FFOBS - Trilha Sonora do Desastre, por Bianca Ferreira

Última atualização:09/01/2026

Prólogo

As pessoas sempre falam como suas primeiras vezes marcaram suas vidas. Eu nunca me importei com isso. O que me incomoda de verdade são as últimas vezes. Porque é impossível saber quando elas estão acontecendo.
Meses antes da formatura do ensino médio, recebi a notícia que minha professora do primário havia falecido. Já fazia algum tempo que eu não pensava nela, mas aquela notícia me atingiu como uma bomba. Durante os breves minutos que fiquei no funeral, tentei lembrar a primeira vez que a vi. Devia ter sido no primeiro dia de aula, mas eu era nova demais para ter qualquer lembrança. Apesar disso, eu lembrava da última vez. Eu estava no supermercado, nos encontramos no corredor. Ela perguntou o que eu faria quando terminasse a escola, eu respondi que estava pensando em estudar literatura. Ela me desejou sucesso. Eu jamais imaginei que aquela seria a última vez que a veria.
Passei as semanas seguintes pensando sobre minhas últimas vezes. Meu último dia de aula, a última vez que andei de bicicleta, a última vez que brinquei de boneca. Desde então, eu sempre me fiz a pergunta: é a última vez que estou visitando esse lugar? A última vez que estou vendo esse filme? A última vez que estou falando com essa pessoa?
Isso nunca deixou de me assombrar.
Naquela noite, quando virei as costas e segui com passos firmes pela rua escura, ouvi Kevin chamar meu nome. Não imaginei que seria a última vez que ouviria sua voz. Não imaginei que aquelas seriam as últimas palavras que eu diria para ele.
Nossa amizade era tão antiga que eu não lembrava da nossa primeira conversa. Mas jamais esqueceria a última. E aquela lembrança sempre voltava para me visitar, de mãos dadas com a culpa.
E ali estava ela, dando um último aceno antes da cortina fechar. Como uma banda retornando ao final do show para um encore. Quando eu achei que tudo estava resolvido. Quando eu achei que poderia ficar bem.
E ela me levou à outra lembrança, quando em uma das minhas muitas noites de insônia fui para a sala, liguei a TV e Kill Bill: Vol 2 estava passando. Eu tinha doze anos na época, e uma cena em específico ficou gravada em minha mente para sempre. Não foi a violência. Nem o sangue. O que chamaria a atenção de qualquer criança. Não. O que me prendeu foi a cena em que a noiva dá o golpe final contra Bill.
Ele sabe que irá morrer. Assim que der cinco passos seu coração irá explodir. E sem derramar nenhuma lágrima, ele se levanta, arruma sua roupa, e sem hesitar, sem tentar enganar a morte, Bill caminha em encontro à ela.
Sempre admirei a serenidade com que ele encara o seu próprio fim.
Alguns anos depois, li A morte de Ivan Ilitch na escola. Quando terminei, soube de que maneira gostaria de morrer. Não era como Ivan Ilitch. Não me refiro à definhar por uma doença, afinal, nenhum de nós tem o luxo de escolher nas mãos de qual mal vamos partir. Mas eu sabia que não gostaria de morrer como ele. Lamentando, sentindo pena de si mesmo. Tentando se agarrar com todas as forças ao último fio de esperança que resta, se debatendo e lutando para sair dos braços da morte. Não. Eu preferia morrer como Bill, onde sabendo que nada pode ser feito, só resta encarar a morte, olhá-la nos olhos, e permitir que ela me guie.
Dizem que partimos desta vida sozinhos, mas estão todos errados. Partimos deste mundo de mãos dadas com a morte. Ela nos carrega como um pai levando o filho que adormeceu no sofá para descansar na cama.
Mas isso não importa mais, e só agora eu percebo. Quando ela chega, quando ela fica tão próxima que é possível sentir o ar ao redor se tornando denso, é difícil se apegar a qualquer desejo pessoal.
Deitada no asfalto molhado. Sentindo as gotas de chuva que caíam com cada vez mais força se misturando ao meu próprio sangue quente, escorrendo pelo chão. Quase podia sentir os dedos gélidos dela me tocando, pronta para me levar.
Fechei os olhos e aceitei.
Ao menos eu iria ver Kevin outra vez.

CAPÍTULO 1: IN MY LIFE

“Há lugares de que vou lembrar por toda a minha vida, embora alguns tenham mudado, alguns para sempre, não para melhor. Alguns já se foram e outros permanecem” — In my life, The Beatles

