outro desapareço e, de repente, eu surjo sorrindo feito uma palhaça na TV com um homem que ela nunca viu na vida. Sinto tanta saudade dela, meus olhos lacrimejam formando lágrimas. Só espero um dia poder vê-la mesmo que de longe.

— Ei, por que está chorando? — Alana pergunta parando de passar o iluminador acima das minhas bochechas, droga, vou estragar toda maquiagem.
— Me desculpa, eu estraguei a maquiagem? — Pergunto preocupada se danifiquei todo o trabalho incrível dela.
— Isso não importa, só quero saber por que está chorando. — Alana é um verdadeiro anjo que caiu de paraquedas nessa casa, não sei como ela suporta conviver ao lado deles mesmo que por algumas semanas. Levo minha mão ao rosto, secando as lágrimas que rolaram. Alana se afasta, olhando de longe o resultado da maquiagem e aproveito para me olhar no espelho.
— Gostou? — Ela pergunta com os olhos brilhando de orgulho, é a maquiagem mais perfeita que já usei.
— Eu amei, está perfeito, obrigada às duas! — Alana bate palmas com o elogio e Luzia sorri. Nunca vou ser capaz de agradecê-las por tanto carinho desde que cheguei, mesmo obedecendo as vontades de Sebastian.

Alana escolheu um vestido para mim, um tanto sexy demais, porém me vestiu perfeitamente.
O vestido de um ombro só tem um pequeno tule por baixo, tampando somente os meus seios e as partes íntimas, o restante do tecido é transparente, coberto por pequenas pedrinhas brilhantes em toda parte. Há uma abertura na lateral do vestido fazendo tudo ficar mais ousado do que já é. Luzia que já se acostumou comigo perguntando tudo que ficaria bom ou não, dessa vez deixou o palpite de prender meu cabelo todo para trás e assim Alana o fez.
Desço a escada ao lado de Alana e me concentro para não rolar escada abaixo uma segunda vez, Sebastian está conversando de costas para mim quando chego. Valentim para de conversar com Sebastian prestando atenção na minha chegada. Ótimo! Tudo o que eu não queria era chamar atenção, mas todos param tudo o que estão fazendo para me olhar.
Sebastian só me disse que íamos em um aniversário de casamento de um grande amigo da família dele, mais precisamente, do falecido pai. No mínimo deve ser outro criminoso.
Entramos na limusine extravagante e permaneço calada assim como todos os dias anteriores àquela cena no banheiro do restaurante. Só respondo o que ele pergunta sem questionar nada, ajo como uma verdadeira funcionária nesse jogo.

— A festa é em um iate, então vai ter fotógrafos por toda parte, pessoas que me conhecem desde pequeno, a maioria eram amigos do meu pai e, claro, trabalham nas empresas clandestinas que financio. Quanto ao que fazer ou não, acho que já aprendeu ao longo desses dias, não é? — Sebastian explica, pegando o celular do paletó todo preto, o infeliz é tão bonito que aposto que se usasse roupas rasgadas e sujas continuaria perfeito. É bonito por fora, com uma alma doentia por dentro, que ironia.
— Me dá sua mão. — Sebastian solicita, mas não entendo o pedido.
— Para que? Ainda não chegou. — Ele puxa meu braço, entrelaça nossos dedos juntando nossas mãos e aponta a câmera do celular mostrando minhas coxas e nossas mãos. Claro que as redes sociais devem ver isso. Só não sei para que!

Descendo do carro, vários paparazzi nos cercam e os seguranças lutam para os afastar, coloco o meu melhor sorriso no rosto e aceno para eles que gritam desesperados para uma foto melhor. Infelizmente, isso não poderei nunca dar a eles, nada disso é verdadeiro, as roupas caras, o salto alto e meu sorriso, tudo não passa de uma mentira. Sebastian aponta para que eu passe na frente na passarela que liga o chão que antes pisava e o mar, levando até o iate. Quem teve a ideia ridícula de fazer uma festa tão particular como essa em um iate?! Esses ricos querem esfregar todo seu dinheiro sujo na cara das pessoas como se fosse um trunfo. O iate é enorme e caberia umas três casas do meu bairro tranquilamente. Não deixo de pensar que ao invés de fazerem uma festa luxuosa como essa, por que não doasse o dinheiro para alguma instituição de caridade? Tem tantas pessoas no mundo passando fome, enquanto gente como eles ricos ficam jogando dinheiro nos quatro cantos do mar. O que imagino serem os anfitriões da festa, vem ao nosso encontro, respiro fundo mais uma vez antes de vestir minha máscara, o meu sorriso falso.

