Última atualização: 19/11/2021

Prólogo

O símbolo no teste de gravidez era o mesmo dos outros oito que eu tinha feito ao longo da semana. Não importava se eu fizesse tarde da noite ou na primeira hora da manhã, depois de três ou quatro taças de vinho. O resultado era sempre o mesmo. Duas setinhas paralelas. Positivo.
Um exame de sangue não faria mal, faria? Já tinha ouvido falar que testes de farmácia não eram cem por cento eficazes e poderiam facilmente dar falsos positivos. Isso acontecia com certa frequência, certo? Pensei, tentando convencer a mim mesma que era aquilo que tinha acontecido com os testes que eu fizera. Não era o momento para estar grávida. De forma alguma.
Minhas mãos tremiam enquanto eu estava na sala de espera do laboratório, o latejar de dor insistente na testa e na nuca aumentava à medida que eu tentava organizar meus pensamentos. O tic-tac do relógio era o único barulho da sala, havia mais três pessoas ali, todas absortas no celular. Ninguém percebia o quanto eu estava tremendo e pálida, prestes a desmaiar.
? 一 Ouvi meu nome ser chamado e demorei cinco segundos para conseguir me levantar da cadeira e me certificar que não cairia dura no chão. Peguei meu exame lacrado e agradeci a funcionária sem ao menos enxergar seu rosto.
Caminhei até o estacionamento, sem realmente saber o que estava fazendo e entrei no meu carro. Ali eu estava sã e salva e consegui respirar fundo antes de tomar coragem para abrir o envelope. Encarei o papel por alguns segundos antes de abri-lo, e quando o fiz, as lágrimas que já caíam pelo meu rosto mal me deixaram ler o que estava escrito. No mar de palavras e informações, apenas uma ali me interessava: Grávida. 8 semanas.


PARTE I


Capítulo 1

4 MESES ANTES


As últimas gotas do colírio que eu usava para evitar a vermelhidão nos olhos foram pingadas no meu olho no mesmo instante que meu celular apitou, denunciando uma mensagem. Meus olhos estavam vermelhos e minha cabeça doía por causa da minha última imensa e diária crise de choro no banheiro do meu trabalho, no meu horário de almoço 一 e às vezes na hora que as crianças tiravam um cochilo. Eu mal podia me olhar no espelho. Se os pais das crianças me vissem dessa forma, o que pensariam? Quem confiaria seus filhos a uma professora infantil completamente desequilibrada emocionalmente? Eu não podia acreditar no que eu tinha me tornado. A verdade é que eu nem sempre fui assim, pelo contrário, era uma professora extremamente feliz e satisfeita com meu trabalho e minha vida pessoal. Até que eu levei um pé na bunda. Eu não acreditava que esse tipo de coisa poderia virar a vida de uma pessoa de ponta a cabeça, tirá-la do seu eixo e deixá-la perdida, mas era exatamente como eu me sentia agora: como se tivesse desperdiçado os últimos três anos da minha vida a troco de NADA. Tirei o celular do bolso da calça jeans que eu usava e li o visor:

Meneguim:

SOS. Café da tarde no Shepherd's depois que você largar os pirralhos? Preciso descarregar o ÓDIO que eu estou sentindo daquele energúmeno.

Soltei um risinho antes de respondê-la positivamente. era minha melhor amiga e ela tinha sérios problemas de convivência com seu chefe 一 de quem ela era assistente 一 e, apesar de já ter sido aliciada por outros escritórios, ela simplesmente não queria dar “o gostinho dele se livrar dela”, palavras dela e não minhas. Depois de responder, guardei novamente meu celular no bolso da calça e me olhei pela última vez no espelho, me certificando que nada estava fora do lugar e a maquiagem ainda estava intacta. Nos últimos dias eu tinha usado uma imensa quantidade de corretivo para esconder as olheiras e não assustar as crianças. Mas elas eram espertas, percebiam que eu estava triste e não era a mesma “Tia ” de sempre. Suspirei e voltei para minha sala, ainda faltavam alguns minutos para acabar o intervalo e aproveitei para juntar os lápis de cor que estavam espalhados pelo chão emborrachado. Se tinha uma coisa que aqueles pequenos seres humanos sabiam fazer era uma boa bagunça. Eu podia ouvir os gritos deles do lado de fora, onde havia um pequeno playground; eram ao todo dez crianças, mas elas pareciam ter a energia de duzentas.
一 Tia … 一 ouvi uma das vozinhas angelicais atrás de mim e me virei para responder o pequeno ser humano que me encarava.
一 Oi Ellie 一 respondi, abaixando na frente da garotinha. Ela era a menor da turma, tinha 3 aninhos mas era tão pequena que parecia ter dois. Tinha grandes olhos castanhos, que agora estavam vermelhos, assim como seu rosto, denunciando que ela tinha chorado.
一 O Josh pegou a minha boneca!
一 Ela não sabe dividir, tia ! 一 O acusado respondeu indignado, cruzando os bracinhos para demonstrar.
一 Vocês não acham que tem brinquedos o suficiente para todos, não? 一 Me abaixei para conversar melhor com as duas criaturinhas. 一 O que vocês acham disso: Ellie, você deixa o Josh brincar por hoje com sua bonequinha, amanhã ele a devolve e você brinca, o que acha? E Josh, da próxima vez que quiser um brinquedinho, peça para o amiguinho ao invés de pegar. Você entendeu, meu amor? 一 Observei o pequeno garotinho balançar a cabeça positivamente. 一 Agora, vocês dois, dêem um abraço e prometam não brigar de novo! 一 Pedi às crianças, que prontamente se abraçaram com seus bracinhos curtos, voltando correndo para o parquinho. Como eles se perdoavam fácil, huh? No geral era muito tranquilo fazer elas se reconciliarem, essa era a beleza de se lidar com crianças. Mesmo com suas peculiaridades, eles sabiam conviver com as diferenças melhor que muitos adultos.


