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Envio: Setembro de 2021

Drive to Survive: Max Verstappen

Inglaterra, 2021

- A batida de na primeira volta do GP da Grã-Bretanha foi a segunda mais forte da Fórmula Um em pelo menos seis anos, com base nos dados divulgados sobre os acidentes que ocorreram de 2015 para cá. – A repórter contou, olhando para a câmera. - O impacto mais forte continua sendo de Romain Grosjean no Grande Prêmio do Bahrein no ano passado. Os dados são de um equipamento que os carros de Fórmula Um têm desde 1997, chamado gravador de dados de acidentes e que usa os vários sensores do carro para determinar a violência do impacto, computada em forças G. – Ela continuou. – E os dados desse equipamento da Red Bull de registrou um pico de impacto comparável a 51 vezes a força da gravidade na batida desse domingo.

Atrás da repórter era possível enxergar uma nuvem de outros repórteres, com seus microfones de TVs de todo mundo, todos interessados nas últimas novidades sobre o piloto, ignorando a pesada chuva que caía.
- O holandês não chegou a perder a consciência, mas ficou um pouco tonto com o impacto. Segundo informações passadas aqui para nós, ele estaria passando por uma ressonância magnética por aqui mesmo, mas ainda sem mais notícias. Esperamos um pronunciamento do piloto e da equipe em breve, principalmente depois de toda polêmica sobre o acidente que tem surgido na internet. – Continuou ela. – É com vocês aí no estúdio.

A chamada ao vivo teve fim e a repórter baixou o microfone, estava cansada e mal podia esperar para tomar um bom e longo banho, sair daquela chuva torrencial. A entrada e saída de ambulâncias estava comprometida devido a aglomeração de torcedores, jornalistas e curiosos nas portas do hospital. A equipe não estava acostumada a tanto barulho, apesar da cidade ser lar do Grande Prêmio da Grã-Bretanha. Além da época de corridas, a cidade era pacata e calma, sem muita agitação ou atenção por parte da mídia mundial.
odiava aquelas exceções, tentava esconder o rosto com um casaco, andar de cabeça baixa, ou evitar as portas e janelas, desligar o celular e fingir não trabalhar naquele bendito hospital. De repente, todos habitantes da cidade tinham seu telefone, de seu dentista até o amigo do irmão de uma de suas amigas, todos querendo informações quentes sobre o paciente ilustre que ocupava o quarto quarenta e quatro.
Felizmente aquele não era um dos seus, podia passar longe e usar a desculpa verdadeira de que não sabia sobre o caso. Obviamente a equipe a cuidar daquele paciente fora escolhida a dedo, médicos, enfermeiros, tudo passara por um crivo muito específico, afinal, a mídia estava acampada na porta do hospital, precisavam mostrar perfeição no cuidado. sequer sabia de quem se tratava, tudo que sabia era que não poderia atravessar a rua e comprar seu café porque não poderia atravessar o mar de jornalistas sem a ajuda de um trator.
- Quando é que eles vão embora? – Bufou impaciente, apoiando-se no balcão da recepção da maternidade. Aproveitando o horário de pouco movimento para reclamar um pouco.
- Os recém-nascidos, jornalistas ou os residentes de medicina? – Sam, o enfermeiro chefe brincou.
- Podiam ir todos juntos, mas me contento por hora apenas com os jornalistas.
- Quando liberarem o piloto. – Sam deu de ombros, conferindo os registros de entrada daquela tarde e anotando algumas coisas em prontuários. – Não deve demorar, alguém como ele não vai ficar aqui por muito tempo.
- Que bom, porque não vou conseguir sobreviver a um plantão inteiro sem meu café. – inclinou-se um pouco, tentando observar a movimentação na rua. – Esse cara é realmente famoso assim?
- Se você gosta de Fórmula Um, sim. – Sam respondeu sem pensar, mas em seguida arrastou a cadeira em direção a colega e arqueou uma sobrancelha. – Você não gosta? Mora aqui e não gosta?
- O que? Eu tenho vinte e três anos, passei minha adolescência sendo fã de One Direction, Demi Lovato e Crepúsculo. O máximo que sei de Fórmula Um é que os carros são estranhos e eles dão várias voltas intermináveis. – Sam piscou duas vezes, encarando-a incrédulo. – Charles Leclerc? Lewis Hamilton? Vettel. Sebastian Vettel. – lembrou de alguns nomes, tentando se justificar.
- Meu Deus. – Sam balançou a cabeça negativamente. – Você devia ser exilada da cidade.
- Em minha defesa, eu não sou daqui. – levantou um ombro, distraindo-se do amigo e analisando a rua mais uma vez, torcendo para que os jornalistas fossem embora junto com a pequena enchente que começava a se formar na entrada de ambulâncias.
- . – A doutora Davies a chamou, fazendo ajeitar a postura e adotar uma posição mais vigilante. – Uma das mães está realizando exames lá em cima, mas já devia ter voltado. Pode ir até lá e ver o que aconteceu?
- Claro. – assentiu, levantando as sobrancelhas para Sam, que piscou como resposta.

O lugar onde a maioria dos exames eram realizados ficava três andares acima da maternidade, e era facilmente alcançado pelo elevador. caminhou até os elevadores com calma, não era um caso de vida ou morte e além disso, odiava correr pelos corredores. Primeiro, por sempre tropeçar e cair na frente da equipe, pacientes e acompanhantes, em segundo, porque outros profissionais sempre achavam se tratar de uma emergência e corriam também, terceiro, assustava os pacientes e naquele momento, com tantos jornalistas do lado de fora, pacientes assustados não era uma boa ideia.
Quando o elevador alcançou o segundo andar e abriu suas portas, depois de um tempo relativamente longo, entrou com um pulinho e apertou o botão do sexto andar. Encostou-se nos fundos da caixa e observou os números mudando de acordo com que o elevador subia. Segundo, terceiro, quarto, quinto e então um apagão. O elevador parou de repente, e o número cinco estava pela metade do visor. Droga, xingou em pensamento, já podia sentir os pulmões se apertarem, o ar faltar. Iria morrer, com certeza morreria, não fazia ideia do que fazer. Deitar no chão? Pular quando o elevador começasse a descer? Gritar por socorro?
Felizmente a visão ainda não estava turva o suficiente, e pudera encontrar o botão de comunicação no painel do elevador e assim, fez contato com o mundo exterior. Depois de um minuto de conversa, soubera se tratar de uma pane elétrica por causa chuva, que seria resolvida rapidamente. Não era a pessoa mais claustrofóbica do universo, mas ainda guardava resquícios daquele medo. Conseguia usar o elevador sempre que preciso, costumava ser rápido e focava em acompanhar os números mudando, indicando a descida ou subida. Mas nunca havia estado num elevador em pane antes, conseguia imaginar milhões de cenários possíveis, em todos ela tinha mortes horríveis.
E a pior parte era, usava uma calcinha de algodão cheia de bandeiras da Inglaterra. Porque toda tragédia nunca vem sozinha e ela morreria e se tornaria piada no hospital por estar com uma calcinha feia.

[...]


- Acho que estou mais dolorido mesmo, como se tivesse sido chacoalhado. – relatou. – Meus joelhos. Os joelhos também doem um pouco, mas nada preocupante ao meu ver.
- Do ponto de vista médico, está tudo bem. Sem qualquer fratura ou coisa do tipo. Vamos liberar você para que volte para casa. – O médico responsável disse. - Mas acho que você não vai conseguir voltar para casa hoje, está caindo o mundo lá fora. Os aeroportos devem estar fechados. – Comentou inclinando-se para olhar pela janela. – Mas, acho que qualquer coisa é melhor que passar a noite num hospital.

O médico sorriu e concordou em pensamento, mas sem esboçar qualquer reação, sua feição estava marmorizada.
- Então podemos ir? Tenho que tomar alguma providência? – Jos , seu pai, quis saber, esfregando as mãos ansioso.
- Claro. – O médico assentiu. – Se puder vir comigo.

assentiu antes que o pai dissesse qualquer coisa e os assistiu deixar o quarto. Precisava de um tempo sozinho, mesmo alguns minutos, precisava pensar, refletir, entender tudo que havia acontecido. O acidente não fora nada simples, talvez tivesse sobrevivido por sorte ou destino, ainda não sabia. Mil coisas passavam por sua cabeça, um milhão de coisas que poderia ter feito para evitar aquilo, centenas de cenários diferentes.
E a revolta.
Estava desapontado, revoltado, triste e todos seus sinônimos. Não havia sido um jogo nada limpo por parte de Hamilton, não em sua opinião. Fora perigoso e poderia ter lhe custado a vida, e o inglês, para coroar o dia, havia comemorado o pódio como se fosse o primeiro de sua carreira. Hamilton não era exatamente o mais radiante e festivo na comemoração de seus muitos pódios, por que ser justo naquele? Justo no pódio que quase custara a vida de seu oponente mais direto?
Sentia raiva, revolta, tudo misturado ao medo e preocupação com os dados no carro. Se os danos fossem muito sérios, poderiam ter dificuldades com o novo teto de gastos, seria difícil deixar tudo como era. O que sem dúvidas era de uma injustiça sem tamanhos, considerando todo trabalho, dedicação e suor da equipe para que pudessem estar onde estavam. Tudo isso sem considerar o campeonato, enfim estava liderando, depois de anos de hegemonia mercedista, agora estava na frente, com cinco vitórias contra quatro de Hamilton. Se tivessem problemas no carro por causa do acidente, talvez perdesse a tão importante vantagem e a liderança do campeonato.
Eram muitas coisas, muitos pensamentos desordenados que pareciam gritar dentro de sua cabeça, sem qualquer padrão. se sentia atormentado por aquele dilúvio de pensamentos angustiantes, optou por se concentrar no dilúvio que acontecida do lado de fora. A chuva parecia apertar, felizmente silenciando os pensamentos por causa do barulho alto dos pingos atingindo a superfície do prédio. tateou a cama até encontrar o celular e junto a ele, os fones de ouvido. Escolheu uma música qualquer, colocou os fones, se ajeitou no travesseiro fino e fechou os olhos, precisava relaxar, descansar a cabeça.
Aos poucos, sentiu o corpo ficar mais leve, o barulho da chuva ficava mais longe e mais longe, a música parecia um suave som distante, e então adormeceu.

