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Última atualização: 25/12/2021

Parte 1 – O Elevador

24 de dezembro, 16h30

’s POV


, hei, ─ Anthon chama enquanto corre em minha direção, até passar por mim e parar em minha frente. Seus pés quase deslizam, e o solado do seu tênis faz barulho ao raspar no piso asseado, o que chama atenção de algumas pessoas que olham para nós com uma careta.
─ O que foi? Você sabe que a gente tem que fazer silêncio aqui ─ aponto para a placa logo ao seu lado, em que a silhueta lateral de uma pessoa de vestido encosta o dedo indicador nos lábios e um “ssshhh” está escrito logo abaixo. Não poderia ser mais sutil.
A verdade é que todo o Hospital St. Judd tem essa fama de ser silencioso, e, aparentemente, é por isso que as pessoas gostam de trazer seus entes queridos aqui quando precisam, porque há paz e calmaria. Ninguém deve ser perturbado.
─ Você deixou o prontuário da Sra. Harris comigo ─ ele responde, os lábios partidos em um sorriso charmoso. Anthon me entrega a ficha, e, antes que eu me esqueça, coloco o papel no final da pequena pilha que carrego.
─ Obrigada, Anthon ─ suspiro, aliviada. Se eu precisasse visitar a Sra. Harris daqui dois dias, assim que voltasse da minha folga de Natal, e não tivesse como atualizar seu tratamento para insuficiência renal, tenho certeza que o Dr. Wilson me daria um pouco mais de férias. Forçadas, é claro, junto com a minha carta de demissão.
Errm… Aproveitando, o que acha de ir com o pessoal naquele bar mais tarde? ─ questiona, ainda com o sorriso sedutor brincando em sua boca bem desenhada. Seus olhos parecem complementar, “quem saiba tenha um azevinho por lá”. É claro que isso seria genial, se não fosse véspera de Natal. Quem é que dispensa a Ceia de Natal em família?
Hum, acho que vou ter que passar dessa vez, Tony ─ o chamo pelo apelido, na esperança de amenizar as coisas. Sei que ficará chateado, afinal essa é o quê? A quarta ou quinta vez que dispenso seu convite para sair. Assim fica parecendo que sou uma grande babaca que ignora o convite de um colega de trabalho gatinho para ficar presa em casa com seus dois cachorros e o livro da Anatomia de Gray. E olha que eu nem estou falando da série!
─ Tudo bem, quem sabe na próxima ─ ele diz, com um muxoxo. Tenho dó da carinha que faz, mas eu não trocaria essa noite por nada, nem mesmo por um beijo debaixo do Azevinho na Torre Eiffel. Quer dizer, talvez se isso incluísse levar toda a minha família para jantar no Les Jules Verne e se hospedar no Ritz. Até mesmo porque não custa sonhar, não é? ─ Quais são os planos? ─ ele questiona, e parece um pouco mais animado. Não sei se está fingindo, mas eu o levo a sério. Anthon é muito bonzinho, admiro isso nele. Infelizmente, não faz meu tipo. Ele é festeiro demais para mim, eu não conseguiria acompanhá-lo e, no outro dia pela manhã, dar check-in no meu turno aqui como se não sentisse vontade de morrer o restante do dia.
─ Ah, vai ser sensacional. Tio Pattie vai levar seu famoso rosbife, Karoline provavelmente vai fazer uma casa maluca de biscoito e Mariana... hum, ela deve fazer um mix de músicas agitadas que segure as crianças sem destruir a casa toda ─ eu digo, e meu pensamento parece voar direto para a casa dos meus pais. Consigo sentir o cheiro morno das bolachas de gengibre e o purê de batatas da mamãe, eu mal posso esperar.
O Natal é minha época favorita do ano, eu não precisaria nem pensar por muito tempo para afirmar com absoluta certeza. E convenhamos, não tem nada de negativo sobre esse feriado. Os , minha família, planejam o evento do ano durante todos os 300 e tantos dias que o precedem, organizam listas e montam planilhas com atividades para todos, de forma que ninguém fique de fora das obrigações. E aí, quando chegamos no dia 24 de dezembro, temos a noite perfeita, todos juntos. E essa é a parte mais importante, a que realmente faz valer a pena todo o esforço.
A casa escolhida para receber a família – geralmente a dos meus pais – é enfeitada do chão ao teto; não sobra um tijolo sem ter pelo menos um adorno pendurado. Assim que o Halloween acaba, no dia seguinte já sabemos quais cores serão usadas para decorar a árvore. Cada ano organizamos nossa festa em um tema, muito embora a gente misture de tudo um pouco no fim das contas. Afinal, é uma família muito grande, e nem sempre as votações funcionam de maneira justa.
Mas é especial, sempre é. E conto os dias assim que o ano acaba, para começar tudo de novo, com a expectativa de reunir todos mais uma vez e comemorar a data tão especial, tão amada por todos os . Principalmente meu pai, que sempre fez questão de organizar as nossas festas até sua última, quando já estava no estágio final da doença que o levou embora.
─ Parece muito bacana ─ Tony diz, chamando minha atenção de novo. Dou de ombros, mas sorrio só de pensar em encher uma caneca com chocolate quente e hortelã-pimenta.
─ Você não faz ideia, mas... quem sabe na semana que vem? Podemos reunir a galera? ─ pergunto com a voz mais baixa e sem enrolação, pois no fim do corredor vem o Dr. Wilson, e não quero que me veja logo antes de sair. Não posso correr o risco de ele me chamar e pedir que eu visite outro paciente antes de ir, não hoje!
Anthon nota meu olhar desesperado para o médico no fim do corredor e ri da minha cara, do jeito mais contido que parece conseguir – e, mesmo assim, nada discreto –, mas não diz nada, apenas acena com a cabeça, como quem me diz para correr, rápido. Não espero que diga mais nada e o faço. Ando a passos rápidos para o lado oposto do corredor, viro a primeira curva como se pisasse em ovos, para não fazer barulho e também não ser notada por nenhum superior.
Para minha sorte, a porta do elevador está aberta, então aperto o passo para alcançá-lo com pressa. Mas quanto mais me aproximo, mais veloz a porta parece se fechar. Quando percebo, já comecei a correr.
─ Segure a porta ─ digo, em voz alta. É provável que a voz tenha saído alta demais, pois uma enfermeira coloca a cabeça para fora de uma das portas e murmura para que eu faça silêncio.
Mas a pessoa que está no elevador não me ouve, ou então finge não me ouvir, porque deixa que a porta se feche de qualquer forma. Eu não consigo entrar por um milésimo de segundo. Chego até mesmo a apertar o botão de descida, mas a porta não se abre. É o meu fim. Terei que esperar por outro elevador agora, e com certeza o Dr. Wilson irá me pegar aqui. E assim desaparece o Espírito do Natal.
─ Bastardo de merda! ─ xingo, de novo em voz alta. A mesma enfermeira volta a me fuzilar com o olhar emburrado. ─ Desculpe... desculpe... ─ sussurro baixo e ajeito os prontuários embaixo do braço.

Ding.

A porta do elevador se abre e dentro está um dos homens mais bonitos que anda sobre a face da Terra neste século. Os cabelos lisos e levemente compridos são um charme, contrastam com seu rosto de traços fortes e duros. Seu olhar é frio como uma pedra de gelo, mas parece me queimar por completo. É isso ou então o fato de tê-lo xingado assim que as portas se fecharam. Mas ele não deve ter me ouvido, ao menos eu espero que não.
Entro, silenciosa, e alcanço o botão do estacionamento, que logo noto já ter sido apertado. Será que meu companheiro de elevador é um novo funcionário? Não lembro de tê-lo encontrado por aqui antes, ainda que seu rosto não seja estranho. Onde poderia tê-lo visto? Bem, St. Judd tem muitos funcionários; ele poderia ser qualquer um.
─ Boa tarde! ─ ele diz.
Giro meu rosto para o dele, abro um amplo sorriso para disfarçar minha má educação e meneio com a cabeça. Encaro a tela que mostra os andares; o elevador parece demorar uma eternidade para descer e meu rosto parece pegar fogo. Sinto seu olhar em meu ombro, é o suficiente para me fazer querer morrer de vergonha.
Penso mais uma vez no chocolate quente, é só o que preciso.
Chocolate quente, roupas quentes e uma festa de Natal.



