Capítulo Único
Existe uma certa adrenalina no jornalismo que só quem tem sede por informação consegue compreender. Entenda: é fácil saber um pouco sobre muitos assuntos. Mas há algo quase visceral em destrinchar a cadeia de eventos que constrói uma boa história — uma obstinação que só os mais inquietos possuem.
Muita gente por aí diria que isso não passa de um transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Mas eu prefiro chamar de superpoder.
Claro que os jornalistas da editoria criminal adoram se gabar, achando que estão num patamar acima por lidarem com sangue e uma cadeia de acontecimentos catastróficos. Eles se encantam com a ideia de mergulhar na sujeira com o aval das autoridades. Mas sejamos honestos: qualquer um com acesso e um pouco de estômago pode fazer isso. Não há nada de especial nisso.
Os verdadeiros fodões somos nós — aqueles que enfrentam a verdadeira selva: os sociopatas que não cometem erros grosseiros. Aqueles que não são pegos. Que andam de terno, falam a língua do dinheiro e se escondem à vista de todos. Eles, sim, são os mais perigosos. E desmascará-los é onde está a verdadeira emoção.
Fazer isso e, de quebra, realizar indiretamente o sonho do meu irmão… É um privilégio que ninguém pode tirar de mim.
Aquele era meu primeiro ano representando a BBC no comitê jornalístico da Fórmula 1. E, pela primeira vez em cinco anos, a ausência dele não era tão difícil. Pela primeira vez, ele não parecia tão longe.
O céu de Miami estava limpo no dia das classificatórias, e o calor do asfalto ondulava a imagem dos carros nos treinos livres. Eu podia até imaginar o sorriso debochado de Adam, se gabando de quanto peso perderia naquela corrida — e de como, depois, comeria o que quisesse. Nem o serviço de quarto mais decadente o deteria.
— Trouxe chá gelado pra você — disse Joshua, sentando-se ao meu lado na área reservada à imprensa.
— Obrigada, você é muito gentil — respondi, aceitando o copo plástico já suado pelo contraste de temperatura.
— Achei que podia ajudar com essa sua terapia de choque sob o sol da Flórida — brincou ele, limpando uma gota de suor na têmpora.
— Muito engraçado, Fields — revirei os olhos. — Eu sou uma garota da praia agora, diferente de você.
Josh fez uma careta divertida, o que só realçou o vermelho em seu nariz já castigado pelo sol.
— O que isso quer dizer?
— Você passou protetor solar? — perguntei, meio séria.
Os olhos dele se arregalaram. Em segundos, estava vasculhando sua mochila num desespero cômico. Não resisti e ri.
— Merda — murmurou, os braços mergulhados até os cotovelos na bagunça da mochila.
— Aposto que esqueceu — provoquei, só pra ouvir seu típico grunhido de indignação.
— Você não tá ajudando.
Apenas balancei a cabeça e entreguei meu bastão de protetor solar. Ele aceitou com um suspiro de alívio. Logo depois, tirou o celular do bolso traseiro da calça jeans e abriu a câmera frontal para aplicar o protetor como se fosse um espelho improvisado.
Dessa vez segurei o riso, desviando o olhar dele para voltar ao que importava: a pista.
Reconheci o vermelho característico da escuderia Rinspeed quando o carro passou rasgando o asfalto. A essa altura, devia ser Henri Chevalier no volante.
Ao meu lado Josh riu, finalmente mais relaxado, e se jogou na cadeira ao meu lado, estalando os dedos como se tivesse acabado de realizar um feito épico.
— Você devia considerar escrever colunas de lifestyle. “Como ser uma jornalista badass com filtro solar fator 80 e sarcasmo.”
— Já tenho um título melhor — retruquei, apoiando o cotovelo na mesa. — “Como não morrer torrado enquanto persegue histórias que ninguém quer contar.” Tem mais a ver comigo.
Josh me lançou um olhar breve, mais sério dessa vez. Houve uma pausa leve, quase imperceptível, como se ele hesitasse entre dizer algo ou respeitar o silêncio.
— Você não tá pensando em ir atrás do Neumann, tá? — ele perguntou por fim, a voz mais baixa.
— Não vou dizer que a ideia não passou pela minha cabeça respondi, firme, mas sem dramatizar.
Josh soltou um suspiro resignado, coçando a nuca.
— Você sabe que isso pode dar problema, né? Logo no seu primeiro ano por aqui, ... tem certeza de que é isso mesmo que quer?
— Eu não atravessei o oceano pra virar figurante de Drive to Survive — dei de ombros.
Ele riu, um riso breve, cúmplice.
— Você vai acabar sendo demitida.
— Ou promovida — pisquei de volta.
Josh balançou a cabeça, ainda sorrindo, mas então franziu o cenho.
— Você acredita mesmo que ele fez todas aquelas coisas?
Levei a mão ao queixo, teatral.
— Um homem poderoso se comportando de forma inapropriada com mulheres no ambiente de trabalho? — ergui as sobrancelhas e olhei para o céu. — Não me parece muito difícil de acreditar.
Josh soltou um riso seco.
— Você tem um ponto.
— E você tem insolação — rebati, voltando ao tom leve.
— Ingrata. Trago chá gelado, dou apoio emocional e ainda sou ridicularizado.
— Você gosta. E sabe disso.
Ele riu, balançando a cabeça. Um carro rugiu na pista, fazendo todos olharem. Era novamente o Rinspeed, rasgando o circuito em uma volta rápida.
Então tudo aconteceu de repente.
O som do carro mudou.
Foi quase imperceptível — um tom fora de lugar, uma quebra na cadência. Eu estava anotando algo sobre os compostos da Alpine, ouvindo Josh reclamar do sol direto na câmera, quando o rugido do motor Rinspeed perdeu… Algo.
Josh parou de falar.
Os alto-falantes chiaram. Três segundos depois, a confirmação:
Car 16 — spin. Turn 16. Yellow flag.
Eu já sabia. Tinha escutado. Senti no peito. O som de um giro não é como o de uma batida — é mais sutil, mais cortante. Como se o ar ao redor ficasse tenso por um instante e depois cedesse.
No telão acima dos boxes, o replay apareceu. Chevalier, entrando rápido demais — ou talvez confiando demais na traseira — escorregou. O carro girou de forma limpa, quase ensaiada, sem colisão. Mas ainda assim: um erro.
— Curva 16 pegando gente de novo — comentou Josh, já abrindo o gravador para marcar a fala.
— Sim — respondi, breve. Eu estava observando o giro quadro a quadro.
O carro rodou de traseira, reequilibrou, e parou de lado. Um gesto de fragilidade no meio de um ambiente feito para controle absoluto.
Chevalier ficou ali, imóvel por um segundo. Depois arrancou de volta aos boxes como se o giro não tivesse acontecido. Mas nós vimos. Todo mundo viu.
— A Monster vai gostar disso — disse Josh.
Franzi o cenho em uma careta.
— Vencer não vai abafar esse escândalo pra sempre.
O pitlane seguiu como se nada tivesse acontecido — o sol, o asfalto, os homens de macacão correndo com pneus e planilhas. Como se aquilo não passasse de rotina. Como se qualquer coisa só passasse de rotina.
E o meu trabalho — o nosso trabalho — é prestar atenção antes no que ninguém percebia.
No que a equipe inteira se esforçava pra esconder.
Até mesmo do piloto.
🏁
O burburinho da sala de imprensa se misturava ao som abafado dos ventiladores industriais girando no teto, tentando em vão competir com o calor úmido de Miami. A coletiva pós-classificatória estava prestes a começar, e o lugar já fervilhava de jornalistas, câmeras e microfones apontados como armas para os três pilotos mais comentados do dia.
Piotr Volkov, que conquistou a pole position, ocupava o centro da mesa com a confiança meticulosa de quem está exatamente onde planejou estar. Vestia o macacão preto e verde-limão da Monster Racing com perfeição quase robótica, os cabelos loiros platinados ainda úmidos de suor, mas impecavelmente penteados para trás.
Ao seu lado, Roman Neumann, chefe da escuderia, mantinha-se ereto, a postura rígida como se a cadeira fosse uma extensão de sua espinha. Vestia um blazer escuro sobre uma camisa impecavelmente passada, sem uma gota de suor visível, apesar do calor. O tipo de homem que não levanta a voz, mas que faz qualquer um repensar duas vezes antes de contrariá-lo. Seu olhar fixo nos pilotos adversários parecia medir cada palavra antes mesmo dela ser dita.
Henri Chevalier, segundo colocado, trazia um contraste desconcertante. A camisa branca da Rinspeed estava meio amarrotada, os dois botões de cima abertos, e o cabelo castanho levemente desgrenhado parecia ter sido passado pela mão suada mais de uma vez. Mas o sorriso presunçoso no rosto deixava claro: ele estava satisfeito com o seu desempenho, apesar do susto nos treinos livres.
Ao lado dele, o chefe da equipe, Antoine Vassel — um belgo de poucas palavras e muitos milhões investidos — mantinha os braços cruzados, encostado na cadeira com o olhar de quem calcula resultados em tempo real.
E, à direita, meio deslocado na comparação, mas ainda assim presente com uma expressão sorridente e levemente descontraída, . O quinto melhor tempo e o único rosto britânico entre os três. O macacão branco e dourado da Porsche mal escondia o nervosismo nos ombros tensos.
Acompanhado por Peter Bloom, chefe de equipe da Porsche Motorsport, que dava tapinhas leves nas costas do piloto sempre que ele parecia se enrolar nas palavras — como se pudesse absorver parte da pressão com contato físico.
Um dos wjornalistas estrangeiros foi o primeiro a levantar a mão.
— Piotr, essa pole foi conquistada com um tempo impressionante, especialmente no segundo setor. Houve alguma mudança de última hora no acerto do carro?
Piotr inclinou-se ligeiramente para o microfone, seu inglês carregado pelo sotaque russo.
— Sim. Trabalhamos muito no equilíbrio do carro ontem à noite. Tivemos instabilidade na entrada das curvas de alta. Mas... Hoje o carro respondeu como esperávamos. A equipe fez um trabalho perfeito.
Roman Neumann assentiu levemente, como quem apenas confirma o óbvio.
Outro jornalista, desta vez francês, se direcionou a Henri:
— Chevalier, você parecia bastante agressivo na volta rápida. Houve algum erro estratégico, ou você está guardando desempenho para a corrida?
Henri sorriu de canto, inclinando a cadeira perigosamente para trás, as mãos cruzadas atrás da cabeça.
— Se isso foi guardar desempenho, imagina quando eu quiser mesmo ganhar — risos se espalharam pela sala. nem piscou. — Mas falando sério, o carro estava bom, sim. Só... Escorregou um pouco na curva 16. Culpa minha. Mas amanhã é outro dia.
, que continuava em silêncio, foi o próximo alvo.
— , quinto lugar em uma pista exigente como Miami. Seu nome é o mais cotado quando se fala na disputa pelo título. Você acredita que tem ritmo para brigar pelo pódio amanhã?
limpou a garganta, ajeitou o microfone e respondeu com um sorriso ensaiado.
— O carro se comportou bem hoje. Ainda temos margem para melhorar o ritmo de corrida, mas estou otimista. Com uma boa largada e estratégia, tudo é possível.
Peter Bloom murmurou algo no ouvido dele enquanto discretamente arrumava os papéis à sua frente.
Ao meu lado, Josh levantou a mão pedindo a fala.
— Joshua Fields para a BBC Sports. Pergunta para Henri Chevalier — disse ele, com um leve sorriso no rosto. — Você acredita que o seu giro nos treinos livres contribuiu para a conquista da pole position pela Monster nas classificatórias de hoje?
Bastardo, filho de uma puta, ele foi mais rápido.
Henri sorriu antes mesmo de pegar o microfone — aquele sorriso inclinado, de quem está mais interessado na provocação do que na resposta.
— Acho que deu um pouco mais de confiança ao Piotr, não vou mentir.
Alguns risos discretos ecoaram pela sala. Antoine Vassel manteve-se imóvel, olhos fixos em algum ponto além da fileira de jornalistas.
Henri continuou, ainda com o microfone na mão.
— Eu sabia que estava no limite. O setor anterior veio forte, e pensei: “por que não mais um pouco?” A traseira... Discordou. Mas consegui segurar. Quase. — ele deu de ombros, despreocupado. — Faz parte, não é?
Josh arqueou uma sobrancelha, já anotando algo no bloquinho.
— Só espero que amanhã você não convide o muro pra esse tango — retrucou o jornalista, em tom leve.
— Se convidar, que ao menos seja dramático o suficiente pra render uma boa capa — respondeu Henri, piscando.
A sala sorriu, mas Roman Neumann não. Ele sequer disfarçou a impaciência.
Mais duas perguntas rápidas vieram depois, mas a energia já estava em declínio. Os pilotos se entreolhavam, os chefes de equipe conferiam relógios e a mediadora, sinalizou a última rodada de perguntas.
Josh virou-se para mim com aquele brilho nos olhos que ele só tinha quando um piloto respondia com mais ego do que estratégia.
— Esse cara vai enfiar o carro no muro só pra provar um ponto, aposto com você — murmurou ele, já preparando o título mental da matéria.
— Ou só pra te dar mais assunto pra escrever, seu ladrãozinho — retruquei, pegando meu gravador e fechando o caderno.
A mediadora estava prestes a dar a coletiva por encerrada, mas eu levantei a mão, sinalizando minha vez. Eu não o deixaria ficar com toda a glória.
— para a BBC Sports. Pergunta para todos os pilotos — falei, projetando a voz o suficiente para que os três olhassem em minha direção. — Miami tem sido uma pista imprevisível. Quais os maiores desafios que cada um de vocês espera enfrentar amanhã, além do calor sufocante, é claro?
Henri respondeu primeiro, sem sequer hesitar.
— Os muros. Estão sempre lá. E muito mais impiedosos do que os engenheiros prometem.
— Você conheceu bem os muros, não é? — alguém debochou no meio da sala, mas, assim como eu, os pilotos fizeram questão de ignorar.
Piotr seguiu, sério.
— Pneus. A degradação vai ser fator chave. Saber quando atacar e quando esperar.
pensou por um segundo antes de responder:
— Tráfego. Com carros tão próximos em desempenho, saber onde se posicionar pode definir a corrida.
Assenti, anotando tudo, embora mais interessada nas expressões do que nas respostas. Volkov era metódico, impenetrável. Chevalier, performático e impulsivo. , o clássico piloto em formação, tentando provar que merece estar ali.
Antes que alguém pudesse pedir mais uma pergunta, me adiantei:
— , você acha que o lock-up na curva 17 foi o que te custou a pole position e mais algumas posições na tarde de hoje?
A sala silenciou por um instante. Peter Bloom desviou o olhar para o chão, claramente desconfortável com a pergunta direta. olhou para mim, surpreso pela pergunta — e talvez por eu ter prestado atenção suficiente para notar.
Ele respirou fundo antes de responder, com honestidade crua, sem floreios:
— Acho que... Mesmo nessa volta, tudo poderia ter sido diferente. Mas eu não consegui. O ritmo estava bom, o carro estava bom... — fez uma pausa, os dedos tamborilando no microfone. — Ainda não consegui juntar tudo, mas é isso.
Não houve sorriso de alívio. Nenhuma tentativa de amenizar a resposta. Apenas a frustração contida de um piloto que sabia exatamente onde errou — e que o mundo inteiro também sabia.
Piotr Volkov mal escondeu a expressão de superioridade, recostando-se com a tranquilidade de quem não travou roda nenhuma. Chevalier ergueu uma sobrancelha em silêncio, quase curioso com a sinceridade de .
Roman Neumann, por outro lado, virou levemente a cabeça na direção de , como se estivesse avaliando não o erro em si, mas a forma como ele havia sido assumido. Com ele, as palavras não eram a moeda — era a postura.
Peter Bloom tocou brevemente o ombro de , num gesto automático, como se pudesse encobrir a exposição com empatia. A mediadora da coletiva pigarreou, tentando retomar o controle.
— Esperem a palavra antes de começarem, por favor...
Mas eu já estava guardando as minhas coisas, satisfeita.
Às vezes, uma resposta comedida diz mais que uma manchete.
A coletiva seguiu com mais algumas perguntas protocolares, mas eu já tinha o suficiente. Meu mapa de personalidades estava montado. E uma história boa começa, quase sempre, por entender quem está mentindo — e quem apenas aprendeu a responder do jeito certo.
🏁
A coletiva mal tinha terminado quando ouvi alguém chamar:
— Ei, garota nova!
Virei o rosto por cima do ombro e dei de cara com , ainda usando metade do sorriso nervoso da coletiva. Ele acenava desajeitadamente enquanto se aproximava, o macacão parcialmente desabotoado e pendurado na cintura. Franzi o cenho, surpresa. Aquilo era... Inesperado.
Ele parou a poucos passos, passando a mão pela nuca e curvando ligeiramente os ombros, como se estivesse pedindo desculpas por falar comigo.
— Eu tenho visto muito você por aqui — disse ele, a voz baixa, quase incerta. — Qual é mesmo o seu nome?
— — respondi, franzindo o cenho, como se tentasse decifrar o motivo daquele momento estranho com um piloto conhecido por sua confiança exagerada.
— Nome bonito, — disse ele, sorrindo, embora o nervosismo fizesse a expressão parecer mais uma careta do que uma conquista. — Eu sou...
Soltei uma risadinha, interrompendo-o antes que ele cometesse a gafe completa.
— Acredito que todos nessa sala sabem muito bem quem é .
Ele fechou os olhos por um instante, como se esperasse que o chão se abrisse sob seus pés e o engolisse. Foi impossível não sentir uma pontada de diversão interna. Ver um dos queridinhos da mídia tropeçar fora da pista era um raro privilégio.
— Claro. É... Foi meio idiota da minha parte — murmurou , parecendo mais humano de repente.
— Não se preocupe — dei de ombros, deixando escapar um sorriso leve. — Eu faço coisas idiotas o tempo todo.
Foi como se um peso tivesse saído dos ombros dele, e ele sorriu de volta, mais solto, mais leve. Tinha um sorriso bonito — torto, espontâneo — com um canto da boca subindo mais que o outro e o nariz franzido de um jeito quase involuntário, mas estupidamente adorável. Tudo bem, ele era todo bonito.
— Bom, então talvez a gente devesse fazer algo idiota juntos — arriscou ele, de um jeito tímido que não combinava com o piloto excêntrico sobre o qual todos falavam.
Fiquei sem palavras por um segundo, mordendo o lábio inferior.
