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Última atualização: 18/10/2021

Capítulo 1

Por

Acordei com Duda pulando de um degrau a outro na escada que servia de teto para o meu "quarto". Eu sabia que era seu aniversário, mas ele fazia questão de gritar aos quatro cantos, com o único objetivo de torturar os meus ouvidos que acabara de acordar. Desde muito novo ele sempre foi muito mau comigo, vivia pregando peças e me tornando alvo dos seus insultos. Sem aguentar mais um segundo deitada com poeira caindo em cima de mim, levantei do colchão improvisado e procurei pelos meus óculos. Tateei o chão em busca das minhas meias e as encontrei cheias de teias de aranha como a maioria das coisas ficava quando entrava em contato com aquele armário. Eu abri a pequena porta e suspirei aliviada por não encontrar Duda e segui para a cozinha, onde encontrei todos: tio Válter, tia Petúnia e o Duda. Eles conversavam entretidos sobre os acontecimentos do dia e então pararam de falar assim que eu apareci. Cada um me encarou com um tipo de expressão, mas todas desdenhosas.

― Isso são horas de acordar? Acha que está em um hotel? ― tia Petúnia disse ferozmente.
― Desculpe, tia. ― disse com a cabeça baixa.
― Olhe o bacon no fogo e não os deixe queimar.

Quando cheguei perto da panela o bacon estava perto do ponto ideal, me poupando tempo e peguei um garfo e os virei. Enquanto observava e contava mentalmente o momento certo para tirar a panela do fogo, atentei a parte da conversa que continuava; tio Válter tinha prometido a Duda que o levaria ao zoológico naquele dia e tia Petúnia falava sobre ele ser o anjinho da mamãe. Revirei os olhos ao escutar o que tia Petúnia falava, anjinho estava bem longe da realidade. Coloquei os bacons no prato e fui em direção a tio Válter que estava sentado na sua poltrona de sempre em frente à televisão, com um jornal aberto. Quando me aproximei recebi uma careta , estendi o braço e ele pegou o prato das minhas mãos. Saí rapidamente do seu campo de visão e me sentei à mesa, partindo imediatamente para a tigela que já estava servida com leite e cereal. A marca não era uma das melhores, eles pareciam moles antes de serem mergulhados no leite, mas eu estava faminta. Depois que eu devorei o meu café da manhã levei tudo para a pia e estava terminando de lavar metade da louça quando escutei o chilique de Duda sobre a quantidade de presentes que ele tinha ganhado naquele ano. As caixas amontoadas ao canto davam a impressão de ter o dobro de presentes que tinha e Duda, mesmo com tudo que tinha, reclamava sobre não ter a quantidade que ele queria. Me distraí enquanto terminava de lavar a louça e só escutei os passos de tia Petúnia em minha direção quando essa, já estava perto demais. Os seus saltos faziam barulho quando ela andava e eu podia imaginar a sua pose de madame, a mesma que ela tentava passar para os vizinhos.

! O que pensa que está fazendo? ― pensei em responder o óbvio, mas sua carranca não toleraria brincadeiras. ― Adiante, nós não temos o dia todo.
― Estou terminando, tia.
― A Sra. Figg ligou, ela não poderá ficar com você, está doente. ― eu concordei e continuei a lavar o último copo segurando o sorriso que se formava nos meus lábios.

Tia Petúnia saiu do meu lado e voltou para perto de tio Válter que aparentava estar muito irritado com aquela notícia. Eles olhavam na minha direção e praguejavam com a possibilidade de não ter com quem me deixar e eu estava agradecida, não pelo ocorrido com a Sra. Figg, mas não poderia negar que passar um ano sem escutar as mesmas histórias sobre seus animais de estimação que tinham morrido me deixava alegre. Eu iria adorar assistir televisão se eles me deixassem sozinha ali. Eu sempre assistia um pouco na casa da Sra. Figg quando ela estava ocupada fazendo biscoitos, que na maioria das vezes não davam para comer de tão duros que eram. Ela era uma boa mulher, um pouco louca, mas uma boa mulher. Deixei eles discutirem as possibilidades e me mantive neutra.

― Deixá-la aqui seria muito arriscado? ― ela o olhou como se esperasse o pior.
― Nem pensar, ela vai destruir a casa. ― Tio Válter disse me encarando.
― Podemos deixá-la trancada no carro. ― Tia Petúnia continuou com as sugestões.
― Não vou deixá-la no meu carro novo. ― Tio Válter disse com desespero.

Foi então que eu percebi que o assunto estava encerrado. Eu iria sair com eles; iria ao zoológico pela primeira vez.

🏰⚡

Passei o percurso até o zoológico em silêncio, enquanto Duda não parava de falar sobre não me querer na sua programação de aniversário. Sua voz era tão irritante que eu tinha vontade de fazê-lo ficar mudo. Então de repente, o carro ficou em um silêncio quase absoluto. Eu olhei para Duda e ele ainda falava, mas as palavras que saiam da sua boca não tinham som; ele parecia assustado e sem saber o que fazer, já que seus pais olhavam para frente e não prestavam atenção nos seus protestos mudos. Quando tio Válter parou em uma vaga na frente do zoológico, a voz de Duda voltou e ela estava um pouco chorosa devido ao evento anterior e sem saber explicar ele saiu do carro quase de imediato. Eu o olhava com satisfação, mas também não sabia o que tinha acontecido. Ele foi na direção de tia Petúnia que prometeu mais uma vez vários presentes e tio Válter me parou enquanto eu descia do carro e batia a porta.

― Se você fizer alguma gracinha para estragar o dia do Duda, ficará de castigo para sempre. ― eu concordei com um aceno de cabeça e ele continuou. ― Estou de olho em você.

Ele andou para encontrar os outros dois que já estavam na entrada e eu segui atrás, nem muito perto e nem muito longe, mas o suficiente para não perdê-los de vista. Arrumei a minha camiseta listrada de mangas que servia de casaco e arrumei o short que mais parecia uma calça; como a maioria das roupas que eram de Duda e passavam para mim, elas eram enormes, mesmo ajustadas o máximo que minha tia tentava. As únicas peças que eu tinha um pouco de liberdade de desfrutar sozinha eram as íntimas. Quase uma hora depois tínhamos visitado quase todos os animais, menos os répteis, o que não demorou muito e lá estava Duda batendo no vidro para incomodar os animais e choramingando por sua estratégia não ter funcionado. Me aproximei do vidro de uma cobra gigantesca e a observei com atenção, percebendo um pouco depois que ela retribuiu a atenção. Ela também me observava e eu sentia como se tivéssemos ligadas de alguma forma, e podia imaginar o que ela estava passando por estar trancada ali dia após dia tendo que aturar várias pessoas batendo em seu vidro. Notei que aos poucos a cobra saia de sua postura inerte e levantava a cabeça até ficar mais ou menos a minha altura. Ela piscou em minha direção e eu recuei um pouco, era estranho ter em mente que a cobra estava tentando se comunicar. Sustentei o seu olhar e pisquei também. Um sussurro leve me atingiu como se a cobra estivesse falando comigo "Isso acontece todos os dias" e eu acenei com a cabeça.

― Eu entendo. Você deve sentir saudade de casa.

A cobra apontou para uma placa e então eu pude ler que ela tinha nascido em cativeiro. Aquilo era tão triste. A voz estridente de Duda nos assustou quando ele partiu de uma vez para o vidro e me empurrou. Eu bati em um baque com a bunda no chão e a raiva me consumiu quando o vi socando o vidro para que a cobra se mexesse mais. Eu respirei fundo e desejei do fundo do meu coração que a cobra pudesse sair e viver livre, então o vidro em que Duda se apoiava sumiu e o mesmo caiu para dentro. A cobra se desenrolou e saiu depressa passando por mim que ainda estava caída no chão e o leve sussurro estava ali novamente ela me agradecia "Lhe agradeço, amiga". A cobra partiu em direção a saída do zoológico tirando vários gritos de pânico por onde passava. Eu ainda não entendia o que tinha acontecido, provavelmente estava em choque, mas estava contente que a cobra teria chances melhores que as minhas dali por diante. Virei o rosto na direção em que Duda estava e tio Válter me olhava como se eu fosse a culpada, e eu poderia imaginar o pior castigo de todos.

🏰⚡

Como eu imaginava, o pior castigo de todos veio. Tio Válter foi o primeiro a me acusar; ele não conseguia explicar como eu poderia ter feito algo tão extraordinário assim, mas afirmava com muita convicção quando me mandou ir para o armário sem ao menos jantar antes. Tia Petúnia me olhava horrorizada e não parava de dizer a Duda que tudo iria se resolver, que me deixaria longe dele. No meu ponto de vista tio Válter estava sendo injusto; como eu poderia fazer algo tão mágico? Como eu poderia fazer algo assim e não saber antes? Tantas coisas se passavam na minha cabeça e eu só conseguia pensar em como seria se meus pais estivessem vivos. Talvez eles pudessem me explicar todas as coisas estranhas que aconteciam comigo por perto, ou eles confirmariam a minha estranheza. Eu não sabia que horas poderiam ser, mas muito tempo tinha se passado desde o último rangido no piso. Minha barriga começou a roncar e eu tive a certeza de que não ficaria nem mais um minuto naquele castigo sem fundamento; os Dursley deveriam estar no vigésimo sono.
Abri devagar a porta do armário e coloquei a cabeça do lado de fora, esperando escutar qualquer coisa que pudesse me provar do contrário. Com rapidez passei pelo corredor e em instantes estava na cozinha. Escutei a minha barriga roncar mais uma vez. Eu não tinha muito tempo, teria que pegar qualquer coisa que fizesse o mínimo barulho possível. Visualizei um pacote solitário de algum biscoito que Duda não tinha gostado e o peguei. Quando eu estava prestes a voltar para o armário, escutei passos vindos da escada. Abaixei ao lado oposto a ilha da cozinha e me preparei para correr a qualquer sinal de passos para naquela direção, e então numa passada rápida corri de volta para o armário e de relance pude notar quem quer que fosse chegando até a pia. Eu não sabia se tinha sido tia Petúnia ou o tio Válter, mas estava aliviada por não ter sido descoberta. Abri a porta do armário devagar e fechei do mesmo modo me sentando no colchão.
O biscoito murcho era melhor do que passar aquela noite sem nada, então comi devagar para que não fazer ruídos e me perdi em pensamentos mais uma vez imaginando se algum dia saberia mais sobre meus pais, já que tia Petúnia nunca falava deles e tinha me proibido de perguntar. Eu tinha milhares de perguntas sobre como eles morreram e eu sobrevivi e sobre os meus sonhos com um lampejo ofuscante de luz verde. Tia petúnia me disse que foi um acidente de carro. Embora quisesse a resposta para todas aquelas perguntas, eu as trocaria por uma foto deles, ou pelo menos a chance de vê-los. Uma foto dos meus pais para que eu enfim parasse de pensar tanto nos detalhes do tal acidente e pudesse imaginar como seria vê-los pessoalmente. Eu vivia com os Dursley a tanto tempo, os aturando mesmo sendo minha única família e não consegui pensar numa justificativa para me tratarem tão mal. Eles deveriam se importar comigo? Eu merecia todos os castigos e todas as falas de desgosto?

🏰⚡

Quando finalmente saí do meu castigo por causa do zoológico, as férias de verão já haviam começado. Duda parecia disposto a quebrar todos os presentes que ganhara de aniversário e sempre que tentava brincar com algum deles na rua, acontecia alguma tragédia, como no dia em que derrubou a Sra. Figg com a sua bicicleta enquanto a mesma tentava atravessar de uma calçada a outra, ou quando atropelou o pobre cachorro. Eu agradecia imensamente por não ter mais aulas, contudo ainda tinha que me esquivar de Duda e seus amigos que o visitavam quase todos os dias, o que não me afetava muito, porque não os veria na minha nova escola; Duda iria para a mesma escola que tio Válter tinha estudado, por isso não era difícil de notar o quão bobos os meus tios tinham ficado com a transferência de Duda e a prova do novo uniforme. A cada dia uma bobagem diferente sobre como ele estava crescido e o quão estavam orgulhosos.
Um dia eu entrei na cozinha pela manhã, como sempre fazia e me dirigi ao fogão. Ele já estava apagado e não tinha nenhuma comida para que eu pudesse terminar de olhar ou de fazer, bem como o meu café da manhã já estava posto. Me sentei à mesa e comecei a procurar o que estava diferente naquele dia além do fato de tia Petúnia não me pedir para fazer nada, então um cheiro horrível me atingiu e eu achei a sua fonte dentro da pia. Dava para ver alguns trapos amontoados e não me contive de curiosidade.

― Tia Petúnia o que é aquilo na pia? ― ela contraiu os lábios e tentou conter a careta que se formava.
― O seu uniforme novo, para a escola.
― Ele vai ficar assim fedido quando secar?
― Chega de perguntas! ― ela disse muito irritada. ― Era do Duda, você tem sorte de poder usar algo decente depois que eu terminar de tingir.

Olhei para o meu café da manhã e continuei a comer, enquanto me imaginava chegando na escola secundária no primeiro dia e sendo motivo de muitos risos mesmo com Duda e sua trupe longe.  Minhas esperanças de fazer pelo menos um amigo tinham ido pelos ares. Observei tio Válter e Duda entrarem na cozinha, franzindo o nariz ao mesmo tempo, olhando para minha direção, possivelmente imaginando que eu fosse a fonte do mal cheiro. Tio Válter se sentou na sua poltrona de sempre e Duda bateu na mesa com a bengala da sua nova escola. Ele não desgrudava dela por nada. Então alguns minutos depois escutei o clique da portinhola para as cartas e a correspondência caindo.

― Vá apanhar o correio, Duda. ― Tio Válter disse enquanto lia seu jornal.
― Mande a ! ― Duda gritou.

Levantei da mesa a contragosto e fui em direção a porta. Havia três coisas no capacho: um postal da irmã do tio Válter, Guida, que estava passando as férias em algum lugar que eu não fazia ideia, um envelope pardo que parecia uma conta e uma carta para mim. Me assustei quando li o meu nome no papel e senti meu coração acelerar, meu corpo todo vibrava e eu tinha quase certeza que tinha congelado enquanto olhava a carta.

A Srta. Potter
O Armário sob a Escada
Rua dos Alfeneiros 4
Little Whinging
Surrey

Eu não tinha amigos, outros parentes e não era associada em nenhum lugar. Não fazia ideia de quem pudesse ser, mas engano estava fora de cogitação; o meu nome estava escrito com todas as letras. O envelope era grosso e pesava um pouco na minha mão. Estava endereçado com tinta verde, um bem bonito e não tinha carimbo. Virei o envelope devagar e pude notar um lacre de cera com um brasão: um leão, uma águia, um texugo e uma cobra circulando a letra H.

― Ande depressa pirralha! ― escutei tio Válter gritar da cozinha e dizer mais alguma coisa, mas só escutei a sua risada.

Voltei para a cozinha ainda encarando a carta com o meu nome, sem conseguir acreditar que depois de todo esse tempo alguém lembrou de mim. Entreguei a outra carta e o postal para tio Válter e me sentei na cadeira que estava na outra extremidade. Abri lentamente o envelope e escutei o tio Válter rasgar o dele.

― Guida está doente. ― escutei ao longe ele dizer a tia Petúnia.
― Pai! ― Duda o chamou desesperado. ― A recebeu uma carta. ― ele terminou a sua frase e então eu despertei, mas Tio Válter tinha tomado a carta da minha mão no mesmo segundo. Quando eu estava prestes a abrir e saber o que dizia e o paradeiro de quem tinha me enviado, e então eles tinham tomado de mim. E se fosse algo relacionado aos meus pais? Eles não tinham esse direito.
― A carta é minha! Tem meu nome nela. ― me levantei e tentei recuperar a carta num impulso.
― Quem escreveria para você? ― tio Válter sacudiu as mãos no ar e Duda deu uma risada zombeteira. O seu pai desdobrou a carta e então o seu rosto começou a mudar de cor, seus olhos arregalaram e ele foi de vermelho para pálido em fração de segundos. Ele passou a mão pelo rosto em claro sinal de desespero e chamou a tia Petúnia que veio correndo.
― Válter! Não é possível! ― ela disse desesperada, também e eles se encararam e por um segundo se esquecendo que Duda e eu estávamos ali.
― QUERO A MINHA CARTA! ― gritei com todas as minhas forças para chamar a atenção dos dois.
― Me deixa ver também. ― Duda exigiu ao passo que acertava o pai com a sua bengala e batia os pés no chão.
― FORA! ― berrou tio Válter e agarrou cada um pelo colarinho da camisa nos deixando no corredor batendo a porta da cozinha. Duda tomou conta da fechadura da porta e eu tentei pela fresta entre a porta e o chão. Me esforcei para escutar o que tia Petúnia dizia no seu fio de voz e fiquei intrigada com a parte da conversa que consegui entender.
― Olhe o endereço, eles sabem onde ela dorme. Acha que estão nos vigiando? Acha que estão vigiando a casa?
― Mais do que vigiando, estão nos espionando, nos seguindo… ― tio Válter disse com a voz trêmula.
― O que vamos fazer? Responder e dizer que não queremos?
― Não! Vamos ignorar, porque se não receberem uma resposta, irão parar.
― Mas… ― tia Petúnia tentou falar, mas foi cortada.
― Não vou ter um deles em casa. Juramos acabar com toda essa bobagem quando a recebemos. ― eu suspirei e levantei do chão. Eles não sairiam tão cedo, então voltei para o meu armário.

Meu coração estava apertado e minha cabeça confusa, porque nada do que tinha acontecido fazia qualquer sentido. Alguma coisa acontecia lá fora também e eles estavam me escondendo. Peguei no sono devido ao cansaço de montar milhares de teorias na minha cabeça e sonhei com várias cartas chegando pela fresta da porta do meu armário. Eram cartas iguais às que tio Válter tinha pego de mim. O seu brasão era sem dúvidas algo único. Acordei com batidinhas na porta do armário e me sentei no colchão, abrindo a mesma no segundo seguinte. Tomei um susto quando identifiquei o rosto de tio Válter e rosnei em sua direção.

― Onde está a minha carta?
― Foi um engano. ― ele disse secamente. ― Eu a queimei.
― Ela era minha, não foi um engano! ― eu disse tentando conter o nó que se formava na minha garganta. ― Tinha o endereço do meu armário. ― Insisti.
― Calada! ― tio Válter gritou e eu me encolhi. Ele respirou fundo e forçou um sorriso. ― , escute. Sobre esse armário, sua tia e eu estivemos pensando, que você está ficando grande demais para ele, precisa de um pouco mais de espaço e achamos que seria bom se você mudasse para o segundo quarto de Duda.
― Por quê? ― eu questionei.
― Não me faça perguntas! Junte todas as suas coisas e suba.

Eu juntei todas as minhas coisas sem demora num pequeno caixote e subi as escadas em direção ao último quarto. Entrei no quarto e identifiquei de imediato vários brinquedos quebrados e esquecidos, coisas que Duda tinha deixado de lado e coisas que não cabiam no seu outro quarto. A filmadora que só tinha um mês de uso estava jogada em cima do tanque que um dia Duda atropelara o cachorro do vizinho; no canto a televisora e em outro uma gaiola de pássaros, antigamente habitada por um papagaio. As prateleiras cheias de livro era a única coisa intacta ali e eu poderia jurar que ele nunca tinha nem ao menos tocado. Comecei a arrumar as minhas poucas coisas naquele quarto e a juntar em um canto toda aquela tralha quando escutei os berros de Duda.

― Eu não a quero lá. Mande-a sair, eu preciso daquele quarto.
Há uns dias eu daria qualquer coisa para estar ali, mas naquele momento eu só queria estar com a carta em mãos, mesmo que ainda tivesse que ficar no armário.

🏰⚡

Na manhã seguinte tudo estava quieto e Duda estava em estado de choque por ter feito tanta coisa e mesmo assim não ter conseguido seu quarto de volta. Eu continuava a pensar na carta e que deveria ter aberto assim que a peguei na portinhola. Quando o correio chegou outra vez naquele dia, tio Válter pediu para que Duda fosse buscar, acho que numa tentativa falha de se desculpar comigo, mas eu revirei os olhos e encarei outro canto que não fosse a sua cara rosada. Escutamos Duda passar pelo corredor e bater com a sua bengala nas coisas e então ele gritou do hall:

― Chegou outra carta! A Srta. Potter, o menor quarto da casa, Rua dos Alfeneiros 4…

Tio Válter deu um grito sufocado e saltou da cadeira saindo como um foguete. Eu o segui e encontrei lutando para tirar a carta das mãos de Duda. Ele se endireitou e me encarou.

