Última atualização: 14/07/2022

zero

Seu tímpano ainda parecia reverberar, seguindo uma batida que ele não sabia se era o eco persistente de seu amplificador recém-abandonado ou apenas uma tentativa de seu coração de mostrar que estava prestes a explodir e pular pela boca.
A segunda opção parecia mais coerente. Especialmente quando aqueles morcegos horrorosos continuavam se arremessando contra o alambrado, expondo as presas e guinchando.
Mas mesmo com a confusão do som intruso, ele pôde facilmente compreender o que estava acontecendo quando o barulho lá fora mudou:
— Eles estão no teto - Eddie disse, erguendo sua lança improvisada e torcendo para que Erica tivesse feito um bom trabalho com ela.
— Merda, merda, merda, merda, merda - Dustin continuou repetindo, mudando o foco de seu olhar para onde o amigo apontava. Com alguns passos, ele enxergou o verdadeiro problema. — Eles não conseguiriam entrar, né?
Em um rompante, imediatamente seguido pelos gritos dos dois, a ventoinha foi brutalmente quebrada por um daqueles pequenos demônios grotescos.
— Morram! Morram, seus merdas! - Dustin bradava, enquanto impulsionava a lâmina para o alto, buscando acertá-los antes que pudessem tomar a péssima decisão de entrar.
O mais velho seguiu seus movimentos, imitando-o e impedindo que os bichos os alcançassem. Precisavam ganhar para os outros o máximo de tempo que conseguissem. Aquilo não seria o suficiente para atrasá-los.
Eddie olhou ao redor, tentando pensar em alguma forma mais efetiva de lidar com o problema. Lanças enfiadas em um buraco no teto não seriam o bastante. Não quando eles eram dois e aqueles malditos eram pelo menos várias dezenas.
— Eddie! - Dustin berrou. — Eu preciso de você.
Foi então que ele viu. Era óbvio. Qual era a melhor opção para lidar com um buraco indesejado?
— Sai da frente! - Gritou de volta e, assim que o garoto se retirou de seu caminho, Eddie empurrou uma cadeira dobrável de metal, fincou os pés sobre ela e forçou o escudo cheio de pregos contra a entrada.
As asas passaram a bater novamente; o som cada vez mais baixo, tornando-se distante. Eddie só percebeu no momento em que abaixou os ombros que estava segurando o ar.
— Puta merda - disse, respirando fundo.
Dustin parecia tão atordoado quanto ele.
— Boa.
— Valeu.
Entre uma respiração profunda e quase paradoxalmente entrecortada e outra, tiveram tempo de tocar as mãos no alto. A sensação de alívio, contudo, durou muito menos do que eles gostariam.
— Tem outros dutos? - Dustin o questionou.
— Ah, merda - Eddie praguejou antes de correr para o lado oposto, torcendo para que não fosse tarde demais. — Merda, merda, merda.
Antes que pudesse reagir, os monstros surgiram em sua frente. A única coisa que ele poderia fazer era fechar a porta entre eles e torcer que o material - seja lá do que fosse feita aquela porcaria - fosse resistente o bastante.
Não precisou de muito tempo para ter a resposta para sua pergunta.
— Isso não vai dar conta! - Dustin berrou, desesperado, atrás do amigo que ainda empunhava sua lança e o outro escudo que tinham feito com tampas de lixo.
Cada segundo que passava equivalia a uma rachadura na porta. Uma rachadura que só se tornava maior e mais ameaçadora, esfregando na cara deles o presságio inevitável de seu próprio fim.
“Nada de tentarem ser os heróis” - a voz de Harrington ecoava em sua mente. No fundo, eles sempre souberam que não poderiam vencer.
— Vamos! Anda!
Manteve a guarda enquanto o garoto subia pelo lençol amarrado, retornando para a versão de sua casa que ficava em outro plano. Um plano em que os monstros eram as pessoas e não morcegos famintos que estavam possuídos (de forma mais literal do que o necessário).
Dustin aterrissou no colchão sem muita classe. Não havia tempo para manobras, acrobacias ou boas notas em uma prova de ginástica artística das Olimpíadas. Abriu logo o espaço para permitir que o amigo descesse.
O barulho na porta se tornou mais alto. A sinestesia perfeita entre som e imagem, parecendo que o único obstáculo entre eles se romperia a qualquer segundo.
— Eddie, vem logo!
Ele soltou a lança e o escudo, impulsionando o corpo para frente. Mas parou. O que é que ele estava fazendo?
— Anda, Eddie! Vem logo!
Existia uma teoria de que, ao se encontrar à beira da morte, uma pessoa seria capaz de ver flashes da sua vida passando sob seus olhos, recapitulando os capítulos anteriores, apenas para que o livro pudesse encontrar sentido para aquele epílogo. E foi naquela fração de segundo que ele a viu.
Chrissy, tão aflita e perdida, precisando de um ombro amigo muito mais do que das drogas que pensava serem a melhor opção. Chrissy que enfrentava seus próprios demônios com um sorriso simpático e a garantia de que estava tudo bem e ninguém precisava se preocupar com ela, muito obrigada. Mas ele se preocupara. E, mesmo assim, isso não tinha sido suficiente para evitar que seus ossos fossem quebrados e sua vida retirada por aquele monstro maldito bem diante dos seus olhos.
Não era justo. Nada em toda aquela história era justo. Mas o que mais lhe consumia por dentro era que, por mais que provavelmente não pudesse salvá-la, ele sequer havia tentado. Ele tinha fugido.
Ele não aguentava mais fugir. E sabia que jamais conseguiria viver com o fardo de, mais uma vez, não ter tentado.
— Anda logo, Eddie! Está super perto! - Dustin berrava, pulando no próprio lugar sem conseguir conter a própria energia que se acumulava ao epítome de seu desespero.
Eddie deixou a força se esvair dos nós dos dedos que agarravam o lençol, retornando ao chão.