[...]


As portas se abriram de repente, assustando uma que se concentrava em digitar mensagens que deveriam ser entregues a sua família caso algo acontecesse a ela. A enfermeira pôs-se de pé em um pulo e viu um de seus horrores tomar forma.
Pela porta aberta do elevador só era possível enxergar a escuridão do poço, apenas meio metro do corredor do quinto andar era alcançado pela caixa de metal. Nitidamente o elevador não estava em seu funcionamento pleno. abaixou-se com cuidado para olhar pela fresta, buscando o corredor, mas tudo que viu foi um corre-corre desenfreado de pessoas para um lado e para o outro. Todos pareciam ignorar a metade do elevador que flutuava.
Era o fim.
tinha certeza que algo estava acontecendo, provavelmente o fim do mundo, um terremoto ou coisa parecida. Uma catástrofe, bomba, ataque, terrorismo. O ar voltou a faltar, a respiração tornou-se mais difícil. Não, pensou ela, não surte agora, regra número um da sobrevivência, não surte.
Tentou concentrar-se em sua respiração e no que fazer. Podia tentar gritar, talvez alguém a visse e a ajudasse a sair dali e enquanto fazia, o elevador poderia cair e a partir ao meio, também podia tentar sair sozinha, mas se o elevador descesse...queria um funeral de caixão aberto. Também podia esperar, mas quem sabe quanto tempo levaria? E se o elevador caísse com ela dentro? O que será que acontece com o corpo quando cai de elevador?
Pense, . Pediu a si mesma, mas não teve qualquer resposta. Se fosse morrer de qualquer jeito, seria melhor tentar se salvar pelo menos uma vez, afinal, o que diriam dela se ficasse quieta dentro daquela bendita caixa? Apenas esperando a morte? Não, não mesmo.
A enfermeira gritou, chamou por ajuda, mas ninguém pareceu a ouvir, toda equipe estava ocupada transferindo pacientes freneticamente. resolveu fazer o que todos seus instintos diziam para evitar, de forma muito desajeitada, escapuliu pela fresta, torcendo para não ser partida ao meio e entregue a mãe em dois ou mais pedaços. Assistir premonição não a ajudou muito.
Sobreviveu.
Com os pés intactos e firmes ao chão, girou em seus próprios calcanhares, procurando alguém conhecido para entender do que se tratava aquele pandemônio. Mas todos pareciam a atravessar, parecia estar invisível, levava esbarrões, pessoas se chocavam contra ela e sequer se importavam em se desculpar. Todo piso do andar estava molhado, um pequeno rio corria pelo corredor dos quartos, desaguando na escada de incêndio e recepção.
- ! – Doutor Ethan a chamou. Ele tinha os olhos saltados e o cabelo estava despenteado e molhado. – Cheque os quartos. Não podemos deixar ninguém. – Ordenou, apontando para o corredor atrás de si.
- O que? O que é? Do que está falando? – arregalou os olhos.
- Um buraco no teto, a chuva está alagando todas as alas do andar, temos que transferir os pacientes para a maternidade. – Disse ele rapidamente. – Vamos! Agora! Confira os quartos. – Ordenou.

piscou atônita algumas vezes e assentiu, correndo em direção ao corredor indicado pelo médico. Abriu a porta do primeiro e chamou por algum paciente esquecido, mas todos os leitos estavam desocupados, no segundo e terceiro a mesma coisa, aquele corredor se dobrava pela esquerda. A medida com que avançava pelo corredor, o fluxo de água crescia, já alcançava metade de seus tênis e parecia um tipo de rio artificial barulhento e assustador. Greta Thunberg tinha razão, o Greenpeace tinha razão.
O quarto e quinto quartos também estavam vazios, no sexto, quase se chocou com outra enfermeira que guiava um paciente e seu soro para fora do quarto, seguido pelo acompanhante. O sétimo estava vazio, cama arrumada, o oitavo também, assim como o nono, só restava um, o décimo quarto do corredor, quarto número quarenta e quatro, que provavelmente estaria vazio também.
No final do corredor, entre as portas do nono e décimo quarto estava a razão para todo aquele caos, um imenso buraco na cobertura, do tamanho do teto de um Ford Fiesta. Certamente os milhares de reportagens sobre má gestão e desvio de dinheiro chegariam no outro dia a todas as bancas do estado. A água entrava pelo buraco como uma cachoeira, inundando tudo, era como um cenário de filme sobre mudanças climáticas, ou uma nova versão do Titanic. Só faltavam uma porta, a abriu sem qualquer cuidado e para sua surpresa, alheio a todo caos instaurado do lado de fora, um paciente repousava tranquilamente. O chão do quarto já estava alagado e o paciente continuava dormindo, ou talvez estivesse morto, quem saberia?
chamou-o ainda da porta, mas ele não a ouviu, forçando a enfermeira a entrar no quarto. Era um rapaz, mais ou menos da sua idade, cabelos loiros e alto, torceu para não ter que o carregar, não seria uma tarefa nada fácil. Aproximou-se mais do leito, apenas chama-lo não adiantava, precisaria sacudi-lo. Primeiro checou o pulso, ainda não tinha excluído a ideia do óbito, mas o rapaz estava quentinho e corado, foi aí que percebeu os fones que ele usava. Brilhante, ironizou ela, e então tocou seu ombro.
- Oi. – Chamou-o. – Senhor. Senhor, preciso que acorde.

O homem não se moveu e sorriu por sua fala tê-la lembrado dos vídeos do tiktok, aquele áudio se encaixaria perfeitamente naquele contexto.
- Senhor. – Chamou de novo. – Senhor, está aí? – O balançou suavemente, sorrindo com a lembrança dos vídeos.

O paciente piscou os olhos preguiçosamente e os abriu. Olhos azuis que de tão bonitos pareciam deixar todo quarto preto e branco. Eram vívidos, brilhantes, azuis do tipo que você só consegue com filtros do Instagram ou com aplicativos de edição de fotos. Ele uniu as sobrancelhas, confuso com a cena e talvez um pouco irritado por ter sido acordado.
- Senhor, preciso que me acompanhe. – pediu, voltando a si. – Consegue andar sozinho? Precisa de uma cadeira?

Ela perguntou, correndo os olhos pelo quarto e torcendo para que uma cadeira de rodas magicamente aparecesse ali.
- A alta? Onde está meu pai? – Ele perguntou, sentando-se e esfregando o rosto. – Eu consigo andar.
- Alta? – franziu o cenho por dois segundos, depois entendeu. – Não, senhor. Não está recebendo alta, mas preciso que venha comigo, depressa.
- Como não? Para onde? – Perguntou incerto.
- Houve um pequeno vazamento no teto. – Explicou e com o olhar, indicou o chão que já parecia um pequeno laguinho, o rapaz acompanhou seu movimento com os olhos e sobressaltou-se ao perceber o chão molhado.
- Pequeno?
- É, é que...sabe...aqui chove muito. – tentou acalmá-lo, mentindo para ele e para si mesma. – Preciso que venha comigo para uma ala mais seca. Se puder me acompanhar...

O homem ainda parecia perdido e chocado, mas começou a se movimentar para sair do leito. Olhando ao redor, a procura dos chinelos, que o auxiliou a calçar e depois vestir um casaco que jazia jogado sobre uma poltrona. Enquanto o auxiliava e desligava os monitores, ouviram um barulho oco, que talvez indicasse que a situação do teto piorara. se esforçou para respirar, só precisava de mais dez minutos, depois disso poderia surtar o tanto que quisesse.
- O que foi isso? – O paciente perguntou assustado.
- A última chamada para nosso voo. – brincou e ofereceu seu braço para que ele se apoiasse, mas o rapaz a ignorou.

Quando a enfermeira abriu a porta, uma pequena nuvem de poeira invadiu o quarto, fazendo-os abanar as mãos na frente dos rostos, tentando afastar o pó úmido que flutuava no ar. Quando a poeira baixou, outras coisas também haviam baixado, como o revestimento do teto e algumas barras de apoio, tornando impossível a passagem dos dois pela porta. Não, não, não, repetia em pensamento, sentindo o ar faltar mais uma vez.
- O que foi? O que houve? – O paciente perguntava assustado. – O que foi? – Enfim se aproximou da porta e expirou profundamente ao se dar conta do cenário.