O que ele acabou de dizer?
— Ok... — eu disse, meio rindo. — Eu não estava esperando por isso.
— Merda, isso foi tão idiota quanto — praguejou ele, envergonhado.
— É, foi bem idiota — admiti, rindo de verdade agora, contagiada pelo jeito bobo dele.
O riso dele veio junto, mais espontâneo, e por um momento fomos só dois desconhecidos trocando uma conversa casual num corredor de bastidores.
— Sabe o que seria mais idiota ainda? — perguntou ele, inclinando a cabeça, os olhos fixos nos meus.
— O quê?
— Se você dissesse sim.
Ficamos em silêncio por um momento. Aquele tipo de pausa que poderia facilmente pender para o estranho, não fosse o jeito absurdamente sincero com que ele me olhava. Como se estivesse colocando tudo ali, naquele instante. Ele me chamou para sair.
me chamou para sair?<;i>
— O que me diz? — insistiu ele, ainda esperançoso, como uma criança pedindo permissão.
— Estou trabalhando — respondi com um sorriso contido, o profissionalismo tentando salvar a situação.
— Eu também estou — rebateu ele, com um olhar que pedia por algo além da rotina. — Mas e depois?
Suspirei, sentindo um leve nó se formar na garganta. Sabia que estava pisando em terreno complicado.
— Seria inapropriado — falei, tentando manter o tom firme.
— Eu não acho — disse ele, tão certo de si que quase me convenceu.
Quase.
— Você é um piloto. Pode fazer qualquer coisa, contanto que continue pontuando nas corridas — falei, tentando soar mais convicta do que me sentia.
— Não é bem assim — respondeu ele.
— Talvez — concordei, desviando o olhar por um segundo, sentindo o peso das regras invisíveis que me cercavam. — Mas é como você disse, eu sou a garota nova. Não posso me dar ao luxo de ser mal interpretada.
Ele sorriu, e dessa vez parecia genuinamente divertido.
— Nem se estivermos cercados de outros idiotas? — perguntou ele, tentando se conter e ao mesmo tempo desafiando a minha cautela. — Você é mesmo insistente, hein? — provoquei, achando graça.
— Insistência é tudo que me resta — disse ele, com aquele tom de quem já não tem mais nada a perder. — Sou piloto de Fórmula 1, afinal.
Sorri, balançando a cabeça. Ele tinha carisma — daquele tipo involuntário, que não sabe exatamente o que fazer com o próprio charme. — Você não está errado — admiti.
— Então você topa ser minha acompanhante na after party depois da corrida? — perguntou ele, deixando a cabeça pender para o lado preguiçosamente.
— Acompanhante é um pouco demais, não acha? — fiz uma careta, sem conseguir evitar.
Ele riu — um som inesperadamente leve, quase despreocupado, que escapou dos lábios dele como quem não tenta impressionar, mas impressiona mesmo assim. E tinha algo ali, no timbre rouco misturado com aquele breve soluço de fôlego no fim, que me atingiu de surpresa. Era o tipo de riso que grudava, que fazia o peito vibrar em resposta, como se o ar ao redor tivesse mudado de densidade por um segundo.
— Tudo bem — disse . — E se a gente se encontrar lá, então?
— E se a gente testasse o quão insistente você pode ser? — sugeri, com um sorriso enviesado.
— Estou ouvindo — respondeu ele, os olhos brilhando de curiosidade.
Sorri, sentindo a adrenalina do momento.
— Eu te encontro lá...
— Se? — ele se adiantou, ansioso.
Meu sorriso se alargou.
— Se você vencer a corrida amanhã.
Os olhos dele brilharam com aquela chama competitiva que só aqueles viciados em adrenalina eram capazes de reconhecer.
— Espero que você goste de festas — disse San, recuando alguns passos. — Porque eu vou vencer essa corrida.
— Vamos ver — respondi, dando uma piscadela antes de me virar para encontrar Josh, que estava me esperando perto dali, encostado na parede, os braços cruzados e o olhar cheio de diversão.
Passei por ele como se nada tivesse acontecido, mas é claro que ele não deixaria por isso mesmo.
— Você é má — disse ele, cruzando os braços.
— O que eu fiz dessa vez? — perguntei, fingindo inocência.
— Você sabe que nunca venceu um Grand Prix — comentou ele, sério, mas com um leve sorriso.
— A maioria deles nunca venceu — dei de ombros, tentando manter a leveza.
— Você podia ter simplesmente negado o convite — disse Josh, balançando a cabeça.
— Eu não queria negar — admiti, mordendo o lábio.
— Por que não aceitar logo? — perguntou ele.
— Você sabe que eu não deveria — suspirei, ciente de que apesar de tudo eu já tinha me colocado em uma situação delicada. — E você sabe como esses atletas são. Eles precisam se manter motivados.
— E se ele vencer? — perguntou ele, curioso.
— Ele não vai vencer — garanti, tentando convencer a mim mesma.
Josh apenas me observou, claramente sem acreditar, e o corredor ficou em silêncio enquanto eu sentia o peso daquela aposta se instalando entre nós.
🏁
O céu estava carregado, mas o sol teimava em espreitar entre as nuvens, criando um clima estranho — quente demais para um dia com ameaças de tempestade. O calor abafava o ar, pesado, quase palpável. No pitlane, a conversa era sussurrada, porque ninguém parecia ter coragem de dizer em voz alta que a chuva podia chegar a qualquer instante, que tudo poderia virar um caos.
Enquanto os carros alinhavam para a largada, eu sentia o suor escorrer pelas costas da camisa, misturado com a ansiedade que vibrava no ar. Piotr Volkov estava lá, impassível como sempre, os olhos fixos no horizonte, no grid que começava a ferver. Parecia que, para ele, nada poderia interferir na corrida que ele planejava fazer.
Chevalier, por outro lado, trocava olhares rápidos com os engenheiros, os músculos tensos. O erro no treino ainda era uma sombra que ele carregava, e eu podia ver isso na maneira como ele segurava o volante, como se se preparasse para lutar contra a pista — e talvez contra a sorte.
E havia .
Ele parecia carregar o peso do dia inteiro nas costas, mas também uma determinação que eu não podia ignorar. O calor parecia desgastá-lo, o sol castigava sem piedade, e as nuvens no céu lembravam que a pista poderia virar um espelho a qualquer momento.
Quando as luzes se apagaram, o estrondo dos motores explodiu no ar — uma explosão de adrenalina e possibilidades. Volkov disparou, com aquela confiança natural, enquanto Chevalier seguia na cola, parecendo enfrentar a sua própria batalha silenciosa.
O ar quente vibrava com cada curva, cada troca de marcha. A tensão aumentava a cada volta, porque ninguém sabia se a chuva que rondava viria para lavar a pista — ou para afundar os sonhos ali desenhados.
O som ensurdecedor dos motores fazia o ar vibrar, cada aceleração reverberando no peito como um tambor de guerra. Do meu lugar na área de imprensa, observei mergulhar por dentro na curva 12, numa ultrapassagem ousada que arrancou um leve murmúrio dos jornalistas ao meu redor.
Ele estava pilotando no limite. E eu sabia disso porque dava para ver — mesmo àquela distância — o esforço estampado na postura do corpo dentro do cockpit. Eu podia imaginar suor escorrendo pelo rosto, o macacão colado à pele pelo calor escaldante da Flórida, e ainda assim ele mantinha o foco, a agressividade, a fome.
A corrida era uma mistura cruel de sol, pressão e velocidade. Mas estava ali. Inteiro. Presente.
E, contra toda a lógica que tentei construir para mim mesma nos últimos dias, eu me peguei torcendo por ele. De verdade. Sem o cinismo confortável do meu trabalho, sem o distanciamento que aprendi a usar como escudo. Só uma vontade genuína de vê-lo conseguir — de ver aquele quinto lugar de ontem virar história.
Mas então, claro, veio a lembrança.
A provocação.
A aposta.
E ele já tinha subido duas posições.
As últimas voltas da corrida se desenrolavam com intensidade, e a tensão no ar era quase elétrica. As vozes dos locutores ecoavam pelos alto-falantes, misturadas ao rugido constante dos motores na pista. Eu mal piscava. A adrenalina ali era contagiante, mesmo do lado de cá das grades.
— ultrapassou Chevalier — provocou Josh, recostado na cadeira ao meu lado com o olhar colado na tela de cronometragem. — É melhor começar a pensar na roupa que vai usar hoje à noite.
Lancei a ele um olhar de soslaio, mas mantive a compostura.
— Eu já sei que roupa eu vou usar hoje à noite — respondi com um leve dar de ombros, como se a ideia não tivesse qualquer peso. Mentira. Claro que tinha.
Josh arqueou uma sobrancelha, um sorriso travesso se formando nos lábios.
— Acho bom mesmo, porque tudo indica que você vai ter um encontro essa noite — ele me cutucou com o cotovelo, o tom carregado de malícia.
Revirei os olhos.
— Não é um encontro — murmurei, tentando soar firme, mas até eu podia ouvir a hesitação na minha voz.
— Então é melhor você dizer isso pra ele — respondeu Josh, com um dar de ombros despreocupado, como se o destino daquela noite não estivesse me pressionando a cada volta que ganhava na pista.
— Tô falando sério, Josh — bufei, cruzando os braços.
— Eu também — disse ele, sério agora, o sorriso apagado por um segundo. — Talvez ele leve isso mais a sério do que você imagina. Fiquei em silêncio. O comentário bateu mais fundo do que eu queria admitir.
Fechei os olhos por um segundo e respirei fundo, tentando me proteger da onda de expectativa que começava a crescer dentro de mim. Eu não devia me envolver.
Eu não devia torcer.
Mas, merda... Ele podia realmente ganhar.
E uma parte de mim — uma parte teimosa, jovem, escondida debaixo de camadas de racionalidade — queria que ele conseguisse. Porque, se ele ganhasse, eu não teria mais desculpa.
E eu odiava o quanto isso me empolgava.
O som dos motores ainda reverberava pelo circuito, cada volta apertando o estômago com mais força. Eu já nem me mexia mais na cadeira — estava completamente imersa na corrida, com os olhos cravados na tela. Josh também. Ninguém conversava muito naquela altura. A tensão falava por todos.
Então, o carro verde da Monster Racing fez a curva final do setor três e entrou nos boxes.
— Merda — praguejei, sentindo a palavra escapar como um soco.
— O que você disse? — Josh virou o rosto para mim, curioso.
— Volkov acabou de entrar nos boxes — resmunguei, tentando disfarçar o pânico crescente que começava a pulsar no peito. Aquilo podia mudar tudo. Ele estava em primeiro. E logo atrás.
— Não se preocupe — disse Josh, tentando manter a calma. — provavelmente vai entrar também, os pneus dele não vão durar muito tempo nesse asfalto quente.
Mas então, o carro azul da Porsche se aproximou da entrada dos boxes... E simplesmente passou direto.
— Ou talvez não... — completou Josh, a voz mais baixa agora, quase contida pelo espanto. Nem ele parecia acreditar no que acabara de ver.
— Me diz que ele não está fazendo o que eu estou pensando — sussurrei, sem tirar os olhos da tela. Josh umedeceu os lábios, o maxilar travado.
— Eu vou te dizer o que ele não está fazendo — murmurou ele. — Ele definitivamente não está fazendo o pit stop.
Por um instante, tudo ficou em suspenso. E então, o carro verde da Monster saiu dos boxes com tudo, retomando velocidade na reta... Mas já era tarde.
Antes que Volkov alcançasse a saída, o carro azul da Porsche já havia cruzado o ponto de intersecção e assumido a liderança.
A sala explodiu em murmúrios e exclamações. Eu não ouvi nada. Só o som do meu coração acelerado, como se quisesse acompanhar o ritmo da pista.
— Ele vai vencer a corrida — sussurrei, quase sem ar.
E, pela primeira vez naquela tarde, eu senti o peso da realidade sobre os meus ombros.
🏁
O paddock depois da corrida tinha um som oco. As vozes ainda estavam ali, a euforia ainda pairava no ar, mas era como se tudo tivesse diminuído alguns tons. Como se o mundo estivesse tentando voltar ao normal, só que com os ouvidos ainda zumbindo.
Eu caminhava ao lado do Josh, apertando o tablet contra o peito como se ele pudesse me proteger de alguma coisa.
Dele, talvez. De mim, com certeza.
— já tá na sala de imprensa — disse ele, lendo alguma notificação. — Foram direto nele. Vitória dramática, último stint, rádio emocionante... Esse tipo de coisa.
É agora. A oportunidade perfeita. Só preciso parecer racional. Profissional. Indiferente.
— Então vai com ele — falei, com naturalidade ensaiada.
Josh parou. E eu continuei. Dois, três passos. Depois me virei com o melhor olhar de “isso não é nada demais” que consigo fazer.
— Como assim, vai com ele? — ele perguntou, me olhando como se eu tivesse acabado de sugerir que trocássemos de identidade.
— Eu vou pra sala de Volkov — respondi. Simples. Objetiva. O tipo de fala que não convida a perguntas.
Ele me encarou como se estivesse tentando decifrar um código.
— Tá. Mas… Por quê? venceu. O Piotr chegou em segundo. Ele é a estrela, mas não é o headline.
— Volkov é o atual campeão — respondi, como se fosse óbvio. — Tudo o que ele diz repercute. A última vez que deixaram ele sozinho com um microfone, a Monster teve que fazer três comunicados de imprensa pra explicar que ele não chamou o carro de “banheira soviética”.
Josh riu, mas não cedeu.
— …
Levantei a mão, cortando.
— Ele já teve problema com a imprensa italiana distorcendo um comentário dele em Ímola, lembra? Eu não posso perder essa chance.
Josh deu dois passos até ficar na minha frente. Baixou o tom.
— Você tá fugindo — disse ele, sem rodeios.
Fiquei em silêncio. Por dois segundos.
— Tô organizando prioridades — corrigi, seca. — É melhor um membro da BBC em cada entrevista do que dois apenas em uma.
Ele me encarou. Depois sorriu, leve, quase gentil.
— Sabe que não vai conseguir evitar ele pra sempre, né?
— Eu sei.
— After party — ele cantou, como quem lembrava de um boletim meteorológico. — Ambiente fechado. Gente bêbada. Iluminação baixa. relaxado. Vai ser ótimo.
— Eu vou te procurar lá pra desviar os assuntos constrangedores, como sempre.
— Eu não sou seu escudo emocional, .
— Não? Então por que você tá indo lá agora por mim?
Ele sorriu de novo. Aquele sorriso de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
— Porque ele é um cara legal. Você sabe disso. E isso só piora, né?
Fechei os olhos por um segundo.
Sim. Isso piorava tudo. Se ele fosse um babaca, eu já teria deixado para lá. Mas não era. Ele era gentil. Ele olhava nos olhos. Ele ria de verdade. Ele falava sem roteiro.
— Vai — disse, empurrando Josh pelo ombro. — Me deve essa.
— Não. Você vai me dever depois da festa.
— Vai pro inferno.
— Já tô indo — ele rebateu, rindo, e desapareceu no corredor que levava à sala de imprensa.
Suspirei, ajeitei o crachá no pescoço e virei para o lado oposto. Rumo à sala do Piotr. O campeão mundial. O drama controlável.
Eu podia lidar com ele.
Com ?
Essa tarde, não.
Mas a noite me esperava.
E eu não sabia se queria que ela demorasse a chegar... Ou que acabasse logo.
🏁
O ar condicionado estava no máximo, mas ainda assim havia um calor estranho pairando no ar. Aquele tipo de tensão que aparece quando um campeão termina em segundo e ninguém sabe se ele vai responder com classe… Ou com fúria.
Piotr Volkov estava sentado no centro da mesa. Macacão ainda semiaberto, cabelo úmido de suor, expressão impassível. O tipo de postura que só alguém que já ganhou tudo três vezes consegue manter — rígida, quase entediada, como se quisesse estar em outro lugar. E talvez quisesse mesmo.
Segundo lugar. Mas ainda assim, todas as câmeras estavam nele. Afinal, ele era Piotr Volkov. Três vezes campeão mundial. O homem que fazia parecer que controle e caos eram a mesma coisa.
Dois jornalistas já tinham feito perguntas mornas — aquelas que ninguém realmente lê depois.
— Volkov, você parecia desconfortável com o balanço do carro no segundo stint. Foi isso que te impediu de alcançar o ? — perguntou um britânico da Autosport.
Piotr respondeu, objetivo.
— Não. O carro estava bem. A estratégia priorizou estabilidade no fim. Isso limitou o ataque.
Tradução: Decidiram jogar seguro. Eu não joguei junto.
A próxima veio de uma jornalista espanhola.
— Volkov, você e têm estilos de pilotagem bem diferentes. Você acha que, com carros iguais, teria vencido hoje?
Ele olhou diretamente para ela.
— Não estamos com carros iguais. A pergunta não se aplica.
Corte seco. Educado. Mas sem espaço pra réplica. Alguns riram baixo. A espanhola não.
Apesar de tudo, ninguém fez a pergunta que pairava no ar desde a volta 54, quando o rádio da Monster Racing vazou: Hold position, Piotr. Hold position. E ele respondeu… Ultrapassando o limite do delta na curva 8.
A moderadora olhou ao redor. Levantei o braço. Ela assentiu.
Peguei o microfone e falei com a mesma voz que uso quando sei que a pergunta vai apertar um ponto sensível — mas que merece ser apertado.
— , BBC Sport — anunciei. — Piotr, durante as voltas finais, sua equipe pediu que você mantivesse a posição e poupasse o carro. Mas sua resposta foi acelerar ainda mais. Você pode explicar por que decidiu ignorar a instrução?
A sala congelou. Não fisicamente — o ar já estava gelado demais. Mas no clima. O tipo de silêncio que diz: “Finalmente alguém perguntou.”
Ele virou o rosto lentamente na minha direção. Os olhos dele eram daquele cinza gelado que parecia sempre dois segundos à frente da conversa. Eu vi ali o cálculo acontecendo — se ele respondia com diplomacia, desdém, ou sinceridade pura.
Aparentemente ele escolheu a última opção.
— Já fui campeão três vezes — disse, com uma calma quase letal. — Eu sei o que estou fazendo.
Nenhum sorriso. Nenhuma ênfase. Só fato.
— E quanto a Roman Neumann? — soltei, antes de conseguir me conter.
Volkov foi rápido.
— Você já fez a sua pergunta — cortou, sem elevar a voz.
Merda.
