Última atualização: 25/01/2021

Prólogo

Dezembro, 2019 - Los angeles, USA
There's things that we'll never know.


Aquela era uma péssima ideia. Com certeza era a pior ideia que eu já havia tido em toda a minha vida. Eu não podia ficar naquela droga de quarto de hotel? É claro que não, por que assim que encontrei aquela droga de ingressos disponíveis eu tive que comprar.
Por que eu não fiquei na droga do hotel?
Havia volta. Eu poderia simplesmente pedir licença para as pessoas ali naquela arquibancada e ir embora. Claro que eu podia. Mas meu corpo não respondia ao comando "saia correndo dai". Então tudo que eu fiz foi ficar ali parada.

Ah que tipo de idiota é você que se coloca nesse tipo de situação?

Eu estava perto da grade da arquibancada inferior e tinha uma visão muito boa do palco que naquele momento abrigava apenas os instrumentos - que aparentemente havia aumentado de tamanho. Não tinha muita certeza se alguém me reconheceria ali, talvez não, afinal fazia mais de um ano que eu não aparecia pela internet e minha aparência havia mudado um pouco. Havia deixado os cabelos crescerem e também havia clareado os fios. Havia perdido um pouco de peso e ganhado algumas olheiras. Talvez ninguém ali me reconhecesse mesmo. Eu esperava que não.
A pergunta que deve estar se passando pela sua mente é: por que está ai ?>
E a resposta é simples: Lights up. Desde que Harry lançou aquela música e alguns trechos da nossa última conversa surgiram na letra eu me senti inquieta. Senti a necessidade de vê-lo cantando de novo e de saber o que estava naquela droga de Fine Line.
Desde o nosso término eu havia prometido a mim mesma que não veria nada sobre Styles e o fato de suas fãs terem resolvido ir atrás de mim depois que um rumor que eu o teria traído saiu na internet me ajudou a me manter longe das redes sociais, mas a questão é que quando Harry Styles some por quase um ano e meio e depois reaparece cheio de mistérios e uma música nova, fica meio impossível de não ver, e eu vi.
Vi cada estrofe de lights up, encontrando lá as palavras que me seguiram por meses. E como se para afirmar para mim - que estava em completa negação por conta de watermelon sugar - que eu estava presente naquele bendito álbum, o universo fez com que adore you tocasse no café onde eu estava no início daquela semana.
A frase que ele havia usado de legenda na primeira foto minha que publicou em seu instagram havia realmente se tornado uma canção - como Letticia, uma fã de Harry que eu tinha conhecido e me tornado amiga, havia sugerido nos comentários da tal foto - e quando ela ecoou pelo starbucks onde eu estava na segunda-feira, após uma sessão de fotos com Louis, eu precisei de mais do que alguns segundos para me recuperar do choque.
E naquele momento, lá estava eu, prestes a ver Harry Styles de novo depois de um ano e meio e tudo que eu sabia fazer era tremer como um pinscher.
Minutos mais tarde eu avistei lá embaixo em frente ao palco uma cabeleira loira a qual eu já conhecia e havia tido o prazer de trabalhar pelos últimos meses da Live on tour: Hélène Pambrun. Meu coração apertou no peito de saudade da francesa que adorava me apresentar os pratos típicos de seu país sempre que possível, e uma lágrima se formou em meus olhos.
Como quem sente meu olhar fixo sobre si, ela se virou olhando na exata direção que eu me encontrava. Olhou fixamente para mim por alguns segundos como quem tentar visualizar aquele rosto direito, porém pareceu desistir depois de alguns segundos e voltou ao que fazia.
Minutos se passaram até que alguma movimentação começasse no palco e quando as luzes se apagaram eu consegui ver as silhuetas da banda tomando seus lugares. Sarah, Mitch, Adam e Clare. Será que todos ainda trabalhavam com Harry? Uma contagem se iniciou e junto com ela meu coração acelerou no peito me fazendo descobrir que eu não estava preparada para aquilo.
Quando ela chegou ao fim as luzes se acenderam e eu ri fraco ao notar que seu jeito extravagante de se vestir não havia mudado. Em calças brancas, suspensórios, camisa rosa e sapatos com salto, lá estava ele. Depois de todo aquele tempo a primeira imagem que vi dele foi um sorriso largo por estar no palco.
Quando Harry se virou para as arquibancadas e acenou rindo eu suspirei fundo.
Por que eu não fiquei no quarto do hotel?

[...]

Watermelon sugar havia terminado e as luzes vermelhas se apagaram nos levando ao completo escuro enquanto Harry tomava água próximo a bateria de Sarah lhe mostrando a língua como sempre fazia. Certas coisas realmente não mudavam.
A única luz ali era a do holofote que estava em Harry e quando ele se aproximou do microfone e a melodia de Adore You começou eu senti meu corpo arrepiar enquanto luzes azuis eram acesas de modo fraco pelo local.
Harry iniciou a música com o coro de fãs e eu apenas consegui me apoiar na grade a minha frente sentindo as pernas bambas mais uma vez naquela noite.
Aquela era a música que nasceu na legenda de uma foto por causa de Letticia e ao me lembrar da garota respirei fundo ao pensar sobre a bronca que ela me daria por estar ali.
- Oh, honey. I'd walk through fire for you just let me adore you. - eu senti um arrepio na minha espinha ao ouvir aquilo e podia jurar que os ossos da minha perna havia se tornado gelatina.
Harry mexia seu corpo em danças que não faziam o mínimo sentido, mas ainda assim eram completamente ele. Livres como Harry Styles sabia ser. Harry estava claramente confortável em si mesmo ali, e aquilo me fez sorrir.
- You don't have to say you love me. I just wanna tell you somethin'. Lately you've been on my mind. - meu corpo gelou no lugar e eu tive que obrigar a minha mente a pensar racionalmente para que eu entendesse que ele havia escrito aquilo a muito tempo, provavelmente quando ainda estávamos juntos e naquele momento aquilo não queria dizer nada.
- I'd walk through fire for you just let me adore you, like it's the only thing I'll ever do. - novamente aquele arrepio tomou conta de mim.
Em um momento Harry estava dizendo algo que eu não consegui entender no microfone e no momento seguinte, em uma de suas danças, ele estava vindo para o canto do palco que ficava de frente para onde eu estava. Eu prendi minha respiração como se aquilo fosse me fazer ficar invisível de repente. Os olhos de Harry se fecharam pouco antes de ele se virar em minha direção e estava tão imerso em seu próprio mundo de música, liberdade e danças despreocupadas que eu tenho certeza que não me notaria ali nem mesmo com os olhos abertos, porém isso não impediu de meu coração acelerar no peito. Com pulinhos e agora os olhos abertos ele voltou para o centro do palco.
- I'd walk through fire for you… - e jogou o microfone para que o público cantasse e eles o fizeram em alto e bom tom - Se acalmem. - ele pediu com um sorriso orgulhoso nos lábios. Depois de repetir os dois versos, como sempre com a explosão da bateria de Sarah ele se empolgou rindo e fazendo uma pequena dança para depois voltar a seu microfone com melismas e vocais perfeitos.
- Just let me adore you like it's the only thing I'll ever do. - e com aquela frase a música teve seu fim.
Meus olhos estavam marejados e eu estava imersa em pensamentos enquanto Styles interagia com a plateia. Por que eu havia ido a aquele lugar? Eu claramente merecia uma bronca por fazer aquilo, mas a evitaria a todo custo, com certeza.
- Você é do Brasil? - a pergunta me fez paralisar e só então notei que Harry perguntava isso a uma garota que estava na grade em frente ao palco - De onde você é? - a menina respondeu e eu o vi sorrir fraco como se lembrasse de algo - São Paulo? - ele soltou com seu sotaque carregado e em minha mente eu o corrigi de modo automático - Estado adorável esse, com pessoas adoráveis também. Estou com saudade de lá. - um grupo que estava com a garota gritou ao ouvi-lo dizer desajeitadamente a palavra em português e eu respirei fundo retomando o meu trabalho de autoconvencimento de que não era sobre mim que ele falava - Obrigado por vir. - foi o que ele disse antes de dizer que a próxima música seria Lights up e voltar para a sua garrafa de água passando as costas das mãos pelos olhos. Ele estava chorando? [...]

As pessoas saiam aos montes do The Forum e eu estava apenas sentada aguardando o tumulto acabar para sair. Uma chuva havia começado e provavelmente aquilo demoraria.
Eu havia escutado cada música com atenção e honestamente estava em negação sobre certos trechos fazerem menção a mim. E continuaria naquela negação por um longo tempo se fosse preciso. Mas algo que eu não podia negar era que o álbum era definitivamente uma obra de arte. Era um álbum diversificado, indo das músicas que te faziam dançar, as músicas que te levavam às lágrimas. Harry havia acertado naquele e eu arriscaria dizer que até mais que no primeiro.
Era um álbum cheio de ritmos e sensações que se misturavam enquanto escutadas. Era um conjunto incrível de ser apreciado e ter escutado aquilo ao vivo com certeza havia intensificado tudo.
Não sei quanto tempo havia se passado direito, mas quando deixei meus pensamentos com as luzes de plateia se apagando eu notei que a arena estava vazia. Apenas a luz do palco continuava acesa e eu praguejei a mim mesma por ser tão distraída. Comecei uma caminhada pela arquibancada em busca de meu celular na bolsa para iluminar o caminho, mas em dado momento eu ouvi passos ecoarem pelo local vazio e me virei ainda no escuro.
Harry entrava no palco sozinho e olhava ao redor com orgulho, como eu o vi fazer por inúmeras vezes durante a turnê. Ele riu sozinho negando com a cabeça e em seguida eu vi seu sorriso se desfazer enquanto ele encarava o teclado. Ele caminhou lentamente até o instrumento e mordendo a parte interna das bochechas ele apertou algumas teclas de modo aleatório até que uma melodia que e já havia escutado naquela noite iniciou.
Eu prendi minha respiração e me sentei porque sabia que não conseguiria sair dali e nem conseguiria ouvir aquilo de pé. O som ecoava por todo o lugar e eu tentava me convencer de ir embora.
- I'm in my bed and you're not here. - a voz dele iniciou suave - And there's no one to blame but the drink and my wandering hands. - por que parecia que ele estava me dizendo algo? - Forget what I said it's not what I meant. And I can't take it back I can't unpack the baggage you left. - eu respirei fundo sabendo o que vinha pela frente - What am I now? What am I now? What if I'm someone I don't want around? I'm falling again, I'm falling again, I'm fallin'. What if I'm down? What if I'm out? What if I'm someone you won't talk about? I'm falling again, I'm falling again, I'm fallin'. - eu já não tinha controle sobre o quanto meus olhos estavam cheios de lágrimas - You said you care, and you missed me too. And I'm well aware I write too many songs about you. And the coffee's out at the Beachwood Cafe. And it kills me 'Cause I know we've ran out of things we can say. - ouvir o nome do café me fez rir fraco e logo o refrão estava recomeçando de um modo doloroso - And I get the feeling that you'll never need me again. - aquela frase ecoou mais forte que todas as outras pela local e meu coração pesou no peito. Uma nova repetição do refrão aconteceu e então a música teve seu fim com mais algumas notas no teclado.
Meu rosto já estava molhado e eu me perguntava o por que de aquilo parecer tanto com algo que ele quisesse me dizer. Eu sabia a resposta. Eu sabia o que aquela música era. Mas eu não queria acreditar que fosse, porque talvez acreditar fizesse aquilo ficar ainda mais doloroso.
- Ei, você não deveria estar aqui. - a voz conhecida de Kevin ecoou pelo lugar e eu percebi que ele falava comigo de onde eu estava sentada minutos antes.
Olhei para o palco e vi que Harry olhava para mim no escuro com os olhos apertados como que para enxergar melhor. Com o sentimento de pânico no peito eu me levantei e segui para a saída com Kevin gritando para que eu esperasse. Eu queria parar e abraçá-lo já que sentia saudade, mas não queria que Harry soubesse que eu estive ali, então apenas corri.
Um lance de escadas e mais uma rampa depois e eu via a saída. Eu queria muito rir do quanto aquilo era uma situação engraçada, mas eu sabia que se risse eu perderia a força e Kevin me alcançaria. Assim que estava prestes a avançar o portão senti duas mãos me segurando pela cintura e eu fui puxada para um canto de modo gentil.
- Você está muito… - a voz já conhecida parou de falar e meus olhos subiram para encontrar John parecendo surpreso - ? - ele questionou e eu sorri.
- Oi John. - cumprimentei - Eu adoraria ficar e conversar, mas Kevin está vindo aí e eu preciso ir. - informei já me afastando e ele me estreitou os olhos - Olha, eu só vim assistir o show e perdi a noção do tempo. Eu não faria mal a ele e você sabe disso. Me deixa ir, por favor, eu não quero que ele saiba que estive aqui. - pedi de modo rápido, mas ainda gentil. Ele riu fraco.
- Precisava conferir? - ele questionou e eu sorri.
- Algo assim. - eu começava a escutar passos e torci os lábios vendo John sorrir.
- Vai menina, seu segredo está a salvo. - eu sorri largo e me aproximei o abraçando rapidamente.
- Obrigada John, você é o melhor. - ia sair correndo, mas girei nos calcanhares - Sei que já faz isso, mas cuide dele, tudo bem? - pedi e ele sorriu de modo terno.
- Pode deixar. E você se cuide, hum? Qualquer coisa me ligue. - assenti e comecei a correr. Atravessei as portas de saída e segui pela rua me afastando da arena o máximo possível para pedir um carro que me levasse ao meu hotel de volta.
Enquanto esperava o veículo eu repassava os últimos momentos daquela noite em minha mente. Harry ao teclado tocando aquela música, sua voz entoando cada palavra como um pedido no meio de uma conversa. Ele com certeza não sabia que eu estava ali ouvindo, mas será que queria que eu ouvisse? Aquilo era algo que eu nunca saberia. Ou pelo menos achava que não.


CAPÍTULO 1

Janeiro, 2020 - Miami, USA

I never said that you wasn't attractive
Your style and that beard, ooh, don't get me distracted
I'm tryna be patient, and patience takes practice
The fact is I'm leaving, so just let me have this





Eu bocejei pelo que devia ser a vigésima vez nos últimos dez minutos. Havia sido uma péssima ideia pegar aquele vôo no mesmo dia da sessão de fotos para a Glamour. Eu devia ter ido um dia antes, mas não esperava que não fosse dormir durante toda a viagem porque estaria maratonando Brooklyn 99.
Estava esperando meu café na cafeteria do aeroporto e ao mesmo tempo que olhei meu relógio para constatar que se não corresse eu me atrasaria, ele me foi entregue. Apenas sorri para o rapaz e peguei meu café, arrastando minha mala pelo aeroporto de modo apressado enquanto pedia por um Uber. O carro que havia finalizado uma corrida naquele momento, logo aceitou a minha e já estava parado ali em frente. Ele me ajudou com a mala e logo estávamos nas ruas.
Uma música que eu já conhecia tocava na rádio e eu sorri pegando o celular e gravando um storie que mostrava apenas o rádio do carro e em seguida marquei Ana e os meninos do Prettymuch com a legenda “Right by your side. Baby, I ain't gonna leave you alone tonight [...] Only for the weekend” fazendo referência a letra de The Weekend que era uma música de Ana com os meninos. Não marquei minha localização porque eu estava ali de surpresa.
A Glamour havia me contratado para uma sessão de fotos de Ana, porém a garota não havia sido informada e eu resolvi guardar segredo.
O storie logo foi respondido com um vídeo de Ana cantando a música e dizendo estar com saudade. Eu apenas o deixei ali e sai do instagram ao notar que a minha primeira postagem em um ano havia despertado o interesse de algumas pessoas.
Fui deixada pelo uber no meu hotel e me apressei em fazer o check in e subir. Já no quarto eu apenas joguei minha mala sob a cama e peguei uma roupa seguindo para um banho. Depois de me lavar eu vesti um suéter branco não muito grosso, calças de alfaiataria xadrez, um sapato preto e uma toca caramelo já que meu cabelo não estava em seus melhores dias e passei apenas um lip balm pegando minha bolsa com equipamento e seguindo para fora do quarto.
De volta a rua eu pensei em pedir um uber, mas o trânsito em Miami parecia um caos completo naquele dia, então apenas decidi ir andando já que o lugar não era longe. Coloquei uma música dos meninos do Prettymuch no fone e segui meu caminho de modo animado. O prédio do estúdio onde as fotos aconteceriam era um prédio térreo e cinza com seu nome escrito em laranja e portas de vidro por onde eu via algumas pessoas da revista. Tirei os fones e adentrei o local cumprimentando a todos e me apresentando.
- Ela já chegou? - questionei Eloah, a representante da Glamour com quem eu falava, e ela sabia que eu perguntava sobre a Ana.
- Está pronta no estúdio. Ela chegou muito cedo. - anunciou e eu assenti sorrindo largo e tomando o caminho para o estúdio.
Assim que adentrei o local vi Ana de costas para mim enquanto conversava com a maquiadora que parecia retocar algo. Raí me viu e eu fiz sinal de silêncio para ela que apenas olhou para os pés rindo fraco.
- Raí, é sério. Eu não vou para a LIV hoje, não estou afim. - Ana murmurou - Podem ir vocês e eu fico em casa sozinha. - e ali estava minha deixa.
- Baby, I ain't gonna leave you alone tonight. - cantarolei o refrão da música que havia a marcado mais cedo enquanto passava meu braço por seus ombros. Ana me encarou arregalando os olhos e me abraçando em seguida.
- Ai que saudade. - ela murmurou enquanto nos sacudimos de um lado para o outro - Sua cadelinha, por que não me disse que estava na cidade? - ela perguntou se afastando e acertando um tapa leve no meu braço.
- Acabei de chegar. Literalmente não faz nem duas horas que pousei em Miami. - informei me aproximando de Raí e abraçando também - Que saudade eu tava sentindo de vocês duas. - olhei de Ana para Raí.
- Já faz quanto tempo? Dois anos? - Ana questionou.
- Um ano e meio. - informei dando de ombros.
- E o que te traz a Miami? - questionou cruzando os braços.
- Você. - soltei de modo dramático e ela franziu o cenho - Sou sua fotógrafa hoje. - completei e ela abriu um largo sorriso.
- Por isso a Eloah estava mantendo segredo. - eu assenti - Vai ficar quanto tempo por aqui?
- Only for the weekend. - cantarolei de novo e ela gargalhou - Não, mas é sério. É só pelo final de semana. Na segunda eu viajo para Nova York para uma outra sessão de fotos para a Vogue. - ela fez uma careta.
- Vogue? Meu deus, estou sendo fotografada por uma mulher importante. - ri negando com a cabeça.
- Bom, eu já que eu tinha que voltar, que seja em grande estilo. - joguei os cabelos fazendo Ana rir.
- Espera, voltar? - foi Raí quem questionou.
- A trabalhar. Não fiquei só longe das redes sociais no último ano, também estava em um tipo de ano sabático. Fotografei o Louis no mês passado em LA e desde então parece que as pessoas têm se interessado em me chamar. - dei de ombros e Raí assentiu.
- Bom, parece que você e o Styles combinaram de sumir e voltar na mesma época e… - ela parou ao notar quem havia citado e fechou os olhos em uma careta - , desculpa eu…
- Tá tudo bem. Não precisa se desculpar. - me apressei em para-lá e sorri - Vamos começar essa sessão de fotos por que hoje eu estou animada e quero terminar logo para poder aproveitar o tempo que tenho por Miami com vocês. - me apressei e vi Raí sorrir meio sem jeito.
- Vamos lá. Por que é hoje que te levo para comer o melhor Poke da sua vida. - Ana completou e notei que tentava descontrair também. Agradeci mentalmente por elas não quererem falar sobre Harry e sobre o que havia acontecido conosco, naquele momento.

[...]

Eu e Ana almoçamos juntas e depois a garota e eu resolvemos caminhar pela praia. Ana estava certa, aquele havia sido o melhor poke da minha vida. Miami era facilmente uma dessas cidades onde você se via vivendo. O calor mais ameno do que no Brasil, as pessoas sempre parecendo muito receptivas, os lugares para visitar e conhecer. Tudo parecia bom demais pra ser verdade naquela cidade.
Compramos uma água de coco e por fim continuamos nossas caminhada a beira da água.
- . - Ana chamou e eu virei minha cabeça para encará-la - Por que você e Harry terminaram? - ela tinha receio em fazer a pergunta e eu suspirei fraco. Fazia muito tempo desde que eu havia tido aquela conversa pela última vez.
- Bom… Harry estava trocando mensagens com Camile. - ela me encarou parecendo pasma.
- Espera, Camile a modelo com quem ele foi visto no começo do ano passado? - eu apenas assenti. Apesar de ter evitado Harry durante aquele período certas coisas acabavam chegando a mim de algum modo e o relacionamento dele com Camile chegou através de Mateus que estava a ponto de viajar até onde Harry estivesse para soca-lo - Eu nunca imaginei que Harry fosse o tipo que trai alguém. - ela soltou de modo meio decepcionado.
- Mas ele não me traiu. - afirmei e ela me encarou confusa - Quero dizer, eu acredito que não. - me concertei - Eles trocaram mensagens, teve aquela ligação maluca dela e eles haviam marcado de se encontrar, isso são fatos, outro fato é que ele escondeu isso de mim. Mas depois de alguns meses, quando já me sentia capaz de pensar naquilo de forma clara, longe das dores e medos que meu relacionamento com Anthony haviam me causado, eu notei que não, Harry não havia me traído. A minha confiança sim, por ter escondido tudo, mas não fisicamente. Entende o que quero dizer? - ela assentiu mordendo o lábio.
- E como tem tanta certeza sobre ele não ter feito algo assim? - ela perguntou e eu notei que suas perguntas não eram por curiosidade, mas sim porque havia algo que estava a incomodando.
- Minha mãe sempre me disse que mulher sempre sabe e depois disso eu acredito que seja verdade. Não acredito que seja um superpoder, não, isso não, mas acho que não importa o quão perdidamente apaixonadas nós estejamos e o quanto os vejamos perfeitos, uma parte nossa sempre está notando alguns detalhes e os guardando conosco para que depois possamos colocá-los sobre a mesa e analisarmos tudo. - dei de ombros - Quando eu parei para colocar tudo racionalmente sobre a mesa eu vi que havia uma incoerência muito grande em Harry fazer algo assim. Quero dizer, obviamente alguém pode mudar muito e magoar outras pessoas, mas havia esse pedaço de mim que ficava repetindo o dia em que Harry me disse que morria de medo de me magoar e ser como Anthony. E nós só havíamos nos beijado na época. E como ele sempre era cuidadoso com certas coisas. - ela escutava atentamente - No fim, analisar algo assim não é sobre confiar no outro, mas em si e eu confio em mim quando afirmo que Harry não me traiu, mesmo que tenha ido ao tal encontro com Camille e meses depois aparecido a namorando, supostamente. - ela assentiu.
- E por que não voltou com ele? - eu suspirei.
- Por que apesar de ele não ter ficado com Camille naquela época, ele havia escondido algo e fugido completamente de sua culpa nisso. E eu sei que por conta de tudo que já passei com Tony eu não viveria feliz com Harry. - soltei todo o ar sentindo o peito apertar - Eu o amava, mas amor não é tudo e naquele momento não seria o suficiente. Eu estava insegura comigo mesma e qualquer coisa nos levaria para uma briga, que me levaria para um poço onde eu só me sentiria insuficiente não importava o que ele fizesse. - dei de ombros - Eu amava Harry, mas sair do nosso relacionamento naquela época foi um ato de amor próprio e de respeito, a mim e ao que eu sentia, e acho que de algum modo ao Harry e ao que ele precisava passar também. - ela tornou a assentir e eu parei em sua frente a fazendo me encarar - Ana, não sei o que está acontecendo, mas se posso te dar um conselho ele é: dê tempo ao tempo. Não faça essa análise agora. Se quiser chorar, chore, se quiser gritar, grite, se quiser quebrar algo, quebre. Tá tudo bem surtar às vezes. E depois desse tempo olhe pra você com carinho e cuidado. Veja o que você precisa e confie em você, por que mulheres sempre sabem. - ela sorriu de canto e eu vi seus olhos marejados. A puxei para um abraço que ela logo retribuiu. Não dissemos nada por longos minutos até Ana se afastar secando os olhos.
- Se a vida de fotógrafa não der mais certo, você pode tentar ser terapeuta. - eu gargalhei alto.
- Vou avisar a minha terapeuta que ela tem uma forte concorrente aqui. - apontei para mim mesma e Ana riu - Certo, o que quer fazer? Casa e pote de sorvete junto com algum filme antigo daqueles bem porcaria? - apontei para ela que riu.
- Não. Na verdade, o que acha de irmos a um show? - ela arqueou uma sobrancelha como quem acaba de ter uma ideia genial.
- Eu vou aonde você for, meu bem. - pisquei e ambas rimos.

[...]

O tal show era na verdade um evento da Pepsi em Miami. E quando Ana me disse que a Lizzo, a mulher que eu fotografaria em Nova York na segunda, cantaria foi o suficiente para que eu a arrastasse casa afora para irmos.
O carro de Ana parou na parte de trás do local para evitarmos o tumulto que poderia se formar caso entrássemos pela frente. O lugar estava lotado, mas Ana tinha passes para a área vip então quando os mostramos aos seguranças eles apenas desejaram um bom show. Eu já ouvia Lizzo cantar e era claro que havíamos chegado atrasadas. Um ano longe de Londres e eu havia perdido todo o meu senso de pontualidade.
Soulmate era cantada pelos fãs a plenos pulmões e quando eu e Ana tomamos nossos lugares no camarote já estávamos cantando a música junto a cantora. Nós dançavamos e riamos, enquanto cantávamos alto cada letra que ela cantava no palco. Dado momento Ana se afastou para atender o telefone e eu fiquei ali na beira do camarote.
Por um momento tive a impressão de ver uma camiseta com um rosto conhecido, mas ela se perdeu na multidão e eu voltei meus olhos para o céu. O tempo começava a escurecer deixando claro que uma chuva estava a caminho.
- ? - Ana tocou meu ombro e eu a encarei - O Brandon precisa que eu o busque no estúdio, ele está sem carro e precisa ir pra casa urgente. Se importa se eu for? - ela perguntou torcendo os lábios.
- Não, tá tudo bem. Vai lá, eu pego um uber e vou para o hotel. A gente se vê amanhã? - um sorriso se abriu em seus lábios e ela assentiu.
- Claro. - ela se aproximou me abraçando e eu retribui o ato.
- Fala pro Arreaga que ele me deve essa. - brinquei e Ana riu enquanto se afastava.
- Pode deixar. Se cuide e me avise quando chegar no hotel. - ela apontou já se afastando e eu assenti.
Me voltei para frente dançando enquanto Juice tocava. Lizzo tinha a melhor energia possível no palco e eu me pegava rindo a cada frase que ela soltava aleatoriamente no meio das músicas.
- ? - a voz já conhecida me fez virar de uma vez e sorrir ao encontrar o sorriso largo já conhecido por mim ali.
- Tomlinson! - me aproximei do britânico o abraçando enquanto ouvia Lizzo se despedindo do público já que seu show havia aparentemente acabado.
- Está me seguindo por acaso? - ele perguntou enquanto nos afastavamos e eu ri.
- Claro que sim, sou uma stalker agora. - estreitei os olhos e Louis riu - Parabéns pelo álbum, aliás, está incrível. - elogiei e ele jogou as mãos de modo tímido prendendo o sorriso.
- Já tem uma favorita? - questionou.
- Defenceless. - respondi sem nem pensar e ele arqueou as sobrancelhas.
- Rápida. E a…
- Nem me pergunte a minha menos favorita, você não vai gostar da resposta. - informei e ele riu.
- Só me diz que não é Kill my mind. - ele juntou as mãos e eu sorri.
- Não é essa. Eu amei essa desde que você me mostrou em Los Angeles. - balancei a cabeça e ele apenas comemorou me fazendo rir - Mas e aí o que faz aqui? Vai cantar essa noite? - apontei sobre o ombro e vi Louis franzir o cenho enquanto ria.
- Não, eu na verdade vim para ver o Harry. - no momento em que o nome saiu de sua boca minhas pernas bambearam.
- Harry? Que Harry? - questionei enquanto torcia para ele estar falando do príncipe Harry ou até mesmo do Harry Potter.
- O Styles, . - ele soltou e abriu a boca surpreso em seguida - Espera, você não sabia que ele ia cantar aqui? - eu neguei lentamente com a cabeça e por um momento ele pareceu sério para depois rir - , a cara dele está por toda a cidade. - Louis declarou o óbvio.
- Eu cheguei e fui direto trabalhar, depois andei pela praia com a Ana. Eu não vi nada, se tivesse visto não estaria aqui. - bufei passando as mãos pelos cabelos.
Antes que ele pudesse dizer algo ouvi a multidão urrar em desaprovação e me virei para ver o que acontecia. No telão um aviso informava que o show seguinte havia sido cancelado por conta do mau tempo e de um aviso de forte tempestade.
- Droga. - murmurei e Louis estava parado do meu lado parecendo chocado - O que foi? - questionei e ele torceu os lábios.
- O próximo show era o do Harry. - ele me encarou e eu suspirei jogando a cabeça.
Era a véspera do aniversário de Harry, ele iria passar a virada daquele dia no palco, disso eu tinha certeza. E se bem conhecia Harry - coisa que eu sabia que sim depois de metade da Live on tour com ele - algo que ele amava era estar no palco e dar seu melhor às pessoas, e se ele não podia fazer aquilo ele ficava verdadeiramente mal.
- Vem, eu vou te levar para o seu hotel antes que essa tempestade comece. - Louis informou e eu neguei com a cabeça.
- Não, vai ficar com o Harry. Você melhor que ninguém sabe como ele está agora por isso. Pode deixar que eu pego um uber e vou para o hotel. - Louis pareceu que começaria uma discussão e eu apenas levantei o dedo - Lou, faz isso, por favor. - pedi e ele bufou.
- Garota, essa tua cara de cachorro que caiu da mudança funciona muito bem. - ri fraco.
- Eu sei. Vamos, eu vou para os fundos pedir um carro de lá. - puxei Louis pelo braço e ele me seguiu.
Fiz o mesmo caminho que havia feito com Ana e em certo ponto me despedi de Louis já que ele iria para o camarim e eu seguiria pelo outro lado em direção a saída dos fundos. Havia muita gente transitando por ali e eu sabia que estavam se apressando em guardar tudo que a água da chuva pudesse danificar.
Peguei o celular já pedindo pelo carro e quando confirmei a corrida tirei meus olhos do aparelho encontrando um aglomerado de pessoas à minha frente. Elas olhavam por um vão que dava visão do público e murmuravam algo no qual eu não me atentei, apenas pedi licença e passei por algumas pessoas atravessando aquele grupo.
Um baque surdo me fez encolher no lugar pelo susto e em seguida me fez me virar na direção do barulho. Alguém havia derrubado uma caixa de som. Dei uma olhada me certificando de que a pessoa estivesse bem e logo estava me preparando para voltar a minha caminhada, mas um par de olhos do outro lado do grupo de pessoas que eu havia acabado de atravessar me fez sentir o estômago afundar.
Ele usava uma camiseta branca de gola, com calças marrons. Os cabelos estavam uma bagunça, a barba havia crescido um pouco e seu semblante surpreso me entregava que ele havia me visto. Eu prendi a respiração ao o ver sibilar um “” e dei um passo para trás meio atordoada. Ele não se moveu, apenas me encarou como se tentasse discernir se estava realmente me vendo ali.
Eu quis chorar. Quis muito chorar. Era diferente vê-lo e saber que também havia sido vista. Era como se ele saber que eu estava ali trouxesse a tona a dor de que não nos pertenciamos mais e mesmo depois daquele tempo, aquilo ainda era doloroso.
E com um nó na garganta foi que eu me afastei. Primeiro a passos lentos para trás enquanto ele franzia o cenho e em seguida me virando e acelerando o passo, quase chegando a correr.
- ! - o ouvi gritar, mas apenas me mantive correndo.
Quando alcancei o lado de fora a chuva já caia e o uber havia cancelado a corrida me fazendo bufar pensando em ir andando até algum lugar longe dali.
- ? - dessa vez a voz conhecida não era nem de Harry nem de Louis. E assim que me virei encontrei Lizzo parada na porta de um carro em uma área coberta do estacionamento.
- Hum… Oi. - acenei e ela sorriu. Como ela sabia meu nome?
- Você é a fotógrafa que vai fazer meu photoshoot na segunda não é? - ela perguntou e eu assenti - Ai que ótimo te conhecer. - ela estendeu a mão e eu me aproximei a segurando.
- Desculpa, é muito estranho você saber quem eu sou. - soltei e ela riu.
- Admiro seu trabalho desde a época da turnê do Harry. - o citar do nome de Styles me fez voltar a realidade de que a qualquer momento ele poderia aparecer ali - Aliás ele está aqui, quer entrar e vê-lo? - ela apontou para o local de onde eu havia saído.
- Não. Eu preciso ir na verdade. Preciso encontrar um uber para me levar de volta para meu hotel antes dessa chuva começar de vez. - soltei de uma vez e ela me encarou com curiosidade.
- Seu hotel é muito longe daqui? - ela questionou.
- Não muito, a uns dez minutos de carro. - informei e ela assentiu.
- Paul. - ela chamou alguém dentro do carro - Leva a aqui para o hotel dela. Eu tenho algumas coisas pra terminar de resolver lá dentro, então dá tempo de você ir levar ela e depois me buscar. - ela informou e eu arregalei os olhos.
- Não, não precisa eu posso…
- Garota, não discuta. Se tem uma coisa que eu aprendi na vida é que se uma mulher tem essa emergência para ir em algum lugar a coisa é séria. Apenas aceite, Sunshine. - ela soltou o apelido e eu ri fraco.
- Tudo bem. Muito obrigada por isso. - soltei e ela jogou a mão como se não fosse nada.
- Me agradeça tirando fotos maravilhosas de mim na segunda, ok? - eu ri assentindo - E me dá um abraço aqui por que essa coisa de apertar a mão não é comigo. - ela abriu os braços e eu tornei a rir a abraçando. Quando nos soltamos eu sorria.
- Agora eu vou entrar no carro pra surtar. - apontei ela gargalhou alto - Obrigada Lizzo, nos vemos na segunda. - acenei já subindo no veículo e ela fez o mesmo fechando a porta para mim.
No mesmo instante em que Paul ligou o motor do veículo e começou a sair com ele eu vi Harry chegar olhando para os lados e suspirei. Ele se aproximou de Lizzo e perguntou algo fazendo a cantora apontar para o carro e ele o encarou me fazendo baixar o olhar.
Me encostei no banco e suspirei novamente deixando algumas lágrimas rolarem por causa de Harry Styles.


