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Finalizada em: 12/10/2021

BTS World - A Saga

Prólogo

Los Angeles, 2017.

O barulho da conversa incessante das pessoas que estavam naquele imenso galpão era o suficiente para preencher todo o espaço, fazendo com que existisse a sensação de que havia mais pessoas do que o de fato tinha ali. havia terminado sua refeição e estava rolando a página do Twitter enquanto aguardava o restante de sua equipe finalizar também. Ainda precisavam fazer mais um último ensaio da apresentação no palco da premiação que aconteceria no dia seguinte. Assim como , os outros seres naquele galpão se dividiam entre artistas e suas equipes.
De repente, o silêncio foi diminuindo, no mesmo instante ela decidiu colocar o celular de lado e tentar apressar sua equipe. Algumas câmeras haviam entrado naquele local para filmar alguma coisa e não era de seu desejo aparecer em nenhuma filmagem alheia estando com aquela aparência de exausta. Havia chegado em L.A. no dia anterior, depois de quinze longos dias percorrendo alguns países da Europa para promover em festivais de cinema o novo longa em que havia estreado. Mal teve tempo para descansar e ir para sua casa na zona mais afastada da cidade, chegou e do aeroporto seguiu direto para o local onde seria o evento para reconhecer o palco, fazer alguns ajustes pessoais e se preparar para as longas horas de ensaio até o dia seguinte. Para a grande sorte, sua equipe havia conseguido mais de 50% de exclusividade dos ensaios naquele dia, as outras pessoas ali estavam fazendo outros tipos de checagem.
— Eu acho que é aquela boyband sul-coreana... BTF, não é? — ouviu sua empresária dizer e virou o rosto em sua direção.
— Não, Pam, é BTS. — Jordan, um dos dançarinos e melhores amigos de , respondeu rindo.
— Eles são umas gracinhas, adoro aquela música do assovio... — Pam deu continuidade no assunto e olhou para a direção de onde as câmeras apontavam.
Um a um foi entrando, era uma equipe enorme, mas como todos ali estavam acostumados com isso não era algo que chamasse tanto a atenção de quem estivesse ocupado com outra coisa — o que não era o caso dela. Não demorou muito para que ela pudesse ver dois seguranças escoltando um grupo de garotos — em sua concepção eram garotos, ela pouco sabia sobre eles — com cabelos bem arrumados e roupas largas, muito provavelmente para facilitar os ensaios de coreografias. Eles eram bem pálidos, conversavam entre si no próprio idioma e eram guiados para a fila de self-service. Não pôde deixar de reparar em como eram organizados e educados, não falavam alto e muito menos demonstravam querer ocupar espaço, um comportamento bem diferente do que era costumeiro nos países menos conservadores.
— Quantos anos vocês acham que eles têm? — Jordan disse, levando um pedaço de bolo até a boca. — Eu chuto que o mais novo deve ter 19 anos, olhem para essa pele — disse com a mão em frente à boca, pois estava com ela cheia de bolo ainda.
passou a reparar em um a um, mas o último deles lhe chamou a atenção de uma forma diferente por um detalhe que sempre a cativava: o sorriso. O cabelo vermelho também era algo que chamava a atenção, mas para a cantora e atriz aquele sorriso era o detalhe, era o charme de quem estava o carregando. Não tomou consciência de quanto tempo olhava em sua direção, apenas percebeu que o grupo se movimentava e ia para o lado da mesa em que ela estava. E tinha uma mesa ali vazia.
— Com licença... Erm... ... Podemos... Erm... Sentar aqui? — o primeiro da fila, com a pele menos pálida, perguntou em um inglês bem entendível, mas gaguejando, parecendo estar com vergonha. Ele usar o seu nome artístico foi suficiente para que a tirasse daquele transe.
— Oh, sim! Fiquem à vontade. — Ela sorriu apontando para o lado vazio e se pegou pensando que seria legal caso o último deles sentasse no espaço que tinha vago ao seu lado, queria olhar aquele sorriso de perto.
E novamente um a um foram se ajustando nos lugares disponíveis, sem baderna alguma. Jordan encarava a amiga sem que ela percebesse, já reparando no tanto que olhava para o de cabelo vermelho — que para a sorte do desejo de , sentou em sua frente, do outro lado da mesa, assim ela poderia observar mais o seu sorriso. ainda não havia captado o olhar malicioso do amigo, mas Pam o havia feito e segurava um riso.
— Muito obrigado por nos permitir sentar aqui — o mesmo garoto de pele menos pálida agradeceu e ela sorriu novamente.
— Disponha! — respondeu e olhou um a um. — Vocês são o BTS, não é? — perguntou rapidamente, se lembrando do que havia ouvido de Jordan e Pam. — Eu sou , muito prazer — disse sem muito esperar pela resposta do grupo.
— Erm... Hm... Nós a conhecemos, . Somos muito fãs do seu trabalho de forma geral! — o mesmo voltou a dizer. se perguntou se apenas ele tinha voz ou se era algum tipo de acordo de líder de grupo apenas ele falar. — Eu sou Namjoon, sou o líder do grupo e tradutor também. Sou o único com inglês fluente — esclareceu parecendo ter lido os pensamentos dela. — Estes são... — E então ele apontou e disse algo para os outros garotos em coreano que ela não entendeu muito bem, mas acreditou ser para que se apresentassem, pela lógica do que veio a seguir.
— Eu sou o Jin. — O primeiro a se apresentar tinha o rosto mais fino e o cabelo bem preto.
— Jimin. — Este tinha o cabelo tingido de um loiro mais puxado para dourado e um sorrisinho tímido.
— Taehyung, mas pode me chamar de V. — Ela segurou o riso com o “V”, seu inglês saiu todo embolado, porém de forma adorável. Mas ela apenas sorriu mais abertamente, vendo os garotos rirem dele de um jeito agradável.
— Jungkook. — Este foi mais tímido e fez um aceno com a mão, ele estava do lado dela.
— Suga. — Também acenou, mas de forma mais simples.
Quando chegou a vez do garoto de sorriso cativante e cabelo vermelho, todos olharam para ele e em coreano diziam algo, ela reparou que Namjoon levou a mão ao rosto e o que veio a seguir da boca do outro a fez rir de forma simples, mas divertida.
— Eu sou sua esperança. Você é a minha esperança. Eu sou o J-Hope.
— Desculpa por isso, é como ele se apresenta por causa dos fãs e tal... — Namjoon disse parecendo envergonhado pelo amigo.
— Sem problemas, eu achei adorável. — Ela voltou o olhar para J-Hope e completou: — E como é o nome da minha esperança?
Após Namjoon traduzir para J-Hope o que havia dito, a resposta veio com um sorriso largo que novamente a deixou encantada.
— Jung Hoseok ou Hobi para você. — O “para você” foi de uma sonoridade meiga por conta da dificuldade com o idioma e o sotaque.
A conversa não pôde se estender, foi cortada por Pam, eles precisavam voltar para o local do palco e ensaiar. Ainda havia muito a ser feito para concluir a agenda de daquele dia. Ela se despediu deles rapidamente e seguiu pela saída com os olhares dos garotos sobre si. Não que ela percebesse, afinal saiu e não olhou para trás. O que deu um alívio para o septeto sentado.
— Fala sério, eu não consigo mais comer depois desse momento com a — uma pausa para abanar as mãos no ar — ! — E Jimin foi o primeiro a dizer, empurrando o prato na mesa e se esticando na cadeira, incrédulo.
— Eu não sei como foi que consegui falar qualquer A para ela — Namjoon disse e mostrou a mão trêmula. — Olha isso, eu to tremendo!
— Ela é incrível. Pessoalmente é muito mais elegante... — Jungkook mencionou.
— E o perfume? — Jin o cortou.
— Esperem um pouco... aquilo com o Hobi... — Jungkook, que de repente parou seu olhar no nada, disse pensativo, fazendo com que todos olhassem na direção de J-Hope.
— O quê? — ele perguntou confuso.
— Fui só eu quem reparou que ela estava olhando descaradamente para ele? — Jin questionou depois de captar o sentido para o que Jungkook estava querendo trazer em conversa.
— Ah... besteira, devia estar olhando para o One Direction ali... — Jung apontou um dos membros da boyband que já estava em hiatus citada, mas ninguém seguiu o olhar.
— Como é que ela perguntou mesmo, Namjoon? — V perguntou nostálgico.
— Ah sim... Qual o nome da minha esperança?
— Sério, dentre tantas formas que você podia se apresentar para , você usou a tradicional? — Jimin disse rindo e sem esquecer da ênfase no nome.
— Lamentável. — Jin negou com a cabeça.
— Ué, mas deu certo. Ela perguntou o nome da esperança dela... — Jung sorriu convencido. — Deu certo.


Capítulo 1

Seul, 2018.

O aeroporto estava cheio de gente esperando por sua chegada e aguardava calmamente dentro de seu jatinho particular a deixa para que saísse. Eram muitos paparazzi espalhados por ali, misturados dentre dos muitos fãs e ela estava extremamente cansada para raciocinar qualquer passo fora daquele avião envolvendo inúmeras pessoas gritando por seu nome e outras com diversos flashes disparados sem pudor. A espera era porque os responsáveis pela sua locomoção estavam resolvendo detalhes para que os veículos da empresa contratada entrassem na pista de decolagem e ela pudesse sair por ali mesmo.
Já havia ido algumas vezes a Seul, na Coréia do Sul, mas era a primeira para duas noites de show da sua turnê de promoção do novo álbum de estúdio lançado recentemente. Para seu alívio e felicidade, os shows estavam esgotados e o nível de aceitação do seu trabalho naquele país havia aumentado. Ela tinha receio quanto ao aceite em países mais conservadores. Entretanto, o respeito por culturas, seu ponto forte como artista, a impulsionava cada vez mais. Não era nova no ramo do show business, por mais que estivesse apenas com 22 anos, conhecia bem o meio em que trabalhava; a sua experiência de quase vinte anos a ajudava.
, podemos descer. — Ouviu a voz de Pam e sorriu aliviada, vestiu o óculos de sol preto feito para sua coleção com a marca alemã, Hugo Boss, e puxou o capuz do moletom para cobrir sua cabeça.
— Tem muitos? — perguntou se levantando. Pam, sabendo sobre o que ela estava perguntando, respondeu:
— Meia dúzia do que vimos. Mas deve ter alguns escondidos e pelo meio do caminho. — Suspirou. Apesar de estar com por alguns anos, ainda não estava acostumada com essa perseguição de paparazzi.
apenas deu de ombros e seguiu o caminho até a saída do jatinho. O dia estava completamente nublado e ela já sabia que em alguns sites de fofoca falariam muito mal sobre sua vestimenta ao chegar a Seul, com certeza afirmariam que ela é antipática. Desceu os degraus com cuidado, o jet lag gritava alto e ela agradecia mentalmente por ser apenas meio-dia e ter o dia seguinte ainda como folga. Às vezes esses tempos curtos e pulinhos no meio de agendas lotadas favoreciam o descanso e isso ela aproveitava muito bem.
Quando entrou no carro, se jogou no banco de forma toda largada, reparou nas câmeras instaladas em alguns pontos e resmungou por isso. É claro que gravariam cada passo dela na Ásia, aquilo fazia parte do projeto bem futuro de um documentário sobre sua carreira. Estava acostumada com as câmeras, mas não aguentava mais a falta de privacidade em momentos simples como aquele em que só havia ela e ela.
— Os representantes do BTS confirmaram a presença na noite do segundo show — Pam disse, entrando pela outra porta e se ajeitando no banco. — Coloca o cinto, por favor.
fez o que a empresária pediu e, pensando no que havia escutado, sorriu de lado.
Desde o encontro com o grupo no AMA, em novembro do ano anterior, não parou de conversar com os membros, principalmente com o que havia mais chamado sua atenção: Jung Hoseok, o J-Hope. E Pam sabia disso, até porque não deixou passar despercebido a exigência de por aprender coreano — e sua disciplina em ter de três a quatro horas de aulas particulares por dia — desde então. Conhecia o suficiente para entender que ali havia algum interesse, mesmo que ainda inconsciente. Inclusive, quem havia dado a ideia de chamar o grupo para participar do show com algumas músicas do último álbum deles lançado.
— De repente, eu notei um ar de animação... — disse vendo a outra pegar seu celular no bolso e digitar freneticamente para o que ela reconheceu ser a conversa de com Jung Hoseok.
não estava mais naquele ambiente mentalmente para saber que Pam havia falado algo para ela, estava concentrada em digitar corretamente a mensagem. Seu coreano estava melhorando, mas ainda era muito complicado para digitar mensagens. Ela sempre recorria ao Google também. A diferença entre alfabetos ainda a complicava vez ou outra.

JH
online

Olá, Seul...

Olha só, essa cidade acabou de ficar pequena pra mim.

Eu nunca consigo saber qual é o tom das suas brincadeiras haha.

Eu quis dizer que agora que você chegou com toda sua grandiosidade, vossa majestade, eu, um mero humano, não sou nada.

Exagerado.

Ficou sabendo?

O quê?

Vamos sair da cidade e aí não poderemos ir ao seu show.

Perdeu de zoar comigo. Pam me falou não tem nem dez minutos que deram o ok para vocês.

Ah, droga... não vou conseguir escapar.

Não que eu queira, aliás.



sorriu com a última mensagem, muito mais pelo conteúdo dela, e guardou seu celular. Olhou o movimento por fora do vidro do carro, muitas pessoas enfileiravam a calçada do lado de fora do aeroporto com cartazes e uma animação sem tamanho. Seu coração se aqueceu mais ainda, adorava aquele carinho dos fãs, por eles ela fazia o que fazia. Era satisfatório o resultado de todo o trabalho com responsabilidade que ela entregava.
Abaixou um pouco do vidro do carro e colocou apenas a mão para fora, acenou por um tempinho, ouvindo os gritos aumentarem, até que a distância aumentou e ela recolheu o braço. Virou-se para Pam — que estava concentrada no iPad em mãos — e perguntou:
— O que tanto trabalha aí?
— Sua agenda — ela respondeu baixo. — Acho que vamos encaixar um jantar hoje com os representantes da empresa que trouxe seu show pra cá.
— O quê? Eu to cansada, Pammie... — não pôde evitar a manha ao falar o apelido pessoal de Pam. — Eu preciso dormir hoje, Você não me falou nada, mas eu já sei que amanhã iremos pular a folga para ir ensaiar com o BTS. Eu preciso desse descanso...
... — Pam abaixou o celular e a olhou. — Você só tem mais três shows depois daqui e aí vai ter dez dias de folga até irmos para a América do Sul. Aguenta firme!
a encarou sem expressão nenhuma. Suspirou e deitou a cabeça no ombro de Pam.
— Qualquer dia desses faço igual esses artistas que somem e ninguém mais encontra — disse fechando os olhos, caindo num cochilo.



O estúdio era enorme. estava maravilhada com o tamanho da estrutura daquele lugar. Além de toda a organização e tecnologia disponível. Já se imaginava produzindo ali o próximo álbum que estava em seus planos. Gostava de ambientes com um requinte mais “clean”, o conceito de menos é mais sempre a agradou e ali era um lugar exatamente assim. Era adorável.
Conforme ia caminhando, podia ouvir a música do salão nos fundos ficar mais audível. Reconheceu a batida de Airplane pt2 do BTS e começou a cantarolar o que lembrava da letra. Em sua frente, ia Pam, Jordan e os outros dançarinos e um dos representantes do BTS com uma intérprete que traduzia tudo o que era dito. ficou bem contente ao perceber que já entendia boa parte do que era dito em coreano e que agora precisava apenas melhorar seu dialeto informal.
Quando chegaram à entrada do salão, ela percebeu que o coração deu uma leve acelerada. Lembrou que iria ter o segundo encontro com os garotos e dessa vez seria um pouco mais diferente, já que nos últimos meses havia trocado muitas mensagens com eles — inclusive, fazia parte de um grupo com os sete.
Foi a última a entrar e viu que eles estavam terminando a música, era um ensaio muito parecido com o que faziam ao vivo. Ficou parada observando os movimentos precisos de cada um deles, até que seus olhos pairaram em Jung. Ele usava uma calça jeans extremamente justa, com rasgos no joelho e da cor preta, uma camiseta branca um pouco larga, nos pés era um tênis da Adidas preto e que parecia confortável, além do boné preto na cabeça. Todo esse conjunto o favorecia muito bem pela concepção de .
Assim que a música encerrou e o grupo se sentou no chão, demonstrando o cansaço, e o resto das pessoas que estavam junto bateram palmas. Então os sete se levantaram e foram à direção dos recém chegados. No meio do curto caminho, pegaram toalhas para enxugar o suor.
— Finalmente está em nossas terras! — Namjoon foi o primeiro a dizer. Como sabia muito bem falar em inglês, já se sentiu mais à vontade.
— Pois é! Se eu dependesse de convite de vocês, nunca que viria. — sorriu e foi em direção ao líder do grupo, que abriu os braços para cumprimentá-la com um abraço.
— Ah, mas você não nos convidou para a América também! — Jin respondeu, indo na direção dela e a cumprimentando, já que a intérprete estava atenta e fazia seu trabalho simultaneamente. , por sua vez, entendeu o que ele havia dito, mas ainda assim respondeu em inglês. Estava um pouco receosa.
— Pois para compensar eu lhes convidei para fazerem parte do “L to Lstage”*!
— O que aconteceu com seu coreano? Mais de seis meses aprendendo e ainda não fala nada?
Todos olharam na direção da voz que vinha de fundo, era Hoseok. Ele mantinha um sorriso fino nos lábios e seu tom de brincadeira não passou despercebido por . Ela sorriu e encontrou com ele no meio do curto caminho que os distanciava.
— Preciso praticar com as pessoas certas — ela respondeu tentando o idioma. O sorriso de Jung foi maior do que qualquer outro. Ela gostava de quando o via sorrir e fazia tempo que não tinha aquela experiência pessoalmente. Perguntava-se mentalmente se já podia dizer que estava com saudade.
— Na escrita você está indo muito bem, agora precisa falar. — Ele deu uma piscadinha para ela e a abraçou.
— Teremos três dias para isso! — Jungkook disse animado.
Depois de cumprimentar o restante, e o grupo ouviram atentamente ao diretor e coreógrafo, tanto do show dela quanto deles. Eles estavam explicando o que tinham em mente para aquele mashup que seria entregue no palco.
No roteiro do show de , sempre havia um espaço para artistas convidados. Ela gostava que cada artista ou grupo convidado tivesse uma entrada diferente, para sempre gerar surpresa ao público. A música “C’mon” era de batida eletrônica e sua letra era sobre convidar pessoas a prestarem atenção nos detalhes, então a usava como transição para quando entrava seu convidado. O sample daria muito certo com o intro de Idol, portanto esta seria a primeira música que eles iriam performar, em seguida teria MicDrop, Fake Love e DNA para encerrar. Quanto aos versos que ela cantaria, já havia sido resolvido. Passara a noite toda gravando um tipo de demo para o ensaio, para assim ter noção de entrada e posicionamentos.
— Eu acho que entrando com Idol eles podem vir da passarela dentro daquele dragão e encontram comigo no primeiro círculo. — apontou com a régua para o mapa do palco que tinha exposto na parede. — Aqui teremos os dançarinos e eu na pausa do breakdance de C’mon já misturando o sample com Idol. Eles nos contornam com o corpo do dragão e trocam lugares com meus dançarinos. Aí os dançarinos saem com o dragão e nós estaremos em posição, finalizamos o break e aí vem Idol. Para a saída dá para ser pelo elevador da passarela na fileira do posicionamento final de DNA — finalizou, esperando a resposta de todos.
— Caramba! — Jimin exclamou quando a intérprete terminou de traduzir o que disse. — Isso vai ficar show.
— Você já sabe algo da nossa coreografia? — Jung questionou.
— Alguns passos, por isso temos o dia inteiro para praticar. — suspirou lembrando que seria seu dia de folga.
— Então vamos começar? — o coreógrafo deles incentivou. — Melhor você já se aquecer, .
Ela concordou e foi com seus dançarinos para um canto aquecer. Enquanto isso Pam conectou via Bluetooth o som com seu celular e a música começou a tocar. Os garotos aproveitaram para tomar água e ir ao banheiro e enquanto isso ouviam atentos ao trabalho do mashup de C’mon com o sample de Idol na parte em que haveria essa transição das músicas. Também discutiram com o coreógrafo sobre as posições, acertando os detalhes.
Assim que terminou de se aquecer, prendeu o cabelo e foi para o centro, Pam reiniciou a música e pausou, sabia que ela tinha um ritual até para os ensaios. Observou prender o cabelo em um rabo de cavalo alto e firme, flexionar o corpo para frente, tocando as pontas dos pés calçados e depois alongar os braços mais uma vez. Quando ela colocou a mão na cintura e fechou os olhos, Pam sabia que estava pronta.
Depois da contagem regressiva, ela tomou a posição inicial, como se estivesse segurando em um poste. Ela ergueu o braço esquerdo e manteve o olhar diretamente para frente. Com uma feição impassiva, sentiu a batida inicial da música percorrer por seu corpo. Iniciou sua coreografia fazendo um lipsync e concentrada.
Jung estava de braços cruzados encostado na parede e observava atento cada movimento de — já havia visto algum vídeo no youtube da turnê com essa performance. Mexia a cabeça sutilmente de acordo com a batida da música. Não deixou de reparar na entrega de em seus movimentos e mesmo quando os dançarinos foram entrando no meio da coreografia, vezes ficando na frente dela, não tirou os olhos e permaneceu vidrado em cada passo dado por ela.
— Mais um pouco você baba... Hobi. — Namjoon sussurrou no ouvido do amigo. Ele se assustou e se virou para a direção que veio a voz, deparando-se com os seis pares de olhos lhe encarando.
— Não comecem... — resmungou.
Eles riram, mas se contiveram, era a hora de entrar. Em fila, foram até , contornando ela e o grupo de dançarinos que estavam parados com os braços cruzados — parte da coreografia. Em ordem e sem erros, as posições foram trocadas e a fila a ir embora foi de dançarinos. A música então parou e fez-se silêncio. Nesse tempo, o coreógrafo passou os detalhes do que aconteceria no palco e o motivo da pausa de um minuto. Ainda em suas posições, eles compreenderam e acenaram positivamente.
— Essa é a hora que o público vai gritar feito louco. Quando a batida fizer a pausa, vai ser uma gritaria sem fim — Jordan comentou, chegando ao lado de Pam, ainda ofegante.
— Fica preparado para a parte em que vai iniciar a coreo de Idol, Slim preparou uma coisa que ele nem faz ideia do que vai causar. — Pam riu, levando a garrafa d’água até a boca.
Jordan pegou uma garrafinha na mesinha atrás de si e olhou para frente. Nesse momento, Slim, o tal coreógrafo, fazia o que Pam havia comentado. Jordan não conseguiu evitar e levou a mão à boca.
— Meu Deus... O surto vai vir! — Riu com Pam.



Assim que foi revelado quem era o convidado da noite — no caso “convidados” —, quando os dançarinos de saíram do palco com aquele corpo de dragão, o som estridente do público foi avassalador. Eles ficariam em silêncio por um minuto, apenas com a iluminação em cima de si e ouvindo a histeria. E o que causou alvoroço também foi pelo posicionamento de e Jung de frente um para o outro, com um espaço quase invisível os separando. A coreografia inicial de Idol não incluía o membro do BTS na frente, mas, por ser o dançarino principal, fora escolhido por Slim para continuar o break de C’mon ali. Quem fazia a parte de frente com era Jordan; os dois ficavam de frente um para o outro e os outros dançarinos eram posicionados em formato de triângulo atrás.
Então, de repente — na visão do público —, o break de C’mon voltou e as mãos de Jung foram para a cintura de , mas sem tocar, havia uma distância entre as palmas das mãos com o corpo da mulher. Mas isso já foi suficiente para causar um pânico nas fãs que gritavam sem nenhuma cautela. As pulseiras que foram distribuídas para cada um dos presentes ali naquela multidão começaram a vibrar nos pulsos de seus usuários e a brilharem com as cores do arco íris em sequência.
A cada passo dado pelos artistas no palco, o grito era mais estridente. Contado um minuto do restante do break, as batidas de Idol entraram no mashup. Aos poucos, o refrão com “Oh oh woah” da música entrava em linha também e a coreografia então foi mudando para que eles se posicionassem no centro da forma como era feita pelo grupo para a música.
— Vocês estão prontos, Seul? — a cantora perguntou de forma séria, sua voz um pouco rouca tentando conter a respiração. O grito do público mais uma vez foi intenso. então tomou fôlego para acompanhar os movimentos quando a música começou de verdade.
Os passos que havia ensaiado com muito afinco se tornaram fáceis e os reproduzia muito bem, sem dificuldades. Acompanhou tranquilamente, também cantando alguns trechos, vezes sozinha, vezes dividindo com algum dos membros. Ela estava de fato se divertindo ali, ao mesmo tempo em que trabalhava. Idol logo acabou e aí foi a vez de MicDrop; para essa música eles haviam concordado em ir para o círculo do meio da enorme passarela, deixando os diversos dançarinos reproduzindo a coreografia no palco principal. O palco do show de era enorme e a passarela normalmente alcançava toda a extensão da arena ou estádio; a ideia do tamanho foi dada por para que ela pudesse alcançar o máximo possível do público presente em seus shows. E essa passarela tinha dois pontos de círculo para algumas performances, um ficava na ponta e o outro no meio. Por toda a sua extensão, havia pontos estratégicos para elevadores que vinham do chão. Era tudo bem pensado para a locomoção dela.
Durante MicDrop o chão parecia que entraria em erupção, a batida forte da música ecoava por todo o estádio. O público parecia estar gostando da apresentação entregue pelos oito artistas no palco e se sentia, além de entregue, satisfeita. Passaram por Fake Love entre o caminho até a última plataforma da passarela e quando a música acabou, eles seguiram para a última parada.
— Seul, vocês conseguem fazer isso aqui? — perguntou ao público e assoviou. — Precisaremos da ajuda de vocês — pediu sorrindo e ajeitou a caixinha de seu microfone que estava presa em sua calça de vinil preta, também arrumando o objeto apoiado em sua orelha. — Então... — Ajeitou o rabo de cavalo que estava bem preso e olhou para Jungkook, iniciando o assovio junto a ele e o público, na melodia da música.
Na última música, a reação do público não foi tão diferente. Entre gritos histéricos e pulos, podiam ver a diversão de quem os assistia. Ao fim da música, posicionados na famosa fila da coreografia original, ficou na frente de Jung que encerrava do lado contrário que todos olhavam. Quando acabou, a plataforma — como elevador — abaixou e eles sumiram dos olhos do público.
Todos estavam exaustos e assim que terminaram de descer saiu correndo em direção ao ponto em que a levaria até o palco principal, ela tinha apenas três minutos para se trocar e voltar ao palco. Os meninos se dividiam entre jogados no chão e ainda extasiados.
Jimin estava recuperando o fôlego e já em inalação, aquela correria de cruzar toda uma passarela havia consumido todo seu ar; Suga estava jogado no chão, se recuperando; Namjoon havia tirado a jaqueta vermelha de couro e alguns botões de sua camisa estavam abertos; Jin tentava alongar as pernas e secar todo suor; Jungkook e Taehyung bebiam água como se não houvesse fim; enquanto isso, Hoseok já estava apenas com a camisa fina e sem sapatos, andando para o caminho que os levaria até o backstage. Quando alcançou a parte do palco principal, ficou preocupado de imediato, estava com muita falta de ar e a bombinha de inalação não parecia ser o suficiente, a movimentação em cima dela por parte de sua equipe era intensa, todos pareciam estar à beira de um colapso e falavam muitas coisas ao mesmo tempo e em diversos idiomas — um ele reconheceu como sendo inglês mesmo.
— O que ta acontecendo? — Ouviu a voz de Namjoon atrás de si.
— Não sei, acho que ela está passando mal... — respondeu.
— Eu me lembro de ler em algum lugar que tem asma e que no intervalo da setlist ela tem que inalar. É bem rigoroso o tratamento, por isso sempre tem um médico com a equipe — Suga disse, fechando sua garrafinha, também se aproximando.
— Não a vi fazer isso uma vez desde que chegamos — dessa vez foi Jungkook quem disse. Seus olhos miraram a situação e se arregalaram. estava muito mole e mais pálida que o possível.
— Estão dizendo que ela não o fez nenhuma vez hoje, que o cansaço da agenda cheia e rigorosa está a enfraquecendo e que é melhor ela não terminar... — Namjoon traduziu o que havia escutado.
tentava se manter firme no lugar, mas estava difícil. Quando se deu conta do tanto de gente em cima de si e do tempo que já estava ali, juntou toda a adrenalina em seu corpo e firmou os pés no chão, se levantando da cadeira.
— Eu vou terminar esse show. Faltam poucas músicas — disse um pouco embolado pela falta de ar.
— Nunca que você vai subir nesse palco desse jeito, ! — Pam exclamou tão alto que assustou a todos. Ela sempre era calma e nunca gritava com a outra. — Olha sua condição, já viu no espelho a cor dos seus lábios? — completou nervosa. — Isso vai comprometer toda a sua agenda restante.
— O que é de amanhã a gente deixa para amanhã, Pam! Eu estou aqui agora e há trinta mil pessoas me esperando para terminar esse show, não vou deixar eles na mão — respondeu. — Ainda mais quando ontem eu fiz o show sem nenhum problema!
— Doutor... — Pam olhou para o médico coreano que havia sido contratado para acompanhar as duas noites de shows.
— Ela não pode fazer esforço. Dançar está fora de cogitação. Nada que exija movimentos bruscos e a canse — analisou.
— Bingo! — sorriu e soltou o cabelo. — Segura o público mais uns dois minutos e eu faço o resto do show com o piano. Vai reduzir meia hora, mas podemos resolver a questão burocrática tranquilamente e eu termino esse show com as músicas mais acústicas. A noite hoje está emocionante mesmo. — Cruzou os braços e respirou fundo depois de falar.
— Shine Ya’ Light e Dear Helena para acabar e só! Suas músicas exigem muito do seu vocal e fôlego, sem arriscar. — Pam pegou o iPad em sua mão e o desbloqueou. — Ainda bem que o show de ontem deu tudo certo. Vou cancelar os compromissos em sua agenda de programas e só iremos dar continuidade nos shows até a pausa.
A movimentação voltou e cada um seguiu um rumo. Os dançarinos se organizaram recebendo instruções do plano B, que era o caso de enrolar mais o público em situações anormais de ausência da principal atração. vestiu o saiote branco de seda por cima do body verde que já estava usando — apenas despindo-se da calça de vinil — e soltou o cabelo, permanecendo descalça. Hoseok a observava ainda atento enquanto os outros garotos já conversavam sobre outros assuntos empolgados. Ele estava encantado em como ela administrava sua própria personalidade.
, por sua vez, pegou o microfone encapado com lantejoulas azul brilhante e muito glitter e retomou sua concentração, exercitando a mandíbula para voltar a cantar. Ajeitou o ponto em seu ouvido e a caixinha de retorno do microfone sem fio no cós de sua saia. Quando virou o tronco para ver se havia encaixado direito, viu o olhar dele pairado sobre si. Sorriu de lado e se deu conta de que eles ainda estavam por ali.
— Ei — disse sorrindo e deu alguns passos para alcançar o grupo. Hoseok agradeceu por ela estar bem avançada no idioma deles, assim não dependia de Nam para ficar traduzindo toda hora. — Desculpem pela correria... Querem ir comer algo no meu hotel depois? — ela convidou, olhando diretamente para Hoseok. — Claro que se vocês não tiverem nenhum outro compromisso. — Dessa vez varreu o olhar nos outros e como sempre buscando a melhor forma de dizer sem parecer um robô, toda formal e sem errar muito — pelo investimento de tempo e dinheiro, era de se esperar que estivesse falando bastante.
— Por mim, tudo bem — Jungkook respondeu, vendo que Hobi havia ficado sem reação, mas recebeu um beliscão de Taehyung.
— Poxa, obrigado pelo convite, ... Mas temos que ir para o estúdio finalizar um trabalho — Nam respondeu, recebendo olhares confusos e olhando firme para Jungkook. — Hobi, você terminou a sua parte, acho que pode nos representar... não pode? — Virou-se para o amigo, que ainda não havia dito nada. Foi aí que os outros entenderam a deixa.
— Sim! — Jin exclamou.
— Ele terminou, verdade... — Jimin sorriu prendendo o riso.
— Homem dedicado ele — Taehyung completou. Ninguém quis dar atenção ao tom aleatório na fala dele, mas internamente anotaram um recado para que aquilo fosse usado num futuro próximo.
riu fraco e olhou para Hoseok esperando que dissesse algo.
— Será um prazer — ele respondeu sorrindo.
— Legal! — sorriu abertamente e ouviu seu nome ser chamado. — Me espera no meu camarim... — disse a ele e se virou para os demais. — Foi um prazer rever vocês e tê-los aqui. Vamos ver se conseguimos nos encontrar depois de eu terminar Tóquio. — Manteve o sorriso e viu o diretor da turnê se aproximar, teve a certeza de ele iria a chamar mais uma vez.
... Vamos?
— Vamos! — respondeu e acenou para os meninos, pronta para se afastar. — Até já, Jung Hoseok! — Ele acenou e ela se afastou. — Leva o Hoseok para o meu camarim, ele vai pro after com a gente. — Ela encontrou com Pam no meio do caminho e pediu.
Hoseok observou ela subir na plataforma como se não houvesse passado mal alguns minutos anteriores, se sentando no banco de frente com o piano dourado; ela estava deslumbrante e ele estava encantado. Lembrou-se das milhares de mensagens que já haviam trocado desde que se viram pela primeira vez na preparação do show do AMA e na premiação, adorava conversar com ela — mesmo que o fuso horário os prejudicasse às vezes.
Despediu-se dos companheiros e seguiu para a direção oposta deles. Parou no meio do caminho, em frente a uma tela que mostrava o show e ficou vidrado. Os dedos curtos de percorriam as teclas do piano com muita destreza e seu toque era delicado, suave e preciso. O microfone todo chamativo estava em um suporte pendurado no instrumento, perfeitamente colocado para sua altura. E ela cantava suavemente, cada palavra dita vinha de um lado dela que Hoseok passou a ter mais vontade de conhecer.
Sentiu uma mão em seu ombro e se assustou, não havia percebido a presença de mais ninguém ali. Virou-se e deparou-se com Pam, ela tinha um headset e o iPad em mãos e era acompanhada da tradutora, claro.
— Quer acompanhar o resto do show ali em cima no backstage? — ela perguntou e a moça traduziu simultaneamente. — vai terminar os trinta minutos, ela é muito teimosa — explicou e ele entendeu melhor.
Apenas concordou e acompanhou Pam pela escada que tinha logo ali. Ela lhe entregou protetores para o ouvido e o deixou à vontade na lateral do palco. Ele passou a assistir ao show e prestando atenção em cada movimento de se sentiu mais atraído, mais curioso.
— Eu não sei se vocês sabem, mas tenho feito aulas de coreano... — ela disse e ele leu no telão a legenda. Algo que ele havia achado incrível é que havia legendas em todas as telas do que ela falava e uma pessoa traduzindo no alto falante. O público gritou um pouco, como de costume, e ela continuou a falar enquanto saía do piano e caminhava devagar pela passarela, mas dessa vez em coreano. — É um idioma muito difícil de aprender. — Riu fraco. — Mas acho que estou indo bem... Vocês sabem, adoro viajar o mundo todo e conhecer culturas... — O público gritava como resposta e ela sorria mais, ele estava ansioso por aquele sorriso. — E agora eu queria saber de vocês o que estão achando dessa noite. Gostaram da surpresa? Foi totalmente pra vocês. — E mais uma vez o sorriso. — Então, se ainda estão animados, que tal a gente encerrar essa noite com mais energia? — incentivou.
Nesse momento, qualquer pessoa na plateia sabia que era a hora de ouvir cantar Dear Helena, a música incógnita. Ninguém no mundo sabia para quem ela havia escrito, apesar de muitas especulações — o trabalho de composição e produção foi totalmente feito sozinha, era uma canção muito pessoal. E ela se emocionava sempre que cantava. A letra dizia sobre como o amor consegue ser tão humano a ponto de nos mostrar que ele machuca também, assim como nos faz feliz, sim.
Ela encaixou o microfone no pedestal e recebeu um violão de seu dançarino. Para , esse momento era único, além do que a música representava para si, a aproximação com seu público nessa canção era incrível, ela recebia ali no palco — no círculo do meio da passarela — alguns fãs que eram selecionados para irem até ali e eles se sentavam em volta dela, fechando uma roda.
A luz branca mudou e apenas a luz que vinha do chão da passarela iluminava quando os fãs se sentaram em sua volta. O estádio era iluminado apenas pelas pulseiras e então se fez um silêncio. Ela deu os primeiros acordes no violão e fechou os olhos quando começou a cantar.
Eu me lembro... ah, sim, lembro de tudo muito bem... — sua voz calma ecoava no estádio que, incrivelmente, tinha seu público quieto. Hoseok olhou rapidamente para confirmar isso e em seguida voltou os olhos para o telão, lendo a letra da música que era traduzida ali. — Você me olhava com dor e em seus olhos havia o pedido de desculpa e eu tentava te dizer que tudo ficaria bem, mas na verdade estávamos nos enganando e sabemos que quando se é humano, estar bem é apenas relativo... — Ele a viu pressionar os olhos e tomar mais um fôlego para continuar.
escreveu essa música com apenas quatorze anos. Foi quando sua mãe morreu de câncer. — Ouviu a voz de Jordan (pelo o que ele sabia do nome) misturada com a da tradutora.
— Eu me lembro de já ter ouvido. Ela cantou essa no Grammy de 2017, não foi? — Hoseok questionou.
— Sim. — Jordan sorriu. — Ela não conta para ninguém. A família não gosta de exposição e a mãe dela era a única que a apoiava na carreira. O pai meio que pulou fora dessa ideia quando ela começou a estampar caixa de cereais na infância... Na mídia pouco se sabe sobre a família dela e ela também não é muito próxima, apenas alguns primos e o pai são mais presentes — continuou explicando. — Ela entrou nessa vida muito cedo. Com apenas dois anos, já estava fazendo comerciais e com quatro anos começou a fazer séries. Então ela não teve muito tempo para ficar com a família e se prender muito a eles.
— Ela abdicou de tudo para estar onde está? — Hoseok perguntou se sentindo um pouco mais à vontade.
— Sim. Acho que isso é bem comum no mundo de vocês. — Jordan sorriu torto.
— E é.
— Mas não fala pra ela que eu te contei, ela odeia exposições exageradas — o dançarino pediu rindo e ele murmurou um “ok”. — Você vai para o hotel com a gente, né? — Jordan não deu tempo de Jung responder e já iniciou outra fala: — Não se assuste, mas é cheio de câmeras, é um projeto de documentário para daqui uns anos.
— Vou sim... E..
— Espera, eu amo essa parte... olha. — Apontou.
agora não tocava mais o violão, ele havia sumido e havia somente sua voz a capella ecoando.
E quando eu olhei em seus olhos, minha querida Helena, eu senti aquela dor... Então entendi que o amor dói, assim como cura e aquece — sua voz suave e potente cantava sem desafinar uma vez. — Porque, querida Helena, ele é humano assim como eu e você. — E seus olhos abriram, marejados e não demorando a transbordar.
Então a plateia finalizou o que ela deixava para eles, a última linha que dizia “E eu sei muito bem que ser humano é ser mortal”.
Jung a viu sumir novamente pelo elevador da passarela. Quando olhou para seu lado, Jordan já havia sumido e viu a movimentação do outro lado do palco. Os fãs saíam da passarela com auxílio e no telão passava uma espécie de filme mostrando um pouco dos bastidores da gravação dos clipes de . Ele julgou serem das músicas que vinham a seguir.
Não demorou muito para uma batida mais parecida com R&B começar e aparecer na ponta da passarela sem a saia e com o cabelo novamente preso no rabo de cavalo firme. Ela usava apenas um body branco com as iniciais de seu nome em preto e um tênis da adidas branco. Ele percebeu como ela estava cansada, mas viu que não desistiria.
As três últimas músicas foram extremamente animadas e com coreografias impecáveis. Ela terminou em cima do palco principal e ele não viu o momento certo em que ela saiu, pois era um show de luzes que confundia qualquer um como se a intenção fosse de iludir qualquer ótica. Ainda meio tonto, ele olhou para os lados e não achou nada além dos dançarinos que preenchiam o palco e todos os espaços da passarela saindo enfileirados.
As luzes se apagaram e de fundo ficou apenas um som ambiente, muitos homens apareceram no espaço do público para auxiliar a saída e ele observava tudo com atenção. Ainda queria saber por onde ela havia saído.
— Esse é o segredo.
O pulo e grito que Hoseok deu poderia ser ouvido por qualquer um naquele espaço, o susto que ele levou ao ouvir a voz de em seu ouvido foi suficiente para o levar ao céu e voltar.
— Desculpa, não queria te assustar. — fez uma careta.
— Tudo bem... — Jung respondeu e sorriu fraco. — Eu estava concentrado tentando ver por onde você poderia ter saído.
— É o segredo. Guardado a sete chaves — ela disse e ele reparou que estava ainda um pouco ofegante. Não que ele estivesse com sua respiração super controlada por todo o contexto, além de ter ela mantendo um diálogo claro em seu idioma.
— Você está bem? — perguntou preocupado.
— Por enquanto sim, a adrenalina é muito minha amiga. — Ela novamente fez careta. — Eu vim buscar você, estamos indo. Vou tomar banho e tudo o mais no hotel mesmo, lá tem uma banheira e eu preciso desse momento de relaxamento.
Jung não conseguiu conter seus pensamentos e sentiu sua bochecha corar ao imaginar a cena sobre o que ela havia comentado. , por sua vez, riu por dentro e apenas o acompanhou até a van, ela sabia que ele tinha ficado sem graça.



