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Última atualização: 29/09/2020

Prólogo

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A pequena garota de apenas dez anos se encontrava sorrindo, correndo junto dos irmãos Chelsea e Jonathan pelo gramado extenso que se encontrava na parte da trás da residência dos . Uma casa consideravelmente grande, no estilo vitoriano e com grandes pilares de madeira entalhada envernizados fazendo com que a casa parecesse mais nova do que realmente era - uma vez que a mesma fora construída pelos antecessores da família , quando estes chegaram com mais cinco famílias durante o ápice da Caça às bruxas, procurando um lugar para se esconderem.
Durante a caça às bruxas, as famílias Jaeger, Wright, Hunter, Blake, e Lawrence fugiram de Londres para uma pequena cidade fantasma, onde mais tarde se tornaria Irish Lake: o lar do sobrenatural onde as mais diversas raças viviam em harmonia.
Até agora.
Continuando, seria a personificação da definição perfeita de criança feliz, se não fosse pelo fato de nunca ter conhecido sua mãe. Tendo que viver com o árduo fato de que a pequena garotinha era um terço de uma alma completa, sendo os outros dois restantes seus dois irmãos, e que teria sido a responsável pela morte de sua mãe, uma vez que humanas não conseguem sobreviver ao parto de crianças sobrenaturais e a repulsa de sua madrasta, Margareth Jaeger.
Por quê? Bem, desde o princípio quando Irish Lake foi fundada, um pacto entre as famílias foi assinado. Neste pacto, os herdeiros deveriam se casar entre si para que a integridade e a ‘raça pura’ presente no DNA de cada uma das famílias se mantivesse intacta.
Todos os herdeiros, quando completassem seus dez anos, eram obrigados a assinarem este pacto fazendo com que outros bruxos de outras linhagens fossem excluídos da Sociedade Secreta da Elite de Irish Lake e que todo o poder se concentrasse na mão de somente seus familiares ou, na atual situação, treze jovens.
Uma bela noite, mais especificamente no dia 13 de fevereiro de 2006, acordou no meio da noite com barulhos vindo do andar de baixo de sua casa; Esgueirou-se para fora de seu quarto, silenciosamente na ponta dos pés, até o lance de escadas que a levavam até aquele lugar, abaixou-se em frente ao parapeito da escada, vendo Margareth ajoelhada em frente à uma poça de sangue e um corpo em seus últimos suspiros: Robert , seu pai.
Antes que pudesse fazer qualquer coisa, sentiu uma forte pancada em sua cabeça assim que conseguiu ouvir as últimas palavras do pai, que foram proferidas com o resto do folego que lhe sobrara: Eu transfiro meu poder para Blackwater .

Capítulo 1: Jovem e Ameaçadora.

“Oh, I only wrote this down to make you press rewind
And send a message that I was young and a menace

(Oh, só escrevi isso pra fazer você apertar rebobinar
E te deixar ciente de que eu era jovem e ameaçador.)”
- Young And Menace, Fall Out Boy


Onze anos.
Onze anos desde que a pequena havia pisado nas terras de Irish Lake, sua terra Natal; onze anos desde que Margareth Jaeger assassinou brutalmente seu pai por poder; onze anos desde que fora separada de seus dois irmãos, jogada em um orfanato e se mudado para a Califórnia, após ser adotada por uma mulher que havia se encantado pelos olhos azuis elétricos da jovem e a necessidade de querer ser corajosa a todo o momento.
A garota agora possuía olhos azuis elétricos, um metro e setenta e três de altura, uma mochila de couro em suas costas, combinando perfeitamente com a jaqueta e os coturnos que usava, quando desembarcou na estação de trem, em meio a paisagem frequentemente nublada que rodava os arredores da cidadezinha chamada Irish Lake, a cidade fundada por irlandeses fugitivos da grande Caça às Bruxas.
Assim como o próprio nome já denuncia, Irish Lake não era só conhecida pelo grande lago que ligava Irish Lake às cidades vizinhas, como também carregava o título de “Lar do Sobrenatural” por boa parte dos historiadores da Inglaterra, o que não deixava de ser verdade.
Irish Lake abrigava os mais diversos tipos de criaturas sobrenaturais como consequência da caça ás bruxas, algumas famílias tão antigas que suas linhagens se perdiam nos primeiros traços de humanidade e uma delas era a família de .
Respirou fundo o ar com aroma de pinheiros e eucalipto, observando as árvores decoradas com fitas prateadas, pensando por alguns segundos que evento estaria para acontecer naquele dia, repassando mentalmente todos os eventos que participou juntos com seus irmãos durante seu escasso tempo naquela cidade. Não se lembrou de nada que não fosse sua avó com o seu bar.
Lembrava perfeitamente das manhãs neblinadas e das garoas frequentes quando ia com seu pai e irmãos até o Fox and The Hounds, onde tomava o melhor chocolate quente com marshmallows e gotas de chocolate de todo o mundo, enquanto os pais de Alexia e Carter Wright (seus melhores amigos) tocavam em seu violão com extrema maestria as melodias que mais tarde a fariam se apaixonar pelo blues e sua história
sorriu brevemente enquanto saia da estação de trem, atravessando a pequena avenida que ligava a estação de trem com o centro da cidade, que às cinco da tarde já demonstrava os sinais da vida noturna da pequena cidade: pessoas andando para lá e para cá, entrando em restaurantes, bares e pousadas que ali se localizavam.
Assim que colocou seus pés na calçada, ergueu sua cabeça para o grande letreiro neon acima de si, que gritava em letras alaranjadas “The Fox and the Hounds” com uma raposa sendo cercada por três beagles prontos para atacar.
A herdeira conhecia muito bem aquele pub, bem o suficiente para saber que a dona dele também possuía uma pousada de mesmo nome destinada à seres sobrenaturais, que se mudavam para a cidade por tempo indeterminado.
Levou sua mão até uma espécie de maçaneta empurrando-a antes de adentrar o local e ouvir a melodia do violão afinados um tom abaixo, junto com o que parecia ser a voz inconfundível do cantor Robert Johnson, o pai do blues.

– Me and the Devil
was walkin' side by side
Me and the Devil, ooh
was walkin' side by side
And I'm goin' to beat my woman
until I get satisfied...


sorriu de orelha a orelha assim que direcionou seus olhos para a figura negra que tocava com perfeição os doze compassos do blues de costas para o público, que aproveitavam a singela noite de sexta com seus familiares.
A herdeira pôs se andar em direção ao balcão, onde a figura de uma mulher negra com dreadlocks se encontrava sentada em uma das bancadas, visivelmente entretida com o artista que ali tocava. Essa mulher era Rosa Blackwater, bruxa do clã Blackwater, mãe de Charlotte Blackwater, avó de Blackwater.
Rosa era a anciã do clã Blackwater, o clã de bruxos indígenas com especialidade na arte da cura com ervas, ilusões de névoa, cartomancia e necromancia, coisas que havia herdado com perfeição do sangue indígena que corria por suas veias.
Sorriu de modo breve, assim que se sentou à frente da mulher, que pegou um bloquinho de notas para anotar os pedidos da mocinha.
– Eu preciso de um quarto. – A mocinha concluiu, fitando os olhos cor de esmeralda da negra à sua frente.
– E eu preciso do seu nome e da sua raça. – A mulher sorriu de modo caloroso, o que fez o coração se aquecer por alguns segundos.
Blackwater , acho que não preciso dizer de que raça sou, certo, vovó?
O sotaque inglês da herdeira se fez presente, fazendo com que Rosa sorrisse de modo tão aberto que pode jurar ter visto um brilho verde-neon saindo pelos olhos da mulher, que largou o bloquinho de notas pegando ambas as mãos da neta, que parou abruptamente fitando um lugar vazio atrás de sua avó, não tão vazio aos olhos da jovem. Havia algo de diferente no reflexo da herdeira e ela sabia muito bem o motivo e ao que parecia, sua avó também sabia, uma vez que após fitar o reflexo da mulher uma expressão preocupada tomou conta de seu rosto.
– O que você fez consigo, minha menina?
A anciã finalmente se pronunciou após longos minutos observando o reflexo irreconhecível da neta no espelho. Objeto da qual permitia bruxos verem seus interiores, mais especificamente a alma de cada um deles e a alma de se encontrava corrompida, uma vez que era notável as rachaduras que eram extremamente visíveis por todo a extremidade refletida no espelho.
A menina balançou a cabeça negativamente tentando sustentar o olhar preocupado da avó em cima de si, voltou a fitar a mais velha com um sorriso de canto nos lábios enquanto suspirava, tomando o folego que precisava para contar toda a história que por anos deixou intacta em sua memória.
– É uma longa, longa história, Darling.
A herdeira deixou que as palavras saíssem por seus lábios com certo pesar em seu tom de voz. Tantos anos sem ver alguém de sua família e a primeira coisa que faria, seria contar como vendeu sua alma para o diabo para conseguir encontrar seus irmãos.
Levantou-se do banco em que havia se sentado momentos antes, passando os olhos pelo ambiente encontrando uma mesa no fundo do restaurante ao lado da janela, onde discretamente passou pelas mesas e se instalou ali esperando que a avó a seguisse. E assim que o fez, Rosa Blackwater estalou os dedos fazendo com que duas xicaras de chocolate quente com marshmallows e gotas de chocolate aparecessem na mesa. A herdeira não pode deixar de sorrir levemente ao pegar uma delas e levar até os lábios, antes de finalmente começar a falar.
– Muitas coisas aconteceram desde que eu sumi e Irish Lake, mama. – levou mais uma vez a xicara até os lábios enquanto bebericava o seu conteúdo. – Meu inferno começou com a morte de Robert, você já deve imaginar o porquê.
– Eu sinto muito, criança. – Rosa murmurou, sorrindo de canto para a mocinha que apenas assentiu.
– Não havia nada que pudéssemos fazer. – A mais nova suspirou. – Naquela noite, onze anos atrás, eu acabei acordando com os barulhos vindos do andar debaixo, achei que fosse alguma taça caindo no chão. Me levantei no meio da noite sentindo que algo estava errado, me escondi atrás o parapeito assim que vi Margareth segurando o castiçal e Robert jogado em uma poça de sangue. A próxima coisa que me lembro é de acordar em um orfanato nos Estados Unidos.
finalizou, dando um último gole no chocolate quente, antes de colocar a xicara de volta no lugar, suspirando levemente ao fitar a avó por breves segundo, vendo que a mulher processava toda a história que havia acabado de escutar.
– Esta mujer siempre fue una serpiente venenosa.
Rosa murmurou, realizando um pequeno gesto com o indicador fazendo com que um tipo de nevoa verde florescente aparecesse na mesa, tomando a forma de uma naja dando o bote, antes de se desfazer no ar.
assentiu, deixando a mochila de couro no banco ao lado enquanto procurava algo dentro da mochila. Poucos segundos depois retirou de dentro da bolsa um livro grosso com capa de couro com um pentagrama de cinco pontas, colocando-o sobre a mesa.
– E isso foi o que aconteceu comigo. – A mocinha sorriu sombria, passando a mão pela capa de couro onde os dizeres “Livro da Danação” apareceram tão rápido quanto desapareceram, assim que a herdeira retirou suas mãos dele. - Ele me pertence, nenhum outro bruxo senão eu vai ser capaz de decifrar os dizeres que estão escritos nele.
– Por que fez isso, menina? – Rosa murmurou, olhando cada centímetro do livro secreto que tantos bruxos haviam procurado, mas somente uma havia encontrado.
– Eu precisava achar Chelsea e Jonathan. Eu tentei todos os feitiços possíveis por anos, Rosa. Cada um deles e nenhum funcionou, eu não consegui ao menos uma simples localização. Então, no último ano eu fui para Salem tentar achar algo, sai do hotel e quando voltei, o livro estava em cima da minha cama.
– O livro encontra o seu herdeiro. – Rosa murmurou, tocando a capa com o indicador levemente, sentindo a energia do livro.
– Eu não consigo me imaginar sendo herdeira de algo assim, mama.
– Existem dois tipos de bruxos, , os da luz e os da escuridão. E no momento em que fez o pacto de sangue, você se tornou uma bruxa da escuridão.
A anciã suspirou, fechando a mão em cima da mesa e a abrindo fazendo com que a névoa esverdeada aparecesse em sua mão formando os mais diversos tipos de figura antes de começar a falar.

Há muito tempo, seres sobrenaturais começaram a surgir: vampiros, lobisomens, bruxos, feiticeiros e da mesma maneira que surgiram, começaram a desaparecer do jeito mais brutal possível. A caça.
Humanos caçando muitas vezes a própria raça, porque os verdadeiros sobrenaturais eram espertos demais para serem descobertos.
Com isso, surgiram das distinções de cada raça: vampiros que se alimentavam de animais selvagens e os que se alimentavam de sangue; Lobisomens que andavam transformados todas as noites e aqueles que se transformavam apenas em noites de lua cheia e em lugares isolados para não machucarem ninguém; E por último, os bruxos que foram divididos entre os que queriam vingança, buscando todos os dias por mais poder, e aqueles que apenas gostariam de seguir a vida sem que houvessem mais mortes desnecessárias.
Abigail Williams seguiu na doutrina de bruxos da luz após sua prima ser assassinada, diferente de Anna Göldi que por vingança, acabou fazendo um pacto de sangue poucos anos antes de ser assassinada.
Bruxos como Anna possuem poder, porém o preço que pagam por ele é não ter paz pelo resto da eternidade.


Rosa fitou a palma de sua mão, onde a nevoa verde possuía a forma de uma mulher se debatendo em uma pira em chamas. engoliu em seco assim que a nevoa se esvaiu no ar, causando arrepios pela espinha da herdeira, que apenas balançou a cabeça negativamente um tanto conformada com o destino que a esperava.
– Eu já me conformei com o futuro que me espera, Rosa. – suspirou um tanto derrotada. – De qualquer forma, como estão as coisas por aqui?
– Festas aqui, novos moradores lá, pessoas se transformando e lamentações por aqueles que já não voltariam mais. – a olhou com um sorriso diferente que fez com que franzisse o cenho. - Seus amigos estão sempre aqui, menina. Devia ver como o caçula dos está agora.
? Ele ainda está aqui? Achei que tivesse voltado para a Austrália depois de todo esse tempo... – sussurrou, mordendo eu próprio lábio inferior um tanto surpresa com o que a avó havia dito.
– Ele não poderia voltar pra Austrália depois de tudo o que aconteceu nos últimos anos. Mas isso não é uma história contar, antes que me pergunte.
levou seu olhar até a porta de entrada do bar, quando a mesma se abriu revelando uma garota de cabelos pretos até a altura dos ombros com olhos tão verdes quanto a folhagem das árvores ao lado de fora do bar. sentiu o ar escapar de seus pulmões quando a morena passou o olhar pelo bar e os pousou nos seus, sorrindo com os dentes enquanto andava em direção as duas mulheres sentadas na mesa. Parou diante das duas e sentou-se ao lado de .
– Hey! Espero que tenha deixado suas coisas prontas na sua barraca, tá tudo uma loucura e estamos há algumas horas da festa começar. – a desconhecida sorriu em direção a . – Ah, que mal educada eu! Sou Heather Parker e você deve ser nova por aqui.
– Não realmente... – sorriu de canto levanto seu olhar até Rosa que balançava a cabeça com um sorriso. – É bom te ver novamente, Heath. – murmurou, depositando um beijo na bochecha da herdeira dos Parker, que a olhava embasbacada.
? Inacreditável! – Heather olhava todos os detalhes de sua crush um tanto embasbacada com as mudanças que os anos a causaram, principalmente em seus cabelos uma vez loiros. – Onde esteve por tantos anos? – Parker a puxou para um abraço forte que a deixou sem ar.
– Em muitos lugares. – falou com dificuldade devido ao aperto do abraço. – Mas isso não importa muito agora que estou aqui.
– E ela vai participar da Festa da Colheita também. – Rosa sorriu, fazendo com que apenas balançasse sua cabeça em concordância.
– Mas preciso ir pra minha casa antes, voltei para ficar dessa vez. –murmurou com um sorriso tímido antes de levantar-se do banco estofado. - Nos vemos na Festa da Colheita, sim? – sorriu de lado para as duas mulheres.
– Não suma, tudo bem? – Heather murmurou, segurando o pulso da herdeira antes que ela saísse.
– Eu não vou.
E com isso, lançou-se em direção a porta para que saísse no vento gelado do lado de fora do pub, andando em direção ao ponto onde carrinhos amarelos de taxi estavam parados. Informou o antigo endereço de sua casa para o taxista, que a olhou com uma expressão um tanto nervosa devido a fama que a conhecida mansão dos levava desde a morte de Robert e o desaparecimento de seus três filhos. Entrou dentro do veículo e encostou sua cabeça contra o vidro da janela, afundando em seus próprios pensamentos enquanto aos poucos, esgueirava-se de volta para a sua antiga vida.


Capítulo 2: Crente

"I was broken from a young age
Taking my sulking to the masses
Write down my poems for the few
That looked at me, took to me, shook to me, feeling me.
(Eu fui destruído desde pequeno
Levando meu sofrimento para as multidões
Escrevendo meus poemas para os poucos
Que me encaravam, me levavam, me confundiram, me sentiram.)"


Believer, Imagine Dragons.


fitou o grande portão coberto por plantas à sua frente, fechando os olhos ao sentir o cheiro de terra molhada e eucalipto que rodeavam a mansão dos . Fez um pequeno gesto com a mão fazendo com que as plantas do portão abrissem caminho para que a herdeira conseguisse adentrar o terreno que há muito não visitava.
Assim que o portão se abriu à sua frente, a mocinha se locomoveu em direção ao grande gramado com pequenos pedaços de grama seca que marcavam o lugar onde há muito se encontrava um antigo banco de madeira, no qual passava suas tardes lendo sobre os mais diversos tipos de plantas, de medicinais até os mais perigosos venenos conhecidos pelos ancestrais da herdeira.
sorriu ao ver que a beladona, que havia plantado anos atrás em um antigo vaso de madeira de ébano, havia dado flores que reluziam em um tom lilás quando o sol se infiltrava por meio as antigas árvores de galhos retorcidos e se deitava sobre as pequenas pétalas, deixando todo o lugar com um brilho místico. Este que causava um certo sentimento reconfortante na bruxa, que admirava com paixão as pequenas flores que se entrelaçavam aos galhos da mandrágora ganhada por sua avó em seu aniversário de seis anos, tempo esse que parecia voltar com toda a intensidade agora que a garota se encontrava ali parada no meio do enorme jardim de sua antiga morada.
Observar as plantas que ela amava usar para fazer venenos e remédios fazia com que a garota se lembrasse dos tempos em que praticar feitiços com beladona era sua maior preocupação, ao invés da eterna danação que a esperava. Livrando-se dos devaneios que dominavam sua mente, parou em frente a grande porta de madeira tão escura quanto ébano, fitando-a com olhar um esperançoso. O contato do ouro gelado com a pele despreparada de fez com que a garota estremecesse por um segundo antes de forçar sem sucesso sua entrada na antiga mansão dos .
Porra! - Murmurou a garota que encarava com ódio a porta que sempre insistia em dificultar a sua entrada, mesmo nos tempos de infância. – Um dia eu ainda explodo essa merda. – Resmungou enquanto jogava a pesada mochila em um canto qualquer da enorme varanda de madeira. Atirando sua jaqueta gasta sobre a bolsa que rolou com um leve estrondo sobre os primeiros degraus da entrada, avançou em direção as portas que em um milésimo de segundo se abriram com um enorme rangido fazendo com que a moça fosse de encontro ao chão empoeirado do mausoléu que a herdeira chamava de casa. — Ótimo. - Disse a garota que revirava os olhos ao levantar-se e bater a poeira que marcava seus jeans rasgados.
A irritação de deu lugar à um sentimento de desespero ao perceber onde se encontrava: O gelado cômodo da qual teve diversos pesadelos durante anos de sua infância estendia-se imponente à sua frente fazendo suas pernas tremerem. O hall de entrada onde Robert havia sido brutalmente assassinado ainda fazia com que a garota se arrepiasse e sentisse o desespero que marcou sua infância desde aquela trágica noite.
suspirou baixo enquanto andava em passos leves pela casa em que um dia tinha sido o palco de suas melhores lembranças. Fitou cada um dos cômodos com pesar, vendo todos os móveis cobertos por lençóis brancos sujos de uma poeira densa que fazia seus olhos arderem.
A menina foi em direção as cortinas que cobriam enormes vitrais que estampavam toda a história da antiga linhagem de sua família, desde o primeiro bruxo , filho do anjo Lúcifer com o demônio Lilith, até os irmãos da herdeira que há muito se perderam naquela fatídica noite de inverno. Conforme a garota andava, ia puxando os lençóis de cima de cada um dos antigos móveis, fazendo os tecidos caírem no chão ao seus pés.
Puxou o celular do bolso junto com seus fones de ouvido, selecionando uma playlist aleatória antes de sair por cada um dos cômodos do primeiro andar da mansão retirando todos os tecidos que cobriam cada uma das peças rústicas, que permaneciam exatamente iguais ás memórias longínquas de .
Ao terminar apenas retirou os fones de ouvido e se viu parada diante do grande vazio gelado que um dia teve o prazer de chamar de casa. Lembrando-se das mais diversas lembranças que a fizeram ter forças para finalmente terminar sua jornada em Irish Lake, levou sua mão livre até sua bochecha limpando uma única lágrima solitária que escorria por seu rosto antes de finalmente subir as escadarias.
Diante de encontrava-se um extenso corredor mal iluminado que abrigava uma série de portas grandes e pesadas que continham as mais diversas memórias de . No fim do corredor, passando por todas as enormes portas encontrava-se uma em especial que sempre havia intrigado a herdeira.
Embora seus irmãos insistissem que nada havia ali, a garota sempre deparava-se com uma porta diferente de todas. Era de ferro negro, com inscrições douradas em uma língua que não conhecia. Não tratava-se de latim ou grego. Era complexa. Com palavras compridas e com letras que muitas vezes eram substituídas por símbolos que confundiam a cabeça da garota, mas que por algum motivo faziam sentido.
A curiosidade de saber o que se escondia por trás daquela porta em particular fazia com que os pensamentos de se voltasse quase todas as noites para o imenso corredor, causando-lhe uma insônia abusiva que só se acalmava quando a menina postava-se diante da porta durante as madrugadas silenciosas enquanto seus irmãos dormiam. observava e redesenhava os símbolos tentando encontrar um sentido que explicasse o que aquelas inscrições significavam e mais importante: O que os sussurros que ecoavam dali queriam lhe dizer.
espantou os pensamentos confusos sobre a tal porta e decidiu desvendar a fonte do tormento que infernizou sua infância. Tormento esse que permanecia com o mesmo brilho assustador e, para pavor de , com os mesmos sussurros gelados e sôfregos que insistiam em dizer-lhe coisas que escapavam a sua compreensão mas que faziam seu coração desacelerar e perder totalmente o ritmo.
Tomada por uma súbita coragem, avançou em direção à porta com passos apressados postando-se diante da porta que, mesmo distante, fazia com que a pele de sentisse a brisa gelada que de alguma forma a porta sombria emanava. Um arrepio percorreu a espinha de que não conseguia ignorar a terrível sensação que tomava conta de seu corpo e perdia lentamente a temperatura usual fazendo assumir um pequeno estado de alerta.
A medida que se aproximava da porta, conseguia notar que os sussurros, cada vez mais parecidos com gritos e protestos, tornavam-se cada vez mais altos e ensurdecedores, fazendo questionar a integridade de sua sanidade.
Ali, postada diante da porta, um turbilhão de sentimentos e pensamentos faziam com que sentisse todo o peso de seus atos passados que subitamente voltavam para assombrar a pálida garota que, em um momento de sua jornada prometera seu próprio corpo e alma ao lorde das sombras em troca do poder que se fazia necessário. , que aos olhos de um observador era apenas uma louca encarando uma porta de ferro com lágrimas nos olhos, agora também tornara-se a louca menina que pendurava-se na porta em uma busca desesperada por qualquer palavra concreta que os sussurros estivesses dispostos a revelar-lhe.
Ah, como as palavras enganam, .
E como os desejos podem tornar-se contra quem os clama.

Ali, diante da porta, encontrava-se uma jovem que, para azar do destino ou sorte do azar, ouvia atentamente o ensurdecedor grito que sucedia as palavras mais sombrias que a jovem já havia ouvido. Palavras que, embora simples, haviam sido entoadas com tamanho desespero que não havia nada que pudesse sentir a não ser o mais profundo e desesperador pânico.
"Ao cair do crepúsculo..."
"O herdeiro perderá seu trono para as sombras..."
"E as cinzas dos que você conhece..."
"Tomarão os pulmões dos que você ama."

