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Última atualização: 30/03/2021

Capítulo 1

– Eu vou servir de babá?
– Seria babá se eles fossem 100% mais novos que você. E não, você estaria mais para alguém que vai coordenar a equipe.
– Então eu vou ser babá das babás? – Revirei os olhos. – Ótimo.
, tenta me ajudar. Eu arrumei isso pra você, o salário é ótimo, as condições são boas...
– Você chama vinte quatro horas por dia, sete dias por semana, de “condições boas”?
– Não é assim.
– Ah, Cleo, ficou claro que é assim sim!
, é o seguinte... – Cleo se esticou por cima da mesa na minha direção. – Eles precisavam de alguém que falasse coreano, você fala. Eles queriam a casa, você praticamente foi criada aqui e conhece tudo das redondezas. Agora é só garantir que todo o resto da equipe vai estar trabalhando perfeitamente. Você é a intermediária entre eles e os funcionários e, de quebra, vai poder passear um pouco com eles.
– Eu sou a babá de um grupo musical coreano, entendido.
!
– Eu quero o emprego, tá bem? – Bufei e levantei, abaixando os ombros logo depois. – Eu preciso do emprego.
Vi Cleo sorrir. Ela se levantou e pegou sua bolsa em cima da mesa.
– Ótimo, vou fazer o aviso aos executivos que falaram comigo. Eles provavelmente irão querer uma reunião por videoconferência com você, no mínimo. Isso se não vierem até aqui pessoalmente.
– Ok, me avise.
– Posso passar seus contatos pra eles?
– Claro.
Achei que Cleo fosse oferecer a mão para mim, mas ela desistiu no meio do caminho.
– As coisas vão se resolver, .
– Com a grana que tão oferecendo, só se for.
– Otimismo, menina, otimismo.
Ela sorriu mais uma vez para mim e foi embora. Cleo era legal, tinha sido amiga da minha mãe enquanto ela ainda estava viva, e eu podia jurar que ela achava que eu tinha mais sentimentos por ela do que um simples apreço. Todo mundo naquela maldita ilha esperava isso, na verdade. O conceito do aloha não era meu por natureza, e eles não entendiam isso. Eu não era havaiana e nunca iria ser, não importava o quanto todos ali fossem hospitaleiros comigo.
É aqui que você quer saber mais sobre a minha história? Então comece sabendo o seguinte: eu não sou dessas. Eu não sigo as regras. Não era de propósito, parecia mesmo que as pessoas simplesmente queriam que eu fosse rotulada como a estrangeira renegada e rebelde porque os pais morreram. Eu nem queria estar ali! A mudança para o Havaí só me trouxe problemas – de diversas naturezas. Por mim, já tinha voltado para a Austrália, de onde obviamente nunca deveria ter saído. Mas aí tinha o problema maior... Dinheiro.
Tudo o que eu estava fazendo nos últimas dias se resumia a dinheiro. “Ah, , mas você tá sendo muito materialista.” Mas como diabos eu iria pagar a conta de luz e as compras do mês se eu não tivesse dinheiro, caralho? Eu odiava mil vezes a necessidade que eles tinham de serem otimistas até quando o próprio chão sobre seus pés estava pegando fogo. Não, vulcão Kilauea, não era sobre você. Se houvesse uma erupção catastrófica, aí que eu estaria fodida mesmo. Antes fosse sobre o vulcão...
As pessoas ali achavam que meus pais eram pessoas boas. Bem, na face que elas conheciam, talvez até fossem mesmo. Meu pai era o biólogo herói que trabalhava incessantemente e fazia milagres na preservação de diversos animais marinhos característicos dali. Minha mãe era a linda professora do jardim de infância que encantava a qualquer criança. Quando eles morreram em um acidente de lancha, eu fiquei devastada, até o dia em que descobri que aqueles papeis eram fachada para algo muito sombrio.
Meus pais eram traficantes de animais. Raciocínio simples: uma pessoa criada por um “biólogo” que diz ser o melhor e maior protetor da vida marinha havaiana tende a amar animais, certo? Certíssimo! Então pense... Como eu devo ter me sentido quando descobri que tudo aquilo era uma farsa mentirosa? E fica pior! Como eu devo ter me sentido quando um dos negociadores entrou em contato comigo e disse que meus pais deviam muito dinheiro a ele? Olha que eu nem entrei em detalhes com as ameaças... Pois é, não foi fácil de nenhum jeito, e nem poderia.
O único legado e propriedade que me deixaram foi o suposto centro de recuperação de animais no meio da floresta nacional de O’ahu. Depois que descobri toda a verdade, fiquei me perguntando para quê serviria aquele amontoado de quartos construídos aos montes. No total, eram doze, uma construção em forma de U cercada por varanda coberta e um salão de sessenta metros quadrados com vista para a floresta a fim de proporcionar boas práticas de ioga, que minha mãe também ensinava. Pareceria lindo se eu não estivesse com uma puta dificuldade para vender a propriedade por questões legais. Então eu alugava eventualmente e pagava Hani como podia enquanto tentava me sustentar com o pouco que sobrava. Sabe o que era mais irônico nisso tudo? Hani era havaiano para “homem que transmite alegria”. Se o que ele transmitia era alegria... Puta que pariu!
Quando Cleo veio falar comigo sobre aquela locação, eu achei que seria a solução dos meus problemas. “Um grupo musical coreano quer passar quatro meses em um retiro no Havaí e eles gostaram muito da sua propriedade, querem alugá-la e vão precisar de alguém para assistí-los, então te recomendei porque você conhece a propriedade melhor que ninguém e o dinheiro seria mais do que só a locação”. Dois – repito, dois – dias depois que eu fiquei sabendo disso, Hani ligou e fez ameaças. Queria comissão em cima daquela locação, alegou saber que eu não estaria tão necessitada naqueles dias. Eu cedi, como sempre, sob a constante ameaça de ser incriminada pelas práticas desonrosas dos meus próprios pais. E, enquanto isso, eu vivia em um apartamentinho merda no centro de Honolulu, ganhando um dinheiro ínfimo como garçonete.
Eu sentei para conversar com os representantes coreanos naquele dia bem puta da vida. A minha mente repetia um mantra que dizia para eu me acalmar a qualquer custo. Estava difícil, ainda mais quando as exigências eram bem estranhas. Só piorou quando me deram uma pasta gigante com folhas e mais folhas.
– São fichas sobre os rapazes. – O mais velho deles informou. – Fotos, nomes completos, como cada um é, do que cada um gosta, particularidades de saúde... Você precisará saber de tudo. Há também o tipo de evento cuja presença deles é permitida, além dos contatos de todos da equipe de segurança e a escala entre eles. Também há os contatos emergenciais de todos da agência para quem você pode ligar caso seja necessário. Todas as outras informações possivelmente necessárias também estão contidas em um dossiê específico nessa pasta.
– Sei que é muita coisa, mas é essencial para que você desempenhe seu papel perfeitamente como esperamos. Eles chegam em duas semanas, na terça. Você terá motorista disponível para qualquer programa aprovado com eles.
Então eu sou babá e guia turística, tudo como eu havia imaginado.
– Perdão, mas eles têm quantos anos mesmo? – Interrompi.
– Entre vinte e três e vinte e oito.
– Ah... – Suspirei. – Ok.
– Você acha que dá conta?
Engoli em seco e torci para nenhum deles perceber.
– Mas é claro! – Disse com o sorriso mais falso do mundo.
Levantamos, trocamos apertos de mão simplórios e cada um foi para o seu canto. Eu, é claro, fui para o apartamento de um cômodo que chamava de casa. Já não tinha ido para a faculdade por não gostar de estudar, aí chegavam os coreanos lá e... Toma, estudo! Ótimo. Até para definir estratégia de estudo eu estava enferrujada, então comecei pelo óbvio e mais importante: meus hóspedes.
As pastas estavam organizadas por data de nascimento. O primeiro deles se chamada Jeon Jungkook. Era o mais novo do grupo, vocalista principal, sua comida favorita era pão e pizza, seu hobby era edição de vídeos, demorava muito para se arrumar... Aí eu parei e me perguntei: por que diabos estava lendo aquilo? Por que diabos tinham me entregado aquilo? Não fazia o mínimo sentido.
Desisti de ler as fichas sem nem terminar a do primeiro. Ao invés disso, espalhei as resmas de cada um pela mesa, colocando em evidência a primeira folha de cada uma delas. Era a folha que, logo no topo, à esquerda, continha uma foto em boa qualidade de cada um dos garotos. Piadas a parte, eu pensei seriamente que poderia ter problema em diferenciá-los, então julguei ser mais sábio aproveitar o tempo para decorar os rostos e nomes deles antes de prato favorito e cor predileta.
Fui para a maldita construção no meio da floresta no dia anterior à chegada dos coreanos. Treinei minha dicção na frente do espelho, falando sozinha e revendo alguns doramas sem legenda. Chequei os funcionários que iriam acompanhar a estadia deles, como as arrumadeiras, cozinheiras, motoristas... Conhecia três deles, moravam ali por perto. Enfim, quando me dei por satisfeita, eu deitei e torci para o dinheiro cair o quanto antes na minha conta bancária.
Dia seguinte, onze horas da manhã em ponto. Eles não tinham brincado quando anunciaram que seriam pontuais. Uma van da Mercedez e um helicóptero chegaram simultaneamente. Eu me apressei em ficar na escada da varanda que circundava toda a casa. Afinal de contas, eu tinha que manter o papel de anfitriã perfeitamente se quisesse ganhar aquela bolada de dinheiro. E eu precisava dela, então era o que eu ia fazer.
O motorista do dia era Kailani, velho conhecido, que abriu a porta de trás. O primeiro a sair tinha um casaco verde sobre uma blusa rosa com detalhes roxos, e eu me perguntei se ninguém tinha dito a ele que fazia calor no Havaí. O segundo estava todo de branco e seu cabelo estava claro demais para ser natural. Depois dele, outro todo de branco, com um cinto preto que se destacava no meio de tanta neutralidade. O quarto era o “menos pior”, com uma jaqueta e calça jeans e blusa branca. Quando eu pensei que não tinha como ficar mais absurdo, saiu de dentro da van um deles com sobretudo e calça preta, sendo que o sobretudo tinha lantejoulas – ou seja lá o que fosse aquilo. O penúltimo usava terno rosa claro com uma blusa um pouco mais escura com detalhes pretos. Por fim, o sétimo estava usando uma blusa de seda com detalhes azuis e pretos, desnecessariamente exagerados.
Respirei fundo. Só conseguia concluir que eu ia ser sim babá.
– Oi, você deve ser a , certo? – O primeiro a sair da van perguntou e ofereceu a mão para um cumprimento, o que eu aceitei após forçar um sorriso educado.
– Sou sim. E você é o RM.
– Pode chamar de Namjoon, acho que você vai precisar de intimidade pra aturar a gente nessas próximas semanas.
– Namjoon então. – Eu assenti, citando o nome pessoal que eu achei que seria melhor não usar de primeira e, por isso, optei pelo artístico.
– Esses são Jimin, Hoseok, Jungkook, Seokjin, Yoongi e Taehyung.
– Pode chamar de Hobi. – O segundo a ser apresentado chegou mais para a frente e ofereceu a mão também.
Todos me cumprimentaram brevemente até que notei que um dos executivos com quem eu tinha me encontrado saíra do helicóptero sem que eu nem percebesse. Ele se aproximou de nós e foi recebido com extrema educação pelos meus mais novos visitantes.
– Senhorita , como vai?
– Bem, obrigada. – Respondi.
– Está tudo em ordem? Vim rapidamente apenas para confirmar.
– Sim, está tudo certo.
– Se houver qualquer problema, você tem meu número pessoal.
– Sim, senhor.
– Comportem-se e obedeçam às regras. – Ele disse, virando-se para o grupo. – Se precisarem de alguma coisa, peçam à .
Os sete concordaram em silêncio. Outra van chegou logo depois. A primeira coisa que eu pensei foi que haviam dito que eram apenas sete – e seria uma merda ter mais gente porque tudo estava preparado para sete pessoas e sete pessoas apenas. Mas então eles mesmos foram à van e começaram a retirar algumas malas de lá. Pararam à minha frente na volta, esperando por uma ordem. Eu tentei sorrir do melhor jeito que pude.
Levei os sete para dentro, apresentei cada um a seu respectivo quarto – decorado por profissionais contratados especialmente para atenderem ao gosto de cada um deles. Era um puta exagero para mim, mas se eles iam pagar... O que me surpreendeu foi que, minutos depois, estavam os sete chegando perto de mim. Esperavam algo que eu, com toda a certeza do mundo, não poderia entregar, mas pareciam ser extremamente educados, então eu ia retribuir aquilo ao menos.
– E então... Alguém quer conhecer o entorno da casa? – Perguntei, completamente sem jeito.