Do outro lado, no ponto onde o corredor se dobrava, estavam algumas pessoas com uma lanterna. Ao que se podia ver, o revestimento do teto havia desabado por quase toda extensão daquela parte do corredor.
- ! – reconheceu a voz do doutor Ethan. – O que houve?
- Eu sei lá? – gritou de volta, nervosa. A àquela altura, a água do teto já a molhava o ombro, cabelo e o rosto estava sujo com aquela poeira molhada e pegajosa que ocupava o ar.
- Não consegue passar? – Ethan perguntou e tentou analisar suas possibilidades, ignorando o pânico.
- Não. Tem muitas barras de metal e pedaços do teto. – Contou. – E tem um paciente aqui.
- Eu sei. – Respondeu ele. – Sabemos. Se certifique que ele está bem. Ele se feriu?
- Também estou bem. – resmungou incrédula. – Sim, sim. Estava dormindo.
- Vamos chegar até aí, os bombeiros já foram chamados. – Disse ele. – Tudo bem?
- É, só me tire daqui logo. – Pediu.

respirou fundo e fechou a porta, dando um passo para trás.
- Bom, ao que parece vamos ter que esperar. – Disse tentando soar calma.
- Esperar? E se isso tudo desabar? – Ele indagou apreensivo.
- Pelo menos não vão ter problemas em identificar os corpos. – levantou os ombros, recebendo um olhar chocado do paciente. – Por que não se deita? Logo eles chegam até aqui. Doutor Ethan foi da marinha, ele sabe como se virar. – Ela tentou sorrir, mas ele não respondeu.

Depois de acomodá-lo da maneira mais confortável que pode, aproximou-se de uma das poltronas perto da janela e se sentou, dobrou os joelhos para tirar os pés da água e começou a pensar em saídas. Conferiu o celular de novo ao perceber que o homem fazia o mesmo, mas estava sem sinal, aquela ala era péssima para isso. De qualquer forma, já tinha escrito todas as mensagens de despedida que precisava, se o teto caísse e os esmagasse, seu pequeno testamento já estava feito. Queria que tocassem a mesma música que tocavam nos funerais da realeza britânica, com gaita de foles. O funeral e o tumulo seriam no alto de uma montanha, com muitas flores jogadas dentro do caixão e sua lápide devia ser uma pedra grande talhada como antigamente.
Era seu último pedido, ninguém negaria o último pedido a uma enfermeira que morreu no desabamento de um hospital ao tentar salvar o último paciente. Que foto será que colocariam nos jornais e obituários? Esperava que escolhessem a foto mais curtida de seu Instagram, com trinta likes, e não a foto horrível de seu crachá, onde parecia uma fugitiva de alguma instituição psiquiátrica. Como será que as fotos eram escolhidas? Será que as famílias enviavam? Será que sua mãe já estava sabendo que estava presa naquele quarto? Talvez já fosse notícia em toda mídia mundial.
Droga, xingou em pensamento, estava com uma calcinha horrível para a ocasião e o pior, conhecia o legista da cidade. Estava passando por um caos, o fluxo de pensamentos em sua cabeça não dava trela, e o seu parceiro de crise parecia estar na mesma situação. O paciente digitava freneticamente no celular e se remexia na cama, tentando encontrar algum sinal de celular. teve pena dele, estava acostumada a esperar a morte, seu terapeuta sempre dizia e ela sabia. Mas entendia que era uma situação confusa e estressante para se lidar sozinho e apesar de também ser tão vítima quanto ele naquele momento, mais ainda era enfermeira e tinha feito um juramento. Florence devia ficar orgulhosa naquela noite.
- Como se chama? – perguntou atraindo a atenção dele, que pareceu precisar pensar por alguns instantes, encarando-a um pouco chocado.
- Como assim?
- Como você se chama. Qual é o seu nome. Perguntei isso. – Disse pausadamente. – Eu me chamo . – Tentou sorrir.
- . – Ele respondeu a encarando como se tivesse algum tipo de problema.
- . – Ela repetiu. – Vai ficar tudo bem. – Tentou ser positiva.
- É eu sei.
- Sabe? – o olhou sobressaltada, buscando um pouco da confiança dele para si. – Acha? Eles chegam logo, não é? E nem está chovendo tanto assim, não é? – Inclinou-se para olhar pela janela enquanto falava rápido. – Se a chuva aumentar e mais teto cair, primeiro deve cair sobre a porta, depois sobre nós...mas e se cair sobre algum bombeiro? Eu assisto séries sobre isso. – Contou num ritmo acelerado demais, enquanto a encarava assustado. – Eles vão ter que parar porque terão um homem ferido e quando um bombeiro não se mexe por muito tempo, existe um sensor que fica fazendo um barulho horrível e é tão assustador...
- Ei. – a tentou interromper.
-...de todas as formas que pensei, essa não é a pior morte.- falava disparada, gesticulando ao mesmo tempo. - Acho que afogado seria pior, mas nesse caso, um pedaço do teto pode cair na nossa cabeça e nem veríamos a morte...
- Ei. – Ele tentou mais uma vez, aumentando um pouco o tom de voz.
-...mas e se por acaso um pedaço do teto cai e nos derruba, ficamos presos no chão e então a chuva aumenta, o quarto alaga e podemos morrer afogados com menos de trinta centímetros de água. – pousou a mão no peito e começou a respirar com dificuldade. – Meu Deus, vamos morrer. Eu vou morrer afogada, vou morrer afogada...
- Ei! – chamou mais alto e enfim parou de falar e o olhou, respirando profundamente e rápido. – Você devia ser a pessoa calma aqui.
- Calma. Sim. – assentiu, fechou os olhos e tentou lembrar da respiração que tinha treinado para quando aqueles momentos acontecessem.
- Ninguém vai morrer. Eu não vou morrer. – Falou firme, olhando para frente, desviando o olhar dela.
- Não dá para saber. – resmungou baixinho. – Até parece que ele sabe...pelo que vejo, poderíamos morrer a qualquer momento e veja só, a última pessoa que vou ver será você.

Disse pensativa o observando de soslaio. . não podia dizer se morreriam ou não, segundo os filmes de terror, o descrente geralmente era o primeiro a morrer, por isso devia ficar longe dele. Pensou e instintivamente se encolheu mais na poltrona, puxando as pernas para longe da cama.
A água continuava a cair como uma grande cachoeira do lado de fora das janelas e da porta. O som a fez lembrar dos dias de chuva em que assistia as poças se formarem no quintal, enquanto tomava chá com sua mãe. Ah, não! Sua mãe. O que a mãe faria sem ela? Quem teria paciência para ouvir de seus dias chatos no escritório e de como sua colega sempre roubava seus biscoitos. Quem teria a delicadeza de preparar comida quando ela adoecesse? Quem a ajudaria com o celular? Quem pagaria as contas pela internet e quem a levaria ao médico?
sentiu a garganta apertar e os olhos se encherem de água, não conseguiu conter as lágrimas insistentes que desciam descontroladas como ela mesmo estava no momento. Pensar em sua mãe solitária e desamparada, tendo que cuidar sozinha do funeral da única filha era pra lá de triste e já conseguia ver a mãe em depressão e sofrendo, solitária. O choro escapou com força, travando uma luta tensa com a enfermeira que tentava o conter e não fazer barulho. Mas poucos instantes depois seus soluços já eram percebidos por , que a encarou num misto de surpresa e incredulidade.
- Você está chorando? – Ele franziu o cenho. – Por que está chorando?

tentou respirar fundo antes de responder, mas falhou, soluçando algumas vezes.
- Mi-minha mãe vai ficar sozinha quando eu morrer. – Choramingou entre soluços de tremer os ombros e a encarou estático.
- Ou talvez ela morra antes. – Disse ele sem qualquer delicadeza.
- O que quer dizer? – se alarmou, ficando de pé sobre a poltrona na tentativa de olhar pela janela. – Acha que já choveu o suficiente para alagar do lado de fora? E se tiver uma enchente muito grande? Ela está sozinha em casa...- lembrou, vendo vários cenários tenebrosos e apocalípticos se formarem em sua mente. – Ai, não. Como ela vai sair da casa alagada sozinha? Mamãe não tem as pernas muito boas. – Chorou de novo. – Minha mãe vai morrer.
- Ei. Não foi isso que eu disse. – levantou o tronco sobressaltado. – Eu quis dizer um dia. Sabe? Um dia ela vai morrer, pode ser que seja antes de você.
- O que eu vou fazer? Quando eu tiver filhos, não vou ter minha mãe para me dizer qual a temperatura correta para um banho. – soluçou, voltando a se sentar e abraçando os joelhos.
- Mas o que...- sacudiu a cabeça negativamente e expirou. Não sabia bem o que fazer, mas não suportaria aquela choradeira toda.

Enquanto chorava, se lamentando sobre tudo que perderia quando a mãe morresse, se levantou com alguma dificuldade devido as dores no corpo que ainda sentia e se aproximou dela, tocando um de seus joelhos.
- Sua mãe está doente por acaso? – Perguntou sem muito jeito.
- N-não. – soluçou. – Mas e se ela morrer agora, hoje e eu nem vou estar lá para ajudar. Eu vou ter que preparar o funeral porque sou filha única, mas eu não sei preparar um funeral. – O choro aumentou. – Eu sou uma imprestável. Não vou conseguir preparar o funeral da minha própria mãe.
- Imprestável eu não sei, mas que é maluca, isso com certeza. – a olhava com estranheza.