Um grito ensurdecedor ecoou pela porta que estremeceu e fez com que fosse lançada pelo corredor. O impacto fez as costas de arderem e fez com que um grunhido carregado com sangue escapasse por entre os lábios da menina que permaneceu desacordada por alguns instantes.
O vento gelado do inverno que entrava por um vidro quebrado em um dos cômodos fez com que acordasse de súbito sentindo como se uma faca adentrasse por sua coluna perfurando cada centímetro de suas costas. A dor lancinante em suas costas fez com que a garota, ainda meio zonza por conta de sua mais recente aventura aeronáutica, precisasse apoiar-se em uma antiga mesinha que comportava um velho vaso de flores que agora apresentava apenas terra e rachaduras ao invés das enormes e rosas que a menina há muito costumava admirar. A menina encostou seu quadril contra a parede enquanto deslizava com dificuldade na superfície áspera que ali se encontrava.
O contato com a parede gelada fazia com que um súbito sentimento de alivio percorresse o corpo de . Sua cabeça girava e seu estômago estava embrulhado. Suas pernas estavam bambas e suas mãos estavam geladas como pedras de gelo embora suassem como em um dia escaldante de verão.
Sua cabeça que ainda girava estava confusa. Incertezas borbulhavam em sua cabeça. O que eram aquelas vozes? O que era... Aquilo? QUEM era aquilo?
Aquilo era realmente real ou estava sendo vítima de uma pegadinha de mal gosto como as que seu irmão costumava adorar pregar em todos?
Aquilo era um aviso. Um alerta.
havia sido alertada. Isso ela sabia. Aquilo era de fato um alerta
Mas sobre o que?
Levou ambas as mãos até os olhos os coçando em uma tentativa falha de normalizar sua visão. Piscou mais algumas vezes e antes que pudesse levantar deu de cara com algo que fez suas lembranças revirarem e se retorcerem em sua mente: A porta entreaberta do antigo quarto de seu pai.
Uma luz solitária escapava pela porta fazendo com que o corredor na sua frente recebesse uma fraca iluminação e adquirisse um brilho sombrio. A mera visão da porta, da maçaneta e das queimaduras que marcavam a lateral da porta onde uma vez ateara fogo após discutir com sua irmã fazia com que tremesse ainda mais. Não sabia se estava preparada para aquilo. Não sabia se suportaria ver o antigo quarto que ela costumava invadir para arrastar seu pai até o jardim para mostrar-lhe seus novos aprendizados.
Não sabia se conseguiria entrar ali após tanto tempo sem ele, era demais para a garota que com lágrimas nos olhos encontrava-se estagnada diante da porta.
chacoalhou a cabeça espantando seus pensamentos, precisava entrar de uma vez. Precisava fazer aquilo de uma vez por todas.
— É como um band-aid...
Murmurou fechando os olhos e escorando a testa na porta que lentamente se abriu. O mero contato com o ouro da maçaneta fez com que a herdeira sentisse um tipo de choque percorrer por seu corpo, choque este que a fez hesitar antes de finalmente empurrar a porta que abriu-se acompanhada de um rangido causado pelo tempo em que havia permanecido na mesma posição.
Em passos lentos, foi adentrando o quarto pouco a pouco, cerrando os olhos por conta da iluminação exagerada que o reflexo da luz solar fazia quando batia contra as paredes tão brancas quanto mármore. Observou o quarto atentamente e sorriu ao notar que nada havia mudado: Os quadros de Van Gogh e Picasso pendurados ao lado dos desenhos extremamente relaxados que ela costumava fazer para o pai estavam no mesmo lugar de sempre.
A mesa de cabeceira com o relógio que há muito não funcionava mantinha-se intacta. Os vitrais na janela lançavam as mesmas cores de sempre nas paredes que tornavam-se mosaicos coloridos. O closet com suas portas negras e de maçanetas empoeiradas fazia se lembrar das vezes em que se escondeu naquele armário para poder assustar seu pai.
A garota andou pelo quarto absorvendo as memórias que o cômodo lhe trazia, a doce nostalgia fazia com que lágrimas surgissem nos olhos da herdeira que passou o indicador pela escrivaninha de vidro onde alguns papéis e livros repousavam sujos por uma grossa camada de poeira. Seus olhos pousaram no antigo bracelete de ferro negro que seu pai nunca tirava. Havia sido um presente de seu avô, que havia ganho de seu bisavô, que ganhou de seu tataravô e assim por diante. Estava na geração á séculos. Uma verdadeira relíquia. Havia pertencido a cada um dos notáveis bruxos que compunham a família .
tocou o aço do bracelete com a ponta do indicador: Era gelado, como se tocasse uma pedra de gelo. Era dono de um frio tão intenso que podia jurar que seus dedos queimavam. Um espécie de eletricidade percorreu os dedos da bruxa que empurrou-o no mesmo instante.
Malditos homens. – Murmurou enquanto voltava-se para o closet que encontrava-se abarrotado com as antigas roupas de seu pai. pegou a jaqueta de couro que estava pendurada em um dos únicos cabides que ainda resistiam sem vir ao chão e levou ao nariz. Aquela jaqueta trazia-lhe tantas lembranças boas, sentiu lágrimas caírem por suas bochechas. Sentiu as pernas fraquejarem e acabou por cair de joelhos no chão sentindo o perfume amadeirado inconfundível do pai que permanecia ali.
Sentiu braços a abraçando e nem se deu ao trabalho de virar-se para saber quem ou o que era, tinha certeza de que era sua névoa se deixando levar pelo excesso de emoções que a menina havia guardado por tantos anos.
– Eu sinto a sua falta, pai...
A herdeira murmurou abrindo os olhos para a figura à sua frente: um homem com pouco mais de um metro e noventa de altura, que possuía uma barba com algumas falhas brancas assim como seu cabelo que estava arrumado em um pequeno topete. Usava uma jaqueta muito parecida com aquela que tinha em seus braços, o que fazia com que o homem assumisse um ar de galã dos anos 50. Mordeu o lábio inferior ao fitar as orbes azuladas que a fitavam de modo perdido junto com os lábios que se encontravam sutilmente voltados para baixo em um sinal claro de tristeza. Levou sua mão fantasmagórica até a bochecha da jovem acariciando com o polegar. apenas assumiu uma carranca antes de proferir as palavras com lágrimas nos olhos:
Sai.
proferiu tais palavras com tanto desprezo e ódio em seu tom de voz que de imediato a névoa que tomava a forma de seu pai dissipou-se, fazendo com que as pequenas partículas que aos poucos desapareciam assumirem uma tonalidade furta-cor a medida em que os raios de sol infiltrava-se entre elas.
apoiou-se na cama King Size que um dia fora de seu pai para que pudesse levantar-se do chão. Deixou a jaqueta em cima da cama, dando uma última olhada pelo quarto que havia sido o palco de suas melhores memórias quando criança, e deixou que um leve sorriso tomasse conta de seus lábios antes de deixar o cômodo e fechar a porta atrás de si.
Ao se encontrar diante do frio corredor mal iluminado novamente, a herdeira olhou atentamente pelos detalhes e pilastras que o formavam, levando sua atenção para a única porta do corredor que carregava os mais diversos tipos de desenhos e escrituras feitas pela mocinha anos antes. Pôs se a andar novamente em direção a porta e assim que a mesma se materializou a sua frente não hesitou em adentrar o cômodo que há muito era seu refúgio toda a vez que algo a frustrava.
Fitou com atenção as paredes pintadas de um misto de vermelho sangue e branco que se encontravam danificadas pelos treinamentos da herdeira. Estranhou o fato de que um de seus livros se encontrava em cima da cama, livro este que estava limpo e praticamente novo comparado aos outros que estavam cobertos por diversas camadas de poeira e páginas danificadas por conta das traças.
sentou-se na cama que rangeu ao receber o peso da moça. Cruzou as pernas e repousou o livro ali enquanto o abria, passou o indicador pelas páginas surradas e deixou que um leve sorriso brincasse em seus lábios ao ver seus desenhos e o quanto sua caligrafia evoluiu durante os anos.
Ao passar por mais algumas folhas notou uma foto que se encontrava presa por alguns pedaços de fita na última página, seguida pelas mais diversas mensagens. Retirou com cuidado a foto que mostrava sete crianças abraçadas que riam de algo que lembrava ser Alexander Wright rasgando as calças e deixando à mostra a cueca de patinhos azuis. Virou a foto onde reconheceu a caligrafia impecável de Alissa Parker.
", , Alexia, , , e Chelsea. – Janeiro de 2006"
deixou a foto de lado levando sua atenção para um dos primeiros recados que haviam sido escritos, o primeiro deles dois anos depois que a menina havia desaparecido.

12 de Março de 2008

Dois anos atrás a gente costumava brincar juntas de pega-pega junto com os meninos valendo feitiços, seu pai gostava de fazer com que nevasse no seu quintal e papai tocava violão enquanto tomávamos chocolate quente sentadas na janela do seu quarto.
Eu sinto sua falta, . Volta logo, tá bem?
Com amor, Alexia.

20 de Julho de 2008

Eu estava treinando com hoje, nós estávamos fazendo algumas flores trocarem de cor. Papai disse pra ele se concentrar em algo que ele gostava muito pra conseguir fazer com que a flor mudasse de cor. Ele fez com que uma rosa ficasse azul, tão azul quanto seus olhos e depois que ele viu o que tinha feito, começou a chorar e saiu pisando firme. Ele não entra aqui desde o dia em que você se foi.
Sinto sua falta todos os dias.
Com amor, Alexia.


Algumas páginas em branco após os diversos recados de Alexia, se encontrou estagnada nas últimas páginas do diário onde seus amigos escreviam diversas coisas sobre a mocinha. A caligrafia ruim de se fazia presente junto com alguns desenhos esboçados nos cantos da página, desenhos estes que conseguiu identificar como sendo o dia em que tiveram que correr pela floresta em plena lua cheia após se transformar.

1 de Janeiro de 2015
Depois de anos entrando e saindo daqui essa é a primeira vez que tomo coragem pra escrever algo. É o primeiro dia do ano e eu tô bêbado pra caralho, acho que é por isso que tomei coragem pra escrever, já fazem quase 10 anos que você se foi e porra, eu nunca achei que pudesse sentir tanto a sua falta. Todos os dias eu venho aqui na esperança de te encontrar e perceber que foi tudo uma merda de sonho, é frustrante perceber que tudo é real.
Os meninos sentem sua falta tanto quanto eu e na maior parte do tempo, estamos sentados no gramado lembrando do quanto nós éramos felizes quando você, John e Chels ainda estavam aqui.
Eu te amo, Ursinha.
Sinto sua falta todos os dias.
Seu .


A herdeira colocou o livro de lado ao fechar os olhos, repassando a cena de sentado em sua cama extremamente bêbado diversas vezes em sua mente e grunhiu ao notar o sentimento ruim que tomava conta de seu peito cada vez que pensava nos amigos que deixou para trás.
– Rosa? Você tá aí? Esqueceu suas coisas na porta.
escutou um grito feminino vindo do andar de baixo da mansão e franziu o cenho. Levantou-se da cama e marchou em direção ao corredor com um tanto de pressa ao se lembrar que todas os seus pertences mais importantes estavam dentro da maldita bolsa que havia feito a proeza de esquecer ao se afundar em seus próprios devaneios. Desceu as escadas pulando de dois em dois degraus até chegar no hall de entrada onde uma garota ruiva um pouco mais baixa que segurava a mochila e a jaqueta da herdeira. A ruiva franziu o cenho e soltou os pertences da mais velha no chão.
– Quem é você e que porra você tá fazendo aqui?! Nunca te disseram pra não meter a fuça em casas abandonadas, principalmente em Irish Lake?!
A ruiva deixou um sorriso travesso tomar conta de seus lábios ao notar que a expressão da morena mudava drasticamente de susto para irritação. fechou as mãos em punho contando de um à dez para não fazer uma besteira. Quem infernos aquela garota pensava que era pra sair tratando alguém que ela mal conhecia daquele jeito?!
Fitou as orbes esverdeadas que agora adquiriam um tom vermelho sangue e não pode evitar recuar dois passos para trás antes de finalmente se dar conta de quem estava parada a sua frente. Só rezava para que a ruiva também a reconhecesse.
– Qual é, Raposinha! A testosterona dos lobos da sua família te deixou com um parafuso a menos a ponto de você ao menos reconhecer sua melhor amiga?
deixou um sorriso brincalhão tomar conta de seus lábios ao deixar que o apelido de Alexia escapasse por seus lábios. Aproximou-se novamente da ruiva que possuía uma expressão tão confusa que jurou que poderia ser definida com a cena de Pulp Fiction em que John Travolta procura por Mia Wallace assim que o mesmo entra em sua residência.
– Alexia você está começando a me assustar com essa cara, parece até que eu matei sua família e pendurei eles no lustre da sua sala de estar. Oh, essa foi pesada até pra mim...
No fucking way... Alexia, ao lembrar-se que antes de ser assassinado, Robert lançou um feitiço por toda a extensão o terreno monopolizado pelos para que somente herdeiros da família e amigos pudessem adentrar a mansão e tudo o que havia ao redor dela, balançou a cabeça se livrando de todas as suas dúvidas.
Tomada por um certo impulso a ruiva correu em direção a herdeira enlaçando os braços e pernas no corpo esguio da menina, fazendo com que quase perdesse o equilíbrio e caísse ao chão. Fechou os olhos com força ao sentir seu ombro começar a ser molhado pelas lágrimas de Alexia Wright que ficou naquela posição por um longo período apenas absorvendo cada pedacinho da melhor amiga que depois de uma década havia retornado. Ao notar que a ruiva soluçava, levou uma de suas mãos com dificuldade até os fios alaranjados enlaçando seus dedos ali, os afagando.
– Alexia, eu vou ficar toda suja de ranho se você não parar de chorar e isso vai ser nojento.
– Eu não me importo.
– Mas eu sim.
– Ainda não me importo.
– Não seja uma cuzona.
sorriu ao sentir o peso da loba diminuir gradativamente até que fosse inexistente. Fitou os cabelos da menor a sua frente totalmente emaranhados, o rosto inchado com olhos avermelhados devido as lágrimas e o nariz ranhento que a ruiva apresentava. Respirou fundo ao ver que Alexia se preparava para falar e fechou os olhos esperando pelo bombardeio de perguntas vindas da menor, bombardeio esse que não chegou.
– Quando você voltou? – Alexia murmurou abaixando-se e pegando a mochila e a jaqueta da herdeira, entregando-a em seguida.
– Não faz muito tempo, algumas horas eu diria. – Vestiu a jaqueta com maestria, passando uma das alças da mochila pelo braço e colocando-a em suas costas. - O que faz aqui?
– Eu venho aqui todo o ano, na real... – Alexia abaixou o olhar para os coturnos em seus pés um tanto envergonhada. – Eu e os meninos, não vem junto muitas vezes, ele sempre inventa uma desculpa pra não entrar aqui.
sempre foi um maricas. – deu um riso nasalado para a ruiva que assentiu com a cabeça antes de voltar seu olhar aos olhos azuis elétricos da mocinha. – Rosa me disse que a festa de inverno vai acontecer hoje, eu estava pensando em aparecer por lá.
– Seria uma ótima ideia! Os meninos vão tocar lá hoje, por isso não vieram comigo. Na realidade, acho ótimo que tenha citado isso porque se você não tivesse, eu teria. Mas temos que mudar essas roupas antes porque você está parecendo uma mendiga.
– Vagabunda.
– Você sabe que me ama.
A herdeira gargalhou, antes de largar sua mochila no chão e abrir os braços como quem estava pedindo por um abraço, um tanto entediada. A ruiva franziu o cenho antes de andar por volta da herdeira a observando atentamente dos pés à cabeça como se a mulher fosse um pedaço de carne mal passada. Deixou que um sorriso satisfeito brincasse aos seus lábios assim que decidiu o que iria fazer.
– Eu tenho que dizer Bibbidi-bobbidi-boo?
A ruiva sorriu ao apontar o indicador para a herdeira que rolava os olhos esperando que algo acontecesse. Alexia mexeu com o indicador e entoou algumas palavras inaudíveis das quais a herdeira faria questão de perguntar quando tivesse a oportunidade e ao notar as sombras a engolindo, se sentiu em uma versão gótica de Cinderela. Fechou os olhos e quando voltou a abri-los novamente, suspirou. As roupas antes sujas por poeira devido aos tombos que havia levado, agora se encontravam inexistentes na produção da mulher que agora usava uma camisa social branca junto da inseparável jaqueta de couro combinados com uma calça preta rasgada nos joelhos e coturnos de saltos da mesma cor.
– Okay, você realmente melhorou muito nisso.
A herdeira deixou que um sorriso brincasse em seus lábios ao pegar novamente a mochila e coloca-la novamente em suas costas postando-se ao lado da melhor amiga de infância que a abraçou pela cintura enquanto andavam juntas porta a fora para o retorno da herdeira.

***


respirou fundo ao notar que Alexia havia finalmente parado o carro no meio fio da Oaks Street onde a festa de inverno acontecia todos os anos. Abriu a porta do sedan e lançou-se para fora ouvindo a barulheira que se encontrava ainda mais alta do lado de fora do automóvel. Observou atentamente cada um dos detalhes de decoração: flocos de neve improvisados com papel laminado pendurados por fios de cetim que se ligavam entre si pelos postes de iluminação que estavam espalhados pelas ruas, os mais diversos tipos de barracas decorados de acordo com suas temáticas: barraca do beijo, tiro ao alvo, jogo das argolas e as barracas de comida.
Em um ponto mais afastado das barracas, uma grande fogueira se erguia próxima a entrada da floresta onde um grupo seleto de jovens se encontravam com coolers de bebidas, jovens esses que reconheceu como sendo os herdeiros de cada uma das famílias fundadoras.
Voltou seu olhar em direção ao palco onde quatro jovens tocavam um cover de Green Day, cover esse que agradou os ouvidos da herdeira que observava com atenção o baixista da banda o reconhecendo de algum lugar.
– Acho que já achou quem estava procurando, não? – Alexia deu uma leve cotovelada na costela da herdeira que a fitou um tanto confusa. – Okay, deixe-me deixar tudo mais claro pra você.
A herdeira grunhiu assim que sentiu seu braço ser puxado com tamanha força que a fez perder o equilíbrio rapidamente antes de voltar a andar ao encalço da ruiva. Rolou os olhos assim que Alex parou diante da barraca do beijo e devolveu o aceno do vocalista loiro que as notou assim que se postaram no local.
– Sempre achei que você fosse do tipo que gostasse de garotos tímidos e não dos vocalistas sem-vergonha. – soltou um risinho divertido que fez com que a cara de Alexia se contorcesse em uma careta.
– Ew, que nojo ! – A ruiva apontou o indicador para a boca como se estivesse forçando o vomito, antes de apontar para os garotos no palco. – O vocalista é , o guitarrista, o baixista e o baterista. Por deus, ! Você não consegue nem reconhecer seu próprio crush?
– Aquele é ? Nossa...
A herdeira murmurou um tanto impressionada levando seu olhar para o loiro que a fitava com tanta curiosidade que fez com que a mocinha devolvesse a bela encarada com um sorriso ladino, sorriso este que tornou a troca de olhares entre ambos um tipo e competição para ver quem sustentava por mais tempo o olhar do outro.
– Por Deus! Você tá olhando pra ele como se ele fosse um pedaço de carne. – Alexia finalmente se pronunciou tomando a atenção da herdeira que balançou a cabeça e contorceu seu rosto em uma careta, visivelmente ofendida.
– Sempre tão exagerada! Eles mudaram, só estou impressionada com o fato.
deu de ombros enquanto seguia seu caminho em direção à primeira barraca, que sabia ter algo alcoólico para acalmar os nervos com o fato de rever os melhores amigos. Parou na barraca de sua avó que se encontrava no caixa junto com a ruiva ao seu lado.
– Mama, uma cerveja e três shots de tequila, por favor. – Disse, retirando a carteira de dentro do bolso da jaqueta e abrindo a mesma, colocando duas notas de dez libras nos balcão. – O que vai querer? – Disse, virando-se para a ruiva que sorria presunçosa.
– Same.
Rosa assentiu pegando as notas colocando-as na caixa onde outras notas se encontravam. Levantou-se e foi até a prateleira com diversos tipos de bebidas diferentes pegando a garrafa com liquido amarelado que se encontrava pela metade junto de seis copinhos de shot, colocou os copinhos na bancada e os encheu até o topo, deixou a garrafa ao lado dos copinhos e buscou pela saleira junto de algumas fatias de limão já cortadas, estendendo-as para as duas mulheres à sua frente.
– Você precisa criar bolas, .
– Ainda tenho mais que você, medrosa.
sorriu ao levar sua mão próxima à boca e passar a língua pelo peito de sua mão, depositando uma quantidade considerável de sal no local ainda úmido e balançou a cabeça para a melhor amiga ao ver que a mocinha havia feito o mesmo. Tiveram uma rápida troca de olhares antes da herdeira lamber o sal de sua mão e virar o três copinhos de tequila que a pertenciam, sentindo o queimar do liquido descer por sua garganta e aquecer seu corpo por inteiro, por fim levou sua mão até a bandeja onde as fatias de limão estavam, pegou uma e mordeu, fazendo uma careta com o gosto azedo que invadiu sua boca.
– Boa, garota!
ergueu a mão em um high-five com a ruiva que gargalhou batendo na mão da morena, balançando a cabeça negativamente. Sorriu em agradecimento para Rosa que apenas assentiu com a cabeça enquanto pegava as duas long neck e entregava uma delas para a ruiva a sua frente. Levou a garrafa até a barra de sua camisa e colocou o gargalo por baixo do tecido para que conseguisse desrosquear a tampa metálica e assim que o fez, levou o gargalo até os lábios tomando uma boa quantidade do liquido espumante.
– Por que não me surpreendo de você estar aqui?
virou-se um tanto assustada na direção de onde a voz havia saído e deparou-se com uma cena que fez seu coração bater tão alto que a mocinha podia jurar conseguir escutá-lo em meio a tanta barulheira que o local apresentava. Fitou os olhos azuis do loiro que possuía um sorriso aberto com dentes perfeitos juntos de um piercing no canto do lábio. Mordeu seu lábio inferior ao observar o quanto o melhor amigo havia mudado, não mais era uma criança com os cabelos jogados em uma franja que a herdeira costumava achar ridícula. Agora possuía os cabelos levemente ondulados e um tanto desarrumados, uma barba por fazer que apresentava algumas falhas, ombros largos e por deus, pensou, estava bem mais alto que a mocinha.
– Não posso mais beber com uma velha amiga, ? – A ruiva sorriu um tanto presunçosa, passando o braço livre pelo pescoço de .
, controle sua garota. – sorriu curvando-se para ficar na altura da menina. – Ou eu posso acabar cravando minhas presas nela por acidente.
– Ninguém vai cravar nada na minha namorada, mostre um pouco de respeito. – se pronunciou, postando-se ao lado da namorada com a destra na cintura da ruiva antes que começassem a rir.
– Namorada, huh? – A herdeira fitou o rosto da ruiva com o cenho franzido como se quem cobrasse explicações, a ruiva apenas balançou a cabeça.
– O que posso dizer? tem seus charmes. – Alex sorriu tocando a ponta do nariz do namorado que fez contorceu o rosto em uma careta.
– Então, vai nos apresentar sua amiga ou...?
suspirou um tanto entediado e ao encarar finalmente os olhos azuis elétricos da moça que sorria abertamente em sua direção assumiu uma expressão que misturava terror e confusão. A herdeira deixou que o sorriso se transformasse lentamente em um sorriso ladino carregado de malicia, que fez com que o moreno tivesse certeza de que a garota parada em sua frente era mesmo .
– Puta merda...
O rapaz xingou um tanto alto fazendo com que todos os olhares se voltassem em sua direção, incluindo o de reprovação da mais velha que basicamente implorou com os olhos para que ele não dissesse mais nada. O rapaz apenas engoliu em seco antes de abrir um belo sorriso.
– Eu ainda estou estático pelo show, nada demais, galera!
– Efeito Retardado. – Clifford murmurou rolando os olhos enquanto voltava seu olhar para a ruiva, esperando que a mesma finalmente apresentasse a moça ao seu lado.
– Quer fazer as honras de se apresentar? Não quero passar pelo drama. – Alexia mostrou com a língua para a herdeira que rolou os olhos e mandou o dedo do meio para a melhor amiga.
– Você é uma fodida, Alexia, a pior herdeira que os Wright poderiam ter.
– Nada novo sob este solo, meu anjo.
– E então...
incentivou a morena fazendo com que a moça voltasse a levar a garrafa de cerveja até os lábios mais uma vez antes de finalmente começar a falar. Rosa, que estava do outro lado do balcão, observava tudo tão atentamente que não pôde deixar que um sorriso satisfeito brincasse em seus lábios ao notar que a neta estava nervosa ao ponto de discretamente tremer e tossiu um tanto forçada, recebendo um olhar de raivoso da herdeira.
, querida! Vai ficar parada como uma estátua por quanto tempo antes de finalmente contar aos seus amigos que está de volta?
A anciã sorriu ao receber os olhares incrédulos dos quatro rapazes e apenas levou a caneca de vidro que estava em sua mão aos lábios, bebendo uma boa quantidade da cerveja que estava dentro do mesmo e retirando-se de perto dos jovens como se não tivesse dito nada demais. engoliu em seco se preparando para ser o centro das atenções e apenas deixou que um sorriso amarelo brincasse em seus lábios antes de finalmente se pronunciar.
– SURPRESA!! – A herdeira gritou com plenos pulmões erguendo os braços para o alto em meio aos olhares dos melhores amigos que a olhavam como se a menina fosse um fantasma.
– Mas que porra de brincadeira é essa, Alexia? – murmurou com uma das sobrancelhas arqueadas para a ruiva. – Muito original, se quer saber! Conseguiu até mesmo a Rosa pra te apoiar nessa merda.
– Pegou pesado dessa vez, Ruivinha. – murmurou para a namorada um tanto triste, o que fez rolar os olhos e respirar fundo milhares de vezes antes de começar a falar.
– Chamem minha avó e minha melhor amiga de mentirosas mais uma vez e eu juro que transformo vocês três em sapos pelo resto da vida. – A herdeira sorriu um tanto travessa na direção do loiro que a olhava incrédulo. – Agora parem de me olhar como se eu fosse alguma porra de fantasma e me abracem porque eu não fiquei dez anos fora pra receber caras de merda quando volto.
– Existe alguma dúvida que essa é realmente ?
sorriu de orelha a orelha finalmente andando em direção a herdeira, passou os braços por volta da cintura da mocinha abraçando-a com força antes de tirá-la do chão e a girar em seus braços, assim como faziam quando crianças. gargalhou um tanto alto antes de retribuir o abraço do melhor amigo e aproveitar cada pedacinho do rapaz.
– Puta merda eu senti tanto sua falta, baixinha. – fechou os olhos escondendo seu rosto na curva o pescoço do bruxo e respirou com força o perfume amadeirado do australiano, que ainda a apertava com certa força.
– Eu também senti a sua falta, você não tem nem ideia do quanto.
A mocinha murmurou baixinho, quase soando como um pigarro e se desvencilhou dos braços do rapaz, levando seu olhar até o jovem de cabelos vermelhos que ainda se encontrava incrédulo e um tanto confuso com a recente descoberta.
– Hey, Gordon! Espero que tenha sentido minha falta da mesma maneira que senti a sua.
deixou que um sorriso brincalhão tomasse conta de seus lábios, antes de finalmente jogar-se contra o rapaz e enlaçar seus braços acima do pescoço do rapaz. Notou que haviam lágrimas nos olhos do rapaz e por um breve momento, um flashback das vezes em que a mocinha teve que cuidar dos ferimentos de passou por sua cabeça. Tantas lembranças que ao menos podia listar qual sentia mais falta sem que seus olhos se enchessem de lágrimas.
– Sua idiota irresponsável! Nunca mais faça uma merda dessas de novo, okay? Nunca mais! – soltou a mocinha deixando que as lágrimas finalmente caíssem por suas bochechas, a herdeira apenas assentiu e levou suas mãos até as bochechas do rapaz, limpando as lágrimas que caiam por ali.
– Eu não planejo fazer isso de novo. – A morena sorriu levemente virando-se na direção de que ainda se encontrava atônito diante da mocinha, haviam passado por mais coisas do que conseguia contar e em todas as vezes em que precisou de alguém, estava lá. – Lobinho, eu espero que você não tenha se livrado do colar que eu te dei.
– Eu não me livrei.
sorriu mostrando o colar que agora havia se tornado uma pulseirinha delicada com as fases da lua, algo que tinha feito logo após a primeira transformação do rapaz no celeiro dos e que fazia par com uma pulseira que a menina também havia feito pra ela, sendo o pingente da menor um lobo uivando.
– Você nunca vai estar sozinho, enquanto usar isso eu sempre vou te achar. – Repetiram em uníssono antes da mocinha abraçar o rapaz e apoiar sua cabeça no ombro do garoto, que passou seus braços ao redor das costas da herdeira com certa força.
– Isso aqui tá ficando sentimental demais, eu vou começar a chorar.
Alexia murmurou, limpando uma lágrima solitária que desceu por sua bochecha assim que soltou o melhor amigo. A morena virou-se em direção ao loiro que observava tudo atentamente com uma expressão que a mulher não conseguiu identificar ao certo, deu alguns passos em direção ao rapaz e fitou os olhos azuis notando as lágrimas que se acumulavam ali.
– Sabe que se você chorar eu choro também, não sabe?
– Eu tô pouco me fodendo pra isso, Ursinha.
O loiro murmurou ao puxar a mais velha dos contra seu peito e enlaçar seus braços ao redor da mesma, escondendo seu rosto na curva do pescoço no momento em que as lágrimas começaram a cair por seus olhos, molhando a manga da jaqueta da herdeira enquanto a mocinha levava suas mãos até os cabelos do loiro e os afagava delicadamente finalmente deixando que as lágrimas caíssem por seus olhos, sujando a camisa branca do rapaz com suas lágrimas.
– Porra, , você tem noção de como eu fiquei quando você se foi? Eu achei que nunca mais ia te ver, merda. – O vampiro sussurrou em meio aos soluços que fizeram com que a mocinha apenas assentisse positivamente com o cabeça.
– Eu sei, , eu sei.
fechou os olhos com força e apertou o rapaz com um pouco mais de força contra seu corpo antes de finalmente o soltar. Levou sua destra até a bochecha do garoto, que agora tinha os olhos vermelhos devido as lágrimas que agora caiam incessantemente, acariciando levemente ante de ficar na ponta dos pés e depositar um beijinho na testa do loiro.
– Eu prometo nunca mais te deixar.
Deixou que um sorriso de canto brincasse em seus lábios se sentindo finalmente livre de todo o sofrimento que havia passado durante os onze anos longe de sua família e amigos, ansiosa para a tão esperada paz de espirito que procurou durante todos esses anos.
Pelo menos, era o que a herdeira achava.


Capítulo 3: Queda Livre

“Let’s dive into this hole together, like this
And hope we never come out
(Vamos mergulhar nesse buraco juntos, desse jeito
E torcer para nunca mais sairmos.)”

