Última Atualização: 16/01/2026

Prólogo

Dizem que alguns nomes não devem ser pronunciados à noite. Um deles é .
Há centenas de anos, ele foi um guerreiro conhecido tanto pela coragem quanto pela crueldade. Belo como poucos homens já foram, de olhar profundo e presença magnética, parecia ter sido moldado pelos deuses para inspirar respeito e medo em igual medida. Mas a beleza que fascinava também escondia um coração corroído pela ambição e pela fúria.
Naquela era, contam, ele cometeu um ato tão imperdoável que o céu recusou-lhe o descanso e o inferno rejeitou-lhe a alma. Nem homem, nem sombra, nem demônio — foi condenado a vagar entre mundos, trazendo nos olhos a centelha da vida e na essência o fardo da maldição.
Transformaram-no em um espírito dos desejos: fadado a atender aos chamados dos desesperados, sempre em forma humana, sempre sedutor, sempre sombrio. Mas cada desejo concedido trazia consigo a ruína, pois a mão que oferece também cobra o preço. Assim, geração após geração, o nome de ecoou como aviso: cuidado com o que pede à noite, porque os desejos são moedas de duas faces.
Seiscentas e cinquenta e nove vezes ele atendeu. Seiscentas e cinquenta e nove vezes ele assistiu homens e mulheres sucumbirem às próprias vontades. E cada rosto, cada lágrima, cada grito gravou-se nele como cicatrizes invisíveis. Restavam sete.
Sete desejos o separavam do fim da sua sina. Sete vozes ainda ecoariam pedindo o impossível. E então, o inesperado aconteceu: entre súplicas por riqueza, vingança e poder, surgiu um pedido puro. Uma oração inocente. Uma voz que não gritava por si, mas pelo outro.
a ouviu antes mesmo de vê-la. E pela primeira vez em séculos, algo dentro dele hesitou.

Parte 1: Capítulo I – O 659º Desejo (Ganância)

