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Última atualização: 13/12/2021

Prólogo

— Que porra é essa, Johnson?!
O homem não levantou o rosto imediatamente, ouvindo o baque surdo da pasta ser jogada contra a sua mesa com bastante força. O suficiente para ele entender que aquela mulher à sua frente estava furiosa. Não tinha sido a pasta jogada ou o fato dela entrar pisando forte contra o chão, mas ela ter aumentado o tom de voz, que o fez suspirar e encostar-se contra a cadeira.
se orgulhava de ser uma mulher centrada e profissional, o tipo que não levantava a voz, mas, além de tudo, ela também era humana. Seria impossível, em casos como aquele, manter a sua voz controlada.
O homem cruzou as mãos na frente do corpo e a encarou. Ela estava com uma expressão infeliz e os braços cruzados abaixo do peito, o cabelo preso em um coque muito bem feito.
— Eu sabia que você não ia aceitar! — Ele disse.
riu sem humor. Esfregou as têmporas, como se isso fizesse sua cabeça latejar menos. A mulher sentou-se na cadeira livre, umedecendo os lábios.
— Eu ainda não estou aceitando... — ela rebateu, apontando para a pasta jogada na mesa. — Sem chance, Johnson.
O homem colocou as mãos cruzadas sobre a mesa. Estava acostumado a trabalhar com ela, mas não significava que era fácil. Mesmo que ele fosse o seu chefe na hierarquia, quase sempre conseguia o que queria.
Infelizmente, para ela, não seria daquela vez que sua vontade seria feita.
... — ele chamou. — Você não tem muita escolha. É um caso importante.
— Eu não ligo, Peter! — Ela respondeu, afiada. — O caso em que eu estava também era importante.
Peter Johnson costumava conversar e avisar a qualquer um dos seus agentes que eles estavam sendo realocados para outro trabalho, além de questionar se eles estavam interessados, mas ele raramente fazia aquilo com . Havia poucas coisas que o homem tinha conhecimento que ela não aceitava. Aquele caso era um deles. Foi exatamente por esse motivo que ele simplesmente tirou-a do caso antigo e a colocou como uma das responsáveis pelo novo. Era um caso importante e ele esperava, de verdade, que ela fizesse o seu trabalho. Muita coisa estava em jogo ali.
— Você não pode me tirar do meu caso e me colocar em outro, só porque o governador pediu! — Ela reclamou, ainda indignada por tal feito. — Eu não gosto de trabalhos inacabados e você sabe disso! — A agente apontou um dedo em riste para ele.
Peter balançou a cabeça.
— Na verdade, eu posso sim. — Rebateu. — Sou o seu chefe. E seu trabalho vai ser terminado por outros.
mordeu o lábio.
— É por isso que eu terminei com você.
Peter riu.
Ele não achava mesmo que os dois teriam dado certo por muito mais tempo, então não reclamou e nem achou ruim, quando ela terminou o que os dois tinham juntos um tempo depois de ele ter sido promovido a supervisor. não acreditava muito na relação da funcionária-chefe. E ele sempre preferia não discutir com a mulher.
... — Peter chamou mais uma vez. — O governador pediu meus melhores agentes. Não pode me culpar por te achar melhor.
Ela sabia que ele confiava em seu trabalho mais do que ninguém, mas, mesmo assim… mesmo assim, queria ter sido consultada antes de ter sido expulsa do caso antigo.
A mulher pegou a pasta de volta e abriu em uma página específica, apontando para uma foto. E então, entregou para ele.
— E quanto a ela? — Questionou, arqueando a sobrancelha. — Qual seu pretexto para nos colocar juntas?
Peter mordeu a parte interna da bochecha, descruzando as mãos apenas para pegar a pasta da mão dela e fechar de novo.
— Ela também é uma das melhores agentes... — respondeu.
— Se esse for o caso, eu tenho uma lista para substituí-la. — disse. — O Holder, por exemplo.
Não bastasse ter sido retirada do seu caso sem aviso para servir um governador que abusava do poder, ainda seria obrigada a aturar uma pessoa a qual ela não tinha mais nenhum afeto, tanto pessoal, quanto profissional. Jonhson só podia estar testando-a.
