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Última atualização: 20/02/2021

Capítulo 1

caminhava de um lado para o outro dentro da enorme cozinha de seu restaurante, enquanto tentava dar conta de tudo. E era tudo mesmo. Isso inclui temperar saladas, preparar pratos, grelhar carnes, enfim, tudo. Ela sabia que o último chef tinha pedido demissão por sua culpa e jurou melhorar. Mas, enquanto não conseguia ninguém bom o suficiente para pôr em seu lugar, ela conseguia se virar muito bem até o final do expediente. Mesmo que isso a deixasse com o corpo totalmente dolorido no final do dia.
- ! - Sua irmã e melhor amiga, Josie, gritou no meio da cozinha. Conseguindo atrair a atenção de Ally, mesmo que essa atenção fosse apenas um olhar raivoso. - Eu já disse que você precisa de um ajudante.
- E eu já te disse que não consegui ninguém bom o suficiente ainda. - Colocou a frigideira de volta no fogão. - Agora saia da minha cozinha, principalmente porque você está sem luvas e com esse cabelo seboso solto. Vá, vá. - Josie não tinha escolha se não se retirar da cozinha. Ela sabia que a irmã estava sobrecarregada e se não fosse tão ruim na cozinha, a ponto de nem saber fritar um ovo, já estaria dentro do restaurante a ajudando. Nesse caso, o máximo que podia fazer era manter as finanças em dia e tratar os melhores preços e produtos com fornecedores da cidade.
revirou os olhos com a teimosia de sua irmã, tinha quase certeza que a garota fazia de propósito. Entretanto, sabia que ela queria ajudar de alguma forma, mas não sabia como. A verdade é que nem sabia como se ajudar. Aparentemente ninguém mais naquela cidade do interior da Inglaterra tinha gosto para a cozinha.
Há quase dez anos atrás tinha tomado coragem o suficiente para finalmente realizar o seu maior sonho e abrir seu primeiro restaurante em Nottingham. Não era nem de longe o lugar que ela achou que faria sucesso, mas sabia muito bem sua capacidade e seus limites. Soube usá-los muito bem ao seu favor e no momento certo, agradando o paladar de todos da cidadezinha do interior. Quando o último cliente deixou o estabelecimento satisfeito, era um alívio para Ally, o trabalho duro no final do dia valia a pena. Olhou para a cozinha ao seu redor, ainda teria que organizar tudo antes de ir para a casa e ter o descanso merecido; aquilo levaria mais uma hora no mínimo.
- Vamos lá, nisso eu posso te ajudar. - Josie entrou na cozinha, dessa vez com sua irmã mais calma, sabendo que não seria expulsa. De certa forma, Josie era seu braço direito, desde o início tem sido a única pessoa que apoiava Ally em todas as suas decisões. Mas também era aquela que sabia falar um não quando ela precisava ouvir. Isso mesmo, quando precisava e não quando queria.
A última panela já estava lustrada, o último prato guardado e o último copo brilhava no armário. Um suspiro aliviado escapou na boca de ambas. Por mais que Ally estivesse vivendo o sonho, cozinhar e comandar um restaurante sozinha - ainda que pequeno - não era tão fácil assim. Entretanto, ela sabia que as coisas só iriam sair exatamente do seu jeito se ela mesma colocasse a mão na massa. Isso não era problema para .
- Você me dá uma carona? - Ally fechou a porta de vidro, logo após ligar o alarme do local, e se virou para Josie.
- Como se eu tivesse escolha, não é mesmo? Você mora tão longe de mim para eu dizer não. - Ela revirou os olhos e riu logo em seguida, mas a única coisa que recebeu foi o dedo do meio como resposta.
As casas da pequena cidade eram bem parecidas, mantendo quase o mesmo ar medieval de séculos passados. Por fora elas até poderiam ter a mesma aparência, mas por dentro quase todas haviam sido reformadas e mostravam-se muito mais espaçosas. Foi exatamente isso que as irmãs fizeram. Após a morte de seus pais, elas resolveram deixar a casa com a cara delas dando um novo charme ao local. O dia sem dúvida tinha sido longo, então tomar um banho relaxante e colocar os pés pra cima era a prioridade delas. Não hesitaram em fazê-lo assim que abriram a porta de casa.
Lar doce lar.


subiu as escadas e abriu a porta de seu novo quarto. Após ser chutado pela namorada, que estava junto ao longo de três anos, precisou encontrar um novo lugar para chamar de casa já que dividia o antigo apartamento com a mulher. Tomou um longo banho quente, colocou uma boxer e se jogou na cama. Não conseguia parar de pensar o que faria de sua vida agora. Estava sem teto e precisava urgentemente de um novo emprego, já que o pub em que trabalhava estava prestes a mandá-lo embora, ele sabia disso. Ouviu seu telefone tocar, despertando-o de todos aqueles pensamentos. O número de sua irmã, Sarah, piscava na tela. Ela não costumava ligar a não ser que fosse importante, então decidiu que deveria atender.
- Oi, Sarah, aconteceu algo? - Perguntou sem enrolação.
- , é a mamãe. Ela não está muito bem. - A voz receosa de Sarah no outro lado da linha só fazia ficar ainda mais preocupado. - Viemos para o hospital. Achei que você precisava saber disso.
- O que ela tem? É grave? - já estava em pé andando de um lado para outro do quarto sem ao menos perceber.
- Não sabemos ainda. Estão levando ela para fazer alguns exames agora. Poderia visitá-la? Acho que me deixaria mais calma ter você aqui comigo. - Sua voz estava um pouco abafada, demonstrando que estava prestes a chorar.
- Tudo bem, Sarah, eu estou indo agora mesmo. Aliás… - Pensou bem antes de fazer a pergunta. - A mamãe ainda tem meu quarto na casa dela arrumado?
- Acho que sim. Por que a pergunta?
- As coisas não estão fáceis aqui, vou precisar voltar. - Suspirou fundo passando a mão livre nos cabelos.
- Sabe que aqui sempre vai ter um lugar pra você, né? Vem, a gente resolve isso quando você chegar. - Sarah disse com a voz mais calma tentando confortar o irmão.
- Tudo bem, chego aí o mais rápido possível.
- Tá bem, me liga quando chegar.
Dar um passo para trás era uma decisão muito difícil de tomar. não queria aquilo de forma alguma, mas ele não tinha escolha. Sua família precisava dele e ele dela, agora mais do que nunca. Pegou suas poucas malas, devolveu a chave na recepção do hotel e partiu até ao aeroporto para pegar um avião que o fizesse chegar mais rápido. Porém, não havia horários disponíveis para aquele dia, apenas para o próximo. Então, infelizmente precisou recorrer à viagem de trem que levaria um pouco mais de duas horas pela estrada de ferro. se sentou encostado na janela, observando a estrada passar conforme iam se movendo. Lembrou de quando se mudou para a capital inglesa, ainda era um rapaz cheio de sonhos e metas a cumprir. Uma pena em algum momento ele ter se perdido e não ter realizado todos esses sonhos. Como se não bastasse, agora ali estava ele, voltando para a casa de sua mãe a essa altura da vida, o fracasso parecia ser seu único companheiro, mas neste momento, ao menos, tentou não pensar nisso. Estava preocupado demais com a saúde de sua mãe para sentir pena de si mesmo.
acordou quando o trem parou, o burburinho da estação anunciava que ele havia chegado ao seu destino. Já fazia um bom tempo desde que pisara seus pés em Nottingham. O sol já ameaçava nascer ao horizonte quando decidiu, por fim, pegar um táxi e seguir direto para a casa de seus pais, a qual ele conhecia muito bem, mas já não visitava há um tempo. Por fora, a fachada era exatamente como ele lembrava, a varanda sempre arrumada e com um vaso de flor próximo ao sofá confortável, no qual já havia passado várias madrugadas conversando com amigos quando mais jovem. Tudo parecia tão distante, mas assim que fechou os olhos, as lembranças invadiam sua mente fazendo parecer que havia sido ontem. Pegou a chave reserva que, obviamente, sua mãe mantinha no mesmo lugar desde os seus dez anos de idade, e mandou apenas uma mensagem para Sarah avisando que tinha chegado. Era cedo demais - ou talvez tarde, já que não havia dormido direito - e preferiu não ligar para não acordá-la naquele horário. Subiu as escadas com suas malas e encontrou a porta de seu quarto aberta. Estava tudo como havia deixado, porém mais sofisticado do que antes. Agora aquele era o quarto de hóspedes da casa, não o quarto de um jovem e rebelde. As emoções de estar de volta eram muitas, mas o cansaço era ainda maior. Assim que se jogou na cama, se permitiu ser tomado por todo o cansaço de uma noite na estrada e pegou no sono.

Capítulo 2

- Você soube quem está de volta à cidade? - Josie serviu uma xícara de café para si mesma, enquanto a xícara com chá de canela já estava servida e pronta para ser tomada por Ally.
- Bom dia pra você também. - A morena se sentou em frente a irmã, tomando um gole da sua bebida. - Respondendo a sua pergunta, não sei. Quem? As vezes eu fico abismada como a fofoca roda rápido nessa cidade. - Abriu o jornal na parte de fofocas, gostava de se alienar um pouco antes de focar totalmente no seu trabalho.
- . - quase cuspiu toda sua bebida na cara da irmã ao ouvir aquele nome sair da boca da mais nova.
- . Àquele ? - perguntou torcendo para que não fosse quem ela pensava ser.
- Sim, esse mesmo que você está pensando. - A cara de felicidade que Ally mantinha em seu rosto logo pela manhã foi substituída por uma carranca de mau humor. Ela parecia não acreditar que aquele infeliz estava de volta à cidade. Só os deuses e sabiam o quanto tinha feito da adolescência da garota um verdadeiro inferno. Não é à toa que ela não podia nem ouvir falar naquele nome. Era tão proibido quanto chamar por Lord Voldemort no universo dos bruxos. Nesse caso, era no universo de mesmo e nada a faria mudar de ideia quanto o assunto envolvia você-sabe-quem.
- Você conseguiu falar com o novo fornecedor? Uma pena ninguém querer assumir os negócios do senhor Nicholas. - Ally mudou de assunto, ou tentou, já que viu a cara de reprovação da irmã., voltando sua atenção para o jornal.
- Ele está procurando um emprego novo.
- O último pedido de verduras da fazenda do senhor Nicholas é pra chegar hoje. Tenho que ir mais cedo para o restaurante. - Ela ignorou totalmente o que Josie falou. O aniversário de dez anos do restaurante estava chegando e precisava estar tudo pronto o quanto antes. Seu novo fornecedor era sua maior preocupação no momento.
- Você está me ouvindo ou vou mesmo precisar repetir?
- O que você quer que eu diga, hein? Eu estou cheia de coisas pra resolver no restaurante, minha última preocupação vai ser . Sinceramente, não acho que algum dia ele será. - Jogou o jornal em cima da mesa irritada, se levantando em seguida.
- Tassie passou mal ontem a noite e foi para o hospital. É por isso que voltou. - Ally parou no meio do caminho, estava pronta para pegar sua bolsa e sair de casa.
- Caralho, Josie! Você está fazendo a fofoca errada esse tempo todo. - Jogou as chaves para a irmã. - Você abre o restaurante, estarei lá o mais rápido possível.
nutria um sentimento de carinho muito grande pela senhora , mesmo com todas as diferenças que tivera com o filho mais velho da mulher. Após o acidente de seus pais, que os levaram a óbito, Tassie passou a cuidar de Ally e Josie como se fossem suas filhas, mesmo sabendo que as duas já eram grandes o suficiente para cuidarem de si mesmas. As duas famílias se conheciam há muitos anos, o único motivo que não as fizeram perder o contato. No caminho para o hospital, Ally tentou ligar para Sarah, mas a garota não atendeu a nenhuma de suas chamadas. Os corredores brancos iluminados pelas fortes luzes fluorescentes ainda assustavam , a última vez que estivera ali a notícia que recebera não havia sido nada boa. Ignorou todos os seus medos se dirigindo para o terceiro andar do prédio, após instruções da recepcionista. Se sentiu aliviada ao ver Sarah na sala de espera, aguardando notícias da mãe.
- Sarah! - A loira, antes sentada na poltrona no canto, levantou o rosto ao ouvir seu nome. - Como sua mãe está?
- Bem, mas ainda precisa fazer alguns exames. - Ela disse um pouco apreensiva.
- Eu não vou poder ficar, mas me dê notícias, ok?!
- Sem problemas, Ally. Vou falar pra ela que você esteve aqui, vai ficar feliz em saber. - Sarah tentou sorrir, mesmo não sendo o momento adequado. abraçou a amiga, como uma forma de conforto e de acalmar a mais nova.
- Passe lá no restaurante mais tarde e me mande notícias da sua mãe. Sinto sua falta, pirralha. - Ela quebrou o abraço, se despedindo de Sarah.
Das três mulheres, era a mais velha, com as suas 34 primaveras na conta; depois vinha sua irmã, Josie, com 29 anos; e por último, a amiga Sarah, filha da senhora , com seus 27 anos. Por ter crescido numa cidade pequena, apesar de Nottingham não ser tão pequena assim, a família e a família se conheciam antes mesmo de nascer. Então, as três garotas praticamente cresceram juntas e, claro, também fez parte dessa criação. Até ele completar vinte anos e perceber que não queria seguir carreira na área de administração, o qual tinha se formado apenas por influência do pai. A vida na cidade grande parecia ser mais atrativa para ele. A capital inglesa era muito atrativa, além de ser o sonho de todo jovem do interior. Entretanto, diferente de , Ally sabia o que queria da vida e sua vida estava naquela cidade. O gosto pela cozinha era de berço. Seus avós tinham um restaurante quando sua mãe ainda era jovem. Então quando ela nasceu e teve idade o suficiente para chegar perto de uma cozinha, a culinária nunca mais saiu de sua vida. Aprendera algumas receitas com os pais, algumas saíram melhor que encomenda e outras não deram muito certo. Nada que com o tempo não tivesse dado certo, afinal, começou a estudar cada prato que gostaria de fazer ou aprender melhor. Quando terminou o ensino médio, já sabia que gastronomia seria o curso da sua vida e não foi diferente. Depois da graduação, a única vez que saíra do país foi para estudar em Paris. Aprender mais um pouco nunca era demais para ela.


Os raios de sol batendo em seu rosto fizeram acordar mais uma vez naquela manhã. O relógio em cima da cabeceira, ao lado da cama, já marcava nove horas da manhã. Levantou, tomou um banho e desceu para a cozinha, pronto para preparar seu café. Claro, não sem antes acender o primeiro cigarro do dia. Foi até o jardim aos fundos da casa, enquanto a água fervia no fogão. Fumar na cozinha de sua mãe era pedir para ver uma Tessie furiosa. E ninguém queria aquilo, principalmente que mal havia chegado na cidade. Mais de dez anos tinham se passado, mas a casa em que ele estava agora parecia exatamente a mesma que deixou para trás. Sacou seu celular do bolso da calça e mandou uma mensagem para Sarah, avisando que logo estaria no hospital. Não sem antes perguntar qual a situação de sua mãe, mas obteve apenas uma resposta rápida e um “vem logo” da irmã. Terminou de tragar o cigarro, voltando para dentro da casa pronto para servir uma xícara de café. Aquilo era o suficiente pela manhã, já que não estava acostumado a acordar cedo devido ao trabalho a noite no pub. Já podia imaginar o sermão que receberia da senhora ao descobrir a péssima alimentação que o filho estava tendo. Mas ele não se importava no momento, a saúde de sua mãe era prioridade. Após o café, subiu para o quarto para trocar de roupa. Decidiu, então, colocar uma camiseta branca, uma calça jeans escura e uma jaqueta da mesma cor da calça. Ajeitou o cabelo para trás e colocou um boné para disfarçar, não perderia tempo tentando arrumar o que para ele não faria diferença mesmo.
O hospital não ficava longe, então decidiu ir caminhando. O local ficava apenas a algumas quadras da casa, o que o fez aproveitar o tempo para pensar em sua vida e o que faria dela a partir de agora. Ele havia se mudado de Nottingham após se formar no colegial. Desistiu do emprego que tinha, deixando seu pai um pouco decepcionado ao ver o filho sem um futuro certo. Juntar as poucas malas e partir para a capital britânica parecia o ideal para ir em busca de seu sonho de ser músico. Mas a vida nem sempre é fácil e lhe prega peças. tocava guitarra em uma banda com os amigos na época de escola e ele realmente gostava disso. Achou que teria mais sorte na cidade grande, mas não foi exatamente o que aconteceu. Nos primeiros anos ele até encontrou alguns caras legais, com o mesmo objetivo. Entretanto, com focos diferentes, já que era o único que tentava fazer aquilo dar certo de verdade. Então, ele precisou procurar um emprego de verdade, o qual pudesse se manter na cidade. Isso o ajudou a descobrir que era bom em preparar drinks. Se acomodou com o emprego no pub, o que o fez entrar em uma zona de conforto e nunca mais sair dela. Agora, de volta a sua cidade natal, morando na casa de sua mãe e com o destino incerto nas mãos de quem quer seja o governante desse universo.
estava próximo ao hospital, pronto para acender mais um cigarro antes de entrar no local. Quando a silhueta que viu mais a frente chamou sua atenção. Ele a conhecia de longe, reconheceria em qualquer lugar. Obviamente ela estava um pouco diferente, mas nada que não o fizesse reconhecer. Os cabelos longos e encaracolados não o deixaram ter dúvida. Ela estava mais crescida, e muito, muito mais gostosa. Mas com certeza era ela, .
entrou no hospital, pegou a autorização de visitante na recepção e seguiu até o quarto onde sua mãe estava. Bateu na porta, encontrando com Sarah em pé, ao lado da cama, conversando com a mãe após abrir a porta.
- Oi, minhas garotas, cheguei. - Sorriu e abriu os braços já esperando um abraço de Sarah que corria em sua direção. - Sentia falta das duas.
- Achei que não vinha mais. - Sarah disse soltando o irmão, guiando-o até a cama onde estava a mãe.
- Oh meu amor, o que está fazendo aqui? Eu disse para Sarah não te ligar e te deixar preocupado! - Tassie dizia enquanto o abraçava apertado, demonstrando o contrário de sua fala.
- Ela está certa em ter ligado, mãe. Acho que você está precisando de um bom enfermeiro para cuidar de você. E adivinha quem está com tempo livre? Ah, isso mesmo, o seu filho preferido. - Ele deu risada sendo seguido pelas duas.
- Veio mesmo pra ficar? - Sarah perguntou fazendo careta, sabia que o irmão gostava de viver em Londres.
- Sim, talvez fosse melhor passar um tempo em um lugar diferente. Mas as coisas estavam desandando em Londres. E eu sinto falta de vocês, foi melhor voltar - deu de ombros, mas ainda estava triste por estar voltando feito um cachorro com o rabo entre as pernas.
- Vai ser ótimo ter você aqui comigo de volta, meu amor. - A mãe deu um beijo em seu rosto.
- E a senhora, dona Tassie? O que aconteceu para estar aqui?
- Então, querido irmão… parece que alguém anda se alimentando mal e tendo uma rotina agitada demais. Acabou tendo uns probleminhas com pressão e colesterol, mas já está tudo mais estável agora. Só precisa começar a se cuidar melhor.
- Não acredito, mãe!- Ele disse incrédulo. - Ficava me ligando pra saber se eu estava me cuidando, mas não estava cuidando de você né?! Tudo bem, agora eu estou aqui e vou cuidar muito bem de você. - abraçou a mãe de lado e beijou sua testa.
- Vou ficar mal acostumada assim com vocês dois me mimando. - ela disse sorrindo para os filhos.
- O médico já disse quando vai ter alta?
- Na verdade ele foi fazer os papéis já, logo ela pode ir embora. - Sarah explicou ao irmão.
- Que bom. - ele sorriu. - er… eu vi uma mulher saindo do hospital, parecia a , era ela mesmo ou estou louco?
- Era ela sim. Veio aqui ver a mamãe, mas estava com pressa porque tinha que resolver algumas coisas no restaurante.
- Ela abriu mesmo o restaurante? Que legal isso. - ele sorriu.
- Ela é incrível. Se tornou uma mulher maravilhosa, a irmã também, mesmo ainda sendo meio doidinha. - Tassie disse com todo o carinho que tinha pelas duas. começou a relembrar do passado e das vezes que conviveu com e Josie. Eles foram praticamente criados juntos, mas não gostava muito dele. O que era aceitável, já que tinha sido um belo de um adolescente babaca. Logo o médico chegou para finalizar a alta de sua mãe e finalmente puderam ir para casa.
Assim que chegaram Sarah foi para a cozinha fazer o almoço, já que a mãe estava reclamando da comida do hospital. Isso porque não havia ficado nem um dia completo no local. aproveitou para ficar um pouco com a mãe e conversar com ela, contar o que havia acontecido e o motivo de ter voltado. Logo Sarah anunciou que o almoço estava na mesa e todos foram pra pequena, mas aconchegante, cozinha de dona Tassie.
- Meninos, estava aqui pensando… o que acham de chamar as meninas para virem jantar aqui com a gente? Faz tempo que não as vejo e aí aproveitamos pra comemorar a volta do meu anjo aqui. - ela disse passando a mão no cabelo de que sorriu para ela.
- Eu acho uma ótima ideia mãe, meu namorado está em uma viagem de serviço. Então estou sozinha em casa, posso ficar aqui e fazer a comida pra todos nós. - Sarah sempre sendo pró ativa e se propondo a fazer as coisas.
- Por mim tudo bem, porém acho que a não vai ficar feliz com isso. Ela me detesta e vocês sabem.
- Claro né, você não vale nada . Certeza que fez alguma merda.
- Ei vocês dois não comecem! Vocês estão maiores que eu, mas ainda posso muito bem dar uma chinelada em cada um!
- Olha só, mal saiu do hospital e já quer bater na gente, Sasi. Tá bem já pelo jeito. - disse fazendo a irmã rir e recebendo um tapa de leve no ombro da mãe.
- Vocês ainda vão me deixar louca. - a mãe disse depositando seu prato na pia. - Eu vou lá ligar para as meninas e vocês dois vão pensando aí no que fazer. Sarah cozinha e vai ao mercado comprar o que faltar.
- Sim senhora. - Os dois disseram juntos batendo continência. A gargalhada alta de ambos soou pelo cômodo enchendo a casa de vida. Era um costume que eles tinham desde pequenos fazer aquilo. ficava feliz em ver que pelo menos ali ele podia se sentir em casa. E melhor que isso, ter a certeza que estava cercado de pessoas que o amavam.