— Sebastian, que prazer vê-lo de novo... — Um homem o cumprimenta, pegando em sua mão. — E essa deve ser a tão falada Mellia, prazer em conhecê-la, Alberto. — O homem muito bem-vestido, de cabelo preto com alguns fios brancos pega em minha mão, enquanto Sebastian cumprimenta o que imagino ser a mulher dele.
— O prazer é todo meu, senhor. — Saúdo! Pelo menos ele parece ser simpático.
— Ah, por favor, me chame de Alberto. — Ele pede e solto outro sorriso concordando.
— Essa é minha esposa Vanessa. — A mulher vem até mim me dando dois beijos no rosto, Vanessa é alta dos cabelos claros, uma mulher muito bonita e jovem ao contrário do marido.
— Prazer em conhecê-la e parabéns pelo aniversário de vocês. — Parabenizo olhando o casal.
— Obrigada, minha querida, amei seu vestido! — Vanessa e o marido olham para mim com atenção e Sebastian coloca a mão na minha cintura.
— Já ia me esquecendo, parabéns pelo noivado não poderia ter escolhido melhor, Sebastian! — Alberto nos felicita. Acho graça de todos terem caído tão bem nessa armadilha assim como eu. Que ironia!
— Sim, ela é incrível! — Sebastian concorda.
— Bom, vou deixá-los a sós, aproveitem a festa e obrigado por terem vindo. — Alberto e a esposa se despendem deixando-nos sozinhos. Olho para Sebastian que sorri de lado.
— Ele gostou de você.
— Bom, isso é um problema dele. — Solto a mão de Sebastian e caminho até um garçom que carrega uma bandeja com taças de champagne.
— Não vira as costas para mim de novo. — Ele chega perto, sussurrando no meu pescoço, deve fazer de propósito sabendo que o afastei desde aquele dia.

Depois de duas horas nesse iate, Sebastian se entreteve com alguns homens, me deixando sozinha, o que amei. Algumas mulheres simpáticas vieram conversar comigo e acabaram me chamando para vir até aqui, um lugar mais reservado no iate, onde tem um DJ tocando várias músicas, elas me convidaram para dançar e, no primeiro momento, neguei, mas agora minha música favorita Bad Boy - Marwa Loud toca e eu não me contenho indo e para a pista de dança improvisada com as outras mulheres. Eu fecho meus olhos e deixo o som me levar, pela primeira vez me permito divertir em meio a todo esse caos.
Eu mereço pelo menos esse momento, e aproveito cada segundo dançando como se isso não fosse acabar a qualquer momento. A música acaba depois de alguns minutos, mas outra melhor ainda começa e eu extravaso, descendo até o chão, embalada no ritmo. Foda-se o Sebastian e foda-se toda essa magnificência de ser civilizado.
Perco as contas de quantas músicas danço até me cansar, percorro todo o lugar procurando por ar fresco e vou até a beirada do iate, me segurando pelo corrimão. O penteado está apertando minha cabeça, então passo a mão pelo meu cabelo tirando os grampos que os prendem, sentindo um alívio. Desenrolo meu cabelo, passando os dedos entre os fios. A última vez que dancei como hoje foi em uma festa com a Jess, gostávamos muito de dançar mesmo que fosse dentro do quarto escutando a música pelo celular, era tão divertido. O vento bate me fazendo sentir frio no primeiro momento, devido ao excesso de calor. Foi extremamente reconfortante sentir o controle sobre meu corpo naquela pista de dança, eu me senti livre, independente e no controle de tudo, mas agora aqui olhando para o negro do mar, sinto tudo do lado avesso. Apoio minhas duas mãos no corrimão da beira do iate e sinto a brisa fresca bater contra meu rosto, fecho meus olhos aproveitando a sensação.