Assim que terminou de pentear o cabelo molhado, deixou a escova em cima da pia e saiu do banheiro caminhando lentamente. Depois de uma hora dentro da banheira e sozinha, acalmando seu corpo, o cansaço começou a aparecer e ela sentia cada músculo contrair e as dores começarem a aparecer. Vestiu seu casaco por cima do pijama de flanela e calçou uma pantufa quentinha. Segurando pelas paredes, foi para o outro ambiente do quarto alugado no hotel cinco estrelas, lá encontraria com Hoseok, Jordan e os outros dançarinos — Elie e Gus — e sua stylist, Sabrina.
Ao se aproximar, ouviu as risadas escandalosas de todos, incluindo a de J-Hope. Observou que a tradutora não estava ali e ficou se questionando como estavam se virando para manter um diálogo. Ainda não haviam percebido sua presença, ela estava apoiada no sofá que a separava deles; Jung estava sentado no chão de costas para sua direção e já usava outra roupa, do seu lado tinha um espaço vazio e em seguida vinham Elie e Gus, na poltrona estava Sabrina e Jordan do outro lado deitado no tapete felpudo.
— Ei, princesa! — Ele foi o primeiro a vê-la e se levantou percebendo que ela precisava de ajuda. — Tá tudo bem?
Jung imediatamente olhou para trás e encontrou com o olhar de . Levantou-se também, assim como Jordan, tendo uma leve noção do que estavam dialogando.
— Eu acho que a adrenalina foi embora... — Ela riu nervosa e pegou na mão de Jordan.
— Consegue se sentar aqui? — Jordan apontou o sofá.
— Acho que seria bom ela deitar na cama e dormir — Jung disse, olhando para . Ela traduziu para Jordan, que assentiu com a cabeça.
— Eu concordo. — Ele a olhou nos olhos e depois para os outros. — Vamos embora e deixar você descansar.
Jung ficou confuso vendo todos se levantarem e olhou para com uma careta, ela achou adorável como ele estava perdido.
— Eles estão indo embora e me deixando. — Ela fez um biquinho pra ele.
— Você consegue ajudar ela a ir até o quarto? — Jordan o perguntou pausadamente.
— Ajudar? Quarto? — Jung repetiu o que havia entendido e Jordan concordou. — Sim, ajudo.
Jordan deu um beijo na testa de e assim como os demais se despediu. Quando Hoseok e ela ficaram a sós, foi visível para ela como ele estava envergonhado e segurava em sua mão e cintura de forma respeitosa no caminho até o quarto. Depois dos poucos passos até o cômodo e de ajudar ela a subir na cama, ele ficou dividido entre a vontade de ficar com não saber se deveria ir embora também.
— Você comeu? — perguntou para ele, se ajeitando na cama.
— Estávamos te esperando para pedir algo — ele respondeu, colocando as mãos no bolso da calça de linho.
— Então vamos pedir nós dois. — Ela bateu no lado vazio da cama de casal. — Aí assistimos alguma coisa e você me faz companhia.
Hoseok a olhou por alguns instantes, estava hipnotizado com tamanho cuidado dela ao falar seu idioma. Somente uma pessoa muito dedicada aprenderia em meses daquele jeito. Mesmo que ela fizesse algumas pausas entre umas palavras e outras para pensar, era adorável. Se lembrou de algum dia terem comentado sobre seu Qi ser alto, fazendo alguma brincadeira com Namjoon que possui um alto índice.
— Você quer alguma coisa americana? — ele perguntou, pegando o celular do bolso de trás. De alguma forma, ela o fazia se sentir mais à vontade mesmo com o estilo de cultura diferente.
— Eu acho melhor não inventar muito, uma salada com algo grelhado já está ótimo. — Ela sorriu e ligou a TV.
— E para beber? — Jung perguntou depois de abrir o aplicativo do restaurante do hotel. — Refrigerante ou suco?
— Água. Sem gelo. — Ela entortou os lábios. — Sou proibida de tomar qualquer coisa gelada e com gás depois dos shows.
Hoseok sorriu de lado, ele entendia bem. Terminou os pedidos e, ainda um pouco receoso, deu a volta na cama, se sentando ao lado de . Ela o olhou rapidamente e estendeu o controle em sua direção.
— Escolhe algo pra gente assistir. — Sorriu.
— Ah, eu não sou bom com essas coisas... Qualquer programa de TV já me prende e — olhou rapidamente pra TV — não sei se você entenderia... falam muito rápido.
— Você está subestimando meu nível de coreano? — Ela o olhou desafiadora.
— Ah... você faz aulas há pouco tempo... é meio difícil ficar cem por cento fluente. — Ele deu de ombros. — E ainda faz pausas entre as palavras, é bem adorável.
se sentou mais ereta na cama e cruzou as pernas, afastando totalmente o edredom que a cobria.
O gerente da fábrica de grãos temperados é o gerente da fábrica de molho de soja — falou o trava-língua coreano rapidamente, recebendo um olhar surpreso. — Eu sei falar quase sete línguas além da minha nativa: italiano, francês, espanhol, alemão, russo e agora coreano. Tenho mais facilidade em decorar vocabulário e regras de gramática do que apresentações — disse orgulhosa. — Comecei a aprender coreano na semana do AMA, quando nos vimos pela primeira vez... E ouvir mais de Kpop me ajudou bastante também.
— Ah... — Jung estava incrédulo. Lembrou das vezes que ele mal conseguia pronunciar palavras do próprio idioma. — Era um dos projetos por causa de futuro, porque já sabia dos shows aqui? Eu acho bem louco que a gente tenha agenda para dois ou três anos já feitas...
— É... Quase isso. — Ela sentiu as bochechas corarem, lembrando porque havia começado as aulas e não tinha nada a ver com agenda. — Eu fui atrás das aulas por sua causa... — disse lentamente e olhando para baixo.
— Minha causa? — Jung perguntou surpreso.
— É. — Ela riu fraco. — Eu fiquei muito interessada em fazer amizade com vocês e tudo o mais. — Estava morrendo de vergonha por aquele momento.
— Eu acho que agora estou muito por baixo nessa situação. — Jung levou a mão ao rosto. — Vou procurar um professor de inglês agora mesmo! — Ele pegou o celular.
riu e por impulso levou a mão até a dele, abaixando o celular. Os dois se olharam e Hoseok se ajeitou de forma mais ereta, a olhando. Os olhos de pairaram em cima dos lábios rosados e bem desenhados dele e os de Hoseok seguiram a direção dos dela. Se lembrou das conversas que já havia tido com Yoon-gi sobre como se sentia atraído por , mas que a dificuldade pelo idioma e diferente culturas o impedia de avançar qualquer passo em direção a ela. O amigo, por outro lado, sempre o incentivava a avançar e com o máximo de respeito possível, não só por conta de tudo o que já havia conquistado, mas pela própria pessoa envolvida no outro lado. Ambos tinham a vida muito pública, qualquer passo em falso poderia os prejudicar e a carga emocional se tornaria mais pesada.
Porém, alternando o olhar entre os lábios e olhos de , Hobi não saberia encontrar naquele momento a parte em si que concordava com Suga a ponto de raciocinar as coisas direito antes de continuar se envolvendo. Ele estava imerso naquela novidade. Uma mulher com quem gastava parte de seu tempo conversando, pensando e admirando, havia se interessado nele a ponto de aprender seu idioma em pouco mais de meio ano.
Ele não podia e não queria perder a chance de provar aqueles lábios. E por , os pensamentos não eram tão diferentes.
... — ele disse bem baixo, seu hálito fresco a fez fechar os olhos e arrepiar quando ouviu o apelido que ele mesmo havia lhe dado.
Jayjay... — ela o respondeu no mesmo tom, com o apelido carinhoso também.
— Eu... — Hoseok sentiu a ponta de seu nariz esbarrar no de quando ia lhe pedir permissão para alcançar seus lábios.
— Pode... — ela o respondeu, o fazendo se surpreender mais uma vez. Talvez sabia ler a mente dele.
O primeiro encontro foi suave, sem pressa e tampouco sem delongas. Os dois se apreciaram antes de continuarem em um ritmo mais acelerado, parecendo um casal que não se viam há meses e tinham muita saudade para matar. Não era um beijo apaixonado, mas também não havia só desejo pela libido ali, era um mix de todos os sentimentos e as sensações causadas para os dois poderiam ser classificadas como únicas.
Não demorou muito para que a leitura de daqueles toques dele em sua cintura, que passaram a ser mais firmes e mais por um certo ponto de suas costas, a fizessem subir em seu colo. Jung se ajeitou no colchão, com as pernas estendidas, agradecendo por já estar descalço e passou as suas uma de cada lado do corpo dele. O beijo não demorou muito para mudar de local, os lábios do coreano passeavam pelo pescoço dela e suas mãos estavam mais firmes na sua cintura.
Quando Hoseok colocou uma das mãos por dentro da camiseta folgada do pijama de , sentindo a respiração dela ficar mais acelerada, sentiu seu corpo dar alertas de que já estava entregue e era ali que queria ficar. Os toques dela em sua nuca, vezes puxando seu cabelo, apertando seus ombros, tudo o que ela fazia era bom e ele queria mais.
decidiu que já estava na hora de se livrar de algumas peças de roupa, já que estava sentindo um calor absurdo e quando se afastou um pouco de Jung, recebeu um olhar perdido e preocupado dele, mas seu sorriso de lábios fechados o fizera acalmar. Ao que ela colocou as duas mãos na barra da camiseta, ouviu a porta do quarto se abrir, levou um dedo aos lábios e fez sinal de silêncio para Hoseok.
— Senhorita ? Seu jantar... — Ouviu uma voz bem distante e olhou para trás, agradecendo pela porta estar encostada.
— Pode deixar aí, por gentileza — pediu com a voz bem alta e olhou rindo para Hoseok, que estava corado. — E, por favor, quando sair, coloque um “não perturbe” na porta.
Os dois continuaram se olhando em silêncio. mordia os lábios para não rir e Jung brincava com sua seriedade beijando seu pescoço e apertando sua cintura. Não demorou para o alívio chegar com a saída do serviço de quarto.
— Onde a gente parou? — Hoseok perguntou no ouvido de .
— Não sei, você pode me ajudar?
Ele umedeceu os lábios, levou as mãos até a barra da camisa dela e olhando em seus olhos, recebendo sua permissão, ele puxou para cima, tendo ajuda para se livrar daquela peça. Seus olhos encheram de brilho olhando para o colo desnudo de sem nenhuma peça de roupa íntima. Ele poderia continuar admirando-a por horas e sabia que não se cansaria.



abriu a garrafinha de água com uma rapidez fora do normal e tomou todo o líquido, parecendo ser alguém que não se hidratava há dias. Hoseok observou, se sentando na cadeira e ajustando a manga do roupão para que não esbarrasse na comida. Abriu a tampa dos pratos e colocou no carrinho ao lado enquanto se sentava do outro lado da mesa. Olhou para ela por alguns instantes, imersa em seu celular e com aqueles cabelos molhados, o que trouxe a ele a lembrança do banho que tinham tomado há pouco tempo. Continuou a admirando enquanto servia seu copo com a sprite que tinha pedido.
— Olha isso... — Ela mostrou um gif para ele em seu celular.
— Que rápidos! — ele comentou fazendo uma careta. — O que está escrito? — questionou a legenda.
— Juntaram nosso nome, ficando “ok”, e estão dizendo que podemos ser ótimos amigos. — Ela continuou lendo as páginas da rede social que tinha comentários sobre isso. — Por outro lado, já tem quem me queira longe daqui o mais rápido possível... — Riu, jogando o celular em direção ao sofá.
— Não ligue pra isso. — A mão de Hoseok encontrou a dela por cima da mesa. — Não por agora...
sorriu mais animada e beijou a mão de Jung que estava entrelaçada com a sua.
— O que temos aqui, huh? — Olhou para os pratos. — Bowl de salada coreana... Bibimbap! — ela disse animada ao reconhecer um de seus pratos favoritos. — Como você sabe que eu gosto?
— Seus fãs são bem específicos nas redes sociais sobre suas preferências — ele disse rindo. — Especialmente quanto ao quão desastrada você é usando o hashi! — Seu olhar zombeteiro a fez fechar a cara.
— Eu sou mesmo um desastre! — Ela fez manha. — Cheguei a fazer curso de etiqueta para os diversos jantares que tive na primeira vez que vim até a Asia. Comi de garfo e faca em todos porque a vergonha com o hashi seria pior — disse nostálgica.
— Queria saber onde eu estava que não pude te encontrar antes — Jung disse a olhando nos olhos e ela apenas mordeu o lábio com as bochechas coradas. — Você disse que sabe falar quase sete idiomas, mas listou apenas seis... qual é o sétimo? — perguntou se lembrando da conversa de antes.
— Ah... Português... o brasileiro.
— Uau! — Foi tudo o que ele conseguiu dizer. — Ainda estou incrédulo que você aprendeu coreano em menos de um ano de forma tão completa.
— Então... — Ela riu. — Eu devo muito disso a vocês sete e meu professor particular. Ele é nativo daqui, a gente se encontra todos os dias por pelo menos duas horas mínimas de aula. Hoje mesmo eu tive antes do show duas horas e meia. Ontem também... — Bebeu um pouco mais de água. — E, modéstia à parte, tenho muita disciplina para isso. Foi assim com todos os idiomas que aprendi até agora. O mais complicado está sendo português, mas ainda irei completar. Daqui um mês vou para o Brasil encerrar a L to L World Tour**, gosto tanto daquele lugar que quero mostrar esse carinho e respeito por eles.
Enquanto a ouvia falar e vezes ou outra fazer pausas para não errar nenhuma palavra e nem a pronúncia, Jung entendeu que já não podia dizer que foi de repente, ele sabia que era equívoco usar esse termo. Mas estava se sentindo cada vez mais imerso naquela mulher e não conseguia enxergar um passo para trás. Hoseok não queria, aliás.


*L to L stage (Palco L para L) é o nome que deu ao seu palco, fazendo menção ao nome de sua turnê que carrega o título do álbum de estúdio.
**L to L World tour (L para L turnê mundial) é o nome da turnê internacional que está fazendo.


Capítulo 2

Nova Iorque, 2018.

— Estou disfarçada o suficiente?
A risada de Hoseok ecoou por todo o quarto com a pergunta de . Ela se virou, terminando de colocar o cachecol laranja em volta do pescoço e pousou as mãos na cintura em seguida. Seu sorriso como sempre alimentando as borboletas no estômago do rapaz.
— Eu acho que... — Ele se levantou da cama e posicionou-se em frente a ela com sua feição séria. — Se tirarmos isso aqui fica melhor, não está tão frio, não é mesmo? — completou, tirando o cachecol.
— Olha só quem conseguiu falar uma frase inteira em inglês sem gaguejar!
comemorou batendo palmas e deu um beijo na bochecha de Hoseok. Eles estavam no quarto do hotel se preparando para irem até o local da assembléia da ONU, onde teriam um momento para discursar. O que era incrível, aliás. iria acompanhá-los e depois de muito ouvir de Pam, teve de investir em uma peruca diferente das que já tinha e algum estilo de disfarce. Não haviam assumido ao público ainda o relacionamento e aparecer junto deles em um momento como aquele seria muito complicado. Era necessário cautela — até porque aquele dia a notícia tinha que ser o BTS e sua parceria com a Organização das Nações Unidas e não o novo relacionamento de um dos membros com uma americana, que poderia gerar muita polêmica.
Foi em meados de junho que ela terminou sua passagem pela Ásia depois de encerrar com show em Tóquio — que contou com a presença dele e de mais dois amigos do grupo, Yoongi e Taehyung. Esteve em Seul durante seus 15 dias de pausa antes de seguir com a turnê para a América do Sul, aproveitou cada segundo e momento vivendo um pouco da rotina de Hoseok e quando teve de ir embora, nenhum dos dois conseguiu se despedir o suficiente.
Então estavam sempre dando um jeito de se encontrar, conversarem e estarem juntos ao vivo ou por chamadas. Estavam dando um jeito de terem um relacionamento à maneira que suas vidas permitiam.
— Tenho uma ótima professora para praticar. — Ele sorriu, depositando um beijo nos lábios macios dela.
Por mais que quisesse ficar naquele quarto por horas e aproveitar a presença do namorado para assistirem filmes abraçados na cama — haviam feito muitas sessões de stream simultâneas na Netflix de forma compartilhada enquanto separados —, ela sabia que já estavam atrasados. Taehyung bateu inúmeras vezes na porta do quarto buscando pelo casal, mas pouco foi respondido. Então ela fechou o último botão de sua camisa branca e puxou o blazer do cabide, suspirando ao ver o namorado puxar o próprio blazer da cama e o vestir.
Permaneceu hipnotizada por poucos segundos enquanto o admirava usando uma das peças que estava presente em sua coleção com a Hugo Boss. Mas durou pouco tempo, pois logo ouviu a impaciência na voz de Taehyung entrando no quarto, a assustando.
— Já te falaram o quão brega vocês são quando ficam nesses momentos de se admirar? — disse entediado enquanto cruzava os braços na altura do peito.
— E já te falaram alguma vez que entrar sem bater na porta e ser autorizado é falta de educação? — Hoseok rebateu com a sobrancelha erguida.
— Se fosse o Yoongi, teria sido pior, acreditem. Ele está uma pilha de nervos que já saiu no tapa até com o Jimin. — Taehyung riu se lembrando da cena em que os dois citados brigaram por terem pegado um o blazer do outro sem perceber.
riu fraco imaginando como foi a cena e entrelaçou seu braço no de Hoseok quando ele lhe ofereceu. Os três caminharam para a saída do quarto.
— Aliás, você está irreconhecível, — o amigo disse enquanto parava no corredor movimentado.
— Que bom, Tae! Esse é o objetivo. — Ela sorriu.
Caminharam em direção ao final do corredor para encontrarem com o restante do grupo e equipe que seguiriam para o local da assembléia. A movimentação era muito barulhenta e intensa, cada um dos staffs cumprindo com sua função e com extrema rigorosidade para que tudo saísse como no planejado e sem frustrações.
— Ainda bem que vocês não morreram naquele quarto! —Yoongi foi o primeiro a dizer quando avistou os três, seu humor ácido transparecendo na voz.
— Que exagero, nem estamos tão atrasados assim — Hoseok respondeu. Varreu o olhar pelas pessoas ali e sentiu falta de um. — Cadê RM?
— Desceu já, está uma pilha de ansiedade que não conseguiu ficar aqui esperando o Jungkook e vocês dois — novamente Yoongi deixou transparecer sua acidez. — Inclusive, ótimo trabalho, . Não dá pra te reconhecer. — Fez um jóia com o polegar.
apenas acenou positivamente, agradecendo. Não se atreveria a dizer nada, os homens estavam atacados pelo nervosismo e ela sabia bem o quão importante aquele momento estava sendo. Sentira a mesma coisa quando foi convidada para ser embaixadora da UNICEF e sentiu como se fosse colapsar em seu primeiro discurso. Era compreensível.
— Não dê atenção, eles estão muito nervosos — Hoseok sussurrou em seu ouvido, percebendo seu silêncio, e em seguida passou o braço por sua cintura, puxando-a mais para perto estando lado a lado.
— Oi, ! — uma das staffs que ela nunca lembrava o nome a cumprimentou e ela apenas sorriu. — Você vai na van com a gente que vai sair agora e os meninos na outra. Vamos evitar que eles sejam vistos com outras pessoas... Vamos te colocar lá como staff — explicou gentilmente.
— Ok — apenas acatou e se afastou brevemente do abraço ladino do namorado.
— Nos vemos depois, baby. — Ouviu ele dizer. O uso de “baby” era sempre em tom brincalhão, uma vez em que Taehyung brincava com algumas coisas de casais que eles faziam e ele achava bem clichês.
Ela recebeu os lábios dele com todo o carinho do mundo nos seus. Sorriu quando se separaram e abraçou cada um dos meninos ali. Até Jungkook que chegou no momento em que estava saindo comentou sobre como ela não parecia ser ela. De alguma forma, isso despertou um pequeno incômodo dentro de seu eu mais íntimo, mas resolveu ignorar.
Quando estava no estacionamento, viu Namjoon andando de um lado para o outro próximo ao que ela reconheceu ser a van que os levaria até o local. Pediu licença e se aproximou do rapaz que ela já chamava de amigo.
— Ei, ta tudo bem? — questionou suavemente.
Namjoon não evitou o susto. Estava dizendo para si mesmo as palavras que deveria proferir no discurso logo mais. A princípio não reconheceu , mas depois de ecoar a voz dela por sua mente algumas vezes, viu que era ela em sua frente.
— Eu quase não te reconheci, ! — disse, levando a mão ao peito. — Você fica muito elegante de terninho.
Ela sorriu genuinamente. Ele estava muito pálido.
— Nam, você sabe que vai dar tudo certo, não sabe? — perguntou, colocando a mão no ombro dele. — É só encarar um ponto fixo no vazio e vez ou outra mudar a direção dele.
— Eu to nervoso, não quero ler e nem gaguejar, . — Ele murchou os olhos.
— Quando discursei na UNICEF tinha a mesma teimosia. Mas minutos antes de entrar no palanque sumiu tudo da minha cabeça. Se você assistir o vídeo, eu simplesmente li. — Riu se lembrando. — Não tem problema nenhum nisso. E você vai se sair muito bem. Não importa como, mas o que será dito. As pessoas no mundo afora querem suas palavras ditas com o coração, sendo lidas ou não.
Namjoon absorveu o que ela disse e tornou a respirar de forma mais controlada. Sorriu e puxou a amiga para um abraço. Nunca achou que teria a chance um dia de encontrar com e se tornar um amigo próximo dela a ponto de dividirem assuntos íntimos. Tudo aquilo era muito satisfatório.
Sentada em um banco próxima o suficiente da saída de emergência, prestava atenção na saída do grupo daquele palanque. Estava orgulhosa e a cada palma batida sentia que emanava sua alegria em direção a eles. Não conseguia conter em seu interior a felicidade por ver Namjoon proferir com propriedade tudo o que estava no papel que ele decorou — e lia vezes ou outra durante o discurso. Ela sabia qual a importância tinha para eles tudo aquilo, talvez não com exatidão porque cada experiência, por mais parecida que seja, tem seu diferencial, mas tinha uma noção suficiente.
Foi guiada pelo corredor da saída de emergência algum tempo depois, em silêncio seguia a staff que sempre era “responsável” por ela — e que ela não lembrava o nome. A ansiedade por encontrar seus amigos e o namorado para lhes parabenizar por aquele momento incrível gritava em seu peito. Pelos seus cálculos, ela poderia voltar na mesma van que eles, já que o estacionamento era no subsolo, ninguém iria ver um rosto diferente entrando no veículo e nas ruas estariam bem protegidos pela película escura dos vidros.
Mas sentiu seus ombros caírem ao ver que só tinha um carro ali, lhe disseram que eles já haviam ido embora para um tipo de coquetel e que ela seria levada ao hotel e lá esperaria por Hoseok no quarto que ela mesma havia pego para os dois — a muito contragosto da equipe do grupo, aliás. Poucos minutos depois de estar no fluxo da 5ª Avenida, sentiu seu celular vibrar, sorriu com o apelido de Hobi na tela e abriu a notificação de mensagem, recebendo uma atrás da outra.

JH
online

Me desculpa...

Não deu tempo de te procurar, saímos por outro lado.

Isso aqui vai ser um tédio sem você.

Me disseram que vai ter aquele negócio de camarão que você adora.

Vou ver se cabe no bolso do Jin e levo pra você comer.

Prometo fingir uma dor de barriga pra ir embora rapidinho.

Não esqueci dos nossos planos de sessão clichê com sexo nem tão fofinho + muito amor embaixo das cobertas.

Mais uma vez, me desculpa.

Já estou com saudades.

Vou parar de mandar mensagem porque o Tae já fofocou pra todos aqui quais os nosso planos. Ele não sabe o que é privacidade.



sorriu e bloqueou a tela do celular, vendo sua foto com Hoseok iluminar. Haviam tirado ela quando se encontraram em Tóquio e seguiram para um tour com Taehyung em lugares afastados da cidade um dia antes de irem para Seul; Yoongi teria ido se não estivesse tão preocupado com sua agenda de sono. lembrou que naquele dia ele dormiu tanto que acharam possível ele ter ido para outra dimensão.
A foto havia sido tirada por Tae quando eles passaram rapidamente pelos Jardins do Palácio Imperial. Ela era completamente apaixonada por aquele dia, os momentos vividos — principalmente quando saíram os quatro para jantar clandestinamente próximo à madrugada — e todas as lembranças eram parte de momentos que ela queria e levaria pra vida toda.
O trajeto foi tranquilo e logo que ela chegou ao seu quarto sozinha começou a se despir, jogando todas as peças pelo chão. Colocou uma música para tocar e foi para o banheiro. Já apenas de lingerie, vestiu seu roupão e abriu as torneiras para que a banheira fosse completada por água — programando temperatura e tempo da água corrente. Jogou alguns sais que julgou serem necessários e voltou para o quarto, pegando o cardápio em cima da mesinha no segundo ambiente. Ligou rapidamente para a recepção, pedindo um lanche com muita batata frita e refrigerante, já pensando em acordar cedo no outro dia e aproveitar a academia do hotel — se lhe fosse permitido sair do quarto e ser vista nos corredores do mesmo lugar em que BTS estava.
Chegou a revirar os olhos com tal pensamento, mas novamente afastou o incômodo e voltou para o banheiro. Cuidadosamente tirou a peruca que estava colada em sua cabeça e demaquilou o rosto para remover o pouco de maquiagem que tinha ali. Depois de lavar o rosto e aplicar produtos e mais produtos para o cuidado de sua pele, soltou o cabelo e o ajeitou novamente em um rabo de cavalo desta vez.
Finalmente pôde tirar sua roupa por completo e entrar na banheira, sentindo a água quente relaxar seus músculos. Se ajeitou com a cabeça apoiada na borda e puxou o pequeno controle ao lado, no suporte feito para ele, aumentou a música e fechou os olhos para contemplar aquele momento de relaxamento que teria por horas a fio.
Mesmo que as horas tenham se passado devagar, não demorou muito para que o coquetel acabasse e o grupo estivesse livre para voltar ao hotel. Hoseok saiu do elevador já animado para chegar logo ao seu quarto. Despediu-se de Jin, Jimin, Jungkook e Namjoon para seguir com Yoongi e Taehyung para o lado oposto do corredor, os dois estavam dividindo o quarto ao lado do dele e de . Tirou o cartão do bolso do blazer quando parou de frente com a porta e respondeu à despedida dos amigos sem muito prestar atenção, concentrou sua atenção a abrir aquilo que o separava de estar perto da namorada.
Percebeu rapidamente que ela não estava em nenhum dos dois ambientes e logo seguiu o caminho de roupas jogadas pelo chão que iam até o banheiro — sem deixar de reparar na quantia de comida em cima da mesa do primeiro ambiente. Durante o percurso, aproveitou para tirar seu blazer e dar a ele o mesmo destino que as roupas de . Parou na porta do banheiro e a viu de olhos fechados dentro da banheira, totalmente relaxada e aparentemente adormecida. Sorriu involuntariamente e começou a tirar a própria camisa, queria juntar-se a ela naquele momento, principalmente para sentir o calor de seus corpos bem próximos.
Deu alguns passos para dentro do banheiro e se sentou na borda da banheira, a observando. Dentro de seu peito, o coração batia forte. Se sentia extremamente grato por ter alguém como aquela mulher à sua frente, orgulhoso por tê-la conquistado, feliz por poder fazer parte de sua vida e completo por tudo isso e muito mais. O muito mais que ele nunca saberia explicar se lhe perguntassem. Que ele não gostaria de dizer, não por não saber, mas por querer guardar o segredo de como ser feliz para si mesmo, sem correr risco de perdê-la.
Estava tão hipnotizado que não percebeu quando a mão de saiu do apoio lateral e alcançou sua perna ainda coberta pela calça social de linho. Levou um breve susto, mas sentiu algo bom.
— Você vai ficar quanto tempo aí me olhando?
Sua voz saiu um pouco rouca e baixa, ela realmente devia ter dormido ali dentro.
— Ah, eu poderia ficar aqui o dia todo. — Ele sorriu enquanto ela abria os olhos. — E não me cansaria.
E o sorriso dele sempre oferecendo a ela borboletas no estômago.
— Cadê meu camarão a provençal? — perguntou, erguendo a cabeça.
— Kookie comeu tudo. Desculpa. — Hoseok fez um bico. — Mas eu vi que pediu bastante batata frita.
— Pedi, mas voltei pra cá e dormi antes de comer. — Riu. — Devem estar frias já — suspirou. — Diferente dessa água que está quentinha, sabe? Do jeito que você gosta. — O olhou tentando soar despretensiosa.
O olhar ladino de Hoseok a fez sentir um frio na espinha, puxando as pernas dentro da água para pressionar a própria pelve. Uma ação involuntária para conter seu próprio desejo. Ele não a respondeu, apenas se levantou e arrancou o restante que lhe cobria — sapatos, calça, meias e cueca. mordeu levemente o lábio e se afastou do encosto da banheira, não se importava dela ser enorme, queria que ele se sentasse naquele local para que pudesse se aninhar em seu abraço.
E foi o que ele fez.
— Você colocou aqueles sais de banhos que tem morango com champanhe? — Hobi perguntou, depositando um beijo em seu pescoço logo em seguida.
— Sim. E um com camomila. Disseram-me que é bom para relaxar... — respondeu, tombando a cabeça para trás, apoiando-a no peito nu dele.
— Então é isso que está de diferente no seu cheiro, senhorita . — Hoseok inspirou próximo ao pé do ouvido de , a fazendo arrepiar. Ele havia notado essa diferença de aroma por baixo do perfume no corpo dela nos últimos encontros que tiveram. — Eu senti falta de você lá no coquetel — sussurrou em seu ouvido, sentindo-se entregue aos poucos pelo cheiro inalado. Ele gostava da sensação que aquilo lhe dava e quando se dava conta estava como naquele momento, selando seus lábios na pele exposta da namorada, guiando seu sentimento com toques de desejo.
não respondeu, apenas sentiu uma parte daquele incômodo que estava querendo tomar conta de si se esvair com a presença e o toque dele. Era como se realmente nada pudesse tirar dela a segurança que ele lhe oferecia. Com toda certeza, Jung Hoseok era seu porto seguro naquele momento de sua vida e ela queria que perdurasse por mais e mais.
— Vou postar essa foto nossa.
estendeu o braço por cima da mesa, mostrando a imagem em seu celular para Hobi. Esperou ele engolir o que tinha mastigado, olhando-o com expectativa.
— Eu sei que ainda não assumimos nada publicamente e que a sua agência quer fazer tudo direitinho e etc... — disse quando a ansiedade não a deixou esperar pela resposta dele. — Mas é que eu quero que as pessoas saibam que tem alguém na minha vida. Na foto não vai mostrar que é você, mas vai... — Deu uma pausa, o olhar dele em sua direção era totalmente atento. Hoseok sempre prestava atenção no que ela dizia com interesse e isso muitas vezes a deixava ruborizada. Como neste momento.
— Pode postar, amor... — respondeu tranquilo enquanto limpava a boca.
— Sério? — recolheu o braço com uma sobrancelha erguida.
— Sério. Eu não acho que irão associar a mim imediatamente, o que é uma droga. — Revirou os olhos, lembrando-se de uns dois meses antes ver rumores de que sua namorada estava de caso com um jogador de futebol, que era amigo dela, inclusive.
reconheceu a pontada de ciúmes do namorado e lembrou-se do mesmo fato. Rindo fraco ela disse:
— Não vão achar que é o Brahim, amor. E ele está com Carla, todo mundo já sabe...
— De qualquer forma, eu queria que soubessem que sou eu — Hobi disse por fim, levando mais um pedaço do lanche à boca. — Posta, vamos começar a preparar o mundo para saber que está comprometida.
sabia que o último comentário foi mais para amenizar a situação. Era doloroso ter que esconder que estavam juntos apenas porque precisavam seguir um padrão e script. Estavam beirando os cinco meses desde que assumiram um relacionamento e os encontros eram sempre em lugares privados, com muita restrição e na maioria das vezes eram resumidos ao apartamento de Hoseok, casa de férias de em uma cidade no interior da Inglaterra, ou em hotéis com um corredor e mais um andar acima e abaixo fechados somente para que tenham privacidade.
Mas ela sabia muito bem quando aceitou se envolver com Jung Hoseok. Ele fazer parte de uma boyband muito famosa e com muitas regras — principalmente conservadoras por sua cultura — era de seu conhecimento. Teria de aprender a conviver com o que tinha e se adaptar a isso, assim como ele também estava se esforçando para se adaptar ao dela. O que incluiu na lista aulas de inglês, assim como fez quando decidiu que queria se aproximar dele.
O observou concentrado em seu lanche e celular, talvez um pouco mais sério que de costume, mas de qualquer forma ele continuava sendo o homem a qual ela se apaixonava a cada dia. E como agradecia mentalmente por ter o visto novamente nos bastidores da premiação, tido tempo de conversar com o grupo e oferecer trocarem contatos para possíveis trabalhos juntos — não que essa houvesse sido a sua principal intenção.
— Eu vou ser muito egoísta se fizer isso — disse, chamando sua atenção.
— O quê?
— A foto, se eu postar ela... — Se levantou e deu a volta na mesa, sendo recebida no colo dele sem muitas perguntas. — Eu vejo na internet, Jayjay... há quem já percebeu o quão próxima eu estou de vocês. — Outro pensamento cruzou sua memória e em meio a uma careta, sussurrou como se fosse um absurdo. — Existem fanfics sobre eu ser a malvada que irá separar vocês.
Hoseok não pôde evitar o riso divertido. Continuou a olhando e fazendo carinho em sua costas com a mão que estava próxima e a outra pousou em sua perna quase nua pela abertura do roupão.
— Prossiga, o que mais você viu? — pediu, a encarando divertido.
— Se você vai ficar rindo da minha cara, eu não irei falar nada. — Fez menção de se levantar, mas as mãos dele a seguraram em seu colo. O olhar lançado em sua direção fez voltar a falar. — São coisas bobas, mas são coisas. — Murchou os ombros.
— Há espaço pra todo mundo aqui. E para prioridades.
sabia como as fãs do grupo eram tudo para eles e o quão gratos eles eram por elas, reconheciam que todo sucesso vinha dessa fonte. Como uma parceria bem forte: os dois lados trabalhavam duro para tudo ser como estava sendo.
— Eu não vou e nem quero tomar o lugar de ninguém — disse reflexiva.
— E não vai, você tem o seu. — poderia dizer que aquele sorriso de lábios fechados era a oitava maravilha do mundo, mas mentiria porque o sorriso genuíno e natural de Hoseok era mil vezes mais a porta do paraíso. — Me dá seu celular.
Hobi pediu e não esperou muito por uma resposta, pegou o aparelho de uma das mãos delas com gentileza e abriu o instagram. Abriu a aba de postagens para o feed e, com observando bem atenta, ele selecionou a foto que ela havia lhe mostrado. De legenda ele apenas colocou um emoji, o de um girassol — a flor favorita de .
— Agora a gente desliga os celulares e termina de comer, vai ali para aquela cama e continua nosso programa clichê — disse, fazendo o que estava ditando com o olhar de fixo em si.
— Se não for o documentário da vida selvagem, eu não aceito! — escolheu mudar o foco e entrar naquele momento novamente. Disse divertida e cruzou os braços, tentando soar brava, mas a resposta que recebeu lhe fez rir. Além do sotaque e da dificuldade em falar algumas palavras, a cara de desespero de Hobi foi o ápice.
— De selvagem já basta o que fizemos naquele banheiro, mulher!



Eram duas pessoas sentadas de frente uma para a outra em um banco de um lugar cheio de girassóis, mas apenas tinha seu rosto à mostra. Hoseok estava afundando o seu em seu pescoço, então não havia resquícios de como reconhecê-lo ali. A não ser pelas roupas, mas só se saíssem pesquisando por aí. Ninguém faria isso. Ou fariam?
Pelo menos Namjoon preferia achar que não enquanto ouvia a equipe do grupo colapsar dentro da sala de reuniões oferecida pelo hotel. Claro que ele concordava com alguns pontos, mas achava que outros eram puro exagero. Sendo um idol na Ásia ou na América, em qualquer lugar do mundo, havia coisas que deveriam permanecer como decisões totalmente pessoais.
Decidiu sair dali antes que enlouquecesse e ir logo chamar o casal para aquela conversa, afinal eram eles o assunto.
Não demorou muito e chegou ao quarto, conseguia ouvir as risadas do corredor mesmo — seria meio redundante pra quem conhecia tanto Hoseok quanto , os dois tinham a risada muito escandalosa. Bateu na porta e logo viu Jimin indo em direção ao quarto, dividido por Yoongi e Taehyung, o riso dele demonstrava sua curiosidade.
— Estão muito ferrados? — perguntou.
— Trend topics por horas, acha que não? — Namjoon respirou fundo. — arrumou um problemão...
— Por essas e outras eu agradeço por termos você como líder. — Jimin riu novamente e se afastou, antes de sumir pela porta do quarto, disse: — Boa sorte.
Assim que Jimin fechou sua porta, a de fora aberta por ela mesma. Seu sorriso murchou assim que reparou como ele a olhava sério.
— Que cara de enterro é essa? — o questionou, abrindo mais a porta, revelando Hoseok logo atrás de si.
— Ta tudo bem, Namjoon? — ele questionou.
— Tudo vai depender de ponto de vista — Nam resolveu falar. — Estão chamando vocês dois para a sala de reuniões.
virou a cabeça para trás, buscando os olhos do namorado, e ambos se encontraram ansiosos. Não precisava ser nenhum expert para saber sobre o que seria.
— De 0 a 10, qual o nível? — perguntou, já se colocando para fora do quarto.
— Chegando no 8 a cada minuto que vocês demoram. Se eu não viesse e vocês continuassem a ignorar chamadas, o negócio ia ficar mais complicado... — Namjoon foi honesto.
Hoseok logo saiu e fechou a porta, guardando o cartão no bolso.
— Qual a minha melhor defesa? — perguntou quando começaram a caminhar em direção ao elevador.
— Nenhuma. Só se sentar e ouvir — o amigo respondeu, chamando pelo elevador.
Quando chegaram à sala estava tudo uma calmaria. Namjoon chegou a se questionar se estava ficando louco a ponto de ter visto coisas. Os presentes ali que estavam colapsando alguns minutos antes agora ocupavam as cadeiras de forma organizada, eles esperavam os três. Inclusive, era em momentos como aquele que Kim Namjoon detestava o posto de líder.
Hoseok e sentaram-se em cadeiras lado a lado e ele ficou no lugar ao lado de .
— Se quiser ligar para a sua empresária, fique à vontade, . — ouviu a voz de uma das staffs direcionada a si e tomou sua postura mais séria.
— E pra que seria necessário? — questionou.
— Vamos discutir alguns termos para o contrato de relacionamento de vocês e seria interessante seus representantes aqui.
olhou para Hoseok quieto ao seu lado e em seguida para a direção da pessoa com quem estava dialogando. Pareceu um pouco perdida.
— Contrato? C-como assim um contrato? — deixou um pouco de seu nervosismo transparecer e sentiu a mão de Hobi em sua perna, apertando levemente.
— Bom, temos que manter algumas coisas na linha, . E como você se precipitou ao postar uma foto no instagram e as pessoas já estão comentando...
— Não foi ela, Sohoo. Eu postei pelo celular dela — Hoseok cortou a mulher, recebendo um olhar de recriminação.
— Independente de quem foi. O nome dela é o mais comentado e procurado na internet desde então. — Sohoo respirou fundo. — Pense a popularidade que ela já possui, a quantia de vezes que o google processa o nome dela em pesquisa e que a citam no twitter. Agora multiplique isso por três.
— Mas na foto não tem nada explícito, Sohoo... — se atreveu com um tom mais calmo, agradecendo por Hoseok ter dito o nome dela.
— Sabe como descobriram que você tinha ensaiado com eles para a apresentação no show em Seul antes mesmo do dance practice ou qualquer outra informação vazar? — Obviamente eles não tinham a resposta. — Pela toalha de rosto que você levou do Suga embora. Sem logo de hotel, nem da BigHit. Acha que pra descobrirem o dono daquele look todo da Gucci vai ser difícil pra eles?
— Mas... olha, me desculpa, eu não consigo encontrar o problema nisso. — tentava ao máximo não ser rude ou desrespeitosa.
— Eles têm um roteiro a seguir para as fãs. Como eu explico que o ídolo delas não é 100% no seu âmbito pessoal do que é com elas? — Sohoo parecia ter um ponto, só não conseguia encontrar. — A maioria vê neles simples garotos que vivem para elas.
“Garotos? O mais novo tem quase 22 anos, pelo amor de Deus!”, pensou, mas se limitou a suspirar e questionar:
— Quais os termos? Podemos listar e vocês enviam para Pam analisar com meus advogados, então eu assino.
Hoseok manteve sua mão na perna da namorada, fazendo carinho ali. Ele queria dizer algo, mas não sabia o que exatamente, estava vidrado pela forma como tomava as rédeas sozinha. Talvez Pam fosse ficar bem frustrada por não ter sido chamada. Anotou um lembrete mental para que garantisse a culpa toda pra si.
Uma cópia de documento foi entregue a todos e tanto quanto Hoseok e Namjoon passaram a ler.
— Uma multa a cada cláusula quebrada? — Nam questionou ao vento com indignação.
— O quê? — ergueu o rosto. — Isso é sério? — Caçou no documento e encontrou a cláusula que Namjoon estava citando.
— Essa é uma medida de contenção, senhorita .
— Sei bem... — bufou e continuou lendo.
“Medida de contenção? Pensar que vou ter que pagar para uma agência caso eu queira abraçar meu namorado em local público? Isso é ridículo”, pensou.
E não era só isso. Estava basicamente enfrentando um tipo de mundo paralelo a cada palavra dita.
— Certo. — soltou a respiração pesada e pegou a caneta. — Vamos tirar que os passeios públicos devem ser feitos quando agendados previamente e com autorização. Iremos sair quando quisermos e não somos duas crianças que não sabem a vida que vive. — Olhou de Hobi para Sohoo. — Também não vou ter minhas redes sociais controlada por ninguém que não seja da minha equipe. — Riscou mais uma cláusula no papel. — O restante das exigências será analisado com meus advogados e equipe.
Pela primeira vez em meses Namjoon e Hoseok presenciaram um momento de impaciência por . Em nenhum momento ela falou em coreano como sempre fazia na presença deles, em nenhum momento ela parecia preocupada em soar desrespeitosa com os mais velhos ali. Ela parecia estar firme em suas palavras e posicionamento, como se controlar a situação ali fosse extremamente fácil. E Hoseok apenas a encarava admirado pela forma como ela não se deixou manipular por ordens que às vezes nem ele entendia por que existiam.
Trocou um olhar rápido com o amigo, entendeu bastante do que foi dito, mas havia algumas palavras que ele ainda não conhecia daquele vocabulário. Mais uma nota mental para continuar estudando.
, é algo para se tornar simples. Queremos blindar o relacionamento...
— Com todo respeito, Sohoo, mas os interesses do relacionamento envolvem apenas e Jung Hoseok. — sentiu extrema vontade de rolar os olhos, Sohoo agora a chamava pelo apelido. E ela podia sentir nos olhos da mulher que não era muito sua fã. — O que vocês querem blindar é J-Hope do Bangtan. Eu entendo, mas continuo sem compreender algumas abordagens. — Respirou fundo e se levantou com os papeis em mão, deixando a caneta em cima da mesa. — Somos de culturas diferentes, mas não significa que um costume deve prevalecer em cima do outro. E eu muito menos vou plantar uma briga com milhares de adolescentes no mundo todo que ainda não enxergaram que eles são homens maduros o suficiente pra ter uma vida, afinal, o mais velho deles está mais próximo dos trinta anos do que parece. Com licença.
Os passos de até a porta foram rápidos e seguidos por todos os olhares, Hoseok olhou novamente para Namjoon e o amigo o guiou com o olhar para a direção por onde ela tinha saído entendendo que ele queria ajuda pra saber se deveria ir ou não.
— Com licença... — disse, se levantando e parou no lugar quando ouviu a voz séria de Sohoo
— Hoseok, eu espero que você entenda. E fale com ela. Se na cultura dela não existe respeito, talvez ela não seja a mulher certa para entrar no seu mundo.
Se o perguntassem por que não teve reação alguma ou ajudou naquela discussão, ele não saberia responder e muito menos se sentiria confortável com isso. Infelizmente, não soube como reagir e quando ela se posicionou à frente da situação se sentiu como se estivesse sendo protegido o suficiente. Mas ouvir aquelas palavras de Sohoo o fez sentir um formigamento horrível por todo o corpo, como se estivesse a ponto de explodir.
Quem Sohoo achava que era para supor que não seria a mulher certa para ele?


Capítulo 3

LA, 2018.

estava acostumada o suficiente com os holofotes para se preocupar tanto com eles. Mas houve esse frio na barriga pela primeira vez em anos pela ideia de passar pelo tapete vermelho do American Music Awards 2018 acompanhada de Hoseok. Afinal, seria a primeira aparição pública dos dois, a primeira vez que ela concorria na premiação em tantas categorias e teria ao seu lado a presença do homem ao qual seu coração estava pertencendo cada vez mais. Seria a primeira vez que saíam sem que ela ou ele precisassem tomar cuidados excessivos, incluindo disfarces.
Nesta noite, ela não usaria uma peruca e acessórios para se esconder. Ela estaria livre para segurar na mão do famoso J-Hope com milhares de flashes sobre ambos.
Não que teria sido fácil depois da reunião inesperada para decidir um contrato sobre o padrão que ela e Hobi teriam de seguir. Mas aguardar mais um mês após o fatídico dia que ele postou a foto deles no instagram dela foi um pouco complicado. Viu seu nome ser ligado a muitos outros artistas e nas poucas aparições que fez fora do estúdio de gravação — em que passou boa parte do mês corrido, a fim de organizar e montar a base de seu novo EP —, teve de mentir todos os nomes. Pouco foi falado sobre ela estar com algum dos idols do BTS, chegou a ler no máximo quatro tweets sobre a teoria de quem poderia ser ali. Duas eram bem engraçadas, inclusive.
Uma fã dela chegou a teorizar que aquele na foto seria Hoseok pelo delineado de sua nuca quando escondia o rosto no pescoço de . As roupas também foram o alvo, alguém chegou a encontrar um look de Hobi de aeroporto que continha o mesmo tênis, porém outros astros também o usaram. Acabou que ela viu e muito seu nome circular com outros astros, até que alguns dias antes da premiação as equipes de ambos acordaram em começar a soltar burburinhos sobre J-Hope ter estado presente no estúdio com durante o período em que o grupo estava na América para a turnê que completavam.
A expectativa para o tapete vermelho acabou sendo dividida entre ela, Hobi, as equipes e, por fim, os fãs. Hoseok também partilhava do mesmo sentimento de ansiedade. Além, claro, de estar extremamente grato por finalmente poder andar de mãos dadas normalmente com sua namorada.
— Eu acho que se você falar mais uma vez sobre repassar coreografia, irei usar de violência.
estava sentada na cadeira, sendo maquiada por Tyrone e não aguentava mais ouvir Jordan comentar sobre como era importante que tudo saísse impecável na performance dela daquela noite de seu single mais recente — em parceria com um DJ. Seria incrível que eles conseguissem uma nomeação no Grammy com melhor apresentação em grupo ou dupla, além da solo. Eles contavam e muito com isso para encerrar essa era do álbum L to L em grande estilo.
— Amiga, pensa comigo...
— Jordan, eu já pensei — ela disse impaciente, abrindo os olhos e erguendo a mão no ar. — Eu já sei o que fazer naquele movimento de espacat: é só não fazer. — Tornou a fechar os olhos.
Jordan revirou os olhos com o comentário dela.
— Gosto da que se arrisca — comentou, se levantando da cama.
— Por isso vou arriscar algo novo — ela o respondeu de olhos fechados, tentando conter o riso ansioso.
— Pois vai me contar agora mesmo! — Jordan retornou, parando ao seu lado e em pé, no momento exato em que Tyrone finalizava a maquiagem.
O maquiador se despediu e o esperou sair do quarto para se levantar e tirar o robe de seda que usava, indo até sua roupa pendurada.
— Hobi me ensinou um movimento e eu vou fazer hoje — ela disse, liberando o sorriso, segurando o cabide em sua frente.
— Como assim você não ia me falar nada? Como assim temos segredos agora? — O dançarino disse surpreso. — Espera... desde quando vocês têm tempo pra essas coisas?
— Para de ser besta, Jordan! — riu. — Enfim, é um passo diferente e não vai ballet. Você vai ver na hora, querido.
— Ele vai ver o quê?
sentiu que sentiu que seu coração podia sair pela boca quando ouviu a voz de Hoseok ecoar pelo quarto. Olhou para Jordan imediatamente e ele entendeu que não deveria dizer nada. Ela não havia comentado com o namorado que iria usar na sua apresentação o passo que ele lhe ensinara em um de seus momentos descontraídos de troca de coreografias. Queria fazer surpresa para ele, até porque espacar no chão era uma das marcas da coreografia de Tears & Stones que ela havia lançado como primeira faixa comercial de seu álbum. Porém, como seria uma de suas últimas performances daquela música, queria fazer algo diferente.
— A reação do público quando você aparecer com ela no red carpet — Jordan foi rápido ao dizer e deu a volta, indo em direção à saída. — Te vejo lá, . Até mais, Hobi.
Assim que o dançarino saiu pela porta e ficou somente os dois naquele metro quadrado, continuou mexendo em sua roupa, se preparando para vesti-la.
— Você de Hugo Boss é minha religião — disse, enquanto vestia a calça.
— Eu preciso fazer propaganda da coleção assinada por minha namorada, não? — Hobi caminhou até o espelho, checando sua roupa.
— Fico muito agradecida, senhor Jung Hoseok. — terminou de abotoar sua calça e levou as mãos na cintura. — Eu fiquei surpresa que vocês estão usando a coleção há meses e ainda não reclamaram ou fizeram qualquer comentário sobre. — Franziu o cenho, olhando em volta.
— Eu também. — Hobi riu, olhando-a pelo reflexo do espelho. — Mas vai entender... Você deu lotes para muitos amigos famosos, natural que acreditem ser cem por cento pelo marketing.
— E quem disse que não foi pelo marketing?
Hobi se virou, colocando as mãos no bolso da calça social.
— Como assim? — Perguntou confuso. — Ganhar esses ternos da Hugo Boss assinados por você não faz parte do privilégio de ser seu namorado?
— Não... desculpa. — abaixou os ombros, ajustando a alça de seu sutiã para vestir o blazer por cima. — Foi uma jogada de marketing. Precisava incorporar minha coleção para um público maior, sabe... — Devagar seu sorriso foi aparecendo e Hobi pôde entender o tom de brincadeira.
— Você nunca consegue prosseguir com o tom brincalhão por muito tempo, não é? — A respondeu, sorrindo de lado.
apenas fez uma careta e lhe lançou um beijo no ar. Vestiu seu blazer sob o olhar atento de Hoseok. Era uma das peças da coleção dela com a Hugo Boss, e esta em questão havia sido desenhada em todos os detalhes por suas mãos. Era um conjunto de calça social branca, com detalhes bordados a mão em cores do arco íris e com material reciclável, o blazer era rosa pink com detalhes no próprio tecido, que era possível se observar sob muita definição. Ela não usaria nada por baixo do blazer, apenas um sutiã rendado preto, que dava um contraste neutro com as outras cores. Nos pés, uma sandália baixinha com um salto fino, também preto.
Era uma junção harmônica. Assim como e Hoseok.