’s POV

Eu nunca quis voltar para Boston. Quando decidi sair, jurei que seria para sempre. Que nunca mais poria os pés nesse lugar que, de verdade, não me remete de primeira a memórias positivas. Como se as coisas ruins sempre viessem antes.
Bem, isso não é de todo verdade. Devo ter guardado bem no fundo da memória algumas boas lembranças da minha antiga casa, mas isso parece ter sido há milhares de anos, quase como se nunca tivesse acontecido mesmo.
É, as coisas eram bem diferentes quando eu tinha 11 anos e mamãe e papai ainda se davam bem. Nossa vida parecia um comercial de margarina, até que deixou de parecer, quando o Alzheimer chegou. Joseph , meu pai, não tinha nem completado 47 quando a doença começou a dar os primeiros sinais. De perder uma caneta importada a se esquecer de fazer um depósito para um grande cliente, a doença maldita começou a destruir seu cérebro. Até que papai já não era mais o mesmo.
Depois disso, eu acho que aos poucos toda a família se perdeu, como se o principal elo que a segurasse unida não fosse forte o suficiente para manter mais nenhum de nós por perto. Meus irmãos, Eve e Caleb seguiram suas vidas, afinal de contas, alguém precisava segurar as pontas na empresa. E mamãe, bem... ela nunca foi o melhor exemplo de mãe mesmo, então era como se nada tivesse acontecido. Era tudo sobre manter as aparências.
Mas eu não podia abandoná-lo, nunca poderia, nem mesmo agora, com Iggy me azucrinando a paciência para estar em tempo em Nova Iorque para esse show de merda. Eu não posso reclamar, é claro. Iggy, Dom e Charlie são o mais próximo que tenho de uma família agora. The Mischiefs em cima do palco é tudo que sei fazer e viver.
Só que eu não poderia abandonar o velho nesse hospital, mesmo que o lugar fosse imaculado. Muito menos hoje, no que costumava ser o seu pré-feriado favorito. Não me importa se ele não se lembre de mim, ou então que nem mesmo saiba que está usando fraldas. Não quero saber se fica sozinho os outros 364, 363 dias do ano, ao menos hoje poderei ficar com a consciência tranquila de que estive aqui.
─ É isso, papai, espero que te sirvam uma boa Ceia e... quem sabe, Eve apareça mais tarde com as crianças ─ digo, muito embora não tenha certeza de que ele esteja me ouvindo. Não é como se papai estivesse em estado vegetativo ou qualquer coisa do tipo, mas sempre que venho – mesmo que poucas vezes –, ele nunca me diz nada, fica apenas encarando o nada.
Recebo relatórios sobre seu estado físico e mental a cada três dias, ainda que sem evolução, seja para melhor ou pior. Mas sei que ele costuma conversar bastante com as enfermeiras e até os médicos, às vezes até mesmo com quem faz a limpeza do seu pequeno apartamento. Contudo, quando eu ou Eve o visitamos, ele não diz nada, nem para seus netos, que aparentemente odeiam visitá-lo. Não posso culpá-los, não posso culpar nem Caleb por não querer aparecer. Parece idiota, mas eu o entendo. Ver papai nesse estado, principalmente quando o pintamos de super-herói por toda nossa infância, agora preso a essa cama como um homem inválido, é muito, muito pesaroso.
E ainda assim, todo dia 24 de dezembro, pelos últimos cinco anos, desde que o internamos de uma vez por todas, não consigo deixar de vir vê-lo. Não tenho esperança de que saia pulando quando me veja, mas eu acredito que ainda tenha um fio de consciência no fundo de sua mente. E, se fosse eu em seu lugar, não gostaria de ser esquecido. Ninguém quer isso.
─ Sinto muito, papai, mas preciso ir agora... prometo que volto logo para vê-lo ─ minto, mais porque preciso mentir do que porque tenho vontade de mentir. Não me sinto confortável em dizer a ele que o verei logo quando sei que só voltarei em meses, mas preciso dizer, porque não importa quanto tempo demore, estarei aqui de novo. Disso tenho certeza.
Toco sua mão, que ele não afasta, mas também não reage ao toque. Só fica ali, olhando para o que poderia ser o horizonte se estivesse no topo de uma montanha. Às vezes, é isso mesmo que parece, que papai está vivendo em um sonho que apenas seus olhos podem ver. Eu só espero que seja um bom sonho.
Alcanço meu casaco jogado sobre o encosto do sofá e o visto, pego a mochila e o case com meu violão da sorte. Me preparo para deixá-lo em paz com seu sonho silencioso. Pondero por um segundo se devo beijar sua testa, mas não o faço. Penso isso todas as vezes em que o vejo, porque não sei quando será a última oportunidade. Mas nunca faço, talvez porque, lá no fundo, tenha esperança de que o verei uma vez mais.
Assim que me viro para sair do quarto, sinto seus dedos calejados segurarem meu pulso; é um toque frio e duro, mas o suficiente para me fazer girar rápido em sua direção. Seus olhos estão cem por cento conscientes, o que quase me faz perder o fôlego. Meu coração bate ainda mais rápido quando ele aponta, com a outra mão, para uma caixa logo em cima da bancada próxima à cama. Ele murmura algo, mas o som é tão baixo que não consigo entender o que quer dizer.
─ O que disse, pai? O que foi? ─ pergunto, ainda sem conseguir respirar direito, mas me inclino próximo ao seu rosto quando noto que ele parece pensar o que falar.
─ Pegue... a caixa... filho... ─ ele fala em gorgolejos e em pausas, mas consigo entendê-lo dessa vez, e meus olhos marejam no mesmo momento em que me chama de filho. O reconhecimento em seu olhar, o meio-sorriso craquelado, a bondade em seu tom de voz, quase me fazem sentir com 11 anos de novo, em nosso último Natal em paz.
─ É claro, claro... ─ falo ao mesmo tempo em que já alcanço a caixa de presente da cômoda.
Imaginei que fosse algum presente de um de seus antigos amigos, ou quem sabe de alguém da família que ainda se importe, mas não o suficiente para dar as caras. Com certeza não era meu. Nem mesmo me lembro da última vez que comprei algo para papai que não fosse algo que o hospital solicitasse. É, eu sou esse tipo de filho incrível.
Estendo o presente em sua direção, mas ele ergue a palma da mão antes de apontar mais uma vez para mim, e fica claro que quer que eu abra o pacote. Eu desfaço o laço com agilidade, meus dedos precisos para não estragar a embalagem, só para o caso de o velho ter se confundido e depois não acharem que eu o roubei.
De dentro do pacote, tiro um pingente para árvore de Natal e um globo de neve de acrílico. Dentro do globo, uma casinha bonita de resina parece brilhar, com grama ao redor e, é claro, muita neve. É muito bonito, mas não tenho certeza do que ele espera que eu faça com isso. Faço menção de entregá-lo, mas Joseph nega com um aceno de cabeça e sorri, ou algo parecido com isso. Sua boca retorcida parece quase um movimento dolorido.
─ Feliz Natal, ─ ele me chama pelo nome e eu quase choro. Não me lembro da última vez que chorei de verdade, mas estou prestes a fazê-lo, apenas porque papai se lembrou de mim depois de muitos anos.
Não consigo responder, é claro. Minha voz parece entalada no fundo do peito, e tenho certeza que, se eu disser qualquer coisa, posso desabar – e não me permitiria fazer isso, principalmente quando preciso chegar no aeroporto em menos de quarenta minutos. Então meneio com minha cabeça e sorrio em resposta, o agradecendo com um gesto. Aperto o pingente na mão e volto a alcançar minhas coisas. Me viro uma última vez antes de sair, mas papai já retornou para o seu sonho acordado, e sei que não me reconhece mais.
Por sorte, assim que aperto o botão para chamar o elevador, ele não demora a chegar, como se já me esperasse. Como se sentisse o meu desespero em sair daqui. A sensação de minutos atrás, quando ele me olhou com seus olhos, sua mente viva e lúcida, aquele maldito fio de esperança quis bombear algo novo para meu coração, e minutos depois se foi. E é a pior sensação do mundo. Quando você acha que pode alcançar algo e logo depois é frustrado pela mesma ideia, é uma sensação impotente que não posso evitar. Eu odeio isso.
E é exatamente por esse motivo que escolhi vir o menos que pudesse para Boston, não pisar nessa terra novamente se não fosse de extrema necessidade, em raras exceções. Fora isso, não há nada aqui para mim. Minha vida não está em nenhum lugar específico que não seja em casas de show. Em cima do palco é onde me encontro. Por isso não posso esperar para entrar logo no avião e partir para onde realmente estarei em casa.
Aperto o botão do estacionamento, onde deixei o carro alugado estacionado. Então só preciso dirigir rápido até o aeroporto e logo estarei na poltrona confortável da classe executiva. A porta está quase se fechando, quando ouço uma voz esganiçada do lado de fora pedindo para que segure a porta. Estico meu braço para segurá-la, mas quase derrubo o adorno em minha mão, por isso demoro a apertar o botão para que as portas se abram.
Bastardo de merda! ─ ouço a voz irritada do lado de fora, as portas do elevador se abrem no momento seguinte.
Em passos tímidos, entra no elevador uma enfermeira – ou ao menos imagino que seja uma, chuto pelo uniforme azul que usa. Ela estica a mão para apertar o botão do estacionamento, mas retrai seu movimento assim que percebe que já foi selecionado, então se encolhe no canto.
─ Boa tarde! ─ digo, ainda embasbacado com sua boca suja.
A moça se vira e abre um sorriso grande e bonito, mas nem mesmo tenho tempo de olhar seu rosto com precisão e ela já se virou para frente mais uma vez. Quanta arrogância!
Encaro seus ombros, mais porque ainda estou irritado com a petulância do que qualquer outra coisa. Também porque é bem engraçado perceber que ela está morrendo de vergonha, apesar de tentar parecer orgulhosa. Minha mente já trabalha em um discurso para irritá-la, com um Feliz Natal logo no final, mas não vale a pena. Não quando estou com tanta pressa. Só quero que o elevador abra logo as portas e que eu possa ir embora, é tudo que quero.
Olho de esguelha para o painel que mostra os andares. Ótimo, já estamos no segundo andar. Mais os dois que seguem, térreo e estacionamento 1 e estou livre para seguir minha vida. 2º andar... 1º andar... Estacionamento 1 e...

BAM!

O elevador para com um soco. O baque é tão forte que derrubo meu pingente no chão e quase caio. A enfermeira também se desequilibra e derruba os papéis que segurava, bem como vira a bolsa com diversos objetos no chão.
─ Ah, droga! ─ ela exclama e se abaixa para juntar suas coisas.
Puxo meu celular do bolso e acendo a lanterna, já que estamos no escuro e, ainda, parados. Fico olhando a garota por um tempo juntando suas coisas, até que vejo meu adorno no canto e, em um único movimento, o alcanço.
Ela leva tempo demais para colocar suas coisas em ordem, então me abaixo também para ajudá-la. A enfermeira parece me encarar por alguns segundos, porém logo volta à sua cruzada de juntar folha por folha que carregava, além de seus pertences.
O elevador ainda não se move, o que é bem frustrante. Alguns minutos depois, terminamos de pegar tudo do chão e nos levantamos. Ela parece tão irritada quanto eu, mas aguarda com o que parece ser ansiedade para isso acabar logo.
─ Será que... ─ nem mesmo termino de perguntar quando luzes vermelhas se acendem. Luzes de emergência, que indicam que há um problema. Uma queda de energia, imagino, para que o elevador tenha parado com tanta força. Ainda bem que estávamos próximos ao poço, de outra forma, poderíamos ter nos machucado feio.
Só então percebo que nem mesmo tive a decência de perguntar se ela estava bem. Se bem que, por outro lado, ela também não me perguntou se EU estava bem, ou sei lá, agradeceu por ter ajudado a juntar suas porcarias. Mas quando vejo seu olhar nervoso e seus lábios tremendo, é que percebo que está começando a ter uma crise de pânico. Merda! Eu não sei o que fazer sobre isso.
─ Hmm, é... o que fazemos agora? ─ questiono, sem colocar qualquer entonação na voz. Não quero piorar as coisas ainda mais.
─ O que fazemos agora... o que fazemos agora? ─ ela devolve com outra pergunta. Sua voz sai tão nervosa que é como se estivesse prestes a me dar um tapa, e eu nem fiz merda nenhuma. ─ Agora a gente deita no chão e apodrece, cara...
─ O que isso significa? ─ pergunto, mas sem certeza de que quero ouvir sua resposta. Um, porque sei que será bem afiada, e dois, porque eu acho que lá vem bomba.
─ Porque isso, senhor... ─ ela indica as luzes vermelhas com um movimento da mão. ─ Significa que não vamos sair daqui tão cedo.