– Hanging, Nothing But Thieves.


Se perguntasse para quais foram seus maiores motivos de alegria durante os anos, ela responderia sem hesitar que o reencontro com os irmãos e os melhores amigos foram os motivos. Durante anos sonhou por este momento e ver bem na sua frente as pessoas que fizeram parte da sua infância nunca foi tão reconfortante.
Sentou-se em um tronco de madeira afastado da festa que já acontecia há algum tempo para descansar seus pés enquanto e sentavam-se ao seu lado, tentando a todo o custo tirar um pouquinho de informação sobre o que havia acontecido para que a herdeira ficasse por tanto tempo fora e sem dar o menor sinal de vida que fosse.
A mais velha contou detalhe por detalhe de sua incansável jornada até o momento em que botou os pés em Irish Lake novamente, omitindo alguns detalhes como o fato de ter vendido sua alma para o tinhoso e suas mais diversas variações de nomes, o fato de ter viajado para diversos países durante seus anos fora e alguns outros detalhes sobre os relacionamentos que não foram bem sucedidos, mas deixou claro como estava animada para a chegada dos irmãos dali dois dias na cidadezinha.
– Então quer dizer que você finalmente os achou? – sorriu com um brilho no olhar que fez o coração de se aquecer até mesmo nos lugares mais sombrios de seu peito, o licantropo tinha um dom de deixar a garota mais leve nos mais variados momentos.
– Sim, Lobinho.
assentiu, bagunçado os cabelos de que se encontravam presos por uma bandana preta com alguns detalhes brancos. Pegou uma cerveja do saco de gelo que estava logo a sua frente, colocado a tampa embaixo da blusa a retirando com rapidez, levou o gargalo da long neck até seus lábios e tomou um longo gole da cerveja gelada.
– Mas e vocês? Agora que contei tudo o que fiz durante esses anos, suponho que vocês devem fazer o mesmo.
Sorriu um tanto convencida como um incentivo para que os rapazes começassem a atualizar a garota diante dos fatos que haviam acontecido durante o tempo em que a mulher estava desaparecida, levando o gargalo da long neck mais uma vez até os lábios.
– Nossas vidas nem de longe foram tão interessantes quanto a sua. Na real, acho que a falta dos foi o que tornou nossos dias tão monótonos. – sorriu de orelha a orelha, fitando as orbes azuis da mocinha sentada à sua frente detalhadamente, notando a pupila extremamente dilatada pela falta de luz do local onde estavam.
– Eu sou a cereja do bolo, . – A herdeira mandou uma piscadela em direção ao loiro, que rolou os olhos, dando de ombros logo em seguida.
– É nojento ver seus melhores amigos flertando, sabia? Ew. – Alexia se pronunciou, fazendo com que a mais velha dos fizesse uma careta antes de levantar o dedo do meio para a ruiva, que ria descontrolada.
– Muito bom, Wright, muito bom. – rolou os olhos, deixando a garrafa vazia de cerveja ao lado e se levantando do tronco em que estava sentada. – Se não se importarem, eu vou dar uma volta por aí, quem sabe achar algo pra comer.
A herdeira sorriu levemente ao dar a volta no saco de gelo que que estava em sua frente. Retirou a carteira de cigarros do bolso, levando um dos tubinhos até os lábios e guardando a cartela no lugar de origem em seguida. Pegou o isqueiro metálico retangular, abrindo a tampa do mesmo, aproximando o cigarro da chama que dali saia. Fechou a tampa do isqueiro e deu uma longa tragada, recostando-se em uma árvore qualquer, fechando os olhos ao sentir o efeito relaxante da nicotina percorrer por sua corrente sanguínea. Já que iria para o inferno de qualquer maneira, era melhor fazer direito.
– Sabe que sempre foi péssimo em tentar me assustar, não sabe? – A herdeira murmurou para ninguém em especial, enquanto fitava a noite estrelada em meio as copas das árvores que a cercavam, deixando que a fumaça do cigarro saísse por seus lábios e se esvaísse na noite fria de Irish Lake.
– Não que sua capacidade de mentir tenha melhorado muito também. – O loiro sorriu, saindo de trás de uma das árvores com um copo de milk-shake em mãos, levando o canudo até os lábios vez ou outra, fitando o céu estrelado acima de si.
– Um à zero pra você. – murmurou com um riso baixo, levando o cigarro até os lábios, dando uma longa tragada e segurando a fumaça em seus pulmões por alguns segundos antes de soltá-la pelos lábios. – O que é isso? – Apontou com o queixo para o copo que o mais alto tinha em mãos, abraçando seu próprio corpo devido à falta de um casaco mais quente do que a jaqueta de couro que usava naquele momento.
– Isso? Vamos dizer que é o resultado de um acidente. – O rapaz sorriu, tomando mais um gole do liquido viscoso que estava dentro do copo, deixando um pequeno tom avermelhado em seus lábios antes de passar a língua por entre os lábios, gesto esse que admirou com mais atenção do que deveria.
– Um acidente, huh? O tipo de acidente que envolve presas e mordidas em partes diversas do corpo? – sorriu um tanto divertida rolando os olhos ao pegar o copo da mão do melhor amigo e tirar a tampa do mesmo, levando-o até próximo de seu nariz e cheirando o liquido ferroso.
– Heeey! Eu não arranco o cigarro da sua mão mesmo sabendo que você vai morrer por conta deles. – protestou com um falso tom ultrajado, o que retirou uma gargalhada sincera da mocinha que balançou a cabeça negativamente.
– Acredite, essa é a última coisa que vai me matar. – A garota sorriu divertida, tampando o copo e o devolvendo para o garoto ao seu lado. – Posso pelo menos saber como se tornou um sanguessuga ambulante?
– Longa história, Ursinha. murmurou, tomando o último gole de sangue que restava dentro do copo, jogando o mesmo longe assim que terminou. – Mas que tal começarmos com o que você fez pra ficar assim?
O loiro disse com tanta naturalidade que precisou de alguns segundos para processar o que havia acabado de escutar, levou seu olhar até o garoto tentando achar algum resquício de brincadeira em seu rosto. Grunhiu frustrada ao perceber que não havia nenhum.
– Sem ofensas, , você cheira à morte. Não estou dizendo isso como se fosse algo ruim, até porque meu cheiro se iguala, mas também tem o bônus de que em três vitrines que você passou, as três refletiram algo que não era muito bonito de se ver.
a fitou um tanto apreensivo, deveria saber que algo estava errado assim que a mulher voltou para a sua vida muito diferente do que antes costumava ser. Os cabelos uma vez loiros agora assumiam uma coloração tão negra quanto a noite e os olhos azuis elétricos uma vez brilhantes possuíam um tom opaco de azul que fazia com que desejasse agarrar a mulher ao seu lado e abraça-la como das diversas vezes que ela havia feito com ele.
– Isso é bem mais complicado do que parece, Drácula. – A bruxinha bufou ao ver rolar os olhos com o apelido que a garota havia acabado de adotar. – Mas podemos conversar sobre isso, só não hoje.
assentiu com a cabeça, franzindo o cenho ao notar que a mocinha abraçava o próprio corpo com os braços devido ao frio que havia se instalado em Irish Lake de uma hora para a outra. O loiro tirou a jaqueta preta que usava, colocando-a sobre os ombros da herdeira, que sorriu levemente em sinal de agradecimento.
– Não sou tão quente quanto já fui há anos atrás, mas acho que serve.
O loiro sorriu quando viu que a garota colocava os braços pelas mangas da jaqueta, fechando o zíper da mesma. passou um dos braços pelos ombros agora cobertos pela jaqueta da amiga, andado lado a lado com a herdeira que tagarelava sobre algo que chamara sua atenção durante as primeiras horas de volta à cidade.
– Então, aprendi muitas coisas durante os anos fora. – se gabou enquanto passava o braço por trás das costas do mais alto e fazia uma pequena careta devido a temperatura baixa em que o corpo do loiro se encontrava. – Deus, você se tornou um cadáver mesmo.
– Pelo menos sou um cadáver sexy diferente de alguns de nós, não é mesmo, ? – O vampiro mandou um beijo para a bruxa que apenas rolou os olhos e sorriu diante da ofensa do homem.
– Não se esqueça que eu ainda sou mais velha que você, seu babaca.
– Agora eu sou um imortal, não se esqueça disso, Ursinha. Aliás, já sabe onde vai passar a noite?
– Na minha casa, talvez...?
apenas assentiu antes de escutar algo quebrando a poucos metros de onde ambos se encontravam e antes que pudesse fazer qualquer coisa, empurrou a herdeira contra a árvore mais próxima, olhou em direção à colocando o indicador encostado nos lábios da morena, fazendo com que a garota ficasse em silêncio e parasse de andar com uma expressão um tanto confusa em seu rosto.
– Fique atrás de mim, não grite ou fale até eu dizer que é seguro, ok?
O loiro sussurrou próximo ao ouvido da mais velha, fazendo com que ela se arrepiasse por completo e assumisse um estado de alerta ao voltar a andar atrás da muralha que ela carinhosamente chamava de melhor amigo. Gesticulou com ambas as mãos e deixou que um sorriso de canto tomasse conta de seus lábios ao ver a pequena esfera elétrica que se formava em uma de suas mãos.
– Ei, cuzões! Wow, sou só eu.
Alexia gritou levantando ambas as mãos, notando a pequena esfera luminosa na mão de que ao perceber a ruiva, apenas rolou os olhos fechando sua mão, o que fez com que a pequena esfera se desfizesse no ar.
– Que merda você tinha na cabeça em apenas vir até aqui na ponta dos pés? Eu poderia ter eletrocutado você. – A herdeira saiu de trás do loiro com uma carranca não muito amigável.
– Eu não queria estragar o clima entre vocês, dear. – A ruiva sorriu um tanto sacana fazendo com que a melhor amiga apenas rolasse os olhos com a suposição balançando a cabeça.
– Não existe clima, Alex. - Balançou a cabeça um tanto apreensiva com a suposição e colocou ambas as mãos no bolso da jaqueta que havia voluntariamente a emprestado.
– Que seja! Eu e os meninos vamos para a festa na pedreira, vocês vão querer ir junto?
A ruiva sorriu um tanto animada enquanto esperava pela resposta dos melhores amigos. As festas na pedreira eram um ritual que aconteciam todos os anos marcando o começo e o fim das aulas da Universidade de Irish Lake, onde todos os jovens moradores da cidade sendo sobrenaturais ou humanos se juntavam para encher a cara por uma última noite antes de finalmente voltarem para suas rotinas. Eram um clássico na cidade e lembrava-se de reclamar para o pai por não poder ir a elas por conta da pouca idade.
– Tô dentro. – Sorriu um tanto animada com a ideia, levando o olhar até o melhor amigo que apenas deu de ombros concordando com a herdeira.
– Yey! Os herdeiros mais quentes de Irish Lake retornaram para o seu devido posto e a gente mal pode esperar para esfregar na cara dos Lawrenceeeee!
A ruiva fez uma dancinha que não conseguiu evitar rir ao se lembrar do ódio puro e genuíno que as amigas tinham pelos herdeiros Lawrence. Tudo começou com um pequeno bullying vindos de Josh e Christopher Lawrence, quando acharam conveniente destratar os herdeiros por serem bastardos de um herdeiro da elite com uma humana de uma família que não fazia parte de nenhuma das famílias fundadoras, os irmãos só não contavam que a mais velha dos tinha amigos e que esses amigos iriam fazer de suas vidas um completo inferno.
balançou a cabeça se livrando de seus devaneios enquanto voltavam para o lugar em que estavam anteriormente seus amigos, que agora conversavam animadamente sobre jogos e músicas dos próximos shows na cidade antes de se juntarem para dividir com quem cada um dos jovens iriam.
vai comigo e isso não está aberto para discussões. – O vampiro apenas se pronunciou colocando o braço por volta do ombro da melhor amiga, zoando a altura da mocinha que um dia já fora mais alta que ele e tomando uma leve cotovelada em sua costela. – Ouch! Parece que alguém não gosta muito de ter sua altura como alvo de brincadeiras.
– Nah, eu só achei conveniente te bater mesmo. – A morena sorriu um tanto sarcástica antes de rir levemente.
– Okay, então eu vou junto com o casal. – sorriu parando ao lado de , passando um dos braços pelo pescoço da mocinha assim como o vampiro havia feito minutos antes, o que fez com que fizesse uma careta devido a diferença de altura perto dos amigos.
– Okay, então vamos e Mikey no meu carro.
A ruiva deu de ombros enquanto cada um dos jovens seguiam por diferentes direções até seus devidos veículos. levantou uma de suas sobrancelhas ao notar a bela Land Rover preta estacionada próxima a entrada estrada de terra em meio a floresta que dava em direção a pedreira, ao redor do grande lago de Irish Lake e apenas balançou a cabeça. Seu melhor amigo havia virado um belo de um burguês safado, pensou ao se desvencilhar do rapaz e esperar que o mesmo desativasse o alarme do carro. Assim que o fez, abriu a porta e observou o interior forrado em couro preto e assim que adentrou o carro, notou que o interior do automóvel trazia o cheiro amadeirado do perfume de .
– Obrigada. – Sorriu em agradecimento ao estender a jaqueta e couro para o rapaz que ergueu uma das sobrancelhas apenas ignorando a garota que rolou os olhos e deixou a jaqueta em seu colo, colocando o cinto de segurança e olhando com atenção a estrada que levava até a pedreira.
– Relaxa, eu tenho outra no porta malas. - Murmurou enquanto prestava atenção no caminho, fazendo com que apenas assentisse com a cabeça positivamente.
– Então, , como vão os namoradinhos? - sorriu apoiando-se no banco da garota que virou-se em direção ao bruxo.
– Não é como se eu tivesse muito tempo pra isso durante os anos que estive fora. – Deu de ombros enquanto revezava entre olhar para o moreno e o loiro ao volante. – Quero dizer, tive alguns casos de uma noite durante os anos, mas nada muito sério.
– Deve ter sido bem chato. – gargalhou enquanto parava o carro em meio as árvores e os três desciam de dentro do mesmo, andando em direção ao penhasco em volta da pedreira.
– Depende do ponto de vista, se você gosta de uma experiência sexual diferenciada durante horas as coisas passam a ficar cada vez mais interessantes.
– É nojento imaginar sua melhor amiga transando, sabe disso, né? – fez uma careta ao ouvir a garota gargalhar.
– É nojento imaginar seu melhor amigo fodendo com vampiras, sabe disso, né?
imitou o loiro com um sotaque australiano um tanto forçado antes de sair de dentro do carro com ambos os garotos, andando até a beira do penhasco, vendo as luzes e a enorme fogueira abaixo deles enquanto uma música eletrônica extremamente alta tocava ali, fazendo alguns jovens dançarem em volta da paisagem coberta com um leve nevoeiro vindo do grande lago. Virou-se de costas e deixou que um sorriso enviesado tomasse conta de seus lábios, fitando os melhores amigos.
– Nos vemos lá embaixo.
A herdeira mandou um beijo para o vampiro e abriu os braços jogando-se do penhasco com tanta leveza que jurou conseguir ver a cena em câmera lenta a medida em que os fios de cabelo de cabelos tão negros quanto a noite iam batendo no rosto pálido da garota.
Sorriu abertamente fazendo com que os olhos uma vez azuis elétricos assumissem uma tonalidade inteiramente negra enquanto sentia o poder correr por suas veias. Virou-se em direção ao chão e gesticulou com ambas as mãos apenas o suficiente para que o baque fosse amenizado quando pousou na terra macia, dobrando seus joelhos o suficiente para que não se desequilibrasse, enquanto levava seu olhar até onde os melhores amigos haviam acabado de cair. Sorriu limpando as mãos que se encontravam sujas de poeira antes de passá-las pelo cabelo afim de retirá-los do interior de sua própria jaqueta, rolando os olhos ao notar que realmente tinha outra jaqueta em algum lugar de seu carro.
Franziu o cenho ao notar boa parte dos herdeiros andando de um lado para o outro com suas bebidas em mãos, procurou por Alex em meio a multidão de pessoas e sorriu ao encontrar os cabelos vermelhos de gritando em meio á uma pequena rodinha de jovens que revezavam uma garrafa entre si.
Levou suas mãos até os bolsos da jaqueta e andou até o aglomerado de pessoas com e ao seu lado, o que fez com que uma boa parte das pessoas ali se virassem para olhar quem era a garota nova andando entre o grupinho exigente de Irish Lake. Malditos curiosos, pensou a herdeira antes de parar ao lado de Alexia.
— Olha só quem resolveu dar o ar da graça. – A ruiva murmurou, enquanto gesticulava com a mão para fazer com que o líquido dentro da garrafa caísse em seu copo. deu de ombros antes de estalar os dedos e fazer com que um dos copos vermelhos aparecesse em sua mão, virando o copo para o lado o suficiente para que sua melhor amiga o enchesse.
— Obrigada. – Deixou um sorriso de canto brincasse em seus lábios, antes de sentir um braço passar por seus ombros e um perfume pouco familiar invadir suas narinas. – Mas que porra...?
E aí, gatinha. – O dono do perfume resolveu se pronunciar bem próximo do rosto da morena, a fazendo rolar os olhos com o bafo de álcool batendo em seu rosto.
— Isso vai ser ótimo. – murmurou apenas levando o copo de vodka até os lábios, observando com atenção a cena que aos poucos ia se desenrolando. – Não se atreva a se intrometer. – Esticou seu braço em direção a , impedindo que o homem se movesse em direção a herdeira.
, acho que você deve conhecer Josh Lawrence. – Alex rolou os olhos, levando o copo até os lábios.
— É, isso explica o porquê dele não ter a mínima vergonha na cara. – Fez uma careta, segurando o braço do homem e o tirando de cima de seus ombros. – Vaza de perto de mim.
— Quem diria que a garotinha sem pai voltaria pra Irish Lake, huh? Poderia jurar que seu destino e o de seus irmãos bastardos tinha sido o mesmo que o de seus pais. – Christopher Lawrence se juntou a rodinha, deixando um sorriso irônico tomar conta de seus lábios antes de se postar em lado do irmão, fazendo com que gargalhasse.
— Deve ser realmente horrível acordar todos os dias com a lembrança de que a órfã aqui chutou a sua bunda de todas as formas possíveis, né? – A herdeira se aproximou do herdeiro Lawrence, deixando seus lábios próximos de sua orelha. – Eu sempre vou ser melhor e mais poderosa que você, Lawrence, se acostume com isso. – Sussurrou deixando que um sorriso largo brincasse em seus lábios. – E, antes que eu me esqueça... – A herdeira parou ao lado de , estalando os dedos no exato momento em que todo o líquido do barril de cerveja se virasse contra os irmãos Lawrence, fazendo com que ambos ficassem encharcados. – Nunca mais se atreva a falar da minha família de novo.
Sorriu com todos os dentes antes de pegar a mão de e arrastá-lo para longe dos irmãos, que a amaldiçoavam com todos os nomes possíveis. Parou diante da fogueira e a observou com atenção, as chamas dançando conforme gradativamente queimavam as toras de madeira. Acabou lembrando-se das palavras que havia escutado em sua própria casa horas antes, “e as cinzas do que você conhece, tomarão os pulmões dos que você ama”, as palavras giravam na cabeça da herdeira feito um redemoinho, a deixando um tanto apreensiva.
— Terra chamando . – O loiro murmurou, chamando a atenção da melhor amiga que o olhou um tanto confusa. – Tá tudo bem?
— Hãn?! Ah, está sim, eu só estava viajando. – A mocinha murmurou, dando de ombros um tanto despreocupada antes de levar suas mãos até os cabelos do rapaz e bagunça-los um pouco mais.
— Ei, dois! – A mais velha dos Wright gritou, chamando a atenção de para a rodinha que eles haviam formado. - Pare de roubar minha melhor amiga, . Existem outras pessoas que querem aproveitar a presença dela.
— Não posso evitar ser o mais interessante de vocês. – o vampiro deu de ombros, sendo puxado para a roda de amigos pela ruiva.
Bite me, . – a ruiva rolou os olhos, tirando um riso divertido do rapaz.
— Se me pedir com jeitinho, posso pensar no caso. – sorriu, recebendo o dedo do meio de Alex em resposta. - Mas eu vou pegar algo pra beber. – ele sorriu, desvencilhando-se da garota e correndo em direção aos carros com bebidas.
Bedwetter. – murmurou, fazendo soltar uma gargalhada gostosa.- Sente a bunda ai e não saia antes de estar pelo menos um pouco alterada.
— Aye, sir. – respondeu, batendo em continência quando a melhor amiga entregou-lhe um copo de uma bebida que ela não pode muito bem identificar.
— Então, ... – o lobisomem sorriu e a herdeira sentiu os pelos de sua nuca se eriçarem, já imaginando que algo bom não sairia dali.- Você e , huh?
— Achei que tivesse sido a única a notar. – a ruiva encostou a cabeça no ombro do namorado, tomando um gole da bebida em seu copo.
— O que tem nós? – franziu cenho, tomando um gole da bebida misteriosa que a loba havia colocado em seu copo.
— Tá rolando um clima entre vocês dois. – murmurou, levantando seu olhar para a amiga. - E nem tenta falar que não.
— O jeito que você ficou encarando ele no show antes de falar com a gente deixou muito claro. – sorriu, recebendo um olhar reprovador da garota.
— Admite que tá querendo o garoto e a gente mexe os pauzinhos pra acontecer. – Alex sorriu, já visivelmente alterada.
— Ele é meu melhor amigo, pessoal. – suspirou, tomando mais um gole da bebida. - Acho que eu não sou bem a pessoa pela qual vocês deveriam estar falando isso.
— Claro que é. – sorriu. - é bem covarde e não iria admitir atração por você nem se a gente pagasse por isso.
— É só falar e nós mexemos os pauzinhos pra essa pegação acontecer. – empurrou levemente a herdeira, fazendo com que ela rolasse os olhos.
— Se eu disser que sim, vocês desistem de encher meu saco com isso?
— Não prometemos, mas podemos tentar. – Alex sorriu.
— Façam a mágica acontecer, então. – levantou as mãos em rendição, encarando a figura de entrar em seu campo de visão aos poucos.
Hottest Couple Of Irish Lake, digo com tranquilidade. – Alexia levantou, sentando-se ao lado da melhor amiga e a abraçando de lado. – Eu senti TANTO a sua falta, .
— Eu também senti a sua, Raposinha. – a morena deitou sua cabeça no ombro da loba, apertando-a em seu abraço. – Meus dias não são os mesmos sem a sua presença neles.
— Se isso ficar sentimental de novo, eu vou ser obrigado a sair daqui. – rolou os olhos, sentando no tronco ao lado dos rapazes.
— Todos aqui sabemos que você não vai deixar a sair da sua vista tão cedo. – o de cabelos avermelhados murmurou, tomando um gole de sua cerveja disfarçadamente.
— Tenho boas razões pra isso e algo me diz que é o que vocês deveriam estar fazendo também. – ralhou, apontando o dedo para os amigos.
— Eu até poderia concordar... – Ash pontuou, levantando o dedo em riste. - Mas não é uma criança e algo me diz que ela consegue se virar muito bem sem a gente.
— Vocês sabem que eu tô bem aqui, né? – a herdeira sorriu de canto, bagunçando os cabelos da ruiva ao seu lado. - E eu concordo com o Ash. – tomou mais um gole da bebida em seu copo. -Eu fiquei onze anos sozinha, consigo me virar bem sem meu cavaleiro das trevas.
— Olhem o quão fofo esse casal é! – gritou, levantando para sentar ao lado de e acariciar seu rosto. - Você é tão lindo, meu cavaleiro. – Hoje suspirou, deitando sua cabeça no ombro do vampiro no momento em que os amigos começaram a gargalhar.
— Se fode, . – rolou os olhos, dando o dedo do meio para o rapaz.
— Eu preciso fazer xixi. – Alexia levantou, deixando o copo ao seu lado. - Não suma, ok?
— Não vou. – sorriu, vendo a ruiva de afastar.
— Ei, quer dar uma volta? – murmurou, após tomar o lugar de Alex.
— É uma boa ideia. – ela se levantou. - Eu já volto, sim?
— Não se preocupem em ser rápidos.
sorriu travesso, recebendo uma revirada de olhos dos dois amigos como resposta, antes de saírem andando lado a lado pela margem do rio que se formou ao redor da enorme pedreira, observando cada detalhe do lugar que tanto gostava de vir nadar quando era mais nova junto com seus amigos. Lembrava-se das fogueiras com marshmallows junto com o pai e tios durante o verão em Irish Lake e apenas balançou a cabeça negativamente, sentia falta das lembranças e de quando tudo costumava ser mais simples.
— Lembra-se de como nós costumávamos nos divertir aqui? – A mocinha murmurou, olhando com atenção a areia que entrava em contato com seus coturnos. – Você era péssimo com transmutação.
— Nem todos conseguiram nascer com talento pra magia, ursinha. – O loiro sorriu, bagunçando os cabelos da bruxa, antes de pegar um galho que se encontrava no chão. – Mas eu melhorei muito.
— Eu duvido muito, mas se você diz... – Deu de ombros, rindo ao ver o rapaz rolar os olhos com tamanho insulto.
— É sério, tá vendo esse galho? – A mocinha assentiu positivamente com a cabeça. – Vou transformá-lo em uma rosa azul e preta.
— Você tá sendo detalhista demais, Drácula.
— Estou sendo detalhista porque você não vai poder dizer que foi fácil, então pare de reclamar.
A garota balançou a cabeça negativamente, enquanto observava com atenção o rapaz gesticular com a mão livre. Deixou um sorriso de canto brincar em seus lábios quando uma névoa avermelhada envolveu o galho, o transformando em uma linda rosa com pétalas tão azuis quanto seus olhos, acompanhadas de pequenos detalhes pretos nas pontas. A herdeira sorriu um tanto orgulhosa.
— Você está bem melhor, admito. – Levantou ambas as mãos em defesa, rindo fraco.
— Eu odeio dizer isso, mas eu avisei. – O rapaz gargalhou, estendendo a rosa transmutada para a herdeira. – Pra você, por todas as vezes em que esteve aqui por mim.
— Obrigada. – A mocinha sorriu, pegando a flor com ambas as mãos e abraçando o rapaz com força, antes de soltá-lo e guardar a rosa no bolso frontal da jaqueta. – Aproveitando o momento, o que tal me contar como virou um sanguessuga?
— Vai me contar o que aconteceu contigo?
— Precisava achar meus irmãos, tentei de tudo e nada funcionou. – murmurou, sentando na areia enquanto jogava uma pedrinha no rio. - Achei um livro quando estava em Salem e acabei fazendo um feitiço de sangue, o resto você já sabe. Sua vez.
— Os fins justificam os meios, huh? – o vampiro sorriu de canto, sentando ao lado da bruxa. - Eu saí com uma garota uns dois anos atrás, ela era uma garota bem parecida com você antes de toda essa mudança, inclusive. – ele sorriu de canto, encarando as águas calmas do rio enquanto brincava com um galho seco. - Ela estava faminta e acabou me mordendo, você sabe o que acontece depois disso.
— Ela morreu pelo encantamento de proteção e você acabou se transformando porque não morreu drenado. – ele assentiu, sentindo o olhar da herdeira queimando em cima de si. - Eu sinto muito, ...
— Sabe qual a pior parte disso? É que você consegue controlar o veneno. – ele suspirou, jogando um pedaço do graveto no rio. - Ela queria me transformar e conseguiu. – balançou a cabeça negativamente. - Eu sinto falta de ver e sentir o sol, acho que é coisa de australiano.
— Entendo o sentimento, não consigo olhar no espelho tem um bom tempo. – ela sorriu de canto, apoiando sua cabeça no ombro dele.- Vamos achar um jeito de você ver o sol de novo, sim? Eu vou falar com um bruxo que conheci no Brasil uns anos atrás, acho que ele tem algo pra isso.
— Agradeço mas é hora de sair daqui. – O rapaz apontou para o aglomerado de pessoas correndo em direção aos seus carros ao fim da pedreira, arrancando com velocidade e deixando as coisas para trás. – Vem, vamos sair daqui antes que sejamos pegos.
O loiro murmurou, levantando junto com e segurando a mão dela antes de saírem correndo em direção á floresta que cercava a pedreira, gargalhando ao ver pessoas indo direto para o caminho dos policiais. Parou abruptamente, fazendo com que a garota batesse em suas costas com certa força, virou-se para a garota e engoliu em seco ao sentir o cheiro de sangue que havia tomado conta de suas narinas. adentrou um pouco mais a floresta, sentindo o cheiro do líquido viscoso cada vez mais perto dele. Ele não tinha muitas certezas sobre o que havia acontecido, mas podia afirmar que seja lá o que fosse envolvia muito sangue. Muito mais do que gostaria que envolvesse.
O rapaz parou em frente ao corpo que desfalecia em seus últimos suspiros no chão. poderia reconhecer os fios ruivos de Alexia Wright em qualquer lugar, mesmo que naquele momento estivessem empapados de sangue assim como seu rosto. Seu mundo inteiro girava e o vampiro não conseguiu ouvir nada além da garota que o acompanhava gritar para que o ele fizesse algo para ajudá-la em algum lugar de sua mente. O mestiço ao menos conseguia sair do lugar, deu dois passos para trás notando que havia tirado a jaqueta, rasgando a manga longa da camisa social que usava em uma tentativa falha de estancar o sangue que saia do ferimento no pescoço de Alexia, uma vez que a ruiva se encontrava inteiramente mutilada.
– Não se atreva a morrer agora, Alex! Não se atreva a me abandonar justo agora que consegui voltar. LUKE, MERDA, FAZ ALGUMA COISA!
gritava tentando fazer com que o rapaz saísse do estado catatônico em que havia se enfiado assim que viu Alexia jogada no chão. A herdeira fechou os olhos, impedindo ao máximo que as lágrimas de desespero caíssem por seus olhos, estava tentando salvar a vida da amiga ao mesmo tempo em que tinha que lidar com a estátua ao seu lado, tinha que estar focada.
Se concentrou o máximo que pôde, respirando fundo várias vezes enquanto recitava um dos feitiços de cura que havia aprendido com Rick, um bruxo brasileiro que havia conhecido em uma de suas viagens para a América do Sul quando pesquisava novos feitiços para encontrar seus irmãos.
recitava o encantamento com um latim invejável, este que havia aperfeiçoado por anos antes de finalmente colocar em prática. Sentiu o ferimento começar a cicatrizar embaixo de seus dedos empapados por sangue pouco a pouco, o que a fez continuar recitando o feitiço. Se aliviou aos poucos quando escutou Alexia tossir quando o ar entrou por seus pulmões, segurando os braços de com força enquanto murmurava coisas sem sentido para os ouvidos da herdeira, até que a mocinha se aproximou um pouco mais, quase encostando seu ouvido nos lábios da ruiva em seus braços.
– Ele vai matar cada um de nós e vai transformar nosso lar em cinzas. Seu pai era só o começo...
A ruiva sussurrava com os olhos arregalados, com sua voz se tornando cada vez mais baixa até se reduzir a somente um gemido sôfrego e cair nos braços de sem vida, os olhos verde-esmeralda que antes eram acompanhados de um brilho infantil e cheio de vida, agora se encontrava opacos com a falta dela.
A herdeira levou os dedos ensanguentados até as pálpebras da mais nova em seus braços, fechou os olhos da mocinha com toda a calma, finalmente deixando que uma lágrima solitária escorresse por sua bochecha.
– Temos que tirar ela daqui, , Alexia merece ter um enterro digno. – Como se saísse de um transe, o loiro assentiu colocando a jaqueta que antes estava no chão sobre as costas de , que possuía uma expressão sombria em seu rosto. Passou seus braços por trás das pernas e pescoço do cadáver da ruiva, aninhando-o em seu colo antes de começar a andar em direção à cidade com a herdeira ao seu encalço.