― Vá para seu quarto!

Eu passei pelos dois batendo o pé fortemente no chão e subi a escada me dirigindo para o meu novo quarto.
A pessoa que me mandou a carta no dia anterior sabia de algum modo que eu tinha me mudado do armário e que tinha sido impedida de receber a carta; o que implicava numa nova tentativa de entrega. Eu me ajeitei da melhor maneira na minha cama e mergulhei em várias ideias que pudessem me fazer pegar a carta primeiro que tio Válter. Acordei no outro dia pela manhã um pouco antes do despertador das 6 horas tocar e levantei da cama rapidamente. Passei pelo corredor em silêncio e desci as escadas sem acender nenhuma luz. Iria sair e esperar o carteiro na esquina. Meu coração acelerou quando eu desci o último degrau e senti minhas pernas ficarem bambas. Andei em direção ao hall e então pisei em algo grande e mole. Recuei no mesmo instante e então a coisa urrou; era tio Válter. Ele estava deitado no chão em frente a porta e levantou quando percebeu que tinha sido eu anteriormente, então ele praguejou e gritou comigo até ficar sem ar e me mandar fazer o seu chá na cozinha. Eu fui, claramente insatisfeita com o andamento do meu plano e alguns minutos depois escutei o correio; tio Válter tinha recebido a carta. Eu fui em sua direção, no entanto era tarde demais, pois ele estava rasgando todas as três cartas endereçadas a mim.
Tio Válter não foi trabalhar aquele dia e depois do almoço ele pregou a portinhola, para que não passasse mais nenhuma carta. Tia Petúnia o olhava aflita, sem saber o que dizer ou fazer, mas ele parecia determinado.

― Se não puderem entregar, irão desistir. ― ele disse para minha tia.

Na sexta-feira, tio Válter ficou em casa outra vez e chegaram mais doze cartas endereçadas a mim, e como não passavam pela portinhola tinham sido empurradas por baixo da porta, e algumas até foram forçadas pela janelinha do banheiro no térreo. Ele queimou cada carta e pregou mais uma vez a porta e a janelinha, de modo que nada pudesse nem sair ou entrar. No outro dia eu comecei a ficar assustada,porque as coisas estavam fugindo do controle e por mais que eu quisesse a carta, eu queria que minhas perguntas fossem respondidas e aquilo não estava contribuindo com nada, até a tia Petúnia estava ficando louca ― tinha destruído várias cartas usando o triturador de comida. Então chegou o domingo e tio Válter parecia muito cansado, mas ao mesmo tempo sustentava um sorriso no rosto, como se alguém o tivesse contado uma piada.

― Hoje é domingo e sabe o que não tem aos domingos? ― ele perguntou, mas ninguém se atreveu a responder. ― Não tem correio. ―ele continuou a dizer ao mesmo tempo em que gargalhava.

Então no minuto seguinte alguma coisa desceu chiando pela chaminé do fogão e bateu com força em sua nuca. Nos assustamos com o barulho , mas ninguém se levantou; as cartas saíram velozes da lareira como se fossem tiros. Não dez ou vinte, eu poderia chutar que tinha saído mais de cinquenta. Os Dursley se abaixaram e eu aproveitei a oportunidade para pegar uma, então saltei da cadeira em direção ao ar, mas fui parada por tio Válter que me apanhou no meio do percurso. Fomos todos para fora da cozinha e a tia Petúnia fechou a porta abraçando um Duda choroso. Tio Válter passou as mãos pelo rosto e começou a andar de um lado a outro muito nervoso e vermelho, enquanto nós três o encaramos sem entender. Escutei o ricochetear das cartas no chão e nas paredes da cozinha e tio Válter disse tentando se acalmar:

― Já chega!!
― Válter… ― tia Petúnia tentou falar com ele, mas foi interrompida.
― Quero todos aqui em 5 minutos. Ponham algumas roupas na mala, vamos viajar. ― ele disse mais uma vez.

Subimos a escada correndo e eu só peguei um casaco, saindo logo de imediato do quarto. Notei que Duda estava logo atrás e então descemos. Tia Petúnia chegou um pouco depois e então tio Válter tirou as tábuas da porta para que pudéssemos passar. Entramos no carro e tio Válter deu partida para algum lugar que eu não fazia ideia.
Viajamos de carro por horas sem parar e até a tia Petúnia não se atreveu a falar nada. Eu observei a paisagem passando pela janela e só conseguia pensar em quem estava me enviando aquelas cartas de maneira tão insistente. Quando a noite caiu, Duda começou a reclamar sobre aquele dia ser o pior dia da sua vida e choramingou sobre seus programas de televisão.
Paramos em um hotel na estrada e fomos encaminhados para dois quartos, sendo um deles, e outro meu e de Duda. Naquela noite eu não consegui dormir direito, então fiquei no peitoril vendo os carros passarem pela rua, ao passo que tentava tirar o foco dos roncos altíssimos vindos do meu primo. Na manhã do outro dia tomamos um café da manhã suculento estilo Dursley: cereal velho e torradas com tomates enlatados frios. Uma mulher que se apresentou como a proprietária do hot, se aproximou da nossa mesa e perguntou:

― Tem alguma Potter aqui? ― tio Válter arregalou os olhos e tia Petúnia levou as mãos a boca, num claro sinal de espanto. A moça mostrou o verso da carta e lá estava escrito em tinta verde.

Srta. Potter
Quarto 17
Railview Hotel
Cokeworth

Eu me levantei para pegar a carta, mas tio Válter tomou a minha frente. Ele pegou a carta e então a moça saiu, nos lançando um olhar estranho. Ele a seguiu ao longe e tia Petúnia respirou fundo.

🏰⚡

Depois da cena no hotel, tio Válter seguiu estrada a dentro e eu me mantive quieta. Aquilo era perturbador. Depois de alguns minutos, tio Válter começou a agir ainda mais estranho. Em um momento ele parava na estrada e saia do carro, em outro voltava o caminho, parecendo que estava perdido, mas ele ainda sustentava o mesmo olhar determinado do dia anterior. A nossa última parada foi num litoral, tio Válter desceu do carro e foi em direção a um homem. Duda cochichava algo com a mãe e eu tentava saber o que os dois homens estavam conversando do lado de fora. Começou a chover e então Duda choramingou sobre ser segunda-feira e ele querer assistir um programa de televisão que só passava aquele dia, então a sua fala despertou-me. Em poucas horas seria o meu aniversário. Será que os Dursley lembrariam? Será que tia Petúnia faria algo? Nos anos anteriores eu só recebi coisa velha e usada. Tio Válter voltou para o carro com um pacote fino e abriu a minha porta.

― Saiam todos! Encontrei um lugar perfeito. ― ele disse enquanto sorria satisfeito. ― Esse homem irá nos emprestar o seu barco para que possamos chegar na casa. Ouvi dizer que o correio não vai até lá. ― ele continuou a falar e olhou diretamente para mim quando terminou a sua frase.

Eu senti minhas mãos ficarem trêmulas e o nó na minha garganta surgir. Queria que aquilo fosse mentira, mas aquele lugar parecia o fim do mundo. Um vento forte nos atingiu e eu me encolhi.

― Todos a bordo! Os nossos mantimentos já foram comprados. ― tio Válter disse.

Segui Duda e tia Petúnia para dentro do barco e tio Válter foi o último. Fazia ainda mais frio no barco e a água gelada do mar salpicava a gente. Ele nos levou até a casa e essa parecia que cairia a qualquer momento de tão velha. Entramos na mesma e ela parecia ainda pior por dentro: cheirava a algas marinhas, o piso rangia a cada passo que dávamos e a lareira parecia imprópria para uso, como se a água do mar entrasse por ali e a molhasse. Tio Válter distribuiu o mantimento entre nós quatro e tentou ligar a lareira úmida. Ele fez uma piada sobre as cartas fazerem falta e desistiu de tentar ligar a lareira um tempo depois. Tia Petúnia arrumou uma cama para Duda com uns cobertores velhos que estavam na sala e o mesmo se acomodou no sofá pequeno morfado. Os outros dois se dirigiram ao único quarto da casa que ficava no andar de cima e me deixaram ali no meio da sala com o que parecia ser um pano de chão. Eu me acomodei na parte mais macia do assoalho e me enrolei com aquele pedaço de pano, estava agradecida por ter trazido meu casaco, mesmo que fino.
A noite caiu e a tempestade prometida começou a rugir lá fora, as ondas batiam nas pedras com força como se fosse na parede da sala e o vento forte sacudia as janelas. Continuou assim à medida que ficava mais tarde e eu não conseguia dormir. O barulhão que toda aquela chuva fazia só era abafado pelo ronco de Duda deitado no sofá. Me revirei um pouco e me encolhi mais, estava sentindo muita fome e frio, a minha barriga roncava e o suco ácido voltava a minha garganta de hora em hora. Olhei para o relógio no braço pendurado de Duda e não acreditei que faltavam somente 10 minutos para o meu aniversário. Pensei em meus país mais uma vez e lá se foram 5 minutos. Os Dursley me tratariam melhor? E então 3 minutos. Eu poderia pregar uma peça em Duda. Faltavam dois minutos e eu lembrei do remetente das cartas. Suspirei derrotada e então escutei um alguma coisa estalar lá fora, depois parecia algo triturando. Uma rocha talvez? Não era possível isso acontecer só com uma tempestade. Olhei novamente para o relógio de Duda e faltava poucos segundos e então os números zeraram indicando meia noite. Me assustei com as batidas firmes que vinha da porta e Duda despertou procurando o barulho estrondoso. Alguém queria entrar. Levantei do chão e andei devagar em direção a porta e a pessoa do outro lado bateu novamente, causando uma movimentação atrás de mim. Tio Válter e tia Petúnia estavam no pé da escada e o primeiro segurava uma espingarda. Ele passou por mim e parou alguns passos da porta.

― Quem está aí? Eu estou armado! ― ele gritou para quem quer que fosse.

Tudo ficou em silêncio e eu até respirava mais devagar, também estava com medo do que pudesse ser. A porta levou uma pancada violenta e caiu em um baque no chão. Observei com atenção o homem parado à porta, ele parecia um gigante. O seu cabelo, ou melhor, sua juba parecia brigar por espaço com a sua barba emaranhada por um lugar no seu rosto. Recuei um pouco, junto com tio Válter e o homem entrou na casa, revelando melhor seu rosto e suas afeições. Eu não o conhecia. Ele se abaixou para pegar a porta no chão e a encaixou de volta.

― Olá Dursley! Não tem ao menos um chá para a recepção. ― o homem disse e tio Válter resmungou algo. ― Não foi uma viagem fácil, se quer saber. ― ele a falar continuou ao passo que ia em direção ao sofá.

O homem se sentou ao lado de Duda que saiu correndo para perto da tia Petúnia que ainda estava ao pé da escada. Ele encarou um por um no cômodo e parou seu olhar em mim. Suas feições suavizaram e eu pude notar pelos seus olhos que um sorriso tinha se formado nos seus lábios escondidos pela barba.

― Aí está você, ! ― ele disse ainda sorrindo. ― Da última vez em que eu a vi , você era um bebê. Agora você está crescida e parece muito com sua mãe, os olhos são dela, sem dúvidas. ― ele continuou e eu sorri.

Escutar aquilo aquecia meu coração. Eu parecia com meus pais. Tio Válter fez um barulho estranho com a boca e chamou a nossa atenção.

― Saia imediatamente! Você invadiu a minha casa. ― ele rosnou com o homem. O desconhecido não se abalou nem um pouco com a ameaça de tio Válter.
― Cala boca Dursley, antes que lhe ensine a fazer isso. ― o homem disse e arrancou a arma da mão de tio Válter a torando no meio e jogando no canto.

Depois disso meus tios estavam mais assustados do que tudo e Duda choramingava sem parar. Eu escondi um sorriso satisfeito com as mãos e o tal homem voltou sua atenção para mim.

― Em todo caso, . Feliz aniversário. Tenho uma coisa para você aqui; talvez tenha sentado nela sem querer, mas o gosto continua bom. ― ele disse enquanto vasculhava a parte interna do seu casaco.

Por um momento eu pensei que ele pudesse ser o remetente da carta, mas então ele tirou uma caixa preta um pouco amassada e abriu. Dentro havia um grande e fofo bolo de chocolate com a frase Feliz Aniversário escrita em verde. Por mais que tudo aquilo parecesse super estranho, eu me sentia feliz. Ninguém nunca tinha me dado nada assim.

― Gostou? Não é grande coisa, mas eu mesmo fiz. ― ele disse depois que eu o encarei com que parecia ser uma careta.

Eu estava me segurando para não chorar na frente dos Dursley, então sorri para o homem e peguei o bolo de suas gigantescas mãos.

― Obrigada, senhor. ― eu disse sorridente. ― mas quem é o senhor? Qual o seu nome? ― eu perguntei cuidadosamente, porque não queria de modo algum magoá-lo. Ele estava sendo tão gentil.
― Claro! Como pude esquecer, não me apresentei. ― ele gargalhou com a sua própria frase e continuou. ― Sou Rúbeo Hagrid, Guardião das Chaves e das Terras de Hogwarts.



Capítulo 2

Por

O gigante que tinha se apresentado com o nome de Hagrid parecia muito empolgado com que seguia, apesar da carranca e falas mal educadas do tio Válter direcionadas a ele. Tia Petúnia e Duda se encontravam ainda ao pé da escada e ambos sustentavam expressões assustadas. Eu também estava com medo e até assustada, mas o Sr. Rúbeo Hagrid emanava confiança e eu só queria sentar e escutá-lo falar sobre todas as coisas que o trouxeram até ali. Ele tinha mencionado os meus pais, e parecia ter sido muito próximo deles, então nada mais justo do que eu aproveitá-lo ali para responder todas as minhas perguntas. Observei o Sr. Hagrid se sentar no sofá e tirar todo tipo de coisa do seu casaco cheio de bolsos para fazer o chá. Percebi que um sorriso maroto se formava nos lábios do homem quando ele apontava o seu guarda-chuva rosa para a lareira e ela magicamente acendeu. Eu estava olhando o tempo todo e sentia que tinha deixado algo passar. O fogo logo preencheu toda a lareira úmida e meu corpo aqueceu rapidamente. Enquanto Rúbeo Hagrid preparava o chá e colocava a salsicha no espetinho para fritar, os Dursley ficaram em silêncio, assim como eu. Alguns minutos depois, Hagrid me ofereceu um dos espetinhos com a salsicha já frita e o tal chá, me fazendo deixar o bolo de lado. Estava faminta e me sentia muito grata aquela simples refeição com o recém conhecido e gentil homem. Eu nunca tinha feito nenhuma refeição tão tranquila. Duda se contorceu ao lado dos pais e eu notei pelo canto do olho tio Válter brigando com ele, para que se mantivesse afastado da comida.

― Não vou dar nenhum petisco para esse monte de banha, Dursley. Fique tranquilo. ― disse Hagrid risonho.

Tudo estava quieto outra vez, e a comida estava acabando. Eu mastiguei a última salsicha e me virei na direção de Hagrid, já que estava sentada ao seu lado.

― Rúbeo, me desculpe mais uma vez. Ainda não sei quem você é.
― Eu sou o Guardião das Chaves e das Terras de Hogwarts como já lhe disse. ― ele continuou a tomar seu chá tranquilamente.
― E Hogwarts seria? ― tentei questionar da maneira mais gentil possível.
― Vocês não contaram nada para ela? ― Hagrid se dirigiu a tio Válter e tia Petúnia.

Os dois o olharam com os olhos semicerrados, como se tentassem se conter.

― Ela sabe o que deveria saber. Deixei-a!! ― bradou a tia Petúnia.
Você é uma Bruxa, .
― Uma bruxa?
― Sim!! E será tão incrível como seus pais eram antes de tudo acontecer. ― Hagrid afagou o meu ombro em simpatia.
― Como assim antes de tudo acontecer? ― eu perguntei pasma.

Pensava que ele iria responder todas as minhas perguntas, e não fazer com que elas dobrassem de quantidade. Respirando fundo, levantei do sofá.

― Uma coisa de cada vez. ― pedi.
― Você é uma bruxa. ― ele repetiu.
― E os meus pais?
― Eles também eram.
― Já chega!!! Pare de encher a cabeça da menina com essas bobagens. ― Tio Válter bravejou mais uma vez.
― Quieto Dursley! Você recebeu a carta que Dumbledore deixou para ela. Eu estava lá. ― tio Válter recuou mais uma vez e Hagrid voltou a prestar atenção em mim.

Que carta foi deixada? Uma que nem as que tio Válter estava fazendo questão de não me deixar ler?

― Seus pais eram bruxos e aprenderam tudo em Hogwarts assim como você aprenderá. ― ele sorriu para mim e se remexeu no sofá enfiando a mão mais uma vez no bolso do casaco tirando uma carta. ― Veja! é a sua carta de aceitação em Hogwarts.

Ele me entregou o envelope e eu senti um sorriso maior que tudo se formar no meu rosto. Finalmente eu abriria a carta que recebera no hall da casa dos meus tios. Não demorei muito nos seus detalhes tão conhecidos por tanto ansiar aquele momento.

A Srta. Potter,
O Soalho, Casebre-sobre-o-
Rochedo, O Mar.

Eu abri o envelope com cuidado tentando conter a minha empolgação, um misto de sensações me atingiu e eu só conseguia pensar que aquilo era um sinal dos meus pais para que eu finalmente soubesse mais sobre eles. Então eu iniciei a minha leitura:

ESCOLA DE MAGIA E BRUXARIA DE HOGWARTS

Diretor: Alvo Dumbledore
(Ordem de Merlim, Primeira Classe, Grande Feiticeiro, Bruxo Chefe, Cacique Supremo, Confederação Internacional de Bruxos)

Prezada Srta. Potter,
Temos o prazer de informar que V. Sa. tem uma vaga na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Estamos anexando uma lista dos livros e equipamentos necessários. O ano letivo começa em 1°de setembro. Aguardamos sua coruja até 31 de julho, no mais tardar.

Atenciosamente,
Minerva McGonagall
Diretora Substituta

― Isso torna tudo real. ― eu disse para Hagrid. ― Mas eu não sei o que significa “aguardamos a sua coruja”
― Gárgulas galopantes! Isto me lembra uma coisa ― disse Hagrid, batendo a mão na testa com força. ― Tenho que mandar um bilhete ao professor.

Hagrid tirou uma coruja viva do seu bolso interno e meu queixo caiu. Me aproximei mais quando notei que o mesmo rabiscava com uma pena em um pedaço de pergaminho. Aquilo era tão peculiar e incrível. O pergaminho dizia:

Prezado Professor Dumbledore,

Entreguei a carta a . Vou levá-la amanhã para comprar o material.
O tempo está horrível. Espero que o senhor esteja bem.
Hagrid.

Ele enrolou o pergaminho e o entregou a coruja, que prendeu o pedaço de papel no bico. Hagrid foi até a janela com a ave em mãos e a soltou na tempestade. Aquilo tudo era muita informação e eu sentia que iria explodir com tanto detalhe.

― Então, onde eu parei?
― Ela não vai! Não vai para essa escola de aberrações. ― tio Válter se manifestou.
― Eu gostaria de ver um grande trouxa como você impedi-la. ― Hagrid disse.
― Trouxa? ― eu perguntei.
― Nos referimos assim a quem não é bruxo como nós. ― ele disse simplesmente, como se não estivesse aborrecido com tio Válter.
― Juramos que acabaríamos com essa palhaçada quando a aceitamos aqui. Eu não vou concordar com isso. ― tio Válter se aproximou de mim e gritou na minha direção.
― Você não vai! ― ele gritou para mim.

Eu me encolhi ao lado de Hagrid e ele apontou o seu guarda-chuva rosa para tio Válter.