2 meses antes
A lanchonete à beira da rodovia era tão familiar, que mesmo dez anos depois, para onde quer que eu olhasse, parecia que nem um dia havia se passado.
O letreiro em neon, com o nome Daisy’s, ainda estava com a letra “A” queimada. Os estofados vermelhos desgastados nos bancos, o sino em cima da porta que soava sempre que alguém passava por ela, as mesas de madeira com nomes entalhados na superfície permaneciam como antes. Assim como as cortinas quadriculadas em vermelho e branco nas janelas, a lâmpada com mal contato perto da porta dos banheiros, que piscava sempre que a jukebox começava a tocar.
Tudo estava igual. Inclusive eu. Por isso eu não queria voltar.
Eu imaginei que um dia veria aquela cidade e aquelas pessoas de novo, mas achei que seria uma nova pessoa. Teria um emprego estável, seria bem sucedida, me tornaria o assunto mais comentado quando colocasse os pés ali. Mas tudo o que eu desejava agora era ser invisível. Eu só queria que ninguém me reconhecesse.
Ainda assim, eu precisava voltar. Minha vida havia se tornado um mar de incertezas, mas eu tinha uma promessa a cumprir, bem ali, no quintal da minha antiga casa, com as pessoas que eu costumava chamar de amigos.
Mas essa é a especialidade da vida. Quando você menos espera, ela te passa uma rasteira, te derruba e pisa por cima até você ficar irreconhecível. E sendo bem sincera, eu não me reconhecia mais.
Afinal, o que eu havia me tornado? A aluna que foi votada como a mais propensa a se tornar presidente do país, que todos juravam que teria uma carreira brilhante, mas que não conseguiu manter o emprego de professora do fundamental.
Essa era eu. Um compilado de decepções.
Às vezes me perguntava para onde teria ido aquela adolescente cheia de aspirações, com tantos interesses e sonhos. Talvez ela tenha sido enterrada junto com o melhor amigo, que morreu cedo demais. Talvez tenha ficado para trás quando eu fugi daquela cidade para nunca mais voltar.
Eu não tinha mais nenhuma ambição. Se me perguntassem o que eu queria, o que ninguém nunca perguntou, eu responderia que desejava viver em uma cabana isolada no meio de uma floresta, sem ver ninguém, sem dar satisfação para ninguém. Não haveria uma só pessoa para criar expectativa sobre mim, então, não haveria ninguém para decepcionar.
Mas pelo contrário, eu havia voltado à estaca zero, e não havia mais para onde fugir.
— Eu preciso de música — sussurrei para mim mesma, um hábito que havia se tornado frequente.
A Jukebox continuava escondida no mesmo canto escuro. Coloquei uma moeda, selecionei a música, e aguardei In my life, dos Beatles começar a tocar.
Os primeiros acordes tocaram, e quando John Lennon começou a cantar, fechei os olhos, me permitindo levar pelo ritmo lento.
Em uma semana, eu terminaria o que vim fazer ali. Teria cumprido minha promessa, me livrado do que me prendia naquela cidade e poderia ir para qualquer lugar. Eu não precisaria explicar nada para ninguém. Já tinha feito isso uma vez, nada me impedia de fazer de novo.
“Já não está cansada de fugir?”
Era como se eu pudesse ouvir a voz dele. Kevin, com toda a sua sabedoria acumulada em dezessete anos.
Mas ele não estava ali. O sofá no canto perto da janela, onde costumávamos passar horas comendo batata frita, ouvindo música e falando sobre os livros que estávamos lendo e os filmes que tínhamos assistido, estava vazio. Ele jamais estaria ali outra vez, mas eu lembrava…
— Não estou fugindo — tentei argumentar, mesmo que soubesse que ele estava certo.
Kevin riu, ajeitando os óculos.
— Então, o que está fazendo?
— Rejeitando a ideia — estendi o folheto para ele. — E me poupando de passar vergonha.
Kevin passou a mão pelos cabelos. As ondas loiras caindo sobre seus olhos.
— Você é ótima , precisa parar de acreditar no contrário.
— Você só diz isso porque é meu melhor amigo — brinquei, mas ele estava sério.
— Se não se arriscar, não vai sair daqui nunca.
— Eu não quero sair daqui.
Mas eu queria. Apesar de nunca ter dito em voz alta.
Eu preferia não tentar do que fracassar.
Ao contrário de Kevin. Ele almejava muito mais, mesmo que às vezes soubesse que estava desejando o impossível. Ele tinha sonhos grandiosos. Sairia daquela cidade e conquistaria o mundo. Mas eu era covarde até mesmo para participar de um concurso de escrita. Porque eu sabia que iria perder, e queria me poupar de qualquer decepção.
— Alguém vai ter que representar a escola nisso — ele insistiu chacoalhando o panfleto, ignorando minha mentira. — Por que não pode ser você?
— Porque tem gente melhor do que eu — segurei a mão dele, pegando o panfleto. — Deixa pelo menos eu terminar o meu livro.
— O livro que você não me deixa ler?
— Ainda é só um rascunho, quando estiver finalizado você será o primeiro.
Ele chacoalhou a cabeça em negação.
— Você é boa demais para essa cidade, como não consegue ver isso?
— Por que você quer tanto ir embora? — perguntei. — Sua família toda mora aqui, é amigo de todo mundo, é o queridinho dos professores…
— Porque eu não vou conseguir realizar meu sonho vivendo aqui — ele me interrompeu.
— Ser um rockstar? — brinquei.
Mas ele falava sério:
— Ser feliz.
Aquelas palavras, ditas com tanta suavidade, ainda me machucavam.
Eu saí daquela cidade. Kevin não. O livro, que ele nunca leria, também não foi terminado.
Eu comecei uma vida nova, bem longe dali, mas não havia encontrado felicidade. Eu estava de volta, e tudo o que eu queria era vê-lo só mais uma vez. Mas ele não estava mais em lugar algum.
— Você pode me emprestar uma caneta?
Pedi para a garçonete, que tirou a caneta de trás da orelha e me entregou.
Levantei a manga do casaco preto, e escrevi em meu antebraço: “Há lugares de que vou lembrar, por toda a minha vida, embora alguns tenham mudado, alguns para sempre, não para melhor.”
Agradeci, estendendo a caneta de volta para ela, que saiu me olhando com uma cara estranha. Mas ninguém impediria aquela esquisitice.
Aquela era a minha trilha sonora.
Todo domingo eu escolhia uma música, a trilha sonora da minha semana. E todos os dias escrevia um trecho da letra em meu braço. Podia ser uma música que eu tinha ouvido no rádio, minhas músicas favoritas, ou eu sorteava de um pote cheio de post its com minhas músicas mais ouvidas no ano anterior.
Fingir que uma música tocava ao fundo, tornava a vida um pouco mais fácil.
— Você não é daqui, não é?
Ignorei a voz por alguns segundos, até ter certeza de que ela falava comigo. Seu olhar não deixava dúvidas, era para mim que ela perguntava. A mulher no balcão, filha da Daisy que já havia partido há mais de vinte anos. Era a mesma que atendia meu grupo de amigos quando íamos até ali depois dos jogos de futebol. Ela tinha um pouco mais de rugas, seu cabelo estava grisalho, mas os olhos eram os mesmos.
— Estou só de passagem.
O que não era uma mentira, mas estava longe de ser verdade.
Eu sabia bem o que uma pergunta daquelas significava em uma cidade pequena. Ela queria saber toda a minha árvore genealógica, para ter certeza de que não conhecia ninguém da minha família.
— Você me parece familiar — ela insistiu.
— Morei aqui alguns anos atrás.
Outra meia verdade.
Mas eu era péssima nesse negócio de mentir.
Voltei para o balcão, de volta para meu lanche, e estava prestes a pedir para ela embalar para viagem, quando ela me interrompeu.
— Você não é a ?
Bingo!
— Sou sim — respondi, sorrindo sem graça.
— Eu sabia que te conhecia, você está tão parecida com a sua irmã.
Ninguém diria aquilo, nem mesmo uma década atrás. Leslie era só um ano mais velha do que eu, mas não podíamos ser mais diferentes. Seus cabelos eram lisos, enquanto os meus eram ondulados e nunca estavam bem alinhados. Os de Leslie sempre foram mais claros que os meus, que eram de um castanho escuro, e desde a adolescência ela os tingia de loiro. Até mesmo seu rosto tinha traços mais bem definidos que o meu. O que tínhamos em comum era a altura mediana, e os olhos castanhos. Mas no geral, parecíamos apenas primas distantes.
— A senhora poderia… — tentei encerrar o assunto, mas ela me interrompeu.
— O que você tem feito? — ela se inclinou sobre o balcão. — Digo, você era tão estudiosa — ela me encarou, seus olhos brilhando, aguardando ansiosa por uma resposta.
— Sou professora de literatura — respondi, alterando a verdade outra vez.
— Não me surpreende, você sempre andava com um livro — ela apontou para a mesa onde sempre nos sentávamos, como se estivesse nos vendo ali. E eu quase podia ver nossos fantasmas em torno da mesa. — Voltou para ver seus amigos?
— Na verdade não, nem tenho certeza se eles ainda moram aqui.
— Ah eles estão aqui sim, sempre vem aqui — ela assegurou animada, passando um pano sobre a madeira do balcão, mesmo que estivesse limpa. — Claro, não todos juntos como costumava ser, tudo mudou depois daquela tragédia, que coisa horrível…
Quando percebi para onde aquela conversa estava nos levando, tentei mudar de assunto:
— A senhora poderia embalar para viagem, por favor?
Ela estava tão entusiasmada que interrompê-la pareceu falta de educação, mas era melhor do que ter que reviver aquele verão outra vez.
— É claro, querida.
Pude respirar, pelo menos por um momento, porque logo as perguntas voltaram.
— Vai passar a noite no hotel?
— Não, vou para minha casa.
— Então pretende ficar?
Ela colocou o pacote sobre o balcão, e me olhou nos olhos, esperando que eu respondesse.
— Não, só vim para vender a casa, é por isso que estou na cidade.
— Seus amigos vão ficar felizes por te ver de novo.
Derrubei a lata vazia de coca-cola de propósito para não ter que responder, mas não foi necessário, alguém a chamou na cozinha, e o sino da porta tocou.
— Não é seguro sair com esse carro, ainda mais em uma tempestade dessas, já é a terceira vez que eu preciso rebocar essa lata velha só esse mês.
— Eu já falei, não vou me livrar do Chevy!
Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Não foi preciso olhar para trás para saber que era .
Ele era um dos motivos que me fizeram voltar.
Mas também o motivo de eu ter tanto receio de os encontrar outra vez.
Eu ainda não estava pronta.
Esperei que ele e o senhor que o acompanhava se acomodassem na mesa perto da janela. Peguei o pacote e saí pela porta. Quando a sineta parou de tocar eu já estava dentro do carro.
Virei a chave na ignição e vi as luzes dos faróis iluminarem a janela. Através dela, lá de dentro, olhava para mim.
Quando entrei na rodovia, só conseguia pensar em como ele ainda estava igual. Os mesmos cabelos loiros ondulados, um pouco abaixo do queixo. O mesmo sorriso, os mesmos olhos azuis, os traços angulosos em seu rosto que sempre me lembraram de Alain Delon no filme L'eclisse. Ele usava uma jaqueta de couro sobre uma camiseta branca. E em cima do reboque no estacionamento estava seu Chevy 1959,, o mesmo carro velho que sempre dava problema.
Talvez eu não fosse a única que não havia mudado.