— Ele está trabalhando disfarçado. — Peter avisou. — E você é grande o suficiente para lidar com isso profissionalmente.
Para o inferno que ela estivesse sendo infantil! não gostava de ser desafiada no próprio ambiente de trabalho.
— Nós trabalhamos juntas antes... — ela argumentou. — E você sabe no que deu.
Jonhson esfregou o rosto com as duas mãos. Definitivamente, precisava abrir uma garrafa de vinho escondida depois. Ele não sabia como discutir com aquela mulher que ainda sugava tanto a sua energia.
— Você a culpa demais por algo que ela não teve escolha. — Disse. — Por que não pode superar um pouco o passado?
cerrou os dentes devagar, mal acreditando no que tinha acabado de ouvir. Ela tinha noção de que estava mais estressada do que antes, por ter enfrentado uma viagem de três horas corridas de volta até Nova York, mas tinha certeza de que Johnson estava sendo um pouquinho babaca.
Ele era assim, às vezes.
— Essa escolha me custou a minha filha, seu idiota! — Ela rebateu, a voz firme.
Peter remexeu o corpo contra a cadeira, desconfortável. Ele sabia daquilo, mas tinha acontecido há dois anos, ele não imaginava que a mulher fosse alimentar um rancor de tanto tempo. Talvez, por isso, fosse certo manter as duas juntas. Precisariam acabar de resolvendo, uma hora ou outra. E era melhor que fosse logo.
, eu sinto muito sobre isso... — ele disse, mais uma vez. — Mas é minha decisão final. Ou você aceita, ou…
— Ou o quê? — o incentivou continuar, notando que ele tinha parado no meio da frase, provavelmente percebendo o que ia dizer.
A mulher lançou um sorriso frio na direção do seu supervisor.
— Ou me demito?
Peter admitia que se sentia derrotado.
— Sim. — Respondeu.
ficou mais furiosa ainda. Mas, querendo ou não, Johnson ainda era seu chefe e a decisão dele era sempre a que contava.
Percebendo que aquela discussão não ia levar a nada, a não ser a uma enorme dor de cabeça para si, ela levantou da cadeira e puxou a pasta de volta.
— Da próxima vez, talvez queira ter mais cuidado com as palavras. — Ela alertou.
Ele não respondeu. Somente observou quando ela cruzou a sala, saiu pela porta e não se deu sequer o trabalho de trancar a maçaneta.
Peter Johnson respirou fundo.
Ele esperava não se arrepender de sua própria escolha, mas estava certa. Deveria ter um pouco mais de cuidado com as palavras.



Capítulo 01

O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio;
É um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre;
É um fogo que me consome, mas eu sou o fogo.

Jorge Luis Borges

pressionou os dedos contra o volante, a cabeça encostada no banco do motorista, enquanto permanecia com os olhos fechados, inspirando e expirando. Era um ritual que ela costumava fazer quando sentia que o seu dia inteiro tinha sido estressante — o que, na verdade, era meio preocupante, uma vez que aquele ritual estava sendo feito todos os dias.
Soltando todo o ar para fora, ela afrouxou os dedos ao redor do volante e abriu os olhos, decidindo colocar o carro na garagem, finalmente. A agente não demorou mais do que cinco minutos para estacionar o carro dentro da garagem da casa, saindo do carro logo em seguida, carregando a sua bolsa, as chaves do carro e os documentos do novo caso que conseguiu antes de sair do prédio. Ou, pelo menos, antes que cometesse um crime contra o seu próprio chefe.
Ela respirou fundo, apertando o botão para fechar o portão da garagem, sentindo o cheiro de comida pronta vindo da cozinha. mordeu o lábio, passando pela porta que a levava direto a cozinha, encontrando Harry cozinhando com um avental bem colocado na cintura, o que a fez sorrir por um breve momento.
Breve, porque aquilo acabaria. Uma hora, tudo sempre acabava.
— Ei, você chegou. — Ele virou-se para ela com um sorriso enorme no rosto e a mulher suspirou, sorrindo cansada.
