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Última atualização: 31/12/2020

Capítulo 1

Agosto de 1991,

Quando você está no meio do ano letivo, muitas vezes precisa de uma motivação a mais para continuar frequentando a escola. Alguns utilizam o clube de música, teatro ou os esportes. Mas nada disso era muito a cara de Reggie. Gostava de jogar basquete casualmente com os amigos, mas não o suficiente para encarar a rotina de treinos diários e pensar em entrar para o time. Teria adorado entrar para o clube de música, mas ninguém sabia direito como encaixar seu baixo na orquestra escolar. E se fosse ao teatro, sinceramente seria apenas para observar as meninas se preparando para as peças escolares. Será que um aluno novo conseguiria uma cena de beijo? Era algo a se considerar. Porque se ele se arrumava todas as manhãs, era para causar uma boa impressão nas garotas.
Naquela manhã em especial, tinha chegado mais atrasado do que de costume, correndo pelos corredores o mais rápido que conseguia para não levar uma advertência. Existiam motivos melhores para se meter em encrenca.
Já conseguia ver a porta da sala de biologia, aumentando o passo ao ver que o professor estava para fechá-la. Antes que ela batesse, sua mão e mais uma se chocaram na direção contrária, empurrando o homem contra a parede. A sala explodiu em gargalhadas
— Cheguei! — exclamaram juntos, ofegantes pela corrida.
O garoto olhou para o lado, encontrando uma menina tão cansada quanto ele. Tinha focado tanto em conseguir chegar a tempo que não tinha reparado que alguém vinha na direção contrária tentando fazer o mesmo.
— Isso é jeito de chegar? — o professor esbravejou, levando a mão as costas doloridas pela pancada — Eu nem deveria deixar vocês entrarem.
— Mas eu — a garota começou a falar, só então reparando que não tinha chegado sozinha — nós — corrigiu — chegamos antes da porta fechar.
— Quase me matando no meio do processo — murmurou a contragosto.
— Mas não matamos — Reggie argumentou — E teoricamente chegamos na hora.
— Entrem — ele se deu por vencido, passando a mão pelos cabelos grisalhos — E já que chegaram por último, vão fazer dupla para a aula de hoje.
Reggie sorriu e deu de ombros, ouvindo seus amigos assobiarem. A garota ao seu lado se limitou a ajeitar a mochila nos ombros e andar para o fundo da sala.
— Primeira carteira — o biólogo enfatizou, mostrando o lugar com as mãos — Vou manter os olhos em vocês hoje.

Os dois garotos, em movimentos idênticos, jogaram as mochilas no chão puxando os livros de biologia para cima da mesa. A menina abaixou mais uma vez, puxando um caderno menor do que o habitual e o escondendo embaixo de uma das partes do livro.
— Eu sou Reggie — passou a mão pelo cabelo, sorrindo para a garota que sorriu de volta — Você vem sempre aqui? — flertou inocente.
A garota riu.
— Primeira carteira com você é a primeira vez, Reggie.
O garoto não se deixou abalar.
— E eu posso saber seu nome, já que é a primeira vez que nos falamos?
— Se você pode? — ela escondeu a risada, fingindo prestar atenção no que o professor falava no quadro — Você deveria saber o meu nome.
Reggie franziu as sobrancelhas. Claro que conhecia a garota. Mas ele conhecia muitas garotas. Sabia que essa em especial estava sempre cercada de amigos nos corredores, envolvida em algumas atividades acadêmicas e não faltava em nenhuma festa promovida pelos alunos. Mas era uma daquelas pessoas que todos sabiam quem era sem seu nome precisar ser mencionado.
— É, eu deveria — ele admitiu — Mas eu ia gostar muito mais de ouvi-lo de você.
Ela fingiu não ouvir, anotando alguma coisa na ponta do livro a sua frente. O menino pensou se deveria repetir ou apenas deixar para lá. Mas não era o tipo de cara que deixava as coisas para lá. Quando abriu a boca para dizer alguma outra coisa, ela se virou para ele.
— Eu gosto do seu jeito, Reggie — ela inclinou seu livro para ele ver o que tinha anotado. Pelo contrário do que ele pensava, não era uma anotação, mas uma caricatura do professor a sua frente. O menino precisou abafar uma risada — Eu sou a .
— É um prazer, .
Ela arqueou as sobrancelhas.
— Ah não, nós não chegamos nesse nível.
— Você quem sabe, — enfatizou o apelido, fazendo a garota dar risada.

Descobriram durante aquela aula que eram parecidos em muitas coisas. Os dois tinham tendência a se atrasarem para os compromissos e era inacreditável que tinham demorado tanto para se esbarrar na porta de alguma sala. Tinham um gosto musical bem parecido e passaram um bom tempo falando sobre Bon Jovi, Beatles, Queen, Nirvana e Guns and Roses.
Reggie também percebeu que gostava muito de desenhar e que o caderno que tinha escondido embaixo do livro era um sketchbook. Tinha mantido o caderno escondido porque não queria arriscar que ele fosse confiscado - de novo - mas também não conseguia resistir a ideia de ter tanto tempo “livre” e não conseguir rabiscar nem um pouco. Tentou pegar o caderno uma vez e quando levou um tapa leve na mão, apertou os lábios, contrariado. Tentar convencê-la também não pareceu ter resultado, então mudou de assunto para continuar conversando.
Uma aula que geralmente pareceria demorar horas para passar, foi pequena em meio aos cochichos dos dois garotos. Saíram juntos da sala, mas antes que ele pudesse convidá-la para terminar a conversa durante o almoço, foi arrastada pelos corredores por um grupo de veteranos. Ela se virou acenando, enquanto algumas de suas amigas a atualizava das novidades do dia, deixando Reggie encostado na porta com várias coisas na cabeça. Não demorou para sair e ir procurar alguma coisa para fazer, encontrando seus amigos falando que tinham ouvido boatos de que os Lakers já tinham voltado a treinar para NBA. Teriam o primeiro jogo da temporada contra os Rockets, no Halloween, e todos estavam esperançosos sobre o jogo.
E como tudo na vida, você pode nunca ter reparado na pessoa, mas depois que você a vê uma vez, começa a esbarrar com ela em todos os lugares possíveis. E foi assim com Reggie e . Agora não se viam mais apenas pelos corredores da escola, mas misteriosamente parecia que faziam todas as aulas juntos, se encontravam no mercado, na praia e casualmente na rua. Nunca mais tinham chegado a conversar tanto quanto naquele dia. Se limitavam a se cumprimentar nos corredores com um sorriso no rosto, já que ela estava sempre rodeado por seus amigos e ele por garotas aleatórias.

— Dia de jogo — Daniel chegou gritando animado, dando tapinhas nas costas de Reggie — Nós precisamos correr se quisermos os melhores lugares. As líderes de torcida estão melhores do que nunca nessa temporada!
— Não precisa se preocupar — o garoto sorriu mostrando os dentes — James já está a meia hora guardando o nosso lugar na frente da arquibancada.
— E vocês pensaram nisso sozinhos?
— Claro! — respondeu ofendido, cerrando as sobrancelhas.
— Quem diria que quando se trata de líderes de torcida vocês dois tem algum cérebro — o garoto respondeu gargalhando.