Há séculos, seu nome era sussurrado em vilarejos à beira da fogueira, como aviso para os incautos. Hoje, é murmurado nas vielas úmidas das grandes cidades, perdido entre buzinas, luzes de neon e telas que nunca se apagam. Kangjoon.
A lenda nunca morreu. Apenas se moldou ao tempo.
Ele continua ali, no espaço entre o homem e sua queda, esperando aquele que esteja pronto para vender o que lhe resta. Sempre belo demais para ser ignorado, sempre sombrio demais para ser confiado. Alguns dizem que já o viram na saída de cassinos, outros em becos onde mendigos dormem, ou até em bares de esquina onde só se entra para esquecer a própria vida. Mas ninguém sabe de onde veio, ou para onde vai depois de levar mais uma alma.
Naquela noite, era Minseok quem caminhava com os ombros curvados pela derrota.
O cheiro de fritura velha e fumaça de cigarro impregnava o bar decadente onde ele havia passado as últimas horas, bebendo até sentir o gosto amargo da falência. As mãos ainda tremiam da última aposta perdida, o último dinheiro jogado fora como se fosse areia entre os dedos. Dívidas com agiotas o perseguiam, a esposa o desprezava, os filhos o temiam. Mas, em sua mente embriagada, havia uma certeza cruel: se tivesse dinheiro, tudo mudaria.
Dinheiro resolveria.
Dinheiro faria deles uma família de novo.
Dinheiro o redimiria.
— É isso que você acredita? — A voz veio baixa, grave, carregada de algo que Minseok não soube nomear. Ele ergueu os olhos e o viu.
Um homem encostado no balcão, vestindo roupas escuras que pareciam absorver a luz ao redor. Não lembrava tê-lo visto entrar. O rosto era belo, elegante, quase perfeito demais, mas havia nele algo perturbador — como um reflexo distorcido em um espelho antigo. Os olhos… os olhos eram os de alguém que já vira o mundo queimar muitas vezes e nunca se cansara das cinzas.
— Quem… quem é você? — Minseok gaguejou, sentindo o suor frio na nuca.
— Apenas alguém disposto a ouvir seus desejos.— O estranho sorriu. Não havia calor em seus lábios, apenas um encanto perigoso.
A palavra caiu pesada, como se o ar tivesse engolido o resto dos sons do bar. Desejos.
— Desejos não me pagam dívidas.— Minseok engoliu seco.
— Não — Kangjoon respondeu, inclinando levemente a cabeça. — Mas ouro paga. Fortuna. O tipo de riqueza que compra silêncio, apaga erros e reconstrói famílias. É isso o que você quer, não é?
— Sim… sim, é isso o que eu quero. Quero riqueza. Muito mais do que já tive. Quero que olhem para mim com respeito. Quero que minha esposa volte. Quero que meus filhos me vejam como um homem de verdade, e não como um fracassado.— O coração de Minseok disparou.
— Então diga. Diga em voz alta o que deseja.— Kangjoon aproximou-se devagar, como uma sombra que se estende, e se sentou ao lado dele.
— Eu desejo fortuna. Quero ouro, dinheiro, quero poder comprar o que quiser. Quero ser rico.— Minseok apertou os olhos, como quem reza.
— Está feito.— Kangjoon sorriu outra vez, e um brilho dourado lampejou por um instante em sua íris.
O copo de Minseok estremeceu na mesa. Do nada, a vibração metálica de moedas caiu ao seu lado. Ele piscou, descrente, e viu a sacola escura, pesada, repleta de notas e ouro que não poderia ter saído de lugar algum. O coração bateu acelerado, o ar lhe faltou, e ele riu. Riu alto, embriagado pelo tilintar que sempre sonhara ouvir.
Enquanto Minseok agarrava o saco com as mãos trêmulas, lágrimas eufóricas rolando pelo rosto, Kangjoon apenas se levantou. Não havia emoção em seus olhos. Nem alegria, nem tristeza. Apenas a frieza de quem cumpria mais uma parte da sina.
O contrato estava selado.
O 659º desejo.
E quando saiu para a chuva fria da madrugada, Kangjoon sentiu.
Naquele mar de misérias humanas, um sussurro diferente o atravessou. Um desejo silencioso, puro demais para se misturar à ganância e à podridão ao redor. Não sabia de quem vinha.
Ainda não.
Mas, pela primeira vez em séculos, hesitou.

Parte 1: Capítulo II – O Peso Do Ouro.