CAPÍTULO 2

Fevereiro, 2020 - Miami, USA.

This city's got me chasing stars
It's been a couple months since I felt like I'm home.



Harry

Cancelado. Essa era a notícia que eu havia acabado de receber. Que meu show naquela noite havia sido cancelado por conta de uma tempestade que se aproximava.
- Harry eu conversei com o pessoal da organização e realmente não vai ter como fazer o show. Miami está sob alerta por conta dessa tempestade. Eles já colocaram um anúncio de que o show foi cancelado. - Kevin me informou do outro lado do telefone. Ele estava em Londres resolvendo algumas coisas em relação a nova turnê e aproveitando as férias de junto a ela. Eles haviam engatado em um namoro sério em meados de novembro de 2018 e desde então se mantinha firmes, fortes e aparentemente extremamente apaixonados.
Depois de ganhar broncas e xingos de por conta do término e depois de ela superar o seu ódio por mim -coisa que levou cerca de quatro meses depois que ela começou seu namoro com Kevin, e nossa distância em dois meses que estive no Japão- nós nos tornamos amigos. Conversávamos sobre muitas coisas da vida e até saímos para alguns passeios juntos sem o Kevin. Ela nunca me deu nenhum tipo de informação sobre , por isso depois de insistir algumas vezes decidi que o melhor a fazer era fingir que ela não sabia de nada.
- Tudo bem Kev. Vou publicar um anúncio no twitter para que as pessoas vão embora em segurança. Obrigado por isso. - agradeci meio decepcionado por conta do cancelamento.
- Meu trabalho, mate. Tome cuidado, sim? - pediu.
- Pode deixar. Mande um beijo para a por mim. Tchau. - e dito isso desliguei o telefone apertando minhas têmporas - É gente, não tem como. O show precisou ser cancelado. - informei a banda que estava ali comigo.
- Não fica assim, Harry. - Sarah se aproximou me abraçando pelo ombro - Em breve você vai poder compensá-los. - incentivou e eu sorri fraco.
- Obrigado. - sussurrei.
- Eu preciso ir ver a retirada dos instrumentos. Alguém vem comigo? - Mitch perguntou.
- Eu vou, só me dê um minuto pra publicar essa nota no twitter. - pedi já pegando o celular e digitando o pedido de desculpas. Eu me sentia muito mal quando esse tipo de coisa acontecia. Decepcionar as pessoas era algo que eu odiava fazer e naquele momento meu coração pesava no peito.
Segui com Mitch, Sarah e o resto da banda para uma área que ficava atrás do palco principal. Por indicação da equipe que organizava o evento eles acharam melhor nenhum de nós subir ao palco já que aquilo poderia causar alvoroço, então nós apenas ficamos por ali. Havia mais um grupo de pessoas além da minha equipe ali que observava tudo e conversava já que enquanto as coisas não chegassem ali não poderíamos fazer nada. Meu celular vibrou no bolso e eu o peguei encontrando uma mensagem de Louis.

Louis:
Onde você está? Vim te procurar no camarim. 12:36am

Harry:
No backstage. Viemos pegar os instrumentos 12:36am



Foi tudo que respondi até ouvir o baque de algo caindo no chão e me assustar. Havia sido uma caixa de som e todos pareciam bem. Eu ia informar para Mitch que iria encontrar Louis, porém assim que me virei eu a encontrei.
Pensei por um momento que pudesse ser um delírio meu, porém eu sabia que não. Não havia como ser. Por que o meu delírio era uma diferente da que vi da última vez. Mais magra, de cabelos mais longos e um pouco mais claros nas pontas. Eu jamais a imaginaria daquele modo, sua imagem em minha mente ainda era a única que eu conhecia.
Seus grandes olhos castanhos ainda eram os mesmos e eles logo estavam sobre mim. Ela claramente parecia surpresa, tanto quanto eu, talvez.
- ? - foi o sussurro que saiu de minha boca e aquilo pareceu acordá-la do seu transe. Com passos incertos ela caminhou para trás devagar e quando meu corpo, por puro impulso começou a caminhar também, ela correu - ! - gritei por um impulso.
- Quem? ? Onde? - a voz de Mitch irrompeu atrás de mim, porém eu queria alcançá-la então não dei importância.
Havia um tumulto de pessoas que travavam o corredor e demorei algum tempo até conseguir passar por eles, porém assim que passei iniciei uma corrida para encontrar .
Quando alcancei o estacionamento -depois de trombar em algumas pessoas e cair uma ou duas vezes- um carro deixou o lugar e Lizzo veio em minha direção com um largo sorriso.
- Harry! A estava aqui agora mesmo, meu motorista foi deixá-la no hotel. - ela apontou o carro que agora se dirigia à saída do local e eu o encarei. me olhou por um momento se virando para frente em seguida.
- Droga. - murmurei vendo o carro virar no fim da rua.

[...]

. Esse era o único nome que passava por minha mente enquanto eu encarava o copo à minha frente. Ela estava diferente, mais magra, os cabelos mais longos e claros, mas ainda era ela e eu a reconheceria em qualquer lugar. Ela estava lá, naquele show, mas por que? Para me ver?
Louis havia me encontrado um pouco mais tarde naquele dia e me dito que a havia encontrado e que ela havia lhe dito que não sabia que eu me apresentaria naquela noite. Eu acharia improvável, mas era e aquilo não seria uma surpresa vindo dela. Louis precisou ir para Nova York já que teria uma sessão de autógrafos de seus novo álbum no dia seguinte e por estar em Miami ele havia passado apenas para me ver e dar os parabéns por meu aniversário.
Eu iria apenas para o hotel e dormiria já que o show havia sido cancelado, porém Lizzo acabou me arrastando para um bar badalado de Miami junto a seus amigos para me fazerem companhia, já que era meu aniversário e segundo Lizzo ninguém merecia passar o aniversário sozinho, muito menos depois de um pé daquele.
Eu estava claramente bêbado naquele momento, afinal alguns copos de tequila sunrise e sex on the beach já haviam passado por mim. Naquele momento uma margarita havia sido servida e eu claramente estava fazendo o que me viesse à mente, já que havia acabado de perguntar ao barman que horas ele saía enquanto sofria pela falta de . Definitivamente não era daquele modo que eu resolveria meu sofrimento, mas pensar com clareza não era algo que eu fazia bem quando bebia demais.
Enquanto mexia no celular e respondia a algumas felicitações de aniversário, eu pensei por um momento e abri minha lista de contatos. Ela não tinha mais o mesmo número, eu sabia por que já havia tentado ligar diversas vezes, mas com certeza tinha o número dela, ou Louis. E se eu ligasse pedindo? Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, o aparelho foi retirado de minhas mãos.
- Certo, certo garotão, vamos lá, desembucha. - a voz alta de Lizzo ecoou ao meu lado e eu a encarei - Aquela garota saiu correndo de você igual ao diabo corre da cruz, e nenhuma mulher em sã consciência foge do senhor Styles daquele modo, não sem um bom motivo pelo menos, então me conte. - ela indicou com as mãos e eu respirei fundo.
- Nós namoramos um ano e meio atrás, mais ou menos. - comecei e ela me encarou como quem diz "você jura? Não fazia idéia" por que era claro que ela sabia - Só que eu fui um grande idiota e estraguei tudo e agora ela não quer me ver nem pintado de ouro. - as palavras saiam enroladas de minha boca - Talvez se eu me pintar da cor favorita dela… Você tem um grande balde de tinta azul? - Lizzo riu alto enquanto eu tinha uma cara de quem realmente cogitava a ideia, por que eu estava realmente cogitando.
- Eu não consigo nem imaginar o tipo de merda que você possa ter feito pra aquela garota correr de você daquele jeito. Quero dizer, você matou o cachorro dela? - eu neguei com a cabeça rindo e Lizzo me acompanhou - Eu te conheço Harry. Sei que o cara que fez seja lá o que for pra ela já não existe mais. Apesar de ter errado com ela no passado, você aprendeu com seu erro. Certo? - ela perguntou e eu assenti - A única grande questão é que ela não sabe disso, porque o último Harry Styles que ela viu foi um babaca. Então é normal que ela fuja. Dê tempo ao tempo, se vocês se encontraram aqui hoje eu acredito que vão voltar a se encontrar em outro momento e uma hora ou outra essa garota vai te dar a chance de se desculpar. - o tom de Melissa era tranquilo e compreensivo, o que me fez ter esperança em suas palavras e sorrir.
- É, eu acho que sim. - comentei baixo e a vi sorrir.
- Ótimo. Agora vamos te tirar dessa fossa, porque homem, você está deprimente. - ela me apontou com a mão e uma expressão de insatisfação no rosto - Johnny! - ela gritou em direção ao DJ do bar e eu segui seu olhar - Toca aquela pra mim. - pediu sorrindo e em seguida tornou a me encarar - Vamos lá Harry, cante essa comigo. - e no instante seguinte a melodia de Good as hell ecoava por todo bar me fazendo rir alto.
Lizzo iniciou a canção se levantando e me fazendo acompanhá-la para dançarmos. A princípio eu me mexia meio sem ânimo, mas conforme fui vendo a animação de Melissa e de algumas pessoas ao nosso redor aquilo me contagiou.
- If she don't love you anymore. - Lizzo cantou para mim - Walk your fine ass out the door. - ela gargalhou dando alguns tapas na minha bunda e eu gargalhei alto.
- I do my hair toss, check my nails. - mostrei a elas minhas unhas recém pintadas de rosa claro.
- Harry, how you're feelin? - ela perguntou.
- Feeling good as hell! - gritei e ela gargalhou - Hair toss, check my nails. - repeti jogando os cabelos e mexendo as unhas.
- Baby how you're feeling?
- Feeling good as hell! - gritei novamente.
- Oh Harry, how you're feelin? - ela tornou a questionar como quem não ouviu.
- Feeling good as hell! - e rindo nós terminamos de cantar. Definitivamente era uma música que te tirava do fundo do poço.
Talvez Lizzo estivesse certa. Talvez eu tivesse a chance de reencontrar e me desculpar. Talvez não fosse tão cedo, mas em algum momento eu teria. E mal podia esperar por isso.

Fevereiro, 2020 - Los Angeles, USA

A luz do sol começava a entrar no quarto junto ao cheiro de maresia vindo da praia. Aquela era uma das melhores coisas sobre aquela casa na Califórnia; estar perto do mar e poder acordar com barulho de ondas às vezes. Eu amava Londres, isso era um fato, porém fugir dos dias frios e chuvosos da terra da rainha às vezes era bom.
Depois de Miami eu precisei voltar para Los Angeles para algumas reuniões e aquele era o último dia em que estaria na cidade. Depois eu voltaria para casa até que meu próximo compromisso surgisse, o que deveria ser apenas depois do Brits.
Naquela manhã o sol brilhava lá fora e depois de enrolar por alguns minutos na cama eu me levantei decidido a ir atrás do café da manhã. Vesti a primeira roupa que encontrei jogada pelo quarto e já que aquele era um dia quente, até mesmo para Los Angeles, decidi que iria de carro.
Tentei dois cafés não muito longe da minha casa, porém ambos estavam fechados. Foi então que um certo menu de café da manhã que a muito eu não comia me veio a mente fazendo meu estômago pedir por ele.
Dirigi até o endereço já conhecido por mim e parei a alguns metros da porta do café. Eu conseguia me lembrar com clareza da última vez que havia ido a aquele lugar, e a mesma sensação me invadia naquele momento. Não era o mesmo sem ela. E acho que nunca mais seria.
Assim que me aproximei da porta notei um homem com algumas caixas vindo naquela direção e abri a mesma esperando que ele entrasse. Ele me retribuiu com um sorriso e sumiu para dentro do local. Caminhei em direção ao balcão, mas contive meus passos alguns metros antes dele. Aquilo não era possível. Era? Duas vezes na mesma semana em dois estados diferentes?
- O café acabou. Gostaria de pedir outra coisa? - a atendente perguntou a garota parada a frente eu sabia exatamente o que ela estava pensando "como é possível acabar o café de uma cafeteria?". Na última vez que estive ali eu pensei a mesma coisa quando me informaram que não havia mais café.
- O café deles é um tipo especial de café. - iniciei e a vi paralisar no lugar - É colhido em uma fazenda específica que não me lembro agora onde é, mas tem toda uma questão de agricultura orgânica por trás. - ela se virou para me encarar e a expressão de surpresa em seu rosto era clara - É por isso que o café acaba às vezes. Porque a produção não é em massa como em métodos agrícolas convencionais. - terminei e ela se manteve paralisada em seu lugar.
- Ele está certo. - a atendente declarou com um sorriso - Mas acabaram de me informar que o rapaz que entrega nosso café acabou de chegar, então agora a senhorita pode pedir seu. - eu ri fraco com a coincidência. Eu havia voltado a aquele café três vezes depois do término com . Nas duas primeiras me informaram que não havia mais café, e acabei por criar um tipo de metáfora em relação a aquilo em uma das estrofes de Falling. E agora, como que para comprovar que estava certo, na terceira vez estava ambos ali, e o café havia voltado.
- Hum… Eu… - ela se virou encarando a atendente e eu sabia que estava planejando ir embora o mais rápido possível - Um café com leite e um bronson por favor. - ela pediu e passou o dinheiro para a atendente que logo estava preparando o que ela havia pedido.
- ? - a chamei e a vi pressionar os lábios. Ela se virou e me encarou sem dizer nada - Não vai realmente falar comigo? - questionei e ela suspirou.
- Eu só não sei o que dizer Harry. - a voz baixa e o suspiro seguinte me aceleraram o coração. Eu queria abraçá-la. Queria muito. Mas sabia que não deveria. Ela não queria aquilo.
- O que acha de começar me dizendo se está bem? - perguntei calmo e ela mordeu o lábio e cruzou os braços. Suas mãos tremiam e ela queria esconder aquilo. Eu a vi fazer aquilo diversas vezes.
- Hum… É, eu estou sim. - ela forçou um sorriso - E você? - questionou parecendo nervosa e querendo ganhar algum tempo.
- Estou bem. - respondi sorrindo - O que faz na cidade? - questionei. Os assuntos nunca tiveram aquele tom desconfortável entre nós e era estranho que agora tivessem.
- Trabalho. Uma reunião com o pessoal da Alternative Press. - comentou meio sem jeito e eu sorri. Ela realmente estava trabalhando com muitos lugares incríveis. Ela era uma profissional maravilhosa e merecia aquilo - Você está fazendo shows por aqui? - ela perguntou me apontando.
- Não, a turnê ainda não começou. Estou apenas com alguns shows para divulgação do novo álbum. - comentei e ela assentiu.
- Entendo. Sinto muito pelo show de Miami, você deve ter ficado bem chateado com o cancelamento. - ela torceu o lábio e eu assenti. Eu deveria perguntar o por que dela ter fugido? Achei melhor não.
- Acontece. Ossos do ofício. - soltei dando de ombros e ela sorriu de modo pesaroso.
- Aqui está. - a atendente voltou entregando para o café e um saco de papel.
- Obrigada. - ela sorriu para a mulher se virando para mim em seguida - Eu preciso ir, ainda tenho um vôo para pegar hoje. - ela mordeu o lábio e em sua mão eu via o que ela segurava tremer - Feliz aniversário, a propósito. Sei que já passou, mas… - ela deu de ombros deixando a frase solta. Um sorriso surgiu em meu rosto. Ela havia se lembrado - Se cuida Harry. - ela sorriu e passou por mim indo em direção a porta.
- ? - chamei me virando e ela o fez ao mesmo tempo meio receosa - Eu ainda vou te ver? - questionei e ela suspirou.
- Eu não sei, Harry. Realmente não sei. E também não vou prometer nada. - nesse momento seu tom era sério e firme, e aquilo me atingiu em cheio. Por suas feições eu soube: ela não queria marcar de sair, ou trocar números de telefone. Talvez não fosse me evitar por termos os mesmos amigos, mas definitivamente ela não planejaria algum tipo de programa me incluindo em sua lista de convidados.
- Entendo. - eu sentia o coração pesar no peito e a vontade de chorar crescer - Se cuida, . - sussurrei e ela assentiu. Os olhos dela se encheram d'água, eu notei, mas apenas deixei que fosse.
Sem dizer mais nenhuma palavra ela se virou e saiu do café, me deixando ali, parado no meio do local. Do lado de fora um flash me chamou atenção e eu notei que havia um paparazzi por lá. Definitivamente sair chorando ou triste não era uma opção, já que com certeza haviam me visto com e a história em meio aos fãs seria de que ela havia feito algo e eu não queria aquilo pra ela.
Então, depois de tomar meu café da manhã por lá, eu deixei o café colocando meus óculos escuros e com a minha melhor cara de despreocupação, apesar de meu coração estar pequeno no peito. Era a segunda vez que eu a via. Era a segunda vez que ela ia embora sem eu ter a certeza de quando a veria novamente. Porém algo me dizia que aquilo aconteceria em breve. E eu só podia esperar estar certo.


CAPÍTULO 3

Fevereiro, 2020 - London, UK.
And I see the world so different now
'Cause there's a place by the sea and that's my town.






Eu esperava minha mala passar pela esteira no Heathrow. Depois de um ano e meio havia uma certa nostalgia em estar ali de volta. Era como quando havia me mudado para lá no início da faculdade. Pelo menos a sensação era.
A sensação de que a todo momento eu poderia encontrar Harry também havia aumentado. Depois de Miami eu achei que as coincidências deixariam de acontecer, porém encontrá-lo em Los Angeles havia sido um banho de água fria no meu plano de mundo ideal.
Encontrar Harry no Beachwood foi a primeira coisa que me fez tremer daquele modo no último ano. Minhas mãos suaram e eu demorei a deixar de tremer, mesmo depois de deixar o café. Havia sido nossa primeira conversa durante aquele tempo, e eu não esperava ter ficado mexida daquele modo, porém fiquei. Eu não esperava ter Harry de volta em minha vida tão cedo assim, mas aparentemente meus planos nunca iam de acordo com o previsto.
Claro, eu havia ido ao Beachwood, porém qual era a probabilidade de ambos estarmos em Los Angeles, no mesmo lugar da cidade, na mesma hora?
Harry ser um stalker maluco estava fora de cogitação. Quero dizer, ele não era nenhum tipo de Joe que faz planos malucos para encontrar garotas por aí como se fosse casual, certo? Ok o fato de eu estar colocando aquilo como uma opção era um claro sinal que eu tinha que parar de assistir You.
Quando avistei a mala preta com adesivos de heróis vindo em minha direção eu a aguardei. Coloquei a mão sob a mala, porém o peso claramente era mais do que eu podia aguentar.
- Laisse moi t'aider.* - a voz de quem me ajudará era aparentemente desconhecida, porém assim que me virei para agradecer, encontrar aquele par de olhos esverdeados ali me fez prender a respiração.

Eu sou uma piada para você, Deus?

Os olhos concentrados em mim em surpresa e o sorriso se desfazendo me fez entender que o meu rosto não lhe era estranho.
- Obrigada. - respondi engolindo em seco e me movendo de modo desconfortável em seguida.
- Por nada. - ela estava tão desconfortável quanto eu. Puxei a alça da mala preparada para sair dali - Você é a , não é? - ela perguntou assim que fiz menção a começar andar. Eu poderia apenas ignorar, mas de fato não conseguia.
- É, sou sim. - respondi forçando um sorriso - Preciso ir, minha amiga está…
- Eu sinto muito. - ela soltou de uma vez e eu respirei fundo - Eu não devia ter ligado naquela noite. - ela iniciou e eu apenas suspirei.
- Camille, eu honestamente não estou com tempo, nem cabeça para ouvir nada disso. Você fez o que fez, Harry fez o que fez e no fim tudo deu certo para vocês dois, afinal ficaram juntos. Então apenas esqueça isso. - eu a vi franzir o cenho confusa.
- Ficamos juntos? - questionou e eu suspirei.
- Não é dá minha conta. Agora com licença, obrigada pela ajuda e passar bem. - sorri de modo forçado puxando a mala e ouvir murmurar de modo mau humorado um “mas do que é que você está falando?”, porém não parei para discutir, apenas segui até o desembarque onde e Kevin me aguardavam.
Segui por todo o Heathrow e quando cheguei às escadas rolantes avistei e Kevin lá em baixo. Kevin segurava o rosto de enquanto lhe beijava a ponta do nariz e ela parecia emburrada. Sorri comigo mesma sentindo o peito se aquecer. Eu estava de volta em casa.
- Sai dai, Hawley. Você já a teve por tempo suficiente. - informei quando estava a alguns metros dos dois e se virou de um vez sorrindo largo e correndo em minha direção.
- ! - ela me abraçou pela cintura e me levantou do chão com facilidade. Eu gargalhei a abraçando também e ouvi seu choro fraco. Apertei meus braços ao seu redor e ela me colocou no chão.
- Certo, eu estou ficando assustada porque você está chorando. - comentei e a ouvi rir.
- Sua grande idiota. Eu aqui chorando de saudade e você zombando da minha cara? - ela se afastou e me acertou um tapa me fazendo rir.
- Eu também senti saudade, . - declarei com um sorriso e ela fez um bico com os olhos se enchendo de lágrimas de novo - Ok, esse namoro de vocês definitivamente te deixou mais coração mole. O que você fez Kevin? - questionei vendo ele rir enquanto se aproximava.
- Nada, ela que ficou desse jeito ai. - ele apontou me fazendo rir - Me dá um abraço, . - pediu abrindo os braços e eu me aproximei o abraçando. Apesar de tê-lo visto em dezembro no The Forum, era completamente diferente de poder matar a saudade daquele modo - Senti sua falta. - ele sussurrou me sacudindo e me fazendo rir.
- Também senti sua falta. Agora será que pode parar de fazer milk shake de mim? - pedi e ele gargalhou.
- Certo, certo. - declarou se afastando.
Eu encarei os dois por um momento e de repente senti meu coração se aquecer. Eu os amava tanto e saber que estavam juntos e felizes era algo que me fazia sentir feliz e acreditar que talvez algum dia alguém voltasse a olhar para mim daquele jeito.
- Vamos. Hora de te deixar em casa. - informou me puxando enquanto Kevin puxava minha mala - Aliás, agora que está de volta, o que acha de adotar um cachorrinho? A senhorita Chase teve filhotes. - ela ofereceu e eu ri fraco.
- Mal cheguei a cidade e já querem me arranjar filhos? - questionei revirando os olhos - Ótimo, quando posso pega-lo? - aquilo fez Kev e rirem. Eu viajaria menos e seria bom ter alguém com quem dividir a casa. Definitivamente uma vida nova estava começando.

[...]

No fim acabamos indo a casa de para que eu conhecesse o filhote e claramente eu me apaixonei por ele de cara. Porém não podia levá-lo para casa comigo ainda, porque ele era muito novo e havia toda a fase de amamentação necessária. Não havia um nome ainda, mas em breve eu pensaria em algo.
Depois de várias horas onde eu e o pequeno filhote quase não nos desgrudamos, Kevin me deixou na porta de meu prédio. O porteiro ainda era o mesmo, e me recebeu com um largo sorriso.
A música do elevador ainda era a mesma, e ainda me causava irritação, mas havia um tipo bom de nostalgia. Quando a porta se abriu e eu segui pelo corredor até a entrada da minha casa eu suspirei, abrindo a porta em seguida.
Tudo estava no lugar, exatamente como eu havia deixado. Estava tudo limpo o que indicou que com certeza havia mandado alguém ir até o lugar enquanto estive fora. Haviam flores novas nos vasos e cheiro de desinfetante pela casa.
Eu abri as janelas e segui para meu quarto fazendo o mesmo por lá. Deixei as malas em um canto e caminhei pelo lugar. Era estranho ter crescido em um lugar e passado anos lá, e de repente encontrar minha casa, o lugar onde sentia pertencer a um oceano de distância.
Me apoiei na mesinha rindo fraco quando senti minha mão esbarrar em algo. Eu conhecia aquele objeto. Era um anel. Um anel de flor. Era o anel de Harry. Por um momento me questionei o que ele poderia estar fazendo ali, mas me lembrei que da última vez que Harry esteve em meu apartamento ele havia o perdido e logo em seguida veio o término. Deveria estar debaixo da cama ou algo assim.
Peguei ele em minha mão e o encarei. A lembrança da noite do show de Seattle me invadindo.

Julho, 2018 - Seattle, EUA

Era madrugada e eu olhava a vista à minha frente da sacada do quarto de Styles. Eu havia acordado no meio da noite e ido para ali, encarar a vista já que o sono parecia ter me abandonado. Uma brisa fria me atingia o rosto enquanto eu estava enrolada em um roupão felpudo.
Não demorou muito para que duas mãos estivessem me abraçando pela cintura e um beijo fosse depositado em meu pescoço. Eu toquei a mão de Harry onde o anel repousava mexendo nele. Era uma mania.
- Perdeu o sono? - ele questionou com sua voz rouca e apoiando seu queixo em meu ombro.
- Sim, não quis te acordar e vim pra cá, mas claramente falhei na minha missão. - dito isso ele riu fraco.
- Eu sempre acordo quando você não está na cama. - confessou e eu sorri virando um pouco a cabeça para encará-lo, depois voltando a olhar para frente e voltando a brincar com o anel - Estamos em Seattle. Temos que fazer alguma daquelas promessas tipo Cristina e Meredith? Ou escrever nossos votos num post it pra dar boa sorte? - eu ri e me virei para encará-lo.
- Harry, o Derek morreu e a Cristina foi embora. Isso não deu tanta sorte assim. - soltei e ele gargalhou. Aquela risada espontânea e escandalosa dele.
- Certo. Então vamos fazer algo nosso. - ele segurava minha cintura e manteve suas mãos ali enquanto eu envolvia seu pescoço - Você é meu lugar. - eu franzi o cenho.
- Seu lugar? - questionei rindo fraco.
- Sim. Eu acho que todos podemos ter um lugar para nos sentirmos bem, nos sentirmos nós mesmos, entende? E esse lugar pra mim é onde você está. Então você é o meu lugar. - eu sorri fraco enquanto balançava a cabeça em negação.
- Harry Styles, você é um clichê, definitivamente. - comentei o beijando rapidamente - E eu te amo. - sussurrei vendo um largo sorriso surgir em seu rosto.


Fevereiro, 2020 - London, UK.