O amigo continuava olhando para o alto, sentindo o desalento preencher o peito. Uma angústia que ele não conseguia verbalizar. Uma súplica que mal conseguia sair de seus lábios:
— Eddie!
Mas ele parecia tomado por um ímpeto de objetividade e certeza que nunca antes havia sentido. Virou-se para trás, encontrando a lança que há pouco havia abandonado em sua rota de fuga. Dustin se deu conta do que estava acontecendo.
— O que está fazendo? Eddie, não! - Os gritos faziam sua garganta doer, com as palavras quase literalmente cuspidas com toda a agonia que lhe invadia como uma machadada bem no meio do tórax.
Em um movimento decisivo, cortou o lençol que servia de ponte para o portal entre mundos. Afastou o colchão e se armou novamente.
— Eddie, pare! Eddie, o que você está fazendo?
— Estou ganhando tempo.
— Não! Eddie, por favor!
As lágrimas que corriam pelo rosto de Dustin eram evidências do mais completo desespero. Não era esse o plano; não era esse o plano. O plano era distrair os morcegos e voltar em segurança, não perder um de seus melhores amigos.
Ele levou as mãos à cabeça, apertando o gorro contra os cabelos, sentindo vontade de puxá-los com força, na vã tentativa de criar uma dor física que pudesse se sobressair àquela.
Quando Eddie sumiu de seu campo de visão e abriu a porta do trailer, correndo em direção à eterna noite do Mundo Invertido, Dustin soube que nenhuma dor jamais conseguiria ser maior.
Ignorando os gritos do amigo, o mais velho pegou a bicicleta e saiu em disparada em direção a qualquer lugar. Precisava atrair as criaturas para longe dali. Longe dos portais e longe da possibilidade de fazerem mal novamente a quem ele amava.
A adrenalina era suficiente para compensar todas as várias horas de exercício aeróbico que ele não fez. Suas pernas pedalavam o mais rápido possível, sem sentir fadiga muscular por um segundo sequer. Era só disso que ele precisava. Mais tempo.
O céu salpicava em raios vermelhos, nuvens e neblina entremeadas por uma iluminação digna de filme de terror, enquanto os morcegos faziam questão de gritar durante todo o trajeto atrás dele, apenas lembrando-o de que estavam ali e não pretendiam ir embora. Como se ele pudesse se esquecer.
— Venham me pegar, seus putos!
Ele encontrou força para pedalar ainda mais rápido, impulsionando os pés contra os pedais e inclinando o corpo para frente intuitivamente. Só precisava ir mais longe, um pouco mais…
Tudo o que sentiu foi o impacto na lateral do corpo, roubando-lhe o ar e o levando de encontro ao chão.
De alguma forma, tinha conseguido rolar durante a queda e logo se colocou de pé, correndo o quanto podia.
Um daqueles monstros teria que pará-lo, talvez o próprio Vecna. Mas nenhum deles precisou se dar ao trabalho. Eddie interrompeu sua passada por si só, invadido pela memória da própria voz, dizendo as palavras que mais lhe envergonhavam em todos os seus recém-completos vinte anos de vida.
“Eu não sabia o que fazer, então eu fugi. Eu fugi e a deixei lá.”
Não. Não dessa vez.
“Olhe só para a gente. Estamos longe de ser heróis.”
Será mesmo? Eddie não sabia exatamente o que diabos significava ser um herói. Tudo o que ele sabia era que heróis nem sempre venciam, mas, ao menos, morriam tentando.
Com a lança empunhada e o escudo em posição de defesa, virou-se para a revoada no céu, trazendo tons ágeis de preto para aquela gênese de tempestade vermelha.
Era como se aqueles bichos estivessem tão afoitos e sedentos que, mesmo eles, precisaram de um tempo para perceber que sua presa havia decidido lutar.
Com um grito estridente, um dos morcegos se jogou em sua direção, sendo logo seguido por todos os outros.
Munson se colocou atrás do escudo, livrando-se de alguns deles que se jogavam em direção ao próprio fim sem muito pensar.
Suas contas deveriam estar erradas, ele percebeu. Não eram apenas dezenas. Com certeza havia centenas daqueles desgraçados apenas esperando por um movimento errado seu.
— Venham!
E eles obedeceram. Entre atacar com a lança e se defender com os pregos, Eddie parecia absorto em uma complexa e minuciosa coreografia do caos. Os morcegos atacavam gritando e caíam gritando. Ele já estava cansado deles.
— Sério, pessoal? - Perguntou, enquanto tomava fôlego. — É assim que vocês agradecem pelo melhor show da vida miserável de vocês? Quanta ingratidão.
Mais gritos pareciam ser a única resposta que ele receberia. Isto e a sede de sangue daqueles dentes afiados que conseguiam chegar cada vez mais perto de seu rosto. Eram muitos e, por mais que vários já tivessem encontrado o chão pela última vez, parecia que mais e mais vinham de alguma fonte inesgotável de criaturas asquerosas.
Eddie não sabia por quanto tempo mais aguentaria, mas não parecia muito. E dessa vez, nem era o seu cômico pessimismo característico falando.
Em um descuido de uma fração de segundo, sua lombar havia ficado exposta. O grito provocado pela dor lancinante das presas enfiadas profundamente em sua carne parecia ter conseguido superar em altura o som de ‘Master of Puppets’ de sua guitarra ligada ao amplificador. Se ainda tivesse algum canto daquela realidade que não o tivesse ouvido antes, com certeza não tinha escapado de ouvi-lo agora.
— Seu puto - Eddie xingou entre os dentes, fincando a lança bem no meio do corpo asqueroso daquele sanguessuga maldito. — Por que não arranja algo melhor para fazer?
Os cabelos estavam grudados no rosto e na nuca. A bandana ensopada colava contra a testa. A mão direita já tinha se adaptado tanto ao formato da haste da lança que ele duvidava fortemente que seria capaz de soltá-la quando isso acabasse.
Isto é, se ele saísse vivo dessa.