― Se afaste dela! Estou avisando. ― tio Válter acatou a fala do gigante e então eu falei com eles pela primeira vez desde as revelações de Hagrid.
― Tios! Vocês sabiam de toda essa história sobre eu ser bruxa? A carta que receberam era sobre isso? ― eu perguntei o mais calma que conseguia, já tinha muita tensão entre os dois lados para que eu piorasse as coisas.
― Sabia! Claro que sabíamos. Como você poderia não ser igual a eles? A aberração da minha irmã recebeu uma carta igual a esta e estão sumiu, foi para aquela escola. ― Tia Petúnia falava muito rápido e a sua voz estava carregada de raiva. O seu olhar focado em mim dizia que o seu ódio pela minha mãe não era só por ela ter recebido uma carta como eu e ter ido estudar magia.
― Ela voltava para casa nas férias com os bolsos cheios de ovas de sapo, transformando xícaras em ratos e meus pais se enchiam de orgulho por ter uma bruxa na família, mas eu era a única que a via como ela era... um aborto da natureza! ― Segurei o choro que insistia em sair por causa das palavras de tia Petúnia e senti a mão de Hagrid apertar o meu ombro.
― Tia Petúnia, pare… ― eu disse num fio de voz, e quase não me escutei.
― Então ela conheceu Potter na escola e eles saíram de casa, casaram e tiveram você e então ela vai e me faz o favor de se explodir e nos deixar entalados com você! Além de ser a cópia dela, é tão anormal e esquisita quanto eles.
― Recebemos a tal carta, e só confirmava as nossas suspeitas sobre a aberração que você se tornaria. ― tio Válter completou o discurso de tia Petúnia.
― Como assim eles explodiram? Você disse que eles morreram num acidente de carro. ― perguntei enxugando as lágrimas.
― Acidente de carro?! ― Hagrid gritou exasperado. ― Um acidente de carro não poderia matar Lily e James. Isso é um absurdo.
― Hagrid, me conte. O que aconteceu com meus pais? ― eu olhei de tia Petúnia para Hagrid ao meu lado.
― Eu nunca esperei isso ― Hagrid disse numa voz contida e preocupada. ― Eu não fazia ideia do quanto você desconhecia e não sei se sou a pessoa certa para lhe contar.
― Eu só preciso saber o que aconteceu com eles. ― suspirei cansada de toda aquela história. Eu me sentia mais confusa do que tudo. Minha cabeça estava prestes a explodir.
― Começa com uma pessoa chamada… ― ele fez uma parada proposital.
― Hagrid! ― chamei a sua atenção.
― Não gosto muito de dizer o nome dele.
― Por que?
― As pessoas ainda estão muito apavoradas… eu estou apavorado. Olha, havia um bruxo que virou mau. Tão mal quanto alguém pode virar. O nome dele era… ― Hagrid fez mais uma pausa e me olhou com uma cara de pura aflição.
― E se você escrever? ― eu sugeri, mas Hagrid negou com a cabeça, meio desconcertado.
― Eu não sei soletrar o nome dele. ― ele disse. Eu sorri para incentivá-lo e ele continuou. ― Bem, o nome dele é Voldemort. Não me faça repetir, .
― Tudo bem. ― eu disse finalmente.
― Foram dias sombrios, há uns vinte anos ele estava procurando por seguidores e aqueles que o seguiam faziam tanta coisa cruel quanto ele. Estavam sedentos por poder e ele estava ficando mais poderoso com o passar do tempo. Ninguém sabia mais em quem confiar e quem se voltava contra você-sabe-quem; morria.
― E os meus pais faziam parte do grupo de pessoas que se voltaram contra você-sabe-quem?
― Nossa! Você pega as coisas bem rápido. ― Hagrid sorriu. Parecia mais feliz, como se nem tudo estivesse perdido.
― Sim! Eles eram os melhores bruxos que eu já conheci. Eu tenho uma teoria de que você-sabe-quem nunca tentou convencer os dois a se aliar a ele antes, porque provavelmente sabia que eram muito chegados a Dumbledore para querer alguma coisa com o lado das Trevas, mas que queria tirá-los do seu caminho. ― Hagrid estremeceu e eu engoli em seco.
― Mas como aconteceu tudo? Meus pais não estavam com Dumbledore?
― Não! ― ele respirou fundo. ― O professor estava em Hogwarts, um dos únicos lugares seguros que tinha restado. Você-sabe-quem não ousou se apoderar da escola.
― Então meus pais estavam desprotegidos?
― Essa é uma outra história, . O que eu posso dizer é que ele apareceu na vila em que vocês estavam morando, num dia das bruxas, faz dez anos. Na época você só tinha um ano. Ele foi à sua casa e… ― Hagrid fungou no seu casaco e se desculpou. Eu o entendia, mais do que todo mundo até, e não conseguia acreditar em um pesadelo daqueles. Os meus pais tinham sido tirados de mim por um bruxo sedento por poder.
― Está tudo bem Hagrid. ― disse a fim de o acalmar.
― Mas o verdadeiro mistério eu ainda não contei. Ele tentou matar você , e você era só um bebezinho. Não sei se ele queria fazer o trabalho completo ou tinha gostado de matar. Nunca se perguntou sobre essa cicatriz? Ela não é um simples corte, é o que se ganha quando um feitiço poderoso e maligno atinge a gente.
― Por isso eu sou famosa no mundo bruxo?
― Sim, . Ninguém nunca sobreviveu depois que ele decidia matar, ninguém a não ser você, e ele já havia matado alguns dos melhores bruxos da época e você era apenas um bebê, e sobreviveu.
― Isso é realmente impressionante. E tem mais alguma coisa que você possa me contar?
― Eu mesmo a retirei da casa destruída, por ordem de Dumbledore e trouxe você para essa gente… ― ele olhou com desgosto para os Dursley encostados no canto da sala.
― Muito obrigada Hagrid. ― disse realmente me sentindo agradecida.
― Um monte de bobagem. ― tio Válter disse.
― Hagrid, o que aconteceu com você-sabe-quem?
― Alguns dizem que ele morreu, mas eu não acredito nessa teoria. Outros dizem que ele está vagando por aí esperando o momento certo para voltar, eu discordo, alguns de seus seguidores voltaram para o nosso lado alegando estar sob algum feitiço e eu acho q não fariam isso se não acreditassem na sua derrota, mas a maioria de nós acha que ele ainda anda por aí, mas que perdeu os poderes.
― Isso não faz muito sentido para mim, você disse que ele estava mais poderoso do que todos e que conseguia mais poder a cada dia. Como pode algo assim acontecer tão de repente? ― na minha opinião, alguma coisa não estava no lugar certo.
― Acredito que algo em você o enfraqueceu. Aconteceu algo naquela noite que ele não estava contando. ― percebi que com a lembrança daquele último fato, o rosto de Hagrid se iluminou e ele me olhava com admiração. Saber de todas aquelas coisas que envolviam a minha vida e que tinham acontecido quando eu tinha apenas um ano de idade era surreal e o sentido passava muito longe. Eu sempre fui o saco de pancadas e ofensas de todos; não poderia ser uma bruxa e muito menos alguém que conseguiu derrotar um grande bruxo das trevas. Mais uma vez eu respirei fundo e encarei Hagrid. Esperava que ele continuasse paciente com as minhas dúvidas.
― Não acredito que eu seja uma bruxa e que muito menos fui capaz de fazer tais coisas quando bebê. ― Eu disse soltando a respiração. Hagrid me encarou com compaixão e sorriu.
― Nunca fez nada acontecer quando estava apavorada ou zangada? ―Hagrid perguntou mantendo um sorriso suave no rosto.
Imediatamente eu me lembrei do dia em que o vidro sumiu no aquário da cobra e quando desejei que Duda ficasse mudo ou quando consegui fugir da sua turma estando cercada. Todas as coisas estranhas que deixavam meus tios furiosos aconteciam por eu ser bruxa e não por azar de estar na hora errada e no lugar errado; era tudo por minha causa. Correspondi ao sorriso do homem.
― Tem razão, Hagrid.
― Sim! Não existe algo mais certo do que Potter ser uma bruxa. Você será muito famosa em Hogwarts.
― Eu já disse que ela vai ficar e ir para a escola secundária. Eu li a carta sobre um monte de lixo que teria que comprar. ― me assustei com a manifestação de tio Válter. Tudo estava indo tão bem e então ele aparecia e se colocava no meio de todas aquelas coisas boas que poderiam acontecer comigo finalmente.
― Se ela quiser ir, eu quero ver um trouxa de araque como você tentar impedir. ― Hagrid disse raivoso e avançou para mais perto dos Dursley. ― Ela é filha de Lily e James Potter, tem uma vaga naquela escola desde que nasceu. Sete anos lá e mal se reconhecerá, será a melhor bruxa e estudará com o maior mestre que Hogwarts já teve: Alvo Dumbledore… ― o discurso de Hagrid foi interrompido por um tio Válter que esqueceu completamente com quem estava falando.
― Não vou pagar a nenhum velho biruta para ensiná-la alguns truques de mágica. ― no mesmo momento que tio Válter parou de falar, senti Hagrid reunir todas as forças para não o atacar.
― NUNCA INSULTE ALVO DUMBLEDORE NA MINHA FRENTE. ― Hagrid bravejou, então tudo aconteceu muito rápido. O homem apontou seu guarda-chuva para Duda e uma luz violeta saiu da ponta do mesmo, fazendo com que meu primo começasse a gritar segundos depois. Um rabo cor de rosa saia por um buraco em suas calças. Os Dursley olharam aterrorizados para Hagrid e subiram as escadas para o quarto no cômodo de cima quase se atropelando. Eu não sabia o que achar, mas uma vez naquela noite eu estava sem palavras. Ficamos eu e Hagrid na sala e eu suspirei.
, peço que não comente nada disso em Hogwarts. Eu não tenho permissão para fazer mágicas. Me permitiram algumas coisas mais simples para que pudesse te localizar, mas nada a mais.
― Por que o senhor não pode?
― Eu estive em Hogwarts quando mais jovem, mas fui expulso no terceiro ano e eles partiram a minha varinha. O professor Dumbledore me deixou ficar como guarda-caça.
― Ele deve ter um coração muito bom. ― Senti que com a menção a sua expulsão, o gigante ficou um pouco quieto e eu poderia dizer que até sem graça, então não fiz mais nenhuma pergunta sobre isso ou o seu período na escola de magia.
― Bem, está tarde. Amanhã temos que acordar cedo para comprar o seu material em Londres. ― Hagrid disse ao passo que tirava o seu casaco e me estendia. Eu o peguei da sua mão e me cobri com ele, me acomodando no assoalho perto da lareira. O homem se deitou no sofá e quebrou o silêncio um pouco depois.
― Não esqueça de comer um pedaço do bolo amanhã, ele está realmente muito bom.

🏰⚡

Demorei para pegar no sono depois de toda aquela enxurrada de informações e quando acordei pela manhã com a claridade não tardei em abrir os olhos, tinha que conferir se tudo que eu tinha descoberto não passava de um sonho e eu estava de volta ao meu armário. Abri os olhos e a primeira coisa que vi foi a figura de um grande homem dormindo no sofá. Rúbeo era real, assim como a escola de magia. Suspirei aliviada e então notei uma coruja bicando a janela. Eu a destravei e a ave voou deixando um jornal no colo de Hagrid que ainda dormia e então pousou próxima a mim. Nos encaramos um pouco e percebi que ela esperava algo; talvez um petisco. Busquei por qualquer petisco em um dos bolsos de Hagrid por alguns minutos até o mesmo gritar que ela queria o seu pagamento. Procurei algo que se assemelhasse a dinheiro e encontrei moedas de vários formatos e cores.

― Dê a ela cinco nuques ― disse Hagrid, ainda sonolento.
― Nuques?
― As moedinhas de bronze.

Depositei as moedas na pequena bolsinha que a coruja carregava próxima a sua asa e a mesma voou janela a fora. Fui em direção ao meu bolo de aniversário que estava no canto da mesa e peguei um pedaço. Ele estava muito bom e eu sorri com a lembrança de que ele tinha sido feito especialmente para mim. Notei que Hagrid tinha despertado e lia o jornal intitulado Profeta diário enquanto resmungava sobre o ministério da magia. Ele me explicou que a principal tarefa do ministério era nos manter fora do alcance dos trouxas. Continuamos a conversar enquanto fazíamos o caminho para Londres; primeiro de barco e depois de metrô. Eu fazia de tudo para controlar a quantidade de perguntas que eu tinha, mas Hagrid era muito prestativo e pude perceber que ele até gostava de me contar todas aquelas coisas. Estávamos no metrô havia alguns minutos e Hagrid tricotava algo amarelo. Já tínhamos discutido sobre muitas coisas e a última delas tinha sido o dinheiro bruxo e onde ele era guardado. Rúbeo disse que a nossa primeira parada seria lá.

― Rúbeo, meus pais deixaram algum dinheiro bruxo guardado nesse banco? Você viu o que tio Válter disse, ele não vai pagar por nada. ― eu perguntei baixinho, tomando cuidado para que ninguém escutasse.
― Claro que seus pais deixaram dinheiro para você, . Não se preocupe com isso. ― Hagrid olhou para o seu lado no banco onde eu estava e continuou. ―Acho que você pode querer passar melhor o tempo dessa viagem vendo um pouco mais sobre a escola. A sua lista de materiais está no envelope. Você trouxe a sua carta?
― Trouxe sim. Vou fazer isso, Rúbeo. Obrigada pela dica. ― eu ri baixinho e o homem voltou a sua atenção ao que estava fazendo.

Eu peguei o envelope no bolso da minha calça larga e puxei um papelzinho que eu não tinha dado muita atenção na noite passada. Ele dizia:

ESCOLA DE MAGIA E BRUXARIA DE HOGWARTS

Uniforme
Os estudantes do primeiro ano precisam de:

  1. Três conjuntos de vestes comuns de trabalho (pretas)
  2. Um chapéu pontudo simples (preto) para uso diário
  3. Um par de luvas protetoras (couro de dragão ou similar)
  4. Uma capa de inverno (preta com fechos prateados)

As roupas do aluno devem ter etiquetas com seu nome.

Livros

Os alunos devem comprar um exemplar de cada um dos seguintes:

  1. Livro padrão de feitiços (1a série) de Miranda Goshawk
  2. História da magia de Batilda Bagshot
  3. Teoria da magia de Adalberto Waffling
  4. Guia de transfiguração para iniciantes de Emerico Switch
  5. Mil ervas e fungos mágicos de Fílida Spore
  6. Bebidas e poções mágicas de Arsênio Jigger
  7. Animais fantásticos & onde habitam de Newton Scamander
  8. As forças das trevas: Um guia de autoproteção de Quintino Trimble.

Outros Equipamentos:

1 varinha mágica
1 caldeirão (estanho, tamanho padrão 2)
1 conjunto de frascos
1 telescópio
1 balança de latão
Os alunos podem ainda trazer uma coruja ou um gato ou um sapo.

LEMBRAMOS AOS PAIS QUE OS ALUNOS DO PRIMEIRO ANO NÃO PODEM USAR VASSOURAS PESSOAIS.

Quando terminei de ler e analisar toda a lista tentando assimilar o que cada coisa queria dizer, chegamos. Eu tinha dúvidas de que acharíamos tudo aquilo em Londres, mas Hagrid dizia que só era ir no lugar certo. O segui por algumas ruas e com facilidade pudemos caminhar pela cidade movimentada, já que o homem que me acompanhava tinha quase o dobro do tamanho das pessoas ali. Andamos por uma rua na qual tinha muitas lojas e eu fiquei imaginando como os bruxos esconderam um banco cheio de duendes por ali. Hagrid parou na frente de um bar velho com o nome de Caldeirão furado e me indicou com a cabeça. O lugar parecia ser invisível aos olhos de todos, mesmo que estivesse entre duas lojas que pareciam super movimentadas. Segurei na mão de Hagrid antes de entrar e o mesmo abriu a porta. O lugar parecia ainda mais velho e caindo aos pedaços por dentro e sua iluminação era muito ruim. Quando entramos todas as conversas cessaram e eu pude notar os seus olhares sobre nós. As pessoas pareciam conhecer Hagrid e o cumprimentavam quando ele passava do lado delas. Um homem careca atrás do balcão perguntou se ele queria beber o de sempre e Hagrid encheu o peito orgulhoso ao falar.

― Hoje não. Estou em uma missão de Hogwarts, ajudando a jovem a comprar o seu material. ― ele disse sorridente.
?
Potter?
― A pequenina dos Potter?
― Que grande honra!!

Me encolhi ao lado de Hagrid enquanto escutava todas aquelas exclamações quanto ao meu nome. As pessoas começaram a se aproximar e me cumprimentar, lançando diversos elogios e alguns apertavam minha mão duas vezes enquanto faziam questão de entrar na fila que tinha se formado. Eu me sentia um pouco assustada com toda aquela comoção, mas a mão de Hagrid não deixou o meu ombro um só momento. Depois de apertar a mão de praticamente todas as pessoas, conversar com algumas delas e reconhecer um senhor que um dia tinha se curvado para mim enquanto estava num mercado com tia Petúnia. Fui apresentada ao professor Quirrell que parecia ser muito legal e foi muito simpático com a gente. Ele ensinava defesa contra as artes das trevas em Hogwarts e estava atrás de um livro sobre vampiros.

― Três para cima e dois para o lado. ― ele estava muito concentrado e então tocou no último tijolo da sua contagem. Eles estremeceram e começaram a se mexer, formando uma espécie de arco.
― Bem vinda ao Beco diagonal, .
― Uau! Isso é simplesmente fantástico. ― eu disse muito abóbada com todas as coisas ao meu redor. As lojas vendiam praticamente todas as coisas que se podia imaginar, desde caldeirão a vestes e vassouras. Hagrid me despertou de meus pensamentos e seguimos para Gringotes, o banco dos bruxos.

🏰⚡

Depois de passar em Gringotes e imaginar milhares de maneiras em que uma pessoa poderia ficar presa naquele labirinto de cofres, eu aproveitei a minha sacola cheia de moedas para finalmente comprar meu material. Passávamos pelas lojas e Rúbeo me explicava o que cada uma vendia. Eu queria entrar em todas, mas decidimos que começar pelos uniformes era mais fácil.
Hagrid me deixou na loja de roupas e disse que iria voltar ao Caldeirão furado para beber um tônico, ele ainda estava se recuperando da nossa viagem com o vagonete.

― Tudo certo, Hagrid.
― Escute. As moedas de ouro são galeões. ― disse ele, continuando a sua explicação logo depois. ― Dezessete sicles de prata fazem um galeão e vinte e nove nuques fazem um sicle, é bem simples.
― Entendi. ― eu sorri para ele. ― Pode ir, eu dou conta.
― Certo, isto deverá ser suficiente para uns dois períodos letivos. ― Hagrid falou a última parte mais para si mesmo e se despediu de mim.

Parada na frente da loja eu pude perceber alguns detalhes. O seu letreiro dizia: Madame Malkin ― Roupas para Todas as Ocasiões. Eu entrei e um aroma doce me atingiu, a decoração rosa clara era bem acolhedora e logo uma mulher baixinha e rechonchuda se aproximou.
― Hogwarts, querida?
― Sim.
― Me acompanhe, por favor. ― ela disse sorridente enquanto me guiava para um canto. ― O que acha de algumas roupas do seu tamanho? Tenho alguns vestidos que você vai gostar.
― Pode ser. ― eu disse um pouco sem graça.
― Não se acanhe minha jovem. Madame Malkin está aqui para te ajudar.

Alguns minutos depois e já vestida com uma das roupas que ela trouxe, eu disse que queria mais algumas roupas parecidas, algo mais trouxa e ela foi buscar, me deixando em pé num banquinho com uma veste que parecia ser a de Hogwarts enquanto uma fita marcava a bainha na altura certa. Comecei a pensar no vestido que ela me trouxe e em como eu me sentia à vontade com ele, o seu tom de verde era quase igual aos meus olhos e esse detalhe me fez imaginar como era ser uma menina normal, que combinava as cores das roupas. Alguns minutos de puro silêncio em que eu observava as minhas vestes bruxas se ajustando à base de um feitiço, escutei uma voz atrás de mim.

― Olá! Hogwarts também?

Olhei para trás no mesmo momento, um pouco assustada por ter sido tirada dos meus devaneios e analisei o menino que aparentava ter a mesma idade que eu. Ele era pálido e seus cabelos eram de um loiro quase branco. Sorrimos um para o outro amigavelmente e eu respondi.

― Sim.
― Gostei da cor do seu vestido, ele combina com seus olhos.
― Obrigada. ― o seu elogio tinha me deixado quase sem palavras.
― Sabe o que mais combinaria? ― ele me perguntou.
― O que?
― O uniforme da Sonserina! Você já sabe para qual casa você vai, não é?
― Não.
― Eu acho que vou ficar na Sonserina, ela é a melhor. Toda a minha família foi para lá. Imagina ficar na Lufa-Lufa, lá só tem bobões, eu sairia da escola. ― o menino disse.

A sua voz transmitia o quão imponente ele estava sendo e isso me incomodava muito e toda aquela recepção começou a cair no esquecimento, porque as falas do menino me lembravam Duda.

