Prólogo
Assim que entro em casa, consigo ouvir duas risadas. Não, não risadas. São gargalhadas, altas e condescendentes, mesclando-se uma na outra, como se me desafiassem a desembaraçá-las.
Eu não te escuto rir assim desde que seu irmão morreu, Love.
A maioria dos sorrisos ou qualquer demonstração de felicidade genuína tem sido reservados para o Henry. Com as suas amigas, se é que podemos chamá-las assim, você é sempre contida, receosa em dizer a coisa certa no momento certo. Então, você se fecha e se envergonha antes mesmo de tentar. O que, sem ofensas, te faz parecer meio robótica, quase como uma típica mãe de Madre Linda. E eu já não te faço rir há muito tempo. Fomos domesticados, acontece.
A outra risada, no entanto, tropeça na sua de maneira contundente. Ela soa espontânea, divertida. Eu nem sei quem é ou do que vocês estão rindo, mas já estou me contagiando. Assim como Henry, que me olha, com alguns dedos na boca, e sorri. É um sorriso babado e sem dentes, a coisa mais bonita que eu já vi.
Só dá para competir com você.
Seus cabelos escuros moldam um contraste com sua pele caramelo, e o sorriso em seu rosto parece solto. Olhos de cartoon castanhos, um nariz arrebitado e um corpo que… Nossa. Principalmente vestindo a minha camisa.
Espera, por que você está vestindo a minha camisa?
Quem é você?
— Joe! — Love sorri para mim, levantando do sofá e se aproximando. Ela se curva para pegar a cadeirinha de Henry e aponta para outra pessoa na sala com sua mão livre.
— Oi, Henry. Senti saudades. — A estranha se levanta e acena para o meu filho, que mexe com um brinquedinho que estava na cadeirinha animadamente. De onde ela conhece ele?
— Essa aqui é a . — Minha esposa explica. — Eu te falei dela, se lembra?
Ah, claro. A amiga/primeira cliente. Também a única pessoa que não desperta raiva da senhora Quinn-Goldberg.
Porra, Love. Podia ter mencionado que ela era assim.
— Sua primeira cliente, claro. — Sorrio amigavelmente, e retribui com seus dentes brancos brilhantes. Como alguém parece tão bonita assim, sem nem parecer estar tentando?
— É um prazer te conhecer.
Eu posso achar alguém atraente sem ser a Love, isso não quer dizer que eu esteja traindo ela ou caindo nos velhos hábitos de novo, . Só quer dizer que você é bonita.
A morena estende a mão para mim e eu a agarro com sutileza. Minhas palmas formigam um pouco e você nem nota. Ou esconde muito bem. Esse é um brilho de curiosidade nos seus olhos? Também está pensando nisso?
— Prazer em conhecê-lo também, Joe. — Quando fala, as palavras soam diferentes em sua boca. Até parece que ela estava degustando elas antes de dizê-las. De onde será que ela é?
— Brasil, por isso o sotaque.
Perceptiva e direta, gostei. Parece mais interessante a cada minuto.
Brasil, um país tropical da América do Sul. A crise política é um problema, mas ele tem uma cultura incrível e autores clássicos.
Eu me pergunto de quais autores você gosta, .
Isso é bom, não é? A própria Love disse que eu precisava de amigos.
Ela arqueia uma sobrancelha na minha direção, esperando que eu dissesse mais alguma coisa. Ainda bem que minha esposa está ocupada checando a fralda do Henry.
— Eu não… Desculpa se eu fui rude.
deu de ombros, afastando sua mão da minha. O toque já parecia tão certo, tão familiar que nem notei que ainda estávamos apertando as mãos até aquele momento.
Não, não. Para. A sua esposa está bem aqui. Não podemos ter outra Natalie.
deu de ombros, afastando sua mão da minha. O toque já parecia tão certo, tão familiar que nem notei que ainda estávamos apertando as mãos até aquele momento.
— É normal ficar curioso. — Sua expressão leve estava de volta em um segundo. Ela muda de humor tão rápido, está acostumada com situações assim?
— Mas te digo o mesmo que disse para sua esposa, vocês têm que ir a uma praia. Todo mundo nesse país parece pálido.
Não, Joe. Pare. Bom marido e bom pai, bom marido e bom pai.
— Ele deve estar precisando trocar a fralda. — Love se faz presente na conversa, erguendo Henry em seus braços. Ela está com o nariz enrugado, do jeito que sempre fica quando nosso filho precisa ser trocado. Ela não parece zangada, irritada ou assassina. Então, acho que é seguro deixar aqui.
— Eu volto já.
Assim, minha esposa sobe pelas escadas. Só que todo o meu foco está em você. Eu quero saber mais. Qual seu sobrenome? Por que se mudou para cá? Qual sua comida preferida? Por que está com a minha camisa? Está usando um sutiã por baixo?
A Becky nunca usava, já a Love sim.
E você, ?
— Joe! — Ela me chama, me tirando do transe em que a mesma me colocou.
— O quê?
— Eu perguntei, e você? — cruza os braços embaixo dos seios. Sem sutiã, então. — De onde você é?
— New York.
Assim que respondo, volto o olhar para o seu rosto. Não quero que pense que sou um tarado. continua com os braços cruzados, seus olhos semicerrados ao me encarar. Mesmo que tenhamos acabado de nos conhecer, eu tenho certeza de que ela saberia se eu mentisse.