Capítulo 2

Levantei quando ainda era bem cedo. A temperatura estava relativamente baixa, então aproveitei para tomar um banho bem quente e colocar moletons tão confortáveis quanto possíveis. Saí para a cozinha com o corredor da casa sendo iluminado pelo pouco de luz solar já disponível. Decidi aproveitar o horário porque pareceria mais profissional se eu simplesmente não tivesse que interromper o dia a dia dos meus hóspedes para fazer uma refeição.
Abri a geladeira, peguei um pouco do achocolatado e enchi um copo. Eles tinham dito que iam cobrir a minha alimentação, que eu deveria agir mais como uma companhia do que uma prestadora de serviço, que era meu papel integrar-me ao grupo para que eles se sentissem confortáveis comigo. Dividir comida tinha que ser um ponto, certo?
Como realmente achei que ninguém daria as caras por ali porque estava cedo para o Havaí e mais cedo ainda para a Coreia do Sul, fui até a porta enorme da sala de estar que dava vista para a floresta. De repente, tive a estranha e ruim sensação de estar sendo observada. Eu me virei rapidamente e quase deixei o copo cair no chão.
– Desculpa, não tive a intenção de te assustar. – Aquele que parecia o líder deles se apressou em dizer. – Aliás, bom dia.
– Bom dia.
– Você está bem?
– Sim. Não tem problema, eu não deveria estar aqui de qualquer forma.
– Quê isso! Aqui é sua casa e, até onde eu sei, você tem toda a liberdade de estar conosco, ainda mais se vai ser quem nos mostrará as ilhas. – Ele disse com um sorriso diplomata. – Não está cedo?
– Acho que também tá cedo pra você. – Observei.
– Eu já estava treinando trocar o fuso horário. Todos estávamos, na verdade. Então acordei e não estava sentindo sono, decidi levantar de uma vez por todas.
Murmurei alguma coisa que nem eu entendi e saí de perto da janela. O rapaz parecia decidido em insistir na conversa.
– Você é daqui mesmo?
– Não, sou australiana.
– Uau, bem mais perto da gente. – Ele comentou. – E veio pra cá por quê?
Respirei fundo. Assunto difícil, conte meia verdade.
– Meus pais, trabalho... Sabe como é.
– Entendo. E você faz o quê aqui?
– Dou aulas de reforço para crianças enquanto não vendo isso aqui, ou qualquer outro trabalho que apareça.
– Mas o lugar é tão lindo! Por que você quer vender?
– Pra voltar pra Austrália. – Meia verdade.
– Nós estivemos lá algumas vezes. É um país muito bonito, mas o Havaí também é lindo.
Mais uma vez, murmurei alguma coisa e terminei o achocolatado de uma vez.
– Posso te perguntar uma coisa? – Ele voltou a falar. – É , não é?
– Isso. E pode perguntar.
– Timidez ou profissionalismo?
Não aguentei e soltei um riso breve com a pergunta.
– Profissionalismo. – Respondi. – Eu preciso do dinheiro, não posso correr o risco de dar errado.
– Então fica tranquila. Somos tranquilos, não vamos achar problema algum com você. Pode ser honesta conosco. Entendemos que a cultura aqui é bem diferente da nossa e vamos te respeitar, acima de tudo. É o que posso te garantir. E também não gostaríamos que você ficasse desconfortável aqui, então pode se soltar. – Ele riu.
Eu assenti enquanto pensava.
– Obrigada.
– Não há de quê. – Ele me respondeu. – E é Namjoon.
– O quê?
– Meu nome. Pode me chamar de Namjoon.
Ele sorriu de novo e deu de ombros.
– Ok então, Namjoon, obrigada pela sua preocupação.
– Agora que eu acho que te tranquilizei um pouco... Para onde vamos hoje?
O primeiro passeio marcado para o grupo – e a agenda deles tinha até sido feita com a minha consultoria, mas a decisão final foi toda e exclusiva de seus empresários – era uma visita ao Akaka Falls State Park. Ficava em outra ilha e era um passeio que eu costumava fazer porque meu pai fazia trabalho voluntário na unidade de preservação de lá e tinha o costume de levar a família junto eventualmente. Pensei que a ida até lá traria sentimentos saudosos, mas eu não podia ligar menos.
O resto dos meninos não demorou a acordar, até porque Namjoon garantiu que eles não dormissem demais e perdessem a hora. Ele me explicou particularidades especiais sobre cada um, como Jungkook – o caçula, maknae em termos coreanos – que demorava muito especificamente no banho ou Jin – o mais velho dentre eles – demorava muito para tudo. De forma geral, todos eles eram estranhamente simpáticos. Estranhamente porque não parecia natural, embora Namjoon me garantisse que aquilo se tratava de uma diferença cultural à qual eu me acostumaria antes de dar conta.
Esperamos que todos tomassem o café da manhã sem pressão e partimos na direção do litoral. Pegamos uma lancha, que havia sido paga para estar à disposição do grupo a qualquer momento enquanto eles estivessem lá, fomos para a ilha onde o parque ficava, levando bons minutos até chega lá. Um carro nos levou até a entrada e desembarcamos. Eu saí do banco da frente e aguardei pacientemente enquanto os seguranças acompanhavam o desembarque dos sete.
– Ok, alguém tem alguma pergunta antes de começarmos? – Todos negaram com a cabeça e eu respirei fundo. – Beleza então. A dicção está boa? Meu coreano está aceitável?
Um deles deu um risinho e afirmou com a cabeça, não lembrava o nome porque ainda estava tendo dificuldades com achar detalhes específicos para diferenciar um do outro. Respirei fundo mais uma vez. Precisava ficar tranquila a qualquer custo, repetia na minha cabeça a palavra ‘pagamento’ constantemente.
– Vamos lá, esse aqui é o Akaka Falls State Park. O nome dessa ilha é Hawai’i, porque tem diferença entre o Havaí estado e a ilha Havaí. A Akaka é a principal cachoeira do parque, tem cerca de cento e trinta e cinco metros de altura. O significado de Akaka é algo como fenda, divisão, rachadura... A gente vai entrar pelo lado direito do desfiladeiro onde a cachoeira cai. Vamos fazer uma trilha de dificuldade moderada. Dela, podemos ver a cachoeira Akaka, a cachoeira Kahuna, que tem cerca sessenta e cinco por cento do tamanho da Akaka, e alguns outras cachoeiras menores.
Parei por um instante e olhei para todos eles. Estavam prestando atenção como ninguém jamais havia prestado atenção em mim, mas estava bem claro que a minha fala não era do interesse deles. Olhei para Namjoon e lembrei de todo o discurso dele anteriormente naquele mesmo dia, quando eu tinha ido tomar meu café da manhã.
– Se eu fizer uma pergunta, vocês me prometem que não vão ficar chateados? – Eles assentiram, novamente em conjunto, pareciam coreografados em cada movimento. – Vocês não querem saber dessa parte, querem?
Alguns torceram o nariz, outros riram de forma contida. Até eu mesma acabei rindo da situação.
– Sem mais dados inúteis então. Me perguntem o que quiserem, mas vamos lá.
Seguimos pela trilha sem maiores dificuldades. Um segurança ia na frente, eu ia logo atrás, e eles eram cercados por outros seguranças enquanto usavam chapéus de diferentes tipos para disfarçarem o visual. Em uma pesquisa rápida pela internet – e devo assumir, pela aba anônima, porque eu estava com medo dos coreanos invadirem meu celular, espionarem ou coisa do tipo –, verifiquei se eles tinham tantas fãs assim e fiquei assustada de não saber mais sobre o grupo antes de conhecê-los através da nossa relação profissional. Algumas histórias chegavam a ter um teor macabro e eu entendia o porquê do esquema de segurança pesado.
Depois de um longo tempo sob um sol não muito confortável, com constantes paradas para fotos, nós chegamos à queda principal. Todos eles se aproximaram da água, dois até molhando os pés. Eles continuaram tirando diversas fotos e eu me dei uma dispensa, sentando em uma pedra um pouco mais afastada. Um dos seguranças me ofereceu água, mas eu neguei porque tinha a minha própria garrafa. Fiquei olhando para eles enquanto devaneava sobre assunto nenhum em específico.
– Ei, . – Um deles me chamou, e aquele definitivamente eu lembrava de ser o Hoseok porque chamavam seu nome toda hora. – Pode tirar uma foto nossa?
– Claro. – Respondi com um sorriso e cheguei perto deles, pegando o celular que ele me oferecia.
Enquanto eu olhava o visor do celular e batia a foto, ouvimos alguém gritando atrás de nós. Mil pensamentos ruins passaram pela minha cabeça até eu localizar a fonte dos gritos. Todos olharam para trás e a imagem chegava a ser engraçada.
– Alguém tira isso!
– Calma, Jungkook! – O menor deles disse, mas estava rindo da cena.
– Ei, relaxa, é um caboz. – Respondi, ainda segurando a risada, e devolvi o celular para seu dono, indo até a vítima. – Me estica a sua mão e relaxa a musculatura.
– Como eu vou relaxar?
– Não vou tirar se você não fizer isso. – Alertei.
Peguei o braço dele pelo pulso para que ficasse firme e estático. Então peguei o peixe pela lateral da cabeça, fiz uma leve pressão e, em um segundo, ele estava livre.
– Ufa... O que é isso?
– É um caboz, goby fish. – Falei e devolvi o animal à água antes de continuar minha explicação. – Eles são peixes pequenos e estranhos que comem insetos pequenos e têm essa boca engraçada pra se fixarem em superfícies. Eles nascem lá em cima da cachoeira e vão para o mar, voltam para a reprodução como os salmões. Esse que te atacou é um bebê, eles chegam até quinze centímetros em média.
– Jungkook deu xilique porque foi atacado por um peixe bebê, que patético.
– Cala a boca, Yoongi.
Ri da breve discussão entre os dois mas tratei de chegar para trás a fim de estabelecer um bom espaço entre nós, para manter o que poderia considerar como sendo profissionalismo. Fui novamente até a pedra onde estava, o lugar onde havia deixado minha mochila. Quando percebi, estava sendo seguida.
– Você sabe bastante sobre essas coisas. – Namjoon observou.
– Meu pai era biólogo, eu aprendi muita coisa sem querer apenas observando-o enquanto ele fazia o seu trabalho.
– Uau, é uma profissão interessantíssima. Mas perdoe-me pela pergunta... – Ele fez uma pausa quando eu também parei e virei para ele. – Você usou verbos no passado. O que aconteceu?
Engoli em seco e forcei um sorriso.
– Houve uma tempestade muito forte aqui, pouco menos de dois anos atrás. Eu estava onde vocês estavam ficando, lá era a minha casa na época. Meu pai havia sido chamado para fazer um serviço de identificação perto do extremo sul dessa ilha em que estamos. Minha mãe foi junto pra fazer companhia. Naquele dia, o Kilauea, que fica aqui perto, entrou em erupção. Soltou muita fumaça, o que prejudicou a visibilidade no mar. Meu pai quis voltar para casa mesmo assim, mas ele achou que estava mais distante da costa em uma avaliação errada e eles atingiram um atol. Acharam a lancha afundada, mas nunca acharam os corpos, o que nos leva a pensar que provavelmente foram comidos por tubarões.
– Uau... – Eu finalmente tinha conseguido deixar Namjoon sem palavras depois de muito tempo, ele estava desconsertado por completo. – , eu não fazia ideia. Eu sinto muito mesmo. Não devia ter feito uma pergunta tão indelicada quanto essa.
– Ah, eu não ligo. Descobri que eles eram péssimas pessoas depois que morreram. Ajudou a superar, se é que você me entende.
Pisquei para ele e peguei minha garrafa de água, bebendo um pouco. Ele ainda estava muito sem jeito mas, ao menos, eu não era mais a única preocupada sobre como estar diante de outros ali. Estava até questionando-me se eu tinha feito de propósito, mas o discurso sobre a morte dos meus pais estava sendo repetido havia tanto tempo que pensei que provavelmente só tinha saído da minha boca sem eu perceber.
Terminamos o passeio sem mais detalhes e, no meio da tarde, retornamos à ilha de O’ahu. Eles foram para o exterior da casa, pareciam querer “aproveitar a natureza”. Eu queria aproveitar o chuveiro. Tomei um bom banho, coloquei roupas mais confortáveis que as usadas para fazer a caminhada e fui até a cozinha, conversar um pouco com Kaila e Mainara, duas cozinheiras que eu conhecia e que também haviam sido recomendadas para aquele serviço por Cleo. Afinal de contas, eu precisava de algo que lembrasse de que eu não era do grupo deles, que eu era uma empregada.