Parte 2 – A Aceitação

24 de dezembro, 16h55

’s POV


─ Cacete! Abram essa merda! ─ ele grita, seus punhos batem com tanta força no metal que chega a ecoar dentro do pequeno espaço. E não faz a menor diferença, ainda estamos presos nessa caixa de lata sem chance de sair.
─ Bater na porta desse jeito não vai fazer ela se abrir mais rápido... ─ digo ao mesmo tempo em que desisto e me agacho, jogo a bolsa no chão e apoio minhas fichas em cima do bolo de tecido.
Eu pretendia levar tudo para casa e analisar alguns procedimentos para trazer de volta assim que acabasse o feriado, mas começo a me conformar de que talvez eu precise fazer isso por aqui mesmo. No chão do elevador. Ele me ignora e continua a bater a palma da mão no metal.
─ Da última vez que essa porcaria ficou emperrada, levaram umas cinco horas para consertar. E como estamos no final de tarde, na véspera de Natal, bem... pode levar mais que isso ─ afirmo, com um suspiro final.
─ CINCO HORAS? EU NÃO TENHO A PORRA DE CINCO HORAS ─ ele berra. Meus ouvidos chegam a doer e eu faço uma careta, na esperança de que pare de agir como uma criança birrenta. Ele não faz ideia do que estou passando, vou perder o meu Natal! A ceia, as músicas, os biscoitos de gengibre... ele está chorando por nada. ─ Esse hospital não era pra ser moderno e o cacete todo? ─ pergunta, a mão ainda espalmada na porta como se sua força de vontade fosse o suficiente para fazê-la se abrir.
Hmm… sim, e não ─ dou de ombros. ─ O número de pacientes caiu bastante nos últimos meses, o que é muito bom para as pessoas, mas, por outro lado, não para o hospital. Temos tido algumas dificuldades financeiras... ─ paro de falar assim que percebo que abri a boca até demais. Eu não devia dividir esse tipo de informação com qualquer pessoa que acabei de conhecer e ficar presa juntos no elevador.
─ Eu pago fortunas pra manter essa porcaria funcionando e agora vou perder meu voo por causa de uma merda de elevador! ─ ele volta a falar alto, e tenho vontade de suplicar para que não comece a gritar mais uma vez. ─ Nem sinal de telefone, que maravilha! ─ resmunga, emburrado, girando o telefone para cima e para baixo entre os dedos em busca de qualquer ponto de sinal da rede.
─ Estamos no subsolo, deve ser por isso ─ digo sem paciência. Eu não acredito que vou perder o abraço em família à meia-noite, o leite com mel quente e o pedaço de bolo de chocolate antes de dormir. Não acredito que vou perder as crianças apresentando seu Jingle Bells Rock anual. ─ Sinto muito pelo seu voo, vai perder o jantar com a esposa e filhos? ─ pergunto de forma inocente, minha preocupação é genuína. Também odeio a ideia de ficar longe da minha família, imagina então esse pobre coitado que, se vai pegar um voo, deve estar a quilômetros de distância dos seus.
─ O quê? ─ ele ri em tom agudo. Isso é brincadeira? Ele ri de verdade, quase uma gargalhada que, em outra circunstância, eu acharia uma gracinha. ─ Não sou casado, muito obrigado, muito menos tenho filhos... ─ ele mostra a mão sem a aliança no anelar e volta a resmungar. É bem irritante, para falar a verdade.
Me jogo sentada no chão de uma vez por todas e volto a dar de ombros. Já que ele não quer falar, vou só respirar e pensar em dez motivos para não desistir de tudo após perder todas as tradições dessa noite. AAAAAAAH QUE DROGA!
─ Vou perder o meu show ─ ele diz, e isso sim chama a minha atenção.
─ Isso é sério? Você vai trocar sua noite de Natal por um show? ─ questiono, curiosa de verdade. Não consigo entender, mesmo. É como Anthon e seu grupo. Consigo sacar que deve ser engraçado beber todas com os amigos e sair do bar depois da meia noite cantando “Oh, Holy Night” em meio a soluços, mas... esse cara, engravatado assim? Ele vai o quê, num cover de Frank Sinatra?
─ Eu toco em uma banda ─ ele afirma, e eu grito em resposta. E não é nem na minha cabeça, acho que soltei um grito de verdade. Eu não esperava por essa, nunquinha. Não que ele não possa tocar em uma banda, ele até poderia, olha só esse cabelo. Mas só se for em uma banda de jazz. Eu quase pergunto sobre, mas ele volta a falar: ─ The Mischiefs, já ouviu falar? ─ pergunta com os olhos brilhando em minha direção, como se me esperasse gritar e dizer que sabia que o conhecia de algum lugar, que é meu ídolo, etc. Odeio ter que decepcioná-lo.
─ Ah, não, não conheço ─ respondo em um tom mais descontraído, na expectativa de logo engatar outro assunto, mas seus ombros murcham e me arrependo no mesmo instante. Gente famosa pode ser bem sensível às vezes. ─ Mas não é sua culpa, é claro que não... eu é que não ouço muita música... ─ minto, minto pra caramba inclusive. Se ele pegasse meu celular e abrisse o Spotify agora, eu passaria a maior vergonha.
Ele enfim para de tentar abrir a porta com a força da mente e joga sua mochila e a bolsa com o violão – que só agora notei – no chão. Isso é prova suficiente de que ele é um músico mesmo, mas eu não teria como saber. Mal tive tempo de entrar no elevador com esse cara que parece mega mesquinho e ficamos presos aqui, caos total. Não acho que a primeira pergunta importante aqui seja sobre sua profissão. A não ser que ele fosse um técnico de elevador, aí quem sabe seria bem legal saber.
... ─ ele diz, do nada, e eu encaro sem entender bulhufas nenhuma. O nome é pra significar algo? ─ , muito prazer ─ explica. Ah, opa, então esse é o nome do bonitão carrancudo.
Como ele pode tocar em uma banda se não parece nada carismático? Talvez ele seja o baixista gótico que fica no fundo do palco só fazendo seu trabalho, que nunca sorri e as fãs sonham em dormir em um caixão para dois. Se bem que... humpf, não, ele não parece nada gótico para mim. Acho que talvez só faça cara feia o tempo todo para afastar as pessoas, mas espero que seja bom em cima do palco. Juro que, se tivesse um sinal por aqui, eu abriria o app de músicas só para conhecer seu trabalho.
, ─ digo em retorno ao que estendo minha mão para cumprimentá-lo. Assim que ele aperta sua palma contra a minha, noto como sua mão é macia, à exceção dos dedos calejados, provavelmente por causa dos instrumentos que toca. ─ Espera, tipo Joseph ? ─ pergunto assim que noto que já ouvi esse sobrenome antes. O mesmo sobrenome do nosso paciente na “ala dos esquecidos”, como Anthon costuma chamar.
─ É, ele é meu pai... ─ ele diz, coçando a parte de trás da cabeça enquanto ajusta o cabelo. Ah, caramba! Por essa eu também não esperava.
É claro que, se ele está aqui no dia 24 de dezembro, é porque provavelmente tem alguém especial, mas eu não poderia nem sequer supor que seu pai seria um dos nossos pacientes mais queridos e com um quadro tão severo. Por um minuto, penso em dizer que sinto muito, mas não o faço. Primeiro porque não é nada educado da minha parte, e depois porque gosto muito de visitar Joe nas horas mais tranquilas. Ele é sempre muito... sereno.
Contudo, não digo nem isso, porque não conheço o suficiente para saber até onde posso me abrir, ainda mais quando se fala dos nossos pacientes. Tudo é sempre muito delicado quando se trata da família, e eu bem o sei, pois, se fosse com a minha, não faria nada diferente do que os familiares daqui fazem.
─ Todo mundo adora o seu pai ─ digo, e é a verdade. Apesar de Joseph ter poucos momentos de lucidez plena, sempre é muito educado e até faz piada quando não se perde no meio da fala. Ele aceita todas as medicações, todos os exames e tratamentos. E, o que mais me dói, sempre pede pela família. ─ Você é o primeiro que conheço depois de Joe... ─ argumento, e de novo, é a verdade. Eu nunca vi nenhum dos filhos dele por aqui antes. Até onde sei, são três, os seus herdeiros.
─ Somos bastante ocupados… ─ murmura, quase como se falasse entre os dentes. Talvez seja mesmo um assunto bastante delicado para ele, e penso que talvez seja melhor ficar na minha.
─ Até mesmo sua mãe? ─ mordo a língua assim que ele me encara com seus olhos frios. Droga! Preciso aprender a controlar minha grande boca.
O jovem me fuzila com seu olhar, mas não nega minha pergunta. No fim, parecendo impaciente, ele dá de ombros.
─ Não, ela só não faz questão ─ responde, sua voz dura como pedra e gelada como metal. Uff, acho que esse é o mais longe que falaremos sobre isso, e agora é mesmo a hora de parar. Meus sentimentos saudosos sobre Joseph não mudarão, e ele continuará a ser um dos meus pacientes favoritos. ─ E você? ─ ele pergunta, mas eu pisco meus olhos sem entender direito. ─ O que você planeja para o Natal?
Ah, caramba. Ele não devia ter perguntado isso...



’s POV

Ela não para de falar, tipo... nunca. Isso não me incomoda tanto assim, eu só não consigo entender como alguém pode ter tanto assunto para falar sobre o Natal. Não é possível que uma pessoa seja tão apaixonada por um feriado tão... bobo.
Até acho que seja um dos momentos do ano no qual as famílias têm mais chance de conseguir se reunir por completo e trocar mensagens falsas de coisas que poderiam ter falado o ano todo, mas decidiram que era melhor esperar até o Natal para não ficar em silêncio quando se juntarem ao redor da mesa.
Mas assim, com esse ânimo? Não, isso eu nunca vi antes. Parando bem para pensar, é como se estivéssemos presos em um desses filmes de Natal que os serviços de streaming lançam todo ano, um após o outro, antes do feriado. Uma história mais besta do que a outra. E a nossa história toda até aqui já é um grande clichê, principalmente se não abrirem essa porcaria de porta logo. Eu quase não consigo respirar.
─ Por fim, vovô Gilbert tem um esquema com fogos de artifício bem legal, porém simples... só pra divertir as crianças ─ ela tagarela ao mesmo tempo em que movimenta os ombros, como se não fosse nada de mais, só mais um dia especial da sua vida colorida.
─ Uau... isso é uma grande, grande porcaria... ─ dou risada ao mesmo tempo em que ela me encara. Seus lábios se abrem em um pequeno “o”, espantada, como se não pudesse acreditar no que digo.
Mas é a verdade, não tem por que dar tanto valor a uma data que, para mim, não tem grande significado. É claro que para ela é coisa de outro mundo, e que eu devo ser um grande idiota, mas isso não me importa. Fatos são fatos. E os meus fatos me dizem que eu tenho coisas mais importantes com o que me importar. Tipo a Mischiefs sem o seu guitarrista essa noite.
─ Como é que você pode simplesmente não amar as luzes, a comida, as músicas... a alegria? ─ pergunta, com a voz tão baixinha agora que quase sinto pena de tê-la decepcionado. Mas dou de ombros. É como disse, não me lembro de verdade quando é que o Natal deixou de ter tanto significado para mim.
─ Posso falar a verdade? Não vejo graça ─ digo, e o choque em seus olhos aumentam a ponto de fazê-la suspirar profundamente. ─ Não é que não ache bonitinho e tudo mais, mas eu tenho tanta coisa na minha cabeça agora… A última coisa que penso é sobre essas festividades.
─ Tipo o seu pai? ─ pergunta rápido, e no segundo seguinte solta um muxoxo, como se soubesse que tinha perguntado algo pessoal demais. Logo notei que essa é sua personalidade. parece ser um livro aberto, sem filtro algum. Solto uma risada baixa e ela rola seus olhos para as pernas cruzadas no chão frio.
─ É, tipo o meu pai ─ respondo, sem muita enrolação. Soco a porta do elevador mais uma vez, mas me convenço de que isso não vai fazer diferença mesmo. Eu esperava que alguém pudesse nos ouvir, mas começo a acreditar no que a garota disse, que talvez demore mais do que pensava.
─ Sinto muito... ─ ela murmura, a voz tão baixa que quase não consigo ouvi-la. não consegue me olhar nos olhos agora, mas não quero deixar que o clima fique ainda mais azedo. Já basta estarmos presos.
Nah, está tudo bem ─ afirmo e deslizo as costas pela parede de metal até que me sento no chão de frente para a mulher. Ela tem um livro nas mãos, mas a luz fraca não me deixa ver a capa direito, nem mesmo sei como ela consegue enxergar o conteúdo. ─ A verdade é que as coisas tem sido assim por um bom tempo. Eve e Caleb estão sempre ocupados demais para voltar para casa, mamãe não se importa nem um pouco e papai tem um parafuso solto... ─ ela ergue os olhos em minha direção por um segundo, como se me desse uma advertência por falar assim do meu próprio pai, mas eu apenas dou uma risada baixa em retorno. ─ É a verdade... nua e crua.
─ E você nunca pensou em mudar as coisas? ─ pergunta, da mesma maneira que alguém pergunta por que o céu é azul. E eu não sei responder, porque nunca tentei. Pensar? Bem, talvez sim, mas todas as vezes foram frustradas, então chega um momento em que você fica de saco cheio.
─ Eu não vou fazer uma festa de Natal em que só eu apareceria ─ argumento, e ela ri em resposta, mas concorda com um aceno. ─ Além do mais, prefiro de verdade estar no palco. Prometo cantar Jingle Bell Rocks por você, Mamãe Noel.
Ela torce o nariz e não diz mais nada.
E eu também não sei o que dizer, não sei como explicar para que não odeio o Natal. Não sou o Grinch, nada do tipo, só não tenho uma maneira simples de lhe dizer que o Papai Noel morreu para mim quando não trouxe o único presente que eu quis de verdade.
Meu pai de volta.