Onde aprendeu a ser tão atenta e desconfiada, ?
— Por que alguém de New York iria se mudar pra cá?
Desafiadora. Intrigante. Sagaz. Inteligente. Sempre com uma resposta na ponta da língua.
— Por que alguém do Brasil iria se mudar pra cá?
Ah, . Só você poderia me tirar da monotonia de Madre Linda.
— Touché. — Ela ri abertamente, me oferecendo uma piscadela brincalhona.
Mas quem é você?
Capítulo 1 - Eu tenho a vida perfeita
O sol brilhou preguiçosamente do lado de fora da janela, adentrando com seus raios sutis através das diversas vidraças. Não era como o sol de Los Angeles, nunca poderia ser. Mesmo que, em nome da lógica astronômica, seja o mesmo sol para todos, como dizia Harper Lee. Ainda assim, algo dentro de Love Quinn-Goldberg sabia que nada naquela cidade era remotamente simples ou familiar.
Em sua cidade natal, tudo parecia se encaixar sem esforço, como palavras-cruzadas de domingo ou a receita de um cupcake de mirtilo. Era tão fácil, tão natural. Seus amigos, seu trabalho. A única coisa que arranhava suas entranhas era o sentimento de estar sentindo falta de algo, como se tivesse esquecido sua alma sentada em Venice Beach. Então, Joe Goldberg entrou em sua vida de um jeito tão suburbano e doce, e naquele momento Love simplesmente soube que ela tinha achado o seu mapa para plenitude. Alguém que a entendia, alguém que poderia ver seu lado bom e ruim e ainda assim querer-la, amá-la. Alguém que estaria disposto a fazer qualquer coisa pelas pessoas com quem se importasse, porque ele entenderia que o trabalho de quem ama é proteger, seja com mãos manchadas de vermelho ou não. Alguém que se tornaria parte da família.
Só não contava que Madre Linda seria o inferno, mesmo com todos os anjos ao seu lado.
Todos pareciam sempre estar julgando-a e nem ao menos tinham a educação de esconder, ou serem amigáveis à primeira vista. Cortesia costumava ser um reflexo onde ela morava, principalmente com os eventos exagerados dos seus pais. Aqui, eles só eram grosseiros, meticulosos, abutres que acenavam antes de espionarem o seu jardim por carne fresca. Aquela gente parecia se hidratar com lágrimas alheias.
Então, sim, o sol de Los Angeles era confortável e aquecedor.
Mas o de Madre Linda queimava.
Assim como tudo naquela cidade.
O sol estava em uma distância segura e perto o bastante para afetar o seu dia a dia, queimando e explodindo em si mesmo, enquanto respingava suas ondas de calor em qualquer planeta vizinho sem nem se importar.
Ei, talvez seja por isso que as pessoas ainda não tenham entrado na confeitaria, certo? pensou para si mesma, suspirando exaurida. Talvez.
Se enganar estava se tornando cada vez mais complicado ultimamente. Não só pelo total descaso de Joe, mas por todo o esforço que ela estava tendo para fazer seu casamento funcionar de novo. Love não tinha mais o seu irmão para desabafar, sua mãe estava sempre ocupada e só aparecia para passar alguns minutos contados com Henry, e seus amigos estavam há aviões de distância.
Pelo menos ela tinha a terapia e a ameaça da Natalie estava fora do jogo.
Os pensamentos da confeiteira, assim como a limpeza das vitrines dos doces, foram interrompidos por uma visão conhecida: Sherry. Aquela mulher era de longe a pior pessoa daquela cidade, sempre dando um jeito de dizer algo condescendente e ofensivo com um sorriso. Ainda assim, a raiva que a senhora Quinn-Goldberg sentia da morena era empurrada para baixo, fazendo a vontade de ser aceita sobressair.
Love sorriu para ela, acenando animadamente dentro da sua atuação de boa vizinha. Sherry sequer parou sua corrida matinal para cumprimentá-la, ou deu um tchauzinho de volta com a mão enquanto corria. Ela só encarou a outra com desdém, torcendo a boca e as sobrancelhas ao continuar seu percurso.
Quer saber? Esquece o que foi dito antes.
Madre Linda era o único lugar em que a porra do sol era frio.
A feição da confeiteira caiu, seus lábios sorridentes fechados em uma linha reta e seus olhos, antes tão elogiados por serem gentis, seguiram Sherry e seu marido com ressentimento até eles escaparem do seu campo de visão. A irritação emergiu em seu peito novamente, quem ela pensava que era?
Espero que ela seja atropelada e quebre todas as porras dos ossos.
Os pequenos sinos posicionados sobre a porta gritaram elegantemente ao anunciar a chegada de um cliente, seu primeiro cliente! Ela largou o paninho usado para polir a vitrine, que só agora percebeu estar segurando com uma força exagerada (talvez por imaginar a cabeça de uma certa vizinha ali), e se virou para encarar quem quer que tivesse entrado na sua loja.
- Acho que esse é o primeiro lugar que eu entro que tem comida de verdade nessa cidade. - A mulher suspirou dramaticamente ao andar até o balcão, suas palavras recheadas com um sotaque que a confeiteira só tinha escutado em programas de televisão. - Sério, eu quero comprar tudo.