— Você dança bem! — Assusto com as duas mãos de Sebastian na minha cintura e me viro rápido dando de cara com ele. Perto, ele está muito perto, sinto sua respiração ofegante e tento me afastar, mas ele segura firme minha cintura, evitando que eu dê ao menos um passo. Resolvo encarar seus olhos para ver se consigo decifrar algo, mas algo me assusta. É o mesmo olhar daquele dia, o olhar que me fez viajar para o inferno.
Sebastian solta minha cintura e sobe uma mão para minha nuca e com a outra tira meu cabelo do rosto, jogando para trás. Meu corpo traiçoeiro continua intacto, não consigo me mexer, mesmo se eu quisesse, não poderia. Sebastian então me beija, sinto o calor do meu corpo subir na mesma hora em que nossos lábios se tocam, o perfume dele viaja pelas minhas narinas. Os lábios dele são gentis e suaves explorando os meus, o hálito dele é quente com um gosto doce, a língua provoca minha boca até que rendo-me dando a ele todo acesso.
Minha mão direita sobe indo de encontro a seu rosto, mas não consigo tocá-lo, meu subconsciente a detém. Cada célula do meu corpo arde de desejo sentindo cada toque dele no meu corpo, consigo sentir sua mão descer para minha cintura e cada parte que ele toca pulsa. Isso é tão bom que não quero que ele pare, eu poderia ficar assim para sempre, nossos corpos colados sentindo seu cheiro, sua língua viajando dentro da minha boca.
Uma luz forte pisca sobre nós e abro os olhos vendo flashes de um fotógrafo, corto o beijo e Sebastian me olha, ignorando o fotógrafo que continua batendo fotos. Eu queria ir ao fotógrafo e mandá-lo embora, mas não sei se isso seria o certo a fazer.
Sebastian agora percebe que estou incomodada com a presença de outra pessoa e faz sinal para que o cara saia do lugar. Não consigo olhá-lo nos olhos, me sentindo envergonhada por ter deixado que ele me beijasse, na hora tudo parecia tão certo e agora me sinto como na última vez, perturbada. Não entendo o que está acontecendo comigo, quando ele me tocou e me beijou, senti estar no céu e assim que abro os olhos percebo o quanto isso é errado. Sebastian toca meu rosto novamente e tudo volta a acontecer, o desejo de beijá-lo, de sentir seus lábios tocarem os meus de novo. Não consigo mais ver com clareza! Só quero sentir a mesma euforia de minutos atrás, preciso que ele me toque. Mesmo que minha cabeça me aconselhe a evitar isso por um milhão de motivos, meu corpo o quer por perto.
— Se permita a sentir isso. — Sebastian uni nossos lábios outra vez e me entrego de novo, viajando em seus braços.