Capítulo 3

– Ele é sempre todo feliz assim?
– Ah, ele é. – Namjoon me respondeu e eu apenas sorri.
– Bem... Se precisarem de mim, podem me chamar, vou estar no meu quarto.
– Fica, ! – Ouvi meu nome ser chamado e procurei pela origem da voz.
Ao ver que eu estava um tanto quanto confusa, uma mão se levantou e acenou. Pensei, pensei, até que o nome veio à minha mente. J-Hope, nome artístico. Hoseok, nome real. Ok, memória funcionando, finalmente. Abri um sorriso pequeno e minimamente educado.
– Não quero atrapalhar, vocês vão ficar mais à vontade se eu for.
– Não vamos não. – Ele deu de ombros. – E nós estamos sempre em número ímpar. Você pode ajudar a gente e, assim, teríamos finalmente justiça entre as equipes.
Respirei fundo. Estava ainda em cima do muro quanto a sentir ser necessário parecer simpática, como se fosse para agradá-los cem por cento do tempo. Quanto mais tempo passava com o grupo, mais eles pareciam que não estavam ligando para formalidades, que tentavam fazer com que eu fosse parte confortável da estadia deles por simpatia e educação. De qualquer forma, a minha preocupação era sempre pensar no tanto que o dinheiro importava e na necessidade.
– Ok então. Com quem que eu formo dupla?
– Pode ficar comigo mesmo, que tal?
– Pode ser. – Respondi com um sorriso.
– Vocês dois começam? – Jin falou, apontando para nós, e ele foi o mais fácil de gravar o nome porque era o mais ativo de todos.
J-Hope olhou para mim e deu de ombros. Eu fiz o mesmo e nós nos posicionamos do lado oposto à casa. A outra dupla pegou a bola e os dois estavam conversando entre si. Vi, pelo canto do olho, que meu parceiro estava chegando mais perto.
– Você sabe jogar? – Ele perguntou, baixo.
– Mais ou menos, por quê?
– Precisa prestar atenção neles. – Apontou com a cabeça para nossos adversários. – O Yoongi é inofensivo, mas o JK... Ele é extremamente competitivo e, mesmo que o Yoongi não seja muito bom em esportes de forma geral, o JK pode ser bem exagerado às vezes.
– Tudo bem, obrigada pelas informações.
– Mira no Yoongi.
– Ele é o mais velho, certo?
– Isso!
– Beleza, pode deixar. – Respondi e ri sozinha. – Você prefere passar ou eu passo?
– Por mim, tanto faz. A gente pode ver de acordo com a situação.
Assenti e nós nos afastamos conforme os outros dois se mostraram prontos para começar.
– Quem fizer dez pontos primeiro, ganha. – Jungkook anunciou e preparou-se para sacar.
A bola veio direto em mim. Se foi proposital ou não, com a intenção de prejudicar ou de avaliar o terreno... Não sei. Mas eu recebi a bola com uma manchete. Infelizmente, não foi muito boa, mas J-Hope conseguiu corrigir e levar a bola para mais perto da rede. Eu pensei rápido. Jungkook era o competitivo, o outro não era bom. Fixei meu alvo e cortei. Por sorte ou não, eu errei a bola e só as pontas dos meus dedos pegaram nela. A bola caiu do outro lado, rente à rede. Ponto para nós. J-Hope gritou, comemorando, e aproximou-se de mim, oferecendo as mãos no ar para um cumprimento breve.
Mirar de cara no teoricamente mais vulnerável e expor que eu sabia sobre o ponto fraco da outra dupla não foi a melhor ideia. Deixaram a gente fazer três pontos. Ou melhor, Jungkook deixou. Ficou bem claro que ele estava assumindo a posição de ‘vou deixar a nativa ganhar porque é mulher, vou deixar a nativa ganhar porque é de fora do nosso grupo’. Mas Jungkook mostrou rapidamente sobre o que eu tinha acabado de falar. Eu e J-Hope perdemos de dez a três. Saí dos limites da quadra de areia sem sentir abalo, até porque eu nem tinha entendido ainda que tipo de desastre tinha acontecido comigo naquela quadra. Meu parceiro só riu enquanto sentava-se ao meu lado no chão mesmo.
– Eu avisei que ele era competitivo.
– Todo mundo é competitivo. Ele é...
– Doente?! – J-Hope sugeriu com uma sobrancelha arqueada, sorria para mim. – É o JK, ele é assim mesmo.
Apoiei as mãos na areia, atrás do meu corpo, e reclinei as costas. Sabia que estava sendo observada.
– Namjoon disse que você é australiana, na verdade.
– Isso. – Respondi de olhos fechados, aproveitando que o sol estava em uma temperatura extremamente agradável.
– Ele também disse que você veio pra cá com os seus pais quando era nova.
– Também está certo. – Ajeitei a minha postura e voltei a ficar sentada em posição decente, brincando logo em seguida com ele. – Ele fez um review completo sobre mim?
– Ah, é uma das coisas dele, sabe? Uma... Uma característica intrínseca ao Namjoon.
– E a sua é contar sobre ele pra mim?
– Não. – J-Hope riu. – Eu só gosto de compreender as pessoas, entender o que há por trás da aparência externa.
– Hm... E o que você compreendeu sobre mim até agora?
– Você é extremamente respeitosa o tempo inteiro, mas tem um quê de extrovertida escondido atrás do rosto profissional que você tenta manter sempre.
– O que mais você compreendeu?
– Gosta de ficar sozinha em certos momentos, mas também gosta muito de companhia às vezes. Tem que ser na medida certa, balanceado, e isso é afetado pelo seu humor. E você foi com a nossa cara.
– Uau, você é bom mesmo.
– Na verdade, é porque você parece muito com o Yoongi. – Ele apontou para o amigo que fazia dupla com Jungkook, atrapalhado em receber uma jogada. – Só que ele é rabugento e não é tão bonito como você.
Eu sorri, envergonhada, e senti minhas bochechas pegando fogo.
– Me conta mais sobre meu irmão gêmeo então.
– Deixe-me ver... Ele é muito amoroso, só não sabe demonstrar. Mas quando ele gosta de algo, realmente se dedica a isso e é incrível ver o quanto ele trabalha em prol das coisas que ele aprecia. Talvez seja quem mais gosta de música dentre nós sete. Ao menos, é nisso que eu acredito. Dorme demais, adora falar besteira pros outros e é o melhor no que faz.
– Quem mais?
– Sobre quem você quer que eu fale? – Ele devolveu a pergunta e eu pensei rápido.
– O mais chato.
J-Hope riu e ajeitou sua postura também.
– Eu não usaria a palavra ‘chato’, mas provavelmente é o Namjoon. Ele é o cara ‘relações públicas’ do grupo, entende? Eu adoro interagir com os fãs, adoro fazer amizades, mas ele leva isso ao extremo e, às vezes, sei que não é sincero, que ele está apenas montando uma boa fachada para quem quer que veja. Ele gosta de respeitar regras e se cobra muito para ser um exemplo impecável para quem quer que possa estar olhando para ele. Mas é bem engraçado ver quando ele fica irritado pra valer. Não consigo levar a sério, e é aí que ele fica mais irritado ainda, o que leva a um ciclo vicioso... Acho que você entendeu.
– Entendi sim. – Arrumei alguns fios de cabelo que estavam caindo no meu rosto e comecei a recolocar o rabo de cavalo. – O mais vaidoso.
– Pergunta difícil... – Ele fez cara de quem estava lutando para fazer uma escolha.
– Vamos trocar então. – Sugeri. – O mais comilão.
– Jungkook! – Ele quase gritou, comemorando a fácil resposta. – É incrível como ele come como um porco e não engorda.
– O que mais tem ele? Já sei que come muito e é competitivo.
– Ele é um bebê. É o mais novo do grupo. Não é mais mimado que o Jimin, – Ele apontou para a outra dupla que estava de fora da partida, do outro lado da quadra. – mas chega perto. Faz palhaçada o tempo inteiro, a satisfação dele é saber que ele consegue fazer os outros rirem. Aliás... Você já escutou nossas músicas?
– Não, pra ser sincera. Me perdoe por isso.
– Sem problemas. – J-Hope sorriu para mim. – Se tivesse escutado, saberia que ele tem uma voz que chega a soar angelical. Te sugiro Euphoria, é uma música que ele canta sozinho e é um SPA para os ouvidos. É um ótimo dançarino, gosta de atividades físicas e não aceita não ser o melhor em tudo o que ele faz.
– E o mais mimado...?
– Ah, Jimin? Ele é metido a sensual. Adora fazer pose, mas acha que precisa se dedicar mais porque pensa que não canta tão bem. Se você elogiar o Jimin, é provável que ele fale algo como ‘eu sei’, mas ele fica todo bobo por dentro. Evoluiu muito desde o começo do grupo, também tem uma voz incrível e ri por qualquer coisa. Muito carinhoso também, você não faz ideia. – J-Hope suspirou. – Qual o próximo?
– Vou deixar que você decida.
– Jin, que está jogando com Namjoon. – Ele também apontou. – Uma autoestima inabalável. Se você não nos conhece, provavelmente não sabe que ele se autointitula worldwide handsome.
– Sério?! – Tive que interromper com uma gargalhada.
– Muito sério, você vai ouvir isso sair da boca dele antes de irmos embora daqui, posso apostar. Mas experimente dizer a ele ‘você está bonito hoje’. Jin vai esconder o rosto para que você não veja o quão envergonhado ele fica. E, tirando isso, ele é o mais velho, cuidou bastante do Jungkook e é o melhor cozinheiro do grupo.
– Quem falta agora?
– Taehyung. – Ele apontou novamente para a dupla do outro lado, que começava a preparação para entrar em campo.
– E você.
– Eu deveria falar sobre mim?
– É claro!
– Tudo bem então. – Ele sorriu. – Oi, eu sou o J-Hope, mas meu nome verdadeiro é Jung Hoseok.
– Prazer, Jung Hoseok. – Ofereci a mão para que ele apertasse e trocamos um breve cumprimento.
– Eu faço parte da rap line do grupo, assumo a posição de professor de dança muitas vezes porque tenho bom olho pra isso. Pra mim, seria uma honra que você me escutasse cantar e falasse sua opinião. Me emociono fácil, sou apaixonado pelas minhas fãs e... Ah, eu não sou interessante.
– Claro que é! – Protestei. – Me conta mais.
– Não há muito o que saber, eu sou simples.
– Você não parece nada simples.
– Mas eu sou. – Ele deu de ombros. – E sobre Taehyung, ele tem personalidades diferentes. Às vezes, é uma diva. Às vezes, é um vaso de cristal caríssimo que pode quebrar só de olhar para ele, tamanha a delicadeza que constitui sua alma. Taehyung não sabe disfarçar quando não gosta de alguém, é o mais romântico do grupo e uma ótima pessoa em quem se pode confiar.
– Uau, queria que alguém me descrevesse assim. – Eu sorri enquanto ponderava sobre as palavras ditas.
– Você é única, , todos somos. Suas particularidades jamais serão as mesmas que as minhas ou as do Taehyung. Tenho certeza de que há muito mais coisas boas em você que eu ainda não vi e é só questão de tempo para descrever.
– Posso te pedir um favor?
– Claro, o que é?
– Quero que você escreva os dizeres da minha lápide.
Ele riu e assentiu em seguida.
– Teve outra coisa que Namjoon disse sobre você.
– O que foi?
– Que sua timidez exasperada se deve ao fato de que você tem medo de perder o dinheiro porque precisa muito dele.
Eu hesitei. Era um assunto delicado e eu estava com um humor totalmente diferente quando fiz a confissão a Namjoon. Mas então eu dei de ombros, como sempre fazia em qualquer situação quando não sabia bem como estavam meus sentimentos.
– Ele também estava certo nisso.
– Só queria dizer que não precisa se preocupar com a gente. Não vamos te dedurar pra ninguém, não queremos ser uma pedra no seu calçado e somos gratos porque, pra gente, você estar aqui, ajudando, nos incluindo em tudo... Pra gente, isso é um grande favor, e nós somos gratos.
– Até o Yoongi? – Brinquei, tentando tirar a tensão do momento.
– Até o Yoongi. – J-Hope confirmou, rindo, então levantou-se e ofereceu a mão para que eu me apoiasse nele para levantar também. – Vamos, tá na nossa vez de novo. Se você quiser, é claro.
– Quero sim. – Respondi com um sorriso.
Mais uma vez, nós ocupamos nossos lugares na quadrada. Dessa vez, estávamos contra outra dupla, o que rendeu certo alívio. Afinal de contas, eu também era competitiva. Ri só de imaginar a agressividade que teríamos eu e Jungkook no mesmo time. Então virei para meu parceiro antes de começarmos a jogar, levando um sorriso sincero comigo.
– Obrigada pela conversa, J-Hope.
– Pode chamar de Hoseok. Ou Hobi, como preferir. – Ele piscou para mim, sorrindo também. – E eu que agradeço.