- Bom, eu não vou te impedir. - Love riu de modo suave, animada por ter alguém que reconhecia culinária de verdade. Seria a sua primeira venda! - O que vai querer hoje?
Sua cliente se aproximou do balcão, pressionando os lábios juntos ao analisar os doces.
- Você tem brownies?
Finalmente alguém nesta cidade com bom gosto.
- Veganos e não veganos.
- Eu quero um de cada! - A moça de cabelos escuros bateu as mãos alegremente. - E um cupcake de nozes. Tem desse?
- Tenho sim. Mais alguma coisa? - perguntou educadamente, recolhendo os doces escolhidos.
Ela murmurou em concordância enquanto abria a bolsa e tirava algumas notas de dentro. - Pode colocar o brownie vegano e o cupcake para viagem?
- 15 doláres. - a morena entregou a quantia. Love nunca pensou que se sentiria tão feliz por ganhar quinze dólares em sua vida. Principalmente porque menos de quinhentos dólares nunca pareceu uma quantia significativa para ela ou sua família, mas agora? Aquela pequena compra era a prova de que a sua mãe, a Sherry e todos esses babacas gluten free e narcisistas estavam errados. Ela iria conseguir fazer isso funcionar. - Pode se sentar, eu já levo na mesa.
A mulher do sotaque apenas sorriu com um aceno na cabeça e andou em seus saltos até uma mesa próxima da janela.
Ela parece mais simpática do que as outras pessoas, mas eu nunca a vi aqui. Será que ela é nova? Ou do grupinho de idiotas pretensiosos que lambem o chão por onde a Sherry passa?
Love colocou o brownie não vegano em uma bandeja, e embalou cuidadosamente os outros doces para viagem. Ela queria causar uma boa impressão nos seus clientes. Por isso, ela se aproximou com a expressão mais amigável que conseguiu, colocando o prato e a sacola na mesa com delicadeza.
- Obrigada. - A moça forçou os olhos para ler o nome no crachá, mudando seu foco para a confeiteira quando conseguiu. - Love. Que nome interessante.
- É que eu sou da Califórnia.
Os olhos dela brilharam ao ouvir aquele nome. - Parece ser um lugar incrível, espero poder ir pra lá um dia.
E eu espero poder sair desse inferno e voltar para lá, mas eu não posso. Minha família está aqui.
- Carboidratos, eu senti tanta saudade. - A mulher grunhiu ao morder um pedaço do brownie. - Dá pra acreditar que eu estive em cinco lanchonetes por aqui e nenhuma delas tinha carboidratos?
- Isso não me surpreende. - Love soltou um riso anasalado, recebendo um olhar questionador em resposta. - É que as pessoas de Madre Linda não gostam desse tipo de comida.
- Bom, então eu vou manter o seu negócio de pé. - ela deu outra mordida. - Isso aqui é ótimo.
- Obrigada. - apreciou o elogio. Tinha sido tanto tempo desde que alguém elogiou ela. - Você é nova por aqui?
- Me mudei por causa de um emprego. - Love assentiu, embora não conseguisse imaginar que tipo de emprego traria alguém para uma cidade como Madre Linda. - E você? Sua loja parece nova.
- Quer dizer, vazia? - ela riu levemente. - É, mais ou menos. Estou aqui há alguns meses, mas tinha um recém-nascido em casa, então.
- Sem tempo para socializar com pessoas que fazem fotossíntese ao invés de comer comida de gente?
Love bufou. - Tipo isso.
- Eu sou a , aliás. - a estrangeira se introduziu, dando mais uma mordida no brownie antes de continuar em um tom de voz apologético. - Desculpa se parece que eu julgo muito a cidade, é só que… Parece difícil conhecer pessoas aqui. - riu sem graça e desviou o olhar, como se estivesse envergonhada em admitir aquilo. Love com certeza conhecia aquele sentimento. De uma maneira peculiar, era bom saber que ela não estava enlouquecendo sozinha. - Essa é a conversa mais duradoura que eu tive em duas semanas sem ter que mencionar shakes de emagrecimento.
- Acredite em mim, eu entendo. Madre Linda pode ser… Complicado. Especialmente quando você é mãe. - Para dizer o mínimo. - Você trabalha como nutricionista?
- Professora de natação para crianças. - ela terminou o brownie, amassando o papelzinho e colocando no centro do prato.
- Que legal.
- Olha, tenho classes para todas as idades, caso você esteja interessada. Temos aulas com ou sem os pais, em conjunto, particulares. E tem uma aula experimental de graça. - explicou à medida que apanhava a sua bolsa e se colocava de pé, agarrando a sacola em seguida. A morena enfiou a mão na bolsa e tirou um panfleto azul de lá. - Não diga que eu te disse, mas tem muitas mães que levam as crianças para lá.
- Eu vou dar uma olhada. Obrigada. - Love aceitou o papel com diversos desenhos infantis e acompanhou sua primeira cliente até a porta.
Talvez tivessem pessoas suportáveis em Madre Linda, no final das contas.
por Joe Goldberg
Madre Linda era a cidade pacata mais fodida do mundo.
Como eu estava aqui há menos de um ano e já tinha quase tido um caso, entrado na terapia, enterrado uma pessoa, desovado o corpo dessa pessoa, enterrado a pessoa de novo e agora o meu filho, que com certeza me odeia, não parava de chorar?