Parte 3 – As Memórias

24 de dezembro, 18h32

’s POV


É isso, estamos presos aqui de verdade e não iremos sair. Depois de duas horas batendo contra a porta de metal e sem nenhum retorno, eles não fazem ideia de que estamos aqui embaixo. E nem mesmo tenho como mandar mensagem para, sei lá, Caleb, Eve ou os caras da banda.
Inclusive, é o fim da minha curta carreira. Tenho certeza que eles irão me expulsar. Não há como explicar que fiquei preso em um elevador com uma mulher e perdi o show. E pior de tudo, a mulher não é minha para que pelo menos possa usar como uma desculpa romântica.
Não. Já era, tudo já era. Tudo por causa de um maldito elevador.
E eu tinha certeza que isso aconteceria, antes mesmo de entrar no avião em Nova Iorque. Sempre soube que pisar de novo em Boston não me faria nenhum bem. E mesmo assim, eu não deixaria de vir, deixaria?
Não posso deixar de notar o quão parece chateada. Seus olhos estão presos no livro que estuda, mas sua boca está fechada tem tempo demais. Seu desânimo é quase palpável, e já basta estarmos presos aqui por sei lá quanto tempo, sem previsão da saída, não posso deixar que as coisas só caíam mais no fundo do poço desse elevador, .
─ O que está lendo? ─ questiono com a voz curiosa. Carrego meu tom com bastante interesse, para que ela note que não estou apenas puxando um assunto qualquer para não cairmos no tédio, mas sim porque, já que estamos aqui, não tem sentido em não tentar conhecê-la um pouco mais.
─ Um livro sobre fisiopatologias, nada de mais... ─ responde e dá de ombros ao mesmo tempo, de novo, como se não fosse nada de mais. Porque é claro, ler sobre fisio... pato... o que ela disse, é só mais um programa de segunda-feira. Minha nossa, ela deve estar realmente chateada para ter trocado sua animação por isso!
─ Você está estudando para ser enfermeira? ─ indago, e seus olhos se levantam para os meus tão rápido que me pego pensando se fui longe demais, se fui pessoal demais. Bem, poucos minutos atrás ela não parecia se importar, não poderia imaginar que cruzaria os limites.
─ Médica ─ responde como se eu fosse um baita idiota que não sabe de nada, o que é uma grande verdade. ─ Já sou enfermeira ─ ela explica. É bem provável que tenha notado a minha careta de vergonha.
─ É sua segunda formação? ─ pergunto, de novo, sem saber se estou atravessando além do limite do que é pessoal demais ou não. Dessa vez, ela nega com a cabeça e dá uma risadinha.
─ Não, imagina! ─ diz com a voz esganiçada, como se mal pudesse segurar a vontade de rir, e me sinto bem burro de novo. É claro que ela deve ser nova demais para estar cursando sua segunda faculdade, mas não parei para calcular isso quando perguntei. Eu só queria puxar assunto mesmo. ─ Eu fiz um curso de especialização na área, mas descobri há um tempo atrás que eu quero ir além disso... não quero ser quem entrega as ferramentas, mas sim aquela que pede para o enfermeiro ─ explica assim que percebe o quanto estou perdido. Torço o nariz, mas aceito sua explicação dessa forma, porque não acho que conseguiria sacar o que ela quis dizer de qualquer jeito.
─ É admirável ─ expresso o sentimento sincero, mas é sua vez de torcer o nariz sem entender o que eu quis dizer. ─ Que busque conhecimento para ajudar os outros... ─ me explico, antes mesmo que ela possa questionar.
apenas acena com a cabeça e volta sua atenção ao livro, enfiando o nariz entre as páginas para tentar enxergar melhor no ambiente escuro.
É uma merda vê-la tão calada, e nem mesmo sei por que me incomodo. Só acho que gostei mais da garota que não fechava a boca de pouco tempo atrás. Não consigo entender sua relação tão forte com esse feriado bobo para que possa ficar tão chateada a ponto de ler no escuro ser algo mais interessante.
O silêncio pesa entre nós. A sensação é tão esquisita que é quase como se o oxigênio ficasse mais sólido e abafadiço. E é bem ruim, saber que estamos presos aqui e não posso fazer nada sobre isso. De repente, gostaria de poder tirá-la daqui, apenas para que pudesse aproveitar sua bendita Ceia, mesmo que isso ainda significasse perder o meu voo. Só para vê-la feliz, e é um sentimento novo em meu peito que não consigo explicar.
─ Eu só não entendo uma coisa... ─ digo alto e ela volta a erguer seus olhos para os meus, desviando sua atenção do livro pelo que parece a vigésima vez durante as minhas tantas interrupções. Sua feição é quase irritada, mas isso só me faz sentir mais insistente. ─ Por que é que alguém que ama tanto o Natal não tirou o dia todo de folga hoje?
─ O quê? ─ ela pergunta, sua voz incrédula. Sinto como se ela pudesse se levantar e me encher de porrada. ─ Você acha que eu trocaria o Natal por ficar presa aqui com você? ─ quase berra em minha direção, ou ao menos parece um berro. Isso porque, no espaço pequeno, todo som é potencializado. Imagino agora como se sentiu quando eu estava esmurrando as portas. E sinto muito.
─ Não, não foi o que quis dizer... Só imaginei que, por gostar tanto, talvez estivesse planejando isso tudo há semanas.
─ Meses! Desde o ano passado, pra ser mais precisa ─ ela solta um muxoxo, e a careta que faz é tão bonitinha que tenho vontade de apertá-la e dizer que vai ficar tudo bem.
─ E por que estava aqui então, hoje? ─ questiono, mas parece quase uma pergunta idiota. É claro que ela não tem escolha, ela é só uma funcionária.
─ Porque sim, eu... ─ ela suspira com calma, respira e expira o ar com lentidão. Seus olhos se enchem de lágrimas e me arrependo no mesmo momento de ter falado o que quer que tenha dito de errado. ─ Eu gosto de estar aqui, tanto quanto gosto de estar em casa. É claro que não trocaria o momento com a minha família, mas... muitos aqui também ficam sozinhos no Natal. Pais que os filhos não visitam, avós que nunca mais viram os netos... amigos, maridos e esposas... Muitos também não terão uma Ceia com aqueles que amam... e acredite, , não é porque eles estão aqui o tempo todo empurrando seus problemas para frente todos os dias que deixaram de amar.
Engulo em seco, não era essa a resposta que esperava. Principalmente assim, quando ela cabe exatamente na minha situação.
Na verdade, ela poderia simplesmente ter dito tudo isso citando meu nome e o de Joseph, e, no fim, me olhar nos olhos e dizer que a carapuça serviu. Porque a verdade é essa, a tal carapuça me serve pra caramba. Não sei dizer qual o momento exato em que parei de ver meu pai como um herói – pra falar a verdade, talvez eu nunca tenha o visto de outra forma que o meu próprio super-homem. Talvez só tenha sido doloroso demais ouvir da bonita boca de que nós o abandonamos. Talvez essa “só uma funcionária” entenda mais sobre empatia e compaixão do que eu jamais poderia saber.