Saíram rindo em direção ao campo atrás da escola, o time de futebol americano estava na final e o jogo seria decisivo para ganhar o campeonato. O lugar já estava lotado, mas como prometido James estava sentado na frente com as pernas e uma mochila ao seu lado para guardar o lugar para os amigos. Se sentaram tendo uma visão privilegiada, pensando nas garotas que a qualquer momento apareceriam.
Deu uma boa olhada na arquibancada, sem perceber que estava procurando por alguém em especial e voltou a olhar para o campo quando anunciaram que o jogo estava para começar. Sorriu quando um time de cheerleaders com cerca de 20 integrantes entrou pulando e fazendo acrobacias. Seu olhar parou diretamente em , que sorria animada enquanto uma garota e um garoto do time a levantavam em seus braços para que ela pudesse saltar. Em uma pirueta perfeita, caiu graciosamente no chão, batendo palmas e cantando gritos de vitória. Com pirâmides e acrobacias, os estudantes cantavam animados junto com a torcida do time.
Percebendo que estava sendo observada, piscou para Reggie, fazendo o garoto sorrir.
— O que tá acontecendo que hoje você ta bem concentrado em apenas uma garota da torcida? — Daniel gargalhou, apertando as costelas do amigo.
— Eu to o que? Ta ficando maluco?
— Reggie tá babando por ela desde o dia que sentaram juntos na aula de biologia — James concordou, sorrindo — Ficaram tão próximos naquele dia…
— Calem a boca. Eu to olhando igualmente para todas.
— Aham.
E ele tentou olhar igualmente para todas, mas por algum motivo seu olhar sempre acabava voltando para a garota que parecia brilhar mais. Tinha alguma coisa em que ele não sabia dizer o que era, mas que trabalhava como um imã para fazer com que olhasse para ela. E ela parecia gostar muito de futebol, porque nem com o olhar de Reggie queimando em suas costas ela tirou sua atenção do jogo. Pulava ocasionalmente e sorria para os jogadores, que inflavam seus egos pelos gritos da torcida.
Um dos quarterbacks, aquele que sempre tinha vários olheiros para convidá-lo para a faculdade, marcou um touchdown fazendo todos gritarem. se levantou em gritinhos animados, puxando o resto dos cheerleaders com ela. Reggie tentou focar toda sua atenção na capitã das cheerleaders, que era a melhor amiga da… é. Respirou fundo e jogou a cabeça para trás, encarando o céu azul. Não conseguia entender o que tava acontecendo dentro de sua mente naquele momento.

O tempo passou bem rápido depois daquele jogo e em um piscar de olhos já era quase Halloween. A escola estava toda enfeitada em tons de laranja e preto com abóboras, aranhas e caveiras por todos os lugares. Os alunos pregavam mais pegadinhas do que de costume e Reggie estava por perto no dia em que abriu o armário e gargalhou ao sentir uma bomba de confete explodir em sua cara.
— Ótima tentativa, pessoal — a garota sorriu travessa, tirando o confete que pairava em sua boca — Mas se eu fosse vocês eu não chegaria perto de seus armários hoje.
Naquele ano, estava na moda bonecos de terror com sensores que os faziam mexer sempre que alguém passava em sua frente. E naquele dia em especial, muitos gritos foram ouvidos por estudantes desavisados os encontrando dentro de seus armários. E todos sabiam exatamente quem os tinha colocado.
— Eu amo o Halloween — comentou com uma de suas amigas enquanto entrava na sala de aula — Nós deveríamos fazer isso o ano todo!
— Aí não seria tão especial — a amiga deu de ombros, fazendo concordar.
Reggie já estava sentado em sua carteira quando a menina passou, acenando com a cabeça. O garoto se virou para vê-la se sentar em uma das últimas carteiras da sala, colocar o livro em cima da mesa e em cima, seu caderno de desenho. Tinha virado rotina observar todos os seus movimentos e sabia que ela já tinha percebido que ele não conseguia parar de olhá-la. levantou a cabeça vendo que o garoto ainda a olhava e riu balançando a cabeça.
Como a aula já estava para começar, Reggie foi obrigado a virar para frente e focar no quadro, mas com o pensamento a carteiras de distância. Em todas as vezes que não tão discretamente virou para trás, estava com a cabeça abaixada focada em seu desenho. Não que não fosse uma visão comum, mas geralmente vez ou outra ela costumava fingir estar prestando atenção. Mas naquele dia em especial, não se deu ao trabalho de fingir absolutamente nada. Fechou os olhos e se imaginou exatamente o que queria desenhar, cada forma, cada linha e principalmente o que queria passar com o desenho. Quando o professor liberou a classe, rasgou a folha, dobrou no meio e a deixou sobre a carteira de Reggie, rindo enquanto caminhava para fora da sala. Quando o garoto o abriu, encontrou o desenho de um menino idêntico a ele, sentado em uma carteira e olhando para trás. Gargalhou e guardou o desenho dentro da mochila.

Queria fazer alguma coisa para retribuir, mas a única coisa que Reggie realmente fazia bem era compor e ele não ia compor para alguém que tinha acabado de conhecer. Então pensou, o que a realmente iria apreciar? Eles teriam aula de biologia no próximo horário e ele sabia o quanto ela não gostava de biologia. E se eles não tivessem a aula?
Estavam no meio do intervalo e o corredor estava cheio de adolescentes conversando sobre o que fariam no fim de semana. Rabiscou um bilhete quase ilegível e entregou na mão de , que arqueou as sobrancelhas enquanto tentava entender o que tava escrito, dando uma risadinha no final. Reggie então andou lentamente até perto do bebedouro, olhando atentamente para ver se não estava sendo observado e acionou o alarme de incêndio, correndo o mais rápido que pôde para o lado oposto.
No segundo seguinte o alarme começou a disparar e todos os alunos se organizaram para deixar o prédio. O garoto colocou a mochila no ombro e andou na direção da saída mais próxima, encontrando uma muito concentrada o esperando do lado de fora.
— Você mandou bem — elogiou rindo — Não conhecia esse seu lado, Reginald.
— Você não conhece muitos dos meus lados — ele piscou galanteador, fazendo a garota balançar a cabeça.
— E eu posso saber porque tudo isso?
— Gostei do desenho e achei que seria legal retribuir. Agora você pode usar o tempo livre para algo mais produtivo do que o sistema respiratório.
prendeu o cabelo em um rabo de cavalo e ajeitou a mochila sobre o ombro direito.
— Quinta feira vai ter uma festa a fantasia na casa da Abby, deveria usar o tempo livre hoje para escolher uma fantasia.
Reggie sorriu travesso.
— Isso é um convite?
— Te vejo lá!

Três dias depois, da calçada oposta ao quarteirão da casa, já dava para ver a festa acontecendo. Conseguia identificar vários adolescentes bebendo bebidas coloridas e a música soava alta mesmo da rua. Andou lentamente pelo quintal até chegar na porta principal, que estava aberta.
Se a música estava alta do lado de fora, do lado de dentro você mal conseguia ouvir seus pensamentos. Deu uma boa olhada na sala, encontrando James perto das bebidas e Daniel conversando com uma garota muito bonita fantasiada de Sininho, olhou mais de perto e reconheceu Abby, a dona da casa. O amigo estava se apoiando na parede enquanto a garota se aproximava cada vez mais. Reggie sorriu, estava orgulhoso de como o amigo era rápido!
Se aproximou de James e pegou um refrigerante. Embora a festa estivesse cheia de bebidas, queria se manter o mais são possível para aproveitar o máximo que pudesse. Cumprimentou os amigos e resolveu andar um pouco para ver o que encontrava. Laurie Jones estava sentada sozinha em um dos sofás, provavelmente esperando uma de suas amigas voltar, e o garoto aproveitou a deixa para sentar ao seu lado e lançar um de seus melhores sorrisos, daqueles que deixava qualquer garota derretida.
E como imaginado, nos minutos seguintes a garota estava toda sorridente falando sobre alguém que tinha ficado com sei lá quem. Passou a mão no cabelo para tirar a franja do rosto e ouviu a menina suspirar, aumentando o sorriso. Flertar era um hobbie maravilhoso. Esticou o braço lentamente por cima do sofá a abraçando como quem não queria nada e Laurie foi chegando cada vez mais perto. A teria beijado naquele momento se não tivesse avistado descer sorridente uma das escadas. E caramba, como ela estava linda! Seus cabelos estavam presos em uma trança boxeadora, mas algumas mechas faziam questão de se manterem livres. Vestia um top com o logo do Batman e uma saia, bem… Bonita. Definitivamente bonita. Aliás, o garoto achava que bonita não era bem a palavra que precisava para defini-la naquele instante, mas não conseguia pensar em nada que não fosse “wow”.
E foi exatamente o que ele disse.
— Wow — exclamou, observando atentamente cada movimento que fazia.
Laurie frustrada pela repentina falta de interesse, olhou para trás para ver o que tinha prendido sua atenção. E quando viu descendo as escadas, se limitou a cruzar os braços e murmurar alguma coisa sem sentido. Na verdade provavelmente teria feito bastante sentido se Reggie ainda tivesse prestando alguma atenção.
Como se não tivesse o controle dos próprios pés, ele se levantou e caminhou lentamente até a base da escada para esperá-la.
— Nada mal — comentou quando ela chegou perto o suficiente para ouvi-lo. gargalhou, olhando-o de cima a baixo e mordendo os lábios. De maneira alguma ela negaria que ele era um garoto muito bonito. E que estava especialmente atraente naquela noite. Estava vestido como John Bender, do clube dos cinco, o que não era exatamente muito diferente da forma em que se vestia todos os dias.
— Você também não está ruim — ela riu, pensando que Reginald era o tipo de cara que não poderia ter o ego muito inflado.
— E quem diria que você gosta de quadrinhos? — mudou de assunto, realmente impressionado — Não sabia que você era tão nerd.
sorriu, inclinando a cabeça.
— E eu não sabia que você era tão delinquente, John.
— Tem muitas coisas sobre mim que você não sabe — ele piscou, sorrindo de canto — Mas você pode ser a minha Claire e descobrir.
— Talvez mais tarde — respondeu jogando as tranças para as costas e andando na direção da cozinha.
Reggie se encostou na parede dando risada e balançando a cabeça. Não podia negar que alguma coisa naquela menina mexia muito com ele. Mas também não era bobo, sabia que não daria moral para ele naquela noite. E como provavelmente tinha estragado todas as suas chances com Jones, decidiu que encontraria outra garota para se divertir naquela noite.