Inside out, em tradução livre: de dentro para fora. Essa era uma das músicas que poderia lhe render um dos prêmios aos quais fora nomeada na premiação. Se tratava de uma faixa single em parceria com DJ Khaled, que trabalhou na produção com ela, e os autores de sua letra: a própria , Ryan Tedder e Hoseok. O último em questão, havia usado um pseudônimo para que mantivesse sua identidade preservada, a fim de evitar qualquer conflito midiático, principalmente pelas teorias que poderiam gerar a interpretação livre de sua parte lírica.
O trecho que havia feio a canção viralizar dizia: "sometimes people fake it inside out, sometimes they just don't" (às vezes as pessoas fingem de dentro para fora, às vezes não). E sendo questionada sobre o que Inside Out refletia, sempre afirmava que era uma reflexão pessoal de cada ouvinte. Podia falar sobre amor, vivência, dramas cotidianos ou até mesmo o autoconhecimento. Era aberto para a interpretação livre e individual. Como ela sempre gostava de deixar para seus fãs e quem fosse escutar suas músicas, pois acreditava fielmente que a música era uma forma de ensinar aos outros alguma coisa que aprendeu com a vida.
Ela esperava muito que o prêmio viesse para a colaboração, havia planejado seu discurso perfeitamente para se precisasse subir no palco.
Dentro da van, no caminho para o local do evento, Hoseok sentia as mãos suarem e estava inquieta. Direto do outro lado do mundo, Jungkook ligava para o amigo, fazendo o celular dele vibrar em seu bolso com o recebimento da vídeo-chamada. Em uma troca de olhares rápida entre o casal, Hobi aceitou a ligação, mantendo o braço na altura certa para que a câmera filmasse os dois no vídeo compartilhado com o amigo.
Hoseok-hyung! — O mais novo logo disparou do outro lado, sorria como sempre e estava fazendo alguma coisa para comer, pelo o que pôde perceber. — ! — Também exclamou o nome dela assim que a visualizou em sua tela, arrancando sorrisos dos dois por sua animação.
— Oi, Kookie! — tomou a frente. — O que você está fazendo? — Perguntou curiosa, mesmo que já tivesse uma opinião sobre a resposta.
Me deu vontade de comer algo diferente hoje. Acho que estou ansioso pra ver vocês dois cruzarem o tapete vermelho logo — Jungkook explicou com toda a naturalidade do mundo, virando seu celular para mostrar o lado da cozinha que tinha a TV ligada no canal em que seria transmitido o evento desde o ponta pé inicial, no caso o tapete vermelho com a chegada dos artistas e convidados.
— JK! — Hobi riu, era um pouco tarde para ele, que estava na Coreia do Sul. — Está tarde aí, Você não tem coisas para fazer amanhã, não?
Hoseok se lembrou que passaria a madrugada em um jatinho indo para seu país, com uma escala em algum lugar da Europa apenas para descanso, e que quando chegasse em Seul teria pouco tempo de descanso, pois precisava correr para o estúdio, havia muito trabalho a ser feito para o novo álbum do grupo. E iria com ele, era a parte legal daquela situação. Sua namorada passaria um tempo vivendo mais da rotina que tinha, envolvendo o trabalho e casa. E ele estava ansioso por isso, assim como ela. Ela finalmente teria um período considerável e mais que generoso para descanso, suas férias seriam de três meses — consideradas longas ao que estava acostumada. Queria aproveitar o máximo que pudesse ao lado de Hoseok, o que era uma boa chance para se ajustar mais ao mundo dele, uma vez que expostos para o mundo como um casal, sabia que em cima de suas costas cairia uma cascata de julgamentos e expectativas. O que ela odiava, aliás; expectativas vêm da promessa de algo e mesmo que ela não prometesse nada para os fãs ou quem os observassem, era criada essa massa automática e caso o que era esperado não fosse linear, a decepção seria o carro chefe para estampar seus nomes em jornais, sites, televisão, tudo.
Nenhum dos dois queria isso.
Eu não vou dormir sem demonstrar meu apoio pra vocês, hyung — Kookie o respondeu, alargando o sorriso e viu deitar sua cabeça no ombro do namorado, estalando a língua no céu da boca. Jungkok completou: — Estão falando muito sobre e se ela irá aparecer acompanhada no AMA ou não...
— Estamos ansiosos, Kook. A mão do Hobi não para de suar e ele está rindo de tudo.
Normal, você já sabe dessa dualidade dele, . — Jungkook, do outro lado, se sentou no banco do balcão da cozinha, comendo algum snack e riu com a situação.
— É, sei... E acho adorável.
Ele já fez alguma piada tipo as de pai do Jin?
— Ei, eu to aqui ainda, ok? — Hoseok cortou o início de diálogo direto entre o amigo e a namorada, fazendo os dois rirem. — E, em minha defesa, é estranho ir para um tapete vermelho sem vocês, além de ser a nossa primeira aparição pública como casal.
É, eu concordo com o Suga sobre a BH não ter sido tão inteligente em colocar vocês pra assumirem assim, direto na América e num evento como o AMA.
É, o casal sabia disso. O suspiro que deram ao mesmo tempo entregou essa insegurança para Jungkook.
Mas vai dar tudo certo, não tem como não gostar de vocês dois juntos — imediatamente, Kookie disse para aliviar a tensão. — Um fã número um de Louseok já existe e sou eu!
— Cadê o Namjoon pra cuidar de você, criança? — Hobi brincou, vendo o outro rolar os olhos.
No canto dele, pensando em como sair do complexo sem ser notado pelo staff. — Riu. — Mas todos estão na sala esperando pela cobertura na TV. Incluindo Suga.
— Nossa, mas que honra. Fico até mais tranquilo agora.
Ah, então se fosse apenas eu, seria trágico? — JK fez uma feição de ofendido, se levantando e caminhando para fora da cozinha.
— Não, Kookie, ele quis dizer que para Min Suga estar acordado essa hora, do fuso de vocês, para nos ver caminhar num tapete com gente comentando qualquer coisa sobre tudo, é no mínimo honroso da nossa parte — detalhou, vendo JK se jogar no sofá entre dois corpos. Logo ela pôde reconhecer Yoongi e Taehyung, um de cada lado.
Estão falando como você é importante na vida deles e que é uma honra te ter como um fã número um — ele disse para Suga e trocou um rápido olhar com Hoseok, rindo fraco.
Fã eu sou do meu trabalho — Yoongi disse. — Mas, disponha, casal.
— Falou pouco, mas foram belas palavras, Yoongi.
Obrigado, J-Hope.
A van parou neste instante. sentiu seu corpo arrepiar e foi como se um pop up subisse em sua mente, brilhando com as palavras em neon, “a hora é agora”. Ela se ajeitou ereta em seu lugar, vendo Pam tirar o fone Bluetooth do bolso e encaixar em seu ouvido, para lhe dizer em seguida que haviam estacionado para descer direto na entrada do tapete vermelho. Olhando rapidamente para o lado de fora, viu a movimentação de pessoas: celebridades de todos os graus, subcelebridades, entrevistadores, companhias de TV, paparazzi, seguranças, staff do evento, etc. O frio na barriga foi inevitável quando Pam desceu do veículo — ela tinha que anunciar a chegada de .
Ai! Começou... disseram aqui que alguns artistas já chegaram... — Jungkook disparou na chamada, animado. — Acabou de filmar a Pam! Aish, como eu queria ter ficado aí pra estar com vocês.
Credo, ta parecendo uma fã histérica, Jungkook — ouviram Suga reclamar.
— Acho melhor desligar agora. Vamos descer e colocar a nossa carinha no sol — Hoseok disse, recebendo uma postura mais séria.
— Tchau, meninos, obrigada por ligar. — sorriu e se despediu com um aceno de mão.
Boa sorte, vai dar tudo certo! Tchau, Hobi!
Hoseok apenas murmurou uma despedida de volta e sorriu, desligando a chamada. Ele colocou o celular em seu bolso interno do blazer e virou o rosto para encarar , tensa como nunca a tinha visto. Se ele pudesse ler através dela, descobriria que toda aquela tensão era a máxima preocupação de unir dois mundos com diferentes visões em um só. Não que fosse fácil para qualquer pessoa se envolver com outra de cultura diferente, mas o fato de serem tão famosos fazia com que ela pensasse diariamente na intensidade que seu relacionamento teria.
E queria muito que Jung Hoseok não sofresse com toda a pressão que poderia ser imposta, mesmo que ele já soubesse bem como era. Assim como Jung Hoseok não queria que passasse pelo mesmo. Cada um com seus respectivos cenários de natalidade.
Mas eles podiam fazer isso juntos, certo?
— Ei, respira, calma... vai dar tudo certo. — Optou por apenas beijar o dorso da mão de , demonstrando seu carinho. Ela sorriu, ele gostava daquele sorriso.
— Vai sim, é só um tapete vermelho — murmurou, se assustando com a porta sendo aberta e revelando uma Pam toda sorridente.
— Estão prontos? — Perguntou.
Os dois se olharam e teve a iniciativa de se levantar de seu lugar, sendo a primeira a sair daquela van luxuosa. Sua dualidade sendo colocada em prática; os flashes em sua direção já brilhavam e a multidão de fãs, que estavam atrás das grades de proteção, parecia que estavam em um estado sólido de frenesi com sua aparição. Ela moveu seu olhar de uma forma rápida, porém cirúrgica, e observou como tudo estava organizado ali e encontrou alguns cartazes de fãs. Então sorriu, mesmo mantendo seu rosto impassível e erguido numa linha reta. Era um momento de demonstrar elegância, assim como fora ensinada a fazer.
E o frenesi pareceu se elevar no mesmo instante em que sentiu uma mão tocar seu ombro e os gritos se intensificaram. Ela até reparou brevemente que algumas pessoas ali ficaram boquiabertas observando a figura que saiu atrás dela da van. Mesmo que fosse óbvio para quem era o dono daquela mão colocada de forma cuidadosamente carinhosa em uma parte de seu corpo, ela diria sem dúvida alguma que era Hoseok em qualquer outra ocasião anônima. Não tinha como ela confundir seu toque e muito menos o cheiro do seu perfume.
— Vai ser assim — Pam parou de frente com os dois, com seu usual iPad em mãos —: vocês irão passar pelo tapete, no último círculo tem o núcleo de entrevistas. Seu staff autorizou apenas com o canal E! e a MTV, Hoseok — disse pausadamente e, olhando para o coreano, recebendo um aceno positivo como forma de resposta. — Mas como você vai abrir a cerimônia, escolhe apenas um destes, . Não podemos perder muito tempo aqui fora e não quero você se esforçando em correria.
— Qual você prefere, Jayjay? — perguntou sorridente ao namorado. Gostava quando podia escolher.
— MTV?
— MTV então, Pam.
— Certo, eu vou estar esperando vocês no local deles. — Pam moveu o dedo na tela do iPad e olhou para os dois sorridente. — Antes das entrevistas, tem a câmera de slow motion. Sigo com vocês no tapete e espero no local da MTV.
Os dois apenas agradeceram Pam em um uníssono e a seguiram. Eram muitos seguranças misturados entre eles, sendo os da própria premiação e também os pessoais de , mas eles ficaram mais livres quando entraram na zona pré tapete — um local ali no asfalto mesmo para os fãs ficarem atrás das grades de contenção. Caminharam devagar por ali, Hoseok estava um pouco atrás de , porém meio de lado com ela, e com sua mão esquerda posicionada na base de sua coluna; casualmente, ela acenava para seus fãs e ele também fazia o mesmo.
A passagem pelo extenso tapete cheio de paparazzi, com flashes famintos na direção de quem passava por ali, foi feita com muita paciência pelos dois, a cada três passos, paravam para uma pose e um ângulo diferente. Muitas vezes os dois haviam conversado sobre como o conceito de tapetes vermelhos em premiações poderia ser patético, mas evitavam uma visão problemática de algo que podia ser visto apenas por apreciação — não como uma venda de seus traços físicos apenas. E era louco pensar que aquelas milhares de fotos poderiam valer muito dinheiro para quem as tiravam, o que complicava o não pensar sobre aquela situação. Como se eles possuíssem um valor estipulado.
Quando chegaram ao último metro para as fotos, ouviram um pedido vir daquela multidão amontoada de fotógrafos. Uma voz soou alto, pedindo por um ângulo de beijo dos dois e em seguida vários começaram a pedir a mesma coisa, como se fosse uma onda enorme engolindo uma praia inteira. sabia o que isso implicava, ainda não tinha assinado o contrato imposto com alguns termos pela proteção de imagem do idol, mesmo que já tivesse passado um bom tempo, porém ela sabia que aquele tipo de ação era um pouco mais complicada. Hoseok fora educado e ensinado a ser reservado e demonstrações como essa de afeto em público eram bem incomuns.
Os dois se entreolharam e Hobi não estava nem um pouco nervoso, ele sabia que compreenderia e não se sentia na obrigação de fazer qualquer coisa que fosse fora de seu costume só porque estava no lado do mundo que ela havia sido criada. O detalhe que ele amava na namorada, ela entendia muito bem sobre ele e não o cobrava que fosse outro para estarem juntos. Além de sempre deixar claro que não eram atitudes como aquelas que mostrariam como eles eram felizes juntos e o quanto se queriam. recebia muitos beijos apaixonados para estar preocupada em receber um mínimo no tapete vermelho de uma premiação estadunidense só pelo entretenimento e fazer de algum paparazzi ali milionário no outro dia com a foto.
Em meio a um sorriso que muito dizia um para o outro, como numa conversa por telepatia, Hobi, que estava do lado dela e com o braço direito rodeando sua cintura, virou poucos graus de seu corpo para depositar um selar na testa de . Ela manteve o sorriso aberto nos lábios, apertando o bíceps dele levemente com sua mão esquerda, enquanto a direita pousava cuidadosamente no peito — mais para a altura do ombro —, do lado esquerdo dele. Muitas fotos foram tiradas daquela sequência, mesmo que simples e não explícita como queria, renderia e muito.
Por fim, caminharam para o ponto do slow motion. O fotógrafo cumprimentou os dois com muita educação e quando Rita Ora saiu do local certo para fazer a foto, dando um breve beijo no rosto de e sorrindo para Hobi, os dois foram posicionados no lugar. Não haviam ensaiado ou se quer pensado sobre qualquer pose para fotos tiradas naquela noite, o nervosismo que tinham anulava qualquer outro tipo de planejamento — afinal, eles só queriam que tudo desse certo por fim. Então a pose acabou por ser completamente natural, sem muito pensar. Ficaram frente a frente e quando o fotógrafo deu a sua deixa, passou os braços pela cintura de Hobi, deitando sua cabeça no ombro do namorado e olhando da câmera para cima, cravando seu olhar na mandíbula dele, enquanto ele a abraçou como um urso, deixando um beijo no topo de sua cabeça. O final ficou por conta do sorriso que os dois deram ao mesmo tempo, encantados com eles mesmos e como aquele encaixe sempre parecia perfeito.
Pam logo apareceu e eles foram novamente escoltados. O local de entrevistas estava uma loucura e logo que se aproximaram da entrevistadora da MTV. Pam os deixou, ficando a poucos metros de distância e observando bem tudo o que seria conversado. Ela era sempre atenta, seu trabalho exigia que protegesse de situações invasivas também, portanto não teria problema em ajudar com Hoseok, neste caso um refletia ao outro.
— Ah meu Deus! — Foi a primeira fala da entrevistadora loira, pouco mais baixa e de sorriso muito simpático, com os lábios preenchidos por um batom vermelho, que jurou não sair por um raio de nada. — Eu não consigo acreditar que tenho em minha frente e... Bom, com o namorado? — Se fez confusa e os dois riram.
— Sim... está em sua frente, Tulisa... — respondeu, tentando ser descontraída, usando o nome da moça, que ela lembrava de uma outra oportunidade que tiveram de estarem juntas, e olhou para Hoseok. — E sim, estamos juntos.
— Olá... — Hoseok disse com um aceno logo atrás de e mantendo o sorriso nos lábios.
— Então vamos com calma, . — Tulisa recolheu o microfone, olhando da câmera para os dois e ainda mantendo seu sorriso. — Primeiro conta pra gente. Eu não tive a oportunidade de abrir as redes sociais, mas acho que o Twitter deve estar em um frenesi intenso agora. A última vez que conversamos, você estava bem focada em seu trabalho... Como foi que aconteceu esse encontro?
— A vida é um pouco louca, um dia estamos aqui, no outro do lado oposto do mundo. — riu fraco. — No conhecemos, fizemos amizade e estamos aqui agora... E eu continuo focada no trabalho, com a diferença de estar entrando em férias dentro de algumas horas!
— E você, J-Hope, primeira vez sem os outros meninos do grupo. Como está se sentindo com essa excitação toda do povo por aqui? — Estendeu o microfone para Hobi. traduz para o namorado e Tulisa fica surpresa. — Mais um idioma para o cérebro de ?
— Ela é incrível — Hoseok respondeu, mesmo sem o microfone e Tulisa esticou o braço. — Mas respondendo sua pergunta, é uma energia muito boa e espero retribuir isso em um bom comportamento, essa noite se trata de — disse com algumas pausas, muito embora estivesse evoluindo na prática do inglês.
— Adorável!, E realmente, essa noite é sobre . Recordista de indicações e hoje é uma noite muito determinante para seu Grammy, o que devemos esperar da sua apresentação de abertura?
— Como disse, Tulisa, estou há poucas horas de um extenso período para descanso, então quero terminar tudo da maneira que meus fãs merecem. Foi um período de muito trabalho e esforço, tanto meu quanto deles. — sorriu por fim, sentindo uma mão de Hoseok apertar sua cintura.
— Obrigada por falar com a gente, — Tulisa começou a encerrar a breve entrevista. — Boa sorte hoje nas categorias e parabéns aos dois, estamos muitos felizes de saber que estão juntos. Muito amor pra vocês! — Se vira totalmente para a câmera. — E essa foi ! Ela acabou de revelar ao público que está com J-hope do BTS e nos concedeu uma entrevista! Eu vou morrer...
e Hobi foram tirados dali e não puderam ver o surto da entrevistadora. Todos que acompanhavam o canal, sabiam do tamanho da idolatria que Tulisa tinha por . Pam os encaminhou pela multidão para entrar no local da cerimônia e durante o caminho, Hoseok tentou evitar a curiosidade de pegar seu telefone e ler as milhares de mensagens que estava recebendo, além de abrir as redes sociais, sentia o aparelho vibrar em seu bolso. Porém se conteve.
Sua namorada era uma pessoa muito querida no mundo inteiro por todos os tipos de pessoas e dentre os artistas, era aquela boa vizinha. O caminho que faziam para dentro do local estava cheio deles, que a paravam o tempo todo para cumprimentar. Chegou a ficar um pouco deslocado quando precisou ficar parado mais de cinco minutos enquanto ela conversava com Taylor Swift, afastadas de qualquer câmera — e, nossa, como aquela mulher estava alta com aquele salto enorme. Chegava a ser fofo ver erguendo o rosto para a olhar, mesmo que usasse um salto nos pés também.
Então o que ele não queria, aconteceu. Pam tinha que levar para o camarim nos bastidores, ela precisava se arrumar para a abertura do show dali quarenta minutos e ele seguiria para o local onde a esperaria, a plateia.
— Você vai se sair muito bem, eu já sei. — Deu um selinho rápido nos lábios dela, a abraçando em seguida. — E não precisa ter medo do espacat, você sabe fazer isso muito bem em qualquer circunstência — completou com um tom mais malicioso, arrancando um riso tímido de .
— Te encontro logo em seguida, ok? Cuidado com os gaviões, tô de olho em você.
— Hummm, com ciúmes? Essa é nova.
Um último olhar semicerrado foi lançado para Hoseok e ela se distanciou. Ele foi guiado pela assistente de Pam para onde ficariam, era a primeira fileira de assentos da área dos artistas e convidados, bem de frente com o palco — este que tinha um local para fã clubes, como uma ilha, formando um espaço oval. Assim como ele e a assistente, a qual de tão quieta ele não lembrava o nome, se ajeitavam em seus lugares, os fãs clubes eram alocados ali e algumas meninas olhavam e acenavam para ele. Hobi, é claro, acenou de volta em um movimento simpático.
Suspirou e sentou em sua cadeira, estaria na ponta do que formaria um corredor, na fileira de trás teria a assistente de Pam e a própria, com Jordan e outras pessoas de outras equipes que ele não conhecia. se sentaria do seu lado direito e ao lado dela estava reservado para Taylor, Selena Gomez e Justin Timberlake. Que loucura!, ele pensou.
Pegou seu celular e começou a chegar as milhares de mensagens recebidas; sua staff do grupo lhe parabenizava pela forma como agiu na passagem pelo tapete vermelho, Sohoo lhe dizia que aquilo era o script; Namjoon estava dividido entre falar sobre estar feliz pelo amigo e reclamar do que vinha lhe consumindo há algum tempo com seu relacionamento — que talvez nem pudesse ser chamado de relacionamento mais —; o restante dos amigos estava feliz por ele, até mesmo Suga enviou um emoji de coração; e aí veio as redes sociais, primeiro passou pelo Weverse, sendo surpreendido pelo movimento que estava na plataforma e era bem dividido entre quem apoiava e os que reclamavam. Mas, infelizmente, o maior impacto foi para o twitter.
Nos assuntos mais comentados do momento, tinha seu nome, BTS, , uma tag de apoio e outra de repulsa ao casal, mas a que lhe chamou a atenção foi a que era designada diretamente para : Você não é suficiente, . E por aquele momento, ele desejou que estivesse sem acesso a nenhuma rede social. Ela precisava se manter concentrada e firme para aquele momento. Ele sabia como era importante para ela aquele encerramento da era em que ela estava.
O alívio veio em forma de água para um incêndio quando ela não recebeu a mensagem pelo aplicativo de conversa, por estar com seus dados móveis desligados.
Hoseok suspirou, guardando o celular, tentando evitar pensar no longo caminho cheio de pedregulhos que seu relacionamento enfrentaria. Com sorte ele teria ao seu lado.
O tempo passou, tão rápido que ele se quer notou o lugar encher.
As luzes apagaram de repente, não era possível que ninguém enxergasse um centímetro à frente. Mas sabiam que o show estava começando porque fora anunciado e o burburinho em meio àquele silêncio era pela curiosidade mesmo. Então o tom de sussurro e confusão deu lugar a uma gritaria histérica quando apenas o som da voz de Lousie ecoou acapella, no escuro. Hoseok se assustou, ela estava do seu lado e ele não sabia como havia ido parar ali, tudo fora muito bem feito e de forma rápida durante aquele apagão e mais uma vez ele não sabia o local de escape da namorada — sentindo-se um pouco nostálgico, inclusive.
A voz dela era uma melodia pura e quando as luzes se acenderam novamente todo o publico teve o vislumbre de um palco iluminado e com o cenário do que se remetia aos clipes daquela era de , incluindo uma orquestra e um coral no fundo. Devagar ela se levantou, trocando um rápido olhar com Hobi enquanto segurava em seu microfone tão marcante. Os seus amigos sentados ali também iam à loucura e logo todos estavam em pé, a vendo caminhar para um desfile fenomenal até a passarela que fazia o espaço oval do centro de fãs.
Ela caminhou cantando, sem errar ou vacilar, subiu os degraus segurando a calda de seu roupão de penas vermelhas e já não cantava mais. Os aplausos e gritos eram o som que se ouvia. Então colocou o microfone posicionado no pedestal e jogou seu roupão no chão, que foi recolhido pelos assistentes de palco com muita rapidez, revelando seu macacão justo e do tom de sua pele com desenhos em espiral na cor dourada. A batida da primeira música começou e ela se concentrou em levar o ritmo para seu corpo.
Era uma coreografia tranquila, sem muitos detalhes. Até Khaled entrar no cenário no palco principal e começar Inside Out. tirou o macacão para ficar apenas com um mini shorts e um sutiã, ambos dourados, levando uma pontada leve de ciúmes em Hoseok, devido aos gritos e assobios que ela recebeu. Porém, a vibe que a performance dela passou, com o coral e a orquestra em um certo momento da música para finalizar, foi de tirar o fôlego e afastar qualquer paranoia que ele pudesse ter.
Sua namorada era extremamente talentosa e sabia muito bem o que fazia em cima de um palco. Ela criava o próprio, aliás.
— Senhoras e senhores, essa foi !
Elle Degeneres entrou no palco, enquanto era muito bem aplaudida e aclamada, e como apresentadora daquela noite ela chamou mais ainda os aplausos, abraçando a artista em sua frente. Parabenizou e logo atrás dela apareceu um assistente de palco com três troféus da premiação em mãos. Ellen logo discursou:
— A nossa recordista de indicações da noite fez uma apresentação incrível para abrir nossa noite com uma chave triplamente de ouro... E pra gente diminuir o tanto de vezes que ela irá levantar do lugar, ou não — brincou —, aqui está o primeiro da noite: o de melhor canção com Inside Out, melhor performance solo e a de dupla ou grupo, com Inside Out feat DJ Khaled!
Khaled abraçou . Ela, ao se afastar, buscou o sorriso do namorado na plateia e o encontrou em pé, sorrindo para ela com aquele calor e orgulho estampado. Ela sorriu de volta, respirou fundo e com os aplausos diminuindo, iniciou seu discurso:
— Boa noite, AMA! Que maneira maravilhosa para começar a noite... — Se sentiu emocionada, controlando a respiração, ainda se recuperando da apresentação. — Quero agradecer toda a minha equipe que esteve comigo nos últimos meses. Trabalhamos pra caramba e o resultado têm sido muito bom. E obrigado ao Khaled que me aceitou no estúdio dele, o enchendo a paciência com minha complexidade para produzimos algo... algo único. — Respirou fundo e em um momento de impulsividade, disparou: — E obrigada, também, ao meu namorado que tá logo ali e nos ajudou com a composição de Inside Out. E obrigada AMA! — Terminou, dando as costas para retornar aos bastidores.
Hoseok a olhou surpreso. Naquele momento ela não iria entender, mas ele não podia dizer que estava feliz com ela ter revelado aquilo ali, daquela forma.



O silêncio entre os dois era algo incomum. Contudo, estava eufórica demais para iniciar qualquer discussão que fosse tirar dela aquele momento de felicidade. Sua noite havia sido incrível, no ponto profissional, já que desde que descera do palco e assumira seu lugar ao lado de Hoseok, ele estava com uma postura diferente. Ela sabia que ele queria lhe dizer algo, desabafar talvez, mas estava se segurando para não acabar com a felicidade dela. Só que o porém era de estar tão eufórica e com desejo pelo namorado, que não iria se segurar por muito tempo.
Ela tinha recusado uma after party de JLo para ir de volta para o hotel festejar em privado com ele. Sem chance alguma ficariam naquele silêncio.
Quando a porta da van fechou, se sentou ao lado de Hoseok, encarando-o séria. Ela tinha um palpite sobre o que era que estava o deixando tão quieto, mas não queria acreditar. Seria possível que eles fossem ter um desentendimento por causa de fãs? E o primeiro desentendimento em um momento de tanto alívio e felicidade para ela?
Não queria acreditar na possibilidade daquilo.
— Eu que ganho uma tag com ameaça de morte e é você quem fica de cara fechada? — Tudo bem que não foi uma abordagem correta, mas foi tudo o que ela conseguiu pensar no momento.
— Não é como se seus fãs fossem uns doces também — ele a respondeu, a voz no tom abaixo, fazendo ficar grossa. — Eu ganhei uma tag de... como mesmo? “O namorado que está sendo carregado na América”.
— Isso soa mais como a infantilidade das suas fãs, devo ressaltar. E eu não vi ninguém criticar você, muito pelo contrário, todos gostaram de saber que a letra de Inside Out teve participação sua — rebateu, jogando as suas costas contra o assento.
— Não diga como se sua atitude impulsiva tivesse sido muito adulta — a resposta de Hoseok foi tão rápida que ela mal conseguiu pensar em uma resposta e ele já estava falando outra coisa. — As armys comentam aquilo que elas veem.
Incrédula. estava incrédula. Ela custou a acreditar no que havia acabado de ouvir. Então, para não estragar mais o seu humor, seguiu em silêncio aquele longo caminho para o hotel. Quando estavam no elevador, Hoseok decidiu tentar iniciar um diálogo para amenizar a situação, aquela distância entre eles estava lhe fazendo mal.
— Você devia ter me falado sobre soltar em rede mundial sobre Inside Out.
— Ah... — murmurou, estalando a língua no céu da boca. — Então é sobre isso. — Riu fraco. — Ainda bem que não assinei o documento ainda, não é mesmo? Se quiser adicionar lá uma cláusula de silêncio, pede pra Sohoo, ela vai adorar.
foi a primeira a sair no mesmo instante que terminou de falar, ao que a porta do elevador se abriu. Mas Hobi a segurou pelo braço, sem apertar, mas de uma forma que a fez se virar para ele, com seu olhar escuro por algo que ele reconheceu como decepção.
Ele estava sendo o errado naquilo? Como foi mesmo que haviam começado aquela cena?
Não se lembrava.
— Olha, primeiro você fica quieto a premiação inteira, me punindo por algo que eu não sabia ter feito errado. Foi na emoção, Hoseok, eu estava feliz demais com todo o cenário e não pensei. Tá legal, errei, me desculpa. — se soltou e se afastou. — Mas você me comparar com a infantilidade das suas fãs é simplesmente o ápice da ignorância. Eu não vou cair na sua conversa agora porque estou feliz demais com minha noite e meu início de férias.
...
— Não. Sem e nem Hobi. Eu vou entrar, tomar um banho e me arrumar pra pegarmos o voo para Seul.
Ela lhe deu as costas e entrou no quarto, o largando com um suspiro decepcionado. Buscaria uma forma de conversarem depois, mas não poderiam ficar naquele clima.
Tomaram seus banhos, se arrumaram, juntaram suas coisas e foram para o aeroporto. Tudo sem dizer uma palavra um para o outro, mesmo que vez ou outra Hoseok tocasse nela durante a saída do hotel, entrada no carro e saída para subir para o jatinho. Eram movimentos comuns que nem mesmo o clima estranho entre eles podia conter. Não era uma briga digna de separação, era apenas uma falta de conversa de forma objetiva em que os dois encontrassem onde erraram e pudessem se desculpar, reconhecendo que em um relacionamento nada é feito sozinho.
O silêncio agora consumia os dois. digitava em seu celular sem pausa e Hobi a olhava de soslaio vez ou outra, pensando em como havia sido injusto em seu comentário. Não era errado admitir que suas fãs haviam pisado feio na bola nos pedidos e no que diziam, e que exageraram e muito quanto a . Ele deveria ter escolhido palavras melhores para se expressar em meio à discussão com a namorada. Respirou fundo e se sentou ereto na poltrona, tirou os fones do ouvido de e ela virou o rosto devagar, olhando-o com pouca expectativa. não queria mais uma discussão, mas sentiu que devia ser o primeiro a dar o braço a torcer.
Hoseok abriu e fechou os lábios algumas vezes, a olhando nos olhos com cuidado. Tomou de suas mãos o celular e colocou em qualquer lugar, que nem percebeu onde, ainda mantendo os olhos fixos no dela. Umedeceu os lábios de forma sutil, o que para a mulher em sua frente era como uma sessão de tortura, já estava com saudade de tocar os seus lábios nos dele e os planos que tinha para com ele naquela noite ainda vagavam sua mente, o desejo sendo forte.
Ele então sentiu o coração disparar, depois de passar aqueles longos segundos analisando cada detalhe da mulher em sua frente. Era ela e mais ninguém. Ele não queria perder nenhum segundo sequer de tempo ao lado dela em briga ou sob qualquer evento frustrante, só queria que houvesse momentos bons. Ela era a sua esperança e sabia que do outro lado a expectativa era a mesma.
— Eu te amo — disse por um fio de voz, seu sotaque coreano carregado fazendo com que a pele de arrepiasse, além do hálito de menta que ela adorava e, o principal, aquela fala impactante. Aquele pedido de desculpas sincero. A primeira vez que Hobi dizia que a amava.
— Eu queria ter sido a primeira a dizer isso. — riu fraco, seus olhos agora brilhavam mais do que qualquer outro diamante já visto por Hoseok. — Mas fico feliz que você tenha o feito, porque independente da ordem dos fatores, o resultado é o mesmo: eu também te amo.


Capítulo 4

Seul, 2018.

— Você sabe o que é ter liberdade de ir e vir, não é, Mickey?
E mais uma vez o cachorro apenas a olhou de canto, como quem gostaria de dizer que aquela conversa toda era uma besteira. E talvez fosse, talvez estivesse começando a criar um tipo de paranoia.
— Eu me lembro de ter tido essa chance uma vez, Mickey. — Riu fraco, continuando seu monólogo enquanto trocava a posição no sofá. Mickey, por sua vez, não moveu um músculo. — Foi quando minha mãe faleceu — suspirou, olhando para suas pernas erguidas e apoiadas no encosto do móvel confortável. — Pam e eu conseguimos me tirar desse mapa mundi por uns trinta dias sem correr risco nenhum de fotos ou qualquer pessoa invasiva. — Virou o rosto para Mickey, desta vez ele a encarou. — Tá, eu já entendi, você está certo como sempre. Escolhi essa vida, aceito as consequências.
Mickey apenas soltou outro suspiro, provavelmente estivesse gastando o tempo que ele poderia estar dormindo, falando aquele monte de coisa em seu monólogo sobre como estava complicado ver as manchetes e comentários online.
Pouco mais de uma semana havia passado desde o AMA e já havia lido de tudo na internet, até sobre usar Hoseok e o BTS para se autopromover — o que, por incrível que possa soar, foi o mais simples dentre os comentários. E isso tudo também se estreitou mais quando Sohoo recebeu os dois em Seul pedindo para que se organizassem e que decidisse quando iria assinar o contrato de, como ela mesmo dizia, "contenção de danos". É claro que jogou isso tudo para o colo de Pam, muito porque ela não saberia lidar com a situação sem ser grosseira demais com a staff indelicada da BH, também porque estava de férias e isso era uma tarefa da sua agente.
Então o pior aconteceu, saiu uma notícia sobre Jung Hoseok, o J-Hope, ter comprado seu apartamento milionário justamente quando estaria indo para a Ásia ficar com o namorado durante seu período de férias. Isso chegou como o ápice para qualquer história maléfica que pudesse ou não envolver seu nome.
Foi nesse ponto que assinaram uma sentença a condenando responsável pelo disband do grupo.
riu, a princípio, mas, posteriormente, começou a ter desabafos com Mickey em momentos que estava sozinha "em casa".
O cachorrinho de Hoseok sempre a ouvia, nunca deixando sozinha, e servia como um bom ouvinte para ela, no fim das contas conseguia concluir muito — mesmo que fossem equívocos.
Ela andava com aquele contrato para cima e para baixo enquanto estava sozinha, evitava ficar encarando o monte de papel quando Hobi estava junto. Não havia assinado ainda por algum medo inconsciente que não soube encontrar, mas ficava por horas a fio olhando aquelas cláusulas, como se isso fosse o suficiente para fazer com que desaparecessem. Infelizmente, não tinha como.
Suspirou, Mickey ergueu o rosto, a olhando atento enquanto ela se levantava, sentindo uma vertigem por sair da posição de cabeça pra baixo muito rápido.
— O que acha de darmos uma volta? — Perguntou ao cachorro, com as mãos na cintura. Ele moveu a sua pequena cabeça para o lado. — Que preguiça é essa, Mickey? Credo — reclamou. — Eu não aguento mais ficar nesse apartamento esperando ele voltar, não vai dar pra ficar três meses assim. Eu preciso fazer alguma coisa.
Mickey continuou a encarando, mas saiu do sofá, caminhando com sua classe e calmaria de sempre, direto para sua caminha no chão.
— Tá, você venceu — suspirou. — Vou fazer o que sei de melhor: estudar idiomas. E hoje é português, você gosta, né?
Desta vez ele apenas a ignorou. Mickey queria dormir.
Talvez sair fosse mesmo inapropriado para aquele momento. Com todo o alvoroço da internet, ela tinha voltado para a estaca zero de ser obrigada a se manter sigilosamente em Seul — mesmo que o mundo todo já soubesse e comentasse a sua estadia por lá. Se fosse para sair, até mesmo sozinha, Sohoo tinha sido bem clara sobre o uso de disfarces e só de pensar na obrigação de se vestir como outra pessoa para fazer coisas que ela adorava, como ir ao shopping, lhe dava desinteresse.
foi até a mesa de jantar no segundo ambiente daquela enorme sala da cobertura e lá pegou seu notebook e o fone sem fio. Queria comer um bolo de chocolate bem suculento e como não tinha meios e nem sabia onde encontrar, optou por fazer por si só. Poderia pedir a Hoseok que trouxesse, mas não queria incomodá-lo, sabia que na empresa estavam muito focados nos preparativos para irem até uma cidade mais pro interior gravar algumas composições para o novo álbum — este que ela estava bem ansiosa pra ouvir, já que o namorado passava a maior parte do tempo falando sobre.
Pensar sobre isso, sobre a ida do BTS para uma cidade pouco longe de Seul, fazia com que ela ficasse desanimada. Não tinha tanta certeza sobre poder acompanhar eles e ficar por sabe-se lá quantos dias sozinha com Mickey não a deixava tão contente. A companhia do animal era boa, eles se gostavam, mas, eventualmente, em alguma hora do dia, no final da noite, Hoseok aparecia e ela dividia o espaço da cama com ele, mesmo que por pouquíssimas horas.
Seguiu para a cozinha e, no balcão, colocou o aparelho, o ligando. Iria logar em sua aula on-line disponibilizada pela professora particular, e, enquanto ouvia, faria o bolo.