Porra.
- Henry, por favor. Eu te dou qualquer coisa, qualquer coisa. - gemi em frustração quando meu apelo só causou uma crise de choro ainda mais alta. - Eu já troquei a sua fralda, já te dei banho, você já comeu e já arrotou. - ergui meu filho e encarei seus olhos castanhos, tentando decifrar o que ele queria. Até ler livros espanhóis do século dezenove era mais simples que ser pai. - O que mais você quer?
E, é claro, ele só gritou ainda mais na minha cara.
Parece que a resposta é, eu quero qualquer um que não seja você.
O barulho da porta destrancando me fez suspirar de alívio, mas aquela sensação durou apenas um segundo. Antes da terapia, se a Love estava em casa, nós sempre acabavámos brigando. Até mesmo o silêncio desconfortável acabava se tornando uma briga sobre o motivo do silêncio desconfortável sequer existir! Porém, com a terapia e os exercícios, agora tudo era tranquilo.
Isso era bom, não era? Trocar todos aqueles assassinatos e caos pelo cotidiano calmo de uma cidade que parecia um subúrbio cercado por árvores. Era o que o Henry precisava, mesmo que isso me causasse tanto tédio que eu preferia morrer.
Pelo menos não tinham mais cadáveres.
- Oi, adivinha o que aconteceu hoje. - a minha esposa adentrou na sala de estar com um sorriso aberto, do tipo que eu costumava ver quando ela trabalhava no Anavrin.
Interessante.
- O quê?
- Não é assim que a adivinhação funciona. - ela respondeu em um tom zombeteiro, abandonando as sacolas na bancada e se aproximando para pegar o nosso filho. - Oi, Henry. Sentiu falta da mamãe? Sentiu? Eu também senti.
Ali estava. A Love maternal que eu conhecia. A mulher por quem eu me apaixonei. A mãe do meu filho.
Genuinamente animada. Animada até demais.
Ah, porra.
Ela tinha matado a Sherry?
- O que aconteceu?
Por favor, não tenha esfaqueado a cara da Sherry.
- Eu tive a minha primeira venda na loja. - não consegui impedir um suspiro de alívio pela segunda vez no espaço de quinze minutos. Ainda bem. - E depois dela, mais pessoas começaram a entrar e pedir!
- O efeito rebanho. Só basta uma pessoa mostrar que doces não são veneno e as outras vêm correndo. - sorri para Love. Aquilo era bom para ela. E se era bom para ela, era bom para o Henry, e pra mim.
- A Shanon, aquela mulher do crossfit, até postou no Instagram. - minha esposa se vangloriou da sua vitória do dia, balançando Henry que, é claro, já tinha parado de chorar.
- Que bom, Love. É sério, estou feliz por você.
- Obrigada. - ela se inclinou e me deu um selinho. - Eu estava pensando… E se colocássemos o Henry na aula de natação?
Franzi o cenho para aquela sugestão inesperada. Até no mundo das crianças ricas e mimadas, não era cedo demais para atividades extracurriculares que só servem para ajudar a entrar em um colégio renomado que aceita suborno dos pais riquinhos em troca de um boletim?
- Não acha que é meio cedo para isso?
- Não, não. É uma aula para crianças. De todas as idades.
Dei de ombros, encarando Henry por alguns segundos antes de voltar meu olhar para Love.
- Eu não sei, Love. Parece perigoso.
- Acha que eu colocaria nosso filho em perigo? - ela me acusou, usando um tom de voz que eu já não ouvia há muito tempo. Não brigávamos mais como antes, graças a terapia. E, antes que uma discussão iniciasse, Love respirou fundo, como se estivesse se lembrando do que a terapeuta disse. - Olha, esse seria um bom jeito de você ter uma conexão com um Henry.
- Eu e o Henry temos uma conexão, só estamos melhorando. - retruquei. Aquilo era verdade. Eu podia ainda não ter a melhor relação com ele, mas estávamos melhores que antes.
Ela suspirou, acenando com a cabeça.
- Eu sei, eu sei. Mas eu realmente acho que isso pode ajudar. - minha esposa sentou-se do meu lado no sofá, me olhando com uma clara súplica em seus olhos. Eu realmente não queria aquilo, mas o que um bom marido faria nessa situação? - Olha, eu conheci a instrutora. Ela se mudou para cá por causa do emprego, então é profissional. Eu posso chamar ela aqui para você conhecer e nós poderíamos ir na primeira aula juntos.
Ele cederia, o marido perfeito cederia. Mesmo que isso significasse colocar o nosso filho em uma piscina com uma estranha e arriscar aumentar o índice de afogamento em Madre Linda.
Debrucei, descansando os braços nas minhas pernas, enquanto me virava para encará-la, pronto para aceitar aquela proposta absurda. Love parecia ansiosa, como se aquilo fosse muito importante.
Parece que é um pouco mais que apenas aprofundar a minha conexão com Henry.
Será que ela acha que nós dois não estamos próximos? Não, não acho que é isso… Nós transamos ontem e até dormimos de conchinha. Sem contar com o beijo de bom dia hoje de manhã.
Então, o que poderia ser?