Quando estacionei o meu carro na frente do Bertotti Shepherd's Bush, avistei sentada nas mesas do lado de fora, distraída mexendo em seu celular. Ela era, com certeza, uma mulher que atraía olhares por onde passava: alta, vestia roupas elegantes e tinha postura ereta ao se sentar e até mesmo quando estava em pé, era impossível vê-la com os ombros curvados. Além disso, ainda tinha o charme do sotaque estadunidense e não abria mão de usar óculos de sol em qualquer ocasião, mesmo no tempo quase sempre frio e nublado de Londres.
一 Amada! 一 Ela me deu um beijo no rosto quando parei na sua frente e, depois de comprimentá-la, me sentei de frente para ela 一 Você não vai acreditar no meu estresse, ! Eu vou matar aquele homem!
一 O que ele fez dessa vez? 一 Perguntei enquanto lia o cardápio, embora eu o soubesse de cor e sempre pedisse a mesma coisa.
一 Ele se sentiu no direito de roubar o meu cliente, ! Depois de dizer que eu poderia lidar com o caso sozinha, você acredita nisso? Ele não estava nem aí pro caso, mas quando viu que era interessante e provavelmente traria fama para aquele escritoriozinho dele, tirou de mim igual se tira doce de pirralho! Que ódio! 一 finalizou seu monólogo suspirando e olhando para mim. Geralmente eu não me importava muito em responder as reclamações sobre o chefe dela, sempre era com “ahn” ou um “sim, ele é realmente um babaca” e geralmente ela não se importava, só precisava colocar para fora a frustração. O meu problema era pensar que ela não me conhecia. 一 Você andou chorando, ? 一 Perguntou desconfiada e as opções no cardápio nesse momento me pareceram muito mais interessantes do que encarar o rosto da minha melhor amiga.
一 Hey, Manny! 一 Chamei o garçom que veio rapidamente na nossa mesa, com o sorriso de lado que ele costumava dar sempre que nos via. Era nossa cafeteria favorita desde a adolescência. 一 O de sempre… 一 sorri para ele, mas, quando voltei os olhos para , ela me encarava com os olhos semicerrados.
一 Já faz quase um mês, !
一 Três semanas. 一 Suspirei, as lágrimas já começavam a cair pelos meus olhos, o que me fez limpar rapidamente o rosto. Estava cansada de enxugar lágrimas o tempo inteiro. Meus olhos pareciam uma torneira.
一 Já chega, ok? Eu sei que existe aquele papo de deixarem as feridas se curarem sozinhas e blá blá blá, mas eu não aguento mais isso! Você precisa seguir em frente, isso não é bom pra você!
Eu sabia que ela estava certa, sabia que precisava superar o pé na bunda e viver a minha vida, mudar os ares e esquecer que Luke tinha existido. Ele estava vivendo a vida dele, por que eu pararia a minha? Mas era muito difícil seguir em frente quando você planeja sua vida inteira com a pessoa.
Luke era o que podia ser chamado de homem dos sonhos: engraçado, bonito, atencioso e compreensivo e ainda, como se não bastasse, era rico! Lógico que dinheiro não importava para mim, mas era fácil pensar em como sua vida seria daqui três, quatro anos, não é mesmo? Eu me imaginava casada e vivendo um filme, viajando por todo o mundo ao lado meu amor. Então, três semanas atrás, quando recebi um pé na bunda com a justificativa dele “não estar pronto” depois de TRÊS ANOS de relacionamento, não era exatamente o que eu estava esperando.
一 Você tem razão! 一 Exclamei, percebendo o quão burra e manhosa eu estava sendo.
一 Eu sempre tenho razão, ! 一 rolou os olhos e voltou sua atenção para o celular enquanto falava. 一 E Luke era um babaca, como você não enxerga isso? 一 Ao contrário de mim, minha melhor amiga tinha uma visão totalmente diferente do meu ex-namorado. Os dois não se bicavam de jeito nenhum! Ele a chamava de vaca sempre que tinha a oportunidade e não deixava barato, sempre conseguia devolver com uma ofensa à altura. 一 Eu sempre te avisei 一 ela concluiu, bloqueando o celular e mandando beijinhos. Ela claramente tinha me avisado. Várias vezes. 一 Mas não é como se eu fosse ficar jogando isso na sua cara o tempo todo, então eu te proponho um trato… 一 a loira bebericou um pouco do seu café antes de falar. adorava uma pausa dramática. 一 Mude esse cabelo, ! Tome um banho de loja e vá reconstruir sua vida, sabe? Não há nada mais bonito no mundo do que uma mulher que acaba de se livrar de um homem babaca!
一 Você vai comigo? 一 Pedi. Talvez não fosse uma má ideia se livrar de tudo que me lembrava os três longos anos de relacionamento. Realmente eu precisava mudar de página.
一 O céu é azul, ? 一 Minha melhor amiga rolou os olhos e eu ri observando as lentes marrons de seu novo óculos.
一 Você se deu conta que já está quase escuro?
一 Vocês, britânicos, não sabem NADA de moda! 一 balbuciou e se levantou, deixando vinte libras na mesa. 一 Vamos fazer compras, baby!