Fechei os olhos por um instante, como se pudesse desaparecer por pura força de vontade. Não funcionou, é claro. Se isso chegasse aos ouvidos do meu editor, eu ia ouvir por uma semana. Talvez mais.
— Deixe a garota perguntar, Piotr — uma nova voz cortou o ar, firme.
Abri os olhos. Lá estava ele.
Roman Neumann.
Frio, elegante, sorrindo com os lábios, não com os olhos.
— Você diria que o escândalo recente envolvendo o chefe da Monster Racing tem interferido no desempenho da equipe? — perguntei, agora com mais cautela.
— Não — respondeu Volkov, seco como uma porta batendo.
Ótimo. Agora ele estava irritado de verdade.
— Essa não é a pergunta que você deveria fazer pra ele — disse Roman, ainda com aquele ar blasé. — Deveria fazer pra mim. Engoli em seco.
— Você pode comentar sobre a investigação em andamento? — forcei a voz a sair com alguma dignidade.
— Não — respondeu ele, sem hesitar.
Perfeito.
— Não — respondeu Neumann.
Afundei na cadeira, sentindo o peso invisível de todos os olhares sobre mim. O tipo de momento em que a gente pensa: Talvez eu devesse ter escolhido odontologia.
Os homens na sala de imprensa riram.
Eu não.
Talvez por orgulho. Talvez porque não havia nada engraçado em ser silenciada e depois transformada em entretenimento ao vivo. Talvez porque eu sabia exatamente o que aquilo significava: para eles, era só mais uma repórter passando dos limites e sendo colocada “em seu lugar”.
Abaixei os olhos por um segundo, como quem faz anotações, mas era só pra ganhar tempo. Pra respirar. Pra não mostrar nada. A verdade é que fazer piada com uma investigação sobre abuso sexual em ambiente de trabalho estava longe de ser algo que eu considerasse engraçado.
Saí da sala de imprensa ainda absorvendo cada palavra da resposta do piloto e do chefe de escuderia. Não havia muito mais a dizer depois daquilo. E ainda assim, eu sabia que todos iriam tentar.
O corredor do paddock estava mais vazio agora, aliviado da avalanche de jornalistas que se espremeram na coletiva. Eu respirei fundo. Quase consegui relaxar.
Até esbarrar em alguém.
Ele estava ali, parado como se tivesse surgido do nada.
O chefe da Monster Racing. Alemão. Alto demais, magro demais, com um olhar que parecia medir cada partícula de ar ao redor. Um sorriso fino que nunca alcançava os olhos. Um daqueles tipos que você sabe que é inteligente demais — e estranho demais.
— Entschuldigung — ele murmurou, meio sem jeito, meio cortês demais, ajeitando o paletó.
— Senhor Neumann — respondi, tentando manter a voz firme, tentando não notar o arrepio que aquele sotaque carregado sempre me dava. — Desculpe, eu não vi você.
Ele me fitou nos olhos, com um brilho estranho, difícil de decifrar.
— Boas perguntas na coletiva — comentou ele, com um tom que eu não sabia se era elogio ou provocação.
— Obrigada — respondi, sem jeito. — Piotr sabe o que está fazendo.
— Assim como você, aparentemente.
Roman deu um sorriso quase imperceptível, desviando o olhar por um instante.
Então, voltou a me encarar, mais sério.
— Acho que nos vemos de novo essa noite, senhorita .
Aquelas palavras soaram como um enigma, um aviso disfarçado. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele se afastou, deixando para trás um silêncio pesado e uma sensação estranha que me acompanhou pelo resto do caminho.
🏁
A música pulsava alto demais, como se quisesse competir com o barulho dos motores algumas horas antes. As luzes coloridas cortavam o ambiente com flashes intermitentes, refletindo em taças erguidas, brilhos de vestidos caros e sorrisos artificiais. Era a clássica mistura de euforia, álcool e autopromoção — a festa pós-GP, onde todos fingiam que não estavam exaustos.
Entrei sozinha. Claro que Josh iria me dar um perdido, eu nem ao menos estava surpresa.
O salto dos meus sapatos batia firme no piso do lounge, abafado pelo tapete vermelho e pelo som grave do baixo que vibrava até os ossos. Usei o vestido preto que estava guardado na mala para uma ocasião especial — e que, para ser honesta, achei que não teria que usar. Era justo, de alças finas, com um decote discreto, mas suficiente para me fazer sentir como alguém que poderia ser notada. O tecido leve se moldava ao corpo, e a fenda lateral mostrava mais da minha perna do que o necessário — mais do que eu costumava permitir.
Eu não esperava que ele fosse vencer.
E, no entanto, aqui estávamos.
Percorri o salão com o olhar, escaneando os rostos conhecidos — alguns jornalistas, alguns engenheiros da equipe Rinspeed, um grupo da Porsche já meio bêbado. E então o vi.
.
Encostado no bar, uma garrafa de cerveja esquecida na mão, a camisa parcialmente desabotoada, os cabelos ainda úmidos como se tivesse saído do banho direto para a pista da festa. A expressão dele era diferente — não exatamente arrogante, mas... Consciente. Ele sabia o que tinha feito hoje. E sabia que todo mundo ali sabia. Inclusive eu.
Ele me viu antes que eu pudesse decidir se ia na direção dele ou fugir para os bastidores.
O sorriso que se formou em seus lábios foi lento. Confiante. Quase perigoso.
Ele deixou a garrafa sobre o balcão e veio até mim com um copo em mãos, sem pressa, como quem já sabe o final da conversa antes mesmo de ela começar.
— Você veio — disse ele, parando a um passo de distância.
Cruzei os braços, sentindo o tecido fino do vestido roçar na pele, num gesto automático de defesa.
— Eu disse que viria — respondi, firme, mas com um meio sorriso que escapou sem que eu quisesse.
Ele me olhou por um instante, como se estivesse tentando entender se aquilo era real — se eu realmente tinha aparecido, mas agora sem a muralha do trabalho entre nós.
— Eu admito que meio que esperava que você desse pra trás — disse ele, com aquele jeito provocador, meio rindo, meio testando meus limites.
— Eu teria que ser um pouco menos idiota pra fazer isso — rebati, inclinando o rosto levemente, a piscadela quase automática, como se minha resposta tivesse ensaiado sozinha o flerte.
Ele deu um passo mais perto. O cheiro dele era discreto, algo fresco, limpo, com traços de pós-banho e talvez… Vitória. Aquele tipo de presença que vinha antes do toque.
— Ainda bem que você não é — disse ele, sorrindo, e dessa vez, o sorriso era honesto, menos brincalhão. Quase... Aliviado.
Me perguntei, por um segundo, se ele tinha realmente duvidado que eu apareceria. Se ele realmente tirou o tempo dele para pensar nisso. E me perguntei também se, no fundo, eu estava tão ansiosa durante a corrida porque... Parte de mim queria estar exatamente aqui.
Na frente dele. Nessa noite. Com nenhuma desculpa para ir embora.
O silêncio que pairou entre nós não era desconfortável — era carregado, como a calma que antecede uma curva perigosa. As luzes ao redor giravam em tons quentes, espirrando reflexos dourados sobre a pele dele, sobre o meu vestido. Tudo ao nosso redor parecia irreal. Barulhento. Longe.
— Você está diferente hoje — ele disse, a voz mais baixa, quase como se falasse só para mim.
— É o vestido — respondi com um sorriso de canto.
— Não — balançou a cabeça, e os olhos percorreram meu rosto como se procurassem alguma coisa que ele ainda não tinha certeza de ter visto. — É o jeito que você está me olhando. Como se eu tivesse te surpreendido de alguma forma.
Eu desviei o olhar por um segundo. Estava quente ali dentro, e não era só por causa das luzes.
— Você não está errado — dei de ombros, dando alguns passos em direção ao bar com ele ao meu lado. — Não achei que você fosse mesmo vencer. Eu não estava esperando por isso.
— Talvez você devesse começar a esperar.
O tom dele era calmo, mas havia algo mais ali. Algo que não era só charme ou autoconfiança. Parecia uma ferida antiga costurada com a vitória daquela tarde.
Antes que eu pudesse responder, senti um deslocamento de ar à nossa esquerda — alguém passou por nós com força, quase esbarrando em . A garrafa que ele segurava fez um movimento brusco, e ele teve que dar um passo para o lado para evitar o contato.
Volkov.
O piloto da Monster passou por ele sem sequer olhar para trás. Os ombros duros, o maxilar travado, a mandíbula tensionada como se estivesse rangendo os dentes por dentro.
o seguiu com os olhos, sem se mover, o corpo subitamente rígido.
— Alguém não está lidando muito bem com a derrota — comentei, erguendo uma sobrancelha enquanto observava Volkov sumir na multidão com a mesma arrogância que trazia para a pista.
— Ele não esperava perder — a voz de agora era mais baixa, contida, como se aquilo lhe pesasse mais do que deixava transparecer. — Nem para mim.
— Eu achei que vocês fossem amigos — falei, fingindo neutralidade, embora algo naquele olhar trocado entre eles me deixasse alerta.
— Nós somos — ele suspirou, passando a mão pela nuca. — Mas o trabalho entra no meio do caminho às vezes.
Pisquei, sentindo aquela tensão reaparecer entre nós. Só que agora era diferente — não era flerte. Era algo mais sério, mais denso.
— Sei bem como é — concordei, chamando o garçom com um gesto e pedindo um drink. Nem eu sabia o qual, só precisava de algo gelado para manter as mãos ocupadas.
— Então, o que te trouxe para a Fórmula 1? — perguntou, tentando aliviar o peso do momento. Mas sua voz ainda carregava uma curiosidade genuína.
Fingi pensar por um instante.
— Eu diria que a adrenalina — sorri de lado, sem me aprofundar muito. Ele não precisava saber de Adam, não mesmo. — E você?
— Definitivamente as garotas. — respondeu ele com um sorriso provocante, me cutucando com o cotovelo.
Eu gargalhei, jogando a cabeça para trás, o som escapando natural.
— Você é assim o tempo todo? — perguntei, meio rindo, meio me recompondo.
— Assim como? — ele fingiu inocência, inclinando um pouco a cabeça.
— Atirado — dei um empurrãozinho no ombro dele, de leve.
— Na verdade, não — ele riu junto, mas havia algo de sincero na resposta que fez meu coração se aquecer um pouco.
— Deve ser uma ocasião especial, então — brinquei, levantando a taça.
— Já que você trouxe o assunto — disse ele, com um sorriso meio tímido —, eu meio que venci minha primeira corrida na Fórmula 1.
— Você venceu?! — fingi surpresa, arqueando as sobrancelhas. — Porra, eu devia ter assistido isso!
Ele riu, balançando a cabeça, e comentou em um tom divertido:
— Você é realmente idiota.
Sorri, sentindo o calor daquela mistura de provocação e afeto no ar.
— Eu acho que sou — respondi, rindo leve. — Mas, sério, como você se sente?
Houve uma pausa, um momento em que pareceu buscar as palavras certas.
— Inquieto, eu acho — disse ele, meio incerto, os olhos fixos no copo que segurava. — Isso faz sentido?
Assenti, dando de ombros.
— Faz todo sentido.
— Obrigado pelo incentivo, aliás — disse ele, olhando para mim com sinceridade. — Você não precisava aparecer só por isso, eu entenderia. Mas mesmo assim, valeu por vir.
Aquela pequena confissão me pegou de jeito. Por um instante, eu não soube como reagir.
— Eu sei — respondi com um sorriso simples, mas carregado de significado. — Mas eu quis vir mesmo assim.
O sorriso dele se abriu, mais genuíno dessa vez.
— Isso é uma ótima notícia.
— Ah, eu entendo tudo de boas notícias — brinquei, com um leve sorriso. Havia algo sobre ele que me deixava assim, idiota.
— Olha só, parece que você tem senso de humor — ele respondeu com um brilho nos olhos, a provocação voltando a tomar conta.
— Parece que eu tenho — respondi, piscando para ele.
No meio daquela festa barulhenta, com luzes piscando e música vibrando ao nosso redor, aquele instante pareceu ser só nosso — um momento suspenso no tempo, cheio de possibilidades não ditas, mas sentidas.
Enquanto ainda trocávamos olhares e sorrisos, Henri Chevalier surgiu ao nosso lado, vindo direto do meio da multidão. O sorriso no rosto dele era genuíno, nada além do esperado vindo do piloto mais carismático da temporada.
— Parabéns, — disse o francês, com seu sotaque refinado, mas a voz carregada de sinceridade. — Vitória mais do que merecida. Você pilotou bem.
retribuiu, ainda sorrindo, mas com o orgulho evidente na voz.
— Obrigado, Henri. Foi uma corrida difícil, mas valeu a pena.
Eu os observei, fascinada pela energia entre os dois. Rivalidade, sim, mas também uma espécie de respeito que só quem compartilha aquelas horas em alta velocidade parecem os fazer capazes de entender.
Henri então lançou um olhar para mim, ligeiramente curioso, mas amigável.
— Eu já vi você antes — disse ele, meio pensativo.
— Essa é , ela é jornalista — se adiantou, educado como o bom britânico que era.
— Pode me chamar de — sorri da forma mais simpática que eu pude.
ergueu uma sobrancelha, divertido.
— ?
— Sim — confirmei, com um brilho maroto nos olhos.
Henri riu e deu uma cotovelada leve no .
— É um prazer te conhecer, .
— Não fode — murmurou, meio irritado, meio divertido.
Henri manteve os olhos fixos em mim por um momento, até que de repente seus olhos se arregalaram em reconhecimento. — Espera… Você estava na coletiva de imprensa ontem, não estava?
— Hoje também — brinquei, cruzando os braços, com um sorriso divertido.
Henri deu uma risadinha.
— Foi mal, não lembro muito depois da corrida. O calor me deixou meio avoado.
— Não me surpreende que o tenha passado você naquela curva — comentei, sem perder a chance de provocar. Henri colocou a mão no peito, dramático.
— Eu mereci essa.
soltou uma risada curta, sacudindo a cabeça.
— Ah, Henri, nós dois sabemos que na próxima corrida vai tentar me devolver essa ultrapassagem.
Henri sorriu com aquele ar desafiador.
— Pode apostar que sim. Mas eu vou ser gentil, só pra você não esquecer como é a aparência da traseira do meu carro. Eu os observei, encantada pela troca de provocações amistosas — tão típica entre rivais que, no fundo, se respeitam profundamente. — Bom saber que a competição não é apenas jogada de marketing — comentei, levando meu copo aos lábios e saboreando o gosto doce e ácido da bebida.
ergueu uma sobrancelha, seu sorriso ganhando um toque mais travesso.
— É isso que deixa as coisas interessantes.
— Sem rivalidade não teria graça — Henri concordou, cruzando os braços com aquele ar blasé de quem estava sempre pronto para alfinetar. — Eu deixo a atuação para as mulheres que vão parar na cama do .
Eu ri com gosto, pega de surpresa pelo comentário dele.
— Muito engraçado, Chevalier — rebateu, empurrando o amigo com uma força que era mais afeto do que raiva. — Vamos ver se você vai continuar sorrindo em Jeddah.
Henri gargalhou enquanto se afastava, jogando o copo vazio em uma lixeira como se encerrasse um capítulo. A elegância de sempre, mesmo ao se retirar de cena.
Fiquei observando até ele desaparecer no meio da multidão antes de balançar a cabeça, ainda sorrindo.
— A dinâmica entre vocês é um espetáculo à parte — comentei, ainda rindo.
deu um meio sorriso e voltou o olhar para mim, agora mais focado, mais presente.
— E quanto a você, ? Além de provocar pilotos, o que mais faz?
— Quer mesmo saber? — fingi refletir, estalando a língua, antes de assentir. — Uma coisa idiota aqui ou ali.
Ele inclinou a cabeça, como se me examinasse sob uma nova luz. Depois, estendeu a mão com um gesto meio casual, meio desafiador.
— Dançar é uma dessas coisas?
Fiz uma careta divertida, cruzando os braços enquanto olhava para a pista de dança à nossa frente — um mar de corpos em movimento, luzes pulsando, a batida grave reverberando pelo chão.
Não. Dançar definitivamente não era uma dessas coisas.
— Você quer sair daqui?
🏁
A porta do quarto de hotel onde estava hospedado se abriu com um clique suave, e entramos num espaço que combinava conforto e estilo — tons escuros, móveis modernos, janelas enormes que deixavam a luz da cidade escorrer pelo ambiente. A noite brilhava lá fora, mas dentro, a atmosfera parecia intimista demais para o meu próprio bem.
Ele fechou a porta atrás de nós, o som ecoando como um sinal de que não havia mais volta.
Senti um frio na barriga, uma mistura de excitação e apreensão que me deixou hesitante por um segundo. — Então... — disse, tirando o paletó e jogando-o sobre a cadeira, seus olhos fixos nos meus, com uma intensidade que me dava um nó no estômago. — Aqui é onde a corrida termina.
Eu engoli em seco, tentando controlar a inquietação que subia, e respondi, com um sorriso que tentava esconder a dúvida:
— É um belo quarto.
Ele deu um meio sorriso, caminhando até o frigobar e pegando uma garrafa de vinho.
— Eu sempre fico nesse quarto — disse ele, abrindo a garrafa com calma.
Serviu duas taças, entregando uma para mim.
— Por algum motivo especial? — perguntei, tentando soar casual.
— Não — ele riu, com um brilho nos olhos. — Acho que sempre me colocam aqui.
Sorri junto, sentindo a tensão aliviar um pouco, mas sem desaparecer completamente.
Tomei um gole do vinho, tentando afastar a agitação que ainda pairava no ar.
— Então, você costuma ser assim tão previsível? — brinquei, apoiando o copo na mesa.
sorriu, descontraído, e deu de ombros.
— Acho que sim. Gosto de me manter no que me deixa confortável, principalmente depois de um dia pesado como hoje.
Ele fez um gesto para o sofá.
— Senta aí, fica à vontade. Não precisa ficar na defensiva.
Sentei, relaxando um pouco, sentindo que ele realmente queria que eu me sentisse bem ali.
— É só que tudo isso ainda é meio novo pra mim — admiti, girando a taça entre os dedos. — Essa vida, essa correria. Às vezes é difícil desacelerar.
assentiu, com um olhar compreensivo.
— Eu sei como é. A gente acaba sempre correndo contra o tempo, e aí sobra pouco espaço pra respirar. Mas quando a gente encontra um momento tranquilo, vale muito a pena aproveitar.
— Você faz isso com frequência? — perguntei, sem esconder a minha curiosidade jornalística.
— Não — ele riu. — Mas é como dizem por aí, faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.
