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Última atualização: 26/06/2022

Prólogo


Quando somos crianças, nos perguntam o que queremos ser quando crescer. As respostas são as mais variadas: bailarina, aeromoça, estilista, jogadora de futebol... O que não sabemos é que, para que de fato sejamos alguma dessas coisas, temos longas e árduas etapas pela frente na nossa missão chamada vida. Nossos corações ainda não sabem o que é se apaixonar por algo extremamente específico em determinado momento, a ponto de nos fazer largar tudo para viver aquela experiência. Aquela que nos marca. Que nos muda. Que nos molda.
O que nos rege, no entanto, desde que somos pequenos, é a nossa infinita possibilidade de sonhar. De voar por meio da nossa imaginação. “Sonhe com os anjos”, eu ouvia dos meus pais. “Sonhe grande”, eu ouvi de professores.
Você já sonhou com a possibilidade de viver o que sempre sonhou?
Mas sonhos são muito mais do que o desejo permanente, vivo e constante de algo. Sonhos são regentes, são objetivos, são movimentações incessantes dos nossos seres na busca por algo. Por aquela louca experiência que nos marca. Que nos muda. Que nos molda. Pelos momentos inesquecíveis. Pelos melhores dias das nossas vidas.
A lição, no fim das contas, é que somos feitos de sonhos e esse aqui é o meu.

Capítulo 1
“This is what dreams are made of”


30 de setembro de 2022. 5h15. O despertador começou a tocar uma nova melodia. O dia de hoje era importante e merecia uma música especial para acordar com a energia necessária.
Pulei da cama e fui até o banheiro realizar toda minha rotina de skincare, primeiro lavando o rosto com meu sabonete líquido favorito e escovando os dentes, seguido por um tônico para garantir poros bonitos e um protetor solar que protegesse minha pele. Durante todo o ritual deixei ‘Suddenly I see’ tocando no celular, me sentindo dentro do filme ‘O Diabo veste Prada’, quando a personagem principal se arruma para sua entrevista de emprego. A cena era quase igual, eu juro.
Antes de me maquiar e me arrumar, no entanto, precisava acordar minhas amigas. Je e estavam dormindo nos outros quartos do meu apartamento durante aquela semana por conta de alguns compromissos que estávamos tendo. Nada era mais importante que o de hoje.
- Bom dia, princesas! Hora de acordar. Vamos trabalhar! Mexam essas bundinhas - Elas costumam me chamar de Miranda Pristley, justamente por causa do filme que acabei de citar. Sou viciada em trabalho e cobro muito comprometimento das minhas sócias. Ah sim, esqueci de citar, elas são também minhas sócias.
- Já estou indo - Respondeu uma Je mal humorada e pouco disposta a acordar.
Eu sabia que elas se atrasariam e por isso coloquei o despertador 20 minutos mais cedo do que o necessário. Entrei no quarto arrancando a coberta de cima dela e abrindo a janela.
- Eu sei que você não pretende ir a lugar nenhum, mocinha - Eu discursava enquanto recebia gritos e leves soquinhos.
- Que inferno! Por que você é assim?
- Bem, já que você não quer ir na reunião hoje, tenho certeza que também não vai querer levantar cedo pra ir para o Paddock no dia da corrida, né?!
Eu ganhei um par de olhos me fuzilando, mas ela levantou em direção ao banheiro na mesma hora. Eu sabia que uma pressão psicológica não faria mal.
que já estava no cômodo se arrumando, reclamou da chegada inesperada de Je e assim iniciou-se mais uma manhã caótica na minha casa.