Capítulo 4: A Queda dos Grandes

“Yeah I think that I might break
I've lost myself again and I feel unsafe.
(É, eu acho que eu poderia desmoronar
Me perdi de novo e me sinto insegura).”
– Breathe Me, Sia.

não gostava de enterros, principalmente quando estes envolviam pessoas que tiveram uma importância inimaginável em sua vida. Odiava ver pessoas chorando e odiava mais ainda os discursos que pessoas diziam em busca de reconfortar a família em luto.
Colocou os óculos escuros em seu rosto ao passar pelos portões do cemitério de Irish Lake, se sentindo mais sozinha do que gostaria, uma vez que deveria chegar mais tarde por conta da luz do sol que ainda não havia se escondido na linha do horizonte. Respirou fundo ao avistar uma quantidade razoável de pessoas em torno ao caixão de Alexia. Todas elas vestidas de preto dos pés à cabeça, assim como a herdeira, que usava um vestido preto um pouco abaixo do meio das coxas acompanhado de um kimono de renda longo de mesma cor e os inseparáveis coturnos.
Sentou-se em uma das últimas fileiras ao lado de , que carregava uma expressão perdida em seu rosto e os olhos vermelhos, como os de quem havia chorado por horas. E sabia que ele havia o feito.
– Por quê, ? Por quê ela? – O lobisomem murmurou deitando sua cabeça no peito da herdeira em meio à lágrimas, teve a plena certeza de ouvir seu coração quebrar com a culpa que havia corroído seu peito. – Eu terei que fazer um discurso, como o farei se ao menos consigo parar de chorar?
– Você não deve se privar do luto, wolfie... – A mocinha sussurrou, levando as mãos até o rosto de ton, fazendo com que o rapaz a olhasse. – Todos estão sofrendo, ninguém vai te julgar por demonstrar isso, anjo. – Ela sussurrou, depositando um beijo demorado na testa do amigo.
– Sobe comigo? – O rapaz suspirou, fazendo com que a morena sorrisse de canto ao afirmar com a cabeça.
Ao notar que o lugar já ficava lotado à medida em que o sol se punha e alguns membros da família Wright já realizavam seus discursos, não pode conter a vontade de procurar pelo dono das presas que fazia com que todo o nervosismo sumisse de seu corpo. Grunhiu desapontada ao perceber que o loiro ainda não havia aparecido no recinto.
Poucos minutos após Alexander Wright terminar seu discurso, ton se levantou ao lado da herdeira estendendo sua mão para que a mocinha pegasse. Assim que o fez, pôs se a marchar em direção ao palanque que ali haviam instalado. Parou em frente ao mesmo, arrumando o microfone para que ele ficasse em uma altura aceitável. Respirou fundo e olhou para a herdeira, que sorria de modo a incentivá-lo a continuar.
– Boa noite, eu acho... – Pigarreou ao se aproximar do microfone. Se afastou levemente para limpar a garganta antes de prosseguir com seu discurso. – Eu não sei ao certo o que dizer. Na verdade, acho que nenhuma das minhas palavras seriam o suficiente para confortar alguém, uma vez que elas ao menos me confortam. – notou que as lágrimas caiam insistentemente pelas bochechas do licantropo, que se apressava para limpá-las. – Me desculpem, acho que não consigo fazer isso.
O lobisomem murmurou e antes que pudesse sair de perto do palanque e correr, sentiu a mão quente de em seu ombro, passando um sentimento tranquilizador. A mocinha ficou na ponta dos pés, sussurrando algo ao pé do ouvido do rapaz, que deixou um sorriso leve brincar em seus lábios antes de dar espaço para que a mocinha ajustasse o microfone próximo ao seus lábios. Alexander Wright mandou um aceno com a cabeça para a morena incentivando-a, mesmo em meio aos burburinhos das pessoas que se perguntavam quem ela era. Tirou os óculos escuros, colocando-os no topo de sua cabeça, sorrindo ao notar encostado em uma árvore de longe.
– Boa noite, para os que não me conhecem, meu nome é . – A jovem sorriu de canto ao ouvir todos os comentários sobre o fato de ter voltado para a cidade anos depois de seu desaparecimento. – Como sou a herdeira dos , acredito que deva falar algumas palavras em relação à Alexia Sophie Wright, minha irmã de coração. – A herdeira levou seu olhar até Alexander que apenas assentiu. – Desde que me conheço por gente, os Wright sempre foram como uma segunda família pra mim, presentes até nos momentos mais inesperados. Me lembro perfeitamente das vezes em que Alexia e Carter tinham que aprender a se transformar e o celeiro dos fora sempre o lugar mais seguro para eles. Os Wright e os sempre tiveram essa ligação, uma ligação que nunca poderia ser quebrada. Me lembro das noites do pijama de quando éramos crianças, de como Alexia amava Jonathan, arrisco dizer que não havia amizade tão fiel quanto. Até o dia em que eu acordei muito longe daqui. Alexia sempre foi um exemplo de mulher: era forte, independente e não deixava que ninguém machucasse seus familiares e amigos. Acho que boa parte do que sou hoje foi baseada no que Alex foi. Hoje é um dia triste para todos porque ela se foi, mas sempre estará viva em nossos corações. Obrigada por me dar a honra de conhecer a mulher sensacional que você foi. Você sempre será a melhor amiga que eu tive a oportunidade de ter, é uma pena que nosso tempo juntas tenha sido tão escasso graças às brincadeiras do destino. Eu te amarei pra sempre, Raposinha, nunca se esqueça disso.
finalizou o discurso com lágrimas nos olhos, só notando que elas estavam ali no momento em que começaram a cair por sua bochecha. Virou-se para ton, que limpava as lágrimas dos olhos, e passou os braços por volta do pescoço do rapaz em um abraço apertado. Soltou o rapaz ao ouvi-lo murmurar um “obrigado”, apenas assentiu antes de sair o mais rápido que conseguiu do lugar onde dezenas de pessoas à olhavam como se fosse algum tipo de zumbi.
Continuou andando pelas lápides até estar longe o suficiente de onde Alexia estava sendo velada. Parou gradativamente ao notar uma lápide com alguns lírios brancos recém colocados, onde na pedra se encontravam gravados o nome de seu pai.
Robert Julian , 1965 – 2006 ✞, Amado amigo, pai e irmão. – A mocinha leu em voz baixa, passando a mão pela caixa de concreto antes de se sentar ali com as pernas cruzadas. – Você não deveria ter ido tão cedo, pai.
Murmurou sentindo todo o peso do mundo em suas costas. Pensava nas diversas semelhanças que envolviam os assassinatos de sua melhor amiga e o de seu pai. E se eu não fui a única a voltar para a minha cidade natal? Questionou-se, ao respirar fundo e passar a mão por seu rosto, limpando as lágrimas que insistiam em escorrer por sua bochecha.
Suspirou um tanto cansada pegando um dos lírios brancos recém colocados por cima do túmulo de seu pai e se perguntando quem os havia colocado ali, ao menos notando a presença dos melhores amigos.
— Você não deveria se torturar assim, . – Calum murmurou, fazendo com que a mulher desse um pequeno salto devido ao susto. – Eu não queria te assustar, perdão.
— Tudo bem, eu quem estava viajando. – Respirou fundo levando sua mão até as bochechas, limpando as lágrimas antes de sorrir de canto.
— Nós vamos até o Fox and The Hounds pra prestar as homenagens pra Alex e gostaríamos de te chamar pra ir também. – sorriu de lado, levando sua mão até o ombro da mocinha, o acariciando.
— Eu não estou no clima pra socializar agora, mas quem sabe eu dê uma passada mais tarde. – Deu de ombros, descendo de cima do túmulo de Robert e passando a mão por suas roupas, retirando a poeira que havia se instalado ali. – Obrigada pelo convite, de qualquer forma.
— Pensa com carinho, tá? Sua presença vai fazer diferença lá. – Cal sorriu de canto antes de puxar a menina para um abraço em grupo.
— Eu vou pensar, okay? De qualquer forma, prestem homenagens por mim.
Sorriu de canto, antes de abraçar o próprio corpo e sair andando o mais rápido possível em direção aos portões do cemitério. Respirou fundo ao sentir seu telefone vibrar no bolso de seu kimono, pegou o aparelho e deslizou o polegar pela tela antes de levá-lo até a orelha.
Posso saber onde a senhorita se meteu? Seu costume de sumir não é algo saudável, princesa.
— Achei que vampiros fossem tipo cachorrinhos, com um olfato aguçado e essas coisas. – Murmurou, passando pelos portões do cemitério e sentando-se no meio fio.
É evasivo quando a pessoa não quer ser encontrada, sabia?
— Vocês tem até código de ética? Interessante.
— Temos outras coisas também, se quer saber. – Sorriu, desligando o celular ao se sentar ao lado da bruxa e passar seu braço ao redor dela, que deitou sua cabeça no ombro do rapaz. – Como está lidando com isso?
— Da mesma forma que venho lidando com todas as adversidades que a vida me trouxe nos últimos doze anos. – Sorriu fraco, antes de balançar a cabeça negativamente e levantar-se. – E você sabe o que dói mais, Drácula? Saber que, não importa o quanto eu tente, eu nunca vou conseguir recuperar o tempo que perdi com ela. Nunca vou conseguir porque um filho da puta matou a minha melhor amiga da pior forma possível! – o encarou, sentindo seus olhos queimarem com o esforço de não deixar suas lagrimas caírem.
— Eu sei, anjo, eu sei. – murmurou, levantando-se e se aproximando da morena aos poucos.
— Não, , você não sabe! – A herdeira agora deixava as lágrimas rolarem por suas bochechas livremente, se permitindo ser vulnerável naquele momento. – Eu não tive uma infância comum, eu vi a porra do meu pai ser morto na minha frente, fui separada dos meus irmãos e da minha única família por onze anos. ONZE MALDITOS ANOS! E quando eu finalmente consigo voltar, minha melhor amiga morre nos meus braços!
gritou sentindo suas pernas fraquejarem e, sendo tomada pelo luto, apenas se deixou cair de joelhos diante do melhor amigo. se abaixou ao lado da bruxinha e passou seus braços por seu corpo, apertando-a contra seu peito enquanto afagava seus cabelos, sentindo suas lágrimas molharem a camisa social preta que ele usava no momento. Depositou um beijo no topo de sua cabeça, confortando-a de todos os modos possíveis e apenas a apertou com mais força contra si quando sentiu seu corpo ser envolvido pelos braços dela. poderia listar com facilidade todas as coisas que o deixavam com o coração partido e a maioria delas envolviam a mulher que agora chorava em seus braços.

, ele tá morto!
A pequena garotinha chorava incessantemente com o corpo de Socks, seu coelho de estimação, já sem vida em seu colo. a olhava um tanto apreensivo. O nariz e olhos vermelhos da garota devido às lágrimas causavam cortes profundos em seu coração, tão profundos que o jovenzinho temia que não cicatrizassem tão cedo. Odiava ver a melhor amiga chorando, ainda mais quando a mesma transparecia ter controle total sobre os seus sentimentos.
— Hey, não chora... – O loiro murmurou, abraçando a garota desajeitadamente, tentando de alguma forma consolá-la. – Socks não gostaria de te ver chorando desse jeito.
— Socks tá morto, ! – A garotinha murmurava ao se debulhar em lágrimas.
— E se ele estivesse vivo, não gostaria de te ver assim. – Soltou a garotinha e estendeu os braços, pegando o coelho morto assim que a mocinha o colocou em seus braços. – Nós vamos fazer um enterro digno pra ele, tá? Socks nunca vai ser esquecido.
— Tá bem, y.
A menina apenas assentiu com a cabeça enquanto seguia o melhor amigo até a árvore mais próxima e começavam a cavar a cova do companheiro fiel de por tantos anos.

— Ei, Ursinha. – sussurrou alto o suficiente para que apenas a herdeira conseguisse escutá-lo. – Vamos, eu vou te levar pra casa, não é seguro você andar até lá assim.
A herdeira assentiu antes de se levantar do chão e andar ao lado do vampiro até seu carro, que se encontrava há alguns metros de distância de onde ambos estavam. Esperou que ele desligasse o alarme antes de finalmente abrir a porta do carro e adentrar o mesmo, colocando o cinto de segurança e apoiando sua cabeça contra a janela do banco do carona, encolhendo-se no estofado de couro e se sentindo minúscula.
Observou com atenção as árvores passarem lentamente pela janela enquanto o rapaz prestava atenção no caminho que fazia até a conhecida mansão dos , palco de suas melhores memórias.
No banco do motorista, alternava entre olhar para a estrada e a mulher ao seu lado, que perdia-se dentro de uma pequena bolha infestada de tristeza e sofrimento. Respirou fundo ao desacelerar o carro a medida em que se aproximava do terreno da mansão, gesticulou com a destra para que o portão se abrisse e quando o fez, apenas atravessou e o fechou atrás de si, parando na frente da porta da mansão e desligando o carro, retirando as chaves da ignição.
— Obrigada por me deixar aqui. – Sorriu minimamente em agradecimento, antes de retirar o cinto de segurança e sair de dentro, fechando a porta atrás de si.
— Wow, wow, wow... – saltou de dentro do carro, fechando a porta antes de ativar o alarme novamente. – você realmente tá achando que eu vou te deixar sozinha no meio do mato nessa situação? – O loiro guardou as chaves dentro do bolso frontal da calça.
— Você não precisa se preocupar, consigo me virar. – assegurou, virando-se de costas e destrancando a porta da mansão antes de abri-la.
— Não é com isso que estou me preocupando. – Bufou um tanto revoltado, antes de adentrar a mansão dos e trancar a porta atrás de si com um pequeno gesto de mão.
— Sinta-se a vontade, então. – Deu de ombros, começando a subir as escadarias com o rapaz ao seu lado. – Você pode dormir no escritório do papai, lá não tem janelas e acredito que seja mais seguro pra sua condição atual.
— Uau, muito engraçada você, . – Respondeu com um tanto de sarcasmo.
— Eu só penso no melhor para o meu melhor amigo. – Deu de ombros, parando na frente de seu antigo quarto e adentrando o mesmo, parando na frente da mochila em cima da cama e retirando o notebook dali de dentro. – Eu vou tomar um banho, pode ficar aqui se quiser.
apenas assentiu, sentando-se na cama da mocinha assim que a mesma retirou-se do cômodo.
seguiu até a porta até o fim do corredor onde se encontrava seu antigo banheiro, adentrou o cômodo trancando a porta atrás de si e posicionou o notebook em cima da tampa da privada. Girou o registro da banheira com um pequeno gesto de mão e se despiu por completo, jogando as peças de roupa pelo chão antes de adentrar a banheira. Abriu a tampa do notebook e ligou o aparelho, entrando no aplicativo do Skype procurando pelo contato do seu parabatai, rezando para que o rapaz estivesse acordado naquele momento. Sorriu satisfeita quando viu a bolinha verde ao lado do nome “satans_hoe”, clicando para uma videoconferência rezando para que o rapaz a atendesse e, quando o fez, apenas encostou-se propriamente na banheira e desligou o registro.
Puta merda! Caralho, ! Você tem noção de que horas são aqui, sua maldita? – O brasileiro xingou ao tragar o seu cigarro e tomar um longo gole de café e não pode deixar de reparar que o rapaz havia mudado o cabelo.
É bom te ver de novo também, Rick. O cabelo branco lhe cai bem, a propósito. – A herdeira murmurou em um português não tão bom. – São só quatro horas de diferença e você está se empanturrando de café.
Seu português continua uma merda. – O sulista gargalhou quando a garota mandou o dedo do meio, dando mais uma tragada no cigarro. – Você parece que acabou de sair de um enterro, o que aconteceu, querida?
É porque eu realmente saí. – Jogou a cabeça para trás, fechando os olhos com força. – Coisas estão acontecendo e eu preciso de você aqui, Rick. Eu posso ser uma bruxa experiente mas eu não sei mais em quem confiar.
O que aconteceu, querida? Me dê um resumo enquanto eu vejo quando é o próximo vôo. – Rick murmurou enquanto fitava a tela do computador e digitava algumas coisas.
A porta se comunicou comigo e minha melhor amiga foi assassinada algumas horas depois, Rick. Da mesma forma que o meu pai. – Sussurrou a última parte mais baixo, mesmo sabendo que ninguém poderia entender o que ambos conversavam.
Okay, mais do que o suficiente, o próximo vôo é amanhã à noite. Você tem as coisas aí ou eu preciso levar? – O sulista sorriu com todos os dentes, escondendo a preocupação que sentia em relação à melhor amiga.
Nativas brasileiras são um problema aqui e a cachaça brasileira não é algo comum. – A jovem riu fraco ao ver a careta do rapaz.
É melhor você não esquecer de me buscar na estação.
Eu não vou. – Sorriu um tanto tranquila antes de se sentar na banheira com os joelhos encostados em seu peito.
E seus amigos, ainda vivem aí? Você não tem sido muito falante desde quando voltou. – O homem murmurou já em inglês. Arrumou-se na cadeira ao lado da janela, bebendo um último gole do café, antes de pegar um livro que soube identificar como sendo o seu grimório.
— Sim, eles vivem e o enterro que acabei de sair foi o de Alexia. – Sorriu fraco para a tela do computador quando viu a expressão de choque que se instalou no rosto do amigo.
Alexia, aquela Alexia? – Perguntou, cobrindo a boca aberta em um perfeito “o” com ambas as mãos. – Agora eu compreendo o porquê de você estar péssima assim. Meus pêsames, Bruxinha Rabuda. – A chamou pelo apelido em português, tirando dela pequena risadinha. – Você não está sozinha aí, está?
document.write(Luke) insistiu em ficar comigo aqui porque estava preocupado que eu tivesse um mental breakdown e resolvesse usar as facas daqui pra outros fins além de os de fazer comida.
Aquele ? O seu crushzinho de infância loiro dos olhos azuis, lindíssimo que você insiste até hoje em deixar na friendzone? fez uma careta ao escutar a última frase. – Não se atreva a mentir pra mim, . — Eu não o deixo na friendzone, estou totalmente aberta para experiências com ele. – ela riu fraco, rolando os olhos quando Rick gargalhou.
Você não tem o mínimo de decência, . O mínimo. – Ele bateu palmas enquanto gargalhava, fazendo com que a mulher apenas bufasse irritada. – Ao menos me diga, em uma escala de zero à dez, o quão gostoso ele está?
— Facilmente um onze...
, você tá viva? – O vampiro gritou do outro lado da porta, enquanto dava três batidas leves na superfície de madeira.
Falando no diabo... – Ricardo sorriu malicioso para a herdeira, que apenas deu com o dedo do meio para o rapaz.
— Eu tô viva, , não precisa se preocupar. – Gritou de dentro do banheiro, se esticando até o notebook.
Sexo de consolo é sempre uma boa ideia, dear. – Piscou com um dos olhos para a herdeira. – Não se esqueça de usar camisinhas, não queremos pequenos s e s correndo por aí, não ainda.
Tchau, Rick.
Sorriu gesticulando com a mão antes de desligar a videoconferência e fechar a tampa do notebook. Levantou-se da banheira, pegou a toalha ao lado do roupão e saiu da mesma, secando todo o corpo antes de finalmente colocar o roupão e enrolar a toalha em sua cabeça, em torno dos cabelos molhados. Gesticulou com a mão, retirando a rolha do ralo da banheira, vendo a água escorregar por ali até que não restasse mais nada. Parou na frente da pia do banheiro e retirou toda a maquiagem que restava em seu rosto. Escovou os dentes e retirou a toalha dos cabelos, penteando-os com a mão livre. Pendurou a toalha novamente no gancho da parede, pegando o notebook e destrancando a porta do banheiro se sentindo um pouco mais leve naquele dia.
Marchou em direção ao próprio quarto com uma calma que ela nem ao menos sabia que tinha até então e adentrou o quarto silenciosamente, observando o loiro que tinha o seu antigo grimório em mãos e sorria pra algo que a herdeira não pode identificar o que era.
— O que está vendo? – Sorriu de canto, repousando o notebook ao lado do criado mudo antes de andar até o vampiro.
— A última coisa que escrevi pra você, foi ridículo pra caralho. – Um riso nasalado escapou por seus lábios, fazendo com que a mocinha apenas balançasse a cabeça negativamente antes de ir até o closet e fechar a porta dele atrás de si.
— Talvez um pouco, mas bem pouquinho. Mas é valido se foi sincero.
Ligou a luz do closet e retirou o roupão, vestindo uma calcinha de cor preta com um top de mesma cor. Pegou um short jeans qualquer que estava em meio a suas roupas colocadas no closet com pouco cuidado e o vestiu, escolheu uma das diversas camisas de banda com mangas cortadas que tinha, passando por cima de sua cabeça antes de sair do closet.
— Eu estava sendo verdadeiro, mas poderia ter escrito coisas melhores do que as que escrevi. – murmurou, voltando o livro no lugar antes de sentar-se na cama da herdeira.
— Eu não mudaria nada do que disse. – Sorriu enquanto sentava-se ao lado do melhor amigo com ambas as pernas cruzadas. – Além do mais, acredito que tenha sido recíproco.
se permitiu sorrir verdadeiramente pela primeira vez naquele dia. Ajeitou-se na cama o suficiente para encostar suas costas na cabeceira da cama e fitou o teto branco de seu quarto, se perdendo em seus próprios pensamentos. observou a mocinha com atenção pela primeira vez desde que ela havia retornado a cidade, as bolsas negras embaixo de seus olhos davam a herdeira uma expressão de cansaço, como se não conhecesse uma boa noite de sono por anos, notou uma mancha preta em sua nuca, arqueando a sobrancelha com certa curiosidade.
— Hum... ? – a chamou, tirando-a de seus próprios devaneios. – O que é isso aí? -apontou pra mancha visível na nuca da mulher, que levou sua mão até a nuca e sorriu de canto.
— Isso? Foi algo que fiz tem alguns anos. – virou-se de costas para o rapaz, levantando a camisa o suficiente para que a tatuagem no meio de suas costas ficasse visível. – Três pássaros voando, um para cada membro da família que perdi. O branco é o meu pai. Acho que vou ter que adicionar mais um agora.
Soltou um riso nasalado antes de descer a camiseta, visivelmente inconformada com a sua realidade atual. Puxou o travesseiro e deitou sua cabeça ali, observando o vampiro fazer o mesmo ao deitar-se em sua frente, a observando.
Cansada demais para lutar contra o sono, apenas fechou os olhos e abraçou o melhor amigo, como se isso fosse fazer com que todos os problemas que haviam acontecido na última noite pudessem sumir repentinamente. O vampiro apenas deixou que um sorriso de canto se formasse em seus lábios, abraçando a mocinha e acariciando seus cabelos até que ela caísse no sono.


Capítulo 5: Beijos e Reencontros.

“Do you walk in the valley of kings?
Do you walk in the shadow of men
Who sold their lives to a dream?

(Você caminha no vale dos reis?
Você caminha à sombra dos homens
Que venderam suas almas por um sonho?).”
Glitter & Gold, Barns Courtney.