― Você tem vassoura? Depois daqui vou arrastar meus pais para a loja de vassouras de corrida e vou convencê-los a comprar uma para mim. Acho um absurdo não permitirem que alunos no primeiro ano levem suas vassouras.
― Não tenho não. ― respondi de forma negativa mais uma vez, ficando bem sem graça.
― Sabe jogar quadribol? ― ele perguntou e continuou falando sobre jogar no time dessa tal Sonserina e outras coisas que eu não prestei atenção, porque fiquei pensando sobre o significado de tudo. O que era quadribol? Observei um pouco de longe em frente à vitrine, Hagrid acenando para mim. Meu rosto se iluminou com a possibilidade de sair dali e então o tal menino fez uma piada sobre o gentil homem que me esperava, eu queria lhe dar uma boa resposta, mas me contentei em encará-lo com o meu olhar mais frio. Madame Malkin chegou e dispensou o garoto que se despediu com um até logo. A mulher então aproveitou que estávamos nós duas e arrumou as minhas roupas novas em uma sacola bem fácil de carregar. Roupas simples embaixo e uniforme em cima. Nos despedimos e eu fui ao encontro de Hagrid.

― Trouxe sorvete. Você gosta, não é? ― ele me perguntou enquanto estendia um pequeno pote.
― Gosto sim.
― O seu vestido é bonito. Agora você está ainda mais parecida com sua mãe.
― Obrigada Hagrid. ― eu disse de cabeça baixa enquanto cutucava o sorvete. Normalmente eu ficaria muito animada com todos aqueles elogios.
― O que aconteceu, ? Está se sentindo bem? ― Hagrid perguntou parecendo está realmente preocupado.
― O que é quadribol?
― Quase esqueci que você não sabe das coisas do nosso mundo.
― Boa observação senhor Rúbeo. ― eu disse tentando descontrair.
― Desculpe. ― ele disse segurando o riso. ― É difícil de lembrar quando a vejo tão interessada por tudo e se esforçando para entender sozinha.
― Pelo menos não sou um completo desastre. ― suspirei.
― Quadribol é um esporte bruxo, é parecido com o futebol trouxa, só que um pouco mais complexo.
― E Sonserina e Lufa-Lufa?
― São casas na escola. No total elas são quatro. Todos dizem que na Lufa-Lufa só tem panacas… - ele meneou com a cabeça ao dizer a última parte.
― Esse pensamento não é nada legal e imagino que os alunos de lá não gostem nada de escutar isso.
― Bem, eu… - Rúbeo ficou sem graça, e eu me apressei em dizer.
― Não se preocupe Hagrid. Eu sei que você não disse por mal.
― Poxa vida, tenho quase certeza que você passará bem longe da Sonserina.

Começamos a andar e eu me senti mais leve. Contei a Hagrid que todo aquele questionamento era por causa do menino pálido que eu encontrei na loja de roupas e o gigante me contou alguns fatos sobre a Sonserina. Fiquei sabendo que você-sabe-quem estudou em Hogwarts e foi daquela casa me deixando muito surpresa. Dei continuidade a lista de materiais e seguimos para as outras lojas. Os meus olhos brilhavam mais do que joias e o sorriso não cabia no meu rosto. Compramos livros gigantes e em capa dura na Floreios & Borrões, depois um Caldeirão de estanho ― mesmo eu achando o de ouro maciço muito lindo, ingredientes para poções e um telescópio desmontável. Eu já estava bem cansada e então entramos numa farmácia e Hagrid comprou o restante dos ingredientes para as porções.

― Agora só falta a Varinha. ― eu disse suspirando aliviada.
― E eu vou comprar o seu presente de aniversário.
― Não precisa se preocupar, eu gostei muito do bolo.
― Vamos fazer o seguinte, vou comprar um bicho para você. O que acha de uma coruja?

Depois de ir ao Empório de Corujas com Hagrid, e sair de lá com uma coruja branca como a neve dormindo em sua gaiola, seguimos para a loja de varinhas. O seu letreiro dizia: Olivaras: Artesãos de Varinhas de Qualidade desde 382 a.C.
Eu segui em direção a porta com Hagrid logo atrás e assim que entrei na loja notei uma parede totalmente coberta por várias caixinhas empilhadas, deixando o lugar com a aparência ainda mais minimalista e simples. O gigante que me acompanhava se sentou em uma poltrona que estava intencionalmente postada em frente a um balcão escuro. Eu estava perdida nos detalhes daquele lugar até ser despertada por um homem de meia idade que me encarava de forma curiosa com seus olhos cinzentos através dos seus óculos que pendia no seu nariz.

― Senhorita Potter, pensei ter tido um vislumbre da sua mãe. É tão parecida com ela. ― o homem disse de maneira cordial. ― Lembro-me de quando a vendi sua primeira varinha; vinte e seis centímetros de comprimento, farfalhante, feita de salgueiro.
― O senhor tem uma memória impressionante, parabéns! ― eu estava agradecida por ter sido comparada a minha mãe mais uma vez e estava realmente impressionada com o jeito que aquele homem se lembrava dos detalhes envolvendo uma varinha.
― Obrigado Senhorita. Eu me lembro de todas as varinhas que já vendi. O seu pai deu preferência a uma varinha de mogno; vinte e oito centímetros. Flexível. ― o homem disse nostálgico mais uma vez.
― Eu não sei como cada um desses ingredientes funciona na varinha, mas eu queria uma parecida com a deles.
― Ooh querida, me desculpe. Acho que me entendeu mal quando disse que ele preferiu. A varinha que escolhe o Bruxo, afinal. ― eu fiquei um pouco sem graça e até um pouco insegura. Ainda não acreditava totalmente que era uma bruxa.
― E se nenhuma me escolher?
― Não tem como isso acontecer você sendo filha de quem é. ― Hagrid disse ao fundo, despertando a atenção do homem para ele.
― Hagrid! Que bom vê-lo outra vez. ― o Sr. Olivaras cumprimentou o gigante.

Eles iniciaram uma conversa sobre a varinha de Hagrid que foi partida ao meio quando ele foi expulso e sobre o mesmo ainda guardar seus pedacinhos. O Sr. Olivaras me detalhou praticamente cada centímetro da varinha de Hagrid e começou a pegar varinhas na enorme pilha para que eu experimentasse. Depois da oitava varinha, o meu braço já estava mostrando sinais de que com mais algumas provas ele ficaria dolorido. A minha teoria de que nenhuma varinha me escolheria estava fazendo sentido e eu comecei a ficar triste, até que o Sr. Olivaras apareceu com uma outra caixinha.

― Acredito que ela será a última. Uma combinação incomum, azevinho e pena de fênix, vinte e oito centímetros, boa e maleável. ― ele disse enquanto me estendia a varinha.

Assim que eu a segurei, um vento quente e reconfortante me atingiu e eu senti um calor incomum por entre os dedos. Fiz alguns movimentos com a varinha e faíscas em rosa e roxo saíram da ponta. Eu sorri largamente e Hagrid bateu palminhas empolgado, mas o Sr. Olivaras tinha um olhar curioso sobre mim.

― Isso é curioso, interessante e curioso. ― ele disse.
― O que é curioso, senhor?
― A fênix cuja a pena está na sua varinha, produziu só mais uma pena.
― Então essa varinha tem uma irmã, não é? E ela já foi vendida? ― eu perguntei empolgada, se fosse alguém da minha idade seria legal ter como amigo.
― Sim, senhorita. A irmã desta varinha te fez essa cicatriz, por isso é muito curioso.
― Ooh, bem...eu não sei o que dizer. ― senti um nó se formar na minha garganta e continuei olhando para o Sr. Olivaras, que encarava a minha cicatriz.

Ela não ficava muito visível por conta da minha franja, mas não era difícil notar quando o olhar das pessoas demorava ali.

― Não precisa dizer. O tempo lhe confirmará que a varinha escolhe o bruxo e eu acho que a sua escolheu uma grande Bruxa. ― eu sorri minimamente e lhe entreguei os galeões equivalentes ao pagamento da varinha. Hagrid confirmou que eu tinha feito certo e seguimos para fora da loja assim que nos despedimos.

Depois que saímos da loja do Sr. Olivaras, fomos em direção ao Caldeirão furado para assim ir para a estação de Londres. Paramos no meio do caminho para fazer um lanche e eu perguntei a Hagrid se poderia levar um sanduíche para mais tarde. O gigante riu da minha pretensão e disse que eu era muito esperta para minha idade, mas aquilo era só o medo por já ter ficado sem comer algumas vezes. Depois do nosso lanche e um breve desabafo da minha parte sobre a expectativa de todos sobre mim, Rúbeo me tranquilizou dizendo que Hogwarts me ajudaria com tudo e que por mais que eu fosse discriminada e até desacreditada por alguns, eu encontraria um modo de ser forte. Segui a viagem de metrô até a casa dos Dursley sozinha enquanto o conselho dado por Hagrid rodava na minha cabeça "Todos começam do começo em Hogwarts e você vai se divertir pra valer".

🏰⚡

Agosto passou como se tivesse o dobro de dias e eu quase não conseguia conter a minha empolgação. Tinha lido todos os livros da lista do meu ano e tinha tentando praticar um feitiço simples de reparo nos meus óculos, o que me rendeu um óculos novinho em folha. Quando eu desci com o óculos novo pela primeira vez, todos notaram a diferença, mas não se importaram em puxar qualquer assunto. Eles me ignoravam como se eu não estivesse ali, no mesmo cômodo e sentada na mesma mesa. Tia Petúnia não me mandava fazer nada, tampouco entrava no meu quarto para limpar, e eu não sabia o motivo de me sentir tão mal por isso. No último dia de agosto eu abordei os meus tios na sala e os falei sobre precisar ir a Kings Cross no dia seguinte, pois o meu trem para Hogwarts sairia de lá às 11 horas. Tio Válter fez várias perguntas sobre a localização da escola e zombou sobre eu precisar chegar lá de trem. Eu não disse nada que pudesse aborrecê-los, até que fui gentil perguntando também sobre seus compromissos em Londres. Depois da minha tentativa de diálogo com os meus tios, eu subi para o meu quarto e me ocupei com o livro de Bebidas e porções mágicas. Era tarde da noite quando a coruja que Hagrid me presenteou entrou pela janela com um rato morto. Eu a encarei já deitada e a mesma piou baixo.

― Obrigada , mas eu já jantei.

Eu dormi com a imagem da coruja branca me encarando e acordei mais cedo do que deveria. Antes que a tia Petúnia batesse na minha porta pela manhã, eu já estava de pé e conferia o meu malão mais uma vez. Coloquei o bilhete que Hagrid me deu na bolsinha que tinha vindo com um dos vestidos e entre eles eu escolhi um de tom avermelhado. Algumas horas depois, na frente da estação, eu segui com tio Válter para a plataforma 9 ¾ . e ele estava estranhamente bondoso comigo. Paramos entre duas pilastras e tio Válter me encarou com um sorrisinho zombeteiro.

― Como deve ter percebido, a sua plataforma ainda não foi construída. ― ele apontou para as placas que indicavam as plataformas 9 e 10. ― Espero que tenha um bom ano letivo, .

Observei tio Válter voltar para o carro aos risos e então respirei fundo tentando não entrar em pânico. Empurrei o carrinho de um lado a outro por alguns minutos e observei as duas plataformas. Algumas pessoas olhavam na minha direção mais tempo que o esperado por conta de que estava na gaiola, e eu contive o impulso de pedir informação a um guarda que passou do meu lado. Ele era um trouxa, eu tinha quase certeza que ele zombaria de mim do mesmo modo que tio Válter e então decidi sair do campo de visão da maior parte das pessoas ali e puxei o carrinho para um canto atrás de uma pilastra, e comecei a pensar em todas as coisas que pudessem me levar a plataforma 9 ¾ . Hagrid tinha usado um tipo de código na parede de tijolos, talvez seja algo assim, então do mesmo jeito que a ideia veio, ela foi embora, porque se eu pegasse minha varinha e fizesse o mesmo que Hagrid, eu ficaria muito exposta. Rúbeo me disse que os trouxas não poderiam saber sobre nós.

― Cheio de trouxas como sempre. ― escutei uma mulher baixinha e ruiva dizer para outros quatro meninos também ruivos que assim como eu estavam empurrando seus malões. ― Qual a plataforma mesmo?
― 9 ¾. ― um dos meninos respondeu.
― Estamos no lugar certo então. Percy, você primeiro.

Eu me aproximei e vi o momento que o menino correu em direção a parede e sumiu. A sensação de que tinha perdido algo estava ali e então uma menininha ruiva um pouco mais nova se aproximou de mim.

― Oi, meu nome é Gina. ― ela disse sorrindo e eu sorri de volta.
A mulher procurou por ela e então veio em nossa direção um pouco desesperada.
― Gina meu amor, não se distancie. ― a mulher disse à menina e me olhou com simpatia. Os meninos atrás dela olhavam curiosos e acho que eles eram gêmeos. ― Olá querida, primeiro ano em Hogwarts?
― Sim.
― Para Rony também, mas Gina ainda não. ― ela disse apontando para a menina ao meu lado e para um outro menino ruivo que estava um pouco atrás. ― Precisa de algo?
― Estava tentando descobrir como atravessar essa parede. ― eu disse de forma acanhada.
― Claro, os meninos vão te mostrar. ― ela sorriu e voltou para o lugar em que estava; perto dos gêmeos.
― Fred, sua vez. ― a mulher disse a um dos gêmeos.
― Eu não sou Fred, sou George ― retrucou o menino. ― Francamente, mulher, você diz que é nossa mãe? Não consegue ver que sou o George?
― Desculpe, George.
― É brincadeira, eu sou o Fred ― disse o menino. Ele saiu correndo enquanto empurrava o seu malão e atravessou a parede.

Eu sabia que era algo sem usar a varinha e agradeci a mim mesma por não ter aberto o malão só para tirar a varinha, ou ter feito algo que despertasse a atenção das pessoas na estação. O outro menino passou logo depois e a mulher ruiva chamou a minha atenção.

― Pode ir correndo se quiser, querida. Estamos logo atrás de você. ― ela disse e eu me senti acolhida, assim como com Hagrid.

Saí correndo como ela sugeriu e depois de segundos sem nenhum impacto, eu constatei que tinha conseguido atravessar a parede. Uma locomotiva vermelha a vapor estava parada na plataforma e a frente um letreiro no alto informava que o Expresso de Hogwarts sairia às 11 horas e uma placa mostrava o número da plataforma que pensei não existir, a 9 ¾. Eu não conseguia acreditar, tudo era real e eu finalmente estava vivendo algo extraordinário.
Observei a movimentação enquanto dava uma boa olhada na multidão, e então pude notar que Hogwarts tinha estudantes de todas as idades como Hagrid tinha dito e todos estavam parecendo super empolgados. Vi todo tipo de animal de estimação passando com seus donos, e as pessoas conversando sem parar e os primeiros vagões que já estavam cheios de estudantes debruçados às janelas se despedindo de suas famílias e até chamando algum colega que se atrasou. Me aproximei de alguns estudantes que desembarcavam os malões e senti uma mão cutucar o meu ombro. Era um dos gêmeos.

― Quer ajuda com o malão? ― ele perguntou apontando para o mesmo.
― Sim, eu quero. ― aproveitei a oportunidade.
― GEORGE! Vem dar uma ajuda aqui. ― ele gritou seu irmão por cima da multidão e piscou para mim. O outro menino se juntou a nós dois e o ajudou a pegar o meu malão e colocar no trem.
― Obrigada. ― estava prestes a seguir para o trem quando eles me pararam outra vez.
― Espera! ― disse o menino que parecia ser Fred. ― Você é Potter? ― ele me perguntou.

Eu não fiquei sem reação como quando me reconheceram no Caldeirão furado e voltei minha atenção para eles.

― Vimos no seu malão. ― disse o outro gêmeo, que tinha vindo para nos ajudar.
― Sim, sou eu mesma. Potter. ― sorri suavemente estendo a mão para eles. Os dois ficaram estáticos e olharam para minha cicatriz, mas não liguei. ― Prazer em conhecê-los.

Depois da breve paralisia dos dois, eles apertaram a minha mão, escutamos uma voz chamando os meninos ao longe e acenei para os dois entrando no trem logo depois. Encontrei uma cabine vazia logo na entrada e me acomodei, suspirei pensativa, não poderia negar o quão estranho era ser reconhecida assim, mas iria me acostumar. Olhando pela janela pude notar a família de ruivos reunida e os gêmeos falavam bem agitados com a mãe e fui pega de surpresa os observando quando todos olharam na minha direção. Acenei para eles e depois da interação eu parei de olhar pela janela para que eles tivessem privacidade na sua despedida e me perdi em pensamentos quando o trem começou a andar. Borrões de casas e mais casas passavam pela janela e eu pensava nos meus pais e em como seria se eles estivessem vivos.Eu iria adorar ter crescido com os dois.

― Posso ficar nessa cabine também? ― o ruivo mais novo, que estava no mesmo ano que eu, disse.
― Pode.

Ele se sentou na minha frente e então os gêmeos apareceram logo em seguida.

― Oi Rony. ― um deles disse.
― Escute, vamos para o meio do trem. Lino trouxe uma tarântula gigante. ― o outro explicou ao irmão. ― Oi .

Olhei na direção do menino e ele estava sorrindo e eu então eu soube que aquele que me cumprimentou era o menino que tinha vindo ajudar com o malão a pedido do irmão.

― Podem ir. Eu estou bem aqui. ― Rony disse e os gêmeos deixaram a nossa cabine.

O silêncio reinou e alguns minutos depois, quando eu já estava ficando entediada, o menino disse.

― Você é a Potter mesmo? ― ele perguntou um pouco sem graça.
― Sou. ― disse simplesmente.
― A cicatriz é verdade?
― Sim! Quer ver mais de perto? ― devolvi a pergunta e levantei a franja. Rony se aproximou e ficou levemente impressionado.
― Você lembra quando…? ― ele deixou a frase no ar, mas eu entendi.
― Não lembro de nada do que aconteceu. Só de luzes verdes, muitas delas. ― respondi e Rony desviou o seu olhar, voltando para seu lugar.
― Todos são bruxos na sua família? ― perguntei numa tentativa de deixar o assunto leve.
― Sim, pelo menos todos que eu conheço e já ouvi falar. Papai e mamãe falam de parentes distantes às vezes.
― Sua mãe parece ser bem legal.
― E ela é, mas é muito ocupada também.
― Deve ser um pouco complicado cuidar de cinco filhos.
― Ainda tenho mais dois irmãos, mas eles já se formaram. ― ele fez uma careta.
― Parece ser tão legal quando estão todos juntos.
― Às vezes realmente é, mas não se ganha nada de novo quando se tem tantos irmãos. Uso as vestes velhas de Gui, a varinha velha de Carlinhos e o rato velho de Percy.
― Eu entendo.
― É verdade que você viveu com uma família trouxas?
― Sim.
― Como eles eram?
― Eles eram péssimos.
― Você sabe para que casa vai? ― Rony perguntou.
― Ainda não sei.
― Todos esperam que eu vá para a grifinória, todos os meus irmãos foram de lá e os meus pais também.
― Acho que vai dar tudo certo. ― sorri para ele.

Percebi que Rony estava mais tranquilo em conversar comigo depois que a nossa conversa mudou de rumo e ele notou que não tinha me deixado mal com as perguntas sobre minha cicatriz ou sobre o bruxo das trevas. Um tempo depois fomos interrompidos por uma mulher que empurrava um carrinho cheio de guloseimas. O ruivo disse que tinha trazido seu lanche de casa, mas eu nem tinha tomado café, então eu fui até a mulher e pedi que separasse uma de cada coisa no carrinho.

― Feijõezinhos de todos os sabores, balas de goma, chicles de bola, sapos de
chocolate, tortinhas de abóbora, bolos de caldeirão, varinhas de alcaçuz… ― ela disse os nomes enquanto me entregava. Paguei por tudo e despejei no meu banco quando entrei na cabine.
― Você está com muita fome em… ― Rony disse enquanto encarava todas as coisas.
― Comprei para nós dois. Não vou aguentar comer tudo sozinha.
― Mas eu trouxe sanduíche de casa.
― E vai dividir comigo. Você não se importaria, né? ― eu disse de forma descontraída e Rony negou com a cabeça.

A verdade era que ele parecia meio triste e não custava nada ser gentil. Dei uma mordida grande na tortinha de abóbora, Rony me acompanhou pegando um pastelão de carne e passamos o tempo conversando sobre várias coisas aleatórias do mundo bruxo e trouxa. Ele me explicou sobre as figurinhas que vieram junto com os sapos de chocolate e estávamos falando sobre o seu rato Perebas quando a porta da cabine abriu.

