The Sirens

Última atualização: 09/02/2026

Capítulo 1


(POV Voss)

Se alguém me dissesse, três meses atrás, que eu estaria prestes a abrir uma turnê mundial, eu teria rido. Talvez cuspido minha água. Mas ali estava eu — com um crachá dourado pendurado no pescoço, com as palavras "Artista – Banda de Abertura" impressas abaixo do meu nome.
— Vocês estão tão nervosas quanto eu? — perguntou , ajeitando o cabelo enquanto a van se aproximava da arena.
— Tenho certeza que sim — respondeu , suspirando.
A viagem desde Londres tinha sido surreal. Foram semanas de reuniões, contratos, treinos quase militares. Quando o e-mail com o "sim" chegou, a gente se abraçou e gritou tanto que uma vizinha bateu na porta achando que era briga. Não era. Era só o nosso sonho finalmente acontecendo.
Desde então, tudo foi uma sequência de "primeiras vezes". Primeiro álbum oficial. Primeira entrevista de rádio. Primeiro figurino montado por uma stylist. E agora: primeiro país da turnê, primeira arena e primeira vez abrindo o show dos meninos do 5 Seconds of Summer.
Meu estômago revirava, com tamanha ansiedade, mas, mesmo assim, eu sorria, porque no fundo, eu sabia que essa era a nossa hora.
A van estacionou na lateral do estádio. Vários caminhões enormes estavam descarregando equipamentos. Pessoas com fones e planilhas andavam apressadas. Um cara com colete laranja olhou para o motorista e fez sinal de "pode descer".
A porta se abriu e eu respirei fundo. foi a primeira a pular, com a mochila cheia de chaveiros barulhentos. colocou os óculos escuros e foi logo atrás. Por fim, e eu nos olhamos.
— Vamos?
Eu concordei com a cabeça, e então descemos juntas. O sol de Los Angeles era diferente. Tinha cheiro de oportunidade. Ou talvez só de equipamento quente e fritura de food truck. Ainda assim, parecia um filme.
The Sirens, certo? — uma mulher loira chamou, com uma prancheta debaixo do braço. — Sou a Becca, assistente de produção. Bem-vindas! Os meninos estão terminando a passagem de som. Querem dar uma olhada no palco?
Queremos — dissemos todas em uníssono.
Seguimos pelo corredor interno. Estava frio por dentro, com o ar-condicionado estalando nos canos. As batidas de uma música ecoavam à frente — um refrão acelerado, que reconheci na hora: Don’t Stop.
E então, entramos na lateral do palco.
Luzes giravam no teto da arena vazia. Os instrumentos vibravam no chão sob nossos pés. Era surreal vê-los ao vivo pela primeira vez, ensaiando como se estivessem num estádio lotado.
Luke estava com os olhos fechados, totalmente imerso. Michael fazia caretas enquanto dedilhava a guitarra. Ashton batucava com aquela precisão irritantemente sexy de sempre. E Calum estava encostado no microfone, os dedos deslizando pelo baixo com uma naturalidade absurda, como se aquilo fosse a extensão do próprio corpo.
Do outro lado da parede, as vozes da plateia que começavam a chegar na fila, pareciam um mar de expectativas. Mas ali, naquele estúdio improvisado nos bastidores, os meninos pareciam completamente alheios ao caos que crescia lá fora.
A música terminou com uma última batida da bateria do Ashton e um acorde final puxado por Luke. Eles riram de algo entre si, meio ofegantes. Só então, os quatro perceberam que não estavam sozinhos.
Os olhos de Calum passaram rápido pelos bastidores e pousaram brevemente nos meus. Foi menos de um segundo. Um reconhecimento silencioso.
Nos conhecemos meses atrás, numa premiação em que nossa produtora nos levou pra circular e "conhecer gente do meio", como ela mesma dizia. A carreira da banda ainda estava engatinhando naquela época, e encontrar os meninos do 5SOS foi surreal.
Depois disso, esbarramos com eles mais algumas vezes — premiações, festivais, bastidores de evento. Eles sempre foram legais, do tipo que lembram seu nome, contam piadas absurdas e te oferecem batata frita no camarim. Mas o Calum... ele sempre foi um pouco diferente.
A gente acabou se aproximando. Conversávamos mais e até trocávamos mensagens de vez em quando. E teve um after, depois de um festival em San Diego, que as coisas meio que aconteceram. E foi bom, muito. Quer dizer, ele toca baixo, as mãos dele são... enfim.
Só que eu realmente não achei que isso fosse sair daquele contexto. E com certeza não imaginei que um dia abriria os shows dele. Muito menos que veria o Calum Hood todos os dias por meses.
Eles trocaram umas palavras baixas entre si, e antes que a gente decidisse se devia sair dali ou não, os quatro já estavam descendo do palco — meio suados, meio bagunçados.
Luke veio à frente, sorrindo.
— Até que enfim chegaram. Já estávamos apostando se vocês iam se perder no aeroporto.
— Aposto que foi o Michael que falou isso — retruquei, cruzando os braços, encarando o garoto de cabelos vermelhos.
— Óbvio! — respondeu Michael. — Vocês têm zero cara de pontuais.
— Isso é preconceito! A gente só tem um ar desorganizado, mas, na prática, funcionamos. — brincou.
— Mas e aí, gostaram do backstage? — Calum perguntou, após tomar um longo gole de água.
— Ainda estamos nos acostumando com o luxo. Não é todo dia que tem um camarim com espelho que não tem fita crepe segurando — comentou, dando uma risadinha.
— Tem até refrigerante sem estar vencido — completou, dramática.
— Olha o nível de exigência dessas estrelas — Luke riu. — Daqui a pouco vão querer toalha com bordado dourado…
— Mas falando sério — Mike voltou a falar. —, é muito bom ter vocês aqui.
— Mas também é tipo… surreal. Ainda parece que estamos sonhando. Nunca pensei que dividiríamos um palco, sendo sincera — comentei, olhando ao redor.
— Ei, se for um sonho, é coletivo. Porque a gente também ficou animado quando disseram que vocês iam abrir — Ashton falou, sincero.
— Isso e o fato de que agora temos com quem dividir os snacks do camarim. — Michael piscou.
— Desde que não toquem nas minhas balas de uva… — comentou.
— Drama — Luke murmurou.
Rimos todos juntos. Era leve. Era bom.
— Meninas, agora o palco é oficialmente de vocês — Becca quem falou. Olhei rapidamente para o centro e vi que haviam trocado os instrumentos e microfones enquanto conversávamos.
— Estamos ansiosos para ver vocês tocarem — disse Ash, animado.
— Vocês vão nos assistir também? — perguntou .
— Óbvio — respondeu Michael. — A gente nunca perde a estreia das bandas que abrem pra gente. É tipo… tradição.
— Nos vemos depois então? — Ash perguntou.
— Claro — concordou, e Luke sorriu.
— Bom ensaio, meninas. Até depois.
Eles foram voltando para o backstage, conversando entre si. Eu respirei fundo, caminhando para o centro do palco e ajustando a alça do baixo no ombro.
— Acho que eu vou vomitar — disse , parada ao meu lado.
— Só não vomita nos nossos microfones — respondeu. — São alugados.
Rimos — não porque era engraçado de verdade, mas porque era isso ou surtar de vez. Rir ainda era a melhor defesa contra o nervosismo que queimava no estômago.
O técnico de som nos deu sinal.
As luzes da arena estavam suaves, azuladas, ainda em modo de ensaio. Só o bastante pra ver onde pisar. Caminhei até meu lugar, testei o peso do baixo, toquei uma nota grave só para garantir. Tudo certo.
ajustava os botões da guitarra com movimentos rápidos, quase automáticos. deu umas palhetadas secas nas cordas, concentrada. batucava o aro da caixa com aquele foco absoluto de sempre.
Dei o sinal com a cabeça. A bateria marcou o tempo — uma batida seca, marcada, segura. A guitarra entrou abafada, criando a tensão certa. Respirei fundo e fui:
Turn the dial up, feel the spark…
A voz saiu mais firme do que eu esperava. Talvez por causa da adrenalina. Talvez porque essa música morava na minha garganta fazia semanas.
You're the rhythm lighting up my dark…
O baixo entrou ali, encorpando o som. Meus dedos deslizaram pelas cordas no tempo certo. e entraram nos vocais de apoio no final do verso, suaves, mas certeiras.
No segundo verso, o som crescia.
Static's rising when you’re near... Electric tension, crystal clear…
Cada verso deixava meu corpo mais leve. Como se, por um momento, não existisse mais nada — nem os fios no chão, nem o eco da arena, nem os meninos assistindo no fundo...
Aliás, eles estavam ali. Vi de relance quando fui para o centro do palco: Luke com os braços cruzados, Ashton sorrindo, Michael batucando no próprio braço e Calum marcando as batidas com o pé.
You're my magnetic pulse, my high voltage beat…
O refrão explodiu do jeito certo. Voz no centro, guitarra cortando de leve, a bateria segurando tudo com força.
Tuning into you, you're all I need…
Senti e nas harmonias — elas sustentavam as notas, que subiam cada vez mais, de forma intensa.
On your frequency I can't resist…
Dei um passo à frente, soltei o corpo.
Every note you play feels like a kiss…
O final do refrão se desfez em um acorde mais longo, com o delay preenchendo o espaço vazio. No terceiro verso, andei um pouco mais pelo palco. As luzes mudavam, seguindo o ritmo da música, ficando mais azuis e fortes.
Strumming heartstrings out of tune... You're the gravity inside my room... Your energy’s a wildfire burn... I’m the compass, you're my north to turn...
levantou a guitarra, bateu nas cordas com força, marcava cada batida como se fosse a última. Minha voz saiu rasgada, emocional.
Every note you play feels like a kiss...
A música terminou com um acorde longo, que vibrou por baixo dos nossos pés. Silêncio. A gente se olhou, meio sem respirar.
E então — palmas.
Do fundo da arena, os quatro bateram palma. Michael foi o primeiro. Ashton e Calum assobiaram e Luke levantou os polegares, rindo.
— Caramba — disse Michael, alto. — Isso foi muito bom.
— Vocês são ainda melhores ao vivo — Ashton completou, sorrindo com os olhos.
Eu não consegui responder. Só sorri. Grande demais pra caber no rosto.
Depois de horas de ensaio, a gente se separou dos meninos. Eles foram pro camarim e a gente mergulhou no nosso ritual de preparação — um vai e vem de stylist, maquiadores, cabeleireiros, um movimento frenético pré-show.
O camarim estava cheio de movimento. Escovas, sprays e pinceis passavam de mão em mão entre as profissionais que se revezavam com leveza enquanto nos preparavam. Ninguém falava alto, mas o espaço estava longe de ser silencioso — havia sempre alguma coisa acontecendo. Um zíper subindo, um secador ligado, risadas abafadas, o tilintar de bijuterias sendo ajustadas.
Enquanto ajeitavam meu cabelo num penteado mais solto, com ondas naturais, eu mastigava distraidamente metade de um sanduíche. Nada pesado — só o bastante pra enganar o estômago. A gente sabia que o palco ia exigir energia, e ficar de barriga vazia não era uma opção.
As meninas também comiam alguma coisa entre um retoque e outro. equilibrava uma garrafinha de água no colo enquanto passavam um brilho labial nela. Seu cabelo cacheado e dourado caía sobre os ombros feito espuma leve, e os olhos esverdeados piscavam, concentrados na tela do celular. se olhava no espelho, enquanto a cabeleireira ajeitava os grampos nos seus fios loiros impecáveis. limpava as mãos com um lencinho antes de prender a fivela do coturno. A pele bronzeada destacava o batom vinho recém-aplicado, e o cabelo num tom marsala vibrava contra o preto da camisa.
Nossa paleta era escura, e a maquiagem seguia a mesma linha: delineado, pele bem feita e batom escuro. Era o tipo de visual que parecia nosso, só um pouco mais afiado, como se a gente tivesse elevado o nível. O que, de fato, havia acontecido.
Eu tinha escolhido uma saia de babados mais estruturada e uma blusa justa. As botas pretas vinham até quase o joelho — e sim, faziam barulho no corredor, exatamente como eu queria. Minhas amigas não ficavam muito pra trás, na verdade, todas tínhamos gostos bem parecidos nesse sentido.
Lá fora, o tempo corria mais rápido. Conforme os minutos passavam, começamos a ouvir o som da plateia vazando pelos corredores.
Gritos. Risinhos nervosos. Várias vozes misturadas, algumas cantando trechos de músicas do 5SOS, outras só gritando os nomes deles como se isso fosse o bastante. E, pra muitos ali, era mesmo.
Um arrepio subiu pelas minhas costas.
Estavam ali milhares de pessoas, esperando. Gente que comprou ingresso com meses de antecedência. Que decorou letras, que esperou na fila o dia inteiro, que se arrumou como se fosse pra encontrar alguém especial — e, de certa forma, era mesmo.
A gente não conseguia ver o público ainda, mas dava pra sentir a presença deles. O som dos passos acelerados nos corredores, dos rádios nos bastidores, da equipe chamando atenção pros horários. Tudo ganhava um ritmo próprio.
Estava chegando a hora. E ninguém precisava dizer em voz alta pra saber isso.
Os minutos finais antes de entrar no palco pareciam arrastar e acelerar ao mesmo tempo. O som da plateia ficava cada vez mais nítido, uma mistura de vozes, palmas e gritos que ecoavam nos corredores.
As luzes do camarim estavam baixas, só o suficiente pra gente enxergar os últimos detalhes — um último retoque no batom, um suspiro profundo, um olhar rápido no espelho.
Pouco antes de entrarmos no palco, os meninos apareceram para dar boa sorte. Eles sorriram, trocaram abraços apertados com cada uma de nós, elogiaram o nosso visual e ficaram ali por alguns minutos, nos lembrando que estariam lá nos bastidores, assistindo e nos apoiando. Depois, se despediram com um aceno e saíram, deixando o espaço pra gente se concentrar no que vinha.
O coração já pulsava acelerado, a expectativa crescendo. A hora de subir no palco estava chegando — e, com ela, toda a emoção de fazer música, de estar diante daquele mar de vozes que começava a se formar lá fora.
— Trinta segundos. Linha do palco. Vamos, Sirens — foi Becca quem falou na porta do camarim, nos aguardando.
Respirei fundo, e então todas seguimos a produtora até a entrada para o palco.
me olhou pela última vez antes da gente subir na plataforma. Os olhos dela brilhavam. estalava os dedos, girando a palheta entre eles, e girava as baquetas como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Eu sentia meu coração martelando no peito, mas as mãos estavam firmes no baixo. Quando finalmente subimos e as luzes atingiram o palco, as primeiras notas de ecoaram.
O barulho foi imediato. Um grito coletivo. Tinha gente pulando, apontando o celular, e outros simplesmente encarando a gente como se não acreditassem que era real.
Vi bocas cantando "Magnetic Pulse" com a gente — cada refrão, cada mudança de tom. Algumas meninas na grade até levantaram cartazes com nossos nomes. Eu me forcei a manter o foco, mas, por dentro, uma onda absurda de emoção me atravessou.

"Turn the dial up feel the spark
(Aumenta o volume, sente a faísca)
You're the rhythm lighting up my dark
(Você é o ritmo que ilumina minha escuridão)
Every move you're making's on my wave
(Cada movimento seu tá na minha sintonia)
Caught in your current can't escape
(Presa na sua corrente, não dá pra fugir)

Static's rising when you’re near
(A tensão sobe quando você se aproxima)
Electric tension crystal clear
(Eletricidade pura, tão nítida)
You're the melody that pulls me in
(Você é a melodia que me atrai)
A frequency beneath my skin
(Uma frequência sob a minha pele)
You're my magnetic pulse my high voltage beat
(Você é meu pulso magnético, meu batimento de alta voltagem)
Tuning into you you're all I need
(Sintonizando em você, é só isso que eu preciso)
On your frequency I can't resist
(Na sua frequência, eu não resisto)
Every note you play feels like a kiss
(Cada nota que você toca parece um beijo)

Ah (ah)"


A multidão respondeu com gritos. Eu olhei para as meninas, e elas tinham o mesmo brilho nos olhos: surpresa misturada com aquele reconhecimento silencioso de quem pensou "isso está acontecendo de verdade."

"Strumming heartstrings out of tune
(Dedilhando minhas emoções fora do tom)
You're the gravity inside my room
(Você é a gravidade no meu quarto)
Your energy's a wildfire burn
(Sua energia é um incêndio em expansão)
I'm the compass you’re my north to turn
(Sou a bússola e você é meu norte a seguir)

Waves collide like the ocean's roar
(Ondas colidem como o rugido do mar)
I'm your echo craving more and more
(Sou seu eco querendo sempre mais)
Voltage dancing through the air tonight
(Voltagem dançando pelo ar essa noite)
Let’s crash together in this neon light
(Vamos colidir nessa luz neon)

You're my magnetic pulse my high voltage beat
(Você é meu pulso magnético, meu batimento de alta voltagem)
Tuning into you you're all I need
(Sintonizando em você, é só isso que eu preciso)
On your frequency I can't resist
(Na sua frequência, eu não resisto)
Every note you play feels like a kiss
(Cada nota que você toca parece um beijo)

Ah (ah)"


Durante as notas suaves de , voltei para a beirada do palco com , o suor ainda escorrendo pela têmpora e o coração batendo forte no ritmo da música. A luz era quente, dourada, quase como um pôr do sol engarrafado, e iluminava os rostos emocionados bem na frente da grade. Algumas mãos se esticaram e, sem pensar duas vezes, me abaixei para alcançar o toque de algumas delas. Eram rápidas, entrelaçadas, apertos breves e genuínos. Olhos brilhando, celulares tremendo, um garoto chorando de emoção, uma menina com o nome da banda pintado no rosto — tudo parecia ainda mais real dali.
se abaixou também, deu um beijo estalado no ar e acenou com as duas mãos, arrancando mais gritos. Eu ri, ainda ofegante, e fiz um coração com as mãos para uma menina de camiseta roxa que segurava uma placa dizendo ", casa comigo!". Meu peito apertou e, por um instante, senti que podia ficar ali para sempre. Mas as luzes mudaram, um novo acorde ecoou, e voltamos para nossos lugares. Era a parte final.

"You're my magnetic pulse my high voltage beat
(Você é meu pulso magnético, meu batimento de alta voltagem)
Tuning into you you're all I need
(Sintonizando em você, é só isso que eu preciso)
On your frequency I can't resist
(Na sua frequência, eu não resisto)
Every note you play feels like a kiss
(Cada nota que você toca parece um beijo)

Ah (ah)"


Durante as músicas, a energia tinha sido elétrica. A plateia entrou no ritmo desde o primeiro acorde — dava pra sentir o chão vibrando de leve sob nossos pés. Entre uma música e outra, trocávamos sorrisos rápidos, pequenos acenos, como se disséssemos "tá funcionando". A plateia sabia as letras, pulava nos refrões, gritava nossos nomes. E isso só fazia tudo fluir ainda mais.
No fim da oitava música, eu respirei fundo, segurei o baixo firme e me aproximei do microfone com um meio sorriso. Minha voz saiu segura:
— Chegamos na última da noite. Obrigada por ouvirem a gente, vocês foram ótimos essa noite! Essa se chama Wild Hearts.
A luz ficou mais baixa. Um foco iluminou meu rosto. Eu fechei os olhos e deixei o instrumental me guiar.

"Drive fast down the midnight street
(Dirija rápido pela rua à meia-noite)
Sneaking out past city beats
(Escapando escondida pelos ritmos da cidade)
Laughing loud, no plans in sight
(Rindo alto, sem planos à vista)
Living fast, we own the night
(Vivendo rápido, a noite é nossa)

We don’t care what they all say
(Não ligamos para o que todos dizem)
We're just kids who wanna play
(Somos só jovens querendo se divertir)
Chasing dreams and chasing thrills
(Correndo atrás de sonhos e emoções)
Breaking rules, we’ve got the skills
(Quebrando regras, temos o talento)

Raise your glass, here’s to the spark
(Erga seu copo, um brinde à faísca)
Wild hearts beating in the dark
(Corações selvagens batendo no escuro)
Under lights, we come alive
(Sob as luzes, ganhamos vida)
Own the streets, tonight we ride
(Dominamos as ruas, hoje à noite é nossa)"


se aproximou de mim e tocou com um sorriso discreto no rosto. soltou a voz no backing com tanta clareza que eu me virei um pouco só para vê-la. A presença dela ali era a nossa cola. aumentou a intensidade da batida, conduzindo a gente com firmeza.

"Late night talks and secret stares
(Conversas tarde da noite e olhares secretos)
Cigarettes and messy hair
(Cigarros e cabelos bagunçados)
We're reckless, yeah, but we don’t mind
(Somos imprudentes, sim, mas não nos importamos)
This is youth, one of a kind
(Isto é juventude, única e incomparável)

We don’t care what they all say
Não ligamos para o que todos dizem)
We're just kids who wanna play
Somos só jovens querendo se divertir)
Chasing dreams and chasing thrills
Correndo atrás de sonhos e emoções)
Breaking rules, we’ve got the skills
Quebrando regras, temos o talento)

Raise your glass, here’s to the sparks
(Erga seu copo, um brinde às faíscas)
Wild hearts beating in the dark
(Corações selvagens batendo no escuro)
Under lights, we come alive
(Sob as luzes, ganhamos vida)
Own the streets, tonight we ride
(Dominamos as ruas, hoje à noite é nossa)"


Eu caminhei até o centro do palco. O baixo preso no ombro, o microfone na mão. Era como se a música passasse por mim. As luzes seguiram meus passos e, por um instante, eu deixei o público guiar aquela parte com a gente.

No slowing down, no turning back
(Sem diminuir, sem olhar pra trás)
On this wild and winding track
(Nessa estrada selvagem e cheia de curvas)
We're alive, so feel the beat
(Estamos vivos, então sinta a batida)
Every moment, wild hearts meet
(A cada momento, corações selvagens se encontram)


Iniciei o solo, e seguiu, alternando com , que entrou no momento certo. As duas tocando, costas com costas, enquanto o público gritava seus nomes. Então as batidas de entraram, ligando tudo em uma só coisa.
Eu fechei os olhos por um segundo, só pra guardar aquele momento.
Caminhei até a beirada do palco. Me agachei ali mesmo, perto das luzes, olhando para a multidão. O barulho foi diminuindo aos poucos, quase como se o público soubesse o que vinha a seguir — como se estivessem prendendo a respiração comigo.

I lit a match in a room full of smoke
(Acendi um fósforo em uma sala cheia de fumaça)
Chasing the echoes of words you once spoke
(Caçando os ecos das palavras que você disse uma vez)
Your shadow lingers like a ghost in my head
(Seu fantasma permanece como um eco na minha cabeça)
But I'm alive and I'm burning instead
(Mas eu tô viva e queimando no lugar disso)

Electric heartbeat surging through my veins
(Batimento elétrico pulsando nas minhas veias)
Breaking the silence, tearing off the chains
(Quebrando o silêncio, rompendo as correntes)
Feel the fire in every chord I play
(Sinto o fogo em cada acorde que eu toco)
I'm alive, I'm alive, I won't fade away
(Eu tô viva, eu tô viva, eu não vou desaparecer)

Cracked mirrors show the lines on my face
(Espelhos rachados mostram as linhas no meu rosto)
Each scar a story I refuse to erase
(Cada cicatriz uma história que eu me recuso a apagar)
The night is loud with the sound of my scream
(A noite é alta com o som do meu grito)
I'm not the victim, I'm living the dream
(Eu não sou a vítima, eu tô vivendo o sonho)

Electric heartbeat surging through my veins
(Batimento elétrico pulsando nas minhas veias)
Breaking the silence, tearing off the chains
(Quebrando o silêncio, rompendo as correntes)
Feel the fire in every chord I play
(Sinto o fogo em cada acorde que eu toco)
I'm alive, I'm alive, I won't fade away
(Eu tô viva, eu tô viva, eu não vou desaparecer)


O público gritava. Não sei se era pela batida, pela letra, ou só pelo jeito como estávamos vivendo aquilo ali com eles. Mas era real. Tudo real.

Shattered glass like the stars in the sky
(Vidro quebrado como as estrelas no céu)
Every piece of me learning to fly
(Cada pedaço de mim aprendendo a voar)
I won't look back as the world starts to spin
(Não vou olhar pra trás enquanto o mundo começa a girar)
This is my moment, this is where I begin
(Este é meu momento, é aqui que eu começo)

Electric heartbeat surging through my veins
(Batimento elétrico pulsando nas minhas veias)
Breaking the silence, tearing off the chains
(Quebrando o silêncio, rompendo as correntes)
Feel the fire in every chord I play
(Sinto o fogo em cada acorde que eu toco)
I'm alive, I'm alive, I won't fade away
(Eu tô viva, eu tô viva, eu não vou desaparecer)


Silêncio. Por dois segundos. Então, a multidão explodiu em aplausos e gritos.
— Somos as The Sirens. Obrigada! — falei no microfone uma última vez, enquanto as meninas acenavam para o público e as cortinas se fechavam.
Eu virei de costas, respirei fundo. A luz bateu no meu rosto quando encostou o ombro no meu e murmurou, com a voz baixa, só pra gente:
— Isso foi insano.
Eu só consegui sorrir. Não precisava de resposta. A gente sabia.

(POV’s Calum Hood)

O som dos gritos ainda ecoava no backstage quando eu encostei na parede, tentando disfarçar o sorriso. As luzes do palco ainda piscavam lá fora, mas as meninas tinham acabado de sair, suadas, sorrindo e com aquela expressão de quem sabia que tinha mandado bem. E mandaram. Muito.
passou por mim com o baixo pendurado no ombro, os cabelos longos colados na testa, ainda úmidos de suor. As tatuagens nos braços se destacavam sob a luz do backstage, quase como se brilhassem com a adrenalina do show. Ela ria de alguma coisa que a falou e, por um segundo, antes de entrar no camarim, virou o rosto. Nossos olhos se encontraram. Rápido. Um aceno de cabeça, um sorrisinho no canto da boca.
— Já começou a imaginar o nome dos filhos? — Michael apareceu do nada, com a voz carregada de sarcasmo e um copo de energético na mão.
— Vai se ferrar. — Revirei os olhos, tentando ignorar o sorriso que insistia em formar em meu rosto.
Luke apareceu logo atrás, encostando a guitarra no suporte.
— Eu achei fofo. Ele ficou parado igual uma estátua enquanto elas tocavam. Só faltou a plaquinha com ", eu te amo".
— Vocês dois são insuportáveis — retruquei.
O Ashton se aproximou batucando as coxas, ainda aquecendo os dedos, e comentou:
— Mas falando sério... elas foram boas. Tipo, de verdade. Não só boas pra banda nova.
Assenti, sem conseguir esconder.
— Eu já tinha ouvido umas faixas gravadas, mas ao vivo? É outra coisa. A segura o palco como se tivesse nascido ali.
Eles me encararam com um sorrisinho, e eu fiz questão de completar:
— Elas todas. Mandaram bem como grupo.
— Claro — Michael respondeu, claramente se divertindo.
Depois que soubemos que elas iam abrir os shows da turnê, foi uma reação meio coletiva ali no grupo. Primeiro, todo mundo ficou animado — de verdade. As meninas são divertidas. A gente já tinha cruzado com elas antes, em premiação, festival… e acabou pegando intimidade rápido. Tipo, em uma semana já estavam fazendo piada interna com o Ashton e dividindo batata frita com o Mike.
Segundo… bom, aí começou a parte em que a minha vida virou inferno.
Porque meus queridos amigos descobriram — ou lembraram com gosto — que eu e a já tínhamos um certo… histórico.
Um after, algumas conversas, uma noite muito boa que ficou ali, meio suspensa. Eu só não esperava que, alguns meses depois, estaria dividindo o backstage com ela. Todos os dias. Por meses.
E agora, com ela no palco, rindo, suando, com o baixo pendurado no ombro e aquele olhar que parecia ver tudo de um jeito meio afiado… era impossível ignorar. Mesmo com os idiotas dos meus amigos me provocando o tempo todo.
Mas antes que pudesse continuar pensando nisso, os técnicos sinalizaram que já era a nossa vez, e eu respirei fundo, pegando meu baixo e prendendo a alça no ombro.
— Certo. Vamos lá!
O som da plateia aumentou quando anunciaram a gente. Subimos rápido, luzes seguindo nossos passos. A primeira música foi "18", pra abrir com força, e funcionou. A galera pulava, cantava, gritava nossos nomes.
O resto do show foi uma explosão. A gente passou por "Heartache on the Big Screen", depois "Amnesia" — que sempre deixava a plateia meio nostálgica — e, quando entramos em "Beside You", o pessoal cantava mais alto que a gente. Era impossível não se perder naquela energia.
Luke soltava os gritos nos refrões, Ashton tocava como se tivesse mais dois braços escondidos, e Michael fazia piada até entre uma música e outra. Eu só tentava manter a concentração, mas em algum momento, entre "Long Way Home" e "Disconnected", meus olhos voltaram para o lado do palco.
Elas ainda estavam lá. , encostada com o baixo pendurado, conversava algo com a , sorrindo. Às vezes, ela olhava pra gente. Às vezes, só balançava a cabeça no ritmo da música. Mas estavam todas ali.
End Up Here chegou rápido. Uma das minhas favoritas. Quando ela acabou, Luke deu um passo à frente, ainda recuperando o fôlego. O público estava em êxtase.
— Vocês ainda aguentam mais uma?
A resposta foi um grito uníssono. Ashton levantou as baquetas, como se aquilo fosse a confirmação de que sim, eles aguentavam.
— Então... — Michael começou, com aquele tom de suspense ensaiado. — Temos uma pequena surpresa pra vocês.
Enquanto ele falava, a equipe no fundo do palco corria. Movimentação rápida. Instalaram mais uma bateria ao lado da do Ashton, os cabos foram conectados em segundos, e Luke olhou pra lateral do palco com um sorriso.
— Sirens, vem com a gente.
O grito da plateia quase estourou meus tímpanos.
As meninas entraram no palco correndo, rindo, pulando, como se aquilo fosse o mais normal do mundo. segurava uma guitarra e andava como se já estivesse ali há anos. veio logo atrás com a sua também, e acenava pro público. se posicionou lá em cima com o Ashton, já girando as baquetas entre os dedos e, assim que se aproximou, deu um high five com ele. E estava com o baixo preso ao corpo e o cabelo solto, bagunçado pelo suor do show anterior. Ela veio direto pro meu lado, correndo.
Ela sorriu, ainda ofegante, e ajustou o instrumento. As luzes coloridas refletiam nas correntes da calça dela. O público não parava de gritar.
— Tudo certo? — ela perguntou, quase no meu ouvido, por causa do barulho.
— Melhor agora — respondi, sem conseguir me controlar em provocá-la, dando uma piscadinha. Vi seus olhos azuis rolarem, falhando em esconder o sorriso que aparecia em seus lábios.
E então a música What I Like About You começou com força.
A multidão gritou junto, pulando. A bateria em dobro deixava tudo mais potente, e os dois baixos ressoavam no peito como trovões. Eu troquei olhares com Ashton lá atrás e ele sorria feito uma criança em brinquedo novo.
Luke assumiu os vocais:

"Hey! Hey!

That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)
You hold me tight
(Você me abraça apertado)
And tell me I'm the only one
(E diz que eu sou o único)
Wanna come over tonight?
(Quer vir aqui hoje à noite?)
Yeah!