II


O porta-malas deveria estar cheio, afinal minha vida toda estava ali, mas era até irônico que ele estivesse quase vazio: uma caixa com livros, uma mala com roupas, uma mochila com algumas poucas coisas e um cobertor. Aquilo era tudo o que eu tinha, tudo o que eu havia acumulado em dez anos.
Observei a fachada da casa que foi meu lar por tanto tempo. Ela dava a impressão de estar abandonada. A grama estava alta, a hera havia tomado todo o alpendre na entrada. A tinta nas paredes estava descascada e as janelas cobertas por tábuas.
Inabitada por oito anos, desde que meus pais foram embora. Mas eu não pisava ali há uma década.
Com um pouco de esforço, consegui destrancar a porta. Testei o interruptor no hall de entrada e a luz se acendeu.
A visão do lado de dentro, não era muito diferente.
Os poucos móveis que restaram estavam cobertos por lençóis. Uma camada grossa de poeira se acumulava sobre o assoalho. Teias de aranha pendiam dos cantos do teto.
Subi as escadas e entrei no meu antigo quarto, testei a luz, mas a lâmpada estava queimada. Com a iluminação da lanterna do celular, tirei o lençol da cama e estendi meu cobertor. Deitei sobre ele e ouvi a chuva voltar a cair.
Aquela foi minha primeira noite de sono, depois de dois dias sem dormir.

III


É engraçado acordar em um lugar diferente.
Antes de abrir os olhos, você jura que está em sua cama. Que a janela, o armário, a porta, tudo está no seu devido lugar, e então, você abre os olhos e é um choque ver que não está.
Eu pensei que ainda estava no meu apartamento, que tudo o que aconteceu nos últimos dias não havia passado de um sonho confuso. Mas ao olhar ao redor, vi que tudo era real.
Minhas costas doíam, assim como a minha cabeça. E a imagem de não saía da minha mente. Ele me viu, é claro, mas ele me reconheceu? Eu torcia para que não, só esperava que ele lembrasse o motivo de eu estar ali, que eu não fosse a única a lembrar da promessa que fizemos.
Após tomar um banho, desci as escadas e encarei a cozinha. Ela permanecia igual. A ilha no meio, uma pequena mesa redonda próxima à janela, os azulejos atrás da pia amarelados pelo tempo, os armários brancos vazios.
Pensei em comer o hambúrguer da noite passada, mas só a ideia de aquele ser meu desjejum, e de comer naquela cozinha empoeirada, me fizeram desistir. Eu tomaria coragem e iria até o centro da cidade tomar café da manhã.