’s POV

Não temos absolutamente nada mais para conversar. Quer dizer, não é como se tivéssemos tido até então um diálogo decente o bastante para não acabar naquele silêncio tão pesado que parece feito de pedra.
Eu não quis dizer que abandonou Joseph, até porque não sei nada sobre sua vida além de que é músico, que não mora em Boston e que tem um pai com Alzheimer severo. Mas, ao mesmo tempo, deu pra notar que toquei numa ferida ainda aberta e sangrenta. Até mesmo porque não me lembro de ter visto no livro de visitas de Joseph seu nome antes, e posso estar totalmente errada, mas acho que meu chute é bem assertivo.
Acho que isso o incomodou bastante, ter dito que as pessoas abandonam as outras. E de verdade, não tive intenção de apontar o dedo ou qualquer coisa do tipo, mas é muito triste ver ano após ano as pessoas cada vez mais sozinhas e solitárias. Já cheguei até mesmo a pensar em, quem sabe, desistir do Natal em família e fazer algo diferente por aqui. Já planejei organizar uma festa, mas, no fim das contas, nunca nos permitem fazer nada. Então ninguém pode me julgar por estar de saco cheio de ver tanta gente legal doente e sozinha.
─ Joe está sempre bem acompanhado ─ digo, mas não é o suficiente para chamar sua atenção. está sentado na mesma posição tem uns quinze minutos. Até achei que tivesse dormido, mas acho que só está pensativo mesmo.
─ Sei que está, acabei de te conhecer e sei disso ─ ele diz, simpático.
Sinto meu rosto corar. É muito gentil da sua parte achar que sou assim tão querida pelos pacientes, e não que não seja uma verdade, só não é... tudo isso. Pra falar a verdade, acho que tem alguns pacientes que não aguentam mais me ouvir cantando “Last Christmas”. Acho que uns até desejam que seja meu last Christmas por ali mesmo.
─ Obrigada, só é uma questão... bem pessoal ─ respondo, e meu pensamento vai direto para papai. Sinto tanto sua falta que meu peito se aperta e acho que não vou conseguir respirar direito agora. Tudo que eu queria era tê-lo por apenas mais um Natal.
─ Estive curioso esse tempo todo, mas não queria ser invasivo... O que tem de tão especial nesse feriado? ─ ele questiona. Seus olhos curiosos estão tão apertados que parece um gato tentando descobrir qual a função do novelo de lã.
─ E o que não é especial? ─ rebato, mas ele dá de ombros enquanto solta uma risadinha sem graça. Isso porque sabe que estou certa, e não tem como responder essa. Nem ele mesmo sabe qual é a resposta correta, qual de nós tem razão. ─ Se você não odiasse o Natal, eu...
─ Não odeio o Natal, nunca disse isso ─ argumenta, e bem, isso em partes é verdade. Ele não disse com essas exatas palavras, que odeia esse clima incrível, esse tempo maravilhoso. Mas também nunca disse que gosta, e o que realmente me parece é que não faz nenhuma questão de aproveitar o tempo que tem ao lado de quem o ama, tipo o Joseph.
É claro que não cabe a mim dizer o que ele deve fazer ou não, o que lhe importa ou não. Mas se eu pudesse – e posso – manter as tradições e aproveitar até o último segundo com minha família, é o que eu acho certo. Só que não posso cobrar isso de uma pessoa que não conheço e, principalmente, que também não me conhece. Nem mesmo sei se contar tudo o que me aconteceu é prudente, mas sinto que posso confiar em . Há algo em seus olhos que me diz que não tenho nada com o que me preocupar.
─ Meu pai trabalhou aqui por muitos anos... ─ enfatizo o “trabalhou”. Espero que ele entenda, pois prefiro pular a parte de dor e sofrimento por anos seguidos até que ele se foi. ─ E por muitos anos ele criava atividades divertidas e afetuosas para fazer no Natal com os pacientes. Eles adoravam... ─ sorrio. É automático, só preciso pensar em papai para meus lábios se rasgarem de felicidade.
─ Entendo... ─ quase sussurra em resposta. Acho que ele entende mesmo que o assunto é delicado, apesar de ser sobre alegria. Mas ele entende, e é isso que importa de verdade. Consigo ver em seus olhos que é sincero, e por isso não pergunta nada.
─ Eu quero manter o que ele fazia, quero seguir os seus passos ─ explano, mesmo que seja bem óbvio.
Ele movimenta os ombros e cruza as pernas no chão, e não posso deixar de notar o quão é bonito e sério, como se todos os seus movimentos fossem programados de forma milimétrica. Gostaria que ele relaxasse um pouco, mas isso não cabe a mim. Se bem que ficar preso nesse elevador não relaxa ninguém.
─ Isso significa fazer o que você ama também? ─ ele questiona com seus olhos felinos mais uma vez. Parece pensar sobre o assunto, como se a minha resposta pudesse, de alguma forma, fazer sentido em sua própria vida, por isso parece impaciente.
─ Claro! Uff, que tipo de pergunta é essa? Eu amo fazer o mesmo que papai ─ respondo, mas no mesmo instante o vejo rolar os olhos. É o bastante para que eu entenda o que sua pergunta significou de verdade. O que é verdadeiro para mim, importante para mim, significativo para mim, não tem a mesma obrigação de ser para ele. ─ Sabe de uma coisa, eu acho que você iria adorar um Natal lá em casa...
─ Ah, é mesmo? ─ questiona com o tom de voz bastante divertido, quase como se considerasse a ideia. Me pego pensando por um instante como seria levar um cara tão gato como esse para um Natal em minha família. É claro que minhas tias iriam surtar. Mamãe, então, nem se fala.
─ Sim, eu acho. As crianças, as luzes, a comida... Poderia apostar que sairia de lá muito apaixonado ─ afirmo, e tenho certeza mesmo. Não há nenhuma mínima possibilidade de participar de um Natal nos sem sair de lá mais craque no assunto que o próprio Papai Noel.
─ Eu não duvido... ─ ele funga, e seus olhos se apertam quando sorri.
Caramba! sabe sorrir com os olhos e coração, e eu nem mesmo fazia ideia, nunca sequer imaginaria. Assim como não faço ideia se posso fazê-lo amar o Natal tanto quanto eu, mas, se isso for um desafio, eu aceito.
─ Para começar, você iria decorar a árvore com a mamãe, é a parte favorita dela ─ conto. Tiro do meu bolso o enfeite de árvore: uma bola de acrílico transparente. Dentro, está um boneco de neve de resina que parece brilhar e, é claro, muita neve. ─ Papai me deu esse quanto eu tinha uns... sei lá, sete ou oito anos, quando comecei a duvidar do Papai Noel. Mesmo porque eu nunca tinha visto a cara do velho e...
Ah, caramba, isso só pode ser uma brincadeira! ─ exclama com os olhos já arregalados. Me assusto por um instante e sinto meus ombros encolherem. Não sabia que estava enchendo o saco tanto assim.
arranca o enfeite da minha mão e me desespero. Meu primeiro pensamento é de que ele vá jogar o enfeite contra a parede e quebrá-lo. Mas, antes que eu possa protestar e implorar para que me devolva, o vejo tirar algo do bolso do casaco. É uma bola, exatamente como a minha, exceto seu interior, uma casinha nevada. Linda!
─ On-onde conseguiu isso? É... lindo ─ suspiro ao admirar o objeto. Me arrasto até seu lado e me sento quase com nossos cotovelos encostados.
─ Não é uma belezinha? ─ ele questiona, e eu concordo com um aceno de cabeça silencioso. Não sei dizer qual dos dois é o mais bonito e, para ser sincera, adoraria ter ambos em minha árvore. ─ Joe acabou de me dar isso... ─ diz, sua voz parece um pouco embargada.
Giro meu rosto para vê-lo. segura as duas bolinhas em frente ao seu rosto e as admira com carinho. Aproximo meu rosto um pouco mais do seu, para poder enxergar os pingentes com mais afinco, já que a luz ainda é baixa. É quase como se tivessem sido comprados no mesmo lugar. E até faria sentido que fossem, se não fosse pelo fato de que papai me deu isso há quase vinte anos.
Ficamos parados como dois bobões, encarando os dois globos transparentes. É quase como se tivéssemos 9 ou 10 anos de novo, e, se eu fechar os olhos agora ou me concentrar bastante, posso sentir o cheiro da casa quando papai trazia o pinheiro fresco. A mistura de neve e verde, eu adorava aquilo.
Meus olhos se enchem de lágrimas e a emoção que me preenche é tão forte que não consigo me movimentar. Até que sinto o hálito de bater contra minha bochecha, quente e quase como um conforto. Com o canto dos olhos, noto que ele me encara enquanto eu só permaneço vidrada no enfeite.
─ Quando era mais novo, tive uma namorada que me deixou um dia antes do Natal ─ suspira em meu rosto. Seu semblante é muito sério.
─ Tipo, na véspera? ─ sussurro de volta, já segurando a risada que parece subir pela garganta.
─ É, na véspera... ─ ele diz, e eu explodo em uma gargalhada alta. Preciso me afastar um pouco para me virar para ele, que me encara escandalizado.
─ Isso... isso explica tudo! Você tem um trauma de ter entregue o seu coração no último Natal e logo no dia seguinte ela jogou fora? ─ cantarolo a música, e é sua vez de gargalhar.
─ Claro, and this year to save me from tears, I’ll give it to someone special... (e nesse ano, para me salvar das lágrimas, o darei a alguém especial) ─ ele me lança um olhar sugestivo e pisca um olho, o que só me faz rir ainda mais. Quem diria que o jovem teria um lado tão divertido abaixo de tantas camadas de chatice e mau humor.
─ Você sabe. Rezam as lendas que, se você beijar alguém entre a véspera e o dia de Natal, e no momento seguinte começar a nevar, você provavelmente encontrou o amor da sua vida... ─ ele ainda ri. É provável que ache tudo uma grande baboseira. ─ Isso é sério ─ afirmo e ele concorda com um aceno de cabeça, junta o dedo indicador e o dedão em um aperto e passa na frente dos lábios, em uma linha reta, como se estivesse trancando os lábios.
─ E você, já beijou alguém na neve? ─ ele lança sua pergunta casual, mas não consigo evitar de soltar uma nova risada enquanto entorto o nariz em uma fungada irônica.
Nah, sabe como é. Once bitten, twice shy... (depois do primeiro fora, fiquei traumatizado) ─ eu canto em resposta, finalmente, e volta a rir. Só que a verdade é que, talvez eu seja bem idiota, mas ainda espero a neve cair.


Parte 4 – O Espírito de Natal

24 de dezembro, 23h10

’s POV


Então é isso, faltam poucos minutos para a meia-noite e não vamos sair daqui. Nesse instante, só existem duas possibilidades: ou minha família está desesperada e acha que eu morri, já entrou em contato com o hospital e a polícia, e estão me procurando – o que me leva a crer que pode ser que o hospital saiba que estamos aqui embaixo –, ou então minha família acha que eu peguei algum turno extra e desisti de ir para a casa, o que seria um enorme absurdo.
Bufo alto e enfio o livro de volta dentro da bolsa com raiva. Não é como se eu estivesse concentrada de qualquer forma. Acho que não li nem dez palavras até agora, e já passaram o quê, umas sete horas que estamos aqui? Pelo menos eu ainda não senti vontade de ir ao banheiro. , por outro lado, não faço ideia de como se sente, até porque ele não para de se mexer no chão, desconfortável.
─ Seria ótimo se esse chão fosse de carpete ─ ele diz, se contorcendo de um lado para o outro mais uma vez. Não consigo evitar de rir por um segundo, me sentindo cruel por me divertir com seu sofrimento. Se bem que não é como se tivéssemos muitas coisas divertidas para fazer.
E, de novo, ficamos em silêncio. Estou começando a odiar esse padrão entre nós. Silêncio, então falamos, falamos e falamos, e de novo, silêncio, alto e ensurdecedor. Quase me dá vontade de gritar, muito embora não ache que vá resolver nada. Ao menos não resolveu antes, quando o próprio tentou. E ficamos assim, sem dizer nada, até que ouço seu estômago roncar. Um grito de desespero por ter perdido a ceia, tenho certeza, mesmo que ele não planejasse ter uma de verdade.
─ Ah, minha nossa, vou morrer de fome até amanhã... ─ ele choraminga, apertando suas mãos contra o alto da barriga.
─ Minha nossa, tão dramático... ─ resmungo de volta, mas me lembro das coisas que peguei mais cedo na cesta de comidinhas dos funcionários. ─ Mas você acabou de me fazer pensar uma coisa...
─ Não vai me dizer que vai tirar um peru de dentro da bolsa, Mamãe Noel? ─ ele pergunta, já esticando seu pescoço na direção da bolsa que alcanço na pilha de coisas que fiz num canto do elevador. Eu gargalho alto de novo e algo se movimenta em meu estômago, como se algo... voasse ali dentro? Deve ser fome, é claro.
─ Claro, e um pernil e uma garrafa de vinho tinto ─ ironizo, e me acompanha na risada agora. Mas quando alcanço os pacotes de batata frita e biscoitos de gengibre, vejo seus olhos brilharem de felicidade, e ele, com agilidade, alcança sua própria mochila próxima ao violão.
─ Eu trouxe o vinho, querida ─ ele diz ao tirar uma garrafa de água de dentro do saco de tecido.
É a vez dos meus olhos brilharem, não pela emoção em ver água ou estar com sede, não. É o seu gesto. Apesar de não dar a mínima para o Natal, ele faz questão de participar do momento, de entrar na brincadeira. Como se, mesmo sem me conhecer, se importasse com o fato de que vou perder algo que é tão especial para mim e minha família.
pula para o meu lado no elevador, e nos sentamos com nossos cotovelos encostados mais uma vez enquanto comemos em silêncio. Ele parece tão feliz ao mastigar seus biscoitos que preciso parar por um segundo para prestar atenção em sua feição, cada vez que saboreia uma das porcarias industrializadas como se fossem um banquete.
Ele é tão bonito, mas não é apenas isso. Ele é intimidador. Seus olhos são firmes, assim como seu queixo, que parece estar sempre apontado para o alto, como se soubesse seu próprio valor. exala uma confiança que faria qualquer outra pessoa desviar o olhar apenas ao passar por ele em um corredor, e até mesmo um pouco de arrogância cobre o seu verdadeiro olhar. Esse olhar que ele dá para o biscoito de gengibre.
─ O que foi? ─ me pega no pulo. Não tenho nem mesmo coragem de tentar desviar o olhar e fingir que não estava encarando como se não tivesse paredes o suficiente para olhar. Mas ele não sabe – seus olhos só me confirmam que ele não faz ideia de que causa isso nas pessoas, de que faz ideia do quanto é um ímã. Para quê não faço ideia, mas é como se cada segundo me sentisse mais próxima de diversas formas.
─ Só estava pensando em como você parece um cachorro esfomeado comendo. ─ disfarço, mas não acho que ele compre minhas mentiras. E ainda assim, solta uma risadinha infame e passa a língua pelo biscoito de forma lenta, molhando a massa centímetro por centímetro.
Eu desvio o olhar. Ele me pegou no pulo mesmo!
─ É a melhor Ceia de Natal que tive em muitos anos ─ afirma, e eu gesticulo com a cabeça, ainda me recuperando do seu movimento. Aquela coisa no estômago parece se revirar uma nova vez, mas disperso o pensamento.
─ É uma pena ouvir isso... ─ digo, e ele chacoalha os ombros como se não fosse importante, mas não estou preparada para soltar o osso. ─ Sempre foi assim?
─ Ah, não... ─ ele quase ri ao fungar sua resposta, e seus lindos olhos se perdem na parede de metal logo à frente, como se tentasse puxar algo do fundo da memória. ─ Eu não sou o Grinch, ─ ele adivinha meu apelido, que parece quase doce ao sair de seus lábios. Tão doce quanto o bolo de chocolate da mamãe, e eu estremeço só de ouvi-lo. ─ Antes do papai ficar doente, acho que mal dormi na noite anterior à véspera. Ficava com Eve e Caleb planejando o que faríamos pra pegar o Papai Noel quando estivesse embaixo da árvore... ─ parece viajar em suas memórias, e tento não me mexer. Não ouso sequer respirar algo, tenho medo de estragar o momento. ─ Uma vez... pegamos ele, sabe? Com biscoitos de chocolate e leite. Era o papai, vestido com o macacão vermelho e tudo... Ele entrou em desespero quando quase arrancamos sua barba, mas mamãe desceu as escadas correndo e nos mandou largar o Papai Noel, ou ele nos colocaria na lista das crianças malvadas ─ ele conta; sua voz é nostálgica e treme um pouco mais a cada palavra que diz. ─ Ele não precisava fazer isso, sabe... Não precisava se vestir como o Noel, mas ele fez... porque sabia o quanto isso significava para nós, o quanto planejávamos pegar o bom velhinho no ato. Ele queria que acreditássemos. E eu acreditei por bastante tempo, até que... bem... ─ para de falar, seus olhos estão embaçados pelas lágrimas que os enchem.
─ Sinto muito ─ eu digo e, com um movimento impensado, alcanço sua mão e a aperto com a minha própria palma. Assim que noto o gesto, tento me afastar, mas segura meus dedos com força e os entrelaça com os seus. Apesar disso, ele não olha em minha direção, e sei que não o faz porque, caso me olhe, não conseguirá segurar o que está preso em seu coração.
Por um segundo, torço para que olhe, para que chore e tire um pouco do peso que parece carregar por tanto tempo, desde que era só uma criança. Não estive longe disso, e nem por isso posso me colocar em seu lugar. Mesmo que papai tenha ido embora tão cedo, ele só se foi. Joseph ainda está aqui e, muitas vezes, não faz nem ideia de quem é, de quem é sua família. Não consigo nem mesmo imaginar o que é isso, e, pela primeira vez desde que ficamos presos aqui juntos, noto que não é arrogância o que traz em sua bagagem. Mas sim medo, do que passou e que ainda pode passar. Medo de perder o pai para o vazio.
Não o julgo. Se tivesse perdido papai dessa forma, teria sentido o mesmo, agido da mesma maneira. Também o perdi aos poucos, é claro – a doença sugou cada milímetro da sua vida até o último instante, mas ele nunca deixou de nos amar por nem um momento sequer. E, apesar de tudo, acho que Joe sente o mesmo. Mas não sei como dizer isso, não sem ser invasiva. E também entendo agora porque é tão distante do Natal, porque o lembra demais do pai – mas um pai que está presente e ainda sim não pode participar como ele gostaria.
─ Também sinto muito ─ ele diz com a voz baixa, e giro meu rosto em sua direção. me encara ainda com seus olhos marejados, mas não parece prestes a chorar como antes, agora é mais contido. ─ De verdade, sinto muito por perder seu momento em família…
Dou de ombros.
Ah, não é nada de mais, vou sobreviver... ─ balbucio de volta, quase em um gaguejo. Se estou triste? Pra caramba. Negar isso seria a pior das mentiras mais mal contadas do mundo todinho. Mas já sei que não posso fazer nada, agora faltam poucos minutos para passar a meia-noite e não há o que fazer, a não ser esperar pelo Natal do próximo ano.
─ Claro que é. Entendo perfeitamente quando diz como preparar a ceia, sentar-se à mesa com a família, ouvir as músicas e admirar todas as cenas bonitas é importante. Pode não ser o mesmo para mim, ... mas gostaria de poder fazer algo para mudar isso, para que você pudesse estar com sua família hoje ─ argumenta, sua voz é firme e tão verdadeira que faz meus olhos marejarem. Quero jogar meus braços ao seu redor e apertá-lo em agradecimento, mas seria pessoal demais, então só gesticulo com o queixo e as mãos. ─ Tudo bem, está tudo bem... Agora já foi. Só é uma pena não dançar com vovô Gilbert ─ murmuro, minha voz tão baixa que não sei nem mesmo se ele pode me ouvir. ─ Ele fez isso todos os anos desde que papai se foi, sabe... para suprir a falta. Nossa valsa era o ponto alto... Não sei quando será a última ─ engasgo, o ar parece trancar minha respiração e noto que isso é realmente o que mais parece me doer.
─ Ah, não, eu não vou deixar isso acontecer ─ salta de pé, se levantando com apenas um pulo e para em minha frente, sua mão estendida.