Ao ver a quantidade deles ainda sobrevoando, ele precisava ser realista. As expectativas não eram as melhores. Mas era de tempo que ele precisava. Nada mais do que isso.
— Isso é tudo que vocês têm? - Ele ouviu a própria voz vacilar entre a risada quase maníaca. O lugar onde fora mordido ardia feito o inferno e ele teve que se perguntar se, além de tudo, aqueles malditos não poderiam ter veneno. Realmente era só o que faltava. — Eu esperava mais de vocês.
Eles baixaram voos rasantes mais uma vez, atacando-o de múltiplos lados. Munson contra atacou como pôde, ainda conseguindo matar alguns e afastar outros.
Mais um maldito sorrateiro tinha conseguido encontrar sua pele, cravando os dentes em sua panturrilha. Eddie quase uivou de dor.
— Desgraçado - praguejou, arrancando-o com a lança.
A tempestade vermelha parecia estar aumentando, o tempo também se fechando como se em uma contagem regressiva para o ‘grand finale’. Se aquele ainda era o começo, ele tinha quase certeza de que não queria conhecer o fim.
Em um relâmpago que caiu perto demais, fazendo-o apertar os olhos em reação reflexa, o mundo estourou em um trovão estrondoso. Os morcegos se afastaram, alçando voo para longe, recolhendo-se para onde fosse a cova do mal deles.
Eddie respirou fundo, caindo de joelhos ao chão. A panturrilha atacada estava tremendo e todos os demais músculos estavam fracos, exauridos da batalha. Levou a mão trêmula às costas, encontrando a viscosidade residual do próprio sangue na ferida aberta.
Ele detestava sangue. Mesmo. Mas nunca tinha desmaiado por causa disso. Era estranha aquela sensação de formigamento que parecia vir caminhando das pontas dos dedos em direção aos braços. Os olhos pesavam e ele se sentiu mais cansado do que poderia explicar. Que esquisito. Talvez ele só precisasse descansar um pouco a vista.
— Eddie! Eddie!
Ele já não enxergava com a melhor das definições quando sentiu duas mãos quentes tomando sua cabeça e a apoiando em algo que ele não saberia reconhecer. Mas ele reconhecia aquela voz em qualquer lugar.
— Henderson - murmurou, em reconhecimento. Uma risada fraca escapou de seus lábios. — O que você está fazendo? Era para estar em casa. Isso não é hora de criança ainda estar fora da cama.
— Eddie. - A voz era chorosa. Por que ele estava chorando? — Por que você fez isso?
Ele tentou dar de ombros. Não sabia se tinha conseguido movimentá-los.
— Eu só estava brincando um pouco, Henderson. Nada demais. - Ele sentiu a respiração sendo recebida pelas narinas entre picotes. — Dessa vez eu não fugi, né?
As mãos de Dustin tremiam sob sua nuca. Eddie conseguiu ver o rosto do amigo, tomado de preocupação e um pesar que ele não compreendia.
— Você vai ter que cuidar da pirralhada por mim, tá? Diga que vai cuidar deles.
— Eu vou cuidar deles - respondeu, com a voz embargada.
— Que bom. Porque acho que finalmente vou me formar. Acho que esse é meu ano, Henderson. Acho que é finalmente o meu ano.
— É claro que é. Então aguenta firme, cara. Por favor.
Eddie sorriu de leve, deixando que os olhos se fechassem, pesando mesmo com a luz incômoda dos raios.
— Relaxa, Henderson. São só uns machucados de nada. Eu não vou a lugar algum.
Dustin o chamou repetidamente, implorando para que ele continuasse acordado; continuasse com ele. Mas Eddie sabia que podia fechar os olhos só um pouquinho. Estava mesmo muito cansado.
— Eu te amo, cara.
Só precisava de um tempo.

um

Ele desistiu de abrir os olhos com tanta agilidade ao sentir os efeitos da iluminação queimando suas pupilas de uma só vez. E, pior ainda, sua cabeça doía tanto que ele não tinha certeza de que seria capaz de sequer se sentar e aguentar o efeito da gravidade sobre ela. Por Deus, era como se tivesse tomado uma surra.
Pensando bem… Se sua memória nebulosa não estivesse lhe enganando, ele meio que se lembrava exatamente disso.
Em um movimento quase involuntário, levou os dedos à cabeça, pressionando inutilmente um ponto em sua testa que parecia ser o epicentro de toda a dolorosa destruição que sentia.
— Puta merda! Puta merda! - Os gritos ao seu lado ficaram mais altos e ele apertou os olhos, enrugando a face em uma careta. — Você acordou. Gente, ele acordou!
Sua garganta estava extremamente ressecada e ele nem sabia se ainda era capaz de produzir saliva. Mesmo assim, encontrou forças para que sua voz rouca dissesse:
— Droga, Henderson. Onde é que fica o botão para te colocar no mudo?
Dustin riu alto e Eddie sorriu levemente, apreciando em silêncio o quão estranhamente reconfortante era ouvir aquele som que tinha aprendido a adorar. Não demorou para que o garoto se jogasse em cima dele, abraçando-o. Pelo jeito, havia se esquecido das feridas - e Munson tinha, por isso, acabado de se lembrar delas.
— Você não tem noção de como eu estou feliz em te ver bem. Quer dizer, pelo menos vivo.
— Eu te avisei que eu só precisava descansar um pouco, garoto.
— Sim, você descansou um pouco. - Outra voz interveio. — Por uns três dias inteiros.
Munson finalmente se esforçou para abrir os olhos, encontrando Steve, Robin, Mike e Lucas se amontoando no pequeno espaço oferecido pelo batente da porta.
— E daí vocês começaram a festa sem me convidar - Eddie concluiu. — Não quero nem saber o que vocês cinco fizeram com o meu pobre corpo durante três dias.
Robin riu, meneando a cabeça.
— Quem falou sobre cinco? Tem basicamente um time de futebol aqui fora só esperando a Bela Adormecida acordar do seu sono de beleza.