Capítulo 4

Eu só ia passar direto. Eu juro. Não havia nenhuma intenção além da pura e singela necessidade que eu tinha de ficar no meu quarto. Mas eles estavam fazendo da cozinha um caos completo. Tentei disfarçar, passando pela varanda para pular a janela e entrar no meu quarto por lá, mas fui avistada. Quando gritaram meu nome, eu só aceitei.
O problema era o seguinte: os malditos eram envolventes. Por envolventes, quero dizer que cativavam antes de você notar que estava sendo cativado. Talvez eu estivesse emocionalmente vulnerável demais também, faria sentido se fosse esse o caso. A questão é que eu estava em uma competição culinária no meio de sete homens e nem sabia como havia chegado até ali.
– Não é possível que você faça um japchae melhor que o Jin. – Fui provocada por um membro do outro time. – Você nem coreana é!
– Tudo entre vocês tem que ser uma competição? – Perguntei a Hobi, rindo enquanto nós dois fazíamos os cortes necessários nos vegetais que escolhemos para a receita.
– Nem pergunte, eu também não sei como chegamos até aqui.
, já terminei de misturar os molhos.
– Você pode terminar de cortar aqui que eu vou pra carne, Namjoon?
– Claro. – Ele deu de ombros, sorriu para mim e pegou a faca que eu estava usando.
– O que eu faço, gente?
Olhei para ele, respirei fundo. Coloquei meu cérebro para trabalhar e torci para que não demorasse tanto quanto costumava demorar. Então o nome veio: Jimin!
– Jimin, você pode tirar o espinafre que tá na água, espremer bem e entregar pros meninos cortarem? – Pedi com um tom educado. – Ou você mesmo pode cortar se te derem espaço. Só não pode jogar a água fora nem desligar o fogo, por favor.
Ele afirmou com a cabeça rapidamente e virou-se para o fogão de forma quase mecânica. Eu ri com a correria que eles estavam produzindo na cozinha que até era grande, mas não parecia mais quando tínhamos oito pessoas em uma competição ali dentro, ainda mais com o fogão de apenas seis bocas. Juntei os bifes, um em cima do outro, e comecei a cortar em tiras finas. Quando virei para trás, os outros já estavam colocando os vegetais no molho para marinar. Entreguei a tábua com a carne cortada para Namjoon, que despejou tudo lá também. Eu peguei o noodle de batata doce e joguei na água onde o espinafre estava, adicionando um pouco de óleo de gergelim.
– Agora é esperar? – Hoseok perguntou para mim.
– É sim. – Falei e limpei minha mão em um pano de prato. – Vou tirar da água em cinco minutos. Enquanto isso, vou bater os ovos.
– Deixa que eu faço. – Jimin se ofereceu.
– Eu vou preparando a frigideira.
– Prepara logo duas, Namjoon, pra refogar os vegetais e a carne também. – Pedi.
Eu dei uma olhada em volta para verificar em que pé estávamos. Abaixei e peguei uma tigela de bom tamanho no armário embaixo da bancada. Coloquei em cima da mesa que ficava centralizada na cozinha e um olhar encontrou o meu. Arqueei uma sobrancelha de imediato.
– O que foi? – Perguntei.
– Você não vai ganhar.
– Se você tá tão seguro da vitória assim, Suga, não sei pra quê você está preocupado em fazer cara feia pra tentar me assustar. – Disse com um sorriso convencido na cara. – Aliás, nem tá dando certo, porque sua cara é bonitinha demais pra ficar feia em algum momento.
As bochechas dele ficaram vermelhas, cor de tomate. Eu ri quando ele fez cara de deboche e desconversou, voltando-se para a sua equipe. Com os ovos prontos, ainda tinha tempo para o espaguete finalizar. Hoseok ia começar a cortar os ovos, mas mal encostou a mão neles e recuou porque ainda estava muito quente.
– Deixa, ainda temos tempo. – Olhei, desafiadora, principalmente para Jungkook, eu queria provocá-lo mais ainda porque estava sim guardando rancor do dia do vôlei.
Eles ainda colocavam o espaguete para cozinhar quando nós já estávamos na frente, refogando tudo o que faltava para unir à mistura final. Namjoon e Hoseok seguiam tentando mostrarem-se solícitos o tempo inteiro enquanto Jimin ficava à espreita, apenas esperando que alguma ordem fosse direcionada a ele. Nós terminamos quando o outro grupo ainda estava com panela no fogo. Hoseok colocou a tigela na mesa central e eu cruzei os braços. Taehyung – ou V, ainda não estava certa sobre como ele preferia ser chamado porque até os próprios amigos eventualmente chamavam-no pelo nome artístico – observava como se estivesse de fora da competição, rindo de tudo e de todos.
– Agora o toque final e... – Jin, o líder do outro grupo, colocou os ovos picados sobre a tigela dele e finalmente depositou o conteúdo sobre a mesa. – Pronto.
As duas equipes se entreolharam. Eu olhei para Jin e deu para perceber que ele não estava nem aí para a competição, só queria se divertir.
– Ok, como vamos fazer isso? – Perguntei.
– Cada um prova o da outra equipe? – Jin sugeriu.
– Eu não fiz nada mesmo, – V deu de ombros. – então acho justo comer dos dois.
– Eu também quero comer dos dois. – Jungkook me fez rir quando falou.
Virei para trás, para a bancada principal da cozinha, e peguei as cuias de bambu que já tinha arrumado com seus respectivos hashis. Entreguei na mão de seis deles, mas quis provocar um. Ele me observou, curioso, enquanto eu mesma servia seu prato e entregava-o já repleto.
– Especialmente pra você, bonitinho.
Mais uma vez, suas bochechas coraram, mas ele ou não sabia que estava ruborizando ou simplesmente não dava a mínima porque priorizava manter o ar debochado que sempre tinha. Em silêncio, Suga pegou um pouco de cada ingrediente e enrolou o noodle entre seus hashis. Levou o conteúdo à boca enquanto eu continuava encarando-o.
– Olha na minha cara agora e diz que tá ruim. – Eu o desafiei de cabeça erguida.
Suga começou a sorrir, mas logo fechou a cara. Eu sorri para ele. Não precisava mais de resposta, aquela era a resposta. Eu sabia que tinha ficado bom sim e não me importava se ele não assumiria por próprio orgulho. Mas então desviei minha atenção para outro integrante do grupo, alguém que eu cutucaria só para provar que estava errado.
– E aí, Jungkook?
– Você é muito presunçosa. – Ele resmungou.
– Eu confio em mim mesma. – Dei de ombros. – Se tivesse ruim, você já teria feito questão de esfregar na minha cara. Igual o bonitinho.
– Bonitinho?!
Eu respondi o questionamento apontando com a cabeça para Suga, que escondeu-se atrás de Jin.
– Hm, já tem até apelido... – Jimin provocou.
– Onde você aprendeu a cozinhar assim? – Jin me perguntou. – Ficou muito bom, de verdade, principalmente pra alguém que nem é cozinheira nem é coreana.
– Eu gosto de culinária oriental de forma geral, então estudei algumas coisas. Sei que esse prato tem um significado histórico pra nação de vocês.
– Sim, é um prato real. – Namjoon confirmou.
– E não tem nada de difícil, igual esses dois – Eu fiz questão de apontar para Suga e Jungkook. – tentaram dizer pra me pressionar.
– O nosso ficou bom porque nós formamos uma equipe e estávamos mais preocupados com ter um bom resultado do que com competir contra vocês.
– J-Hope, o senhor da esperança... – V revirou os olhos.
– Você não vai comer, ? – Jin perguntou. – Ou não confia em mim?
– Vou te dar uma chance. – Disse, sorrindo.
Aprontei um prato para mim. Normalmente, nem estaria ali, quem diria dividindo uma refeição com eles. Era estranho. Os hóspedes, normalmente, queriam distância de mim em qualquer instância. Eles queriam o lugar, apenas. Quando muito, uma informação ou outra. Também nunca havia ficado hospedada na casa junto com quem estava alugando-a. Mas era diferente. Talvez fosse só a cultura? É, talvez... Mas era divertido também.
– Até que você sabe cozinhar, Kim Seokjin.
– Estou encrencado, mãe? – Jin brincou, colocando a mão no peito e encenando uma cara dramática além da conta.
Insisti mil vezes que eles poderiam ir fazer outra coisa que eu dava conta de limpar a cozinha, mas eles insistiram mil vezes mais que deveriam ajudar porque as funcionárias que tomavam conta da cozinha já tinham ido embora. Nós terminamos rapidamente, e era incrível ver como o espírito de competitividade dava lugar ao de companheirismo. De qualquer forma, eu os deixei em paz para terem privacidade e fui para a minha reservada suíte ao lado da lavanderia. A máquina estava ligada, fazendo barulho suficiente para impedir qualquer tentativa de cochilo. Então tirei as roupas que estava usando – um pouco sujas por conta da bagunça na cozinha – e fui direto para o banho.
Sabe aqueles dias em que uma mulher precisar ser uma mulher? Hidratação no cabelo, cremes faciais e corporais, esfoliação no corpo inteiro... Era bom sentir que eu ainda podia ter aquele tipo de momento comigo mesma. Mas então eu estava sozinha no quarto e as preocupações começavam a tomar conta de mim novamente. Abri o aplicativo do meu banco e os números eram favoráveis, já que os empresários do grupo haviam depositado metade do valor, mas isso não escondia a notificação da mensagem que eu tanto ignorei durante aquele dia.

Fiquei sabendo que você recebeu uma grana, mocinha
Acho que já passou da hora de me dar o que me pertence, não?
Estarei te esperando amanhã
Impreterivelmente, às oito da noite
No lugar de sempre
Não se atrase ou irá se arrepender
Quem sabe, seus hóspedes vejam algo desagradável
Ou melhor
Os seus pagadores
Descobri que são pessoas diferentes
Te deixei surpresa, querida?
Sei mais do que você pensa
Você não é mais esperta que eu
Nunca vai ser
Não crie esse tipo de esperança
Acho que você não gostaria que algo desse errado com eles
Não é mesmo, ?


Não sei se já estava tão calejada das ameaças de Hani que não dava a mínima ou se tinha perdido totalmente a vontade de viver e aquilo era um impedimento para qualquer tipo de medo. A verdade é que fazia muito tempo desde que eu não me sentia tão bem recebida como era entre os coreanos. Era estranho falar que gente que não me conhecia fazia tão bem assim para mim, mas eles faziam porque eram respeitosos ao não me forçarem a fazer coisas contra a minha vontade de qualquer natureza.
No Havaí, era como se eu não tivesse esse direito. Eu tinha que ser a havaiana perfeita, com os costumes do estado na ponta da língua. Não quis isso nunca para mim, nem quando meus pais estavam vivos, quem diria com eles mortos e com as descobertas que eu fiz depois da fatalidade que envolveu os dois. Os sete coreanos que dividiam a casa comigo me enxergavam como , uma pessoa que, independente da nacionalidade, era culturalmente diferente deles. Era isso, respeito. Era respeito que eu sentia falta nos havaianos mas que, de repente e sem esperar, encontrei neles.
Quando a máquina de lavar no cômodo ao lado parou de funcionar e fazer seu alto som reverberar pelas paredes da suíte que eu ocupei durante aquelas semanas, eu me deitei. Segui ignorando a mensagem, mesmo que minha mente não parasse de pensar nela por um segundo sequer. Enquanto lutava comigo mesma, uma ligação chegou.
– Oi, Cleo.
Oi, querida, estou ligando para saber como estão as coisas.
– Estão bem. – Fui sucinta.
Te pagaram direitinho?
Foi como um passe de mágica. A pergunta engatilhou mil pensamentos a respeito daquilo. A primeira: Cleo era a única que havia feito o contato direto entre os empresários coreanos e eu. A segunda: um esquema de segurança fortíssimo havia sido montado estritamente por coreanos para que ninguém soubesse da estadia deles ali e não houvesse risco de invasão por parte de fãs, então não fazia sentido que Hani soubesse sobre qualquer mínimo detalhe a respeito disso. A terceira: todos que estavam lá e eram havaianos mal sabiam quem eles eram, tal como eu, então não faziam ideia do quanto dinheiro aquela estadia estava movimentando. Só havia uma conclusão final e única a ser tirada, era Cleo quem havia contado a Hani sobre qualquer coisa.
Desliguei a ligação de qualquer jeito e simplesmente arranquei a bateria do celular. No desespero, foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça. Eu precisava de tempo para pensar em qual seria o meu próximo passo, e ficar fora do alcance era um bom começo. Tempo bastaria para que eu organizasse minhas ideias. A questão então era... Qual seria o próximo passo?