― Vocês viram um sapo por aí? ― o menino nos perguntou meio choroso.
― Não vimos, mas podemos chamar você se ele aparecer por aqui. ― eu disse numa tentativa de consolá-lo.
― Obrigado. ― ele nos agradeceu e saiu.
― Não sei como ele pode estar triste, se eu trouxesse um sapo faria questão de perdê-lo o mais rápido possível. ― Rony deu de ombros.
― Acho que o sapo é realmente importante para ele.

Voltamos a falar de coisas aleatórias até puxar assunto sobre quadribol, e eu já sabia que era um esporte bruxo, mas pedi que me desse detalhes. Estava realmente interessada, desde o dia que o menino loiro falou sobre e então a nossa conversa sobre quadribol foi a que mais durou. Rony me explicou praticamente tudo, e que algumas coisas seriam mais fáceis de entender assistindo a um jogo. A porta da nossa cabine abriu no momento em que Rony estava prestes a me mostrar um feitiço que o irmão tinha ensinado. Era o menino que tinha perdido o sapo e ele estava acompanhado de uma menina que já estava vestida com o uniforme de Hogwarts.
― Vocês viram um sapo por aí? Neville perdeu o dele.
― Não vimos. ― Rony respondeu.
― Você está fazendo feitiços? ― a menina perguntou para Rony. ― Quero ver também.
― Sol, margaridas, amarelo maduro, muda para amarelo esse rato velho e burro. ― Rony agitou a varinha, mas nada aconteceu.

Ele ficou com as bochechas vermelhas e eu tomei a frente da conversa mais uma vez, antes que qualquer um falasse algo.

― Eu sou Potter e ele é o Rony. ― apontei para nós dois.
― Weasley. ― ele completou.
― Sou Hermione Granger. ― ela sorriu para mim. ― Já ouvi falar de você. Você está em alguns livros que eu li.
― Alguns? Eu pensei que fosse só no História da magia. ― eu disse admirada.
― Posso te mostrar os outros livros depois.
― Claro. Ainda não tive tempo de pesquisar tudo sobre mim. ― notei que os olhos da menina brilharam com a minha frase e um sorrisinho se formou em seus lábios.
― Vamos continuar a procurar o sapo de Neville, acho que seria melhor vocês trocarem de roupa. Vamos chegar daqui a pouco.

A menina saiu e Rony revirou os olhos. Acho que ela o deixava desconfortável e meio ranzinza.

― Ela é bem mandona. ― ele disse.

Rony resmungou mais um pouco e eu sugeri que deveríamos trocar de roupa, para poder ganhar tempo e não precisar fazer tudo com pressa, então ele aceitou de bom grado e nos revezamos na cabine.

― Acho que já estamos chegando. O trem reduziu a velocidade. ― Rony disse.

Esperamos mais uns 10 minutos e o trem parou. Nos olhamos apreensivos e nos levantamos para seguir com todos para fora e assim que saímos, o ar gelado da noite me envolveu e eu abracei meus braços.

― Alunos do primeiro ano por aqui. ― uma voz conhecida, disse entre a multidão. ― Todos aqui comigo. ― disse novamente e eu achei o seu dono. Hagrid.

Eu quase gritei de alegria quando vi o homem barbudo logo a frente segurando uma lanterna e andei em sua direção junto com os outros alunos.

― Olá . Está tudo bem? ― ele sorriu e deu uma batidinha no meu ombro. ― Todos por aqui. Me sigam.

Hagrid nos guiou por um caminho estreito e escuro, nos fazendo ter o primeiro vislumbre de Hogwarts, o castelo era enorme. Depois que os sussurros surpresos cessaram, Hagrid nos indicou vários barcos parados na margem.

― Quatro por barco! ― ele disse de um modo que todos escutassem. Eu fui em direção a um barco e Rony me seguiu. Vi Hermione Granger passar ao nosso lado e a chamei, ela veio até o barco com Neville logo atrás que choramingava um pouco.
― Ainda não acharam o sapo? ― eu perguntei e Neville negou com a cabeça.

Quando todos estavam acomodados nos barquinhos, eles largaram da margem no mesmo momento, deslizando pelo lago e nos dando uma visão ainda mais incrível do castelo. Tentei aproveitar um pouco mais a travessia quando Hagrid disse que só faríamos outra vez no nosso último dia do último ano. Todos os barcos pararam num lugar que parecia ser embaixo do castelo e eu não conseguia acreditar no que estava vendo, tudo parecia mágico ali também. Hagrid achou o sapo de Neville em um dos barquinhos e o menino ficou super feliz. Quando começamos a subir uma escadaria, eu me aproximei de Rony e o mesmo sorriu nervoso para mim. Hermione estava logo à frente e parecia confiante. Quando chegamos ao topo da escada, Hagrid bateu algumas vezes na porta e uma mulher alta com um vestido verde apareceu.

― Alunos do primeiro ano, essa é a professora Minerva McGonagall.
― Obrigada, Hagrid. Eu cuido deles daqui por diante. ― a mulher disse séria, nos encarando um a um.



Capítulo 3

Por

A professora Minerva McGonagall abriu a grande porta nos dando passagem para entrar num grande salão, que deveria ser o hall de entrada e eu não pude evitar deixar meu queixo cair com toda aquela estrutura, pois ali cabia sem exagero algum a casa dos Dursley inteira. Rony ao meu lado estava igualmente sem palavras e mais alguns outros alunos que não se continham deixavam escapar um sonoro "uau". As paredes estavam iluminadas com enormes velas, que mais pareciam tochas e o teto era alto demais para achar o seu fim. Escutei centenas de vozes vindo da porta à nossa frente e cochichei para Rony que todos já deveriam estar lá nos esperando - todos os alunos que eu vi na estação e todos os professores. Ele concordou com a cabeça, mas estava muito nervoso para puxar assunto, me fazendo ficar quieta da mesma forma e então a professora Minerva nos levou para outra sala, agora um pouco menor, deixando todos amontoados. Rony e eu fomos para um canto e quando estávamos prestes a iniciar um assunto descontraído, reconheci uma cabeleira loira se aproximando: era o menino que eu encontrei na loja de roupas. Respirei fundo como que para me manter o mais calma possível e esperei que ele se pronunciasse.

― Então quer dizer que você é a Potter. ― o menino pálido e loiro disse.

Ele estava acompanhado de mais dois meninos grandes e mal encarados que me lembraram instantaneamente a turma de Duda. Um enjoou me ocorreu e eu apertei o braço de Rony que me olhou de lado sem entender.

― Sou eu mesma e você seria? ― eu perguntei e encarei os dei uma olhada rápido nos dois meninos atrás do loiro.
― Estes são Crabbe e Goyle. ― ele indicou cada menino e logo em seguida apontou para si mesmo, sorrindo pomposo. ― Eu sou Draco Malfoy.
― Precisa de algo? ― eu perguntei aparentemente tranquila, tentando conter o desconforto que ele me causava.

Rony tossiu ao meu lado como se quisesse esconder o riso e o menino voltou a sua atenção para ele.

― Do que está rindo? Me acha engraçado? ― Draco bravejou. ― Nem preciso perguntar quem você é: Cabelos ruivos, sardas e roupa de segunda. Meu pai disse que os Weasley são assim mesmo, costumam ter mais filhos do que podem sustentar.

Senti Rony ficar tenso ao meu lado e tentar se aproximar de Draco, mas eu o impedi e tomei sua frente.

― Não estou interessada em saber o que seu pai acha ou em ver você sendo um completo idiota com um de meus amigos. Pode nos deixar tranquilos, sim? ― disse da forma mais indiferente que consegui, e mesmo não gostando de agir assim, ele estava sendo muito inconveniente.
― Você não vai demorar a descobrir que algumas famílias de bruxos são bem melhores do que outras, . E espero que não seja tarde demais quando se der conta de que escolheu fazer amizade com a pior de todas.
― Eu sei escolher muito bem e me manter longe de você e de todo esse discurso sem fundamento será o melhor.
―  Eu teria mais cuidado se fosse você. ― Draco disse lentamente com o seu olhar fixo em mim. ― A não ser que tenha mais modos, vai acabar como os seus pais.

Fomos interrompidos pela professora Minerva que tinha aparecido ao nosso lado de modo que nem notamos. Ela nos repreendeu e então eu percebi que tivemos plateia esse tempo todo - vários alunos prestavam atenção na nossa mini discussão e sussurravam várias coisas sobre o que tinham acabado de escutar. Então, Draco seguiu a professora para a frente de toda a turma de primeiranistas e eu larguei o braço de Rony, que tinha as bochechas levemente avermelhadas pela discussão.

― Bem-vindos a Hogwarts ― a professora Minerva disse iniciando seu discurso. ― O banquete de abertura do ano letivo vai começar daqui a pouco, mas antes de se sentarem às mesas, vocês serão selecionados por casas. A Seleção é uma cerimônia muito importante porque, enquanto estiverem aqui, sua casa será uma espécie de família em Hogwarts. ― a professora continuou a falar e nos olhar de maneira séria.
― As quatro casas chamam-se Grifinória, Lufa-Lufa, Corvinal e Sonserina. Enquanto estiverem em Hogwarts os seus acertos renderão pontos para sua casa e os erros a farão perder. No fim do ano, a casa com o maior número de pontos receberá a taça das casas, uma grande honra. Espero que cada um de vocês seja motivo de orgulho para a casa à qual vier a pertencer. ― finalizou.

Eu olhei ao meu redor e notei Hermione um pouco mais a frente nem um pouco tensa, mas parecia muito compenetrada no que se seguiria. Draco falava baixinho com os seus dois guarda-costas mal encarados e Neville, o menino do sapo, tentava ajeitar a capa.

― A Cerimônia de Seleção vai se realizar dentro de alguns minutos na presença de toda a escola, então peço que se arrumem da melhor forma. Voltarei quando estivermos prontos para receber vocês. Por favor, aguardem em silêncio.

A professora saiu e o silêncio foi tomado por vários murmúrios. Eu comecei a ficar um pouco nervosa com tudo aquilo, até que uma dúvida me ocorreu. Como seríamos selecionados para as casas? Rony contou que um dos gêmeos o disse que doía muito, mas que ele achava que era algo mais leve e que seu irmão estava brincando, mas era tarde demais, eu já tinha começado a imaginar milhares de tarefas que não acabariam nada bem para mim. Escutei Hermione repetindo vários feitiços para caso fosse algum tipo de apresentação com a varinha e eu só lembrava de bebidas e poções por causa do último livro que li, então tentei ficar calma e respirei fundo. Em um único dia eu tinha feito aquilo milhares de vezes e figuras num tom prateado entraram no salão tagarelando, tirando meu foco dos pensamentos nada bons que rondavam minha cabeça.

― São fantasmas. ― Rony disse ao notar meu olhar deslumbrado. Mais uma coisa que eu teria que absorver com calma mais tarde. Os fantasmas conversavam com alguns alunos e nos desejaram boa sorte na cerimônia e logo a professora retornou e nos conduziu de volta até o grande saguão onde a porta dupla que estivemos escutando as vozes estava aberta revelando um grandioso Salão.
― Todos em fila. Me sigam! ― a professora Minerva disse indicando a saída do cômodo.

Eu esperei até que tudo se acalmasse e entrei na fila puxando Rony para o meu lado e ele estava tão assustado quanto eu, o que não era difícil de perceber, já que eu lutava para não ficar paralisada ali mesmo. Hermione Granger estava na minha frente com uma garota que eu não lembrava o nome, mas que tinha sido bem simpática comigo quando desembarcamos. Quando finalmente entramos no Grande Salão, eu senti como se estivesse em casa e uma sensação de pertencimento me atingiu, eu viveria no mesmo lugar que meus pais e aprenderia o que eles aprenderam. Observei boquiaberta cada detalhe daquele lugar e reconheci o famoso teto aveludado e negro salpicado de estrelas que eu tinha lido em Hogwarts, uma história.

― É enfeitiçado para parecer o céu lá fora, li em Hogwarts, uma história. ― escutei Hermione dizer a menina ao seu lado, lendo a minha mente e eu sorri com esse fato.

Voltei a minha atenção para o Salão principal e toda a sua elegância. Ele era iluminado por milhares de velas que flutuavam no ar sobre quatro mesas compridas, e as mesas estavam postas com pratos e taças douradas, deixando tudo ali ainda mais encantador e elegante, os outros estudantes estavam sentados e eu imaginei que já estivessem separados por casa e procurei as cabeleiras ruivas dos irmãos de Rony, mas as centenas de rostos começaram a me deixar ainda mais nervosa. No outro extremo do salão havia mais uma mesa, que só poderia ser a dos professores e a professora Minerva nos guiou até ali, nos arrumando a frente das quatro mesas. Todos os olhares estavam fixos ali e eu fazia de tudo para não tirar os olhos da professora Minerva que colocava silenciosamente um banquinho a nossa frente e um chapéu surrado e pontudo em cima dele. Seria algo como a varinha escolher o bruxo? Ou teríamos que realizar algo no chapéu? As perguntas não paravam de surgir na minha cabeça até que todos ficaram em silêncio e um rasgo junto à aba do chapéu se abriu como uma boca e o objeto começou a cantar.

Ah, vocês podem me achar pouco atraente,
Mas não me julguem só pela aparência
Engulo a mim mesmo se puderem encontrar
Um chapéu mais inteligente do que o papai aqui.
Podem guardar seus chapéus-coco bem pretos,
Suas cartolas altas de cetim brilhoso
Porque sou o Chapéu Seletor de Hogwarts
E dou de dez a zero em qualquer outro chapéu.
Não há nada escondido em sua cabeça
Que o Chapéu Seletor não consiga ver,
Por isso é só me porem na cabeça que vou dizer
Em que casa de Hogwarts deverão ficar.
Quem sabe sua morada é a Grifinória,
Casa onde habitam os corações indômitos.
Ousadia e sangue-frio e nobreza
Destacam os alunos da Grifinória dos demais;
Quem sabe é na Lufa-Lufa que você vai morar,
Onde seus moradores são justos e leais
Pacientes, sinceros, sem medo da dor;
Ou será a velha e sábia Corvinal,
A casa dos que têm a mente sempre alerta,
Onde os homens de grande espírito e saber
Sempre encontrarão companheiros seus iguais;
Ou quem sabe a Sonserina será a sua casa
E ali fará seus verdadeiros amigos,
Homens de astúcia que usam quaisquer meios
Para atingir os fins que antes colimaram.
Vamos, me experimentem! Não devem temer!
Nem se atrapalhar! Estarão em boas mãos!
(Mesmo que os chapéus não tenham pés nem mãos)
Porque sou único, sou um Chapéu Pensador!

Era uma música confiante, na qual o chapéu nos explicava e encorajava a usá-lo, além de falar várias características dos estudantes de cada casa e por um momento eu pensei que estivesse no lugar errado, mas não poderia ser possível, até uma varinha tinha me escolhido no fim das contas. Eu teria essas características? Alguma delas pelo menos? Eu sabia que era corajosa, a pergunta era se só isso seria suficiente, mas em todo caso, ele tinha dito que veria tudo que está na nossa cabeça, o que me fazia acreditar que a escolha fosse de modo bem rápido e ele pudesse ver através dos meus pensamentos algo que nem sabíamos. Quando o chapéu terminou de cantar, o Salão rompeu em aplausos e ele se curvou para as quatro mesas ficando quieto em cima do banco mais uma vez. A professora Minerva se aproximou com um rolo de pergaminho enorme e chamou a nossa atenção para si novamente.

― Quando eu chamar, vocês sentarão no banco e colocarão o chapéu para a seleção. ― ela disse e começou uma lista que parecia infinita. A maioria estava indo para Corvinal e Lufa-Lufa, tendo um e outro da Grifinória e da Sonserina. A professora chamou Hermione e ela saiu correndo em direção ao banquinho, poderia apostar que ela estava mais ansiosa do que metade dos alunos ali.
― Grifinória! ― o chapéu exclamou depois de um tempo e Hermione saiu dando pulinho e se sentando na mesa que fazia bastante barulho.

Draco foi chamado um tempo depois e nem precisei de muito para saber para qual casa ele iria.

― Sonserina!

Enfim faltava pouca gente e eu tentava regular a minha respiração, logo a minha vez chegaria. A professora Minerva chamou Neville e ele foi para Grifinória igual a Hermione.

― Ronald Weasley! ― ela chamou Rony e ele saiu do meu lado como se estivesse prestes a pular de um precipício ou enfrentar um trasgo como ele mesmo tinha dito antes. Eu desejei sorte e ele se sentou no banquinho levantando um pouco depois com a exclamação do chapéu.
― Grifinória! ― observei ele se sentar junto aos irmãos e receber muitos abraços.

E então faltava a menina que estava com Hermione e eu, será que eu estava nessa lista mesmo? A menina que eu descobri ser Sophie Foster foi para a Corvinal e então meu nome foi chamado.

Potter! ― em alto e bom som a professora Minerva me chamou. Escutei o mesmo murmurinho do caldeirão furado, só que como uma avalanche. Levantei a cabeça, tomei coragem e segui até o banquinho sem olhar para outro lugar se não fosse o chapéu. Quando me sentei, não precisei de muito para não focar em todos os rostos que deveriam estar me encarando, o chapéu seletor tinha coberto meus olhos. Me assustei um pouco quando escutei ele falar na minha mente "Difícil, vejo uma mente muito inteligente, mas nada maldosa e uma vontade crescente de se provar. A bondade está no seu sangue, assim como o orgulho e a coragem. Não se limite a ser como seus pais, você pode ser melhor. A grande dúvida é: onde irei colocá-la? Todas as casas lhe fariam uma bruxa grandiosa." Eu estava um pouco boba com o que ele tinha acabado de dizer, mas e se ele me mandasse para Sonserina? Desde o começo eu não tinha tido boas experiências com aqueles que foram de lá. "Faça a sua escolha, só não me coloque na Sonserina" eu pensei com esperança de que ele atendesse o meu apelo. "Se você acha que é o melhor, então que seja…"
― Grifinória! ― escutei ele gritar para todos e me levantei o entregando para a professora Minerva, que me lançou um sorriso discreto.

Caminhei para a mesa dos vermelhos e fui recebida com muita festa, acho que a maior de todas até ali. Abracei Rony apertado e cumprimentei a todos que estavam por perto, além de não me conter e rir com os gêmeos que gritavam "Ganhamos a Potter" para todos no salão escutarem e eu não pude deixar de ficar corada. O tumulto foi cessando e todos se acomodaram em seus lugares outra vez, então olhei para a mesa dos professores e meu olhar foi direto para Rúbeo Hagrid que detinha um sorriso satisfeito nos lábios e um olhar de aprovação. Um dos fantasmas de antes me cumprimentou, assim como o outro irmão de Rony, o que eu descobri ser monitor e então finalmente eu pude ficar tranquila.

― Muito bem! Sejam bem-vindos para um novo ano em Hogwarts. ― Alvo Dumbledore disse sorrindo para todos. Eu o reconhecia da figurinha que tinha vindo no sapo de chocolate. ― Antes de começarmos nosso banquete, eu gostaria de dizer umas palavrinhas: Pateta! Chorão! Destabocado! Beliscão! Obrigado.

Ele se sentou na mesa dos professores e eu ri da sua fala ao passo que negava com a cabeça, ele só poderia ser louco.

― Ele não é louco se é isso que está pensando, digamos que um pouco sim, mas é um bruxo genial. ― Percy, o irmão de Rony que era monitor disse.
― Bem, eu estava pensando realmente isso. ― eu sorri e me concentrei no banquete à minha frente, que os pratos tinham enchido magicamente eu nem sabia por onde começar a comer. Tinha rosbife, galinha assada, costeletas de porco e de carneiro, pudim de carne, ervilhas, cenouras, molho, ketchup e docinhos de hortelã.

Eu não sabia o que aquele doce estava fazendo ali, mas deveria ser de certo modo um complemento, então o incluiu no meu prato, assim como alguns outros doces quando terminei de jantar. Será que teria como levar um deles para comer mais tarde? Estava tudo uma delícia. O fantasma que agora eu sabia ser residente da torre da Grifinória, engatou em uma conversa com vários alunos próximos e até falou de quadribol, mas a melhor parte veio quando Simas, um menino que nos disse ser mestiço quis saber o motivo do apelido do fantasma, o que parecia bem óbvio. Não era possível que ele não conseguisse imaginar, e então não consegui me controlar e revirei os olhos quando Nick quase sem cabeça agarrou a orelha esquerda e puxou. A cabeça toda girou para fora do pescoço e caiu por cima do ombro como se estivesse presa por uma dobradiça. O Sr. Nicholas encarou os meninos um pouco aborrecidos e mudou de assunto. Ele começou a falar sobre ajudarmos a Grifinória a ganhar o campeonato das casas e acabar com a sequência de vitórias da Sonserina.