- E a me disse que muitos pais se inscreveram. - ela adicionou após o meu silêncio, que provavelmente passou a ideia de que eu ainda estava cogitando a ideia.
Nunca pensei que apenas cruzar os braços e esperar poderia funcionar com a Love.
Mas espera, o que você tinha dito? Eu não lembro desse nome na festa da Sherry.
- ? - arqueei a sobrancelhas em curiosidade. O nome parecia rolar pela minha língua de maneira fácil, quase natural. Morando em New York, conheci pessoas com quase todos os nomes e pseudônimos possíveis, mas ? Parecia ter saído direto de um clássico.
- A minha primeira cliente e instrutora de natação. - a senhora Quinn-Goldberg explicou e eu assenti. Por isso ela não estava na festa, ou fiasco, dos gêmeos da Sherry no último final de semana.
Honestamente, eu nem conhecia essa e já tinha inveja dela.
Eu preferia ter cortado as minhas bolas fora do que ter tido que socializar com um bando de riquinhos que escondem seus privilégios com um falso senso de humanidade e se alimentam da vida alheia. Privilégios esses que são provados na saída da festa, porque eles te entregam um Ipad de lembrancinha depois de passarem horas te julgando e comendo um monte de coisa feita de ar.
Ah, . Você não sabe a sorte que tem por não ter ido naquela festa estúpida.
E tudo isso enquanto a Love tentava desesperadamente entrar no clube das mães socialites.
Para. A Love está tentando pelo Henry. Isso é uma coisa boa. É a nossa família.
Mesmo que para isso tenhamos que conviver com a porra da Sherry e o marido movido a esteróides.
- Ah. Tudo bem. - respondi, sem ter ideia de como continuar aquela conversa. O problema de estarmos sob a bandeira branca é que de vez em quando não tínhamos sobre o que conversar.
- Ela é bem simpática.
Viu? Agora você está tentando puxar assunto sobre uma mulher que eu nunca vi na vida, porque você sabe que não temos mais o que dizer pelo resto do dia.
- Mais que a Sherry? - perguntei em um ar brincalhão, arrancando um rolar de olhos com afeição de você.
- Todo mundo é mais simpático que a Sherry. Ela nem entrou na minha confeitaria hoje.
Assim que abri a boca para responder, meu alarme tocou anunciando que eu tinha que ir para o trabalho na biblioteca.
Salvo pelo gongo do trabalho.
- Tenho que ir para o trabalho. - inclinei-me e beijei seus lábios rapidamente. - Eu te vejo mais tarde. - Tudo bem. - Love assentiu para si mesma, se levantando ao mesmo tempo que eu. - Quer camarão ou parmegiana para o jantar?
- Qualquer um está bom para mim.
Minha esposa me acompanhou até a porta, sua testa enrugada, como se ela estivesse tentando lembrar de alguma coisa. Sua expressão pensativa se dissipou em um sorriso quando abri a porta.
- Ei, Joe. Eu te amo.
- Eu também te amo.
Mesmo que o casamento seja a coisa mais monótona que nós dois já fizemos juntos.
Em sua cidade natal, tudo parecia se encaixar sem esforço, como palavras-cruzadas de domingo ou a receita de um cupcake de mirtilo. Era tão fácil, tão natural. Seus amigos, seu trabalho. A única coisa que arranhava suas entranhas era o sentimento de estar sentindo falta de algo, como se tivesse esquecido sua alma sentada em Venice Beach. Então, Joe Goldberg entrou em sua vida de um jeito tão suburbano e doce, e naquele momento Love simplesmente soube que ela tinha achado o seu mapa para plenitude. Alguém que a entendia, alguém que poderia ver seu lado bom e ruim e ainda assim querer-la, amá-la. Alguém que estaria disposto a fazer qualquer coisa pelas pessoas com quem se importasse, porque ele entenderia que o trabalho de quem ama é proteger, seja com mãos manchadas de vermelho ou não. Alguém que se tornaria parte da família.
Só não contava que Madre Linda seria o inferno, mesmo com todos os anjos ao seu lado.
Todos pareciam sempre estar julgando-a e nem ao menos tinham a educação de esconder, ou serem amigáveis à primeira vista. Cortesia costumava ser um reflexo onde ela morava, principalmente com os eventos exagerados dos seus pais. Aqui, eles só eram grosseiros, meticulosos, abutres que acenavam antes de espionarem o seu jardim por carne fresca. Aquela gente parecia se hidratar com lágrimas alheias.
Então, sim, o sol de Los Angeles era confortável e aquecedor.
Mas o de Madre Linda queimava.
Assim como tudo naquela cidade.
O sol estava em uma distância segura e perto o bastante para afetar o seu dia a dia, queimando e explodindo em si mesmo, enquanto respingava suas ondas de calor em qualquer planeta vizinho sem nem se importar.
Ei, talvez seja por isso que as pessoas ainda não tenham entrado na confeitaria, certo? pensou para si mesma, suspirando exaurida. Talvez.
Se enganar estava se tornando cada vez mais complicado ultimamente. Não só pelo total descaso de Joe, mas por todo o esforço que ela estava tendo para fazer seu casamento funcionar de novo. Love não tinha mais o seu irmão para desabafar, sua mãe estava sempre ocupada e só aparecia para passar alguns minutos contados com Henry, e seus amigos estavam há aviões de distância.