A luz entrava pelas janelas de , esquentando seu rosto com uma lambida morna dos raios solares, aos poucos se escondendo atrás das nuvens. A bruxa estava um caco, todo o seu corpo doía refletindo o estado de caos que sua cabeça estava e por isso ela respirou fundo algumas vezes antes de finalmente abrir seus olhos. Não era um pesadelo.
— Essa casa não vai se manter sozinha, não é?
Falou consigo mesma, recebendo como resposta o silêncio de seu quarto e o barulho de ventania ao lado de fora. Como se o dia não pudesse ficar mais bosta. pensou, antes de prender os cabelos desgrenhados em um rabo de cavalo no topo de sua cabeça.
— Agora eu pareço um abacaxi, ótimo.
Se levantou da cama e correu até o closet, pegando as primeiras peças de roupas que apareciam na sua frente. Avaliou as peças de coloração preta e deu de ombros, carregando-as em seus braços a medida em que desenhava seu caminho até o banheiro. Deixou as peças no suporte ao lado da pia, despindo-se de seu pijama para entrar embaixo do chuveiro, xingando até a décima geração do inventor daquele objeto quando a água fria vinda dele caiu em suas costas.
tomou todo o tempo que precisava embaixo da água que aos poucos tomava uma temperatura agradável, repassando cada um dos momentos que haviam a levado até aquela posição de merda, como ela carinhosamente chamava. Passou a mão pelo rosto e apenas fechou o registro, enrolando-se contra a toalha para sair do box e secar seu corpo, vestindo as peças de roupa que havia trago para o cômodo logo após escovar seus dentes.
Saiu do banheiro escuro e voltou, de forma mecânica, ao seu quarto. Observou o céu pelos vitrais transparentes tomando forma para uma grande tempestade. Fechou-os, puxando as grossas cortinas arroxeadas para que o quarto ficasse apenas iluminado pela luz amarela do lustre.
Sentou-se na cama e calçou os velhos coturnos, acompanhado de sua jaqueta de couro. Fez seu caminho até o espelho da penteadeira, fazendo uma careta com a imagem desgastada de seu rosto refletido. Buscou pelas maquiagens e tentou fazer o melhor que podia, mesmo não sendo capaz de realmente diferenciar algo naquele reflexo. E assim finalizou sua maquiagem, aceitando que seu estado mental não era dos melhores nem para acertá-la.
Levantou-se da penteadeira e se dirigiu até a escrivaninha de madeira onde seu grimório repousava. Logo acima da capa de couro escura, havia um bilhete escrito em folha envelhecida que deveria ter sido deixada pelo melhor amigo pouco tempo antes que ele deixasse seu quarto. Pegou-o, lendo cuidadosamente e com certa dificuldade devido à letra garranchada.

“Por mais que eu ame ver seu lindo rosto ao acordar, receio que minha condição atual não me permita tamanho luxo.
Estarei no escritório de seu pai me martirizando por te deixar aí.
Com amor, Nosferatu.”

deixou um sorriso brincar em seu rosto pela primeira vez naquela manhã, guardando o bilhetinho em um de seus bolsos ao sair de seu quarto e descer as escadas até a cozinha.
Fez uma careta ao ver que o tempo estava obstinado a fechar, mesmo depois da pequena demonstração solar que havia a acordado. Suspirou e começou a se concentrar em fazer café da manhã para o homem que provavelmente nem havia dormido. Tomou todo o tempo que podia preparando ovos mexidos, bacon e pães com creme de avelã e pasta de amendoim, mas não sem antes questionar-se como uma garrafa estranha havia parado em sua geladeira. Colocou tudo em uma bandeja e fez seu caminho até o quarto improvisado de , batendo na porta algumas vezes antes de enfiar a cabeça na fresta da porta.
— Você não tá pelado, tá? – riu, adentrando o cômodo e fechando a porta atrás de si com o auxílio de seu pé.
— De maneira alguma– ele sorriu, levantando-se do sofá-cama. – Café da manhã na cama? Você definitivamente sabe como me ganhar, Ursinha.
— Você sonha. – deixou a bandeja na escrivaninha, sentando-se contra a cadeira em frente à ela quando notou que ainda tinha cerca de uma hora e meia antes de seu primeiro dia de trabalho.
— Como você está? – se esticou até a garrafa com o líquido viscoso, bebendo um bom gole antes de abaixar-se em frente à herdeira.
— Já estive melhor. – sentiu os olhos marejarem e jogou a cabeça para trás numa tentativa falha de não deixar as lágrimas caírem.
— Hey, hey... – o mestiço levou sua mão até a perna da bruxa, acariciando o local. – Alex não gostaria de te ver assim, lembra? – o encarou.- Ela provavelmente deve estar xingando até a sua décima geração por estar chorando por ela.
— E revoltada por eu não ter pego o responsável. – murmurou, sentindo as mãos frias de passarem por suas bochechas, limpando as lágrimas cuidadosamente.
— Tá tudo bem sentir, . – ele sorriu de canto, encarando os olhos hipnotizantes da bruxinha. – Temos que passar pela fase do luto pra seguir em frente. – se aproximou um pouco mais, encostando sua testa contra a da bruxa.
— E como você está segurando as pontas? – a mais velha engoliu em seco, encarando o homem.
— A perspectiva é diferente quando você se torna imortal. – sussurrou, depositando um beijo carinhoso contra a bochecha da mulher pouco antes de se levantar e sentar na cadeira ao lado aposto da mesa.- São pra mim? – apontou em direção à bandeja.
— São. – ela se esticou, pegando duas fatias de pão com recheios distintos e juntando-as em um sanduíche.
— Você não vai comer isso, né?
— Claro que vou. – mordeu um bom pedaço do sanduíche. – Delixioso. – murmurou com a boca cheia.
— Você é nojenta pra caralho, . – fez uma careta, pegando o prato com ovos e comendo-os com uma calma invejável para alguém que estava faminto.
— Você é o cara que chupa sangue e eu sou nojenta? Entendi.
— Olha só, já tá fazendo piadinhas. – sorriu, pegando uma tira de bacon para colocar na própria boca.
— Eu vou precisar do seu carro hoje.
— Claro. Posso saber pra quê?
— Eu vou trabalhar daqui um tempinho, além de que Chels e John chegam hoje.
— Eu sempre pensei que os fossem os mais ricos entre os herdeiros.
— E nós somos. – mordeu mais um pedaço do sanduíche.- Mas as coisas não foram fáceis durante os últimos anos e Rosa precisa de ajuda no bar.
— Eu vou viver para ver fazer a barista? Eu estou muito triste por não poder presenciar essa cena.
— Vai pro inferno, Hemmings. – deu com o dedo do meio para o vampiro.
— Tá bravinha, é?
— Problemas com isso, Ursinho? – a bruxa arqueou a sobrancelha, levantando-se da cadeira e apoiando suas mãos na mesa, inclinando seu corpo em direção ao homem.
— E-eu? De maneira alguma. – engoliu em seco, voltando sua atenção para o prato em seus braços.
— Você precisa transar. – a morena sorriu, acariciando a bochecha do homem com uma das mãos.- Deixa eu te perguntar...
— Não, . – ele a interrompeu.
— Você nem sabe o que eu vou perguntar!
— A resposta é não.
— Seu pau não sobe, então?
— O quê? – a voz de falhou assim que ele engasgou com a pergunta da herdeira. – Que porra, ?
— Você quem disse não. – ela levantou as mãos em rendição.
— Jesus Cristo, . – a encarava, totalmente descrente das palavras que ela havia dito segundos antes. – De onde você tirou isso?
— Eu nunca fodi com um vampiro pra saber se a pistolinha era funcional e você, como meu melhor amigo vampiro, deve saber. – explicou, como se fosse óbvio.- E como vocês não tem sangue, imaginei que...
— Já entendi o ponto. – ele a interrompeu, desconfortável. Aquela conversa seria mais constrangedora do que ele havia pensado que iria ser. – A pistolinha é funcional, isso é tudo o que você vai tirar de mim hoje.
— Suficiente. – sorriu, levantando-se da cadeira e indo em direção ao banheiro do escritório para escovar seus dentes mais uma vez. – Eu espero que você não tenha usado a minha escova.
— Tá com nojinho de mim? – sorriu, deixando as presas à mostra enquanto se esticava para trás, afim de encarar a herdeira.
— Só um pouquitinho. – brincou, escovando os dentes rapidamente. – Vou indo. – sorriu, saindo do pequeno banheiro em direção à porta, mas não sem antes depositar um beijo na testa do vampiro. – Deixarei as cortinas fechadas pra caso você queira sair.
— Relaxa, eu te encontro no Fox quando a noite cair.
— Eu vou te esperar.
deu uma última encarada no mestiço, que sorriu com ambas as presas mostrando. Ato este que a bruxinha não pôde deixar de achar um tanto quanto adorável.
Saiu do quarto do homem, certificando-se de que todas as janelas estivessem cobertas pelas cortinas black-out. Pegou as chaves do carro de cima da ilha da cozinha e saiu pela porta de entrada, murmurando um encantamento de proteção antes de deixar a mansão. Cuidado nunca é demais em tempos de crise. Pensou ela ao entrar dentro do carro e ligar a ignição.

🔮🔮🔮


, querida, eu preciso de dois irlandeses na mesa cinco.
Rosa gritou ao outro lado do balcão. Naquela dia em específico o Fox estava lotado e a herdeira se perguntava como a avó havia conseguido lidar com àquilo nos últimos cinquenta anos de tradição. Bruxos e seus encantamentos, pensou ela enquanto aplicava o chantilly em cima de ambas as taças. Pegou-as cuidadosamente e as colocou em cima da bandeja, pulando o balcão com maestria enquanto abria caminho entre as pessoas até chegar na mesa onde haviam feito o pedido.
— Dois irlandeses?
— Você fica muito bonita com avental e cabelo bagunçado, . – o homem sorriu, encarando a mulher através de seus olhos violeta.
— Obrigada, Rowan, você está bonito também. – sorriu de lado, colocando a xícara em frente a Heather.- Qualquer coisa, gritem.
voltou à fazer seu caminho em direção ao balcão, olhando para o relógio no momento em que seus ponteiros marcaram sete da noite.
— Mama, meu turno acabou. – gritou, tirando o avental e jogando no espaço atrás do balcão. – Você ainda precisa de mim?
— Vai ver seus irmãos, querida. – Rosa sorriu, acariciando a bochecha da neta.- Seu cavaleiro já está te esperando.
Rosa apontou para a janela, acenando quando deu um sorriso em direção à ela. agradeceu com um balançar de cabeça e pegou sua jaqueta, saindo para fora do abafado do bar.
— Veio correndo? – a herdeira pegou o braço do rapaz, atravessando a rua até a estação.
— Sim, eu tô fedendo?
— Você está até cheiroso demais.
— Nervosa?
— Bastante. – abraçou o próprio corpo.- Onze anos, sabe? Nós conversamos, mas combinamos de nos vermos em casa.
— Vai ficar tudo bem, sim?
apenas assentiu, sentindo abraçar a lateral de seu corpo de modo desajeitado. Adentraram a estação e esperaram por alguns minutos, que na cabeça de bruxa pareciam mais como horas. Após um bom tempo, ficou na ponta dos pés quando as portas do trem se abriram, revelando Chelsea e Jonathan .
respirou fundo, sorrindo quando reconheceu os irmãos mesmo depois de todo àquele tempo. Chelsea ainda tinha os cabelos extremamente claros herdados do pai, assim como a baixa estatura. Já Jonathan estava um pouco mais parecido com a mais velha, com seus cabelos escuros e cerca de uma cabeça de diferença em sua altura. A bruxa sorriu, correndo em direção aos irmãos no momento em que eles finalmente a reconheceram.
Os trigêmeos se abraçaram, sentindo-se completos pela primeira vez depois de muitos anos. Chelsea chorava descontroladamente, agarrando os irmãos como se tivesse medo de que algo pudesse os separar de novo. Jonathan abraçava as irmãs como resposta, tentando ao máximo manter a compostura, que foi por água abaixo quando a irmã mais velha o encarou com seus olhos avermelhados devido às lágrimas.
— Isso foi mais emocionante do que eu achei que seria. – engoliu em seco, limpando as lágrimas que caíam por seus olhos.
? Venha cá, seu idiota. – Chelsea puxou o rapaz, abraçando-o com força logo que se separou dos irmãos.- Fico feliz que tenha percebido que a franja não funcionava com as garotas. Nem garotos.
— Funcionou bem com os dois, ok? - riu, abraçando a loira com força.- E não fale sobre franjas perto do , ele pode ficar ofendido.
— Vocês todos continuam aqui? – Chels sorriu, seus olhos brilhando feito as estrelas em uma noite escura.
— Não poderíamos deixar a cidade sem vocês. – o vampiro riu, encarando John.- Você tá a cara da sua irmã.
— Você não cansa de me ofender? – Jonathan gargalhou, abraçando o australiano com força.- Deus, eu senti falta desse lugar.
— Tenho quase certeza que os outros sentiram a de vocês também. – sorriu de canto. – O que acha de irmos até a Rosa?
— Por favor, eu sinto falta dela. – Chelsea fez biquinho.
— Os meninos vão estar no Fox essas horas, podemos ir todos pra casa pra comemorarmos uma coisa boa diante de toda a tragédia. – murmurou, andando lado à lado com os irmãos ao atravessarem a rua.
— Sinto muito sobre Alexia. – Chels murmurou, apertando a mão de . – Vamos encontrar quem fez isso.
— E essa pessoa vai pagar. – John sorriu para a irmã, abrindo a porta do bar para que todos entrassem.
Não foi necessário uma apresentação para saber o que estava acontecendo no bar quando os quatro cavaleiros do apocalipse entraram pelas portas dele. O barulho continuava o mesmo, mas dessa vez todos os clientes olhavam de rabo do olho o desenrolar o que seria o retorno dos trigêmeos para o seu lugar de direito.
Rosa, após ver os três netos entrarem pelas portas de seu bar, sentiu-se na obrigação de transformar aquele enterro em uma festa de celebração, trocando a figura ilustre no palco improvisado para um som festivo que saia pelas caixas de som espalhadas pelo ambiente. A mulher apenas deixou que um de seus encantamentos fizessem o trabalho, certificando-se de que todos os clientes permanecessem com seus copos cheios se assim fosse sua vontade.
— Ela é linda, não é? – a avó de sorriu, encostando-se ao lado do vampiro que encarava a herdeira gesticular animadamente com e Chelsea.
— Mais que isso. – murmurou, levando a cerveja até os lábios.
— Você deveria dizer à ela. – Rosa sorriu, pegando uma cerveja para si e abrindo-a.
— Está tão óbvio assim?
— Mais que isso, só se você escrevesse na testa. – se intrometeu, sentando-se ao lado do mestiço.
— Ela é uma herdeira e eu sou um mestiço, sabemos como termina. – riu amargo, levando a cerveja aos lábios mais uma vez.
— Pare de inventar desculpas e diga à ela como se sente, garoto. – Rosa deu um tapa com auxílio do pano em suas mãos.- Você não tem nada a perder.
— E ela nunca te colocou na zona da amizade, o que significa que você pode ter uma chance com esse pintinho mixuruca. – sorriu, recebendo um leve empurrão do homem como resposta.
— Você ama a desde antes de saber o que isso significava, vai esperar ela sumir de novo pra perceber que deveria ter dito o quanto gostava dela? – Rosa encarou o homem, rindo quando ele fez uma careta.
— Ouch, essa doeu. – riu, deixando a cerveja ao lado.- Hey, ! - gritou, chamando a garota com um gesto de mão quando ela finalmente o escutou.
— Esse é meu garoto. – riu, saindo de perto do melhor amigo.
— Me chamou? – sorriu, encarando a avó.- Mama, pode me dar mais um copo de whisky, por favor?
— Claro, querida. – Rosa sorriu, voltando sua atenção para as garrafas.
— Eu estava pensando... Você não namora, não é? – engoliu em seco, querendo enfiar sua cara embaixo do chão e nunca mais sair.
— Não. – agradeceu Rosa silenciosamente quando a mulher entendeu o copo em sua direção. – Por que?
— Eu estava pensando...
— Sim. – o interrompeu, bebendo um gole do líquido de seu copo.
— Mas eu nem terminei de falar, .
— Você ia me chamar pra sair? – a bruxa o encarou com um sorrisinho no rosto.
— Sim, mas...
— O Oráculo me disse. – apontou em direção de Chelsea, que fazia um joinha com ambas as mãos em sua direção.
— Deus, eu tinha esquecido disso. – ele riu nervoso.
— Tá tudo bem. – sorriu, depositando um beijo na bochecha do vampiro.- Podemos sair amanhã, o que acha?
— Acho ótimo. – sorriu, visivelmente animado.
— Amanhã ao cair do crepúsculo, te espero em casa.
deu um longo gole no whisky em seu copo, deixando-o em cima do balcão negro para que conseguisse subir na superfície de madeira maciça com a maestria de um felino. Voltou a pegar seu copo e aguardou até que todos os presentes no bar voltassem a atenção para ela. Quando se deu por satisfeita, começou seu discurso.
— Muitas coisas aconteceram nos últimos dias, nem todas boas. – direcionou seu olhar para cada um dos clientes presentes no bar. – Mas hoje é um dia que merece uma celebração. – levantou seu copo.- A mesa dos herdeiros está incompleta, mas eu vou me certificar que o que aconteceu com Alexia não se repita. Eu vou pegar o responsável e ele vai pagar pelo sangue que derramou.
— Eu vou brindar por isso.
Rowan Jaeger gritou, levantando seu copo em um incentivo para que os outros fizessem o mesmo. Assim que o amontoado de copos e garrafas se levantaram, sorriu com os tilintares de vidro. Sentou-se no balcão, recebendo uma massagem de em seus ombros enquanto os amigos se juntavam ao seu redor.
— Belas palavras. – sorriu, abraçando a amiga com a mão livre.- O que acha de repetirmos os costumes hoje?
— Marshmellows e cerveja na piscina?
— Banho de lua, baby. – o bruxo fez uma dancinha, tirando uma gargalhada gostosa da morena.
— Tem uma música brasileira que fala isso, é maravilhosa. – riu. – Eu acho que é uma boa, mudar os costumes pra servir pra todo mundo. – encarou o vampiro, que a encarava de volta com uma expressão que denunciava o quão ofendido ele havia ficado com o comentário.
— Eu tenho um coração, sabia? Funcional ou não, eu ainda sinto as coisas. – ele arqueou uma sobrancelha.
— Coitadinho do vampilinho. – levou suas mãos até as bochechas do mestiço, apertando-as enquanto afinava sua voz.- Quem é o sanguessuga preferido da titia? É você, sim.
— Vai pro inferno, . – ele rolou os olhos.- Vamos pra casa ou o quê?
— Ele ficou putinho, cuidado. – deu mais um gole em sua cerveja, brincando com uma mecha de cabelo de Chelsea.
— Você também vai, John? – fitou o irmão, esperando que ele não recusasse o convite.
— Vou, mas não ficarei lá. – coçou a própria nuca. – Já falei com Rosa e ficarei aqui até as coisas ficarem seguras, alguém tem que proteger a coroa.
— Eu ouvi isso, rapazinho! – Rosa jogou um pano na cabeça do homem, que gargalhou em resposta.
— Podemos ir, então? – Chelsea encarou a irmã, que pulou do balcão como um incentivo.
— Nos vemos amanhã, mama.
A herdeira se despediu da avó, saindo pelas portas do bar assim que a mulher respondeu seu adeus, com seus amigos e irmãos ao seu encalço enquanto discutiam quem iria com quem até a residência dos .
Em uma alameda não tão distante dos jovens, o assassino observava à espreita procurando por qualquer pequeno deslize que um dos herdeiros pudesse cometer em busca de uma brecha para se aproximar de sua próxima vítima. Ele odiava os e odiava mais ainda a laia com as quais estes haviam se metido, sujando ainda mais o sangue que, há muito tempo, já havia deixado de ser considerado puro. Deixou um sorriso de escárnio tomar forma em seus lábios quando finalmente decidiu seu próximo alvo e como uma serpente calculando seu ataque, saiu da escuridão e refez seu caminho até o bar de Rosa Blackwater, em busca de dar início ao plano arquitetado.

🔮🔮🔮


— Você se lembra de como ficávamos até tarde treinando os feitiços? – Chelsea tomou um gole da cerveja em seu copo.- Deus, eu era péssima em transmutação!
— Péssima? conseguia ser pior que todos nós juntos em um único corpo! – riu, acendendo o cigarro entre seus lábios.
— Vocês nunca vão deixar aquilo passar, né? – o vampiro balançou a cabeça negativamente.
— Cara, você transformou um vaso em uma minhoca quando era pra ter transformado em um gnomo de jardim! – gesticulou, tirando gargalhadas dos amigos.
— Mas podemos falar sobre como a conseguiu tirar um esqueleto móvel de dentro do chão durante a aula de herbologia? – deu ênfase na última palavra, o que fez com que batesse a mão na própria testa.
— Em minha defesa... – apontou em direção ao de cabelos coloridos. – eu sempre fui melhor na aula de necromancia.
— E eu sempre fui melhor nos estudos das espécies, mas isso não foi o suficiente pra vocês deixarem de me zoar. – o vampiro tomou um gole do líquido viscoso seu copo, disfarçando quando o olhar da bruxa caiu sobre ele.- O quê?
— Eu sempre fui melhor nos estudos das espécies. – fez uma voz grossa, imitando o homem ao seu lado em deboche.- Vai chupar um canavial de rola, Hemmings.
— Já chupei e foi maravilhoso. – piscou em direção à herdeira, ganhando um revirar de olhos como resposta.
— Mas vamos ao que interessa. – se curvou para frente, apoiando o rosto em ambas as mãos enquanto encarava os trigêmeos. – Onde vocês estavam durante todo esse tempo?
— Eu fiquei na Irlanda todos esses anos. – Chelsea encostou-se na cadeira.- Quando fomos separados, eu fiquei em um orfanato em Winchester até um casal de bruxos irlandeses me adotarem e me levarem pra Belfest. – sorriu de canto.- Eles ainda vivem lá.
— Por que você não voltou antes? – franziu o cenho, encarando a loira.
— Eu estava com medo de ter o mesmo destino que o papai caso voltasse. – suspirou.- Eu nunca fui uma bruxa poderosa, sou um alvo fácil.
— John? – arqueou uma sobrancelha.
— Eu fui para a Escócia, mesma história que Chels. – deu de ombros.- Um casal de bruxos me levou pra Glasgow e eu fui criado lá até a me encontrar.
— E eu fui a mais distante, já que todo mundo permaneceu no velho frio da Europa. – riu amarga, encarando a garrafa em sua mão livre enquanto tragava o cigarro.- Margareth fez questão de me enfiar no meio da Califórnia com um casal cristão.
— Você está brincando, não é? – a encarou, pasmo.
— Gostaria muito que estivesse. – riu fraco.- Mas Chloe e Gerald eram bem legais, nada do que a gente foi ensinado a temer. – sorriu, lembrando-se da mãe adotiva.- Uma família bem rica, frustrados por não conseguirem gerar filhos. – encarou os amigos.- Quando eu completei dezessete anos, com uma bagagem de conhecimento considerável, fiz uma poção de fertilidade para Chloe. – tomou um gole de sua cerveja já quente.- Minha irmã adotiva hoje tem quatro anos de idade.
A herdeira, tirando o celular do bolso para mostrar a foto da garotinha que estava em sua tela de bloqueio. Na foto, abraçava uma menina com cabelos cacheados tão negros como o céu noturno. Ambas gargalhavam uma para a outra, como se uma delas tivesse contado uma piada no momento em que a foto foi tirada.
— O nome dela é Hope. – constatou, guardando o celular em seu bolso quando todos viram a foto.
— Bastante apropriado. – sorriu, encarando a morena. – Sem o contexto, até diria que vocês parecem mãe e filha.
sendo mãe? – encarou a herdeira.- Isso é algo que eu gostaria de ver. – ponderou.
— Ela seria uma mãe radical. – balançou a cabeça, como se estivesse analisando o cenário.- Ela cuida da gente como se fossemos os filhos dela desde que me conheço por gente, acho que não seria diferente.
— Podemos, por favor, mudar de assunto? – coçou a própria nuca, rindo nervosa quando os garotos deram de ombros e começaram a conversar sobre algo aleatório. , no entanto, não deixou o desconforto passar despercebido.
— O que foi isso? – murmurou, somente para que a morena escutasse.
— Não me sinto confortável falando.
— Se quiser falar sobre...
— Agora não, okay? – levou sua mão até a gelada do vampiro, acariciando de leve quando ele apenas assentiu em resposta.
— Vejo um clima pintando aqui? – encarou o casal de amigos, recebendo o dedo do meio de como resposta. – Que agressiva.
— Você pediu. – levantou as mãos em rendição, tirando um risinho divertido do homem.
— Mas eu acho que vale ressaltar uma coisa importante. – Chelsea chamou a atenção dos presentes na pequena confraternização. – e fariam um casal bem bonitinho, vocês não acham? – a caçula sorriu.
— Você sabe algo que eu não estou sabendo? – encarou a garota, que apenas deu de ombros.
— Não seria justo que eles ficassem juntos. – se pronunciou de forma séria. – Deus, eles são bonitos demais pra isso. A cria desses dois seria tipo o anticristo da beleza.
— Vai pro inferno, . – e disseram em uníssono, tirando uma gargalhada gostosa dos amigos.
— Eles estão até falando em conjunto, que fofinho. – John levou as mãos até o próprio rosto, suspirando como se estivesse baqueado com o romance.
— Vocês estão empenhados hoje, hein? – a herdeira balançou a cabeça negativamente.
— Vai dizer que nunca rolou nem um beijinho entre vocês dois? – o lobisomem encarou a bruxa, que apenas negou silenciosamente. – Um quase beijo? Um carinho com duplo sentido?
é um santo, vocês deveriam o conhecer melhor. – alfinetou.
— Você esta querendo ter uma discussão de relacionamento agora, ? É isso que estou ouvindo? – o mestiço a encarou no momento em que ela desviou seu olhar dele para dar um gole em sua cerveja.
— Não tem como ter uma discussão se não existe relacionamento, Nosferatu.
— Você vai se fazer de desentendida, ? Eu achei que nossa relação significasse mais pra você. – o homem levou as mãos até o próprio peito, dramaticamente.
— E ela significa, meu bem.
deixou sua garrafa no chão, antes de entrar na brincadeira. Levou sua destra até a mão do homem, que repousava contra a cadeira de praia dos fundos da mansão dos . Com a mão livre, começou a acariciar sua bochecha de modo terno, aproximando seu rosto do mestiço, que a encarava com tamanha atenção que ao menos respirava devido ao nervosismo que tomava conta de seu corpo.
— Você sabe que vai sempre ser o meu número um, não sabe? – encarou os olhos atenciosos do homem a medida em que sussurrava as palavras. – E que você não precisa tomar decisões baseadas nas opiniões dos nossos queridos amigos, se não for a sua vontade. – virou seu rosto em direção aos melhores amigos, que os observavam boquiabertos.
— Droga, eu realmente achei que sairia um beijo dessa vez. – ralhou, levantando-se da cadeira de praia. – Eu vou até me retirar depois dessa enganação.
— Já? Achei que passariam a noite com a gente. – Chelsea fez biquinho.
— Por mais que fosse nossa vontade, não somos milionários e trabalhamos amanhã. – depositou um beijo nos lábios da bruxinha.
— Você foi rápida. – encarou a irmã, incrédula.
— Alguns de nós não querem perder mais dez anos, irmãzinha.
— Uh, eu senti essa. – a mais velha riu, levantando-se para abraçar o bruxo. – É melhor você não quebrar o coração dela, porque se você o fizer... – foi interrompida pelo bruxo.
— Você vai me castrar com meus instrumentos de trabalho, entendi. – o homem riu. – Não se preocupe.
— John, quer carona? – balançou as chaves.
— Claro. – o sorriu, abraçando as irmãs antes de fazer seu caminho até o bruxo. – , você fica?
— Eu não sei. – encarou a herdeira. – ?
— Eu acho que vou precisar roubar ele por mais algumas horas.
— Não faça nada que eu não faria, mocinha. – piscou em direção à amiga, abraçando à antes de fazer seu caminho junto com .
— Idiota. – murmurou.
— EU OUVI ISSO!
? Eu vou dormir, ok? – a loira levantou-se da cadeira.
— Seu quarto está intocado, sei o quanto odeia que eu mexa nas suas coisas.
— Obrigada. – sorriu de canto. – Cuida da minha irmã. – se direcionou ao vampiro.
— Por mais que eu acho que ela não precise de proteção, cuidarei. Dorme bem, Chels.
— Vocês também. - Chelsea pegou algumas das garrafas de vidro da mesa de vidro, levando-as consigo para dentro da mansão.
— Finalmente sozinhos.
— E com uma quantidade considerável de lixo pra recolher. – riu fraco.
— Não é um problema. – sorriu de canto, recolhendo as garrafas ao redor do local com a típica agilidade de um vampiro. – Prontinho. – ergueu o saco de lixo. – Agora, precisamos conversar.
— Sobre qual das partes?
— Todas? Acho que é um bom começo. – riu, sentando-se na cadeira e batendo no espaço à sua frente, indicando o local para que a bruxa se sentasse. – Abre seu coração pra mim.
— É bem mais difícil do que parece. – sentou-se de frente ao homem, cruzando as pernas. – Você se lembra da história do feitiço de sangue?
— Sim.
— Não é a história completa. – suspirou, encarando o vampiro. – Eu fiz um pacto e o preço à se pagar foi maior do que eu esperava que seria.
— Você vendeu sua alma em troca de poder, não tem nada muito novo. – sorriu terno para a bruxa, que desviou o olhar. – ?
— Não foi só minha alma, . – mordeu os lábios, respirando fundo. – Eu me vendi, eu disse que seria um receptáculo para a cria de satanás. – riu fraco, encarando suas mãos. – Mas eu o enganei.
— Você enganou o pai da mentira? Como?
— Eu tirei tudo. – ela não o encarava. – É mais fácil se eu te mostrar.
se levantou, levantando a camiseta que vestia e segurando à com os dentes a medida em que desabotoava sua calça e a abaixava o suficiente para que a cicatriz ficasse à mostra.
Em seu ventre, de um lado à outro de seu corpo, prevalecia uma cicatriz grosseira. Como se houvessem aberto a carne com uma faca cega, além de outras cicatrizes que marcavam a pele pálida da bruxa. observava àquilo, totalmente chocado com os segredos que a bruxa escondia dele.
— Eu não posso ter crianças, dei a minha fertilidade para que Chloe pudesse. – voltou a abotoar a calça, ajustando a camiseta em seu corpo. – Eu não posso dizer como, apenas que minha alma está condenada à queimar no fogo do inferno pelo resto da eternidade.
— Vem cá.
Ele abriu os braços, em um chamado silencioso para que a herdeira se acomodasse contra seu corpo. E assim ela o fez, deitando-se contra o peito do rapaz a medida em que ele passava seus braços ao redor de seu corpo e descansava seu queixo no ombro da mulher.
— Você é a mulher mais forte que eu já conheci e nada vai mudar isso. – ele depositou um beijo demorado em sua bochecha. – Eu amo você, ok? Não existe nada que eu possa te dizer pra diminuir isso, além de que estarei ao seu lado até a eternidade.
— Eternidade é um caminho longo, tem certeza?
— Pelo amor de deus, ! – o vampiro a encarou. – Eu não pensaria duas vezes se tivesse que passar a eternidade com você. – ele franziu o cenho, desviando o olhar quando percebeu que, talvez, tivesse falado demais.
— Você está tão apaixonado por mim. – se desvencilhou dos braços de , sentando-se nas próprias pernas para ficar de frente à ele. – Olha pra mim.
— Sim?
voltou a encará-la, dessa vez a encontrando com uma expressão que ele não soube ao certo identificar o que significava. mordeu o próprio lábio inferior, incerta se os próximos passos que tomaria seriam corretos e se as consequências deles seriam positivas.
Respirou fundo e levou ambas as mãos até a nuca do vampiro arranhando o local com suas curtas unhas, ato este que causou arrepios por todo o corpo do vampiro. Aproximou seu rosto do dele lentamente, sem deixar de encarar seus olhos.
— O que você... – ele sussurrou, sendo interrompido pela herdeira.
— Shhhhh...
sussurrou, levando uma de suas mãos até a bochecha de antes de finalmente empurrar seus lábios contra os do vampiro em um selinho terno, que evoluiu para um beijo quando ele saiu de seu estado de choque e finalmente resolveu reagir aos lábios de contra os seus.
levou uma de suas mãos até a cintura da bruxa, puxando-a mais para frente afim de sentá-la em seu colo. Assim que o fez, levou a mão livre até o pescoço da herdeira, entrelaçando seus dedos lentamente nos cabelos dela, puxando-os levemente.
— PUTA MERDA! GALERA, ELES SE BEIJARAM! – Chelsea gritou, fazendo com que o casal se separasse apenas para encontrar os amigos encarando-os pelas janelas do segundo andar da casa.
— OBRIGADO, LUKE! – gritou, balançando uma nota de cinquenta libras. – VOCÊ ME FEZ GANHAR 50 LIBRAS.
— Deus! – encostou a testa no ombro do homem, rindo descontroladamente.
— Eles são inacreditáveis. – encarou a mulher, acompanhando-a nas risadas.
— Não é? – riu, encarando os amigos quando eles finalmente apareceram. – Vocês apostaram?
— Claro! Você realmente acha que nós não iríamos? – riu. – Mas Chelsea ficou de fora, ela já sabia o que iria acontecer.
— Vocês são inacreditáveis. – o vampiro encarou os amigos. – ?
— Apostei com e John que a tomaria atitude.
— Qual é!
— Eu meio que tomei, ursinho. – fez uma careta.
— Mas eu apostei em você, mesmo sabendo que você não tomaria atitude. – abraçou Chelsea, rindo.
— Vocês são os piores amigos do mundo. – Hemmings balançou a cabeça, encarando a bruxa em seu colo. – Dessa vez você tomou.
— Uh-hum. – sorriu, depositando um selinho nos lábios do vampiro. – Vamos ver quanto à isso.