Um sorriso murcho, que quase nunca mostrava, mas que Harry estava acostumado.
O homem limpou as mãos em um pano branco e se aproximou da mulher, beijando-lhe a bochecha em cumprimento, enquanto ela colocava a pasta, as chaves do carro e a bolsa em cima da bancada.
— Oi, Harry... — ela murmurou, sentindo o cheiro de lavanda do recém-banho dele.
Ele a abraçou pela cintura, mas espalmou as duas mãos contra o peito dele, impedindo-o de se aproximar mais ou de beijá-la.
— Você precisa ir. — Ela avisou.
Harry franziu o cenho, deixando-a se afastar. Ele a estudou por um momento, como sempre fazia. Ele também era agente, mas era do departamento oposto de e, mesmo assim, acabaram na cama de algum jeito. E tudo aquilo os levou a ter um caso casual, que já durava tempo suficiente.
— Achei que eu fosse dormir aqui hoje... — ele disse. — Com você.
Ela acenou rapidamente.
— Não temos nenhum compromisso, lembra?
Harry colocou a mão sobre o peito, dramaticamente, os fios do cabelo caindo na testa.
— Nossa, , você precisa aprender a lidar melhor com caras como eu! — O homem disse.
— Sensíveis, você quer dizer? — alfinetou.
Harry apontou um dedo em riste para ela, fingindo estar magoado, mas havia uma expressão leve e divertida em seu rosto. pensou que, se houvesse um cara com quem era bom terminar as coisas, esse cara era Harry. Ele quase nunca levava nada para o lado pessoal.
— Eu sabia que eu era bom demais para você... — ele retrucou. — E, mesmo assim, não fui eu quem te dispensei.
Surpreendentemente, ela riu.
Harry abriu um sorriso, começando a se livrar do avental.
— Um caso? — Ele questionou.
Ela esfregou a região da nuca, suspirando. Era sempre um caso, o que mais seria?
— Governador.
— Entendi... — o homem assentiu, andando até o fogão, desligando o fogo. — Você tem trabalho a fazer. E eu fiz o jantar.
“O cheiro estava muito bom”, ela pensou, mas não sentia fome nenhuma. Peter tinha acabado com todo o seu humor e fome. E talvez tenha acabado com a sua pouca disposição também.
— Obrigada, Harry.
Ele assentiu mais uma vez, dispensando o agradecimento dela com um aceno rápido. O agente não se importava de cozinhar, principalmente não para ela, que sempre aumentava o seu ego, elogiando todos os seus temperos. Se ele não fosse um agente, com certeza teria seguido uma carreira no ramo da gastronomia.
— Mas você está muito estressada, ! — Harry observou. — Deveria repensar sobre estar nesse caso.
Ela soltou uma risada sem humor.
— Eu não escolhi. — Avisou.
Harry soltou um suspiro, entendendo. Seu trabalho era o mesmo, departamento diferente, mas um caso era um caso e ele entendia como as coisas funcionavam.
— Se cuide. Eu te vejo por aí! — Ele aproximou-se novamente, beijando a testa dela. — Você tem meu número.
— Seu disk-sexo? — Ela provocou.
Harry andou até o outro lado da cozinha, pegando o seu casaco, balançando a cabeça com a provocação dela.
— Cruel... — o homem sibilou com os lábios.
sorriu.
— Você vai superar.
Ele negou com um aceno cético e sumiu do campo de visão dela, mas não sem antes jogar as chaves de volta para a mulher, que agarrou no último segundo. Eram as chaves da sua casa, que tinha emprestado a ele por um tempo para que o homem não precisasse ficar esperando do lado de fora o tempo todo.
Quando Harry finalmente foi embora, andou até a porta, trancando-a, tirando os sapatos dos pés, livrando-se da blusa logo em seguida.
Era estranho nunca se sentir mal depois de um término, mesmo que ela gostasse da pessoa. Tinha sido ótimo terminar com Peter e tranquilo seguir o mesmo caminho com Harry, mas o segundo tinha durado mais do que o primeiro, mesmo que não houvesse um relacionamento de fato.