A enfermeira concordou tristemente, levantando os ombros.
- É a ansiedade e algumas coisas mais. – Explicou. – Mas como posso ignorar as situações que acho que são perigosas quando não sei exatamente o que é perigoso? – Perguntou o olhando, mas ainda a encarava abobado.
- Você precisa de um médico. Urgente.
- Você não tem medo de morrer? Não tem medo de nada? – Indagou ela, um pouco impaciente e nervosa pelo modo com que ele a olhava.

ponderou por alguns instantes, tinha tantos medos, milhares, mas não os contaria a uma estranha. E principalmente, não surtaria por isso como ela, sabia se controlar em situação de estresse, sua profissão dependia disso.
- Tenho, mas não sou maluco como você. – Deu de ombros, voltando para a cama.
- Maluca? Eu? – se irritou. – Pelo menos me expresso. Posso ser maluca, na verdade eu sou. Sou muito maluca, surtada, tenho mais diagnósticos do que um livro de diagnósticos. Mas sabe qual diagnóstico não tenho? – a olhou, curioso sobre o que ela diria. – O de grosseira e também não sou rude. Indelicada. Estes são seus, senhor deselegante.

riu alto sem qualquer humor, e balançou a cabeça negativamente.
- Você está surtando porque sua mãe vai morrer um dia, porque vai morrer um dia e queria que eu fizesse o que? Chorasse com você? – Debochou.
- Pois eu preferia mesmo morrer a ter que ficar presa aqui com você. – uniu as sobrancelhas e projetou sutilmente o lábio inferior, irritada com o rapaz. – Grosso.
- Dramática. – devolveu, voltando ao leito.
- Babaca. – xingou.
- Chorona. – Acusou ele e virou o rosto para outra direção, os dois com grandes trombas de irritação e sobrancelhas juntas.

sabia muito bem que geralmente pessoas não choravam e sentiam-se tristes por pensar que suas mães, pais ou cachorros fossem morrer um dia, mas que culpa tinha? Era assim, talvez isso fizesse dela uma maluca de marca maior, mas seu terapeuta sempre a pedia para não se apegar aos estigmas.
Por muito tempo o único som a ser ouvido era o da chuva lá fora, pensava em como seus amigos se organizariam sem ela, como a vida seguiria para todos mesmo após sua morte. Enquanto tentava se desligar da dor que sentia na cabeça e pernas, parecia ter sido atropelado por um caminhão, ou vários caminhões. Não era muito adepto, mas daria qualquer coisa por um analgésico ou algum remédio para dormir, desde que, claro, estivesse em um lugar seguro e seco.
Ele esfregava as têmporas, seus olhos estavam apertados, como se buscasse algum alivio fugindo de toda e qualquer luminosidade. O quarto era iluminado apenas por um abajur fraco de luz tremulante ao lado do leito, todo resto já havia se apagado, dando ao espaço uma iluminação fraca e azulada, acompanhando a coloração da noite chuvosa.
notara o desconforto do homem, como enfermeira atenta que era e se pôs ao seu lado, aproximando-se dele de repente, causando um pequeno susto no piloto.
- Você está bem? Sente alguma coisa? – Perguntou com olhos atentos.
- É só uma dor de cabeça. – Desdenhou fechando os olhos e apoiando o antebraço na testa. – Estou ótimo.

inclinou a cabeça desconfiada.
- Está? Não parece.
a encarou arqueando uma sobrancelha e com expressão fechada.
- De zero a dez. – cruzou os braços o encarando como uma mãe que flagra o filho fazendo algo errado. – Quanto é a sua dor?
- Sete. – resmungou relutante, voltando a cobrir os olhos com o braço.

balançou a cabeça negativamente, expirou e procurou algo nos bolsos do pijama hospitalar que usava. Depois o cutucou e esticou um comprimido a , que a olhou ressabiado.
- O que é isso?
- Um analgésico, vai te fazer bem. – Explicou.
- Eu devia tomar isso? – Questionou, mas endireitou-se para receber o comprimido.
- Estamos presos em um quarto alagado, durante uma chuva torrencial e em breve veremos Noé e sua arca. Você está mesmo preocupado com esse detalhe? É só aspirina.

engoliu sem debater, a dor o estava incomodando, a situação o incomodava, a enfermeira o incomodava. Não seria uma má ideia resolver pelo menos um daqueles problemas, pensou enquanto observava de soslaio recostar-se a seu leito, dando-lhe as costas.
- Eu tento não ser assim. – Ela disse de repente depois de algum tempo. – Dramática, negativa e tudo isso. Mas não consigo. A minha cabeça não funciona direito, nunca funcionou.
- A de ninguém funciona. – deu de ombros e o encarou por sobre o ombro e sorriu, ele retribuiu com um sorriso tímido de lábios apertado.
- A sua funciona. – Sorriu de novo, virando-se para ele.
- Eu vivo sob estresse desde que me lembro. É o que faço para viver, mas isso não significa que eu funcione bem. – Disse sem encara-la, mas com tom um pouco mais manso.
- Meus pais se separaram quando eu tinha nove, entendo o que é viver sob estresse. – expirou, deixando o olhar vagar pelo quarto molhado. – O que você faz que é tão estressante assim? – Quis saber sorrindo.
- Como assim? – a encarou perplexo. – Você não me conhece?
- Desculpe, não. – Respondeu tímida. – Minha memória também não é muito boa, tem a ver com a atenção e com os efeitos colaterais de alguns medicamentos. – Explicou envergonhada.
- É sério? Não está brincando ou coisa assim? – sorriu espantado.
- Não. – sorriu de volta, sacudindo a cabeça. – O que você faz? Espera, me deixe adivinhar. – Pediu e ele assentiu. – Policial? É bem estressante e você tem a aura. Policial bom e mau, certamente você é o mau. – Brincou sorrindo e considerou a possibilidade por alguns instantes, se imaginando de uniforme, solucionando crimes e correndo atrás de bandidos.
- Eu não seria o policial mau. – Se defendeu sorrindo. – Seria o misterioso, o que sai na TV por resolver o crime importante.
- Que exibido. – A enfermeira riu alto. – Mas já entendi que você não é, então vou tentar de novo. – Ela tocou o queixo pensativa. – Bombeiro. Você é bombeiro, não é? Encaixa perfeitamente.
- Bombeiro? – gargalhou. – Por que você acha isso?
- Eu não sei, você só tem essa aura de protetor e super-herói. Não me pergunte porque acho isso, mas quando olho para você, tenho a impressão de que você poderia resolver qualquer coisa. – sorriu aberto e assentiu, não conseguindo disfarçar o sorriso triste que ocupou sua face.
- Queria que fosse verdade. – Sussurrou.
- O que foi? Algum outro bombeiro está te incomodando? – o cutucou com um soquinho de maneira teatral, depois de perceber a mudança nas feições dele.
- Digamos que sim. – piscou sorrindo de canto. – Parece que tudo que faço para tentar ser melhor não é suficiente. Sempre que parece que estou chegando lá, perto, quase alcançando, algo me tira do caminho. Eu só...- Bufou. – Estou cansado.
- Sabe uma coisa que aprendi sendo enfermeira? – vagava os olhos pelo quarto, distraída com suas memórias. – Que as vezes, ou sempre, você tem que ir cansado mesmo. Sabe? Ninguém se importa e o mundo não para de girar para você tomar fôlego, se recuperar ou traçar um bom plano. Só continue. Hoje você está cansado, amanhã pode ser que esteja mais, e depois pode estar melhor. A vida segue.
- É fácil falar. – rolou os olhos um pouco irritado.
- Eu sempre digo isso ao meu terapeuta. – deu de ombros, encarando-o. também a olhou e depois de alguns segundos com os olhares conectados, os dois riram alto.
- Você é estranha. – Disse ele, sacudindo a cabeça negativamente.
- Já me chamaram de coisa pior. – deu de ombros e voltou a dar-lhe as costas, encarando a janela e a chuva que caia do lado de fora.

a observou com um pouco mais de atenção, ela usava um tipo de roupa de enfermeira vermelho, os cabelos estavam amarados em um rabo não muito apertado e não muito frouxo, usava um pequeno par de brincos que reluzia quando algum raio iluminava o quarto. Não usava maquiagem, mas agora parecia um pouco mais bonita do que quando entrara no quarto. parecia não o conhecer mesmo e aquilo despertava certa curiosidade, sentia que podia ser ele mesmo, sem se importar com pré-conceitos ou com qualquer pensamento formulado antes por ela.
A experiência de passar algum tempo, mesmo em circunstancias tão adversas, com alguém que não o conhecia por sua carreira era no mínimo interessante. Sentia-se um pouco mais conectado a ela, surpreendentemente.
- Também tenho medo de perder meus pais. – Declarou ele depois de algum silêncio, atraindo o olhar curioso de . – Às vezes, quando perco o sono esse tipo de coisa me vem à cabeça.
- E como você faz para se livrar deles? – Quis saber ela.
- Existe um jeito? – ironizou e ela sorriu. – Ouvi em algum lugar que amar alguém é uma face da moeda, a outra face é o medo constante de perder. Acho que não existe forma de se livrar disso.
- Eu queria só não surtar, conseguir me controlar. – Confessou ela, abraçando-se. – Eu sei que muito do que minha mente cria não é real, nem lógico, mas quando percebo já chorei por duas horas. Uma vez estava em um encontro e o cara com quem eu estava contou uma história sobre alguém que amava muito flores e eu comecei a chorar no meio do jantar. – gargalhou e cobriu o rosto. – Só conseguia pensar que minha mãe amava flores e eu nunca havia a presenteado com um buque, mas que quando ela morresse eu faria, logo, era uma filha arrependida por não ter presenteado a mãe em vida. Quando eu contei a ele sobre o motivo do meu choro, perguntou quanto tempo fazia. Ele se levantou e foi embora quando eu contei que ela estava viva e me esperando em casa para assistirmos uma novela turca.