Ir ao shopping com Meneguim era uma verdadeira maratona: ela simplesmente me arrastou por todas as lojas existentes na Inglaterra, além de me fazer experimentar (e comprar!) roupas que durariam por dez gerações da minha família. E, quando eu achei que escaparia, é claro que ela me fez sentar em uma cadeira de salão para mudar o cabelo.

一 Faz anos que essa garota não tem um corte de cabelo decente, Lauren! 一 É claro que ela conhecia a cabeleireira. 一 Faça um dos seus milagres, por favor! 一 A moça apenas assentiu com a cabeça e riu. era simplesmente difícil de acompanhar.
Aproveitei para desligar a mente enquanto Lauren mexia no meu cabelo e as outras funcionárias lidavam com minhas unhas tanto dos pés, quanto das mãos. Eu não queria nem pensar na fatura do meu cartão de crédito. Essa era uma das coisas que eu pensava constantemente durante o namoro: controlar o dinheiro para o casamento. Luke era simplesmente neurótico com isso. Nós não comíamos em restaurantes caros, não viajávamos para nenhum lugar que fosse muito caro e eu não podia comprar roupas novas ou escolher presentes caros demais sem receber um “Você não se preocupa com nosso dinheiro?”, “Vai ser assim quando estivermos casados?”. Lembrar disso me incomodou profundamente. Durante o relacionamento eu não percebia, achava que ele fazia pelo nosso bem e eu aproveitaria depois. Mas ali sentada, depois de ter gastado uma boa grana que economizei por anos, eu me sentia incrivelmente bem. Não podia acreditar que tinha me privado disso durante três anos da minha vida, me iludindo com a possibilidade de um casamento feliz.
一 Está pronta para o resultado, querida? 一 Lauren me despertou da imensidão de pensamentos que rondavam minha cabeça e eu assenti, ansiosa para ver o que ela tinha aprontado no meu cabelo. Arfei ao olhar para a mulher no espelho. Simplesmente não parecia eu. Ela tinha cortado meus cabelos, que antes batiam na cintura, na altura dos ombros. Eles estavam ondulados e os fios estavam escurecidos, deixando para trás as luzes que eu tinha feito na adolescência. 一 Melhor, hein? 一 A cabeleireira riu ao ver minha expressão de choque. Eu estava completamente apaixonada.
一 Agora sim você parece uma mulher de 24 anos, ! 一 exclamou com um sorriso de orelha a orelha.
一 Gostou mesmo? 一 Sorri para minha melhor amiga, que assentiu com a cabeça e me abraçou. 一 Entra aqui uma nova era de ! 一 Mandei beijinhos e todas no salão me aplaudiram, me provocando uma gargalhada imensa. Há quanto tempo eu não ficava feliz assim?