— Que não adiantou muito - Dustin completou. — Você está absolutamente horrível.
Eddie deu um tapa rápido, tirando as mãos do garoto de seus cabelos. Não precisava de espelho nenhum para imaginar o quão desgrenhados seus fios deveriam estar depois de tanto tempo desacordado. E não é como se ele estivesse se parecendo exatamente com um garoto propaganda de tratamentos capilares profissionais antes de tudo aquilo acontecer.
Tudo aquilo… Ele nem se lembrava de tudo o que havia acontecido e, ainda sim, era muita coisa para absorver e aceitar. De repente, ele levou os dedos fracos à lombar, encontrando o que, pela textura, ele imaginava ser um combinado de bandagens e esparadrapos. Não parecia um curativo dos mais cuidadosos, mas também não parecia que ele pudesse receber um atendimento médico melhor do que aquele dadas as atuais circunstâncias.
— Nancy fez os curativos - Steve se adiantou a explicar. — Ela também te arranjou uma remédios que a Joyce disse que seriam bons.
— E quem é Joyce?
— A mãe do Will e do Jonathan - Mike respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Eddie balançou a cabeça concordando. Droga, ele queria ter forças para ser debochado, mas estava completamente perdido.
— E quem raios são Will e Jonathan?
— Certo, certo - Lucas concordou. — Tem razão, você ainda não conhece a parte dos nossos que se mandou para a Califórnia.
— Tenho certeza de que são adoráveis. Como surfistas bronzeados e cheios de padrões hollywoodianos que fazem todo o sentido em Hawkins.
Dustin gargalhou alto, expondo o aparelho fixo.
— Meu caro Eddie, você não podia estar mais errado.
— Bom, isso é realmente um grande alívio.
— Você vai adorar conhecê-los. Sério, eles são ótimos e…
O garoto tinha entrado em um daqueles momentos típicos em que simplesmente parecia funcionar como uma torneira de palavras impossível de ser fechada. Isso acontecia muito e, no geral, ele apenas deixava que Henderson colocasse tudo o que quisesse para fora e, por pior amigo que isso o fizesse, desistia de absorver mais da metade do que ele dizia. Era impossível acompanhá-lo. Mas, naquele momento, ele não tinha condição de ouvir mais uma sílaba sequer. Não quando tinha acabado de se lembrar de algo obviamente muito mais importante do que qualquer coisa que ele pudesse estar intencionado a dizer.
— Wow, wow, wow. Calma, calma. E a garota? - Ele estalou os dedos, esforçando-se para recordar. — Max. Como está a Max?
Eddie procurou o olhar que tinha certeza de que denunciaria qualquer sinal de que algo de ruim tivesse acontecido. Encontrou os olhos de Lucas e a única coisa que conseguia ver neles, por trás da névoa de puro cansaço, era o alívio. Imediatamente, sentiu o próprio coração afrouxar o aperto que não percebera estar sentindo.
As palavras saíram de sua boca praticamente em um sopro, eliminando parte do peso dos ombros juntamente ao ar dos pulmões:
— Graças a Deus.
Sinclair conseguiu esboçar um sorriso fraco. O mais velho apenas aquiesceu, torcendo para que ele entendesse que aquela era a sua maior expressão e demonstração de apoio para o momento.
Com a ajuda de Dustin, Eddie conseguiu se colocar sentado, encostando o dorso em uma almofada que ele soube imediatamente que não era dele.
Depois do choque do despertar, fora só naquele momento que ele finalmente percebera que não reconhecia o lugar. Não tinha nenhuma sensação de identificação com as paredes construídas por tábuas de madeira que imploravam por manutenção ou com o cabideiro com roupas que pareciam ao menos dois tamanhos maiores do que qualquer um deles.
Mike logo percebeu a confusão em seus olhos e se adiantou:
— Foi mal. Era o único lugar que conhecíamos e sabíamos que era seguro. Por experiência própria.
Munson apertou os lábios, encarando o calendário na parede, que exibia orgulhoso a página de ‘Outubro de 1985’. A reprovação repetida deveria ser indício suficiente de que ele não era lá o melhor do mundo com contas ou raciocínio lógico, mas mesmo ele sabia que aquilo não estava certo. Sequer estavam no mesmo ano. E ele achando que era ele o perdido no tempo…
— A cabana tinha ficado vazia desde então - Dustin explicou. — Não voltamos no tempo.
— Era só o que faltava depois de toda essa loucura. Henderson, eu juro, se eu tivesse que passar por tudo isso de novo…
Os demais presentes trocaram olhares consternados que não o tranquilizaram por um segundo sequer. Claramente sabiam de coisas que seu cérebro preguiçoso nem sonhara em descobrir durante o curto pseudocoma, em que decidira aproveitar o feriado prolongado longe de toda aquela loucura.
O problema era que a pior parte das férias sempre seria voltar à realidade.
— Cara, a gente tem muita coisa para conversar.
— Vem, eu te ajudo a levantar - Steve ofereceu, já encaixando seus braços sob as axilas do outro e dando o apoio para que ele se colocasse de pé. Eddie piscou com força, sentindo-se imediatamente tonto. — Vamos nos juntar aos outros na sala e te explicamos tudo. Henderson, vai fazer um sanduíche para o cara ou qualquer coisa que o impeça de desmaiar nos próximos quinze minutos.
— Por que eu?
Steve o olhou incrédulo, erguendo o tom de voz.
— Porque ele poderia muito bem ter morrido para te salvar. Parece motivo suficiente para você, seu merda?
Dustin bufou, seguindo na frente a contragosto para descobrir o que tinha sobrado dos últimos dias nos armários e geladeira.