Capítulo 5

A música acabou e todos olharam para mim, ansiosos.
– E então?
– Eu achei a guitarra bem legal. Não parece que vocês trabalham muito com guitarra nas músicas mais novas.
– Só isso?
– Para de implicar, Jungkook. – Namjoon falou.
Ele respondeu com uma careta, eu continuei sendo o centro da atenção.
– Qual o nome dessa mesmo?
Boy in Luv.
– Ok... – Eu digitei o nome no meu celular e adicionei a música à mais nova playlist. – É, definitivamente, top 3.
– Quais são as outras duas? – Jin perguntou.
– To selecionando ainda. Qual é a próxima?
– Se você gosta de guitarra, acho que podemos te convencer de botar outra música no seu top 3. – V disse e virou-se para Jimin. – Hyung, coloca Fake Love, aquele show que a gente fez...
– Já até sei qual é. MAMA 2018?
V assentiu e eu olhei para ele.
– O que é ‘mama’?
Fui ignorada. Jimin digitou alguma coisa no celular e, logo, uma nova transmissão começou na televisão. Eu reclinei na poltrona e prestei atenção ao que passava na tela. O vídeo começava com o palco em meia luz e uma introdução com violinos e o som de um instrumento que eu não reconhecia, mas lembrava música de brinquedos infantis, quase como um xilofone. Aos poucos, um por um, o grupo foi assumindo locais específicos no palco.
Quando a música começou de fato – seu videoclipe oficial, com a versão de estúdio, já havia sido reproduzido –, os sete começaram a desenvolver a exata mesma coreografia. Eu não cansava de observar isso em todos os vídeos que eles estavam passando. Você podia até não gostar da música, mas era inegável a sincronia extraordinária que eles tinham. Mas o refrão chegou quase como uma aventura para mim.
Ao invés dos tons mais artificiais da versão original, havia guitarra ali. Desde o começo, na verdade, já dava para perceber o uso de instrumentos mais naturais, como um violão que tocava os principais acordes. Mas tinha guitarra e bateria, tudo indicava que a música estava sendo tocada ao vivo, mesmo que a banda não aparecesse. Era indescritível. A música ficou mil vezes melhor e eu estava, literalmente, de queixo caído.
Após o primeiro refrão, eu ficava cada vez mais hipnotizada nas coreografias, com ênfase na parte em que Hoseok assumia o vocal principal. O figurino deles era um show à parte, estavam todos incríveis usando roupas em preto e branco. V se destacava porque estava com o cabelo vermelho, até que ficava bonitinho nele. Mesmo assim, aos poucos, um detalhe que sempre estava ao fundo começava a destacar-se perante meus olhos, o que só intensificou depois do segundo refrão.
Namjoon cantou mais uma parte e Suga assumiu então. Mantinha meus olhos fixos nele, embora houvessem outros seis para notar. Mesmo depois que ele saiu da frente, eu ainda tinha em quem prestar atenção especificamente. Acabei percebendo que estava mordendo o lábio inferior sem querer, e Hoseok estava olhando com curiosidade para o meu gesto. Por sorte, logo depois, houve uma quebra na música para uma parte diferente, onde eles dançavam separados entre outros dançarinos em um remix – que havia ficado incrível também, diga-se de passagem.
A música voltou ao normal de forma mais incrível que antes. Já era de imaginar que estivesse chegando em seus segundos finais. Era visível que eles estavam cansados no palco, mas não erravam um passo sequer. Eu estava boba com isso. Ao final, quando a música acabou de vez, só dava para escutar as respirações ofegantes deles soando pelo microfone.
– Alguém tá sem palavras...
– Cara, o que foi isso?! – Foi tudo o que saiu da minha boca.
– É uma das minhas performances favoritas dessa música. – Jimin disse e pegou um pouco da pipoca que estava na mesa de centro. – O conjunto todo realmente ficou muito bom.
– Você tava uma pilha de nervos, como sempre.
– Lá vem o Namjoon...
– Eu achei ótima. – Interrompi os dois. – Realmente, a guitarra ficou incrível nessa música. Vocês tavam bem sincronizados, as roupas estavam lindas... Eu gostei demais, ficou muito melhor que a versão original.
– Qual posição? – Jimin perguntou.
– Primeiro lugar.
Eles sorriram para mim e V tocou sua mão no ar com a de Hoseok, comemorando o que eu tinha dito. Suga estava quieto e eu não ia perder a chance de perturbar.
– Ei, bonitinho. – Suga sabia que eu estava falando com ele e olhou para mim cheio de deboche no olhar, o usual. – Você tava particularmente lindo nesse show, sabia?
Suga revirou os olhos, pegou pipoca e saiu na direção da varanda. Todo mundo riu, inclusive eu.
– Ele sempre cai na pilha?
Sempre. – Jimin me respondeu.
– Mas ele cai na pilha pra não perder a pose de durão. – Hoseok completou. – A gente já tá cansado de saber isso.
– Você cai na pilha às vezes também.
– Quer descobrir quem cai mais na pilha, Park Jimin? – Jungkook tentou intimidá-lo com um tom de voz diferente, mesmo que estivesse rindo.
– Você é definitivamente quem mais cai na pilha, senhor do vôlei. – Eu o provoquei também, Hoseok caiu na gargalhada na mesma hora. – Não tem ninguém aqui que se incomoda mais com essas coisas do que você, com certeza.
Ele fez careta para mim e Namjoon deu um empurrão no ombro dele, como se fosse para chamar a atenção.
– Bem... Qual é a próxima?
– Você gostou mesmo, hein? – V observou.
– Não foram vocês que insistiram? – Perguntei e comecei a gritar. – Bonitinho, volta aqui, você ainda não me recomendou uma música!
Escutei um resmungo em resposta. Revirei os olhos e fiquei rindo. Quando prestei atenção, Jimin estava digitando no celular novamente, olhando para a televisão, onde uma nova música começava.
– Qual é essa?
– A que o Yoongi falou. – Hoseok deu de ombros.
– Não é possível que o som que ele fez seja o nome de uma música. – Eu arqueei uma sobrancelha. – Meu coreano não é tão ruim assim, eu to conseguindo me comunicar com vocês direitinho até aqui.
– O nome da música é Ugh. – Jin falou.
Despertou minha curiosidade mais ainda. Era basicamente um hip hop com instrumentos populares na Coreia. A combinação era legal, diferente de tudo o que eu tinha escutado do grupo naquele dia até aquele ponto e eu estava, incrivelmente, gostando. Quando dei por mim, estava balançando a cabeça no ritmo da música, e eu não era a única.
– É legal, não é? – Hoseok perguntou, animado.
– Foram só você, o Namjoon e o Suga cantando? – Perguntei. – Não sei se eu to certa, acho que ouvi a voz do V também.
– Eu bem que gostaria de ter crédito nessa, mas foram só eles três.
– Mas nós quatro temos uma música que é só nossa também. – Jin interrompeu o colega.
– Qual é?
– A mais nova é Zero O'clock, ou 00:00, é assim que ficou escrito o nome no álbum.
– Entendi... A gente pode escutar mais tarde. O que vocês acham?
– Melhor ideia até agora. – V se levantou rindo e saiu da sala.
– Meninos, eu vou pro meu quarto, mas podem me chamar se precisarem, ok?
– Nós vamos ensaiar, não vamos? – Jimin disse para V. – Namjoon, você não disse que a gente ia praticar um pouco, pra não perder o hábito, depois de mostrar as músicas pra ?
– Podemos ir. Todo mundo topa?
– Vou trocar de roupa antes. – Jungkook falou.
– Eu também, – Hoseok disse. – não dá pra dançar com isso aqui.
Um por um, eles concordaram e foram saindo da sala, uns na direção das suítes e outros na direção do salão para prática de ioga onde eles estavam ensaiando raramente. Eu achei que a varanda já não estava mais ocupada quando fui para lá, mas Suga ainda estava ali. Já abri um sorriso, pronta para provocar mais um pouco. Estava virando meu novo hobbie.
– Ei, bonitinho... – Eu cheguei ao seu lado e, como ele, apoiei meus antebraços na guarda-corpo. – Eu fui sincera, tá? Você realmente tava muito bonito naquele vídeo.
A bochecha dele ficou da cor de um morango na mesma hora.
– Obrigado.
– De nada, bonitinho. – Disse e vi as bochechas ficando com um tom mais intenso. – Hoseok disse que você faz frente de durão mas não é nada disso.
Ele revirou os olhos e não disse nada.
– Você fica com raiva quando eu te chamo de ‘bonitinho’?
– Tanto faz.
– ‘Tanto faz’ não, você fica corado... – Eu ri dele, que continuava desviando o olhar. – Como você quer que eu te chame então?
– Só Yoongi.
– Esse é seu nome real? – Perguntei e ele confirmou. – De onde surgiu ‘Suga’?
– Foi um dos CEOs da agência que sugeriu e eu gostei, também tinha a ver com um negócio de basquete...
– Eu acho fofo, combina com você. Mas ok, vai ser Yoongi daqui pra frente. Só não esquece que o ‘bonitinho’ não é mentira. Você é bonitinho mesmo.
Ele revirou os olhos de novo, fazendo com que eu risse mais uma vez.
– Você vai com a gente, hyung? – Namjoon passou atrás de nós dois.
Viramos juntos, Namjoon apontou com a cabeça na direção do salão de ioga. Suga ia sair sem dizer mais nada, nem um “licença”. Eu estava doida para provocar nesse sentido também, mas achei que já tinha estourado a minha cota do dia. Fiz a anotação mental, de qualquer forma, para trocar do nome artístico para o nome pessoal. Afinal de contas, soava bem mais bonito mesmo. Então era só praticar.
Minha mente voou para longe enquanto eu me desconectei do mundo para pensar nisso e em outros detalhes que não faziam o menor sentido. Yoongi virou para o lado passar. E eu podia ser bem doida, mas eu vi um sorriso nascer naqueles lábios quando ele me olhou antes de ir ensaiar.
– Que safado... – Sussurrei para mim mesma.
– Quem é safado? – Hoseok me pegou de surpresa, observando o meu espanto com uma sobrancelha arqueada. – Desculpa, não queria te assustar.
– Tá tudo bem.
Ele sorriu para mim e deu um tchauzinho no ar. Fui caminhando para o meu quarto com o aparelho celular na minha mão. Ficava imaginando o que fazer com aquela situação, parecia cada vez mais um túnel sem saída. Antes que eu chegasse no quarto, começou uma música alta no salão de ioga. Eu sorri involuntariamente. Pelo menos, eles se divertiriam.
A primeira coisa que eu vi foi meu e-mail. Sentei na cama mesmo com o notebook e fui checar se havia algumas mensagens. A primeira que notei foi a dos empresários do grupo, que pediam por um certo tipo de relatório. Haviam perguntas específicas. Quando firmamos contrato, eles falaram que elas existiriam e que seriam necessárias. Abri uma outra janela para ir checando, de uma em uma, se estava respondendo todas.
Como estava a alimentação dos sete, se eles estavam dormindo o necessário, quanto tempo eles estavam gastando com ensaios, a programação prevista e a programação que foi feita de fato... Chegava a ser engraçado. Para mim, parecia ser um relacionamento abusivo. Eles não davam sinais disso, mas era um pouco estranho. Eu ficava tentando fazer entrar na minha cabeça que aquele sentimento de estranheza era por conta da diferença cultural e tudo mais, mas era bem difícil deixar passar em branco.
Havia um e-mail também de Cleo, que eu decidi ignorar. Ainda não havia pensado no que fazer quanto aquilo, andava com meu celular mesmo que não estivesse com a bateria e eu me perguntava o porquê de estar agindo daquela forma. Não fazia sentido. Nada fazia. Mas eu também não podia fingir que nada estava acontecendo. Felizmente ou não, minha preocupação foi interrompida por uma súbita escuridão que tomou conta do quarto. O sol já havia sumido e a noite estava em seu começo. Vou ter que ir ligar o gerador, ótimo. Não deu nem meio minuto, eu comecei a escutar o meu nome ser gritado do lado de fora, no sentido da cozinha.
– Já estou indo! – Gritei de volta enquanto pegava uma lanterna na gaveta do criado-mudo e colocava o sutiã de volta, que eu tinha acabado de tirar para ficar mais confortável.
Mal iluminei o corredor e já estava sendo esperada por lá. Yoongi e Jin também seguravam lanternas, eu estava realmente surpresa que eles tivessem sido tão rápidos em achar os dispositivos na cozinha. Os outros garotos seguravam os próprios celulares, com os flashes acesos. Logo, um dos seguranças passou pela porta.
– Tudo certo por aqui? – Ele perguntou em inglês.
– Certo, eu vou ligar o gerador. Você pode me acompanhar?
– Eu vou com vocês. – Namjoon disse e eu assenti, concordando.
Quando eu abri o quadro de energia, que eu pensei em checar antes de ir direto ao gerador, eu quase caí para trás. Tive que disfarçar a qualquer custo quando vi o desenho de um trevo, símbolo que Hani usava. Os disjuntores estavam todos desarmados. Eu só rearmei e o lugar acendeu de novo.
– Deve ter sido um pico de energia. – Disse baixo com a boca completamente seca.