Foi uma pena que toda a euforia e entusiasmo das compras e o novo corte de cabelo ficaram na sexta-feira, pois no sábado a antiga já estava em ação:
It’s a beautiful day to save lives 一 Derek Shepherd entoou na televisão, enquanto meus olhos já se enchiam de água. Eu já tinha assistido aquele episódio e esperava que uma tragédia acontecesse, para que eu pudesse chorar com qualquer outra razão que não fosse o fim do meu namoro. Entre a cena e a colherada de sorvete que estava pronta para ser enfiada na minha boca, a televisão foi desligada sem aviso e minha visão foi tomada por uma figura de salto alto e um vestido preto tubinho muito bonito.
一 Nós vamos sair, . 一 Minha melhor amiga me encarou com uma expressão de nojo, provavelmente por causa do estado em que eu estava naquele sofá: camisa de flanela que ela odiava, um short furado e minhas meias de estampa de coelhinhos, meu cabelo estava preso em um rabo de cavalo desarrumado, totalmente ao contrário do que estava ontem, mas pelo menos ainda com o brilho intenso. As olheiras abaixo dos meus olhos assustariam qualquer criança que me visse daquela forma. 一 Depois que você tomar um banho e voltar a se parecer com um ser humano, é claro! 一 Ela disse com a feição entediada, enquanto eu me levantava para tentar roubar o controle da mão dela, em vão, já que infelizmente meus um metro e cinquenta e cinco não eram páreo para uma de salto-alto.
一 Isso é muito injusto! 一 Bati o pé como uma das crianças que eu cuidava. 一 Eu não quero ir! Eu sei que nós combinamos toda essa coisa de uma nova mulher, mas eu realmente não quero, não estou pronta!
一 E eu não quero “não ser” a esposa do príncipe Harry. A vida é justa, ? 一 Meneguim perguntou com ironia e, antes que eu pudesse protestar novamente, ela me empurrou para meu quarto, onde ela já tinha feito questão de deixar o vestido escolhido da noite: um tubinho como o dela, mas de um tom de azul escuro. Uma das peças que eu tinha comprado no dia anterior. 一 Você tem, a partir de agora, meia hora para estar pronta. Vou te esperar na sala assistindo o gostoso do Derek partir. 一 Minha melhor amiga informou e me deixou sozinha no quarto depois disso.
Ponderei por um momento sobre as minhas opções: eu podia ficar em casa e ouvir reclamando na minha cabeça por três gerações ou eu poderia sair com ela para onde quer que fosse, inventar uma infecção intestinal ou qualquer outra coisa depois de uma hora e ir para casa. Ela não poderia me culpar, poderia? Seguindo o plano infalível, peguei a roupa que ela tinha separado, além das roupas íntimas e o que eu precisava para tomar banho e me enfiei em meu banheiro, torcendo para ser levada pelo ralo antes de precisar sair com .
Não sei se foi a música da Taylor Swift que coloquei no banho ou a aceitação, mas, quando me olhei no espelho com a roupa que minha amiga tinha escolhido, me senti mais animada para sair de casa. Eu estava me sentindo uma mulher bonita.