Harrington apoiou Eddie melhor no braço, sendo cauteloso ao perguntar se ele estava confortável daquela forma, se conseguia andar, se precisava de mais alguma coisa. Munson não fazia o tipo que esperava pela ajuda dos outros. Sequer era do tipo que estava acostumado a recebê-la - ainda mais de bom grado. Naquele momento, contudo, nem seu orgulho conseguiria ser tão estúpido para dispensar o apoio de outra pessoa quando ele se sentia mais fraco do que nunca. Física e psicologicamente.
Era quase como reaprender a andar. As pessoas não tinham memórias exatas da primeira infância e seus marcos. Não se lembravam da primeira comida, das primeiras palavras ou dos primeiros passos. Eddie, no entanto, tinha quase certeza de que a sensação na época deveria ser bem parecida com a que ele sentia agora. Apenas substituindo o brio do novo aprendizado pela frustração de se sentir incapaz de sustentar o próprio peso.
— Tudo bem aí? - Steve perguntou mais uma vez.
O outro pensou em alguma resposta sarcástica e levemente desrespeitosa que pudesse lhe oferecer. O mínimo que deveria fazer era manter a essência despojada e a ironia que - jamais admitiria - usava como mecanismo de defesa em relação a todo e qualquer ser vivo que decidisse cruzar o seu caminho.
Mas não conseguia. De repente, deu-se conta de que não precisava daquilo.
— Tudo, garotão - respondeu. — Obrigado.
— Sobre esse apelido - começou. — Eu não sei se me sinto muito confortável com ele.
— E é exatamente por isso que ele continuará sendo usado. - Eddie quase agradeceu pela oportunidade fácil e gratuita de ser um pouco zombeteiro. — Tenho certeza de que já te chamaram de coisas muito piores.
— Ah, sim. Tenho o orgulho de ter sido um dos primeiros a ousar fazê-lo.
Eddie ergueu o olhar, encontrando o desconhecido que proferira aquelas palavras. Ao redor do jovem, várias outras pessoas se espalhavam pela sala que mal poderia ser chamada de cômodo e definitivamente não contava com espaço suficiente para toda aquela gente. O corpo de bombeiros adoraria impedir uma superlotação daquelas.
Seu foco, entretanto, recaiu sobre outro detalhe; uma coisa pequena e singela que poderia ter passado despercebida por literalmente qualquer pessoa em todo o universo. Qualquer pessoa menos ele.
Era a primeira vez em toda a sua vida em que ele adentrava um ambiente sem se sentir como o deslocado ou o indesejado. Aquelas pessoas sorriam para ele. Sorrisos que demonstravam simpatia, contentamento, gratidão. Ele não precisava ser nenhum especialista em linguagem corporal para saber que era bem-vindo ali. Que, de alguma forma, pertencia àquele meio. Era quase ridículo que tivesse encontrado seu lugar entre alguns conhecidos e outros completos estranhos. Ainda mais depois de uma experiência de quase morte.
— Quer dizer que vocês começaram a festa sem mim? Isso não é lá muito educado, é?
Steve o ajudou a se sentar em uma poltrona gasta, com um buraco que se mostrava um tanto desconfortável sob sua coxa direita. Se nenhuma mola o atacasse, provavelmente já poderia considerar aquilo como uma grande vitória.
— É bom te ver acordado - Nancy disse, com um sorriso que aprofundava as marcas de expressão ao redor da boca, simulando uma pequena covinha no canto direito.
— Acho que te devo agradecimentos pelos curativos. E suponho que precise agradecer pelos remédios a Joyce?
A mulher ergueu a mão, acenando um cumprimento rápido. Eddie meneou a cabeça, em reconhecimento.
Dustin logo voltou, entregando a ele um prato com três fatias de pão branco intercaladas por maionese em excesso e um pouco de queijo e peito de peru.
— Foi o melhor que eu pude fazer - justificou-se. — Esses trogloditas acabaram com a comida toda.
— É por isso que Murray e Dmitri já foram ao mercado - disse um homem com voz grossa e postura séria. Eddie o reconhecia das histórias e imagens que tinham se espalhado pela cidade no último ano, exibindo o herói de Hawkins para quem quisesse ver. Ele parecia bem mais magro do que nas fotos.
— Você não deveria estar morto?
— Acho que posso falar o mesmo de você, garoto - Hopper respondeu, com um sorriso de canto. — Não tínhamos a melhor das esperanças de que você fosse acordar. Eles te tiraram muito machucado lá de baixo.
— Agradeço pelo resgate. Se me lembro bem das histórias dos meninos, vocês devem ser os irmãos: Jonathan e…
— Will, o Sábio - o garoto se apresentou, arrancando um sorriso largo do mestre. Dustin sempre lhe dissera que a única pessoa capaz de retirá-lo do posto de aficionado número um por Dungeons & Dragons era o Byers caçula. Mal podia esperar para começar uma longa e complexa campanha, agraciado pela paixão dele.
— Eddie, o Banido.
— E essa é a El - Will apontou para a garota, que acenou de forma quase tímida.
— A garota dos superpoderes - Eddie concluiu, observando descaradamente cada centímetro dela em busca de qualquer sinal que a fizesse parecer menos… Bom, como uma adolescente normal. Se é que isso existia. — Qual é a do cabelo?
Mike abaixou o olhar, mordendo o canto da boca de forma desconfortável. Se não estivesse tão curioso, o mais velho teria tido tempo para se arrepender profundamente ao perceber a possibilidade de ter tocado em algum assunto sensível.
— Papai raspou - ela respondeu simplesmente, levando a ponta dos dedos à linha na nuca em que os fios terminavam.
— Bom, bem-vinda ao clube dos filhos com pais de merda. Se serve de consolo, te deixa bem fodona.
— Poderosa - ela e Max disseram ao mesmo tempo, trocando risadas que o fizeram sorrir também.
— É bom finalmente conhecê-los - Eddie disse. — Mas será que agora alguém pode me explicar o que foi que aconteceu?
Imediatamente, procurou o rosto da pessoa que mais parecia gostar de ouvir a própria voz no mundo. Nunca tinha visto alguém que amasse tanto falar. Sabia que não precisaria de força de convencimento alguma para instigá-lo a começar a contar a história.