O dia havia sido cansativo, mais uma vez. Mas não era nenhuma novidade para Hoseok. O tanto de tempo que já havia passado desde que entrou para o grupo lhe dava aquela camada de indiferença quanto a algumas coisas. Não admitiria, com certeza era mais seguro manter algumas coisas pra si, embora às vezes se sentisse esgotado por esconder muitas delas. No final, tudo girava em torno de vender uma imagem. E aquilo o deixava extremamente desgostoso.
O porém tinha uma classificação e esta era "fãs". Gostava daquela consequência de fazer o que fazia, de trabalhar com o que amava, embora às vezes se prendesse à gratidão para ficar cego sobre um fato e outro — o que nos últimos tempos havia se tornado mais comum.
Quando havia concordado sobre passar suas férias em Seul, com ele, vivendo a rotina dele e tudo o mais, tinham em mente uma coisa completamente diferente. Mas agora estavam presos àquela agenda louca e cheia dele. Hobi ia todos os dias cedo para a empresa e ela ficava em seu apartamento, o esperando voltar, fosse lá a hora que ele chegasse. E isso estava incomodando um pouco.
Hobi sabia tudo o que estava sendo comentado sobre eles desde a aparição no AMA — que foi uma ideia muito pretensiosa de sua equipe, assim como Suga havia comentado e estava certo. Ele ir sozinho com ela para a premiação e de repente ser anunciado para o mundo inteiro como namorado de havia sido uma cartada de mestre para testar ambos. O resultado agora era bem claro: parecia existir um abismo entre os dois.
Ele não sabia o que fazer, porque uma semana pareceu ser suficiente para distanciar algo que, em meses, estava sendo excelente. Não conseguia ter tempo nem para conversar sobre o fato que aconteceu após a premiação e sentia que aquilo ainda parecia entalado entre os dois, mesmo que tivessem ficado "bem" e dito "eu te amo".
Dizer que a amava não era para colocar aquela pá em cima de algo não resolvido 100%, para acontecer de novo e outra pá ser colocada, seguindo assim com situações inacabadas. Aquela montanha de problemas não poderia existir, não com a sua .
Ao parar o carro na conveniência perto de sua casa, pensou mais vezes do que pôde contar sobre descer do veículo para fazer o que tinha em mente. Era final de noite, próximo das dez horas, e ele queria muito levar para um chá gelado de uma marca específica que ela adorava e só vendia ali. Mas era arriscado sair apenas de máscara e um boné, seria reconhecido, pessoas poderiam perguntar muitas coisas, tirar fotos, etc, e ele estava sem saco para tudo aquilo.
Jung Hoseok só queria dormir e deixar aquele peso sair de si, olhar nos olhos da namorada e ver que ela estava mesmo bem com tudo aquilo. Porém, não podia, todas as vezes que chegou em casa nos últimos dias, ela já estava dormindo e ao se despedirem pela manhã, tinham pouco tempo e ele não queria gastar entrando em um assunto que pudesse deixar os dois mal por um dia todo. E separados. A parte do dormir havia sido até julgada por seus amigos, já que seu perfil workaholic não lhe dava esse lapso de desejo. Então significava que ele realmente estava esgotado.
E ver J-Hope esgotado e robotizado era algo totalmente chocante.
Por fim, acabou sendo rápido ao comprar o chá, aproveitando para levar um chaveiro de Pokémon, amava o Pikachu. Então seguiu para casa animado e completamente ansioso para ver sua namorada. Por aquele momento, tentou deixar todos os seus receios de lado, estaria chegando cedo em relação aos últimos dias, com sorte ela ainda estaria acordada e ele poderia aproveitar seu colo e curar aqueles medos todos. Talvez estivesse sendo um pouco dramático por ser novidade lidar com tudo aquilo, passaria a olhar por essa perspectiva.
O tempo em seu elevador privativo, por conta de morar em uma cobertura, foi mais longo que o normal pela ansiedade. Quando saiu dele, direto em sua sala, recebeu o tão animado e carinhoso Mickey.
— Ei, amigão! — Se agachou, o pegando no colo meio sem jeito pelas mãos ocupadas com a sacola. — Cadê a ? Você cuidou bem dela hoje? — Deixou alguns beijos no animalzinho e o colocou de volta no chão.
Era estranho aquele silêncio.
Mickey saiu andando em sua frente, em direção à cozinha, e Hobi resolveu segui-lo. Podia ser que ele estava lhe guiando até a namorada.
E estava.
Ao entrar na cozinha, Mickey parou e se deitou no chão, ali mesmo na entrada. Hoseok também parou no mesmo local, mas em pé e com um sorriso formando em seus lábios. estava de costas, fazendo algo na pia, talvez limpando, porque, assim como ele, ela tinha aquela compulsão por organização e coisas limpas. Mas não era essa estética que a deixava incrivelmente linda sob seu olhar atento.
O fone em seu ouvido era enorme e de um vermelho muito chamativo. Estava alto, muito provavelmente no último volume, já que conseguia ouvir um burburinho. Ela estava naquela mistura indecisa de dançar, esfregar algo e cantar. Ficou parado por alguns segundos e quando percebeu que ela não havia notado sua presença, deixou a sacola com o chá em cima do balcão e, segurando o chaveiro em sua mão, se sentou na mesinha usada para refeições simples. Ficaria ali observando-a cantar Cypher 4.
Estava no início ainda da música e ela cantava a parte de Namjoon com extrema perfeição nas palavras, porém não na questão de "rap", não era sua zona de conforto. Reconheceu o verso que era dele na faixa e apoiou o rosto nas mãos, forçando seus cotovelos na mesa de madeira. estava passando água no que parecia ser a fôrma de bolo e depois de a colocar para secar, passou a movimentar as mãos. Se surpreendeu quando ela respirou fundo, apoiando o corpo na pia e iniciando a parte de Yoongi.
Ele precisava gravar aquilo e mandar para o amigo.
Rapidamente, tirou o celular do bolso e começou a gravar.
— ... Songjangi doen myeonsang wireul so fly… Click clack to the bang, fuck you and you. — Nesta parte, ela pareceu bem "selvagem" com o recado da letra. — Swipge eodeun, ge hanado eobseume…. neul gamsahane, ni insaengi eojungganhan ge, wae nae tasiya, gyesog geureohge sarajwo jeogdanghage, mianhande apeuro nan deo beol geonde jikyeobwajwo… budi jebal geonganghage — fez a sequência, gesticulando no ar, movendo o corpo para os lados, em uma dança muito própria e, no fim, cantando o coro da música.
Hoseok guardou o celular depois da parte de Yoongi finalizada. estava um pouco ofegante, mas continuou e ele ficou um tanto preocupado por saber da asma dela. Entretanto, a namorada parecia tão entretida, fechada em um mundo próprio, que apenas continuou a admirando, o que faria pro resto da vida se pudesse.
Ya playa hater, you should love yours. — Se virou na última frase sem terminá-la, parando abruptamente quando viu ele parado ali, assustada. — Oh fuck! — Praguejou, não ele, mas o próprio susto, levando a mão ao coração.
O coração de batia forte pelo susto e o de Hoseok pela admiração, enquanto Mickey pulava nela para ter certeza de que estava bem, depois de se assustar com o grito que ela deu.
— Mickey, calma… ei… amigão, calma! — Hoseok, já de pé, se aproximou do cachorro pulando nos pés de e latindo.
— Calma, Mickey… — ela disse, tirando o fone e o colocando ao seu lado no balcão, passando para perto dos dois. — Tá tudo bem.
Com Mickey no seu colo e agora mais calmo, estava com sua respiração ritmada novamente.
— Chegou cedo. — Sorriu para o namorado, colocando o cachorro no chão.
— Teria sido mais se eu não tivesse passado na conveniência — Hoseok respondeu, logo a puxando para selar seus lábios. — Hmmm… — murmurou, se afastando. — Você está cheirando a bolo. — Ele a olhou com o cenho franzido, não tinha nenhum bolo naquele balcão e a fôrma estava limpa e vazia em cima da pia.
Ela fez uma careta e, a julgar pelo vinco em seu cenho, ele podia dizer que era uma careta de decepção — com base no que já tinha de experiência naqueles meses de convivência.
Hobi reparava em , mais do que o normal, até porque isso acabou por se tornar um de seus hobbies favoritos.
— Eu tentei… Mas deu errado. Gastei todos os ingredientes que tinha, queimei o primeiro e o segundo ficou cru — bufou, frustrada. Sua tarde tentando se distrair acabou por ser mais estressante, visto que apenas se decepcionou com seus dotes nulos para confeitaria. — E não tinha como ir comprar…
Ele riu fraquinho da feição dela, encantado com aquele biquinho que formava em seus lábios. Ignorando completamente a razão pela qual ela não tinha como ir comprar os tais ingredientes que precisava, em vez de iniciar uma discussão sobre isso, decidiu que iria fazer com que o resto de noite deles fosse mais adorável. Ele queria aproveitar o que podia e curar aquela insegurança sem iniciar outra.
— E se nós dois pedirmos algumas coisas para comer por delivery e fazermos alguma maratona de qualquer coisa? — Sugeriu, sorrindo de lado. — Eu sei que seu desejo mais óbvio é ir comprar pra fazer esse bolo, já que deve ter colocado nessa cabecinha que queria fazer.
— Eu fiquei com vontade, você não está entendendo…
não era do tipo que fazia manha, mas, neste momento, ela estava a coisa mais fofa que Hoseok já havia tido o prazer de ver. Ele só queria apertá-la e beijar por horas aqueles lábios pressionados em um bico de decepção.
— Prometo que amanhã nós saímos para comer. Ok?
— Tá bom — o respondeu, com um sorriso se formando nos lábios. — O que você trouxe aí? — Perguntou, olhando para a sacola.
— Aquele chá que você gosta e eu não sei falar o nome.
— Olha, você um dia me disse que não sabia falar inglês muito bem e eu fui descobrir depois, pela Cece, que você já falava sim e o suficiente. Inclusive, todos vocês. Então esse negócio de “não sei falar o nome” — engrossou a voz nesta parte — realmente não cola comigo mais.
Enquanto se aproximava da sacola em cima do balcão, dizia, se lembrando de como uma das amigas do grupo havia os entregado. A brasileira era divertida e ela teve poucos encontros com Cecília. Em um deles, elas trocaram palavras sobre algumas experiências e como havia os conhecido no Brasil, também em 2017, porém antes de .
Descobriu, por fim, que os meninos, além de Namjoon, sabiam usar bem o inglês para se virarem. Mas Hoseok passou a ter aulas também, justamente para melhorar e não perder nada e nenhuma emoção das conversas com , que se tornaria sua namorada.
— Mas você nunca vai esquecer isso, não é? — Ele riu fraco, se apoiando na bancada, olhando ela guardar o que ele havia trazido.
— Nunca. Principalmente com Taehyung me lembrando sempre que possível.
— Vou ter que usar muito pokémon então…
Neste momento, havia fechado a porta da geladeira e se virado para a direção de Hoseok, o vendo abrir a mão e mostrar um chaveirinho do Pikachu, brilhando seu amarelo pela luz que refletia.
— Ah! Que lindo, babe… — Sorriu, pegando o acessório das mãos macias dele, olhando do pequeno chaveiro para Hobi, com o sorriso ladino. — Amor…
— Não precisa nem pedir… — Hobi riu, aproximando-se mais do corpo dela. — Pika… pika… pikachu.
amava quando ele imitava o personagem. Sua gargalhada foi outra coisa que ele adoraria poder ouvir sempre.
— Senti sua falta — ela disse, passando os braços em volta do pescoço dele e recebendo as mãos dele em sua cintura. — Apesar do Mickey ser uma companhia muito boa…
— Prometo que isso logo muda, ok? — A respondeu, aproximando mais o rosto, roçando os narizes, inclinado um pouco para baixo pela diferença de altura. — E aí nós três vamos poder aproveitar e muito. — Depositou um beijo nos lábios dela.
— E para hoje, Hoseok oppa, qual nosso menu de comida e filmes?
— O fast food mais gostoso que existir e...
— McDonald’s, por favor! — riu com a expressão dele. Ela era viciada na marca, apesar de não ser a melhor existente e havia sempre uma discordância entre os dois.
— Ok, McDonald’s pra você, Burgerbang pra mim e Titanic pra nós?
Os olhos de Lousie brilharam.
— Você quer me deixar vulnerável vendo Jack e Rose...
— Pela milésima vez sendo separados pela vida? — Ela fez uma careta. — Sim. A melhor cena é você colocando sua alma pra fora de tanto chorar e me abraçando apertado. Melhor do que qualquer ideia sobre filme de terror pra você grudar em mim é te torturar com Titanic.
Mais uma vez, ela gargalhou, o beijando em seguida, porém. amava Titanic e nunca se recusava assistir ao longa de romance que mais marcou épocas, e, apesar de achar o filme muito bom, Hobi gostava mais da parte de ficar abraçado com ela, como se o mundo lá fora não fosse o suficiente para o separá-los da mesma forma cruel que separou os protagonistas do filme.
Ele gostava de pensar que não era, mas vez ou outra, o pensamento estava sendo assombrado pela dúvida.



— Eu acho que o Mickey finalmente me adotou.
Hoseok apenas murmurou um sim, concentrado em ajustar a legenda e idioma do filme no aplicativo de stream. Em seguida, depois dessa atividade feita, virou o rosto para o lado esquerdo, vendo se ajeitar na cama com Mickey, esperando para juntar-se aos dois no lugar mais confortável para ele naquela cama enorme. Ele sorriu, queria e gostaria de poder repetir aquilo mais vezes, como prioridade.
— Daqui a pouco ele te chama de mamãe — a respondeu, com aquele delay, colocando o celular na mesinha de cabeceira e se ajeitando na cama enquanto a ouvia rir fraco e o responder.
— Melhor do que madrasta. Evil Queen não deu um bom significado a isso.
— Ser pai solteiro estava meio complicado mesmo… Mas, me diga, qual madrasta da Disney deu um bom significado ao termo, huh?
estava com as pernas dobradas em como chamam de “borboleta”, com seu corpo reto e ainda usava o robe de cetim rosé, que vestiu após o banho com Hoseok.
Ao contrário do que ele achou que seria quando estava indo para casa, em nenhum momento caíram em algum assunto em discordância e estragaram o momento. Por mais tarde que fosse naquela noite e cansado ele estivesse, aqueles momentos com , dentre chegar em casa, tomar banho juntos e fazerem brincadeiras embaixo da água e acabarem com o clima mais quente, a prioridade era ela. Era aproveitar o que podia de estar junto dela. Então o clima não estava estranho e muito menos ele deixaria ficar.
Por mais que quisesse se livrar de toda aquela sensação esquisita, não queria estragar o momento.
— Você tem razão. — Ela riu fraco, olhando para Mickey, que a encarava com muita atenção. — É engraçado. Ele ficou o dia todo me ignorando hoje e agora está aqui… Sabe o que é isso, não sabe? Ciúmes.
— O quê? O Mickey com ciúmes de mim? — Hobi disse com uma feição de surpresa, apontando para o animal. Ela assentiu. — Impossível. Isso é ciúmes de você, quer ver?
Não a deu tempo de pensar, passou os braços na cintura dela e a puxou para cima de seu corpo, fazendo com que se assustasse e ela gargalhou mais uma vez naquela noite, caindo deitada com ele naquele colchão coberto por um lençol de inúmeros fios. Mickey imediatamente começou a latir e pulou em cima do casal, enquanto Hoseok fazia cócegas em , a deixando ofegante.
Os risos eram altos, não só dela, mas do próprio Hoseok e sua risada escandalosa, o que ambos tinham em comum.
Ele conseguiu inverter os corpos e ficar por cima dela, travando os braços de na lateral do corpo com suas pernas, tomando cuidado para não forçar o próprio peso em cima do quadril dela. E Mickey subiu na altura do peito dela, latindo firme para Hoseok. Ele parecia bem irritado.
— Tá vendo? Eu falei que era você — a disse ofegante, mal podendo ver o rosto dela coberto por todo o corpo do cachorro.
— Mickey… Neném, eu preciso respirar — disse, sua voz saindo abafada. E entendendo o que ela pedia, vendo que estava tudo bem, Mickey saiu.
Com toda sua elegância, ele fez o caminho para os pés da cama, ainda encarando os dois, principalmente Hoseok, como se estivesse em alerta para qualquer coisa.
— Minhas pernas estão moles mais uma vez, Jung.
A voz de , rouca depois de tanto forçar sua garganta pelo riso, o arrepiou.
— Então meu objetivo está sendo cumprido com excelência, senhorita .
Hobi saiu de cima dela. Observando-a sentar e ajeitar o cabelo bagunçado, ele começou a sentir a necessidade de entrar no assunto o qual estava o deixando inseguro. Mal sentiu força para se segurar, ouvindo as próprias palavras em seguida:
, a gente precisa conversar.
Ela se virou surpresa, sentindo o coração um tanto acelerado. O tom diferente na voz de Hoseok a deixou preocupada.
— Sobre? — Respondeu, se virando, dobrando as pernas como já havia feito mais cedo.
— Nós. — Se ajeitou, ficando de frente para ela e suspirou, passando as mãos no rosto. — Eu sinto que não resolvemos tudo da forma como tinha que ser.
— Resolvemos o quê?
— Depois do AMA, chegamos aqui e Sohoo já nos colocou nessa posição novamente. Você não pode sair direito ou se expor da forma que quiser. — Outro suspiro, desta vez desviando o olhar.
— Ei… — moveu o rosto para encontrar o olhar dele. — Nós estamos bem, eu não tô entendendo isso agora…
— Tem certeza? — Hobi respirou fundo, se sentando mais ereto. — Eu não sinto que estamos, parece que colocamos apenas uma pá em cima de uma situação e continuamos fazendo isso. Não queria que fosse assim quando te chamei para ficar aqui, mas acho que tô sendo punido por algo que...
— Hobi. — Ela colocou a própria mecha de cabelo atrás da orelha e alcançou a mão dele, entrelaçando os dedos. — Eu entendo. Ninguém disse que teríamos apoio das pessoas tão fácil assim. Isso é porque eu não assinei ainda o… o… o contrato?
Por um momento, ele havia se esquecido daquele detalhe, até porque não era importante. Mas sentiu um aperto ao vê-la achar que ele se importava com aquele detalhe e que era um motivo aparentemente suficiente para o fazer se questionar, a pressionar.
Aquele contrato era, na verdade, uma baboseira sem fim. Se ela não quisesse assinar, continuaria sendo a mulher com quem queria passar seu presente e planejar o futuro.
— O quê? Não! — Se mexeu incomodado, apertando a mão dela. — Não tem nada a ver com isso. É… Eu me sinto culpado.
— Culpado pelo que exatamente?
Talvez nem ele sabia. A começar por esse ponto.
— Eu sei que a BigHit só me apoia visando colocar o BTS mais ainda na América e que… comigo não aceitando termos específicos dele, nosso lance, que é pra ser totalmente pessoal, se torne algo de manipulação para eles, Hobi. — Tentou evitar revirar os olhos. — Em qualquer outro caso, eles teriam feito uma nota para dizer que estamos juntos, principalmente para não causar esse choque aqui.
— Me desculpa…
— Ei! Não precisa pedir desculpas, ok? Tenho noção de que não é assim que você queria que fosse. — sorriu, tentando passar tranquilidade a ele. — E por mais que seja difícil, se estivermos juntos nessa, nada vai ser impossível.
— Realmente. Mas eu não queria que fosse assim. Muito menos me sinto confortável em lembrar que não fiz ou disse nada para te apoiar quando...
— Você tem que entender que de nós dois eu sou a explosiva, homem. Sua maneira de me defender é diferente da minha. Você esteve do meu lado naquela sala, e só de ter sua mão em minha perna, me passando aquela mensagem silenciosa, já me mostrou que eu terei sempre seu apoio. Não quero que mude seu jeito por mim, gosto de você da maneira que é.
Aquele tom sem hesitação nas palavras proferidas fez com que Hoseok sorrisse.
— Se formos mesmo para outra cidade terminar o álbum, você vai comigo, não importa o que eu tenha que fazer.
— Eles já estão forçando um controle demais em cima da gente, tenta não fazer nada impulsivo, por favor — pediu, levando a outra mão no rosto de Hoseok.
Concordar, mesmo não querendo, foi um ato automático. Mas beijar os lábios dela foi algo guiado pelo desejo dele, em cima de todo aquele sentimento passional.
era para Hoseok um novo conceito de companheirismo que ele só havia conhecido com os amigos do BTS.



Colocar uma roupa, peruca e tentar ao máximo ficar parecida com alguém que não fosse ela mesma, fez de um tanto frustrada. Mas ela não aguentava mais ficar presa no apartamento, sendo a vista da área externa o único lugar que poderia ver fora daquele lugar. Em todos os anos que saiu de férias por um certo tempo, sempre aproveitava o local em que ficava para se aventurar, conhecendo pontos turísticos ou não. Ela estava sentindo falta daquilo.
Quando Pam a ligou para comentar coisas sobre o Grammy e confirmar com ela seu aceite para performar na premiação, notou que a cantora estava usando muito de seu conhecido tom irritado e depois de muito lidar, conseguiu a convencer de sair. Por mais que não quisesse fazer aquilo, pensando no lado de Hobi e como ele seria cobrado pela atitude dela, naquela corda de aço que estavam vivendo, o relacionamento deles acabaria sofrendo mais.
Entretanto, se sentiu na necessidade de ser um tanto mais egoísta e quando se deu conta, já estava dentro de um shopping, acompanhada dos seguranças que tinha à disposição — os usando pela primeira vez desde que chegara.
Já havia comprado algumas coisas para ela mesma, várias outras para Mickey e muitas para Hobi. Por mais distraída que estivesse, ainda aguardava ansiosamente pela mensagem dele lhe dizendo que iriam para seja lá qual fosse a cidade que iriam para trabalhar no álbum e que ela iria junto. Comprou roupas pensando no local, porque lembrou-se dele dizer que era uma casa tranquila, bem afastada de tudo e todos para terem mais privacidade e ajuda na liberdade criativa.
O resultado era as inúmeras sacolas com Kim e os outros três seguranças subordinados dele que era o responsável pela segurança dela.
Estava em uma loja da Dior, quando seus ouvidos captaram a conversa de um grupo, envolvendo seu nome e o BTS. Confirmou que eram fãs do grupo ao erguer o rosto e ver que duas, das quatro, usavam moletons e alguns acessórios deles.
— Estou ansiosa para saber os indicados ao Grammy, principalmente porque com certeza o de melhor apresentação duo vem para Inside Out. — Não evitou sorrir ao ouvir isso, se sentindo satisfeita consigo. — Ela e Khaled fizeram tudo nessa música… E a coreografia das apresentações foram impecáveis, Jordan com certeza opinou em tudo.
— Eu amei a apresentação dela no AMA, com certeza aquele passo de freestyle no lugar do espacate foi algo que a aprendeu com o Hobi. — sorriu, mesmo com os lábios fechados. Realmente foi uma ideia dele. — Queria que tivessem filmado a reação dele… E a de quando ela falou que ele também compôs Inside Out. Já pensou?
— Vocês perceberam como ela adora postar fotos com ele? Todo mundo sabe que é um contrato pra ela crescer aqui na Ásia — a mais baixa delas e com tom de voz imponente cortou o que a outra iria iniciar.
"É, a parte de contrato tinha seu fundo de verdade", pensou.
nunca se submeteria a isso e ela muito menos precisa de promoção por outra pessoa. Ela se promove sozinha, sem ajuda de ninguém — a menina que aparentava ser fã dela rebateu. — O fandom de vocês tem essa mania estranha de julgar a demais. Eu pouco vejo pessoas sendo coerentes — completou, ajustando os óculos nos olhos.
— Isso eu concordo. Pra falar a verdade, acho que os dois têm esse contrato, sim, mas não que seja algo para julgar e jogar ela lá no chão como muitas armys fazem — a terceira falou. — A merece um tratamento melhor. Ela aprendeu coreano, respeita o espaço dos fãs do BTS, está sempre apoiando eles e se dá bem com os meninos... Ela está de férias aqui em Seul com ele e todo mundo sabe que ama gastar seu tempo de descanso viajando pelo mundo.
— É complicado. Eu espero de verdade que esse contrato acabe logo, Hoseok merece ser feliz com outra pessoa que ele goste de verdade... — suspirou e viu que as outras duas que estavam ao seu favor olharam torto para a fã do grupo em questão. — O que foi? Ela também merece uma pessoa que ame e etc.
Sem pensar direito, presa na forma como soou aquela frase sobre Jung merecer alguém que ele goste de verdade, tirou a peruca sutilmente e colocou dentro de sua sacola. Ajeitou o cabelo e fingiu vir de outra direção, esbarrando nas meninas. O olhar das três foi direcionado a ela com surpresa.
— Me desculpe! — disse, tocando no ombro da mais baixa, a fã de BTS, se desculpando pelo choque com todo o seu coreano.
— S-s-sem problemas... — a menina respondeu.
— Você é... AI MEU DEUS! — Uma das outras duas disse, abanando as mãos ao vento e atraindo atenção.
"Droga, péssima ideia!", murmurou pra si. Pessoas já a olhavam e apontavam o celular para sua direção. Ela buscou rapidamente com o olhar os dois seguranças e o que aconteceu em seguida foi de uma rapidez sem tamanho. O boca a boca foi rápido e logo uma multidão já a rodeava dentro da loja, eram pedidos de autógrafos e fotos, misturados com falas que ela não entendia — além do nome de Hobi no meio.
Começou a suar frio e sentiu a mão de Kim em seu ombro, ele a guiava pelo meio das pessoas, indo para o que ela entendeu ser a saída dos fundos da loja. Seu coração batia forte e mentalmente se martirizava por ter causado aquilo. Não demorou para que o telefone tocasse e o apelido que ela usava para o namorado brilhasse na tela iluminando seus olhos.
— Pode atender, . Vamos ficar por aqui até que o shopping consiga organizar sua saída. Não tem como sair por aqui. — Ouviu calmamente e assentiu. — Provavelmente, você já seja a notícia mais comentada na internet. Ele deve estar preocupado. — Kim sorriu simples e lhe concedeu o espaço.
deixou a chamada cair na caixa postal e ficou olhando o celular, estava com medo de Hobi a criticar, ela não podia sair nas ruas de Seul sem seu disfarce quando não estivesse com ele. Não queria brigar e nem assumir a culpa, estava se sentindo péssima por ter causado a aglomeração. Agiu pelo impulso, estava perturbada com os comentários e não pensou sobre as consequências.
Respirou fundo vendo o celular tocar mais uma vez e, sabendo que o namorado não desistiria, atendeu:
? Amor? Você está bem? — A voz de Hobi demonstrava muita preocupação.
— Oi, JayJay. Eu estou bem... — disse sentindo a culpa lhe consumir. — Fiz besteira...
— Eu sei — ouviu o suspiro do namorado e levou a mão livre ao rosto. — Mas fica tranquila, todo mundo comete erros. Vai ficar tudo bem.
Mais uma vez, ela cometeu um erro pelo próprio impulso, sem pensar direito na consequência que ele sofreria na linha de frente; pelo menos era o que rodeava em sua mente naquele momento.
E, droga, na loja tinha câmeras! E se alguém a visse pelas filmagens tirando a peruca?
E aquele tom de Hoseok ao confirmar para ela que realmente havia feito besteira? Era um tom decepcionado e diferente, ela nunca havia ouvido antes.


Capítulo 5

Seul, 2018

A palavra "popularidade" nunca havia sido tão repetida para antes em sua vida. Apesar de ela ser uma celebridade extremamente popular no mundo todo, isso nunca havia sido trazido em pauta para suas discussões com Pam quanto a qualquer coisa que atingisse sua fama e a forma como era aceita. Porém, entrando para o mundo do k-pop por tabela, uma vez que seu namorado é um dos maiores idols de todos os tempos, trouxe para ela essa forma bem preocupada de tratar situações — o que para ela poderia ser visto como exagero, mas para eles não.
Mesmo que fosse o assunto durante aquela discussão, não foi incluída dentro da sala e foi convidada a esperar educadamente e, de preferência, em silêncio do lado de fora. Não se lembrava muito bem o nome do staff que entrou com Sohoo e Hoseok, mas a feição séria e completamente antipática que lhe foi lançada dizia muita coisa para uma primeira impressão do que tratariam ali dentro.
Estava se sentindo culpada sim, não poderia e não iria negar, assumiria para quem a perguntasse e aceitaria levar o título de impulsiva. Talvez até o substantivo “burra” para lhe definir como um adjetivo. Porém, se martirizar não resolveria nada e muito menos iria ajudar naquele momento, por isso aceitou de coração o erro que cometeu e durante todo o caminho do shopping para o prédio da BigHit não buscou nenhuma desculpa ou discurso ensaiado.
Pelo menos Jung não havia a recebido diferente, pelo contrário. Quando despontou fora do carro dentro do estacionamento subterrâneo, totalmente seguros de qualquer câmera intrusa, ele se aproximou rapidamente e seu olhar preocupado procurou por todo o corpo dela para ver se tinha algum machucado — mesmo que ele soubesse que o caso não era esse. Sua preocupação era mesmo real, como sempre.
também não questionou muito a necessidade de Kim a levar direto para a empresa e aquela coisa toda de levarem o namorado para a sala de reuniões totalmente às pressas. Pelo o tom do que havia feito, tinha conhecimento daquela tempestade — talvez em um copo d’água? Talvez, mas não no caso deles.
— Ah, qual é, Lexi? Estou te falando… Ninguém me barra nesse lugar!
Concentrada em suas próprias mãos em cima de sua perna, virou o rosto para a direção da voz que ouvia, quebrando aquele clima em que estava enquanto escutava vez ou outra algumas palavras sendo ditas em voz alta, vindo de dentro da sala. Reconheceu um pouco do rosto, mas não saberia dizer ao certo quem era a moça loira e baixa que estava caminhando pelo corredor, falando no celular em inglês e com um sorriso enorme.
— Espera… depois te ligo, vou fazer uma coisa aqui. Tchau, Lexi! Tchau! — Ela desligou a chamada e diminuiu a velocidade de seus passos, parando próxima de , ainda sorrindo. — Me desculpa… você não é a namorada do Hoseok? — perguntou tentando soar simpática.
umedeceu os lábios, tentando evitar o sorriso com aquele título saindo da boca da outra. Ela gostava dele.
— Sim… — respondeu simples, olhando-a.
— Ah, que legal! , certo? — A outra sorriu mais ainda, para a surpresa de . Quantos dentes a mais e bem brancos seria possível ela mostrar?
— Sim…
— Eu sou Maya. Prazer em te conhecer, ! Yoongi falou muito sobre você. — Maya estendeu a mão, para cumprimentá-la e não achou tão estranho, já que ela não tinha nenhum traço asiático. Ajudou a cavar em sua memória o nome, lembrando-se de Hoseok comentar sobre alguém que Suga saia frequentemente chamada Maya, mas sem muita certeza ainda sobre o que ela era dele.
— Espero que ele fale bem — sorriu fraco apenas, apertando a mão.
— Ah, ele fala! Ele gosta das suas composições e… bom, tudo o que envolve música, se conhece o Yoongi sabe bem como ele é. — Maya sorriu parecendo admirada com o próprio pensamento.
“Sim, , essa é a Maya do Yoongi, então”, foi o que veio à mente de ao ver como a mulher em sua frente ruborizou falando sobre Suga.
Com outro sorriso simples de , o silêncio entre as duas tomou um tempo daquele ambiente, até Maya sentar-se ao lado dela no sofá, tendo cuidado para que seu sobretudo vermelho e totalmente chamativo não se abrisse, assim como com a sacola em sua mão de um fast food, o que pôde notar.
— Problema com eles? — perguntou de forma genuína e apenas suspirou, voltando a pensar no que a porta que Maya apontava estava travando.
— Acho que a palavra problema é básica para descrever. — A olhou depois dos longos segundos encarando o mesmo ponto na maçaneta.
— Se te serve de consolo, do lado de lá já estão falando na internet sobre o novo namorado da Ariana Grande e por aqui é sobre a IU, na Coreia eles amam ela e hoje foi dia de comeback. — Maya deu de ombros.
— Obrigada.
— Bem, eu preciso ir — apontou para a porta no final do corredor. — Se eu não levar isso aqui — ergueu a sacola com cuidado para mostrar sobre o que estava falando. — ali, ele não vai comer e muito menos fazer pausa hoje.
— Suga é bem workaholic, sim? — riu fraco e foi acompanhada de Maya, as duas em concordância. — Vocês estão juntos há muito tempo?
A primeira coisa que veio em resposta para a pergunta de foi o desconcerto de Maya que estava se levantando, a segunda foi Seokjin saindo do elevador na outra ponta do corredor, do mesmo lugar a qual a outra havia saído pouco tempo antes. Ele desfilava confiante, como sempre, e o sorriso de Maya para ele foi imenso, tomando sua atenção — o que percebeu ter sido o timing perfeito para que não tivesse sua resposta.
— Seokjinie! — disse alto, assumindo o sotaque coreano.
— Me fala, , ela estava te incomodando? — Jin perguntou diretamente para , a fazendo rir pelo seu tom.
— Não, para ser sincera estava me distraindo muito bem. — O respondeu sorrindo genuinamente.
— Seokjin, eu sou sua amiga e é assim que você me trata na frente de uma celebridade como ?
Jin fingiu um bocejo, mas não aguentou por muito tempo, rindo e puxando Maya para um abraço. percebeu como eles eram bem próximos e pareciam totalmente à vontade um ao lado do outro, como se fossem amigos de muito tempo.
— Essa sacola... é para quem eu estou pensando que é? — Ele perguntou para ela, olhando-a com o cenho franzido.
De repente, a cena de Maya e Seokjin bem ali em sua frente fez se distrair.
— Sim, para ele mesmo. — O sorriso que apareceu de forma sutil nos lábios de Maya fez Louise sorrir instantaneamente. — Mas primeiro vou tirá-lo daquela sala e levar pra Genius Lab, assim teremos mais privacidade.
— Boa sorte com isso. — não pensou muito bem, apenas disse.
Tanto Maya quanto Seokjin olharam diretamente para a terceira, os dois com um certo peso no olhar. Não era segredo para ninguém que e Hoseok enfrentavam certos obstáculos e tinham problemas com a concordância de suas culturas e métodos de gerenciamento da carreira.
— Eu queria ter algo bom pra te dizer, , mas infelizmente não passei de fase ainda…
— Não seja boba, Maya. — Seokjin repreendeu a amiga, olhando-a curioso.
— Mas é verdade, Jin. Eu e Yoongi não temos um relacionamento — encarou , como quem queria responder à pergunta dela feita antes de Jin chegar. —, então não sei o que é isso que passa e nem o que Nam e Cecília passaram.
“E nem queira”, foi exatamente o que pensou, mas ela apenas suspirou e assentiu, concordando silenciosamente.

— Eu não aguento mais ser repetitivo, Hoseok!
A voz de Seijin estava completamente esgotada. Para completar seu tom, as mãos passando pelo cabelo fervorosamente denunciavam a perda de controle. E Hobi apenas o ouvia reclamar sobre as atitudes de e o relacionamento que tinham, que, pelo tom da conversa, era sempre um equívoco.
— Me diga, Hoseok, você gosta mesmo dela? Ela vale mesmo a pena? — Sohoo iniciou, apontando para ele. Desde que haviam entrado naquele metro quadrado apenas os três, a mulher não tinha sentado e parecia estar com extrema dificuldade de fixar-se no lugar. — Porque você tem mesmo que gostar dela para a gente ter chegado nesse ponto!
— Pagar para que apaguem das câmeras de segurança o lance da peruca foi o meu esgotamento total.
Hoseok encarou Seijin com seu olhar mais cético possível. Quando, depois das reclamações dele e de Sohoo chegarem ao nível de cessamento, veio o silêncio, então ele respirou fundo, se levantando da cadeira em que estava.
— Acabaram? — perguntou de forma neutra, não queria soar desrespeitoso.
Sohoo finalmente se sentou, cruzando os braços e se preparando para o que viria a seguir; ela não se preocupava nem um pouco em esconder sua antipatia por e Hoseok namorarem. Quando se tratava do relacionamento dos dois ela sempre se prontificava a ter as ideias mais descabidas e que colocava os dois em posições estranhas, não precisava ser extremamente inteligente ou perspicaz para saber que o plano dela era causar qualquer intriga entre os dois da forma menos sutil possível. Aliás, Sohoo não queria ser sutil e não fazia questão de ao menos se esforçar para uma boa convivência com .
Por sorte, tanto a staff quanto eram educadas, evitando conflitos desnecessários.
— Eu sei que a fez coisas que para nós podem parecer absurdas, mas não justifica a forma como vocês a atacam e não dão um mínimo de esforço para respeitar nosso relacionamento. — Hoseok disse com sua melhor feição séria e concentrado no próprio tom, de forma alguma queria agir com desrespeito, principalmente por serem duas pessoas mais velhas que ele. Isso seria inadmissível.
— Você não acha que fica meio difícil quando sua namorada só tem atitudes imaturas?
— E a atitude de vocês de nos colocar para o público naquele tapete vermelho foi completamente sensata, sim? — fixou o olhar em Seijin, o rebatendo com o fato mais marcante.
— Acreditamos no personagem da sua namorada. Não é ela a pessoa dona de si e cheia de coerências? — A voz de Sohoo o fez querer revirar os olhos.
— Tanto é que nossa passagem pelo AMA não teve nenhuma intercorrência.
— Nenhuma? Mesmo? Ela falar sobre a sua colaboração em Inside Out foi algo muito bem planejado e sua equipe sabia sobre, não é mesmo? Me perdoe por ter esquecido.
Os três ficaram se encarando, sendo a voz de Seijin a última ouvida. Até que, um pouco cansado demais daquela repetição, Hoseok massageou as próprias têmporas e suspirou, deixando a respiração sair pesada.
— Olha, eu sei que ela está longe de ser para vocês de um padrão comum, mas eu não estou disposto a perder essa luta.
— Me fala, Hoseok, o que você conhece dessa mulher para estar nesse nível? — O olhar de Sohoo não mudava, era sempre intensamente antipático quando se tratava de falar sobre .
Hobi riu fraco, desacreditado mais uma vez. A capacidade profissional de Sohoo sempre fora muito bem elogiada por qualquer um dentro daquela empresa, tanto ela quanto Seijin se tornaram responsáveis imediatos por qualquer um BTS devido ao grande comprometimento e nível de responsabilidade. Mas o ponto estava começando a passar e ele não tinha mais certeza sobre até que nível essa dupla estava sendo humanamente coerente.
Obviamente ele lembrava de seu contrato, desde a primeira vez que assinou até todas as outras revisões que foram feitas posteriormente. Hoseok não era um leigo ao se tratar da própria vida, da própria liberdade. E aquilo tudo estava completamente errado, dentro de um valor moral ultrapassava qualquer limite de absurdo. Deveria ser o único interessado na própria vida amorosa e não outros, que mais pareciam urubus em cima de uma carniça.
Se tivesse mesmo feito errado ao agir daquela forma no shopping, era porque de algum modo, as coisas estavam fora de um controle e completamente erradas. E isso começava por ali, na forma como cobravam dos dois um padrão a ser seguido, querendo puxar para uma cultura só, tentando montar apenas uma verdade absoluta. O que não existia, a parceria e o companheirismo dos dois era uma base para que o aprendizado fosse mútuo e de forma contínua dividissem experiências e criassem o próprio padrão. Afinal, um relacionamento, sendo afetivo ou não, se trata de agregar e não fracionar papéis, mais para um, menos para outro.
— O que eu conheço dela e me fez estar neste nível, Sohoo, não lhe cabe. Com todo respeito, devo relembrar a vocês dois — olhou dela para Seijin. — que dentro do meu contrato não existe a opção em que vocês se encaixam como consultores da minha vida pessoal.
— Você falando sobre respeitar as cláusulas de seu contrato? — Seijin riu fraco com a própria fala irônica. — De todos, é o único a sempre sair da linha, Hoseok… Não seja cego.
— Desde que começou a se envolver com a celebridade ocidental, não foi mais o mesmo.
Travar a mandíbula e respirar fundo foi uma ação automática, Hoseok realmente estava se segurando para não perder a postura.
— E eu devo lembrar que ela ainda não assinou—
— E nem vai assinar, Sohoo! — A cortou exasperado. — Isso não existe! É um absurdo! E ela não vai assinar. Vocês querem que nada seja colocado na mídia sobre nós? Não nos querem na rua ou em qualquer lugar, tudo bem, aceito e darei meu jeito de seguir meu relacionamento, mas esta vai ser a única coisa da qual terão controle. Eu não vou me permitir ser um Namjoon para vocês.
Enquanto falava, ele não notou que a porta fora aberta e dentro da sala um quarto corpo entrou, sendo este o líder do grupo e o nome do qual fora citado.
— Vocês pediram para me chamar, Seijin?
Hoseok suspirou ouvindo a voz do amigo, já imaginando como seria suas desculpas depois por colocar o nome dele no meio daquela discussão e como havia escutado fora de contexto, poderia gerar uma interpretação errônea.
— Não acho que será mais necessário, RM, acabamos por aqui. — O homem respondeu à Namjoon, juntando os papéis na mesa e se levantando. — Nenhuma postagem, Hoseok, nenhuma saída na rua, nada! — Se direcionou ao membro objeto daquela reunião.
— Vamos emitir uma nota e salientar que está se acostumando com a diferença de polos. — Sohoo completou, sorrindo ladina. — E vocês não irão sair de Seul para trabalhar no Persona, ficarão aqui e tentaremos deixar o cerco fechado. Então tente manter sua namorada dentro do seu apartamento por favor, já estava difícil lidar com rumores da compra de sua cobertura por causa dela, agora com esse drama do shopping está ficando cada vez mais fora de controle.
— Não esqueça que um idol quando começa a namorar perde sua popularidade automaticamente, Hoseok.
— Seijin está certo e, bem — Sohoo parou ao lado do rapaz perto da porta, tendo a atenção de Hoseok neles. —, devemos lembrar que você não teve sempre uma popularidade alta dentro e fora do grupo. Não queira perder isso agora, Hobi — sorriu para ele antes de sair, seguindo o outro.
O barulho da porta se fechando foi a única coisa a ser ouvida depois da fala final da mulher. Hoseok não olhou para nenhum lado, estando nervoso e envergonhado para sequer encarar o melhor amigo ali consigo, que se mantinha em silêncio. Sentou na cadeira de forma mais folgada, debruçando-se na mesa e respirando pesado, rápido e completamente estressado.
Pôde ouvir o barulho baixo de outra cadeira sendo arrastada e em seguida o choque do corpo pesado do companheiro de grupo ao se sentar no móvel. Contou mais alguns segundos e ergueu o rosto, logo encontrando o olhar de Namjoon do outro lado da mesa, bem de frente com ele. O sorriso dele era simples e por sua feição Hoseok sabia que não diria nada enquanto ele mesmo não abrisse a boca para proferir qualquer palavra, dando abertura para tratar daquele assunto.
— Me desculpa, eu não quis te usar de forma negativa, hyung… — iniciou com seu arrependimento. — Eu só queria dizer que-
— Que somos diferentes, eu sei, Hobi. — Nam aumentou poucos milímetros de seu sorriso. — Não se preocupe, eu entendo.
Novamente Hoseok suspirou, mas agora se ajeitou na cadeira, cruzando os braços.
— Eu estou cometendo algum crime?
— O que? Amar? — Hoseok assentiu para a pergunta. — Não, felizmente isso não é um crime. — Namjoon sorriu nostálgico. — O crime, porém, é outro.
— E o que eu posso fazer?
— Seja você mesmo. Essa já é a maior arma para manter seu relacionamento.
E como se fosse de caso pensado, dizer aquilo já trazia para Hoseok uma memória de conversa recente com , da qual ela disse gostar dele da forma exata como era, mas no mesmo momento em que terminou de falar, duas batidas na porta foram ouvidas e em seguida a mesma fora aberta, com a cabeça de aparecendo pelo vão de forma cuidadosa.
— Me desculpem… eu… — Ela iniciou cautelosa. — Não queria atrapalhar, mas vi os dois saindo e você não… — olhou diretamente para Hobi.
— Tudo bem… vem cá. — Ele a chamou, arrastando a cadeira para se levantar e a receber no meio do caminho que os distanciava, beijando-a na testa em seguida do abraço. — Se quiser pode me esperar na minha sala, precisamos terminar apenas um negócio com Suga e aí estarei liberado para irmos para casa. — A sugeriu, tendo seu tronco envolto pelos braços dela.
— Eu acho que prefiro ir agora, se não for nenhum problema. Posso ir de táxi. Saio direto da garagem subterrânea daqui e desço na sua. Ninguém vai me notar.
Os olhos de Lousie pareciam um tanto opacos, para o que ele estava acostumado. Seu coração apertou um pouco ao ouvi-la dar a outra opção com certa necessidade de aceite, como se estivesse sendo extremamente cautelosa para agradar alguém.
— Nós não temos horário para terminar, … Por isso Hobi sugeriu que ficasse aqui, assim não fica sozinha naquele apartamento pelo resto do dia. — Namjoon trouxe a justificativa, recebendo o olhar dos dois.
— Ah sim, mas eu prefiro ir embora — tentou sorrir, direcionando seu rosto para frente e encarando os olhos do namorado.
— Tudo bem, posso pedir para Kim te levar. Pode ser?
Ela apenas assentiu, sorrindo levemente e se afastando devagar.
— Vou dizer tchau para Maya, ela me pediu para gravar um vídeo para uma sobrinha… Espero Kim lá embaixo. — e sua voz amena ecoaram nos ouvidos de Hoseok e ele sentia aquela distância enorme retornar.
E não parecia ser só a física, conforme ela ia saindo da sala, parecia ser mais.


Era um prazer para qualquer artista receber um material de Ed Sheeran, não por sua grandiosidade alcançada depois de anos de um trabalho duro, mas por toda sua genialidade em compor letras incríveis e românticas. Mas receber uma ligação do irlandês dizendo que havia escrito um gancho para uma música diretamente para você, era, no mínimo, de tirar o fôlego de qualquer um. E os três principais produtores do grupo estavam trabalhando em cima de uma letra que havia sido dada a eles diretamente por Ed Sheeran.
Porém havia um problema, faltava pouco para encerrar o processo de Make It Right, uma música que fala sobre concertar as coisas em um relacionamento, já que Hoseok se encontrava um pouco perdido. Por ser uma faixa que estava sendo desenvolvida entre os três rappers do BTS, não estavam mais em um ponto que um poderia fazer sozinho, precisavam terminar aquela canção juntos, para que fosse bem produzida e entregue. Os planos para Make It Right eram muitos.
— Nada parece bom o suficiente hoje. — Suga observou, relaxando em sua cadeira. — E se fizermos uma pausa? Temos mais um tempo para entregar ela — olhou para Namjoon, esperando que ele compreendesse sua ideia.
— Eu acho uma boa ideia, hyung. E você, Hobi?
— O que? Desculpem, eu não prestei atenção.
Hoseok encarou a ambos com os olhos bem abertos, demonstrando sua confusão misturada ao cansaço.
— Sem problemas, não é como se você tivesse prestado atenção nas últimas três horas mesmo. — O mais velho dos três riu olhando em seu relógio.
— Mais um pouco Suga começa a jogar em você o martírio por ter que dispensar a senhorita Cafrey, Hobi. — Namjoon brincou, vendo o primeiro citado revirar os olhos.
Ninguém disse nada, cada um se concentrou no próprio celular para ver as mensagens não lidas das últimas horas. Yoongi conversava com Maya sobre uma nova atividade que queriam colocar em prática assim que pudessem; Namjoon checava as notícias do outro lado do mundo, a fim de saber sobre uma pessoa em específico. E tinha Hoseok, atualizando o aplicativo de mensagens na esperança que chegasse algo novo de , que havia apenas o avisado ter chego em seu apartamento e depois sumiu.
Quando não teve sucesso em sua busca incessante, tendo suas expectativas frustradas, guardou o aparelho celular e ergueu o rosto para encarar os outros dois. De Namjoon acabou por mirar Yoongi e seu sorriso bobo, com toda certeza do mundo estava conversando com a herdeira da Eulora&Co., após aquela curva em seus lábios que só aparecia quando era com ela o assunto.
— Como você consegue, Suga? — Não precisou de muito para pensar, apenas jogou a pergunta para o amigo.
— Consigo o que? — Yoongi ergueu apenas o olhar.
— Viver em paz com a Maya.
— E quem disse que eles vivem? — Namjoon comentou, também guardando seu celular. — O que os dois tem é algo que nem Freud explicaria.
— Olha, eu não sei quem é esse, mas ele não explicaria porque não tem o que ser explicado, Namjoon. — Na sequência foi a vez de Yoongi guardar o próprio aparelho.
— Me desculpa por parecer invejoso, mas eu não consigo compreender muito bem. Ela não é coreana, tem família famosa e vive aqui. Como não a odeiam? — Hoseok desabafou.
— Porque ela não é minha namorada, Hobi.
Fazia sentido. Eles não namoravam, logo não tinha muito o que se preocupar, não havia risco para a popularidade de Yoongi — que, naquele pensamento de Hoseok do momento, felizmente a tinha desde o começo.
— Olha, escuta… Você precisa parar de bater de frente e talvez fazer a entender isso. Ela pode continuar sendo quem é, mas quanto menos vocês baterem de frente, melhor será. — Namjoon suspirou. — Não precisa repetir o que eu fiz, ser como Yoongi e Maya que não assumem um relacionamento por motivos dos quais eles mesmos criaram-
— Funciona assim, Hobi — Suga cortou. —, o que queremos dizer é que você não precisa ser como os outros. Faça o que acha certo para seu relacionamento com . Faça em conjunto, vocês dois se dão muito bem para haver qualquer diferença boba em opiniões.
Ele apenas concordou, respirando fundo. Em silêncio se levantou, pegando suas coisas que estavam por ali e checando se a chave do carro estava em seu bolso.
— Eu não venho amanhã, vou ficar em casa e… Bem, termino Make It Right de lá e mando para vocês esses dois trechos que faltam. Tudo bem?
— Por mim tranquilo, acho que você consegue colocar um bom trabalho final nela.
— Se o Suga está dizendo… — Nam riu fraco. — Brincadeiras a parte, o açúcar tem razão. Nos vemos amanhã ou só depois?
— Vou tentar passar o resto da tarde com e trabalhar só pela manhã.
— Boa sorte e qualquer coisa é só dar aquele toque.
— Obrigado, Nam.
Então Hoseok saiu pela porta caminhando a passos firmes e decididos para o elevador, sedento para chegar em casa. Em sua mente só havia a saudade comandando qualquer pensamento.
O caminho para sua casa nunca fora feito com tanta pressa e em pouco tempo, mal notou como estacionou o carro na própria vaga, apenas seguiu direto para seu elevador privativo e apertou sua sequência de números para a senha o liberar logo. Parecia que nunca tinha demorado tanto para subir e quando finalmente entrou no apartamento, sentiu falta de Mickey vindo em seu encontro.
Percebeu o silêncio em todo o metro quadrado e depois de adentrar mais, parando mais dentro de sua sala, viu a cabeça pequena do animalzinho em cima do sofá, erguida. Sentiu as pernas amolecerem e o coração bater ritmadamente, cessando qualquer pensamento paranoico que surgiu quando não teve a festa de Mickey e notou aquele silêncio em sua casa, como se ninguém estivesse lá. Como se não estivesse.
O corpo dela estava encolhido no sofá, virado de frente para o encosto e fazendo um espacinho perfeito para que o cachorro estivesse deitado ali com ela. Em cima da mesinha de centro, ao lado do copo de água pela metade tinha uma cartela de comprimidos para dor de cabeça e apenas um estava faltando.
Hoseok não hesitou em colocar seus objetos pessoais em cima da mesinha e pegar no colo para a levar direto ao quarto, colocando-a na cama com cuidado. Estava ansioso por tomar seu banho e dormir ao lado dela; assim como esteve tão ansioso para chegar logo e a encontrar, que acabou esquecendo de tirar o calçado para andar por sua casa.
Uma falta gravíssima para ele que odiava sujeira e bagunça, mas que naquela noite seria perdoada.