Capítulo 6

Eu buscava freneticamente as passagens de avião para longe dali. Na verdade, a ideia era pior ainda. Pegar um barquinho caindo aos pedaços de qualquer jeito e seguir na direção do continente. Absurdo e perigoso, mas eu queria sair dali de qualquer jeito. Em um avião, poderia ser seguida. Mesmo que fosse em um voo fretado ou coisa do tipo, meu nome deveria constar na lista de passageiros para que fosse informado às autoridades que comandavam o espaço aéreo do país. Eu não queria deixar rastros, e só um barco para fazer isso.
Que a propriedade ficasse para trás, eu não me importava. Hospedar os coreanos foi o que promoveu certa esperança nesse sentido porque o pagamento final seria realmente muito bom. Não era algo que permitiria que eu recomeçasse a minha vida com luxo em qualquer outro lugar mas, mais uma vez, eu não me importava. A necessidade era fugir dali como desse para fugir, para nunca mais voltar. A questão é que eu não tinha muito tempo e o celular que pedi para os meninos arrumarem para mim não podia ser visto em público, então eu precisava também fugir de um possível flagra no estacionamento.
Saí do carro já tentando disfarçar que minhas pernas não estavam no lugar. Tinha um mal pressentimento, muito embora tivesse prometido a mim mesma que tentaria começar o dia com uma energia melhor. Peguei a lista de compras escrita à mão no bolso de trás da minha calça jeans e comecei a reler. A princípio, parecia uma boa distração para a minha cabeça perturbada.
Comecei a pegar as coisas com calma, demorando de propósito porque estar sozinha era, de uma forma estranha, reconfortante. Os planos para aquele dia envolviam passar no quarto nos fundos de uma casa que eu alugava, ver como estava o espaço e descobrir se ainda era meu de fato, mesmo que eu imaginasse que seria sacanagem demais da parte do inquilino se ele invadisse o espaço com o aluguel pago em dia. Mas eu acabei desistindo da ideia eventualmente enquanto enchia o carrinho por pura preguiça. Os coreanos se deram o dia de folga e eu poderia aproveitar também – ou era o que eu achava.
Quando a lista finalizou, eu me encaminhei para o caixa. Apenas dois estavam funcionando mas as filas não estavam tão grandes. Assim que chegou a minha vez, eu comecei a colocar tudo em cima da bancada com uma pressa quase desordenada.
– Senhorita ! – A caixa me cumprimentou. – Como vai?
– Bem, e a senhora?
– Ótima! Como estão os hóspedes?
Como você sabe que eu tenho hóspedes?, foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça. Ah, é o Havaí, sabe como é, comunidade unida, as notícias correm... Não. As notícias não corriam quando era sobre mim. Eu não espalhava. Eu não tinha a quem contar. Bem... Tinha. No passado. Realmente, tinha. Mas nada tirava da minha cabeça que Cleo tinha alguma coisa a ver com toda aquela merda também. O problema era que eu não podia sair pelo lugar fazendo perguntas que levantariam dúvidas certamente.
– Estão bem, obrigada por perguntar.
– Levando comida pra eles? É uma boa quantidade.
– Sim. – Eu me limitei a responder brevemente enquanto assentia.
– Eles são de onde?
– Do exterior.
– Vieram a passeio?
– Não sei dizer.
– São quantos?
Mulher, você não vai perceber que eu não estou afim de responder nenhuma dessas perguntas?
– Você pode checar quanto está custando esse detergente antes de incluí-lo na compra, por favor? – Eu falei para disfarçar.
– Não quer levar balas, querida? Estão na promoção.
– Hoje não, obrigada, estou com pressa.
– Entendo. – E, ao dizer isso, eu senti como se estivesse propositalmente demorando mais ainda para passar as mercadorias no caixa.
Fiz o pagamento, coloquei tudo no carrinho e segui para o estacionamento. A mala comportou tudo, o que era surpreendente. Mais surpreendente do que eu saber dirigir um carro daqueles? Sim! Achando que ainda tinha um dia com potencial para não ser ruim pela frente, eu devolvi o carrinho à sua respectiva área, entrei no carro e peguei a estrada de volta para a casa.
Não deu nem dois minutos que eu saí do estacionamento do mercado, um carro conhecido surgiu atrás de mim. Eu engoli em seco e segurei o volante com mais firmeza. O carro piscou o farol e, de repente, eu senti uma arritmia. Não era novidade aquele nervosismo, e eu realmente queria deixar tudo aqui para trás, mas eu pensava mesmo que seria possível?
Em certa altura conhecida da estrada, eu dei seta para a direita e fiz a conversão. O carro reclamou um pouco do terreno não mais tão confortável quanto o asfalto. Eu torcia secretamente para que houvesse algum tipo de rastreador no veículo – e, provavelmente, tinha, eu só não sabia – e que alguém estivesse de olho, notando o rumo estranho que eu estava tomando. Seria incrível se mandassem alguém atrás de mim. Ou não. Ou Hani poderia inventar coisas, surgir com provas falsas, vir até mesmo com a polícia para “corroborar” suas palavras. Eu não sabia o que era pior, não ter para onde fugir ou estar em uma rua abandonada com uma das pessoas mais perigosas da ilha na minha cola.
Observei pelo retrovisor enquanto ele saía do seu carro. Foi até o meu, deu dois toques fortes na janela. Com uma lentidão exagerada por puro nervosismo, eu tirei o cinto de segurança. Hani se afastou da porta enquanto eu me preparava para sair. Engoli em seco mais uma vez, encolhendo-me. Abri a porta com a mesma lentidão e saí do veículo. Ele se voltou para mim no mesmo instante.
– Olha só quem resolveu dar as caras...
– Hani, por favor, eu tenho colaborado tanto quanto possível.
– Mas não tá sendo suficiente. – Ele rosnou e prensou meu corpo de forma violenta contra o carro, fazendo com que eu segurasse a respiração imediatamente.
Sentia como se meu coração pudesse parar a qualquer momento e o medo corria em velocidade máxima pelas minhas veias. Olhei para baixo porque seria detestável olhar nos olhos dele, mas então eu vi o contorno da arma presa no cós da calça. A minha coragem ia toda embora só de imaginar o que aquela arma podia já ter feito. Não entendia como que a população local, sobretudo, era tão submissa a Hani. A polícia podia fingir que não estava vendo por amizade ou coisa do tipo, mas a população?! Não fazia o menor sentido quando estavam em muito maior número.
– O gato comeu a sua língua?
– Hani, por favor, eu não recebi ainda.
– O que aconteceu com o seu número antigo?
– Eu não tive dinheiro pra pagar a conta e a linha foi cortada. – Rezei para que o celular novo não tocasse dentro do carro nem estivesse visível.
– Quem me garante?
– Você mesmo não disse que sabe de tudo na última mensagem de texo que enviou pra mim?
– Na última mensagem, eu também mandei você me encontrar e fiquei esperando como um otário.
– Hani...
– Eu não vou acreditar em nenhuma palavra que saia da sua boca, .
– Por favor, me deixa ir.
– Não enquanto você não me der uma explicação.
– Eu não tenho o que dizer, Hani. Só vou ser paga no final do serviço.
– E isso vai ser quando?
– Em pouco menos de três meses.
– Quero uma data precisa.
– Eu não lembro, Hani, tá no contrato.
– De repente, você não lembra de mais nada. – Ele finalmente deu um passo para trás e eu pude respirar com menos pânico. – Conveniente da sua parte.
– Você vai receber o seu dinheiro. Só to te pedindo pra me deixar em paz enquanto eu to com os coreanos. Se não, nem eu e nem você vamos receber qualquer dinheiro.
– Eu não acredito.
– Todos os pagamentos foram feitos direito até aqui, não tem motivo pra você não acreditar.
– É, no mínimo, estranho que, de repente, depois que esses coreanos vieram pra cá, você esteja toda protegida e inalcançável. Ainda por cima, ficando na casa com eles, cercada de seguranças. – Hani pareceu ter uma epifania repentina. – Então eles são pessoas importantes mesmo! Quem são? Líderes de Estado? Celebridades? Tá fazendo um servicinho pra eles?
A insinuação me deu nojo e eu fechei os olhos para que a tontura não me afetasse. Mais uma vez, deixei que a maior parte do peso do meu corpo ficasse apoiada no carro.
– Você vai receber a sua parte. – Eu frisei a palavra.
– A minha e a sua.
– O quê?!
– São os juros pela demora e pelas mentiras.
– Hani!
– Eu avisei que sei mais do você pensa e você não acreditou em mim, . – Hani gritou e entrou no carro, partindo imediatamente no sentido da estrada principal.
Entrei de volta no carro, socando a porta a ponto de sentir que passei perto de quebrá-la quando fechei. De vidros fechados e sem ninguém por perto para espiar, eu liberei um grito que estava preso na minha garganta desde a primeira notícia sobre o desvio de função dos meus pais. Bati a cabeça contra o encosto diversas vezes, como se aquele ato pudesse tirar os pensamentos da minha mente à base da marra.
O caminho de volta para casa foi turvo. Eu não me sentia em condição para dirigir, mas o que eu deveria fazer? Ligar para alguém? Pedir socorro? Passar por mais humilhação? Não me pareceu uma boa ideia, na verdade. Enquanto isso, eu sentia como se o ar estivesse cada vez mais rarefeito. Tudo estava fora do lugar. Ao menos, era assim que a minha mente estava interpretando.
Com a mesma força e o mesmo ódio, eu bati a porta do carro quando saí dele na frente da casa. Tinha gente na varanda, não sei quais dos meninos eram, mas eu também não olhei. Deixei a chave do carro no aparador que ficava logo ao lado da porta de entrada. Se comentariam sobre meu comportamento, não era da minha conta. Eu só queria chegar no meu quarto o mais rápido possível, mas esbarrei em um obstáculo no meio do caminho.
– Tem compra no carro, tem que colocar pra dentro. – Eu disse entredentes, quase rosnando também e seguindo corredor adentro.
!
A voz gritando o meu nome chamou a minha atenção. Olhei para trás apenas para encarar um Jin com o semblante preocupado. Respirei fundo e concentrei todo o resto de energia que eu tinha para não ser grossa. Não de novo.
– Desculpa, Jin, eu... Só pede pra alguém tirar as compras do carro, por favor. Pelo menos, as coisas de geladeira. E desculpa.
– Tá tudo bem, ? – Ele tentava estudar a minha linguagem corporal.
Forcei um sorriso – eu tinha a mais completa certeza de que havia falhado miseravelmente – e fiz que sim com a cabeça. Ele não acreditou, dava para ver em seu olhar. De qualquer forma, eu não queria dizer a verdade, não queria demonstrar fraqueza.
– Eu sinto muito. – Disse mais uma vez, curvei meu corpo como já havia visto os sete fazerem ao desculparem-se e terminei o meu caminho.
Dentro do quarto, eu saí tirando a roupa de qualquer jeito. Se houvesse uma lareira ali dentro, provavelmente queimaria as peças pelo tanto que eu me sentia suja só por conta do jeito como Hani me tratara. Corri para o banheiro e entrei na água. Foi quando as primeiras lágrimas começaram a rolar. Lágrimas pela minha situação, pela sensação de fracasso, por estar rodeada de gente e sentir na mais completa solidão mesmo assim, por não me sentir merecedora do carinho que estava recebendo do nada dos meninos, por ter perdido meus pais antes de descobrir a verdade por trás do dinheiro que entrava em casa. Eu queria respostas que acreditava que jamais teria e isso causava uma dor física em mim cujo reparo parecia, àquela altura, impossível.
Enquanto eu lavava não só meu corpo mas também a minha alma, eu ouvia as batidas e os chamados na porta do quarto. Não que aquilo fizesse eu me sentir melhor – era o oposto, na verdade. No entanto, ainda dava uma sensação de que, no fim do túnel, bem lá no fim, ainda havia uma esperança. O problema é que eu não queria mais, preferia jogar a toalha. Era mais fácil e menos sofrido. E era o que eu iria fazer dali para a frente.