E foi exatamente o que Dustin fez.
Depois de perguntar do que exatamente Munson se lembrava, Dustin recapitulou rapidamente a cena com os demobats, explicando que Eddie havia sido mordido por vários deles e apagado logo na sequência, depois de - em suas palavras - ter tentado se matar estupidamente.
Os morcegos tinham se dissipado graças a Eleven, que havia batalhado contra o Vecna - também conhecido como 001 ou Henry - em uma imersão na mente de Max enquanto a ruiva estava sendo atacada pelo monstro.
— Viu só o que eu disse? Fodona.
Henderson dispensou a interrupção e prosseguiu com seu monólogo, explicando que tinham conseguido enfraquecer o vilão com o ataque duplo: Nancy - com suas armas que não deixavam de impressionar Eddie -, Robin e Steve contra a manifestação corpórea e Eleven usando os poderes contra o suposto “irmão”. Pelo jeito, tinha mesmo encontrado alguém com um histórico familiar ainda mais confuso e exorbitantemente mais disfuncional que o dele.
Enquanto isso, Hopper - que estava no Alasca, depois de ter sido sequestrado pelos russos no ano anterior -, Joyce, Murray e Dmitri tinham sua própria cota de demogorgons no extremo norte do continente para destruir.
Max estava bem - ou ao menos tão bem quanto poderia estar uma pessoa que vinha sendo perseguida por um psicopata que não tinha sequer educação suficiente para pedir licença antes de invadir a mente de alguém. Lucas havia conseguido colocar os fones com Kate Bush no volume máximo no limite de tempo para impedir que ela entrasse para a contagem de vítimas fatais.
Jason, aquele desgraçado, tinha conseguido se colocar perto demais de colocar absolutamente tudo a perder. Havia ameaçado Lucas com uma arma que o mais novo, habilmente, havia sido capaz de chutar para baixo de um dos enormes armários da casa Creel. Tomado pela reverberante adrenalina e o desespero de ver Max sendo erguida do chão mais uma vez, mostrou-se muito mais forte do que jamais pensara ser e conseguiu controlar o playboy a tempo de trazer a ex-namorada de volta, bem em frente aos seus olhos.
Depois do que aconteceu, Jason havia tido tempo de presenciar as lágrimas de Max, agradecendo sem parar por ter sido salva, enquanto Lucas a abraçava da forma mais protetora que ele já havia visto. Ao que tudo indicava, a cena o tinha feito se culpar ainda mais por não ter podido ajudar a própria namorada, Chrissy Cunningham. Havia deixado Hawkins junto dos pais no dia anterior, sob o pretexto de estendidas férias em família antes que o ano letivo começasse na faculdade, onde teria seu tempo completamente tomado pelos estudos e pela cobrança dos treinos de basquete, especialmente sobre os bolsistas do esporte.
— Menos um otário na cidade - Eddie disse, bebendo um longo gole de água que Max havia pego para ele. — Deve ser por isso que o ar até parece mais limpo.
— É que mais da metade do oxigênio da atmosfera estava sendo usada só para manter o ego dele vivo - Dustin explicou.
— Tem razão - o mais velho concordou. — Resumo da história: tudo deu certo e eles viveram felizes para sempre.
— Só que não - Mike interveio. — Não acabou ainda.
— Um está fraco - El explicou. — Mas ele não desistiu ainda. Está se recuperando para voltar mais forte.
— Ele aprendeu as nossas fraquezas e nós as dele - Nancy continuou. — Com certeza está procurando um jeito de superar as suas.
— E nós precisamos superar as nossas - Max concluiu.
— Tipo ser acusado de três assassinatos - Dustin disse, recebendo um carinhoso dedo do meio de Eddie.
— Não sabem a saudade que eu sinto de quando a única coisa pela qual me culpavam era por não conseguir tirar uma nota melhor que D em química.
— Talvez a gente tenha conseguido dar um jeito nisso - Robin falou. — Na parte do assassinato, não da escola. Nisso, com certeza eu pelo menos jamais poderei ajudar.
— Acho que já está na hora, Jim - Joyce o avisou, tocando seu ombro em um rápido afago. — Consegue ligar a televisão?
Hopper ajeitou as antenas e se certificou de que o aparelho estivesse bem conectado àquela tomada que, constantemente, decidia dar mau contato. Com dois tapinhas - intensidade pertinente apenas na visão dele - no tubo, o aparelho deu uma leve rangida e finalmente funcionou. O homem sintonizou no canal de interesse e aumentou o volume.
Eddie estava longe de poder dizer que entendia o que estava acontecendo. Porém, vendo a atenção extrema que todos deram para a tela, decidiu que fazia sentido que simplesmente fizesse o mesmo. Raramente - muito raramente mesmo - era melhor só ceder e cumprir as convenções sociais. Era mais fácil.
Não era como se ele fosse o maior fã de programas de televisão, ainda mais da parte séria deles. Mesmo assim, arriscaria dizer que aquele deveria ser o noticiário da tarde. Talvez já tivesse visto aquela repórter em algum momento em que o tio Wayne estava assistindo ao jornal. Além dela, reconhecia o atual chefe da polícia de Hawkins, um representante das forças armadas (que ele só sabia quem era porque tinha o nome e a condecoração bem evidentes em sua farda) e um homem com jaleco bordado ‘Dr. Owens’.
O ambiente era carregado não só de seriedade extrema, mas também de câmeras enormes em excesso e fiações de microfones tentando capturar quaisquer sons daquele que parecia ser um momento crucial para toda a cidade.
O chefe da polícia testou o microfone com certeiros toques do indicador, antes de pigarrear de forma indiscreta e começar a falar.
— Caros cidadãos de Hawkins, esperamos encontrar todos bem e, antes de tudo, oferecemos nossas condolências às famílias daqueles que perdemos em meio a toda essa bagunça que tomou nossa cidade nos últimos dias.