Parecia que seu sexto sentido estava lhe dando total certeza sobre ter sido levada para a cama confortável por Hoseok, já que podia sentir aquele macio embaixo de seu corpo, mas não se lembrava de ter saído do sofá. Aliás, a última memória que tinha era de Mickey deitando no vão entre seu corpo e o encosto do sofá, lhe fazendo a companhia de sempre.
Mas sua expectativa foi quebrada logo quando esticou o braço para o outro lado da cama e o encontrou vazio. Abriu os olhos a contragosto, seria decepcionante não encontrar o corpo dele ali, tirando aquele costume dos últimos dias que estavam dormindo e acordando juntos. E no modo carente em que estava, ela não queria alimentar o pensamento de que Hoseok havia ido para a BigHit naquela manhã sem o banho e café da manhã compartilhados entre eles.
Encontrar Mickey no chão, sentado e a olhando, foi adorável pelo menos, Seus olhos estavam tranquilos por terem encontrado alguém de companhia pelo menos. Então não demorou muito, levantou da cama se espreguiçando e sendo adorada pelo cachorro, seguiu para o banheiro tomar seu banho de todas as manhãs e cuidou de si, como de costume.
Quando se vestiu e saiu do quarto, sentiu um cheiro bem familiar e o sorriso em seus lábios foi instântaneo. Era o perfume de Hoseok.
Caminhou ansiosa pelo corredor e parou apenas quando despontou na sala, o vendo totalmente concentrado no que estava fazendo, com um fone de ouvido em cada orelha. Parou ali, com Mickey ao seu lado, admirando o namorado por um tempo mais do que breve. Ele estava tão absorto que mal notou sua presença, muito menos quando ela passou indo para a cozinha.
Decidiu que faria um chá para os dois tomarem na manhã fria e se empenhou para não fazer nada errado e muito menos algum barulho. Quando terminou teve, novamente, a companhia de Mickey para voltar para a sala.
se sentou no chão com cuidado para não derramar o líquido de sua caneca. Colocou a louça em cima do aparador pequeno do lado do sofá e apoiou o queixo no ombro de Jung, estava sentando-se atrás do namorado que se mantinha concentrado em frente ao laptop na mesinha de centro da sala. Tirou um dos lados do fone de ouvido de sua orelha e colocou em si. A batida era calma e tinha um algo que trazia tranquilidade.
— Ei, o que está pegando? — perguntou, reparando na feição dele de preocupado. Conhecia aquele homem perfeitamente para saber que estava insatisfeito com o trabalho feito.
— Eu não consigo encaixar nada nesse trecho. — Hobi disse sentindo o braço direito da namorada envolver sua cintura, buscou a mão dela com a sua e entrelaçou seus dedos. — Todos já contribuíram com algo e eu pedi para fazer o trabalho final porque sinto que posso encaixar algo nesse trecho, mas ainda não encontrei. Suga e RM fizeram boa parte do enquadramento das letras, Ed Sheeran e os Gibson mudaram algumas coisas do gancho que ele tinha nos dado e adicionaram mais à letra... — suspirou.
— Tá, coloca desde o começo. — pediu, dessa vez deu um beijinho carinhoso no ombro dele, por cima do tecido fino da camisa que usava.
A melodia era calma por toda a música e as vozes que estavam na demo contribuindo para isso. Quando passou do primeiro refrão, ouviu atentamente ao espaço que ficava sem letra, vazio. No momento que a música chegou ao fim ela se afastou do namorado, tirando o fone de ouvido e buscou na mesa o bloco de notas que já tinha alguns rabiscos. Jung a observou atentamente, ficou triste por sair daquele aconchego dos braços dela, mas curioso para saber o que a namorada faria.
— A música fala sobre parceria entre duas pessoas, certo? — Ele assentiu. — Nos dois primeiros trechos é descrito como o eu da música se sentiu e ainda se sente quanto ao parceiro. Depois do refrão, que já diz sobre melhorar as coisas entre eles, seria legal um trecho de como é a vida desse eu e no quê isso interfere na relação... se houver interferência, claro.
levou o lápis até os lábios e começou a cantarolar a melodia com algumas palavras para encaixar algo. Jung ficou pensando no que ela disse e colocou novamente a música para tocar em seu fone, sentindo mais uma vez a batida o levar. Fechou os olhos e absorveu as palavras de , se transportando para o que sentia ao ouvir ela falar — e como aquilo estava se encaixando neles no momento. Chegou em seu mundinho particular e nele só havia ela quando o pensamento era refletido no que estava se passando. Pensou em como as pessoas o observam — seus fãs —, fazendo dele um ídolo, um herói muitas vezes. Pensou no sucesso que o BTS fazia e como o trabalho duro do grupo e sua equipe rendia a eles aplausos — algo de extrema importância e significado — e o quão satisfeito ficava pelo prazer de estar nos palcos. Se lembrou de como os dias estavam difíceis para o relacionamento com , por conta de toda a pressão midiática e de seus fãs; pensou em como era feliz com ela e como, mesmo na dificuldade, conseguiam encaixar os dois mundos. Era como se ela fosse a resposta para todas as suas dúvidas. era a esperança dele, assim como tudo o que se fazia importante em sua vida. E esperanças eram suas prioridades.
— Amor...? — ouviu a voz suave de o chamar e abriu os olhos, saindo do transe. Tirou os fones e a encarou. — Você estava no Hope World? — ela sorriu de lado.
— Estava pensando nas palavras e acho que encontrei. — O sorriso de aumentou. — Mas não encontrei a resposta no Hope World... — Ela o olhou confusa. — Foi no nosso mundinho aqui de dentro. — Ele sorriu e a viu corar, alargando mais o sorriso.
— E cadê? — pediu sorridente.
Jung colocou a música para tocar no alto falante e ativou seu gravador do celular em cima da mesinha. Puxou a mão de , dando espaço para que ela se aproximasse e sentasse de frente para sim em seu colo. As palavras para a letra em sua mente estavam querendo sair e ele a olhava nos olhos fixamente. Não demorou muito para que o primeiro trecho vazio chegasse e, colocando a mão no queixo da namorada, ele cantou afinadamente:
Eu poderia melhorar as coisas... Eu poderia te segurar mais forte... — sua voz rouca a deixou arrepiada e atenta para cada uma das palavras. — Naquela longa estrada, oh, você é a luz... Sem convite... Sem boas-vindas... sorriu ainda com as bochechas coradas. — Você era a única que me conhecia...
Em seguida as vozes de Jin, Jimin e Jungkook apareceram na demo, em sequência cantaram trechos diferentes do refrão. O outro espaço vazio veio e novamente Hobi cantou para ela, mas desta vez em seu ouvido.
Me tornei um herói neste mundo... Aplausos direcionados a mim... Em minhas mãos, um troféu e um microfone de ouro... Todos os dias, em todos os lugares... Mas tudo o que eu quero é te alcançar... Você é a resposta da minha jornada... Eu canto pra te encontrar... Amor, é pra você...
Jung voltou a encará-la depois que terminou e enquanto a música continuava. Se olharam pelos incontáveis minutos até o fim da canção. poderia dizer que estava ofegante, ela se sentia assim, ele a fazia ficar assim. Hoseok estava perdido nos olhos brilhantes da namorada e queria tomar os lábios dela com os seus, mas o contato visual estava tão intenso e prazeroso que não queria cortá-lo. Quando a música acabou, passou os braços em volta dos ombros dele e beijou a ponta de seu nariz, por estar no colo de Hobi estava um pouco mais alta que ele.
— Eu amo tanto você, Jayjay... — Ela disse com os olhos marejados.
— Eu posso fazer melhor, eu vou fazer melhor.
— Ei... — tocou o rosto de Hoseok e sorriu simples. — Você já é o melhor que eu posso ter.
Ele sorriu para ela uma última vez antes de fechar os olhos e a beijar com toda a calmaria e amor que aquele momento estava carregando. Sem mencionar a tensão sexual que sempre tinha por baixo de todo o romance.


Capítulo 6

Seul, 2018.

– Por que você está com essa cara? – parou na entrada da cozinha com Mickey logo ao seu lado, os dois encarando Hoseok que estava encostado na ilha de granito e com um vinco formado em seu cenho.
Ele suspirou, passando a mão no rosto e guardando o celular no bolso, em seguida. Ergueu a cabeça em direção à namorada e suavizou a feição dura, pelo simples fato de saber que podia compartilhar com ela aquele caminhão de informações que Namjoon havia soltado em conversa no aplicativo de mensagens; mais uma vez ele teria de ajudar a prevenir que faíscas chegassem a causar um incêndio entre os membros do BTS – o que Hoseok também não tinha muito do que reclamar, situações de desavenças eram completamente extraordinárias.
– Eu sei que prometi que passaríamos o dia juntos de novo, mas o mundo está caindo no complexo. – Se aproximou de e ela notou toda a preocupação que estava sendo carregada por Hobi pelos ombros.
O que automaticamente a deixou alarmada. Não era algo comum vê-lo tão introvertido daquela forma, pelo menos não do que se lembrava.
– O que houve dessa vez?
A princípio ela se lembrou da última desavença que rolou entre membros do BTS, desde que estava em Seul – o que pelo seu ponto de vista fora completamente incomum, já que eles estavam tão acostumados entre si e em uma convivência harmoniosa, que situações de desentendimento eram completamente raras. Entretanto, a preocupação evidente de Hoseok a fez assegurar-se de que não era uma simples discussão entre Taehyung e Jimin sobre roupas ou até mesmo envolvendo Jungkook por comida, Hobi não seria chamado por Namjoon para ajudar em algo que fosse banal.
E tinha esse detalhe, o líder sempre poderia contar com o respaldo de Hoseok para colocar as coisas em ordem, então se chegou naquele tom, a coisa estava mesmo séria. Como ela poderia ficar chateada? Não tinha como saber o que era viver em um grupo, ainda mais por tantos anos, mesmo convivendo com girlgroups de suas amigas mais próximas da mesma profissão; poderia ser compreensiva pelo menos, teriam algum tempo depois para ficarem juntos. Era ela quem estava de férias, no caso.
– Parece que Seokjin e Maya tiveram alguma coisa no passado e Suga descobriu agora. – Ele respondeu, vendo-Mickey ir em direção ao seu cantinho que tinha sua comida e água. Gostava de como o cachorro havia adotado daquela forma.
– Ah... Maya. – murmurou ao alento, trazendo sua atenção de volta para si. – Quando você fala sobre ela não demonstra tanta empolgação como era com Cece – brincou, jogando um verde para iniciar esse assunto em paralelo.
Havia notado que quando se tratava da mulher com quem Yoongi tinha um tipo de relação – como todos chamavam: estranha –, Hoseok não demonstrava nada além de uma passividade absoluta. Era nítido que ele tinha alguma opinião sobre a herdeira e divagava sobre ser ciúmes do amigo ou alguma coisa que ele sabia e que levasse ao julgamento que tivesse.
– É complicado, . – Novamente Hoseok passou a mão no rosto. – Yoongi finge que sabe levar essa história com ela e eu finjo que quando ele está bêbado não fica chorando no meu ouvido. E se ela e Seokjin foram mesmo além de amigos nesse passado, antes dela topar com o Suga, as coisas vão ficar piores pra ele, entende?
– Primeiro, até onde você tenha me contado, Suga não tem nada absolutamente sério com ela; segundo, se é coisa do passado, por que geraria alguma consequência ruim agora? Mesmo não sendo namorados assumidos, é com ele que ela está, sim? – enumerou para ele.
– É complicado... – Outro suspiro, Hoseok estava evitando ao máximo relacionar qualquer coisa com o que ele e tinham, mas analisar o relacionamento não assumido entre o amigo e Maya trazia de alguma forma algum pensamento ou outro.
Dois dias antes ele estava ainda deslumbrado em como, mesmo naquele tipo de relação, os dois conseguiam certa harmonia e não eram perturbados como ele e vinham sendo. Sabia que por mais rígido que Yoongi fosse quanto ao levar a sério o termo “pegar e não se apegar”, ele tinha se apaixonado e amava Maya, talvez tivesse sido algo à primeira vista até. Então tinha sentimento e eles não iam assumir por causa de escolhas que precisariam serem feitas.
E que raios era esse problema com escolhas? Por que ter que escolher? E por que sempre existem opções que vão de contra qualquer racionalidade?
Só que Hoseok talvez estivesse se adiantando novamente, sim? Estava bem com desde o acontecimento do shopping, dividindo os dias que ele esteve trabalhando remotamente e dando total atenção para ela – até conseguiram assistir todos os filmes da franquia do Star Wars e ele finalmente tinha entendido a briga toda na galáxia, ficando completamente ansioso para o filme que viria na sequência. Tiveram dois dias juntos que pareciam terem sido semanas, do tanto que puderam aproveitar um a companhia do outro e, claro, sem excluir o filho de quatro patas. Portanto, não podia e nem tinha como comparar seu relacionamento com o que Yoongi vivia, de nenhuma forma.
E também, como ele compararia Namjoon e Cecília consigo?
– Eu sei que, do pouco que conheço a Lee, se ele fizer qualquer comentário contra a amizade dela e do Jin, Yoongi realmente estará ferrado – jogou as costas contra a ilha de mármore no meio da cozinha e mirou algum ponto qualquer.
– Acho que me recordo do Jin falando sobre ela... Eles são muito amigos, não? – parecia não interessada em uma fofoca, mas em conversar, como sempre. Em ouvir e estar ali do lado dele, ser a companheira.
Hoseok admirava isso. Ele gostava e não queria perder por nada.
Inclusive, os dois dias com ela haviam sido úteis para ele notar com intensidade cada detalhe que o fez se apaixonar.
– Ah eles são muito próximos mesmo e... – Hobi deixou o próprio pensamento morrer.
– E? Continua. – fez o caminho para a geladeira, parando perto do pote de petiscos para Mickey e o entregando um, enquanto esperava pela resposta de Hobi.
– Besta é quem não vê que o Jin nutre sentimentos por ela – olhou em direção a ela, observando o que fazia.
– Será que ela já sabe disso? Porque qualquer um que pouco veja ou escute falar sobre, vai saber que a senhorita Eulora é totalmente apaixonada por Min Yoongi.
– Aí que está, no final de 2014 para 2015, Seokjin e ela se conheceram por intermédio da Moon, você sabe quem é Moon, não sabe?
– Ela é de algum grupo, sim? – olhou para ele rapidamente, voltando a encarar Mickey comendo seu petisco, o observava para ter certeza de que estava tudo indo certo.
– Sim, do Mamamoo. – Hoseok se sentou no balcão da ilha, encurtando as mangas da camiseta que usava. – Então, eles se conheceram e a Maya, até a página que eu sei, tinha acabado de voltar para Seul naquela época.
– Ah, sim. É meio confusa a história dela, pais brasileiros, em algum lugar tem croata, inglês… – disse fazendo uma careta, levando as mãos na cintura. Quando viu que Mickey havia terminado, sorriu para ele.
– É bem confuso mesmo. Mas é um tanto pesado, acho que por isso ela e Yoongi se dão tão bem.
Os dois se encararam por um tempo, em sintonia saindo daquele modo julgador, com se virando para a geladeira por fim. Hoseok continuou a contar:
– O Jin e a Maya saiam sempre que possível, teve casos de eu ou o Nam ter que ir buscar ele ou algo do tipo, no início. Ele foi um pouco irresponsável às vezes e a gente não culpa ninguém, mas-
– Vocês nem a conhecem direito e a julgam. – Sem virar-se, ainda analisando o que pegaria, ela disse. – Esse “mas” é de julgamento – completou decidindo pegar uma maçã. – Hobi, você já viu o brilho no olhar dela quando ela fala sobre o Yoongi? Ou como ela olha admirada para o Seokjin?
fez o caminho contrário do balcão para parar ao lado direito de Hobi, com os cotovelos apoiados no granito e o encarando enquanto se deliciava com a fruta escolhida.
– Não é julgar, mas é que naquela época a gente tinha que focar 100% no BTS e trabalhar. A Maya estava em um momento diferente do Jin, entrando na fase adulta, maior de idade... Ela estava descobrindo a vida fora de um colégio interno.
Ela riu anasalado, mordendo um pedaço de maçã e murmurando algo. Hoseok esperou por ela terminar de mastigar para o responder – e ele o fez olhando-a atentamente.
– Me convença então de que ou você não tem ciúmes dos seus amigos ou não está julgando ela – respondeu, olhando-o com as sobrancelhas erguidas.
Engolir a seco foi algo gerado pela falta do que dizer, não porque estava nervoso. Hobi acabou se perdendo nos olhos dela, que não conseguiu voltar ao assunto.
– Para de me olhar assim, eu fico sem resposta!
riu, sentando-se no balcão, ao lado dele.
– Olha, você tem medo de que algum deles sofra – iniciou, usando de seu tom compreensível. – Eu entendo esse seu lado protetor e apaixonado pelos seus amigos, tá tudo bem. Mas você não pode achar que a Maya é a vilã dessa história toda, amor – mordeu a maçã novamente, mas desta vez falando enquanto mastigava. – Seokjin sabia muito bem o que estava fazendo quando saiu com ela, quando ficou com ela, talvez ele tenha se apaixonado sem perceber ou não. Mas isso também não cabe a ninguém julgar. Nem a Jin, nem a Maya e nem Yoongi. E devemos lembrar que são coisas da sua cabeça...
– Se Seokjin esteve mesmo apaixonado por ela por todos esses anos, , ele simplesmente saiu de cena para que o Yoongi pudesse entrar quando ela se apaixonou por ele e estamos falando de dois melhores amigos – suspirou pensativo. – Consegue compreender como é complicado? Yoongi não quer nenhum relacionamento sério, o que ele tem com Maya é essa coisa de poder confiar que ela vai estar lá e de alguma forma ela também compartilha disso. Os dois estão em um momento na vida que precisam focar em outras coisas. Então se ele cair na paranóia de que impediu ela de viver alguma coisa sólida com alguém que a ame, como poderia ter sido com o Jin, vai ficar...
– Não se antecipe. – Ela o cortou, virando o rosto para sua direção.
– Não estou me antecipando, estou apenas raciocinando o que devo fazer. Porque Yoongi consegue ser uma bomba e ao invés de explodir ele implode. E por mais que não diga e não admita, Suga ama ela. Nunca o vi gostar tanto de alguém como gosta de Maya.
– Hobi... você não vai conseguir abraçar o mundo e impedir que alguém tenha um coração partido. O que você pode fazer pelos seus amigos é estar do lado deles e amparar cada um da forma que precisa – sorriu para o namorado, colocando o resto da maçã de lado.
– Eu não quero o BTS entrando em clima ruim por causa de… – deixou a frase inacabada, a vendo sair do balcão e se colocar entre suas pernas, passando os braços um pouco mais abaixo de sua cintura.
– São consequências. Mas não se preocupe, o companheirismo entre vocês é tanto que isso não vai ser capaz de causar disband ou qualquer outra coisa. Agora vai lá... cuida dos seus meninos. – Mais uma vez ela sorriu compreensivamente.
– Eu amo você, sabia? – Hoseok se curvou um pouco para que seus lábios alcançassem a testa dela, deixando um beijo ali.
resmungou lentamente.
– Acho que não, talvez você precise refrescar minha memória.
Os dois se olharam por poucos segundos, até a mão direita de Hoseok alcançar a nuca dela e puxar para um beijo, mesmo que ainda estivessem naquela posição desconfortável. O beijo era o mesmo de sempre, com aquela pitada de como se fosse a primeira vez. Tinha um encaixe tão único, que nenhuma outra boca beijada por eles poderia sequer ser comparada.
– Vai lá, antes que o fogo se espalhe… – Ela o afastou, a contragosto. bem queria subir naquele balcão e testar a teoria de sexo em superfícies geladas que Jordan sempre comentava, mas pensou menos com seu lado racional.
Desta vez quem resmungou lentamente foi Hoseok.
– Namjoon consegue lidar com isso – respondeu tentando voltar ao beijo.
– Hobi. – segurou o rosto dele, olhando em seus olhos para completar: – Tô falando desse fogo aqui. Se ele espalhar não vai ter BTS nenhum que seja resgatado. Então vai…
Ele arregalou mais os olhos, respirando fundo e mudando as imagens na própria cabeça, para servir como um banho de água fria. Sorriu assentindo e ela soltou seu rosto, deixando-o livre para que saísse do balcão.
– Não vou demorar... – A puxou pela cintura quando estava no chão, selando seus lábios demoradamente. Ao se afastar, olhou para o chão, vendo Mickey em seus pés.
– Vou ficar esperando. – deu um beijo em sua bochecha, se abaixando para pegar Mickey. – Vamos tomar um banho de banheira enquanto isso, não é bebê? – disse para o cachorro.
Hoseok riu fraco, olhando apaixonado para os dois e se afastando.
– Escolham o filme de hoje! – gritou assim que passou pela divisória da cozinha.
Mickey olhou para , lambendo seu queixo sutilmente e ela manteve o sorriso para ele.
– O que foi? Conseguimos pelo menos dois dias do seu pai. Não podemos reclamar.


Namjoon estava na porta do complexo que o grupo ficava hospedado quando tinham a agenda cheia, no exato momento em que Hoseok desceu do elevador, se assustando com a feição séria dele parado ali, como se buscasse por coragem para algo. A verdade era que tudo estava um pouco confuso e com aquela nuvem carregada em cima deles nos últimos tempos, devido ao contexto geral da vida de idol x pessoal.
E Hoseok não poderia estar mais estressado que nunca, não só por seu âmbito pessoal sendo tão invadido, mas também por ver seus amigos estarem naquele afogamento. Agora, além de Namjoon e a decepção consigo sobre o término incurável com Cecília, ele também teria de se preocupar com Yoongi e o possível efeito das consequências com o acontecido do momento.
Conhecia o mais velho o suficiente para saber que daquela situação não sairiam flores e ele e Maya se acertariam porque, do que conhecia dela, eram dois cabeças duras que estariam dando murro em ponto de faca. Então seria uma caminhada longa com Suga e RM para ele se preocupar, já que Jin tinha um bom método de se resolver sozinho, não exigindo muito dele.
Hoseok não tinha como se esquivar e se preocupar só consigo e o próprio relacionamento, ele não era esse tipo de pessoa e se preocupar com quem ama é uma das coisas que ele possuía em abundância.
– Cheguei para o enterro? – Hobi perguntou, guardando a chave do carro e celular no bolso, enquanto se aproximava mais de Namjoon.
– Yoongi não chegou ainda. – A resposta veio direta, com os ombros de Nam abaixados, demonstrando seu cansaço. Talvez Hobi fosse o único a normalmente vê-lo tão fora de uma postura mais firme.
– Mas você... – iniciou respirando fundo, mas soltou o ar, se acalmando com as mãos sendo passadas pelo rosto. – Ah Namjoon, na mensagem que você me mandou eu achei que já estava tudo perdido...
– Na BH estava, nunca vi Suga tão desnorteado. – Namjoon cruzou os braços, entortando os lábios.
– E como foi de fato?
– Algo que disseram para ele… Não tenho certeza se a Suran sabia ou ouviu alguma conversa de Maya com Seokjin na BigH-
– Não, espera, a Suran? – cortou, surpreso. – E como a Suran sabe sobre Maya e Seokjin?
Namjoon deu de ombros, passando as duas mãos no rosto, parando elas uma em cada bochecha.
– Aí é uma coisa que eu não sei e não quero nem saber, para nós dois compete o clima no grupo – disse, soando centrado.
– Cara, eu esperava que fossemos ficar para sempre separando as brigas dos três mais novos por pães e roupas. – Desta vez Hobi cruzou os braços.
– É, sei que é estranho... Yoongi no meio de um drama desses, achei que minha preocupação com ele fosse ser pra sempre o tanto que dorme sem pausa.
– Só prova como quem vê cara não vê coração. Mas, então, como vai ser e o que estamos fazendo aqui fora ainda? Eu tenho hora, Nam. – Hoseok olhou no relógio em seu pulso, vendo que ainda estavam na parte da manhã, mas não confiante. O tempo passa rápido quando se tem coisas para serem aproveitadas e ele ainda tinha planos para viver naquele resto de dia com sua namorada.
– Eu sei, me perdoa por isso, mas eu não estou tão cheio de paciência.
– Para lidar com o drama de Maya Lee-Cafrey e Min Yoongi? – Namjoon o olhou atento. – Quem tem?
– Para de julgar, Hoseok – repreendeu com o cenho franzido. – Eu não sei porque essa sua fissura em não se abrir para conhecer a Maya.
– E você a conhece?
– Não, mas eu não a coloco como a vilã de tudo. Isso não é um conto de fadas da Disney, Hobi. – Nam levou a mão ao ombro de Hoseok, pousando-a ali de forma sutil.
– É, realmente... se fosse... Mesmo com vilãs e tudo nada se resumiria a contratos, namoros proibidos e popularidades. – O tom dele saiu desanimado, como se falasse de uma ferida aberta.
Talvez fosse.
– Desculpa… – pediu recebendo um chacoalhar de ombros de Hobi, então tirou sua mão dali e levou ao bolso da jaqueta que usava. – Enfim, Yoongi saiu da BH e foi para casa de Maya, queria conversar com ela e eu não consegui impedir.
– A merda que isso vai dar, Namjoon... E Seokjin?
– Está aqui no complexo, por isso te disse pra vir pra cá. Pelo tempo eu acho que daqui a pouco Suga aparece e eu não sei como ele irá reagir com Seokjin.
Neste instante a porta se abriu, assustando os dois.
– Vocês dois não tem discrição nenhuma, dá pra ouvir a conversa e o Jin está na cozinha. – A voz de Taehyung ecoa e eles o observam colocar a cabeça para fora, entre o vão aberto. – Ele já recebeu ligação de Maya falando sobre a fofoca que foi feita.
Nam e Hobi se entreolharam e respiraram fundo em sincronia; apesar de ser uma história complicada e que não lhe cabiam tentar consertar, estariam ali pelos dois amigos para que nenhuma consequência fosse extrema, mas não podiam deixar de pensar que a própria empresa não seria mais um lugar de confiança. Hoseok até adicionou uma nota mental sobre o hábito de desabafos com os amigos sobre o próprio relacionamento, qualquer coisa que fosse ouvida e aumentada para Seijin e Sohoo seria causa de perigo.
Entraram no apartamento e rumaram até a sala, neste mesmo instante Seokjin saiu da cozinha, colocando uma tigela em cima da mesa, que logo foi atacada por Taehyung e seu bowl. Os cumprimentos aconteceram e o mais novo, quando se serviu, foi para o sofá, sentando-se em frente à televisão ligada em algum canal de desenhos. Nem Hoseok, nem Namjoon sabiam o que dizer a Jin e quando a porta foi aberta bruscamente, Yoongi entrou quieto.
Respiraram junto imaginando que ele iria para o próprio quarto e logo poderiam ir embora, porque de certo não haveria nenhum conflito entre os dois mais velhos. Porém, a fala de Seokjin deu outro rumo para a cena.
– Você não a acusou de nada, não é Yoongi? – Seu tom de voz estava alto e firme.
Yoongi parou no caminho para o corredor e se virou, encarando o amigo com seu olhar fulminante.
– Acusar de que, Jin? De ter sido feito de idiota por vocês dois em quase três anos? – respondeu, a voz grossa e a fala rápida.
– Mas ninguém te fez de idiota, Yoongi! – Jin revirou os olhos, tirando o avental e colocando-o na guarda da cadeira ao seu lado.
– Engraçado que não é assim como me sinto. – A conotação irônica de Yoongi fez Jin respirar fundo. Ele não queria e não iria se sentir mal por algo do qual tinha a consciência limpa.
– Eu não te contei porque não tinha o que contar, que diferença faria você saber que eu e ela ficamos algumas vezes antes de te conhecer? Desde que vocês se conheceram eu e Maya não tivemos mais nada além da nossa amizade – cruzou os braços na altura do peito.
– A porra da diferença que você é meu melhor amigo e ela a mulher que eu amo Seokjin. Se fosse o contrário você não ia querer saber? – Yoongi deu mais alguns passos, cruzando a sala, sob o olhar atento e quieto de Taehyung que ainda estava sentado no sofá se alimentando, mesmo com todo aquele clima em sua volta.
Jin não aguentou ouvir o que foi dito e riu um tanto alto, deixando Namjoon e Hoseok mais atentos.
– Ah, agora a May é a mulher que você ama? Pois não é assim que ela sente.
O riso anasalado de Jin provocou um formigamento irritante em Yoongi e ele terminou os passos restantes para cruzar a sala, ficando a menos de um metro de Jin, com os outros dois logo ao lado, acompanhando qualquer movimento deles e prontos para separar fosse lá o que acontecesse. Taehyung apenas continuava a acompanhar com o olhar e ouvindo atentamente, para ele não fazia sentido se colocar ali no meio, não sendo um assunto que lhe cabia.
– E o que você sabe dos sentimentos dela, Seokjin? Você não tem o direito de falar por ela só porque são amigos. – Yoongi apontou o dedo para Jin, dizendo acusatório, um pouco mais alto.
– Mas como não falar se é para mim que ela chora, Yoongi? Se é comigo que ela desabafa antes de-
– Seokjin, não termine! – Nam esticou o braço no meio dos dois tocando no peito de Jin, ao ver Yoongi fechar mais a sua feição e travar a mandíbula.
– Ele precisa ouvir, Nam – iniciou, tirando a mão de Nam de seu peito. – Eu cansei de ficar aqui só ouvindo e tentando aconselhar a minha melhor amiga que é feita de boneca pelo meu outro melhor amigo. E também não é só sobre ela… – Desta vez foi o dedo de Jin a ser apontado. – Mas se ele não aceita ouvir a verdade, o problema não é meu – completou olhando para Namjoon.
– Não tem verdade, Seokjin! – Yoongi passou as mãos no rosto, desgastado. – O meu relacionamento com a Maya é meu relacionamento com ela. Você não tem que se intrometer ou-
– E continuar vendo ela sofrer porque você não tem coragem de se arriscar como Namjoon ou Hobi fizeram? Por que você fica nessa de brincar de não se apegar só para não ter que fazer escolhas na vida e também sofre? Que amigo eu seria, Yoongi?
O silêncio cortou o meio dos dois, Hoseok e Nam mantiveram-se atentos e se olharam rapidamente, esperando qualquer que fosse a reação dos outros dois. Mas eles apenas se encaravam respirando descompassadamente, principalmente Yoongi, que Hobi podia jurar que estava sofrendo não só porque ficou por tempos sem saber que Maya e Seokjin tiveram um início de amizade mais íntimo, antes de se tornarem aquela dupla como eram conhecidos por serem tão próximos. O motivo vagava no mesmo ponto para todos.
E Hoseok até compreendia a confusão mental do amigo quanto a um relacionamento, por mais que fossem situações distintas. Para eles era sempre resumido em apenas uma coisa.
– A Maya pode ser tudo para quem a observa de fora, mas se tem uma coisa que ela não é, é mentirosa. – Jin diminuiu o volume da voz para dizer, não querendo prolongar aquela discussão. – Ela nunca mentiria para você e não contar sobre as vezes que ficamos, que foram muito antes de você aparecer na vida dela e ela se apaixonar, foi ideia minha. Ela não merece ser punida por algo que eu pedi para que não fosse feito, porque eu sabia que você não ia saber lidar com isso e ela ia sofrer mais porque desde o primeiro dia já esteve envolvida.
Novamente um breve silêncio, fazendo tempo para que respirassem fundo e desistissem do tom daquela discussão. Não os levaria a nada e seria apenas desgastante. Era inexistente algum fato que ferisse a integridade moral e física de qualquer um, o que estava sendo motivo de tamanho turbilhão era o desgaste emocional.
– É Jin, mas quem decidiu ir embora não foi eu, foi ela. Eu espero que pelo menos a amizade entre vocês então permaneça igual.
Quebrando o silêncio, a voz de Yoongi foi ouvida antes dele se direcionar para o caminho que tinha feito e sair do complexo batendo a porta.
Os três em pé ficaram quietos, analisando o que havia sido dito e neste meio tempo, Taehyung se levantou indo pra cozinha levar a louça que usou para comer, não demorando a ter sua voz alta ecoando ao dizer que o celular de Jin estava tocando sem parar. Tudo se manteve no mesmo ritmo e ele voltou tão rápido quanto tinha ido trazendo o aparelho eletrônico para o amigo.
O nome de May brilhava como chamada perdida e então ele desbloqueou a tela para ouvir a mensagem que tinha chego. Deu início ao áudio, não se importando dos amigos ouvirem.
“Jin, me desculpa... eu queria me despedir de você melhor, mas estou indo pro aeroporto agora, Seul nunca vai ser mesmo minha casa. Nos falamos quando eu chegar em Nova York e conversamos sobre tudo, ok? Amo você, Seokjinie, se cuida e vê se não esquece da rotina do skin care. Mesmo em fuso diferente podemos continuar fazendo juntos. Te aviso quando chegar”
Pôde ouvir no final do áudio a voz da irmã de May, a gritando para ir logo. Se sentiu mais tranquilo ao saber que ela não estava sozinha e Nicki cuidaria dela, dando início no segundo áudio.
“Pede desculpas aos meninos por mim, eu não queria causar nenhuma complicação entre vocês, principalmente com o Persona em andamento.“, ela suspirou, fungando o nariz. “Eu sei que o Hobi não é muito meu fã, mas diz pra ele que admiro muito a coragem que teve de assumir o relacionamento com e bater de frente com...”, deixou morrer a fala. “Enfim, diz pra ele que desejo toda a felicidade do mundo para os dois. Para o Nam e o Tae você pode dizer que eu continuarei contando qualquer coisa que souber sobre Cece ou Rae. E...”, outro suspiro. “Me promete que vai me manter informada sobre o Yoongi? Eu não gosto da ideia de deixar ele sozinho e... Você sabe, Jin.”
Hoseok ouviu todas as palavras com extrema tranquilidade e calma. Não evitou sorrir de lado, mais para si, ao ouvir Maya falar daquela forma sobre ele e , então se perguntou se realmente estava sendo corajoso. Além de levar seus pensamentos diretamente para a namorada, pensando em como poderia mais uma vez fazer algo para a recompensar pela ausência. Ele tinha essa vida dupla de ser Hoseok e J-Hope, tanto para a própria carreira quanto para a vida pessoal. Naquele momento com Namjoon, ele estava sendo os dois.
– É aquela viagem pra fazer o curso que Yoongi tinha comentado? – Taehyung pergunta, parando ao lado de Jin e com as mãos nos bolsos do moletom largo que usava.
– Sim. – A resposta de Jin foi simples, mas o olhar baixo dele foi totalmente captado pelos outros três. Realmente, apenas Yoongi e Maya não deviam notar o tanto de sentimento vivo ali, já que estiveram ocupados com o próprio drama por anos.
– Você sabe que ela está usando isso para fugir, não sabe? Seja lá o que os dois conversaram, ela está fugindo do acontecimento e deixando você e Yoongi. – Tae completou, erguendo os ombros e respirando fundo. Seu tom mais sincero possível.
– Taehyung...
– O que? – direcionou o olhar para Hoseok, com a sobrancelha erguida. – Não estou errado, no final é sempre sobre fugir, partidas, contratos e pessoas saindo das nossas vidas porque é sempre a escolha automática – deu de ombros, parecendo conformado ou tentando ser. – Eu não pude sequer escolher, Yoongi não escolheu a May e não iria escolher, Namjoon não escolheu manter a Cecília e até agora você não precisou deixar a . Em breve Jimin e Jungkook também vão ter a mesma história... Por que, no fim, é sempre a mesma escolha.
Finalizando, Taehyung caminhou para o corredor, sumindo em direção ao seu quarto e deixando os três cabisbaixos e pensativos. Hoseok sentia o peito queimar, pensando na possibilidade de Taehyung estar certo e ele ter de acabar tendo um fim como Namjoon, ficando sempre ativo na internet ou dependendo da fofoca de Maya para saber sobre a sua amada. Ele não queria e não poderia deixar que sua felicidade ao lado dela fosse abalada desta forma.
Taehyung pouco falava sobre o que não pôde viver com a mulher da qual ele nunca iria esquecer ou conseguir substituir, mas quando ele falava, causava essa nostalgia recente quanto a partida de Rae. O que só representava mais uma página com o mesmo enredo, escrito diferente.
A saga do BTS seria sempre essa, afinal.


estava na cama assistindo qualquer programa na televisão, usando do tempo para continuar aprimorando seu coreano, quando Mickey saiu dos seus pés e correu animado para fora do quarto. "Só pode ser ele", ela pensou.
Se levantou e depois de calçar as pantufas não se preocupou em vestir o roupão de seda para sair do quarto, a camiseta que estava usando de Hoseok já era larga o suficiente para cobrir até boa parte de suas coxas e mesmo que não estivesse usando calça ou algo do tipo, era seu namorado, ele já tinha visto muito mais do que aquilo.
Caminhou tranquilamente, confiante e animada para encontrá-lo, imaginando que havia ido direto para a cozinha com, provavelmente, compras para o almoço. O que a deixou mais animada ainda, por não ter que o esperar durante o resto da manhã e a tarde inteira.
Oppa, você já cheg-
Parou assim que virou para a entrada da cozinha, sentindo o coração acelerar e, mesmo sem um espelho, sabia que seus olhos estavam arregalados.
Mickey estava no colo de uma senhora, sendo paparicado, e a mesma virou-se bem no instante em que ela chegou falando, achando que era Hoseok – até usou do termo coreano que pouco usava e ele não a cobrava, visto que não era nativo dela.
E reconheceu a senhora. Era a mãe dele.
Oh fuck… – resmungou o xingamento, se colocando atrás do encosto da cadeira. Não sabia se seria correto sair correndo como se tivesse visto uma assombração. Em sua cabeça vinha o mix de não saber como deveria chamá-la junto com o desespero de seu estado pouco vestida. – Se-se-senhora Jung! – curvou-se levemente, de forma destrambelhada, batendo a testa na cadeira. – Ai!
! – A mais velha disse, sorridente.
E, caramba, o sorriso da mãe de Hoseok era tão radiante e lindo quanto o dele. estava deslumbrada. Além de envergonhada já que era o primeiro encontro das duas e ela estava na frente de sua sogra usando a camiseta larga do filho dela, calcinha e pantufas, com o cabelo sem pentear e o rosto amassado por estar deitada.
– Eu… Eu… – gaguejou, ainda sem saber como deveria se direcionar à ela. – Me desculpe, senhora Jung… Achei que fosse Hosek e… É melhor eu ir me vestir.
Puxou a camiseta mais para baixo e quando se preparou para virar-se, foi surpreendida com a voz da outra:
– Eu aguardo, querida.
Com o sorriso da mãe de Hoseok, seguiu em direção ao quarto, logo recebendo a companhia de Mickey aos seus pés. Colocou a primeira calça legging preta que encontrou na parte do closet dele em que havia organizado suas coisas, partindo para o banheiro pentear o cabelo e o prender em um coque, tentando ficar o mais ajeitado possível. Continuou com as pantufas de usar dentro da casa, que Hoseok a havia dado com todo carinho, tentando a convencer de que não era por seu TOC com poeira e a organização padrão que mantinha.
Ao sair do quarto novamente, foi seguida pelo cachorro. Caminhou ansiosa pelo corredor e quando terminou ele, se deparou com a senhora sentada no sofá, lendo algo no celular. tirou aquele pouco tempo que não fora notada para reparar nela e continuou deslumbrada, os traços lembravam e muito a Hoseok e o perfil de senhora Jung era tão assimétrico quanto.
Antes de proferir qualquer coisa, cavou em sua mente como deveria se referir a ela, primeiro pelo respeito e segundo porque o apagão que teve ao vê-la foi tão grande que acabou por se esquecer de seu nome. Talvez se a perguntassem, não saberia dizer nem o próprio.
Porém, mais uma vez foi surpreendida.
– Quando Hoseok disse que estava namorando uma estadunidense, eu não entrei nesse quesito de diferir por conta da questão cultural, conheço meu filho o suficiente para saber que ele não se interessaria por ninguém com um caráter duvidoso.
A voz era tranquila, elegante e não parecia estar a acusando de nada. De alguma forma começou a se sentir menos nervosa.
Sorriu quando foi encarada diretamente nos olhos.
– Me desculpe, eommeo-nim, ele não me disse que viria. – Se desculpou torcendo os lábios.
– Mas ele não sabia mesmo. – Ela se levantou do sofá, colocando o celular na mesinha de centro. – Eu vim fazer uma surpresa – sorriu para .
– Ah…
– Bem, eu entendo que meu filho é muito ocupado, então decidi poupar ele do trabalho de te levar até mim – caminhou os poucos passos até . – E não precisa se preocupar em se dirigir a mim nos nossos termos. Senhora Jung soa respeitoso o suficiente, .
estava sem palavras; entretanto, ela se sentiu acolhida, se sentiu respeitada e, pela primeira vez desde que havia chego em Seul, indiferente – claro que fora do círculo de convivência a qual estava inserida. E não era uma indiferença negativa, era como se ser diferente por não ser nativa, não fosse o maior dos problemas, só com aquelas palavras. Em seu íntimo rodava aquele macio do acolhimento, afinal, se a mulher que Hoseok mais amava e respeitava no mundo estava sendo gentil e acolhendo daquela forma, não tinha porque deixar com que outras preocupações atormentassem. Era a mãe de Hobi em sua frente.
– Obrigada? – disse indecisa.
– Não precisa agradecer.
– Bem… A senhora… Hobi foi para o complexo auxiliar o Namjoon em algo e-
– Eu vim com tempo, se quiser e aceitar, podemos passar a tarde juntas. – Senhora Jung a cortou educadamente. – E outra, o meu filho eu já conheço e converso com ele frequentemente… Hoje vim te fazer companhia.
– Tudo bem então. – sorriu abertamente, olhando para Mickey no chão. – Teremos companhia para o almoço, bebê.
– Ele gosta de você, sim? – olhou para a mais velha, assentindo para a pergunta. – Não sei se consigo contar nos dedos quantas pessoas ele gosta, porque sobrariam muitos e ficaria estranho – riu para .
– Mickey é um pouco seletivo, mas é adorável. – Novamente olhou para o cachorro; torceu os lábios pensando que estava na hora do almoço e ela não tinha dotes culinários muito bons para agraciar sua sogra. – É… a senhora se importa de pedirmos alguma coisa? Ou podemos sair, eu só preciso-
– Nunca que eu vou te fazer passar sobre essa situação de caracterização só para sair almoçar, ! – Senhora Jung respondeu tentando a acalmar. – Hoseok me conta… – explicou, notando a feição confusa de . – Eu sinto muito que eles sejam horríveis com você, querida.
– Está tudo bem. – murchou os ombros, levando as mãos à cintura.
Pelo breve silêncio, senhora Jung decidiu que deveria tomar um pouco a rédea da situação e sumir com aquele clima pesado que havia pairado sobre elas.
– Trouxe algumas coisas do mercado e vai ser um prazer cozinhar para você! Hoseok me disse que você come qualquer coisa, sim?
– Sim, como! Só sou proibida de tomar qualquer líquido gelado ou gasoso – fez uma careta com sua resposta, lembrando-se de como era cobrada por manter sua garganta saudável para não enfrentar problemas de saúde na voz.
– Então farei um suco de laranja completamente natural para você!
Não a deu tempo de responder, apenas saiu em direção à cozinha, animada.
olhou para Mickey sorrindo e disse:
– Ela acabou de se tornar minha nova companhia favorita. – Ele moveu a cabeça, como se realmente a compreendesse, como sempre fazia em resposta a tudo o que ela dizia. – Você não precisa ficar com ciúmes, seu lugar é único, bebê.
Sendo acompanhada por ele, seguiu pelo mesmo caminho, completamente absorta naquela animação que acabou por se esquecer ou sequer pensar em avisar Hoseok sobre sua mãe estar na casa dele. Mal se lembrou da existência do próprio celular e de qualquer outra coisa que estivesse fora daquele âmbito, queria muito passar aquele tempo com a sogra e mesmo parecendo precoce, estava se sentindo tão confortável, que a vergonha e anseio pareciam ter sumido.
E se fosse precoce assumir esse perfil ao lado da sogra que havia acabado de conhecer era por conta do quão forte já havia sido abatida desde que o relacionamento com Hoseok tinha sido assumido da forma como aconteceu – inclusive, se cobrava por isso, às vezes se pegava pensando em como tinha sido ingênua dentro da própria euforia por tudo que envolvia aquele momento na premiação, a ponto de não pensar que estava sendo, pela primeira vez, provada, como se dissessem: somos nós quem ditamos tudo.
Mas ali naquele momento com senhora Jung, não pensou em nada disso, nem mesmo em como poderia ser taxada de carente pela felicidade de simplesmente ser tratada cordialmente pela mais velha. Ela só conseguia pensar em prestar atenção em todos os movimentos da senhora na cozinha, cozinhando para elas, falando sobre o clima, sobre temperos típicos e sua vontade de continuar rodando o mundo para conhecer de tudo um pouco, como uma verdadeira apaixonada pela ideia da diversidade.
Soava muito como sua mãe.
Já estava ali por aquele tempo sem contar, sem notar, quando sentiu o coração quente, o corpo tranquilo e a mente limpa. Ouvia-a falar sobre Hoseok com tamanho orgulho enquanto colocava os utensílios no balcão para comerem – seria ali mesmo, uma sentada de frente para a outra na ilha do meio da cozinha, naqueles bancos altos que Hoseok adorava como parte da decoração. Senhora Jung tinha traços de uma faísca que sua mãe lhe dava, aquela coisa sobre esperança que a deixava plácida.
– Então quando eu sinto falta dele sempre uso um moletom que ele deixou em casa da primeira turnê que o BTS fez internacionalmente. – Senhora Jung finalmente se sentou, sorria orgulhosa e os olhos brilhavam.
– Ele me disse que deixou o moletom de propósito, porque a senhora gostava dele – comentou com uma careta e o tom baixo, tentando a fazer entender que era um comentário de cumplicidade e não por fofoca.
– E eu sei. – Ela riu em resposta, divertida. – Hoseok é extremamente carinhoso e faz de tudo para que as pessoas que ele ama sintam esse amor – piscou sugestiva.
– Sim! – sorriu, aprofundada no próprio pensamento passional, sentindo as borboletas em seu estômago. – Ele é… Seu filho é incrível, senhora Jung.
– Quando ele me contou sobre você, confesso que a primeira coisa que fiz foi pesquisar seu nome na internet – iniciou, enquanto servia-se. – Me surpreendi ao não encontrar nada sobre sua família, , mas depois ele me explicou o motivo e… – parou o que fazia, para encará-la sorrindo simples. – Aquela música que escreveu para sua mãe... Ela é linda. Eu sinto muito que tenha acontecido. Tenho certeza que ela tem orgulho da mulher que é e da carreira sólida que você mantém, ainda tão nova.
continuou a olhando nos olhos, sem saber o que responder. Sentiu aquela vontade imensa de chorar e botar para fora de seu peito a falta que a ausência de sua mãe ainda lhe causava. Era uma dor que ela nunca superaria e não mentia para ninguém sobre como era de fato a perda, mas que todos os dias aprendia a como conviver com aquilo. Porém, a vontade de chorar não durou por muito mais que cinco segundos, ela apenas sorriu; parecia que em sua frente tinha um ombro como o de sua mãe, um olhar compreensivo e totalmente disposto a olhar para ela como ela era e a aceitar. Assim como Hoseok, mas a diferença era o tom, ali não era passional como com o namorado, era maternal.
– Obrigada, senhora Jung… É… Realmente muito gratificante quando as pessoas dizem que gostam de Dear Helena, porque por mais que seja uma letra totalmente pessoal, ainda é sobre um amor que estou falando e… – olhou para a direção da janela, mirando o horizonte que tinha em sua visão. – O amor é de várias interpretações, o que torna difícil de conseguirmos tocar as pessoas com a nossa pessoal. E não está errado nem certo.
– Porque o amor não é errado e nem certo, ele é humano. – Ela completou, usando do que a música de mais citava.
sorriu abertamente, virando-se novamente para encará-la.
– Eu nunca conheci uma coisa tão incrível como o que tenho com seu filho, senhora Jung – decidiu soltar o que estava em sua garganta, não evitando que o sorriso se alargasse. – Depois que minha mãe faleceu eu não achei que algum dia encontraria um conforto em algum colo; meus amigos e a família que me restou significam muito pra minha vida, sou extremamente grata ao que Pam e Jordan são para mim. Mas eu estou falando de algo mais esperançoso, uma fagulha que me fizesse acreditar que seria feliz novamente e… – umedeceu os lábios, sorrindo mais. – Até em um simples olhar ele consegue me enxergar e me fazer receber o que eu preciso, entende?
A mais velha assentiu, encontrando a mão de em cima do balcão.
– Então eu só tenho gratidão pela senhora… Talvez eu nunca irei saber como retribuir e-
– Meu bem, você está aqui na minha frente, falando coisas bonitas sobre meu filho e, não que isso mudasse muito alguma coisa se não tivesse acontecido, aprendeu coreano apenas para estar ao lado dele. Além de não estar por aí no mundo, fazendo o que você gosta de fazer em período de férias, para estar aqui em um país que até então não lhe foi muito generoso.
Sentiu o aperto em sua mão e apenas disse:
– E eu faria tudo de novo.