Ela não queria mais aquilo. Pelo menos não depois do seu casamento desastroso. E ter sido obrigada a ficar longe da própria filha.
subiu as escadas, entrando no quarto, correndo direto para o banheiro, decidida a tomar um banho quente e rápido. Iria passar boa parte da noite acordada, comendo o que Harry tinha deixado preparado antes de ir, estudando o novo caso. Odiava ser jogada ao completo desconhecido, como Peter tinha feito com ela, mas odiava mais ainda o fato de ter que aturar uma pessoa que jurou nunca mais se aproximar. Ela tinha mil possibilidades de ter outra pessoa como parceira, mas ficou com a que justamente ela não queria.
Harry tinha razão. Ela estava muito estressada.
Se tivesse escolha, teria recusado o caso com muito prazer, mas ela não podia. Agarrava qualquer oportunidade de trabalho, querendo ou não.
A agente saiu do banheiro e vestiu uma roupa adequada no quarto, voltando para a cozinha logo em seguida. Mesmo que não estivesse com muita fome, não conseguia resistir ao tempero de Harry, então preparou um prato pequeno e sentou-se na cadeira livre, resolvendo comer na bancada mesmo. Era uma casa consideravelmente grande só para uma pessoa, mas tinha ganhado no divórcio, então não reclamava muito.
A mulher pegou os documentos, analisando o novo caso. Se envolvia o governador, só significava que a agente teria um pouco de dor de cabeça.
A primeira página eram as fotos da cena do crime. A vítima era uma mulher, de mais ou menos vinte anos, namorada do filho do governador. Estavam juntos no apartamento dele e adormeceram, quando ele acordou com ela morta e ensanguentada ao seu lado. Quando passou para a página de autópsia, não encontrou muita coisa, além de uma única informação sobre a causa da morte da vítima.
— Mas o que… — ela parou de comer, empurrando a comida para o lado, percebendo que não havia mais página, nenhuma informação a mais.
fechou a pasta com força, levantando-se da cadeira e vestiu um casaco, antes de pegar as chaves do carro e dar partida.

O prédio ainda estava aberto. imaginava que deveriam ficar a noite toda aberto, mas não sabia como as coisas realmente funcionavam e não estava muito interessada em saber.
Ela ligou o alarme do carro, apertou o casaco contra seu corpo e andou até a recepção do lugar, que estava frio e vazio, exceto por uma mulher do outro lado do balcão. Ela olhou para com as sobrancelhas erguidas.
— Sinto muito, nós não… — tentou dizer, mas simplesmente mostrou o distintivo do FBI e a mulher se calou.
— Eu gostaria de falar com o legista responsável pelo corpo de Andrea Hollister.
A recepcionista suspirou e saiu por um corredor, pedindo que a agente a seguisse. foi logo atrás, parando somente quando a outra mulher entrou em uma sala, demorando menos de um minuto para sair.
— Ele está esperando... — a recepcionista disse.
assentiu rapidamente e entrou no local. Era ainda mais frio e o homem estava analisando um corpo deitado em uma maca bem no meio da sala, quando levantou os olhos para encarar a mulher. fez uma careta, engolindo a seco.
— Eu não esperava um agente do FBI tão tarde aqui... — o legista disse, a voz baixa e neutra. Ele era muito mais velho que ela e tinha rugas demais pelo rosto. — Eu já não disse tudo que precisavam saber?
crispou os lábios, observando o legista cobrir o corpo de uma vítima que ela não conhecia. Colocou as duas mãos no bolso do casaco e voltou a sua atenção para o homem.
— Eu sou a agente ... — apresentou-se brevemente. — Fui designada para o caso há pouco tempo e estou aqui, porque não há muita informação no relatório de autópsia. Quem esteve aqui?
O legista pareceu hesitar por um breve momento. manteve a expressão determinada no rosto.
— O governador. — Respondeu.
franziu o cenho, estranhando. Esperava qualquer pessoa do FBI ou algo do tipo, mas... o governador? Ele não deveria ter aquele tipo de poder, mas ainda assim...