’s POV

Minha mão continua estendida no ar, mas apenas a encara, como se fosse feita de lava.
Não posso permitir que ela perca tudo sobre essa noite. Começo a entender, aos poucos, o porquê deste feriado ser tão importante para ela e sua família, e não posso deixar que isso se perca, nem mesmo nessa situação ruim. Não seria justo deixar que o meu espírito fraco do Natal fizesse com que sua luz se apagasse.
Porque, para falar a verdade, é assim que a vejo agora. é feita de luz, aquelas luzes coloridas que colocamos nas fachadas de casa. Ela pisca e brilha, e é no mínimo inesquecível. Pode até ser um grande trabalho fazer com que ela se encaixe em sua fachada, mas ela vai ficar tão linda ali, tão estonteante, que você não vai conseguir prestar atenção em nenhuma outra coisa sequer.
Consigo me lembrar agora de todos os detalhes, sem faltar nada, sobre como eram os nossos natais antes do caos. Me lembro do cheiro de gengibre quente, da hortelã refrescante nos doces… Me lembro do perfume doce que a mamãe usava todas as noites de 25 de dezembro, porque ela sabia que papai gostava. Me lembro do buraco entre os dentes de Eve, e lembro do carrinho pelo qual entrei no soco com Caleb, só pra ver quem brincaria primeiro.
O amor de pelo Natal me trouxe um sentimento que há muito não sentia. Saudades.
Saudades de ter todos reunidos à mesa, da carne assada com aromas de erva que minha avó fazia, dos biscoitos de gengibre que mamãe deixava para fazer com ela, e sujávamos a cozinha até o último cantinho. Sinto falta de ter papai em casa – ah, caramba, acho que é o que sinto mais falta em tudo sobre essa época. Tenho saudades da sua presença física, mesmo que sua mente já não esteja 100% nesse mundo. E agora, de repente, me pego pensando que eu não me importo de verdade que não esteja totalmente aqui, desde que esteja em um lugar bonito. Por um segundo, agradeço por ele ter e outras pessoas boas ao seu redor. Papai tem muita sorte de ter seu carinho todos os dias.
─ E então? ─ pergunto assim que percebo que ela não faz ideia do que está acontecendo. ─ Vamos dançar, Mamãe Noel?
parece hesitar por um instante, mas, por fim, aceita minha mão e se levanta quando eu a puxo. Ela voa direto para os meus braços; eu a abraço firme pela cintura e seguro uma de suas mãos, e ela apoia a outra livre em meu ombro. Me movimento um passo para um lado e espero que me acompanhe. parece uma pedra de tão dura, mas acompanha o meu passo. Então, me movimento para o outro lado e ela faz o mesmo, numa dança meio destrambelhada.
─ Você sabe que não tem nenhuma música tocando, não sabe? ─ ela questiona, seu olhar quase grita me dizendo que sou louco. Quero rir, mas apenas nego com a cabeça e faço uma careta de confusão para ela.
─ Não sei do que está falando, eu estou ouvindo... It’s beginning to look a lot like Christmas... (Está começando a se parecer bastante com o Natal) ─ cantarolo Bublé em voz baixa, e o sorriso que dá vale por todos os natais não comemorados. Ela apoia sua bochecha em meu peito e eu a aproximo mais de meu corpo. Está tão quente que mal consigo sentir o ambiente de metal frio. ─ ... Everywhere you go... take a look at the five and ten, it’s glistening once again... (Em todo lugar que vá. Olhe as lojas de bugigangas brilhando novamente) ─ continuo a cantar com a voz baixa. Nos movimentamos de um lado para o outro, no pouco espaço que temos.
... With candy canes and silver lanes that glow... (Com doces de natal e as ruas brilhando) ─ ela canta baixinho, junto comigo, e quase paro de respirar. Sua voz é linda e doce, uma melodia divina. Seu peito sobe e desce, num ritmo calmo e constante. Dançamos em silêncio, mas é quase como se eu pudesse ouvir a música em minha cabeça.
Fecho os olhos por um segundo e inspiro profundamente; seus cabelos têm cheiro de avelã e chocolate. Sua palma está suada contra a minha, ou talvez a minha mão é que esteja suando. Consigo enxergar, no fundo da minha mente, mil possibilidades de onde esse Natal poderia acontecer: nos alpes suíços, nas praias paradisíacas das Maldivas, nas feiras natalinas da Alemanha, no clima quente do Brasil... Eu adoraria que pudesse passar cada Natal de sua vida em um lugar diferente, para que soubesse como é o clima e a cultura de cada um desses lugares em um desses destinos maravilhosos. Eu adoraria levá-la para cada um destes.
solta sua mão da minha e abraça meu pescoço com seus dois braços. Quase posso senti-la se erguer nas pontas dos dedos para conseguir abraçar meu ombro todo. Enlaço meus braços em sua cintura e a aperto contra meu corpo. É estranho. Nunca a vi antes em minha vida, não faço ideia de quem é nas horas vagas do seu dia, quando não é simplesmente a enfermeira ou estudante de medicina, a encantadora cuidadora do meu pai e tantos outros pacientes do St. Jude em Boston. E, mesmo assim, seus braços firmes e quentes em meu pescoço, suas mãos que acariciam minha nuca, os meus próprios braços contra o seu corpo pequeno parecem tão familiares que me sinto confortável, em casa.
Quando a música para de tocar em minha mente, e imagino que na dela também, paramos de nos movimentar aos poucos. Demoro em soltar o seu corpo, desfazer seu abraço e voltar ao ambiente frio do quadrado de metal onde estávamos. Dou apenas um passo para trás e a encaro. Seus olhos ainda estão marejados, e lágrimas escorreram por suas bochechas. Seco a última delas com o meu polegar, sorri com o meu toque.
But the prettiest sight to see is the holly that will be, on your front door... So it’s Christmas once more... (Mas a coisa mais bonita que verei, é a beleza que haverá na frente da sua porta. Então é Natal novamente) ─ sussurro as últimas frases da música e os olhos da mulher parecem brilhar ainda mais, como se fossem suas próprias luzes de Natal. ─ Feliz Natal, .
─ Feliz Natal, ─ ela murmura de volta. volta a se acomodar no chão do elevador, e ela nem precisa estender sua mão para que me sente ao seu lado. Ela tira uma pequena barra de chocolate de sua bolsa e o abre, parte ao meio e me entrega a metade, que aceito de bom grado. ─ Se você realmente pudesse escolher um lugar para passar o Natal, para onde iria e o que faria? ─ questiona, e sua voz parece carregada de sono. Olho meu relógio de pulso: já passou da 00h45, é Natal oficialmente. Penso em dizer isso para ela, mas não quero deixá-la chateada de novo.
Hmm, acho que ficaria por aqui. Sei que parece idiota depois de tudo, mas parece que seria um bom Natal ─ eu falo, e algumas ideias já começam a girar em minha mente. Diversas envolvendo meu pai e, por um algum motivo, algumas envolvendo também. Mas não posso dizer isso a ela, não sem que ela me acha um esquisito pervertido. A não ser, é claro, que o abraço de minutos atrás tenha significado... não, não faz sentido.
─ Não é idiota, ao menos não para mim ─ ela fala com a voz tão baixinha que preciso aproximar um pouco minha cabeça da sua para não ouvi-la.
─ Josep... Papai, ele pode sair do hospital, não pode? ─ pergunto. Ela dá de ombros, mas concorda com a cabeça depois de um segundo, um pouco mais empolgada. Bem provável que tenha entendido o que estou confabulando.
─ Sim, se avisar antes e o médico aprovar, ele pode... talvez com o auxílio de uma enfermeira ─ ela vira seu rosto para o meu e faço o mesmo. Pisca um olho de forma sapeca; por um momento, parece Dennis, o pimentinha.
─ Então talvez, mas... só talvez, eu devesse ter o número de uma enfermeira, para que soubesse quem contatar para conseguir esse serviço ─ pisco de volta para ela, que solta uma risada baixa seguida de um bocejo.
─ É claro, você deveria sim... ─ ela murmura e se aproxima um pouco mais. encosta sua cabeça em meu ombro e fecha os olhos. Fico na expectativa de que me dê seu número, mas ela não o faz, o que me frustra um pouco. ─ Feliz Natal, , o Grinch… ─ sua voz é um sussurro tão baixo que as palavras são quase difíceis de distinguir, mas não consigo evitar meu riso ao ouvi-la me chamar de Grinch.
está dormindo – pelo menos eu acho que está, pois a respiração é calma e tranquila – e ela solta um barulhinho pela boca toda vez que expira. Preciso contá-la quando acordar que ela ronca, irá ficar maluca com isso. Então, me pego pensando mais uma vez que não a conheço, e ainda sim, parece que sei tudo sobre ela.
Solto uma risada baixa e deixo meus pensamentos voarem um pouco mais longe, mas não consigo evitar. Aproximo meus lábios de sua cabeça e os encosto em seus cabelos em um beijo delicado, sem força para não acordá-la. E então, murmurando Michael Bublé, eu pego no sono também.