Tinha encontrado uma chapeuzinho vermelho algum tempo depois, enquanto ainda ria da cena que James tinha feito enquanto tentava virar uma garrafa de vodka. No final tinha mais bebida na blusa do que no organismo, então tirou a camisa e pulou na piscina, sendo seguido por boa parte das pessoas que estavam perto.
A menina não era muito de conversa e já estavam se beijando a uns bons minutos quando Daniel bateu em suas costas para chamar sua atenção.
— Você não deveria estar em algum lugar com aquela fada? — Reggie perguntou a contra gosto. Será que ninguém via que ele estava ocupado?
— Tá na hora do jogo, cara — Daniel gritou, fazendo o garoto subitamente acordar.
— O jogo — gritou de volta, pulando de cima do sofá — Me desculpa docinho, mas isso vai ter que ficar para depois — falou para a chapeuzinho, que arqueou as sobrancelhas — Tá na hora de ver os meus Lakers jogar.
Seguiu o amigo para dentro da casa, quando encontrou algumas pessoas amontoadas em torno da televisão da sala esperando a partida começar.
— Nem acredito que você foi me chamar — falou emocionado, puxando Daniel para um abraço — Você é o melhor, cara!
— É, eu sei — o garoto respondeu convencido — Vamos empurrar essas pessoas e ficar mais perto da tv.
— Ah não — Reggie deu de ombros — Eu posso usar meu charme.
Sorriu e pediu várias licenças e desculpas enquanto avançava cada vez mais para perto da televisão. Quando achou que era o suficiente, se jogou no tapete, sentindo alguma coisa embaixo de si.
— Ai — a garota reclamou, retirando a mão de debaixo da bunda do garoto — Olha por onde senta — falou sem olhar para quem estava ao seu lado, mantendo seus olhos vidrados na tela.
— Nossa relação está evoluindo rápido, — ele respondeu em meio aos risos — Mas vamos manter essas passadas de mão entre quatro paredes, sim?
se virou pronta para dar uma ótima resposta, quando viu que era Reggie quem estava sentado ao seu lado. Riu descrente murmurando um “tinha que ser” e voltou sua atenção para a tela.
— E pra quem você está torcendo hoje? — sussurrou no ouvido da garota, que sentiu um arrepio na nuca.
— Certamente não pelos Rockets — sorriu de canto.
O jogo começou quando Magic Johnson avançou em posse da bola em uma velocidade incrível a lançando na direção de Worthy. A bola rodou pelo cesto e caiu para fora, direto na mão de Vernon Maxwell permitindo o avanço dos Rockets e a primeira cesta de três pontos do jogo.
Todos na sala estavam tensos. Os Lakers não levavam uma NBA desde a temporada de 87/88 e embora não fizesse muito tempo, o time não tinha tido o melhor dos desempenhos nas últimas três temporadas.
O placar estava muito apertado, fazendo com que o jogo se tornasse cada vez mais emocionante. Os pivôs estavam tendo trabalho para impedir que os Rockets avançassem e até o terceiro set o time de Houston estava com seis pontos de vantagem. Aproveitaram o intervalo para beber alguma coisa e xingar um pouco, para acalmar os ânimos. Pela dinâmica que o jogo estava seguindo, todos sabiam qual seria o resultado antes mesmo o último set começar. E embora ninguém tenha ficado surpreso com a vitória dos Rockets por 126x121, isso não diminuiu as vaias que começaram com o fim do jogo. Pouco a pouco se espalharam e a festa continuou um pouco menos animada do que tava antes.
— E agora? — James apareceu com a camisa levemente desalinhada.
— Agora eu preciso de uma cerveja — Reggie bufou — Talvez três. E dançar! Nós deveríamos dançar.
— Álcool e dança depois de um jogo desastroso — Daniel ponderou — Eu amo vocês, caras.
Riram e foram para perto da mesa de bebidas, jogando um pouco de conversa fora e observando as pessoas se divertirem. Foi quando começou a tocar Thriller que os garotos correram para a pista de dança, mais pulando do que dançando, mas aproveitando ao máximo uma de suas músicas favoritas. Reggie sentiu seu corpo bater contra o de alguém e se virou para pedir desculpas, encontrando dançando com um outro garoto.
— Nós precisamos parar de nos esbarrar assim — ela gritou, para ser ouvida por cima da música.
— Eu não vejo o porque — Reggie riu, dando uma boa olhada no menino de cabelos castanhos que tinha parado para participar da conversa. se virou para ver o que o garoto olhava, se lembrando então de apresentá-los.
— Reggie, esse é o…
— Luke — o garoto respondeu, esticando a mão para um cumprimento.
— Ele é da escola — ela explicou — Fazemos filosofia juntos.
— Acho que já te vi pelos corredores — Reggie respondeu, vendo Luke confirmar — Adorei a fantasia — continuou — Marty Mcfly, não é?
Começaram a conversar animadamente sobre qual dos filmes de De volta para o futuro era o melhor, sendo que o último tinha sido lançado no ano passado. E depois de muito tempo chegaram a conclusão de que os três eram igualmente bons e não tinham como comparar, embora o primeiro fosse ainda mais único do que os outros dois. Em algum momento no meio disso, perceberam que não estava mais por perto, mas não se importaram.
A música se tornava mais animada conforme a festa chegava ao fim. As fantasias que antes foram tão bem planejadas agora não se pareciam nada com a ideia original, mas ninguém estava mais se importando com isso. E Reggie já tinha voltado para a pista de dança, enquanto Luke fazia sei lá o que, dançando com alguma pessoa aleatória enquanto o suor escorria por suas costas.
Olhou em volta na tentativa de encontrar seus amigos, mas nenhum deles estava por perto. Resolveu procurar perto da piscina e assim que saiu no quintal, a brisa leve da madrugada tocou em seu rosto. Respirou fundo e se sentiu imediatamente mais sóbrio, tudo o que tinha bebido depois do jogo estava parando de fazer efeito. Olhou no relógio em seu pulso, que marcava 3h00 e pensou que realmente já estava ficando bem tarde. Talvez Daniel e James já tivessem ido embora. Olhou mais uma vez no quintal para ver se não tinha apenas ignorado a presença dos amigos e reparou que bem afastado da casa, tinha um balanço. E nele uma silhueta muito familiar.
Caminhou lentamente, tendo cada vez mais certeza que conhecia a garota que estava com a cabeça encostada em uma das correntes se balançando lentamente sem realmente tirar os pés do chão. Quando conseguiu distinguir sua Batgirl, percebeu que ela mantinha os olhos fechados e não soube direito como abordá-la. De modo algum queria assustá-la mas não se sentia capaz de apenas se virar e ir embora, a deixando sozinha. Se sentou no balanço vazio ao seu lado, imitando seus movimentos e então olhou diretamente em seu rosto.
— Oi .
— Oi Reggie — ela respondeu sem abrir os olhos. Mantinha um sorriso leve em seu rosto.
— Já está reconhecendo a minha voz? — o garoto fez graça, sem saber exatamente como puxar assunto.
— Também. Mas só tem uma pessoa que fala meu nome desse jeito.
Aquilo causou um impacto no garoto, que abriu e fechou a boca sem saber o que falar. Voltou a se balançar, mas dessa vez com mais força fazendo o brinquedo todo tremer.
— É o meu brinquedo favorito — tornou a falar, agora abrindo os olhos para ver o menino se distanciar cada vez mais do chão e depois voltar para perto dela — Te dá uma sensação única, não? Você se distancia o máximo que consegue do chão, mas sem medo de onde vai chegar, porque sabe que sempre vai acabar voltando ao início.
— Você não acha desesperador? — Reggie argumentou, pensando em suas palavras — Que não importa o quanto tente se distanciar, sempre vai acabar no mesmo lugar?
— Eu acho reconfortante. Não é a questão de sempre acabar no mesmo lugar, mas de saber que você tem para onde voltar.
Voltaram a ficar em silêncio, digerindo as palavras um do outro. No fim, Reggie fincou seus pés no chão e voltou a olhá-la.
— Porque você está aqui e não lá dentro?
A garota olhou para o céu por alguns instantes antes de responder.
— Porque eu não resisto a um lugar assim. O vento batendo no rosto, o céu estrelado, um balanço sob as estrelas… Não consigo pensar em como estar lá dentro seria melhor do que estar aqui.
— Eu também não — Reggie respondeu. Mas ele não olhava para o céu.
Ficaram mais um tempo curtindo a companhia um do outro em silêncio, quando se levantou repentinamente fazendo todo o brinquedo balançar.
— Preciso ir para casa — anunciou, se inclinando na direção do garoto a sua frente — Muito obrigada pela companhia, Reggie.
— Poderia aproveitar dela mais vezes, se quisesse.
Ela riu.
— Você flerta com todo mundo?
— Você não?
— Boa noite, Reginald.
Se inclinaram ao mesmo tempo para um beijo na bochecha, fazendo os dois virarem para o mesmo lado. Os lábios de se encostaram levemente no canto da boca do garoto, que assim como em um balanço, foi embora tão rápido quanto tinha chegado. Tentou falar qualquer coisa, mas já estava voltando na direção da festa.
Suspirou se jogando para trás, quase caindo no chão. E depois riu desacreditado do quanto estava sendo patético. Não tinha sido absolutamente nada, nem dava para chamar aquilo de beijo. Resolveu que estava na hora de ir para casa, mas andou calmamente para aproveitar o caminho o máximo possível. estava certa, aquela noite estava especialmente fantástica.
Entrou devagar para não acordar os seus pais e deitou sem tomar banho, a higiene poderia esperar até o dia seguinte. Deitou e olhou para o teto processando todos os acontecimentos da noite. A jaqueta jeans começou a incomodar, o que o fez jogá-la do outro lado do quarto. Mas não era exatamente a jaqueta que estava atrapalhando seu sono. Olhou para a mesa ao lado da cabeceira, vendo o desenho que tinha lhe entregado dias atrás e sorriu. Quando fechou os olhos, foi o sorriso de uma garota em especial que dominou a sua mente.