Capítulo 25

Sebastian Dellafuentes


Festas como essas não passam de conversas de negócios e, como a maioria dos homens não compartilham informações perto de suas esposas, precisei me afastar de Mellia para que pudéssemos conversar.
Depois de algum tempo vi algumas mulheres a levando para um lugar reservado, deixei no momento, afinal de contas, acho que ela não se jogaria no mar só para fugir.
Vê-la dançando com a porra do vestido colado em seu corpo fez meu sangue congelar. Eu queria entrar naquele espaço e foder ela em todas as posições possíveis. O vestido curto sensualizou ainda mais suas coxas torneadas, sua pele brilhava e seus movimentos eram sensuais fazendo que qualquer homem a desejasse, fiquei assistindo por vários minutos me contendo. Mellia diminuiu o ritmo da dança e voltei para a frente do iate, evitando que ela me visse observá-la.
Assim que a vi caminhando até a lateral do iate, pedi aos meus parceiros de negócios que me dessem licença e fui até ela, a fim de atormentar seus pensamentos. Isso está virando minha parte favorita, fazê-la ficar desvairada.
Mellia já tinha soltado seu cabelo quando me aproximei, ela se segurava no corrimão do iate olhando para o mar. Seu cabelo caía perfeitamente em suas costas nuas, consegui sentir a paz que ela estava no momento. Só fiz questão de não garantir que Mellia continuasse.
Os lábios dela são macios e senti o gosto do champanhe que ela bebeu antes, o beijo foi desesperado e vi que ela ansiava por mais. Mellia tentou me tocar, mas algo nela a proibiu, eu estava pronto para fazer dela minha de uma vez por todas, mesmo que não aguentasse chegar em casa para isso, mas ela acordou do transe, me afastando. Adoro esses lapsos de loucura misturados com um desejo sombrio que a toma quando é tocada por mim. Eu vou deixá-la louca, desesperada, até que ela implore por mim, vou fazer disso uma nova meta.
Ela saiu do iate tremendo, comentando como eu sou horrível por fazer isso com ela e um monte de abobrinhas, eu lógico achei graça da atitude. Ela ainda não se tocou que quer isso, assim como eu, e se faz de desentendida. Sinceramente, não sei o que ela pensa da cabeça, mas se pensa que vou continuar me castigando por uma coisa que é minha e que já deixei bem claro, está bem enganada. Pode gritar, fazer o que quiser, mas ela vai continuar sendo minha.
Mellia está sentada no banco do carro, movimentando as duas pernas repetidas vezes sem parar, as mãos em cima das pernas apertando as pedrinhas do vestido sobre a pele. Ela só olha para fora, evitando qualquer contato visual comigo. Se ela quer continuar se martirizando por isso, problema dela. Pego meu celular para passar o tempo no caminho para casa e vejo uma mensagem de Alana dizendo: vocês formam um belo casal. Abaixo uma foto minha ao lado de Mellia saindo do carro.

— Senhor? — O motorista me chama atenção.
— Fala! — Espero que esse imbecil tenha um bom motivo para me incomodar.
— Acho que estamos sendo seguidos! — Mas que porra?! Nem a noite eu tenho um pingo de paz.
— Você acha? — Zombo, quem fala “acho que estamos sendo seguidos”? Ou você está ou não, não existe meio termo. Olho para trás e vejo um carro se aproximando rápido demais, mas quando nos alcança, diminui a velocidade. Digito uma mensagem para Valentim mandar reforços para o desvio e aguardarem até chegarmos lá.
— Estamos sendo seguidos? O que querem? — Mellia pergunta olhando para trás assustada.
— Não é nada! — Minto para não preocupá-la e acabar dificultando as coisas. Ela vira o rosto para o outro lado emburrada. Ordeno para o motorista acelerar até o desvio, e o outro carro percebe que notamos a presença deles e acelera junto. Mellia percebe a alta velocidade e volta olhar para trás. Vou até o banco do carro na minha frente, levanto o compartilhamento debaixo do banco onde guardo algumas armas por precaução.
— Senhor, eles colocaram as armas para fora. — O motorista avisa. Pego uma metralhadora mediana automática, dois revólveres e duas facas. Escondo as facas em pontos estratégicos no meu corpo para me preparar.
— Para que isso? — Mellia pergunta, olhando para a arma na minha mão.
— Precaução, se abaixa. — Ordeno, no momento exato que começam a disparar contra o carro.
— Ai meu Deus, Sebastian… — Mellia se joga no assoalho do carro com medo. Os disparos ficam cada vez mais altos e o motorista continua acelerando.

Abaixo o vidro do carro e aponto a metralhadora para trás, é difícil mirar com o carro em alta velocidade, mas disparo várias vezes seguidas. Eles acertam a traseira do carro e Mellia grita com o susto. Fico pensando em qual dos demônios devem ter planejado esse showzinho, seja quem for, eu descobrirei e os matarei. Chegamos no desvio onde meus homens me esperam para atacar, volto para dentro e fecho o vidro do carro que é à prova de balas.

— Diminui a velocidade. — Exijo ao motorista que obedece na hora, fazendo com que o carro quase para, porra, também não é para tanto. Os ordinários continuam na nossa cola, ao que tudo indicam e, se Valentim se apressou o suficiente, na próxima curva estarão nos esperando. O carro que antes atirava, cessa de vez e não entendo o porquê de toda aquela pressão para desistir tão fácil. Fazemos a curva fechada para esquerda e vejo um carro que não é o que eu esperava no meio da estrada. Claro, eles nos cercaram. Não resta outra opção a não parar a limusine e esperar que Valentim chegue. Malditos!