IV


O café que eu frequentava ainda estava aberto. Me falaram que o dono morreu anos atrás, mas sua filha tomava conta do lugar agora. Eram as mesmas mesas, as mesmas cadeiras, os mesmos quadros com pinturas de paisagens rurais na parede. Tudo estava igual, só mais velho.
Enquanto aguardava meu café e uma fatia de bolo, tirei uma caneta da bolsa e escrevi em meu braço “Todos estes lugares tiveram seus momentos, com amores e amigos, eu ainda me lembro”. A chuva calma e o céu cinza me faziam lembrar dos velhos tempos, das tardes frias de inverno, quando estava nublado e não tínhamos nada para fazer. Nos reuníamos na sala de estar da minha casa, colocávamos as almofadas no chão e passávamos a tarde assistindo filmes de terror ruins. Naquela época, eu sonhava em ser roteirista de cinema. Agora vejo como aquela ideia era absurda.
Mas foi em uma tarde quente de verão que decidimos fazer a promessa. Iríamos eternizar nossa juventude, nossos sonhos e nossas expectativas em uma cápsula do tempo.
A ideia foi minha, porque eu sabia que iríamos nos afastar, e aquela seria uma forma de nos aproximarmos outra vez no futuro.
Besteira! Eu daria tudo para não ter motivo para voltar a vê-los.
É engraçado ver como tudo pode mudar.
Naquele verão, tudo o que pensávamos era em como aquele era o começo das nossas vidas. Estávamos tão empolgados com o que estava por vir que acho que esquecemos do que estava terminando. Apesar de que, bem no fundo, mesmo que estivéssemos nos recusando a admitir, sabíamos que algo estava acabando ali. Por isso fizemos a cápsula, como uma promessa de que voltaríamos a nos encontrar de novo, de que voltaríamos a ser como antes.
Me perguntava se eles lembravam, não só da promessa, mas do que colocaram na cápsula. Eu evitava pensar nisso.
E continuaria assim, até que fosse inevitável.
A gargalhada veio primeiro, e então duas garotas passaram pela porta.
Quando se viraram para o balcão, tudo o que pude ver foram seus cabelos, e no mesmo momento já soube quem elas eram. Harper com seus longos cabelos dourados como o sol, e Anya com suas tranças caindo como uma cascata em suas costas.
Elas caminharam juntas até a mesa. Estavam diferentes de dez anos atrás, mas ao mesmo tempo, pareciam não ter mudado nada.
Para mim, Harper sempre foi como o sol brilhando no céu limpo em um dia frio de inverno. Não importava a situação, ela sempre estava otimista e sorridente. Mesmo quando ficava irritada ela ainda parecia controlada, como se seu corpo fosse incapaz de sentir qualquer emoção ruim. A raiva apenas tocava a superfície da sua pele, sem nunca conseguir tomá-la por inteiro. Ela era linda, a pessoa mais bonita que eu já conheci, e não fazia muito esforço para ser assim. Ela era perfeita. Era a mais popular na escola, mas isso nunca a fez ser arrogante. Era a mais inteligente, mas nunca se gabava por isso, sempre estava disposta a ajudar quem precisava. Ela era tão linda por dentro quanto era por fora. Mas talvez por não ser capaz de fazer mal a ninguém, ela achava que ninguém faria mal a ela, e por isso ela sofria. Esse talvez fosse o único sentimento que ela era capaz de ter além de alegria. A tristeza conseguia tocá-la.
Anya não era muito diferente, eu sempre dizia que ela era como o sol em um dia quente de verão. A luz que emanava de dentro dela irradiava, e ela sentia tudo, em toda a sua plenitude. Ela não se importava em andar pela rua com seus fones de ouvido, dançando como se ninguém a estivesse observando. Não se importava de gargalhar dentro da sala de aula quando Matt dizia alguma coisa engraçada, mesmo com o olhar acusador dos professores. Anya era tudo o que eu desejava ser. Eu brincava dizendo que ela era Iridessa, uma das fadas amigas da Tinkerbell. Não só pela aparência, apesar de elas serem iguais, mas também porque Anya parecia um tipo de ser etéreo, em seus gestos, em seu andar, em sua voz.
Tudo indicava que elas continuavam melhores amigas. Algo que eu nunca tive depois delas.
Senti uma pontada de mágoa passar pelo meu peito, mas uma voz em minha cabeça me disse: “A culpa foi tua, você foi embora”. Mas teria sido tão pior se eu ficasse.
Me afundei ainda mais na cadeira, puxando meus cabelos para a lateral do meu rosto, tentando me esconder.
Terminei meu bolo, e quando um grupo de jovens entrou em debandada, eu saí.
— Deixa de ser ridícula! — disse em voz alta, olhando meu reflexo no espelho retrovisor do carro.
Afinal, eu teria que ver eles. Esse era o ponto de eu ter voltado para aquela cidade miserável que não tinha evoluído um dia sequer.
“Pare de mentir pra si mesma, não foi por isso que você voltou”, a voz na minha cabeça insistiu.
E ela estava certa, se a minha vida estivesse como eu havia planejado, eu não estaria ali. Mas eu era tão miserável quanto aquela cidade.

V


Dirigi em baixa velocidade pelo centro da cidade, observando quão pouco ela tinha mudado. A escola onde passei o colegial havia sido pintada, mas as janelas, as portas, a escadaria, tudo ainda estava igual. Hora ou outra encontrava um rosto familiar na rua, mas todo mundo tinha um semblante exausto. Vi casas da vizinhança que naquela época eram cheias de vida, mas agora estavam abandonadas. Os personagens eram os mesmos, os cenários também, mas tudo parecia mais triste.
Desviei o caminho para não passar em frente à casa de Kevin. Parei o carro no semáforo, e desviei meu olhar por alguns segundos para trocar de música no rádio.
E quando meus olhos se ergueram, lá estava Matt, atravessando a rua, com o mesmo andar confiante que tinha na época da escola, como se não tivesse nenhuma preocupação. Ele usava um macacão de mecânico, pelo jeito trabalhava na oficina do pai agora. Ele havia se tornado exatamente o que prevíamos que seria.
Me abaixei, fingindo pegar algo no porta-luvas, torcendo para ele não me ver, voltei minha atenção ao trânsito quando uma buzina tocou atrás de mim.
Buzinei de volta e segui meu caminho.