Capítulo 2

Acordou tarde no dia seguinte, se recusando a levantar da cama, mas mudando de ideia ao ouvir sua barriga roncar. Se sentou ainda sonolento e esfregando os olhos, xingando ao lembrar que não tinha tomado banho antes de dormir.
— Porque eu faço essas coisas comigo? — murmurou enquanto tropeçava até o banheiro, quase se esquecendo de tirar a roupa antes de entrar no chuveiro — Alguém precisa me proteger de mim mesmo.
Continuou a murmurar coisas incompreensíveis enquanto, aos poucos e com a ajuda de muita água quente, se sentia mais acordado. Desceu as escadas e olhou ao relógio, percebendo que já passava do meio dia. Como era sexta feira, seus pais estavam no trabalho e não tinha nada que ele sabia cozinhar. Pegou a carteira e a bicicleta, pedalando o mais rápido que conseguiu até o restaurante mexicano mais próximo.
A ideia inicial era pegar alguma coisa para viagem, voltar para casa e assistir De Volta para o Futuro mais uma vez antes que precisasse devolver a fita para a locadora. Mas tudo foi por água abaixo quando passou pela porta do local e encontrou sentada sozinha em uma mesa afastada, parecendo tão cansada quanto ele. Sorriu animado e caminhou em sua direção, se sentando à sua frente.
— Acordou agora?
A garota levantou a cabeça para olhá-lo, assentindo desanimada.
— E não recomendo — respondeu antes de voltar a se apoiar na mesa e fechar os olhos.
Reggie riu concordando e se perdeu em pensamentos, observando a garota tentar voltar a dormir. Como o restaurante estava cheio, demorou para que alguém viesse atendê-los, mas mesmo sem conversarem o clima estava confortável.
Um homem se aproximou lentamente, sorrindo ao ver a garota quase adormecida.
— Pronta para pedir?
levantou em um salto.
— Quesadillas!!! Quantas conseguir carregar — a garota implorou, fazendo o garçom rir.
— Não acho que consiga comer mais do que duas, senhoria .
Reggie arqueou as sobrancelhas ao ouvir o sobrenome de . Não tinha reparado no fato de que não sabia qual era. Alheia a isso, ela continuou reclamando.
— Mas eu estou morrendo de fome, Andrew.
— Vai sobreviver com duas quesadillas. Quer refrigerante?
— Milkshake.
— Vou trazer um guaraná.
bufou, cruzando os braços.
— Coca cola. E você deveria ser demitido por isso!
O homem riu novamente.
— Quem sabe um dia. E você? — se dirigiu ao garoto — Quer pedir agora?
— Dois burritos e um suco de laranja, por favor.
Andrew anotou o pedido e se virou novamente para , com um sorriso maroto nos lábios.
— Você deveria seguir o exemplo do seu amigo.
— E você deveria me preparar um milkshake.
— Deve ficar pronto em uns vinte minutos, e não, nada de milkshake.
O homem andou até o balcão entregando o pedido, depois se virou para atender outras mesas.
— Suco de laranja? — perguntou curiosa — Então você é esse tipo de cara?
— Que tipo? — ele sorriu — Do tipo que não quer morrer antes dos vinte?
— Não vai conseguir com os burritos.
— É, não mesmo. Mas poucas coisas nessa vida são melhores do que suco de laranja.
— Tipo Coca-Cola.
— Ou a garota que pediu uma Coca-Cola.
riu, balançando a cabeça.
— Se você está se referindo a mim — apontou para si mesma — Eu pedi um milkshake.
— Não pode dizer que eu não tentei.
— Eu nunca diria isso.