Capítulo 7

– Eu posso entrar?
Pulei no lugar com o susto proveniente da voz grossa soando pelo salão de ioga. Aparentemente, a prática não estava funcionando nem um pouco.
– Desculpa, eu não sabia que vocês iam ensaiar agora.
– Não vamos, eu só vi de longe e... Achei curioso. Posso te acompanhar?
– Claro.
– Você pratica faz muito tempo?
– Desde criança.
– Eu comecei recentemente, me ajuda muito a ficar mais tranquilo.
– Acontece o mesmo comigo.
– Ah, desculpa, eu to te atrapalhando. Prometo ser uma companhia comportada.
– Não tem problema. – Eu deu um sorriso pequeno enquanto via Taehyung ir até os colchonetes empoeirados e empilhados no canto do salão, colocando-o ao meu lado mas a uma distância confortável. – Posso tirar a música, se você quiser.
– Tudo bem, eu gosto. De quem é?
– Hans Zimmer.
– Nunca ouvi falar.
– É um compositor alemão, fez vários trabalhos importantes com trilhas sonoras.
– O Rei Leão!
– Também. É um dos vários.
– E essa música é de qual fime?
– Spirit. É uma animação também, da DreamWorks.
– Eu falei que ia ficar quieto mas to fazendo perguntas. Me desculpa, mais uma vez.
– Tá tudo bem. – Insisti, mesmo que estivesse realmente um pouco incomodada.
Assisti enquanto ele se colocava no padmasama. Fechou os olhos e inspirou profundamente. Eu voltei a ficar concentrada na música após a interrupção. Parecia que, a partir daquele instante, ele levaria tão a sério quanto eu. Restava, portanto, voltar à minha prática. Seria bom tanto física quanto mentalmente, e eu precisava de qualquer coisa para melhorar o meu dia.
Fiquei de joelhos e apoiei as mãos no colchonete, esticando os dedos. Levantei os joelhos conforme soltava o ar e elevei o quadril o máximo que pude, até que as minhas pernas estivessem completamente esticadas. Quando forcei meus calcanhares para que ficassem totalmente em contato com o colchonete, os músculos posteriores reclamaram mas, logo, adaptaram-se à nova posição. Abaixei a cabeça e comecei a contar. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito respirações profundas. Então, lentamente, voltei a ficar de joelhos.
Levei um tempo para os músculos relaxarem de fato até começar a próxima posição. Quando considerei que o tempo de descanso havia sido suficiente, deitei de barriga para baixo e estendi os dedos com as palmas das minhas mãos próximas aos meus ombros. Ergui o meu tronco, mantendo do quadril para baixo no colchonete, enquanto inspirava. Eu fui levando o meu corpo ao extremo, curvando a coluna como se eu fosse capaz de fazer um ângulo de noventa graus com aquela posição. Joguei a cabeça um pouco para trás e travei ali. Os músculos seguiam reclamando do estiramento, eu realmente fiquei muito tempo sem praticar, mas quanto mais eu os sentia doloridos, mais sentia que aquilo teria um ótimo efeito positivo em mim.
Sempre que minha mãe me mandava fazer a navasana, eu reclamava porque era uma posição extremamente difícil para mim, que exigia demais do corpo e da mente. Foi por isso que eu a considerei perfeita para o momento e comecei a fazer. Sentei no chão, flexionei as minhas pernas e estendi, depois, para o alto, tirando as mãos do colchonete e esticando os braços para a frente. Deu para perceber o olhar de Taehyung atento em mim enquanto ele começava a fazer a bhujangasana. Assim que eu retornei ao normal, imaginando que já teria passado um minuto desde que eu me colocara na posição, o meu corpo despencou de vez e eu “caí” deitada no colchonete, rindo da curiosidade da minha companhia.
– Pode falar, não vou conseguir fazer outra coisa tão cedo.
– Essa parece ser difícil. – Ele riu.
– É um pouco. – Respirei fundo, ofegando pelo esforço físico inaparente que a posição prévia exigia. – Mas, depois de anos, você se acostuma.
– Eu posso perguntar uma coisa?
– Vá em frente.
– Você mudou. – Ele murmurou, parecia que estava com medo de falar ou coisa do tipo. – O que houve?
– Como assim? Eu não mudei.
– Bem, eu posso ser ligeiramente quieto, mas sou observador. Você começou de um jeito, bem fechada, e se soltou com o tempo. Agora, de uma hora para a outra, você se fechou novamente.
– Já conversaram com você sobre hormônios femininos?
– Eu tenho uma irmã mais nova.
– Ah... Então você deve entender.
– Não entendo, na verdade.
Ai, Deus...
– Bem, digamos que é só o meu corpo traindo a minha mente.
– O Jin disse que você gritou com ele e parecia bem irritada por algum motivo.
Nessa hora, eu murchei. De todos eles, Jin parecia ser muito legal. Não que algum deles não parecesse. Até Yoongi, o todo poderoso emburradinho, era uma pessoa incrível. Mas Jin era sempre tão carinhoso, mesmo quando estava implicando com Jungkook – e Jungkook implicando de volta –, que eu fiquei chateada comigo mesma só de lembrar a cena com Jin.
– Foi um erro. – Respondi baixinho e suspirei.
– Eu também já gritei com o Jin, conheço esse sentimento de “fiz besteira”. – Ele riu. – Se você precisar conversar com alguém, eu não sou a melhor pessoa pra isso, mas o Namjoon é ótimo nessa área.
– Oferecendo ajuda que vem das mãos de outra pessoa?
– Transferência de responsabilidade. Se der certo, eu levo o crédito. Se der errado, ele leva a culpa.
Ri e revirei os olhos. Levantei, ficando em pé em cima do colchonete. Abri as pernas e flexionei o corpo para a frente. Devagar mas intensamente, alonguei o pescoço antes de terminar a descida. A gravidade ia puxando o meu corpo para baixo. Fugindo totalmente da função primordial do ioga, que seria meditar, eu só estava alongando o corpo mesmo. Deixei que as minhas mãos descessem do quadril até a panturrilha, servindo de apoio para que meu corpo continuasse equilibrado, e voltei devagar para não correr o risco de ficar tonta. Afinal de contas, era a última coisa que eu queria, muito embora eu costumasse cometer esse erro com uma frequência vergonhosa nos meus primeiros anos praticando ioga com ou sem a minha mãe.
– Você consegue fazer a sirsasana?
Sirshasana, tem um ‘h’ aí no meio. Mas consigo sim, por quê?
– Eu sempre tentei, mas nunca consegui.
– Ah, é fácil. – Dei de ombros. – Vamos lá, eu te ensino.
– Não vou cair?
– Fica tranquilo. Vocês rodopiam no palco fazendo acrobacia. Se você aguenta isso, aguenta um sirshasana.
– Como?
– Deita de barriga pra cima. – Eu dei a ordem e ele olhou para mim, desconfiado, seguindo o que eu havia solicitado logo depois. – Mãos para o alto. Entrelaça os dedos e fecha a mão, como se fosse pra segurar um copo.
– Assim?
– Isso, agora coloca as mãos atrás da cabeça, mais perto do topo que da nuca.
Em pé, eu saí de cima do meu colchonete. Fiquei observando e pensando se o que eu estava fazendo não era ultrapassar os limites. Eles não eram culpados de eu estar meio sádica, já que não aguentava mais ser a única a sofrer. Talvez um tombinho...
– A partir de agora, se você falar, você provavelmente vai cair, então foca na posição, no tensionamento dos seus músculos. Eu sei que não tenho a voz tão bonita quanto a sua, mas se concentra nela. – Disse e vi ele assentir rapidamente, de olhos fechados. – Certo. Dobra os joelhos, com eles paralelos e apontando para cima. E, agora, você começa a subir as pernas lentamente, bem devagar mesmo. Todos os seus músculos vão tensionar no momento de subida, ok? Não diminua nem acelere seus movimentos, isso só vai piorar a situação. Você só vai relaxar quando terminar a subida e... Mais devagar, Taehyung.
Andei para perto dele. Se acontecesse algum acidente grave, corria o risco de ser responsabilizada e não estava afim de passar por mais uma dor de cabeça. E até que ele levava jeito.
– Agora alinha as coxas com o resto do tronco e mantém tudo ereto. – Do jeito que a frase saiu da minha boca, eu pensei em como ela pareceu sórdida e segurei o riso. – Respira fundo oito vezes e desfaz o movimento do mesmo jeito que você subiu, na mesma velocidade e no mesmo...
– Achei você! – A voz vibrante ecoou pelo salão.
De reflexo, eu segurei as pernas de Taehyung, que quase caíram de vez em cima de mim. Hobi arregalou os olhos e tampou a boca com uma das mãos quando percebeu que algo tinha errado por sua causa. O mais engraçado, no entanto, era a música que tocava de fundo, o tema de Piratas do Caribe. Mesmo assim, a cena não ficava menos caótica. Eu ajudei Taehyung a voltar para uma posição segura.
– Desculpa, gente, eu não... Ai, desculpa. Taehyung, você tá bem?
– To, não foi nada.
– Tem certeza? – Insisti.
– Tenho. – Ele levantou e pegou o colchonete. – Acho também que não estou no clima hoje. Desculpa vir só pra te dar trabalho, .
– Tudo bem, eu já vou saindo também. – Peguei o meu colchonete e coloquei de volta no lugar.
Fui direto para a cozinha pegar um pouco de água. Yoongi estava perto da torneira e de onde os copos estavam.
– Ei, bonitinho... Desculpa. Yoongi! – Eu ri da minha correção. – Você pode pegar um copo de água para mim?
Em silêncio, ele pegou um copo e encheu, dando na minha mão.
– Obrigada.
– De nada. – Ele respondeu, olhou para mim e saiu de perto.
Dei a volta na cozinha e segui para o corredor oposto ao dos quartos deles, onde o meu ficava. Minha mente estava focada em uma única coisa: a água do chuveiro escorrendo no meu cabelo. Só de imaginar, já ficava feliz com a ideia. A água do chuveiro era uma das poucas coisas que ainda conseguiam trazer certa alegria para a minha vida àquela altura. Mas toda a expectativa pelo banho foi embora quando eu notei que minha porta estava entreaberta, e eu tinha certeza absoluta de que não a deixara daquele jeito porque eu tinha um nervoso muito específico com portas.
Eu engoli em seco, os nervos à flor da pele. À distância, empurrei a porta com a ponta do pé e ela abriu. Pude ver, do corredor mesmo, uma caixa em cima da cama. Não tinha como estar mais tensa naquele momento, mas confirmei que o quarto inteiro estava vazio ao terminar de abrir a porta com o pé. Mesmo assim, estava receosa ao entrar nele.
A caixa era de papelão cru, sem adorno, com uma tampa simples. Eu me aproximei dela e coloquei as mãos ali com o coração na mão, puxando a tampa para cima em uma lentidão excruciante que torturava a mim mesma. Deixei a tampa de lado e olhei para uma caixa menor e um cartão com estampa florida que repousavam ali dentro. Tomei o cartão quase sem conseguir respirar de tão tensa que estava, estragando toda a sessão de ioga que tinha acabado de fazer, mas o conteúdo dele não era nada do que eu esperava.

Seja lá o que tiver acontecido, esperamos que possa nos perdoar.


Eu sorri com o recado pequeno em coreano, prévio a sete assinaturas distintas que eu concluí serem deles. Abri a caixa pequena, eram bombons. Havia uma obrigação implícita de ir até a cozinha e agradecê-los imediatamente, porque eles saberiam que eu teria acabado de ver a caixa. Saí do quarto com a caixa na mão ainda sem saber o que dizer mas planejava elaborar rapidamente no caminho de volta para lá, intenção que foi por água abaixo quando dei de cara com os sete me encarando no final do corredor. Eu ri na mesma hora.
– Não precisava, gente.
– Tá tudo bem?
– Claro que tá, Taehyung, exceto pelo fato de que eu acho que você foi pra lá só pra me distrair.
– Só descobriu agora? – Namjoon perguntou, rindo, e eu revirei os olhos.
– Meninos, vocês não fizeram nada, não precisam pedir desculpa por nada.
– Tem certeza?
– Tenho sim, Jin. E desculpa pelo outro dia, não foi culpa sua e eu não deveria ter agido daquela forma, sinto muito por isso.
– Tá tudo bem!
– Então não tem nenhum problema? – Jimin arqueou uma sobrancelha.
– Agora tem, porque vocês vão ser obrigados a comer esses bombons comigo.
Os sete riram e fomos todos para a sala. Por um instante, eu esqueci de tudo. E que instante.