O longo silêncio que veio em seguida só serviu para tornar o ambiente ainda mais cheio de tensão. Todos sabiam que era um movimento vindo do mais puro respeito pelo luto de tantos que não tiveram a mesma sorte que eles, mas ninguém era capaz de ignorar o batuque dos próprios corações nervosos, ansiando por informações, esclarecimentos ou qualquer notícia minimamente boa que pudesse minimizar o desastre. Ou ao menos dar um tempo a ele para se manter estático; não piorar.
— Assim como todos vocês, o que sempre quisemos foi uma resposta para tudo isso. E, nos últimos dias, trabalhamos incansavelmente, junto ao exército e as melhores equipes forenses e científicas, para obter essas respostas.
“Nós avaliamos as cenas, as testemunhas e, acima de tudo, os possíveis mecanismos envolvidos nas mortes. Quem viu os corpos ou ouviu as histórias sabe que não existe nenhuma forma humana de criar aquelas fraturas sem que fossem expostas, sem que houvessem outras lesões, cortes ou qualquer outra coisa. Foi isso que levou às hipóteses dos conspiradores de plantão sobre pactos de seitas adeptas ao satanismo ou qualquer outra coisa. O culpado, claramente, não era humano.
Peço que o doutor Owens venha explicar as descobertas feitas por sua equipe, em parceria com os melhores profissionais da ciência da qual nos orgulhamos nesse país.”

— Para que todo esse suspense? - Robin reclamou, batendo os pés repetidamente contra o chão. Steve forçou as mãos sobre seus joelhos, obrigando-a a parar.
— Shh, Owens vai falar - Hopper avisou.
— Caro povo de Hawkins, é nosso trabalho prover pela saúde e bem estar de vocês, atendo-nos ao que há de mais importante e confiável em termos de evidências nas práticas médicas e científicas. Tudo o que fazemos segue os mais estritamente controlados padrões americanos da ciência que tanto nos enche de orgulho.
“E foi avaliando cautelosa e incansavelmente os corpos, procurando padrões e justificativas, que encontramos o causador de tudo isso. Como o xerife disse, não é uma morte dependente de mãos humanas. A culpada, na verdade, é uma bactéria.”

Robin gargalhou com a informação, recebendo olhares de desaprovação de todos ao seu redor.
— Uma bactéria que, inclusive, já conhecemos há décadas. A Clostridium tetani é a responsável pelo tétano e pelas tristes perdas recentes que tivemos.
“Identificamos uma mutação na toxina, tornando a doença ainda mais grave. As contrações musculares são tão exageradas, que podem causar fraturas. A posição de um corpo acometido, chamada opistótono, é tão estranha e extrema que, com certeza, chocaria a qualquer um que a visse. Honestamente, não me surpreende que tenha sido associada a algum tipo de envolvimento sobrenatural. É mesmo difícil compreender algo que sequer conseguimos ver. Ao menos não sem um microscópio.”
— Inacreditável. - Steve conseguiu rir.
— Nós temos vacina para isso e recomendamos que chequem seus registros vacinais e a tomem se ainda não o tiverem feito. É a melhor proteção que temos nesses tempos difíceis. Além disso, tomem cuidado redobrado com cortes, feridas abertas, materiais enferrujados e todas aquelas coisas que já sabem. Vamos nos ajudar e nos cuidar. Não precisamos de histeria, apenas de atenção. Obrigado por ouvirem!”
— Tenho que dar algum crédito para esse desgraçado - Hopper falou. — Ele sabe contar uma história.
A única mulher entre tantas figuras masculinas ocupou o lugar central, cumprimentando o doutor Owens com um sorriso educado e um aceno de cabeça. Havia alguma coisa de familiar naquele gesto. A sensação no estômago era quase a de um déjà-vu.
— Boa tarde a todos, eu sou a doutora Cunningham e participei ativamente desses trabalhos. Temos tempo para algumas dúvidas de vocês, que adorarei tentar responder da melhor forma.
Bom, isso explicava muita coisa.
— Eu não fazia ideia de que a mãe da Chrissy fazia parte do grupo científico - Nancy comentou.
— Acho que ninguém fazia - Steve admitiu. — Droga, deve ser difícil demais perder a filha, saber a verdade e não poder fazer nada além de perpetuar uma história que seja ao menos convincente.
Nenhuma pessoa no mundo seria capaz de conceber a experiência horrível de estar na pele da senhora Cunningham naquele momento.
Joyce repousou o braço sobre os ombros do filho caçula, deixando um beijo longo e angustiado em sua cabeça. Só uma mãe poderia imaginar a dor de outra. E, mesmo assim, ao fim do dia, Will pelo menos estava ali. Chrissy não tivera a mesma sorte.
As perguntas começaram a pipocar.
— Como vocês explicam a história de que os corpos das vítimas levitaram?
— Isso nunca aconteceu. Como o doutor Owens explicou, existe uma posição muito típica dos pacientes em tetania, que dá a impressão de que o corpo esteja sendo erguido de forma antinatural. Levitar, contudo, com certeza não passou de forma de expressão. Uma palavra pobremente empregada.
— E os garotos acusados de terem se envolvido em algum tipo de pacto satânico?
— Bom, apesar de o meu papel ser na parte científica e não na policial, acho que posso dizer com toda a certeza do mundo de que eles não têm culpa de nada. Como já foi dito, trata-se de uma infecção. Uma bactéria que se tornou mais agressiva do que estávamos acostumados.
“E acreditem quando eu digo que, como mãe, tudo o que eu mais queria e precisava era de uma resposta para o que aconteceu com a minha garotinha. Se alguém pudesse ser colocado como o culpado, eu seria a primeira a querer que essa pessoa pagasse por isso. Não posso nem dizer que me ateria à justiça da privação de liberdade. Eu provavelmente desejaria coisa pior. Bem pior”
- admitiu, com lágrimas nos olhos.” — Mas é uma doença. E, como mãe e cientista, eu posso dizer que cumprirei o meu papel estudando a melhor forma que temos de combatê-la.”