Capítulo 3

gostava de deixar a maioria dos seus ingredientes cortados, embalados corretamente e, se possível, temperados. No caso daqueles que ela usaria o quanto antes. E era exatamente isso que ela estava fazendo, o último pedido de verduras já havia chegado. Guardou tudo que não usaria agora e separou aqueles necessários para a próxima receita. Como era segunda-feira, o restaurante não abriria para o jantar, apenas no período da manhã para o almoço. Assim, conseguia pelo menos descansar do período da tarde em diante. Mas como era teimosa, adiantava todo o serviço no restaurante e no fim das contas a folga não servia para muita coisa pois ela continuava trabalhando até mesmo quando podia descansar.
- O que está fazendo aqui ainda? O restaurante não abre hoje à noite.
- Eu sei, mas eu preciso deixar tudo organizado. - Colocou o pote com a costela suína temperada na geladeira. - Amanhã tem o almoço da empresa do senhor Thompson e são mais de trinta pessoas só da empresa dele.
- Verdade. Não sei como quase esqueci, já que ele ligou hoje pela manhã umas cinco vezes. - Josie disse revirando os olhos, foi até a pia lavar as mãos e colocou as luvas em seguida.
- Você sabe como ele é. Mas não posso reclamar, todo ano ele traz cliente novo para nós. - acompanhou os movimentos da irmã com os olhos, estranhando a ação. Josie nunca ajudava na cozinha e as duas sabiam muito bem o motivo. Cozinha e Josie na mesma frase só podia ser encrenca na certa.
- Será que dá tempo de fazer aquela torta de pêssego que só você sabe fazer? - Jo perguntou receosa. Ainda não havia contado para a irmã sobre o convite.
- De quanto tempo exatamente estamos falando? - guardou os morangos em tigelas, após serem cortados. Ela chegaria mais cedo no outro dia e os usaria para preparar uma geleia para sobremesa.
- Um pouco mais de uma hora, mas não mais que isso. Precisamos ir para casa trocar de roupa.
- Desembucha logo, Josie . - não gostava de enrolação e sabia quando a irmã fazia isso de propósito. Com certeza Josie achava que assim a irmã mais velha ficaria menos brava, mas só acabava causando o contrário.
- Vamos jantar na casa da senhora . Já confirmei nossa presença, não adianta dizer que não vai.
- Josie, eu odeio quando você faz isso. Eu juro que só não te mato dessa vez porque eu já sabia do convite e estava só esperando você falar. - sorriu vitoriosa, mesmo vendo que Josie nem se abalara com o sermão.
- Ok, ok. Faz logo essa torta, por favor. - Ela bateu palminhas animada, feito uma criança quando ganha doce. - Eu termino isso pra você, pelo menos cortar legumes eu sei.
O cheiro da torta de pêssego exalava por toda cozinha, o cheiro estava tão bom que chegava a dar água na boca. Se tem uma coisa que você nunca poderia falar que não sabia fazer, essa coisa é cozinhar. Seja doce ou salgado, ela sabia muito bem como fazer. E era impossível resistir a qualquer comida que fosse feita pelas mãos da mulher.
mal conseguiu colocar o último brinco quando ouviu Josie gritar no andar de baixo pelo seu nome. Soltou um suspiro baixo, tentando criar coragem para enfrentar o que estava pela frente. Já se faziam mais de dez anos e, mesmo assim, ainda queria arrancar a cabeça do maldito e lindo . Antes de sair de casa, pegou a torta de pêssego pronta em cima da mesa e encontrou com Josie já pronta no seu banco de motorista. A irmã mais nova estava tão ansiosa que se dispôs a dirigir aquela noite, coisa que acontecia quase nunca. Seja lá o que fosse, torcia para a irmã não estar aprontando nada. A porta da casa da senhora foi aberta por Sarah, que não conseguia controlar o seu sorriso. A correria do dia-a-dia às vezes impossibilitava os encontros, antes tão comuns, entre elas. Mas estavam felizes por poderem passar algumas horas juntas.
- Trouxe torta. - disse animada, levantando o prato da altura do rosto de Sarah. Josie deu um beijo no rosto da amiga e entrou na casa, sem nem mesmo pedir licença. É, não podia dar intimidade para ela ou ela levava a sério demais.
- Entra, entra. - Sarah fechou a porta, caminhando ao lado da em direção a cozinha. - Eu sei que você e o meu irmão se odeiam, mas…
- Sarah, estou aqui por você e pela sua mãe. Vamos esquecer isso, ok? - tentou manter todo o seu autocontrole, mas não sabia se realmente conseguiria mantê-lo na primeira piada que soltasse. Esperava que ele tivesse mudado, afinal as pessoas amadurecem, não é mesmo? Era isso que ela veria agora. - Senhora , que susto você nos deu hoje. - abraçou forte a senhora de cabelo loiro, quase branco, sendo correspondida da mesma forma.
- Oh, minha querida, eu estou bem agora. Foi só um sustinho pra me deixar esperta. - ela deu risada - E agora eu tenho dois enfermeiros para cuidar de mim. O está de volta e pra ficar. - Ela sorriu largo.
- Estou aqui sim e vou controlar a senhora pra não ficar mal de novo. - Ele disse terminando de descer as escadas e ajeitando o cabelo ainda molhado. - Quanta mulher bonita em uma sala só. - sorriu e caminhou até Josie. - Meu Deus, como você cresceu, Jo! Está linda. - Ele sorriu e abraçou a mais nova. - Olá, , quanto tempo. - ele a abraçou forte e beijou o seu rosto. Mesmo sabendo que ela não era sua maior fã, não podia negar que a mulher estava muito mais bonita do que ele se lembrava.
- É, quanto tempo. - respondeu ainda desconfiada. Porém, sentir o perfume de tão próximo de si pode ter deixado-a um pouco zonza.
- Vamos jantar logo, estou morrendo de fome. - Sarah quebrou o quase clima tenso prestes a se instalar no cômodo.
- Eu fiz aquela lasanha que eu sei que vocês gostam, Sarah me ajudou. - Tassie disse servindo os pratos.
- Eu tentei fazer ela ficar quieta, mas é quase impossível. Essa mulher é difícil. - disse fazendo-os rir.
- E, então, , o que anda fazendo? - Josie começou a perguntar, mas podia sentir de longe o cheiro de tramóia da irmã.
- Bom, no momento estou tentando reorganizar minha vida já que ela mudou completamente. - Ele riu meio sem graça. - Pra começar preciso de um emprego, se conhecer um pub precisando de barman, por favor, me diga.
- Não conheço pub, mas conheço um restaurante que precisa de alguém. - deu um chute, por baixo da mesa, na perna de Josie. Ela sabia que a irmã não ia conseguir controlar aquela língua.
- Ah, que ótimo. Qual restaurante? - Por alguns instantes ele até pareceu animado. O que fez se sentir péssima, por outro lado.
- O da . - Os ombros de murcharam ao ouvir a resposta. Ele sabia que suas chances de trabalhar com eram mínimas. - O último chefe pediu demissão e ela precisa muito de alguém o quanto antes.
- O não é muito jeitoso na cozinha. Mas aprende rápido e não é um completo desastre. - Tassie disse fazendo todos rirem.
- Valeu, mãe. - deu risada. - Quem sabe eu possa fazer um teste qualquer dia. - Deu de ombros e olhou para .
- Mas não vamos estragar nosso jantar falando de negócios, não é mesmo? - Mais uma vez a voz de Tassie se fez presente. O clima já estava desconfortável demais e ficaria ainda mais, caso recebesse uma resposta negativa de .
- Enfim...O que anda fazendo, Jo? Última vez que te vi ainda estava se formando. - disse terminando seu jantar.
- Eu administro o restaurante da , além de levar várias broncas dela.
- Você fala como se eu fosse uma péssima chefe. Mas garanto que nenhum outro lugar vai te dar tantas regalias.
- É, tem suas vantagens. - Josie disse rindo.
- Já terminaram? Posso tirar os pratos? - Perguntou Sarah ouvindo todos afirmarem, logo em seguida ela se levantou e recolheu os pratos os colocando na lava louças.- Podem ir para a sala, vou fazer um chocolate quente pra gente.
- Eu te ajudo aqui. - Josie foi a primeira a se pronunciar.
- Não mesmo, vocês são visitas, podem ir para a sala de TV enquanto eu faço as coisas aqui.
- Venham meninas, deixe que a Sarah cuida de tudo por aí. - Tessie seguiu para a sala, ligando a TV logo em seguida.
- Eu já vou, mãe. - disse saindo para o quintal, já colocando seu cigarro na boca ainda sem acendê-lo.
se sentou no degrau que separava a varanda e o jardim, acendeu seu cigarro e começou a mexer em seu celular. Uma mensagem de sua ex era sinalizada na tela, o que o fez ficar ainda mais irritado. Na sala, perguntava a Tessie como tinham sido as coisas no hospital e se ela estava bem, e a matriarca explicou tudo para as meninas. Depois de um tempo em silêncio olhando para a TV, Tessie quebrou o silêncio.
- , sei que não é o melhor momento. Na verdade, não sei se teria um momento bom para isso, mas queria lhe perguntar se não poderia dar uma chance para .
A mulher a olhava com um olhar triste, era difícil para dizer não para aquela mulher que cuidara dela e da irmã tão bem; mas seu filho realmente não merecia tal consideração.
- Eu sei, vocês tem suas diferenças. Nunca entendi o motivo, mas eu sei que não se dão muito bem. Sei também que não tem experiência com culinária, o que é difícil pra você, mas ele foi a três pubs diferentes nestes dois dias em que está de volta e ninguém o aceitou. A cidade é pequena e todos estão com o quadro de funcionários completos. Ele anda muito desanimado e sinto que não está bem, até agora não me contou o que aconteceu para que voltasse.
- Senhora , sabe o quanto eu a amo e respeito, mas não sei se poderia confiar ao um cargo no meu restaurante. Lá todos levam seus trabalhos muito a sério, aquilo é a minha vida e a de muitos ali, não é apenas um passatempo para ganhar um dinheiro e dar o fora quando bem entender. - foi sincera, por mais que doesse dizer isso a Tessie.
- Sei disso e pode ter certeza que não te pediria se realmente não fosse necessário. não é mais aquele jovem inconsequente que você conheceu, ele mudou, não vou dizer que é perfeito, por mais que eu ache, sei que não é. Mas eu te prometo que ele vai levar isso a sério e ser responsável.
- A senhora promete o fazer entender que não é apenas uma brincadeira e ele vai precisar suar a camisa para manter a vaga dele?
- Sim, eu prometo que falarei com ele para que leve isso a sério mais do que tudo que já fez na vida. Não vai se arrepender se lhe der essa chance, . Você é uma mulher incrível, acredito que conviver com você vai fazer dele uma pessoa melhor.
- Tudo bem, então temos um acordo. Eu dou uma chance ao e a senhora se assegura de que ele não me tire do sério.
- Obrigada, , não sabe o quanto isso é importante pra mim. - A mulher lhe deu um abraço apertado e sorriu.
- Só estou fazendo isso pela senhora, e por tudo que já me ajudou nesta vida.
Depois de algum tempo, Sarah apareceu com as xícaras e elas continuaram conversando na sala. estava um pouco tensa, então decidiu ir tomar um ar, pediu licença a todas e se direcionou ao jardim.
Assim que chegou na porta viu sentado no degrau digitando uma mensagem rapidamente com o cigarro aceso entre os lábios. Achou melhor dar meia volta e voltar para a sala. Mas ela também precisava de um cigarro.
A movimentação nas suas costas fez girar o tronco, dando de cara com o encarando. Os dois pareciam constrangidos demais - aparentemente sem motivo - para mover um músculo sequer. Se dando por vencido, voltou a sua posição inicial, ignorando a presença da mulher.
acendeu o cigarro e deu uma tragada longa.
- Estou atrapalhando?
- Não. Já estou saindo. - Apagou o resto do cigarro, colocando a bituca no cinzeiro da varanda.
- Não precisa sair correndo, eu não vou te morder nem nada do tipo. - disse se encostando na parede e se levantou ajeitando o cabelo, tirando-o do rosto.
- Não estou com medo de você, se é isso que está pensando. - Parou próximo a , mas foi uma péssima escolha ao encarar seus olhos brilhando.
- Então, por que está saindo correndo?
- Não estou saindo correndo, , apenas terminei o que vim fazer aqui.
- Pelo jeito continua o mesmo insuportável. - Ela o encarou soltando a fumaça. - Você é um ótimo ator, caso ainda não saiba. Quase acreditei na sua ceninha no jantar. - A primeira troca de farpas estava acontecendo como há muito tempo não acontecia. - Mas o que te trouxe de volta a tão famosa cidade de Robin Hood?
- Levei um pé na bunda, perdi meu apartamento e o emprego. Voltar era só uma questão de tempo, mas, aparentemente, Tassie apressou as coisas. - soltou uma risada amarga. Contar em voz alta parecia ser ainda pior do que em pensamento. - Pode rir, eu mereço.
- É, você merece. Mas não sou cretina a esse ponto. - apertou o casaco em volta do corpo quando a brisa gélida bateu em seu rosto. Tragou mais uma vez o cigarro antes de encarar . - Apareça no restaurante amanhã, não te garanto um emprego, mas vou te dar essa chance de me mostrar do que é capaz. - Sem esperar uma resposta, voltou para dentro da casa. Se ele estivesse mesmo disposto a mudar ou a provar que tinha mudado, ela só descobriria no outro dia.
sentou-se na poltrona vaga na sala de estar da senhora . A noite que tinha tudo para dar errado até que não estava se encerrando da pior forma.