Os meus pensamentos foram interrompidos pela minha campainha tocando e eu apenas deixei o anel ali seguindo para a porta da frente. Assim que a abri dei de cara com Louis que havia marcado de ir me visitar naquele dia, porém achei que não iria mais aparecer por conta do horário.
- Como foi a viagem? - ele perguntou esticando a mão e fizemos um toque enquanto ele entrava.
- Tranquila na verdade. - dei de ombros - Onde está Els? - questionei assim que notei que ele estava sozinho e apenas fechei a porta seguindo com ele para o sofá.
- Foi ao aniversário de uma amiga. Um tipo de jantar das garotas. - ele deu de ombros pegando seu celular do bolso e abrindo um aplicativo de delivery - Pizza? - questionou me encarando e eu assenti.
- Elas foram para o clube das mulheres, isso sim. - brinquei e ele riu.
- É ótimo saber o tipo de coisa que você faria no seu aniversário. - ele provocou e eu gargalhei.
- Não vou negar, porque é exatamente o que estou planejando para esse ano. - soltei e ele riu bloqueando o celular em seguida.
- Eu não duvido. - ele me encarou - Pepperoni pra você, margherita pra mim. - informou e eu sorri agradecida - Então, que história é essa de ter encontrado Styles por Los Angeles? - eu franzi o cenho. Como ele já sabia daquilo?
- Eu fui a uma cafeteria, ele apareceu por lá, nós trocamos dez minutos de assunto e eu fui embora. - dei de ombros e ele estreitou os olhos pra mim.
- Só isso? - questionou e eu assenti.
- Sim. Como é que você já sabe disso? - ele revirou os olhos.
- Querida, eu posso não publicar muitas coisas na internet, mas eu estou na internet a todo momento e a sua cara está em todo o canto. - revirei os olhos e joguei a cabeça para trás.
- Eu nem olhei esse celular ainda. - murmurei indicando o aparelho que se encontrava na mesa de centro - Enfim, não foi nada. - dito isso ouvi meu celular tocar e revirei os olhos - Se for alguém me pedindo declarações, as declarações que vou dar não são nada gentis. - me inclinei para pegar o aparelho e vi o nome de Letticia piscando ali o que me fez sorrir - Mal deixei o país e você já está morrendo de saudade? - questionei assim que sua imagem apareceu na tela.
- Bem que você queria. - soltou em tom de deboche e eu ri - Tá sozinha? Tá podendo falar? - questionou e eu me apoiei no sofá e colocando o celular de modo que ela pudesse ver Louis.
- Louis tá aqui, mas pode falar, ele não vai contar pra ninguém. Não é Tomlinson? - nesse momento Louis pareceu notar que estava tudo bem participar da conversa e deixou seu celular de lado - Lou essa é a Letticia. - apresentei e o vi franzir o cenho.
- Ei, eu te conheço. - ele apontou ela riu - A gente bateu juntos em um cara em um bar. - afirmou e Letticia gargalhou assentindo.
- Sim, sou eu mesma. Inclusive precisamos marcar aquilo de novo. - ela soltou e Louis riu.
- É, precisamos. Eu fiquei de te mandar mensagem, mas troquei para um android e sou uma negação com isso. - ele mostrou o celular e eu gargalhei.
- Isso é a mais pura verdade. Ele parece um velho usando celular. - impliquei e Louis me empurrou de leve rindo junto comigo em seguida - Mas diz aí, o que tu queria falar? - passei o celular para Louis sentindo meu braço doer.
- Você viu o último surto dos fãs do Harry? - ela perguntou e eu revirei os olhos.
- Gente, sequer tem uma foto de nós dois juntos. Só saímos do mesmo café. - murmurei insatisfeita.
- Não, não é só isso. Saíram as fotos do café e teve um surto, mas umas garotas falaram que te viram em um show do Harry em Los Angeles em dezembro e não te reconheceram já que você tá diferente. Tem até umas fotos do show onde a tal garota aparece, mas a foto não tem qualidade nenhuma. - ela comentou já rindo - Gente, sério, essa galera inventa cada teoria. - ela soltou e vi Louis franzir o cenho. Droga, droga, droga.
Fato era: eu não havia contado a ninguém que havia ido a aquele show. Eu não queria dizer que minha curiosidade havia sido maior do que eu, muito menos para Letticia e Louis que haviam sido as pessoas a mais ameaçar acertar socos em Harry - coisa que eu acho que Louis havia feito de todo modo. E eu pretendia manter aquilo em segredo, porém claramente o universo estava contra mim.
- Você tem essa foto? - Louis questionou Letticia que ainda ria.
- Vou te mandar, abre aí o whatsapp da . - e naquele momento meu estômago embrulhou. Enquanto Louis olhava a imagem ainda tentando assimilar se era eu, eu tentava respirar o mais calmamente possível.
- Não dá pra ver nada. - Louis concluiu por fim abrindo a ligação no facetime novamente. Porém agora era a cara de Letticia que me preocupava, ela havia parado de rir e encarava a tela com o cenho franzido.
- . - ela chamou e eu gelei - A blusa dessa garota é igualzinha a aquela blusa que você me mandou foto toda feliz e contente por que tinha comprado. - ela soltou em um tom de dúvida - E que aliás era a última da loja. - eu mordi o lábio e me afundei no sofá mordendo o lábio. Vi Letticia fechar a cara e bufar - Louis confirma pra mim se a tá mordendo a boca com cara de culpada. - ela pediu e Louis, que não tinha feições nada boas também me encarou.
- É, ela está sim. - ele declarou e eu parei de morder o lábio sorrindo forçado.
- Por que a gente não pega uma cerveja e eu conto pra vocês como essa é uma história engraçada? - questionei fazendo menção de me levantar.
- PODE FICAR BEM AI! - Letticia gritou e eu parei.
- Isso aí, pode ficar bem aí. - Louis completou - Eu vou pegar a cerveja e você… - ele encarou Letticia que o olhava séria - Não vai ter cerveja nenhuma aqui. Nós somos sérios. - ele completou e eu prendi a risada.
- como você foi nessa merda desse show depois de tudo que a gente conversou? Menina, eu te ouvi chorar bebada, chorar sóbria, chorar bebada de novo, pra no fim tu ir atrás do Harry? - e era aquela bronca que eu queria evitar. Eu parecia uma criança levando bronca por ter feito besteira - Eu to falando com as paredes por acaso? - ela perguntou.
- Eu só…
- Você só nada, você foi até lá escutar ele. Caramba , eu passei o último ano evitando o Harry Styles em todo o canto e tu vai no show dele, ver ele cantando todas aquelas músicas perfeitas? Tudo bem que é difícil mesmo resistir a aquele solo perfeito de She, ou a sofrência que Falling é, mas poxa . - eu franzi o cenho.
- Espera, como você sabe do solo ou que Falling é uma sofrencia se você me disse que não tinha escutado? - arqueei uma sobrancelha pra ela e Letticia abriu a boca algumas vezes.
- A gente não tá falando sobre mim aqui. Fala pra ela Louis. - eu queria rir, porque aquela era uma cena que podia muito bem ter saído de um filme de comédia.
- Na verdade eu acho um questionamento bem válido e…- ele encarou Letticia que o olhava séria - É, não é sobre ela, estamos falando de você. Não mude de assunto. E daí que nós dois escutamos e que eu também estava naquele show com os caras? O assunto aqui é você. - ele soltou de uma vez e eu gargalhei.
- Tá rindo do que? - Letticia perguntou e eu respirei fundo.
- Nenhum de nós resistiu ao novo álbum do Harry. - apontei nós três e eles se olharam rindo em seguida.
- Somos um bando de cadelinhas do Harry Styles. - Letticia declarou.
- Eu não sou cachorro de ninguém. - Louis declarou fazendo com que eu e Letticia rissemos mais ainda.
- Agora que nosso sermão acabou, você pode por favor dizer por que foi a esse show? - Letticia pediu e eu suspirei.
- Eu juro que não foi algo bem planejado. Eu não fui pra Los Angeles com essa intenção, mas quando escutei aquela música na cafeteria eu só senti que precisava ir. Além da curiosidade havia alguma coisa me dizendo pra ir e eu fui. - dei de ombros torcendo os lábios - Não me arrependo, afinal como vocês sabem, é um álbum incrível e ao vivo foi uma experiência e tanto. Eu juro que vou te compensar de algum modo por não ter ido, Lett. Juro mesmo. - apontei para ela que riu - Mas eu não sei, parece que ir até lá só acarretou tudo isso que está acontecendo. Encontrá-lo em Miami, em Los Angeles, encontrar a Camille hoje cedo.
- Camille?! - os dois perguntaram juntos.
- Na empolgação de encontrar e Kevin acabei me esquecendo de contar, mas é, eu a encontrei no aeroporto hoje. Ela me ajudou com a minha mala e estava surpresa de ser eu. Pediu desculpas pela ligação, mas eu só fui embora. - dei de ombros e vi Louis e Letticia me olharem do mesmo modo - Não façam essas caras. Eu estou bem. - e era verdade. Eu estava bem. Encontrar Camille foi estranho e desconfortável, mas não foi doloroso. Eu passei muito tempo lidando com tudo relacionado a ela, e por fim eu apenas decidi que não haviam mágoas para serem guardadas.
- Se você diz, eu acredito. - Letticia declarou - Eu preciso ir, hoje é aniversário da minha sogra e tenho que me arrumar ainda, mas qualquer coisa mandem mensagem. - ela indicou e eu sorri.
- Pode deixar. Vou criar um grupo no whatsapp e adicionar o Lou, mas não estranhe se ele começar a te perguntar como se salva stickers, como eu disse ele é um velho. - Louis voltou a me empurrar enquanto permanecia com uma feição emburrada no rosto fazendo eu e Letticia rirmos enquanto me passava o celular.
- Eu não vou perguntar isso. - se justificou - Lottie já me ensinou. - ele estirou a língua e nós gargalhamos.
- Eu disse. - murmurei - Mande um abraço pra todo mundo por aí. - pedi sorrindo.
- Pode deixar. Se divirtam vocês dois. - ela acenou e nós fizemos o mesmo finalizando a ligação. Deixei o celular sob a mesa e me encostei no sofá de novo. Louis me encarava e eu o encarei de volta.
- Está tudo bem mesmo? - disse finalmente e eu sorri.
- Está sim. Prometo. - levantei o mindinho e ele assentiu.
- Tudo bem então. - ele assentiu - Aliás, Niall pediu pra te convidar pra uma coisa porque ele e Liam estão sentindo sua falta. - me virei para ele animada. Apesar de serem amigos de Harry, eu tinha criado carinho por eles e estava morrendo de saudade desde Nova York. Isso incluía Zayn. Que recentemente havia feito uma música com Ana e estavam rolando boatos de que estavam juntos, o que me lembrava que eu precisava ligar para eles e pedir explicações.
- Diga logo, estou empolgada. Não é todo dia que gente famosa tem convites assim. - joguei os cabelos fazendo Louis rir.
- Otária. - zombou - Então. Dia 18 vai rolar o Brits e o Horan vai apresentar um prêmio, sem contar que um amigo dele, o Lewis vai estar concorrendo a algumas categorias e ele nos chamou para ir. Vai ter uma afterparty e como vamos estar por lá ele achou que fosse legal para juntar o pessoal, já que atualmente estamos todos correndo e cheio de ocupações. - ele deu de ombros e eu sorri largo.
- O Lewis Capaldi? - ele assentiu - Eu amo ele. É claro que eu vou. - soltei empolgada, mas então parei por um momento. A cara de preocupação de Louis me dizia que havia algo mais e naquele segundo eu entendi: Harry estaria lá. Ele provavelmente estava concorrendo a algum prêmio naquela noite - Ah Louis. - soltei torcendo os lábios.
- Ele vai estar lá e nós vamos falar com ele provavelmente, mas talvez a gente nem sente junto e se acontecer você não precisa falar com ele. - ele deu de ombros - Qual é? Vamos, vai ser legal. Els vai estar lá e Maya também. Sem contar que o fato de eu estar lá deveria ser suficiente. - ele soltou convencido.
- Vou pensar no assunto. - apesar de saber que não havia o que pensar, porque no fim eu iria. O interfone tocou e eu soube que era a pizza - Agora vá lá embaixo buscar a pizza. - pedi e Louis revirou os olhos.
- Só porque sou um cara ótimo. - ele murmurou se levantando e eu ri.
Quando ele saiu pela porta eu entrei em meus próprios pensamentos. Não havia como fugir, Harry havia voltado pra minha vida e eu teria que aprender a lidar com aquilo. Teria que aprender que agora, aonde eu fosse, seus lindos olhos verdes estariam lá e eu teria que sobreviver a isso. Talvez devesse começar por parar de chamar os olhos dele de lindos, mas o que eu podia fazer, afinal? Eles eram. Droga. Eu com certeza teria dificuldades para sobreviver com aquilo, afinal, era Harry e ninguém o amava uma vez na vida e saia ilesa daquilo. Eu pelo menos não havia saído.

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*Laisse moi t'aider = Deixe me te ajudar.


CAPÍTULO 4

Fevereiro, 2020 - London, UK.
And I get this feeling that you never need me again.



Harry


Soltei as malas na sala e joguei meu corpo sob o sofá. Eu estava moído. Não era por conta do vôo, mas sim por que aquela havia sido uma semana puxada em Los Angeles. Várias reuniões, entrevistas e visitas a amigos. Havia parado por pouquíssimo tempo e encontrar havia me tirado a última noite de sono. Segundo ela estava de volta a Londres e havia um lado impulsivo que eu precisava conter para não correr até a casa dela para conversarmos.
Respirei fundo passando as mãos pelo rosto e em seguida tirei o celular do bolso decidido a avisar a minha mãe que havia chego em casa, mas me lembrei que estava sem bateria. Me levantei e segui para o quarto, coloquei o celular para carregar e tirei minha camiseta seguindo para meu banheiro.
Encarei meu reflexo no espelho por um momento, antes de me livrar do resto das roupas e seguir para o chuveiro. Deixei que a água quente relaxasse meus músculos e em seguida lavei os meus cabelos. O cheiro familiar do shampoo me fez respirar fundo. Preciso dizer que eu usava o shampoo dela, ou isso já foi concluído?
Saí do meu banho com uma toalha enrolada na cintura e segui até meu celular o pegando e abrindo as mensagens com minha mãe. Lhe avisei da minha chegada, assim como a Gemma e em seguida abri minha conta no instagram. Como sempre haviam diversas notificações as quais eu apenas deixei de lado. Abri meu próprio feed e uma foto com a legenda "You're so bright, you're so golden" foi a que abri.
Eu nunca havia excluído as fotos de do meu perfil, e não pretendia fazê-lo, porém a meses eu não abria a conta para ver alguma foto dela. Havia tirado aquela foto em seu quarto no Brasil. Ela estava deitada debaixo de uma janela e o sol entrava por ela iluminando , seus cabelos brilhavam, bem como sua pele. Os olhos profundos me encarando me faziam sentir novamente como era tê-la me olhando daquele modo.
Uma notificação desceu na barra e era de Gemma. Uma mensagem.

Gemma:
Você sabia disso?! 10:04pm
Sabia que ela foi lá?! 10:04pm



Junto as mensagens havia um link de um tweet e eu o abri. Pelos primeiros segundos eu não entendi nada, mas assim que desci pelos replies eu senti meu estômago dar um giro. Eu abri uma das fotos e dei zoom no círculo vermelho, porém a foto já não tinha tanta qualidade. Eu não conseguia saber se era ela, mas isso não impedia meu coração de acelerar a tempo de sair boca a fora.
No mesmo instante eu liguei para a única pessoa que poderia me ajudar, sem sequer calcular que horas seria na França.
- Harry? - a voz de Hélène era preocupada, mas não estava sonolenta, eu não havia a acordado.
- Hels, eu preciso de ajuda. Você consegue abrir um link que vou te mandar? - perguntei acelerado.
- Sim, pode mandar. Mas o que aconteceu? - ela perguntou e eu tirei o celular da orelha o colocando no viva voz para enviar o link. Meu coração batia nas orelhas e eu poderia jurar que infartaria a qualquer segundo.
- Preciso que veja a segunda foto, a do show. No círculo vermelho. Você tem alguma outra foto daquele canto da arquibancada? - pedi. Houve um momento de silêncio do outro lado da linha até que ela sussurrasse um “Oh c'est quoi ce bordel”*.
- Eu acho que devo ter Harry, mas honestamente eu acho que era a . Eu me lembro de ter olhado para aquele canto na arquibancada e de ter achado que tinha a visto. - a declaração dela fez meu estômago girar mais uma vez. O que ela estava fazendo lá afinal?
- Como é que eu não vi? Eu fui para aquele canto tantas vezes. Burro, Harry. Burro. Quem manda ficar parecendo estar sob efeito de cogumelos quando está no show? - perguntei retoricamente e ouvi Hélène rir. Ela havia ido mesmo lá? - Você pode procurar e ver se encontra alguma foto onde eu consiga ter certeza que era ela? - pedi em tom eufórico.
- Claro, vou pegar as fotos aqui e te mando se encontrar algo. - garantiu e eu assenti.
- Obrigado, Hels. E desculpe se eu tiver atrapalhado algo, é só que… - não completei a frase por que havia agido por tanto impulso que sequer havia pensado na minha razão para aquilo. Que diferença faria se ela tivesse ido a aquele show?
- Eu entendo Harry. Entendo mesmo. - seu tom era calmo como sempre - Vou procurar com cuidado, juro. - e com isso ela desligou. Sabíamos que não havia mais o que ser dito porque eu estava imerso na euforia e dúvida.
O que eu faria se aquilo fosse verdade? Iria até a casa dela e perguntaria o que aconteceu? Mandaria uma dm no instagram já que não tinha seu número? Perguntaria a ou ao Kevin sobre aquilo? Eles sabiam daquilo? Algo dentro de mim me dizia que não.
Por que ela havia ido até lá? Por que havia ido escondida daquele modo? Foi acompanhar alguém? Ou simplesmente foi me ver? Não, isso era improvável, já que ela não demonstrava nenhum desejo em me ver.
Mas então por que? O que levou até lá?
Ela havia me visto performar todas as canções que havia escrito sobre ela, sobre mim e sobre nós. Ela havia me visto entoar cada nota de cada canção. Ela havia visto cada sentimento que se encontrava naquele álbum. Havia visto as alegrias, a paixão, havia visto o amor, havia visto a perda, a tristeza, a aceitação, havia visto o descobrimento, o desespero, o medo e havia visto a esperança, mesmo que não houvesse razões para essa última existir.
Eu me lembro de estar em cima daquele palco e torcer para que algum dia de algum modo ela escutasse cada uma daquelas músicas, e soubesse o quão arrependido eu estava, o quanto eu havia entendido as merdas que havia feito e o quanto eu sentia saudade dela. Será que ela sabia? Será que havia entendido todas aquelas letras cheias de metáforas? Será que havia aceito que eram sobre ela? Eu não sabia dizer.
Minutos entre questionamentos se passaram até que meu celular apitou indicando uma nova mensagem. Era de Hélène e havia uma foto anexada. Eu apenas encarava a tela de bloqueio com as mão trêmulas, tomando coragem para abrir. Com um bocado de ar puxado para meus pulmões eu desbloqueei o aparelho e abri a foto.
Por segundos tudo era apenas confusão e quando meu cérebro pareceu preparado para assimilar a informação, meu coração errou duas ou três batidas. Era ela. Sorrindo, como apenas ela sabia sorrir. Um sorriso que era brilhante. Brilhante demais para mim, eu sabia. Era ela.

[...]

Fevereiro, 2020 - London, UK.

Noite do BRITS awards.

Do lado de fora as pessoas gritavam. Não por mim, ainda não haviam me visto, mas provavelmente por outro artista que estaria ali naquela noite. Estava no carro aguardando que me deixassem entrar e isso aconteceu assim que a minha porta se abriu e um segurança surgiu para me escoltar.
Alguns poucos metros foram vencidos e logo eu estava de frente para meus fãs. Pessoas gritavam meu nome, pediam fotos e abraços e da melhor forma que pude eu os atendi. Quando deixei o local segui para onde fotos estavam sendo tiradas e do mesmo modo eu posei para elas.
Depois de tirar fotos, eu cumprimentei algumas pessoas e dei pequenas declarações em torno daquela noite. Minha irmã e Michal já estavam lá dentro, haviam entrado por trás e logo alguém estava ali para me guiar até eles.
No instante que atravessei a porta um corpo se chocou contra o meu e tudo que tive tempo de fazer foi segurá-lo para que a pessoa não caísse no chão. Não precisei nem de dois segundos para reconhecer o rosto, nem o cheiro dela. fazia aquela cara que sempre fazia quando havia feito algo de errado. Como uma criança prestes a levar uma bronca. E eu sorri. Ela já parecia ter assimilado que era eu ali, mas continuou parada com minhas mãos em seus braços. Pela primeira vez desde que nos encontramos ela pareceu demonstrar mínimo interesse em mim, e eu notei isso ao perceber que ela puxava o ar com mais força que o normal. Era o que ela sempre fazia quando queria sentir meu perfume.
- Desculpa, eu estava entretida conversando com a Maya e… Não te vi. - ela pausou por um momento parecendo tentar colocar a cabeça no lugar.
- Tudo bem, eu também não estava olhando. - me desculpei e apenas após alguém pigarrear foi que a soltei meio sem jeito e ela ajeitou sua roupa. Me virei e encontrei Louis, Eleanor, Liam e Maya parados ali. Eleanor e Louis tinham sorrisos cúmplices que tentavam esconder - Não sabia que viriam. - comentei encarando todos eles com um sorriso no rosto.
- Niall nos chamou e nós viemos. - Liam comentou sorrindo de volta e eu senti uma pontada de culpa no peito. Eu havia me esquecido de chamá-los.
- Está tudo bem, Harry. Não precisa fazer essa cara. - Louis soltou como se soubesse o que eu estava pensando - Agora me dê cá um abraço e me deixe te dar os parabéns pela nomeação. - ele se aproximou me abraçando e eu ri fraco. Eu sentia falta deles. Todos os dias. Um terceiro corpo se juntou ao abraço e era Liam. Os três nos abraçamos de modo carinhoso.
- Obrigado. Nos próximos vou estar vindo ver vocês. Tenho certeza. - comentei e os encarei quando nos afastamos. Eu estava orgulhoso deles. Muito orgulhoso.
- Ah meu Deus. Eu não acredito! - a voz conhecida de Gemma foi escutada e quando me virei vi que ela encarava . Michal a acompanhava.
- Gems! - se aproximou dela abrindo os braços e as duas se envolveram em um abraço caloroso.
- Eu sabia que estava de volta a Londres, mas não sabia que viria essa noite. - Gemma encarava com um brilho no olhar. Alguém no mundo não a olhava daquele modo?
- Niall nos chamou. - informou simples e Gemma assentiu me lançando um breve olhar com um pequeno sorriso. Ela cumprimentou todos que estavam ali, assim como meu cunhado e logo estava parada na frente de de novo.
- Olha só para você. Está linda. - Gemma comentou.
- Obrigada, você também está. - sorria largo .
- Ai que saudade que eu estava sentindo. - Gemma soltou animada - Venham se sentar conosco. - quando o convite surgiu minha irmã pareceu notar no mesmo instante o que havia feito. encarou Louis como quem pede ajuda.
- Na verdade Niall está nos esperando, mas nos vemos na after de todo modo. - Liam se apressou em livrar todos daquela saia justa e Gemma apenas assentiu parecendo aliviada.
- Claro. Tudo bem. Eu preciso ir, mas nos vemos lá. - minha irmã se apressou - Até mais, gente. - ela se retirou com o namorado acenando para todos.
- Bom, nós também vamos para nossos lugares. - Louis alertou se virando para mim - Boa apresentação, lad. - desejou e assim foi seguido por todos que logo começaram a caminhar e os seguiu sorrindo para mim.
- . - chamei e apesar de achar que ela não se viraria, ela o fez.
- Sim? - ela perguntou e eu respirei fundo.
- Podemos conversar? - mordi o lábio e a vi prender a respiração por um momento.
- Harry, eu imagino sobre o que queira falar, mas será que pode ser outra hora? No momento eu não me sinto confortável em falar com você. - ela soltou de uma vez e parou no mesmo instante parecendo notar as palavras que havia usado - Não foi isso que eu… - ela começou.
- Não, está tudo bem. Eu entendi. - acenei sentindo os olhos começarem a arder - Boa premiação, espero que se divirta com o pessoal. - acenei simples e a vi apertar os olhos, porém ela apenas deixou que eu fosse. Naquele momento, notei que a escolha da música da noite não havia sido a melhor.

[...]

Eu estava parado em frente ao microfone. As mãos trêmulas enquanto as luzes estavam apagadas. Eu sentia todas as emoções muito à flor da pele. E estar na mesa que estava em frente ao palco, olhando em minha direção, não estava me ajudando.
Quando Jack anunciou a canção eu respirei fundo. Não havia volta e o choro seria algo presente, eu já havia aceitado.
As notas no piano se iniciaram e as primeiras palavras saíram da minha boca com meu olhos fixos em que havia prendido a respiração.
- Forget what I said is not what I meant. And I can't take it back, I can't unpack the baggage you left. - pela primeira vez eu estava dizendo aquilo olhando em seus olhos e eu precisei me segurar para não errar a nota.
pressionou os lábios um no outro e por um breve momento encarou as próprias mãos. Seus olhos voltaram para mim e eu os vi brilharem. Não era o brilho de alegria, eram lágrimas.
Entoar cada palavra daquelas olhando para ela, como quem conta minha angústia e sofrimento pelo término era doloroso. Doloroso porque ao fim daquela apresentação eu não desceria do palco para ser recebido em seus braços. Doloroso porque ao fim daquela noite, novamente não iríamos juntos pra casa. Doloroso porque eu a via chorar enquanto eu também chorava e não havia ninguém mais culpado que eu naquela história toda. Doloroso porque não nos pertenciamos mais.
Com a vinda da frase seguinte eu fechei meus olhos, completamente incapaz de olhá-la.
- And I get the feeling that you never need me again. - a nota alta foi batida e eu abaixei minha cabeça tentando conter as lágrimas que a dor em meu peito insista em trazer para fora.
Eu finalizei a música com meus olhos nela. Os aplausos vieram, mas tudo que importava eram os olhos dela sobre mim. As luzes baixaram e a atenção se voltou para o palco principal ao mesmo tempo que eu deixei que as lágrimas rolassem.
disse algo a Louis que a encarava como se compreendesse tudo e depois disso ela passou seus olhos por mim se levantando e se retirando do salão. Eu a observei ir com o coração pesado no peito, porém permaneci ali por mais alguns segundos até ter coragem de deixar o palco.

[...]

Quando minha troca de roupas terminou eu estava de volta ao salão. Fui cumprimentado por algumas pessoas no caminho até minha mesa onde o olhar de Gemma estava sobre mim, preocupado.
- Por que não fala com ela? - essa foi a pergunta assim que me sentei.
- Por que ela não quer falar comigo. Por favor, vamos deixar isso pra lá, pelo menos por hoje. Eu só quero beber. - peguei uma garrafa aleatória no centro da mesa e uma taça. Era tequila. Por um momento pensei em fazer alguma mistura, mas logo decidi que beberia pura. Eram sentimentos demais e eu precisava tirá-los da minha cabeça.
- Ei, garotão, não é melhor ir com calma? - Lizzo que estava na mesa ao lado perguntou enquanto eu me servia.
- Hoje não. Gemma é a responsável por mim essa noite, e depois de tantos anos sendo um santo nas vezes dela ser a sóbria, acho que estou disposto a dar trabalho. - pisquei para minha irmã que riu, sabendo que naquela noite eu a faria pagar pela última vez que ela encheu a cara e eu foi quem teve de cuidar dela e limpar seu vômito no quarto.
- Vai em frente. Prometo não te deixar perder muito da dignidade. Passa o celular pra cá. - ela estendeu a mão e enquanto eu ria tirei o aparelho do bolso entregando a ela.
- Salute. - ergui minha taça para ela virando o líquido em seguida.
Naquela noite ou eu afogaria meus sentimentos por no álcool, ou em algum ponto daquela noite me humilharia de algum modo. De qualquer jeito, mesmo na segunda opção, não havia como ser tão ruim assim, certo?

[...]

Jack havia acabado de deixar minha mesa. Eu definitivamente já estava alto. Uma taça da minha tequila já havia ido e a segunda quem bebeu foi Lizzo, de uma vez a poucos segundos. Minha cabeça girava e eu me peguei olhando um ponto fixo em minha roupa que havia sujado de vinho.
- Ei. Garotão. - a voz de Lizzo me tirou de meus devaneios e eu a encarei claramente embriagado - Escute o que vou te dizer. Eu já estou alta, então esse vai ser o melhor ou o pior conselho que você vai receber. Você é quem decide. - ela deu de ombros - Não deixe aquela garota fugir de você, está me entendendo? Eu tive algumas horas de sessão de fotos com ela apenas e eu já senti que podia estar me apaixonando. Então imagine o quão fácil vai ser outro cara se apaixonar e tomar uma iniciativa. - ela apontava para mim com suas longas unhas e uma voz embaralhada - Não perca essa garota Styles. Não de novo. - ela pegou o copo em sua mesa.
- Lizzo, você não entende. Ela não quer falar comigo. - murmurei a beira de um choro. Por deus, por que eu ainda enchia a cara assim?
- Ah, Harry, você não sabe de nada. Absolutamente nada. - ela jogou a mão torcendo os lábios - Me escute. Não estou dizendo para entrar em um assunto crucial nesse exato momento, mas mostre a ela que se importa. Nem que seja para elogiar a unha do dedinho mindinho dela. Que aliás deve ser linda. - ela fez uma cara de quem imaginava - Enfim, faça algo, não seja a porra de um bundão que deixa a garota ir embora. - ela soltou de uma vez.
- Você. - apontei para ela com meu indicador - Tem toda razão. Eu vou lá. - me levantei e senti o mundo inteiro girar e voltando a cair sentado na cadeira - Tudo bem, tenho que achar um jeito melhor de fazer isso. - murmurei a vendo rir. Gemma conversava com Michal e com certeza não me veria sair. Eu encarei o chão e a ideia mais idiota de todas me surgiu, porém com todo o álcool na minha cabeça, me pareceu a melhor ideia de todas - Eu vou lá falar com ela. Me deseja sorte Lizzo. - dito isso eu me joguei no chão e apoiado em minha mãos e joelhos eu comecei a engatinhar pelo chão do local.
Uma jovem muito sábia disse uma vez: “o álcool antes de matar, ele humilha”. Ela não poderia estar mais certa.

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**Oh c'est quoi ce bordel = Ah, mas que merda!



Noite do Brits awards.

Pouco tempo desde o início da premiação havia se passado e Niall havia apresentado o prêmio que Lewis havia ganho. Após isso a apresentação de outro prêmio se seguiu. Enquanto no palco principal se passavam os indicados, no pequeno palco à minha frente eu notei uma movimentação e quando tornei a olhar naquela direção vi que a movimentação tinha nome, sobrenome e um traje branco de renda.
Atrás de Harry haviam dois pianos posicionados no que parecia água e ele estava no pedestal do microfone. Quando o encarei ele me olhava fixamente. As mãos tremiam no microfone e ele respirou fundo algumas vezes. Meu coração doeu no peito e eu desviei o olhar dele por um momento.
Jack começou seu anúncio da performance de Harry e quando anunciou a música meu coração acelerou. Falling. Em seguida a melodia iniciou no piano e eu apertei ambas as mãos no colo.
Harry entoava a letra com emoção e eu senti o vinho revirar em meu estômago. Eu não consegui tirar os olhos dele, já que seus olhos estavam sobre mim e não pareciam dispostos a me deixar tão cedo.
- Forget what I said is not what I meant. And I can't take it back, I can't unpack the baggage you left. - foi com esses versos que eu senti meus olhos arderem.
Deixei os olhos de Harry encarando minhas próprias mãos na tentativa de conter o choro. Claramente eu falharia naquilo. Pressionando os lábios eu o encarei e seus olhos ainda estavam sobre mim.
A dúvida que eu tive no show em Los Angeles havia acabado ali: aquela música era uma conversa. Aquelas palavras eram pra mim. E saber daquilo só fez com que segurar aquelas lágrimas fosse impossível. Depois do refrão, Harry respirou fundo de olhos fechados e quando voltou a abri-los e a cantar o verso seguinte eu sabia que ele estava à beira de um choro.
Eu queria correr. Queria sair dali e fingir que aquilo não estava acontecendo. Fingir que seus olhos não me encaravam daquele modo e que aquela música não era pra mim. Eu queria muitas coisas, mas o que fiz foi ficar ali o encarando, porque meu corpo e mente não obedeciam quando eu os mandava correr.
As lágrimas já rolavam e eu havia desistido de tentar para-las. Afinal, não adiantaria.
- And I get the feeling that you never need me again. - naquele momento ele abaixou a cabeça e respirou fundo e eu notei que fazia o mesmo. Por que o ar parecia tão rarefeito naquele momento?
Harry terminou a música com seus olhos em mim novamente e quando as pessoas o aplaudiram e a atenção se voltou para Jack indicando que Harry devia deixar o palco, ele manteve o olhar em mim e dessa vez eu sabia que ele chorava.
- Eu preciso de um minuto. - sussurrei encarando Louis e ele assentiu já com seus olhos sobre mim. Ele sabia que a música era sobre mim e eu soube disso pelo olhar compreensivo que ele carregava.
Passei meus olhos por Harry e ele me encarava. Eu me levantei e segui por entre as mesas em direção a porta que indicava o caminho para o banheiro. Corri pelo corredor com certa dificuldade por conta dos saltos e assim que encontrei a porta do banheiro feminino eu adentrei entrando em uma cabine e me inclinando sobre a privada vomitando bem ali.
Eu não esperava que estar próxima de Harry seria tão difícil, mas aparentemente seria. Principalmente se eu o visse cantando qualquer música que fosse sobre mim.

[...]