VI


— Vai ter que encarar eles — só depois percebi que tinha dito em voz alta. Por sorte o corredor do mercado estava vazio, mas quando fiquei na ponta dos pés e estiquei o braço para pegar um produto na prateleira mais alta, ouvi alguém chamar meu nome:
?
Era Joe.
Eu sabia antes de olhar.
— É claro que é você, ninguém mais escreve letras de música no braço — ele disse rindo.
Encarei meu braço levantado. A manga do casaco caindo até meu cotovelo, deixando a frase à mostra.
Ele não me deu tempo para responder. Me envolveu em um abraço apertado.
— Eu senti tanta saudade.
Fechei os olhos e aproveitei aquela sensação por um momento.
— Eu também.
Mas a verdade é que não pensei muito em nenhum deles depois que fui embora. Eu sabia que estava fazendo o que era certo. Que um dia teria que voltar e encarar eles e todas as consequências do que fiz, mas enquanto esse dia não chegasse, eu não pensaria nisso. Era assim que eu sobrevivia, evitando pensar em tudo o que poderia me machucar.
— Quando você voltou?
Joe se afastou, mas permaneceu segurando minhas mãos.
— Cheguei ontem à noite.
— Bem que o disse que te viu na lanchonete, mas ele não tinha certeza se era você — ele estava animado, algo que não era comum do Joe que eu me lembrava, as palavras tropeçavam como se ele tivesse muito a falar. — Achamos que ele estava delirando de novo, não seria a primeira vez que ele viu uma miragem de você por aí.
Ele riu, mas não consegui acompanhá-lo. O que aquilo significava? Eles ainda pensavam em mim? Ainda falavam sobre mim? E a pergunta principal:
— Vocês ainda se falam?
Joe deu os ombros.
— Eu e os caras nos vemos de vez em quando, mas as meninas vivem no mundo delas. Tudo mudou depois que você foi embora.
“Não”, a voz na minha cabeça queria corrigi-lo. “Tudo mudou depois que o Kevin morreu”, mas eu ainda não conseguia dizer aquelas palavras em voz alta.
— Por quanto tempo você vai ficar?
Ele soltou minhas mãos. Cruzando os braços, me olhando da mesma forma que olhava para os anagramas que adorava resolver. Aquele era o Joe que eu conhecia.
A camisa com o colarinho bem passado, o suéter azul escuro sobre ela. Ele sempre se vestia assim quando não estava com o uniforme da escola. Mas agora, o blazer de tweed marrom dava um ar mais maduro, apesar de que, os olhos castanhos, da mesma cor de seus cabelos bagunçados, que sempre foram impossíveis de domar, ainda eram os mesmos. Dava a impressão de que ele não tinha envelhecido um dia sequer.
— Se tudo der certo, em uma semana eu vou embora.
— Pensei que fosse ficar por mais tempo.
— Eu queria, mas, você sabe…
— É eu sei — ele sorriu.
Senti que nenhum de nós sabia do que estava falando.
— A gente podia sair, para você me contar o que fez depois que foi embora.
— Seria legal.
A resposta saiu involuntária, e surpreendeu até mesmo a mim.
Mas Joe era diferente de todos os outros, sempre foi fácil estar perto dele.
— Você está livre hoje à noite?
Mas ele não se lembrava da promessa.
— Você não lembra?
Ele franziu as sobrancelhas.
O encarei por mais alguns segundos e então a realidade o atingiu.
— É hoje?
Balancei a cabeça, confirmando.
— Não pode ser, já se passaram dez anos?
— Dez anos — repeti. — Dá pra acreditar?
— Por isso voltou?
Confirmei, não era uma completa mentira.
— Caramba, eu nem lembro o que a gente colocou naquela cápsula — ele levou uma das mãos até a nuca, olhando ao redor. Como se pudesse encontrar a resposta em uma das prateleiras.
— Acha que os outros lembram? — perguntei, receosa.
— Não, com certeza não, mas eu posso falar com eles.
— Eu preferia que não — segurei seu pulso.
Não tinha a intenção de parecer desesperada, mas era a minha chance de resolver aquilo, sem vê-los outra vez.
— Por que não?
— Eu só não queria fazer isso sozinha, mas já que tenho você, podemos fazer isso juntos, depois enviamos as caixas deles.
— Isso seria injusto, .
— Seria? Ou estaríamos poupando eles de ter que abrir a caixa do Kevin?
Porque de uma coisa eu lembrava. Na cápsula, tínhamos colocado um sonho que gostaríamos de realizar, e o sonho de Kevin, jamais se cumpriria.

CAPÍTULO 2: THE END

“Este é o fim, meu único amigo. O fim dos nossos planos elaborados. O fim de tudo o que resta.”
— The End, The Doors