Parte 5 – O Azevinho

25 de dezembro, 07h05

’s POV


As luzes de emergência se apagam e, no lugar, as do próprio elevador se acendem, forte, contra os meus olhos cansados.

PIM!

O barulho do elevador ecoa alto, como se eu não ouvisse qualquer som advindo do mundo lá fora há eras. , com a cabeça apoiada em meu ombro e um pouco de baba escorrendo da boca, acorda em um salto.
─ O que houve? ─ ela questiona; seus olhos não parecem reconhecer onde está. Ajudo a garota para que se sente corretamente, e, assim que ela se localiza, o elevador começa a se movimentar.
As portas se abrem, revelando dois homens grandes com o uniforme da empresa do elevador. Eles nos encaram em choque, como se não fizessem ideia de que haviam duas pessoas ali – e, bem, talvez não fizessem ideia mesmo –, mas também parecem irritados por precisar prestar esse serviço logo no dia de Natal.
─ Minha nossa, vocês estão aí desde ontem? ─ pergunta um deles, o maior. Eu ajudo a se levantar assim que também o faço, e só agora noto a bagunça que deixamos no chão.
─ Bom dia, Feliz Natal para os senhores... ─ eu respondo, e acena com a mão. No segundo seguinte, ela começa a alcançar suas coisas do chão e as joga dentro da bolsa. Papel de doces, a garrafa de água vazia, seus papéis e prontuários. Pego meus pertences também, mochila e o violão.
Assim que pisamos fora do elevador, sinto que minhas pernas estão moles, como se tivéssemos ficado presos por semanas e não apenas algumas horas. Os homens se desculpam mais algumas vezes, mesmo que não tenham culpa do ocorrido, e anotam nossos telefones para que possam nos enviar algum tipo de compensação. É claro, eles não querem ninguém abrindo reclamação ou processo contra a empresa, ainda mais com o espírito do Natal no ar.
O subsolo é pouco iluminado, mas posso ver ao longe, na saída do estacionamento, que o sol aparece do lado de fora. É sempre curioso quando a estrela dá as caras no inverno, mas também é sempre bom começar o dia com a vitamina D no rosto, ainda mais depois de ficar preso por tanto tempo dentro de um elevador frio e escuro.
─ Vai se despedir de Joe? ─ questiona assim que os homens vão embora de vez e nos deixam a sós.
Às nossas costas, a porta do elevador se fecha e o painel logo sobre ele indica que está subindo normalmente. Quase dou risada da situação, e vejo que ela faz o mesmo. Estamos livres, enfim. E ainda assim, um gosto amargo parece encher minha boca.
─ Pensei nisso antes de adormecer, mas... acho que quero manter nossa despedida como foi, sabe. Com ele lembrando meu nome e me entregando o pingente ─ respondo com sinceridade. Ela concorda com um aceno de cabeça, e também parece sincera; seus olhos ao menos não parecem me julgar. ─ Ah, falando nisso... ─ entrego o seu enfeite, já que juntei os dois assim que levantamos. Ela coloca a bolinha na bolsa, sem admirá-la dessa vez.
─ Vou cuidar bem de Joe até voltar. Vou contar a ele sobre como canta mal ─ ela diz com diversão, mas eu apenas rolo os olhos em resposta. Então me entrega um papel, que abro rapidamente. É seu número escrito. ─ Sei que as pessoas geralmente anotam direto no celular, mas gosto da ideia de que terá algo físico desse momento inesquecível ─ ela funga uma risada.
─ Vou guardá-lo bem aqui, próximo ao coração ─ digo ao colocar o papel no bolso da jaqueta sobre o peito, em seguida fecho o pequeno botão do tecido. É claro que vou anotá-lo assim que virar as costas, para não correr o risco. gargalha alto, um coro de sinos natalinos que é lindo de ouvir.
─ As propostas permanecem, ─ ela diz, mas propostas? Não lembro de ter mais de uma. Ela parece ler a dúvida em meus olhos, porque responde: ─ A de tirarmos seu pai desse hospital frio no próximo Natal, e que vá fazer o teste de sobrevivência na véspera com os ... e saia apaixonado ─ ela volta a dar sua piscadinha marota, e acho que capto o que quis dizer, mas sem certeza do que realmente significa.
─ Já disse que confio em você? ─ ela concorda com um aceno. ─ Bem, estou arrependido de ter dito... ─ ri. Eu e seguro sua mão livre, já que a outra segura vários papéis, e beijo suas costas macias. ─ Nos vemos por aí, , Mamãe Noel...
─ Nos vemos sim, , o Grinch… ─ ela sorri e se inclina rapidamente para beijar minha bochecha. Por um segundo, penso em virar o rosto e roubar um beijo seu, pelo menos para saber como é a sensação antes de ter que partir. Porque não é uma escolha, infelizmente preciso ir.
Mas não o faço, não sei por qual exato motivo. Talvez respeito ou apenas para evitar sofrer, já que eu, de repente, bem sei como é entregar o meu coração na véspera de Natal e uma garota jogá-lo fora no dia seguinte.
dá as costas e anda em direção a um Honda Fit prateado, coloca suas coisas no banco traseiro, entra no veículo e dá a partida. Ela para um segundo para se despedir com um aceno e, então, segue o seu caminho.
Fico parado no mesmo lugar por uns dez minutos. O que aconteceu na noite anterior é tão surreal que sinto como se, caso eu me mexesse, acordaria de um sonho bom. Não apenas cheio de memórias boas e um romance inexplicável, mas também lições e aprendizados, que eu levaria para toda a minha vida. E tudo pela doce .
Entro em meu próprio carro alugado, depois de também colocar meus pertences no banco traseiro. Confiro se minha bagagem permanece no porta malas e, então, deixo o St. Judd para trás, com a maior sensação de nostalgia que já senti em toda minha vida.
O Aeroporto General E. Logan não fica muito longe do hospital, e o caminho percorrido até lá é silencioso e tranquilo, exceto pela rádio que resolvi ligar. Durante todo o trajeto, tocou músicas natalinas e os radialistas dividiram sua felicidade e noites de véspera. Gostaria de poder contar-lhes a minha história, e como não trocaria a minha véspera de Natal por nada.
É apenas quando entrego o veículo na loja locadora que me lembro de ligar meu telefone novamente, já que havia desligado para manter a bateria. Algumas mensagens de Eve, Caleb, e uma porrada de mensagens e ligações dos caras da banda. Eu precisaria engolir toda essa parte quando chegasse em Nova Iorque.
Mas é a última ligação que me deixa curioso, apenas uma, como se tivesse sido quase um engano. E ainda assim o número está ali e não me engana. Mamãe me ligou. Penso por um segundo se devo retornar e decido que sim; afinal de contas, não há nada a perder. Ela atende na segunda chamada.
Oi, querido... bom dia! ─ ouço sua voz cansada do outro lado da linha, como se eu a tivesse acordado. O que há chances, afinal de contas, minha mãe aposentada não liga para acordar cedo.
─ Oi, mãe, Feliz Natal.
Ela parece engasgar do outro lado da linha, como se meu desejo de felicidades quase a fizesse duvidar da própria existência durante aquela ligação. Mas ela me deseja Feliz Natal também e conversamos por alguns minutos.
Mamãe me pergunta sobre o show, e como um péssimo mentiroso que sou, nem mesmo tento. Conto a ela que fique em Boston, porém não digo que fiquei preso a noite toda no elevador do hospital. Ela não pergunta como papai está, e mesmo que isso me incomode bastante, eu a entendo. Ela ainda não está pronta. Demorei a perceber que eu também não estive por muito tempo, e cada um tem o direito de levar o seu próprio tempo para se curar de suas próprias feridas.
Talvez mamãe leve a vida toda, talvez nunca se recupere, ou talvez se recupere e realmente não se importe. E por mais que isso seja importante para mim, não posso decidir por ela o que é certo ou errado – tudo que posso decidir é o que eu sinto por ela. E eu a amo, pra caramba.
Terminamos a ligação e eu me dirijo com tranquilidade para o balcão da companhia aérea. Não é mesmo como se eu pudesse fazer qualquer coisa para voltar no tempo e viajar para Nova Iorque na hora certa. E nesse momento, pra dizer a verdade, eu não o faria.
A atendente compreende minha situação, mas segue as regras da companhia; me cobra uma multa e refaz a compra do meu bilhete. Tenho ainda uma hora para a abertura do check-in, então tenho algum tempo para perder. Consigo pensar em mil possibilidades do que gostaria de fazer com esse tempo, e 999 delas envolvem uma bonita garota de cabelos com cheiro de amêndoas e chocolate.
Retiro seu número do meu bolso e o anoto no telefone, mas volto a guardar o papel na jaqueta. Gostaria de ligar para ela, é claro. Mas não faz nem quarenta minutos que nos vimos pela última vez, eu não quero ser o cara esquisito. Mas também sei que é minha responsabilidade ligar para , afinal de contas, ela me deu seu número, mas o grande besta aqui não anotou o dela. Mas eu o farei, tenho certeza que sim, só preciso me segurar para não fazer isso rápido demais.
Me sento em um banco próximo a algumas lojas e telas de televisão, é tudo sobre o Natal. Curiosamente, dessa vez não parece nem um pouco irritante. Eu até gosto do noticiário, das luzes coloridas, dos fogos ao redor do mundo todo. É bonito e reconfortante.
Ajusto a jaqueta no corpo para me aquecer mais e sinto no bolso o pingente de Natal que papai me deu antes de deixá-lo em seu quarto frio. Retiro a bolinha do bolso para admirá-la, como fiz tantas vezes na noite passada e...
Tomo um choque ao perceber que estou com a bolinha errada!