A premiação já passava da metade e depois do incidente no banheiro eu resolvi que não beberia mais naquela noite, apenas para garantir.
Aparentemente os organizadores da premiação e o destino queriam muito que eu não me esquecesse que Styles estava ali, então por mais algumas vezes ele foi o rosto estampado no telão. Durante uma entrevista de Jack com ele foi comprovado que Harry já estava alterado quando ele berrou no momento que Lizzo virou seu copo de tequila pura de uma vez. E devo confessar que aquilo me fez rir.
Eu estava tomando um copo de água quando pela visão periférica vi um borrão amarelo brilhante parar na mesa ao lado. Quando me virei, vi Harry engatinhando até Niall para em seguida segurá-lo pelo braço e perguntar algo que Niall apenas respondeu com uma risada e um aceno de cabeça para mim enquanto eu arregalava os olhos me virando para frente de novo.
- Tomlinson, seu macho está vindo para cá. Te vira e cuida. - soltei encarando Louis e ele olhou confuso sobre o ombro para em seguida olhar para o chão e rir.
- Eu não acredito nessa merda. - Louis gargalhava claramente bêbado também.
- . - a voz de Harry sussurrou e eu mordi o lábio encarando Louis.
- Ele está bêbado, não vai embora nem que eu o carregue. - Louis informou - Não que eu vá conseguir também, afinal 'tô mais doido que o Batman. - Louis murmurou e eu revirei os olhos desistindo de pedir ajuda. Será que se eu apenas ficasse parada ali ele desistiria?
- . - novamente Harry chamou - . Ei. . . zinha, uhul. - eu prendi uma risada me virando para ele.
- Oi Harry. - questionei do modo mais sério que consegui, mas era difícil com ele daquele modo e com a cara de pidão que fazia.
- Eu preciso dizer algo. - ele informou. A voz completamente embriagada.
- Harry eu já disse que não…
- Não. Não quero falar disso. - ele acenou com a mão - Eu só notei que não disse o quanto você está linda essa noite e eu queria muito dizer. - eu senti meu rosto queimar e dei graças a Deus pela iluminação baixa do local - Você está linda, . - eu sorri pequeno me contendo em seguida.
- Obrigada Harry. Agora volte para a sua mesa, sim? - pedi e ele assentiu. Se virou engatinhando e em seguida se virou para mim novamente.
- . - ele tornou a chamar.
- Sim, Harry? - questionei mordendo o lábio em seguida.
- Eu estou perdido. Não sei mais onde é a minha mesa. Será que posso gritar a Gemma? - eu não consegui me conter e ri daquilo - GEMMA, SOCORRO, ESTOU PERDIDO! - ele gritou e eu me apressei em tapar sua boca.
- Harry, você não pode gritar aqui. - informei dando graças a Deus por estarmos no meio dos comerciais - Vem, levanta daí. Eu vou te levar para a Gemma. - me levantei lhe estendendo a mão e ele sorriu se levantando. Niall ria da cena e eu lhe mostrei o dedo do meio o fazendo rir ainda mais. Styles conseguia andar, então apenas me limitei a colocar uma mão em suas costas passando pelas mesas.
- Uh, isso é de abacate? - ele perguntou às pessoas de uma mesa desconhecida e pegou um petisco com um creme verde fazendo todos rirem.
- Ah meu Deus. Me perdoem. - pedi e todos acenaram como se estivesse tudo bem - Harry, você não pode fazer isso. - me virei para ele que fez um bico.
- Você acha que se eu pegar outro e tentar jogar no Louis eu acerto? - ele perguntou e eu tornei a rir.
- Harry, vamos para a sua mesa. - pedi e indiquei o caminho e ele se virou, mas em seguida estava colocando a mão em outros petiscos em outra mesa - Harry! - o adverti e ele me encarou com um olhar culpado enquanto colocava o que parecia uma pequena bruschetta na boca. Eu ri da cena e ele levantou os ombros sorrindo sem mostrar os dentes - Me desculpem por isso. - pedi às pessoas da mesa e enquanto riam ele apenas acenaram indicando que tudo estava bem - Ai Harry, por que você é assim? - questionei ainda rindo e me afastando da mesa enquanto Harry andava de costas.
- Por que isso te faz rir. Eu gosto quando você ri. - confessou e eu parei de andar junto a ele o encarando e negando com a cabeça.
- Garoto, eu devia te dar uma surra. - murmurei o fazendo rir - Vem. - peguei em seu braço para ter certeza que ele não faria mais nada.
- Eu uso o seu shampoo. - ele soltou de uma vez e eu o encarei.
- Como é? - franzi o cenho incerta se havia escutado direito.
- O seu shampoo. Quer dizer, ele na verdade é meu por que eu comprei, mas você entendeu. Enfim, eu o uso. Desde que terminamos eu sempre o uso e dai sempre tenho seu cheiro nos meus travesseiros. - ele explicou e eu me surpreendi. Por que ele fazia aquilo? - E eu ainda tenho aquela sua boina que nunca devolvi. Foi de propósito na verdade. Eu queria ter uma parte de você por aqui. - ele deu de ombros e eu suspirei avistando Gemma que arregalou os olhos assim que nos viu.
- Harry, por que você foi atrás da ? - ela perguntou baixo, como a clara mulher elegante que era.
- A Lizzo me apoiou. - Harry resmungou enquanto eu o ajudava a se sentar. Encarei Melissa e ela apenas pegou seu copo de bebida e tomando dele se virou para frente.
- Ai , me perdoa, eu devia estar cuidando dele, mas fui conversar com o Michal por dois segundos e quando virei ele tinha sumido. - ela se desculpou estreitando os olhos para ele em seguida.
- Tudo bem. Acabou por ser o momento mais engraçado da minha noite. - confessei.
- Eu fui engatinhando até lá, e roubei comida da mesa de alguém. - Harry soltou rindo e Gemma arregalou os olhos.
- Isso é verdade. - confirmei e ela riu.
- Harry! - Gemma o repreendeu e eu ri.
- Ele está entregue, vou voltar para o meu lugar antes que o próximo show comece. - informei.
- Obrigada e me desculpe de novo. - ela pediu e eu ri.
- Está tudo bem. - balancei com a cabeça já me virando para retornar ao meu lugar quando senti uma mão segurar a minha. Me virei encontrando Harry.
- Eu sei que você me odeia, mas espero que saiba que eu ainda te amo . - e aquilo foi como um soco no meio do meu estômago.
Ele está bêbado. Muito bêbado. Não leve isso em consideração. É apenas a bebida.
Era o que eu repetia para mim mesma.
- Eu preciso ir Harry. - informei e ele assentiu meio triste soltando minha mão.
No caminho até a minha mesa eu só planejava como mataria Louis por ter me convencido a ir até aquele lugar.

[...]

Já passava da meia-noite e Louis havia avisado que iria se despedir de algumas pessoas para ir embora e como eu estava sóbria e afim de ir para casa, ele me chamou para ir com ele e Els.
Eu estava encostada em um canto quando meu celular começou a tocar na bolsa e assim que o peguei vi o nome de Daniel ali.
Daniel era um amigo. Nós nos conhecíamos desde a oitava série e no último ano nós acabamos nos reencontrando e ficando próximos. A primeira vez que saímos juntos eu estava em São Paulo, e a galeria de arte dos pais dele estava com uma exposição de um artista local que ele me convidou para ver.
- Ei. - atendi o telefone saindo de dentro da boate onde a música era alta e indo para o beco lateral onde a entrada ficava.
- Ei estranha. Como está? - ele questionou. O tom alegre e tímido, me indicavam que aquela ligação havia sido feita por impulso.
- Bem e você? - questionei de volta encarando meus sapatos.
- Estou bem. - informou e o ouvi murmurar algo, mas apenas deixei para lá - Vai me achar muito idiota se eu disser que estou ligando para dizer que estou com saudade? - ele perguntou e eu ri.
- Não Dan. Óbvio que não. Por que acharia? - questionei e ele suspirou.
- Não sei. Eu tomei algumas taças de vinho a mais, então não sei se estou tomando boas decisões. - ele riu. Pelo amor de Deus, todo mundo havia decidido encher a cara naquele dia? - Enfim, além de te ligar para dizer que estou com saudade, eu queria te contar que em duas semanas eu estou indo para Manchester negociar a venda de alguns quadros. - ele informou e eu sorri largo.
- Isso é ótimo, Dan. - soltei animada.
- Estava pensando em passar por Londres para te ver. - eu tornei a sorrir.
- Eu vou adorar. - o ouvi suspirar novamente.
- Ótimo. - ele soltou animado - Agora eu vou desligar porque acabei de chegar em casa e estou na fase da bebida em que fico muito honesto. - eu gargalhei e ele me acompanhou - Tchau , te vejo em duas semanas. - cumprimentou.
- Até Dan. - e no instante que desliguei a porta atrás de mim se abriu fazendo com que eu me virasse.
Ali estavam Louis e Eleanor rindo de seja lá o que havia acontecido.
- Aí está você. - Calder soltou empolgada - Estava te procurando. Vamos lá senhorita . - ela sorria fácil e tinha as bochechas coradas - Me deixe em casa em segurança, . - pediu de modo enrolado e eu ri.
- Eu vou deixar, apesar de vocês serem péssimos amigos. - os dois riram.
- Não fique brava . Aquela cena foi hilária. - Louis soltou e eu revirei os olhos. Apesar de não querer, eu tinha que concordar, havia realmente sido e eu não podia negar.
- Vamos embora. - foi tudo que disse para então indicar o carro para os dois.


CAPÍTULO 5

Fevereiro, 2020 - London, UK.
Are you happy now?
There's nothing left to say
So I shut my mouth.


Harry

O barulho dos trilhos das cortinas correndo foi o primeiro que escutei naquela manhã. A luz entrando no quarto me causou incômodo assim que meus olhos se abriram. Minha cabeça doía como se eu tivesse sido atropelado por quinze caminhões.
- Hora de acordar flor do dia. - a voz de Gemma foi reconhecida apesar de meus olhos estarem fechado. Por que ela estava gritando?
- Gemma, fale baixo. - pedi a ouvindo rir.
- Pagando o preço pela noite passada? - questionou e alguns flashs da noite anterior se passaram por minha mente. Tequila. Muita tequila.
A idéia da bebida fez meu estômago revirar e em um salto eu saí da cama correndo para o banheiro onde apenas tive tempo de me inclinar sobre a privada para vomitar. Ressaca definitivamente era a pior sensação do mundo. Me levantando eu dei descarga e segui até o chuveiro o ligando na água fria. O meu corpo começava a esquentar me causando mal estar. Ressaca era a razão para eu não beber com frequência, porém sempre que bebia era mais do que a conta.
- Tudo bem, o café está pronto lá em baixo, junto com analgésicos. Vou estar te esperando e te passo um relatório sobre as suas vergonhas da noite passada. - Gemma avisou pela porta e eu apenas murmurei concordando.
Entrando no chuveiro eu apenas encostei minha cabeça no azulejo frio e deixei que a água caísse em meu corpo. Alguns fragmentos de lembranças se passaram por minha mente. Lizzo bebendo minha tequila. Eu havia sujado o terno da Marc Jacobs. Havia contado uma péssima piada sobre vacas para o Stormzy e sua família, porém eles riram à beça. E me lembro de estar engatinhando pelo chão.
“Harry, você não pode gritar aqui. Vem, levanta daí. Eu vou te levar para a Gemma”
Havia sido a me dizer aquilo. Eu havia ido falar com ela? Eu havia me engatinhando até a mesa dela? Por que eu havia feito aquilo?
Depois de tomar o meu banho e me vestir eu segui até a cozinha onde Gemma estava sentada com uma xícara de café a sua frente e digitava algo no celular.
- Mama Twist está perguntando como o bebê dela está. Fisicamente falando, por que moralmente sabemos que está destruído. - ela soltou rindo e eu lhe mostrei o dedo do meio - Eita, deixou o TPWK dentro da garrafa de tequila ontem, foi? - questionou rindo e eu neguei com a cabeça pegando os analgésico e o chá e tomando tudo de uma vez.
- O que eu fiz ontem a noite? - questionei me sentando na banqueta ao seu lado - Por favor me diz que ir engatinhando até a foi um surto. - murmurei e Gemma apoiou a mão em minhas costas.
- Não. Foi real. Junto com roubar comida de mesa alheia. - ela respondeu e eu bufei colocando meu rosto entre as mãos.
- Que droga. - repreendi - Gems, seu trabalho era não me deixar fazer merda. - soltei e ela riu - Quero dizer, eu sei que eu devo ter saído escondido, mas.
- Ah não, eu te vi indo até lá. - ela declarou jogando a mão e pegando seu chá em seguida - Ouvi você falando com Lizzo e fingi que não estava olhando para te deixar ir. - confessou e eu a encarei.
- Por que você me deixou fazer isso? - questionei e ela repousou sua xícara sob a bancada.
- Por que eu sabia que bêbado daquele modo você não tentaria falar sobre aquele término. Você só seria um completo bobo, e eu estava certa já que você foi engatinhando até lá. - ela deu de ombros.
- Ah, ótimo, obrigado. Agora eu fiz papel de idiota. Espero que tenham se divertido as minhas custas. - murmurei mal humorado e ouvi Gemma rir.
- Me diverti sim, obrigada. - ela declarou e eu a encarei de expressão fechada - Garoto, você é lento. - ela declarou revirando os olhos - Harry, eu não te deixei ir até lá para fazer papel de idiota. Eu te deixei ir até lá para ser o Harry. O cara que diz bobagens, faz bobagens e que faz todos nós rirmos. - eu franzi o cenho sentindo a cabeça doer em seguida.
- Não sei se estou acompanhando. - informei e ela negou com a cabeça rindo.
- Harry, desde que encontrou a tudo que está tentando fazer é consertar o término, só que a não está preparada para esse assunto com você. - ela informou - Porém, como eu suspeitava, ela não está com raiva de você ao ponto de não querer olhar na sua cara, por mais que ela queira fingir que sim. - ela deu de ombros - Eu sabia onde você estava. Observei ela te trazer até a nossa mesa e rir com você o caminho todo e trocar mais que duas palavras com você parecendo realmente confortável em estar falando com você. - ela declarou e eu a olhei - Você e foram amigos antes de serem namorados. Quando você cagou com a confiança, destruiu isso na amizade de vocês também e você automaticamente se tornou um sinal de perigo. não vai escutar explicações de você como um "estranho". Se quer consertar tudo, comece por consertar a amizade de vocês e depois todo o resto se encaminha. Não estou dizendo que vão voltar, isso eu não sei, mas pelo menos a chance de se explicar você pode ter. - ela deu de ombros - Não vai ser um caminho fácil, você vai ter que se esforçar, mas é a . - ela soltou como se apenas o nome dela explicasse tudo. E explicava de fato.
- Você acha que ela vai me deixar chegar perto? - questionei e Gemma suspirou.
- Eu falei com o Louis ontem. Quando você descobriu que não sabia voltar para nossa mesa, não pediu a ninguém para te levar. O Louis claramente não tinha condições, mas Liam estava sóbrio e Niall também. Ela não pediu a nenhum deles que te acompanhassem. Ela foi te levar por conta própria. E por mais chato que você tenha sido e insistido em falar com ela, se ela realmente não quisesse te ouvir ela não teria, eu te garanto. - afirmou - Ela não te odeia Harry. Ela foi machucada por você e agora mantém distância por que acha que você ainda é aquele idiota. Por isso você vai precisar trabalhar duro para ter a confiança dela de volta, não vai ser fácil como antes, mas se estiver disposto eu sinto que vale a pena. - ela completou e eu apenas me virei para frente encarando as torradas a minha frente.
Gemma sabia que não havia mais nada a ser dito. Tudo que me podia ser explicado havia sido explicado. Me esforcei para me lembrar de momentos da noite passada e algumas imagens de rindo e dizendo meu nome em meio a sorrisos divertidos me vieram.
Talvez Gemma estivesse certa, talvez tentar começar aquilo me explicando não fosse o modo certo. Eu teria que reconstruir tudo do zero. Eu não teria nada dela de volta apenas por pedir desculpas. Nós havíamos construído algo juntos. Uma amizade, um relacionamento, nos tornamos um tipo de time e eu havia desfeito aquilo. Agora eu teria que reconstruir do zero e aquele era um longo caminho a se percorrer.
- Eu deveria parar de beber. - informei e ela riu.
- Eu concordo. Pelo menos deveria deixar de ficar tão bêbado. - ela pegou uma torrada - Quero dizer, já sabemos os resultados de quando você bebe tanto. - eu suspirei me lembrando da última vez. Definitivamente eu já devia ter aprendido aquilo.

Fevereiro, 2019 - Tokyo, JP.

Eu estava em um bar pequeno um pouco afastado do centro de Tokyo. Eu não sabia ao certo a quanto tempo estava ali, apenas sabia que minha cabeça girava e tudo que eu conseguia pensar era sobre aquela foto.
Eu não ia atrás de coisas sobre ela a meses, porém as notificações de fã clubes começaram a surgir e foi impossível não ver. Ela estava com um cara em um foto em um tipo de galeria. A legenda da foto era algo aparentemente muito íntimo, já que ele a chamava de nie e apenas pessoas próximas a chamavam assim.
Eu encarei aquela foto durante muito tempo até deixar a casa de um amigo e seguir para aquele bar. Eu não conseguia me lembrar quantas doses de whisky barato eu havia tomado, mas sabia que eram suficientes para me fazer chorar publicamente enquanto olhava aquela foto. Não havia o rosto dela, apenas as costas. Eles estavam combinando suas roupas com blusas listradas e calças brancas. Aquilo era algo que um casal faria.
Não haviam respostas dela, apenas alguns comentários com emojis de coração e esse tipo de coisa. Durante aquela tarde eu descobri tudo que podia sobre aquele tal de Daniel. Ele era formado em contabilidade, mas os pais eram donos de uma galeria de arte em São Paulo e ele tomava conta de tudo. Ele era um cara bonito, eu tinha de admitir e nos stories dele -que eu talvez tenha criado uma conta fake para assistir sem ser descoberto- apenas uma foto com um café era mostrada e eu sabia que era dela por conta da legenda. "Recém coado e puro. Quase perfeito, exceto pelo açúcar." Aquele era o tipo de café de . Ninguém havia notado aquilo, mas eu sim -após traduzir as palavras que estavam em português.
Depois de muito olhar aquela foto eu fechei o Instagram e abri os meus contatos. Pensei em ligar para ela, porém seu número a muito já não chamava quando eu ligava, então peguei o número seguinte de quem eu sabia que poderia passar um recado.
O telefone tocou algumas vezes até que a voz masculina fosse ouvida do outro lado.
- Alô? - a voz do outro lado soltou em inglês que não era sua língua nativa. Provavelmente o código do país havia me entregado.
- Oi Mateus, é o Harry. - soltei e por um momento houve silêncio, exceto pelas vozes de fundo.
- Por que está me ligando? - ele questionou e as vozes foram se afastando até que ouvi uma porta se fechar.
- Você sabe onde a está? Eu precisava falar com ela. - soltei e o ouvi rir sarcástico.
- Você está bêbado? - ele questionou e eu apenas me mantive em silêncio - Isso já responde muita coisa. Me diga Styles, como é ser o covarde que precisa encher a cara para ligar meses depois tentando consertar as coisas? - ele questionou e eu respirei fundo.
- Olha, eu sei que você quer muito me bater nesse momento. Acredite em mim, eu também quero. Mas.
- Por que? - ele questionou e eu franzi o cenho.
- Por que o que?
- Por que está ligando agora? - tornou a questionar parecendo impaciente.
- Eu vi uma foto dela com um tal Daniel e… - não houve tempo de terminar minha frase.
- É por isso que ligou? Por que ela está com outro e seu ego não suporta a ver com outro? Nossa Styles, você é muito mais babaca do que eu pensei. - ele estava claramente bravo, mas eu estava começando a me irritar também. Não era aquilo que eu queria dizer.
- Não é por conta do meu ego. Isso não tem nada a ver com o meu ego. - soltei de modo direto - Eu não estava preparado para vê-la com outra pessoa. Realmente não estava. E liguei porque honestamente eu sei que sou um arrogante filho da puta que não sabe assumir quando está errado. Acredite, alguém já gritou isso para mim e eu tenho gritado todos os dias no espelho do meu banheiro. - ele sussurrou um "a quem devo agradecer?" que eu ignorei - Eu só queria que ela soubesse que eu sinto muito por toda a merda que fiz. Só queria que ela me visse de outro ângulo, desse ângulo de alguém que está se esforçando para ser melhor. Queria que ela soubesse que eu sinto falta do beijo dela e do desenho perfeito dos lábios dela e sei que não devia estar te dizendo isso. - o ouvir rir fraco - Só queria que ela soubesse que não é fácil ser o tipo ciumento que morre um pouco por dentro a cada momento que eu sei que o cara com quem ela saiu hoje sabe o jeito como ela gosta do café dela. Só que apesar de tudo isso, e de não estar preparado para vê-la com outra pessoa e de isso doer como o inferno, eu queria que ela soubesse que eu espero que tudo dê certo dessa vez. Que espero que ele a faça feliz, por que apesar de perde-la ser algo triste, e ir para casa todos os dias sem ela ser doloroso demais, eu sei que lhe dei razões para não me chamar mais de amor e encontrar outra pessoa para ocupar esse lugar. E só espero que esse outro alguém seja alguém que mereça ser chamado assim. - terminei respirando fundo - Foi por isso que liguei. - terminei e o ouvi respirar fundo.
- Uau, é muita coisa. - ele comentou baixo.
- Eu sei. - usei o mesmo tom que ele. Houve um momento de silêncio até que ele respirasse fundo novamente soltando todo o ar pela boca de modo alto.
- Sabe Harry, acho que você deveria parar de beber cara. - ele soltou e eu ri fraco.
- Ah, você não pode me culpar por isso. Nem por ligar bêbado. Eu estou longe, se estivesse aí por perto seria muito pior. Eu bateria na sua porta assim. - ele riu e então o silêncio voltou.
- Por esses dias ela pensou em te mandar uma mensagem. - ele começou - Mas desistiu depois. Acho que de algum modo ela estava tentando encontrar um jeito de ser sua amiga. - confessou e eu suspirei.
- É melhor não. Pelo menos não no momento. Como eu disse, ainda estou trabalhando no lado "não ser um babaca" e no lado ciumento. Eu não saberia lidar com ela tendo outro e estragaria tudo. - confessei e ele riu.
- Bom, que bom que eu a aconselhei a não fazer então. - apesar de tudo ele parecia triste em dizer aquilo. Mas não me apeguei a aquele fato com nenhum tipo de esperança.
- É. É realmente bom. - soltei baixo - Acho que preciso ir. - informei e ele suspirou.
- É, talvez seja melhor. - ele informou.
- Tchau, Mateus. - murmurei.
- Harry. - ele chamou rápido e eu murmurei sinalizando que o ouvia - Vá se foder, a propósito. Estava guardando isso a meses. - o tom não era irritado. Havia um tom de zombaria misturado a tristeza ali e eu ri fraco.
- Tchau, Mateus. - e desse modo desliguei a ligação. Encarando a tela principal do aparelho eu respirei fundo abrindo a lista de contatos e apagando os números de pessoas da família dela. Era hora de deixá-la ir, afinal.

Fevereiro, 2020 - London, UK.


Não, eu não havia desistido de . Eu ainda a amava, mas por amá-la foi que decidi que devia me afastar. Que não devia mais arriscar ligar e estragar o que ela tivesse com outra pessoa. E a questão que deve lhe surgir agora é: por que então agora você decide ir atrás dela?
A resposta é simples: me manter distante enquanto ela estivesse em outro lugar era muito mais simples. Por isso não quis tentar a amizade dela naquela época, mas agora que ela estava aqui de novo, me manter longe era algo que eu sabia que não conseguiria fazer.
Eu havia passado o dia com minha irmã e quando a noite chegou havíamos voltado para minha casa onde decidimos que assistiriamos Love Actually pela trilhonésima vez. Enquanto eu mantinha a atenção na cena em que Jamie pede Aurélia em casamento no meio do restaurante vi a mão de Gemma passar em frente a meu rosto e a encarei. Sua expressão surpresa olhando para o celular me indicava que não haviam boas notícias ali.
- Veja isso. - ela me passou o celular e eu olhei. Era um tweet do tmz e havia meu sobrenome.

Depois das fotos do BRITS desta madrugada, um rumor no fandom de Styles indica que duas das ex-namoradas do cantor poderiam ter brigado em um aeroporto a alguns dias.


Era aquilo que a matéria dizia. Descendo os comentários eu vi de quem estavam falando e no mesmo instante gelei no lugar. e Camille. Aquilo era impossível, certo? Quero dizer, nenhuma delas fazia o estilo de quem briga assim em público. Porém ao ver o número de curtidas e retweets ali, e os comentários das pessoas indo contra eu só conseguia pensar nela. Ela com certeza pensaria que se manter longe de mim e toda a minha exposição seria o melhor para ela. E naquele momento eu tinha certeza que minhas chances de me reaproximar haviam ido por água abaixo.


CAPÍTULO 6

Fevereiro, 2020 - London, UK.
But we always find a way to make it out alive.




- , você definitivamente não sabe escolher nada que não esteja em uma embalagem. - declarei pegando um pé de alface de dentro do carrinho que estava murcho.
- Não me julgue, na casa dos meus pais a gente sempre comprava as coisas prontas. - ela mostrou a língua colocando uma caixa de cereais dentro do mesmo.
- Saúde para que, não é mesmo? - questionei e ela revirou os olhos.
- Eu amo seu pai, mas odeio você ser filha de médico. - eu neguei com a cabeça rindo e trocando o pé de alface por um melhor.
- Não sei como você e o Kevin sobreviveram tanto tempo sem mim. - declarei vendo me mostrar o dedo em seguida.
Havíamos ido ao mercado juntas, já que precisava comprar coisas e me acordar cedo era um de seus passatempos favoritos.
- Falando nele… - começou seguindo para o corredor dos freezers, com certeza em busca de sorvete - Estamos cogitando a ideia de morarmos juntos. - eu podia ouvir o receio em sua voz.
- Eu acho uma ideia incrível. - comentei e ela me encarou - Quero dizer, vocês já passam bastante tempo um na casa do outro e se dão bem no geral. - dei de ombros - Eu acho que vai ser legal. - ela torceu o lábio.
- Não acha muito cedo? - ela questionou.
- , não tem essa de muito cedo ou muito tarde. Cada pessoa está no seu tempo. Se vocês acham que querem isso então façam. - ela sorriu de modo agradecido - Você são o meu clichê não clichê favorito. E acho que é isso que gosto em vocês dois, o fato de que não existem muitas regras. Não seguem um roteirozinho. Só fazem o que querem e como querem. - dei de ombros.
- Meus pais acharam uma loucura isso. - ela comentou suspirando. Eu sabia como a aprovação deles era importante para .
- Eu entendo, porém apesar de amar seus pais, eu devo te dizer que essas decisões são todas suas. - ela me encarou e eu sorri para ela - Eles vão te apoiar . Se lembra do japão? Seu pai fez todo aquele barulho e no fim estava até dizendo que se você quisesse ficar por lá ele daria jeito de ir te visitar. - ela riu - Eles só não estão acostumados a darmos passos que nos levem para um pouquinho mais longe de depender deles, mas está tudo bem. - ela suspirou e caminhou até mim se aninhando em meus braços em um abraço e deixando seu peso cair sobre mim.
- Ninguém dá conselhos como você. - ela murmurou e eu ri.
- Seria ótimo se eu começasse a seguir algum deles. - comentei e ela riu alto.
- Arrependida de ter ido ao brits? - questionou me encarando.
- Honestamente? - questionei e ela assentiu - Não. Quero dizer, foi uma noite divertida, até mesmo em relação a Harry. - ela riu negando com a cabeça - Não sei, foi bom só falar com ele. Como se nada tivesse acontecido. Sei que não é algo ignorável por uma vida inteira, mas pelo menos por uma noite foi bom me esquecer do que passou. - dei de ombros e ela sorriu.
- Eu tenho esse sentimento de que vocês vão se entender. Pelo menos como amigos. - sorri fraco e apesar de não ter certeza daquilo eu apenas assenti.
- Agora vamos terminar de fazer suas compras porque pelo que bem sei você e Kev tem planos para essa noite. - ela gargalhou começando a se mexer enquanto eu empurrava o carrinho.
- Kevin e essa mania de te contar todos os planos. - ela murmurou.
- Sua melhor amiga é amiga do seu namorado. Você não poderia estar mais ferrada. - soltei e ela riu me mostrando o dedo do meio.

[...]

- Você me explique essa história direito. - Letticia soltou rindo enquanto eu mexia o molho na panela e meu celular estava apoiado na pia.
- Bom, eu estava lá na minha mesa e de repente surgiu esse projeto de periquito engatinhando na minha direção. O Louis claramente estava bêbado.
- Novidade. - ela soltou me fazendo rir.
- Claramente não é. - soltei revirando os olhos - Mas enfim, ele não me ajudou e o Harry ficou lá me chamando até eu atender. - Letticia gargalhou - Daí ele disse que só queria dizer que eu estava bonita. Depois gritou a Gemma por que não sabia voltar pro lugar dele e eu tive que levar ele de volta. - comentei voltando ao celular - Foi engraçado. Quero dizer o Harry bêbado falando em jogar torradas com guacamole no Louis?
- Nem fodendo. - ela gargalhou e eu a acompanhei me apoiando no mármore da pia - Quem disse que o Harry não estava de quatro por você, mentiu. - e com essa frase eu voltei a rir.
Desde o começo minha amizade com Lett havia sido daquele modo. Leve, espontânea e sem receios ou travas para dizermos o que pensávamos. Nenhum assunto parecia fora dos limites, e opiniões e posicionamentos eram sempre respeitados e ouvidos com certa atenção.
Não havia uma comparação entre minha amizade com e com Lett . Não existia o gostar mais de uma ou de outra. Assim como não havia isso com Ana. Todas essas relações eram únicas e não havia como compará-las. Amadurecendo eu aprendi a notar que amizades eram singulares, e cada uma a seu modo particular, era especial. E eu me sentia tão feliz por poder tê-las comigo. Assim como a Kevin e Louis.
Durante minha temporada no Brasil eu e não estivemos próximas como quando ela vivia em Londres. Do mesmo modo que quando ela estava no Japão houve um tipo de afastamento. Aquilo era normal das relações e correrias do dia a dia. Eu a amava e ela a mim, nosso carinho não havia mudado, nem o fato de que éramos melhores amigas, isso se mantinha intacto. Porém não estar tão próxima assim de que alguém que não estava com você fisicamente com certa frequência, era algo normal e aconteceu comigo e com . Ela sabia de tudo da minha vida, assim como eu da sua e estávamos constantemente encontrando modos de estarmos em contato, porém havia a proximidade que apenas uma conversa longa e aleatória podia trazer, e por conta da correria da vida de e da diferença de fusos aquilo se tornou mais difícil.
Em um dos momentos mais difíceis do último ano, foi a melhor amiga que podia com tudo que tinha. Porém algo que eu não sabia era que precisava tanto de alguém que estivesse ali fisicamente para falar besteira e apenas passar algum tempo. E foi nesse momento que Letticia ressurgiu após alguns meses desde nosso encontro no aeroporto de Londres.

Fevereiro, 2019 - São Paulo, BR.

Eu estacionei o carro em frente ao bar e joguei as chaves dentro da bolsa. Era uma noite quente em São Paulo e eu não podia estar mais agradecida por aquele convite.
Dias antes Letticia informou que estava de volta à capital paulista depois de algum tempo em Minas Gerais -estado de onde era- me mandou uma mensagem com o convite para nos encontrarmos para beber. Depois dos acontecimentos da semana anterior eu decidi que o melhor era sair para espairecer a cabeça, então aceitei.
O bar era pequeno, algum tipo de música sertaneja tocava pelo ambiente e as pessoas riam e conversavam por todo o canto. Letticia havia informado que já estava por ali então eu apenas varri o lugar em busca dela.
- ! - o tom alto veio junto a uma garota que se colocou de pé perto de uma mesa acenando com um largo sorriso. Eu sorri do mesmo modo enquanto seguia até ela pedindo licença entre as pessoas até que chegasse a mesa sendo recebida por um abraço que de algum modo foi reconfortante.
- Por favor, me diga que Louis não está aqui e que vocês não arranjaram uma briga com alguém. - soltei a fazendo rir enquanto nos afastavamos e tomávamos nossos lugares à mesa uma de frente para a outra.
- Não, hoje eu não estou pretendendo bater em machistas… - ela ponderou por um momento - Apenas se eles vierem encher o saco. - completou e eu ri assentindo.
- Certíssima. - soltei colocando minha bolsa na cadeira ao lado - O que vamos pedir? - perguntei e ela torceu o lábio.
- Eu não sei. O que você gosta de beber? - ela questionou e eu dei de ombros.
- Qualquer cerveja barata me serve. - e dizendo isso um sorriso surgiu em seus lábios.
- Escolhi a pessoa certa para chamar para o rolê. Obrigada Deus. - ela juntou as mãos em um agradecimento e eu ri sendo acompanhada por ela - Eu jurei que você seria a pessoa dos drinks caros. - ela comentou e eu pensei por um momento.
- Eu gosto, não vou negar isso, porém eu bebo quase de tudo. - comentei e ela sorriu.
- Exceto? - ela questionou e eu dei de ombros.
- Gasolina. - e dizendo aquilo uma nova risada surgiu.
Conversamos por horas parando apenas para pedir novas garrafas de cerveja. E a conversa fluía como se nós conhecêssemos a muito tempo e aquilo me fez esquecer os últimos acontecimentos, mesmo que por horas. Eles só me voltaram a lembrança no fim daquela noite, quando estávamos para ir embora. E como quem sabe o que penso, Letticia me encarou confusa.
- ? O que houve? - ela deixou sua garrafa sob a mesa me olhando preocupada. Eu apenas neguei com a cabeça e ela torceu os lábios - É por causa do Harry, não é? Eu juro que vou bater nesse garoto quando o encontrar. - soltou em um tom realmente ameaçador e eu sorri fraco.
- Não, dessa vez não é Harry nem nada que ele tenha feito. - soltei em um tom mais baixo e respirei fundo - Na semana passada eu perdi o meu avô. - soltei e a vi prender a respiração - Pode ficar tranquila, não estou esperando palavras de apoio. - soltei rindo fraco - Ele estava bem doente na verdade. Em estado vegetativo praticamente. E já era a hora dele, eu entendo isso. Só é… - fiz uma pausa soltando todo o ar dos pulmões - Difícil. E as vezes eu esqueço que aconteceu e quando me lembro bate uma bad. - soltei suspirando.
- Olha, vou te fazer uma pergunta importante agora. - ela soltou e eu a encarei - Você quer outra cerveja? - questionou e eu ri jogando minha cabeça para trás - É sério! Se quiser eu te arrumo até uma cachaça. - e com aquela frase eu ri ainda mais. Era bom ter alguém que não estava tentando me dizer o óbvio. Que eu ficaria bem e que aquilo havia sido o melhor. Era bom ter alguém que simplesmente me deixava ficar triste e depois apenas me oferecia uma cerveja. De algum modo eu sabia que Letticia entendia que a dor era necessária, e que estava tudo bem eu senti-lá.
- Então vamos de cachaça. - soltei de modo animado e Letticia riu, parando depois de alguns segundos e me encarando um pouco mais séria.
- Eu sinto muito. - ela sorriu fraco e eu fiz o mesmo.
- Obrigada. - nos encaramos por alguns momentos até que rimos fraco e eu bati de leve na mesa.
- Eu estava falando sério sobre a cachaça. - e dizendo isso voltamos a rir e naquela noite a tristeza não tornou a me visitar.

