The Saint of Sinners

Finalizada

Capitulo Único

O vento uivava através das fendas do convento, carregando o cheiro antigo de incenso e ferrugem. As velas, alinhadas em fileiras tortas, tremulavam sob o teto gretado — cada chama uma prece vacilante.
No centro da capela, ajoelhada diante do altar sem santos, estava Irmã Verena.
Sua túnica branca, agora manchada em tons que variavam do vinho ao preto, colava-se ao corpo magro. Os dedos, ossudos e firmes, repousavam sobre a cabeça de um homem em prantos. Ele tremia, os olhos revirados, murmurando entre soluços o peso de seus pecados.
Ela ouvia tudo — não com os ouvidos, mas com o corpo inteiro.
— Confesse — dizia ela em voz baixa, quase um sussurro que parecia vir de dentro das paredes. — Deixe o mal sair para que eu o leve em seu lugar.
E o homem obedecia.
Entre gritos e lágrimas, as palavras dele se tornavam confissão, e a confissão se tornava dor.
Aos poucos, o ar ao redor se tornava denso, quente, pesado demais para respirar.
Então, Verena o tocou.
O que veio a seguir não era milagre — era fardo.
As mãos dela se fecharam sobre o rosto do penitente e, por um instante, o silêncio preencheu tudo. O fogo das velas vacilou, e o vitral de Cristo crucificado trincou com um estalo seco.
O homem parou de gritar.
Quando Verena abriu os olhos, eles estavam tingidos de ouro e sombra.
Ela respirou fundo, como quem volta de um mergulho profundo.
O pecado dele — o roubo, a raiva, o sangue derramado — agora pulsava dentro dela, queimando como óleo santo.
O homem diante dela começou a rir.
Um riso leve, infantil, aliviado.
Ele se levantou, ajoelhou-se aos pés da freira e beijou o chão.
— Estou limpo… — balbuciou, chorando. — Deus me perdoou!
Mas Verena não respondeu.
Ainda sentia o gosto metálico do mal em sua língua.
O perdão, para ela, não vinha com alívio — vinha com dor.
O corpo dela carregava os pecados de dezenas, talvez centenas. E cada vez que o fazia, uma nova marca surgia sob a pele: finas linhas negras, como ramos queimados, subindo-lhe pelos braços até o pescoço.
No alto, os sinos do convento dobraram sozinhos.
Um presságio, diziam as irmãs mais antigas.
Mas Verena sabia: era o som das almas salvas.
Ela levantou-se, cambaleante. Caminhou até o crucifixo principal, agora rachado, e passou os dedos pela madeira.
O sangue do Cristo parecia fresco.
Por um instante, ela pensou ouvir algo sussurrar atrás do altar — uma voz antiga, rouca, que chamava seu nome.
“Verena...”
Ela se virou.
Nada. Apenas a escuridão do claustro e o som das chamas morrendo.
Fechou os olhos.
Rezou.
Mas no fundo da mente, algo respondia às suas preces — algo que não era Deus.
E embora ela não soubesse ainda, o inferno começava a notar sua obra.