— O que ele queria?
O legista parou o que estava fazendo e coçou as próprias bochechas, parecendo cansado e alerta.
— Vou ter algum problema com isso? Porque…
— Doutor Hopker... — interrompeu, meio sem paciência. — O que ele queria?
O homem suspirou, encarando o corpo na mesa por um breve momento, parecendo decidir se diria qualquer coisa ou não. Tecnicamente, ele não era obrigado a dizer nada, mas estava velho demais para entrar em qualquer jogo político que atrapalhasse a sua vida.
— No início, nada. — Ele começou a responder. — Expliquei para ele sobre o processo de autópsia e ele disse que eu não deveria ser tão detalhista no relatório. A causa da morte bastava.
balançou a cabeça, umedecendo os lábios.
— Ele intimidou você? — Questionou.
— Estou nesse trabalho há tempo demais para saber quando eu não devo contrariar alguém... — o legista limitou-se a responder. — Você também deveria saber. Não estaria aqui se soubesse.
A mulher quase deu uma risada seca, balançando a cabeça negativamente mais uma vez.
— Estou fazendo o meu trabalho! — disse. — Coisa que você deveria fazer. E quando você não faz o seu trabalho, eu costumo limpar a bagunça. É por isso que eu estou aqui. Porque há pontos nessa história que não estão se conectando. Como ela foi assassinada ao lado do namorado e ele não percebeu?
Todas aquelas informações deveriam estar na porra do relatório de autópsia. Ela não teria se dado ao trabalho de sair de casa em seu horário de folga, se aqueles idiotas fizessem tudo certo. FBI e política eram coisas muito próximas, mas não significava que era coisa boa. Ela odiou o caso a partir do momento em que soube que envolvia o governador. Ou, pelo menos, o seu único filho.
Dando de ombros, o legista finalmente desistiu de contrariá-la também. O governador podia ser uma figura autoritária muito poderosa, mas a determinação na expressão da agente era mais poderosa ainda.
— Eles foram dopados... — revelou.
piscou os olhos.
— Como é?
— Havia doses muito altas de GHB no sangue deles. — Ele tornou a explicar. — Ele só perceberia que ela estava morta quando acordasse.
— Mas isso são drogas de estupro... — murmurou. — Houve abuso?
Ela temeu um pouco a resposta.
— Não.
A mulher assentiu brevemente, limpando a garganta.
— Ela não sentiu nada? — Perguntou.
Ele negou mais uma vez.
— Não faz sentido drogar ela dessa forma para depois matá-la. E por que deixar ele vivo?
As perguntas começavam a surgir, mas as respostas demoravam a aparecer. Era o que conduzia uma investigação, mas soube que havia uma coisa errada no caso todo, só não sabia identificar o que. Não ainda, pelo menos.
O homem esfregou o rosto, cansado, e guardou o corpo em uma gaveta. Em seguida, puxou outra, chamando com um aceno. Quando a mulher se aproximou, percebeu que era o corpo de Hollister.
— Eu não sei responder suas últimas perguntas, não é o meu trabalho... — o legista começou a dizer. — Mas a julgar pelo corte preciso na garganta, eu acho que a morte dela foi um aviso. — Ele apontou para a pele, agora cicatrizada, ao redor do pescoço da vítima.
engoliu a seco, observando e deu um passo para trás, assentindo. Não era muito a sua parte preferida.
— Ela sangrou até a morte... — doutor Hopker disse. — Consegue imaginar o choque que o rapaz deve ter ficado ao acordar e vê-la ensanguentada bem ao seu lado?
evitou responder à pergunta, focando em algo mais importante que ele disse anteriormente. Sua mente precisava estar esperta a todos os detalhes, não precisava pensar em alguém sofrendo qualquer perda.
— Você disse que ela foi silenciada? — questionou.
Se a morte dela tinha sido um aviso, havia mais coisa enterrada que precisava vir à tona.
— Da pior forma possível.
O homem voltou a guardar o corpo de volta na gaveta. respirou fundo e mexeu as mãos, incomodada com o frio. Podia começar a sentir sua cabeça querer doer e pensou que Harry tinha razão.