Fevereiro, 2020 - London, UK.


- Tá, me conta. Tudo certo para a viagem? - questionei e Letticia sorriu largo.
- Sim, eu embarco em alguns dias. - bati palmas de modo animado o que fez ela rir fraco. No instante seguinte ela mordeu o lábio de modo apreensivo e eu sabia o que aquilo queria dizer.
- Ei, sem essa. Pode parar com isso. - apontei para ela que torceu os lábios - Já conversamos isso. Você é uma roteirista fodona e por isso conseguiu esse emprego. Por que é incrível no que faz e eu não vou te deixar ficar criando essas paranoias na sua cabeça onde você duvida de si mesma. - meu tom era firme, assim como meu olhar sobre ela - Você é incrível e vai ganhar o mundo por que é incrível. Nada vai dar errado. - ela assentiu devagar e me encarou.
- E se der? - questionou e eu respirei fundo.
- Eu vou estar aqui e as pessoas que te amam também. - sorri para ela - Como é que a Gabi fala mesmo? If it all goes wrong, darling just hold on? - questionei e ela sorriu largo assentindo - Então. Se tudo der errado só o que você precisa fazer é aguentar firme. E você nunca vai estar sozinha pra isso. - eu vi seus olhos marejados e sorri. Aquilo era o que mais tinha de parecido: chorávamos por qualquer coisa.
- Inferno de amigas perfeitas que eu tenho. - gargalhei com sua frase e ela me acompanhou.
- Ei, a propósito, tem algo que eu quero te perguntar. - comentei e ela me encarou curiosa - Você me disse algo sobre estar procurando um lugar por aqui. - ela assentiu - Eu queria saber se você não está afim de dividir apartamento comigo. - ela arregalou os olhos e eu ri fraco - Quero dizer, tem um quarto sobrando, não é um lugar gigante, mas tem espaço para duas pessoas e acho que dividir as contas é mais tranquilo. Sem contar que vai estar livre de pagar aluguel. - Letticia me encarava em silêncio e eu aguardei uma resposta.
- Está falando sério? - questionou e eu assenti - , eu não quero incomodar e.
- Se fosse incomodar eu não estaria chamando. - comentei revirando os olhos e ela riu.
- Certeza disso? - ela questionou e eu tornei a assentir vendo um sorriso surgir em seus lábios - Então eu aceito. - ela deu de ombros e eu sorri largo.
- Ótimo, vou tirar minha bagunça do quarto e quando chegar ele vai estar livre. - comentei juntando as mãos e ela riu negando com a cabeça.
- Obrigada, . - eu sorri para a garota.
- Não tem o que agradecer. Vai ser legal ter com quem dividir a casa. Isso aqui já estava ficando silencioso demais pro meu gosto. - ela riu e eu fiz o mesmo.
- Eu preciso ir, ainda tenho malas para terminar e meu passaporte para encontrar. - ela comentou e eu assenti.
- Tudo bem, nos falamos em breve. - sorri - Se cuida e qualquer coisa liga. Ah e não esquece de ver que horas você chega por aqui. Vou te buscar no aeroporto. - ela assentiu.
- Pode deixar. Tchau . - ela acenou e eu fiz o mesmo finalizando a ligação.
Segui para a panela terminei de preparar meu macarrão ao molho Alfredo indo para a sala em seguida. Antes que pudesse ligar a tv ouvi baterem a porta e já sabia quem era.
- Louis, se for você é só entrar. - gritei e no instante seguinte o garoto estava abrindo a porta.
- Oi oi. - cumprimentou seguindo em minha direção e se sentando ao meu lado.
- Tem janta pronta, come lá. - indiquei a cozinha e ele pegou meu garfo pegando uma porção da comida e colocando na boca. Eu lhe estreitei os olhos e ele riu.
- Só queria experimentar. - informou e eu lhe mostrei o dedo do meio.
- Me diz aí, ao que devo o prazer de sua visita? - questionei brincando e Louis torceu o lábio. Definitivamente aquele era meu dia de psicóloga - Vamos, me conta. - o apressei colocando meu prato sobre a mesa de centro.
- Eu e Eleanor terminamos. - informou e eu arregalei os olhos.
- O que? O que houve? Vocês estavam bem ontem no brits. - comentei e Louis respirou fundo deitando a cabeça no sofá.
- Não aconteceu nada. Quero dizer, nós apenas percebemos que no meio desse relacionamento nos tornamos mais amigos que qualquer outra coisa. - ele deu de ombros - Hoje mais cedo quando acordamos, nos sentamos na cozinha de casa e tivemos uma longa conversa sobre isso. Não foi a primeira vez que conversamos, apenas foi a primeira em que estávamos prontos para aceitar que era hora de dar fim ao namoro. - ele me encarou - Eleanor é ótima, e eu fico muito grato por tudo que vivemos nos últimos anos. Por todo apoio que ela me deu, por nunca ter desistido de estar ao meu lado, mesmo com toda a merda que teve de escutar. Mas eu sinto que estavamos nisso por costume e por sermos tão amigos que nem notamos quando deixamos de nos beijar ou de transar. - ele confessou e eu assenti.
- E vocês estão bem com essa decisão? - questionei e ele deu de ombros fazendo um bico.
- É um pouco difícil de todo modo, afinal é um ciclo que está acabando, mas estamos bem, foi uma decisão mútua e não deixamos de ser amigos. Quero dizer, nós vamos respeitar esse primeiro momento e dar a nós mesmos o espaço e tempo que precisamos, mas ainda somos amigos e sempre vamos ser. - ele deu de ombros e me encarou. Lhe entreguei um sorriso e ele fez o mesmo. Havia um resquício de tristeza ali, porém Louis parecia aliviado de algum modo, e eu tinha certeza que Els também.
- Bom, eu sou amiga de vocês e desde que façam o que os deixem bem e felizes eu também vou estar e vou apoiar vocês. - ele sorriu fraco e eu fiz o mesmo. Peguei o meu prato e entreguei para ele - Toma, come. Você precisa parar com essa mania horrível de comer só mcDonalds. - ele riu pegando o prato enquanto eu me levantava para ir até a cozinha pegar um prato para mim.
- . - Louis chamou e eu o encarei - Alguém já te disse que você tem jeito de mãe? - ele questionou e eu ri.
- Vai se foder, Tomlinson. - lhe mostrei o dedo do meio e ele riu enquanto eu adentrava a cozinha.
- ! - ele chamou novamente e eu murmurei indicando que o escutava enquanto pegava um prato para mim - Eu te amo. - ele gritou e eu sorri fraco, negando com a cabeça em seguida.
- Eu vou levar a cerveja. - respondi e o ouvi rir.
- Você me conhece tão bem. - murmurou por fim e eu ri.
Era bom saber que minha casa estava se tornando aquele lugar. O lugar onde os amigos iam sempre que precisavam, onde era seguro e confortável, onde éramos família. Um lar.
- , você viu isso? - Louis questionou e eu franzi o cenho seguindo para a sala com meu prato e duas cervejas. Entreguei uma a Louis e me sentei ao seu lado enquanto ele me passava o celular que estava aberto em um tweet.

Depois das fotos do BRITS desta madrugada, um rumor no fandom de Styles indica que duas das ex-namoradas do cantor poderiam ter brigado em um aeroporto a alguns dias.


Era aquilo que a publicação dizia. Descendo os comentários eu vi que as pessoas estavam falando de mim e de Camille. Algumas pessoas marcavam um tweet de Camiller dizendo “ela é louca” e assim que abri o twitter da mesma notei que aquilo era um comentário sobre uma personagem de Orange is the new black. Bufei frustrada.
- Mas será possível que eu não tenho um segundo de paz? - questionei revirando os olhos e Louis bloqueou seu celular.
- Ninguém mandou você sair da sua fazendinha. Devia ter seguido o exemplo do Zayn. - Louis murmurou abrindo sua cerveja - Agora minha amiga, você que lute. - ele estendeu brevemente sua bebida para mim dando um gole em seguida.
- Eu preciso parar de te ensinar os memes brasileiros. - murmurei. E realmente precisava.
Peguei meu celular abrindo em meu twitter e vendo as notificações crescerem. Apenas me detive a digitar um esclarecimento, e explicar do que o tweet de Camille se tratava, para então voltar a bloquear o aparelho e pegar meu prato.
- Será que ainda dá tempo de voltar para a minha fazendinha? - questionei Louis que riu alto me fazendo rir um pouco com ele. Aquele era o tipo de coisa que também voltaria a minha vida junto com Harry e eu só conseguia pensar que eu precisaria de muita, mas muito paciência.


CAPÍTULO 7

Março, 2020 - London, UK.
I wanna kiss you like the first time
Hold you like it's not goodbye
Before you fall for somebody new.


Harry

Três batidas na porta de Kevin foram o necessário para que logo visse meu amigo ali abrindo a porta e me convidando a entrar. O lugar ainda estava vazio, os convidados daquela reunião ainda não haviam chego e aquilo me fez encarar Kevin por um momento.
- A está no quarto se vestindo. - Kevin informou e em seguida me segurou pelos ombros - A propósito, eu vou fazer uma surpresa para ela em duas semanas para comemorar nosso aniversário de um ano e meio de namoro e queria sua ajuda com uma coisa. - eu sorri largo animado pela ideia. Já fazia um ano e meio? Nossa, o tempo havia passado rápido.
- Claro, qual a sua idéia? - questionei e assim que ele abriu a boca a porta do quarto também se abriu revelando em calças pretas e blusa da mesma cor.
- Ei Harry. - ela se aproximou e eu a recebi em um abraço.
- Eu cheguei muito cedo ou todos estão atrasados? - questionei rindo e ela me acompanhou.
- Na verdade chegou na hora. acabou de avisar que está subindo. - a menção ao nome dela fez meu coração disparar.
- Eu preciso de água. - informei seguindo para a cozinha e ouvindo a risada dos meus amigos atrás de mim.
Depois do episódio do brits, por conta de entrevistas e talvez um pouco de covardia da minha parte, eu e não havíamos falado sobre nada. Pelo que havia me dito, agora ela dividia apartamento com Letticia e aquilo foi uma surpresa, por que eu nunca imaginei aquilo acontecendo.
Aparentemente as duas haviam se encontrado de um jeito muito aleatório e se tornado amigas. E apesar de inusitado, eu me sentia feliz por Letticia não ser uma daquelas fãs que espalhavam ódio para .
Enquanto eu me servia de água batidas na porta foram ouvidas e logo vi Kevin e seguirem para lá enquanto eu me mantinha na cozinha.
- E aí casal. - a voz de cumprimentou e eu sorri sozinho de modo bobo.
Houveram alguns cumprimentos até que uma voz masculina fosse escutada. Eu não a conhecia e imaginei que pudesse ser o namorado de Letticia.
- Harry está na cozinha. - Kevin informou e eu me apressei em beber minha água e seguir para a sala.
Assim que meus olhos pousaram nos recém chegados meu estômago afundou. Eu havia o visto uma vez, em uma foto, mas aquele rosto era um rosto que eu reconheceria, mesmo depois de um ano.
- Harry? - Kevin me chamou e eu balancei a cabeça o encarando - Eu estava dizendo que essa é a Letticia e esse é o Daniel. - eu sabia. Sabia bem.
- Ah, desculpe, é só que… - fiz uma pequena pausa - Você parece muito com alguém que conheço. - me aproximei com a mão estendida para ele que a apertou sorrindo.
- É, você também. Parece muito aquele cantor Harry Styles. - ELE brincou e eu forcei um sorriso. Meu estômago revirava e eu sentia que poderia vomitar. Soltei sua mão me virando para Letticia que parecia desconfortável com algo. Como alguém que tenta se conter.
- Ei. - cumprimentei e ela sorriu.
- Ei. - ela repetiu em uma breve aproximação de um abraço. Quando nos afastamos vi segurando uma risada que eu estranhei, mas apenas deixei para lá.
- Oi . - a cumprimentei e ela sorriu fraco.
- Como vai, Harry? - questionou e por dois segundos eu me esqueci de Daniel.
- Bem e você? - questionei de volta.
- Bem também. - ela sorriu fraco e no instante se virou para os dois que a acompanhavam - Venham comigo, vamos pegar algo para beber enquanto Louis não chega. - e dizendo isso ela foi para a cozinha com os outros dois e ouvi Daniel dizer para algo como "eles são bem legais" e ela sorrir assentindo enquanto o encarava. Uma mão repousou em meus ombro e quando me virei encontrei Kevin.
- Eu preciso ir ao mercado, o que acha de me acompanhar? - questionou. Ele não precisava de minha companhia e isso era um fato, porém a minha repentina reação a presença de Daniel foi a deixa necessária para que Kev soubesse que era hora de agir.
- Tá legal. - assenti e ele fez o mesmo.
- Nós voltamos logo. , não beba toda a minha cerveja de chocolate. - ele gritou.
- Tarde demais. - ela respondeu o fazendo rir e assim deixamos o apartamento. Houve silêncio no caminho do apartamento de Kevin até o carro.
A única pessoa que sabia sobre a ligação para o primo de , era Gemma. Eu havia me recusado a contar para qualquer outra pessoa sobre aquilo e quando Mitch suspeitou, eu apenas neguei piamente - apesar de não acreditar que ele tenha comprado a história. Conta aquilo para Kevin naquele momento seria desconfortável e eu tinha certeza que ele zombaria de mim, ou então me daria uma bronca. Mas o que eu faria afinal? Diria que não era nada, quando claramente eu havia agido de modo incomum? Não, ele me conhecia muito bem para saber que havia algo errado.
- Vai, fala. - ele pediu assim que saímos de sua garagem e eu bufei.
- Eu meio que conheço o Daniel. - comecei e vi Kevin franzir o cenho.
- De onde? - eu encarei minhas próprias mãos e notei Kevin tirar seus olhos da rua por um momento - Harry Styles, o que você fez? - ele questionou de modo sério e eu respirei fundo.
- No começo do ano passado, ele marcou em uma foto. A internet toda ficou doida com isso e eu vi. Eu estava em Tokyo na época e estava sozinho naquela noite. - Kevin apenas murmurou indicando que eu deveria prosseguir - Talvez eu tenha criado um fake, stalkeado ele, ido a um bar, ligado para o primo da , feito um desabafo sobre o que sentia e depois escrito uma música sobre isso. - soltei de uma vez e kevin parou o carro no sinal fechado.
- Espera… - ele pensou por um momento - “Don't blame the drunk caller, wasn't ready for it all” é sobre isso? É sobre uma ligação que fez bêbado para o primo da ? - ele questionou e eu assenti. Diferente do que eu esperava, não houve uma bronca, e sim a risada de Kevin. Debochada e me deixando claro que aquilo me seguiria por toda a vida - Harry que merda você tinha na cabeça? - ele questionou e eu respirei fundo.
- Não sei, honestamente não sei. - comentei e me afundei no banco. A resposta pareceu fazer Kevin entender que eu não tinha clima para o deboche naquele momento.
Fato era: até então, eu não sabia se ainda estava com ele. E dentro de mim ainda existia a esperança de que não estivesse. Porém vê-lo na casa de Kevin fez com que a mesma dor que senti ao ver aquela foto retornasse. Ela era a de outro, não a minha . E saber daquilo machucava como o inferno.
Respirei fundo quando Kevin estacionou o carro em frente ao mercado e apenas informei que esperaria no veículo. Ele não contestou, apenas saiu. E nos vinte minutos seguintes eu apenas repassei a cena de ver Daniel na casa de Kevin em minha mente.
Naquele momento eu sabia: Não haviam esperanças de que ela voltasse para mim. Não como a garota que eu amo. Minha única chance seria voltarmos a ser amigos e eu lutaria por aquilo.



Eu não sabia medir o quanto estava feliz por estar ali. Cercada pelos meus amigos, conversando banalidade e jogando conversa fora sem nos preocuparmos. Eu havia sentido saudade daquilo. E ter uma parte do Brasil ali comigo me deixava ainda mais feliz, por que tudo parecia completo. Bom, talvez não exatamente completo.
Era estranho estar naquele ambiente e não estar nos braços de Harry. Sendo abraçada ou tocada por ele de algum modo. Era estranho tê-lo do outro lado da sala evitando me encarar. Era estranho Harry parecer um desconhecido.
Desviei o olhar dele e foquei em Daniel ao meu lado que conversava com Louis. Ele havia chego naquela manhã e diferente do seu planejado, iria embora na manhã seguinte. Eu tinha a impressão de que havia algo que ele queria me dizer, mas graças a Deus Letticia estava sempre por perto, então ele apenas deixava o assunto de lado. Eu sabia o que viria pela frente e não queria encarar aquilo.
Quando desviei novamente meu olhar para a sala, vi Letticia vindo do banheiro. Eu queria rir muito. Desde que chegamos ela estava tensa, na presença de Harry. E eu sabia que suas idas ao banheiro eram para surtos que ela tinha. Ela era uma fã do trabalho de Harry, isso eu sabia desde que nos conhecemos, porém havia um esforço da parte dela para não demonstrar aquilo. Não por causa de Harry, mas por mim.
Quando lhe contei a razão do término ela prometeu odiar Styles pelo resto de seus dias, mas eu sabia que não era sério -nem esperava que fosse. Letticia , apesar de ser leal a seus amigos -e talvez um pouco barraqueira, assim como Louis-, também tinha um ótimo coração e não seria capaz de odiar Harry, eu sabia daquilo. E naquele exato momento eu sabia o quanto ela lutava internamente para ser leal, não ser má com Harry e não ceder a seu surto.
Ela se sentou ao meu lado pegando sua taça de vinho da minha mão e bebericando a bebida. Eu devia dizer que estava sendo divertido vê-la daquele modo, mas não fazia sentido, então com esse pensamento eu virei minha cabeça para ela.
- Lett , eu não o odeio, então não acho que você precise. - comentei e ela me encarou - Eu não posso garantir que não vá xingá-lo de novo depois de beber um drink a mais, porém eu não vou te culpar por ir falar com ele. Então pode ir. - indiquei Harry com a cabeça e Letticia sorriu largo.
- Você acha que eu devo me conter? Quero dizer não quero assustá-lo. - ela questionou e eu ri.
- Não, dê a ele um surto completo. Afinal, ele meio que te deve essa. Tu deu uma música de mão beijada pra ele. - dei de ombros e ela sorriu me entregando a taça e saltando do sofá.
Eu a vi se aproximar de Harry que nos encarava sozinho do outro lado do cômodo. Ela se aproximou e após dizer algo a ele, o abraçou. Dessa vez, sem fingir costume. E Harry se assustou por um momento, rindo em seguida e encarando Letticia com o olhar que eu bem conhecia.
Era um olhar atento e carinhoso. Um olhar agradecido e que dizia que naquele momento, nada importava mais do que ela e suas opiniões sobre seu trabalho. E naquele momento, meu coração pesou no peito. Eu sabia o que era. Era saudade.
Eu senti mais saudade dele enquanto estava perto do que quando estava longe, e como isso era possível? Eu não sabia dizer.
- Está bem distraída. - a voz de Louis foi sussurrada e eu saltei no lugar quase derramando todo o vinho que ainda restava na taça e causando gargalhadas em Louis.
- Porra, Louis, que merda. - bufei olhando se não havia sujado nada.
- Eu devia ter gravado isso. - ele murmurou e eu revirei os olhos.
- Não falo nada pra você, Tomlinson. - soltei me levantando e procurando por Daniel no sofá.
- Ele foi ao banheiro. Você sequer notou. - ele comentou me acompanhando até a cozinha.
- Louis… - comecei.
- Tá bem, parei. Eu não te chamei para te provocar de todo modo, é só um convite. - ele começou e eu o encarei depois de deixar a taça sobre a pia.
- Pode falar. - o encarei e ele juntou as mãos se apoiando na bancada de mármore.
- Então, segunda-feira é o primeiro show da tour, em Barcelona. - iniciou e eu assenti - E eu queria muito que você fosse. O Harry e os caras foram convidados, e agora que a Lett está aqui ela pode ir também, mas enfim, eu queria que você fosse. Vai ser especial e eu queria que você estivesse lá. - ele deu de ombros e eu sorri.
- É claro que eu vou Louis. - comentei e o vi sorrir pequeno - Eu sou fã do seu trabalho e estar lá vai ser uma honra. - seu sorriso aumentou de tamanho e eu me aproximei dele o abraçando brevemente.
- Obrigado por tudo, . - ele sussurrou e eu sorri o encarando.
- Eu é que agradeço, seu merdinha. - brinquei e ele riu mostrando o dedo do meio em seguida.
- , a gente pode… - a voz de Daniel irrompeu na cozinha e eu o encarei ao mesmo tempo que Louis - Ah, eu não queria atrapalhar. Eu.
- Tudo bem cara, eu estava de saída de todo modo. - Louis soltou sem me encarar. Ele sabia que eu estava fugindo de Daniel e não deixaria aquilo barato. Com certeza não deixaria. Louis era o tipo de amigo que te impulsionava a encarar a vida a todo custo e eu não podia dizer que ele estava errado.
Assim que ele se retirou Daniel adentrou a cozinha parando perto da pia e eu sorri enquanto me virava indo em busca de qualquer coisa para fazer.
- Acho que precisamos conversar. - ele soltou e eu suspirei. Ok não havia como correr.
- Tudo bem. - me aproximei dele torcendo o lábio e me encostando ao seu lado.
- Sabe por que estou em Londres não sabe? - ele questionou e eu respirei fundo.
- Tenho uma breve idéia. - ele assentiu.
- Nós não conversamos sobre aquilo. E depois você já estava iniciando as viagens de trabalho e logo voltou para Londres e acabamos nem falando de nada daquilo. - ele começou e eu suspirei.
- Eu sinto muito, Dan. Não achei que você queria falar sobre aquilo. Quero dizer, foi um momento, nós havíamos bebido a mais e aconteceu. Não achei que tivesse importância pra você. Por isso nem me preocupei. Só me liguei que talvez fosse importante quando notei que talvez você pudesse querer conversar sobre algo. - informei e ele riu fraco. Não era debochado, nem magoado. Era apenas como se ele não acreditasse muito naquele momento.
- Eu entendo porque achou que não era importante, afinal eu também meio que agi como um tapado depois. - ele deu de ombros - Quero dizer, quem transa com a amiga e na manhã seguinte só informa que está indo jogar tênis e pergunta se ela quer carona? Eu nem jogo tênis. - eu gargalhei e ele me acompanhou.
- Eu achei que jogava, afinal você sempre teve esses esportes de rico. Tipo beisebol. Quem joga beisebol no Brasil, pelo amor de Deus? - ele riu e me acompanhou.
- Culpado, não posso negar. - ele soltou levantando as mãos e eu ri negando com a cabeça. Houve um momento de silêncio que se seguiu até ele respirar fundo - Sabe, quando estudávamos juntos eu sempre tive uma queda por você. - eu franzi o cenho o encarando e ele revirou os olhos - Não me julgue. Você era legal, e aceitou aprender a jogar Metin por minha causa. - ele contestou e eu ri.
- Eu deveria ganhar prêmios por isso. Por que pelo amor de deus eu nunca vi um jogo que não prendesse a minha atenção até aquele. - murmurei e ele me empurrou de leve.
- Enfim, continuando a história da minha paixão… - ele soltou e eu cruzei os braços junto ao corpo - Eu passei todos os anos da escola apaixonado por você, mas eu nunca tive coragem realmente de dizer algo. Daí você veio para a faculdade em Londres, conheceu um cantor famoso o qual eu nem te julgo por ter transado por que se eu tivesse oportunidade faria o mesmo por que ele é gato pra porra. - ele soltou de uma vez e eu ri - Daí voltou para o Brasil, nós nos reencontramos e passamos quase um ano apenas como amigos e eu tinha certeza que nada aconteceria até aquele dia. Quero dizer, me diziam que coisas aconteciam nas baladas da Augusta, eu só não esperava terminar aquela noite com você. - ele me encarou e agora estava mais sério - Eu não vim te pressionar quanto a isso. Só quero deixar as coisas claras. - eu assenti - , eu gosto de você. Muito. Mas eu sei e você também sabe que seu coração é de outra pessoa e eu não quero me meter ou fingir que de algum modo em um dia mágico você vai acordar apaixonada por mim, isso não vai rolar. Eu não estou triste, nem chateado com isso também. Sou adulto suficiente para entender que sentimento não se força, e que não fui claro naquele dia também. Então tudo está bem. Só o que quero deixar claro é: ainda somos amigos certo? - questionou e eu sorri fraco.
- Garoto, você não pode agir de modo tão maduro e esperar que eu tenha uma reação imediata. Não estou acostumada a homens de reações maduras. - murmurei e ele riu - Estou brincando. É claro que somos amigos Dan. - a resposta o fez sorrir - Precisava vir a Londres só pra se reconciliar? - brinquei e ele arqueou uma sobrancelha.
- Garota, baixa a bola. Eu vim a Londres pela Abbey road, você coincidentemente estava no caminho. - ele soltou em tom de brincadeira e eu coloquei a mão no coração.
- Outch, a verdade dói. - ele gargalhou e eu o acompanhei.
- Certo, agora me dê um abraço antes de continuarmos trocando essas farpas. - ele se aproximou e eu o abracei. A verdade é que eu tive medo de ter estragado tudo com Dan quando transamos, mas esqueci do cara incrível que ele era e por isso um clima estranho pairou sobre nós. Era bom saber que tudo estava resolvido, apesar de transar com um amigo ainda ser estranho.
- Hum… Desculpe, eu não queria atrapalhar. - a voz de Harry preencheu a cozinha e em um salto me afastei de Dan o vendo rir.
- Tudo bem. Não foi nada. - informei e vi Harry nos encarar e em seguida ir para fora da cozinha girando nos próprios calcanhares.
- Sabe, eu o entendo. - Dan comentou e eu o encarei franzindo o cenho - Se eu tivesse passado tanto tempo com você e vivido juntos tanta coisa quanto ele eu também faria um álbum inteiro sobre você. - ele soltou e eu revirei os olhos.
- Mas até você insistindo nessa história? Pelo amor. Não é sobre mim. Talvez duas músicas e olhe lá. - murmurei e Dan riu. Seguiu para a geladeira, pegou uma cerveja e em seguida veio em minha direção beijando a minha cabeça.
- Isso . Continue mentindo para si mesma, está fazendo um ótimo trabalho. - e dizendo isso ele seguiu para fora da cozinha.

Eu não estava mentindo para mim mesma!

Era aquela a mentira que eu repetia em minha mente parada no meio da cozinha de Kevin.


CAPÍTULO 8

Março, 2020 - Barcelona, ES.

I'm wastin' my time when it was always you.




Era uma manhã relativamente fria em Barcelona. Havíamos desembarcado na cidade no dia anterior e acabamos por nos reunir no rooftop do hotel para comemorarmos a turnê de Louis que se iniciaria.
Quando acordei Letticia ainda dormia na cama ao lado da minha. Haviamos dividido o quarto já que um único quarto para cada uma era exagero ainda mais por apenas uma noite. Passariamos o dia em Barcelona e durante a noite seguiríamos com Louis para Madrid e de lá voltaríamos para Londres enquanto Louis seguiria viagem com a tour.
Me levantei da cama e segui para o banheiro fazendo minha higiene e sentindo meu estomago roncar. Já passavam das dez e com certeza o café já havia sido servido, mas por conhecer o hotel -de quando estive em tour com Harry- eu sabia que se descesse ao restaurante ainda poderia pedir o meu.
Trocando o pijama e me vestindo com roupas de moletom eu segui para fora do quarto em silêncio e enviei uma mensagem para Louis, porém a falta de resposta me indicou que ele possivelmente ainda dormia. Chamei pelo elevador e concentrei minha atenção no celular até que a campainha indicasse que o mesmo estava em meu andar. Assim que guardei o aparelho as portas de metal de abriram me fazendo encontrar Harry lá dentro. Seus olhos deixaram seus pés e ele me encarou sorrindo fraco. Seus olhos sempre foram verdes daquele modo? Com certeza sim.
- Bom dia. - ele cumprimentou.
- Bom dia. - respondi entrando no elevador e apertando o botão do térreo que era o mesmo que Harry havia apertado - Caiu da cama? - questionei me encostando em uma das paredes ali e ele riu fraco.
- Mais ou menos isso e você? - ele cruzou os braços perto do corpo.
- Acordei no meu horário, sem grandes novidades. - dei de ombros e ele assentiu - Louis ficou te atormentando por causa do início da tour? - questionei e Harry riu.
- Você conhece o amigo que tem. Ele é um velho ranzinza pra tudo nessa vida, mas basta ter algo que ele esteja esperando muito para ele ficar pior que o Freddie na manhã de natal. - ri com a comparação e Harry me acompanhou - Ligamos pros caras e acabamos dormindo tarde. - ele informou e eu arqueei a sobrancelha sorrindo de canto.
- Já posso espalhar na internet que Larry dormiu no mesmo quarto? - questionei e Harry gargalhou.
- Então agora você gosta de causar confusões? Ora, ora, ora . Quem te viu, quem te vê. - ele brincou e eu ri. Conforme minha risada cessou houve silêncio, onde apenas a música do elevador era escutada - Então… - Harry iniciou de novo provavelmente porque sabia que eu odiava aquela música - Daniel voltou para o Brasil? - havia algo em sua voz e eu sabia o que era, mas apenas deixei para lá.
- Voltou sim, pegou o avião ontem. - comentei e ele assentiu.
- O que ele faz por lá? - o repentino interesse em Daniel me fez franzir brevemente o cenho.
- Ele cuida da galeria de arte dos pais dele. - informei e Harry arqueou ambas as sobrancelhas torcendo os lábios em seguida.
- Parece algo legal. - ele soltou e eu torci o nariz rindo fraco em seguida.
- Ele gosta, mas eu não acho que seja tão legal assim. Quero dizer não vejo graça em passar dias no escritório de um mesmo lugar resolvendo tantos problemas como ele faz. - dei de ombros e vi Harry sorrir fraco de canto.
- Era isso que você fazia quando nos conhecemos. - ele comentou e eu assenti. Aquilo parecia em outra vida e com outra pessoa. E talvez fosse.
- É, mas eu acho que entrar em turnê com você naquela época me fez notar que tem muito mais do mundo pra se ver do que apenas as paredes de uma revista e os rostos das mesmas modelos de sempre. - dei de ombros - Quero dizer, fazer uma turnê foi incrível. Conhecer novas pessoas toda noite, fazer parte da energia de cada show. Isso foi realmente algo que me fez me conhecer melhor como a fotógrafa. - dei de ombros vendo Harry sorrir - Acho que nunca te agradeci devidamente por isso. Obrigada Harry. Por me dar esse tipo de oportunidade. - seu sorriso aumentou.
- Não tem o que agradecer. - seu tom de voz era baixo - Eu te disse que as pessoas se encantariam com seu trabalho. - ele comentou e eu sorri.
- É, disse sim. - fiz uma breve careta que o fez rir.
- Pensa em voltar a trabalhar com turnês algum dia? - ele questionou e em seguida as portas se abriram me fazendo desapoiar da parede e seguir para fora dali.
- Algum dia, não agora. No momento eu estou voltando. Viajando pra lá e pra cá para trabalhar com pessoas incríveis e entregar a elas o melhor trabalho que eu puder. Depois de dois anos malucos, em todos os sentidos da palavra, eu quero só manter a calma. - comentei mordendo o lábio - Mas é, algum dia vou estar em turnê com alguém. - dei de ombros e o vi sorrir.
- Se precisar da minha carta de recomendação, eu sou ótimo em rasgar seda, você sabe. - ele soltou e eu ri.
- É, eu sei. - comentei seguindo para o restaurante.
- Bom, vou te deixar com seu café e vou correr. - ele informou pegando o celular provavelmente para colocar alguma música - Nos vemos mais tarde, . - ele pareceu que daria um passo em minha direção, mas desistiu apenas sorrindo pequeno.
- Até mais e cuidado com essa asma. - comentei e ele riu negando com a cabeça.
- Pode deixar. - e acenando ele se foi. Colocou o capuz, os óculos e seguiu para fora do hotel. Eu sorri fraco sozinha ao notar que aquela havia sido um conversa leve. A primeira em que Harry estivesse sóbrio na qual não era estranho falar com ele. Será que aquilo permaneceria assim? Eu torcia para que acontecesse.