― O barão Sangrento está ficando quase insuportável. Ele é o fantasma da Sonserina. ― ele disse apontando para o fantasma ensanguentado sentado à mesa com os sonserinos.

A conversa se prolongou mais uma vez e acabamos falando sobre o quadribol, o que me fez chegar a conclusão que todos eram muito competitivos, muito viciados ou os dois. Não que eu reclamasse ou fosse algo ruim, eu só não estava muito curiosa. Então uma pergunta realmente importante veio à minha mente: meus pais gostavam tanto assim de quadribol também? Seria muito legal saber disso, fiz uma nota mental sobre o assunto e continuei a prestar atenção no que os outros falavam. Escutei todos começarem a falar de suas origens e suas famílias e eu não estava triste, mas esse assunto me deixava pensativa quanto a minha. Simas nos contou que seu pai só soube que sua mãe era bruxa depois do casamento e Neville tinha sido criado com a avó e a família era toda bruxa.

― Está tudo bem, ? ― uma voz familiar me despertou dos breves pensamentos e um dos gêmeos me olhava esperando uma resposta. George.
― Sim, está sim. ― eu disse voltando ao meu estado normal. ― Só queria ter algo interessante para contar sobre a minha família também.
― Acho que você bateu a cabeça quando estava vindo para cá. A sua história é a mais interessante de todas. ― George disse tentando me confortar.
― Mas todos já sabem. ― eu tentei argumentar.
― Então os surpreenda com algo que só você sabe, ou conte no seu ponto de vista. Eu adoraria escutar.
― Vou lembrar de chamar você quando estiver prestes a fazer isso.

George sorriu com a minha resposta e voltou a conversar com o irmão gêmeo e um outro garoto. Do meu lado, Percy e Hermione conversavam sobre transfiguração e sobre as primeiras aulas. Ela tentou me incluir em algumas partes, mas acabava falando a maioria das coisas no meu lugar, me fazendo rir com a sua empolgação. Passei a observar os professores na mesa principal novamente e Hagrid tomava um grande gole da sua taça, seguido pela Professora Minerva que conversava com o Professor Dumbledore e o Professor Quirrell e o seu turbante engraçado, que conversava com um professor de cabelos escuros e oleosos que eu não fazia ideia de quem pudesse ser. Acho que fiquei encarando por tempo demais, porque no momento seguinte, senti o olhar do professor que eu não sabia o nome, fixos em mim. Uma pontada na minha cicatriz fez com que eu cortasse o contato visual e a minha reação repentina de levar a mão a cabeça chamou a atenção de Percy. Depois que ele se certificou que não tinha sido nada, eu perguntei sobre o professor.

― Aquele é o Professor Snape. Ele ensina Poções, mas não é o que ele quer. Todo mundo sabe que está cobiçando o cargo de Quirrell, como professor de Defesa contra as artes das trevas. Dizem que ele entende muito do assunto.

Quando finalmente todas as comidas e sobremesas desapareceram, o Professor Dumbledore voltou a falar com todos. Eu já estava ficando sonolenta depois de um jantar tão suculento e grandioso. Rony ao meu lado estava quase explodindo de tanto que comeu.

― Tenho alguns avisos de início de ano letivo para vocês. Os alunos do primeiro ano devem observar que é proibido andar na floresta da propriedade. E alguns dos nossos estudantes mais antigos fariam bem em se lembrar dessa proibição. ― o professor disse tranquilamente, mas sem deixar de passar a mensagem que queria e olhar incisivamente para os gêmeos. Os avisos continuaram até que um deixou todos um pouco inquietos. ― E, por último, é preciso avisar que, este ano, o corredor do terceiro andar do lado direito está proibido a todos que não quiserem ter uma morte muito dolorosa.

Não parecia brincadeira, mas que tipo de escola faria isso? Bem, uma de magia. Esperamos mais um pouco até que tudo se encerrasse, mas parecia que tínhamos um cronograma muito longo a ser seguido naquela primeira noite, onde cantaríamos o hino da escola e ouviríamos mais uma dezena de avisos. Depois de toda a cerimônia de início de ano no salão principal, fomos guiados por Percy por vários corredores e subimos várias escadas, até o quadro de uma mulher muito gorda, que pediu uma senha. Observei tudo atentamente e esperei que explicasse cada passo. Achava de todo modo, muito inteligente colocar uma senha para evitar intrusos, mas no fim das contas a Grifinória não era a única.

― Bem vindos a sala comunal da Grifinória. Toda semana a senha é trocada por um dos monitores, então prestem atenção ao quadro de avisos. O dormitório masculino é subindo as escadas a esquerda e o feminino subindo as da direita e os seus pertences já foram levados para lá.

A sala comunal era muito aconchegante, com poltronas estofadas e uma bela vista nas janelas; sem contar a majestosa lareira e as mantas escarlate na parede. Uma pequena confusão se formou próxima às escadas com vários alunos que queriam subir ao mesmo tempo. Aproveitei que Percy os orientava e tudo se organizava para me despedir de Rony.

― Ei, Ron! ― eu o cutuquei no braço. ― Espero que você tenha uma boa noite.
― Boa noite . ― ele disse sorrindo. ― Não se atrase para o café da manhã. ― ele fez uma careta e começou a andar em direção a sua escada.
― Não saia desse salão sem mim. ― eu acenei e segui para o lado oposto.

No topo da escada, fiquei vislumbrada com a visão que tive. Era muito alto, o que fez minhas suspeitas se confirmarem; estávamos em uma das torres e isso era fantástico. Entrei no quarto que seria meu por todo o meu período em Hogwarts e identifiquei logo de cara, Hermione Granger com seu pijama em mãos e terminando de organizar suas coisas no malão.

, estou muito satisfeita que ficamos no mesmo quarto. ― Hermione disse e estendeu uma mão para concretizar o cumprimento formal demais, mas que não me incomodou, porque eu já sabia que ela era o oposto de Rony.
― Também estou feliz que ficamos no mesmo quarto. ― apertei a sua mão e pude sentir que uma amizade poderia se formar ali.

Ela era tão cuidadosa e mesmo mandona como o ruivinho não parava de repetir desde o trem, me tratava como uma pessoa real. Depois que trocamos de roupa, Hermione e eu continuamos o nosso assunto sobre as aulas, ao passo que terminamos de arrumar as nossas camas para assim dormir.  As outras meninas não demoraram a chegar e então só paramos de conversar quando uma a uma caiu no sono.  Algum tempo depois que a última menina se despediu eu cansei de fingir que dormia e sentei na cama, não conseguia pegar no sono de forma alguma. Escutei o som de leve batidas na janela e senti meu coração se aquecer com bicando a mesma. Levantei da minha cama como se esperasse aquele pretexto e deixei que a coruja entrasse, me salvando de uma noite solitária. A verdade era que eu estava lutando contra mim mesma e o medo de dar tudo errado, já que nada tinha dado tão certo desde o dia que eu soube que era bruxa.

― Finalmente estamos onde meus pais queriam. ― eu disse baixinho para a coruja.

🏰⚡

Acordei na manhã seguinte com Hermione me chamando baixinho, o que mesmo assim fez com que eu me assustasse. Eu estava um tanto suada e a sensação de que tinha tido um pesadelo pairava sobre mim. Não era tão tarde, mas eu estava agradecida de certa forma pela iniciativa da minha colega de quarto. Nos arrumamos em silêncio ao passo que as outras meninas: Lilá e Parvati, despertavam. Depois de um tempinho já pronta, segui Hermione para fora do dormitório em direção ao salão comunal e deixei que ela seguisse na frente para o grande salão, e esperei por Rony ao pé das escadas que levavam ao dormitório masculino. Aos poucos a movimentação aumentava e comecei a perceber que tinha virado assunto da maioria por ali, fosse apontando para mim, ou diretamente para cicatriz.

― Ela está ali. ― uma voz feminina disse.
― Ela que é a Potter? A famosa?
― Nem é tão bonita.
― Será que ela lembra de tudo o que aconteceu? ― perguntou uma voz masculina.

Algumas pessoas que ficavam paradas ali faziam perguntas sobre você sabe quem e sobre a minha cicatriz, mas a maioria não conseguia ficar mais do que meio segundo perto de mim e saia da sala comunal, o que me deixava super incomodada. Eu não era um animal no zoológico.
Por sorte, o ruivo não demorou muito, o que segundo Fred e George, era um milagre. Seguimos todos para o salão principal e Hermione já tinha feito muitas amizades e estava terminando sua refeição. Era até um pouco engraçado ver minha colega de quarto falando com os alunos mais velhos como se fosse de seu ano. Sentei ao lado da garota e puxei Rony para o meu lado, que fez uma careta não muito discreta. Depois de muitas conversas e expectativas criadas sobre cada aula, confessei a Rony que estava ansiosa para a aula de voo. O fascínio de muitos pelo quadribol tinha me deixado curiosa e eu sabia que em nenhuma outra escola eu teria a oportunidade de uma aula como aquela.

― Só de pensar na oportunidade de voar, eu poderia fazer essa aula todos os dias. ― eu disse para o ruivo ao meu lado.
― Se você for boa, pode até entrar no time de quadribol ano que vem. ― ele disse com a boca cheia de comida.
― Não estava pensando nisso, só no prazer de voar mesmo. ― rebati um pouco acanhada. Eu já tinha atenção demais sem nem participar de algo assim, nem conseguia imaginar como seria os murmúrios.
― Se for pensar por esse lado, você realmente vai gostar. Os meus irmãos mais velhos Gui e Carlinhos eram do time, assim como Fred e George são. ― ele apontou para os dois últimos que estavam ocupados demais pregando uma peça em um menino de outra casa que passava por ali.
― Isso é muito legal, Rony. Algum deles virou profissional?
― Bem, não. ― ele fez uma pausa que pareceu triste. ― Carlinhos está na Romênia estudando dragões e Gui está na África fazendo um serviço para o Gringotes.
― O banco bruxo? Parece ser muito importante. ― eu disse ao ruivo.

A professora Minerva passou ao final do café e entregou o horário de todos, me deixando um pouco assustada com as aulas da semana e seus horários diversos. Eu faria tantas coisas diferentes em um só dia e eu estava tão ansiosa por isso que pensei por um momento que passaria mal se continuasse encarando o pedaço de papel. A nossa primeira aula foi com ninguém menos que a própria professora Minerva, que era diretora da Grifinória e ela era rígida e não tolerava atrasos, nem conversas fiadas ou piadas de mal gosto, mas era a mulher mais inteligente que eu já tinha visto.

― A Transfiguração é uma das mágicas mais complexas e perigosas que irão aprender em Hogwarts. ― disse a professora transformando a mesa em porco e o porco em mesa outra vez.

Era surpreendente a facilidade com a qual ela fazia tal coisa, o que me deixava empolgada e assustada, mas no fim das contas todos recebemos fósforo, para tentar transformar em agulha e por mais que parecesse fácil; não era. Toda quarta-feira à meia-noite tínhamos que estudar o céu pelo telescópio e aprender sobre os nomes das estrelas e os movimentos dos planetas, bem como ter aula na estufa do castelo com a adorável professora Sprout, que nos ensinava a arte da herbologia e a como cuidar de todas as plantas e fungos estranhos e descobrir para que eram usados. No meio da semana notei que vários alunos se amontoavam na porta das salas que eu estava tendo aula ou me seguiam quando saia da sala comunal. A semana continuou e eu tive mais aulas. O professor Binns era o mais fascinante, e por mais que sua aula me fizesse ficar com um pouco de sono, a sua matéria era a única ensinada por um fantasma. E então tinha o professor Flitwick, que ensinava Feitiços, e nos entregava uma aula bem dinâmica, mesmo que ele ainda surtasse um pouco com a ideia de me ter na sua turma, mas a aula que todos estavam esperando, inclusive eu, era de defesa contra a arte das trevas, mas o professor Quirrell não era nada do que todos esperavam e sua sala cheirava fortemente a alho, e todos diziam que era para espantar um vampiro que ele encontrara na Romênia e temia que viesse atacá-lo a qualquer dia. Até o seu turbante não passava despercebido pelos alunos, que encorajados pelos gêmeos Weasley, espalharam por aí que o mesmo deveria estar cheio de alho também, para que assim o professor estivesse totalmente protegido.  Fiquei aliviada ao final da aula ao perceber que todos nós estávamos em níveis parecidos, mesmo que alguns como eu, soubessem da existência de tudo a poucas semanas. Finalmente o último dia da semana tinha chegado e por mais que todos estivessem comemorando, eu me sentia ansiosa e um pouco nervosa, porque toda aquela fama me acompanhando por onde eu passava me deixava sufocada.

― O que temos hoje? ― perguntei a Rony, quando nos acomodamos na mesa da Grifinória para o café da manhã.
― Eu que deveria te perguntar, você é a aluna mais dedicada que eu conheço. ― ele disse se referindo ao elogio do professor Flitwick, o que não valia muito, já que ele era claramente um admirador da minha história.
― Acho que você está me confundindo com Hermione.
― Ela é um pouco louca se quer saber, exagerada demais. ― ele disse sem nem perceber que ela estava algumas cadeiras ao lado.
― Não fale assim, Ron. Ela só é a melhor aluna de todas. ― eu sorri em sua direção e ela direcionou o seu olhar para outro lugar.
― E então, o que temos hoje? ― ele voltou a perguntar.
― Poções duplas com o pessoal da Sonserina. Snape é diretor da Sonserina e dizem que sempre protege eles. Vamos ver se é verdade. ― reproduzi o que escutei de alguns alunos durante a semana.
― Queria que Minerva nos protegesse. ― Rony disse enchendo a boca de comida logo em seguida e me oferecendo mais suco de abóbora.
― Ela não pouparia esforços para apontar motivos negativos. ― recusei o suco e ri da careta que Rony fez.

Várias corujas entraram no salão naquele momento e então soube que era o momento do correio. Elas circulavam as mesas procurando seus donos e deixando pacotes, até que eu avistei e ela tinha um pequeno envelope no seu bico e pousou majestosamente ao meu lado, como tinha feito nos outros dias, mesmo quando não tinha nada para me dar e esperava um pedacinho de torrada antes de ir dormir no corujal com as outras corujas da escola. Abri o bilhete sem demora.

Querida ,
Sei que tem as tardes de sexta-feira livres, então será que não gostaria de vir tomar uma xícara de chá comigo por volta das três horas? Quero saber como foi a sua primeira semana. Mande-nos uma resposta pela .
Hagrid.

Pedi a pena de Rony emprestada e escrevi uma resposta para Hagrid de imediato, agradecendo o convite e confirmando minha presença, e acrescentando que levaria Rony. Quando terminei de escrever, o ruivo me olhava com a cara que eu estava quase me acostumando; as bochechas coradas.

― Desculpe, nem te perguntei. Você gostaria de ir tomar um chá com Hagrid e eu?
― Obrigada por me convidar. ― ele agradeceu e puxou o profeta diário que tinha vindo junto às cartas e mudou de assunto.

Começamos a conversar sobre algo igualmente interessante; Gringotes tinha sofrido uma tentativa de roubo e era óbvio que eu contaria todas as suspeitas que tinham surgido na minha mente ao saber disso.

🏰⚡

As aulas de poções eram nas masmorras, o que tornava tudo um pouco sinistro, perdendo somente para a sensação um tanto duvidosa que eu tive ao ver o nosso professor. Ele parecia assustado e temeroso, eu poderia dizer que ele estava tão nervoso quanto todos ali na nossa primeira aula com ele. Primeiras vezes, podem ser de certo modo cheias de pressão. Observei Draco Malfoy e seus amigos afastados ao passo que acompanhavam nem um pouco discretos cada passo que eu dava. Sente-me entre Rony e Hermione, arrumando pergaminho e pena na mesa me preparando para anotar qualquer coisa que pudesse ser útil, ou tudo, já que esse professor parecia ser mais rígido que a professora Minerva. O professor de poções que eu me lembrava se chamar Snape, começou a chamada, passando entre os alunos e observando cada um deles. Eu não mexia nem um músculo, não queria perder a minha vez, mas ela não chegou.

― Professor! Eu não fui chamada. ― eu disse enquanto mantinha a minha mão levantada para que ele me visse entre os outros alunos.
― Por favor, peça permissão para falar uma próxima vez, senhorita Potter. ― ele disse como se doesse dizer meu nome ou olhar para mim.
― Sinto muito senhor! ― alguns alunos perto de Malfoy riram da minha gafe e o professor abanou as mãos começando a falar sobre como gostava de ministrar a sua aula. O silêncio era absoluto.
― Vocês estão aqui para aprender a ciência sutil e a arte exata do preparo de poções. ― começou ― Como aqui não fazemos gestos tolos, muitos de vocês podem pensar que isto não é mágica. Não espero que vocês realmente entendam a beleza de um caldeirão cozinhando em fogo lento, com a fumaça a tremeluzir, o delicado poder dos líquidos que fluem pelas veias humanas e enfeitiçam a mente, confundem os sentidos. Posso ensinar-lhes a engarrafar fama, a cozinhar glória, até a zumbificar, se não forem o bando de cabeças-ocas. ― o professor então bateu inesperadamente na mesa e várias pessoas que tinham começado a anotar pararam. Com o estrondo causado, minha pena caiu no chão me forçando a abaixar para pegar.
― Senhorita Potter! ― o professor Snape chamou meu nome com profundo desgosto, o que me surpreendeu. Eu tinha feito algo de errado? ― O que eu obteria se adicionasse raiz de asfódelo em pó a uma infusão de losna?

Senti todos os olhares da sala direcionados a mim, incluindo Rony e Hermione, a última tinha levantado a mão para poder dar a resposta caso eu não soubesse, mas eu sabia, ou achava que sabia.

― Poção do morto-vivo. ― eu disse mais baixo do que eu esperava.
― Levante e repita apropriadamente. ― o professor se aproximou e me olhou como se não estivesse suportando estar na minha presença e isso parecia tão, particular e ruim. Parecia que eu tinha um peso nos ombros a cada vez que o seu olhar caía sobre mim.
― Asfódelo e losna produzem uma poção para adormecer tão forte que é conhecida como a Poção do Morto-Vivo. ― eu disse sem demora.

O professor Snape continuou a aula e hora ou outra me fazia uma pergunta inesperada e eu não sabia como, de que modo me lembrava de tantas coisas lidas a tantos dias em livros com centenas de páginas. Percebi que Hermione não gostou muito, por mais que eu tivesse me queixado para ela logo depois que fomos todos liberados. Fiquei um pouco preocupada por Neville ter acabado na ala hospitalar quando o professor nos colocou para preparar uma poção e seu caldeirão derreteu, mas eu sabia que não demoraria para que ele fosse liberado outra vez e nos encontrássemos no jantar, e mesmo assim, por conta de seu descuido, a Grifinória perdeu dois pontos. Às cinco para as três chamei Rony para me acompanhar à casa de Rúbeo Hagrid e saímos do castelo em passos rápidos, atravessando a propriedade. Rúbeo morava numa casinha de madeira na orla da Floresta Proibida e uma besta e um par de galochas estavam à porta da casa, dando um ar de familiaridade. Depois de bater na porta, esperei um pouco enquanto escutava uma correria interna e latidos bravos, seguidos por pedidos de silêncio.

― Para trás, Canino. Atrás. ― Hagrid afastou o cachorro com cuidado assim que abriu a porta. O enorme cachorro fazia muito esforço para sair, mas no final, ele foi vencido pelo gigante.

Havia apenas um cômodo na casa e mesmo pequena, parecia acolhedora e aconchegante. Tirando as coisas desconhecidas que pendiam do teto. Na chaleira de cobre fervia o inseparável chá, havia uma cama maior que o normal coberta com uma colcha de retalhos e um armário bem compacto.

― Fiquem à vontade. Canino não é feroz. ― o homem sorriu quando notou que Rony se escondia atrás de mim.

Como se soubesse que estávamos falando dele, o cachorro de caça pulou imediatamente para cima de Rony e começou a lamber-lhe as orelhas, então eu aproveitei para apresentar o meu amigo ao meu outro amigo.

― Este é o Rony ― eu disse a Hagrid, que fora nos servir com chá e biscoitos.
― Mais um Weasley, hein?! ― Rúbeo disse apontando para as sardas de Rony e então continuou. ― Passei metade da vida expulsando seus irmãos da floresta.
― Eles podem ser um tanto persistentes. ― o ruivo disse enquanto aceitava o chá.