A notícia chegou sem aviso, como um trovão em céu limpo — violenta, impossível de ignorar.
O tio Haneul estava morto.
As palavras foram ditas em voz baixa, quase com cuidado, como se pudessem quebrar alguma coisa ao serem pronunciadas em voz alta. Ainda assim, atravessaram Minseok como um golpe seco no peito. Não fazia sentido. Não naquele dia. Não com ele.
Haneul era um homem forte. Saudável. Tinha os filhos crescidos, a vida organizada, os passos firmes de quem ainda tinha tempo. Nos últimos anos, fora também um dos poucos a não virar o rosto quando o resto da família se afastou de Minseok. Enquanto outros julgavam em silêncio ou com desprezo aberto, Haneul apenas ajudava.
Sempre ajudava.
Um saco de arroz deixado à porta. Uma cesta de frutas quando o inverno apertava. Um prato quente, dividido sem perguntas, para as crianças. Nunca apontara o dedo. Nunca cobrara explicações. Apenas aquele olhar — compassivo demais — que Minseok odiava e, ao mesmo tempo, precisava para continuar respirando.
E então, naquela manhã comum demais, trouxeram a notícia: Haneul simplesmente não acordara.
O velório foi pequeno, discreto, pesado como o ar antes da chuva. Não houve grandes discursos nem demonstrações públicas de desespero. Ainda assim, Minseok chorou mais do que todos. Um choro profundo, quase desesperado, que parecia vir de um lugar que ele próprio não compreendia. Ninguém soube dizer se era luto verdadeiro ou se algo mais se misturava às lágrimas — uma culpa que ainda não tinha nome, mas já pesava.
Dias depois, quando a casa começava a voltar ao silêncio habitual da pobreza, a surpresa bateu à porta na forma de um homem engravatado.
Um advogado.
Haneul, contra todas as expectativas, deixara tudo para Minseok.
Terras. Economias. Uma casa antiga no interior, esquecida pelo tempo, mas sólida. Um testamento claro, incontestável, assinado com a mesma mão firme com que sempre ajudara.
De repente, a miséria evaporou.
Vieram as roupas novas, os móveis caros, as mesas fartas. Banquetes onde antes havia pratos contados. O ouro parecia brotar das paredes, refletindo nos olhos de Minseok como uma promessa cumprida. Ele passou a caminhar pela cidade de queixo erguido, os passos seguros, como se o destino finalmente tivesse reconhecido sua dívida.
Mas dentro de casa, algo apodrecia em silêncio.
A esposa, que nunca se calara diante dos erros do marido, agora o observava sem dizer uma palavra. Não havia gritos, nem acusações — apenas aquele olhar fixo, atento demais. E Minseok logo percebeu: aquele silêncio era mil vezes pior do que qualquer discussão.
Numa noite, incapaz de engolir as palavras que queimavam, ela finalmente falou.
— Minseok… — a voz saiu baixa, trêmula. — Como pode? O tio tinha filhos. Tinha saúde. Uma vida inteira pela frente. Como… — ela hesitou, como se temesse a própria pergunta — como ele morreria do nada e deixaria tudo justamente para você?
Minseok desviou os olhos, o maxilar tenso.
— O destino não precisa de explicações — respondeu, seco.
Ela o encarou como se estivesse diante de um estranho.
— Não foi o destino, não é? — disse, com uma lucidez cruel. — Foi você. O que você fez?
As palavras ficaram suspensas no ar, pesadas demais para cair. O silêncio que se seguiu foi mais doloroso do que qualquer grito.
A partir daquela noite, nada voltou a ser como antes.
Os filhos passaram a evitá-lo, respondendo com monossílabos, fugindo do toque. A esposa, que antes dividira a pobreza ao seu lado, recusava-se a usar qualquer coisa comprada com aquele dinheiro. Os vizinhos cochichavam quando Minseok passava. Olhares se desviavam. Portas se fechavam mais rápido. Até a família de Haneul se afastou, como se Minseok carregasse uma doença contagiosa.
Foi então que ele percebeu — tarde demais — que o ouro pesava.
Podia comprar banquetes, mas não a presença dos que amava à mesa. Podia comprar camas macias, mas não o calor de um corpo ao seu lado. Podia comprar presentes, mas não o perdão.
E assim, cercado de tudo o que sempre desejara, Minseok se encontrou nu. Solitário. Devastado não apenas pela suspeita alheia, mas pelo eco incessante da própria consciência.
Na sombra da rua, alguém observava.
Kangjoon não sorriu. Não chorou. O colecionador de desejos apenas registrou, em silêncio, o preço pago por mais um homem. Um preço conhecido. Repetido. Inevitável.
E então, pela primeira vez em séculos, algo diferente o atravessou.
Um chamado distante. Limpo. Não contaminado por ganância, inveja ou desespero.
Uma chama clara. Pura. Tão rara que o fez estremecer.
O septuagésimo primeiro desejo estava concluído.
Mas o próximo já se aproximava.
E Kangjoon sabia — com uma certeza que o perturbava — que aquele seria diferente.


CONTINUA...



Nota da autora: Olá Jiniers, como estamos? Eu juro que se isso aqui flopar eu me jogo da motoquinha, ta bom demais galera, dá uma fortalecida, vai kkkkkk Espero que goste e não esquece de comentar, ok?

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AH NÃO DEIXEM DE COMENTAR, ISSO É MUITO IMPORTANTE PARA SABERMOS SE ESTAMOS INDO PELO CAMINHO CERTO NESSA ESTRADA, AFINAL O PÚBLICO É NOSSO MAIOR INCENTIVO. MAIS UMA VEZ OBRIGADA POR LEREM, EU AMO VOCÊS. BEIJOS DA TIA JINIE.