Capítulo 4

chegou em seu restaurante no mesmo horário que estava acostumada. Se surpreendeu ao ver encostado na parede próximo a porta terminando seu cigarro. Abriu a porta ainda sob o olhar observador de , mas sem questioná-la a seguiu.
- Lave as mãos, vista o avental e as luvas e espere aí. - O tom autoritário fez enxergar outra naquele momento.
- Sim, chef. - fez um pequeno coque com os cabelos um pouco longos, em seguida fez o que havia lhe mandado. A mulher voltou com três garrafas em mãos, colocando-as na bancada de metal. Taças, copos e alguns medidores também foram depositados ali, seguidos de algumas frutas.
- Você disse que era barman, certo? Então me mostre que tipos de bebidas você sabe preparar. - Sentou-se no outro lado da bancada, o observando.
- Quantos drinks você quer que eu faça?
- Quantos quiser. - Deu de ombros. decidiu por preparar quatro bebidas, por fim. As três mais pedidas no pub em que trabalhava e uma extra que ele considerava muito boa. Esperava que fosse o suficiente para impressionar .
Começou pelo mais pedido e comum de todos, mas também o mais famoso, Dry Martini. Colocou Gin e Vermute seco dentro de uma coqueteleira com gelo, esperou a bebida ficar gelada para despejar dentro da taça e decorou com espiral de tangerina. Entregando para saborear em seguida.
- Meus drinks costumam ser bons, mas tenta pegar leve já que você é a única chefe por aqui. - disse entregando a bebida para que rolou os olhos com o comentário bebendo um pouco em seguida. A segunda bebida, foi a popular Cosmopolitan. Adicionou vodca, licor triple sec, suco de limão siciliano, suco de cranberry que ajuda na cor rosada na bebida. Por fim, decorou o copo com uma casca de limão siciliano.
- Você é rápido preparando os drinks. Trabalhou com isso por muito tempo? - perguntou observando o trabalho de .
- Sim, acho que uns seis anos. Quando se trabalha em um bar tem que ser rápido, os pedidos não param e as pessoas sempre estão com pressa para ficarem bêbados.
A terceira bebida já estava sendo preparada quando terminou de provar a segunda. adicionou com o medidor uma dose de tequila, leite de coco e suco de abacaxi no liquidificador até que ficasse numa consistência homogênea. Encheu o copo com cubos de gelo, colocando a mistura e enfeitou com um pedaço de abacaxi.
- Essa não era uma das mais pedidas, porém eu gosto e acho que você também vai gostar. - entregou o copo para e encostou na pia para observar sua reação.
- Eu prefiro dizer o que achei no final, ok? - Ele concordou e voltou a preparar a última bebida.
Por último, decidiu fazer a famosa caipirinha brasileira que havia aprendido com o seu colega de apartamento, logo quando se mudou para Londres. Não era uma bebida tão pedida assim nos pubs ingleses, mas era muito boa e valia a pena ser feita. Cortou o limão em quatro despejando os pedaços no fundo do copo, adicionou açúcar e amassou com um socador.
- Você tem cachaça, aí?
- Claro. - levantou indo até o dispensa, voltando com a garrafa em mãos. despejou um pouco do líquido junto com cubos de gelo, misturou bem e entregou o copo em seguida para . A reação dela não foi imediata, por mais que estivesse ansioso, esperando uma resposta da mulher à sua frente.
- Essa é uma iguaria brasileira que aprendi com um amigo meu. Conquistava muito os clientes do pub, principalmente as mulheres. - lavou as mãos e esperou para que dissesse algo.
- Eu sei, já bebi uma vez por uma amiga brasileira. - Ela olhou mais uma vez para as bebidas, pensando como responderia. - Bom, o meu restaurante não tem o foco principal em bebidas. Mas eu preciso admitir que todas elas são muito boas. De verdade, muito boas mesmo. O que mais sabe fazer?
- Vou ser honesto, não sei muito além de bebida, porque era isso que eu fazia em Londres. Mas corto legumes e verduras consideravelmente rápido e sei preparar alguns molhos de acompanhamento também.
- O restaurante tem bastante movimento e eu realmente preciso de alguém urgente, apesar de ter uma equipe muito boa. Aparentemente, você não é a melhor escolha para o que eu preciso no restaurante no momento. Mas quem me pediu foi sua mãe, e ela é muito importante pra mim, isso me obriga a ajudá-la quando me pede, o que foi o caso. Então tente se esforçar e fazer o máximo que conseguir e eu lhe permitir. Se estiver interessado, posso te ensinar algumas coisas futuramente.
- Eu sei, vou dar o meu melhor aqui pra você não se arrepender. - não sabia exatamente o que esperar do trabalho e nem como seria sua dinâmica com , mas um emprego era melhor que nada. - Obrigada, de verdade. - começou a guardar os alimentos que sobraram e as bebidas, depois limpou a louça utilizada e a bancada. Com certeza, alguém estava se esforçando mesmo para conseguir um emprego. Organização e limpeza eram essenciais dentro de uma cozinha, admirava isso.
- ? Posso ficar aqui hoje para poder conhecer o dia a dia do restaurante, você sabe… Pra não deixar pra aprender tudo logo no dia de bastante movimento em que você vai estar ocupada. - não podia negar que estava surpresa com a atitude de . O rapaz que ela conhecia não pensaria duas vezes antes de ir embora e deixar que ela se virasse com a cozinha. Ele parecia mesmo a fim de tentar.
- Começa hoje. A louça é toda sua. - A mulher saiu da cozinha, deixando-o fazer o que ela disse. Foi até a dispensa e pegou alguns alimentos, tentando manter sua concentração nos preparativos para o almoço e no . Ia ser mais difícil do que ela imaginava.
- Oi, irmãzinha querida! - Josie entrou já gritando pela irmã como de costume, mas parou na porta ao ver concentrado. Parou ao lado da irmã e cochichou em seu ouvido para que só ela ouvisse.
- Ele tá aqui há muito tempo?
- Por incrível que pareça, chegou antes de mim e ainda pediu para ficar e aprender hoje. - disse para a irmã ainda surpresa. Josie parecia sem palavras, olhava para como se fosse um estranho.
- Oi, , bem-vindo ao clube. - Ela sorriu o tirando do momento de concentração.
- Ah, valeu, Josie. - Ele sorriu de volta e voltou sua atenção às suas tarefas. Josie fez uma cara de surpresa pra irmã que apenas riu.
Cada um assumiu suas devidas funções, logo o restante da equipe chegou e foi apresentado e bem recebido. Todos eram bem focados, principalmente que não parava um único segundo. Mesmo com a falta de experiência, se deu bem. Ficou um pouco perdido e confuso no início, mas o restante da equipe o ajudou com algumas dicas. O horário do almoço foi a mesma correria de sempre. Pedidos sendo gritados para todos os lados e correndo para lá e pra cá dando os toques finais nos pratos.
Como não tinha prática, assumiu a parte de lavar a louça, uma arte que ele dominava já que sua irmã sempre o obrigava a fazer isso. Assim que o horário de almoço foi encerrado eles poderiam finalmente ter um tempo de descanso. comeu qualquer coisa e seguiu para o lado de fora para poder, finalmente, fumar um cigarro. Era seu primeiro dia, não queria parar para fazer isso o tempo todo.
Saiu pelas portas dos fundos que dava para um beco sem saída, o que era ótimo, ninguém o veria ali. encostou na parede e acendeu seu cigarro dando uma longa tragada relaxando o corpo na parede. Checou o celular, mas havia apenas uma mensagem de boa sorte de Sarah. Ouviu a porta se abrir e estava pronto para esconder o cigarro quando viu Josie saindo do restaurante.
- Aí está você!
- O que foi? Já está na hora de voltar?
- Ainda não, vim só chegar como você estava. O que tá achando?
- Bom, é bem intenso, mas pelo menos não preciso cuidar de bêbados. - ele riu dando outra tragada. - Ainda estou surpreso pela ter me aceitado aqui.
- Ela estava precisando de ajuda, e acredite, pode não parecer, mas por baixo daquela máscara de mulher durona existe um bom coração. - ela sorriu expressando o carinho que tinha pela irmã.
- Ei! Vocês são pagos para trabalhar e não para ficar aqui de conversinha. Vamos, de volta ao trabalho! - disse apenas com a cabeça para fora da porta.
- Ok. Ela insiste em provar que eu estou errada, mas não estou. - Josie disse, fazendo rir. Terminou seu cigarro e voltou para a cozinha seguido de Josie.
Já começando os preparativos do jantar, seguiu as mesmas funções anteriores. O caos se instalou novamente mostrando que já havia chegado o período da noite.
Logo o expediente foi encerrado e todos começaram a ir embora um a um. ainda estava terminando de limpar as coisas, após lavar toda a louça. programava o cardápio do dia seguinte.
- Bom, terminei tudo por aqui, . Precisa de mais alguma coisa? - disse se aproximando, tirando a touca deixando alguns fios do cabelo cair pelo seu rosto.
- Não, . Está tudo certo, pode ir. Como foi seu primeiro dia? - Ela parou por um momento o que estava fazendo voltando sua atenção para o rapaz.
- Foi bem diferente do que estou acostumado, mas gostei. Vou dar conta. - Ele sorriu, estava mesmo feliz com o novo emprego.
- Ótimo, espero que dê mesmo. Agora vai descansar, te vejo amanhã.
- Até amanhã, .
- Até amanhã, .
escutou quando a porta do restaurante foi fechada, deixando o ambiente ainda mais silencioso. Voltou, então, sua atenção para o cardápio a sua frente antes de Josie entrar na cozinha e tirar toda a sua concentração.
- Até amanhã, - Josie forçou uma voz masculina, uma tentativa falha de imitar a voz de .
- O que você quer? - ignorou o comentário da irmã, ainda fazendo algumas anotações.
- Saber como foi seu dia, como foi a dinâmica com o . Ele está se esforçando bastante, não pode negar.
- Não, não posso negar. Mas não posso dar mole só porque ele fez o mínimo para um primeiro dia. Eu trabalhei muito mais no meu primeiro dia e ninguém veio me parabenizar por isso.
- Mas era o que você queria para sua vida toda. Não é o que o quer. - O tom de voz acusatório de Josie fez levantar os olhos para a irmã, olhando com cara de interrogação e até mesmo um pouco de mágoa.
- Se não é o que ele quer, porque insistiu tanto para eu ajudá-lo? Não há nada que eu possa fazer se ele é um adulto sem rumo na própria vida. - Largou o papel em cima da bancada com uma força maior do que desejado.
- Porque, por um momento, achei que você fosse adulta o suficiente para esquecer as birras da adolescência e ajudá-lo como uma pessoa normal.
- O que você sabe sobre ser adulta, se nunca saiu daqui? - Mais rápido que um piscar de olhos, as palavras já tinham escapado da boca de . O brilho, que antes ocupava os olhos de Josie, rapidamente foi substituído por mágoa. - Josie…
- Tá tudo bem, . Você tem razão. - Deu de ombros balançando a cabeça. - Eu já fiquei tempo demais debaixo da sua asa. - O olhar magoado foi o último em que viu, antes da mais nova sair do local às pressas sem esperar qualquer tipo de desculpa vindo da irmã.
- Droga. - resmungou após perceber que estava sozinha no local.
Fechou as portas do restaurante, encaminhando-se para sua casa. A rua estava escura e o relógio já marcava mais de onze horas da noite. A sorte era que sua casa não ficava mais do que três quadras dali, então deu passos mais rápidos do que estava acostumada e logo pôde avistar a fachada branca da casa de madeira. O cômodo escuro indicava que Josie não tinha passado por ali, visto que ela sempre deixava a luz da sala acesa quando chegava mais cedo.
Após tomar um banho quente, decidiu tomar uma xícara de chá e assistir um pouco de televisão. Com certeza estaria rindo de algum besteirol nessa hora junto de Josie, como estavam acostumadas a fazer antes de dormir, apenas para relaxar. Mas se conteve com mais um filme do DiCaprio, ator favorito da irmã. Droga, o universo estava odiando essa noite. Decidiu por desligar a televisão e ir para o quarto, assim evitava ficar pensando na discussão de mais cedo. Só de cogitar em lembrar, as palavras duras voltavam a sua mente, torturando-a. Sabia que havia sido dura demais com Josie, mesmo não sendo essa a intenção. Mas agora já era tarde, restando apenas o descanso merecido depois de um longo dia de trabalho. Uma hora ela sabia que teria uma conversa séria com a irmã mais nova, mas por ora deixaria a poeira baixar e depois pensaria no que fazer exatamente.

Capítulo 5

acabara de sair do banho, colocou uma calça de moletom e uma camisa velha e larga. Desceu para procurar algo para comer, como tinha chegado tarde pediu para a mãe não se preocupar com ele. Fez um sanduíche e se sentou na sala para ver um pouco de TV, tinha sido um dia bem cansativo. Não muito tempo depois ouviu algumas batidas na porta, achou estranho alguém lá naquele horário, ao olhar pelo olho mágico viu que era Josie e logo abriu a porta.
- Josie? Aconteceu alguma coisa?
- Posso ficar aqui? Eu briguei com a , não quero ter que lidar com isso hoje. - Ela disse com uma voz mais baixa, seus olhos denunciavam o choro que já havia cessado.
- Claro que pode, entre. - ele lhe deu espaço para passar. - Quer falar sobre isso?
- Acho que agora não. Só quero ficar quieta e tentar não pensar nisso. - ela deu de ombros tentando parecer não se importar.
- Tudo bem, senta ali no sofá. Eu vou fazer um chá pra nós dois, tudo bem? - Jo concordou com a cabeça indo para a sala em seguida. caminhou até a cozinha e preparou duas xícaras de chá. Entregou uma para Jo e se sentou ao lado dela, que encostou a cabeça no ombro de .
- Tá um pouco melhor?
- Acho que sim, só fiquei magoada com o que ela falou. Sei que uma hora vamos nos resolver, mas não estou com cabeça para isso agora. - Jo disse ainda com a cabeça no ombro de , bebeu um pouco do chá em seguida.
- Vocês têm uma relação incrível, eu vi isso a minha vida toda. Eu sei que palavras machucam e que a pode ser bem cruel às vezes, mas eu tenho certeza que não foi a intenção dela te magoar. Ela te ama, Jo. - passou o braço pelo ombro da garota.
- Eu sei disso. Mas, às vezes, ela pega pesado e talvez ela nem estivesse tão errada. - suspirou cansada. - Eu só estou um pouco confusa, por isso vim pra cá.
- E pode ficar o quanto quiser, sabe disso.
- Eu sei, zinho, muito obrigada. - ela sorriu e deu um beijo no rosto de .
- Muito bem. - deu um beijo no topo da cabeça de Jo e se levantou. - Vou lá arrumar o quarto de hóspedes pra você, tá? Daqui a pouco eu venho te chamar.
subiu as escadas rápido e foi até o quarto de visitas. Não tinha muito o que arrumar já que sua mãe o mantinha sempre muito bem organizado e limpo, mesmo não recebendo muitas visitas. Deixou alguns travesseiros e cobertas na beira da cama e desceu para chamar Jo, logo ela estava no quarto.
- Pode ficar à vontade. Se precisar de algo é só me chamar, eu estou no quarto aqui do lado, está bem?
- Tudo bem, . Obrigada, de verdade. - ela sorriu, sincera, estava mesmo grata por ter uma segunda família a quem recorrer.
- Não precisa agradecer, te vejo amanhã. - acenou e seguiu para seu quarto.
Ficou pensando no que havia acontecido entre as duas. Queria saber se estava bem, mas sabia que ela provavelmente ignoraria sua mensagem. Então apenas torceu para que ela estivesse bem.
O chá realmente fez o efeito necessário, principalmente, com a ajuda do dia cansativo que tivera, fazendo adormecer logo em seguida que deitara em sua cama. Na manhã seguinte tinha combinado com a mãe que a acompanharia em uma visita médica. Definitivamente ele estava cumprindo com o combinado e cuidando da mãe conforme havia dito quando chegara de viagem.

- Como foi a consulta com a mamãe? - Escutou Sarah falar do outro lado da linha.
- Tranquilo. Ela está se cuidando direitinho, mais um pouquinho e tudo volta ao normal. O problema é falar pra ela continuar de repouso, você sabe como ela é.
- Teimosa!
- Exato. Bom, irmãzinha, eu preciso desligar. Se cuida, te amo.
- Juízo nessa sua cabeça oca, maninho. Te amo. - Logo encerraram a ligação e se preparou para mais uma noite no restaurante. Ele sabia que não era o dia que tinha combinado de ir, mas como Josie não estava aparecendo no local, achou que seria uma boa ideia. poderia estar precisando de ajuda. Mas ela nunca admitiria em voz alta.
O restaurante estava vazio quando entrou no local. Apesar de que era possível ouvir alguns passos da cozinha. terminava de decorar uma torta quando a avistou. A mulher estava concentrada demais na sua tarefa para notar a presença de , porém sentiu que estava sendo observada.
- O que está fazendo aqui a essa hora?
- Já levei minha mãe ao médico e ela já está em casa. - Se sentia uma criança tendo que dar satisfações.
- Mas é cedo ainda.
- Não vou embora. Eu sei que a Josie não apareceu hoje. - começou a lavar a louça, mesmo sem pedir.
- Ela está na sua casa, não está? - a voz dela se fez presente no ambiente silencioso.
- Sim. Vai ficar por um tempo, pelo o que eu entendi. - ficou em silêncio, sem saber o que responder, o que foi o suficiente para entender que o assunto tinha se encerrado e ele poderia ficar para ajudar.
Assim que começava a escurecer, a cozinha já estava cheia novamente, do mesmo jeito que o restaurante começava a ficar. O aroma da comida, o barulho de carne fritando na frigideira e as várias panelas, pratos e copos saindo e entrando no cômodo estava começando a agradar no meio de toda aquela loucura. Não, ele não tinha nem sequer chegado perto do fogão ainda, mais por instruções e olhares negativos vindo da . Ela não arriscaria colocá-lo para cozinhar logo no período da noite, quando o movimento era ainda maior.
- Seu dia de sorte. - entregou dois copos para . - Dois Dry martini, depois entregue para o Jeff que ele leva até a mesa. - Ela apontou para o rapaz que colocava um prato na bandeja pronto para se retirar da cozinha. Não demorou para preparar as duas bebidas e logo entregou para Jeff, conforme tinha pedido.
O que surpreendeu foi a forma como os pedidos pelas bebidas aumentaram naquela noite. Logo, ele teve que abandonar a pia com a louça e focar somente em preparar os drinks. Os mesmos que havia feito para no dia do teste. Isso, de certa forma, o deixou confortável. Afinal, preparar drink era sua especialidade. Ele fazia isso com tanta maestria e familiaridade que, por um momento, ficou aliviada em não precisar fiscalizar o trabalho dele na cozinha. Não essa parte pelo menos.
- Obrigada por hoje, pessoal. Bom descanso e até amanhã. - disse assim que a cozinha já estava devidamente limpa, com tudo no lugar, do mesmo jeito em que o salão principal se encontrava. Os funcionários começaram a se despedir de e a deixar o local, não demorando muito por ali visto que já passava das onze horas da noite.
- , quer carona? - começava a esticar uma massa de empada na bancada quando ouviu a voz de no cômodo.
- Não, ainda vou ficar mais um pouco aqui. Obrigada.
- O que está fazendo?
- Torta de pêssego. A preferida da Josie. - Deu um sorriso triste, ainda não havia conversado com a irmã.
- Posso ficar e, bem, aprender. - Deu de ombros, como se não fosse nada de importante. parou o que estava fazendo e encarou nos olhos. O que diabos ele queria, afinal de contas?
- Por que está fazendo isso? - Perguntou sem rodeios.
- Eu só quero ajudar.
- Desculpa, eu juro que não quero ser grossa, mas você não é o tipo de pessoa que quer só ajudar sem receber nada em troca. - Foi franca.
- Eu não sou mais aquele que te infernizou a adolescência inteira. Eu sei que você me odeia por isso ainda.
- Eu não odeio. Só não gosto. - Pela primeira vez no dia começava a ficar irritado, revirou os olhos ao ouvir a resposta.
- Eu mudei, ok? Eu sei que não vou conseguir tua confiança tão fácil assim. Mas estou tentando ser alguém melhor, por isso estou aqui.
- Coloque as luvas e senta aqui na minha frente. - Deu-se por vencida, se ele quisesse mesmo mudar teria que provar isso a ela.
terminou de esticar a massa de empada, colocou na forma e o recheio por dentro, fechando a empada com outra parte da massa, depois pincelou com ovo e colocou no forno para assar. Fez de uma forma tão automática enquanto apenas observava, como já estava acostumada a fazer tantas e tantas outras vezes. Esticou a tigela redonda para , o pacote de farinha, açúcar, ovos e o fermento.
- Peneire três xícaras de farinha primeiro. - entendeu o que ela queria e apenas obedeceu, afinal ele mesmo tinha pedido para aprender. - Uma xícara de açúcar. - foi até a geladeira e pegou um tablete de manteiga, o suficiente para aquela receita. - Dois ovos, a manteiga e por último, o fermento.
- Posso mexer agora?
- Eu deixaria você usar a batedeira pra ser mais rápido, mas nada melhor do que aprender a fazer você mesmo. - Ela disse parecendo satisfeita com a pressa de em colocar a mão na massa, literalmente. - Misture bem até parar de grudar na mão, pode adicionar mais farinha se precisar. - Sem questionar, fez exatamente o que foi mandado ainda sob o olhar observador de . Com certeza, não era a coisa mais divertida que já fez na vida. Contudo, estava gostando de estar aprendendo algo novo. O sorriso que começava a brotar no rosto de foi o suficiente para entender que estava fazendo da maneira certa.
- Eu sempre vejo nas receitas que a massa tem que ficar homogênea, acho que ficou.
- Nada mal para uma primeira vez. Vamos deixar ela descansar, amanhã quando você chegar a gente abre ela e coloca recheio. - colocou o papel filme envolta de tigela e deixou em cima do balcão. O cheiro da primeira torta exalava por toda cozinha, o que acabou fazendo a barriga de roncar.
- Desculpe. - Ao invés de ficar constrangido, deu de ombros.
- Me diz que comeu alguma coisa, pelo amor de deus.
- Comi um sanduíche.
- Só? - Ela o olhou incrédula.
- Sim, mas eu já to indo pra casa. - Terminou de limpar a bagunça que havia feito e tirou as luvas.
- Espera, leva essa torta pra vocês. Jo não está em casa mesmo e eu não vou comer isso tudo sozinha.
- Você está bem?
- Sim. - A resposta automática saiu mais rápido do que imaginou. Mas não seria para que ela falaria de seus problemas.
- Ok. Aceito a torta se aceitar minha carona e se deixar eu vir todos os dias.
- Ok, vamos fazer um acordo então. Você vem todos os dias à noite, com exceção de segunda que eu não abro, e eu juro que se aparecer aqui antes disso eu te proíbo de entrar na minha cozinha. Porém, caso a senhora precise de você à noite, em qualquer dia da semana, não hesite em ficar com ela. Eu vou saber se estiver mentindo ou escondendo algo de mim.
- Então, temos um acordo, senhorita . - Ele esticou a mão a fim de selar o acordo, sendo respondido por rapidamente.
- Eu tenho acordos demais com a sua família, espero que esse seja o último. Vamos, eu tô cansada. E, sim, aceito a carona agora.
- Hum, acho que você fez tudo isso de propósito só pra não ir pra casa a pé. - tentou conter uma risada, mas não conseguiu.
- Pode ser que sim, pode ser que não. Você nunca saberá. - Ela balançava a cabeça de um lado para o outro, com logo atrás.
- sabe jogar, bom saber.