Começamos a comer e Rony fez uma careta assim que mordeu o biscoito, fazendo com que tivéssemos uma conversa silenciosa para que ele disfarçasse. Elogiamos a comida e continuamos a escutar as coisas que Hagrid dizia sem parar, a essa altura canino já estava acostumado, pois deitou sua cabeça no meu colo, e então contei a Hagrid a sensação ruim que tive na presença do professor Snape, o deixando com a mesma expressão de quando teve que me contar sobre você sabe quem, mas ele mudou de assunto antes que eu pudesse abordá-lo. Eu sabia que teria que conversar com ele novamente, mas parecia ser de certo modo delicado, como todas as coisas na minha vida.

― Bobagem! Por que odiaria a melhor aluna da matéria dele? ― Rúbeo sorriu e me deu tapinhas no ombro, fazendo um sinal de positivo para Rony que sorria satisfeito.

O gigante mudou de assunto logo depois, deixando tudo ainda mais suspeito.

― Como vai seu irmão Carlinhos? ― perguntou Hagrid a Rony. ― Eu gostava muito dele. Tinha muito jeito com animais.

Enquanto os dois conversavam sobre o irmão de Rony, eu observei que um pedaço de papel que estava na mesa sob o abafador de chá era uma notícia recortada do Profeta Diário, sobre o tal roubo e então me lembrei que o arrombamento ao cofre aconteceu no dia em que estávamos lá e talvez pudesse ter acontecido quase no mesmo momento. Será que Hagrid sabia?

― Rúbeo! Aquele arrombamento de Gringotes aconteceu no dia do meu aniversário! Você sabe algo a mais sobre isso? Parece que o cofre estava vazio. ― eu disse o que estava nos meus pensamentos, mas ele continuava com a mesma postura de que estava escondendo algo. Eu tinha quase certeza que o cofre arrombado era o mesmo que Hagrid tinha esvaziado a pedido do professor Dumbledore e quando comecei a questionar demais, Rúbeo começou a se despedir e eu e Rony tivemos que voltar para o castelo sem nenhuma informação adicional, e com os bolsos cheios de biscoitos que duros como pedras. As perguntas e suposições não paravam de surgir na minha mente. Será que Hagrid tinha apanhado o pacote bem na hora? Onde estava o pacote agora? Será que ele sabia alguma coisa do professor Snape que não queria contar? Eu tinha que buscar as respostas para cada uma daquelas perguntas, ou eu acabaria ficando louca.



Capítulo 4

Por

Depois que a primeira semana tinha passado, eu consegui respirar com mais facilidade e preparava a minha mente para a próxima semana com todas as aulas e interações que eu teria que ter com colegas e professores, as pessoas pareciam mais acostumadas com a minha presença e eu não era mais seguida pelos corredores. A visita a Hagrid ainda pairava na minha mente, juntamente com as perguntas que ele não queria responder, e por mais que eu quisesse saber sobre tudo de imediato eu tinha mais uma semana pela frente e ela não estava nem perto de ser tranquila, pois Draco vivia procurando uma oportunidade para me tirar a paciência. Aos poucos fui conhecendo Hermione melhor e a convencendo também de que não queria o título de melhor aluna da classe fazendo questão de dizer que eu a considerava a melhor, o que a deixou sem jeito, pedindo desculpas por ter ficado emburrada comigo antes. Depois do bilhete de Hagrid na primeira sexta-feira, eu não recebi mais nenhum outro, o que fazia com que Rony sempre me mostrasse o que ele recebia, e chegasse a me perguntar se eu deixaria sua irmã Gina escrever para mim, já que a mesma sempre perguntava. Descobrimos em mais um começo de semana que as aulas de voo começariam na quinta-feira, o que me deixou feliz, até saber que faríamos com a sonserina. Era simplesmente a aula que eu mais queria ter e agora tudo seria estragado por Malfoy. E se eu caísse da vassoura? Ou se eu não conseguisse me equilibrar sem estar no chão? Eu já tinha contado todo o meu fascínio a Rony e ele incentivava muito, mas era fácil notar que ele também ficava um pouco temeroso por mim.

— Não precisa ficar tão nervosa, você vai se sair bem. — Rony disse olhando ao redor. Estávamos sentados no salão comunal esperando dar o horário da nossa aula.
―  Você só não está nervoso, porque sempre teve uma vassoura em casa. — eu pontuei.
―  Assim como metade dos garotos da nossa classe. ― Rony observou. ―  Acredite quando digo que você vai se sair bem, você é bastante corajosa.
―  Não sei se serei com Draco zombando se eu cair.
―  Pelo menos você não será tão ruim quanto Hermione, ela já leu aquele livro umas dez vezes e mesmo assim sabemos que ela não vai se sair bem. — Rony disse se referindo ao quadribol através dos tempos e eu o repreendi com um olhar.

Interrompemos o nosso diálogo despretensioso para seguir a turma, até onde seria a aula e descemos as escadas correndo sem conter a empolgação só parando do lado de fora. Era um dia claro, com uma brisa fresca e a grama se mexia com o vento e quando chegamos até o ponto que seria a aula, todos os alunos da sonserina já estavam lá, bem como as vassouras enfileiradas no chão. Lembrei-me de ter escutado os gêmeos falarem com Rony que eram poucas as vassouras que realmente prestavam para a aula e quando a professora mandou que ficássemos em fileira ao lado de uma delas, tudo se confirmou. Madame Hooch era uma professora relativamente baixa e seus olhos pareciam de um falcão, ela não despertava o meu temor como a professora Minerva, mas quando encaramos os seus olhos por muito tempo, nos sentíamos obrigados a desviar o olhar.

―  Estiquem a mão direita sobre a vassoura e digam "Em pé!". ― a professora nos orientou quando todos já estavam posicionados.
―  EM PÉ! ―  todos gritaram logo em seguida.

Senti a minha vassoura pular imediatamente para minha mão e não evitei sorrir parando para observar que eu tinha sido uma das poucas pessoas que tinha conseguido isso de imediato e foquei em Rony e Hermione que conseguiram em intervalos diferentes: um pouco depois e muito tempo depois. Sorri para os meus amigos assim que Hermione conseguiu e cochichei com Rony o que escutei a professora falando com Draco, sobre ele ter segurado a vassoura errado desde sempre. Não que eu estivesse num pé de guerra com ele, até porque eu o ignorava a maior parte do tempo, mas saber que ele não sabia tudo sobre quadribol, era ainda melhor e ele sempre se gabava, desde o dia que eu o conheci, então isso era bem justo.

―  Agora, quando eu apitar, deem um impulso forte com os pés ― disse a professora. ―  Mantenham as vassouras firmes, saiam alguns centímetros do chão e volte a descer, curvando o corpo um pouco para a frente. Quando eu apitar…

Todos deram o impulso como a professora instruiu e a maioria se saiu bem, principalmente os meninos que já tiveram contato com vassouras em casa. Senti orgulho por ter sido uma das poucas sem experiência alguma a ter conseguido tal feito mais uma vez, mas Neville, nervoso, assustado, e com medo que a vassoura o largasse no chão, deu um impulso forte antes mesmo de o apito tocar os lábios de Madame Hooch e a atenção de todos se perdeu ali.

―  Volte, menino! ―  gritou ela, mas Neville subiu como uma rolha que sai sob pressão da garrafa, quatro metros, seis metros com bastante rapidez. 

Ele estava ficando mais pálido e espantado a cada minuto. Ao passo que todos tinham parado o que estavam fazendo para tentar ajudar de alguma forma ou só observar a situação, Neville empinava a vassoura para cima, a fim de retomar o controle, mas não funcionou muito, só serviu para que a vassoura tomasse impulso e Neville caísse na grama. Sua vassoura continuou a subir cada vez mais alto e começou a flutuar sem pressa em direção à Floresta Proibida e desapareceu de vista. A Madame Hooch debruçou sobre Neville, e estava tão pálida quanto o nosso colega.

―  Pulso quebrado ― escutei a professora murmurar. ―  Vamos, menino, levante-se. ― ela disse indicando que queria espaço para os alunos que se amontoaram sobre os dois. A professora levantou com Neville apoiada nos seus braços e ao passar pela metade da turma ela parou e disse:
―  Nenhum de vocês vai se mexer enquanto levo este menino ao hospital!

Deixem as vassouras onde estão ou vão ser expulsos de Hogwarts antes de
poderem dizer "quadribol". ― todos a olhamos assustados pelo tom rígido e ela seguiu com Neville para dentro do castelo.
Assim que a professora saiu do nosso campo de visão, os murmurinhos começaram e as vozes se misturaram. Observei que um pouco distante de onde Neville tinha caído, se encontrava o seu lembrol; um presente que sua avó o tinha mandado a duas manhãs e eu estava prestes a sair de onde estava e ir ao encontro do objeto perdido de Neville, quando Draco entrou no meu caminho. Fiquei sem entender muito bem, mas parecia que enquanto eu divagava nos meus pensamentos, alguns de meus colegas o tinham confrontado.

―  Onde você vai, Potter? ― o loiro disse parado na minha frente.
―  Não é da sua conta. ― eu retruquei sem o encarar nos olhos.

Passei por Draco determinada a chegar no lembrol, mas antes que eu pudesse me abaixar e pegá-lo, uma menina da sonserina o pegou. Ela esboçou um sorriso maldoso e entregou o item a Malfoy que começou a tirar sarro de Neville mais uma vez.

―  Devolve isso, Draco! É de um aluno da grifinória, tem que ficar com alguém da grifinória. ― eu disse.
―  Devolva Malfoy! ― outros alunos da grifinória se manifestaram.
―  Acho que eu não estou muito a fim de fazer isso. ― Draco debochou e a sua turma o acompanhou em gargalhadas.

Eu respirei fundo e senti a mão de Hermione segurar a minha, enquanto a mesma balbuciava "ignore".

―  O que aconteceu? Já desistiu de tentar? Não é tão importante assim? ― Malfoy se virou na minha direção e piscou. ―  Aposto que o bobalhão vai adorar subir numa árvore para buscar, que tal? ― ele continuava falando.
―  Não se atreva!! ― eu disse me sobressaltando sem querer, chamando a atenção de todos. Draco me encarou com a sua característica pose de desafio e arqueou uma de suas sobrancelhas.
―  Então tente me impedir. ― ele disse, antes de montar a vassoura e sair voando.
Senti meu coração acelerar e um frio na barriga me atingir, ele tinha ido longe demais. Estava prestes a ceder à pressão de Draco, quando me lembrei que era isso que ele queria, mas se eu não fizesse algo, ele ganharia.
―  Não vale a pena! ― Hermione disse um pouco mais alto e eu me acalmei.
―  Isso! Escute a sua amiga de sangue ruim. ― o insulto de Draco foi tão podre que senti minhas bochechas esquentarem novamente e quando acordei do meu transe, estava em cima de uma vassoura o perseguindo pelos arredores.

Eu sentia um sentimento surgindo no peito, uma mistura de orgulho e raiva. Como ele poderia ser tão mau? Dei impulso com força na vassoura e ela subiu ainda mais, ao passo que o ar bagunçava a minha roupa e meu cabelo. Por um breve momento, eu esqueci totalmente o motivo para tudo aquilo e a rapidez com que eu cortava o vento, me conquistou. Era muito mais do que fácil voar e fazer os cortes no ar e as manobras, era tudo natural. Escutei as exclamações e vivas de todos e voltei a perseguir Malfoy com mais afinco, a nossa disputa estava acalorada e alguns insultos mais a frente, eu quase o tinha derrubado duas vezes da vassoura, então como se previsse como aquilo terminaria; ele atirou a bolinha de cristal no ar e voltou para o chão. No mesmo momento, o tempo pareceu parar e eu vi tudo como se fosse em câmara lenta, a bolinha subiu no ar e depois começou a cair. Sem pensar duas vezes, me curvei para frente e apontei o cabo da vassoura para baixo ― no instante seguinte estava ganhando velocidade num mergulho quase vertical, apostando corrida com a bolinha. Na velocidade que eu me encontrava o vento assobiava em minhas orelhas e se misturava aos gritos das duas turmas que olhavam da grama. Estiquei minha mão o máximo que pude na direção do solo, a fim de alcançar o lembrol antes do mesmo chocar com o chão e bem no último segundo eu consegui. Caí sem muito dano na grama, segurando o lembrol de Neville com cuidado e aos poucos fui me recuperando e sendo amparada por Rony e Hermione, que sorriu agradecida.

―  Potter! ― a atmosfera do ambiente mudou de imediato e todos pararam de comemorar. ―  Não se mova. ― a professora Minerva disse enquanto se aproximava.

Escutei os risos de Draco e sua trupe, mas me limitei a focar somente na professora.

―  Professora, foi tudo a minha culpa. Eu me rendi às provocações de Malfoy.
―  Quieta senhorita. ― ela disse e olhou severamente para todos. ―  Não se atrevam a fazer mais confusão.
―  Sim, senhora! ― todos disseram.
―  Potter, me acompanhe agora.

Acompanhei a professora de longe ao passo que ela seguia para dentro do castelo. O frio na barriga estava de volta e eu senti minhas mãos gelarem. Eu poderia tomar qualquer punição, mas não aceitaria de forma alguma ser expulsa. O diretor teria que ter um pingo que fosse de senso de justiça, eu só estava defendendo meus colegas. Comecei a imaginar milhares de cenários, ao passo que a professora seguia decidida pelos corredores. Subimos algumas escadas até que a mulher à minha frente parou a porta de uma sala de aula. Ela abriu a porta com delicadeza e colocou a cabeça do lado de dentro.

―  Com licença, Prof. Flitwick, posso pedir o Wood emprestado por um instante? ― a professora Minerva pediu.

Eu não fazia ideia do que ela iria fazer a seguir, será que ela estava chamando alguém para ajudar na minha punição? Se for isso, menos mal, não sendo expulsa e nem voltando para casa, eu estava mais que satisfeita. O garoto, um pouco mais velho que os irmãos de Rony, saiu da sala. A professora agradeceu ao professor Flitwick e fechou a porta novamente, mandando que a seguíssemos. Fomos parar em uma sala vazia e eu evitei olhar na direção do tal Wood. Ele era muito bonito e ficava me encarando de tempos em tempos com a típica curiosidade que todos sempre deixavam transparecer quando se davam conta que Potter estava logo ali.

―  Entrem, por favor, podem se acomodar. ―  a professora Minerva disse, apontando as poltronas da sala.

Ela fechou a porta com um feitiço e parou na nossa frente.

―  , este é Olívio Wood capitão do time de quadribol da Grifinória. ― ela disse olhando diretamente para mim. ―  Olívio, encontrei uma apanhadora para você. Potter. ― ela continuou a falar e não conseguiu esconder a satisfação que suas palavras causavam.

O rapaz à minha frente deu um pulo surpreso e os dois começaram a me encarar e conversar.

―  Ela tem um talento natural! ― a professora disse, depois de relatar o que me viu fazer enquanto eu ainda tentava entender o que estava acontecendo.
―  Vamos ter de arranjar uma vassoura decente para ela, professora, uma Nimbus 2000 ou uma Cleansweep-7, na minha opinião. ―  Olívio disse sorrindo, como se todos os seus sonhos tivessem sido realizados só com a minha entrada no time.
―  Vou conversar com o professor Dumbledore e ver se podemos contornar o regulamento para o primeiro ano. Deus sabe que precisamos de um time melhor do que o do ano passado. Mal consegui encarar Severo Snape no rosto durante semanas… ―  disse a professora.

Continuei quieta e sem dizer nenhuma palavra, não queria que ela mudasse de ideia. Se fosse para jogar no time, eu daria o meu melhor e então ela dirigiu a palavra a mim.

―  Quero ouvir falar que você está treinando com vontade, Potter, sei que não é de arranjar problemas. ―  a professora disse e sorriu mais uma vez em menos de uma hora. ―  Seu pai teria ficado orgulhoso. Era um excelente jogador de quadribol. ―  ela completou e então eu me derreti, como sempre acontecia quando alguém falava algo dos meus pais.

🏰⚡

Mais tarde no jantar, eu estava quieta, mas naquele momento, era o que Rony menos queria; que eu me calasse. Estávamos no salão principal e alguns alunos da aula de mais cedo nos encaravam e faziam comentários não muito difíceis de adivinhar.

― VAMOS! ME CONTE TUDO! ―  o ruivo berrou quando eu disse que não seria expulsa, mas que ganharia algo muito melhor.
―  Estou no time de quadribol como apanhadora. ―  eu disse de uma vez e fechei os olhos. Senti os braços de Rony ao redor do meu corpo, mas nem tive tempo de retribuir o abraço.
―  Você só pode estar brincando.
―  Não, eu não estou e você poderia não gritar? ―  eu disse baixinho para que ele imitasse.
―  NÃO É POSSÍVEL! ―  Rony disse mais uma vez como se estivesse tendo um ataque.
―  Rony!! ―  chamei a sua atenção.
―  Você só vai ser a jogadora mais jovem do último século. ―  Rony disse tão admirado quanto no dia que chegamos ao castelo.
―  Vou começar a treinar em alguns dias, mas por favor…
―  Não conte a ninguém. Eu sei disso . Você é o trunfo do time.
―  O que não é para contar a ninguém? ―  Hermione Granger perguntou quando se sentou ao meu lado e Rony revirou os olhos.
―  Nada! ―  ele respondeu sem vontade alguma.
―  Ela pode saber, Rony.
―  Saber o que?
―  A entrou para o time de quadribol da Grifinória.
―  Nossa! Meus parabéns. ―  ela sorriu para mim. ―  Você será a jogadora mais jovem do último século. ―  ela disse bem empolgada me pedindo mais detalhes e Rony voltou a comer em silêncio.

Em todo o caso, o jantar continuou na sua perfeita harmonia. Não pensei que Hermione fosse ficar feliz por mim, eu tinha desobedecido um professor, mas parecia que ela tinha substituído o possível aborrecimento por gratidão, por eu tê-la defendido. Os gêmeos me parabenizaram discretamente e eu dei um fora digno de um prêmio no Malfoy, sem nem o deixar soltar o seu veneno. Ele queria alguma espécie de revanche, mas eu inventei alguma mentira qualquer e o deixei pensativo e bem longe de mim.

―  Contei tudo à professora Minerva, acho que ela vai gostar de dividir o que sabe com o professor Snape e preparar a sua punição. ―  o loiro saiu tão rápido da minha frente que eu nem tive tempo de olhar bem para a cara dele e ver o medo.
―  O que você contou à professora Minerva? ―  Hermione perguntou.
―  Nada! Só inventei aquilo para que ele me deixasse em paz e como podemos ver, ele anda aprontando demais.

Continuei o meu jantar normalmente, até que uma guloseima acertou a minha mão. Olhei na direção que eu achava ter vindo, não demorando nem um segundo para identificar quem o tinha feito. George Weasley, um dos irmãos de Rony assim que conseguiu minha atenção jogou um papel dobrado.

Me encontre do lado de fora da sala comunal, à meia noite.
Prometo que não seremos pegos. Tenho uma surpresa para a nova apanhadora da grifinória.
George.

Assim que terminei de ler, dobrei o papel outra vez e concordei com a cabeça discretamente, fazendo o ruivo sorrir com a minha resposta. Quando subimos para os dormitórios, eu não tardei em trocar de roupa e me jogar na cama. Estava ansiosa e empolgada demais, mas não conseguia deixar de considerar o perigo em sair fora do horário, o sermão que ganharia se fosse apanhada e o quanto a professora Minerva me olharia decepcionada. Esperei todas as meninas do quarto adormecerem e fui para o salão comunal. Ainda faltavam alguns minutos, mas eu não conseguiria ficar nem mais um minuto deitada na cama. Quando o relógio bateu meia noite, eu saí pelo retrato da mulher gorda e fiquei esperando que George aparecesse. Olhei de um lado para o outro, mas não tinha ninguém, estava deserto, nem mesmo algum fantasma estava por ali. Um vento frio me atingiu e eu me abracei instintivamente.

―  O que você está fazendo aqui fora? ―  pulei com o susto.
―  Hermione, que susto! O que você está fazendo aqui fora?
―  Eu perguntei primeiro. ―  ela disse fechando a cara.
―  Combinei com o George, ele pediu para encontrá-lo aqui.
―  , podemos ser pegas. Acho que você não quer mais confusão por hoje, não é?
―  Mas se eu entrar agora e ele pensar que eu não o esperei? ―  não tive tempo de completar meu raciocínio, porque Hermione tapou a minha boca e escutamos passos se aproximando. Eu não sabia quem poderia ser, mas saímos correndo na direção oposta quando notamos que a mulher gorda já não estava no quadro.