[...]

Quatro músicas haviam se passado. Todas elas aplaudidas e gritadas pelas fãs de Louis de maneira linda e emocionante. Quando ele abriu o show com Just hold on meu coração faltou saltar pela boca de tanto orgulho. Ele havia iniciado sua turnê solo e eu não conseguia parar de sorrir por um minuto ou sibilar que eu era sua fã sempre que ele olhava para cima onde nos encontrávamos -fato que o fez rir duas ou três vezes.
- E aí Barça, como vocês estão? - ele questionou assim que ele terminou Drag me down. O público irrompeu em gritos e ele riu - Certo, certo. Entendi que estão bem. - ele riu e respirou fundo por um minuto - Eu estou muito, muito feliz de ter todos vocês aqui essa noite. Nós ainda vamos pular e gritar muito juntos, mas neste momento tem uma música muito especial que eu queria cantar se vocês me permitirem. - o público gritou em aprovação e ele assentiu sorrindo - Obrigado, obrigado. Você são muito legais. - ele encarou a banda que assentiu - Certo, essa daqui é Two of us. - e nesse momento seus olhos subiram para mim e os meus se encheram de lágrimas enquanto eu sorria fraco para ele que fazia o mesmo para mim. Os acordes da canção começaram e no mesmo instante eu fui levada para aquela mesma época um ano antes.

Março, 2019 - São Paulo, BR.
Meus olhos encaravam a matéria de modo desacreditado. Não, não, não. Ele não merecia aquilo. Não. Não o Louis.
Com as mãos trêmulas peguei o celular e encontrando seu contato disquei em uma chamada de vídeo. Ele não demorou nem três toque para atender. Estava na sala de sua casa, eu reconhecia. Os olhos azuis antes brilhantes e cheios de vida eram vazios naquele momento.
- Lou… - sussurrei e ele pressionou seus lábios claramente prendendo um choro.
- Ela se foi, . Fizzy se foi. - e ao dizer aquilo ele caiu em um choro. Eu queria estar lá para abraçá-lo e lhe garantir que tudo ficaria bem. Eu entendia sua dor. Entendia bem. E sabia que não havia nada a dizer naquele momento, mas queria poder abraça-lo.
- Eu sinto muito, Louis. - disse em meio ao meu próprio choro - Sinto muito mesmo. - completei e naquele momento tudo que fizemos foi chorar ali, naquela chamada de vídeo. Sem prender choros ou esconder nossas lágrimas. Aquele era um momento seguro.
O silêncio e o choro perduraram por longos minutos. Louis olhavam um ponto fixo e eu podia jurar saber o que ele pensava. Por que eu tenho certeza que já havia feito aquela mesma cara milhares de vezes no último mês.
- Eu lancei uma música a alguns dias. Era sobre a perda da minha mãe. E agora, nem uma semana depois eu perco minha irmã. - ele comentou baixo e meus olhos tornaram a se encher de água - As pessoas ficam me dizendo que tudo vai ficar bem e eu sei disso, mas no momento eu só sinto que o mundo vai acabar. - ele comentou e eu assenti.
- Eu entendo. - sussurrei e suas ireses que encaravam algum ponto em sua sala de estar me encaram e eu respirei fundo - No mês passado meu avô morreu. - comentei sentindo o choro crescer - Foi por causa dele que voltei para o Brasil. Ele estava mal e passou os últimos meses internado. - Louis abriu a boca parecendo chocado - Ele era meu melhor amigo da vida toda e agora ele se foi. Eu evito falar disso, por que é o que as pessoas sempre me dizem. Que tudo vai ficar bem, que foi o melhor e eu sei disso. Mas agora só doi. Não vai doer pra sempre, mas agora dói. - comentei e Louis assentiu.
- Minha mãe também era minha melhor amiga. - ele começou - Ela sabia tudo e estava sempre ali. Quando entrei no The X-Factor ela me apoiou completamente. Nunca duvidou de mim, nem quando todo o resto duvidou. - eu sorri - Fizzy era a minha pirralha. Estava sempre me enchendo e eu sempre fingia estar irritado com isso. - ele riu e eu também - Vivíamos conversando sobre a vida e sobre o futuro. Ela vivia me dizendo que eu tinha que voltar para a música e que o mundo precisava ver todo o meu talento. - ele sorriu fraco - A última coisa que ela me disse foi “mamãe está orgulhosa de você, Louis.”. - ele tornou a chorar e meu coração ficou pequeno no peito.
Era tão injusto que aquilo estivesse acontecendo com ele. Louis não merecia aquela dor. Mas aquilo não era sobre merecer. Era sobre a vida e seu ciclo. Um ciclo que se inicia e tem seu fim, cada qual em seu devido período de tempo. E todas aquelas vidas que lamentavamos, haviam tido o seu ciclo finalizado em seu tempo determinado, mesmo que não entendêssemos
- Você se lembra a última coisa que ele te disse? - ele questionou e eu respirei fundo.
- Ele já não falava a algumas semanas quando se foi. - comentei e ele assentiu - Mas tinha essa coisa que ele sempre fazia quando eu era criança, sabe? - sorri me lembrando daquilo - Ele fazia carinho na parte de cima da minha mão e depois puxava de leve a pele ali e ficava fazendo aquilo. - ri fraco - Eu nunca entendi isso, mas ele sempre fazia. - lágrimas rolaram pelo meu rosto - Ele não me reconhecia desde que cheguei aqui, mas no dia anterior a ele morrer eu estava sentada segurando a mão dele e do nada ele fez isso. - Louis sorriu fraco e eu percebi que chorava - Aquele foi o jeito dele se despedir, eu acho. - dei de ombros brevemente e encarei Louis em seguida. O silêncio retornou enquanto nós apenas chorávamos.
Depois do que devem ter sido dez minutos de silêncio Louis se ajeitou no sofá.
- Você já escutou? - ele questionou e eu franzi o cenho - A minha música. - eu neguei com a cabeça e Louis revirou os olhos - Péssima amiga, . Péssima amiga. - eu ri e ele também.
- Não me julgue, eu estou longe da internet. - murmurei e ele mostrou o dedo como quem diz “corta essa”.
- Quer escutar comigo? - ele questionou e eu sorri assentindo. Ele se moveu e puxou o que julguei ser seu notebook e digitou algumas coisas para depois me encarar - Certo. Vamos lá então. Pronta? - ele me encarou e eu assenti me ajeitando na cama - Essa é Two of us.
E naquela manhã, no meu antigo quarto na casa dos meus pais em uma chamada de vídeo com Louis foi que eu entendi algo muito importante sobre o qual conversamos mais tarde naquele mesmo dia.
Apesar de eles não estarem ali fisicamente, de algum modo, em nossos corações eles sempre estariam vivos, em memórias e em todo amor que tínhamos guardado para eles. E onde nossos corações estivessem, eles estariam também, vivendo através de nós.

Março, 2020 - Barcelona, ES.

Pouco antes da canção terminar os olhos de Louis retornaram para o local onde eu me encontrava. Eles brilhavam, com felicidade e lágrimas, e um sorriso surgiu em seu rosto ao mesmo tempo que no meu e o verso seguinte eu entoei com ele.
- We'll end just like we started. Just you and me and no one else. I will hold you where my heart is. One life for the two of us. - ambos entoamos e quando os acordes terminaram ambos sorrimos largo.
- Elas estão orgulhosas. - sibilei e ele sorriu.
- Ele também. - e dito isso ele me mostrou o dedo do meio me fazendo rir e eu fiz o mesmo, antes que ele secasse os olhos e seguisse para o meio do palco animando as pessoas para a música seguinte.

[...]

Depois de cantar Kings of leon, Louis anunciou always you e o público foi a loucura, já que ele havia dito não saber se tocaria aquela.
Ele iniciou a canção que estava entre as minhas favoritas do álbum e eu senti como se alguém me olhasse. Olhei ao redor e sentado um pouco mais atrás de mim, em um tipo de sofá estava Harry que tinha um sorriso lateral preso e eu franzi o cenho.
- I went to Tokyo to let it go. Drink after drink, but I still felt alone. I should've known. - Louis cantou e eu paralisei quando Harry riu negando com a cabeça e me encarou em seguida mordendo o lábio. Eu me virei de uma vez segurando a grade a minha frente.
- O que foi doida? - Letticia que estava ao meu lado questionou.
- Styles. - murmurei e ela franziu o cenho olhando para trás em seguida.
- I'm wastin' my time when it was always you, always you. Chasin' the high, but it was always you, always you. - Louis cantou e eu respirei fundo - Should've never let you go. Should've never let you go, my baby. - Letticia gargalhou do meu lado.
- Nem fodendo. - ela soltou em português e eu respirei fundo.
Pela visão periférica eu vi Harry parar ao meu lado, em um canto mais escondido do público já que se sua presença fosse confirmada ali seria um surto gigante. Me virei brevemente o encarando e ele me olhava sorrindo.
- O que foi, ? - questionou e eu apenas respirei fundo me virando para frente de novo. Me virei para encarar Letticia e ela havia acabado de abaixar o celular. Eu lhe lancei um olhar estreito.
- Amiga, a foto ficou linda. - ela soltou e eu neguei com a cabeça.
- Que ótimo que está se divertindo com a minha desgraça. - murmurei baixo e ela riu.
Respirei fundo e me mantive com o olhar no palco, apesar de sentir o olhar de Harry em mim. Eu prendia sorriso que insistia em fugir toda vez que o ouvi prender o riso.
- I went to so many places, looking for you in the faces. I can feel it, oh, I can feel it. - Harry cantarolou baixo e Letticia riu enquanto eu negava com a cabeça - Wastin' my time when it was always you, always you. I was chasin' the high, but it was always you, always you. Should've never let you go. Should've never let you go, my baby. - ele terminou de cantarolar aquela parte rindo e eu o encarei.
- Dá pra parar? - pedi segurando o riso e negando com a cabeça e ele ergueu suas mãos em rendição.
- Eu estava só cantando. - ele murmurou e se afastou voltando ao lugar onde estava sentado antes. Eu me virei para o palco ao mesmo tempo que Louis terminou a música e em seguida me inclinei sobre a grade tentando respirar normalmente.
- Cuidado com o coração, . - Letticia debochou e eu a encarei.
- Você devia estar do meu lado. - murmurei e ela riu me abraçando pelos ombros.
- Eu estou. Você só precisa olhar por outro ângulo. - e dizendo isso ela piscou e eu bufei jogando a cabeça para trás. Eu estava perdida. Era oficial.


CAPÍTULO 9

Março, 2020 - London, UK.

In all your gorgeous colours
I promise that I'll love you for the rest of my life.


Kevin

Respirei fundo assim que estacionei o carro em frente ao Sky garden. Com as mãos no volante eu encarei um ponto fixo do lado de fora pensando sobre todo o último um ano e meio. Nada nunca pareceu tão certo quanto aquilo. Dentro do bolso interno do casaco que eu usava peguei a caixa preta a abrindo e olhando o anel que ali repousava.
Um sorriso surgiu em meus lábios ao me lembrar do que estava prestes a fazer. Duas semanas atrás eu e Harry haviamos ido a uma joalheria onde o anel foi desenhado e confeccionado exclusivamente para . Era de ouro branco, com uma pedra de diamante quadrada, e algumas pedras menores ao lado.
O guardei no bolso descendo do carro. Havia chegado mais cedo ao restaurante para o pedido e Harry traria minutos mais tarde enquanto eu morria um pouco lá em cima por conta da ansiedade. O valet levou meu carro e eu segui para o elevador batendo meus pés enquanto ele fazia seu caminho até o terraço.
Aquela decisão não havia sido repentina. Eu e já estávamos falando sobre morarmos juntos e um dia, a vendo cantar wolves do One Direction na sala enquanto eu fazia o jantar, eu decidi que aquele era o próximo passo a ser tomado. Eu a amava e ela também me amava, então por que adiar aquilo?
E que momento melhor que nosso aniversário de um ano e meio de namoro no lugar onde aconteceu nosso primeiro encontro?
Assim que as portas do elevador se abriram eu segui para fora dele. As pessoas conversavam e comiam por todo o lugar, incapazes de imaginar o que aconteceria dali a alguns minutos. Avistei a recepcionista e segui até ela dando meu nome, o que a fez sorrir.
- Pode me acompanhar, senhor Hawley. - ela indicou o caminho para a área externa do local e eu a segui. Eu olhava o celular em busca da resposta de Harry que ainda não havia chegado. Assim que atravessei a porta e levantei meus olhos eu franzi o cenho surpreso.
A minha frente meus amigos se encontravam ali. , Louis, Letticia, Tim, Josie, Mitch, Sarah, Adam, Nyoh, Hels, Charlotte, John e mais alguns amigos que moravam na cidade.
- O que está acontecendo? - questionei ainda de cenho franzido e vi sorrir apontando com a cabeça na minha direção, porém indicava algo atrás de mim. Me virei encontrando Harry e e fiquei ainda mais confuso. Styles sorria, assim como , e ele se aproximou batendo de leve em meu ombro.
- Eu a trouxe como você pediu. - ele sussurrou e passou direto por mim.
- O que está acontecendo aqui? - questionei rindo e encarando . Ela respirou fundo e deu um passo em minha direção.
- Oi amor. - ela cumprimentou sorrindo.
- Oi amor. - repeti sua fala sorrindo também.
- Então, hoje a gente está fazendo um ano e meio de namoro. - ela comentou e eu assenti - No nosso primeiro encontro você me trouxe aqui. Reservou nossos lugares meses antes do encontro e no dia 16 de julho às sete você estava me trazendo para cá como havia me prometido no Japão. Eu não achava que aquilo seria sério, até você me enviar uma mensagem no dia anterior e perguntar se eu realmente iria. Naquele dia de manhã eu surtei com a , exatamente como fiz hoje. - eu ri encarando .
- Isso é completamente verdade. - ela comentou fazendo todos rirmos.
- Naquele dia eu surtei porque iria em um encontro com você. Hoje, eu surtei por um motivo tão importante quanto. - eu franzi o cenho - Kevin August Hawley, a um ano e meio você me faz a mulher mais feliz do mundo. A um ano e meio você me mostra o mundo pelos seus olhos e eu descubro que ele é ainda mais incrível. A um ano e meio você me recebe com uma xícara de chá sempre que eu tenho um dia difícil no trabalho. A um ano e meio você surge com sorvete e chocolates na minha porta depois de uma briga. A um ano e meio você diz que me ama sempre que acorda, e reafirma isso sempre que vai dormir. A um ano e meio você canta todas as músicas da One Direction no carro comigo. E a um ano e meio você me mostra que onde nós estivermos, seja no meu apartamento ou em um carro quebrado no meio de uma estrada às duas da manhã, se eu e você estivermos lá eu sempre vou estar segura e em casa. - meus olhos estavam marejados assim como os de e ela sorriu - Hoje Kev, eu quero saber se você quer continuar fazendo tudo isso e mais um monte de coisas pelo resto das nossas vidas. - e dizendo isso tirou do bolso de seu casaco uma caixinha azul escura me fazendo a olhar surpreso enquanto ela se ajoelhava e abria a caixa revelando um anel com uma pedra em cima - Kevin, você quer casar comigo? - a pergunta me fez rir desacreditado e meus olhos marejarem.
Era claro que nosso pedido não seria convencional. Nós não éramos convencionais e um simples pedido meu no sky garden não estaria a nossa altura. Mas aquilo? Aquele plot twist na história? Aquilo era completamente eu e . Éramos o inesperado, o improvável. Éramos a coragem de pular mesmo sem a certeza do que haveria lá em baixo. Éramos o fazer as coisas ao contrário dos clichês e ainda assim sermos um clichês. Éramos daquele jeito e eu queria ser assim com ela pro resto da minha vida.
- Eu só aceito o seu pedido com uma condição. - comentei e a vi rir.
- Qual? - questionou. Eu coloquei a mão dentro do bolso do meu casaco tirando a caixa preta de lá e me ajoelhando em frente a ela. Ao mesmo tempo que seus olhos se arregalavam eu escutava os murmúrios surpresos de nossos amigos e das pessoas que haviam parado para ver aquele momento.
- Que você também aceite o meu pedido de casamento. - e dizendo aquilo começou a rir enquanto chorava, assim como eu.
- Então acho que vamos nos casar. - ela soltou e eu ri me aproximando dela.
- Eu aceito me casar com você . - respondi estendendo minha mão onde ela colocou o anel.
- Eu também aceito me casar com você, Kevin Hawley. - e dizendo isso ela estendeu sua mão para mim onde coloquei o anel dela. Após isso eu apenas a puxei pela cintura beijando seus lábios de modo lento e apaixonado. Eu não precisava ter pressa, nós tínhamos uma vida toda pela frente.
- Eles disseram sim! - ouvi a voz de Harry e gritarem juntas e em seguida um pequeno silêncio veio, seguido das risadas dos dois junto a gritos de nossos amigos. Quando nos separamos eu encarei no fundo de seus olhos que brilhavam. Naquele momento, eu era o homem mais feliz do mundo e continuaria sendo, enquanto ela estivesse do meu lado.
Harry
Depois de muita comemoração e parabéns nós havíamos tomado uma mesa para comemorar o noivado de Kevin e . Eu sabia de ambos os pedidos, já que os dois haviam me pedido ajuda, porém mantive tudo em segredo e no fim havia sido melhor do que eu havia imaginado.
Kevin e eram o casal de amigos que eu mais amava, e vê-los dando aquele passo me deixava extremamente feliz por eles. Com certeza eles seriam felizes juntos, e aquele momento só comprovava isso.
Analisei a mesa onde estávamos e todos conversavam entre si de modo animado, mas não estava ali. Quando encarei Letticia, que estava na cadeira ao lado da cadeira vazia onde estava antes, ela apontou com a cabeça para a outra ponta da área externa do restaurante e eu me virei naquela direção vendo apoiada no parapeito com uma taça de vinho em mãos enquanto Londres brilhava em luzes à sua frente.
Me levantei e segui a passos lentos até ela, que se virou me encarando e sorrindo fraco assim que pousou seus olhos nos meus. Eu me apoiei ao seu lado encarando a cidade assim como ela fazia alguns segundos antes.
- Tá legal, você tem que me explicar como a garota que comentava nossas fotos se tornou sua roommate? - comecei me virando para encara-la - Ela é uma stalker e está te ameaçando? Pode contar, só estamos nós aqui e eu posso chamar a polícia ou então gritar a Gemma de novo. - brinquei e gargalhou alto me fazendo acompanhá-la.
- Na verdade está e o que ela quer em troca de me deixar é uma foto com você e uma mexa do seu cabelo. - ela soltou e eu franzi o cenho.
- A foto podemos arranjar, mas a mexa do meu cabelo eu achei bizarro. - completei e deu de ombro.
- Na verdade o cabelo é pra mim. Vou vender no ebay e ficar milionária. - e com aquela frase eu voltei a rir sendo acompanhado por ela.
- É uma ótima estratégia. - comentei e ela negou com a cabeça bebendo de seu vinho.
Nos viramos para frente novamente e encaramos a cidade.
- Você sabia dos dois pedidos? - ela questionou e eu a encarei.
- Você não? - provoquei e ela me mostrou a língua.
- Quando foi que eu deixei de ser a que sabe de tudo aqui? - ela negou com a cabeça e eu ri, sendo acompanhado por ela.
- Ah, não reclame. Você ficou sabendo de Louis e Eleanor antes de mim. - revirei os olhos - Você cria uma amizade de quase dez anos com alguém para no fim ela te trocar por alguém que não conhece nem a dois anos direito. - bufei e gargalhou.
- Acho que aquelas fãs com teorias de que você é o ciumento em Larry, estão certas. - eu ri com a brincadeira e ela também.
- Isso é por que não viu Louis quando apresentei Mitch para ele. - brinquei e ela negou com a cabeça rindo.
- Eu consigo imaginar. - ela soltou rindo. Estava prestes a dizer algo quando seu celular tocou. Em um impulso eu olhei a tela encontrando nome de Daniel ali e me reprimindo por olhar no mesmo instante - Eu preciso atender. - ela soltou mordendo o lábio brevemente.
- Tudo bem. Eu vou voltar para a mesa de todo modo. - indiquei o caminho me virando para ir naquela direção.
- Harry. - ela chamou e eu me virei a encarando brevemente - Nós vamos voltar com a tradição da noite da pizza às sextas. - ela começou respirando fundo e mordendo o lábio por um momento - Se quiser aparecer, vai ser lá em casa nesta sexta. - eu franzi o cenho. Ela estava realmente me chamando para ir?
- Se não for um problema para você. - comentei.
- Não. Claro que não. - ela negou com a cabeça sorrindo pequeno.
- Certo. Eu vou ficar feliz de ir então. - comentei sorrindo e ela fez o mesmo. Me virei para ir para a mesa e mal podia conter o sorriso em meu rosto.
Então aquele auê com Camille não havia colocado tudo a perder. Eu ainda podia tentar me aproximar. Claramente não com a intenção de um relacionamento por que ela e Daniel estavam juntos, mas como um amigo. E aquilo já era o suficiente para mim.


CAPÍTULO 10

Março, 2020 - London, UK.

And you'll follow your heart even though it'll break sometimes.




Era sexta e tudo já estava organizado para receber o pessoal em casa. Eu havia acabado de sair do meu banho e segui para a sala checando se tudo estava certo, pelo que devia ser a décima vez naquele dia. Letticia me encarava da cozinha e riu me fazendo encara-la.
- Você sempre checa a casa tantas vezes quando vai receber os amigos? - o tom de provocação me fez revirar os olhos e a fez rir. Eu apenas deixei para lá e me joguei no sofá mordendo a parte interna da bochecha - , relaxa, é o Harry. - ela se sentou ao meu lado e eu a encarei.
- Certo, é só o Harry. Meu ex, extremamente gato, com aqueles olhos irresistíveis e é, está tudo certo, é só o Harry. - soltei de modo exagerado e Letticia gargalhou - Por que você me apoia a fazer esse tipo de merda? - questionei a encarando.
- Por que eu gosto é de ver o inferno pegar fogo. - ela soltou e eu ri.
- Você não presta. - murmurei e ela riu.
A campainha tocou, eu respirei fundo me levantando e indo até a porta. Assim que a abri dei de cara com Kevin, , Louis, Tim, Josie e atrás de todos eles estava Harry. Eles entraram, Kevin e seguindo para a cozinha com as garrafas de vinho que carregavam e os demais indo cumprimentar Letticia, deixando apenas eu e Harry a porta.
- Me diz que não vai me mandar embora agora. Eu tive que tomar muita coragem para vir até aqui. - ele brincou fazendo um bico e eu ri.
- Eu não vou te mandar embora Styles. - soltei e ele fez uma pequena comemoração me fazendo rir - Vai entra. - indiquei a casa e ele deu um passo para dentro e eu fechei a porta atrás dele.
- Manteve o sofá? - ele questionou o indicando e eu sorri.
- É confortável. - dei de ombros e ele riu fraco assentindo.
- Nisso você tem razão. - ele me olhou por um momento e seguiu até Letticia.
Eu me afastei e fui para a cozinha atrás de e Kev que colocavam as garrafas na geladeira.
- Como estão os mais novos noivos? - questionei e ele riram me encarando.
- Ainda sem surtos por conta do casamento. - Kevin soltou abraçando que riu.
- Pelo menos até semana que vem. - franzi o cenho confusa.
- Semana que vem? Já? - questionei.
- Sim. O casamento vai acontecer em breve. - informou encarando Kevin apreensiva.
- Nós marcamos a data. - Kevin anunciou e eu tapei a minha boca pulando.
- Eu não acredito. Ah meu deus. - mordi o lábio animada e eles riram.
- Segunda semana de maio. - completou e eu me aproximei os abraçando.
- Ei, alguém já… - a voz de Harry soou atrás de nós - Devo ir embora? - questionou rindo.
- Não, vem cá. - Kevin o chamou - Temos algo para dizer para vocês dois, e já que estamos aqui vamos fazer agora. - Eu me afastei encarando-os e encarando Harry que deu de ombros indicando que não sabia do que se tratava.
- Eu estou ficando nervosa. - informei e ambos riram.
- Certo. - encarou Kev que assentiu - Vamos nos casar na segunda semana de maio. E bom… NInguém faz mais sentido para ser nosso padrinho e nossa madrinha do que vocês dois. - ela nos apontou - Então nós gostaríamos de saber se vocês aceitam. - ela nos encarou e eu torci o lábio encarando Harry que me encarou de volta.
- Esse é o momento em que fingimos surpresa. - disse para Harry e ele assentiu.
- Ah tá, o momento em que fingimos que não sabíamos que seríamos nós? - ele questionou.
- Isso ai. Vamos lá, agora… - me virei para e Kevin que nos olhavam de olhos estreitos - Ah meu deus, eu estou tão surpresa. - soltei colocando a mão no peito.
- Eu não fazia ideia. Jurei que ia chamar o Charlie do ensino fundamental. - Harry completou e os dois nos mostraram os dedos do meio nos fazendo rir.
- É claro que aceitamos. - respondi me aproximando deles e sendo recebida em um abraço.
- E você responde por mim? - Harry questionou e eu o encarei cruzando os braços - Um ano pode mesmo mudar completamente uma pessoa. - Harry revirou os olhos.
- Você ia negar por acaso? - questionei e ele pensou por um momento.
- É, não. - ele deu de ombros.
- Então fica quieto e abraça os noivos, como um bom padrinho. - soltei e Harry riu junto aos dois.
- Eu já sei quem vai ficar com a parte de mandar em todo mundo no casamento. - soltou enquanto Harry ia até eles.
- Vocês não me merecem. - murmurei os ouvindo rir enquanto se abraçavam.

[...]

As pizzas foram pedidas e nós comemos até não aguentarmos. Em seguida colocamos um filme, e como era costumeiro todos dormiram espalhados pela sala antes que ele chegasse ao meio. Quando ele finalizei, eu me levantei pegando a louça e me surpreendi quando notei que Harry estava acordado e se levantou comigo.
- Eu ajudo. - ele indicou a louça na mesinha e eu assenti seguindo para a cozinha com Harry em meu encalço. Deixei a louça dentro da pia e ele fez o mesmo.
- Pode deixar aí que depois eu lavo. - informei e ele me encarou fazendo uma careta e arregaçando as mangas.
- Garota, você realmente acha que vou deixar isso pra você? - eu ri cruzando os braços e me apoiando na bancada perto da pia de braços cruzados.
- Então, o que tem feito? - perguntei e ele me encarou por um momento.
- Viajei para lugares, conheci pessoas e culturas, fiz terapia, fiquei com minha família, aprendi muito sobre muita coisa. - ele deu de ombros - E fiz um álbum. - eu ri fraco.
- E como foi? Fazer outro? - questionei e ele me encarou como quem pergunta se é sério.
- Foi um processo muito mais intenso. - ele começou - Tem muitas experiências nele, mas o processo todo foi de muito autoconhecimento. - ele pareceu cogitar que palavras usaria antes de continuar - Eu aprendi muito sobre mim. Sobre quem sou e quem quero ser. - e naquele momento aquela frase foi uma recordação de uma noite muito difícil - Foi bom no fim das contas. - ele deu de ombros - Mas e você, o que fez? - apesar dos rumos da conversa, havia certa leveza nela. Como se estivessemos contando sobre outras pessoas, algo que havíamos ouvido por aí. E aquele, apesar de distante, era um sentimento familiar com Harry.
- Foi um ano parado pra mim. Um ano meio sabático. - dei de ombros - Eu voltei para o Brasil, fiquei algum tempo com a família e depois apenas me mantive por lá. Sem fazer nada em especial, além da terapia. - ele colocou o último copo no escorredor de louça e me encarou parecendo curioso.
- E estão todos bem? - ele secou suas mãos com os olhos fixos em mim e eu hesitei.
Pensei por um momento e respirei fundo em seguida.
- Quer dar uma volta? - Harry questionou e eu o encarei com o cenho franzido - Se lembra daquela hamburgueria que fomos uma vez em Mayfair? - eu me lembrava claramente.
- Sim, me lembro. Aquela que fomos e depois ficamos vagando de madrugada por aí, até voltamos pro apartamento da . - eu sorri fraco e ele fez o mesmo assentindo.
- Essa mesmo. Está afim de ir até lá buscar um milk shake? Aquele de chocolate que tomei foi o melhor de todos. - ele soltou e eu ri fraco, sem pensar muito sobre o assunto para responder.
- Tudo bem, vamos lá. - dei de ombros e Harry pareceu surpreso - Se não se apressar eu desisto. - brinquei e Harry riu.
- Certo, vamos lá. - ele indicou a porta da cozinha e seguiu para fora. Peguei meu casaco ao lado da porta, assim como Harry. Todos ainda dormiam quando saímos pela porta.
Fizemos nosso caminho para o elevador e assim que ele chegou entramos no cubículo. Quando as portas se fecharam um momento do Brits invadiu minha mente e eu mordi meu lábio.
- Harry. - o chamei me virando para encará-lo à minha esquerda. Seus olhos já estavam pousados em mim - Eu não sei se você se lembra disso, por que estava muito bebado, mas no Brits você me disse algo. - ele fez uma careta.
- Eu achei que as vergonhas daquele dia já haviam acabado. - ele brincou e eu ri fraco.
- Não é nenhuma vergonha, é só uma coisa. - comentei e ele assentiu indicando que eu deveria prosseguir - Você disse que sabia que eu te odiava. - ele engoliu em seco parecendo receoso pelo que estava por vir - Só queria que soubesse que eu não te odeio Harry. - mais uma vez naquela noite ele pareceu surpreso - Tudo que aconteceu foi… Complicado. Mas eu não te odeio, Harry. - ele me encarou por um momento e eu sorri.
- Bom, eu estou realmente aliviado de saber que não. - ele soltou sério - Já posso mandar o Kevin devolver todas as suas facas então? - a pergunta me fez gargalhar.
- Agora eu sei por que eu não encontrei nenhuma na gaveta. - ele ria junto comigo - Você é um idiota. - comentei e ele continuou rindo.
- Eu sei disso. - a porta do elevador se abriu - Vem, vamos atrás do milk shake.

[...]