O piloto se acomodou no sofá, ao meu lado, e de repente eu fiquei consciente demais da nossa proximidade.
— Dizem por aí que você faz muitas coisas — falei antes de pensar direito.
fez um estalo com a língua.
— É por isso que você tá tão apreensiva? — perguntou ele.
Me mexi desconfortável no sofá.
— Então, como é pra você, realmente, essa vida de piloto? — desconversei, olhando para as luzes da cidade através da janela.
Ele deu uma risada baixa, meio cansada.
— É uma loucura. Muito mais do que parece na TV. Tem a pressão, a rotina, os sacrifícios… Mas também tem momentos incríveis, que compensam tudo.
— Imagino — respondi. — Deve ser difícil encontrar um equilíbrio.
— É — concordou. — Você vive entre treinos, viagens, mídia, patrocinadores. Mal sobra tempo pra pensar. Mas quando consegue, esses momentos valem ouro.
Fiz um gesto para a taça.
— Um brinde a isso.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, o som distante da cidade entrando pela janela aberta. A luz suave do abajur desenhava sombras tranquilas nas paredes.
— E você, ? — ele perguntou, quebrando a pausa. — Como lida com a pressão do seu trabalho?
Pensei por um momento, olhando para o copo na minha mão.
— É parecido, na verdade. A pressão de entregar uma boa matéria, o prazo apertado, o desejo de acertar sempre... Mas acho que aprendi a respirar fundo e focar no que importa.
assentiu, compreendendo.
— Faz sentido. No fim, é tudo sobre encontrar um jeito de manter a cabeça no lugar.
— Exatamente — concordei, sentindo uma conexão ali que não esperava. — A gente aprende a filtrar o que vale a pena e o que é só ruído.
Ele deu um sorriso leve, olhando para mim com um ar mais tranquilo.
— Acho que a gente vai ficando melhor nisso com o tempo — disse ele, desviando o olhar por um instante, com um tom quase confidente.
— Ou a gente finge muito bem — brinquei, um leve sorriso dançando nos meus lábios.
Ele soltou uma risada baixa, e a atmosfera entre nós ficou um pouco mais leve.
— Ouvi dizer que você foi atrás do Neumann na entrevista hoje — comentou , como quem testa o terreno antes de fazer uma manobra arriscada.
Merda. Eu definitivamente não queria falar sobre isso com um dos pilotos.
Respirei fundo antes de responder.
— Foi mais ele que veio atrás de mim, pra ser sincera — resmunguei, levando a taça aos lábios. O vinho estava bom, seco e direto, como eu gostava. Como a verdade devia ser.
— Você ficaria muito irritada se eu dissesse pra deixar isso de lado?
Virei o rosto devagar, encarei com uma sobrancelha arqueada.
— Muito.
Ele assentiu, sem surpresa.
— Confia em mim, . Esse cara cava a cova dos outros com um sorriso no rosto. E faz parecer que foi você quem trouxe a pá. — Eu estava contando em cavar a dele primeiro — murmurei, mais pra mim do que pra ele, e dei outro gole.
soltou um riso leve, mas não tinha humor ali. Só cansaço.
— Neumann é influente. Tem amigos no alto e no baixo escalão. Não é o tipo de inimigo que você faz por capricho.
— Não é como se eu não tivesse ouvido isso antes — dei de ombros, recostando no sofá. As almofadas cederam sob meu peso, o vinho aquecia meus pensamentos. — E não é capricho.
Ele me observou em silêncio por um instante, como se buscasse algo por trás do meu rosto. Não encontrou, ou talvez tenha encontrado e decidido não dizer.
— Então por que você quer tanto bater de frente com ele?
— Porque alguém precisa — respondi, simples assim. Como se bastasse.
suspirou, apoiando o cotovelo no encosto do sofá. Eu não podia julgá-lo, também não saberia o que fazer comigo.
— Talvez você devesse conversar com o Piotr sobre isso — sugeriu ele. — Longe das câmeras, de preferência.
— Volkov? — franzi a testa, desconfiada.
— O próprio.
— E o que ele poderia me dizer que eu já não consiga descobrir sozinha?
— Bom — começou ele, balançando o vinho na taça —, pra começar, eles são da mesma equipe. E segundo… O Piotr tem umas opiniões bem fortes sobre o Neumann. Só não pode sair por aí falando.
— E como você sabe disso, se ele não pode falar? — estreitei os olhos.
deu de ombros com aquele jeitinho cínico que dizia eu sei mais do que deveria.
— Somos amigos.
Quase deixei a taça cair de tão rápido que virei pra ele.
— Você e o Czarzinho? — debochei, arrancando um sorriso bobo dele. — Não é o que pareceu mais cedo.
Ele riu, o som relaxado preenchendo a sala como se fosse música de fundo.
— Pois é.
— Essa eu realmente não esperava — comentei, ainda meio sem acreditar.
— Eu também sei surpreender de vez em quando — disse ele, se esticando no sofá como um gato satisfeito.
— Tem mais algum furo de reportagem pra mim? Vai me dizer que vocês jogam xadrez nas sextas-feiras?
— Está mais para Mario Kart.
abriu um sorriso aberto, mas eu não respondi. Em vez disso, virei a taça e fiquei olhando o vinho girar devagar, como se procurasse as palavras ali dentro.
— O que eu quero dizer é que você pode ir direto na fonte. O Piotr é um cara legal, quando quer ser. E tem um senso de justiça que… Bom, não se vê muito por aí.
— Uau — murmurei. — É muito ruim eu dizer que não acredito em você?
— Nem um pouco — ele riu. — O Piotr é fechado, o humor dele é meio sombrio… mas vocês provavelmente se dariam bem. Eventualmente.
Suspirei, olhando para o teto por um momento. As luzes suaves criavam sombras dançantes, como se a própria noite estivesse indecisa.
— Esse é o problema com o jornalismo, . Eu não tenho tempo.
Ele virou-se levemente pra mim, o olhar mais sério agora.
— Sempre existe tempo.
E por um segundo — só por um —, quase acreditei.
— Podemos mudar de assunto? — pedi, virando o rosto e deixando a taça apoiada no braço do sofá.
não respondeu de imediato. Só me olhou por um momento, como se tentasse medir até onde podia ir. Depois assentiu com a cabeça, sem forçar.
— Claro. Sobre o que você quer falar? — perguntou, gentil, mas com aquele brilho irônico nos olhos que nunca sumia completamente.
— Por que você topou aquela aposta idiota? — perguntei, virando levemente o corpo pra encará-lo, o vinho ainda pendendo na minha mão.
demorou um segundo antes de responder, como se estivesse escolhendo entre a verdade e a piada fácil.
— Porque eu acho que gostei de você — disse ele, simples assim.
Arqueei uma sobrancelha.
— Você nunca tinha falado comigo antes. Não tinha como você gostar de mim.
Ele deu de ombros e sorriu, como quem sabia que não tinha um bom argumento, mas tentava mesmo assim.
— Eu meio que gostei enquanto acontecia.
— Você sabe que não vai conseguir me enrolar com essa resposta, né?
— O que você quer que eu diga, então? — retrucou ele, um pouco desconcertado.
— A verdade — respondi, firme.
bufou, mas havia diversão nos olhos dele.
— Jornalistas… — resmungou ele, revirando os olhos de leve.
— Ah, fala sério. Não é como se você não tivesse visto essa vindo — brinquei, encostando o ombro no encosto do sofá, esperando.
Ele olhou para o teto por um segundo, como se procurasse coragem no reboco. Depois suspirou.
— A verdade? — perguntou, e eu assenti. — Eu tô um pouco cansado de mudanças.
— Bem… Isso é um problema, considerando seu emprego — comentei, sem conseguir evitar a piada.
— É — ele soltou um riso breve, sem humor. — Mas o que me cansa mesmo é ter que começar tudo de novo e de novo.
— Você quer dizer conhecer pessoas novas — completei, arqueando a sobrancelha novamente.
Ele me lançou um olhar enviesado.
— Quer dizer que você não é tão idiota quanto me fez acreditar?
— Não tenta mudar de assunto — ri, jogando a cabeça pra trás por um instante. O vinho me aquecia mais do que devia.
— Você é má.
— Todo mundo diz isso — brinquei, abanando a mão como se espantasse a fama.
respirou fundo. O clima mudou. Ficou mais quieto. Mais... Honesto.
— É que não faz sentido — disse ele, a voz mais baixa agora. — Todo esse tempo, energia, sendo investidos em pessoas diferentes...
— Que você nunca vai ver de novo? — completei.
— É — ele assentiu, pensativo. Mas então se endireitou, como se de repente percebesse algo. — Mas só pra deixar claro, eu não tô procurando um relacionamento. Não que eu seja contra. Só... Não quero que você pense que eu sou um maluco carente, ou um desses caras que se apaixona porque alguém foi legal com ele num domingo à noite.
Soltei uma risada curta e sincera. A franqueza dele, meio torta, me desarmava.
— Relaxa, . Eu… Entendo perfeitamente.
Ele virou o rosto pra mim, curioso.
— Você entende?
— Sim.
A palavra saiu mais leve do que eu esperava. E antes que eu pudesse pensar em mais alguma coisa, ele se inclinou.
Sem pressa.
Sem aviso.
E então me beijou.
O beijo começou suave, quase hesitante, como se ambos estivéssemos descobrindo o terreno pela primeira vez. Os lábios dele encontraram os meus com uma delicadeza que contrastava com a intensidade silenciosa do momento.
O gosto do vinho ainda estava na boca dele. E talvez também a dúvida. Mas naquele momento, nenhuma das nossas certezas parecia importar muito.
Aos poucos, a suavidade deu lugar a uma urgência contida, e a conexão entre nós se aprofundou. A mão dele, que acariciava o meu rosto, apertou levemente enquanto seus lábios se moviam com mais vontade, como se quisesse dizer tudo o que as palavras não conseguiam.
Meu coração acelerou, e o ar ao redor pareceu evaporar, deixando apenas o calor da proximidade, a eletricidade do toque, e o silêncio confortável do nosso entendimento mudo. Foi um beijo que dizia mais do que qualquer conversa, cheio de curiosidade e compreensão.
Mas ele se afastou. Não muito. Só o suficiente para que o beijo virasse silêncio — daqueles carregados, que dizem mais do que palavras. A testa dele encostou na minha, e por um segundo, ficamos assim, imóveis, como se nenhum de nós soubesse o que fazer com a proximidade.
— Desculpa — disse , a voz rouca. — Eu deveria ter perguntado antes.
— Você deveria — concordei, sem me afastar.
Ele respirou fundo, quase aliviado por eu não tê-lo empurrado.
— Podemos parar, se você quiser.
Fechei os olhos por um momento. O quarto estava quieto, salvo pelo som abafado da cidade do lado de fora, e da nossa respiração — ainda descompassada.
— Dever e querer são coisas muito diferentes — murmurei.
O olhar dele buscou o meu, como se esperasse uma sentença. Mas eu não disse mais nada.
Em vez disso, fui eu quem o beijou.
Sem dúvida. Sem medo.
E ele correspondeu como se já estivesse esperando por isso desde antes de me conhecer — com uma intensidade contida, mas faminta, como alguém que sabia que aquilo talvez não durasse, mas queria aproveitar cada segundo.
Não demorou para que o beijo deixasse de ser o bastante. Nunca fui boa em papo furado, afinal de contas.
Com um único movimento, me encaixei no colo dele, o tecido do vestido subindo pelas coxas como se tivesse vontade própria. arfou, surpreso — mas não recuou. Muito pelo contrário.
Suas mãos grandes pousaram com firmeza sobre minhas pernas, deslizando até me puxar ainda mais contra ele, como se quisesse apagar qualquer distância entre nós. Quando senti sua ereção roçando minha intimidade, o ar me faltou por um instante. Quase quebrei o beijo. Quase.
Mas a boca dele era boa demais para isso.
Meus dedos se entrelaçaram em seus cabelos no instante em que capturei seu lábio inferior entre os meus dentes, numa provocação carregada de desejo.
Um som grave, rouco, escapou de sua garganta — e antes que eu pudesse processar, ele se ergueu comigo nos braços, os passos decididos rumo à onde deveria ser a cama.
Ele me deitou com cuidado, mas não com gentileza. Havia algo faminto em seus gestos — como se cada segundo longe do meu corpo fosse tempo perdido.
A respiração de estava pesada enquanto seus olhos me percorriam, do vestido amarrotado até meus lábios entreabertos. Seus dedos deslizaram pela minha pele exposta, descendo devagar pela curva da minha cintura, e eu me arqueei sob o toque como se meu corpo já o conhecesse há muito tempo.
— … — ele murmurou, o nome saindo como uma súplica, como se apenas dizê-lo pudesse dar a ele algum tipo de controle. Mas quem estava perdendo o controle era eu. E o meu sangue cantava pela adrenalina que só ele poderia me oferecer naquele momento.
Segurei-o pela camisa, puxando-o para mais perto, para mais fundo. O tecido do vestido cedeu entre nós — ele me despiu como se cada camada fosse uma provocação, e cada segundo um tormento. Quando seus lábios encontraram meu pescoço, um arrepio me percorreu inteira. Meus dedos escorregaram sob a barra da camisa dele, tocando pele quente e músculos tensos, e eu me surpreendi com o quanto queria mais. Tudo.Dele.
A forma como ele me olhava… Como se eu fosse um segredo que ele mal podia esperar para desvendar. Eu mostraria para ele todas as minhas notícias, todas as minhas colunas, todos os meus artigos de opinião, todos os meus pronunciamentos oficiais. Eu o daria tudo se ele continuasse a olhar assim pra mim por muito tempo.
se posicionou sobre mim, seus quadris pressionando os meus com uma precisão perigosa. Nossas peles finalmente se encontrando, sem barreiras, foi como se o mundo silenciasse. A sensação dele contra mim era tudo o que eu conseguia processar.
— Você tem ideia do que está fazendo comigo? — ele sussurrou entre os dentes, os olhos fixos nos meus.
Sorri, embora meu coração batesse com força demais para disfarçar.
— Eu tenho uma ideia — respondi, arfando. — Mas eu adoraria que você me mostrasse.
Ele não respondeu com palavras. E eu não precisei de mais nada além do modo como seus lábios encontraram os meus de novo — como se esse fosse o único idioma que importava.
O calor entre minhas pernas já era quase insuportável quando ele se ajoelhou entre elas, puxando minha calcinha com os dentes como se quisesse marcar cada gesto na minha memória.
Quando sua boca me alcançou, foi como um choque. Nada de delicadeza. Ele sabia o que fazia. Me lambeu com precisão, com ritmo, com fome — como se me conhecer ali fosse tão urgente quanto respirar.
A pressão da língua dele contra meu clitóris arrancou de mim um gemido alto, sem escrúpulos. Eu abri mais as pernas, implorando sem palavras para que ele não parasse, e ele não parou. A cada investida, eu sentia o clímax se aproximando com velocidade impiedosa. — … Eu estou quase lá… — foi tudo o que consegui dizer, os quadris já buscando mais, querendo mais.
Ele subiu por cima de mim num movimento fluido, e eu senti a cabeça do seu pau roçar a minha entrada. O mundo pareceu parar. E o olhar que trocamos naquele momento foi puro fogo.
Sem aviso, ele me penetrou.
Eu ofeguei. Ele gemeu. E então nos movemos como se nossos corpos tivessem esperado muito tempo por aquilo.
Era intenso. Rápido. Cru.
Eu o puxava para mais perto, as unhas arranhando suas costas, marcando território. Ele me segurava com força pelas coxas, me puxando contra ele a cada estocada, como se quisesse se enterrar em mim até desaparecer.
Não havia mais tempo, nem controle. Quando eu gozei, o meu corpo inteiro pareceu entrar em convulsão, enquanto eu gritava o seu nome — e ele veio logo depois, se enterrando fundo uma última vez, o corpo inteiro tenso, a respiração entrecortada.
Ficamos ali, colados, suados, nossos peitos subindo e descendo num ritmo desigual. Eu me sentia viva. Quente. Cheia.
— Isso foi... — começou , ainda ofegante.
— Sim — respondi no mesmo tom, com um suspiro que escapou antes que eu pudesse contê-lo.
Ele se virou na cama, mais próximo, e afastou com delicadeza uma mecha de cabelo que caía sobre meu rosto. Depois, me deu um beijo leve — daqueles que não pedem nada em troca, mas entregam mais do que deveriam.
E, por um instante, contra toda lógica, desejei que aquilo não fosse apenas mais uma noite.
— Não foi só uma noite — disse ele, como se tivesse lido o pensamento estampado na minha pele.
Eu congelei por um segundo. Meus olhos encontraram os dele, e a leveza na expressão dele me desmontou.
— Eu não... — comecei, sem saber onde queria chegar.
— Não precisa dizer nada — ele interrompeu, com a voz baixa. — Eu sei que você tem os seus receios. Só queria que você soubesse… Não foi só mais uma noite pra mim.
Fiquei olhando pra ele. Vulnerável. Verdadeiro. E bonito pra caramba, o que era quase injusto nesse contexto.
— Obrigada, eu acho? — fiz uma careta, tentando suavizar. — Eu sempre soube que era boa de cama, mas é bom ter confirmação científica.
gargalhou, a risada ecoando contra o teto do quarto escuro.
— Eu vou te poupar dos comentários que fariam você fugir correndo — disse ele, divertido.
— Meio tarde pra isso, Beetlejuice — provoquei, arqueando uma sobrancelha.
— Cala a boca, Annabelle — rebateu ele, jogando-se de volta nos travesseiros.
Me puxou junto, acomodando minha cabeça em seu peito nu. Os dedos dele começaram a brincar distraidamente com meu cabelo, num carinho lento, quase inconsciente.
Por um tempo, ficamos ali, ouvindo a respiração um do outro, o som distante da cidade noturna atravessando a janela semiaberta.
— Mas, sério — ele falou de novo, a voz rouca de sono e sinceridade. — Eu gostaria de ver no que isso pode dar… Se você quiser, claro.
Mordi o lábio, mais por reflexo do que hesitação.
— Eu posso pensar no seu caso — respondi, olhando pro teto, porque olhar pra ele seria demais. — Eu meio que não sou fã de começos.
não respondeu de imediato. Só continuou com os dedos passeando devagar pelo meu cabelo, como se soubesse que qualquer palavra além daquela seria exagero. E talvez fosse.
A verdade é que eu não sabia o que aquilo era.
Nem se queria saber.
Mas ali, envolta no calor do corpo dele, no cheiro da noite, no som abafado da cidade que não nos conhecia — tudo parecia suspenso.