Corremos tanto sem rumo que fomos parar numa escadaria que nem fazíamos ideia. Puxei Hermione para subir e ela me freou.

―  Não, não. Temos que voltar para o salão comunal. ―  ela disse cruzando os braços.
―  Não podemos ficar aqui, estamos muito expostas. Temos que dar um tempo em algum lugar. ―  tentei explicar.
―  Tinha que ser um Ruivo para nos colocar nessa encrenca. ―  Hermione disse baixinho. Fingi não escutar e a puxei mais uma vez para que subisse as escadas. De primeira não conseguimos abrir a porta, mas Hermione usou um feitiço.

―  Alohomora!

A porta se abriu de imediato e nós entramos sem nem olhar no seu interior. Coisa que nos arrependemos logo depois. Não estávamos numa sala, mas no corredor proibido do terceiro andar. E agora sabíamos por que era proibido, pois ele guardava um cachorro monstruoso, um cachorro que ocupava todo o espaço entre o teto e o piso. Tinha três cabeças. Três pares de olhos que giravam enlouquecidos; três narizes, que franziam e estremeciam farejando. Do mesmo modo que a gente, ele tinha sido pego de surpresa, mas já estava se recuperando. Notei que ele estava sobre algo e mantinha uma postura de guarda. Saímos de imediato e sem nem pensar em Filch e madame Nora, não tínhamos tempo para pensar nas escolhas. Hermione, assim como eu, não parava por nada, até que chegamos ao retrato da mulher gorda e entramos o mais rápido possível. Assim que passamos, me esbarrei com George que estava com uma cara super preocupada.

―  ! Você está bem? ―  ele perguntou intercalando o olhar entre mim e Hermione.
―  Sim, está tudo bem! ―  eu disse e Hermione concordou.
―  Vou subir. Até depois George. ―  minha amiga se despediu de George e me abraçou, indo logo em seguida em direção as escadas. Seu coração estava disparado como o meu e seu olhar era cúmplice.
―  Aconteceu algo? ―  ele perguntou ainda preocupado.
―  Eu resolvi esperar você do lado de fora e quase fomos apanhadas pelo Filch. ―  eu disse tentando regular a minha respiração.
―  Desculpa colocar você em risco, juro que na próxima vez vai dar certo. ―  senti minhas bochechas esquentarem com a menção de um outro convite e ele sorriu. ―  Fred e eu achamos uma espécie de esconderijo e eu queria te levar. É muito bonito e dá pra ver todo o lago negro refletido pela lua.
―  Eu adoraria George, mas acho que a noite pode ser muito arriscado. Não quero perder pontos para a grifinória e Hermione me mataria. ― relatei as minhas preocupações para o garoto à minha frente e o escutei gargalhar.
―  Isso é bem a cara dela. ―  ele disse finalmente.

Nos despedimos depois de George dar milhares de soluções sobre como não sermos apanhados por Filch e em como eu iria gostar de conhecer o lugar que ele estava dedicando à nova apanhadora do time. Deitei na minha cama mais uma vez e dessa vez não tardei muito a dormir, por mais que a noite tenha sido longa, minha cabeça não parava de girar e produzir perguntas. O que aquele monstruoso cachorro estava fazendo no castelo? Estava guardando algo? Quando eu teria somente respostas? Acordei na manhã seguinte um pouco mais tarde que o costume e Hermione estava se arrumando.

―  Perdemos o horário, mas não estamos atrasadas. ―  ela me tranquilizou.
―  Você não iria me acordar?
―  Claro que iria, mas acabei me distraindo com as milhares de perguntas que você colocou na minha mente.
―  Eu sei bem do que você está falando.
―  Podíamos ter sido mortas, ou pior, expulsas. ―  ela disse respirando fundo.
―  Me desculpe por arrastá-la para aquela confusão, mas era algo inevitável, já que você estava me seguindo. ―  eu disse da forma mais acusadora que eu consegui, mas acabei rindo no final.
―  Eu estava tentando te impedir de perder pontos para a grifinória.
―  Não perdi pontos para a grifinória. Satisfeita?
―  Sim! ―  ela esboçou um pequeno sorriso e eu acabei sorrindo também.

Descemos para o café da manhã conversando sobre os ocorridos da noite anterior e encontramos Rony num papo acalorado com vários alunos da grifinória ao passo que comia como se não houvesse amanhã. Sentamos ao seu lado e o mesmo nos cumprimentou de boca cheia. Depois de alguns minutos conversando baboseira e trocas de olhares tensos com Hermione. Eu decidi contar a Rony, até porque, agora tínhamos uma outra questão sobre o roubo, Gringotes e a mercadoria que Hagrid buscou no mesmo dia. Na minha cabeça, tudo começava a se intercalar e fazer sentido.

 ―  Rony, precisamos conversar. ―  eu disse baixinho para que somente ele escutasse.
―  Não se preocupe com o treino de quadribol, você só vai aprender o básico. ―  ele disse depois de engolir o suco e me encarar. ―  Fred disse que Olívio não vai pegar pesado com você no primeiro dia.
―  Não é sobre o time, Rony. Apenas a deixe falar. ―  Hermione o interrompeu e o ruivo fechou a cara.
―  Descobrimos o motivo de o corredor do terceiro andar estar proibido. ―  eu disse finalmente e senti um arrepio ao lembrar.

O interesse de Rony pelo que eu disse foi tão grande que o menino se virou para mim e esqueceu toda a comida. Eu contei por alto o que eu e Hermione vimos e aproveitei para contar a Hermione quais eram as nossas teorias, o que na verdade seriam mais minhas teorias do que as deles e fiz um resumo sobre tudo, para que os dois pudessem ficar no mesmo nível. Rony tentou disfarçar o quão chateado ficou por eu ter quebrado as regras pela primeira vez com Hermione, que combinamos de repetir a "aventura" da noite anterior para que ele parasse de me encarar como se eu fosse um monstro, deixando por sua vez a minha colega de quarto um tanto irritada. No fim das contas achamos melhor conversar sobre o assunto depois da aula no salão comunal e eu não comentei com nenhum dos dois sobre George, sentia que não queria dividir com ninguém os nossos momentos.

―  Acho que pode ser uma coisa muito perigosa. ―  eu disse para Rony e Hermione no salão comunal depois das aulas do dia.
―  Ou muito valiosa. Você descreveu a criatura mais amedrontadora de todas como guardiã.
―  Era algo pequeno Rony, o que pode ser perigoso e valioso medindo quase nada? ―  eu perguntei outra vez.
―  O que você acha Hermione? Está sempre se metendo onde não é chamada e quase nunca cala a boca. ―  ele disse a encarando com a cara mais pensativa de todas.
―  Rony!!! ―  eu o repreendi. Não gostava quando ele era assim tão ciumento.
―  O que? Ela estava lá. Deve ter uma ideia. ―  ele disse fingindo inocência e Hermione levantou- se saindo sem se despedir. Ela tinha se zangado de verdade.
―  Você não pode tratá-la assim, ela também é minha amiga. ―  respirei fundo e saí do salão comunal para o mais longe que conseguiria dos dois.

Para mim, era uma situação totalmente incomum, na qual eu tinha ganhado dois amigos da noite para o dia, mas eles não se davam trégua nenhum minuto me fazendo sempre ter que escolher um dos dois. Hermione já não suportava as indiretas de Rony e suas caretas, sendo que nem tínhamos chegado a um mês inteiro de aula e Rony não suportava o comportamento totalmente controlador de Hermione.

🏰⚡

Quando descemos no dia seguinte para o café da manhã, Rony se desculpou comigo e meio que pediu uma trégua para Hermione, ele era orgulhoso demais para se desculpar com ela também, por mais que tivesse admitido para mim, que tinha pego um pouco pesado no dia anterior. Com os meus amigos finalmente conseguindo conviver em quase harmonia, nem notei o tempo. Uma semana tinha se passado e a oportunidade perfeita para me vingar de Malfoy tinha chegado diretamente do correio aquela manhã. Umas cinco corujas carregavam um longo pacote, muito bem embalado e vinham na minha direção atraindo toda a atenção do salão. Assim que largaram o embrulho diante de mim, uma outra coruja largou uma pequena carta, que dizia:

Querida ,
NÃO ABRA O PACOTE À MESA.

Ele contém a sua nova Nimbus 2000, mas não quero que todo o mundo saiba que você ganhou uma vassoura ou todos vão querer uma. Olívio Wood vai esperá-la hoje à noite, às sete horas, no campo de quadribol, para a sua primeira sessão de treinamento.

Prof.ª. Minerva McGonagall

Eu poderia jurar que meus olhos estavam brilhando com tamanha alegria e eu mal conseguia conter a minha animação sobre todas as coisas que estavam escritas, todas as coisas que iriam acontecer e todas as coisas que eu tinha ganhado de uma só vez. Virei para Rony e falei baixinho para que só ele escutasse.

―  É uma vassoura, para os jogos. ―  eu disse mostrando o bilhete.
―  É uma Nimbus 2000!!! Eu nunca pus a mão em uma.
―  Rápido, podemos abri-la no salão comunal antes de começar a aula. ―  eu disse pegando o pacote e levantando.
―  Espera! Não vai chamar a Hermione? ―  Rony me parou na entrada do salão.
―  Ela está muito compenetrada na história do Percy e dos outros alunos mais velhos, não quero atrapalhá-la. ―  eu disse e continuamos a andar.

Quando saímos, acabamos por esbarrar com Draco, Crabbe e Goyle que me param assim que se deram conta da minha presença e Draco apalpou o pacote que eu segurava e riu. Seu olhar transbordava inveja e raiva por eu não ter sido expulsa como ele planejava.

―  Uma vassoura, Potter? Acha que pode burlar as regras? Alunos do primeiro ano não podem ter vassouras.
―  Por que você não cuida da sua vida, em Malfoy? ―  eu puxei o pacote de suas mãos e me afastei.
―  É uma vassoura mesmo! Uma Nimbus 2000. ―  Rony tomou a minha frente e o provocou. ―  Qual você disse que tinha em casa mesmo? Pois é, eu não lembro, porque não é boa o bastante.
―  O que você entende disso, Weasley? Que eu saiba, você não poderia comprar nem metade do cabo. ―  Draco disse e eu percebi as bochechas de Rony mudarem de cor.
―  Vocês não estão brigando, estão? ―  o professor Flitwick disse de repente ao lado de Draco, de modo que surpreendeu um pouco a todos.
―  A Potter recebeu uma vassoura, professor! ―  Draco disse depressa apontando para o pacote que eu segurava.
―  Eu sei ― o professor Flitwick respondeu a Draco, abrindo um grande sorriso em minha direção. ―  A professora Minerva me falou das circunstâncias especiais, senhorita Potter.
―  Sim professor.
―  E qual é o modelo? ―  o professor perguntou empolgado.
―  Uma Nimbus 2000. ―  Rony respondeu antes de mim, totalmente orgulhoso.

Nos despedimos do professor Flitwick e subimos as escadas até a torre da Grifinória, segurando a risada por conta da cara totalmente confusa que o Malfoy ficou. Por conta de Draco, não conseguimos abrir o embrulho como planejamos e Rony sugeriu fazermos isso depois do jantar, num horário que o salão comunal estivesse vazio, eu concordei e fomos para a aula depois que eu deixei a vassoura no dormitório. Encontramos com Hermione no caminho para a sala de aula e nos sentamos todos juntos, mas ao contrário dos dois que prestavam atenção na aula de maneiras diferente e em níveis de concentração totalmente distintos, eu só conseguia pensar em quadribol e no que poderia acontecer no jogo e se eu seria boa para o time e se conseguiria voar como nas aulas. Um pouco antes do jantar, fui com Rony e Hermione até a torre da grifinória para que assim pudesse abrir o embrulho com eles. Era um misto de emoções e Rony parecia quase mais empolgado do que eu e Hermione estava feliz por mim, mas continuava um pouco travada, então voltamos a falar sobre a vassoura e sua aparência e depois sobre os treinos. Descemos para jantar um pouco atrasados, mas não nos importamos muito, estávamos ansiosos com os próximos eventos.

🏰⚡

Quando o relógio marcou sete horas, eu me despedi de todos e saí correndo literalmente, para fora do castelo. Chegando do lado de fora, segui as instruções da professora Minerva até o campo, no qual seria o treinamento com Olívio e fiquei surpresa ao ver a arquibancada de Hogwarts. Eu nunca tinha ido a um estádio antes, então mal pude medir o tamanho da minha empolgação com a atmosfera do lugar, havia centenas de lugares em volta do campo, de modo que as pessoas veriam tudo pelo alto e em cada ponta do campo havia três balizas douradas com aros no topo. Eu não fazia ideia do que esperar do quadribol pessoalmente e sozinha ali, mas toda aquela estrutura era mágica e tinha me encantado muito. Enquanto esperava Olívio aparecer dei mais uma olhada na Nimbus 2000, a vassoura que tinha ganhado, e mesmo que já tivesse inspecionado cada canto com meus amigos, eu ainda me pegava sem acreditar que aquela vassoura fosse realmente minha e que eu fosse usá-la em algum momento. Olhei ao redor, e tudo estava tranquilo e sereno; as estrelas pareciam ainda mais bonitas e prontas para assistir cada instrução que eu recebesse.

―  Boa noite Potter. ―  despertei com o cumprimento de Olívio Wood. ―  Você a trouxe, bela vassoura! ―  ele apontou para Nimbus 2000 e colocou uma caixa no chão.
―  Boa noite, eu não sabia como seria, então … ― tentei falar de forma que minha voz soasse o mais tranquila possível, mas era um pouco difícil com Wood me examinando dos pés à cabeça.
―  Hoje só vou lhe ensinar as regras do jogo, depois você vem aos treinos do time três vezes por semana. ―  ele disse e eu concordei.

Wood se abaixou e abriu a caixa, indicando para que eu fizesse o mesmo. Quando o fiz e me aproximei, pude reparar que dentro havia quatro bolas de tamanhos diferentes e então esperei que começasse as explicações.

―  O quadribol é muito fácil de entender, mesmo que não seja muito fácil de jogar. Tem sete jogadores de cada lado. Três deles são artilheiros. ―  ele terminou de falar e apanhou a bola vermelha, de um tamanho aproximado de uma bola de futebol. Ela era a maior bola dali. ―  Esta bola se chama goles, os artilheiros atiram a goles um para o outro e tentam metê-la em um dos aros para marcar gol. Dez pontos todas as vezes que a goles passa por um dos arcos.
―  Entendi. ―  eu disse balançando a cabeça.
―  Está acompanhando a explicação?
―  Sim, estou tentando gravar cada detalhe. ―  respondi prontamente.
―  Está tudo bem Potter, não precisa gravar nada, é só o primeiro dia.
―  .
―  O que disse? ―  ele perguntou confuso.
―  Não precisa me chamar de Potter, me chame de .
―  A-ah claro, desculpe. ―  ele se desculpou sem graça. ―  Continuando, tem outro jogador, um para cada lado, que é chamado goleiro. Eu sou o goleiro da Grifinória e tenho que voar em volta dos aros para impedir que o outro time marque pontos.
―  Entendi, três artilheiros e um goleiro. A goles é usada pelos artilheiros e defendida pelos goleiros. E essas outras? ―  apontei para as outras três na caixa.
―  Vou mostrar agora, segure isso. ―  Olívio me entregou um bastão pequeno que me lembrou mais um jogo trouxa.
―  Parece um bastão de beisebol.
―  O que é isso? ―  Wood perguntou.
―  É um jogo trouxa.
―  Ah certo, continuando. ―  Olívio sorriu simpático. ―  Esses dois aqui são os balaços. ―  ele me mostrou duas bolas iguais, pretas e menores que se mexiam como se tivessem vida própria e pareciam estar fazendo força para se livrar das correias que as prendiam na caixa.
―  Fique longe ― Olívio alertou e eu me afastei na mesma hora que as bolas pretas saíram voando em disparado e uma veio diretamente em direção ao meu rosto e então sem pensar eu usei o bastão para golpear.

Eu nem podia imaginar o estrago que faria ao meu rosto e meu coração estava acelerado com a movimentação dos balaços - eu tinha mandado um deles para bem longe e o outro estava vindo na minha direção. Eu o golpeei do mesmo modo e outro balaço voltou a vir na nossa direção ziguezagueando, passando veloz pelas nossas cabeças e se atirou contra Olívio depois de fazer uma volta inteira ao nosso redor. Olívio mergulhou sobre o balaço e conseguiu imobilizá-la no chão, ao passo que prendia a bola na correia novamente, a segunda bola preta que eu tinha rebatido longe também voltava. Eu observei o seu percurso ao passo que olhava para Olívio, ele ainda estava tentando afivelar a outra bola na caixa, então no momento que essa iria acertá-lo, eu mergulhei sobre a bola do mesmo modo que o observei fazer e a segurei. O impacto doeu um pouco meus braços, mas eu não a soltei.

―  , você está bem? ―  Olívio veio correndo na minha direção, mesmo não estando muito longe.
―  Estou bem. ―  sorri na sua direção. ―  Espero não ser acertada por nenhuma dessas bolas no meu primeiro jogo.
―  Digamos, que temos ótimos batedores, os gêmeos Weasley nunca deixariam isso acontecer. ―  Wood sorriu satisfeito.
―  Fico feliz em saber.

Olívio terminou de prender o outro balaço na caixa e ficou de pé.

―  Os balaços voam pelo ar tentando derrubar os jogadores das vassouras, como você acabou de ver e é por isso que tem dois batedores em cada time e a função deles é proteger o time dos balaços e tentar rebatê-los para o outro time.
―  Artilheiros marcam, goleiros defendem e batedores afastam os balaços. ―  eu disse rapidamente enumerando na mão.
―  Muito bem.
―  Faltou essa menor. ―  apontei para uma bolinha dourada.

Comparada com a goles e os balaços, era pequenininha, mais ou menos do tamanho de uma noz. Era de ouro polido e tinha asinhas de prata que se agitavam.

―  Este é o pomo de ouro, e é a bola mais importante de todas. Como você é a apanhadora da grifinória, a sua função é pegar o pomo primeiro que o apanhador do outro time, porque o apanhador que agarra o pomo ganha para o seu time cento e cinquenta pontos, o que praticamente lhe dá a vitória.
―  Espero conseguir apanhá-lo para grifinória.
―  Eu também. ―  Wood concordou sorrindo. ―  Então, alguma pergunta?
―  Acho que não.
―  Certo. ―  ele disse fechando a caixa que trouxe e levantou. ―  Escute, não precisa se preocupar com o jogo, somos uma equipe muito boa e agora estamos completos, confio na professora Minerva quando ela diz que você é talentosa.
―  Obrigada Olívio, só não quero decepcionar a grifinória.
―  Nenhum de nós quer. ―  ele disse piscando para mim. ―  Como está de noite e poderemos perder facilmente o pomo, vamos praticar um pouco com outras bolas, será algo bem leve.

Olívio tirou um saco de bolas comuns de golfe do bolso e alguns minutos depois estávamos em cima das vassouras voando pelo campo. Olívio atirava as bolas para todo o canto com toda a sua força para que eu fosse apanhar e perdia tempo em fazer brincadeiras sobre ex-jogadores e o nosso time. Eu não perdia nenhuma e ficava tão impressionada com isso que precisava que Wood chamasse minha atenção, mas eu sabia que ele estava do mesmo modo, confirmando o que a professora Minerva lhe disse.  Alguns minutos depois, paramos de treinar e Olívio me deixou voar livremente como recompensa por ter tido um bom desempenho. Quando voltamos ao castelo aquela noite, eu me sentia super animada e o rapaz não poupava elogios, sabia que ele estava imaginando a vitória da grifinória em todos os anos em que eu estivesse em Hogwarts.

―  Aquela taça de quadribol terá o nosso nome este ano ― disse Olívio feliz
quando passamos pelo quadro da mulher gorda. ―  Até depois, .



Continua...



Nota da autora:Muito obrigada por chegar até aqui e por ler The Scar Girl. Esse capítulo era o que estava me preparando para enviar antes de reescrever os outros e eu estou muito satisfeita com o resultado dele agora. A pp já está em hogwarts e já começou a se integrar e participar das coisas, fora que podemos notar as mudanças em vários fatos. Enfim, gostaria de saber muito a opinião de vocês ou se tem alguma sugestão. Super beijo. 💚 (um super beijo especial para a Chris que está sendo uma scripter maravilhosa nessa nova fase de TSG)

Nota da Scripter: Eu tô amando May, e acho que você vai me fazer odiar o Malfoy em TSG KKKKKKKKKRY




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  • 07. True Romance
  • 10. King Of My Heart
  • 14. I Dream About You
  • 16. Hands In The Air



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