一 Espero que tenham muitos homens naquele lugar! 一 exclamou ao abrir a porta do carro para irmos para a tal boate que ela tinha visto no Instagram. Demorou menos de vinte minutos para chegarmos ao lugar, que se parecia com um bar, mas no seu interior havia uma pista de dança e um DJ, que no momento em que chegamos tocava uma música ambiente, já que ainda estava cedo. Mesmo que ainda fossem oito da noite, relativamente cedo para jovens, o bar já estava cheio. Por este motivo, tivemos que nos sentar nas banquetas próximas ao grande balcão dos garçons e não em uma mesa.
一 O que vão querer hoje, garotas? 一 O belo bartender nos atendeu sorrindo.
一 TEQUILA! 一 Eu e respondemos ao mesmo tempo e rimos, acompanhadas do bartender, que se retirou para preparar nossos shots. Eu tinha que admitir que era isso que eu realmente precisava, uma noite com minha melhor amiga para me lembrar que eu ainda era jovem, ainda tinha uma vida e não devia desperdiçá-la por causa de um término de namoro. O bartender, que atendia pelo nome de Barney, colocou nossos shots de tequila na nossa frente, junto com sal e limão. e eu brindamos e depois mandamos a bebida para dentro, que desceu queimando na garganta. Eu nunca ia me acostumar a beber tequila sem fazer pelo menos uma careta.
一 Shots de tequila e não me chamaram? 一 Uma voz grossa, soando ofendida, falou. Nós nos viramos para ver quem era e demos de cara com o chefe de . Ele era um cara extremamente bonito: alto, com cabelos castanhos penteados cuidadosamente para trás, além de exibir um belo par de olhos verdes.
一 Nós bebemos entre amigas. 一 respondeu rispidamente, ali ela não tinha decoro para tratá-lo, já que não estavam no escritório.
一 Poxa vida, linda, você trabalha comigo esse tempo todo e não somos amigos? 一 deu um sorriso de lado e beijou a bochecha de , que fez uma careta de nojo e rolou os olhos, e depois o advogado se direcionou para mim.
一 Ainda não fomos apresentados oficialmente, meu nome é . O chefe que a Meneguim vive reclamando… 一 sorriu e beijou minha mão em um cumprimento exagerado.
一 Na verdade, 一 eu disse, puxando a minha mão das patas daquele nojento 一 nós já nos apresentamos, pelo menos, três vezes. 一 Sorri fechado para ele e soltou uma gargalhada, incrédula com minha cara de pau.
一 Veja bem, eu tenho uma péssima memória, Larissa!
.
一 Tanto faz. Esse é meu amigo, . 一 Finalmente apresentou o outro homem que o acompanhava, que era tão alto quanto ele, mas, ao invés de cabelos castanhos, ele era loiro. O homem mexia no celular com a testa franzida, parecia estar resolvendo um problema, então só levantou os olhos azuis tempo suficiente para dizer “Olá” e logo baixar os olhos novamente para o aparelho. Ele conseguia ser mais bonito que , uma pena ser tão mal educado.
一 Peço perdão por ele. 一 pareceu ler os meus pensamentos 一 Ele está enfrentando um término. 一 Riu do amigo, como se fosse uma coisa muito idiota. Franzi a testa para o homem, fazia muito sentido que Meneguim não o suportasse. O cara era um completo imbecil.
一 Ugh, eu não suporto ficar no mesmo ambiente que você! 一 sibilou e pegou minha mão, me puxando para longe. riu e acenou antes de nos perder de vista.