A merda já estava feita.
O que me restava era lidar com as consequências das minhas atitudes.
Mas eu faria isso amanhã.
Muita gente por aí diria que isso não passa de um transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Mas eu prefiro chamar de superpoder.
Claro que os jornalistas da editoria criminal adoram se gabar, achando que estão num patamar acima por lidarem com sangue e uma cadeia de acontecimentos catastróficos. Eles se encantam com a ideia de mergulhar na sujeira com o aval das autoridades. Mas sejamos honestos: qualquer um com acesso e um pouco de estômago pode fazer isso. Não há nada de especial nisso.
Os verdadeiros fodões somos nós — aqueles que enfrentam a verdadeira selva: os sociopatas que não cometem erros grosseiros. Aqueles que não são pegos. Que andam de terno, falam a língua do dinheiro e se escondem à vista de todos. Eles, sim, são os mais perigosos. E desmascará-los é onde está a verdadeira emoção.
Fazer isso e, de quebra, realizar indiretamente o sonho do meu irmão… É um privilégio que ninguém pode tirar de mim.
Aquele era meu primeiro ano representando a BBC no comitê jornalístico da Fórmula 1. E, pela primeira vez em cinco anos, a ausência dele não era tão difícil. Pela primeira vez, ele não parecia tão longe.
O céu de Miami estava limpo no dia das classificatórias, e o calor do asfalto ondulava a imagem dos carros nos treinos livres. Eu podia até imaginar o sorriso debochado de Adam, se gabando de quanto peso perderia naquela corrida — e de como, depois, comeria o que quisesse. Nem o serviço de quarto mais decadente o deteria.
— Trouxe chá gelado pra você — disse Joshua, sentando-se ao meu lado na área reservada à imprensa.
— Obrigada, você é muito gentil — respondi, aceitando o copo plástico já suado pelo contraste de temperatura.
— Achei que podia ajudar com essa sua terapia de choque sob o sol da Flórida — brincou ele, limpando uma gota de suor na têmpora.
— Muito engraçado, Fields — revirei os olhos. — Eu sou uma garota da praia agora, diferente de você.
Josh fez uma careta divertida, o que só realçou o vermelho em seu nariz já castigado pelo sol.
— O que isso quer dizer?
— Você passou protetor solar? — perguntei, meio séria.
Os olhos dele se arregalaram. Em segundos, estava vasculhando sua mochila num desespero cômico. Não resisti e ri.
— Merda — murmurou, os braços mergulhados até os cotovelos na bagunça da mochila.
— Aposto que esqueceu — provoquei, só pra ouvir seu típico grunhido de indignação.
— Você não tá ajudando.
Apenas balancei a cabeça e entreguei meu bastão de protetor solar. Ele aceitou com um suspiro de alívio. Logo depois, tirou o celular do bolso traseiro da calça jeans e abriu a câmera frontal para aplicar o protetor como se fosse um espelho improvisado.
Dessa vez segurei o riso, desviando o olhar dele para voltar ao que importava: a pista.
Reconheci o vermelho característico da escuderia Rinspeed quando o carro passou rasgando o asfalto. A essa altura, devia ser Henri Chevalier no volante.
Ao meu lado Josh riu, finalmente mais relaxado, e se jogou na cadeira ao meu lado, estalando os dedos como se tivesse acabado de realizar um feito épico.
— Você devia considerar escrever colunas de lifestyle. “Como ser uma jornalista badass com filtro solar fator 80 e sarcasmo.”
— Já tenho um título melhor — retruquei, apoiando o cotovelo na mesa. — “Como não morrer torrado enquanto persegue histórias que ninguém quer contar.” Tem mais a ver comigo.
Josh me lançou um olhar breve, mais sério dessa vez. Houve uma pausa leve, quase imperceptível, como se ele hesitasse entre dizer algo ou respeitar o silêncio.
— Você não tá pensando em ir atrás do Neumann, tá? — ele perguntou por fim, a voz mais baixa.
— Não vou dizer que a ideia não passou pela minha cabeça respondi, firme, mas sem dramatizar.
Josh soltou um suspiro resignado, coçando a nuca.
— Você sabe que isso pode dar problema, né? Logo no seu primeiro ano por aqui, ... tem certeza de que é isso mesmo que quer?
— Eu não atravessei o oceano pra virar figurante de Drive to Survive — dei de ombros.
Ele riu, um riso breve, cúmplice.
— Você vai acabar sendo demitida.
— Ou promovida — pisquei de volta.
Josh balançou a cabeça, ainda sorrindo, mas então franziu o cenho.
— Você acredita mesmo que ele fez todas aquelas coisas?
Levei a mão ao queixo, teatral.
— Um homem poderoso se comportando de forma inapropriada com mulheres no ambiente de trabalho? — ergui as sobrancelhas e olhei para o céu. — Não me parece muito difícil de acreditar.
Josh soltou um riso seco.
— Você tem um ponto.
— E você tem insolação — rebati, voltando ao tom leve.
— Ingrata. Trago chá gelado, dou apoio emocional e ainda sou ridicularizado.
— Você gosta. E sabe disso.
Ele riu, balançando a cabeça. Um carro rugiu na pista, fazendo todos olharem. Era novamente o Rinspeed, rasgando o circuito em uma volta rápida.
Então tudo aconteceu de repente.
O som do carro mudou.
Foi quase imperceptível — um tom fora de lugar, uma quebra na cadência. Eu estava anotando algo sobre os compostos da Alpine, ouvindo Josh reclamar do sol direto na câmera, quando o rugido do motor Rinspeed perdeu… Algo.
Josh parou de falar.
Os alto-falantes chiaram. Três segundos depois, a confirmação:
Car 16 — spin. Turn 16. Yellow flag.
Eu já sabia. Tinha escutado. Senti no peito. O som de um giro não é como o de uma batida — é mais sutil, mais cortante. Como se o ar ao redor ficasse tenso por um instante e depois cedesse.
No telão acima dos boxes, o replay apareceu. Chevalier, entrando rápido demais — ou talvez confiando demais na traseira — escorregou. O carro girou de forma limpa, quase ensaiada, sem colisão. Mas ainda assim: um erro.
— Curva 16 pegando gente de novo — comentou Josh, já abrindo o gravador para marcar a fala.
— Sim — respondi, breve. Eu estava observando o giro quadro a quadro.
O carro rodou de traseira, reequilibrou, e parou de lado. Um gesto de fragilidade no meio de um ambiente feito para controle absoluto.
Chevalier ficou ali, imóvel por um segundo. Depois arrancou de volta aos boxes como se o giro não tivesse acontecido. Mas nós vimos. Todo mundo viu.
— A Monster vai gostar disso — disse Josh.
Franzi o cenho em uma careta.
— Vencer não vai abafar esse escândalo pra sempre.
O pitlane seguiu como se nada tivesse acontecido — o sol, o asfalto, os homens de macacão correndo com pneus e planilhas. Como se aquilo não passasse de rotina. Como se qualquer coisa só passasse de rotina.
E o meu trabalho — o nosso trabalho — é prestar atenção antes no que ninguém percebia.
No que a equipe inteira se esforçava pra esconder.
Até mesmo do piloto.
O burburinho da sala de imprensa se misturava ao som abafado dos ventiladores industriais girando no teto, tentando em vão competir com o calor úmido de Miami. A coletiva pós-classificatória estava prestes a começar, e o lugar já fervilhava de jornalistas, câmeras e microfones apontados como armas para os três pilotos mais comentados do dia.
Piotr Volkov, que conquistou a pole position, ocupava o centro da mesa com a confiança meticulosa de quem está exatamente onde planejou estar. Vestia o macacão preto e verde-limão da Monster Racing com perfeição quase robótica, os cabelos loiros platinados ainda úmidos de suor, mas impecavelmente penteados para trás.
Ao seu lado, Roman Neumann, chefe da escuderia, mantinha-se ereto, a postura rígida como se a cadeira fosse uma extensão de sua espinha. Vestia um blazer escuro sobre uma camisa impecavelmente passada, sem uma gota de suor visível, apesar do calor. O tipo de homem que não levanta a voz, mas que faz qualquer um repensar duas vezes antes de contrariá-lo. Seu olhar fixo nos pilotos adversários parecia medir cada palavra antes mesmo dela ser dita.
Henri Chevalier, segundo colocado, trazia um contraste desconcertante. A camisa branca da Rinspeed estava meio amarrotada, os dois botões de cima abertos, e o cabelo castanho levemente desgrenhado parecia ter sido passado pela mão suada mais de uma vez. Mas o sorriso presunçoso no rosto deixava claro: ele estava satisfeito com o seu desempenho, apesar do susto nos treinos livres.
Ao lado dele, o chefe da equipe, Antoine Vassel — um belgo de poucas palavras e muitos milhões investidos — mantinha os braços cruzados, encostado na cadeira com o olhar de quem calcula resultados em tempo real.
E, à direita, meio deslocado na comparação, mas ainda assim presente com uma expressão sorridente e levemente descontraída, . O quinto melhor tempo e o único rosto britânico entre os três. O macacão branco e dourado da Porsche mal escondia o nervosismo nos ombros tensos.
Acompanhado por Peter Bloom, chefe de equipe da Porsche Motorsport, que dava tapinhas leves nas costas do piloto sempre que ele parecia se enrolar nas palavras — como se pudesse absorver parte da pressão com contato físico.
Um dos wjornalistas estrangeiros foi o primeiro a levantar a mão.
— Piotr, essa pole foi conquistada com um tempo impressionante, especialmente no segundo setor. Houve alguma mudança de última hora no acerto do carro?
Piotr inclinou-se ligeiramente para o microfone, seu inglês carregado pelo sotaque russo.
— Sim. Trabalhamos muito no equilíbrio do carro ontem à noite. Tivemos instabilidade na entrada das curvas de alta. Mas... Hoje o carro respondeu como esperávamos. A equipe fez um trabalho perfeito.
Roman Neumann assentiu levemente, como quem apenas confirma o óbvio.
Outro jornalista, desta vez francês, se direcionou a Henri:
— Chevalier, você parecia bastante agressivo na volta rápida. Houve algum erro estratégico, ou você está guardando desempenho para a corrida?
Henri sorriu de canto, inclinando a cadeira perigosamente para trás, as mãos cruzadas atrás da cabeça.
— Se isso foi guardar desempenho, imagina quando eu quiser mesmo ganhar — risos se espalharam pela sala. nem piscou. — Mas falando sério, o carro estava bom, sim. Só... Escorregou um pouco na curva 16. Culpa minha. Mas amanhã é outro dia.
, que continuava em silêncio, foi o próximo alvo.
— , quinto lugar em uma pista exigente como Miami. Seu nome é o mais cotado quando se fala na disputa pelo título. Você acredita que tem ritmo para brigar pelo pódio amanhã?
limpou a garganta, ajeitou o microfone e respondeu com um sorriso ensaiado.
— O carro se comportou bem hoje. Ainda temos margem para melhorar o ritmo de corrida, mas estou otimista. Com uma boa largada e estratégia, tudo é possível.
Peter Bloom murmurou algo no ouvido dele enquanto discretamente arrumava os papéis à sua frente.
Ao meu lado, Josh levantou a mão pedindo a fala.
— Joshua Fields para a BBC Sports. Pergunta para Henri Chevalier — disse ele, com um leve sorriso no rosto. — Você acredita que o seu giro nos treinos livres contribuiu para a conquista da pole position pela Monster nas classificatórias de hoje?
Bastardo, filho de uma puta, ele foi mais rápido.
Henri sorriu antes mesmo de pegar o microfone — aquele sorriso inclinado, de quem está mais interessado na provocação do que na resposta.
— Acho que deu um pouco mais de confiança ao Piotr, não vou mentir.
Alguns risos discretos ecoaram pela sala. Antoine Vassel manteve-se imóvel, olhos fixos em algum ponto além da fileira de jornalistas.
Henri continuou, ainda com o microfone na mão.
— Eu sabia que estava no limite. O setor anterior veio forte, e pensei: “por que não mais um pouco?” A traseira... Discordou. Mas consegui segurar. Quase. — ele deu de ombros, despreocupado. — Faz parte, não é?
Josh arqueou uma sobrancelha, já anotando algo no bloquinho.
— Só espero que amanhã você não convide o muro pra esse tango — retrucou o jornalista, em tom leve.
— Se convidar, que ao menos seja dramático o suficiente pra render uma boa capa — respondeu Henri, piscando.
A sala sorriu, mas Roman Neumann não. Ele sequer disfarçou a impaciência.
Mais duas perguntas rápidas vieram depois, mas a energia já estava em declínio. Os pilotos se entreolhavam, os chefes de equipe conferiam relógios e a mediadora, sinalizou a última rodada de perguntas.
Josh virou-se para mim com aquele brilho nos olhos que ele só tinha quando um piloto respondia com mais ego do que estratégia.
— Esse cara vai enfiar o carro no muro só pra provar um ponto, aposto com você — murmurou ele, já preparando o título mental da matéria.
— Ou só pra te dar mais assunto pra escrever, seu ladrãozinho — retruquei, pegando meu gravador e fechando o caderno.
A mediadora estava prestes a dar a coletiva por encerrada, mas eu levantei a mão, sinalizando minha vez. Eu não o deixaria ficar com toda a glória.
— para a BBC Sports. Pergunta para todos os pilotos — falei, projetando a voz o suficiente para que os três olhassem em minha direção. — Miami tem sido uma pista imprevisível. Quais os maiores desafios que cada um de vocês espera enfrentar amanhã, além do calor sufocante, é claro?
Henri respondeu primeiro, sem sequer hesitar.
— Os muros. Estão sempre lá. E muito mais impiedosos do que os engenheiros prometem.
— Você conheceu bem os muros, não é? — alguém debochou no meio da sala, mas, assim como eu, os pilotos fizeram questão de ignorar.
Piotr seguiu, sério.
— Pneus. A degradação vai ser fator chave. Saber quando atacar e quando esperar.
pensou por um segundo antes de responder:
— Tráfego. Com carros tão próximos em desempenho, saber onde se posicionar pode definir a corrida.
Assenti, anotando tudo, embora mais interessada nas expressões do que nas respostas. Volkov era metódico, impenetrável. Chevalier, performático e impulsivo. , o clássico piloto em formação, tentando provar que merece estar ali.
Antes que alguém pudesse pedir mais uma pergunta, me adiantei:
— , você acha que o lock-up na curva 17 foi o que te custou a pole position e mais algumas posições na tarde de hoje?
A sala silenciou por um instante. Peter Bloom desviou o olhar para o chão, claramente desconfortável com a pergunta direta. olhou para mim, surpreso pela pergunta — e talvez por eu ter prestado atenção suficiente para notar.
Ele respirou fundo antes de responder, com honestidade crua, sem floreios:
— Acho que... Mesmo nessa volta, tudo poderia ter sido diferente. Mas eu não consegui. O ritmo estava bom, o carro estava bom... — fez uma pausa, os dedos tamborilando no microfone. — Ainda não consegui juntar tudo, mas é isso.
Não houve sorriso de alívio. Nenhuma tentativa de amenizar a resposta. Apenas a frustração contida de um piloto que sabia exatamente onde errou — e que o mundo inteiro também sabia.
Piotr Volkov mal escondeu a expressão de superioridade, recostando-se com a tranquilidade de quem não travou roda nenhuma. Chevalier ergueu uma sobrancelha em silêncio, quase curioso com a sinceridade de .
Roman Neumann, por outro lado, virou levemente a cabeça na direção de , como se estivesse avaliando não o erro em si, mas a forma como ele havia sido assumido. Com ele, as palavras não eram a moeda — era a postura.
Peter Bloom tocou brevemente o ombro de , num gesto automático, como se pudesse encobrir a exposição com empatia. A mediadora da coletiva pigarreou, tentando retomar o controle.
— Esperem a palavra antes de começarem, por favor...
Mas eu já estava guardando as minhas coisas, satisfeita.
Às vezes, uma resposta comedida diz mais que uma manchete.
A coletiva seguiu com mais algumas perguntas protocolares, mas eu já tinha o suficiente. Meu mapa de personalidades estava montado. E uma história boa começa, quase sempre, por entender quem está mentindo — e quem apenas aprendeu a responder do jeito certo.
A coletiva mal tinha terminado quando ouvi alguém chamar:
— Ei, garota nova!
Virei o rosto por cima do ombro e dei de cara com , ainda usando metade do sorriso nervoso da coletiva. Ele acenava desajeitadamente enquanto se aproximava, o macacão parcialmente desabotoado e pendurado na cintura. Franzi o cenho, surpresa. Aquilo era... Inesperado.
Ele parou a poucos passos, passando a mão pela nuca e curvando ligeiramente os ombros, como se estivesse pedindo desculpas por falar comigo.
— Eu tenho visto muito você por aqui — disse ele, a voz baixa, quase incerta. — Qual é mesmo o seu nome?
— — respondi, franzindo o cenho, como se tentasse decifrar o motivo daquele momento estranho com um piloto conhecido por sua confiança exagerada.
— Nome bonito, — disse ele, sorrindo, embora o nervosismo fizesse a expressão parecer mais uma careta do que uma conquista. — Eu sou...
Soltei uma risadinha, interrompendo-o antes que ele cometesse a gafe completa.
— Acredito que todos nessa sala sabem muito bem quem é .
Ele fechou os olhos por um instante, como se esperasse que o chão se abrisse sob seus pés e o engolisse. Foi impossível não sentir uma pontada de diversão interna. Ver um dos queridinhos da mídia tropeçar fora da pista era um raro privilégio.
— Claro. É... Foi meio idiota da minha parte — murmurou , parecendo mais humano de repente.
— Não se preocupe — dei de ombros, deixando escapar um sorriso leve. — Eu faço coisas idiotas o tempo todo.
Foi como se um peso tivesse saído dos ombros dele, e ele sorriu de volta, mais solto, mais leve. Tinha um sorriso bonito — torto, espontâneo — com um canto da boca subindo mais que o outro e o nariz franzido de um jeito quase involuntário, mas estupidamente adorável. Tudo bem, ele era todo bonito.
— Bom, então talvez a gente devesse fazer algo idiota juntos — arriscou ele, de um jeito tímido que não combinava com o piloto excêntrico sobre o qual todos falavam.
Fiquei sem palavras por um segundo, mordendo o lábio inferior.
O que ele acabou de dizer?
— Ok... — eu disse, meio rindo. — Eu não estava esperando por isso.