’s POV

No meio do caminho de casa, parada nos sinais vermelhos, mando rápidas mensagens para mamãe avisando que estou bem e chegando. Foram tantas as ligações perdidas que sinto que preciso explicar rapidamente o que aconteceu na noite passada.
Mas não poderia realmente explicar o que aconteceu durante essa noite. Foi tudo tão fora do que jamais poderia imaginar que, talvez, eu prefira guardar em meu coração e não relatar tudo com detalhes para minha família. Tive receios em alguns momentos de que, talvez, pudesse me beliscar e acordar de um sonho.
era um sonho, um dos muitos bons, e talvez permanecesse em meu coração para sempre assim, como um sonho. Sei que dei meu número a ele, é claro, mas para falar a verdade, não tenho muitas expectativas de que entre em contato. E não que eu ache que ele seja um canalha ou qualquer coisa do tipo – tivemos horas suficientes no mesmo espaço para notar os sinais –, mas porque acho que talvez minha mente possa ter confundido tudo o que aconteceu.
Mesmo quando estive em seus braços fortes e acolhedores, quando ele me abraçou de volta, tão firme que eu poderia me soltar com a certeza de que ele não me deixaria cair. E também quando beijou minha mãe poucos minutos antes, para se despedir. Eu não poderia ter certeza do que aquilo significou para ele. Muito tempo no elevador, foi isso que passamos.
Mamãe me espera na porta, já com um cobertor e uma xícara de chocolate quente em mãos. E antes mesmo que eu entre, ela já me pergunta o que aconteceu. Nem tenho tempo de respirar e processar o fato de que estou em casa. É Natal e eu não tive minha véspera em família, como tanto esperava., embora não acho que tenha perdido muito coisa agora.
─ Fiquei presa no elevador durante a noite, bem na hora que estava saindo do meu turno ─ digo sem enrolação. Não conto a parte em que estivera comigo o tempo todo, para evitar o desgaste de explicar toda a situação.
Ah, pobre coitadinha, ficamos tão preocupados com você... ─ ela começa a tagarelar. E eu deixo que mamãe fale, até sua última palavra, quando não tem sequer mais fôlego para continuar. Porque sei que com os há toda uma saga de acontecimentos que precisam ser explicados, ou melhor, atuados, pois há sempre tanto drama envolvido que poderíamos muito bem ter nosso próprio programa de televisão, especial de Natal. ─ ... mas no fim deu tudo certo e o peru ficou pronto a tempo. Ainda sobrou muita coisa, querida. Pode comer se estiver com fome. ─ Faminta ─ eu respondo e já solto a bolsa sobre a mesinha logo ao lado da porta de entrada. Não quero fazer muito barulho. Sei que a casa está abarrotada de gente, mas a fome é real e meu estômago ronca só de pensar em misturar tudo para o café da manhã. Abro um pote com brownies e enfio um grande pedaço na boca, já com outro em mãos. É delicioso demais!
─ Feliz Natal, querida. Não esqueça de colocar o pingente do papai na árvore ─ ela me diz, e eu salto do banco antes mesmo de me sentar. Já estava quase esquecendo do pingente.
Alcanço minha bolsa de volta e enfio a mão dentro, em busca da bolinha de Natal. Assim que a encontro, agarro e puxo para fora, mas quando a observo, meu coração para de bater por um segundo e derrubo o brownie que segurava. e eu trocamos nossas bolinhas!
Ah, não! Ah não, ah não, ah não! Que droga, merda, porcaria... merda!
Não posso ficar com sua bolinha e deixar que leve a de papai embora. Ah, minha nossa, o que é que eu vou fazer? Penso por alguns minutos e só consigo chegar em uma conclusão.
Minha única alternativa é ir ao aeroporto!



’s POV

Alcanço o telefone do bolso e disco seu número. Chama, chama e não atende. Que merda! Não posso deixar que fique sem o pingente certo. Não seria o correto deixarmos trocados, principalmente quando sei que significa tanto para ela. E também para mim, é meu último presente de Joe, e gostaria de guardá-lo para sempre.
Mas não posso sair do aeroporto, e nem mesmo é por perder o meu voo de novo, mas sim porque não sei nem mesmo como encontrá-la. Não sei seu endereço, muito embora tenha certeza de que a casa dos deve gritar NATAL de longe. Porém, não posso correr o risco de perder meu voo e ainda assim não encontrá-la.
Minha melhor alternativa é continuar ligando.



’s POV

Dirijo como o vento. Agradeço pelo clima estar bom e os pneus de neve ainda instalados, porque preciso correr como nunca em minha vida.
Na verdade, acho que é uma grande loucura. Não faço ideia de qual voo irá pegar, isso se já não embarcou e eu sou apenas uma ridícula indo atrás dele. E outra coisa, tem meu número – se tivesse notado que trocou nossos enfeites, poderia ter me ligado. Talvez ele nem queira me ligar, mesmo se tivesse visto.
Meu telefone vibra no banco do passageiro, mas não posso atender, e tenho certeza que é mamãe. Nem mesmo me expliquei direito quando saí de dentro de casa jogando a toalha no chão. Eu só preciso resolver essa situação.
Estaciono o carro na vaga mais rápida que encontro do estacionamento e saio correndo. Quase esqueço de trancar o veículo, mas me lembro e dou dois passos para trás a fim de fazê-lo. Só tenho tempo de pegar o celular, mesmo sem atender mamãe.
Corro como uma maluca para dentro do aeroporto e não faço ideia de onde estou indo. Só me lembro que iria para Nova Iorque, então encaro o telão com os próximos voos e checo a companhia com o próximo embarque para a Big Apple. Assim que encontro o voo na tela, corro para o portão. A merda do telefone não para de tocar.
Puxo o aparelho do bolso e vejo que o número não é da mamãe. Atendo, mas assim que o faço, enxergo a cabeça loira de à distância.
! ─ ouço o grito do outro lado da linha ao mesmo tempo que grito:
─ OWEN! ─ ele ouve, pois se vira em minha direção, mesmo parecendo não me enxergar. Eu corro em sua direção, sem me preocupar em desligar a chamada.
Assim que me nota, ele anda a passos largos em minha direção. Paramos de frente um para o outro com um estancar de pés.
─ Nós trocamos os enfeites! ─ dizemos em uníssono, e ambos rimos também. me estende o meu enfeite, que agarro rápido, mesmo que com cuidado. Eu lhe estendo o seu pingente em retorno.
E, então, o silêncio. Nenhum de nós parece saber o que dizer agora, como se fosse algo constrangedor demais, ainda mais depois da noite cheia de confissões que tivemos. dá uma risada.
─ O que foi? ─ pergunto. Seus olhos me encaram com tanta diversão que quase sinto a necessidade de rir também.
─ Você notou que veio de chinelo e meia pra cá? ─ ele questiona também, e só então encaro meus pés. Uma das meias está furada no dedinho mindinho. Eu gargalho, alto, muito embora sinta o rosto corar também. Eu sou uma grande idiota.
─ Tudo certo com o voo? ─ pergunto de novo, principalmente porque não quero ser um pouco mais humilhada com minhas meias furadas e meus chinelos cor de rosa.
─ Tudo, tudo. Consegui trocar sem problemas. Em... ─ ele olha seu relógio de pulso ─ … quatorze minutos posso embarcar em meu voo.
Ah, ótimo, claro. Então acho melhor eu deixar você ir... para não correr o risco de perder seu voo de novo ─ solto uma risada baixa, e concorda com um aceno. Penso por um segundo rápido se devo abraçá-lo, ou não, mas minha hesitação não me permite fazer mais nada.
Hmm, me avise quando estiver em casa. Você tem meu número agora ─ ele diz entre risadas, e é verdade. Era ele quem estava ligando afinal de contas. Meu coração até se aquece por um momento, mas é besteira, afinal, só ligou por causa dos enfeites de Natal.
─ Pode deixar. Nos vemos, ... ─ eu digo, e ele sorri em resposta. Estendo minha mão, a qual segura e aperta.
Então, dou as costas e sigo meu caminho.



’s POV

Essa é literalmente a minha única chance e estou a desperdiçando como o grande idiota que sou. Talvez eu nunca mais a veja, talvez ela nunca me mande a mensagem que pedi, e talvez nunca atenda minhas ligações quando eu ficar frustrado o suficiente por ser ignorado.
Talvez eu... bem, talvez eu odeie essa ideia do talvez, e agora é a única hora que terei.
! ─ a chamo pelo apelido, que nem mesmo sei se é seu apelido de verdade, mas lhe cai bem. Ela se vira no mesmo instante em que a chamo; seus olhos são tão bonitos e sua pele tão aveludada, ela é mais linda do que todas as estrelas juntas. E eu não preciso hesitar.
Ando a passos rápidos em sua direção até que paro em sua frente e, sem pensar, colo meus lábios nos seus, em um beijo carregado com o todo o afeto que comecei a sentir por ela apenas na noite passada.



’s POV

Os lábios de são carinhosos. O calor de sua boca se encontra com o da minha e sinto como se o mundo girasse, como se nem todo o oxigênio do mundo fosse o suficiente para me fazer respirar direito agora. E eu o beijo de volta, aproveito sua boca macia enquanto penso sobre a mensagem que me pediu para encaminhar. É claro que eu enviaria.
É difícil nos separarmos, mas sei que precisa ir. Ele não pode perder seu voo mais uma vez, muito embora eu até quisesse que ele desistisse de viajar para ficar comigo. Mas seria demais pedir, ainda mais quando acabamos de nos conhecer.
Assim que se afasta, ele tem um largo sorriso estampando seus lábios, o que me faz sorrir também, porque é genuíno, de ambos os lados.
─ Agora posso embarcar em paz ─ ele brinca, e eu solto uma risada em resposta. ─ Vai me mandar uma mensagem quando estiver em casa? ─ questiona, a dúvida em seus olhos é quase dolorida. Quero gritar que sim, mas me contenho.
─ Vou, é claro que vou. Talvez só veja quando tiver pousado, mas estará lá... só... me responda ─ eu murmuro, e ele ri ao me apertar de novo em seus braços.
me beija mais uma, duas vezes, uma por conforto e outra por despedida. Ele precisa ir de verdade, e por mais que uma faísca de dor nasça em meu peito, sei que as coisas são como devem ser e é bem provável que esse seja o meu melhor presente de Natal. Não trocaria meu romance de elevador por nada, mesmo que não significasse nada amanhã.
─ Feliz Natal, ─ ele diz, dessa vez sem o Mamãe Noel na sequência. Eu beijo seus lábios mais uma vez, um selinho contido, mas carinhoso.
─ Feliz Natal, ─ respondo, e também não o chamo de Grinch, pois sei que de ladrão do Natal não há mais nada dentro dele.
Ele acena mais uma vez enquanto se afasta, e eu o admiro até que entre em seu portão de embarque. Eu talvez não o veja mais, ou talvez o veja, nem que seja através de Joe. Talvez minha mensagem nunca seja respondida, mas sinto algo bom em meu coração. Algo diferente e confortável, algo que não preciso explicar ou nem mesmo tentar entender. As coisas só são como são.
Assim que não o enxergo mais, aperto meus dedos dos pés para que ninguém veja o furo da meia e seguro firme minha bolinha de Natal entre os dedos. O frio me atinge direto nos ossos quando piso do lado de fora do aeroporto. São apenas alguns passos até o carro, mas é quase dolorido. Abro o veículo de longe, quase correndo para chegar o quanto antes nele, pois sei que assim logo estarei com aqueles que amo.
Seguro a maçaneta e sinto algo atingir meus cílios em cheio. Preciso piscar rápido para passar a sensação congelante nos fios sensíveis. Olho para cima por um minuto, e meu sorriso é tão largo que sinto que poderia rasgar minhas bochechas.
Estendo minhas mãos e encaro o floco de neve. Em minha mente, as palavras de papai são as primeiras que me recordo. Verdade ou mentira, só uma história para garotinhas dormirem, tanto faz. Sinto saudades dele, saudades de todos os nossos natais. Sinto falta do seu cheiro e da sua voz, das suas piadas sem graça.
Mas sei que as coisas são como são. E sempre serão, até que a neve comece a cair.


Continua...



Nota da autora: Eu não sei vocês, mas eu AMO o Natal, amo tanto quanto a Hazel e, é muito sério, acabou dia 25, no dia 26 já faço os planos para o próximo. E depois de dois anos tão difíceis, entre perdas doloridas e decepções, cansaço e sensação de medo, acho nada mais do que justo uma história para aquecer os corações, mesmo que seja só um pouquinho, só por um instante. Eu espero que gostem dessa historinha preparada com carinho, com memória, nostalgia e também com muita saudade, da infância e dos natais que vivemos e que ainda viveremos. Feliz Natal, que o amor dos Shepard e dos Knox entre em suas casas e os faça sorrir um pouquinho mais. Aproveitem as festas, um beijo do Grinch e da Mamãe Noel ❤️

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