E então falaram sobre muita coisa. A festa do dia anterior, as músicas que foram tocadas e as fantasias dos amigos. gostava muito de conversar e Reggie gostava muito de ouvi-la. Estava lendo um estudo em vermelho e completamente indignada por ter demorado tanto tempo para ler um livro tão bom. E depois de dizer que o emprestaria depois que terminasse de ler, o garoto aceitou sem pensar duas vezes, se esquecendo que não gostava tanto assim de livros.
Como prometido, Andrew voltou vinte minutos depois com os pedidos e deixaram o assunto de lado para se concentrar em seu almoço. se abaixou, sentindo o cheiro de frango e queijo invadir seu nariz.
— Como existem pessoas que conseguem viver sem comida mexicana?
— Eu não tenho ideia — Reggie respondeu de boca cheia, a fazendo rir — Quer? — estendeu o burrito, fazendo a garota se estender para morder uma parte.
— Você tem bom gosto, Reginald.
— E você tem um bom sobrenome, .
deu de ombros.
— Achei que eu nunca descobriria.
— Eu não pretendia contar.
— E porque não?
— Você não me chama nem pelo nome, quem dirá pelo sobrenome?
— É que eu gosto bem mais de . Ou vai dizer que não chegamos nesse nível ainda?
Ela negou, rindo.
— Eu não ia dizer nada.

Reggie chegou em casa sentindo necessidade em tocar seu baixo e foi assim que passou o tempo até que seus pais chegassem do trabalho. Como era sexta feira, resolveram pedir pizza e assistir uma das fitas que tinham alugado, com exceção de De Volta para o Futuro.
— Não vamos ver esse de novo — sua mãe tinha falado — Eu não aguento mais esse filme.
— E infelizmente eu já decorei todas as falas — seu pai completou, bufando — Mas podemos ver Os caçadores da Arca Perdida.
— De jeito nenhum. Assistimos tanto esse quanto o outro. Nós vamos ver Grease.
— Ah não! — os outros dois falaram juntos.
— É Grease ou eu não vou ligar para a pizzaria.
E foi assim que uma hora depois, sua mãe estava super feliz cantando summer nights enquanto ele e seu pai se concentravam em sua pizza. O garoto parou para observar os pais por uns minutos. Estavam em sofás separados e definitivamente não tinham todos os interesses em comum, pois estava estampado na cara de seu pai que ele não queria estar assistindo Grease. Reggie sabia que estavam mais distantes ultimamente, mas nem por isso eles deixavam de passar algum tempo juntos. E talvez amar fosse isso, duas pessoas diferentes que vivem bons momentos uns com os outros.



Novembro de 1991,

O resto do ano passou mais rápido do que gostaria e logo chegou o dia de Ação de Graças. Não era o feriado favorito de Reggie, geralmente seus pais pediam comida de algum restaurante e comiam cada um em um canto. Mas não podia reclamar, sabia que eles tinham muito o que trabalhar e que era isso que sustentava a vida confortável que levavam, mas achava que pelo menos nos feriados eles deveriam trabalhar um pouco menos.
E todo ano era a mesma coisa: acordava tarde, tocava baixo até sentir fome e depois descia para pegar o que quer que eles tinham escolhido para jantar. Quando pensava sobre o que era grato, não tinha muita coisa em mente além de sua família, James e Daniel. Apenas desejava de todo o coração que seus pais tivessem mais tempo para ele.

Naquele ano em especial sentiu fome mais tarde do que era de costume, e quando desceu, não encontrou nada para comer.
— Mãe — gritou, andando calmamente até o escritório improvisado, onde a mulher trabalhava concentrada em um computador bem lento — Não pediram o jantar?
— Ah, o jantar. Acho que não, querido, mas vê com o seu pai.
Reggie concordou e subiu até o quarto de seus pais, onde o homem revisava vários papéis.
— Pai, você pediu o jantar?
— Não, Reginald. O que você quer comer?
O garoto pensou por alguns segundos antes de responder.
— Mexicana?
— Pode ser, pega a minha carteira e vai de bicicleta buscar.
Sentiu o coração acelerar por um minuto, achando que ganharia permissão para pegar o carro, mas sabia que a ação de graças não fazia milagre. Pegou alguns dólares e colocou no bolso, descendo a rua de casa rapidamente. Foi novamente até o mesmo restaurante mexicano onde encontrou aquela vez, se surpreendendo ao encontrá-la novamente. Precisava frequentar mais o lugar. Novamente parecia bem confortável no lugar, tamborilando os dedos em cima da mesa. Levantou a cabeça e viu Reggie parado na porta, a encarando. riu levemente e acenou para que ele se juntasse a ela, o que não pensou duas vezes antes de fazer.
— Por acaso você mora aqui? — perguntou realmente curioso.
— Andrew odiaria isso — ela gargalhou, negando com a cabeça — Mas eu gosto muito de comida mexicana!
— Não é muito típica para uma ação de graças.
— Digo o mesmo — ela considerou — O que você está fazendo aqui?
— Não tinha pizza congelada em casa, e você?
bufou, olhando para o teto. Levou alguns segundos para responder.
— Meus pais precisaram fazer uma viagem de última hora. É a minha primeira ação de graças sozinha.
— Aí resolveu se afundar em quesadillas?
— Eu iria, se o Andrew resolvesse me atender.
O lugar não estava cheio, mas por ser feriado, o número de funcionários estava drasticamente reduzido.
— Você vai ficar aqui? — Reggie perguntou novamente, com várias ideias girando por sua mente. parecia triste e ele nunca tinha a visto assim. Mesmo com sono e mal humorada, ela nunca demorava a colocar um sorriso no rosto ou fazer um comentário sarcástico. O feriado deveria realmente ser muito importante para ela.
A garota ficou sem graça.
— Vou sim, eu meio que não tenho para onde ir. Aqui eu ainda tenho todas essas pessoas entrando e saindo.
Reginald olhou em volta. Fora os dois, tinha apenas mais três pessoas no local.
— E os seus amigos?
— Estão com suas famílias, eu não quero incomodar.

E o plano estava formado, não queria passar a noite sozinha mas também não queria incomodar seus amigos. E ele não tinha uma ação de graças, mas se considerava uma boa companhia. Seus pais não se importariam.
— Porque não vai lá pra casa? — perguntou, completando rapidamente ao ver o olhar de interrogação da garota — Meus pais estão lá! Nós vamos pegar alguns burritos, eles vão comer no escritório e eu no meu quarto, mas pelo menos você não vai ficar sozinha.
considerou. Era uma proposta praticamente irrecusável, mas realmente não queria atrapalhar a família.
— E você não vai atrapalhar — continuou — Eles não vão se importar e vai ser bom ter alguém lá que liga para o feriado, para variar.
— Se você acha que não vou atrapalhar — ela começou, vendo-o negar — Então eu aceito! — completou com um sorriso no rosto. Reggie sorriu junto, sem saber muito bem o porquê.
Pediram comida para viagem e saíram para pegar a bicicleta.
— Você mora muito longe?
— Um pouco, na verdade — falou sem graça, não tinha pensado direito nessa parte. Xingou mentalmente, se estivesse com o carro esse não seria um problema.
Começaram a andar. levava as sacolas enquanto Reggie empurrava a bicicleta, chegariam rapidamente com uma bicicleta a mais. Mas talvez não precisassem de uma.
— ele chamou — Você confia em mim?
— Eu não, acabei de te conhecer — falou rápido, fazendo Reggie arregalar os olhos. Não esperava essa resposta quando fez a pergunta.
— Ah…
— Eu estou indo para sua casa, Reginald. Isso não aconteceria se eu não confiasse pelo menos um pouquinho.
— Mas porque? Como você disse, acabou de me conhecer — assim que as palavras saíram de sua boca, quis apagá-las. Mas não era mais possível. Queria desesperadamente saber a resposta para aquela pergunta.
— Eu não sei, tenho um bom pressentimento quanto a isso — sorriu.
Reggie sorriu junto, não era uma resposta ruim.
— Acho que esse pouquinho de confiança vai ter que bastar, então — o garoto falou, sentando na bicicleta — Vem, sobe.
— Onde, exatamente?
— No quadro. Coloca as sacolas no guidão e segura firme.
E assim ela fez. Se sentou no espaço vazio no quadro da bicicleta e jogou o corpo para trás, se apoiando em Reggie. Segurou firme pela parte de dentro do guidão e torceu muito para não acabar com um, ou os dois, joelhos ralados. Foi uma das melhores experiências da sua vida! O vento batendo no rosto, o cheiro de comida mexicana que fazia seu estômago roncar e o garoto gargalhando as suas costas. Sentiu seu coração aquecer ao ouvir a risada e não soube muito bem como reagir, se permitindo rir junto.