— Merda, isso foi tão idiota quanto — praguejou ele, envergonhado.
— É, foi bem idiota — admiti, rindo de verdade agora, contagiada pelo jeito bobo dele.
O riso dele veio junto, mais espontâneo, e por um momento fomos só dois desconhecidos trocando uma conversa casual num corredor de bastidores.
— Sabe o que seria mais idiota ainda? — perguntou ele, inclinando a cabeça, os olhos fixos nos meus.
— O quê?
— Se você dissesse sim.
Ficamos em silêncio por um momento. Aquele tipo de pausa que poderia facilmente pender para o estranho, não fosse o jeito absurdamente sincero com que ele me olhava. Como se estivesse colocando tudo ali, naquele instante. Ele me chamou para sair.
me chamou para sair?<;i>
— O que me diz? — insistiu ele, ainda esperançoso, como uma criança pedindo permissão.
— Estou trabalhando — respondi com um sorriso contido, o profissionalismo tentando salvar a situação.
— Eu também estou — rebateu ele, com um olhar que pedia por algo além da rotina. — Mas e depois?
Suspirei, sentindo um leve nó se formar na garganta. Sabia que estava pisando em terreno complicado.
— Seria inapropriado — falei, tentando manter o tom firme.
— Eu não acho — disse ele, tão certo de si que quase me convenceu.
Quase.
— Você é um piloto. Pode fazer qualquer coisa, contanto que continue pontuando nas corridas — falei, tentando soar mais convicta do que me sentia.
— Não é bem assim — respondeu ele.
— Talvez — concordei, desviando o olhar por um segundo, sentindo o peso das regras invisíveis que me cercavam. — Mas é como você disse, eu sou a garota nova. Não posso me dar ao luxo de ser mal interpretada.
Ele sorriu, e dessa vez parecia genuinamente divertido.
— Nem se estivermos cercados de outros idiotas? — perguntou ele, tentando se conter e ao mesmo tempo desafiando a minha cautela. — Você é mesmo insistente, hein? — provoquei, achando graça.
— Insistência é tudo que me resta — disse ele, com aquele tom de quem já não tem mais nada a perder. — Sou piloto de Fórmula 1, afinal.
Sorri, balançando a cabeça. Ele tinha carisma — daquele tipo involuntário, que não sabe exatamente o que fazer com o próprio charme. — Você não está errado — admiti.
— Então você topa ser minha acompanhante na after party depois da corrida? — perguntou ele, deixando a cabeça pender para o lado preguiçosamente.
— Acompanhante é um pouco demais, não acha? — fiz uma careta, sem conseguir evitar.
Ele riu — um som inesperadamente leve, quase despreocupado, que escapou dos lábios dele como quem não tenta impressionar, mas impressiona mesmo assim. E tinha algo ali, no timbre rouco misturado com aquele breve soluço de fôlego no fim, que me atingiu de surpresa. Era o tipo de riso que grudava, que fazia o peito vibrar em resposta, como se o ar ao redor tivesse mudado de densidade por um segundo.
— Tudo bem — disse . — E se a gente se encontrar lá, então?
— E se a gente testasse o quão insistente você pode ser? — sugeri, com um sorriso enviesado.
— Estou ouvindo — respondeu ele, os olhos brilhando de curiosidade.
Sorri, sentindo a adrenalina do momento.
— Eu te encontro lá...
— Se? — ele se adiantou, ansioso.
Meu sorriso se alargou.
— Se você vencer a corrida amanhã.
Os olhos dele brilharam com aquela chama competitiva que só aqueles viciados em adrenalina eram capazes de reconhecer.
— Espero que você goste de festas — disse San, recuando alguns passos. — Porque eu vou vencer essa corrida.
— Vamos ver — respondi, dando uma piscadela antes de me virar para encontrar Josh, que estava me esperando perto dali, encostado na parede, os braços cruzados e o olhar cheio de diversão.
Passei por ele como se nada tivesse acontecido, mas é claro que ele não deixaria por isso mesmo.
— Você é má — disse ele, cruzando os braços.
— O que eu fiz dessa vez? — perguntei, fingindo inocência.
— Você sabe que nunca venceu um Grand Prix — comentou ele, sério, mas com um leve sorriso.
— A maioria deles nunca venceu — dei de ombros, tentando manter a leveza.
— Você podia ter simplesmente negado o convite — disse Josh, balançando a cabeça.
— Eu não queria negar — admiti, mordendo o lábio.
— Por que não aceitar logo? — perguntou ele.
— Você sabe que eu não deveria — suspirei, ciente de que apesar de tudo eu já tinha me colocado em uma situação delicada. — E você sabe como esses atletas são. Eles precisam se manter motivados.
— E se ele vencer? — perguntou ele, curioso.
— Ele não vai vencer — garanti, tentando convencer a mim mesma.
Josh apenas me observou, claramente sem acreditar, e o corredor ficou em silêncio enquanto eu sentia o peso daquela aposta se instalando entre nós.
O céu estava carregado, mas o sol teimava em espreitar entre as nuvens, criando um clima estranho — quente demais para um dia com ameaças de tempestade. O calor abafava o ar, pesado, quase palpável. No pitlane, a conversa era sussurrada, porque ninguém parecia ter coragem de dizer em voz alta que a chuva podia chegar a qualquer instante, que tudo poderia virar um caos.
Enquanto os carros alinhavam para a largada, eu sentia o suor escorrer pelas costas da camisa, misturado com a ansiedade que vibrava no ar. Piotr Volkov estava lá, impassível como sempre, os olhos fixos no horizonte, no grid que começava a ferver. Parecia que, para ele, nada poderia interferir na corrida que ele planejava fazer.
Chevalier, por outro lado, trocava olhares rápidos com os engenheiros, os músculos tensos. O erro no treino ainda era uma sombra que ele carregava, e eu podia ver isso na maneira como ele segurava o volante, como se se preparasse para lutar contra a pista — e talvez contra a sorte.
E havia .
Ele parecia carregar o peso do dia inteiro nas costas, mas também uma determinação que eu não podia ignorar. O calor parecia desgastá-lo, o sol castigava sem piedade, e as nuvens no céu lembravam que a pista poderia virar um espelho a qualquer momento.
Quando as luzes se apagaram, o estrondo dos motores explodiu no ar — uma explosão de adrenalina e possibilidades. Volkov disparou, com aquela confiança natural, enquanto Chevalier seguia na cola, parecendo enfrentar a sua própria batalha silenciosa.
O ar quente vibrava com cada curva, cada troca de marcha. A tensão aumentava a cada volta, porque ninguém sabia se a chuva que rondava viria para lavar a pista — ou para afundar os sonhos ali desenhados.
O som ensurdecedor dos motores fazia o ar vibrar, cada aceleração reverberando no peito como um tambor de guerra. Do meu lugar na área de imprensa, observei mergulhar por dentro na curva 12, numa ultrapassagem ousada que arrancou um leve murmúrio dos jornalistas ao meu redor.
Ele estava pilotando no limite. E eu sabia disso porque dava para ver — mesmo àquela distância — o esforço estampado na postura do corpo dentro do cockpit. Eu podia imaginar suor escorrendo pelo rosto, o macacão colado à pele pelo calor escaldante da Flórida, e ainda assim ele mantinha o foco, a agressividade, a fome.
A corrida era uma mistura cruel de sol, pressão e velocidade. Mas estava ali. Inteiro. Presente.
E, contra toda a lógica que tentei construir para mim mesma nos últimos dias, eu me peguei torcendo por ele. De verdade. Sem o cinismo confortável do meu trabalho, sem o distanciamento que aprendi a usar como escudo. Só uma vontade genuína de vê-lo conseguir — de ver aquele quinto lugar de ontem virar história.
Mas então, claro, veio a lembrança.
A provocação.
A aposta.
E ele já tinha subido duas posições.
As últimas voltas da corrida se desenrolavam com intensidade, e a tensão no ar era quase elétrica. As vozes dos locutores ecoavam pelos alto-falantes, misturadas ao rugido constante dos motores na pista. Eu mal piscava. A adrenalina ali era contagiante, mesmo do lado de cá das grades.
— ultrapassou Chevalier — provocou Josh, recostado na cadeira ao meu lado com o olhar colado na tela de cronometragem. — É melhor começar a pensar na roupa que vai usar hoje à noite.
Lancei a ele um olhar de soslaio, mas mantive a compostura.
— Eu já sei que roupa eu vou usar hoje à noite — respondi com um leve dar de ombros, como se a ideia não tivesse qualquer peso. Mentira. Claro que tinha.
Josh arqueou uma sobrancelha, um sorriso travesso se formando nos lábios.
— Acho bom mesmo, porque tudo indica que você vai ter um encontro essa noite — ele me cutucou com o cotovelo, o tom carregado de malícia.
Revirei os olhos.
— Não é um encontro — murmurei, tentando soar firme, mas até eu podia ouvir a hesitação na minha voz.
— Então é melhor você dizer isso pra ele — respondeu Josh, com um dar de ombros despreocupado, como se o destino daquela noite não estivesse me pressionando a cada volta que ganhava na pista.
— Tô falando sério, Josh — bufei, cruzando os braços.
— Eu também — disse ele, sério agora, o sorriso apagado por um segundo. — Talvez ele leve isso mais a sério do que você imagina. Fiquei em silêncio. O comentário bateu mais fundo do que eu queria admitir.
Fechei os olhos por um segundo e respirei fundo, tentando me proteger da onda de expectativa que começava a crescer dentro de mim. Eu não devia me envolver.
Eu não devia torcer.
Mas, merda... Ele podia realmente ganhar.
E uma parte de mim — uma parte teimosa, jovem, escondida debaixo de camadas de racionalidade — queria que ele conseguisse. Porque, se ele ganhasse, eu não teria mais desculpa.
E eu odiava o quanto isso me empolgava.
O som dos motores ainda reverberava pelo circuito, cada volta apertando o estômago com mais força. Eu já nem me mexia mais na cadeira — estava completamente imersa na corrida, com os olhos cravados na tela. Josh também. Ninguém conversava muito naquela altura. A tensão falava por todos.
Então, o carro verde da Monster Racing fez a curva final do setor três e entrou nos boxes.
— Merda — praguejei, sentindo a palavra escapar como um soco.
— O que você disse? — Josh virou o rosto para mim, curioso.
— Volkov acabou de entrar nos boxes — resmunguei, tentando disfarçar o pânico crescente que começava a pulsar no peito. Aquilo podia mudar tudo. Ele estava em primeiro. E logo atrás.
— Não se preocupe — disse Josh, tentando manter a calma. — provavelmente vai entrar também, os pneus dele não vão durar muito tempo nesse asfalto quente.
Mas então, o carro azul da Porsche se aproximou da entrada dos boxes... E simplesmente passou direto.
— Ou talvez não... — completou Josh, a voz mais baixa agora, quase contida pelo espanto. Nem ele parecia acreditar no que acabara de ver.
— Me diz que ele não está fazendo o que eu estou pensando — sussurrei, sem tirar os olhos da tela. Josh umedeceu os lábios, o maxilar travado.
— Eu vou te dizer o que ele não está fazendo — murmurou ele. — Ele definitivamente não está fazendo o pit stop.
Por um instante, tudo ficou em suspenso. E então, o carro verde da Monster saiu dos boxes com tudo, retomando velocidade na reta... Mas já era tarde.
Antes que Volkov alcançasse a saída, o carro azul da Porsche já havia cruzado o ponto de intersecção e assumido a liderança.
A sala explodiu em murmúrios e exclamações. Eu não ouvi nada. Só o som do meu coração acelerado, como se quisesse acompanhar o ritmo da pista.
— Ele vai vencer a corrida — sussurrei, quase sem ar.
E, pela primeira vez naquela tarde, eu senti o peso da realidade sobre os meus ombros.
O paddock depois da corrida tinha um som oco. As vozes ainda estavam ali, a euforia ainda pairava no ar, mas era como se tudo tivesse diminuído alguns tons. Como se o mundo estivesse tentando voltar ao normal, só que com os ouvidos ainda zumbindo.
Eu caminhava ao lado do Josh, apertando o tablet contra o peito como se ele pudesse me proteger de alguma coisa.
Dele, talvez. De mim, com certeza.
— já tá na sala de imprensa — disse ele, lendo alguma notificação. — Foram direto nele. Vitória dramática, último stint, rádio emocionante... Esse tipo de coisa.
É agora. A oportunidade perfeita. Só preciso parecer racional. Profissional. Indiferente.
— Então vai com ele — falei, com naturalidade ensaiada.
Josh parou. E eu continuei. Dois, três passos. Depois me virei com o melhor olhar de “isso não é nada demais” que consigo fazer.
— Como assim, vai com ele? — ele perguntou, me olhando como se eu tivesse acabado de sugerir que trocássemos de identidade.
— Eu vou pra sala de Volkov — respondi. Simples. Objetiva. O tipo de fala que não convida a perguntas.
Ele me encarou como se estivesse tentando decifrar um código.
— Tá. Mas… Por quê? venceu. O Piotr chegou em segundo. Ele é a estrela, mas não é o headline.
— Volkov é o atual campeão — respondi, como se fosse óbvio. — Tudo o que ele diz repercute. A última vez que deixaram ele sozinho com um microfone, a Monster teve que fazer três comunicados de imprensa pra explicar que ele não chamou o carro de “banheira soviética”.
Josh riu, mas não cedeu.
— …
Levantei a mão, cortando.
— Ele já teve problema com a imprensa italiana distorcendo um comentário dele em Ímola, lembra? Eu não posso perder essa chance.
Josh deu dois passos até ficar na minha frente. Baixou o tom.
— Você tá fugindo — disse ele, sem rodeios.
Fiquei em silêncio. Por dois segundos.
— Tô organizando prioridades — corrigi, seca. — É melhor um membro da BBC em cada entrevista do que dois apenas em uma.
Ele me encarou. Depois sorriu, leve, quase gentil.
— Sabe que não vai conseguir evitar ele pra sempre, né?
— Eu sei.
— After party — ele cantou, como quem lembrava de um boletim meteorológico. — Ambiente fechado. Gente bêbada. Iluminação baixa. relaxado. Vai ser ótimo.
— Eu vou te procurar lá pra desviar os assuntos constrangedores, como sempre.
— Eu não sou seu escudo emocional, .
— Não? Então por que você tá indo lá agora por mim?
Ele sorriu de novo. Aquele sorriso de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
— Porque ele é um cara legal. Você sabe disso. E isso só piora, né?
Fechei os olhos por um segundo.
Sim. Isso piorava tudo. Se ele fosse um babaca, eu já teria deixado para lá. Mas não era. Ele era gentil. Ele olhava nos olhos. Ele ria de verdade. Ele falava sem roteiro.
— Vai — disse, empurrando Josh pelo ombro. — Me deve essa.
— Não. Você vai me dever depois da festa.
— Vai pro inferno.
— Já tô indo — ele rebateu, rindo, e desapareceu no corredor que levava à sala de imprensa.
Suspirei, ajeitei o crachá no pescoço e virei para o lado oposto. Rumo à sala do Piotr. O campeão mundial. O drama controlável.
Eu podia lidar com ele.
Com ?
Essa tarde, não.
Mas a noite me esperava.
E eu não sabia se queria que ela demorasse a chegar... Ou que acabasse logo.
O ar condicionado estava no máximo, mas ainda assim havia um calor estranho pairando no ar. Aquele tipo de tensão que aparece quando um campeão termina em segundo e ninguém sabe se ele vai responder com classe… Ou com fúria.
Piotr Volkov estava sentado no centro da mesa. Macacão ainda semiaberto, cabelo úmido de suor, expressão impassível. O tipo de postura que só alguém que já ganhou tudo três vezes consegue manter — rígida, quase entediada, como se quisesse estar em outro lugar. E talvez quisesse mesmo.
Segundo lugar. Mas ainda assim, todas as câmeras estavam nele. Afinal, ele era Piotr Volkov. Três vezes campeão mundial. O homem que fazia parecer que controle e caos eram a mesma coisa.
Dois jornalistas já tinham feito perguntas mornas — aquelas que ninguém realmente lê depois.
— Volkov, você parecia desconfortável com o balanço do carro no segundo stint. Foi isso que te impediu de alcançar o ? — perguntou um britânico da Autosport.
Piotr respondeu, objetivo.
— Não. O carro estava bem. A estratégia priorizou estabilidade no fim. Isso limitou o ataque.
Tradução: Decidiram jogar seguro. Eu não joguei junto.
A próxima veio de uma jornalista espanhola.
— Volkov, você e têm estilos de pilotagem bem diferentes. Você acha que, com carros iguais, teria vencido hoje?
Ele olhou diretamente para ela.
— Não estamos com carros iguais. A pergunta não se aplica.
Corte seco. Educado. Mas sem espaço pra réplica. Alguns riram baixo. A espanhola não.
Apesar de tudo, ninguém fez a pergunta que pairava no ar desde a volta 54, quando o rádio da Monster Racing vazou: Hold position, Piotr. Hold position. E ele respondeu… Ultrapassando o limite do delta na curva 8.
A moderadora olhou ao redor. Levantei o braço. Ela assentiu.
Peguei o microfone e falei com a mesma voz que uso quando sei que a pergunta vai apertar um ponto sensível — mas que merece ser apertado.
— , BBC Sport — anunciei. — Piotr, durante as voltas finais, sua equipe pediu que você mantivesse a posição e poupasse o carro. Mas sua resposta foi acelerar ainda mais. Você pode explicar por que decidiu ignorar a instrução?
A sala congelou. Não fisicamente — o ar já estava gelado demais. Mas no clima. O tipo de silêncio que diz: “Finalmente alguém perguntou.”
Ele virou o rosto lentamente na minha direção. Os olhos dele eram daquele cinza gelado que parecia sempre dois segundos à frente da conversa. Eu vi ali o cálculo acontecendo — se ele respondia com diplomacia, desdém, ou sinceridade pura.
Aparentemente ele escolheu a última opção.
— Já fui campeão três vezes — disse, com uma calma quase letal. — Eu sei o que estou fazendo.
Nenhum sorriso. Nenhuma ênfase. Só fato.
— E quanto a Roman Neumann? — soltei, antes de conseguir me conter.
Volkov foi rápido.
— Você já fez a sua pergunta — cortou, sem elevar a voz.
Merda.
Fechei os olhos por um instante, como se pudesse desaparecer por pura força de vontade. Não funcionou, é claro. Se isso chegasse aos ouvidos do meu editor, eu ia ouvir por uma semana. Talvez mais.
— Deixe a garota perguntar, Piotr — uma nova voz cortou o ar, firme.