Keep on whispering in my ear
(Continue sussurrando no meu ouvido)
Tell me all the things that I wanna hear
(Me diga todas as coisas que eu quero ouvir)
'Cause it's true, that's what I like about you
(Porque é verdade, é isso que eu gosto em você)"


O público acompanhava palavra por palavra. pulava ao lado do Michael, que fazia umas caras dramáticas só pra provocar mais gritos. estava concentrada nos acordes, mas com aquele sorriso de quem estava no controle. E então veio o segundo verso.
se aproximou do meu microfone, com o baixo ainda pendurado, e, sem hesitar, cantou me olhando diretamente, apontando um dedo em meu peito, como se aquilo fosse só uma brincadeira. Uma provocação sutil:

"Yeah what I like about you
(Sim, o que eu gosto em você)
You really know how to dance
(Você realmente sabe dançar)
When you go up, down, jump around
(Quando você sobe, desce, pula por aí)
Think about true romance, yeah
(Penso em um romance de verdade, sim)

Keep on whispering in my ear
(Continue sussurrando no meu ouvido)
Tell me all the things that I wanna hear
(Me diga todas as coisas que eu quero ouvir)
'Cause it's true, that's what I like about you
(Porque é verdade, é isso que eu gosto em você)"


Me arrisco dizer que ela sabia exatamente o que estava fazendo.

That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)
(What I like about you)
(O que eu gosto em você)
That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)
(What I like about you)
(O que eu gosto em você)
That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)
(What I like about you)
(O que eu gosto em você)
That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)

Hey!"


Continuei tocando sem quebrar o ritmo, mas a voz dela ficou na minha cabeça, como se ela ainda estivesse ali, bem perto, mesmo quando se afastou do microfone.
O refrão chegou e todos cantaram juntos. A multidão vibrava com as duas bandas misturadas no palco, criando algo caótico, barulhento e perfeito.
Ashton assumiu o vocal principal, e o público foi ao delírio só de ouvir a voz dele ecoar pelos alto-falantes:
— Escutem isso, Los Angeles!

"What I like about you
(O que eu gosto em você)
You hold me real tight
(Você me abraça bem forte)"


Ele cantava sorrindo, batendo nas laterais da bateria com energia dobrada. A plateia gritou ainda mais alto, como se cada palavra da música fosse um comando pra levantar os braços e cantar junto.

"Never wanna let you go
(Nunca quero te deixar ir)
Know you make me feel alright
(Sei que você me faz sentir tão bem)"

Então e Ash fizeram um solo rápido de batidas, se acompanhando com uma sintonia quase coreografada.

"Keep on whispering in my ear
(Continue sussurrando no meu ouvido)
Tell me all the things that I wanna hear
(Me diga todas as coisas que eu quero ouvir)
'Cause it's true, that's what I like about you
(Porque é verdade, é isso que eu gosto em você)

That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)
(What I like about you)
(O que eu gosto em você)
That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)
(What I like about you)
(O que eu gosto em você)
That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)
(What I like about you)
(O que eu gosto em você)
That's what I like about you
(É isso que eu gosto em você)


Assim que o último acorde de "What I Like About You" ecoou pelos alto-falantes, as luzes pulsaram com força, acompanhando os gritos da plateia. As meninas riram no palco, ofegantes.
O público respondeu com mais gritos e aplausos enquanto as meninas se juntavam no centro do palco e faziam uma reverência exagerada, rindo.
Eu e os meninos nos aproximamos, formando uma fila. Assim que elas se viraram para sair, passaram uma por uma por nós, correndo, dando toques rápidos. E então, elas desapareceram atrás da cortina novamente.
Ajeitei o baixo no ombro, respirei fundo. A adrenalina ainda estava em alta. Olhei para os caras e Mike deu aquele sorrisinho que ele sempre dá antes de tocar "Good Girls".
— Ok… — disse ele no microfone, meio ofegante. — A gente ainda não terminou com vocês.
A resposta do público foi absurda. Gritos, pulos, gente se abraçando na grade. Ash bateu as baquetas três vezes e a gente começou a tocar.
Mesmo depois de toda a energia da última música, o público continuava animado, como se o show tivesse acabado de começar. Cada refrão era cantado a plenos pulmões.
E então chegou a última. "She Looks So Perfect". Assim que Luke tocou os primeiros acordes, a plateia enlouqueceu. A gente entregou tudo até o fim, sem economizar um segundo.
— Obrigado por nos receberem, Los Angeles! Vocês foram ótimos!
Então as luzes se apagaram, a cortina se fechou devagar e a gente saiu do palco ainda ofegantes, com o som dos gritos ecoando atrás da gente.


Capítulo 2


(POV Brooks)

A gente mal tinha saído do palco, ofegantes, com as pernas tremendo e o Ashton já estava falando em comemoração.
— Vocês estão prontas para uma noite decente em Los Angeles ou vão direto dormir como idosas de vinte e poucos anos? — ele provocou, segurando uma garrafinha de água e com a camiseta suada grudada nas costas.
— Balada? — arqueou uma sobrancelha, como se já soubesse a resposta.
— Balada — Michael confirmou, um sorrisinho travesso em seus lábios. — Nós temos o dia livre amanhã. Só uma entrevista num talk show à noite.
Eu, sinceramente? Estava exausta. Mas também estava elétrica. Aquela mistura de cansaço com euforia que só aparece depois de algo grande. Tipo o nosso primeiro show de uma turnê mundial.
— Ok, mas tem que ter ar-condicionado e gente bonita — murmurei, jogando uma toalha sobre o pescoço. — E não vale deixar a gente em uma van mofada no estacionamento por meia hora.
— Prometemos transporte decente — Luke respondeu, já mexendo no celular. — E lugar bom. De verdade. O pessoal da produção vai avisar o motorista.
olhou pra gente, com aquela expressão dela de "vamos?", mas não foi difícil de decidir.
— Certo, então vamos nos arrumar. Preciso estar apresentável de novo — falou, prendendo os cabelos avermelhados em um coque improvisado com um palito de baquetas (sim, ela realmente fazia isso, mais vezes do que podia contar).
Voltamos pro camarim para trocar de roupa e retocar a maquiagem — nada exagerado, só o bastante pra parecer que nós não tínhamos acabado de tocar por uma hora embaixo de luz quente.
Enquanto ajeitava o delineado no espelho, eu encostei na parede, puxando o celular pra ver algumas mensagens. Tinha foto do show, marcação, vídeo... e um tweet que me fez rir alto.
"The Sirens tem o caos da girlband perfeita. me atropelaria com um salto e eu agradeceria."
— O que foi? — olhou de canto.
— Nada, só fãs sendo fãs. — Balancei o celular, mostrando a publicação. — Aparentemente, eu sou uma ameaça pública.
soltou uma risadinha, terminando de ajeitar o cabelo.
— Aliás… já que estamos falando de caos… — ela virou o rosto na direção da . — Como estão as coisas entre você e o baixista?
— O Calum? — arqueou uma sobrancelha.
— Claro que o Calum. — entrou na conversa, pegando um gloss da necessaire. — Você acha que a gente não percebeu o sorrisinho e os sussurros durante a música?
— Um leve flerte auditivo — completei, apontando com o pincel de iluminador.
— Ele está mais bonito do que da última vez que a gente se viu, vou admitir isso — suspirou, encostando na penteadeira com os braços cruzados.
— Isso é quase um crime, né? — comentou. — Pessoas não deviam ter permissão pra melhorar assim com o tempo.
— Calum Hood é uma tentaçãozinha — ela continuou com um meio sorriso. — Mas eu vou tentar manter as coisas profissionais dessa vez. Pelo menos até a terceira cidade da turnê. Só pra poder dizer que tentei.
— Sabe que isso não vai durar, né? — comentou, aplicando o gloss.
— Eu sei. — deu de ombros. — Mas deixa eu fingir que estou sendo madura por uns dias.
Todas demos risada de novo e, assim, do nada, estávamos prontas pra encarar a noite.
A van chegou rápido e o caminho até o clube foi um borrão de luzes da cidade, música baixa no rádio e os meninos rindo de alguma história absurda do Michael sobre um camarim em Tóquio.
— Eu juro por tudo — ele dizia com os olhos arregalados — que o lugar era literalmente um closet. Tipo, cabiam duas pessoas e meia. Se alguém respirasse fundo, o outro era empurrado contra a parede.
— E você, obviamente, ocupava uma e meia — brincou, sem nem olhar para trás.
— Ei! — Michael protestou. — É músculo, tá? Músculo e talento.
— Claro — murmurou, rindo. — Tudo distribuído nos ombros.
— Não vou mentir — Ashton entrou no papo, virando o rosto do banco da frente —, aquele camarim era insano. Mas vocês ainda não viram nada. Acho que ainda vamos tocar no lugar. Se nada mudou desde a última vez, o vestiário tem uma pia que pinga e um espelho rachado que te faz parecer possuído.
— Ótimo, adoro me maquiar com presença demoníaca no reflexo — comentei, me virando no banco.
— Ah, é? — Michael se inclinou um pouco, me olhando. — Então você vai amar quando a gente tocar na Polônia. O lugar parece cenário de filme de terror dos anos 80.
— Perfeito. A vibe da turnê agora é terror estético murmurou, cruzando as pernas e eu ri.
— Pelo menos hoje não precisamos nos preocupar com isso e temos uma balada incrível pra ir.
— Só me empurrem de volta se eu tentar dançar em cima de alguma coisa — falou e eu e as meninas rimos, lembrando das várias vezes que ela já havia feito algo assim.
— A gente devia fazer um pacto — disse Luke. — Ninguém filma ninguém essa noite. Sem registros. No máximo, memória coletiva.
— Isso vai durar tipo… dez minutos — Ash comentou, rindo.
E quando o motorista anunciou que havíamos chegado, todo mundo ficou em silêncio por um segundo. A van parou em frente a um prédio de fachada espelhada com luzes suaves saindo pela porta principal e uma fila de gente estilosa esperando pra entrar.
O segurança olhou pra dentro da van, reconheceu alguém, e já fez sinal para passarmos direto. Entramos no lugar por uma porta lateral. Sem fila, sem revista.
O som bateu no peito assim que passamos pela porta. Um grave forte, constante, que parecia comandar o ritmo dos passos das pessoas ali dentro. Luzes coloridas cruzavam o teto e o cheiro era uma mistura de perfume caro, fumaça artificial e bebida doce.
— Ok, esse lugar é legal — comentou, olhando ao redor com aprovação.
O ambiente era amplo, dividido em dois andares. O térreo tinha a pista de dança — já cheia, com pessoas se movendo no ritmo da batida. No segundo andar dava pra ver cabines com sofás cercadas por grades iluminadas. O tipo de lugar onde os fotógrafos não tinham acesso.
— Vamos subir? — Luke perguntou, já apontando pra escada espiral de ferro preto.
Seguimos Luke até uma área reservada no andar de cima. Um canto com sofá em L, mesa cheia de copos já prontos, gelo e garrafas alinhadas como se soubessem exatamente o que a gente ia querer.
foi a primeira a se jogar no sofá.
— Eu amo esse lugar. Já posso morar aqui?
— Ao primeiro show da turnê. E ao fato de que ninguém caiu no palco. — Michael pegou uma taça e ergueu.
— Por pouco — murmurei, pegando um copo. — A quase tropeçou no cabo do baixo na quarta música.
— Ninguém viu — ela respondeu, sentando ao meu lado e brindando. — O que significa que não aconteceu.
A música mudou, agora um remix de pop dos anos 2000 e eu vi os meninos trocando olhares.
— Aposto que em cinco minutos o Ashton vai estar no meio da pista dançando igual um boneco de posto — disse Luke.
— Quatro — corrigiu Calum, sorrindo. — Ele já tirou o casaco. Isso é um sinal.
Rimos alto, enquanto tomávamos nossos primeiros goles.
— A gente devia fazer isso mais vezes — falou, apoiando o copo na mesa novamente.
— Turnê e balada ou debochar do Ashton? — perguntei.
— Todos acima — ela respondeu e eu ri, concordando prontamente.
A música batia forte no andar de cima, mas ninguém parecia com pressa de sair dali. Michael já tinha chegado na metade do copo dele e montava uma playlist mental com o que queria ouvir na pista, provavelmente julgando o DJ em silêncio.
— Ok — disse Luke, se inclinando pra frente no sofá. — Para começar essa noite de verdade: shots.
— Nossa, que responsável. — comentou fingindo surpresa. — Alguém finalmente leu o manual de "como comemorar uma turnê".
Ele riu, pegando uma garrafinha de tequila da mesa. Um a um, os copinhos foram enchidos, a bagunça de mãos tentando pegar limão, achar sal, alguém reclamando que tava torto.
— Isso vai acabar bem — Ash murmurou perto de mim, oferecendo o brinde.
— Vai acabar. Bem ou não, a gente descobre depois — respondi, brindando com ele.
O som dos copos se chocando quase se perdeu na batida da música. Engoli o shot inteiro, fazendo careta logo depois.
— Inferno — falei baixo. — Por que isso nunca melhora?
— Porque é tequila. Tequila não tem compaixão — Ash respondeu, rindo. Os olhos dele brilhavam como se estivesse se divertindo só de me ver sofrendo.
— Você vai tomar outro? — perguntei, desafiando.
— Se você tomar também.
— Você é imprudente, Irwin — murmurei, mas aceitei.
Logo em seguida Ashton se levantou do sofá. Estalou os dedos e encarou a gente com um sorriso de quem já tinha decidido.
— Alguém precisa iniciar a bagunça.
— Por favor, vai na frente — disse , levantando o copo, sarcástica. — A pista não está pronta para esse momento.
— Tá com inveja porque eu danço melhor que você — ele rebateu, já descendo as escadas com um passinho sincronizado que arrancou risada de todos nós.
— Ele parece um sim da internet — Luke comentou. — Tipo aquele boneco que te ensina os passos errados de zumba.
— É por isso que eu amo ele — Michael respondeu, sincero demais pra ser brincadeira.
Influenciados por Ash, descemos todos para a pista de dança também, empurrados pelo som que parecia vir direto do chão. As luzes rodavam num ritmo hipnótico, e o grave das caixas fazia o peito vibrar.
puxou Luke pro meio da multidão sem nem perguntar. Michael e foram logo atrás, dançando descoordenados de propósito, rindo como se estivessem competindo quem fazia o movimento mais absurdo.
Eu me juntei a eles. e Calum logo apareceram do outro lado, dançando perto dos dois, como se já estivessem no clima desde sempre.
Então Ash surgiu na minha frente, do nada, fazendo um passo esquisito — um tipo de giro confuso com os braços pra cima, meio desengonçado.
— Isso é dança ou um pedido de socorro? — perguntei, já começando a rir.
— Isso é arte — ele respondeu, sério, antes de repetir o movimento com ainda mais entusiasmo.
Entrei na onda, copiando o gesto exagerado com mais empenho ainda, e logo nós dois estávamos no meio da pista dançando como se ninguém estivesse vendo — mesmo com metade da pista rindo da gente.
— Você tem noção de que agora a gente é o centro das atenções, né? — falei, sem parar de me mexer.
— Ótimo. Sempre quis ser famoso pelo talento que realmente importa — ele respondeu, rindo junto comigo.
Depois de mais algumas músicas, o grupo começou a se espalhar um pouco. e Luke estavam perto do bar, dividindo um copo grande de alguma coisa azul que parecia radioativa, rindo de algo que ele cochichava no ouvido dela. e Michael tinham achado um cantinho com menos gente e dançavam num ritmo quase relaxado, como se estivessem numa sala de estar e não no meio de uma balada em Los Angeles.
E então, Luke sumiu por uns minutos e voltou triunfante, com uma bandeja cheia de shots nas mãos.
— Eu declarei que esse é o momento oficial da rodada coletiva — ele anunciou, orgulhoso.
— Ninguém pediu isso — disse , rindo.
— Mas ninguém vai recusar também — ele rebateu, equilibrando a bandeja na mesa.
Eu fui uma das primeiras a pegar um copinho.
— Se amanhã eu não tiver voz, você vai responder por isso na Justiça — falei, apontando o dedo pra ele antes de virar o shot.
olhou pro copo dela, pensativa, como se o teor alcoólico fosse um segredo a ser decifrado.
— Ainda tô na dúvida se bebo ou se finjo maturidade.
— Pode fazer os dois — disse Calum, enchendo o copo dela até a metade.
— Olha só, que diplomático — ela respondeu, dando um leve sorriso e erguendo o copo na direção dele. — Às más decisões bem intencionadas.
— Meu tipo preferido — ele respondeu, brindando com ela.
Ash parou ao meu lado, com as mãos nos bolsos e aquele olhar de quem tá prestes a dizer alguma bobagem.
— Ainda com energia ou já pensando na cama?
— Se eu sentar agora, só levanto amanhã — respondi. — Mas enquanto a música estiver boa, eu continuo fingindo que ainda tô inteira.
— Justo — disse ele. — Considerando que você tá dançando melhor que metade das pessoas aqui…
— Isso é um elogio?
— Isso é uma constatação científica. Eu observei por pelo menos dois minutos.
Eu ri e dei um gole no que sobrou do meu copo, sentindo a garganta queimar.
Na pista, puxava Luke e começavam a dançar num ritmo animado, os dois meio descompassados, mas claramente se divertindo. Michael girava com as mãos no alto, fazendo ela rir alto. e Calum estavam próximos, conversando entre um passo e outro. Vi ela rir de alguma coisa que ele disse e continuei dançando, como se aquele cenário inteiro fosse parte de um filme meio caótico, mas com uma trilha sonora excelente.

*

Horas depois, a balada parecia um universo paralelo onde o tempo não fazia mais sentido. A pista ainda pulsava, mas agora tudo estava levemente borrado — as luzes, as risadas, os passos. Ninguém sabia exatamente que horas eram. E ninguém ligava.
— SHOT! SHOT! SHOT! — gritávamos em coro, batendo nas mesas como se fosse um ritual antigo e sagrado.
e Luke estavam de frente um pro outro, com três copinhos alinhados em cima do balcão e olhares de pura rivalidade.
— Três, dois, um... vai! — Michael gritou.
Os dois começaram a virar os shots como se a vida dependesse daquilo. O primeiro desceu fácil, o segundo já veio com careta. No terceiro, Luke quase tossiu e bateu o copinho vazio na mesa, triunfante, com os braços pro alto.
— EU FALEI! — ela gritou, se virando pra gente. — Isso aqui é talento líquido!
— Isso é alcoolismo competitivo — Calum murmurou, rindo.
— É carisma. Aprende — rebateu, abraçando o Luke, que ainda piscava forte, tentando se recompor.
e Michael estavam enfiados numa discussão muito séria sobre se batata frita podia ou não ser considerada uma refeição completa e eu consegui ouvir uma parte:
— Tem carboidrato, gordura e sal. É balanceado — Michael dizia, como se fosse óbvio.
— E se tiver ketchup, tem até uma fruta — completou, como se fosse nutricionista.
estava sentada na beirada do sofá com os pés descalços, balançando as botas na mão enquanto ria de alguma coisa que eu tinha falado minutos antes — mesmo que nenhuma de nós lembrasse mais o que era.
Calum apareceu do lado dela, apontando pras botas.
— Já desistiu?
— Meus tornozelos pediram arrego — ela respondeu. — E eu ouvi.
— Sensata — disse ele, se jogando ao lado dela com o corpo meio torto de quem já tava em slow motion.
Ash apareceu com uma bandeja de bebidas coloridas equilibrando como se fosse garçom, só que meio bêbado.
— Encomenda especial da mesa da frente — disse, como se estivesse falando sério. — Mandaram pra gente porque estamos animando o ambiente.
— A mesa da frente? — perguntei.
— Aquela vazia ali. — Ele apontou pra um canto escuro sem ninguém.
— A-do-ro — falei, pegando o copo da cor menos ameaçadora. — Saúde aos fantasmas.
A gente brindou de novo. Já era o quê? O oitavo brinde da noite? Décimo? Quem contava?
Naquele momento, começou a dançar em cima do sofá arrastando Luke com ela. Eu e Ash batemos palmas no ritmo, Michael começou a filmar, e colocou um guardanapo na cabeça dizendo que era seu "chapéu da vitória moral".
— Eu não aguento mais vocês — eu falei entre risos, enquanto rebolava sem o menor senso de ritmo em cima do sofá e Luke a acompanhava com passos dramáticos, como se fosse um dançarino profissional em um musical de gosto duvidoso.
— É isso que dá misturar tequila com ego — Calum comentou, largado no sofá, as pernas esticadas e os olhos meio fechados. estava deitada de lado, com a cabeça apoiada no colo dele, os cabelos bagunçados caindo até o peito. Parecia completamente alheia à bagunça em volta — os olhos fechados, a respiração lenta, e então eu entendi.
Ela realmente tinha dormido. No meio da balada.
Ash, ao meu lado, levantou uma batata frita como se fosse um microfone.
— Eu gostaria de agradecer ao público, aos meus pais e a esse molho ranch por tornar essa noite possível.
— Que discurso é esse? — perguntei rindo.
— Discurso de encerramento da minha sanidade. Acho que deixei cair no corredor.
Michael ainda filmava tudo com a câmera tremida do celular, narrando com voz de documentarista.
Documentário: o declínio dos jovens adultos em turnê. Parte um.
— Quero os direitos autorais — disse , ainda com o guardanapo na cabeça. — Isso aqui é minha imagem pública sendo destruída em tempo real.
— É entretenimento, isso sim — respondeu.
A música mudou de novo, agora era um remix de alguma coisa dos anos 2010 que fez todo mundo gritar e pular como se tivesse voltado no tempo. quase caiu do sofá, mas Luke segurou ela pela cintura no último segundo, os dois rindo alto, como se o mundo fosse uma piada interna só deles.
Observei tudo aquilo por um instante e me virei pra , ainda dormindo com a cabeça no colo de Calum.
— Como isso aconteceu? — sussurrei pra que também olhava a cena. — Ela dormiu. No meio de uma balada. No colo do Calum.
— Impressionante — respondeu, se espreguiçando. — E preocupante. A gente devia ir.
— Concordo — Ash disse, bocejando. — Antes que alguém durma em pé ou resolva pedir mais uma rodada.
— Ok, hora de evacuar os bêbados — Michael anunciou, já guardando o celular no bolso.
Calum olhou pra e depois pra gente.
— Eu levo.
Ninguém contestou.
Ele passou um braço por baixo das pernas dela e o outro pelas costas, levantando devagar. só se remexeu um pouco, sussurrando algo ininteligível antes de esconder o rosto no peito dele.
— Fofo demais pra esse horário — comentou, já puxando Luke pela mão. — Vai dar gatilho se eu tiver que ver isso mais cinco segundos.
— Você está literalmente abraçada no Luke há meia hora — eu falei pegando a bolsa.
— Mas de um jeito menos romântico e mais... instável — ela respondeu, tropeçando de leve e rindo.
— Essas mulheres de hoje em dia… só te usam e depois jogam fora — ouvi Luke resmungar, enquanto seguia .
Nós seguimos em direção à saída, ainda meio zonzos, falando todos ao mesmo tempo, como se não quisesse admitir que a noite tinha mesmo acabado. Mas tinha. E agora a cidade lá fora estava mais silenciosa. Mais lenta.
A van já esperava na frente. Calum colocou com cuidado no banco de trás, sentando ao lado dela, que ainda dormia.
Entramos todos, um por um, nos acomodando como dava, com ombros encostando, pernas atravessadas e risadas abafadas. A porta se fechou.

(POV Luke Hemmings)

Acordei com a sensação de que minha cabeça era uma caixa de som mal conectada. Um chiado constante, batidas aleatórias — e alguém respirando muito alto perto demais de mim.
Abri um olho devagar. Eu estava deitado no carpete da nossa suíte do hotel com uma almofada da sala, abraçado como se fosse um travesseiro decente.
Levantei um pouco a cabeça e vi jogada de lado no sofá, uma perna pra fora, a bota pendurada na pontinha do dedão. dormia deitada de bruços, a cara esmagada num moletom que claramente não era dela. Calum, na poltrona ao lado, roncava baixinho com o braço jogado por cima do rosto.
A cena parecia o fim de uma festa no universo paralelo do Discovery Channel: Jovens adultos em ressaca, versão em cativeiro.
Sentei com esforço, olhando ao redor.
Michael estava encostado na parede com um saco de batatas no colo e dormia ao lado dele com a cabeça apoiada no ombro dele, os dois parecendo bem mais em paz do deveriam, considerando a quantidade de álcool ingerido.
No chão da cozinha, ouvi um barulho baixo. e Ash discutiam em voz baixa sobre se o suco de laranja curava ou piorava a ressaca.
— Não é uma ciência exata — Ash dizia.
— É suco. Não é alquimia — respondia.
Olhei pro relógio: 13h42.
Suspirei.
— Bom dia, amigos — murmurei, minha voz mais rouca que de costume.
Ninguém respondeu. O que é compreensível. Acho que todos estavam no mesmo estágio de "preciso de um café e de silêncio absoluto ou vou falecer em posição fetal".
O celular vibrou. Mensagem da produção:
"Van às 18h para o talk show. Se alguém precisar de remédio ou dignidade, avisem com antecedência."
Apoiei a cabeça nas mãos, tentando lembrar de quantas rodadas de shot a gente realmente fez. As imagens eram vagas. Gritos. Alguém dançando em cima de um sofá (provavelmente eu). Ash fazendo uma serenata com uma batata. dormindo no colo do Calum. vencendo uma disputa de tequila com a frieza de um atirador de elite.
Suspirei de novo.
— Eu odeio vocês — disse em voz alta.
E do outro lado do sofá, murmurou:
— Também te amo.
Aos poucos, os corpos ao meu redor foram ganhando vida. apareceu na sala com um copo de suco na mão e uma expressão de quem definitivamente estava arrependida de todas as decisões tomadas nas últimas doze horas.
— Vocês sabem que a gente vai morrer, né? — disse ela, se jogando no chão ao meu lado.
— Eu já aceitei — respondi, apoiando a testa no joelho.
sentou devagar no sofá, piscando como se a luz do quarto tivesse aumentado dez vezes. O moletom que ela usava estava com as mangas enroladas, e ela só conseguiu resmungar um "que horas são?" antes de deitar de novo.
— Duas da tarde — respondeu, já com um copo de água na mão. — E eu não quero ouvir nenhum comentário sobre a minha cara. Eu sei.
Ash apareceu da cozinha com duas canecas de café.
— Fiz o suficiente pra abastecer uma nave. Quem sobreviver, pega a sua.
— O herói que a gente precisa — disse Michael, bocejando e pegando a caneca como se fosse ouro líquido.
— E o talk show? — perguntou, do chão, com um travesseiro no rosto.
— Van sai às seis — eu disse. — Então temos… sei lá… duas horas pra fingir que somos pessoas normais.
Nas horas seguintes, as meninas voltaram para sua suíte e eu e os meninos nos arrastamos para começarmos a nos arrumar. Entre café, banho e uma busca frenética por roupas limpas, conseguimos parecer menos derrotados. Às 17h45 estávamos na recepção do hotel, prontos pra fingir que tínhamos dormido oito horas e comido salada.
Apesar de não irem para o talk show conosco, as meninas nos encontraram na recepção para nos despedirmos.
— Então vocês vão mesmo nos abandonar? — perguntou, olhando para Ashton com cara de julgamento.
— Alguém precisa entreter a América — disse Ash, passando as mãos pelo cabelo recém arrumado.
— E alguém precisa assistir vocês e anotar todas as besteiras que vocês disserem ao vivo — respondeu, cruzando os braços. — Porque vamos cobrar.
— A gente vai fazer pipoca, ficar de pijama e rir de vocês na TV — completou, já apoiada no sofá da recepção, com um copo de chá na mão.
— Isso é cruel — disse Ash. — Queria muito trocar de lugar com vocês.
— Pode deixar. A gente come por vocês também — respondeu.
— Mas sem jantar, hein. — Michael apontou. — Tô contando com um pós-entrevista digno.
— Relaxa — falou. — Vamos esperar vocês. Jantar às nove?
— Fechado — confirmei. — Mas se vocês pedirem qualquer coisa com batata antes disso, quero provas de que deixaram pra mim.
— Combinado — disse . — Desde que vocês também prometam não falar nenhuma besteira ao vivo.
— Sem garantias. — dei de ombros.
Nos despedimos rápido, como quem sabe que vai se ver logo. Ash deu um tchau teatral, eu fiz sinal de coração com a mão, Michael agradeceu "pelo sofá e pela amizade", e Calum só deu um sorrisinho pro grupo todo antes de sair por último.

*

Eu nunca entendi muito bem porque talk shows têm tanta luz. Tipo, eu sei, televisão, câmeras, maquiagem… mas parecia que estávamos dentro de uma lâmpada gigante. E com sono.
A gente chegou no estúdio por volta das 18h30. A equipe da produção já nos esperava com maquiagem básica, microfones e aquele sorrisinho simpático de quem finge que não percebeu que estávamos com olheiras de ressaca.
— Prontos pra brilhar? — alguém perguntou enquanto me empurrava pra frente do espelho.
— Se brilhar for sinônimo de suar ao vivo, então sim — respondi, e o maquiador riu.
Ash parecia o mais tranquilo. Michael ficava testando o microfone dizendo coisas como "alô, planeta terra chamando". Calum estava vendo as fotos do show de ontem nas redes sociais. E eu… só queria que minha voz não desse aquela falhada clássica de quem ainda não bebeu água o suficiente.
Faltando cinco minutos para entrarmos no palco, recebi uma mensagem no grupo que havíamos criado com as meninas: Grupo de apoio emocional.

Grupo de Apoio Emocional
, Ash, Calum, ...