Capítulo 6: As dificuldades de ser humano.

“Cause I'm no prophet or Messiah Should go looking somewhere higher I'm only human after all
(Eu não sou um profeta ou Messias
Deveria procurar em algum lugar mais alto
Eu sou apenas um ser humano, afinal)”.

— Human, Rag'n'Bone Man



fumava seu terceiro cigarro quando o trem finalmente parou na estação de Irish Lake. Ela observava atentamente qualquer tipo de pessoa que pudesse lembrá-la vagamente de seu melhor amigo. Não que Ricardo fosse muito fácil de se misturar entre uma multidão. Fossem suas combinações de roupas ou seu cabelo, que sempre carregava tons chamativos, Rick sempre usava algo consigo que o diferenciava de qualquer outra pessoa. E foi por esse motivo que , ao menos, se moveu ao finalmente vê-lo.
Rick tinha pouco mais de um e oitenta de altura, quase tão alto quanto . Suas roupas variavam em diferentes tipos de preto, com exceção da camiseta de gola rolê vermelho sangue que se escondia por baixo da jaqueta preta e dos harness de couro. Os coturnos de guerra faziam um pequeno eco em meio à estação pouco movimentada devido ao horário. Seus olhos verdes se encontravam cobertos por um par de óculos escuros pretos e seus cabelos ainda estavam cortados rentes a cabeça em um corte militar com fios acinzentados. O brasileiro sorriu, abrindo seus braços para envolver a herdeira dentro deles. E assim ela o fez, aspirando o cheiro de cigarro e madressilva que ele exalava
— Eu sinto muito por sua perda, bruxinha. – Rick acariciou os cabelos pretos da herdeira, apoiando seu queixo no topo de sua cabeça. – Como está lidando com tudo isso?
— O melhor que posso. – Murmurou, saindo do aperto de Rick para encará-lo. – É isso que fazemos sempre que algo dá errado, né?
— Vamos fazer o melhor para encontrar quem fez isso, sim? – Ele riu fraco, acariciando a bochecha de antes de depositar um beijo em sua testa. – Venha, você pode me contar tudo a caminho da sua casa, sim?
— Tudo bem. – Sorriu ela, dando um último trago em seu cigarro e jogando a bituca na lata de lixo ao seu lado antes de arrastar Rick em direção a Land Rover de .
— Vocês ao menos têm concessionarias para ter um carro desses nesse fim de mundo? – Ele indagou.
— Não é meu. – Deu a volta pelo carro, abrindo a porta do motorista e entrando no carro. – É do e, acredite, eu me fiz a mesma pergunta quando o vi pela primeira vez.
— Ele é rico, então? – Rick puxou o cinto, encarando a herdeira a medida em que ela manobrava o carro em direção à estrada principal.
— Ele faz parte de uma das famílias mais ricas fora do pacto. – Ela tirou sua atenção da estrada. – E ele está ficando em casa durante esse tempo, algo sobre não confiar em uma casa onde um assassinato aconteceu.
— Honestamente, você poderia culpá-lo? Sem ofensas, você sabe o quanto acredito no seu potencial e tudo o mais, é só que é um presságio ruim ficar na casa onde seu pai foi assassinado sem ninguém. – Ele a encarou.
— Não é como se eu estivesse sozinha. Chelsea está lá também.
— Duas bruxas que não tiveram uma criação no coven, bastante seguro. – Ele rolou os olhos. – Eu te amo, você sabe, mas seu instinto de sobrevivência é uma merda.
— Nada que eu já não tenha escutado antes. – Ela riu fraco. – Você já sabe como estou, mas ainda não me disse nada sobre você.
— Nada longe do habitual. Terminei a graduação e atuo como linguista forense. – Deu de ombros. – Aliás, eu te trouxe um presente.
Ricardo sorriu, puxando a mochila preta em seus pés e colocando-a em seu colo, abrindo o zíper e enfiando seu braço ali. teve certeza de que a mochila era encantada, uma vez que cada vez que o bruxo mexia seu braço, a bolsa respondia com tilintares de vidro. Após alguns minutos de procura, Rick finalmente retirou de dentro da bolsa um embrulho azulado com um lacinho preto no topo.
— Você pode abrir quando estivermos na sua casa. – Rick fechou sua mochila, deixando o embrulho em seu colo à medida em que desacelerava o carro e gesticulava no ar, fazendo com que o portão da mansão dos se abrisse. – Peculiar. – O bruxo franziu o cenho, colocando seu braço para fora da janela para tocar em algo que não soube identificar.
— O que foi? – A herdeira atravessou o portal, ao menos se preocupando em esperar o portão fechar.
— Podemos falar sobre daqui a pouco. – Ele sorriu, esperando estacionar o carro. – Aqui, para você. – Estendeu o pacote.
— Obrigada.
pegou o embrulho cuidadosamente, abrindo-o aos poucos. Rasgou o pacote, encarando a caixa de veludo preto em suas mãos. Abriu-a cuidadosamente, encarando o par de anéis com pedras entalhadas. O primeiro deles era feio de prata, cuidadosamente entalhado com uma pedra roxa que carregava algumas rachaduras prateadas e um pequeno “R” no topo. O segundo era um pouco maior e seguia a mesma modelagem do anel de , todavia a coloração da pedra carregava um tom azulado.
— O que são? – o encarou.
— São amuletos de proteção. – Rick apontou. – O roxo é seu e o azul é o do seu namorado, achei que seria útil para que ele pudesse andar pelas ruas durante o dia. – O bruxo sorriu, quando a herdeira o encarou, embasbacada. – Temos vampiros no Brasil. Não tem como eles caçarem somente durante a noite.
— Isso foi incrível, obrigada. – sorriu, esticando-se dentro do carro, o suficiente para passar seus braços ao redor do bruxo em agradecimento. – Vamos lá, temos que te apresentar ao resto. - A bruxa se desvencilhou dos braços do amigo, abrindo a porta do motorista para sair de dentro do veículo com o bruxo ao seu encalço.
Ao descer do carro e finalmente encarar a mansão dos , Rick não pode deixar de se sentir impressionado por sua grandeza. De fato, a sua imaginação alimentada pelos detalhes que o contava não chegavam nem perto da realidade. Arrumou a mochila em suas costas e subiu os degraus de madeira do hall de entrada, que rangeram sob seus pés, parando em frente, esperando entrar antes de segui-la para o lado de dentro. Escutou algumas vozes vindas da sala da herdeira e se surpreendeu ao ver uma quantidade razoável de jovens sentados na sala de estar. Identificou-os como sendo os amigos que tanto cansou de falar durante os anos.
— Bom, vejo que todos vocês resolveram voltar aos nossos antigos hábitos. – A bruxa arqueou uma de suas sobrancelhas, apoiando as mãos em sua própria cintura.
— Temos que aproveitar, não? – sorriu, levando seu olhar até o homem que parava ao lado da mulher. - Quem é o novato?
— Bom, chegamos ao ponto em que eu gostaria de chegar desde... Bem, a morte de Alex. – Sussurrou a última parte, puxando o bruxo até onde os amigos estavam.
— O que Alex tem a ver com ele? – indagou com uma das sobrancelhas arqueadas.
— Diretamente? Nada. – deu de ombros, limpando a garganta antes de começar a falar. – No dia em que Alexia morreu, eu tentei salvá-la... – Respirou fundo, lembrando-se da sensação do sangue quente escorrendo por seus dedos durante a tentativa falha de salvar sua melhor amiga.
— O quê? – franziu o cenho, apoiando-se nas coxas com o cotovelo como se o movimento fosse ajudá-lo a compreender melhor as palavras de .
— Ela disse algumas palavras antes de morrer. – Engoliu em seco. - “Ele vai matar cada um de nós e vai transformar nosso lar em cinzas. Seu pai era só o começo”. Essas suas últimas palavras.
Os cinco jovens na sala começaram a discutir, todos ao mesmo tempo, tentando tirar de uma explicação que nem ela mesma era capaz de dar. Massageou as têmporas enquanto tentava adquirir algum resquício de paciência e, quando todos perceberam que ela estava a ponto de gritar, mergulharam no mais profundo silêncio.
— Eu não consigo confiar em mais ninguém e não sabia a quem recorrer, é por isso que Rick está aqui. – Olhou de relance para o platinado, que àquela altura se encontrava fumando um cigarro em silêncio. – Ele é um bruxo brasileiro que conheci durante meus anos de faculdade no Brasil. A família de Rick descende de uma linhagem de curandeiros, especialistas em ervas e necromantes.
— E isso nos ajuda como? – murmurou, visivelmente afetado pelo carinho pela qual a melhor amiga se referia ao bruxo brasileiro.
— Considerado que pessoas morreram, isso se torna bastante útil, Bonitão. – Rick sorriu um tanto sarcástico para o vampiro, que apenas arqueou as sobrancelhas em resposta.
— Você acha que quem matou o papai voltou pra Irish Lake? – Chelsea engoliu em seco, levando uma de suas mãos até a mão de , a apertando com certa força.
— É exatamente o que ela acha. – se levantou do sofá, passando a mão por seu rosto.
— Tudo bem. Por onde começamos? – Murmurou , tombando sua cabeça para o lado enquanto observava cuidadosamente o bruxo sentado ao lado de .
— Nós podemos começar com algo bem simples... – Rick colocou o cigarro entre os lábios antes de sentar-se no chão e estalar os dedos, fazendo com que alguns livros aparecessem na sua frente.
Simples? Isso está parecendo bem complicado para mim. – murmurou, repetindo o ato do brasileiro junto com os amigos, sentando-se ao redor dele.
— Eu juro que não é nada demais. Primeiro, a gente precisa descobrir o que foi que matou sua namorada. – Abriu alguns livros de herbologia. – Já sei. – Murmurou, estalando os dedos para que uma xícara generosa de café aparecesse em sua mão.
— Já? – o observou, um tanto surpreso pela rapidez do bruxo ao conseguir uma solução.
— Erva de lobo. – Bebeu um longo gole do café, abrindo um outro livro que não sabia muito bem do que se tratava. - A erva de lobo é letal para lobisomens da mesma forma que madeira para vampiros e fogo para bruxos.
— E como você chegou nessa conclusão? – arqueou uma sobrancelha, um tanto desconfiado.
— Porque eu sou ótimo com plantas e nem mandrágora teria esse efeito em um híbrido. Se Alexia tivesse apenas uma hemorragia devido ao corte na jugular, teria fechado o corte e resolvido o problema com uma transfusão de sangue. Eu a ensinei e sei que ela conseguiria fazer isso sem dificuldade. – Rick deu de ombros, ignorando o tom hostil do vampiro.
— O que mais você consegue dizer? – murmurou, mordendo o lábio inferior um tanto apreensivo.
— Que seja lá quem fez isso, tem um estudo bastante aplicado na criação de venenos. – Murmurou baixo, fechando os livros com um gesto de mão. – Algo realmente perigoso está acontecendo aqui, então eu sugiro que falemos desse assunto aqui dentro somente.
— Por quê? – Chelsea indagou, levando os olhos azuis até os verdes do bruxo.
— Porque o pai de vocês colocou um feitiço poderoso ao redor do terreno, que foi ativado quando ele morreu. – Gesticulou com ambas as mãos, fazendo com que uma névoa azulada tomasse a forma do terreno dos com uma cúpula ao redor dele. – É um feitiço de proteção que só pode ser quebrado por um descendente direto e é bem específico, porque permite somente que algumas pessoas adentrem o terreno, entendem? Ao menos eu poderia entrar aqui, a única coisa que me deixou fazê-lo foi o fato de que eu estava com e, por algum motivo, isso permitiu com que eu pudesse entrar.
— Inacreditável. – murmurou, balançando negativamente a cabeça enquanto se lembrava vagamente do pai conversando com Rosa e Max Jaeger durante a noite, às escondidas. - Ele já sabia que iria morrer.
— E fez de tudo para impedir que vocês tivessem o mesmo destino. – engoliu em seco, tamborilando os dedos na própria perna enquanto tentava ligar os fatos.
— A questão é: como foi possível que entrássemos aqui quando eles estavam longe? – arqueou uma sobrancelha. – Eu entendo Rosa, mas nada explica como foi possível que nós o fizéssemos.
— Eu entendo. – John finalmente se pronunciou, chamando a atenção dos outros para si. – Você se lembra da caixa, ?
— Eu fiquei noites acordada porque não conseguia encontrá-la, foi um dos motivos pelo qual eu estava acordada quando tudo aconteceu. – franziu o cenho. – Ela sumiu na semana anterior ao assassinato do papai.
— Do que vocês estão falando? – indagou.
— Era uma caixa com pertences nossos. – Chelsea o encarou. – Vocês se lembram de como costumávamos trocar coisas quando crianças? Sua camiseta, presas do e Alexia, fios de cabelo do e o urso do .
— Ainda tenho o colar com os dentes de leite que vocês fizeram para cada um de nós. – riu fraco. – Como esquecer, não?
— Essa é a resposta. – Rick riu, incrédulo. – Vocês estão protegidos porque o pai de enterrou a caixa quando lançou o feitiço na propriedade como as únicas exceções, além dos que o lançaram.
— Temos que achar essa caixa. – murmurou, chamando a atenção de todos ao seu redor. – Alexia está morta e os pertences da caixa são uma das poucas coisas que ainda temos dela.
— Isso vai tirar sua permissão de entrar no terreno. – Rick apertou os ombros da amiga, encarando-a. – Você tem certeza que quer fazer isso?
— Ela está morta, Rick. – Engoliu em seco. – Qual é o ponto de manter sua última lembrança enterrada quando ela já não está mais entre nós?
A pergunta de perdurou no silencio perturbador que se instalou na sala, só sendo quebrado pelo barulho do pêndulo do relógio, que sem movimentava de um lado ao outro. Como se estivesse prevendo os acontecimentos que se seguiriam, puxou o celular de seu bolso quando sua tela foi invadida por uma chamada de Heather. Deslizou o dedo na tela e levou até a orelha, esperando que a amiga dissesse algo.
— Heather? O que aconteceu? – Egoliu em seco, levantando-se do sofá antes de andar em direção a cozinha de sua casa, pegando alguns copos de vidro no armário.
É Christopher. – Murmurou em meio a lágrimas, o que fez com que parasse abruptamente o que estava fazendo para encostar-se na ilha de alvenaria que estava atrás de si. Fechou os dedos ao redor da borda apenas esperando pela notícia. – Ele foi assassinado da mesma forma que Alex.
apenas deixou o copo que estava em sua mão escorregar por seus dedos, sentindo-se como se tivessem dado um soco em seu estômago. Respondeu mecanicamente às informações que Heather havia lhe dito e desligou a ligação, colocando o celular na ilha atrás de si. Olhou em direção a porta quando um amontoado de jovens passou por ela, fitando-a a fim de descobrir o que havia acontecido.
— Christopher Lawrence está morto. – Murmurou, respirando fundo antes de pegar uma vassoura e uma pá para recolher os cacos de vidro no chão, jogando-os no saco de lixo logo depois.
— Sabe de mais alguma coisa? – murmurou, levantando uma sobrancelha, fitando a herdeira enquanto ela tomava um gole generoso do whisky que estava no centro da ilha.
— Corte na jugular. Eles estavam desconfiando de vampiros, mas se isso fosse verdade, o sangue dele teria sido drenado por completo.
Cruzou as pernas, enquanto analisava com cuidado cada uma das coisas que sabia. Levantou-se num pulo e correu em direção ao escritório do pai, retirando o grande tecido negro que cobria a grande lousa de giz do cômodo. Foi até o mapa de Irish Lake propositalmente disposto por baixo da tampa de vidro da escrivaninha e, com uma caneta de quadro, riscou dois “x” nos lugares em que Alexia e Christopher haviam sido assassinados.
Levou os olhos até a lousa de giz e observou os escritos com a letra do pai com cuidado. O nome das seis famílias de Irish Lake sendo ligados entre si por diferentes cores de giz. Ouviu os amigos se postarem ao seu lado, tão embasbacados quanto ela após observar o que havia escrito na lousa.
— Isso estava embaixo do meu nariz o tempo todo...
— É incrível. – Rick murmurou.
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui? – chamou a atenção dos bruxos ao seu redor, fazendo com que pigarreasse antes de falar.
— Meu pai traçou toda a árvore genealógica dos bruxos de Irish Lake e suas relações desde antes de assinarmos o pacto. Vê esses últimos quadros? Significa que não são apenas seis famílias, são oito. – Apontou para os dois últimos quadros vazios. - O pacto foi assinado depois do acontecido que exterminou essas duas famílias que...
— Deram origem aos bruxos híbridos do pacto. – balançou a cabeça negativamente, não acreditando no que via. – Uma delas deu origem aos Wright.
— E uma delas fez com que os bruxos do pacto não pudessem ter filhos com humanos sem causar mortes. – murmurou, apontou em direção ao primeiro nome escrito em vermelho na coluna dos Parker.
— Humanos já não poderiam ter filhos com bruxos por questões biológicas. O que causa a morte de humanos só pode ser uma coisa. – Rick murmurou, com uma das sobrancelhas arqueadas.
Maldição. e disseram em uníssono.
— Quem jogaria uma maldição assim e por quê? – arqueou sua sobrancelha.
— Alguém que colocou na própria cabeça que somente raças puras seriam aceitáveis. Do contrário, ainda teríamos oito famílias. – Grunhiu , jogando-se no sofá-cama do escritório. - Seja lá quem está matando os herdeiros, está começando pelos híbridos e “impuros”. – Fez aspas com as mãos.
— Quem faria algo assim? – Murmurou Chelsea, sentando-se na cadeira em frente a escrivaninha.
— Eu não faço ideia. – Massageou as têmporas, fechando os olhos.
engoliu em seco, tamborilando os dedos em sua própria coxa. Levantou-se do sofá e despediu-se dos amigos com a desculpa de que estava exausta e, aproveitando a deixa, avisou a Rick que ele poderia ficar com o antigo quarto de John.
Subiu as escadas um tanto exausta e partiu em direção ao seu banheiro no fim do corredor. Despiu-se por completo e tomou um banho rápido sem ao menos molhar os cabelos, trocando as roupas que usava anteriormente por pijamas de inverno. Voltou para seu quarto e se jogou na própria cama, fechando os olhos ao se dar vencida pelo cansaço.


O cheiro de carne e madeira queimada entravam pelas narinas de , fazendo com que seus olhos lagrimejassem. Conseguia ouvir gritos histéricos e mulheres chorando ao fundo e se perguntava o que estava acontecendo naquele local. Saiu de dentro da pequena casa de madeira precária e se assustou com a cena de caos que se desenrolava ao seu redor. O fogo tomava a maioria das casas e dezenas de piras com corpos carbonizados poluíam a visão da herdeira, causando um embrulho em seu estômago.
Andou por mais alguns metros diante daquela paisagem caótica e uma das cenas que se enrolava fez com que o gosto de bile tomasse sua boca e a fizesse vomitar. O Fox and The Hounds estava tomado por chamas e alguns homens pegavam uma mulher pelos cabelos e a arrastavam para uma pira ao centro da cidade.
— QUEIMEM A BRUXA! – O homem que puxava a mulher pelos cabelos gritava, arrastando-a pelos pedregulhos pontudos que cobriam o chão, a fazendo gritar ao tentar se soltar das mãos de seu carrasco. Jogou a mulher no chão em direção a outro homem, que a prendeu na pira.
— Vocês vão se arrepender do que estão fazendo! – A mulher gritava em plenos pulmões, fazendo com que as veias de seu pescoço saltassem como consequência do esforço.- Os herdeiros de Irish Lake serão amaldiçoados pelo resto de suas vidas como os traidores que são! – Cuspiu as palavras com ódio, levando seu olhar em direção a herdeira.
— Cale a boca, pagã! – O homem deu um soco no rosto da mulher, fazendo com que ela cuspisse sangue e um dente no chão, sorrindo de modo macabro em direção ao homem.
— Você vai queimar, assim como as cinzas que tomaram conta dessas casas. – Olhou dentro dos olhos do homem. – Imagine como ficarão as ovelhinhas, quando souberem que o seu pastor é um impuro que se deita com pagãs e meretrizes! - Gritou, cuspindo sangue no rosto do homem, que desferiu mais um soco em seu rosto.
— Não escutem essa bruxa! Sua língua está infestada de mentiras e seu corpo está possuído pelo demônio! – O homem gritou, pegando uma garrafa, que identificou como sendo algum líquido inflamável, despejando todo o seu conteúdo pelo corpo da mulher que gargalhava e ria histérica. - Você vai queimar como todas as suas semelhantes!
— Vocês estarão fadados a viver pelo resto de suas vidas impossibilitados a não carregar proles de seres sobrenaturais sem que morram! – A bruxa gritou, fazendo com que engolisse em seco enquanto esperava os momentos que se seguiriam. – Eu amaldiçôo todos os herdeiros a viver pelo resto de suas vidas ligados ao pacto que tanto adoram, como penitência por sua traição!
sentiu seu peito doer, assim que viu o homem acender o fósforo em frente aos seus olhos, ateando fogo na pira onde a bruxa estava amarrada. Viu a bruxa queimar em chamas altas a medida em que se debatia e gritava enquanto era engolida pelo fogo, parando aos poucos de se mover enquanto sua vida se esvaia aos poucos de seu corpo.
andou em direção a pira, quando os homens se afastaram, engolindo em seco ao reparar uma pedra colorida no colar em seu pescoço já carbonizado pelas chamas. Engoliu em seco e sentiu um frio subir por sua coluna, quando algo abraçou seu corpo, arrepiando-se quando uma voz fantasmagórica sussurrou em seu ouvido:
— Vê? Assim como você, fui traída por meus próprios familiares e amigos. – A voz da mulher era reduzida em pequenos sussurros um tanto arrastada, fazendo com que a herdeira olhasse para o lado a tempo de ver uma forma fantasmagórica ao seu lado.
— Qual é o seu nome? Quem é você? – Engoliu em seco quando a mulher jogou os cabelos tão negros quanto os próprios de .
— Eu sou aquela que ajudou a dar origem a sua família, Pequena ... – Olhou a herdeira de cima abaixo, andando ao redor dela. - Seu nome veio do meu nome. Eu sou Bishop, herdeira da família Bishop e sua tataravô.
— O quê? Por quê? – estava um tanto confusa, enquanto a figura fantasmagórica flutuava ao seu redor.
— Não é óbvio? Os seus ancestrais traíram aqueles que se mostravam mais poderosos que eles. Por que acha que seu pai foi assassinado? O poderoso Robert . Sua fama condizia com seu poder. – Tocou os fios pretos da herdeira, sorrindo. – Ah, , mal sabe o destino que lhe aguarda.
— Por que você amaldiçoou os herdeiros?
— Porque eles me traíram! – Esbravejou, fazendo com que se assustasse. – Eles mataram o meu amado após eu me recusar a participar do pacto e me entregaram para os caçadores para servir de exemplo.
— Por que está me mostrando isso?
— Porque é isso que lhe aguarda se não descobrir quem está matando os herdeiros. – Apontou em direção a pira que agora se encontrava em cinzas. – Temos mais coisas em comum do que imagina, . Mais do que nossos nomes.
— O que prova que está dizendo a verdade? – murmurou, tentando achar sentido nas palavras da mais velha.
— Por que uma morta iria mentir? Você é a mais poderosa dos herdeiros e está indo contra o pacto enquanto deita-se com um vampiro. — Suspirou, sorrindo um tanto sombria ao rodear , observando-a dos pés à cabeça. — E a história volta a se repetir em circunstâncias distintas...
Bishop segurou os pulsos da herdeira com força, sentindo o cenário ao seu redor se dissolver em uma coloração acinzentada e tomar a forma de Irish Lake nos tempos atuais em um cenário que demonstrava tanto caos quanto na visão anterior. Respirou fundo ao ver os corpos sem vida da maioria dos herdeiros pendurados pelo pescoço nos galhos das árvores e carbonizados em piras, incluindo o corpo de Alexia. Andou por aquele cenário, engolindo em seco tamanha informação, sentindo o ar escapar por seus pulmões mais uma vez quando levou seu olhar até o palco destruído com pessoas conhecidas nele. Correu em direção ao local e entrou em desespero ao constatar de quem eram os corpos, sentindo lágrimas caírem por suas bochechas mediante a tanto desespero. se encontrava abraçado com o corpo sem vida de Chelsea e ambos tinham seus pescoços contornados por grossas cordas. tinha sua caixa torácica aberta, mostrando todos os seus órgãos internos, que escapavam de dentro de seu corpo. Jonathan tinha seus membros decepados e sua cabeça decapitada a alguns metros de distância de seu corpo, espetada em uma estaca de madeira ao lado do corpo sem vida de , que deveria ter sido morto enquanto estava transformado, uma vez que seu corpo estava completamente nu, com um buraco de bala em seu peito.
Entretanto, nem a situação em que seus amigos e irmãos estavam a preparou para a cena que veria alguns segundos depois. A alguns metros de onde estava, encontrou os conhecidos fios de cabelo loiros e, feliz por ver que alguém em pé, correu até o lugar onde o vampiro estava, apenas para cair de joelhos gritando entre lágrimas. estava preso contra seu próprio carro por diversas estacas de madeira ao redor de seu corpo que, uma vez livre de cicatrizes, agora trazia diversos cortes abertos em seus braços. Os buracos onde uma vez se encontravam seus olhos, agora eram preenchidos por estacas de madeira e suas presas haviam sido arrancadas.
agora gritava com a imagem de todas as pessoas que mais amava mortas, visivelmente desequilibrada com tudo aquilo. As lágrimas desciam descontroladamente enquanto ela soluçava desesperada, tentando fazer com que aquele sentimento sumisse de seu peito.
— Vá até o rio, descubra quem é o assassino e evite que esse seja o destino de seus amados. – Bishop sussurrou no ouvido da garota, depositando um beijo na cabeça da herdeira antes de se esvair no ar, junto com toda a paisagem caótica da cidade.