+++


O som que antecede o juízo não é trombeta, mas o bater de asas queimadas.
No vasto vazio entre o Céu e o Inferno, onde o tempo não corre e as orações morrem antes de chegar a lugar algum, Azrael despertou.
Suas asas — outrora douradas — agora se abriam em negro e cinza, manchadas por letras antigas que brilhavam como feridas abertas. As marcas da penitência. Cada linha contava um nome: os condenados que ele julgaria.
A luz não existia ali.
Apenas a lembrança dela.
Ele caminhou entre colunas de fogo e vidro, o chão feito de fragmentos de espelhos onde anjos decaídos viam os próprios rostos e choravam. O ar tremia, e a presença dele fazia os ecos cessarem.
Uma voz o chamou — não alta, mas inevitável.
— Azrael.
O nome soou como um veredito.
Ele se ajoelhou, não por devoção, mas por obediência.
Das sombras à frente, formou-se uma figura.
Não um monstro, nem um homem — algo entre os dois. Um brilho vermelho e frio nos olhos, uma coroa feita de chamas que não queimavam.
Lúcifer.
— Faz muito tempo, meu anjo da penitência. — A voz era suave, quase triste. — Desde que questionou o Céu, não é?
— Não por dúvida, meu senhor. Mas por compaixão. — Azrael manteve o olhar baixo.
— Compaixão... — Lúcifer sorriu, mostrando dentes brancos demais. — O mesmo veneno que corrompeu as portas do Paraíso.
O ar tremeu. As chamas que formavam seu trono se curvaram para frente, como se também ouvissem.
— A Terra está se desequilibrando — continuou Lúcifer. — Há uma mulher, uma santa viva, que arranca o mal das almas. As fileiras do Inferno estão vazias. Os pecados... minguaram.
— E o Céu permite isso? — Azrael ergueu o rosto, intrigado.
— O Céu observa. O Céu é paciente. Mas eu não sou. — O tom dele mudou, tornando-se cortante. — Se o Inferno enfraquecer, o mundo se tornará morno. E o morno é a morte de tudo.
Um silêncio pesado caiu.
Azrael entendeu.
Ele era o equilíbrio — a lâmina entre redenção e castigo.
— Quer que eu a destrua.
— Quero que a julgue. — Lúcifer sorriu novamente. — Se for pura, ela cairá sozinha. Se for corrompida... traga-a para mim.
— E se o que ela faz for realmente fé? — Azrael fechou os olhos. Dentro dele, algo antigo se remexeu — uma sombra de piedade, talvez arrependimento.
— Então, Azrael, que seja tua fé a puni-la. — Lúcifer inclinou a cabeça, curioso, como se saboreasse o sabor da dúvida.
As chamas ao redor subiram como marés. O chão rachou, revelando um abismo feito de vozes e prantos.
— Que assim seja. — Azrael se levantou, as asas se abrindo como uma sentença.
— Vai, meu anjo. — Lúcifer o abençoou com um toque de ironia. — Leva tua penitência àquela que rouba o fogo dos pecadores.
Azrael deu um passo à frente e caiu — não como quem despenca, mas como quem desce ao dever.
Enquanto mergulhava pela escuridão, o eco de Lúcifer ainda sussurrava atrás dele:
— Até as santas sangram, Azrael. Só é preciso encontrar onde…
+++