Eddie só se deu conta de que os próprios olhos estavam lacrimejando quando percebeu que estava difícil de enxergar a televisão para a qual tinha olhado estática e fixamente nos últimos minutos.
Passou os polegares sem muito cuidado pelos olhos, livrando-se das malditas lágrimas que tinham decidido aparecer sem aviso prévio. Mal podia acreditar que estava realmente ouvindo aquelas palavras. Por mais que a sociedade ainda devesse odiá-lo - eles já o faziam antes, de toda forma -, ele tinha basicamente sido absolvido da culpa pela pessoa que mais deveria importar.
Esperava que aquela declaração fosse o suficiente para limpar a sua barra e convencer a todos de sua inocência, era verdade. Mas, acima de tudo, tinha abraçado a oportunidade de se livrar ao menos de parte da culpa que ele mesmo havia colocado sobre si. Não havia nada que ele pudesse ter feito a mais. Ele precisava deixar que o peso sobre os ombros se dissipasse aos poucos, até que lhe restasse apenas o pesar da perda e o trauma da vivência de toda aquela situação, não o fardo carregado pela responsabilização por algo que jamais esteve sob o seu controle.
Seria um processo longo e difícil, ele sabia bem disso. Mas também acreditava, com todo seu ser e a pouca fé que tinha na vida, que ele chegaria lá. E sabia que não era o único que acreditava.
Dustin se empoleirou de maneira pouco graciosa no firme braço da poltrona que o amigo ocupava e o abraçou, apertando o braço só um pouco mais ao seu redor, correndo a mão esquerda para cima e para baixo, em uma demonstração de carinho e reconhecimento, além de um lembrete: passariam por aquilo juntos. Ele não iria a lugar algum. E, como tinha prometido, jamais mudaria. Jamais permitiria que as circunstâncias ou as dificuldades o moldassem.
— Obrigado - Eddie sussurrou, sem ter certeza de que o garoto podia ouvi-lo.
— Estamos juntos nessa, ok?
— Todos nós - Steve disse. — Independentemente do que aconteça.
— Uau, Harrington. Nunca pensei que você fizesse o tipo sensível.
— O garoto está certo - Hopper tomou a dianteira. — Se vamos parar essa coisa e tentar impedir que ela faça mais vítimas, teremos que trabalhar juntos.
Ninguém ousou discordar e também não o faria, de toda forma. Estavam mesmo juntos. E era acolhedor, em meio a tanto desespero, saber que poderia contar com aquelas pessoas. Às vezes família era mesmo algo que se construía, não que simplesmente existia por algum tipo de acordo genético firmado entre sangue. Nenhuma daquelas pessoas compartilhava qualquer parentesco com ele e, mesmo assim, Eddie sabia que daria o seu sangue por qualquer um deles sem pensar duas vezes e também sabia que a recíproca era verdadeira. Já tinham provado isso.
O som da televisão voltou a chamar a atenção deles, interrompendo o momento antes que a demonstração de sentimentos se tornasse constrangedora demais.
O chefe de polícia havia retomado o posto principal, ao lado do representante militar. Pigarreou mais uma vez no microfone antes de declarar:
— Edward Munson e todos os demais membros do Hellfire Club estão, sob todos os âmbitos legais e jurídicos, oficialmente livres de qualquer investigação ou suspeita de crimes ou outras afrontas à nossa sociedade.
“Qualquer perseguição, ataque ou ato violento cometido contra qualquer um deles será duramente repudiado e reprimido, da mesma forma que seria a qualquer outra pessoa da cidade. Não incitamos a violência e não toleraremos o ódio contra inocentes.
Já temos problemas demais entre nós. Não precisamos de mais intrigas e desafetos. Permaneçamos unidos nesse momento difícil. Hawkins precisa disso.”

A pequena sala explodiu em gritos e polvorosa; as tábuas de cabana quase parecendo se questionar se aguentavam mesmo permanecer em pé, abrigando a todos, ou se estavam mais dispostas a desistir e fornecer a eles um ambiente aberto.
As comemorações mal podiam ser compreendidas. Eddie ainda estava atônito, em choque demais para participar da comemoração que os amigos faziam ao seu redor, puxando-o para abraços apertados e se lembrando, tarde demais, de não apertar as áreas machucadas.
— Você está livre, Eddie - Robin disse, gesticulando enormemente. — Livre!
O rapaz sorriu, concordando.
Livre.
Nunca pensou que sentiria tanta satisfação ao ouvir apenas cinco letras. Tão simples, mas que significavam tudo.


🎸🤟🏻🎲



— A Clostridium tetani é a responsável pelo tétano e pelas tristes perdas recentes que tivemos. Identificamos uma mutação na toxina, tornando a doença ainda mais grave. As contrações musculares são tão exageradas, que podem causar fraturas.
Em algum canto do outro lado da cidade, ela adicionou exatamente três cubos de gelo - nem um a mais; nem um a menos - ao chá gelado de pêssego antes de tomar um longo gole.
— Ok, parece bom o suficiente.
E bastou um clique rápido para desligar a televisão.



Continua...



Nota da autora: primeiramente, bora lá. isso é uma fanFIC, a ficção da ficção e no meu mundo do toddynho tá tudo bem (por enquanto)KKKKKKKK. Eu só quero ser feliz com meu Eddie vivo, ok? Meu crime é amar demais
MAS QUERO SABER O QUE VOCÊS ACHARAM, PORQUE A HISTÓRIA EM SI BASICAMENTE COMEÇA AGORA, NÉ?
Por favor, deixem comentários aí, no grupo do face, no do whatsapp, no meu privado, MAS VAMOS CONVERSAR, EU SOU CARENTE.
Sem mais delongas, espero que tenham gostado e, se você chegou até aqui, eu agradeço profundamente por me dar uma chance. Espero te receber aqui mais vezes.
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