Chegaram rapidamente e Reggie entrou primeiro para avisar os pais que tinha levado companhia. Como esperado, eles não se opuseram e receberam a garota da melhor forma possível. Como tinham companhia, deixaram o trabalho de lado por um instante, deixando o filho muito satisfeito. Comeram juntos e conversaram bastante, os adultos ficaram muito interessados na nova amiga do garoto, que nunca tinha levado ninguém que não fosse James ou Daniel para casa.
Depois do jantar, foram para a sala assistir Clube dos Cinco, o que fez os amigos relembrarem o tempo que passaram juntos no Halloween. Reggie lembrando especialmente do momento em que quase sentiu os lábios de nos seus. Quando o filme acabou, seu pai se ofereceu para levar em casa, mas sua mãe insistiu que ficasse. Como não estava com vontade de dormir sozinha em uma casa que considerava tão grande, aceitou.
Então enquanto Reginald arrumava o sofá para dormir, ela se dirigiu ao seu quarto analisando bem o local. Diversos pôsteres de banda estampavam as paredes e levou certo tempo para reconhecer todas. Um baixo descansava em cima da cama e ela passou os dedos pelas cordas, analisando o instrumento. Continuou a olhar calmamente até que uma coisa chamou sua atenção. Bem no meio da mesa de cabeceira, ao lado do despertador, o desenho que tinha feito para o garoto alguns meses atrás estava cuidadosamente colocado.
Estava levando a mão para tocá-lo quando Reggie apareceu na porta, a fazendo dar um pulo.
— Desculpa — ele riu — Não queria te assustar.
— Você guardou — falou, sem prestar muita atenção nas desculpas.
— Guardei o que? — franziu as sobrancelhas olhando para o quarto. Seguiu o olhar da garota, entendendo do que ela estava falando — Ah — corou.
— Fico feliz que tenha guardado.
— Fico feliz que esteja feliz — respondeu sem pensar, tentando pensar rapidamente em alguma outra coisa para dizer em seguida — Se quiser tomar banho, pode pegar alguma coisa do meu guarda roupa para vestir. As toalhas ficam ali — ele apontou, vendo assentir e começar a procurar dentro do guarda roupa.
— Tomar banho, Reggie? — se recriminou, assim que saiu — Tanta coisa para você falar e pergunta se ela quer tomar banho? O que ela vai pensar de você?
Colocou o baixo no suporte e se sentou na cama, ainda bravo consigo mesmo. Mas todos os pensamentos em sua cabeça se silenciaram quando a garota voltou para o cômodo, algum tempo depois. Com o cabelo molhado, samba canção e uma de suas camisetas. O coração de Reginald parou de bater.
— E aí? — ela riu, olhando em sua direção — Nada mal, não é?
— Uhum — respondeu meio bobo, só aí se lembrando que precisava respirar.

Deu boa noite e um abraço meio aperto de mão, completamente sem jeito, fazendo os dois rirem constrangidos. se deitou e Reggie desceu para a sala, demorando a dormir. No dia seguinte, tomaram café juntos e seus pais deixaram a garota em casa no caminho para o serviço. Em casa, Reggie ficou pensando em quanto gostava de ter por perto, mas mais ainda, gostava de como sua família era quando ela estava presente.



Capítulo 3

Dezembro de 1991,

— Os equinodermos respiram por difusão entre a água do ambiente e a do sistema ambulacrário — o professor de biologia falava, mecanicamente.
Estavam no meio de dezembro, naquele momento do período letivo que tanto os professores quanto os alunos estão contando as horas para as férias de inverno. Basicamente todas as coisas possíveis estavam decoradas para o Natal - até o banheiro, pasmem - e o clima de solidariedade pairava pelos corredores da escola.
— Como eu odeio biologia — Daniel comentou, cutucando as costelas de Reggie para que olhasse para ele. Estranhou ao reparar que o amigo parecia tão concentrado, olhando para o caderno — O que tem aí? Letra nova?
Tentou espiar as páginas, mas Reggie rapidamente o puxou para longe escondendo-o com o braço.
— Até é — respondeu calmamente —, mas não está boa.
— Não faz mal, me deixa ver — o loiro reclamou, levando novamente o braço para pegá-lo.
— Não!
— Posso saber o que vocês estão conversando que é mais interessante que a minha aula? — Senhor Phillips apareceu às suas costas, com os braços cruzados. Reggie conteve o impulso de responder que absolutamente qualquer coisa era mais interessante do que o que quer que ele estivesse falando, mas isso acarretaria em uma detenção que ele não estava disposto a pegar.
— Nada, professor — falou rápido — Dan estava me perguntando o que o senhor tinha dito no final, pois não tinha conseguido copiar.
— Mas o Reggie também não tinha entendido, então ficamos imaginando o que poderia ser — o loiro respondeu, inocente.
Sr. Phillips pareceu considerar e depois de alguns segundos aceitou como verdade a mentira mal contada. Repetiu a última frase e voltou para a frente da sala.
— Agora me deixa ver o que é? Ou vou precisar chamar a atenção do professor de novo?
Reggie bufou.
— Só se fizer silêncio — respondeu a contra gosto.
O garoto puxou o caderno e o escondeu parcialmente com o estojo, se concentrando no que estava escrito. Um sorriso brincalhão surgiu em seus lábios e Dan reprimiu a vontade de gargalhar.
— Você é como o sol em uma tarde de domingo — ele sussurrou, sentindo seus olhos lacrimejarem pela força que fazia para ficar quieto — A luz que me guia quando estou perdido? É sério Reginald?
— Me devolve isso — puxou o caderno de volta, corando — Eu falei que não estava bom.
Daniel pensou por alguns segundos, olhando de soslaio para as duas garotas que conversavam na mesa ao lado.
— E a já ouviu?
Reggie sentiu todo o sangue do corpo ir para as bochechas, corando violentamente. Não conseguiu conter o impulso de olhar bobamente para a menina que não conseguia parar de pensar por um segundo sequer, desde a Ação de Graças. Vagou em pensamentos, até sentir que alguém o balançava. Daniel tentava conter as risadas.
— O que? — o baixista perguntou.
— A música é para ela, ela já ouviu?
— A música não é pra ela.
— Pensa que engana alguém — riu baixo, escondendo os lábios com as mãos — Desde que o Sr. Phillips mandou vocês se sentarem separados por conversarem demais — frisou a última parte — Você não faz outra coisa que não seja babar por essa menina.
James que sentava na carteira atrás dos garotos, se inclinou para frente ao ouvir a palavra “babar” seguida por “essa menina”.
— Estão falando da ? — perguntou rindo, vendo Daniel confirmar.
— Reg escreveu uma música pra ela.
Continuou insistindo que não tinha escrito nada para ninguém até ouvir o senhor Phillips chamar seu nome novamente e serem todos obrigados a fingir prestar atenção em suas palavras. Quase no final da aula, Reggie puxou o caderno e voltou a olhar para a letra. Escreveu em uma noite de insônia pouco depois da Ação de Graças e tentou colocar tudo o que estava sentindo naquela folha de papel. Só não tinha saído do jeito que tinha imaginado.
— Talvez se eu deixasse mais country — pensou em voz alta.
— Não vai ajudar — Daniel sussurrou de volta.