Tinha um carro na vaga de Hoseok, dentro da garagem subterrânea de seu prédio. E ele conhecia bem aquele veículo e se lembrava da placa, afinal, fora ele mesmo quem havia comprado o modelo para sua mãe e escolhido a sequência como um de seus privilégios.
Riu pelo nervoso ao ver ela saindo pelo elevador com sua famosa elegância e pose descontraída, sentindo o coração palpitar com as inúmeras ideias que rondavam sua cabeça. Talvez fosse pela presença dela que não tinha visualizado as mensagens e muito menos atendido suas ligações durante a tarde, quando tentou a contatar para avisar que teria de ir atrás de Yoongi e o temperamento dele, que naquele dia poderia causar algum dano físico se saísse de carro pelas ruas de Seul. Não era todo dia que o amor de sua vida decidia ir embora para o outro lado do mundo, assim como tinha acontecido com ele.
Mas deixando o drama alheio de lado, Hoseok finalmente estava em sua garagem e via o sorriso largo de sua mãe ao notá-lo ali, dentro do carro parado. Ele desligou o veículo e saiu, indo a abraçar e cumprimentá-la respeitosamente.
– Mamãe! Me desculpe… Não sabia que viria, precisei resolver algumas coisas e-
– Como Yoongi e Seokjin estão? – Ela o cortou tranquilamente e ele pressionou os lábios em um bico. – me contou. Mas não a culpe, não foi em tom fofoqueiro.
– Não, eu não a culparia. – Hobi suspirou. – Enfim, eles estão bem entre si, o problema é… – sentiu uma pontada em seu peito ao notar que dizer aquilo em voz alta, a situação real do amigo, o causava uma certa preocupação de até que ponto poderia se equiparar a si. E se em algum momento ele tivesse que fazer uma escolha?
– O problema… – buscou o olhar do filho, vendo-o suspirar.
– Maya foi embora para Nova York…
– Poxa, filho… – Senhora Jung levou a mão ao ombro do filho, compreensiva pela preocupação dele quanto ao amigo. – Espero que Yoongi saiba lidar com isso.
– Eu acho que talvez ele consiga, mas não devo omitir que me preocupo com ela – fez uma careta, explicando-se: – Por mais que não tenha uma amizade com a Lee, não deve ter sido fácil para ela tomar essa decisão, mãe. Ela meio que…
– Fez o que ele, em algum momento, poderia ser colocado contra a parede para fazer, para que ele não tenha que chegar a esse ponto.
Hoseok assentiu em silêncio.
– Hobi – O chamou e ele a encarou. –, você sabe que mesmo que tudo sempre se resuma para vocês sete à esse padrão de escolha, a mulher que está lá em cima te esperando não pretende fugir para nenhuma colina, mesmo que já tenha tido motivos suficientes para isso, não sabe?
Ele riu anasalado, como sempre sua mãe sabia o ler sem que precisasse estar com suas páginas abertas. Afinal, era sua mãe. Sua primeira confidente.
– E me faça um favor, Jung Hoseok, de não deixar aquele brilho no olhar dela se apagar quando é sobre você- Não! Quando é sobre tudo. – Senhora Jung ditou batendo com o indicador no peito dele. – Estou indo embora completamente aliviada por conhecer … Então por favor, não deixe que destruam o que vocês estão construindo.
– Eu não vou, mãe. E me desculpa por não ter apresentado vocês duas antes, mas é que-
– A agenda sempre confusa e cheia, eu já me acostumei com isso, Hoseok. – Ela sorriu o confortando. – Mas não vou dizer que não estou triste porque sua irmã teve que me ajudar a pesquisar sobre ela na internet.
Ele riu achando certa graça.
– Ela é incrível, não é? – perguntou com o brilho passional no olhar.
– Sim. Ela é, assim como você, meu filho. – O puxou para um abraço apertado e quando o soltou, se preparou para ir. – Eu preciso passar em um lugar antes. Deixei o jantar para vocês pronto… Ah! Ela dorme bastante mesmo ou é impressão minha? Normalmente a mulher quando está com muito sono é porque está... – fez um movimento redondo em cima da própria barriga, insinuando gravidez.
Os olhos de Hobi se arregalaram e ele emitiu uma sílaba alta que ecoou na garagem inteira.
– Mãe, não! – levou a mão ao peito.
– Mas o que foi? Casais quando dividem a mesma cama estão suscetíveis a dividir a vida com fraldas, mamadeiras e berços.
– Mamãe, estes são casais que não se protegem… – respondeu com as bochechas ficando vermelhas.
– Bem, não sei… Ela está muito sonolenta.
– Não se antecipe, senhora Jung. Filhos ainda não entraram em nossos planos.
– Nos seus pode não estar, mas no divino… – apontou para cima e Hobi riu a puxando para um abraço novamente.
– A senhora não tinha um lugar para passar?
– Como sempre, se esquivando de sua mãe! – Se afastou e ajeitou a bolsa no ombro. – Mas tudo bem… Se cuida e qualquer coisa me ligue.
Se abraçaram uma última vez, despedindo-se um do outro e ela foi em direção ao próprio carro. Antes de entrar, quando Hoseok também estava abrindo a porta dele, ela o chamou:
me contou sobre o próximo trabalho dela no cinema, filho. Você está bem com isso?
– Sim, é trabalho e eu não tenho direito de dizer o que ela deve ou não fazer.
– Certo… Só cuide para que ninguém a faça desistir, é uma coisa muito… É importante para ela, sim? – Hobi assentiu à pergunta, notando a preocupação no tom de sua mãe. Ela olhou para baixo pensativa e torcendo os lábios, para então sorrir para ele novamente e finalizar: – Ela é uma atriz incrível, esse filme será um sucesso e apenas isso.
Quando ela entrou no carro, Hoseok se manteve parado, respirando fundo. Poderia entrar naquele momento na paranoia de como seria para a mídia conservadora quando estivesse estampando o cartaz do próximo filme que iria gravar no retorno de suas férias, entretanto, decidiu gastar o tempo com outra coisa e entrar no carro para criar outras ideias.
A loja de conveniência mais próxima foi sua parada e o carrinho cheio de coisas que ele gostava e ela também, faria parte da noite que iria passar com a namorada sob as luzes das estrelas.


Tudo estava devidamente colocado no lugar na mesa da área externa da cobertura, o clima agradável da noite, por mais que fosse fria, se completava com o céu estrelado e, surpreendentemente, limpo. Hobi sabia que em uma noite como aquela o destino comum da população nativa e turista seria Namsan, mas ele não poderia ir com a namorada para lugar algum e estender uma toalha no gramado onde fosse permitido fazer um piquenique, aproveitando a luz do luar.
Então usou do que tinha e a ansiedade pelo sorriso de quando visse tudo o que ele tinha preparado, moveu cada músculo de seu corpo mais rápido. Com ela não importava o lugar, mas como viviam cada momento de forma única.
Aproveitou que ela estava em um sono pesado e arrumou tudo, sendo acompanhado pelo olhar atento e de opinião do tão companheiro Mickey. Quando terminou, deixando a lareira externa acesa para que já ficasse em temperatura agradável, foi tomar seu banho. Não demorou, justamente pela ansiedade.
Vestiu a mesma camiseta que estava usando, já que era uma peça em seu armário que tinha no mínimo duas iguais. Colocou a calça mais grossa e meias, separando o cobertor que iria levar para dividir com ela no lado de fora – até chegou a ponderar se era uma boa ideia ficar do lado de fora naquele frio, qualquer um o chamaria de louco; mas a noite estava tão linda, que então a loucura seria algo plausível por hora.
– Vamos acordar a , amigão? – perguntou a Mickey na saída do closet e sorriu com ele saindo apressado à sua frente.
Abriu as cortinas para que a luz das estrelas e da lua entrassem. O privilégio de morar onde morava, no último apartamento daquele prédio enorme, dava a eles a oportunidade de poucas luzes de postes, portanto o céu era a maior fonte de claridade.
Era como observar uma obra de arte no Louvre, ou até mesmo além disso. O cabelo bagunçado, a roupa amassada e a feição serena enquanto dormia, fazia de , mais uma vez, a melhor visão que ele tinha em seus dias. E estar ali enrolada em um lençol e iluminada por aquela intensidade não tão forte de luz, fazia com que ele se sentisse extremamente privilegiado.
era linda, tanto por fora como por dentro, em essência e aparência. E era sua, não como um objeto, mas como companheira.
– Amor?
A chamou com carinho, subindo devagar na cama.

Mais uma vez, sua voz ainda baixa.
Mickey também subiu no colchão, indo direto até os braços esticados dela e se enrolando ali.
… – chamou de novo, alcançando o rosto dela e deixando alguns beijos ali. Ela sorriu sonolenta, ainda de olhos fechados, assim como os lábios. – Oi, Bela adormecida… – beijou-a nos lábios, delicadamente, enquanto descia sua mão direita pela silhueta dela. – Acorda meu amor, tenho uma coisa para nós dois lá fora e… Mickey concordou em ficar aqui dentro.
Apertou não tão forte a cintura dela quando a alcançou, se equilibrando perfeitamente por cima de para não deixar o peso de seu corpo pesar sobre ela. E então as pálpebras se abriram devagar, ela começou a se mexer e sorriu desta vez com os lábios abertos.
– Jayjay… – resmungou manhosa e rouca.
Extremamente submerso naquele momento, pensou em algo que pudesse a fazer despertar mais rápido.
, você está grávida?
– Que? – Ela disse mais alto, arregalando os olhos. – Está louco, Hoseok?
– É que você está dormindo demais-
– Não! Eu não estou e não teria como, a não ser que você seja tão potente que o negócio passou pelo látex e ainda driblou o método contraceptivo – continuou de forma desesperada, causando a saída dele de cima de seu corpo. – É apenas sono, você tem usado muito de mim nas últimas madrugadas… – completou se sentando na cama e ajeitando o cabelo.
– Minha mãe me perguntou isso, acredita? – A contou, recebendo o olhar arregalado.
– Sua mãe? – Ele assentiu e ela levou a mão até a boca, um pouco chocada. – Oh fuck…
Hoseok riu fraco e se levantou, saindo de vez da cama. Estendeu o braço para ela e a chamou com a mão.
– O que? – o encarou perdida.
– Vem comigo, dorminhoca.
Ela sorriu para o sorriso dele que conseguia enxergar mesmo com a pouca luz, olhando brevemente para o lado e encarando a noite bonita e jogou o lençol de lado, pegando na mão oferecida. Seu corpo foi puxado com força e ela sentiu o choque contra o peito dele.
– Você está cheiroso demais, homem – inspirou, fechando os olhos ao passar os braços em volta do pescoço dele e sentir os braços compridos de Hobi rodearem sua cintura.
– Gostou? – assentiu. – É para você.
O beijo que Hoseok a deu foi calmo, um dos milhares banhados ao padrão passional dele. Quando se afastaram, ela sorriu divertida, notando a camiseta que ele usava.
– Estamos de namoradinhos cafonas hoje?
– Não gostou? – Hoseok sussurrou contra a bochecha dela.
– O dia que eu não gostar de algo com você, provavelmente fui abduzida – apoiou a cabeça no ombro dele, bocejando e ele riu fraco.
Neste instante, observou pela parte lateral em que ficava a porta de saída do quarto que levava direto à área externa, uma luz forte caindo do céu, no que ela sabia ser geograficamente acima de Namsan. Ela sorriu, lembrando-se de sua infância, as histórias que sua mãe contava sobre estrelas cadentes e disse baixinho, sendo surpreendida pela voz de Hoseok sobre a sua:
– Faz um pedido.
Surpresos pela sincronia, se encararam, com a ponta dos narizes tocando um ao outro, suficiente para causar a eletricidade por toda a extensão de cada um deles.
– Eu não tenho nenhum pedido a ser feito.
– Não? – moveu a cabeça para o lado, mantendo o olhar fixo no de Hobi, aguardando pela resposta dele em meio ao sorriso que a lançava.
– Não. Com você ao meu lado, o que mais que posso querer?
Não era algo que deveria soar com tristeza, mas a lágrima que saiu solitária, percorrendo a bochecha de Hoseok, fez com que se sentisse esmagada. Mas ela não se importou, estava sendo esmagada de amor.
Era apenas uma faísca que veio quando ela achou que não se conhecia mais e que acreditar na felicidade estava sendo seu maior erro. Mas ainda assim era o suficiente para ela perceber que errôneo era não ter tido paciência e mesmo que concordasse com Hoseok em não querer mais nada além do que já tinha, se atreveu a fazer um único pedido.
desejou para aquela estrela que ela pudesse continuar deixando acontecer, porque ela precisava que continuasse acontecendo e se tivesse que soltar o controle para isso, ela o faria e seguiria conforme tivesse de ser.
Desde que “fosse”.


Capítulo 7

Los Angeles, 2018.

A madrugada estadunidense estava fria, o inverno maltratando os desavisados que estavam desembarcando no aeroporto internacional em Los Angeles, vindo fosse de lá onde, assim como . Ela tinha pego o casaco mais grosso dentre todos que levou para o tempo que passou com Hoseok, porém o esqueceu em cima do sofá e teve que recorrer a algum que estivesse com acesso fácil na mala ainda no aeroporto em Seul – não que lá estivesse calor, mas a previsão do tempo online a deixou ciente de que nos Estados Unidos seria recebida com um frio absurdamente anormal. O resultado foi ela encolhida na cadeira, tentando se cobrir não só para não ser reconhecida, mas também para inibir o frio.
Fora uma viagem às pressas para retornar, em uma noite estava com Hoseok enrolados no cobertor mais grosso que ele tinha, na área externa coberta do espaço de lazer da cobertura dele, observando o céu estrelado e conversando sobre tudo, e dois dias depois estava em Los Angeles, após ser obrigada a retornar com urgência.
Na manhã seguinte desta noite incrível que teve com o namorado, ela viu que Pam tinha deixado inúmeras mensagens e ligações, desesperada para que a respondesse logo, pois as gravações do seu trabalho de retorno das férias haviam sido adiantadas por algumas questões de produção que ela não queria se importar muito. O dia então se passou com ela arrumando as malas e com o aperto no peito de ter que ir embora fora do tempo planejado; Hoseok não agiu como uma pessoa grudenta e a fez sentir como se fosse o fim do mundo, pelo contrário, apesar de estar triste também, a apoiou. Ele era assim, não importava se era algo que o desagradasse, se demandava apoio, então ele o daria.
Não demorou para que visse Pam andar em sua direção na sala de desembarque, totalmente esbaforida e preocupada, o trânsito estava chato pela neve e ela acabou se atrasando. não esperou que ela se aproximasse por completo para se levantar e apertar em seu ombro a alça da bolsa transversal que usava.
– Me desculpe! – Pam já dizia, gesticulando e a feição culpada.
– Pare de ser boba e me dê um abraço! – Ela respondeu abrindo um sorriso e os braços, recebendo a outra para se apertarem, com saudade.
– Ah, que saudade de você, ! Meus dias ficaram tão sem sentido com você do outro lado do mundo…
Mesmo que o assunto fosse sobre elas e como sentiram falta uma da outra, não pôde evitar a mistura de sentimentos e sensações. A saudade sendo deletada naquele momento estava dando holofote para a qual ela já estava criando: a de Hoseok. O abraço quente de Pam poderia não ser o mesmo que o do namorado, mas a fez lembrar-se de como era a sensação de tê-lo rodeando os braços pelo corpo dela, a apertando contra si e fazendo a barreira de proteção que sentia ser impenetrável. Os meses que passou com Hoseok na Coreia a deixaram acostumada a ter ele ali, mesmo sendo dentro dos termos que, embora não fossem tão agradáveis e justos, de uma forma ainda a permitiram aproveitar do tempo que tinham para estarem juntos.
Foi rápido, até porque ela se permitiu viver todos os dias da forma como a vida lhe ofereceu, dentro do universo dele; era totalmente corrido, o ver sair com hora, mas sem tempo certo para seu retorno. Dividiu muito com Mickey e se viu totalmente apegada ao cachorro. Olhando para algum ponto distante da sala, ela pressionou os olhos, apertando mais Pam, com a lembrança corrida em flashes de como foi sua estadia em Seul. Mesmo dentro de todo o cenário caótico insistente, tinha sido único e ela não mudaria nada, nem uma única vírgula sequer. Porque no fim, em todos os momentos difíceis, tinha a Hoseok para fazer ficar bem, e isso estava bastando.
Aprendeu ainda nova que a vida é generosa sim, mas sob os próprios termos.
Com os olhos fechados, em sua mente veio a despedida que teve com Hoseok. Sentiu o quente em seu coração com a lembrança do abraço apertado que ele a deu antes que saísse de seu apartamento – por critério de segurança, ela não o deixou que fosse levá-la para o aeroporto, não queria criar mais problemas, visto que não existia um mínimo interesse de sua equipe em manter o relacionamento deles seguro. O último olhar de Mickey, no colo de Hobi, enquanto ela entrava no elevador privativo e via as portas se fecharem, levando-a para longe, estava estampado na sua memória como uma mancha de vinho em uma camisa branca de seda.
Era tudo muito recente e mesmo que passasse o tempo que fosse, ela ainda sentiria aquilo lhe acertando como uma faca afiada no estômago, porque em seu íntimo algo lhe dizia friamente: foi o último sorriso, o último abraço, a última vez.
só não queria acreditar que seria assim, que teria encontrado a felicidade, lutado por ela, ainda que abatida muitas vezes, para simplesmente perder de uma hora para outra.
Se tratava de Hoseok, sua esperança. Então, por que ela sentia-se sem nenhuma?
– Ei… ? – Pam a afastou quando sentiu seu ombro molhado. – Você está chorando? – segurou nos dois ombros de , com ela a poucos centímetros afastada e olhos vermelhos. – O que está acontecendo?
– Eu… eu… por que eu to sentindo essa dor? – A resposta veio embargada. – Como se… como se vir embora para casa, pelo o quê eu amo fazer, fosse andar em uma ponte num mar que vai me engolir.
– Mas por que está se sentindo assim? O que aconteceu? Você e Hoseok terminaram? – disparou as perguntas, extremamente preocupada. Não era comum ver chorar daquela forma. – Alguém fez alguma coisa pra você?
– Não, Pammie! O Hobi… Ele… – soluçou, limpando o rosto logo, receando que alguém estivesse com alguma câmera perto e registrasse aquilo. – Ele fez tudo. É isso. Porque ele fez tudo, ele me deu tudo e eu não quero perder nada disso. Eu não…
– Ah, meu bem…
Pam a puxou de volta para o abraço e se sentiu extremamente preocupada. não teve muitos relacionamentos em sua vida, principalmente pela perda de sua mãe; sempre teve problemas em confiar nas pessoas que apareciam, devido a ausência da pessoa que mais a passava conforto, e com isso a assessora, empresária e agente pessoal, acabou por se tornar também a fortaleza de . Se preocupava com a mais nova, não só por causa de seu trabalho e do que isso poderia afetar nela, mas pelo conjunto todo. Abdicar de sua vida para cuidar de por inteiro, fora uma escolha tomada consciente, movida por seu sentimento de mãe que tinha com ela.
Portanto, se estava abalada daquela forma, com medo de perder a felicidade que ultimamente vinha lhe dando impulsos naquela altura de sua vida – e que Pam julgava como necessária, além de agradecer pelo aparecimento da fonte, já que por muitos anos tentou que seguisse mesmo cem por cento em frente –, ela se sentiria mal e incapaz. Queria protegê-la a todo custo.
– Escuta… – afastou novamente, a segurando pelo queixo e sorrindo leviana. – Eu sei que não tenho a noção real do tamanho do que sente por Hoseok e nem do que ele sente por você. A gente nunca sabe o dia seguinte, … Mas se tem uma coisa que eu tenho certeza, é da felicidade – passou o polegar no rosto molhado dela, tentando limpar as lágrimas. – Ela existe para ser vivida sem projetar o futuro. E o medo, ele sim deve ser medido e… esquecido.
– Mas e se… Pam, e se não conseguirmos continuar daqui pra frente com a minha agenda cheia, a dele e… esse mundo de distância não só física, mas…
– Ei! Você o ama, sim? – assentiu. Mesmo que ela não tenha completado a fala, Pam entendeu o que queria dizer. – Então não importa o que uma adolescente na internet diz. Nem mesmo o que a cultura distinta de vocês planta. Você o respeita e ele respeita você. Isso basta.
O silêncio entre as duas durou alguns segundos, enquanto isso, esfregava o rosto para limpar as bochechas molhadas, com o punho de suas mangas. Pam a observava.
– Está mais calma?
– Sim… – sorriu fraco, respirando fundo. – Acho que é o cansaço da viagem também – comprimiu os lábios puxando a alça da sua mala de rodinha pequena.
– Pode ser. Me desculpe por não ter conseguido a liberação do seu jatinho. De última hora tudo fica mais complicado.
Ela apenas assentiu de volta para Pam, com o sorriso fechado nos lábios.
Pam tomou o carrinho de bagagens e o empurrou em direção ao caminho que fariam; em silêncio seguiram para o estacionamento e não sabia mais como e a quê ou quem agradecer por estar tudo vazio e sem uma sombra de paparazzi sequer. Ainda não tinha sido comentado na mídia o adiantamento das gravações do novo filme em que atuaria, então para todo caso, estava em Seul passando seu período de férias com o namorado.
Ajudou Pam a colocar as bagagens no porta-malas e entrou em seu lugar de acompanhante, não demorando a ter companhia e a outra dar partida no veículo, seguindo pelas ruas tranquilas de L.A. No som tocava uma nova música que estava em alta no mercado e Pam tamborilava os dedos no volante, enquanto ela olhava para o movimento do lado de fora. O coração de deu um pulo e errou mais batidas do que o comum ao sentir o celular vibrar em sua mão.
Era Hoseok respondendo às suas mensagens avisando que havia pousado.

Jayjay ♥
online

Eu consegui parar agora e vi sua mensagem…

Como foi a viagem? Já está com Pam?

Me avise quando chegar em sua casa!

Te amo e já estou com saudade.

Estamos, porque o Mickey também entra nessa contagem :)



– Não vai responder?
Se assustou com a pergunta de Pam e a encarou, virando apenas o rosto.
– Quando eu chegar em casa, antes de dormir, ligo para ele – respondeu suspirando e bloqueando o celular.
Para que o silêncio não se fixasse, Pam decidiu ocupar a mente dela com algo que tanto amava: seu trabalho.
– Descanse bastante, ok? – iniciou, também prestando atenção no caminho. – Amanhã você ainda tem o dia de folga, pode se curar desse cansaço todo da viagem. No dia seguinte tem a reunião com a produção do filme… Só não sei ainda se irão passar roteiro, o que vai ser…
– Estranho não fazerem tudo direto em Nova York.
– Pois é! Estava falando com a assessora do Santoro, inclusive, ele chegou ontem… Ela me disse que também tentaram entender o porquê da reunião em Los Angeles e depois a viagem para Nova York. Se querem aproveitar o clima de lá, deveriam fazer todo o primeiro encontro lá. – Pam parou no cruzamento, virando o rosto para .
– Então significa que vamos começar a gravar pela metade do filme? – a encarou confusa e cruzando os braços.
– Sim. Por causa do clima, além da temperatura e a neve, querem aproveitar a estética natalina – riu fraco imaginando o enredo todo do filme, que em sua grande parte era de cenas com contexto mentiroso para seu fim. – Você viu o roteiro?
– Aproveitei o tempo que tive para ler.
Pam continuou a encarando, mesmo que o sinal estivesse verde.
– Você tem certeza? Digo… É um drama. Pesado.
– Sim. – assentiu. – O sinal abriu…
O carro voltou a se movimentar e Pam não conseguiu parar de pensar no que iria atuar. Ela, por outro lado, estava ansiosa. Seria seu segundo filme com aposta para grandes festivais e até mesmo para a tão falada Academia, mais conhecido como Oscar. E era um drama muito intenso, com história sensível e retratos com base em história real. Muito se falava em como iria se desempenhar; porque mesmo seu talento para atuação sendo de conhecimento mundial, ainda era uma aposta e um novo desafio.
Ela não se importava com o grau de intensidade, estava preocupada com seu desempenho ao interpretar uma garota de programa com 17 anos, cheia de problemas. Queria passar o melhor de si para o personagem e absorver o que Georgia Pringsley tinha para lhe oferecer de aprendizado, afinal, acreditava que todo personagem não era apenas um personagem.
, eu sei que você é extremamente profissional e que quer acrescentar mais à sua carreira, esse trabalho vai ser imenso para isso… Mas tem coisas que…
– Pam – a cortou, virando-se com parte do tronco. –, eu entendo e compreendo sua preocupação. Sei que agora eu tenho um outro lado do mundo que me olha diferente – fez uma careta. – Só que eu não posso parar minha vida e mudar nada dela porque vão julgar meu trabalho por conta do meu namadorado ser um asiático. Eu não me importo e não quero ter que me importar com isso. Georgia é a Georgia, uma personagem de ficção dramática, enquanto eu sou . Ela é a garota de programa problemática e eu sou a artista. São duas coisas diferentes e se o mundo não pode compreender a arte, então pra que existir?
Nada mais foi dito, Pam apenas assentiu e continuou sua concentração. O silêncio entre elas durou até o carro passar pelos portões e ser estacionado à frente da mansão de , no retorno do chafariz, de estética tão comum dentro do luxo que existe nas residências milionárias de Los Angeles.
Quando Pam estava tirando as malas para fora, parou ao seu lado, tocando em seu braço.
– Eu entendo sua preocupação e estou bem. Vou ficar bem, tenho a você, Jordan… Porra, como estou com saudade desse ridículo! – riu fraco para descontrair um pouco. – E tenho Hoseok também. Além de muitas pessoas que torcem por mim e sou grata por todos. É um trabalho como todos os outros, então, vamos focar no resultado positivo enquanto a gente mantém os pés no chão, por favor?
A outra manteve seu olhar fixo nela, torcendo os lábios, até deixar o sorriso escapar.
– Maryl Streep, huh? – disse arrancando um sorriso frouxo de . – Rodrigo Santoro… Quem mais? Ah… Seu par romântico sendo Sam Claflin…
– Para, Pam!
– Mas você não quer pensar no resultado positivo? Olha esse elenco! Esse gostoso do Claflin, ! – alargou o sorriso, olhando-a maliciosa. – Eu li o roteiro e olha… – abanou-se com as próprias mãos. – Hoseok é muito ciumento?
gargalhava e deu uma pausa para respirar fundo, controlando-se.
– Eu estou mais preocupada com a Streep do que com macho! – confessou, seus olhos brilhavam. – Fala sério, Pam… No primeiro a gente bateu na trave do Oscar, indicação veio… Mas nesse… Ah…
A última mala foi colocada para fora e Pam bateu a porta, garantindo que estava fora. Juntou o máximo que pôde e foi com até a varanda, colocando-as ali.
– Mesmo que a trave aconteça de novo, seu trabalho vai ser bem recompensado pelo público – disse pegando a alça de duas.
– Sim! Eu penso neles também! – respondeu animada, ainda com o mesmo brilho no olhar que sempre encantava a outra.
– Imagina a bilheteria, todo mundo querendo ver sua atuação e sabendo que você está contracenando diretamente com sua ídola do cinema. Além de um brasileiro que é um puta de um ator… Será que o Santoro é casado?
– Muito bem casado, sua safada!
As duas gargalharam até a porta, que foi aberta e, para a surpresa de , revelou uma figura da qual ela há muito não via pessoalmente. Virou o rosto para Pam, diminuindo o sorriso automaticamente e confusa, vendo a outra comprimir os lábios e mimicar um pedido de desculpas. Então voltou a olhar para frente e respirou fundo antes de dizer:
– Pai? O que você está fazendo aqui?

Alô?
Não era a voz de Hoseok, mas já conhecia Yoongi muito bem para saber que tinha atendido o telefone do amigo não por intromissão, por, na verdade, assegurá-la de que ele estava fazendo algo naquele momento e que não poderia a atender. E tudo bem, apesar de não ser muito fã de intromissões, ela reconhecia as boas intenções e que nem sempre tudo era da forma como queria. Também deveria levar em consideração o horário, tinham dezesseis horas de diferença, ele a mais; se era três da manhã para ela, em Seul já estavam às sete horas da noite do outro dia.
Muita coisa se for calcular o tempo todo.
queria perguntar a Suga como ele estava, devido ao recente término com Maya, mas não sabia se deveria. Então decidiu por se manter coerente quanto ao pensamento sobre intromissão.
– Hey, Yoongi! – emitiu o tom mais animado que conseguia para camuflar o cansaço, jogando as costas contra o colchão de sua cama.
Tomar banho a fez diminuir o ritmo em que estava e a essa altura, só pensava em quando iria poder dormir logo, o quanto antes fosse possível.
Tudo bem, ? – Ele a respondeu educadamente e agradeceu pela boa prática de seu coreano, que já estava chegando no nível de entendimento automático. Yoongi tinha um belo de um sotaque carregado.
– Estou bem e você, Suga?
Ele puxou o ar do outro lado da forma como fazia e pôde perceber que, apesar de Hoseok tanto lhe detalhar que o amigo tinha dificuldades em expressar os sentimentos e até mesmo disposição para isso, ele gostaria de saber por onde começar e soltar o que estava preso dentro de si.
queria poder ajudá-lo, mas no momento nem mesmo ela sabia se estava tão bem para isso, seus receios estavam tirando o melhor de si naquela ocasião.
Tudo certo… Erm… Hobi está no banho, chegamos agora de uma gravação, eu posso dizer a ele para te ligar, mas não está muito tarde e a ligação internacional não vai ficar muito cara? Como foi a viagem? – Suga logo disparou, mudando seu tom pesado para outro um pouco mais leve e distraído.
– Não, está tudo bem… Eu ainda preciso comer alguma coisa antes de descansar, então eu espero ele me retornar. A viagem foi bem, tudo certo e nenhum problema
Muito cansativo, não é?
– Nossa, sim! – riu anasalado, rolando na cama. Estranhou o modo como ele puxou assunto, mas não reclamou. – E por aí acredito que também.
Sim, daqui alguns dias pegamos folga para descansar um pouco antes da viagem para sua terra.
– Ah, verdade! Ansiosos?
Bastante, se apresentar para receber o novo ano… Uau! – Yoongi riu fraco, parecendo deslumbrado. – Nossa meta é a Times Square na virada de 2020!
sorriu olhando para a passadeira felpuda no chão, na lateral de sua cama, estava deitada de bruços e os fios de cabelo molhados batiam em seus ombros nus, pois usava apenas um baby doll com alcinhas finas e de seda. Se teve uma coisa que ela pôde aprender com o tempo em que esteve vivendo ao redor do BTS, esta era: não existia uma meta do qual eles não alcançassem.
– Bem, se tem uma coisa que esse ano que passei conhecendo mais de vocês me ensinou, foi acreditar que meta dada é meta cumprida, portanto: estarei lá na primeira fila do show na Times Square… – deu seu tom de incentivo, ouvindo a risada fraca de Yoongi do outro lado.
No fundo da ligação, durante os poucos segundos que isso ocorreu após a fala de , pôde ser ouvida a voz de Jin avisando que no celular de Yoongi em cima do balcão o nome de Maya brilhava. Ela ouviu o respirar fundo dele e, antes que Suga pudesse se despedir, já foi direta:
– Pode ir lá, eu ligo depois para o Hobi. Obrigada, Suga… Se cuida.
Até mais, … Se cuida também, nos vemos em dezembro! – Ele se despediu, desligando a chamada.
novamente rolou na cama, ficando com as costas deitada no colchão. Olhava para o teto com somente a ideia de que, se tivesse entendido certo, entre Maya, Jin e Yoongi já estava tudo resolvido; ela queria que estivesse, torcia para que o casal finalmente pudesse se entender e que um não precisasse desistir do outro, fazer escolhas, assim como espelhava esse desejo sobre si.
Ela sabia muito bem que não tinha apoio nenhum fora da bolha de amizade, família e algumas pessoas mais próximas, para que sua relação com Hoseok desse certo e fosse saudável. Todos os dias pensava e se culpava por ter sido tão ingênua, parecendo uma amadora, em expor ao namoro da forma como fez. Acreditava saber o que estava fazendo, mas na verdade se encontrava cega. O resultado era esse: sua impulsividade em viver a intensidade das coisas sem filtragem a guiando por aquele medo.
Queria estar na cama com Hoseok, sendo abraçada por ele, ouvindo um pouco de como foi o dia de trabalho e contar sobre novas gírias que havia aprendido, detalhes sobre a cultura asiática e até mesmo um novo bairro que via pelo Google Maps – já que agora sabia ler as coordenadas e nomes. Se sentia mais firme ao lado dele, protegida e amparada, como se fosse uma sustentação para manter-se.
Mas em um determinado momento da viagem de sua mente, lembrou-se que estava em Los Angeles, na sua casa, com seu pai lhe esperando na sala para comerem alguma comida que ele havia feito e dividirem o tempo conversando.
Pam tinha feito isso de propósito, ela sabia e, entretanto, não se estressaria. Para o senhor sair da Flórida e seguir seu rumo até a Califórnia, algum motivo tinha. Talvez fosse mais uma bomba que ela deveria se acostumar a lidar, porque com sua mãe foi assim: do nada adoeceu e do nada se foi; então, a contragosto, ela vestiu o robe em cima do baby doll e saiu do quarto, descendo a escadaria e indo para a sala de jantar, bem em ponto de encontrar o pai arrumando a mesa.
– Achei que tinha dormido sem se alimentar. – Ele disse a encarando surpreso.
– Pois é, aparentemente estou com mais fome do que cansaço.
– Bem, então sente-se, vou trazer seu sanduíche – apontou para a cadeira na frente dela, antes de se virar e sumir pela passagem que dava para a cozinha.
Ela se sentou, tamborilando os dedos na mesa e encarando o celular que havia colocado ali, em sua frente. Estava tão ansiosa para ver o visor iluminar-se, que quando isso aconteceu, ela teve um tempo de seu cérebro offline, pensando se pegava o aparelho ou se ficava olhando. Era uma mensagem atrás da outra, bem típico de Hoseok e seu sorriso foi se abrindo conforme lia o conteúdo pelas notificações.
Quando não conseguia mais ler, pela quantia, desbloqueou a tela.

Jayjay ♥
online

Desculpa, eu acabei de sair do banhooooo

Me perdoe por dizer isso, mas espero que já esteja dormindo! Está muito tarde e você fez uma viagem cansativa…

Queria te ligar, mas estou sem voz

Não sei o que aconteceu, mas terminei a gravação hoje completamente rouco e foi só piorando

MAS ESTOU BEM

Amanhã já estarei melhor!

Porém com mais saudade do que estou sentindo :(

Não vejo a hora de ir para aí e te encontrar em Nova York, quero um dia pra passar no set com você e vou arrumar isso nem que seja subornando cada um daqui

Você já me viu muitas vezes nos bastidores aqui, agora é minha vez!

Amanhã eu te ligo assim que acordar, o relógio está para despertar às 5 horas da manhã daqui, acho que vai ser 1 hora da tarde aí, certo?

Vou te ligar, nem que tenhamos que fazer mimica :)

Se cuida, meu amor. Amo você!