Abri os olhos. Lá estava ele.
Roman Neumann.
Frio, elegante, sorrindo com os lábios, não com os olhos.
— Você diria que o escândalo recente envolvendo o chefe da Monster Racing tem interferido no desempenho da equipe? — perguntei, agora com mais cautela.
— Não — respondeu Volkov, seco como uma porta batendo.
Ótimo. Agora ele estava irritado de verdade.
— Essa não é a pergunta que você deveria fazer pra ele — disse Roman, ainda com aquele ar blasé. — Deveria fazer pra mim. Engoli em seco.
— Você pode comentar sobre a investigação em andamento? — forcei a voz a sair com alguma dignidade.
— Não — respondeu ele, sem hesitar.
Perfeito.
— Não — respondeu Neumann.
Afundei na cadeira, sentindo o peso invisível de todos os olhares sobre mim. O tipo de momento em que a gente pensa: Talvez eu devesse ter escolhido odontologia.
Os homens na sala de imprensa riram.
Eu não.
Talvez por orgulho. Talvez porque não havia nada engraçado em ser silenciada e depois transformada em entretenimento ao vivo. Talvez porque eu sabia exatamente o que aquilo significava: para eles, era só mais uma repórter passando dos limites e sendo colocada “em seu lugar”.
Abaixei os olhos por um segundo, como quem faz anotações, mas era só pra ganhar tempo. Pra respirar. Pra não mostrar nada. A verdade é que fazer piada com uma investigação sobre abuso sexual em ambiente de trabalho estava longe de ser algo que eu considerasse engraçado.
Saí da sala de imprensa ainda absorvendo cada palavra da resposta do piloto e do chefe de escuderia. Não havia muito mais a dizer depois daquilo. E ainda assim, eu sabia que todos iriam tentar.
O corredor do paddock estava mais vazio agora, aliviado da avalanche de jornalistas que se espremeram na coletiva. Eu respirei fundo. Quase consegui relaxar.
Até esbarrar em alguém.
Ele estava ali, parado como se tivesse surgido do nada.
O chefe da Monster Racing. Alemão. Alto demais, magro demais, com um olhar que parecia medir cada partícula de ar ao redor. Um sorriso fino que nunca alcançava os olhos. Um daqueles tipos que você sabe que é inteligente demais — e estranho demais.
— Entschuldigung — ele murmurou, meio sem jeito, meio cortês demais, ajeitando o paletó.
— Senhor Neumann — respondi, tentando manter a voz firme, tentando não notar o arrepio que aquele sotaque carregado sempre me dava. — Desculpe, eu não vi você.
Ele me fitou nos olhos, com um brilho estranho, difícil de decifrar.
— Boas perguntas na coletiva — comentou ele, com um tom que eu não sabia se era elogio ou provocação.
— Obrigada — respondi, sem jeito. — Piotr sabe o que está fazendo.
— Assim como você, aparentemente.
Roman deu um sorriso quase imperceptível, desviando o olhar por um instante.
Então, voltou a me encarar, mais sério.
— Acho que nos vemos de novo essa noite, senhorita .
Aquelas palavras soaram como um enigma, um aviso disfarçado. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele se afastou, deixando para trás um silêncio pesado e uma sensação estranha que me acompanhou pelo resto do caminho.
A música pulsava alto demais, como se quisesse competir com o barulho dos motores algumas horas antes. As luzes coloridas cortavam o ambiente com flashes intermitentes, refletindo em taças erguidas, brilhos de vestidos caros e sorrisos artificiais. Era a clássica mistura de euforia, álcool e autopromoção — a festa pós-GP, onde todos fingiam que não estavam exaustos.
Entrei sozinha. Claro que Josh iria me dar um perdido, eu nem ao menos estava surpresa.
O salto dos meus sapatos batia firme no piso do lounge, abafado pelo tapete vermelho e pelo som grave do baixo que vibrava até os ossos. Usei o vestido preto que estava guardado na mala para uma ocasião especial — e que, para ser honesta, achei que não teria que usar. Era justo, de alças finas, com um decote discreto, mas suficiente para me fazer sentir como alguém que poderia ser notada. O tecido leve se moldava ao corpo, e a fenda lateral mostrava mais da minha perna do que o necessário — mais do que eu costumava permitir.
Eu não esperava que ele fosse vencer.
E, no entanto, aqui estávamos.
Percorri o salão com o olhar, escaneando os rostos conhecidos — alguns jornalistas, alguns engenheiros da equipe Rinspeed, um grupo da Porsche já meio bêbado. E então o vi.
.
Encostado no bar, uma garrafa de cerveja esquecida na mão, a camisa parcialmente desabotoada, os cabelos ainda úmidos como se tivesse saído do banho direto para a pista da festa. A expressão dele era diferente — não exatamente arrogante, mas... Consciente. Ele sabia o que tinha feito hoje. E sabia que todo mundo ali sabia. Inclusive eu.
Ele me viu antes que eu pudesse decidir se ia na direção dele ou fugir para os bastidores.
O sorriso que se formou em seus lábios foi lento. Confiante. Quase perigoso.
Ele deixou a garrafa sobre o balcão e veio até mim com um copo em mãos, sem pressa, como quem já sabe o final da conversa antes mesmo de ela começar.
— Você veio — disse ele, parando a um passo de distância.
Cruzei os braços, sentindo o tecido fino do vestido roçar na pele, num gesto automático de defesa.
— Eu disse que viria — respondi, firme, mas com um meio sorriso que escapou sem que eu quisesse.
Ele me olhou por um instante, como se estivesse tentando entender se aquilo era real — se eu realmente tinha aparecido, mas agora sem a muralha do trabalho entre nós.
— Eu admito que meio que esperava que você desse pra trás — disse ele, com aquele jeito provocador, meio rindo, meio testando meus limites.
— Eu teria que ser um pouco menos idiota pra fazer isso — rebati, inclinando o rosto levemente, a piscadela quase automática, como se minha resposta tivesse ensaiado sozinha o flerte.
Ele deu um passo mais perto. O cheiro dele era discreto, algo fresco, limpo, com traços de pós-banho e talvez… Vitória. Aquele tipo de presença que vinha antes do toque.
— Ainda bem que você não é — disse ele, sorrindo, e dessa vez, o sorriso era honesto, menos brincalhão. Quase... Aliviado.
Me perguntei, por um segundo, se ele tinha realmente duvidado que eu apareceria. Se ele realmente tirou o tempo dele para pensar nisso. E me perguntei também se, no fundo, eu estava tão ansiosa durante a corrida porque... Parte de mim queria estar exatamente aqui.
Na frente dele. Nessa noite. Com nenhuma desculpa para ir embora.
O silêncio que pairou entre nós não era desconfortável — era carregado, como a calma que antecede uma curva perigosa. As luzes ao redor giravam em tons quentes, espirrando reflexos dourados sobre a pele dele, sobre o meu vestido. Tudo ao nosso redor parecia irreal. Barulhento. Longe.
— Você está diferente hoje — ele disse, a voz mais baixa, quase como se falasse só para mim.
— É o vestido — respondi com um sorriso de canto.
— Não — balançou a cabeça, e os olhos percorreram meu rosto como se procurassem alguma coisa que ele ainda não tinha certeza de ter visto. — É o jeito que você está me olhando. Como se eu tivesse te surpreendido de alguma forma.
Eu desviei o olhar por um segundo. Estava quente ali dentro, e não era só por causa das luzes.
— Você não está errado — dei de ombros, dando alguns passos em direção ao bar com ele ao meu lado. — Não achei que você fosse mesmo vencer. Eu não estava esperando por isso.
— Talvez você devesse começar a esperar.
O tom dele era calmo, mas havia algo mais ali. Algo que não era só charme ou autoconfiança. Parecia uma ferida antiga costurada com a vitória daquela tarde.
Antes que eu pudesse responder, senti um deslocamento de ar à nossa esquerda — alguém passou por nós com força, quase esbarrando em . A garrafa que ele segurava fez um movimento brusco, e ele teve que dar um passo para o lado para evitar o contato.
Volkov.
O piloto da Monster passou por ele sem sequer olhar para trás. Os ombros duros, o maxilar travado, a mandíbula tensionada como se estivesse rangendo os dentes por dentro.
o seguiu com os olhos, sem se mover, o corpo subitamente rígido.
— Alguém não está lidando muito bem com a derrota — comentei, erguendo uma sobrancelha enquanto observava Volkov sumir na multidão com a mesma arrogância que trazia para a pista.
— Ele não esperava perder — a voz de agora era mais baixa, contida, como se aquilo lhe pesasse mais do que deixava transparecer. — Nem para mim.
— Eu achei que vocês fossem amigos — falei, fingindo neutralidade, embora algo naquele olhar trocado entre eles me deixasse alerta.
— Nós somos — ele suspirou, passando a mão pela nuca. — Mas o trabalho entra no meio do caminho às vezes.
Pisquei, sentindo aquela tensão reaparecer entre nós. Só que agora era diferente — não era flerte. Era algo mais sério, mais denso.
— Sei bem como é — concordei, chamando o garçom com um gesto e pedindo um drink. Nem eu sabia o qual, só precisava de algo gelado para manter as mãos ocupadas.
— Então, o que te trouxe para a Fórmula 1? — perguntou, tentando aliviar o peso do momento. Mas sua voz ainda carregava uma curiosidade genuína.
Fingi pensar por um instante.
— Eu diria que a adrenalina — sorri de lado, sem me aprofundar muito. Ele não precisava saber de Adam, não mesmo. — E você?
— Definitivamente as garotas. — respondeu ele com um sorriso provocante, me cutucando com o cotovelo.
Eu gargalhei, jogando a cabeça para trás, o som escapando natural.
— Você é assim o tempo todo? — perguntei, meio rindo, meio me recompondo.
— Assim como? — ele fingiu inocência, inclinando um pouco a cabeça.
— Atirado — dei um empurrãozinho no ombro dele, de leve.
— Na verdade, não — ele riu junto, mas havia algo de sincero na resposta que fez meu coração se aquecer um pouco.
— Deve ser uma ocasião especial, então — brinquei, levantando a taça.
— Já que você trouxe o assunto — disse ele, com um sorriso meio tímido —, eu meio que venci minha primeira corrida na Fórmula 1.
— Você venceu?! — fingi surpresa, arqueando as sobrancelhas. — Porra, eu devia ter assistido isso!
Ele riu, balançando a cabeça, e comentou em um tom divertido:
— Você é realmente idiota.
Sorri, sentindo o calor daquela mistura de provocação e afeto no ar.
— Eu acho que sou — respondi, rindo leve. — Mas, sério, como você se sente?
Houve uma pausa, um momento em que pareceu buscar as palavras certas.
— Inquieto, eu acho — disse ele, meio incerto, os olhos fixos no copo que segurava. — Isso faz sentido?
Assenti, dando de ombros.
— Faz todo sentido.
— Obrigado pelo incentivo, aliás — disse ele, olhando para mim com sinceridade. — Você não precisava aparecer só por isso, eu entenderia. Mas mesmo assim, valeu por vir.
Aquela pequena confissão me pegou de jeito. Por um instante, eu não soube como reagir.
— Eu sei — respondi com um sorriso simples, mas carregado de significado. — Mas eu quis vir mesmo assim.
O sorriso dele se abriu, mais genuíno dessa vez.
— Isso é uma ótima notícia.
— Ah, eu entendo tudo de boas notícias — brinquei, com um leve sorriso. Havia algo sobre ele que me deixava assim, idiota.
— Olha só, parece que você tem senso de humor — ele respondeu com um brilho nos olhos, a provocação voltando a tomar conta.
— Parece que eu tenho — respondi, piscando para ele.
No meio daquela festa barulhenta, com luzes piscando e música vibrando ao nosso redor, aquele instante pareceu ser só nosso — um momento suspenso no tempo, cheio de possibilidades não ditas, mas sentidas.
Enquanto ainda trocávamos olhares e sorrisos, Henri Chevalier surgiu ao nosso lado, vindo direto do meio da multidão. O sorriso no rosto dele era genuíno, nada além do esperado vindo do piloto mais carismático da temporada.
— Parabéns, — disse o francês, com seu sotaque refinado, mas a voz carregada de sinceridade. — Vitória mais do que merecida. Você pilotou bem.
retribuiu, ainda sorrindo, mas com o orgulho evidente na voz.
— Obrigado, Henri. Foi uma corrida difícil, mas valeu a pena.
Eu os observei, fascinada pela energia entre os dois. Rivalidade, sim, mas também uma espécie de respeito que só quem compartilha aquelas horas em alta velocidade parecem os fazer capazes de entender.
Henri então lançou um olhar para mim, ligeiramente curioso, mas amigável.
— Eu já vi você antes — disse ele, meio pensativo.
— Essa é , ela é jornalista — se adiantou, educado como o bom britânico que era.
— Pode me chamar de — sorri da forma mais simpática que eu pude.
ergueu uma sobrancelha, divertido.
— ?
— Sim — confirmei, com um brilho maroto nos olhos.
Henri riu e deu uma cotovelada leve no .
— É um prazer te conhecer, .
— Não fode — murmurou, meio irritado, meio divertido.
Henri manteve os olhos fixos em mim por um momento, até que de repente seus olhos se arregalaram em reconhecimento. — Espera… Você estava na coletiva de imprensa ontem, não estava?
— Hoje também — brinquei, cruzando os braços, com um sorriso divertido.
Henri deu uma risadinha.
— Foi mal, não lembro muito depois da corrida. O calor me deixou meio avoado.
— Não me surpreende que o tenha passado você naquela curva — comentei, sem perder a chance de provocar. Henri colocou a mão no peito, dramático.
— Eu mereci essa.
soltou uma risada curta, sacudindo a cabeça.
— Ah, Henri, nós dois sabemos que na próxima corrida vai tentar me devolver essa ultrapassagem.
Henri sorriu com aquele ar desafiador.
— Pode apostar que sim. Mas eu vou ser gentil, só pra você não esquecer como é a aparência da traseira do meu carro. Eu os observei, encantada pela troca de provocações amistosas — tão típica entre rivais que, no fundo, se respeitam profundamente. — Bom saber que a competição não é apenas jogada de marketing — comentei, levando meu copo aos lábios e saboreando o gosto doce e ácido da bebida.
ergueu uma sobrancelha, seu sorriso ganhando um toque mais travesso.
— É isso que deixa as coisas interessantes.
— Sem rivalidade não teria graça — Henri concordou, cruzando os braços com aquele ar blasé de quem estava sempre pronto para alfinetar. — Eu deixo a atuação para as mulheres que vão parar na cama do .
Eu ri com gosto, pega de surpresa pelo comentário dele.
— Muito engraçado, Chevalier — rebateu, empurrando o amigo com uma força que era mais afeto do que raiva. — Vamos ver se você vai continuar sorrindo em Jeddah.
Henri gargalhou enquanto se afastava, jogando o copo vazio em uma lixeira como se encerrasse um capítulo. A elegância de sempre, mesmo ao se retirar de cena.
Fiquei observando até ele desaparecer no meio da multidão antes de balançar a cabeça, ainda sorrindo.
— A dinâmica entre vocês é um espetáculo à parte — comentei, ainda rindo.
deu um meio sorriso e voltou o olhar para mim, agora mais focado, mais presente.
— E quanto a você, ? Além de provocar pilotos, o que mais faz?
— Quer mesmo saber? — fingi refletir, estalando a língua, antes de assentir. — Uma coisa idiota aqui ou ali.
Ele inclinou a cabeça, como se me examinasse sob uma nova luz. Depois, estendeu a mão com um gesto meio casual, meio desafiador.
— Dançar é uma dessas coisas?
Fiz uma careta divertida, cruzando os braços enquanto olhava para a pista de dança à nossa frente — um mar de corpos em movimento, luzes pulsando, a batida grave reverberando pelo chão.
Não. Dançar definitivamente não era uma dessas coisas.
— Você quer sair daqui?
A porta do quarto de hotel onde estava hospedado se abriu com um clique suave, e entramos num espaço que combinava conforto e estilo — tons escuros, móveis modernos, janelas enormes que deixavam a luz da cidade escorrer pelo ambiente. A noite brilhava lá fora, mas dentro, a atmosfera parecia intimista demais para o meu próprio bem.
Ele fechou a porta atrás de nós, o som ecoando como um sinal de que não havia mais volta.
Senti um frio na barriga, uma mistura de excitação e apreensão que me deixou hesitante por um segundo. — Então... — disse, tirando o paletó e jogando-o sobre a cadeira, seus olhos fixos nos meus, com uma intensidade que me dava um nó no estômago. — Aqui é onde a corrida termina.
Eu engoli em seco, tentando controlar a inquietação que subia, e respondi, com um sorriso que tentava esconder a dúvida:
— É um belo quarto.
Ele deu um meio sorriso, caminhando até o frigobar e pegando uma garrafa de vinho.
— Eu sempre fico nesse quarto — disse ele, abrindo a garrafa com calma.
Serviu duas taças, entregando uma para mim.
— Por algum motivo especial? — perguntei, tentando soar casual.
— Não — ele riu, com um brilho nos olhos. — Acho que sempre me colocam aqui.
Sorri junto, sentindo a tensão aliviar um pouco, mas sem desaparecer completamente.
Tomei um gole do vinho, tentando afastar a agitação que ainda pairava no ar.
— Então, você costuma ser assim tão previsível? — brinquei, apoiando o copo na mesa.
sorriu, descontraído, e deu de ombros.
— Acho que sim. Gosto de me manter no que me deixa confortável, principalmente depois de um dia pesado como hoje.
Ele fez um gesto para o sofá.
— Senta aí, fica à vontade. Não precisa ficar na defensiva.
Sentei, relaxando um pouco, sentindo que ele realmente queria que eu me sentisse bem ali.
— É só que tudo isso ainda é meio novo pra mim — admiti, girando a taça entre os dedos. — Essa vida, essa correria. Às vezes é difícil desacelerar.
assentiu, com um olhar compreensivo.
— Eu sei como é. A gente acaba sempre correndo contra o tempo, e aí sobra pouco espaço pra respirar. Mas quando a gente encontra um momento tranquilo, vale muito a pena aproveitar.
— Você faz isso com frequência? — perguntei, sem esconder a minha curiosidade jornalística.
— Não — ele riu. — Mas é como dizem por aí, faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.
O piloto se acomodou no sofá, ao meu lado, e de repente eu fiquei consciente demais da nossa proximidade.
— Dizem por aí que você faz muitas coisas — falei antes de pensar direito.
fez um estalo com a língua.