Fui para o meu quarto colocar meus jeans da sorte, um blazer xadrez e o Vans preto que eu não largo nunca.
Depois de mais alguns gritos entre os cômodos, as duas se sentaram para tomarem o café que eu havia feito e servido na sala.
- Acredito que eu não precise reforçar os recados para a reunião de hoje, certo? Vocês são adultas e se lembram de tudo o que falei nos últimos sete dias. Posso contar com a colaboração das duas para não falarem besteira e se comportarem.
- Às vezes eu acho que você acha que nós somos crianças.
- Sim, eu acho.
A esse ponto vocês devem estar achando que sou a vilã da nossa história, mas não é bem assim. A nossa página no Instagram @baes.f1 havia crescido e estava se transformando aos poucos no nosso trabalho oficial, era minha função manter negociações com marcas, fechar publis e expandir os nossos negócios. Nosso sonho era transformar o Baes em uma corporação, com diferentes vertentes, mas tudo isso requer comprometimento, responsabilidade, criatividade e um combo de muitas outras coisas que eu ficava no pé das minhas amigas e sócias para que funcionasse. E também porque sou viciada em trabalho - sim, culpada.
Saímos minutos depois rumo ao nosso compromisso.
Chegar na porta da TV Band era como um estalar de dedos de que muitas coisas estavam se concretizando, nosso trabalho estava sendo reconhecido e estávamos ganhando visibilidade. A gente já imaginava o propósito da reunião, mas nunca poderíamos imaginar os detalhes do que viria.
Fomos recebidas por um dos produtores da Fórmula 1 na emissora que foi muito gentil. Nos acomodamos na pequena sala de reunião e ele se juntou a nós novamente pouco tempo depois.
- Meninas, preciso ser breve, pois a agenda está corrida. Com o GP de São Paulo chegando está tudo uma loucura. Mas temos um convite para fazer a vocês - O homem falava rápido e tinha uma expressão de preocupação e cansaço estampada no rosto - Sabemos que a Fórmula 1 está atraindo um público muito mais jovem e queremos falar de igual para igual, temos tido alguns problemas de comunicação com esses jovens e estamos pensando em uma série de ações que nos ajudem. A nossa ideia é fazer um podcast no GP de São Paulo com alguns pilotos. Ainda não temos nomes confirmados, mas estamos em negociação. Observando o conteúdo de vocês, entendemos que faria muito sentido se vocês fossem as responsáveis por esse podcast, acham que seria possível?
Tínhamos três queixos no chão e nenhuma reação. Até eu que já estava me acostumando a fechar parcerias, não consegui raciocinar naquele momento. Imaginávamos que o convite seria para estar no Paddock, mas nunca para fazer um podcast para a Band com pilotos.
- Claro! - respondeu me fazendo acordar do transe.
- Ótimo. Detalhes de negociação serão tratados por e-mail para evitar a burocracia e tomar o tempo de vocês. Espero que seja uma parceria de sucesso e me desculpem pela correria.
Saímos da sala sem falar uma única palavra, mal conseguíamos nos olhar. Ainda bem, porque eu tenho certeza que se nos olhássemos, o ataque de riso seria inevitável.
- Queridas, já estou enviando um e-mail com a proposta completa para vocês, se tiverem dúvidas, por favor, não exitem em me ligar, estou sempre à disposição - Uma mulher gentil chamada Camila nos guiou até a porta para que conseguíssemos seguir nossos caminhos que, a partir daquele momento, pareciam ter mudado completamente.
Nossos sonhos estavam se tornando realidade e nós estávamos prestes a viver os melhores dias das nossas vidas.