Pelo menos ela tinha a terapia e a ameaça da Natalie estava fora do jogo.
Os pensamentos da confeiteira, assim como a limpeza das vitrines dos doces, foram interrompidos por uma visão conhecida: Sherry. Aquela mulher era de longe a pior pessoa daquela cidade, sempre dando um jeito de dizer algo condescendente e ofensivo com um sorriso. Ainda assim, a raiva que a senhora Quinn-Goldberg sentia da morena era empurrada para baixo, fazendo a vontade de ser aceita sobressair.
Love sorriu para ela, acenando animadamente dentro da sua atuação de boa vizinha. Sherry sequer parou sua corrida matinal para cumprimentá-la, ou deu um tchauzinho de volta com a mão enquanto corria. Ela só encarou a outra com desdém, torcendo a boca e as sobrancelhas ao continuar seu percurso.
Quer saber? Esquece o que foi dito antes.
Madre Linda era o único lugar em que a porra do sol era frio.
A feição da confeiteira caiu, seus lábios sorridentes fechados em uma linha reta e seus olhos, antes tão elogiados por serem gentis, seguiram Sherry e seu marido com ressentimento até eles escaparem do seu campo de visão. A irritação emergiu em seu peito novamente, quem ela pensava que era?
Espero que ela seja atropelada e quebre todas as porras dos ossos.
Os pequenos sinos posicionados sobre a porta gritaram elegantemente ao anunciar a chegada de um cliente, seu primeiro cliente! Ela largou o paninho usado para polir a vitrine, que só agora percebeu estar segurando com uma força exagerada (talvez por imaginar a cabeça de uma certa vizinha ali), e se virou para encarar quem quer que tivesse entrado na sua loja.
- Acho que esse é o primeiro lugar que eu entro que tem comida de verdade nessa cidade. - A mulher suspirou dramaticamente ao andar até o balcão, suas palavras recheadas com um sotaque que a confeiteira só tinha escutado em programas de televisão. - Sério, eu quero comprar tudo.
- Bom, eu não vou te impedir. - Love riu de modo suave, animada por ter alguém que reconhecia culinária de verdade. Seria a sua primeira venda! - O que vai querer hoje?
Sua cliente se aproximou do balcão, pressionando os lábios juntos ao analisar os doces.
- Você tem brownies?
Finalmente alguém nesta cidade com bom gosto.
- Veganos e não veganos.
- Eu quero um de cada! - A moça de cabelos escuros bateu as mãos alegremente. - E um cupcake de nozes. Tem desse?
- Tenho sim. Mais alguma coisa? - perguntou educadamente, recolhendo os doces escolhidos.
Ela murmurou em concordância enquanto abria a bolsa e tirava algumas notas de dentro. - Pode colocar o brownie vegano e o cupcake para viagem?
- 15 doláres. - a morena entregou a quantia. Love nunca pensou que se sentiria tão feliz por ganhar quinze dólares em sua vida. Principalmente porque menos de quinhentos dólares nunca pareceu uma quantia significativa para ela ou sua família, mas agora? Aquela pequena compra era a prova de que a sua mãe, a Sherry e todos esses babacas gluten free e narcisistas estavam errados. Ela iria conseguir fazer isso funcionar. - Pode se sentar, eu já levo na mesa.
A mulher do sotaque apenas sorriu com um aceno na cabeça e andou em seus saltos até uma mesa próxima da janela.
Ela parece mais simpática do que as outras pessoas, mas eu nunca a vi aqui. Será que ela é nova? Ou do grupinho de idiotas pretensiosos que lambem o chão por onde a Sherry passa?
Love colocou o brownie não vegano em uma bandeja, e embalou cuidadosamente os outros doces para viagem. Ela queria causar uma boa impressão nos seus clientes. Por isso, ela se aproximou com a expressão mais amigável que conseguiu, colocando o prato e a sacola na mesa com delicadeza.
- Obrigada. - A moça forçou os olhos para ler o nome no crachá, mudando seu foco para a confeiteira quando conseguiu. - Love. Que nome interessante.
- É que eu sou da Califórnia.
Os olhos dela brilharam ao ouvir aquele nome. - Parece ser um lugar incrível, espero poder ir pra lá um dia.
E eu espero poder sair desse inferno e voltar para lá, mas eu não posso. Minha família está aqui.
- Carboidratos, eu senti tanta saudade. - A mulher grunhiu ao morder um pedaço do brownie. - Dá pra acreditar que eu estive em cinco lanchonetes por aqui e nenhuma delas tinha carboidratos?
- Isso não me surpreende. - Love soltou um riso anasalado, recebendo um olhar questionador em resposta. - É que as pessoas de Madre Linda não gostam desse tipo de comida.
- Bom, então eu vou manter o seu negócio de pé. - ela deu outra mordida. - Isso aqui é ótimo.
- Obrigada. - apreciou o elogio. Tinha sido tanto tempo desde que alguém elogiou ela. - Você é nova por aqui?
- Me mudei por causa de um emprego. - Love assentiu, embora não conseguisse imaginar que tipo de emprego traria alguém para uma cidade como Madre Linda. - E você? Sua loja parece nova.
- Quer dizer, vazia? - ela riu levemente. - É, mais ou menos. Estou aqui há alguns meses, mas tinha um recém-nascido em casa, então.