— É por isso que você tá tão apreensiva? — perguntou ele.
Me mexi desconfortável no sofá.
— Então, como é pra você, realmente, essa vida de piloto? — desconversei, olhando para as luzes da cidade através da janela.
Ele deu uma risada baixa, meio cansada.
— É uma loucura. Muito mais do que parece na TV. Tem a pressão, a rotina, os sacrifícios… Mas também tem momentos incríveis, que compensam tudo.
— Imagino — respondi. — Deve ser difícil encontrar um equilíbrio.
— É — concordou. — Você vive entre treinos, viagens, mídia, patrocinadores. Mal sobra tempo pra pensar. Mas quando consegue, esses momentos valem ouro.
Fiz um gesto para a taça.
— Um brinde a isso.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, o som distante da cidade entrando pela janela aberta. A luz suave do abajur desenhava sombras tranquilas nas paredes.
— E você, ? — ele perguntou, quebrando a pausa. — Como lida com a pressão do seu trabalho?
Pensei por um momento, olhando para o copo na minha mão.
— É parecido, na verdade. A pressão de entregar uma boa matéria, o prazo apertado, o desejo de acertar sempre... Mas acho que aprendi a respirar fundo e focar no que importa.
assentiu, compreendendo.
— Faz sentido. No fim, é tudo sobre encontrar um jeito de manter a cabeça no lugar.
— Exatamente — concordei, sentindo uma conexão ali que não esperava. — A gente aprende a filtrar o que vale a pena e o que é só ruído.
Ele deu um sorriso leve, olhando para mim com um ar mais tranquilo.
— Acho que a gente vai ficando melhor nisso com o tempo — disse ele, desviando o olhar por um instante, com um tom quase confidente.
— Ou a gente finge muito bem — brinquei, um leve sorriso dançando nos meus lábios.
Ele soltou uma risada baixa, e a atmosfera entre nós ficou um pouco mais leve.
— Ouvi dizer que você foi atrás do Neumann na entrevista hoje — comentou , como quem testa o terreno antes de fazer uma manobra arriscada.
Merda. Eu definitivamente não queria falar sobre isso com um dos pilotos.
Respirei fundo antes de responder.
— Foi mais ele que veio atrás de mim, pra ser sincera — resmunguei, levando a taça aos lábios. O vinho estava bom, seco e direto, como eu gostava. Como a verdade devia ser.
— Você ficaria muito irritada se eu dissesse pra deixar isso de lado?
Virei o rosto devagar, encarei com uma sobrancelha arqueada.
— Muito.
Ele assentiu, sem surpresa.
— Confia em mim, . Esse cara cava a cova dos outros com um sorriso no rosto. E faz parecer que foi você quem trouxe a pá. — Eu estava contando em cavar a dele primeiro — murmurei, mais pra mim do que pra ele, e dei outro gole.
soltou um riso leve, mas não tinha humor ali. Só cansaço.
— Neumann é influente. Tem amigos no alto e no baixo escalão. Não é o tipo de inimigo que você faz por capricho.
— Não é como se eu não tivesse ouvido isso antes — dei de ombros, recostando no sofá. As almofadas cederam sob meu peso, o vinho aquecia meus pensamentos. — E não é capricho.
Ele me observou em silêncio por um instante, como se buscasse algo por trás do meu rosto. Não encontrou, ou talvez tenha encontrado e decidido não dizer.
— Então por que você quer tanto bater de frente com ele?
— Porque alguém precisa — respondi, simples assim. Como se bastasse.
suspirou, apoiando o cotovelo no encosto do sofá. Eu não podia julgá-lo, também não saberia o que fazer comigo.
— Talvez você devesse conversar com o Piotr sobre isso — sugeriu ele. — Longe das câmeras, de preferência.
— Volkov? — franzi a testa, desconfiada.
— O próprio.
— E o que ele poderia me dizer que eu já não consiga descobrir sozinha?
— Bom — começou ele, balançando o vinho na taça —, pra começar, eles são da mesma equipe. E segundo… O Piotr tem umas opiniões bem fortes sobre o Neumann. Só não pode sair por aí falando.
— E como você sabe disso, se ele não pode falar? — estreitei os olhos.
deu de ombros com aquele jeitinho cínico que dizia eu sei mais do que deveria.
— Somos amigos.
Quase deixei a taça cair de tão rápido que virei pra ele.
— Você e o Czarzinho? — debochei, arrancando um sorriso bobo dele. — Não é o que pareceu mais cedo.
Ele riu, o som relaxado preenchendo a sala como se fosse música de fundo.
— Pois é.
— Essa eu realmente não esperava — comentei, ainda meio sem acreditar.
— Eu também sei surpreender de vez em quando — disse ele, se esticando no sofá como um gato satisfeito.
— Tem mais algum furo de reportagem pra mim? Vai me dizer que vocês jogam xadrez nas sextas-feiras?
— Está mais para Mario Kart.
abriu um sorriso aberto, mas eu não respondi. Em vez disso, virei a taça e fiquei olhando o vinho girar devagar, como se procurasse as palavras ali dentro.
— O que eu quero dizer é que você pode ir direto na fonte. O Piotr é um cara legal, quando quer ser. E tem um senso de justiça que… Bom, não se vê muito por aí.
— Uau — murmurei. — É muito ruim eu dizer que não acredito em você?
— Nem um pouco — ele riu. — O Piotr é fechado, o humor dele é meio sombrio… mas vocês provavelmente se dariam bem. Eventualmente.
Suspirei, olhando para o teto por um momento. As luzes suaves criavam sombras dançantes, como se a própria noite estivesse indecisa.
— Esse é o problema com o jornalismo, . Eu não tenho tempo.
Ele virou-se levemente pra mim, o olhar mais sério agora.
— Sempre existe tempo.
E por um segundo — só por um —, quase acreditei.
— Podemos mudar de assunto? — pedi, virando o rosto e deixando a taça apoiada no braço do sofá.
não respondeu de imediato. Só me olhou por um momento, como se tentasse medir até onde podia ir. Depois assentiu com a cabeça, sem forçar.
— Claro. Sobre o que você quer falar? — perguntou, gentil, mas com aquele brilho irônico nos olhos que nunca sumia completamente.
— Por que você topou aquela aposta idiota? — perguntei, virando levemente o corpo pra encará-lo, o vinho ainda pendendo na minha mão.
demorou um segundo antes de responder, como se estivesse escolhendo entre a verdade e a piada fácil.
— Porque eu acho que gostei de você — disse ele, simples assim.
Arqueei uma sobrancelha.
— Você nunca tinha falado comigo antes. Não tinha como você gostar de mim.
Ele deu de ombros e sorriu, como quem sabia que não tinha um bom argumento, mas tentava mesmo assim.
— Eu meio que gostei enquanto acontecia.
— Você sabe que não vai conseguir me enrolar com essa resposta, né?
— O que você quer que eu diga, então? — retrucou ele, um pouco desconcertado.
— A verdade — respondi, firme.
bufou, mas havia diversão nos olhos dele.
— Jornalistas… — resmungou ele, revirando os olhos de leve.
— Ah, fala sério. Não é como se você não tivesse visto essa vindo — brinquei, encostando o ombro no encosto do sofá, esperando.
Ele olhou para o teto por um segundo, como se procurasse coragem no reboco. Depois suspirou.
— A verdade? — perguntou, e eu assenti. — Eu tô um pouco cansado de mudanças.
— Bem… Isso é um problema, considerando seu emprego — comentei, sem conseguir evitar a piada.
— É — ele soltou um riso breve, sem humor. — Mas o que me cansa mesmo é ter que começar tudo de novo e de novo.
— Você quer dizer conhecer pessoas novas — completei, arqueando a sobrancelha novamente.
Ele me lançou um olhar enviesado.
— Quer dizer que você não é tão idiota quanto me fez acreditar?
— Não tenta mudar de assunto — ri, jogando a cabeça pra trás por um instante. O vinho me aquecia mais do que devia.
— Você é má.
— Todo mundo diz isso — brinquei, abanando a mão como se espantasse a fama.
respirou fundo. O clima mudou. Ficou mais quieto. Mais... Honesto.
— É que não faz sentido — disse ele, a voz mais baixa agora. — Todo esse tempo, energia, sendo investidos em pessoas diferentes...
— Que você nunca vai ver de novo? — completei.
— É — ele assentiu, pensativo. Mas então se endireitou, como se de repente percebesse algo. — Mas só pra deixar claro, eu não tô procurando um relacionamento. Não que eu seja contra. Só... Não quero que você pense que eu sou um maluco carente, ou um desses caras que se apaixona porque alguém foi legal com ele num domingo à noite.
Soltei uma risada curta e sincera. A franqueza dele, meio torta, me desarmava.
— Relaxa, . Eu… Entendo perfeitamente.
Ele virou o rosto pra mim, curioso.
— Você entende?
— Sim.
A palavra saiu mais leve do que eu esperava. E antes que eu pudesse pensar em mais alguma coisa, ele se inclinou.
Sem pressa.
Sem aviso.
E então me beijou.
O beijo começou suave, quase hesitante, como se ambos estivéssemos descobrindo o terreno pela primeira vez. Os lábios dele encontraram os meus com uma delicadeza que contrastava com a intensidade silenciosa do momento.
O gosto do vinho ainda estava na boca dele. E talvez também a dúvida. Mas naquele momento, nenhuma das nossas certezas parecia importar muito.
Aos poucos, a suavidade deu lugar a uma urgência contida, e a conexão entre nós se aprofundou. A mão dele, que acariciava o meu rosto, apertou levemente enquanto seus lábios se moviam com mais vontade, como se quisesse dizer tudo o que as palavras não conseguiam.
Meu coração acelerou, e o ar ao redor pareceu evaporar, deixando apenas o calor da proximidade, a eletricidade do toque, e o silêncio confortável do nosso entendimento mudo. Foi um beijo que dizia mais do que qualquer conversa, cheio de curiosidade e compreensão.
Mas ele se afastou. Não muito. Só o suficiente para que o beijo virasse silêncio — daqueles carregados, que dizem mais do que palavras. A testa dele encostou na minha, e por um segundo, ficamos assim, imóveis, como se nenhum de nós soubesse o que fazer com a proximidade.
— Desculpa — disse , a voz rouca. — Eu deveria ter perguntado antes.
— Você deveria — concordei, sem me afastar.
Ele respirou fundo, quase aliviado por eu não tê-lo empurrado.
— Podemos parar, se você quiser.
Fechei os olhos por um momento. O quarto estava quieto, salvo pelo som abafado da cidade do lado de fora, e da nossa respiração — ainda descompassada.
— Dever e querer são coisas muito diferentes — murmurei.
O olhar dele buscou o meu, como se esperasse uma sentença. Mas eu não disse mais nada.
Em vez disso, fui eu quem o beijou.
Sem dúvida. Sem medo.
E ele correspondeu como se já estivesse esperando por isso desde antes de me conhecer — com uma intensidade contida, mas faminta, como alguém que sabia que aquilo talvez não durasse, mas queria aproveitar cada segundo.
Não demorou para que o beijo deixasse de ser o bastante. Nunca fui boa em papo furado, afinal de contas.
Com um único movimento, me encaixei no colo dele, o tecido do vestido subindo pelas coxas como se tivesse vontade própria. arfou, surpreso — mas não recuou. Muito pelo contrário.
Suas mãos grandes pousaram com firmeza sobre minhas pernas, deslizando até me puxar ainda mais contra ele, como se quisesse apagar qualquer distância entre nós. Quando senti sua ereção roçando minha intimidade, o ar me faltou por um instante. Quase quebrei o beijo. Quase.
Mas a boca dele era boa demais para isso.
Meus dedos se entrelaçaram em seus cabelos no instante em que capturei seu lábio inferior entre os meus dentes, numa provocação carregada de desejo.
Um som grave, rouco, escapou de sua garganta — e antes que eu pudesse processar, ele se ergueu comigo nos braços, os passos decididos rumo à onde deveria ser a cama.
Ele me deitou com cuidado, mas não com gentileza. Havia algo faminto em seus gestos — como se cada segundo longe do meu corpo fosse tempo perdido.
A respiração de estava pesada enquanto seus olhos me percorriam, do vestido amarrotado até meus lábios entreabertos. Seus dedos deslizaram pela minha pele exposta, descendo devagar pela curva da minha cintura, e eu me arqueei sob o toque como se meu corpo já o conhecesse há muito tempo.
— … — ele murmurou, o nome saindo como uma súplica, como se apenas dizê-lo pudesse dar a ele algum tipo de controle. Mas quem estava perdendo o controle era eu. E o meu sangue cantava pela adrenalina que só ele poderia me oferecer naquele momento.
Segurei-o pela camisa, puxando-o para mais perto, para mais fundo. O tecido do vestido cedeu entre nós — ele me despiu como se cada camada fosse uma provocação, e cada segundo um tormento. Quando seus lábios encontraram meu pescoço, um arrepio me percorreu inteira. Meus dedos escorregaram sob a barra da camisa dele, tocando pele quente e músculos tensos, e eu me surpreendi com o quanto queria mais. Tudo.Dele.
A forma como ele me olhava… Como se eu fosse um segredo que ele mal podia esperar para desvendar. Eu mostraria para ele todas as minhas notícias, todas as minhas colunas, todos os meus artigos de opinião, todos os meus pronunciamentos oficiais. Eu o daria tudo se ele continuasse a olhar assim pra mim por muito tempo.
se posicionou sobre mim, seus quadris pressionando os meus com uma precisão perigosa. Nossas peles finalmente se encontrando, sem barreiras, foi como se o mundo silenciasse. A sensação dele contra mim era tudo o que eu conseguia processar.
— Você tem ideia do que está fazendo comigo? — ele sussurrou entre os dentes, os olhos fixos nos meus.
Sorri, embora meu coração batesse com força demais para disfarçar.
— Eu tenho uma ideia — respondi, arfando. — Mas eu adoraria que você me mostrasse.
Ele não respondeu com palavras. E eu não precisei de mais nada além do modo como seus lábios encontraram os meus de novo — como se esse fosse o único idioma que importava.
O calor entre minhas pernas já era quase insuportável quando ele se ajoelhou entre elas, puxando minha calcinha com os dentes como se quisesse marcar cada gesto na minha memória.
Quando sua boca me alcançou, foi como um choque. Nada de delicadeza. Ele sabia o que fazia. Me lambeu com precisão, com ritmo, com fome — como se me conhecer ali fosse tão urgente quanto respirar.
A pressão da língua dele contra meu clitóris arrancou de mim um gemido alto, sem escrúpulos. Eu abri mais as pernas, implorando sem palavras para que ele não parasse, e ele não parou. A cada investida, eu sentia o clímax se aproximando com velocidade impiedosa. — … Eu estou quase lá… — foi tudo o que consegui dizer, os quadris já buscando mais, querendo mais.
Ele subiu por cima de mim num movimento fluido, e eu senti a cabeça do seu pau roçar a minha entrada. O mundo pareceu parar. E o olhar que trocamos naquele momento foi puro fogo.
Sem aviso, ele me penetrou.
Eu ofeguei. Ele gemeu. E então nos movemos como se nossos corpos tivessem esperado muito tempo por aquilo.
Era intenso. Rápido. Cru.
Eu o puxava para mais perto, as unhas arranhando suas costas, marcando território. Ele me segurava com força pelas coxas, me puxando contra ele a cada estocada, como se quisesse se enterrar em mim até desaparecer.
Não havia mais tempo, nem controle. Quando eu gozei, o meu corpo inteiro pareceu entrar em convulsão, enquanto eu gritava o seu nome — e ele veio logo depois, se enterrando fundo uma última vez, o corpo inteiro tenso, a respiração entrecortada.
Ficamos ali, colados, suados, nossos peitos subindo e descendo num ritmo desigual. Eu me sentia viva. Quente. Cheia.
— Isso foi... — começou , ainda ofegante.
— Sim — respondi no mesmo tom, com um suspiro que escapou antes que eu pudesse contê-lo.
Ele se virou na cama, mais próximo, e afastou com delicadeza uma mecha de cabelo que caía sobre meu rosto. Depois, me deu um beijo leve — daqueles que não pedem nada em troca, mas entregam mais do que deveriam.
E, por um instante, contra toda lógica, desejei que aquilo não fosse apenas mais uma noite.
— Não foi só uma noite — disse ele, como se tivesse lido o pensamento estampado na minha pele.
Eu congelei por um segundo. Meus olhos encontraram os dele, e a leveza na expressão dele me desmontou.
— Eu não... — comecei, sem saber onde queria chegar.
— Não precisa dizer nada — ele interrompeu, com a voz baixa. — Eu sei que você tem os seus receios. Só queria que você soubesse… Não foi só mais uma noite pra mim.
Fiquei olhando pra ele. Vulnerável. Verdadeiro. E bonito pra caramba, o que era quase injusto nesse contexto.
— Obrigada, eu acho? — fiz uma careta, tentando suavizar. — Eu sempre soube que era boa de cama, mas é bom ter confirmação científica.
gargalhou, a risada ecoando contra o teto do quarto escuro.
— Eu vou te poupar dos comentários que fariam você fugir correndo — disse ele, divertido.
— Meio tarde pra isso, Beetlejuice — provoquei, arqueando uma sobrancelha.
— Cala a boca, Annabelle — rebateu ele, jogando-se de volta nos travesseiros.
Me puxou junto, acomodando minha cabeça em seu peito nu. Os dedos dele começaram a brincar distraidamente com meu cabelo, num carinho lento, quase inconsciente.
Por um tempo, ficamos ali, ouvindo a respiração um do outro, o som distante da cidade noturna atravessando a janela semiaberta.
— Mas, sério — ele falou de novo, a voz rouca de sono e sinceridade. — Eu gostaria de ver no que isso pode dar… Se você quiser, claro.
Mordi o lábio, mais por reflexo do que hesitação.
— Eu posso pensar no seu caso — respondi, olhando pro teto, porque olhar pra ele seria demais. — Eu meio que não sou fã de começos.
não respondeu de imediato. Só continuou com os dedos passeando devagar pelo meu cabelo, como se soubesse que qualquer palavra além daquela seria exagero. E talvez fosse.
A verdade é que eu não sabia o que aquilo era.
Nem se queria saber.
Mas ali, envolta no calor do corpo dele, no cheiro da noite, no som abafado da cidade que não nos conhecia — tudo parecia suspenso.
A merda já estava feita.
O que me restava era lidar com as consequências das minhas atitudes.
Mas eu faria isso amanhã.