Ele é um completo imbecil, ! Que ódio! Ficou a manhã inteira me enchendo o saco e dizendo que eu deveria aprender a conviver com ele e termos uma noite de lazer fora do escritório, que isso poderia fortalecer os negócios, pelo amor de Deus! 一 Eu já tinha perdido o raciocínio no meio do monólogo de Meneguim, que continuava reclamando de seu chefe, que tinha deixado nossa noite completamente fracassada porque minha querida amiga não suportou a ideia de curtir a balada com ele no mesmo lugar. No final, acabamos indo para casa e comendo McDonalds. Do jeito que eu tinha implorado para o universo. Mas ainda não havia superado e se sentiu no direito de reclamar comigo no telefone no horário de almoço. Antes disso ela também já tinha reclamado no café da manhã e no caminho para o trabalho, quando eu a deixei na porta do escritório. Ela era simplesmente intensa demais para parar de reclamar.
一 Eu adoraria continuar ouvindo o mesmo drama de sempre, mas as crianças já vão voltar! Então tchauzinho. 一 Dispensei minha amiga e desliguei o celular, respirando fundo antes de me levantar para chamar as crianças e denunciar o fim da brincadeira do lado de fora. Elas estavam profundamente agitadas hoje.
一 Tia , por que você não deixa a gente ficar mais? 一 Mathew, um garotinho loirinho, perguntou fazendo biquinho.
一 Porque senão eu ia morrer de saudades! 一 Respondi e beijei o topo de sua cabeça, chamando as outras crianças para entrar. 一 Que tal brincarmos com tinta hoje? 一 Perguntei e ouvi vinte gritinhos agudos na minha cabeça antes de abrir o armário e pegar tudo que precisava.
Ao final do dia eu já estava exausta, toda suja de tinta e precisando urgentemente de um banho, mas pelo menos minhas crianças estavam felizes. Metade delas já tinham ido embora, suas mães horrorizadas com a bagunça. Com certeza eu receberia reclamações de uma ou duas, mas não me importava. Meu compromisso era com as crianças. Eu as amava de todo coração e ficava muito feliz de fazer parte da formação delas. O caminho da educação infantil caiu no meu colo durante a faculdade e me pareceu simplesmente certo. Nunca pensei que gostaria tanto assim de trabalhar com crianças, ainda mais na idade em que elas perguntam e querem saber de tudo. Mas estranhamente eu levava jeito.
一 Tia , só falta eu agora! 一 Molly murmurou quando entreguei a penúltima criança à mãe e eu olhei preocupada no relógio. Realmente já tinha passado da hora e os pais dela nunca costumavam se atrasar.
一 Sua mamãe deve ter pegado trânsito.
一 É meu tio que vai me buscar hoje, Tia . Ele tem problemas com horários. 一 Ela respondeu e deu de ombros. Molly era uma criancinha muito esperta, parecia ter muito mais idade do que realmente tinha. Ao mesmo tempo em que ela fechou a boca, um homem loiro passou correndo pelo portão, tendo ciência que estava atrasado. Quando apertei os olhos para observar melhor, mal pude acreditar na coincidência: era o amigo de . .
一 Me desculpe pelo atraso, meu amor! Titio dormiu! 一 Ele riu e pegou a menina no colo, beijando seu rosto 一 Olá! 一 Ele disse me observando melhor e eu cruzei os braços, sem jeito. Ele era realmente muito bonito.
一 Olá 一 respondi.
一 Você é a professora? 一 Ele sorriu de lado e estendeu o braço para me cumprimentar 一 Prazer, .
.
一 Molly fala de você o tempo todo! 一 Ele riu e eu não consegui deixar de sorrir, ela era realmente uma criança especial. 一 Posso ver agora o porquê. 一 Ele sorriu galanteador e eu deixei meu queixo cair um pouco. Ele estava flertando comigo ou era impressão minha?
一 Você… 一 mas antes de completar a frase ele me interrompeu.
一 Me desculpe! Não quero que você me entenda mal, mas… realmente não imaginei que uma professora infantil fosse ser tão, tão… tão… 一 parecia procurar na mente qualquer palavra que não fosse tão obscena para que sua sobrinha de quatro anos escutasse, mas seus olhos me analisando de cima abaixo já denunciava o que ele queria dizer.
一 Nova? 一 Dei de bandeja para que ele se safasse. Ele realmente não estava se lembrando de mim.
一 É! Claro! 一 deixou uma risadinha escapar 一 Sabe como é, te imaginei como uma velhinha… não sei! De qualquer forma, agora eu faço questão de buscar Molly mais vezes… 一 Baixou os olhos novamente e isso foi suficiente para que eu acabasse com aquilo.
一 Você só pode estar brincando! Realmente não se lembra que nos conhecemos no sábado, huh? Você estava ocupado demais no celular para tentar ser educado ou gracioso como está fazendo agora! 一 Geralmente eu não era tão impaciente ou atrevida, mas aquele homem estava me dando nos nervos com aquele flerte preguiçoso. Molly nem ligava para nós, estava absorta com seus brinquedos. Mas deixou seu queixo cair.
一 Me desculpe, mas acho que me lembraria de você, Tia … você tem uma beleza difícil de esquecer.
一 Passar bem, senhor ! 一 Eu perdi totalmente a paciência e beijei o rostinho da minha aluna, sem olhar para o seu tio idiota e prepotente. 一 Te vejo amanhã, Molly.
一 Não, não! Espera! 一 tentou me impedir de fechar a porta, mas Molly disse alguma coisa e ele foi obrigado a lhe dar atenção, o que me deu tempo suficiente para fechar e trancar a porta para não encará-lo.
Quem ele pensava que era?