A noite havia descido sobre o convento como um véu de cinza.
As velas tremulavam, cansadas, espalhando sombras que se moviam como se tivessem vida própria.
Do lado de fora, o vento batia nos vitrais rachados e fazia o crucifixo pender sobre o altar.
Era noite de confissão.
Verena estava sozinha na capela.
As outras irmãs haviam se recolhido — algumas por medo, outras por fé demais.
O ar cheirava a incenso, ferro e cera queimada.
Ela ajoelhava-se diante do altar, os dedos entrelaçados, sussurrando palavras em uma língua que já não era a dos homens.
Então, os portões rangentes do convento se abriram.
Um som baixo, arrastado, interrompeu a prece.
Ela ergueu os olhos.
Na soleira, envolto pelo nevoeiro, um homem caminhava em silêncio. Alto, o rosto coberto por um capuz, e passos leves demais para o peso que pareciam carregar.
— Está perdido, meu filho? — perguntou Verena, a voz firme, mas com algo novo por trás: uma nota quase trêmula.
— Vim confessar-me. — A voz dele era profunda, calma, e parecia conter muitas outras vozes dentro de si. — Disseram-me que a Santa do Convento cura os pecadores.
— Quem te disse isso? — Ela desviou o olhar.
— As almas. — O tom dele era sereno, e isso a perturbou mais do que se fosse um grito.
Verena gesticulou para que se aproximasse. O homem andou até o altar, e a cada passo o ar parecia se tornar mais denso, mais quente.
Quando ele se ajoelhou diante dela, o chão gemeu, como se algo invisível suportasse seu peso.
— Diga teu nome, para que Deus o ouça. — Ela colocou a mão sobre a cabeça dele.
— Azrael.
A palavra pareceu congelar o ar entre eles.
— E teu pecado? — Verena piscou, sem entender por que aquele nome a fez sentir frio e calor ao mesmo tempo.
— A compaixão. — Ele ergueu os olhos. Pela primeira vez, ela o viu de verdade. O rosto sereno, belo e antigo. E os olhos… não tinham cor. Brilhavam como vidro molhado. — Amei o que não devia amar. E fui lançado por isso.
— Todos somos lançados por algo. — Verena sentiu o coração acelerar.
— E tu, Santa? — perguntou ele, inclinando-se um pouco. — Por que tomas o fardo dos outros?
Ela hesitou.
— Porque ninguém mais o faria. — As palavras se embaralharam na garganta.
— Então salva-me, Irmã Verena. Liberta-me daquilo que o próprio Céu não quis perdoar. — Azrael sorriu - um gesto quase humano, quase piedoso.
Ela fechou os olhos, murmurando a oração.
O toque veio logo depois — sua mão pousando sobre o peito dele, sobre o tecido úmido e frio.
Um calor subiu pelo braço dela, rápido, queimando até o ombro.
E então, o erro.
O poder que antes fluía suave, como água, tornou-se fogo.
O corpo de Azrael não cedeu. Não havia pecado para ser arrancado — havia um abismo.
Verena tentou respirar, mas o ar fugiu. A sala girou.
Por um instante, sentiu dentro de si não a dor dos homens… mas o eco de algo divino — e profano ao mesmo tempo.
Abriu os olhos.
Ele a olhava. Não havia piedade, nem raiva. Apenas algo que parecia antigo demais para ser compreendido.
— Quem és tu? — sussurrou ela.
— Aquele que veio te julgar. — respondeu Azrael. — Mas agora não sei se devo.
Verena afastou a mão, trêmula, o coração descompassado.
A luz das velas piscou e morreu.
Por um instante, o mundo pareceu prender a respiração.
E no escuro, o som de asas.
A noite ainda não terminara.
O convento parecia respirar devagar, como um corpo adormecido depois de uma febre.
Das janelas quebradas vinha um frio sem direção, e o som da chuva escorrendo pelos vitrais soava como um coro distante de vozes cansadas.
Verena não acendeu nenhuma vela.
Sentou-se no chão de pedra da capela, a mão pressionando o peito onde havia tocado o penitente.
O calor permanecia ali, imóvel, queimando sem fogo.
Rezava em silêncio, mas cada palavra se desfazia antes de chegar aos lábios.
— Pai nosso... — tentou dizer.
A frase parou na garganta, seca.
O eco da própria voz voltou-lhe aos ouvidos como se outra pessoa a repetisse atrás do altar.
Ela se virou. Nada. Apenas o vulto das colunas e a oscilação da noite.
O ar cheirava a metal.
A madeira dos bancos gemia.
E em cada estalo ela pensava ouvir passos — leves, pacientes, circulando o altar.
Fechou os olhos e viu o rosto dele: o penitente, os olhos transparentes, o nome impronunciável.
Azrael.
A mente buscou refúgio na oração, mas as imagens vieram em avalanche:
as asas, a voz que soava como pedra rachando, a sensação de ter olhado algo que não devia existir.
Verena levou as mãos ao rosto. O sangue latejava nas têmporas como se um segundo coração batesse ali.
Por um instante, achou que sonhava.
As paredes do convento se dissolveram e ela viu um campo branco, coberto de figuras ajoelhadas.
Milhares delas, sem rosto, sussurrando o mesmo pedido:
“Salva-nos.”
Ela deu um passo e todas as vozes cessaram.
Um vazio absoluto.
E no meio dele, um par de olhos claros.
Sem corpo, sem forma, apenas os olhos.
— Por que me tocaste? — perguntou uma voz que podia ser a sua própria.
Verena despertou com um sobressalto.
O chão da capela estava frio, o corpo coberto de suor.
A primeira luz do amanhecer insinuava-se pela porta, transformando o pó em ouro.
Levantou-se devagar.
O crucifixo pendia torto, a cabeça de Cristo inclinada como se a olhasse.
E, por baixo do altar, o que parecia um rastro de cinza recente.
Ajoelhou-se, tocou a pedra. Estava morna.
Rezou outra vez, com a voz partida.
— Se é provação, dá-me força. Se é castigo... ensina-me o motivo.
Nenhuma resposta.
Só o som do vento atravessando as fendas, levando embora as últimas chamas.
Quando se levantou, percebeu que os dedos estavam manchados de cinza. E no centro da palma, uma marca em forma de círculo — leve, mas visível. Como o selo de uma aliança que ainda não fora dita.
Verena escondeu a mão na manga do hábito.
Sabia que não havia sido esquecida.
A presença dele permanecia ali, invisível, esperando.
E do lado de fora, sobre o portão do convento, uma pena escura oscilava ao vento antes de desaparecer.