Capítulo 6

A campainha da casa dos soou logo pela manhã bem cedo. não gostava de aparecer justo naquele horário, mas precisava muito resolver a sua situação com Josie de uma vez por todas. A porta foi aberta pela irmã mais nova de , o que foi um alívio na verdade.
- A gente pode conversar? - Foi direto ao ponto.
- Sim, mas não agora. Eu apareço no restaurante à tarde.
- Vai ficar brava comigo até quando?
- Não estou brava com você, mas gosto de te irritar. - revirou os olhos com a resposta.
- Vai voltar pra casa ou prefere dividir o quarto com o ?
- Está com ciúmes? E não, não estou dividindo o quarto com ele. Além de que, a senhora está adorando minha estadia aqui.
- Josie , volta para casa, por favor. - implorou e Josie se divertiu com isso.
- Se vocês duas não saírem dessa porta agora, eu vou aí pegar vocês pelas orelhas. - Tessie colocou a cabeça pra fora da cozinha gritando do cômodo, o que fez e Josie rirem.
- Bom dia, senhora . Desculpa aparecer essa hora. - apareceu na cozinha, sendo recebida por Tessie com uma xícara de café quente e um abraço apertado. Não importava o horário e nem a ocasião, a senhora de cabelos claros sempre receberia as irmãs da melhor forma possível. Como se elas fossem suas filhas também. não pensou duas vezes antes de retribuir o carinho da mulher e aceitar o café.
- Você é de casa. Não precisa se desculpar, . - Tessie sentou-se ao lado da morena, enquanto Sarah e Josie serviam-se o café da manhã. - Não está com fome?
- Não, eu tomei café em casa. Mas, como eu te conheço, aceitei a xícara de café antes pra não receber um olhar de reprovação da senhora. - riu baixinho.
- Eu e a Josie já estamos saindo. Vamos fazer algumas coisas pela cidade e não voltamos tão cedo.
- Nós não íamos conversar à tarde? - perguntou olhando para Josie.
- Se der tempo eu passo lá, . - Josie não esperou receber uma resposta da irmã, saindo da casa acompanhada de Sarah logo em seguida.
- Ela está chateada e fazendo um pouco de birra, mas logo vai voltar pra casa. Ninguém aguenta o roncando por muito tempo. - Tessie fez um carinho leve na mão de , vendo que a mulher precisava conversar e, também, de um pouco de conforto.
raramente se deixava abalar por qualquer coisa, mas a discussão entre as duas não era algo tão simples de resolver. Sabia que tinha errado na escolha das palavras e jogado toda a sua raiva em cima da irmã, sabia que tinha errado. Mas estava disposta a se desculpar, mudar suas atitudes e precisava ter uma conversa com a Jo o quanto antes. Entretanto, entendia que a mais nova também precisava de espaço e ver que Josie estava se dando tão bem sozinha era ótimo. Porém, o seu ar protetor falava mais alto nesses momentos e ficava, de certa forma, com ciúmes de ver sua irmã ser tão independente.
- Você não pode proteger sempre a sua irmã, . Ela precisa aprender a voar sozinha. Quando foi para Londres, eu fiquei com medo. Muito medo. Principalmente sabendo do jeito orgulhoso que ele é, mas eu também sabia que ele voltaria caso eu pedisse. Contudo, ele sempre soube se virar muito bem lá e voltou quando achou necessário. Não se preocupe tanto com a Jo, ela sabe o que está fazendo e jamais vai te esquecer. É capaz de te defender, de quem quer que seja, com unhas e dentes, da mesma forma que você faria por ela. É por isso que ela ficou tão chateada com o que ouviu. - As palavras de Tessie atingiram em cheio , quase como se estivesse ali para passar um sermão e depois deixava o conforto chegar de mansinho. murchou os ombros, se rendendo às palavras de Tessie, se mostrando vulnerável àquela conversa.
- Eu sei. - Havia tanta coisa, guardada em seu peito, para ser dita, mas que não foi capaz de dizer mais do que essas duas palavras naquele momento. Ao contrário do que esperava, deixou que as lágrimas teimosas caíssem pelo seu rosto. Somente Tessie tinha o ar maternal capaz de deixar, até mesmo, vulnerável. Abraçou a mulher de cabelos grisalhos, encontrando em seus braços o conforto e carinho que precisava. - Eu preciso ir para o restaurante, não vou ocupar mais seu tempo. - limpou o rosto, tirando qualquer vestígio de seu choro.
- Não se preocupe com isso. Estou sempre aqui para vocês.
- Como que a gente não vai ficar mimada desse jeito? - Tentou rir, mas a voz embargada denunciava a vontade de voltar a chorar. - Obrigada por tudo. - Abraçou Tessie mais uma vez, antes de deixar a casa e se dirigir para o restaurante. O seu lar, o lugar que ela se sentia bem e a fazia sentir-se segura novamente.


estava terminando de organizar as coisas no restaurante, como de costume, estava lhe ajudando mesmo que não tivesse pedido.
- Você sabe que não precisa ficar depois do horário, né? - perguntou ainda olhando em direção às listas de materiais que precisava fazer pedido no dia seguinte.
- Sim. Mas eu quero ficar, gosto de ajudar. - Mesmo não podendo ver, esboçou um leve sorriso. O rapaz estava mesmo se esforçando para ter um bom desempenho no restaurante.
Já estava tudo em seu devido lugar, louças lavadas e guardadas, quando saiu primeiro esperando fechar o local. Estava prestes a caminhar até seu carro, mas deu meia volta indo em direção a novamente.
- Er… tá afim de comer alguma coisa? Uma pizza? - encarou por um tempo, ainda processando o convite repentino.
- É… pode ser. - Deu de ombros e ajeitou o casaco em seus ombros.
- Legal, vamos. - sorriu e seguiu até o carro a esperando.
Decidiram por passar em uma pizzaria e levar a pizza para comer em outro lugar, o qual não fazia ideia, já que não quisera lhe contar durante todo o trajeto. Depois de rodar por um tempo, parou no lugar onde costumava ser o antigo cine drive-in da cidade. Era como um grande estacionamento aberto, onde podia ver uma parte da cidade e o céu estrelado.
Estacionou o carro e saiu, se sentando em cima do capô, pareceu meio hesitante, mas fez sinal para que ela subisse e sentasse ao seu lado. não fez questão de seguir os bons modos que recebera desde pequena, então abriu a caixa de pizza e ambos pegaram um pedaço. Ainda em silêncio, ambos admiravam a vista.
- Por que viemos aqui? - decidiu quebrar o silêncio.
- Não sei. Gosto da vista, gosto da calmaria que tem aqui. - deu de ombros e pegou outro pedaço.
- É muito bonito, dá pra ver as estrelas do céu mais do que na cidade.
- Sim, é uma das partes que mais gosto daqui.
O silêncio se instalou de novo e, ao terminarem de comer, colocou a caixa ao seu lado. deitou as costas no vidro do carro e acendeu um cigarro, mas preferiu apenas deixar o corpo descansar ao seu lado, recusando o cigarro dessa vez.
- , posso fazer uma pergunta? - perguntou meio apreensiva, ainda olhando o céu.
- Claro. - ele respondeu soltando a fumaça para cima.
- Por que decidiu voltar assim do nada?
- Eu já te disse, não foi do nada. Eu perdi tudo o que tinha em Londres e minha irmã me ligou avisando que nossa mãe estava no hospital. Eu só juntei o útil ao agradável. - ele deu de ombro e deu uma longa tragada no cigarro.
- O que fez em Londres todos esses anos? - ela se virou para encará-lo.
- Bom, eu fui com o sonho de ser músico. Participei de várias bandas, toquei sozinho em alguns barzinhos, mas nada que desse pra eu me sustentar lá. Foi aí que eu vi um anúncio num pub que precisavam de barman, decidi usar minha boa e velha cara de pau e tentar a sorte. - ele riu baixo e jogou fora a bituca de cigarro.
- E foi aí que descobriu seu talento. - Ela riu chamando a atenção dele para olhar para ela, porém voltou o olhar para o céu logo em seguida.
- Tecnicamente sim, sabe, eu não era tão ruim assim. Mas tive que aprender muita coisa, e com anos de experiência fui ficando bom como sou hoje.
- E aí perdeu seu emprego, por isso veio embora? - estava mesmo curiosa, nunca falava sobre o passado.
- Não. Nesses anos trabalhando no pub, um dia eu conheci uma garota, o nome dela era Jenny. Ela levou o bolo de um cara que ela tinha conhecido na internet e passou a noite conversando comigo, ela voltou no outro dia, mas dessa vez pediu meu número. Depois de alguns beijos e noites conversando, eu a pedi em namoro. Um ano depois fomos morar juntos. A gente combinava, ela era perfeita, parecia uma versão feminina minha. Mas, aparentemente, ela não achava o mesmo. - a voz de agora tinha um tom triste.
- Tudo bem se não quiser falar sobre.
- Relaxa, eu tô bem. - ele sorriu fraco para . - Um dia cheguei do serviço com o dia quase amanhecendo e ela estava me esperando acordada. Ela nunca me esperava acordada. Foi aí que ela me contou que tinha conhecido um cara no serviço, e que ela já não achava que estava funcionando entre a gente. Disse que eu me dedicava demais ao meu trabalho e menos a ela. Mas a verdade era que ela já não me amava mais há um tempo, eu só estava cego demais pra perceber. Então, foi assim que eu levei um pé na bunda. Não satisfeito, o destino ainda me pregou outra peça, já que no mesmo dia eu descobri que o pub onde trabalhava estava prestes a falir e fui "morar" em um quarto de hotel. Até receber a ligação de Sarah.
ficou um tempo sem saber o que dizer, o que ela conhecia e se lembrava era mesmo bem diferente daquele na sua frente. Antigamente era o tipo de garoto que não se apegava a ninguém, preferia contar quantas meninas tinha ficado em uma noite do que quantas sabia o nome.
- É muita merda junta, um desastre, eu sei. - riu meio sem humor.
- Realmente, você parece mesmo ter amadurecido . É bom ver que você evoluiu nesse tempo.
- Isso é o mais próximo de um elogio a meu respeito que já ouvi saindo de sua boca, . - a olhou surpresa rindo.
- Antigamente você não fazia por merecer para receber algum elogio meu. E, mesmo merecendo agora, já me arrependo. Ainda continua o mesmo convencido chato. Pelo jeito velhos hábitos nunca mudam. - Ela deu um tapa leve em seu braço e pulou do capô do carro. - Vamos, preciso dormir que amanhã trabalho cedo.
- Sim, senhora capitã.
Os dois entraram no carro e levou até sua casa. Eles conseguiram passar uma noite sem se alfinetar, o que já era um grande avanço. Talvez ele estivesse finalmente conquistando a confiança de .
tentou fazer o mínimo de barulho possível ao entrar em casa, mas as chaves batendo na porta não passaram despercebidas pela senhora . A matriarca da família estava sentada na sala, terminando sua xícara de chá enquanto assistia ao noticiário da noite. Ou fingia assistir enquanto esperava o filho chegar.
- Boa noite, mãe. - beijou o topo da cabeça da mulher, sentando-se ao seu lado no sofá.
- Boa noite, meu filho. Como foi o serviço? Chegou mais tarde hoje. - Quem visse de fora entenderia que era apenas um comentário de uma mãe preocupada, mas sabia muito bem o que aquela simples pergunta queria dizer. Tessie queria detalhes e se escondesse algo dela, ela saberia.
- Foi bom, mãe. Eu e fomos comer uma pizza depois de fechar o restaurante, só isso. - Não tinha motivos para esconder algo de sua mãe, mas era esquisito ter que dar explicações a ela. Se sentiu um adolescente na puberdade novamente.
- Você gosta da ? - Tassie foi direto ao ponto.
- Mãe, ela é minha chefe! - exclamou quase no automático. Ele gostava de , ela tinha se mostrado uma amiga, vizinha e uma ótima chefe. Muito mais do que ele merecia e, não podia negar, era grato a ela por toda compreensão e empatia.
- , eu não perguntei isso.
- Não mãe, não gosto dessa forma que você está me perguntando.
- Você não vai admitir mesmo. Mas vou te dar um conselho: Não a machuque. precisa e merece alguém que seja seu companheiro, que vai estar ao seu lado, principalmente, nos momentos ruins. Então, se resolver entrar nessa, esteja ciente de todas as consequências e não há Londres que possa te salvar dessa vez.
A voz calma de Tessie sumiu no ambiente, mas continuou rondando na mente de o resto da noite. Após ir para o seu quarto, resolveu tomar um banho quente, deitar em sua cama e deixar o cansaço do dia dominar seu corpo.

Capítulo 7

Um mês depois

Um mês. Um mês já havia se passado desde que começou a trabalhar no restaurante. Um mês que Josie tinha saído de casa e ainda não tinha voltado. Um mês que tinha descoberto que há uma nova dentro de si mesma, por mais que ela tentasse esconder o mais fundo que conseguisse. Talvez, mas só por um mínimo talvez, não estivesse no seu melhor momento. Porém, o cansaço da rotina não a deixava pensar muito nessa última parte.
A parte mais engraçada disso tudo, é que o mesmo acontecia com . , que até alguns - bons - anos atrás, nunca tinha se imaginado trabalhando justamente para . Depois que se mudou para Londres, o máximo de notícias que recebeu dela foi porque Sarah ainda insistia em comentar. Não imaginava o quão burro e orgulhoso estava sendo quando tentava ignorar tudo que envolvia . A verdade é que sabia que lá no fundo ainda nutria sentimentos pela mulher, por mais que tenha sido estúpido o suficiente para ignorar a tudo e a todos. Agora, de volta a cidade, estava disposto a não cometer os mesmos erros, deixar alguns no passado e tentar correr atrás do tempo perdido. Tentando, ao menos, estabilizar sua vida em Nottingham novamente.
- ? - A voz estava longe demais para sequer abrir os olhos, ou tentar pelo menos. - , acorda. Você vai se atrasar.
- Só mais um pouquinho. - A voz arrastada de denunciava que, com certeza, ela não dormiria somente mais um pouquinho.
- Não, acorda. Agora! - Então, por um milésimo de segundo, se deu conta do tom autoritário tão conhecido por ela. Josie estava ali. Deu um pulo da cama tão rápido que até mesmo Josie se assustou, mas logo ficou aliviada por ver que a irmã tinha acordado. Antes que pudesse falar mais alguma coisa, sentiu ser abraçada por . Um abraço apertado e cheio de saudade.
- Senti sua falta, praga. Quando for embora, pelo menos me avisa. - O habitual drama não podia faltar.
- Que bafo, . Eca. - Josie fez uma careta, mas logo abraçou a irmã. - Eu não vou embora, sua doida.
- Já to indo, já to indo. Ei, e se fizermos uma noite das garotas hoje? Chama a Sarah. - disse já se dirigindo para o banheiro de seu quarto.
- A Sarah ou o irmão dela?
- Ah, eu não vou nem te responder. - Josie gargalhou ao ouvir a resposta, antes da irmã fechar a porta do cômodo e a deixar sozinha no meio do quarto.
Josie podia ter todos os defeitos do mundo, principalmente ser incrivelmente irritante, de uma forma que só ela conseguia. Mas acima de tudo, ela era fiel à quem ela gostava. Nesse caso, ela amava sua irmã, mais do que conseguia explicar. Não iria negar que tinha ficado chateada com a discussão e que as palavras de haviam machucado-a, seria hipocrisia da sua parte. Por isso, ter ido parar na casa dos era a melhor escolha para o momento. Mas Tessie estava certa, mesmo dormindo no quarto ao lado, roncava demais e não tinha mais condições de dormir lá, por mais que gostasse muito do lugar.
saiu do banheiro, alguns minutos depois, já vestida com uma calça jeans e uma blusa básica. O relógio marcava oito horas mostrando-a que estava mais do que atrasada para ir ao restaurante. Costumava chegar no local às sete, no mais tardar às sete e meia. Mas a semana havia sido tão movimentada, lidar com fornecedor, cliente, fazer lista de produtos que estavam em falta e ainda realizar o pagamento de funcionários, além de fazer tudo dentro do restaurante funcionar não era nada fácil.
- Eu conheci uma… pessoa. - Josie disse incerta, quebrou o silêncio no quarto e atraindo a atenção de .
- E quando eu vou conhecer essa… pessoa? - disse com um sorriso no rosto, realmente animada pela irmã. Afinal, alguém tinha que ser feliz, não é mesmo?
- Em breve. - Mordeu o lábio, ainda incerta sobre a resposta.
- Você está feliz? - perguntou de repente, o que fez Jo parar de digitar algo em seu celular.
- Sim. - Jo não conseguiu controlar o sorriso que surgiu em seu rosto.
- Então estou feliz por você. - Foi o suficiente para Josie ter certeza que tudo estava voltando ao normal. não conseguia esconder quando a irmã realmente estava insatisfeita ou não estava sendo sincera sobre algo. Uma onda de alívio percorreu seu corpo.
- Vou trocar de roupa e vamos para o restaurante, ok?
- Não precisa ir. Sei que ficava lá por minha causa, mas você tem aproveitado mais seus dias fora do restaurante, não tem? Então, eu posso procurar outra pessoa pra cuidar do que tu fazia e…
- Ah, pára com isso, . Confesso que aproveitei muito meus dias, mas não vou te deixar na mão pra curtir uns diazinhos fora de lá. Eu gosto de toda aquela bagunça, gritaria e o cheiro é ótimo. - Ela riu. parecia um pouco surpresa com a resposta, esperava que Jo fosse mesmo querer deixar o restaurante.
- Vamos fazer um acordo? Você passa menos tempo lá, escolhe o horário que quer ir e aproveita mais a sua vida. Eu sei que ele consome muito tempo, não quero que você fique presa ao meu sonho. Você precisa ir atrás dos seus, Jo.
- Combinado. Vamos logo agora, porque eu já disse que ia te levar. Aliás, Sarah vai passar aqui mais tarde e nós vamos poder tomar aquela margarita que só você sabe fazer.
- Eu preciso mesmo de uma noite com vocês. - saiu do quarto acompanhada da irmã mais nova.
O caminho até o restaurante foi rápido e tranquilo, nada de novas provocações vindo de Jo. Apesar da mais nova gostar de provocar a mais velha com seus comentários cheios de malícia quando o assunto vinha à tona.
- Ele está se esforçando pra caramba. Acredite, eu estou surpresa.
- Eu sei. Dona Tessie deu um sermão nele sobre responsabilidade. - As duas cochichavam dentro do carro, quase como se estivesse contando um segredo. Mas só estavam as duas mulheres no veículo.
- Por que estamos sussurrando se só tem a gente dentro desse carro?
- Não sei, mas parece o certo a se fazer. - As duas ficaram em silêncio, se encarando por alguns instantes, mas logo foi possível ouvir a gargalhada das duas. abriu a porta do restaurante, alguns funcionários aguardavam no lado de fora, provavelmente estranhando o horário em que ela estava chegando no local.