gargalhou, sentia-se autorizado pelo tom leve com que contava a história, sorrindo junto e gesticulando como se não tivesse controle das mãos.
- E você comprou as flores? – quis saber e arregalou os olhos, parando de sorrir instantaneamente.
- Não.
- Não, não, por favor. Não é hora. – sentou-se, segurando os ombros dela. – Não comece a chorar de novo, estou simpatizando um pouco com você agora.
- Está? – uniu as sobrancelhas, confusa e deixando um sutil sorriso escapar por seus lábios.
- O que?
- Simpatizando comigo. – Ela repetiu.
- Quem está? – Ele desconversou, voltando a se deitar e balançou a cabeça negativamente.
- O que te trouxe aqui, ? – perguntou, sentando-se sobre o leito, aos pés de .
- Acidente.
- De carro? Ou você se feriu salvando uma criança de uma casa de chamas? Seria bem heroico. – Comentou. – Qual seu signo? Você me parece leonino...se bem que o signo de touro pode combinar também.
- Você sempre fala tanto assim ou só quando acha que vai morrer? – a provocou.
- Com certeza piora no último caso. – Ela deu de ombros. – Se você fosse um animal, qual seria? Se fosse um filme? – Perguntou sorrindo.
- Você pode parar um pouco? – Mas perguntou com delicadeza.
- Não dá. – levantou os ombros. – Eu estou nervosa, ansiosa, se não falar com você vou começar a falar com as vozes da minha cabeça ou com os espíritos do hospital.
- Espíritos do hospital? – franziu o cenho, apertando os dentes.
- Viu como é melhor falar com você? – Gracejou e ele balançou a cabeça sorrindo. – Se você fosse uma criatura mitológica qual seria? Sabe, grega, nórdica.
- Qual você seria? – Ele devolveu, ajeitando a cabeça no travesseiro e a encarando com os olhos curiosos.
- Eu? – encolheu o queixo, inclinando-se um pouco para trás. – Nossa, acho que preciso pensar. – A enfermeira correu os olhos pelo quarto e sorriu de canto, a personalidade de o divertia. – Acho que as pessoas diriam que sou a Pandora. É o tipo de coisa que aconteceria comigo, abrir uma caixa e espalhar coisas ruins no mundo todo. – Disse sorrindo, mas parecia um pouco desconfortável.
- E qual você diria que é? – indagou interessado.
- Ísis. – respondeu sem pensar muito, continuando a falar depois do olhar encorajador e confuso de . – Ísis, a deusa da ressureição, do amor ou da magia, depende. Do panteão egípcio. – Explicou levantando o ombro. - Ela era conhecida como uma divindade extremamente altruísta e generosa, sempre disposta a atender as necessidades dos outros, acho que me identifico nessa parte. Pelo menos gosto de pensar que sou assim. – Confessou desviando o olhar.
- Bom, você é enfermeira. – pensou alto. – Já faz parte do pacote, na minha opinião.
- E você? – empurrou as pernas dele suavemente com a força de seu joelho.
- Eu não sei muito sobre mitologia. – desconversou, coçando a nuca.
- Qual é, você deve saber alguma coisa. Todo mundo sabe. – o provocou.
- Talvez eu saiba de um...- a direcionou um olhar travesso, depois voltou a expressão pensativa de antes. – Tifão.
- O monstro. – concluiu um pouco chocada. – O que estava destinado a acabar com Zeus e o Olimpo, temido por todos e de aparência tenebrosa. – Ela o observou com curiosidade e um pouco de espanto.
- Penso que é assim que me veem. – Ele sorriu como se não se importasse.
– Agressivo, assustador e destinado a acabar com o time dos protagonistas? – Ela quis confirmar.
- Se encaixa com perfeição. – deu de ombros, concentrando-se no céu que era marcado por um grande e luminoso raio.
Aquela analogia combinava tão perfeitamente que parecia ter sido pensado e analisada por profissionais. sabia que muitos o odiavam gratuitamente apenas por ser quem era, uma ameaça ao reinado forte e estável de seu oponente inglês. Ele era Tifão e naquela história, Lewis Hamilton era Zeus, que mais uma vez o tinha detido, vencido e jogado em alguma caverna para sempre, mais especificamente em um quarto de hospital alagado. Hamilton devia estar feliz, comemorando sua vitória, enquanto ele jazia ali, com dores e ansioso. Pensando no que podia ter acontecido se não tivesse tido sorte, pensando no quão fatal o acidente poderia ter sido.
- Você gosta disso? – perguntou incerta, abraçando os joelhos. – De ser visto como alguém assim? O vilão de uma história? Você sabe que ele perde e é aprisionado, não é? – sorriu abafado.
- Eu sei, conheço a história. É o que eu disse mais cedo sobre estar perto dos meus objetivos e então...
- Você não me respondeu se gosta.

fingiu não ter escutado, continuou observando o céu, enquanto tentava desvendar o mistério a sua frente. Se perguntava quem era ele, o que ele escondia. não parecia alguém agressivo, um vilão, se orgulhava de sua sensibilidade, sua intuição e ela nunca falhava. No caso de , sua intuição não o acusava, estava em harmonia e paz, apesar da situação.
Ele mantinha uma expressão séria, fechada, parecia até irritado, mas algo a dizia que no fundo, era tudo apenas uma couraça, uma cobertura. Apesar do pouco tempo presos juntos e do início conturbado, parecia gentil e até um pouco doce, poderia apostar um almoço que apesar de fingir, ele não se divertia em ocupar a posição de vilão.
A enfermeira se perguntava a razão de tudo aquilo, enquanto o observava. O que aquele paciente misterioso escondia? Sabia que existia algo nele que não queria que fosse revelado, não que fosse algo ruim, era só alguma coisa. Mas pelos modos e postura dele e sua intuição, apostava que existia algo bom e grandioso dentro de , embora ele não quisesse mostrar.
- Você disse qual as pessoas pensam que você é, mas não disse qual você acha que é. – o lembrou, tentando faze-lo falar, curiosa, e sorriu.
- Ajax. Você é metida a sabe-tudo, nem preciso dizer mais nada. – Provocou.
- Quem disse? Eu quero que diga. – sorriu. – Por que ele?
- Por que não ele? Um herói quase invencível mesmo sem a ajuda aos deuses. Não tinha poderes, só coragem, era um homem comum. Lutava só com um machado e um escudo, só deuses podiam resistir as investidas dele. – Narrou empolgado.
- Era uma lança, ele lutava com uma lança. – o corrigiu. – Ele não era ajudado pelos deuses porque nunca pedia ajuda. Eu chamo de teimosia. – deu de ombros. – É, tem razão, parece muito com você. Bem mais do que o vilão.