— Fica aqui dentro e não se mexe, entendeu? — Aconselho Mellia que chora embolada no assoalho do carro, abraçando os joelhos. Ela concorda movimentando a cabeça. Abro a porta descendo do veículo, juntamente com o meu motorista que, assim que fecha a porta, é baleado. Um homem desce do volante do carro parado na minha frente e caminho até ele com uma arma apontando para ele e outra para o passageiro que desce do outro lado.
— Sebastian, quanta agressividade… — O maldito capo de Esteban que se nega a passar o comando do estado de Veracruz a todo custo para mim, agora teve a audácia de vir até aqui para jogar joguinhos. Martin caminha devagar mancando.
— Isso são horas de aparecer na minha cidade sem ao menos avisar? Deveria ter ido até minha casa. — Zombo, ainda mirando para a cabeça de merda dele! Martin passa a mão pelo bigode ridículo sorrindo.
— Vim para conhecer sua noiva. — Filho da puta! Sei o que ele quer fazer com Mellia. Eliminar a família para que eu fique mais fraco.
— Que pena, ela está em casa! — Minto, o motorista careca de Martin dá mais um passo à frente e coloca a mão na cintura, pronto para sacar a arma.
— Sebastian, como pode ver, está em desvantagem aqui… — Ele aponta para os homens atrás da limusine.
— Então, vamos fazer assim, você vai soltar as armas no chão, vai levantar as mãos para cima e vou pensar se deixo você vivo para ver o que vamos fazer com a sua putinha. — Martin me ameaça tentando usar Mellia.
Começo a me abaixar, levando as mãos para baixo e quando estou quase as colocando nos meus pés, rolo no chão para o lado esquerdo, ficando na frente da limusine, disparo no ajudante de Martin, acertando em seu peito. Escuto a porta da limusine abrir, mas não tiro os olhos do fodido na minha frente que se escondeu atrás da porta do carro, porra será que ele não sabe atirar?!
— Não, por favor me solta, está me machucando. — Mellia implora chorando, sendo puxada de dentro do carro.
— Oras, pensei que sua noiva estava na sua casa. — Martin grita do outro lado. Vejo movimento no meio das árvores escuras na lateral da pista e imagino ser quem espero.
— Meu homem vai passar do seu lado com a sua putinha e você não vai mover um dedo, porque senão meu amigo ali vai explodir a cabecinha dela. — Martin explica. Vejo Valentim fazer sinal para os meus homens que estão com ele para cuidarem dos capangas de Martin que estão atrás, e ele vai para o lado do capo de Esteban que permanece escondido como um covarde. Solto uma arma lentamente e pego a faca que escondia no bolso do paletó.

O homem começa a caminhar com Mellia na sua frente com uma arma apontada para sua cabeça, ela vê o motorista morto no chão e grita chorando. Ele a empurra, fazendo-a tropeçar no corpo desvalido. Valentim se aproxima de Martin que continua não percebendo nada e, bem na hora, o capanga de Martin passa do meu lado com Mellia na sua frente.
Me levanto rápido e vou até ele, enfiando uma faca em seu pescoço. Valentim dispara contra Martin e o banho de sangue começa logo atrás. Retiro a faca do pescoço do imbecil que antes a segurava e me certifico que ele vá direto para o inferno, enfiando novamente em sua garganta, o sangue da sua veia carótida jorra, molhando toda as costas de Mellia de sangue.
Ela se vira, vendo o homem que antes a segurava, se contorcendo no chão, e cai de joelhos no chão, vomitando toda comida de mais cedo, escuto os últimos disparos vindo de trás até tudo cessar. Seguro o braço dela, ajudando-a a se levantar, a maquiagem toda borrada de tanto chorar escorre pelas bochechas. Direciono ela de volta para o carro e fecho a porta.