A tv tá ligada, a pipoca tá pronta e a suas caras vão estar enormes em 4K


Cuidado com o que fala. Isso vai pro dossiê de 2035


Michael tropeçou antes de entrar? Tô apostando com a



Sorri, ficando mais animado.
A produção sinalizou e o apresentador nos chamou com um tom de voz animado demais pro horário. Depois da entrada com sorrisos ensaiados, um tropeço leve do Michael (que a com certeza comemorou em voz alta), e Ash dando tchauzinho como se fosse da família real, nos sentamos nos sofás iluminados.
O apresentador sorriu daquele jeito que só pessoas que têm 32 dentes perfeitamente alinhados conseguem sorrir.
— Bem-vindos, meninos! A primeira noite da turnê rolou ontem e já tem gente dizendo que foi o melhor começo de turnê de vocês até agora. Como foi?
Ash, claro, respondeu primeiro:
— Insano. A energia estava alta demais. A gente saiu do palco meio sem acreditar que era só o primeiro show.
— A plateia gritando parecia final de campeonato — Michael completou. — E ninguém desmaiou. Um milagre logístico.
A plateia riu.
— Luke? Você estava tão sério nas primeiras músicas. Nervoso?
Sorri de leve.
— Tô sempre nervoso. Só disfarço melhor agora. Mas foi bom. Muito bom. Aquela mistura de medo e excitação que só existe nos primeiros cinco minutos de um show novo.
— Dizem que vocês têm um ritual antes de subir no palco. Isso ainda rola?
— A gente faz um círculo e repete uma palavra aleatória — Ash explicou.
— Palavra aleatória?
— Tipo… "esquilos", "espaguete", "respeito mútuo" — disse Michael. — Ontem foi "histeria".
— E funcionou — Ash concluiu. — O show foi uma histeria mesmo.
Mais risos da plateia.
— E agora vocês estão dividindo a turnê com uma banda nova, certo? The Sirens?
Todos se viraram pra mim. Ótimo. Sabia que ia sobrar pra mim.
— Sim. Elas abriram o show ontem. Arrebentaram.
— Incríveis — disse Ash. — Meio caóticas também. Tipo a gente, só com botas melhores.
— E maquiagens impecáveis — Michael acrescentou e eu sabia que isso aumentaria o ego delas.
O apresentador pareceu animado.
— Alguma fofoca de bastidor?
Calum pigarreou, tentando disfarçar o riso.
— Só digo que guardanapos foram usados de formas não convencionais, tequila foi tratada como esporte olímpico e alguém dormiu com o rosto num moletom que não era seu.
— Ah, e alguém fez uma serenata com batatas fritas — Michael soltou e Ash levantou a mão.
— Foi uma ótima serenata.
A plateia caiu na risada.
— Vocês se dão bem com elas, então?
— Muito. Já tínhamos nos conhecido em eventos antes, mas agora convivendo o dia todo… a amizade acelerou — falei.
— Acha que o público vai shippar algum casal? — ele perguntou com aquele sorrisinho de jornalista que sabe o que está fazendo.
Silêncio coletivo e Ash disfarçou um riso. Michael olhou teatralmente para Calum, que revirou os olhos.
— O público sempre shippa alguém — eu disse. — Mas nosso foco agora é só entregar bons shows.
— E evitar intoxicação alimentar — Calum acrescentou.
— Também essencial — Ash concordou.
— Vamos fazer o seguinte — o apresentador se ajeitou na poltrona —, eu vou lançar umas perguntas rápidas e vocês respondem sem pensar. Topam?
— Bora — disse Michael, se ajeitando.
— Ok. Música favorita de tocar ao vivo?
Disconnected — Mike.
End Up Here — Ash.
Amnesia — eu.
What I Like About You, depois de ontem — Calum respondeu com um sorriso.
— Quem erra letra com mais frequência?
— Luke — todos disseram ao mesmo tempo.
Revirei os olhos, resignado.
— Quem tem o quarto mais bagunçado?
— Também Luke — Michael respondeu.
— Quem cozinha melhor?
— Ninguém — disse Calum.
— A gente sobrevive com o básico — falei. — Macarrão e pizza congelada. Às vezes um arroz que vira risoto por acidente.
— Última pergunta: quem provavelmente vai se apaixonar nessa turnê?
Pausa.
Ash apontou pra mim.
Eu apontei pro Michael.
Michael apontou pro Calum.
Calum… se escondeu atrás do microfone.
— Ok, acho que isso responde. — O apresentador riu. — Bom, foi ótimo ter vocês aqui. Vamos encerrar com uma performance de Don’t Stop, direto do nosso palco.
Nos levantamos. Peguei minha guitarra enquanto os meninos iam se posicionando.
As luzes baixaram e subiram no tempo certo. A intro começou e a plateia pulou junto. Eu vi uma garota na primeira fila com uma placa escrita "Calum, casa comigo" e outra com " toca baixo melhor que o meu ex" — o que me fez rir no meio da música.
A performance terminou com aplausos, luzes estroboscópicas e a banda suando como se estivesse no terceiro show da noite. Voltamos pro camarim exaustos, mas animados.
— Sobrevivemos — disse Michael, se jogando no sofá.
— E fomos bonitos. Isso é o mais importante — Ash completou.
Meu celular vibrou de novo.

Grupo de Apoio Emocional
, Ash, Calum, ...


Michael tropeçou. Ponto pra .


Jantamos às nove, certo?



Sorri e digitei de volta.

Grupo de Apoio Emocional
, Ash, Calum, ...


Michael tropeçou. Ponto pra .


Jantamos às nove, certo?

Já estamos indo.



*

Voltamos pro hotel com a fome de quem tinha feito um show, dado entrevista, tocado ao vivo e enfrentado luzes brancas o suficiente pra enxergar o passado. Calum quase dormiu no carro. Ash não parava de falar das coisas que sua mente resgatou da noite passada e Michael passou o caminho inteiro assistindo o vídeo que havia gravado enquanto todos estávamos bêbados.
Quando chegamos, elas já estavam na recepção. Todas de roupa trocada, mais bem vestidas do que a gente. Aparentemente, elas tinham tido tempo de existir como pessoas normais depois da pipoca.
— Chegamos! Sem desmaios, sem quedas e só uma ou duas vergonhas públicas — Ash nos anunciou.
— Então, oficialmente, vocês estão liberados pra jantar com a gente! — disse , se levantando da poltrona
Fomos andando até o restaurante que ficava do outro lado da rua do hotel. Um lugar iluminado, com cara de moderno. já tinha feito reserva pelo celular — com o nome de "Taylor Swift", claro — e conseguimos uma mesa longa no fundo, com vista pra cidade iluminada.
— Esse é o tipo de restaurante que serve água em garrafinha com nome francês? — Michael perguntou, examinando o cardápio como se fosse um livro de ficção científica.
— Se for, eu vou pedir duas — disse , sem levantar os olhos.
Calum puxou a cadeira ao lado dela, como se já fosse costume e Ash sentou ao meu lado, empurrando o copo de água com gás para longe.
— Não confio em água que borbulha — murmurou.
O garçom chegou e fizemos os pedidos entre piadas, comentários aleatórios e tentando convencer o Michael de que "salmão com maracujá" era uma boa ideia.
— Eu só como peixe que tem nome fácil — ele insistia. — Tipo "atum".
— Infantil — respondeu, pegando o cardápio da mão dele.
A comida chegou rápido e, por alguns minutos, o som de talheres e garfadas felizes tomou conta. Ash mergulhou o pão num molho aleatório. roubou metade da minha batata sem pedir. Calum e dividiram um prato como se aquilo fosse completamente normal — e, de certa forma, até que era.
— Isso aqui foi um bom início de turnê — murmurei, olhando em volta.
— Caótico — corrigiu.
— Exatamente. — Sorri.
— Vocês perceberam que esse foi nosso último jantar em Los Angeles? — disse Ash, depois de um tempo.
— Pois é — respondeu. — Hoje à noite já pegamos estrada. Próxima parada: Phoenix.
— A vida na estrada começa oficialmente em… — Michael olhou o relógio. — Quatro horas.
— Vocês acham que dá tempo de dormir? — perguntou.
— Não — respondemos todos, em uníssono, e rimos. Porque era verdade.
Naquela madrugada, a gente ia deixar Los Angeles. Mas por enquanto… ainda tínhamos sobremesa na mesa.


Capítulo 3


(POV Rivers)

A primeira coisa que eu senti quando acordei foi a vibração do tourbus desacelerando. A segunda foi que meu cabelo estava completamente grudado na lateral do meu rosto — efeito colateral de dormir em uma das beliches em posição fetal, sem travesseiro e com a blusa virada do avesso.
Abri um olho devagar, piscando contra a luz fraca do amanhecer que atravessava a cortina mal fechada da janela.
— Chegamos? — murmurei, a voz rouca, não sabendo se estava sonhando ou só meio viva.
, do lado oposto, encolhida num moletom duas vezes maior que ela, levantou o polegar sem abrir os olhos.
O ônibus finalmente parou por completo, e só então percebi que o resto da banda também estava em estado vegetativo: deitada parecendo uma sombra, ou um cadáver, toda coberta, da cabeça aos pés, dormindo na parte de cima do beliche, com os fones ainda no ouvido e uma baqueta caída no chão.
Puxei meu celular pra ver a hora. 07h12.
A porta lateral se abriu e, minutos depois, alguém bateu de leve na entrada.
— Meninas, chegamos no hotel — uma voz da produção avisou, num tom gentil de quem sabe que está lidando com seres humanos quebrados.
Cambaleamos para fora do ônibus, uma a uma, de moletom, cabelo preso com presilha torta e olheiras assumidas. A brisa do deserto era diferente — seca, com cheiro de estrada, asfalto morno e café vindo de algum lugar próximo.
Do outro lado do estacionamento, o tourbus número dois estava nas mesmas condições: cortinas fechadas, ninguém saindo.
— Acham que eles ainda tão vivos lá dentro? — perguntei, bocejando.
— Ou mortos por dentro respondeu, encostando no corrimão com o capuz cobrindo o rosto.
Como se ouvissem, a porta do ônibus se abriu e, um a um, os meninos foram surgindo: Luke com o cabelo todo amassado, Michael com um copo de energético já na mão (de onde ele tirou isso, ninguém sabe), Ashton tentando colocar o tênis sem parar de bocejar e Calum com o zíper do casaco pela metade com uma cara de "não falem comigo antes das 9h".
A troca de olhares entre os dois grupos foi silenciosa, solidária. A vibe era clara: ninguém dormiu direito, todo mundo fede a estrada e ninguém tem moral pra julgar ninguém.
— Bom dia ou algo próximo disso — Ash falou primeiro, a voz ainda meio arrastada.
— Parece que fomos atropelados por um caminhão emocional — respondeu, espreguiçando os braços.
— E o caminhão voltou pra dar ré — Mike completou.
Luke passou por mim e disse um "bom dia" baixo, quase como se fosse um segredo. Não sei por quê, mas fiquei prestando atenção nos passos dele enquanto ele seguia pro saguão. Só por dois segundos. Nada demais. Só… sei lá. Coisa de cérebro lento.
Entramos no hotel em um grupo silencioso e desalinhado. A recepcionista provavelmente já estava avisada, porque entregou os cartões dos quartos como quem lida com uma banda de zumbis todos os dias. Dois quartos com suítes internas, do mesmo jeito que em L.A.
— Dez minutos de silêncio absoluto ou eu morro — murmurei, quando entramos no quarto das meninas.
— Combinado — respondeu, já tirando o tênis e jogando no canto do quarto.
Enquanto as outras iam direto pros banheiros ou mergulhavam na cama, eu fui até a janela. Phoenix era bem diferente de Los Angeles. Mais seco, mais espaçoso. Os prédios pareciam mais baixos, o céu mais largo. Ainda eram sete da manhã, mas o sol já batia com força.
Fiquei ali por uns segundos, sem pensar em muita coisa. Só deixando o corpo entender que estávamos em outra cidade, em outro dia, que essa era a nossa rotina agora: cidade nova, hotel novo, palco novo. Era estranho. E meio mágico.
Como ainda estava cedo, decidi dormir um pouco mais. já havia tomado essa decisão antes de mim e, em poucos minutos, estava dormindo em sua cama. Apenas tirei meus sapatos e deitei na minha também, pronta para aproveitar mais algumas horas de sono.

*

Acordei com o som do alarme de tocando uma versão instrumental de alguma música do Arctic Monkeys. Eram 11h02. Minha cabeça ainda estava meio flutuando, mas pelo menos a sensação de ter sido atropelada por um ônibus tinha diminuído pra algo mais aceitável — tipo um fusquinha.
No quarto ao lado, dava pra ouvir vozes abafadas. e deviam estar vivas de novo. saiu do banheiro enrolada na toalha, o cabelo vermelho pingando nas costas e um sorriso de “agora sim sou um ser humano funcional”.
— Alguém sabe se o almoço vai ser no hotel ou se vamos sair antes do ensaio técnico? — ela perguntou, pegando o celular.
— Acho que no hotel mesmo — respondi, me espreguiçando.
Arrastei o corpo até o banheiro com a energia de quem já sabia que o dia ia ser puxado. Me arrumei devagar, com uma playlist aleatória no fundo e a eterna batalha contra o meu cabelo. Quando saí, o quarto já tinha aquele cheiro coletivo de base, corretivo e perfume de gente tentando parecer descansada.
— O grupo dos meninos mandou mensagem — anunciou, com o celular numa mão e a outra amassando os cachos. — Encontramos todo mundo no saguão ao meio-dia.
— Perfeito. Dá tempo de enfiar alguma coisa no estômago antes — disse , concentrada demais no cadarço da bota, como se estivesse resolvendo uma equação de física quântica.
Às 12h em ponto, descemos.
E lá estavam eles.
Michael encostado no balcão, com um copo de café do tamanho de um balde industrial. Luke, com um boné virado pra trás, parecia mais desperto do que qualquer pessoa deveria estar naquele horário. Ash estava envolvido numa conversa intensa com uma funcionária do hotel sobre tomadas de três pinos e Calum digitava no celular, com os fones pendurados no pescoço.
— Olha elas aí — disse Michael, levantando o copo como quem faz um brinde.
— Bom dia. Ou, sei lá, boa tarde — Ash cumprimentou. — Vocês estão com uma cara melhor que a nossa.
— Obrigada. A gente se esforça pra fingir. — respondeu.
O transporte até a arena estava esperando. Um carro para cada grupo, mas fomos todos juntos mesmo. O ensaio técnico começaria às 13h com nosso som primeiro. A equipe já estava preparando os ajustes, e a produção tinha nos pedido pra chegar prontos, só com os instrumentos em mãos.
No carro, cochilou no vidro por mais uns 10 minutos, Luke e eu discutíamos o setlist da próxima cidade — ou melhor, ele listava músicas e eu criticava as escolhas. Ash tentava escolher entre três camisetas pretas praticamente idênticas pra usar mais tarde — como se estivesse montando um look conceitual e não, tipo, repetindo a mesma vibe desde 2014.
— Essa aqui tem a gola um pouco mais aberta — disse ele, sério.
— Parabéns. Um centímetro de personalidade — Calum comentou, sem tirar os olhos do celular, com um sorrisinho discreto.
A gente riu.
Chegamos na arena e fomos direto pro backstage. O som das caixas sendo testadas já ecoava lá dentro, os cabos no chão sendo presos com fita, microfones passando por aquele típico "teste, um, dois, som, som,". A equipe de luz estava ajustando o painel, e os telões piscavam entre azul e branco, alternando o fundo pra cada banda.
Um técnico apareceu com um sorriso simpático e um tablet na mão.
— Sirens, vocês começam o ensaio às 13h15 no palco. Se quiserem ir plugando os instrumentos e passando os níveis… Ah, e aviso rápido: a equipe de vídeo da gravadora tá aqui hoje. Vão registrar bastidores, ensaio, trechos do show... coisa leve. Vão usar no YouTube e redes depois. Só ajam naturalmente.
ergueu uma sobrancelha.
— Naturalmente?
— Isso. Finge que a câmera não existe.
— Tipo um reality. Só que a gente não pode xingar tanto — comentou, amarrando o cabelo num coque bagunçado, com alguns cachinhos escapando.
— Exatamente — ele sorriu, já se afastando.
Do outro lado do palco, os meninos estavam com a equipe deles. Michael veio andando de costas, com um câmera man o gravando.
— Estamos aqui com a melhor girlband do mundo — ele dizia, o cara atrás da câmera a apontando pra gente. — Apesar de achar que "ensaio técnico" seja sinônimo de sessão de fotos, isso aqui é apenas um teste antes dos shows.
— Eu estou apresentável. Isso já é mais do que posso dizer de você às vezes — ela rebateu, cruzando os braços.
— Que fique registrado — ele respondeu, apontando a câmera pra si de novo. — Michael Clifford, vencido por uma mulher estilosa em menos de 12 segundos.
Enquanto isso, Ash estava com uma caixa de som portátil, tentando descobrir se conseguia tocar a própria voz gravada no microfone.
A equipe de filmagem se espalhava, captando os detalhes: montando a bateria, testando os pedais, conferindo os cabos das guitarras comigo dançando sem motivo ao fundo (ok, motivo: tinha café e eu tava feliz).
— Cadê minha palheta vermelha com glitter? — revirei o estojo pela terceira vez, o desespero começando a subir como uma maré lenta e inevitável.
— Você tem QUATRO palhetas — lembrou, sem nem olhar pra mim, mas já com aquele tom de quem sabe exatamente pra onde essa conversa vai.
— E cada uma tem uma função emocional específica, sim, eu sei… — completei, empurrando umas baquetas e papéis amassados pelo caminho. — A preta é pra quando eu tô com raiva. A azul é pra quando preciso de foco. A dourada é o meu amuleto da sorte e…
— ...e a vermelha é pra quando você precisa lembrar por que começou a tocar — completou a frase comigo, com um sorrisinho leve, como se fosse uma piada interna antiga demais pra morrer.
— Exato — confirmei, dramatizando como se fosse um discurso de Oscar.
Continuei a busca, com um pouco mais de calma agora, e finalmente achei a palheta vermelha enfiada entre duas folhas velhas de setlist.
Segurei como se fosse uma relíquia sagrada.
— Achei — disse, baixinho, mas com a vitória estampada na cara.
Enquanto isso, do lado dos meninos, Ash conseguiu finalmente fazer o microfone reproduzir o áudio dele mesmo dizendo "ensaaaaaio". O eco ficou tão horrível que todos viraram na hora.
— Isso é o som do inferno te mandando mensagem — gritou pra Ash, que rapidamente deixou a caixinha de lado e fingiu que nada havia acontecido.
O ensaio começou oficialmente depois de muitos cabos enrolados, piadas aleatórias e um pequeno embate entre Luke e sobre qual volume era "médio" de verdade.
A gente passou o setlist inteiro sem pausas longas — música por música, afinando pequenas coisas, ajustando volumes, testando harmonias. Era só o segundo show, mas já dava pra sentir a diferença.
Logo depois, os meninos subiram no palco pro ensaio deles. A troca foi rápida — Ash já trocando baquetas com , Calum esbarrando de leve em no caminho e dizendo "boa sorte com os cabos soltos", Luke deixando o afinador cair e Michael dizendo que era charme acidental.
Eles também passaram o show deles inteiro, praticamente a tarde toda. À medida que as horas avançavam, o cansaço batia, mas ninguém reclamava. A energia da equipe, o som da arena vazia e o eco das músicas pareciam segurar todo mundo de pé.
Perto das 16h, Becca, a assistente de produção, apareceu com o cronograma final do show nas mãos e um café na outra.
— Vocês vão tocar "Teenage Dream" juntos hoje, certo?
— Isso mesmo — Luke confirmou. — E no próximo show trocamos. Vai ser uma por show.
— Bonito isso. Estilo "versão deluxe" da amizade — Becca comentou, anotando no celular.
Subimos novamente pro palco com eles, cada uma nos nossos instrumentos, testando a entrada da Teenage Dream. Era estranho o quanto aquilo parecia certo. O jeito que Calum cantava com nas partes do refrão. O modo como Ash e se entendiam só com batidas. Luke e eu dividindo um pedal de efeito como se tivéssemos ensaiado isso a vida toda. e Michael brincando com harmonia de backing vocal como se fossem parceiros de banda há anos.
Era o segundo show. Mas ali, naquele palco, parecia o centésimo.
Depois da última nota, os técnicos começaram a desmontar o palco para transição pré-show e Becca bateu palmas de leve.
— Ok, galera. São 17h. O público começa a entrar em meia hora. Show previsto pras 19h. Hora de correr.
Aquela frase foi como acionar um cronômetro invisível.
Nos separamos dos meninos num rápido "até já" e fomos direto pro camarim.
As maquiadoras se revezavam com pincéis e delineadores, enquanto a produção espalhava cabos, roupas e snacks por todos os cantos. O cheiro era uma mistura de spray de cabelo, base, frutas cortadas e… wraps de frango.
Eu comia um, sem nem ter certeza se estava com fome ou só nervosa.
estava sentada no chão, de perna cruzada, mordendo o próprio wrap como se fosse a última refeição antes de um apocalipse. montava uma playlist qualquer no celular — alguma coisa animada, com batida suficiente para nos mantermos acordadas e a adrenalina alta. estava parada em frente ao espelho, enquanto uma das maquiadoras arrumava o delineado dela com a precisão de um cirurgião.
As roupas estavam alinhadas em cabides. O figurino da noite seguia a vibe que já era nossa marca: preto, couro, saias, recortes estratégicos, com cada uma colocando um toque próprio. Saímos da frente do espelho quando a última passou spray no cabelo e demos aquele olhar coletivo que dizia: "tá, agora vai".
E quando piscamos… já era hora.
O som da plateia subia como uma maré do outro lado da parede. As luzes do palco começaram a mudar de cor. Técnicos corriam de um lado pro outro no corredor, cabos sendo puxados, rádios apitando. Um deles nos entregou os microfones, checou transmissores, fez aquele último sinal com a mão.
Enquanto nos posicionávamos na lateral do palco, ouvimos passos apressados vindo de trás — e então as vozes dos meninos, meio ofegantes.
— Boa sorte, meninas! — gritou Michael, batendo palmas.
— Arrebentem! — Ash completou, apontando para nós.
Eles não tinham conseguido chegar a tempo de ver a gente subir, mas estavam ali agora, encostados nos equipamentos, vibrando como se fossem nosso fã-clube particular.
O técnico deu o último sinal com a mão e então subimos as escadas do palco com o coração disparado.
A primeira batida da na bateria ecoou direto no meu peito como uma confirmação: era real, de novo. Era o segundo show, e Phoenix não ficou atrás nem por um segundo.
A plateia era um mar de braços erguidos, luzes de celulares, gritos que a gente mal conseguia distinguir. E, quando cantou os primeiros versos de Magnetic Pulse, o estádio inteiro respondeu. Era diferente de Los Angeles — não melhor, só... mais intenso. Como se o público já soubesse o que esperar e mesmo assim estivesse impressionado.
Eu me posicionei com a guitarra, troquei olhares com e respirei fundo.
Na terceira música, quando soltou o primeiro "Phoenix, vocês estão vivos aí?", o retorno quase estourou de tanta gente gritando de volta.
E o mais surreal? Eles sabiam as letras.
Dava pra ouvir. As vozes lá de baixo acompanhando os refrões, os braços levantados, as expressões de gente que tava ali com a gente — não só assistindo, mas vivendo aquilo.
Em Wild Hearts, eu literalmente parei de tocar por meio segundo só pra ouvir o som deles. As vozes lá de baixo. Centenas, milhares cantando com a gente. E foi ali, naquele instante, que caiu a ficha: não era só sorte. A gente tinha chegado ali por mérito. E as pessoas sabiam disso.
dançava enquanto dedilhava, puxava o público no refrão, girava as baquetas no ar entre uma batida e outra, e eu... eu só curtia. Curtia como se fosse o último show da vida.
Tocar ali, naquela altura do show, era como desligar a cabeça e ligar só o corpo. Os dedos se moviam no automático, seguindo caminhos que eu conhecia melhor do que conhecia a mim mesma. Era sempre assim.
Por mais que a ansiedade me mastigasse por dentro antes de cada entrada de palco, no minuto em que os acordes começavam, tudo sumia. Era como se o barulho da plateia, o calor das luzes, os cabos espalhados e até os meus próprios pensamentos virassem só… plano de fundo.
Quando a última música terminou, com um acorde forte e as luzes em vermelho vibrante, a arena explodiu. Palmas, gritos, assobios.
Nós nos olhamos no palco, ainda meio sem fôlego, os corações batendo rápido. Descemos pela lateral, ainda zonzas.
Os meninos estavam no backstage, esperando.
— QUE SHOW! — Ash gritou, batendo palmas alto.
— Sério, vocês são um evento — disse Mike, com os olhos arregalados.
— Eles cantaram com vocês do começo ao fim — Luke comentou, impressionado.
estava com o rosto vermelho de calor e sorriso grande demais pra tentar disfarçar qualquer coisa.
— Foi surreal — disse ela, ofegante.
— Vocês foram incríveis — Calum comentou, sem exagero, e tinha um certo orgulho na voz dele.
— Meninos, é agora. Se posicionem — Becca quem avisou. Era nossa deixa. Desejamos boa sorte, pegamos nossas garrafinhas de água e seguimos com a produção até a lateral do palco.
Ficamos ali, encostadas nas caixas de retorno, ainda no escuro, esperando os técnicos finalizarem os últimos ajustes. Do lado de fora, a plateia estava em festa. Os gritos subiam numa onda constante — aquela energia coletiva que só um show ao vivo consegue gerar.
As luzes se apagaram e aí tudo começou.
A introdução de "18 " fez o público gritar de um jeito que até a parede atrás de mim pareceu vibrar. Quando os meninos entraram no palco, o som da bateria do Ash veio como uma explosão. Calum, Luke e Mike se posicionaram nos microfones com a naturalidade de quem nasceu fazendo aquilo.
Assistimos Out of My Limit, Heartbreak Girl e Don't Stop com o coração acelerado, agora por eles. Era impossível não se contagiar. Ash batucava como se fosse feito de molas, Luke comandava os vocais com aquele estilo relaxado que parecia fácil (mas não era), Calum se movia com fluidez de palco, e Mike... bom, Mike era um caos criativo em pessoa.
Quando Don't Stop terminou, as luzes baixaram por um segundo.
Mike se aproximou do microfone central, ainda ofegante, sorrindo, e disse:
— Ok, Phoenix... A gente prometeu uma surpresa diferente por show, não foi?
A plateia gritou.
— E hoje, a surpresa vem mais cedo. Porque a gente não queria esperar mais pra tocar com elas.
Mais gritos.
— Então por favor, gritem como se a vida de vocês dependesse disso… porque The Sirens estão de volta ao palco com a gente!
O barulho foi ensurdecedor.
ajeitou o baixo no ombro. girou as baquetas entre os dedos. deu um sorriso, pegando a guitarra e eu respirei fundo, fazendo o mesmo.
Subimos correndo, uma de cada vez, sob os holofotes que acenderam de novo.
A galera gritou como se fôssemos a atração principal de novo — e por um segundo, tudo pareceu girar em câmera lenta.
Nos posicionamos como ensaiado.
Eu fui direto pro lado do Luke, onde dividíamos o pedal de distorção, quase como se fosse um código interno.
se posicionou com Michael, os dois rindo de alguma coisa entre eles. Lá no fundo, Ash ajeitava a bateria e já estava ao lado girando uma das baquetas nos dedos como sempre fazia antes de começar. parou ao lado do Calum. Os dois se olharam por um segundo, ele sussurrou algo em seu ouvido, ela riu e então voltaram a encarar a plateia, como se nada tivesse acontecido.
Enquanto ajustava o volume da guitarra, reparei no jeito que ele mordia de leve o piercing no lábio inferior, concentrado nos próprios acordes, como se o mundo lá fora não existisse. Tinha uma coisa no Luke durante os shows… uma energia meio calma, meio elétrica… como se ele carregasse o palco inteiro nas costas e ainda assim fizesse parecer fácil.
Por um segundo, me peguei olhando demais. Mas só por um segundo.
Dei o primeiro acorde junto com ele. A guitarra entrou limpa, simples.
Logo depois, e Michael seguiram com os acordes complementares. Em seguida, vieram os baixos. e Calum entraram juntos, criando aquela base sólida que fazia tudo vibrar no chão. As baterias explodiram logo depois, num ritmo espelhado — e Ash perfeitamente sincronizados.
E então, Luke começou a cantar:

"I think you're pretty without any make up on
(Eu acho você bonita sem nenhuma maquiagem)
think you're funny when you tell the punchline wrong
(Eu acho você engraçada quando erra a piada)
I know you got me, so I let my walls hang down, down…
(Eu sei que você me conquistou, então deixo minhas defesas caírem)"


A plateia já estava cantando junto. Cada verso ecoava mais alto do que o anterior.
Calum foi o próximo. Ele se virou um pouco pra e cantou com aquele sorriso de canto de boca, como se estivesse falando só pra ela.

"Before you met me, I was alright
(Antes de você me conhecer, eu estava bem)
But things were kinda heavy, you brought me to life
(Mas as coisas estavam meio pesadas, você me trouxe à vida)
Now every February, you'll be my valentine, valentine…
(Agora, todo fevereiro, você será meu namorado, meu namorado…)"


riu de leve e balançou a cabeça, mas continuou firme no baixo. O público, claro, percebeu — e vibrou ainda mais.
Luke continuou, puxando todo mundo com ele:

"So let's go all the way tonight
(Então vamos até o fim essa noite)
No regrets, just love
(Sem arrependimentos, só amor)
We can dance until we die
(Nós podemos dançar até morrer)
You and I, we'll be young forever…
(Você e eu, seremos jovens para sempre…)"


E então, todos nós — todos mesmo — entramos no refrão principal. Era impossível não se arrepiar com a plateia gritando junto:

"You make me feel like I'm living a teenage dream
(Você me faz sentir como se eu estivesse vivendo um sonho adolescente)
The way you turn me on
(O jeito que você me enlouquece)
I can't sleep, let's run away
(Não consigo dormir, vamos fugir)
And don't ever look back, don't ever look back (hey!)
(E nunca olhe para trás, nunca olhe para trás)

My heart stops when you look at me
(Meu coração para quando você olha pra mim)
Just one touch, now baby, I believe
(Apenas um toque, agora amor, eu acredito)
This is real, let's take a chance
(Isto é real, vamos arriscar)
And don't ever look back, don't ever look back…
(E nunca olhe para trás, nunca olhe para trás…)"


No verso seguinte, foi quem assumiu os vocais. Ela se aproximou do microfone do Calum e cantou com a voz forte e segura, mas com aquele toque provocativo, olhando pra ele, como se fosse uma resposta:

"We drove to L.A., camped out on the beach
(Dirigimos até Los Angeles, acampamos na praia)
Got a motel and built a house out of sheets
(Alugamos um motel e fizemos uma cabana com lençóis)
I finally got you, my missing puzzle piece
(Eu finalmente te encontrei, minha peça que faltava)
I'm complete…
(Estou completa…)"


Calum, que ainda segurava o baixo, só deu uma leve risada, claramente se divertindo com a brincadeira deles durante a música.
Depois disso, Michael tomou o microfone, como se tivesse nascido pra cantar essa música.

"So let's go all the way tonight
(Então vamos até o fim essa noite)
No regrets, just love
(Sem arrependimentos, só amor)
We can dance until we die
(Nós podemos dançar até morrer)
You and I (here we go), we'll be young forever…
(Você e eu (lá vamos nós), seremos jovens para sempre…)"


O segundo refrão foi ainda mais alto. O público cantava como se a música tivesse sido feita pra eles.

"You make me feel like I'm living a teenage dream
(Você me faz sentir como se eu estivesse vivendo um sonho adolescente)
The way you turn me on
(O jeito que você me enlouquece)
I can't sleep, let's run away
(Não consigo dormir, vamos fugir)
And don't ever look back, don't ever look back
(E nunca olhe para trás, nunca olhe para trás)

'Cause my heart stops when you look at me
(Porque meu coração para quando você olha pra mim)
Just one touch, now baby, I believe
(Apenas um toque, agora amor, eu acredito)
This is real, let's take a chance
(Isto é real, vamos arriscar)
And don't ever look back, don't ever look back…
(E nunca olhe para trás, nunca olhe para trás…)"


E então chegou a minha vez. Luke virou o microfone na minha direção, e eu dei um sorrisinho:

"'Cause I can feel your heart racing in my skin tight jeans
(Porque eu posso sentir seu coração disparando nas minhas calças justas)
'Be your teenage dream tonight…
(Ser seu sonho adolescente esta noite…)"


veio logo em seguida, sorrindo, e cantou a parte dela.

"Let you rest your hands on me in my skin tight jeans
(Deixe suas mãos descansarem em mim nas minhas calças justas)
Be your teenage dream tonight…
(Ser seu sonho adolescente esta noite…)"


— Se vocês sabem a letra, por favor, cantem com a gente! One, two, three, hey! — Ash gritou, dando o sinal.
Os instrumentos pararam. Só vozes agora. Todos nós cantamos juntos, o estádio inteiro num coro único:

"'Cause you make me feel like I'm living a teenage dream
(Porque você me faz sentir como se eu estivesse vivendo um sonho adolescente)
The way you turn me on
(O jeito que você me enlouquece)
I can't sleep, let's run away
(Não consigo dormir, vamos fugir)
And don't ever look back, don't ever look back…
(E nunca olhe para trás, nunca olhe para trás…)"


E então tudo voltou com força.