- Sem tempo para socializar com pessoas que fazem fotossíntese ao invés de comer comida de gente?
Love bufou. - Tipo isso.
- Eu sou a , aliás. - a estrangeira se introduziu, dando mais uma mordida no brownie antes de continuar em um tom de voz apologético. - Desculpa se parece que eu julgo muito a cidade, é só que… Parece difícil conhecer pessoas aqui. - riu sem graça e desviou o olhar, como se estivesse envergonhada em admitir aquilo. Love com certeza conhecia aquele sentimento. De uma maneira peculiar, era bom saber que ela não estava enlouquecendo sozinha. - Essa é a conversa mais duradoura que eu tive em duas semanas sem ter que mencionar shakes de emagrecimento.
- Acredite em mim, eu entendo. Madre Linda pode ser… Complicado. Especialmente quando você é mãe. - Para dizer o mínimo. - Você trabalha como nutricionista?
- Professora de natação para crianças. - ela terminou o brownie, amassando o papelzinho e colocando no centro do prato.
- Que legal.
- Olha, tenho classes para todas as idades, caso você esteja interessada. Temos aulas com ou sem os pais, em conjunto, particulares. E tem uma aula experimental de graça. - explicou à medida que apanhava a sua bolsa e se colocava de pé, agarrando a sacola em seguida. A morena enfiou a mão na bolsa e tirou um panfleto azul de lá. - Não diga que eu te disse, mas tem muitas mães que levam as crianças para lá.
- Eu vou dar uma olhada. Obrigada. - Love aceitou o papel com diversos desenhos infantis e acompanhou sua primeira cliente até a porta.
Talvez tivessem pessoas suportáveis em Madre Linda, no final das contas.
Madre Linda era a cidade pacata mais fodida do mundo.
Como eu estava aqui há menos de um ano e já tinha quase tido um caso, entrado na terapia, enterrado uma pessoa, desovado o corpo dessa pessoa, enterrado a pessoa de novo e agora o meu filho, que com certeza me odeia, não parava de chorar?
Porra.
- Henry, por favor. Eu te dou qualquer coisa, qualquer coisa. - gemi em frustração quando meu apelo só causou uma crise de choro ainda mais alta. - Eu já troquei a sua fralda, já te dei banho, você já comeu e já arrotou. - ergui meu filho e encarei seus olhos castanhos, tentando decifrar o que ele queria. Até ler livros espanhóis do século dezenove era mais simples que ser pai. - O que mais você quer?
E, é claro, ele só gritou ainda mais na minha cara.
Parece que a resposta é, eu quero qualquer um que não seja você.
O barulho da porta destrancando me fez suspirar de alívio, mas aquela sensação durou apenas um segundo. Antes da terapia, se a Love estava em casa, nós sempre acabavámos brigando. Até mesmo o silêncio desconfortável acabava se tornando uma briga sobre o motivo do silêncio desconfortável sequer existir! Porém, com a terapia e os exercícios, agora tudo era tranquilo.
Isso era bom, não era? Trocar todos aqueles assassinatos e caos pelo cotidiano calmo de uma cidade que parecia um subúrbio cercado por árvores. Era o que o Henry precisava, mesmo que isso me causasse tanto tédio que eu preferia morrer.
Pelo menos não tinham mais cadáveres.
- Oi, adivinha o que aconteceu hoje. - a minha esposa adentrou na sala de estar com um sorriso aberto, do tipo que eu costumava ver quando ela trabalhava no Anavrin.
Interessante.
- O quê?
- Não é assim que a adivinhação funciona. - ela respondeu em um tom zombeteiro, abandonando as sacolas na bancada e se aproximando para pegar o nosso filho. - Oi, Henry. Sentiu falta da mamãe? Sentiu? Eu também senti.
Ali estava. A Love maternal que eu conhecia. A mulher por quem eu me apaixonei. A mãe do meu filho.
Genuinamente animada. Animada até demais.
Ah, porra.
Ela tinha matado a Sherry?
- O que aconteceu?
Por favor, não tenha esfaqueado a cara da Sherry.
- Eu tive a minha primeira venda na loja. - não consegui impedir um suspiro de alívio pela segunda vez no espaço de quinze minutos. Ainda bem. - E depois dela, mais pessoas começaram a entrar e pedir!
- O efeito rebanho. Só basta uma pessoa mostrar que doces não são veneno e as outras vêm correndo. - sorri para Love. Aquilo era bom para ela. E se era bom para ela, era bom para o Henry, e pra mim.
- A Shanon, aquela mulher do crossfit, até postou no Instagram. - minha esposa se vangloriou da sua vitória do dia, balançando Henry que, é claro, já tinha parado de chorar.
- Que bom, Love. É sério, estou feliz por você.
- Obrigada. - ela se inclinou e me deu um selinho. - Eu estava pensando… E se colocássemos o Henry na aula de natação?
Franzi o cenho para aquela sugestão inesperada. Até no mundo das crianças ricas e mimadas, não era cedo demais para atividades extracurriculares que só servem para ajudar a entrar em um colégio renomado que aceita suborno dos pais riquinhos em troca de um boletim?
- Não acha que é meio cedo para isso?
- Não, não. É uma aula para crianças. De todas as idades.