Quando as férias chegaram, ninguém tinha o que reclamar. Reggie se saiu relativamente bem em todas as disciplinas, o que deixou seus pais muito satisfeitos. Ao contrário da Ação de Graças, a família Peters se importava com o Natal, portanto iriam viajar para passar o feriado com os avós. Não moravam muito longe, mas por ser interior era como se estivessem indo para outro planeta e Reggie apreciava isso. Sempre gostou da sensação de saber que tinha um refúgio se não quisesse ser encontrado.
Viajaram no dia 23, com o carro cheio de coisas. Era um dos momentos em que sentia que eram a melhor família de todas. Aerosmith tocava no rádio e seu pai cantarolava enquanto batia os dedos sobre o volante, enquanto sua mãe balançava de acordo com a melodia de Dream on mas mantinha seus olhos fixos em sua revista. E ele, sentado no banco de trás, pensava na sorte que tinha.
Chegaram relativamente cedo e se adiantaram para cumprimentar todos os presentes. A família não era grande, mas tinha um ou dois primos que estava louco para conversar e saber tudo o que tinha acontecido durante o ano. Se acomodou no quarto com duas camas beliche e saiu novamente para o quintal para encontrar com os parentes. Ao contrário da maior parte dos seus amigos, o garoto sentia-se feliz em estar com sua família e passaria mais tempo com eles se pudesse. Claro que tinham seus defeitos e brigavam mais do que gostaria de admitir, mas não existia nenhum lugar em que sentia como se pertencesse a algo.
Os dias passam mais rápido quando se está com aqueles que ama e foi exatamente assim que o Natal aconteceu. Então na noite do dia 30, se sentaram em volta da fogueira para conversar tendo em mente que provavelmente só estariam juntos novamente no próximo Natal.
— Eu definitivamente não estou pronta para entrar no ensino médio ano que vem — Mandy comentou, colocando um Marshmallow na boca — O que acha, Reggis? — falou com a boca cheia.
— Sinceramente eu acho que vai ser um ano bem interessante — o moreno respondeu.
Harry se inclinou para ouvi-los melhor.
— E o que te faz pensar isso?
Ele corou.
— Positividade — riu sem graça — Não tem porque não ser.
— Não tem?
— Não, porque teria? Vai ser um ano com muitas disciplinas interessantes e…
Harry e Mandy se entreolharam, gargalhando.
— Como primo mais velho, acho que posso dizer que tem coisa aí — Harry se espreguiçou, sorrindo de lado.
— Você só é onze meses mais velho, babaca — Mandy rebateu — Mas qual é Reggis, você está me obrigando a concordar com o Harold.
— Deveria fazer isso mais vezes, inclusive.
— O que é que deu em vocês? — revirou os olhos — Tiraram o final do ano para pegar no meu pé?
— Sempre sabemos quando está escondendo alguma coisa.
— E desconfiamos que isso tem algo a ver com seu pedido de ano novo. Escolheu direito?
— Meu pedido está muito bem escolhido, obrigado.
— E é sobre ela? — Harry provocou.
Reginald se sentiu engasgar.
— Ela?
— Pode ser ele também, nós estamos totalmente ok com isso — Mandy completou.
— Só a vovó que não vai gostar muito.
— Mas estamos aqui para te apoiar!
Se Reggie tivesse a opção de cavar um buraco bem fundo e se jogar lá dentro, teria feito isso. Mas sabia que qualquer coisa minimamente evasiva resultaria em telefonemas desconfortáveis até o próximo Natal. Então respirou fundo e contou até dez antes de interrompê-los calmamente.
— Já acabaram?
— Ainda não — Harold gargalhou —, ela é bonita?
— Qual é o nome?
— Está solteira, não é?
— Ai meu Deus o Reginald ta namorando!!!! — Falem baixo — implorou —, não estou namorando. É muito bonita e o nome é .
— Ah, então ela não é solteira — Harold inclinou a cabeça e deu um tapinha nos ombros do primo, em solidariedade — Sinto muito, cara.
— Ela é solteira — revirou os olhos.
— Nesse caso, não entendi qual o problema.
— A garota não precisa gostar de um cara só porque ele gosta dela — Mandy revirou os olhos — Mas não to falando que é o caso — completou rapidamente.
— A gente conversa até bastante, mas é só isso.
— Seria pior se nem chegassem a conversar, Reggis — Mandy recitou, sábia — Não sabe se ela gosta de você?
— É — removeu um dos marshmallows do espeto, vendo que por um descuido acabaram queimando. Colocou um na boca e sentiu seus lábios arderem, xingando mentalmente. A noite não estava tomando o rumo esperado.
— E ela sabe que você gosta dela?
— Eu não gos… — se interrompeu ao ver os olhares — não, não sabe — concluiu derrotado.
— Mas então é só contar! — Harry concluiu — E todo o problema está resolvido!
— E porque eu faria isso?
Mandy se ajeitou e virou de frente para o primo, segurando sua mão. Naquele momento não pareciam que tinham todos quatorze anos, era como se ele tivesse voltado a ter cinco anos de idade e a prima, com um súbito olhar de sabedoria, tinha se tornado uma mulher.
— Porque se você não fizer isso, Reginald, alguém vai fazer. E aí vai perdê-la para sempre.

Saíram tarde da casa dos avós, já que ninguém estava com vontade de passar tanto tempo em um carro. Infelizmente, por ser véspera de ano novo, pegaram trânsito e demoraram para chegar em casa. Quando estacionaram na frente da garagem já estava anoitecendo e a sombra de dois adolescentes se destacava ao lado da porta de entrada.
— O que vocês estão fazendo aqui? — Reggie saltou do carro com um pulo, indo cumprimentar os amigos.
— É véspera de Ano Novo! — Daniel gritou animadamente.
— E nós estamos aqui a horas te esperando para uma festa — James colocou — Porque você está vestido assim?
O garoto olhou para si mesmo. A bermuda tinha caído um pouco, mas nada que sua blusa larga não fosse capaz de cobrir. A visão não era agradável, mas extremamente confortável.
— Assim como? — perguntou — Como quem passou a tarde inteira dentro de um carro?
— Argumentos bons, visual ruim — James concluiu — Vai tomar um banho e vestir alguma coisa legal, você tem quinze minutos porque já estamos atrasados.
Olhou para seus pais em busca de aprovação, mas o clima família tinha acabado. O homem tinha pego os jornais acumulados na caixa de correio e agora tentava o mais rápido possível se atualizar de todas as notícias dos últimos dias. A mãe, que já tinha entrado em casa, estava empenhada em ouvir as muitas mensagens na caixa postal, e Reggie já conseguia ouvi-la discando para sua chefe. Era isso, não é como se alguém tivesse outros planos para ele.
Subiu para seu quarto e tomou um banho rápido, passando um pouco de seu perfume favorito. Não queria ser clichê, mas também não podia se dar ao luxo de atrair qualquer quantidade de azar para o ano seguinte, então pegou uma camiseta branca e colocou rapidamente, antes que mudasse de ideia.
— Vamos, Reginald — James gritava do andar de baixo, jogando pequenas pedras na janela.
Reggie bufou. Seu tempo de pensar tinha acabado, então pegou uma calça relativamente nova torcendo para a cor clara da data não precisar se estender para as partes de baixo e calçou o primeiro tênis que viu ao ouvir mais gritos vindos do lado de fora da casa.
— Pronto, tô pronto — falou ofegante pela correria, resistindo ao impulso de deslizar pelo corrimão — Onde que é essa festa?
— Aqui perto, talvez uns dez quarteirões ou um pouco mais.
— Como é possível eu já ter me arrependido disso antes de sair de casa?
— Para de ser chato, Reggie. Vai ser divertido!

Os garotos caminharam até chegar ao local. Mais uma vez era possível ouvir a música a alguns quarteirões de distância. A casa era linda, aparentemente espaçosa e cheia de gente. Conseguia ver várias pessoas da escola, então foram em suas direções cumprimentá-las.
Pelo visto Laurie já tinha se recuperado da falta de atenção da festa de Halloween, pois assim que viu o baixista caminhou lentamente em sua direção, o cumprimentando com dois beijos na bochecha. Estranhando a falta de vontade em conversar, Reggie deu qualquer desculpa e entrou na casa, analisando o seu redor. Muitas pessoas vestiam branco e os que se aventuraram em outras cores conseguiam se destacar entre os presentes.