! !
Rick tentava acordar a herdeira, que gritava e fazia com que os livros de seu quarto voassem de um lado para o outro. O bruxo havia presenciado poucas vezes a amiga fazer coisas do tipo durante os anos e, todas as vezes que isso acontecia, um pesadelo era atrelado. Levou suas mãos até a mão da herdeira e forçou uma pequena corrente elétrica por seu corpo, fazendo com que ela acordasse sobressaltada a ponto de abraçá-lo com força quando o percebeu ali.
— O que aconteceu, bruxinha? – Sussurrou ele, abraçando a herdeira com força enquanto acariciava seus cabelos.
— Uma visão. – tremia e suava frio, encostando sua cabeça no peito do platinado.
— Calma, está tudo bem agora. – Sussurrou, depositando um beijo no topo da cabeça dela. – O que viu dessa vez? - Sentou-se ao lado da herdeira, soltando-a aos poucos, enquanto segurava suas mãos.
— Começou com uma bruxa sendo queimada em uma fogueira, ela fazia parte de uma das duas famílias que foram apagadas da história do pacto, os Bishop. – Falava com um tanto de dificuldade, enquanto tentava relembrar cada detalhe das piores horas de sua vida. – Ela foi entregue pelas seis famílias por não querer fazer parte do pacto. Ela foi usada como exemplo, e por isso, as gerações depois dela não conseguiam se envolver com humanos sem causar mortes.
— Ela amaldiçoou os herdeiros como penitência pela traição. – assentiu com a cabeça, limpando as gotas de suor que tomavam conta de seu rosto com a barra da camiseta que usava.
— Mas a segunda parte foi ainda pior.
— O que você viu?
— Irish Lake atualmente. – Engoliu em seco. – Os herdeiros estavam enforcados nas árvores e John tinha sua cabeça espetada em uma estaca. Os meninos estavam mortos e estava em uma situação deplorável. – Sentiu seus olhos queimarem com lágrimas. - Tinha estacas por todo o seu corpo e arrancaram suas presas, Rick...
— Eles estão bem, calma. – Acariciou sua bochecha levemente.
— Ela me disse para ir até o rio. – Passou as mãos por seu rosto. – O que isso significa?
— Quais foram as palavras dela.
— O quê? – o olhou um tanto confusa.
— As palavras dela. O que ela te disse.
— Ela me disse para ir até o rio e descobrir quem está assassinando os herdeiros.
— Então você precisa ter uma conversa com os mortos. – Rick a encarou, franzindo o cenho.
— O quê?
— Quando os mortos te chamam, você os escuta. – O bruxo suspirou. – Precisamos descer até rio e você precisa se comunicar com eles. Eles podem ter respostas.
— Como?
— Isso é algo que vamos descobrir. – Ricardo se levantou. – Vamos, você precisa entregar o anel para antes que ele enlouqueça e saia correndo do quarto dele.
assentiu com a cabeça, puxando a pequena caixinha que descansava na mesa de cabeceira para guardá-la no bolso da calça de seu pijama. Passou as mãos por seus cabelos, os prendendo com mais força no topo de sua cabeça antes de finalmente se levantar da cama e sair de seu quarto com Rick.
Desceram as escadas em silêncio e não pode deixar de notar que a noite já havia caído, tornando a visão dos vitrais um tanto monótonas contra a paisagem escura ao lado de fora da mansão. Virou-se em direção ao escritório onde se encontrava escondido, batendo na porta duas vezes antes de adentrar o cômodo.
— Eu espero não ter te assustado. – A bruxinha murmurou, escutando a porta fechar atrás de si, quando finalmente a encarou.
— Você quase me matou, . – correu em direção à herdeira, envolvendo-a em seus braços antes que ela fosse sequer capaz de apresentar alguma reação. – O que aconteceu? Eu conseguia escutar seus gritos.
— Visões. – sorriu fraco. – Mas isso não importa agora, temos algo para você. – Ela se afastou, tirando a pequena caixinha de dentro de seu bolso e estendendo-a para o rapaz. – Rick fez para você.
— O que é isso? – O vampiro pegou a pequena caixinha, abrindo-a cuidadosamente para encarar o anel que possuía uma pedra azulada entalhada.
— É um anel solar, você pode sair durante o dia sem que o sol te machuque. – Rick o encarou. – me disse que você costumava gostar de ir até a pedreira nadar, imaginei que a pior parte da transformação fosse não poder mais sentir o sol.
— Isso foi... – encarava o anel, totalmente embasbacado. – Obrigado, cara. – Murmurou, pegando o anel e colocando-o em seu dedo anelar.
— É o mínimo. – Rick sorriu. – Agora, preciso te pedir algo.
— Pode dizer.
— Nós precisamos que você fique com Chelsea. – O bruxo encarou a bruxinha. – Eu e precisamos ir até o rio, temos um compromisso com os mortos que não pode ser adiado e necessitamos do seu carro.
— Ir até o rio? Foi onde Alexia foi morta.
— Eu posso cuidar dela durante o processo, confie em mim. – Ele assegurou. – Eu sei que é muito para se pedir e você ao menos me conhece, mas eu a protegerei com minha vida se for necessário. Quando os mortos chamam, você precisa escutar.
— Tenho uma reunião com os herdeiros do pacto e depois dela, vamos descer até o rio. Bruxos fora do pacto não pode entrar nas dependências, preciso que você fique com ela até eu voltar, tudo bem?
— Tudo bem. – Ele assentiu, levando uma de suas mãos até a bochecha de . – Volte para mim, sim?
— Eu vou.
encarou os olhos do vampiro, depositando um selinho em seus lábios gélidos antes de se desvencilhar de seus braços e andar até a lousa cuidadosamente desenhada por seu pai anos antes. Pegou um pedaço de giz quebrado do apoio e, cuidadosamente, escreveu o nome “Bishop” em uma das colunas que simbolizavam as famílias fundadoras. Deixou o giz escorregar por seus dedos até a mesa, encarando a arvore genealógica que tomava forma a sua frente por alguns segundos antes de finalmente marchar para fora do escritório.


Capítulo 7: Necromancia

“There’s a smell of stale feeling that’s drinking from my skins The drinking never stops because the drink off our sins
We sit and throw or roots into the floor
What are we waiting for?

(Há um cheiro de sentimento velho que está bebendo minha pele
A bebedeira nunca para porque a bebida absorve nossos pecados
Nós sentamos e jogamos nossas raízes no chão
Pelo que estamos esperando?)“
- Believe, The Bravery


sentiu os pelos de sua nunca se eriçarem assim que colocou seus pés dentro do terreno do antigo cemitério de Irish Lake. A energia do local era carregada e a bruxa conseguia facilmente enxergar formas espectrais vagando pelos túmulos. Os espíritos murmuravam coisas desconexas e alguns deles apresentavam características próprias de séculos anteriores.
Se sentiu tentada a dar meia volta e voltar para o conforto de sua mansão, pensando no quão bom seria estar envolva por sua família e esquecer, por alguns momentos, toda a bagunça em que havia se enfiado nos últimos onze anos. Todavia, não foi o que fez. Parou diante do jazigo que carregava os dizeres “MORS OMNI AETATE COMMUNIS EST” e balançou sua cabeça negativamente.
— A morte não poupa ninguém, mas deveria.
Murmurou para ninguém em especial, sussurrando as palavras em latim que abriam a porta do jazigo até a sala de reunião das famílias fundadoras. Desceu as escadas íngremes calmamente, já ouvindo os murmúrios dos membros das seis famílias. Parou diante da entrada do grande salão apenas para sentir os olhares de todos os membros das em cima de si, incluindo Chelsea e Jonathan.
— Agora que estamos todos aqui, acho que devemos começar.
Alexander Wright sorriu carinhosamente em direção a herdeira, fazendo um gesto com a mão para que um pentagrama invertido se acendesse em chamas azuis oscilantes no chão. notou o livro que deveria ter assinado anos atrás, encarando os irmãos em um sinal de visível compreensão. Eles estavam pensando o mesmo que ela.
Venimus in cinere. * - Alexander encarou os herdeiros, sendo respondido por um coro de sapatos batendo contra o chão a medida em que eles formavam um círculo ao redor do livro. Deram as mãos uns para os outros antes de finalmente responderem o homem.
Reditus cinere.
Os herdeiros responderam, soltando as respectivas mãos enquanto encostava-se na parede se encontravam as escadarias do jazigo. Olhou com atenção cada um dos herdeiros ali presentes e sentiu seu coração derreter-se por completo quando viu os cabelos ruivos de Carter Wright entrarem em seu campo de visão. O rapaz estava claramente abatido, suas olheiras fundas denunciavam que ele já não dormia há algum tempo e algo dizia que isso tinha relação com a morte de sua irmã.
A morena respirou fundo, andando até o rapaz enquanto os herdeiros discutiam algo importante sobre medidas de proteção. Parou ao lado do garoto e levou sua mão até seu ombro, fazendo com que ele se assustasse antes de olhá-la nos olhos. Deixou um leve sorriso brincar em seus lábios e apenas balançou a cabeça quando fez sua súplica silenciosa. Levou suas mãos ao redor da cintura da mais velha dos e deitou sua cabeça no ombro da mocinha enquanto sentia o afago da garota nos fios acobreados de seu cabelo.
— Eu tenho medo, . - Ele murmurou, fazendo com que a herdeira sentisse seu coração se quebrar em diversos pedaços. Ela já havia perdido o pai e a melhor amiga, não podia deixar o mesmo acontecer com os outros.
— Eu sei, Carter.
Ela falou baixinho, soltando o rapaz e se dirigindo até a mesa onde os herdeiros se distribuíam, cada um sentado em uma cadeira. apenas dirigiu-se até a cabeça da mesa e sentou-se ali, sentindo a cadeira de couro abraçá-la por completo antes de esperar pelo aval de Alexander para finalmente começar seu discurso.
— Como a herdeira mais velha e primeira a receber os poderes, acho que todos concordamos que quem deve tomar a cadeira sou eu. - Esperou por alguém se pronunciar contra e quando isso não veio, continuou. - Enquanto estamos sentados aqui, o assassino dos herdeiros planeja sua mais nova vítima. O que sabemos sobre essas mortes?
— Alexia foi envenenada. Os cortes que ela apresentava teriam sido facilmente fechados com magia, . - Alexander se pronunciou, parando ao lado da cadeira da herdeira enquanto observava a jovem murmurar algumas palavras.
— Nós estudamos herbologia nos primeiros anos de dominação de magia, só existem duas plantas que apresentam um efeito semelhante ao que vimos em Alex. - murmurou, colocando dois potinhos de vidro na frente dos herdeiros.
— Acônito e Erva de São Cristóvão, claro. Se separadas são letais, combinadas... - Heather suspirou, passando a mão pelo rosto antes de balançar a cabeça negativamente. - Estamos sendo usados como bonecos de teste para uma experiência doentia.
— De fato. - jogou seu corpo contra o encosto da cadeira, respirando fundo antes de escutar Josh Lawrence finalmente se pronunciar.
— Me parece estranho nossos irmãos morrerem logo quando vocês retornam pra Irish Lake. - O homem destilou seu veneno, fazendo com que a herdeira tomasse uma posição ereta para fitá-lo.
— O que está insinuando, Lawrence? Que eu estou assassinando os herdeiros? Seu ódio por mim está te cegando, Josh.
— Eu estou insinuando que, enquanto você brinca de boneca com o seu vampiro de estimação, pessoas importantes para nós estão morrendo. - Josh levantou-se de sua cadeira, desferindo um soco na mesa em que estavam sentados. - Pessoas estão morrendo enquanto você age feito uma vadia com aquele mestiço. Você é suja, . Você e toda a sua família de bastardos.
O homem cuspiu as palavras no rosto da mulher, que respirou fundo e levantou-se no mesmo momento, sentindo a ira correr por suas veias. Segurou o dedo indicador do homem e o puxou, chutando o joelho do homem com força o suficiente para que ele se desequilibrasse. Torceu seu braço e o empurrou contra a mesa, segurando seu rosto em seguida. A rapidez dos movimentos fora tamanha que Josh ao menos teve tempo de reagir.
— Eu perdi o meu pai, meus irmãos e a única família que tinha. - Apertou o homem contra a mesa com mais força, proferindo cada uma das palavras com uma calma que ela nem mesmo sabia que tinha. - Eu fui do céu ao inferno durante os onze anos que se passaram, tentando encontrar uma forma de rever meus irmãos e família. E quando eu finalmente retorno, a única família que me resta está aos poucos sendo aniquilada por sabe-se lá quem. - o encarou, enquanto todos os presentes naquela sala apenas ficavam em silêncio esperando a hora de interferir. - Você não sabe de merda nenhuma sobre mim ou sobre as pessoas das quais eu convivo, então não se atreva a sequer abrir a boca pra dizer mentiras, porque se você o fizer eu farei questão de te mostrar o porquê de estar sentada nesta cadeira.
A mulher rosnou, próxima ao ouvido do homem, empurrando-o com mais força antes de soltá-lo. Limpou suas mãos e apenas voltou a se sentar na cadeira que fora lhe designada, enquanto os outros herdeiros a encaravam esperando que ela se pronunciasse mais uma vez. Por dentro, achava que tinha sido um tanto quanto exagerada em relação à suas ações, mas este pequeno arrependimento se esvaiu de seu corpo quando lembrou-se das palavras que lhe foram direcionadas.
— Mais alguém gostaria de se pronunciar? - Esperou por respostas e quando essas não vieram, prosseguiu. - Devemos pensar em estratégias de proteção em grandes perímetros, alguma sugestão?
— Não adianta proteger perímetros se não soubermos quem será o próximo alvo. - Rowan Jaeger murmurou, olhando as unhas pintadas de preto antes de fitar a mulher. - Se vamos resistir, devemos começar do jeito certo.
— Direto ao ponto, Row, não temos tempo para seus enigmas agora. - advertiu, levantando a sobrancelha quando o homem assentiu com a cabeça positivamente.
— Barreiras de proteção ao redor da casa dos herdeiros. - Rowan encostou-se na cadeira, apoiando seus coturnos pretos na mesa.
— É uma boa ideia se não considerarmos que temos um pequeno problema: e se for alguém que conhecemos? Não digo um dos herdeiros, mas existem pessoas que matariam para ter um lugar na nossa preciosa távola redonda, Arthur. - Mason Parker proferiu como se fosse óbvio e apenas maneou com a cabeça concordando.
— Evitar andar sozinho por qualquer lugar me parece ser útil, já que isso faria com que seja mais difícil pegar um de nós. - Kalissa Hunter suspirou, jogando a única ideia boa que parecia sair de sua mente naquele momento.
— Bom. Mais alguma ideia?
— Não sabemos em quem confiar, então eu ligeiramente recomendo que passemos a comentar coisas importantes somente aqui dentro. É mais seguro para todos nós.
Alexander suspirou, tendo como resposta a concordância geral dos membros do Coven. Os herdeiros se separaram e dividiram suas tarefas para que conseguissem cobrir a maior parte das áreas com feitiços de proteção. apenas deixou que os herdeiros se decidissem e se juntou com seus irmãos.
— Tenho algo para vocês. - A mais velha dos murmurou, retirando de sua bolsa um objeto enrolado com um pedaço de tecido, o entregando para o irmão. - Papai gostaria que você tivesse isso.
O rapaz franziu o cenho, pegando o objeto e o desembrulhando. Não pode deixar de sentir seus olhos queimarem com as lágrimas quando percebeu do que se tratava aquele objeto misterioso. O bracelete de ferro que era passado de pai para filho era um tanto pesado, mas nada que pudesse atrapalhá-lo de alguma forma. Pegou o objeto e colocou em seu pulso, sentindo o acessório se ajustar em seu braço de modo em que não pudesse ser retirado, cobrindo-o com a manga de sua camisa social.
— Obrigado por isso, . - O rapaz sorriu de canto, limpando a lágrima solitária que insistia em descer por seu rosto.
— Era seu, de qualquer forma. - A mocinha sorriu de canto, virando-se para a irmã. - E isso é para você.
sorriu de canto, tirando de seus dedos um dos anéis que sempre usava. O objeto era um tanto grosso e pesado, possuía algumas artes desenhadas e carregava uma pequena pedra de coloração tão azul quanto a de seus olhos. O anel havia sido dado a ela por seu pai assim que completara seus nove anos e Chelsea sabia disso. Chelsea também sabia que a irmã, de certa forma, também estava se assegurando de que se algo acontecesse a ela, seus irmãos teriam algo para se lembrar dela. Os gêmeos se abraçaram, apenas mantendo o confortável silêncio.
Ao fim da reunião, se permitiu ser a última a sair do salão, encarando as diversas prateleiras dos grimórios dos antepassados do coven, girando o anel em seu dedo anelar cuidadosamente.
— Seu pai estaria orgulhoso de você, .
escutou a voz de Alexander invadir seus ouvidos, virando-se para encará-lo. O homem carregava rugas ao redor de seus olhos e os cabelos, uma vez longos, se encontravam curtos e com entradas de calvície.
— Você acha? – Sorriu fraco, encarando-o. – Eu frequentemente me pego pensando em como tudo estaria diferente se ele ainda estivesse aqui.
— Se ele ainda estivesse aqui, você não teria aprendido tudo o que sabe. – Ele encostou-se contra a mesa. – É a jornada do herói, , você precisa passar por dificuldades para se tornar o que esse coven precisava.
— Eu só gostaria que essas dificuldades não envolvessem pessoas que eu amo. – Suspirou, desenhando seu caminho em direção às escadarias. – Até mais, titio.
— Cuidado, baixinha.
— Você também.
sorriu fraco, subindo as escadarias do jazigo. Atravessou a porta de saída e andou calmamente pelo extenso caminho entre os túmulos em direção ao portal do cemitério, escutando os lamentos das almas a cada vez que passava por um conjunto deles. Parou diante da porta do motorista do carro e entrou, puxando o cinto e dando partida no veículo.
— Vai ficar tudo bem, ok? - Rick sorriu, apertando o ombro da mulher ao seu lado quando ela assentiu positivamente, engatando a marcha para finalmente sair do antigo cemitério.
dirigiu alguns minutos através da estrada de terra que levava em direção à pedreira, mantendo-se focada em qualquer possível ameaça que pudesse aparecer durante o caminho. Estacionou o carro na areia escura ao redor do lago, tirando seu cinto de segurança para que pudesse andar deliberadamente pela areia. Fechou a porta atrás de si e apertou o botão que ativava o alarme no chaveiro em suas mãos.
Naquela noite, o lago se encontrava ainda mais silencioso que o habitual. A névoa branca dançava por cima da água negra, sendo iluminados somente pela luz da lua cheia que tomava conta do céu. respirou fundo, avaliando todo o local antes de começar a desamarrar seus coturnos, deixando-os na areia junto com sua jaqueta e todos os outros pertences, com exceção do anel que Rick a havia dado.
— Eu estarei aqui durante todo o processo, sim? – O brasileiro sorriu, parando atrás da bruxa e apertando seus ombros em um gesto tranquilizador. – Lembre-se: você tem o poder, só tem que encontrá-lo dentro de si.
encarou o rio, sentindo seu corpo se eriçar a medida em que ela se aproximava mais e mais da água. Ela respirou fundo, retirando sua calça e regata e jogando-as em direção ao amigo. Mordeu seus lábios e fechou seus olhos, sentindo a água gelada subir por suas penas, coxas, cintura até a altura de seus ombros. se sentiu confiante o suficiente para finalmente mergulhar.
O fundo do rio não se diferenciava de sua superfície, era quase tão negro quanto. continuou nadando até o fundo, se concentrando o suficiente para que ela conseguisse notar qualquer tipo de oscilação espiritual. Fechou seus olhos e pensou nas palavras que Rick havia dito a ela.
! – Uma voz sôfrega sussurrou, fazendo com que a herdeira abrisse seus olhos, buscando por qualquer forma em meio àquela escuridão. – ! Venha para a superfície! – A voz agora se encontrava mais firme e a bruxa aos poucos estava reconhecendo-a. – Agora, ! começou a submergir novamente, respirando fundo quando finalmente voltou a superfície. Buscou pela voz que a chamava, identificando uma forma fantasmagórica se formar aos poucos. – Nós não temos muito tempo.
— Pai? – franziu o cenho, encarando o homem. – É você? – Sentiu as lágrimas se acumularem em seus olhos.
Oi, coelhinha. – Ele sorriu, levando suas mãos até as bochechas da filha. – Você cresceu.
— Eu sinto sua falta, pai. – fechou seus olhos, sentindo as lágrimas descendo por suas bochechas quando sentiu o toque quase inexistente em sua bochecha.
Eu sei, coelhinha. – Ele murmurou. – Mas era como as coisas tinham que ser. – ele murmurou. – Nós não temos muito tempo, os espíritos são proibidos de interferir no plano mortal diretamente.
— O que eu tenho que fazer?
A porta é um portal, você vai conseguir todas as informações que precisa com dentro dela. – Ele se apressou. – Rosa vai te guiar e o seu amigo também, ele é um necromante assim como nós. Não confie em ninguém, você não pode falar sobre o livro. É uma vantagem que deve ser mantida em segredo até o último momento.
— Como eu vou saber que estou indo pelo caminho certo?
Quando tudo parecer uma grande piada do destino. – O homem sorriu. – Diga aos seus irmãos que eu os amo.
— Eu te amo, papai.
Eu te amo, coelhinha. – A forma fantasmagórica começava a se dissolver. – Eu tenho orgulho de quem você se tornou.
acenou com a cabeça, observando com atenção o fantasma de seu pai desaparecer entre a névoa esbranquiçada. Passou a mão por seu rosto, voltando a nadar em direção a margem do lago. Encontrou Rick segurando uma toalha de banho, que ela aceitou de bom grado enquanto enrolava contra seu corpo.
— O que aconteceu lá? Por um tempo eu achei que você iria se afogar.
— Eu falei com o papai. – Passou a toalha por seus cabelos. – Ele disse que temos que falar com Rosa. – Se abaixou em direção as peças de roupa que repousavam no chão, vestindo cada uma das peças enquanto falava. – Ele disse que você é como a gente.
— Um necromante? – Ele arqueou a sobrancelha.
— Sim. – calçou os coturnos, sem se preocupar em amarrá-los novamente. – Obrigada.
— Por?
— Me ajudar nisso. – Murmurou, desativando o alarme do carro para adentrá-lo. Aguardou o bruxo fazer o mesmo, lançando um feitiço para manter o interior do veículo isolado. – Ele me disse o que a porta significava.
— A porta?
— Sim. – girou a chave na ignição. – É um portal, ele disse que as respostas que precisamos estão lá.
— Um portal? Tipo, um portal para onde?
— Ele não disse. – Engatou a marcha. – Mas eu acho que seria algo entre os dois mundos, talvez? Algo que coexiste entre o mundo mortal e espiritual.
— Isso não explica como seus irmãos não conseguem enxergar.
— Isso é algo que podemos ver com Rosa.
. Para. - A bruxa encarou o melhor amigo, segurando o volante.
— O que foi? – franziu o cenho.
, você acabou de ver o seu pai. – O bruxo murmurou. – Nem em uma realidade paralela você estaria lidando tão bem com isso.
— É o que eu tenho que fazer, Rick. – Suspirou, passando as mãos pelos cabelos molhados. – Pessoas que conheci estão sendo exterminadas, eu preciso engolir e focar em resolver tudo. Só então eu posso me permitir sentir algo. Eu sou a cabeça do coven, Ricky, eu preciso colocá-los em primeiro lugar.
— Você precisa se permitir sentir algo além da necessidade de proteger todos o tempo todo.
— Eu falhei com Alexia, eu não posso falhar com o resto deles.
— Não foi sua culpa.
— Ela morreu nos meus braços porque eu não consegui salvá-la.
— Ainda assim. Foi algo que escapou do seu alcance. Você não poderia simplesmente adivinhar as coisas, você precisa deixar essa culpa ir ou isso vai acabar te matando.
encarou o melhor amigo, deixando um longo suspiro sair por seus lábios antes de tombar sua cabeça para trás e deixar o amontoado de lagrimas caírem por suas bochechas. Ela se sentia sobrecarregada, era como se o peso do mundo tivesse caído sobre suas costas e o chão tivesse sumido de seus pés, deixando-a vagando com um peso infinito diante do vazio. Escutou Rick murmurar um feitiço de proteção, antes de finalmente passar seus braços ao redor dela, em um abraço terno que trazia uma sensação de conforto que ela sentia somente com um círculo específico de pessoas.
— Tudo vai ficar bem, sim? – Rick acariciava seus cabelos, tentando sem sucesso acalmar a mente enevoada e autodestrutiva da bruxa encostada em seu peito.
Permaneceram naquela posição por um longo período, até o bruxo sugerir que ela o deixasse dirigir com o argumento de que ela não estava em uma situação mental aceitável para conseguir chegar até o bar de Rosa. E, após muita insistência, finalmente se permitiu trocar de lugar com o rapaz, que puxou a coberta no banco traseiro do carro e cobriu a amiga logo em seguida, ligando o aquecedor do veículo antes de dirigir pela estrada de terra em direção ao Fox and The Hounds.
Não foram necessários mais que dez minutos dirigindo para que eles finalmente chegassem ao destino. havia usado um feitiço para que o excesso de água de suas roupas se esvaísse, o que não havia sido aplicado aos seus cabelos que continuavam molhados em seu rosto. O bruxo estacionou o carro, saindo de dentro do veículo após a bruxa e jogando o molho de chaves em sua direção, sorrindo quando ela pegou a chave no ar.
Ela puxou a porta de vidro, seguindo Rick para o lado de dentro do bar antes de procurar pela figura de Rosa em algum lugar por atrás do balcão. Quando finalmente a encontraram, desenharam seus caminhos em direção a mulher, que disse algo a uma das garçonetes antes de retirar o avental e sair do balcão.
— Nós estávamos te esperando, criança. – A mulher sorriu, seus olhos sendo tomados pelo brilho esverdeado que sempre achou confortável. – Venha, precisamos ir para os fundos.
E com essa explicação vaga, seguiu para os fundos do bar, onde nunca havia sequer entrado desde então. Mas ela já havia visto seu pai fazer o mesmo caminho, trazendo-a um sentimento de deja-vu quando tudo estava aos poucos se repetindo. Pararam em frente à uma porta de ferro, que trazia diversos sigilos desenhados, o que causou um sentimento de familiaridade na herdeira.
— A porta, ela tem os mesmos símbolos. – Engoliu em seco, sussurrando as palavras para Rick.
— São sigilos de sangue. – Rosa murmurou, perfurando o dedo com a ponta da pedra do colar que usava, antes de encostar o dedo na superfície prateada. Quando o fez, certificou-se de olhar duas vezes antes de finalmente adentrar o recinto com os bruxos mais novos.
O que estava atrás da porta, todavia, deixou ainda mais impressionada. Não havia a possibilidade de aquilo ser dentro do Fox and The Hounds. Uma infinidade de prateleiras de ébano se estendia por metros e metros, sendo preenchidas por livros, algumas formas espectrais passavam através delas, mas não sentia uma energia pesada vinda delas. Algumas lâmpadas estavam espalhadas pelo local, mas elas eram distantes de qualquer coisa terrestre que já havia visto. Aquilo quase soava como casa.
— E é, . – Rosa se sentou em uma poltrona aveludada, apontando para as outras duas ao seu redor. – Nós estamos no meio termo entre o mundo espiritual e o terreno, o sentimento de pertencimento é porque nós fazemos esse caminho quando viemos ao mundo e quando partimos dele.
— É... imenso.
— E poucas pessoas têm acesso a ele.
— Exato. – Rosa encarou a neta, sentando-se em uma das poltronas que estavam dentro do local. – Se você não tem o tato, a porta de entrada pode se tornar um agravante para a loucura.
— O que explica as vozes. – ligou os pontos. – E as coisas que escutei dela.
— Os espíritos têm vontade própria, alguns permanecem na ponte até resolverem suas pendências, outros se sentem confortáveis em passar desse plano. – a bruxa sorriu, fazendo um gesto de mão para que um livro antigo flutuasse em direção à sua mão. – Algo está desestabilizando o mundo espiritual e isso é diretamente relacionado ao que está acontecendo com os herdeiros.
— Os assassinatos? – Rick indagou.
— Eles estão rompendo a lei natural das coisas e isso causa desequilibro no plano espiritual, muitas almas e energia passando pela ponte, muitos assuntos inacabados. – Rosa abriu o livro, apontando para a foto de uma mulher de pouco mais de vinte anos que se assemelhava a . – Bishop é uma delas, ela tem se comunicado diversas vezes comigo. Ela me avisou que você estava chegando e sobre o desequilíbrio.
— Ela se comunicou comigo noite passada.
— Isso significa que a situação está mais séria do que imaginei. – Rosa se levantou, andando em direção a uma das mesas e procurando por algo em uma das gavetas, logo retornando. – Anos atrás, seu pai me pediu um grande favor. – a bruxa voltou a se sentar, segurando um colar prateado e um envelope amarelado em suas mãos.
— Você estava com ele na noite anterior ao feitiço de proteção. – a encarou. – Você e papai ergueram a barreira de proteção, papai sabia que Margareth iria vir por ele.
— Não, . – Rosa franziu o cenho. – Margareth foi a terceira pessoa que nos ajudou a erguer a barreira, ela mandou vocês para longe a pedido do seu pai. Ela é a razão pela qual vocês estão vivos.
— O quê? – estava incrédula. – Não... eu me lembro de ver ela na frente do corpo de meu pai antes de apagar, isso não pode ser possível.
— Ela te salvou do assassino do seu pai. Aqui, leia isso. – Rosa estendeu o envelope para a herdeira, que o pegou no mesmo momento antes de começar a abri-lo. A caligrafia caprichada de seu pai marcava que a carta havia sido escrita na noite anterior à morte dele.