O dia com cara de chuva, apesar do clima quente, podia significar alguma coisa, caso acreditasse nessas coisas de destinos, e sinais do tempo ou qualquer outro nome que as pessoas davam para esse tipo de circunstâncias. Mas algo estava muito errado quando o relógio marcou oito horas e ainda não estava no restaurante. Decidiu por acender um cigarro e mandar uma mensagem para Josie. Naquela manhã a garota havia voltado para casa, então se certificar se estava tudo bem era a primeira opção, e logo perguntou se abriria o restaurante. Era quinta-feira, ela abriria, certo? Certo. Só estava um pouquinho atrasada, segundo as palavras de Josie.
Alguns minutos e dois cigarros depois o carro de Josie parou em frente ao restaurante, as duas saíram rindo de algo que estavam conversando.
- Finalmente! Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem? - foi em direção a elas.
- Wow! Calma aí, , a gente só atrasou dez minutos. - Josie disse rindo.
- Isso pra é bem fora do normal, já que ela praticamente amanhece aqui. - ele deu de ombros e lançou um olhar para que tinha um semblante mais leve do que nos dias anteriores. Ela estava mesmo sentindo falta de Josie em sua casa.
- Relaxa, , tá tudo bem. Demorei, mas cheguei. Agora vamos trabalhar que já enrolamos demais.
Logo todos entraram no restaurante e assumiram suas posições. O dia passou rápido, o período do almoço tinha sido mais agitado que o normal, o que era bom. No pequeno intervalo entre o período do almoço e o jantar, saiu para fumar. Não sabia o por quê, mas estava se sentindo mais agitado que o normal.
Encostou na parede dos fundos do restaurante e acendeu um cigarro dando uma longa tragada e soltando pro lado, pegou o celular para checar algumas mensagens e notificações. Logo ouviu a porta se abrindo e viu vindo em sua direção.
- Desculpa, eu já estou voltando, precisava disso. - levantou a mão com o cigarro.
- Relaxa, não vou te dar bronca, não ainda. - riu baixo. - Decidi que está na hora de você começar a aprender algumas coisas simples na cozinha, sabe, pra ajudar quando estiver muito movimentado.
- Sério? - agora tinha um sorriso enorme no rosto. Desde que entrou estava de olho nos cozinheiros pensando quando finalmente poderia fazer algo daquilo.
- Não vai ser nada demais. Vou te ensinar alguns molhos, é simples. Mas vai ajudar bastante.
- Tudo bem. - terminou o cigarro. - Podemos ir.
- Ótimo. - voltou para a cozinha sendo seguida por que colocava seu avental de volta. - , pegue alguns tomates na geladeira.
ia pegando uma panela enquanto lavava os tomates. Logo ela estava o ensinando como tirar a pele do tomate sem estragá-lo e a melhor forma de picá-lo. O que surpreendeu era que tinha certa habilidade com o corte. Aparentemente a dona Tessie estava colocando alguém para trabalhar em casa também.
- Os temperos são a gosto, mas como estamos em um restaurante, é preciso manter o padrão para ficar sempre igual. - ela pegou um pouco do molho na colher, segurou a mão de e colocou um pouco na palma. - Experimenta.
- Nossa, isso tá muito bom! Acha que eu consigo fazer igual? - disse realmente interessado e tentando guardar na mente cada passo.
- Como eu disse, é uma receita nossa. Se fizer desse jeito que eu te ensinei não tem segredo, vai dar certo. O importante é sempre continuar mexendo para não queimar. Agora sua vez, dá conta de fazer sozinho? - encarava .
- Acho que sim, eu prestei bastante atenção. Já vi você fazendo isso algumas vezes.
- Ótimo. Boa sorte e me chame quando terminar. - Ela saiu de perto indo cuidar dos doces.
estava meio apreensivo, com medo de estragar tudo, mas isso não o impediria de tentar. Fez todo o passo a passo que havia o ensinado e que havia observado ela fazer várias vezes nestes dias em que estava trabalhando no restaurante. Assim que terminou, chamou para experimentar o molho.
- Olha só, nada mal, , você até que é um bom aluno. - sorriu.
- Eu disse que aprendia rápido. - Ele deu de ombros sorrindo. Por fora parecia confiante, mas no fundo estava com medo de fracassar na sua primeira tarefa com as panelas.
A noite passou tão rápido quanto o dia. Tinha sido um dia bom para o restaurante e para o movimento. A participação de na cozinha havia sido bem mais significativa do que nos outros dias em que apenas lavava as louças e fazia alguns poucos drinks.
Como de costume, todos já tinham ido embora e restavam apenas e no restaurante. Tudo já estava em seu devido lugar e ambos prontos para sair dali.
- Ah, eu trouxe uma coisa. - foi até o freezer e tirou um pote de sorvete de morango. - Sarah me disse que hoje é noite das meninas. Sei que vocês três gostam de sorvete de morango, então resolvi trazer um pra vocês. - Ele sorriu ficando um pouco vermelho de vergonha por se intrometer, além do medo de levar uma patada de .
- Que fofo, , me fez até esquecer o quão detestável você era. - Ela riu o fazendo rir também.
- Eu já disse, eu mudei. Estou tentando provar isso desde que cheguei, mas você não tem sido fácil de impressionar sabe.
- Hmm… então quer dizer que está tentando me impressionar, ? - cruzou os braços, estava gostando de ver corado. Provavelmente com vergonha, o que não era tão comum.
- Talvez eu esteja, , e espero que um dia eu consiga.
- Quem sabe. - deu de ombros. - Mas agora vai logo pra sua casa descansar, que eu tenho uma noite de fofocas pra aproveitar. - ela disse o empurrando para fora.
- Tá bem, tá bem, já estou indo. Precisa de carona?
- Não, Jo já está vindo. Obrigada.
- Ok, até amanhã, . - sorriu acenando.
- Até amanhã, . - sorriu e acenou de volta.


- Meu deus, eu senti falta disso aqui. - Sarah apontou para a taça com a bebida. Sentindo o gosto ácido da margarita preparada por .
- Eu já disse pra que a gente devia fazer isso mais vezes, ela trabalha demais. Precisa ficar com as pessoas descoladas que nós somos, é claro. - Josie disse bebendo um pouco do drink.
- Concordo com a Josie. - Sarah disse esvaziando a taça.
- Vamos tentar fazer mais vezes. Seu irmão está tendo um bom desempenho no restaurante. Aliás, o sorvete de morango foi ele que mandou.
- É bom saber disso, mas não vamos falar do . Eu amo meu irmão, mas o vejo todo dia.
- Que ótimo, porque eu também não quero falar de trabalho hoje. Mas acho que alguém tem novidades pra me contar, não é mesmo? - disse olhando para a irmã.
- Que história é essa aí, Josie? - Sarah debruçou na mesa em direção de Josie mostrando interesse. O álcool com certeza já estava fazendo efeito nela.
- Eu posso dizer que conheci alguém, mas estamos indo com calma. Na hora certa todos vão conhecer.
- Ah, não vem com essa não, Jo. Quero foto, nome completo e profissão. Anda desembucha! - Sarah disse, virando o resto da bebida de vez.
- Não! Não vão ter mais nenhuma informação. Agora, quem precisa conhecer alguém é você. A Sarah já tem namorado. - Josie apontou para , vendo a mulher quase se engasgar com a bebida após ouvir a acusação.
- Vocês são péssimas com isso. O último nem apareceu no encontro quando descobriu quem eu era. E detalhe: eu nem sou famosa e a criatura já saiu correndo.
- Nisso eu tenho que concordar mesmo.
- Mas precisa de alguém, você anda tão...tensa. - Jo disse, pensativa.
- Meu irmão anda falando muito em você... Talvez possa tentar alguma coisa, um casinho só pra aliviar a tensão quem sabe. - Sarah deu de ombros segurando a risada
- AH, MEU DEUS!! - Josie gritou dando uma gargalhada. - Deveria mesmo, além de tudo ele é bem gostoso, .
- Sarah, eu sei que é o álcool falando por você. E devo lembrar que estamos falando do que eu menos gosto e o sentimento é totalmente recíproco.
- , eu não tô falando de casarem e serem felizes para sempre. Tô falando de transar, porque você tá precisando. Meu irmão é um cara melhor desde o ensino médio.
- Eu não consigo ver ele de outra forma. Ainda é a mesma pessoa que me infernizava.
- Mas...
- Eu sei, já se passaram muitos anos e reconheço que ele tá melhor agora. E bem mais bonito, tenho que admitir.
- EU SABIAAAA!! - Josie gritou novamente fazendo todas rirem, o álcool com certeza já estava fazendo seu efeito.
- Vou pegar sorvete pra ver se a Jo para de gritar.
- Ei, o que vocês acham de um churrasco? Podemos beber, tomar banho de piscina e aproveitar para fofocar mais ainda. - Sarah deu a sugestão que logo foi aceita por todas.
- Eu acho uma ótima ideia, aquela piscina da casa de vocês é maravilhosa! Fora que o vai poder trabalhar pra gente fazendo drinks. - Jo disse se ajeitando no sofá.
- Será que eu perdi alguma coisa na nossa conversa? Achei que não íamos falar do e volta e meia vocês voltam no nome dele. - colocou o pote de sorvete na mesa de centro e se sentou no tapete.
- Precisa ficar com ciúmes não, eu só quero as bebidas dele, dizem que são ótimas.
- São mesmo, pelo menos nisso ele é bom. - Sarah disse dando risada.
revirou os olhos, mas decidiu não responder. Era uma batalha perdida discutir com Josie e Sarah, principalmente quando essas duas estão sob efeito de álcool. É, elas não levavam jeito para bebida. Decidiram, então, colocar alguma comédia romântica clichê para assistir enquanto comiam sorvete e faziam comentários bobos durante o filme.

Capítulo 8

adentrou o bar, pronta para pedir uma cerveja e ir embora, era só o que ela precisava. O problema é que ser numa cidade feito Nottingham e ainda ter um restaurante bem sucedido não era uma coisa fácil, porque você nunca consegue passar despercebido. Realizar tarefas simples como pedir uma bebida em um bar e ir embora era um desafio.
Para a tristeza de , a mulher sentada ao seu lado era uma antiga colega de escola e grande admiradora do restaurante que decidiu engatilhar uma conversa, e, pra ser sincera, não via a hora de arrumar uma desculpa para fugir. Logo ela conseguiu e se despediu da mulher, saindo com sua segunda cerveja na mão. Apenas alguns minutos de caminhada e finalmente estaria em casa.
Assim que colocou sua mão para abrir a porta do bar ela foi empurrada. Era a pessoa que ela menos esperava encontrar naquela hora. Ele mesmo, com um sorriso lindo e seu típico cheiro de perfume e cigarro recém apagado.
- ? Nossa, que surpresa te ver por aqui. - Ele sorriu.
- Pois é, as vezes eu saio um pouco sabe. - Ela disse, um pouco sem jeito.
- Já está indo embora?
- Sim, só vim buscar uma cerveja. - sinalizou a garrafa em sua mão.
- Ah, qual é. Tá cedo, eu estou com uns amigos aqui, quer se juntar com a gente? Já adianto que não são as pessoas mais requintadas do mundo, mas são legais. - ele riu e ajeitou o cabelo que estava caindo no rosto.
olhou para a mesa em que apontava e pensou por um minuto. Já havia fugido dos seus planos mesmo, por que não tentar algo diferente pelo menos uma vez? E não parecia estar tão detestável naquela noite, o que poderia ser algo bom.
- Tudo bem, não tenho nada pra fazer mesmo. - Ela deu de ombros e o seguiu até a mesa.
- Hey, pessoal, queria apresentar pra vocês uma mulher incrível. Essa é a , ela é a minha chefe e dona do restaurante que trabalho.
- Finalmente estamos te conhecendo! - Uma moça loira sorriu simpática. - fala muito sobre o trabalho e como está gostando.
- Espero que ele não fale tão mal de mim quanto eu imagino. - riu. Ser apresentada aos amigos como chefe era, com certeza, muito constrangedor. Mas o que esperar se todos a viam apenas como a chefe de cozinha dona do restaurante, por que com seria diferente?
- Pelo contrário, fala muito bem de você. - O cara de cabelos escuros bagunçados disse com um sorriso ladino.
- Mas chega de fofoca, seus babacas. Sirva um copo para a . - disse se sentando e dando um espaço para .
Era estranho para ela estar naquele lugar, não lembrava qual a última vez que se juntava a estranhos para beber e conversar sobre coisas que não fossem seu mundinho dentro de um restaurante. De alguma forma aquilo era bom.
estava rindo de algumas piadas que o moço de cabelos bagunçados contava. Era estranho vê-lo assim, era completamente diferente do cara que ela um dia conheceu e o que convivia com ela no restaurante. tinha um sorriso lindo e ela apenas reparou isso agora.
- Tá tudo bem, ? Quer mais alguma coisa? - perguntou baixo vendo a mulher quieta ao seu lado.
- Tudo bem sim, só estou desacostumada a isso. - eles riram e então resolveram puxar conversa com .
Depois de um longo tempo conversando e rindo juntos, decidiu que estava na hora de ir embora. O álcool já estava fazendo efeito e a deixando um pouco tonta e sonolenta. O dia havia sido cansativo.
- Bom, acho que vou indo. Foi um prazer conhecer vocês. - Ela disse se levantando e recebendo vários "volte mais vezes" e "obrigado por ter ficado" em resposta. Acenou e caminhou para a porta.
- Hey, . - a chamou assim que ela chegou na porta. - Quer uma carona?
- Não, tudo bem, fica com seus amigos. Eu moro aqui perto e posso ir andando.
- Deixa disso, não vou te deixar sozinha. Já está tarde, vamos.
a puxou pela mão até seu carro, entrou e ligou o rádio esperando que se acomodasse. Não trocaram muitas palavras dentro do carro, nunca sabia o que seria aceitável falar ou o que deixaria uma fera. Ele não podia negar, tinha medo dela, ou de apenas estragar tudo. Estacionou em frente a casa da mulher e desligou o carro.
- Está entregue, .
- Obrigada pela carona, . - deu um sorriso fraco e já abria a porta para sair do carro.
- Minha mãe disse que convidou você e a Jo para passar o natal em casa, vocês vão, né?
- Vamos sim, mas pode ficar tranquilo que eu não vou te encher nem dar ordens amanhã. - revirou os olhos.
- Natal é o feriado favorito da minha mãe e da Sarah, então… trégua? - disse estendendo a mão para , ela olhou sua mão por um tempo e deu de ombros.
- Tá bem, trégua. - apertou a mão de que sorriu.
- Aliás, obrigado por ter ficado. Foi bom poder te conhecer um pouco melhor e sem os escudos de super chefe. - Ele disse rindo em seguida, tentou mas não conseguiu segurar o riso, afinal, ele não estava totalmente errado.
- Foi legal conhecer pessoas novas, e um talvez aceitável. - ela sorriu e caminhou até a entrada da casa.
estava hesitante, talvez fosse o álcool, talvez um sentimento antigo já; ou apenas a forma como ficava linda sorrindo despreocupada enquanto bebia com amigos, que na verdade, eram estranhos até minutos antes. saiu do carro e parou na calçada em frente a casa de .
- Hey, . - Ele disse com a respiração meio acelerada, o nervosismo já tomando conta de todo seu corpo.
- Sim? - ela se virou com a mão ainda na chave da porta.
caminhou até ela e suspirou.
- Por favor, não me bata. - antes que ela pudesse responder algo, ele a segurou pela nuca e selou seus lábios.
Não chegou a ser um grande beijo, mas estava completamente sem reação, não esperava por aquilo nem em um milhão de anos.
- Desculpa, senti que precisava fazer isso. - ele sorriu. - Obrigado por deixar eu te conhecer.
- O mesmo pra você, , mas não faça isso de novo. Ainda sou sua chefe e posso te mandar pro olho da rua. - ela disse e entrou para a casa, o deixando na porta rindo de suas palavras.
não acreditava na audácia de , mas ao mesmo tempo tinha gostado de sua atitude. Para quem havia sido apresentada como "a chefe" mais cedo, a noite não acabara tão mal assim.

Capítulo 9

Na manhã da véspera de Natal as pessoas ficavam ainda mais eufóricas, a cidade ficava ainda mais movimentada com aqueles que deixavam para comprar os presentes de última hora e tudo podia se tornar uma verdadeira confusão rapidamente. Como esperado, deu folga para todos os funcionários, era uma data especial e não teria motivo para abrir o restaurante naquela noite. Porém, ela gostava de ir até lá e cozinhar sozinha, enquanto o restante tentava não cair na neve indo às compras. terminava de decorar um biscoito de Natal colocando-o na forma junto com os outros que já estavam prontos, quando escutou a porta da entrada bater.
- Jo, to aqui na cozinha. - Ela gritou, pensando ser a irmã mais nova.
- Ei, não é a Jo, ela pediu pra trazer essas caixas pra cá. - entrou na cozinha, assustando um pouco a mulher.
- Ah, sim. Coloca na despensa pra mim, por favor? - pediu, voltando a atenção para os biscoitos.
- Precisa de ajuda? - se prontificou assim que voltou para a cozinha.
- Não, já estou terminando aqui. - terminou de colocar os biscoitos dentro da caixa, cuidando para que eles não quebrassem. - Vai pra casa da sua mãe agora?
- Não, vou pra minha casa. - estava indo pegar outra caixa, as que continham os chocotones, mas parou no meio do caminho, virando-se em seguida.
- Não está mais morando com a sua mãe? - Ela perguntou, rápido demais pra alguém que não queria ter tanto interesse na vida pessoal de . - Ah, esquece, isso não é da minha conta. - Ela balançou a mão, voltando a fazer suas tarefas.
- Tudo bem. E, não, não estou mais morando com a minha mãe. Consegui alugar um apartamento, está na hora de ter meu canto, já que não tenho previsão de sair daqui.
balançou a cabeça concordando, cruzou os braços e mordeu o lábio inferior ainda pensando na informação que acabara de receber.
- Isso é bom, digo, ter seu próprio canto. Fico feliz por você, de verdade. - Ela sorriu, mas ser simpática não era o forte de .
- É bom mesmo. - Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos se encarando.
- Não vai sair pra comprar os presentes? - perguntou, tentando puxar assunto com . Por mais que negasse, ele gostava da companhia dela, descobrindo um pouquinho mais do seu mundo a cada nova conversa.
- Não. - Ela riu com a pergunta, balançando a cabeça. - Já comprei meus presentes.
- Para todo mundo? - estava jogando verde, já que e Josie passariam o natal com a família dele. - Digo, até pra mim?
estreitou os olhos e ficou em silêncio por poucos segundos, pensando na melhor maneira de responder aquela pergunta.
- Você acha que foi um bom garoto pro Papai Noel lhe trazer alguma coisa à meia noite? - Ela perguntou, tentando não rir.
- Depende, se ele levar ao pé da letra tudo que eu fiz esse ano, então acho que não ganharei nada. - pegou um dos biscoitos de Natal, quebrando-o ao meio e entregando outro pedaço para , que o aceitou de bom grado. - Mas, se ele considerar algumas coisinhas, e que eu venho tentando mudar, acho que uma lembrancinha ele é capaz de deixar.
- Então, só te resta esperar para ter alguma surpresa… ou não. - Ela riu, terminando de mastigar seu biscoito. – Mas, falando sério agora, se pudesse escolher um presente, o que escolheria?
– Depende, é você que vai me dar o presente? – Ele perguntou, curioso.
– Hipoteticamente, sim. Anda, desembucha. – apoiou o cotovelo na mesa e apoiou o rosto na mão. pensou por alguns segundos.
– Honestidade, acho que escolheria isso.
– Você acha que eu não sou honesta o suficiente? – perguntou, confusa.
– Você é, mas só sobre trabalho. – Ela entendeu o que quis dizer. Ficou pensativa ainda e, até, apreensiva se deveria contar o que estava na sua cabeça ou não.
– Alguns anos atrás eu fui fazer um curso em Londres, mas em uma das noites acabei indo ao bar que você trabalhava. Eu não sabia, é claro. – Ela levantou os braços na altura dos ombros, como se falasse que não tinha culpa. – Fiquei com medo e vergonha a noite toda que não tive coragem de chegar perto do bar, então minha colega era quem buscava as bebidas.
– Por que ?
– Eu não posso falar agora, mas um dia eu conto, eu prometo. – concordou, voltando a ficar em silêncio. – Quando sua mãe me pediu pra te dar uma chance aqui no restaurante, isso já era uma possibilidade antes dela pedir.
– Você acredita em milagre de Natal, ? – Os olhos verdes de brilhavam com a perguntar, mas algo dentro de dizia que era melhor ela parar por ali.
– Não, , milagres de Natal machucam. – Ela foi sincera.
– Vamos, eu te dou uma carona. – pegou a caixa com os biscoitos, enquanto pegou a dos chocotones. Logo, ela fechou o restaurante e o caminho até a casa da mãe de não demorou mais de dez minutos. Era um percurso curto, então o silêncio não foi incômodo como costumava ser alguns meses atrás.
– Obrigada pela carona. – Ela disse equilibrando as duas caixas após sair do carro. Mas pegou a maior, entrando na casa tão conhecida por ele.
– Mãe! – Ele gritou assim que pisaram na sala.
– Na cozinha, Josie está aqui. – Ouviram a mulher falar.
– É por isso que você terceirizou o trabalho, é? Que vida boa essa de ficar sentadinha tomando café da tarde. – deu um tapa no braço da irmã, ao passar por ela.
já ia lá de qualquer forma, ele só fez um favor. – Josie falou de boca cheia.
– Você ia? – perguntou, olhando-o com a testa franzida, ele apenas deu de ombros e subiu para o segundo andar da casa.
– O que tá rolando? – Jo perguntou.
– Nada. – balançou a cabeça, aceitando a xícara de café que Tessie lhe entregou. – é uma caixinha de surpresas, às vezes. – disse olhando para Tessie, a mulher concordou rindo.