riu entredentes e desviou o olhar.
- Você não entende.
- Não. – concordou. – Mas minha mãe ama os documentários do animal planet e eu aprendi que se você só assistir pelo ponto de vista das zebras, o leão sempre será o vilão.
Fora a vez de dar de ombros e encarar as janelas. pensou por alguns instantes sobre o que ela havia dito, a enfermeira tinha razão. Não que se importasse com o que pensavam dele ou com as opiniões, mas tinha noção sobre como era visto. No início não gostava muito daquela representação, não quando tudo que fazia era se concentrar para ser o melhor, orgulhar o pai e ser perfeito como Jos sabia que ele podia ser. Depois só se acostumou, a maior ou quase toda parte de pessoas que mantinham aquelas opiniões não o conhecia, logo suas opiniões não importavam e ele não tinha tempo ou disposição para gastar em redes sociais se preocupando com o que pensavam dele ou não. Era coisa de garotinhas e ele era um homem adulto, o lugar para mostrar seu potencial e calar a todos era nas pistas.
Por isso a experiência com parecia ser tão agradável e despertava em tanta curiosidade. Ou a mulher fingia muito bem, ou realmente não fazia ideia de quem ele era, podia ser apenas ele mesmo, nada mais, nada menos, só o . era simples, curiosa, apesar de um pouco maluca e dramática, parecia ser boa pessoa. Não sabia o que viria depois daquela noite, o que aconteceria, se em algum momento revelaria a enfermeira sobre sua verdadeira identidade, se algum dia a veria de novo. Aquelas variáveis eram o mais excitante em tudo aquilo, a imprevisibilidade do momento. Entre tantas possibilidades para aquele dia, se acidentar e ir parar em um hospital que teria um problema como aquele, ficar preso com uma enfermeira como ela, as chances eram mínimas, mas mesmo assim ali estavam os dois.
agradecia que fosse , seria muito pior caso outra enfermeira tivesse entrado por aquela porta antes. O piloto estava curioso sobre a ela, sobre qual assunto maluco puxaria em seguida, sobre qual seria seu próximo pequeno surto, ou quais seriam as próximas perguntas que ela faria. Haviam tantas coisas que queria dizer para alguém como ela, alguém que não o julgaria por sua profissão ou pela imagem equivocada que insistiam em reforçar.
Queria dizer tantas coisas, puxar alguns assuntos bobos também, mas não sabia como romper as barreiras que tinha em si. O medo de se abrir com outras pessoas, o medo sobre como seria visto, não sabia não ser o forte e duro . Como poderia dizer a ela qualquer coisa? Como poderia dizer que estava com medo daquela situação e todo aquele aguaceiro? Como diria que temia que o teto caísse em suas cabeças? Não podia. Ela certamente o acharia bobo e molenga e riria dele. Devia manter a mesma postura, como sempre.
- Por que você está aqui? – Perguntou de repente.
- O que disse? – voltou-se a olhar para ele, apoiando o queixo com uma mão.
- Perguntei por que você está aqui, enfermeira. – Repetiu.
- Eu fiquei presa no elevador, achei que fosse morrer, acredita? – Contou rindo de sua desgraçada. – Eu estava no meu setor conversando com o Sam, ele é meu amigo, um dos melhores. Somos muito próximos, sabe? E aí uma das obstetras me pediu para verificar porque uma das mães estava demorando para voltar. Aqui sempre temos esse problema, ninguém leva o paciente de volta, nós temos que subir para busca-los...
- . – a interrompeu, com um sorriso leve nos lábios. – Me referi a porque você está no hospital, por que é enfermeira.
- Ah. – Ela desviou o olhar rapidamente e sorriu envergonhada. – Eu acho que a profissão me escolheu. Sempre quis fazer diferença na vida das pessoas, cuidar e ajudar como pudesse. As coisas foram caminhando e caminhado...quando percebi estava correndo por esses corredores ajudando mães em trabalho de parto.
- Você é enfermeira da maternidade?
- É, loucura, não é? – Brincou. – Acho tocante estar presente no primeiro sopro de vida de alguém, é especial.
- Eu acho especial. – Concordou ele. – Mas eu teria cuidado com você e bebês. – a provocou fazendo uma careta, e o empurrou.
- Se algum dia fizer o parto do seu bebê, acho bom você ter cuidado mesmo.
- Vou procurar outro hospital, certamente. – Ele sorriu, se divertindo com a careta dela.
- Uma pena eu não ser a sua enfermeira, para me vingar dessas ofensas. – o empurrou de novo.
- Mas quis o destino que você estivesse aqui.
- Bem lembrado, ainda posso usar a água aqui e te dar um choque. – apontou para o chão. – Como em Carrie, a estranha.
- Você é enfermeira, devia cuidar de mim.
- Não quando você é terrivelmente insuportável. – resmungou. – Se arrependimento matasse...
- Você não morreria, não é? – a empurrou com a perna e sorriu.

o encarou, balançou a cabeça negativamente e sorriu de volta.
- Por que você estava sozinho aqui? Ninguém mais aguenta você e te deixaram aqui? Te abandonaram? – perguntou e ele riu alto.
- Claro que não, eu que precisei de um pouco de paz enquanto meu pai assinava a alta. – rolou os olhos. – Mas aparentemente não consegui, não é? – Ironizou, apontando para o quarto alagado e para , que abriu a boca, incrédula e o empurrou levemente mais uma vez, fazendo-o rir.
- Como é isso? Ter um pai. – Ela perguntou e teve dúvidas se era uma piada ou realmente uma pergunta. – Meu pai saiu de casa quando eu tinha nove anos, levou meu cachorro e me deixou com minha mãe e meus avós.
- Você nunca mais o viu? – O piloto perguntou interessado.
- Não. – deu de ombros e desviou o olhar. – Mas ele tem outra família hoje. Acho que tentou uma segunda vez, só por garantia. – Ela riu e percebeu que não achava muita graça daquilo.
- Eu sinto muito. – Disse e ela sacudiu a mão em sua direção, voltando a encarar a janela. – Eu não sei como responder sua pergunta. – Confessou e ela voltou seus olhos para ele. – Digo, eu sei, mas é complexo.
- Acho que temos tempo. – inclinou-se, apoiando o queixo nas mãos e o cotovelo no joelho.
- É estranho...estranho falar disso. – hesitou.
- Daddy issues? – perguntou sem cerimônias e uniu as sobrancelhas, ofendido.
- Claro que não. Você não devia falar do que não sabe. – Repreendeu.

manteve os lábios em uma linha fina, aprendera o suficiente de psicologia na faculdade para saber o que a atitude dele representava. Talvez uma relação complicada com o pai seria a resposta para a couraça protetora que parecia usar.
- Não precisa responder. – esticou os braços atrás das costas, apoiando o peso do tronco. – Mas eu aposto que você é o filho mais velho, cresceu achando que precisava dar conta de tudo, ser o melhor que podia ser em tudo e nunca aceitando menos que a perfeição. Nem mesmo quando faz um macarrão instantâneo. – uniu mais as sobrancelhas, numa carranca irritada. – Por isso se cobra muito e por se cobrar muito, cria essa capa durona porque tem medo que as pessoas critiquem você da mesma forma que você se critica ou que...ou que seu pai te critica. Daí você acha que seu valor está no quão bem você faz uma certa coisa. – completou pensativa. – E no menor erro, você fica destruído. Isso te gera ansiedade e quando você percebe, está tendo dificuldades de respirar e dormir pensando que vai falhar, que não vai conseguir fazer a regulagem correta de soro ou que vai dar ao paciente o medicamento erado. Vai ser processada, presa e nunca mais trabalhar em um hospital.

estava profundamente ofendido e incomodado com as palavras de , mas quando percebeu para onde o discurso da mulher caminhava, resolveu apenas ignorar. Ela era maluca, não devia nem perder tempo escutando suas falações ou seu bla bla bla. não o conhecia, não conhecia seu pai e como qualquer outra pessoa, não poderia julga-los. Não mesmo.
por sua vez percebeu que o humor e aura de haviam mudado, por isso resolver torcer sua fala, tentando disfarçar e fingir que falava de si mesma. Talvez tivesse ido longe demais.
- Me desculpe. – Pediu. – Eu só...eu sempre estrago tudo.- Ela sorriu fraco. – Mas só queria dizer que isso é comum. É normal os pais errarem e reconhecer isso não significa que os amemos menos ou que eles tenham um valor menor. Só significa que compreendemos suas limitações, sua humanidade e que os perdoamos pelo que suas atitudes refletiram nas nossas vidas. Não quis ofender você ou sua família, eu só...
- Já chega. – sentenciou duro.
- Justo. – concordou.

observou de soslaio a enfermeira se levantar da maca e se sentar na poltrona novamente, de cabeça baixa e murmurando coisas para si mesma. Talvez algumas coisas que dissera fizessem sentido, mas ela não podia, não os conhecia e estava cansado de todos falando aquilo. Julgando e criticando o pai.
Jos apenas queria que o filho fosse o melhor que pudesse porque sabia que ele tinha potencial e isso não era crime, abusou ou coisa do tipo.
E julgar também não era a intenção de , mas mais uma vez tinha pecado por não conseguir manter a boca fechada. Tinha o péssimo hábito de querer se meter, se envolver onde não era chamada, falar demais ou se colocar em péssimas posições por não saber a hora de fechar a boca.

Sem perceber, sentada de maneira desconfortável naquela poltrona, adormeceu profundamente. A enfermeira apenas acordou com o som oco e alto do lado de fora do quarto, que denunciava que os bombeiros estavam trabalhando. Quando abriu os olhos, depois de alguns instantes, encontrou os olhos claros e líquidos de a encarando.
- Não estava aí planejando um homicídio, não é?
- A ideia é tentadora. – respondeu sem qualquer alteração em sua expressão.
- Você é muito emocional. – ajeitou a postura, passando a mão nos cabelos, tentando organizar os fios. – Devia levar a vida com mais leveza.
- Eu sou emocional? – riu sem humor e se pôs a encarar o teto. – Você não me conhece.
- Não preciso. – Ela deu de ombros. – Para mim, você parece alguém rancoroso que leva tudo para o pessoal.
- Disse a pessoa que há pouco estava falando da minha família. – acusou e abriu a boca, sem saber como retorquir.
- Certo, você tem um ponto. – Deu-se por vencida. – Quanto tempo eu dormi?
- O suficiente para que eu ponderasse sobre conferir se ainda estava viva.
- Não se preocupe, se eu morrer, fico por perto te assombrando. – sorriu sarcástica, arqueando uma sobrancelha.
- Que mulher adorável. Imagine como deve ser conviver todos os dias. – provocou, no fundo se divertia com as farpas trocadas.
- Se eu precisasse conviver com você todos os dias, envenenaria seu café. – falou.
- E se eu precisasse conviver com você todos os dias, eu tomaria o café. – devolveu e o encarou chocada.
- Alguém já te disse o quão péssimo você é?
- Digo o mesmo de você. – Ele respondeu, emburrado.
- Cada um tem de mim o que cativa. – levantou um ombro, debochando.
- E o que foi que eu fiz para merecer isso? – a fitou de olhos arregalados, fingindo estar mais irritado do que verdadeiramente estava.
- Eu estou sendo legal, sério. Seria bem pior se fosse outra enfermeira, mas para sua sorte, todos queriam ficar perto do paciente famoso. – deu de ombros, sem atenção.
- Paciente famoso? – se interessou um pouco mais.
- É, sabe, piloto de carros. Parece que se acidentou e veio para cá, por ser o hospital mais próximo. – Contou. – Não pude sair para comprar meu café por causa dos jornalistas lá fora.
- Você não sabe quem é? – Sondou.
- Não, não me interesso por essas coisas. – sentiu-se um pouco mais relaxada de novo. – O que parece um crime por aqui, ainda mais no dia de hoje.
- E nem teve interesse em descobrir? Quer dizer, ele é famoso. Digo, se ele é famoso como você diz, é normal querer estar por perto. – insistiu.
- Não, para que eu iria querer isso? – negou como se fosse óbvio. – Além do mais, posso me divertir mais com pacientes ranzinzas como você. – Ela sorriu e sorriu de volta.
- Que droga. – Resmungou ainda sorrindo. – Acho que não consigo ficar irritado com você por muito tempo. – sorriu aberto, piscou e inclinou rapidamente a cabeça sobre o ombro.
- Estou lisonjeada. – Falou esfregando os braços, tentando se proteger de uma brisa fria que invadiu o quarto de repente.
- Está com frio?
- É só um vento, tudo bem. – Ela desdenhou.