Capítulo 2
“Nice to meet you”


Os dias que antecederam o GP de São Paulo naquele novembro foram igualmente caóticos. Precisávamos preparar conteúdos para o portal, para o Instagram, nos separarmos para a cobertura ao vivo da corrida, encontrar os nossos leitores e ainda organizar o podcast, estudando muito e tentando ficar expert no inglês, porque havia confirmado que esse não seria um problema para a produção da Band. Eu deveria ter interrompido a matraca, mas não deu tempo, então o melhor que eu podia fazer era praticar e treinar o máximo que desse.
Na quarta-feira, já na semana da corrida, os pilotos e equipes desembarcavam no Brasil e na quinta acontecia o famoso ‘track walk’, o reconhecimento de pista que eles fazem a pé junto de suas equipes.
E lá fomos nós para o Autódromo de Interlagos também. Claro que nós não faríamos track walk, mas iríamos testar todo o equipamento que usaríamos na sexta-feira.
Assim que pisamos no Paddock, uma lágrima escorreu pelos meus olhos. A energia eletrizante daquele lugar quase não era nada comparado à sensação de realizar um dos meus maiores sonhos de estar alí.
A correria no lugar era insana. Mecânicos e engenheiros das dez equipes passavam de um lado para o outro com seus crachás chacoalhando. Eram verdes neon. Assim como os nossos. O crachá que eu sempre sonhei em usar. Agora estava no lugar que deveria ocupar, meu pescoço. Eu me sentia completa. Feliz. Nada poderia destruir aquela sensação. Nem mesmo um…
Abri os olhos sentada em uma cadeira nos braços de alguém que eu provavelmente não conhecia, já que eu olhava para minhas amigas que estavam à minha frente.
- Amiga, como você tá?
- Voltou? Alô? Terra chamando … - se aproximou de mim estalando os dedos perto do meu rosto me deixando furiosa.
- Se toca, garota, eu tô bem! E também não me recuperaria com esse seu dedo na minha cara, tá pensando que é quem? - Eu empurrei os braços dela para longe de mim.
Me ajeitei na cadeira arrumando a saia que estava torta e meio suja. Sim, ótima ideia ir de roupa branca num lugar cheio de graxa, pneus e seja lá qual era o produto que tinha manchado o tecido.
As duas ainda me olhava com olhos estatelados e sem muita reação e eu estava inconformada com a reação delas por um simples desmaio. Eles haviam se tornado mais frequentes depois que comecei a trabalhar mais a frente do Baes, acredito que por conta de todo o nervoso que passava às vezes, mas eu já estava completamente acostumada.
- Vocês nunca viram alguém desmaiar? - Me levantei arqueando a sobrancelha e encarando as duas de volta - Querem que eu coloque um nariz de palhaço e dance pra vocês também? Querem uma foto? Posso me sentar aqui de novo e… - E assim que virei a cabeça para encontrar a cadeira novamente durante o meu discurso inflamado, me deparei com ninguém mais ninguém menos que Max Verstappen, o piloto mais prodígio da Red Bull. Ele ria sem parar em um divertimento frenético - Eeer… Oi? Estou te divertindo?
Eu continuei fingindo naturalidade quando meu corpo já não sentia mais minhas pernas e eu quase pude enxergar o desmaio pedindo licença para se aproximar. Cambaleei para frente e ele se levantou em um único e rápido movimento, me segurando, provavelmente pela segunda vez.
Nesta, porém, conseguir redobrar a consciência a tempo de impedir outro vexame. Eu estava apenas com as minhas mãos apoiada nas dele e próxima mais do que o necessário, sendo capaz de sentir todo o perfume fresco que ele exalava.
- Estou bem, estou bem - Eu não estava nada bem. Aquele homem de longe era perfeito e de perto era um Deus holandês esculpido por mãos de fadas - Pode me soltar.
- Você tem certeza? Há quanto tempo você não come? - Bonito e intrometido, por que eu não achava isso estranho vindo de Verstappen?!
- Eu estou ótima, provavelmente foi só um pico de adrenalina que fez minha pressão cair.
- E agora foi um pico de adrenalina por me ver tão de perto?
- Como é? - Meu queixo estava no chão com tamanha arrogância.
- Você quase desmaiou de novo, polly pocket. Já vi situações bem parecidas com essa, então senta aí e eu vou buscar algo para te manter em pé.
- Ei! - Antes que eu pudesse protestar, eu já estava cambaleando mais uma vez.
- Faz o que eu to mandando - E ele se afastou me deixando apenas com e Je, que agora me ajudavam a sentar novamente.
- A-M-I-G-A - Sim, as duas estavam surtando e eu estava espumando raiva. Nunca, em toda minha curta vida, imaginei que conhecer um piloto me faria sentir tanto ódio. Experiência número um: frustrada com sucesso.
- Nem começa! Eu já tô puta o suficiente.
- Como puta, ? É o Max Verstappen na sua frente, caso você não tenha conseguido notar por conta de todo esse mal estar - proclamava com pressa olhando para trás para garantir que o rapaz não a veria quase chorar de ter o conhecido. Aí sim, seria o rascunho do apocalipse pro bonitão se achar mais ainda.