– Está falando com o namorado?
Seu pai entrou novamente na sala de jantar, cortando sua atenção. Eliott trazia uma bandeja com dois copos e pratos de sanduíches, equilibrando-se para não derrubar, porque na outra mão tinha a jarra de suco. Observou ele organizar o que faltava na mesa e se sentar na cadeira da ponta, parecendo animado e à vontade.
– Sim. Na verdade ele está me mandando mensagem – sorriu colocando o celular para o lado. – Eu liguei e Hoseok estava no banho.
– Qual diferença de fuso? – Ele perguntou demonstrando real interesse.
– Menos dezesseis horas. Pra nós.
– Ah, é bastante. Um dia útil praticamente. – Eliott abocanhou o próprio lanche, mastigando tranquilamente.
– Sim.
Sua mente vagou pela confusão. Não tinha uma relação irreal com o pai, mas também não eram duas pessoas extremamente próximas, que mantinham contato regular e visitas para trocarem informações sobre novidades um da vida do outro no chá da tarde. A relação deles era mais distante do que a distância que separava Los Angeles e Seul. Então estava tentando compreender a visita repentina.
Com certeza tinha algum dedo de Pam nisso, mas ela saberia depois, quando pudessem conversar com calma. Nunca negaria ver seu pai, mas ela só gostaria de ser avisada sobre isso antes – era uma situação que necessitava de certo preparo e devido ao cenário do seu cansaço e preocupação atual, aguentar Eliott e suas tentativas sem tato, era complicado.
– Está ansiosa para o início das gravações? – Novamente ele deu seu tom de puxador de conversa e se manteve em seu mesmo estado.
Apesar do cenário em que viviam, ela ainda o amava e respeitava muito, seu pai não tinha obrigação em estar ali do jeito que ela queria, e ele respeitar as escolhas que fazia já estava suficiente dentro de sua concepção. O apoio que faltava poderia ressignificar com outras pessoas.
– Um pouco – respondeu depois de mastigar o último pedaço mordido, deixando o restante do sanduíche no prato.
Eliott olhou o gesto atento e, limpando a boca, tocou no rumo do qual já esperava. Sua alimentação.
– Você precisa se alimentar bem. Está fazendo isso? – abriu os braços na mesa, a encarando. – Vai ter uma maratona de trabalho a partir de agora, porque você também estará envolvida na trilha sonora.
– Eu sei o que irei fazer, pai. – Ela murmurou sem olhá-lo.
– Sei que você sabe, mas tem colocado os cuidados em prática? – Eliott insistiu. – Você mal comeu o lanche e as batatas. Não encostou no suco. O que está acontecendo?
– Está acontecendo que estou cansada demais para comer tudo, Eliott. – Se virou para ele, sustentando o olhar. – O meu voo teve mais escalas do que o normal e turbulências, com um pouso de emergência em Madri. Estou com fome, mas sem forças. Sem forças para comer ou ouvir coisas que não preciso ouvir!
Não soube de qual canto dentro de si havia saído tal tom e palavras, sabia que ali carregava um peso mais além do que estava em pauta na conversa. Eliott poderia estar mesmo apenas preocupado, mas ela não pôde esconder as pedras da autodefesa, mesmo que soasse desnecessário
– Me desculpe…
– Seja honesto, por que está aqui? – não o deixou continuar nas desculpas, passou a mão no rosto esperando a resposta para sua pergunta.
– Eu estive preocupado com você.
– E por que não me ligou? Tem dinheiro suficiente para custear uma ligação internacional, Eliott – estreitou o olhar.
Seu pai bufou frustrado.
– Eu estava mesmo preocupado, mas não queria invadir seu espaço pessoal. – Suas palavras saíram em um volume mais baixo. – Tenho conhecimento que desde o falecimento de sua mãe não fui um bom amigo, um bom companheiro e que perdi direitos, mas não deixei de ser seu pai e me preocupar.
– Normalmente quando as pessoas se preocupam umas com as outras, elas ligam, mandam mensagem… Se comunicam de alguma forma. – olhou para o próprio celular em reflexo. – Eu moro no mesmo país que você e se for tirar os meses que passei em Seul, ainda tive mais conversa com pessoas que moram do outro lado do mundo do que com você num período de pouco mais de seis meses.
Não havia o que ser dito. Mas ele queria continuar tentando, então decidiu ir por um caminho mais certo.
– Esse rapaz… Hosul-
– Hoseok.
– Isso! – Eliott riu do próprio erro. – O Hoseok, ele te faz bem, sim?
ergueu o olhar, encontrando a íris dele. Seu pai também estava com medo, ela viu e sentiu, porque o corpo dele dizia. A tensão que carregava era palpável e por um momento se sentiu mal por ter sido arisca, quando ele só estava perdido em como tentar se aproximar. Claro que ela sabia, o uso de Hoseok era uma cartada de mestre de qualquer um, mas isso demonstrava que estava tentando, pelo menos.
Quis acreditar nisso.
Apenas assentiu em resposta, unindo as mãos, com uma entrelaçada à outra.
– Você conheceu a família dele?
– É um interrogatório? Vai me pedir a identificação dele também? – riu achando graça, por incrível que pudesse soar.
– É, meio sem sentido essas perguntas mesmo… – Eliott riu também.
– Mas sim, eu conheci a mãe dele. Ela foi incrível e receptiva comigo.
– Diferente do restante do continente, não é mesmo? – encarou o pai, cética. – Eu acompanhei as notícias e redes sociais, . Muita gente comentou o seu sumiço e se não fosse por Pam, eu teria pego sim um voo para ir atrás de você.
– Obviamente você foi somente atrás de Pam, tudo pelo modo mais fácil, não é? – Novamente ela retornou ao tom acusatório, rindo anasalado.
– Escuta, eu não espero que você acredite em mim quando digo que tenho sim os mesmos sentimentos de pai por você, embora vivamos separados por completo. Foi a sua escolha, , junto com sua mãe e sua família respeita isso. Mas nós não queremos esse holofote todo e-
– Não precisa! – O cortou. – Não precisa desse discurso, pai. Me desculpa se estou sendo injusta ou grosseira… Quer um diálogo? Então não falemos sobre o que já foi decidido há tempos e não tem como ser apagado. É o meu modo de vida, vocês não aceitam e tudo bem.
Ela se levantou indo com o próprio prato para a cozinha. Sentia o cansaço começar a consumir sua mente e aquele bolo de situações se misturando; por que diabos era tudo sobre decisões?
O que o mundo tinha contra tomada de decisões que não agradavam a grande maioria?
Estava cansada disso, exausta, só queria poder viver sua felicidade em uma caixa preta, para que não fosse roubada, apagada e muito menos danificada de qualquer forma. Dentro daquele avião sem parada e há metros de distância do chão que sua vida se encontrava naquele momento, se pudesse, colocaria dentro da caixa mais protegida a felicidade que vivia com Hoseok. Mesmo que ele estivesse em Seul ou fosse em outro planeta, não soltaria do bem que ele a fazia.
– Me desculpe, . Não… não vim aqui para te ditar o que fazer ou como ser. – Eliott apareceu na cozinha quando ela estava parada com os braços apoiando seu corpo na ilha do centro. – Eu fico feliz que tenha encontrado alguém e que ele te faça bem, se um dia quiser e puder, quero conhecê-lo. Sei que você se tornou uma mulher incrível e sua carreira é tanto quanto, como um reflexo de quem é… Mas eu não posso ser cego e não te dizer que estou preocupado. Então, por favor, se cuide. A vida é justa sim, ela nunca disse que seria, mas dentro dos próprios termos. Nós é quem temos que nos adaptar com o que ganhamos – conforme dizia, se aproximava, e quando terminou deixou um beijo na têmpora direita da filha, pelo lado que se aproximou. – Durma bem, estarei aqui até amanhã a noite. Qualquer coisa que precisar, pode me chamar.
O senso da vida, era com o próprio pai que aprendeu sobre a parte justa de como tudo deveria ser. Irônico, ou talvez não.

Dezembro sempre foi conhecido como um mês agraciado por muitos, o clima de fim de ano com a chegada do Natal e a virada de um dígito para outro no calendário pode deixar as pessoas animadas. Para muitos, a magia natalina e as festas de réveillon são as melhores épocas de todas as doze passagens. Entretanto, tinha sempre a agenda cheia nessa época, no ano de 2017 estava trabalhando com música, em 2016 era um filme, 2015 ela já nem se lembrava mais, e agora em 2018 estava novamente gastando seus dias em set de filmagens, mal conseguindo ver o dia mudar para noite.
Por sorte Hoseok havia chegado nos Estados Unidos a cerca de uma semana e por azar, as agendas não estavam batendo. Contudo, não precisavam mais ficar se desgastando em horários diferentes para manterem o contato, e vinham lidando muito bem com isso, por incrível que pudesse parecer.
Já estavam na segunda quinzena de dezembro, alguns problemas nas gravações do longa em que estava trabalhando obrigaram a equipe toda a ficar mais tempo em Nova York – sequer ousou reclamar; pela agenda normal, no dia 15 já estaria retornando para o estúdio em Los Angeles, com isso, teria a chance de pelo menos passar a virada de ano com Hoseok, se não fosse assim, iria vê-lo apenas em janeiro de 2019. Para o casal que passou um bom tempo dividindo o dia-a-dia, a nova rotina estava sendo tortuosa, embora o trabalho pesado servisse como distração para a falta que faziam um para o outro.
Se para Hoseok as ideias confusas e desesperadoras quanto à saúde da relação estavam cessando, uma vez que em prática ele notou como ambos vinham conseguindo administrar tudo aquilo, para não era mais a mesma coisa.
Foi como se tivessem trocado os papéis na insegurança.
Começou com a conversa que teve com seu pai quando chegou, algo sem sentido, carregado de sua mágoa acionada pelo cansaço em que estava. Ao se ver sozinha na enorme mansão, pouco depois dele ir embora, tirou o tempo para refletir mais quanto sua relação com a família; se um dia tinha tido vontade de trazê-los para mais perto, não se lembrava, mas conforme foi pensando em como estava sendo bom viver feliz e em paz com Hobi, imaginou que seria também importante reviver esse caminho e tentar mais uma vez. Provar da felicidade trouxe aquela fagulha de esperança da qual ela não estava querendo desgarrar, sua vida tinha Hoseok como um marcador e antes do aparecimento dele, não existia para que somente aparecesse.
A visita de Eliott, de certo modo, a fez bem, contudo, na segunda madrugada de volta para sua casa, as coisas desandaram. Finalmente o roteiro e alguns outros detalhes sobre seu novo trabalho cinematográfico foram soltos na mídia, alguns sites de fofoca enfatizaram somente a preocupação pelo grau sensível do qual se tratava o filme, demonstrando interesse na saúde psicológica de . Pringsley, a personagem que interpretaria, tentaria suicídio após o falecimento da mãe e isso era preocupante para quem conhecia e soube interpretar bem Dear Helena. Se fosse só isso, para ela estava tudo bem.
Mas as coisas nunca podem deixar de piorar.
A mídia de mais influência europeia soltou o primeiro ponto com ênfase: “ , agora namorada de idol coreano, irá interpretar garota de programa em novo longa. Saiba quem foi Georgia Pringsley e porquê o filme já possui censura em países asiáticos”. Existiram muitas manchetes, principalmente com as cenas gravadas e suas imagens que foram saindo; falavam da roupa, do corpo totalmente à mostra, a perda de peso que precisou ter para se enquadrar mais no personagem – e neste ponto até foram mais incisivos, alguns lugares como na Coreia e Japão se falava que ela parecia melhor assim –, sem esquecerem dos cigarros que ela tinha que fumar, entre tantas outras coisas.
Georgia era problemática, ela tinha uma história pesada, mas não.
E o efeito dominó a cercou friamente no período de quinze dias. Em determinado momento, não queria mais se alimentar, se o corpo dela estava melhor daquele jeito, dentro do padrão que Hoseok fora criado para apreciar, então tudo bem. Também não era mais possível vê-la tão ativa nas redes sociais como normalmente era, seus fãs começaram a se preocupar e muitas mensagens na internet surgiram, eles ainda não tinham lidado muito bem com a falta do “ pelo mundo”, que era como ela espalhava sempre suas fotos dentro do período de férias.
Mas sequer tinha conteúdo de suas férias para postar, não pôde passear pela beleza coreana.
Estava sentando-se à mesa da primeira conferência de imprensa em que iriam falar mais sobre o filme, passar conteúdos que já estavam prontos – era um marketing pesado para o longa, o estúdio responsável queria muito colher frutos do impacto de sua produção –, quando viu o celular desligar e respirou fundo, frustrada. Hoseok tinha lhe pedido para reservar dez minutos depois de sua conferência para uma chamada, ele fora completamente urgente quanto precisar tratar de um assunto com ela.
O frio na espinha de gritava somente uma palavra: “contrato”. Estava tão cansada disso que se fosse necessário, ela assinaria de vez.
Ergueu o olhar para Pam quando todos estavam acomodados, sua agente estava encostada na parede, ali no auditório, a postos para qualquer coisa. Conferências eram um porre, em algum momento ou outro surgiriam perguntas descabidas sobre a vida pessoal dela ou de qualquer um dos outros atores.
– Olá a todos. Eu sou Joseph Kahn, diretor do longa “Pringlsey”. Sejam bem-vindos, podemos dar início à nossa conferência.
sorriu, assumindo sua postura profissional diante dos flashes e diversos jornalistas.
– Se apresentem… – Joseph disse com humor. – Não sejam tímidos.
– Bom dia! – Rodrigo foi o primeiro a pegar o microfone, sendo simpático, na mesma hora que também tomou o seu em cima da bancada. – Opa, primeiro as damas…
– Ah, Rodrigo! – Ela riu franzindo o cenho, olhando dele, que estava à sua esquerda sentado depois de Claflin, para a frente. – Olá pessoal, eu sou-
! – Um jornalista de óculos preto logo se levantou, com a mão erguida e olhando em seu celular.
– Sim? – olhou para os colegas, estranhando a forma como foi interrompida. Se tivesse olhado para frente, teria visto Pam se preocupar.
– Robert Stain, do E! Entertainment. É verdade que você e o J-Hope do BTS terminaram o relacionamento? – perguntou finalmente erguendo o rosto para ela. – Contracenar com Sam Claflin teve alguma coisa a ver com isso?
– O que? – movimentou a cabeça, confusa, sem entender e olhando de um lado para o outro, também não sabendo para qual direção encarar. – Não! – respondeu indignada.
– Então por que soltaram uma nota dizendo que vocês não estão mais juntos? – Uma outra jornalista se levantou, também com um aparelho em mãos.
Enquanto se sentiu atingida por uma bomba, sentindo seu coração parado na garganta e confusa, todos os jornalistas começaram a falar ao mesmo tempo e também verificar seus celulares, um passando para o outro em que lugar poderia ver aquilo. O barulho das vozes se misturando a deu ânsia e tudo estava extremamente confuso.
? – Olhou para seu lado direito e viu Maryl tocando em seu ombro, mas antes que pudesse a responder, Pam já estava atrás de si.
, venha…
Segurou na mão da agente, sendo amparada por Sam para sair de sua cadeira, em um rumo direto para os bastidores, mas sem antes ser coberta de flashes e jornalistas que queriam uma resposta dela.
até diria algo, se ao menos soubesse o que diabos estava acontecendo.


Capítulo 8

Tóquio, 2018.

Estava um dia ensolarado e, apesar da temperatura extremamente alta pelo início do verão, Tóquio ainda era uma cidade agradável. se lembrava com muito carinho de todas as vezes que esteve na capital japonesa, sendo a sua primeira vez, um período em que estava de férias ainda na adolescência, a mais marcante das suas viagens até então – e ela adorava viajar, não era a toa que seus fãs já tinham um apreço enorme por seus vlogs de férias. Com certeza iria escolher uma nova colocação para tal época, porque na atual situação de sua vida, as férias de 2018 estavam sendo mais interessantes e diferentes. Ela estava acompanhada.
E não era uma companhia comum, como se fosse com Pam ou Jordan, apesar de serem ótimas pessoas com quem gostava de passar tempo, mas é que ainda não estava acostumada em ter Hoseok ao seu lado. Não tinham assumido alguma coisa, porém, havia todo aquele ar romântico, cheio de carinho, carícias, momentos que para ela se tornavam marcantes a cada segundo.
não sabia o que era dividir sua rotina com outra pessoa sem ser sua agente ou o melhor amigo dançarino. Nem mesmo com a família tinha o costume.
Hoseok tinha entrado em sua vida há menos de um ano e mudado tanto, ela agora sabia sorrir sem ser por consequência do que sua vida profissional agregava para a pessoal e ele era o motivo. Não sozinho, mas o combo completo que vinha com quem Jung Hoseok era fez com que a desesperançosa , ou , sentisse que uma mínima fagulha fosse capaz de reacender muito dentro de si. O muito que ela perdeu quando sua mãe se foi e viu-se sozinha. Por mais que Pam e Jordan fossem pessoas fundamentais em sua vida, ainda assim não eram Helena.
– O que você tanto pensa?
Olhou para trás, vendo Yoongi parado. Ele tinha em mãos um pote com algum doce que ela não soube identificar, então apenas sorriu, mesmo que sua máscara cobrisse boa parte do rosto e ainda tivesse a boina preta para completar a tentativa de acobertar sua presença ali nos Jardins do Palácio Imperial. Voltou a encarar o lago em sua frente, apoiada no muro de pedra que ia até a altura abaixo de seu peito, enquanto o amigo de Hoseok – e agora uma pessoa com quem ela também estava fazendo amizade – deu os curtos passos parando ao seu lado. Yoongi esticou os braços por cima da mureta, continuando a saborear o doce.
– Quer? – Ele ofereceu o doce e negou, havia comido tanto nas barraquinhas que passaram em locais que ela não conseguiria dizer quais eram, que se comesse mais alguma coisa, passaria mal. E ela não queria estragar o passeio, até mesmo porque tinham conseguido tirar Yoongi da cama a muito custo. – Aconteceu alguma coisa? – insistiu, olhando para frente, a imensidão do jardim coberto pela natureza bem cuidada e respeitada.
– Não, por que? – perguntou, olhando-o de soslaio. Estava há muito tempo parada ali, ela já sabia, olhando para o pequeno saquinho preto que tinha em mãos, sendo protegido por conta de seu instinto.
Não queria perder o colar que sua mãe havia lhe dado ainda criança, logo quando sua carreira começou. Sentia que aquilo tinha uma pessoa a quem receber e estava esperando o momento certo para entregar.
– Você está há um tempo aqui e quieta, olhando para esse saquinho. – Yoongi a respondeu, olhando para o objeto na mão de . – É algo especial?
– É sim. – Ela sorriu, erguendo o rosto para encarar o lago novamente. – Minha mãe me deu quando a carreira ficou mais séria – tirou delicadamente o colar com um pingente delicado de avião de papel de dentro do saquinho, tendo atenção de Yoongi na joia. – Eu tinha muito medo de voar, cruzar o mundo para tudo o que tinha que fazer, então ela me convenceu de que era um colar da sorte.
– Até quando acreditou nisso?
– Ainda acredito – riu fraco, voltando o objeto para sua proteção. – Em todos os lugares que vou ou estou, isso está comigo. É meu amuleto de sorte.
– Interessante. – Ele assentiu, parecendo pensativo. vinha aprendendo algumas coisas sobre os amigos de Hoseok e sobre Yoongi ela soube entender que ele era um bom ouvinte, tanto que todos os seus posicionamentos eram sempre transparentes e pontuais. Então aguardou ele terminar de mastigar, pois sentiu que iria dizer algo mais. E assim ele o fez: – Não é legal como todo mundo tem algo no que acreditar? – virou o corpo, se apoiando de lado na mureta e a encarando.
– Sim. – refletiu. – E você, acredita em alguma coisa?
– Não acreditar – deu de ombros, abaixando a máscara. Apesar de estar um tanto vazio o ponto turístico, tinha receios, mas não quis dizer algo, Yoongi era adulto e sabia muito bem o que estava fazendo. E talvez o boné fosse um apetrecho bom o suficiente para que ele não fosse reconhecido.
– Você é sempre cético? – virou apenas o rosto para ele.
– Não chamo isso de ceticismo. Quando acredito em algo, crio expectativas quanto àquilo e expectativas são promessas que criamos para nós mesmos sem o consentimento do outro.
– Entendo… Do lugar que eu venho chamamos isso de pé no chão ou coração de pelo.
Yoongi ficou quieto por um tempo, poucos segundos, na verdade. Voltou a máscara para o rosto ao ver que Hoseok e Taehyung se aproximavam novamente, alegres porque, muito provavelmente, o mais novo teria conseguido todas as fotos que queria tirar naquele lugar. Ficou feliz, de certo modo, somente Hobi teria paciência para aquilo.
– Seu coreano continua melhorando. Talvez eu peça o contato desse professor particular para me ensinar também – comentou com seriedade.
Por um momento achou que ele estava mesmo sendo sério, mas logo riu, reconhecendo o tom de humor camuflado.
E assim como o riso que saiu frouxo, seu coração se sentiu aconchegado ao ter Hoseok parando do seu lado e a abraçando pela cintura, deixando um beijo casto em sua bochecha.
, Hobi! Sentem ali naquele banco, quero uma foto de vocês dois, bem natural. – Taehyung disse em comando, apontando.
– Ali? – Hoseok se afastou de rapidamente, apontando para o lugar que Tae havia mencionado. – Quer? – perguntou para ela.
– Claro!
Os dois caminharam o espaço curto, com Taehyung comentando poses que poderiam fazer e que ele não se sentiria satisfeito com menos de dez fotos. Sua intenção era de fazê-los de modelo durante toda aquela viagem.
– O que você e Yoongi conversavam? – Hobi perguntou enquanto os dois se sentaram um de frente para o outro no banco. Era estreito, então não tiveram dificuldades em manter uma perna de cada lado e se aproximarem um pouco mais.
– Sobre isso aqui. – estendeu o pequeno saquinho para ele. Hoseok fez uma feição surpresa, com seus lábios quase formando um bico. – É pra você.
– Um presente? Eu gosto de presentes.
Ela o observou abrir a embalagem, animado e curioso, sorrindo abertamente ao tirar o colar dali de dentro. Sorria para ele da mesma forma que ele sorria pelo presente ganho, talvez até mais intensamente, porque estava emanando o que sentia por dentro até mesmo por todo o cenário em que estavam.
– É como um amuleto da sorte. – Ela iniciou. – O que nos separa é uma ponte aérea, mas apenas fisicamente.
– E enquanto eu estiver com esse avião de papel, posso me sentir fisicamente mais próximo?
– Sim. Mas eu iria dizer que a ponte aérea é tão simples quanto esse aviãozinho e mesmo assim é o nosso principal canal de encontro – encarou os olhos dele, ainda sorrindo e esperando por sua resposta.
– Eu quero o contato do seu professor de coreano.
gargalhou com ele e Hoseok com seu jeito expressivo, curvou o tronco para frente, encaixando o rosto no pescoço dela.
– Essa saiu melhor do que eu imaginava! – A voz de Taehyung saiu alta. – Quero ser creditado quando for postada em algum lugar.
Hoseok suspirou, ainda na mesma posição. Não seria possível essa foto ver qualquer luz, mas ele também não queria. A cada momento que passava ao lado de ele só pensava em mil maneiras de como proteger o que estavam construindo.

Nova York, 2018.

– Você vai criar um buraco no chão de tanto andar em círculos, hyung. – Jimin comentou em um tom mais neutro e preocupado, levantando o olhar da tela de seu celular para observar Hoseok, que andava de um lado para o outro ou em círculos ali no meio do hall do prédio em que estavam.
Hoseok parou os passos, virando-se para o mais novo e recebendo o olhar compreensivo dele. Quando abriu a boca para dizer algo, Jungkook rompeu o ambiente, com seu celular em mãos e um sorriso sincero nos lábios, animado.
– Eles acabaram de entrar na coletiva! – disse, se aproximando.
Logo depois dele foi Yoongi quem entrou, esbarrando em Hoseok, que se aproximou de JK para olhar a tela do celular. Ele fez o caminho até o bebedouro, tirando o celular do bolso e, enquanto enchia sua garrafinha, desbloqueou a tela. Seus olhos se arregalaram com as notificações, ao notar entre elas um comunicado oficial. Seu coração acelerou e ele encarou Hoseok, à distância, sorrindo ao ver a namorada pela imagem do celular de Jungkook.
Mas o sorriso não durou tanto tempo. Logo a voz alta e grossa do amigo ecoou no ambiente, tomando total atenção e mudando o clima.
– Mas o que é isso? – Hoseok parecia confuso e Yoongi o viu ofegar, tirando o próprio celular do bolso.
Em sequência, Taehyung e Jin entraram no ambiente, também atentos àquilo que estavam lendo em seus respectivos celulares. Jungkook e Jimin se encaravam incrédulos, dividindo a leitura. E Hoseok, com a mão que não segurava o celular, pressionava os dedos na testa; ergueu o olhar para ver Namjoon parado na porta, tão pálido quanto nunca.
– Me diz que você não sabia disso! – questionou o líder.
– Hobi… – Nam iniciou, soltando os braços, sem saber como reagir. O que era um tanto incomum.
– Me diz! – insistiu, a voz um pouco mais alta. – Não era para sair isso, eles disseram que iriam esperar eu conversar com ela! Que tipo de atitude amadora é essa? – completou totalmente desesperado.
– Não assim… Deve ter havido algum tipo de erro na programação. – O líder tentou explicar, começando a se aproximar.
– Eu te conheço, Namjoon. Essa sua frase tem um tom de “mas”. – Hoseok apontou para ele. Ainda usava o mesmo tom alto e grave, deixando os outros membros assustados e reclusos, principalmente os mais novos.
– Hobi…
Não tinha como Namjoon mentir ou tentar contornar, ele realmente não sabia que seria naquele momento, mas era de seu conhecimento que a ideia maluca de falarem para o público que Hoseok e não estavam mais juntos iria sair de qualquer forma, independente da conversa que o amigo tivesse com a namorada. Se tratava do que a empresa achava certo e não de coerências.
Pouco depois de ir embora, Hoseok foi chamado para uma outra conversa com Sohoo e Seijin. Novamente foram incisivos e claros sobre o desinteresse no relacionamento, ele não se lembrava de uma vez sequer ter ouvido tanto a palavra “popularidade” ser mencionada junto de seu nome repetidas vezes. Debateu a incoerência dos gerentes e a forma imatura como vinham tratando disso, mas teve que se controlar, não podia se exceder, ou sofreria punições por não estar na linha imposta. E no meio dessa loucura de pessoas controlando como deveria ser o seu relacionamento, Hoseok até chegou a rebater que se visavam a popularidade e o projeto da empresa era inserir mais o BTS no Ocidente, deveriam aproveitar o relacionamento.
Passou noites se culpando por tentar contornar tudo com essa solução, não seria capaz de usar de tal forma.
A segunda onda veio como um tsunami, porém. Ouvir de Sohoo e Seijin que a opção seria dar um fim no relacionamento dos dois, sob o argumento de que se realmente ela estava apaixonada por ele iria entender e aceitar os termos, envolvendo ponte aérea e uma agenda com absolutamente tudo regulado para estarem juntos. O fim seria público, com nota, com nenhum dos dois falando sobre isso em nenhum veículo, nada. E teria o ultimato para que assinasse de uma vez o monte de papel cheio de cláusulas beirando o absurdo. No princípio ele pareceu ter conseguido convencer de que pelo menos esperassem que conversasse com ela, para então tratarem disso da forma como queriam, como se o relacionamento dos dois fosse um projeto empresarial.
Entretanto, a nota solta naquele momento, afirmando para milhares de pessoas que os dois não estavam mais juntos e que tudo estava bem, fez com que Hoseok se sentisse não só traído, mas extremamente furioso. Ele iria falar com após o ensaio que fez e a coletiva dela, embora fosse contra seu conceito de tratar disso por telefone – era a opção que tinha.
Vendo que Namjoon não saberia como agir perante aquilo, e achando completamente extraordinário, Jimin pensou ser de bom tom tentar ajuda na situação.
– Namjoon, só fala logo. Não adianta ficar enrolando mais, já saiu e questionaram a durante a coletiva que mal tinha começado! – disse, entrando no meio dos dois.
Nam respirou fundo, olhando de um a um. Ao parar em Jin, sentiu os ombros pesarem; o mais velho estava com os braços cruzados e sua feição fechada, impaciente, com o tom de julgamento. Tudo o que ele menos gostava era isso: perder o controle da situação.
– Não, eu não sabia que fariam isso, como disse, deve ter sido algum erro… Porque… – Se aproximou do amigo, colocando a mão no ombro dele de forma casta. – Eu sinto muito, Hobi. Eles iriam fazer isso de uma forma ou de outra. Você sabe...
E ele sabia.
Se tinha uma coisa que Hoseok sabia era que sua vida não tinha o mínimo de paz possível ou necessária.
Afastou-se de Nam, fazendo com que a mão dele postada em seu ombro caísse bruscamente. O desânimo em seu rosto era evidente e a forma como se moveu para o sofá no canto do ambiente deixou todos preocupados; a linha de raciocínio era clara: estava tudo errado. Sua primeira opção foi o retrospecto mental de toda a relação desde o início, quando se conheceram nos ensaios de uma premiação, a primeira mensagem trocada por um aplicativo que ele não estava tão familiarizado – mas movido por tamanha motivação para manter o contato –, dentre tantas outras coisas que só o fez se apaixonar cada vez mais por . Parecia tão certo, mas observando como fora desenvolvido, agora ele enxergava tudo diferente.
O brilho no olhar que ela lhe lançava sempre quando estavam juntos era um combustível para que Hoseok se sentisse apto e no caminho certo; dentro da história de vida que tinha e que ela o contou, se sentia privilegiado por ter encontrado-a e se tornar um dos responsáveis por trazer de volta para ela o brilho, a pontada de esperança e, o mais importante, uma outra perspectiva do amor. Também não se tirando da fórmula, claro, porque era gratificante e extremamente precioso ele ter o mesmo privilégio e ser amado por ela. A via de mão dupla realmente existia, assim como no seu bordão: eram a esperança um do outro.
Porém, se fosse somente isso, as coisas estariam bem. Mas não era.
A linha de raciocínio não continha equívocos, só via erro em cima de tudo.
Apertou o celular contra o peito, sentado folgadamente e encarando o teto, antes de soltar um longo suspiro. Sentiu o estofado ao seu lado abaixar e o quente de outro corpo próximo do seu, quase encostando em seu ombro. Fechou os olhos brevemente, pressionando-os para conter a vontade de chorar. Estava um completo silêncio no lugar, não parecendo ter todo o grupo ali – em ocasiões normais, estaria puro caos.
– Você quer ouvir alguma coisa ou que eu fique quieto?
– Eu só quero paz, Suga – respondeu a Yoongi, baixo e derrotado, abrindo os olhos para continuar encarando a claridade do teto.
– Mas isso não é uma opção. – O amigo replicou sincero e ele o encarou. – Vai ligar para ela agora? – apontou para o celular com um movimento de cabeça.
– Não sei o que dizer. Como enfrentar isso? – suspirou. – Cheguei a cogitar que seria mais fácil e melhor se eu nunca tivesse entrado na vida dela.
– Não seja idiota. – Suga revirou os olhos. – O problema não é esse e você sabe.
Hoseok endireitou o corpo, se apoiando com os cotovelos nas pernas e olhando para o celular novamente. A tela fora desbloqueada nesse meio tempo e a visão que tinha era da foto com que haviam tirado em Tóquio.
– Pelo menos concordamos que temos um problema – resmungou.
Yoongi não disse mais nada, ficou apenas ali, parado à sua maneira. Hoseok tentou a discagem rápida para o contato da namorada, caindo na caixa postal diversas vezes. Nem mesmo Pam chegou a atender ou responder todas as mensagens que ele enviou, o que gerou um aperto em seu peito, banhado no desespero.
Estava quase explodindo quando Noele entrou na sala, indo diretamente conversar com Namjoon. Hobi, entretanto, não conseguiu ficar quieto e se levantou, indo até ela completamente exasperado – embora soubesse que a staff tinha poderes limitados.
– Faz alguma coisa, Noele! Qualquer coisa! – Hoseok exclamou alto, sua voz poderia ser ouvida de qualquer outro andar, de tão grossa e descontrolada que soava. Todos os outros membros ficaram em completo silêncio, vendo a auxiliar de Seijin o encarar com pesar, sabiam que não tinha o que fazer naquele momento com a bola de neve formada. Todavia, agir pela emoção nunca rende coerência.
Namjoon, sabendo que deveria se posicionar e, além disso, sabendo que era seu melhor amigo, irmão, com aquele sofrimento, deu um passo a frente, parando ao lado de Hobi e com a mão tocando o ombro dele levemente – se reorganizando para assumir seu papel.
– Hobi… Eu acho que… – limpou a garganta, ao passo que o outro virou o rosto para ele. Não tinha o que fazer e a melhor forma de ser feito. – Vamos pro hotel, você toma um banho e descansa, antes de qualquer coisa, principalmente antes falar com , você precisa se acalmar.
– Eu não quero me acalmar, Namjoon… Não tem como me acalmar. – A voz de Hoseok saiu falhada, denunciando o bolo em sua garganta.
Yoongi respirou fundo, também se aproximando e cansado de tudo aquilo; para qualquer um, ver Jung Hoseok perdido e o contrário do que normalmente é, pode ser completamente assustador e preocupante, mas o que Suga sabia era que isso poderia ser mais comum do que parecia, porém, não deixando de preocupar. Conhecia o amigo muito bem para saber que no âmbito pessoal se fazia um tanto comum e fácil dele sucumbir ao oposto do que geralmente era; tinha sua energia e personalidade radiantes, mas quando andava pela mão contrária, conseguia ser intensamente pior.
– Hobi, vem, vamos pro hotel. O CEO irá cuidar disso e depois que você se acalmar e falar com , pensa em qualquer coisa. – O chamou, tomando uma postura séria e firme, como na imposição de suas diferenças de idade.
Hoseok respirou fundo, esgotado. Ao se virar para Suga, outro auxiliar do grupo de staff entrou, chamando por Noele.
– Sim? – Ela respondeu atenta.
– O CEO pediu uma reunião com Sohoo e Seijin e um encontro pessoal quando retornarmos para Seul, assim que saírem do avião… – O rapaz tentava soar o mais profissional possível, para não transparecer nada, mas todos os sete membros ali, acostumados com aquela vida, sabiam que para Bang pedir isso, era por que tudo tinha se estreitado. – Organize a agenda deles para isso acontecer com prioridade.
Noele apenas assentiu, olhando para o tablet em sua mão, antes de erguer o rosto para o idol em sua frente, olhando-a completamente ansioso.
– Eu vou dar o meu melhor pra tentar organizar as coisas por aqui, Hoseok… Mas, não vou te encher de falsas esperanças. Se acalme, escute seus amigos e converse com ela. Infelizmente o que foi feito, foi feito.


Pam não sorriu ao ver Hoseok na porta de naquela noite, mas também não poderia ser uma megera e jogar em cima dele toda a culpa de algo que, muito provavelmente, nem mesmo ele tivera como resolver ou tentar controlar. Ela sabia muito bem como funcionava a situação sobre empresas e seus artistas com a gerência muitas vezes emocionada pelo desespero – havia passado por isso com por muitos anos, até conseguir partir para o modo privado, gerenciando a carreira dela sozinha e particularmente. Além de ter notado bastante nos últimos meses que a empresa de Hoseok tinha essa extrema preocupação quanto ao nível de popularidade, tornando-o como um objeto absoluto para tudo, o que levou a cometer muitos erros. Mas também era algo mais comum do que podia parecer, Pam mesmo precisou de muitas situações adversas durante sua jornada para aprender e diminuir a intensidade de falhas.
Também não poderia intervir naquilo, sua obrigação era somente de apaziguar o que quer que gerasse de forma midiática e estar ali do lado de , fora do âmbito profissional. Então, somente sinalizou para ele onde ela estava e que tinha acabado de dormir.
Em silêncio, Hoseok entrou no quarto e se deitou com a namorada, sendo imediatamente abraçado por ela, como se fosse uma árvore e ela um coala com medo de cair. Deixou um beijo na testa de , apertando-a contra si, sob o desejo de não precisar sair dali nunca mais – faria de tudo para que o tempo se congelasse naquele abraço. E quando ela abriu os olhos, erguendo o rosto para encará-lo, de fato pareceu que a contagem de tempo fora parada.
– Oi. – Sua voz saiu rouca e baixa, trepidando assim como seu coração estava.
– Oi. – Ela respondeu baixo, sonolenta.
Ficaram se encarando por um tempo, até Hoseok suspirar, levando a mão para o rosto de e acariciar a bochecha dela com seu polegar. Ainda se mantinham naquela mesma troca de olhares intensa, sem nenhum vestígio de que iriam se desprender um do outro.
– Como você está? – perguntou.
se afastou lentamente, sentando-se encostada na cabeceira. Seus cabelos estavam bagunçados e o rosto inchado, não só por ter dormido tanto, mas denunciando que ali tinham rolado muitas lágrimas.
Ele se sentiu alvejado.
– Eu não sei. E como você está? – devolveu em uma outra pergunta sincera.
– Me sentindo culpado. – Hoseok se ajeitou, sentando-se também. – Não era para ser assim, eu precisava conversar com você antes. E eu ia falar com você antes.
– Hobi… – suspirou, virando o rosto para ele. – De nada irá adiantar bater na tecla do que seria feito, já foi.
– E não era para ser assim.
– Mas foi. – Ela foi um pouco mais firme, esticando a mão para tocar a dele. – Essa era a forma deles controlarem sua popularidade? Qual era o plano?
… – negou com a cabeça, soltando o ar pesado. – Não tem que ser assim, você não consegue enxergar? Todas as coisas acontecem e nós continuamos, como se colocar uma peneira abaixo do sol fosse ajudar.
– E qual é a nossa saída, Hoseok? Assinar aquele papel? Colecionar perucas? Ou ceder de uma vez?
O silêncio pairou entre os dois, fazendo-os pensar sobre o que fora dito por .
Em uma outra vida talvez fosse possível que o relacionamento dos dois não tivesse tantas consequências negativas. Nem mesmo todo o amor que sentiam um pelo outro estava sendo suficiente para inibir o caminho complicado que enfrentavam, sempre com algum empecilho, alguma situação que os colocavam a questionar tudo. Parecia sempre tão certo estarem juntos, se conhecerem a cada dia, estando lado a lado ou separados, com ou sem ponte aérea… Mas também começava a soar completamente errado porque naquela via que percorriam, vinha o desgaste junto.
Hoseok leu tudo o que fora dito sobre desde que ela começou as gravações e olhando para a namorada naquele momento, ali em sua frente, completamente apagada e diferente do que havia conhecido há pouco mais de um ano antes, sentiu-se outra vez alvejado pela culpa. Não era essa visão que queria ter da mulher que amava, desgastada e reclusa; a forma como ele queria que ela estivesse em sua companhia era completamente o oposto, assim como figurava em sua mente nos primeiros meses.
A pergunta de , sobre ceder, o deixou amedrontado, porque de repente isso se iluminou em sua mente como se fosse de fato uma saída.
– Por ceder, você quer dizer que-
– Eu não sei, Hoseok. Eu não sei de nada. – o cortou, soando exausta, ao mesmo tempo que estava assustada com aquela hipótese. – Pode parecer que não, mas eu realmente não me importo com nada disso.
– Pois deveria! – A respondeu com um tom mais alto, se mexendo inquieto na cama. Suspirou, buscando as palavras certas. – , você sabe muito bem o que foi dito com seu nome nos últimos meses, não pode dizer que sua estadia em Seul foi boa e que estar comigo tem sido melhor do que o contrário.
Os olhos de se fixaram em Hoseok, mudando a direção apenas para o peito dele, que tinha pendurado o colar de aviãozinho. Seu coração estava acelerando-se, não gostando nenhum pouco do tom daquela conversa. Enquanto ela parecia confusa e evidentemente disposta a passar outra peneira por cima da situação, ele soava certo sobre outra coisa. E ela diria qualquer frase, palavras, sílabas, mas não mencionaria que aquilo parecia um término.
– Você está errado. Foi bom sim.
… Não. – Hoseok ponderou, apertando a mão dela. – Eu...
– Você quer fazer daquela nota uma realidade? – Ela o cortou, perguntando diretamente. – Porque me parece que veio até mim não para justificar o que aconteceu, mas sim com sua mente bem configurada para isso.
Hoseok engoliu a seco.
Estava vazio, sentindo-se engolido. Não tinha o que pensar ou bolar como uma resposta bem elaborada, tinha?
E por que se fazia mais certo ele seguir por essa linha de acabar ali?
Não era como se fosse lhe trazer um alívio, pelo contrário, estava apertando seu peito, mas tinha que pensar no que soava saudável tanto para ele quanto para .
Tirou o colar de seu peito, em silêncio. Puxou a mão de para cima, deixando a palma virada para que colocasse o colar ali. comprimiu os lábios, sentindo os olhos se encherem, assim como o bolo em sua garganta.
– Jayjay, por favor... não... – O seu sotaque estava carregado, mas as lágrimas transbordavam mais em seu tom de voz. Porém seus olhos inundados que estavam quebrando o coração de Hoseok, o fizeram entender sua súplica.
– Eu te amo, . Mais do que amei qualquer outra pessoa na minha vida e tenho quase certeza de que não terei outro amor que supere o nosso. Eu nem quero. – riu nervoso. – E é por isso que eu preciso te deixar, porque eu amo você e sua felicidade me preenche de toda esperança. Eu não aguento mais te ver abatida dessa forma. Não é saudável... – Ele não conseguiria terminar aquilo, então fechou os olhos fortemente para conter o próprio choro, precisava se manter na aparência de que estava tudo bem para que sentisse confiança em suas palavras. Precisava convencer o amor de sua vida que não podiam mais ficar juntos. Precisava, mas não queria.
– Jayjay... – tentou dizer mais uma vez, sendo parada por um soluço.
Hoseok segurou firme em suas mãos que se juntaram na altura do peito dele e beijou os nós em seus dedos, em seguida selou a testa de por mais do que três segundos, contando cada um deles. Quando soltou as mãos da mulher sentiu seu coração sair do peito e em seu lugar formou um tremendo buraco vazio. Ele estava se preparando para dar passos contrários da direção dela, se arrastando para a van fora da cama. Iria voltar para seu hotel, se conseguisse sair dali primeiro, e precisava estar em algum lugar em que todos os seus companheiros de grupo pudessem lhe dar conforto, sabendo que conforme ele caminhava, pedaços eram deixados. Sem olhar para trás, ele saiu do flat, depois do prédio e quando deu por si, estava no mesmo veículo que havia o levado para aquele lugar. Quando sentiu o movimento da van, a falta de ar veio como uma avalanche. Então ele não conseguiu mais segurar, jogando-se no banco para chorar como nunca havia chorado em toda a sua vida.
Depois de um certo tempo, pegou seu celular, recebendo uma ligação de Namjoon.
– Onde você está? – Não conseguiu responder. – Hoseok, onde você está?
– Não sei. Sem rumo, talvez. Eu perdi todas as minhas esperanças... – foi tudo o que conseguiu dizer em meio ao choro compulsivo, cheio de soluços e a falta de ar agonizante.
Ninguém disse mais nada, não havia o que dizer, apenas o silêncio sua presença, mesmo que pelo celular, deveria ser o suficiente para que confortasse o amigo. Todos que o conheciam, sabiam que e Jung haviam encontrado um no outro a última esperança no amor, na felicidade, cumplicidade e companheirismo. Eles eram o amor da vida um do outro e que azar naquele momento não poderem se firmar como o “para a vida” também.


“Te amar foi juvenil, selvagem e livre
Te amar foi legal, quente e doce
Te amar foi luz do sol, foi estar sã e salva
Um lugar seguro para baixar minha guarda
Mas te amar teve consequências”
Camila Cabello – Consequences


Capítulo 9

Los Angeles, 2019.