pensou nos prós e contras do que estava prestes a fazer por dois segundos.
- Vem, eu deixo espaço para você. – Chamou-a, chegando para o lado a puxando a manta que o cobria, para que ela pudesse se deitar.
- Não está falando sério, está? – estreitou o olhar.
- Ande logo, antes que eu desista da ideia. – sorriu. – Está frio, vai ficar resfriada e eu não quero que tenha uma crise agora e comece a chorar pensando que vai morrer de hipotermia ou coisa do tipo.
- Você já me conhece tão bem. – sorriu e o obedeceu, um pouco envergonhada.

Os dois se deitaram, um do lado do outro e esticou a manta até o pescoço. Permaneceram imóveis, encarando o teto e sem saber o que dizer ou fazer por alguns intermináveis minutos, até serem invadidos por uma violenta crise de risos.
- O que eu deveria fazer? – indagou no meio de uma gargalhada.
- Eu não sei. – respondeu. – E o que eu deveria fazer?
- Nós dois somos péssimos. – Ela riu.

Sem perceber os dois estavam se encarando, os rostos próximos um do outro, enquanto riam o suficiente para deixar os olhos fechados e úmidos. Aos poucos o riso cessou e tudo que restou foi um suave incomodo abdominal e as respirações entrecortadas. e se observavam atentamente. prestava agora mais atenção ao desenho da boca dela, a cor dos lábios, a ponta empinada de seu nariz, a pele macia e aveludada, a sobrancelha arqueada naturalmente, os cílios grossos e o castanho líquido de seus olhos.
estava perdida nos tons azuis dos olhos de , o sorriso largo, o olhar forte e que por alguma razão a transmitia boas coisas, segurança, conforto. Algumas sutis e quase invisíveis sardas em seu nariz, o cabelo que caía sobre sua testa, bagunçado.
- Nós dois somos péssimos. – repetiu a fala dela e os dois riram de novo.
- Eu acho que devia dizer alguma coisa agora, mas não sei o que. – assumiu.
- Talvez seja um daqueles momentos que o silêncio é melhor.
- Essa foi a forma mais gentil que você usou para me mandar calar a boca. – riu nasalado e com o movimento de sua cabeça, uma mecha de sua franja se soltou, caindo sobre a testa.
- Não estou te pedindo para ficar quieta. – sorriu docemente, esticando em seguida uma mão, afastando a mecha rebelde do rosto de , mas mantendo a mão junto a sua bochecha, sentindo a maciez de sua pele que constatara antes com o olhar. – Só que não precisa dizer nada se não quiser, mas se quiser, eu acho que quero ouvir.
- Primeiro você diz que não preciso ficar quieta e depois que quer ouvir o que eu quiser dizer? – apertou os olhos. – Algum pedaço do teto caiu na sua cabeça enquanto eu dormia? – Perguntou e ele riu entredentes. – Porque se sim, estou ferrada, você é minha responsabilidade.
- Posso mentir por você – Brincou ele.
- Nossa, é realmente sério. – fingiu surpresa e levou uma das mãos a testa e bochecha de . – Será que teve febre? Alguma infecção? Tomara que os bombeiros cheguem logo. – Ela riu e a acompanhou.
- Tomara? – Ele indagou, ainda mantendo a mão tocando suavemente o rosto dela, e fez o mesmo.
A enfermeira manteve o olhar preso ao do piloto, mas não ousou responder, não sabia o que devia dizer. Estava tão bem ali, apesar dos apesares, estava confortável e segura como talvez nunca tivesse se sentido antes. Mas era loucura e errado, era um paciente fragilizado e aquilo não era desculpa. Não poderia assumir que talvez, só talvez, não quisesse que os bombeiros chegassem tão rápido.
Sem intenção clara ou iniciativa de um ou outro, fez-se silêncio e os rostos do piloto e enfermeira se aproximaram, devagar, e o mundo pareceu sumir. Tudo parou, não existia nada além daquele momento, nada além dos dois deitados desconfortavelmente naquela maca de hospital, cobertos por uma manta úmida e pequena demais para duas pessoas.
Já conseguiam sentir a respiração um do outro se chocar contra a pele, sentiam o hálito e os olhos estavam fechados, a ponta do nariz se tocou, depois estavam tão próximos que seria questão de segundos até que os lábios se encontrassem enfim.
- ! – Uma voz chamou, alta demais para ser ignorada.

abriu os olhos depois de um longo suspiro e a imitou, menos quando a enfermeira se afastou, ficando sentada e depois de pé.
- ! – Alguém chamou novamente.

lançou um olhar que dizia tudo e ao mesmo tempo, não dizia nada a , enquanto de pé, aguardava e assistiu a entrada de dois bombeiros e um homem de jaleco no quarto.

[...]


Na recepção central estava uma grande confusão, bombeiros, pacientes, médicos, familiares, enfermeiros. O cenário era caótico.
caminhou entre eles ainda entorpecida, não sabia o que fazer, para onde ir. Aquelas horas junto a naquele quarto inundado pareciam ter causado mais impacto do que poderia julgar. Ainda não o tinha visto, depois que os bombeiros chegaram, não puderam trocar nenhuma palavra. Toda atenção estava nele e todos pareciam seriamente preocupados com seu bem-estar.
- Ei! ! – Sam acenou de longe, chamando sua atenção e suspirou enquanto caminhava até ele. – Que bom que está bem. Fiquei preocupado. – Ele a abraçou.
- Não aconteceu nada, só me molhei um pouco. – sorriu o tranquilizando.
- E suas crises? Pensei na sua claustrofobia, seu medo de água, seu pânico e ansiedade. – Ele listou e ela sorriu fraco.
- Está tudo bem. – Garantiu. – Estou muito bem, na verdade.

Sam a abraçou apertado mais uma vez.
- Você não viu o paciente que estava comigo, viu? – Ela quis saber.

Estava curiosa, queria vê-lo, mas não sabia o que dizer ou se devia dizer algo. Na verdade, estava com medo, sem certeza se queria estar frente a frente com ele mais uma vez, morreria de vergonha. Mas desejava saber de seu estado e se estava tudo bem.
- Está brincando? – Sam riu entredentes. – Vão leva-lo para o outro lado do hospital, para o melhor quarto. Ouvi dizer que deve ir embora assim que o tempo melhorar e processar o hospital. – franziu o cenho confusa. – O pai estava querendo a cabeça dos chefes. Se o hospital falir pela indenização ou pelo marketing ruim, não vou me chocar.
- Espera. Do que está falando?
- Como assim do que estou falando? – Sam arqueou uma sobrancelha. – , no dia que um paciente rico e famoso vem para cá, o teto simplesmente cai sobre ele e ele fica preso por horas em um quarto alagado?

O que? se chocou.
- Você disse...você disse, paciente famoso? – Indagou atônita.
- Sim, amada. O paciente que estava com você. Bateu a cabeça também, foi?

Não podia ser.
Não. Não era ele.
Mas não tinha dito sua profissão ou seu nome completo, estatisticamente, ele poderia ser o paciente famoso e isso explicaria toda atenção especial e preocupação. Por que não tinha contado? Por que fingiu ser outra pessoa?
Tudo bem que ele não havia literalmente fingido, apenas ocultou a verdade, não respondendo suas perguntas, mas não o culpava. Se estivesse em sua posição e preso em um quarto com uma desconhecida, talvez fizesse o mesmo.
- ? – Sam balançou uma mão na frente dos olhos dela, tentando chamar sua atenção.

não respondeu, colocou as mãos na cintura e respirou fundo, tentando pensar e clarear a mente, enquanto corria os olhos pela recepção. Cruzou rapidamente os olhos com alguém que estava prestes a entrar no elevador do outro lado do prédio. . Ele a encarou com o mesmo olhar que supunha ter.
Como ele não se moveu, a enfermeira avançou através do mar de pessoas, deixando Sam confuso e indo até ele.
- Então é você. – Acusou ela, mas sem raiva ou rancor.
- Desculpe. – a encarou. – Eu não...
- Não precisa se justificar. – o interrompeu. – Eu entendo, eu acho.
- Bom. Que bom. – riu fraco, surpreso e sorriu rápido, sem mostrar os dentes. – Obrigada.
- Você...você está bem?
- Sim. Ótimo. Você?
- Bem, mas não pronta para outra. – sorriu de novo e repetiu a ação. – Eu preciso ir, preciso ir para casa.
- Claro. Certo. – assentiu um pouco confuso sobre como devia agir.
- Boa viagem de volta a casa. – desejou, colocando as mãos no bolso.
- Obrigada. – sorriu. – E você, se cuide e tente não surtar.
- Vou fazer meu melhor. – piscou e lhe deu as costas.