As ruas de Mayfair estavam tão vazias naquela noite quanto na primeira em que estivemos ali. Fazia frio, porém era suportável. Nossos copos se mantinham em mãos. Harry com seu milk shake de chocolate e eu com o meu de morango. Harry me contava a história por trás de um vídeo que Mitch havia publicado dele dançando enquanto batia uma margarita.
- E então decidimos preparar uma margarita, mas Mitch não fazia ideia de como fazê-la e eu tinha uma breve noção. Daí fomos para a cozinha, só que Mitch disse que eu precisava de uma música para dar certo e ele escolheu a música. E enquanto batia, ele me disse “ vamos dançar, dançar para a margarita ficar feliz, Harry” e eu como o idiota que sou, comecei a dançar junto com ele.- eu gargalhei.
- O Mitch é a maior figura que eu conheço. - comentei rindo imaginando a cena de Mitch dançando.
- Com certeza é, mas ele fica fazendo essa pose de durão e as pessoas nunca acreditam quando digo que ele é esse tipo de cara. - eu assenti. Mitch podia parecer o cara mais fechado do mundo, porém quando estava com os amigos ele era exatamente aquele cara: o que dançava de maneira boba do nada. Naquele momento eu senti uma pequena saudade de estar com eles em tour.
Houve um momento de silêncio em que apenas nossos milk shake sendo sugados eram escutados, e então alguns passos a frente eu vi a escada da loja onde Harry me contou sobre Robin, seu padrasto que havia perdido em 2017, e ele pareceu se lembrar da mesma coisa pois parou ali encarando as escadas. Sem dizer nada ele se sentou e eu respirei fundo me sentando junto a ele. Com as costas apoiadas no corrimão eu encarava Harry que encarava seu copo.
- Sabe por que te contei sobre Robin naquele dia? - ele questionou baixo e me encarou, eu neguei com a cabeça - Por que de algum modo eu sabia que você entenderia. E falar não era algo que eu havia feito, mas precisava. - eu mordi a parte interna da bochecha - Se lembra da sua história sobre a caixa? - questionou e eu assenti - Acho que talvez, possa estar na sua vez de escutá-la. - eu respirei fundo por um momento e desviei o olhar para o milk shake. Como ele sabia que havia algo de errado? Ele ainda me conhecia tão bem assim?
- Eu fui para o Brasil por que meu avô estava doente. - comecei - Quando cheguei lá ele estava em um hospital onde passou cerca de um mês internado, até melhorar um pouco e ser liberado para ir pra casa. - deixei meu copo na escada e coloquei minhas mãos juntas entre os dois joelhos - Ele passou mais dois meses em casa até que piorou de novo. Quando ele voltou para o hospital, eu sabia que ele não voltaria para casa. - meus olhos marejaram e eu respirei fundo - Passamos o natal no hospital, assim como o ano novo e seguimos desse mesmo modo até fevereiro. Na segunda semana de fevereiro meus pais voltaram para a capital, por que as aulas começariam e ela tinha que voltar a dar aula e o período que meu pai havia pedido no hospital acabou. Eu me revezava com a minha tia para ficarmos no hospital e em uma noite eu a mandei para casa, apesar de não ser minha noite. - encarei meus polegares que brincavam uns com os outros - Naquela noite eu dormi na poltrona ao lado da cama. Eu dormi de mãos dadas com ele. - sorri fraco me lembrando de como sua mão segurou a minha naquela noite - Eu acordei com o aparelho de monitoramento cardíaco naquele som contínuo e com enfermeiros no quarto junto com o médico dele. Eles me afastaram e tentaram ressuscitar ele. mas já era a hora. - uma lágrima teimosa escorreu - Eu liguei para a família para avisar e quando meus pais chegaram, uma hora depois, eu ainda estava sentada na poltrona do quarto. - respirei fundo - Me mover dali parecia algo errado, como se sair dali fosse tornar tudo aquilo real. - Harry tocou meu braço e eu o encarei Ele sorriu fraco - Quando eu saí do quarto a sensação que eu tive era que ele estava ficando ali, apenas esperando que eu voltasse. E essa sensação durou por muito tempo. Até um dia que eu dirigi de São Paulo para Sorocaba no hospital onde ele estava e invadi o andar do quarto onde ele estava, fui até o quarto e me sentei chorando no chão por que ele não estava lá. - engoli em seco. Respirei fundo algumas vezes enquanto o polegar de Harry acariciava a minha mão.
- Eu sinto muito, . - ele sussurrou e eu assenti fraco.
- Hoje não é mais difícil, mas as vezes, de madrugada eu acordo com o barulho do monitor cardíaco e procuro por ele, mas ele não está lá. - mordi o lábio respirando fundo mais uma vez, fazendo com que as lágrimas se dispersassem e sumissem. Encarei Harry que me olhava com os olhos marejados - E você é a primeira pessoa para quem conto isso. - ele não expressou nenhuma reação, apenas manteve o carinho com seu polegar e seus olhos fixos em mim.
Não houveram palavras. Elas não eram necessárias. Os olhos de Harry me faziam a promessa silenciosa de não contar aquilo a ninguém, assim como eu nunca havia contado a ninguém sobre aquela noite em que ele me contou sobre Robin. Aquela era uma promessa que seria mantida, independente de qualquer coisa.
- Vem. - ele se levantou depois de alguns minutos e me estendeu a mão.
- Onde vamos? - questionei pegando meu milk shake e segurando sua mão.
- Andar por aí, ver vitrines com roupas absurdamente caras das quais você vai reclamar dos preços e eu vou anotar os endereços para voltar depois sem você para comprar alguma peça sem ser julgado. - eu gargalhei e ele me acompanhou.
- Vocês ricos são pessoas que eu nunca vou entender. - murmurei e ele deu de ombros.
- Somos um bando de egocêntricos que gastam dinheiro à toa. Pode nos julgar, eu permito. - eu ri novamente o encarando enquanto ele ria também.
- Eu vou mesmo, não pense que não vou. - respondi e ele deu de ombros dando um gole em seu milk shake - Obrigada. - agradeci e ele me encarou para sorrir fraco em seguida.
- Não tem o que agradecer. Apesar de tudo que aconteceu, você sempre foi e sempre vai ser uma amiga muito querida, . E é isso que amigos fazem por amigos. Ajudam, escutam e guardam seus segredos. - eu sorri. A ideia de Harry ainda me considerar uma amiga foi reconfortante para meu coração de algum modo.
É, talvez pudéssemos ser amigos. Apesar de tudo, podiamos ser amigos. Talvez levasse tempo e muitas conversas para que nos acertassemos, mas depois de tudo talvez ainda pudéssemos ser amigos. E aquela ideia era reconfortante para mim, apesar de me assustar um pouco também. Mas o que custava tentar, não é?


CAPÍTULO 11

Abril, 2020 - New York, USA.

And I keep thinking back to a time under the canyon moon.


Harry

Depois da entrevista com Ana no late late show eu retornei para casa onde o assunto com ela batia em minha mente. Ana não parecia saber nada sobre Daniel, porém tudo me indicava que e o rapaz estavam juntos.
Apesar de ser doloroso não ter do mesmo modo que antes, era bom estar reconstruindo tudo com ela. Nos falavamos por mensagens em alguns momentos, e as sextas estávamos sempre com o resto do pessoal na casa de alguém falando bobeiras e sendo apenas um grupo de amigos.
Era quarta-feira e a poucos dias eu havia viajado para Nova Iorque por conta de uma série de shows secretos que estava fazendo com algumas rádios, e naquele dia seria com a iHeart.
Eu havia chego ao local e seguia por entre corredores até o camarim que me acomodaria por algumas horas. As pessoas que passavam por mim eram gentis e me cumprimentavam com largos sorrisos, e havia um ar diferente no local. Eu sentia que aquele seria um bom dia.
Eu estava sentado na cadeira do camarim a meia hora quando a porta se abriu revelando o rosto familiar de Sarah que sorria largo.
- Ei boss. - ela brincou e eu ri me levantando para abraçá-la.
- Oi boss. - respondi e ela riu me encarando assim que nos separamos - Cadê o nosso amado? - questionei e ela mordeu parte interna da bochecha.
- Está lá fora, eu vim te chamar para ver uma coisa. - ela comentou e eu franzi o cenho.
- O que houve? - questionei e ela riu.
- Só vem comigo. - ela indicou com a cabeça e eu a segui para fora do camarim.
Caminhando por alguns corredores com uma Sarah animada me indicando o caminho eu me perguntava o que estava acontecendo. Quando chegamos a uma outra sala, pouco menor que a minha, eu notei ser uma cozinha onde Mitch tomava café junto a Hélène, Adam, Charlotte, Nyoh e… ?
- Dai ela caiu por que estava tentando alcançar o palco B antes do Harry, mas adivinha? - Hels ria junto a todos os demais com uma xícara em mãos.
- Ela não caiu. Caiu? - Charlotte questionou prendendo um riso.
- Ela caiu. - Hélène soltou e todos riram.
- Você é tão dedo duro. - soltou enquanto Hels gargalhava - Era um segredo. - ela fez um bico.
- Ninguém disse isso pra mim. - Hélène declarou dando de ombros e lhe bateu de leve no braço rindo e se virou assim que Sarah se moveu entrando no cômodo indo em direção a Mitch. Ela me encarou ainda sorrindo.
- Ei Harry. - ela cumprimentou e eu sorri. Aquilo era nostálgico - Não queria dizer nada, mas Hélène está te difamando a meia hora aqui. - Hels a encarou indignada.
- Entregar para o chefe é golpe baixo. - Hélène declarou.
- Que chefe? Todos sabem que a chefe aqui é a Sarah, e eu não te entreguei para ela. - todos riram e eu estreitei os olhos me aproximando de todos e instintivamente parando ao lado de .
- Não vou nem negar, porque todos sabemos que é verdade. - murmurei e todos riram.
- Quer um café? - Adam questionou e eu neguei com a cabeça.
Passamos mais alguns minutos conversando sobre acontecimentos da Live on tour até que a produção do programa veio nos avisar que em breve entrariamos no palco e com um troca de olhares todos se retiraram, com um adendo especial para os sorrisos cúmplices de Sarah e Mitch, e logo estávamos apenas eu e ali.
- Não sabia que estava em Nova York. - comentei enquanto lavava sua xícara
- É, a gente não se falou nos últimos dias, daí eu decidi deixar de surpresa que eu seria a fotógrafa da iHeart hoje. - ela levantou as mãos as sacudindo como quem diz “surpresa” e eu ri.
- Realmente foi uma surpresa. - soltei e ela fez uma comemoração - Mas já estava na cidade? - questionei e ela secou suas mãos parando do outro lado da cozinha.
- Sim, vim trabalhar com a Entertaiment em um ensaio com a Saoirse e o Timothée ontem. - a menção ao nome de Chalamet fez meu estômago revirar. Não por Timothée, mas por que as coisas daquela noite continuavam sempre voltando como se quisessem me lembrar daquele momento e de como tudo havia acontecido - Depois eu, Timmy e Lily tomamos um café juntos, e Lily conhecia o fotógrafo que trabalharia aqui hoje, porém ele não poderia vir e assim eu acabei o substituindo. - ela deu de ombros e eu sorri fraco.
- É engraçado como a gente tá sempre se encontrando por aí. - comentei e ela riu fraco.
- Realmente, parece até que tem alguém marcando as coisas para nos encontrarmos sempre. - ela soltou e ambos rimos - Qual a setlist da noite? Posso saber ou é surpresa? - ela questionou e eu fingi pensar por um momento.
- Vou tocar Golden, Adore you, Watermelon Sugar, Sign of the times e Kiwi. - ela sorriu.
- O sentimento de nostalgia vai real essa noite. De novo vou te ver tocando Kiwi e quase vou morrer do coração de preocupação por causa da sua asma. - eu gargalhei e ela me acompanhou - E eu achando que isso havia acabado com a LOT. - ela negou com a cabeça.
- Na nova LOT eu vou continuar tocando Kiwi todas as vezes. - confessei e ela jogou a cabeça para trás.
- Ainda bem que eu não trabalho mais com você, eu não aguentaria passar por aquilo de novo sem infartar. - ela brincou e eu gargalhei.
- Exagerada. - ela me mostrou a língua me fazendo rir de novo - Certo, para sua sorte eu vou mudar uma música na setlist hoje a noite, para o seu azar essa música não é kiwi. - ela me encarou curiosa - Eu não vou te contar qual é, isso é uma surpresa. - ela fez bico.
- Se você tirar Golden eu te mato. - ela murmurou e eu arqueei uma sobrancelha.
- Temos uma fã de Golden aqui? - questionei e ela riu.
- Eu poderia negar e colocar a culpa em Lett, mas não estaria enganando ninguém. - ela deu de ombros e eu ri.
- Harry, dez minutos. - uma mulher da produção me alertou e eu assenti agradecendo.
- Certo, vou te deixar se arrumar e vou pegar o equipamento. - ela apontou para fora - Bom show Styles. - ela desejou e eu sorri.
- Obrigado. - ela caminhou até a porta e uma ideia me surgiu - Ei, ? - chamei e ela se virou me encarando - O que acha de sairmos depois do show? - questionei e ela arqueou uma sobrancelha - Sei lá, ir comer algo, tomar algo. Qualquer coisa assim. - ela mordeu o lábio.
- No fim do show te dou uma resposta, pode ser? - questionou e apesar de não ser a resposta esperada, eu sorri.
- Claro, tudo bem. - ela sorriu.
- Ok, bom show. - e dizendo isso, ela se retirou me deixando sozinho por um momento, antes que eu mesmo me retirasse dali.

[...]

Eu havia acabado de cantar Watermelon Sugar e estava tomando água quando meus olhos encontraram ao lado de Hélène sorrindo enquanto elas conversavam algo. Encarei a banda que se hidratava assim como eu e chamei sua atenção, fazendo todos me olharem e lhes questionei se eles se sentiam preparados para tocarem a próxima música que eu queria tocar. Todos sorriram e assentiram, Mitch tinha um peculiar sorriso nos lábios, ele sabia a razão de eu querer tocá-la.
Peguei meu violão e segui para o público que estava cheio de expectativa.
- Espero que estejam preparados, por que essa aqui só foi tocada ao vivo uma vez. - comentei e todos gritaram. já se encontrava fotografando de novo e por isso sequer me olhava - Essa é Canyon Moon. - os gritos histéricos recomeçaram e em seguida os acordes da música vieram.
me encarou com uma expressão confusa e eu sorri fraco sem olhá-la por muito tempo.
- Gotta see it to believe it, sky never looked so blue. So hard to leave it, that's what I always do, so I keep thinking back to a time under the canyon moon. - soltei os primeiros versos e encarei que prendia um sorriso. Ela se lembrava daquela noite - The world's happy waitin', door's yellow, broken blue. - ela soltou um riso negando com cabeça - I heard saying, "Go get the kids from school". - ela arregalou os olhos e eu notei que havia cantado o verso original que carregava seu apelido ao invés do nome Jenny. Oh droga, aquilo daria o que falar depois - And I keep thinking back to the time under the canyon moon. - ela negou com a cabeça - I've been gone too long from you. - ela cantarolou o verso e foi minha vez de sorrir. Ela conhecia a música, sabia a letra e sabia que era sobre aquela noite. Aquilo me fazia sentir feliz - Staring at the ceiling, two weeks and I'll be home. Carry the feeling, through Paris all through Rome and I'm still thinking back to the time under the canyon moon. - ela se movimentou pelo lugar tirando fotos do público e eu voltei meus olhos para o violão. A repetição de “I'm going, oh, I'm going” veio e a vi dançar com Hélène de modo animado - I'm going, oh, I'm going home. - e novamente ela se virou rindo para mim - Quick pause in conversation. She plays songs I've never heard an old lover's hippie music pretends not to know the words. - ela me mostrou a língua sabendo que eu falava de suas músicas indies que ela vivia escutando e fingindo que não sabia as letras - I've been gone too long from you. - e novamente uma repetição no último verso veio a qual ela cantarolou de modo mais aberto enquanto fotografava o público - I'm going, oh, I'm going home. - e assim a música teve seu fim com os últimos acordes e os aplausos explodiram por todo o lugar.
acompanhou me encarando e depois me indicou que eu deveria esperar. Seguiu até Hélène, pegou um tipo de papel e caneta o entregando de volta a francesa, que riu e seguiu ao palco.
- Obrigado. - agradeci acenando para o público e em seguida segui para tomar água, onde logo Hels estava chegando e se aproximou da minha orelha.
- Vocês são meu clichêzinho favorito. - ela sussurrou me passando o papel depois e se retirando. Era um post-it amarelo onde a letra bem desenhada de se encontrava.


Apenas uma taça de vinho.
Te vejo depois do show.
.


E ali, por alguns segundos eu sorri para o papel o guardando no bolso em seguida. Ao levantar meu olhar vi Sarah, que sorria negando com a cabeça e lhe mostrei a língua a fazendo rir ainda mais.

[...]

Após o fim do show, eu segui para meu hotel e vesti algo mais simples, para depois encontrar em um bar que ela havia encontrado perto do hotel onde ela estava ficando. Assim que adentrei o local eu a encontrei sentada em uma mesa mais afastada a batucando os dedos na madeira do lugar. Havia alguém no palco cantando, porém com certa falta de prática e só então notei que era um tipo de bar/karaokê.
Me sentei a mesa e só então ela notou minha presença sorrindo.
- Cantar Canyon moon foi um golpe muito baixo. - foi a primeira coisa que ela me disse e eu ri.
- E escolher um karaokê foi o que, hum? - questionei e ela riu dando de ombros - Fiquei feliz em saber que você conhecia a letra. - comentei e ela sorriu fraco corando.
- Bom, eu sei muitas letras desse álbum. - confessou e eu arqueei as sobrancelhas surpreso - Se vamos começar essa amizade de novo é melhor que eu seja sincera. - ela deu de ombros e eu ri.
- Certo, eu vou pegar o vinho e você me conta mais sobre quais letras sabe. - soltei me levantando e ela riu.
Eu me encaminhei para o bar pedindo pelo vinho de e uma cerveja para mim. Era um lugar muito mais arrumado do que o karaokê onde nos conhecemos, mas ainda valia a nostalgia. O barman me entregou o que eu havia pedido e eu sequer havia dado dois passos quando uma melodia conhecida começou e eu me virei para o palco onde um rapaz e uma moça aguardavam para cantá-la. Me virei encarando e ela já me olhava rindo. Eu caminhei até ela e me sentei a mesa lhe entregando seu vinho. Nós nos encaravamos com sorrisos presos e quando o casal que estava no palco começou a cantar a letra de Back in black nós os acompanhamos da mesa. negava com a cabeça e quando o refrão chegou nós batemos a cabeça rindo do quão bobos parecíamos.
Tudo parecia estar acontecendo de modo muito parecido com a primeira vez e eu só conseguia pensar se aquilo seria um tipo de chance de fazer tudo dar certo. Porém ao me lembrar de Daniel eu notava que não.
Quando a música terminou eu e rimos um do outro tomando um gole de nossas bebidas.
- Certo, agora que o momento nostalgia passou, quer me dizer que outras letras conhece? - questionei e ela torceu os lábios para rir em seguida.
- Bom, eu sei Adore you, lights up, golden, canyon moon, sunflower, fine line e falling. - ela deu de ombros - To be so lonely tem uma vibe muito triste, talvez até mais que falling pra mim, e as outras eu não escutei o suficiente para decorar a letra. - confessou e eu ri fraco. Será que ela sabia sobre a ligação que deu origem a To be so lonely?
- Sete músicas de doze? Uau, você já pode fundar um fã clube. - brinquei e ela me mostrou o dedo do meio tomando seu vinho em seguida - E o que achou do álbum? - questionei e ela sorriu de lado.
- Bom, eu realmente gostei mais desse do que do primeiro. Apesar de te ver muito no HS1, eu acho que vejo muito mais você nesse. Os ritmos e letras, as brincadeiras com a sua voz em certas músicas, os instrumentos e forma como consigo ver como cada música foi gravada em estúdio. - ela riu fraco - Em canyon moon eu quase consigo te ver tocando o violão e encarando o Mitch rindo entre as pausas da letra, ou quando começa a canta “i’m going” e eu consigo ver ele fazendo danças bobas do lado de fora da cabine. Assim como em treat people with kindness. - eu ri fraco ao notar que aquele havia sido o exato modo como ambas as músicas havia acontecido - Não sei, eu te vejo desenhado nesse álbum, em cada música, até nas mais tristes. É você, entende? - ela questionou torcendo os lábios ficando vermelha e eu sorri.
- Entendo, eu sinto que seja também. - comentei e ela sorriu - Acho que ninguém nunca me deu uma descrição tão precisa do meu próprio álbum. - ela riu negando com a cabeça e em seguida focando seus olhos nos meus.
- Eu acho que ainda te conheço um pouco. - ela deu de ombros e eu ri fraco mordendo o lábio.
- Eu acho que me conhece bem até demais. - e meu comentário fez com que nos encarassemos por alguns segundos concentrados naquela constatação.
Todo aquele tempo havia se passado e apesar daquilo, o essencial sobre mim e não havia mudado, apesar de claramente termos crescido e amadurecido. Éramos pessoas diferentes e completamente iguais ao mesmo tempo. Éramos nós, apesar de tudo.
Os olhos de deixaram os meus fazendo-a focar em seus dedos por um momento para em seguida ela me encarar, porém desviar o olhar franzindo o cenho para algo atrás de mim.
- Eu não acredito. - ela riu se levantando e me puxando pela mão. Por um momento eu apenas fiquei confuso, mas isso passou assim que paramos em frente a maquina de pegar bichos de pelúcia.
- Não é possível. - comentei rindo enquanto encarava o mesmo que : um pinguim de pelúcia - Você quer um pinguim? - questionei e ela riu me encarando.
- Não, o senhor Snow ficaria com ciúmes de dividir o lugar dele na cama com outro. - seu comentário me fez franzir o cenho.
- Espera, você ainda tem aquele pinguim? - questionei e ela mordeu o lábio.
- Sim, ué. - ela deu de ombros de modo nervoso e eu sorri.
- Isso é… legal. - comentei e a vi sorrir fraco e negar com a cabeça.
Por algum motivo ela ter guardado o pinguim fez meu coração aquecer e um tipo de esperança surgir. Mas eu estava claramente maluco, não havia esperança. Ou havia?


CAPÍTULO 12

Abril, 2020 - London, UK.

Not trying to play the victim
I just needed to get this off my chest
It feels like my senses have kicked in.




Voltar a Londres sempre era ótimo. Poder me deitar na minha cama, no meu sofá e todas essas coisas, sempre me traziam uma boa sensação ao coração. E era aquilo que eu estava fazendo quando me ligou naquela manhã me chamando para almoçar em sua casa e buscar Otto, o cãozinho que a cadelinha de havia dado a luz e eu havia adotado. Ele já havia desmamado e tomado suas vacinas, então agora eu podia levá-lo para minha casa.
Cheguei em frente a porta do apartamento de Kevin, onde se encontrava, já que ele estava nos Estados Unidos com Harry, e bati na mesma. Logo ela foi aberta por e por mais dois cachorros, uma mais velha e um pequeno filhote.
- Otto! - murmurei me abaixando e o pegando no braços enquanto senhorita Chase subia em minhas pernas em busca de carinho e eu o fiz antes de adentrar o apartamento.
- Ele já até sabe quando é você que está chegando. - informou enquanto o cãozinho se aconchegava em meus braços de um modo fofo.
- Eu vou morrer de amores sempre que ele fizer isso aqui. - apontei e riu.
- Se acostume então. - ela seguiu para a cozinha e eu a acompanhei. O cheiro do assado de subia de modo que fez minha barriga roncar em uma súplica pela comida dela - Já está pronto, estava apenas esperando você chegar. - ela declarou me conhecendo e abrindo o forno.
- , eu te amo mais que a vida. - murmurei e ela riu.
- Exagerada.
Eu deixei Otto com Chase e me juntei a na bancada. Nos servimos de assado e suco de laranja, e aquela cena me lembrou nossos tempos de faculdade, onde não tínhamos idade para beber ainda então nos sentavamos para almoçar junto a suco de laranja recém feito e passavamos a tarde juntas fazendo atividades e reclamando de professores.
- Como foi estar fotografando um show do Harry de novo? - ela questionou após o assunto surgir enquanto eu tomava do meu copo.
- Estranho, por que eu não achei que faria isso de novo, porém foi muito reconfortante também. - dei de ombros e sorriu.
- Não pensa em voltar a trabalhar com ele? - questionou e eu pensei por um momento.
- Não sei, mas acho que não, quero dizer, estamos reconstruindo a amizade, mas seria estranho voltar a estar com a equipe e ter de explicar que não somos mais namorados, ou correr o risco de alguém citar isso e o clima pesar, entende? - ela assentiu e houve um momento de silêncio.
- . - ela chamou deixando seu garfo e eu soube que o assunto seria sério - Sabe que ele sofreu quando você se foi, não sabe? - ela questionou e eu suspirei - Quero dizer, Falling fala completamente sobre esse momento. - ela cogitou algo por um momento e em seguida suspirou - Ele me ligou quando foi a gravar. - confessou e eu franzi o cenho - Ele estava em um estúdio, tinha tudo pronto, mas ele me ligou e perguntou se eu achava que ele deveria lançar. Perguntou se eu não achava que você pensaria que ele estaria tentando se vitimizar com a música, e no momento que eu a escutei pela primeira vez eu o mandei a colocar no album. Ela era parte de um processo, e nesse processo Harry perdeu alguém que ele amava e toda a sua dor estava ali, mas além de sua dor havia a consciência de que todo aquele sofrimento era culpa dele. - eu engoli em seco - Eu acho que foi depois de escutá-la que eu passei a entendê-lo melhor e a aprender a perdoa-lo. - ela mordeu o lábio - Talvez você deva ouvi-lo também. - e naquele momento eu respirei fundo.
- , eu o ouvi. Cada letra, cada melodia sofrida, eu o ouvi. Posso não ter escutado ele por completo, mas eu o ouvi em seu sofrimento e não é por achar que ele não sofreu que é difícil dar passos em direção a ele . É por que eu sofri. As decisões foram minhas naquela noite, porém isso não fez nada ser mais fácil. - ela assentiu devagar - Tudo foi dolorido demais para mim também, a questão é só que não tenho músicas para mostrar isso. - ela tornou a assentir e o silêncio veio novamente.
- Não acha que talvez seja a hora de contar para ele como se sentiu? - ela questionou de modo calmo.
- Talvez, mas não sei como fazer isso. Eu não consigo dizer a ele. - murmurei e ela tocou meu braço me fazendo encara-la de novo.
- Vai encontrar um jeito, tenho certeza. - ela sorriu. Um sorriso e confiante que apenas podia me dar para me fazer acreditar que aquilo era possível - Agora, vamos terminar de almoçar, eu fiz aquele sorvete de creme caseiro que você adora. - eu ri fraco.
- Sorvete de fossa. - murmurei e ela gargalhou.
- Não se tiver calda de morango para acompanhar. E adivinha? Eu tenho. - ela apontou para mim - E vamos falar de arranjos de flores para o casamento. Você precisa me ajudar a escolher entre rosas e gardenias. - ela revirou os olhos e eu ri.
- Só você mesmo, . - murmurei e ela deu de ombros.
- Sou incrível, eu sei. - ela jogou os cabelos e eu lhe mostrei o dedo do meio - Você precisa parar de andar com o Louis.

[...]
- Lett? - chamei assim que fechei a porta da sala e coloquei Otto o chão vendo o animalzinho começar a explorar o local. Não houve resposta então apenas enviei uma mensagem para Letticia que havia chego com Otto, apenas para deixá-la ciente e ela não se assustar quando chegasse - Eu vou tomar um banho, Otto. Você vai explorar a casa? - questionei e ele me encarou virando a cara e seguindo seu caminho até a cozinha - Certo, então. - caminhei pelo corredor indo para meu quarto e deixando minha bolsa sobre a cama, segui para o banheiro.
Deixei que a água quente tocasse meu corpo enfiando então minha cabeça na água.

Não acha que talvez seja a hora de contar para ele como se sentiu?

A pergunta de ecoava em minha mente enquanto eu lavava meus cabelos. Era claro que era a hora, mas como eu diria aquilo a Harry? Eu sabia que eu precisava contar. Precisava deixá-lo saber que apesar das decisões que tomei, eu me senti mal e perdida. Mas como eu faria aquilo?
Sai do banho e vestindo um conjunto de moletom eu me sentei na cama pensando sobre o assunto enquanto buscava um filme na netflix. Meu celular tocou e encarando o visor eu vi que era Ana.
- Oi, oi. - ela soltou animada assim que atendi. Eu sabia que podia fingir ânimo, mas era Ana. Eu não faria aquilo.
- Ei. - lhe entreguei um sorriso fraco que ela não retribuiu, apenas me olhou de cenho franzido.
- Você não está bem. - e ao ouvir aquilo, uma lágrima rolou por meu rosto. Chegar a constatação de que Harry podia pensar que eu não havia sofrido com o nosso fim era doloroso, porque fazia ele parecer descartável, e ele não era. Nunca foi - Ei, . Por que está chorando? Conversa comigo. - Ana pediu e eu respirei fundo tentando conter o choro.
- Harry. - sequei minha bochecha, porém minha voz se mantinha embargada - Nós voltamos a conversar e estamos restabelecendo um tipo de amizade, mas eu ainda tenho grandes incógnitas sobre nosso término. - suspirei - Eu não deveria ter que me culpar, Ana, mas eu me culpei muito naquela época. Eu sinto que levei tudo a ferro e fogo naquela época e agora sinto que eu não sei o que fazer a partir daqui. Sabe? - Ana apenas assentiu em concordância, deixando que eu falasse - Eu só queria deixar ele saber que eu não estou tentando me fazer de vítima nessa situação, eu só precisava tirar isso do meu peito. Porque é um peso tão grande, amiga. Tão grande. - novamente um choro se iniciou e dessa vez me fazia soluçar. Eu queria abraçar Ana, pedir por colo, mas aquilo não era possível no momento por conta da distância - E eu acho que eu preciso falar sobre isso com ele, porque só dessa forma vamos conseguir seguir essa amizade que estamos tentando fazer reviver. Eu sinto que preciso colocar isso pra fora de algum jeito porque mexe com meu emocional e com meu psicológico de uma forma surreal. Eu só queria que ele soubesse como me sinto. Mas eu não sei como fazer isso… - uma última lágrima caiu em meu rosto - Eu não sei. - sussurrei.
- , você conhece o Harry antes de mim. Então, tanto quanto eu, você sabe que ele é um cabeça dura de primeira. Ele demorou a assumir seu erro por conta do orgulho e você sabe disso. - Ana era sincera o máximo que podia, sempre cuidando dos meus sentimentos para que eu não me ferisse mais, e aquilo era algo que eu amava sobre ela. - Mas, ele é uma das pessoas mais doces e compreensivas que já conheci. Talvez você devesse conversar com ele sobre isso. - eu neguei com a cabeça. Dentro de mim, uma parte sabia que Harry compreenderia, mas outra tinha medo de que tudo desmoronasse de novo, e eu tivesse de viver aquela dor mais uma vez.
- Não sei, Ana. - engoli em seco - Não sei se consigo. - Ana naquele momento pareceu ter uma ideia um tanto quanto genial.
- Então faremos o seguinte. - ela olhava fixamente a tela do celular - Você vai esperar quatro dias, eu estarei na Inglaterra, e nós vamos sair. Eu, você e Harry. - concordei, secando as últimas lágrimas que insistiam em cair - E eu vou estar ali para te apoiar, ok? - concordei - Eu estou aqui com você pra tudo. - ela sorriu e eu retribui o ato sorrindo para ela de volta, dessa vez um sorriso de verdade e aliviado - Você me promete que vai esperar até eu chegar aí? - ela questionou e eu maneei em concordância.
- Eu prometo. - soltei - Ah, e Ana… - a chamei e ela parecia esperar por novas notícias ruins - Obrigada por me ligar, você não faz ideia do quanto eu estava precisando colocar isso para fora. - ela sorriu de modo carinhoso.
- Conte comigo sempre, . - eu sorri para ela - Eu queria continuar conversando mas preciso ir. Preciso descansar e ligar para meus pais. - ela fez um bico e eu assenti - Eu te amo, até mais. Por favor, espere por mim! - ela apontou e eu tornei a assentir.
- Pode deixar. Eu também te amo. - mandei um beijo e após isso a ligação foi finalizada.
Depois de conversar com Ana tudo pareceu mais leve em meu peito, e eu respirei fundo. Um pequeno latido foi escutado e quando olhei a beira da cama, ali estava Otto, com olhos pidões me encarando. Me inclinei o pegando e o colocando em cima da cama o deixando se acomodar perto de mim enquanto me deitava.
Seus olhinhos me encaravam de modo cuidadoso, e em um pequeno movimento ele lambeu meu queixo para em seguida passar sua pata em meu rosto me fazendo rir.
- Otto, se você continuar fofo assim eu vou amassar sua cara todinha. - brinque lhe fazendo carinho e ele latiu.
Minhas mãos faziam carinho na barriga do animalzinho e aninhada a ele foi que eu dormi. Eu não tinha certeza de nada que pudesse envolver o futuro, ou sobre a conversa com Harry, mas eu sabia, de algum modo, que tudo ficaria bem.


CAPÍTULO 13

Abril, 2020 - London, UK.

Or maybe everything was all my fault
And I regret all the times.