- Amiga, eu tenho certeza que essas suas dietas malucas não estão te fazendo bem - Je era um pouco mais sensata, mas também me tirava do sério com tanta opinião não solicitada.
- Caladas vocês duas! Eu já tô zonza e vocês ainda estão me deixando mais atordoada.
- , é o Max, lembra? Aquele que você acha bem gato e tem um super crush? Piloto de Fórmula 1 que a gente sempre quis conhecer.
- Por que você tá falando tão baixo?
- Tô com medo dele chegar e ouvir - Eu e Je nos olhamos por alguns segundo enquanto pensava no que ela mesma estava fazendo - Ok, ele não vai entender uma palavra mesmo - E então ela se empoderou em gritar aos sete ventos - Porra, é o Max, ele é bem mais gostoso pessoalmente, até eu tô com um crush nele, então, caso você não queira, eu super topo dar uns beijos nele.
- Sabe… - Ele brotou do nada atrás de fazendo-a saltar de susto - Algumas palavras em português eu entendo, gostoso e beijos são algumas delas.
não se moveu, mas arregalou os dois olhos e prendeu a respiração, como se aquilo fosse fazer com que ela sumisse instantaneamente. Ele passou por ela e parou encarando-a e sorrindo.
No fundo, eu também estava sorrindo divertida com a situação. A vontade era levantar com uma placa “TOMA, TROUXA” e tocar vuvuzela, mas a falta de forças não me permitia, então eu curti a cena mentalmente.
- Aqui, coma isso e tome esse suco - Ele tinha um sanduíche natural em uma mão e um suco de laranja na outra. Se abaixou, ficando próximo à minha altura sentada, apoiou os braços na minha perna e abriu o suco, colocando o canudo e me entregando.
- Eu não… - Não, eu não como sanduíches naturais e não como pão, mas como eu diria isso para o homem que teve todo o trabalho de se despencar até o seu motorhome e buscar algo para me alimentar?
- O que? - Ele parecia confuso.
- Ela não vai comer isso daí nunca - Je falou em um tom despreocupado.
- Eu não como pão e nem sanduíche natural.
- E por que não? - Sua expressão era de completa dúvida, em um biquinho que só Max Verstappen é capaz de fazer.
- Primeiro porque pão é carboidrato e segundo que eu não como alface, cenoura e… - Dei uma analisada em tudo o que parecia ter dentro do lanche - Nem nada do que tem aqui dentro.
- Por que eu não me surpreendo?
- Como assim?
- Não é atoa que mal consegue ficar em pé.
- Olha, você mal me conhece, não pode sair enfatizando suas certezas de pré-julgamento por aí.
- Como você se chama mesmo?
- .
- , coma logo esse sanduíche.
- Desculpa, mas não vou comer - Cruzei os braços e mordi os lábios em sinal de que nada entraria naquela boquinha.
- Estou perdendo a paciência, come logo!
- Mas por que raios você se importa… - E lá estava eu no chão novamente.
Minutos depois de conseguir abrir os olhos, senti os joelhos arderem. Estavam ralados depois de se espatifarem no asfalto do Paddock e o mico só piorava. Também senti o par de olhos azuis me encararem.
Ele se abaixou novamente perto de mim e me empurrou uma nova embalagem.
- Acredito que isso é o que vocês chamam de pão de queijo. Queijo, sem cenoura, alface e seja lá mais o que você não come. Suas amigas disseram que isso você come.
- Não precisa se preocupar, eu já vou me recuperar.
- Será que você poderia me fazer o favor de comer logo alguma coisa pra eu poder ir embora com a consciência tranquila de que fiz uma boa atitude hoje?
- Ah, então eu sou o que? Uma caridade advinda de uma promessa de ser uma pessoa melhor?! Pois adivinhe? Precisará muito mais pra você se tornar uma boa pessoa, Max Verstappen.
- Ótimo, você sabe o meu nome, parabéns. Recupere as energias e depois poderá discutir comigo.
Peguei o pão de queijo de sua mão e comi colocando inteiro na boca.
- Pronto? Está feliz? Agora pode seguir o seu caminho rumo aos portões do paraíso.
- Obrigada pela benção, polly pocket, tente se manter em pé, apesar do chão não estar tão longe pra você, ele machuca e não é de lá que você vai conseguir se comunicar com as pessoas.
Joguei a bolinha de papel amassado do pão de queijo em sua direção, mas, infelizmente, não o acertei. Desgraçado!


Continua...



Nota da autora:Queridos leitores que me acompanham nessa jornada,
The Best Days foi a minha primeira história publicada e com ela muitos aprendizados, descobertas sobre a minha própria escrita e também uma enxurrada de ideias. Por isso, em determinado momento, sinto que me perdi dos personagens e do que queria transmitir e decidi dar um passo para trás.
Não se preocupem, as personagens, as loucuras e os amores continuarão, mas a partir de agora com uma escrita muito melhor para vocês se surpreenderem e viverem ainda mais emoções junto comigo, junto com o meu coração.
Obrigada a todos que vieram até aqui, mas convido-lhes a abrir os olhos para uma nova aventura. Vamos juntos?




Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
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