Capítulo 2

一 E você simplesmente fechou a porta na cara dele? ! 一 entortou no sofá de tanto rir. Ela chegou a jogar a cabeça para trás e segurar a barriga antes de se recompor.
一 Você queria que eu fizesse o quê?
一 Agisse como adulta! Pelo amor de Deus, garota! 一 Minha amiga riu novamente e enterrou o rosto nas mãos 一 Ele deve, no mínimo, ter achado que você era uma retardada, ! Você tinha que ter colocado ele no lugar dele!
一 Aí , achei que você fosse me defender! 一 Reclamei e fiz o que eu sabia fazer de melhor: me emburrar.
, desmancha esse bico, garota! Mas aposto que ele vai atrás de você de novo, deve ser da mesma laia que o … 一 ela descascou as unhas, despreocupada.
一 É… 一 concordei com minha amiga e abracei minha almofada, olhando para nenhum ponto específico na minha frente. Ele era realmente um cara muito bonito, com aqueles olhos azuis…, mas era um babaca! E a última coisa que eu precisava naquele momento era mais um babaca para lidar. Luke já tinha me sugado o suficiente.



Ao contrário do que eu secretamente esperava, não apareceu para levar ou buscar Molly em nenhum dia daquela semana, muito menos nas outras duas que se passaram. Eu não era boba o suficiente para perguntar a uma criança sobre o paradeiro de seu tio adulto, mas algo nisso me magoou. Será que ele achava que eu não valia a pena? Patética. Eu estava agindo completamente igual uma adolescente por um cara que eu sequer conhecia. Efeitos de um término de relacionamento, eu tinha certeza!
一 Tia … 一 Molly correu até mim, me tirando dos pensamentos ridículos. As perninhas dela eram tão curtas que ela quase caiu antes de chegar até mim. 一 Meu titio mandou te entregar isso! Mas ele não me deixou ler… 一 ela fez um muxoxo com a boca e eu soltei uma risada.
一 Você ainda não sabe ler, Molly… 一 apertei as bochechas da minha aluna e peguei o papel estendido em minha direção. era um cara de bilhetes, então? Abri o recado e li o garrancho:

Tia , me perdoe por ser tão inconveniente. Não sei o que eu tinha na cabeça para esquecer uma mulher tão linda quanto você. Um drink qualquer dia como pedido de desculpas? Não aceito não como resposta.

.

Eu li e reli o bilhete incontáveis vezes e, quanto mais eu lia, mais eu bufava como um touro. O que ele pensava que eu era? Eu lá tinha cara de mulher de recado? Minha vontade era pedir à Molly que mandasse o tio enfiar o bilhete onde ele sabia, mas obviamente não ia ser tão baixa com uma criança. Ela ainda me olhava com os olhinhos castanhos, curiosa com o conteúdo do bilhete e provavelmente com a minha reação também. Mas dei meu melhor sorriso para minha aluna e disse:
一 Diga ao seu tio que a tia disse não! 一 Apertei as bochechas dela e a empurrei de leve para seu lugar de volta, para que ela não me enchesse de perguntas. 一 Quem quer brincar com a lousa da tia agora? 一 Anunciei para a turminha, que me recepcionou com gritinhos animados e uma salva de palmas. Como eu amava minha plateia!



não apareceu para buscar Molly novamente, mesmo depois da insinuação naquele bilhete ridículo. Obviamente eu tinha me aprontado mais no banheiro, na esperança de não ficar por baixo quando ele chegasse acompanhado daquele belo par de olhos azuis, mas no final só tive decepção quando observei a menininha ser buscada pelo padrasto e não pelo tio. Talvez fosse melhor assim.
Eu realmente não sabia o porquê daquele homem estar me chamando tanta atenção, provavelmente pelo desafio, que eu não tinha desde os tempos de colégio. Quando comecei a namorar Luke. Não foi um início de relacionamento emocionante: nós nos conhecíamos desde crianças, ele era jogador de futebol e eu, a líder de torcida. Simples, prático e clichê. Nada incomum no colegial. Então eu nunca tinha sentido a adrenalina de ser conquistada, muito menos por um homem do perfil de , talvez por isso eu não conseguia tirar ele da cabeça. Mas eu precisava! Não era hora daquilo, não era o momento de me envolver ou sequer possibilitar a ideia de ter outro homem na minha vida quando eu mal estava aguentando segurar o buraco que Luke tinha deixado.

! 一 A voz abafada de parada de frente para a porta do carona do meu carro me tirou do mar de pensamentos e eu destravei para que ela entrasse. 一 Você estava olhando fixamente pro painel do carro. 一 Minha amiga me observou por cima das hastes dos óculos escuros (já eram quase seis da tarde) 一 No que estava pensando?
一 Você é policial? 一 Perguntei e ela rolou os olhos, me fazendo rir. Eu sempre a devolvia essa resposta quando fazia perguntas que eu não queria responder.
一 Você é uma chata… 一 ela rolou os olhos novamente e se ocupou com seu celular, provavelmente respondendo mensagens de clientes. Por alguns minutos, o único barulho que se ouvia era o “tec, tec, tec” das unhas batendo no visor do telefone, até que Meneguim soltou um berro que quase me fez bater o carro.
一 O que foi isso, cacete? 一 Perguntei assustada olhando de relance para minha amiga, que agora exibia uma feição de indignação.
一 Eu esqueci minha bolsa no escritório, !
一 Precisa desse escândalo? É só voltarmos! 一 Rolei os olhos já retornando com o carro de volta ao escritório.
一 Precisa! Porque o acabou de me mandar uma foto com a minha bolsa dizendo, abre aspas: o bom de você ter esquecido sua bolsa, lindinha, é que você pode voltar para buscar e ficar aqui, fecha aspas! Temos um cliente! 一 Ela soltou outro grito de ódio, que dessa vez não me assustou tanto pois eu já estava acostumada com os acessos de raiva que ela tinha por causa do babaca do . 一 Eu só queria descansar 一 ela choramingou.
一 Faça ele pagar o jantar 一 murmurei para acalmá-la e funcionou, pois minha amiga deu um sorriso de canto.
一 Vou fazer questão de pedir no restaurante mais caro de Londres!