“Irish Lake, 14 de Fevereiro de 2006
Amada ,
Se você está Lendo esta carta, significa que há muito Estou morto e você finalmente retornou para Irish Lake, espero que ao lado de seus irmãos, com sua pequena paiXão ao lado.
Coelhinha, ao observar você e seus irmãos dormirem por uma última vez em vida, eu compreendo que a minha hora chegou e que eu devo aceitar o meu destino, rezando para que vocês consigam escapar ilesos.
Rosa, Margareth e eu trabalhamos duro durante os últiMos mEses para que vocês ficassem a salvo, procurando Meticulosamente fAmílias que cuidariam bem de vocês duranTe Os próximos anos qUe se seguiriam, Irish Lake não é um lugar seguro para três crianças como vocês, não no momento.
, você e seus irmãos dividem uma única alma, o que os torna infinitamente mais poderosos que qualquer bruxo de Irish Lake. E um alvo. Por esse motivo, tivemos que separá-los: para que ninguém os encontrasse antes que vocês estivessem preparados para se defender. E eu sei que agora vocês estão.
Você vai encontrar tudo o que precisa no portal e eu espero que seja o suficiente para que você entenda. E eu sei que vai, nunca uma criança foi tão inteligente quanto vocês três.
Eu amo vocês, mais do que sequer cabe em meu coração.
Com amor e zelo,
Robert Julian , seu pai.”


— Merda. – Murmurou a herdeira, limpando um conjunto de lágrimas que caíram por suas bochechas à medida em que ela terminava de ler a carta. Guardou-a de volta no envelope e colocou-a no bolso da jaqueta. – Eu passei anos a odiando por isso. Por que você não me contou quando eu te falei tudo, Rosa?
— Eu fiz um voto, eu não poderia contar até o momento certo. – Ela engoliu em seco. – O assassino está entre nós, temos que manter as aparências e fingir que não sabemos de nada, para conseguir pegá-lo de surpresa.
— Você poderia ter me dito antes.
— O mundo terreno não é seguro, as paredes têm ouvidos.
— O que aconteceu com Margareth? - Rick franziu o cenho.
— Ela conseguiu enviar as crianças para longe, mas não conseguiu se salvar. – Rosa encarou o colar que estava em suas mãos. – O assassino a deixou para morrer na estrada da mansão dos , eu a encontrei lá e fiz um enterro digno.
— Caralho...
— É... – murmurou ela, encarando a herdeira novamente. – Aqui, menina, isso é algo que seu pai e eu gostaríamos que você tivesse. – Rosa estendeu a corrente prateada para , que a pegou de imediato. – Era da sua mãe, achei que você também deveria ter uma relíquia da família. Eu já entreguei o de Chelsea.
Observou o medalhão prateado em suas mãos, atenciosa nos detalhes desenhados em sua tampa. Alguns sigilos e as letras B e R cuidadosamente entalhados em sua superfície. levou seu indicador até o botão da joia, abrindo-a com zelo para encarar os dois objetos que estavam ali: uma foto dela com sua família e uma pedra de esmeralda com fios prateados ao redor. Reconheceu o último como sendo uma pedra parecida com a que Rosa usava em seu bracelete. Agradeceu com um aceno de cabeça e colocou o medalhão em seu pescoço, escondendo-o embaixo das peças de roupa.
— Obrigada, vovó. – se levantou, abraçando a avó com força antes de encarar Rick. – Temos trabalho para fazer.
— Sim, temos. – Ele sorriu, estendendo sua mão em direção à bruxa mais velha. – Foi um prazer, Rosa.
— Igualmente, criança.
Com um aceno de cabeça, ambos os jovens saíram pela porta secreta cuidadosamente, voltando a se lançarem a noite fria da pequena cidadezinha cientes do destino que os aguardava.


Capítulo 8: ¿

“Taking showers every hour and I choke on steam
Writing on the mirrors and the space between
So tall, it broke the fourth wall
Guess my fairy tale has a few plot holes.”

(Tomando banhos a cada hora e eu me engasgo com vapor
Escrevendo nos espelhos e no espaço entre eles
Tão alto, quebrou a quarta parede
Acho que meu conto de fadas tem alguns furos no roteiro)

— ¿, Bring Me The Horizon


Quando finalmente colocou os pés em sua casa no meio da madrugada, ela estava se sentindo completamente drenada pela quantidade de informações que chegaram à sua mente nas horas que se passaram. A herdeira andou lentamente em direção ao barulho em sua cozinha, esperando com todo o coração que houvesse algo que ela pudesse usar para suprir a necessidade de comida em seu sistema, não contando em encontrar vestindo um avental quando adentrou o cômodo.
— Ei, você chegou. – Ele sorriu de lado, desligando o fogão e andando em direção a para depositar um selinho em seus lábios. – Eu fiz comida, imaginei que vocês estariam com fome ao chegar.
— Eu amo o seu namorado. – Rick murmurou, passando pelo rapaz para fuçar as panelas.
— Valeu, cara. – O vampiro agradeceu, voltando a encarar a herdeira. – Ei, tá tudo bem?
— Eu só estou cansada para caralho. – Ela sussurrou, sabendo que ele escutaria mesmo que o fizesse. – Eu acho que só preciso encostar e dormir até tudo isso acabar. – encostou seu rosto no peito do homem, fechando os olhos quando sentiu as mãos de acariciarem seus cabelos.
— Você quer se deitar? Eu posso te levar algo para comer e nós podemos assistir algo até você cair no sono, o que acha? – Ele a encarou, esperando uma resposta.
— Me parece uma boa ideia. No meu quarto ou no seu?
— Depende. – Ela fechou os olhos, passando seus braços ao redor do homem. – Você pretende passar a noite?
— Você quer que eu passe? – Ele se afastou levemente, esperando que ela o encarasse de volta. – Eu posso tomar isso como um “sim”?
Yep. – Ela se afastou. – Onde está Chelsea?
— Ela está com no andar de cima, eles já estavam dormindo quando fui chamá-los. Quer que eu os chame?
— Não. – Balançou a cabeça negativamente. – Eu lido com eles amanhã, depois de uma boa noite de sono. – Fez uma careta. – Eu te espero no quarto.
— Tudo bem, eu já te encontro lá.
— Nos vemos amanhã, Ricky.
— Você pode ficar com o quarto de John, tá? É o único sem marcas de chamas na porta.
— Tudo bem, princesa, fica bem.
balançou a cabeça em concordância, se afastando em passos arrastados até o escritório que havia carinhosamente chamado de quarto. Levou sua mão até a fechadura e a girou, adentrando o cômodo escuro sem ao menos se importar em ligar a luz, sendo apenas guiada pela luz baixa do abajur da escrivaninha. Sentou-se no sofá cama, retirando seus coturnos e colocando-os cuidadosamente ao lado do móvel, fazendo o mesmo com sua jaqueta e calças, ficando apenas com a camiseta desgastada que chegava até o meio de suas coxas antes de deitar-se encolhida no sofá-cama.
No cômodo ao lado, cuidadosamente segurava um bowl em suas mãos, colocando a sopa no recipiente e a deixando na bandeja que ele usaria para levar para o quarto onde descansava. Pegou alguns pedaços de pão e os ajustou cuidadosamente em cima de um prato, se permitindo encarar Rick, que consumia sua janta minunciosamente.
— Rick?
— Sim? – Ele parou com a colher no ar, levantando seu olhar em direção ao vampiro.
— O que aconteceu lá?
— Olha, vampirão... – O platinado suspirou. – Eu acho que você deveria perguntar isso pra ela. Não me entenda mal, não é como se eu estivesse me recusando ou algo assim, é só que nos dois conhecemos a bem o suficiente para não trair a confiança dela.
— Ela está diferente, eu não sei. – Ele franziu o cenho, encostando-se contra a ilha. – Ela está diferente desde que voltou, na verdade, mas hoje é como se... ela estivesse cada vez mais sombria.
— Honestamente, você poderia culpá-la? Ela perdeu boa parte das coisas que a faziam ser quem era, ela está passando por um momento terrível. É um milagre que ela não tenha colapsado.
— Ela é a pessoa mais forte que conheço.
— Não é? – O brasileiro sorriu.
— Você deveria ficar por aqui. – se virou, pegando a bandeja cuidadosamente. – Sabe, quando tudo acabar.
— Eu posso pensar na possibilidade. – Rick deu de ombros, voltando a tomar a sopa.
— Seria maneiro. – Ele sorriu, andando em direção ao quarto. – E, Rick?
— Sim?
— Obrigado por cuidar dela.
— Por nada. - O brasileiro assentiu, fazendo um gesto com sua mão para que a porta do escritório abrisse para o vampiro.
adentrou o cômodo calmamente, fechando a porta com o auxílio do próprio pé, desenhando seu caminho em direção ao corpo encolhido de . Sentou-se na beirada do sofá-cama, colocando a bandeja em cima da mesa de cabeceira para acariciar os cabelos úmidos da herdeira, sendo encarado por grandes orbes azuladas logo após.
— Com fome?
— Bastante. – Ela se levantou lentamente, prendendo os cabelos desajeitadamente em um coque. – O que você fez aí, loverboy?
— Sopa de presunto. Ainda é a sua favorita? – Ele pegou a bandeja, colocando em frente a herdeira. – Eu precisei pegar a receita com a minha mãe.
— Sim. – Pegou um pedaço do pão, molhando-o na sopa e o assoprando antes de colocar na boca. – Deuses, isso tem gosto de casa. – Tombou a cabeça para trás, fechando os olhos. – Droga, acho que estou apaixonada.
— Por mim ou pela comida? – Ele arqueou uma das sobrancelhas.
— Eu vou deixar que você tome uma conclusão. – Piscou em direção ao rapaz, levando uma colher de sopa até a boca.
— Como foi com os herdeiros?
— Lawrence me irritou. – Mordeu outro pedaço do pão. – Tive que colocá-lo no lugar dele.
— É mesmo? E como foi?
— Quer saber sobre ou quer uma demonstração física? – arqueou uma das sobrancelhas, deixando um sorriso travesso brincar em seus lábios.
— Vai doer?
— Depende do quanto você aguenta. – Deu de ombros, voltando sua atenção para o bowl.
— Acho que consigo lidar.
— Isso foi safado. – A bruxa sorriu. – Eu gostei.
— Você vai me levar a sério algum dia?
— Talvez um dia, mas não hoje. – Ela virou o que restava no bowl em sua boca, limpando os lábios com as costas de sua mão. – Hoje eu só quero ficar deitada recebendo carinho do meu vampiro de estimação.
— Do seu o quê? – se esticou, pegando a bandeja e voltando a colocá-la em cima da mesa.
— Lawrence disse isso e chamou a gente de bastardos, nada novo. – Deu de ombros. – Eu cuidei disso, tá?
— Não que isso me deixe menos bravo, ele chamou a minha namorada de bastarda, o mínimo que ele deveria ganhar é uma surra. – O vampiro franziu o cenho, visivelmente irritado.
— Ele teve o suficiente, não sou tão fraca quanto pareço, namorado. – Deu ênfase na última palavra, sorrindo em direção ao rapaz.
— Eu nunca disse que você é fraca, só disse que gostaria de bater nele. – Ele a encarou. – O que foi?
— Namorada? – engatinhou em direção ao bruxo, parando atrás do homem e passando seus braços sobre seus ombros, abraçando-o.
— Você está ok com o termo? – Ele virou seu rosto, sentindo o cheiro de maçã-verde e lírio adentrarem suas narinas.
— Eu não me importo. – Ela depositou um beijo carinhoso na bochecha do vampiro, deitando a cabeça em seu ombro. – Acho que a minha versão de anos atrás estaria feliz de escutar isso.
— Estaria?
— Bastante. – Ela bocejou, fechando os olhos.
— Você está admitindo sua queda por mim, ? – Ele riu fraco, descrente das palavras da herdeira.
— Quando você admitir a sua, talvez. – Ela deu de ombros, soltando-se dele para se deitar.
— Não ouse fugir agora, bruxinha.
— Estamos no mesmo quarto, não estou fugindo.
— Então me diz... – Ele se esticou em cima dela, espalmando as mãos ao redor do corpo dela para encarar seu rosto.
De perto, os olhos da herdeira pareciam quase pretos pela falta de iluminação, sua respiração estava entrecortada e conseguia escutar os batimentos acelerados dela. Sentiu uma mão passear por suas costas lentamente, passando por baixo de sua camiseta ao mesmo tempo em que a outra parava na curva de seu pescoço. A pele de queimava contra a sua pele fria, causando arrepios por todo o seu corpo.
— Não deveria fazer perguntas que você já sabe a resposta, Hemmings. – Ela sorriu, alternando sua atenção dos olhos do vampiro até seus lábios rosados.
— Pare de brincar comigo. – ele encarou os lábios dela, levemente entreabertos.
— Eu não estou. – Sussurrou, puxando-o em sua direção. – E você?
— Achei que você fosse a garota que não gostava de perguntas óbvias. – ele sorriu.
— Eu quero ouvir você dizer.
— Eu só vou dizer uma vez, sim? – Ele murmurou, aproximando seus lábios do ouvido da herdeira. – Eu sou apaixonado por você desde antes de sequer saber o que era isso. – Ele proferiu as palavras lentamente e depositou um beijo no maxilar da bruxa, sentindo seu corpo se arrepiar graças ao ar quente de sua respiração. – Satisfeita?
— Bastante. – Sorriu, descendo sua mão até o queixo do rapaz, forçando seu rosto para que seus lábios se encostassem em um beijo singelo, sem segundas intenções, apenas para firmar a certeza do sentimento. – É recíproco.
empurrou o vampiro para o lado com delicadeza, esperando que ele se arrumasse no sofá-cama para que ela pudesse se aninhar contra seu corpo frio e deitar sua cabeça em seu peito, sendo envolvida por seus braços longos em um abraço confortante. Ela fechou seus olhos, se permitindo sentir o carinho cuidadoso de em seus cabelos, o que fez com que seu coque se desfizesse durante o processo. Sendo embalada pelo cansaço, apenas se permitiu dormir, mergulhando na atmosfera com aroma de cidreira e grama molhada de , que a recordavam do significado de casa.
Quando finalmente abriu os olhos, ela já se sentia menos drenada. Sentiu um leve afago em seus cabelos e levantou seu rosto, encarando , que sorria abertamente em sua direção.
— O que foi? – encostou seu queixo no peito do vampiro.
— Você fica linda dormindo, sabia? – Ele levou sua mão até um amontoado de fios que estavam no rosto da herdeira antes de colocá-lo atrás de sua orelha.
— Pare com isso. – Ela riu. – Eu preciso mesmo ir até lá?
— Precisa. Quero que você me acompanhe testando, somente caso dê tudo errado. – Ele colocou sua mão em frente a herdeira, mostrando o anel que havia ganhado de Rick no dia anterior.
— Ok, você acabou de me motivar. – se levantou em um pulo, puxando a mão do vampiro. – Vamos.
— Você está alimentando minhas expectativas. – Ele a encarou, se deixando levar pelos puxões da bruxa pelo quarto.
Eu estou com grandes expectativas, então eu também vou ficar triste caso algo dê errado. – justificou, abrindo a porta e parando na cozinha para encará-lo. – Gramado ou piscina?
— Gramado.
E, com um aceno de cabeça, começou a desenhar o caminho em direção à porta de entrada da mansão dos . Suas mãos suavam de ansiedade pelo rapaz ao seu lado, era quase como se a própria fosse ver o sol depois de tanto tempo. Parou em frente a porta de entrada e encarou o mais alto, esperando qualquer tipo de manifestação contra a abertura da porta, quando esta não veio, a bruxa apenas puxou a porta e saiu para fora de casa, sendo recebida pela sombra fria do hall de entrada.
— Pronto?
— Não. – Ele riu, engolindo em seco antes de passar para o lado da herdeira. – Você... – ele a encarou, erguendo sua mão para que ela entrelaçasse seus dedos nos dele. E assim o fez.
Andaram em passos hesitantes em direção ao portal de entrada e desceu as escadas lentamente, virando seu rosto em direção ao vampiro. olhava a mão da bruxa sendo envolvida pelo sol tímido do inverno de Irish Lake. Em um pequeno momento de coragem, ele fechou os olhos e desceu as escadas restantes, esperando por algo diferente da sensação pinicante que tomava conta dos membros expostos aos raios de sol. Ele abriu finalmente se permitiu abrir os olhos, sentindo sua visão embaçar com lágrimas. Depois de pouco mais de dois anos sem sentir a sensação do sol em sua pele, aquilo já soava como um sonho distante.
— Como se sente?
— Merda, . – Ele riu, limpando as lagrimas de sua bochecha com as mãos. – Eu não consigo acreditar que isso realmente é real. – Ele encarou os próprios braços.
— É sim. – A herdeira se aproximou, acariciando a bochecha do rapaz com o polegar. – Você merece isso.
— Obrigado. – ele virou o rosto, depositando um beijo em sua mão. – Eu devo uma a Rick.
— Sim, você deve. – Ela riu fraco
— Vamos voltar para dentro antes que você congele. – se abaixou, jogando a herdeira em seus ombros como um saco de batatas, o que resultou em uma gargalhada vinda dela. – Venha, princesa, vamos levar você de volta ao seu castelo.
— Eu estou mais para a bruxa do oeste, você sabe disso, né?
— Você não é verde.
Ainda.
deixou seu peso cair em cima do rapaz, abraçando sua cintura para que ela não escorregasse durante o processo. a carregou até o interior da mansão, fechando a porta com um breve aceno de mão enquanto eles andavam em direção a sala onde um burburinho conseguia ser escutado, mesmo à distância.
— Mas que belo casal! Estávamos esperando por vocês. – encarou a herdeira, que agora já havia sido colocada no chão pelo vampiro e arrumava a camisa com o dobro de seu tamanho.
— Se vocês ligassem antes, a espera seria menor. – Sorriu, sentando-se no sofá. – Bom, temos bastante para conversar. Onde está John? – encarou o bruxo, esperando por uma resposta.
— Ele está com Rosa, disse que não se sentia confortável em vir até aqui. – a encarou. – Mas ele disse para passarmos o que é necessário para ele depois.
— Existe uma razão para termos combinados de falarmos sobre isso aqui dentro. – Rick franziu o cenho. – Não estou presumindo nada, mas temos que ser cuidadosos.
— Rick está certo. – Chelsea balançou a cabeça. – John deveria ter vindo.
— Ele pode estar querendo proteger Rosa. – deu de ombros.
— É uma possibilidade, mas ainda assim não acho que cuidado é demais. – Rick bebericou o líquido em sua xícara e presumiu que fosse café.
— Eu cuido disso. – A herdeira se pronunciou. – De qualquer forma, falamos com os herdeiros ontem. – Encarou Chelsea. – Tomamos providencias para proteção e depois disso, nós fomos até a pedreira.
conseguiu contato com os mortos, não do jeito que esperávamos que fosse. – Rick encarou o vampiro. – ?
— De começo, achei que fosse falar com Alexia, mas aparentemente o mundo espiritual tinha outros planos. Eu falei com o papai, Chelsea.
— O quê? – A loira franziu o cenho. – Você tem certeza que não foi manipulação da nevoa?
— Tenho. Eu conseguia sentir a energia. Era quase como se ele estivesse vivo, Chels, nunca senti isso antes. – explicou. – Ele disse muitas coisas e uma delas era que falássemos com Rosa. Foi o que fizemos, descobrimos a terceira pessoa que ajudou no feitiço de proteção.
— Quem? – Mikey indagou.
— Margareth. É difícil de acreditar, mas o que ela fez foi impedir que o verdadeiro assassino nos pegasse também. Ela morreu e nós passamos metade de nossas vidas a culpando por algo que não foi culpa dela.
— Você está brincando, não é? – franziu o cenho. – Você realmente acreditou nisso tudo?
— Papai escreveu uma carta. – gesticulou com a mão, fazendo com que o envelope amarelado surgisse entre seus dedos. – Eu confio em Rosa e conheço a caligrafia do meu pai com a palma da minha mãe, eles não estão mentindo.
— Posso ver? – Rick indagou.
— Claro. – estendeu a carta em direção ao melhor amigo, que retirou o papel amarelado de dentro do envelope e o estudou por algum tempo.
?
— Sim?
— Você reparou que algumas das palavras tem letras maiúsculas? Tipo, não existe uma lógica, algumas letras estão no começo, outras no final. Todas aleatoriamente distribuídas.
— Papai costumava brincar disso com a gente. – Chelsea franziu o cenho, se aproximando do bruxo para estudar a carta. – Ele deixava pequenas mensagens implícitas entre os grimórios para que a gente adivinhasse a utilidade dos feitiços.
— Eram páginas e páginas com esse tipo de coisa, espera.
se levantou em um pulo, correndo em direção ao escritório do pai. Invadiu o cômodo como um furacão, procurando por um pedaço de papel e uma caneta. Quando finalmente os encontrou, refez seu caminho em direção a sala da mansão e se sentou no chão, encarando os amigos.
— Qual é a ordem das palavras?
— A, L, I, L, E, X – Rick soletrou cada uma das palavras calmamente. – R, M, M, E. Deus, isso está confuso.
— Só continua. – estava concentrada. – O que mais?
— M, A, T, I, L, O, P.
— Okay. – A cabeça de funcionava de forma rápida, girando em milhares de quilômetros por hora enquanto as palavras de seu pai na noite passavam por sua cabeça. Quando tudo parecer uma grande piada do destino. – Me dá isso. – Ela estendeu sua mão para a carta, observando as palavras que eram nomes próprios e riscando-os. Reescreveu as palavras que restaram na folha e engoliu em seco, sentindo o peso do mundo cair contra as suas costas mais uma vez.
— Puta que pariu. – Ela escutou alguém dizer pausadamente. Todavia, não obteve sucesso em identificar qual dos presentes havia proferido tais palavras. O sangue retumbava em seus ouvidos e ela sentia seu mundo girar. Quando finalmente ligou os pontos das palavras de seu pai, toda a situação realmente soou como uma piada para ela. Uma grande piada de mau gosto. Encarou as palavras escritas meticulosamente no papel, finalmente tomando coragem para constatar o fato.
— Alexander Wright matou meu pai.




Continua...



Nota da autora: Demorou absurdos, mas a atualização finalmente chegou!
Com a chegada do nosso brasileirinho na história, as coisas vão começar a ser um pouco mais tranquilas pra nossa menina - ou não. Rs.
Espero que vocês gostem do Rick da mesma forma que eu gosto dele, porque ele é realmente uma das melhores pessoas dessa história.
No mais, também temos pequenas spoilers do futuro da nossa pp em um dos especiais, caso vocês tenham interesse.
É isso, até a próxima atualização, pessoal!




Outras Fanfics:
Under The California Sun, Shortfic/Finalizada (Especial Enredo Pronto)
The Roadie, Longfic/ Em andamento (Especial Temáticas)

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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