+++


O convento acordou envolto por um nevoeiro denso, o tipo de manhã em que o mundo parece não ter começo nem fim.
As irmãs andavam em silêncio, as passadas abafadas pelos corredores.
Somente Verena não se movia com a mesma serenidade.
Parecia ouvir um som que mais ninguém escutava — algo entre o sussurro e a respiração contida.
Ela rezava enquanto lavava as mãos no jarro de água fria.
Mas, ao baixar o olhar, viu o reflexo do próprio rosto na superfície — e por um instante não era o seu.
Os olhos no espelho d’água eram claros demais.
Piscou, e tudo voltou ao normal.
Desde a noite da confissão, o convento parecia mais escuro, como se as paredes guardassem o calor de uma presença que não se fora.
Às vezes, o sino tocava sozinho.
Às vezes, uma pena surgia no chão, caída entre as páginas do Evangelho.
Azrael estava por perto.
Não de corpo, mas de consciência.
Movia-se pelas frestas da mente dela como vento por uma fenda — invisível, inevitável.
Observava-a quando ela dormia, sentia-lhe o coração quando rezava, e cada palavra dita ao céu caía antes de chegar ao alto.
Naquela tarde, enquanto as irmãs trabalhavam no jardim, Verena recolheu-se à biblioteca.
Os livros exalavam o perfume de pó e tempo.
Passava os dedos pelas lombadas, distraída, até que um volume caiu sozinho.
Abriu-se nas últimas páginas, e ali, em letras que não reconhecia, lia-se:
“A penitência é o espelho onde o anjo se descobre humano.”
Ela recuou, o coração acelerado.
— Isso não estava aqui — murmurou.
— Estava, mas tu nunca ousaste ler.
A voz veio de todos os lados.
Suave, grave, próxima.
Verena virou-se, mas não havia ninguém.
Apenas o véu das cortinas movendo-se, embora o ar estivesse imóvel.
— Que queres de mim? — sussurrou.
— Quero que me olhes como olhaste o altar. — A resposta veio com um eco baixo, como se fosse pensada, não dita.
— Quero ver até onde tua fé suporta a verdade.
— Não é real. És tentação. — Ela levou as mãos aos ouvidos.
— Sou lembrança. Sou o que criaste quando tentaste me curar.
— Tu me chamaste, Verena.
O nome pronunciado dessa forma soou como um toque sobre a pele.
O corpo dela estremeceu.
Deu dois passos para trás, o rosário escapando dos dedos.
O som das contas batendo no chão ecoou pelo salão vazio.
A voz cessou.
Mas o silêncio que veio depois era ainda mais pesado.
Verena ajoelhou-se, tentando rezar, mas as palavras saíam truncadas, misturando orações e murmúrios.
O ar ficou denso, o gosto metálico retornou à boca.
Na porta, uma sombra se alongava sobre o piso de pedra.
Nada mais que isso — mas era o bastante para que ela soubesse que ele a via.
Sempre a via.
Quando o sino anunciou a nona hora, as outras irmãs a encontraram sentada no chão, imóvel, o olhar perdido no vazio.
Perguntaram se estava doente.
Ela apenas sorriu, e pela primeira vez, não respondeu.
Do lado de fora, sobre o muro do convento, uma figura permanecia imóvel.
O rosto voltado para o claustro, as asas recolhidas sob o nevoeiro.
Azrael observava, paciente.