Da janela do meu quarto, podia ver a chuva que caía desde o final da tarde empoçando a grama ao redor da árvore. Mesmo que tantos anos houvessem passado, eu sabia que aquele era o lugar onde a cápsula estava enterrada.
Depois de um dia todo de faxina, eu ainda terminava de limpar meu quarto. E eu sabia bem porquê havia deixado ele por último. Era o único cômodo que não havia mudado.
Minha cama, agora com lençóis limpos, estava no mesmo lugar. Os posters de filmes variados, como Pequena Miss Sunshine, Clueless, Halloween e tantos outros ainda cobriam uma parede inteira, só estavam um pouco desbotados. Até mesmo o armário estava com as roupas que eu deixei para trás.
Eu abandonei tudo quando fugi. Não me preocupei em pedir para meus pais me enviarem, ou voltei para buscá-las. Quando eles perguntaram o que deviam fazer, eu disse: queimem. Porque eu não me importava mais.
Aquelas coisas pertenciam à do passado, que deixou de existir quando seu melhor amigo foi assassinado. Elas não me pertenciam, só traziam recordações que eu não queria lembrar.
Achei que nunca mais fosse vê-las, mas ali estava eu, de frente para a medalha que ganhei por um projeto de ciências com o Joe. O porta-jóias que ganhei da Harper no último aniversário que comemorei com eles. A caneca com formato de fantasma que eu usava para guardar meus lápis de cor, havia sido um presente de . O desenho que Kevin havia feito em uma folha de caderno, mostrava uma garota de longos cabelos ondulados sentada em frente à janela. Eu mesma.
Passei os dedos sobre os porta-retratos na prateleira, abrindo caminho em meio à poeira. A primeira foto era do início do colegial, quando nosso grupo se formou. Já nos conhecíamos antes, alguns de nós já eram amigos, mas foi quando o professor de literatura nos colocou no mesmo grupo para um trabalho sobre o livro “O Senhor das Moscas”, que nos tornamos um só. Os professores sabiam que não adiantaria nos dividir em duplas para os trabalhos, e muito menos nos colocar em grupos separados, sempre acabaríamos juntos.
Onde estava , estava Kevin, , Harper, Matt, Anya, Joe e Ian. Não importava se eu odiava futebol, se Ian estivesse jogando, todos nós estaríamos na arquibancada para torcer. Se Joe ganhava um prêmio acadêmico, todos estávamos lá para aplaudi-lo. Se Matt estivesse prestes a reprovar de novo, todos passaríamos a noite em claro ajudando ele a estudar. Se e Kevin iriam se apresentar em uma festa, todos estaríamos lá para ouvir. Éramos um só, mesmo com todas as diferenças, todas as discussões, as brigas, estaríamos lá uns pelos outros, não importava o que fosse.
Até que eu quebrei esse vínculo, os deixando no momento que eles mais precisavam. A outra foto foi tirada naquele verão. Um dia depois da formatura, o dia em que enterramos a cápsula do tempo. Lembro que Matt segurava uma garrafa de vinho, e na hora da foto, escondeu atrás de Harper. Ela não olhava para a câmera, estava beijando a bochecha de Kevin. Já fazia quase três meses que eles estavam namorando. Ian, ao lado deles, passava um braço sobre os ombros de Joe, o puxando para mais perto. Anya estava sentada na arquibancada em frente a eles, pernas cruzadas, a cabeça encostada no meu ombro. Meu braço estava enroscado no de .
Era estranho pensar que eles eram as pessoas mais importantes da minha vida. E agora nem nos falamos mais.
No canto do quarto, estava o violão que Kevin me deu. A superfície cheia de desenhos feitos por ele com caneta permanente. Ele prometeu que me ensinaria a tocar naquele verão. Não tivemos tempo de passar da primeira aula.
Só queria ser capaz de voltar para o passado. Antes de tudo acontecer. Sentir aquela sensação de plenitude, de achar que éramos infinitos. Que os sonhos eram planos distantes, que em algum momento iriam se realizar. Saber que pertencíamos um ao outro, e que nada nos separaria.
Me perguntei o que teria acontecido se eu não tivesse fugido, se tivesse ficado ali. Ainda estaríamos naquele banco no Daisy’s? Ouvindo as mesmas músicas e contando as mesmas histórias? Nada teria mudado? Ou o peso do tempo ainda recairia sobre nós e nos esmagaria?
As duas batidas na porta, soaram como um trovão. Meu coração acelerou, minhas mãos começaram a tremer. Mas então eu ri. Nos velhos tempos eu aguardava ansiosa pelo momento em que eles chegariam, e agora, uma simples batida na porta me tirava do controle. Como eu lidaria com tudo o que estava por vir se não conseguia nem abrir uma porta?
Quando consegui fazer meus pés se moverem pelas escadas, quando caminhei pela sala de estar, quando enfim meus dedos tocaram a maçaneta da porta. Eu respirei fundo.
Abri a porta e me deparei com Joe, usando uma capa de chuva. O que era a cara dele. Joe nunca sairia desprevenido em um dia chuvoso como aquele.
O sorriso em seu rosto era o de quem queria mesmo estar ali, e não estava só cumprindo uma promessa feita dez anos atrás.
— Você veio — constatei sorrindo, percebendo que talvez não estivesse tão sozinha quando eu pensei que estava.
— E eu juro que não contei pra ninguém.
O que só podia significar uma coisa.
— Joe? — insisti, vendo-o suspirar derrotado.
— Eu contei pro Ian que encontrei você, ele contou pro Matt…
— E o Matt deve ter contado pra todo mundo.
— Você conhece ele — Joe disse de um jeito despretensioso.
Mas eu conhecia? Depois de dez anos, eles eram todos estranhos para mim.