"Cause my heart stops when you look at me
(Porque meu coração para quando você olha pra mim)
Just one touch, now baby, I believe
(Apenas um toque, agora amor, eu acredito)
This is real, let's take a chance
(Isto é real, vamos arriscar)
And don't ever look back, don't ever look back…
(E nunca olhe para trás, nunca olhe para trás…)"


A música terminou com as luzes piscando e um acorde sustentado que vibrou até o chão. O público explodiu. Literalmente. Gritos, palmas, braços pra cima.
As luzes baixaram por um segundo, só o suficiente pra dar aquele suspiro de finalização. A galera ainda gritava, o eco das últimas notas ainda vibrava sob nossos pés, e foi aí que Calum se aproximou do microfone, sorrindo, com a respiração acelerada.
Phoenix... a gente ainda vai tocar muito nessa turnê, mas vocês vão lembrar dessa noite… Porque elas fizeram parte disso — ele concluiu, apontando pra gente com o baixo pendurado no ombro e aquele sorriso de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
riu e se curvou de leve. jogou um beijo pro público, ergueu as baquetas no ar e eu acenei com a guitarra ainda pendurada, sentindo meu rosto doer de tanto sorrir.
Obrigada, Phoenix! gritou no microfone, antes de recuar com a gente pela lateral.
Nós saímos rindo do palco, meio ofegantes, enquanto os meninos reassumiam suas posições pro restante do set.
No backstage, algumas pessoas da equipe bateram palmas quando passamos. Becca apareceu com garrafinhas de água e disse "arrasaram" com um sorriso sincero. quase deitou no chão de tanto cansaço, mas preferiu cair no sofá do canto, o baixo ainda no colo.
— Foi melhor do que ontem — disse , com os olhos brilhando.
— Depois de amanhã vai ser ainda melhor ainda — respondeu, ainda com as baquetas nas mãos.
Dava pra ouvir o início da próxima música começando lá fora — Heartache on the Big Screen. As luzes do palco voltaram a girar e a plateia continuava ensandecida.
Nós ficamos ali, sentadas no backstage, ouvindo eles tocarem e tentando colocar o coração de volta no lugar.

(POV Michael Clifford)

As últimas notas de She Looks So Perfect ecoavam no palco como uma espécie de grito coletivo de "acabamos, mas poderíamos continuar pra sempre". O público estava ensandecido. Gritando, pulando, suando junto com a gente — e sinceramente? Eu também estava. Tudo doía um pouco, mas de um jeito bom.
Joguei uma palheta pra plateia, que quase virou uma disputa olímpica. Olhei pro lado e vi Luke com a camiseta quase colando no corpo de tanto suor, Ash sorrindo como se tivesse ganhado uma maratona e Calum ainda encarando a multidão como quem tá tentando guardar aquilo na memória pra sempre.
Foi aí que percebi que estava sorrindo também. Tipo, de verdade.
A gente deu tchau, agradeceu umas três vezes, Calum mandou um beijo dramático, Luke gritou "PHOENIX VOCÊS FORAM INSANOS" e Ash bateu nas baquetas uma última vez, só pra garantir.
Saímos correndo pela lateral do palco, ainda ofegantes, ainda meio tontos de luz e barulho.
No backstage, as meninas estavam sentadas, com cara de que tinham acabado de viver o mesmo furacão que a gente. estava bebendo água de um jeito que parecia brigar com a garrafinha. ria de alguma coisa que só ela achava engraçada. mexia no celular e …tinha um guardanapo na cabeça. De novo.
— Isso é moda agora? — perguntei, me aproximando dela. — Ou é um protesto silencioso contra a vida?
— É estilo — ela respondeu. — Você não entenderia.
— Eu entendo tudo. Inclusive que você está muito confortável no sofá que eu tava de olho.
Ela olhou pra mim, ergueu uma sobrancelha e deu um tapinha no braço do sofá.
— Compra outro.
Tive que rir. era um caos calmo. Um paradoxo ambulante. E eu... bem, eu tinha fraqueza por gente assim.
— Ok, pessoal… — disse Luke, pegando uma toalha da equipe e jogando no ombro. — Alguém quer morrer ou vamos comer?
— Comer — responderam umas quatro vozes ao mesmo tempo.
— O que tem? — perguntou.
— Pizza, aparentemente — respondeu Ash, mostrando o celular com uma mensagem da produção.
— Pizza. Gloriosa pizza — murmurei, como se estivesse vendo o amor da minha vida.
— A produção mandou direto pro hotel. Tem até refrigerante — completou Calum, já pegando a mochila.
O caminho até o hotel foi meio sonâmbulo. Todo mundo meio moído, meio elétrico, falando baixo como se não quisesse que o cansaço percebesse que a gente ainda estava acordado.
Chegando lá, encontramos as caixas de pizza esperando por nós no lounge do andar — e parecia cena de filme adolescente. Rastejamos pra lá como zumbis modernos, cada um pegando uma fatia como se fosse uma medalha.
estava com uma camiseta gigante e um short jeans, descalça, sentada no carpete. colocou música baixa no celular. arrumou os cabelos num coque e já parecia em modo análise de setlist do show seguinte. E pegou o último pedaço de pepperoni. Que eu claramente tinha mirado.
— Isso foi pessoal — falei, encarando ela.
— Sempre é — ela respondeu, com a boca cheia, e me ofereceu metade da fatia.
Aceitei. Mas fiz drama.
— Isso é quase romântico. Vai acabar me iludindo.
Ela revirou os olhos, mas sorriu.
A caixa da pizza já estava praticamente vazia quando Luke soltou um suspiro dramático, deitado de barriga pra cima no carpete com um travesseiro improvisado feito de casaco.
— Se eu morrer aqui, que seja com queijo e glória.
— Glória nenhuma com essa camiseta suada — rebateu, jogando uma almofada nele.
— É suor de vitória — ele respondeu, com os olhos fechados. — Eu toquei Teenage Dream com duas guitarras e um microfone compartilhado. Eu vivi.
— Você sobreviveu — corrigiu, com a cabeça apoiada no ombro da . — Mal, mas sobreviveu.
sorriu.
— A parte da dança sincronizada de Luke com foi meio desconcertante. Emocionante, mas desconcertante.
— Emocionante pra quem? — Ash perguntou, fingindo indignação. — Eu estava ali suando atrás da bateria, sendo um pilar rítmico e ninguém nem olhou pra mim.
— Você não estava suando — disse , deitada com as pernas pra cima encostadas na parede. — Você estava molhado de arrogância.
— Achei poético — murmurei, pegando uma garrafinha de água. — Quero isso numa camiseta.
— Quero "molhado de arrogância" tatuado — acrescentou, rindo. — Ou pelo menos no próximo set de merchandising.
— Aliás… — Luke começou, como se tivesse se lembrado de algo e virou para Calum e , encarando-os. — Vocês vão seguir com esse teatrinho de "vou cantar olhando nos olhos dele"?
— É só provocação — respondeu, dando de ombros e sorrindo de canto. — Os fãs gostam.
— É. Agora é o nosso lance — disse Calum, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
olhou pra ele e então balançou a cabeça.
— É, acho que é mesmo.
Todo mundo fez aquele "oooooooh" coletivo, rindo.
— Enfim, casal do pop punk — falei, com as mãos levantadas. — Só quero minha parte do lucro quando tiver fanfic sobre isso.
— Sabem, a gente devia gravar isso — falou, com a boca cheia. — Não um documentário. Só… essas conversas. Essas partes.
— Um making of dos bastidores — disse Luke. — "A verdadeira tour: menos glamour, mais carboidrato."
— "The Sirens & 5SOS: uma odisseia em queijo" — Ash sugeriu.
— Eu compraria esse DVD. — falou, séria.
— Ninguém mais compra DVDs — retrucou Calum.
— Tá, então um vídeo no YouTube. Com legendas automáticas erradas e título em caps lock.
— E thumbnail confusa — acrescentei. — Tipo: " CAIU NO PALCO?! NÃO ACREDITO"
— Ei! — protestou. — Eu não caí. Quase tropecei. Totalmente diferente.
Ficamos alguns segundos só rindo. Nada demais, mas era como se o cansaço deixasse tudo mais engraçado.
— Ok, perguntas aleatórias — anunciou Luke, do nada. — Jogo rápido. Se vocês não fossem músicos, seriam o quê?
— Detetive paranormal — respondeu de imediato.
— Barista sarcástica — disse .
— Designer de tatuagem para cachorros — falou , fazendo todos rirem.
— Nutricionista de fast food. — disse , com orgulho.
— Eu queria ser mágico — Ash comentou, sério demais.
— Você? — perguntei. — Mal consegue fazer seu casaco desaparecer da cadeira.
— Mas consigo desaparecer com sua paciência — ele respondeu, e eu só levantei os braços em rendição.
— E vocês? — nos olhou, desafiadora.
— Técnico de som disfarçado — falei. — Que na verdade é o vocalista de uma banda secreta.
— Empresário de bandas indie falsas — disse Luke. — O famoso "não sou artista, sou conceito".
— Professor de história — Calum só deu de ombros.
Todo mundo virou o rosto ao mesmo tempo.
— Sério? — perguntou.
— Sério. Eu gosto de coisas antigas — ele deu um meio sorriso.
— Isso explica o estilo de roupa — murmurei, arrancando risadas.
O tempo passou sem ninguém perceber. As conversas foram diminuindo até virarem só comentários soltos. Alguém bocejou. estava quase dormindo com a cabeça no colo da . começou a mexer no celular e Ash também, mas claramente lendo memes um do lado do outro e tentando não rir.
Ficamos exatamente naquela formação — largados no chão do hotel entre almofadas, copos vazios e restos de pizza — por mais umas três horas. Sem planos. Sem pressa. Só existindo.
Foi somente quando bocejou alto e anunciou com a dignidade de quem viveu mais do que devia num só dia:
— Tá, eu me rendo. Vou pro quarto antes que durma aqui mesmo.
Então, uma a uma, as meninas foram levantando, meio lentas, pegando seus casacos, abraçando qualquer coisa que parecesse um travesseiro no caminho.
— Boa noite, delinquentes — disse , já bocejando no meio da frase.
— Sonhem com aplausos — acrescentou, piscando pro grupo.
Nos despedimos num daqueles momentos meio bagunçados e sonolentos, com abraços desajeitados e um ou outro "até daqui a pouco" murmurado.
Aproveitei para tomar um banho e me jogar na cama, pronto para ter uma noite de sono digna.


Capítulo 4


(POV Wells)

Acordei com o som de uma notificação no grupo que dizia, em letras garrafais:

Grupo de Apoio Emocional
, Ash, Calum, ...

Michael
HOJE NÃO TEM SHOW, VAGABUNDOS. VAMOS VIVER.



Rolei na cama, enterrei o rosto no travesseiro e fiquei ali mais uns minutos, tentando me convencer de que ainda dava tempo de fingir que a realidade era opcional. Até que entrou no quarto.
— Acorda ou eu vou jogar água na sua cara — disse, com uma voz doce que claramente escondia más intenções.
— São dez e meia da manhã. O que você quer de mim? — murmurei, sem sair debaixo do travesseiro.
— O mundo. A sua dignidade. E talvez um café.
Me rendi e levantei devagar, me arrastando.
Entrei no banheiro com a delicadeza de um zumbi desidratado e encarei o espelho. Cara amassada, olheiras marcadas e os fios vermelhos grudados na testa como se eu tivesse acabado de sair de um furacão. A cor ainda chamava atenção, mesmo com o caos — um vermelho queimado, mais vinho do que sangue, que eu tinha retocado na semana passada e que agora começava a desbotar nas pontas.
Soltei o cabelo, passando os dedos entre os fios pra tentar desfazer os nós. Por um segundo, pensei em como meu cabelo parecia ainda mais bagunçado que o do Michael.
E isso era dizer muito.
Depois de um banho e café com gosto de papelão que veio do serviço de quarto, finalmente estávamos todas reunidas no quarto principal das meninas. mexia no celular, estava fazendo trança na e eu terminava meu segundo croissant de hotel.
— Ok, vamos decidir. O que vocês querem fazer hoje? — perguntou, largando o celular no colo.
— Dormir — respondi de imediato.
— Já fez isso. Agora propõe algo que envolva sol e atividade social — rebateu, sem nem olhar.
— A gente podia fazer uma trilha — sugeriu. — Phoenix tem umas áreas lindas no deserto. O pôr do sol deve ser surreal.
— E quantos escorpiões você acha que vamos ver? — perguntei, erguendo uma sobrancelha.
— No máximo três — ela respondeu, com a tranquilidade de quem assiste documentário do Discovery antes de dormir.
— Ótimo. Mal posso esperar pra virar estatística.
— Eu topo — disse . — Mas só se tiver comida envolvida. Tipo piquenique vibe Tumblr.
— A gente leva lanches. Frutas. Coisas chiques — sugeriu.
— E batata Ruffles — completei, feliz.
A ideia ganhou força quando os meninos apareceram no nosso quarto com a mesma cara de pós-show: olheiras, cabelo bagunçado e fome existencial.
— Vocês tão falando de comida? — Ash perguntou, com um brilho genuíno nos olhos.
— E de exercício — Luke completou, já fazendo careta.
— Uma trilha. No deserto — anunciou, animada.
— E a gente vai ter que andar? — Calum questionou, com o mesmo tom de quem foi convidado pra um crime.
— Só um pouco. Vai ter lanches no final — explicou, como se estivesse lidando com um bando de crianças de sete anos.
— Me convenceu — disse Michael. — Mas eu só vou se a gente puder fazer piada ruim no caminho e tirar uma foto conceitual olhando pro nada.
— Isso é mandatório — eu respondi.
Ficou combinado: sairíamos às 14h com mochilas, garrafinhas de água e a promessa de um pôr do sol bonito o suficiente para compensar o esforço.
— Se alguém passar mal, eu jogo no Instagram com a legenda "A arte exige sacrifícios" — Luke comentou, já preparando a playlist da van.
Depois de nos trocarmos e colocarmos roupas leves e confortáveis, nos encontramos no hall do hotel. Descobrimos que a produção tinha dado folga até do motorista, então Luke foi eleito — ou se elegeu, com uma confiança preocupante — para dirigir a van.
— Confia, eu jogo Mario Kart desde os sete — disse ele, pegando a chave com um sorriso perigoso.
— Isso não é encorajador — murmurei, subindo na parte de trás com a mochila nas costas.
A primeira parada foi no mercado, que virou um evento à parte. Dividimo-nos em grupos, como se fosse uma missão da vida real: snacks, frutas, bebidas e alguma forma de carboidrato que aguentasse o calor do deserto.
— A gente precisa de morango — falou, decidida, analisando as caixinhas como se fossem peças de xadrez.
— E chocolate — completou, jogando uma barra na cestinha.
— E salgadinhos, pra manter a humildade — disse Michael, abraçando três pacotes de Doritos como se tivesse acabado de adotar trigêmeos.
Enquanto isso, Calum estava parado diante das bebidas com ao seu lado.
— Vai levar o quê? — ela perguntou, sem olhar diretamente, mas já sabendo a resposta.
— Água — disse ele, pegando cinco garrafas com a tranquilidade de quem tomava decisões importantíssimas. Ele entregou duas pra ela sem cerimônia.
— Nossa. Que ousadia — ela comentou, recebendo as garrafas com uma sobrancelha levantada.
— Eu sou o perigo — ele respondeu, sério, e os dois trocaram um sorriso pequeno.
Na fila do caixa, Luke tentou convencer o grupo de que comprar uma melancia inteira era "vital pro conceito visual do piquenique".
— Vital pra você ter uma hérnia carregando isso — Ash comentou, pegando um Gatorade azul.
Com as sacolas jogadas na van, seguimos pro ponto de trilha em Papago Park. O lugar era lindo. Aquela beleza seca e absurda, de filme de faroeste. O céu começava a dourar, mas ainda tinha horas até o pôr do sol.
— Ok, crianças. Mochilas nas costas, garrafinha de água e comportamento exemplar — eu disse, descendo da van como se fosse guia turística.
— Você esqueceu a parte do "não morram" — completou, jogando os óculos escuros pro alto da cabeça.
A trilha era leve, mas o calor fazia tudo parecer um pouco mais dramático. Andávamos em pares, com trocas frequentes, risadas e comentários aleatórios a cada cinco minutos.
— Calum, você está com cara de quem se arrependeu — Michael falou, já suado.
— Eu não me arrependi. Só estou reconsiderando todas as escolhas que me trouxeram até aqui — respondeu, puxando a camiseta pra secar a testa.
, quer carregar o Gatorade? — Ash ofereceu, tentando parecer casual demais.
— Depende. Vai carregar minha mochila por dois minutos em troca? — ela respondeu, arqueando uma sobrancelha.
— Fechado — disse ele, já puxando a mochila dela antes que ela mudasse de ideia.
Eles seguiram lado a lado, meio calados, mas sempre rindo das mesmas coisas.
e Luke andavam mais à frente, discutindo a ordem ideal de músicas em uma playlist temática chamada "Sol, Areia e Pessoas Suadas".
— Nada de balada triste — disse . — Isso aqui é trilha, não TCC emocional.
— Mas uma Lana Del Rey no pôr do sol? Tem apelo estético — Luke rebateu.
Você tem apelo estético. A Lana só vem depois da sobremesa — disse ela, e ele sorriu sem responder.
Já eu ia mais pro meio, ouvindo tudo, tentando fingir que o sol não estava fritando meu cérebro e desejando um ventilador portátil. se aproximou, abanando com a mão.
— Aposto dez dólares que o Michael vai tropeçar antes da gente chegar no topo.
— Dez dólares e uma barra de chocolate — completei.
— Fechado.
E, como se o universo ouvisse, dois minutos depois Michael tropeçou num galho seco e quase levou Calum junto.
— Isso foi uma armadilha da natureza! — ele gritou, ofendido.
Chegamos no ponto mais alto da trilha um pouco antes do pôr do sol. A vista era absurda: o céu inteiro começando a mudar de cor, com tons laranja, rosa e dourado se espalhando atrás das formações rochosas.
jogou a toalha de piquenique que compramos no mercado no chão. Michael e Calum descarregaram os snacks, Luke tirou uma melancia inteira de dentro da mochila e uma faca — também comprada — e Ash montou o tripé do celular para registrar tudo.
Nós sentamos todos juntos. A van ficou lá embaixo, distante. Os celulares tinham sinal fraco, o vento era quente e a luz dourada deixava todo mundo com cara de clipe indie.
— Ok, isso valeu a subida — disse , mordendo um pedaço de morango.
— E a falta de ar — murmurei, bebendo água.
— Brindamos? — Luke sugeriu, erguendo o Gatorade.
— Ao deserto, ao suor e às decisões ruins que nos trouxeram até aqui — disse , erguendo o copo também.
— E às que ainda vamos tomar — completou Calum e então batemos as garrafas de leve.
O sol parecia uma bola laranja derretida no horizonte, pintando o céu com cores que nenhum filtro conseguiria imitar. A luz dourada deixava todo mundo meio cinematográfico.
Michael se sentou ao meu lado com um pacote de batata equilibrado entre os joelhos. O cabelo vermelho sangue estava ainda mais bagunçado, grudado na testa por causa do calor, mas o sorriso era o mesmo — despreocupado.
— Você tem Doritos na cara — falei, apontando.
— Isso é a minha assinatura — ele respondeu, limpando a boca com as costas da mão. — Autenticidade.
Dei um risinho e olhei pro céu, que agora parecia ter sido pintado.
— Se autenticidade tivesse cheiro, você estaria cancelado.
— E ainda assim irresistível.
A gente bateu as garrafas d'água com um leve "tchim", sem tirar os olhos do horizonte.
— Esse é oficialmente o momento mais bonito que eu já vi com vocês — disse , deitada de barriga pra cima, braços cruzados atrás da cabeça.
— E olha que a gente já dividiu camarim com três tipos de fumaça e uma luz verde suspeita — eu completei.
— Falando nisso, essa luz agora tá me fazendo pensar em mudar meu cabelo — comentou, segurando uma mecha cacheada loira e colocando contra o pôr do sol. — Talvez ruivo? Um cobre?
— Você ia parecer uma fada do deserto — disse Ash, tão rápido que todo mundo virou pra ele.
— O quê? — ele deu de ombros.
sorriu, mas não respondeu. Só pegou mais um morango.
— Se vocês pudessem estar em qualquer lugar do mundo agora… estariam aqui? — Calum perguntou, do nada e todo mundo ficou em silêncio por uns segundos.
— Sim — respondeu primeiro. Estava sentada com os joelhos dobrados, olhando o céu. — Tipo… eu tô exausta, com o cabelo uma zona e o tênis esfolando meu calcanhar, mas sim. Eu queria exatamente isso.
— Concordo — disse Luke, esticando as pernas.
Por um segundo, pensei em responder também. Mas só balancei a cabeça. Porque sim, eu também queria estar ali — mesmo no calor absurdo, com as bochechas vermelhas, o cabelo colado na nuca e o gosto de Doritos na boca.
— Ok, hora das fotos — Michael anunciou, se levantando com o celular em mãos. — Precisamos registrar esse momento antes que a gente volte a parecer cansado e derrotado.
— A gente já parece — murmurei.
— Mas com dignidade — completou.
Ash foi o segundo a levantar, ajeitando o cabelo no reflexo do celular.
— Eu quero aquela foto olhando pro horizonte como se estivesse repensando a vida.
— E você repensa a vida? — perguntei.
— Só em trilhas e dias muito quentes — respondeu sério.
— Tá, vamos fazer essa. Todo mundo olhando pro mesmo ponto aleatório. — Michael apontou pro deserto. — Mas tipo... com intensidade. Como se aquele cacto ali tivesse nos contado um segredo muito profundo.
— Que tipo de segredo um cacto contaria? — perguntou.
— Que a vida é seca, mas você pode florescer mesmo assim — respondeu, já com as mãos na cintura, posando como uma heroína do faroeste indie.
A gente entrou na vibe. Um a um, fomos nos posicionando: braços cruzados, cabeças inclinadas, expressões reflexivas. Luke até fingiu que estava emocionado. Ash fez cara de poeta deprimido. cruzou os braços e inclinou levemente a cabeça. Eu só fiquei séria o suficiente pra parecer profunda sem parecer que tava segurando o riso.
— Perfeita — disse Michael, tirando a foto. — Essa vai pro feed com a legenda: "Desertos externos, flores internas."
— Isso nem faz sentido — disse Calum, pensativo.
— Mas parece que faz. É isso que importa — Michael retrucou.
Depois, tiramos uma foto em grupo, todos amontoados na toalha do piquenique, rindo de verdade. Foi uma daquelas imagens espontâneas, onde ninguém tá 100% pronto, mas todo mundo parece feliz. Do tipo que você imprime e coloca num mural, só pra lembrar que teve um dia divertido. E eu provavelmente o faria, quando tudo tivesse terminado.

(POV Ashton Irwin)

O sol já tinha se escondido atrás das pedras quando começamos a descer. A luz azul do início da noite deixava tudo com cara de filme indie meio esquisito e a trilha que era bonita na ida agora parecia um pouco mais longa e poeirenta do que eu lembrava.
Eu fui um dos últimos a levantar, segurando o resto da melancia como se fosse um troféu pós-apocalipse.
— Isso vai virar smoothie no hotel, tô avisando — falei, equilibrando o peso nos braços.
— Você vai explodir a melancia no liquidificador de novo? — Luke perguntou, desconfiado.
— Da última vez foi só um acidente técnico — respondi. — E, tecnicamente, a culpa foi do botão "turbo".
A gente começou a descer a trilha num ritmo tranquilo. e Luke à frente, discutindo se um cover de Toxic da Britney funcionaria em versão acústica, e chegaram à conclusão de que sim. Michael e vinham atrás deles, dividindo uma garrafinha de água e falando sobre a diferença entre "clássico" e "vintage", o que quer que isso significasse no contexto deles.
, Calum e estavam no meio, rindo de algo que eu perdi. Eu ia com o grupo de trás, junto da minha responsabilidade chamada fruta.
Tudo ia bem até... quando parou de repente, levando a mão ao pescoço.
— Meu colar — disse ela, mais pra si mesma do que pra gente.
— O quê? — Calum virou.
— Aquele com o pingente de estrela. Não tá aqui. Eu estava com ele o dia todo — ela já girava no lugar, encarando o chão como se ele fosse cuspir a joia de volta.
— Tá no bolso? Na mochila? — perguntou, já acostumada com o caos emocional da amiga.
— Não. Eu sempre sinto ele batendo quando ando. E eu passei a mão agora há pouco. Sumiu.
— Eu amo vocês, mas a gente não vai subir isso tudo de novo por um colar — disse Michael, como quem já sabia que ia perder a discussão.
— A gente vai voltar tudo por esse colar — ela respondeu com firmeza. — Ele é importante.
— Tem valor sentimental? — Luke perguntou.
— Tem valor dramático — rebateu. — O que é quase a mesma coisa.
E foi assim que a volta da trilha se tornou uma expedição arqueológica desesperada, com celulares na lanterna, varrendo o caminho por um item que provavelmente já tinha virado parte da vegetação local.
Depois de uns quinze minutos de caça ao tesouro, Luke achou o colar preso entre duas pedras, quase como se tivesse sido colocado ali de propósito.
— Isso aqui te pertence? — disse ele, erguendo o pingente com a ponta dos dedos.
— Meu herói — respondeu, pegando o colar e já colocando de volta no pescoço.
— Eu quero um agradecimento formal no Instagram — ele completou.
— Te marco no story. Com música de fundo e tudo.
Com a missão cumprida, seguimos de volta pro estacionamento, rindo das nossas próprias desgraças. A van parecia mais longe do que antes, mas o cansaço dava um charme no silêncio.
Assim que entramos, jogamos as mochilas de qualquer jeito e seguimos de volta pro hotel. Estávamos fedendo a sol, trilha e natureza — o combo menos glamouroso possível. Assim que nos viu, a recepcionista nos lançou um olhar que misturava pena com "por favor, não sentem nos móveis".
O plano era simples: banho rápido, arrumar as malas e, se tudo desse certo, dormir um pouco antes da estrada. Mas, claro, a gente nunca segue o plano.
Joguei minhas roupas de trilha num canto e sentei na cama, ainda com a camiseta meio molhada de suor e deserto. Peguei o celular, vi que eram quase nove da noite e que ainda faltava um tempinho pra gente se reunir de novo.
Foi aí que tive a ideia.
— E se a gente fosse pra piscina do rooftop?
Levantei a cabeça, esperando reação. Michael, que estava em pé dobrando a blusa com um método completamente questionável, virou na hora.
— Tem piscina aqui?
— No topo. A recepção comentou quando a gente fez check-in. Tem espreguiçadeira, vista panorâmica e, aparentemente, "uma atmosfera relaxante para hóspedes cansados".
— Eu sou um hóspede cansado — disse Mike. — Essa frase me inclui!
Calum saiu do banheiro com o cabelo molhado, secando com a toalha.
— O que vocês estão tramando?
— Ideia de gênio do Ash. Piscina. Rooftop. Últimas horas em Phoenix.
Ele fez uma cara pensativa. Depois, deu de ombros.
— Certo. Me dá cinco minutos.
Enquanto isso, digitei rapidamente as mesmas palavras de Mike em uma mensagem e enviei no grupo com as meninas.

Grupo de Apoio Emocional
, Ash, Calum, ...

Ideia de gênio do Ash (eu). Piscina. Rooftop. Últimas horas em Phoenix.


Eu topo.


Já estou pronta.


Nos encontramos no corredor em cinco minutos.