Sabia que a fé dela começava a rachar — e através dessas rachaduras, a luz dele voltaria a entrar.
O sol mal nascera quando trouxeram o novo penitente.
Um homem simples, de rosto pálido e mãos feridas pelo trabalho nos campos.
Disseram que ele ouvira vozes durante a noite e que nenhum padre da região ousara tocá-lo.
Verena aceitou em silêncio.
As outras irmãs observavam de longe, com medo e fé misturados, como se presenciassem um milagre e uma heresia ao mesmo tempo.
A capela estava fria, e o ar carregava um perfume de incenso queimado.
Verena ajoelhou-se diante do homem, pousando-lhe as mãos sobre a cabeça.
As orações fluíram, mas algo nelas parecia… oco.
As palavras saíam corretas, mas o som não tinha peso.
O penitente estremeceu.
O corpo dele se arqueou, o suor escorreu pela fronte — e então, nada.
Nenhum lampejo, nenhum sinal de purificação.
Somente silêncio.
Verena abriu os olhos.
A luz da vela oscilava, fraca, e dentro da chama ela viu algo estranho:
a própria sombra, mas com as mãos manchadas de cinza.
Tentou continuar.
O tom da voz vacilou.
O ar pareceu escapar do peito.
E, de repente, o homem diante dela começou a rir — um riso rouco, quebrado, que não parecia vir dele.
— Não podes curar o que já se corrompeu — disse uma voz por trás do altar.
Verena virou-se.
Entre as colunas, a penumbra tomou forma.
Azrael estava ali — ou algo que lembrava sua presença.
Os olhos claros, o contorno do manto, e uma aura de calma terrível.
— Saia daqui — ordenou ela, recuando. — Isto é solo sagrado.
Ele deu um passo, e a luz pareceu curvar-se em torno do corpo dele.
— E tu ainda acreditas que há solo sagrado, Verena?
— O chão que tocas já conhece teu nome.
O penitente desabou, inconsciente, o riso cessando.
— O que queres de mim? — Verena o olhou, aflita, depois voltou o olhar para Azrael.
— Que olhes a ti mesma sem fugir. — A voz dele era suave, quase compassiva. — Tu te alimentas do pecado dos outros, mas já não sabes o sabor do teu.
— Não me toques. — Ela apertou o rosário.
— Não preciso tocar-te. — Ele parou a poucos passos dela. — A dúvida faz o que minhas mãos não fariam. A fé que racha é a porta pela qual entro.
— Se vieste para me destruir, termina logo. — Verena recuou até o altar, o coração descompassado.
— Não vim destruir. Vim assistir. — Ver a santa tornar-se humana. — Azrael inclinou a cabeça.
Por um instante, o silêncio reinou.
As velas se apagaram sozinhas, e o vento soprou de dentro para fora.
Verena fechou os olhos, e ao abri-los ele havia desaparecido.
Apenas as cinzas dançavam no ar, subindo em espirais até desaparecerem no teto.
Ela olhou para o penitente, agora adormecido, e viu que seus olhos se moviam por baixo das pálpebras, como se sonhasse.
Sussurrou uma prece curta — não por ele, mas por si mesma.
No altar, a cruz de prata estava coberta por um fino véu de poeira cinzenta.
E na palma da mão de Verena, o círculo da marca ardia em silêncio, como se respondesse a um chamado que ela ainda não sabia ouvir.
+++