Ela estava estressada.
— Obrigada, doutor.

Algumas horas antes...

apoiou os braços na mesa, encarando a taça de vinho à sua frente. Ela pensou em beber um pouco, considerando o dia caótico que teve, mas ainda estava no escritório, o que significava que, mesmo que tivesse terminado o seu horário de expediente, ainda não era visto como agradável beber sozinha ali. Ela sempre escondia uma garrafa de vinho para ocasiões como aquela. Uma taça sempre a ajudava a levar a noite adiante, mas sabia que assim que virasse a primeira taça, iria querer outra.
Um desejo sempre buscava outro e no fim, acabava se tornando um vício.
A mulher suspirou e pegou a taça de vinho, virando o copo na boca, bebendo um gole. Um gole único e doce, que pingou um pouco para a sua blusa quando ela se assustou com o barulho de mensagem do celular.
Xingando baixinho, ela devolveu a taça para a mesa e buscou o celular, ignorando o quão tarde estava, abrindo direto o aplicativo de mensagem, soltando outro palavrão em seguida. Ela leu a mensagem uma segunda vez. Depois uma terceira. Tudo para se certificar de que estava lendo a coisa certa mesmo, mas… Céus, ela mataria o Peter.
A agente respirou fundo, ouvindo a porta ser aberta, desviando a sua atenção da tela do celular. Observou um homem de óculos entrar e depositar mais um arquivo em cima da mesa dela, sem ao menos cumprimentá-la, mas estava acostumada com ele daquela forma. Ele quase nunca falava, mas era um dos melhores agentes com quem já tinha trabalhado.
— Ei, Greg... — ela chamou, recebendo um olhar dele. — O Peter ainda está aqui?
Greg levantou uma sobrancelha, a mão ainda presa na maçaneta, como se estivesse pressa de ir embora.
— É uma pergunta meio idiota, não acha? — Ele devolveu, ajeitando os óculos no rosto.
revirou os olhos, guardando o celular no bolso da calça, levantando-se em seguida.
— Você precisa melhorar a sua comunicação com os outros, sabia? — Provocou, recebendo nada mais do que um simples dar de ombros de Greg, assistindo-o ir embora.
Ela umedeceu os lábios, mas pensou que ele tinha razão. Era uma pergunta idiota, porque ela já tinha a resposta. Desde que Peter Johnson tinha se tornado supervisor, passava horas a mais preso no próprio escritório.
respirou fundo e fechou a porta atrás de si, seguindo direto para o elevador, um andar acima, disposta a encarar o homem bem de perto. Ela não iria conseguir ir para casa depois da mensagem que tinha recebido. O arquivo que Greg tinha deixado na sua mesa minutos antes dizia a respeito do novo caso ao qual ela foi inserida, mas aquele não era o problema. Ela podia lidar com qualquer caso e transferências, era o seu trabalho.
era o seu problema. Era a nova parceria que a incomodava. Não porque ela odiava — muito pelo contrário, ela achava humanamente impossível odiar aquela mulher —, mas porque sabia que a odiava. E podia lidar com qualquer coisa, mas não queria ter que lidar com toda aquela indiferença. Não queria dividir o mesmo ambiente com alguém que não suportava a sua presença. Pelo menos, não mais.
seguiu o corredor depois de sair do elevador, ignorando os poucos olhares alheios. A maioria já tinha terminado os expedientes. Quando chegou perto da porta de Johnson, não se deu ao trabalho de anunciar a sua presença. Girou a maçaneta e entrou, encontrando o homem concentrado em sua pilha de arquivos.
— Devo avisar que não estou recebendo mais reclamações no momento... — Peter anunciou, levantando os olhos para encarar a mulher. — E minha decisão vai ser mantida.
deixou os ombros caírem, soltando uma risada sem humor. Ela sentou-se na primeira cadeira livre, ficando frente a frente com o supervisor, separados somente por uma mesa.
— Que droga, Peter! — Murmurou. — Ela já veio aqui, não foi?