Mellia veio todo o caminho para casa chorando, ela desce do carro depois de mim e Luzia nos aguarda com a porta aberta. Entramos indo direto para a escada rumo ao quarto.
Ela caminha rápido passando pelas porta primeiro e trava no meio do quarto, ficando de costas para mim.
— Tudo isso é culpa sua… — Ela comenta, começando a chorar de novo e ignoro, indo para o closet pegar uma troca de roupa. Separo uma calça e cueca boxer. Ouço coisas caírem no chão e vou até o banheiro, Mellia está descontrolada derrubando tudo que vê pela frente, suas mãos tremem.
— Você destruiu minha vida! — Ela coloca as duas mãos na cabeça e começa a puxar o cabelo.
— Para com essa loucura, você deveria me agradecer por ter salvado sua vida. — Grito e Mellia agora ri e chora ao mesmo tempo, balançando a cabeça negativamente.
— Você não salva nem a si mesmo e acha que me salvou? Você precisa se tratar, porque isso… — Ela passa por mim indo até a cama, puxa os lençóis e joga os travesseiros para o chão, completamente descontrolada. — Isso não é normal, sua vida não é normal. Olha para mim. — Ela passa a mão pelo vestido que está usando e o rasga puxando para baixo. — Estou coberta de sangue de pessoas como você. — Já chega, ela está passando dos limites! Vou até ela para a deter, mas ela foge para o outro lado. Se é assim que ela quer, assim vai ser. Cansei de ser bonzinho. Que se foda!
— Eu deveria ter deixado você morrer. — Solto. Que porra de garota mal-agradecida do caralho. Ela se encosta na parede ao lado da cama, tentando limpar as lágrimas dos olhos com o dorso da mão.
— Eu te odeio! — Me canso desse comportamento de merda dela e vou até o closet pegando o que pensei que não usaria mais e volto até ela. — Vai fundo, me mata logo, é melhor do que viver o resto da vida ao seu lado. — Levanto Mellia pelo braço, pressionando-a contra a parede e coloco minha mão no seu pescoço. Vejo a frieza estampada no seu olhar em meio às lágrimas.
— VOCÊ NÃO VAI A LUGAR NENHUM! — Aviso, arrastando-a. Empurro Mellia em cima da cama, puxo ela mais para cima e coloco a algema no seu pulso, prendendo na cabeceira da cama. Pensei que estávamos começando a nos entender, mas isso é loucura e não vou aceitar. Já que ela quer brincar de ver quem é mais louco, vamos nessa. Adoro um joguinho! Ela me segue com os olhos manchados me vendo pegar a troca de roupa. Antes de apagar a luz a vejo balançando a cabeça negativamente. Aperto o interruptor de luz e fecho a porta saindo.
— SEBASTIAN! SEBASTIAN! — Caminho pelo corredor escutando-a gritar meu nome.