Capítulo 8

O volume crescia conforme eu me aproximava mais da área externa da casa. O Sol ainda estava começando a aparecer, mais preguiçoso que o meu despertar, o que configurava uma bela iluminação para o começo daquele dia. Eu gostava de dormir até tarde, mas também gostava de ver o dia clarear, e isso era bem confuso para a minha personalidade inconstante. Por conta dos coreanos, o fuso horário acabou ficando um pouquinho desajustado para casa: mais para eles, menos para mim. Então nem estava sendo tão difícil assim eu acordar bem mais cedo do que acordaria em um dia normal pelo simples prazer de ver o Sol nascer. Não que eu não fosse aproveitar se pudesse voltar a dormir, é claro.
Não era a única observadora. Namjoon estava sentado em uma poltrona na varanda, fitando orgulhosamente o colega mais novo. O olhar era o mesmo que eu imaginava que um pai daria ao filho em um show de talentos e coisa do tipo. Acenei para ele, que devolveu o gesto. Sentei na ponta da escada e segui escutando enquanto Jimin cantava. Estava completamente alheio à nossa presença ali, fato comprovado quando ele virou para onde eu estava e tomou um susto.
– Bom dia! – Jimin abriu um sorriso e deixou escapar risinhos de nervoso.
– Bom dia. – Respondi. – Não precisa parar de cantar, a trilha sonora tava ótima.
Namjoon, a essa altura, levantou de onde estava e foi sentar no mesmo degrau que eu, no extremo oposto. As bochechas de Jimin ficaram rosas como algumas flores que estavam no canteiro quase abandonado que cercava a casa.
– Ele acha que a voz dele não é boa o suficiente.
– O quê?!
– Não é isso. – Jimin se defendeu.
– Então é o quê?
– Eu só tenho que praticar mais, pra ficar melhor, e aí fazer bonito pros fãs nos shows...
– Sua voz parece a voz de um anjo, não sei como ficaria melhor.
O tom rosa ficou definitivamente vermelho. Não sei se era o fato de Jimin ser mais novo que eu, mas eu achava que Jimin ficava mais perto ainda de parecer um bebê com aquele gesto. Era até surpreendente que Jungkook e Taehyung fossem mais novos que ele, porque os dois tinham mais porte do que Jimin em quase todos os sentidos.
– Ele também acha que não dança tão bem assim mas, se eu te mostrar uns vídeos...
– Namjoon!
– Só assim pra você acreditar. Ou nem assim, né?
– Eu acredito nela.
– Finalmente! – Namjoon comemorou. – Então vamos ter que manter contato de qualquer jeito, , pra ver se você coloca juízo na cabeça dele.
– Fechado. – Eu ri da brincadeira dos dois.
– É um complô contra mim?
– É a seu favor, você que não vê.
– Isso que é ter irmão? Implicância o tempo inteiro?
– Mais ou menos. – Jimin respondeu. – Geralmente, tem um pouco mais de ódio. Mas bem pouca coisa mesmo. A gente passa bem perto.
– Você tá passando uma impressão horrível pra ela.
– A tá convivendo com a gente já tem um tempo, ela já sabe que a gente não se suporta.
– A gente se suporta sim.
– Não briguem por minha causa, meninos. – Eu os interrompi. – De qualquer forma, eu só vim pegar um ar fresco. Vou voltar pro meu quarto, tomar um banho pra começar bem o dia. O que tá nos planos de vocês pra hoje?
– A gente não vai fazer nada demais hoje, então pode ficar tranquila. A trilha de ontem cansou todo mundo. No máximo, vamos pra piscina. Até porque o dia parece que vai ser bem quente como ontem, então talvez seja uma boa ideia.
– Ok então, vocês estão mais que certos. De qualquer forma, se precisarem de mim...
– Sabemos onde te encontrar. – Namjoon completou a minha frase com um sorriso.
Eu fui direto para o quarto, passando rapidamente na cozinha para pegar um copo de água. Do corredor, eu podia ver um pacote no chão. Mais bombons?, foi o meu primeiro pensamento. Peguei do chão e entrei, fechando a porta atrás de mim. O embrulho era de papel pardo e eu saí rasgando tudo sem muita delicadeza – não me entenda mal, delicadeza nunca foi o meu forte. Papel pardo retirado, foi revelado um livro. Em coreano, é claro, o que eu estranhei. Chamava-se ‘O Alquimista’ e, pelos dizeres na orelha, era de um escritor brasileiro. Não entendi nada, mas sentei na cama para explorar o presente, se é que eu podia chamar o livro assim.
O dia varou. Eu não ousei perguntar quem tinha deixado o livro lá durante minha saída rápida para pegar o almoço, embora soubesse que não havia sido nem Jimin nem Namjoon porque eles não teriam como ter ido até a porta do meu quarto no período em que eu passei fora dele. Comecei pela sinopse, é claro, e logo estava explorando os primeiros capítulos do que parecia ser uma jornada bem inusitada de uma espécie de pastor. Fiquei tão centrada nele que nem vi o tempo passar e, quando dei por mim, o dia já tinha praticamente acabado.
A xícara fumegava na minha mão. O calor não era exatamente confortável para as palmas, apenas para o paladar. Em silêncio, eu observava a floresta tropical que estendia-se poucos metros à frente da casa. Quando mais nova, tinha um hábito sem sentido e insano, em um contexto geral, de sentar-me por aquela mesma área e prestar atenção enquanto a vegetação cedia à penumbra. Gostava de imaginar pessoas escondidas ali. Pessoas, animais, coisas de origem natural e, às vezes, coisas de origem nem tão natural assim. E eu me sentia inacreditavelmente segura desde que estivesse protegida pelo guarda-corpo que cercava a varanda inteira da casa.
Crianças normais brincavam de ver formas nas nuvens, eu brincava de ver formas no sombrio. Eu não era normal desde o princípio, tudo indicava isso, e acho até que meus pais sabiam mas fingiam tocar a vida como se nada estivesse fora do lugar. Talvez, se eles repetissem a mentira várias vezes, ela se tornasse verdade. Fui forçada a ser normal. Era uma exigência. E se eu não fosse tão boa em abaixar a cabeça e concordar com toda a merda que ordenavam subordinada impecavelmente, talvez eu nem estivesse mais no Havaí. Onde estaria? Não tinha como prever. Mas, com certeza, não ali.
Os estalos na madeira sob os meus pés denunciavam que já não estava mais sozinha. Em um primeiro momento, torci pelo silêncio. Mas, logo depois, não sabia mais pelo quê estava torcendo. Pelo canto do olho, vi que minha companhia não estava muito diferente de mim. Uma xícara quente nas mãos, roupas preguiçosas de quem não planejava deixar o conforto da casa tão cedo. Nos pés, pantufas, tal como eu. Em um universo paralelo, bem distante da realidade, poderiam até pensar que éramos irmãos preguiçosos de quem os pais reclamariam em questão de segundos por não estarem fazendo nada além de tomar uma xícara de leite quente – ou seja lá o que ele estivesse tomando.
– Os bombons do outro dia surtiram o efeito desejado?
– Acho que chocolates nunca são demais pra uma mulher, mas foram bons sim.
– Hm, vou ter que falar com o pessoal que foi pouco.
– Não precisa, é sério. – Eu ri. – Vocês já foram muito legais comigo e eu nem sei como agradecer, de verdade.
– De onde eu venho, nós dizemos ‘obrigado’.
– Então obrigada. – Eu assenti e ele devolveu o gesto.
– Não há de quê.
Segui observando a paisagem. Uma coisa fácil de notar com eles era que os extremos estavam sempre por ali. Ou eram falantes demais, ou de menos. Mas outra coisa fácil de notar era o meu espírito. Não que eu estivesse fechada para conversar naquele dia. Estava até bem tranquila, na verdade. Mesmo assim, Jimin ia ficar quieto se eu não tomasse a iniciativa e mostrasse de todas as formas possíveis que estava afim de conversar.
– Posso te perguntar uma coisa?
– Claro, vá em frente.
– Vocês, essa vida... Vocês gostam disso? Só de lembrar o tamanho do meu contrato com os... Donos? Ou patrões? Eu nem sei a palavra certa. Mas todo o esquema de segurança montado só pra vocês passarem umas semanas fora de órbita... Eu já vi muitos famosos por aqui, principalmente em Honolulu, e nunca vi nem metade do esquema de segurança que montaram pra vocês. Então eu fico me perguntando se vocês gostam disso, se isso é normal na Coreia...
– É um assunto delicado.
– Eu tenho tempo.
Jimin deu um sorrisinho e desviou o olhar.
– Não é a primeira vez que saímos da Coreia, muito pelo contrário, então nós sabemos que as coisas aqui são diferentes.
– Que coisas?
– A relação entre fãs e seus respectivos ídolos.
– E qual é essa diferença?
– Aqui é menos... Intenso.
– Você quer ou não quer falar? – Eu olhei para Jimin. – Parece alguém que quer dizer muito mas não sabe se tem permissão. Eu era assim quando era criança, nunca sabia se podia abrir a boca, se meus pais iam ficar bravos ou não. Mas eu era criança e você, querendo ou não, é um adulto. E se você é podre de rico e não tem liberdade pra jogar conversa fora... É estranho pra mim, no mínimo.
– É que você vai achar que eu e os outros somos patéticos.
– Tenta a sorte.
Ele suspirou e tomou um pouco do que estava em sua xícara. Aproveitei e fiz o mesmo, o líquido quente em nada combinando com a temperatura do dia mas sendo bem-vindo de qualquer forma.
– Nós temos um esquema de segurança forte porque precisamos dele. Nós, em particular, não fomos vítimas de situações muito graves. Mas temos colegas que sofreram tentativa de sequestro, tentativa de envenenamento, teve um caso que um outro idol sofreu um acidente de carro tentando fugir do que nós chamamos de sasaengs. O Jungkook já sofreu bastante com algumas, o mais grave foi uma que entrou em um banheiro onde ele tava. Posso citar também ameaças às famílias que não têm nada a ver com a nossa vida pública. Um colega, por exemplo, se casou e teve uma filha em segredo. Então um grupo queria se organizar pra jogar ácido na esposa e na filhinha deles, que mal deve ter começado a andar a essa altura. Elas não podem nem sonhar em ver um de nós tendo um relacionamento.
– Então você é um namorador?
– O quê?! Não! – Jimin se apressou em explicar-se e eu, por uns rápidos segundos, ri de como ele ficou desajeitado.
– Esse termo que você usou...
Sasaengs? – Ele perguntou e eu confirmei. – São fãs mas não são fãs. É complicado. Como eu disse, são pessoas intensas.
– Eu acho que intensas é uma palavra muito fraca. Eu diria violentas, sem querer ofender.
– Não ofende. Mas você também não entenderia. Elas nos fizeram ser quem somos hoje, temos reconhecimento por causa disso e...
– Jimin, me desculpa, mas isso não justifica nada. Ninguém tem o direito de colocar sua integridade física ou psicológica em risco por motivo nenhum.
– É... – Jimin suspirou. – Você queria entender o porquê, é essa a razão.
– Mas elas viriam até aqui?
– Você não faz ideia.
– Meu Deus...
– Não se preocupa com isso, tá? Eu respondi porque você perguntou, mas é impossível.
– Se é impossível, pra quê tantos seguranças?
– Não vai acontecer, . – Ele reafirmou. – E no final das contas, é como você disse. Ninguém tem o direito de colocar sua integridade física e psicológica em risco. É uma frase bonita, espero que você leve pra sua vida também.
Forcei um sorriso e voltei o olhar. A penumbra nas árvores era tanta àquela altura que nem dava mais para ficar imaginando coisa. De uma vez por todas, a noite estava chegando e o certo era terminar logo a minha bebida e entrar para um banho. Bebi tão rápido quanto a temperatura do líquido permitiu e despedi-me dele com um olhar, indo direto para o quarto.
As palavras que ele repetiu, palavras que eu usei antes para ele mesmo, ecoavam na minha mente. Como era possível que eu dissesse algo daquele teor quando eu mesma passava muito longe de sequer dar ouvidos àquilo? Porque Hani estava definitivamente prejudicando a minha integridade psicológica e eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, ele poderia muito bem prejudicar a minha integridade física. Capaz, eu sabia que ele era.


Continua...



Nota da autora: VAMOS ENDOIDAR COM REVELAÇÃO BOMBÁSTICA? VAMOS!





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