II


Servi o café quente em duas canecas e as coloquei sobre a mesa da cozinha, sentando de frente para Joe. Ficamos algum tempo só admirando a chuva que caía no quintal. Imaginei que Joe estava ponderando o quanto podia me perguntar. Ele sabia que eu não gostava de ser interrogada.
— Não sei se eles vão vir — ele disse, tentando parecer despretensioso, mas eu podia sentir que ele havia reformulado aquela frase em sua mente diversas vezes antes de dizê-la em voz alta. — Você sabe — ele continuou. — Não sei se eles vão querer lidar com isso.
— Eu entendo, se não estivesse enterrada no meu quintal, eu mesma não viria.
Tomei um gole de café, desviando o olhar para o lado de fora, mas pelo reflexo na janela, podia ver a decepção em seus olhos.
— Voltou só pela cápsula? — Joe perguntou.
Demorei alguns segundos para responder. Havia outros motivos, e esse não era nem de longe o mais importante.
— Não, vou vender a casa — esse também não foi o mais importante, mas ninguém precisava saber da verdade. — Meus pais me deram ela quando terminei a faculdade.
— Você deve ter sido uma ótima aluna.
Aquilo me fez rir.
— Nem tanto, isso é mais um castigo, eles passaram anos tentando vender a casa e nunca conseguiram, eles também não querem voltar a morar aqui, nem a minha irmã.
— Melhor pra você, não precisa pagar aluguel — respondeu otimista.
— Já disse que não vou ficar.
— Nunca se sabe — ele deu os ombros.
Mas eu já tinha tomado a minha decisão.
— Não achei que o clima ia estar tão ruim assim — falei, tentando desviar do assunto — O início do verão aqui era sempre bem abafado, de vez em quando caía uma tempestade, mas parece que estamos no meio do inverno.
— Não parece em nada com aquele verão, acho que por isso eu não percebi que já tinha chegado o dia — Joe respondeu. — Lembra como a gente passava os dias nadando no lago? Os piqueniques debaixo do salgueiro? Parece que foi ontem… — ele disse de forma sonhadora.
Mas para mim, soava como se aquelas lembranças pertencessem a outra vida. Distantes demais, talvez porque eu quase nunca pensava nelas.
— O que você tem feito? — perguntei, meus olhos encontrando os dele.
— Dou aulas de geografia para o ensino fundamental.
Eu sorri.
— Isso não me surpreende nenhum pouco. Ainda tem aquela coleção de mapas?
Ele sorriu também, traçando os padrões na madeira da mesa com os dedos. Parecia envergonhado.
— Ainda estão na minha parede. Você tinha os pôsteres de filmes, os de bandas, e eu tinha os meus mapas.
Pelo visto, eu não era a única que não havia mudado. Aquilo me fez sentir um pouco melhor.
— Eu era professora também, literatura para o ensino médio.
Me surpreendi com as palavras que saíram da minha boca. Antes de voltar, havia decidido que não contaria nada da minha vida para nenhum deles. Mas Joe tinha esse poder, de fazer você ficar confortável e contar muito mais do que pretendia.
— Dizem que o ensino médio é pior que o fundamental — Joe comentou com bom humor.
— Não é fácil. Sinto que estou pagando tudo o que aprontamos na escola. Ele riu outra vez.
— Nós dois éramos de longe os mais tranquilos, nosso problema eram as más companhias.
Eu lembrava de como os professores tentaram nos separar várias vezes. Colocavam cada um em um canto da sala, o que só espalhava o caos.
— O Matt ficava batucando com os lápis na carteira — lembrei — A Harper do outro lado da sala, ficava jogando bolinhas de papel para fazer ele parar.
— Lembra como o e o Kevin não paravam de conversar um segundo?
— E você e o Ian, implicavam um com o outro o tempo todo.
Joe balançou a cabeça, tentando conter o sorriso que se formava em seus lábios.
— Eu odiava como ele ia bem em todas as matérias. Eu me matava de tanto estudar, e ele tirava as notas mais altas sem nunca abrir o caderno.
— E lembra como a Anya conversava com os professores como se fossem melhores amigos?
— Eles passavam tanto tempo contando da própria vida, que nem percebiam a bagunça que estávamos fazendo.
— E depois ela contava tudo para nós.
— E tinha você, todo mundo achava que era a mais comportada, mas passava a aula toda escrevendo fanfics — Joe disse de maneira acusadora, como se eu fosse um de seus alunos.
Se fechasse os olhos ainda conseguia me lembrar do barulho, das conversas, das risadas.
— Sinto falta daquela época — confessei.
— Eu também. — a melancolia de repente recaiu sobre nós.
Tentei lembrar do nosso último dia na sala de aula, mas não consegui.
Me lembrava da formatura, da última vez que fomos ao lago, e da nossa última noite no Daisy’s.
A noite em que Kevin foi assassinado.
— Nunca descobriram quem foi — aquela frase veio de repente, olhei para Joe e percebi que dessa vez ele não havia ensaiado, que as palavras saíram antes que ele pensasse duas vezes, como se tivesse ouvido onde meus pensamentos me levaram.
Bebi outro gole do café, olhando para o fundo da caneca.
— Você lembra — ele falou. — Encontraram a faca naquele beco, mas nunca identificaram de quem eram as digitais.
Eu não consegui responder. Todas as frases que passaram pela minha cabeça pareciam inadequadas.
A campainha tocando me salvou. Saí da cozinha sem dizer nenhuma palavra.

III


Do outro lado da porta, Ian me observava. O mesmo sorriso encantador de sempre. Por muito tempo achei que aquela era sua tática para fazer todas as garotas da escola se apaixonarem, mas depois percebi que era só o seu jeito mesmo, e que ele nem se dava conta do poder do seu charme. Ian tirou o capuz do moletom, a pele negra de seu rosto estava coberta por pequenas gotículas de chuva. Ao contrário de Joe, ele nunca levava um guarda-chuva. Ele sempre foi musculoso, mas seus ombros estavam ainda mais largos. Ele ainda usava o mesmo corte alto nos cabelos crespos. O único sinal de que algum tempo havia se passado era a barba em seu rosto.
— disse de uma maneira formal.
— Ian — respondi no mesmo tom, tentando fazer graça, mas o sorriso em seu rosto desapareceu.
Fiz sinal para ele entrar.
— Só queria deixar registrado que eu não queria vir.
— Não precisava ter vindo — respondi, fechando a porta.
— Já tentou discutir com o Joe? — perguntou.
Aquilo significava que Joe não havia apenas espalhado a informação, ele havia obrigado Ian, e talvez os outros também, a virem.
Antes que eu pudesse chegar à cozinha, a campainha soou outra vez.
Dessa vez eram Harper e Anya. Fechando seus guarda-chuvas e os deixando na varanda.
— Chuva sempre é um bom sinal — Anya disse otimista, me envolvendo em um abraço e beijando meu rosto.
— Eu sabia que você ia voltar — Harper me abraçou também.
Eu não podia esperar nada diferente delas. Mas vê-las tão felizes pelo meu retorno só fazia aquela dor no meu peito aumentar ainda mais. Eu era uma pessoa horrível e egoísta, não merecia a amizade delas.
Enquanto encostava a porta, vi uma moto estacionar junto ao meio fio. Era Matt.
Ele veio sorrindo, do carro até a varanda. Caminhando com passos lentos, sem se importar com a chuva que caía. Tirou o boné. Seus cabelos pretos estavam bagunçados, como se ele sequer os tivesse penteado. A barba por fazer, a camisa com estampa havaiana sobre uma regata branca, deixavam evidente que ele era o mesmo Matt que eu conhecia.
! — ele gritou, abrindo os braços.
O abracei com força. Sentindo seus braços fortes me envolverem. Matt sempre teve um tronco largo, resultado do trabalho pesado na oficina do pai, mas agora parecia ainda mais forte.
Era engraçado pensar que, enquanto dirigia de volta para a cidade, imaginei aquele momento de muitas maneiras. Esperava desconforto, estranheza, mas jamais pensei que seria tão fácil estar com eles outra vez.
Mas ainda faltava um: . E meia hora depois, minhas esperanças já tinham ido embora.
— Ele não vai vir — Ian falou, após vários minutos andando de um lado para o outro na cozinha.
— Talvez ele venha — Anya tentou animar. — Ele era o melhor amigo do Kevin, ia querer ver o que tem na cápsula
— É por ser o melhor amigo que ele pode querer não ver — Joe retrucou, suas palavras eram suaves, mas soavam tristes.
Meu olhar se mantinha na porta. Aguardando, mesmo contra todas as possibilidades, que ele viesse.
Mas não havia razão para continuar esperando.
— Vamos fazer logo isso — anunciei. — Sem ele.
Levantei da cadeira e vi os outros fazerem o mesmo. Seguimos até a porta que dava para o quintal. Senti a brisa fria tocar meu rosto quando a abri, uma leve garoa permanecia, peguei a pá na varanda e então ouvi uma batida na porta.
Era ele.
não tinha fugido.
Diferente dos outros, ele não me recebeu com abraços, com falas de como havia sentido minha falta ou questionamentos de porquê eu fui embora. Era como se tivéssemos nos falado todos os dias, e ele já estivesse cansado de me ver.
— Vamos fazer logo isso — ele repetiu minhas palavras, evitando me olhar nos olhos, e caminhou com passos rápidos até o quintal. Ele parecia exausto de si mesmo.