Capítulo 26

Mellia López


Depois do acontecido no restaurante, eu me fechei, respondia somente o que ele me perguntava, sem sorrisos falsos e evitei olhá-lo, com medo do que ele poderia me fazer sentir de novo.
Eu ainda não acredito no que fui capaz de fazer, ele começou o beijo mais fascinante que já tive em toda minha vida e tentei muito parar, mas eu não conseguia soltá-lo. Quando o fotógrafo nos flagrou e eu voltei ao meu normal, sabia que aquilo era errado, mas somente a minha mente dizia isso, meu corpo e meus lábios não. O homem saiu de nossas vistas e ficamos sozinhos novamente, Sebastian levou suas mãos no meu rosto e pude sentir o toque de sua pele morna. Seja lá o que aquilo foi, me fez queimar de dentro para fora, nos beijamos de novo e foi completamente perfeito.
Isso foi e é tão errado de tantas formas, que quando tudo acaba, minha mente volta em si e começo a me sentir louca de novo e de novo. O toque dele é como uma droga, eu sei que me faz mal, mas continuo querendo. Tudo é um ciclo onde quero que ele me beije, me toque e depois que suma de vez da minha vida.
Nunca agi de tal forma agressiva, destruindo tudo que tocava. Sei que passei dos limites, mas estava desnorteada e confusa. Em um minuto tínhamos nos beijamos, no outro queria que ele morresse e no outro fui usada como moeda de troca. Então nós chegamos nessa casa que nunca queria ter conhecido, subimos para o quarto e ele agiu normalmente como se tivesse sido uma noite normal. Sebastian foi até o closet e não consegui digerir tudo que se passou em poucas horas, o furor me consumiu e quis destruir tudo que eu pudesse tocar e se eu tivesse força o suficiente para matá-lo naquele momento eu teria feito sem pensar duas vezes. Rasguei o vestido que vestia e fiquei seminua na frente dele, usando apenas um sutiã tomara que caia e uma calcinha fio dental. Eu fiquei completamente enlouquecida que não percebi o que tinha feito. Isso pode até ser normal para ele, mas Sebastian precisa entender que isso não é e nunca será normal para mim.
Minha cabeça lateja, o braço esticado dolorido por estar presa na cama. Passei a noite toda sem pregar os olhos, eu senti frio e medo do escuro que nunca senti. Eu queria tomar um banho e tirar aquele sangue seco grudado em minha pele. Agora eu me sinto suja tanto por dentro quanto por fora. Durante a madrugada, fechava os olhos e poderia jurar que tudo estava acontecendo de novo, tudo ficou gravado na minha mente. Os tiros no carro, a alta velocidade que me fazia sentir frio na barriga, ele pegando armas escondidas, o homem que me arrancou de dentro do carro como se eu fosse um saco de lixo, o aperto forte em meu braço e as mãos sujas sobre as minhas costas. O motorista, que algumas vezes tinha visto, foi morto, e eu tropecei na cabeça dele caída no chão, pisei em seu sangue derramado, tudo aquilo foi a gota d'água para mim.
Nojo, eu só conseguia sentir nojo de mim mesma por me permitir estar naquela situação, tudo aquilo me fez querer entrar em um buraco profundo e nunca mais sair.
E sim, eu o culpo e sempre vou culpá-lo por tirar minha liberdade e de me colocar em situações que nunca pensei que passaria. Não me importo se ele é bonito, forte, se tem dinheiro, fama, carro bonito e uma mansão, ele não tem o que é mais precioso do que tudo isso: alma. Sebastian me machucou mentalmente e fisicamente quando apontou a arma para minha cabeça, quando me segurou pelo pescoço, me fazendo perder o ar lentamente, quando me jogou nessa cama e me amarrou como um animal enjaulado. Ele fodeu com a minha cabeça em tão pouco tempo, que já imagino o que vai restar da minha sanidade mental se eu ficar o resto da minha vida ao lado dele. Isso se ele não me matar antes. Rezo todos os dias para que eu consiga sair daqui sã e salva, mas então me lembro que tudo isso foi tão planejado que até me venderam. Mesmo que eu diga que fui sequestrada para qualquer pessoa, meus pais vão negar a todo custo, ainda mais se Sebastian der mais dinheiro a eles, o que tenho certeza de que adorariam. E ainda tem o fato de que Sebastian tem contatos com policiais, hospitais por todo lado, não me surpreenderia se ele dissesse que irá se candidatar à presidência e, lógico, ele ganharia com seus jogos sujos.
Agora tenho medo do que ele possa fazer comigo, se eu negar algo a ele, tudo vai começar de novo. Cheguei à conclusão de que mesmo quando eu reclamava para mim mesma da vida que tinha e das coisas que era obrigada fazer, nunca seria como isso. As pessoas em geral, costumam reclamar por tudo que passa na vida, mas nunca pensam no pior que pode acontecer, hoje eu sei isso porque nunca pensei que estaria sendo mantida em uma vida que não é a minha. Eu reclamava para mim mesma porque tinha que fazer tudo sozinha, trabalhar até tarde e ainda ganhar pouco, mas nunca parei para pensar que poderia ser muito pior.
Não sei que horas são, mas a luz que entra pela janela do quarto me diz que o sol deve estar ardente lá fora. Vejo os lençóis que eu mesma arranquei espalhados pelo chão, da porta do banheiro vejo o caos que causei ontem. Nunca em toda minha vida me envolvi em brigas, nem mesmo na escola. Sempre fui organizada e procurava me manter longe de pessoas encrenqueiras. Que ironia do destino, olha só onde eu vim parar. Esse lugar é regado a pessoas descontroladas e loucas, e se eu parar para pensar talvez eu esteja me tornando uma delas. E essa não sou eu!
Tento ficar mais confortável na cama e ouço o trinco da porta se mexer. Eu só preciso respirar e continuar fingindo que está tudo bem, repito para minha cabeça como um mantra.
Preciso controlar minha cabeça, ou ele me deixará nessa jaula trancada e vai ser aí que vou enlouquecer de vez. A porta se abre e vejo Luzia entrar com duas empregadas que já tinha visto antes, que vergonha todos me verem nessa situação e ainda mais por ter causado um estrago e tanto no quarto, dando a elas mais trabalho do que já tem. Luzia caminha até o lado da cama.