A noite de natal era sempre uma grande festa na casa dos , a senhora Tessie gostava de quando todos se reuniam, podendo aproveitar para conversar sem ter que sair correndo para o trabalho ou, até mesmo, para se desligar um pouco do mundo lá fora. Além das comidas gostosas feitas por todos, eles podiam compartilhar lembranças e aproveitar a presença um do outro. Contudo, não conseguia prender sua total atenção no assunto que estava rolando na mesa, apesar de ter dado alguns comentários rápidos, ela logo se desligava e sua atenção voltava para a figura de cabelos claros sentado à sua frente.
- Então, Jo, quando vai nos apresentar esse certo alguém? - Tessie serviu a sobremesa e perguntou pra Josie, também curiosa sobre o namorado.
- Em breve, só achei que é muito cedo para trazê-lo. - Ela disse com um sorriso no rosto.
- Então só resta você, . - Sarah comentou.
- Eu o que? - perguntou, se fazendo de desentendida.
- Você encontrar alguém.
- Não, obrigada. - Ela riu, sem graça. - Já disse que ninguém quer competir com um restaurante.
- Não seja boba, . Você é uma mulher incrível, só não encontrou o homem certo ainda. - Sarah disse sorrindo para a amiga.
- Mas ela não é a única solteira, não é, ? - Tessie disse olhando para o filho que pareceu se assustar ao ouvir seu nome.
- Não é fácil quando se é um fracassado aos 30 sem uma profissão definida, mãe, você sabe disso. - ajeitou o cabelo para trás tirando-o dos olhos.
- Ai credo, vocês são dois pessimistas, deve ser por isso que estão sozinhos. - Josie disse fazendo careta.
- Vocês bem que podiam ser pessimistas juntos, dariam um belo casal. - Sarah disse dando de ombros. e se olharam, enquanto ela fez uma careta ao ouvir o comentário, tentava prender o riso.
- Parem de falar besteira. E seu namorado Sarah, por que ele não veio? - desviou a atenção deles e agradeceu mentalmente.
- Combinamos de cada um passar o Natal com a nossa família e o Ano Novo juntos.
- Nossa, tem essa coisa de ano novo ainda. Vocês já sabem o que vão fazer? - perguntou, curioso.
- Eu vou passar na casa da tia de vocês, já combinei com ela e as amigas faz tempo.
- O que? Você vai me abandonar, mãe? Isso é um absurdo! - disse fingindo estar muito afetado com a notícia, o que fez todas rirem.
- A menos que você queira passar com um monte de velhas, sim, eu vou te abandonar, bebê.
- Ah, vai ter uma festa de ano novo, eu e meu namorado vamos. Querem ir? - Sarah perguntou.
- Eu topo! - Josie nem esperou Sarah terminar de falar e já parecia super animada.
- É, pode ser. Você vai, ? - a encarou.
- Sei lá, talvez eu vá. - Ela deu de ombros. Teria que ir, ficar sozinha no ano novo não era uma opção.
- Ótimo, posso ficar tranquila agora que todos meus filhotes tem um lugar pra passar. - Tessie disse sorrindo.
O jantar seguiu tranquilo sem mais cutucadas indesejadas a e . Assim que terminaram todos foram para a sala com suas respectivas xícaras de chá. O clássico Esqueceram de Mim 2 passava na televisão, e claro que era a mais animada com o filme, era o seu favorito afinal de contas. Tessie, Sarah e Jô dividiam o sofá grande, estava na poltrona grande, mas teve que dar espaço para sentar.
- Essa é a melhor parte. - disse baixo o suficiente para apenas escutar. O acordo de paz estava funcionando tão bem, que ela havia até esquecido que estava sentado ao seu lado.
- Vai ter só o tempo de contar até três pra você levar logo sua carcaça traidora, mentirosa, baixa e vil pra longe daqui! Um, dois…- Ela imitou a fala do personagem, também sabia que aquela era a melhor cena. O barulho de tiro começou a soar pela televisão da clássica cena do hotel, onde os funcionários eram enganados pelas falas de um filme e a travessura do pestinha Kevin McCallister. - Feliz Natal, animal imundo.
- E um feliz ano novo. - completou a fala. Ele também sabia de cor, já tinha assistido algumas dezenas de vezes.
Após a cena clássica, eles voltaram a ficar em silêncio, rindo e fazendo comentários bestas sobre o filme apenas quando necessário. Mas a diversão durou apenas um pouco mais de uma hora e meia, quando o filme acabou recolheu as xícaras de chá de todos da sala e levou até a cozinha. Colocou tudo na lava louças e, ao virar para voltar até a sala, se assustou ao se deparar com parado atrás de si com um sorriso ladino, típico de quando ele estava armando alguma coisa.
- Que susto, ! O que você quer?
- Hmm, olha só, um visco. - Ele tirou uma das mãos de trás de suas costas segurando um galhinho de visco. - Sabe o que diz a tradição, não sabe? - Ele sorriu para .
- Ah, me poupe, , deixa de ser bobo. - Ela deu risada e o empurrou tentando passar.
- Sabe que dá má sorte não beijar quem tiver embaixo do visco, né? - Ele continuava segurando o galhinho e impedindo sua passagem.
- Você é ridículo, sabia?
- Aham, eu sei. Agora vai, me dá um beijo. - Ele fechou os olhos fazendo bico. viu que não teria escapatória. Ficou na ponta dos pés e lhe deu um selinho.
- Tá vendo só, não custa nada. - Ele deu risada fazendo-a corar.
- Você é insuportável! Da isso aqui. - Ela pegou o ramo da mão de pronta para voltar para a sala.
- , espera. - Ele segurou sua mão fazendo ela se virar.
- Que foi? Vai querer mais um beijo, ? Tá afim de mim? - Foi a vez de abrir um sorriso provocativo para . O rapaz deu risada e balançou a cabeça negativamente.
- Não, é sério, vem cá, tenho uma coisa pra você. - a segurou pela mão e a levou até o jardim que agora estava todo iluminado pelas luzes de natal.
- Não é mais uma piadinha, né? Se você tiver se embrulhado com um laço, eu vou te matar !
- Shhh, fica quietinha um pouco, me deixa falar. - Ele se sentou no degrau da varanda e ela fez o mesmo, sentando ao seu lado.
respirou fundo e tirou uma caixinha quadrada do bolso.
- Eu achei isso ajudando minha mãe a arrumar umas coisas no meu antigo quarto, não sei o porquê isso estava lá, mas fiquei feliz de ter achado. Eu mandei reformar pra você. - Ele entregou a caixa para a moça que agora o olhava com uma cara de dúvida. não esperava ganhar um presente de nem em sonho.
Ao abrir a caixa levou a mão até a boca e os olhos automaticamente se encheram de lágrimas, ela olhava da caixinha para incrédula procurando por palavras.
- Isso… isso era da minha mãe! Ela estava com ele no dia…
- Isso mesmo. Minha mãe ficou responsável por algumas coisas naquele dia e, bom, ela ficou com isso. Mas acho que com o tempo acabou esquecendo de dar a vocês ou ficou com medo de ficarem tristes. - Ele deu de ombros, ainda com medo da reação ser negativa.
- Meu Deus, eu nunca imaginei que veria isso de novo. - Ela tirou o colar de sua mãe da caixinha o segurando nas mãos, as lágrimas agora rolavam pelo seu rosto.
- Desculpa, eu não queria te deixar triste, eu posso…
- Não, eu não tô triste, eu só…. acho que estou surpresa. Mas eu estou muito feliz. - Ela sorriu largo ainda com os olhos marejados e se jogou nos braços de , dando um abraço forte. - Obrigada por isso, , de verdade. Não sabe o quanto significa pra mim. - ela o deu um beijo no rosto em agradecimento e voltou a olhar o colar.
- Não precisa agradecer, ele devia estar com você há muito tempo já. - sorriu olhando a garota admirando o colar. - Quer que eu coloque em você?
- Quero sim. - Ela o entregou o colar e se virou levantando os cabelos soltos.
colocou com cuidado a peça delicada de ouro em , dando um beijo leve em seu ombro após fechar o colar.
- Obrigada, , de verdade. - Ela sorria com a mão em cima do colar. - Você é mesmo uma caixinha de surpresas, .
- Talvez eu seja… talvez você apenas não me conheça o bastante ainda, mas eu sei que vou mudar isso. - piscou para que deu risada. - Vem, vamos pra dentro, está frio. - Ele se levantou e virou em direção a porta.
- Espera. - o segurou pela manga da camisa xadrez de flanela.
se virou para , que deu um passo à frente em sua direção, sem hesitar segurou a nuca de e selou os lábios dos dois em um beijo calmo. sorriu entre o beijo e a abraçou pela cintura, se curvando um pouco para que não precisasse ficar na ponta dos pés.
a puxou para mais perto e aprofundou o beijo, fazendo carinho em sua cintura com o polegar. Diferente de outros, esse beijo não tinha pressa, nem outras necessidades. Era apenas um presságio de um belo sentimento nascendo, o qual só o tempo poderia dizer. Mas ambos gostavam do que estavam vivendo.
- Feliz natal, . - Ela disse sorrindo, com o rosto ainda perto de e os braços envolta de seu pescoço.
- Feliz natal, . - Ele disse e deu um selinho demorado na garota.

Capítulo 10

- Ei, , será que eu posso roubar meu irmão um pouquinho? - tomou um susto ao ver Sarah na porta da cozinha, ainda era cedo, o que era mais estranho ainda. O restaurante não estava nem aberto, e Sarah ter aparecido à procura do irmão deixou um pouco alarmada.
- Aconteceu algo com sua mãe? Está tudo bem? - A morena perguntou, preocupada.
- Sim, é uma notícia boa. - A loira disse sorrindo.
- , Sarah precisa de você, só esteja de volta quando o restaurante abrir. - Ela tentou parecer indiferente, mas por dentro estava morrendo de curiosidade.
- É muito urgente, Sarah? - perguntou para a irmã.
- Frankie está aqui com o Thomas, e eles vão ficar até o Ano Novo. - Sarah só faltava dar pulos de alegria, por mais que não quisesse ser intrometida no assunto deles, a pergunta saiu automática.
- Quem é Frankie e Thomas?
- Nossa irmã e sobrinho. - A cara dela ficou ainda mais confusa. - Por parte de pai. - explicou.
- Ah! - Foi a única coisa que conseguiu falar, ela não lembrava de nenhuma Frankie, mesmo sabendo que o falecido marido de Mary teve uma família antes da mulher.
- Onde eles vão ficar? Acho que a nossa mãe não vai se importar se eles ficarem lá, certo? Ainda mais agora que meu quarto ficou vazio, qualquer coisa eles podem ficar lá em casa. Avise a Frankie que vou ser o mais organizado possível por eles.
- É claro que eles vão ficar na casa da nossa mãe, ela mataria a Frankie se tivesse reservado qualquer hotel nessa cidade para ficar. - Sarah comentou.
- Ok, eu passo lá depois do expediente do almoço. - deu um beijo na irmã, Sarah se despediu de também.
voltou ao seus afazeres, mas percebeu que ele estava tentando controlar um sorriso no rosto, pelo jeito fazia muito tempo que não via Frankie. Ele devia sentir saudades se estava tão animado assim, foi o que passou pela cabeça de antes dela soltar a seguinte frase.
- Vá pra casa, tire o dia de folga e fique com a sua família. - disse, sem desviar o olhar da geladeira.
- Não, eu posso ficar.
- , você está proibido de pisar na minha cozinha hoje. Vá, tire o dia de folga. - Ela apontou para a porta de saída, ela estava séria ainda. Isso significava que não estava brincando, ele tinha que sair nem que fosse para fazer nada em casa, não que ele fosse realmente fazer nada. Mas permanecer ali não era mais uma opção para .
- Obrigada, . - se despediu com um beijo no rosto, e tentou disfarçar o formigamento que surgiu com o toque dos lábios de em seu rosto com um revirar de olhos.
- Sai logo daqui. - Ele não pensou duas vezes antes de largar o avental e sair pela porta dos fundos.
O ponto fraco de sempre seria a família, não importava a circunstância, ela sempre amolecia o coração de pedra quando envolvia esse assunto.


Fazia muito tempo desde que tinha visto Frankie e Thomas pela última vez, geralmente eles se viam mais em datas como Natal e Ano Novo, mas nos últimos anos, devido ao seu relacionamento, havia passado essas datas em Londres.
Assim que chegou, entrou pela porta chamando pelo sobrinho.
- Olha se não é o tio favorito que acabou de chegar! - Ele parou no batente da porta que dividia a sala de estar da cozinha se ajoelhando de braços abertos.
- Tio ! - O menino correu e pulou em seus braços.
gostava muito do sobrinho, mesmo não sendo muito bom com crianças, mas como era bom se comportando como uma, conquistava o coração dos pequenos rapidamente.
- Oi, Frankie, quanto tempo. - Ele foi até a irmã com o sobrinho ainda no colo e a abraçou meio desajeitado.
- Pois é, o senhor andou sumido não é mesmo londrino? - Ela o encarou com as mãos na cintura fingindo estar brava.
- Tudo bem eu mereço isso. - Ele deu risada e se sentou com o sobrinho no colo.
- Frankie disse que vai ficar a semana toda e passar o ano novo com a gente. - Tessie disse animada. - Finalmente tenho meus filhotes debaixo da minha asa de novo pelo menos por uns dias.
- Vê se não começa a chorar hein mamãe. - disse a provocando e fazendo todos darem risadas. - Vocês vão ficar aqui na mamãe? Tem um quarto vago no meu apartamento também.
- Você nem terminou de arrumar aquele lugar, , até parece que vou deixar eles dormirem lá. Eu já até arrumei os quartos pros dois. - Tessie disse arrumando as louças na lava-louças.
- Eu disse pra você que ela não ia deixar. - Sarah deu risada.
- Está morando sozinho agora? Aqui em Nottingham? - Frankie perguntou.
- Estou sim, na verdade me mudei na semana passada, estava na hora de dar um pouco de sossego para dona Tessie. - deu risada e ajeitou o cabelo do sobrinho que estava encostado em seu peito, provavelmente cansado da viagem.
- Cansou da vida movimentada em Londres?
- As coisas ficaram um pouco… complicadas, decidi voltar e acabei me dando bem aqui. - ele sorriu.
- está trabalhando no restaurante da , lembra dela? - Sarah entrou na conversa novamente.
- Aquela menininha de cabelos enrolados lindos que morava aqui do lado?
- Isso mesmo, agora ela é um baita mulherão e tem o próprio restaurante perto do centro. - Sarah comentou.
- Nossa, isso é incrível! Podemos ir lá qualquer dia desses. - Frankie sugeriu.
- Pode ir que a qualidade eu confio, e não, eu não cozinho, pode ficar tranquila. - disse fazendo todas rirem.
- Falando em cozinhar, vão lá para a sala conversar que eu vou começar a fazer o meu almoço, meninas se quiserem podem ir ao mercado comprar algo, o cuida do Tom.
- Tudo bem, mas só vou deixar porque ele está quase dormindo, e você não vai ter tempo para ensinar nada errado pra ele. - Frankie disse apontando o dedo para .
- Ah, qual é, Frankie, eu sou um tio super legal, não sou, Tommy? - Ele perguntou ao menino sonolento em seus braços que sorriu e balançou freneticamente a cabeça afirmando. - Viu só? - Frankie balançou a cabeça rindo, e saiu logo em seguida com Sarah.
foi até a sala para ver desenhos com Thomas, já que Tessie havia negado sua ajuda e lhe expulsado da cozinha. Ele e o sobrinho conversaram por um bom tempo antes do pequeno pegar no sono. Fazia pouco mais de um ano que não o via pessoalmente, apenas por chamada de vídeo que Frankie fazia após Thomas insistir muito para falar com o Tio . Em partes, se sentia mal por ter passado tanto tempo longe das pessoas que realmente amava. De certa forma, estava cada vez mais feliz por estar de volta.
Quando as irmãs chegaram das compras, encontraram dormindo no sofá com o sobrinho também adormecido em cima dele, com a cabeça em seu peito. Frankie sorriu com a cena, era bom ver novamente, e o filho tão feliz em ter o tio de volta. Jamais admitiria isso em voz alta, mas era mesmo o tio favorito.
Após o almoço, decidiu levar a família toda para o parque, estava frio, mas pelo menos a nevasca tinha parado. Após um longo tempo no sótão, ele encontrou o antigo trenó para poder escorregar com o sobrinho na neve. Logo que chegaram, as mulheres foram até a cafeteria à frente, pegaram chocolate quente e se sentaram em um banco do parque onde poderiam ver os dois brincando. colocou o sobrinho sentado em seus ombros e subiu um pequeno morro puxando o trenó.
- Já fez isso antes, Tommy?
- Já sim, com o papai, mas ele tem medo de que eu me machuque e nunca me deixa escorregar muito alto. - o garoto falou com sua voz doce e empolgada.
- É, sua mãe também já pediu para que eu tenha cuidado, mas eu vou com você, então vou te proteger. Se cairmos, quem se machuca sou eu, tá bem? - ele disse enquanto colocava o garoto no chão.
- Mas a gente vai cair e se machucar? Eu não quero, tio .
- Ninguém vai se machucar, confia em mim? - ele se abaixou na altura do garoto que assentiu. - Ótimo, vem.
se sentou no trenó e colocou o sobrinho entre suas pernas, o pequeno agarrou os braços do tio e em um impulso os dois deslizaram pelo pequeno monte coberto pela neve. Ao longe onde as mulheres ficaram era possível ouvir os gritos e risadas de ambos.
- está realmente diferente, Londres fez bem a ele. - Frankie comentou.
- Você não faz ideia, nem eu reconheço meu irmão, e ele tem amadurecido muito desde que voltou. - Sarah disse após um gole de seu chocolate quente.
- Ele sofreu bastante enquanto estava em Londres, era difícil ver meu menino cada vez com uma desilusão nova para me contar, mas sabia que ele precisava disso. - Tessie disse observando o filho.
- Fico feliz que ele esteja bem agora e mais responsável.
- Nós também. - Sarah e Tessie falaram ao mesmo tempo fazendo as três rirem.
Depois de uma tarde toda correndo pelo parque fazendo guerra de bola de neve e andando de trenó, os homens da família estavam mais do que cansados. Voltaram para a casa e Frankie subiu para dar um banho no pequeno que ainda estava com um pouco de frio.
- Quer sair para jantar, mãe? - perguntou terminando de tirar o casaco e as botas.
- Não, meu amor, pode deixar. Liga para Jo e e veja se elas querem jantar aqui hoje.
- Mãe, sabe que a está trabalhando, não é? Ela jamais deixaria o restaurante sozinho.
- Tudo bem, ligue para a Josie então, e mande a vir após fechar. Você sempre vai dormir tarde mesmo, ela pode passar para comer. - Tessie disse já organizando as coisas na cozinha.
- Vou tentar, mas duvido que ela queira.
sentou na varanda e acendeu seu primeiro cigarro do dia, a vantagem de ter o sobrinho por perto é que se mantinha ocupado o bastante para esquecer do vício.
- O que precisa, ? Estou ocupada por aqui. - disse ao atender o telefone.
- Eu sei, me desculpe. Minha mãe pediu para chamar você e a Josie para jantar aqui.
- Eu não posso, mas vou liberar a Jo para ir.
- Eu sei que não vai poder sair agora, mas mamãe pediu para passar aqui após fechar o restaurante.
- Até parece que vou aparecer aí tão tarde para incomodar a dona Tessie, pode agradecer a ela por mim. - disse meio apressada, como sempre.
- Vou te esperar, eu não durmo cedo e sei que você sai daí com fome, pode passar aqui ou eu serei obrigado a te fazer uma visita.
- Tá bom, , tudo para não precisar te aguentar na minha cola. Até mais então.
- Até. - desligou o telefone e sorriu. era durona, mas de alguma forma, ele estava aprendendo a convencer ela.
voltou para a cozinha onde sua mãe preparava o jantar.
- Jô disse que logo está aqui, vem só depois mesmo. - ele disse se apoiando nos cotovelos no mármore da ilha.
- anda trabalhando muito, me preocupo com ela, às vezes.
- Relaxa, mãe, ela faz isso por amor, dá pra ver que ela ama estar envolvida em toda essa correria. Saberia do que estou falando se trabalhasse um dia naquela cozinha.
- Ela sempre amou mesmo cozinhar. Lembro quando ela era pequena, vocês brincavam lá no quintal e ela sempre obrigava você a brincar de casinha. - Tessie disse dando risada e a acompanhou.
- Aquela lá sempre foi cabeça dura, era impossível convencer ela quando decidia uma coisa.
- Está falando de você mesmo, maninho? - Frankie se sentou e bagunçou o cabelo de .
- Mesmo depois de tanto tempo vocês não desistem de implicar comigo, não é? - ele deu risada.
- Thomas está na sala te esperando, disse que você prometeu que iriam jogar vídeo game.
- E nós vamos. - deu um beijo no rosto da irmã e em um pulo já estava a meio caminho da sala.
Enquanto as mulheres conversavam na sala, e Thomas se divertiam jogando vídeo game. Porém, logo a presença de foi requisitada, estava mesmo demorando para suas habilidades com drinks serem necessárias.
A mesa já estava posta e todos sentados conversando, estava terminando os drinks e entregou um copo a cada uma delas com os respectivos pedidos. Para Tom, ele entregou um copo de suco de laranja decorado com algumas rodelas da fruta e um guarda-chuvinha para decorar e enganar o garoto, que por sinal funcionou muito bem.
O jantar foi regado a risadas e histórias antigas e também recentes. Fazia algum tempo que todos os não se reuniam para conversar. Frankie tinha sua vida agitada com seu marido e filho em Leeds, isso fazia ela aparecer com menos frequência do que gostava.
Tessie foi a primeira a se retirar, Jo e ficaram encarregados de cuidar da louça enquanto Frankie ligava para o marido, o filho já estava com saudade do pai que ficara trabalhando.
- Obrigado por ter vindo, Jo, pode deixar que eu termino tudo aqui, não se preocupe.
- Obrigada você, , é sempre bom poder passar um tempo com vocês, queria que a tivesse vindo. - Jo disse fazendo bico.
- Eu também, ela disse que viria depois que terminasse no restaurante, pode convencer ela a vim mesmo?
- Prometo fazer o meu melhor, mas você conhece a minha irmã, né?!
- Claro que sim, por isso sei que você é capaz de conseguir isso. - Ele apertou a bochecha de Jo, recebendo um tapa no braço em seguida.