O elevador enfim abriu as portas e foi empurrado para dentro.
- Hey. – o chamou, já um pouco distante e se esticou para segurar a porta, para ouvi-la. – Não deixe de mostrar a eles que há muito mais Ajax que Tifão. Principalmente na teimosia. – sorriu.

afastou-se da porta e sorriu grande em direção a ela, sentindo o corpo e coração esquentar. tinha bem mais de Ísis do que imaginava.

[...]


De modo inesperado o dia começou ensolarado e fresco, como eram as tardes pós chuva na primavera ou verão. abriu os olhos devagar, depois esfregou as mãos no rosto, se obrigando a despertar. A cortina estava aberta e a janela também, tornando possível ouvir o som dos pássaros do lado de fora, devia ser algo perto das nove da manhã.
Virou o corpo pesado, deixando a mão cair para fora da cama, o relógio marcava oito e trinta e sete. Marte, a cadela da família, lambeu os dedos da enfermeira, fazendo recolher a mão de susto e depois se inclinar para fora da cama, para acariciar os pelos marrons da cadela. A enfermeira respirou fundo, tomou coragem e se sentou na cama, depois se espreguiçou lentamente e ficou de pé. Estava um caco, moída e tinha tido o sonho mais maluco e gostoso de todos. Se lembrava perfeitamente das sensações que sentira, de como estava segura e de como o momento foi agradável.
se arrastou até o banheiro com Marte se embolando entre suas pernas e enquanto lavava o rosto e escovava os dentes, tentava se lembrar do que havia feito na noite anterior. O plantão deveria ser de vinte e quatro horas, não devia estar em casa naquele horário. A enfermeira ficou paralisada diante do espelho, com a escova de dentes na boca, encarando chocada o próprio reflexo, se dando conta de que o sonho não era um sonho. Era tudo real.
A chuva, o desabamento, , as horas que passaram juntos dentro do quarto. Era loucura e verdade. Não sabia como se sentir em relação a tudo aquilo, estava bem e tranquila, mas ao mesmo tempo curiosa, ansiosa.
Tudo aquilo tinha mesmo acontecido e fora bom. As provocações, a conversa, tudo tinha sido agradável e...até mesmo no fim, quando os dois tiveram uma crise de risos debaixo daquela manta úmida e fedida. sorriu enquanto caminhava em direção a cozinha.
A mãe estava sentada, lendo algo em seu celular e segurando uma xícara perto da boca.
- Bom dia. – A mais velha cumprimentou, direcionando a ela um olhar e sorriso rápido.
- Oi, mãe. – respondeu ao se sentar.
- Está melhor? Dormiu bem?
- Sim. Estou cansada ainda, mas acho que só preciso descansar. – Respondeu se servindo com um pouco de chá e feijão doce.
- Na internet só se fala do que aconteceu no hospital. – A mãe comentou. – Você não vai trabalhar hoje, não é? Foi muito perigoso aquilo, poderia ter se ferido de verdade.
- Eu não sei. – levantou os ombros, sem muita paciência para as perguntas. - Não quero pensar nisso ou sobre ontem, mamãe. Por favor.
- Tudo bem. – Ela assentiu. – A chuva fez muito estrago no jardim, vá ver depois. E aquela árvore velha do vizinho, com as raízes podres que eu disse que cairia, adivinhe? Caiu. – assentiu sem prestar atenção no que a mãe dizia. – Eu disse que teríamos problemas. Depois se você puder, queria ir até o centro comprar velas. Nunca se sabe quando teremos outra tempestade ou queda de energia. Você também precisa ligar para sua avó para dizer que está bem, ela ligou várias vezes ontem.

O som da campainha despertou de seu transe e interrompeu a mãe.
- Está esperando alguém? – A enfermeira perguntou.
- Eu não, e você?
- Ninguém que me conheça se atreveria a bater na minha porta antes das dez da manhã. – resmungou. – Eu atendo. – Se levantou, secretamente feliz por ter uma desculpa para escapar do falatório matinal da mãe.

Marte continuou andando junto a dona até a porta, não se incomodou em conferir pelo olho mágico, abriu a porta de uma vez. E arregalou os olhos, sobressaltada com a figura que encontrou. Mais que depressa pulou para fora, fechou a porta atrás de si e abraçou o corpo, escondendo o pijama velho que usava.
- Bom dia. – sorriu grande.
- Como é que você me achou aqui? – questionou desconfiada, olhando para os lados, se certificando que nenhum vizinho curioso assistia a cena.
- Não foi muito difícil. – Ele deu de ombros. – E hoje em dia dá para se conseguir qualquer coisa na internet. – Respondeu tranquilo.
- Você parece bem. – comentou, baixando um pouco a guarda e se recuperando do susto. – Está de pé.
- Foi só um susto, ontem. Digo, o acidente, ontem. – reformulou.
- Acho que tudo foi um susto, de modo geral, todo contexto. – sorriu, baixou a cabeça e depois voltou a encara-lo. – O que está fazendo aqui, famoso ?
- Não, não. – Ele sacudiu a cabeça. – Só , eu gosto assim. – sorriu. – Acho que preciso me explicar de novo sobre isso, sobre não ter contado.
- Não, , não...- começou a dizer, mas ele a atropelou.
- Eu não estou muito acostumado com pessoas me conhecendo só como eu. Apenas eu. Sempre é o piloto, o atleta, o filho do . – Confessou. – Eu só quis experimentar a sensação de ser alguém comum.
- Não precisa me explicar. – sorriu doce. – Não te julgo por isso, na verdade eu faria o mesmo. E até me sinto bem. – Ela levantou um ombro e ele sorriu.
- Ah, é verdade?
- Sim. Se soubesse que você é famoso não teria falado tudo que falei e provavelmente teria infartado tentando não surtar. – Ela gracejou.
- Fico feliz em ter cooperado, então. – gargalhou, jogando a cabeça para trás. – Apesar de que se soubesse que podia escapar daquele falatório...- coçou a nuca e desviou o olhar teatralmente, abriu a boca, incrédula.

Os dois riram alto e se olharam, do mesmo jeito que no momento em que estavam deitados naquela maca. Olhares que diziam muitas coisas, mas que nenhum dos dois saberia traduzir em palavras, só sabiam sentir.
- Eu...- balbuciou quando o silêncio já estava beirando o constrangimento. – Eu trouxe isso. Pensei que talvez você não teria tempo de comprar flores para sua mãe e que quisesse resolver essa pendência logo.

olhou enfim para as mãos dele, ainda não tinha percebido, mas trazia consigo um buquê belíssimo de tulipas, rosas e flores do campo. sorriu para ele, encantada com o gesto e sentindo-se um pouco mais aquecida por dentro, com uma felicidade morna e transbordante.
- Você quer entrar? – propôs, sorrindo timidamente depois de receber o buquê das mãos de . – Hoje não vou te oferecer nenhum café. – Disse, fazendo referência a um dos assuntos da noite anterior.

sorriu.
- Que bom, se esse fosse o preço, não me daria ao trabalho de recusar. – respondeu, também referenciado sua fala anterior.

e sorriram, com os lábios, olhos e coração, depois entraram na casa.




Fim?



Nota da autora:
O projeto: Essa fanfic faz parte do projeto Drive to Survive, um projeto no qual 11 autoras apaixonadas por Fórmula 1 se reuniram para escrever uma short para cada piloto do grid, divulgando e homenageando esse esporte incrível. você pode acessar as histórias aqui Shortfics - Fórmula Um.
Agora recebemos de coração aberto Max "Super Max" Verstappen.
Esperamos que curtam nossa proposta e embarquem nesse mundo com a gente.
Não esqueçam de deixar aquele comentário no final e motivar uma autora a sempre continuar.
Beijos e até a próxima! <3

A autora: Minha gente, é um prazer fechar minha participação nesse especial com essa preciosidade.
Essa fic demorou, mas quando fluiu, saiu em uma tarde/noite. Adorei escrever e retratar um pouquinho das minhas próprias questões, me vi super na pp e tudo que queria para a vida é um pp massa assim.
Esse projeto foi especial de muitas maneiras diferentes, eu aprendi, cresci, foi lindo. E depois de quase um ano, acho que encerro minha participação nele agora com o coração transbordando gratidão.
Para além disso, essa fic foi um presente para mim e quero que seja para um ser muito iluminado que me mostrou que ainda existem pessoas completamente puras e gentis no mundo. Beca, talvez não seja muito, mas cada palavra escrita aqui foi pensando em você <3
À Carol F, que além de minha guia nesse percurso todo, também é super fã do Super Max e que me deu a honra de escrever essa preciosidade e me acompanhou durante o processo deste especial.
Muito amor para vocês, minhas lindas! <3
E caso alguém queixa deixar algum comentário para motivar essa autora feliz, pode comentar clicando aqui.



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