Pouco antes das nove, nos encontramos no ponto de encontro e subimos pelas escadas do hotel, ainda com as mochilas semi-abertas, chinelos fazendo barulho no piso e as toalhas jogadas no ombro. Quando a porta do rooftop abriu, a brisa quente da noite bateu de leve. As luzes da cidade brilhavam lá embaixo e a água da piscina refletia o céu com uma calma que parecia até poética.
Michael foi o primeiro a pular. Fez um splash tão alto que Calum reclamou de verdade e gritou com o susto antes de rir.
se sentou na beirada com os pés balançando dentro d'água. Luke e estavam deitados nas espreguiçadeiras, tentando adivinhar a constelação errada pela terceira vez e prendia seu cabelo com certa dificuldade.
— Ok, quem topa fazer um "quem fica mais tempo debaixo d'água"? — Michael perguntou, passando a mão na água, se posicionando.
— Isso é seu jeitinho disfarçado de tentar vencer em alguma coisa hoje — disse Calum, mergulhando os ombros.
— Não, é o meu jeitinho de compensar a derrota no Uno dessa manhã — Mike rebateu, apontando para ele.
— Justo — ele murmurou.
e também se posicionaram. só observava com cara de juíza olímpica.
— No três! Um… dois… três!
Todos mergulharam ao mesmo tempo. A superfície ficou calma, só bolhas subindo e alguns pés boiando tortos demais pra parecerem confiantes.
Depois de exatos dez segundos, Michael emergiu fazendo cara de sufoco dramático.
— Esse cloro entrou no meu cérebro. Não é justo.
riu alto, enquanto resistia mais um tempo até perder por meio segundo pra , que saiu da água erguendo os braços.
— Eu sou um tritão. Uma lenda viva — ela declarou.
— Você é baixinha e tem pulmão de atleta. Isso foi armado — Mike acusou.
— Aceita a derrota — completou, jogando um pouco de água nele.
A água já tinha acalmado depois da competição de quem aguentava mais tempo submerso, quando Calum apareceu com aquele olhar que sempre vem acompanhado de uma ideia idiota disfarçada de estratégia genial.
— ele chamou, nadando até onde ela estava sentada na beirada da piscina, com os pés dentro d’água. — Sobe nas minhas costas.
— O quê? — ela franziu a testa, rindo. — Tá me zoando?
— Briga de galo — ele disse como se fosse a coisa mais lógica do mundo. — Vamos acabar com o ego do Luke e da .
Ela o encarou por alguns segundos, como se estivesse analisando as consequências. Depois passou as mãos molhadas no rosto e disse:
— Se você me derrubar, eu vou deixar meu baixo cair em cima do seu pé na próxima passagem de som.
— Agressiva. Gosto disso — ele murmurou, e estendeu a mão pra ela, que aceitou com um olhar rápido, meio divertido.
Ela subiu nas costas dele com facilidade, os braços passando pelos ombros dele num movimento automático demais para dois "colegas de turnê". Calum ajeitou as mãos nas coxas dela, fixando o apoio e os dois trocaram um olhar rápido, quase cúmplice, antes de se virarem pra encarar o "inimigo".
— Ok, isso tá me dando medo — Luke falou, já indo em direção ao centro da piscina com nas costas. — Olha a postura deles. Eles estão ensaiando isso há semanas.
— Isso se chama deslealdade espiritual — completou, prendendo o cabelo.
Primeira rodada: Luke e x Calum e .
Três, dois, um, vai! — eu gritei, e a batalha começou.
foi direto no ataque, os braços tentando empurrar o ombro de , mas Calum girava devagar como se fosse uma plataforma giratória humana. segurava o equilíbrio como se tivesse nascido pra isso. Riu, esquivou, e deu um empurrão certeiro no braço de — que soltou um "ai, cacete!" e desabou, levando Luke junto.
— Um a zero pra gente — Calum falou, com um sorriso pequeno enquanto ajeitava nos ombros.
— Nem doeu, vai — ela deu dois tapinhas de leve no topo da cabeça dele.
— Doeu o ego do Luke — ele murmurou.
Segunda rodada: e Michael x e eu.
Mike parecia animado demais, o que por si só já era um mau sinal.
— Vamos, , me guia. Sou seu cavalo fiel.
— Você é um pônei com tendência a tropeçar — ela respondeu, subindo nas costas dele mesmo assim.
subiu em mim e sussurrou:
— Se você me derrubar, eu vou contar pra internet que você escorregou no backstage e fingiu que tava amarrando o tênis.
— Isso era segredo — murmurei, indignado.
Começamos. Mike tentou avançar com , mas tinha técnica — desviava, voltava, equilibrava como uma ninja de reality show. Quando vi, eles já estavam prontos para finalização.
gritou um "Agora!", e me inclinou com precisão, derrubando com um toque só.
— EU GANHEI! — ela gritou, pulando na água. — EU TÔ VIVA!
saiu rindo, jogando a cabeça para trás.
— Você venceu, mas eu ainda tenho moral — disse, ajustando o top do biquíni.
Enquanto e Calum riam da arquibancada improvisada, Luke e voltaram pra revanche com Mike e — a disputa dos perdedores.
Mike, agora mais humilde, disse:
— Se perdermos de novo, a gente vai ter que dividir um Yakult por vergonha.
— Vamos só tentar não morrer afogados dessa vez — falou.
tentou atacar de lado, esquivou, Luke girou rápido como se fosse um tanque de guerra e Mike... tropeçou sozinho.
— NÃO, NÃO, NÃO… — tentou se equilibrar, mas foi tarde demais.
Vitória moral (e física) de Luke e .
Final: e Calum x e eu.
subiu com aquele sorrisinho de quem já sabia que ia ser difícil.
— Pronto pra perder a dignidade? — ela perguntou.
— Dignidade? Nunca tive — respondi, a colocando nas costas.
A batalha final começou. Água espirrando, braços cruzando, Calum tentando manter o centro de gravidade enquanto jogava o peso com precisão. quase derrubou ela de lado, mas Calum ajeitou o apoio e voltou. Foi aí que ela deu um grito de guerra:
— POR TODAS AS MULHERES QUE TOCAM BAIXO E SÃO SUBESTIMADAS!
— Isso foi muito específico — murmurei, já rindo.
E então, com um giro rápido e um empurrão certeiro, perdeu o equilíbrio e caiu. Vitória dos dois.
— É ISSO! — Calum gritou.
— EU VOU VOMITAR DE ORGULHO — Michael berrou.
— Qual é o prêmio? — perguntou, saindo da água e empurrando o cabelo molhado para trás.
— O respeito eterno de todos nessa piscina — disse , jogando uma bolacha na boca. — E um post dedicado no Instagram do Mike.
— Eu posso aceitar isso — sorriu, batendo a mão com Calum no alto.
saiu da água, rindo:
— Isso foi injusto. Eles ensaiaram essa performance. Eu tenho certeza.
se aproximou de Calum, ainda de pé na beirada, e murmurou:
— Foi divertido.
— É sempre divertido com você — ele respondeu, baixo, com um sorriso meio torto.
Ela deu um empurrão leve no ombro dele.
— Não começa.
E ele riu, balançando a cabeça, claramente gostando mais do que deveria.
Do meu lugar, eu olhei aquela conversa de longe e, por mais que fosse sutil, o clima era bem óbvio. Tipo, prestes a se atracar na borda da piscina, óbvio. Eu me senti igual quando você entra num quarto e percebe que interrompeu uma conversa que devia continuar a portas fechadas.
— Eu não devia estar ouvindo isso — murmurei, encarando a minha própria alma no reflexo da água.
Foi então que Michael — como sempre, com o timing perfeito e a sutileza de um furacão — gritou do outro lado da piscina:
— ALGUÉM QUER JOGAR EU NUNCA?!
— Eu nunca quis tanto sair de uma situação — murmurei, nadando como se aquele fosse o meu chamado divino.
— EU QUERO! — gritou já erguendo a mão, do outro lado da borda.
bateu palma:
— Vamos!
disse que precisaria buscar algo e voltou com uma garrafa com um líquido rosa dentro, dizendo que não existia "Eu Nunca" sem álcool. Eu nem pensei muito de onde ela havia tirado aquela bebida.
Minutos depois, estávamos todos reunidos num círculo improvisado no chão do deck da piscina. As toalhas serviam de tapete, os copos de plástico estavam sendo religiosamente reabastecidos, e a regra era clara: bebeu, confessou.
— Ok — Michael anunciou, com o dedo apontado pro céu e o rosto já brilhando de expectativa. — Eu começo.
— Socorro — murmurou, já bebendo antes da pergunta vir.
Eu nunca… beijei alguém de quem não lembrava o nome depois.
Silêncio. Então, , Luke e ergueram os copos sem nenhuma vergonha e tomaram o gole.
— Meu Deus, gente — falou, escandalizada de mentirinha.
— Em minha defesa… era uma festa em Berlim — disse Luke, já rindo.
— Em minha defesa… ele usava um boné escrito "DJ Kleyton" e eu fiquei hipnotizada. — contou.
— Isso explica absolutamente tudo — murmurei.
falou, pegando o copo com um sorrisinho:
— Ok, minha vez. Eu nunca beijei alguém por pura curiosidade.
Instantaneamente, e Michael beberam.
— Ok, agora eu tô curiosa — disse , erguendo a sobrancelha.
— Foi numa festa em Sydney — Michael contou. — Eu queria saber como era beijar alguém com piercing no dente. Aparentemente... estranho.
— Eu beijei uma garota uma vez só porque ela sabia todas as falas de Meninas Malvadas — disse . — Aquilo me pegou.
— Eu tenho uma — disse , animada. — Eu nunca fui pego no flagra fazendo algo… impróprio.
— Essa é baixa — murmurei.
Mesmo assim, Luke, Michael, e beberam.
— Por favor, compartilhem com a turma — falou, de braços cruzados.
— Ok, eu tava no camarim da rádio BBC e achei que tava trancado. Não tava — disse Luke.
— A stylist entrou — Michael completou. — E desde então ela nunca mais fez contato visual com ele.
— No meu caso, eu estava ficando com um cara da equipe de um festival. A gente entrou numa das vans de transporte, que estava vazia no estacionamento, jurando que ninguém ia usar tão cedo — começou a contar, arrumando a postura.
— Isso deve ter dado tão errado — falei, antecipando.
— Deu. O motorista entrou, ligou o carro, e só percebeu que tinha gente atrás quando eu tropecei tentando colocar a blusa de volta.
— Vocês estavam em movimento?! — Mike perguntou, chocado.
— Pois é — ela apenas deu de ombros.
— Ok, agora você, Mike — disse Calum, cruzando os braços. — Não adianta beber e se esconder.
Michael ergueu as mãos.
— Eu estava na casa dos pais da minha ex. A gente achou uma ótima ideia fazer algo no sofá da sala durante a madrugada. Só que a avó dela acordou para pegar água. Acendeu a luz. A gente congelou. Ela olhou, virou as costas e só disse: “Usem camisinha.”
— NÃO — gritou. — EU ME RECUSO.
— Juro por tudo. Fiquei tão paralisado que nem consegui levantar por uns bons dois minutos.
— Se ela estiver viva até hoje, provavelmente ainda toma remédio por sua causa — falou, chorando de rir.
— Minha vez — disse Calum, com o tom mais calmo de sempre, mas aquele sorrisinho travesso nos lábios. — Eu nunca tive um crush secreto por alguém aqui presente.
Silêncio. Um daqueles com risadinhas contidas. olhou pra ele com cara de "sério?", mas bebeu mesmo assim, assim como ele. E, surpresa… também.
— Oi? — eu disse, virando pra ela. Aquilo havia me deixado, no mínimo, intrigado.
— O quê?! — disse ela, rindo. — A gente não especificou o momento! Pode ter sido tipo... 2012!
— Mas era por mim, né? — perguntei, brincando.
— Hm… talvez… talvez não… — fingiu suspense.
— Isso foi mais cruel do que eu esperava — respondi, cobrindo o rosto com a toalha.
ergueu o dedo:
Eu nunca mandei mensagem bêbado e me arrependi no dia seguinte.
Todos bebemos.
— Meu histórico é basicamente isso — disse . — Uma coleção de mensagens que deveriam ter sido apenas pensamentos.
— A minha foi um áudio de 3 minutos e 40 segundos — Luke falou, sério. — Eu tava cantando Ed Sheeran para uma ex.
— Fui eu quem recebeu — disse Calum, levantando a mão. — Ele mandou pro contato errado.
As meninas riram alto.
— Essa é digna de terapia — comentou.
A rodada continuou, as perguntas ficando cada vez mais aleatórias:
Eu nunca menti que tava doente pra não ir a um ensaio (Calum e eu bebemos).
Eu nunca chorei vendo um vídeo de gato ( bebeu com orgulho).
Eu nunca pensei "e se" com alguém aqui presente ( e Calum beberam — de novo — e evitaram se olhar por dois segundos).
Depois de várias rodadas e risadas, Michael, claro, quis ir longe demais:
Eu nunca beijei alguém aqui e pensei "preciso repetir isso em breve".
Silêncio. Era óbvio que apenas duas pessoas entre nós haviam se beijado, então esperávamos apenas por suas respostas. E ela veio. Calum bebeu.
… hesitou. Depois de uns segundos, bebeu também.
— EU SABIA! — Mike gritou, apontando. — OLHA ISSO!
Calum apenas sorriu, o copo ainda na mão, e olhou pro céu, em silêncio. Fingindo que não ligava. Ela era boa nisso.
— Alguém mais quer expor seus sentimentos ou posso dormir em paz, sabendo que respondi coisas que nunca pensei em responder? — disse ela, se levantando como se o jogo tivesse acabado oficialmente ali.
— Acho que a gente esgotou o nível de vergonha coletiva por hoje — murmurei, espreguiçando os braços.
Todos foram se levantando devagar, as toalhas sendo sacudidas, os copos de plástico indo pro lixo como se aquilo tivesse sido um ritual secreto que ninguém mais podia presenciar.
A descida no elevador foi silenciosa. Luke piscava devagar no canto, encostada nele. bocejava sem nenhuma tentativa de disfarce, e Calum só seguia ao lado dela, com as mãos nos bolsos e aquele sorrisinho indecifrável de quem não ia comentar nada.
Ao entrarmos no quarto, fui direto pro banheiro, ouvindo Michael reclamar de que alguém pegou a toalha dele.
— É literalmente uma toalha branca igual a todas as outras — disse Luke, já rindo. — Não é personalizada com seu nome bordado, gênio.
— Devia ser. Sou o favorito da equipe — ele rebateu.
— Só na sua cabeça — Calum falou, abrindo a mala pra pegar uma camiseta limpa.
Tomei banho rápido, deixando a água quente tentar compensar aquele dia inteiro. Quando voltei pro quarto, Calum já estava pronto, Luke terminava de arrumar a mochila com as roupas limpas e Michael estava bem, tentando escolher quais snacks ele comeria durante a viagem.
Às 00h50, todo mundo apareceu no saguão. Meia dúzia de zumbis vestidos de moletons largos, tênis velhos e olheiras.
Calum apareceu com um energético na mão, provavelmente o último ser humano na Terra que ainda achava boa ideia beber aquilo de madrugada. estava com um travesseiro enorme debaixo do braço e de olhos fechados, recitando mentalmente o que tinha colocado na mala.
Os tourbus já esperavam do lado de fora. O motorista sinalizou com a cabeça, e todo mundo se arrastou até lá.
Subimos, ajeitamos as mochilas no compartimento, e logo depois as luzes foram apagadas.


Capítulo 5


(POV Calum Hood)

Chegamos em Chicago com o céu ainda pálido e as olheiras do grupo tão fundas que podiam ser consideradas oficialmente parte do figurino. O ônibus parou devagar e a voz do motorista anunciou com calma que podíamos descer, como se soubesse que qualquer coisa dita em volume normal seria ofensiva naquele estado.
Atravessamos o lobby do hotel feito um bando de zumbis. Michael ainda estava com um fone só no ouvido, Luke usava um boné do avesso e Ash? Ele só murmurou "boa noite" às 7 da manhã.
Entrei no quarto, larguei a mala num canto e desmaiei por exatas três horas. Quando acordei, era como se tivesse cochilado por três minutos e sonhado com um apocalipse silencioso. O celular vibrava ao meu lado.

Produção
, Ash, Calum, ...

Produção
Ensaio às 14h. Não atrasem.


Claro.
Levantei, entrei no banho e fiquei ali parado por uns bons cinco minutos, encarando o azulejo, tentando entender se aquilo era mesmo um novo dia ou só uma extensão mal editada do anterior.
No saguão, encontrei os outros.
— Vocês parecem ótimos — murmurei, tomando um gole de café ainda quente demais.
— Obrigado. É o meu look "estou reavaliando todas as minhas escolhas de vida" — Luke respondeu.
— E eu optei por "ex-membro de boyband abandonado em estrada de terra" — Michael completou, esticando os braços.
Seguimos direto para a arena. Chicago era diferente — o ar gelado, os prédios mais sérios. Era bonito, de um jeito cinza. O lugar do show era enorme. Telão gigante, estrutura absurda. Mas o que me pegou mesmo foi o som abafado de ensaio assim que entramos.
As meninas estavam no palco.
, com seu baixo vermelho pendurado e aquele adesivo de estrela prata que ela mesma colou, olhava pra pedaleira com concentração. testava efeitos novos, abaixada num dos retornos. girava uma das baquetas nos dedos, concentrada, e mordia uma barrinha de proteína enquanto ajustava a guitarra com uma mão só.
Quando elas terminaram, chegou nossa vez. Nosso ensaio passou voando, conferimos os instrumentos, alinhamos as posições no palco, checamos microfones, luzes, telão.
A música em destaque da noite seria Teenage Dirtbag. Um cover clássico, que a gente sempre curtiu e que ia ficar ainda melhor com as meninas dividindo palco de novo com a gente.
Continuamos cantando, ajustando os detalhes e testando as harmonias. Quando terminamos o último acorde, a produção já começou a correr com o tempo.
Era sempre assim: o ensaio acabava, e parecia que alguém apertava um botão de velocidade. Equipe correndo, figurino sendo separado, camarim com gente indo e vindo, luz sendo alinhada, som final sendo aprovado. Uma mistura de caos e coreografia.
Nos arrumamos como sempre — jeans escuro, camiseta de banda, cabelo do jeito que dava. Depois, seguimos pro lado do palco, com as garrafas d'água nas mãos.
Era o terceiro show da turnê, mas assistir as meninas entrando no palco ainda parecia uma novidade que eu não queria que acabasse tão cedo.
Elas encerraram a música com o público gritando como se ainda quisessem mais. foi a última a sair do centro do palco. Levantou o baixo com uma das mãos, o sorriso estampado no rosto, e caminhou pro backstage.
Quando passou por mim, nossos olhos se encontraram por um segundo e logo em seguida, as luzes acenderam de novo. Era a nossa vez.
Subimos ao palco e a energia já estava lá em cima. O público mal teve tempo de respirar entre os dois shows, e ainda assim parecia mais animado do que nunca. Bastou o primeiro acorde pra arena vir abaixo.
Seguimos o setlist com a mesma entrega de sempre. "Out of My Limit", "Heartbreak Girl", "Don’t Stop" — todas com os fãs cantando tão alto que dava pra sentir o chão tremer. Quando chegamos em "Amnesia", os refletores diminuíram e a arena se iluminou de celulares acesos. Foi um daqueles momentos que arrepia até quem já viveu isso mil vezes.
Foi só lá pela décima música que Ash parou atrás da bateria e se inclinou pro microfone, ofegante, com um sorriso aberto.
— Ok… — disse ele, já ouvindo os gritos crescerem. — Eu sei que vocês estão amando a participação das meninas… mas Phoenix e L.A não serão as únicas com esse privilégio, certo?
A galera foi à loucura.
— Então por favor, — Ash continuou, apontando pro lado do palco — gritem ainda mais alto… porque tá na hora de Teenage Dirtbag, com participação especial de The Sirens!
As luzes acenderam num vermelho quente. , , e entraram correndo no palco, dando oi e recebendo gritos dos fãs, cada uma se posicionando como ensaiado.
foi direto para perto de Luke. com Mike. subiu para bateria secundária, ao lado do Ash.
parou ao meu lado, ajustando a alça do baixo no ombro. A luz vermelha recortava os contornos do rosto dela, e por um segundo, parecia que estávamos num universo à parte — onde só existia aquela espera silenciosa antes da batida começar.
Ela virou o rosto devagar, o canto da boca puxado num sorrisinho.
— Preparado para errar o tempo e me culpar depois? — disse ela, baixinho, como se estivéssemos só nós dois.
— Eu nunca erro o tempo. Só me distraio — respondi no mesmo tom, dando um passo leve pro lado, encurtando a distância entre a gente. — E você é bem... distrativa.
Ela riu baixo, ajeitando o cabelo atrás da orelha com um movimento rápido.
— Isso parece um elogio mal disfarçado.
— Não tô disfarçando. — Dei de ombros, olhando pra frente, pro público que já berrava qualquer coisa que mal dava pra entender.
não respondeu de imediato. Só me lançou aquele olhar de canto de olho, que dizia mais do que qualquer frase poderia dizer.
A luz mudou de cor. Era o nosso sinal.
— Foca na música, Hood — disse ela. — Tenta não se perder.
— Só se for em você — murmurei, quase sem pensar.
Mas ela ouviu. Eu sabia que tinha ouvido, porque o sorriso que veio depois foi lento, perigoso, e demorou mais do que devia pra desaparecer.
E então… as primeiras notas de e Luke iniciaram, enquanto Michael se aproximava do microfone e cantava com a voz limpa, meio teatral, como se contasse um segredo:

"Her name is Noelle
(O nome dela é Noelle)
I have a dream about her
(Eu tenho um sonho com ela)
She rings my bell
(Ela mexe comigo)
I got gym class in half an hour
(Eu tenho aula de educação física em meia hora)
Oh how she rocks in Keds and tube socks
(Ah, como ela arrasa de Keds e meias até o joelho)
But she doesn't know who I am
(Mas ela não sabe quem eu sou)
And she doesn't give a damn about me
(E ela não dá a mínima pra mim)"


Demos uma pausa curta. E então todos, juntos, em coro:

"Cause I'm just a teenage dirtbag baby
(Porque eu sou só um adolescente lixo, baby)
I'm just a teenage dirtbag baby
(Só um adolescente lixo, baby)
Listen to Iron Maiden baby with me
(Ouve Iron Maiden comigo, baby)"


As luzes giraram, subindo com o refrão. Luke assumiu a voz com a intensidade certa, empolgado.

"Oh yeah, Dirtbag
(Ah, sim, lixo)
No, she doesn't know what she's missing
(Não, ela não sabe o que está perdendo)
Oh yeah, Dirtbag
(Ah, sim, lixo)
No, she doesn't know what she's missing
(Não, ela não sabe o que está perdendo)"


Eu sorri e peguei meu microfone. Fiz um teatrinho, como no ensaio, olhando pra plateia e colocando a mão no coração de forma dramática.

"Man I feel like mold
(Cara, eu me sinto como mofo)
It's prom night and I am lonely
(É noite do baile e eu estou sozinho)
Low and behold
(Surpreendentemente)
She's walking over to me
(Ela está vindo na minha direção)
This must be fake
(Isso deve ser mentira)
My lip starts to shake
(Meu lábio começa a tremer)
How does she know who I am
(Como ela sabe quem eu sou?)
And why does she give a damn about
(E por que ela se importa?)"


Nesse momento, caminhou até o centro do palco com passos firmes. Ela me chamou com o dedo, sem pressa.

"I've got two tickets to Iron Maiden baby
(Eu tenho dois ingressos para o Iron Maiden, baby)
Come with me Friday
(Vem comigo na sexta)
Don't say maybe
(Não diga talvez)"


Me aproximei devagar, ainda tocando e continuou andando, agora de frente pra mim.

"I'm just a teenage dirtbag baby like you
(Eu sou só um adolescente lixo como você, baby)
Oohoo Hoo Hoo"


Ela esticou o braço e apontou pra mim enquanto cantava o último verso, o sorriso provocador no rosto. Nossos olhos se prenderam por um segundo e então voltamos para os nossos lugares, nos juntando no microfone pra última parte.
As guitarras explodiram, o baixo bateu mais forte, a arena inteira pulava. O público gritou tanto no final que mal dava pra ouvir os instrumentos.

"Oh yeah, Dirtbag
(Ah, sim, lixo)
No, she doesn't know what she's missing
(Não, ela não sabe o que está perdendo)
Oh yeah, Dirtbag
(Ah, sim, lixo)
No, she doesn't know what she's missing
(Não, ela não sabe o que está perdendo)"


A arena explodiu em gritos, palmas, vozes — uma onda de som que fez o chão vibrar.
As meninas estavam sorrindo, ainda ofegantes, enquanto se aproximavam do centro do palco uma última vez. ergueu os dois braços pro alto, toda empolgada; se curvou com uma reverência dramática; fez o clássico "rock on" com as mãos e acenou, mandando um beijo antes de dizer no microfone:
— Obrigada, Chicago! Vocês são um absurdo de incríveis.
Eles responderam com um grito que pareceu subir pelas vigas de aço do teto.
Michael se aproximou do microfone com um sorrisinho, limpando o suor da testa com a manga da camiseta.
— Um aviso: se vocês sonharem com essa música hoje… não culpem a gente. Culpem elas.
As meninas acenaram de novo e saíram do palco correndo, uma a uma.
Seguimos direto pra "Good Girls", com a mesma energia de sempre. As luzes subiram em tons vibrantes, a plateia gritando cada palavra, como se ainda estivéssemos na metade do show. E quando chegamos em "She Looks So Perfect", o lugar parecia prestes a explodir. Um mar de vozes, mãos pro alto, e celulares piscando como estrelas presas ao teto.
Finalizamos com tudo que tínhamos. Suados, ofegantes, rindo, meio surdos — mas inteiros. As luzes da arena se apagaram e então corremos pros bastidores também, o coração ainda acelerado e os dedos formigando da última música.

(POV Voss)

O camarim parecia uma mistura de sala de espera e vestiário pós-apocalipse. Tinha toalha jogada no sofá, garrafa de água pela metade em todo canto e alguma base líquida aberta no balcão que ninguém lembrava de ter usado.
A gente entrou rindo, ainda meio ofegante.
— Ok… alguém me explica por que cantar "Wild Hearts" me deixa com vontade de cometer crimes? — perguntou, tirando o elástico do cabelo.
— Porque você nasceu pra isso — respondi, pegando uma garrafinha de água e encostando na parede pra respirar.
— Crimes ou cantar? — Ela arqueou a sobrancelha.
— Os dois.
Antes que alguém respondesse, os meninos entraram no camarim.
Michael foi o primeiro a passar por mim, pegando um cacho de uva da bandeja da mesa e virando de lado para nos encarar.
— Ok, vamos falar a real… Teenage Dirtbag foi um dos melhores momentos da noite.
— Foi nosso momento de ouro — disse , orgulhosa, jogando uma almofada no Ash.
— Sério, vocês fazem a gente parecer muito mais legais do que somos — disse Mike, abrindo uma latinha de energético. — Tipo… ninguém nunca gritou assim pra mim.
— Mike, uma fã, jogou um sutiã no palco na terceira música — rebateu, levantando uma sobrancelha.
— Ok, esse foi meu auge. Não vou mentir — ele respondeu com um meio sorriso.
— Imagina o documentário dessa turnê… cenas de bastidores, lágrimas, superação, e… o sutiã do Michael pendurado no espelho do camarim — Luke falou, rindo.
— Obra-prima. — Ash concordou. — Eu já quero o Oscar.
— E vocês dois no palco juntos… — Mike apontou entre mim e Calum, casualmente, como quem fala de um par de tênis combinando. — Aquilo é o lance de vocês mesmo. Não dá pra negar.
Calum riu e deu de ombros.
— A gente manda bem.
— Foi divertido — eu disse, pegando uma uva da mão do Michael sem pedir.
Ash levantou com a energia de quem teve uma ideia perigosa, mudando de assunto completamente.
— Ok, e se a gente fizesse alguma coisa hoje? Tipo… pós-show no hotel. Só a gente, sem balada, sem gente estranha querendo puxar assunto no banheiro.
— Jogos? — sugeriu, já animada.
— Tipo o quê? — Ash perguntou interessado.
— Eu nunca, Detetive, Verdade ou Desafio… sei lá — completou, finalmente saindo da frente da geladeira com uma garrafa de refrigerante zero na mão.
Michael levantou o dedo como se estivesse fazendo um juramento.
— Eu apoio totalmente qualquer jogo que envolva expor a vida alheia.
— Ótimo — disse Calum, se espreguiçando. — Porque hoje eu planejo humilhar todos vocês em qualquer um deles.
— Humilhar ou ser humilhado? — perguntei, erguendo uma sobrancelha.
Ele sorriu de canto, como se estivesse desafiando:
— Vamos descobrir.
— Então é isso. — Luke bateu palmas. — Nos encontramos no nosso quarto ás… — Ele olhou o celular. — 23h. Banho, troca de roupa e tragam a bebida que encontrarem.
— Pode ser em pijama? — perguntou, já de pé.
— O melhor dress code possível. — Ash respondeu. — Só não vale roupa de gala. Não quero me sentir julgado.