Capítulo 11

mandou uma mensagem para assim que parou em frente a casa da senhora , ela não apertaria a campainha naquela hora da noite, seria falta de educação de sua parte, e só estava ali por muita insistência de Tessie. Não demorou muito para abrir a porta e convidá-la para entrar.
- Oi, tem certeza que não tem problema eu estar aqui a essa hora? - Ela perguntou, ainda parada no lado de fora.
- Minha mãe vai descer as escadas daqui a pouco se não estiver jantando na cozinha dela agora. - Ele respondeu, abrindo ainda mais a porta para entrar de uma vez. Ela apenas soltou um riso baixo.
- Eu sei, mas eu vou só jantar, entende? Eu posso fazer isso na minha casa. - Ela caminhou até a cozinha, mesmo a contra gosto.
- Seu prato está pronto e, se você comer tudo, ganha sobremesa. - disse num tom como se estivesse falando com o seu sobrinho Thomas. , como uma boa adulta, revirou os olhos e mostrou a língua em resposta, o que fez sorrir.
- Com a fome de leão que eu estou, não vai sobrar um grão nesse prato. - sentou na mesa e tirou o prato já separado de dentro do microondas, entregando em seguida pra ela.
- Muito movimento no restaurante hoje? - perguntou, realmente interessado em saber como foi o dia de .
- Sim, mas foi bom. - enfiou mais uma garfada na boca. - Céus, eu deveria ter chamado a sua mãe pra trabalhar no meu restaurante, e você ficava cuidando da casa. Sem ofensas, é claro. - tentou parecer ofendido, mas não resistiu e começou a rir, também.
- Mas vocês iam se matar dentro da cozinha, você não seria capaz de dar ordens a minha mãe, ela é bem persuasiva quando quer. - colocou a mão no queixo, e parou pra pensar sobre o assunto.
- É, tenho que confessar que seria uma grande batalha perdida. - Ela deu de ombros, por fim, terminando de comer.
- Você quer mais? Está quase lambendo o prato.
- Não, obrigada. Eu disse que estava faminta, e estava realmente bom. - respondeu, entregando o prato para , ele mesmo lavou e guardou a louça no armário.
Quando virou, voltando sua atenção para , a mulher estava ainda sentada na mesa e com o rosto apoiado nas mãos, ela tinha um sorriso nos lábios.
- Por que está me olhando assim? - Ele perguntou, desconfiado.
- Quero minha sobremesa, você prometeu. - O tom de voz era tão infantil quanto o de quando disse que se ela comesse tudo ganharia a sobremesa.
- Poxa, mas não tem, vai ter que ficar pra próxima. - Ele disse sorrindo amarelo, ficou séria.
- Você prometeu, dê seu jeito. Só saio daqui depois de comer minha sobremesa. - Ela voltou a se jogar na cadeira, e esperou começar a fazer alguma coisa.
- Você tem certeza disso? Eu não sei fazer muitas coisas.
- Estou esperando. - Ela sorriu amarelo também.
- Ok.
pegou alguns ingredientes do armário, se rendendo ao pedido de . Ainda desconfiado de como se fazia a receita, ele olhava de vez em quando para , mas ela não dava nenhum sinal se ele estava fazendo a coisa certa, o deixando ainda mais nervoso. Decidiu fazer um mousse de morango, sabia que era a fruta favorita dela, e era uma sobremesa rápida e fácil de fazer. Colocou no congelador assim que terminou, mais alguns minutinhos e eles poderiam comer, se estivesse tragável.
- Tio . - Thomas o chamou baixo, o menino ainda estava um pouco sonolento quando apareceu na cozinha.
- Ei, Tommy, o que foi? - largou o que estava fazendo no mesmo minuto e foi atender Thomas, o que acabou sendo uma surpresa para .
- Não consigo dormir. - Tommy choramingou, mas o pegou no colo e sentou em uma cadeira com ele.
- Me conta o que aconteceu, você teve um pesadelo? - falou carinhoso com o menino, apenas observava, aquilo era novo para ela.
- Não, tio, dói. - Ele apontou para a barriga e choramingou ainda mais. imaginou que Thomas estivesse com cólica, e estava certa. Enquanto balançava Tommy em seu colo, foi até o fogão e preparou um chá, ia ajudá-lo a dormir e faria a dor passar.
- Ei, Tommy, por que não toma esse chá? Vai ajudar a passar a dor. - o chamou carinhosa, o garoto não conhecia e olhou desconfiado para o tio. sorriu para o menino, indicando que ele podia tomar. Porém, assim que Thomas terminou de beber o chá, ele pegou no sono e adormeceu nos braços de .
- O que tinha nesse chá? - olhou abismado para .
- Nada, era só um chá de camomila, acalma e alivia as dores. - Ela explicou.
- Espera um pouquinho, eu vou colocar ele lá em cima. - balançou a cabeça concordando.
Enquanto saiu do cômodo com o sobrinho no colo, ela pensou que aquela noite já estava se alongando até demais, mas estava gostando daquilo, e aí que morava o perigo. não podia se apegar de novo a , a qualquer momento ele podia largar tudo e voltar para Londres ou sumir para qualquer outra cidade grande. Ela não queria mais uma decepção na sua lista. Para afastar esses pensamentos, ela decidiu ir até o jardim para fumar, estava tensa e não queria continuar com aqueles pensamentos negativos em sua cabeça, não enquanto as coisas estivessem dando certo.
- . - apareceu alguns minutos depois, ela estava terminando de fumar, o frio a impedia de continuar ali fora.
- Ei, só estava fumando um pouco. - Ela mostrou o cigarro entre os dedos. - Cadê minha sobremesa? Não achei que ia ser tão difícil assim conseguir um doce.
- Está pronta, posso te levar num lugar antes de entregar seu prêmio? - analisou o rosto de , ele estava tão sereno e, pode-se dizer que, até um pouco empolgado. Ela definitivamente não queria que aquela noite acabasse.
- Depende, já está tarde. Você vai me raptar, me matar e esconder meu corpo em algum lugar nessa cidade? - Ela levantou a sobrancelha, o questionando.
- Eu seria um péssimo serial killer se contasse o que fosse fazer, mas não, não vou fazer nada disso. Você sabe usar facas melhor do que ninguém, eu não seria louco de tentar qualquer coisa contra você.
- Tudo bem, não tenho nada a perder, então. - Ela deu de ombros, entrando na casa de novo.
tirou do congelador o pote com o doce e pegou uma colher na gaveta, antes de sair de casa, ele ainda pegou sua jaqueta atrás da porta e entraram no carro em seguida. Deixou a música tocar baixinho enquanto fazia o percurso, mas reconhecia aquela música, era Aries do Gorillaz.
- I'm a model that is uncomplicated, you can play a happy tune on me, but don't turn me off, ‘cause then i'm silenced. - Ela cantarolou baixo, no mesmo ritmo da música.
- Desde quando você curte esse som? - perguntou realmente interessado.
- Sei lá, às vezes gosto de arriscar e sair da minha zona de conforto. - Ela respondeu, observando a cidade. As casas enfeitadas mesmo após o Natal deixavam tudo mais iluminado e davam um ar acolhedor.
- Você tem feito bastante isso ultimamente. - Ele comentou, mas não estavam falando sobre a música.
- Pode apostar que sim. - Ela entendeu.
O carro voltou a ficar silencioso, mas não era incomodo, estava ótimo e logo reconheceu o caminho. já tinha a levado lá, e ficou feliz de estar voltando com ele. Era o antigo cine drive-in, ela tinha gostado daquele lugar, era lindo.
- Podemos ficar no carro hoje? Está muito frio. - Ela pediu.
- Claro. - esticou o pote com a sobremesa para e a colher também, ela pegou satisfeita, mas ao abrir o pote se deparou com o desenho de enfeitado com morangos em cima do mousse.
- Eu não acredito! - Ela começou a rir, mas, no fundo, tinha achado fofo aquela atitude.
- Se ficar ruim, você pode pegar leve, por favor? - Ela riu ainda mais.
- Nem pensar. - Ela colocou o morango para o lado, comeria por último, e pegou uma colherada do mousse. Fez um suspense por alguns segundos a mais de propósito, ela gostava de irritá-lo também. - Ok, está comestível - Voltou a comer o doce.
- Você não vai me oferecer um pouco? - perguntou apenas para provocar, o doce estava quase no fim.
- É claro que não, você fez pra mim, e já deve ter comido doce hoje. - enrugou a testa, como se estivesse falando o óbvio.
- Achei que você fosse mais educada. - Ele provocou.
- Eu sou, mas você fez eu esperar quase uma hora pra comer um doce, eu mereço saboreá-lo sozinha. - Ela colocou o último morango na boca e devolveu o pote vazio e a colher. - Mudando de assunto, quando viemos aqui, você disse que vinha aqui pra relaxar. Tem alguma coisa te incomodando?
- Sim e não. - riu meio sem graça, colocando o pote no banco de trás. - A minha vida tem mudado muito nos últimos meses, a paz que esse lugar me traz é sempre uma constante entre as mudanças. - ele olhava pelo vidro para o horizonte enquanto falava. - E imagino que deve ter sido um dia cansativo pra você, queria que também sentisse isso. - Ele virou seu olhar para ela e sorriu.
- Fico feliz de saber isso. Você quer me contar o que tanto te incomoda? - Ela sorriu terna, de todas as coisas, gostava de ver sorrir. - Não quero que pense que estou te pressionando, é só que, se quiser contar, vou estar aqui pra ouvir.
- Eu agradeço, de verdade. - Ele sorriu sincero e feliz pela atitude da mulher. - Você sabe que a minha vida ficou de cabeça pra baixo nesses últimos meses com as coisas que aconteceram, ter que deixar Londres... - ela assentiu prestando atenção em . - Mas ultimamente, eu tenho finalmente colocado minha vida nos trilhos, sabe. Eu tenho um emprego, estou perto da minha família e comprei um apartamento, nada nunca pareceu tão certo, nunca estive tão bem, e isso é muito maluco? - Ele riu confuso. - Não sei, é um sentimento novo.
- Você comprou um apartamento? - Ela perguntou um pouco boquiaberta. - Digo, isso é incrível. Sério, parabéns. - Um misto de sentimentos começou a invadir o peito de , ela não queria se iludir. De novo.
- Obrigado. - Ele sorriu largo. - Achei que estava na hora de levar a sério tudo isso sabe, Londres nunca me deu sorte, e aqui em meses estou melhor do que estive lá em anos. Não poderia viver o resto da vida com a minha mãe, estava com saudade da liberdade que tinha. Então comprei um apartamento. - Ele deu de ombros, ficava cada vez mais surpresa. Ele estava mesmo falando sério.
- Eu realmente não sei o que dizer, mas estou feliz por você. - Ela desviou o olhar para a janela, mesmo que o sorriso ainda permanecesse em seu rosto, algumas lembranças vieram à tona. - Você lembra quando eu te contei que fui fazer um curso em Londres, e quando descobri que tinha ido ao bar que você trabalhava, eu fiquei com medo e vergonha a noite toda?
- Sim, e quando eu perguntei o porquê, você disse que um dia me contaria, mas não naquele momento. - Ele completou, era exatamente isso que ela tinha contado.
- Acho que esse é um bom momento pra você saber.

6 anos atrás

tinha acabado de sair da sua aula, voltou para o hotel em que estava instalada, organizado pela escola de confeitaria, e resolveu utilizar a sua tarde para estudar a matéria do dia. Por mais que a tentação de sair e aproveitar pra conhecer Londres falasse mais alto em alguns momentos, ela jurou a si mesma que tiraria o máximo de proveito do curso. Já era final de tarde quando Valerie, sua colega de quarto, adentrou o cômodo. Porém, seu rosto vermelho e os olhos inchados chamaram a atenção de .
- Ei, Val, o que aconteceu? - Ela perguntou, largou a caneta e o caderno e sentou ao lado da amiga na cama.
- Eu e Rob terminamos. - Ela voltou a chorar. - Ele não entende que estou aqui pra seguir meu sonho, é só até o curso acabar.
- Eu sinto muito, Val. Mas quem sabe quando você voltar, vocês não possam conversar e se entender. - disse, carinhosa, enquanto passava a mão pelos cabelos de Val.
- Não sei, amiga, não é a primeira vez que brigamos pelo mesmo motivo.
“Então você fez a coisa certa.” pensou, mas preferiu ficar quieta, ela não magoaria ainda mais Valerie. Mas sabia que não pensaria duas vezes antes de terminar um relacionamento para seguir o seu sonho, já tinha feito isso antes, e já tinha sido deixada justamente por esse momento.
- Sabe, Val, eu já estive do outro lado, fui deixada por uma pessoa que seguiu seus sonhos. No começo dói, toda separação dói, mas hoje eu entendo ele de certa forma. Teria feito o mesmo se fosse eu no lugar dele. - secou a lágrima que deixou cair ao lembrar da sua despedida, nada amigável, com .
- Que saber? Vamos sair, ninguém vai ficar chorando por decepção amorosa hoje, não. - Valerie deu um pulo da cama, típico dela. Começou a tirar as roupas da mala, escolhendo qual usaria naquela noite. - Vamos, , mexe essa bunda daí.
se deu por vencida, escolheu um vestido que sabia que tinha sido coisa da Josie ter posto ele lá. Ela nunca levaria um vestido preto justo para um lugar que ia apenas fazer um curso, mas sua irmã insistira que ela deveria aproveitar pelo menos uma noite na cidade grande. Depois de arrumadas, elas decidiram ir a um dos famosos pubs de Londres, o The Victoria, mas assim que viu quem estava atrás do balcão servindo as bebidas, seu estômago embrulhou.
- Amiga, você está bem? - Val perguntou, sem prestar muita atenção, já que olhava encantada para tudo ao seu redor.
- Não muito, pra ser sincera, vou procurar um lugar pra gente sentar. - foi em direção contrária ao de Val.
- Eu vou pegar bebida pra gente. - Val gritou, já indo em direção ao bar.