Depois de deixar uma bastante reclamona no escritório novamente, finalmente cheguei em casa pronta para tomar meu banho e continuar maratonando Grey's Anatomy no sofá com um cup-noodles quentinho no colo. Eu amava minhas crianças, amava dividir o apartamento com minha melhor amiga, mas também apreciava muito momentos como esses: em que eu ficava sozinha e não precisava fingir que estava bem. Eu me segurava bem na maior parte do tempo, mas nesses momentos eu podia realmente colocar para fora tudo que eu guardava dentro de mim: a dor do término. Não demorou para que as lágrimas começassem a cair pelo meu rosto enquanto meu personagem favorito morria nas telas. Como eu queria que Luke tivesse me amado como Derek amou a Meredith…
一 Mas ele a traiu… 一 sussurrei para mim mesma. Não existia amor de verdade nem nas séries. Ele falava isso, Luke. Ele dizia que me amava, mas que o amor era uma mentira, que era impossível amar uma pessoa incondicionalmente. Eu ria e achava que ele estava brincando ou que era louco demais, mas ele realmente falava sério. Agora eu suspeitava que ele realmente nunca me amou, só ficou tempo o suficiente comigo para massagear o próprio ego e isso doía mais ainda. Como pude ser tão burra? 一 Burra! 一 Exclamei e desliguei a televisão, puxando meus cobertores para cima, para me cobrir completamente. Nem me importei em limpar as lágrimas que desciam sem parar pelo meu rosto, não adiantaria enxugá-las se elas não parariam de cair tão cedo. Me aninhei ali, sozinha, até adormecer.
E ser acordada pelo barulho do toque do meu celular.
Antes de atender, chequei as horas: ainda eram oito e meia. Eu tinha tirado apenas um cochilo rápido. O número na tela era desconhecido, mas atendi mesmo assim.
一 Alô? 一 Murmurei, ainda sonolenta, me sentando no sofá. A voz do outro lado riu e automaticamente um frio percorreu a minha espinha.
Não sabia que você era do tipo que dormia cedo, tia
一 Como você conseguiu meu número? 一 Perguntei. Automaticamente o sono foi embora e eu me endireitei no sofá, passando a mão direita pelos meus cabelos.
Eu vim no escritório do e pedi pra sua amiga, , né? Aliás, ela é muito mais educada que você, Tia ! respondeu, ainda com o tom debochado que eu tinha percebido que ele sabia usar.
一 Para de me chamar de tia ! 一 Exclamei exasperada. O que ele estava querendo? Por que essa perturbação comigo? 一 O que você quer, ?
Tudo bem, tudo bem! Não precisa ficar brava. 一 Ele riu de novo. Sua risada era gostosa, daquelas que dá vontade de rir junto. 一 O que você vai jantar hoje, ?
Olhei para o cup noodles que eu tinha deixado pela metade na mesa de centro e pensei por cinco segundos antes de recuperar a dignidade e responder a :
一 Metade de um cup noodles.
Que tal um jantar de verdade, huh? Comigo.
一 Prefiro morrer de fome 一 respondi sem pensar, mas ao invés de ofender, só recebi novamente a risada de . Eu tinha cara de palhaça?
Você… 一 ele pareceu perder os argumentos e eu esperei 一 Posso pedir seu jantar, Cupcake?
一 Cupcake, ? 一 Dessa vez fui eu quem não conseguiu segurar a risada e acompanhou, o que me fez parar de rir imediatamente. 一 Seu flerte é barato, . O que você quer comigo, cara?
Quero te compensar, já disse.
一 E depois de me compensar com o jantar você vai me deixar em paz? 一 Tentei negociar com o Diabo.
Talvez. 一 Suspirei, cansada. Provavelmente era o máximo que eu conseguiria.
一 Tudo bem. Eu gosto de McDonalds 一 respondi por fim.
Você não sabe comer comida de verdade, né? 一 Ele fez um “tsc” e eu podia jurar que ele estaria revirando os olhos. Eu achava engraçado como tínhamos tido apenas uma conversa e fazia parecer que nos conhecíamos desde os tempos de escola. 一 Seu endereço, . 一 ele me trouxe de volta para o planeta e eu passei o endereço, deixando claro que ele falasse com o porteiro antes de subir. Eu ainda estava decidindo se o deixaria vir na porta ou não.
Obrigada pela colaboração 一 ele respondeu e eu segurei a risada para não lhe dar o gostinho novamente e desliguei o telefone. Imediatamente a tela pipocou com mensagens de , mas eu resolvi ignorar a traíra. Provavelmente ela estava rindo de mim com do lado.
Decidi que se eu fosse deixá-lo entrar, era melhor tomar um banho e dar um jeito no meu rosto que estava completamente vermelho e inchado pelas lágrimas. Liguei o chuveiro e me enfiei em