O homem esfregou o rosto, deixando as pastas de lado. Era visível o quanto estava cansado, mas sabia que ele nunca pararia de trabalhar daquela maneira.
— Bom, eu a tirei de um caso importante para inseri-la nesse, então… sim, ela veio aqui.
A mulher balançou a cabeça negativamente. Imaginava que deveria ter ficado irritada quando soube que foi transferida de um caso para outro, sem ao menos ter a oportunidade de concluí-lo. Ela não gostava de deixar as coisas inacabadas. E não teve pena nenhuma de Peter, se isso significava que ele sofreu um pouco recebendo a irritação de .
— E, pelo visto, não teve nenhum sucesso... — observou.
, vocês duas precisam se acertar. — Peter sugeriu, as mãos cruzadas sobre a mesa. — São duas das minhas melhores agentes e eu fico completamente louco com essa rivalidade entre as duas.
o encarou.
— Não existe rivalidade.
— Ela te odeia! — Ele rebateu.
“Incrível como ele poderia ser um idiota que não sabia ser nenhum pouco delicado”, ela pensou, mas, bem… estava certo, não estava?
— Com razão... — retrucou, contrariada. — E não é recíproco.
Peter quase riu. Ele encostou-se contra a cadeira, erguendo uma sobrancelha.
— Sério? — Indagou. — Porque eu lembro de você ter dito que era insuportável trabalhar com ela.
— E continua sendo.
Para , uma coisa não anulava a outra. Era mesmo meio insuportável trabalhar com , principalmente daquele jeito, onde agora a comunicação falhava entre as duas.
— Vocês me deixam maluco! — Ele pontuou, visivelmente frustrado.
— Deveria ter pensado melhor antes de nos colocar juntas de novo... — reclamou. — Peter, eu não posso…
Ele negou com a cabeça antes mesmo que ela conseguisse completar a frase.
, eu não vou voltar atrás! — Garantiu, a voz determinada. — Apesar de tudo, acredito que as duas sejam profissionais uma com a outra. E talvez esteja na hora de superar o ocorrido.
travou a mandíbula, irritada. Não gostava de ficar irritada, mas, às vezes, naquele trabalho, era meio inevitável. Era por isso que descontava as suas frustrações no ringue.
— Alguém já te disse que você é um pouco babaca? — Ela disparou.
O homem riu, dando de ombros.
— Sim, acho que já ouvi isso hoje...
levantou, sentindo que só estava perdendo tempo ali. Precisava ir para casa e terminar uma garrafa inteira de vinho. Talvez daquela forma se preparasse o suficiente para encarar o dia seguinte.
Ela girou a maçaneta, dando as costas para o homem, mas não sem antes dizer o que estava bastante óbvio. Ele podia estar seguro de que aquilo era a melhor escolha, mas tinha uma visão completamente diferente.
— Estou dizendo, Peter, isso não vai dar certo.

Dia seguinte...

mal dormiu pelo restante da noite.
Sua cabeça latejava e ela optou por um banho quente, demorando mais de dez minutos dentro do banheiro, parada debaixo do chuveiro, deixando a água escorrer pelo seu corpo. Sentia-se cansada e ansiosa. Não estava pronta para ser preenchida com a presença de novamente em sua vida, em seu espaço, em todo seu campo de visão. As coisas eram diferentes agora.
A mulher respirou fundo, vestindo a última peça de roupa, terminando de ajeitar o cabelo, amarrando em um rabo de cavalo simples. Geralmente, gostava de deixar os fios soltos, mas não estava com humor para manter uma boa aparência.
desceu direto para a cozinha, onde preparou um café com espuma e sem açúcar. Ela sentou-se na bancada outra vez, puxando o celular do bolso da calça, deslizando o dedo pela tela, verificando a hora. Ainda era cedo demais para iniciar o expediente, mas era exatamente o horário de escola de Wendy, o que significava…
Mamãe!
abriu um sorriso, sentindo os olhos lacrimejarem, assistindo o rosto de Wendy iluminar-se em um sorriso completamente genuíno e alegre, vestida com o uniforme da escola, o cabelo dividido em dois rabos de cavalo.