O som estalava nos alto falantes e os presentes se revezavam entre pegar bebidas e dançar na sala e no quintal. Os enfeites de Natal ainda prevaleciam na decoração, mas estavam socados entre taças e balões dourados. Olhou ao redor, percebendo que estava sozinho novamente. Revirou os olhos. James e Daniel adoravam puxá-lo para essas festas, tanto quanto adoravam deixá-lo sozinho depois de entrarem.
— Isso tá incrível! — alguém gritou, pulando entre a pequena multidão. Reggie o reconheceu como Luke, da festa de Halloween.
— E aí, cara — cumprimentou quando o garoto passou ao seu lado.
Luke parou sorrindo, estendendo a mão para um high five.
— E ai, hm…?
— Reggie! Reggie Peters — se apresentou.
— Prazer Reggie, eu sou o Luke Patterson — estendeu a mão para cumprimentá-lo — Finalmente uma apresentação decente. O que tá achando da festa?
Reginald deu de ombros.
— Não sei direito. Acabei de chegar porque meus amigos me arrastaram pra cá.
— E eles fizeram muito bem, cara. Eu estava indo pegar alguma coisa para beber, quer?
— Porque não?
A cozinha estava tão cheia quanto o resto da casa, mas isso não impediu os garotos de empurrarem o pessoal até encontrarem a geladeira, que estava cheia de sucos, refrigerantes e algumas coisas potencialmente alcoólicas. Luke pegou um refrigerante de laranja para ele e Reggie apontou que queria uma Coca, sendo prontamente atendido.
— Anda logo, Mercer! — alguém gritou às suas costas, empurrando os garotos.
Reggie xingou.
— Vocês podem pegar um suco para mim? — um garoto usando boné e moletom rosa perguntou, esticando as mãos para pegar a garrafa oferecida e desaparecendo novamente.
Saíram de frente da geladeira para não atrapalhar a passagem e voltaram para a sala, sentando em um espaço vazio no sofá. Olharam para o relógio e já era mais de 22h, faltando pouco para lançarem os fogos de artifício. Descobriram que tinham muitos gostos em comum, especialmente quando se tratava de música. Luke tinha um amor enorme por tudo o que pudesse produzir alguma harmonia e a meses vinha tentando convencer os pais a lhe darem uma guitarra. Esperava encontrá-la embaixo da árvore nesse Natal, mas não tinha acontecido, então torcia para que acontecesse em seu aniversário ou no Natal do ano seguinte.
— As vezes eu vou nessas lojas de instrumentos só para tirar algumas notas — confessou — Não vejo a hora de ter a minha e poder compor.
— Você também compõe? — Reggie perguntou curioso — Oh cara, estou em uma fase muito ruim musicalmente. Parece que nada fica bom.
O garoto considerou.
— Tá faltando inspiração?
— Pelo contrário — suspirou frustrado.
Luke sorriu malicioso.
— Ah sim, as composições que não estão chegando aos pés da inspiração.
“Até ele não” pensou nervoso, mudando de assunto rapidamente.
— Mas então, qual sua banda favorita?
Um tempo depois já estavam com a garganta seca de tanto conversar e Luke foi buscar mais refrigerante para os dois. O baixista tamborilava o ritmo da música nos joelhos, olhando distraidamente para as pessoas ao redor.
Sentiu duas mãos geladas, porém delicadas, pousarem sobre seus olhos. Se sentindo corar no exato momento em que percebeu a quem elas pertenciam.
— Bom te ver, Reginald.
Um arrepiou percorreu sua espinha e ele sorriu involuntariamente.
— Senhorita — provocou — Não sabia que estaria aqui.
— Sério? — a garota pulou por cima do sofá, se sentando no lugar vazio ao seu lado — Eu esperava te encontrar.
Reggie corou novamente. Se antes tinha todos os flertes possíveis na ponta da língua, a garota o tinha deixado sem fala. E como ela estava linda! Com um vestido prata brilhante, curto mas de mangas cumpridas, ela ofuscava qualquer outro ao redor. Luke que estava voltando com os refrigerantes, sorriu maroto ao ver o novo amigo com , compreendendo imediatamente o problema que Reggie estava tendo com sua inspiração. Tomou um gole de uma das latas e observou a dupla por alguns instantes, antes de começar a pular na direção da pista de dança, gritando a plenos pulmões:
— LAST CHRISTMAS I GAVE YOU MY HEART BUT THE VERY NEXT DAY YOU GAVE IT AWAY!!!!
— Eu adoro essa música — comentou, fechando os olhos e balançando no ritmo. Quando os abriu novamente, Reggie estava parado em sua frente com a mão estendida, a convidando para dançar.

Dançaram lentamente, aproveitando a proximidade um do outro. envolveu seu pescoço em um abraço firme e deitou a cabeça em seu ombro, sentindo seu perfume. Reggie não conseguia entender se estava sonhando ou se aquilo estava acontecendo de verdade, mas fechou os olhos, com a mão em sua cintura, torcendo para que aquele momento não acabasse nunca.

Now I know what a fool I've been
But if you kiss me now
I'll know you've fool me again


O garoto cantarolava baixinho, sem ter muita noção do que estava fazendo, mas podia sentir que estava sorrindo. Sabia que o tempo estava passando porque tinha uma vaga noção de que de tempos em tempos as músicas mudavam, mas ambos estavam tão confortáveis naquele abraço que não tinham a menor intenção de sair dali.
Alguns gritos de “Já está quase na hora” os fizeram se separar. Todos estavam indo na direção do quintal onde o tio do dono da casa iria soltar os fogos de artifício, então também saíram naquela direção. Reggie levou a mão na direção da mão de , mas pareceu mudar de ideia no meio do caminho, se limitando a colocar a mão em suas costas e a guiar para fora. Harry e Mandy tinham dito que ele precisava pensar muito bem o que ele queria para o próximo ano, mas não tinha necessidade. Cada parte de seu corpo desejava a mesma coisa para o ano seguinte.
Toda a área externa da casa estava cheia de luzes de Natal, que pareciam ainda mais brilhantes. Todos esperavam com expectativa a contagem começar, enquanto alguns estavam na sala para acompanhar com a televisão. Um grito veio do lado de dentro.
— DEZ!
Todos se entreolharam, sorrindo, preparando os pulmões para os números a seguir.
— NOVE!
— OITO…
— SETE!!
Reggie e se entreolharam, sorrindo cúmplices. Sua mão novamente buscou a da garota, mas dessa vez ele não a impediu.
— SEIS!
envolveu sua mão em um aperto firme.
— CINCO! — disseram um para o outro, sentindo o estômago revirar.
— QUATRO!!
Em algum lugar alguém tinha começado a soltar os fogos, mas ninguém deu muita atenção.
— TRÊS!!
O responsável pelos fogos da casa verificava se tudo estava em ordem, tomando as devidas precauções para não causar um incêndio.
— DOIS!
Em um impulso, Reggie se inclinou na direção de colando suas testas. Tudo ao redor se apagou.
— um — sussurraram baixinho um para o outro.
Então seus lábios se colaram, sem saberem quem tinha ido na direção de quem. Voltaram para a posição em que dançaram anteriormente, mas se fosse possível estavam ainda mais próximos. Aprofundaram o beijo, Reggie a puxando desesperadamente contra seu corpo enquanto calmamente bagunçava seus cabelos. Se separaram apenas quando faltou o ar.
— Feliz ano novo, Reggie — soprou, com a respiração entrecortada.
— Feliz ano novo, — o garoto sorriu, a beijando novamente.





Continua...



Nota da autora: FELIZ ANO NOVOOOOOOO!!!!! Eai gente, esse ano foi bem louco né? Lançou uma das melhores séries dessa vida com esses personagens PERFEITOS que me deram a oportunidade de escrever essa fanfic que eu amo tanto! Então Fantoms, que a renovação venha (que infelizmente até o momento que eu to escrevendo isso, ainda não saiu) e que o ano que vem seja recheado de amor, paz e felicidade para todos vocês! Muito obrigada por lerem a fanfic e que venha muito mais aí pra gente. Reggie e Liv mandam um beijo! VEM 2021!





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