IV


Enquanto nos revezamos para cavar, percebi que todos estávamos cansados. Não do esforço físico, mas de ter nos colocado naquela situação. É claro, ninguém podia imaginar o que aconteceria com Kevin, mas podíamos ter quebrado aquela promessa, desenterrado aquela caixa há muito tempo. Mas escolhemos nos torturar por dez anos, e agora, por dez minutos mais.
A ideia de uma cápsula do tempo havia sido minha, mas as sugestões do que colocar lá tinham partido de todos: uma carta, para nós mesmos do futuro; uma lista com nossos livros, filmes, bandas e músicas favoritas; um objeto que tinha algum significado; uma mecha de cabelo e um sonho.
Eu lembrava qual sonho eu tinha escolhido. Na página arrancada de uma edição velha do livro “A Redoma de Vidro”, eu coloquei, com uma caligrafia cursiva em tinta rosa: “Escrever um livro”. Eu não tinha realizado esse sonho. Na verdade, ele estava cada vez mais distante. Não sei o que os outros colocaram, nem se chegaram a realizar, mas nós ainda tínhamos tempo. Talvez um dia eu conseguisse escrever meu livro, mas o sonho de Kevin jamais se realizaria.
A única vez em que falei sobre isso foi com , três dias depois do Kevin partir, na véspera do funeral.
Ele me ligou no meio da noite. Acordei com o celular tocando e nos breves segundos que demorei para encontrá-lo e atender, senti meu coração apertando, como se estivesse sendo esmagado. Eu esperei por uma notícia ruim. Era só o que eu conseguia pensar naqueles dias.
Mas era , e diferente da minha voz sonolenta, ele parecia desperto. Me perguntei se ele havia dormido.
— Preciso falar com você — ele confessou. — Quer dar uma volta?
E minutos depois eu estava dentro do velho Chevy, seguindo pela rodovia.
Eu não sabia para onde íamos, e isso não importava muito. A música no rádio estava baixinha, “The End” do The Doors, a banda favorita de . Apesar de ser verão, estava frio. Uma neblina densa se formava no caminho à nossa frente. Mal dava para enxergar as placas na beira da estrada.
Minha atenção se dividia à estrada à nossa frente a ao pequeno bonequinho preso ao painel. Ele ostentava um moicano em sua cabeça de tamanho desproporcional, que balançava sempre que o carro se movia, e segurava uma guitarra.
Não trocamos nenhuma palavra desde que eu entrei no carro. Já tínhamos andado por quase meia hora quando enfim quebrou o silêncio.
— Podíamos ter feito alguma coisa? — sua voz saiu fraca.
No início não entendi se ele estava afirmando, ou se era uma pergunta. Mas não importava o que fosse, a resposta para ambas era a mesma.
— Eu já refiz aquela noite várias vezes na minha cabeça— desviei meu olhar para a janela, observando a neblina que se acumulava em torno das árvores. — Eu não sei… Eu acho que não — menti.
Eu tinha imaginado aquela noite de tantas formas diferentes. Tudo que eu poderia ter feito. Mas nada que fizesse mudaria alguma coisa.
— Se eu tivesse imaginado…
— Ninguém pode prever o futuro, — assegurei, colocando minha mão sobre seu ombro — Se soubéssemos, tudo teria sido diferente, mas… Não é assim que a vida funciona. Você não teve culpa, ninguém teve…
“Eu tive”, aquela voz incômoda gritou na minha mente. Fechei os olhos e chacoalhei a cabeça para afastar aqueles pensamentos.
passou a mão nos olhos, fungou e então fez jeito de que iria voltar a falar, mas desistiu no último segundo.
O nó em minha garganta aumentou mais, mas eu não iria chorar.
Não havia chorado nos dias que se passaram, eu não iria desabar agora.
— O que acha que ele colocou na cápsula? — perguntou. — Qual sonho?
Balancei a cabeça, sentindo as lágrimas em meus olhos. Apertei meus lábios com força e em um último esforço para não chorar, disse depressa:
— Ele não contou pra ninguém — minha voz foi só um sussurro.
acenou a cabeça em concordância.
— Talvez ele tenha conseguido — respondi, mesmo que não acreditasse no que estava dizendo. — Ele tinha conseguido entrar pra faculdade.
Era isso o que eu repetia para mim mesma há dias. Mas no fundo eu sabia que aquele não era o sonho de Kevin.
E também sabia.
Ele parou o carro no acostamento. E então começou a chorar.
Ele nunca chorava na frente das outras pessoas, assim como eu. Mas quando o peso ficava grande demais para carregar sozinhos, quando precisávamos colocar o que sentíamos em palavras, sempre procurávamos um ao outro.
O puxei para um abraço, ele afundou o rosto no meu pescoço, e ficamos ali, abraçados, tirando nossas máscaras e mostrando o quanto éramos vulneráveis, que não conseguíamos mais fingir ser fortes.
Eu dirigi no caminho de volta, mesmo que jamais deixasse qualquer outra pessoa dirigir o Chevy 1959 que ele havia herdado do pai.
Nos despedimos com um abraço e um beijo no rosto.
Aquela foi a última vez que o vi.
Escondida embaixo da minha cama estava a mochila com as poucas roupas que eu iria levar. Quando o dia amanheceu, eu já estava longe.
Voltei à realidade quando senti a pá bater na madeira escondida sob a terra.
O momento de encarar o passado tinha chegado.


Continua...



Nota da autora: S/N

Nota da scripter:
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.