*

Às 22h56, a gente saiu do nosso quarto como um grupo sincronizado, cada uma com alguma coisa nas mãos: levava uma garrafa de gin (aberta, claro), trazia um saco de balas azedas, equilibrava duas sacolas com salgadinhos e eu fui com a clássica: pote de Pringles numa mão, garrafa de vodka na outra.
— Parece que vamos invadir uma festa de faculdade — murmurou.
— Uma festa de faculdade com garotos que têm crises existenciais e dormem com meias — respondeu, já rindo.
— Eu ouvi isso! — Mike abriu a porta antes mesmo de batermos, com um pacote de pipoca na mão e óculos escuros no rosto. Às onze da noite. Dentro de um quarto de hotel.
Luke apareceu logo atrás, de moletom cinza e camiseta escrita "Sleep is for the weak", fazendo pose dramática com uma escova de cabelo como se fosse microfone.
— Bem-vindas ao único lugar onde seus segredos não estão seguros. Entrem por sua conta e risco.
— Esse é o aviso mais honesto que já recebi — comentei, entrando.
O quarto dos meninos já tinha virado território neutro. Almofadas espalhadas no chão, travesseiros em locais suspeitos, cobertor jogado por cima do encosto do sofá e um abajur aceso que deixava a iluminação baixa e meio amarelada, tipo um filme indie.
Na mesinha de centro, uma seleção caótica de snacks, copos coloridos, garrafas meio vazias e três playlists diferentes abertas em três celulares distintos. O caos visual perfeito.
— Sério, vocês montaram um bunker? — perguntou largando as sacolas.
— A gente se preparou pra guerra — disse Ash, empolgado, vindo da cozinha com shots alinhados em um prato de microondas. — E guerra, no caso, é: Eu Nunca.
— Sabia — falou, estalando a língua. — Vocês só querem nos expor.
— Mas com classe — Calum respondeu, ajeitando uma almofada.
Quando ele sentou no sofá, eu sentei do lado.
— Ok, se tiver "Verdade ou Desafio" depois disso, alguém me segura — falou já pegando um shot.
— Ninguém vai te segurar, a gente vai é filmar — disse Luke.
— Tragam os copos — Ash chamou enquanto servia. — A noite é uma criança irresponsável e eu sou o mau exemplo.
— Eu apoio qualquer coisa que envolva bebida e fofoca. — falei esticando a mão pra pegar o shot da vez.
— Eu começo. Preparem-se para a queda de reputação coletiva. — Ash ergueu um copo como se fosse o apresentador de um reality show de quinta categoria e Michael bateu palmas, animado. — Eu nunca… fiquei com alguém da plateia. Antes ou depois do show.
fez uma careta de derrota e bebeu.
— Uma vez! E ele nem era da cidade, nunca mais vi — disse ela, se defendendo. — E ele tinha um sotaque australiano tão bonito que eu nem escutei mais nada o resto da noite.
— Eu me sinto pessoalmente ofendido e com ciúmes — disse Luke, colocando a mão no peito. — E olha que eu nem tava nessa cidade.
gargalhou, quase engasgando com o refrigerante que estava tomando.
— Eu nunca… fui pego pelado num hotel.
— MIKE! — gritou, rindo. — Isso é muito específico!
— E incrivelmente verdadeiro — ele respondeu, bebendo, sem nenhuma vergonha. — Eu só fui pegar gelo. Não sabia que a porta travava atrás de mim! — completou, como se ainda estivesse indignado.
— O trauma molda o homem — Calum comentou, pegando mais uma batatinha.
— Minha vez — falou. — Eu nunca… fui flagrado flertando com alguém da equipe.
bebeu.
— Ela era muito bonita — disse ela. — E tinha uma prancheta. Uma mulher com prancheta sempre tem poder sobre mim.
— Isso é uma análise sociológica ou só sede? — Mike perguntou.
— As duas — ela respondeu.
— Ok. — entrou na brincadeira. — Eu nunca… fiz uma letra de música inspirada em alguém que beijei.
Vários se mexeram. Eu e Calum nos olhamos. Ele bebeu. Eu bebi também.
— Ok, isso é meio poético — disse Ashton, com a cabeça inclinada. — Ou meio perigoso.
— Depende da letra — respondi, sorrindo de canto.
Calum me olhou de lado e naquele olhar tinha uma provocação que ele não precisava colocar em palavras. Eu desviei rápido, mas o sorriso demorou mais pra sair do meu rosto.
"Don’t Fall" foi escrita no dia seguinte à nossa noite em San Diego. Foi quase automático. Eu acordei, sentei no chão com o violão no colo e a melodia saiu fácil demais. Não era sobre drama ou tristeza — era sobre aquele tipo de conexão que acontece rápido demais, forte demais e que a gente sabe que não vai durar. E ainda assim, você sente como se durasse.
A letra era a minha forma de aceitar que foi o que foi. Que foi incrível, mas que também foi finito. Que ele era de outra banda, de outra cidade, de outra vida — e eu não podia me dar o luxo de cair de cabeça só porque alguém tinha mãos bonitas e me beijava como se soubesse exatamente onde doía.
Mas claro que eu nunca diria isso em voz alta.
Mesmo assim, quando vi Calum beber também não consegui evitar o pensamento. Qual era a dele? E... será que era sobre mim?
Só o pensamento já era perigoso o suficiente.
Mas eu não parei de pensar. E provavelmente não pararia tão cedo.
— Ok, minha vez — Mike falou. — Eu nunca… beijei alguém e depois fingi que nada tinha acontecido.
Um silêncio pairou e ele murmurou um "caraca" baixo. , e Luke beberam. Calum pegou o copo devagar e bebeu olhando pra frente, mas sorriu depois. Eu respirei fundo e bebi também.
Ele se virou um pouco pra mim, apoiando o braço no encosto atrás das minhas costas.
— Foi mesmo fingimento? — perguntou baixo.
— Foi sobrevivência — respondi sem hesitar.
A resposta fez ele rir de um jeito que me deixava irritantemente consciente da distância entre nossos ombros.
— Eu nunca fui o primeiro a mandar mensagem depois de ficar com alguém — Luke falou e Michael bebeu.
— Eu sou carente — disse ele. — Me julguem.
— Eu bebi por educação emocional — disse .
Calum ficou em silêncio e me olhou, de novo.
Eu sorri.
— Você mandou mensagem — falei, só pra cutucar.
— E você não respondeu. — Ele rebateu com um sorriso torto, enquanto virava o shot.
— Achei que fosse parte do acordo silencioso. Você não achava que a gente ia repetir, lembra? — Inclinei um pouco a cabeça, fingindo pensar.
— É. Mas eu mandei mesmo assim.
Nos encaramos por meio segundo a mais do que devíamos. O sorriso dele ainda estava ali, quase despretensioso. Quase.
E foi nesse instante, naquela distância que me deixava desconcertada, que eu pensei. Se eu respondesse naquela época… teria sido o começo de alguma coisa? Ou o começo de um problema?
Mas era isso o que mais me deixava tensa com ele. O fato de que mesmo sem saber, uma parte minha queria descobrir. Mesmo sabendo que podia dar merda. Mesmo sabendo que ele podia me virar do avesso.
— Você queria que eu tivesse respondido? — perguntei, com a voz mais baixa do que pretendia. Calum deu de ombros.
— Talvez. Só pra saber se você lembrava.
— Calum… — murmurei, sorrindo de canto. — Até bêbada, eu lembraria.
Ele não disse nada, só continuou me olhando como se estivesse prestes a responder, mas Ash começou a falar e voltamos a prestar atenção no jogo.
— Eu nunca… mandei nude e depois me arrependi.
bebeu sem hesitar.
— Foi pra um cara que mandou "recebido com sucesso" e nada mais — ela explicou. — Eu bloqueei, claro.
— O "recebido com sucesso" é quase um crime federal — comentei, fazendo careta.
— Desde então meus nudes são destinados apenas para mulheres — concordou comigo e levantando a mão em juramento e os meninos riram.
— Pior que eu já mandei, mas foi pra zoar — Michael confessou. — Um nude com óculos escuros e o filtro do cachorro do Snapchat.
Ash engasgou de rir.
— Isso é arte conceitual.
— Isso é terapia — Luke completou. — E se a gente subisse um pouco de nível? O que acham de pularmos para Verdade ou Desafio? — ele sugeriu, abrindo mais uma latinha.
— Isso! — apontou, já empolgada. — Agora sim. O clássico. A vergonha em sua forma mais pura.
Ash bateu palmas devagar, tipo filme de julgamento.
— Perfeito. Agora sim a gente vai descobrir quem somos de verdade.
— Ou perder o pouco de dignidade que sobrou — murmurei. — Mas estou dentro!
Ash levantou a mão, teatral.
— Antes de começarmos… todos aceitam os termos e condições do jogo?
— Que termos? — perguntou, já desconfiada.
Ele se ajeitou no sofá com um sorrisinho perigoso.
— Todo mundo aqui está disposto a ser beijado, humilhado ou ambos, dependendo do turno.
— Isso é um contrato ou uma ameaça? — perguntou, rindo.
— As duas coisas — Michael respondeu. — E eu assino com sangue se precisar.
— Eu aceito — disse Luke, pegando mais um punhado de salgadinhos. — Com ressalvas sobre a parte da humilhação. Só posso ser exposto até o ponto em que ainda pareço bonito.
— Ok. Eu aceito. — Dei de ombros. Calum, , e concordaram em seguida.
— Então é oficial. — Ash levantou o copo. — Que comecem as perguntas, os desafios e o completo colapso moral de todos nós.
Michael apontou para Ash.
— Verdade ou desafio?
— Desafio — disse ele, meio empolgado, meio com medo.
— Vai até o corredor do hotel e grita: “MEU DEUS, PERDI MINHA CALÇA!”. Depois volta como se nada tivesse acontecido.
Ash arregalou os olhos, mas levantou.
— Se eu for expulso, vocês dividem o prejuízo.
E foi. No segundo seguinte, ouvimos lá fora:
MEU DEUS, PERDI MINHA CALÇA!!!
A risada foi imediata. Ele voltou com a maior cara de quem não tinha feito absolutamente nada.
— Nunca mais duvidem do meu compromisso com esse jogo — disse, sério. — Agora… . Verdade ou desafio?
Ela olhou em volta, como quem calcula danos.
— Verdade.
Ash ergueu uma sobrancelha, seu sorrisinho mostrando que o que passava por sua cabeça era, no mínimo, perigoso.
— Qual foi a coisa mais aleatória que já te deixou com tesão?
Silêncio.
— Tá — respondeu. — Um vídeo de um cara cortando madeira… de camiseta branca… com tatuagens. Era educacional, eu juro!
A gente riu alto.
— Isso é tão específico — disse Luke. — Eu nunca mais vou ver uma árvore do mesmo jeito.
— Tudo bem, minha vida mudou depois disso também. Agora é minha vez — disse , os olhos brilhando de malícia. — Luke. Verdade ou desafio?
Ele se ajeitou no sofá, com uma expressão de quem estava pronto para ser desafiado e humilhado com classe.
— Desafio. Vai.
— Ok. — Ela estalou os dedos, como quem puxava algo de uma gaveta mental sombria. — Quero que você ligue pro serviço de quarto e pergunte se eles têm ração vegana... pro seu coelho chamado Fernando, que tem gastrite nervosa. E você precisa parecer MUITO preocupado.
Você é um monstro. — Luke apontou, tentando manter a dignidade enquanto pegava o telefone. — Isso vai acabar com minha reputação. Que já é duvidosa!
Ele discou e aguardou.
— Alô? Oi, boa noite. Então, eu tenho uma dúvida meio urgente. Eu... é que eu estou viajando com meu coelho, o Fernando. E ele tem um problema sério de gastrite nervosa... não é piada, tá? E ele só come ração vegana. Vocês têm alguma opção pra isso?
Eu segurei a risada, assim como todos os outros que assistiam aquela cena ridícula.
— Por favor. Ele está me olhando com os olhos tristes… Hm… Sim, tudo bem, eu e Fernando sabemos que você fez o possível e isso basta. Tenha uma boa noite. — Luke finalizou, quase chorando de rir.
Ele desligou e ergueu os braços como um campeão.
— Um heroi — disse , com a voz falhando.
— Ok, minha vez. — Luke girou o dedo no ar. — . Verdade ou desafio?
— Verdade — ela respondeu, ajeitando o cabelo.
Luke sorriu.
— Qual foi a última vez que você pensou em alguém daqui... de um jeito não exatamente inocente? — Luke perguntou, com um sorrisinho canalha e as sobrancelhas arqueadas.
arregalou os olhos por meio segundo, mas se recuperou rápido. Bebeu um gole do copo antes de responder — claramente mais por estilo do que por necessidade.
— Ok, não vou mentir. Foi no ensaio em Phoenix. — Ela fez uma pausa dramática. — Quando o Luke tirou a camiseta e ficou só com aquela regata furada. Desculpa, eu sou fraca pra bíceps suados e iluminação de palco.
— AAAAAH! — gritou, batendo no braço de . — EU SABIA! EU VI VOCÊ ENCARANDO!
Luke caiu pra trás, gargalhando com a mão no peito.
— Esse é o melhor momento da minha vida. Alguém anota isso. Alguém borda numa almofada, por favor!
— Não se ache tanto — disse , rindo. — Foi um pensamento de dois segundos. Não te transforma em nada além de... um bom pôster mental ou algo assim.
— Já é o suficiente — ele respondeu, ainda triunfante. — Ok, vai. Sua vez. Escolhe alguém pra torturar.
— Calum. Verdade ou desafio?
Ele respirou fundo, como se soubesse que estava prestes a tomar uma péssima decisão.
— Desafio.
— Quero que você... — Ela sorriu, maldosa. — Escolha alguém aqui e faça um body shot.
O silêncio que se instalou foi quase respeitoso.
— É isso — Ash falou, sério como um juiz. — O jogo evoluiu oficialmente de nível. Parabéns, .
Os olhos de Calum passaram pelo grupo. E então, como se fosse óbvio desde o começo, ele parou em mim.
?
— Claro — respondi encarando de volta, sem hesitar. Meu coração já tinha acelerado só com ele dizendo meu nome daquele jeito.
Michael já estava indo na cozinha pegar sal, limão e tequila com a agilidade de um bartender animado — até demais. Luke jogou uma almofada no chão como se fosse o lugar oficial da execução e Ash voltou com o celular em mãos, com a câmera ligada.
— Sem pressão, Calum. Só sua reputação em jogo — disse ele.
Calum se ajoelhou ao meu lado no tapete e a sala pareceu ficar mais quente de repente. Ele pegou o sal, o limão, a tequila. E então parou.
— Posso? — perguntou, num sussurro baixo, os olhos nos meus.
— Vai logo antes que eu mude de ideia — falei, me deitando no meio das almofadas. Puxei o cabelo pro lado e abri um pouco a gola da blusa, enquanto Calum se ajoelhava ao meu lado.
Ele inclinou o rosto e passou o sal na minha clavícula com a ponta dos dedos — devagar demais pra ser só parte do desafio. Eu senti cada centímetro do toque, mesmo com a risada abafada dos outros ao fundo.
Depois, ele colocou o limão entre meus lábios.
Os olhos dele estavam presos nos meus quando derramou a tequila no vão do meu ombro e se aproximou.
O tempo desacelerou. Literalmente.
A língua passou pela minha pele devagar, quente. Então tomou o shot e, por fim, aproximou seu rosto do meu para pegar o limão da minha boca — com a boca.
Os lábios dele encostaram nos meus como se o limão fosse só uma desculpa — um último obstáculo antes de ceder ao que estava ali desde o começo. A respiração dele misturada com a minha, a tequila queimando devagar entre a pele e o sangue, a música de fundo se perdendo num zumbido.
Por um segundo ele não se afastou.
Os olhos presos nos meus. A mão ainda apoiada perto da minha cintura, como se não soubesse se devia ir embora...
Meu corpo todo parecia um alerta ambulante, mas então alguém gritou.
— ISSO FOI UM BEIJO OU EU IMAGINEI?! — a voz de alguns tons mais altos que seu normal.
— EU VI LÍNGUA! — Ash acusou, dramático.
Calum se afastou aos poucos, como se não tivesse pressa. E por mais que o rosto estivesse parcialmente vermelho — a expressão dele era de quem sabia o que tinha feito. E não se arrependia nem um pouco.
Eu ri, tentando fingir que minha pele não estava pegando fogo, enquanto sentava devagar e puxava a blusa de volta pro lugar.
— Isso foi cinematográfico — disse Mike, batendo palmas.
— Fala sério. Somos o casal principal do musical da vida de vocês — respondi brincando, enquanto me sentava no sofá de novo.
— Ok, agora é minha vez — disse Calum, ainda com aquele sorrisinho satisfeito. Ele virou o rosto pro outro lado do sofá. — Michael… verdade ou desafio?
— Desafio — Mike respondeu, rápido demais. — Depois do showzinho de vocês dois, é o mínimo que posso fazer.
Calum cruzou os braços, pensativo por dois segundos, até que seus olhos se acenderam com uma ideia.
— Quero que você vá até o quarto das meninas, volte com um item aleatório de maquiagem… e faça um tutorial de beleza completo, como se fosse um influencer no Instagram. E você vai postar nos stories. Agora.
— Você é um cretino — Mike falou, já levantando. — E eu vou arrasar.
Cinco minutos depois, Michael voltou com um delineador líquido e uma expressão de absoluta confiança. Ele desbloqueou seu celular e abriu a câmera.
— Boa noite, meus seguidores, tudo bem com vocês? Hoje eu vim ensinar um truque de make pra você que quer um olhar marcante e uma energia caótica, mesmo às três da manhã.
Ele tentou aplicar o delineador no próprio olho, mas terminou com um traço torto que parecia uma vírgula nervosa.
— Dica bônus: se der errado, finge que era conceito. — Ele piscou, mandou beijo pra câmera e postou sem pensar duas vezes.
— Nunca mais vou apagar isso da memória — disse ainda rindo.
— Eu espero que não, porque foi ótimo — Mike respondeu, triunfante. — E agora… última rodada, vai. , verdade ou desafio?
jogou a cabeça pra trás e murmurou:
— Medo.
— Deveria — disse Mike, com um sorrisinho que não prometia coisa boa.
— Hm… Verdade. — Ela mordeu o lábio por um segundo antes de responder.
Mike ergueu as sobrancelhas.
— Ok. Se você tivesse que escolher alguém daqui pra passar a noite numa cama de casal, com direito a conchinha e tudo, sem chance de escapar, quem seria?
, por um momento, pareceu considerar fugir pela janela.
— Ai meu Deus — ela murmurou, rindo. — Tá. Seria o Ash. Porque ele tem cara de que dorme abraçado e ainda te cobre se você se mexer demais.
Ash fez uma expressão dramática, levando a mão ao coração.
— Isso foi a coisa mais bonita que já disseram pra mim.
— Não se empolga — ela completou. — Você também tem cara de quem ronca.
Todos nós rimos de novo. O clima já era de fim de festa — aqueles risos leves, um pouco mais lentos, corpos jogados no sofá, cobertas puxadas até o queixo.
— Tá. Chega de exposição por hoje — disse Luke, bocejando. — Acho que minha alma já tá meio fora do corpo.
— E amanhã a gente acorda com ressaca de tequila e vergonha — completou, rindo.
Minhas amigas se levantaram aos poucos, ainda rindo baixo, recolhendo casacos jogados e algumas latas vazias. A energia que encheu o quarto parecia ter se espalhado por cada almofada, cada travesseiro bagunçado, cada canto do sofá.
— Ok, criaturas da madrugada, vamos embora antes que o sono vire só parte da decoração — anunciou, esticando os braços.
— Boa noite, seus insuportáveis — disse , já abrindo a porta.
piscou pra Luke antes de sair e murmurou:
— Cuidado com os sonhos. Se aparecer um coelho chamado Fernando, a culpa é sua.
Risos abafados, acenos preguiçosos, e logo só restávamos eu e Calum. Ele estava escorado na lateral da porta e quando fui passar, devagar, ele se inclinou um pouco.
E, com uma leveza quase insolente, encostou os lábios no canto da minha boca.
Não foi um beijo de verdade. Mas também não foi só um toque. O tipo de beijo que não precisava ser inteiro pra ser perigoso.
— Boa noite — disse ele, com a voz baixa e rouca.
— Boa noite — respondi, tentando manter a compostura, mesmo que minhas pernas parecessem feitas de alguma gelatina cara e instável.
Voltei pro nosso quarto com as outras, escovei os dentes ainda meio zonza — sem conseguir parar de pensar em Calum — e me joguei na cama. A cabeça afundou no travesseiro e por um instante achei que o sono viria de imediato.
Mas o celular vibrou.

Calum
Online

She Looks So Perfect é sobre você.


Fiquei encarando a tela por uns segundos, sentindo o coração pular no peito como se tivesse ouvido aquilo em voz alta.
Digitei a resposta, sem pensar demais:

Calum
Online

She Looks So Perfect é sobre você.

Don’t Fall é sobre você.


A mensagem foi enviada. E aí ficou só o silêncio.
Fechei os olhos. O som distante da cidade lá fora, a respiração leve das meninas no quarto ao lado, a lembrança do gosto da tequila ainda na boca. E o toque dele. O olhar. A provocação constante entre a gente que, agora, parecia menos provocação e mais promessa.
Três meses era o que tínhamos. E talvez fosse o bastante pra bagunçar tudo de vez.


Capítulo 6


(POV Luke Hemmings)

Eu sou um homem simples. Me dá um dia de folga, comida decente, um jogo de basquete ao vivo e eu viro a melhor versão de mim mesmo.
A ideia surgiu logo depois do café da manhã. Michael, com a cara ainda amassada do travesseiro, murmurou algo como "seria legal ver o Bulls jogando, né?" e dez minutos depois, a produção já estava arrumando os ingressos.
Agora, algumas horas depois, lá estávamos nós. Um grupo grande o suficiente pra parecer uma excursão escolar: quatro caras meio famosos, quatro garotas de uma banda em ascensão e zero maturidade emocional. Tudo sob o teto do United Center com pipoca na mão, nachos e olhos brilhando sob a luz do placar gigante.
Nos espalhamos pelas duas fileiras reservadas para nós. Na parte de cima, Calum sentou do lado da , como quem não planejou nada, enquanto e Michael faziam apostas aleatórias tipo "quem vai pegar o próximo rebote" (spoiler: eles erraram todas). Na parte de baixo eu fiquei ao lado de e estava sentada bem colada no Ash, provavelmente para comer mais do seu balde gigantesco de pipoca e nachos com queijo.
— Isso aqui é uma das melhores decisões que a gente já tomou — Ash falou com a boca cheia de pipoca. — Eu tô me sentindo um cidadão super funcional!
— Isso porque ainda não derramou nada — Michael respondeu, pegando um nacho do prato de . — O que é estatisticamente improvável, dado o seu histórico.
— Eu tô em fase de crescimento e amadurecimento — Ash rebateu, jogando uma pipoca em Mike, que errou por muito.
— Ok, alguém me explica por que o mascote do Bulls parece um bicho saído de um episódio caótico de desenho animado? — perguntei, encarando-o seriamente.
— Porque ele é — respondeu. — Mas ele dança bem. E pode ou não ter roubado o coração da minha adolescência.
— Isso explica muita coisa — comentei, mexendo no canudo do refrigerante.
— Tipo o quê? — arqueou a sobrancelha.
— Tipo seu gosto duvidoso para homens com chifres. — Dei um sorrisinho e ela mostrou o dedo do meio. Eu abri a boca, fingindo estar ofendido.
Na fileira em cima da nossa, estava rindo de alguma coisa que Calum tinha acabado de dizer. Não dava pra ouvir direito, mas pelo jeito que ela balançava a cabeça, meio desacreditada, dava pra imaginar o quão idiota tinha sido.
— Eu juro que queria entender como eles conseguem viver em tensão contínua sem explodir — murmurou pra mim.
— É talento — respondi. — Do tipo que não dá pra ensinar.
As luzes do estádio se apagaram por dois segundos e depois explodiram em vermelho e branco com o logo do Bulls girando no telão gigante. A música de entrada estourou nos alto-falantes e, por um segundo, juro que a gente parecia parte da plateia de um show nosso. Mesmo impacto. Mesma empolgação.
Lá pelos dez minutos do segundo quarto, os mascotes entraram em cena. Um show de acrobacias, dança e um touro com muito carisma. Em algum momento ele jogou uma camiseta exatamente na direção de , que pegou no reflexo e ficou olhando pro mascote com a expressão de quem acabava de descobrir o amor verdadeiro.
— Foi um momento — disse ela, quase séria. — Não sei explicar.
— Você e um touro — Mike comentou. — O romance mais improvável da turnê.
Mas nada superaria o que veio depois.
Do nada, as luzes mudaram. A música ficou mais suave e romântica. O telão do United Center piscou e o coração rosa apareceu no canto. Letras brancas brilhando: KISS CAM.
A galera gritou, como sempre. Casais começaram a aparecer na tela. Um beijo tímido aqui, um mais empolgado ali… E então — como se o universo tivesse senso de humor — a câmera parou.
Imagem congelada. Telão gigante.
Ashton e .
O estádio foi abaixo.
congelou. Ash também, por dois segundos. Foi tipo um glitch coletivo no grupo.
— Ah, não — falou, encolhendo no assento.
— Ah, sim — disse Ash, abrindo um sorriso muito largo. — O universo quer isso, . Não podemos negar.
— BEIJA! BEIJA! BEIJA! — começou o coro, batendo palmas, eu me juntei em seguida e, em menos de um segundo, , Calum, e Michael gritavam junto, assim como todos das arquibancadas.
— Isso é bullying! Eu quero meus direitos — cobriu os olhos com as mãos.
— Seus direitos foram revogados no momento em que você sentou do lado dele — Michael falou, rindo.
Ash deu uma respirada dramática, se virou com um ar de galã exagerado e perguntou, sussurrando alto o suficiente pra todos ouvirem:
Brooks, você aceita esse beijo em nome do entretenimento, da cultura e do esporte?
— Deus… Aceito — ela respondeu, suspirando alto.
Sério?! — Ash arregalou os olhos, surpreso.
— Cala a boca antes que eu mude de ideia e me beija logo — ela respondeu, virando o rosto pra ele.
E então Ash colocou a mão na nuca dela e se inclinou. O que era pra ser uma cena rápida e engraçada virou um momento que deixou todos nós chocados. Ele não hesitou. Ela também não.
Do meu lugar, a cena parecia em câmera lenta.
Primeiro o toque. Depois o olhar entre eles, rápido, como um último aviso de que iam mesmo fazer aquilo. E então o beijo.
E que beijo.
Não foi um selinho constrangido de Kiss Cam. Não foi aquele encostar de lábios rápido só pra não passar vergonha. Foi um beijo mesmo. De verdade. De virar rosto e apoiar a mão na cintura. Daqueles que duram mais do que o necessário. De fazer a arena inteira gritar.
As pessoas aplaudiam, gritavam, assobiavam. A câmera tremulava no telão, e o letreiro piscou: LOVE IS IN THE AIR.
— O QUE É ISSO?! — gritou do meu lado, já em pé no assento.
Michael estava com as duas mãos na cabeça, em completo estado de choque.
Calum só encarava, boquiaberto.
— Eu… não achei que ele fosse tão comprometido assim com o entretenimento — murmurou.
Ash se afastou devagar, como se tivesse acabado de completar uma missão secreta. , por outro lado, só levou a mão até o rosto, meio rindo, meio em colapso emocional silencioso.
— Vocês viram o que eu vi? — perguntei, incrédulo.
— Luke, a gente viu o que o mundo viu — respondeu .
Enquanto isso, Ash erguia os braços como se tivesse vencido o Super Bowl.
— EU QUERO AGRADECER A DEUS, AO BASQUETE E AO VENDEDOR DO BALDE DE NACHOS! — ele gritou.
, ainda escondendo o rosto com as mãos, virou de leve pro Ash.
— Você é insuportável — murmurou, mas não parecia exatamente irritada. Na verdade, ela estava com um sorriso impossível de disfarçar.
— Eu prefiro "carismático" — ele respondeu, com o peito estufado de orgulho e as mãos na cintura, como um super-herói ridículo.
— Isso foi… um evento — disse Michael, ainda em choque. — Tipo… esse momento já tem nome: "O Beijo do United Center".
— Parece nome de movimento histórico — completou, limpando a mão de cheddar no guardanapo. — Vamos ensinar isso nas escolas.
— Nota dez no quesito fanservice — riu.
Ash se jogou de volta na cadeira, pegando o balde de pipoca de volta.
— Fiz pelo povo. Fiz pelo conteúdo. Fiz por mim.
O intervalo continuava, mas pra gente, a atração principal tinha acabado de acontecer.
No telão, a Kiss Cam já mostrava outros casais, mas nenhum tão animado quanto o nosso. Um senhor tentou beijar a esposa e tomou um tapa leve no braço. Um casal mais novo se beijou e o estádio aplaudiu — mas o estrago já estava feito. Ninguém superava e Ash.
Ele estava com as pernas cruzadas e um ar satisfeito demais no rosto. não dizia mais nada, mas o sorriso não tinha saído em nenhum momento.
se inclinou na minha direção e sussurrou:
— Dez dólares que eles se pegam de novo antes da próxima cidade.
— Eu dou vinte se eles não esperarem nem sair do estádio — respondi.
— Ei, eu tô ouvindo — murmurou, semicerrando os olhos. — E vocês dois são péssimos apostadores.
Ash apontou pra mim.
— Mas você ouviu o que ele disse? Que você e eu somos o casal do ano.
— Ninguém disse isso — ela retrucou.
— Foi o que o meu coração ouviu.
O juiz apitou, o jogo recomeçou, mas o foco da nossa fileira continuava firmemente na comédia interna que só a gente parecia estar vivendo.
— Ash, você tá me olhando como se fosse me propor casamento — disse , pegando o copo de refrigerante dele sem pedir.
— Não — ele respondeu, dramático. — Só tentando entender se você vai me ignorar quando sairmos daqui ou se vai dar continuidade ao nosso relacionamento midiático.
— Depende — ela respondeu, tomando um gole e fazendo careta. — Você vai dividir as calorias desse nacho comigo até o fim?
— Eu dividiria minha herança se tivesse uma — ele rebateu.
— Tá. Vocês dois precisam parar antes que eu tenha que presenciar um pedido de noivado em rede nacional — falou, rindo. — Por favor, pensem nas crianças.
— As crianças seriam fãs — Ash respondeu. — Elas comprariam a camiseta "Kiss Cam Couple" com certeza.
— Vocês já tão planejando o merch? — Mike perguntou, chocado.
— Capitalismo, irmão — disse Ash, sério. — Nunca dorme.
se inclinou um pouco pra frente, virando pra mim e pra .
— Isso é o que acontece quando deixam ele dormir bem por duas noites seguidas.
— E comer três donuts no café da manhã — Calum completou, estalando a língua. — Isso dá energia pra pelo menos umas vinte ideias ruins.
Ash fez uma reverência debochada, mas não respondeu.
A partida estava chegando nos minutos finais. O placar estava acirrado e o público todo em pé, torcendo com força. Entre gritos, buzinas e jogadas rápidas, nosso grupo continuava mais focado em rir de si mesmo do que no resultado do jogo.
Quando o último apito soou e os Bulls venceram por uma diferença mínima, o estádio explodiu. Palmas, gritos e até alguns fogos virtuais nos telões. Todo mundo comemorava.
Ash levantou os braços de novo, como se tivesse sido ele o responsável por aquela vitória também.
— A gente ganhou! — ele gritou.
— Você não fez nada — disse Calum, rindo.
— Ah, claro que fiz. Trouxe entretenimento emocional. Fui a sorte do time.
— O que isso significa exatamente? — perguntou, tentando não rir.
— Que eu beijei você e o Bulls venceu. Coincidência? Não, porque não existe coincidência.
— Você é o motivo de tudo agora? — ela arqueou a sobrancelha.
— Me deixa viver meu momento — disse ele, dramático.
Nos levantamos aos poucos, ainda meio anestesiados pela mistura de emoção esportiva e caos coletivo. Nos reunimos no corredor, todos falando ao mesmo tempo, rindo e repetindo trechos do que tinha acabado de acontecer.
— Isso precisa ir pro documentário — comentou, ajeitando a jaqueta. — Sem essa cena, a narrativa da turnê está incompleta.
— Coloca como capítulo: "Beijo, Bulls e Burrice" — falei.
— Eu sou a burrice? — perguntou Ash, franzindo as sobrancelhas.
— Não. Você é o beijo. A burrice somos todos nós por permitir — respondi.
Ash levou a mão ao peito, como se estivesse genuinamente emocionado.
— Vocês falam isso, mas daqui a uns anos vão olhar pra trás e pensar: "Puts, aquele dia foi icônico."
Já do lado de fora do estádio, o ar de Chicago estava ainda mais frio, fazendo a gente se encolher nos casacos. O motorista da van da produção acenou pra gente, nos esperando.
Antes que conseguíssemos atravessar os últimos metros até a van, alguns fãs perceberam a gente. Não muitos, mas o suficiente para causar uma pequena aglomeração.
Eles se aproximaram meio tímidos, alguns só com os celulares na mão, outros com bonés do Bulls e até um ou dois cadernos de autógrafo.
As meninas também foram reconhecidas, o que foi bem legal de ver. Uma garota pediu para autografar a aba do boné dela, e ela desenhou um raiozinho ao lado do nome. assinou o braço de um menino com uma caneta permanente, depois fez uma careta dizendo que agora ele estava marcado "pra sempre ou até o próximo banho". tirou foto com um grupo de três amigas, todas usando o mesmo modelo de blusa da banda. , claro, foi cercada por duas meninas que disseram que tinham postado o beijo dela com Ash no TikTok "minutos depois de acontecer".
— Vocês são rápidas demais — Ash comentou, rindo, enquanto um garoto com o casaco do Chicago Bulls pedia pra ele autografar o próprio tênis.
Do outro lado, Michael estava sendo parado por uma menina que usava um moletom gigante do 5SOS.
— Por favor, faz uma cara de bravo na foto comigo? — ela pediu, com o celular já em mãos.
— Bravo? Eu nasci pra isso — ele respondeu, cruzando os braços e fazendo a expressão mais carrancuda que conseguia, mas entregando um sorriso na foto seguinte.
Eu tirei algumas selfies com o pessoal também, e de longe vi Calum abaixado, rindo de alguma coisa que um fã falou enquanto assinava a capinha do celular do garoto com uma caneta prateada.
— Eu juro que se alguém me marcar no Twitter com "melhor casal da NBA" não vou reclamar — Ash comentou, posando com pra mais uma foto.
Quando finalmente conseguimos escapar, com sorrisos cansados, mas felizes, entramos na van de novo.
— Agora que estamos a sós... Alguém mais achou o mascote flertando com a um pouco intenso? — Mike perguntou, sério.
— Ele me olhou nos olhos e dançou Beyoncé. Foi íntimo — respondeu. — Eu senti coisas.
— Isso significa que agora você e Ash estão empatados? — provocou.
— Por favor, Ash só pegou um humano. Eu tive uma conexão transcendental com um touro de pelúcia gigante.
— E você achando que ninguém superaria a Kiss Cam — comentou, rindo, enquanto se jogava no banco da van.
— A Kiss Cam sonha com esse nível de entrega emocional — rebateu, ajeitando o cachecol. — O touro fez uma coreografia. Tinha expressão facial.
Ash, com a testa colada no vidro da janela, fingiu indignação:
— Inacreditável. Eu beijo uma garota em rede nacional e perco o posto pra um mascote com chifres e um passado misterioso.
— Ei, ninguém falou que você perdeu — retrucou, com um sorriso pequeno. — Só que a competição ficou… acirrada.
— Isso foi flerte? — Mike sussurrou pra Calum.
— Claramente — Calum respondeu. — E ele não percebeu de novo.
A van deu uma leve freada e o motorista virou para trás.
— Chegamos.
Em vez de ir para o hotel, escolhemos jantar fora.
Saltamos, um por um, pro frio cortante de Chicago. Nada drástico, mas o tipo de frio que faz você pensar duas vezes antes de sair do carro.
O restaurante era um bistrô moderno, desses com janelas grandes, luz baixa e cheiro de alho tostado misturado com queijo derretido. A produção tinha feito reserva e, pra variar, nos trataram como se fossemos mais importantes do que realmente somos. Uma mesa longa nos esperava nos fundos, afastada o suficiente pra ninguém ouvir nossas idiotices em tempo real.
— Tá. Isso aqui é bonito demais — Mike comentou puxando uma cadeira. — A gente vai ter que fingir elegância?
— Definitivamente não. — largou o casaco numa cadeira vazia. — Eu vim pra comer como se minha reputação não existisse.
Na mesa haviam velas acesas e guardanapos de pano, gente passando cardápio de um lado pro outro e uma playlist instrumental de fundo que parecia saída direto de um comercial.
Me sentei entre e Ash. Calum puxou uma cadeira e esperou sentar antes de se acomodar ao lado dela. Ela não disse nada, só ergueu a sobrancelha com um meio sorriso e abriu o cardápio.
— Se eu pedir três entradas, vocês vão fingir surpresa ou me apoiar? — perguntou, olhando o cardápio.
— Eu apoio. Desde que uma seja batata trufada — respondi, fechando meu menu. — Minha ética é flexível quando se trata de carboidrato.
Ash soltou um suspiro dramático, apoiando os cotovelos na mesa.
— Isso aqui parece aquela cena de filme adolescente… em que os amigos estão vivendo o auge da amizade antes de tudo desandar.
— Que reconfortante, Ash — comentou. — Quer prever mais alguma tragédia?
Ash apenas deu um sorrisinho, mas negou com a cabeça.
Os pratos começaram a chegar e viraram motivo de caos imediato: ninguém lembrava o que tinha pedido, todo mundo queria experimentar tudo e Michael conseguiu comer metade das batatas de antes mesmo do prato encostar na mesa.
— Alguém tem que fazer um discurso — Ash declarou depois de três mordidas. — É o protocolo. A gente teve um dia histórico.
— Você já discursou no estádio — disse com a boca cheia. — Acha que a gente vai deixar você fazer isso de novo?
— Tem que ser alguém que não beijou ninguém hoje — decretou, encarando o grupo.
Todos nos entreolhamos.
— Luke? — sugeriu, me encarando. — Você parece neutro o suficiente.
Engoli o refrigerante e levantei um guardanapo como se fosse um papel oficial, limpando a garganta.
— Declaro esta noite como o auge emocional, culinário e esportivo da turnê até agora. Que o restante da viagem tente, e provavelmente falhe em superar este momento. Amém.
— Amém — todos repetiram, levantando copos e batendo levemente uns nos outros.
Os minutos seguintes foram de puro silêncio, como se aquelas comidas fossem a única forma de calar nossas bocas. E de certa forma eram.
— Ok. — Eu me inclinei depois de deixar meu prato praticamente limpo novamente. — Vamos jogar um jogo. Todo mundo diz uma coisa aleatória sobre si. Quem disser a mais estranha ganha um milkshake extra.
— Eu fui finalista de um concurso de imitação de golfinhos quando era criança — Mike disse de primeira.
— Eu dormi num telhado uma vez porque achei que seria "poético" — falou.
— Eu tenho uma cicatriz no joelho por tentar andar de skate… numa esteira ligada — disse Ash, com orgulho.
— Eu só como cereais coloridos separando as cores — completou.
— Eu… — começou, parando pra pensar. — Eu sei tocar Für Elise de trás pra frente.
Todos olharam pra ela.
— Isso é… verdadeiramente assustador — eu disse. — Você ganhou.
Todos balançaram a cabeça, concordando.
— O milkshake é meu. — Ela sorriu, vitoriosa.
— Totalmente merecido — disse Ash, apontando pra ela com a colher. — Mas só se você tocar essa versão invertida pra gente qualquer dia desses.
— Só se vocês me derem outro milkshake — rebateu.
— Fechado — Michael respondeu na hora. — Eu pago. Pela ciência.
— Ok, novo jogo: quem daqui mais provavelmente seria banido de um restaurante por comportamento inadequado? — continuei.
— Ash — todos responderam ao mesmo tempo.
— EU? — Ele apontou pra si, indignado. — Sério?
— Você gritou num estádio cheio durante um jogo e beijou sua amiga na Kiss Cam. — lembrou, apontando para si mesma.
— Isso foi arte performática — Ash rebateu. — Totalmente diferente de ser "inadequado".
— Aham — disse Mike, rindo. — E o dia que você subiu numa mesa de restaurante só pra gritar a letra de "Mr. Brightside"?
— Mais uma vez: arte.
— Eu fico com a teoria de que o Ash vai virar lenda urbana em pelo menos três estados até o fim da turnê — falou, mexendo no celular. — Tipo: "o baterista que roubou um microfone numa churrascaria e cantou Queen no meio do salão".
— Isso já aconteceu? — perguntou, curiosa.
— Não. Mas é uma questão de tempo — Calum respondeu.
Os milkshakes chegaram antes que o assunto saísse ainda mais do controle. Cada um com uma cobertura mais exagerada que o outro. Chantilly, granulado, calda de caramelo e uma quantidade desnecessária de confeitos coloridos.
— Parabéns pelo prêmio, — eu disse, erguendo o copo. — Que seu talento inútil siga nos inspirando.
— Amém — ela respondeu, já enfiando o canudo com a autoridade de quem tinha ganhado aquilo com mérito.
tirou uma foto da mesa inteira antes que os copos ficassem todos destruídos.
— Isso aqui tá parecendo comercial de fast food que a gente sabe que nunca vem tão bonito assim — ela comentou.
— E ainda assim... — disse , com um gole do milkshake de cookies. — Melhor decisão da noite!