Dei de ombros, encarando Henry por alguns segundos antes de voltar meu olhar para Love.
- Eu não sei, Love. Parece perigoso.
- Acha que eu colocaria nosso filho em perigo? - ela me acusou, usando um tom de voz que eu já não ouvia há muito tempo. Não brigávamos mais como antes, graças a terapia. E, antes que uma discussão iniciasse, Love respirou fundo, como se estivesse se lembrando do que a terapeuta disse. - Olha, esse seria um bom jeito de você ter uma conexão com um Henry.
- Eu e o Henry temos uma conexão, só estamos melhorando. - retruquei. Aquilo era verdade. Eu podia ainda não ter a melhor relação com ele, mas estávamos melhores que antes.
Ela suspirou, acenando com a cabeça.
- Eu sei, eu sei. Mas eu realmente acho que isso pode ajudar. - minha esposa sentou-se do meu lado no sofá, me olhando com uma clara súplica em seus olhos. Eu realmente não queria aquilo, mas o que um bom marido faria nessa situação? - Olha, eu conheci a instrutora. Ela se mudou para cá por causa do emprego, então é profissional. Eu posso chamar ela aqui para você conhecer e nós poderíamos ir na primeira aula juntos.
Ele cederia, o marido perfeito cederia. Mesmo que isso significasse colocar o nosso filho em uma piscina com uma estranha e arriscar aumentar o índice de afogamento em Madre Linda.
Debrucei, descansando os braços nas minhas pernas, enquanto me virava para encará-la, pronto para aceitar aquela proposta absurda. Love parecia ansiosa, como se aquilo fosse muito importante.
Parece que é um pouco mais que apenas aprofundar a minha conexão com Henry.
Será que ela acha que nós dois não estamos próximos? Não, não acho que é isso… Nós transamos ontem e até dormimos de conchinha. Sem contar com o beijo de bom dia hoje de manhã.
Então, o que poderia ser?
- E a me disse que muitos pais se inscreveram. - ela adicionou após o meu silêncio, que provavelmente passou a ideia de que eu ainda estava cogitando a ideia.
Nunca pensei que apenas cruzar os braços e esperar poderia funcionar com a Love.
Mas espera, o que você tinha dito? Eu não lembro desse nome na festa da Sherry.
- ? - arqueei a sobrancelhas em curiosidade. O nome parecia rolar pela minha língua de maneira fácil, quase natural. Morando em New York, conheci pessoas com quase todos os nomes e pseudônimos possíveis, mas ? Parecia ter saído direto de um clássico.
- A minha primeira cliente e instrutora de natação. - a senhora Quinn-Goldberg explicou e eu assenti. Por isso ela não estava na festa, ou fiasco, dos gêmeos da Sherry no último final de semana.
Honestamente, eu nem conhecia essa e já tinha inveja dela.
Eu preferia ter cortado as minhas bolas fora do que ter tido que socializar com um bando de riquinhos que escondem seus privilégios com um falso senso de humanidade e se alimentam da vida alheia. Privilégios esses que são provados na saída da festa, porque eles te entregam um Ipad de lembrancinha depois de passarem horas te julgando e comendo um monte de coisa feita de ar.
Ah, . Você não sabe a sorte que tem por não ter ido naquela festa estúpida.
E tudo isso enquanto a Love tentava desesperadamente entrar no clube das mães socialites.
Para. A Love está tentando pelo Henry. Isso é uma coisa boa. É a nossa família.
Mesmo que para isso tenhamos que conviver com a porra da Sherry e o marido movido a esteróides.
- Ah. Tudo bem. - respondi, sem ter ideia de como continuar aquela conversa. O problema de estarmos sob a bandeira branca é que de vez em quando não tínhamos sobre o que conversar.
- Ela é bem simpática.
Viu? Agora você está tentando puxar assunto sobre uma mulher que eu nunca vi na vida, porque você sabe que não temos mais o que dizer pelo resto do dia.
- Mais que a Sherry? - perguntei em um ar brincalhão, arrancando um rolar de olhos com afeição de você.
- Todo mundo é mais simpático que a Sherry. Ela nem entrou na minha confeitaria hoje.
Assim que abri a boca para responder, meu alarme tocou anunciando que eu tinha que ir para o trabalho na biblioteca.
Salvo pelo gongo do trabalho.
- Tenho que ir para o trabalho. - inclinei-me e beijei seus lábios rapidamente. - Eu te vejo mais tarde. - Tudo bem. - Love assentiu para si mesma, se levantando ao mesmo tempo que eu. - Quer camarão ou parmegiana para o jantar?
- Qualquer um está bom para mim.
Minha esposa me acompanhou até a porta, sua testa enrugada, como se ela estivesse tentando lembrar de alguma coisa. Sua expressão pensativa se dissipou em um sorriso quando abri a porta.
- Ei, Joe. Eu te amo.
- Eu também te amo.
Mesmo que o casamento seja a coisa mais monótona que nós dois já fizemos juntos.
Continua...
Nota da autora: E temos a pp aparecendo! Quem diria?
SPOILER A SEGUIR, CUIDADO AÍ: o próximo cap terá o Joe perseguindo a pp, ou melhor.. Você.
Comentem, quero saber o que acharam!
Outras Fanfics:
Inimigos com Benefícios - Em andamento.
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