— Ei, tigresinha! — murmurou, segurando a tela do celular bem na frente do rosto, gravando cada detalhe do rosto da filha. — Como você está?
Minha apresentação de balé está chegando... — Wendy disse. — Você vai estar lá?
piscou os lábios, mantendo o sorriso no rosto, mas seu coração disparou mais rápido do que o normal. Sentia-se tonta de saudade de Wendy, do seu cheiro, do som da sua risada. Todas aquelas ligações matinais para a filha não estavam sendo suficientes. Ela precisava da presença física de Wendy, precisava abraçá-la.
— Eu não sei, tigresinha... — optou por ser sincera, assistindo o semblante da filha murchar.
Ela sabia que a mais nova tinha começado a aprender balé, que era um programa à parte da escola, mas não sabia que ela tinha uma apresentação marcada. Chad não fazia questão de informá-la sobre aquelas coisas.
— Mas eu prometo que eu vou tentar, está bem? Eu nunca perderia isso.
Wendy assentiu, um pouco mais animada.
Eu sinto sua falta, mamãe! — Wendy murmurou.
piscou novamente, para afastar as lágrimas. Os lábios da mais nova transformaram-se em um bico melancólico.
— Eu também sinto a sua, Wendy! — A mulher devolveu, mantendo a voz neutra. — Pode passar o celular para o seu pai? — Pediu, observando a menina assentir. — Eu te amo, tigresinha.
Wendy começou a andar pela casa, provavelmente à procura do pai.
Eu te amo mais! — Wendy gritou, antes de entregar o celular para o pai.
No minuto seguinte, a tela foi preenchida com a imagem de um Chad Colson cansado.
Oi, .
apertou o aparelho com força entre os dedos. Ela fechou a expressão e apertou o botão para transformar a ligação em chamada de voz. Era melhor que Wendy não ouvisse qualquer coisa.
— Pensei que nós tínhamos combinado uma relação amigável por causa da Wendy... — ela disse, assim que encostou o celular no ouvido. — Quando ia me contar sobre a apresentação dela?
Chad suspirou do outro lado da linha.
Eu não ia... — ele respondeu. — Você é muito ocupada, . Não preciso fazer promessas para a Wendy que você não vai cumprir.
A mulher trincou os dentes, furiosa.
— Escuta aqui, seu imbecil! — Murmurou. — Ela também é a minha filha. Você já me tirou do cotidiano dela, não pode me excluir de eventos importantes também!
Eu posso sim, , e sabe por quê? — Ele começou a dizer, o tom de voz irritantemente neutro. — Porque eu sou o pai dela. E, nesse momento, também sou o único guardião legal.
— Chad… — ela tentou intervir, mas ele já tinha encerrado a ligação.
reprimiu um grito e bateu o celular contra o batente da cozinha, sentindo todo o seu corpo tensionar de raiva. Aquilo a destruía.
A sensação de impotência, de sentir que não havia muita coisa a ser feita se tratando de Chad, porque ele estava certo. Era o único guardião legal de Wendy e tudo o que ela tinha eram visitas agendadas e ligações de vídeos quase todas as manhãs. Não podia fazer uma visita surpresa para a filha e também não podia levá-la para sair. Estava proibida de pegá-la na escola e em hipótese alguma podia fazer qualquer coisa sem a permissão de Chad. Tudo aquilo era um inferno e um lembrete diário do porquê odiava .



Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Outras Fanfics:
05. Break Free (Ficstapes Perdidos #2/Shortfic)
05. Show Me Love (America) (Ficstapes #228 (The Wanted)/Shortfic)
07. Since We're Alone (Ficstape #98 (Niall Horan)/Shortfic)
12. What Makes a Woman (Ficstape #223 (Katy Perry)/Shortfic)
EXITUS (Seriados: Criminal Minds)
In Dark (Seriados: Criminal Minds)
Operação Bebê (Originais)
Prisoner, com Sereia Laranja (Restritas: LGBTQIA+)
Sweet Trouble, com Dany Valença (LGBTQIA+)
Wild Birds, com Jaden Forest (Restritas: LGBTQIA+)

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