(POV Brooks)

Depois de Chicago, pegamos a estrada durante a madrugada e, entre cochilos mal dormidos, playlists baixas e conversas aleatórias de corredor, o sol já começava a nascer quando estacionamos em Toronto.
Rolei pro lado na minha beliche, tentando me convencer de que eu estava descansada o suficiente pra encarar o dia. Mas não estava. Principalmente porque a primeira coisa que me veio à cabeça quando abri os olhos foi… a imagem do Ash aproximando seu rosto do meu.
Quer dizer, foi só uma brincadeira. Um impulso. Uma cena absurda que a gente fez só pelo entretenimento coletivo.
Mas foi um beijo… intenso. E inesperado.
Suspirei, encarando a parede. Lembrei de como tinha sido no caminho do restaurante de volta pro hotel. Todo mundo rindo, falando do momento como se fosse só mais uma das nossas piadas internas, mas quando subimos para arrumarmos nossas coisas para a viagem, Ash tinha ficado alguns passos pra trás e, antes de eu entrar no quarto com as meninas, ele parou na minha frente.
— Ei… — disse ele, meio sem jeito, coçando a nuca, com aquele sorrisinho torto de sempre. — Se você quiser me processar por exposição pública, eu entendo.
Eu tinha rido, claro. Mas naquele instante, com ele me olhando daquele jeito como se estivesse testando até onde podia ir, admito que fiquei com um frio na barriga que não passou até agora.
— Considerando que você me deu um balde de nachos depois, estamos quites — eu respondi.
— Ótimo. — Ele sorriu, parecendo aliviado. — Mas… foi um bom beijo, né? Só pra constar.
— Foi… aceitável — respondi, mordendo o canto da boca, pra provocar. — Não vou te dar todo esse crédito de graça.
Ash colocou a mão no peito, fingindo estar ofendido.
— Nossa. Eu entrego entretenimento de qualidade, conteúdo exclusivo e ainda ganho uma nota, tipo… seis?
— Sete — corrigi, cruzando os braços, com um sorriso que eu simplesmente não consegui disfarçar.
Ele riu de um jeito presunçoso, as covinhas aparecendo como se fossem parte do roteiro.
— Então vou trabalhar pra melhorar essa nota — disse, com a voz baixa, como quem jogava uma promessa no ar só pra me ver reagir.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa — uma piada, uma provocação, ou uma simples risada, ele deu um passo pra trás. Depois virou as costas e foi caminhando até o quarto dele, com aquela calma de quem sabia exatamente o que tinha feito.
Fiquei parada ali, respirando fundo, encarando o corredor vazio, com o coração ainda acelerado e um sorriso idiota no rosto.
Porque a verdade? Aquele beijo foi, de longe, um dez.
Depois daquela conversa no corredor, dormir durante a viagem até Toronto foi quase uma missão impossível. Mas quando finalmente apaguei, o sono foi pesado, direto e sem intervalos. Acordei só no fim da manhã com mensagens não lidas no grupo da banda e o tourbus estacionando no hotel que ficaríamos aqui no Canadá.
Saí da minha beliche, amarrei o cabelo no alto com o primeiro elástico que achei e desci com as meninas. Todas ainda com moletom, rosto amassado e aquela cara de "dormi mal, mas tô viva".
O dia estava frio, mas iluminado com uma luz bonita de manhã canadense. Pegamos os cartões dos quartos na recepção e subimos pra largar as malas antes de sair pra almoçar.
Duas horas depois, já estávamos no restaurante do hotel, com um buffet que era oficialmente a transição perfeita entre café da manhã e almoço. Pegamos uma mesa perto da janela, onde a vista dava pra rua movimentada com gente passando apressada, casacos pesados e o céu ainda meio cinza.
— Acho que tô emocionalmente dependente de batata rústica — comentou, segurando o garfo como se fosse um troféu.
— Pelo menos é um vício aceitável — disse , enfiando um pedaço de pão na boca.
, do outro lado da mesa, estava mexendo no celular, rindo de alguma notificação. Eu só me limitei a pegar mais suco e olhar pela janela.
Os meninos ainda estavam dormindo quando entramos na van, em direção ao local do show. Segundo o Luke, eles tinham decidido aproveitar o máximo de sono possível antes de aparecerem pra vida.
No caminho até a arena, cochilou com a cabeça encostada no vidro, o casaco embolado como travesseiro improvisado. ficou organizando a playlist mental do dia, murmurando letras e dedilhando no colo como se já estivesse com a guitarra nas mãos. , no banco de trás, fazia uma postagem com algumas fotos que a gente tinha tirado desde o início da turnê no Instagram.
Do meu lugar, com a testa encostada no vidro, observei a cidade passar lá fora. Toronto era bonita de um jeito diferente das outras paradas até agora. As ruas largas com faixas de pedestres pintadas em branco grosso, os prédios altos de vidro refletindo um céu meio acinzentado. Um vento frio batia contra as árvores que já começavam a dar sinais de outono e as pessoas nas calçadas andavam apressadas, com cachecóis coloridos e copos de café nas mãos.
Passamos por algumas lojas de discos independentes, cafés com mesas do lado de fora e um parque com umas folhas amarelas espalhadas no chão.
Assim que viramos a última esquina antes da arena, o prédio surgiu no horizonte, com letreiros digitais piscando o nome da nossa banda ao lado do dos meninos. Ver aquilo ainda me causava aquele friozinho no estômago.
O clima lá dentro era o de sempre: caixas de som sendo testadas, cabos cruzando o chão como um campo minado, roadies indo e vindo com pressa e o som de alguém gritando "TESTE! UM, DOIS, SOM!" no microfone de retorno.
Subimos pro palco pra começar nossa passagem de som. se posicionou na bateria, girando as baquetas como se fossem extensão dos dedos. e eu ajustamos as guitarras, enquanto conferia a afinação do baixo e mexia nos pedais dela.
Começamos a passar as músicas uma a uma, calibrando o som, corrigindo o retorno, ajustando as vozes.
Foi só na última música que os meninos chegaram, aparecendo no canto do backstage com caras ainda meio amassadas, mas já vestidos e prontos para o ensaio deles.
Quando finalizamos, os técnicos fizeram os últimos ajustes nos nossos microfones. A equipe da produção já se movimentava em ritmo de pré-show, trocando cabos, testando luzes e organizando o palco pros meninos.
Descemos juntas, com garrafas de água nas mãos, ainda com a adrenalina leve de quem tinha acabado de tocar. Não demorou muito e os meninos subiram ao palco pra começar o ensaio deles. A gente ficou sentada nas caixas de som ao lado assistindo enquanto eles passavam música por música.
Luke e Michael testando harmonias, Ash afinando os tons da bateria e Calum ajustando a regulagem do baixo junto com o técnico de som. Tudo funcionando num caos organizado. Eles erravam, zoavam um ao outro, riam quando alguma entrada dava errado, e mesmo assim o ensaio ia fluindo.
Não conseguimos ficar muito. Uma das produtoras apareceu no canto do palco e chamou a gente: era hora de começar a preparação pro show.
Nosso camarim estava um caos organizado. Roupas penduradas nas cadeiras, maquiagens espalhadas pela bancada e garrafinhas de água em quase todas as superfícies disponíveis. aplicava gloss em seus lábios, enquanto terminava de colocar os brincos. , por sua vez, sentada no canto, segurando uma garrafa de água, mordia o canto do lábio com aquele olhar de quem estava com a cabeça em outro lugar.
Eu mesma estava mexendo nos cordões do meu corset, tentando decidir se estava confortável o suficiente pra aguentar o show inteiro sem querer arrancar aquilo no meio da segunda música.
— Ok, confissão — disse , de repente, quebrando o silêncio de concentração no camarim. — Eu contei pra ele.
virou o rosto na hora. largou os brincos no colo. Eu encarei ela no espelho.
— Contou o quê? — perguntei, curiosa.
— Que Don’t Fall é sobre ele — soltou de uma vez, como se arrancasse um curativo.
— Sério? — arregalou os olhos.
assentiu, soltando uma risadinha nervosa.
— Ele falou que "She Looks So Perfect" era sobre mim e eu contei sobre "Don’t Fall"...
levou a mão à boca, parecendo genuinamente emocionada com o drama adolescente da vida real.
— E agora você vai cantar pra ele, sabendo que ele sabe enquanto te assiste do lado do palco — comentei, sorrindo.
— Exato. — Ela riu, mas o nervosismo era tão óbvio que dava vontade de abraçar e rir junto.
— Parabéns, estamos oficialmente vivendo uma fanfic! — disse , batendo palmas de leve.
O chamado da produção veio logo depois, avisando que tínhamos cinco minutos até o início.
Pegamos os instrumentos, ajeitamos os cabos dos microfones e fomos em fila pro backstage. Como sempre, os meninos estavam ali esperando. Calum com o copo de água na mão, Luke rindo de alguma piada interna com Mike e Ash veio em minha direção assim que me viu.
Olhou pra minha guitarra e em seguida para mim.
— Sabe… — ele começou, inclinando a cabeça pro lado, com aquele sorriso torto. — Eu acho que nenhuma banda de rock na história teve uma integrante que sobe no palco com uma guitarra cheia de adesivos da Hello Kitty… e ainda assim consegue parecer ameaçadora.
Balancei a cabeça rindo e passei o dedo pelo adesivo mais antigo, um meio desbotado no canto.
— Isso é a combinação perfeita entre fofura e agressividade — respondi, erguendo a guitarra como se fosse um troféu. — Respeita a estética.
— Sempre — disse ele, fazendo uma reverência teatral com uma das mãos. — Vai lá, Kitty Slayer. Acaba com eles.
Dei uma risada curta, meu coração batendo um pouco mais rápido do que deveria.
ajustou a correia do baixo no ombro e respirou fundo. estalou os dedos como se fosse um ritual de concentração. deu duas batidinhas na perna com as baquetas. Eu só fechei os olhos por um segundo, deixando a energia daquele momento entrar.
Do lado, os meninos torciam como sempre — a torcida silenciosa de quem entendia o que era estar ali. Calum e trocaram um olhar rápido que ninguém comentou, mas todo mundo percebeu, Michael ergueu o polegar, Luke bateu palmas no ritmo da música que começava nos alto-falantes e Ash, do meu lado, sorriu e me deu uma piscadinha.
As luzes da arena diminuíram. O som da multidão foi subindo como uma onda até o anúncio da nossa entrada ecoar pelos alto-falantes.
Subimos correndo pro palco com a mesma energia que vinha nos acompanhando desde o primeiro show da turnê.
A primeira batida da bateria soou e o palco explodiu em luz.
Senti o peso da guitarra nos ombros, os dedos deslizando pelas cordas com uma segurança que só vinha quando eu estava ali, no meio de tudo. As luzes coloridas varriam o palco enquanto o público gritava antes mesmo da gente tocar qualquer nota real. Era a quarta cidade da turnê, mas a sensação ainda era tão surreal quanto no começo.
Logo na primeira música, eu já tinha um sorriso preso no rosto. Era impossível não ter. Entre um acorde e outro, levantei o olhar pro meio da plateia e vi alguns cartazes levantados. Um dizia "CASA COMIGO, !" com letras garrafais. Outro com um ", VOCÊ É MINHA RELIGIÃO".
E aí, claro, tinha um brilhante, rosa, com letras em glitter escrito:
"KISS CAM - HASH FOR LIFE"
Quase errei uma nota.
Dei risada, virei pra e só apontei discretamente pro cartaz enquanto ela batia nos pratos da bateria, rindo também.
Ash, do lado do palco com os outros meninos, viu. Ele levou a mão ao peito de novo, teatral, como se tivesse sido homenageado. Idiota.
Continuei tocando, sentindo a energia daquele lugar vibrar pelas minhas mãos e subir até o peito. Em "Wild Hearts" a galera pulava junto na batida, e em "Lipstick Lies" cantavam o refrão como se fosse um hino oficial. Era surreal.
veio até o meu lado no final da terceira música, com um sorriso gigante.
— Isso está sendo insano — ela gritou, meio por cima da barulheira.
Só balancei a cabeça, concordando, os dedos ainda correndo pelas cordas. Na quarta música, durante o solo, arrisquei um passo mais pra frente, chegando perto da beirada do palco. Uma menina da primeira fila levantou o celular com a câmera virada pra mim e gritou meu nome, e eu fiz o que qualquer pessoa faria: mandei um beijo no ar e dei uma piscadinha. O grito que veio de resposta quase me fez perder o tempo da entrada no próximo acorde.
Quando olhei pro lado, estava no centro do palco, se preparando pro início da próxima música. Ela respirou fundo, ajeitou o microfone com aquela calma que só ela tinha, mas dava pra ver a ansiedade — e a gente já sabia o motivo.
Antes de começarmos a primeira nota, ela virou um pouco o rosto pra trás, só o suficiente para encarar a gente como se dissesse: "É agora."
Era hora de Don’t Fall.
Eu comecei os primeiros acordes e segurou o microfone com as duas mãos, abaixando um pouco a cabeça antes da primeira frase. Os holofotes estavam todos nela, luzes quentes, um tom meio âmbar que deixava o palco com uma aura de madrugada.

I see the way you look at me,
(Eu vejo como você me olha)
That quiet fire, you can’t disguise.
(Aquele fogo silencioso que você não consegue esconder)
The tension’s thick, it’s clear to see,
(A tensão é densa, dá pra ver com clareza)
But don’t get caught up in the lies.
(Mas não se prenda nas mentiras)


A bateria entrou logo depois, com marcando um ritmo cadenciado, enquanto continuava.

We’ll dance close, own the night,
(Vamos dançar colados, dominar a noite)
Whisper secrets, hold on tight.
(Sussurrar segredos, segurar firme)
No promises, no chains,
(Sem promessas, sem correntes)
Just sparks flying, no refrains.
(Só faíscas voando, sem refrões)

You want more, I see it in your eyes,
(Você quer mais, eu vejo nos seus olhos)
But I’m a stranger to forever kind of ties.
(Mas eu sou estranha a laços do tipo "pra sempre")

We play the fire, burn it bright,
(A gente brinca com o fogo, deixa ele queimar forte)
Keep it fast, don’t lose the fight.
(Mantemos rápido, sem perder a luta)
Close enough to feel the heat,
(Perto o bastante pra sentir o calor)
But never fall beneath my beat.
(Mas nunca caia sob meu ritmo)

We can chase the night,
(A gente pode correr atrás da noite)
Make it feel so right,
(Fazer tudo parecer tão certo)
But love’s a word I won’t say,
(Mas "amor" é uma palavra que eu não vou dizer)
So don’t fall, no, not today.
(Então não se apaixone, não hoje)


Segurei o acorde da guitarra, observando como a caminhava até o centro, os olhos vagando pela multidão mas voltando, vez ou outra, para o mesmo canto específico do palco, onde Calum estava.

We could drive ‘til dawn’s first light,
(A gente podia dirigir até o primeiro raio do amanhecer)
Share secrets under city lights.
(Compartilhar segredos sob as luzes da cidade)
Hold hands, but just for show,
(Dar as mãos, mas só de fachada)
No hearts to break, no need to know.
(Sem corações a quebrar, sem nada que precise saber)

I’ll be the flame that flickers fast,
(Eu vou ser a chama que pisca rápido)
You’re the moment meant to last,
(Você é o momento feito pra durar)
But when the morning comes to call,
(Mas quando a manhã vier chamar)
Remember, love’s not part of this at all.
(Lembre-se, o amor não faz parte disso)


Ela deu um sorriso pequeno no meio do verso, como se tivesse acabado de pensar em alguma lembrança específica.

You want more, I see it in your eyes,
(Você quer mais, eu vejo nos seus olhos)
But I’m a stranger to forever kind of ties.
(Mas eu sou estranha a laços do tipo "pra sempre")

We play the fire, burn it bright,
(A gente brinca com o fogo, deixa ele queimar forte)
Keep it fast, don’t lose the fight.
(Mantemos rápido, sem perder a luta)
Close enough to feel the heat,
(Perto o bastante pra sentir o calor)
But never fall beneath my beat.
(Mas nunca caia sob meu ritmo)

We can chase the night,
(A gente pode correr atrás da noite)
Make it feel so right,
(Fazer tudo parecer tão certo)
But love’s a word I won’t say,
(Mas "amor" é uma palavra que eu não vou dizer)
So don’t fall, no, not today.
(Então não se apaixone, não hoje)


A forma como ela segurava o baixo enquanto cantava fazia parecer que cada palavra vinha direto da pele.

I saw your glance change, a little too deep,
(Eu vi seu olhar mudar, profundo demais)
The line you’re crossing, it’s not mine to keep.
(A linha que você tá cruzando, não é minha pra segurar)
I told you once, maybe twice,
(Te avisei uma vez, talvez duas)
Don’t fall for me, don’t pay the price.
(Não se apaixone por mim, não pague o preço)


Eu virei um pouco pra olhar pro backstage nessa hora. Vi Calum encostado num canto, com os braços cruzados, olhando pra ela como se o mundo tivesse desacelerado só pra aquela música acontecer.

So here we are, just you and me,
(Então aqui estamos, só você e eu)
A perfect night, no history.
(Uma noite perfeita, sem passado)
I’ll stay free, and you’ll be wise—
(Eu vou continuar livre, e você vai ser esperto)
Don’t fall, don’t fall, don’t fall in love tonight.
(Não se apaixone, não se apaixone, não se apaixone essa noite)


Quando a música terminou, o eco da última palavra de ainda pairava no ar.
O silêncio que veio logo depois parecia mais alto que o próprio refrão final. Por uns dois segundos inteiros, ninguém se mexeu. Era como se a plateia, a banda, a equipe inteira tivesse prendido a respiração junto.
E então… o som das palmas e dos gritos preencheu o lugar como uma onda. As luzes voltaram a piscar, iluminando cada canto da arena
Do canto, vi Calum ainda no mesmo lugar de antes, agora com os braços descruzados e as mãos na cintura. O jeito como ele olhava pra ela… bom, era o tipo de coisa que dava vontade de pegar uma pipoca e assistir de camarote. Mas, né? Show em andamento.
Seguimos com o resto da apresentação, tocamos mais três músicas para encerrar e, a cada intervalo, os gritos da plateia só aumentavam.
— Toronto, vocês são um absurdo. Obrigada por sentirem tudo isso com a gente! — falou no microfone. O grito que veio de volta foi tão alto que deu pra sentir o chão vibrar.
A gente saiu do palco meio correndo, meio rindo, meio ainda em transe. Nos bastidores, a produção já nos empurrava com garrafinhas de água e toalhas, preparando tudo para o show dos meninos que começaria em questão de minutos.


Capítulo 7


(POV Calum Hood)

Ficar ali parado, encostado na lateral do palco, enquanto ela cantava aquelas palavras... foi o tipo de coisa que eu não sabia que precisava viver.
Cada verso de Don’t Fall parecia bater direto no lugar exato que eu estava tentando manter protegido nas últimas semanas. Desde o dia que ela me contou que a música era sobre mim, a expectativa por esse momento tinha crescido como uma bola de neve desgovernada.
E agora… estava ali. A voz dela, a expressão dela, o olhar que voltava pro meu canto do palco vez ou outra, como se não quisesse, mas precisasse me olhar.
Quando ela chegou naquele verso — "So don’t fall, no, not today" — eu prendi a respiração.
Porque o que ninguém ali sabia, o que nem os meninos sabiam, é que aquela frase tinha sido exatamente o que ela me disse naquela noite em San Diego.
Eu lembrava de cada detalhe como se tivesse acontecido ontem. A gente no sofá de um after, o som de música alta vindo de outro cômodo, os copos esquecidos pelo chão, a risada dela mais baixa do que o normal, seus olhos azuis brilhando, meio cansados, mas com aquele tom desafiador que só ela tinha.
Foi ela quem me puxou pela camiseta. Quem me beijou primeiro. Quem sussurrou no meu ouvido, com a boca ainda encostada na minha pele:
— Não se apaixona por mim. Isso aqui… é só hoje.
Só hoje.
O problema é que... eu já tinha me apaixonado antes daquele beijo acontecer e ela não fazia ideia.
Era difícil colocar na cabeça, naquela época, que aquilo não ia virar nada. Que éramos só duas pessoas de bandas diferentes que mal conseguiam estar na mesma cidade duas vezes seguidas. Turnês diferentes, fusos distintos, vidas completamente fora de ritmo.
Mas agora era diferente.
Estávamos dividindo palcos, ensaios, bastidores, piadas internas, olhares, o tipo de tensão que me deixava meio fora do eixo.
E agora, ouvindo ela cantar aquilo — de novo, só que dessa vez tendo total consciência — eu não conseguia mais saber. Ela ainda pensava da mesma forma?
Ou aquela música era só um lembrete de algo que ela também não conseguia mais sustentar?
Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo, tentando me concentrar nas músicas que a gente tinha que tocar logo depois.
Subimos ao palco assim que as meninas saíram, ainda com o eco da última música delas vibrando pela arena. O público parecia mais barulhento do que nunca. Gritando, pulando, como se tivesse guardado energia só pra gente.
Me posicionei com o baixo no ombro, sentindo a tensão elétrica que sempre batia no começo de cada show. As músicas passaram num ritmo acelerado. As mãos se movendo quase no automático, os acordes fluindo, as vozes dos caras se misturando às da plateia. Mas a minha cabeça já estava na última.
She Looks So Perfect.
A que eu tinha escrito com ela na cabeça, mesmo quando passei semanas fingindo que não. Lembro do dia que sentei com o Mike, Ash e Luke pra trabalhar na letra, inventando desculpas idiotas para algumas frases, tentando disfarçar o quanto tudo ali era sobre ela.
E agora, ali estava . Do lado do palco, encostada na estrutura metálica, o baixo ainda pendurado no ombro, suada do próprio show, com o cabelo preso de qualquer jeito e uma expressão que misturava cansaço e curiosidade. O olhar dela passou por mim por um segundo antes de desviar de novo, como se soubesse que essa era "a" música e estivesse se preparando psicologicamente.
Mike puxou os primeiros acordes e o público foi à loucura.

Hey, hey, hey, hey
(Ei, ei, ei, ei)
Hey, hey, hey, hey
(Ei, ei, ei, ei)


Luke puxou a primeira estrofe com aquele sorriso despreocupado, andando de um lado pro outro no palco, como sempre fazia.

Simmer down, simmer down
(Acalme-se, acalme-se)
They say we're too young now
(Eles dizem que nós somos muito jovens agora)
To amount to anything else
(Para alcançar qualquer outra coisa)
But look around
(Mas olhe em volta)
We worked too damn hard for this
(Nós trabalhamos duro demais por isso)
Just to give it up now
(Para desistir agora)

If you don’t swim, you’ll drown
(Se você não nadar, você vai se afogar)
But don’t move, honey
(Mas não se mexa, querida)


O refrão chegou com todos nós cantando juntos, as luzes estourando em tons de branco e vermelho, o público pulando tão sincronizado que parecia combinado.

You look so perfect standing there
(Você parece tão perfeita de pé aí)
In my American Apparel underwear
(Com a minha cueca da American Apparel)
And I know now, that I’m so down
(E agora sei que estou tão apaixonado)

Your lipstick stain is a work of art
(Sua mancha de batom é uma obra de arte)
I got your name tattooed in an arrowed heart
(Eu tenho seu nome tatuado em um coração flechado)
And I know now, that I’m so down, hey
(E eu sei agora que estou tão apaixonado, ei)


Sorri sozinho. Porque toda vez que eu cantava essa parte, era ela que me vinha na cabeça.

Hey, hey, hey, hey
(Ei, ei, ei, ei)
Hey, hey, hey, hey
(Ei, ei, ei, ei)


Veio meu verso. Peguei o microfone, ajustando o baixo no ombro, o coração acelerando mais do que devia. Abaixei um pouco a cabeça, e quando ergui o olhar, procurei ela.

Let’s get out, let’s get out
(Vamos fugir, vamos fugir)
'Cause this deadbeat town’s only here just to keep us down
(Porque essa cidade desocupada está aqui só pra nos deixar pra baixo)


Ela mordeu o canto da boca. Aquele hábito que ela tinha sempre que queria disfarçar que estava sorrindo.

While I was out
(Enquanto eu estava fora)
I found myself alone just thinking
(Me encontrei sozinho só pensando)
If I showed up with a plane ticket
(Se eu aparecesse com uma passagem de avião)
And a shiny diamond ring with your name on it
(E um anel de diamante brilhante com seu nome nele)
Would you wanna run away too?
(Você iria querer fugir também?)
'Cause all I really want is you
(Porque tudo que eu realmente quero é você)


Ela balançou a cabeça, como quem não acreditava que eu havia mesmo feito aquela música pra ela, mas não desviou os olhos.
As luzes giraram. O som de milhares de vozes gritando cada palavra se misturou com a nossa banda como se fosse uma coisa só.

She looks so perfect standing there
(Ela parece tão perfeita de pé aí)
In my American Apparel underwear
(Com a minha cueca da American Apparel)
And I know now, that I’m so down
(E agora sei que estou tão apaixonado)
I made a mixtape straight out of '94
(Fiz uma mixtape direto de 1994)
I’ve got your ripped skinny jeans lying on the floor
(Seus jeans rasgados estão largados no meu chão)
And I know now, that I’m so down, hey
(E agora sei que estou tão apaixonado, ei)

Hey, hey, hey, hey
(Ei, ei, ei, ei)
Hey, hey, hey, hey
(Ei, ei, ei, ei)

You look so perfect standing there
(Você parece tão perfeita de pé aí)
In my American Apparel underwear
(Com a minha cueca da American Apparel)
And I know now, that I’m so down
(E agora sei que estou tão apaixonado)
Your lipstick stain is a work of art
(Sua mancha de batom é uma obra de arte)
I got your name tattooed in an arrowed heart
(Eu tenho seu nome tatuado em um coração flechado)
And I know now, that I’m so down
(E agora sei que estou tão apaixonado)

Hey, hey, hey, hey
(Ei, ei, ei, ei)


Quando chegamos na última repetição do refrão, a batida acelerando, a guitarra de Luke puxando o ritmo final, minha cabeça foi direto pra uma lembrança idiota, mas que eu fiz questão de incluí-la na música.
Pouco antes de nos despedirmos, naquele dia em San Diego, pegou uma caneta vermelha qualquer e desenhou no meu braço um coração atravessado por uma flecha, com a letra A no meio e seu número de telefone em baixo. Eu lembro de ter tirado uma foto no celular logo depois. Não tinha tido coragem de lavar o braço até o desenho começar a desbotar.

You look so perfect standing there
(Você parece tão perfeita de pé aí)
In my American Apparel underwear
(Com a minha cueca da American Apparel)
And I know now, that I’m so down, hey
(E agora sei que estou tão apaixonado, ei)
Your lipstick stain is a work of art
(Sua mancha de batom é uma obra de arte)
I got your name tattooed in an arrowed heart
(Eu tenho seu nome tatuado em um coração flechado)
And I know now, that I’m so down
(E agora sei que estou tão apaixonado)


Terminamos a música com um grito coletivo, a plateia enlouquecida e eu baixei a cabeça um pouco, respirando fundo, com um sorriso idiota preso no rosto e a consciência de que agora ela sabia que essa música era inteira sobre ela.
Desde o primeiro verso até o último acorde.