Harry

- Engole essa Malik. - Louis gritou com Zayn se levantando do sofá após fazer um gol no fifa.
- Isso foi roubo. - Zayn contestou e eu gargalhei.
- Ainda um péssimo perdedor, Malik? - provoquei e ele me mostrou o dedo do meio tomando o refrigerante.
- Vão a merda vocês dois. - ele mandou nos fazendo rir. Zayn deixou seu controle sobre a mesinha de centro e se recostou no sofá torcendo os lábios.
Ele estava na cidade por conta do show de Ana que aconteceria naquela noite e por conta dos compromissos dela naquela tarde eu o chamei para a minha casa junto a Louis que era o único na cidade, já que Niall e Liam estavam em outros compromissos.
- Preciso contar algo. - Zayn soltou fazendo com que eu e Louis trocássemos um olhar.
- Pode dizer. - Louis tornou a se sentar ao lado de Zayn.
- Eu e Ana estamos namorando. - ele iniciou - Quero dizer, de verdade agora. - ele disse aquilo e eu sorri largo.
- Fico feliz por você cara. - toquei seu ombro e ele sorriu de modo meio tímido.
- Isso é realmente uma ótima notícia, Zayn. - Louis fez o mesmo que eu.
- A princípio achei essa história de namoro por contrato ia dar completamente errado, mas conhecer Ana me fez notar tantas coisas sobre o mundo que eu não via a tanto tempo. - ele confessou com brilho nos olhos - Ela me faz feliz, entendem? - eu e Louis rimos olhando um para o outro.
- Zayn está apaixonado, Tommo. - soltei e Louis riu.
- Está com corações nos olhos pela Ana. - Louis debochou e ambos levamos socos nos braços.
- Não falem como se nunca tivessem se sentido assim. - Zayn revirou os olhos - Styles era e ainda é a mesma coisa com a e eu nem vou dizer nada sobre Louis quando fala da Letticia. - eu gargalhei da cara que Louis fez segurando minha barriga.
- Isso não tem nada a ver, somos amigos. - ele murmurou revirando os olhos.
- Ah claro, assim como Harry e . - Zayn acusou e eu lhe soquei o braço.
- Ei, nós somos mesmo. - murmurei e eles riram.
- Claro, claro. Vamos fingir que sim. - Louis debochou e eu revirei os olhos pegando minha lata de refrigerante.
- Não pode negar que ainda é apaixonado pela garota Styles. - Zayn soltou e eu dei de ombros.
- Mas eu não neguei. - respondi simples fazendo os dois se olharem - Eu sou, sempre fui. Mas a questão é que está compromissada agora e eu não sei se ela me daria uma nova chance mesmo que não estivesse. Somos amigos agora, por que isso é tudo que eu posso ter. E isso é suficiente, por hora. - eles pareciam desacreditados das palavras ditas naquele momento.
- Você acaba de me colocar em um dilema, entre proteger minha amiga e juntar vocês de novo. - Louis soltou e eu ri fraco.
- Eu entendo a razão para querer protegê-la, se eu estivesse em seu lugar eu faria o mesmo, mas você sabe que tudo mudou, Louis. Você viu. Estava lá. - ele torceu os lábios assentindo.
- Bom, o Louis pode ficar com o dilema, eu voto por juntar vocês dois de novo. - Zayn levantou as mãos e eu ri.
- É, seria ótimo. Mas ela está feliz com Daniel, e é isso que importa. - naquele momento Louis riu fraco negando com a cabeça - O que foi? - questionei de cenho franzido e ele se manteve negando com a cabeça.
- Só me lembrei de algo engraçado. - ele murmurou e eu lhe estreitei os olhos - Acho que devia falar com ela sobre isso. - eu cogitei por um momento.
- Talvez. Mas agora chega disso, quem é que vai contra mim no fifa? - peguei o controle na mesa de centro e Louis se animou.
- Campeão invicto a quase dez anos. Como é que vocês se sentem com essa humilhação? - ele questionou se encostando no sofá.
- Vai se foder, Tomlinson. - eu e Zayn soltamos juntos rindo em seguida. Eu definitivamente amava aqueles caras.

[...]

Estávamos na área vip da O2 arena. O show de Ana já acontecia e muitas músicas já havia levado o público a loucura e gritos. Ali nós curtiamos o show, dançando e cantando juntos. Niall e Liam haviam se juntado a nós e pela primeira vez estávamos todos juntos naquela arena apenas para assistir a um show.
Em dado momento um piano foi levado para o centro do palco e Ana se encaminhou para ele se sentando em frente ao instrumento.
- Eu gostaria de cantar uma música nova. - ela informou e o público gritou animado - Eu a escrevi há dois dias, durante as viagens pela Alemanha e França. - os fãs continuavam a gritar enquanto Ana sorria largo - Essa música é bem pessoal, mas não para mim. - no mesmo instante o olhar de Ana seguiu até e eu o acompanhei, confuso por um momento - Eu a escrevi sobre o ponto de vista de uma amiga que passou por um término de relacionamento, mas não deixou algumas coisas claras para a outra pessoa. - meu coração acelerou no peito. Era para mim? Aquela música falava do meu termino com ? Eu encarei a garota que se encontrava a alguns metros de mim e ela sorria negando com a cabeça. No mesmo momento os olhos de se viraram para mim e ela mordeu o lábio - Então, como ela não estava conseguindo dizer tais coisas, eu decidi que a ajudaria a falar o que precisa. - Ana anunciou e respirou fundo - Essa é Let You Know.
As primeiras notas soaram por todo o local e eu adoraria ver Ana em sua performance, mas meus olhos foram incapazes de deixar , que me olhava do mesmo modo.
- Trying to hold my head up. - a voz de Ana iniciou a canção - I've been thinking about this mess we've made, 'Cause I shouldn't have to blame myself. Took what was taught as gospel, but I don't have a clue where to go from here, 'Cause I'm almost breaking, can't you tell? - os olhos de brilhavam e eu sentia os meus arderem - I don't even understand why I'm still here. Just need a minute to go through with it. I don't even understand why I'm still here. - uma lágrima escorreu de meus olhos - I gave you my all but you still want more. I thought you were proud but it's not enough. Tried to sell me a lie that you thought I'd buy, you don't decide, just thought I'd let you know. Just thought I'd let you know. Just thought I'd let you know. - por que ela estava me dizendo aquilo naquele momento? Era seu modo de me dizer que me queria longe? - Not trying to play the victim, I just needed to get this off my chest. It feels like my senses have kicked in. - e a resposta veio naquele verso. estava tentando se livrar daqueles sentimentos, eu não entendia direito o por que, mas eu sabia que falaríamos sobre aquilo depois. Naquele momento ela só precisava que eu escutasse - I don't even understand why I'm still here. Just need a minute to go through with it. I don't even understand why I'm still here. - houve uma repetição do refrão e em momento algum nossos olhos deixaram um ao outro. Aquele momento era nosso. Apenas nosso. E por mais doloroso que fosse ouvir aquelas palavras, era também libertador, como se o passado estivesse aos poucos sendo deixado para trás, e finalmente estivessemos seguindo em frente - Just thought I'd let you know. - e com aquela frase Ana terminou a música sendo aplaudida. só queria que eu soubesse. E apesar de tudo ser confuso, eu não sentia que aquela era uma despedida, ou tentando me culpar. Apenas um momento que ela precisava para me dizer algo que carregava consigo.

[...]

A festa no rooftop do hotel de Ana estava a toda. Por todos os cantos pessoas dançavam, bebiam e se divertiam de uma maneira que eu diria que era bem Ana Herron. De longe eu vi se aproximar de Ana por trás e a abraçar, e aquilo me fez sorrir.
Era nostálgico ver Ana e juntas. Me fazia lembrar da primeira vez que nos vimos. segurando a mão de Ana para que ela não desmaiasse e como desde aquela época as duas pareciam amigas de anos.
- Elas são ótimas juntas, não são? - a voz de Zayn irrompeu ao meu lado e eu o encarei rindo.
- São sim. - comentei bebendo meu whisky - Sabia que se você tivesse ido a aquele show de Nova York teria a conhecido? - questionei e Zayn riu fraco.
- Para você ver como as coisas acontecem quando tem de acontecer. - ele murmurou - No momento que ela subiu ao palco para cantar com você a bateria de Louis morreu e eu não consegui a ver se apresentar com você. - ele confessou e eu ri fraco.
- Acha que se tivessem se conhecido naquela noite tudo seria diferente? - o questionei e ele deu de ombros respirando fundo.
- Não sei, talvez. Talvez tudo fosse melhor, ou talvez eu tivesse estragado tudo por conta das drogas. Não sei dizer ao certo, apenas sei que estou feliz de tê-la agora. - eu sorri e deixei meu copo sob a bancada atrás de mim abrindo os braços e abraçando Zayn que retribuiu o abraço de modo apertado
- Fico feliz que esteja bem agora, e que esteja encontrando felicidade e paz para si. Você não sabe o quanto eu torci por isso. - sussurrei e ele me apertou mais em seus braços - Eu te amo, Dj Malik. - ele riu por conta do apelido e eu o acompanhei.
- Eu também te amo, Harold. Obrigado por tudo cara, antes e agora. - ele agradeceu e eu sorri sentindo os olhos marejados.
- Eu é que agradeço por tudo, meu amigo. - me afastei e beijei sua cabeça o vendo sorrir - Estou orgulhoso. - bati em seu ombro e ele sorriu largo.
- Ai gente, faz isso comigo não. - Ana foi quem disse e nos viramos a encontrando com olhos marejados - Meu coração de directioner não aguenta. - ambos rimos de Ana e ela secou os olhos - Tô sem a pra segurar minha mão dessa vez. - nós tornamos a rir e Zayn se aproximou abraçando Ana.
- Pronto, está segura. - Zayn respondeu e Ana sorriu de modo claramente apaixonado.
- Bom, eu vim tirar esse garoto aqui para dançar. - ela apontou Zayn e eu ergui os braços.
- Ele é todo seu. - ela sorriu e eles se viraram caminhando em direção a onde as pessoas dançavam enquanto sussurravam algo um para o outro.
- Então quer dizer que você conhece a Ana? - a voz conhecida soou e eu me virei encontrando Oly. Ela era uma produtora muito talentosa que eu havia conhecido em Los angeles quando estava criando o Fine Line.
- Oly! - exclamei me aproximando e a abraçando - Sim, eu a conheço. Cantamos juntos uma vez e desde então, somos amigos. - comentei assim que nos afastamos.
- O mundo é realmente um lugar pequeno. - ela comentou e eu assenti. Vi passar ao longe e sorri para Oly.
- . - a chamei e ela se virou me procurando e eu indiquei que ela viesse até nós - Se lembra da garota que te contei? Aquela que eu te disse que havia escrito Canyon moon sobre ela? - questionei enquanto vinha até nós.
- Assim como todo o resto do álbum. Me lembro sim. - ela tinha o cenho franzido e logo parava ao nosso lado.
- Essa é . - apresentei e Oly abriu a boca surpresa entendendo que era dela que se tratava.
- Ah, eu a conheci a pouco. - ambas riram por um momento - Mas de todo modo é um prazer de novo, . - ela apertaram as mãos rindo.
- O prazer é meu Oly. - soltou simpática - Como se conhecem? - questionou e Oly prendeu o riso.
- Oly produziu uma música do álbum novo, e ela é sobrinha do Simon, então nos encontramos algumas vezes durante a vida. - comentei e Oly arqueou uma sobrancelha.
- Uau, você se lembra. - a garota corou de modo leve e mordeu a parte interna da bochecha em claro sinal de timidez. Eu apenas ri me lembrando das situações que envolviam Oly sempre que nos encontrávamos na época da banda.
- Claro que sim. - comentei e ela sorriu fraco.
- Bom, vou deixar vocês conversando sobre os velhos tempos e ir atrás de Niall, aquele irlandês está me enrolando para me dar um recado e eu estou curiosa. - declarou - Vejo vocês por aí. - ela lançou beijos no ar e se foi. Oly me encarou prendendo o riso.
- Ela sabe que o álbum é sobre ela? - questionou e eu torci os lábios.
- Acho que sim. - dei de ombros e Oly riu.
- Styles, você não tem jeito. - ela continuava a rir e eu mordi a parte interna da bochecha.
Afinal, sabia, certo? Estava claro como a água que era sobre ela, não havia como ela não saber.


CAPÍTULO 14

Abril, 2020 - London, UK.

Wish I could lose myself in you like I used to.


Harry

A comemoração no rooftop de Ana havia sido tudo que eu precisava para fugir da situação toda com a música. Nós bebemos, dançamos, conversamos e brincamos, e devo dizer, foi um ótimo momento com todos, mas mais rápido que o esperado o álcool fez seu efeito e eu me senti tonto.
Era hora de ir para casa, antes que novamente eu rastejasse pelo chão atrás de Summer. Então apenas me despedi de todos e segui em direção aos elevadores.
- Harry? - ouvi Summer chamar e quando me virei a encontrei caminhando em minha direção. Assim como eu ela estava bêbada e eu constatava aquilo apenas pela forma como andava começando a cruzar o passo - Está indo embora? - ela questionou assim que me alcançou.
- Estou, acho que já fui um pouco além na bebida. - informei e ela riu apertando o botão do elevador.
- Eu também. - ela me encarou sorrindo - Quer pegar um táxi junto? - questionou.
- Claro, tudo bem por mim. - respondi e ela assentiu. Assim que a porta se abriu ela adentrou o cubículo me puxando consigo e apertou o botão do térreo. Ela encarava os pés cantarolando uma melodia que demorei dois segundos para reconhecer. Era Sunflower nº 6 - Você escutou? - questionei e ela me encarou dando de ombros.
- Sim. Eu escutei no dia que lançou, no show de Los Angeles. - confessou e em seguida ela tapou a boca - Ah, eu não deveria ter contado, é um segredo. - ela murmurou fazendo um bico e eu ri.
- Eu já havia descoberto que era você. - informei e ela me encarou de olhos arregalados - Hélène tinha uma foto em que você aparecia. - esclareci e ela torceu os lábios - Por que você não disse nada? - questionei e ela deu de ombros.
- Harry, é muito vergonha alheia aparecer no show do ex só pra ver se tinha alguma música sobre você lá. E sim, passei essa vergonha com louvor. - ela dizia com a voz meio enrolada e eu ri.
- Espero que tenha gostado do fato dele ser todo sobre você. - ela riu.
- Não é todo sobre mim. - retrucou.
- Claro que é.
- Não é isso que Cherry diz. - ela deu de ombros.
- O que? A parte do “Does he take you walking ‘round his parents’ gallery? Don’t you call him baby” não foi clara o suficiente? - questionei e ela me encarou confusa.
- Do que você está falando? Harry eu não pego referências do seu namoro com Camille. Eu não fiquei stalkeando vocês. - foi a minha vez de ficar confuso.
- Namoro com Camille? Da onde você tirou que eu estava namorando a Camille? - questionei e ela deu de ombros.
- Coisas sobre você e seus relacionamentos chegam a qualquer canto. - e ali eu entendi do que ela falava.
- Summer, eu fui a aquele café por que era um idiota que achava que estava certo. E depois quando outras fotos surgiram eu estava em Los Angeles e a encontrei enquanto estava indo jantar. Ela queria pedir desculpas pela situação que havia causado e eu apenas escutei. Nós nunca namoramos. - Summer me encarava concentrada e engoliu em seco torcendo os lábios em seguida.
- Mas tem aquele voicemail no final da música… - ela deixou a frase solta e eu ri fraco.
- Summer, aquele voicemail foi de uma ligação que ela me fez e nós conversamos sobre você. Foi naquela ligação que Cherry surgiu. Depois de uma conversa com Camille. - ela franziu o cenho e eu respirei fundo.

Fevereiro, 2019 - Tokyo, JP.
Eu tocava a melodia de uma nova canção no violão no quarto da casa onde estava ficando naquele tempo. Eu tinha um refrão que eu não sabia se daria em algum lugar, e a melodia, mas os versos restante eram incógnitas para mim.
- Don't you call him "baby". We're not talking lately. Don't you call him what you used to call me. - eu cantarolava pela milésima vez aquele refrão que era um pedido - Does he take you walking 'round his parents' gallery? - aquilo saiu de modo espontâneo e eu dei graças por estar gravando aquilo no celular.
Depois de mais alguns minutos tocando meu celular chamou e eu olhei a tela sem reconhecer o número e atendi.
- Alô? - chamei depois de colocar a chamada no viva voz enquanto ainda dedilhava as notas da melodia da música.
- Coucou! - o cumprimento em francês veio e eu soube quem era do outro lado.
- Isso é engraçado. - soltei um pouco mais baixo.
- Estava dormindo? Oh, me desculpe. - ela questionou, talvez por conta da minha voz rouca e meio embriagada. Eu havia acabado de voltar do bar onde liguei para Mateus.
- Não, está tudo bem. Não estava dormindo, estou acordado a bastante tempo na verdade. - confessei - Pode falar. É importante? - questionei e notei que continuava a tocar o violão.
- Bem não... Não, não é importante. - ela soltou parecendo meio apreensiva, apesar de ter dito algo contrário a aquilo - Nós fomos à praia aqui e agora eu estava mexendo no meu celular e no meu explorar do instagram apareceu uma foto. Eu queria saber se está bem. - ela questionou com sincera preocupação e eu respirei fundo.
- Estou bêbado, liguei para o primo dela, mas é, estou bem. - menti, porque claramente eu não estava.
- Perfeito, Harry. - o tom debochado de Camille me fez notar que ela não havia comprado a mentira - Agora vai falar a verdade? - questionou e eu suspirei.
- Eu sinto falta dela. Do sotaque dela e de como ela sempre estava feliz perto dos amigos dela. - suspirei - Mesmo que eu ainda fale com eles, sem ela não parece exatamente o mesmo. Nem com Kevin. - confessei e ela suspirou do outro lado.
- Eu entendo isso. - respondeu - Como está se sentindo sobre ela e esse garoto? - ela questionou e eu respirei fundo.
- Eu não estou feliz exatamente. - comentei - Quero dizer, ela está claramente em seu melhor momento e eu sou egoísta demais para estar feliz por ela agora. Nesse momento, eu digo. - comentei.
- Você está odiando isso, não é? - ela soltou e eu suspirei parando de tocar.
- Sim. Exatamente isso. - esfreguei meu rosto pela fadiga e ouvi Camille suspirar.
- Eu sinto muito por ter causado isso, Harry. - ela novamente se desculpou.
- Não é exatamente sua culpa. Fui eu quem escondi tudo dela. - murmurei de maneira desgostosa. Houve um momento de silêncio e meus olhos passaram por uma boina preta que repousava no sofá me fazendo rir.
- O que foi? - Camille questionou.
- Ainda tem um pedaço dela em como me visto. - murmurei baixo.
- Como assim? - ela parecia confusa e eu tornei a rir fraco.
- Eu ainda tenho uma boina dela e uso por todo o canto. - respondi.
- Ah, eu sei qual é. Vi uma foto sua por ai. - ela comentou e eu ri fraco - Aposto que ela leva isso como um elogio. Quero dizer, Harry Styles com a boina dela. - Camille brincou e eu ri.
- Ela com certeza não leva isso como um elogio. - comentei. Ao fundo escutei alguém chamar por Camille e ela responder algo dizendo que já ia.
- Bom, eu preciso ir, tem pessoas me esperando, mas caso precise estou por aqui, está bem?
- Obrigado. Se cuide. - me despedi.
- Coucou, Harry. - ela comentou em francês e eu ri desligando em seguida. Aquele definitivamente era um cumprimento engraçado.
Olhei a tela do celular e nele o gravador ainda rodava. O parei notando que havia gravado a ligação e gravei o nome do audio como a coisa mais francesa que consegui pensar. Cherry. Eu provavelmente nunca usaria aquilo, mas acabei por deixar lá.

Maio, 2019 - London, UK.
Mitch deixou a garrafa de tequila sobre a mesa de centro do estúdio. Havíamos acabado de gravar To be so lonely que no começo daquele dia era apenas eu contando a Mitch sobre o dia que havia ligado para Mateus, e que acabamos fazendo se tornar uma música. Muito mais Mitch que eu. E ele havia insistido em usar a frase “Arrogante filho da puta que não sabe assumir quando está errado” que Kevin havia me dito meses antes. Eu tinha certeza que me arrependeria de ter deixado aquela ideia ser usada.
- Precisamos de mais uma música. Quero dizer, só falta você gravar Canyon moon com a Oly, mas acho que ainda falta uma música. - Mitch soltou e eu assenti enquanto ele servia a tequila.
- Também acho, mas não faço ideia do que. - comentei e Mitch me passou meu copo com tequila, uma fatia de limão e o pote de sal.
- Olhe seu celular, quem sabe não encontra mais sofrimento pela ai. - ele debochou e eu lhe mostrei o dedo do meio pegando o aparelho.
Mitch se sentou ao meu lado enquanto eu revirava o celular em busca de algo, até que cheguei ao gravador de voz do aparelho e desci a página em busca de algum nome ou coisa assim.
- Ei, o que é aquilo? Cherry? - ele questionou e eu franzi o cenho sem me lembrar ao certo do que se tratava. Toquei alguns segundos do áudio me lembrando vagamente daquilo, quando a voz de Camille irrompeu e eu parei o audio me lembrando completamente daquele dia - O que foi isso? Era Camille? - ele questionou e eu esfreguei os olhos.
- Sim. Mas foi uma conversa que tivemos sobre Summer. - informei e Mitch gargalhou.
- Ah não, agora você vai me deixar ouvir isso ou eu vou contar para todo mundo. - ele ameaçou e eu revirei os olhos lhe entregando o celular.
Ele colocou o áudio para tocar e o escutou com atenção, rindo em certos momentos e quando terminou ele me entregou o celular em silêncio. Serviu duas doses de tequila e me entregou uma.
- Bebe. Vai precisar. - ele informou.
- Por que? - questionei confuso.
- Por que vamos escutar esse áudio mais algumas vezes para escrever a próxima música e o nome dela vai ser Cherry. - e dizendo aquilo, nós viramos nossos copos com tequila pura.

Abril, 2020 - London, UK.

- Quando terminamos a música eu notei que havia algo faltando. E quanto escutei de novo aquela gravação soube que era o início da ligação de Camille. Cherry foi escrita como aquela ligação, porém de trás pra frente, tanto que ela começa com a última palavra que Camille me disse. - ela assentiu. Parecia processar a informação.
- Que merda é essa Coucou? - ela sussurrou e eu franzi o cenho.
- O que? - questionei.
- Nada. - ela negou com a cabeça - Mas como você sabia da galeria dos pais do Daniel? - ela questionou e eu mordi o lábio.
- Talvez eu tenha dado uma de stalker. - confessei e ela me encarou para em seguida rir.
- Você stalkeou o Daniel? - ela questionou e eu assenti - Harry, você é maluco. - ela soltou rindo.
- Não me julgue assim, todo mundo já fez isso uma vez na vida. Essa foi a minha primeira e única. - ela negou com a cabeça.
- Não seu bocó. Estou falando isso por que eu não namorei o Daniel, então não tinha chances de eu chamar ele de amor. - eu franzi o cenho.
- Como é? - questionei.
- Harry nós nunca namoramos. Somos amigos a anos, desde o ensino médio, mas nunca namoramos. - ela deu de ombros - Bom… Nós transamos no final do ano passado, mas estávamos em um momento complicado. - ela soltou e eu continuei confuso. Ela realmente estava dizendo que nunca havia namorado com ele?
- Mas ele veio para Londres em março. - soltei.
- É, por que depois que transamos tudo ficou estranho e ele queria apenas garantir que ainda éramos amigos. E como ele estava por Manchester na época ele apenas veio até Londres para ter essa conversa. - eu assenti encarando um ponto fixo na calçada por um momento. Summer começou a gargalhar e eu a encarei completamente confuso.
- O que foi? - perguntei e ela não parou de rir.
- Somos dois idiotas que passaram mais de um ano achando que o outro estava namorando, quando na verdade estávamos solteiros. - ela ria de modo descontrolado.
- Eu nunca disse que estava solteiro. - comentei e ela parou de rir me encarando séria - Calma, eu estou brincando, eu estava sim. Você precisava ver sua cara. - gargalhei e ela me acertou um tapa.
- Babaca. - ela revirou os olhos - Vamos, tem um táxi vindo. - ela se afastou de mim e seguiu para perto da rua acenando para o táxi que parou. Ela passou nossos endereços, sendo o meu o primeiro e logo entramos no veículo.
Ela se sentou em uma das janelas e eu na outro. Nossos corpos repousavam relaxados no banco. A mão de Summer estava solta no assento livre e eu a encarava com atenção. As unhas bem feitas estavam pintadas de vermelho e eram longas. Sem notar, eu aproximei minha mão da sua a tocando de maneira leve, o que fez me encarar. Ela mexia seus dedos conforme eu passava por eles. Quando levantei meus olhos para ela vi que sorria, seus olhos castanhos encontraram os meus e ali ficaram.
- Você ainda se sente daquele modo? - questionei - Quero dizer, como Ana cantou naquela música. - ela suspirou fechando os olhos brevemente, mas quando os abriu ela me olhava de novo.
- Não, Harry. Aquilo não é sobre como me sinto agora, mas sim como me senti nos meses que se seguiram ao nosso término. Apesar de eu ter dado fim a tudo, eu ainda me perguntava se a culpa era minha ou se eu não havia sido dura demais. Eu me sentia perdida e sentia que estava quebrando. - ela respirou fundo e eu mantinha o carinho em sua mão - Nós começamos essa amizade de novo, mas eu senti que precisava de algum modo te dizer como eu havia me sentido. Eu sabia o quanto você havia sentido, por que afinal, Falling está no mundo e é claro o que você quis dizer e transmitir. Eu escutava aquele trecho onde você canta que tem a sensação de que eu nunca precisaria de você de novo e só conseguia pensar o quanto você não sabia o quanto eu havia sofrido. - uma lágrima rolou de seu rosto, mas ela não a secou - Apesar da decisão ter sido minha, eu sofri Harry. Eu havia decidido que não aceitaria o que você estava fazendo naquela época, mas isso não muda o fato de que eu te amava e doía não te ter mais. - eu assenti - Não foi fácil pra mim. Em momento nenhum foi fácil pra mim. - e após ela dizer isso eu me ajeitei no banco a puxando para perto e a abraçando.
- Eu sinto muito. - sussurrei - Sinto mesmo, eu fui um idiota e te machuquei, mas eu prometo que vou me esforçar ao máximo para nunca mais ser um babaca. - ela me apertou em seus braços e eu notei que aquela era primeira vez que nos abraçavamos desde que nos reencontramos. Seu abraço ainda era familiar e aconchegante. Eu ainda era o Harry dela dentro daquele abraço.
- Eu sei. Eu acredito em você. - ela respondeu e no instante seguinte o carro parou. Olhando pela janela eu notei que havíamos chegado a minha casa. Eu não queria deixá-la, mas decidi que respeitaria seu tempo.
- Avise quando chegar em casa, ok? - pedi e ela se afastou assentindo e secando o rosto. Beijei sua testa e abri a porta do veículo descendo do mesmo. Acenei em despedida para Summer e me virei em direção ao meu portão. Peguei a chave em meu bolso e tentei encaixá-la na fechadura. A mente girando e a quantidade de informações recebidas naquela noite não ajudava. Depois de algumas tentativas, uma mão pequena pegou a chave da minha mão e eu encontrei Summer ali.
- Você bêbado é péssimo com isso. - ela informou e tentou acertar a chave na fechadura falhando assim como eu.
- O que você estava dizendo? - questionei rindo e ela bufou.
- Cala a boca. - ela me mostrou a língua se virando para o táxi - Moço, você pode ajudar a gente? - ela gritou e o taxista riu negando com a cabeça. Ele desceu do carro e pegando a chave com Summer, abriu rapidamente o portão voltando ao carro - Obrigada, você é muito gentil. - ela agradeceu e se virou para mim - Na sua cara. - ela cutucou meu peito de forma engraçada - Nós sabemos quem é a parte mais inteligente dessa relação. - seu dedo fez círculos no ar enquanto ela estreitava os olhos rindo. Eu segurei sua mão e enquanto ria.
- Certo espertinha, certo. Você venceu, ok? - questionei e ela sorriu orgulhosa.
- Agora estou satisfeita. - ela jogou os cabelos e se aproximou me abraçando - Tchau Harry. - eu a envolvi em meus braços. Eu senti o cheiro dela e me senti entorpecido. Se afaste, Styles. Era o que eu pensava, mas meu corpo não obedecia.
- Eu acho que eu tenho que ir. - ela sussurrou. Apesar de termos deixado o abraço ainda estávamos próximos, e por conta da proximidade a vi encarar meus lábios, o que fez um pequeno sorriso lateral se formar ali.
- Ou você poderia ficar. - sussurrei e seus olhos encontraram os meus. Minhas mãos formigavam e meu coração batia descompassado. Minha respiração era funda e pesada. O peito de Summer subia e descia de forma tensa, enquanto ela mordia os lábios de forma nervosa. Seus olhos retornaram aos meus lábios e eu tornei a sorrir - Fica. - pedi e ela encarou meus olhos rindo fraco e negando com a cabeça em seguida.
- Moço, pode ir embora. Eu vou ficar por aqui. - ela disse mais alto e eu sorri mordendo os lábios.
- Moça, eu até posso ir embora, mas você precisa pegar sua bolsa e alguém tem que me pagar. - o homem informou e eu e Summer o encaramos vendo-o dar de ombros. Em seguida nos encaramos novamente e começamos a rir.
- Se isso fosse uma comédia romântica ou um pornô isso não estaria acontecendo. - ela informou indo em direção ao carro enquanto eu ria no lugar negando com a cabeça.
Summer se inclinou para dentro do carro e pegou sua bolsa. Tirou dinheiro de dentro da carteira e passou ao motorista lhe informando que não queria o troco.
- Boa sorte. - o motorista desejou acenando.
- Obrigado, eu vou precisar. - agradeci acenando de volta e Summer gargalhou enquanto vinha em minha direção o que me fez rir também.
- Gostei da sinceridade. - ela apontou e logo parou em minha frente. Enquanto nos encaravamos nós riamos.
- Certo, é melhor entrarmos antes que os vizinhos reclamem de duas hienas rindo a essa hora. - indiquei o portão e ela se dirigiu a ele. Passamos o quintal de entrada e logo estávamos na porta da frente, a qual não tinha uma tranca, então a abrimos com facilidade.
Summer deixou a bolsa no canto reservado para ela e se virou para me encarar.
- Esse lugar não mudou nada. - comentou e eu ri.
- Claro que mudou, o porta chaves é diferente. - informei deixando as chaves ali e ela riu. Indiquei a sala e ela seguiu para lá. Alguns passos dentro do cômodo e ela parou encarando o quadro que permanecia sobre a lareira.
- Você guardou aquilo? - ela apontou o presente que havia me dado em meu aniversário.
- Sim, jamais o jogaria fora. - comentei e ela me encarou sorrindo. Seus olhos ainda eram brilhantes, seu sorriso ainda era o mais bonito que eu já havia visto, ela ainda trazia algum tipo de luz para onde estivesse, e tudo parecia ter muito mais cor quando ela estava por perto.
Meu estômago revirava, minhas mãos voltaram a formigar, meu coração voltava a bater rápido e respirar de modo compassado era uma missão difícil de se cumprir.
- Eu acho que vou beijar você. - sussurrei e ela riu fraco.
- Essa frase é minha. - ela respondeu e eu ri um pouco me aproximando e pousando minha mão em sua cintura. Ela respirou fundo me encarando concentrada. Com minha mão livre eu toquei seu rosto e me aproximei dela devagar.
Quando nossos lábios se encostaram de modo tímido pela primeira vez depois de tanto tempo, Summer sorriu, e seu sorriso foi tudo que precisei para saber que aquele era o caminho certo a se seguir.
O beijo rapidamente se tornou um beijo profundo e cheio de saudade. Minhas mãos a faziam ficar mais próxima de mim, e suas mãos, trêmulas como sempre, se entranhavam em meus cabelos, intercalando entre puxá-los um pouco e descer para a minha nuca.
Em meio a beijos e pausas para respirar, eu desci minhas mãos para suas pernas, que ela entrelaçou ao redor da minha cintura. Sem selar um novo beijo eu a encarei. Seus olhos entorpecido eram um espelho dos meus, disso eu tinha certeza.
- Você quer realmente fazer isso? Não vai se arrepender depois? - questionei e ela sorriu se aproximando.
- Vamos deixar para resolver isso quando o amanhã chegar. - ela se inclinou beijando rapidamente meus lábios e fazendo um breve caminho até minha orelha - Hoje, tudo que me importa é estar com você de novo. - e aquilo foi o suficiente para que novamente nos beijássemos enquanto com um pouco de dificuldade eu fazia o caminho do meu quarto.
Eu sabia das consequências daquilo, porém naquele momento apenas uma coisa me importava: naquele noite Summer era minha novamente.




Continua...



Nota da autora: Oii. Me desculpem a demora pra postar, mas espero que tenham gostado. Tô sem muito o que falar aqui hoje, desculpem. Desanimo e cansaço tão me pegando de jeito últimamente.
Mas tenho uma pergunta para as leitoras +18: eu tenho uma restrita escrita que acontece depois desse capítulo e queria saber se vocês querem ler, se gostam desse tipo de capítulo. Eu publicaria fora da história como uma oneshot chamada "Wrong"(sim, a música do Zayn), mas ai preciso saber de vocês. Caso as respostas sejam positivas, eu já publico ela e aviso lá no insta da PP ou aqui nos comentários. Enfim, me digam o que acham.
Vou deixar a playlist com as músicas da fic (esses trechinhos que coloco no começo dos capítulos) aqui pra caso queiram escutar e teorizar, ok?
Nos vemos em breve. Sigam os pps no instagram. Links aqui em baixo!



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