Após contar tudo, sentiu um alívio sair de seus ombros, ainda sentia vergonha de ter agido daquela forma, mas não tinha pensado em outra saída na época. Contudo, agora ela tinha medo da reação de , não sabia exatamente porque aquilo importava para ela, mas não queria que eles voltassem à estaca zero.
ficou um tempo olhando para o horizonte, tentando encontrar palavras para dizer o que estava em sua cabeça, mas memórias demais invadiram sua mente.
- Eu... Eu também te vi naquela noite. Falei para mim mesmo que esperaria você falar comigo, eu não era homem o suficiente para te encarar depois de tudo que aconteceu. Se você não fosse falar comigo, era sinal de que ainda tinha raiva de mim, e foi assim que essa noite ficou gravada, como se tivéssemos passado despercebidos um pelo outro. - Ele a encarou com uma certa tristeza no olhar, por lembrar de como tinha sido covarde no passado.
- Eu não posso ser hipócrita e dizer que não estava com raiva, mas estava magoada, com certeza. No fim, fomos covardes. - Ela respondeu.
- Eu sei disso, e não tiro sua razão. Eu fui mesmo um babaca, mas isso ficou no passado. Somos pessoas diferentes agora, e talvez um pouco menos covardes. - Ele disse fazendo uma careta, o que tirou uma risada de .
- Com certeza. - Ela riu, mas quando olhou no relógio se arrependeu de ter ficado até tarde conversando. - É melhor a gente voltar, essa hora eu já estaria no meu vigésimo sono. - Ela gemeu em desgosto, acordar cedo no dia seguinte seria uma tarefa quase impossível.
- Verdade, mas se te consola, estamos no mesmo barco. - riu sendo acompanhado por . - Te deixo em casa, é caminho.
- Desculpe, mas você me deixaria em casa mesmo se não fosse caminho para sua. Viemos no seu carro. - Ela sorriu.
- Eu faria isso até se estivéssemos a pé. - Ele riu e ligou o rádio baixo.
- Onde você colocou minha bolsa? Minha chave está lá dentro.
- Eu não peguei sua bolsa. - respondeu, prestando atenção no caminho.
- Como assim não pegou minha bolsa? Josie não está em casa, eu preciso da minha chave. - olhou para , ela começou a ficar nervosa com aquela situação.
- Você não tem outra reserva guardada debaixo do tapete? Todo mundo tem.
- Eu tinha, mas Josie perdeu a dela e pegou essa reserva, não deu tempo de ir fazer outra ainda.
- Não sei se você vai gostar da ideia, mas pode ir para o meu apartamento. Amanhã te levo pro restaurante.
- E eu vou vestir o que amanhã? - Ela se afundou ainda mais no banco do carro. - Eu sabia que não era uma boa ter ido jantar na casa da sua mãe hoje.
- Tudo bem, eu posso ligar para a Frankie abrir a casa para eu poder pegar sua bolsa. Deixei a minha chave com ela, mas não tem problema. Espero que não acorde o Tommy.
- Não, claro que não. - Ela quase deu um grito ao ouvir a ideia de . - É óbvio que vai acordar, a casa toda aliás. São quase três da manhã, , eu estou querendo te matar nesse exato momento.
- Desculpa, a culpa disso tudo é minha por ter inventado isso. Mas pode ficar tranquila. Fica lá em casa e amanhã te levo até a sua para se trocar e nos encontramos no restaurante. Tudo bem?
- Tudo bem. - Não é como se ela fosse morrer por passar uma noite no mesmo ambiente que . Eles até estavam se dando bem nos últimos meses, só esperava que isso não estragasse tudo.
estacionou o carro na garagem do prédio e entrou no elevador apertando o número do terceiro andar.
- Só não repara muito na bagunça, está bem? Não tive tempo de organizar tudo ainda, mas está limpinho pelo menos.
- Eu estou aqui de favor, tá doido que eu vou reclamar de algo. - Ela apoiou a cabeça na parede metálica do elevador, observou por alguns segundos, ela estava realmente cansada.
As portas do elevador abriram novamente, e assim que abriu a porta de sua casa, entrou em seguida. Como ele havia dito, não estava tudo em seu devido lugar, e algumas caixas não tinham sido nem abertas ainda.
- Eu preciso de um banho, você se importa de emprestar uma roupa? - pôde jurar que viu ficar envergonhada, mas para não constranger e correr o risco de fazê-la ir embora, ele apenas concordou e foi até seu quarto.
- Claro, pode usar o banheiro do quarto, tem uma toalha limpa no armário e vou deixar uma troca de roupa em cima da cama pra você. Quando eu puder entrar, você me chama, tá bem?
- Tudo bem. - Ela caminhou até o quarto, era o único cômodo da casa totalmente arrumado, sem nenhuma caixa fechada, e bem arejado. Ligou o chuveiro e deixou a água quente lhe invadir, estava frio e quando tirou a roupa foi que se deu conta disso. Tomou um banho rápido, a fim de colocar a roupa que pegara emprestada. Tinha uma calça de moletom, uma camisa de manga longa e, ainda, um par de meias. Ela não podia reclamar.
Após colocar as roupas, que ficaram extremamente grandes em seu corpo, colocou parte do corpo para fora do quarto.
- Pronto, , pode vir pra cá. - caminhou até o quarto e parou na porta observando dos pés a cabeça, não conseguindo controlar a risada.
- Você ficou até fofa com as minhas roupas enormes em você, deveria usar mais vezes. - Ele piscou para ela que revirou os olhos.
- Tava demorando para o babaca dar as caras de novo. - Ela riu, mas no fundo tinha ficado com aquele comentário na mente.
- ajeitou a cama para que pudessem deitar, colocando uma coberta extra para . Sentou na beira da cama e tirou sua camisa.
- O que você está fazendo? Pode colocar as roupas, eu não vou dormir com você pelado não, . - disse mais rápido e agudo que o normal, o que fez soltar uma gargalhada alta.
- Relaxa, , eu não consigo dormir de camiseta, então infelizmente essa será a única peça que vai conseguir me ver sem hoje. - Ele deu de ombros como se fosse uma pena aquilo, o que fez revirar novamente os olhos e deitar de costas para ele.
- Boa noite, , obrigado pela noite, foi uma noite legal.
- Boa noite, , e obrigada por ter sido menos detestável. - Ela sorriu para ele, em seguida apagou a luz deixando o quarto escuro.

Capítulo 12

- , acorda. - permaneceu de olhos fechados e a voz parecia distante demais para ela fazer algum esforço e abrir os olhos.
- Não... só mais um pouquinho. - Ela resmungou.
- , você vai se atrasar. - voltou a chamar e a mulher fechou ainda mais os olhos.
- Tudo bem, tá tão gostoso aqui. - Ela sorriu, ainda de olhos fechados. - Tá tão macio...e cheiroso. - Ela soltou um riso, meio sonolenta e apertava o peito nu de . não tinha se dado conta, mas estava dormindo abraçada a ele, enquanto tentava não se mexer muito para não acordá-la, ele não viu outra alternativa senão chamá-la quando o relógio marcou sete horas.
- . - Mais uma tentativa, dessa vez, abriu os olhos devagar.
O quarto não estava totalmente escuro, já que era invadido por alguns raios de sol, então não teve que fazer esforço quando a luz atingiu seu rosto. Porém, assim que se deu conta de onde estava deitada e encarou o rosto de , percebeu que ele tinha um sorriso brincalhão nos lábios, e ela quis cavar um buraco na mesma hora.
- Quer dizer que está gostoso, macio e… - ele parou, fingindo pensar. - ah, cheiroso? - gemeu de tanto constrangimento, voltando a se atirar na cama, dessa vez no lugar vazio ao lado de , onde ela deveria estar dormindo.
- Vá se ferrar. - Ela tapou o rosto de vergonha. - Que horas são?
- Sete.
- O que? Por que não me acordou? - deu um pulo da cama, correu para o banheiro.
- Era o que eu estava tentando fazer.
- Sabia que tinha sido uma péssima ideia dormir aqui. Vai me levar em casa?
- Eu disse que sim. - gritou, antes de entrar no banheiro do corredor e tomar um banho rápido.
estava envergonhada de ter dormido em cima de ? Sim, estava, mas não pôde evitar um sorriso ao lembrar de como ele dormia tão sereno que ela não foi capaz de acordar. E de como ele era cheiroso. Mas, espera aí, desde quando tinha esse tipo de pensamento sobre ? É, parece que não era só ele que estava mudando.
- Vamos? - voltou vestido para o quarto, o que acabou assustando a mulher.
- Claro, onde você colocou minhas roupas ontem? - Ela perguntou, sem ter coragem de olhar diretamente para ele.
- Ali na poltrona. - Ele apontou para o canto do quarto.
- Podemos ir então. - abraçou suas roupas, como se não quisesse que visse nenhuma das suas peças. Calçou o tênis antes de sair e prendeu os cabelos num coque no topo da cabeça, ela precisaria ser rápida quando conseguisse pegar sua bolsa e ir pra casa trocar de roupa.
O caminho até a casa de Tessie foi silencioso, quase constrangedor, na verdade, muito constrangedor. pensava no quão terrível era voltar ali, vestindo as roupas de e ter que dizer que esqueceu sua bolsa com suas chaves, e que por isso acabou dormindo no apartamento do seu (não mais) inimigo. A verdade é que ela não queria estar naquela situação, não ter o controle do que estava acontecendo a deixava nervosa. Quando estacionaram em frente a casa de Tessie, não esperou que se mexesse, logo saiu do carro e entrou na casa da mãe, sem sequer apertar a campainha. Poucos minutos depois, ele saiu da casa com a bolsa de em mãos, mas com Josie logo atrás.
- Ai, não. - Ela resmungou baixo.
- Oi, maninha, o que aconteceu? - Josie se pendurou na janela do carro, um sorriso maldoso estampava seu rosto.
- Nada. - respondeu. entrou no carro novamente e esticou a bolsa para a mulher, rapidamente retirou as chaves da bolsa e entregou para Josie, que não gostou muito. - Você abre o restaurante, vou me atrasar.
- Hum, sei. E porque está com as roupas do ? - O rosto de podia pegar fogo a qualquer momento, mas o olhar que a mais velha deu em direção a Josie, fez a mais nova se encolher e se arrepender do que havia dito. - Ok, já estou indo.
deu partida no veículo de novo, e logo a imagem de Josie na calçada da casa dos foi diminuindo conforme o carro se afastava cada vez mais. não se aguentou e começou a rir, apenas o olhava tentando entender o que estava acontecendo.
- Tá rindo do quê, ? - Ela o olhou.
- Finalmente consegui ver com vergonha e sem palavras. - ele gargalhava, revirou os olhos e deu um tapa em seu ombro.
- Você é mesmo um babaca, , agora anda logo que já estamos atrasados demais.
- Sim, chefe. - Ele finalmente conseguiu parar de rir e acelerou o carro. Não demorou muito para que estacionasse em frente a casa de .
- Pode ir lá se arrumar, eu te espero aqui pra dar uma carona. - disse se encostando no banco.
- Tudo bem, prometo que não vou demorar. - Antes que pudesse responder, entrou em sua casa. Ele ligou o rádio e começou a cantarolar a música que tocava.
Não demorou muito voltou com a respiração um pouco ofegante.
- Vamos, não podemos nos atrasar mais. - Ele olhou para ela e riu, saindo com o carro em seguida.
- Parece que alguém gostou do meu moletom… - estava com os cabelos amarrados em um coque, trocou a roupa mas manteve o moletom de que estava antes.
- É confortável, e tava mais fácil do que achar um meu.
- Confortável, claro… gostoso, macio e cheiroso também? - provocou segurando o riso.
- Você não vai esquecer disso, não é mesmo?
- Não, esse já é o meu melhor dia desde que voltei pra cá.
- Você é patético. - riu.
Logo chegaram no restaurante e foi logo correndo arrumar as coisas que sempre costumava fazer ao chegar.
- Vai me contar o que tá rolando aqui ou eu vou ter que colocar vocês no cantinho da disciplina até me contarem? - Josie parou ao lado de e cruzou os braços.
- Olha, eu até poderia contar… mas eu adoraria ver a versão que sua irmã tem dessa história, então pode colocar a gente no cantinho da disciplina. - piscou para Josie que riu.
Quando acabou o horário de almoço do restaurante, a maioria dos funcionários foram para suas casas e voltariam no período da noite, horário em que o restaurante reabriria como de costume. Nesse período, conseguiu descansar um pouco, sentia seu corpo cansado e não sabia se aguentaria o período da noite; mesmo sabendo que era de sua responsabilidade estar ali. A mulher pegou uma xícara de café e a carteira de cigarro guardada na bolsa, foi até os fundos do restaurante e resolveu sentir o ar fresco. Estava dando mais uma tragada no cigarro quando escutou a porta ser batida, era Josie, ela sabia.
- Então, o que tá rolando? - Ela foi direto ao ponto.
- Nada, é sério. - respondeu, tomando mais um gole do café em seguida.
- Hum, fica difícil acreditar quando você dorme na casa do e aparece vestindo o moletom dele no outro dia.
- É sério, só esqueci minha bolsa na casa da Tessie e dormir no apartamento do foi a única saída. Não tem nada rolando. - explicou resumidamente o que aconteceu na noite anterior.
- Vocês tão se pegando, por acaso? - Josie encarou os olhos de , a mais velha pareceu um pouco pensativa devido aos últimos acontecimentos. Não podia negar sobre o beijo na noite do bar, no natal e sobre as conversas da noite anterior.
- Não.
- Você tá diferente, ele tá diferente, e agora vocês estão sempre juntos. Deveria pensar melhor, . Mesmo que não queira assumir, vocês ainda têm muito o que conversar.
- Josie…
- Não, você não me deve explicações. Mas, às vezes, eu também posso te dar alguns conselhos, não é porque eu sou mais nova que não vejo o que acontece ao meu redor. - As palavras de Josie pegaram totalmente de surpresa, ela sabia que os dois não estavam sendo nada discretos, mas ela não imaginava que Josie estivesse percebendo tudo aquilo. Josie voltou para dentro do restaurante, e ficou por mais um tempo ali fora tomando o resto de café e tragando seu cigarro. Ela não queria admitir, mas Josie estava certa.


Para o alívio de o período da noite tinha sido razoavelmente tranquilo. Um a um os clientes iam embora, em seguida os funcionários.
Ela estava concentrada no computador fazendo os pedidos dos ingredientes que faltavam quando ouviu um barulho de louça sendo guardada. Olhou para o lado e viu ainda arrumando algumas coisas.
- Pode ir, , eu termino aqui. - ela disse ainda com os olhos na tela do computador.
- Relaxa, não tenho nada o que fazer fora daqui, não custa te ajudar.
- Você precisa arrumar uma namorada, tocar mais em barzinho… como não tem mais nada pra fazer? - colocou as mãos na cintura o encarando. deu risada e balançou a cabeça em negação.
- Se eu arrumar uma namorada, na casa de quem você vai ficar quando esquecer as chaves e precisar de uma roupa pra roubar? - Ele a encarou com um sorriso ladino no rosto.
- Eu apenas peguei emprestado, já disse que vou devolver. - Ela revirou os olhos e voltou a encarar o computador.
- Eu tô brincando, tenho vários desses. - Andrew terminou o que estava fazendo e encostou na parede no lado de . - Posso te pedir uma coisa?
- Se for um aumento, eu vou dar um chute na sua bunda e te mandar pra fora desse restaurante. - disse sem olhar, riu.
- Não é isso não, mas bom saber. - ele riu e ajeitou os cabelos. - Pode me ensinar a fazer um bolo? - o olhou com as sobrancelhas arqueadas.
- Que? Por que não pede pra sua mãe?
- Acredite, eu já tentei. Ela disse que não precisava, que ela fazia. - ele falou com uma voz desanimada. - Por favor, juro que te deixo em paz. - o olhou, era difícil resistir a qualquer pedido de com aquela cara de coitado que só ele conseguia fazer.
- Ta bem, ta bem. - levantou e ajeitou o coque que já estava se desfazendo. - Mas vê se presta atenção, porque não vou ensinar duas vezes. - Ela disse já indo pegar os ingredientes.
- Pode deixar, chefe. - Ele sorriu e foi até a bancada ao lado de .
ia dando as coordenadas e ia seguindo suas instruções, vez ou outra fazendo perguntas. achava engraçado a forma como ele realmente queria aprender mesmo não tendo muita noção das coisas. Tessie com certeza o mimava demais, mas aparentemente estava começando a querer ser totalmente independente, mesmo que um pouco tarde.
Após todas as instruções de , ele colocou o bolo no forno e limpou as mãos em um guardanapo.
- E agora? - ele perguntou.
- Agora esperamos assar. Demora um pouco, mas logo está pronto. - guardava o restante dos ingredientes.
- Hum… quer pedir algo pra gente comer?
- O que acha de eu fazer um macarrão? Acho que acaba sendo mais rápido. - Ela deu de ombros.
- Mas não vai te dar trabalho? Você parece estar cansada.
- Relaxa, precisamos esperar mesmo. - pegou as coisas que precisava e começou a fazer o macarrão.
- Quer ajuda?
- Não precisa não, só coloca uma música pra gente ouvir.
- Sim, senhora. - foi até o computador e colocou uma playlist que ele gostava e que sabia que ela também gostaria.
se sentou do outro lado da bancada ficando de frente para . Pegou um dos bloquinhos em que anotava os pedidos e começou a rabiscar enquanto assobiava as músicas.
estava concentrada em sua tarefa, mas também cantava hora ou outra. Olhou pelo canto do olho para vendo-o concentrado demais no bloco.
- O que você está fazendo? - Ela perguntou, curiosa, se debruçando na bancada.
- Nada. - Ele respondeu colocando a mão na frente do papel.
- Deixa eu ver! - Ela tentou puxar a mão dele.
- Já disse que não é nada poxa. - Ele deu risada e escondeu o bloquinho embaixo da bancada.
- Chato. - ela mostrou a língua para que riu.
serviu dois pratos e entregou um a . Pegou duas latas de coca cola na geladeira e sentou de frente para ele.
- Isso tá muito bom. - ele disse após a primeira garfada. - Você é mesmo incrível, . - Ele sorriu.
- Eu sei que sou. - Ela sorriu e tomou um pouco do refrigerante.
Poucas palavras foram trocadas durante a refeição. Assim que terminaram, pediu que retirasse o bolo do forno.
- Já pode comer? - Ele perguntou ansioso, riu.
- Calma, bebezão, tá quente ainda. Me ajuda com a louça e depois comemos.
Enquanto lavava as louças, as guardava. Quando terminaram, cortou dois pedaços de bolo, servindo-os em pratinhos e entregou um para .
- Experimenta e me diz se ficou bom. - ele a olhava enquanto experimentava.
- Nada mal para o primeiro bolo, … um pouco atrasado para isso confesso, mas você é um bom aluno. - Ela riu e a acompanhou.
- Tenho uma boa professora. - Ele piscou para ela e comeu seu pedaço de bolo. - Obrigado por me ajudar, . Sei que não sou sua pessoa favorita no mundo e que está cansada, mas obrigado, de verdade. - Ele sorriu.
- Não precisa agradecer. E até que você não está sendo mais tão insuportável assim. - Ela riu.
- Bom saber.
Eles terminaram o que restava para ser organizado no restaurante antes de irem embora.
- Ei, , quer uma carona? - já estava vestindo seu casaco pronto para sair do restaurante.
- Não, , obrigada. - estava um pouco desanimada, e preferiu ficar até mais no restaurante como costumava fazer para colocar seus pensamentos no lugar. - Eu vou ficar mais um pouco.
- Eu posso? - Ele perguntou receoso.
- Eu prefiro ficar sozinha hoje. - Ela não soou grosseira, e ele entendeu.
se aproximou de , e ela não fez nenhum movimento para recuar, mesmo que ele estivesse próximo demais dela. sentiu o toque delicado dos lábios de junto aos seus, e no mesmo instante uma calmaria passou pelo seu corpo. Aquilo estava acontecendo dentro da cozinha do seu restaurante, no seu lugar favorito. Não imaginava tanto que precisava daquilo, por alguma razão. não estava acostumada ainda com todas aquelas sensações que só conseguia trazer à tona.
- Boa noite, .
- Boa noite, .
Quando saiu do restaurante e pôde escutar o barulho do carro se afastando, conseguiu respirar aliviada.
- O que você está fazendo da sua vida, ? - balançou a cabeça para afastar aqueles pensamentos e sentimentos todos. Ao voltar a atenção para o computador, percebeu um bloco de notas embaixo do teclado, era o bloco que escondeu dela. Nele continha um desenho de , ela lembrava que gostava de desenhar quando mais novo, mas aquilo além de incrivelmente bom, era a visão que tinha dela, mesmo que sendo um esboço muito rápido. Ela gostava da forma como ele a via.


Continua...



Nota das autoras: A att demorou, mas chegou. Dessa vez, tem bastante coisa acontecendo na vida dos nossos pps, e eu espero que vocês gostem. Até a próxima <3

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