(POV Rivers)

A gente assistiu o show deles quase inteiro do mesmo lugar de sempre: bem ali no cantinho do palco, entre cabos, cases de guitarra e técnicos de som correndo de um lado pro outro. O tipo de lugar onde a gente podia rir, cantar junto e gritar como fãs de carteirinha sem ninguém julgar.
Eu estava sentada numa das caixas de retorno, com a guitarra já afinada e pronta do meu lado, enquanto observava a sequência do setlist rolando. tinha se jogado no chão com as pernas cruzadas, as baquetas girando sem parar entre os dedos, como sempre fazia quando estava tentando se manter quieta. estava em pé, o baixo pendurado, os olhos quase hipnotizados no Calum em boa parte das músicas — o que já não era mais surpresa pra ninguém. estava um pouco mais pra trás, encostada na parede, os braços cruzados, mas com um sorriso fácil no rosto toda vez que Ash fazia alguma gracinha no palco.
Quando eles começaram "She Looks So Perfect", o clima entre nós mudou. Não tinha como não reparar. até fingiu olhar pro telão, mas dava pra ver claramente que os olhos dela estavam só no Calum. Eu cutuquei o braço dela.
— Tá disfarçando super bem, viu? — falei, com a voz baixa.
Ela só revirou os olhos e respondeu com um "shhh", mas não conseguiu esconder o sorriso.
Mas a verdade? Era impossível não perceber.
Agora que Calum tinha contado pra ela que aquela música era sobre ela… tudo fazia sentido. Cada trecho. Cada detalhe da letra — tudo estava ali, disfarçado de metáfora de música pop, mas estava.
Era basicamente uma declaração com melodia chiclete e refrão grudento.
E o pior? Sabendo o que eu sabia agora… eu também não conseguia ouvir a música da mesma forma.
Olhei de novo pra , que mordia o canto da boca tentando não sorrir muito enquanto o Calum cantava "'Cause all I really want is you", olhando pra ela como se o resto do estádio nem existisse.
Suspirei, balançando a cabeça.
— Vocês dois vão acabar me matando de diabetes — murmurei só pra mim mesma, antes de focar de volta no palco.
, que estava do outro lado mexendo nas baquetas, se inclinou pra gente.
— Aposto dez que eles se pegam até o fim da semana — ela comentou, como quem faz uma previsão meteorológica.
— Dez é pouco — rebateu. — Eu aposto vinte que acontece ainda hoje.
virou um pouco o rosto, com uma sobrancelha arqueada.
— Vocês sabem que eu tô ouvindo tudo, né?
— A gente conta com isso — eu disse, sorrindo.
Ela soltou uma risada curta, mas voltou a olhar pro palco logo em seguida. Calum acabava de encerrar a última frase da música com um daqueles sorrisos meio idiotas, meio orgulhosos, e o público explodiu em gritos.
Antes que a gente pudesse comentar mais alguma coisa, um dos assistentes da produção apareceu no nosso canto com um fone no ouvido e sinalizou com a mão:
— Meninas, hora de entrar!
Senti o estômago dar aquele friozinho conhecido. Levantei no mesmo segundo, ajeitando a alça da guitarra no ombro.
Luke foi o primeiro a pegar o microfone, ainda ofegante da última música, com o rosto iluminado pelas luzes coloridas que dançavam pelo palco.
— Toronto... — ele começou, já arrancando gritos só com o tom de voz. — Vocês acharam que a gente ia deixar vocês sem uma participação especial hoje?
O público foi à loucura antes mesmo de ele continuar. Ash levantou um pouco da bateria e apontou pro canto do palco.
— Vocês já conhecem elas… — disse, a voz alta, animada. — Senhores e senhoras... The Sirens!
A plateia explodiu em gritos. Não teve nem tempo pra hesitar. Eu, , e saímos quase correndo, cada uma indo direto pra sua posição.
— Atenção, cidade de Toronto… vocês estão prestes a ouvir a combinação mais irresponsável de energia e falta de filtro do planeta — disse Ash, girando as baquetas com um ar dramático.
— Você fala como se fosse um aviso de segurança — comentou, já com a mão no baixo.
— E é — Mike respondeu, rindo, enquanto todos da plateia gritavam ainda mais. — Essa é Basket Case, pessoal!
As guitarras entraram juntas: eu, , Mike e Luke formando um paredão de som que quase me fez rir de nervoso. bateu forte na bateria, com um sorriso gigante no rosto.
Calum foi o primeiro a cantar.

Do you have the time to listen to me whine
(Você tem tempo pra me ouvir reclamar)
About nothing and everything all at once?
(Sobre nada e tudo ao mesmo tempo?)
I am one of those melodramatic fools
(Eu sou um daqueles idiotas melodramáticos)
Neurotic to the bone, no doubt about it
(Neurótico até os ossos, sem dúvida nenhuma)


Enquanto ele cantava, fez um riff de baixo improvisado no fundo, só para provocar. Vi os dois trocando um olhar rápido antes dela assumir o microfone, sorrindo de canto.

Sometimes I give myself the creeps
(Às vezes eu mesmo me assusto)
Sometimes my mind plays tricks on me
(Às vezes minha mente me prega peças)
It all keeps adding up, I think I'm cracking up
(Tudo vai se acumulando, acho que estou enlouquecendo)
Am I just paranoid? Am I just stoned?
(Só tô paranoico? Ou só tô chapado?)


Ela girou de leve o corpo, andando até o centro do palco no final do verso. Então Luke assumiu.

I went to a shrink to analyze my dreams
(Fui a um psicólogo pra analisar meus sonhos)
She says it's lack of sex that's bringing me down
(Ela disse que é falta de sexo que tá me derrubando)


Eu e nos entreolhamos e rimos alto no palco, porque a plateia fez aquele grito coletivo de "UUUUUUH!" na hora.

I went to a whore, he said my life's a bore
(Fui a um prostituto, ele disse que minha vida é um tédio)
And quit my whining 'cause it's bringing her down
(E que eu parasse de reclamar porque tava derrubando ela também)


— Poesia — comentei no microfone. Luke riu alto sem perder o ritmo e eu sorri, iniciando minha parte.

Sometimes I give myself the creeps
(Às vezes eu mesmo me assusto)
Sometimes my mind plays tricks on me
(Às vezes minha mente me prega peças)
It all keeps adding up, I think I'm cracking up
(Tudo vai se acumulando, acho que estou enlouquecendo)
Am I just paranoid? Ah, yeah, yeah, yeah
(Só tô paranoico? Ah, sim, sim, sim)


Na última linha, Luke veio até meu lado, fazendo uma dancinha ridícula de ombro. Nós dois rimos no meio da frase, tentando manter o fôlego para terminar o verso direito.
Ash levantou as baquetas no ar e fez uma virada de bateria exagerada, claramente só pra ganhar aplausos extras. Funcionou. O público foi à loucura.
Eu e Luke nos inclinamos pro microfone juntos.

Grasping to control, so I better hold on
(Me esforçando pra ter controle, então é melhor eu me segurar)


O solo explodiu logo depois, como se alguém tivesse aumentado o volume da noite em mais cinquenta por cento.
Mike e estavam completamente sincronizados nas guitarras, como se tivessem combinado cada acorde antes mesmo de pisar no palco. Eu e Luke entramos juntos no embalo, cada um com a sua guitarra, reforçando a base rítmica com um sorriso estampado no rosto. Senti o peso gostoso da distorção vibrando nas cordas, o som preenchendo meu peito até a ponta dos dedos.
Atrás da gente, e Ash estavam numa sintonia caótica e perfeita. Ela, batendo nos tambores como se estivesse descarregando a alma em cada golpe. Ele, girando as baquetas no ar entre um prato e outro, numa performance que era metade técnica e metade show de stand-up físico. O barulho das baterias preenchia o palco inteiro, com uma energia que fazia a gente querer correr, pular e nunca parar.
Foi então que Michael entrou com o vocal.

Sometimes I give myself the creeps
(Às vezes eu mesmo me assusto)
Sometimes my mind plays tricks on me
(Às vezes minha mente me prega peças)


Na última repetição, pegou o microfone e gritou com a voz meio rouca.

It all keeps adding up, I think I'm cracking up
(Tudo vai se acumulando, acho que estou enlouquecendo)
Am I just paranoid? Am I just stoned?
(Só tô paranoico? Ou só tô chapado?)


O estádio veio abaixo no último acorde. O som da bateria de e Ash ainda ecoava nos meus ouvidos quando larguei a guitarra no corpo, soltando o ar num riso nervoso. Me joguei pra trás no palco, ofegante, sentindo o suor escorrer pelas costas.
— EU AMO O CANADÁ! — Ash gritou com os braços erguidos, como se tivesse acabado de ganhar uma maratona.
Mike, por outro lado, girava o microfone no ar como se fosse o frontman de uma banda de hard rock dos anos 90, o sorriso de orelha a orelha.
Luke veio até mim, dando um empurrão de leve no meu ombro.
— Isso foi insano.
— Tô com dor no braço de tanto tocar — respondi, rindo. — Mas valeu cada segundo.
ainda estava agachada perto dos pedais da guitarra, respirando fundo e rindo ao mesmo tempo. bateu as baquetas no ar, agradecendo ao público e largou o baixo no suporte, olhando pra gente com aquele sorriso satisfeito de missão cumprida.
Enquanto Michael passava por ela, esticou a mão e bagunçou o cabelo vermelho dele com força suficiente para deixar os fios ainda mais desgrenhados.
— Isso foi um ataque injustificado! — Mike reclamou, mas com um sorriso bobo no rosto.
Luke jogou um braço ao redor dos meus ombros por um segundo, me puxando junto no embalo até o backstage. A gente ria, meio sem fôlego, ainda com a adrenalina no máximo.
Calum passou um braço ao redor da cintura de num abraço de lado, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eles trocaram um daqueles sorrisos cúmplices que já estavam ficando óbvios até pra quem fosse cego.
Enquanto caminhávamos pro fundo do palco, a produção já estava no modo automático: técnicos recolhendo cabos, roadies levando os instrumentos de volta, luzes diminuindo devagar.
Ash, claro, ainda arrumou energia pra gritar.
— TORONTO, VOCÊS FORAM LENDÁRIOS!
No segundo seguinte, ele virou na direção da .
— E você… — ele apontou pra ela, a voz mais baixa, mas com a mesma intensidade. — Ganhou um aumento de salário emocional por esse solo de guitarra.
— Ah, ótimo — ela respondeu, rindo e colocando a mão no quadril. — Quanto paga?
— Um milkshake. E talvez… outro beijo na próxima Kiss Cam — ele disse, piscando pra ela antes de disparar na frente correndo como um idiota.
só balançou a cabeça, mas o sorriso ficou ali, preso no rosto, enquanto a gente seguia atrás, empurrando um ao outro pelos corredores apertados dos bastidores.
O corredor até os camarins parecia uma mistura de euforia e exaustão coletiva. Técnicos cruzavam de um lado pro outro, alguns carregando cabos, outros ajustando caixas de som já desmontadas e o pessoal da produção dando aquele clássico "bom trabalho, galera!" enquanto a gente passava.
Joguei a guitarra no suporte assim que entrei no camarim e afundei no sofá.
— Eu quero uma cama. Uma pizza. E talvez uma transfusão de serotonina — falei, fechando os olhos.
entrou logo atrás, largando as baquetas numa cadeira qualquer.
— Eu quero… — ela respirou fundo —… um banho de uma hora e meia, uma batata frita e um documentário ruim pra assistir.
Michael apareceu com uma toalha no ombro e a camiseta toda grudada no corpo.
— Eu só quero continuar vivo — disse, se jogando no chão mesmo, de braços abertos. — Toronto quase me matou.
— Disse certo. Quase — Luke falou, pegando uma garrafinha de água e derramando um pouco na própria cabeça.
Calum entrou junto com , com o braço ainda apoiado nos ombros dela, os dois rindo de alguma piada interna que eu não tinha ouvido e passou por Ash, que ainda estava meio empolgado, como sempre.
— Ok… — Ash bateu palmas, como quem anuncia uma reunião de última hora. — Agora a questão é: o que a gente faz com o resto da noite?
— Descansar como pessoas normais? — sugeri, já sabendo que ninguém ia topar.
— Isso soa como uma escolha madura — Mike falou, ainda jogado no chão. — Mas sabe o que soa melhor?
— Um bar? — Calum chutou, com um sorriso preguiçoso.
— Um bar — Michael confirmou, erguendo o braço como se comemorasse uma vitória.
— E alguém tem ideia de um lugar decente por aqui? — perguntou, amarrando o cabelo num coque rápido, com alguns cachinhos soltos.
Luke já estava com o celular na mão, os polegares trabalhando com eficiência assustadora.
— Já tô no Google Maps, confiem em mim. — ele deu uma risadinha enquanto rolava a tela. — Ok... tem um barzinho a uns quatro quarteirões daqui. Nada muito lotado e uma carta de drinks que parece ter sido escrita por alguém bêbado. — ele virou o celular pra mostrar o nome: The Hideout.
— O nome combina com a vibe. Eu topo — disse, pegando a mochila dela do chão. — Vamos nos esconder da responsabilidade lá.
— Perfeito. — Ash esfregou as mãos, já se levantando como se tivesse tomado um energético intravenoso. — Me deem dez minutos pra tomar banho e fingir que sou apresentável.
— Dez minutos? — arqueou a sobrancelha. — Isso é um recorde pessoal.
— Ou uma promessa vazia — acrescentou, já recolhendo as coisas dela também.
O clima no camarim virou aquele caos clássico de fim de show: gente vasculhando malas por roupas mais decentes, desodorante sendo compartilhado como moeda de troca, alguém perguntando onde estava o secador e Michael rodando em círculos tentando achar a carteira.
— Eu deveria ir com a mesma camiseta suada só pra manter o espírito rockstar — Mike disse, mas já estava com a camiseta nova na mão.
— Ou a gente só finge que o cheiro de pós-show é um novo tipo de perfume conceitual — disse, passando um lenço demaquilante no rosto com a pressa de quem já tinha aceitado a realidade.
riu, sentada no chão com as pernas cruzadas, trocando os tênis por um coturno.
— Tipo… "Eau de palco, suor e decisões questionáveis".
— Eu compraria — Calum disse, enfiando a cabeça por dentro da camiseta limpa antes de terminar a frase. — Se tivesse um bom marketing, daria certo.
estava encostada perto da bancada de maquiagem, passando blush e rímel só pra não sair com a cara totalmente lavada e Luke mexia no cabelo com as mãos molhadas, numa tentativa meio triste de domar o caos.
— Alguém tem um boné? — ele perguntou, olhando ao redor.
— Eu — respondi, jogando o meu pra ele. — Mas só porque sei que você vai me devolver com cheiro de shampoo de hotel.
— O que é quase um upgrade — Luke respondeu, colocando o boné e piscando na minha direção.
Michael finalmente achou a carteira dele embaixo de uma pilha de cabos no canto do camarim.
— Achei. E nem precisei entrar em pânico real.
— Isso é porque você vive no estado de pânico pré-estabelecido — comentou, jogando uma jaqueta por cima da blusa.
Ash apareceu de volta exatamente sete minutos depois, os cabelos ainda molhados, usando uma camiseta escura nova e calça jeans.
— Olha só… — murmurei, de onde estava. — não foi promessa vazia.
— Quando a motivação é boa, eu supero minhas próprias expectativas — Ash respondeu, passando a mão pelos cabelos ainda bagunçados.
Luke pegou o celular e tirou uma foto rápida da bagunça que a gente tinha feito no camarim.
— Só pra lembrar amanhã como somos um grupo de adultos completamente funcional.
— Adultos? — Calum repetiu, rindo. — Isso é discutível.
Quando finalmente estávamos prontos — ou o mais próximo disso que conseguiríamos —, saímos pelos corredores ainda iluminados, com o eco dos passos e das risadas se misturando.
A equipe da produção acenou quando passamos por eles, já cientes de que era melhor não fazer muitas perguntas.
O ar frio de Toronto bateu no rosto da gente assim que atravessamos a porta dos fundos da arena. A cidade já estava toda iluminada, com aquele tipo de céu que parece sempre ter uma névoa leve flutuando por cima dos prédios.
A van da produção esperava no estacionamento lateral, o motor ligado, e a gente entrou aos poucos, jogando casacos, mochilas e a dignidade de lado.
foi direto para um dos bancos do fundo, se jogando como se fosse parte da mobília. Michael, sentou do lado do motorista e imediatamente começou a mexer no rádio da van, tentando achar alguma estação que estivesse tocando alguma coisa decente.
Luke pegou o banco da frente, o celular ainda na mão, provavelmente criando a legenda da foto do camarim. se enfiou no banco do meio, entre Ash e , os dois falando alguma coisa sobre as luzes da cidade — e eu só conseguia rir baixinho, porque Ash estava empolgado num nível que beirava o caótico.
Calum sentou do meu lado, os dois com as pernas meio encolhidas por conta do espaço, e eu juro que em algum momento ouvi ele sussurrando pra alguma piadinha interna, porque ela soltou uma risadinha abafada na gola do casaco.
A van virou a esquina, atravessando algumas avenidas largas, com o centro da cidade ficando para trás aos poucos.
O motorista diminuiu a velocidade quando entramos numa rua lateral, com calçadas estreitas e postes antigos iluminando o chão com um tom meio amarelado. As fachadas eram todas de tijolinhos vermelhos, com letreiros neon de bares e restaurantes.
O som abafado da música escapava pelas paredes enquanto a gente se aproximava da entrada. O interior do bar tinha exatamente a vibe que o letreiro prometia: luz baixa, mesas de madeira riscadas com nomes de gente aleatória, sofás antigos jogados nos cantos e um palco pequeno no fundo, vazio.
O cheiro era uma mistura de cerveja, madeira velha e um leve toque de fritura — o aroma universal de todo bar minimamente decente.
Michael foi o primeiro a atravessar a porta como se fosse dono do lugar.
— Eu declaro oficialmente inaugurada a nossa noite de péssimas escolhas! — ele anunciou, já indo direto pro balcão.
riu, puxando pelo braço.
— Quero uma bebida com guarda-chuvinha só pra me sentir num clipe dos anos 2000.
— Isso e uma batata frita — respondeu, apontando para um cardápio na parede.
Mike já estava encostado no balcão, analisando as opções de drinks como se fosse um crítico gastronômico de revista.
— Ok… quero algo com muito gelo e que pareça mais sofisticado do que realmente é — ele murmurou pro bartender.
Ash apareceu do meu lado, cutucando meu ombro com o cotovelo.
— Sabe o que combina com esse cenário? — perguntou.
— Medo de te perguntar, mas… o quê? — rebati.
— Tequila — ele sorriu como se tivesse descoberto a cura de todos os males da humanidade.
— Claro. Porque quando foi que você não sugeriu tequila? — respondeu, rindo.
e Calum ficaram um pouco mais pra trás, conversando baixinho perto de uma mesa vazia. Quando percebi, Calum já estava pedindo dois drinks que eu sabia que ela gostava. Pequenos detalhes que ninguém precisava contar pra ninguém.
Me aproximei do balcão, me apoiando com os cotovelos enquanto olhava o cardápio colado na parede. Tinha umas opções de cerveja artesanal com nomes tão pretensiosos que me fizeram rir baixo.
Luke parou do meu lado, ainda com o celular na mão.
— Você vai pedir o quê? — ele perguntou, inclinando a cabeça na minha direção.
— Algo que não me faça perder a dignidade em menos de uma hora — respondi. — Então… talvez só uma cerveja mesmo.
— Dignidade é superestimada — ele disse, com um sorriso preguiçoso. — Mas tudo bem… solidariedade de banda. Vou pedir o mesmo.
Levantei uma sobrancelha, encarando ele de canto.
— Desde quando você bebe cerveja artesanal?
— Desde agora — ele respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
O bartender chegou e fizemos os pedidos. Quando o cara se afastou, Luke me cutucou de leve com o ombro.
— Sabe… eu estava pensando — ele começou, com aquele tom de quem claramente ia falar besteira.
— O que, por si só, já é um perigo — murmurei, fingindo medo.
— Que falta faz um fliperama nesses bares, né? — Luke disse, ignorando minha provocação. — Já pensou a gente aqui, apostando shots numa partida de air hockey?
Soltei uma risada.
— A gente mal consegue dividir um prato de batata sem virar competição, imagina um jogo de verdade.
— Exatamente por isso que seria genial. — Ele ergueu a garrafa como se estivesse brindando à própria ideia.
— O que seria genial? — Ash apareceu atrás da gente, com um copo colorido na mão e um sorriso do tamanho de Toronto.
— Nada que envolva você e tequila de novo — respondi, pegando minha cerveja quando o bartender entregou.
— Ei! Eu sou um adulto responsável — Ash rebateu, ofendido de mentira. — Pergunta pra .
— Não me coloca nessa — ela gritou de onde estava, com as mãos ocupadas em fotografar o próprio drink ao lado da .
— Inclusive… — Ash apontou na direção delas, ainda com o copo na mão. — A estética da bebida da é um atentado contra minha reputação de beber só coisa feia e forte.
— Admite logo que queria um igual — respondi pra ele, vendo rir enquanto mostrava o copo com o guarda-chuvinha.
Luke girou a garrafa de cerveja nas mãos e se inclinou de leve na minha direção de novo.
— Aposto dez dólares que o Ash pede exatamente o mesmo drink que a em menos de quinze minutos — disse baixo, só pra mim.
— Fechado — respondi, segurando o riso.
Ash bateu palmas do outro lado, interrompendo a conversa geral.
— Gente… reunião de pauta — ele anunciou. — Eu proponho que a gente transforme essa noite em uma grande rodada de "Quem faz a maior vergonha pública primeiro".
— Isso já começou quando você entrou no bar — respondeu, sem nem olhar pra ele.
Todo mundo riu.
— Eu só queria um momento de paz… — murmurei, pegando a cerveja de novo.
Luke cutucou meu braço.
— Você queria paz e veio pra turnê com a gente. Suas escolhas são questionáveis.
— Eu sei — respondi, rindo. — E eu não mudaria nada.
Calum apoiou os cotovelos na mesa, olhando pra gente com aquele meio sorriso de quem já previa o caos.
— Tá, então… qual vai ser a primeira missão vergonhosa? — ele perguntou.
Luke apontou para Ash, que já estava meio escalado num dos bancos altos perto do balcão.
— Acho que o nosso mestre de cerimônias vai querer começar — ele disse.
Ash levantou o copo colorido (adivinhem? o mesmo drink que tomava), como se fosse uma tocha olímpica.
— Não — eu disse, antes mesmo dele abrir a boca.
— O quê? — ele respondeu, fazendo a expressão mais inocente que conseguiu.
— Eu e o Luke apostamos quanto tempo você ia demorar pra pedir exatamente isso — expliquei, apontando pro copo ridiculamente decorado com cereja, guarda-chuvinha e até um canudinho torto.
Luke ergueu a mão como quem pedia um high five.
— Não me arrependo de nada — Ash declarou, antes de dar um gole gigante na bebida, fazendo a rir do outro lado. — Bom, vamos lá. Senhoras e senhores… e Michael — ele começou, com a voz em tom de anúncio. — Eu proponho que, já que temos um microfone abandonado ali naquele canto do bar, alguém faça a primeira performance solo da noite. Mas… — ele fez uma pausa dramática. — …com uma música escolhida por nós.
O grupo inteiro virou a cabeça ao mesmo tempo pro pequeno palco improvisado no fundo do bar. Uma caixinha de som, um microfone e pronto. Perdição.
— Não — já disse de imediato, rindo.
— Sim — todos responderam ao mesmo tempo.
Ash cruzou os braços, se virando para ela com um olhar desafiador.
— Vai fugir logo da primeira rodada? — ele provocou.
— Isso vai pro arquivo histórico da turnê — Michael disse, já rindo e puxou o celular, apontando a câmera na direção dela.
A playlist mudou de música, agora tocando um pop rock de fundo, e a galera no bar começou a prestar atenção também.
— Anda, rockstar. Brilha lá — bateu nas costas dela.
levantou as mãos num gesto de rendição e se encaminhou pro microfone, enquanto a gente batia palmas e fazia a maior cena possível.
Ela subiu os dois degraus do pequeno palco improvisado como quem sobe pra assinar um tratado de paz, mas com um sorriso de quem estava prestes a começar uma guerra.
— Boa noite, Toronto — disse, com o microfone já na mão e um aceno dramático como se estivesse num estádio lotado. — Essa é pra todos vocês que tiveram um dia… mediano.
O bar inteiro riu. Mesmo quem não fazia ideia de quem éramos.
Michael gritou do fundo:
— Canta Adele!
— Canta Backstreet Boys! — Ash completou, já quase se jogando no balcão.
Luke bateu na mesa como se tivesse acabado de ter a ideia mais genial do século.
— Já sei — ele disse, com aquele sorriso de quem tinha plena consciência de que ia causar o caos. — Barbie Girl.
O silêncio que veio depois durou uns bons três segundos. Três segundos de choque coletivo… antes de explodir numa mistura de gritos, vaias falsas e aplausos.
— ISSO! — Ash quase derrubou o copo na pressa de levantar o braço. — Por tudo que é mais sagrado… SIM!
— Não, pelo amor de Deus — cobriu o rosto com as mãos, já rindo, negando com a cabeça. — Vocês são insuportáveis.
— Pelo conteúdo! — Michael gritou, como se fosse uma campanha política.
— Por Toronto! — completou, batendo na mesa.
— Por Deus e pela nação da vergonha! — Ash levantou o copo.
respirou fundo, como se aceitasse o próprio destino.
— Tá… Mas se é pra fazer, vai ser direito — ela disse, apontando pra Ash e Mike. — Vocês dois são meus Kens oficiais. Sem desculpas. Venham aqui.
— Nasci pra esse papel — Ash respondeu, já abrindo um sorriso gigante enquanto Mike se levantava.
O instrumental começou, com aquele sintetizador exagerado que parecia ter saído direto de um CD de festa infantil dos anos 2000.
No segundo que a introdução tocou, o bar inteiro começou a rir, como se já soubesse exatamente o que vinha por aí.
Ash e Michael se olharam com cumplicidade de filme ruim e, no coro mais teatral e cafona possível, soltaram:
Hi, Barbie!
Hi, Ken! respondeu com a voz mais dramática e infantilizada que conseguiu.
You wanna go for a ride? — os dois falaram juntos, cada um tentando colocar o máximo de entonação de desenho animado.
Sure, Ken! — ela continuou, com as mãos nos quadris e uma pose que parecia saída de um comercial de brinquedo dos anos 90.
Jump in! — Eles continuaram. Ash colocou a mão no peito como se estivesse emocionado com a resposta. Michael fez uma pose de galã de comercial de desodorante.
Nós ali na plateia, já estávamos completamente entregues à vergonha alheia coletiva. ria tanto que estava literalmente curvada na cadeira. Luke filmava tudo, com o celular tremendo de tanto que ele se sacudia de rir. Calum estava com o rosto escondido nas mãos, mas dava pra ver pelos ombros que ele estava rindo também. tinha deitado na mesa de tanto que ria, e eu já tinha lágrimas nos olhos antes mesmo da primeira estrofe.

I'm a Barbie Girl in a Barbie World
Life in plastic, it's fantastic
You can brush my hair, undress me everywhere
Imagination, life is your creation


Ela girava no próprio eixo, fazia biquinho, batia os cílios como se estivesse num comercial de brinquedos.

(Come on, Barbie, let's go party!)


Michael e Ash, nos backing vocals, gritavam como dois apresentadores de programa infantil fora de controle.


I'm a Barbie Girl in a Barbie World
Life in plastic, it's fantastic
You can brush my hair, undress me everywhere
Imagination, life is your creation


O bar inteiro já estava cantando junto. Algumas pessoas que nem faziam ideia de quem éramos já tinham levantado dos bancos, gritando a letra com as mãos pro alto.

I'm a blond bimbo girl in a fantasy world
Dress me up, make it tight, I'm your dolly


Ash, que até então estava só dançando de fundo como um idiota animado, avançou e pegou o microfone com a maior confiança do mundo.

You're my doll, rock'n'roll, feel the glamouring in pink
Kiss me here, touch me there, hanky-panky


Ele completou, com direito a um passinho ridículo de ombro e uma piscadinha dramática para .

You can touch, you can play
If you say I'm always yours (uh, oh)


fez uma coreografia improvisada, andando de um lado pro outro do palco como se fosse uma Barbie ganhando vida.

I'm a Barbie girl in a Barbie world
Life in plastic, it's fantastic
You can brush my hair, undress me everywhere
Imagination, life is your creation


Michael começou a dançar de um jeito ridiculamente sensual, enquanto Ash fazia uns passinhos de dança que pareciam uma mistura de boyband com karaokê de fim de festa.

Come on Barbie, let's go party!
Ah, ah, ah, yeah
Come on Barbie, let's go party!
Uh, oh, uh, oh
Come on Barbie, let's go party!
Ah, ah, ah, yeah
Come on Barbie, let's go party!
Uh, oh, uh, oh


, Mike e Ash ecoavam, com as mãos para cima, incentivando o público. Calum e Luke já estavam gritando junto com os Kens de apoio. quase caiu da cadeira de tanto rir.

Make me walk, make me talk, do whatever you please
I can act like a star, I can beg on my knees


Quando a próxima parte chegou, Michael não perdeu tempo. Pegou o terceiro microfone do suporte com a expressão de quem tinha esperado por aquele momento a vida inteira.

Come jump in, bimbo friend, let us do it again
Hit the town, fool around, let's go party


Mike finalizou, girando o microfone no ar como se fosse o vocalista de uma banda de rock em fim de show, enquanto voltava a cantar.

You can touch, you can play
If you say I'm always yours (uh, oh)
You can touch, you can play
If you say I'm always yours (uh, oh)


Quando chegou o último refrão, todo mundo berrava "Come on Barbie, let’s go party!", com direito a gente batendo nas mesas, nos bancos, e Luke quase chorando de rir enquanto filmava.
E então veio o encerramento clássico.
Oh, I’m having so much fun!, segurando o microfone com as duas mãos, fez a voz toda fofa.
Well, Barbie… — Ash entrou logo depois, fingindo ser o Ken mais sedutor da América do Norte.
We’re just gettin’ started! — Michael completou com o mesmo tom brega e teatral de sempre.
Pra fechar, correu até os dois e abraçou os dois ao mesmo tempo, gritando:
Oh, I love you, Ken!
O bar explodiu em aplausos, gritos, gente batendo palmas, e até o bartender levantou um copo para brindar… Parecia que a gente tinha acabado de assistir o show mais épico da história dos karaokês de Toronto.
se curvou de brincadeira, como se tivesse encerrado um show internacional, e voltou pro nosso canto, acompanhada de Ash e Mike, com as bochechas vermelhas.
— Vocês são um péssimo grupo de influência — ela disse, rindo, antes de pegar o copo dela de volta e virar um gole.
— E você é a Barbie mais icônica que esse bar já viu — Ash respondeu, já erguendo o copo dele para um brinde.
Todo mundo levantou os copos juntos, como se fosse o final de um filme de comédia adolescente de gosto duvidoso.
— Ao caos! — disse, batendo o copo no meu.
— À vergonha pública! — Luke completou, encostando o dele no de Calum.
— E ao talento questionável de todos nós — disse, ainda rindo, antes de beber mais um gole.
Michael, claro, já estava mexendo no celular, provavelmente postando algum vídeo de tudo aquilo nos stories, com uma legenda do tipo: "A arte venceu."
Era oficial: aquele era o auge da nossa decadência social. E eu estava amando cada segundo.




Continua...



Nota da autora: Oi, sirens! Me desculpem a demora, mas cheguei com mais uma atualização, espero que estejam gostando. Adoraria saber o que estão achando dos personagens, músicas e performances, então comentem sem medo, vou amar ler tudo! <3
Fiz uma pasta no pinterest com muuuitas fotos para enriquecer ainda mais a leitura de vocês
Também tenho uma playlist no youtube com as músicas originais das The Sirens
Beijinhos, e até a próxima!

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