O convento já não respirava como antes.
As paredes, outrora brancas, ganhavam tons de ferrugem, e o som dos sinos parecia distante, deformado.
As irmãs caminhavam como sombras entre os corredores, evitando olhar para Verena.
Diziam que as orações dela haviam se tornado frias, que o ar mudava quando ela passava.
Verena sabia.
Sentia a diferença no próprio corpo — o peso das preces, o silêncio onde antes havia resposta.
A voz de Deus calara-se.
Em seu lugar, um murmúrio mais suave preenchia o vazio.
Às vezes, ela tentava resistir.
Ajoelhava-se diante do altar, o rosário entre os dedos feridos.
Mas a oração já não saía.
O nome que lhe vinha aos lábios não era o de Cristo.
— Por que lutas contra o que compreendes? — A voz soava como vento atravessando vidro. — Teu dom era meu desde o início.
— Cale-se… — sussurrou ela, apertando os olhos.
Mas o silêncio respondeu com o bater distante de asas.
Naquela noite, Verena vagou pelos corredores descalça, o hábito arrastando-se no chão úmido.
As portas estavam todas entreabertas, como se o convento inteiro respirasse junto dela.
Quando chegou à capela, o crucifixo estava no chão, tombado sobre as velas apagadas.
Ela se ajoelhou.
As lágrimas escorreram, não de dor, mas de uma calma nova e terrível.
Não havia medo, apenas certeza.
— Vês? — disse a voz, próxima, doce. — A fé é o último véu entre ti e a verdade.
— E qual é a verdade? — perguntou Verena, erguendo o rosto.
A resposta veio como um sussurro ao redor dela:
— Que não há céu nem inferno… apenas os que ousam escolher.
O ar tornou-se pesado.
A chama das velas reacendeu sozinha, uma a uma, até a capela inteira estar tomada por uma luz pálida e sem fonte.
E, então, ele apareceu.
Azrael estava diante do altar, o rosto sereno, as asas recolhidas, os olhos claros como o primeiro dia do mundo.
Não havia ameaça nele — apenas presença.
Estendeu a mão, sem tocá-la.
— Não há mais o que temer — disse. — Tu já és minha.
Verena olhou a palma da própria mão.
O círculo ali desenhado pulsava, vivo.
O calor espalhou-se pelo corpo inteiro, dissolvendo o que restava de vontade.
Ela respirou fundo, fechou os olhos… e, pela primeira vez, não rezou.
O silêncio foi absoluto.
O vento cessou.
E uma única pena negra caiu diante do altar, pousando ao lado do crucifixo.
Dizem que o convento começou a morrer no mesmo dia em que a irmã Verena silenciou suas preces.
Não foi de súbito — a morte veio como o mofo, discreta, tomando primeiro as pedras mais frias, depois os corações mais frágeis.
As flores do claustro murcharam em pleno inverno, e o sino da madrugada perdeu o timbre, tocando baixo, como se cansado de anunciar o dia.
As irmãs comentavam em sussurros.
Diziam que, à noite, luzes moviam-se sob a porta da cela de Verena, como se alguém lá dentro acendesse velas em segredo.
Diziam também que ela não dormia, apenas fitava o teto até o amanhecer, e que o ar ao redor de sua porta tinha cheiro de ferro e de terra molhada.
A Madre Superiora tentou chamá-la para a confissão, mas Verena recusou, com uma serenidade que fez a velha mulher tremer.
Desde então, ninguém ousou insistir.
A mudança mais terrível, porém, não estava nela — estava em tudo.
As velas queimavam mais rápido.
As estátuas dos santos escureciam, o brilho das janelas coloridas parecia murchar, e até os corvos deixaram de pousar na torre.
Havia um sentimento espesso no ar, uma espécie de torpor, como se o convento respirasse fumaça em vez de ar.
Certa manhã, a irmã Agatha encontrou o poço do pátio coberto por uma camada fina de cinza.
Quando soprou para ver o fundo, o eco voltou abafado — como se houvesse algo dormindo lá embaixo.
Naquela mesma noite, ouviu-se um canto.
Não era gregoriano, tampouco humano.
Uma melodia lenta, arrastada, surgindo de nenhum lugar e de todos ao mesmo tempo.
As irmãs se juntaram no corredor, temendo olhar.
E então, da penumbra, Verena apareceu.
Os olhos dela já não eram os mesmos.
Brilhavam de um modo que não pertencia ao corpo, nem à alma.
Ela andava descalça, o hábito rasgado na barra, e trazia nas mãos um rosário feito de algo escuro demais para ser madeira.
— Irmã Verena — chamou uma das novatas, tremendo. — Estais bem?
Ela parou.
O silêncio que se seguiu pesou tanto que uma das velas se apagou sozinha. Verena sorriu — não um sorriso de alegria, mas de alguém que compreendeu algo que ninguém mais entenderia.
— O bem... — murmurou ela, baixinho, com uma voz que parecia ecoar de dentro das paredes. — O bem é o que resta quando o amor morre.
E continuou a andar, desaparecendo pela nave central.
Atrás dela, o chão deixava marcas de cinza, como pegadas queimadas.
As irmãs não ousaram segui-la.
Durante dias, a capela permaneceu vazia.
E quando finalmente alguém teve coragem de entrar, encontrou o crucifixo novamente caído — e sobre o altar, uma única pena escura, intacta, repousando sobre a Bíblia aberta.
A Madre Superiora tentou limpá-la, mas a pena se desfez ao toque, transformando-se em pó.
Desde então, as irmãs juram que, à noite, o convento inteiro parece respirar — como se houvesse algo ali dentro que ainda sonha, e o nome desse sonho fosse Verena.



FIM



Nota da autora: S/N

Nota da scripter:
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.