— Bom dia, senhora! — Não entendo por que ela voltou a me chamar dessa maneira, mas respondo.
— Bom dia! — Ela pega uma chave pequena e destranca a algema, meu braço cai na cama quase dormente. Me levanto correndo e pego um lençol do chão me enrolando nele.
— O senhor Sebastian pediu para a senhora se arrumar e descer que ele tem um comunicado a fazer. — Luzia comunica e volta a recolher os travesseiros espalhados pelo chão. Não entendo toda essa formalidade, mas resolvo não perguntar agora. Se antes eu já estava com medo do que ele poderia fazer comigo, depois dessa loucura minha, imagina agora.

As senhoras terminam a bagunça que causei no banheiro e entro louca para tomar um banho, retiro minhas roupas íntimas e entro no box. A água que escorre para o chão está manchada de sangue e só de ver sinto repulsa. Levanto o olhar evitando recordar a noite de ontem, não preciso ficar pior do que estou me sentindo.
Lavo meu cabelo por último e desligo o chuveiro saindo do box, pego uma toalha limpa que as funcionárias deixaram e me enrolo nela. Depois de pentear o cabelo, pego a escova de dente, coloco creme dental e levo até boca olhando para o espelho na minha frente, mas travo com a lembrança de ontem. O maldito beijo! Me pego tocando os lábios, recordando perfeitamente do gosto dele na minha boca, sua barba por fazer roçando meu rosto e seus lábios habilidosos. Por que diabos estou pensando nisso? Certamente deve ser minha cabeça me fazendo lembrar que isso não pode acontecer mais.
Coloco uma calça jeans skinny, um top cropped rosa e outro miserável salto. Não aguento mais usar salto todo dia, me olho no espelho uma última vez, vendo as olheiras fundas que eu mesma causei. Abro a porta do quarto saindo, ando devagar tentando controlar minha cabeça louca a parar de pensar em todas as coisas ruins que ele provavelmente vai fazer comigo. Consigo pensar em mais de dez opções horripilantes que podem acontecer e todas elas, no final, eu acabo morta.
Todos estão sentados na sala e Alana abre um sorriso triste para mim quando me vê descendo da escada, alguma coisa vai acontecer tenho certeza. Sebastian me olha sério e Alana vem de encontro comigo, ela pega na minha mão e me leva até o sofá branco onde estava sentada antes. Me sento, vendo-a fazer o mesmo ao meu lado. Alana continua segurando minha mão e todos me olham esperando que eu diga ou faça alguma coisa, mas continuo sem me mexer assustada por tanta atenção repentina.

— Vamos nos casar em duas semanas! — Desde que Sebastian deixou claro que eu nunca sairia daqui a não ser morta, tento lidar com isso e sei que ele já tinha dito que nos casaríamos, mas ouvir isso na frente de todos soa diferente, como se ele tivesse mentido antes e que agora é para valer. Não posso acreditar que isso realmente vai acontecer.




Continua...



Nota da autora: Oi, como vocês estão? Espero que bem!
O que estão achando da história, dos personagens? Têm ranço de alguém? Me contem tudo!
Espero que estejam prontos para os próximos capítulos. Vai ser o caos total.
Vamos conversar no insta (o link está ali embaixo).
Espero vocês.
Um beijo.
Thaíssa Almeida

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