Os fogos de artifício estouravam no céu, deixando as cores lindas daquela noite, enquanto mais um ano era recebido e fazia o máximo possível para se manter em órbita. Estava na sacada do apartamento de Jordan, depois de cumprimentar os demais que ali também foram celebrar a virada de ano, segurando sua taça de champanhe sem muito interesse na bebida. Encarava a imensidão escura, iluminada pelas luzes das ruas e a pirotecnia no céu, com certeza demoraria a cessar aquela festa e ela não poderia culpar a ninguém, sua infelicidade era pessoal e íntima demais, sorte dos outros de terem como celebrar um novo ano, mais doze meses de um calendário que havia virado. Ela, por outro lado, podia se intitular de azarada ou simplesmente a menos favorita do universo — da segunda opção ela tinha muita certeza, colocaria sua mão no fogo para defender essa teoria com toda certeza.
Era para ser uma passagem de ano com o cumprimento de metas e planos. Não deveria estar no apartamento de Jordan como uma medida alternativa, embora amasse o melhor amigo e estivesse muito grata por ele a incluir naquela noite com sua família e outros amigos mais próximos, estaria em alguma praia do Caribe acompanhada, em uma louca aventura de viajar em poucos dias e de modo completamente sigiloso. Eram os planos que havia feito em conjunto com Hoseok. Mas de repente, tão rápido quanto o estouro de um fogo de artifício, tudo mudou.
Agora estava ali, desejando mais do que tudo que Pam logo pudesse desvencilhar-se dos seus cuidados para curtir a noite, assim ela poderia pegar seu carro e ir embora, como uma pessoa normal que não precisaria se preocupar com algum paparazzi a seguindo, na busca frenética por algum click que fosse render milhões de dólares só por se tratar da primeira imagem de após o término com o idol coreano.
— Devo apostar milhões para saber o que se passa nessa sua cabeça?
Olhou para o lado, vendo Pam parar logo ali, também apoiada no parapeito e encarando o horizonte que se coloria.
— Achei que soubesse sobre tudo. — respondeu, voltando à mesma posição. — Me conhece melhor do que ninguém.
— Te conhecer bem não significa que sei até sobre as coisas que você não diz.
Ficaram em silêncio por um tempo, até a voz de ser a primeira a dizer:
— Eu quero ir embora.
— Tudo bem. — Pam suspirou, virando o restante de sua taça. — Vou pedir par-
— Pam, eu quero ir embora sozinha.
A outra ficou encarando o perfil de , esperando por mais algum complemento àquele pedido, suspirando outra vez ao não receber nada. Era assim que estava sendo desde alguns dias atrás, e respostas curtas, sem motivos, sem porquês.
— Até quando vai vestir esse luto do término? — perguntou diretamente, não fazendo rodeios e muito menos medindo o tom da voz.
virou o rosto para ela, lentamente. Seus olhos já brilhavam pelo choro que deveria estar prendendo há horas, algo totalmente dentro de um novo comum, e o coração de Pam se apertou. Entretanto, já estava um pouco cansada de ir pelo lado mais doce da ajuda, talvez precisasse de um chacoalhão. De uma coisa ela sabia com toda certeza do mundo: ninguém morre por amor. Era triste ver sua menina sofrendo desta forma, sim, como se a vida tivesse perdido outra vez um brilho, assim como fora com sua mãe, mas era incomparável. Hoseok estava vivo ainda e havia a outra figura de toda a situação: eventualmente, poderia ser que acontecesse de novo e eles se reencontrassem em um momento melhor de suas vidas, mais maduros e seguros.
Se tivesse de ser, então seria. A agente se lembrava de alguma teoria física sobre isso que aprendeu em seu tempo de escola.
— Vai ficar para sempre assim? Se você sobreviveu ao falecimento da sua mãe, não vai ser um término a te derrubar. Certo? — proferiu sem expressão qualquer laço de compaixão; se odiava naquele momento por ser dura, mas acreditou ser essa a única solução.
— Eu não vou considerar o que está dizendo. — disse séria, erguendo uma sobrancelha. — Você não sabe do que está falando.
— Claro que sei. Acabou de dizer que sei sobre tudo, . — Pam suspirou pesado, talvez realmente ela significasse todas as palavras que queria dizer. — Escuta, você está presa em algo do qual não te fez bem, e nem ouse dizer que estou errada… — apontou com a taça. — Sabe que, por maior que tenha sido o amor entre vocês dois, só isso não é suficiente para manter um relacionamento.
— E o que você sabe sobre relacionamentos, Pam?
Pam engoliu a seco. Ela havia tido suas experiências, mas acabou escolhendo a vida profissional, bem dizendo, . Dividir sua vida pessoal com o trabalho seria uma tarefa árdua, de muita exigência, o que foi difícil por muito tempo. Representar uma artista de nível mundial, com turnês e gravações sempre pulando de país em país, de continente em continente, tomava todo seu tempo, tudo de si, então pareceu soar mais correto fazer uma escolha — principalmente depois do falecimento da mãe de , ela sentia-se muito mais responsável pela outra.
Então foi como uma facada em seu peito ouvir a réplica de , embora conhecesse ela tão bem para saber que, no fundo, numa uma situação em que não houvesse dor sobre o fim do relacionamento conturbado que tivera — e se recusava a enxergar —, nunca seria aquele tipo de pessoa, não sabendo filtrar e jamais direcionaria palavras duras para alguém, não desta forma. Entretanto, não podia negar a realidade de que, na hora da raiva ou sob efeito de qualquer sentimento negativo, com a ausência de filtros, se fala o que quer.
Porém, também se ouve o que não quer.
— Eu? — Pam riu fraco, movimentando a cabeça para os lados, desviando seu olhar da figura parada em sua frente. — Sei muitas coisas, , afinal alguns anos e vivências a mais que você deve significar algo, sim? Eu sei o que é amar, o que é esperar e acreditar, assim como sei que essa dor aí que você está sentindo, passa, porque terminar pode ser tudo, menos o fim do mundo. — Não a deu tempo de responder ou de pensar, apenas tomou um breve segundo para respirar. — Hoseok pode ser um cara incrível, mas seu mundo não é ele, é você. E o que ele fez foi tomar uma decisão para o bem dos dois, encare isso como uma nova chance de fazer tudo outra vez, quem sabe melhor agora? Também já precisei tomar decisões e é sobre isso o que sei.
ficou quieta, vendo os olhos de Pam brilharem, marejados. Em outro momento, com toda certeza do mundo, ela abraçaria a mulher em sua frente, a quem devia quase toda sua vida e bem estar. Estava se sentindo completamente ridícula em despejar na pessoa que mais fazia de tudo para lhe manter bem, com todos os cuidados que ultrapassavam o necessário, porém a vergonha era maior.
— Acredito que cheguei em boa hora?
A voz de Jordan, rompendo pela porta da sacada, trouxe as duas de volta para o ambiente. Imediatamente umedeceu os lábios, olhando para os próprios pés antes de encarar o melhor amigo.
— Sim, estava me despedindo de Pam.
— Mas você vai embora agora? Só por que ia chamá-las para o karaokê? — Jordan perguntou triste, notando a tensão entre elas. — Está tudo bem por aqui?
— Está sim, querido, estava me pedindo para dispensar o motorista. Ela quer voltar para casa dirigindo. — Pam finalmente proferiu algumas palavras.
— De maneira alguma eu deixaria, mas como ela está na mesma taça de champanhe desde que chegou, não vou relutar. — O dançarino se direcionou até , abraçando-a levemente. — Nos avise quando chegar em casa, por favor.
— Sim, aviso. — sorriu simples, entregando a taça para Jordan e olhando uma última vez para Pam, assentindo ao sair.
Ao passar pela porta da sacada, ela ainda pôde ouvir a voz grossa de Jordan, numa tentativa de sussurro, dizer:
— Ele também te perguntou sobre ela?
— Sim, mas eu tenho evitado passar essa informação. Não vai ajudar em nada, ela precisa superar. — Pam respondeu.
Seu peito se apertou, outra vez, mas ela apenas continuou a caminhada pela sala movimentada. Despediu-se rapidamente dos familiares e amigos de Jordan, indo em direção ao hall de entrada; vestir o sobretudo e todos os outros apetrechos de inverno para se proteger, não só do clima, foi uma tarefa efetuada de forma rápida e ansiosa, pela pressa de ir logo embora. Encontrou a chave do carro pendurada no exato lugar em que Pam tinha deixado quando chegaram e saiu, por fim.
Dentro do elevador, tirou o celular do bolso, temendo a própria vontade de dar os dois cliques na tela, que a iluminariam e mostraria a imagem de bloqueio — era tortuoso pensar que deveria mudar para outra e tirar a foto que tinha com Hoseok em um de seus momentos mais íntimos. Porém, queria ver o sorriso dele outra vez, mesmo sabendo que seria possível apenas por uma imagem e não ao vivo. Deveria se contentar com o pouco. Ou então, tentar escutar o que lhe diziam, por pelo menos uma vez em sua vida. Mas como ela iria superar o primeiro traço de felicidade que teve depois de anos? Principalmente no momento em que estava se acostumando com ele?
Devolveu o celular para o bolso de seu sobretudo, relutando e vencendo a vontade de iluminar a tela. A caminhada até o lado de fora do prédio foi rápida e aproveitou a rua vazia para respirar um pouco do ar noturno, parada ao lado do carro. Olhou para o céu escuro e repleto de estrelas, sendo tomada por mais uma lembrança: o dia que estavam no terraço da cobertura de Hoseok, dividindo um cobertor e vinho, quando tinham aquele mesmo céu límpido acima de suas cabeças. Nenhuma jura de amor fora feita, não precisavam disso, somente a presença um do outro e conversas banais sempre aleatórias. Mas neste momento sozinha, olhando para o céu, além de se lembrar de Hoseok, também sentiu a falta absurda de sua mãe — como seria enfrentar essa nuvem carregada tendo ela ao seu lado?
Sentiu a lágrima solitária rolar por seu rosto e somente voltou para a própria órbita ao ouvir risadas infantis, vendo crianças passarem por trás de seu corpo, correndo pela calçada. Respirou fundo e destravou o veículo, tomando seu lugar. Ao dar a partida e ter o rádio ligado, seu coração acelerou.
“A pedido de Rafael, a RadioStation vai tocar, como a primeira faixa de 2019, Tears For Fears... Everybody Wants to Rule the World. Ele deixou aqui o recado de que dedica essa música para todos que, assim como ele, se sentem aliviados de conseguirem iniciar mais um ciclo. Que venha 2019, então, Rafael de Santa Monica!”
As lágrimas que estavam presas, logo saíram e ela colocou o carro para percorrer as ruas ao som da canção que tanto a lembrava sua mãe. Elena amava a banda e cresceu ouvindo as canções. Ouvir a letra, naquele momento, pareceu como uma mensagem da qual ela buscava silenciosamente. Infelizmente, Chris Hughes parecia certo ao dizer, assim como muitos, que nada dura para sempre.



L.A, 2019.

Azul combinava com , quando ela usava qualquer peça em qualquer tom da cor, a deixava mais deslumbrante — na verdade, para ser mais honesto, Hoseok admitiria que não havia nada que não a deixasse linda e não valorizasse sua beleza e suas curvas. Por mais discreto que tentasse ser, segurando-se ao máximo para não manter seus olhares diretamente sobre ela, estava tendo problemas em se conter. Seu coração o traía e, justo quando estava acreditando conseguir seguir em frente, veio o encontro em um dos tapetes vermelhos mais repletos de flashes e luxo de todo o cenário musical. Não tinha lugar pior para encontrar sua ex-namorada, do que em uma cerimônia do Grammy, principalmente quando ela era o maior nome dentre os indicados e, naquela edição, o BTS fosse estrear como convidado.
Assim que desceram do carro, ele a viu, ela estava no outro extremo do tapete vermelho, finalizando o caminho das fotos e elegantemente absorta, como se nenhum daqueles flashes pudesse significar um pesadelo em outras situações. E embora ele quisesse pensar somente em como era assustador o histórico passado, conseguiu se concentrar apenas em admirá-la, mesmo que de longe. Tropeçar nos próprios pés não se tornaria nada incomum caso acontecesse, pois estava falhando miseravelmente em focar apenas no caminho que fazia, já sabendo que depois daquele breve início no tapete, ouviria de sua equipe o mesmo mantra dos últimos dois meses sobre manter o foco e superar — certamente ele iria ignorar, assim como fez em todas as vezes anteriores; somente ele poderia saber sobre como se sentia, tanto em passado, quanto presente e futuro.
No presente momento, Jung Hoseok estava perdido no brilho de , não só do vestido longo que ela usava, mas do que ela carregava. Enquanto finalizavam o tapete vermelho, ela estava gravando seu slow motion, e ele desejou até para o ser acima ainda não existente, que toda aquela aura de felicidade e serenidade fosse real, não sendo mais uma armadura ou um personagem vestido. Ainda não tinha superado a ideia de que vê-la feliz só aconteceria se fosse distante dele. Preferindo acreditar que aquela visão era real, que ela estava mesmo feliz, Hoseok se sentiu agraciado, porém. Se fosse para ser deste jeito, a consequência de sua escolha seria aceita.
Ao finalizar a parte das fotos, foram chamados para ter o momento no slow-motion antes da breve entrevista, então sendo liberados para entrar definitivamente no Staples Center. Dizer que Hoseok prestou atenção em todos os acontecimentos da noite seria mentir, preferiu levar-se para um outro mundo, estando apenas fisicamente ali, do que continuar em seu desfoco e acabar se perdendo em . Ela já tinha subido ao palco uma vez para receber o prêmio na categoria de melhor apresentação pop solo e também para apresentar uma categoria — infelizmente, a apresentação que ela faria naquela noite havia sido cancelada, o que fora divulgado como indicação médica; ele sabia que deveria ser algo a ver com sua asma, conhecendo-a bem para ter conhecimento do quanto colocava de esforço em cima de seus ensaios e trabalhos.
Outra coisa da qual ele pedia todos os dias para qualquer ser divino, existente ou não, era que ela pudesse estar sempre bem e saudável. Existiam muitos pedidos, na verdade.
A última categoria chegou, assim que ele e o restante dos membros voltaram para seus lugares depois de entregar à H.E.R o gramofone por melhor álbum de R&B, e Kendrick Lamar estava em frente ao microfone para anunciar o nome que levaria a máxima da noite de álbum do ano. Ao ouvir o nome de ser proferido pelo rapper, Hoseok não conteve o sorriso, sabendo que seria flagrado por alguma câmera e iria rodar a internet, ele não se importava. Levantou-se imediatamente, sendo seguido por todos os outros presentes naquela platéia, sustentando uma salva de palmas. Virado para a direção em que ela estava, à sua direita, ele a viu ser abraçada por outros artistas que faziam parte de seu círculo de convivência antes de caminhar para a escadaria do palco.
Essa escadaria ficava de frente com o lugar em que BTS havia sido alocado.
Hoseok prendeu a respiração a vendo se aproximar, sorridente e elegante, como sempre. O primeiro da sequência era Taehyung, ela o abraçou brevemente, seguindo para Jungkook e Jimin, Namjoon e Jin, até receber o aperto de mão de Suga e encará-lo hesitante. Sem saber como reagir, Hoseok também estendeu a mão ao mesmo tempo que curvou-se brevemente, sentindo-a apertar seus dedos de forma leve. Ao erguer-se, viu o rosto de se movimentar em um aceno positivo. E então ela se afastou, subindo os degraus com a ajuda de um de seus produtores, Hoseok não sabia muito bem qual.
— Está tudo bem? — Yoongi o perguntou discretamente.
— Por incrível que possa parecer, melhor do que nunca. — A resposta, porém, foi carregada do mesmo sorriso sempre iluminado.
Se tratava de , não tinha como ele ser menos intenso.
Olhou de volta para o palco, se preparava em frente ao microfone com pedestal acoplado no chão, segurando seu gramofone, enquanto as palmas cessavam. Os olhos dela brilhavam, conseguindo transcender a felicidade que ela sentia, e por mais visível que fosse o sorriso, Hoseok conhecia aquele traço o suficiente para saber que era muito mais do que parecia ser. E estava encantado com isso.
— Uau. — A primeira palavra dela foi uma expressão de surpresa. — Eu não estava preparada para isso… Muito menos estou vestida de forma suficiente para receber isso aqui — brincou, recebendo um tipo de “vaia” em resposta, claramente ela estava linda e todos concordavam. Hoseok evitou a pontada de ciúmes bobo que surgiu. — Primeiramente, eu gostaria de agradecer, claro… Esse pessoal que está aqui comigo, em peso, fez disso aqui uma realidade. Desde Liu, que cuidou para que eu não surtasse no processo criativo deste álbum, até o Jared, nosso inspetor da qualidade — ela riu fraco. — Todos! Sem eles eu não teria entregado uma sequência de letras com melodias, das quais mostram quem eu sou. Pode ser sobre mim, minha vida, mas sem ajuda alguma eu estaria aqui.
“Me lembro de quando minha mãe me dizia seriamente de que somos seres individuais, com histórias coletivas… Eu não entendia muito bem o que ela queria dizer com isso, mas era basicamente sobre cada individualidade significar algo no conjunto. Se fôssemos todos iguais, de nada valeria. E é sobre isso que este álbum fala, sobre ser quem você é, por mais clichê que seja, afinal essa é a única verdade da vida: ser quem somos. Pessoas irão tentar te dizer com quem deve andar, como se vestir, se é necessário bronzear-se, como andar, falar ou se comportar... Colocarão como regra se uma pessoa é ou não suficiente para estar com você. Irão medir qual trabalho é o melhor para você e que tipo de pessoa você é se usar um batom vermelho, mas ninguém irá passar pelo caminho difícil por você. Nenhuma dessas pessoas estará ali segurando sua mão quando estiver triste; nenhum deles irá te dizer que está tudo bem ser quem é e estar com quem quer estar. Nada disso importa, porque falar por falar é fácil, mas viver a prática… Todos correm. Então isso aqui em minhas mãos eu dedico para minha mãe e para todas as pessoas que, assim como eu, são colocadas sob tentativas de serem limitadas diariamente ao desejo do outro para não ser quem quer ser. Porque, no fim, ser quem somos assusta a qualquer um que seja vazio por dentro.”
O silêncio durante o discurso de foi em massa, todos a olhavam prestando atenção em cada palavra dita e, em uma breve espiada lateral, Hoseok conseguiu ver Pam, na fileira de trás de onde estava, emocionada e com lágrimas rolando por suas bochechas. Ele mesmo se sentia afetado, sabendo que ao chegar em seu hotel, também liberaria aquela enxurrada — outra vez Yoongi seria sua companhia silenciosa apenas para ele ter um colo no qual chorar.
— É isso, obrigada. — finalizou, virando-se para o grupo de pessoas ali no palco ao seu lado, enquanto era ovacionada outra vez.
Na cabeça de Jung Hoseok só se passava uma coisa e este era o alívio por ter conseguido, embora soubesse que não importava mais, agora seriam dois estranhos com um passado a ser apagado. Mas tudo bem, ele poderia se acostumar com o que diziam sobre o amor de sua vida poder não ser o para sua vida.
Infelizmente em ele tinha somente uma parte e, se pudesse ser concedido com um pedido assim como Aladdin, pediria que ela fosse o amor para a sua vida.


Capítulo 10

Seul, 2018.

– Eu queria ser como as estrelas. – A voz de soou muito sonhadora, como se estivesse, naquele exato momento, usando daquelas palavras para fazer um pedido verdadeiro.
– Não acha meio solitário?
– O que? Como ser uma estrela poderia ser solitário, Hobi? – Seu rosto virou, tomando cuidado para não puxar demais o edredom que dividiam, usando minimamente de seu corpo para se mover. Tampouco queria causar o mínimo de separação entre ela e Hoseok.
Ele não a olhou, continuou encarando a imensidão do céu estrelado daquela noite fria. Seul brilhava sob seus olhos, com as luzes da tão movimentada cidade dando vazão à vida contínua. não se importava, na verdade, admirar o perfil do namorado, principalmente em momentos como aquele, se tornara um dos seus motivos de maior comoção.
– Ela fica apenas lá em cima, olhando, brilhando de longe. E sem contar o vácuo existente. No espaço não tem som, nem mesmo de uma risada. – Em uma breve pausa, ele virou o rosto para encará-la. - Você conseguiria viver em um espaço do qual não pudesse ser ouvida?
– Não é também como se aqui isso acontecesse com tanta… frequência. – riu fraco, desviando o olhar para retornar à paisagem noturna. – Mas eu entendi o que quis dizer.
– As estrelas são bonitas para nós, , mas porque não estamos no lugar delas. Lá em cima – Hoseok ergueu a cabeça, inclinando-a para trás a fim de olhar o céu, guiando sua mão diretamente no colar em seu pescoço, apertando o pingente de avião de papel. – é tão solitário e vazio quanto aqui embaixo. Aqui é pelo excesso e lá pela falta.
Não havia muito o que ela dizer, concordava com o raciocínio de Hobi e suspirar enquanto aconchegou-se com a cabeça deitada no ombro dele pareceu ser a resposta mais sincera e neutra. Eles estavam ali no terraço da grande cobertura, sentados em cima de uma das esteiras de yoga que tanto usou desde que havia chego, dividindo um único edredom de duas faces na noite fria da capital coreana. Uma garrafa de vinho vazia denunciava o tempo que já estavam naquela conversa, que acabou parando em um assunto mais pessoal. Dentre tantas coisas que poderia carregar consigo de maneira mais agarrada sobre os momentos que dividia com o namorado, a principal, pelo ponto de vista dela, e que, não importava o que acontecesse ou como fosse o futuro, iria se lembrar com tanto carinho era como Hoseok tinha tanta sabedoria para uma pessoa com uma vida tão limitada.
Acreditava que sim, ele era uma fonte espessa de esperança. Se lhe perguntassem sobre como foi o processo daquela paixão arrebatadora, ela diria sem hesitação nenhuma que o sorriso, aquele mesmo estampado no rosto dele logo na primeira vez que o viu em um dos momentos mais comuns de sua vida, fora a principal porta. Depois veio a primeira conversa; não iria esquecer de maneira alguma como foi após conseguir tomar coragem o suficiente para pedir o número dele, embora tenha feito usando o lado profissional. “Vamos tentar trabalhar em algo juntos, o que acham?”, ela foi bem específica para todos eles, enquanto mantinha o olhar preso em Hoseok, certamente.
Todos os esforços que fez foram bem recompensados. Doía não poder ser como os casais normais que, aquela hora da noite, podiam estar brincando na rua com a neve, andar de mãos dadas e não precisavam de um arsenal de itens no guarda-roupa para conseguirem se disfarçar bem o suficiente e não correrem o perigo de serem reconhecidos. Porém, tinham feito uma escola, escolheu abrir-se a isso. Não era porque seu coração queria uma coisa que sua consciência precisava seguir de forma regular e ceder. Mas ela o fez e não se arrependeria. Acreditava que decisões tomadas em meio a sentimentos, até mesmo dentro dos positivos, resultavam em expectativas frustradas.
E seu relacionamento com Hoseok poderia ser e ter de tudo, mas frustração não era um verbo dentro do pacote da realidade.


Las Vegas, 2019.

– Você vai arrebentar a corrente se continuar puxando ela assim.
A voz grossa de Taehyung fez Hoseok se assustar, parecendo como se estivesse sendo acordado bruscamente por alguém durante um cochilo pesado num fim de tarde em que trabalhou excessivamente. Mas ele não estava trabalhando praticamente, dentro de um estúdio ou em casa, estavam num daqueles carros luxuosos que usavam, comportando até sete pessoas, em direção ao grande evento da noite, o Billboard Music Awards. Estava com Seokjin e Taehyung no mesmo carro, enquanto os outros iam no primeiro a sair do hotel. Porém, Jung estava ali apenas fisicamente. Sua mente divagava e muito, mais do que o de costume, inclusive, por memórias preciosas de tempos que ele não conseguiria mais resgatar.
Se lembrava brevemente sobre algo dito por algum físico lunático de que passado, presente e futuro acontecem simultaneamente, mas estava descrente de tal afirmação. Ele daria de tudo para que pudesse estar vivendo o passado recente, em que, mesmo dentro de um mar de ruídos, uma pessoa específica o fazia muito feliz. Na sua relatividade, estava dentro de um carro, nos Estados Unidos, indo para um segundo encontro indireto com sua ex-namorada – por quem ele não fazia sequer questão de esconder os sentimentos tão vívidos dentro de si ainda; talvez lhe faltasse coragem para seguir em frente do sentimento, já que da situação ele ia muito bem e obrigado – num meio em que, também de forma indireta, se dava como um dos responsáveis por levá-los ao fim do relacionamento. Não conseguia se concentrar na figura ilustrativa do lado positivo naquilo tudo, apenas na parte melancólica, nem mesmo o seu lado mais azul conseguia combater essa linha.
– Está tudo bem? – Seokjin foi o dono da segunda voz a soar em seus ouvidos.
Hoseok respirou fundo, encarando os dois. Estava, de certo modo, um tanto cansado de dizer que estava tudo bem, mentir não era um dos seus atos favoritos. E vinha fazendo muito disso: não estava nem bem e nem mal, era como se não estivesse nada verdade. Sentia-se inerte e fora de qualquer realidade. Embora fosse um tanto mais aliviador saber que, separados, as coisas ficavam melhores. Não estava se torturando em ler coisas sobre , ele só queria garantir de que a sua dor fora recolhida por uma decisão correta e ela estava bem.
No fim se tratava disso, ser feliz pela felicidade do outro.
E era disso que ele poderia viver, afinal sua profissão não o permitia nenhuma outra carta. Era como a fotossíntese, se alimentando por uma luz, no caso dele, se mantendo firme pelo brilho da mulher que amava.
Hoseok reconheceria se a visse vestindo um sorriso falso, disso tinha total certeza.
– Sim. – Sua resposta para o mais velho trouxe um meio sorriso.
– Eu vou perguntar outra vez. – Seokjin guardou o celular dentro do paletó que usava, respirando fundo e cruzando os braços. Ele estava sentado ao lado esquerdo de Hoseok, no banco que ficava depois do vão para a passagem de quem fosse alcançar os assentos de trás; como o caso de Taehyung que estava sentado logo atrás de Jin. – Está tudo bem, Hoseok?
– Hyung…
– Não vai importar quantas vezes eu diga a você e a Namjoon sobre guardar tudo para si ser o maior veneno da mente nesse mundo em que vivemos, não é mesmo? – Outro ar sendo puxado para o fundo, como se os pulmões de Jin fosse uma caixa com capacidade para cinco mil litros de água. – É a primeira vez que ele vai ser obrigado a estar no mesmo lugar que Cece e para você e é a segunda. Quando vai ser honesto consigo mesmo e dizer que não está bem?
– Isso vai mudar exatamente o quê, Seokjin? O que mudou para você quando foi honesto consigo sobre o que sente por Maya? – Hoseok não o encarava, mas já não segurava mais o colar em seu pescoço. – Isso mesmo, não mudou nada. Você apenas partiu para as profundezas de mais sentimentos. Conseguiu lidar com todos? Não. Você deixou eles lá, guardados, não viveu nenhum deles.
– Mas pelo menos eu assumi que não estava tudo bem. Fiz algo a respeito disso. – O mais velho continuou com o rosto virado para a direção de Hoseok, encarando o perfil dele.
– Com todo respeito, Jin, mas eu não devo a vocês satisfações de como estou me sentindo. Podemos estar velhos e dentro de uma casa de repouso, morando juntos, minha vida continua sendo minha e não preciso de ninguém se metendo nela.
– Não estou querendo cuidar da sua vida, muito menos exigindo algo. – No momento em que a van parou, eles viram o mar de pessoas em volta do local, além das câmeras. Seokjin conseguia ver, no tapete vermelho pouco adiante de onde estavam, a figura de , sorridente e elegante como sempre. Seu corpo se virou para a direção de Hoseok, tocando no joelho do amigo. – Quero dizer que estou aqui e que você deve somente a si mesmo a verdade. Dizer que não está tudo bem pode ser mais saudável do que inibir todo e qualquer sentimento. Porque uma hora eles virão, Hobi, te cobrarão dessa forma que você não quer… E vai doer muito mais.
Hoseok olhou para a direção apontada por Seokjin, voltando sua cabeça para encarar os olhos dele no final de sua fala. Sentiu o rosto ser molhado na bochecha do lado direito e depois o esquerdo, com lágrimas silenciosas. Seu peito estava apertado, cheio e também carregava a própria confusão.
– Olá, garotões! – Noele disse animadamente ao abrir a porta da van, mas seu sorriso diminuiu instantaneamente ao notar o clima e ver o rosto de Hoseok marcado por lágrimas. Seu instinto foi de puxar a porta, deixando apenas o espaço para que seu corpo ficasse ali. – O que temos aqui?
– Acha que consegue um tempinho para nós? – Taehyung pediu educadamente,
– Infelizmente não… Atrás de nós tem mais três carros com celebridades esperando para sair direto nesse tapetão aí… – Ela suspirou. Podiam notar em como ela realmente estava triste por isso. – Mas acho que se eu me esforçar, consigo levar vocês em menos de dez minutos lá para dentro. Consegue apenas passar pelo tapete vermelho e no máximo uma entrevista, Hoseok?
Hobi contraiu os lábios, engolindo o bolo em sua garganta e assentindo levemente.
– Vou tirar os outros quatro do carro da frente primeiro e volto aqui para vocês em dois minutos, então. Ok?
– Tudo bem, Noele. Obrigado. – Seokjin respondeu, sorrindo simples para a mulher, que saiu logo em seguida.
Taehyung tocou o ombro de Hoseok, apertando-o levemente. Ele era uma pessoa de perfil mais reservado, pouco se colocava dentro de situações em que fosse exigir dissertações muito longas e que soasse como intromissão na vida dos outros, era um bom e fiel crente do “cada um no seu quadrado”. Para V, se cada ser humano limitasse em cuidar da própria vida, teríamos uma sociedade saudável. Entretanto, naquele momento estava ali como um amigo para uma pessoa que significava muito em seus dias e rotina. Sentiu que deveria aproveitar o breve momento que Noele os proporcionou para tentar dizer algo à sua maneira.
Baby steps, lembra? Você mesmo me disse isso quando Rae saiu da minha vida. São passos curtos – umedeceu os lábios, olhando para Jin e recebendo um olhar para que continuasse. – Sua decisão, por mais dolorosa que tenha sido para os dois lados, foi o primeiro passo. Depois veio a saída de Sohoo e Seijin… E assim por diante. Um novo dia, um novo passo.
– Eu só queria conseguir admitir para mim mesmo que não tenho mais esperanças, mas não consigo.
Taehyung e Seokjin se olharam ao ouvir a voz baixa de Hobi, ele encarava as próprias mãos trêmulas entre as pernas.
– Não consegue porque você ainda tem ela e isso é o mais importante.
– Taehyung está certo. Enquanto tiver esperança, você tem força para superar e seguir os tais baby steps.
– Steps. – Taehyung corrigiu segurando um riso.
– Isso mesmo. Enfim, não foi e pode não ser amanhã. Assim como também pode ser amanhã ou depois. Não tem como saber. – Jin limpou a garganta, apertando levemente o joelho de Hoseok. – O que você sabe é sobre o agora e neste momento você precisa se enfrentar.
– Eventualmente tudo fará sentido. – Taehyung finalizou.
No exato momento em que Hobi passou as mãos pelo rosto, Noele abriu a porta. Silenciosamente eles desceram, sendo Hoseok o último. Os flashes bateram neles, principalmente após os demais se juntarem ao trio. Ninguém questionou os olhos parcialmente avermelhados de Hoseok, não podiam começar qualquer papo preocupado justamente ali, no meio de muitos fãs e urubus ávidos por qualquer mínimo deslize de informação. Embora Noele fosse uma profissional excepcional, ela não tinha como controlar incontáveis fotógrafos, equipes de televisão, rádio, sites e etc, que estavam ali trabalhando para cobrir a premiação.
Mas tudo bem, conseguiria passar por aquilo. Taehyung estava mesmo certo sobre o passo sobre passo, poderia ser pior, poderia ser Sohoo ali e não a tão prestativa e humana Noele Saanders que eles descobriram em uma das idas para Nova York. Ela sabia dos limites profissionais e contratuais de todos eles, sabia do que BTS era feito e porquê tantas cláusulas limitadoras, contudo, seu lado humano era tão vivo que sua forma de tratar tudo isso era mais tranquila e cheia de compaixão. Era como se ela os visse da forma que eram: pessoas assim como todas as outras bilhões existentes no planeta, com sentimentos e tudo o mais do combo da vida pessoal. Poderia acontecer o que fosse, ninguém seria capaz de tirar Noele do grupo.
Hoseok até às vezes se colocava numa posição de gratidão, mesmo o caminho até ali, a exclusão de Seijin e Sohoo, tendo sido de sacrifícios, naquele momento eles não precisavam mais se preocupar com o modo como seriam tratados, como se fossem mais do que objetos para gerar dinheiro.
E realmente, seria mais doloroso o processo do término com a dupla acompanhando-os – mesmo passando tanto tempo.
O tempo. Grande inimigo de Jung Hoseok.
Ele vivia seus dias assim, não reparando em como tinha passado tanto e em tão pouco. Ou tão pouco em tanto. Sem ordem de preferência.
– Namjoon…
Tocou no ombro de Nam, quando o notou parado em sua frente e distante. Seguindo o olhar para a direção que ele encarava, pôde ver a cena de Cece, e Taylor Swift, na ponta de cima da escada, animadas e interagindo amigavelmente. Logo em seguida o suposto namorado de Cece apareceu, completando o círculo.
E, sendo pego de surpresa por direcionar o olhar na direção do dele, de forma tão fixada e centrada, Hoseok sentiu o coração acelerado. Estava mesmo tudo bem, ele não iria negar isso; estava tudo bem não estar bem.


A correria no backstage de qualquer premiação é sempre linear. São muitos pontos a serem cuidados e muita gente a ser monitorada. Não existe sossego. Mas estava tranquila, como há muito tempo não se sentia. Se encarava no espelho da mesa em que usava para se arrumar dentro do camarim, enquanto preparava-se mentalmente para subir no palco e entregar seu melhor com uma das músicas de um dos filmes que mais amava em toda a sua vida: My Heart Will Go On de Celine Dion, que esteve presente na trilha sonora de Titanic, sendo uma das canções temas mais memoráveis de todos os tempos. Impossível é não encontrar qualquer pessoa que não tenha ouvido essa música pelo menos uma vez em sua vida.
tentava não se entregar para a ansiedade daquele momento, focada em sua concentração. Estava há um certo tempo se preparando para o tributo que faria para Celine, uma vez em que tinha quase um ano desde a última vez que se apresentou para um público grande e esteve no palco. Depois de retornar de suas férias, apenas trabalhou no longa e uma breve aparição na série Grey’s Anatomy, algo em torno de cinco ou seis episódios que ainda não tinha sido lançados. Não fazia muita ideia de como estava seu fôlego até o primeiro ensaio acontecer e ela notar que estava um pouco enferrujada – por mais que soasse como aquele bom ditado sobre algo ser igual andar de bicicleta, estava mal acostumada e tinha realmente perdido um pouco do lado saudável ao se entregar firmemente para o papel de seu último filme; acabou, por fim, que a exigência de seu corpo para performar uma única música naquela noite, serviu como um prato cheio para que se tornasse saudável outra vez.
E não só fisicamente.
O significado da letra que iria interpretar a plenos pulmões, numa das performances mais queridas de toda a sua carreira, também era bem pessoal. Teve tempo suficiente para se acostumar com a ideia de cantar ao vivo uma música como a qual iria cantar e interpretá-la para si, o momento de sua vida.
E, dentro do que achava impossível, estava bem. Finalmente não tinha nada além de sorrisos verdadeiros para estampar seu rosto e iluminar de volta aqueles que a iluminaram. Teve certeza disso ao cruzar seu olhar com o de Hoseok quando estavam na área externa do local da cerimônia de premiação daquela noite e sentir seu coração disparar como da primeira vez que o viu depois do dia que se conheceram. Disparou com conforto e como se tivesse um letreiro enorme dizendo que finalmente o encararia sobriamente, compreendendo o porquê de estarem naquela distância mais do que física – fazendo jus pela cidade em que estavam.
A distância, aliás, poderia ser de corpos. Mas ela sentia que o sentimento estava protegido ali dentro de si, no lugar que ela sempre o manteria em seu coração e lembranças.
– Está pronta, gatinha?
Mirou o olhar para o reflexo de Cece no espelho, a amiga estava na porta de seu camarim e a trouxe de volta para a realidade ao entrar e colocar-se pela metade dentro do ambiente. O sorriso da brasileira estava bem aberto e parecia mais como um grande responsável e guia de luz para quem quer que fosse.
– Nasci pronta. – respondeu sorrindo tão intensamente quanto a outra.
– Pam me pediu para te chamar… Ela estava, bem… Acho que o lance com aquele produtor que eu ainda não sei dizer o nome, está mesmo dando certo.
– Bem, dedos cruzados então! – levantou-se, fazendo o gesto para a outra e, em seguida, checando seu cabelo uma última vez. – Quanto tempo temos?
Cece não teve tempo para responder, Pam logo abriu a porta de vez, aparecendo para cumprir com seu papel, sob os olhares sugestivos das duas.
– Não quero uma palavra sobre isso, ok? – disse diretamente, erguendo o indicador para elas e olhando em seu iPad em seguida. – Tem quatro minutos para estar no piano, . Tudo certo?
– Sim, senhora. – sorriu com as mãos na cintura, deslizando os dedos em sua saia longa para movimentá-las. Notou o cenho franzido de Pam e o bico nos lábios dela em reprovação a algo. – O que foi?
Ela suspirou fundo, erguendo o rosto para encará-la. Em hesitação, disse:
– Tem um detalhe… O seu ponto fixo na performance está justamente na esquina em que fica de frente com as cadeiras do BTS.


– Eu não sei vocês, mas estive ansiosa durante dias para saber quem era a dona dessa tal performance especial e surpresa para a noite de hoje em homenagem à nossa querida e excelentíssima Celine. – Kelly disse para o público, suspirando na pausa para os aplausos que foram freneticamente emitidos para a artista citada. – Pois é… Esse é o tamanho do nosso carinho por você. – Ela sorriu, mirando o lugar em que Celine estava sentada. – Assim como temos um enorme carinho por , a pessoa que nasceu para estar nesse palco esta noite e entregar isso em sua homenagem. Então, senhoras e senhores, recebam .
Os holofotes diminuíram mais do que o necessário e apenas um ponto de luz forte iluminou o dentro do palco – estava montado em formas geométricas: um retângulo no meio e dois em formato de círculo a cada ponta, também servindo degraus para o acesso ao principal para os artistas que fossem subir receber seus prêmios e afins. Do centro do palco principal, caminhava, iluminada por aquele único holofote que a seguia, e no ambiente não podia se ouvir mais nenhum ruído desde que a salva de palmas fora cessada. Sua caminhada se encerrou no círculo do lado esquerdo pela visão de quem estava na audiência e ela sentou no banco em frente ao piano preto ali colocado.
Foram melodias simples, mas performáticas. A cada nota que seus dedos davam traziam sentimentos de nostalgia ao público, qualquer pessoa que tivesse o mínimo de conhecimento sobre música, mesmo com uma memória falha, conseguiria ligar aquelas notas ao grande epicentro da canção que ela estava prestes a cantar. Talvez até não se fizesse preciso que cantasse as palavras, podia ficar somente nas notas no piano, já estava agradável o suficiente.
Pelo menos Hoseok pensava assim.
Ela estava ali, bem em sua direção. Fazendo o que amava. Amando o que estava fazendo. E ele estava amando.
Não foi possível ficar sentado, não conseguia, por mais melódica e lenta que fosse a música, não tinha ninguém sentado. Era bonito e emocionante demais vê-la ali, inerte e entregue em apenas melodias, para ficar sentado como se estivesse entediado. Ele também não saberia dizer em qual nota foi que levantou da cadeira, só saberia afirmar que estava ali, se entregando junto – e apostaria com quer que fosse que todos os outros corpos presentes também se entregavam como ele; inclusive, estavam na cidade certa para apostas. Hobi sentiu-se pego no colo apenas com aquela introdução.
Quando a última nota foi tocada, tudo se apagou e no outro círculo, do lado direito para a audiência, um holofote iluminou outra pessoa. Era Cece, vestida com um lindo vestido branco de seda e quase transparente. Seus pés descalços moveram-se no mesmo instante que a voz de iniciou a primeira palavra da letra, ainda no mesmo círculo em que estava, ali, bem de frente com ele.
O seu olhar voltou diretamente para ela. O cabelo que antes estava preso em uma trança, agora estava solto e ainda usava o mesmo vestido em pé diante de um pedestal com o seu tão usado microfone coberto por lantejoulas brilhantes. E novamente o tempo consumiu Hoseok, como grande inimigo que havia se tornado. Mas teve um porém desta vez: ele passou a compreender. Momentos bons sempre foram sugados pela utopia e a utopia é algo considerado impossível, de extrema dificuldade de ser encontrada. Viver algo que o faça bem pode sempre parecer ter hora exata para acabar, diferente do oposto de positivo, porque aquilo que não é bom e nos desagrada é difícil de ser superado.
Essa relatividade ele compreendeu. Por isso se sentiu grato e aliviado por enxergar que, mesmo dentre todo o cenário caótico, viveu cada segundo, cada minuto, tendo as lembranças como sua maior preciosidade a ser guardada. O que tiveram estaria seguro, assim como aquelas palavras que seriam cantadas por nas próximas linhas estavam estampadas em uma melodia marcante diziam: pois estava ali, dentro de seu coração, para onde quer que fossem, estariam seguros.
E mesmo não conversando em palavras diretas, o olhar dizia muito.
Lembrava muito.
Trazia muito.
Guardava muito.
Era muito.
– You are safe in my heart and my heart will go on. – Hoseok finalizou junto, cantando para dentro, mas deixando seus lábios se moverem, inconscientemente, para que ela pudesse ver aquela nova promessa dita enquanto ele segurava o colar sem seu pescoço.
Ambos sabiam sobre muitas coisas da vida, assim como não sabiam de tantas outras. Matemática básica e pura. Mas o que, naquele momento, se fez certo em suas experiências de vida é que nem sempre podemos viver um amor por toda a nossa existência. Porém, sem que fosse dito ou compartilhado, concordavam que valia a pena contrariar todas as regras ditas por qualquer anônimo metido a filósofo. Se tratava da fagulha, por mais simples que pudesse ser, para contrariar qualquer narrativa que fosse contrária sobre como se sentiam em relação um ao outro. E o que eles sentiam?
Bem, eles se amavam. Era suficiente.


Epílogo

Nova York, 2019.

A noite estava adoravelmente fria, nem mesmo a quantia de calor humano emanada pela superlotação da famosa Times Square estava sendo responsável por aquecer e ajudar no clima ou estragar qualquer animação. Era uma noite para comemorar mais um novo final de ano, mais doze meses concluídos e a chegada de outros doze. E todos ali, novaiorquino ou não, só conseguiam pensar com felicidade sobre 2020. Fosse lá o que o novo ano estava reservando, tinham a felicidade completa por terem conseguido mais um. entrava para a estatística de pessoas felizes daquela noite.
Quando conseguiu, finalmente, descer de seu carro e ser escoltada em segurança para o local em que teriam as apresentações da noite, aproveitou para sentir a brisa gelada da temperatura mínima que banhava o clima americano. Se sentia prestes a encarar uma renovação e estava muito bem preparada para isso, a ansiedade positiva para os trabalhos que iria ingressar a partir de janeiro deixava-a cada vez mais animada para despedir-se de um ano para receber outro. E sentia-se grata, principalmente.
Estava indo para a Times Square por convite de Cece, a amiga iria se apresentar um pouco antes da virada do relógio e fez questão de ter nos bastidores, a apoiando. Era o primeiro ano da carreira de Cecília e ela sabia que o máximo de apoio que a outra poderia receber seria extremamente importante. E depois dali, Cecília queria que fossem para a festa que teria no hotel que ela estava hospedada, pois seria algo com pessoas incríveis e muito divertidas.
O BTS. riu, lembrando da conversa e da insistência dela.
Com certeza estava feliz por Cece ter se resolvido com Namjoon e estarem iniciando uma nova fase, também não tinha muito a ver com Hoseok a sua dificuldade de aceitar o convite – inclusive, estava muito bem quanto a ele, obrigada; não tiveram contato, poucas trocas de mensagens simples para checar um ao outro, nada muito prolongado, sempre respeitando um o espaço do outro. Ela só não conseguia ver sentido.
Mas tudo bem, o importante era estar ali para apoiar a Cecília. A decisão sobre dividir soju no hotel ficaria para depois.
Assim que a viu subir no palco, tirou as mãos do bolso do sobretudo, batendo-as freneticamente e emitindo o máximo de barulho que conseguia. Logo foi acompanhada por Pam, que não demorou a chegar, mas também tão brevemente saiu em busca de algo para beber, deixando-a sozinha outra vez.
Só que não por muito tempo.
– Posso ficar aqui com você?
Virou o rosto para o lado, devolvendo as mãos aos bolsos, e seus olhos encontraram o sorriso de Hoseok.
O mesmo sorriso que ainda acelerava seu coração.
– Claro… – respondeu de forma automática.
Ele apenas fechou os lábios, mantendo um sorriso fechado e também colocando as mãos nos bolsos de seu casaco grosso. Ambos prestavam atenção em Cece no palco um pouco a frente, em silêncio – também não era como se precisassem falar muito um para o outro. , entretanto, parecia um pouco petrificada, somente seu celular vibrando diversas vezes a fez tirá-lo do bolso, vendo rapidamente as notificações de Pam ao iluminar a tela. Leu algo como “você está com a faca e o queijo na mão”, mas ela não compreendeu.
Também não teve tempo de desbloquear a tela e responder, a voz de Hoseok a impediu.
– Ele sente a sua falta.
Ergueu o rosto para ele, com o cenho franzido, demorando a raciocinar que ele falava sobre Mickey. Era uma foto do cachorro de Hoseok que estava como plano de fundo da tela de bloqueio do seu celular.
Não tinha tido coragem para trocar. Muito menos fez questão.
A fala foi como uma breve corda para que ela sorrisse minimamente, entendendo superficialmente o que Pam estava querendo dizer. Se pudesse, inclusive, soltaria uma gargalhada naquele momento.
Talvez fosse uma nova chance de repetição, porém por novas linhas, aquela sensação de deja vu.
E ela só iria saber se tentasse.
– Só ele? – Manteve a troca de olhar.
Hoseok foi o primeiro a desviar e ela poderia jurar que ele estava evitando abrir o largo sorriso, tanto que as borboletas em seu estômago estavam extasiadas.
– Hobi! Precisamos ir… – Noele foi ouvida de longe, trazendo os dois para fora da bolha criada.
Ele apenas assentiu, virando-se para . Ela pôde ver brilhar no pescoço dele o colar que havia lhe entregue como presente.
– Não irei responder agora, acho que a próxima música que vai rodar para o mundo inteiro ouvir pode servir. – Hoseok disse simples, antes de sair.
Não sobrou tempo para que apreciasse a própria existência em frenética combustão no lugar em que estava. Tão breve quanto a saída de Hobi, Pam se aproximou. Dizia coisas que não fez questão de ouvir, ela apenas prestava atenção na melodia que iniciava no palco assim que Cece saiu e deu lugar ao BTS.
– Fala sério! Dentre tantas formas de flertar com seu ex, você foi usar a mais clichê e previsível, ? – ouviu Pam soar indignada.
Virou somente seu rosto para a direção de Pam, inibindo o sorriso.
– Mas deu certo, Pam. – Não conseguiu conter o sorriso por mais tempo, principalmente quando Make It Right já estava alcançando o final do refrão. – Cancele os planos, nós vamos tomar soju com Cece – voltou a olhar para o palco depois do pedido, prestando atenção no solo de Hoseok que se iniciava.


FIM



Nota da autora: The Last Hope ocupa um lugar muito especial no meu coração. Essa foi a primeira história que iniciei depois de um longo período em hiatus devido alguns problemas que me fizeram não ver mais sentido na escrita. Não sei e não consigo expressar exatamente o que sinto com o fim disso aqui, já sabendo que não irei inventar uma segunda parte.

Portanto, não vamos tratar como um fim, apenas para eu me acostumar. Não sei me despedir.

Quero agradecer de coração a todas as pessoas que acompanharam e sempre incentivaram essa história. De coração: muito obrigada! <3

Em especial eu quero deixar meu singelo carinho pela beta/scripter maravilhosa que encontrei nesse site: Ste, tu é um anjo e tem um lugar no céu só por ter me aturado nesses longos meses; obrigada por tudo <3

E quero deixar um grandíssimo carinho para a Bianca (Bibi - que eu chamo de Bianca porque tenho essa dificuldade em chamar as pessoas por apelidos rs). Lá no começo, a Bianca foi uma das primeiras pessoas a aparecerem quando entrei de vez para o mundinho kpop/BTS. A Bianca foi, também, uma das leitoras mais importantes que eu tive desde o começo e se eu não desisti de TLH, foi por conta dela <3

É isso, espero que tenham gostado e, por favor, não me odeiem. Eu tô aqui, ansiando para que tenham compreendido esse final, enquanto choro pensando “porr*, May! O que tinha na cabeça quando pensou em fazer DRAMA?” (Pra quem não sabe, eu tenho esse final escrito desde outubro de 2021, pois toda história que eu vou escrever, só início se estiver com a parte final pronta. Então pensem em meu pânico, lá nos capítulos iniciais… Pois é!)

Enfim, se quiserem ver Louseok, poderão ter algumas coisas deles nas próximas histórias do universo BTS World - A Saga. Ainda temos mais seis membros por vir.

Então, até breve!

Aqui embaixo tem os links para encontrar a autora, acompanhar no IG ou entrar no grupo. Fique à vontade! ♥



Nota da scripter: Mulher, eu não sei nem o que falar, só sentir. Eu fico imensamente feliz por ter feito parte da trajetória dessa história e por finalizar ela junto contigo. Nunca vou cansar de dizer que você arrasa demais e pode ter certeza de que já estou com saudades dessa fic.
Obrigada por me escolher como beta/scripter, pela amizade que criamos nesse processo e por compartilhar esse trabalho maravilhoso. Você é maravilhosa! ♥

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